PL 43 - CAPA quarta-feira, 17 de outubro de 2018 08:03:55
PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 43 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO C Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann
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© Editora Sinodal, 2018 Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Tel.: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho editorial de Proclamar Libertação: Júlio Cézar Adam, Martin Volkmann, Paula Naegele, Robson Luís Neu, Sissi Georg, Verner Hoefelmann Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção editorial e gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas / Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 Fax: (51) 2111-1411 est@est.edu.br www.est.edu.br Conselho editorial: Prof. Dr. Rudolf von Sinner (coordenador), Prof. Dr. Iuri Andréas Reblin, Profª Drª Karin Hellen Kepler Wondracek, Profª Ms. Selenir Corrêa Gonçalves Kronbauer Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) P963 Proclamar libertação, v. 43: auxílios homiléticos / [editado por] Faculdades EST; Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; [coordenado por] Verner Hoefelmann. – São Leopoldo: Sinodal; EST, 2018. 382 p. ; 15,5 x 22,5 cm
Conteúdo: v. 43: lecionário comum revisado da IECLB – Ano C.
ISBN 978-85-8194-137-0
1. Teologia prática. 2. Homilética. I. Faculdades EST. II. Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. III. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Bibliotecária Débora Zschornack – CRB 10/1390
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da editora.
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APRESENTAÇÃO
fé vem pelo ouvir da mensagem, e a mensagem vem por meio da pregação”, afirma o apóstolo Paulo em sua carta à comunidade de Roma (Romanos 10.17). Para contribuir com a correta, contextualizada e relevante pregação dessa mensagem – a palavra de Deus –, a IECLB mantém a publicação do Proclamar Libertação – PL, um instrumento que também promove a unidade bíblica, homilética e confessional. Já se vão várias décadas desde o início desse projeto. Há alguns anos a presidência tem presenteado suas ministras e seus ministros com essa importante fonte. Os estudos imaginativos, exegéticos e interpretativos dos textos bíblicos propostos pelo Lecionário Ecumênico, contidos em Proclamar Libertação, abrem portas para que a palavra de Deus encontre tanto ouvintes às vezes doloridos, famintos e cansados, como também alegres, esperançosos e solidários. Todos e todas são ouvintes que vivem seu dia em meio à realidade diante da qual a IECLB anuncia a relação entre Igreja, Economia, Política – seu lema também em 2019, sob a palavra do Mestre: Deixo com vocês a paz, a minha paz lhes dou (João 14.27a) – o lema bíblico. Diante de uma sociedade que enfrenta graves problemas de desinformação, fake news e pós-verdades, pregadoras e pregadores têm nas mãos um subsídio – o PL – para, com sua voz, proferir uma palavra justa, correta, crível, ponderada. Ouvintes anseiam por essa palavra, capaz de contrapor-se ao senso comum, muitas vezes manipulado por interesses econômicos e políticos. Talvez não seja incorreto afirmar que uma das formas de avaliar nossa pregação seja a pergunta: “O que nossos membros andam dizendo por aí?”. Considerando a polarização extrema, a intolerância e os discursos de ódio, talvez não seja incorreto afirmar que o evangelho de Jesus Cristo anda meio escondido em nossas pregações. Diante disso tudo, convém reafirmar o papel fundamental do culto comunitário e, ali dentro, o lugar da pregação. Trata-se de uma chance ímpar de pregar a graça de Deus – que custou a Deus o próprio Filho Jesus Cristo. Isso tudo para que tenhamos nossa dignidade resguardada, referendada, restabelecida. A presidência da IECLB deseja que o Espírito Santo esteja com cada pregador, cada pregadora, desde o momento do primeiro contato com a perícope indicada até o momento em que a palavra de Deus atinge corações, mentes, o ser na sua integralidade. E que possamos ter mais amor e menos ódio, mais paz e menos brigas, mais diálogos e menos ataques. Que o bondoso Deus, que em Jesus Cristo nos ama e nos salva, esteja conosco nessa tarefa. Dr. Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente da IECLB
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PREFÁCIO
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stá em suas mãos o volume 43 de Proclamar Libertação, com 60 auxílios homiléticos e litúrgicos sobre a série C do Lecionário Comum Revisado da IECLB. Como tem sido praxe nas últimas edições, acrescentamos alguns subsídios ao final do volume sobre o tema e o lema da IECLB para o ano de 2019. Reforçamos assim um dos propósitos de Proclamar Libertação, que quer contribuir para a clareza e a unidade confessional das pessoas que o utilizam na preparação de suas pregações e celebrações, que têm por base e referência o evangelho de Jesus Cristo. Expressamos, mais uma vez, nossa gratidão aos autores e às autoras que contribuíram para que este volume viesse a lume. Novamente pudemos contar com a colaboração de pessoas novas, como parte do processo constante de buscar a renovação do corpo de autores e autoras. Sabemos do empenho que essa tarefa demanda em meio às lidas e responsabilidades cotidianas. Tanto mais empenhados ficamos com a nossa gratidão. Proclamar Libertação se mantém ao longo dessas décadas graças ao voluntariado e idealismo dessas pessoas, que se dedicam a essa tarefa em resposta e por amor à mensagem libertadora do evangelho de Jesus Cristo. Agradecemos igualmente à direção da IECLB, que mais uma vez decidiu presentear seus ministros e suas ministras com um exemplar, no intuito de qualificar a pregação do evangelho nas comunidades. O volume 43 chegou muito perto da meta de prover um auxílio homilético para cada domingo do ano eclesiástico e para suas datas comemorativas mais importantes. Apenas dois domingos ficaram descobertos. Sempre é bom lembrar que as contribuições de volumes anteriores estão disponíveis no portal da IECLB. Para procurar um volume, utilize o link: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/ publicacoes-2>. Para acessar um texto específico, faça uso do mecanismo de busca do portal: <http://www.luteranos.com.br/busca-avancada-conteudo/>. Para localizá-lo, digite o nome do livro bíblico por extenso, utilizando o padrão de citação adotado (por exemplo, Lucas 10.38-42 ou Lucas 10.1-11,16-20). Verner Hoefelmann pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação
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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS................................................................................ 7 1º Domingo de Advento – Jeremias 33.14-16...................................................... 9 2º Domingo de Advento – Lucas 1.68-79........................................................... 14 3º Domingo de Advento – Filipenses 4.4-7........................................................ 23 4º Domingo de Advento – Lucas 1.47-55........................................................... 28 Noite de Natal – Isaías 11.1-9............................................................................. 33 Dia de Natal – João 1.1-14.................................................................................. 38 1º Domingo após Natal – Colossenses 3.12-17.................................................. 45 Ano-Novo (Nome de Jesus) – Salmo 8............................................................... 50 Epifania de Nosso Senhor – João 1.43-51.......................................................... 58 1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor) – Atos 8.14-17....................... 64 2º Domingo após Epifania – João 2.1-11............................................................ 69 3º Domingo após Epifania – Lucas 4.14-21....................................................... 77 4º Domingo após Epifania – Lucas 4.21-30....................................................... 83 5º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 15.1-11............................................... 88 6º Domingo após Epifania – Lucas 6.17-26....................................................... 93 7º Domingo após Epifania – Gênesis 45.3-11,15............................................... 98 Último Domingo após Epifania – Lucas 9.28-36(37-43)................................. 104 Quarta-Feira de Cinzas – 2 Coríntios 5.20b – 6.10........................................... 110 1º Domingo na Quaresma – Lucas 4.1-13........................................................ 116 2º Domingo na Quaresma – Gênesis 15.1-12,17-18......................................... 122 3º Domingo na Quaresma – Lucas 13.1-9........................................................ 128 4º Domingo na Quaresma – 2 Coríntios 5.16-21.............................................. 135 5º Domingo na Quaresma – João 12.1-8.......................................................... 140 Domingo de Ramos – Lucas 19.28-40.............................................................. 144 Quinta-Feira da Paixão – João 13.1-17,31b-35................................................ 149 Sexta-Feira da Paixão – Hebreus 4.14-16; 5.7-9.............................................. 154 Domingo da Páscoa – João 20.1-18.................................................................. 160 2º Domingo da Páscoa – Salmo 118.14-29....................................................... 166 3º Domingo da Páscoa – Apocalipse 5.11-14................................................... 172 4º Domingo da Páscoa – Apocalipse 7.9-17..................................................... 178 5º Domingo da Páscoa – Apocalipse 21.1-6..................................................... 183 6º Domingo da Páscoa – Atos 16.9-15.............................................................. 191 Ascensão do Senhor – Atos 1.1-11................................................................... 197 7º Domingo da Páscoa – Apocalipse 22.12-14,16-17,20-21............................ 205 Domingo de Pentecostes – João 14.8-17(25-27).............................................. 211 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) – João 16.12-15............................... 217 2º Domingo após Pentecostes – Gálatas 3.23-29.............................................. 223 3º Domingo após Pentecostes – Lucas 9.51-62................................................ 229 4º Domingo após Pentecostes – Isaías 66.10-14............................................... 234
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5º Domingo após Pentecostes – Lucas 10.25-37.............................................. 237 6º Domingo após Pentecostes – Colossenses 1.15-28...................................... 243 7º Domingo após Pentecostes – Lucas 11.1-13................................................ 248 8º Domingo após Pentecostes – Eclesiastes 1.2,12-14; 2.18-23....................... 254 9º Domingo após Pentecostes – Lucas 12.32-40.............................................. 260 10º Domingo após Pentecostes – Hebreus 11.29 – 12.2................................... 265 11º Domingo após Pentecostes – Lucas 13.10-17............................................ 271 12º Domingo após Pentecostes – Eclesiastes 10.12-18.................................... 275 13º Domingo após Pentecostes – Lucas 14.25-33............................................ 280 15º Domingo após Pentecostes – Lucas 16.1-13.............................................. 286 16º Domingo após Pentecostes – Amós 6.1a,4-7.............................................. 291 17º Domingo após Pentecostes – Lucas 17.5-10.............................................. 296 18º Domingo após Pentecostes – 2 Timóteo 2.8-15......................................... 301 19º Domingo após Pentecostes – Lucas 18.1-8................................................ 307 20º Domingo após Pentecostes – Salmo 84.1-6................................................ 313 Dia da Reforma – Mateus 10.26b-33................................................................ 318 Dia de Finados – Isaías 25.1,8-9....................................................................... 324 21º Domingo após Pentecostes – 2 Tessalonicenses 1.1-4,11-12..................... 330 22º Domingo após Pentecostes – Lucas 20.27-38............................................ 335 23º Domingo após Pentecostes – 2 Tessalonicenses 3.6-13............................. 341 Domingo Cristo Rei – Colossenses 1.11-20..................................................... 346 AUXÍLIOS ESPECIAIS................................................................................... 353 Texto-base do tema e lema da IECLB para 2019............................................. 355 ÍNDICES........................................................................................................... 361 Temas e textos nos volumes I – 43................................................................... 361 Perícopes dos volumes I – 43............................................................................ 367 Colaboradores e colaboradoras do volume 43.................................................. 381
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PRÉDICA: JEREMIAS 33.14-16 LUCAS 21.25-36 1 TESSALONICENSES 3.9-13
1º DOMINGO 02 DEZ 2018 DE ADVENTO Marivete Zanoni Kunz
Restaurados
1 Introdução Jeremias atuou no Reino do Sul, durante o reinado de Josias (626 a.C.), até o início do cativeiro babilônico. Possivelmente morreu no Egito, após a terceira intervenção do Império Babilônico em Jerusalém (587 a.C.), quando Gedalias foi colocado como governador no lugar de Zedequias, que foi levado para a Babilônia com algumas pessoas. Durante sua atuação havia um declínio na área política, moral e religiosa. Por isso houve o cativeiro e o exílio babilônico (Jr 22.22; 48.7). O Império Babilônico dominava o mundo quando Jeremias profetizava. Embora os textos bíblicos mostrem que nesse contexto o Egito se fazia presente e até parecia ter força para dar suporte ao Reino do Sul contra o Império Babilônico, Jeremias orientava o povo a aceitar o jugo que vinha dos babilônios, pois isso seria ação do Senhor. Durante sua atuação, Jeremias trouxe palavras envoltas de juízo. Por isso não foi benquisto em seu meio, mas considerado um traidor. Tanto os nobres como os reis, e até mesmo o povo, buscavam matá-lo. Percebe-se que o profeta atuou num período difícil, pois as reformas e mudanças de Josias tinham terminado e o exílio era iminente. Embora envolvido nesse cenário tenso, no capítulo 33 Jeremias apresenta promessas de restauração para Israel. Esse texto está inserido num bloco que traz consolação ao povo, sendo por isso chamado de “livro das consolações”. Assim, esse capítulo e o contexto apresentam uma linda mensagem de restauração, bem como a esperança de um reinado da linhagem davídica. Jeremias 33.14-16 destaca o renovo que viria para a nação de Israel. O texto auxiliar de Lucas 21.25-36 fala dos sinais que haverá quando o Filho do Homem vier; o texto de Tessalonicenses 3.9-13 destaca o anseio de Paulo em ir para Tessalônica, bem como o desejo de que haja amor de uns para com os outros, lembrando a vinda do Messias. Sendo assim, há uma relação de todos os textos com questões ligadas ao futuro, bem como com a vinda do Messias.
2 Exegese V. 14 – Neste versículo destaca-se a expressão eis que vêm dias, que aparece em outras partes do livro, como no capítulo 23, onde essa fórmula introduz questões do período messiânico. A ênfase tem ligação com a liderança real, mas
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também sacerdotal a partir da aliança com Davi. O termo “eis” no hebraico é descrito por uma exclamação, a saber, hinnēh, que em alguns casos enfatiza a proximidade de algo. Nos textos proféticos ela é utilizada para afirmar algo que Deus fará. Nesse sentido, o termo mostra aquilo que está prestes a acontecer. V. 15 – Há um destaque para o termo renovo. Esse também é um título messiânico que aparece em outros livros, como Zacarias 3.8; 6.12. O termo renovo no hebraico é tsemah, e também significa broto. Esse broto foi levantado para reinar no lugar de Davi. O capítulo 33 “harmoniza a promessa do tsemah com as promessas feitas anteriormente por Deus a Abraão, Isaque, Jacó, os sacerdotes levitas e Davi” (Harris, 1998, p. 1.415-1.416). Neste versículo os termos juízo e justiça também são atributos messiânicos. Aqui há menção à aliança davídica, e essa é importante, pois serve para identificar a continuidade da aliança feita a Abraão em Gênesis 15.5 e 22.17. Tal promessa mostra que o Senhor continua junto com seu povo. Essa parte do texto repete o que está em Jeremias 23.5, ou seja, a promessa da renovação de uma linhagem real e de um rei que governará com justiça. V. 16 – Este versículo mostra que Jerusalém será novamente habitada. É importante lembrar que há diferentes pensamentos entre os estudiosos sobre como a questão dessa promessa deve ser interpretada, se em sentido literal ou espiritual. Isso é importante, porque essa cidade será uma verdadeira testemunha daquilo que Deus fizer. Para Wiersbe, tais promessas terão seu cumprimento no reino vindouro. Ainda é bom observar a relação deste versículo com o texto de Jeremias 23.6, no qual o profeta afirma que haverá um rei que governará com justiça, cujo nome é o “Senhor, Justiça Nossa”. Interessante é que o profeta afirma que o nome de Jerusalém será o mesmo, por isso Jerusalém se chamará Cidade Santa. Para a expressão “Senhor, justiça nossa”, o texto hebraico apresenta o termo tsdeqnu’. O termo justiça, a partir da raiz hebraica tsdq, pode descrever aspectos que envolvem tanto questões éticas como forenses ou teocráticas. Na parte ética há relação com a conduta de “uns para com os outros”. O aspecto forense diz respeito à igualdade para todos diante da lei. Já o aspecto teocrático envolve a nação de Israel com a aliança e a obediência ao Senhor. Nos livros proféticos, a justiça indica um intenso clamor.
3 Meditação: Restaurados Jeremias 33 repete o que já foi apresentado no capítulo 31, ou seja, revelações dos momentos finais do cerco da cidade de Jerusalém. Anuncia as coisas que o Senhor fez e a restauração e a purificação que ocorreria. No início, o profeta fala das grandes coisas que o Senhor fará (33.7), ou seja, o povo seria “edificado” como no princípio, antes de Jerusalém ser destruída e ser levado ao cativeiro na Babilônia. Em 33.11 há o anúncio da restauração da sorte do povo, o que nesse contexto significa restaurar a terra do povo. Os horrores do passado seriam agora esquecidos e se ouviria uma voz de alegria e gozo: Neste lugar, do qual dizeis que está deserto, sem homens nem animais, nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém [...] (v. 11).
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Jeremias mostra que Jerusalém, após ser destruída, seria renovada e restaurada. A ênfase é de paz, quando os rebanhos podem encontrar descanso (33.12) e, além disso, os reis da linhagem de Davi, os sacerdotes e os levitas não mais estejam deserdados. Mas por que isso aconteceria agora? Em seguida observamos alguns motivos. Porque Deus é justo e cumpre suas promessas: Jeremias fala que Jerusalém será renovada e restaurada devido à justiça e fidelidade de Deus no cumprimento de suas promessas, independentemente do tempo em que essas tenham sido feitas. A aliança davídica ocorreu com a promessa de que haveria um rei justo. Salomão é considerado como aquele que cumpriu tal promessa de forma parcial, pois não foi um rei justo com um reinado eterno: isso se cumpriu em Cristo, o Messias da linhagem davídica. Jeremias 33.14 tem relação com 23.5-6. Ambos falam da aliança com Davi, a qual está declarada em 2 Samuel 7.8-16. Na aliança há uma fórmula característica para introduzir predições messiânicas, a saber: Eis que vêm dias. Nesse contexto isso é muito significativo, pois traz esperança de mudança diante das atrocidades e revela a proximidade do que ocorreria. O cumprimento das promessas que o Senhor traz ao seu povo é ilustrado quando o texto (Jr 33.17-22) faz referência a alianças anteriores que não foram quebradas, a saber: a aliança davídica, conforme 2 Samuel; o sacerdócio, a lei natural instituída por Deus em Gênesis 8.22. Embora muitos não tenham crido em Jeremias, ele mostrou que haveria um futuro quando Jerusalém seria habitada e todos lembrariam que o Senhor era sua justiça. Parte dessa promessa cumpriu-se quando o povo retornou do cativeiro com o decreto de Ciro, em 538 a.C. Ainda há a certeza de que se o Senhor prometeu e algo ainda não aconteceu, isso se realizará. Tal certeza pode ser observada na própria história do povo com Deus, pois desde que saíram do Egito ele sempre se mostrou justo e fiel em tais cumprimentos. Ainda que em alguns momentos possa parecer estranho crer naquilo que o Senhor diz que fará para seus filhos aqui ou na eternidade, um dia tais promessas serão cumpridas. A realidade vindoura não pode ser esquecida, pois enquanto a realidade terrena é passageira, há uma que será eterna e, ao final, ali seu povo será justificado. Finalmente, o Senhor ainda é aquele que faz justiça. Justiça é o anseio do coração do ser humano. Jeremias disse que o nome da cidade seria: o Senhor é nossa Justiça! Que alegria o povo pode ter diante de tal promessa! Há a esperança de manifestação de justiça, ainda que nos últimos dias, independente de qual seja sua forma de interpretar esses últimos dias. As promessas anunciadas pelo profeta ainda servem para encorajar o povo de Deus e ajudam a lembrar que todas elas, relacionadas ao fim dos tempos ou não, se cumprirão. Porque Deus salva e dá paz: A imagem de paz que esse texto traz é maravilhosa! Depois de tanto sofrimento, angústia e saudades, novamente em Jerusalém o povo encontraria tranquilidade. Essa não era uma paz qualquer, mas a paz capaz de fazer um rebanho repousar em local de doces pastagens. Essa paz seria agora encontrada não só em Jerusalém, mas nas planícies e nas montanhas, nas
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colinas e nas cidades ao redor de Jerusalém, nas cidades do sul ou em qualquer lugar. Agora se ouviriam vozes de gozo e alegria (v. 11). Não importa o que havia ocorrido, se as casas foram derrubadas e muitos haviam morrido, a promessa é que tudo seria transformado para a glória do Senhor, a qual as nações veriam. Em Jeremias 33.14-16 há um grande contraste entre aquilo que o povo vivia e aquilo que o profeta transmitia, ou seja, a proclamação era que no futuro haveria restauração, bondade e alegria, e não condenação. Isso seria algo tão real, que sua visualização seria manifesta na fertilidade da terra. Os lugares desertos seriam habitados com animais que teriam pastos para repousar (v. 12-13). Jeremias mostrou que Deus é aquele que transforma situações, salva e devolve a paz. Conclusão: Sim, Deus é poderoso e pode restaurar tudo. O profeta diz que, embora Jerusalém estivesse acabada, sem vida, uma desolação, o povo deveria ter esperança, pois ali ainda haveria alegria devido àquilo que o Senhor faria. As bênçãos que o povo receberia se estenderiam pela Terra Prometida e, assim, haveria paz e restauração. Embora Jeremias tenha vivido um período de muito sofrimento, ele trouxe ao povo uma palavra de ânimo, encorajamento e esperança, pois as coisas mudariam a partir da linhagem de Davi. Mesmo que o povo não tivesse esperança, pois seria entregue ao Império Babilônico, o profeta trouxe uma mensagem revigoradora em meio a tanto sofrimento e desilusão. Por isso, se você é filho ou filha de Deus e tem andado sem esperança, lembre-se: há um Deus restaurador, que no decorrer da história tem sido fiel e cumpre suas promessas. Tanto o texto de Jeremias como o de Lucas e de Tessalonicenses trazem o desafio de olhar para o futuro e para o Deus que controla o futuro e tem promessas para seu povo. Esse Deus trouxe uma grande promessa para seus filhos e suas filhas. Ela diz respeito a questões que vão além da realidade atual: alcança e atinge o mundo vindouro. O Deus do povo de Israel pode restaurar a sorte (Jr 33.26) de seus filhos e suas filhas, de forma que ainda é possível crer e investir em coisas eternas e do mundo vindouro. Assim como o profeta anunciou que Deus novamente faria grandes coisas, de forma que a natureza testemunharia, hoje você é convidado a observar e crer nesse Deus que faz coisas inimagináveis. Como pessoas cristãs, somos desafiadas a meditar na sua Palavra e crer nas suas promessas, pois ele cumpriu a promessa feita através de Jeremias para seu povo e esse voltou a Jerusalém após o cativeiro babilônico. Suas promessas referentes à sua volta e à eternidade certamente se cumprirão.
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Imagens para a prédica
Extraímos aqui uma mensagem do livro Coletânea de Ilustrações, do autor Natanael de Barros de Almeida. Ela mostra que é preciso ter coragem para confiar. Confiar é fundamental para chegar ao alvo final. A partir do texto exposto, compreende-se que o alvo sempre será as promessas futuras, mas também há uma promessa de restauração e mudança para o tempo presente. Só consegue receber os benefícios da promessa aquele que consegue crer.
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1º Domingo de Advento
“O grande ganhador de almas, Moody, um dia, ofereceu seu relógio de ouro aos meninos de sua classe bíblica. Desconfiados, recusaram o presente. Finalmente, um garotinho de seis anos estendeu a mão, pegou o relógio e disse: – Muito obrigado! Sem um momento de hesitação, Moody respondeu: – Não há de quê. E espero que ele seja tão fiel em marcar as horas para você como foi para mim! Os outros meninos ficaram espantados: – O senhor vai mesmo deixar que ele fique com o relógio? – Como não? – respondeu Moody. – Eu lho dei, porque creu na minha oferta. É dele porque teve fé em mim. Como o relógio que Moody ofereceu aos meninos, as vestes brancas podem pertencer-nos pelo simples fato de crermos nas promessas de Deus e estendermos a mão, aceitando-a pela fé. Jesus, através de sua morte, se encarrega de nosso passado tão repleto de pecados e erros. Cabe a nós confessar e crer. Jesus afiança a sua erradicação. No instante em que nós cumprirmos a nossa parte, Jesus cumpre a dEle. Todas as providências foram tomadas por Deus, a fim de apagar o nosso passado pecaminoso (1Jo 1.9). Este é, na verdade, um ‘pensamento precioso’.” Deus é um grande amigo. Nele você pode confiar. A Bíblia apresenta muitas promessas. Podemos acreditar no cumprimento de sua palavra.
5 Subsídios litúrgicos Diante do contexto exposto e da dificuldade que o povo tinha para crer na promessa de que haveria a restauração dos cativos, o texto que segue pode servir de auxílio e encorajamento para a alma cansada. A palavra de Deus acha-se repleta de auxílios e esperança para a pessoa cristã, e o Deus que faz promessas é capaz de cumpri-las. Não tenha medo, pois há uma promessa: Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti (Is 43.2). Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel (Hb 10.23).
Bibliografia WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Santo André: Geográfica, 2006. v. 4. HARRIS, R. L.; ARCHER Jr., G. L.; WALTKE, B. K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.
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2º DOMINGO 09 DEZ 2018 DE ADVENTO
PRÉDICA: LUCAS 1.68-79 MALAQUIAS 3.1-4 FILIPENSES 1.3-11
Teobaldo Witter
Olhar as pessoas pelo que elas sofrem
1 Introdução Deus ouve, toma decisões, tem lado, fala e age. Na postura comportamental divina, testemunhada pelas Sagradas Escrituras, duas temáticas estão interligadas. A primeira é sobre as dores humanas: do que as pessoas estão sofrendo? A segunda é sobre o que fazer com as dores: que postura Deus toma? Do lado humano, predomina a insensibilidade diante do sofrimento de outros seres. Do lado divino, predomina, existencialmente, o amor, isto é, “vontade de ter comunhão com as pessoas que sofrem” (Bonhoeffer, 2003, p. 35). Advento nos traz à memória a vontade, no sentido da prática da justiça da fé, de Deus se tornar ser humano, visitar e libertar suas criaturas. Deus encarnou no mundo por causa da condição e das dores humanas. Os textos falam dessa compaixão de Deus e de sua atitude de visitar e redimir o seu povo. Referindo-se ao passado, ao presente ou abrindo horizontes para o presente ou futuro, Deus ouve e fala. Cada um em seu específico, os três textos falam do futuro e falam de advento. Mas não o fazem sem referência, mesmo de forma sub-reptícia, ao passado e ao presente. Malaquias 3.1-4, referindo-se ao passado, lembra a aliança. Essa, por sua vez, puxa a memória da libertação, do caminho pelo deserto e da comunhão com Deus. No presente, Deus envia seu mensageiro. Ele vem, mas sua mensagem será dura: Quem poderá suportar o dia da vinda do Anjo da Aliança? (v. 2). O mensageiro do Senhor anunciará que vai haver purificação, ou seja, mudanças profundas na mente e no coração para que haja ofertas justas ao Senhor (v. 3). Lucas 1.68-79 descreve a alegria, o júbilo e o louvor de Zacarias porque Deus se lembrou de sua santa aliança, visitou o seu povo e está prestes a redimi-lo (v. 68s). Com seu filho João nos braços, ele dá glória a Deus, porque o menino será chamado de profeta do Altíssimo, que vai preparar a vinda do Deus Salvador. A palavra realizará profundas mudanças no comportamento humano. Então haverá adoração a Deus sem medo, em santidade e justiça (v. 75), porque graças à entranhável misericórdia divina o povo receberá conhecimento da salvação e remissão dos pecados (v. 77s). Em Filipenses 1.3-11, o apóstolo reafirma sua certeza de que Deus, que iniciou a boa obra em meio ao povo, vai concluir a missão até o Dia de Cristo Jesus (v. 6).
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Nesses pontos de aliança, da queda humana, da promessa de restauração e salvação, do envio de mensageiro, da preparação do caminho da vinda do Senhor e da realização da obra divina no nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus, os três textos se complementam.
2 Exegese 2.1 – O cenário: duas mulheres e duas crianças (Lucas 1.1 – 2.40) Lucas brinca com as palavras, as histórias, os cenários e personagens. Primeiramente, ele dá credibilidade e cientificidade aos seus relatos. Informa ao seu amigo Teófilo, a quem escreve, que fez uma “acurada investigação” (Lc 1.3) de tudo desde sua origem para informar, por escrito, para que ele possa ter certeza daquilo que lhe fora ensinado (Lc 1.1-4). Em seguida, informa sobre um casal, Zacarias e Isabel. Localiza-o no tempo, no espaço, na cultura, sua ética, sua dedicação a Deus. E diz que o casal não tem condições de gerar filhos (Lc 1.5-7). Zacarias vai ao templo, como era seu costume sacerdotal. Recebe ali a visita do anjo Gabriel, que lhe diz: Não temas, tua oração foi ouvida (v. 13). Gabriel noticia que o casal terá um filho. Zacarias deverá dar o nome João ao filho. Zacarias duvida das palavras de Gabriel e fica mudo. E só por acenos podia se comunicar. Isabel engravida, fica muito feliz e se oculta por cinco meses (Lc 1.8-25). Entra em cena uma outra mulher, chamada Maria, que recebe a vista do anjo Gabriel em Nazaré, uma cidade da Galileia. Maria era uma mulher jovem e solteira, prometida em casamento para um rapaz chamado José. Ela se assusta com a saudação do anjo. Esse diz: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus (v. 30). O anjo informa sobre a concepção de Maria, a origem e a missão do Filho de Deus. Informa que sua parenta Isabel está no sexto mês de gestação, e que para Deus nada é impossível. Maria se coloca à disposição do Altíssimo. E o anjo se ausenta. Maria sai da Galileia e vai para a região montanhosa de Judá. Entra na casa de Isabel e Zacarias. Já na saudação, a criança no ventre de Isabel se alegra com a presença de Maria. Isabel a reconhece como a mãe do meu Senhor (v. 43). E diz que Maria é a bem-aventurada, porque as palavras de Deus serão cumpridas. Então temos um dos mais lindos e significativos cânticos, o Magnificat, o cântico de Maria. Maria permanece por três meses nas montanhas, na casa de Isabel, até voltar para sua casa (Lc 1.39-56). De Isabel nasce João Batista. Vizinhos e parentes se alegram e são solidários com a família. Entenderam que Deus está sendo misericordioso com o casal. A escolha do nome do menino causa discussão. Todos queriam dar a ele o nome do pai: Zacarias. A controvérsia termina quando Zacarias, até então mudo, escreve o nome da criança: João. Então se destravou a sua língua. E todos ficaram possuídos de temor, na expectativa sobre o futuro desse menino, porque entenderam que algo de maravilhoso estava acontecendo. Zacarias recuperou a fala. Temos então o Benedictus, o cântico de Zacarias. Por fim, diz-se que o menino crescia, se fortalecia e vivia nos desertos até a hora de ser manifestado a Israel (v. 57-80).
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No capítulo 2, no fechamento desse círculo das duas mulheres e duas crianças, no cenário muito lindo construído por Lucas, há nascimento e cânticos. De Maria nasce Jesus, numa estrebaria, na manjedoura, com descrição do tempo e do espaço. O cântico dos anjos, testemunho dos pastores, circuncisão e apresentação de Jesus, no templo, cântico de Simão, profecia de Ana a respeito do menino. Depois, Maria, José e o menino voltam para casa, na Galileia. Ali, crescia o menino Jesus e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria. E a graça de Deus estava sobre ele (Lc 2.1-40). No início escrevi que Lucas brinca com as palavras, as histórias, os cenários e personagens. Agora posso dizer que ele, na “boniteza” de um texto, construiu um fabuloso mosaico para fazer a narrativa do fato que mudou o mundo, a sociedade, as pessoas, a visão humana, isto é, Jesus Cristo é a encarnação de Deus no mundo. 2.2 – Contexto imediato de Lucas 1.68-79 No contexto atual, Lucas 1.67-79 é um enxerto explicativo do v. 64. O texto explica o motivo das maravilhas que cercam João Batista desde o anúncio do seu nascimento, quando o pai emudeceu até o nascimento e a escolha do nome do menino, João, quando Zacarias fala novamente. Zacarias, na escolha do nome da criança, recupera a fala. Após o texto vem o relato do nascimento de Jesus. Com o paralelismo entre o Magnificat e o Benedictus, por um lado, e a história do nascimento de João e o de Jesus, por outro, Lucas consegue, também formalmente, subordinar João e a sua obra a Jesus e à obra deste. 2.3 – Texto da pregação (Lucas 1.68-79) Concordo com Molz (1982, p. 8), quando afirma que o texto se divide em duas cenas: a) A primeira parte (v. 68-75) é um salmo de louvor que relata o ato salvador de Deus. Este visita, liberta e desperta o Messias. Ele é o Deus de Abraão, dos pais, dos profetas, das promessas e seu cumprimento. Essa primeira parte conclui com o alvo do processo de libertação: uma comunidade, livre de medo, presta culto ao seu Deus em santidade e justiça. b) A segunda parte (v. 76-79) é, formalmente, um hino comemorativo ao nascimento de uma criança, mas, de conteúdo, é uma profecia que anuncia a salvação. Compõe-se de duas partes: – Os v. 76-77, 79b se referem à criança, filho de Isabel e Zacarias. João é o menino chamado profeta do Altíssimo. Ele precede o Deus Conosco, Emanuel (Mt 1.23). Vai ensinar sobre a salvação, dar ao povo o conhecimento e pregar a remissão dos pecados. – Já os v. 78,79a relacionam e submetem João, tematicamente, a outra criança, ao filho de Maria, Jesus Cristo. A subordinação de João a Jesus resulta na “característica principal do texto, cujo tema maior não é João Batista, mas acaba sendo o seu relacionamento com Jesus Cristo. João é definido como profeta do Altíssimo, que é Deus, e como precursor e preparador do caminho do Senhor. Segundo Molz, “em seguida, o
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texto parece se referir indiretamente à atividade que os sinóticos atribuem a João: ele prega salvação através do perdão dos pecados e conduz o povo para o caminho da paz”. Através dos v. 78,79a, no entanto, o autor consegue fazer ver que o sol ainda não raiou no meio da escuridão e da sombra da morte, mas que o seu mensageiro (João) já chegou, e que logo mais virá o Filho de Deus (Jesus), que realizará e consumará a libertação plena que fora anunciada e prometida. O cântico de louvor de Zacarias traz uma série de expressões que se relacionam com o Antigo Testamento. É mais um hino de louvor ao Messias Jesus do que um canto dirigido a João Batista, segundo Lichtenfels (1979, p. 4). V. 67 – Aqui, no ponto alto da narração sobre o nascimento de João, acontece uma inserção. A boca de Zacarias se abre (v. 64) e, em sua exaltação a Deus, a seguir, ele se mostra cheio do Espírito de Deus e como profeta. V. 68-75 – Esse cântico de louvor chama-se Benedictus. Na primeira parte do hino (v. 68-75), constatamos os mesmos traços típicos de um hino escatológico, como no Magnificat (Lc 1.46-55), segundo Lichtenfels. Também aqui o futuro é relatado como presente. O povo, cuja salvação já inicia, é o povo de Israel. Isso, porém, não tira a hipótese de uma salvação universal. A salvação aparece como libertação política (v. 71 e 74). O cântico é um salmo que fala, de modo geral, da ação de Deus através do envio do Messias. Toda ansiedade de um povo tem fim porque Deus cumpre as promessas dos profetas. A necessidade externa é entendida, ao mesmo tempo, como necessidade de fé. Se com a ação do Messias cair a carga externa e interna de Israel, então, esse pode servir a Deus em santidade e justiça, ainda segundo Lichtenfels. O resultado de tudo isso será o governo de Deus. É isso exatamente que Deus faz, através do descendente, do rebento da casa de Davi: Jesus Cristo. V. 76-79 – A segunda parte do Benedictus é uma profecia sobre a tarefa para a qual Deus designou o menino João. João é chamado, no v. 76, de “profeta do Altíssimo”. No entanto, apesar do pleno poder concedido a Jesus (1.32), ele sempre estará a serviço de alguém maior (Deus). V. 79 – Somente o Messias pode ser chamado de o Sol nascente das alturas. Essa expressão quer mostrar a magnitude do filho de Deus. As expressões, no fim do cântico, ratificam essa afirmação: para alumiar aos que estão nas trevas e na sombra da morte, para dirigir os nossos pés pelo caminho da paz. Como no cântico de Maria, aqui tudo está conectado à magnificência de Deus, prometida no descendente da casa de Davi, afirma Lichtenfels. O povo terá o conhecimento da salvação através do seu agir, perdoando-lhes os pecados. O tempo de salvação iniciou, mas se desdobrará por completo quando o Messias iniciar, aberta e publicamente, a sua obra plena.
3 Meditação 3.1 – Um dos bons legados do ensino de Dietrich Bonhoeffer é a comunhão que Deus permite entre seres humanos, nas dimensões da ética, da fé, da sociologia, da filosofia, da política, da antropologia. Diante da situação dos sofrimentos humanos provocados pela guerra, ele propõe uma leitura nova, não a partir das
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decisões judiciais, mas da justiça. Enquanto decisões legais do judiciário significam poder, a justiça, pelo contrário, significa igualdade. Para chegar ao entendimento, precisa rever conceitos e aprendizagens. Segundo ele, “continua sendo uma experiência de valor incomparável termos aprendido a olhar os grandes eventos da história do mundo a partir de baixo, da perspectiva dos excluídos, dos que estão sob suspeita, dos maltratados, dos destituídos de poder, dos oprimidos e dos escarnecidos, em suma, dos sofredores” (2003, p. 43). Ainda segundo Bonhoeffer, temos que olhar as pessoas por aquilo que elas sofrem. Nessa compreensão, “a única relação fecunda com as pessoas e, especialmente com as fracas, é o amor, isto é, a vontade de ter comunhão com elas” (2003, p. 35). Ser solidário com elas significa entrar na dimensão de suas dores. O sentido da reflexão de Bonhoeffer perpassa os textos bíblicos que fundamentam teologicamente a mensagem. São duas mulheres que se encontram e se visitam em sua gravidez (Maria e Isabel), e o pai de uma das crianças, Zacarias, que percebe que das pessoas sofredoras Deus suscita conhecimento e salvação. 3.2 – Lembramos que o calendário cristão nos coloca no segundo domingo de Advento. É também o Dia da Bíblia e o Dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É uma época muito movimentada. Acontecem formaturas nas escolas e faculdades. São realizados encontros de Advento e encontros de confraternizações de fim de ano. São tantos convites que nem é possível atender a todos. Fico sempre triste quando alguém convida e estou impossibilitado de participar. Bom é que a comunidade participa dos encontros e cultos de Advento. É uma época agradável e bonita de convívios humanos. E cada pessoa tem a sua motivação própria. Apesar do estresse próprio da época, as pessoas geralmente se cumprimentam mais, alegram-se, “baixam a guarda” e brigam menos. A época é muito pacífica. E tem gente que se aproveita disso, vende muito e engana pessoas desatentas. Basta lembrar que no dia 13 de dezembro foi assinado o Ato Institucional Nº 5 (AI 5), que arrasou o povo brasileiro com atitudes de poder que nos atormentaram por décadas, citando um exemplo. Então, nessa alegria, a vigilância deve continuar. As pessoas que participam do culto de Advento, muitas vezes, estão sendo motivadas, em grande parte, pela esperança que essa época do Ano da Igreja traz consigo. É uma esperança geral, não só cristã, difusa e indefinida, entre saudade do passado e esperança por dias melhores e pela possibilidade de encontros e passeios. Esse processo é repetido ano após ano, acabando por trocar a alegria que a pessoa teve como criança por conformismo na fase adulta. Nesse contexto parcial da vida moderna, a Bíblia traz a vida de duas mulheres e duas crianças e o Benedictus de um homem, Zacarias, muito feliz e agradecido. 3.3 – Ao informar o nome da criança, Zacarias tem sua língua destravada e diz: Bendito seja o Senhor. E enumera o motivo da bendição: Deus visitou o seu povo. A visão básica de visitação do povo de Israel é aquela do Êxodo: Deus visita o seu povo escravo, ouve o seu clamor e o tira da opressão no Egito. Trata-se de uma visitação que socorre e liberta de uma situação de injustiça, imposta por pessoas ou
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pelo poder dominante (Êx 3.16). Deus ouviu a aflição do povo e cuidou dele (Êx 2.23-25). Zacarias recebe a visita de Deus através do anjo. Ele recebe a mensagem: Não temas, porque a tua oração foi ouvida (Lc 1.13), diz o anjo Gabriel. Deus, ao ouvir a oração de Zacarias, envia um mensageiro para informar e preparar o acontecimento em função do cumprimento da promessa divina. Deus não é estático; ele está em movimento. É Deus quem ouve orações e clamores e que cumpre suas promessas de vida e salvação. Não é Deus da lei, mas Deus do amor. É Deus misericordioso (Lc 1.50,72,78). Maria e Zacarias exaltam esse Deus misericordioso, que ouve, visita e fala. A visitação sempre tem em vista a salvação, mesmo em situações pecaminosas, quando o povo precisa de arrependimento, ou seja, mudança de mentalidade e de postura. No Egito, Deus ouviu o clamor dos sofredores e fez uma visitação para que o povo fosse libertado de uma opressão provocada por estruturas e pessoas opressoras. No exílio babilônico, Deus anuncia sua presença por causa dos pecados do povo e para que ele fosse libertado das maldades provocadas contra Deus e contra o próximo. É uma visitação de correção que visa purificar o povo e fazê-lo voltar à antiga aliança com o seu Deus. Se no Egito Deus lutava mais contra forças militares, forças opressoras, no tempo do exílio ele luta mais contra o desvio de conduta dos líderes e do próprio povo (Jr 5.9). Aqui, no texto de Lucas 1.68, é dito que, em Jesus, Deus vem visitar o seu povo para libertá-lo das mãos dos inimigos e dos que odeiam (Lc 1.71). E, pelo menino que é o precursor, pregar conhecimento da salvação e redimi-lo dos seus pecados (Lc 1.77). Deus cumpriu sua promessa: visitou, libertou, redimiu o seu povo e estabeleceu salvação plena e definitiva através de Jesus Cristo, segundo a proclamação dos profetas. Nossa salvação está contida no perdão dos pecados, na bondade e na graça de Deus para conosco. 3.4 – Jesus veio para reconciliar os seres humanos com Deus, consigo mesmo e uns com os outros. Ele cria comunhão. Na comunhão não há os que sabem tudo, ninguém vale pelo que possui ou não possui. Jesus não vem para os dominadores nem para os que se acham sãos. Jesus Cristo vem, graças a Deus, para os ignorados, preteridos, fracos, oprimidos e injustiçados, para os que estão nas trevas e na sombra da morte. Ele vem para dirigir nossos pés pelo caminho da paz. Sigamos juntos e juntas! 3.5 – Na época de Advento e Natal as pessoas se aproximam mais. Decidem colaborar mais, apoiar materialmente pessoas empobrecidas, doentes e que estão em situação de vulnerabilidade. Participam mais dos encontros de sua comunidade. Há mais solidariedade. A manjedoura de Jesus Cristo ajuda-nos a pensar na fragilidade e no sofrimento. Valorizamos as pessoas não por aquilo que elas têm, mas por aquilo que elas são. Nem por aquilo que elas fazem ou deixam de fazer. Os sofrimentos delas sensibilizam. E a vontade de estar com elas, em meio às dores humanas, é o lance principal da vida.
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4 Imagens para a prédica Dietrich Bonhoeffer foi pastor luterano e um dos principais mártires do regime nazista na Segunda Guerra Mundial. Por causa da pregação e da postura contrária a esse regime, foi preso e executado. Foi pastor de comunidades e professor em seminários e universidades. Na pregação no Primeiro Domingo de Advento, no dia 03 de dezembro de 1933, numa comunidade da Alemanha, ele fez a seguinte reflexão: “Vocês sabem o que é um acidente em uma mina. Nas últimas semanas, lemos sobre o assunto nos jornais [i. é, grave acidente numa mina em Wales]. Chegou o momento que até o mineiro mais corajoso temia durante toda a sua vida. Não adianta bater contra as paredes. Em redor tudo é silêncio. Ele sabe que lá em cima eles trabalham febrilmente em busca dos que estão soterrados. Talvez alguém seja salvo, mas aqui neste poço? Restam apenas uma espera desesperadora e a morte. Mas quando, de repente, se consegue ouvir um ruído semelhante a batidas e de rochas quebrando, e quando, em seguida, vozes chamam: Onde você está? A ajuda está chegando! – o desesperado se levanta, seu coração ameaça saltar-lhe do peito e ele grita: Estou aqui, me ajude! Eu aguento até que vocês cheguem! Venham logo! Mais uma batida de marreta junto ao seu ouvido e a salvação está próxima; mais um passo, e ele está livre. Estamos falando do Advento. Parecido com isso é a chegada de Cristo: ‘[...] exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima (Lc 21.28bc)’” (Bonhoeffer, 2003, p.13). Com quem se fala assim? Pensem em prisioneiros. Em doentes no hospital. Naquela pessoa que tem um segredo que a atormenta e não consegue mais dormir. Naquela pessoa que errou e que queria ser perdoada, mas seus tormentos são tratados com indiferença. E elas gritam: Sim, vem, ó Salvador! Vem nos libertar!
5 Subsídios litúrgicos Kyrie
Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo (Tg 5.16b). Perdoados, humanizados e reconciliados por Deus, queremos, agora, lembrar-nos e trazer diante do Senhor as dores do mundo. Pedimos a Deus pelas pessoas que vivem na escuridão, são escravizadas pelo medo, pela violência, pela escuridão da ignorância, pelo poder, por ameaças, pela fome, pelo desemprego, pelos diversos tipos de drogas, por seus problemas não resolvidos e pelas doenças, pelos seus remorsos e rancores. Pensamos, especialmente, nas mães e crianças que estão em situações de vulnerabilidade. Deus, colocamo-nos à tua disposição para ser apoio solidário para as pessoas que são vítimas. Que o Senhor esteja com elas ali onde se encontram, quer seja em nosso município, estado, país e mundo. Dá-lhes, Senhor, a felicidade e a vida digna.
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Gloria in excelsis Está alguém alegre? Cante louvores (Tg 5.13c). Bendito seja Deus (Lc 1.68). Podemos e devemos nos alegrar com Deus. Damos sempre graças a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vós, desde que ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos (Cl 1.3-4). Minha alma engrandece ao Senhor (Lc 1.46). Nós, certamente, estamos felizes, porque Deus escuta nossas orações, súplicas e nossos motivos de agradecimentos e louvor. Queremos reconhecer, agradecer, dar glória e louvor ao Senhor com as palavras de gratidão e alegria, junto com Maria e Zacarias, cantando todos juntos o gloria [HPD 2, 346]. Oração do dia Deus, tira de nós e ao redor de nós tudo o que atrapalha nosso ouvir com atenção e cuidado. Prepara nossa mente, nossos pensamentos, nosso coração, nossos sentimentos para este momento de leituras e pregação da tua santa Palavra. Nós te agradecemos porque o Senhor nos convidou e conduziu até aqui, neste lugar, para o culto, para nos perdoar e ensinar no nosso preparo para o encontro definitivo, completo e eterno. Pedimos que tu nos envies o teu Santo Espírito. Sê presente, pela ação do teu Espírito, no cotidiano de todas as pessoas que se encontram aqui no culto. Assiste-nos com tua bondade e criatividade neste momento. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo vive e governa agora. Amém. Confissão após pregação (Para ser lido em dois grupos, alternando 1 e 2.) 1. De bons poderes fiel e em paz cercado, tranquilo, consolado, sem pesar, ao vosso lado nestes dias quero estar, convosco em ano novo entrar. 2. Bendito seja Deus, porque ouviu o clamor, visitou e salvou seu povo. Bendito seja Deus, porque suscitou plena e grande salvação na nossa casa. 1. Maravilhosamente bem guardados, confiantes esperamos o porvir. De noite e dia em Deus aconchegados, e assim em cada dia que surgir. 2. Bendito seja Deus, porque nos libertou dos inimigos e dos que odeiam. Bendito seja Deus, porque nos concedeu liberdade e adoração sem medo. 1. Ainda nos oprimem dias idos, fantasmas do passado sobrevêm. Ó Deus, concede às pessoas desvalidas a salvação que guarda lá no além. 2. Bendito seja Deus, porque nos concedeu um menino chamado “profeta do Altíssimo”. Bendito seja Deus, porque recebemos sua entranhável misericórdia. 1. E caso o amargo cálice servires, de sofrimento a transbordar, então mui gratos, sem tremer, conforme o queres, o recebemos de tua boa mão. 2. Bendito seja Deus, porque de nós cuida com afetos de bondade. Bendito seja Deus, porque nos deu conhecimento da justiça e da salvação.
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1. Porém, se queres dar-nos alegrias no mundo, ainda, com o seu fulgor, então lembrar queremos idos dias, e a vida tua só será, Senhor. 2. Bendito seja Deus, porque o “Sol da Justiça” nos visitará. Bendito seja Deus, porque alumia quem jaz nas trevas e na sombra da morte. 1. E que ardam hoje cálidas as velas que vieste em nossas trevas acender. E a todos nós reúne – que o concedas! A noite tua luz há de vencer. 2. Bendito seja Deus, porque dirige nossos pés pelo caminho da paz. Bendito seja Deus, porque nos encontra no rio da justiça que não morre. 1. E quando agora a calma nos envolve, do mundo ouçamos o celeste som que imperceptível sobre nós se estende, das filhas tuas a glória em alto tom. (Hino de Dietrich Bonhoeffer, na prisão, dia 19/12/1944, baseado em Lucas 1.68-79)
Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2003. p. 638. LICHTENFELS, Ivo. Meditação sobre Lucas 1.67-79. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1979. v. V. MOLZ, Claudio. Meditação sobre Lucas 1.67-79. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1982. v. VIII.
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PRÉDICA: FILIPENSES 4.4-7 SOFONIAS 3.14-20 LUCAS 3.7-18
3º DOMINGO 16 DEZ 2018 DE ADVENTO Astor Albrecht
Pérolas para a nossa vida
1 Introdução O texto bíblico de Sofonias 3.14-20 é um cântico de louvor a Deus, que salva o seu povo. Deus afastou os inimigos do povo e, por isso, não é mais preciso ter medo da desgraça. Não é tempo de desanimar nem de perder a coragem. A certeza disso tudo é que Deus está presente junto com seu povo (v. 17). A leitura de Lucas 3.7-18 trata do ministério de João Batista, que prepara o povo para a vinda do Messias. Ele exorta o povo para que ele se arrependa dos seus pecados e mude de vida (produzir bom fruto – v. 9). Isso significa ter compaixão do próximo nas suas necessidades (prover roupa e alimento), ser honesto (cobrar o que é justo), estar contente com aquilo que se obteve de modo justo. Ele deveria ser um pregador muito criativo, entre outras características, pois, com muitas outras exortações anunciava o evangelho ao povo (v. 18). O texto-base para a pregação (Filipenses 4.4-7) contem alguns conselhos de Paulo para a igreja. A nova vida em Cristo precisa se manifestar numa espiritualidade sadia e que confia na presença de Deus, tal como Sofonias anunciou. A vida cristã manifesta-se em novas e boas relações entre as pessoas, nas quais a amabilidade e a compaixão são centrais. A alegria e a paz dão testemunho de que Deus está presente com a sua igreja. Proponho apresentar os quatro conselhos como um modo de viver de cada pessoa batizada no nome do Senhor. Um modo de viver não alicerçado na iniciativa humana, mas em Deus, que vem estar conosco em Cristo.
2 Exegese Paulo estava preso quando escreveu esta carta (1.7,13,14,19). Não há unanimidade sobre o lugar onde estava preso; alguns afirmam que estava preso em Éfeso, e outros em Roma. A igreja de Filipos ajudou muito o apóstolo Paulo na sua tarefa de anunciar o evangelho por todo o Império Romano (4.14-16,18). Na carta, Paulo agradece a ajuda recebida e também trata de temas como: a confiança, a alegria, o amor cristão e a firmeza, que devem ser qualidades de quem segue Jesus. No capítulo 4.1-9, o apóstolo trata de problemas pastorais e aconselhamento. Vamos agora olhar mais de perto os v. 4-7, que formam o texto-base para a pregação.
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V. 4 – Aqui temos aquelas linhas que conhecemos e amamos e que são lidas no tempo de Advento. Duas vezes é afirmado aos cristãos de Filipos que tenham alegria no Senhor. Lembramos que nem o escritor nem os destinatários dessas palavras viviam num clima de bem-estar e conforto exterior: o apóstolo estava preso e a comunidade tinha problemas com o surgimento de falsas doutrinas que alguns ensinavam. Por essa razão tem peso o “sempre”. Ainda que chegue a Filipos a notícia da sentença de morte de Paulo (2.17-18), e ainda que as opressões na própria Filipos não acabem, a alegria é dádiva e tarefa decisiva da igreja! Nesse sentido, essa alegria não é uma espécie de otimismo natural. A chave da exortação está “no Senhor”. É a fé da comunidade no Senhor que torna a chamada à alegria algo prático e real. Os apelos de Paulo à alegria nunca são meros encorajamentos; eles atiram as igrejas desanimadas de volta ao seu Senhor. Esses apelos são, acima de tudo, apelos à fé. V. 5 – Paulo pede que a moderação da igreja seja conhecida de todos. A palavra moderação (to epieikes) significa uma boa disposição em relação às outras pessoas; mostrar bondade, suavidade, transigência. Quem está pessoalmente repleto de alegria gosta de causar alegria também aos outros, gosta de reparti-la. Isso é possível pelo fato da igreja não precisar ter medo de que venha a ser arrasada: Perto está o Senhor. Podemos compreender essa palavra em seu sentido escatológico. Foi assim que também Tiago associou a exortação para a tolerância fraterna com a referência ao juiz vindouro (Tg 5.9), como a seu modo já fizera Jesus (Mt 5.25). Importa sermos conhecidos como os “mansos” que herdarão a terra, como os “pacificadores” (Mt 5.5,9). Mas também podemos aprender que a proximidade do Senhor, no sentido do Salmo 145.18, não está necessariamente excluída. Maior “proximidade” temos pelo “habitar” do Cristo nos corações por meio da fé (Ef 3.17) e pela presença do Espírito Santo. V. 6 – Após tratar da alegria e da moderação, Paulo trata da despreocupação: não andeis ansiosos de coisa alguma. Esse mesmo pensamento se encontra em Mateus 6.25: não andeis ansiosos pela vossa vida. Isso significa: evitar a inquietação ansiosa e pensamentos perturbadores nas necessidades e dificuldades da vida. Aqui indica que há falta de confiança na proteção e no cuidado de Deus. Essa exortação é sustentada pelo que segue: fazer uso da oração. No grego, as “petições” são as coisas que se deseja e solicita do outro. Deus preparou o que precisamos de forma abundante para nós. Por essa razão não devemos alistar de modo apreensivo para nós mesmos o que precisamos ter. Isso pode gerar um círculo vicioso de preocupação e ansiedade, mas devemos comunicá-lo com pedidos na oração a Deus. Quando alguma coisa nos oprime e perturba, devemos buscar a Deus na oração; quando nossos afazeres estão confusos ou complicados, precisamos buscar direção e apoio. Nossas orações e súplicas devem ser levadas a Deus “com ações de graças”. Assim revelamos gratidão a Deus que nos ajudou, e também agora oramos confiantes de que ele nos ouve, e que não apenas exclamamos nossa angústia. V. 7 – A paz não é mero voto, feito como se fosse algo vago. Quando Paulo afirma que a paz de Deus guardará os corações, o adendo “em Cristo Jesus” pode referir-se ao todo da frase: aqui e em todos os outros lugares em que Deus age,
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essa ação auxiliadora acontece por meio de Jesus. Essa paz de Deus cuida “do vosso coração e da vossa mente”. A palavra não se refere de modo intelectualista a nossos arcabouços mentais, mas de modo prático a nossos planos e propósitos. O que, afinal, é essa “paz de Deus”, que realiza tudo isso? Para nós só haverá “paz com Deus” se ele gerar paz, chamando-nos para dentro dela e preservando-nos nela. O fato de que Deus realmente faz isso evidentemente “excede todo entendimento”. A paz de Deus nos é concedida mediante a fé em Cristo Jesus, que perdoa nossos pecados e nos justifica (Rm 5.1).
3 Meditação Proponho convidar a comunidade a fazer uso da imaginação. Pense que você ganha uma caixa com pérolas preciosas. Uma pedra mais linda que a outra! Nosso texto assemelha-se a um colar de pérolas maravilhosas. Pérolas para a vida. Coisas de grande valor para vivermos bem: alegria, moderação, muita paz, nada de ansiedade e preocupações. Já pensou? Muito bonito, mas em nosso dia a dia a conversa é bem diferente. Os desafios que temos não nos permitem sonhar com tais pérolas. Alegrar-se quando falta tanta coisa? Pessoas sofrendo e chorando por desavenças e maldade? Ser uma pessoa amável quando nossos relacionamentos são conturbados? Não andar ansioso e não se preocupar: agora sim estamos “falando grego”! Para muitos, viver é a arte de estar ansioso e preocupado. Quer alguns motivos? O 13º salário já está comprometido, a saúde não anda lá essas coisas e, falando dos filhos, quanta preocupação! O que sobrou? Cadê nossas pérolas? Afinal, quem escreveu essas palavras na Bíblia? Alguém que ganhou na loteria? Não! Quem escreveu foi o apóstolo Paulo, e ele estava preso por causa da fé em Cristo. Essa carta aos filipenses destina-se a cristãos novos, pessoas que há pouco abraçaram a fé em Jesus e vivem em meio a um mundo perigoso e cheio de desafios. E essas pedras fazem parte de nossa vida com Cristo e de nossa espiritualidade. Essa palavra não é para quem ganhou na loteria, mas é para você, que enfrenta desafios, conflitos grandes e pequenos, mas que foi batizado no nome do Senhor e espera nele. A primeira pedra é a da alegria. Paulo escreveu quando estava preso. Veja que não se trata de uma alegria que se baseia na situação, no momento. Ainda bem, pois quantas vezes o nosso humor muda no mesmo dia. Somos, às vezes, como um semáforo: verde – pode vir e brincar comigo que está tudo bem; amarelo – cuidado com o que você vai falar; vermelho – fique aí na sua! A alegria que a Escritura nos fala está baseada na promessa: Perto está o Senhor. Mas como nos esquecemos disso facilmente! Na dificuldade, logo pensamos: agora é tudo comigo. Tenho que me virar! Lembra os discípulos no barco em meio ao mar revolto? Estavam lutando contra as ondas e tudo parecia indicar que era o fim. Mas quem estava perto? Quem lhes vem ao encontro? É Jesus perto deles. Mas quem eles acharam que era? Acharam que era o “Gasparzinho” (Mc 6.49)! Na adversidade, achamos que estamos por nossa conta e risco e ficamos inquietos. A alegria baseia-se na interminável presença de Cristo. Não podemos perdê-lo. Ele está
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aí! Isso vale para quem está feliz, triste, enlutado, enfermo, satisfeito. A situação em que você se encontra não pode limitar em nada a presença de Cristo. A segunda pérola é a moderação. Ela tem muitos nomes: ser gentil, amável, tolerante, calmo, pacífico, bem-educado, bondoso, compreensivo. Essa palavra nos fala sobre convivermos com as outras pessoas. Uma ilustração pode ajudar aqui. Dois alunos prestam a prova: um tirou nota 8 e o outro, nota 5. O professor corrigiu de maneira certa e nada há para mudar. Mas descobrimos que o aluno que tirou nota 8 teve tudo a seu favor para isso: tempo para estudar e os pais o incentivaram. O que tirou nota 5 não teve tempo para estudar, pois cuidou do irmão doente. Olhando assim, a nota muda: ele merecia mais do que nota 5. De acordo com a moderação, a nota pode ser bem diferente. Semelhante com a história da mulher pega em adultério: aos olhos dos fariseus, seria condenada à morte. Mas Jesus viu algo a mais e deu nova oportunidade a ela. Há algo a mais entre o 8 e o 5, e isso se chama misericórdia, amor: moderação. Precisamos dela para viver bem e melhor uns com os outros. A terceira pérola é a de não andar ansioso. Paulo não está dizendo que não devemos cuidar de nossas tarefas e responsabilidades. Elas têm um lugar legítimo em nossa vida e precisam de nosso cuidado e atenção. Vale dizer que ela pode ser legítima quando nos ajuda a decidir e agir de modo eficiente. Noutro momento Paulo escreveu: Além dessas e de outras coisas, ainda pesa diariamente sobre mim a preocupação que tenho por todas as igrejas (2Co 11.28). Contudo, se dispensarmos a presença de Deus, a porta para uma ansiedade doentia ficará aberta. É quando vêm o medo do futuro e a insegurança. Quando a pessoa se sente desamparada, com angústia, medo e insônia, o que fazer? Orar! As crianças falam a seus pais dos seus “grandes” problemas. Aos olhos dos pais são coisas tão pequenas. Para elas, importantes. Jesus disse que temos muito a aprender com as crianças. Aqui também devemos compartilhar com nosso Pai nossos pontos altos e nossas frustrações; as pequenas e as grandes dores e não duvidar que somos ouvidos. Lembremos que orar não é tão somente exclamar a Deus as nossas angústias, mas é lhe agradecer (ações de graças). Como resultado temos a quarta pérola: a paz. Uma paz verdadeira, que é bênção para você e que, através de você, quer alcançar as pessoas que partilham a vida com você. Firmados na certeza da presença de Deus conosco, que tal tomar o propósito de fazer, começando em nosso lar, um lugar de paz e de bem para todos que ali habitam? Assim como João Batista pregou, que tal abrirmos mão daquelas coisas que nos deixam distantes uns dos outros? Que tal buscarmos com humildade as coisas que nos ajudam a viver melhor uns com os outros? Isso é possível, mas tão somente de Deus vem essa dádiva para a sua vida. Que tal essas pérolas em sua vida? Não seriam os dias melhores? Elas são para nós, para todos e todas que creem em Jesus. Alguma delas hoje faz mais falta a você? Você não precisa se achar merecedor delas, nem deve. Tudo será dado a você, pois o Pai o ama e quer cuidar de você.
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4 Imagens para a prédica Como sugestão, pode ser usada a ilustração que foi partilhada na meditação. Além dessa, pode-se usar uma caixa ou um colar com pedras para ilustrar a mensagem.
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia Nosso Deus e Pai, é em espírito de ação de graças que nos reunimos hoje aqui e nos unimos em oração. Graças que tu estás presente. Porque nos amas, tu não nos deixas sós. Senhor, queremos falar a ti de nossa vida e de nossos caminhos, mas queremos aprender a andar contigo. Ajuda-nos para que em vez de ficarmos ansiosos e inquietos, preocupados em como vamos sair dessa, aprendamos a chamar pelo teu nome. Aprendamos a erguer as mãos, olhos e coração a ti, que sempre estás atento à nossa oração. Que coloquemos com fé aos teus pés todas as nossas coisas, principalmente aquelas que nos impedem de viver vida plena. Graças que tu farás bem todas as coisas. Agradecemos por tua presença aqui conosco e pedimos que neste culto o desespero seja vencido, o medo afugentado, a fé renovada e fortalecida. Damos graças pela tua palavra, que não deixarás faltar neste culto. Sê conosco e abençoa este culto com tua presença segundo a tua promessa. Amém.
Bibliografia BOOR, Werner de. Cartas aos Filipenses. Curitiba: Esperança, 2006. (Comentário Esperança). FOULKES, Francis. Efésios – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005. (Série Cultura Bíblica).
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4º DOMINGO DE ADVENTO
23 DEZ 2018
PRÉDICA: LUCAS 1.47-55 MIQUEIAS 5.2-5a HEBREUS 10.5-10
Jorge B. D. Oliveira
Deus exalta os humildes
1 Introdução A liturgia deste 4º Domingo de Advento já é toda orientada para o nascimento do Salvador, que vem simples, humilde, desapegado de tudo, mas Rei e Senhor. A última vela acesa na coroa de Advento representa o ensinamento dos profetas, que anunciaram um reino de paz e de justiça. A primeira leitura lembra-nos da profecia de Miqueias, com o nascimento humilde do Messias, na pequena Belém. A última frase dessa leitura: Ele será a Paz, define o conteúdo concreto desta esperança: ele veio trazer a paz e a salvação a todas as pessoas. A palavra shalom aqui utilizada significa mais do que apenas ausência de guerras e conflitos. Significa “bem-estar, abundância de vida e felicidade plena”. A segunda leitura lembra-nos da disposição do Filho de Deus no momento de sua vinda: Eis-me aqui […] Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade (Hb 10.7). Sugere que a missão libertadora de Jesus visa ao estabelecimento de uma relação de comunhão e de proximidade entre Deus e os seres humanos, de tal forma que as pessoas acolham essa proposta seguindo o exemplo de Jesus Cristo. O evangelho traz, no cântico de Maria, um anúncio de alegria e de salvação que faz rejubilar todas as pessoas que reconhecem em Jesus a proposta libertadora que Deus lhes faz. Deus escolheu Maria para partejar a salvação; Deus destronou as pessoas poderosas e exaltou as humildes; as pessoas famintas foram saciadas e as orgulhosas ficaram de mãos vazias.
2 Exegese A perícope em estudo faz parte dos relatos de infância de Jesus segundo o evangelista Lucas e apresenta um traço de estilo semítico bastante conhecido: o paralelismo. Ou seja, o autor repete, em sequência, ideias similares, mas escritas de formas diferentes. Assim, a mentalidade judaica permeia o texto grego do Novo Testamento. Além disso, o texto apresenta citações e referências do Antigo Testamento, especialmente dos Salmos, e uma semelhança com o cântico de Ana, que se encontra em 1 Samuel 2.1-10. No entanto, nota-se uma diferença: o cântico de Ana é um grito de triunfo diante das suas inimigas, e o de Maria é uma humilde contemplação das misericórdias de Deus. Maria exalta a grandeza de Deus.
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O Magnificat é um poema de mulheres pobres, não só por marcar o encontro de Maria e Isabel, mas por se constituir em memória das pessoas pobres e marginalizadas que aguardam a vinda do Messias do meio delas. Esse cântico surge no contexto de uma sociedade injusta, onde as mulheres ficam à margem da história e são discriminadas quando não se encaixam no papel de procriadoras. Assim, Isabel, considerada estéril, e Maria, grávida sem ter marido, são exemplos daquelas que são desprezadas pela sociedade, mas escolhidas por Deus para serem suas colaboradoras no projeto de salvação. Maria resume em sua pessoa todo o povo de Israel, a quem Deus fizera as promessas de salvação a serem cumpridas nos tempos do Messias. Por isso o canto de Maria é o louvor das pessoas pobres e marginalizadas que reconhecem a ação de Deus para libertá-las através de Jesus. Cumprindo as promessas do Antigo Testamento, Deus coloca-se ao lado das pessoas pequenas e excluídas e inverte a ordem social, derrubando do trono as pessoas poderosas e exaltando as humildes e oprimidas. V. 47 – O cântico é chamado de Magnificat, pois a versão em latim diz: Magnificat anima mea Dominum (A minha alma engrandece ao Senhor). A ação de Deus como Salvador é destacada nesse hino, onde as expressões engrandece e se alegra sugerem a contínua presença do louvor. Numa cultura em que as mulheres não tinham acesso às letras, chama a atenção como no Magnificat se fazem presentes os textos bíblicos. A expressão “Deus, meu Salvador” demonstra que Maria reconhecia sua condição de pecadora como todas as pessoas. V. 48 – A expressão “desde agora” também pode ser traduzida como “de agora em diante”. Ou seja, as coisas não seriam mais as mesmas. Maria deixou de ser uma pobre e desconhecida moça hebreia para se tornar a mãe do Salvador. “Humilde serva” é uma referência à posição humilde que ela ocupava na sociedade. V. 49-50 – Maria, após expressar sua gratidão por aquilo que Deus lhe fizera, volta-se à contemplação do próprio Deus. Dá ênfase a três coisas: seu poder, sua santidade e sua misericórdia. De uma perspectiva pessoal, o cântico desloca-se e passa a falar das pessoas que temem a Deus, numa clara referência à piedade do Antigo Testamento (Sl 111.10). A misericórdia é dada àquelas pessoas que procuram respeitosamente por ele. V. 51-53 – Aqui temos uma série de seis verbos no aoristo, que dão a impressão de que Maria está relembrando ocasiões específicas no passado, quando Deus fez as coisas que ela enumera. O cântico sai da esfera do “eu” para a esfera do “eles”, e aponta para uma inversão total dos valores humanos. A última palavra não está com as pessoas soberbas, nem com as poderosas, nem com as pessoas ricas e orgulhosas. De fato, mediante a vinda do Messias, Deus derruba todas elas. Ocorre uma reviravolta nas atitudes humanas e nas estruturas sociais, pois pessoas pobres e pequenas são socorridas, em detrimento de ricas e poderosas. Deus mostrou sua força trazendo o seu Filho ao mundo não pelos soberbos de coração ou pelos poderosos, mas por uma humilde e pobre serva. V. 54-55 – Maria agora canta sobre a ajuda que Deus dá a seu povo. A atuação de Deus no Messias não é completamente nova, mas sim uma continuação da sua misericórdia a favor de Abraão (Gn 15.1ss; 17.1ss). Está de acordo com suas promessas aos patriarcas no passado (Gn 17.7; 22.17; Mq 7.20).
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3 Meditação O Advento é um tempo alegre, quando esperamos pela visita sempre renovada do Deus, que se fez gente como a gente e veio morar entre nós. No Natal, celebramos a presença de Deus numa criança que chora, que é frágil e indefesa. Deus se faz um de nós ali nesse menino. Por isso Deus é o tema do canto de Maria. Ela não fala de si, de seus projetos de vida. Ela reconhece a grandeza de Deus, expressa sua alegria e seu agradecimento porque o Senhor se fixou em sua pequenez. Maria foi grandemente abençoada por Deus, sua gravidez era uma ruptura na história, e Deus a escolhera para partejar a salvação. O fato de ser favorecida por Deus não lhe trouxe outro sentimento que não fosse o de louvor. Maria é uma mulher de fé, centrada em Deus e comprometida com a causa da justiça. Ela tem consciência histórica e um coração aberto para o próximo. Ela é alegre e solidária com o povo sofrido, proclama a vinda do reino de Deus, pois percebe que Deus está transformando as relações sociais. Ao mesmo tempo, age como uma israelita que recorda a ação de Deus a partir de Abraão. Recorda que, através da história, Deus é fiel e seu amor é para todas as pessoas. Para Maria, Deus se tornou pessoal, pois ele olhou para a sua humildade. Ele escolheu uma moça pobre e desprezada, quando bem poderia ter optado pela filha de um rei. O Deus libertador do povo de Israel continua agindo na história concreta, optando por uma humilde serva, para tornar presente sua salvação na história humana. Ele age desse modo para que ninguém se glorie na sua presença, dizendo que mereceu ou merece tudo isso. O cântico de Maria traz até nós a esperança dos profetas de que com o Messias virá o reinado de Deus – reinado de justiça e paz –, em que as pessoas fracas e pobres terão vez, dignidade e vida abundante. Erguendo Maria de sua humildade e transformando-a no instrumento de sua ação salvífica, Deus iniciou uma completa inversão de todos os valores. Essa ação de Deus é fruto de sua misericórdia e de sua compaixão. Ele tem o coração perto da miséria humana, e seus preferidos são os que foram desumanizados e humilhados pela tirania dos poderosos. Por isso Deus se põe sempre ao lado das pessoas excluídas e marginalizadas pelas estruturas de poder, ele dispersa as pessoas soberbas e acolhe as humildes. Ele derruba do trono as pessoas que usam o poder para cometer abusos, opressões, injustiças e violências. Deus enche de bens as pessoas famintas e despede as ricas de mãos vazias. O cântico expressa a alegria e o júbilo das pessoas pobres e humildes, das pessoas perseguidas injustamente, das humilhados e ofendidas. Deus toma a defesa delas, pois seus planos não são como os nossos, nem seus critérios como os nossos critérios. Deus valoriza justamente o que, aos olhos da sociedade, aos olhos do status quo, não tem valor. Com o filho de Maria, Deus já iniciou o seu reinado. Através de Jesus, Deus mexerá justamente no cerne do ser humano, lá onde se arquiteta o orgulho com todas as suas consequências. Com o nascimento de Jesus, um novo mundo se inicia. Por tudo isso Maria não pode se calar. Ela canta e dá voz às pessoas
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humildes e desprezadas que Deus levanta do pó e exalta. Também nós, que experimentamos a graça e a misericórdia de Deus reveladas em Jesus, precisamos falar e proclamar que Deus subverte e inverte as ordens estabelecidas. Que este tempo de Advento e Natal nos sirva para potenciar o louvor e a gratidão a Deus por tudo o que ele fez e faz por todos nós. Lembremos que Deus ama as pessoas pobres e necessitadas e nos convida à solidariedade, à fraternidade e ao amor ao próximo, especialmente aos mais sofridos. Que possamos agir como Maria, a serva do Senhor, e louvar a Deus com este canto: Minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se alegra em Deus meu salvador. Vamos proclamar esse Deus que Maria experimentou e atualizar seu projeto de misericórdia e justiça em meio a situações de miséria e de morte que enfrentamos no dia a dia da vida. Amém.
4 Subsídios litúrgicos Hinos sugeridos: 353, 356, 357, 360, 366 (Livro de Canto da IECLB). Oração Dá-nos, ó Deus, uma visão de nosso mundo conforme o teu amor quer transformá-lo. A visão de um mundo onde os fracos, em vez de serem explorados, são protegidos, e ninguém sofre de fome e pobreza. A visão de um mundo onde os recursos e bens materiais são compartilhados e todas as pessoas podem desfrutá-los. A visão de um mundo onde diversas nações, raças e culturas possam viver em tolerância e respeito mútuo. A visão de um mundo onde a paz está alicerçada na justiça, e a justiça é conduzida pelo amor. E dá-nos coragem e inspiração para construir este mundo, em Jesus, nosso Senhor. Amém. (Em Tua graça. Livro de culto e orações da 9ª Assembleia do CMI, p. 17). Confissão de fé – Indonésia Creio em Deus, Pai de todos, que deu a terra a todos os povos e a todos ama sem distinção. Creio em Jesus Cristo, que veio para nos dar coragem, para nos curar do pecado e libertar de toda opressão. Creio no Espírito Santo, Deus vivo que está entre nós e age em todo homem e mulher de boa vontade. Creio na Igreja, posta como um farol para todas as nações e guiada pelo Espírito Santo a servir os povos. Creio nos direitos humanos, na solidariedade entre os povos, na força da não violência. Creio que todos os homens e mulheres são igualmente humanos. Creio que só existe um direito igual para todos os seres humanos, e que eu não sou livre enquanto uma pessoa permanecer escrava. Creio na beleza, na simplicidade, no amor que abre os braços a todos e na paz sobre a terra. Amém.
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Bibliografia MALSCHITZKY, H. Auxílios Homiléticos sobre Lucas 1.46-55. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1979. v. V. MORRIS, Leon L. Lucas: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida, 1986.
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PRÉDICA: ISAÍAS 11.1-9
NOITE 24 DEZ 2018 DE NATAL
LUCAS 2.1-7 GÁLATAS 4.4-7
Adélcio Krohnbauer
Sonho, esperança, utopia, loucura, absurdo
1 Introdução Ao fazer uma busca bibliográfica sobre o texto de Isaías, deparei-me com a seguinte frase: “É preciso que tenham a oportunidade de oferecer inovadoras opções de vida, ‘loucas’, ‘absurdas’, que parecem as mais queridas de Deus – 1Co 1.18,23-24)” (Sánchez Cetina, 2009, p. 71). Espírito (ruah) de Iahweh (Deus) se faz presente. Acontecem situações intrigantes. A ação divina, na sua perspectiva mais profunda e extensa, manifesta-se na dinâmica de criar e renovar. O Espírito é revelado na criatividade. Essa criatividade surpreende e parece ser uma loucura, um absurdo na perspectiva da nossa mentalidade afastada ou desconectada do temor a Iahweh. Esses absurdos e essas loucuras estão gravados nos textos indicados.
2 Exegese “Em 9.1-6, a autoria isaiânica já era posta em dúvida por uns e outros. Para 11.1-51 ou para 11.1-10, isso vale de maneira ainda mais intensa. Novamente, tomo a liberdade de não entrar no debate deste assunto intrincado. Remeto para os comentários de Hans Wildberger e de José Severino Croatto. E, com eles, e outros tantos exegetas, continuo a considerar 11.1-10 isaiânico. Estamos em outra época. A situação da guerra siro-efraimita de 733/ 732 a. C. ficou para trás. Entrementes, os assírios já se adonaram de Damasco (732), das regiões setentrionais de Israel (732) e, provavelmente, até mesmo a conquista da Samaria (722) ficou para trás. Os assírios tornaram manifesto seu terror e seu orgulho. Isaías os critica, com veemência (10.5-34). Havemos de estar após 722, talvez em torno de 701, quando os exércitos assírios desfecharam decisivo golpe contra Judá. No entanto, e ao bem da verdade, nossos versículos fornecem poucos indícios seguros para a datação. É o final do cap. 10 (v. 33-34!) que favorece a fixação em tempos nos quais os assírios já eram uma grandeza bem conhecida. Fique anotado que nestes v. 6-9, o ‘fruto’ do ‘rebento’ alcança seu nível mais utópico: o estabelecimento da ‘justiça’ entre os animais e destes com as pessoas. O ápice desta nova criação da natureza é que a criança conduzirá feras (v. 6) e brincará com serpentes (v. 7-8). – O v. 9 fecha a perícope, definindo o local de tão extraordinários eventos (‘o monte Sião’) e sua condição (‘conhecimento de Javé’). Este ‘conhecimento’ que aqui no v. 9 é condição do fim do mal e da violência, fora dádiva ao renovo no v. 2. Pelo visto, nossos v. 1-9, de fato, são uma ‘pérola’” (Schwantes, 2009, p.16).
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Essa longa citação literal de Milton Schwantes serve para colocar um pouco de chão em nossa perícope e externar o óbvio: a dificuldade de determinar com exatidão datas, autores e locais da produção textual da literatura bíblica, em que real contexto a palavra de Deus está inserida ou revelada. A ideia do renovo (rebento) nos remete provavelmente a tempos anteriores, mais precisamente ao tempo dos juízes. É uma esperança dos tempos tribais, contemplada através do retrovisor da história. É possível que haja uma idealização de um período passado como um modelo de justiça e paz. No entanto, é dito que, inspirado no temor a Iahweh, o menino julgará de forma autônoma, com um critério: fazer justiça ao oprimido, ao fraco da terra. Não serão ouvidas testemunhas nesse processo de julgar. A justiça acontece de forma direta. E, assim, a esperança vai muito além de um modelo passado de realização da justiça e paz. O shalom é uma utopia que brota do Espírito de Iahweh. Uma transformação radical e profunda que deve ser caracterizada como uma renovação total da criação. É verdadeiramente uma recriação. As relações entre os elementos da recriação são de outro cunho, sem necessidade de uns devorarem os outros, ou o desejo de fazê-lo. É a superação de uma relação sacrificial. Assim como pode ser uma nova criação e novas criaturas, pode também ser uma visão ou um sonho de voltar à primeira criação. “Por um lado, as inimizades tradicionais são suspensas. Os animais de ‘rapina’ deixarão de ser o que podem ser. Por outro lado, os próprios hábitos alimentares são alterados. Ursas e leões pastarão. Os vegetais serão os únicos alimentos, como em Gênesis 1.29-30!” (Schwantes, 2009, p. 16). Sonho, esperança, utopia, loucura, absurdo. Podemos aprofundá-los ainda mais. Tudo é frágil. Um broto é frágil. Não será com equipamentos de guerra, nem com força do braço, será através da boca e com os lábios, com a palavra. Mas isso não significa que é sem eficácia, pois a “palavra é um acontecimento, é uma coisa” (Schwantes, 2009, p. 20). A renovação, a recriação virá pela palavra, pelo anúncio que transforma. Outro aspecto da fragilidade do shalom é o papel que os pequenos podem desempenhar e experimentar na convivência. Eles podem ter participação ativa na convivência, de forma livre, sem medos, pois não haverá a prática do mal, não haverá destruição. As crianças aqui recebem um destaque bem especial quanto a essas características: elas vivem em um ambiente seguro. O santo monte de Iahweh é um lugar surpreendente. “É o que também vemos nos v. 6-8. Aí o símbolo maior da comemoração de novas relações na natureza, a rigor, não é o da ‘pacificação’ das feras. O símbolo maior é que crianças podem conduzi-las (v. 6) e brincar com elas (v. 8) [...] A criança que ainda não estabeleceu e nem catalogou as diferenças e os perigos empresta sua experiência para que em seus moldes seja dita a utopia” (Schwantes, 2009, p. 20). “Isaías 11 radicaliza o tema do shalom ao descrever o ‘reinado messiânico’ de pernas para o ar: o mundo shalom é governado – ou melhor: pastoreado – por uma ‘criança pequena’ (na‘ar qaton), e ainda mais um ‘bebê’ (yoneq) e um ‘recém desmamado’ (gamul) [...] Isso é olhar o mundo de maneira subversiva, que não se contenta em aceitar que a vida neste planeta seja definida, à maneira do adulto hegemônico, por meio de guerras, violência, extermínio do ecossistema,
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injustiça e opressão. É o mundo de harmonia, paz, igualdade, liberdade total. Seu líder é uma criança e a visão que governa é a infantil. Diante disso, não deixam de ter peso enorme as palavras de Jesus: ‘Te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e dos entendidos, e as revelaste aos pequeninos’ – Mt 11.25” (Sánchez Cetina, 2009, p. 70).
3 Meditação Em relação ao mundo de Isaías, o que temos de realmente diferente hoje é a tecnologia de produção, de transportes e de comunicação. Devemos citar também a questão do conhecimento geográfico, biológico e espacial, entre outros. Na essência, porém, não há muito o que celebrar em relação a algo que o ser humano atual pudesse ser diferente do tempo de Isaías. Estamos mais agressivos no que diz respeito à forma como dominamos e exploramos a criação. Em relação aos outros seres, tornamo-nos muito contundentes em dominar. Somos diretamente responsáveis pelo extermínio de muitas espécies. Criamos animais em larga escala para que sejam sacrificados em favor de nossa alimentação e festividades. Em relação a nós mesmos, cometemos numerosos genocídios daquele tempo até hoje. Não cessamos de guerrear, pelo contrário, nos aprimoramos como nunca para destruir e matar. As pessoas que assumiram usar a boca e os lábios para pacificar foram perseguidas e assassinadas ao longo da história. A relação entre adultos e crianças tem sido catastrófica em muitos sentidos e em variáveis aspectos. Ao longo dos séculos, uma parcela significativa da população mundial, em muitos momentos a maioria, vive submetida a uma condição de profunda miserabilidade. O entendimento, a inteligência, o conhecimento e a nossa força são inspirados, tomados por um espírito que traduz a falta de temor a Iahweh. Deixamo-nos guiar pelo próprio desejo e pela busca desenfreada por prestígio e satisfação pessoal. O espírito que nos conduz é o ego. Para supri-lo, não medimos esforços, a tal ponto que eliminamos sem piedade tudo que pode nos impedir. Viver segundo os desejos e as vontades e ter a liberdade de realizá-las sem culpa é o princípio ético básico. E há um deus, cuja mão invisível, chamado mercado, controla a nossa vida atualmente. Ele nos promete liberdade, mas toda a humanidade, toda a criação está submetida e cativa às suas leis. É pecado questionar seus aspectos nocivos e degradantes. É um Deus que quer ver todos competindo; pessoas devem cooperar umas com as outras, se agrupar, mas para ganhar e crescer, competindo com outras pessoas ou grupos para permanecer no mercado. As pessoas vivem no limite de suas capacidades ou equilíbrio emocional. Milhares sucumbem. Milhões no mundo inteiro são excluídos da comunidade econômica global. A grande parte nem sequer é aceita como membro dessa congregação. Somos classificados como membros produtivos e improdutivos, membros consumidores e não consumidores. É uma comunidade que se constitui sobre o espírito da meritocracia. Esse modelo de comunidade parece vir ao encontro do espírito que governa a mente humana. Nesse modelo de vida, a guerra é um ser onipresente. Vários tipos de guerras. Existe um argumento bastante aceito e difundido que revela e realça
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o medo ao qual estamos submetidos, o medo que assola a nossa convivência e confiabilidade: se todos andarmos armados, aí viveremos em segurança e em paz, pois dessa forma um estaria com medo do outro e não ousaria um enfrentamento. Esse pensamento está na base da corrida armamentista que toma conta da vida cotidiana em quase todos os níveis de convivência. Ainda que isso não tenha evitado a guerra e os mais diferentes tipos de violência, a ideia prospera. A utopia e a esperança também existem. Acredita-se que o trabalho, a dedicação e o sacrifício em favor de si mesmo para alcançar o sucesso irão se refletir em todos os demais. Que o deus da mão invisível trará um equilíbrio, desde que aceitemos testemunhá-lo de forma competente e nos submetamos aos seus sacrifícios, pois eles valem pelo que proporcionam: liberdade e independência, autonomia e poder fazer de acordo com vontades e desejos próprios. Também as crianças estão repletas desse espírito, pois são catequizadas desde pequenas através de uma poderosa ferramenta: o marketing e a vontade dos adultos de querer ver seus filhos alcançando sucesso e prestígio na vida. Muitas delas não suportam a pressão e sucumbem. Milhares delas vivem deprimidas ou frustradas. Há um índice considerável de suicídios de crianças na aldeia global, sendo as crianças japonesas as mais assoladas. Apropriando-nos de uma linguagem profética, podemos dizer que a humanidade está prostituída com o deus da mão invisível, porém encarnado nas relações de guerra, destruição e espoliação da criação. Ele nos submeteu às suas leis. Seu juízo é pela aparência e pelo ouvir dizer. Não julga com equidade, não pronuncia a sentença em favor das pessoas pobres da terra nem julga as pessoas fracas com justiça.
4 Imagens para a prédica Qual é a nossa esperança? Podemos sonhar com paz e equidade? Podemos! O Espírito de Iahweh está pairando sobre nós, está entre nós. O próprio Iahweh se faz presente de forma encarnada. Iahweh era, é e há de ser. Ele mesmo tornou-se frágil e pequeno. Ele anunciou uma nova criação. Julgou com equidade os fracos da terra, com misericórdia e compaixão. Nossa esperança está clara e bem definida: esperamos um novo céu e uma nova terra, onde habita o shalom. Nossa missão está igualmente clara e bem definida: anunciar com a boca e com os lábios que o Espírito de Iahweh não nos abandonou. Ele promove reconciliação e continua nos concedendo entendimento, sabedoria, fortaleza, temor e outros dons necessários para vivenciarmos o shalom. A manjedoura é a imagem do dia para abordar a presença do Espírito de Iahweh. Ali ele se fez presente e encarnado em uma criança. É a palavra acontecendo. A sabedoria consiste em perceber a presença encarnada nas coisas fracas do mundo, nas pequenas que o mundo rejeita como insignificantes. O mundo não entende como o reino de Deus pode estar sendo revelado em uma manjedoura e em uma cruz. Para o mundo isso é loucura, para nós, a salvação. Promovemos paz e justiça às pessoas que são vítimas da violência? Às que são julgadas pela aparência, às crianças que não têm um lugar de paz para
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dormir ou brincar? Onde está o Espírito de Iahweh, ele está junto com as pessoas rejeitadas? E nós, onde estamos? E quando o sopro dos lábios de Deus vier sobre nós? O que acontecerá?
5 Subsídios litúrgicos
Sugiro trabalhar com a ideia do silêncio em um determinado momento da celebração. Na hora da prédica, inclusive, lançando perguntas para que as pessoas possam refletir. Oração geral Deus, Criador da vida, venha sobre nós o teu Espírito. Concede-nos sabedoria e inteligência, conselho e força, conhecimento e temor. Que o teu Espírito seja a nossa inspiração de vida. Tua criação padece. Nós padecemos profundas dores, todo tipo de infortúnio e misérias. Não conseguimos nos entender ou construir uma relação de paz. Estamos tomados por um espírito agressivo contra a vida. Seguimos nossas próprias leis ou as leis de deuses estranhos, que exigem de nós enormes sacrifícios, entre os quais a vida de seres fragilizados. Bondoso e misericordioso Deus, faze com que a tua Palavra encarnada no menino Jesus seja a luz do nosso caminhar. Renova nossas esperanças e o nosso viver no mundo, e concede que sempre confiemos em tuas promessas de salvação. Nós nos dirigimos a ti com temor, com esperança e com confiança. Amém.
Bibliografia SCHWANTES, Milton. “E de suas raízes um renovo trará fruto”: o Messias no Espírito em defesa dos pobres em 11.1-5(6-9). In: Revista Caminhando, v. 14, n. 1, p. 15-21, jan./jun. 2009. SÁNCHEZ CETINA, Edesio. Paz na Bíblia. In: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA), n. 74, p. 61-80, 2009.
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PRÉDICA: JOÃO 1.1-14
25 DEZ 2018
ISAÍAS 62.6-12 TITO 3.4-7
Júlio Cézar Adam
O Natal e os entusiasmos
1 Introdução Natal é, no Brasil, a festa mais celebrada, não apenas na igreja. A sociedade como um todo celebra com entusiasmo essa festa, muitas vezes, sem uma noção mais teológica e espiritual cristã sobre seu sentido. O comércio talvez seja o principal impulsionador desse entusiasmo. Além disso, o Natal está em uma época privilegiada no calendário civil brasileiro, o que contribui para o sucesso da festa e também do próprio mercado. É final de ano, fim do ano escolar, início das férias e do verão, época de ir à praia, descansar, encontrar familiares, pessoas amigas. O Natal, assim como a passagem de ano, fecha um ciclo e inicia um novo. É um tempo de esperar por um novo ano, com aquela esperança de que se o ano passado não foi tão bom, talvez o ano novo guarde algo mais positivo. Por tudo isso o entusiasmo natalino aqui é muito diferente do espírito de maior recolhimento e privacidade que vemos em países da Europa, por exemplo. Mesmo assim, o entusiasmo natalino leva muitas pessoas às igrejas, uma grande oportunidade para pregar o evangelho de forma cativante e relacionar o milagre da estrebaria de Belém com o entusiasmo dessa época. Se olharmos os textos bíblicos previstos para este dia, veremos uma riqueza imensa a ser proclamada. Em Isaías 62.6-12, somos lembrados da promessa de Deus de trazer o povo de volta para Jerusalém. Voltar para casa – algo que muitas pessoas acabam fazendo no Natal – é aqui prometido. Não apenas voltar para casa, mas voltar para poder ficar, comer o próprio pão e tomar o próprio vinho (v. 8 e 9). O Salvador está vindo, trazendo o povo a salvo para uma cidade que novamente será habitada. Em Tito 3.4-7 encontramos também uma palavra de salvação, manifesta por meio da benignidade e do amor de Deus, não para estabelecer um povo numa cidade, mas justificar as pessoas por graça, tornando-as, assim, herdeiras na esperança da vida eterna. Essa salvação acontece por meio do lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, derramado sobre as pessoas por meio de Jesus Cristo. Tito deixa claro que tudo isso acontece não por justiça e obra humana, mas tão somente por iniciativa e ação misericordiosa de Deus (v. 4 e 5). Ou seja, em ambos os textos se fala de algo novo e grandioso que Deus realiza. Em Isaías, o centro está no povo trazido de volta do exílio para sua cidade reconstruída. Em Tito, o centro da salvação está naquilo que Deus faz por cada pessoa: aceitar a pessoa e torná-la herdeira na esperança da vida eterna, através da ação da dádiva do Espírito Santo, a partir da salvação operada por Jesus Cristo.
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Nenhum dos dois textos tem uma relação direta com a narrativa do Natal, mesmo que ambos falem de grande esperança que vem a partir daquilo que Deus faz por meio do Salvador. O texto de João 1.1-14 deixa mais explícita a relação com a celebração do Natal, mesmo sendo um texto que também não relata o nascimento especificamente. Se Isaías está mais concentrado na reconstrução de Jerusalém, e Tito mais focado na salvação pessoal do ser humano com vistas à vida eterna, o texto do evangelho expande a salvação para níveis cósmicos, colocando o Verbo atuando na criação de tudo que há. Surpreendentemente esse Verbo cósmico se torna carne, vida, criança na manjedoura de Belém, no Natal.
2 Exegese O Evangelho de João difere dos evangelhos sinóticos pela maneira como relata o evento de Jesus Cristo. Essa diferença se dá em grande medida na linguagem, que tem influência de círculos místicos e de conhecimento e sabedoria judaicas, algo que se aproxima também à gnose. Um exemplo disso é o uso de certo dualismo, como luz e trevas, verdade e mentira, anjo da luz e anjo das trevas etc. O evangelho utiliza poesia, metáforas e linguagem figurada, refletindo um caráter cultual e sacramental judaico na vida de Jesus. O evento de Jesus Cristo é revelado envolto no grande mistério da Páscoa, assemelhando-se a uma forma primitiva de pregação cristã, sob a direção do Espírito Santo. Nada é simplesmente relatado, dito ou ensinado, mas tudo é revelado dentro de um espírito simbólico, metafórico, poético, sapiencial e sacramental, como forma de manifestar algo especial, extraordinário, mesmo que simples e discreto. O objetivo do evangelho é revelar que Jesus é o Messias, a verdadeira e plena encarnação de Deus. É exatamente nesse mesmo espírito que encontramos no prólogo do evangelho: Jesus é o Verbo feito gente que veio dar vida aos seres humanos (1.14). Olhando especificamente para nossa perícope, percebemos que o Evangelho de João inicia com uma poesia densa, surpreendente, uma das páginas mais sublimes da Bíblia (Niccaci; Battaglia, 1985, p. 33). O texto, seu conteúdo e a maneira como é construído realmente são impactantes, dando um caráter de prólogo, de anúncio condensado de algo extraordinário que está acontecendo: um Deus que se digna a tornar-se gente para habitar entre nós e revelar a si mesmo. Suspeita-se que o prólogo tenha sido colocado, posteriormente, no início do evangelho, assim como fazemos muitas vezes nossas introduções de trabalhos e textos. Outra possibilidade é que o texto tenha sido originalmente um hino litúrgico preexistente e que era conhecido no círculo joanino. O autor do evangelho provavelmente o complementou para usá-lo na abertura da sua obra (Niccaci; Battaglia, 1985, p. 33). Há relação desse texto e seu estilo com textos da sabedoria do Primeiro Testamento, como, por exemplo, Sabedoria 9.9-12 ou Provérbios 8.22-36. Ali se entende que a Sabedoria está no princípio com Deus, participa da criação, virá à terra para agraciar a humanidade. Diferentemente do que prevê o Lecionário Comum Revisado da IECLB, os comentaristas bíblicos sugerem que a perícope seja ampliada até o versículo 18. O prólogo funciona como uma introdução de uma peça musical organizada
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em 21 capítulos, o Evangelho de João completo. Flanagan (1996, p. 6) observa também que esse texto poético usa um tipo de paralelismo de ideias característico da tradição hebraica. No caso do prólogo do João, o autor ressalta que se trata de um paralelismo invertido, demonstrado da seguinte maneira: 1. A palavra de Deus (v. 1-2) 2. Papel na criação (v. 3) 3. Dom à humanidade (v. 4-5) 4. Testemunho de João (v. 6-8) 5. A Palavra entra no mundo (v. 9-11) 6. Pela Palavra somos filhos e filhas de Deus (v. 12-13)
1. O filho ao lado do Pai (v. 18) 2. Papel na recriação (v. 17) 3. Dom à humanidade (v. 16) 4. Testemunho de João (v. 15) 5. A encarnação (v. 14)
Sobre o texto do prólogo, em si há vários termos que despertam a atenção do leitor e da leitora. O primeiro deles é o termo Verbo (Logos), a Palavra ou a Revelação. Segundo a poesia, o Verbo não só é preexistente, como também está estreitamente relacionado ao próprio Deus. Esse termo, ao lado dos termos “graça e plenitude”, estarão ausentes no restante do evangelho. A oposição entre trevas e luz fica aqui também evidente, algo que, sim, estará presente em todo o evangelho. Olhemos cada uma das partes da perícope separadamente. V. 1-3: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. Chama atenção o uso do termo “Verbo” (logos, em grego), que é um termo polissêmico, denso e rico. Pode-se entendê-lo como a palavra de Deus, o dabar hebraico, palavra carregada de potencialidade, palavra criadora, pode-se entendê-lo como mensagem e revelação. Acima de tudo é um termo que condensa mais do que apenas uma palavra ou ideia. Diria que tem densidade simbólica, no sentido de que abre para a grandeza do mistério divino. É transcendente. Esse verbo está junto de Deus, quase formando uma unidade, como se a Palavra e Deus se equivalessem, não no sentido de identidade pessoal, mas de essência. Esse verbo está presente antes da criação e foi o meio através do qual a criação foi feita. Esse sentido e significado do verbo, somada a expressão “no princípio” não deixam dúvida de que em Jesus Cristo inicia uma nova criação. Há que lembrar que Jesus ressuscita no primeiro dia da semana, marcando assim esse caráter. Há uma dinâmica que está sendo desencadeada: o mundo está sendo recriado através de Jesus Cristo. Ele não só é o mediador da criação, mas o revelador do Pai e o mediador da filiação divina aos que creem. V. 4-9: A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz, a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. O tema principal aqui é a luz. O termo luz é apresentado como sinônimo de vida. A luz, primeira coisa criada por Deus na
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criação, por meio da Palavra (Disse Deus: haja luz – Gn 1.3), é a essência do Verbo, a vida. Importante considerar que a vida aqui é mais que uma vida transitória, pessoal. Vida (zoē), para João, é a vida eterna. Em 1 João 5.11 diz que Deus nos deu a vida eterna e essa vida está em seu filho. Essa luz, essência da vida eterna, ilumina as pessoas, resplandece apesar das trevas. A manifestação da luz é tão divina, que as trevas não prevalecem contra ela. Ou seja, para João, a antítese luz e trevas não é uma questão de escolha moral, mas uma constatação fundamental: só há a luz divina. O homem enviado para dar testemunho da luz, João Batista, não deve ser confundido com a própria luz. A verdadeira luz que alumia toda pessoa é Jesus Cristo, que está chegando. Em João 8.12 novamente se diz que Jesus é a luz, e em 9.5 se fala da vinda luz. V. 10-13: O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. O tema aqui é a incredulidade e a fé. Pode-se dizer que estamos no centro temático do prólogo. Não há sentido algum na vida da luz se ela não é recebida e conhecida pelas pessoas. E mais que isso: não basta ser conhecida e recebida como que por uma necessidade do próprio Deus, mas o motivo supremo da encarnação, ou seja, de todo o evento Jesus Cristo, é tornar o ser humano filho de Deus por meio da fé. O paralelismo de João aparece também neste trecho: os que não reconheceram a luz e os que creram e a receberam. O cerne do prólogo, portanto, está naqueles e naquelas que se deixam iluminar pela luz. Deixar-se iluminar pela luz significa ser tornado filho e filha de Deus. Para João, o termo “mundo” (v. 10) significa oposição à criação. Trata-se do mundo marcado pelo pecado, dominado por Satanás (12.31). Por isso o uso da expressão “feito por intermédio [do Verbo]” e “para o que era seu”. Aqui, especificamente, significaria todas as pessoas e não apenas Israel, que por causa do pecado e do mal, estão afastados de Deus e separadas da criação. “O poder ser filhos e filhas de Deus” (v. 13) é algo marcante. Significa deixar-se como que ser recriado por meio de Cristo. Não é apenas reconhecer, mas sim aderir ao Verbo totalmente, algo que só é possível por meio da fé (final do v. 12). Esses e essas nascem agora da vontade de Deus. Ou seja, a mesma força dinâmica e criadora do Verbo, que impulsiona à existência tudo que há, encarna-se em Jesus Cristo, luz e vida verdadeiras, através de quem, por meio da fé, cada pessoa pode também ser recriada com filha de Deus. Essa é a mensagem do Natal! V. 14: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai. A encarnação do Verbo é condicio sine qua non da culminância e da viabilidade da graça e da verdade para dentro da vida, do mundo. Sem a encarnação em Jesus Cristo, nada do que o prólogo anuncia e prenuncia de todo o evangelho seria possível. Dizer que o Verbo se fez carne significa dizer que desceu da esfera divina para a categoria das criaturas. Ao tornar-se ser humano, dignou-se a estar conosco. O termo “Verbo”, do v. 1, reaparece somente aqui, no v. 14, evocando todo o desenvolvimento anterior. Graça e verdade reforçam a essência do Verbo, a luz, a vida eterna. Uma
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possível tradução para o “habitou entre nós” seria “armou sua tenda entre nós”, que também remonta à tradição da primeira aliança do Deus que se faz presente, acampa, caminha com seu povo. A encarnação significa presença de Deus através do humano, único meio para o vislumbre da presença, da manifestação de Deus. Jesus Cristo, o unigênito do Pai, ou seja, em unicidade absoluta, o Verbo encarnado, é todo o acesso possível a tudo que Deus é. A humanidade de Cristo é a nova tenda da presença de Deus. Ao mesmo tempo em que esse tudo ainda se mantém encoberto e escondido.
3 Meditação Como vimos acima, na introdução, no Brasil o Natal é uma festa de entusiasmo, em grande medida porque o ano de trabalho e estudo está terminando e as férias, o verão, a praia, o encontro com pessoas amadas serão possíveis. Natal é, portanto, um tempo de encontro consigo, com a natureza, o descanso, com pessoas. Por trás desse motivo entusiasmante, o prólogo de João coloca em poesia um encontro cósmico do Verbo que se digna a armar sua tenda no meio da vida humana e nos dar acesso, por meio de Jesus Cristo, à dinâmica criadora e salvadora de tudo que Deus é. Isso sim é motivo para entusiasmo. Lembremo-nos de que o termo entusiasmar deriva do verbo grego enthousiazein, que significa “estar inspirado, possuído por Deus”, ou de “entheos”, “divinamente inspirado”. Parece que no Natal brasileiro temos um choque de entusiasmos: do final de ano e do que deveria ser o verdadeiro, que é a encarnação de Deus no menino de Belém, através de quem cada ser humano pode deixar-se também entusiasmar, tomando parte na mesma dinâmica criadora e restauradora de Deus. Esse segundo entusiasmo parece já não entusiasmar mais. Suspeito que o motivo desse desentusiasmo evangélico não é apenas devido ao entusiasmo do cotidiano, da festa de final de ano, mas sim devido ao discurso teológico e à pregação a respeito da encarnação que já não falam algo com sentido para a vida das pessoas. Parece que as palavras impactantes – como encontramos no prólogo – sobre o sentido do Natal ficaram desentusiasmadas, palavras que já não falam do sentido que ali habita. Mesmo assim, deveríamos encontrar na encarnação do Natal o mesmo entusiasmo presente nos festejos e ritos do final do ano. Parece que o entusiasmo de final de ano funciona como uma “religião vivida”, um novo conjunto de sentido que as pessoas atribuem a tradições e conteúdos religiosos originários. A religião vivida empolga mais porque pode ser livremente associada a questões concretas da vida cotidiana. Por isso não é suficiente apenas moralizar a prática da religião vivida, contrapondo o “verdadeiro” sentido bíblico, evangélico. O exercício da pregação deve ser justamente de permitir que Cristo se encarne na vida das pessoas através da pregação da Palavra, por meio da ação do Espírito Santo. Pregar é entusiasmar a fé de pessoas e da comunidade. Como fazer isso? Pregando sobre o Natal! Pregar sobre o Natal a partir do prólogo de João é mais que apenas contar uma história bonita de um menino que nasce em uma estrebaria, em Belém. A história de Natal não tem sentido em si sem o domingo da Páscoa! A pregação sobre o Natal não tem sentido se não entusias-
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mar as pessoas, ou seja, refletir sobre o que significa a encarnação de Deus para dentro da vida das pessoas. A mensagem do Natal deveria libertar as pessoas de construir por conta própria o entusiasmo de final de ano e ajudar a entender que Deus cria na vida de quem crê um entusiasmo novo, mobilizador, transformador. Não preciso ir para o novo ano apostando na sorte de que o ano será melhor. Com a encarnação há, de fato, algo sendo operado, uma nova criação, em favor da pessoa e da comunidade crente. Jesus não nasce apenas em Belém, ele nasce dentro da vida de cada pessoa que crê, ele nasce cheio de graça e verdade na vida da comunidade. Esse é o entusiasmo do Natal e precisa encontrar as palavras para expressar-se com sentido.
4 Imagens para a prédica No ponto anterior já deixei transparecer imagens para a prédica. As imagens do entusiasmo de final de ano poderiam ser encenadas ou projetadas. Por outro lado, o prólogo em si tem uma imagem fascinante da dinâmica criadora e cósmica do que está sendo feito por meio de Jesus Cristo. Toda essa dinâmica divina tem a ver com nossas vidas, comuns e simples, tão somente por meio da fé. Tudo o mais já está feito por Deus. A prédica deveria ajudar a refletir que a encarnação de Deus ou seu nascimento em Belém não é apenas uma história, mas sim um evento que tem impacto na vida de cada pessoa. Lembro-me do texto de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, onde ele conta sobre o nascimento de uma criança no mangue pobre. Essa criança pobre, franzina e feia é a fonte da esperança e de entusiasmo. O mesmo franzino é belo, porque é uma porta abrindo-se em mais saídas. Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria: “– De sua formosura já venho dizer: é um menino magro, de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher. – De sua formosura deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina. – Sua formosura deixai-me que cante: é um menino guenzo como todos os desses mangues, mas a máquina de homem já bate nele, incessante. – Sua formosura eis aqui descrita: é uma criança pequena, encrenque e setemesinha, mas as mãos que criam coisas nas suas já se adivinha. – De sua formosura deixai-me que diga: é belo como o coqueiro que vence a areia marinha. – De sua formosura deixai-me que diga: belo como o avelós contra o Agreste de cinza. – De sua formosura deixai-me que diga: belo como a palmatória na caatinga sem saliva. – De sua formosura deixai-me que diga: é tão belo como um sim numa sala negativa. – É tão belo como a soca que o canavial multiplica. – Belo porque é uma porta abrindo-se em mais saídas. – Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia. – É tão belo como as ondas em sua adição infinita. – Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria. – Belo como a coisa nova na prateleira até então vazia. – Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia. – Ou como o caderno novo quando a gente o principia. – E belo porque o novo todo o velho contagia. – Belo porque corrompe com sangue novo a anemia. – Infecciona a miséria com vida nova e sadia. – Com oásis, o deserto, com ventos, a calmaria.”
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O termo “entusiasmo” poderia ser aproveitado na pregação. O que nos entusiasma? Qual o entusiasmo da época do Natal? Qual o entusiasmo do Natal? Outra imagem importante que não deve ser esquecida é o contexto de trevas em que vivemos. Vivemos um período de trevas no Brasil e no mundo, um período severino, trevas que se manifestam na intolerância frente às diferenças, no ódio, na desigualdade social e humana, na violência disseminada no cotidiano brasileiro, a falta de esperança e perspectivas políticas. Natal é reafirmar que a luz de Jesus Cristo prevalece em meio às trevas, simplesmente porque o criador da luz se encarna naquele menino que nasce numa estrebaria e nos chama para ser seus filhos e suas filhas.
5 Subsídios litúrgicos Oração de coleta Verbo Divino, tu que criaste a vida e tudo o que existe. Tu que te fizeste carne no Pequenino de Belém, vencendo assim as trevas da desesperança e do medo, nós te pedimos que tu venhas cheio de graça e de verdade nascer de novo em nossas vidas e na vida de nossa comunidade, para que possamos nos reconhecer novamente como teus filhos e tuas filhas e, assim, testemunhar a tua luz em meio à violência, ao cansaço e à injustiça. Por isso agora te pedimos: que teu Espírito Santo fale a nós por meio do Verbo, tua Palavra, para que possamos fortalecer a fé no milagre do Natal; para que possamos iniciar um novo ano, como pessoas entusiasmadas pela tua novidade, vivenciar tua glória e transformar o mundo. Por Jesus Cristo, Deus conosco, unigênito contigo e o Espírito Santo. Amém.
Bibliografia NICCACI, Alviero; BATTAGLIA, Oscar. Comentário ao Evangelho de São João. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1985. FLANAGAN, Neal M. El Evangelio y las Cartas de San Juan. Collegeville: The Liturgical Press, 1996.
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PRÉDICA: COLOSSENSES 3.12-17 1 SAMUEL 2.18-20,26 LUCAS 2.41-52
1º DOMINGO APÓS NATAL
30 DEZ 2018
Ana Isa dos Reis
Batismo diário: dispa-se e revista-se!
1 Introdução Os textos previstos para este domingo estão dentro do tempo do Natal. As pessoas e as comunidades ainda estão no clima das festas de fim de ano. Há esperanças no ar, afinal, o ano de 2018 está findando e em dois dias estaremos em 2019. Sonhos são renovados, esperanças alimentadas, planos e projetos feitos e refeitos, promessas de uma nova vida. Nessa época do ano, a vida ainda está iluminada com as luzes de Natal, os ouvidos cheios do canto das cigarras, a história do Natal continua viva nos presépios, os presentes ainda são novidade e já se iniciam os preparativos para a virada do ano, foguetes e sonhos para um ano novo. Samuel e Jesus cresciam saudáveis, cumprindo sua tarefa, depois do nascimento “nada comum”. Samuel é o filho da estéril Ana, que o prometeu a Deus caso ela engravidasse. Depois de desmamado, Ana levou o pequeno Samuel até Eli, para que ele servisse a Javé. E Samuel o fazia com esmero, dedicação e crescia bem, cuidado por Javé. Jesus é filho da jovem e ainda não casada Maria, que se coloca como serva e assume os riscos ao dar à luz o Filho de Deus. Depois de cumprir a lei aos 12 anos, passando pelo bar mitzvah, Jesus inicia sua pregação, falando no templo, e crescia bem, cuidado por Deus. Também o evangelho continuava sendo testemunhado. Pessoas confessavam a fé em Jesus Cristo, revestiam-se das virtudes da pessoa cristã. A comunidade crescia, cuidada por Deus. Em meio aos festejos de fim de ano, a vida segue e Deus continua cuidando de seu povo. E esse povo tem assumido sua tarefa, revestindo-se de Cristo?
2 Exegese 2.1 – Autor, datação e contextualização Colossenses é uma das quatro cartas do cativeiro, junto com Efésios, Filipenses e Filemon. A própria carta menciona que Paulo está preso (Cl 4.3,10,18), certamente ainda não em Roma, mas em Éfeso (conforme At 19). Se, de fato, foi escrita por Paulo enquanto ele estava preso em Éfeso, então a carta deve ter sido redigida entre os anos 55 e 57. Há pesquisas mais recentes, no entanto, que apontam que a carta teria sido escrita por um discípulo de Paulo, quem sabe Timóteo, sendo apenas atribuída a Paulo. Se assim o foi, a carta estaria situada em torno do
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ano 95, escrita em Éfeso, o que a colocaria como uma carta de comunidades da chamada “segunda geração cristã”. As comunidades de Colossos e Laodiceia não foram fundadas por Paulo; elas não o conheciam pessoalmente. Supõe-se que tenham sido fundadas por discípulos de Paulo, entre eles, Epafras (Cl 1.7ss, 4.12ss; Fm 23). Filemom era membro dessa comunidade, que inclusive se reunia em sua casa, assim como se reúne na casa de uma mulher chamada Ninfas (Cl 4.15) e de Arquipo (Cl 4.17). Colossos ou Colossas era uma colônia romana da Ásia Menor, distante cerca de 200 km de Éfeso, que vivia da indústria têxtil. A carta menciona a presença de cristãos gentios, oriundos do paganismo. Havia várias filosofias e práticas pagãs que foram misturadas ao cristianismo, o que levou Epafras a pedir ajuda do próprio Paulo. Multiplicavam-se práticas que tentavam garantir a salvação, buscando intermediários entre Deus e a humanidade, o que levou pessoas a apelar para a observância de festas anuais, mensais e sábados, leis alimentares (Cl 2.16,21), culto aos anjos (Cl 2.23), confiança nas forças cósmicas (Cl 2.8). Segundo essas práticas, Jesus não passava de uma entre outras manifestações de Deus, além de questionar como um crucificado poderia dar sentido à vida e ao mundo. A carta reage com vigor, afirmando que em Jesus habita a plenitude da divindade (Cl 2.9). Através de Cristo, o universo foi reconciliado com Deus. A partir do batismo, a pessoa cristã é chamada a despir-se de sua velha natureza (de pessoa pecadora, cheia de vícios) e revestir-se como nova criatura (vivendo a fé através de virtudes que promovem uma nova sociedade). Nos versículos anteriores (v. 5-11) há uma lista de vícios que devem ser abandonados e, em contrapartida, a pessoa cristã deve revestir-se das virtudes da vida cristã. 2.2 – Olhando cada versículo V. 12 – “Revesti-vos” – o verbo está no imperativo, portanto é mais do que um convite; é um chamamento, uma responsabilidade, um compromisso que a pessoa batizada deve atender. Dentre alguns significados de revestir destaco: vestir de novo, cobrir, resguardar. Devem revestir-se os eleitos de Deus, santos e amados, ou seja, as pessoas cristãs (pessoas batizadas), sendo assim, devido à declaração forense, primeira, de Deus, dentro da santidade de Cristo. Santidade e eleição são ação de Deus em primeiro lugar. Ao ser humano fica a oportunidade da ação segunda, da resposta. Cada uma das virtudes apresentadas é antes também e, em primeiro lugar, em relação ao agir de Deus e de Jesus. Também vale lembrar que as virtudes não são obras do ser humano, mas são dádivas de Deus. As virtudes não estão ligadas simplesmente a um crescimento pessoal, antes apontam para a vida social, para a vivência da pessoa cristã dentro do mundo, na família, na igreja, na sociedade. V. 13 – Suportar-se e perdoar: chamado para uma atitude. É preciso reconhecer que as pessoas têm defeitos, assim como eu; que elas têm limitações, assim como eu. Suportar é carregar a outra pessoa, levar a outra pessoa adiante com amor e ternura e não como se fosse um fardo pesado, ou revidar como se valesse o “olho por olho e dente por dente”. O perdão é a força que nos permite seguir adiante, que entrega a maldade e não a fica carregando como se fosse um
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saco preso nos tornozelos e arrastado por todo lugar onde estamos. O perdão que Jesus nos trouxe, nos reconciliando com Deus, rompe o saco pesado e cria um novo tempo. Em uma época de perseguição, de confusão, também com a fé cristã, atitudes de suportar e perdoar fazem a diferença. V. 14 – “Acima de tudo” denota importância, grandeza, força. O amor é a ação máxima. É incondicional. Deus é amor. Ele é a fonte de todo amor. Por isso podemos amar. E, sim, o amor é vínculo da perfeição porque é obra de Deus em nós. V. 15-17 – Os versículos lembram que, a partir do batismo, todas as pessoas fazem parte do corpo de Cristo. A comunidade de Jesus Cristo é chamada a viver em comunhão e paz. Em tempos de perseguição, deixar que a paz de Cristo (e não a pax romana) seja o árbitro, é um chamamento forte para compactuar com Cristo e romper com o poder estabelecido, gerador de morte e perseguição. Essa comunidade é chamada a celebrar o culto, onde pode se alimentar da palavra de Cristo, recebendo e compartilhando instruções e conselhos, partilhando a ação de graças, quando pode louvar a Deus com liberdade e profunda gratidão e servir com alegria. Essa força que é experimentada no culto, na celebração do ágape (Eucaristia) é força para a vivência do dia a dia. Aliás, no dia a dia, essa mesma experiência de liturgia deve ser vivida. Ser agradecido em tempos de perseguição e medo é um desafio, mas também uma oportunidade de testemunhar que, venha o que vier, aconteça o que for, Jesus não abandona seu povo.
3 Meditação Colossos experimentava tempos de confusão teológica dentro da igreja. Ainda que a fé dos colossenses seja elogiada, a mesma está sendo ameaçada por falsos mestres que colocavam Jesus apenas como uma manifestação de Deus, e não o Salvador, o Verbo encarnado. Hoje não é muito diferente. Constantemente ouvimos vozes que apontam para mil coisas e caminhos, e Jesus fica guardado, esquecido, colocado ao lado de uma pilha de questões. E as propagandas, alimentadas pelo sistema capitalista neoliberal, fazem toda uma apoteose do ser humano como ser individual, apostando no próprio ego, em detrimento da vivência comunitária e social. Também na igreja se experimenta, por parte de algumas pessoas, um self service, onde se flutua de um lado para o outro, procurando ouvir aquilo que massageia os ouvidos (e o ego), dispondo-se a vir ou ajudar quando tiver tempo e for conveniente. Também parece que o batismo ficou ofuscado, encoberto por uma porção de outras coisas, ritos e conversões. É preciso despir-se! O batismo é um acontecimento radical. Por meio dele as pessoas passam por uma transformação: afogam sua velha natureza e surgem como novas criaturas. Essa transformação radical é algo prático, e não abstrato. O Cristo que morreu e ressuscitou por nós, que nos traz a salvação, faz um chamado, um imperativo. Viver como pessoa cristã é despir-se de tudo o que nos separa, nos isola, nos afasta do evangelho; é revestir-se do próprio Cristo, ou seja, entrar em uma dinâmica de novas criaturas.
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Esse exercício de despir-se e revestir-se não acontece de forma individualista. Ele se dá em comunidade, na coletividade. Afinal, as virtudes que a carta apresenta só podem ser cultivadas no coletivo. Exercitar a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão/delicadeza, a longanimidade/paciência, o suportar, o perdoar seria irrisório se vivenciado para si mesmo, no individual; o chamado é para viver tudo isso no relacionamento com as outras pessoas, na família, na igreja, no trabalho, com as pessoas que são parecidas comigo e com aquelas que pensam bem diferente – se não o contrário – de mim. O batismo lança-nos para dentro do corpo de Cristo, onde as pessoas são diferentes, ainda que de igual importância. A comunidade de pessoas batizadas não é uma comunidade perfeita, onde não há falhas ou divergências e conflitos, mas é um lugar onde a capacidade de amar ultrapassa os limites, as falhas de cada pessoa. Todo dia é dia de recordar, reafirmar e reatualizar: sou uma pessoa batizada. Ou seja, todos os dias a pessoa cristã é chamada a renovar seu batismo afogando sua velha natureza e ressurgindo como nova criatura, ou, nas palavras da carta, despir-se dos vícios que afastam as pessoas umas das outras e do Senhor e revestir-se de virtudes que promovem a unidade, a transparência, a justiça, a vida boa e digna, revestindo-se do próprio Cristo. Escuto muitas pessoas dizendo que vivemos uma fase de desesperança. Também se vaga ora para cá ora para lá. Às vezes também me sinto assim. Parece que não há mais nada para fazer que possa provocar mudanças. Talvez a palavra seria “revestir-se”. Depois de todo um despir-se, é hora de revestir-se. Significa vestir mais uma vez. Coloque por cima mais algo. Não desista. Tente de novo. Revista-se agora disso. Se ainda não deu certo, revista-se desse outro. Revestir-se é não desistir. É deixar-se transformar. Não uma mudança em apenas um pedaço de mim mesma. Revestir-se é transformação radical. Rememoração batismal diária poderia ser entendida assim: dispa-se de tudo que o afasta do projeto do reino de Deus e revista-se de misericórdia, justiça, bondade, delicadeza, respeito, paciência, humildade, perdão, paz, celebração e, acima de tudo, de amor. Não sou eu mesma capaz de revestir-me sozinha. É ação de amor de Deus para comigo e que se dá na convivência comunitária e familiar, em auxílio mútuo.
4 Imagens para a prédica
Usando a imagem do despir-se e revestir-se, uma pessoa ou mesmo um boneco/manequim poderia ter suas roupas retiradas (pode ser a camisa/camiseta); em cada roupa (que pode até ser feita de jornal ou papel) pode ter uma palavra escrita referente ao que hoje é necessário despir. E, depois, revestir-se: colocar uma camisa ou roupa com o que é necessário vestir. No final, por cima de todas as roupas (eu pensei em camisas) colocar a camisa do amor. Lembrar que esse despir-se e revestir-se aponta para a ação da pessoa batizada, rememorando o próprio batismo, em que se experimenta o morrer e ressuscitar com Cristo e que se dá na comunitariedade. Precisamos morrer, afogar, despir-se do quê para sermos/vivermos como verdadeiro corpo de Cristo? E do que precisamos nos revestir, o que precisa ser colocado sempre de novo a fim de construirmos uma nova sociedade?
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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Confessamos, Deus de amor e graça, que somos pessoas pecadoras. Reconhecemos que nem sempre nos despimos daquilo que nos afasta de ti e dos irmãos e das irmãs, seja por comodismo ou porque nos convém. Confessamos que nem sempre estamos dispostos a nos revestir de misericórdia, paciência, paz, delicadeza e amor. Tantas vezes temos dificuldade de perdoar as outras pessoas, ou mesmo de pedir perdão. Confessamos, Senhor, que esquecemos que somos pessoas batizadas, relegando ao batismo uma mera formalidade, e não reconhecendo que a partir do batismo somos mergulhados em uma transformação radical. Pedimos perdão, Senhor, pelas vezes que nos isolamos e não vivemos como parte do corpo de Cristo, esquecendo nosso compromisso comunitário. Perdoa-nos, Senhor, quando nosso modo de ser e agir não está alicerçado no amor, desse amor que vem de ti. Tu nos conheces, Deus de amor. Às tuas mãos de misericórdia confiamos tudo o que pesa em nós, e pedimos: tem compaixão de nós, despe-nos de toda maldade e reveste-nos de Cristo Jesus. Absolvição Antes de tudo e de todos está o amor de Deus, que ouve nossa confissão sincera e nos perdoa os pecados, chamando-nos a viver vida radicalmente transformada. A partir de Jesus somos reconciliados com Deus. Anuncio o perdão dos pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (+). Amém! Oração do dia Deus da graça, que vieste a nós em Jesus Cristo, nós te agradecemos porque nos envolves com misericórdia, bondade e amor. Encoraja-nos, Senhor, a nos despir de tudo o que é contrário ao teu evangelho. Anima-nos a nos revestir, mutuamente, de Cristo. Capacita-nos a viver a radicalidade do batismo a cada dia. Por Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, nascido humilde na manjedoura. Amém.
Bibliografia
CHAMPLIN. O Novo Testamento interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Millennium, 1982. v. 5. COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filemon. Petrópolis: Vozes, 1986.
VÉSPERA DE ANO-NOVO HEBREUS 13.8-9b ISAÍAS 55.6-11 MATEUS 18.1-5
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ANO-NOVO (NOME DE JESUS)
PRÉDICA: SALMO 8
01 JAN 2019
LUCAS 2.15-21 FILIPENSES 2.5-11
Roger Marcel Wanke
O nome que está acima de todo nome
1 Introdução Conforme o Ano Litúrgico, ainda estamos no ciclo do Natal. Na tradição cristã é assim que a história da salvação de Deus, revelada e ocorrida em Jesus Cristo, faz parte da metade dos domingos do ano. Desde os domingos de Advento fomos lembrados da promessa messiânica da vinda do Salvador. Depois, fomos lembrados do seu nascimento ao celebrarmos o Natal; e antes de falarmos da manifestação de Jesus como Filho de Deus e abordar seu batismo e ministério, temas da Epifania, somos levados a olhar mais uma vez para o menino Jesus, oito dias após o seu nascimento, ou seja, o dia da circuncisão de Jesus e do recebimento de seu nome. Esse tema coincide no calendário civil internacional com o Ano-Novo. É importante salientar aqui que não há ligação entre o dia da circuncisão de Jesus e do recebimento de seu nome com os festejos do Ano-Novo. O ano litúrgico da igreja não segue o ano civil. O ano-novo da igreja tem o seu início celebrado sempre no 1º Domingo de Advento. É importante ter isso em mente para não forçar os textos, tanto das leituras bíblicas como da pregação, na direção de ver o que eles teriam a dizer sobre o Ano-Novo. O tema do lecionário não fala do Ano-Novo, mas aponta para o nome de Jesus. Não que esse tema não tenha algo relevante a ser dito para o contexto do início de um novo ano, no qual muitas pessoas refletem sobre o ano que passou e começam a fazer planos e sonhos para o novo ano. Embora se pretenda dar algumas dicas de como se pode pregar sobre esses textos dentro do contexto do Ano-Novo, considerando o ano civil, o objetivo deste esboço homilético será concentrar-se no tema do “nome de Jesus”. Para esse fim, o lecionário prevê, como texto para a pregação, o Salmo 8, um dos mais belos exemplares da poesia hebraica registrada na Bíblia. Nesse salmo, o louvor a Deus abrange o céu e a terra. A glória do Senhor e o seu nome se tornam a moldura do salmo. No centro, fala-se da glória e da dignidade do ser humano, que tem como mandato de Deus o domínio sobre a criação. Dois textos neotestamentários dão base para a pregação do Salmo 8 neste domingo. O primeiro é do Evangelho de Lucas 2.15-21, parte do relato do nascimento de Jesus. É um dos textos mais conhecidos no contexto das igrejas cristãs. Esse texto apresenta duas ênfases: a primeira relata a ida dos pastores de Belém à manjedoura em Belém para ver o menino que nascera, logo após terem ouvido o coro dos anjos no céu glorificando a Deus nas maiores alturas. Ao retornarem,
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glorificaram, louvaram a Deus e anunciaram o que tinham ouvido e visto acerca do menino Jesus. A segunda, por sua vez, relata que o prazo para a circuncisão, oito dias após o nascimento, havia chegado e que José e Maria deram ao seu filho o nome de Jesus, assim como haviam sido orientados pelo anjo (Lc 1.31). Já o texto da epístola, previsto para este culto, encontra-se em Filipenses 2.5-11, o famoso hino cristológico. Esse é um dos textos bíblicos mais completos a respeito da cristologia. É interessante observar os movimentos do texto: ele inicia no céu, desce por meio da encarnação de Jesus até a terra, passa pela humilhação da morte de cruz e retorna ao céu por meio da exaltação de Jesus; e com isso afirma que ele recebeu de Deus o nome que está acima de todo nome, diante do qual todo joelho se dobrará nos céus, na terra e debaixo da terra. É importante perceber que os três textos abordados acima têm muitos aspectos em comum: os três textos falam do nome do Senhor; os três abordam a glória de Deus; os três são expressões de louvor ao Senhor por sua glória e esplendor; os três abordam a realidade de Deus e a realidade humana; os três textos falam do senhorio de Deus. Esses aspectos podem ser bem explorados também na pregação. Desta forma, os textos querem apontar para a glória de Deus e a majestade do seu nome, que se revelam na pessoa de Jesus Cristo, que não usurpou o ser igual a Deus, antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo e tornando-se em semelhança de ser humano por meio da sua encarnação, nascendo na manjedoura de Belém. Anunciado por meio da boca humilde de pastores de ovelhas, a si mesmo se humilhando até a morte de cruz e, ao ser ressuscitado por Deus, foi também exaltado e lhe dado o domínio nos céus, na terra e debaixo da terra. E como Senhor soberano, cujo nome está acima de todo nome, será adorado e confessado em todo o cosmo, para a glória de Deus Pai. Esta é a primeira vez que o Salmo 8 é previsto em Proclamar Libertação para a pregação. Vejamos agora sua análise exegética.
2 Exegese O Salmo 8 é conhecido na pesquisa como um hino de louvor coletivo ao Deus criador. Diferente dos demais salmos da criação (cf. Sl 19; 104; 136), que a abordam como derrota das forças caóticas e como estabelecimento dos céus e da terra, o Salmo 8 se concentra em tematizar a criação do ser humano e o seu domínio sobre a criação. Embora não seja absoluta, o Salmo 8 apresenta uma descrição clara acerca da essência do ser humano e sua relação de domínio na criação, que lembra em sua linguagem o primeiro relato da criação, registrada pelo Escrito Sacerdotal em Gênesis 1. Sendo assim, o Salmo 8 pode ser entendido, além de hino, como uma meditação poética da teologia da criação. O Salmo 8 apresenta uma estrutura concêntrica (a estrutura e a divisão dos versículos se baseiam na Bíblia Hebraica, podendo ser diferentes nas versões em português):
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v. 1 Título v. 2a-b Glória e majestade ao nome do Senhor v. 3 Paradoxo entre crianças – inimigos de Deus v. 4 “as obras de teus dedos” v. 5-6 A glória e majestade do ser humano v. 7 “as obras das tuas mãos” v. 8 Paradoxo entre animais domésticos e animais selvagens v. 10 Glória e majestade ao nome do Senhor Nessa estrutura é possível perceber claramente os contrastes e paralelismos usados pelo salmista. A glória e a majestade do ser humano, destacadas no centro do salmo, têm como sua moldura a glória e a majestade de Deus. Isso significa que a glória do ser humano, sua dignidade e valor enquanto criatura e dominador da criação só são possíveis por causa da glória do nome do Senhor, ou seja, sua presença e sua soberania. Mesmo que o ser humano esteja em destaque aqui no salmo, ele não existe fora da moldura que somente Deus pode dar à sua existência. Por isso não é a antropologia que determina a teologia, mas exatamente o contrário. A antropologia é determinada pela teologia. O ser humano só existe e tem dignidade porque Deus determina sua existência e concede sua dignidade na criação. O fato do ser humano ser retratado no centro literário do salmo não significa que ele seja o centro da criação. O Senhor permanece, do começo ao fim do salmo, sendo o sujeito de todas as ações. É o Senhor que faz com que o ser humano assuma sua tarefa na criação. Vejamos agora o conteúdo do salmo a partir da estrutura apresentada. a) Moldura: A glória do nome do Senhor (v. 2,10) Como dito anteriormente, o Salmo 8 é emoldurado pela glória e pela majestade do nome do Senhor, que se revelam sobre toda a terra. Essa dupla afirmação do salmista é uma confissão de fé coletiva (Senhor nosso). Esse termo poderia ser traduzido também como “soberano”, e é no Antigo Testamento uma formulação bem característica para se referir aos reis (cf. 1Rs 1.11,43,47: nosso senhor, o rei Davi). A grandeza e a majestade de Deus, também características que o identificam como rei, aparecem em outros salmos (Sl 135.5; 147.5). Fica evidente na descrição do salmista que Javé, o Deus de Israel, não é nenhum tipo de divindade nacional, como se pode ver nos povos vizinhos do Antigo Oriente. Javé é o Senhor de toda a terra (cf. Js 3.11-13; Sl 97.5; Zc 4.14; 6.5). O Antigo Testamento é convicto de que a glória do Senhor enche toda a terra (cf. Is 6.3; Hc 2.14; Nm 14.21). Essa é uma prova incontestável da unicidade, exclusividade e universalidade do Deus de Israel. O destaque da moldura do salmo está no nome do Senhor. O nome marca a identidade de uma pessoa e caracteriza a própria pessoa. Ter um nome é ser alguém, é ter existência. No Antigo Testamento, falar do nome de Deus é um assunto bastante vasto e repleto de implicações, até porque Deus recebe vários nomes. Acima de tudo, o nome de Deus significa sua presença. Isso é o que caracteriza, inclusive, a revelação do nome de Deus com o tetragrama YHWH para Moisés,
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no episódio da sarça ardente (Êx 3.14). O mesmo aparece na teologia deuteronomista, na qual o nome de Deus habita no tabernáculo (Dt 12), posteriormente no templo (1Rs 8), marcando assim sua presença e a possibilidade da invocação do seu nome no contexto do culto. O louvor ao nome de Deus tem sua base no reconhecimento do poder e da autoridade do Senhor. Esse aspecto aparece no final do Salmo 7.17, exatamente um versículo antes de iniciar o Salmo 8. O nome do Senhor também aponta para sua santidade e para sua exclusividade. Por isso o segundo mandamento proíbe falar o nome do Senhor em vão (Êx 20.7). No Novo Testamento, as concepções do nome do Senhor adotam o mesmo uso teológico e linguístico veterotestamentário. Além do louvor e da invocação do nome de Jesus (cf. At 19.17; Rm 10.13; 15.9; Hb 13.15; Ap 15.4), o nome do Senhor Jesus traz salvação (At 2.21; 4.12). Em comparação com o v. 10, percebe-se que o v. 2 possui uma linha a mais. Nela é dito que a majestade de Deus não é vista apenas na terra, mas também nos céus. Céu é o lugar por excelência da habitação e da atuação de Deus. É no céu que a glória de Deus se manifesta de forma visível. Assim sendo, o louvor a Deus tem a primeira e a última palavra neste salmo, ou seja, é o princípio e o alvo de todas as suas afirmações, também as que se referem ao ser humano. O Salmo 8, em sua moldura literária, é um convite ao louvor e à contemplação da majestade de Deus no céu e na terra. A admiração sobre a posição especial do ser humano na criação deve levar à adoração ao louvor a Deus (doxologia). b) O domínio do ser humano no cosmo (v. 3,8-9) O v. 3 fala do poder de Deus a partir de duas figuras contrastantes no Antigo Testamento para expressá-lo. Os termos “pequeninos” e “crianças de peito” estão para os membros mais fracos e inofensivos da sociedade e comunidade humana (cf. 1Sm 15.3; 22.19; Jr 44.7; Lm 2.11; Jl 2.16). Por meio de crianças inofensivas e indefesas, Deus suscita força para vencer e se vingar de seus inimigos e dominá-los, afastando todo o caos gerado por eles. Deus sempre se serve dos que são mais fracos e menores para manifestar sua glória e o seu domínio (cf. 1Co 1.27; 2Co 12.10). O domínio do ser humano sobre a criação, destacado nos v. 8-9, é uma dádiva de Deus, que resulta da sua glória e do seu mandato ao ser humano e, por isso, não se trata de uma conquista sua. O domínio do ser humano, a partir da teologia da criação, não é entendido como exploração ou opressão. Essas são as consequências do pecado a partir de Gênesis 3. Bíblica e teologicamente falando, o ser humano só tem o domínio na condição de servo. Ele permanece sujeito e submisso a Deus enquanto criatura. Pois sua existência é sempre sinal da glória de Deus e é, a princípio, apenas uma função do louvor a Deus. A abrangência do domínio do ser humano é o mundo criado e dominado por Deus. O ser humano pode dominar assim como Deus mantém e cuida de sua criação. Deus pôs tudo sob os pés do ser humano (v. 7). Essa imagem vem do contexto de guerra e aponta para a conquista e a vitória sobre povos inimigos que se manifestam pela submissão. Assim como Deus vence as forças caóticas da criação e dos seus inimigos, e os submete a si mesmo, tornando-os seus servos, assim o ser humano deve
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sujeitar a terra (Gn 1.28) e tudo o que nela há. Os termos hebraicos apontam para domínio no sentido de fazer algo ser servo. Em outras palavras, o ser humano, enquanto criatura de Deus, é seu servo, que foi chamado e empoderado por Deus para tornar em servos as obras das mãos de Deus. Como já mencionado, o Salmo 8 retoma a linguagem sacerdotal do relato da criação em Gênesis 1. Acima de tudo, são as afirmações referentes ao ser imagem e semelhança de Deus. Biblicamente falando, a função central de ser imagem e semelhança de Deus é ser representante de Deus na terra. Em Gênesis, como também no Salmo 8, a abrangência dessa representação contempla o céu, a terra e o mar. Assim como Javé é um Deus universal, ao qual o mundo inteiro se submete, assim domina o ser humano sobre a totalidade da criação. A fauna, descrita no salmo, deixa isso bem visível. c) As obras de Deus (v. 4,7) Ao falar das obras da criação, tanto as do céu como as que estão na terra e no mar, o salmista usa duas formulações para destacar o poder criador de Deus: os dedos e as mãos. No Antigo Testamento, falar dos dedos de Deus aponta para a intervenção e o agir direto e imediato dele. Suas obras na criação são incomensuráveis. Interessante que também as suas leis, ou seja, os dez mandamentos, Deus escreveu com seus dedos nas duas tábuas entregues a Moisés (Êx 31.18; Dt 9.10). No v. 7 o salmista fala das mãos de Deus. Essas manifestam o poder de Deus. Ao ser humano Deus dá o domínio de todas as obras de suas mãos. Nesse sentido, percebe-se um interessante paralelismo entre dedos e mãos de Deus. Isso expressa não apenas o ato criador de Deus, mas o fato de Deus criar tudo com suas mãos e dedos, como um artesão que cuidadosamente faz suas obras (cf. Sl 144.1; Is 2.8; 17.8; 59.3). d) A glória e a majestade do ser humano (v. 5-6) No centro do salmo está uma das formulações antropológicas mais densas e especiais da Bíblia. A pergunta pela identidade do ser humano aparece de forma retórica e como expressão de admiração: Que é o ser humano, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Tudo o que o ser humano é, ele deve ao cuidado amoroso (lembrar-se) e ao voltar-se misericordioso de Deus (visitar). É interessante perceber que esses dois verbos também aparecem no Antigo Testamento no sentido da punição divina ao pecador (cf. Sl 106.4; Jr 3.16; 14.10; 15.15; Os 8.13; 9.9), ou do lamento do ser humano sofredor diante de sua finitude e diante da abscondicidade de Deus (Jó 7.17-18). Aqui, porém, eles são usados para expressar o voltar-se e o cuidado salvador de Deus. Deus coroa o ser humano e lhe dá a dignidade de assumir na terra o seu domínio. O ser humano reflete a majestade de Deus. O Rei celestial delega seu poder ao ser humano. Enquanto que no antigo Oriente apenas o rei é a imagem e o representante dos deuses, no Antigo Testamento, e de forma especial neste salmo, bem como no relato da criação de Gênesis 1, essa realeza divina é ampliada e democratizada ao ser humano (cf. Êx 19.6). Assim, o Salmo 8 fala da dignidade real do ser humano. Não se trata da divinização do ser humano (apoteose), muito menos de uma dignidade divina que
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lhe é conferida. O ser humano continua sendo ser humano. Seu poder e sua honra vêm de Deus. Esse permanece em todo o salmo sendo o sujeito de todas as ações. A glória de Javé se manifesta não apenas no céu, mas no ser humano. Não é a grandeza humana que é o alvo do louvor, e sim a grandeza e a majestade de Deus. Tudo o que o ser humano é, ele é por causa de Deus e para Deus e o seu louvor. O ser humano não é o criador, mas recebe a tarefa de dominar a criação. O ser humano é o representante (vicarius Dei) de Deus, sua imagem e semelhança, e como coroa da criação ele pode reger sobre todas as criaturas, assim como Deus exerce sua soberania no céu. Interessante é perceber que o ser humano não tem o domínio sobre seu semelhante. Tanto em Gênesis 1 como no Salmo 8 o domínio do ser humano é predito na esfera da fauna. Onde houver qualquer tipo de domínio do ser humano sobre outros seres humanos, isso se caracteriza por sua própria desumanização e, literalmente, na destronização do ser humano de sua dignidade e da alienação da imagem de Deus em si mesmo, comprometendo o louvor da glória e do nome do Senhor. No Novo Testamento, o Salmo 8 é interpretado de forma messiânica. Em Hebreus 2.5-9, várias partes do Salmo 8 são citadas. A expressão “filho do homem”, de Salmo 8.5, vai ser usado para se referir a Jesus Cristo. Também Paulo, no contexto de sua fala acerca da ressurreição, em 1 Coríntios 15.27, cita o Salmo 8.7, afirmando que todas as coisas foram sujeitas debaixo dos pés de Jesus. Mesmo que essa interpretação neotestamentária não corresponda exatamente ao que diz o Salmo 8 em seu sentido literal, essa leitura não estaria equivocada. Essa compreensão messiânica aponta para uma nova perspectiva cristológica e antropológica. Jesus Cristo é apresentado como o ser humano em sentido completo. Jesus Cristo cumpre nele mesmo o propósito que Deus tem com o ser humano.
3 Meditação Como a análise exegética mostra, o Salmo 8 fala da glória do nome do Senhor e da posição do ser humano no contexto da criação. Sendo aplicado no culto, cujo tema é o nome de Jesus (ciclo do Natal), além de ser interpretado de forma cristológica, o salmo precisa ser interpretado também de forma eclesiológica. Jesus Cristo é o verdadeiro ser humano, coroado por Deus e que exerce o domínio no mundo, a partir de sua obra redentora e de sua exaltação e seu senhorio. Os textos das leituras bíblicas bem como a interpretação neotestamentária do Salmo 8 deixam esse aspecto claramente evidenciado. Tudo lhe foi sujeitado sob os seus pés, pois ele venceu a morte, o pecado e o diabo. Ele foi exaltado e está sentado à direita de Deus, Pai Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos, como afirma o Credo Apostólico. Diante de Jesus todo joelho se dobrará. Seu senhorio é cósmico: ele reina no céu, na terra e embaixo dela. Interpretando o texto de forma eclesiológica, o Salmo 8 aponta para a expressão “Senhor nosso”. É a comunidade que declara o louvor e a soberania do nome do Senhor em toda a terra. É a comunidade que invoca o nome do Senhor neste mundo, para que possa experimentar sua presença, sua salvação e também para experimentar sua dignidade neste mundo. A comunidade cristã se reúne em
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nome do Senhor. Ela encontra a salvação no nome, que está acima de todo nome e que importa que as pessoas sejam salvas. Ela existe para anunciar e glorificar o nome do Senhor em pensamentos, palavras e ações. Ao invocar e anunciar o nome do Senhor, a igreja de Jesus Cristo manifesta a presença de Deus neste mundo. Eis a tarefa a ser assumida pela comunidade no novo ano!
4 Imagens para a prédica Pode-se introduzir a pregação com exemplos do que se fez com o nome de Deus ao longo da história da humanidade. Muitas pessoas, em nome de Deus, promoveram guerras, genocídios, conquistas, principalmente com o objetivo de dominar o seu semelhante. Em nome de Deus também se promete cura, prosperidade e bênçãos materiais de todo tipo. O nome de Deus é usado em vão, como diz Lutero em sua interpretação e explicação ao segundo mandamento no Catecismo Maior, por meio de práticas de feitiçaria, benzedura, superstição e ocultismo. Também na virada do ano essa prática é muito comum, com prognósticos para um futuro melhor. O nome de Deus e sua glória têm sido profanados atualmente ao se negar a exclusividade de Jesus Cristo como Senhor e Salvador, afirmado pelo apóstolo Paulo em seu hino cristológico (Fp 2.5-11). Muitos afirmam que Deus é um só e que todas as religiões são boas e salvíficas. O diálogo inter-religioso, tão importante, precisa, contudo, por parte dos cristãos, cuidar para não haver diluição da fé cristã. Em nome de uma tolerância religiosa, que é tolerante com tudo e todos, menos com o próprio nome do Senhor, este acaba sendo rebaixado à esfera de ídolo, e ao invés do louvor recebe a desonra. Segue uma sugestão homilética para a pregação do Salmo 8 para o culto de Ano-Novo: Tema da pregação: O nome que está acima de todo nome 1. Em o nome do Senhor experimentamos sua presença. 2. Em o nome do Senhor experimentamos sua salvação. 3. Em o nome do Senhor experimentamos seu mandato.
5 Subsídios litúrgicos Vejamos algumas sugestões para a liturgia do culto: Liturgia de entrada Como verso para a saudação, sugere-se usar Colossenses 3.17: E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. Geralmente esse verso aparece nas Senhas Diárias como lema do Ano-Novo. Esse verso faz muito bem a relação entre o Ano-Novo e o conteúdo do domingo, ao abordar o nome do Senhor Jesus. Para o início do culto pode ser cantado o hino Jesus em tua presença (Livro de Canto da IECLB nº 20). Como o tema do culto é o nome de Jesus, esse aspecto teológico já pode ser evidenciado na invocação trinitária, pois a comunidade se reúne em culto em nome de Deus e se coloca diante dele, em sua presença, para adorá-lo, glorificá-lo
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e ouvir o anúncio da sua Palavra. Como cântico de louvor, o novo livro de Canto da IECLB traz uma bela melodia do Salmo 8: Ó Deus, nosso Senhor (86). Liturgia da Palavra Antes da pregação, sugere-se cantar o hino 173 Nome sobre todo nome. Após a pregação, no momento da confissão de fé, sugere-se cantar o hino 193: Nós cremos todos num só Deus. Esse hino, além de ser de Lutero e se basear nas palavras do Credo Apostólico, louva o Deus criador e a dimensão da criação, que o Salmo 8 aborda; na segunda estrofe, menciona a cristologia na mesma direção dos textos de Lucas e Filipenses, previstos para as leituras bíblicas. Liturgia de despedida Ao final do culto, sugere-se cantar o hino 288: Vem, derrama a paz. O hino expressa a bênção e aponta para a glória de Deus, por aquilo que ele tem feito, por aquilo que ele é e por aquilo que ele fará. É um bom hino para a bênção de um culto de Ano-Novo.
Bibliografia BOECKER, Hans Jochen. Das Lob des Schöpfers in den Psalmen. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 2008. GERSTENBERGER, Erhard S. Como estudar os salmos? Guia interativo para seminários e grupos bíblicos. São Leopoldo: Sinodal, 2015. HILBRANDS, Walter. “Du hast ihn wenig niedriger gemacht als Gott”: Zur hoher Anthropologie von Psalm 8. In: HILLE, Rolf; KLEMENT, Herbert H. (Hrsg.). Ein Mensch – was ist es? Zur Theologischen Anthropologie. Wuppertal: Brockhaus; Giessen: Brunen, 2004. p. 89-105. SEYBOLD, Klaus. Die Psalmen. Tübingen: Mohr Siebeck, 1996. (Handbuch zum Alten Testament I/15).
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EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
06 JAN 2019
PRÉDICA: JOÃO 1.43-51 ISAÍAS 49.1-7 2 CORÍNTIOS 4.3-6
Carolina Bezerra de Souza
Revelação e humanidade
1 Introdução O tempo da Epifania fecha o ciclo do Natal no calendário litúrgico. Esse momento alude à revelação completa que Jesus traz e à compreensão que temos do papel de Jesus como Messias. Os três textos estão relacionados na construção dessa compreensão: os cristãos registraram parte das expectativas messiânicas de tradições veterotestamentárias, a visão ensinada por Paulo e as narrativas dentro de um plano teológico em busca de sentido diante dos conflitos que vivenciavam. Isaías 49.1-7 é o segundo dos quatro cânticos do servo. A interpretação judaica é que o servo é uma metáfora para a nação de Israel. Na interpretação cristã mais comum, os poemas refletem as expectativas de um Messias, identificado como Jesus, que lideraria a nação de Israel, iluminando também os gentios para cumprir a vontade de Deus e assumindo a culpa que não era sua. Esse poema fala do chamado desse personagem por Deus de sua própria perspectiva, desde a sua geração, preparação e proteção para ser o caminho da glorificação de Deus, pela restauração de Israel e pela salvação do mundo todo. Já o texto de 2 Coríntios 4.3-6 se encontra em meio às tensões entre o poder e a fraqueza do apostolado desenvolvidas na carta. No texto, mostra-se um Cristo que é a imagem de Deus, o Senhor de quem a comunidade cristã e, em especial os apóstolos, são servos por amor. Um Cristo que dá a conhecer a glória de Deus aos seres humanos. Quanto ao texto da pregação, há muitas tradições e imagens, as quais esperamos deixar claras a seguir.
2 Exegese O Evangelho de João foi composto no decorrer do séc. I, com fechamento nos últimos anos desse século. Suas etapas formativas incluem um conjunto narrativo de tradições orais e escritas e releituras teológicas dessas. A comunidade que dá origem ao texto vivenciara conflitos com judeus, romanos e, ainda, conflitos internos, além de estar em contato com grande diversidade cultural. Porém tanto as gêneses do texto como da comunidade são objetos de extensos debates acadêmicos. Por isso, frente a esse quadro complexo, focaremos no objetivo maior desse evangelho: diante dos conflitos que vivia, fazer uma elaboração
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teológica, mostrando um Jesus que ultrapassa as tradicionais expectativas judaicas de Messias, pois tinha origem e destino celeste. Essa perícope está no início do chamado livro dos sinais, constando da semana inaugural do ministério de Jesus. Todo o trecho de 1.19-42 se passa em Betânia, logo antes de Jesus partir para a Galileia. Já o nosso texto deixa dúvidas se já partiram e estão em Betsaida, mas reforça o afastamento do grupo de João. Nossa cena finaliza o chamado dos discípulos antes do primeiro sinal em 2.1-11. Por isso está em estreita relação com a anterior, o chamado de Pedro (1.40-42). As duas perícopes apresentam estruturas paralelas, ou em espiral, já que formam um arranjo de repetição com aprofundamento. Esse aprofundamento se apresenta nos diálogos, que são amplamente utilizados em João, com a função de mostrar aspectos doutrinais. Muitas das principais cenas são diálogos (veja 2.23-3,20; 4.1-30; 6.25-59; 7-8; 10.22-40; 11.17-44; 13.1-16,33; 20.1-18; 21.15-23). O desenrolar dos diálogos é baseado numa percepção errada ou incompleta do que Jesus diz e numa correção proposta por ele. No nosso caso, o aprofundamento se dá também nas menções aos títulos que Jesus recebe. Há uma gradação das menções a títulos cristológicos em todo o trecho 1.29-51. São eles: Cordeiro de Deus (1.29,36), Filho de Deus (1.34,49), Messias (1.41 – aqui o termo hebraico apresentado também é traduzido para leitores de língua grega: o Cristo), Filho de José (1.45 – considerado por alguns como título de origem samaritana), Rei de Israel (1.49), Filho do Homem (1.51). A estrutura do trecho coloca o título “Filho do Homem” acima dos demais. Chama a atenção o uso dos verbos procurar (v. 38) e encontrar (v. 41,43,45), como se André e Filipe respondessem à pergunta do v. 38. Enquanto André diz que o ungido fora encontrado, Filipe diz que Jesus é aquele que cumpre as diversas tradições das Escrituras. A pergunta de Natanael se dá porque Nazaré e Galileia não são os lugares de onde se esperava o surgimento do Messias. Apesar dessa forma de desdém, Natanael aceita o convite de Filipe para ir e verificar (no mesmo formato do convite de Jesus aos discípulos, em 1.39). O encontro entre Jesus e Natanael é marcado pelo diálogo iniciado pelo próprio Jesus, que, assim como a Sabedoria no Antigo Testamento, se antecipa aos que o procuram (veja nas cenas anteriores a mesma característica) através de um elogio: verdadeiramente um israelita em que não há dolo/falsidade (em contraste com sacerdotes e levitas que questionaram João Batista e com aqueles que entregariam Jesus em 18.30). Esse diálogo é bem mais extenso do que o da cena paralela anterior. Há aqui pontos importantes: 1) A explicação do elogio: Jesus tinha um conhecimento sobrenatural, e isso o confirma como Messias que sabe todas as coisas (veja em 4.25 a mesma característica também relacionada ao povo samaritano). A expressão “embaixo da figueira” referia-se simbolicamente ao conhecimento da lei e à fidelidade a Deus (Os 9.10), que seriam capazes de mostrar a felicidade e a desgraça. Ao mesmo tempo, a expressão aponta para o reconhecimento de Jesus como aquele que cumpre a vontade de Deus para o seu povo e o coloca num bom lugar (Mq 4.1-4; Zc 3.7-10).
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2) A confissão de Natanael: O conhecimento religioso prepara Natanael para o reconhecimento do Messias a partir da própria experiência. E ele proclama Jesus da mais alta forma que podia: é o Filho de Deus e o Rei de Israel. Um judeu sem falsidade reconheceria Jesus como rei, e não César (19.15). As duas expressões mostram a identificação de Jesus como o Messias davídico que reuniria Israel sob seu comando. 3) A correção de Jesus: Jesus confronta o reconhecimento dizendo que muito mais que o simples conhecimento, Natanael e Filipe serão capazes de ver a revelação de Deus por meio de Jesus. Sob a expressão solene de autoridade do duplo amém, ele usa para si o título de Filho do Homem (Dn 7.13; Sl 8; Sl 146; Sl 80), apresentado aqui, pela primeira vez em João, associado aos céus abertos e ao trânsito de seres celestiais (ao recuperar a bela imagem da escada na tradição de Jacó em Gn 28.12, mostra uma revelação divina com bênção extensa). O título não se refere à humanidade de Jesus. Ele é um símbolo de vitória do povo de Deus. Não é um termo simples, mas apresenta uma evolução na tradição pré e pós-pascal de referência a seres humanos, juízes messiânicos, reis, anjos e, por fim, a uma figura celeste preexistente com Deus que seria vista pelos inimigos nos tempos finais e que justificaria a comunidade de discípulos, forma adotada pelo Evangelho de João em sua alta cristologia. Percebe-se que esse diálogo é extenso para esse início de evangelho, mostrando que a figura de Natanael tem destaque. Ele representa a abertura, apesar da dúvida, para a compreensão de Jesus e, com isso, para a realização da vontade de Deus para seu povo.
3 Meditação Nosso cotidiano agora inclui um mundo digital que media muitas das relações e dá acesso instantâneo a uma infinidade de informações, opiniões, notícias que nos influenciam. Tornou-se importante, neste mundo digital, deixar nossa marca, que sejamos vistos como pessoas que compartilham muitas experiências de sucesso e que têm opiniões sobre os mais diversos assuntos. A velocidade de propagação das informações é a mesma com que as comoções por elas geradas são substituídas por outras provenientes de novas informações. Assim, as reações a determinado fato podem ser avassaladoras, mas também parecem perder a importância rapidamente, embora dificilmente sejam completamente esquecidas, já que são acessíveis a qualquer busca, mesmo que tenham consequências que não desvanecem. Nesse contexto, tendemos a nos importar pouco com as pessoas próximas e, dificilmente, conseguimos nos deter em um assunto para ter compreensão profunda e contínua sobre ele. Será que temos conseguido estar disponíveis para a comunidade cristã e nos deter em aprofundar nossa fé e conhecimento de Jesus? Nesse sentido, o exemplo do seguimento de Natanael a Jesus evoca algumas coisas. 1) João indicou Jesus a André, que o seguiu, e encontrou seu irmão, levando-o ao Messias. Jesus encontrou Filipe, que encontrou Natanael e o levou ao
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Messias. Muitas vezes, a condução ao reconhecimento de Jesus e à compreensão do seu papel depende da mediação de alguém. Embora, hoje, seja possível a qualquer um, de forma independente, o acesso à informação, as redes de relações reais são importantes para as experiências de fé e são um valor bíblico. 2) O conhecimento deve preparar para uma compreensão mais profunda e não ser uma barreira amparada sobre qualquer forma de superioridade. Natanael conhecia as Escrituras e a lei: não se esperava o Messias da região rural e próxima aos gentios como a Galileia. Diante da palavra de Filipe, Natanael fica em dúvida e a expressa, mas não deixa de estar aberto ao convite que vem em resposta à sua dúvida: vem e vê. Essa abertura à nova experiência é que o levou a ter maior compreensão e ter acesso à revelação de Deus em Jesus. Estamos abertos a experiências que possam nos trazer uma melhor compreensão do reino de Deus? Temos nos negado ao serviço, à proclamação ou à luta por justiça (social ou relacional) e por igualdade (de gênero, de classe, etnia) por achar que somos mais conhecedores ou melhores do que alguém? 3) Jesus é mais do que aquilo que sabemos dele e a vivência relacional da fé tem sempre algo a nos ensinar. Por melhor formado e fiel que Natanael fosse, sem falsidade, digno do descanso da promessa de Deus, e por mais que reconhecesse Jesus, havia alguma dimensão do papel messiânico que ele não conhecia e que foi revelada pelo próprio Jesus. Mas a compreensão que Natanael tem de Jesus não se completou nesse momento, pois Natanael tornou-se um discípulo de Jesus, seguindo-o, sendo testemunha e aprendendo. A partir daí Natanael pôde ver a transformação no mundo pela libertação que Jesus trazia em seus milagres, curas e ensinamentos. Certamente, as experiências que Natanael teve daí por diante não foram descoladas das necessidades das pessoas e da realidade impostas a elas pelos sistemas de governo romano. Ele acompanhou Jesus no confronto com esses sistemas, defendendo novas estruturas relacionais do reino de Deus. Da mesma forma, a caminhada cristã começa no reconhecimento de Jesus e continua no dia a dia comunitário em ação para continuar implantando o reino de Deus.
4 Imagens para a prédica O tema da Epifania do Senhor tem associado representação da visita dos reis do Oriente junto à entrada da estrela, simbolizando a revelação de Deus aos gentios. Há outro enfoque sobre a revelação no texto da pregação. A dificuldade maior de tratar textos do Evangelho de João é que costumam ser interpretados descolados da realidade vivencial do surgimento do texto e da nossa realidade de vida com uma espiritualidade etérea. Nosso texto mostra que a revelação para Natanael envolveu coisas muito humanas: seus conhecimentos, a esperança do seu povo, a experiência da condução e do encontro pessoal com o Cristo e o discipulado consequente disso. Por isso uma abordagem pode ser mostrar cristãos que conduziram a realizações de bem para a humanidade, por exemplo, pastor Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, irmã Dorothy Stang, Dietrich Bonhoeffer.
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Segue um poema para inspiração. De dentro da geometria Deus me olha e me causa terror. Faz descer sobre mim o íncubo hemiplégico. Eu chamo por minha mãe, me escondo atrás da porta, onde meu pai pendura a camisa suja, bebo água doce e falo as palavras das rezas. Mas há outro modo: se vejo que Ele me espreita, [...] Penso num homem saindo de madrugada pra adorar o Santíssimo, penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo. Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele, pego Sua barba branca, Ele joga pra mim a bola do mundo, eu jogo pra Ele. (Adélia Prado)
5 Subsídios litúrgicos Oração comunitária Tu, que estás acima de nós. Tu, que és um dentro de nós. Tu, que és também em nós. Que todos possam te ver – também em mim. Que eu possa preparar o caminho para ti. Que eu possa agradecer por tudo o que me tem acontecido. Que eu não esqueça jamais das necessidades dos outros. Conserva-me em teu amor, assim como tu queres que os outros te conservem no meu. Que tudo em meu ser se transforme em teu louvor! Que eu jamais chegue a desesperar! Pois eu estou em tuas mãos e toda a força e bondade estão em ti. Dá-me espírito puro – para que eu te possa ver! Dá-me um espírito humilde – para que eu te possa ouvir! Dá-me um espírito amoroso – para que eu te possa servir! Dá-me um espírito fiel – para que eu possa permanecer em ti! (Dag Hammarskjöld) Confissão de pecados Confesso-te, querido Deus, Pai e Mãe, às vezes nossos olhos não são mansos, não veem os jardins, as fontes, as crianças, a lua, o pôr do sol, os gestos de
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ternura, as mãos solidárias... Pai de bondade, acolhe-nos quando não acolhemos; e oferece teu colo mesmo quando nos fechamos aos nossos irmãos e irmãs. Porque só tu és amor e compaixão. (Paulo Roberto Rodrigues). Hino
Que estou fazendo se sou cristão? (Livro de Canto da IECLB, 566)
Bibliografia KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000. (Comentário bíblico latino-americano). BROWN, Raymond E. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1983.
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1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)
PRÉDICA: ATOS 8.14-17 13 JAN 2019
ISAÍAS 43.1-7 LUCAS 3.15-17,21-22
Leandro Luís da Silva
A fé nos compromete!
1 Introdução
Estamos na Epifania, tempo do calendário litúrgico que busca “revelar” Cristo para a humanidade. É um tempo em que muitas pessoas estão de férias em nossas comunidades. Vale a pena estudar mais a fundo o tema do batismo e, especialmente, o que ele representa para nossa vida diária. Ressalto que o texto de Atos 8 já foi estudado no PL 34, por Erni W. Seibert (p. 85-88). O texto de Isaías 43 fala do cuidado de Deus para com os seus. Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu (43.1), um dos versículos mais usados na liturgia de batismo, que mostra nosso sinal de pertença a esse Deus que cuida e tem cuidado de nós. Vale a pena lembrar esse texto em nossa mensagem neste dia. O texto do evangelho, que encontramos em Lucas 3.15-17,21-22, fala de João Batista. Esse afirma que ele não é o Cristo, o contrário da ideia de algumas pessoas. João batizava para arrependimento e, segundo João, Jesus batizaria “com” ou “em” o Espírito Santo. O próprio Cristo foi batizado por João (v. 21s). Aqui encontramos uma linda expressão de teofania, em que o próprio Deus fala do amor e da grande alegria que tem pelo seu Filho Jesus. O v. 22 está em harmonia com Isaías 42.1: Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios (cf. Nota de rodapé da Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero).
2 Exegese Lucas é um evangelista muito preocupado com detalhes em seus escritos. No início do evangelho ele informa a Teófilo o que escrevera no seu evangelho. No comentário que encontramos na Bíblia com reflexões de Lutero, temos o seguinte conselho: “Não devemos ler ou encarar o texto como se Lucas tivesse escrito exclusivamente a história ou obras pessoais próprias dos apóstolos. São Lucas ensina a toda a cristandade, até os confins do mundo, o verdadeiro ponto principal da doutrina cristã, ou seja, como todos temos que nos tornar justos exclusivamente pela fé em Cristo, sem qualquer contribuição da lei ou das nossas obras”. Tendo isso em mente, podemos averiguar que o livro de Atos está dentro
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
do propósito do chamamento da missão, como vimos em Atos 1.8. Os apóstolos (enviados) estão indo por toda a parte pregando o evangelho de Jesus Cristo. Olhando para o contexto maior, assim como já escreveu o colega no PL 34, vemos que o evangelho está se propagando por intermédio dos apóstolos e também de Filipe, chegando assim até a Samaria. A missão vai se tornando cada vez maior e mais impressionante a ponto de chamar atenção de muitas pessoas, inclusive de Simão, conhecido na região como “mágico”. A perícope estende-se do versículo 4 ao versículo 25. Nesse contexto, temos no capítulo 7 a morte do primeiro mártir, Estevão, com a concordância de Saulo (8.1), revelando que a pregação do evangelho estava suscitando perseguições. Nesse mesmo tempo, Filipe está pregando em Samaria, a região central da terra santa. A cidade não é aqui citada pelo nome. Algumas das cidades da região poderiam ser candidatas, como Sebaste, Sicar e Siquém. Jesus já havia pregado nessa região, conforme João 4, e já era conhecido por algumas pessoas. Samaritanos eram um povo “cuja herança judaica havia sido corrompida por meio de casamentos e cuja observância ao judaísmo era considerada como deturpada. Eles descendiam de israelitas deixados para trás na destruição de Samaria em 722 a.C. Importante saber que eles adoravam em outro monte, o Gerazim, e não tinham Jerusalém como lugar próprio para a adoração. A maioria dos judeus considerava o povo samaritano como fora dos limites do povo da aliança e o evitava (Lucas 9.52-53). Ou seja, havia uma dura hostilidade entre esses povos” (conforme a Bíblia de Estudo da Reforma, p. 1.517). O fato de serem colocados em segundo plano pelos irmãos judeus talvez – e isso é uma suspeita – mostre a grande alegria dos samaritanos em receber o evangelho por meio da pregação de Filipe. Com a morte de Estevão, muitos cristãos foram dispersos. Os apóstolos, porém, permaneceram em Jerusalém, pois Saulo ainda estava invadindo casas de pessoas cristãs. Os que foram dispersos saíram por toda a parte pregando e testemunhando o evangelho de Jesus Cristo. Se, por um lado, temos a perseguição por Saulo à igreja em Jerusalém, por outro lado, temos a expansão do evangelho por boca e entusiasmo dos refugiados na Judeia e Samaria. Filipe, um dos que fugiram das perseguições em Jerusalém, desce (Jerusalém que fica a 760 metros de altitude) para a cidade da Samaria (At 8.5). Não deveríamos entender isso como alusão à velha cidade de Samaria, por muitas vezes destruída, reconstruída e ampliada. Ela havia sido presenteada por César Augusto a Herodes, que a chamou de Sebaste em honra ao imperador. “Sebaste” era uma cidade predominantemente gentílica. Outra cidade possível é Siquém. Ali haviam muitos samaritanos com uma comunidade instituída e separada de Jerusalém. Filipe encontrava ali um solo muito fértil para sua pregação a respeito do “Messias”, pois também os samaritanos o esperavam (Boor, 2002, p. 126). Em Atos 8.6-8, percebemos que Filipe atraia multidões com sua mensagem. As pessoas estavam admiradas pela sua mensagem a respeito do Messias e do reino de Deus, pelos sinais que ele fazia (At 8.12). Muitas pessoas acolhem essa mensagem e respondem com muita alegria. O povo samaritano também sofria a influência de outras forças místicas, cujo representante vemos na pessoa chamada de Simão (At 8.9-11). Ele se considerava poderoso e detentor de uma
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
posição especial na sociedade, pois “todos lhe davam ouvidos”, dizendo que esse era homem de “o Grande Poder”. Ele mesmo afirmava isso sobre sua pessoa. Os samaritanos acabavam aderindo a ele por causa de suas mágicas. A pregação do evangelho sempre encontrará resistências e aqui não foi diferente. Neste contexto, o evangelho simples encontra a barreira da superstição e das manifestações de poder de pessoas que se sentem empoderadas, como é o caso de Simão. Lucas descreve a primeira controvérsia com essa religiosidade carregada de ocultismo. No v. 12 diz que as pessoas deram crédito às palavras de Filipe a respeito do reino de Deus e estavam sendo batizadas, tanto homens como mulheres. Com essa firme adesão do povo, o próprio Simão busca abraçar a fé dos cristãos. Sendo ele também batizado, seguia Filipe de perto, observando-o em tudo e ficando cada vez mais admirado (v. 13). A mensagem de Filipe tem um pressuposto que é a conversão e o arrependimento. Suspeitamos se essa foi a real intenção dos samaritanos e, especialmente, de Simão. Parece que aqui os sinais se tornam mais importantes do que a mensagem, quando se percebe a intenção de Simão de ver no evangelho um poder mais poderoso que o seu. Nesse caso, seria Filipe o mestre mais poderoso (cf. Boor, 2002, p. 129). Assim, chegamos ao nosso texto nos versículos 14 a 17. Faz-se necessária esta explanação para nos ajudar a compreender o texto, que merece um estudo muito mais aprofundado. Os apóstolos ouviram o que estava acontecendo na Samaria e enviaram Pedro e João, testemunhas oculares de Jesus e de seus feitos. Eram pessoas com autoridade dada pelo próprio Cristo para serem mensageiros. Pedro e João percebem lacunas na aceitação do evangelho pelos samaritanos: faltava-lhes “o Espírito Santo”. Aqui precisamos ter o cuidado para não creditar evidências sobrenaturais para atestar nossa filiação a Deus. O amor transbordante é a maior evidência da ação de Deus em nossas vidas e isso não parece acontecer, especialmente com Simão no juízo do apóstolo Pedro (v. 21,23). A Samaria já estava agitada demais e, apesar disso, ainda faltava algo. A transformação acontece por meio da oração e da imposição de mãos dos apóstolos. Logo se evidenciam as reais intenções de Simão e toda a deficiência de sua “conversão”. Como pessoas batizadas, precisamos buscar todos os dias viver nosso batismo em novidade de vida. O acontecimento descrito nesses versículos marcou a união de duas heranças, a judaica e a samaritana, por meio da proclamação do evangelho por Filipe e pela intercessão dos apóstolos. “O batismo é único que transmite os dons da fé em Cristo e da salvação eterna, os quais são concedidos pelo Espírito por meio da água e da Palavra” (cf. Bíblia de Estudos da Reforma, p. 1.826).
3 Meditação Uma tentação seria tratar este texto sobre as questões do Espírito Santo e de suas manifestações e dons de maneira dogmática. Prefiro usar o texto dentro do seu contexto para descrever nossa unidade no corpo de Cristo por meio da ação de Deus em nosso batismo. Como pessoas batizadas, somos chamadas a
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viver de acordo com nosso batismo; a testemunhar a fé de maneira integral, transmitindo com alegria os feitos de Deus sobre nós e em nós. Por isso, num primeiro momento, poderíamos olhar o texto com o enfoque da missão por meio da dispersão. As pessoas que foram dispersas de Jerusalém deram um testemunho vivo da ação de Deus em suas vidas e de como ele as protegia, mesmo sob perseguições. Num segundo momento, poderíamos trazer à tona a alegria expressa pelos samaritanos ao receberem a palavra de Deus. Como é importante receber as reações das comunidades que estão se formando e das suas alegrias em meio às adversidades! Por último, poderíamos trabalhar a questão do constante cuidado que precisamos ter com as pessoas neófitas. Instrução e acompanhamento são tarefas constantes para o crescimento, como o que acontece quando Pedro e João se encontram com os samaritanos, ajudando-os a compreender o evangelho e suas transformações de vida. O texto aponta para um perigo importante que se deve evitar: compreender o evangelho como uma forma de adquirir poder e prestígio, em vez de instrumentalizar as pessoas para o comprometimento e a ação diaconal. Na IECLB, batizamos majoritariamente crianças recém-nascidas. Por isso é nossa obrigação acompanhar e auxiliar pais e mães, padrinhos e madrinhas na construção da fé dos pequeninos. É tarefa também de nossas comunidades proporcionar os meios para que as famílias tenham acesso a tudo que possa ajudar as crianças nesse crescimento. Creio que esses são nossos maiores desafios hoje. Somos inseridos na família de fé e isso nos compromete. Como podemos abordar esse tema em nossas mensagens neste 1º Domingo após Epifania?
4 Imagens para a prédica Penso que seria muito bom para nossos membros relembrar a importância do seu batismo e, principalmente, o compromisso de vida que dele provém. Por isso sugiro que logo após a mensagem se faça um momento de rememoração do batismo. Assim, a comunidade toda poderia estar inserida na imagem e assumindo novamente um compromisso com Deus e com sua comunidade.
5 Subsídios litúrgicos Temos boas opções litúrgicas de rememoração do batismo no Livro de batismo, editado em 2008. Aqui coloco uma opção da colega Sissi Georg (2001), editada por colegas. Rito de rememoração do batismo Celebramos a afirmação de nosso batismo. Não realizamos um novo batismo, pois este é realizado uma só vez em nome do Trino Deus. Porém, muitas vezes nos desviamos ou nos esquecemos do compromisso com nosso batismo. Ao estudar e perceber a importância que o batismo tem para nossa caminhada de fé, torna-se importante e necessário rememorar esse momento marcante de
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nossas vidas. Por isso queremos agora prosseguir com a liturgia da afirmação do nosso batismo. Hino: LC – 314: Fui em teu nome batizado (durante o canto, o círio pascal é levado até a pia batismal). Leitura do Salmo 150 (pode ser lido em jogral pela equipe de liturgia). Oração das águas: (Da pia batismal) L.: Senhor Deus, que és como um pai e uma mãe para todos e todas nós: damos-te graças porque, no princípio do mundo, teu Espírito se movia sobre as águas. Criaste os céus e a terra e povoaste as águas com animais. Também condenaste a corrupção e a maldade através das águas do dilúvio, salvando, porém, a Noé e a todas as espécies da tua criação. Nas águas do mar Vermelho afogaste um opressor, conduzindo teu povo a pé enxuto, livre da escravidão. Nas águas do rio Jordão fizeste acontecer o batismo de teu filho Jesus Cristo por intermédio de João. Também pelas águas do teu amor somos unidos à vida em ti através da dádiva do batismo que a nós concedeste. Nosso pedido é que também hoje a água possa ser sinal do renascer da vida em cada um de nós. Por Jesus Cristo, amém. Compromisso da reafirmação do batismo. L.: Pergunto a vocês: vocês prometem lutar contra todas as formas através das quais o mal e a morte se apresentam, unindo-se num só corpo para promoverem vida em abundância para todas as pessoas e comprometendo-se no testemunho e na ação do evangelho de Jesus Cristo? Se for essa a firme vontade de vocês, respondam “sim, com a ajuda de Deus”. C.: Sim, com a ajuda de Deus. Credo Apostólico. Hino: LC – 312: Nos braços de Deus. A comunidade vai até a fonte ou pia batismal e faz o sinal da cruz com a água na testa. Somos batizados e batizadas em nome do trino Deus. Rememoramos nosso batismo como sinal de pertença e do cuidado de Deus. Somos filhos e filhas inseridos no corpo de Cristo. O batismo nos afirma que somos de Deus. Oração e bênção: L.: Bondoso Deus. Faze com que possamos professar, junto de Martim Lutero, nos momentos mais difíceis da vida, a frase “sou uma pessoa batizada”. Renova e aceita nossa vontade e comprometimento em te servir com nossa vida. Por Jesus Cristo, amém.
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDOS DA REFORMA. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. BOOR, Werner de. Atos dos Apóstolos. Curitiba: Esperança, 2002.
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PRÉDICA: JOÃO 2.1-11 ISAÍAS 62.1-5 1 CORÍNTIOS 12.1-11
2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
20 JAN 2019
Sandra Kamien Tehzy
Bodas de Caná
1 Introdução O texto de João 2.1-11 já foi trabalhado na série Proclamar Libertação por Walter Atmann (PL IX, p. 41-49), Heinz Ehlert (PL 20, p. 44-49), Gottfried Brakemeier (PL 26, p. 40-46), Carlos Luiz Ulrich (PL 34, p. 89-94), Emilio Voigt (PL 40, p. 64-69), que trazem contribuições significativas para o entendimento do texto e a construção da pregação. O estudo de Brakemeier traz uma abordagem diferenciada do texto, refletindo-o a partir da lenda de Dionísio, o deus do vinho da antiga religião grega. Essa ligação do milagre das bodas de Caná com a lenda é apontada por Bultmann, mas outros estudiosos destacam que essa ligação só surgiu no século II ou III d.C. e, por isso, afasta-se da gênese e tradição pré-literária de João 2.1-11 (Blank, 1990, p. 204-205), compreensão essa considerada pela maioria dos estudos sobre o texto. Recomendo a leitura dessa abordagem feita no PL 26. A alegria e o amor celebrados nas bodas de Caná é o cenário em que Jesus dá início aos seus “sinais”, manifestando a sua glória (v. 11), imagem que se encaixa perfeitamente no tempo litúrgico deste 2º Domingo após Epifania, tempo da revelação: O Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o revelou (Jo 1.18). Das leituras bíblicas propostas, o texto de Isaías 62.1-5 pode ser relacionado diretamente ao texto da pregação, pois traz também a imagem das bodas e aponta para a esperança e a alegria da salvação trazida por Deus. O texto de 1 Coríntios 12.1-11 pode ser abordado de forma paralela, considerando que a diversidade dos dons espirituais concedidos pelo Espírito Santo de Deus, visando ao “servir” (v. 7), são ainda hoje sinais da presença atuante do Espírito Santo, pequenas “epifanias” que fazem das pessoas crentes no serviço “instrumentos/bom vinho” do amor de Deus, trazendo alegria e esperança às pessoas.
2 Exegese O texto de João 2.1-11 é um dos quatro milagres de Jesus que só aparecem no Evangelho do João. É com a narrativa das bodas de Caná que João inicia o ministério público de Jesus, e é através desse primeiro sinal que ele revela a “sua glória”, conforme Jo 1.14. Na comparação entre as diferentes traduções não há grandes questões a serem apontadas. Para as observações, optamos em seguir a Nova Almeida Atualizada, que traz uma linguagem atual e mantém-se mais próxima da tradução do grego feita por Champlin (2002), usada para os apontamentos.
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Quanto ao gênero literário, Blank, citando Bultmann, considera o texto como uma “típica história de milagre: os v. 1 e 2 fazem a exposição e os v. 3-5 apresentam a preparação do milagre. A narração é estruturada de modo a despertar expectativa; os v. 6-8 relatam o milagre em si nos mesmos moldes, sem revelar o próprio ato milagroso; os v. 9-10 formam o desfecho que, segundo o esquema, ressalta o paradoxo do milagre” (Blank, 1990, p.187). Importante para a compreensão do texto é ter em mente a compreensão do evangelista João sobre os milagres de Jesus. O evangelista fala em “sinais”, usando o termo em grego sēmeion (2.11,18; 3.2; 4.48,54; 6.2,14,26,30; 7.31; 9.16; 10.41; 11.47; 12.18,37; 20.30), diferentemente dos milagres relatados nos evangelhos sinóticos, onde se utiliza o termo dynamis, que significa “manifestação de poder, ato de poder” (cf. Mc 6.2; 5.14; 9.39; Mt 11.20-23; 13.58). A palavra grega sēmeion significa “sinal, marca, característica”, sem conteúdo teológico, mas na tradição joanina está ligada ao pensamento do êxodo, em que “nos sinais, Javé se apresenta como quem age na história, como o próprio Deus atuante. Isso quer dizer que já no Antigo Testamento o sinal aparece como sinal de fé, que leva ao reconhecimento do enviado divino, de Moisés, e dessa forma à fé no próprio Javé” (Blank, 1990, p. 197). O Evangelho de João se propõe a provar que Jesus é o Messias, e por isso seus milagres “devem ser compreendidos como sinais do tempo messiânico que se abre com Jesus. Desta forma, a confissão de que Jesus é o Messias vem a ser a base para a teologia joânica dos sinais” (Blank, 1990, p. 199). V. 1-2 – Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava ali. Jesus também foi convidado, com seus discípulos, para o casamento. “Três dias depois” ou “no terceiro dia”: mesmo que alguns autores achem que essa menção de tempo tem grande importância, considerando que a ressurreição de Jesus aconteceu ao terceiro dia, a expressão de tempo é elemento de ligação com o texto anterior e se refere à última observação sobre o tempo de João 1.43. Portanto agora era o terceiro dia após o chamado de Filipe. O casamento: as festas de casamento geralmente duravam uma semana e, por isso, era normal que os convidados circulassem pela festa, vindo e indo todos os dias. A comida e a bebida eram abundantes. Caná da Galileia: quanto à provável localização de Caná há discordâncias entre os estudiosos. Alguns a identificam como Kefr Kenna, distante em torno de seis km de Nazaré, identificada inclusive por igrejas gregas e romanas como local das bodas de Caná, para onde os turistas são levados. Mas a mais provável localização é apontada como Khirbet Kana (ou Qana), distante em torno de 14 km de Nazaré, ruína essa que “até hoje os árabes denominam de Caná da Galileia” (Bruce, 1987, p. 69). Maria não é citada pelo nome no Evangelho de João, sendo referida sempre como a mãe de Jesus (2.12; 6.42 e 19.25). Os convites para casamentos se estendiam a toda a família. Jesus, sua mãe e os discípulos eram convidados, bem como os irmãos de Jesus (2.12). Alguns autores opinam que Maria era próxima ou parente dos noivos, a julgar pela sua preocupação com o fato de que o vinho tinha acabado e pela autoridade com que ela dá ordens aos servos (Veloso, 1984).
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Mas essa afirmação não é sustentada por todos. De qualquer forma, Maria é o elo que justifica e localiza a presença de Jesus no contexto no qual acontece o milagre: uma festa de casamento da qual ele participava como convidado. V. 3 – Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Considerando que as festas de casamento duravam uma semana (Jz 14.12), era normal acontecer que, chegando os últimos dias, a bebida acabasse devido ao grande consumo. Também era comum que se servisse o vinho de melhor qualidade no início das festividades, e no final, o vinho de qualidade inferior. Essa prática era tão comum que no texto em questão causa surpresa ao mestre-sala justamente o fato de que o vinho servido por último é o de melhor qualidade. Seja como for, acabar o vinho antes de terminar a festa era extremamente constrangedor e afetaria a reputação dos anfitriões. O fato de Maria procurar Jesus para ajudar a solucionar o problema, como dito anteriormente, é apontado como indício de seu parentesco com os noivos. Mas a razão dessa atitude é controversa entre os pesquisadores. Alguns chegam a especular que ela esperava que Jesus realizasse um milagre para solucionar a questão, afirmando que Maria conhecia a “missão messiânica de Jesus” e via naquela situação uma oportunidade de seu filho demonstrar publicamente seu poder e autoridade. Mas o que o texto nos diz é que Maria estava preocupada e que procurava fazer algo para resolver o problema da falta de vinho, esperando que seu filho pudesse de alguma maneira resolver a questão. Não esperava dele um milagre, mas sim que ele ajudasse na solução da falta de vinho. V. 4 – Mas Jesus respondeu: Por que a senhora está me dizendo isso? Ainda não é chegada a minha hora. Nesse versículo está a frase mais estranha aos nossos ouvidos, ou seja, a atitude de Jesus com sua mãe, refletida na tradução literal: Mulher, que tenho eu contigo? Ou na tradução verbal: O que há entre mim e ti, mulher? (Ti emoi kai soi, gynai). Nessa frase as traduções apresentam muita divergência. Dada a dificuldade da tradução literal, necessita-se optar por uma tradução que leve em conta o conjunto do texto. Na frase Jesus se dirige à sua mãe com o termo “mulher”, da mesma forma como o faz também na crucificação (Jo 19.26): Mulher, eis aí o teu Filho. Jesus se dirige também a outras mulheres com o mesmo termo ( Jo 4.21; 8.10; 20.15). Usar o termo “mulher” no lugar de “mãe” não era usual na relação mãe-filho, mas não demonstrava desrespeito ou tratamento inferior a quem se dirigia, pois era termo de tratamento usado com frequência, que marcava uma certa distância entre os interlocutores. O que causa estranhamento é o fato de Jesus usar o termo mulher para falar com sua mãe. Mas podemos ler a passagem na mesma perspectiva de outros textos em que Jesus se dirige à sua família, por exemplo, no templo, em Lucas 2.49: Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo cuidar do que é de meu Pai? Ou em Mateus 12.48: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Nessa perspectiva, a expressão marca uma certa distância na relação de mãe e filho, uma independência/autonomia de Jesus em suas ações, que não são determinadas pelo ser humano, ou, ainda, uma preocupação diferente de Jesus e Maria (Maria quer resolver a falta de vinho e Jesus está focado na “sua hora”).
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O questionamento de Jesus está diretamente ligado ao fato de que sua hora ainda não chegou, termo que se refere ao seu sofrimento, morte e ressurreição (Jo 7.30; 8.20; 12.23; 13.1; 17.1). Com esse “sinal” Jesus revela seu poder, que terá sua plenitude revelada no milagre da cruz e ressurreição. V. 5 – Então ela falou aos serventes: – Façam tudo o que ele disser. A reação de Maria diante da resposta de Jesus reforça a ideia de que a fala de Jesus não causa estranhamento. Dá a entender que ela sabe que ele vai resolver a questão. Ao dizer aos serventes que sigam as instruções dadas por Jesus, Maria demonstra que tinha certa autoridade e responsabilidade na festa. Se de fato Maria tinha parentesco com os anfitriões, não há como saber, mas fica a impressão. V. 6-8 – Estavam ali seis potes de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e em cada um cabiam cerca de cem litros. Jesus lhes disse: Encham de água esses potes. E eles os encheram totalmente. Então lhes disse: Agora tirem um pouco e levem ao responsável pela festa. Eles o fizeram. Uma metreta (tradução de Almeida, no final do v. 6) correspondia a 39 litros. Sendo assim, as talhas ou potes de pedra comportavam entre 80 e 100 litros de água cada um. Eram usados para os rituais de purificação antes e depois das refeições, bem como para a lavagem dos utensílios. Eram feitos de pedra, visando preservar a pureza e frieza da água (Champlin, 2002, p. 295). Jesus manda que as talhas sejam enchidas com água, o que é feito rigorosamente, dada a afirmação “encheram até em cima/totalmente”. Nada mais é dito por Jesus, que instrui que levem um pouco para o responsável ou mestre-sala, como nos trazem outras traduções. Ao que tudo indica, esse era o responsável pela distribuição e qualidade da comida e bebida da festa. Agora, ele se torna, sem saber, o principal atestador do milagre realizado por Jesus. V. 9-10 – Quando o responsável pela festa provou a água transformada em vinho – ele não sabia de onde tinha vindo, por mais que os serventes que haviam tirado a água soubessem, chamou o noivo; e lhe disse: Todos costumam servir primeiro o vinho bom e, quando já beberam muito, servem o vinho inferior; você, porém, guardou o melhor vinho até agora! Nada se sabe sobre o momento em que ocorreu o milagre da transformação da água em vinho. O que se sabe é que ao provar o vinho que foi levado até ele, o responsável é surpreendido pela qualidade do vinho agora servido. O autor chama atenção para a boa qualidade do vinho transformado, apontando para a ignorância do responsável pela festa quanto à procedência do vinho, que vai buscar essa informação junto ao noivo, pressupondo que tenha guardado para o fim da festa (contrariando a lógica e a prática) o vinho de qualidade superior. Assim, o responsável testemunha, sem saber, o milagre. A expressão “até agora” marca o começo de um novo tempo, o tempo de salvação. V. 11 – Assim, em Caná da Galileia, Jesus deu início a seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. O texto encerra com a conclusão de João de que esse sinal é o princípio de outros que ainda virão, correspondendo à expectativa criada pelo próprio Jesus no texto anterior (Jo 1.50). No Evangelho de João, os milagres de Jesus são sinais através dos quais ele manifesta sua glória, o que, por sua vez, gera fé nos discípu-
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los, pois ao presenciar esse primeiro sinal, “creram nele” (2.11,23; 4.48; 6.2). “O sinal que Jesus faz nas bodas de Caná, e a manifestação de Sua glória, apontam para uma especial característica do Ser de Deus que se manifesta em Cristo Jesus: Sua ação. Deus é um Deus que atua. E ao apresentar-se como a Palavra encarnada em Jesus Cristo, Sua ação tem o propósito de conseguir que as pessoas creiam” (Veloso, 1984, p. 77).
3 Meditação O milagre da transformação da água em vinho nas bodas de Caná expressa de forma maravilhosa a chegada da salvação através de Jesus Cristo. Muito mais do que salvar os noivos do vexame de não ter vinho suficiente na festa do seu casamento, o milagre demonstra a grandiosidade da graça de Deus ofertada abundantemente por Jesus Cristo, expressa pela exagerada quantidade de vinho. Por outro lado, isso tudo se passa de forma discreta, pois além dos envolvidos diretamente no milagre (Jesus, os serventes e os discípulos, que testemunham o milagre), ninguém mais sabe o que aconteceu, nem mesmo o responsável pela festa, o qual atesta a qualidade superior do vinho servido por último. Pode-se afirmar que as bodas de Caná, em João, inauguram o início do tempo da salvação trazida por Jesus Cristo, mostrando o quão abundante e inesgotável é a sua graça, da mesma forma como o Evangelho de Marcos 1.15 anuncia: Completaram-se os dias. O reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho. Neste sentido, a imagem do casamento expressa a alegria, o canto, a dança, o banquete, o amor celebrados e partilhados com todos os presentes. A quantidade e a qualidade superior do vinho oferecido por Jesus marcam nosso texto. A tradição bíblica é rica em passagens em que o vinho é expressão de alegria e prosperidade (junto ao azeite e trigo – Jz 9.13; Sl 104.15; Dt 7.13; 11.14; Is 55.1), e também com a esperança de novos tempos (Am 9.13-14; Is 25.6-7; Jr 31.12-14), assim como também as núpcias e os banquetes (Is 54.4-8; 62.4-5 e Ap 19.7-9). Jesus também fala de beber vinho no reino de Deus (Mc 11.19). Assim, no casamento em Caná, essas imagens se agregam e dimensionam a realidade escatológica do milagre: o tempo messiânico começou, revelando a glória de Deus em sua plenitude, em Cristo Jesus, através de quem recebemos a abundante graça e salvação. Ou seja, “o Evangelho de João coloca o sinal do milagre do vinho nas bodas de Caná logo no início para mostrar assim o começo do tempo de salvação que se abre com a vinda de Jesus. Com ele veio aos homens a salvação de Deus e esta salvação é inesgotável” (Blank, 1990, p. 208). É importante ressaltar que o vinho dado por ele nas bodas possibilitou a continuidade da festa e da alegria, expressando a abundância de sua graça. Mas é necessário cuidado, pois isso não é justificativa ou autorização para a embriaguez, que em vez de alegria causa tristeza, violências e, muitas vezes, morte, como ao dirigir sob efeito de álcool. Apesar da grandiosidade do milagre do vinho nas bodas, poucas são as pessoas que o percebem e testemunham. O milagre passa despercebido pela maioria das pessoas presentes na festa, que usufruíram e beberam do melhor vi-
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nho. Várias pessoas estão envolvidas no agir de Jesus: Maria, que percebe a falta de vinho; os serventes, que executam a ação pedida de encher as talhas e levar ao responsável; o responsável, que atesta e elogia o vinho; o noivo, que provavelmente não entendeu o comentário sobre o vinho. Assim, o milagre passa despercebido, como muitas vezes não percebemos os milagres e a presença de Deus. Mas os que percebem, esses creem, assim como os discípulos. Nas bodas em Caná Jesus inicia sua ação salvadora. Ele é a epifania de Deus, que se dá em abundância de graça e amor à humanidade, que só pode recebê-lo em gratidão e fé. O vinho das bodas de Caná é símbolo dessa ação redentora, vinho novo (Mt 9.14-17; Mc 2.18-22 e Lc 5.33-39), vinho que se torna ponte entre o início e fim do ministério de Cristo, que na última ceia nos é dado por Cristo como sinal da nova aliança em seu sangue, que através de sua morte e ressurreição dá perdão e salvação à humanidade.
4 Imagens para a prédica O texto é rico em imagens que podem ser usadas na pregação, mas é importante eleger quais usar: – A festa de casamento: desde os preparativos que a antecedem até o acontecimento em si. – A atuação de Maria: sua percepção, atitude e disposição diante da necessidade (postura importante no âmbito comunitário). – A ação de Jesus: o milagre em si, seu significado, mas também o fato de que possibilitou a participação de outras pessoas (Maria, os serventes, o responsável – como podemos ser instrumentos ou agentes de alegria e esperança nos dias que vivemos de grande desesperança: corrupção, injustiças, empobrecimento, perda de direitos e dignidade, eleições). – A “discrição” da epifania de Deus, já apontada pelo profeta Elias (1Rs 19.12) e que em Cristo se revela no revés da história: nasce de sua “humilde serva Maria”, palácio/manjedoura, poder/fraqueza, cruz/salvação. – O vinho: como podemos ser “vinho” transformado por Cristo, que possibilita a alegria e a comunhão, dentro e fora da comunidade? (paralelo com 1Co 12.1-11 – os dons concedidos por Deus para o servir, visando a “um fim proveitoso” – v. 7).
5 Subsídios litúrgicos “Batemos à sua porta para que ele a abra e nos sacie com o vinho invisível, pois nós também éramos água e ele nos transformou em vinho. Tornou-nos saborosos (sábios), pois temos o sabor de sua fé, nós que antes éramos insípidos (estultos)” (Agostinho apud Blank, 1990, p. 207). No princípio era a beleza das videiras e dos trigais. que se entrelaçavam e se espalhavam pelo paraíso, em consagradas liturgias. O Criador chamava homens e mulheres à fraternura das eternas e ternas manhãs de cada dia, para celebrar da dádiva da vida.
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Em ceias-sempre-santas-tantas-quantas e viu Deus que era bom... Mas alguns viram que embora tudo fosse bom, melhor seria se o “bem-bom” fosse melhor dividido: “A uns muitos, a ordem; a uns poucos, o progresso.” Assim, os Cains, inspirados pela Lei-da-esperteza, transformaram em pães amargos o que antes era doce ao paladar e, num envenenado “cale-se”, quiseram desinventar a arte de amar... A terra produziu espinhos e cardos... Diz-se que jamais o mundo foi o mesmo. Houve trevas sobre a face do abismo... Acontece; que poetas, profetas, e cantadores, em prece gritaram na vez dos sem-voz. Salmodiaram sonhos-em-sorrisos, perscrutaram-promessas-de-um-porvir-promissor: “...As crianças brincarão com os velhos na praça! Aqueles com sua inocência, estes com sua experiência; todos celebrindando a paz dos parreirais...” E, de fato, mais tarde quando a história, então grávida, deu à luz, o Amor se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e bondade. Grandes coisas se viram... Boas novas se ouviram... “E chegado o novo tempo, a nova era, o novo dia!!! Bem-vindos todos os povos à farta mesa da Eucaristia.” O pão se multiplicou em sinais de solidariedade, O vinho se transubstanciou em alegria... Depois destas coisas eu vi um novo céu e uma nova terra. Não havia mais as garras da guerra. Nem as feias-faces-da-fome mas, na comunhão da Paz-com-páscoa, havia pão em cada mão e vinho em cada copo. E enquanto os anjos cantavam o “Aleluia” ao vencedor da cruz apressei-me na prece, e, em sua memória brindei: Maranatá! Ora, vem Senhor Jesus!!! Amém. (Carlos Alberto Rodrigues Alves)
Bibliografia ALVES, Carlos Alberto Rodrigues. Quaresma. In: ALVES, Rubem. Culto e Arte. Petrópolis: Vozes, 2001.
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BLANK, Josef. O Evangelho segundo João. Petrópolis: Vozes, 1990. BRUCE, Frederick Fyvie. João – Introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1987. CHAMPLIN, Russell Norman. O novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. v. 2: Lucas, João. VELOSO, Mario. Comentário do Evangelho de João. São Paulo: Casa, 1984.
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PRÉDICA: LUCAS 4.14-21 NEEMIAS 8.1-3,5-6,8-10 1 CORÍNTIOS 12.12-31a
3º DOMINGO APÓS EPIFANIA
27 JAN 2019
Gottfried Brakemeier
Proclamar libertação
1 Introdução O relato da pregação inaugural de Jesus em Nazaré tem longa história na América Latina. Inspirou as igrejas desse continente, motivou a teologia da libertação, apadrinhou o título dos auxílios homiléticos, a que também esta meditação se destina. Sua repercussão naturalmente excede os limites geográficos. Desenvolve força sempre que pessoas sofrem sob os males deste mundo. Em nosso contexto, porém, a mensagem da libertação foi ouvida com especial atenção. É sob esse enfoque que Jesus inicia sua atuação. Trouxe evangelho, inaugurando um novo tempo, de graça e de salvação. O texto lateral do livro de Neemias fala igualmente de um momento especial. Fica consagrado o dia em que, após a volta do exílio, o escriba Esdras leu ao povo de Israel a “Lei de Deus”. Também nesse caso certamente celebra-se “evangelho”. Mas convém não desconsiderar as particularidades. A pregação de Jesus é de outra natureza do que a de Esdras. Ainda mais difícil é estabelecer um nexo com o trecho da Primeira Carta aos Coríntios. Recomendo concentrar a prédica em Lucas 4.14-21.
2 Exegese Para introduzir a pregação de Jesus, Lucas usa uma versão distinta daquela de Marcos. Enquanto esta coloca a ênfase no anúncio da proximidade do reino de Deus (Mc 1.15), aquela destaca o tema da libertação em resumo conciso e programático. Serve de referência uma passagem do profeta Isaías (Is 61.1). Jesus veio trazer evangelho, e isso com tal exclusividade que fica suprimida a referência à vingança de Deus, constante em Isaías 61.2. Ele tem boas novas para os pobres, liberta cativos, restaura a visão a cegos, traz liberdade para oprimidos e abre um novo ano santo, de perdão e agrado do Senhor (cf. Lv 25.10s). Seria estúpido jogar as duas versões uma contra a outra. Não se trata de alternativas. Ambas ressaltam importantes aspectos da história de Jesus. Em Lucas prevalece a ótica da libertação. Assim como o Espírito conduziu Jesus à solidão do deserto (Lc 4.1), assim ele o conduz agora ao povo da Galileia e de Nazaré. Isso significa que Deus está com ele. E as pessoas se entusiasmam. Gostam do que Jesus ensina e faz. Sua fama se espalha pela região. Mas as simpatias muito em breve se transformam em rejeição (Lc 4.22-30). A informação já não faz parte do texto da prédica. Mesmo
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assim, ela pertence à perícope maior e merece ser lembrada. Lucas antecipa o que Marcos vai relatar mais adiante (Mc 6.1s). O povo de Nazaré, cidade em que Jesus se criou, chega a se escandalizar. Acaba até mesmo tramando um atentado contra ele. Como se explica a súbita mudança de conceituação? Jesus ensina nas sinagogas. Já naquele tempo a sinagoga tinha se instalado ao lado do templo, que era o lugar exclusivo para a oferta de sacrifícios. Isso fez com que o judaísmo sobrevivesse com relativa facilidade à destruição do templo no ano 70 d.C. Foi o culto sinagogal que garantiu a identidade judaica através dos séculos. Ele acontecia em forma verbal, por oração, ensino e pregação. Enquanto a leitura da Torá estava regulamentada, a dos livros proféticos era opcional, tendo todo homem adulto o direito a ler. É do que Jesus se aproveita. De acordo com seu hábito, visita também a sinagoga de Nazaré. Em certa ocasião, ele se levanta, dando a entender que igualmente pretende fazer uma leitura. O bibliotecário lhe entrega o livro do profeta Isaías. Jesus acha a já referida passagem do capítulo 61. Depois de ouvido o texto e Jesus ter-se sentado, a comunidade aguarda um comentário. Esse é breve e sucinto: Hoje se cumpriu o trecho das Sagradas Escrituras que vocês acabam de ouvir. Que foi o que Jesus leu? Nas palavras atribuídas a um profeta chamado Trito-Isaías (Is 61s), ou seja, o terceiro desse nome, alguém reivindica para si dignidade messiânica. Diz ser portador do Espírito de Deus e ungido para levar o evangelho aos pobres. Em língua grega: ele é um “Cristo”. Lucas não usa o título, mas o significado é esse. Ele traz indulto aos endividados, cura para doentes, liberdade para quem sofre opressão, soltura para quem se encontra em prisão. O termo em destaque é afesis, que pode ser traduzido também por “perdão”. Tal interpretação está em sintonia com o significado do “ano do jubileu”. Celebrava-se o perdão das dívidas. Mas isso implicava “liberdade para todos os moradores” (Lv 25.10). Já que o texto citado por Jesus fala em cativos e oprimidos, o sentido que se impõe é claramente o da libertação. O evangelho rompe laços que mantêm o ser humano em escravidão e lhe causam sofrimento. Os destinatários são os pobres, uma preferência confirmada pelas bem-aventuranças. Jesus afirma que deles é o reino de Deus (Lc 6.20). Eles são alvos especiais do amor divino. Aliás, a prática “evangelística” de Jesus mostra não ser permitido restringir o significado do termo “pobre” a uma só classe social. Fazem parte do grupo doentes, notórios pecadores, a exemplo da mulher que o procurou na casa do fariseu Simão (Lc 7.36s), enfim todas as pessoas que padecem de alguma necessidade. Jesus valoriza gente à margem, menosprezada, excluída. Restitui-lhe a dignidade e a liberta de estigmatização religiosa e social. Entre essa gente encontram-se samaritanos, pagãos, mulheres, crianças. Trata-se de uma ênfase específica de Lucas, mas de modo algum ausente nos demais evangelhos. Jesus veio para libertar de pecado, tanto do próprio como de alheio. O comentário que Jesus acrescenta é provocante. Os elogios que recebe são devidos à sua retórica e à maneira simpática de falar. Também sua ação parece ter impressionado o público. Mas a reivindicação messiânica implícita em sua resposta é difícil de digerir. O Senhor me deu o seu Espírito... Pois é! Jesus não só anuncia, ele traz salvação. Quem é ele para arrogar a si tal autoridade? Não é ele
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o filho de José, alguém de nossos concidadãos, bem conhecido nessa cidade? O texto para a prédica não entra em detalhes da rejeição. Mas ela já se prenuncia. É este o grande escândalo que acompanha Jesus até a morte na cruz: Ele salvou outros. Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias que Deus escolheu (Lc 23.35). É o deboche que ainda como moribundo deve ouvir. Ao contrário disso, Lucas persegue o interesse de apregoar justamente esse nazareno como o Cristo de Deus. Hoje se cumpriu esse trecho das Escrituras Sagradas. É o autotestemunho de Jesus. Ele se declara executor das obras messiânicas. Veio para libertar. Será verdade isso? Lucas responde com a redação de seu evangelho.
3 Meditação Entre os temas do texto, dignos de aprofundamento e reflexão, três se revestem de particular relevância. Primeiro – Jesus entende a profecia messiânica daquele Isaías como autorização para ser o Cristo de Deus. Com alguma razão, pois, pode-se concluir ser esse o momento da sua ordenação ao ministério. Assumindo a dignidade cristológica que o texto sugere, Jesus se sabe encarregado de trazer salvação à terra. Começa a concretizar-se “hoje”, em sua pessoa, algo da última petição do Pai-Nosso, dizendo: “E livra-nos do mal”. Tal reivindicação desde sempre causou escândalo, desde Nazaré até hoje. O povo judaico em seu todo sintonizou com ele. Pode reverenciar Jesus como pessoa merecedora do mais alto respeito, mas nega-lhe a messianidade. Algo semelhante se observa no islamismo. O Alcorão faz muitas referências elogiosas ao nazareno. Mas não admite sob hipótese alguma sua filiação divina. O único Deus Alá não poderia ter filho. Daí porque também cristãos são vistos como incrédulos. Quadro semelhante oferece-se no ateísmo moderno. Para muitos de seus representantes, Jesus é tido como “pessoa padrão”, exemplo de humanismo e nobreza de espírito. Mas que esse filho de José (Lc 4.22) seja filho de Deus é visto como ideia fantasiosa. A comunidade cristã, ao insistir na identidade messiânica de Jesus, faz bem em respeitar esse pano de fundo. Deve justificar seu discurso. Quais seriam os argumentos que o sustentam? E qual seria a modalidade condigna para afirmar esse credo? Para tanto uma simples citação bíblica não basta. Por que não podemos deixar de seguir o exemplo de Pedro e dizer: Tu és o Cristo (Lc 9.20)? Há boas razões para fazê-lo. Segundo – O evangelho destina-se aos pobres. Foi essa uma forte ênfase na teologia da libertação. Fé cristã implica a opção (preferencial) pelos pobres. Jesus, ele mesmo, ratifica essa verdade. O Messias vem para libertar as pessoas de tudo que lhes oprime a consciência, a saúde, o exercício da cidadania. Denuncia e supera dependências. A rigor, a preferência dos necessitados é nada “opcional”. Ela pertence ao cerne do evangelho. Pois é assim que funciona o amor. Filho doente terá prioridade nos cuidados da mãe até estar restabelecido. Isso não significa que os demais filhos sejam preteridos. É assim que procede Jesus. Enxerga
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miséria humana e socorre à maneira do bom samaritano (Lc 10.30s). Existe unanimidade na teologia cristã nesse tocante. Assim sendo, alguns temores provocados pela tese do privilégio dos pobres se revelam como infundados. Nascem antes de distorções do que de espírito evangélico. Seria fatal, por exemplo, confundir a opção pelos pobres com a opção pela pobreza. Essa pode resultar de uma decisão pessoal, mas não se presta a ser critério de fé autêntica. Como lei ela conduz ao inconveniente da justificação pelas obras. Qual seria o grau de pobreza a ser alcançado? Importa evitar ficções. A fé cristã não prega o igualitarismo. Por isso mesmo também se proíbe a interpretação classista da categoria do “pobre”. Já fizemos referência a isso anteriormente. O amor não fica dispensado de detectar outras formas de “pobreza”, além da material, muito embora essa deva estar no topo da preocupação. Jesus coloca prioridades, sim, mas não exclui ninguém. Fica a exigência de um estilo de vida simples e de ajuda ao próximo de acordo com as possibilidades. Terceiro – E o sucesso de Jesus, onde está? De um libertador se espera poder. Mas Jesus é fraco. Acabou na cruz, vítima de desprezo e zombaria. Aparentemente, Jesus não conseguiu cumprir o programa messiânico, com o qual em Nazaré se comprometeu. São os pobres, eles mesmos, que devem libertar-se a si mesmos. Jesus pode ser visto como inspirador e motivador. Mas o agente da transformação do mundo seria o proletariado, o “povão”, a plebe, ou seja, o segmento social oprimido. Nasceu daí o que se chamou de “romantização dos pobres”, como se eles fossem a parte não corrupta da humanidade. Ora, também os pobres não são capazes de construir o reino de Deus. Isso é obra exclusiva de Cristo. E ele o faz, embora de modo não usual. Aposta no amor, não no poder militar, econômico, político, nem mesmo popular. Por isso suas vitórias costumam permanecer ocultas. Listar os pecados históricos da igreja cristã tornou-se comum entre agnósticos e ateus. De fato, cristãos ficaram em débito com seu mestre. Mas isso não desacredita a proposta messiânica de Jesus. Ele introduziu um novo espírito no mundo, cujos sucessos são difíceis de contabilizar. E, no entanto, é cego quem não os enxerga. E, sempre que esse espírito se impõe, ocorre libertação e transformação. As forças do mal começam a recuar. A igreja cristã desafia a fazer o teste.
4 Imagens para a prédica Libertas quae sera tamen – É o que se lê em bandeiras preservadas do tempo da luta pela independência do Brasil, em Minas Gerais. É um dito em latim, dizendo: “Haverá liberdade, mesmo assim”. Onde quer que prevaleça escravidão o grito é semelhante. O ser humano quer ser livre. Não tolera dominação estrangeira, quer ser “dono de seu próprio nariz”, anseia por autodeterminação e gestão autônoma de sua existência. É afamada a enorme estátua da liberdade na entrada do porto de Nova Iorque, prometendo aos imigrantes serem os Estados Unidos o país da liberdade. E, com efeito, nada pior do que a suspensão da liberdade religiosa, de expressão, de imprensa e, sobretudo, da liberdade pessoal mediante reclusão em penitenciária.
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O evangelho endossa esse anseio. Opressão, seja de raça, gênero, classe ou religião, não encontra respaldo em Jesus. Emancipação engajada em causa justa, inclusive política e econômica, merece apoio. E, no entanto, libertação evangélica vai além. Como mera independência fica a meio caminho. Quer expressar-se em cura, cuidado, solidariedade, justiça, diaconia. Sem amor qualquer libertação se perverte e ameaça acabar em nova tirania. “Libertação sustentável” tem por condição a superação do pecado, ou seja, da propensão do ser humano à corrupção, à idolatria do dinheiro, do sexo, do poder, à egomania, à fascinação por outras divindades. Se “Proclamar Libertação” incorporar essas dimensões, ela se reveste de palpitante urgência, justamente nas atuais crises brasileiras. Os obstáculos são muitos. Mas também para a fé vale: Libertas quae sera tamen.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Senhor, nós abusamos do cheque especial recebido por tua graça. Excedemos o crédito que nos concedeste e contraímos um débito impossível de pagar. Somos inadimplentes e dependemos de teu favor. Lamentamos a fraqueza do amor às pessoas ao nosso lado, bem como a falta de fé em teu poder. Ficamos presos a nossos caprichos e por demais vezes colaboramos com os problemas da nossa sociedade em vez de nos opor a eles. Perdoa-nos as dívidas e concede-nos nova chance. Em nome de Jesus Cristo te pedimos. Amém. Oração do dia Jesus Cristo, queiras realizar tua obra libertadora também em nós. Vem e liberta-nos das nossas angústias. Desperta em nós a confiança e fortalece o ânimo para viver. Liberta-nos de situações difíceis e constrangedoras e dá forças para resistir. Liberta-nos de apatia e vaidade, capacitando-nos a socorrer pessoas dependentes de nossa ajuda. Liberta-nos de tudo o que nos inibe para sermos pessoas gratas, alegres e comprometidas com o bem. Envia o teu Santo Espírito para afastar as trevas, tanto de nossa própria vida como do mundo que nos cerca. Amém. Intercessão Sejam recomendadas nesta oração pessoas e instituições carentes de cuidados especiais, a exemplo de doentes, moribundos, desamparados, fugitivos, vítimas de maus tratos, minorias perseguidas, grupos explorados e outros. Aliás, há fortes motivos para lembrar nossos irmãos e nossas irmãs cristãs hostilizados em vários países do mundo. Não raro sofrem verdadeiros massacres. Devemos a eles e a elas nossa solidariedade através de nossas preces e de nosso protesto contra as arbitrariedades que sofrem. No mais, intercedemos pelas autoridades tanto políticas como religiosas, pedindo que Deus lhes dê o discernimento do bem e a disposição para servir. Em termos gerais, a comunidade cristã pede a Deus que queira proteger a humanidade contra a loucura de novas guerras e da destruição da natureza, preservando a paz e o bem-estar do ser humano.
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Bibliografia SCHMITHALS, Walter. Das Evangelium nach Lukas. Zürich: Theologischer Verlag Zürich, 1980. (Zürcher Bibelkommentare NT 3.1). SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1982. (Das Neue Testament Deutsch, Bd 3).
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PRÉDICA: LUCAS 4.21-30 JEREMIAS 1.4-10 1 CORÍNTIOS 13.1-13
4º DOMINGO APÓS EPIFANIA
03 FEV 2019
Gerson Acker
Santo de casa não faz milagre
1 Introdução Estamos no 4° Domingo após Epifania. Nesse tempo litúrgico, somos convidados e convidadas a perceber as numerosas maneiras de revelação do Cristo. Diante disso, as perícopes propostas trazem uma afirmativa interessante: nem sempre a revelação do Cristo tem boa aceitação, ou seja, “santo de casa não faz milagre”. Esse provérbio popular tem sentido na fala de Jesus, quando esse afirma que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra (Lc 4.24). Isso significa que pessoas custam a ser reconhecidas na sua própria terra, e são muito mais valorizadas fora do local onde moram ou trabalham. A menos que o profeta seja verdadeiramente chamado por Deus e enviado como mensageiro divino para Israel, não há nenhuma boa razão para que o povo o escute. Para demonstrar suas credenciais de profeta, Jeremias relata sua vocação (Jr 1.4-10), lembrando a seus leitores e suas leitoras que Deus o designou mensageiro divino para o povo da aliança (Israel) e que o consagrou para ser um profeta para as nações (povos pagãos). A desculpa de Jeremias “eu não sei falar porque sou jovem/criança” (v. 6) revela que ele sabe que “santo de casa não faz milagre” e que um profeta, em grande parte, tem uma vida solitária, com desprezo e perseguição. O consolo de Jeremias é a promessa de Deus: Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar (v. 8). Para compreender a famosa passagem de 1 Coríntios 13.1-13, precisamos ter em mente a descrição que Paulo faz do amor como dom comunitário: um dom sem amor não é nada. Paulo pondera que os dons preferidos dos coríntios (glossolalia, profecia, conhecimento e até mesmo a fé), mas sem amor, geram indiferença e, assim, “nada serei”. As características do amor (v. 4-7) são opostas às características interesseira e competitiva do conhecimento e da hierarquia de valores que facciona a comunidade. Segundo o apóstolo, as profecias, as línguas, o conhecimento têm limites, mas o amor não. Portanto há diversos dons espirituais, mas o amor (ágape) é o único dom essencial que caracteriza a comunidade digna de ser chamada cristã. Sem amor “o santo de casa não faz milagre”.
2 Exegese A perícope para pregação está inserida em um contexto maior, que abrange os textos bíblicos de Lucas 4.14 a 9.50. Esse bloco relata os primeiros dias do
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ministério de Jesus em sua terra natal, Nazaré, antes de tomar resolutamente o caminho para Jerusalém (Lc 9.51ss), e de sua paixão, morte e ressurreição. A intenção do evangelista não é dizer que ali Jesus teria realizado sua primeira pregação, porque do texto se depreende que o Senhor já atuara antes em Cafarnaum e outras localidades (v. 14). Antes, a cena em Nazaré quer mostrar que a atividade de Jesus provocou aceitação e rejeição. Segundo Bergant, entre os versículos 14-30 temos uma “história evangélica em miniatura”, ou seja, a princípio Jesus é recebido com louvor e aclamação, mas a inveja e a suspeita azedam essa reação, a ponto dos seus conterrâneos almejarem acabar com a sua vida (v. 29). Como judeu praticante, Jesus vai à sinagoga em Nazaré (v. 16). Na celebração de sábado havia duas leituras, uma do Pentateuco e outra dos Profetas. Jesus foi fazer a segunda leitura, abrindo o rolo do profeta Isaías (61.1-2) e lendo uma promessa de restauração de Israel. O contexto original é a unção de um profeta, mas a figura do Messias também está subentendida no uso que Jesus faz do texto. Após a leitura, quando Jesus se assenta para interpretá-la, há uma aura de expectativa sobre o mestre (Almeida: tinham os olhos fitos nele – v. 20). No relato de Marcos, a “nuvem de suspeita” é descrita mais minuciosamente (Mc 6.2-3). A perícope proposta para a pregação deste domingo inicia no v. 21, com a afirmativa do Cristo que hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. Porém, para melhor compreensão do texto, sugerimos que a leitura bíblica seja feita a partir do v. 16. Os ouvintes da sinagoga ficam entusiasmados com o discurso de Jesus. O povo de Nazaré considera natural que Jesus construa uma grande fama, pois dessa maneira também eles seriam honrados (de Nazaré pode sair alguma coisa boa? – Jo 1.46). Eles davam crédito a Jesus, pois era “filho de José”, era um dos seus. Por isso aqueles que o admiram e que ouviram sobre o que havia realizado em Cafarnaum pedem: Faze-o também aqui na tua terra (v. 23). Porém Jesus deixa claro que seu ministério é direcionado às pessoas pobres, cativas, oprimidas e enfermas, as quais precisam de médico. Jesus responde que um profeta não se limita a trabalhar apenas para os seus. Ali em Nazaré ele não teria o apoio e o reconhecimento necessários, pois nenhum profeta é recebido na sua própria terra (v. 24). Exemplificando sua posição, Jesus se compara a dois grandes profetas do antigo Israel, Elias e Eliseu, que serviram a não israelitas porque seu próprio povo não estava aberto a seus ministérios. A viúva de Sarepta foi salva da morte por inanição graças ao profeta Elias; e um gentio, Naamã da Síria, que tinha lepra, foi curado por Eliseu, tornando-se um reverenciador de Javé em meio ao contexto gentio. A inferência é que também Jesus, profeta não aceito por seu povo, levará sua mensagem a estrangeiros. Percebe-se claramente o conceito lucano de reino de Deus (basileia tou theou): a salvação é para todas as pessoas. Jesus esclarece que a misericórdia de Deus também se estende aos não judeus. Por isso ele não limita seu ministério aos judeus. O fato de Jesus não querer limitar seu ministério apenas a seus conterrâneos gera ira por parte dos nazarenos. Esperava-se por um Messias que libertasse exteriormente o povo judeu do penoso jugo romano. Por isso os nazarenos ficam tão enfurecidos quando Jesus alude ao fato de que, por causa do desprezo de Israel, a
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salvação passaria aos gentios. A ira torna-se violência quando os que estavam na sinagoga levam Jesus até um abismo, a fim de precipitá-lo para baixo, como um blasfemo. Sem grandes detalhes, Lucas narra a “fuga” de Jesus, dizendo que ao chegar ao cume do monte, ele deu meia-volta e passou pelo meio deles. Expulso da sinagoga de Nazaré, Jesus passa a atuar na sinagoga de Cafarnaum (v. 31).
3 Meditação O conflito relatado pelo evangelista Lucas evidencia duas posições por parte dos conterrâneos de Jesus: um grupo o aceita e se maravilha com suas palavras de graça; o outro grupo o rejeita, pois não consegue aceitar a universalidade da salvação. Diante desse impasse Jesus não consegue proclamar o reino de Deus para o seu próprio povo. Aceitar o Cristo que me agrada. Rejeitar o Cristo que me questiona. Torcer e retorcer o evangelho de forma que satisfaça o ego, o etnocentrismo, a meritocracia. Essa é a “carga explosiva” detonada pelo Evangelho de Lucas 4.21-30, que desvela e questiona a dificuldade que a maioria das pessoas e das comunidades tem de incluir “os de fora”. Não é novo o mote do PAMI que instiga as comunidades da IECLB a serem “atrativas, inclusivas e missionárias”. Recordo-me do escritor suíço Denis de Rougemont, um arguto defensor da unidade europeia, que disse: “A decadência de uma sociedade começa quando as pessoas perguntam a si próprias: ‘O que irá acontecer?’, em vez de inquirir: ‘O que posso eu fazer?’”. Cremos que a decadência da igreja está intimamente ligada com a constatação que a maior parte dos membros (1) não sabe o que fazer, (2) não quer fazer – essa é a mais nociva. Entendemos o termo “decadência” como estagnação no crescimento de membros, as decisões comunitárias sempre nas mãos das mesmas pessoas e o efeito chamado de “sempre foi assim”. Cada pessoa cristã de confessionalidade luterana deveria perguntar-se (no âmbito pessoal e também comunitário): o que posso fazer para ser mais atrativo? (Do latim attractio, que causa interesse excessivo e/ou fascínio; de tornar próximo, de conquistar a atenção, de buscar para). O que posso fazer para ser mais inclusivo? (Até que ponto estamos dispostos a incluir todas as pessoas? Seria muito interessante que nossas comunidades e suas lideranças pudessem definir o que entendem por “inclusão”). O que posso fazer para ser mais missionário? No que se refere ao desafio missionário dado a cada pessoa através do batismo, percebemos que nossas igrejas têm estado cheias de “participantes”, e não de “pertencentes”. A diferença? O “participante” está completamente descompromissado com a causa, é covarde. O “pertencente” é o que abraça o sacerdócio geral e sente-se corajosamente responsável pela vida comunitária. É preciso confessar nossa covardia diante das inúmeras oportunidades missionárias que não vemos ou que não queremos ver. Como escreveu o argentino Julio Cortazar: “A covardia tende a projetar nos outros a responsabilidade que não se aceita”. A exemplo de Jesus, não podemos nos resignar e alimentar esse tipo de passividade. Não podemos calar a voz dos “santos de casa” que nos sina-
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lizam propostas concretas para ampliar o horizonte missionário da comunidade. Frequentemente, quem tenta romper a inércia e sugere “derrubar muros” acaba “fugido”, como o próprio Cristo no relato desse evangelho. Há que se valorizar os “santos de casa”, esses que doam seu tempo, seus dons e seus bens para abrir as portas da comunidade. Há que se nutrir nas pessoas o sentimento de pertença e comprometimento ao evangelho, para que, mesmo sendo “santos de casa”, possam fazer “milagres”.
4 Imagens para a prédica Sugerimos para a prédica três tipos diferentes de abordagem que podem ser úteis: 1. Explorar o provérbio popular “santo de casa não faz milagre”, fazendo um paralelo com a palavra do Cristo que diz: O profeta não é reconhecido em sua própria terra. 2. Perguntar para a comunidade o que ela entende por “inclusão”. Essa pergunta seria excelente quando se pensa numa prédica mais dialogal, buscando uma conscientização desse desafio batismal. 3. Tematizar a diferença entre “pertencer” e “participar” da comunidade à luz do paradoxo “aceitar” ou “rejeitar” o Cristo que vem salvar todas as pessoas.
5 Subsídios litúrgicos Litania para a liturgia de entrada L.: Senhor, achegamo-nos a ti, mas não isoladamente, e sim na companhia uns dos outros. C.: Nós repartimos nossas alegrias uns com os outros e elas se tornam maiores. L.: Nós repartimos nossas dificuldades uns com os outros e elas se tornam menores. C.: Nós repartimos nossas aflições e nossos fardos, e seu peso torna-se mais leve para carregar. L.: Que nunca sejamos tão egoístas para compartilhar, tampouco tão orgulhosos para receber. C.: Pois ao compartilhar e receber, aprendemos a amar e a ser amados; encontramos o sentido da vida, o mistério de nossa existência e conhecemos a tua presença. Amém. Confissão de pecados Deus de misericórdia, reconhecemos nossa timidez quando não conseguimos testemunhar nossa fé em palavras e ações; reconhecemos nossa covardia quando deixamos de incluir pessoas, preferindo nos fechar em nosso egoísmo; reconhecemos nosso comodismo que tem nos impedido de viver de forma propositiva a tua missão. Liberta-nos, ó Deus, da timidez que cega, da covardia que cala, do comodismo que aprisiona. Pela ação do teu Santo Espírito, derrete nossos
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corações endurecidos e consome o preconceito e o orgulho que nos impedem de acolher o próximo. Acolhe nossa confissão silenciosa. Acolhe nosso pecado mais íntimo e tudo aquilo que pesa em nossa consciência. Tem compaixão de nós e perdoa-nos. Por Cristo Jesus. Amém. Absolvição A palavra de Deus nos diz em 1 Timóteo 2.3-4: Deus, o nosso Salvador, quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade. Por isso, a todos e todas que com sinceridade confessaram seus pecados e esperam no Senhor o perdão, anuncio-lhes que seus pecados estão perdoados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (+). Amém. Oração do dia Amado Deus, Senhor de toda a humanidade, tu nos chamas a acolher todas as pessoas sem distinção. Ajuda-nos por teu Espírito a viver como irmãos e irmãs, motivando nossos corações a viverem na dinâmica da inclusão. Ajuda nossa comunidade a ser atrativa, inclusiva e missionária para que aqui possamos experimentar os pequenos e grandes milagres do teu Reino. Por Cristo Jesus, que contigo e o Santo Espírito vive e reina, hoje e para sempre. Amém.
Bibliografia BERGANT, Diane; KARRIS, Robert (Orgs.). Comentário Bíblico. São Paulo: Loyola, 1999. v. 3. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1983. v. 1.
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5º DOMINGO APÓS EPIFANIA
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 15.1-11 ISAÍAS 6.1-8 LUCAS 5.1-11
Beatriz Regina Haacke
Pela graça de Deus, sou o que sou
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Introdução
O texto da prédica (1 Coríntios 15.1-11) inicia a argumentação de Paulo em favor da ressurreição de Cristo e, por consequência, dos mortos, que segue no v. 12 em diante. O apóstolo faz questão de trazer à lembrança da comunidade de Corinto o ponto central do evangelho: Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou, tendo sido visto por muitas outras pessoas. Paulo se apresenta como um apóstolo, testemunha dessa verdade evangélica que o tocou profundamente. Ao mesmo tempo, reconhece não ser digno desse chamado. Mas é pela graça de Deus que agora ele faz tudo o que realiza. Isaías 6.1-8 relata a visão que o profeta teve em sua vocação. Quando colocado perante a santidade de Deus, Isaías afirma ter lábios impuros e estar perdido. Porém Deus o purifica e o convoca para ser porta-voz da sua palavra. Semelhante é com os discípulos de Jesus, que são confrontados com o seu poder no evento narrado como “a pesca maravilhosa”, em Lucas 5.1-11. Pedro fica prostrado diante dele, assumindo ser um pecador que não merece estar na sua presença. Após esse olhar para si mesmo, admitindo sua pequenez, Pedro é confortado (“não temas” – v. 10) e recebe o chamado para ser pescador de gente. Os textos previstos para este 5º Domingo após Epifania são perpassados por um pano de fundo em comum: no encontro com Deus, o ser humano se reconhece como pecador, indigno e não merecedor; no entanto, graciosamente, Deus o chama e capacita. O evangelho do perdão dos pecados e da ressurreição nos alcança e nos conduz para servir, tornando-nos testemunhas da boa nova.
2 Exegese Breves informações sobre a comunidade de Corinto – Por ser capital da província da Acaia e cidade portuária, Corinto caracteriza-se como um centro urbano, multicultural e plurirreligioso, com muitas pessoas ricas, mas também com muita desigualdade social. Paulo esteve presente na fundação da comunidade cristã de Corinto, o que deve ter ocorrido por volta do ano 49, e partiu de lá para atuar em Éfeso por volta do ano 51, local de onde escreve a carta, em torno de 54. A motivação para a redação está numa primeira carta enviada pelos coríntios a Paulo (7.1), com o pedido de resposta a questões práticas da vivência cristã. Além disso, ao que parece, havia contato intenso entre o apóstolo e membros da co-
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munidade, dos quais ele obtém informações (1.11; 16.17). Uma carta de Paulo à comunidade cristã em Corinto, hoje perdida, precedeu a atual (1 Coríntios) (5.9). Informações sobre o texto – Provavelmente, por seus contatos, Paulo toma conhecimento de que há na comunidade pessoas que não creem na ressurreição dos mortos (15.12). O capítulo 15 é reservado para tratar desse assunto com vigor e atenção especiais, que não observamos em outros escritos. Contudo, antes de abordar possíveis dúvidas e discordâncias que existiam na comunidade a respeito da ressurreição, Paulo inicia exortando-a a lembrar-se do evangelho que por ele foi anunciado (1.1) e, simultaneamente, ressalta que seus membros estão firmes nesse evangelho. Ou seja, ele traz à tona um assunto que é conhecido da comunidade, admite o conhecimento prévio do mesmo e, a partir daí, apresenta sua recomendação nos versículos 12 e seguintes. Paulo faz questão de apresentar um breve resumo do evangelho nos versículos 3-7. A base de sua argumentação nesse capítulo reside no ensinamento de que “antes de tudo” (v. 3, versão Almeida Revista e Atualizada, ARA) ou “em primeiro lugar” (versão Bíblia de Jerusalém, BJ) ele entregou à comunidade o que ele também recebeu. O conteúdo dos versículos 3b-5 já possui peso de tradição entre as comunidades cristãs, não sendo de autoria paulina. Paulo reproduz a tradição que lhe foi repassada, provavelmente, no início de sua vida na fé cristã. E reforça que esse é o conteúdo da pregação cristã, independente de quem seja a pessoa que o anuncia (v. 11). Sobre este núcleo do evangelho: Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, tendo sido visto por várias pessoas, sustentam-se a fé e a esperança cristã. Desde o início, as comunidades cristãs já compreendiam a morte de Jesus como sacrifício por nossos pecados. Esse credo, contido nos versículos 3 a 5, com o acréscimo dos versículos 6 e 7, apresenta as testemunhas da ressurreição de Cristo, pessoas pelas quais ele “foi visto” (ōphte, também pode ser “apareceu”, como traduzido pela versão Nova Tradução na Linguagem de Hoje, NTLH). Paulo não somente cita as pessoas que tradicionalmente eram tidas como testemunhas da ressurreição, como também amplia o leque para mais de quinhentas pessoas, para Tiago e, mais adiante (v. 8), Paulo se inclui nesse grupo de testemunhas da ressurreição. Pelo testemunho dessas pessoas, a novidade da ressurreição foi anunciada, possibilitando uma base confessional comum para as primeiras comunidades. “Mas não só isso! Essas mesmas testemunhas convidam as pessoas a ver confirmada a ressurreição de Cristo em sua trajetória individual, na comunidade que se reúne em torno de palavra e sacramento e na ação do Espírito Santo que, através de seus dons, transforma o mundo” (Brakemeier, 2008, p. 196). Um apóstolo é um enviado ou delegado. O que Paulo compreende por apóstolo? Seriam os doze? Ao defender seu ministério e sua autoridade como apóstolo, ele costuma mencionar como argumento o fato de que ele viu o Senhor (15.8; 9.1). Mas as mais de quinhentas pessoas que viram o Senhor são chamadas de “irmãos”, e não apóstolos (v. 6). Enfim, o título apóstolo não fica restrito aos doze do v. 5, e não há uma preocupação em definir precisamente quem eram e
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quantos eram os apóstolos e apóstolas (Rm 16.7), mas há um envio para a missão, uma autoridade investida e um comprometimento que é comum. Paulo fala de si mesmo como tendo sido a última das testemunhas a quem o Senhor ressuscitado apareceu (v. 8). Ele utiliza o termo ektrōmati, traduzido em ARA por “nascido fora do tempo”, mas literalmente “um aborto” ou “um abortado” (na BJ, “abortivo”), referindo-se à sua condição de ter sido designado como apóstolo bem depois dos demais. Entretanto, sua autoridade apostólica aqui não está fundamentada em quando Cristo lhe aparece, mas no conteúdo de sua pregação evangélica, ou seja, no anúncio da morte e ressurreição do Cristo que nos salva. Parece que Paulo não faz distinção nenhuma entre a aparição de Jesus a ele na estrada de Damasco (At 9.3-6) e as aparições entre a ressurreição e a ascensão. Talvez possamos entender esse trecho assim: o menor de todos os apóstolos, aquele que antes perseguia a igreja, era como que um aborto, no sentido de algo de onde não se espera mais nada, onde parece não haver mais vida; mas do encontro com o ressuscitado e pela ação da graça de Deus, o abortado recebe vida nova e é investido de autoridade para anunciar o evangelho da ressurreição. No v. 9, Paulo se autodenomina como o menor dos apóstolos (elachistos, superlativo de mikros, pequeno, ou seja, “o menor de todos, menor ainda que o menor”). Por sua graça, Deus, em sua grandeza, revelou-se e chamou para ser seu apóstolo – Paulo – o pequeno (do latim paullo, “pequeno”).
3 Meditação Evangelho não é um conteúdo a ser aprendido ou um objeto a ser descrito, mas é poder de Deus para salvação das pessoas que creem (Rm 1.16). É recebido e crido pessoalmente (v. 1-2). Por isso, se nos capítulos anteriores Paulo vinha tratando de assuntos da vida cotidiana das comunidades ou da doutrina, sobre os quais podem surgir diferentes interpretações, aqui ele compreende que não há espaço para divergências. Afirmar ou negar a ressurreição de Cristo não depende de opinião particular, e sim do centro do evangelho, do qual não se pode desviar. Ao crer nessa boa nova da ressurreição, a vida é reorientada. Assim aconteceu com o próprio Paulo a partir de sua experiência na estrada de Damasco. No texto em questão, no v. 8, Paulo faz menção a esse acontecimento. Porém Atos 9.1-9 não apresenta um grande discurso de Jesus dirigido a Saulo. Eu sou Jesus, a quem tu persegues é sucinto e suficiente para que a notícia da ressurreição torne-se uma certeza para quem a negava a todo custo. Crer na ressurreição significa também crer na ação salvadora de Deus na crucificação. Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras (v. 3). Confrontado com essa revelação, Paulo é transformado e chamado a ser apóstolo. Mas ele reconhece, ao deparar-se com o Cristo, que não é digno. Seu zelo pela lei e empenho em acabar com a fé cristã agora são para ele o que há de mais reprovável. Por causa da sua atitude anterior, ele seria um antiapóstolo. E, mesmo agora, ele se considera o menor de todos os apóstolos. Todavia, a graça de Deus é maior. Pelo fato de ter compaixão com esse mais miserável, a graça de Deus revela-se como totalmente graça. E por fazer de um opositor ferrenho da
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fé uma testemunha da ressurreição e apóstolo do evangelho, a graça apresenta-se como não vã e eficaz. Para Paulo, o que demonstra isso não são seus dons espirituais, como os que são enaltecidos pela comunidade de Corinto (1Co 14.12), mas seu afinco em trabalhar na tarefa que lhe foi confiada. Seu chamado e seu servir são compreendidos como consequência do crer e da ação graciosa de Deus. A graça que o acolheu também o impulsionou a trabalhar. Na Segunda Carta aos Coríntios, Paulo defende seu apostolado com mais afinco e relembra à comunidade todo o seu empenho, trabalho exaustivo e perseguições que sofreu por ser, de fato, um apóstolo (2Co 11.23-30). Mais uma vez ele reconhece sua fraqueza perante a grandeza de Deus (1Co 12.9), reafirmando sua posição em 1Co 15.10: Pela graça de Deus, sou o que sou. Por sua atuação humilde, no entanto, coerente com a graça, Paulo pode também expressar com sinceridade que seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes (v. 11). Não há sentido em comparar-se com os demais apóstolos ou vangloriar-se. O que importa não é primeiramente a pessoa que anuncia, mas aquilo que é anunciado, a saber, o evangelho da morte e ressurreição de Jesus. O que conhecemos da biografia de Paulo e de muitos outros homens e mulheres que foram testemunhas do agir de Deus nos revela que a missão que Deus deseja realizar em nosso mundo, fazendo do ser humano seu instrumento, não carece de um currículo prévio impecável. Foi assim com Moisés, Débora, Isaías e com Pedro, também com Maria Madalena, Paulo, Priscila, Áquila e tantos outros. De algumas pessoas sabemos mais, de outras muito pouco. Porém, certamente, todas essas pessoas não eram dignas por sua inteligência, força ou caráter irrepreensível ao serem confrontadas com o Deus santo, santo, santo (Is 6.3). Elas foram chamadas por Deus, cientes de suas fraquezas, creram e foram capacitadas para testemunhar a graça que acolhe e renova. Como nos sentimos ao ouvir esse chamado que também é dirigido a nós? Como lidamos com nossos erros e nossas limitações ao assumirmos a tarefa de servir a Deus? Na comunidade, cada pessoa batizada é chamada a ser testemunha do evangelho, com suas qualidades e também com seus defeitos. Temos atendido a esse chamado com disposição e humildade? Disso também faz parte motivar outras pessoas para que respondam ao chamado que Deus lhes faz. Toda a ação e seus resultados, tudo o que realizamos é obra da graça de Deus. Mesmo assim, não podemos nos conformar com o não saber, nos acomodar com a falta de formação. Ainda que fosse limitado e cheio de fraquezas, Paulo não deixou de esforçar-se para que a missão acontecesse. E quando ela ocorre, a graça nos faz compreender que ela não é fruto do nosso esforço, mas sim mérito do agir de Deus em nós, seus instrumentos.
4 Imagens para a prédica Somos pessoas salvas pela graça e servas pelo amor. Para Paulo, servir é efeito da graça de Deus em sua vida. Poder trabalhar em favor da missão de Deus é graça, bem como ser chamado e chamada, crer e ser capacitado e capacitada para tal.
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Como instrumentos do agir de Deus, reconhecemos nosso pecado, nossa fraqueza. Arrependemo-nos e deixamo-nos renovar por Deus. Como instrumentos de Deus, podemos buscar preparo para que nossa ação seja para a edificação do corpo de Cristo. Nesse sentido, pode-se usar a imagem do instrumento musical durante a prédica. Primeiramente, tocar uma música em um violão que está desafinado. Apesar da desafinação, o instrumento não perde o seu valor para quem o detém. Ele continua sendo útil e valioso para a execução da música e para o musicista. Após afinar o violão, tocar novamente a mesma música, para que a comunidade perceba a diferença. Afinar o violão provoca tensão nas cordas, transformação. É como o preparo, a capacitação que necessitamos e recebemos de Deus, aquele que nos tem em suas mãos e nos concede valor, aquele que nos chama para tocar a sua música, para ser seus instrumentos em sua missão. Quando percebemos que tudo o que somos e o que fazemos é graça de Deus, passamos a nos ver também como um violão que é colocado junto a outros instrumentos musicais. O conjunto dos instrumentos é importante para o maestro de uma orquestra; porém o mais importante não é o violão, ou o violino, ou a flauta, ou o piano, mas a música que juntos executam.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Deus de amor e misericórdia, tu nos conheces tão bem, assim como um músico conhece seu instrumento musical. Sabes das nossas falhas, de onde nos desviamos do teu propósito e de quando nos falta fé. Reconhecemos que não merecemos a salvação, não somos dignos e dignas de teu amor. Ainda assim, tu nos acolhes por Jesus Cristo. Pedimos perdão por tantas vezes que caímos na tentação de buscar glória própria, achando-nos melhores do que outras pessoas, julgando e excluindo uns aos outros dentro da comunidade cristã, onde deveríamos viver em comunhão fraterna. Perdão quando somos indiferentes ao teu chamado, quando ouvimos tua voz, mas não respondemos com a prontidão para o serviço. Entregamo-nos em tuas mãos, confiando em teu perdão e tua graça. Amém. Anúncio da graça A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 12.9) – foram as palavras que o apóstolo Paulo ouviu do Senhor. O perdão de Deus se estende a todos e todas que se arrependem. Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Isso vos anuncio em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. A primeira carta do apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2008. SCHNELLE, Udo. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010.
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PRÉDICA: LUCAS 6.17-26 JEREMIAS 17.5-10 1 CORÍNTIOS 15.12-20
6º DOMINGO APÓS EPIFANIA
17 FEV 2019
Samuel Gaussmann
Sermão da baixada: igreja “pé no chão”
1 Introdução: Situando... O conhecido sermão do monte de Mateus tem uma versão diferenciada em Lucas. Nesse, as bem-aventuranças são temperadas com azedos ais, que são necessários para lembrar a igreja de ter os “pés no chão” para caminhar como Cristo entre o povo, compadecendo-se dele e agindo por e com ele. O cenário de uma baixada é simbólico para essa “descida” do discurso teológico para a realidade dos ouvintes. A adesão ou não ao projeto de Deus personificado em Jesus Cristo é que vai situar as pessoas no terreno das bem-aventuranças ou dos ais. Uma relação desse texto com o tempo litúrgico da Epifania é que a partir do discurso e prática de Jesus surge algo novo (Epifania – palavra grega que significa “aparição”). E essa perícope, tão densa em conteúdo, constitui apenas uma introdução ao sermão. O profeta Jeremias teve que denunciar os graves pecados de Israel. No desespero diante do inimigo (rei Nabucodonosor), Israel não se voltou a Deus, mas buscou auxílio na inteligência e força humanas (rei do Egito). O profeta afirma que maldito é o ser humano que confia nos recursos humanos e bendito é o que confia em Deus. É um discurso semelhante ao do evangelista, que aproxima a fala de Jesus a um discurso profético. No trecho da carta paulina, o apóstolo destaca o fato de a fé apurar nossa visão sobre a vida, percebendo que o sentido da vida é maior que a própria vida: Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens (15.19). E isso é tão grandioso que vale tanto para transformar nossa vida no agora (dá sentido e motiva a servir) como nos garante um futuro e, com isso, esperança (ressuscitar como Cristo ressuscitou).
2 Exegese: Chegar mais perto No v. 17 Lucas descreve o cenário no qual Jesus proferiu o de agora em diante denominado “sermão da baixada” – um lugar plano. Jesus está acompanhado de seus discípulos, seguidores e grande multidão. A delimitação “toda a Judeia”, no texto original, também pode ser traduzida por “toda a terra de Israel”. Tiro e Sidom eram cidades que ficavam no litoral norte do mar Mediterrâneo, fora da terra de Israel, e representam que a mensagem do evangelho será anunciada também aos não judeus, como, de fato, acontece no livro de Atos. As multidões
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vieram (v. 18) com interesse em cura e libertação. O problema é que muitos eram curados e libertos, mas não assumiam compromisso com o reino de Deus. “Jesus disse” (v. 20): aqui inicia o “sermão da baixada”, que finaliza no v. 49. O sermão do monte (Mt 5 – 7) tem 107 versículos e o da baixada apenas 30. Esses sermões refletem uma compilação de ensinos curtos de Jesus que já circulavam entre os discípulos e que ambos os evangelistas usaram, conforme o público a que se dirigiam e seus estilos pessoais. Lucas não registra um sermão completo como Mateus; os ensinos paralelos de sua narrativa se devem ao hábito de Jesus de repetir os mesmos conceitos em ocasiões diferentes. Podemos observar ainda que no sermão do monte a subida à montanha representa algo espiritual, pois as montanhas eram lugar de encontro com Deus. Quando consideramos que Mateus escreveu principalmente para leitores judeus que haviam se convertido ao cristianismo, não podemos deixar de notar um paralelo entre Jesus e Moisés. Mateus registra o sermão em um monte porque quer retratar Jesus como um novo Moisés, que faz uma nova entrega da lei divina a um novo povo de Deus que está sendo formado: a igreja. A planície, por sua vez, simboliza o mundo onde acontecem os dramas humanos, e representa a “descida” de Deus em Jesus na realidade humana para anunciar sua mensagem. Nesse sentido, é interessante avaliar ainda a perspectiva do terceiro evangelho sinótico: Marcos. Em Marcos 4, podemos falar de um “sermão do lago/mar”, pois com exceção do seu final (Mc 4.35-41), parábolas são o tema dominante desse capítulo. Qual o significado do lago, do mar? Na apocalíptica, o mar é o lugar de onde surgem as forças monstruosas dos impérios (Dn 7; Ap 13). Na cosmovisão da época, o mundo era plano e no fim do mar havia um abismo com monstros. Em Marcos, Jesus aparece sempre agindo à beira-mar: lá forma suas comunidades, prega a multidões, cura enfermidades e, finalmente, põe o mar sob controle (Mc 4.35-41). Cada evangelista cria seu cenário ideal para impactar a sua mensagem sobre Cristo. Os “ais” contra os ricos e fartos não aparecem no sermão do monte em Mateus, que aborda a pobreza na dimensão espiritual. O tema da desigualdade social tem grande relevância na definição do ethos, do comportamento desejado dos seguidores de Jesus na comunidade lucana dos anos 90. No cântico de Maria (Lc 1.51-53) se desenvolve esse eixo da adesão aos pobres: 1. derrubou do trono os poderosos; 2. exaltou os pobres; 3. saciou os famintos; 4. despediu vazios os ricos. Na língua grega existem duas palavras para “pobre”: penēs, que vive apenas com o necessário; e ptochos, que Lucas usa em seu sermão e significa mendigo, desprovido de qualquer sustento. Ptochos provém do verbo que significa “agachar-se” ou “esconder-se de medo ou vergonha”. Em contrapartida ao significado desse verbo, os ricos são descritos como aqueles que se “levantam” e “se exibem”, confiantes no poder de suas riquezas. Na tradição grega de Jesus, não é usado uma única vez o termo mais ameno (penēs), somente ptochos, o que faz de Jesus um porta-voz dos mendicantes miseráveis. A consolação dos ricos é a sua riqueza, porque é duro para eles deixá-la, como no caso do jovem rico (Lc 18.18-23). A união com Jesus é o fundamento para uma vida plena. Nesse sentido, vale ressaltar que o termo bem-aventurado significa muito mais do que “feliz” (termo usado na Nova Tradução na Lingua-
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gem de Hoje – NTLH). Significa desfrutar do favor de Deus. Ter o favor de Deus não significa não sofrer, mas ter sustento também nos momentos difíceis e saber que até nos sofrimentos Deus está presente. No texto grego usa-se a voz passiva, indicando a intervenção do próprio Deus, revelado por Jesus, em sintonia com o conceito de reino de Deus como situação onde reina o poder de Deus, a ação de Deus. O significado da palavra “ai” na Bíblia está ligado à lamentação e dor, e também pode ter conotação de condenação ou juízo. O Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento assim define essa expressão: “É uma exclamação de dor ou de raiva e deriva de raízes que significam ‘uivar’. Empregado também para expressar desespero (1Sm 4.7), lamentação (1Rs 13.30), insatisfação (Is 1.4); dor (Jr 10.19) ou uma ameaça (Ez 16.23)” (Coenen; Brown, 2003, p. 46). Os pobres e a intervenção de Deus são temas recorrentes na literatura profética de denúncia do pecado e anúncio da graça. Ao colocar nas bem-aventuranças uma contraposição com os ais, Lucas transita do gênero sapiencial, que é típico das bem-aventuranças, para o profético, demonstrando com clareza um perfil de Jesus profeta. O advérbio “agora” sinaliza a mudança que surge com o reino, já presente na pessoa de Cristo. Na quarta bem-aventurança há algo distinto: aparece a conjunção “quando”. Com isso se demonstra que todas as vezes que os discípulos de Jesus passarem por perseguição, devem manter a confiança alegre, e não o medo. No último ai também aparece a conjunção quando.
3 Meditação: A mudança que precisamos ser! Em relação à transmissão dos ditos de Jesus das bem-aventuranças, percebemos que Lucas apimenta o material original a que teve acesso. Isso é muito importante para que não se perca o específico de Lucas, pois o texto de Mateus é muito mais conhecido pelas comunidades, e na pregação o “ponto de partida” dos ouvintes será o sermão do monte de Mateus, com os pobres “de espírito” e não com os pobres “de verdade”, que estão nas ruas ao redor de nossos templos. O paradoxo é recurso comum em Lucas e indica uma ênfase desse autor: a força transformadora da mensagem de Cristo. Destacando o específico de Lucas convém aprofundar os “ais”. Os “ais” de Lucas nos transmitem a incisiva mensagem de que o projeto do reino de Deus não tolera o consumismo. O ser humano é parte da criação, uma engrenagem que deve administrar e preservar o bem da criação. No entanto, a engrenagem da humanidade é que está emperrando o bom funcionamento da criação divina e cada vez mais a está destruindo. O discurso de Jesus é um alerta para que a escala de valores seja revista, que a exploração das pessoas e da criação vão nos levar à ruína. É revolucionário trazer um discurso em que os pobres, os famintos e os que choram são bem-aventurados, são dignos perante os olhos de Deus. Os pobres de antigamente e de hoje só ouvem o discurso de que não são dignos, são desgraçados e nada vai mudar sua sorte. A fé cristã é um meio de empoderar as pessoas para uma luta pela igualdade social. E essa luta vai gerar conflitos, tanto que Jesus menciona que os que agirem de acordo com os valores do reino serão odiados e perseguidos como foram todas as pessoas engajadas pelo reino de Deus. Percebemos isso no v. 23 quando Jesus denota a
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gravidade da situação e remete para a vida eterna a plenitude da causa. Nosso compromisso é agora com os que sofrem e a criação ameaçada, a vitória já a temos pela cruz de Cristo, mas a plenitude da bem-aventurança será na eternidade. No primeiro lamento de advertência (v. 24), Jesus fala para aquelas pessoas que têm riquezas e/ou são apegadas a elas. Uma palavra me chamou a atenção: consolação. Conforme a tradução de Almeida, esse termo pode ser uma chave de interpretação. É como se Jesus dissesse: “Lamento muito por vocês que são ricos e que têm encontrado nas riquezas o consolo de suas vidas”. Pode parecer até estranho falar de buscar consolo no atual cenário da igreja cristã, sobretudo nas inúmeras igrejas propagadoras da teologia da prosperidade. Afinal, os “profetas” do sucesso estão nos programas de TV anunciando que crente fiel não sofre, não adoece, não perde o emprego e não passa por qualquer outra dificuldade. Basta apertar a campainha e o Deus garçom vem atender seus pedidos. No entanto, precisamos constatar: somos submetidos a tantos sofrimentos e estamos tão aquém do ideal de Deus para nós, que todos, sem exceção, precisamos ser consolados. Aliás, aqueles que acham que não precisam de consolo são os que mais precisam! Quando alguém perde o emprego precisa de consolo. A experiência de procurar, como ganhar o pão de cada dia para sustentar a família e não conseguir é um corrosivo danoso para a autoestima. Quando se é vítima da violência urbana, precisa-se de consolo. Quantos casos desses conhecemos perto de nós? A violência não faz curva em nossas comunidades. Quando nos sentimos inadequados e não nos encaixamos em nenhum perfil, precisamos de consolo. Jesus deixou um alerta sobre onde estamos buscando consolo. Onde você tem buscado consolo para enfrentar as dificuldades da vida? Naquilo que você possui ou na esperança de possuir algo? Nos seus filhos? Nas drogas lícitas ou ilícitas? No sono? No trabalho duro? Nos estudos intensos? Tenha algo bem claro diante dos olhos: suas posses podem ser roubadas, seus filhos podem não realizar seus sonhos, o efeito das drogas passa e deixa um vazio ainda maior. Depois de uma tarde de sono, o mundo continuará lá. Depois de 12 horas de trabalho, seus medos ainda estarão esperando por você. Um dia você se arrependerá de ter investido tantas horas em estudo e desperdiçado a convivência com as pessoas que amam você. Aprofundar a busca por consolo evita enveredarmos pelo caminho de que os ricos são maus apenas por serem ricos e os pobres bonzinhos apenas por serem pobres. O texto de Lucas não permite uma rotulação superficial, mas um desnudamento das intenções e ações.
4 Imagens para a prédica: Igreja junto do povo Assim como Jesus desceu até o povo, cada qual deve descer ao contexto de sua comunidade e perceber em quais aspectos é possível reunir, mobilizar, conscientizar, empoderar. Em muitos contextos a IECLB parece estar numa bolha, flutuando em “espaço paralelo”: ela não está no “topo do monte” (não congrega multidões nem arrecada milhões), mas ainda não chegou às baixadas. A diaconia seria uma maneira de “estourar a bolha” e viabilizar ser igreja “pé no chão”. Enfatizando nossa
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dimensão diaconal, vamos descer à realidade do povo e traduzir o evangelho em ações. Quais trabalhos diaconais estão sendo realizados em seu contexto? É oportuno distinguir entre assistencialismo e diaconia, esclarecendo esse conceito teológico a partir da prática de Jesus. Nenhuma ação divulga tanto o nome e o jeito da igreja luterana como a ação diaconal. Fazer placas com o conhecido sinal do curtir das redes sociais e espalhar pelo templo. Questionar: o que curtimos em nossa comunidade? Depois de curtir, provoque o agir! Somos rápidos em curtir e lentos em agir. Mesmo que os “ais” doam nos ouvidos e as bem-aventuranças nos questionem, é isso que abre a mente para uma ação transformada e transformadora. Podem ser confeccionadas ainda outras placas (no estilo das usadas em festas de casamento), com as seguintes frases: • Eu ajudo. • Eu contribuo. • Partiu viver o sermão. • #Jesusmedesafia. • O sermão da baixada me levanta do sofá. • Diaconia: eu pratico! • Conhece? Eu te explico. • Cada dia melhor pela fé. • Pela fé te vejo como irmão. • Ai de mim se não vivo o que eu digo.
5 Subsídios litúrgicos: Bem-aventurados sois! Explorar o cântico de Maria (Lc 1.51-53): leitura bíblica, cantado (HPD 307) ou declamado, e também Jeremias 17.5-10. Kyrie
Tem piedade, Senhor, porque buscamos consolo naquilo que é ilusório, buscamos segurança naquilo que é transitório. Tem piedade de nossa gente maltratada, explorada e marginalizada. Faze-nos ouvir tuas bem-aventuranças, encontrar motivos para não desistir e forças para lutar. Tem piedade de nossa gente enganada e manipulada, que tem bolsos cheios, consciência turva e coração congelado; faze-os ouvir teus ais para se converter, se transformar e encontrar em ti a segurança e o sossego que procuram. Tem piedade, Senhor! Bem-aventurados os que clamam e buscam por ti! “Não é porque as coisas são difíceis que não nos arriscamos; é porque não nos arriscamos que elas se tornam difíceis.” (Sêneca)
Bibliografia COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2003. SOUZA, Fernando Figueiredo de. Mendigos e ricos nas palavras de Jesus segundo Lucas: uma análise de Lucas 6.20-26. 2012. Tese (Mestrado em Ciências da Religião) – PUC, São Paulo, 2012.
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7º DOMINGO APÓS EPIFANIA
24 FEV 2019
PRÉDICA: GÊNESIS 45.3-11,15 LUCAS 6.27-38 1 CORÍNTIOS 15.35-38,42-50
Léo Zeno Konzen
A vida e os caminhos de morte
1 Introdução
Duas experiências perpassam as leituras bíblicas deste domingo: “Deus escreve reto por linhas tortas” e o apelo para que nos tornemos semelhantes ao próprio Deus. A primeira experiência poderia ser chamada com outro nome. Ela expressa a convicção bíblica, judaica e cristã, de que “há males que vêm para o bem” e de que Deus pode transformar pecados humanos em fonte de vida, podendo inclusive transfigurar nossa condição humana pela ressurreição. Que nome daríamos a essa experiência? Receba o nome que receber, essa experiência está no centro da leitura do Gênesis, que tomamos como referência para a prédica de hoje: o pecado ou o crime dos irmãos de José de vendê-lo a mercadores que o levaram para o Egito, Deus o transforma em fonte de salvação e de vida para o pai deles e para suas famílias. Por outro lado, na Primeira Carta aos Coríntios Paulo reflete sobre a experiência da ressurreição pela qual Deus transforma nossa pobre condição humana, transfigurando-a a maneira da semente que morre como tal, mas se transforma em planta. A experiência que está no centro do culto de hoje recebe um complemento importante com outra. No Evangelho de Lucas, Jesus propõe o desafio de nos tornarmos generosos, misericordiosos ou perfeitos como é nosso Pai celestial. Esse desafio já se encontra no relato de Gênesis: José supera os sentimentos de vingança e vê no mal que os irmãos lhe fizeram uma misteriosa ação de Deus para tornar-se, posteriormente, salvador daqueles que, de certa forma, o mataram.
2 Exegese O texto de Gênesis 45.3-11,15 é uma pérola encontrada numa mina de pedras preciosas. O livro de Gênesis, com seus 50 capítulos, apresenta riquezas amadurecidas ao longo de séculos, integrando contribuições de diversas tendências teológicas e sedimentando experiências vividas ao longo da caminhada. Não pretende ser um livro científico ou de história contada objetivamente, mas uma espécie de coletânea organizada de relatos que sustentariam a fé e a vida das pessoas, das famílias e do povo inteiro.
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Na coletânea de relatos, encontram-se inicialmente os capítulos 1 a 11, que fixam seu olhar para aquém do início do povo da Bíblia. Ao narrarem as origens do universo e da humanidade, projetam para trás a riqueza da luz que a fé no Deus da libertação produzia nos seus olhos, na sua inteligência e no seu coração. A seguir, o livro evoca os personagens que marcaram as origens do povo que se considera eleito: Abraão (cap. 12 a 25), depois Isaque, Esaú e Jacó (26 a 36) e José (37 a 50). É nesse último bloco que se encontra o texto da meditação de hoje (45.3-11,15). José era um dos doze filhos de Jacó (também chamado Israel, o que é um dos indícios de que o relato integra tradições diferentes). Ele e Benjamim eram filhos de Jacó com Raquel, os demais tinham por mães outras mulheres de Jacó. José contava com uma especial predileção de seu pai, o que gerou a rejeição por parte de seus irmãos. Enquanto os outros filhos de Jacó pastoreavam em terras distantes, o pai lhes enviou José a fim de obter notícias. Para se livrar do incômodo irmão, jogaram-no numa cisterna e só não o mataram porque Rubem os convenceu a terem bom senso. Porém, sem o conhecimento e sob posterior protesto de Rubem, venderam José a uma caravana de comerciantes midianitas, que o levaram ao Egito. No Egito, José conquistou logo a confiança da corte do Faraó e passou a ocupar alto cargo. Teve de passar, no entanto, um tempo na prisão, por falsas acusações. Foi libertado por ter interpretado corretamente os sonhos do Faraó, por meio dos quais Deus revelava a chegada de dois períodos de sete anos, um de grande abundância (representado por vacas gordas) e outro de extrema carestia (vacas magras). Com essa revelação, o Egito poderia preparar-se durante os primeiros sete anos para enfrentar os posteriores, que seriam de extremas dificuldades. E José foi constituído administrador da política adequada para essa situação. O período das sete “vacas magras” atingiu também a terra onde vivia Jacó. Tendo sabido que no Egito havia provisões, o pai enviou seus filhos para comprarem mantimentos. No encontro com os irmãos, José os reconheceu, mas eles não perceberam que estavam diante daquele que tinham vendido. José inicialmente foi duro e exigente com os irmãos. Exigiu, inclusive, que buscassem Benjamim, que havia ficado com o pai. No retorno, com a presença de Benjamim, a “novela” cresce em dramaticidade. José faz de conta que vai reter e prender Benjamim, o que provoca um longo e desesperado apelo de Judá, que culmina com a oferta de si mesmo como escravo no lugar de Benjamim. É nesse contexto de dolorosas emoções que José não se conteve mais e se revelou a seus irmãos. Nosso texto apresenta justamente o momento dessa revelação dramática. Para manifestar-se, José pediu que todos os seus servos egípcios se retirassem e, em seguida, em meio a copioso pranto que podia ser ouvido de longe, deu-se a conhecer (45.1-2). Os v. 3-4 apresentam as palavras iniciais dessa revelação: Eu sou José. Meu pai ainda vive? Chegai perto de mim. Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes no Egito. As palavras de José causam total perplexidade nos irmãos. Até aqui, eles poderiam imaginar uma tremenda vingança do irmão. Por isso “tremiam diante dele” e não conseguiam responder nada.
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A surpresa começa com as palavras que José pronunciou em seguida. Ele pediu a seus irmãos que não se afligissem e não se atormentassem por aquilo que haviam feito com ele no passado. E disse o motivo dessa postura estranha: por contraditório que pudesse parecer, foi Deus quem o havia enviado ao Egito antes deles para preparar-lhes o sustento na carestia e salvar-lhes a vida: [...] não fostes vós que me enviastes aqui, mas Deus. Mesmo lembrando aos irmãos que foram eles que o venderam no Egito, não lhes levou em conta o seu pecado ou crime, porque viu a mão de Deus agindo misteriosamente nesse fato do passado. Por linhas tortas Deus havia escrito reto. Deus havia transformado o pecado em fonte de graça. Essa “teologia de José” trazia consigo também a superação da violência ou da vingança, ou seja, gerou nele o perdão aos irmãos pelo crime cometido. Ele até ajudou os irmãos a superarem o sentimento de culpa, pedindo que não se afligissem nem se atormentassem pelo fato de o terem vendido. O que terá provocado em José esse perdão e essa exortação para superarem o sentimento de culpa? O texto não tematiza isso, mas dá a entender que foi justamente a percepção de que Deus havia transformado o pecado em graça, a morte em vida e o crime em caminho de sobrevivência. Passo seguinte foi encarregar os irmãos de buscarem apressadamente o pai com toda a sua família e seus rebanhos. O filho, agora poderoso administrador no Egito, garantiria um espaço de vida para todos eles, não lhes deixando faltar nada. A perícope que nos ocupa termina com a comovente cena de José beijando e cobrindo de lágrimas todos os irmãos. E os apresenta, agora, conversando com ele. A reconciliação havia prevalecido, no contexto dos misteriosos desígnios de Deus.
3 Meditação O bom senso e a sabedoria que nos vêm do Espírito de Deus nos recomendam prudência no falar, principalmente quando se trata de Deus, de sua vontade ou de seus projetos. Não convém atribuir a Deus tudo o que acontece em nossa vida pessoal e na sociedade. Muitas vezes, é mais sábio calar do que falar. Outras vezes, é preciso abrir a boca e denunciar maquinações e práticas que prejudicam e até destroem a vida de irmãos e irmãs. Crimes, irresponsabilidades e violências não podem ser contabilizados como vontade de Deus. No entanto, a mesma sabedoria e o mesmo bom senso que procedem de nossa fé cristã não põem limites à ação divina em nossa vida e na história da humanidade. Embora habitualmente Deus aja por meio da coerência humana com as sábias orientações de sua palavra, ele pode transformar males em fontes de vida. Ele pode tirar vida nova da morte. Ele pode “escrever reto por linhas tortas”. É o que vemos no episódio bíblico de José, vítima de um horrendo crime de seus irmãos. Pela lógica da teologia da retribuição, os irmãos só teriam castigos divinos a esperar. Porém as más intenções e os atos violentos se converteram nas mãos de Deus em caminho de salvação para eles mesmos e para toda a parentela. Esse não é único caso do gênero que a Bíblia apresenta. O exílio na Babilônia é talvez o grande evento da história do povo de Israel no qual Deus transforma
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uma enorme tragédia em momento de grande crescimento. Com efeito, o exílio foi um período de intensa reflexão e produção teológica, que originou muitos textos novos e proporcionou amplas releituras daqueles que já faziam parte do patrimônio cultural do povo. A cruz de Jesus é o exemplo mais contundente: o crime da prisão injusta, da tortura e da morte violenta numa cruz escandaliza qualquer pessoa de bom senso. Como poderia haver positividade nisso? Como poderia Deus fazer desse pecado uma fonte de graça, inclusive para quem praticou o crime? Paulo é outro personagem que entra nessa lista de surpresas: seu zelo, que chega ao fanatismo, o faz perseguir, prender e consentir com a morte de seguidores de Jesus. Como poderia Deus se valer de uma pessoa desse quilate para transformá-lo em missionário ardoroso de Jesus e do seu evangelho? Os exemplos poderiam ser multiplicados. Mais do que fazer isso, poderíamos relacionar agora esse tema com o da ressurreição e da misericórdia ou generosidade, propostos pelas outras leituras deste domingo. A fé na nossa ressurreição também vai na contramão da lógica humana, pois a morte parece ser o mal maior, diante do qual não há o que fazer. Já não se trata do mal do pecado ou de algum crime, mas da barreira da limitação humana: somos mortais. Porém nossa fé afirma convictamente que Deus supera essa barreira, ele transforma esse mal em bem maior. Pela ressurreição, de sementes corruptíveis nos transformamos em seres incorruptíveis. A generosidade e a misericórdia para com os que nos fazem mal – para não falar de inimigos – é outro tema da sabedoria, que é fruto do Espírito de Deus em nós. Sua prática também supera a cultura da retribuição baseada no mérito e na culpa. Para amar os inimigos e fazer o bem aos que nos prejudicam, é preciso estar em profunda sintonia com Deus, que é rico em misericórdia e “faz chover” sobre justos e injustos. José, vendido pelos irmãos, parece ter assimilado isso, pois não somente perdoou, como também pôs a serviço sua condição que Deus lhe proporcionou “escrevendo reto por linhas tortas”. A reflexão nos conduz aos nossos tempos. Um exemplo de um “José” talvez tenha sido Nelson Mandela, que passou anos na prisão e depois se tornou um extraordinário estadista, promoveu políticas não de vinganças contra seus perseguidores, mas de integração nacional e de construção de uma pátria solidária. Concluindo essa meditação, voltamos ao seu início: não podemos nos alegrar com injustiças, sob a alegação de que Deus vai transformar isso em fonte de vida. Ele pode até fazer isso, mas deixemos isso para ele... Deveremos continuar sendo profetas que anunciam e denunciam, missionários e missionárias que propõem práticas de justiça, solidariedade e fraternidade, e questionam a exploração e a exclusão. Mas precisamos também manter as portas e janelas abertas para que Deus transforme situações de pecado e de morte em fontes de vida. Isso permite que não desesperemos em meio aos graves problemas que nos envolvem na vida pessoal, comunitária e social.
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4 Imagens para a prédica Expressões como “Deus escreve reto por linhas tortas” e “há males que vêm para o bem” podem ser proveitosas na prédica. Mas precisam ser contextualizadas, para não induzirem a simplificações injustificáveis. O próprio relato bíblico de José no Egito é uma imagem dessa teologia. Sementes, para se tornarem plantas, precisam passar pelo mal da morte. Essa imagem pode auxiliar na reflexão sobre Deus como misterioso condutor de nossa história, como também sobre nossa ressurreição. Deus é providente, ele encaminha as coisas para o bem de seus filhos e suas filhas. Porém não podemos banalizar essa convicção com nossa irresponsabilidade. Outra afirmação bíblica que pode servir de imagem é: “Para Deus nada é impossível”. Tentar a Deus, exigindo dele milagres ou provas, é certamente condenável. Mas desacreditar em sua força transformadora também não é coerente com nossa fé cristã. De males praticados por nós Deus pode tirar bens. Ele pode transformar o pecado em fonte de graça. Da morte ele pode tirar vida. Quem é ou pode ser igual a Deus? Essa sábia interrogação também previne contra falsas ambições e contra prepotências humanas. No entanto, na “novela” de José no Egito, José revela ter assimilado o modo de ser de Deus. Manifestou ter aprendido aquilo que Jesus propõe no evangelho previsto para este domingo: Sede misericordiosos [ou generosos, perfeitos] como vosso Pai. Assimilar o modo de ser de Deus, eis o chamamento que nos é feito em nosso batismo!
5 Subsídios litúrgicos No culto, pode-se fazer pedidos de perdão, tais como: a) Nós confessamos, Senhor, nossas traições a nossos irmãos e nossas irmãs, jogando-os ou permitindo que sejam jogados na desgraça. Perdão, Senhor! b) Nós confessamos, Senhor, nossa falta de confiança na tua amorosa providência, nos momentos de dificuldades e crises. Perdão, Senhor! c) Nós confessamos, Senhor, nossa dificuldade em perdoar aqueles que nos prejudicam ou nos fazem o mal. Perdão, Senhor! Pode ser aproveitada, também, a preciosa oração de Francisco de Assis, que pede para sermos transformados em instrumentos da paz e manifesta o desejo profundo de agirmos no espírito da misericórdia de Deus e de sua surpreendente providência. Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade.
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Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna. Um abraço fraterno entre os participantes do culto, em momento apropriado, pode ser motivado para evocar o abraço e o beijo de José a seus irmãos, na leitura bíblica de hoje.
Bibliografia BÍBLIA. Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994. BONORA, Antônio. A fraternidade que salva: Gênesis 37-50. São Paulo: Paulinas, 1987.
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ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
03 MAR 2019
PRÉDICA: LUCAS 9.28-36(37-43) ÊXODO 34.29-35 2 CORÍNTIOS 3.12 – 4.2
Marcelo Jung
Caminhar para a cruz com o olhar para além da cruz
1 Introdução Epifania é um tempo em que a igreja lembra, de modo especial e proposital, a revelação de Deus em Jesus Cristo. Em Jesus Cristo Deus veio ao mundo e se tornou humano. Em Jesus Cristo Deus se manifesta e nos deixa conhecer quem ele é. O texto previsto para a prédica e as leituras bíblicas têm como tema comum conteúdos da revelação de Deus. A marca textual dessa relação é a menção do rosto resplandecente. Êxodo 34.29-35 menciona o rosto resplandecente de Moisés, reflexo da glória de Deus, quando desceu do monte Sinai trazendo, pela segunda vez, as tábuas dos mandamentos, o que servirá de referência para os discípulos entenderem o evento da transfiguração de Jesus, relatada em Lucas 9.28-36. Em 2 Coríntios 3.12 – 4.2 (ler até o v. 6), Paulo argumenta que a glória de Deus não resplandece nos corações dos cristãos por meio da face de Moisés (da lei), e sim da face de Cristo (o seu evangelho), o qual traz liberdade e transformação dos cristãos na imagem de Jesus; e vem a ser um desdobramento do que está no contexto da transfiguração e revelação de que os discípulos trilharão caminho semelhante ao de Jesus – serão, nesse caminho, a sua imagem. Combinando com o Último Domingo após Epifania, a revelação de Jesus dada na sua transfiguração é a última antes do caminho para Jerusalém; é a última estação antes do caminho da cruz. Os v. 37-43 do capítulo 9 de Lucas estão indicados como possibilidade para a pregação, mas neste estudo opta-se por delimitar o fim da perícope no v. 36.
2 Exegese A perícope inicia com a exigência de que se observem os acontecimentos relatados anteriormente, cerca de oito dias depois de proferidas estas palavras. As palavras proferidas são as de Jesus após a confissão de Pedro a respeito de quem ele é: És o Cristo de Deus (9.20). Pela primeira vez no evangelho, os discípulos testemunharam reconhecer que Jesus é o cumprimento das promessas de Deus (no Antigo Testamento); o ungido (Messias/Cristo) que Deus enviara para restaurar aquilo que se rompeu no Éden, quando Adão e Eva pecaram; a paz e harmonia com Deus, a paz e harmonia do ser humano consigo mesmo, a paz e harmonia entre os seres humanos, a paz e harmonia com a criação de Deus.
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Último Domingo após Epifania
A apreensão dessa revelação (Mt 16.17) de Jesus e sobre Jesus por parte dos discípulos deve tê-los alegrado e provocado expectativas animadoras quanto ao futuro. Mas, imediatamente após a revelação, Jesus advertiu os discípulos para que não espalhassem essa boa notícia e expôs com clareza qual seria o seu caminho como Messias/Cristo de Deus: rejeição, sofrimento, cruz, morte e ressurreição (9.22). A revelação de que Jesus era o Messias/Cristo causou alegria e provocou expectativas positivas quanto ao futuro, mas a revelação sobre o caminho do Cristo causou aos discípulos espanto e escândalo. Nos relatos paralelos, essa reação é bem evidente, Pedro chamou Jesus à parte e expressou uma forte desaprovação ao caminho do Cristo (Mt 16.22; Mc 8.32). E não é difícil de entender essa desaprovação. O caminho da cruz não combinava nem um pouco com a expectativa que o povo de Israel desenvolveu em torno das promessas de Deus quanto à vinda do Messias/Cristo. Esperavam que o Messias/Cristo “seria um chefe político ou um rei justo e vitorioso da dinastia de Davi, alguém que viria para libertar Israel de seus opressores estrangeiros, derrotaria todos os seus inimigos e estabeleceria um império universal com a capital em Jerusalém” (Bíblia de Estudos Almeida, dicionário, p. 70). E como se não bastasse, Jesus ainda revela que o caminho de seus discípulos não seria diferente do seu: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me (9.23-27). Os discípulos haviam recebido duas revelações bombásticas. Podiam comemorar jubilosos: “Finalmente Deus enviou o Messias/Cristo; finalmente chegou o tempo tão esperado da restauração de todas as coisas!”. Ao mesmo tempo, tiveram que se ocupar com algo que não podiam entender: “Como assim? O Messias/Cristo de Deus, não trará o seu reinado por meio de poder e glória, mas por meio de humilhação e cruz? Não é possível!”. Isso lhes deve ter causado dúvidas: “Será que esse Jesus é realmente o Messias/Cristo de Deus? Vale a pena segui-lo?”. Neste contexto, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago, e por meio deles auxiliou seus discípulos com uma nova revelação a respeito de sua pessoa. Todo o relato da transfiguração (v. 28-36) está marcado com referências e relações com a revelação de Deus no Antigo Testamento. Vejamos: – Subiu ao monte: Para o povo de Israel, o monte era o local de importantes revelações de Deus. Num monte, Deus se revelou a Moisés e o chamou para libertar o povo de Israel da escravidão no Egito (Êx 3.1); se encontrou com o povo de Israel depois da libertação e fez com ele a sua aliança (Êx 19.2; Dt 4.11ss); deu ao povo os seus mandamentos (Êx 20.1ss; 34.29); livrou Israel da idolatria nos tempos do profeta Elias (1Rs 18.20ss); se revelou a Elias e o restaurou (Êx 19.1ss). – O seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram: Quando Moisés retornou do monte Sinai, trazendo pela segunda vez as tábuas do Testemunho, seu rosto resplandecia como reflexo da glória de Deus (Êx 34.29ss). – Moisés e Elias: Representam para Israel o início e o meio de sua história; representam a lei e os profetas; estão relacionados a promessas quanto à vinda do Messias (Dt 18.15; Ml 4.5-6).
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– Glória: Faz parte da manifestação de Deus no contexto da libertação de Israel da escravidão do Egito e da aliança de Deus com Israel (Êx 16.10; 24.16). – Nuvem: Assim como a glória, é sinal evidente da presença de Deus (Êx 13.21; 16.10; 19.9,16; 24.28; 40.34; Nm 9.15; 12.5 e outros). – Voz vinda da nuvem: Mais um sinal da presença de Deus (Êx 19.9). Essas referências e relações indicam a razão do evento da transfiguração. Os discípulos precisavam de uma revelação: 1) que os ajudasse a crer que Jesus era, de fato, o Messias/Cristo de Deus, apesar do que lhe aconteceria em Jerusalém; 2) e que os ajudasse a permanecer fiéis no discipulado, mesmo sabendo que o discipulado de Jesus os levaria pelo mesmo caminho da cruz. Por isso Jesus lhes dá uma demonstração da sua glória na eternidade; lhes dá a certeza de que depois da cruz viria a glória. Dois detalhes exegéticos ainda precisam ser observados: 1) na conversa de Moisés e Elias com Jesus, cujo conteúdo era a respeito de sua partida, o termo utilizado é exodos, uma ampliação metafórica da palavra usada para descrever a saída de Israel da escravidão do Egito (Hb 11.22), o que estabelece mais uma relação com a presença e manifestação salvadora e libertadora de Deus em Jesus Cristo; 2) ao final da transfiguração, que revelou Jesus como o próprio Deus, o que sobrou foi a orientação da voz que disse este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi. Depois daquela manifestação os discípulos teriam apenas a palavra do Filho eleito para os amparar, consolar, fortalecer e guiar.
3 Meditação A revelação ocorrida na transfiguração deu aos discípulos clareza e certeza quanto à divindade de Jesus Cristo. Jesus é, de fato, o Filho de Deus – é o Deus encarnado que veio ao mundo trazer salvação. Por estarmos no tempo de Epifania, a sugestão é nos aproximarmos do texto com a pergunta: por que Jesus se revelou desse modo aos seus discípulos? Temos duas respostas básicas para isso. 1. Para que tivessem certeza de que ele era verdadeiramente o Filho de Deus! A transfiguração aconteceu muito próxima aos dias em que Jesus foi rejeitado, preso, condenado, crucificado, morto e ressuscitou ao terceiro dia. Pouco antes da transfiguração, os discípulos tinham finalmente reconhecido que Jesus era de fato o Filho de Deus (9.18-20). Jesus havia perguntado aos discípulos: Quem o povo diz que eu sou? E depois das respostas, Jesus perguntou: Quem vocês dizem que eu sou? Pedro, em nome dos demais discípulos, fez a importante confissão: Tu és o Messias que Deus enviou. Tendo verificado que os discípulos tinham reconhecido quem ele era, Jesus apresentou outra importante verdade sobre sua pessoa: O Filho do Homem terá de sofrer muito. Ele será rejeitado pelos líderes judeus, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da Lei. Será morto e, no terceiro dia, será ressuscitado (9.22). Para os discípulos, isso foi um choque. As duas coisas não combinavam. O Messias/Cristo deveria vir para restaurar o que se perdeu no Éden – a paz com Deus, a paz do ser humano consigo, a paz entre os seres humanos e a paz com
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a criação. O Messias/Cristo deveria vir para trazer o céu! E não para sofrer, ser rejeitado e ser morto! Jesus sabia que o caminho que tomaria traria aos discípulos sérias dúvidas: “Será que Jesus era mesmo o Messias de Deus?”. Para auxiliar os discípulos diante dessa dúvida e tentação, Jesus lhes concedeu mais uma revelação: apareceu transfigurado diante de Pedro, Tiago e João! Na transfiguração, revelou sinais evidentes da presença de Deus (cf. acima); revelou sua glória eterna. Os discípulos precisavam da certeza de que Jesus não era apenas mais um profeta rejeitado pelo povo de Israel, apenas mais um morto crucificado pelos romanos. Precisavam da certeza de que aquele crucificado não era apenas uma pessoa importante, digno de ser lembrado e imitado, mas era o Filho de Deus que veio trazer perdão dos pecados e reconciliação com Deus por meio de sua morte na cruz. Veio trazer o céu na sua morte e ressurreição. Essa revelação, da qual temos testemunho no relato, quer nos dar a certeza de que Jesus não foi apenas um grande personagem histórico que deixou muitos ensinamentos e um bom exemplo a seguir. Ele é verdadeiramente o Filho de Deus que entrou na história para nos reconciliar com Deus. Isso nos faz perceber que Jesus não quer, em primeiro lugar, que olhemos para suas ordens e nos coloquemos a cumpri-las; não quer, em primeiro lugar, consertar nossa vida com preceitos morais; não quer que o tomemos como um exemplo ou modelo para impulsionar ideologias políticas, sociais e humanitárias. Antes, quer que o reconheçamos como Filho de Deus, que nasceu, morreu e ressuscitou para a nossa salvação; para nos dar paz com Deus. Dessa paz brota a busca por seguir suas ordens e seu exemplo; brota o desejo de que ele molde nosso caráter, relacionamentos, planos e toda a vida. Jesus quer que o reconheçamos como Filho de Deus, que veio ao nosso encontro porque Deus nos ama e quer a nossa salvação – a reconciliação com ele. 2. Para que tivéssemos para onde olhar na hora do sofrimento! Jesus sabia que seus discípulos passariam por momentos difíceis. Logo após revelar que seu próprio caminho o levaria para a cruz, Jesus revelou que o caminho de seus discípulos, daqueles que permaneceriam fiéis ao seu chamado, não seria diferente: Se alguém que ser meu seguidor, que esqueça seus próprios interesses, esteja pronto para morrer como eu vou morrer e me acompanhe [...] (9.23). Era uma promessa estranha. Promessa de que os discípulos não viveriam num mar de rosas, triunfantes e vitoriosos, mas, ao contrário, promessa de que, ao segui-lo, seriam odiados, perseguidos, presos e até mortos por causa da fé. A história confirmou essa promessa. Dos três que viram a transfiguração, Pedro e João foram os primeiros a serem presos e ameaçados por causa da fé e do testemunho da salvação em Jesus (At 4.1ss); Tiago foi o primeiro discípulo a sofrer o martírio (At 12.1ss); Pedro, segundo a tradição, foi crucificado; João, por causa do evangelho foi preso e exilado na ilha de Patmos (onde recebeu a revelação de Apocalipse). Também os demais discípulos sofreram coisas semelhantes: ódio, perseguição, tribulações e morte... E o que os fez suportar essas circunstâncias? A lembrança da glória de Jesus vista por Pedro, Tiago e João! Sabiam que nesta vida passariam por coisas terríveis, assim como o Senhor passou, mas,
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como ele, também estariam na glória de Deus por toda a eternidade. Essa revelação de Jesus na transfiguração, que auxiliou os primeiros cristãos, quer auxiliar também os cristãos de hoje. Ainda passamos por momentos difíceis, sofrimentos, lágrimas, tristezas, injustiças, crises, doenças, luto, morte. Pela fé somos filhos e filhas de Deus, mas ainda estamos sujeitos a todas as adversidades que existem em nosso mundo. E mais, no discipulado de Jesus estamos sujeitos à rejeição, perseguição e morte. Também hoje estamos sujeitos à dúvida e à tentação. Será que Jesus era mesmo o Messias/Cristo enviado por Deus? Será que estamos no caminho certo ao segui-lo? Vivemos tempos em que há falsos anúncios em nome de Deus, ensinando que a fé em Cristo significa a eliminação de todo sofrimento e a remoção de todas as dificuldades, ensinando que sofrimento e dificuldades na vida de uma pessoa cristã é sinal de falta de fé. Não é isso que a Escritura afirma. Jesus não prometeu vida fácil a seus discípulos. Ao contrário, prometeu dificuldades. Mas também prometeu estar conosco e não nos abandonar. Jesus não nos prometeu glória nesta vida, mas revelou que a glória virá, com certeza, na eternidade. Isso ajudou os discípulos a suportar toda dificuldade e sofrimento. Na hora da rejeição, do sofrimento, da angústia, da dúvida, da morte voltaram seus olhos para a glória de Jesus e viram nela a promessa da glória reservada aos que lhe pertencem. Isso quer ajudar a cada um de nós hoje. Deus nos dá o testemunho da visão da glória de Jesus para que tenhamos a certeza de que esta vida é marcada pela cruz (cruz é sua presença no mundo e conosco), e tenhamos a mesma certeza de que a vida que virá será marcada pela glória. A transfiguração de Jesus nos ajuda em dois sentidos: 1) protege contra a ilusão de pregações que oferecem que pela fé teremos o “céu na terra” (pelo milagre ou pela revolução) – essa pregação não vem de Jesus; 2) dá firmeza para seguir o mesmo caminho de Jesus, o caminho da cruz. Se seguimos o seu caminho, caminhamos com ele e chegaremos aonde também ele chegou. Na caminhada, ele nos auxilia, fortalece e guia pela sua Palavra.
4 Imagens para a prédica A mensagem central do texto pode ser ilustrada com uma caminhada. Se o que nos aguarda no ponto final da caminhada é algo bom, desejável, certo e seguro, cuidamos para não desviar do caminho e conseguimos suportar as dificuldades do percurso. Saber da glória prometida para a eternidade nos guarda da tentação de querer o “céu na terra” e nos fortalece para suportar a rejeição, a perseguição e a morte por causa de Cristo.
5 Subsídios litúrgicos Liturgia de entrada Hino HPD 1, 39 (Livro de Canto da IECLB, 402): Vem à luz, alegremente. É um hino próprio do tempo de Epifania e convida a enxergar a vida e vivê-la a partir da revelação de Deus em Jesus Cristo.
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Liturgia da palavra Hino HPD 1, 161 (Livro de Canto da IECLB, 614): Em nada ponho a minha fé, senão na graça de Jesus. É um hino de fé e justificação que convida a depositar a fé somente em Jesus Cristo, mesmo que haja outras propostas aparentemente mais atraentes em que se possa depositar a confiança e deixar guiar a vida. Liturgia de saída Hino HPD 1, 210 (Livro de Canto da IECLB, 604): Guia-nos, Jesus, pela tua luz. É um hino de amor a Jesus. Após a pregação desafiante de permanecer no discipulado da cruz, esse hino pode e deve ser a oração da comunidade.
Bibliografia BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudos Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. MORRIS, Leon. Lucas. Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1983.
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QUARTA-FEIRA DE CINZAS
06 MAR 2019
PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.20b – 6.10 JOEL 2.1-2,12-17 MATEUS 6.1-6,16-21
Claiton André Kunz
Agora é o dia da salvação!
1 Introdução Paulo provavelmente escreveu 2 Coríntios a partir da Macedônia em 55/56 d.C. A carta foi escrita para a igreja de Corinto, formada de cristãos gentios, que tinha sido fundada por ele em 49/50 d.C., em sua segunda viagem missionária. Essa igreja era constituída em grande parte por gentios pouco familiarizados com o Antigo Testamento, enquanto seus costumes morais e religiosos eram o oposto dos princípios cristãos. Por isso era preciso muito trabalho e ensino para levá-los à maturidade espiritual (1Co 3.1-3). Corinto era a capital da província da Acaia, cidade portuária aberta ao mundo. Seus moradores eram provenientes de todas as camadas sociais, culturais e religiosas. Antes dessa carta, Paulo já tinha lhes escrito outra, conhecida como a “carta perdida” – 1 Coríntios 5.9. O conteúdo total dessa carta não é nem será totalmente conhecido, visto ela ter se perdido, mas sabe-se, pela própria citação de Paulo, que condenava a prostituição que existia no meio deles. Timóteo leva a primeira carta de Paulo a Corinto com o objetivo de regularizar a situação o quanto antes. Parece que isso não aconteceu. Por isso Paulo viaja para colocar as coisas em ordem. Conclui-se de 2 Coríntios 12.14 e 13.1, onde Paulo anuncia sua terceira viagem a Corinto, que essa tenha sido uma viagem intermediária, mas que Atos não menciona. Essa visita não foi feliz (2Co 2.1ss). Há um incidente lamentável, em que Paulo é injustiçado. Levanta-se forte oposição contra ele (2Co 1.15ss; 3.1; 5.11; 6.3-4; 7.2; 12.16; 10.10s; 11.6; 12.12; 13.3). Aí Paulo lhes escreve uma carta severa, que é chamada de “carta de lágrimas” (2Co 2.3-4; 7.8), que provavelmente, como a primeira, se perdeu. Possivelmente foi Tito quem levou essa carta (2Co 7.14ss) até lá. Tito volta e traz notícias de Corinto, dizendo que a igreja está arrependida (2Co 7.6-16). Mesmo assim, nem todos os problemas tinham sido resolvidos e, por isso, Paulo envia 2 Coríntios, novamente por Tito (2Co 8.16s), e nessa carta anuncia sua terceira visita. Todo aquele que precisa de motivação e novo ânimo para o trabalho vai achá-los nessa carta. Mas Paulo não esconde o fato de que o ministério traz sacrifícios, privações, hostilidades e sofrimentos. 2 Coríntios foi escrita para se defender, não só contra as críticas ocasionais da igreja de Corinto, mas também contra as calúnias e acusações que seus inimigos lhe dirigiam onde quer que pregasse. Especialmente os capítulos 10 a 13 de 2 Coríntios são uma defesa de sua autoridade apostólica.
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2 Exegese Algumas observações exegéticas do texto de 2 Coríntios 5.20b – 6.10: V. 20: A palavra grega presbeuō significa ser embaixador, desempenhar o ofício de embaixador; era a palavra regular no grego para o legado do imperador. V. 21: A expressão “ele foi feito pecado” pode referir-se ao servo sofredor de Isaías 53, com a ideia do sacrifício estando proeminente. Deus colocou nossos pecados sobre Jesus sem pecado e, como nosso substituto, Deus o puniu com a morte. A expressão “para que nele nos tornássemos justiça de Deus” relaciona a justificação com o “estar nele (em Cristo)”. A justiça está em Cristo e não em nós. Não é uma virtude que adquirimos mediante a conversão. É um estado de relacionamento com Deus através de Cristo. Estar em Cristo é a condição única e definitiva para o julgamento da pessoa. V. 1: A palavra synergountes significa trabalhar com alguém, cooperar. Robertson afirma que pode ter a ideia de “ser sócio com Deus”. “Deus é o principal sócio na empresa de cada vida, mas ele nos permite trabalhar com ele” (1Co 3.9). Paulo exorta os coríntios a não receber a graça de Deus em vão, ou seja, a não mostrar, pelo comportamento, que o que eles aceitaram não teve nenhum fruto. Paulo não estava preocupado se eles poderiam perder a salvação, mas a preocupação é se eles não desenvolveriam corretamente o ministério de reconciliação que lhes fora outorgado (2Co 5.18). V. 2: A palavra dektos é um adjetivo verbal que significa aceitável, favorável, propício ou oportuno. Mais adiante, Paulo utiliza kairos euprosdektos, que significa: facilmente aceitável, agradável. Usado para um tempo que é favorável para fazer com que a graça de Deus frutifique. Quando o apóstolo usa a expressão “dia da salvação”, o genitivo da frase pode ser de direção ou propósito, ou seja, “um dia para a salvação”, “um dia para a proclamação da salvação”. Pode se referir então ao cumprimento do ministério da reconciliação, mencionado em 2 Coríntios 5.18. V. 3: Para dizer que não devemos dar motivo de escândalo, é usado um advérbio de negação enfático (mēdemian), que transmite o sentido de “não (dando escândalo) de forma nenhuma”. A expressão proskopē (motivo de tropeço) aparece somente aqui no Novo Testamento, e significa “uma ocasião para tropeçar, fazer alguma coisa que leva outros a tropeçar, escândalo, ofensa”. Indica o ato de impedir os pés de uma pessoa, fazendo-a cair. Para afirmar que o ministério não caia em descrédito, usa a palavra mōmēthē, que traz a ideia de “achar defeito, achar falta ou falha em alguém”. A palavra frequentemente implica ridículo e vergonha, desgraça e seu resultado. V. 4: A expressão theou diakonoi, “como ministros de Deus”, está no nominativo e significa “como servos de Deus recomendamos a nós mesmos”. A palavra enfatiza o serviço pessoal prestado a outra pessoa. V. 5: Paulo utiliza a palavra akatastasia para “tumultos, desordens”; a ideia é de instabilidade, frequentemente causada devido a questões políticas, ou seja, perigos criados pelas pessoas. Para trabalhos árduos, o apóstolo usa a palavra ko-
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pos, que além de labor ou labuta, traz a ideia de trabalhar até fatigar-se, o cansaço que segue após o uso das forças ao máximo. V. 6: A palavra usada para paciência, neste verso, é makrothymia, que também tem a ideia de longanimidade. Descreve o espírito firme que nunca desiste, que pode suportar atrasos e aguentar o sofrimento; e é usado a respeito da paciência de Deus para com os seres humanos pecadores e da atitude que as pessoas cristãs devem mostrar. Refere-se a uma demorada reflexão mental antes de dar lugar aos sentimentos e à ação (geralmente à paixão ou ira). V. 7: Quando Paulo fala das armas da justiça, usa a expressão ton dexiōn kai aristerōn (da direita e da esquerda, ou para a mão direita e para a mão esquerda). Refere-se às armas ofensivas e defensivas, sendo que o escudo era carregado sempre na mão esquerda. V. 8: O termo utilizado para enganador é planoi, e pode significar também errante, vagabundo e impostor. Foi usado em relação a Cristo, em João 7.12, com a ideia de fazer errar e extraviar. V. 9: “Como desconhecidos” vem do termo grego agnoumenoi. Refere-se a “não valer nada”, sem as credenciais adequadas. Eles não recebiam reconhecimento do mundo de seu tempo, porque o mundo, a política e a erudição não se preocupavam com eles e não fazia deles fontes de conversas diárias, nem os procurava como grandes oradores. Como contraposição, Paulo usa epiginōskomenoi (reconhecidos). Eles recebiam seu reconhecimento de Deus e, esperançosamente, dos próprios cristãos coríntios. V. 10: Para pobres, o autor usa ptochos, com a ideia de extremamente pobres, miseráveis, indigentes ou destituídos. Descreve a pobreza abjeta de quem não tem, literalmente, nada e que está num perigo real e iminente de morrer de fome.
3 Meditação Muitas pessoas em nossos dias (muitas vezes inclusive nós mesmos) têm a tendência de postergar uma série de decisões, tarefas e demandas que deveriam ser resolvidas. Muitos pensam: “Por que fazer hoje, se podemos deixar para amanhã?”. Faz-se isso não somente com as coisas rotineiras do dia a dia, mas também e, às vezes, especialmente com as coisas espirituais. Em contraste a isso, Paulo fala de um tempo favorável, de um momento especial, e chega a afirmar categoricamente: Agora é o dia da salvação (2Co 6.2). As pessoas não poderiam e não deveriam deixar para mais tarde aquilo que é urgente, essencial e que não deveríamos de forma alguma postergar em nossas vidas: a preocupação pela nossa espiritualidade. Essa afirmação surge no contexto em que o apóstolo está tratando do “ministério da reconciliação”, desde o versículo 11 do capítulo 5. Em 2 Coríntios 5.18, Paulo afirma que Deus não apenas nos reconciliou consigo mesmo, mas nos deu também o ministério da reconciliação. No verso seguinte, afirma também que Deus nos confiou a mensagem da reconciliação. Ou seja, aquilo que já experimentamos em Deus, ele espera que compartilhemos com outras pessoas, de forma que muitos outros também possam experimentar.
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Para exercer esse ministério da reconciliação, o apóstolo utiliza três imagens para instruir os coríntios e a nós sobre como devemos cumprir esse ministério: 1. Somos embaixadores de Cristo (5.20) Um embaixador é um representante oficial daquele que o envia. O Brasil tem embaixadores em praticamente todos os outros países. Tudo aquilo que diz respeito ao nosso país naquela nação, o embaixador deve representar, tratar e resolver. Da mesma forma, os outros países têm embaixadores aqui no Brasil, que desempenham o mesmo papel. Assim também nós somos considerados por Paulo como embaixadores de Cristo neste mundo. Ou seja, representamos Jesus neste mundo, tratamos e testemunhamos as coisas que dizem respeito ao reino de Cristo. Paulo chega a dizer que somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio (v. 20). Nos noticiários, não raras vezes ouvimos que embaixadores de certos países são substituídos e, muitas vezes, isso ocorre pelo fato do embaixador não ter desempenhado eficientemente a sua função. A pergunta que nos incomoda é: “e se Deus nos substituísse cada vez que não cumprimos adequadamente a nossa função como embaixadores de Cristo neste mundo?”. Como embaixadores, nossa mensagem a qualquer pessoa sempre deve ser: reconciliem-se com Deus (v. 20). Não podemos permitir que as pessoas deixem para depois o que precisa ser feito enquanto há um tempo favorável para a salvação. 2. Somos cooperadores de Deus (6.1) Um pouco mais adiante, Paulo usa outra imagem, dizendo que somos cooperadores de Deus. A palavra utilizada pelo apóstolo (synergountes) significa: trabalhar com alguém, cooperar. Do mundo corporativo conhecemos muito bem a ideia de “sinergia”, mas esse conceito já foi utilizado por Paulo há centenas de anos. É está muito claro que Deus é o Senhor do reino, soberano sobre todas as coisas. Mas ele concede às pessoas cristãs o privilégio de trabalhar com ele e para ele. Ele não precisa de nós. Nós é que necessitamos dele. Mas que grande bênção é podermos ser cooperadores de Deus em seu reino! 3. Somos servos de Deus (6.4) Finalmente, Paulo também apresenta a ideia de que somos servos de Deus (ou ministros de Deus). Neste ponto, ele utiliza a palavra “diaconia”, muito bem conhecida de todos nós. O ministério da reconciliação também deve ser desenvolvido por nós como servos de todas aquelas pessoas que Deus coloca ao nosso redor. Como servos e servas de Deus, para que nosso ministério não caia em descrédito, precisamos ser testemunhas irrepreensíveis, não dando escândalo de forma nenhuma. A expressão grega proskope (motivo de tropeço) significa não dar “uma ocasião para tropeçar, fazer alguma coisa que leve outros a tropeçar”, indicando o ato de impedir os pés de uma pessoa, fazendo-a cair. Para Paulo, o cristão, em nenhuma circunstância, deve dar motivo de escândalo (6.3), mas, ao contrário, deve ser recomendável de todas as formas (6.4). Nos versos seguintes, Paulo cita várias situações, tanto boas como ruins, nas quais ele não foi motivo
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de tropeço para ninguém e nas quais nós também não devemos ser motivo de escândalo para outros, já que, como servos e servas de Deus, queremos e devemos cumprir nosso ministério da reconciliação. Somos embaixadores de Cristo, somos cooperadores de Deus e somos servos e servas de Deus. E como “agora é o dia da salvação”, há um tempo favorável para que muitos se reconciliem com Deus. Não percamos tempo para cumprir nossa parte na missão.
4 Imagens para a prédica A história de Dietrich Bonhoeffer é trágica e, apesar de tudo, inspiradora. Esse jovem teólogo cristão se opôs ativamente ao movimento nacional socialista na Alemanha, no tempo de Hitler. Foi enviado a um campo de concentração, onde foi morto. Contudo, com sua fé e esperança, inspiradas em uma profunda devoção a Deus, encorajou seus companheiros de prisão e, por fim, chegou mesmo a ganhar o respeito de seus guardas. Em seu livro “O Preço do Apostolado”, Bonhoeffer diz que muitos de nós não queremos pagar o preço total como servos e servas de Cristo. Temos a tendência de nos acomodar, pela metade, num trabalho espiritual. Esse cristão dedicado foi um exemplo vivo do preço que um discípulo de Cristo tem de pagar. Bonhoeffer pagou o preço com sua própria vida, pois não deixara de pregar o evangelho nem mesmo num campo de concentração. Precisamos ser fortes na fé, em todas as horas. Podemos agora mesmo sondar nossos corações e mentes, em atitude de prece, e nos dedicar completamente ao serviço de Deus (Buchman apud Almeida, 1987).
5 Subsídios litúrgicos Algumas frases que podem ser utilizadas no decorrer da celebração: • Sempre e em toda parte os servos de Cristo estão sob a ordem de evangelizar (J. I. Packer). • O cristão é o homem mais livre do mundo... Contudo, em relação ao amor, ele é o maior servo (Richard Sibbes). • Depõe contra o servo procurar ser rico, grande e honrado neste mundo em que seu Senhor foi pobre, humilde e desprezado (George Müller). • Um senhor dá a seu servo um trabalho a fazer, mas não pode dar-lhe forças para trabalhar; contudo, Deus, assim como nos dá algo a fazer, também nos dá forças (Thomas Watson). • Uma verdade relevante de notável distinção nas páginas do Novo Testamento é que Deus não tem filhos que não sejam servos (H. D. Ward). • Um cristão é senhor livre de todas as coisas e não sujeito a ninguém, pela fé. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos, pelo amor (Lutero).
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Bibliografia BUCHMAN, James M. In: ALMEIDA, Natanael Barros. Coletânea de ilustrações. São Paulo: Vida Nova, 1987. RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. Traduzido por Gordon Chown e Julio Zabatiero. Santo Paulo: Vida Nova, 1988. ROBERTSON, Archibald Thomas. Imágenes verbales en el Nuevo Testamento. Barcelona: CLIE, 1989. (Las epístolas de Pablo, Tomo 4).
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1º DOMINGO NA QUARESMA
PRÉDICA: LUCAS 4.1-13
10 MAR 2019
DEUTERONÔMIO 26.1-11 ROMANOS 10.8b-13
Uwe Wegner
Tentações e concepções de Jesus
1 Introdução
A história da tentação de Jesus é passível de diferentes interpretações. Para alguns pesquisadores, ela remonta ao próprio Jesus (p. ex., Jeremias, 2004, p. 122-131), que, em linguagem mitológica, provavelmente descreveu a seus discípulos as tentações pelas quais ele passou em sua permanência no deserto durante 40 dias depois do seu batismo. Teriam sido essas tentações em forma de visões, à semelhança da visão que Jesus teve do diabo caindo do céu, em Lucas 10.18? É possível, embora não sujeito a provas. Outros pesquisadores já acham que a elaboração da história provém da mão de grupos próximos a Jesus (discípulos ou seguidores mais estreitos). Eles teriam condensado nessa história as tentações mais marcantes pelas quais Jesus como Filho de Deus teria passado ao longo de todo o seu ministério. A história teria sido colocada no início de sua vida, embora retrate todo o período de sua atuação. Por diversas razões, acho essa segunda hipótese muito provável. Quanto aos textos para leitura, o primeiro deles é Romanos 10.8b-13. Trata sobre a importância da confissão de fé na ressurreição de Jesus e sobre o ato de invocação de Jesus como Senhor. Em comum com o texto da tentação ele tem o fato de ambos sempre remeterem para Deus/Senhor, respectivamente, para a palavra de Deus. O outro texto, Deuteronômio 26.1-11, fala sobre as dádivas das primícias (primeiros frutos) que os israelitas deveriam levar ao altar em agradecimento pela libertação do Egito. A libertação do Egito tem a ver com a última tentação de Jesus: ela mostra que, a sua maneira, Deus cuida de seus filhos e suas filhas, como o diabo quis que Jesus o provasse de forma extraordinária.
2 Exegese O pão pode ser adquirido com um milagre, seja o de uma multiplicação de pães ou de uma partilha de pães. Assim sugerem os textos de Marcos 6.30-44 e 8.1-10. Nesses casos, o milagre dos pães teve por finalidade dar alimento para multidões esfomeadas no deserto. Jesus o realizou movido por amor, compaixão com a multidão. Aqui em Lucas 4 o milagre sugerido é a transformação de uma pedra em pão por Jesus. Ele, afinal, estava 40 dias sem comer, ao fim dos quais teve fome (v. 2). A sugestão do diabo é: Se és Filho de Deus, mande que esta pedra se transforme em pão. O diabo queria uma prova de que Jesus era, de fato, o
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“Filho amado de Deus”, como o declarara a voz proveniente do céu por ocasião do seu batismo (Lc 3.22). Ora, de Deus se diz no Antigo Testamento que ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir (Sl 33.9). Se é correto o provérbio “tal pai/mãe, tal filho/a”, então nada mais natural do que Jesus, como filho, também poder “falar, e tudo se fazer, poder ordenar, e tudo se cumprir”. Essa é a lógica do diabo: se Jesus é Filho de Deus – tal como Deus –, ele poderá dar uma ordem e a pedra se transformará em pão. E assim estará resolvido o problema da sua fome. Perguntamos: por que isso representou uma tentação para Jesus? Na lógica do diabo, o sentimento da fome e o aplacar da fome deveriam ter prioridade sobre o resto. E o problema da fome deveria ser resolvido com poderes divinos excepcionais e ações miraculosas. Jesus relativiza em sua resposta o valor exagerado que se pode dar ao pão. O pão é importante, mas não é tudo na vida. Ele contesta o valor absoluto do pão, referindo-se a Deuteronômio 8.3, onde diz: O homem não viverá só de pão, mas de tudo o que procede da boca do Senhor. E da boca do Senhor, de sua palavra, não procede só o alimento para o corpo, mas também o que deve nortear e alimentar nossos pensamentos, ações, alma e coração. Por trás dessa resposta está, com certeza, uma profunda confiança de Jesus no fato de que, a despeito de fomes eventuais e circunstanciais, Deus provê o suficiente para todas as suas criaturas. É o que ele afirma explicitamente em Lucas 12.22-34 / Mateus 6.25-34: Portanto não se preocupem dizendo: “Que comeremos”, “Que beberemos”, “Com que nos vestiremos”? [...] O Pai de vocês, que está nos céus, sabe que vocês precisam de todas elas. Segundo Mateus 6.33, para a solução de problemas como pão e fome, vestuário para se cobrir e água para matar a sede, basta que as pessoas busquem como prioridade o reino de Deus e sua justiça – aí todas estas coisas lhes serão acrescentadas. E em que consiste essa justiça do reino pode ser visualizado na história de Zaqueu (Lc 19.2-10). Parte da sua riqueza, em verdade, poderia ser produto de roubo, e o mandamento de Deus é claro: “Não roubarás”. Zaqueu entendeu isso e falou que devolveria quatro vezes mais qualquer valor eventualmente roubado (v. 8). Ora, sabemos muito bem que, também naquela época, na hora em que terminassem a roubalheira e a corrupção que se praticavam na economia, muito dinheiro que era acumulado injustamente poderia ser distribuído mais equitativamente – haveria mais pão pra todos. Mas Zaqueu faz ainda uma segunda coisa que combina muito bem com a justiça de Deus: ele reparte a metade dos seus bens com os pobres (v. 8). Ou seja, ele não acumula excessos, mas os partilha com quem deles necessita. É claro que, nesse caso, ele dificilmente conseguiria compartilhar bens sem generosidade, bondade ou compaixão autênticas em seu coração. Jesus confiava nessa prática de partilha. Só isso também explica que ele e seus discípulos viviam pregando e curando de forma itinerante pela Galileia, sem levar nada pelo caminho: Nem pão, nem sacola, nem dinheiro... nem duas túnicas (Mc 6.8s). E Jesus mostrou na parábola dos trabalhadores na vinha que, justamente por Deus ser bondoso, ele não dá a cada um unicamente segundo suas capacidades e tempo de trabalho, mas também segundo suas necessidades. Por isso mesmo a parábola diz que Deus, o dono da vinha, pagou exatamente o mesmo denário necessário
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para o sustento diário de todos os trabalhadores, apesar de nem todos terem tido a possibilidade de trabalhar a mesma carga horária (Mt 20.1-15). E termina com a intrigante pergunta: Você ficou com inveja por eu ser bom? (v. 15). Jesus tem razão: se uma justiça de Deus como essa, não só fria e calculista, mas permeada de partilha, bondade e generosidade tomar conta da sociedade, o problema do pão, do que comer, beber e vestir, não necessitará mais de milagres de transformação de pedras em pão, pois terá havido, antes, o milagre da transformação dos corações. E, de fato, o que adiantaria para Jesus ou Deus “milagres” contínuos na área do pão e da economia, se as pessoas mesmas não se tornassem também criaturas renovadas e transformadas (Rm 12. 2)? Augusto E. Kunert, em sua reflexão sobre as tentações de Jesus, no PL 27 (p. 70-79), pergunta com razão: “Quais seriam as consequências [se uma notícia de transformação de pedras em pães e de um salto miraculoso de Jesus desde o pináculo do templo se divulgassem pela Galileia e Palestina da época]? Haveria uma conversão em massa? O arrependimento seria geral? O povo buscaria o Deus vivo? Os corruptos passariam por uma transformação [...]? Os exploradores dos mais fracos abandonariam suas práticas para iniciar uma vida nova?” (p. 73). Ou seja: o pão, quando resultado de poderes extraordinários, satisfaz o ser humano só pela metade, só em seu corpo. E a tentação de Jesus era exatamente esta: que ele se desse por satisfeito só pela metade. Bem mais transformador e evangélico é quando o recebimento do pão é resultado de uma prática solidária de justiça, amor e partilha. Expressão máxima desse último caso é a Santa Ceia, em que o pão é recebido por todos, mas através da generosidade e justiça de uma partilha. A segunda tentação é dada por uma condução para o alto (cf. Dt 3.27; 34.14) e a visão do poder e da glória de todos os reinos do mundo: dá para tê-los e governá-los, assevera o diabo, mas com a condição de adorá-lo. Satanás usa para essa tentação a própria promessa de Deus do Salmo 2.7-8: Decreto do Senhor: Tu és o meu filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. O que isso significaria o próprio Jesus esclareceu na palavra de Marcos 10.42: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos os oprimem e os seus maiorais os tiranizam. Esta era a tentação: receber o poder, mas usá-lo em benefício próprio e com meios autocráticos de tirania e opressão. Jesus coloca a seguir seu projeto de poder do reino: Mas entre vós não é assim. Quem quiser tornar-se grande, seja o que vos sirva, e quem quiser ser o primeiro, seja escravo de todos (Mc 10.43-44). Esse seria o “poder serviço”, que para Jesus também não é exercido de forma autocrática, mas partilhada – ele o compartilhou, exemplarmente, com doze discípulos. Por isso Jesus resiste à segunda tentação do diabo, mantendo-se fiel ao primeiro mandamento: adoração cabe unicamente a Deus (Dt 5.6-10) e ao seu exercício amoroso, benevolente e serviçal de poder compartilhado. Na terceira tentação, Jesus é conduzido para o ponto mais alto do edifício do templo (a exata localização do “pináculo” é incerta). O diabo propõe que Jesus se jogue para baixo, pois, se é Filho de Deus, Deus o salvará da morte na queda. O diabo assegura o auxílio divino com bonitas palavras da Escritura (Sl 91.1112). Jesus revida com outro texto da Escritura: Não ponha à prova o Senhor, teu
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Deus. Ora, se Jesus se atirasse do templo asseverando uma ajuda milagrosa de Deus, ele, em verdade, estaria condicionando Deus a assegurar sua permanência em vida e, dessa forma, pervertendo a confiança que nos cabe ter em Deus. Para Jesus, a vida é dom de Deus e, por isso mesmo, só a ele compete a decisão de mantê-la ou tirá-la. Jesus resistiu à tentação de se assenhorear da vida até o fim: mesmo diante da iminência de sua morte, ele pede, sim, por vida a seu Deus, mas sem fazer exigências, antes orando humildemente: Contudo, não seja o que eu quero, e sim, o que tu queres (Mc 14.36). Existem lindas promessas de vida nas Escrituras (Mt 10.28-31; Jo 10.10 e outros), mas só a Deus cabe decidir quando e como cumpri-las. O próprio Jesus, aliás, defensor e doador de vida, foi quem afirmou ser preciso aprender a perdê-la para ganhá-la (Mc 8.35).
3 Meditação A declaração dada pela voz do céu a Jesus no batismo (Tu és o meu Filho amado, em ti me agrado – Lc 3.23) deve tê-lo deixado muito alegre e grato. Mas trazia em seu bojo a seguinte questão para o Salvador: Filho de Deus, sim. Mas, afinal, que tipo de Filho Deus espera que eu seja? A história da tentação é exatamente isto: a resposta de Jesus ao tipo de Filho que, em seu entendimento, ele achava que Deus queria que fosse, e também ao tipo de Filho que, em seu juízo, ele entendia não corresponder à vontade de Deus. No fundo, as tentações buscam clarear “imagens/concepções” de Jesus: como Deus o quer na qualidade de Filho e como o diabo gostaria que ele fosse. A atualidade do texto reside no fato de que nós, como seguidores e seguidoras de Cristo, podemos viver e pregar ainda hoje exatamente esses dois tipos de concepções sobre Jesus: as diabólicas ou as evangélicas de Cristo como Senhor. A tentação diabólica, no caso da transformação milagreira de pedras em pães, significaria, segundo Boff, “manipulação da vontade do homem e dispensa das responsabilidades humanas. O homem seria mero espectador e beneficiário, mas não participante. Ele não faria história. Seria libertado paternalisticamente; a libertação não seria o dom de uma conquista”, nem de uma nova justiça nem de uma partilha fraterna (Boff, 1980, p. 171). Mas a tentação do pão não se restringe à sua eventual multiplicação milagreira. Ela também se manifesta quando damos ao pão ou à comida em geral um valor absoluto, que os colocam bem acima de outras necessidades e cuidados que o nosso corpo requer para sua saúde. Penso só nas dezenas de maus hábitos alimentares aos quais nos arraigamos e dos quais não conseguimos nem queremos nos desprender: são eles que nos levam a doenças, tais como pressão alta, diabetes, câncer, entre outras. Não só do pão vivem as pessoas – bem verdade. Quem não quer entender com Jesus que também o pão ou a comida em geral não podem nem devem ser absolutizados, não vai viver deles, vai morrer deles. Mas o mais importante de tudo, para não absolutizarmos o valor do pão e da comida, ainda é para mim o seguinte: aprender a agradecer a Deus por eles, como Jesus, p. ex., fez na segunda partilha dos pães (Mc 8.6). Porque no momento em que agradecemos a Deus pelo que temos, aquilo que possuímos deixa de ser “posse” nossa para tornar-se dádiva sua. E aí não haverá mais razões
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para acumularmos pão, comida, casa, vestuário, moradia etc., para bem além de nossas necessidades, mas poderemos nos tornar como Deus: de graça ele deu para nós, de graça poderemos repartir com o próximo. A segunda tentação quase dispensa atualizações mais exatas. Ela consiste no abuso do poder político, ou seja, no uso do poder para ser servido, e não para servir, como Jesus o concebeu (Mc 10.41-45). Em outras palavras: usar o poder em benefício dos próprios interesses, e não daqueles pelos quais fomos eleitos. Esses abusos se multiplicam em todas as instâncias do poder (executivo, legislativo, judiciário), mas também em todos os níveis (municipal, regional, estadual e federal). A nós, como cidadãos, cidadãs e eleitores/as caberá não nos deixarmos corromper por palavras bonitas, promessas enganosas etc. Nossa grande contribuição contra essa tentação é pelo voto consciente e diferenciado e pela defesa de um exercício de poder não só representativo, mas também participativo através de manifestações, abaixo-assinados, discussões públicas etc. A última tentação é a de achar que Deus nos deve a preservação da vida sob quaisquer circunstâncias, mesmo que de forma espetacular. Atira-te para baixo que Deus te guardará! (Lc 4.9-10). Se cada mãe e pai têm todo interesse em preservar a vida do seu filho e de sua filha, não terá Deus muito mais ainda interesse em preservar a vida do seu amado Filho eleito? Essa foi a sugestão tentadora do diabo. Jesus não embarcou. Mesmo assim: quanto conflito de vontades, quanta renúncia não terá custado a Jesus assumir e encarnar palavras como a de Marcos 10.45: Não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos! E quanto de fidelidade a Deus não terão representado suas palavras de oração antes de ser preso: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice! Porém, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres! Não é por menos que os discípulos tinham dificuldade para entender os anúncios de paixão e morte que Jesus pronunciou (Mc 8.31-37; 9.30-32; 10.32-34). O que Jesus deve ter aprendido gradativamente em seu ministério é que Deus quer preservar nossa vida, sim, mas não ao preço da falta de solidariedade, do desamor, da prática da injustiça, da difusão de inverdades, da falta de consideração com irmãos e irmãs mais fracas. Esse preço Jesus não estava disposto a pagar por fidelidade à vontade amorosa do seu Deus. Pessoas cristãs, na medida em que são defensores da verdade e justiça, jamais terão vida mansa num contexto de opressão, exploração e abusos contra o próximo (Mt 5.10-12).
4 Imagens para a prédica Como imagens para a prédica me ocorre destacar para esse texto bíblico três figuras: (1) a de uma Bíblia; (2) figura ou figuras comumente usadas para o diabo/ tentador; (3) e uma figura de Jesus. Ambos, Jesus e o diabo remetem para a Bíblia. Mas também poderiam ser usadas três imagens referentes às três tentações concretas: (1) a partilha ou multiplicação de pães por Jesus; (2) Cristo como monarca ou imperador; (3) e Cristo amparado milagrosamente por anjos em uma queda.
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5 Subsídios litúrgicos Remeto ao PL 37, 2012, p. 104. Ali Léo Zeno Konzen propõe uma interessante oração entre oficiante e comunidade, rogando a Deus que não nos deixe cair em tentação em face de uma série de tentações atualizadas, que o oficiante vai citando ao longo do texto.
Bibliografia BOFF, L. Teologia do cativeiro e da libertação. São Paulo: Círculo do Livro S.A., 1980. KUNERT, Augusto E. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2001. v. 27, p. 70-79. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica; Paulus, 2004. JÚNIOR, E. S. O rosto de Jesus no decorrer da história. Petrópolis: Vozes, 1991.
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17 MAR 2019
PRÉDICA: GÊNESIS 15.1-12,17-18 LUCAS 13.31-35 FILIPENSES 3.17 – 4.1
Manoel Bernardino de Santana Filho
Promessa e cumprimento
1 Introdução Na leitura de Gênesis 15 encontramos a experiência de Abraão. Homem de fé, temente a Deus e que soube esperar contra toda a possibilidade humana. Ele foi provado, principalmente, no terreno da segurança, mediante tensões de ansiedade e ambição. A promessa de proteção e abrigo, relacionada à terra, caminha na direção da promessa de um filho e, consequentemente, de uma descendência. Mas a esperança é adiada por um longo período, talvez uns 25 anos. Isso o faz queixar-se a Deus pela demora no cumprimento da promessa original (Gn 12), que afirma posse da terra e a promessa de ser pai de uma grande nação. Deus lhe concede uma visão noturna, quando pôde contemplar o céu estrelado que, em si, não provava nada, mas era uma espécie de sinal e serviu como palavra visível, como ponto focal da promessa, algo parecido com o efeito dos sacramentos, pois a experiência foi inesquecível. Alimentado pela esperança e confiança na palavra proferida, Abraão saiu da sua tenda em Harã e continuou sua caminhada, que fora iniciada em Ur dos caldeus. O texto do Evangelho de Lucas se associa com a perícope de Gênesis, estudada aqui em dois sentidos: primeiro, quanto à necessidade de caminhar sempre. Abraão é um peregrino, ou seja, um homem que caminha. Jesus é o homem do caminho que nos ensina a estar na estrada da vida. Ele afirma: Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois... Caminhar significa acreditar no amanhã, no cumprimento da promessa; segundo: porque Lucas, ao apresentar a fala de Jesus bendito o que vem em nome do Senhor, assinala o cumprimento da promessa do Messias prometido. O texto da carta de Paulo aos filipenses apresenta as dificuldades enfrentadas por todos aqueles que querem se manter firmes na fé. Reflete a experiência de Abraão, que pode ser vista como paradigma para a fé de todos aqueles e aquelas que estão em Cristo. A exortação paulina caminha na direção da preservação, em confiança na promessa de uma vida plena e abundante com o Senhor Jesus Cristo.
2 Exegese
“Depois desses acontecimentos.” Que acontecimentos? Os comentaristas estão de acordo que não é uma referência ao capítulo 14, e sim ao capítulo 13, onde encontramos o gesto nobre de Abraão em fugir da disputa com seu sobrinho
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Ló, deixando-o escolher o caminho a seguir. O autor da narrativa sugere que agora começa algo novo. Uma nova história está para ser contada. O capítulo 15 do livro de Gênesis apresenta um formato completamente diferente do que antecede e, posteriormente, dá sequência ao capítulo. A partir do capítulo 12 até o 14 e, em continuação, no 16, deparamo-nos com episódios narrativos, situações vividas em que os fatos enumerados são, em si mesmos, mais importantes do que aquilo que é dito. No capítulo 15 é tudo diferente. Aqui encontramos a palavra de Javé. Essa palavra deve nos conduzir à reflexão. O capítulo compõe-se de dois momentos, de duas falas especiais. A primeira encontra-se nos v.1-6, e a segunda nos v. 7-21. Nossa perícope (1-12; 17-18) contempla esses dois momentos que se completam, porque trata da confirmação da promessa. Mas não se deve tentar desmembrar as duas partes que compõem esse capítulo: descendência e terra. Segundo Milton Schwantes, a beleza do texto reside, exatamente, na correlação dessas duas partes. Isso porque os temas combinam e se encaixam. Povo e terra estão juntos. Cada parte começa com a “palavra de Javé”, com a promessa (1 e 7). Segue-se a pergunta de Abraão (2-3 e 8) e a reafirmação da promessa (4-5 e 9-21). Duas são as promessas: a promessa do filho/herdeiro e a promessa de uma grande descendência, a qual não se pode contar. Para Abraão, o assunto é um problema (2-4). O tempo estava passando. Agora era um ancião, cujas forças se esvaem, vencido pelo tempo. Àquela altura da vida não via como poderia, ainda, cumprir-se a promessa de ser pai de uma grande nação. Passou o tempo e a vida atingiu o ocaso. No entanto, Abraão nunca teve a covardia de renegá-la. Por isso não pode ser esquecido. Conheceu, sim, a tristeza, a amargura, mas creu e isso o reconfortou. Diante de Deus expõe sua tristeza por não ver a concretização da promessa. No entanto, Deus não deixa seu amigo no estado depressivo em que se encontra. Trata-o com brandura e determinação. Abraão apresenta o problema, do ponto de vista do indivíduo; o Senhor aponta a solução, do ponto de vista de Deus. Primeiro, chama-o para sair da tenda, o que demonstra a necessidade de retirar o indivíduo prostrado de seu desânimo. Quem está no interior de sua tenda encontra-se oculto, remoendo suas mágoas. Deus chamou Elias para sair de sua caverna, para mostrar que ele não estava sozinho (1Rs 19.11). Para sair da tenda é preciso pôr-se de pé, o que, biblicamente, é sinal de atitude positiva, de recomeço. Abraão é desafiado por Deus a deixar para trás sua angústia e frustração, por acreditar que a promessa passou do tempo da realização. Deus o chama a novamente se colocar no caminho da fé; chama-o a ter uma atitude de confiança naquilo que o Senhor pode fazer. “Olha para os céus!” E, diante do olhar atônito de Abraão, Deus o leva a refletir sobre a sua promessa. Podes contar as estrelas? – é uma pergunta retórica. Impossível contar. Pois bem – diz o Senhor – assim será a tua descendência. A promessa que Deus faz a Abraão é a promessa da terra. Podemos ver, também, que a terra tem sido tema central no agir de Deus. Aqui, o Senhor reafirma a promessa de uma terra própria para Abraão e sua descendência. O castigo para Israel por conta da desobediência foi a perda da terra. Os profetas destacaram a promessa da sua recuperação. No Antigo Testamento, esse conceito de possuir a terra, como resultado da promessa, está presente nos livros da lei e dos
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profetas. Nas bem-aventuranças, os mansos herdarão a terra (Mt 5.5). Portanto a promessa da posse da terra é uma tradição bíblica. Deus chamou Abraão para que ele tomasse posse da terra prometida. A pergunta de Abraão é: Como saberei que hei de possuí-la? É uma pergunta pertinente e Deus responde, fazendo uma aliança com ele, aliança que atinge sua posteridade, a qual seria tão numerosa quanto as estrelas do céu. A seguir, o gesto sacrificial que ocupa os versos 9-12 e 17-18 impõe-se como resposta a essa promessa. Deus afirma (7) e reafirma a doação da terra (18). Abraão creu. A palavra de Deus é suficiente. Aqui está o homem de fé, o crente, o indivíduo que soube o que é fé. Ele acreditou. E ele sacrificou ao Senhor. Aves de rapina desceram sobre o seu sacrifício (11), mas Abraão as expulsou. O sacrifício deve estar puro diante de Deus. Não se pode permitir que algo se interponha entre a pessoa e o sacrifício que se oferece a Deus. É preciso estar atento para impedir interferência no ato de adoração.
3 Meditação No Antigo e no Novo Testamento, Abraão é o modelo de todos aqueles que são eleitos por Deus. Podemos dizer que Noé, e não Abraão, foi o primeiro homem na narrativa bíblica a ser escolhido, embora a palavra “escolhido” não apareça no texto. Mas é certo que ele foi selecionado, junto com sua família, para viver em meio à massa perdida da humanidade de seus dias. No entanto, a escolha de Noé é muito diferente da de Abraão, pois enquanto a escolha de Noé tenha significado a destruição do resto da humanidade, a eleição de Abraão e sua família significou bênção para o resto da humanidade. É a eleição de Abraão, e não a de Noé, que apresenta a graça de Deus, que elege o ser humano para a vida. Quando Deus elegeu Abraão, disse-lhe: Em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn 12.3). Assim, Abraão é o pai espiritual de todos os que creem, descritos em Efésios (1.4) como escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele. Em Gênesis 12 Abraão é chamado por Deus para deixar seus ancestrais e ir para uma terra desconhecida, que lhe seria dada por herança, para ele e sua descendência, acolhendo uma promessa sem precedentes, incluindo o fato de que a bênção que ele receberia seria uma bênção destinada a toda a descendência. O fato notável é a prontidão de Abraão em crer na promessa divina, em um tempo em que ele não tinha filhos e não era mais jovem. Todavia, ele creu no Senhor e isto lhe foi imputado por justiça (Gn 15.6). Em Neemias (9.7-8) lemos: Tu és o Senhor, que elegeste a Abrão, e o tiraste de Ur dos caldeus e lhe puseste o nome de Abraão. Achaste o seu coração fiel perante ti, e com ele fizeste aliança, para dares à sua descendência a terra dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos fereseus, dos jebuseus e dos girgaseus e cumpriste as tuas promessas, porquanto és justo. Abraão é descrito em todo o Antigo Testamento como o pai do povo de Deus (Sl 47.9), como aquele que fez aliança com Deus, sendo essa promessa estendida a Isaque e a Jacó. Quando o povo foi oprimido no Egito (Êx 2.34; 3.8),
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Deus se lembrou de sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó e desceu para libertá-los. Quando Moisés ora (Êx 32.13), diz: Lembra-te de Abraão, de Isaque e de Israel, teus servos, aos quais por ti mesmo tens jurado e lhes disseste: multiplicarei a vossa descendência como as estrelas do céu, e toda esta terra de que tenho falado, dá-la-ei a vossa descendência, para que a possuam por herança perpetuamente. Quando chegaram os dias de tristeza, por causa do exílio, a mente dos israelitas era animada pela recordação da promessa feita a Abraão: Mostrarás a Jacó a fidelidade, e a Abraão a misericórdia, as quais juraste a nossos pais, desde os dias antigos (Mq 7.20). No exílio, eles ouviram de Ezequiel: Abraão era um só, no entanto possuiu esta terra; ora, sendo nós muitos, certamente esta terra nos foi dada por possessão (Ez 33.24). Em Isaías, Abraão é chamado de “rocha”: olhai para a rocha de que fostes cortados e para a caverna do poço em que fostes cavados (Is 51.1). Paulo afirma que fé é agir como Abraão (Rm 4.19), que mesmo vendo seu corpo amortecido, envelhecido, pensou também que Sara não podia ter filhos. Quer dizer: reconheceu, enfrentou os fatos. Mas não deixou de crer em Deus. Ele é o Deus que ressuscita morto e chama à existência as coisas que não existem. Por que esse Deus não poderia transformar aquela situação? E, assim, à medida que sua mente foi acolhendo as promessas, os problemas foram encolhendo na mesma proporção, pois ele estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que havia prometido. A doutrina da justificação pela fé é bíblica e não apenas paulina. Abraão é o modelo de crente; é o homem que creu acima de todas as circunstâncias, por isso devemos imitar o seu exemplo. Por isso nós os chamamos de pai de todos os que creem, tanto judeus como gentios. Por isso Paulo diz aos Gálatas: Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Por Abraão se viu no mundo o que é ter esperança. Mesmo quando o tempo passou e o ocaso da vida chegou, nunca desistiu. Conheceu a tristeza e a amargura, mas mostrou ao mundo que crer é mais reconfortante do que, apenas, contemplar o crente. Abraão não nos deixou lamentos. Mesmo quando ele e Sara envelheceram, manteve a fé. Era o eleito de Deus. E que significa ser o eleito de Deus? Significa ver recusado o desejo de juventude na primavera da vida, para só obter tal favor na velhice, depois de grandes dificuldades. Abraão acreditou e, por isso, manteve-se jovem, porque o que crê conserva eterna juventude. Sara, em avançada idade, foi ainda suficientemente jovem para desejar as alegrias da maternidade e Abraão, apesar dos cabelos brancos, foi suficientemente jovem para desejar ser pai. A fé manteve neles o desejo e, com ele, a juventude (Kierkegaard, Temor e Tremor). Nele, aprendemos que Deus nos elege, abençoa nossa família e nunca se esquece das promessas, como as que fez a Abraão. Somos filhos e filhas de Abraão porque cremos. Portanto as promessas continuam válidas. Quando tudo parecer impossível de se realizar, lembre-se de Abraão e de como Deus lhe concedeu a bênção de ser pai de muitas nações.
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4 Imagens para a prédica Chamo a atenção para a questão do comprometimento com aquilo que dizemos. Houve um tempo em que as pessoas pensavam muito antes de se comprometer com uma coisa, pois quando prometiam algo, tinham a intenção de cumprir. Naquele tempo, a palavra de uma pessoa era suficiente. Não precisava de testemunhas. O dito bastava. A palavra era a garantia, era a identidade. Não se questionava uma palavra dada. Hoje essa situação mudou. O sujeito se compromete com outro, mas aquilo é só para sair daquela situação. Não tem a mínima intenção de se empenhar no cumprimento daquilo que foi acertado. Dá-se uma palavra, não se cumpre e, quando se questiona, só se ouve a palavra: sinto muito! Isso é o máximo. O problema da falta de palavra tornou-se tão grave nos últimos tempos, que surgiu nos EUA um ministério chamado “Ministério Homens de Promessa”, que existe simplesmente para motivar as pessoas a cumprir as promessas que fizeram. Seria algo como “Ministério Homens e Mulheres de Palavra”. Deus não é assim. Ele não faz promessas frívolas. Ele não diz por dizer. Todas as suas promessas são feitas porque tem intenção de cumpri-las. Tudo o que disse a Abraão se cumpriu. Aproveite a leitura de hoje para fazer um exercício com sua comunidade sobre a necessidade de cumprirmos aquilo que prometemos. Desafie as pessoas a serem sinceras quanto a promessas não cumpridas, em qualquer relacionamento. Faça máscaras de papel ou cartolina e ofereça a cada uma. Elas podem ser retiradas à medida que são confessadas as falhas, a falta de comprometimento e a infidelidade. Leve sua comunidade a se comprometer com o que diz e a caminhar confiante, como Abraão.
5 Subsídios litúrgicos A liturgia de hoje deve conduzir a comunidade no caminho da esperança, que renova a vida e nos enche de ânimo para um novo dia. Agostinho diz que não há passado nem futuro. Apenas o presente é o que temos para viver. Só que, em nosso presente, lidamos com a memória (o passado) e com a espera (o futuro). Tudo acontece hoje, seja a memória que nos leva a recordar e trazer à mente as boas lembranças, seja a espera, que nos remete para tempos que ainda virão. No espírito da reflexão de hoje, a partir da experiência de vida de Abraão e Sara, devemos unir a comunidade numa atitude de espera ativa, de crer e confiar no Deus que está conosco a cada dia e nos impulsiona a ter novas visões. Buscar em nosso cotidiano palavras e expressões que nos conduzam no caminho da fé. Queremos a vida, nossa e da comunidade, em novas perspectivas. Ansiamos por “frestas” (Schwantes, 2009) que permitam ver para além do desespero. As frestas podem ser pequenas, mas por elas podemos ver muito. Por isso cultive no seu dia de hoje a esperança. Junte seus passos ao de outras pessoas e diga como o profeta: Quero trazer à memória o que me pode dar esperança (Lm 3.21).
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Oração “Ó Deus das frestas e esperanças, dá-nos paz para esperar nossa visão ser ampliada para além das frestas. Inunda nosso coração com esperança viva. Dá-nos especiais momentos de amor em comunidade. Em Jesus. Amém!” (Schwantes; Santos, 2011, p. 42).
Bibliografia
DATLER, Frederico. Gênesis: texto e comentário. São Paulo: Paulinas, 1984. SCHWANTES, Milton. Deus Vê, Deus Ouve! (Gênesis 12-25). São Leopoldo: Oikos, 2009. SCHWANTES, Milton; SANTOS, Rosileny Alves dos. Figuras e Coisas. São Leopoldo: Oikos, 2011.
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PRÉDICA: LUCAS 13.1-9
24 MAR 2019
ISAÍAS 55.1-9 1 CORÍNTIOS 10.1-13
Roberto E. Zwetsch
Quem está de pé, cuide para não cair
1 Introdução O Evangelho de Lucas tem características próprias no conjunto dos sinóticos. E isso fica atestado no texto previsto para este domingo, que será analisado a seguir. Na série de textos para a celebração de culto estão previstos ainda Isaías 55.1-9 e 1 Coríntios 10.1-13. Há um fio vermelho que une esses textos, que se poderia resumir na afirmação de que Deus tem paciência com seu povo, com o povo crente, e escuta a palavra do seu mediador, no caso, o viticultor que apela para preservar a figueira que não produz nada: Deixa-a ainda este ano... Se ela frutificar, bem está. Caso contrário, o jeito é cortá-la, pois para nada presta. Há aí juízo, uma chamada ao arrependimento e uma nova chance para recomeçar. Mas fica uma ameaça dura de Jesus: Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis (v. 5). Isaías 55.1-9 – A profecia é francamente carregada de esperança: quem tem sede, venha às águas. E até quem não tem dinheiro, venha comprar e comer, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. O profeta proclama que Deus quer que o povo coma o que é bom. O que significa essa bela metáfora? É preciso dar ouvidos ao Senhor. Só assim o povo encontrará vida. Essa vida autêntica – abundante? – será fruto da aliança de Deus, o Deus da vida e da libertação, com seu povo que volta do exílio empobrecido, cansado, humilhado. A promessa misericordiosa feita a Davi continua de pé. E até outras nações poderão partilhar dessa aliança. A promessa ultrapassa o povo eleito. Por isso a urgência de buscar ao Senhor enquanto é tempo. Essa aliança tem requisitos claros: abandonar o caminho da iniquidade, converter-se ao Senhor e aprender dele o que significa perdoar. Que desafio! Porque os pensamentos de Deus são mais altos que os pensamentos humanos. E os caminhos de Deus passam longe dos caminhos humanos. Como aprender a trilhar os caminhos do Senhor? Eis a questão do profeta. 1 Coríntios 10.1-13 – Paulo escreve à comunidade de Corinto, chamada para ser santa porque está firme em Cristo. Essa é a comunidade que Deus chamou para ser seu povo e na qual há poucas pessoas doutas ou de nobre estirpe (1.26ss). Nela se revela a “loucura de Deus”, o Cristo crucificado, escândalo para os gentios, loucura para os judeus, mas para os que creem em Cristo, tanto judeus como gregos, o crucificado se revelou poder de Deus e sabedoria de Deus (1.24). É com essa inversão de expectativas e de concepção religiosa que Paulo exorta sua comunidade a beber da pedra espiritual, que é Cristo. Essa “pedra” já se
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manifestara na libertação do povo hebreu em sua saída do Egito (Lutero assumiu essa teologia na sua interpretação do Antigo Testamento), em sua passagem pelo mar, em seu “batismo de fogo” durante a fuga da escravidão para a liberdade. Na longa peregrinação muita gente ficou pelo caminho, esqueceu a ação divina, perdeu a fé, cobiçou as coisas antigas, desejou a velha vida de escravidão e pecado. Caiu naquilo que o Antigo Testamento chama de “idolatria”, a vida dissoluta em que a solidariedade deixa de existir e o interesse próprio predomina. Depois não adianta murmurar, falar mal deste ou daquele líder, praticar a imoralidade, a iniquidade, a injustiça. Quando a desgraça chega e campeia, não adianta acusar outros. Cada qual assuma sua parte. Cada geração trate de assumir sua responsabilidade perante Deus e perante si mesma, em sua história. Por isso Paulo se vale de um dito ainda atual: “aquele que pensa estar em pé, veja que não caia”. Humildade e discernimento na hora da amargura não é artigo de luxo. É necessidade imperiosa. Na hora da tentação, há que mudar de vida e renovar a fé no Deus que acompanha sua gente em todo o tempo e lugar; ele não deixará que a tentação supere a nossa força. Junto com a tentação, que nos acompanha sempre conquanto seres humanos contraditórios, ele promete a força que liberta (“livramento” – traduz Almeida) e ajuda a suportar o que por vezes parece insuportável. Paulo chama essa atitude de uma fé ousada (parreisía) e sem sofismas, baseada na honestidade a respeito de nós mesmos e na fidelidade de Deus em Cristo.
2 Exegese O texto se encontra na segunda das três partes em que se pode dividir o conteúdo do Evangelho de Lucas: infância e início do ministério na Galileia; a viagem rumo a Jerusalém; finalmente, a longa descrição da chegada em Jerusalém, a rejeição de Jesus pelos líderes judeus, sua paixão, morte e ressurreição. O texto de Lucas 13 se encontra naquele bloco da viagem (9.51 – 19.28) e pertence ao material exclusivo do autor do evangelho. Por isso há que examinar com atenção o que o evangelista quer transmitir com essa narrativa, imbricada num debate teológico que diz respeito a fatos históricos e sua interpretação doutrinária. O texto felizmente já foi bem trabalhado em números anteriores desta coleção: no PL 17, por Valdemar Witter (p. 83ss); no PL 23, por Valério G. Schaper (p. 72ss); no PL 29, por Anete Roese (p. 93ss), e, ainda, no PL 37, por Fernando Henn (p. 111ss). Em todos esses estudos há informações interessantes para quem quiser acessar. Informo que todos esses textos hoje se encontram disponíveis no portal Luteranos (www.luteranos.com.br). Pesquisadores e estudiosas do Evangelho de Lucas não confirmam os fatos mencionados no debate que se deu entre Jesus e, possivelmente, fariseus. Mas independente disso, o que releva para a compreensão da mensagem é, sem dúvida, como avaliar a morte de galileus a mando do governador Pilatos, que violou até mesmo o rito sagrado em que aqueles estavam inseridos. Sabe-se que havia movimentos revolucionários que existiam naquela região ao norte da Palestina. O poder romano não admitia oposição. Qualquer sintoma de revolta tinha de ser combatida. A questão levada a debate era se aqueles homens eram ou não peca-
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dores (qual sua culpa?), o que seria entendido como razão para sua morte cruel a partir de uma leitura formal da lei judaica (v. 1-2). O segundo caso diz respeito a 18 pessoas sobre as quais desabou a torre de Siloé, matando-as tragicamente. Que torre seria essa não se sabe. Novamente a pergunta que se levanta é sobre a culpa que pesava sobre elas e que teria motivado o desastre (v. 4). Desastre, crime político, doença, numa palavra, desgraça é sempre fruto de pecado e culpa, nessa interpretação dogmática dos fatos. E quem faz esse julgamento se sente fortalecido em sua pureza doutrinal e moralidade exemplar. Difícil não recordar aqui a parábola do fariseu e do publicano que vão ao templo para orar. O fariseu, de pé, orava de si para si mesmo: Ó Senhor, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem como este publicano [...] (18.11). Em tal atitude encontramos a autossuficiência arrogante de quem se julga a si mesmo acima de qualquer crítica, correto e seguro diante de Deus. Jesus contrasta esse tipo de crente com outro, tido como publicano, pecador. Esse, segundo o texto, nem ousava levantar os olhos ao céu, mas apenas batia no peito e dizia: Ó Deus, tem piedade de mim, pecador! Jesus desconcerta seus ouvintes quando afirma: Digo a vocês que este desceu justificado para sua casa e não aquele. Porque quem se exalta, será humilhado; mas o que se humilha, será exaltado (18.13s). Trata-se da mesma profecia que encontramos no cântico desconcertante de Maria, mãe de Jesus (Lucas 1.52s). Chama a atenção que no debate que os fariseus trazem para Jesus não parece haver a mínima preocupação com a tristeza, o sofrimento e a desgraça alheia. Eles desejam uma resposta a partir de uma discussão fria, neutra, sem compromissos. A solidariedade com a dor alheia parece fora de cogitação. Jesus, porém, não aceita os termos da questão como colocada pelos seus interlocutores. Ele coloca todas as pessoas no mesmo patamar diante de Deus, independente das circunstâncias em que se encontram. Vocês pensam que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu afirmo a vocês! E digo mais: se, porém, vocês não se arrependerem, todos igualmente irão perecer (v. 2s). Sobre os que morreram por causa do desabamento da torre, o argumento é o mesmo: Vocês pensam que esses eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu afirmo a vocês! Se vocês não se arrependerem, todos igualmente perecerão (v. 5). Todas as pessoas – incluídas aquelas que vieram a Jesus – são pecadoras e necessitam de arrependimento. Há uma igualdade básica diante de Deus, e quem nega tal situação mente a si mesmo e diante de Deus. Jesus não diz isso, mas quem por acaso se solidarizou com as famílias dessas pessoas tragicamente falecidas? Quem se solidarizou com as famílias que ficaram na rua em São Paulo depois que o prédio da Polícia Federal, na rua Antonio Godoy, no largo do Paissandu, desabou, comprometendo praticamente todo o prédio da Igreja Matriz da IECLB no centro da capital paulista? Como é difícil confrontar-se consigo mesmo, colocar-se diante do espelho e ser honesto consigo mesmo, com sua consciência e diante de Deus. É mais fácil apontar culpados, acusar os outros como pecadores, adúlteros, corruptos, assassinos. Jamais, porém, sentir-se implicado nesses crimes e pecados. E com essa
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“boa consciência”, lavar as mãos, levar a vida e buscar os próprios interesses sem interferências de ninguém, tanto quanto possível. Apresentar-se como “pessoa de bem” e não andar com “gente de má fama”. Esse tipo de ser humano era muito comum naquele tempo e é hoje ainda. Jesus desfaz a aparente justiça própria e chama ao arrependimento, à conversão, à mudança de vida. A palavra central do texto metanoēte (arrepender-se, dar meia-volta, mudar de vida ou direção) desconcerta os interlocutores de Jesus porque não aceita um debate distanciado. A vida dos galileus e a nossa está unida pelos mesmos dramas e pecados. Não adianta querer justificar a si mesmo. Mais ainda: pode-se imaginar que a injustiça que campeia no mundo é fruto do acaso e não tem responsáveis? Há que ser mais honesto com as pessoas e consigo mesmo. Diante de Deus não há desculpas falsas que sobrevivam. Por isso o chamado à meia-volta, ao arrependimento, à mudança. Só assim a pessoa descobre o sentido da vida autêntica, da vida liberta e libertadora. Vale aqui a advertência de Paulo: quem acha que está de pé, cuide para que não caia. Na segunda parte do texto de Lucas 13.1-9, encontramos outra parábola de Jesus bastante conhecida. O dono de uma vinha tinha uma figueira plantada no meio do vinhedo e por vários anos não encontrou nela fruto. Chama o viticultor e manda arrancar a árvore que só toma lugar e nada produz. O trabalhador responde em defesa da planta: Senhor, deixa-a ainda este ano até que eu escave ao redor dela e lhe ponha adubo orgânico. Se vier a dar fruto, está bem; se não, mandarás cortá-la (v. 6-9). Temos aqui um gesto de intercessão em prol de uma árvore infrutífera. Imaginemos que a árvore seja o povo de Israel ou a nossa comunidade cristã. A falta recorrente de fruto – passado um bom tempo – não será motivo suficiente para descartar e cortar a árvore? O trabalhador pode ser o próprio Jesus, que ainda pede tempo, intercede, promete fazer tudo o que sabe para adubar a árvore, cuidar dela, a fim de que se emende, recobre a força e o vigor, para assim frutificar. Caso contrário, o corte virá. O juízo vem, mais dia, menos dia. Palavras duras e confrontadoras para os ouvintes de Jesus. Encontrei um resumo muito bom no Comentário Bíblico Africano, que cito aqui de forma livre: tragédia, diz Jesus, não representa a medida da pecaminosidade de uma pessoa, nem sua necessidade de arrependimento. Os que não experimentam tragédias também necessitam de arrependimento. No caso da figueira estéril, a ausência de julgamento aqui e agora não pode ser tomada como sinal de integridade. Ao contrário, se o julgamento não acontece imediatamente, é sinal da misericórdia de Deus e não de sua aprovação. Em suma, a tragédia não é um sinal válido de pecado, assim como a ausência de tragédia não significa a certeza de honestidade. Todas as pessoas, independentemente de suas situações particulares ou intenções, são igualmente pecadoras e precisam arrepender-se diante de Deus. E arrependimento não é apenas algo espiritual, mas abrange toda a vida das pessoas, mente, coração, espírito e atitudes.
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3 Meditação A narrativa de Lucas é muito sugestiva e atual. Nos meios evangélicos, de modo geral, é muito comum apontarmos as falhas dos outros: é gente preguiçosa, malvada, desleixada, interesseira, numa palavra, corrupta. Nesse julgamento, cuidadosamente procuramos nos eximir de relação mais próxima com tais pessoas. Nem pensar naquelas palavras do evangelho que nos comprometem a nos abaixar na beira do caminho para cuidar do ferido e assaltado (Lc 10.25ss). Não nos atrai a solidariedade samaritana, que mais parece coisa de gente sem nada para fazer, meio utópica. Como superar esse tipo de maneira de ser que se apresenta em nós e entre nós? Jesus chama ao arrependimento, à mudança de vida, de direção e sentido de vida. Quem se habilita a entrar nesse caminho? Um caso verídico pode servir de espelho para nos questionar. A jornalista mineira Daniela Arbex acaba de publicar o livro Todo o dia a mesma noite (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018), uma pesquisa cuidadosa e exaustiva sobre a história não contada da boate Kiss, tragédia acontecida em 27/01/2013 na cidade de Santa Maria/RS; em virtude do incêndio morreram 242 jovens, rapazes e moças, estudantes em sua maioria, 233 no momento da tragédia e várias outras pessoas nos dias subsequentes. Mais de 600 pessoas se salvaram, milagrosamente, mas ficaram marcadas por toda a vida. A autora escreveu no livro: “Abrir os olhos e enfrentar a realidade era tão doloroso quanto perceber o corpo mutilado. Não seria nada fácil carregar o rótulo de sobrevivente. Depois da Kiss, ninguém seria mais o mesmo. Ninguém” (p. 173). Daniela procurou dar voz às pessoas que atenderam à tragédia, como bombeiros, agentes públicos, médicos, enfermeiras, pessoas da comunidade, mas também às famílias que sofrem ainda hoje a perda de pessoas queridas. Trata-se de um drama que vai continuar a ferir, por muito tempo, as pessoas que sobreviveram, algumas das quais jamais se recuperaram do trauma. É um livro que merece ser lido e meditado. Para essa reflexão, tomo um exemplo triste vindo de uma igreja evangélica, de corte pentecostal, que não soube acompanhar com verdadeiro cuidado pastoral a família que dela participava e sofria pela perda do filho adotivo. Augusto, filho de César e Cida, foi velado na igreja. Pai e mãe receberam muito apoio de pessoas amigas, mas não dos pastores e algumas outras pessoas da comunidade. Essas pessoas culparam pais e mães das vítimas pelo falecimento dos filhos e filhas. Cida e César descobriram que os pastores atribuíram o episódio a um “castigo divino”, condenando quem fora à casa noturna para aquela festa. Pior: foi durante o velório que César, de profissão pintor, chamado pelo pastor para uma conversa reservada na cozinha, teve de ouvir a repreensão por estar sofrendo: “Vocês não deveriam estar chorando, pois Augusto não gostava de vocês. Se gostasse realmente, ele não lhes teria desobedecido e ido à boate”. Na alocução pública, o pastor ainda acrescentou: “Que a morte desse rapaz sirva de exemplo para todos os filhos que desobedecem aos pais. Se ele estivesse na igreja, não estaria morto”. E para Cida, o homem disse: “Irmã, tu não deverias estar chorando, pois
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desobedeceu a Deus. Se ele não te deu um filho natural, por que tu foste teimar em adotar?” (Arbex, 2018, p. 154ss). Deixo aqui o relato, pois o que segue é ainda mais cruel. Se aquele pastor soubesse com que carinho o casal criou e educou o filho desde que nasceu e foi adotado, como era forte a relação filial e de amor na família e o carinho desse filho por sua mãe e por seu pai, se tivesse um mínimo de bom senso, possivelmente pensaria dez vezes antes de proferir esse discurso condenatório e no momento de maior dor. Mas não se parece ele com aqueles fariseus que queriam saber de Jesus quem pecou e quem foi o culpado pela morte dos galileus? Como explica Bosch a respeito dessa narrativa, Jesus não condena, mas chama ao arrependimento, ao exercício do perdão, à não violência, à superação do espírito de vingança. Alguns intérpretes até chegam a afirmar que Jesus aqui parece um sujeito apolítico, que teria fechado os olhos para o massacre perpetrado pelas autoridades e pelos soldados romanos. Mas o que fica da mensagem de Lucas é que Jesus se recusa a pagar mal com mal. E isso se mostra claramente quando ele próprio é preso, torturado, crucificado e morto na cruz. Na hora da agonia, Jesus ora pelos seus algozes e profere uma palavra de perdão a um dos criminosos que estava ao seu lado (material exclusivo de Lucas). Jesus anuncia e pratica uma ética totalmente contrária ao conhecido olho por olho, dente por dente. A paz, a verdade e a mudança de vida não se alcançam com o ódio ao inimigo, por mais pecador que ele seja, mas sim amando-o e chamando-o ao arrependimento, a caminhar com quem sofre em suas mãos, assumindo que não somos nem melhores nem piores que qualquer pessoa e que todos precisamos mudar de vida.
4 Subsídios litúrgicos Há hinos muito apropriados para esse culto, que se encontram no Livro de Canto da IECLB. O Kyrie, do colega Rodolfo Gaede Neto (nº 56), não poderia ficar de fora pela sua contundência e súplica pela misericórdia de Deus pelo mundo e por nós. Sugiro ainda o canto do Lava-pés (nº 422), do reverendo anglicano Jaci C. Maraschin; o tradicional A Jesus só pertencemos (nº 509); o canto do colega Oziel Campos de Oliveira Jr, Arde a voz em meu peito (nº 591); e como hino final Dá-nos esperança e paz (nº 293), canto bem latino-americano. Uma ajuda para despertar a atenção da comunidade e fazê-la entrar na reflexão de uma forma mais emocional ou contemplativa seria chamar jovens da comunidade para encenar as duas histórias que são apresentadas a Jesus. Ao final, uma pessoa poderia interpretar Jesus sentado no meio e proferindo as palavras do texto que colocam todas as pessoas em pé de igualdade diante dos outros e de Deus, desafiando para o arrependimento ou a mudança de vida. Toda a encenação não leva mais de cinco minutos. Se o grupo tiver alguma música instrumental de fundo para acompanhar a cena será útil. As orações necessariamente incluem os sofrimentos das pessoas e do país, este entregue nos últimos tempos a um governo que tem sido responsável por muito sofrimento entre nossa gente. Não se deve esquecer as pessoas enlutadas, das crianças que necessitam de acompanhamento e carinho, das pessoas idosas abandonadas e esquecidas, das lideranças das igrejas cristãs, dos novos governos
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que foram eleitos nas eleições de 2018, dos juízes e das juízas para que sejam fiéis à Constituição Brasileira (1988), sem partidarismos. E sempre pela comunidade reunida para que caminhe com Jesus em arrependimento e fé, fé que transforma e liberta de todas as escravidões.
Bibliografia ADEYEMO, Tokunboh (Ed.). Comentário bíblico africano. São Paulo: Mundo cristão, 2010. ARBEX, Daniela. Todo o dia a mesma noite: a história não contada da boate Kiss. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018. BOSCH, David J. Missão transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2007.
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PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.16-21 JOSUÉ 5.9-12 LUCAS 15.1-3,11b-32
4º DOMINGO NA QUARESMA
31 MAR 2019
Roberto Natal Baptista
Ministério da reconciliação
1 Introdução O período litúrgico para o texto-base deste comentário é a Quaresma. Esse momento do Ano Eclesiástico já foi deveras importante no cotidiano das pessoas. Atualmente, porém, ele parece estar em completo desuso e não fazendo parte do dia a dia da maioria das pessoas. Nós, igrejas cristãs, por outro lado, procuramos ser um contraponto nisso tudo e sempre falamos em tom enfático da importância de um período de reflexão, de oração, de solidariedade. De fato, podemos concordar que essas condutas deveriam fazer parte sempre, durante todo o ano, de nossas vidas. Por outro lado, também devemos aceder que é bom termos um momento em que podemos dizer que ali é o seu ponto alto, sua maior ênfase. Resumindo: de tudo que é importante, que a Quaresma nos empurre adiante no ano para “uma nova criatura” (2Co 5.17), seja eu e você, seja a própria igreja – ecclesia reformata semper reformanda est –, seja finalmente nosso país. Há outra observação que faço antes de continuar. Existe a possibilidade de muitas delimitações da perícope em questão. Aliás, parece ser um desafio em quase toda a carta de 2 Coríntios. Vejam bem. Podemos encontrar várias possibilidades em Proclamar Libertação (PL). Se definirmos o bloco da seguinte maneira: 2 Coríntios 5.6-10,14-17 (nesse caso, apenas os versos 16 e 17 são contemplados), temos um comentário de Valdemar Gaede no PL 39. Parecido, temos também 2 Coríntios 5.14-17, PL 19, texto de Gerd Uwe Kliewer. Se optarmos por 2 Coríntios 5.14-21, com algumas variações, podemos encontrar três autores. No PL 1, Lindolfo Weingärtner; no PL 16, Gottfried Brakemeier; e, finalmente, no PL 28, Werner Brunken. Depois podemos encontrar algumas divisões de perícopes que invadem o capítulo 6. Temos, no PL 40, Ramona Weisheimer; e no PL 35, Cristina Scherer. Depois dessa avaliação, os leitores e as leitoras percebem as possibilidades de utilizar, de “abusar” de tantos e importantes comentários e de importantes comentaristas de nossa publicação. E, ainda, podem se deleitar com textos desde o primeiro Proclamar Libertação, de 1976, até este meu comentário que faz parte da tríade de 2019, no 4º Domingo na Quaresma. Justifico que, atualmente, pela facilidade de consulta no portal Luteranos, não pretendo ser repetitivo aos demais comentários publicados. Recolho deles e de outras bibliografias o que considero importante para ênfases e pistas que gostaria de dar aos leitores e às leitoras que têm acesso ao meu texto.
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O texto de Josué 5.9-12 faz parte da promessa de Páscoa ao povo libertado do Egito, com vistas agora a Canaã, a Terra Prometida. Em um contexto de Quaresma, podemos entendê-lo como perspectivas de vitórias pós-pascal, promessas divinas que nos animam a seguir adiante. O texto do Evangelho de Lucas é a chamada parábola do filho pródigo, que descreve a relação de dois filhos com o pai: o mais novo, que se distancia e volta a reencontrar-se com ele depois de um mea-culpa; e o mais velho, que mesmo permanecendo junto dele, mostra seu distanciamento ao não querer aceitar de volta o irmão extraviado.
2 Exegese Precisamos de algumas pistas para seguir adiante na interpretação do texto de 2 Coríntios 5.16-21. Pretendo olhar um pouco para as condições da cidade de Corinto na época, depois, alguns detalhes sobre a Segunda Carta aos Coríntios e, finalmente, perceber detalhes do texto de estudo. Contexto de Corinto: No PL 40, Ramona Weisheimer esmiuçou a questão do contexto urbano e cosmopolita da cidade de Corinto. Júlio Cesar recuperou a destruída cidade em 44 a.C. E a partir daí, Corinto funcionou como uma cidade colônia romana. Para lá foram enviados diferentes povos. Possuindo dois portos importantes, a cidade funcionava como ligação entre Roma e Ásia. Uma aristocracia acabou surgindo em função do comércio e de fundições. Com muitos escravos, tornou-se um local de grandes distâncias socioeconômicas, poucos riquíssimos e muitos paupérrimos. Foi nesse contexto que Paulo, talvez no ano 50, chegou à cidade (veja Atos 18), ficando ali 18 meses. Pelo perfil de uma população de origens, culturas e religiões diversas, e de um judaísmo na diáspora, é possível compreender bem as dificuldades que Paulo tivera para esclarecer a sua posição do evangelho de Cristo. A Carta aos Coríntios: A composição literária de 2 Coríntios não é tarefa fácil. Sabemos que Paulo escreveu outras cartas aos coríntios, cartas que se perderam. Vou seguir aqui, para o nosso interesse, uma explanação de José Comblin: “Paulo escreveu uma carta de apologia exortando os coríntios a reconciliar-se com ele: trata-se da carta de apologia de 2.14 – 7.4. No entanto, em 2Co 2.3,4,9 Paulo menciona a carta escrita em lágrimas. Essa não pode ser a carta de apologia de 2.14 – 7.4, pois esta última não tem o acento exasperado de uma carta escrita em lágrimas. Também não pode ser 2Co 10 – 13. Terá sido outra carta perdida. A carta em lágrimas foi o auge da crise. E Paulo soube que ela abalou profundamente a comunidade. Recapitulando, temos até agora as seguintes cartas: carta 1: a carta perdida. Carta 2: 1Co. Carta 3: a carta da apologia 2Co 2.14 – 7.4. Carta 4: a carta em lágrimas perdida” (Comblin, 1991, p. 16-17). Nosso texto, 2Co 5.16-21, faz parte no contexto maior da carta da apologia (2Co 2.14 – 7.4). Em sua terceira parte, Paulo clama os coríntios para que abracem o ministério da reconciliação – reconciliando-se com o próprio Paulo. Mas, afinal, qual foi a crise que afastou o apóstolo fundador da comunidade dos fiéis? Vejamos a seguir.
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A crise parece ter começado com uma interrupção da coleta que era feita em Corinto para os pobres de Jerusalém. Paulo ensinava que os cristãos de Corinto tinham responsabilidades evidentes com o “berço do cristianismo” (Romanos 15.26-27). Até Paulo ter escrito 1 Coríntios 16.1-4, onde constam instruções para a coleta, tudo parecia caminhar em ordem. Porém, quando ele esteve em Éfeso, parece que alguém contestou sua autoridade e assumiu a liderança de um grupo que divergia do apóstolo (2.5-6). Paulo foi a Corinto e enfrentou o chefe da oposição. Esse o insultou e o desafiou abertamente. Segundo esse enfrentamento, Paulo fora acusado de não ter boas ligações com os discípulos em Jerusalém, e que ainda não fora um discípulo de Jesus em vida. Além disso, ele era contestado também por se sustentar através do trabalho de suas próprias mãos (Atos 18.3). O texto de 2 Coríntios 5.16-21: Este texto faz parte do bloco que vai de 2.14 até 7.4. Nesse grande bloco temos a defesa do apostolado de Paulo, escrito por ele mesmo. Um grupo em Corinto exige de Paulo grandes sinais que o atestem como verdadeiro apóstolo de Cristo. Exigem demonstrações de poder (veja o capítulo 12). Em contrapartida, Paulo define seu ministério em Corinto como o da reconciliação. Assim, vemos Paulo escrevendo com intensidade defendendo sua posição apostólica. Ele gerara a comunidade em função de sua primeira visita à cidade. Agora, nesta segunda carta, ele exorta seus discípulos para que não deem ouvido aos que o criticavam e desafiavam sua autoridade apostólica. Assim, esta segunda carta aos coríntios é, em sua maior ênfase, uma defesa do apostolado de Paulo. Neste sentido, podemos entender o forte tema da reconciliação que aparece em nossa perícope. Esse é o cerne da questão. Reconciliação exige uma nova mentalidade, uma nova criatura (5.17). Atitudes como confissão, reconhecimento de erros e perdão estão extremamente ligados ao tema da reconciliação. Ao começarmos a leitura da nossa perícope, logo nos deparamos com a difícil interpretação de “segundo a carne”. Alguns autores imaginam tratar-se do conhecimento do Jesus terrestre. Porém, no contexto da nova criatura e da própria reconciliação, essa ênfase, provavelmente, deve referir-se ao contraste de uma atitude mental ultrapassada, do “velho homem”, atitude essa que é exacerbada pelos direitos pessoais e por uma atitude de não empatia, indiferença com o semelhante, para uma atitude renovada, da “nova criatura”, agora, uma atitude solidária e de valorização das outras pessoas, com amor e compreensão. Por isso o verso 17 complementa essa nova visão, esclarecendo o verso anterior. Depois, nos versos 18 e 19, Paulo defende a seguinte proposta: inicialmente, Deus deu o primeiro passo. Ele estava em Cristo, reconciliando-se com o mundo – para usarmos a linguagem de Almeida. Mais que isso, Deus não estava atribuindo ou considerando os pecados deste mundo. Por isso afirmara um pouco antes que o perdão é uma atitude esperada quando exercermos a reconciliação. E, como se não bastasse sermos reconciliados e perdoados por Deus, nos resta abraçar a mesma prática com outras pessoas. Assim, no verso 20, Paulo conclui que ele é instrumento de Deus em Corinto, para que haja a reconciliação das pessoas dali com o próprio Deus através de Cristo (verso 21), que se fez justiça por todos nós. Paulo chega a se intitular
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de “embaixador por Cristo”. Esse termo aparece em outros momentos da Bíblia, tanto no Primeiro como no Segundo Testamento. Vemos esse termo, por exemplo, nas parábolas de Lucas 14.32 e 19.14. Aqui, o sentido de uma pessoa que recebe uma delegação política para o diálogo e a busca pela paz. Em 2 Coríntios, o apóstolo se define como alguém que recebeu a tarefa de representante de Cristo para buscar a reconciliação entre as pessoas e Deus, o Deus anunciado por Paulo.
3 Prédica Na prédica, podemos utilizar o verso 17 como a parte principal do nosso conteúdo. Assim, vamos enfatizar a nova criatura que todos precisamos buscar ser a cada dia. Está bem assim. Porém, se quisermos ser o mais fiel possível à mensagem da nossa perícope, não podemos falar de outra coisa que não seja a reconciliação. E, agora, o leitor e a leitora precisam buscar aspectos locais para realçar em sua prédica. De maneira geral, esta seria a minha sugestão. Primeiramente, aproveitamos o conteúdo da nossa perícope para mostrar que Deus deu o primeiro passo na busca da reconciliação com o mundo. Lembremos que a ruptura se deu pela nossa atitude. Assim, Deus, o atingido pelas nossas indiferenças, vem ao nosso encontro. Segundo: temos que passar a ideia de que o ministério da reconciliação é tarefa de todas as pessoas cristãs. Não é algo que se espere somente de Paulo, ou de um religioso, por exemplo. Todos e todas somos chamados e chamadas a essa tarefa. Terceiro: temos que chamar a atenção que reconhecimento de erros, confissão e perdão são atitudes esperadas para quem exerce tal ministério. Não é possível reconciliar-se sem que esses aspectos também sejam fortemente presenciados.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Sexta-Feira da Paixão: 2 Coríntios 5.(14b-18)19-21. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1990. v. 16, p. 140145. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/2-corintios-5-14b-18-19-21-1>. Acesso em: 26 abr. 2018. BRUNKEN, Werner. Sexta-Feira da Paixão: 2 Coríntios 5.(14b-18)19-21. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2002. v. 28, p. 153158. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/2-corintios-5-14b-18-19-21>. Acesso em: 26 abr. 2018. COMBLIN, José. Segunda Epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes; São Bernardo do Campo: Metodista; São Leopoldo: Sinodal, 1991. p. 52, 109. GAEDE, Valdemar. A nova criação em Cristo: Auxílio homilético de 2 Coríntios 5.6-10,14-17. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2014. v. 39, p. 203-208. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/2-corintios-5-6-10-14-17>. Acesso em: 26 abr. 2018. KLIEWER, Gerd Uwe. 5º Domingo após Pentecostes: 2 Coríntios 5.14-17. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1993. v. XIX, p.
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181-187. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/2-corintios-5-14-17>. Acesso em: 26 abr. 2018. SCHERER, Cristina. Quarta-Feira de Cinzas: 2 Coríntios 5.20b – 6.10. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2010. v. 35, p. 120-126. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/2-corintios-5-20b6-10>. Acesso em: 26 abr. 2018. WEINGÄRTNER, Lindolfo. Sexta-Feira Santa: 2 Coríntios 5.14-21. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1983. v. I-III, p. 7-15. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/2-corintios-5-14-21>. Acesso em: 26 abr. 2018. WEISHEIMER, Ramona. Sem nada, mas possuindo tudo. Auxílio homilético de 2 Coríntios 5.20b – 6.10. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2015. v. 40, p. 76-79. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/ conteudo/2-corintios-5-20b-6-10-2>. Acesso em: 26 abr. 2018.
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5º DOMINGO NA QUARESMA
07 ABR 2019
PRÉDICA: JOÃO 12.1-8 ISAÍAS 43.16-21 FILIPENSES 3.4b-14
Evelyne Regina Goebel Adriana Weege
Somos Marta ou Maria?
1 Introdução O texto previsto para a pregação neste 5º Domingo na Quaresma (João 12.1-8) relata a unção de Jesus por Maria, irmã de Marta e Lázaro. A versão joanina difere em alguns aspectos do relato paralelo de Mateus e Marcos, por exemplo, em relação à localização no tempo e ao ambiente onde a cena acontece. O texto de João 12.1-8 ainda não foi trabalhado em nenhuma publicação do Proclamar Libertação (PL). O texto do profeta Isaías (43.16-21) traz uma comparação com o êxodo do Egito, afirmando que a nova libertação será um acontecimento bem mais grandioso, pois as pessoas crentes testemunharão a ação de Deus na história, e isso será algo incomparável. Na Carta aos Filipenses (3.4b-14), Paulo se declara um judeu nato: foi circuncidado e seguia as leis fielmente. Poderia se orgulhar disso, mas afirma que todos os méritos religiosos e hereditários são, para ele, como perda. Seus valores e suas convicções já não são os mesmos, pois ele foi convertido pelo próprio Cristo. Os três textos, numa rápida leitura, parecem que não se relacionam. Mas uma análise mais detalhada mostra que eles se completam. Isaías mostra ao povo de Israel que a ação de Deus é incomparável. Paulo, por sua vez, afirma algo semelhante ao dizer que após a sua conversão Deus o transformou em outra pessoa. Já no texto do evangelho, Maria demonstra, através de um gesto de cuidado e carinho com Jesus, todo o cuidado de Deus para com ela. Deus age, Deus transforma e, em amor, servimos a Deus através de gestos diaconais.
2 Exegese O texto localiza a cena em Betânia, como nos sinóticos, mas traz detalhes que dão a entender que Jesus está na casa de Lázaro, o ressuscitado, seis dias antes da Páscoa. Quem servia as refeições era Marta, sua irmã, e, enquanto comiam, Maria pegou nardo puro e derramou aos pés de Jesus, secando-o com seus cabelos. Esse ato, descrito em João 12.3, demonstra que às vezes era costume as pessoas recostarem-se em divãs para comerem descalças. É o que Jesus e os seus discípulos estão fazendo. Maria vê aqui uma oportunidade de demonstrar seu amor. O texto original grego diz que ela tomou uma “libra de nardo genuíno”.
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Uma libra romana seria algo como 327 gramas. O nardo era um óleo aromático feito a partir do caule esmagado da planta do nardo, nativa do norte da Índia, usada medicinalmente. Ao dizer que o nardo era puro, o texto demonstra sua qualidade e seu valor. Ao realizar esse gesto de espalhar perfume sobre Jesus, Maria provoca duras e cruéis críticas por parte de Judas. Esse diz que o perfume poderia ter sido vendido por trezentos denários. Um denário, na época de Jesus, equivalia a um dia de salário de um trabalhador comum. Judas, no texto, é apontado como o tesoureiro, como o responsável pela guarda dos recursos do grupo, reservados para as necessidades. Mas o texto também formula um juízo ao chamá-lo de ladrão. Possivelmente já se aponta aqui para os atos da traição e da venda de informações por 30 denários (Jo 13.29). Essa indignação de Judas em relação ao desperdício do nardo chama muito a atenção das pessoas e torna tenso o momento. Ela serve, em verdade, para encobrir ou levantar sua miserabilidade. A palavra contra o desperdício, que parece ser uma indignação ética, demonstra apenas a hipocrisia de quem quer ficar com tudo para si e não dar nada a ninguém. A fala serve de alerta: onde há apego ao dinheiro, abre-se acesso ao mal, a projetos pessoais, como no caso de Ananias e Safira (At 5.1-11). Ao pedir que a deixassem em paz (12.7), Jesus valoriza o gesto de Maria e protege seus sentimentos. Ungi-lo com o óleo seria um bom gesto, já que ele está às portas da paixão, enquanto as pessoas pobres sempre estariam disponíveis para receber ajuda. Logo, de certa forma, Jesus estava dizendo que a unção já era uma antecipação dos atos fúnebres, como informa o texto paralelo de Mateus (26.12). A unção dos pés transforma-se num gesto profético, além de ser um gesto de hospitalidade. O ato de secar com os cabelos é um gesto abnegado de amor. O perfume que enche toda a casa lembra que o amor de Jesus não tem como não preencher o ambiente em que ele se encontra (confira 2Co 2.14). O amor esbanja, não indaga pela utilidade, o amor apenas se assenta aos pés de Jesus, para contemplá-lo e ouvi-lo. O amor não quer ficar “devendo” nenhum gesto de carinho. Judas, ao contrário, exerce no texto a voz do desamor: ele só vê o desperdício, fica devendo amor, é moralista, apegado à cobiça e ganância. Uma comparação com os textos paralelos de Mateus e Lucas, e com o texto similar de Lucas 7.36-40, mostra algumas diferenças. Mateus e Marcos dizem que os discípulos reclamam do desperdício. Aqui é Judas quem reclama e é apontado como tesoureiro e ladrão. No relato de Lucas se diz que a cena acontece na casa de um fariseu, Simão. Ali se fala de uma mulher pecadora, de má fama, que derrama perfume nos pés de Jesus e os enxuga com os cabelos. Esse texto enfatiza o perdão de pecados. A caracterização da mulher como pecadora (hamartolos, em grego), dada ao pecado, não indica necessariamente que ela fosse uma prostituta, como normalmente se pensa. É por isso que esse texto foi muitas vezes relacionado à Madalena, como uma prostituta arrependida (Hinos do Povo de Deus 1, nº 115). Em Marcos 14.3-9, a cena é localizada em Betânia, dois dias antes da Páscoa (Mc 14.1), na casa de Simão, mas a mulher não é identificada. Ela é criticada pelos discípulos pelo desperdício.
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Em Mateus 26.6-13, a cena também acontece na casa de Simão, chamado de “o leproso”. Faltam dois dias para a Páscoa, e uma mulher não identificada derruba perfume na cabeça de Jesus, talvez se referindo a uma unção messiânica. Os sinóticos não trazem o nome da mulher, mas Jesus enfatiza que por todas as gerações futuras ela será lembrada pelo seu gesto.
3 Meditação Jesus tinha um carinho todo especial por Lázaro e suas irmãs Maria e Marta. Em algumas ocasiões ele esteve com essa família, além de ter ressuscitado Lázaro. Jesus também tinha o costume de sentar-se à mesa com as pessoas, como no caso de Zaqueu, de Simão e de pessoas consideradas pecadoras e de má reputação. Tinha ali momentos de intimidade com as famílias que visitava, assim como hoje, pois não convidamos qualquer pessoa para vir à nossa casa e sentar-se à nossa mesa. A comunhão de mesa, para muitas famílias, ainda é um momento sagrado, como também o era para Jesus. No texto de João 12, Jesus está na casa de Lázaro, que fora devolvido à vida. Marta está servindo a mesa. Em outro relato, ela também aparece como a pessoa responsável pela organização da casa (Lc 10.38-42), sempre agitada e preocupada com muitas coisas, pois Jesus era alguém considerado muito importante para a família. Naquela ocasião, Maria havia escolhido ficar aos pés de Jesus para ouvi-lo. Na narrativa de João, Maria faz algo inusitado: em vez de sentar-se aos pés de Jesus, ela derrama um perfume precioso em seus pés. A pergunta é: por quê? Com que propósito? Quem sabe, essa foi a forma de agradecer por todos os ensinamentos que ouviu de Jesus ou de agradecer por ele ter ressuscitado seu amado irmão. O trabalho de Marta e o reconhecimento de Maria mostram como a comunidade de Jesus é feita de pessoas com vários dons e talentos. O servir é necessário, o trabalho na seara do Senhor é necessário, representado aqui por Marta. Mas o parar, aquietar-se, o ouvir, o engrandecer o nome de Jesus, também são necessários na comunidade. Marta, ao encontrar-se com Jesus antes dele ressuscitar Lázaro, faz uma belíssima confissão de fé: Eu creio que o senhor é o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo (Jo 11.27). Maria, aqui, quer dizer a mesma coisa, só que o diz através de uma ação concreta: a de lavar os pés de Jesus com um perfume caríssimo e de secá-los com seus próprios cabelos. É um ato de humildade dessa mulher, demonstrando assim toda a sua fé naquele homem gentil, que lhe permitiu ouvir os seus ensinamentos e lhe mostrou esperança na vida eterna. O que chama atenção neste texto é que Judas, alguém tão próximo a Jesus, que testemunhou milagres, ouviu parábolas, vivenciou muitas situações, não professou sua fé nem com palavras nem com ações. Pelo contrário, reprovou o ato inesperado de Maria, questionando o desperdício do perfume caro. Judas só vê o ato em si, não percebe a profundidade daquele gesto, não percebe o que está implícito naquela cena. Sua reação é negativa. Sua alegação é que o perfume deveria ter sido vendido e que o dinheiro tivesse sido entregue aos pobres. Mas sua
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verdadeira intenção é expressa na informação de que era o tesoureiro do grupo que costumava desviar o dinheiro para finalidades próprias. Judas representa a dureza de algumas pessoas na atualidade, que não sabem compreender por que se há de ter cuidado pela causa do reino de Deus. Algumas acham que é desperdício investir na missão da igreja e na propagação do evangelho. E questionam: “Qual o sentido da Campanha Vai e Vem?”. Não dão um real para a causa, ainda censuram quem contribui. E se justificam dizendo que já ajudam a socorrer os pobres, e que isso basta! O que nós temos para oferecer a Jesus? Qual é o nosso gesto para demonstrar amor por tudo o que ele fez e faz por nós? Vivemos num tempo em que o trabalho nos faz sucumbir, em que muitas pessoas não tiram tempo para um dia diferente com a família, e muito menos tiram tempo para ir à igreja. O trabalho nos sobrecarrega. Quando têm tempo, preferem dormir: “O culto é muito cedo!”. Neste sentido, podemos motivar a comunidade a refletir sobre o tempo que dedicamos a Deus, o que oferecemos a ele como ação de graças por tudo o que tem feito em nossa vida. Marta confessou sua fé no servir a mesa, na sua confissão a Jesus: Tu és o Messias. Maria demonstrou o seu amor e fé no ato inusitado de reverenciar Jesus. O que nós, como membros da IECLB, fazemos para demonstrar o nosso amor a Cristo? Somos como Maria e Marta? Ou, por vezes, somos como Judas?
4 Imagens para a prédica Ao final da prédica, sugerimos que as pessoas molhem as mãos com perfume, com água de pétalas ou com um óleo aromático, e apertem as mãos umas das outras como sinal de hospitalidade, de espalhar amor, de propagar a boa presença de Cristo. Outra opção é fazer uma comparação entre coisas úteis e coisas imprescindíveis, tendo dois cestos, destacando que o imprescindível é tudo que vem e que leva a Cristo, e que Maria assim soube reconhecer.
5 Subsídios litúrgicos Destacar nas orações o pedido para que Deus nos salve dos atos de desamor; que não nos apeguemos simplesmente à “utilidade” das coisas ou das pessoas, mas que possamos reconhecer o valor além dos preços; que possamos ser mais desapegados dos valores deste mundo e mais apegados aos valores de Cristo.
Bibliografia BOOR, Werner de. Evangelho de João II. Curitiba: Esperança, 2002. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. v. II.
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DOMINGO DE RAMOS
PRÉDICA: LUCAS 19.28-40
14 ABR 2019
SALMO 118.1-2,19-29 HEBREUS 9.11-15
Luiz Carlos Ramos
Uma manifestação popular bem organizada
1 Introdução O chamado Domingo de Ramos está entre as mais antigas celebrações litúrgicas cristãs, observada regularmente desde o primeiro século. Tanto é assim que essa alusão ficou notoriamente registrada nos quatro evangelhos (Mt 21.1-11; Mc 11.1-11; Lc 19.28-40 e Jo 12.12-19). O presente auxílio homilético está sendo preparado, coincidentemente, num contexto de muitas manifestações, paralisações, greves, passeatas e ações desse tipo em todo o país. Por essa razão, a chamada “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém” se reveste de especial sentido, especialmente se a considerarmos como uma legítima manifestação popular, cuidadosamente planejada e articulada, ao que tudo indica, com profundas implicações políticas. Os demais textos indicados pelo lecionário para serem lidos no Domingo de Ramos estão conectados pela ideia de rejeição ou acolhida daquele que vem em nome do Senhor, sim, a pedra angular, mas rejeitada pelos construtores (cf. Sl 118). O texto de Hebreus apresenta Jesus como o mediador da nova aliança, cujo sangue derramado confere remissão das transgressões cometidas sob a primeira aliança.
2 Exegese (Utiliza-se a versão bíblica Nova Almeida Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil). É por ocasião da festa da Páscoa que se dá o episódio que agora estudamos, que narra a entrada de Jesus em Jerusalém, acompanhado de seus seguidores e seguidoras, bem como de numerosa multidão de peregrinos. V. 28 – E, depois de dizer isto – refere-se à parábola das dez minas, registrada nos versículos precedentes. Jesus prosseguia a sua viagem para Jerusalém – Jerusalém era o centro do poder político, religioso e econômico da Palestina nos tempos de Jesus. Sendo mais específico, Jerusalém se tornara o lugar referencial da opressão política, da exploração econômica e da legitimação religiosa subserviente ao imperialismo romano. Estima-se que a população residente em Jerusalém, no século I, não passasse de 40 mil habitantes. Contudo, em ocasiões festivas, tal como a Páscoa, a cidade atraía mais de 200 mil peregrinos. V. 29 – E aconteceu que, ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras – Os romeiros que possuíam melhores recursos hospedavam-
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-se na cidade, mas os peregrinos mais pobres acomodavam-se nas imediações de Jerusalém. Povoados, como Betfagé (do grego: “casa do figo”) e Betânia (“casa do pobre”), serviam como alternativa de hospedagem mais barata nas proximidades, e ficavam, respectivamente, a cerca de três e seis km de Jerusalém. Esse é o caso de Jesus e seus acompanhantes. Ele costumava hospedar-se na casa de Lázaro, Marta e Maria, em Betânia. Jesus enviou dois dos seus discípulos – Dessa sutil e discreta menção podemos inferir que o episódio que estava para acontecer seria o resultado de cuidadoso planejamento e de precavida articulação popular. V. 30 – dizendo-lhes: – Vão até a aldeia que fica ali adiante e, ao entrar, encontrarão preso um jumentinho, o qual ainda ninguém montou; desprendam o jumentinho e tragam aqui. Animais que ainda não haviam sido montados ou encilhados eram preferidos para serem dedicados a Deus (cf. Nm 19.2; Dt 21.3 e 1Sm 6.7). V. 31 – Se alguém perguntar: “Por que o estão desprendendo?”, respondam assim: “Porque o Senhor precisa dele”. Soldados e oficiais romanos podiam requisitar animais para seu serviço. A menção genérica ao fato de que “o Senhor precisa dele” poderia fazer supor que esse animal estava sendo requisitado por alguém do exército romano que, por ocasião da Páscoa, era escalado em grande número para garantir a segurança e a pax romana. Mas, muito provavelmente, tratava-se de uma linguagem cifrada, previamente acordada entre Jesus e o proprietário do animal. V. 32-35 – E, indo os que foram mandados, acharam tudo conforme Jesus lhes tinha dito. Quando eles estavam soltando o jumentinho, os donos do animal disseram: – Por que estão desprendendo o jumentinho? Eles responderam: – Porque o Senhor precisa dele. Então trouxeram o jumentinho até Jesus e, pondo as suas capas sobre o animal, ajudaram Jesus a montar. Trata-se de uma alusão explícita a Zacarias 9.9: Eis que o seu rei vem até você, justo e salvador, humilde, montado em jumento. No versículo 10 é dito que tal rei, montado em um jumento, banirá a guerra da terra: Destruirei os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; os arcos de guerra serão destruídos. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates. Veja-se também Isaías 2.4: Ele julgará entre as nações e corrigirá muitos povos. Estes transformarão as suas espadas em lâminas de arados e as suas lanças, em foices. Nação não levantará a espada contra nação, nem prenderão mais a guerra. Esse contexto semântico certamente povoava o imaginário da multidão que participava da passeata. V. 36-37 – À medida que Jesus avançava, as pessoas estendiam as suas capas no caminho. E, quando Jesus se aproximava da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou, com muita alegria, a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinha visto. Jesus aproxima-se de Jerusalém pelo caminho do Leste, e vem em procissão, acompanhado de uma multidão de camponeses. São provavelmente peregrinos pobres que se haviam acomodado nas aldeias vizinhas. Aqui é a ocasião para mencionar que, muito provavelmente, do outro lado da cidade, aproximando-se pelo caminho do Oeste, subindo da Cesareia Marítima, dava-se outro cortejo. Uma multidão de bajuladores acompanhava Pôncio Pilatos, o governador romano da Idumeia, Judeia e
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Samaria, que também subia a Jerusalém para participar, supervisionar e garantir a ordem durante as festividades pascais. Como pedia a etiqueta dos conquistadores, esses deveriam entrar na cidade montando fogosos cavalos. Desse lado, um desfile militar, ostentando o poder da dominação imperial, com ruidosa cavalaria e infantaria, soldados vestindo armaduras e elmos imponentes, precedidos por estandartes, tambores e trombetas. Enquanto isso, do outro lado da cidade, contempla-se uma passeata pacífica, performada por humildes e maltrapilhos camponeses, estendendo suas roupas rotas pelo caminho, agitando folhas de palmeiras (cf. a narrativa de João) e cantando salmos tão melodiosos quanto revolucionários. V. 38 – Diziam: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!” Essa é uma citação do Salmo 118.26, desfecho do grande Hallel (Sl 113 – 118). Esses salmos eram tradicionalmente cantados durante o tempo da Páscoa, evocando a expectativa do reino davídico, com evidente conotação messiânica. Sua aplicação a Jesus, nesse contexto, certamente causaria inquietação e apreensão por parte de muitos. V. 39 – Alguns dos fariseus lhe disseram em meio à multidão: – Mestre, repreenda os seus discípulos! A alusão à presença de fariseus em meio a essa multidão confirma a compreensão de que havia, sim, fariseus simpatizantes com o movimento de Jesus. Contudo, tendo eles a clara noção das implicações políticas daquela manifestação, ficaram apreensivos. V. 40 – Mas Jesus respondeu: – Eu afirmo a vocês que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão. Jesus não se intimida, porque está convencido de que o tempo está se cumprindo e seu desfecho é incontornável. A situação tornou-se tão crítica, que, independentemente do anseio de quem quer que seja, a vontade de Deus será feita, de uma forma ou de outra.
3 Meditação Vez por outra alguém tenta colocar os pastores e as pastoras contra a parede, vaticinando que religião e política não se misturam. No caso do episódio bíblico da chamada “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”, essa mistura já tinha sido estabelecida pelo próprio concurso do Império Romano. A dominação romana não se dava somente no campo político-econômico e estratégico-militar, mas também no campo ideológico teológico. Segundo Borg e Crossan, o imperador Augusto, que governou Roma de 31 até 14 d.C., autodeclarou-se “filho de Deus”, “senhor” e “salvador”, aquele que trazia “paz à Terra”. Depois de sua morte, ascendeu ao céu para ocupar seu lugar definitivo entre os deuses. Desde então seus sucessores passaram a ostentar os mesmos títulos divinos. E não foi diferente com Tibério, imperador entre 14 e 37 d.C. (Borg; Crossan, 2007, p. 20). Essa identificação dos reis e imperadores com divindades não era exclusividade romana, pois se verifica o mesmo fenômeno entre os egípcios, sumérios, persas etc. Reis e soberanos reivindicam para si diversos privilégios, cercam-se de riquezas, súditos e escravos. Ora, se é assim com reis humanos, muito mais
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será com reis que se consideram divinos. Além dos mesmos privilégios, riquezas, súditos e escravos, exigem um séquito de devotos adoradores. Jesus, conquanto saudado como Messias, ovacionado como rei, louvado como Deus, não adota nenhuma das posturas típicas dos reis divinos do seu tempo. Ele permanece humilde, pobre, manso e pacífico. A multidão, diante de Jesus, experimenta um misto de excitação e frustração. Percebem que Jesus inaugura um novo tempo, mas se dão conta de que esse novo mundo de Deus, inaugurado por Jesus, não se parece em nada com o reino que tinham imaginado. O rei/ senhor/messias/Deus Jesus não reivindica espólios, não reclama vingança, não subjuga inimigos, não ostenta força nem poder bélico. O episódio da entrada performática de Jesus em Jerusalém, retratado pelos evangelhos, é tremendamente político, extremamente revolucionário, não porque convoca o povo à rebelião, à insurreição, à revolta armada, mas porque quebra o ciclo mimético que impõe às gerações reproduzirem os mesmos pensamentos e atos. Jesus liberta o futuro do passado. Não precisamos mais repetir a história. Jesus nos ensina que é possível transformar o destino. Trocar a guerra pela paz, o ódio pelo amor, a ostentação pela humildade, o autoritarismo pelo companheirismo, a intolerância pelo respeito, o rancor pela mansidão, a exploração pela solidariedade, o cheiro da morte pelo aroma da vida. Há dois cortejos que estão em lados opostos. São dois projetos distintos: o dos seres humanos que se fazem deuses; e o do Deus que se faz ser humano. O primeiro reivindica poder político, econômico e religioso; o segundo delibera consolação, mansidão, justiça, misericórdia, pureza, paz e alegria (comparar com as “bem-aventuranças”, em Mt 5.3-16). Em qual desses grupos queremos estar? Em qual dessas manifestações nos engajaremos? Com qual desses movimentos nos comprometeremos? Com a marcha militar ou a passeata da paz? Com o cortejo da morte ou a caminhada pela vida?
4 Imagens para a prédica Os próprios textos bíblicos oferecem imagens fortes que podem ser exploradas como elementos simbólicos e comunicacionais, para uso tanto na prédica como na liturgia: Tapetes, tecidos ou roupas estendidos – Como passadeira e espaço de estar sobre os “tapetes”, utilizados em rituais e cerimônias, adquirem importantes significados simbólicos: acolhimento, expressão artística e estética, aconchego e conforto, ornamento, luxo, demonstração de status, delimitação de espaço, construção de um caminho ritual. O tapete vermelho, por exemplo, tão frequentemente aludido, apareceu pela primeira vez na peça Agamemnon, de Ésquilo, de 458 a.C., na Grécia antiga. Nela, o rei Agamemnon é recebido com um tapete de bordados vermelhos em sua volta da guerra de Troia. O rei diz que caminhar sobre tal luxo é um direito apenas dos deuses (Ésquilo, 1957). Palmas, folhas e ramos – Conquanto não mencionadas explicitamente por Lucas, as folhas de palmeiras fazem parte da tradição do Domingo de Ramos (cf. Jo 12.12-13, ver também Lv 23.30). Naquele tempo não se homenageava com
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medalhas ou placas de bronze ou prata, mas com folhas de palmeiras. De vez em quando, eram entregues em bandejas (salvas). E, como certa vez ouvi do Mário Sérgio Cortella, na falta das folhas de palmeira homenageava-se com o que se tinha à mão, ou melhor, com a própria mão, cujo formato, quando espalmada, lembra sutilmente a folha da palmeira. O aceno da mão, ou mesmo o aplauso, fazia as vezes das folhas, daí a expressão “salva de palmas”. Hosana e cânticos – A aclamação “hosana” significava originalmente “Oh! Salva-nos, SENHOR, nós te pedimos” (Sl 118.25). Esse pedido de socorro adquiriu, com o tempo, uma conotação de louvor. Tornou-se um grito de gratidão e esperança. Passeatas pacíficas – O relato evangélico nos dá a conhecer uma das primeiras, se não a primeira manifestação popular cristã organizada. Caminhadas e passeatas pacíficas são uma maneira legítima e impactante de dar a conhecer os valores do novo mundo de Deus (reino de Deus), em contraste com os valores materialistas e beligerantes da velha ordem mundial. Assim, se o culto desse dia não se limitar às quatro paredes dos templos, mas se abrir para a vizinhança, a igreja retomará, ao menos em parte, a força e a vitalidade do evento original que deu origem à tradição do Domingo de Ramos no cristianismo.
5 Subsídios litúrgicos Oração inicial Vem, visita-nos, em triunfo e humildade. Abre nossos corações, para que possamos dar-te as boas-vindas. E nós abriremos para ti as portas da justiça, para que entre o Rei da glória. Nós te saudamos, ó Rei humilde: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas! Oração de intercessão e súplicas Oh! Salva-nos, Senhor, nós te pedimos; Oh! Senhor, concede-nos prosperidade! [Apresentação dos motivos de intercessão pela igreja e pelo mundo.] Oração de dedicação e consagração Rei bendito, estendemos diante de ti os mantos da nossa gratidão, acenamos diante de ti com as palmas do nosso louvor, abrimos diante de ti as portas da justiça, para que tu pudesses entrar e reinar em nós e entre nós. Agora, por tua graça e misericórdia, nos comprometemos a te seguir pelos mesmos caminhos de humildade e paz. Amém.
Bibliografia BORG, Marcus J.; CROSSAN, John Dominic. A última semana: um relato detalhado dos dias finais de Jesus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007. ESQUILO. Agamemnon / Aeschylus. New York: [s.n.], 1957.
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PRÉDICA: JOÃO 13.1-17,31b-35 SALMO 116.1-2,12-19 1 CORÍNTIOS 11.23-25
QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
18 ABR 2019
Gleidson Ademir Fritsche
Vocês entenderam o que eu fiz?
1 Introdução
O amor de Deus se fez gente em Jesus Cristo. O verbo se fez carne. Jesus não apenas anunciou verbalmente o reino de Deus. Ele viveu aquilo que pregou. Porém esse viver responsável e comprometido com Deus teve consequências e não encontrou aceitação em todo o povo. Jesus está prestes a ser preso, torturado e assassinado. Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos – afirma o Salmo 116.15. Os laços da morte o estão envolvendo, aproximam-se a solidão e a angústia do Getsêmani, onde Cristo invoca o nome do Senhor, que o escuta, assim como o salmista afirma no Salmo 116.1. Porém essa angústia não impede Cristo de ter um bom momento de comunhão e de ensino junto aos discípulos. Jesus tinha conhecimento daquilo que o aguardava. No entanto, ainda havia tempo para ensinar, mais uma vez, através do exemplo, o amor tantas vezes anunciado. O salmista afirma: Cumprirei os meus votos ao Senhor na presença de todo o seu povo (Sl 116.18). Cristo está cumprindo, vivendo o amor de Deus, aquilo que ele é em carne e osso. O texto da carta (1Co 11.23-25) reproduz a instituição da última ceia na versão a que Paulo teve acesso. O texto de prédica substitui essa tradição pelo episódio do lava-pés.
2 Exegese O Evangelho de João foi escrito por volta do ano 100, na Ásia Menor, mais precisamente em Éfeso. Foi o último dos quatro evangelhos a ser redigido. João usa uma linguagem distinta, diversas vezes enigmática, porém expressa com profundidade o ser e o agir de Deus em Jesus Cristo. O autor opta pelo fato narrado ao invés do conceito teológico. O objetivo do evangelho não é apresentar uma biografia, e sim conduzir as pessoas à fé. O conteúdo distinto do evangelho escrito por João pode nos remeter ao fato de que o autor não quis repetir aquilo que as comunidades já sabiam. João omite a instituição da Santa Ceia, por exemplo, além de muitas parábolas e exorcismos. Por outro lado, a cura de um enfermo no tanque de Betesda, a cura de um cego de nascença, a ressurreição de Lázaro e boa parte do texto em foco, o lava-pés, são exemplos do rico material que consta apenas no quarto evangelho. O capítulo 13 do Evangelho de João faz parte do bloco que identificamos como o último discurso de Jesus aos discípulos, que inicia em 13.1 e se estende
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até o fim do capítulo 16. Esse bloco está localizado após a entrada de Jesus em Jerusalém (Jo 12.12-19) e antecede a oração sacerdotal, paixão, morte e ressurreição de Jesus (Jo 17 – 21). Em João 13, Jesus volta-se ao círculo mais íntimo de seguidores, mais especificamente ao grupo dos doze. Faltava pouco tempo para a Páscoa. Estava acontecendo a ceia. O diabo, aquele que separa, que divide, havia posto no coração de Judas que traísse Jesus. Mesmo assim, Jesus amou os seus no kosmos (mundo) até o fim. No grego, o termo usado para referir-se a “fim” é telos, o qual aparece no último grito de Jesus na cruz: tetelestai (está completado, Jo 19.30). O termo usado para se referir a amor é agapē: amor incondicional, que não depende de reciprocidade, amor que vem de Deus, que se fundamenta em Deus. Jesus sabe de onde veio e para onde vai. Ele serve e ensina, mesmo em meio à hostilidade que o cerca. Ele se levanta da ceia, tira a vestimenta de cima, pega uma toalha, amarra na cintura, coloca água na bacia e começa a lavar os pés dos discípulos. João redige com riqueza de detalhes a ação de Jesus e, assim, dá destaque extraordinário ao fato. Em geral, lavar os pés era serviço dos escravos. Num grupo de escravos, era o mais desvalorizado que servia lavando os pés. De modo algum era um mero ato simbólico. Há uma tradição que afirma que Calígula, imperador romano, humilhou os senadores ao ordenar que lavassem seus pés. Jesus, por sua vez, mostra o seu amor na liberdade de realizar esse humilde serviço com os discípulos. A inversão dos papéis é tão surpreendente que, mesmo entre os doze, não teve aceitação e compreensão, pelo contrário, foi um escândalo. Pedro não compreendeu que o senhorio de Jesus estava no servir. Jesus afirma que mais adiante Pedro entenderá: Agora você não entende o que estou fazendo, porém, mais tarde, vai entender. Compreendemos isso como uma referência à morte e ressurreição, a qual, muito mais do que o lava-pés, expressa o servir de Jesus. Pedro não quer ter os pés lavados, ou então, quer ser lavado por completo. Pula de um extremo a outro e segue sem entender o mestre. Se eu não lavar, você não será mais meu discípulo, diz Jesus. Entendemos isso no sentido de que a comunhão com Jesus só é possível a partir do momento em que compreendemos o seu servir, bem como o significado e a profundidade do seu amor. Através do lava-pés, Jesus deixa claro que não é o ser humano que opera a pureza para chegar a Deus. Aqui, em ato concreto, nos é mostrado que é Deus que se aproxima do ser humano. O ser humano não pode contribuir com nada nisso. Pode sim seguir o exemplo do mestre em gratidão pela imensa graça recebida: façam o que eu fiz. Fica claro que uma definição meramente verbal do amor de Deus fica muito longe de expressar o que realmente é o amor. Só compreende o sentido do agapē quem age por e em amor, até mesmo no grupo em que se encontra o seu traidor, aquele que irá negá-lo e os que irão abandoná-lo em meio ao sofrimento. Após lavar os pés dos discípulos, Jesus questiona: Vocês entenderam o que eu fiz? Ele mesmo dá a resposta e ordena que os discípulos façam o mesmo, que sigam o seu exemplo. Jesus ordena que, assim como ele os amou, que eles amem uns aos outros. Justamente nesse amar reside a identidade dos discípulos: Se ti-
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verem amor uns pelos outros, todos saberão que são meus discípulos. O termo utilizado segue sendo o agapē. Vale reforçar que não se trata de um 11° mandamento, e sim do mandamento que abarca toda a lei.
3 Meditação Vocês entenderam o que eu fiz? É a pergunta que Jesus nos dirige. Não apenas para a comunidade, mas também a ministros e ministras. Vocês entenderam o que eu fiz? Atualmente, lavar os pés de alguém não é mais tão usual como era na época de Jesus. Talvez tenhamos lavado os pés de algum familiar doente, de filhos e filhas quando pequenos, de pais quando idosos, da esposa ou do esposo em algum momento de dificuldade etc. Mas é bem provável que todos já tivemos nossos pés lavados, ainda que tenha sido na infância. No entanto, lavar os pés de alguém em gesto de pura humildade é coisa rara, escassa em nossos dias. Talvez até seria estranho ou incompreendido se ocorresse fora da liturgia do culto de Quinta-Feira Santa. No entanto, esse gesto concreto de Jesus pode ser atualizado em outros gestos. Com o que podemos assemelhar o lava-pés? Essa é uma pergunta que a comunidade como um todo precisa se fazer. Lavar os pés significa servir. Onde estamos servindo? Ou, antes disso, perguntar: estamos servindo? Como comunidade cristã evangélico-luterana, não podemos apenas teorizar o amor. Comunidade que não ama verdadeiramente a ponto de servir não tem identidade, não é reconhecida como igreja de Cristo. Comunidade que existe apenas para si mesma vai ler e ouvir como lei que acusa o versículo que diz: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros. Nossa identidade reside em seguir o exemplo do mestre que amou incondicionalmente a todos e todas, não em placas de identificação. Não desmerecemos as mesmas, porém essas se tornarão ridículas se não forem legitimadas pelo agir. É importante ressaltar que comunidade não são os outros, igreja não é só o presbitério. Falar em igreja na terceira pessoa (eles, elas), a meu ver, é errado. Quando nos referimos à igreja, devemos usar a primeira pessoa (eu, nós), na plena certeza de que somos parte de um mesmo corpo. Uma forma de servir como comunidade são as ofertas recolhidas em culto. Elas podem se transformar em “ação de lava-pés”. Como as comunidades lidam com essa oportunidade de servir? As ofertas locais que a comunidade escolhe para onde destinar estão sendo destinadas ou, simplesmente, “colocadas” no caixa? Seria oportuno transformar isso em pão, em remédio, em fralda geriátrica etc. Outra forma de servir é fazendo campanhas de arrecadação de alimentos a pessoas ou instituições. Há tantos sinais do Reino que percebemos na IECLB e fora dela quando comunidades se engajam em favor de uma causa justa, para auxiliar hospitais, escolas, instituições de longa permanência, pessoas etc. Fazer a comunidade como um todo refletir sobre as ações concretas em que tem se engajado é oportuno neste dia. Entretanto, cabe esclarecer que esse agir não pode, de forma alguma, ser motivado pelo mérito ou destaque que a causa pode
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proporcionar. Servimos por gratidão. Se somos reconhecidos por isso, que bom! Se não somos reconhecidos ou se somos criticados, seguimos servindo alegremente. Além do servir comunitário, o servir em família ou individualmente pode ser avaliado. Que “pés” tenho “lavado”? Tenho “lavado”? Onde tenho feito isso? Acaso estou apenas vendo e cuidando do que é meu, reclamando da minha unha encravada e fazendo dela o maior problema do mundo? Somos discípulos e discípulas de Cristo todos os dias. Servi-lo faz parte de nosso ser. É nossa identidade. Nosso mundo está carente de cuidado e humildade. Não temos condições de resolver os problemas do mundo inteiro. Não temos como acabar com a fome do planeta. Mas podemos fazer a diferença para quem está próximo. Cristo lavou os pés dos doze. Quem sabe, vamos lançar o desafio de cada um dos presentes no culto ajudar, de alguma forma, doze pessoas no período de um mês. Mas ajudar concretamente, com gesto, com ação, com amor e humildade. Faça uma conta rápida e avalie quantas pessoas serão alcançadas por Deus através da comunidade reunida em culto se todos os presentes aderirem ao desafio. Além de servir, estaremos ensinando, anunciando o evangelho através de nossas ações. Assim como Jesus ensinou com exemplos, também nós podemos fazê-lo. É fato que as pessoas aprendem com mais facilidade através de gestos do que de discursos.
4 Imagens para a prédica Sobre a importância de não apenas falar sobre amar e servir, propomos contar, nos últimos momentos da pregação, a seguinte fábula: Certa vez, três sapos estavam em cima de uma folha de vitória-régia, que flutuava sobre um lago. Um dos sapos começou a falar sobre como a água estava boa para nadar e decidiu pular na água. Quantos sapos ficaram em cima da folha? Deixe alguns instantes para que a comunidade reflita. Havia três sapos na folha, um decidiu pular, quantos sobraram? A resposta certa é: sobraram três sapos, pois aquele um apenas decidiu pular, mas, na verdade, não pulou. Às vezes, nosso viver se parece com o desse sapo. Também nós decidimos fazer isso, fazer aquilo, e não fazemos nada. Muitas vezes, ouvimos falar sobre como ajudar, como servir, como “lavar os pés”. Contudo, nem sempre temos mãos, mentes, gente disposta a realmente fazer, a “pular na água”. Que como igreja não apenas falemos sobre o amor de Deus, que não sejamos meros ouvintes da mensagem do evangelho, mas que sirvamos com palavras e ações, seguindo o exemplo de Jesus. Assim, seremos conhecidos como filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Cristo.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Querido e amado Deus, diante de ti reconhecemos que somos pessoas pecadoras. Por vezes, deixamos de lado a tua Palavra e não dedicamos tempo suficiente para aprender de ti. Nem sempre praticamos aquilo que aprendemos.
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Preferimos apenas ouvir e esquecemos de servir com nossos dons. Nem sempre estamos dispostos e dispostas a praticar a humildade, a lavar os pés uns dos outros. Não te amamos de todo o coração, nem amamos o nosso próximo como a nós mesmos. Por amor de teu filho Jesus Cristo, que nos deu o exemplo da humildade, que revelou seu grande amor por nós na cruz e que ressuscitou para nos dar a vida eterna, nós te pedimos: tem compaixão de nós e perdoa-nos. Amém! Oração do dia Senhor, agradecemos o teu imenso amor por nós e pedimos-te: vem nos ensinar através da tua Palavra. Que possamos ouvir e compreender o significado do serviço cristão em nossa vida. Que não sejamos meros ouvintes, expectadores do evangelho, e sim gente que serve. Que tua palavra alimente nossa fé, para que a partir dela anunciemos em palavras e ações a tua salvação. Que tua Palavra nos impulsione para que, assim como Cristo nos deixou o exemplo, nós deixemos bons exemplos a quem convive conosco. Amém! Sugestões de hinos Livro de Canto da IECLB (LCI), n° 412 – Foi no calvário; LCI, n° 422 – Lava-pés; LCI, n° 613 – Canto de esperança; LCI, n° 582 – Há sinais de paz e de graça; LCI, n° 577 – Qual barco singra pelo mar; LCI, n° 321 – Tua vontade.
Bibliografia BOOR, Werner de. Evangelho de João. Curitiba: Esperança, 2002. SCHNELLE, Udo. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010.
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SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
19 ABR 2019
PRÉDICA: HEBREUS 4.14-16; 5.7-9 OSEIAS 5.15b – 6.6 LUCAS 23.33-49
Kurt Rieck
Jesus, o amor incondicional de Deus
1 Introdução
Sexta-Feira Santa, data que nos inquieta e nos faz silenciar perante a morte de Cristo na cruz. Eis os textos que impulsionam e conduzem à reflexão. Oseias 5.15b – 6.6 apresenta um diálogo entre Deus e o povo. Deus está aguardando que seu povo se arrependa e novamente o procure. No primeiro diálogo, o povo manifesta-se com uma oração, cheio de esperança, confiança, pedido de perdão e juras de amor. No segundo diálogo, Deus fala de um amor passageiro, do fogo de palha, das ofertas queimadas que para nada servem. O que Deus espera do seu povo é obediência verdadeira. Tão claro como a luz do sol, Deus apenas deseja que o amem. Somos convidados a nos entregar ao amor de Deus. A partir do Novo Testamento, o Cristo crucificado é o ápice da expressão do amor de Deus. A humanidade tem a tendência de achar que é preciso fazer um circo para alcançar a graça de Deus. Deus apenas quer que o amemos e o obedeçamos. Aqui reside a salvação. A leitura do Evangelho de Lucas 23.33-49 é indispensável. É impressionante a riqueza dos detalhes dessa descrição das últimas horas vividas por Jesus. Na cruz jaz um rei impotente. Ruiu seu projeto? Seus seguidores perderam a esperança? Instala-se um caos em torno da cruz. Zombaria, ódio, ridicularização. Jesus continua seu ministério, mesmo dependurado na cruz. Ele diz: Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo. Uma fala tomada de puro amor incondicional. O milagre se deu. O horror não matou o amor. Aqui está o milagre do amor, a incompreensível misericórdia de Jesus. Queremos escutar novamente o nosso Senhor orando por todos aqueles que o crucificaram e ainda hoje o crucificam. Esse amor tem poder de salvar a humanidade.
2 Exegese O livro de Hebreus é uma literatura complexa, escrito por um autor desconhecido, erudito, conhecedor do Antigo Testamento e do sistema sacrificial do povo hebreu. A cultura de onde brota o texto pressupõe que “[...] as pessoas necessitam de um sacerdote perfeito e de um sacrifício perfeito; alguém que possa oferecer um sacrifício que de uma vez para sempre abra o acesso a Deus. [...] Cristo é o sacerdote perfeito porque é ao mesmo tempo pessoa perfeita e perfeito Deus. Em sua humanidade pode levar às pessoas a Deus e em sua divindade pode trazer Deus às pessoas” (Barclay, 1983, p. 11).
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4.14 – A comunidade é chamada a “permanecer firme na fé”. Essa afirmação corrobora a tese de que a carta foi escrita para uma igreja já estabelecida (5.12) que, no passado, havia sofrido perseguições (10.32-34) e tivera uma liderança expressiva (13.7). O Grande Sacerdote é tema que persiste como um fio vermelho nesse livro. O autor aponta para o centro da fé cristã, fazendo referência ao líder máximo da fé judaica. Ele recebe um nome: “Jesus, Filho de Deus”. Sublinha que ele agora se encontra na própria presença de Deus. “Jesus [...] penetrou os céus”. Olhar para o céu é olhar para o infinito. É nesse lugar transcendente e indescritível que Deus e Jesus se encontram. 4.15 – Jesus, antes de voltar “aos céus”, transitou na terra, compreendendo perfeitamente como se dá a fraqueza humana. Ele nos entende. Ele foi tentado à semelhança humana. Jesus trilhou o caminho empoeirado de todos nós. Passou por tudo o que um ser humano passa, mas com a diferença de que ele não pecou. Em Deus não existe pecado, logo, em Jesus não há pecado. Essa afirmação repete o que encontramos escrito em Isaías 53.9, 2 Coríntios 5.21 e 1 Pedro 2.22. Deus não se encontra nas nuvens. Deus, em Jesus, rompe com o imaginário fomentado entre as pessoas de que se encontra distante. 4.16 – Recebemos o convite para nos achegar perante Deus. Encontramos no capítulo 9 de Hebreus uma descrição detalhada dos ritos realizados junto ao “trono divino”. Com Jesus, a nova aliança recebe novos parâmetros. O sagrado, o Lugar Santo, é o próprio Cristo. O relacionamento com Deus se dá de forma simples e direta. Não mais precisamos de amuletos, construções, tesouros, relíquias e sacrifícios. Deus se achega a nós por intermédio de Jesus, cheio de graça e misericórdia. Jesus é Deus identificado com o sofrimento humano. Pompas e circunstâncias não são necessárias para perceber a grandeza de Deus. O centro está no que Cristo fez por pura graça, e não nos rituais que fazemos. Nos seis primeiros versículos do capítulo 5 encontramos uma reflexão em torno da escolha dos grandes sacerdotes do povo de Israel e como Jesus se enquadra nessa história. 5.7 – Jesus clamou a Deus para que fosse salvo da morte (Mt 26.39). Jesus chorou a morte de Lázaro (Jo 11.35). Jesus chorou, vendo o estado no qual Jerusalém se encontrava (Lc 19.41). Numerosos são os relatos em que Jesus se compadece da miséria humana e intercede por todos perante o Pai. Suas orações foram atendidas. Foi ouvido pela sua piedade e dedicação a Deus. Nós, em nossas agonias, clamamos. Jesus, em suas agonias, de igual forma, clamou a Deus. Expressa está a real condição humana de Jesus. 5.8 – E esse ser foi obediente. O aprendizado de Jesus ocorre em meio ao sofrimento. Seria de questionar se Jesus de fato precisaria aprender algo. Sendo Deus, já era da sua essência ser o que era. Sua essência estava sendo exposta, não que precisasse aprender a ser. No entanto, seu testemunho de obediência é exemplo para todos nós. Jesus, uno (um) com o Pai, apresenta uma postura de total identidade como Filho. Jesus é Deus num estado de Filho, de humano. 5.9 – Ao longo de sua história, Jesus foi aperfeiçoado, tornando-se “autor da salvação”. Jesus humano é assassinado, mas em sua ressurreição vence a morte, tornando-se “fonte da salvação eterna”. O transcendente, o eterno se con-
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solida. Aos humanos se torna real uma nova dimensão existencial. Obedecer-lhe, essa é a nossa condição. O discipulado cristão requer obediência a Cristo.
3 Meditação Hoje é dia feito para meditar naquilo tudo que Deus nos alcançou na pessoa de Jesus. A fé que professamos – Cristo foi morto. Cristo morreu. É fundamental retomar os princípios que regem nosso ser igreja de Cristo. Vivemos em uma sociedade distante dos valores cristãos. Muitas filosofias desvirtuam a essência da fé cristã. Confunde-se ressurreição com reencarnação. Cremos que corpo e alma morrem. E, segundo Hebreus 9.27, morremos apenas uma vez. É exclusivamente obra de Deus a ressurreição dos mortos. A “salvação eterna”, esse novo estado de ser, incorrupto, é única e exclusivamente obra de Deus. Nossa dor é a dor de Deus – Sexta-Feira Santa é dia para, da perspectiva da cruz, pensar nas próprias dores, nas dores dos que estão próximos, nas dores do mundo. Hebreus evoca em nós uma espiritualidade. Aquele que subiu – O ponto de partida é a eternidade. Nós confiamos no Grande Sacerdote, que extrapolou toda e qualquer experiência que alguém pode ter tido. Deus feito gente retornou à sua origem. A referência para a nossa existência é única e exclusivamente uma: aquele que está acima de todas as coisas, aquele que está sentado à direita de Deus. Encontramos aqui a grandeza e a divindade absolutas de Jesus. Ele se encontra lá onde nenhum outro teve acesso. Ele passou por todos os céus que poderiam existir. À medida que confiarmos naquele que se encontra no céu, a terra será para nós um local de vida. Somos chamados a confiar naquele que está acima de tudo. Aquele que desceu – A cruz por si só nos faz pensar. Ela permite que trabalhemos situações de dor, sofrimento, tentação, limites. Todos esses sentimentos trazemos ao altar de Deus. Confrontados com o sofrimento, reiteradamente surge a pergunta: como aquela pessoa tão boa precisa passar por todo esse sofrimento? Se essa lógica fosse correta, Jesus não teria sofrido a morte de cruz. Em Jesus, Deus se mostra presente nos nossos sofrimentos. Ele não se encontra distante, etéreo, longe, intocável. O sofrimento é real. Para a fé cristã, a presença de Deus é real. Nossa confiança não está em qualquer coisa. Somos chamados a confiar nossos problemas, nossas dores, nossos limites a Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele é dotado de uma qualidade única: ele é o Grande Sacerdote, intermediário entre o povo e Deus. A pessoa que melhor pode nos informar a respeito de um roteiro de viajem é aquele que por lá passou. Quem melhor pode nos ajudar em meio a uma enfermidade é aquele que por ela passou. A encarnação de Deus na pessoa de Jesus lhe dá a autoridade de dizer: “eu estive lá onde os seres humanos estão”. Em meio a essa pecaminosa realidade humana, o choro e o grito de Jesus pela vida foram tão forte que povo e poderosos agiram para calar sua voz. Mas não há artimanha humana que possa desfazer o amor de Deus pela humanidade. Deus teimosamente continua amando e desejando a salvação de todos.
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Achegamo-nos ao altar de Deus – O altar tem como centro a cruz. Na sua origem, a cruz é o símbolo do horror, o símbolo da morte. Deus, por meio de Jesus Cristo, transforma a pena de morte dos romanos em altar de paz entre Deus e os seres humanos. Ele nos acolhe aos pés da cruz, onde encontramos perdão, reconciliação, graça e misericórdia. No altar de Deus há espaço de adoração e glorificação. Com reverência e humildade, nos dirigimos ao “trono divino”, em cujo centro está Jesus Cristo. Assim, exercitamos espiritualidade. A palavra obediência soa forte. Ser cristão é ter Jesus Cristo como mestre. Não existe discipulado sem obediência, e nessa obediência somos desafiados a viver o amor incondicional. A esperança persiste naqueles que experimentam um encontro com Jesus. Ele tem poder de transformar pessoas. Permaneçamos firmes na fé!
4 Imagens para a prédica 1. Eu estive ali! “John Foster narra em um de seus livros como certo dia, ao voltar para casa, encontrou a sua filha ouvindo rádio e chorando copiosamente. Perguntou-lhe por quê. Soube que haviam noticiado que: ‘Os tanques japoneses entraram hoje em Cantão’. A maioria das pessoas ouviu essa notícia sem nenhum constrangimento. Os estadistas talvez a terão escutado com um sentimento de tristeza. Para a grande maioria a notícia lhes era indiferente. Por que, então, a filha do John Foster se desfazia em lágrimas? Porque justamente tinha nascido em Cantão. Para ela, Cantão significava uma casa, uma ama, uma escola, uns amigos e um lugar muito querido. A diferença consistia em que ela tinha estado ali. O ter estado ali faz toda a diferença. E não há nenhum âmbito da experiência humana do qual Deus não possa dizer: ‘Eu estive ali’. Quando temos uma história triste e lamentável para contar, quando a vida nos enche de lágrimas de sofrimento, não nos dirigimos a um Deus que seja absolutamente incapaz de entender o que nos aconteceu; vamos a um Deus que ‘esteve ali’” (Barclay, 1973, p. 50). 2. Amor incondicional. Sexta-Feira Santa é inteira expressão de amor incondicional. Relato uma situação ocorrida em meio aos festejos natalinos que nos ensina a colocar em prática esse amor incondicional. Partilho um testemunho dado pelo P. João Artur Müller da Silva no programa Comunidades em União, da Rádio União, em 11 de setembro de 2005. “Fui testemunha tempos atrás de uma situação que me ficou gravada na memória e que certamente irá me acompanhar ao longo da minha vida. Eu estava de visita a uma família de amigos que estavam vivendo um drama muito dolorido. Semanas antes do Natal, naquele ano, a sobrinha do casal amigo, de seis anos, tinha sido estuprada e morta por um jovem de aproximadamente 22 anos. A cidade ficou consternada com o caso. A menina estava vestida de anjo naquele domingo, porque tinha participado de uma encenação natalina na igreja. Ao sair do templo, sem os pais, ela foi abordada pelo jovem que cometeu a barbaridade. Isso aconteceu em dezembro e eu estava em visita aos pais e irmã da criança falecida em fevereiro do ano seguinte. Estávamos em seis pessoas na sala, quando a mãe da menina falecida me mostrou pela janela o telhado da prisão da cidade onde estava preso o rapaz que tinha estuprado e assassinado a sua filha. Em seguida, ela me disse que tinha ido lá na prisão e entregue
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uma carta ao assassino de sua filha, falando de sua dor, de seu pranto, mas também dizendo que lhe concedia o perdão, porque tinha aprendido assim na igreja e confiava na justiça de Deus, nosso Senhor. E, em seguida, ela me entregou uma cópia da carta e eu a li. Ao terminar a leitura, eu só pude lhe dizer que não tinha visto um testemunho tão forte de fé. E juntos choramos. Todos. Esse perdão não foi de mentirinha. Não foi com música ao fundo. Ele foi concedido em meio a lágrimas, em meio a muita dor. Mas, para o casal, foi muito importante conceder o perdão ao assassino de sua filha, porque assim eles não precisaram carregar ódio no coração, confiando verdadeiramente na justiça e misericórdia de Deus. O casal saiu daquela cidade que lhe trazia a triste e amarga recordação daquele domingo de Advento e foi recomeçar a vida em outra cidade, inclusive em outro estado. E anos depois esse casal ainda teve mais duas filhas. Essa cena de perdão foi real. Talvez você que me ouve não dê muito crédito ao que acabou de ouvir, mas posso lhe dizer que só a fé em Deus pode mover as pessoas num momento desses. Como pastor, eu nunca tinha presenciado algo assim tão intenso, tão verdadeiro, tão profundo como foi o ato de perdoar que essa mãe compartilhou comigo. Perdoar é um ato de fé. Você pode crer nisso!”.
5 Subsídios litúrgicos Hoje não se badalam os sinos e, liturgicamente, não se celebra a Santa Ceia. Ao nos dirigirmos à presença de Deus, ao nos achegarmos ao altar de Deus, motivamos a comunidade a ter uma atitude de adoração, reverência, humildade, reconhecendo o sacrifício de Cristo na cruz. Confissão de pecados Paixão – Hoje Traído foi meu Jesus não somente há dois mil anos. Traído foi não apenas em Getsêmani. Traído foi não apenas pelo discípulo Judas. Meu Senhor, muitas vezes, anteontem, ontem e hoje foste traído: Em minha casa foste traído; fui eu que te traí! Eu te traí não por um beijo, mas pela omissão de um ato de fé. Eu te traí não pela saudação: “Salve! Mestre!”, mas por deixar de dizer uma palavra amiga, uma saudação para o irmão a meu lado. Negado foi meu Jesus não apenas na noite de quinta-feira santa. Negado foi não apenas no pátio do palácio do sumo sacerdote. Negado foi não apenas por Pedro em seu medo. Meu Senhor, quantas vezes eu te neguei, de ti me envergonhei. Quantas vezes os homens me tiraram a coragem de confessar, quantas vezes preferi o calor deste mundo. Senhor, faze que eu me arrependa e volte como Pedro! (Johnson Gnanabaranam)
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Absolvição Este é o anúncio do amor incondicional proferido na cruz: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lucas 23.34). Mas o Pai sabe o que faz: permitiu que o sangue de Cristo nos purificasse de todos os nossos pecados! Oração do dia Deus, tu continuas revelando o teu amor incondicional por cada um de nós. Grato somos pela tua persistência, por não desistires de nós e da humanidade. Vem falar conosco neste tempo que ainda temos para ouvir a tua palavra. Amém.
Bibliografia BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, Hebreos. Buenos Aires: La Aurora, 1973. v. 13. GNANABARANAM, Johnson. Uma Nova Dança. São Leopoldo: Sinodal, 1970.
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DOMINGO DA PÁSCOA
21 ABR 2019
PRÉDICA: JOÃO 20.1-18 ISAÍAS 65.17-25 1 CORÍNTIOS 15.19-26
Emilio Voigt
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1 Introdução A perícope é composta por duas partes que provavelmente circulavam como tradições independentes. A primeira (v. 1-10) fala da experiência de Maria Madalena e de dois discípulos em torno do túmulo vazio. A ressurreição é mencionada, porém o Ressuscitado não está em cena. A segunda parte (v. 11-18) narra um diálogo entre Maria e o Ressuscitado. Maria recebe uma missão e anuncia aquilo que viu e ouviu. As duas partes estão “costuradas” como cenas de um episódio. É possível dar destaque a um trecho, mas não há razão para abreviar a leitura. O texto é majoritariamente narrativo, o que favorece a escuta e a pregação. Sobre as leituras: Isaías fala a um povo que passou anos no exílio babilônico e agora retorna à sua terra, ainda devastada. Nesse cenário desolador, o profeta anuncia a esperança de um tempo de alegria, fartura, longevidade, superação do mal. A esperança de um novo tempo também está contida na leitura da epístola: Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos as pessoas mais infelizes deste mundo (1Co 15.19). Enquanto o texto da pregação enfoca a ressurreição de Jesus Cristo, os textos de leitura ampliam a perspectiva. Também nós podemos experimentar a ressurreição e vivemos a expectativa de novos céus e nova terra.
2 Exegese V. 1 – A perícope inicia com várias informações: era o primeiro dia da semana, estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido removida. Na narrativa do sepultamento, o evangelista nada disse a respeito da pedra (Jo 19.40-42). Apenas mencionou que o túmulo era novo e ficava num jardim. Nos sinóticos, temos a informação de que o túmulo foi aberto numa rocha e que uma pedra foi colocada à frente (Mc 15.46; Mt 27.60; Lc 23.53). João pressupõe o conhecimento dessa tradição. Em Lucas 24.1ss, Madalena estava acompanhada de Joana e Maria, mãe de Tiago. Aqui, ela vai sozinha. Esse é apenas um exemplo de variação nos relatos da ressurreição. V. 2 – Ao ver o sepulcro vazio, Maria corre para avisar Pedro e o discípulo amado. A repetição da preposição (foi para Simão Pedro e para o outro discípulo) pode indicar que estariam em locais diferentes. Em todo caso, ambos são unidos pela notícia de que o corpo de Jesus foi retirado do túmulo. A declaração “não
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sabemos” pode se referir à Maria Madalena e aos dois discípulos ou pressupor que outras pessoas já sabiam do ocorrido. Pode ser reminiscência de uma tradição na qual mais mulheres vão ao túmulo. O detalhe importante é que a possibilidade da ressurreição ainda não é vislumbrada. A explicação mais plausível parece ser a de que o corpo foi levado, em uma ação que poderia ser de pessoas amigas, de ladrões, de lideranças judaicas ou até do Império Romano. V. 3-7 – Após ouvir o relato de Maria Madalena, Pedro e o discípulo amado saem correndo em direção ao sepulcro. O evangelista não diz se ela os acompanha na corrida. O discípulo amado foi mais veloz e chegou antes, porém não entrou. Simão Pedro chegou depois, mas entrou primeiro. A “concorrência” entre os dois é comum no quarto evangelho e retrata a tentativa de equilibrar as posições de Pedro e do outro discípulo nos círculos cristãos. A observação sobre a localização dos panos motiva um questionamento: por que eles foram deixados? Não deviam também estar desaparecidos? Seria muito improvável que alguém despisse o corpo de Jesus para levá-lo a outro lugar, dando-se inclusive ao trabalho de deixar dobrado (ou enrolado) o lenço usado para envolver a cabeça do cadáver. V. 8-10 – A conclusão a ser tirada é que os panos e o lenço enrolado são sinais da ressurreição. No Evangelho de João, os sinais têm intenção de levar à fé (Jo 20.30s). O discípulo amado entrou no túmulo, viu os panos e creu. Não há indicação sobre a reação de Pedro. A explicação de que eles ainda não haviam compreendido a Escritura dá a entender que agora ambos compreendem e creem. Seja como for, a fé parece ficar sem consequência. Não há manifestação de alegria nem de testemunho da ressurreição. Aliás, os dois discípulos não falam uma palavra sequer em toda a cena. Embora já compreendam a Escritura, têm-se a impressão de que ainda se encontram atordoados com os eventos pré-pascais. De forma lacônica, João relata que os dois foram embora e, assim, encerra a primeira parte do episódio. V. 11-13 – A segunda parte inicia com Maria Madalena chorando em frente ao túmulo vazio. O evangelista não menciona se ela tomou conhecimento da experiência dos dois discípulos. O túmulo é lugar de despedida, de solidão, de recordações, de luto. A dor do luto é a dor da perda, que se torna ainda mais intensa porque o corpo do defunto está desaparecido. Até esse elo foi perdido. Presa ao luto e inconformada com a situação, ela olha para dentro do túmulo. Neste momento, vê dois anjos marcando o lugar onde deveria estar o morto. João não se preocupa com a possível pergunta: estariam os anjos já na cena anterior e não foram vistos pelos discípulos? Os anjos perguntam o motivo do choro e Maria responde quase nos mesmos termos que havia falado aos discípulos (há dois pormenores: meu Senhor e uso do singular – não sei). V. 14-17 – Diferente dos mensageiros em Lucas 24.4-7 (cf. Mt 28.5-7; Mc 16.5-7), os anjos não trazem a notícia da ressurreição, mas apenas perguntam. Tão logo respondeu, Maria se virou e viu Jesus, porém não o reconheceu. Esse fato está em correspondência com a narrativa dos discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.16). O Ressuscitado também indaga o motivo do choro e acrescenta outra pergunta, indicando já saber a resposta. Supondo falar com o jardineiro, Maria quer saber o suposto lugar onde estaria o corpo. Ela está disposta a buscá-lo, onde
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quer que esteja. Jesus então pronuncia o nome – Maria! –, e ela imediatamente o reconhece, respondendo “(meu) mestre!”. Aqui se pode fazer associação com João 10.3 (as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama as suas próprias ovelhas pelo nome) e com o episódio de Emaús. Assim como os discípulos reconhecem Jesus por um gesto conhecido (Lc 24.30s), Maria reconhece Jesus quando ele a chama pelo nome. Neste momento a procura teve fim, a tristeza finalmente se converteu em alegria (Jo 16.20). A tradução e interpretação do v. 17 estão circundadas por impasses. Na maioria das ocorrências no Novo Testamento, Almeida traduziu o verbo grego aptou por “tocar” (ex.: Mt 8.3; 9.20; 17.7; 20.34; 1Co 7.1; 2Co 6.17; 1Jo 5.18). Apenas neste versículo ele optou pelo verbo “deter”. Na mesma linha segue a versão NTLH: “não me segure”. A Tradução Brasileira prefere verter por “não me toques”. Essa também foi a opção de Lutero (rühre mich nicht an) e da Vulgata (noli me tangere), que se tornou referência para muitas pinturas e fantasias sobre a cena. “Não me toque” e “não me detenha” são possibilidades válidas de tradução. A primeira tem caráter de proibição e a segunda abriga um tom de solicitação. É difícil explicar por que Jesus proibiria Maria, mas depois faz questão que Tomé o toque (Jo 20.27). Considerando esse aspecto e a forma verbal, a tradução de Almeida e a da NTLH parecem mais adequadas. O imperativo presente, associado à partícula de negação, caracteriza interrupção de uma ação em curso. Isso significa que Maria já estava tocando ou segurando e Jesus pede que ela o solte. Pode ser que Maria tenha abraçado o Ressuscitado ou agarrado os seus pés, como fizeram as mulheres em Mateus 28.9. A tradução do verbo aptou não resolve todo o problema. O comentário porque ainda não subi para o meu Pai soa ilógico, pois parece subentender que Maria poderá segurar Jesus depois que ele subir ao Pai. Uma interpretação possível seria: a expressão “porque ainda não subi” remete à ascensão, que inaugura nova fase na relação entre Jesus e as pessoas que o seguem. O que caracteriza o novo momento não é a ausência, mas justamente a presença do Ressuscitado. Essa presença, todavia, é de outra natureza. A partir da ressurreição e da ascensão, Jesus não está mais limitado pelo seu corpo humano. A ressurreição não restaura a condição anterior à crucificação, mas abre o caminho para a exaltação de Jesus, que possibilita novas formas de contato. Maria precisa soltar, se desvencilhar da forma pré-pascal de relacionamento e deixar o Ressuscitado seguir o caminho da exaltação. Junto com o pedido para soltar, ela recebe a missão de anunciar: Vá até os meus irmãos e diga a eles: subo para o meu Pai e o Pai de vocês, para o meu Deus e o Deus de vocês. V. 18 – Maria Madalena cumpriu sua missão e testemunhou a ressurreição. Nesta perícope, ela é a primeira em vários aspectos: foi a primeira a ir ao túmulo, a primeira a relatar o túmulo vazio, a primeira a ver o Ressuscitado e a primeira a dar testemunho da ressurreição.
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3 Meditação Para o apóstolo Paulo, o anúncio sobre Jesus Cristo é vazio se não falar da ressurreição. Da mesma forma, a fé será vazia se não estiver baseada na ressurreição (1Co 15.14). Fé cristã não existe sem ressurreição. Essa é a grande mensagem da Páscoa e, ao mesmo tempo, o grande desafio. A fé na ressurreição contempla dois elementos indissociáveis: o evento e o significado. Para ser preservada, necessita de ainda um terceiro ingrediente: o testemunho. a) O evento: Ressurreição não é um fenômeno plausível e sempre foi assunto controverso. Atos dos Apóstolos diz que os saduceus negavam a ressurreição, enquanto os fariseus admitiam a expectativa (At 23.8). Paulo foi zombado em Atenas porque a ressurreição não se encaixava nos padrões do pensamento filosófico (At 17.32). Tudo indica que até seguidoras e seguidores de Jesus não contavam com tal possibilidade. Mateus relata que alguns discípulos duvidaram quando viram Jesus (Mt 28.17). Em Marcos, as mulheres fugiram apavoradas do sepulcro (Mc 16.8) e os discípulos não acreditaram quando Maria Madalena anunciou que Jesus vivia (Mc 16.10s). Os discípulos que iam para Emaús não tinham convicção da ressurreição (Lc 24.21ss). Tomé disse que só acreditaria se pudesse ver os sinais dos pregos e tocar em Jesus (Jo 20.25). Se as pessoas que conviveram com Jesus tinham dificuldades de acreditar na sua ressurreição, o que as convenceu do contrário? O sinal do túmulo vazio despertou a fé no discípulo amado. Ali ele compreendeu o que a Escritura dizia. Ainda assim, o túmulo vazio é uma evidência frágil, pois pode perdurar a suspeita de que alguém tirou o cadáver. Talvez por isso João acentue que os panos estavam lá, sinalizando que o corpo não foi retirado, mas que Jesus se libertou das ataduras da morte. Se o túmulo vazio é um sinal, o encontro do Ressuscitado com seguidoras e seguidores é a manifestação indiscutível da ressurreição. Por isso o apóstolo Paulo faz questão de mencionar uma extensa lista de pessoas que tiveram essa experiência (1Co 15.5-8). Por algum motivo, Paulo não cita Maria Madalena nem as demais mulheres. O evento da ressurreição não é explicado em nenhum texto bíblico e as aparições estão igualmente cercadas de mistério. O Ressuscitado traz as marcas da crucificação (Jo 20.27), as pessoas podem ver (Jo 20.18), ouvir (Lc 24.32) e tocar (Mt 28.9). Por outro lado, Jesus não é reconhecido (Lc 24.15s; Jo 20.14; 21.4) e pode aparecer e desaparecer de forma extraordinária (Lc 24.31; Jo 20.19). Que corpo é esse que pode comer e também “atravessar” paredes? Quem buscar uma resposta racional e plausível não a encontrará. Não nos resta muito mais do que, seguindo o testemunho bíblico, confessar a ressurreição como obra divina (At 2.32; 1Pe 1.21). Ainda que tenha conteúdos objetivos, a fé também é caracterizada pelo fator subjetivo, implausível e inexplicável. b) O significado: Se não tivesse ressuscitado, Jesus seria apenas uma entre tantas pessoas crucificadas pela autoridade militar do Império Romano. Neste caso, porém, a cruz não foi instrumento poderoso o suficiente. Pilatos mata; Deus ressuscita. A ressurreição proclama que as forças da injustiça, opressão, brutali-
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dade e do ódio não vencerão sempre. Mais do que isso, a ressurreição é a comprovação de que o sangue derramado por Jesus constitui a nova aliança (1Co 11.25; Mc 14.24) e é possibilidade de redenção para toda a humanidade. Sua morte não foi em vão; o poder do amor é mais forte. Por sua natureza e seu significado, a ressurreição de Jesus se distingue de outros casos de ressurreição (1Rs 17.10-23; 2Rs 4.32-37; Lc 7.11-16; Jo 11.3244). Nesses casos, as pessoas retornaram à vida e morreram posteriormente. Jesus Cristo ressuscitou para a vida eterna. Sua ressurreição marca a vitória completa sobre a morte (1Co 15.54s) e é o prelúdio da nossa ressurreição (1Co 6.14; 15.21-22). A Páscoa é manifestação de um cenário no qual temos parte. Essa é a esperança contida nos textos de leitura para o domingo. A Páscoa substitui luto e desalento por vida e esperança. c) O testemunho: Túmulo vazio, pano enrolado, encontro com o Ressuscitado – hoje não temos acesso a nenhuma dessas evidências e experiências. A palavra de João 20.29: Bem-aventurados são os que não viram e creram é e continuará atualíssima. A fé na ressurreição brota da Escritura, da pregação, das experiências. Às vezes somos como os discípulos que não compreendem, ou como Madalena que não reconhece. Às vezes precisamos de um sinal para entender ou de um nome para identificar. Cada qual faz a sua busca e passa por experiências. Em todos esses movimentos é o próprio Ressuscitado que se revela, que se deixa encontrar. A fé na ressurreição chegou a nós pelo testemunho de pessoas que experimentaram a presença do Ressuscitado. Hoje, a comunidade cristã experimenta essa presença quando se reúne em nome de Cristo (Mt 18.20), quando partilha a Ceia do Senhor, quando atua em serviço de amor. É missão da comunidade dar testemunho para transmitir a fé. A fé na ressurreição é transmitida e recriada não como obra humana, mas como um presente divino que sempre se renova.
4 Imagens para a prédica O escopo da perícope é a mensagem da ressurreição e o Ressuscitado é o personagem central. Maria Madalena não é mera coadjuvante. Seu papel na narrativa é importante para a prédica, que pode ser elaborada a partir das ações dessa discípula. Triste e ainda sem a perspectiva da ressurreição, ela vai de madrugada ao sepulcro, vê a pedra removida, pensa que o cadáver foi retirado, corre para avisar os discípulos, volta para o túmulo, insiste em saber onde estaria o corpo. Maria está à procura e disposta a tudo para encontrar. É um exemplo de persistência, cuidado, amizade e discipulado. O nome de Maria Madalena muitas vezes é associado a uma pecadora arrependida. Como prostituta ou adúltera, seu pecado estaria relacionado a sexo. Em círculos literários sensacionalistas, é descrita como amante ou esposa de Jesus. Teriam tido até uma filha! Todas essas ilações e fantasias não sobrevivem a um exame criterioso das fontes, como bem demonstrou Silke Petersen em uma obra que ainda não tem tradução para o português. A imagem de Maria Madalena foi adulterada e é necessário resgatar seu papel como discípula de Jesus. Ela é dis-
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cípula da última e da primeira hora. Ficou até a última hora da crucificação (Jo 19.25) e foi a primeira a ir ao túmulo (Jo 20.1). Quem você procura? Maria não achou um defunto. Ela encontrou o Senhor, o Mestre, o Ressuscitado. Seus olhos certamente brilharam de alegria, assim como brilham os olhos da criança que procura e encontra uma cesta de Páscoa. A analogia com a cesta de Páscoa pode ser utilizada em contextos nos quais há esse costume. A procura termina quando a criança encontra a cesta. A procura de Maria Madalena terminou quando ela encontrou o Ressuscitado. Também poderíamos dizer: foi encontrada por ele. Ela, que estava perdida na dor do luto, foi encontrada pela certeza da vida e tornou-se a primeira testemunha da ressurreição.
Bibliografia BARRET, Charles K. Das Evangelium nach Johannes. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1990. PETERSEN, Silke. Maria aus Magdala: Die Jüngerin, die Jesus liebte. Leipzig: Evangelische Verlagsanstalt, 2011. WENGST, Klaus. Das Johannesevangelium. Stuttgart; Berlin; Köln: Kohlhammer, 2001. 2. Teilband: Kapitel 11-21.
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28 ABR 2019
PRÉDICA: SALMO 118.14-29 JOÃO 20.26-31 APOCALIPSE 1.4-8
Nilton Giese
Celebrar a misericórdia do Senhor
1 Introdução Por que celebrar? O que as celebrações trazem de novo, que outras atividades não podem trazer? Procuremos visualizar as seguintes situações: – Num acampamento de sem-terra, cinquenta famílias estão se preparando para a ocupação de um terreno. Toda noite, reúnem-se em torno do cruzeiro no meio do acampamento. Oram e cantam. Ouvem a palavra de Deus. Imploram a ajuda do Senhor. Pedem força e coragem. Invocam sua bênção e sua presença. – Num bairro da periferia de uma grande cidade, outras tantas famílias construíram seus barracos em mutirão. Depois de concluída a última casa, combinam uma celebração para agradecer a Deus que “deu” as casas. – Outro dia, numa favela de Belo Horizonte, um grupo de prostitutas, algumas maltratadas e machucadas pela polícia, entrou na casa das irmãs vicentinas e disseram: “Irmã, reza para nós o Salmo 90!”. A irmã Ligia estranhou o pedido, mas fez o que lhe pediram. Enquanto lia o salmo, as moças comentavam tanto que quase nem deixavam a irmã fazer a leitura. Elas encontraram lá dentro o espelho do que estavam vivendo e sofrendo! No fim da leitura disseram: “Agora, irmã, reze de novo e a gente vai ficar quieta e escutar”. A irmã assim o fez. No fim, rezou com elas um Pai-Nosso. Terminando o Pai-Nosso, disseram: “Irmã, muito obrigada! A senhora nos ajudou demais!”. A irmã nada mais fez do que ler o salmo e permitir que elas comentassem. “... nos ajudou demais!”. Cenas como essas nos lembram que, desde os tempos bíblicos, o povo de Deus faz uma leitura teologal dos fatos políticos e sociais.
2 Exegese Os salmos não nasceram de poemas privados. O poeta solitário que comove o mundo é uma criação do romanticismo no final do século XVIII. Orações e cânticos na Bíblia cresceram a partir de uma preocupação com a vida do grupo. Entre o povo de Israel, a adoração a Javé sempre era uma preocupação e um dever da família ou do clã. Essa constatação também vale para os bandos de seminômades que migravam entre o deserto e a terra cultivada. Os ritos religiosos efetuados dentro ou em prol da família/clã serviam para sustentar e proteger o próprio grupo. Os ritos aconteciam nos pontos altos da experiência humana (puberdade, casamento, maternidade, posse da liderança) e também nos momen-
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tos de angústia, em que a vida do grupo estava seriamente ameaçada (doenças e outras calamidades). Mas também podemos imaginar outros ritos, como agradecimentos, ações de graça, cumprimento de votos, expiações etc. O Salmo 118 é um hino litúrgico que expressa gratidão a Deus por sua bondade e sua misericórdia. Deus trouxe o que as pessoas precisavam. A bondade e a misericórdia de Deus são expressas em seus versículos. O Salmo 118 confessa que a presença de Deus é quem sustenta as vitórias, as dificuldades e também as derrotas. Mas nem por isso as pessoas ficam de braços cruzados. O salmo expressa que as pessoas devem assumir com garra e coragem a parte que lhes cabe, em parceria com Deus. O salmista diz que seu grupo/família/clã lutou contra as forças da morte que estão dentro e fora dele. Ele teve de lutar contra o medo, a tensão, a insegurança que estão dentro dele, assim como teve de lutar contra as forças da morte fora dele. Vencer essa dupla oposição só foi possível por causa da intervenção da justiça divina. E ele reconhece que a glória de Deus se manifesta neste mundo quando a vida é vitoriosa, apesar das ameaças das forças da morte. Quando a misericórdia de Deus se manifesta, é uma verdadeira festa. O Salmo 118 celebra essa parceria entre Deus e seu povo. Gloria Dei, vivens homo – dizia Santo Irineu. Dom Oscar Romero traduziu Gloria Dei, vivens pauper. A glória de Deus é que o pobre viva, apesar da realidade cruel que ameaça e esmaga sua existência. Por isso todo trabalho, toda luta, todo esforço feito pela vida das pessoas excluídas é participação na glorificação de Deus. O que ocorreu nos tempos bíblicos ainda hoje acontece nas comunidades pobres. O cântico novo brota das lutas das camadas populares, mesmo contando com a participação de poetas de classes altas da sociedade. Quem canta a própria existência são as pessoas humildes. Aqui na região Sudoeste, uma prática antiga e tradicional da história brasileira são os cantos de trabalho, principalmente no espaço rural. Oriundos de tradições musicais indígenas, mescladas com as influências europeias e africanas, os cantos de trabalho marcam os ritmos de trabalho, unificando ainda o trabalho coletivo e contribuindo para que se diminuísse a extenuação decorrente das longas jornadas de trabalho. Os cantos de trabalho demonstram uma solidariedade existente entre os trabalhadores e as trabalhadoras, principalmente nos trabalhos realizados em regime de mutirão, em que um grupo se unia para poder realizar alguma tarefa que fosse muito cansativa e difícil para uma única pessoa.
3 Meditação Celebrar é ressaltar o significado – Celebrar é tornar célebre, é ressaltar o significado. O ser humano é um ser celebrante. Se tirássemos a celebração, perderíamos o significado da vida. Ninguém fica sem comemorar um aniversário, um casamento, os gols de seu time, a vitória de seu partido ou de seu candidato, a colheita, a morte. Através da celebração é como se quiséssemos segurar aqueles fatos entre as mãos.
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Para celebrar é preciso trabalhar com ritos e mitos. Esses são um esquema de representação da própria realidade. Os ritos e os mitos expressam a visão que um determinado grupo tem da pessoa humana e do mundo, da história e da sociedade. Sem essa imagem feita de palavras, de objetos, de ações simbólicas, parece que não conseguimos vivenciar o significado do que estamos vivendo. A celebração dramatiza e ritualiza em gestos e palavras, cantos e danças, aquilo que se crê. E a fé se alimenta dessa expressão simbólica. Tudo na liturgia é simbólico: o espaço, o tempo, as relações entre as pessoas, os objetos, os gestos, as palavras. Tudo se refere a uma realidade invisível, que se torna presente a nós mediante algo visível e palpável. Quem de nós não tem um objeto guardado com carinho (um lenço, uma aliança, uma foto, uma carta), que nos serve de ligação, de comunicação e de comunhão com uma pessoa querida? Os símbolos despertam e tornam presente uma realidade invisível, ausente, escondida. O símbolo nos permite entrar em contato com essa realidade e vivenciá-la. Na ação litúrgica cristã, a realidade escondida é o Reino inaugurado na vida, morte e ressurreição de Jesus; são os novos céus e a nova terra, onde não haverá mais injustiça, nem luto, nem dor; é a vida plena, em abundância para todo o povo de Deus. É a força de vida que vence as forças internas e externas da morte. Por isso a celebração litúrgica não pode ficar no nível de uma ação técnica, funcional. Não se pode acender o círio pascal ou as velas sobre o altar da mesma maneira que se acende um fogão. O pão e o vinho usados na Santa Ceia, a água usada no batismo, o óleo usado na unção não são objetos sagrados em si, mas fazem referência à presença de Jesus Cristo entre nós. Por isso a liturgia e os símbolos usados no culto somente têm sentido se através deles ficamos mais ligados ao Senhor. Celebrar a misericórdia do Senhor (Misericordias Domini) – No Antigo Testamento, Deus é considerado “misericordioso e compassivo”. Também no islã o título “Misericordiosíssimo” (al-Rahman) e Compassivo (al-Rahim), referências de Alá, são os nomes mais comuns que ocorrem no Alcorão. Misericórdia é um sentimento de compaixão, despertado pela desgraça ou pela miséria alheia. A expressão misericórdia tem origem latina: é formada pela junção de miserere/miserator (ter compaixão), e cor/cordis (coração). A ênfase na misericórdia também aparece em numerosas partes do Novo Testamento, por exemplo, nas bem-aventuranças, em Mateus 5.7: Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. A parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32) tornou-se um tema importante sobre a extensão da misericórdia divina para os outros. Em Efésios 2.4-5, o apóstolo Paulo refere-se à misericórdia de Deus em termos de salvação: Mas Deus, sendo rico em misericórdia pela sua grande caridade com que nos amou, mesmo quando estávamos mortos pelos nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos). As 14 obras de misericórdia – As obras de misericórdia (sete corporais e sete espirituais) são parte das tradições católica e ortodoxas orientais. Estes 14 preceitos devem ser seguidos por seus fiéis.
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– As sete ações corporais são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, vestir os presos e enterrar os mortos. – As outras sete obras se referem a ações espirituais: dar bom conselho, ensinar os que não sabem, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, ser tolerante com as fraquezas do nosso próximo e rogar a Deus por todos os necessitados. Já desde o século III, a passagem da época quaresmal para a época pascal era marcada pela alegria pascal. Os seis domingos depois da Páscoa – até o domingo de Pentecostes – deveriam expressar a alegria e o significado do “Cristo ressuscitou!”. Por isso, nas igrejas luteranas, o segundo domingo depois da Páscoa é chamado de Misericórdias do Senhor. Nesse domingo, somos lembrados da misericórdia de Deus por nós e pela criação e somos chamados a lembrar das 14 obras de misericórdia. Cristo ressuscitou – Aleluia! Mas o que esse Cristo ressuscitado espera de nós? As 14 obras de misericórdia são uma resposta para reafirmar a aliança que Deus faz com o seu novo povo, a partir de Jesus Cristo. Sugestões para a prédica e o gesto litúrgico – O Salmo 118 celebra a presença de Deus que possibilita a vitória sobre as forças (internas e externas) que ameaçam a vida. Sugiro refletir com a comunidade sobre essas forças (internas e externas) que ameaçam a vida da comunidade. Por que elas surgem? Deixar que as pessoas se manifestem livremente. O Salmo 118 convida-nos a celebrar a presença libertadora de Deus e a reconhecer que essa celebração somente é possível porque a justiça divina venceu as forças da morte. Sugiro, portanto, que a pregação destaque a presença libertadora de Deus e a importância de celebrar a vitória da vida sobre as forças do mal. Sugiro também ter o cuidado para não considerar a diversidade de opiniões como algo mau. A diversidade é uma bênção de Deus se soubermos usá-la a serviço do amor de Deus. Por isso sugiro apresentar as 14 obras de misericórdia com uma provocação para a comunidade. O desafio é que nesse tempo pós-pascal até o dia de Pentecostes tratemos de viver as 14 obras de misericórdia. No entanto, devemos deixar bem claro que praticar as 14 obras de misericórdia é nossa maneira de agradecer a Deus por sua presença libertadora entre nós.
4 Recursos litúrgicos Confissão de pecados Senhor Jesus Cristo, em nossos hinos e orações te adoramos e confessamos que tu és o Senhor da vida, vencedor sobre todos os poderes deste mundo, criador e salvador de tua comunidade. Mas na vida do dia a dia nos invadem sentimentos de culpa e de dúvida sobre a certeza do teu poder. Vivemos num mundo cheio de insegurança, e algumas vozes nos dizem que a segurança é mais importante que a liberdade. Ajuda-nos com tua Palavra a discernir o que tu dizes diante das nossas dúvidas. Tem piedade de nós, Senhor!
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Absolvição Deus está atento à nossa oração e através de Jesus Cristo vem ao nosso encontro para nos dizer: Os que esperam no Senhor, renovam as suas forças. Pois no Senhor há misericórdia. Nele há copiosa redenção (Is 40.31). Desta maneira, por ordem de nosso Senhor Jesus Cristo, anuncio a todas as pessoas com o coração angustiado e arrependido o perdão dos seus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Oração do dia Cria em mim, ó Deus, um coração novo e dá-me um espírito novo (Sl 51.12). Quando eu estiver solitário, cria em mim um coração alegre que sinta a tua presença. Quando eu estiver esgotado, cria em mim um coração esperançoso que me lembre do sentido de minha vida. Quando eu estiver sofrendo, cria em mim um coração paciente que carregue o fardo com quietude. Quando eu estiver sendo tentado, cria em mim um coração firme que lute contra a tentação. Quando eu tiver caído, cria em mim um coração confiante que receba o teu perdão. Quando eu tiver sido abençoado com bens, cria em mim um coração agradecido e generoso que sabe repartir as tuas dádivas. Quando eu estiver reunido com amigos(as), cria em mim um coração sensível que consiga dar testemunho do teu Evangelho. Amém. (Johnson Gnanabaranam) Oração geral da igreja Graças te damos, Senhor Jesus Cristo, porque tu és o Senhor no céu e na terra. Tu vieste ao mundo para dizer que o céu não é um lugar distante, além das nuvens e das estrelas. Mas o céu é lá onde tu estás presente. O céu é lá onde sentimos a tua mão estendida diante de nós, onde te sentimos perto de nós nos momentos de angústia e aflição. Teu céu é aqui na terra quando lutamos contra o sofrimento e os poderes da morte. Teu céu é aqui na terra quando vivemos em solidariedade. Ajuda-nos a viver sinais desse teu céu com as 14 obras de misericórdia. Tu tens sido sempre bondoso e misericordioso conosco. Dá que nós também sejamos assim. Que possamos mostrar nossa gratidão pelo teu amor e tua misericórdia, sendo nós também bondosos e misericordiosos. Acompanha-nos, Senhor, nesta semana. Dá-nos a confiança que tu estarás conosco. Faze-nos mensageiros do teu amor diante das situações difíceis. Dá-nos, Senhor, a tua bênção. Pai nosso... Bênção O Senhor te abençoe. Ele encha teus pés com dança e teus braços com força solidária.
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Ele abra teus olhos para enxergares o mundo. Ele encha teus ouvidos com música. Ele sopre em tuas narinas o sopro de vida renovada. Ele coloque em tua boca palavras de júbilo e em teu coração alegria. Ele te dê ânimo e sabedoria para seres um reflexo da esperança. Ele te guarde em seu imenso amor. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
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05 MAIO 2019
PRÉDICA: APOCALIPSE 5.11-14 SALMO 30 JOÃO 21.1-19
Jaime Jung
Louvar e esperançar
1 Introdução O que o futuro trará? Essa pergunta inquieta a maioria das pessoas em algum momento da vida, seja em relação ao seu futuro pessoal, à sua família ou a suas perspectivas profissionais, ou, num âmbito mais global, diante de constelações políticas e econômicas cada vez mais instáveis. Enquanto algumas pessoas dizem: “Este mundo não tem mais jeito!” ou “É mesmo o fim dos tempos!”, outras afirmam, como uma declaração de fé, que “só por Deus” as situações de medo, incerteza e injustiça podem ser resolvidas. O texto de Apocalipse 5.11-14 é uma declaração universal do poder de Deus, em Jesus Cristo, o Cordeiro – o qual detém o passado, o presente e o futuro em suas mãos e que é o único digno de louvor e adoração. O livro de Apocalipse traz uma forte conotação simbólica e esses “símbolos dirigem-se mais ao coração do que à cabeça” (Hoefelmann, 2000, p. 46). De qualquer forma, “todos os símbolos apontam na mesma direção: por mais fortes que sejam os poderes contrários a Deus, a vitória final pertence àquele que criou o mundo e tudo fará para conduzi-lo a seu alvo” (Hoefelmann, 2000, p. 46). Essa vitória é motivo de louvor. Assim, o Salmo 30 também é um convite para louvar o Senhor, que nos livra, salva e preserva a vida. O salmista afirma que renderá graças a Deus para sempre – esse “sempre” remete a algo que não tem mais fim, como o louvor no final dos tempos. Neste 3º Domingo da Páscoa, o texto de João 21.1-19 fala sobre a aparição de Jesus aos discípulos, de maneira bem concreta, tanto que lhes pede algo para comer. Ao mesmo tempo, ele surge como o ressuscitado, aquele que venceu a morte e que já havia aparecido pela terceira vez aos discípulos (v. 14). Como no texto de Apocalipse, Cristo vem ao encontro das pessoas, e todas “sabiam que era o Senhor”.
2 Exegese Como já afirmamos, no livro do Apocalipse, “cada página confronta-nos com um grande número de símbolos. [...] Eram tempos de conflito entre as comunidades cristãs da Ásia e as autoridades romanas. O Apocalipse é uma resposta a essa situação. Ali o autor caracteriza o poder romano como diabólico” (Hoefelmann, 2000, p. 44-45).
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João, o autor do Apocalipse, foi vítima de perseguição política e religiosa. Provavelmente, próximo do final do governo de Domiciano (81-96 d.C.), tenha sido desterrado para a ilha de Patmos, onde escreveu o seu livro entre 93 e 95. Mesmo nessas condições, “ele consola e fortalece as comunidades para que resistam às tribulações e continuem a dar seu testemunho. Anuncia que Cristo virá em breve para libertá-los do sofrimento e julgar os seus inimigos. Tudo isso é dito de maneira simbólica. Em tempos de repressão, falar claro é perigoso e, por isso, é preciso criar formas alternativas de comunicação. Através da linguagem figurada, João esconde sua mensagem dos adversários e a revela às comunidades” (Hoefelmann, 2000, p. 44-45). O texto de Apocalipse 5.11-14 é antecedido pela visão do trono de Deus no capítulo 4. A partir do capítulo 6 seguem-se as visões dos selos. Nos capítulos anteriores ao nosso trecho, a cada um dos sete selos que são quebrados aparece um cavaleiro apocalíptico. Não analisaremos aqui o que cada um deles significa, já que muitos autores se dedicaram a isso em livros específicos, como Hans Schwarz (1997, p. 49ss). Em resumo, os selos e as dores de parto apontam para um tempo imediatamente antes do retorno de Cristo e que não está restrito ao final dos tempos. Schwarz pontua que “o trágico e quase cínico da questão é que aqui não se trata simplesmente da ira de Deus que se abate de fora por sobre a humanidade desobediente, mas as próprias pessoas se tornam instrumentos da ira, causando tal desgraça entre si” (Schwarz, 1997, p. 54). Ou seja, as pessoas tornam-se corresponsáveis pelos sofrimentos no mundo quando se afastam de Deus e de sua vontade amorosa. O contexto maior em que o nosso texto está inserido direciona-nos àquele que está sentado no trono, portanto ao próprio Deus. Por veneração, o nome de Deus não é dito – e ele entrega o rolo livro, o seu testamento, ainda chaveado, ao único que está autorizado a abri-lo, ou seja, o Cordeiro. “Naturalmente” – menciona Schwarz – “os cristãos de então sabiam imediatamente, e também nós sabemos, quem é apresentado como cordeiro”: Jesus Cristo, cujo sangue foi derramado por nossa causa. O cordeiro demonstra a vontade redentora de Deus, através da qual ele nos aproximará, para além da morte, de nosso destino eterno. Esse cordeiro tem sete chifres. O número simbólico “sete” remete à plenitude. Os chifres são símbolos do poder, ou seja, o cordeiro é todo-poderoso e tem a “capacidade de determinar o curso da história” (Schwarz, 1997, p. 57). E possui também sete olhos – “Cristo não deixa de ver nada, e nada lhe escapa. Ele também reconhece os seus e não deixa de olhar para eles” (Schwarz, 1997, p. 57). V. 11 – Diante da visão de um Senhor tão poderoso, 24 anciãos (Almeida Revista e Atualizada) ou líderes (Bíblia na Linguagem de Hoje), representantes da totalidade dos judeus e cristãos, cantam um hino. Na antiguidade, era hábito que músicos tocassem harpas e queimassem incenso diante de um imperador. Aqui, Cristo é o novo imperador, o Senhor do mundo, que segura o destino do futuro firmemente em suas mãos. “Somente a ele, e não ao imperador, devemos incenso e sons de harpa” (Schwarz, 1997, p. 57). Os quatro seres viventes já foram citados em Apocalipse 4.6-7. O número “quatro” pode se referir à dimensão da natureza e do planeta Terra, como “os
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quatro ventos”, os quatro pontos cardeais. Conforme nota explicativa da Bíblia de Estudo Conselheira (SBB, 2011, p. 559), “os quatro seres viventes representam o conjunto da natureza”. Já a Bíblia de Estudo Almeida coloca que “os seres viventes evocam os seres alados de Ezequiel 1.4-21; 10.1-14 e os serafins de Isaías 6.1-7. [...] Aqui, podem simbolizar as criaturas angélicas” (2001, p. 376). V. 12 – “O cordeiro que foi morto” refere-se ao “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (cf. Jo 1.29). O cordeiro Jesus, cercado pela natureza e pelo povo de Deus, é aclamado pelo hino dos versos 9-10 e 12. Scheila Janke lembra que “o louvor é completo e perfeito, como se deduz pelas sete qualificações (poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor). O Filho de Deus mostra-se perfeito em seus atributos e missão divina. Essa perfeição é louvada por meio dos sete elogios” (2012, p. 145). V. 13 – “Ouvi todas as criaturas”. A Bíblia de Estudo Conselheira (p. 560) destaca que “agora o coral cresce, com a chegada de absolutamente todas as criaturas do mundo, juntando-se ao cântico”, que é entoado àquele a quem pertencem o louvor, a honra, a glória e o poder para todo o sempre. Não há ninguém que não se renda a esse Cordeiro para o glorificar. Isso remete, também, à declaração feita na oração do Pai-Nosso: “Pois teu é o reino, o poder e a glória, para sempre”. V. 14 – Com esse “Amém” universal, o Cordeiro é reconhecido e adorado em sua plenitude, por tudo e por todos, tanto na terra como no céu.
3 Meditação Nossa pergunta inicial foi: “O que o futuro trará?”. A ela podemos acrescentar: “Quando este mundo se transformará num paraíso?”. Hans Schwarz é realista ao afirmar que “não sonhamos que as pessoas se reconheçam mutuamente com direitos iguais e que consigam transformar este mundo, algum dia, num paraíso, mas esperamos e pedimos que o próprio Deus faça surgir um mundo novo. [...] Uma mudança decisiva, portanto, não pode vir de nós, mas apenas de Deus. Que ela virá e que o futuro do reino de Deus se imporá, ficamos sabendo logo no início de nosso texto (do Apocalipse), pois lá é dito onde a gente pode se orientar com vistas ao futuro” (Schwarz, 1997, p. 55). Isso traz consigo uma libertação evangélica, uma “boa notícia”: o mundo está nas mãos de Deus, não nas nossas. Independentemente de nossas atitudes, o reino de Deus, em sua plenitude, está a caminho e já podemos perceber sinais dele em nosso meio. “Mesmo que as pessoas, em sua distância de Deus, se comportem da maneira mais desumana, elas não podem deter a marcha triunfal de Deus. De maneira soberana, Cristo quebra um após outro os selos do nosso futuro e, deste modo, aponta para o fato de que a história desemboca irresistivelmente no triunfo de Deus e de seu novo mundo. Por isso cristãos nada têm a temer diante do futuro” (Schwarz, 1997, p. 58). É da vontade de Deus que nenhuma pessoa se perca e que todas elas, reunidas, reconheçam-no como Senhor. Não cabe ao ser humano apontar e decidir sobre quem será salvo; isso está nas mãos de Deus. Mas cabe a cada pessoa cristã semear a esperança e colocar pequenos sinais do “paraíso” já aqui e agora.
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Sobre nossa responsabilidade, Schwarz afirma: “Em Cristo, Deus se identificou de tal maneira com o mundo e com o nosso destino que ele reuniu para si uma comunidade de todas as tribos e línguas de todas as nações e povos. Os que lhe pertencem não estão mais à mercê do mundo, mas devem governar como reis e sacerdotes nesta terra. Com isso, cristãos têm participação no governo mundial de Deus. Eles não precisam se esconder dos poderosos deste mundo. Através de Cristo eles têm acesso àquele que determina o futuro e segura tudo em suas mãos. Ele também segura o seu futuro em suas mãos, de maneira que ninguém precisa ter medo ou ficar ansioso” (Schwarz, 1997, p. 58). Deus quer a redenção de toda a criação e quer ser adorado por toda ela. Isso fica claro no nosso texto de Apocalipse 5.11-14. Aí entra nossa responsabilidade no cuidado com a criação e além: “Cristãos têm uma perspectiva mais global. Embora saibam que devem viver responsavelmente sobre a terra e que devem cultivar toda a criação como um bem que lhes foi confiado, o seu olhar também vai para além deste mundo e do jeito como se encontra. Enquanto os cristãos permanecerem fiéis ao seu Senhor e representarem a sua vontade aqui na terra e em sua própria vida frente a outros, eles não precisam entrar em pânico, nem por causa de acontecimentos na natureza, nem por causa de constelações políticas. Eles podem confiar naquele que proclamou: ‘No mundo vocês vão sofrer, mas tenham coragem! Eu venci o mundo!’ (Jo 16.33)” (Schwarz, 1997, p. 59). Schwarz lembra que todo o texto do Apocalipse até aqui “conclama à perseverança”. As pessoas que seguem Cristo “não erram a sua vocação eterna. Isso também deveria levar-nos a cantar um novo hino a respeito de Deus e de seu futuro”, apesar de todas as dificuldades e sofrimentos deste mundo. Uma característica cristã é a esperança ativa, fundamental enquanto aguardamos a volta definitiva de Cristo. O educador Paulo Freire, que foi um grande defensor da esperança, afirmou: “Somos, sem dúvidas, homens e mulheres cheios de esperança, pois temos que ter esperança do verbo esperançar, porque há outros que têm esperança do verbo esperar, não é esperança, é espera: eu espero que dê certo, espero que funcione, espero que resolva… Esperançar é ir atrás, é juntar, é não desistir” (Freire, 2014, p. 110-111). O Apocalipse traz esta certeza de que “para os cristãos, não apenas o futuro do mundo é um livro aberto, mas também ele não é deixado na incerteza quanto ao seu próprio futuro. Se ele se agarra àquele que tem o verdadeiro poder em suas mãos, nada destrutivo em última análise pode lhe acontecer, venha o que vier” (Schwarz, 1997, p. 61). A aproximação ao livro de Apocalipse pode nos levar a perguntar: “Quando Cristo vai voltar?”. Não sabemos. “Sabemos apenas que não nos cabe atemorizar as pessoas com a escuridão da noite ou com as catástrofes do fim. Nossa tarefa é permitir que a luz de Deus, que anuncia um novo dia, brilhe através de nós em nosso mundo, fazendo brotar nele o anseio por uma era de paz e justiça, quando Deus será tudo em todos (Hoefelmann, 2000, p. 34).
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4 Imagens para a prédica Sugestões para introdução à prédica: a) “Um grupo de pessoas está passeando em um campo e uma exclama: – Vejam, lá longe, um rebanho de ovelhas. Outra diz: – Não, é um grupo de vacas. – Errado – diz o terceiro – são cavalos! Que eram animais, todos viram, mas não concordaram quanto à espécie. Antes que pudessem começar uma discussão sobre o assunto, o líder do grupo disse: – É muito fácil resolver a questão, basta continuarmos andando para frente. Quanto mais perto chegarmos, mais rápido saberemos quem tinha razão. Aproximando-se mais dos animais, todos viram que, de fato, eram cavalos. Com essa ilustração, fica entendido por que devemos sempre de novo estudar o Apocalipse do apóstolo João. Ainda estamos distantes dos acontecimentos dos quais fala esse livro profético da Bíblia, mas cada dia chegamos mais perto deles” (Jucksch, [s.d.], p. 3). b) Selecionar e projetar várias imagens/ilustrações sobre a volta de Cristo disponíveis na internet ou em livretos distribuídos por alguns grupos religiosos. Podem ser imagens do “fim do mundo”, destruído por guerras ou fenômenos da natureza, e também algumas que apresentem a volta de Cristo sobre as nuvens, em seu trono celeste, cercado por anjos e seres humanos. Solicitar às pessoas que compartilhem suas impressões e sentimentos a respeito das imagens: medo, tristeza, angústia, alegria, alívio? Se possível, que possam explicar o porquê desses sentimentos.
5 Subsídios litúrgicos Pessoas cristãs não precisam ter medo do futuro. Com base nisso, e como o próprio texto bíblico sugere, este pode ser um culto com acento especial no louvor, na adoração e no fortalecimento de nossa confiança no agir amoroso e cuidador de Deus. Sugestões de hinos Livro de Canto da IECLB: 612 – Segura na mão de Deus 56 – Pelas dores deste mundo 579 – Muitos virão te louvar 363 – Então se verá o Filho do Homem 289 – Bênção da Irlanda 298 – Bênção do caminhar Hinos e corinhos (v. 3): 27 – Ao único que é digno Neste culto, pode-se dar destaque ao segundo artigo do Credo Apostólico, relembrando que é parte essencial da nossa fé cristã a afirmação de que Jesus Cristo “está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos”. Se cremos e afirmamos isso, não há por que ter medo do futuro.
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Bibliografia FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra, 2014. HOEFELMANN, Verner. Como entender os símbolos do Apocalipse? In: SILVA, João Artur Müller da (ed.). 22 perguntas e respostas da fé. São Leopoldo: Sinodal, 2000. p. 44ss. JANKE, Scheila. Apocalipse 5.11-14. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2012. v. 37, p. 144-148. JUCKSCH, Alcides. Em breve deve acontecer: estudando o último livro da Bíblia, versículo por versículo. Gramado: Conhecer a Bíblia, [s.d.]. SCHWARZ, Hans. O mistério das sete estrelas: uma interpretação do Apocalipse de João. São Leopoldo: Sinodal, 1997.
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4º DOMINGO DA PÁSCOA
12 MAIO 2019
PRÉDICA: APOCALIPSE 7.9-17 SALMO 23 JOÃO 10.22-30
André Martin
A vitória é certa! Sigamos lutando!
1 Introdução
O texto indicado para o 4º Domingo da Páscoa é o texto de Apocalipse 7.9-17. As demais leituras indicadas, Salmo 23 e João 10.22-30, norteiam a interpretação do texto apocalíptico. O Salmo 23, conjugado com o texto da pregação, faz perceber o amor e consequente cuidado de Deus para com suas ovelhas. O salmista nos dá uma certeza: o Senhor é o nosso pastor, por isso nada há de nos faltar, inclusive se tivermos que caminhar pelo vale da sombra da morte. Creio que essa percepção nos é importante se considerarmos o contexto de perseguição aos cristãos no qual o texto de Apocalipse foi escrito. O texto neotestamentário do Evangelho de João reitera nossa pertença a Deus por meio de Cristo Jesus. Cristo, o filho encarnado de Deus, é o bom pastor. É aquele que dá a vida pelas suas ovelhas. E o rebanho ouve e reconhece a voz do seu pastor. Nada pode arrancar as ovelhas da sua mão. Também essa certeza perpassa o texto de Apocalipse, objeto deste estudo. Convém lembrar que estamos no tempo após Páscoa. A comunidade reunida já vivenciou a paixão de Cristo. Já teve o momento de compartilhar da dor e do sofrimento de Jesus, lamentar e chorar sua crucificação e morte. Mas também teve o momento de jubilar e celebrar a vitória da vida sobre a morte, a ressurreição de Cristo. Esta certeza de que Cristo vive e que nada pode nos separar de seu amor conduz e sustenta o seu rebanho, a comunidade cristã. Nessa certeza se firmou o texto apocalíptico e também nós, ainda hoje, nos firmamos.
2 Exegese O texto sugerido para este final de semana, a perícope de Apocalipse 7.917, situa-se dentro da segunda visão de João, que se estende do capítulo 4.1 até 16.21. Sobre as visões do capítulo 7, mais especificamente, concordamos com a sentença de que “as visões do capítulo 7 vão se integrando nas visões anteriores do trono, do cordeiro e dos Sete Selos. Aos poucos, o palco ao redor do Trono foi se enchendo: os quatro seres vivos e os 24 anciãos (Ap 4.4-6), o Cordeiro e os milhões de anjos (Ap 5.5,11), os mártires debaixo do altar (Ap 6.9-10). E agora, aqui no capítulo 7 a eles se unem 144.000 assinalados (Ap 7.1-8) e uma multidão imensa sem conta (Ap 7.9-17). No fim, tudo se confraterniza numa grande liturgia universal” (Mesters; Orofino, 2003, p. 198-199).
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Tomando o capítulo 7 de Apocalipse como um todo, percebemos uma clara distinção entre a perícope que é objeto deste estudo e a perícope anterior. Eugênio Corsini, no livro O Apocalipse de São João, concorda com essa distinção, mas também alerta que as duas estão intimamente ligadas. Ele ressalta que as duas cenas representam duas fases da intervenção divina: a antiga aliança e a nova aliança. Ainda conforme Corsini, o julgamento de Deus perpassa a história da humanidade e é consumado com a morte de Cristo. O agir de Deus converge para a salvação. A pergunta que permanece e que é feita por Hans Lilje é: “Quem pode subsistir?” (Lilje, 1955, p. 133). Pois “tribulação – perseguição – é o que a igreja deve esperar como normal no mundo” (Ladd, 1980, p. 89). Partindo para o específico de nossa perícope, para nos auxiliar na compreensão do texto e posterior elaboração da mensagem, temos: V. 9 – Após a visão dos 144 mil, intimamente ligados às tribos de Israel e que tinham o selo de Deus, João vê uma multidão incontável. Essa multidão era composta por pessoas de todos os povos, línguas e raças. Aqui João tem uma visão antecipada do que espera a igreja de Cristo, composta por um número incontável de pessoas. “João vê uma situação que de fato só acontecerá mais tarde” (Ladd, 1980, p. 89). “Também nesta cena a Igreja é representada, mas não mais como a terrena, militante, mas como a celestial, triunfante” (Lohse, 1966, p. 51). Os exegetas concordam que as vestes brancas e os ramos de palma são símbolos de vitória. Cabe ressaltar que não se fala em marca ou selo, mas as vestes brancas e os ramos de palma são a identificação dos que estão junto ao trono de Deus e do Cordeiro. V. 10 – Aqui temos um louvor, entoado pela multidão, reconhecendo que a salvação provém de Deus. “Este canto é retomado após a queda do dragão (12.10) e a queda da Babilônia (19.1)” (Lohse, 1966, p. 51). Chama a atenção que no capítulo 5 os seres celestiais louvam e todas as criaturas terrenas respondem. Agora é a grande multidão que inicia com o louvor, sendo seguida pelos anjos celestiais. V. 11,12 – Nesses versículos, temos o reconhecimento e o louvor a Deus por parte de todos os seres celestiais, encerrando com “Amém”. Conforme Eduard Lohse, em Die Offenbarung des Johannes, esse Amém é indicativo que todos concordam e tomam para si aquilo que anteriormente foi clamado diante do trono de Deus e do Cordeiro. V. 13,14 – A visão e o louvor celestial são interrompidos por uma pergunta feita a João por um dos anciãos: Quem é este povo vestido de branco? Quem é esta multidão incalculável? De onde vieram? João devolve a pergunta de forma assertiva: Senhor, tu sabes! A resposta do ancião é precisa: Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Essa grande multidão passou pela grande tribulação e perseverou. Lavar as vestes e branqueá-las no sangue nos dá o indicativo de quem é o personagem principal da cena: Jesus Cristo! Conforme Johannes Behm, em Die Offenbarung des Johannes, e também Adolf von Schlatter, em Die Briefe des Petrus, Judas, Johannes, an die Hebraer, des Jakobus, Die Offenbarung des Johannes, a incontável multidão alcançou a bem-aventurança celestial não por força própria, de heroísmo e/ou martírio, mas por conta da ação salvadora de Cristo Jesus na
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cruz. “Não por força própria os mártires lavaram suas vestes no martírio, isto é, pelo martírio se tornaram agradáveis a Deus, livres de toda culpa, mas a força para tal receberam do sacrifício salvífico do Cordeiro” (Bousset, 1906, p. 286). V. 15-17 – O que nos vem nesses versículos finais é a consumação de tudo. Não há mais tribulação. O grande final é a multidão servindo, prestando culto dia e noite (cf. Mesters; Orofino, 2003) a Deus. Essa grande, incontável multidão estará na morada de Deus, no seu templo, na proteção de sua tenda, na proteção da sua sombra. Todas as bênçãos descritas estão em consonância com Apocalipse 22.1-5, onde nos é descrito o Reino do Céu. Cristo, o Cordeiro é o guia que conduz o povo às águas límpidas, águas da vida. Deus, que em Cristo subjugou o poder da morte, é quem enxuga dos olhos do povo todas as lágrimas.
3 Meditação Estamos em épocas turbulentas. Incertezas, temores, assim como em outras épocas, também nós vivemos as tribulações que o agir satânico nos impõe. Guerras e perseguições, fugas de situações adversas, e nem sempre se encontra a terra que emana leite e mel. Em nossa realidade brasileira, estamos desnorteados, vítimas de injustiças, de violências, com medo. Corrompemos e somos corrompidos com muita facilidade e frequência. Enquanto este texto é escrito, estamos em época pré-eleições no Brasil; não me parece haver grandes alternativas e probabilidades de mudanças. Parece que estamos vivenciando, sentindo na pele mais um momento de turbulências. A tribulação, tantas vezes descrita e experimentada em tempos e textos bíblicos, ainda hoje se faz sentir e somos vitimados pela manifestação de poderes opressores, diabólicos. Como igreja de Cristo, estamos sujeitos a passar por todo tipo de tribulação. O Salmo 23 já nos alerta: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, ou seja, também a igreja de Cristo, também nós podemos passar por esse caminho escuro, turbulento. Clamamos, assim como no Evangelho de João 10, que Cristo se manifeste abertamente. Também nós, em meio às sombras que nos cobrem, pedimos para ver mais claramente a Cristo. Mesmo que no calendário litúrgico estejamos em um período pós-Páscoa, a impressão que carregamos no íntimo de nossa existência é que as dores do suplício e da paixão de Cristo estão muito presentes, podemos sentir e ouvir. Muito facilmente, também nosso testemunhar e nosso agir sucumbem em meio às sombras e à incerteza. Em meio a isso tudo, o texto de Apocalipse, indicado para este final de semana, surge como a legítima visão do paraíso. Uma pequena gota de esperança e, ao mesmo tempo, certeza, que caindo em nosso mar de calmaria e indiferença, subjugado pelas forças opressoras do mal, causa um tsunami capaz de reerguer e colocar em alerta a igreja de Cristo. A visão de João nos abre uma janela, e dela podemos ver a igreja triunfante, que nada mais pode fazer a não ser louvar a Deus pelo seu imenso amor e carinho com a qual conduziu o seu povo, mesmo em meio a grandes tribulações.
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Nesse aspecto, nossos olhos e pensamentos se voltam para a cruz de Cristo, seu sacrifício salvador e, alertados que estamos no tempo pós-pascal, também para o túmulo vazio, para o Cristo vencedor. A visão de João nos faz ter a certeza de que precisamos continuar lutando com as armas que pela fé nos são dadas. O inimigo, que pode ser identificado das mais variadas formas – cada contexto tem suas próprias experiências de opressão e tribulação –, não vencerá. Tomando por pano de fundo o compromisso profético, de denúncia e anúncio, do livro de Apocalipse, não podemos esmorecer na luta do dia a dia. Poderemos passar fome e sede, nossos olhos poderão encher-se de lágrimas, o sol poderá ser escaldante ou a brisa tão suave a ponto de querer nos acomodar, tudo poderá acontecer, poderemos até mesmo sucumbir, mas a batalha já está ganha. O Cordeiro de Deus é o vencedor. Firmes na esperança e na promessa de Cristo, poderemos até mesmo perder a batalha, mas a guerra, esta já está ganha. João, na sua visão apocalíptica, já vislumbrou e testificou o triunfo do rebanho salvo, guiado pelo Cordeiro e Bom Pastor.
4 Imagens para a prédica Na elaboração deste estudo, três imagens ocuparam meu pensamento. 1ª: A vestimenta com a qual vestimos nossos batizandos e batizandas. Tenho percebido que as famílias sempre primam, ao menos em nosso contexto rural, pelo uso de vestimentas brancas para as crianças a serem batizadas. Creio que é um bom recurso partirmos também dessa experiência: perguntar e observar as fotos de batismo e perceber que neste momento a cor branca se faz muito presente. Branca, lavada pelo sangue do Cordeiro, também é a vestimenta da incontável multidão presente junto a Deus. O batismo testifica que fazemos parte do povo de Deus. Somos herdeiros e herdeiras de suas promessas e aliança. 2ª: A expressão baptizatus sum – sou batizado – escrita por Martim Lutero em sua escrivaninha para relembrá-lo que mesmo em adversidades nada poderia separá-lo do amor de Deus. 3ª: O povo reunido para a Santa Ceia. Momento de experimentar um pedacinho do céu já agora, em meio às turbulências do dia a dia. Presença real do próprio Cordeiro em nosso meio, sob o pão e suco da videira. Creio que esses momentos podem nos auxiliar e tornar palpável o que nos é prometido. A visão de João, baseada na concretização definitiva do reino de Deus, pode ser experimentada, sentida e vivenciada nesses momentos. Nossa fé não se baseia em algo vago, mas muito concreto. Esses são os sons que ainda hoje nos fazem seguir ao chamado do Bom Pastor.
5 Subsídios litúrgicos Seguem algumas sugestões: 1. Sugiro fazer a leitura do texto previsto para a pregação, do púlpito, antes ou durante a pregação. A cruz do altar deverá estar ornamentada com um pano preto. Pedir para a comunidade reunida que, enquanto é proferida a leitura do
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texto de Apocalipse, feche os olhos e mantenha-se assim durante a leitura bíblica, concentrando-se ao máximo no ouvir o texto e imaginar-se na situação de João tendo a visão. Enquanto é proferida a leitura, alguém do presbitério, de forma previamente combinada e em silêncio, troca o pano preto por um grande pano branco. Pode-se usar essa “transformação” como um exemplo para a pregação. Inclusive, esse pano branco, lembrando as vestes brancas e seu significado, pode unir a pia batismal e o altar da Ceia. 2. A confissão de fé deveria ter um apelo todo especial no contexto do culto como um todo. Pois a nossa fé não é vã, não são palavras vazias, mas é a confissão de uma certeza que nos é revelada de forma muito bonita em Apocalipse 7.9-17. Inclusive o Salmo 23 pode ser lido com a comunidade reunida como um complemento para a confissão de fé. 3. O momento da Santa Ceia poderá ser introduzido pelo hino 432 (Digno é Cristo), do Livro de Canto da IECLB. Esse hino poderá ser retomado no momento da distribuição da Ceia.
Bibliografia BEHM, Johannes. Die Offenbarung des Johannes. 4. ed. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1949. BOUSSET, Wilhelm. Die Offenbarung Johannis. 6. ed. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1906. CORSINI, Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo: Paulinas, 1984. LADD, George Eldon. Apocalipse, introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1980. LILJE, Hanns. Das letzte Buch der Bibel: eine Einführung in die Offenbarung Johanes. Hamburg: Furche, 1955. LOHSE, Eduard. Die Offenbarung Johannis. 9. ed. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Apocalipse de São João: a teimosia da fé dos pequeninos. Petrópolis: Vozes, 2003. SCHLATTER, Adolf von. Die Briefe des Petrus, Judas, Johannes, an die Hebraer, des Jakobus, Die Offenbarung des Johannes. 2. ed. Stuttgart: Calwer Vereinsbuchhandlung, 1921.
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PRÉDICA: APOCALIPSE 21.1-6 SALMO 148 JOÃO 13.31-35
5º DOMINGO DA PÁSCOA
19 MAIO 2019
Anelise Lengler Abentroth
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia!”
1 Introdução A boa nova anunciada pelos apocalípticos poderia ser: “Deus é o Senhor da história. A história não saiu dos trilhos, pois Deus a conduz. Os opressores se iludem, pensam ser os donos dos povos e do universo. Eles vão ser derrotados. Deus é o autor da história e realiza plano pela resistência e perseverança dos que lhe são fiéis” (Frigerio, 2007, p. 34). O Salmo 148 convida todas as criaturas a louvar a Deus. Sete convites ao louvor são dirigidos aos seres celestiais. A razão do louvor é a ação criadora de Deus, que sustenta e dá estabilidade ao universo. Segue o convite para os seres da natureza entoarem louvor, bem como a humanidade, sem distinção de gênero ou idade. O motivo do louvor é o nome de Deus, que governa terra e céus, pois é ele quem dá poder e reforça o vigor do seu povo. Esse salmo é recitado todas as manhãs pelos judeus. Em João 13.31-35, Jesus já celebra o triunfo de Deus. A paixão já começou. Deus o glorificará em sua glória. A partida será momentânea, mas os discípulos e as discípulas não podem ir com ele. O mandamento novo não revoga os demais, mas os cumpre e os supera, na medida em que o amor os une e se manifesta em sinais visíveis, que geram e cuidam da vida e resistem à morte e à opressão. É somente no amor que se vive a unidade com Cristo e com Deus, no amor às pessoas. Isso gera comunidade, comum + união. Esse amor nos foi revelado na cruz de Cristo. Em Apocalipse 21.1-6, João descreve o futuro que Deus preparou para a humanidade usando imagens do passado. É preciso saber ler o passado para não ser enganado! Hoje, tem gente que, por fidelidade ao passado, abre-se ao novo. E tem quem, também, por fidelidade ao passado, fecha-se ao novo. O futuro surge como dom de Deus. Há uma nova humanidade, pois a aliança de Deus com os seres humanos se completará. Doravante tudo é vida e realização plena. Os textos exaltam a soberania de Deus e o seu poder sobre a história. A humanidade corrompida e desobediente sofre as consequências das suas ações e escolhas. Não seria pura alienação e ilusão crer e pregar que, apesar de tudo, Deus é Deus e vai salvar o mundo? Basta ter paciência e especular o final dos tempos?
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2 Exegese Não há tanto debate e polêmica sobre outro livro bíblico do que sobre o Apocalipse. Ele é enigmático, difícil de compreender. Destoa dos demais livros do Novo Testamento por causa do seu conteúdo e da sua linguagem. Esse livro foi muito questionado desde os seus primórdios. Até Lutero criticou a falta de “um convincente testemunho de Jesus Cristo” (Brakemeier, 1984, p. 70) e, por isso, o enquadrou como menos importante. R. Bultmann escreveu que esse último livro da Bíblia não passa de um “judaísmo levemente cristianizado”. Mas há muitos que defendem que esse livro é capaz de alimentar a esperança, consolar e fortalecer o povo que muito sofre. E foi capaz de fortalecê-los para uma ação libertadora. Ele tem relevância especial em tempos difíceis, pois ajuda na compreensão das causas dos sofrimentos, ao mesmo tempo em que afirma que esses não durarão para sempre. Deus enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá (Ap 21.4). A parte inicial do livro o apresenta como uma “revelação” recebida por João, servo de Deus. A tradição eclesiástica o identificou como sendo João, filho de Zebedeu, e discípulo de Jesus. Mesmo que isso possa ser contestado pela pesquisa, trata-se de alguém cuja autoridade é reconhecida nas igrejas para quem escreve. Ele se encontra preso na ilha de Patmos, por causa do testemunho da palavra de Deus e de Jesus Cristo (1.19). A época, ao que tudo indica, é dos últimos anos do imperador Domiciano (90-96 d.C.). Época de grande perseguição à igreja. Há mártires nas comunidades (2.13; 6.9s), mas sofrimentos ainda maiores virão. Ao estilo de uma carta, João traz sua mensagem de consolo e fortalecimento às comunidades em forma de grande visão. Ele entende sua revelação na continuidade da profecia judaica, mas com novo conteúdo: Jesus virá em breve como libertador dos fiéis e juiz dos seus inimigos (1.12ss). Em época de grande perseguição, todo cuidado é pouco. Dizer abertamente que o império é o grande inimigo a ser combatido daria prisão e morte. As visões com seus símbolos são uma linguagem cifrada. Elas driblam a censura. Mas as comunidades têm o código para decifrar a mensagem das imagens reveladas. Por meio das visões, o autor transporta as comunidades para perto do trono de Deus (Dn 7.9-10; Ap 4.1-11) e comunica algo da paz com que Deus, sereno e firme, comanda a luta contra a injustiça e opressão. Eles contemplam a luta com os olhos de Deus e descobrem que, apesar de difícil, a luta já está ganha (Ap 14.9-12). Olhemos o texto mais de perto: V. 1 – No capítulo anterior, o mundo de baixo, antigo e caduco, mantido pelo dragão e pela besta-fera do Império Romano, desapareceu. O primeiro céu e a primeira terra se foram. Conforme Isaías 65.17, há um novo céu e uma nova terra. E agora também o mar já não existe! O mar, na interpretação bíblica, muitas vezes é símbolo do caos, do mal (Gn 1.2; Jó 7.12). Dele vêm as piores criaturas e monstros.
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V. 2 – No centro da visão está a Cidade Santa, a nova Jerusalém, símbolo do povo de Deus. Ela vem com vestes de salvação e justiça, como uma esposa enfeitada para seu esposo. A imagem vem de Isaías 54.5; 61.10; 62.4-5; Oseias 2.18-25. Mas não é mera repetição da Jerusalém do Antigo Testamento. É a nova Jerusalém! É a partir da vitória de Cristo que se realizam e completam as promessas do passado (Mt 5.17). O que chama a atenção é a estranha repetição dentro do capítulo 21. Por duas vezes Jerusalém é apresentada como cidade esposa (v. 2 e 9). Essa repetição sugere que havia dois finais diferentes: um para os cap. 4-11, que descrevem o novo êxodo, e outro para os cap. 12-20, que descrevem o julgamento. Essa identidade de imagem permitiu ao redator unir os dois finais num único texto. A cidade de Jerusalém e de Roma são apresentadas sob a figura de uma mulher. Roma é cidade prostituta que perverte os reis e embriaga os habitantes da terra (Ap 17.2). Jerusalém é a cidade esposa do Cordeiro, onde não entra nada de impuro (Ap 21.24-27). Após ter descrito a cidade prostituta, anunciada a queda do império, descritos o lamento dos ricos e a alegria dos perseguidos (cap. 18 e 19), o livro transmite o anúncio do casamento do Cordeiro, cuja esposa está preparada. Pode-se supor que ambas as descrições eram folhetos separados, feitos para ajudar as comunidades a terem uma consciência mais crítica a respeito da sua situação dentro do império e aos olhos de Deus. V. 3 – A voz forte que sai do trono é como uma sentença final do juiz no julgamento. A morada de Deus desceu em forma de tenda e encheu o espaço. A imagem da tenda evoca o Êxodo, a tenda da Aliança que acompanha o povo. Não é mais templo. É tenda! Deus-com-eles/as. Deus caminha com o seu povo peregrino, em busca. A realização plena da aliança (Ez 37.27), as mesmas palavras pronunciadas por Deus em Êxodo 6.7, depois da saída do Egito, da casa da servidão, agora são pronunciadas: Eu serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo. V. 4 – A sentença divina no primeiro paraíso terrestre permitiu a entrada da morte. Junto com ela vieram o luto, o grito de dor, o choro, o sofrimento. Aqui, o juiz revoga a sentença e declara encerrada a triste história da dor e da morte. Sim! As coisas antigas já passaram. Terminou uma longa e triste história. V. 5-6 – Como que resumindo tudo numa só frase, o juiz declara solenemente: Eis que faço nova todas as coisas! E essas palavras devem ser escritas, pois são criadoras do novo. Realizam o que dizem. A longa e tortuosa história da humanidade, que desconfia, que vira as costas para Deus e que quer tomar o lugar de Deus, está chegando ao fim. Estaremos de volta à casa. Reencontraremos a fonte da vida, que é o próprio Deus (Is 49.10). O rio da água da vida e a árvore da vida caracterizam a recuperação do estado original, antes da queda. E o mais importante: de graça, por graça! No Novo Testamento, a água, fonte da vida, é símbolo do Espírito Santo (Jo 4.1). O mesmo Deus que estava com seu povo no início está também no fim. Completou-se o ciclo, mas não o círculo fechado que sempre retorna. Agora ele é em espiral: nunca mais será o mesmo. A realidade será transformada. Não haverá mais nem sol nem lua, nem dia nem noite. Tudo será luz, pois Deus iluminará as pessoas (22.5).
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3 Meditação Mesmo que não esteja muito clara a situação das comunidades cristãs no final do primeiro século, sabe-se que eram grupos minoritários, sem expressão política ou social. Era um grupo de pessoas, das mais diferentes matrizes e profissões, perseguidas, hostilizadas, consideradas impuras pelo judaísmo, lutando com problemas externos, mas também internos. Há momentos de grande cansaço e, com a intensificação dos martírios, a perspectiva de mudanças ou melhora ficava cada vez mais distante. “João se dirigia a comunidades para as quais, sob a perspectiva histórica, não havia esperanças e que, humanamente falando, se encontravam em batalha perdida” (Brakemeier, 1984, p. 93). É a partir do evento de Cristo que João se une ao pensamento apocalíptico judeu, embora também se distinga dele. Repensa e reformula as tradições, assegurando a esses inexpressivos grupos comunitários no Império Romano que há esperança, pois Cristo venceu o diabo, o inferno e a morte. Este mundo cederá lugar a um outro, totalmente novo, pois Jesus voltará sem demora. João não diz como esses fatos vão acontecer. E engana-se quem lê o Apocalipse na perspectiva de encontrar história narrada antecipadamente ou, ainda pior, previsões de como será. Ele não é um roteiro escatológico, pois está repleto de repetições, rupturas e interrupções. Ele qualifica o tempo desde a ressurreição de Jesus como o tempo escatológico final. E nela a comunidade está sob a opressão e tirania romanas, sob falsos profetas, resignação e negação da fé, confusa por heresias. A esperança cristã afirma que Deus é o Senhor do mundo, o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Foi para salvar o mundo que Cristo veio. Mas ele foi levado à cruz. O poder de Deus passa pela cruz, está visível na cruz. Deus é o Senhor do mundo, mesmo que isso esteja oculto pelos tantos dados históricos em que as forças do mal e da morte parecem vencer sobre a vida. As lágrimas cessam diante do Cristo ressurreto. Deus não determina o que os seres humanos fazem. Ele determina o que ele fez e faz para salvar o mundo. Cabe às pessoas assumirem as suas ações e escolhas. E há muita dor e sofrimento como consequência de escolhas e ações humanas, que se deixam seduzir e dominar pelos poderes que negam o domínio de Deus. A idolatria, a arrogância, a cegueira, o pecado e a injustiça que levaram Jesus à morte continuam violentos em nossos dias. Hoje não é mais o Império Romano, mas um império mundial que idolatra o deus capital. Esse deus é sanguinário e exige sacrifícios. Sacrifícios de vidas: dos pobres, pela exploração dos seus corpos e do seu trabalho; daqueles que se deixam seduzir, correndo atrás do vento e perdendo amores e saúde; daqueles que se enganam, se locupletando com os prazeres e as benesses que os privilégios possibilitam, pois perdem a sua alma. Resistir a essas tentações e poderes é a cruz que a comunidade cristã assume. Há de se persistir na busca pela vida que Jesus veio trazer. A comunidade se pauta e resiste a partir das bem-aventuranças (Mt 5.3ss). Felizes são elas quando permanecem fiéis na esperança de participar da futura glória de Deus, na Nova Jerusalém, onde não haverá mais choro nem dor, e até a morte não existirá.
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Estamos vivendo em tempos difíceis, em que nossa esperança, muitas vezes, esmorece. Também nos sentimos impotentes diante das demandas, dos desmandos e mazelas. Mas o que fortalece a esperança é que podemos viver o “já agora” do Reino, mesmo que o “ainda não” em plenitude ainda virá. O “já agora” experimentamos em sinais: recebemos o perdão de Deus, sabemos que somos aceitos e amados por Deus; pela fé, por graça, somos parte do povo da cidade santa, da Nova Jerusalém. Em tempos de tribulação, sabemo-nos amparados e fortalecidos pelo Deus vivo e experimentamos o amor, que nos faz sermos um/a, com toda a nossa diversidade. O que sabemos é que Deus não exige de nós o impossível. Nossa responsabilidade está relacionada às possibilidades existentes. Ele espera que não nos acomodemos, nem nos acovardemos, pois há espaços que podem ser ocupados para modificar leis, programas sociais e de cidadania, que interferem e possibilitam vida e dignidade a muitas pessoas que hoje choram. Como povo cristão, precisamos reafirmar nossa fé não na vingança, nem na força, nem na pena de morte, nem nos sistemas ditatoriais. A esperança vem da fé em Deus, que age e salva o mundo. É o amor comprometido com o cuidado e o valor da vida como dom e tesouro supremo. Deus não quer só indivíduos no seu Reino. O texto fala em cidade santa. Deus quer relações humanas transformadas, também com a criação. Precisamos de novas estruturas, sob novo fundamento: o amor de Deus em atitudes e intenções. Como comunidade, somos chamados e chamadas a sonhar e a buscar pelo novo, sem medo do caos, da crise, da cruz, pois com esses nós lidamos todos os dias. Temos a promessa de um novo céu e uma nova terra, onde jorrará a água da vida e nunca mais haverá sede, choro ou morte.
4 Imagens para a prédica Perguntei a um afilhado que filme ele mais gostava de assistir. Ele me respondeu que gostava de filme de ação. Especialmente daqueles em que os “do bem” lutam e vencem os “do mal” no final. Esse dualismo está muito presente na compreensão de crianças, jovens e adultos. Há os que são “do bem”: trabalham, têm posses, família e merecem ser felizes. Mas têm os “do mal”: são violentos, usam de artimanhas, enganam, agridem e merecem ser mortos. Essa lógica, tão presente, faz com que grande parte das pessoas, inclusive cristãs, esteja inclinada a fazer justiça com as próprias mãos ou querer a pena de morte. Estamos querendo tomar o lugar de Deus! Queremos ser os juízes e as juízas de nossos irmãos e nossas irmãs. Nas redes sociais vê-se de tudo. O que não falta são posições que expressam um desejo de vingança ou de aniquilamento do outro. Há uma forte tendência ao retorno do uso da força e da violência institucional para “resolver” os problemas do país. Há pessoas cristãs querendo a volta da ditadura militar. Da mesma forma, há uma forte projeção de que a esperança cristã da segunda vinda de Cristo aconteça como um juízo de vingança aos considerados “maus”, ignorando o mandamento do amor aos inimigos (Mt 5.43ss). A graça de Deus, neste
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caso, em hipótese alguma é aceita ou, sequer, aventada. É nesse sentido que uma leitura e interpretação rasa do Apocalipse podem ser extremamente perigosas. Por outro lado, corre-se o risco de ler e interpretar Apocalipse 21.1-6 como o final feliz de uma novela: o “bem” venceu e agora eles serão felizes para sempre. A “noiva” vem bela e preparada para que o noivo a tome como posse. E, assim, muitos esperam que na vida, na nossa história, seja desta forma: Deus é o Senhor da história! Tudo está em suas mãos! Ele fará com que tudo aconteça. Somos “objetos” em suas mãos. É como se nada precisássemos fazer, pois ele fará tudo. Isso não é esperança cristã. Isso é alienação, pois não há compreensão sobre a raiz dos sofrimentos e das injustiças, sobre as consequências das escolhas e ações humanas, bem como sobre as maneiras possíveis de resistir e de transformar a realidade de cruz vigente. Outra sugestão seria usar a música do Chico Buarque de Hollanda, criada em tempos de ditadura militar. Sua letra traz esperança e resistência em tempos escuros. Apesar de você Hoje, você é quem manda Falou, tá falado Não tem discussão, não A minha gente hoje anda Falando de lado E olhando pro chão, viu Você que inventou esse estado E inventou de inventar Toda a escuridão Você que inventou o pecado Esqueceu-se de inventar O perdão Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Eu pergunto a você Onde vai se esconder Da enorme euforia Como vai proibir Quando o galo insistir Em cantar Água nova brotando E a gente se amando Sem parar Quando chegar o momento Esse meu sofrimento Vou cobrar com juros, juro
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Todo esse amor reprimido Esse grito contido Este samba no escuro Você que inventou a tristeza Ora, tenha a fineza De desinventar Você vai pagar e é dobrado Cada lágrima rolada Nesse meu penar Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Inda pago pra ver O jardim florescer Qual você não queria Você vai se amargar Vendo o dia raiar Sem lhe pedir licença E eu vou morrer de rir Que esse dia há de vir Antes do que você pensa Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Você vai ter que ver A manhã renascer E esbanjar poesia Como vai se explicar Vendo o céu clarear De repente, impunemente Como vai abafar Nosso coro a cantar Na sua frente Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia Você vai se dar mal Etc. e tal Lá lá lá lá laiá
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Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Reino de Deus e esperança apocalíptica. São Leopoldo: Sinodal, 1984. MERSTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Apocalipse de João – Esperança, coragem e alegria. São Leopoldo: CEBI, 1999. (Círculos Bíblicos, 4. parte). FRIGERIO, Tea. Livro do Apocalipse – Sonhar, esperar, resistir. São Leopoldo: CEBI; PA, 2007. v. 7.
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PRÉDICA: ATOS 16.9-15 JOÃO 14.23-29 SALMO 67
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26 MAIO 2019
Klaus A. Stange
Quando acontece missão?
1 Introdução Tento imaginar como os discípulos de Jesus viveram esse tempo que compreende o período entre o Domingo da Páscoa e o Domingo de Pentecostes! Quantos sentimentos se misturaram nesses dias: ansiedade, medo, frustração, surpresa, alegria. É nesse período que Jesus se apresenta aos discípulos como o Senhor ressurreto, caminha com eles, partilha o pão com eles, fortalece-os em sua fé, assegura o seu amor – apesar de traições e abandono da parte dos discípulos. Como comunidade de Jesus, caminhamos com sentimentos e expectativas semelhantes: acabamos de celebrar a Páscoa e nos encaminhamos para o Domingo de Pentecostes. Nesse meio tempo, sentimentos ambíguos marcam nossa caminhada. Por um lado, experimentamos a alegria da ressurreição; de outro lado, vivemos uma certa insegurança e expectativa pelo que virá. A prédica e as leituras bíblicas deste domingo querem nos ajudar a ser comunidade. Somos comunidade frágil. Não somos perfeitos. Vivemos da graça e da misericórdia do Senhor para conosco. Somos comunidade do Senhor que se encontra no seguimento a Jesus, no caminho do discipulado. Recebemos o Espírito Santo (Jo 14) e somos empoderados para ser testemunhas que comunicam o evangelho a todas as pessoas (At 16), de modo que em toda a terra sejam conhecidos os teus caminhos, a tua salvação (Sl 67). Assim, a prédica deste domingo evidencia o tema central da igreja neste mundo: a missão! A missão é a identidade da própria igreja. A missão de Deus é a nossa paixão!
2 Exegese 2.1 – Primeiras impressões • Chama minha atenção que o texto inicia dizendo que durante a noite Paulo teve uma visão (v. 9). Isso soa um pouco estranho. Lembrei-me de algumas noites em que não consigo dormir e muitos pensamentos povoam a minha mente. • Na visão, alguém pede por ajuda. Lembrei-me dos muitos pedidos de ajuda (humanitária) que me alcançam todos os dias. De que tipo de ajuda trata o texto?
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Paulo é uma pessoa iminentemente prática. Ele não hesita e, imediatamente, se coloca a caminho da Macedônia – hoje Europa (v. 10). A missão de Paulo na Europa não acontece de forma espetacular. Paulo e seus companheiros encontram algumas mulheres na periferia da cidade. Paulo tinha visto um homem macedônio, mas agora ele encontra uma mulher da cidade de Lídia. Lídia é a personagem principal do texto. Ela é apresentada como uma mulher emancipada, livre, que gerencia seu próprio negócio e é bem-sucedida – economicamente falando. Segundo o relato de Atos, é a primeira pessoa na Europa a tornar-se cristã (v. 14). Tento me imaginar a reação de Paulo e de seus colaboradores quando são convidados por uma mulher a se hospedarem em sua casa. Que tipo de barreiras ou preconceitos foram superados? Na casa de Lídia irá se formar uma comunidade cristã, possivelmente liderada por ela (v. 15)! Lídia e toda a sua casa foram batizados (v. 15). Seria esse texto um subsídio para legitimar o batismo de crianças? (Muitas igrejas cristãs não aceitam o batismo de crianças como válido). O texto destaca que o Senhor abriu o coração de Lídia, e esta abriu a sua casa. Isso tem implicações missiológicas.
2.2 – Observações exegéticas 2.2.1 – Contexto Paulo encontra-se na sua segunda viagem missionária (At 15.36 – 18.22), provavelmente pelo ano 49/50 d.C. Ele está acompanhado de Silas (At 15.40), Timóteo (At 16.1-3; 1Ts 1.1) e Lucas – o autor do livro de Atos (At 16.10). Paulo e seus colaboradores haviam tentado anunciar o evangelho no norte da Ásia Menor, e também no sul, na direção do mar Negro (Bitínia), mas, surpreendentemente, o relato de Lucas afirma que haviam sido impedidos pelo Espírito Santo (At 16.6-7). Segundo o relato de Lucas, é nessa viagem que pela primeira vez o evangelho será anunciado em solo europeu, embora muito provavelmente ele já tenha alcançado a Europa antes dessa viagem de Paulo – por exemplo, em Roma. O evangelho será anunciado na Europa graças a uma visão noturna de Paulo (v. 9). A primeira cidade onde o evangelho será anunciado será a cidade de Filipos (At 16.11-40). Nossa perícope descreverá a visão de Paulo, a viagem a Filipos e a primeira iniciativa missionária nessa cidade. Na cidade de Filipos surgirá uma comunidade cristã, pela qual Paulo nutrirá grande afeto (Fp 2.25; 4.1,10,14-18; 2Co 11.8ss). 2.2.2 – Análise de detalhes V. 9 – Visão (do grego horama). O termo pode ser traduzido como rosto, visão, o que foi visto. A mesma palavra é encontrada outras vezes no livro de Atos (7.31; 10.17,19; 11.5; 12.9). O termo designa visões sobrenaturais enquanto se está acordado ou quando se está dormindo (Bauer, 1988). A palavra também é encontrada para designar o mesmo fenômeno em religiões não cristãs. Ainda que
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não seja possível descrever em detalhes como se dá essa visão, fica evidente que aquele que recebe a visão reconhece Deus falando através dela. Na visão se encontra um homem, reconhecido como sendo um macedônio, provavelmente pela sua vestimenta. V. 10 – O macedônio expressa um pedido de ajuda (cf. Mt 15.25; Mc 9.22). O pedido implica o reconhecimento de não poder/conseguir resolver o problema por si mesmo. O pedido por ajuda é feito em nome de todos os macedônios/europeus. O pedido do macedônio é inegavelmente interpretado numa perspectiva espiritual, ou seja, a ajuda a ser dada é o anúncio do evangelho. Portanto a ida de Paulo e seus colaboradores para a Europa não foi algo engendrado ou planejado por eles, mas ordenado por Deus. V. 11 – De forma tópica, Lucas descreve a viagem à Macedônia: com um navio eles viajam de Trôade para a ilha de Samotrácia, onde passaram a noite. No segundo dia, viajam até a cidade portuária de Neápolis. De lá, provavelmente a pé, seguindo a via Egnacia, por cerca de 15 km, chegaram a Filipos. Para fazer o mesmo trajeto, mas em sentido contrário, Paulo precisou de cinco dias (At 20.6). V. 12 – A cidade de Filipos deriva seu nome do rei e conquistador macedônio Filipe II, pai de Alexandre, o Grande. Ele conquistou a cidade grega em 356 a.C., deu à cidade seu nome, ampliou e fortaleceu a cidade, e com o ouro extraído das minas que se encontravam nas imediações de Filipos financiava suas guerras. Mais tarde, a cidade cultivou estreitas relações com Roma, a ponto de ser caracterizada como “cidade mais romana do que Roma”. Isso explica as dificuldades que a comunidade cristã encontrou nessa cidade (Fp 1.27-30; 2.15; At 16.19-23; 2Co 7.5; 8.2). V. 13 – Depois de alguns dias na cidade, Paulo e seus colaboradores – segundo seu costume (At 17.1-4) – reúnem-se no dia de sábado para anunciar o evangelho aos judeus (Rm 1.16; 2.9ss). Provavelmente, todo o perímetro urbano da cidade era consagrado às divindades romanas, de modo que não se encontrava nenhuma sinagoga na cidade. Ao sul, numa distância de dois km da cidade, passava o rio Gangites. Às margens desse rio, Paulo e seus colaboradores encontrarão um grupo de mulheres que ouvirá o anúncio do evangelho. V. 14 – Lídia pode ser um nome próprio, porém, mais provavelmente, designa a origem da mulher. Lídia era da cidade de Tiatira, que se situava na região da Lídia, na Ásia Menor. Portanto ela não é europeia, mas alguém que migrou para a Europa. Ela é uma mulher que negocia roupas de luxo. A púrpura – tecido nobre, caro, de cor vermelha – era típica na cidade de Tiatira. Lídia negociava e vendia esse tecido em Filipos e, provavelmente, era uma mulher rica. O texto testemunha que ela era uma mulher temente a Deus. Dessa forma eram designados os gentios – pessoas que não eram judeus de nascimento, mas que assumiram para si a fé judaica (cf. At 10.1ss; 17.4,17; 18.7), sem contudo se converterem integralmente ao judaísmo. Pessoas designadas como tementes não eram obrigadas a observar todos os rituais de purificação e alimentação, por exemplo. Lídia ouve, escuta o que Paulo lhe diz. Mas Deus é aquele que lhe abre o coração, de modo que ela compreende o que lhe está sendo dito e crê. Deus é aquele que abre
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o caminho ao evangelho. Deus abre o coração e os ouvintes compreendem (Mc 7.34; Lc 24.32). V. 15 – Lídia crê e é batizada. Provavelmente, o batismo aconteceu no rio Gangites. Não somente Lídia, mas toda a sua casa foi batizada. Casa não designa uma construção, em primeiro lugar, mas a família ampliada, o grupo social, cultural e religioso do qual faziam parte escravos, empregados e todos os que viviam na casa. Uma vez que o coração de Lídia foi aberto, ela abre a sua casa e pratica a hospitalidade (1Pe 4.9ss). Com sua hospitalidade para com Paulo e seus cooperadores e mais tarde com os muitos irmãos e irmãs na fé (v. 40), Lídia dá testemunho da mudança que aconteceu no centro de sua existência. Sua casa aberta vai se constituir na primeira célula da igreja em Filipos, da igreja na Europa.
3 Reflexão teológica com vistas à prédica 3.1 – O início da perícope é ambientado na noite. É noite não apenas em seu sentido literal, mas também num sentido emocional/espiritual. Paulo e seus companheiros tinham iniciado sua viagem cheios de planos e expectativas. Mas agora eles estão confusos. Primeiro, eles planejaram adentrar na província da Ásia, mas o Espírito Santo os impediu (v. 6). Depois, tentaram se dirigir à Bitínia, em direção ao mar Negro, mas também esse plano foi impedido pelo Espírito Santo (v. 7). Que fazer? Missionários fracassam em seus projetos missionários, são missionários sem uma missão. Seus planos se desfizeram como bolhas de sabão! Ficou noite! A prédica poderia fazer referência e trazer exemplos de planos que fracassaram: planos pessoais, planos que foram sonhados como comunidade, mas que por alguma razão acabaram não se concretizando. Ao mesmo tempo, a perícope destaca que nossos fracassos são transformados em vitórias pela intervenção de Deus, que muda nossos planos, é verdade, mas não nos deixa sem uma porta aberta. Paulo não tinha planos de ir para a Macedônia. Mas ele teve a sensibilidade de perceber que Deus o estava dirigindo para outra direção daquela que ele inicialmente tinha planejado. Essa também é a tarefa da comunidade cristã: ser sensível às portas abertas que Deus coloca para ela. Na maioria das vezes, portas abertas para a comunicação do evangelho se constituem ou se evidenciam a partir de necessidades reais que as pessoas vivenciam e experimentam. Quais, onde se encontram portas abertas que a comunidade cristã local poderia adentrar? Quem são os que expressam pedidos de ajuda no âmbito de nossas comunidades? 3.2 – Na cidade de Filipos, na Europa, vive uma mulher chamada Lídia. Ela é profissionalmente bem-sucedida. Ela vive na colônia romana de Filipos como estrangeira. Ela é uma migrante da Ásia Menor. A religião que lhe foi mediada pelos pais não respondia mais aos seus anseios mais profundos. Também todo o panteão de divindades romanas na cidade de Filipos não lhe satisfaz. Na sua busca religiosa, ela conheceu a fé judaica e se reúne com outras mulheres para orar. Ela é uma mulher temente a Deus. Como na cidade de Filipos não há espaço nem tolerância para que ela expresse a sua fé, ela é obrigada a reunir-se com suas amigas na periferia da cidade.
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Lá ela tem um encontro com Paulo. Não é um encontro casual, mas um encontro dirigido por Deus. Com Lídia, uma mulher, uma migrante, inicia a história da evangelização na Europa, conforme o testemunho do livro de Atos. Lídia ouve o que Paulo compartilha com ela. E Deus abre seu coração. Compreender o sentido do evangelho sempre é fruto do agir soberano de Deus na vida do ser humano. Crer é dádiva de Deus ao ser humano. 3.3 – Ao coração aberto segue uma casa aberta. Lídia experimentou a graça de Deus e age de forma graciosa para com as pessoas com as quais convive. Ela coloca seus dons a serviço da missão e evangelização. O mesmo vale para nós: comunidade cristã surge e cresce quando a fé é compartilhada e quando agimos a partir da fé. Gálatas 3.28 talvez expresse o que pode ter acontecido na casa de Lídia.
4 Tema e estrutura da prédica Uma sugestão de tema e estrutura para a prédica: Tema: Quando acontece missão? 1) Missão acontece quando uma porta se abre. 2) Missão acontece quando um coração se abre. 3) Missão acontece quando uma casa se abre.
5 Imagens para a prédica Antes de iniciar o culto, os confirmandos e as confirmandas poderiam receber a comunidade com bolhas de sabão. Ao mesmo tempo, há uma música de fundo e, enquanto as bolhas de sabão são sopradas, outros confirmandos/as recitam alternadamente frases que expressem sonhos, desejos: “Eu desejo...”; “Como seria bom se...”. Quando estiver na hora de iniciar o culto, a música silencia e alguém fala (de modo que todos possam ouvir): “Sonhos podem acabar! Sonhos às vezes não passam de bolhas de sabão. Quando é que sonhos se tornam realidade?”. Essa dinâmica pode introduzir a prédica e conectar com os sonhos de Paulo e seus cooperadores, que, num primeiro momento, eram como bolhas de sabão: seus sonhos se desfizeram. Outra possibilidade é fazer uma enquete com pessoas que vivem no entorno da comunidade, procurando ouvir pedidos de ajuda e perceber portas abertas para a comunidade testemunhar a sua fé. Perguntar e perceber problemas sociais: como vivem os idosos, quem são pessoas solitárias, quais os desafios que a escola enfrenta, como as pessoas vivem seu luto, há migrantes vivendo entre nós? Os resultados da enquete poderiam ser apresentados na prédica para a comunidade e servir de motivação para um viver missional da comunidade.
6 Subsídios litúrgicos A oração após a prédica poderia: • lembrar a inspiração que Paulo e Lídia deixam para a comunidade local e
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os planos frustrados de Paulo que se tornaram uma história de esperança para Lídia; motivar a confiança na providência divina – Deus conduz a nossa vida; pedir que Deus sempre conceda sensibilidade para perceber portas abertas para o testemunho do evangelho; pedir para que Deus também abra nossos corações, crie em nós a fé e nos possibilite agir em amor, colocando nossos dons a serviço da missão; interceder pelas políticas públicas, pelos migrantes em nosso país e nossa cidade, também pela situação dos refugiados em outros países.
Bibliografia BAUER, Walter. Griechisch-deutsches Wörterbuch: zu den Schriften des Neuen Testaments und der frühchristlichen Literatur. 6. ed. Berlin: De Gruyter, 1988. TRAUTWEIN, Thorsten. Zuversicht und Stärke. Holzgerlingen: Hänsler, 2014. 6. Reihe, Heft 2. WEILAND, Werner. Zufersicht und Stärke. Holzgerlingen: Hänsler, 1996. 6. Reihe, Heft 2.
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PRÉDICA: ATOS 1.1-11 SALMO 93 MATEUS 28.16-20
ASCENSÃO DO SENHOR
30 MAIO 2019
Eldo Krüger
O sentido da ascensão para Jesus e para nós
1 Introdução O texto de Atos 1.1-11 já foi objeto de estudo em cinco volumes de Proclamar Libertação: v. 20, p. 155-160; v. 26, p. 182-190; v. 29, p. 161-167; v. 32, p. 162-168; v. 38, p. 195-199. Salmo 93 – O salmo é um hino dedicado à realeza do Senhor. Segundo o testemunho do salmista, desde a eternidade e por dias sem fim, Deus reina como Senhor, está revestido de majestade e de grandioso poder. Não há nada acima de Deus nem mais poderoso do que ele. Sua força é maior e mais poderosa do que as divindades (mitológicas) e as forças do caos, a fúria do oceano e as ondas do mar. Como consequência, ele espera que o santifiquemos, confiemos nele e em suas leis, pois são fiéis e eficazes. Mateus 28.16-20 – O evangelista Mateus conclui seu livro apresentando um resumo substancial da sua “cristologia e eclesiologia”. Diz que depois da ressurreição de Jesus os discípulos retornam à Galileia, gesto simbólico que indica recomeço. Lá, Jesus faz uso da sua plena autoridade divina e ordena aos discípulos que façam novos discípulos de todas as nações. Diz que eles devem ser batizados com a invocação trinitária e envolvidos no discipulado cristão para aprender a viver de acordo com seus ensinamentos. Promete acompanhar os discípulos e ajudá-los a executar a missão recebida. Atos 1.1-11 – O texto fala sobre a ascensão de Jesus e a missão da igreja. A ascensão é a grande evidência que revela a messianidade, a glorificação, a entronização plena de Jesus e a aprovação final de Deus à sua missão terrena. Com a ascensão Jesus completa sua obra terrestre e começa seu ministério e o senhorio universal como mediador entre Deus e os seres humanos (Hb 9.24). A continuidade e a ampliação da missão de Jesus na terra, doravante, serão através do Espírito Santo e da missão da igreja.
2 Exegese Estrutura do texto – Os versículos 1-5 apresentam um resumo do ministério de Jesus e do conteúdo do evangelho. Os versículos 6-11 relatam a ascensão de Jesus e o mandato missionário da igreja. V. 1 – Num breve prólogo, Lucas esclarece ao seu amigo Teófilo, a quem dedica sua obra e torna seu nome memorável, que o livro de Atos é a continuação
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do primeiro volume que escreveu, que foi o Evangelho de Lucas. O nome Teófilo significa “amigo de Deus”. Ele provavelmente deve ter ocupado algum ofício de destaque no governo romano, já que Lucas o chama de “Vossa Excelência” (Lc 1.3). Pode-se dizer que “as duas obras constituem o mais completo registro histórico de como se desenvolveu o cristianismo e de como ele ultrapassou o judaísmo em grau e importância” (Champlin, 2002). Ao interligar os dois livros, Lucas confirma que a igreja estava firmemente ligada e fundamentada no ministério de Jesus, suas obras e ensinamentos. Havia unidade entre a história de Jesus e da igreja. Os dois livros eram dignos de toda credibilidade, pois foram escritos com base numa profunda e ampla investigação (Lc 1.1-4). Uma atitude que mostra a consciência e a responsabilidade do escritor em fazer um relato fidedigno sobre Jesus, o começo e a expansão do cristianismo. No livro de Atos, Lucas relata o que Jesus continuou a fazer e ensinar por meio das atividades das suas testemunhas. V. 2 – Lucas diz que no primeiro livro escreveu sobre Jesus e sua missão até o dia em que ele anunciou a grande comissão, a vinda do Espírito Santo e foi elevado ao céu (Lc 24.36-53; Mc 16.14-20; Mt 28.16-20). A vinda do Espírito e a ascensão aconteceram só depois que Jesus tomou todas as providências com os discípulos para garantir a continuidade da sua obra de redenção da humanidade. Só então voltou para o lugar (posição) onde estava antes de se tornar carne (Fp 2.5-11). Conforme Lucas, a ascensão completou (não interrompeu) o ministério terrestre de Jesus e explica a sua ausência corporal visível no mundo. A ascensão não foi plenamente compreensível e acessível aos sentidos humanos. Também não foi algo novo e inédito, pois tem antecedentes bíblicos (Enoque – Gn 5.24; Elias – 2Rs 2.1-13). Segundo os evangelistas, a ressurreição é a glorificação ou exaltação de Jesus para sentar-se à direita de Deus. E isso se concretizou de forma plena com a ascensão (Mt 26.64; Jo 14.2-3). V. 3 – Depois de Jesus morrer na cruz e ressuscitar da morte, durante quarenta dias apareceu vivo corporalmente em várias ocasiões, com muitas provas e evidências incontestáveis e infalíveis (1Co 15.1-8). Passou um tempo com os discípulos falando sobre assuntos relacionados ao reino de Deus, tema central de sua pregação e ensino (Lc 4.43). A informação sobre os quarenta dias não aparece nos evangelhos, somente em Atos. Não indica somente o tempo real entre a ressurreição e a ascensão, mas é um número simbólico que aparece muitas vezes na Bíblia e tem o sentido de provação, disciplina e preparação (Gn 7.12; Êx 24.18; 1Rs 19.8; Jn 3.4; Mt 4.2; e outros). Podemos dizer que Jesus usou esse tempo de quarenta dias para preparar e instruir seus discípulos, para reforçar seus ensinamentos e abrir o seu entendimento a respeito da sua missão e da missão que confiou a eles (Lc 24.45). Como evidência e prova material de que sua ressurreição foi real, Jesus mostrou as marcas da crucificação que carregava no corpo, e comeu com os discípulos (Lc 24.13-43), um sinal visível de que Jesus ressuscitou no corpo, de que a matéria/natureza humana foi glorificada. V. 4 – Durante uma refeição com os discípulos, momentos sempre muito marcantes e significativos no ministério de Jesus, ele ordenou que não se ausen-
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tassem de Jerusalém antes de receber o Espírito Santo (Lc 12.12; 24.49; Is 32.1-5; Jl 2.28-32). A razão disso é que os discípulos só conseguem dar continuidade à missão de Jesus por meio do Espírito (Jo 14.16-20,26; 15.26-27). Para Lucas, Jerusalém tem grande importância na história da salvação, pois é lá que se deu o grande acontecimento da salvação da humanidade. Jerusalém é o lugar onde ocorreram a morte e a ressurreição de Jesus, o lugar da rejeição e da glorificação de Jesus, o berço e ponto de partida da igreja e de sua missão no mundo em nome de Jesus. V. 5 – A promessa do envio do Espírito Santo, anunciada pelos profetas do Antigo Testamento, reiterada pelo próprio Jesus, é confirmada e reforçada pelo testemunho do profeta João Batista. Lucas esclarece que João Batista pregou o batismo do arrependimento e batizou as pessoas com/em água (Lc 3.1-22), mas disse que Jesus (Messias), que foi batizado nas águas e no Espírito, batizaria as pessoas com/em o Espírito Santo. Lucas não disse quando isso aconteceria, e esse fato provocou dúvidas e expectativas. É importante destacar que Lucas dá bastante ênfase ao poder e à ação do Espírito Santo na pessoa e no ministério de Jesus (Lc 2.27; 4.1,14,18; 11.13-14) e dentro da igreja cristã. O Espírito Santo é fundamental e imprescindível na atuação de Cristo e da igreja e na concretização da salvação divina na vida das pessoas. V. 6 – Os discípulos e outros seguidores e seguidoras estavam reunidos com Jesus (Lc 24.49), provavelmente no monte das Oliveiras. Como Jesus havia ressuscitado dentre os mortos e anunciado a vinda do Espírito Santo, os discípulos pensaram que havia chegado o momento de Deus estabelecer definitivamente o seu pleno domínio e o seu reino, de forma literal e visível, e por isso perguntaram a Jesus: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Os discípulos ainda acreditavam que a missão principal do Messias era ser o protagonista da libertação e restauração política de Israel. Aliás, essa era a esperança de Israel, uma esperança política de que através do Messias e deles, Deus estabeleceria o seu reino e governo sobre todo o mundo e realizaria plenamente a sua vontade tanto na terra como no céu. Pode-se dizer que essa expectativa revela que os discípulos ainda não haviam compreendido a verdadeira natureza da missão universal de Jesus e do reino de Deus. V. 7 – A resposta que Jesus deu não confirmou suas expectativas messiânicas sobre o estabelecimento do reino de Deus e a restauração política do reinado de Israel como nação livre e soberana. Jesus disse que não compete a ninguém conhecer tempos ou épocas que são de total exclusividade, domínio e autoridade de Deus. O tempo da atuação de Deus e do cumprimento dos seus planos é de exclusiva competência, domínio e controle dele, e por isso Jesus se nega a predizer datas (Mt 24.36-37; Mc 13.32). E mais... Os eventos dos últimos dias, o futuro e o desfecho da história do Messias, e o estabelecimento pleno e definitivo do reino de Deus (nova ordem social) pertencem a ele, Criador e Senhor do universo e da história. É segredo de Deus. Não há lugar para previsões e especulações humanas calculistas e apocalípticas. V. 8 – Segundo Jesus, o tempo que havia chegado era outro – o de cumprir a grande comissão, também narrada nos evangelhos. O reino de Deus deveria
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ser levado a efeito através dos discípulos, no poder do Espírito Santo. No livro de Atos, Lucas diz que isso começou a acontecer desde quando os discípulos foram revestidos do Espírito Santo no Pentecostes (At 2.1-41). A partir de então começaram a testemunhar e pregar sobre Cristo e o reino de Deus (At 8.12; 19.8; 20.25; 28.23), iniciando por Jerusalém, o centro e o berço do mundo judaico-cristão, e expandindo-se sem limites por todo o mundo – aos lugares mais próximos (Judeia), aos lugares semipagãos e/ou sincretistas (Samaria) e aos lugares pagãos (até os confins do mundo (Is 48.20; 49.6; 62.11). É instrutivo destacar que a missão confiada aos discípulos e também a todos os seguidores e seguidoras (não só um grupo seleto de pessoas instruídas) de Jesus só se tornou possível e eficaz mediante o recebimento e o agir do Espírito Santo, que capacitou as testemunhas de Jesus com o poder de Deus (Jo 15.26-27). E isso tem sido assim até hoje. O livro de Atos relata como a missão de âmbito universal se concretizou na história. Confirma que entre Jesus e o Espírito Santo há uma unidade de ensino e ação. V. 9 – A partir desse versículo Lucas fala como foi a despedida de Jesus. Assim que Jesus ordenou aos discípulos que dessem continuidade à sua missão como suas testemunhas, ele foi elevado às alturas para junto de Deus (1Pe 3.22). Foi um evento incomum, inusitado e visível aos olhos. Uma visão e experiência de fé marcante e inesquecível! Todas as pessoas que estavam com Jesus, incluindo os anjos, testemunharam o momento exato desse acontecimento milagroso. Viram Jesus subir até ser encoberto pelas nuvens – sinal sobrenatural e simbólico da manifestação de Deus e de sua glória celeste, sinal de que Jesus foi exaltado e entronizado à destra de Deus. Essa é a mensagem que fica. Podemos dizer que a ascensão de Jesus, evento narrado em detalhes somente em Atos, dá início a uma nova era, a era do Espírito. É através do Espírito que Jesus vai continuar presente e agindo no mundo. A ascensão é a grande evidência e confirmação da messianidade (Jo 14.20) e da glorificação e entronização plena de Jesus. É o selo da aprovação final de Deus à sua missão salvadora na terra. É a confirmação de que Jesus completou sua missão terrestre e começou seu senhorio e ministério real como Cristo em âmbito mundial. Ou seja, a ascensão não significa que Cristo se ausentou por completo do mundo, e sim que ele não está mais preso ao tempo e ao espaço. A partir da ascensão ele está em todos os lugares ao mesmo tempo, acessível a todas as pessoas em todos os tempos e lugares. Especialmente lá onde a sua Palavra é pregada e vivenciada, como dizia Lutero. V. 10 – Enquanto os discípulos estavam olhando atentamente para o céu até Jesus desaparecer, dois mensageiros (anjos) de Deus, vestidos de branco (resplandecem a Luz de Deus – 1Jo 1.5), apareceram subitamente e se colocaram junto deles nesse momento crucial e decisivo. Isso já havia acontecido por ocasião do anúncio e do nascimento de Jesus (Lc 1.26-38; 2.8-20), em sua agonia no jardim do Getsêmani (Lc 22.43), depois da ressurreição, quando as mulheres foram ao túmulo (Lc 24.1-12). Agora, quando Jesus é elevado ao céu para junto de Deus, a cena se repete. Os dois anjos estão ali como enviados de Deus e como testemunhas e intérpretes da sua ascensão. Eles reafirmam a presença de Deus,
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confortam e orientam os discípulos. Anunciam que Jesus voltará e que um dia irão se reencontrar com ele. Assim, a despedida não se torna tão difícil. V. 11 – Os anjos perguntam: Homens galileus, por que estão olhando para o céu? Essa pergunta tem um questionamento implícito aos discípulos. E por quê? Talvez porque os discípulos quisessem eternizar aquele momento extraordinário, tal como aconteceu quando estavam com Jesus no monte da transfiguração (Lc 9.28-36). Estavam tão impactados que ficaram imobilizados. Mais preocupados com o “milagre” do que com a missão, algo que acontece muito hoje em dia. Não queriam se despedir e ir embora. Queriam que Jesus continuasse com eles. Os anjos fizeram uma importante revelação. Contaram que a despedida de Jesus não era definitiva. Anunciaram que Jesus voltaria do mesmo modo como o viram subir (Mt 24.30-31). Não disseram quando isso aconteceria. Mas a notícia da volta certamente encheu todos de alegria e esperança e os animou a voltar seu olhar para a terra e dar continuidade à missão de Jesus como suas testemunhas até ele voltar. É importante ressaltar que a volta de Jesus também faz parte do evangelho e do anúncio do reino de Deus (Mt 25.31-46).
3 Meditação O texto indicado pela igreja é para ser refletido no dia da ascensão de Jesus. A ascensão é um acontecimento divino que tem um sentido grandioso para Jesus e para nós. O dia da ascensão (quarenta dias após a Páscoa) foi fixado no ano de 370 d.C., pelo Concílio de Niceia. O sentido da ascensão para Jesus Cristo – A ascensão, um acontecimento transcendente anunciado por Jesus (Mt 26.64; Jo 14.2-3), dá início a uma nova era e revela verdades sobre a sua pessoa (“ele e o Pai são um” – Jo 14.20) e a sua missão como Filho de Deus e como Messias. Revela que Jesus (histórico) concluiu (não interrompeu) de forma plena e perfeita a missão terrena que recebeu. Revela e testemunha que Jesus teve aprovação final de Deus e foi honrado por ele, como verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Em decorrência disso, ele se tornou o Cristo escatológico. Como confessamos no Credo Apostólico, “subiu aos céus e está sentado à direita de Deus, Pai todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos”. Essa volta para junto de Deus testemunha e confirma a messianidade, a glorificação e a entronização de Jesus como Messias. Deus o tornou Cristo e Senhor (At 2.33,36); o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.9-11). Em outras palavras, a partir da ascensão Jesus está com Deus, acima de tudo e de todos. O mundo está aos seus pés (Ef 1.20-23). No entanto, Jesus não usa seu poder para dominar, mas para servir e salvar. Por isso é digno e justo que o adoremos e glorifiquemos com nosso louvor. A entronização de Jesus não significa que ele se ausentou por completo do mundo. Significa que sua presença e missão no mundo não estão mais limitadas ao tempo e ao espaço. A partir da ascensão, sua presença e a continuidade da sua
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missão acontecem de forma diferente, por meio do Espírito Santo e da igreja (Mt 18.20), por meio da proclamação da Palavra e da celebração dos sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor. O sentido da ascensão de Jesus para nós – Com a ascensão, Jesus deixou de estar corporalmente presente no mundo, mas pelo Espírito Santo ele passou a estar presente em todos os tempos e lugares. O que isso significa? Que a partir da ascensão Jesus se tornou acessível a todas as pessoas, em todos os tempos e lugares. Que a graça de Deus passou a ter um alcance universal e está disponível a toda a humanidade. Que há esperança de salvação eterna para todos. Todas as pessoas podem ter acesso a Jesus e à salvação por meio do conhecimento do seu testemunho, registrado nos evangelhos (Palavra) e através do dom da fé. E para termos esse dom Deus concede o Espírito Santo, isso já a partir do batismo. Desde então, Deus permanentemente continua nos revestindo do seu Espírito. Uma ação divina fundamental que alimenta, desenvolve e mantém viva a nossa fé e nos capacita a viver de forma cristã. Esse revestimento do poder de Deus também nos capacita a ser e dar testemunho de Cristo, e não há limites para isso. Através do Espírito, Cristo nos envolve e compromete ativamente em dar continuidade e ampliar a sua missão na terra, em colocar sinais do reino de Deus no mundo. E isso até quando ele voltar e estabelecer o reino de Deus de forma completa, plena e definitiva. Até lá temos uma tarefa missionária que precisa ser cumprida (sacerdócio geral dos crentes). Isso é um privilégio, uma responsabilidade e um serviço. Por fim, assim como a ressurreição de Jesus é a garantia de que Deus irá nos ressuscitar e dar vida eterna (Rm 6.4-10), a ascensão é garantia de que o nosso fim último é estar com Jesus, junto de Deus (Jo 14.2-3; Ef 2.6). Esta é a nossa fé e esperança. Viver com Deus eternamente no seu reino celestial. Viver a graça da salvação de forma plena, definitiva e eterna. Mas enquanto esse dia não chega, precisamos continuar fundamentando e inspirando a nossa vida em Jesus e seguindo-o por fé (1Co 3.18; 2Co 5.6-7), sempre nos colocando a serviço da sua missão.
4 Imagens para a prédica – Começar a prédica falando como é a experiência de se despedir de alguém importante que marcou nossa vida e que talvez não vamos ver mais. – A importância do testemunho dos evangelhos sobre Jesus e sua missão (obras, ensinamentos, morte e ressurreição) e o quanto esse testemunho dá sustentação segura à fé cristã e à missão da igreja. – A importância das promessas de Deus, especialmente a promessa do envio do Espírito Santo, e o sentido que a vinda do Espírito tem para a nossa vida e para a vida e missão da igreja. – As expectativas que existem em relação à vinda do reino de Deus e seu completo, pleno e definitivo estabelecimento no mundo. – O Espírito Santo concede “o poder de Deus” para o testemunho. – A missão da igreja através de todos os cristãos, seu desdobramento e alcance no mundo.
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– O sentido da ascensão para Jesus ressuscitado e para a humanidade. – A promessa e esperança pela volta de Jesus.
5 Subsídios litúrgicos (Liturgia de culto da Palavra – sugestão de hinos do Livro de Canto da IECLB) Canto de entrada: nº 15, 454, 455, 520. Motivação para a acolhida no culto: Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.1-3). Saudação e invocação do Trino Deus: canto nº 3. Oração de confissão de pecados: canto nº 40. Anúncio do perdão dos pecados: E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (At 4.12). Kyrie eleison: canto nº 31, 56. Motivação para o Gloria in excelsis (adoração e louvor): Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e o fez sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo o nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as cousas, o deu à Igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (Ef 1.20-23). Canto: nº 74, 71, 111, 167 (opção: nº 44 e 132 do Hinário Novo Cântico – Publicações Encontro), 183, 202, 219, 173. Motivação para a confissão de fé: Deus exaltou Jesus sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.9-11). Oferta: Canto durante o recolhimento da oferta – nº 582, 584, 588. Canto na hora da oferta ser levada ao altar – nº 473.
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Motivação para a oração geral da igreja: E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada um das vossas necessidades (Fp 3.19). Canto final: nº 73, 285, 363. Sugestão: Entregar na saída do culto o folheto intitulado “Ascensão Tempo de celebrar” (Literatura evangelística da IECLB)
Bibliografia MARSHALL, I. Howard. Atos dos Apóstolos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1982. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. v. 3.
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PRÉDICA: APOCALIPSE 22.12-14,16-17,20-21 SALMO 97 JOÃO 17.1a,20-26
7º DOMINGO DA PÁSCOA
02 JUN 2019
Evandro Meurer
Elogiar mais, criticar menos
1 Introdução Apocalipse 22 já foi tratado duas vezes em versões anteriores do Proclamar Libertação, mas com pequenas diferenças de recorte. Em 1984, Leonídio Gaede trouxe uma reflexão para o final do ano, propondo, a partir de 22.10-16, uma avaliação, um balanço do ser comunidade cristã naquele momento histórico. Em 1998, Roberto E. Zwetsch apresentou uma interessante reflexão sobre a perícope, também para o 7º Domingo da Páscoa. O recorte textual ali é 22.12-17,20. Vistas de forma panorâmica, as três perícopes marcam o anúncio da glória de Deus (Sl 97.6) e a autoapresentação de Jesus em sua natureza divina (Jo 17.22,24), como “famoso” e “brilhante” (Ap 22.16). Aposto por aí o caminho para uma pregação neste último domingo do período pascal: elogiar Deus e proclamar o Cristo que veio, vem e virá. Assim, ainda com aquele “frio na barriga” mencionado por Zwetsch, convido você a “debulhar o trigo” do Apocalipse e “forjar o milagre do pão” (Mt 4.4; Jo 6.48), “fecundar o chão” no cio da comunidade cristã.
2 Exegese Apesar de estarmos diante de um texto da assim chamada revelação de Deus a João (Ap 1.1), seu escopo e propósito estão mais para parênese comunitária, didaquê cristã, do que para material apocalíptico propriamente dito. É sabido que o livro foi escrito em um tempo em que as autoridades romanas estavam perseguindo os cristãos. A base da perseguição era o não cumprimento e sujeição à ordem de culto ao imperador. “Naturalmente não se pode esperar que as primeiras comunidades deixassem de entrar em contato com textos apocalípticos, principalmente diante de uma situação de catástrofe, perseguição e tormento [...]” (Sand, 1983, p. 229). Há de se concordar que o Apocalipse de João é uma coletânea de textos apocalípticos diversos que algum presbítero ou grupo de presbíteros compilou e reinterpretou em sentido cristão e parenético. Esse propósito transparece em Apocalipse 1.1-8 e, da mesma forma, no capítulo 22 (em especial os versículos 6 a 21), quando do encerramento do livro. Com Lutero entendemos que “podemos tirar proveito deste livro e usá-lo plenamente para consolo, para que saibamos que nenhum poder, nem mentira, nenhuma sabedoria, nem santidade, aflição ou sofrimento haverão de oprimir a cristandade, e sim, que ela, no final,
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se imporá e vencerá” (Lutero, 2003, v. 8, p. 155, 162-163). Sob essa perspectiva, busquemos juntos entender o texto em seus três recortes e entender sua mensagem, apoiados pelas duas leituras paralelas propostas. Antes disso, é interessante e elucidativo analisar as partes excluídas da perícope: os v. 10-11,15,18-19, que contêm palavras negativas, exortativas e proféticas de correção, denúncia e anúncio de desgraça (“não seles”, “continue o injusto... o imundo...”; “os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira” e as ameaças de “flagelo”), foram excluídos da perícope. A ênfase, neste domingo, está nas palavras de elogio a Deus, a Jesus e às pessoas bem-aventuradas (v. 14). Vejamos agora as partes contempladas pelo recorte: V. 12,17a,20 – Propomos que as expressões “venho sem demora” e “vem, Senhor Jesus!” sejam compreendidas dentro daquela tríplice interpretação da parúsia de Cristo: ele veio (sua primeira vinda redentora, conforme narrada pelos evangelhos), continua vindo hoje (conforme relatado pelos apóstolos e vivenciado pela igreja cristã em palavra e sacramento) e virá (escatologicamente, como o aguardamos e testemunhamos em fé e esperança). Na perspectiva que propomos acima, escutemos esse vir como um chamado à presença de Cristo hoje em nós e na vivência comunitária transformadora e geradora da vida plena neste nosso chão. V. 12,14,17b,21 – Como se não bastassem todas as bênçãos recebidas gratuitamente em vida, o texto destaca ainda as benesses por vir. Numa nítida referência às promessas veterotestamentárias do Segundo e Terceiro Isaías (40.10; 66.11), promete-se ainda um “galardão”. Que Deus gracioso e bondoso! Presenteia-nos já agora com sua graça e salvação e ainda promete “recompensas” (numa nova tradução alemã encontramos Lohn; e em uma versão inglesa, reward). Ou seja, mais “presentes” das mãos de Deus na vida por vir. Além da salvação já recebida por pura graça, há a bem-aventurança do direito de saborear, de “comer a fruta da árvore da vida” (NTLH), remetendo ao Gênesis (2.9; 3.22). Quanta bondade! Com tamanho presente já dado por Deus em Cristo (Jo 3.16), ainda a “graça da água da vida” vai superabundar com Cristo, em seu advento. Conforme as promessas já referidas em 2.7,11,17,26-28; 3.5,12, os vencedores serão galardoados ainda grandemente. V. 13,16 – Em uma utilização visível da fórmula de autoapresentação de Deus no Antigo Testamento, Jesus aqui também se autoapresenta. A fórmula judaica “Eu sou” (presente em Êxodo 3.13-14) se reafirma aqui, assim como também no Evangelho de João (8.58) o “eu sou” está presente e está vindo. Utilizando figuras estranhas, que seus leitores e leitoras entendem, mas que não seriam entendidas pelas autoridades romanas, João apresenta Jesus, colocando-o na caminhada do povo de Deus do Antigo Testamento. Destaca que sua plenitude vai de “A” a “Z” (cf. Hb 13.8). Em Apocalipse 1.8,17 e 21.6, essa identificação é usada em relação ao Pai, enquanto aqui é relacionada ao Filho, conferindo e fortalecendo a divindade de Jesus. Ao referir-se à carta endereçada às sete igrejas da Ásia (1.4), mais uma vez é testificada a grandiosidade e plenitude de Cristo a essas igrejas. Ele é autor e consumador da fé (Hb 12.2), em todas as dimensões e épocas, é a causa primária e a causa final, a realização daquilo que fora iniciado
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por ele mesmo. Como em 5.5, também aqui há o reforço de que Jesus, como Messias, procede da linhagem de Davi, como com frequência é citado nos evangelhos (Mt 1.1,20; 9.27; 12.23; 15.22; 20.30; 21.9,15; 22.43,45). “Leão” remete à sua linhagem real. A tribo de Judá tinha por emblema um leão, atestando seu poder vastíssimo, com “força” para realizar qualquer tarefa que lhe fosse determinada. Semelhantemente “raiz” é linguagem simbólica que indica a descendência davídica, do “ramo” de Jessé (Is 11.1) como uma “bandeira para as nações”, pois onde ele reina, brilhará a glória de Deus (Isaías 11.10). A “aurora” como símbolo messiânico reforça a vinda de Jesus como luz da vida, vinda ao mundo e a todas as pessoas (Jo 1.9; 8.12). Ele é o “vênus”, símbolo da imortalidade, da glória e do domínio mundial.
3 Meditação Elogios são importantes. Como é bom recebê-los! Mas como é raro dá-los. Somos mais preparados a apresentar críticas negativas do que encher alguém de elogios. Elogiar Deus até o fazemos muito bem, especialmente quando tudo vai bem. Elogiar uns aos outros nem sempre é uma prática cristã habitual. Podemos nos defender de um ataque, de uma crítica, mas somos totalmente indefesos a um elogio. Ele nos desarma. Elogie! Reconhecer qualidades de outra pessoa nos engrandece em humildade. É fato que gastamos muito mais tempo falando de nossos inimigos do que elogiando nossos amigos. “Elogio é o enaltecimento de uma qualidade ou virtude de algo ou alguém. É uma ferramenta educacional utilizada também para motivar outras pessoas, aumentar sua autoestima ou corrigir um defeito” (Wikipedia). Elogiar, exaltar, enaltecer, aplaudir, louvar, bendizer é bom para quem faz e para quem recebe. Dar e receber elogios faz com que nos sintamos melhores, seja dando ou recebendo. Mesmo que o contrário de elogiar seja desmerecer, depreciar, desconsiderar, menosprezar, queremos propor que o antônimo de elogiar seja “criticar”. Biblicamente estamos diante de três textos que expressam elogios e glórias a Deus: O Salmo 97 destaca que o Senhor “reina” (v. 1); justiça e juízo são a base do seu trono (v. 2); os seus relâmpagos alumiam o mundo (v. 4); todos os povos veem a sua glória (v. 6); ele é “o Altíssimo”. Em João 17.22 Jesus se revela como aquele que transmitiu a glória deste Deus, em carne e osso, para que todos sejam um, como ele e o Pai são um. Tudo com um especial propósito: para que o mundo creia. Apocalipse 22 coloca Jesus sob o mesmo patamar desse Deus grandioso e glorioso (v .13 e 16). Vale a pena reconhecê-lo e elogiá-lo por isso. É feliz quem o reconhece como tal (v. 14). Quem se lava, se banha na força expiatória de Cristo, é bem-aventurado. O critério para a bem-aventurança da salvação não são as obras, mas a obra vicária de Cristo na cruz. Os “santos” não são “justos” por causa das suas obras, mas por causa do sangue do Cordeiro (Ap 7.14). Entraremos pela porta da cidade de Deus não por causa das nossas obras, mas por causa do sangue do Cordeiro (v. 14). Seguindo a lógica da numerologia apocalíptica, Apocalipse 22.14 traz a sétima bem-aventurança do apocalipse de João (As outras seis encontram-se em
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1.3; 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7). Felizes as pessoas que lavam as suas roupas (NTLH) no sangue do Cordeiro. Segundo Champlin, a mensagem geral que aproveitamos das bem-aventuranças é que “as principais realizações espirituais são as que obtêm os principais benefícios espirituais” (1982, p. 661). O seguimento de Cristo em toda a sua abrangência e radicalidade produz a verdadeira felicidade em seu Reino. Se não bastasse a gratuidade da salvação no sangue de Cristo derramado na cruz, poderemos ainda ser presenteados, na eternidade, por reconhecimento de um discipulado dedicado (v. 12). Concretamente, poderíamos refletir com a comunidade sobre a importância do louvor a Deus e, da mesma forma, o valor de elogiarmos nossos irmãos e nossas irmãs em Cristo naquilo que fazem como cristãos e cristãs. Muito facilmente se privilegiam as críticas em detrimento ao reconhecimento elogioso do que se faz e recebe na convivência e labor comunitários. Da mesma forma, acontece isso na vivência no lar: marido e esposa, pais/mães e filhos, irmãos e irmãs entre si. Deus é um Deus que gosta de ser “elogiado”, louvado e engrandecido. Faz bem louvá-lo. De forma semelhante fica o desafio: que saibamos reconhecer-nos e elogiar uns aos outros em nossa convivência fraterna. Considerando a intenção parenética que defendemos (e não profética, que seria lógico do livro em apreço) e o fato de que o livro de Apocalipse em todo o seu conteúdo foi escrito “às igrejas” (as sete cartas – nos capítulos 2 e 3 – e conforme reaparece aqui no versículo 16), nossa proclamação será palavra de libertação à comunidade cristã reunida. Palavra animadora e proativa. Um convite triplo, cheio de graça, enunciado pelo Espírito Santo, pela noiva, a igreja e todas as pessoas que ouvem a Palavra (v. 17). Palavra em folhas divinas “para a cura dos povos” (22.2). Elogiar cura. A crítica pela crítica fere, adoece.
4 Imagens para a prédica Coloque em seu site de busca na internet a expressão “elogio” ou “crítica” e você encontrará uma lista de artigos e reflexões em diferentes áreas da vida: psicológica, de gestão empresarial, de relações humanas, antropológica e sociológica. Certamente você encontrará um recurso com o qual melhor se identificará. Eu gostei deste: “Quem bate esquece, quem apanha não esquece. Estamos num momento em que críticas são importantes para o aperfeiçoamento das pessoas, das empresas e do mundo. Mas elas estão sendo confundidas com desabafo, discórdia e uma maneira de alguém dizer o que pensa do jeito que bem entende. Quando criticamos alguém, logo esquecemos, mas a pessoa que recebeu a crítica nem sempre esquece tão fácil. Toda crítica deve ser sempre construtiva, e para isso existe uma regra de ouro: assine com um elogio toda crítica que fizer. Por mais que alguém ou algo mereça sofrer críticas, antes de fazê-las é necessário descobrir os pontos positivos dessa pessoa ou desse algo, eles sempre existem, basta procurar. Coloque-os em evidência e torne-os parte da crítica. Nunca critique apenas por criticar: isso é ‘tagarelice’ e ninguém aprende nada ou ensina nada com ‘tagarelice’. Muitas de nossas crianças passam por problemas em sua idade adulta pelo
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fato de terem sido submetidas a duras críticas durante a infância, sem nenhuma assinatura com elogio. Ficando a impressão de que quando se faz algo certo, não se fez nada mais que sua obrigação. A crítica existe para auxiliar no crescimento das pessoas e em suas realizações; é um instrumento de esclarecimento, e não uma técnica para prejudicar. Quando promover uma crítica, certifique-se que está com o devido preparo e fundamento para fazê-la; depois certifique-se que irá assiná-la com um elogio verdadeiro, sincero e honesto. Nossa opinião pode mudar a vida de alguém para melhor ou pode destruir a vida de alguém; muita gente não tem noção do impacto que uma crítica pode ter em determinados tipos de pessoas. Uma crítica harmoniosa pode fazer de você uma pessoa importante e inesquecível na vida de quem a recebeu”. (Cesar Romão)
5 Subsídios litúrgicos Saudação Com base no versículo de Apocalipse 22.14, destacando a bem-aventurança da ressurreição, reforçada sempre neste tempo pascal. Hino
HPD 2, 400: “Bem-aventurados”, de José Acácio Santana, inspirado em Mateus 5. Invocação Trinitária Elogiar Deus pelo que ele é, fez, faz e fará, destacando que Cristo é o alfa e o ômega (Ap 22.13) e que o Espírito vem e convida: “Venha” (Ap 22.17). Confissão de pecados Seria importante reconhecer quantas vezes mais criticamos Deus do que o elogiamos e, da mesma forma, quando o fazemos em nossas relações fraternas, comunitárias, familiares e profissionais. Após o anúncio da graça Pode-se usar o versículo de Apocalipse 22.16; seria bom cantar um hino de glorificação bem conhecido para que a comunidade cante forte seu louvor e sua glorificação (sugestão HPD 2, 253). Oração do dia Reforçar o pedido de que Deus, por sua Palavra, neste domingo, nos revele a importância da questão do elogio antes da crítica. Salmo 97 Proponho lê-lo da seguinte forma: versículos 1, 5 e 9 a comunidade lê em conjunto; os versículos 2-4 e 6-8 o oficiante lê, pedindo a atenção e escuta da comunidade. Excluir da leitura os versículos 10-12, encerrando com a leitura do versículo 9 por toda a comunidade.
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Antes da leitura do Evangelho de João 17.1a,20-26: Refrão de Míria Therezinha Kolling: “Senhor, que a tua Palavra transforme a nossa vida. Queremos caminhar com retidão na tua luz” (Coleção Miriã 2,13). Após a leitura de Apocalipse 22.12-14,16-17,20-21: Muito marcante o hino 471 (HPD 2): “Glória ao Cordeiro”, preparando o ambiente e o momento litúrgico para a pregação. Credo Apostólico Chamar a atenção da comunidade e destacar a expressão “Todo-Poderoso”. Pai-Nosso Cantado informalmente pelo hino 286 (HPD 1). Canto final HPD 1, 250.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millennium, 1982. v. 6. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2003. v. 8: Interpretação Bíblica – Princípios. ROMÃO, Cesar. Assine com elogio uma crítica. Disponível em: <http://www. cesarromao.com.br/redator/item32001.html>. SAND, Alexander. A questão do “Lugar Vivencial” dos textos apocalípticos do Novo Testamento. In: Apocalipsismo. São Leopoldo: Sinodal, 1983.
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PRÉDICA: JOÃO 14.8-17(25-27) SALMO 104.24-34,35b ROMANOS 8.14-17
DOMINGO DE PENTECOSTES
09 JUN 2019
Flávio Schmitt
Consolo na despedida
1 Introdução
Três mundos se encontram no texto de João 14.8-17, a saber: o dia de Pentecostes; o Evangelho de João; e os versículos do capítulo 14 do evangelho. Pregar sobre o Evangelho de João, especialmente sobre o capítulo 14, já é um desafio. Esse desafio se torna ainda mais emblemático ao considerar o dia da pregação no calendário litúrgico. O assunto do Domingo de Pentecostes é o Espírito Santo, mais precisamente, sua vinda. O presente auxílio não quer passar à margem do desafio da pregação. Vale lembrar que sobre o mesmo texto já há um auxílio homilético, publicado no Proclamar Libertação 34. Para esta edição estão previstas as leituras do texto de Romanos 8.14-17 e do Salmo 104.24-34. Desta vez, não está prevista a leitura de Gênesis 11.1-9. O Salmo 104 exalta a natureza criadora e provedora de Deus. O texto de Romanos destaca a relação de filiação operada pelo Espírito de Deus.
2 Exegese O evangelho – O quarto evangelho tem sido reconhecido por seu valor teológico. A autoria do evangelho e a relação com a comunidade joanina têm causado controvérsias. O livro costuma ser dividido em quatro partes maiores, a saber: prólogo (1.1-18); livro dos sinais (1.19 – 12.50); livro da glória (13.1 – 20.31); e epílogo (21.1-25) (Brown, 2012, p. 462s). A estrutura do evangelho é eminentemente teológica. Diferente da estrutura geográfica dos sinóticos, em João predomina uma estrutura biográfica, uma interpretação da pessoa e obra de Jesus. Trata-se do evangelho mais “espiritual” e mais “carnal”, ao mesmo tempo (Konings, 2000, p. 192). João se distingue dos sinóticos na estrutura geral do evangelho e nos conteúdos comunicados. Enquanto os sinóticos acentuam a atuação de Jesus na Galileia, o quarto evangelho trata deliberadamente de acontecimentos situados na Judeia. Ainda assim, João não menciona acontecimentos importantes, como o batismo, a transfiguração e a cena do Getsêmani. Também não menciona as parábolas presentes nos sinóticos. Em João são narrados apenas sete milagres, embora nesse evangelho não recebam a definição de milagres, mas de sinais. As curas e os exorcismos dos sinóticos também estão ausentes nesse evangelho.
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Por outro lado, João narra as bodas de Caná, a visita a Sicar, a cura do filho do oficial do rei, a alimentação da multidão e o sermão sobre o pão da vida. João também se ocupa em detalhar situações que envolvem os líderes da nação judaica. No evangelho também encontramos longos discursos proferidos no templo. Em diferentes passagens que tratam de momentos anteriores à crucificação, Jesus se dirige aos discípulos com advertências e conselhos. Há nítidas diferenças e intencionalidades naquilo que os sinóticos destacam e João omite (parábolas, transfiguração, instituição da ceia), e naquilo que os sinóticos omitem (Jo 1 – 5: as visitas de Jesus a Jerusalém, ressurreição de Lázaro, declarações do “eu sou”) e João destaca. A cronologia de João exige em torno de dois anos e meio de atividade pública de Jesus. Na cronologia dos sinóticos, o tempo de ministério de Jesus tem duração pouco superior a um ano. Na escatologia de João, o fim do mundo já irrompeu: Vem a hora e já chegou (4.23). Nos sinóticos, ele é anunciado para o futuro. De alguma maneira, João antecipa o juízo final e a vida eterna para o tempo presente (Beutler, 2016, p. 15). O texto – O texto de João 14.8-17(25-27) está situado no contexto do livro da glória. A perícope sugerida coloca entre parênteses os versículos 25-27. Embora entre os versículos 18-24 o texto esteja tratando de outro assunto, a negação da orfandade dos discípulos e a relação entre amar e guardar a palavra, não há necessariamente uma continuação do versículo 17 no versículo 25. Para efeito do presente subsídio, optou-se em delimitar o texto. Aqui será abordado o texto de João 14.8-17. Nessa passagem, iniciada com a pergunta de Felipe, Jesus aproveita a ocasião para falar da oração e guarda dos mandamentos decorrentes da relação de amor desencadeada pela fé. Essa unidade apresenta duas partes. A primeira, dos versículos 8-14, onde Jesus encerra o discurso provocado pela pergunta de Felipe; a segunda, com os versículos 15-17, que introduzem o tema do parakleto, como João denomina o Espírito Santo. Na perícope podem ser identificadas algumas ideias centrais. A primeira diz respeito à unidade entre Deus Pai e Deus Filho. A revelação do Pai se dá na revelação da pessoa do Filho, Jesus. Para conhecer o Pai é preciso conhecer o Filho. Jesus e o Pai comungam do mesmo projeto de vida e fé. O lugar dos crentes nesse projeto é o mesmo lugar de Jesus. A oração é o elo entre Deus, Jesus e quem crê. No decorrer dos primeiros versículos do capítulo 14 é chamada a atenção dos discípulos para a importância do crer em Deus e em Jesus. A palavra de Jesus nos versículos 6-7 ilustra essa intencionalidade. A pergunta de Filipe, no versículo 8, abre uma nova perspectiva, a do Pai. Embora Felipe, assim como Tomé havia demonstrado anteriormente, revela a parcialidade de sua compreensão, ele deseja confirmar a fé pela experiência. Para Felipe, a revelação do Pai seria a consumação da revelação. Já não haveria nada mais a ser mostrado. Possivelmente também Felipe estivesse ávido por uma confirmação física, alguma teofania. Contudo, Jesus lhe mostra o que já era de seu conhecimento. Jesus dá a entender que não houve teofania maior, nem no Antigo Testamento, do que conhecer o Pai na pessoa do Filho. Ver o Pai é mais do que uma experiência visual. É
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um reconhecimento de seu senhorio. Porém essa experiência de Deus passa pela experiência com Jesus: Quem vê a mim, vê o Pai. Felipe, assim como Pedro e André, que depois se mudam para Cafarnaum, era natural de Betsaida, pequena cidade pertencente à região governada por Herodes Felipe, localizada onde o rio Jordão deságua no lago da Galileia. Nos evangelhos sinóticos, Felipe aparece apenas como um dos apóstolos. No Evangelho de João (1.43,46,48; 6.5; 12.21; 14.8), ele aparece como responsável pela conversão de Natanael, pela condução de alguns gregos curiosos até Jesus, e como alguém incapaz de dizer a Jesus como alimentar cinco mil pessoas numa refeição (Champlin, 1982, p. 525). A pergunta de Jesus no versículo 10 demonstra toda a intimidade entre ele e aquele em nome de quem se manifesta. Possivelmente, o alvo de João tenha sido os judeus incrédulos, que não reconhecem a messianidade de Jesus, muito menos sua divindade. Ainda assim, o recado do texto também alcança todas as pessoas que demonstram alguma dificuldade em compreender o ministério de Jesus. Jesus explica que as obras e palavras que nele podem ser encontradas são uma consequência de sua relação com o Pai. A união e a unidade de Jesus com o Pai explicam as obras que faz. Palavras e realização são parte do projeto do Reino. O que avaliza a pertença da prática de Jesus ao projeto de Deus são as obras, testemunhadas pelos discípulos (v. 11). O versículo 12 é introduzido pela expressão solene “em verdade, em verdade vos digo”. Essa expressão destaca a autoridade e chancela a certeza do que está sendo dito. Aqui novamente as obras são destacadas. Depois da intervenção de Jesus, no versículo 9, essa é a terceira vez que Jesus fala de obras (ta erga). Agora, para dizer que quem está na mesma comunhão com Deus fará as obras que Jesus faz e até maiores. A expressão “porque vou para junto do Pai” parece indicar a tarefa reservada aos discípulos. Justamente por não estar mais entre os discípulos, estes precisam abraçar a causa de Deus revelada em Jesus e avançar para além do próprio mestre. É como se Jesus estivesse passando a bola para seus seguidores. No versículo 13 é dito: E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Aqui duas ideias são comunicadas. A primeira diz respeito à oração e seu atendimento. A segunda diz respeito à glorificação do Pai no Filho. O verbo doxato (glorificar) é empregado por João para se referir à glorificação do Pai por Jesus e para se referir à glorificação de Jesus pelo Pai. Nos dois sentidos, o verbo visa expressar a honra e a exaltação. A ausência de alguma condição para que o pedido seja atendido mostra o caráter incondicional do pedido. O versículo 14 praticamente repete o que havia sido dito no versículo anterior: Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Além de reforçar a necessidade de pedir, o texto destaca o atendimento ao pedido. Todo pedido feito em nome de Jesus será atendido. O egō poiēsō (eu farei) é uma declaração explícita de que o pedido feito em nome de Jesus será atendido. No versículo 15 é retomada a ideia acerca das obras que são realizadas em nome de Jesus. Quem ama guarda os mandamentos. Para João, o amor não
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consiste num sentimento, mas no resultado da ação do Espírito Santo. Por isso é também fruto do Espírito (Gl 5.22). O versículo 16 anuncia a presença constante do paracleto. No uso grego do vocábulo, significa advogado. Deriva dos termos gregos para (ao lado de) e kaleō (chamar). O sentido literal do termo é “alguém chamado para ajudar ao lado de outro”, ou seja, o Espírito Santo é outro ajudador (Champlin, 1982, p. 529). O termo também pode ser traduzido por defensor, consolador e conselheiro. Com esse termo, presente somente na literatura joanina (Jo 14.16,26; 15.26; 16.7; 1Jo 2.1), expressa-se o ofício do Espírito Santo. O que o texto diz é que, embora Jesus venha se ausentar da presença dos discípulos, estes não ficarão sozinhos nem desamparados. Pelo contrário, o parakleto/consolador permanecerá com eles e para sempre. O versículo 17 descreve a natureza desse Espírito. Trata-se do Espírito da verdade (15.26; 16.13) que o mundo não pode receber, ver e conhecer. Ele é Espírito da verdade por ser o Espírito do Pai e do Filho. Espírito de vida (Rm 8.10), santificação (Rm 1.4) e consolo (At 9.31).
3 Meditação A ocasião – A Páscoa e o Pentecostes estão entre as principais festas do povo judeu. Páscoa era originalmente uma festa dos pastores, que na primavera pediam a bênção das divindades sobre os animais e pastagens. Pentecostes, também denominada de festa da colheita (Êx 23.16) ou festa das semanas (Êx 34.22; Dt 16.9), originalmente era uma festa agrícola celebrada sete semanas depois do início da colheita. “Com o tempo as festas judaicas foram associadas a acontecimentos marcantes da história de Israel. A festa da Páscoa passou a lembrar a saída da escravidão do Egito (Dt 16.1-8). A festa da colheita se tornou a festa da renovação da aliança de Deus com o povo (Dt 16.9-12)” (Nakanose; Marques, 2001, p. 13). No segundo século antes de Cristo, em ambientes sacerdotais saduceus, a festa de Pentecostes recebeu um novo significado, passando a ser a festa para celebrar o recebimento da Lei no Sinai. Uma prática familiar passa a ser celebrada num ritual no templo, intermediado por um sacerdote. Além disso, somente os judeus puros podiam participar (Dunn, 2000, p. 1.639). Por intermédio do livro de Atos (2.9-11), sabemos que havia gente de várias nações em Jerusalém no dia de Pentecostes. Todos se preparavam para a festa da Lei, inclusive os seguidores de Jesus. Atos menciona doze povos e três regiões. Um grupo constituído por 120 pessoas (At 1.15). É diante dessa gente que o Espírito se manifesta numa casa, e não no templo. Homens e mulheres da Galileia recebem o Espírito. Na festa aconteceu algo extraordinário: De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles (At 2.2-3). Como havia acontecido na aliança de Deus no Sinai (Êx 19.16-25; Dt 4.1012), o fenômeno se repete. Também aqui vento e fogo são símbolos para falar da
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manifestação de Deus. “No Antigo Testamento, a presença do Espírito de Deus tem a função de criar, animar, organizar, discernir, profetizar, ressuscitar, libertar e recriar. E essas também são as funções do Espírito no Novo Testamento. O Espírito continua vivo e atuante na vida de Jesus e das comunidades” (Nakanose; Marques, 2001, p. 15). O mesmo Espírito, presente na vida e missão de Jesus (Mc 1.10; Lc 4.14), se faz presente na vida daqueles que o seguem guiados pelo Espírito. É na vida das comunidades que se manifesta a ação do Espírito Santo. A comunidade movida pelo Espírito Santo se abre para a missão. E a pregação... – O texto de João está ambientado num contexto de despedida. Jesus prepara seus discípulos. Quer que estejam preparados para lidar com sua ausência. O momento é de despedida. Despedidas vêm acompanhadas de tristeza, dor e separação. É diante desse cenário que Jesus consola seus discípulos. “É provável que nenhuma outra porção literária do mundo inteiro tenha sido tão largamente usada, e com tanta eficácia, para consolar os desanimados e moribundos, os aflitos e os destituídos de seus entes queridos, como essa passagem, eivada como está de tristeza e tragédia levadas ao ponto de crise” (Champlin, 1982, p. 519). A pregação pode explorar justamente o que o texto tem em comum com o dia de Pentecostes. No texto é prometido o parakletos. Dependendo do contexto da comunidade, a pregação poderá dar ênfase à unidade e comunhão entre Espírito do Pai e do Filho, ao Espírito de Deus (empoderamento), ao Espírito de Jesus (aquele que se faz próximo de nós – Emanuel, solidário), o Espírito consolador (situação de luto), o Espírito advogado (luta, militância) ou o Espírito conselheiro (que orienta, aconselha etc.).
4 Subsídios litúrgicos Hino
Vem, Espírito de Deus (HPD 2, 318) ou Envia teu Espírito, Senhor (HPD 2, 367 / Livro de Canto da IECLB, 250). Saudação Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são Filhos de Deus (Rm 8.14); ou: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos (Zc 4.5). Leitura Salmo 104 (Conforme proposta no PL 34: Hagsma, 2009, p. 222). Oração Espírito Santo, Espírito da Verdade! Concede a esta tua comunidade uma inteligência que te conheça; uma angústia que te procure; uma sabedoria que te encontre; uma vida que te agrade; uma perseverança que, enfim, te possua.
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Domingo de Pentecostes
Amém. (Adaptado para a terceira pessoa do singular da oração de Tomás de Aquino) (cf. Schmitt, 1994, p. 182). Assuntos para a oração geral Pedir pela presença do Espírito de Jesus na vida de cada pessoa, nas famílias e comunidade. Pedir pela iluminação do Espírito nas decisões tomadas pelas lideranças na comunidade. Pedir pela orientação do Espírito no testemunho diário de cada pessoa batizada. Pedir pelo discernimento do Espírito diante de tanta falta de clareza. Pedir pela força do Espírito diante de tantos poderes de morte. Pedir pela unidade do Espírito, não obstante as diversas confessionalidades e igrejas. Pedir pela comunhão do Espírito, Pai e Filho.
Bibliografia BEUTLER, Johannes. Evangelho segundo João: comentário. São Paulo: Loyola, 2016. BROWN, Raymond Edward. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2012. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millennium, 1982. v. 2. DUNN, J. D. G. “Festa de Pentecostes”. In: COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000. HAGSMA, Alfredo Jorge. João 14.8-17(25-27). In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2009. v. 34, p. 219-223. Disponível em: <http:// www.luteranos.com.br/conteudo/joao-14-8-17-25-27-1>. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000. NAKANOSE, Shigeyuki; MARQUES, Maria Antônia Marques. Pentecostes: festa das comunidades, Espírito e missão (at 2,1-13). Vida Pastoral, (p. 1117), maio-junho de 2001. Disponível em: <http://www.vidapastoral.com.br/ artigos/temas-biblicos/pentecostes-festa-das-comunidades-espirito-e-missao-at-21-13/>. Acesso em: 16 jun. 2018. SCHMITT, Flávio. 1º Domingo após Pentecostes (Santíssima Trindade). In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1994. v. 20, p. 177-182.
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PRÉDICA: JOÃO 16.12-15 PROVÉRBIOS 8.1-4,22-31 ROMANOS 5.1-5
1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
16 JUN 2019
(TRINDADE) Jilton Moraes
Alguém para nos acompanhar sempre
1 Introdução O texto de prédica (João 16.12-15) focaliza o momento em que Jesus falou aos seus discípulos da realidade da vinda do Espírito Santo. Eles enfrentariam dificuldades, mas o Espírito os guiaria a toda verdade, estaria ao lado deles, tornando-lhes conhecido o que recebesse do Pai. O texto de Provérbios 8.1-4,22-31 focaliza a sabedoria, apresentando o Deus Criador e sua infinitude: Quando ele estabeleceu os céus, lá estava eu [...] (v. 27); Eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto; dia a dia eu era o seu prazer e me alegrava continuamente com a sua presença. Eu me alegrava com o mundo que ele criou, e a humanidade me dava alegria (v. 30-31). O texto de Romanos 5.1-5 focaliza a justificação pela fé, que, graças à mediação de Jesus, nos traz paz com Deus e nos firma na esperança da glória de Deus, enrijecendo-nos para triunfar nas tribulações, sendo perseverantes, aperfeiçoando nosso caráter na esperança da glória de Deus, certos de que essa esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações por meio do Espírito Santo, que ele nos concedeu. O estudo permite reflexão sobre o papel do Espírito Santo na vida de cada um de nós, seguidores e seguidoras de Jesus, e no conteúdo da comunicação apresentada no púlpito nos dias atuais. Sendo essa pregação o meio de transmissão da Palavra, a unção do Espírito é indispensável para que nós, pregadores e pregadoras, comuniquemos o que o Pai tem a ser revelado e nos dá a conhecer pelo seu Espírito. Daí a atualidade e importância do Espírito Santo no púlpito.
2 Exegese Lançamos mão de leitura comparativa a partir da Nova Versão Internacional (NVI), mais as traduções de Almeida Revista e Atualizada (ARA), Melhores Textos (MT), Bíblia de Jerusalém (BJ), Tradução Interconfessional (TI), A Mensagem (M), e a Tradução Brasileira (TB), visando ampliar o conhecimento e a visão do texto. A perícope enfoca o momento em que Jesus apresentava importantes ensinamentos, visando ao fortalecimento dos discípulos para as duras experiências que se aproximavam. V. 12 – Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora.
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O contexto histórico é marcado por um tempo de tristeza e despedida. O cenário apresenta Jesus preparando os discípulos para os próximos episódios a serem vivenciados. Eles precisavam estar prontos para enfrentar a tristeza, sem desfalecer, a seguir firmes no amor, apesar de todo ódio que sobre eles adviria. E a firmeza nesse amor os capacitaria a cumprir a missão de compartilhar o amor de Cristo. Perseguidos e angustiados, ainda assim eles viveriam e propagariam a paz que Jesus lhes legara. Havia muito a ser comunicado, mas a tristeza que inundava o coração desses ouvintes impedia o Mestre de transmiti-las de modo completo. V. 13 – Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir. No capítulo anterior, Jesus já se referia à realidade da vinda do Espírito Santo (15.26): Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito. O conteúdo do versículo 15.26 é próximo ao de 16.13. Ambos falam de alguém singular que viria com uma missão específica: 1) quem virá (16.13): o Espírito da verdade (15.26), o Conselheiro; 2) sua missão (16.13): guiará a toda a verdade (15.26), testemunhará a meu respeito; 3) sua singularidade (16.13): Não falará de si mesmo, falará apenas o que ouvir, anunciará o que está por vir (15.26) – enviado por Jesus; provém do Pai. Em todas as versões consultadas, a tradução do vocábulo designativo da pessoa do Espírito Santo (Jo 16.13) é Espírito da verdade. A Bíblia Mensagem acrescentou o qualificativo “amigo”: Quando, porém, o amigo chegar, o Espírito da verdade. A expressão utilizada no original grego é pneuma tēs alētheias, Espírito da verdade. Em João 15.26, a palavra utilizada no original grego é paraklētos, alguém ao lado de outro para ajudar. Esta é a missão do Espírito Santo: ele está ao nosso lado como consolador, advogado, defensor, protetor, sustentador; é ele quem nos assiste, é o nosso conselheiro, aquele que aponta o caminho em que devemos andar e que por nós intercede. Os tradutores utilizaram diferentes vocábulos para paraklētos: NVI: Conselheiro, Espírito da Verdade; A21 e NR: Consolador, Espírito da verdade; BJ e TB: Paráclito; ARA: Consolador; BKJ: Advogado, Espírito da verdade; CNBB: Defensor, Espírito da verdade; M: Amigo, Espírito da verdade; MT: Ajudador; NTLH: Auxiliador, Espírito da Verdade. Todos os vocábulos apontam para a missão do Consolador: estar com os seguidores de Jesus, dando-lhes a assistência e o encorajamento de que tanto careceriam, agora sem a presença física do Mestre. Ao longo da caminhada haveria momentos de solidão, mas eles haveriam de prosseguir, na certeza de que não estavam sós. O Consolador estava com eles e Jesus haveria de voltar (cf. Jo 14.15-18). V. 14 – Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. Ainda que a tarefa do Espírito Santo seria capacitar os seguidores de Jesus para vivenciar novas experiências a serem feitas, o trabalho que ele realizaria não seria novo. Hull afirma: “A tarefa do Paracleto era preparar o povo de Deus para enfrentar as novas coisas, que certamente sobreviriam ao longo da caminhada.
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Por outro lado, ele anunciaria uma palavra relevante, baseada não em si mesmo, mas numa atualização daquilo que Jesus já revelara acerca do Pai”. Hull é ainda mais contundente ao declarar: “O Espírito Santo não seria a fonte de novos caprichos que impusesse à igreja a tirania do temporário; antes, ele é a fonte que capacita a igreja à compreensão e ao encorajamento para aplicar estas verdades que recebera” (1983, p. 394). V. 15 – Tudo o que pertence ao Pai é meu. Por isso eu disse que o Espírito receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. Esse verso conclui a perícope 16.12-15, sumariando o que Jesus já afirmara sobre a vinda do Consolador: “Precisamos de um guia hábil que nos possa ensinar (cf. At 8.31), que nos possa ajudar a levar a cabo as profundas implicações do evangelho que tanto desejamos compreender e colocar em prática”. Menoud afirma: “A ressurreição de Jesus desencadeia o cumprimento das promessas relativas ao dom do Espírito à humanidade. Jesus ressurreto envia aos apóstolos o Espírito, que ele mesmo havia prometido (Jo 14.16). Doravante o Espírito está presente no mundo como o poder de vida que tirou Jesus da sepultura, ele está agindo na igreja e por meio dela, faz dos crentes novas criaturas, desarraigadas desse mundo passageiro e dirigidas para o reino de Deus que vem” (1972, p. 131).
3 Meditação O Espírito Santo no púlpito – Qual é o papel do Espírito Santo na vida do cristão? Qual é o papel do Espírito no púlpito? O que é pregação ungida? A qualificação é utilizada, mas a significação nem sempre explicada. Deve ser conhecida pelos resultados na vida do pregador, da pregadora, dos e das ouvintes. Não há prédica ungida sem que a vida de quem a proclama seja ungida. Unção no púlpito resulta da atuação do Espírito na vida do pregador O Espírito do Senhor está sobre mim (Lc 4.18); Deus o ungiu com o Espírito Santo (At 10.38). A atuação do Espírito deve ser vista pela produção dos frutos do Espírito (Gl 5.22). A razão imutável, a base inabalável, a ênfase incomparável e o alvo inigualável comprovam o papel do Espírito Santo no púlpito. O Espírito Santo dá à prédica uma razão imutável – A razão de ser da prédica é guiar pessoas à verdade: Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade (16.13a). Somos instrumentos do Espírito para a comunicação dessa verdade. A razão da pregação é sempre apresentar a palavra de Deus. O pregador aprovado maneja bem a Palavra da verdade (2Tm 2.15); reparte sabiamente. E esse trabalho começa na compreensão, interpretação e transporte adequados do texto básico, mas não termina aí, buscamos o Senhor para que a palavra pregada seja fiel à razão imutável da prédica: conduzir pessoas à verdade. A razão para pregar é proclamar a verdade que, pelo Espírito Santo, conhecemos. O pregador que não apresenta com clareza a verdade do evangelho deixa de ajuntar para a glória do Senhor e passa a vulgarizar a mensagem. Além dessa razão imutável, o Espírito Santo dá à prédica uma base inabalável. O propósito da pregação há de ser sempre apresentar Jesus. O texto é claro: Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade (16.13a).
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Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir – O papel do Espírito Santo é conduzir pessoas a Jesus. Isso fica claro no contexto: Quando ele [o Conselheiro] vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Do pecado, porque os homens não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado (Jo 16.8-11). A esse respeito, Paulo declara: Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). A base da prédica é inabalável porque está firmada no Cristo vivo. O hino de Lutero afirma: O Verbo eterno vencerá as hostes da maldade. As armas o Senhor nos dá: Espírito, Verdade. Se a morte eu sofrer, se os bens eu perder: que tudo se vá! Jesus conosco está. Seu Reino é nossa herança! (HPD 1, 97 / Livro de Canto da IECLB, 481, verso 4). O Espírito Santo dá à prédica uma ênfase incomparável – A mensagem que proclamamos é a boa nova ao alcance de todos. Pregar é anunciar boas notícias: falar da ação de Deus no passado e suas maravilhas no presente. Mas o que dá singularidade à prédica é o fato de o seu conteúdo não estar ligado só ao passado e presente, mas projetar-se no futuro. O Espírito da verdade [...] lhes anunciará o que está por vir (Jo 16.13). Não apenas as experiências por eles vivenciadas, mas a volta de Jesus ao mundo: a dimensão escatológica. O anúncio feito logo após a ascensão de Jesus foi claro: Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado ao céu, voltará [...] (At 1.11b). Paulo proclamou: O Senhor descerá dos céus [...] E assim estaremos com o Senhor para sempre (1Ts 4.16-17). Pedro manteve essa ênfase escatológica: O dia do Senhor, porém, virá como ladrão. Os céus desaparecerão com um grande estrondo, os elementos serão desfeitos pelo calor, e a terra, e tudo o que nela há, será desnudada (2Pe 3.10). Não é fácil manter a ênfase escatológica na prédica, mas ela torna a pregação incomparável. O Espírito Santo dá à prédica um alvo inigualável – A pregação ungida proclama Jesus, Senhor: Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês (v. 14). Sem que o pensamento de Jesus se torne conhecido, nenhuma pregação será autêntica. A singularidade da pregação está na proclamação de que Deus exaltou Jesus a mais alta posição e lhe deu um nome acima de todo nome que, diante dele todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é Senhor (Fp 2.9-11). O alvo da pregação não é a exibição do pregador nem o crescimento da igreja, pregamos para glorificar a Jesus e proclamar seu senhorio; o pregador desaparece para que ele apareça – isso torna a pregação inigualável. Somente a pregação tem razão imutável, base inabalável, ênfase incomparável e alvo inigualável. Sejamos porta-vozes fiéis. Amém.
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4 Imagens para a prédica Não é por um pretenso poder que a pregação é ungida. Alguns recursos são usados para impressionar: mudança de voz para parecer mais angelical; dar ordens ao Senhor para mostrar autoridade; usar chavões para falar da intimidade com Deus. Há até quem ache que a duração do sermão está ligada à unção: quanto mais longo, mais ungido. Pobres ouvintes! O pregador ungido e a pregadora ungida vivem uma vida de oração: a unção depende da nossa dependência e comunhão com o Senhor da pregação. A verdadeira unção não se limita ao púlpito: começa em casa, no trato com a esposa, o esposo, filhos e filhas, e determina o modo como nos relacionamos com as pessoas. O pregador ungido e a pregadora ungida não podem ser convencidos: somos simples porta-vozes, a mensagem é do Senhor; não há por que nos vangloriarmos. O pregador ungido e a pregadora ungida são constantes estudiosos da Bíblia. Essa é a base e precisa passar por nós para poder alcançar a vida das pessoas ouvintes. O pregador ungido e a pregadora ungida, quanto mais pregam, mais ideias têm para pregar: não nos esgotamos quando vivemos em comunhão com o Senhor. Spurgeon declarou: “Se falamos como embaixadores de Deus, nunca precisaremos nos queixar de falta de assunto, pois a nossa mensagem chega a transbordar de tão cheia”. O pregador ungido e a pregadora ungida valorizam o ministério da pregação e pregam com satisfação. Paulo afirmou: Ai de mim se não pregar o evangelho (1Co 9.16). Ele sabe que a mensagem ungida aponta para Jesus (1Co 1.23): Nós pregamos a Cristo crucificado [...].
5 Subsídios litúrgicos (D – dirigente; T – todos; M – mulheres; H – homens) D: Quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir. T: Vem, Espírito divino, grande ensinador, vem e revela às nossas almas Cristo, o Salvador. Santo Espírito, ouve com favor! Em poder e graça insigne, mostra o teu amor. M: A sabedoria está clamando, o discernimento ergue a sua voz; H: nos lugares altos, junto ao caminho, nos cruzamentos ela se coloca; T: ao lado das portas, à entrada da cidade, portas adentro, ela clama em alta voz: D: A vocês, homens, eu clamo; a todos levanto a minha voz. T: Vem, destrói os alicerces do viver falaz, aos errados concedendo salvação e paz! D: Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a essa graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.
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T: Vem, reveste a tua igreja de poder e luz! Vem, atrai os pecadores ao Senhor Jesus! D: E nos gloriamos na esperança da glória de Deus. T: E nos gloriamos na esperança da glória de Deus. D: Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, a esperança. T: Maravilhas grandiosas outros povos têm; bênçãos venham semelhantes sobre nós também! D: A esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu. (Jo 16.13; Hino 85 [HPD 1]; Pv 8.1-4; Rm 5.1-5)
Bibliografia HULL, William E. João. In: ALLEN, Clifton J. (editor). Comentário Bíblico Broadman. Rio de Janeiro: JUERP, 1983. v. 9. MENOUD, Pk. H. Espírito Santo. In: ALLMEN, J. J. von. Vocabulário bíblico. São Paulo: ASTE, 1972.
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PRÉDICA: GÁLATAS 3.23-29 ISAÍAS 65.1-9 LUCAS 8.26-39
2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
23 JUN 2019
Paulo Roberto Garcia
Derrubando muros e transpondo barreiras
1 Introdução Em tempos de construção de muros, como pessoas cristãs, somos chamadas a repensar os desafios de nossa fé. Não apenas políticos constroem ou desejam construir muros para separar seus países de outros, considerados inferiores ou inimigos. Pessoas comuns, como nós, também constroem muros em condomínios, para separá-los de vizinhos e das próprias pessoas da cidade, em uma relação de medo e desconfiança por conta da violência atual, e de isolamento dos demais, a chamada privacidade. Também nas igrejas são construídos muros que separam denominações, grupos e modelos de espiritualidade. O que mais assusta é que tudo isso é visto com naturalidade. A exclusão passa a ser a norma. Nessa hora, somos desafiados e desafiadas a buscar orientação nas experiências do povo de Deus, registradas em nossa Bíblia. Nosso texto aborda um profundo diálogo de Paulo com os gálatas sobre as práticas da lei que construíam muros separando judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres. O mesmo debate aparece nos textos que completam as leituras do calendário litúrgico. No evangelho, onde Jesus liberta o endemoninhado geraseno, encontramos um estrangeiro impuro em terra impura que é alcançado por Cristo e tem sua vida e sua dignidade restauradas. Já no texto de Isaías há a contraposição de um povo rebelde, mas ainda assim amado por Deus, com povos que não buscavam a Deus, mas que o acharam. São histórias que nos convidam a perceber a graça de Deus que transpõe fronteiras, muros e preconceitos e chega àquelas pessoas ignoradas pela sociedade de seu tempo. Nosso texto nos convida a superar divisões.
2 Exegese A perícope nos conduz por caminhos trilhados por homens e mulheres da tradição bíblica, os quais buscavam criar práticas que os aproximassem de Deus. Estar próximo a Deus é, de uma forma geral, estar puro, purificado. A busca por uma pureza que permita aproximar-se e manter a comunhão com Deus marca os antagonismos que Paulo enfrentava no diálogo com os gálatas. Ao mesmo tempo, desenha um dos grandes desafios que o cristianismo primitivo teve de enfrentar: como uma fé nascida no judaísmo, marcada pela relação com a lei, poderia inserir o estrangeiro? De um lado, a resposta era de transformar o estrangeiro em segui-
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dor da lei. De outro, liberar estrangeiros e judeus de serem obrigados a seguir a lei. Isso é o que veremos em nossa perícope. 1. O pano de fundo – A Carta aos Gálatas está marcada pelo conflito do cristianismo judaico, estabelecido na Judeia, com o cristianismo gentílico da bacia do Mediterrâneo. Isso colocava em choque dois diferentes sistemas de convicções. O primeiro sistema era o do cristianismo judaico, que entendia o cristianismo como uma renovação do judaísmo. A conversão ao cristianismo significava uma conversão ao judaísmo cristão. Com isso, as práticas legais, em especial a circuncisão, seriam mandamentos a serem assumidos pelos novos cristãos. O segundo sistema era o do cristianismo que se espalhou pela bacia do Mediterrâneo, o cristianismo espalhado pelos itinerantes, entre eles, Paulo. Nesse sistema, o cristianismo era entendido como a aceitação da fé em Cristo sem a necessidade de vinculação à lei, desobrigando os novos cristãos de se tornarem judeus. Os gálatas, convertidos ao cristianismo nas ações missionárias de Paulo, não recebem a imposição da lei. Porém, em um segundo momento, uma provável missão provinda do cristianismo judaico palestinense impõe sobre eles a aceitação da lei. Esse grupo, marcado pela nova convicção – a fé cristã – para manter a novidade da fé em Cristo acaba aceitando a imposição das práticas legais. Paulo toma conhecimento disso e escreve a carta. É esse o pano de fundo tanto da carta como da perícope. 2. Piedosos e tementes – A primeira pergunta que nos desafia é: como um grupo de novos convertidos ao cristianismo aceita tão rapidamente as obrigações da lei? Aqui, vale lembrar que Paulo tinha parte de sua atividade missionária nos entornos das sinagogas. Ou seja, os piedosos (estrangeiros que guardavam as práticas de pureza judaica) e os tementes a Deus (estrangeiros que, dentro do panteão de deuses, oravam também ao Deus judaico) acabavam sendo os primeiros a receber a mensagem do evangelho. Assim, no bojo dessa comunidade encontrava-se uma aceitação parcial das práticas legais judaicas. Por isso, uma vez convertido ao cristianismo, o grupo confrontado com as convicções de fé do grupo judaico-cristão, para não perder a novidade da fé cristã, acaba, como afirmamos anteriormente, aceitando as imposições legais. Ou seja, o drama se desenrola em meio ao profundo desejo da comunidade de continuar ligada a Cristo, a ponto de aceitar imposições legais. Por isso, por um lado, Paulo testemunha o grande amor da comunidade como um elemento positivo (Gl 4.12-15); por outro lado, fica admirado com a mudança de práticas promovidas pela comunidade (Gl 1.6-9). Esse ponto negativo é o cerne do conflito. A pergunta que conduz à nossa perícope, que é um fecho da argumentação de Paulo, é: por que, para Paulo, seguir a lei tem um aspecto tão negativo que invalida a própria morte de Cristo? 3. O cumprimento da lei em uma religiosidade retributiva – O judaísmo da lei era uma prática religiosa retributiva. Isso significa que o fiel, ao cumprir os ditames da lei, torna-se digno de receber os favores de Deus. A consequência disso é que o ser humano pode e deve tornar-se apto a receber os favores divinos. O grande problema é que o ser humano cumpridor da lei acaba por entender-se como melhor que qualquer outro ser humano. Se a circuncisão é a marca de in-
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gresso no sistema de fé que permite cumprir a lei e receber a retribuição divina, os que não são circuncidados tornam-se seres humanos de segunda categoria. Isso cria discriminação e exclusão. Por isso, no sistema de convicções judaico-cristãs, se os gentios não fossem circuncidados, eles não teriam acesso a Deus e, consequentemente, ao cristianismo. Ao mesmo tempo, as mulheres, por não serem circuncidadas, não têm o status dos homens circuncidados, ou seja, nunca teriam o mesmo status. Na perspectiva paulina, isso tudo invalidaria a graça. 4. A salvação é pela graça e não pelas obras da fé – Na reflexão em nossa perícope, a qual resume toda a discussão, Paulo reconhece que a lei tem um papel importante, mas ela é substituída pela fé. Essa substituição tem características importantes que nos permitem entender o versículo 28, central no texto. Uma primeira característica é que a fé em Cristo independe de obras. Ou seja, não há prática humana que permita ao ser humano construir sua salvação. Ela acontece pela graça de Deus, expressa em Cristo. Com isso, a fé substitui a lei. Uma segunda característica é que ao assumir a fé por meio do batismo (e não mais pela circuncisão), a graça alcança a todos indistintamente. Assim, as divisões são superadas (3.28). Não há mais a diferença entre: a) “judeu e grego”: mais do que a diferença de povos, reside aqui a superação do conceito de que para alcançar a graça de Deus seria necessário “tornar-se” judeu, mais precisamente, tornar-se um prosélito, um convertido. Se não há separação entre judeu e grego, não é necessário assumir as convicções judaicas para tornar-se um cristão. Se o cristianismo se insere na história do povo de Deus, descrita no Primeiro e no Segundo Testamentos e, não havendo diferença entre judeu e grego, todos os batizados são filhos de Abraão (3.29); b) “nem escravo nem liberto”: em uma sociedade escravagista, essa era a diferença mais forte entre os povos desse período. Porém não podemos encarar essa diferença na perspectiva de uma diferença social. Ela é muito mais profunda. Na sociedade escravagista, o escravo não era um ser humano de uma classe social baixa. Era uma mercadoria a ser comercializada, usada e, inclusive, descartada de acordo com a vontade do proprietário. Se a primeira superação marcava a afirmação de que não há uma etnia melhor que outra, aqui se afirma a humanidade de todos. Não há a diferença entre pessoas e “mercadoria humana”. Todos os seres humanos são iguais diante da graça de Deus. c) “Homem e mulher”: finalmente, afirmar em uma sociedade androcêntrica que homens e mulheres são iguais perante a graça de Deus derruba a barreira que considerava as diferenças de gênero como determinantes da maior ou da menor aceitação por parte dele. A lei, que estabelecia essa diferença, anunciava um Deus parcial. A graça em Cristo proclama a natureza amorosa de Deus, que não faz distinção de gênero e derrama sua graça abundante igualmente sobre todos. Essa é uma afirmação poderosa que anuncia um Deus igualitário, amoroso e gracioso. A última pergunta seria: quem faz essa afirmação? 5. Uma fórmula batismal – Gálatas 3.28 é considerada, por diversos pesquisadores, como uma fórmula batismal do cristianismo primitivo. Assumimos
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essa posição. Dentro da argumentação da perícope, considerando essa afirmação como uma fórmula batismal, cada um dos cristãos das comunidades cristãs na Galácia assumiu essa afirmação de fé ao ser batizado. Daí a indignação de Paulo. Os gálatas foram batizados em um sistema de convicções forjado na superação das mais profundas diferenças do mundo antigo, porém voltaram a um sistema de convicções forjado em distinções excludentes. Essa indignação do apóstolo é uma indignação que deveria marcar os cristãos e as cristãs de todos os tempos. A tentação de romper com os princípios dessa fórmula batismal e assumir sistemas de convicções extremamente excludentes marcam a história e a contemporaneidade do cristianismo.
3 Meditação Vivemos em tempos de construção de muros. Não apenas muros para separar povos, como também muros para separar casas da cidade que estão em seu entorno, muros para separar bairros. Além disso, há os muros invisíveis, muitos desses dentro das comunidades de fé. Separam pessoas por não possuírem as mesmas formas de expressão de espiritualidade, separam pessoas por não pertencerem ao gênero correto “escolhido por Deus” para as funções importantes, separam pessoas por não possuírem as marcas de bênçãos divinas acumulando “riquezas deste mundo”. Em meio a essas realidades, somos desafiados a revisitar o texto de Gálatas 3.23-29. A fé cristã, de modo especial nesse texto, afirma que Deus, que é amor, ama todos os seres humanos indistintamente. Deus não faz diferença. Deus não constrói muros. Os muros são construídos por uma concepção que não deveria encontrar eco na fé cristã nem nos seguidores e nas seguidoras dessa fé. A vida religiosa baseada no cumprimento de regras e determinações tende a criar e justificar divisões. Os cumpridores dos ditames dessas convicções são melhores que os não cumpridores. As pessoas que vivem nos sistemas que adotam essas regras são superiores às que vivem em outros espaços de fé e ainda mais superiores àquelas que não têm fé ou que vivem em outras religiões. A religiosidade da lei em sua versão moderna reproduz os preconceitos da sociedade, por exemplo, em relação à mulher ou à criança. Nesse aspecto, a graça de Deus perde seu espaço e o sacrifício de Cristo é substituído pelo sacrifício individual. Na perspectiva paulina, isso invalida o sacrifício de Cristo e a graça de Deus. As pessoas cristãs de hoje deveriam, no batismo ou na confirmação da fé, ser desafiadas a assumir a ruptura de todas as barreiras. Toda pessoa que é batizada em Cristo é herdeira da graça e, consequentemente, portadora e proclamadora dela. Deste modo, aceitar a diferença entre homem e mulher, judeu e gentio, escravo e livre, na perspectiva da discriminação por gênero, etnia e condição de dignidade, é construir muros de separação que acabam por soterrar a graça de Deus e invalidar a essência da fé cristã, que foi a encarnação e o sacrifício de Cristo. Todos os seguidores e seguidoras de Jesus, hoje, deveriam tornar-se, pela experiência da fé e pelo compromisso batismal, promotores de unidade e perpetradores da graça de Deus. Deveriam assumir o compromisso batismal de se reco-
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nhecer como imerecedores da graça e, consequentemente, iguais a todos os seres humanos de nossa terra. O compromisso batismal torna-se o desafio de derrubar barreiras, promover a inclusão e anunciar a graça restauradora de Deus.
4 Imagens para a prédica Sugerimos utilizar as imagens que aparecem na matéria de um jornal, intitulada “Um mundo de muros – as barreiras que nos dividem” (Disponível em: <https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/>). A proposta inicial é de sensibilizar os/as participantes com imagens de muros políticos, sociais etc. A seguir, o desafio é convidar a comunidade a refletir sobre os muros de seu entorno. Os muros invisíveis e os visíveis que temos ao nosso redor. Com isso liga-se aos textos que fazem parte do conjunto de leituras do dia. O destaque é que somos convidados a derrubar os muros e a transpor as barreiras que nos dividem.
5 Subsídios litúrgicos Sugerimos, para um momento de confissão no culto, a oração “Deus da Reconciliação e do Perdão”, disponibilizada por Luiz Carlos Ramos na internet, disponível em: <https://www.luizcarlosramos.net/deus-da-reconciliacao-e-do-perdao/>. Deus da Reconciliação e do Perdão Deus da reconciliação e do perdão, reconhecemos, entristecidos, que temos pecado contra ti e contra o nosso próximo; temos sido orgulhosos e nos recusamos a pedir perdão a ambos. Quebranta-nos com teu amor incondicional, irrestrito e infindável, e dispõe o nosso coração para perdoar e ser perdoado. Que no abraço do teu abraço possamos aconchegar a todo o mundo habitado, e em particular aquele irmão ou irmã que porventura nos tenha ofendido e, assim, possamos experimentar a paz que excede toda compreensão e todo entendimento. Em nome do nosso Senhor e Salvador Jesus. Amém. Santo Deus, tu que nos chamas a praticarmos a justiça e a andamos na luz, ensina-nos a indivisível lei do amor, para que possamos amar teus filhos e filhas como tu amas, e amar-te com toda a nossa força e vontade, e encontrar a nossa liberdade na bênção do serviço ao próximo, como nos foi ensinado não só em palavras,
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mas de fato e de verdade por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. Deus Conosco, reunimo-nos no nome do teu Filho para aprendermos a amar uns aos outros. Ajuda-nos, nós humildemente te pedimos, nesse propósito. Para isso, desvia nossos pés de maus caminhos, e nossas mãos de atos vergonhosos; inclina nossas mentes para a tua sabedoria e nossos corações para a tua graça. Amém. (Luiz Carlos Ramos – Orações para o Décimo Quarto Domingo da Peregrinação após Pentecostes | Ano A, 2017 – A partir dos auxílios oferecidos pelo Revised Common Lectionary vd. Disponível em: <http://lectionary.library. vanderbilt.edu/prayers.php?id=156>.)
Bibliografia CROSSAN, J. D.; REED, J. L. Em busca de Paulo: como o apóstolo de Jesus opôs o reino de Deus ao império romano. São Paulo: Loyola, 2007. PATTE, D. Paulo, sua fé e a força do Evangelho. São Paulo: Paulinas, 1987.
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PRÉDICA: LUCAS 9.51-62 1 REIS 19.15-16,19-21 GÁLATAS 5.1,13-25
3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
30 JUN 2019
Geraldo Graf
Vai e anuncia o reino de Deus!
1 Autor, objetivo e texto O Evangelho de Lucas foi escrito na segunda metade do primeiro século do cristianismo, entre 75 e 95 d.C. O autor – Lucas – era médico (Cl 4.14) e acompanhou o apóstolo Paulo em suas viagens missionárias. Provavelmente, era um gentio convertido ao cristianismo. Ele se inspirou no Evangelho de Marcos e usou com o evangelista Mateus a Fonte Q. Ele dedicou o evangelho a Teófilo – amigo/amado de Deus –, o que pode ser entendido como uma alusão a todos os que aceitam o evangelho, tornando-se amigos de Deus. Lucas escreveu a partir de testemunhos e fontes “cuidadosamente investigados” (Lc 1.3), procurando assim convencer seus leitores da veracidade dos fatos e chamar pessoas ao discipulado. O evangelho inicia e termina no templo (Lucas 1.9; 24.53), indicando a importância de um local em que Deus se comunica com a humanidade. Lucas queria que seu testemunho fosse lido por um público gentio, e apresentou Jesus Cristo como Salvador tanto de judeus como de gentios, Salvador de toda a humanidade. Ele queria que aqueles que lessem seu testemunho tivessem a certeza (Lc 1.4) sobre o Filho de Deus, sua paixão, morte e ressurreição. Lucas elaborou uma teologia da história, que tem suas raízes no passado, chega ao auge em Jesus Cristo, continua na igreja pela ação do Espírito Santo (Atos dos Apóstolos) e se consuma na parúsia. O caminho de Jesus Cristo é tempo da realização da parúsia (Hoje se cumpriu... – Lc 4.21), que se tornará completa na sua vinda definitiva. Lucas focou muito no valor que Jesus Cristo deu aos grupos desprezados pela sociedade: mulheres, estrangeiros, pobres, doentes e pecadores. Jesus demonstrou muito amor por aqueles que não eram considerados dignos pela sociedade. O texto de Lucas 9.51-62 abre o bloco do relato de viagem para Jerusalém (Lucas 9.51 – 18.14) e aborda três aspectos, que têm o discipulado como tema central: v. 51: a decisão de ir para Jerusalém; v. 52-56: os samaritanos não acolhem Jesus; v. 57-62: três diálogos em torno do discipulado. Todo o texto trata exclusivamente dos discípulos e do discipulado. Todos os acontecimentos e diálogos devem ser lidos e interpretados tendo como pano de fundo o caminho de Cristo em direção à cruz e os desafios do discipulado decorrentes disso. Também aqueles que não acolhem o Salvador são atingidos pela misericórdia do Senhor, embora os discípulos ainda não o compreendam. O
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juízo final decidirá sobre justos e injustos. Até lá é tempo de anunciar, de levar o evangelho a todas as pessoas. O discipulado requer decisões imediatas e radicais.
2 O texto Ida a Jerusalém – Jesus decidiu ir a Jerusalém. Não se tratava de um passeio turístico ou de uma peregrinação religiosa. Jesus sabia o que o esperava: a cruz, mas também a ressurreição e a glória de Deus. No caminho, ele e seus discípulos procuraram hospedar-se em uma vila samaritana, onde seriam rejeitados – justamente por se dirigirem a Jerusalém (v. 53). Alguns discípulos antecederam Jesus na busca e preparação da hospedagem. Essa era uma prática de Jesus (Lc 22.7ss). Esta tarefa cabe aos cristãos de todos os tempos: ir às pessoas e motivá-las a acolher Jesus Cristo em suas casas, em suas famílias, em suas vidas. Não se anuncia um Jesus a caminho de um passeio, mas a caminho da cruz. Esse é um aspecto central tanto para quem anuncia como para quem acolhe. Disso depende o discipulado. Também é importante observar que o anúncio do Cristo crucificado (1Co 1.23) geralmente não “chega bem” aos ouvidos e corações de muitas pessoas. “Eu aceito Jesus, mas...”; “Eu sigo Jesus, desde que...”. Esses são os desafios do discipulado. O v. 51 relata a “intrépida resolução” de Jesus ir a Jerusalém. Esse aspecto é fundamental para compreender a reação dele quando Tiago e João, os “filhos do trovão”, propuseram uma ação extrema contra os samaritanos que não acolheram Jesus. Os dois queriam que Jesus fizesse descer fogo do céu para consumi-los (2Rs 1.9-16). Os samaritanos eram vizinhos odiados dos judeus por causa de diferenças étnicas e religiosas. Contudo, Jesus atreveu-se a pedir-lhes hospedagem. Negar pousada para alguém era extremamente deselegante e ofensivo em Israel (Gn 19.1-3; Mt 25.35-36). Essa atitude ofendia a Deus, pois a hospitalidade era um mandamento divino para o povo que havia sido migrante em terra estrangeira (Lv 19.33-34). Fechar o coração e negar acolhida ao Filho de Deus era infração gravíssima. Diante da recusa, Jesus continuou seu caminho, pois nada e ninguém poderiam detê-lo do seu firme propósito de ir a Jerusalém. O foco de Jesus, nesse caminho, era chamar e preparar discípulos e anunciar o reino de Deus. Por isso Jesus não usou seu poder divino para castigar os samaritanos que o rejeitaram. Pelo contrário, todas as ações de Jesus sempre tiveram o propósito de ajudar, curar e libertar as pessoas oprimidas. Jesus veio ao mundo para manifestar o amor de Deus, não a sua ira (Mt 13.24-30). Essa é uma profunda exortação para aqueles que se dispõem a seguir Jesus nos dias atuais, para que não julguem e condenem quem não se enquadra em seus conceitos. Este é um dos desafios do discipulado: amar e não odiar os inimigos (Mt 5.43). Jesus veio ao mundo e se colocou a caminho para chamar pessoas ao discipulado. E essas, por sua vez, seriam preparadas e enviadas para fazer discípulos de todas as nações, espalhando assim o amor de Deus. Nessa missão não se encaixam preconceitos. O caminho a Jerusalém é um convite ao discipulado. Na contramão de toda e qualquer teologia da glória ou da prosperidade, esse caminho passa pela cruz.
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Mas não se detém nela. Objetivo e alvo do caminho de Jesus Cristo é a Páscoa. É um caminho para a vida e não para a morte. Os três diálogos – Em seguida, acontecem três rápidos diálogos sobre o discipulado. A intenção do texto não é apenas oferecer um relato sobre o encontro de Jesus com três postulantes ao discipulado, mas oferecer uma reflexão sobre nós mesmos, sobre nossa vocação e nossa disposição para segui-lo, mesmo sabendo que é caminho que passa pela cruz, que exige decisões e prioridades. A fama de Jesus havia se espalhado e muitas pessoas ficaram curiosas sobre o jeito de Jesus ensinar. Gostariam de se tornar suas alunas e acompanhá-lo em suas “aventuras”. Outras pensavam que o caminho para Jerusalém seria a manifestação do poder de Deus e a reconstituição da glória de Israel como nos tempos do rei Davi. Já outras não queriam abrir mão de suas prioridades, e seguir Jesus somente nos momentos de folga (cristãos de domingo). Por isso, precipitadamente e sem maior reflexão, pessoas se dispuseram a seguir Jesus, certamente pensando nas vantagens imediatas e materiais dessa decisão. Esse também pode ser o nosso risco quando movidos unicamente pela emoção, por impulsos ou por interesses pessoais, impensadamente respondemos: “Jesus, eu te seguirei para onde quer que fores – desde que não seja para a cruz!”. Nos três diálogos, destacam-se exigências quanto ao discipulado: 1. desapego das coisas e das pessoas; 2. não retardar a decisão com desculpas; 3. não se apegar ao passado. A primeira pessoa vem até Jesus com a expectativa de fazer uma experiência de vida alternativa, de ter um mestre, mas sem compromisso nem sacrifícios. E Jesus o chama ao desapego. Jesus deixa claro que o discipulado não é um simples passeio. Raposas e pássaros estarão em melhor situação do que aqueles que se dispõem a segui-lo. Quem quiser se tornar um discípulo de Jesus precisa pesar tudo isso antes de aceitar o chamado. Toda e qualquer precipitação pode ter consequências negativas na atuação do discipulado. O apóstolo Pedro é um exemplo disso (Jo 13.37; 18.17). No entanto, fica evidente que quem quiser se decidir pelo discipulado precisa ter claro o que isso significa e o que implica, justamente para ter credibilidade e poder enfrentar as próprias fraquezas, não confiando somente em si mesmo. A segunda pessoa recebe um chamado para a vida. “Sim. Aceito. Mas primeiro quero sepultar meu pai”. A resposta de Jesus não é um impedimento de se cumprir o quarto mandamento. O sepultamento é uma das sete obras da misericórdia. Na época, sepultar um ente querido era uma tarefa sagrada, até mais sagrada do que ler as Escrituras e cumprir os mandamentos. Ao dizer deixa os mortos enterrarem seus próprios mortos, Jesus não contradiz essa tarefa. Ele aponta para a necessidade de definir prioridades. Seguir Cristo é prioridade absoluta. Tendo definido a prioridade, não há impedimento de se expressar amor e solidariedade às pessoas enlutadas, já como expressão do discipulado, que aponta para o Ressuscitado. Essa palavra de Jesus nos provoca a examinar o que nos impede de aceitar o seu discipulado. Seguir Jesus significa, em meio à realidade da morte, anunciar a vida nova e eterna.
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A terceira pessoa recebe um chamado para o futuro. Ela é criticada porque se apega a compromissos familiares, que lhe são mais importantes. Ela aceita o convite de Jesus, mas ainda se sente atrelada ao passado. “Sim, aceito. Mas...”. Com isso ela protela tudo o que deveria acontecer imediatamente. Jesus responde usando o exemplo do agricultor que ara a terra. Ao pôr a mão no arado, ele não pode olhar para trás, com o risco de sair do sulco e perder o alvo que está à sua frente. Conhecemos exemplos de quem olhou para trás. Na Bíblia, temos a história da esposa de Ló (Gn 19.26). Ao olhar para trás, virou estátua de sal. Na mitologia grega, temos a história de Orpheu que, ao resgatar sua amada Eurídice do mundo dos mortos, olhou para trás e a perdeu definitivamente. O compromisso com Jesus aponta para o futuro. Por isso é preciso olhar para frente. O Cristo que vai à nossa frente é a nossa referência. No discipulado, nossos olhos devem permanecer fixos nele. Compromisso – A crítica de Jesus se refere ao “olhar para trás”, para tudo que prende e atrapalha o discipulado. Ao receber a comunicação de envio, certo candidato ao ministério declarou: “Eu aceito ser enviado para qualquer lugar, desde que não seja mais do que 500 km da casa de meus pais!”; “Eu aceito seguir Jesus, desde que isso não interfira nos meus projetos particulares, desde que não me obrigue a abrir mão daquilo que eu considero importante na minha vida”. Discipulado tem a ver com desapego, com definição de prioridades. Seguir Cristo com nossos dons, tempo e capacidades deve ser nossa prioridade número um. Para tanto, é preciso abrir mão de muitas coisas que ocupam nosso tempo e desviam nossa atenção. Além disso, precisamos nos dispor a assumir sacrifícios e renúncias no seguimento de Cristo – tomar nossas cruzes e não olhar para trás. Seguir Jesus Cristo passa pelo amor ao próximo, a quem devemos nosso testemunho e nosso cuidado. Quem segue Jesus Cristo se coloca em movimento em direção das pessoas, em direção do anúncio de “novos céus e de nova terra onde habita a justiça” (2Pe 3.13)
3 A caminho da prédica 1 – Entusiasmo ainda não é discipulado. Muitos se deixam levar pelas emoções do momento, sem medir as consequências. Os três candidatos ao discipulado têm deficiências para corrigir se querem seguir aquele que está a caminho da cruz. Jesus não refuga nenhum deles, mas aponta o que precisa ser superado. Mesmo aqueles que o rejeitam não são excluídos do amor de Deus. Quem está na escola de Jesus precisa aprender isto. Quem se dispõe a seguir Jesus precisa saber que não se trata de um passeio. É preciso fazer escolhas. 2 – Ninguém consegue se tornar discípulo de Jesus por vontade ou força própria. Porém pode contar com a ajuda do Senhor, que o transforma e prepara pela força do Espírito Santo. Aquele que nos chama ao discipulado também nos fortalece. Mesmo que tenhamos reservas ou dificuldades, é o chamado de Jesus que nos convence e envia. 3 – O discipulado é prioridade. O caminho com Cristo passa pela cruz, mas não se detém nela. Anunciamos a Páscoa e a vida nova que Cristo conquistou nesse
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caminho. Ali onde pessoas ainda choram seus mortos, cabe-nos anunciar o reino de Deus. O resto deixa de ser prioritário em nossa vida. 4 – Seguir Jesus significa ser obediente a ele. Significa viver em comunhão com Cristo e com as pessoas, significa praticar a missão e colocar a fé em prática através do amor.
4 Subsídios litúrgicos Oração Senhor, nós queremos te seguir como discípulos. Porém ficamos assustados ao descobrir que teu caminho passa pela cruz. Ficamos inseguros ao perceber que não tens nem mesmo onde reclinar a cabeça. Mesmo assim, tu nos convidas a te acompanhar com nossas fraquezas e inseguranças. Dá-nos a compreensão de que teu caminho não cessa na cruz, mas que segue adiante para a manhã da Páscoa e para a glória do Pai. Torna-nos instrumentos da vida verdadeira e faze-nos anunciá-la em meio à realidade da morte. Cativa-nos a aceitar o discipulado, a ir contigo nos caminhos da esperança e nos abrir para novos horizontes. Amém.
Bibliografia BOGDAHN, Martin. Auxílio. In: Neue Calwer Predigthilfen. Stuttgart: Calwer Verlag, 1978. v. 1, p. 204ss. KLINKHAMMER, Benedikta. Predigt über Lukas 9,51-62. In: Göttinger Predigten im Internet. Disponível em: < http://www.theologie.uzh.ch/predigten/ aktuell.php>. MURDOCH, Dr. Paul. “Du aber geh!”. In: Zuversicht und Stärke. Neuhausen: Hänssler, 1997. Reihe I/2, p. 50ss.
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4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: ISAÍAS 66.10-14
07 JUL 2019
LUCAS 10.1-11,16-20 GÁLATAS 6.7-16
Geraldo Grützmann
Aconchegado no colo de Deus
1 Introdução O texto está previsto para o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum”, onde as principais festas cristãs já foram celebradas. O Dia das Mães, para o qual o texto também é sugerido seguidamente, também já passou. A cor litúrgica é o verde e indica o crescimento da comunidade. Os sinais da presença do reino de Deus precisam ser levados adiante. Talvez seja essa a ponte que se pode fazer para a leitura do evangelho. O profeta Isaías anuncia esperança e, assim, está em paralelo com os evangelistas. Lucas 10.1-11,16-20 relata a missão dos setenta discípulos e discípulas de Jesus e destaca que não são muitos. É árdua a tarefa de levar a mensagem de lugarejo a lugarejo, de casa em casa. O desânimo muitas vezes atinge aquelas pessoas que se dispuseram para a missão e colocaram o pé na caminhada. A certeza da misericórdia e do aconchego de Deus renova as forças. O texto de Gálatas aponta para a centralidade da cruz no ministério do apóstolo.
2 Exegese O P. Hans Alfred Trein elaborou uma exegese detalhada do texto para o Proclamar Libertação 37. Um ótimo auxílio que vale a pena reler! Aponto para algumas informações que nos ajudam a localizar o texto no tempo e no espaço. Jerusalém é o local geográfico em evidência no livro do Trito-Isaías (56-66). O próprio texto nos informa sobre a situação das pessoas que ouvem a mensagem. Após o convite para a alegria e o júbilo, vem a lembrança dos momentos em que choraram. O choro faz referência ao sofrimento imposto pelos babilônios: deportações de uma grande parcela da população em 597, 587 e 582 a.C. O maior sofrimento certamente foi a destruição de Jerusalém e do templo. Após longo período de exílio dos deportados, finalmente a volta se torna possível sob o domínio dos persas. O templo pode ser reconstruído e há esperança para um recomeço. Mas como será organizada a vida e a sociedade nesse novo tempo? O profeta destaca que o autor da “virada” é o próprio Deus. Para transmitir esperança e afirmar que uma nova sociedade é possível, o profeta se vale da imagem maternal. Conecta essa imagem com a cidade de Jerusalém e com o próprio Deus. Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei! Muitas coisas se perderam durante os longos anos de sofrimento e exílio. Agora é hora de recomeçar e de buscar projetos que estão baseados na paz e na
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justiça. Nesse contexto, aflora a imagem materna de Deus, uma experiência vivenciada em família que é projetada para toda a sociedade. Há o anseio por um lugar onde o sofrimento possa ser esquecido. Esse lugar é o colo de Deus. Depois de passar por tantas privações, é hora de aconchegar-se em seus braços. Quando as necessidades básicas estiverem satisfeitas, haverá alegria e crescimento para todas as pessoas.
3 Meditação Escrevo este auxílio depois de ter participado de um seminário oferecido pela IECLB: Meu tempo, minha vida, meu ministério. O encontro todo destacou a importância do cuidado para quem trabalha cuidando de outras pessoas. Nas conversas e dinâmicas, as angústias pelas perdas puderam ser verbalizadas ou expressas em trabalhos manuais. Em pinturas, poesias, histórias, cada qual pôde lamentar as perdas que trouxeram choro e sofrimento. Para alguns, essas perdas já começaram na infância ou na juventude. Para outros, o vale escuro veio com o rompimento dos laços familiares ou pelas decepções no trabalho. Olhando para frente, vem a ansiedade pelas perdas que ainda virão, seja pelas pessoas queridas das quais teremos que nos despedir, seja pela diminuição das próprias forças para enfrentar os desafios do dia a dia. Onde encontrar consolo? Como superar os sofrimentos e as crises existenciais? Cada qual tem sua individualidade, mas o mais importante é estar consciente de que fazemos parte do processo de cura. O descanso, a meditação, o lazer, as atividades físicas e lúdicas são formas de cuidarmos de nós mesmos para podermos nos cuidar mutuamente. Minha forma de buscar “refrigério para a alma” eu encontro principalmente na música e no canto. “O guitarrista parece a mãe com filho no colo”, diz uma música nativista gaúcha. Nossa fé nos indica o caminho que nos aproxima de Deus. Nosso consolo está no colo de Deus, onde teremos aconchego e carinho. Certamente, teremos novas forças para trazer outras pessoas para esse aconchego no colo de Deus.
4 Imagens para a prédica a) Uma mãe amamentando uma criança: essa pode ser uma bela metáfora para o cuidado de Deus por nós. Iniciei o meu ministério pastoral no interior do Espírito Santo há mais de trinta anos. Uma paróquia com muitas famílias jovens e muitas crianças nos cultos. Em especial, nos cultos batismais, os primeiros bancos estavam repletos de mães com suas crianças. Essa imagem era um verdadeiro festival de amamentação. Algumas vezes as mães me perguntaram, antes do culto, se precisariam sair da igreja para amamentar seus filhos. Certamente essas perguntas surgiram porque em determinado momento da história da comunidade esse direito das mães foi colocado em dúvida. Em nossas comunidades, mães se sentem constrangidas ao amamentar dentro da igreja? Ou a comunidade oferece um local reservado onde as mães podem amamentar?
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b) No final de 2015, um boato se espalhou rapidamente pela internet. Supostamente estaria em tramitação uma lei que considerava crime amamentar em público. Na polêmica sobre o assunto, surgiram leis municipais ou estaduais que justamente reafirmam o contrário. Pode ser penalizado quem constranger a mãe que amamenta em público. Mesmo assim, fica a pergunta: por que tantas pessoas partilharam essa falsa notícia? c) No linguajar popular, o ato de amamentar ganhou conotação pejorativa ao ser associado com corrupção política. Diz-se que “está mamando na teta” quem usufrui de benefícios por apadrinhamento político. Ou seria por causa dos filhos e das filhas de fazendeiros que mamaram nas tetas de escravas? d) No prefácio de seu livro Cuidando de quem cuida, Roseli M. Kühnrich de Oliveira publica uma poesia de Adélia Prado que aponta de forma exemplar para a grande misericórdia de Deus: É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos, ao nosso Deus que é uma galinha grande. Nos põe debaixo da asa e nos esquenta. Antes, nos deixa desvalidos na chuva pra que aprendamos a ter confiança n’Ele e não em nós.
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia Deus bondoso e misericordioso, tu que guiaste teu povo da escravidão para a liberdade e lhe deste a terra para o sustento; tu que consolaste o povo assim como uma mãe consola seu filho; tu que falaste através de sacerdotes e profetas e, finalmente, mostraste toda a tua misericórdia através do teu filho Jesus Cristo, dá que a tua Palavra desperte em nós o anseio pelo teu projeto de vida. Que em momentos de sofrimento busquemos o teu colo de mãe e nele encontremos conforto. Por Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. Sugestão de cantos Livro de Canto da IECLB: 15 (Entrada); 56 (Kyrie); 95 (Salmo); 166 (Palavra); 115; 312 (Batismo); 567; 116 (Salmo 91, que poderá ser usado na oração de intercessão); 287 (Bênção).
Bibliografia OLIVEIRA, Roseli M. Kühnrich. Cuidando de quem cuida: um olhar de cuidados aos que ministram a palavra de Deus. Joinville: Grafar, 2012.
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PRÉDICA: LUCAS 10.25-37 DEUTERONÔMIO 30.9-14 COLOSSENSES 1.1-14
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14 JUL 2019
Vera Maria Immich
O amor e o próximo
1 Introdução Os textos indicados para este domingo são perpassados pelo amor e pelas obras boas e misericordiosas neste mundo. Convidam-nos a deixar de falar, de discursar, e a agir. O texto de Deuteronômio mostra Moisés recapitulando a relação de aliança entre Deus e seu povo. O mandamento que ele ordena não é nem muito difícil nem está muito longe. Ele é o mandamento do amor, que deve estar enraizado no coração e na alma, e é dado pelo próprio Deus. A força desse mandamento deriva de sua fonte, ou seja, o Deus todo-poderoso. O texto de Colossenses fala da graça que produz reconciliação e faz frutificar o amor. Sem Cristo, todos estão mortos no pecado e são salvos mediante sua graça. E ele age através de nós. O texto de Lucas, base para a pregação, coroa a importância do amor nas relações diárias com pessoas amadas, desconhecidas, amigas ou inimigas. Enfim, os textos conclamam a amar e cuidar de quem necessita. É Cristo agindo através de nós.
2 Observações exegéticas Um intérprete da lei interpela Jesus com a clara intenção de pô-lo à prova, talvez no bom sentido, por demonstrar interesse e por acompanhar a espiritualidade de seu povo e o cumprimento da lei de Moisés. Os doutores da lei, muitas vezes, falhavam em interpretar o real sentido da palavra sagrada, mas eram especialistas nela e tinham o grande mérito de estar próximo das pessoas. Prova disso é o fato de que conversam com Jesus e estão abertos ao diálogo. Eles não estudam a lei longe de seu povo, mas em meio a ele. Temos a tendência de julgar os doutores da lei sempre em contraposição a Jesus. Eles estavam pondo Cristo à prova de acordo com seus critérios e seus estudos. Eles dedicavam a própria vida aos estudos das Sagradas Escrituras. Eles conheciam os textos da Escritura e também os pensamentos dos grandes rabinos. Portanto os debates entre eles e Jesus eram prova de seu zelo pela lei. Jericó ficava a 24 km de Jerusalém e parecia um oásis em meio ao deserto. Mas a estrada ascendente e sinuosa que conduzia a Jerusalém era perigosa. Peregrinos que faziam o percurso frequentemente eram surpreendidos por assaltantes
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escondidos em suas margens. Os sacerdotes e levitas gozavam de prestígio e respeito e, por isso, em geral não eram assaltados. Um intérprete da lei, estando na presença de Jesus – em um dos clássicos textos de debate –, pergunta: O que é necessário para herdar a vida eterna? Jesus responde com outra pergunta: O que está escrito na lei e como a interpretas? O doutor da lei, inteligente, diz que é preciso amar a Deus e ao próximo. Então Jesus lhe responde que ele deve fazer aquilo e viverá. Mas o doutor ainda insiste: Quem é o meu próximo? Jesus conta então a parábola do bom samaritano, sem dizer que se trata de uma parábola. Poderia ser também uma referência a um fato verídico, utilizado para responder à pergunta do mestre da lei sobre quem deve ser considerado como o nosso próximo. Não sabemos quem era o homem assaltado, talvez um mercador judeu que transportava dinheiro ou mercadorias. Talvez tenha sido observado e acompanhado pelos salteadores, que sabiam que ele tinha algo que desejavam. Enquanto percorria aquele caminho, os salteadores esperaram o momento certo para armar uma emboscada, arrancando-lhe a roupa, agredindo-o com violência e deixando-o jogado ao lado do caminho, ferido e sob risco de morte, acreditando que ninguém passaria ali para salvá-lo. Jesus conta essa história com riqueza de detalhes e aproveita para questionar a moral de um sacerdote hipócrita e de um levita daquela época, que também passam pelo caminho. Eles veem o homem agonizando e passam de largo, sem se importar com ele e sem oferecer-lhe ajuda. Os sacerdotes e levitas eram funcionários do templo de Jerusalém. O alto clero vivia em Jerusalém. Mas o baixo clero exercia uma profissão comum em qualquer outra cidade. Periodicamente deviam apresentar-se ao templo para cumprir os serviços religiosos. Registros dizem que muitas vezes se tornavam pessoas pedantes e pouco sensíveis, pois gozavam de privilégios. No entanto, entre os direitos e deveres especiais estava o de usar de misericórdia para com pessoas e, inclusive, para com animais. Jesus faz uma crítica sutil ao mandamento levítico que declarava impuro quem tocasse algo sem vida. Isso podia levar ao desencorajamento da solidariedade. Mais um viajante passa pelo caminho. Desta vez, é um samaritano, que se compadeceu, usou de misericórdia e socorreu aquela pessoa que necessitava urgentemente de cuidados. Ele não mediu esforços e correspondeu completamente à prática do amor ao próximo de que Jesus falava. O amor proclamado na lei foi posto em prática por um estrangeiro herege e menosprezado.
3 Meditação Na pregação, podemos destacar alguns aspectos mais relevantes trazidos por Jesus em sua narração ilustrativa. Ele traz um exemplo de sensibilidade e de amor. Ele nos ajuda de maneira concreta a definir o que é amor e quem é o próximo que deve ser alvo desse amor. Ele traz para o centro uma pessoa marginalizada, agredida e abandonada à própria sorte. É a sua resposta a um teólogo que parte para a abstração ao querer saber quem seria o próximo de que fala o
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mandamento do amor. Ele não nega o amor a Deus e ao próximo, mas pretende estabelecer limites de quem seria esse próximo. Como se diria hoje, quem seria o pobre bonzinho a quem podemos ajudar? Jamais o pobre corrompido pelo sistema ou pela falta de oportunidades, jamais o pobre desassistido pelo Estado, jamais o pobre que é fruto de um sistema que produz sobras, que podem ser chamadas, se necessário. Na pregação, podemos apontar para as armadilhas que montamos para nós mesmos quando discutimos sobre quem merece ajuda e solidariedade. Será que não perguntaríamos pela imprudência do homem assaltado, que anda com valores por um caminho perigoso, colocando-se dessa forma em risco? Não. Ele mesmo responsável por sua segurança? Jesus sequer considera que haja qualquer tipo de responsabilidade da vítima pela situação em que se encontra. Algo terrível aconteceu, e temos assim a oportunidade de expressar nosso amor incondicional ao próximo e reconhecer suas necessidades, acionar uma rede que ajude a viabilizar o cuidado e o acompanhamento. O escriba quer andar pelo mundo das ideias e da filosofia, falar sobre a pobreza lá longe e dos alarmantes níveis de violência. Jesus puxa-o para realidade simples e prática. Há alguém precisando de ajuda e outro alguém oferece essa ajuda. É possível que hoje também pessoas possam falar e escrever sobre a pobreza e a violência no mundo sem nunca ter alimentado uma boca faminta ou sequer ter se comprometido em pensar jeitos e formas de combater o desemprego. Jesus, então, qualifica o próximo claramente. É aquele que está no meu caminho. No texto, o samaritano se aproxima do necessitado com foco no que ele precisa, rompendo barreiras de religião, raça, nação ou classe social. Ele carecia de amor e de misericórdia. Ele era próximo de todos, mas somente um se sensibilizou e usou de misericórdia. Seu caráter é excepcional e é a essência do que deve ser o caráter do cristão ainda hoje. Talvez, poder-se-ia perguntar aos ouvintes: quem seriam o sacerdote e o levita hoje – padres, pastores, pastoras, presbíteros? Quem seria o bom samaritano hoje: um negro ajudando um branco, um índio, uma pessoa homoafetiva, um latino na Europa, um pobre mostrando desprendimento? É importante destacar que o samaritano não ajuda uma pessoa “boazinha”, mas um inimigo em potencial: um judeu. Ele leva o homem ferido até uma hospedaria e gasta o valor aproximado de dois dias de trabalho. Um valor considerável! Ele também envolve o dono da hospedaria nesse processo de ajuda. Ele vai atrás dos seus afazeres, não sem antes prometer voltar e acertar se algo ainda for necessário. Desta forma, somos lembrados do amor incondicional até com os inimigos. O escriba deu a resposta certa a Jesus, mas não aplicou a resposta certa nem se reconheceu como pessoa falha e pecadora que carece da graça de Deus. Antes, pelo contrário, resolveu sair pela tangente. Mais uma vez se evidencia que a lei não salva, mas mostra que precisamos ser salvos. Ela evidencia nossa fragilidade e humanidade. O sacerdote e o levita perderam a oportunidade de agir no mundo mau, espalhando gestos e exemplos bons. O escriba, preocupado com a vida eterna, esqueceu-se que a fé é expressa na vida real, que acontece enquanto se está a caminho e não no final. Quando o especialista da lei constata que o
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próximo do homem ferido era o samaritano, Jesus apenas encerra a contenda dizendo: Vai e procede de igual modo.
4 Imagens para a prédica Pode-se utilizar como imagem o trecho de uma música muito ouvida por adolescentes hoje: “Era uma vez”, de Kell Smith: Dá pra viver Mesmo depois de descobrir que o mundo ficou mau É só não permitir que a maldade do mundo Te pareça normal Pra não perder a magia de acreditar Na felicidade real E entender que ela mora no caminho E não no final. Testemunho pessoal – Quando eu era estudante de Teologia, em São Leopoldo/RS, morava próxima à Biblioteca Municipal, que à noite se transformava em um ponto de prostituição. Alguém havia sugerido que eu mudasse o trajeto. Mas devido à maior iluminação e por me sentir mais segura passando por ali do que por ruas desertas, permaneci percorrendo o mesmo trajeto. Numa noite fria de inverno, quando todos estavam recolhidos em seus lares e as ruas estavam mais desertas, eu voltava de uma atividade noturna na faculdade. Um homem, em um carro, me seguiu por alguns quarteirões, falando obscenidades e me constrangendo a entrar em seu carro. Apressei o passo e quando avistei a biblioteca corri e chamei por socorro. Não apenas uma prostituta, mas duas puseram o cara para correr e me acompanharam até a esquina da minha casa, aguardando que eu entrasse. Fui inundada por um profundo sentimento de gratidão e me senti muito segura em ser “escoltada” até em casa. Naquele dia, entendi que próxima é a pessoa em necessidade; e eu era a próxima daquelas prostitutas. Elas me deram aquilo que eu precisava naquele momento: segurança para chegar em minha casa sem ser molestada por ninguém. A relação é horizontal, porque está fundamentada no amor e no respeito.
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5 Subsídios litúrgicos O bom samaritano – versos Um dia, um doutor da lei De Jesus se aproximou E, querendo provocá-lo, Arrogante assim falou: – Que devo fazer, bom Mestre, Para a vida eterna alcançar? E Jesus lhe respondeu, – Tu és mestre em Israel, Tu és doutor, eu bem sei Portanto deves saber O que é que diz a lei... – A Lei manda que amemos Ao nosso Deus e Senhor De coração e de alma, Com todo o nosso amor, Com toda a nossa força, Entendimento e razão E que amemos igualmente Ao próximo, nosso irmão. – Sem dúvida, meu amigo, Respondeste sabiamente: Cumprindo o que diz a lei Viverás eternamente! Porém, falou o doutor A fim de se desculpar: – Então quem é o meu próximo? A quem devo assim amar? Então Jesus lhe contou, Com sua paciência infinda Uma história comovente, A parábola mais linda. – Certa vez, um pobre homem Que andava muito só, Saiu de Jerusalém Com destino a Jericó. Porém, durante a viagem, Algo triste aconteceu Com aquele pobre homem Que, por certo, era judeu. Bandidos o atacaram, Ferindo-o sem piedade.
Deixaram-no semimorto Muito longe da cidade. E ali, à beira da estrada, O homem ficou caído. Ninguém podia escutar Seus lamentos e gemidos... Até que ao cair da tarde, Um sacerdote passou por aquela mesma estrada E o ferido avistou, Mas aquele sacerdote Que era judeu, certamente, Nem desceu da montaria. Insensível, foi em frente. Depois dele um levita Por ali também passou; Vendo o homem quase morto, Nem ao menos se importou. Como fez o sacerdote, A viagem continuou. O seu coração de pedra Nem sequer se emocionou. Sem se fazer esperar: Porém, ao cair da noite, Montado em seu jumentinho, Lá vinha o samaritano Naquele mesmo caminho. Ao ver o pobre infeliz, Caído à beira da estrada, Encheu-se de compaixão E não pensou em mais nada. Apeou do seu jumento E ao pobre socorreu, Ele era samaritano E o outro era judeu... Porém, naquele momento, Nada disso importava. Aquele pobre infeliz De ajuda precisava. Derramou azeite e vinho Em todos os ferimentos
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Com cuidado colocou-o Na sela do seu jumento Levou-o à estalagem Com cuidado colocou-o E, com todo o seu carinho, Do pobre homem cuidou. No outro dia, ao partir, Deu ordens ao hospedeiro Que ajudasse o pobre homem Por aquele dia inteiro. À noite, quando voltasse Lhe daria mais dinheiro. Lá foi o samaritano Alegre, para a cidade.
Acabara de fazer Um ato de caridade! Agora, doutor, me diga Qual dos três estava certo: Aquele que o socorreu Ou os outros dois “espertos”? Qual deles mostrou-se próximo Daquele pobre judeu? – Sem dúvida, ó bom Mestre, Aquele que o socorreu! Pois, então, meu bom doutor, Pratique a caridade E viverás para sempre Na feliz eternidade! Sebastião Gomes de Oliveira (Paraibuna/SP)
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO DA REFORMA. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
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PRÉDICA: COLOSSENSES 1.15-28 GÊNESIS 18.1-10a LUCAS 10.38-43
6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
21 JUL 2019
Vítor Hugo Schell
Jesus Cristo, soberano da redenção e da criação
1 Introdução O texto de Colossenses 1.15-28 lança luz sobre a centralidade da obra de Deus em Jesus Cristo, apresentando-o não somente como senhor e soberano da redenção do ser humano, como também de toda a criação. Uma vez resgatados do domínio das trevas (cf. 1.13), e motivados pelas palavras a respeito da soberania de Cristo, os cristãos em Colossos são chamados à perseverança, a continuar “alicerçados e firmes na fé” (cf. 1.23). Comparados ao texto da prédica, os textos das leituras (Gn 18.1-10a e Lc 10.38-43) podem levar à reflexão sobre o contraste entre a revelação de Deus a Abraão, de forma indireta, por meio dos homens que o visitam e lhe trazem a mensagem de que faria de sua descendência uma bênção para todas as famílias da terra (cf. Gn 18.18), a descrença de Sara diante do que seus olhos estavam longe de avistar e diante do que seu coração experimentava em seu momento de vida, e a visita bem pessoal de Jesus, o soberano da criação e da redenção, à casa de Marta e Maria. A comunidade de Colossos fora fundada, provavelmente, a partir da obra missionária de Éfeso por meio de Epafras, como o próprio autor da carta o apresenta: amado cooperador, fiel ministro de Cristo (Cl 1.7). A carta deveria ser lida em Colossos, mas também na igreja dos laodicenses, assim como em Colossos deveria ser lida uma carta que, segundo o autor, teria sido enviada também àquela comunidade (cf. Cl 4.16). Como veremos, na segunda parte da perícope da prédica, o autor, que se identifica como Paulo (junto a Timóteo, cf. Cl 1.1), ressalta seu esforço e sua luta no ministério da proclamação do mistério do evangelho (cf. Cl 1.24-29). Os problemas da comunidade em Colossos podem ser compreendidos, de forma geral, a partir da leitura do capítulo 2 da carta: filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo (cf. Cl 2.8); adoração de anjos (cf. Cl 2.18); pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo (cf. Cl 2.23). Diante de tais dificuldades, toda a Carta aos Colossenses – não somente o texto da prédica deste domingo – aponta com veemência e sempre com outras formas de expressão para o mistério de Deus, a saber, Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (cf. Cl 2.2s) e em quem habita corporalmente toda a plenitude da divindade (cf. Cl 2.9).
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2 Exegese O texto da prédica “canta” em seus primeiros seis versos, de forma poética, a soberania de Jesus sobre criação e redenção. É possível que o conteúdo desses versos tenha sido transcrito literalmente de um “hino de confissão”, talvez até mesmo utilizado como uma “confissão batismal”, conhecida na igreja primitiva, ou que, pelo menos, os versos expressem tradições conhecidas da igreja, então colecionadas e agrupadas pelo próprio autor da Carta aos Colossenses. A introdução, ou o que conduz às palavras desse hino, é a realidade da obra de Deus em resgatar os seres humanos do domínio das trevas para o reino de seu Filho amado (cf. Cl 1.13,14). O assunto que dá espaço ao conteúdo poético e altamente “dogmático” dos v. 15-20 é retomado no v. 21 e desenvolvido na exortação que vai até o v. 23, quando, por fim, o autor passa a falar do seu próprio ministério (v. 24-29). É a obra do perdão, da redenção, que leva ao hino sobre a soberania de Cristo, e é o próprio hino que serve, por sua vez, como base ao trecho parenético dos v. 21-23. Do hino dos v. 15-20, a primeira parte ressalta a identidade de Cristo como soberano da criação (v. 15-17). Cristo é a imagem do Deus invisível (v. 15) e essa verdade deve ser ressaltada diante dos sincretismos que ameaçam a fé apostólica dos colossenses. Em Jesus Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2.9). O Deus invisível se fez carne e viveu entre nós (cf. Jo 1.14). Vale o que também o evangelista João ressalta em seu prólogo: Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido (Jo 1.18). Jesus é também apresentado como o primogênito de toda a criação. O´Brian ressalta que escritores judaicos especulavam a respeito da sabedoria, dando-lhe quase um status pessoal, estando presente com Deus desde a eternidade, compartilhando o trono divino, existindo antes do céu e da terra (como, p. ex., em Sb 9.4,9), ou, conforme Filo de Alexandria, sendo a sabedoria o “filho primogênito” como instrumento por meio do qual o mundo veio à existência. Enquanto isso, o Novo Testamento fala dessa sabedoria em alusão a uma pessoa real, a qual alguns dos autores do Novo Testamento inclusive conheceram face a face, ou seja, Jesus Cristo, a sabedoria de Deus encarnada (cf. O´Brian, 1982, p. 44-45). O que a literatura sapiencial do Antigo Testamento atribui à sabedoria, como, p. ex., em Provérbios 8.30, os autores neotestamentários atribuem a Jesus de Nazaré e ao Cristo exaltado. Jesus Cristo não é o primeiro ser criado, mas a imagem do próprio Deus, a sabedoria presente na criação: Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito (cf. Jo 1.1-3). Não somente a redenção acontece em Cristo, mas também a criação acontece na esfera do agir de Deus em Cristo. Diante das correntes heréticas em Colossos, o autor da carta enfatiza que inclusive tronos, soberanias, poderes e autoridades, como poderes espirituais (veja Cl 2.20) ou como concretizações dos mesmos na realidade vivida pela comunidade, não representam a realidade última. Também esses poderes se encontram no âmbito da soberania de Cristo. A contínua manutenção da criação é atribuída a Cristo: nele
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tudo subsiste (v. 17). Ainda que a linguagem lembre a filosofia platônica e estoica, servindo possivelmente até como ponto de contato com leitores familiarizados com a mesma, o conteúdo da mensagem é claramente outro: quem sustenta a criação é o Cristo encarnado, crucificado e exaltado. Os v. 18-20 apontam para a identidade de Cristo como redentor. Como em Romanos 8.29, Cristo, o primogênito, é o fundador de um novo povo. Ele não somente é o primogênito da criação (cf. v. 15), como também o primogênito da nova criação, o primogênito dentre os mortos (compare 1Co 15.20-23). Enquanto o v. 16 ressalta a criação por meio dele, o v. 20 ressalta a reconciliação de todas as coisas nos céus e na terra, estabelecendo a paz por causa do seu sangue derramado na cruz (v. 20). A seção da perícope que vai do v. 21 até o v. 23, entre o hino e a parte que trata das questões relativas ao ministério apostólico de Paulo, retorna ao discurso direto e leva adiante a temática dos v. 13 e 14, apontando para a realidade anterior (pote) à reconciliação realizada por Deus em Cristo, a qual é claramente contrastada com a nova realidade em Cristo (nyni de). Percebe-se a sequência “mas agora – para – desde que”. A reconciliação com Deus realizada por Cristo não traz somente benefícios cósmicos, como também benefícios pessoais. A reconciliação aconteceu “para” que os colossenses pudessem ser apresentados a Deus santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação (v. 22), “desde que” permanecessem firmes na fé anunciada. A reconciliação, cf. os v. 21-23 esclarecem, tem a ver com aqueles que ouviram a palavra da reconciliação e a aceitaram (cf. O´Brian, 1982, p. 57). Os v. 24-28, parte final do texto da prédica, ressaltam o ministério de Paulo diante de possíveis insinuações de que suas intenções ministeriais não seriam legítimas (compare os capítulos 10-13 de 2Co). Nessa “apologia”, destacam-se a integralidade do ministério, os sofrimentos de Paulo em favor do plano de Deus entre os gentios. “Completar os sofrimentos de Cristo” não significa que o autor considere a obra de Cristo como insuficiente. Antes, Paulo se inclui nos sofrimentos que são inevitáveis ao discípulo por não ser maior do que seu Senhor (veja Jo 15.20). É possível que por trás desse pensamento esteja a mentalidade do judaísmo apocalíptico, de que antes da vinda do soberano ungido, o povo de Deus seria conclamado a sofrer (cf. Martin, 1984, p. 80). A responsabilidade atribuída ao autor consistia em dar pleno cumprimento à palavra de Deus em vós (v. 25). Essa palavra, a saber, o mistério outrora oculto, mas agora revelado (compare 1Co 2.7-10), a inclusão dos gentios nos planos de Deus, deveria ter efeito completo na vida dos cristãos colossenses, sendo que para isso Paulo se esforça. O trabalho de Paulo consiste em “anunciar, advertir e ensinar” (v. 28). O anúncio refere-se justamente à notícia da participação dos gentios no plano de redenção em Cristo, sendo que o “advertir”, no Novo Testamento, está ligado muitas vezes à instrução de novos cristãos, à educação das crianças na família cristã, enquanto o ensino tem a ver, provavelmente, com a luta contra as heresias que ameaçavam a comunidade.
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3 Meditação O texto da prédica enfatiza o alcance da obra realizada por Deus em Jesus Cristo e seu resultado na vida daqueles que creem, e o incentivo para que o resultado da obra de Cristo tenha ação completa nos crentes. Do domínio das trevas, ou como diz ainda o autor da Carta aos Efésios, sendo estrangeiros quanto às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo (cf. Ef 2.12), os fiéis da cidade de Colossos, de proveniência não judaica, são confirmados como alvo do amor de Deus em Jesus. Tendo recebido a boa notícia do evangelho (cf. Cl 1.7), a comunidade é exortada à permanência no evangelho, uma vez ameaçada por outros pensamentos filosóficos e religiosos que colocavam em risco, ou, pelo menos diluíam o significado da obra de Jesus Cristo. Em Cristo, assim afirma o autor de Colossenses, estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (cf. Cl 2.3), nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (cf. Cl 2.9). O capítulo 2 da carta deixa transparecer as falácias teológicas que ameaçavam a comunidade. Está em jogo a mensagem da suficiência da obra de Deus em Jesus. A pergunta pela pessoa de Jesus e sua obra precisa ser constantemente respondida. Os v. 13 e 14 afirmam que tirar os seres humanos de uma realidade de trevas e escuridão ou de um obscurantismo religioso é obra do próprio Deus em Jesus. É ele quem nos transporta para outra realidade de vida. Pecado não é somente uma palavra em desuso ou uma palavra que descreve uma situação de um ser humano distante de nós mesmos. O pecado está presente no dia a dia e leva diariamente à morte, a realidades de morte; à destruição pessoal, familiar, comunitária; à alienação e ao isolamento; à solidão; à opressão e à escravidão. Isso se mostra claramente tanto nas páginas dos jornais como no mais íntimo de nosso ser, em nossa história e rotina pessoal. A libertação não acontece por meio daquilo que eram as filosofias e propostas propagandeadas em Colossos, que se fundamentavam em tradições humanas, superstições diversas, adoração de anjos (cf. Cl 2.18), visões, rigidez ascética (cf. Cl 2.21-23), e que, no fundo, não passavam de tentativas humanas, de obras humanas. A boa notícia é que a obra de Cristo é suficiente. A obra de Cristo é suficiente e pessoal, mas não somente isso. Jesus não é um Cristo domesticado, limitado aos dilemas do meu coração. Esse é justamente um segundo aspecto muito importante a ser ressaltado a partir do texto da prédica. A realidade do pecado é mais ampla. Tanto mais ampla é também a abrangência da obra de Cristo. Em forma de hino, o autor da Carta aos Colossenses ressalta tudo isso dos v. 15-20. A criação do que é visível e invisível, poderes e autoridades visíveis e invisíveis (o texto afirma uma realidade invisível!) foram criadas por ele e para ele (cf. v. 16). Nele também tudo subsiste, dele a criação continua dependente e a paz foi estabelecida por meio do alto preço do seu próprio sangue na cruz (cf. v. 20). Num terceiro momento, o texto passa a exortar os leitores. Uma vez reconciliados com Deus (cf. v. 22), são chamados a continuar alicerçados e firmes na fé, sem se afastar da esperança do evangelho (cf. v. 23). As tentações em forma de esoterismo e autoajuda, de ideologias políticas, de “um evangelho psicologizado
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e domesticado”, de “propostas legalistas alienantes” se multiplicam também em nossos dias, e também para nós vale o chamado à perseverança, a não nos afastar da verdadeira esperança do evangelho. Proclamar, advertir e ensinar continuam sendo papel do ministério confiado à igreja. Somente por meio disso é que a comunidade será fortalecida para enfrentar os desafios que lhe são apresentados em seu tempo, as novas formas de diluições e desvirtuações do evangelho de Deus em Jesus Cristo. “O óbvio precisa ser dito”, as bases da fé precisam ser reafirmadas. O ministério da palavra, que nos é tão caro, não pode ser negligenciado e a comunidade não poderá se desenvolver adequadamente recebendo sempre “alimento diluído”.
4 Imagens para a prédica Quando Paulo defende seu ministério diante da comunidade de Colossos, suas intenções legítimas, seus sofrimentos como testemunha de Cristo “em favor do seu corpo, que é a igreja” (cf. Cl 1.24), sua missão ao proclamar, advertir e ensinar “com toda a sabedoria” (cf. Cl 1.28) em meio a heresias que ameaçavam a comunidade, valeria a pena trazer à mente a imagem dos profetas que chamavam o povo de Deus constantemente ao arrependimento. Em Oseias os próprios sacerdotes são advertidos e o Senhor afirma: Meu povo foi destruído por falta de conhecimento (Os 4.6). A realidade descrita de forma plástica em Oseias 4 ressalta a necessidade de ensino e exortação. O povo de Deus em todos os tempos, liberto pelo agir maravilhoso, é chamado em todos os tempos ao retorno, à perseverança, uma vez reconciliados com Deus.
5 Subsídios litúrgicos Vários hinos que enfatizam a pessoa de Jesus Cristo, sua soberania sobre a criação e redenção, poderiam ser utilizados antes e depois do momento da prédica, para a moldagem da liturgia (p. ex., 173, 614 – Livro de Canto da IECLB). Ainda outro aspecto ressaltado pelo texto da prédica é a evangelização, a educação e o ensino na fé diante dos grandes desafios e heresias. A dúvida a respeito da suficiência de Cristo, de sua obra na cruz, a teologia da glória e as mais variadas superstições que se infiltram também em nossas comunidades são constantemente notícia e podem ser utilizadas.
Bibliografia MARTIN, Ralph P. Colossenses e Filemom. Introdução e Comentário. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1984. O`BRIAN, Peter T. Colossians, Philemon. In: HUBBARD, David A.; BARKER, Glenn W. (Eds.). Word Biblical Commentary. Waco, Texas: Word Books, 1982. v. 44.
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7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: LUCAS 11.1-13
28 JUL 2019
SALMO 138 COLOSSENSES 2.6-15(16-19)
Eduardo Stauder
Ensina-nos a orar
1 Introdução Os textos deste domingo nos chamam ao exercício de uma espiritualidade comprometida com o reino de Deus. A fé é um exercício diário, no qual fortalecemos nossa união com Deus para uma vivência ética e comunitária. O texto de Lucas 11.1-13 inicia com um pedido dos discípulos a Jesus: “ensina-nos a orar”. Em resposta, Jesus ensina a oração do Pai-Nosso. Por meio dessa oração, Jesus apresenta a essência da sua mensagem. É significativo que a essência da mensagem de Jesus não vem formulada numa doutrina, mas numa oração (Boff, 1979, p. 16). O Salmo 138 é uma oração de gratidão. O salmista reafirma sua confiança de que Deus o ouve, atende e fortalece. Mas essa ação de Deus não acontece para satisfazer a vontade de quem ora. O salmista reconhece que o nome de Deus e suas promessas estão acima de tudo. Deus age com misericórdia. Ele se interessa pelos humildes. As promessas de Deus fazem as pessoas se colocarem diante dele em gratidão. O salmista termina com um pedido: não abandones o trabalho que começaste. Colossenses 2.6-15(16-19) chama as pessoas cristãs a viverem unidas com Cristo. Essa união precisa ser exercitada, trabalhada e buscada constantemente. Ela acontece em meio a conflitos, exigindo discernimento diante das propostas religiosas e ideológicas que estão presentes no contexto da comunidade de Colossos. Manter a liberdade, que o cristão recebe por meio da morte de Cristo na cruz, é uma tarefa exigente diante de um mundo que corrompe e escraviza.
2 Exegese O Evangelho de Lucas destina-se a pequenas comunidades, localizadas nas periferias das grandes cidades ligadas ao Império Romano, num contexto de forte contraste social e marginalização da mulher. As comunidades agrupavam pessoas que não vinham da tradição judaica (Mosconi, 1991, p. 32). Lucas 11.1-13 pode ser compreendido como um catecismo que trata da oração, destinado a pagãos que não oram e devem ser iniciados na oração (Boff, 1979, p. 30). Esse catecismo é antecedido pelo ensinamento do amor ao próximo (Lc 10.25-28), por meio do exemplo prático da solidariedade do samaritano (Lc 10.29-37), e se estende para as mulheres que têm valorizado o seu direito ao
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aprendizado e ao testemunho (Lc 10.38-42). O cultivo do amor, da diaconia e do discipulado introduz o ensino da oração. Após as orientações de Jesus sobre a oração, temos o relato da expulsão de um demônio de uma pessoa muda (Lc 11.14-22) e surge o questionamento em nome de quem Jesus realiza suas ações. A oração fortalece a comunhão com Deus para que Jesus, em seu agir, já torne presente o reino de Deus. Lucas 11.1-13 é uma unidade temática, mas não é um texto único. Essa unidade apresenta quatro partes. É significativo que a busca pelo direito de comer está no pano de fundo dessa unidade. Os v. 1-4 apresentam uma introdução com o pedido “ensina-nos a orar”, seguida da oração do Pai-Nosso, que apresenta cinco pedidos, tendo no seu centro o pedido pelo pão necessário para cada dia. Os v. 5-8 trazem uma parábola na qual alguém bate de noite à porta de um vizinho, pedindo por pão para a visita que chegou. Os v. 9-10 são um apelo à oração. Os v. 11-13 fazem uma comparação entre o pedido na oração e como um pai atende os filhos e as filhas que pedem por comida (Jeremias, 1977, p. 297). Jesus ensina a orar (v. 1-4) – Jesus termina sua oração e um dos discípulos pede que ele lhes ensine a orar como João ensinou a seus discípulos. A comparação com João revela que a intenção não era simplesmente a de aprender como orar, mas de que Jesus ensinasse uma oração que os identificasse como grupo. Era um costume comum um rabino ensinar aos discípulos uma oração que usassem habitualmente. Jesus ensina a oração do Pai-Nosso, que apresenta um resumo da sua mensagem e confere ao grupo dos discípulos e discípulas uma identidade e unidade. A oração do Pai-Nosso servia para uso litúrgico nas comunidades. Ela tem uma construção poética, com ritmo e rima, para ser orada, alto, pela comunidade. Essa oração tem um sentido comunitário, mas que também pode ser refletida de forma pessoal (Gass, 2012, p. 5). Os manuscritos do Evangelho de Lucas apresentam diferenças na formulação do Pai-Nosso. Muitos trazem acréscimos, deixando o texto de Lucas e Mateus mais próximos. (Uma comparação entre o Pai-Nosso em Mateus e Lucas se encontra no estudo sobre Mateus 6.9, por Verner Hoefelmann, no Proclamar Libertação 39. Os manuscritos procuravam aproximar o texto escrito com a forma como as comunidades oravam o Pai-Nosso. Apesar da discordância entre manuscritos, as traduções em português buscam traduzir o Pai-Nosso de forma breve, com cinco petições. Surgem pequenas divergências, como na Tradução de Almeida Revista e Corrigida, de 1995, que acrescenta no final da oração: “mas livra-nos do mal”. A primeira parte da oração do Pai-Nosso diz respeito à causa de Deus: o Pai, a santificação de seu nome, seu reino. Jesus se dirige a Deus como pai, Abba, um paizinho querido, mas o pronome nosso é suprimido (v. 2b). A segunda parte está voltada para nós: o pão necessário, o perdão como costura das rupturas, a tentação que se faz presente. Ambas as partes se complementam: o olhar para Deus e o olhar para a nossa realidade. Chama atenção que, ao pedir pelo perdão (v. 4), se fala primeiro em pecado e depois em dívidas. Para os judeus, o perdão das dívidas era sinal de esperança, pois relembrava o Ano do Jubileu (Lv 25.8-16), mas os não judeus não conhe-
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ciam esse significado. Por esse motivo deve ter-se substituído “dívida” – ofeilē – por “pecado” – hamartia (Gass, 2012, p. 52). A parábola do amigo inconveniente (v. 5-8) – A parábola inicia confrontando os ouvintes com a pergunta: Qual dentre vós? Essa pergunta faz os ouvintes refletirem sobre como se comportariam. Iriam ou não importunar o vizinho para conseguir o pão para o visitante? O v. 8 apresenta uma conclusão da parábola. É dito, conforme a Bíblia na Linguagem de Hoje: [...] mas certamente ele se levantará por causa da insistência dele. Na tradução de Almeida Revista e Corrigida, está traduzido como levantar-se-á, todavia, por causa da sua importunação. No grego, a palavra anaideia é traduzida por insistência ou importunação. Numa tradução literal, significa “ausência de vergonha”. É preciso deixar a vergonha de lado para bater de noite na porta do vizinho. A parábola revela uma situação social de poucos recursos. As famílias têm o suficiente para cada dia. Também revela a existência do valor da hospitalidade e da ajuda mútua. Apesar disso, o vizinho atende quem bate à sua porta não por amizade, mas para que pare com a importunação. A parábola estabelece uma relação com Deus que não é de subserviência, mas que desafia a irmos até o limite do constrangedor (Schottroff, 2007, p. 238). Deus escuta (v. 9-10) – Aqui temos uma breve sentença no estilo de um provérbio, que provém da experiência do mendigo. Para receber a esmola, o mendigo precisa ser firme e persistente no pedido e não ter medo de ouvir palavras duras. Essa tenacidade do mendigo ensina a ter perseverança na oração (Jeremias, 2007, p. 161). Pedir o essencial (v. 11-13) – Jesus estabelece uma comparação entre a atitude de um pai e a de Deus. Assim como os pais não negam pão e peixe a seus filhos e filhas, Deus, como nosso Pai celeste, atenderá nossas necessidades. Jesus recomenda que peçamos ao Pai o Espírito Santo, pois é dele que precisamos de fato.
3 Meditação “Ensina-nos a orar.” A prática da oração precisa ser ensinada. Se nós não ensinarmos, nossas comunidades aprenderão em outros lugares, por meio da TV ou da internet, colocando diante de si um copo de água ou manipulando Deus para que seus pedidos sejam atendidos. A própria oração do Pai-Nosso será que é compreendida ou apenas repetida? A oração pode acontecer de uma forma pessoal, mas ela sempre terá igualmente uma dimensão comunitária. Não somos indivíduos solitários, fazemos parte do corpo de Cristo. Dirigimo-nos a Deus como Pai nosso. Assim, criamos uma identidade que nos une como comunidade de fé em torno da proposta de Jesus. Os pedidos no Pai-Nosso iniciam com Deus e em seguida passam para as nossas necessidades. É a partir da ótica de Deus que nós olhamos para a nossa realidade. E é de dentro da nossa realidade, marcada por aflições e sofrimentos, que nos preocupamos com Deus. No centro da oração do Pai-Nosso temos o pedido pelo pão necessário para cada dia. Esse pedido produz uma virada na oração. Nosso olhar inicia se dirigindo ao céu, à realidade de Deus como Pai, que deve
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ser sempre santificado, e ao reino que deve vir. Com o pedido pelo pão, nosso olhar se lança em nova direção. Olhamos para a terra, para nossas necessidades. Na oração do Pai-Nosso, vamos ao encontro de Deus, carregando nossa fome, nossas dívidas. Os pedidos na oração do Pai-Nosso vão crescendo de intensidade e culminam num grito de angústia: Não nos deixeis cair em tentação! Nós caímos, facilmente escorregamos, traímos a esperança e, assim, nos perdemos (Boff, 1979, p. 119). Apesar da nossa aflição, Deus continua Pai nosso. A maldade do mundo e a bondade de Deus são acolhidas juntamente na nossa fé. Não ficamos presos ao desejo de proteção, achando que nenhum mal pode nos acontecer. A oração do Pai-Nosso nos ensina a viver em liberdade, assim como Jesus viveu a fé confiando em Deus mesmo na desesperança da cruz (Boff, 1979, p. 46). A parábola do amigo inconveniente (v. 5-8) reafirma nossa relação com Deus como filhos e filhas. Deus não é um senhor distante e inacessível. Ele é abba, paizinho querido. Não precisamos ter medo nem vergonha de nos dirigir a Deus. Podemos importuná-lo. Nos momentos de fraqueza, de aflição, de pobreza, as pessoas se sentem diminuídas, pequenas. Algumas chegam a pensar que não servem mais para nada, que são incapazes. Então silenciam e até deixam de buscar ajuda ou de lutar pela superação dos seus problemas. Essa parábola vai ao encontro dessas pessoas como que dizendo: “Animem-se, não tenham medo nem vergonha de falar das suas dores, angústias e aflições. Deus te ouve e vem ao teu encontro”. Na oração, aprendemos a romper com o silêncio e a falar das nossas dores. A oração capacita-nos a reconhecer nossas necessidades e angústias e nos move a falar com Deus sobre nossas misérias. Aprendemos a olhar para a vida reconhecendo as dores deste mundo e que não estamos sozinhos diante delas. A oração ensina-nos a coragem dos mendigos, que expõem sua miséria diante dos outros e estendem a mão vazia, revelando toda a sua fragilidade e o quanto são dependentes da ajuda dos outros. Reconhecendo nossa miséria e nossa dependência de Deus, nós falamos: todos aqueles que pedem recebem; aqueles que procuram acham; e a porta será aberta para quem bate. Mas será que vale pedir tudo a Deus em oração? Temos que lembrar o último pedido da oração do Pai-Nosso: não nos deixes cair em tentação. Constantemente vemos pessoas colocando em oração a busca pelo sucesso: carro, apartamento, empreendimento. Não basta o pão para cada dia. Querem que Deus abra as portas trancadas para que sejam bem-sucedidas e fiquem ricas. Diante desses pedidos, temos que lembrar a dimensão comunitária da oração. Na nossa relação com Deus não prevalece o individualismo. Chegamos diante de Deus como parte do corpo de Cristo. Nosso sucesso não é a conquista pessoal de riqueza ou de fama. Nosso sucesso está na vinda do reino de Deus. Temos a promessa de que Deus dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem. A oração está ligada ao dom do Espírito, que vem como dom gratuito. Esse dom não se merece, mas se pede. A comunidade primitiva experimentou essa presença do Espírito Santo, que a moveu a partir o pão de casa em casa (At 2.42) e a se organizar para que entre eles não houvesse nenhum necessitado (At 4.34). O direito de comer é um ideal de Deus para o qual o Espírito Santo nos mobiliza.
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4 Imagens para a prédica O texto abre diversas possibilidades de abordagem. O estudo de Manfredo Wachs, no Proclamar Libertação 29, aponta diversos caminhos para a elaboração da pregação. A carta que Martim Lutero escreveu a Pedro Barbeiro sobre a oração, “Como se deve orar, para o mestre Pedro Barbeiro”, apresenta uma reflexão que nos incentiva a orar dialogando com a oração do Pai-Nosso. Essa reflexão nos ensina a orar relacionando a fé e a vida. Diante de Deus, chegamos com nossos pedidos, que revelam nossas carências e nossos desejos. Como ligar nossos pedidos com o pedido pelo dom do Espírito Santo (v. 13)? Lembrei a imagem de uma mulher escolhendo o feijão, como no final do filme “Eles não usam black tie”, de 1981, baseado em peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri. A mulher espalha os grãos do feijão sobre a mesa para escolher aqueles que vão para a panela. Quando oramos, estamos como essa mulher diante do feijão. Estamos diante da fome, da nossa necessidade de comer, das nossas lutas diárias. Muitos são nossos pedidos, nossas necessidades. Precisamos do Espírito Santo para selecioná-los. Assim como o feijão é comida essencial, o Espírito Santo também é fundamental. O feijão que vai para a panela dá uma comida gostosa. Os pedidos que colocamos diante de Deus, quando o Espírito Santo nos conduz, nos unem como comunidade e nos conduzem para o reino de Deus. Selecionamos os pedidos para que tenhamos comida boa na mesa.
5 Subsídios litúrgicos Distribuir, no culto, orações que poderão ser levadas para fazerem parte do exercício pessoal de cada um e para serem ensinadas e lidas em família. Lembro a oração da manhã e da noite de Martim Lutero, da Oração do Cuidado de Rodolfo Gaede Neto. Evandro Jair Meurer, no Proclamar Libertação 37, também sugere a declamação da Oração do Matuto, de autoria de Fátima Irene Pinto. Na bênção final, podemos retomar os pedidos da oração do Pai-Nosso. Que o nosso Deus, amoroso como uma mãe e bondoso como um pai, te abençoe! Ele te dê um coração puro para seguir pelo caminho da verdade e da vida superando as tentações. Ele te dê perdão, para que tu perdoes, reconstruindo relações rompidas e promovendo justiça. Ele te dê o pão necessário para cada novo dia, para que tu vivas em gratidão e generosidade, partilhando os bens. Que Deus te dê o Espírito Santo, para que o seu reino se faça presente. Que o nome de Deus permaneça santo para que na tua vida haja paz. Amém!
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Bibliografia BOFF, Leonardo. O Pai-nosso: a oração da libertação integral. Petrópolis: Vozes, 1979. GASS, Ildo Bohn. A oração de Jesus. São Leopoldo: CEBI, 2012. (Série A palavra na vida, n. 300). HOEFELMANN, Verner. Mateus 6.9. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST. v. 39, p. 351-358. Disponível em: <http://www.luteranos.com. br/textos/o-nosso-pai-que-esta-no-ceu>. JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1977. JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. 10. ed. São Paulo: Paulus, 2007. MEURER, Evandro Jair. 10º Domingo após Pentecostes – Lucas 11.1-12. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST. v. 37, p. 229-235. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/lucas-11-1-12>. MOSCONI, Luís. Leitura segundo Lucas – Pistas para uma leitura contemplativa, espiritual e militante. São Leopoldo: CEBI, 1991. (Serie Palavra na vida, n. 43/44). SCHOTTROFF, Luise. As Parábolas de Jesus – uma Nova Hermenêutica. São Leopoldo: Sinodal, 2007. WACHS, Manfredo. 10º Domingo Após Pentecostes – Lucas 11.1-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST. v. 29, p. 223-227. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/lucas-11-1-13>.
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04 AGO 2019
PRÉDICA: ECLESIASTES 1.2,12-14; 2.18-23 LUCAS 12.13-21 COLOSSENSES 3.1-11
Wilhelm Sell
O sentido da vida: um convite para olhar acima do sol
1 Introdução Ainda estamos no tempo litúrgico que indica maior atenção da igreja para o agir do Espírito Santo de Deus, aquele presente desde sempre na criação e que vem à igreja de Cristo como promessa e concretização de consolação, auxílio e vivificação. Espírito Santo que procede do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem gerado, mas procedente, agindo na manutenção de toda a criação e no auxílio dos redimidos, atuando entre os membros do corpo de Jesus Cristo. É pelo agir do Espírito Santo, aliás, que as letras das Escrituras se tornam palavra de Deus à pessoa crente. Por isso sempre é motivo de gratidão perceber que esses três trechos apontados para estudo e homilia para este domingo, escritos em tempos e contextos distintos, tornam-se palavra de Deus para sua igreja hoje pelo agir do Espírito Santo. O tema que mais pulsa nos três textos citados é a relação do ser humano com os bens materiais conquistados pelo trabalho, com suas obras, com aquilo que pode construir, conquistar e/ou possuir. Os textos enfatizam a dificuldade do ser humano em lidar com toda espécie de obras produzidas, denunciando a confiança nessas como aquilo que pode trazer justificação existencial, ou seja, meio de satisfação do ser, da nefesh (hebraico), da psichē (grego). É nesse sentido que o autor de Eclesiastes afirma: Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento (v. 14). Já no texto do Evangelho de Lucas, temos Jesus Cristo denominando de afrōn (v. 20), que a Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA) traduz como louco e a Bíblia Nova Versão Internacional (NVI) como insensato – no sentido daquele que não faz uso de seu entendimento para compreender e por isso é confuso –, aquele que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus (v. 21). É o que o apóstolo Paulo vai identificar como mentalidade segundo a natureza terrena (v. 5), ou seja, marcada pelo lapso gerado pelo pecado e que se desdobra na distorção daquilo que propicia satisfação (sentido) pela justificação do ser. Chamo atenção para o método adotado no presente estudo. O texto principal para a homilia será abordado exegeticamente, reconhecendo a intencionalidade na mensagem do autor e percebendo seu valor histórico e contextual, mas na meditação prevalece uma hermenêutica cristocêntrica a partir da luz que Jesus Cristo lança
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sobre a experiência humana com o ter e seu ser, percebidas na leitura do Evangelho de Lucas e reafirmadas no conteúdo da carta de Paulo aos colossenses.
2 Exegese No texto de Lucas 12.13-21, encontramos a história de um irmão que se aproxima de Jesus pedindo para que este medeie uma disputa familiar. Revela-se aqui o reconhecimento de Jesus como alguém com conhecimento semelhante ao de respeitados rabinos, aos quais, por vezes, era confiada a solução de problemas familiares difíceis. Em 1 Timóteo 2.5 Jesus Cristo é identificado como sendo “um só mediador entre Deus e os homens”. Em Mateus 25.31-46 como juiz. Contudo, os versos 15-21 do nosso texto são importantes por revelar sob qual perspectiva Jesus Cristo analisa a vida como mediador e juiz e, consequentemente, esse caso. Seria um engano pressupor que a fala de Jesus Cristo revele algum tipo de rejeição aos bens materiais. Ele também não está simplesmente se esquivando de uma decisão do que seria justo na repartição dos bens para dar um “toque” de espiritualidade. Mas utiliza esse momento para revelar algo profundamente enganoso engendrado dentro do coração humano após a queda: a justificação do ser pelo ter, ou seja, por obras realizadas para si próprio. Por fim, a revelação chama a atenção: os bens, as obras, enquanto justificação existencial dos irmãos, aprisionaram ambos a ponto de se tornarem avarentos e desestabilizarem os elos relacionais mais íntimos, os familiares. Jesus, para exemplificar o que quer dizer, conta uma parábola, uma história sobre um homem que trabalha incessantemente e faz seus negócios com a mente aficionada excogitando possuir cada vez mais. Seu propósito era de conquistar a tranquilidade por meio de seus negócios, ou seja, a satisfação existencial pela justificação por obras de sua psichē. Assim, a expectativa era chegar a um ponto onde poderia afirmar a si mesmo sua realização: Tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te (v. 19). Mas Jesus é categórico e afirma: Mas Deus lhe disse: afrōn – pessoa com disposição mental distorcida, alienada, insensata, que não usa a razão –, esta noite te pedirão a tua psichē – sua essência de vida em termos de pensamento, desejo e sentimento; coração, ser, vida física, princípio vital – e o que tens preparado – derivação do verbo ethoimadsō, deixar preparado para; com finalidade –, para quem será “seu negócio”? Imaginemos aqui uma pausa na fala de Jesus. Sua pergunta ecoa no vazio existencial daqueles que imaginavam encontrar no ter, nas obras, no negócio, a satisfação existencial (o encontro do sentido da vida) pela própria justificação do ser. Por fim, concluindo de maneira reflexiva, Jesus afirma: Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus. Ou seja, insensata é a pessoa que crê que a riqueza das obras realiza o ser, pois essa realização é impossível pelos “negócios” (= negação do ócio), mas somente no recebimento e no proveito da herança gerada pelo bem ofertado por Deus como graça. Essa, por sua vez, exige a afirmação do ócio humano para a satisfação do ser pela obra redentora e justificadora do Deus-Filho; revertendo todas as obras, os neg-ócios, para o bem comum, sendo rico para com Deus.
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O texto indicado (3.1-11) da Carta aos Colossenses de Paulo vai em direção a esses ensinamentos de Jesus Cristo. Paulo enfatiza o caráter redentor e restaurador do Cristo que propicia uma nova perspectiva acerca da vida à pessoa justificada pela graça. Essa não mais está aprisionada às coisas produzidas pelas obras de natureza terrena como força propulsora e justificadora de vida, mas mortificado (v. 5 = nekrōsathe – aor. imp. at. de nekroō – reproduz ativamente seu estado efetivado de morte) para essa velha natureza, e revestido (v. 12 = endysasthe – aor. imp. med. de endyō – vestindo-se como alguém que está participando dos resultados da ação) de Cristo, o novo ser humano para uma nova humanidade. Ele é tudo em todas as pessoas e no qual todas se refazem para o pleno conhecimento, segundo a imagem do próprio Deus, passando a buscar as coisas lá do alto; fazendo com que as obras (neg-ócios) estejam reorientadas. Assim, as obras não estão mais para si mesmo (entesouramento, Lc 12), a fim de justificação do ser pelo ter, mas para a pessoa próxima na prática do perdão (v. 13 charidsomai, perdoar com ênfase no meio pelo qual o perdão veio a existir de forma plena, ou seja, pelo echarisatho – v. 13b, aor. ind. med. que indica uma ação concreta – pelo dom da graça; per-donum, (lat. pelo dom)= perdão); – pelo dom recebido compartilho o que recebi, a graça, portanto, pela caridade brotada no amor divinal. Esse amor é o vínculo da perfeição (v. 14) que leva a um novo tipo de ação (veja 3.12 – 4.1). Por fim, é interessante notar que o tempo verbal da maioria das ações indicadas dessa nova humanidade, citadas entre os versos 12-17, são pontuais e partem intencionalmente do novo ser. O texto principal, indicado pelo lecionário para a homilia, é Eclesiastes 1.2,12-14; 2.18-23. A percepção dessa perícope junto com os demais textos brevemente analisados deixa perceptível uma correlação temática no tocante à relação entre obras, trabalho, neg-ócio e sentido da vida, satisfação do ser. O título original em hebraico é Coélet (lit. “a que convoca a comunidade”). Diante da discussão se o nome quer designar uma função ou um nome próprio, permanece a certeza que Coélet necessariamente precisa ser tratado como um sábio. A tradição indica o rei Salomão como seu autor. No entanto, seu nome não é citado no decorrer do livro e a linguagem empregada com influência aramaica revela um conteúdo mais filosófico, correspondente ao período helenístico. Coélet estrutura todo o seu escrito a partir de uma tese, lançando uma pergunta com a qual parte para sua argumentação (1.2-3). Dessa, passa a fundamentar sua afirmação de que as obras humanas não possuem vantagem pela ausência de sentido (1.4 – 3.9); além disso, as obras de Deus não são perscrutáveis, ou seja, passíveis de investigação para entendimento (3.10 – 8.17); mas conclui que o melhor ainda é poder desfrutar e formatar a vida (9.1 – 12.7); trazendo por fim, sua conclusão (12.8-14). Tudo é vaidade das vaidades (habel habalim, ambas palavras da raiz hebel = hálito, nada, nulidade), ou, ainda, vazio e inútil, tendendo à ideia daquilo que fecunda o engano. Debaixo do sol (informando uma área restrita que está sendo considerada) tudo não passa de uma grande ilusão e é passageiro, não podendo gestar, por isso, um sentido à vida. A vida não é somente passageira, como atesta o Salmo 39, mas é vã, enfadonha. Sendo assim, qual é o valor do trabalho (amal
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= esforço físico, fadiga, também aflição mental e emocional), mas também da família, da riqueza e da sabedoria (veja capítulo 2)? A análise da realidade trazida por Eclesiastes é profunda. Conclui que tudo, na realidade, debaixo do sol, não passa de correr atrás do vento (reut ruah = atrás do vazio), ou seja, realizar um esforço inútil na tentativa de alcançar o inatingível pela inexistência, parindo nada além de frustração, de dor e desgosto (2.18-23). A ideia de ser possível encontrar o sentido da vida, a satisfação do ser, naquilo que o ser humano possa realizar é, por isso, falsa. Melhor seria se livrar dessas ilusões. A única certeza é a morte (3.16-22), que representa no Antigo Testamento ameaça e término para a vida transitória. Em sua perspectiva, Coélet percebe a limitação do ser humano em relação a aquilo que está debaixo do sol, onde, mesmo que anseie pela realização do seu ser de obter o sentido da vida, nenhum neg-ócio o satisfará. Além disso, compreende-se numa vida passageira e refém da morte. O que resta? Olhar para além dos seus limites, para além do sol, isto é, para Deus. No entendimento do sábio, Deus não é alguém que está tão próximo à realidade humana, ao alcance. Sua relação com a humanidade se dá nas bênçãos e na dádiva do dom ofertado pelo seu amor e cuidado. Sendo assim, se tudo é vaidade, correr atrás do tempo, do vazio, e sendo a única realidade eterna o próprio Deus, então somente nele é que pode haver sentido, a satisfação do ser. É visível que o conteúdo do livro de Eclesiastes, assim como Jó, rompe com a lógica da retribuição, presente, por exemplo, no livro de Provérbios. Mesmo que não se afaste por causa disso da tradição sapiencial, há uma ressignificação da experiência com Deus. Essa pode se dar mesmo em situação de caos, nas experiências ruins da vida, mesmo no sentimento de injustiça e abandono, lidando assim com experiências de provação da fé e de abscondicidade de Deus. Neste sentido, Coélet é radical em sua análise realista da experiência de vida. Por fim, seu intuito é livrar o ser humano de colocar sua confiança quanto à realização do ser, sentido da vida, em qualquer negócio produzido, criado ou recebido. Portanto a mensagem libertadora é: aquilo que realmente importa não está debaixo do sol, mas em Deus.
3 Meditação As pessoas são diferentes dos animais. Enquanto estes parecem viver satisfeitos com sua condição existencial, as pessoas sempre estão à procura de meios para ir além do que são, o que gera movimento. Isso acontece em dois âmbitos: um de foro mais íntimo, pessoal; e outro de foro mais público, relacional. No primeiro, constata-se o desejo de ser diferente do que se é, melhor, no âmbito físico, estético e intelectual. No segundo, é o desejo de bons relacionamentos, de reconhecimento e influência. Além disso, mesclado nesses âmbitos, outras áreas comuns de esforços são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento. As incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nenhuma obra, negócio, parece trazer a satisfação ao ser. E é justamente o agente desse desfoco que Jesus Cristo chama de afrōn, louco, insensato, confuso.
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É o que Coélet denuncia com sua honestidade inflexível, incitando uma observação mais profunda acerca da experiência humana de tentar encontrar debaixo do sol a satisfação do ser, sentido e a completude da vida, por meio daquilo que pode realizar. E o veredito é claro: futilidade, nulidade, correr atrás do vento; uma busca incansável, sem fim e sem sucesso. Não que as obras, a negação do ócio, sejam impróprias; antes, elas fazem parte do ser criado à imagem e semelhança de Deus. No entanto, é característica do pecado a necessidade de se “vestir” de algo para dar sentido e proteção à sua existência. Não é por acaso que o redator que aborda o relato da queda afirma que a primeira atitude de Adão foi tapar sua nudez existencial com folhas de figueira, algo sobremaneira frágil. Assim, como não deve ser por um acaso que Jesus Cristo, na parábola do filho pródigo, diz que a primeira atitude do pai que recebe o filho foi de “vesti-lo” e colocar um sinal de pertença em seu dedo. Isso está presente na teologia da igreja primitiva e, por isso, não é sem razão que o apóstolo Paulo fala da nova realidade antropológica de estar “revestido” de Cristo, gerando assim uma renovada experiência de humanidade que consegue focar na real finalidade das obras. A satisfação existencial, sentido da vida, razão de existir, não é mais uma busca pela necessidade de justificação do ser, mas realidade concreta e efetuada pela obra do Deus Filho, Jesus Cristo. Esclarecer isso é o intuito de Jesus para o irmão que o vem procurar diante de seu conflito relacional familiar pela disputa de uma herança. Não que a questão fosse injusta. Mas a preocupação é com algo mais profundo. Ele identifica nos irmãos, algo que se repete também em outros, a necessidade de ter para ser. Essa é a confusão, o desfoque, a tolice e a insensatez que, pela falta de cuidado, leva à avareza, à pleonexia. Essa palavra grega expressa o desejo intenso de adquirir mais e mais bens materiais ou ter mais do que os outros, sem levar em conta as reais necessidades. Ou seja, a finalidade do ter, das obras, dos negócios, do trabalho, está direcionada para o sentido da vida, de adornar a própria nudez com “folhas” frágeis que justifiquem seu ser. Aliás, isso torna perceptível que a salvação por obras é uma predisposição do ser humano na realidade pós-queda e está presente mesmo na pessoa não religiosa. Essa desconfiguração não leva em consideração as reais necessidades, fazendo com que seu neg-ócio tenha a si mesmo como finalidade primeira e última, resultando na destruição da vocação. Assim é com aquele que, quando solicitada sua psichê, nada tem, pois não percebeu a nulidade de tudo debaixo do sol para essa finalidade, entesourou para si mesmo e permaneceu pobre para com aquilo que está acima do sol, das coisas do alto, como diz o apóstolo Paulo, da riqueza de Deus por meio de Cristo Jesus, dada por herança aos seus filhos e suas filhas. Essa herança é uma nova humanidade que traz sentido para a vida por causa da sua justiça e, além disso, reconfigura a finalidade das obras, que é o bem comum, a justiça, o perdão, o amor, fazendo com que tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus (Cl 3.17).
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4 Imagens para a prédica Para ajudar na elaboração da homilia, indico assistir um breve vídeo da compreensão do sentido da vida de Leandro Karnal (https://www.youtube.com/ watch?v=hKKvhPo9G0k). É um exemplo claro da atualidade da busca pelo sentido e de como se lida com essa questão, que permanece sempre aberta. Diante da sua convicção da inexistência de um sentido de vida “debaixo do sol”, numa postura caracteristicamente líquida, o pensador brasileiro conclama as pessoas a serem criadoras de um próprio sentido para si. Quer dizer, a razão e o fim de todo neg-ócio estão resumidas a si mesmas, para a justificação do seu ser. Mesmo que na modernidade líquida a tentativa da justificação não esteja mais relacionada a Deus ou a uma alteridade próxima, ela permanece como necessidade diante de si mesmo pelo anseio existencial de se validar, de tapar sua nudez com algum “tipo de folha”, na esperança de satisfação/paz. Tentativa que continua permanecendo vaidade, nulidade, correr atrás do vento, daqueles que Jesus Cristo continua denominando de afrōn, insensatos, que não levam em conta suas reais necessidades de olhar acima do sol.
5 Subsídios litúrgicos Sugiro incluir na saudação a frase de Agostinho de Hipona: “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”.
Bibliografia LOUW, Johannes P.; NIDA, Eugene A. (Eds.). Léxico Grego-Português do Novo Testamento baseado nos domínios semânticos. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013. FRITZ, Rienecker. Chave bíblica do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995. HOLLADAY, William L. Léxico Hebraico e Aramaico do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010.
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9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: LUCAS 12.32-40
11 AGO 2019
GÊNESIS 15.1-6 HEBREUS 11.1-3,8-16
Marcos Henrique Fries
Vivendo como herdeiros do Reino
1 Introdução O texto de Lucas 12.32-40 já foi estudado em Proclamar Libertação (PL) em duas oportunidades: PL 17 e PL 37. Os textos complementares – Gênesis e Hebreus – abordam a temática da fé e da esperança. Fé, conforme os textos, é a certeza e a convicção de que Deus agirá, de que Deus fará o que prometeu, embora as circunstâncias pareçam dizer o contrário. Essa fé, que espera pelo cumprimento da promessa, é ativa e se concretiza num determinado estilo de vida ou numa nova escala de prioridades, o que o texto de Lucas ajudará a entender.
2 Exegese O capítulo 12 do Evangelho de Lucas apresenta um discurso de Jesus dirigido a uma multidão (12.1), contra os ensinamentos dos fariseus. Esses procuravam motivos para acusá-lo (11.54). É desejo de Jesus que as pessoas confessem-no como Senhor e Salvador (v. 8). A pregação é interrompida por um dos ouvintes, que quer que Jesus interceda por ele numa questão de herança. Esse pedido leva Jesus a tratar do assunto “avareza”, ou o acúmulo de riquezas, o qual é reprovado. Jesus exorta à confiança no cuidado de Deus para com os seus (v. 29-30) e convoca os discípulos a buscarem o reino de Deus, na certeza de que suas necessidades serão providas (v. 31). É dentro desse contexto que nossa perícope se encontra, iniciando com uma promessa. A partir do v. 32 Jesus se dirige aos seus discípulos. V. 32 – Pequenino rebanho – Essa expressão tanto pode apontar para o grupo dos discípulos, pequeno no tamanho, ou ainda para o grupo dos verdadeiros cristãos, ainda hoje pequeno, como para o fato de que é para os pequenos, os fracos, os desconsiderados do mundo que Jesus faz a promessa. Vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino – Jesus deseja compartilhar sua glória vindoura com seus discípulos e com as pessoas cristãs fiéis e tementes a Deus. Ele deseja que seus seguidores e suas seguidoras reinem com ele na eternidade. V. 33 – Contrastando com a ideologia de nossa sociedade consumista, o discípulo deve servir ao seu próximo, vendendo seus bens e dando esmola; deve igualmente buscar juntar tesouros para a eternidade, que não são perecíveis como os tesouros da terra. V. 34 – Quando uma pessoa considera algo valioso, ela direciona seu coração (suas preocupações, suas prioridades) para esse algo, passando a viver em
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função de obtê-lo ou preservá-lo. Jesus quer que seus discípulos direcionem seu coração para o reino de Deus, fazendo dele o seu tesouro e aquilo que priorizam e buscam diligentemente, em oposição à ideologia do nosso mundo, que busca riquezas materiais. V. 35 – Cingido esteja o vosso corpo – é um passo para o estado de prontidão. O reino que os discípulos são convidados a buscar, do qual agora, pela fé em Jesus, já podem experimentar sinais, será instalado em definitivo com o retorno de Jesus. Cingir os lombos consistia em usar vestes longas, amarradas à cintura, que não impediam de fazer movimentos rápidos ou realizar um serviço pesado. Acesas as vossas candeias – as luminárias deveriam estar acesas para o caso de o chamado para o trabalho acontecer durante a noite, em horário inesperado. V. 36 – Jesus compara os discípulos a servos que devem estar dispostos a servir ao seu senhor, enquanto aguardam pelo seu retorno. V. 37 – Bem-aventurados os servos a quem o Senhor encontrar vigilantes. Quando o senhor chegar, ele avaliará de que maneira seus servos agiram e servirá aqueles que foram fiéis. O senhor que encontra seus servos em prontidão fica contente. Ele fica tão contente que inverte os papéis normais e os põe sentados à mesa, enquanto lhes serve uma refeição. A fidelidade será recompensada. V. 38 – Segunda... terceira vigília: no sistema de tempo romano, essas vigílias estariam entre 21h e 3h. No sistema judaico, elas ficariam entre 22h e 6h. Independente disso, Jesus está exortando para a vigilância constante. V. 39-40 – Ambos os versículos apontam para a hora incomum do retorno de Jesus, tarde da noite. Assim como não se pode prever a chegada do ladrão, não se pode calcular o dia e a hora do retorno de Jesus.
3 Meditação Uma multidão cerca Jesus. Ele tem muito a dizer. A essa altura de seu ministério, Jesus já havia proferido muitos discursos arrebatadores, feito muitos milagres, servido muitas pessoas. Sua fama já se havia espalhado. Onde ele está, uma multidão se aperta para escutá-lo. Mas, aparentemente, há um descompasso entre o conteúdo da pregação e o interesse dos ouvintes. Enquanto ele convoca as pessoas para recebê-lo como Senhor de suas vidas, há quem esteja mais preocupado com questões materiais (herança). Jesus aproveita a intervenção do ouvinte para condenar essa preocupação doentia com os tesouros da terra, com o acúmulo de riquezas. Essa, segundo Jesus, não deveria ser a questão maior da existência. Em vez de correr atrás de bens, de juntar tesouros, as pessoas deveriam ocupar-se com seu destino eterno. Na parábola, nos v. 16-21, ele lembra que a vida de um ser humano não consiste na abundância dos bens que ele possui (v. 15). E que mesmo o homem rico, cujo campo muito produziu, poderá não estar preparado para quando o seu fim chegar. Jesus, então, dirigindo-se especificamente aos seus discípulos, convida a uma vida de confiança na providência de Deus (v. 22-30) e a busca pelo reino (v. 31). Deus se agradará em dar esse reino aos seus, aos que por não acumularem tesouros aqui são pequenos aos olhos do mundo, mas reinarão com Cristo na eternidade.
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Justamente nessa promessa descrita no v. 32 está a motivação para o que Jesus propõe em seguida. Quem crê nessa promessa de reinar com Cristo na eternidade viverá de um modo novo aqui na terra. Essas pessoas passarão a ter novas prioridades. Não mais acumularão riquezas, mas venderão suas posses e darão esmolas. Disporão de seus bens para a obra de Deus e para o socorro ao necessitado; afinal, seu coração agora está na eternidade, e não nas riquezas. Aquele que crê na promessa de Jesus procurará estar sempre atento, pois Jesus, com seu reino, poderá chegar a qualquer momento. É importante permanecer vigilante: a filosofia consumista pode desviá-lo novamente de seu propósito de buscar a Deus e seu reino. Hoje, multidões continuam a cercar Jesus, ao menos no Brasil. Que querem essas multidões? Seria bom se estivessem em busca de conhecer Jesus, atender ao seu chamado por arrependimento e mudança de vida, sujeitar-se ao seu senhorio e dispor-se a ser instrumento dele na transformação do nosso mundo. Mas não! A exemplo daquele ouvinte apresentado por Lucas, que estava em disputa por herança, também hoje o que se quer é prosperidade material. Esta é a filosofia do nosso tempo: acumular tesouros, comprar, viajar, ostentar. E há igrejas dispostas a alimentar essa ideologia do consumo, apresentando Jesus como alguém que pode satisfazer a fome de riqueza. Mesmo as igrejas históricas, cujo discurso oficial não sustenta a chamada “teologia da prosperidade”, devem saber que entre os seus ouvintes há quem esteja mais preocupado com a posse de bens do que com a posse do reino de Deus. Ser rico, ter muitos bens materiais, garantir um presente e um futuro confortáveis e ostentar poderio econômico são valores tidos em nosso século como objetivos de vida a serem perseguidos, com vistas a uma existência feliz e completa. A razão da existência passa a ser o dinheiro. E tudo girará em torno dessa razão. Logo, já não há espaço para as coisas de Deus. Culto e vida devocional tornam-se supérfluos, senão estorvos. Servir e socorrer ao necessitado são atitudes que concorrerão com a busca desatinada por dinheiro. Mas, o fim de todos chegará. Nenhuma posse adquirida e conservada aqui na terra poderá ser levada para o além. Tudo o que se conquistou aqui, aqui ficará e apodrecerá. E o que teremos preparado para o encontro com Deus? Nada, pois não fizemos nenhum investimento na eternidade. Adquirimos tesouros na terra e para a terra, mas nada para a eternidade. Jesus vem. Ele instalará em definitivo o seu reino. E ele quer que compartilhemos com ele esse reino, que é maior e melhor do que qualquer bem terreno. É preciso crer nessa promessa, mesmo que aos olhos da cultura consumista ela não nos ofereça nenhuma vantagem imediata, como Abrão e Sarai, sem filhos e idosos, chamados a esperar contra a esperança. E enquanto se espera, é preciso servir e permanecer vigilante. Talvez o próprio mundo saia beneficiado, pois o que corre atrás de riquezas e ostentação contribui para uma existência injusta e excludente, enquanto o que espera pelo reino de Deus reparte seus bens, socorrendo o necessitado (v. 33).
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4 Imagens para a prédica Uma ilustração que poderá ser usada na prédica é a de correr atrás de tesouros e esquecer o que é mais importante. A caverna do tesouro Uma mulher pobre passeava com seu filhinho num bosque quando ouviu uma voz que vinha de dentro de uma caverna: – Aqui dentro há muito ouro, prata e pedras preciosas. Pegue o que quiser. Meio desconfiada, olhou no interior da caverna e constatou que, de fato, ela estava recheada de tesouros insondáveis. – Posso mesmo pegar o que quiser? – Sim, mas você poderá encher apenas uma sacola e terá apenas dois minutos para escolher o que quer levar. Depois desse tempo, saia correndo, pois a caverna se fechará para sempre com tudo o que ainda estiver aqui dentro. Pressionada pelo tempo e com tantas opções à sua frente, a mulher escolhia, juntava, trocava, destrocava, ajeitava os objetos na sacola, trocava novamente. – Agora você tem apenas 10 segundos… 9, 8, 7… Ela pegou mais umas pedras preciosas. – 6, 5, 4… Pegou mais um cálice de ouro e saiu correndo. Já do lado de fora, ainda teve tempo de assistir a entrada da caverna se transformando num imenso paredão de rocha. Olhou a sacola, avaliou o que havia conseguido juntar e concluiu que agora era uma mulher rica, que poderia dar ao seu filho uma vida melhor… – Meu Deus… meu filho! Na correria, esqueceu seu filho dentro da caverna. Para sempre!
5 Subsídios litúrgicos A oração a seguir pode ser feita em dois grupos. Trata-se de uma oração de compromisso. Queremos ser teus servos (Orígenes) Senhor, queremos ser teus servos e a ti pertencer. A ninguém mais queremos agradar, nem ao espírito da raiva, nem ao espírito da tristeza, nem ao espírito da cobiça. Ao teu chamado respondemos: veja, somos teus e isso queremos comprovar por nossas obras. Fizemos nossa promessa e a ninguém outro obedeceremos, pois somente tu, ó Senhor, és nosso Deus. Não reconhecemos nenhum outro deus, nem o estômago, como os glutões, cujo deus é a barriga;
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nem o ouro, como os avarentos; nem a avareza, que é idolatria; nem reconhecemos qualquer outra coisa como Deus, ou colocamos na mesma altura de Deus, como fazem muitos. Nosso Deus é aquele que está sobre tudo, que tudo traspassa e em tudo está. O amor a Deus é nosso único valor, pois o amor nos torna unos com Deus. E dizemos: veja, somos teus, pois és nosso Senhor Deus.
Bibliografia MORRIS, Leon L. Lucas: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1996. STÖGER, Alois. O Evangelho Segundo Lucas. Petrópolis: Vozes, 1973.
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PRÉDICA: HEBREUS 11.29 – 12.2 JEREMIAS 23.23-29 LUCAS 12.49-56
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18 AGO 2019
Odair Braun
Testemunhar a boa nova com perseverança
1 Introdução Jeremias 23.16-29 possivelmente tenha sido proferido num contexto de celebração, quando o profeta contesta a falsidade dos que diziam falar em nome de Deus. Isso gerava clima de desconfiança, pois a palavra e a verdade de Deus eram atingidas. Jeremias evidencia que da presença de Deus ninguém consegue se esconder. Ou seja, o mentiroso e falso, mais cedo ou mais tarde, é desmascarado. Cabe salientar que esse contexto de falsas profecias, de uso da palavra de Deus de modo distorcido, causava decepção ao povo que confiava. Sob esse prisma é oportuno olhar para a realidade religiosa brasileira. O profeta denunciava a irresponsabilidade dos líderes de então, assim como se opunha à alienação vivida pelo povo que, de certa forma, gostava de ouvir os falsos profetas. O que o profeta nos diria hoje? A profecia de Jeremias deve ser entendida no sentido de orientar o povo de então, assim como o povo de hoje, para que busque conduzir a vida e atuação ao encontro do projeto de Deus. Lucas 12.49-56 aponta para a verdade que do fogo advém purificação. O fogo depura. Ele limpa sujeira, transforma. Ou seja, para se chegar ao novo se faz necessário enfrentar transformações. Isso vale para o metal precioso, bem como para a vida pessoal. E a transformação que se faz necessária somente acontece quando se olha para Deus, para a atuação de Jesus Cristo, o iniciador e consumador da fé e esperança. A transformação ocorre quando se reconhece e quando há entrega nas mãos de Deus e aos seus cuidados. Ali se abrem as portas da superação e da vitória. Hebreus 11.29 – 12.2 procura apontar para tal realidade.
2 Exegese Hebreus 13.22 mostra uma autoapresentação do livro, definindo-o como uma carta de exortação. A carta possivelmente tenha sido escrita para uma comunidade que enfrentava tempo de estagnação. Em vista disso, o livro tinha como objetivo injetar ânimo nos participantes desse espaço de vida comunitária. A Carta aos Hebreus deseja que a comunidade perceba que ela tem papel importante no plano de Deus para com a humanidade e, especialmente, que a comunidade deve ter orgulho disso. Em vista disso, deseja que a comunidade e seus integrantes recobrem sua vitalidade e disposição para fazer frente às dificuldades. Neste sentido, Hebreus 13.9 mostra que a comunidade destinatária estava vulnerável frente às falsas doutrinas.
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E isso tinha que ser enfrentado. Em relação ao local de origem, autoria e destinatários, não há posição unânime por parte dos exegetas e pesquisadores. Porém isso em nada diminui a importância do texto e suas exortações. A estrutura de Hebreus apresenta os seguintes blocos: Hb 1.1 – 4.13 – Exortações e reflexões sobre a vocação cristã e suas implicações. Hb 4.14 – 10.18 – Núcleo da carta: Cristo o verdadeiro sumo sacerdote da nova aliança. Hb 10.19 – 13.25 – Exortação que apela para a seriedade da situação da comunidade e que requer sua posição e participação, bem como fidelidade. A passagem em estudo se encontra inserida no terceiro bloco, o qual, por sua vez, pode ser dividido em: Hb 10.19-39 – Exortação e desafios pastorais. Hb 11.1-40 – O papel da fé. Hb 12.1-29 – Exortação à perseverança e testemunho. Hb 13.1-25 – Exortações para a vida comum e para a caminhada da comunidade. Todo o capítulo 11 de Hebreus trata do tema fé. Tem como objetivo exortar e promover ânimo, visando à mobilização da comunidade destinatária. Assim sendo, é uma palavra desafiadora que temos diante de nós, razão pela qual ela mesma convida para deixar o peso para trás. Por isso cabe sempre perguntar: quais são os pesos, quais são os fardos atuais? Ou: o que nos impede de viver e seguir a vontade de Deus plenamente? O pecado (= peso) assedia as pessoas cristãs de todos os tempos. O pecado afasta da vontade e do desejo de Deus. Contudo, a vontade de Deus deseja que sejamos parte, que sejamos uma verdadeira nuvem de testemunhas. Por isso não pode haver isolamento e individualismo. A falta de luz e de sabedoria que se abate sobre os dias precisam ser enfrentados a partir do testemunho cristão. Portanto vida cristã requer ação e significa envolvimento. Equivale opor-se à passividade achando que tudo é assim como vemos, pois isso equivale à vontade de Deus. Pela fé somos e devemos nos mobilizar para fazer a diferença, para transformar aquilo que prejudica a vida. Hebreus 11.29 se refere à fé do povo conduzido por Moisés, a fé que os pôs em movimento para atravessar o mar de juncos. Hebreus 11.30 aponta que mesmo após a morte de Moisés o povo continuou deixando se guiar pela fé no que não se vê, mas no que se espera. Evidencia-se que a conquista de Jericó não foi só resultado de uma tática militar. Foi resultado da fé em Deus. Hebreus 11.31, no caso de Raabe, indica que foi a fé que proporcionou a decisiva ajuda para se entregar nas mãos de Deus. Em Hebreus 11.32-33 são mencionados cinco juízes e fala-se das façanhas da fé. Em Hebreus 11.34 se aponta para o fato do fogo perder sua virtude destruidora, consequentemente, também transformadora. Quando a fé esmorecer, ela também perde a capacidade de transformação. Em Hebreus 11.35 novamente se mencionam as façanhas da fé, e dali se passa a falar dos milagres da ressurreição. Hebreus 11.36 aponta para o fato da fé ser colocada à prova, no que se segue Hebreus 11.39, onde se observa um balanço geral apontando novamente
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para o papel da fé. Hebreus 11.40 indica que a comunidade deve ter presente o testemunho de fé, assim como deve estar consciente do privilégio de testemunha. Hebreus 12.1 mostra uma metáfora de corrida. O pecado precisa ser vencido, pois é ele que impede o triunfo. A perseverança é requerida e ela é indispensável para se chegar à vitória. Isso é testemunhado por uma nuvem de testemunhas. A afirmação “também nós” parece ser um convite, um chamado para seguir na mesma linha do exposto ao longo do capítulo 11. Também nós, um grupo, uma comunidade, uma nuvem de testemunhas, que aponta para os que podem ouvir, testemunhando e convidando para o compromisso da transformação. “Livremo-nos de todo peso” – do grego onkos, traduzido pela Almeida Atualizada por peso – dá a ideia de algo que pode atrapalhar, tirar da normalidade, questionar e desvirtuar do caminho. Hebreus admoesta para que todo peso, preocupação, aquilo que desvirtua e desvia do caminho seja posto de lado, para que possamos correr com perseverança. Em suma, mudar de rumo é preciso. Isso não é fácil, pois somos fortemente envolvidos e ficamos presos, às vezes estagnados. Para vencer esse quadro se requer perseverança. Hebreus 12.2 evidencia Jesus como iniciador e consumador da fé. A comunidade é peça fundamental nesse processo de vencer e superar as dificuldades que são enfrentadas. Contudo, sozinha fica difícil. Por isso Hebreus orienta a olhar com determinação e firmeza para o consumador da fé, Jesus Cristo, aquele que garante a vitória. Neste sentido, hypomonē = esperança não é algo que possa ser desenvolvido com facilidade. Equivale a ter atitude, disposição, coragem. Como pessoas cristãs, estamos numa luta constante, sendo necessário fixar os olhos em Jesus Cristo, a partir de quem tudo pode ser superado.
3 Meditação Vivemos tempos de competição e concorrência. Produzir é uma regra, independente das consequências. No reverso dessa moeda observa-se a luta pela sobrevivência de pessoas e do planeta, criação de Deus. A vida é atingida e desprezada. O espaço comunitário é desconsiderado e anulado. Da comunidade cristã se esperam atitude e compromisso. Ela precisa ser parte da nuvem de testemunhas para dizer que há como ser diferente. Fazemos parte deste mundo criado por Deus. E isso deve comprometer. A comunidade que recebeu a Carta aos Hebreus, na qual está inserido o texto da pregação, estava se distanciando da fé, pois possivelmente achava ser mais fácil viver sem esse compromisso. Com isso sua fé ia diminuindo. Isso também pode acontecer conosco. É fácil nos acomodarmos e nos distanciarmos do convívio comunitário, descuidando da fé. Mas, em contrapartida, temos o exemplo de Abraão, que não esmoreceu; lembramo-nos de Jó, que a cada provação se sentia mais perto de Deus. Ele não se resignou nem desanimou. Hebreus aponta para a necessidade das pessoas cristãs permanecerem firmes e confiantes na promessa de Deus. O texto coloca diante de nossos olhos uma arena esportiva, na qual somos atletas. Acredito que podemos perceber que
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a passagem em estudo propõe um profundo consolo, com o objetivo de nos situar a partir do exemplo dos nossos pais na fé. A partir do texto podemos perceber quatro pontos: • testemunho dos antepassados; • perseverança na corrida; • pensar em Jesus; • redenção através de Jesus. Hebreus 11.29 – 12.2 fala de uma jornada na qual caminhamos e que é colocada a nós, pessoas cristãs. Em nossos dias também há lutas e disputas nos diferentes contextos em que nos encontramos. Há a luta pelo espaço de trabalho, pelo sucesso pessoal, por realização, pelo bem-estar da família. Há a luta entre famílias, entre irmãos e irmãs que disputam espaços e heranças. Há luta e sonhos por dias melhores. Da luta da qual fala o texto de Hebreus há algo distinto. Em Hebreus não está em jogo o direito ou a capacidade dos mais fortes. Na luta proposta por Hebreus faz-se necessária a paciência, ou como diz o texto: Deixemos de lado tudo que nos atrapalha e o pecado que se agarra em nós. Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus. Paciência e perseverança são algo que necessitamos em toda parte e em tudo que fazemos e planejamos. Isso certamente todos sabem de experiência própria, não é fácil nem simples. O fio da paciência e da perseverança é tênue e pode ser rompido facilmente. Hebreus, ao falar da nossa luta, não põe em questão nossa força muscular física, mas põe em questão nossa capacidade. Perseverança e paciência são uma luta do coração, e não de forças físicas. Por isso é uma luta, uma jornada tão difícil e pesada. Vivemos em uma sociedade que julga e avalia pelo que produzimos. Uma sociedade do fazer. E o sinal maior dessa sociedade é a falta de paciência e perseverança. Tudo deve acontecer em um estalar de dedos ou num apertar de tecla de computador. Não há tempo para esperar, não há tempo para perder. Afinal, o capitalismo ensina: tempo é dinheiro. Queremos fazer e resolver tudo sozinhos. Por isso a luta do coração por paciência e perseverança é árdua e muitas vezes inglória. Como é a luta de nosso coração? Como estão nossa paciência e perseverança? Como lutamos com nossa falta de motivação? Para responder a essas perguntas também são necessárias paciência e perseverança. Elas precisam estar em tudo que fazemos e também naquilo que não conseguimos fazer, ou que precisamos deixar de lado. O agricultor precisa ter paciência e perseverança para lançar a semente na terra que, por sua vez, precisa do tempo certo para germinar, crescer e dar frutos. Nada pode mudar essa realidade. O enfermo precisa de determinados dias para se recuperar. Ficar nervoso e impaciente em nada vai ajudar. Pelo contrário, só prejudica. Perseverança e paciência são essenciais nas atividades comunitárias, onde sempre há aqueles que têm boas ideias, mas que, ao serem chamados para executá-las, ficam cheios de receio, pedem tempo para pensar e acabam não assumindo. Portanto, em todo lugar onde se espera alcançar transformação, fazem-se necessárias paciência e perseverança. Hebreus fala que essa luta apenas é viável quando olhamos para
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Jesus Cristo como o grande consumador da fé. Hebreus, no texto em questão, tem isso como pano de fundo. Ele diz: tomem Jesus como exemplo. Seu viver e seu sofrer devem nos ensinar. O sofrer de Jesus não é o sofrer de uma pessoa, mas o sofrer do próprio Deus. Contudo, tratava-se de um sofrer com paciência e perseverança. Na vida de Jesus, nesse seu lutar, persistir e perseverar, foi essencial a oração no Getsêmani, antes de ser detido. Teria sido possível seguir esse caminho, lutar essa batalha sem aquela oração? Nessa oração ocorre o discernimento. No meio da noite Jesus luta com seu Pai, com Deus e seus planos: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres (Mt 26.39). Erguer os olhos para Jesus quer nos fazer perceber o seu exemplo, quer fazer ver que Jesus fez o começo e mostrou o caminho pelo qual somos chamados a caminhar com perseverança e paciência. Paciência e perseverança só há lá onde nós nos deixamos presentear. Hebreus diz: Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, o autor e anunciador da fé. Jesus é começo e o fim. Ele percorre o caminho por nós. Não só o caminho da cruz, onde suas últimas palavras foram: Tudo está consumado! Mais uma vez paciência e perseverança! Aqui chegamos ao ponto nevrálgico da fé cristã: Jesus está ao lado de todos que sofrem. Ele está ao lado de cada qual. Vocês já experimentaram tal presença de Jesus? Ou já lhe aconteceu ter de visitar alguém e não saber como fazer, pois não encontrava as palavras certas? E, então, mesmo sem se sentir à vontade, você foi e teve um encontro abençoado. Você se lembra de algo semelhante que tenha ocorrido? Pois essa é a proximidade de Jesus. Jesus presenteia a paciência e perseverança que necessitamos para lutar no dia a dia; quer dizer que ele crê por nós quando a nossa fé fica fraca. O sofrer de Jesus no Gólgota o coloca no meio do nosso sofrer. Por isso manter os olhos fixos em Jesus significa colocar nosso sofrimento aos seus pés e dizer: Senhor, não consigo mais. Toma-me em tuas mãos e me guia. Jesus tudo pode consumar em nosso favor. Paciência e perseverança não podem ser fabricadas e revendidas no mercado da esquina. Somente podem ser recebidas de graça como presente vindo de Deus. Para tanto, fazem-se necessárias a entrega e a confiança em Deus. As coisas não são como nós queremos, e sim como estão propostas por Deus. Ao nos confiarmos plenamente nas mãos de Deus, receberemos paciência e perseverança. Por isso corramos com perseverança na corrida da nossa vida. Que possamos manter nossos olhos fixos em Jesus, o consumador de nossa fé, o Senhor da paciência e da perseverança.
4 Imagens para a prédica Não estamos numa comunidade cristã por mero acaso. Ali estamos porque somos chamados e chamadas pelo batismo a ser testemunhas de Deus, a correr com perseverança e fé. A corrida proposta é pelo reino de Deus. Por isso devemos estar livres, sem peso, sem fardos visando alcançar a vitória. Por isso devemos ser nuvem de testemunhas. Neste sentido, um possível roteiro para a pregação poderia ser: a) O que a fé faz e permite? Desafios.
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b) A carreira cristã – perseverança e regras. c) Nosso compromisso – transformação. d) O alvo a ser alcançado – vida eterna.
Bibliografia KUSS, Otto; MICHL, Johann. Carta a Los Hebreos. Cartas Católicas. Barcelona: Herder, 1977. MORA, Bartrés G. La carta a los Hebreos como escrito pastoral. Barcelona: Herder, 1975.
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PRÉDICA: LUCAS 13.10-17 ISAÍAS 58.9b-14 HEBREUS 12.10-17
11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
25 AGO 2019
Marcia Blasi Ketlin Lais Schuchardt
Como é viver encurvado?
1 Introdução Mulher, você está curada – disse Jesus. Palavras simples e fascinantes nos são apresentadas no evangelho previsto para pregação neste domingo. Palavras simples, sem gritaria nem alarde, transformaram a vida da mulher encurvada e das pessoas que presenciaram a cena. O relato não apresenta uma longa lista de pedidos e súplicas manifestados pela mulher. Na verdade, a mulher nem ousou solicitar uma cura. É Jesus quem a vê, chama, toca e cura, libertando-a de viver “encurvada”. Os textos que acompanham o evangelho também estão centrados na libertação e na promessa de vida boa. Isaías revela como é maravilhosa a promessa de Deus para todas aquelas pessoas que praticam a justiça, que vivem a solidariedade e se auxiliam mutuamente. A comunidade de hebreus também é chamada a viver com esperança e fé: Levantem suas mãos cansadas e fortaleçam os seus joelhos enfraquecidos (v. 12). Lucas 13.10-17 foi trabalhado no Proclamar Libertação 37. Como já foi dito lá: “O tema que perpassa as leituras é o projeto de libertação de Deus. A libertação acontece em diferentes tempos e lugares, onde as pessoas clamam por ajuda e onde já não têm mais forças para lutar” (Blasi, 2012, v. 37, p. 257).
2 Exegese A narrativa da cura de uma mulher por Jesus num sábado, enquanto ele ensinava na sinagoga, é contada apenas por Lucas. O texto enfatiza a missão de Jesus e o seu compromisso de vida plena para todas as pessoas. Jesus “usa” a cura para auxiliar as pessoas que estão na sinagoga a pensar como vivem e seguem as leis do sábado. O texto inicia com a informação de que era sábado e Jesus estava numa sinagoga ensinando. O sábado era dia de descansar, aprender e ouvir a palavra de Deus na sinagoga. Pela tradição, sábado era dia de dedicar-se somente a Deus. Portanto não era permitido trabalhar. Era permitido dedicar-se ao convívio familiar e, aos homens, estudar a Torá. Enquanto Jesus ensinava, entrou na sinagoga uma mulher que, por apresentar uma enfermidade, provavelmente era vista como impura. Mesmo assim,
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podemos suspeitar que a presença dela ali implicasse uma devoção habitual. Isso explicaria também a fé que a tornou capaz de receber o poder curador de Jesus. O texto ressalta que por 18 anos andava encurvada em consequência de um “espírito de enfermidade”. A mulher estava doente e não conseguia se endireitar. Possivelmente tinha dificuldades e não conseguia olhar nos olhos das pessoas. Essa mulher enferma recebe de Jesus o anúncio de que foi “liberta” (apolyo) de sua doença. Apolyo – no grego – pode ser traduzido por “libertar” ou “mandar embora”. Jesus não aguardou a permissão de quem quer que seja e, repleto de compaixão, proferiu a ordem no meio da reunião, curando a mulher. A consequência das palavras de Jesus é que ela anōrthōthē (foi endireitada novamente ou restaurada). Jesus restaura e liberta a mulher e garante sua pertença ao povo da aliança, mencionando que ela é filha de Abraão. Com a cura, a mulher passou a se movimentar com liberdade e proferir palavras de louvor e gratidão a Deus. O chefe da sinagoga não se mostrou de acordo com o acontecido. Apesar de Isaías ter profetizado sobre a libertação das pessoas cativas e oprimidas, o chefe da sinagoga não conseguiu perceber a ação de Jesus como cumprimento dessa profecia, como ato de misericórdia, apenas como trabalho e descumprimento da lei. Não sem motivos, o homem é chamado de hipócrita. Em sua fala, ele acusa a mulher de ter vindo buscar a cura num sábado. Segundo ele, a mulher deveria vir à sinagoga para ser curada em dia útil da semana, como se ela já não tivesse feito isso nesses 18 anos. Mas esse texto não revela nenhuma ação da mulher, sendo assim injusta a acusação do chefe da sinagoga. As palavras sábias de Jesus abriram caminhos para a experiência da graça de Deus. Nesse encontro e cura, Jesus mostra mais uma vez que veio para libertar as pessoas cativas de qualquer cativeiro em que estiverem sendo mantidas. O povo agradeceu a Deus e se alegrou por todas as coisas gloriosas.
3 Meditação O Evangelho de Lucas conta a história de uma mulher encurvada durante 18 anos. Não foram 18 dias nem 18 meses, mas 18 longos anos! Segundo a cultura e religiosidade da época, a compreensão é que uma pessoa ficava doente por ação de um “espírito mau”, e com isso também era considerada impura. O que fica evidente é que ela não tinha nenhum poder para mudar aquela situação. A mulher vivia numa situação de profunda e dolorosa vergonha. Viver “encurvada” faz parte da experiência de muitas pessoas. Encurvadas pela violência, pela pobreza, pelo medo, pela doença, pelos sentimentos de culpa e vergonha, ou mesmo uma mistura de tudo isso. Há uma tendência a culpabilizar as pessoas pelo mal que sofrem. Isso era realidade na época de Jesus, quando doenças eram associadas a pecados e resultado do castigo divino (veja Jo 9.3). Essa compreensão ainda se faz presente na sociedade atual, mesmo que expressa de forma diferente. O preconceito e a discriminação ainda presentes na vida das pessoas que convivem com o vírus HIV, que eram muito mais “visíveis” nos anos 1980 e 1990, revelam que não estamos tão distantes daquela compreensão dos tempos bíblicos.
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A culpa e a vergonha colocadas sobre os ombros de pessoas também encurvam e impedem o convívio em família e comunidade. A culpa, resultado de ações ou atitudes, de fazer algo errado, é muito mais fácil de ser remediada e perdoada. Com a vergonha é mais difícil. A vergonha não tem a ver com atitudes, mas com a compreensão de que somos pessoas indignas e não boas o suficiente. A vergonha é o sentimento de que tem algo muito errado com o próprio ser. No texto de Lucas, a mulher poderia estar encurvada pela vergonha de sua situação. Ela tinha uma doença (espírito mau) e a cura estava fora do seu controle. Durante os longos 18 anos ela deve ter se perguntado muitas vezes: Por que eu? O que foi que eu fiz para merecer isso? Ela estava tão encurvada na sua insignificância, que entrou na sinagoga e nem pediu pela cura. Talvez nem tenha visto quem ali ensinava. Provavelmente já tinha perdido a esperança de que algo mudaria. Mas Jesus a viu, compadeceu-se da condição dela e a curou. A mulher viveu uma experiência de graça. A graça veio e a encontrou ali onde ela estava: Mulher, você está curada! A mulher é tocada e se endireita. Ela faz a única coisa que alguém profundamente tocada pela graça pode fazer: louva a Deus!
4 Imagens para a prédica Explorar com a comunidade como é viver encurvado. Antes de iniciar a leitura do evangelho, convide a comunidade a se colocar em pé e se encurvar para ouvir a leitura do texto bíblico. Combine que as pessoas podem se levantar quando ouvirem as palavras de Jesus “Mulher, você está curada!”. Reflita com a comunidade sobre a experiência de ficar encurvado. Como as pessoas se sentiram? O que elas viram? O que doeu? O que você, como pregadora ou pregador, viu e sentiu? Como seria viver assim por longos 18 anos? Como é ouvir as palavras de libertação? O que faz uma pessoa ficar encurvada? A pregação a partir daqui pode ser conectada com experiências vivenciadas no ministério local: violência doméstica, luto, doenças graves, racismo, pobreza, medo. O que “encurva” as pessoas na comunidade? Como a vergonha é experimentada pelas pessoas? É muito importante deixar bastante claro que a libertação é projeto de Deus para todas as pessoas. Muros, preconceitos, interpretações que nós fazemos não limitam o amor e a graça de Deus, mas ferem, desanimam e deixam pessoas encurvadas. Nós somos convidadas e convidados a participar como colaboradoras e colaboradores de Deus para a libertação, servindo com os dons que de Deus recebemos. A partir da fé, podemos confiar no amor e na graça de Deus, afinal há coisas que não conseguimos explicar e que estão fora do nosso controle (isso faz parte de nossa humanidade). Há muitas maneiras de experimentar a cura, e de graça. Algumas vezes Deus nos fala por pessoas amigas, por abraços carregados de carinho, por visitas que parecem ser de anjos. O amor e a graça de Deus nos encontram onde estivermos, estejamos preparadas e preparados ou não. O certo é que Deus age e liberta.
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5 Subsídios litúrgicos Hinos
Livro de Canto da IECLB, 613: Canto de esperança; 605: Momento novo.
Oração (Oração pelas coisas que surgem, de Jan Richardson) Por todas as coisas surgindo do esconderijo das sombras, do peso do desespero, do quebrantamento da dor, das restrições de conformidade, da rigidez dos estereótipos, da prisão do preconceito; por todas as coisas surgindo na vida, na esperança, na cura, no poder, em liberdade, em justiça; oramos, ó Deus, para todas as coisas surgindo.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millennium, 1982. 6 v. BLASI, Marcia. Lucas 13.10-17. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2012. v. 37, p. 257-261.
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PRÉDICA: ECLESIASTES 10.12-18 LUCAS 14.1,7-14 HEBREUS 13.1-8,15-16
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01 SET 2019
Joel Haroldo Baade Aline Danielle Stüewer
A verdadeira sabedoria
1 Introdução Os textos previstos para leitura apontam para a importância da sabedoria. No texto de Eclesiastes 10.12-18 faz-se uma justaposição da tolice e da sabedoria. Em determinado momento da leitura, não se sabe ao certo quem é o sábio e quem é o tolo. No texto também se fazem referências a contextos de mesa, de comer, para que se possam recuperar as forças como ação digna de louvor e a refeição como ação de bebedice ou banquetear-se. O texto do evangelho, por sua vez, tem como lócus um contexto de mesa. Jesus chega à casa de “um dos principais dos fariseus” e observa as pessoas tomando os primeiros lugares. Diante disso, propõe-lhes uma parábola. De alguma forma, tanto em Eclesiastes como no evangelho, tolice e sabedoria são colocadas lado a lado, com a diferença de que no evangelho fica explícito em que reside a verdadeira sabedoria, qual seja, de ouvir o ensinamento de Cristo. O texto do evangelho destaca a humildade e a hospitalidade como atitudes sábias. Em Hebreus 13.1-8,15-16 há uma exortação à verdadeira sabedoria, que está em nosso Senhor Jesus Cristo. As pessoas cristãs são exortadas para o exercício constante do amor fraternal e que dos seus “lábios” frutifiquem sacrifícios de louvor.
2 Exegese Uma questão fundamental em Eclesiastes e que também se evidencia no texto indicado para pregação é a justaposição de tolice e sabedoria. Há momentos em que não se sabe o que é uma ou outra. Eclesiastes, aliás, conforme Schmidt (2004, p. 416), radicaliza a questão da limitação do conhecimento humano e, finalmente, a transforma em dúvida (6.12). Interessante observar que no livro de Eclesiastes o nome de Deus não é referido, ficando em segundo plano. De qualquer forma, Schmidt (2002, p. 314) propõe um questionamento que Eclesiastes estaria propondo a seus leitores: “a profissão de fé no Deus que atua, mata e vivifica na história (1Sm 2.6), essa profissão de fé se mantém firme diante da experiência individual do mundo e da vida?”. Na comparação entre as diferentes versões do texto, encontram-se diferenças substanciais. O texto de Almeida (Almeida Revista e Atualizada – ARA), por fazer uma tradução mais literal do texto original, emprega vocabulário não
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mais tão acessível ao ouvinte contemporâneo. Uma análise versículo a versículo é necessária para subsidiar uma recomendação de leitura no culto da comunidade. Três versões foram levadas em consideração: ARA, Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e Jerusalém (JER). V. 12 – Na primeira parte do versículo, ressalta-se o sábio e o que ele recebe pelas palavras que profere. ARA destaca que nelas “há favor”; NTLH enfatiza os elogios recebidos; e JER acentua o agrado que elas proporcionam aos ouvintes. Na segunda parte, em contraposição, coloca-se o tolo (ARA e NTLH) ou o insensato (JER) e a destruição (NTLH) e ruína (JER) que ele prova a si mesmo pelas palavras que profere (NTLH). ARA e JER preferem empregar o termo “lábios” e ARA ainda acentua que o tolo é “devorado” pela própria boca. Embora a leitura de ARA não seja fluida ao nosso ouvinte, essa imagem pode ser explorada na mensagem. Observe-se que na leitura da epístola também há uma referência aos lábios das pessoas cristãs, pelos quais se propagam sacrifícios de louvor e não proferem tolices. V. 13 – Neste versículo se acentuam a “estultícia”, a “loucura perversa” (ARA), as “tolices”, as “coisas absurdas e más” (NTLH), a “insensatez” e a “tolice perversa” (JER) que há nas palavras da pessoa tola e/ou insensata. De qualquer forma, prevalece a ideia de que nada se aproveita do início ao fim do que sai de sua boca. V. 14 – Segundo o texto, o “estulto” (ARA), o “tolo” (NTLH) ou o “néscio” (JER) “multiplicam as palavras” (ARA e JER) ou “não para de falar” (NTLH), mesmo que não se saiba “o que vai acontecer amanhã” (NTLH). ARA e JER empregam o termo “homem” aqui, para explicitar o sujeito da ação. NTLH prefere apenas o pronome “ninguém”. Por fim, conclui-se com uma pergunta: quem sabe o que virá depois? JER e ARA apenas empregam “depois dele” e NTLH interpreta o texto como uma referência à morte. V. 15 – Da mesma forma, como as palavras “tolo” e “insensato” são vãs, é também o seu trabalho. Ele não sabe ir à cidade (ARA e JER) ou “nem consegue encontrar o caminho de casa” (NTLH). E, assim, seu trabalho também resulta em “fatiga” (ARA e JER) ou “esgotamento” (NTLH). Literalmente, NTLH aponta a direção oposta em relação ao percurso do tolo, mas o sentido do texto está preservado. A questão é “não saber o caminho” e, como diz o ditado, para quem não sabe aonde quer ir, qualquer caminho serve. V. 16 – Nos v. 16 e 17 há uma mudança da terceira para a segunda pessoa no discurso. As palavras agora são dirigidas diretamente ao ouvinte. Apenas ARA e JER preservam essa mudança. O texto inicia com a ênfase: “ai de ti”. E, então, explicita-se o alvo do alerta: o “país” (JER e NTLH) ou “terra” (ARA). O alerta é para que não se deixe governar por “rei” (ARA) ou “governo” (NTLH e JER), que é “criança” (ARA), “jovem” (JER) ou, então, que “se deixa levar pela opinião dos outros” (NTLH); de igual modo, são um risco os governantes que se “banqueteiam” (ARA), que “comem” (JER) ou “se divertem” (NTLH) desde o amanhecer. Deve-se aqui ter o cuidado para não identificar a tolice de que se fala nos primeiros versículos com a criança ou jovem presentes no culto. Eles são parte importante da comunidade e associar a eles, às vezes, o mau andamento da comunidade ou até mesmo do país constitui um grande erro. NTLH parece
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ter sido feliz em sua interpretação, pois dá a ideia de que o verdadeiro perigo é a pessoa que não tem opinião própria, que se deixa levar por qualquer falácia. O verdadeiro tolo não é o que profere palavras sem sentido, mas o que acredita nelas e as leva adiante. V. 17 – Aqui, por sua vez, é elogiada a terra governada por “filho de nobres” (ARA e JER) ou “por quem toma as suas próprias decisões” (NTLH); cujos “príncipes” (ARA e JER) ou “autoridades” (NTLH) se sentam à mesa no tempo certo e não para “bebedice” (ARA), “beber demais” (NTLH) ou para se “banquetearem” (JER). V. 18 – O texto finda com um ditado. A “preguiça” (ARA e NTLH) ou as “mãos preguiçosas” (JER) fazem desabar o teto (ARA e JER) ou não consertam o telhado (NTLH). Pela frouxidão das mãos (ARA) ou braços (JER) goteja a casa. Ela produz “goteiras” e a “casa cai” (NTLH). Com base na análise, sugere-se a leitura de NTLH para a comunidade, mas retomando termos e expressões das outras versões durante a alocução, de modo a explicitar e enfatizar expressões que possam auxiliar na melhor compreensão do texto. Quanto à temática, depois da análise versículo a versículo, pode-se retomar a pergunta proposta por Schmidt: A fé em Deus subsiste à realidade de incertezas? O que é a sabedoria? O que é a vida? Quem sabe o que há de vir? Uma vez que os outros textos bíblicos enfatizam a questão da sabedoria, sugere-se focar a prédica no tema “sabedoria”. O que é ser uma pessoa sábia conforme o texto de Eclesiastes?
3 Meditação Vivemos num mundo dominado pelas mídias sociais. Toda pessoa hoje tem a liberdade e a facilidade de tornar pública a sua opinião. Podemos facilmente nos comunicar com pessoas do mundo inteiro. Infelizmente, muitas pessoas usam essa facilidade para falar de assuntos que desconhecem, jogando nas redes sociais palavras tolas, sem conhecimento e sabedoria. O texto de Eclesiastes ressalta que “a pessoa tola diz tolices, e acaba falando coisas absurdas e más”. Quantas pessoas já foram machucadas por terem suas vidas difamadas e expostas nas redes sociais. A palavra de Deus lembra que as palavras podem ser usadas para exaltar ou machucar. A pessoa sábia, aquela que segue os ensinamentos de Deus, prefere permanecer em silêncio a deixar que da sua boca saiam palavras de ódio, rancor, racismo, discórdia, maldade. Como diz o ditado: “Deus nos deu dois ouvidos e somente uma boca para ouvir mais e falar menos”. A pessoa tola sempre responde antes de ouvir. Ela não para de falar. Ela sabe de tudo, mas na verdade não sabe nada. Quais palavras sua boca tem pronunciado? Você tem escolhido com sabedoria as suas palavras? Alguma vez nessa semana você mentiu? Você fez alguma fofoca? Você rebaixou alguém? Você falou algum palavrão? Você falou mal de alguém? Você gritou com alguém? Você falou com alguém de forma arrogante, achando-se o dono da verdade? Lembre-se: a verdadeira sabedoria está no ouvir. A pessoa sábia é humilde diante de Deus. E a humildade impede a arrogância. Somente a pessoa tola usa as palavras para falar coisas absurdas e más. Ou será
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que alguma vez nessa semana você agradeceu alguma gentileza, pediu desculpas, falou o quanto gosta de uma pessoa, falou da sua fé em Jesus, orou por quem precisa? Falou palavras de bênção? O ser humano tem diante de si o caminho da sabedoria ou da tolice. A pessoa tola é tola em suas palavras e em suas atitudes. Não tem bom senso. Fala e faz aquilo que a sabedoria humana prega. Jesus Cristo é a sabedoria encarnada de Deus. Ele nos ensina que a boca fala do que o coração está cheio. Um coração sábio é humilde, verdadeiro, gentil e amoroso. Uma pessoa sábia ouve e pratica os ensinamentos de Jesus, e suas palavras são um louvor a Deus, conforme o texto de Hebreus. As palavras da pessoa sábia são de bênção. Elas produzem vida através daquilo que transmitem. O mundo pode achar tola a pessoa que, mesmo diante de uma ofensa, prefere se calar; o mundo pode achar tola a pessoa que devolve o ódio com palavras de amor; o mundo pode achar tola a pessoa que pede perdão. Mas tola é a pessoa que age de forma contrária à palavra de Deus e se afasta dos seus ensinamentos. A verdadeira sabedoria está em praticar e viver o evangelho de Jesus Cristo.
4 Imagens para a prédica A história das três peneiras pode ser usada para destacar que a pessoa sábia não fala tudo aquilo que lhe vem à mente, mas guarda a sua boca para falar somente palavras que edificam e geram amor e bondade. As três peneiras Um rapaz procurou Sócrates, o filósofo, e disse-lhe que precisava contar-lhe algo sobre alguém. Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou: – O que você vai me contar já passou pelas três peneiras? – Três peneiras?, indagou o rapaz. – Sim! A primeira peneira é a verdade. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, a coisa deve morrer aqui mesmo. Suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a bondade. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a necessidade. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta? Arremata Sócrates: – Se passou pelas três peneiras, conte! Tanto eu como você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos, colegas do planeta.
5 Subsídios litúrgicos Oração Ó Senhor, faze de mim um instrumento de tua paz: que eu pratique o amor onde as pessoas se odeiam; que eu perdoe onde elas se ofendem; que eu apazígue onde há inimizade; que eu diga a verdade onde domina o engano; que eu leve a
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fé para onde a dúvida pressiona; que eu suscite esperança onde o desespero faz sofrer; que eu acenda uma luz onde a escuridão domina” (Da Normandia, cf. Senhas Diárias de 27/06/2018). Sugestão de hinos Livro de Canto da IECLB: 609: Palavra não foi feita; 87: A lei do Senhor é perfeita; 170: Meu irmão, tu precisas falar com Jesus.
Bibliografia SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2002. SCHMIDT, Werner H. A fé do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2004.
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13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: LUCAS 14.25-33
08 SET 2019
DEUTERONÔMIO 30.15-20 FILEMOM 1.1-21
José Kowalska
Sente-se e faça cálculos
1 Introdução
Neste domingo do Tempo Comum, vemos o que significa ser parte da igreja, de seguir a Cristo, quais suas implicações e necessidades. O texto de Lucas, base da prédica, dá o tom nesse sentido. Duas são as exigências básicas de Jesus para o discipulado: consciência e coerência. Com esse mesmo pensamento, encontramos o texto de Deuteronômio, que acompanha o evangelho. Às pessoas das tribos de Israel é pedido que escolham entre seguir ou não a Deus. No caso de Deuteronômio, temos uma longa lista de consequências da opção realizada ou desejada, que podem ser bem resumidas no v. 19a: [...] te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Sobre a leitura da Carta a Filemom, podemos indicar que é o único domingo no lecionário para lermos a quase totalidade dela. À primeira vista, pode-se dizer que não está relacionada com a questão do discipulado. Talvez não com a teoria, mas podemos considerar que nessa carta encontramos a prática do seguimento a Jesus. Filemom pode receber de volta Onésimo, seu escravo, como irmão na fé a partir do pedido de Paulo. Mas a base disso é o amor e a fé que Filemom tem no Senhor Jesus. O texto já foi trabalhado em quatro oportunidades no Proclamar Libertação: PL VIII, PL 20, PL 26 e PL 37.
2 Exegese Em nossa perícope, o evangelista Lucas utiliza dois ditos (tomar a cruz e amar mais do que a família) na formação de uma nova explicação sobre o discipulado. Essa não é inteiramente partilhada nos evangelhos sinóticos. Tomar a cruz, encontramos em Mateus 10.38; 16.24; Marcos 8.34 e em Lucas 9.23. Enquanto que amar mais do que a família, encontramos somente em Mateus 10.37. Em Mateus 10.34-39, deparamo-nos com ambos os ditos, porém são usados para reforçar que os discípulos enfrentarão problemas. Qual a direção desta vez? Os exemplos dão o tom: planejamento e preparação para entrar no discipulado. Estrutura: v. 25 – Introdução v. 26-27 – Quem não pode ser meu discípulo v. 26 – Quem não aborrece elos de sangue
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v. 27 – Quem não toma a sua cruz e me segue v. 28-32 – Exemplos de planejamento v. 28-30 – Cuidado para terminar uma torre v. 31-32 – Cuidado para reagir adequadamente diante de outro rei v. 33 – Conclusão: O discípulo deve renunciar a tudo No v. 25, encontramos um certeiro início da perícope, com separação definida em relação ao texto anterior. O mesmo não pode ser dito em relação ao final da perícope. Poder-se-ia ter incluído os v. 34 e 35, ainda que seja um dito isolado, pois é a sequência lógica dos v. 25-33. Além disso, terminaria toda a perícope com “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, uma formulação clássica de fechamento. As grandes multidões motivam Jesus a ter uma postura. Muitas pessoas que seguem Jesus agora são defrontadas com as exigências do discipulado. Ditas exigências são desenvolvidas através de uma parte conceitual (v. 26-27) e outra exemplificada (v. 28-32). No v. 26, temos a primeira grande diferença entre as traduções, miseō é traduzido por “amar mais do que ama a” ((NTLH e NAA), “ama o... mais do que a mim” (NVI) e “aborrece” (ARA). Miseō, literalmente, significa odiar, detestar, aborrecer. Essa palavra está, por exemplo, na raiz de misógino (quem tem aversão por mulheres). Sendo assim, o sentimento é outro do que amar. Ainda que os povos semitas utilizem amor e ódio onde o pensamento ocidental indique interesse ou indiferença, estamos diante de uma questão relacionada com o pensamento de uma só lealdade. Aqui é exigido que os elos de sangue sejam colocados em segundo lugar, ou pior ainda, que até a própria vida (psychē) esteja sob o desígnio do Mestre. Também no v. 26 temos a primeira aparição de “não pode ser meu discípulo”, as outras duas acontecerão no v. 27 e 33. Estamos diante da consequência pelo não cumprimento da exigência. Aqui, “poder” (dynamis) está relacionado com capacidade ou habilidade de ter poder ou força para realizar alguma coisa. O discípulo (mathētēs) apresenta-se na acepção de aprendiz, pupilo, aluno. Nos v. 26 e 27, a NTLH traduz simplesmente como “seguidor”. Então podemos entender que quem não consegue realizar aquilo que Jesus pede não pode entrar no círculo dos estudantes do mestre. O v. 27 mostra a outra exigência: “carregar a sua cruz”. Sendo a cruz elemento de tortura, evidencia-se a radicalidade do que significa ser discípulo. As pessoas que estão no entorno vivencial de Jesus podem ser acusadas de perturbadoras da ordem estabelecida pelos romanos e terminar penduradas numa cruz, assim como aconteceu com o Mestre. Talvez isso mostre o receio de Pedro ao ser reconhecido no pátio do lugar do julgamento de Jesus. A NTLH já faz essa elaboração teológica e traduz como “quem não estiver pronto para morrer como eu vou morrer”. Jesus apresenta dois exemplos (v. 28-30 e 31-32), que os seus ouvintes deviam entender facilmente. Ambos os casos são condicionados a um exercício de previsão e planejamento para evitar iniciar a ação sem possibilidade de conclusão com exatidão, de acordo com o previamente estabelecido.
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Nos v. 28-30, lemos o caso da construção de uma torre. O executor é lembrado que antes de qualquer coisa, primeiro deve sentar-se para fazer os cálculos, evitando dessa forma o problema da exposição ao ridículo e à zombaria das pessoas, não somente da própria família, mas de qualquer um que passasse pelo lugar da construção inacabada. Iniciar e não terminar é o motivo principal da chacota. Nos v. 31-32, vemos o segundo caso: o de um rei enfrentar o outro. Aqui temos o rei que deve deliberar, considerar (bouleuō) se pode enfrentar outro que é mais numeroso, porém talvez menos forte. Se o rei deliberar que não pode enfrentá-lo, enviará uma comitiva para combinar um acordo de paz, evitando assim ter entrado numa guerra sem sentido, pois somente derramaria sangue e não obteria um possível resultado satisfatório. Nosso texto de estudo termina no v. 33. Talvez por isso, no final do v. 32, temos “Jesus terminou dizendo” como adendo não bíblico ao texto da NTLH. Na conclusão, temos pela terceira vez a aparição da ideia “não pode ser meu discípulo” (aqui também a NTLH acompanha as outras traduções de mathētēs como discípulo). Agora relacionada com a ideia de apotassetai, ou seja, despedir-se, dizer adeus, aqui em sentido figurado como “renunciar” a tudo aquilo que uma pessoa pode ter à sua disposição, sejam suas possessões ou propriedades (naquele contexto, a família é incluída). Podemos encerrar a parte exegética com a certeza de que o seguimento a Jesus, no discipulado, é exigente, seja porque é necessário relativizar as relações familiares (v. 26), porque pode custar literalmente a vida (v. 27) ou porque é necessário relativizar até aquilo que se tem como próprio, seja a vida (v. 26) ou tudo aquilo que se tem (v. 33). Os dois exemplos mostrados por Jesus somente reforçam a necessidade de saber as consequências do discipulado, seja pela zombaria de uma obra não concluída (v. 28) ou de uma guerra perdida (v. 31).
3 Meditação O texto apresenta-nos a necessidade de sentar-se e fazer cálculos para ver se é possível ser discípulo/discípula de Jesus. Será que as pessoas levam a sério a sua entrada no discipulado? Como poder resgatar a seriedade do discipulado? Em Lucas, temos um chamado aberto ao discipulado. Mas um discipulado verdadeiro é cem por cento radical. Estamos diante de um Jesus que não aceita um discipulado de domingo de manhã, como alguns querem, menos ainda um discipulado quando convém, aquele que lembra de Deus nas dificuldades ou quando quer batizar ou sepultar. Por que há tantos cristãos de “meia tigela”, que não conseguem seguir com sua fé de forma sincera e sem desvios ou atalhos? O que Jesus apresenta em nosso texto é um discipulado que abandona “tudo”, pois do contrário não é discipulado. As consequências do discipulado são reais, não são optativas, devem ser assumidas. Na época em que foi escrito o Evangelho de Lucas, discipulado não era algo que se aceitasse superficialmente. Discípulo, discípula só depois da devida deliberação e do reconhecimento do possível sacrifício, que podia ser até total ou definitivo.
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É a pessoa que vive o discipulado a que relativiza tudo para poder entregar-se ao absoluto. Que deixa de lado as relações humanas, sabendo que a relação com Deus é a mais importante, ainda que seja a mais difícil de manter. Por que Jesus coloca esse alerta? Para advertir do custo do discipulado. Seguir a Cristo no caminho da cruz não é para qualquer pessoa. Jesus conhece a humanidade, por isso alerta. Quem pode cumprir as exigências de Jesus? Nem Jesus conseguiu, pois ele mesmo pediu ao Pai para afastar o seu cálice. Qual apóstolo conseguiu fazer o que Jesus pediu? Depois da morte de Cristo, encontramos os apóstolos de volta na Galileia aos seus afazeres como pescadores. Jesus quer se colocar como mediador entre a pessoa e o seu entorno, não somente entre a pessoa e Deus Pai, mas também entre as relações neste mundo. Por isso a família passa a ser mediada também através de Cristo. Se uma relação impede o seguimento de Cristo, essa deve ser deixada de lado. As pessoas tornam-se seres solitários para encontrar um novo sentido na relação com Jesus. “Todos entram sozinhos no discipulado, mas ninguém fica sozinho nele” (Bonhoeffer, 2001, p. 54). A cruz não é um destino desventurado. A cruz é resultado natural do relacionamento com Cristo. “[...] ‘tome a sua cruz’. Ela já está preparada desde o início; falta apenas levá-la [...]. Cada qual tem que suportar a medida de sofrimento e rejeição que lhe é reservada” (Bonhoeffer, 2001, p. 44). A exortação de Jesus de tomar a cruz conduz à morte. Neste caso, morte de vida anterior como, por exemplo, Lutero, que abandonou o mosteiro ao encontrar sentido no discipulado. Até os mártires que sofrem por seguir a Cristo veem em seu martírio a bem-aventurança da vida sob a guia de Cristo. A cruz transforma o sofrimento. O discipulado é uma nova forma de viver a partir da comunhão com Jesus. Percebe-se a cruz não como fim, mas como partida da vida cristã. Ser discípulo é deixar de lado aquilo que nós temos, nossos preconceitos, nossas ideias preconcebidas. Temos que nos esvaziar para poder ser guiados por Deus. É uma via complicada neste mundo, que prega a autoestima como força maior. O discípulo deve anular-se (eliminar suas limitações) para poder servir a Deus e ao próximo. Nossas aversões não podem ficar acima daquilo que é o evangelho. Que testemunho nós estamos dando ao mundo de Cristo? Isso é feito a partir de nossos preconceitos ou a partir dos conceitos de Deus? Por qual lógica você é guiado? Quanto você está disposto pelo discipulado? Qual seu compromisso? Você está junto de Deus em todos os momentos da sua vida ou somente quando convém? Em nossas comunidades, quantos são membros de fichário e quantos são discípulos? É difícil de indicar, se não humanamente impossível. Essa é uma dura realidade que devemos suportar como instituição. Nos dias atuais, o texto da perícope em estudo mostra-se como uma exortação a não se esquecer das consequências de um verdadeiro discipulado. Como pregadores e pregadoras, somos chamados a questionar novamente as pessoas que se acreditam discípulas de Jesus e devemos mostrar que o discipulado não é um simples jogo de faz de conta.
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4 Imagens para a prédica – Podem ser utilizadas as imagens dos exemplos do texto: a construção e a possibilidade de entrar em guerra. Trabalhar a construção pode ser mais simples para adequar à realidade local. – Ao entrar no discipulado, as pessoas são alertadas do que significa isso. Como um médico/uma médica, um pastor/uma pastora, um/a policial, ao assumir o cargo, sabe o que significa exercer esse cargo. Quando um pastor ou uma pastora é ordenado/a, assume um compromisso público diante de Deus, da comunidade reunida e da instituição à qual está relacionando-se para seguir certos regulamentos e normativas. – Vestir a camiseta: ser discípulo/discípula de Cristo é realmente se dedicar, colocando todo o seu esforço no seguimento a Jesus. Ao contrário, encontramos a imagem do mercenário que trabalha ou serve somente visando ao lucro, sem nenhuma ligação aos ideais ou fidelidade. Em caso necessário, pode trocar de dono/patrono se achar que terá maiores benefícios.
5 Subsídios litúrgicos Hinos
Livro de Canto da IECLB: 320 – Senhor se tu me chamas; 512 – Segui-me, sou Cristo; 568 – Nem só palavra é o amor; 632 – Jesus ao lado; 636 – Tão longe. Oração do dia Bondoso Deus, muito obrigado por teres enviado o teu Filho para mostrar o que tu desejas de nós. Ajuda-nos a viver realmente o nosso discipulado. Permite que nos demos conta que seguir Cristo traz consequências para a nossa vida. Ajuda-nos a colocar Cristo acima de tudo e de todos, que possamos ser discípulos e discípulas fiéis, que carreguemos nossa cruz para a glória do teu nome. Oramos em nome Jesus, nosso Mestre e Senhor. Amém. Oração pós-comunhão Obrigado, Senhor, por teres permitido que nos aproximemos do teu altar para receber o sacramento do corpo e sangue de Cristo. Como comunidade, teus discípulos e tuas discípulas, somos alimentados por ti. Permite que possamos viver em fidelidade ao teu chamado e que assumamos o compromisso de levar o teu evangelho aonde quer que formos. Em nome de Cristo. Amém.
Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2001. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millennium, 1982. v. 2.
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13º Domingo após Pentecostes
LIEVEN, Guilherme. 16º Domingo após Pentecostes: Lucas 14.25-33. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; IEPG, 2000. v. 37, p. 266-271. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/lucas-14-25-33-4>. LÜCKEMEIER, Valdemar. 16º Domingo após Pentecostes: Lucas 14.25-33. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; IEPG, 1994. v. 20, p. 251-254. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/lucas-14-25-33-1>. SCHMIDT, Ervino. 5º Domingo após Trindade: Lucas 14.25-33. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1982. v. 8, p. 235-240. Disponível em: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/lucas-14-25-33-2>. SPERB, Ulrico. Três desafios para o discipulado. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; IEPG, 2000. v. 26, p. 277-284. Disponível em: <http:// www.luteranos.com.br/conteudo/lucas-14-25-33>.
14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 1 TIMÓTEO 1.12-17 ÊXODO 32.7-14 LUCAS 15.1-10
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15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
22 SET 2019
PRÉDICA: LUCAS 16.1-13 AMÓS 8.4-7 1 TIMÓTEO 2.1-7
Leonídio Gaede
Melhor que só, é ir bem e em boa companhia
1 Introdução
Quanto aos textos previstos para o 15º Domingo após Pentecostes, posso dizer que evocaram lembranças do tempo em que comecei nesse ofício de pregar regularmente. O texto de Amós 8.4-7 me fez me lembrar de um hino do tempo em que queríamos que a nossa pregação ajudasse a terminar com a ditadura militar no Brasil, entre as décadas de 1970 e 1990: “na terra dos homens pensada em pirâmide, os poucos de cima esmagam a base”. Por outro lado, 1 Timóteo 2.1-7 parece pedir intercessão tanto pelos de cima como pelos da base da tal pirâmide. E, por fim, o texto da pregação propriamente dito, Lucas 16.1-13, à primeira vista parece elogiar a corrupção de um administrador fraudulento. Dito isso, é preciso ressaltar que temos à nossa frente o desafio de responder satisfatoriamente a esta pergunta de domínio público: como assim, Jesus propõe o elogio de um erro? Precisamos descobrir qual é mesmo o sentido correto das palavras de Lucas 16.9, das riquezas de origem iníqua fazei amigos (Almeida), usem as riquezas deste mundo para fazer amigos (Nova Tradução na Linguagem de Hoje – NTLH), fazei amigos com o dinheiro da iniquidade (Bíblia de Jerusalém – BJ), usen las falsas riquezas de este mundo para ganarse amigos (Dios Habra Hoy – DHH). Já podemos adiantar que os três textos, de Amós, 1 Timóteo e Lucas, concordam com a afirmação de que alguém só pode ir bem se quem está ao seu redor for bem também.
2 Exegese V. 1 – Em um grupo de estudo, perguntei: “o que o administrador fez errado?” A resposta mais rápida foi que roubou do patrão. A tradução de Almeida nos informa que o administrador “estava a defraudar” os bens do proprietário. O termo grego é skorpízō. O mesmo termo é usado por Lucas quando relata que Jesus disse quem comigo não ajunta espalha (Lc 11.23). Por isso penso que podemos dizer que o administrador estava esbanjando (no sentido de espalhar) os bens do proprietário. Lutero refere-se a esse administrador chamando-o de glutão (Obras Selecionadas 11, p. 476). V. 2 – No mesmo grupo de estudo, usei a técnica da leitura e recontagem da história lida com palavras próprias. Notei que a turma demorou um pouco a relacionar a prestação de contas com a demissão. Pareceu que a primeira parte
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da frase, presta contas da tua administração, foi tão impactante que se sobrepôs à segunda, porque já não podes mais continuar nela. Não vejo nesse versículo maiores problemas com a tradução de Almeida. Apenas reforço que a informação da demissão poderia ser mais destacada. V. 3 e 4 – Nestes versículos temos o monólogo do administrador impactado pela notícia da demissão. Nele não transparece nenhuma ansiedade em relação à prestação de contas. Pelo contrário, em seu “pensar consigo mesmo”, ele chega à conclusão de que na forma de prestar contas está a solução para o seu dilema. O desafio da prestação de contas não traz ansiedade, mas nova perspectiva. A ansiedade do administrador está mais ligada com sua próxima condição de vida enquanto demitido. A frase de Almeida, trabalhar na terra não posso, parece-me menos fiel do que a versão da NTLH – não tenho forças para cavar a terra. O termo grego é skaptein, que é “cavar”. O estudo em grupo me alertou para o fato de que, sendo baixa a autoestima do agricultor familiar, existe uma tendência de interpretar que o administrador, meio tipo “gola-fina”, considerava degradante precisar trabalhar como agricultor. Não se trata, porém, disso. Mais parece tratar-se de uma questão de incapacidade física da falta de forças para cavar. V. 5 – O termo grego kyriou significa “autoridade dele”, no caso, aquele que exerce autoridade sobre o administrador. Ele chama os devedores da autoridade que estava sobre ele e pergunta: quanto você deve ao meu senhor? NTLH traduz como patrão, mas poderia ser também proprietário, aquele é o dono. V. 6 – Aqui apenas ressalto que a medida de cem barris de azeite corresponde à produção de 140 oliveiras, segundo a informação de Martin N. Dreher no PL IV. Almeida fala em 100 cados. Cado era um recipiente para armazenar líquidos, mas parece não ser uma referência para medida. O texto grego fala em batous. A origem dessa medida é hebraica (bat). Cada bato equivale a 37 litros. O arrendatário devia, portanto, 370 litros de azeite e pagou 185. V. 7 – A NTLH fala em mil medidas de trigo. O texto grego fala em 100 korous. Um coro equivale a dez batos. A dívida era, portanto, algo como 37 mil litros de trigo. Houve o perdão de mais de sete mil litros. V. 8 – A expressão “se houvera atiladamente” quer dizer que, segundo o proprietário, o administrador agiu de maneira sábia. A questão é como relacionar corretamente essa afirmação com aquela que vem a seguir, onde aparece a classificação em dois grupos: “filhos do mundo” e “filhos da luz”. Essa classificação remete a uma distinção entre quem continua servindo ao império e quem optou pelo seguimento de Jesus Cristo. Não se trata, todavia, da proposição de uma teocracia no lugar do império nem de enquadrar o administrador em um dos grupos. Trata-se de classificar um ato como sábio porque foi praticado na lógica correta. V. 9 – Sobre a expressão “riquezas de origem iníqua” (mamōna tēs adikias), podemos dizer que toda riqueza tem origem iníqua quando o sistema econômico é excludente (Am 8.4-7; Tg 5.1-6), isto é, quando está na lógica das obras dos “filhos do mundo”. A expressão fazei amigos... que vos recebam nos tabernáculos eternos está explicada da seguinte forma no PL IV: “Os ‘amigos’ podem ser os anjos de Deus que recebem os remidos nos tabernáculos eternos, ou homens que no dia do juízo servem de testemunhas de defesa, por haverem recebido as obras de amor dos
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que estão sendo julgados” (Dreher, 1979, p. 150). Pode ser compreendido como um adendo a afirmar que as regras econômicas desta vida, apontadas na parábola, aplicam-se também quando o assunto é o alcance da vida eterna. V. 10 a 13 – Aí temos uma conclusão que se torna compreensível, graças ao que foi dito anteriormente. Temos a série de contraposições: ser confiável nas coisas pequenas e nas grandes; ser justo nas pequenas e nas grandes; ser justo no uso da riqueza iníqua e confiável no recebimento do bem verdadeiro; ser justo na aplicação do alheio e receber o que é seu. Não se pode servir a Deus e a Mamona. Tudo precisa ser passado pelo crivo da nova condição de vida do administrador, no período posterior à sua demissão. Para viver bem, ele decidiu adotar um novo critério de vida. Este é um deslocamento de eixo: deixa de apostar no acúmulo próprio e passa a apostar numa condição de favorecimento dos arrendatários. Em outras palavras: o administrador passou a entender que, se os outros forem bem, ele estará bem entre eles. Da mesma maneira, na salvação eterna, os beneficiários de obras de misericórdia serão testemunhas de defesa de quem as praticou.
3 Meditação Façamos uma visita imaginária a um grupo comunitário reunido no tempo e local em que atuaram as pessoas que deram origem ao Evangelho de Lucas. Se a nossa visita ocorrer em um tempo comum, provavelmente não vamos encontrar o proprietário de pomares e vinhedos e terras da localidade. A realidade agrária daquele tempo incluía a possibilidade de um proprietário viver longe. Quer dizer que proprietários não necessariamente eram proprietários locais. Eles podiam ser proprietários em uma região e viver em outra. Isso, porém, não os isentava de compromissos com os moradores da localidade. Proponho, por isso, que, em vez de imaginarmos, de saída, proprietários malvados e exploradores do povo, imaginemos proprietários com um forte apelo de consciência em favor dos arrendatários, no sentido de mantê-los exatamente como tais. Esse apelo poderia vir de leis antigas, que versavam sobre a propriedade e o uso da terra. Eram leis que, por exemplo, ordenavam o descanso da terra no sétimo ano ou que davam aos pobres da terra, órfãos, viúvas e peregrinos estrangeiros, o direito de recolher o que estava na beira do caminho, o que caía no chão ou o que ficava para trás durante uma colheita. É o que podemos notar, por exemplo, na história de Rute (Rt 2) ou, de forma mais geral, na lei de Moisés, como, por exemplo, em Deuteronômio 24.19-22. De qualquer forma, dificilmente em nossa visita encontraremos proprietários de terras. Vamos encontrar um público formado por pessoas que têm arrendado um pedaço de chão para trabalhar; vamos encontrar ecônomos que representam os proprietários ausentes e vamos encontrar pessoas pobres que, por um motivo ou outro, não têm conseguido arrendar um pedaço de chão para plantar e colher. A existência desses últimos, por mais que possa parecer significar exército de reserva de mão de obra, poderíamos dizer, não move moinho na situação do proprietário e do ecônomo. Interessa-lhes, em primeira linha, a existência dos
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arrendatários. Com o perdão da comparação: bois de canga saudáveis e fortes são mais interessantes do que doentes e fracos. Por essas e outras, vamos constatar em nossa visita que, em nome do proprietário ausente, o ecônomo pode e até deve emprestar produtos aos arrendatários. Através desses empréstimos o proprietário guarda bens sem construir armazéns. Além disso, com os empréstimos evita a deterioração que normalmente sofrem os produtos recolhidos em celeiros por um período mais longo. E ainda mais: mantendo através do ecônomo o sistema de empréstimos aos arrendatários, o que lhe favorece, também mantém o próprio ecônomo. Dos juros que tem o direito de cobrar dos arrendatários, pode tirar seu próprio sustento, e talvez bem mais que isso, evitando que o proprietário tenha de “desembolsar”. Devemos tomar o cuidado de não imaginar aquele sistema de então a partir do conhecido sistema de hoje, em que o empregador adquire tão somente as horas de trabalho do empregado. Aquele sistema não isentava o proprietário de responsabilidades para com os arrendatários. O proprietário estava comprometido com eles enquanto sujeitos capazes de arrendar e produzir. Em anos de colheitas ruins, por exemplo, existia o apelo moral da misericórdia. Diferentemente do sistema de hoje, em que o empregador perde de vista o empregado depois que este bateu o cartão. Naqueles tempos existia não uma relação de trabalho, mas uma relação de vida entre desiguais. Compreende-se, pois, por que a parábola afirma que o ecônomo, em vista de seu futuro sombrio, fez bem em se arrepender. Ele merece elogios porque reconheceu sua ruína dentro do sistema “salve-se a si mesmo” (Lc 23.35). Finalmente, reconheceu que a salvação antes está no sistema “negue-se a si mesmo” (Lc 9.23), isto é, deixe de ganhar individualmente e usufrua do estado melhorado da coletividade. Tentemos explicar melhor: o arrendatário age na lógica da pregação de Jesus, quando reconhece que sua salvação agora não está mais em tirar proveito dos arrendatários, mas em favorecê-los e participar desse favorecimento posteriormente. A busca do bem-estar próprio rege-se por duas grandes compreensões: procuro tornar-me um vencedor sobre os outros, ficando eu com o bem-estar e os outros com o mal-estar, por serem incompetentes, ou procuro construir um ambiente coletivo de bem-estar no qual estou inserido.
4 Imagens para a prédica Salve-se a si mesmo (Lc 23.35) é uma das grandes ofensas dirigidas a Jesus no momento de sua crucificação. Por quê? Porque salvar as outras pessoas tinha sido o tempo todo o núcleo do seu ministério aqui na terra. Basta lembrar ditos como: quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; deixa tudo e me segue; quem botar a mão no arado e olhar para trás; e outros. Por isso podemos dizer que Jesus, diante daquelas ofensas, devia estar convicto de que um eventual gesto de apear triunfalmente da cruz nenhuma salvação continha. Pelo contrário, nisso estaria exatamente a perdição do mundo, de cada qual querer salvar a si em detrimento do outro. Por exemplo, cercar a propriedade com toda sorte de aparato
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tecnológico (cercas eletrificadas, guaritas com guarda armada, cães e câmeras) não contém nenhum ingrediente de salvação da situação que produz furtos, roubos e assaltos. Proponho duas imagens para a prédica: a) uma cerca bem visível como imagem da convicção de vida do administrador antes de ser denunciado como esbanjador de bens; b) uma imagem de uma horta comunitária, simbolizando a compreensão que o administrador passou a ter, depois de ver desmontado o seu princípio de vida anterior. Enquanto o administrador esbanjava os bens do proprietário, tinha como projeto uma vida separada dos arrendatários porque sua ganância exigia cobrar a mais pelos arrendamentos. Ele tinha uma cerca imaginária na cabeça, que o separava do resto do mundo. Quando recebeu a notícia da demissão, caiu a ficha e resolveu mudar seu projeto de vida: administrou em favor dos arrendatários, objetivando alcançar sua paz de vida junto com os arrendatários. Por isso o proprietário o elogiou, e Jesus arremata a parábola com o conteúdo dos versículos 10 a 13 da nossa perícope.
5 Subsídios litúrgicos Oração Ó Senhor, faze de mim um instrumento de tua paz: que eu pratique o amor onde as pessoas se odeiam; que eu perdoe onde elas se ofendem; que eu apazígue onde há inimizade; que eu diga a verdade onde domina o engano; que eu leve a fé para onde a dúvida pressiona; que eu suscite esperança onde o desespero faz sofrer; que eu acenda uma luz onde a escuridão domina (Da Normandia, cf. Senhas Diárias de 27/06/2018).
Bibliografia DREHER, Martin. Auxílio Homilético sobre Lucas 16.1-9. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1979. v. IV, p. 147-157. ZWETSCH, Roberto. O elogio da esperteza e da precaução. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2012. v. 37, p. 277-285.
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PRÉDICA: AMÓS 6.1a,4-7 LUCAS 16.19-31 1 TIMÓTEO 6.6-19
16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
29 SET 2019
Norberto da Cunha Garin Edgar Zanini Timm
Abismos insensíveis!
1 Introdução Os textos previstos para este domingo conduzem à reflexão sobre desigualdades sociais que acompanham a humanidade desde há muito. A narrativa de Lucas se endereça aos fariseus, que entendiam a riqueza e o bem-estar como sinais das bênçãos divinas. Remete ao contraste entre os muito ricos, que ignoravam Deus, e os muito pobres, que colocavam sua confiança no Senhor. A morte do mendigo e a do rico manifestam o contraste que havia, no contexto de Israel do primeiro século, entre aqueles que se serviam das benesses dos ocupantes do poder, no caso, os romanos, e aqueles que sofriam toda sorte de espoliação, no caso, os moradores de rua. Lucas aponta para a inversão do contraste que se realiza após a morte. Evidentemente, o destino do rico e o do pobre, após suas respectivas mortes, não dependiam das suas condições econômicas, mas da fé que tinham ou não na misericórdia divina. Acrescente-se a isso a afirmação de que há um abismo intransponível entre vivos e mortos. O texto encerra-se apontando para o fato de que os vivos podem estudar a lei e ouvir os profetas e, assim, mudarem seu modo de vida se o desejarem. O segundo texto, da Carta a Timóteo, aponta para a insanidade da busca da riqueza a qualquer custo. Condena, de toda forma, quem sai em busca do entesouramento pensando encontrar o paraíso. O texto encerra com um convite aos que já são ricos para que compartilhem seus bens e busquem o bem maior em Cristo. O texto da prédica foca a mensagem profética de Amós, numa das ameaças e punições anunciadas pelo Senhor contra o povo de Israel e suas famílias. Proprietário e pastor de ovelhas de Tecoa, cidadezinha nas proximidades de Jerusalém, ele recebe o chamado para profetizar em Israel. Apesar de ser natural de Judá, sua profecia acontece no reino do Norte, quando lá reinava Jeroboão II (783-743 a.C.). No reino do Sul, Judá, reinava Uzias (781-740 a.C.). Nesse tempo, Israel experimentava grande prosperidade com ampliação de fronteiras e aumento da arrecadação de tributos. Entretanto, a riqueza não era dividida entre todos, ocasionando enormes desigualdades. O desenvolvimento permitiu que os comerciantes, os principais beneficiados pelas rotas comerciais que atravessavam a Palestina, se deleitassem no luxo a ponto de construírem várias casas (Am 3.15). Da mesma forma, multiplicavam-se os castelos, no interior dos quais eram tramadas decisões com violência e opressão (Am 3.10). A
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atuação de Amós acontece ao redor de 760 a.C. e inaugura uma nova era mais radical no profetismo. A visão do profeta contrastava com a avaliação divulgada pela corte e pela religião. A maioria da população vivia no campo e sobrevivia do plantar e colher, mas sofria o controle dos centros urbanos nos quais viviam os funcionários da corte, os sacerdotes e outros religiosos que se impunham sobre os camponeses através da coerção das armas e do fascínio da religião. A convivência entre moradores do campo e das cidades costumava ser conflituosa. Havia elementos de exploração que justificavam os conflitos. Um desses era o aumento da taxa de tributo cobrada dos campesinos para fazer frente às despesas crescentes do aparelho estatal. Além disso, Jeroboão II queria participar do comércio internacional, cujas rotas atravessavam a planície de Jezreel e/ou circulavam pela via transjordaniana. Como a balança do comércio internacional era desfavorável, as taxas tendiam a ser mais elevadas para cobrir a defasagem e manter o luxo da corte e de seus asseclas. Por outro lado, o aumento das taxas também se justificava pela política expansionista do rei, que chegou a levar as fronteiras do reino muito próximas daquelas alcançadas no período de Davi.
2 Exegese V. 1 – Ai dos que andam à vontade – é provável que se trate aqui de uma releitura judaica; faz parte das ameaças e punições, iniciadas em 3.1, vaticinadas contra os filhos de Israel e famílias. Tratava-se de pessoas que foram escolhidas por Deus, mas que se corromperam; permitiram que as riquezas adquiridas egoisticamente se transformassem em segurança para a situação pessoal; eles se consideravam privilegiados por causa da eleição divina, que eles consideravam como status superior às demais nações; a situação econômica da Samaria era privilegiada, mas isso não se traduzia no bem-estar das classes mais pobres, que se distanciavam ainda mais dos benefícios do desenvolvimento econômico (2.6-7); a mensagem do profeta é em outra direção, apontando para o fato de que a eleição de Israel era para que formasse uma comunidade fraterna, fundada na justiça; o profeta inicia as ameaças pelo reino do Sul, Judá, mas inclui imediatamente o reino do Norte, Samaria. V. 4 – que dormis em camas de marfim – traça uma descrição da maneira como os ricos de Israel se deleitavam com os resultados da situação econômica favorável do seu tempo; tratava-se de incrustações de marfim no mobiliário, encontradas em escavações em Samaria; o marfim era uma mercadoria rara e cara, somente obtida em Israel através do mercado internacional; mesmo uma pequena peça de marfim era considerada um luxo extravagante; e vos espreguiçais sobre o vosso leito, e comeis – é a primeira vez, no Antigo Testamento, que aparece a menção à prática de se recostar à mesa para o banquete, retomada posteriormente no Novo Testamento em Marcos 14.3; o reclinar-se, na antiguidade, era uma posição de postar-se à mesa, permitida apenas para as pessoas livres; trata-se de uma postura assumida na celebração do pêssach nos rituais contemporâneos; e comeis os cordeiros do rebanho – remete à exploração efetivada através da cobrança das taxas aos camponeses que, em algumas vezes, pagavam através de animais do seu
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rebanho; esse versículo aponta para o distanciamento que aconteceu, nessa época, entre os mais ricos e os mais pobres (2.7). V. 5 – que cantais à toa – remete ao tempo do expansionismo davídico; o rei Davi era tido como cantor e poeta por excelência (2Sm 23.1; 1Cr 23.5); esses cantos improvisados são característicos dos estados de embriaguez; de certa maneira, isso remete à alienação dessa classe que, mesmo diante de uma anunciada falência, bebe e canta celebrando como se estivesse no período áureo do Israel davídico. V. 6 – que bebeis vinho em taças – além da referência à exploração do campo, remete ao comércio exterior simbolizado nas taças e nos finos olhos e especiarias; na verdade, a tradução mais aproximada seria “bebem vinhos em bacias”, o que salientava a quantidade consumida nesses banquetes; não vos afligis com a ruína de José – aponta para o egoísmo de uma classe alienada diante da degradação que acontece com o povo; o profeta prenunciava, a partir da exuberância dos ricos e da miserabilidade dos pobres, a ruína que haveria de se abater sobre o reino do Norte. V. 7 – Portanto, agora, ireis em cativeiro entre os primeiros – referência ao exílio, retoma temas anteriores, como em 3.11, que se reporta a um inimigo que promoveria um cerco, a derrubada dos seus muros e o saque do castelo; como em 5.5, que menciona Gilgal que seria levada cativa e Betel que seria destruída; como em 5.27, quando o Senhor ameaça desterrar Israel para além de Damasco; como a prosperidade da Samaria era significativa, o profeta entende que seria um dos primeiros povos a ser exilado; entende-se que o profeta se refere ao exílio provocado pelos assírios de 721 a.C.
3 Meditação Torna-se bastante difícil não traçar um paralelo entre a situação vivida pelo povo de Israel no período de Jeroboão II e o tempo atual. Se, por um lado, as nações não experimentam a prosperidade expansionista do século sétimo antes de Cristo, por outro, o abismo que separa ricos e pobres cresce assustadoramente. O esnobismo e o esbanjamento aparecem cotidianamente, seja nos meios de informação, seja nas novelas televisivas dos horários nobres de grandes redes de televisão. Enquanto uma classe diminuta de pessoas se deleita e desperdiça recursos num viver de extravagante luxo, a maioria da sociedade pena e amarga uma sobrevivência à custa de enormes sacrifícios. Junte-se a isso a maneira de viver contemporânea que supervaloriza o personalismo, marcado pelo individualismo exacerbado. A classe abastada daquela época preocupava-se exclusivamente consigo mesma, com os luxos e com as extravagâncias que beiravam a inconsciência. O profeta de agora sente-se no compromisso de denunciar esse abismo de recursos, em expansão entre os mais ricos e os mais pobres. Necessita apontar para a inconsciência de grupos corporativos, políticos e lideranças das nações que mergulham na defesa de interesses particulares em detrimento das necessidades fundamentais do povo. Precisa denunciar a embriaguez de poder de certas categorias públicas e empresariais que, virando as costas para o povo, defendem,
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através de leis e de portarias, privilégios escusos, danosos à vida cotidiana das classes mais pobres. Deve apontar para a iniquidade de legisladores e governantes, que se empenham em artimanhas para aumentar a arrecadação tributária, impondo taxas e impostos iguais para classes sociais diferentes. Necessita reportar a perversidade de determinados setores da economia que se beneficiam cruelmente do empobrecimento do povo impondo juros e taxas elevadíssimas, amealhando lucros exorbitantes, ampliando ainda mais a miséria de populações endividadas.
4 Imagens para a prédica Reproduzir, através de um banner, ou no telão do templo, a foto de uma situação de flagrante disparidade socioeconômica, como, por exemplo, um condomínio de luxo erguido ao lado de uma vila/favela (<https://trendr.com.br/por-que-favela-518f02374916>). A partir da ilustração, salientar a forma desigual em que a sociedade vive enfatizando a maneira como o sistema atual favorece as classes mais abastadas, enquanto os salários e benefícios dos mais pobres são ainda mais achatados.
5 Subsídios litúrgicos Litania de confissão Dirigente: Deus de amor, sentimos as consequências do pecado humano, presente em nossa sociedade por causa das injustiças cometidas por pessoas que detêm o poder político e econômico. Comunidade: Senhor, fortalece-nos e ajuda-nos a denunciar as injustiças! Dirigente: Que os caminhos de justiça aprendidos na tua palavra possam ser seguidos por todos nós, e que aqueles que deles se desviam possam ser denunciados e punidos para o bem de todas as pessoas. Comunidade: Senhor, fortalece-nos e ajuda-nos a denunciar as injustiças! Dirigente: Caso estejamos envolvidos em algum caminho de injustiça ou de iniquidade, ajuda-nos a reconhecê-los e, arrependidos, a nos livrar de todo pecado que possa prejudicar outras pessoas. Comunidade: Senhor, fortalece-nos e ajuda-nos a denunciar as injustiças! Dirigente: Deus de amor, que os teus caminhos de retidão e amor possam ser buscados e seguidos por todos nós, para que haja maior justiça e maior equidade entre as classes abastadas e as empobrecidas, para que o teu amor e a tua paz reinem entre todos. Comunidade: Senhor, fortalece-nos e ajuda-nos a andar nos teus caminhos!
Bibliografia ASURMENDI, J. Amós e Oséias. São Paulo: Paulinas, 1992. CASTRO, C. P. O ministério dos profetas no Antigo Testamento. São Paulo: Metodista, 1993.
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GREUEL, Sigolf. 19º Domingo após Pentecostes: Amós 6.1a,4-7. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2012. v. 37, p. 286-290. SCHWANTES, M. Amós: meditações e estudos. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1987.
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17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
06 OUT 2019
PRÉDICA: LUCAS 17.5-10 HABACUQUE 1.1-4; 2.1-4 2 TIMÓTEO 1.1-14
Antonio Carlos Oliveira
A fé nos motiva a servir com humildade
1 Introdução As leituras bíblicas previstas para este domingo oferecem uma boa oportunidade de reflexão às comunidades de fé. Habacuque traz a resposta de Deus para as injustiças que ele presencia em seu tempo. Timóteo recebe ânimo e conselhos de Paulo para enfrentar as dificuldades vividas por ele na comunidade. Os apóstolos ouvem os ensinamentos de Jesus sobre fé e sobre como devem servir a Deus. Uma possível conexão entre os textos é que a resposta de Deus aos nossos pedidos e questionamentos não são explicações vazias ou superficiais. Mas, de fato, palavras que nos motivam e nos dão esperança. A resposta de Deus nos tira da zona de conforto e nos compromete com a ação. Habacuque recebeu a tarefa de escrever a visão que anuncia a justiça de Deus. Timóteo é conscientizado de que os sofrimentos fazem parte do ministério. Os apóstolos são confrontados com a graça e o servir humilde diante de Deus. O texto do evangelho é muito rico em imagens, pois apresenta a metáfora da semente de mostarda e os deveres do servo. Ainda que o texto pareça ter duas partes, com algum sentido se tomadas separadamente, os versículos previstos para a pregação fazem sentido como um todo também. Inclusive, podemos ampliar um pouco mais o olhar e arriscar dizer que as pessoas que se comprometem com a palavra e a ação de Jesus precisam: evitar escândalos (v. 1-2); oferecer o perdão (v. 3-4); confiar totalmente em Deus (v. 5-6); deixar de lado pretensões e orgulho (v. 7-10); reconhecer a graça de Deus (v. 11-19).
2 Exegese V. 5 – Aumenta-nos a fé. Não provocar escândalos (v. 1-2) e ofertar o perdão (v. 3-4) são tarefas difíceis de realizar. Por isso o pedido dos apóstolos parece coerente. Ainda mais se entendemos a fé como o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem (Hb 11.1). A sentença introduz a metáfora da semente de mostarda como ilustração de que a fé, por menor que seja, pode fazer coisas maravilhosas. Quem tem um grãozinho de fé pode fazer algo que parece impossível, como transplantar uma árvore para o meio do mar. V. 6 – Mateus e Marcos dizem que quem tem fé, por menor que seja, pode deslocar um “monte” (Mt 17.20; 21.21 e Mc 11.23). Lucas parece ser mais modesto ao se referir a uma árvore (sykaminos). A versão de Almeida e o Léxico do
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Novo Testamento traduzem o nome dessa árvore como “amoreira”. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje – NTLH se refere a uma “figueira brava”. O termo também pode ser traduzido como sicômoro. Trata-se de uma espécie de árvore bem comum naquela região, que produz figos comestíveis. Sua altura máxima pode chegar a 20 metros. Os versículos 7 a 10 são exclusivos do Evangelho de Lucas. O título dado pela NTLH, “O dever do empregado”, é problemático. A lição de Jesus não se refere à defesa dos direitos dos patrões. Um título mais coerente seria: “A fé nos motiva a servir com humildade”. Pois o texto considera a relação que existia entre escravo e senhor, ou seja, trata da lógica existente entre servir e ser servido. Desta forma, mesmo que seja chocante, o exemplo demonstra claramente que as pessoas cristãs são servas de Deus e que o serviço a Deus precisa ser realizado com humildade e não deve ser exercido como forma de acumular méritos. As pessoas que viviam naquele tempo entenderiam a mensagem, tendo em vista que o convívio social era organizado daquela maneira. Possivelmente, o ensinamento de Jesus visava contrapor-se à ideia de outros grupos religiosos. O evangelho, portanto, está “em oposição à atitude dos fariseus, que se arrogavam direitos junto a Deus pela observação da Lei, os discípulos de Jesus, embora cumpram fielmente os encargos recebidos de Deus, sempre irão se considerar servos inúteis, que não têm direito algum de recompensa para gabar-se diante de Deus” (Ancellotti; Boccalli, 1979, p. 167). Jesus apresenta uma grande lição, que todo discípulo ou discípula precisa entender. Deus não depende em nada dos seres humanos. São os seres humanos que dependem totalmente de Deus. O texto em questão serve como base para articular o princípio da justificação por graça e fé (Rm 1.17). A salvação e tudo o mais que se recebe de Deus continuam tendo sua explicação unicamente na graça de Deus. A fé, por menor que seja, trará sempre consigo uma atitude de humildade e solicitude diante de Deus e das outras pessoas. A soberba e a arrogância não devem ter lugar na vida das pessoas cristãs, mesmo que elas realizem grandes feitos e coisas maravilhosas. V. 7 – Doulos – em grego, significa “escravo”. Pode referir-se tanto ao servo que trabalha no campo como ao que se ocupa com as tarefas da casa. A escravidão estava presente em Israel sob certas disposições legais (cf. Lv 25.39-55; Dt 15.12-18). A NTLH utiliza a palavra “empregado”. Mas parece mais adequado empregar os termos “escravo, servo ou criado”, já que um empregado teria direito a um pagamento ao final do dia (cf. Mt 20.1ss). V. 8 – Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me. Cingir-se era amarrar uma veste comprida em torno da cintura para que as roupas não atrapalhassem o serviço. O próprio Cristo, como citado em Lucas 12.35ss, cinge-se e serve os discípulos. “Assim também o próprio Jesus, o grande Senhor, mas também o grande Servo, ilustra qual é o verdadeiro e autêntico serviço cristão, procurando demonstrar a atitude de interesse pelos outros que deve ser mantida como uma expressão espiritual da personalidade cristã” (Champlin, 1982, p. 166). V. 9 – A última das três perguntas retóricas do texto é a mais contundente: Porventura terá de agradecer ao servo porque ele fez o que lhe havia ordenado? Jesus adverte sobre o “veneno sutil” da autojustificação e a meritocracia que
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havia contaminado a religiosidade de seus contemporâneos. Inclusive, seu próprio círculo de seguidores e discípulos não está livre dessa maléfica influência. A mentalidade dos interesses individuais e dos privilégios, que podem ser obtidos em servir alguém importante, está presente no pedido da mãe de Tiago e João (Mt 20.20-21). Na escalada pelas melhores posições, as pessoas mais próximas de Jesus começavam a pensar e indagar qual delas seria a mais importante no reino dos céus. V. 10 – Somos “servos inúteis”. A pessoa cristã reconhece que nem ao menos é capaz de cumprir suas obrigações como deveria. Estará sempre em débito em relação a Deus. Essa noção é extremamente importante, pois corremos o risco de reduzir a vida espiritual a um mero culto da felicidade que preze pelo conforto e a tranquilidade, barganhando nossa vida religiosa a troco das benesses divinas. “Jesus apresenta aqui uma parábola vazada em termos duros, a fim de chocar as mentes dos crentes, para que tomem consciência da severidade dos seus deveres, e também para que compreendam que tudo quanto temos ou somos, em última análise, devemos tão somente a Deus” (Champlin, 1982, p. 167).
3 Meditação Frases do tipo “parabéns, você mereceu a vitória” e “fulano recebeu o que merecia” são comuns aos nossos ouvidos. A valorização do mérito está muito presente na sociedade em que vivemos, e para muitas pessoas ela representa um jeito mais justo de viver. Na meritocracia, teoricamente, cada pessoa recebe segundo seu empenho, seu conhecimento, sua capacidade. Mas sabemos que não é bem assim. Por trás de uma fachada de “honra ao mérito”, escondem-se, muitas vezes, fraudes, privilégios, nepotismo, injustiças. É fato que as relações de meritocracia nos tocam. Estamos sempre avaliando a nós mesmos e a outras pessoas, quer seja no trabalho, na escola, quer seja na família e até mesmo na igreja. Nossa compreensão sobre pagamento, premiação, retribuição e compensação está intrinsecamente relacionada com a valorização do que as pessoas fazem ou deixam de fazer. Se seguirmos automaticamente esse raciocínio, já não são as coisas ou atitudes que têm valor. Mas as próprias pessoas passam a ter mais ou menos valia. Diz-se, por exemplo, que determinada pessoa não “vale nada” ou que essa outra pessoa não merece isto ou aquilo. Nessa mentalidade meritocrática pode estar presente uma compreensão de que o próprio Deus também age baseado no mérito das pessoas, concedendo bênçãos ou castigos a partir das suas ações. Nesse caso, a salvação e a vida eterna passam a ser prêmios a serem conquistados ou “comprados” ao longo da vida. Essa ideia não considera a onipotência de Deus e a justificação por graça e fé. Lutero ensinou sobre o Deus que compreende as fraquezas e as limitações humanas. Segundo Lutero, é impossível para o ser humano merecer por seus próprios méritos a salvação. Deus, no entanto, age com graça e misericórdia. À pessoa cabe ter humildade e confiar em Deus. A doutrina da justificação por graça e fé reforma nosso modo de pensar. Nela, a meritocracia não tem vez. Entendemos que tudo que recebemos de Deus é graça preciosa e misericórdia. Isso não é mérito nosso, mas devido ao que Jesus fez por nós na cruz. Saber disso nos ajuda
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a entender melhor as pessoas, aceitar suas falhas e perdoar seus erros. A graça de Deus nos motiva a praticar a misericórdia com as pessoas que nos cercam fisicamente no dia a dia, e também com outras pessoas com as quais só temos contato através das redes sociais na internet. O pedido que os apóstolos fazem a Jesus (aumenta-nos a fé) é semelhante a outro pedido: Ensina-nos a orar (Lc 11.1). Podemos entender que o desejo dos apóstolos era de ter uma melhor capacitação ou formação nesses assuntos, para enfrentar com mais segurança os desafios apontados por Jesus. O que, diga-se de passagem, é muito importante e válido. Jesus está a cada passo ensinando, capacitando, formando os que o seguem e preparando seus discípulos e suas discípulas (Lc 10.39). Os próprios apóstolos têm a missão de ensinar outras pessoas a respeito do que Cristo ordenou (cf. Mt 28.20). Mas certos aspectos da meritocracia podem estar camuflados neste piedoso pedido: melhor preparação, mais conhecimentos, bajulação, seletividade, concessões. Tudo isso para, quem sabe, alcançar melhores posições, como revela outro pedido: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda (Mt 20.21). Porém, Jesus aponta para outra direção: Quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos (Mc 10.44). A fé é um dom e não apenas uma formação sistemática. A fé, mesmo que pequenina como um grão de mostarda, a menor de todas as sementes (cf. Mc 4.31), deve ser acolhida, plantada e cultivada na vivência comunitária. Nesse ponto, não se trata de ter ou de conseguir um pouquinho de fé, mas de se dar conta de que Deus nos concede a fé para que ela resulte em transformação, vida e serviço. A fala de Jesus ainda nos reserva um conselho difícil de cumprir. Considerar-se diante de Deus um “servo inútil”, depois da dedicação total ao trabalho, parece um duro golpe em nossa autoestima. Quem, em não se tratando de falsa modéstia, diria isso? Quem publicaria isso nas suas redes sociais? Isso parece ilógico e contraproducente. É melhor ostentar nossas notas altas, nossos títulos e o orgulho de ser bom. Inclusive, perdemos a noção do que significa ser um servo ou uma serva. Queremos a posição de líderes ou chefes, e não ser reconhecidos como serviçais. No mundo, que erroneamente valoriza só as aparências, saber-se verdadeiramente um “servo inútil” de Jesus Cristo é um grito de liberdade e uma confissão genuína de fé.
4 Imagens para a prédica O sino pode ser usado como um símbolo nesta celebração. A meu ver, ele pode representar o serviço humilde de chamar para algo importante. Se o templo de sua comunidade tem um sino, você pode usá-lo como exemplo, pode mostrar uma fotografia ou um vídeo dele funcionando. Se não houver um sino na igreja, você pode trazer para a celebração um pequeno sino ou sineta e utilizá-lo como recurso visual e sonoro. Talvez seja importante dizer que, segundo dados históricos, os sinos foram inventados pelos chineses há aproximadamente 4.600 anos. Desde então, eles têm sido usados como meio de comunicação no mundo todo, marcando o início
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e o fim de atividades, sinalizando as horas do dia, avisando situações de perigo e emergência. A palavra sino vem do latim signum, que significa “sinal”. No cristianismo, os sinos começaram a ser usados por volta do século V. Feitos em metais, como bronze, cobre ou estanho, inicialmente foram empregados nas igrejas da Europa e depois levados a outros continentes. Diversas denominações cristãs usam sinos nas torres de seus templos, entre elas as igrejas luteranas, católicas, ortodoxas e anglicanas. Para que serve o sino? Ele toca no início e final do culto, durante o Pai-Nosso, comunica sepultamentos e casamentos, avisa em casos de emergências. Similares ao sino são as sinetas ou campainhas utilizadas nas escolas e nas empresas para avisar as pessoas do início e fim das atividades. As casas e os apartamentos têm campainhas para indicar quando alguém nos procura. Algumas pessoas que criam animais no campo têm o costume de colocar pequenos sinos no pescoço das vacas ou das cabras para indicar sua posição em meio à vegetação. E ainda existe o fato de que muitas pessoas carregam um sino no bolso ou na bolsa, na forma de um telefone celular, que tem os toques da campainha e do despertador. Podemos entender o sino como um símbolo para falar de vocação, humildade e liberdade. Sob o ponto de vista da vocação, o papel do sino é chamar (do latim vocare) as pessoas para algo mais importante que ele próprio. Quando ele toca, as pessoas não vêm para vê-lo. As pessoas vêm porque algo vai acontecer, por exemplo, o início do culto, o começo da aula. A campainha anuncia que alguém quer falar, alguém quer entrar na casa. O despertador toca porque alguém precisa acordar. Quanto à humildade, podemos entender que sino cumpre uma função importante, mas que ele não é imprescindível. As atividades podem acontecer sem ele. As pessoas cristãs são como “sinos”, sinalizam para Jesus Cristo. O verdadeiro valor não está em nós ou no trabalho que desempenhamos, por mais importante que seja, mas está naquele para o qual indicamos, ou seja, Cristo. Isso nos dá liberdade, nos livra da vaidade, da meritocracia e da autorrealização. Ao entender a graça e a misericórdia de Deus, podemos fazer bem o nosso trabalho sabendo que somos servos e servas de Deus.
Bibliografia ANCELLOTI, Angelo; BOCCALLI, Giovanni. Comentário ao Evangelho de São Lucas. Petrópolis: Vozes, 1979. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millenniun, 1982. v. 2.
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PRÉDICA: 2 TIMÓTEO 2.8-15 2 REIS 5.1-3,7-15c LUCAS 17.11-19
18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
13 OUT 2019
Nilo Christmann
Foco no cerne do evangelho: Jesus Cristo
1 Introdução Uma questão inicial para a pregação é a relação entre os três textos indicados. Vejamos: * 2 Reis 5.1-3,7-15c – Traz o relato da cura de Naamã, chefe do exército sírio, que sofria de lepra. A cura se dá através do profeta Eliseu, por sugestão de uma menina israelita, escrava da esposa de Naamã. A história é rica em detalhes. Mostra um homem que precisa superar seu orgulho para recobrar a saúde. Ao final, reconhece o poder do Deus de Israel. Mas faz ressalvas quando se trata de adorá-lo com exclusividade. * Lucas 17.11-19 – A cura dos dez leprosos é uma das histórias bíblicas mais conhecidas. Uma coisa é ser atendido por Deus diante de um clamor e outra coisa é o reconhecimento e a gratidão que daí resultam ou não. A proporção dos que voltam para agradecer – um em dez – aponta para a fragilidade do ser humano, cuja tendência é lembrar-se de Deus quando “o sapato aperta”. * No texto previsto para a pregação, Timóteo é exortado a estar bem preparado e a permanecer firme no evangelho, ainda que isso implique sofrimento. O foco deve estar em Jesus Cristo, cuja fidelidade permanece inabalável. Os três textos fazem alusão a situações de sofrimento: os dois primeiros por doença; o último como consequência do testemunho da fé. A relação mais interessante, contudo, está em apresentar-se diante de Deus ou de quem o represente. Naamã apresenta-se ao profeta Eliseu; os leprosos recebem a ordem de apresentar-se ao sacerdote; Timóteo é exortado a se apresentar diante de Deus. As razões de Naamã e dos leprosos são distintas das de Timóteo. Entretanto, todas apontam para a condição do ser humano. Apontam também para o poder de Deus e para seu propósito com as pessoas.
2 Considerações exegéticas A perícope já foi abordada no Proclamar Libertação (PL) XV, 23 e 37, descrevendo importantes elementos exegéticos e reflexivos. Um aspecto inicial chama a atenção. Nos PLs XV e 23, o texto é 2 Timóteo 2.8-13; já no PL 37, o texto é 2 Timóteo 2.8-15. Desconhecemos os argumentos para a nova delimitação. Todas as versões bíblicas consultadas terminam uma sessão no versículo 13
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e iniciam nova sessão no versículo 14. A conexão com os v. 14 e 15 requer um certo esforço. Não há consenso de que 2 Timóteo, uma das chamadas cartas pastorais, seja efetivamente de autoria do apóstolo Paulo. Os dados gerais que aparecem na carta não coincidem com as demais notícias sobre a vida e atuação de Paulo. Seja como for, a carta quer de fato representar a teologia paulina, tanto assim que contém formulações de caráter bem pessoal. A menção à avó e à mãe de Timóteo (1.4-5) evidencia e pressupõe convívio próximo. Acima de tudo, importa atentar à mensagem e ao conteúdo da carta, cuja relevância independe de ser o texto efetiva e integralmente da autoria do apóstolo. Paulo tinha profundo apreço por Timóteo. Conforme Atos 16.1-3, Timóteo era natural de Listra, na Licaônia. Provavelmente, Timóteo é fruto da pregação de Paulo na sua primeira viagem missionária a Listra (At 14.1-6). O apreço é confirmado pelo convite feito a Timóteo para acompanhar Paulo em sua viagem (At 16.3), tornando-se companheiro constante e sendo encarregado de alguma missão específica, onde se fizesse necessário (1Ts 3.2). O teor de 2 Timóteo 2.8-15 corrobora essa proximidade entre o apóstolo e o discípulo. A questão de fundo das chamadas cartas pastorais é a ameaça representada pelos hereges e pelo gnosticismo. O contexto das jovens comunidades cristãs era “um mundo mágico”. As pessoas pensavam de maneira mítica. “Sinais, milagres e visões eram para eles algo normal” (Dreher, 1983). Em 2 Timóteo 2.17-18, tem-se uma ideia do que o gnosticismo representava para as comunidades, incluindo seus líderes/presbíteros. As palavras dos gnósticos corroíam como um câncer. Entre outras questões, tentavam convencer que a ressurreição já tinha acontecido. As orientações e exortações feitas a Timóteo servem como subsídio e ânimo para que possa cumprir de forma adequada sua função de liderar/pastorear outras lideranças e, por extensão, as comunidades. A leitura do primeiro capítulo da carta e dos versículos que antecedem a perícope em estudo deixa claro uma construção em espiral. As admoestações e orientações são expostas e retomadas. Os temas se repetem com novas nuança de linguagem e elementos argumentativos. Nesse sentido, 2.8ss representa o ponto alto em termos de densidade teológica. Aqui se expõe o cerne da questão. O v. 8 inclui fragmentos e afirmações centrais dos primeiros credos cristãos. Aponta para Jesus Cristo, enfatizando a ressurreição e a linhagem davídica, a exemplo do que encontramos em Romanos 1.3-4. “Lembra-te” é imperativo. Ou seja, diante das confusões de conceitos presentes no contexto, cabe focar em Jesus Cristo, conforme o evangelho transmitido pelo apóstolo. A ênfase na ressurreição não é casual, pois o evangelho (v. 9) implica renúncia e sofrimento para aqueles que o anunciam. Ao que tudo indica, Paulo está preso em Roma. Estava preso como kakourgos, isto é, como malfeitor e criminoso, possivelmente por negar culto ao imperador. A fidelidade ao evangelho tornava os cristãos traidores da pátria romana. As algemas têm sentido literal. Em algumas situações, o preso ficava algemado ao guarda. O apóstolo aponta, a partir do seu próprio exemplo, para a teologia da cruz. Mas o que está em jogo não é uma questão pessoal. A causa é maior. Trata-
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-se da salvação das pessoas (v. 10). Seguidores de Jesus Cristo podem ser algemados. Esse também é o recado para Timóteo. A palavra de Deus, porém, não pode ser presa. Especialmente na perseguição e no sofrimento a mensagem encontra a sua eficácia. O esforço humano (contrário) não é capaz de conter o cristianismo. Se fosse possível, a fé cristã já estaria morta há muito tempo. Se no início da perícope temos referência a um credo antigo, nos versículos 11 a 13 temos parte de um hino comunitário. Nesse caso, a introdução do versículo 11 – Fiel é esta palavra – equivale a assim como cantamos. A letra do hino reforça o que foi dito anteriormente. Nos versículos 11 e 12 temos três condições, e a cada qual corresponde uma consequência: a) possível alusão ao batismo, assim como descrito em Romanos 6.3-5 – batismo como expressão do morrer para o pecado e viver para Cristo; b) à perseverança corresponde a promessa de reinar com Cristo. Aqueles que permanecem fiéis tornam-se também herdeiros da glória de Cristo (v. 10 e Rm 8.17); c) se as condicionais anteriores apontavam para as promessas, aqui encontramos uma séria advertência, baseada nas palavras de Jesus em Mateus 10.33: Aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai, que está nos céus. O v. 12 poderia induzir a pensar que Deus simplesmente retribui ao ser humano consoante suas ações. O v. 13, porém, rompe com essa lógica aparente. Mesmo na infidelidade humana, a fidelidade de Cristo permanece. As advertências anteriores não permitem, contudo, pensar em graça barata. A exigência que decorre de anunciar o evangelho está dada. Paulo o experimentava na própria pele. Por outro lado, o amor de Deus pelas pessoas, em Jesus Cristo, não tem como condição a fidelidade dessas. Mesmo quando elas falham, a fidelidade de Deus permanece inalterada. Para aquilo que está para trás vale a graça, mediante o arrependimento; para aquilo que está à frente vale a lei. No v. 14 lemos: Recomenda estas coisas. O sentido do recomendar é o mesmo do v. 8: Lembra-te de. Poderia ser formulado como lembra-lhes destas coisas. Não se trata das coisas ditas anteriormente. Trata-se de orientar com firmeza as lideranças para que evitem palavrório inútil, pois apenas prejudica a comunidade. As contendas causam a katastrophe dos ouvintes. Na tradução, causam subversão ou perdição. O conteúdo parenético do texto encontra no v. 15 a terceira orientação: Procura apresentar-te a Deus aprovado. Dokimos (aprovado) era o termo usado para indicar a pureza do metal das moedas ou uma pedra que fora cortada e estava adequada para uma edificação. Envergonhar-se é termo recorrente na epístola, assim em 1.8,12,16, evidenciando a construção do texto em espiral. Manejar bem (orthotomeō) é expressão do meio agrícola, relacionado a arar em linha reta. Em suma, o versículo preconiza um obreiro preparado e capaz de expor a mensagem condensada nos versículos 8-13, motivo para a inclusão dos v. 14 e 15 no texto da pregação.
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3 Meditação As cartas pastorais – 1 e 2 Timóteo, Tito – ocupam importante lugar no Novo Testamento. Se as outras cartas paulinas são escritas para orientar e fortalecer as comunidades, as cartas pastorais são dirigidas, em primeiro lugar, para ministros em função de liderança em determinada comunidade ou região. Pode-se dizer que Timóteo era pastor ordenado a partir da imposição de mãos pelo próprio apóstolo (1.6). Mais do que isso, o ministro ordenado era responsável por preparar outras lideranças/presbíteros (2.2). Cabe lembrar que a igreja cristã incipiente ainda está buscando a melhor forma de organização, também no sentido de situar o lugar dos diversos carismas. A própria nomenclatura não permite deduzir com clareza o que diferenciava um pastor, um bispo e um presbítero. Os atributos que se requer do bispo, em 1 Timóteo 3.1-7, são basicamente os mesmos que se atribuem a presbíteros e a bispos em Tito 1.5-9. Seja como for, fica claro que as lideranças exercem papel fundamental na condução das comunidades. Esse é um pressuposto básico para a leitura e atualização de 2 Timóteo 2.8-15. O primeiro alvo do texto são os guias espirituais da comunidade. Não obstante, o tempo que nos separa do surgimento das primeiras comunidades e de não estarmos sob o domínio de um imperador romano que pede para ser cultuado como Deus, ainda assim, a palavra dirigida a Timóteo mantém impressionante relevância. Se atualmente os “ruídos” presentes no entorno e mesmo dentro da comunidade colocam em risco o verdadeiro evangelho, então o texto fala diretamente conosco. Da mesma maneira, pode-se dizer que também no presente a clareza doutrinária, a coerência e a capacidade de renúncia de lideranças ordenadas e não ordenadas são decisivas para que a comunidade permaneça fiel a Jesus Cristo. A realidade religiosa brasileira das últimas décadas aponta, conforme dados estatísticos, para a diminuição dos fiéis das igrejas cristãs históricas e o crescimento impressionante do número de outras denominações cristãs, em especial das chamadas igrejas neopentecostais. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que declaram não crer em Deus ou não pertencer a nenhuma denominação. De alguma forma, essa realidade levanta perguntas acerca dos aspectos centrais da mensagem cristã. As hermenêuticas vão do fundamentalismo ao relativismo. A Bíblia presta-se para justificar praticamente qualquer coisa. Como consequência, as pessoas tendem a ficar cada vez mais confusas. Nesse contexto, 2 Timóteo 2.8-15 ajuda a pontuar aspectos centrais do evangelho: a) Nas horas mais difíceis e quando as muitas vozes confundem, é hora de manter o foco em Jesus Cristo. O cerne do evangelho é inequívoco. Os ministros e as ministras ordenadas, os presbíteros, as presbíteras e a comunidade cristã olham para aquele que se encarnou (linhagem de Davi), que viveu, ensinou, sofreu morte de cruz por nós e ressuscitou. Ele é a razão de ser da comunidade. Dele provém a boa nova da salvação e dele provém a esperança da vida eterna.
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b) O seguimento (discipulado) a Jesus Cristo não inclui a promessa, nesta vida, de ausência de problemas. Inclui, antes, dispor-se a situações de sofrimento e mesmo de martírio. O apóstolo Paulo que o diga! Com o seu exemplo, Timóteo e nós somos admoestados e encorajados a renúncias em nome do evangelho. É teologia da cruz. Quem promete o céu na terra e a vida cristã como “mar de rosas” está longe do centro dos ensinamentos de Jesus. c) Ao mesmo tempo em que os seguidores de Jesus são admoestados a permanecer firmes em qualquer circunstância, o texto traz um grande alento ao afirmar que a fidelidade de Jesus permanece mesmo quando os líderes tropeçam no caminho. Fica claro que a busca por coerência na vida de fé não resulta em crédito, pois o amor e a fidelidade de Deus são da essência do seu ser. Viver da graça preciosa (Bonhoeffer) implica saber-se perdoado e, ao mesmo tempo, viver sob a prerrogativa de que se o negarmos, ele, por sua vez, nos negará (v. 12). d) Por fim, em especial, aqueles de nós que ousam pregar o evangelho são chamados a se colocar diante de Deus (procura apresentar-te!) em humildade e na busca constante pelo cerne do evangelho. Essa postura auxiliará ministros/as e lideranças a manter a comunidade focada naquilo que de fato interessa, pois também hoje não é muito difícil deixar-se levar por falatórios, fake news e outras inutilidades, que para nada aproveitam (v. 14).
4 Imagens para a prédica Várias atividades do cotidiano requerem concentração. Distrair-se por algum motivo pode representar prejuízo para si mesmo e para outras pessoas. Em algumas situações, perder a concentração e o foco pode até mesmo custar a vida. Um exemplo disso é quando estamos na direção de um veículo. Muitas coisas podem nos distrair: dar atenção para alguém que está conosco no carro, buscar determinada música no pen drive, uma bela paisagem ou a curiosidade por algo inusitado. Quanto mais perigosa for uma rodovia, tanto mais será preciso estar focado na direção para não causar um sério acidente. Também a comunidade cristã e suas lideranças correm o risco de ocupar-se com assuntos de menor importância. Também ali há o risco de colocar tudo a perder. De acordo com cada contexto pode-se exemplificar o que afasta do cerne do evangelho. Pode ser importante mencionar a tendência do ser humano de não querer abrir mão do que lhe convém e de evitar situações desconfortáveis. Mas justamente esse pode ser o preço da fidelidade a Jesus Cristo. Uma imagem interessante pode ser extraída dos textos bíblicos previstos para o dia. O ser humano procura superar o sofrimento, por exemplo, aquele causado por doenças, assim fizeram Naamã e os dez leprosos. Jesus diz que veio para que os seus tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10.10). Ao passo que o texto de 2 Timóteo 2.8-15 remete à renúncia, à teologia da cruz. Como podemos lidar com essa contradição? Possivelmente, essa reflexão despertaria o interesse da comunidade por trazer à tona questões existenciais. Por outro lado, daria possibilidade de aprofundar a razão da esperança cristã, que não se limita a esta vida (v. 10 e 12).
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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Reconhecer diante de Deus a facilidade com que nos desviamos do caminho que ele propõe. Somos especialmente resistentes com aquilo que pede a renúncia de algum benefício ou comodidade. Preferimos perguntar: o que eu ganho com isso? Somos mais propensos a pedir do que a agradecer, assim como os leprosos que foram curados. Oração geral da igreja Atentar para que os motivos de gratidão estejam em equilíbrio com as intercessões. Hinos
Livro de Canto da IECLB: 588 – Quem quer cantar do amor; 320 – Senhor, se tu me chamas.
Bibliografia DREHER, Martin. A Igreja no Império Romano. São Leopoldo: Comissão de Publicações da Faculdade de Teologia, 1983. (polígrafo). STAAB, Karl; BROX, Norbert. Carta a los Tesalonicenses, Carta de la Cautividad, Cartas Pastorales. Barcelona: Herder, 1974.
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PRÉDICA: LUCAS 18.1-8 GÊNESIS 32.22-31 2 TIMÓTEO 3.14 – 4.5
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20 OUT 2019
Claudete Beise Ulrich
A ora-(a)ção insistente e persistente da “mulher-viúva”
1 Introdução O texto previsto para a pregação apresenta uma mulher e um juiz. A mulher é uma viúva persistente na luta para que o seu direito seja respeitado. O juiz, entretanto, não é temente a Deus, não respeitando ninguém. A ora-(a)ção resistente e perseverante da viúva é uma metáfora inclusiva que inclui todas as “mulheres-viúvas” na luta por seus direitos. A leitura bíblica do Antigo Testamento é de Gênesis 32.22-31, apresenta Jacó e sua luta de uma noite. Ao final da luta, Jacó pede para seguir e pergunta pelo nome da pessoa com quem lutou. Ele não recebe uma resposta. Foi abençoado. Jacó dá nome ao lugar da luta – Peniel – e diz: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva (Gn 32.30). O texto de leitura do Novo Testamento, que se encontra em 2 Timóteo 3.14 – 4.5, aponta para a fidelidade da pregação da Palavra, para a importância de permanecer naquilo que foi aprendido, sabendo de quem foi aprendido. E que, desde a infância, sabes que as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus (2Tm 3.15). Os três textos apontam na mesma direção: a persistência e a fidelidade à palavra de Deus, ao evangelho, o estar face a face com Deus traz salvação, a necessidade de permanecer naquilo que foi ensinado e aprendido, apontando para o respeito ao direito das viúvas (e órfãs, órfãos). A palavra aprendida desde a infância fortalece a persistência, a insistência, a coragem e a luta por direitos e para que a justiça seja julgada com retidão.
2 Reflexões exegéticas
A parábola de Lucas 18.1-8 é material exclusivo desse evangelista. Ela apresenta duas personagens: a viúva e o juiz. Jesus conta a parábola da viúva persistente (Lc 18.1-8), quando interrogado pelos fariseus pela vinda do reino de Deus (Lc 17.20-37). Depois de contar a parábola da viúva, lutadora por seus direitos, o evangelista relata a parábola do fariseu e publicano (Lc 18.9-14). O contexto deixa claro que a prática da oração tem a ver com a luta por direito e justiça. As pessoas humildes serão exaltadas (Lc 18.14). De acordo com Luise Schottroff, “as duas personagens dessa parábola devem ser lidas à luz da Torá. O juiz injusto corporifica o abuso do direito da Torá,
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que nela mesma reiteradamente ganha relevância, por exemplo, em Isaías 5.7. Deus esperava a sentença justa e o que se vê é a quebra do direito” (Schottroff, 2007, p. 238). O juiz apresentado em Lucas 18.1-8, portanto, corporifica o contrário do que devem ser os juízes em Israel. Os juízes devem julgar com retidão. O próprio Deus se apresenta com uma imagem oposta à do juiz. Deus julga com retidão e justiça (Sl 9.8). Schottroff também aponta que “na Torá, as viúvas e os órfãos são colocados sob a proteção especial do direito divino. Nas sociedades patriarcais do mundo antigo, eles eram, do ponto de vista estrutural, sempre as primeiras vítimas da injustiça econômica e social, de violações jurídicas e alvos de tentativas de fraude e exploração” (Schottroff, 2007, p. 240). A viúva procura o juiz, pois tem uma causa que necessita ser julgada. A viúva diz para o juiz: “Julga a minha causa contra o meu adversário”. O texto não diz quem é o adversário. No entanto, Schottroff deixa claro que a viúva já vem há algum tempo procurando o juiz para que julgue a sua causa. Ela também aponta que a viúva é vítima duplamente: “1) Ela se tornou vítima de um homem que atingiu a base econômica de sua vida[...] e procura se defender com a ajuda de um juiz; 2) Também é vítima de um julgamento injusto que não leva o seu direito em sua consideração” (Schottroff, 2007, p. 240). Ela é vítima de uma injustiça estrutural. Ela sofre devido ao pecado de uma estrutura injusta, que não considera os fracos e marginalizados. Importante perceber que uma sociedade patriarcal comete injustiça estrutural, contra a qual Deus intervém. Quando a parábola diz que o juiz não teme a Deus (v. 2 e 4), a parábola documenta essa falta de temor a Deus também na sua atitude para com a viúva, pois o Deus bíblico exige um julgamento justo para as viúvas. Resistência é uma palavra que caracteriza a viúva. Ela não se apequena diante do juiz. Ela insiste; e devido à sua persistência, o juiz julga a sua causa. A viúva sabe que o seu direito está garantido na Torá. “Sua persistência é possível porque sabe que o direito divino está do seu lado” (Schottroff, 2007, p. 241). Os versículos 7-8a apontam para esse fato: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça”. O núcleo central do texto é a ação persistente e resistente da “mulher-viúva” (metáfora para a luta de pessoas que lutam por seus direitos – pobres, viúvas e órfãos). É da atitude da “mulher-viúva” que os ouvintes devem aprender, tanto no início como no final da parábola. O texto de Lucas 18.1-8 encerra com uma exortação de Jesus em relação à pergunta dos seus ouvintes, dizendo: Contudo, quando vier o Filho do homem, achará, porventura, fé na terra? (v. 8). Fé, portanto, é atitude de pessoas que creem, que oram continuamente e com toda a existência clamam a Deus por justiça. Deus agirá em breve e com justiça. O Filho do homem voltará em breve. É tempo de transformações significativas na vida pessoal e estrutural. É essa esperança ativa na oração que leva também a buscar a transformação da situação de injustiça. “A parábola concentra seu olhar nesse comportamento resistente dos que creem, exemplificado pela viúva obstinada. Esse tipo de oração e a esperança obstinada não se restringem à relação isolada de pessoas individuais com Deus,
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que é como o dualismo moderno classifica o ato de orar. Essa oração caracteriza o agir e orar da comunidade também em seu entorno; ela perfaz sua força e obstinação também em seu jeito de lidar com as pessoas. Os que creem tem esperança de que o juízo de Deus produzirá justiça” (Schottroff, 2007, p. 242). Lucas 18.18, portanto, fala da resistência que brota das “mulheres-viúvas” contra todas as estruturas injustas.
3 Meditação O texto de Lucas 18.1-8 mostra-nos a força da resistência e da persistência de pessoas sofridas, pobres, mulheres, viúvas. Este texto, portanto, necessita ser visto para além da prática persistente da oração. Ele aponta para a ação incessante e militante de uma viúva pela justiça diante de um juiz que não quer julgar sua causa. Ela apresenta a memória da luta das mulheres viúvas em relação à luta por seus direitos, muitas vezes negados. O texto não descreve com detalhes a viúva, mas afirma que ela se dirigia constantemente a um juiz: Julga a minha causa contra o meu adversário (18.3). Também não se sabe quem é o adversário dessa mulher. O texto deixa claro que ela está sendo prejudicada por alguém. Também não se sabe qual é a causa que ela está pedindo para ser julgada. No entanto, ela procura o juiz de forma contínua e persistente, travando uma luta obstinada e incansável pela justiça. O juiz também, por algum tempo, não quis atender a viúva. No entanto, devido à importunação dela, ele diz: Bem que eu não temo a Deus, nem a respeito a homem algum; todavia, como esta viúva me importuna, julgarei a sua causa, para não suceder que, por fim, venha a molestar-me (v. 4b e 5). A “ação-oração” da mulher viúva é tomada como exemplo da oração que agrada a Deus. Essa parábola, na maioria das vezes, é superficialmente interpretada, limitando a força da parábola apenas à persistência na oração. O texto apresenta, no entanto, a luta de uma mulher viúva que enfrenta um juiz insensível e que não teme a Deus nem respeita as pessoas. Ela o enfrenta com uma atitude de oração militante. Este texto é muito bonito e com uma mensagem muito atual, pois mostra a força das mulheres, das viúvas, das pobres, das lutadoras teimosas pelo direito e pela justiça. Elas enfrentam os juízes, os poderes constituídos. A luta dessa “mulher-viúva” representa a luta de todas as “mulheres-viúvas” por seus direitos. Aponta-se para algo importante. A oração apresentada no texto não é uma ação passiva, e sim ativa. A espiritualidade está ligada com a luta por direitos, para que a justiça e o direito sejam feitos em benefício das pessoas marginalizadas e sofredoras. Dentro da própria palavra oração já se encontra a palavra ação. Portanto a oração cristã evangélica está sempre ligada a uma ação que envolve a luta pelo cumprimento da justiça em benefício dos pobres (viúvas, órfãos). Jesus eterniza a história dessa viúva, fazendo dela um exemplo a ser seguido (Reimer, 1996, p. 73). Atravessamos novamente um grave momento de crise político-social no Brasil. Direitos são retirados dos trabalhadores e das trabalhadoras. A marca do
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Brasil é das desigualdades que se mostram em todas as áreas. Não há políticas públicas para quem mais precisa, e sim para quem apresenta mais força política. Há muito clamor e dor na sociedade brasileira. Ouvimos esses clamores das viúvas e dos órfãos. O pecado da estrutura produz muitos clamores dos pobres. Como fazer com que os juízes humanos julguem a causa dos pobres com justiça? Como fazer com que os juízes e as juízas julguem as causas das viúvas, das mulheres pobres, das violentadas? Como a IECLB se posiciona diante dessas realidades de orações que clamam para que o direito e a justiça aconteçam neste país? Contando essa parábola Jesus ensina o povo a reivindicar e a lutar por seus direitos, apontando que é essa a oração que agrada a Deus. Deus não tardará em fazer justiça às pessoas que a ele clamam dia e noite de forma ativa.
4 Imagens para a prédica – Solicitar que pessoas da comunidade (mulheres) que já tiveram que lutar por direitos deem um testemunho de sua persistência e resistência para conseguirem seus direitos. – Outra sugestão: criar um diálogo entre a viúva e o juiz, apontando para a insistência da viúva e o descaso do juiz. – Outra ideia é trazer imagens de mulheres que lutam por direitos. As mães da praça de maio (Argentina), as mães do Rio de Janeiro que estão na luta contra a morte de seus filhos e suas filhas ou a história de Maria da Penha. A luta por superação da violência contra as mulheres e meninas. – A (des)conhecida Lei Maria da Penha, que necessita ser estudada nas comunidades cristãs, afirmando a dignidade e cidadania das mulheres. História de Maria da Penha Fernandes: Conselho Nacional de Justiça (CNJ), publicado em 17 de agosto de 2017. Disponível em: <https://bit.ly/2uPCdIr>. Acesso em: 20 maio 2018. – TEDxFortaleza – Maria da Penha – Uma história de vida! Maria da Penha é símbolo do enfrentamento à violência doméstica e familiar no Brasil. Vítima, em 1983, dessa mácula social por parte de seu então marido, Maria da Penha lutou por 19 anos e seis meses para conseguir a punição do seu agressor, fato que só aconteceu devido a pressões internacionais. Em 2006, foi sancionada a Lei Maria da Penha, que dá mais rigor na punição ao agressor e prevê condições para a mulher e sua família viver sem violência. Hoje, Maria da Penha atua junto ao Instituto Maria da Penha-IMP através de ações voltadas para a desconstrução do machismo e para a construção de uma sociedade de paz e com equidade de gênero. Disponível em: <https://bit.ly/2mxAJPz>. Acesso em: 28 maio 2018. – Sobre as mães corajosas que perderam seus filhos no Rio de Janeiro e sua luta por justiça. Disponível em: <https://bit.ly/2Lak2sf>. Acesso em: 28 maio 2018. – Sugiro dar uma lida na meditação de Hans Alfred Trein e Nilton Giese, Lucas 18.1-8, Orar significa também lutar, 15/10/2016. Disponível em: <https:// bit.ly/2JI3mCz>. Acesso em: 01 jun. 2018.
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5 Subsídios litúrgicos Invocação Deus do amor, invocamos a tua presença. Jesus Cristo, companheiro que caminha junto na luta por justiça e paz, invocamos a tua presença. Espírito de Deus, santificador e animador, para que sigamos resistentes e persistentes com coragem na luta por direitos para todas as pessoas, invocamos a tua presença. Amém. (Acender três velas no altar.) Kyrie – Pelas dores deste mundo Solicitar que as pessoas participantes do culto escrevam dores e situações de injustiça e coloquem no altar. Como sinal de entrega a Deus, queimar os bilhetes pedindo que o fogo purificador do Espírito de Deus fortaleça as lutas por paz e justiça em nosso mundo. Canto Hino
Livro de Canto da IECLB 56: Pelas dores deste mundo. Livro de Canto da IECLB 609: Palavra não foi feita para dividir ninguém. Litania da esperança Quando as forças se abatem... Creio no poder da justiça de Deus que me fortalece. Se é noite e os pesadelos querem me dominar... Na angústia das tempestades... Quando as lágrimas desejam ser meu alimento... Se na caminhada eu ousar desistir... Na saudade de um tempo de alegria... Quando a voz estiver fraca para clamar... Se no abraço o amor universal estiver ausente Fortalece a persistência e a resistência na luta por direitos Creio no poder da justiça de Deus que não tardará. (Adaptado de Inês de França Bento e Alexandre Filordi)
Oração de intercessão – Interceder para que a democracia com direitos se restabeleça no país, para que os juízes e as juízas julguem com retidão a causa das viúvas, das mães que choram por seus filhos mortos, crianças, pobres, escravizados, doentes, estrangeiros, agricultores, agricultoras e marginalizados. – Interceder para que cristãos e cristãs exerçam uma diaconia ativa na luta por direitos, com incidência pública.
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– Interceder para que a oração se torne também ação ativa e resistente frente a todas as injustiças. – Interceder pela igreja, por seu papel consolador e profético. – Interceder pela paz e a justiça social. Deus, ouça o clamor do teu povo e fortaleça em cada um e cada uma a resistência e a persistência na luta por restituição de direitos. Bênção final Deus-Vida, tu és vida. Fonte de vida, forças, ânimo e fé recebemos de ti. Abençoe nossas lutas por direitos, justiça, igualdade e paz. Envolve-nos nos movimentos de vida, justiça e paz, ensinados por Jesus. Dá-nos resistência e persistência nas lutas cotidianas por direitos. Ouve nossas orações, ativas, com a força da Ruah – espírito de vida. Que o exemplo da viúva insistente e persistente nos inspire em nossas lutas cotidianas. Que a tua bênção, Deus Trino, caminhe cada dia e momento junto conosco. Amém!
Bibliografia SCHOTTROFF, Luise. As parábolas de Jesus: uma nova hermenêutica. São Leopoldo: Sinodal, 2007. p. 239-244. RICHTER REIMER, Ivoni. O poder de uma protagonista: A oração de pessoas excluídas (Lucas 18,1-8). Ribla, Petrópolis: Vozes, v. 25, p. 63-73, 1996.
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PRÉDICA: SALMO 84.1-6 LUCAS 18.9-14 2 TIMÓTEO 4.6-8,16-18
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27 OUT 2019
Aline Danielle Stüewer
Habitar na casa de Deus
1 Introdução O texto da mensagem desta semana, encontrado no Salmo 84, fala do caminho do peregrino e da bem-aventurança que se encontra na casa de Deus. A peregrinação e o caminho, muitas vezes, podem ser penosos e terminar em vale árido ou de choro, mas de Deus vêm a bênção e a chuva que renova a terra após a sequidão. O texto do evangelho também se refere aos peregrinos. Jesus narra aqui a parábola do fariseu e do publicano. Os dois dirigem-se ao templo, à casa de Deus, para orar. A atitude dos dois é totalmente distinta: o primeiro vangloria-se da própria postura e deposita sua confiança em si mesmo; o segundo reconhece a grandeza de Deus e confessa-se pecador. E Jesus ressalta, assim como se confessa no Salmo, que a bem-aventurança está com a pessoa que deposita em Deus sua confiança e fé. Na epístola, por sua vez, fala-se do martírio. Assim como no Antigo Testamento e no evangelho, ressalta-se a confiança em Deus que leva à bênção e salvação ao final da jornada. A salvação que provém de Deus leva a pessoa a render glória “pelos séculos dos séculos”. O evangelho e o Salmo citam a casa de Deus como lugar onde todas as pessoas podem buscar forças e aceitação. O texto da Carta a Timóteo destaca que é o Senhor quem nos assiste, nos reveste de forças e nos salvará. Por isso a ele devem ser dados o louvor e a adoração. A pregação pode destacar que na igreja, na casa de Deus, a pessoa encontra força e respostas para sua vida. Ali pode adorar, bendizer e conversar com Deus. Através da pregação do evangelho sua vida é sustentada, alimentada e fortalecida.
2 Exegese O Salmo 84 está entre os salmos de Sião, que “celebram o lugar onde habita Deus: o Sião” (Schmidt, 2002, p. 293). Na comparação entre as diversas versões do texto, encontram-se diferenças substanciais. Três versões foram levadas em consideração: Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e Jerusalém (JER). O texto de ARA, por fazer uma tradução mais literal do texto original, emprega vocabulário não mais tão acessível ao ouvinte contemporâneo. O nome de Deus também é referido distintamente pelas versões. ARA e NTLH empregam “Senhor”, ao passo que JER opta pela transliteração da
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palavra hebraica “Iahweh”. O atributo de Deus “dos exércitos” é mantido em ARA e JER, mas NTLH opta pela interpretação “Todo-poderoso”, tornando o texto mais acessível ao leitor contemporâneo. Uma análise versículo a versículo é necessária para subsidiar uma recomendação de leitura no culto comunitário. V. 1 – O local da morada de Deus é referido de três modos distintos: “tabernáculos” (ARA), “Templo” (NTLH) e “tuas moradas” (JER). NTLH opta por uma redação em primeira pessoa do singular “como eu amo”; ao passo que ARA e JER usam terceira pessoa do plural “quão amáveis são”. Ao que parece, NTLH procura aproximar o texto do leitor. V. 2 – A única diferença entre ARA e JER aqui diz respeito ao nome de Deus. O suspirar e desfalecer da alma (ARA e JER) é interpretado com o “desejo de querer estar próximo” e “saudade” em NTLH. NTLH também emprega “todo o meu ser”, ao passo que ARA e JER usam “o meu coração e minha carne”. NTLH também mantém a redação em primeira pessoa do singular. V. 3 – Além das diferenças gerais já apontadas, a única especificidade a ser destacada neste versículo é o emprego de uma ordem mais direta pela NTLH. Em termos de conteúdo, destaca-se aqui a admiração do salmista pelo fato de que até mesmo os pássaros encontram morada segura na casa de Deus. V. 4 – Pode-se dizer que este é um dos versículos mais belos de toda a Bíblia. “Bem-aventurados” (ARA) ou “felizes” (NTLH e JER) são os que “habitam” (ARA e JER), “moram” (NTLH) na casa de Deus. A morada na casa de Deus produz louvor “perpétuo” (ARA), “sem cessar” (JER) ou “para sempre” (NTLH). O emprego do gerúndio “sempre cantando” por NTLH parece distorcer um pouco o sentido do texto. O louvor é consequência de habitar na casa de Deus, e não apenas uma ação concomitante. O habitar na casa de Deus pode ser o tema central da mensagem. A profundidade dessa declaração pode ser explorada de diferentes formas ao longo do culto comunitário. V. 5 – Este versículo continua no mesmo tom do versículo anterior, iniciando com a mesma formulação “bem-aventurados” (ARA) ou “felizes” (NTLH e JER). A bem-aventurança agora é associada ao buscar em Deus a força para a vida. Estar em Deus transforma a pessoa, muda seu coração (ARA e JER), fazendo com que ele se encha de “caminhos aplanados” (ARA), que tenha discernimento quanto às “estradas que levam ao monte Sião” (NTLH) ou que “guardam as peregrinações” (JER). Quatro palavras-chave resumem melhor a mensagem do versículo: bem-aventurados, força, coração, Deus. V. 6 – O “vale árido” (ARA), “vale das Lágrimas” (NTLH) ou, ainda, “vale das balsameiras”, árvores que choram, segundo comentário em JER, deve ser uma referência à amoreira. Assim, o texto pode se referir ao vale das amoreiras, que era a última etapa da peregrinação. É um local “ao norte do vale de Enom (Geena) [...], na encruzilhada das estradas que vinham do norte, do oeste e do sul (2Sm 5.17-25)” (JER, 1985, p. 1043). ARA opta pela tradução “árido”, possivelmente em contraposição à segunda parte do versículo, em que se fala de “manancial” (ARA), “fontes de água” (NTLH), “fonte” (JER) e “primeiras chuvas” (ARA, NTLH e JER). A opção de NTLH por “vale das lágrimas” também pode ser vista como uma referência ao esgotamento característico do fim de uma peregrinação.
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O fim da jornada do peregrino é exaustivo e, muitas vezes, leva ao esgotamento. Mas para a pessoa que deposita em Deus sua confiança, que lhe entrega sua vida, o fim da peregrinação é também sinônimo de novas forças, de revigoramento, do mesmo modo como o são “as primeiras chuvas” após um tempo de aridez.
3 Meditação O texto da pregação nos faz refletir a respeito da importância do templo, da igreja, de ter um local de culto e adoração a Deus. Na época em que o salmo foi escrito, as pessoas viviam em exílio, estavam afastadas da “sua igreja”. Não podiam ir aos cultos nem buscar a Deus como sempre faziam. E sentiam muita falta disso. A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Tinham a firme certeza de que, ao entrar na casa de Deus, recebiam dele novas forças e ânimo. O salmo traz uma realidade bem diferente da que vivemos hoje. Ter acesso à igreja, a uma comunidade não é difícil. Entretanto, é cada vez mais comum ouvirmos pessoas dizerem: “Eu não tenho comunidade, eu não participo numa igreja, mas eu acredito em Deus. Faço as minhas orações e acredito que ele também me ouve. Não preciso de igreja”. É cada vez mais forte o sentimento de indiferença pela igreja e pela vida em comunidade. Muitas pessoas se perguntam: Por que ir à igreja? Por que existe igreja? Por que existe comunidade? O salmo revela-nos que é na igreja que ouvimos a palavra de Deus e fortalecemos nossa fé. Na vida caminhamos como peregrinos. Passamos por caminhos tortuosos e inseguros. E é na casa de Deus que encontramos lugar para descansar e renovar nossas forças. As comunidades da IECLB, em sua maioria, celebram culto aos domingos. É extremamente significativo ir à igreja no primeiro dia da semana para pedir a Deus sabedoria e força para enfrentar o caminho da semana que se inicia. Quem anda com o Senhor está protegido, guardado pelos braços fortes do Todo-Poderoso. O salmista destaca que até mesmo os pardais e as andorinhas fazem seus ninhos próximos ao altar do Senhor com a intenção de proteger seus filhotes (Sl 84.3). A partir do batismo, fomos chamados por Deus a fazer parte de uma grande família – a família de Deus. É importante que as pessoas dessa família tenham um lugar para se reunir e conversar a respeito daquilo que acreditam e vivem. Afinal, é isso o que uma família faz. E o lugar privilegiado para essa família se reunir é na casa de Deus. A igreja é o local onde a família de Deus se reúne. Na casa de Deus não somos nós que vamos ao encontro de Deus, mas é ele que vem ao nosso encontro. Quando os membros da família de Deus entram pela porta, Deus já os está esperando. E quando os vê diz: “Que bom que você veio, eu estava esperando, preparei algo muito especial para você”. Deus nos espera em sua casa. Ele prepara algo especial para nós. Como família, muitas vezes, nos reunimos para almoços. Normalmente, é uma pessoa que vai atrás, convida e faz os preparativos. Essa pessoa espera que todos estejam presentes no dia do encontro. Assim também Deus espera que estejamos presentes no encontro que ele preparou para nós.
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Como é difícil hoje as pessoas tirarem tempo para participar da igreja! E participar da igreja é mais do que apenas estar nos cultos. É viver comunidade. É se interessar pelos assuntos da sua igreja, é participar das assembleias da paróquia para estar por dentro do que está acontecendo na sua igreja. Infelizmente, é até mesmo difícil encontrar pessoas que assumam funções no presbitério. Aquelas pessoas que compreendem a igreja como o local onde o próprio Deus vem ao nosso encontro para nos mostrar o caminho a seguir e nos fortalecer na caminhada também desejam ardentemente, assim como o salmista, estar na casa de Deus. Ali sentem a presença de Deus, ouvem sua voz e fortalecem a fé, a esperança e o amor.
4 Imagens para a prédica Sobre a pergunta que frequentemente ouvimos “por que ir à igreja”, sugere-se contar a seguinte história: Um frequentador de igreja escreveu para o editor de um jornal e declarou que não faz sentido ir aos cultos todos os domingos. “Eu tenho ido à igreja por 30 anos e durante esse tempo devo ter ouvido uns três mil sermões. Mas, por minha vida, com exceção de um ou outro, eu não consigo lembrar a maioria deles. Assim, eu penso que estou perdendo meu tempo e os pastores também estão desperdiçando o tempo deles”. Essa carta iniciou uma grande controvérsia na coluna “Cartas ao Editor”, para a alegria do editor-chefe do jornal, que recebeu diversas cartas, das quais ele decidiu publicar esta resposta de um leitor: “Eu estou casado há mais de 30 anos. Durante esse tempo minha esposa deve ter cozinhado umas três mil refeições. Mas, por minha vida, com exceção de uma ou outra, eu não consigo me lembrar da maioria delas, mas de uma coisa eu sei: todas elas me nutriram e me deram a força que eu precisava para fazer o meu trabalho. Se minha esposa não tivesse me dado essas refeições, eu e nossos filhos estaríamos desnutridos ou mortos. Da mesma maneira, se eu não tivesse ido à igreja para alimentar minha alma e de minha família, estaríamos hoje em terríveis condições espirituais” (autoria desconhecida).
5 Subsídios litúrgicos Hinos
Sugere-se cantar com a comunidade os seguintes hinos do Livro de Canto da IECLB: 6 – Aqui você tem lugar 24 – Vinde abrir-me a porta bela 29 – Senhor, tu nos chamaste Oração Senhor nosso Deus, agradecemos-te porque mais uma vez tu nos trouxeste à tua casa. Tu sabes como chegamos até tua presença, cheios de dúvidas, de incertezas, cansados e sobrecarregados. Agradecemos-te porque mais uma vez
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20º Domingo após Pentecostes
tu vieste ao nosso encontro e renovaste nossa fé e esperança. Saímos daqui fortalecidos e animados a viver a tua Palavra. Que possamos testemunhar, através do nosso agir e falar, o amor que podemos encontrar em tua casa. Ajuda-nos a trazer mais pessoas para junto da tua família. É o que pedimos em nome de teu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém!
Bibliografia BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 1985. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2002.
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DIA DA REFORMA
PRÉDICA: MATEUS 10.26b-33
31 OUT 2019
JEREMIAS 31.31-34 ROMANOS 3.19-28
Hans A. Trein
Não temais os que matam o corpo
1 Introdução Há dois anos celebramos 500 anos da Reforma. No ano passado e em 2019, nossa igreja proclamou e proclama com alguma ousadia o tema Economia, Política e Igreja, para aprofundar a reflexão naqueles âmbitos que dizem respeito a toda a criação de Deus, ao seu funcionamento justo e à sua sustentabilidade. Será que conseguimos avançar no rumo de radicalizar a Reforma, ou seja, ir às raízes da Reforma, atualizar as atitudes reformadoras e seu impacto para o nosso tempo? Sempre se corre o grande risco de repisar um assunto tão importante com discursos bem-intencionados, mas vazios e inócuos, sem qualquer correia de transmissão com a realidade de nossa sociedade civil, do Estado ou de nossas comunidades eclesiais. Em nosso país, certamente uma reforma do judiciário, com seus arroubos de infalibilidade, com seus partidarismos e seus escandalosos salários, é uma necessidade urgente. Uma pregação vigorosa no Dia da Reforma certamente não é tudo o que temos a fazer. Mas já é um bom começo! No século XVI, a igreja ainda tinha uma posição de influência decisiva na sociedade. Hoje, as igrejas sérias quase não conseguem se fazer ouvir, pois em grande parte foram alijadas para o campo das religiosidades abstratas, quando não anacrônicas, ou do socorro espiritual diante das adversidades da vida, quando não apenas para enfeitar a vida com um pouco de transcendência. Mas ainda temos um dom e uma tarefa como cristãos e cristãs da reforma de confissão luterana: tecer os âmbitos da fé com todos (!) os âmbitos da vida. Divulgar e publicar sem medo, com posturas e atitudes públicas, o que até agora ficou por demais restrito às paredes da igreja.
2 Exegese Não tenham medo deles! De quem? Dos lobos, dos homens que vos arrastarão aos tribunais e vos açoitarão em suas sinagogas, de governadores, dos perseguidores (v. 16-23). Não há nada encoberto que não venha a ser revelado – procede da fonte de ditos isolados (Q) e aparece quatro vezes na tradição dos evangelhos; é por eles interpretado de maneira diversa. Em Marcos 4.22 e Lucas 8.17, como declaração sobre o destino da pregação de Jesus – o segredo do reino de Deus será revelado a todas as pessoas; em Lucas 12.2, como advertência frente
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à hipocrisia dos fariseus – não leva a nada, pois o que está em segredo se tornará público; em Mateus 10.26, o dito fundamenta a admoestação ao destemor – a pregação não conseguirá frear toda inimizade e contrariedade. Os evangelistas provavelmente não sabiam mais qual era o sentido original desse dito. Talvez tivesse sido um provérbio: tudo virá à luz (Jeremias, 1970, p. 219s). Os versículos 32 e 33 provavelmente são um acréscimo. A perícope faz parte do assim chamado “sermão missionário de Jesus”. O ensino e a prática de Jesus, que até então tinham ficado apenas no círculo mais restrito de discípulos e discípulas, não estão destinados a uma ordem secreta. É necessário que o evangelho se misture com a realidade, qual vinho novo rompa os odres velhos. Isso implica oposição, riscos, perigos, que estão mencionados nos versículos precedentes. A sociedade e, sobretudo, os poderosos não aguentam profetas, mas paradoxalmente precisam deles para não sucumbir. Por isso três vezes recomenda confiança: Não temais! (v. 26,28,31). Contudo, não apenas as testemunhas de Jesus correm riscos; o próprio evangelho levado a público também corre riscos de ser enfraquecido e até mesmo pervertido, como nos mostrou a história da igreja. Por isso é necessário que a igreja esteja em permanente reforma. Por fim, temer a Deus, que pode destruir corpo e alma, é muito mais inteligente do que temer os eternos defensores de privilégios que, na pior hipótese, apenas conseguirão matar o corpo. A vida é eterna, os viventes não. Duas figuras do cotidiano são empregadas por Jesus para explicitar que Deus está no controle absoluto do seu projeto de salvação para a criação. Nenhum dos pássaros mais comuns – o pardalzinho (stroution) era a vida mais barata (dez centavos) no mercado da época – está fora dos cuidados de Deus; quanto mais vocês! Nenhum dos milhares de cabelos que a gente tem na cabeça e que são diariamente arrancados por alguma escova ou pente cai sem que Deus o saiba. Uma hipérbole! O exagero quer demonstrar como são infundados os medos e a falta de confiança em Deus. Nada está oculto ou esquecido por Deus. E vós valeis muito mais do que os passarinhos, as flores, a erva do campo... Não tenham medo! A fé vence o medo! As formulações meu Pai, ou Pai nosso, a que já nos acostumamos por séculos, eram uma novidade – para algumas pessoas, chocante – na época neotestamentária. A confiança e a intimidade que traduzem estavam na contramão dos ensinamentos judaicos a respeito da absoluta santidade de Deus. No Primeiro Testamento, aparecem apenas em Isaías 63.16 e 64.8. A postura de discípulos e discípulas tem consequências para o seu bem e seu mal. A graça que salva e que sana é de graça, mas não é barata. Somos justificados gratuitamente mediante a redenção que há em Cristo (Rm 3.24). A língua hebraica tem o modo verbal consecutivo que desconhecemos em nossas línguas ocidentais. Não se trata de um indicativo (salvação por graça) ao qual deve seguir um imperativo (uma nova lei), como interpretaram alguns teólogos europeus. Mas é graça que tem consequências (modo verbal consecutivo), sem receio de uma sutil justificação por obras, e se não tiver consequências, não é mais graça recebida. Almeida traduz homologēsei en emoi como “me confessar”. Eu traduziria: Todo aquele que disser que está comigo diante dos homens, eu também direi que está comigo diante de meu Pai que está nos céus. A imaginação que está por trás de homologēsei en emoi
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é que “a confissão gruda no seu objeto” (Rienecker, 1956, p. 25). Confessando a Cristo, discípulos e discípulas ficam grudados em Cristo (como os ramos na videira) e o representam em sua temporária ausência física. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo como o seu senhor (v. 25).
3 Meditação Neste discurso Jesus planta sua confiança fundamental nos corações de discípulos e discípulas. Essa confiança deve moldá-los e saná-los. Homólogos ao Mestre podem encarar sua missão sem medo. A gente se sente jogado de um lado para o outro. De fato, o cristianismo eclesiástico de hoje – desde sua oficialização por Constantino, diga-se de passagem – não precisa temer represálias por causa de sua pregação. Se, de um lado, a fé e os princípios cristãos marcaram as sociedades alcançadas pelo evangelho, no sentido de mais tolerância religiosa, liberdades de pensamento, de fé e de práticas religiosas, direitos humanos básicos e, ultimamente, também extensos, de outro lado, é necessário perguntar se as pregações ainda contêm aquele conteúdo libertário e crítico em relação ao senso comum, ao Zeitgeist, à cultura dominante de nossa era. Temos que nos perguntar se nossas igrejas, organizadas como associações religiosas, não estão domesticando a força libertária do evangelho, substituindo-a por um discurso mais adaptado ao que as pessoas querem ouvir, porque seu objetivo principal é fechar o ano com o orçamento em dia, sem perda de membros nem de cadáveres de fichário que talvez poderiam irritar-se e sair da associação. Não custa lembrar que um tema do ano como “Terra de Deus – Terra para Todos” (1982) já causou grande celeuma. A defesa dos povos indígenas remanescentes de um massacre de 500 anos bem como a defesa de descendentes de quilombolas geram muita divisão, contradição e ameaças dentro das igrejas. Se pastores e pastoras pregassem hoje contra a usura – como Lutero recomendou aos pastores de sua época pregar –, que hoje está estruturada como sistema financeiro dentro de nossa sociedade, as pessoas provavelmente balançariam as cabeças, sentir-se-iam chocadas ou diriam que isso não tem nada a ver com espiritualidade evangélica. Se pregarem contra a acumulação de bens e em favor da partilha, provavelmente serão acusadas de comunistas. Se, em nome da sustentabilidade ecológica, pregarem contra o crescimento ilimitado num planeta limitado em recursos, provavelmente serão proscritos como defensores de interesses estrangeiros. E por aí vai! Alguns querem que a igreja seja uma confraria de bem-estar e bem sentir emocional, um lugar onde se pode receber uma massagem na alma. Claro que a igreja deve ser aquele lugar em que as pessoas são consoladas e animadas, mas não é para se sentir enlevadas, e sim para ir encorajadas para a luta. Até mesmo as rasas polarizações partidárias, amplificadas pelas assim chamadas redes sociais, inviabilizam qualquer discussão um pouco mais séria e aprofundada sobre os problemas da sociedade; é um instrumento poderoso e diabólico, operado pelo confundidor mor. Pode-se observar hoje que há grupos fora das igrejas empenhando-se por propostas mais próximas do evangelho de Cristo, pois os de dentro
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têm medo. Não temais, diz Jesus. Fiquem grudados em mim e eu os manterei grudados em Deus, o Pai. Nada escapa ao seu controle! Essa fé não seria algo infantil? Confiar na providência divina dessa forma vai contra toda leitura da existência. Aos realistas históricos só resta ridicularizar essa confiança ingênua. E não adianta dizer que se trata da visão da fé sobre a realidade, pois também essa postura não resiste a questionamentos mais sólidos. Não só pardais caem dos telhados, nem só cabelos caem das cabeças. Milhões de pessoas são vítimas de ideologias destrutivas, milhões de crimes são cometidos contra crianças, o império elimina com violência possíveis competidores, com as justificativas mais estapafúrdias; a corrupção de políticos gera a morte das pessoas que dependem dos serviços públicos, o desenvolvimento tecnológico acaba com o emprego e o meio de vida de muitas famílias, o crescimento desenfreado e a ambição por cada vez mais lucros estão acabando com a boa criação de Deus. Defender uma fé ingênua e infantil num Deus que cuida de tudo beira uma imaturidade banalizante, é de um infantilismo que não quer tornar-se adulto e reconhecer sua parcela de cooperação na criação de Deus. Por outro lado, confiança ou fé em Deus não é um princípio de explicação do mundo ou de interpretação da história. Deus não olha o que está visível; a fé também não. Ela vê o que está escondido. Hanna Wolff (1994, p. 265-274), teóloga e psicóloga jungiana, sugere que se pense o escondido como o subconsciente. Os imperativos Não se preocupem!; Não tenham medo!; Pedi e dar-se-vos-á!; Batei e abrir-se-vos-á! denotam uma determinação existencial, uma sensação existencial que só é possível a partir da integração do eu (Selbst em Carl G. Jung). Talvez seja isso que o profeta Jeremias anuncia como sendo a nova aliança que produz intimidade entre Deus e seu povo (31.33s). A pessoa que está dividida em si mesma, na qual está ocorrendo uma luta psíquica interna, não o entenderá, só ironizará como fantasia quando algum desses imperativos a atinge. Trata-se de uma confiança originária, de uma segurança primitiva. Quando tal confiança abrangente é comunicada a uma criança nos seus primeiros anos de vida, uma sensação de ninho aconchegante, então ela fica marcada com potenciais psíquicos para enfrentar a vida e superar seus desafios de uma forma positiva. Entretanto – poder-se-ia objetar –, tal mundo são não existe. Sim, mas ele sempre foi buscado pela humanidade pensante. E nele provavelmente determinações subconscientes fazem mais estragos do que anseios conscientes. Nosso tempo declarou notadamente a preocupação como elemento existencial da vida. As pessoas sentem-se deslocadas, sem raízes, não se sentem mais em casa. Isso conduz a um medo existencial. “As imagens do subconsciente de pessoas modernas estão repletas de bloqueios que não querem se abrir; quando recebem algo, não conseguem deixá-lo entrar”. Mas nosso tempo tem saudade e anela pela imagem humana sã que se encontra em Jesus e que corresponde a uma imagem sã de Deus. Em seu livro, Hanna Wolff apresenta Jesus como um dos raros seres humanos que integraram animus e anima – as porções masculinas e femininas do ser humano. Daí a sua confiança originária, primitiva, total no Pai. Essa fé de Jesus é que nos cabe almejar.
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4 Ideias para a prédica A corrente principal é de um cristianismo de bem-estar com todos. Cada qual pensa que não é tão pecador assim e que vai para o céu. Estamos de acordo com a ordem vigente, mesmo que pelos seus frutos miseráveis se pode entender que, na verdade, a ordem econômica e social é uma desordem. Participamos dessa desordem pecaminosa, mas não estamos dispostos a reconhecer nossa parcela de responsabilidade. Não tendo noção do nosso pecado, não temos como compreender a graça. Aqui está a ligação com a leitura de Romanos. Estamos de acordo com o desenvolvimento geral da sociedade. “Só não se dá bem quem não quer.” Todos têm chances iguais – esse é o senso comum mentiroso que precisa ser enfrentado. Nossa igreja é bem vista. Fazemos festas bem visitadas. Fornecemos lideranças para a comunidade civil que vão exercitando suas competências nas diretorias de nossas comunidades. Somos cidadãos e cidadãs respeitáveis. Não ofendemos ninguém e ninguém nos ofende. Não queremos saber de polícia nem de justiça, por isso não nos metemos em assuntos que podem ser polêmicos. Onde a adaptação ao estilo de vida comum contradiz a vontade de Deus manifesta na pregação e atuação de Jesus? Cristãos e cristãs não praticam o que sabem porque têm medo. A nova aliança, com Deus inscrevendo em nossos corações a sua lei (Jeremias 31), nos apresentando Jesus como modelo de confiança e fé, nos anima a romper com a comodidade e com a zona de conforto enganosa em que nos encontramos. Em que aspectos a comunidade eclesial local pode oferecer alternativas de vida, com mais solidariedade com os empobrecidos, desprendimento e engajamento por justiça social, vivência a partir da graça e não de uma ideia de meritocracia (ligação com Romanos)? Quais são nossos medos que resultam em falta de confiança e de fé no projeto de Deus para a salvação de sua criação? Se houver um projeto concreto em que a comunidade pudesse se engajar, nem que seja só temporariamente, seria um efeito concreto da pregação.
5 Subsídios litúrgicos Sugestão de hinos – No tempo em que vivemos, imprescindível é que sempre confessemos bem claro a nossa fé (HPD 1, 76; Livro de Canto da IECLB 461, especialmente o verso 4). – A verdade vos libertará (O Povo Canta, 70/71) – Não temais os que matam o corpo. Sugestão de leitura Se possível em responsório, o Salmo 139, para reforçar a confiança na onipresença e efetividade de Deus.
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Dia da Reforma
Confissão de pecados Senhor, nosso Deus, comemoramos hoje a Reforma da Igreja, ocorrida há 500 anos. Por ela agradecemos! Pedimos-te que nos concedas a humildade de reconhecer que também nós individualmente necessitamos de reforma. Fracassamos em nossos bons propósitos. Mesmo que não o sintamos, todos pecamos e carecemos da tua glória. Estamos determinados por preocupações e medos que nos impedem de agir conforme a tua vontade. Trazemos-te essa realidade e pedimos que nos ajudes a superá-la. Confessamos-te os nossos pecados e pedimos perdão por eles. Ajuda-nos a cumprir melhor a missão da qual nos incumbiste. Tem piedade de nós, Senhor! Oração de coleta Deus, Pai todo amoroso, tu que através do profeta anunciaste que inscreverias a tua lei nos corações do teu povo, e que em Jesus Cristo mostraste tuas intenções de justiça, sanidade e salvação da espécie humana, nós te pedimos: olha também para nós nestes dias de insegurança na fé, concede-nos o espírito da Reforma para que sejamos imbuídos do Espírito de Jesus e anunciemos o teu Reino sem medo, na firme confiança de que tu tens tudo sob controle. É o que te pedimos, por Jesus Cristo, teu Filho amado, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Intercessão Santo Deus, o Dia da Reforma nos alegra, porque a Reforma nos trouxe de volta o evangelho do teu Reino. O Dia da Reforma nos faz pensar se não está na hora de buscarmos novamente, com mais força e intensidade, o evangelho do teu Reino para os nossos dias. Somos uma igreja pequena e modesta, mas tu nos deste dons e nos equipaste com capacidades que não podemos esconder, por temermos alguma contrariedade. Fortalece nossa consciência evangélica e nossa disposição de nos envolvermos nas questões econômicas, políticas e sociais em nosso país. Dá aos pregadores e às pregadoras o vigor e o destemor de quem está firmemente ancorado em tua graça. Dá que aprendamos a nos envolver com a governança de nosso município, estado e nação, testemunhando tua santa vontade e justiça. Consola as pessoas tristes e desanimadas, doentes e enlutadas. Protege-as contra todo mal e dá-lhes a certeza de tua presença e bênção para suas vidas.
Bibliografia JEREMIAS, Joachim. Die Gleichnisse Jesu. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1970. RIENECKER, Fritz. Sprachlicher Schlüssel zum Griechischen Neuen Testament. 9. Aufl. Giessen; Basel: Brunnen, 1956. WOLFF, Hanna. Jesus na perspectiva da psicologia profunda. São Paulo: Paulinas, 1994.
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DIA DE FINADOS
PRÉDICA: ISAÍAS 25.1,8-9
02 NOV 2019
JOÃO 11.1-5,17-21 ROMANOS 8.31-39
Eloir Enio Weber
Deus enxugará as lágrimas de todos os rostos
1 Introdução Dia de Finados! Para ministras e ministros que atuam em comunidades é um dia cheio. Celebrações em cemitérios e igrejas. Muita correria e muitas mensagens de esperança para proferir. No entanto, pouco tempo para refletir sobre seus próprios sentimentos diante da finitude da vida e a saudade das pessoas queridas e familiares. A pessoa ministra, nesses dias de muita movimentação, em geral só consegue pensar em dar conta da agenda e de conseguir transmitir a mensagem, especialmente nos cemitérios, nos quais as estruturas não são adequadas para as celebrações. Para as pessoas da comunidade (e o público em geral) é um dia para prestar homenagens a seus familiares e amigos que faleceram. Um dia de saudades e de comoção, de esperança e de fé. Esses sentimentos precisam ser levados em conta quando se preparam as celebrações do Dia de Finados. O conjunto de textos bíblicos do lecionário, previsto para a data, é bem tradicional. O texto do evangelho – João 11.1-5,17-21 – é um recorte da narrativa da ressurreição de Lázaro. A perícope, recortada de forma estranha no meu ponto de vista, narra a doença e a notícia da morte de Lázaro, a chegada de Jesus à casa das irmãs Marta e Maria e uma parte do diálogo de Jesus com Marta. O texto de leitura – Romanos 8.31-39 – traz uma importante reflexão do apóstolo Paulo sobre a relação de cuidado de Deus para conosco e a afirmação central de que nada pode nos afastar do amor de Deus a partir de Jesus Cristo. Já o texto de pregação – Isaías 25.1,8-9 – traz uma palavra de consolo e conforto ao povo de Israel, anunciando que Deus acabará com a morte e que enxugará dos olhos as lágrimas. Um bom conjunto de textos para consolar as pessoas que estão à procura de uma palavra em meio à saudade e ao luto!
2 Exegese a) O livro de Isaías – É largamente aceito o conceito de que Isaías, o livro profético, é dividido em três grandes blocos: os capítulos 1 a 39 formam o Primeiro Isaías; os capítulos 40 a 55, o Dêutero-Isaías; e o último, chamado de Trito-Isaías, compreende os capítulos 56 a 66. A perícope em questão neste estudo, portanto, encontra-se no primeiro bloco. O lugar existencial do profeta e da palavra proferida encontra-se em Jerusalém.
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Dia de Finados
Nesse cenário, o profeta faz uma forte oposição ao poder instituído e coloca-se na defesa para promover o resgate da esperança de um povo pobre, injustiçado e sofrido. A luta e a busca do profeta é que Sião seja um lugar no qual as pessoas empobrecidas encontrem abrigo (14.32). Ele denuncia o comportamento de ricos e latifundiários, das pessoas que vivem em grandes festas custeadas pelo trabalho dos pobres. Opõe-se à exploração sofrida pelo povo quando lhe é negada a justiça (5.8-24). No entanto, não deixa de acusar, também, o povo, quando diz que o boi e o jumento conhecem o seu dono e sabem onde ele coloca a comida para eles, mas que o povo de Israel não o compreende (1.3). Por outro lado, o anúncio é parte importante em Isaías. A profecia de que virá um descendente do rei Davi, que será como um ramo que brota de um toco, faz menção a essa nova esperança que deve surgir. A profecia de que o povo terá autoridades que governarão com justiça e honestidade (32.1) está presente para trazer alento ao povo sofrido. O profeta aponta para a reconstrução da esperança nos momentos mais difíceis desse povo. O texto de Isaías, por vezes, está carregado de uma linguagem simbólica, enigmática, mas tem como meta clara a mensagem da salvação, pois Deus acompanha e salva o seu povo. Isaías é tido, desde os pais da igreja, como o “Evangelista do Antigo Testamento”, pois descreve de forma detalhada e completa a obra e a pessoa do Messias. b) O contexto maior – O capítulo 25 está colocado dentro de um contexto maior, bem característico do livro de Isaías. Esse pequeno bloco, destacado do conjunto maior, é denominado de “Apocalipse de Isaías”. Trata-se de um conjunto de profecias que nos remetem para a salvação do povo, exaltando a confiança em Deus, pois ele intervém na terra, no mundo, não mais numa realidade específica. O descontentamento com os poderes estabelecidos fica fortemente marcado com a profecia da iminente vontade de que Deus mesmo venha e reine (24.2123). O sofrimento do povo precisa ter fim; sendo assim, é anunciada a vinda do reino de Deus. c) O contexto menor – O texto em estudo encontra-se dentro da mensagem do banquete oferecido por Deus, em Sião, para todos os povos (v. 6 e 7). O banquete é uma expressão forte no contexto bíblico (p. ex. Sl 23 e evangelhos) do reino de Deus. Na imagem do banquete está a ação de Deus que alimenta as pessoas famintas de pão, vida, justiça e dignidade. Ser convidado para compartilhar a mesa na presença do próprio Deus, participar da comunhão com ele e fartar-se confere dignidade e valor à vida, que é acolhida pela própria misericórdia de Deus. O anúncio é que a comunhão realizada no banquete destruirá a coberta que envolve todos os povos e o véu que está posto sobre todas as nações (v. 7), trazendo paz entre os povos que estão envoltos em tristeza e choro. Neste sentido, lamento que no recorte do texto os v. 6 e 7 tenham sido deixados de lado. d) O texto – O capítulo 25 (e o nosso texto de estudo) inicia com uma confissão de fé: Ó Senhor, tu és o meu Deus. Essa confissão reconhece o poder de Deus e, de forma intrínseca, a fragilidade da vida humana. A confissão de fé é uma consequência do primeiro mandamento. E, especialmente, em um estudo sobre o Dia de Finados, a confissão de fé precisa estar presente de forma clara.
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Dia de Finados
É Deus quem nos consola, nos fortalece e nos faz levantar a cabeça diante da realidade da finitude da vida ou do falecimento de alguém próximo. A confissão de fé tem como consequência o louvor, a exaltação a Deus e o reconhecimento de que ele tem feito maravilhas. O rumo da humanidade e, consequentemente, da nossa própria existência está aos cuidados de Deus. Ele tem planos para a vida desde os tempos remotos. Ele executa os seus conselhos antigos, fiéis e verdadeiros. O versículo 8 traz uma esperança característica dos textos apocalípticos. Tanto que o livro de Apocalipse cita parte desse versículo em duas ocasiões: 7.17 e 21.4. A morte será tragada, Deus acabará com ela para sempre. Essa “boa nova” trará consequências: as lágrimas daquelas pessoas que choram diante da crueldade e da implacabilidade da morte serão enxugadas de seus rostos. Essa esperança traz como outra consequência a promessa de que Deus tirará de toda a terra o opróbrio do seu povo. Compreende-se como opróbrio uma grande desonra pública, degradação social, ignomínia, vergonha, vexame, caráter daquilo que humilha, degrada, estado ou condição que revela alto grau de baixeza, torpeza, abjeção, degradação. A degradação humana é objeto de preocupação da parte de Deus. A morte ataca a dignidade humana concedida por Deus. Por isso ela precisa ser vencida. Interessante observar que essa promessa de resgate é estendida para “toda a terra”. Ganha força o olhar de que a ação salvífica de Deus não se limita a uma parcela da humanidade, um povo, e sim ao “povo de Deus em toda a terra”. O versículo 9 volta ao tema do versículo 1: confissão de fé e louvor. A consequência da ação de Deus é o reconhecimento da sua grandeza, fidelidade e amor. Um coração que consegue perceber a ação salvífica de Deus age em forma de gratidão. A confissão de fé e o louvor são sempre respostas à ação primeira de Deus. O texto termina falando da alegria que resulta da fé e da esperança. As lágrimas dão lugar ao sorriso.
3 Meditação Cada geração de seres humanos tem seus dramas, suas lutas, suas dificuldades e suas dores. À medida que o tempo vai passando, geração após geração, as pessoas e seus conceitos vão sendo transformados. Havia uma geração que pensava que a terra era plana, hoje já temos condições de lançar um olhar diferente sobre a cosmovisão. Fico me perguntando se há algum drama humano que acompanha todas as gerações de pessoas que já existiram e que ainda nascerão. Em uma geração remota, o risco de ser devorado por um animal selvagem era real e até mesmo comum. Não é mais uma realidade, um drama ou uma preocupação para nós. Nossa geração tem o drama da violência urbana, o medo de assaltos e o sempre iminente risco de sofrer um acidente automobilístico. Esse não era um drama para muitas gerações passadas. Faço essa reflexão porque acredito que há um drama que acompanha todas as gerações humanas, em todos os tempos e em qualquer idade. A partir da
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consciência da finitude da vida, o drama da realidade da morte está presente para todas as pessoas. Nós, seres humanos, diferente de qualquer outra espécie animal, tomamos consciência da finitude da vida porque temos contato com a realidade da morte dos nossos semelhantes. De forma geral, os outros animais se defendem e percebem o que representa um risco à sua vida por meio do instinto. Nós, além do instinto de sobrevivência, temos a consciência que gera a preocupação com a finitude e a fragilidade da vida. Esse fato mobiliza a humanidade. Ele provoca uma verdadeira corrida atrás da cura de doenças, da fonte da eterna juventude. Vivemos em um mundo no qual a preocupação com a morte está mais latente do que antigamente. As pessoas faleciam em suas casas, rodeadas pela família. Seu corpo morto era higienizado, preparado e vestido pelas pessoas próximas. Havia um ritual maior que possibilitava uma despedida mais humana, próxima e consoladora. Essa não é mais uma realidade nos dias atuais. Toda essa passagem acontece em ambientes estranhos, com pessoas estranhas, pagas para fazer o trabalho. As últimas coisas não são mais uma atitude de amor, de carinho e de despedida, mas um gesto profissional. Tudo isso mudou a concepção de morte e luto. Aquilo que sempre foi tabu aumentou ainda mais nas últimas décadas. Ao lado disso, o afastamento de muitas pessoas (e famílias) da vida eclesial também torna a realidade da morte mais cruel. Na medida em que estamos expostos a essa realidade, contra a qual, efetivamente, não podemos lutar, sentimo-nos desamparados e o tamanho do inimigo aumenta. Cresce muito nas grandes cidades o número de velórios (quando eles acontecem – por vezes não há nem um tempo de velório e despedida porque demanda aluguel de sala) que acabam sem uma celebração de despedida, sem uma palavra de esperança. A sensação é de que a vida acabou, e com ela a esperança. A espiritualidade auxilia-nos a lidar com esse drama, com essa dor, com o luto. Mas, por outro lado, a consciência da finitude da vida tem um lado positivo. Ela pode servir como uma espécie de freio para a humanidade que muitas vezes deseja ignorar seus limites. A ganância humana, o desejo de superar as outras pessoas e ganhar cada vez mais são elementos muito danosos nas relações sociais e na forma como vivemos a vida. Todas as religiões têm no centro da sua dogmática a preocupação com a realidade da finitude da vida. O cristianismo firma sua esperança nos eventos da Sexta-Feira da Paixão e da Páscoa. A morte e a ressurreição de Jesus Cristo nos consolam, nos confortam e nos fortalecem na vivência do luto. A esperança de vida eterna, por meio da espera pela ressurreição dos mortos, nos auxilia quando nos defrontamos com o falecimento de uma pessoa amada ou pensamos sobre nossa própria finitude. Nesse sentido, o conjunto de textos bíblicos previsto para o Dia de Finados auxilia-nos na reflexão. Jesus sofre com essa realidade. Ele chora o falecimento do seu amigo Lázaro. Ele dá o sinal de que a morte será vencida de forma definitiva. Lázaro volta à vida por meio do seu agir. Com base na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o apóstolo Paulo e todas as gerações depois dele podem afirmar que nada pode nos afastar do amor de Deus, nem mesmo a morte. Essa é a articulação da fé cristã que nos faz espe-
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rançar, olhar a realidade da finitude com um olhar diferente. E isso nos auxilia a ler o texto do profeta Isaías, que afirma que a morte será tragada e que Deus mesmo enxugará todas as lágrimas dos rostos.
4 Imagens para a prédica Eu iniciaria a mensagem do Dia dos Finados fazendo uma reflexão sobre o maior drama da humanidade, refletido na meditação. A finitude da vida é o maior drama que acompanha as pessoas em todas as épocas. Enfrentar a realidade da morte traz dor, sofrimento e vazio. A fé em Jesus Cristo renova a esperança e nos dá consolo e alento. Há alguns anos alguém me contou uma história, que rememoro aqui. Pode ser que seja útil para alguém usar na pregação no Dia de Finados. Havia uma senhora de idade muito avançada. Estava muito bem de saúde, considerando sua idade. O melhor é que ela era muito lúcida. Certo dia, ela pediu para sua filha, com quem morava: “Quando eu morrer, gostaria que fosse colocada entre as minhas mãos, para ser enterrada junto comigo, uma colher de sobremesa”. A filha, muito surpresa, achando que a mãe estava “meio caduca”, disse: “Que papo estranho. Nada a ver. Nunca vi ninguém ser enterrado com uma colher de sobremesa nas mãos”. A senhora, no entanto, insistiu: “Mas é um desejo meu”. A filha, então, quis saber por que ela desejava algo tão curioso. A mãe respondeu: “Quando eu era criança, aos domingos, era o dia em que a minha mãe, sua avó, fazia sobremesa. Ela sempre avisava durante o almoço que era para deixar a colher de sobremesa limpa porque o melhor ainda estava por vir depois do almoço. Eu acredito que a vida é boa, assim como eram os almoços de domingo na minha infância, mas que o melhor ainda está por vir, pois Jesus ressuscitou e tenho a esperança de que ele tem guardado algo melhor do que a vida terrena”.
5 Subsídios litúrgicos Poema de acolhimento – Caminhantes Cada pessoa que passa em nossa vida nos toca de forma única... Porque cada pessoa é única, e nenhuma substitui a outra... Cada pessoa que passa em nossa vida faz de nós uma pessoa mais plural, mas não vai só... Cada pessoa que passa em nossa vida leva um pouco de nós mesmos, e nos deixa um pouco de si mesmo. Há aquelas que levam muito, mas não há as que não levam nada. Há aquelas que deixam muito, mas não há as que não deixam nada.
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Esta é a mais bela realidade da vida, a prova tremenda da importância de cada ser humano: é que ninguém se aproxima da outra pessoa por acaso... Somos caminhantes! Palavra de despedida (oração) Conduz-nos, Senhor, da morte à vida, da falsidade à verdade. Conduz-nos, Senhor, da desesperança à esperança, do temor à confiança. Conduz-nos, Senhor, do ódio ao amor, da guerra à paz. Permite que o consolo inunde nosso coração, nosso mundo, nosso universo. (Vancouver Worship Book, 1983. Tradução: Eloir E. Weber).
Bibliografia SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1994. RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE; Targumim, 1992. v. 1 e 2.
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21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
03 NOV 2019
PRÉDICA: 2 TESSALONICENSES 1.1-4,11-12 ISAÍAS 1.10-18 LUCAS 19.1-10
Erní Walter Seibert
Como nos preparar para os tempos do fim?
1 Introdução Nos domingos do final do Ano Eclesiástico, os textos bíblicos apontam para o final dos tempos. Assim, assuntos que mostram como serão os tempos anteriores à segunda vinda de Cristo e como será o juízo final aparecem em maior destaque. Paulo escreveu duas cartas aos tessalonicenses. A segunda carta visava complementar instruções dadas na primeira sobre a segunda vinda de Cristo e a importância de uma vida cristã responsável nos tempos do fim. As leituras do culto do domingo reforçam o tema da leitura da epístola. Na leitura de Isaías 1.10-18, o profeta fala contra a religiosidade formal e não sincera. Deus não quer um culto que não seja prestado de coração. O formalismo sem conteúdo é condenado no texto de Isaías. O culto que agrada a Deus é o que não apenas cumpre rituais, mas que põe em prática o amor ao próximo. O texto do evangelho – Lucas 19.1-10 – conta a história de Zaqueu, o publicano. Nesse texto, um funcionário público corrupto se aproxima de Jesus e o convida a ir à sua casa. Naquele dia, na casa de Zaqueu, houve mudança de vida. Ele reconheceu seus erros e procurou reparar o malfeito. Sua vida não foi apenas de palavras, mas de fato e verdade. Uma vida responsável diante de Deus.
2 Exegese O texto da epístola não tem grandes dificuldades de entendimento. Como o texto está no início da epístola, ele segue algumas formalidades desse tipo de escrito. Paulo começa apresentando a si mesmo e seus companheiros Silvano e Timóteo. Silvano é a forma latina do nome Silas. Ele aparece em Atos 15 como incumbido pela igreja de Jerusalém de acompanhar Paulo e Barnabé até Antioquia para transmitir a decisão do Concílio de Jerusalém. Silvano foi escolhido por Paulo para acompanhá-lo na sua segunda viagem missionária. Timóteo era ainda um jovem nos afazeres missionários. Ele era tido em alta estima por Paulo. O apóstolo considerava Timóteo seu filho em Cristo. Silvano e Timóteo são citados no início da carta como remetentes da mesma ao lado de Paulo.
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Os dois primeiros versículos são muito formais. Além da apresentação dos remetentes, há uma saudação aos leitores. A saudação expressa votos de que a graça e a paz que vêm da parte de Deus, por meio de Cristo, cheguem a todos. Graça e paz só podem ser entendidas quando se olha para Deus Pai e para a obra de Jesus Cristo. Depois da saudação, o texto começa a introduzir a razão da carta. Primeiro vem uma palavra de gratidão a Deus pela fé e vida consagradas dos tessalonicenses. Crescem entre eles a fé e o amor mútuo. Isso é testemunhado pelo apóstolo às igrejas com as quais ele tem contato. O destaque da fé e do amor torna-se ainda mais notável porque eles crescem em meio a perseguições e tribulações. Os tessalonicenses sabiam o que eram perseguições. Em Atos 17.1-9, é contado de uma perseguição que se deu justamente quando Paulo lá esteve pregando. A igreja local, recém-iniciada, já passava por perseguição. Essa não foi somente contra Paulo, mas também contra membros da igreja. Apesar desse início difícil, os tessalonicenses mantiveram-se firmes na fé em Jesus Cristo. E quando Paulo destaca isso, eles bem podiam compreender o que ele queria dizer. As dificuldades da perseguição são enfrentadas com fé e paciência. A fé apega-se à graça do Senhor Jesus e ao amor de Deus Pai. Se confiamos em Deus no meio do sofrimento, teremos um porto seguro, um castelo forte, um socorro bem presente. A paciência é necessária porque, em meio ao sofrimento, por vezes, não vemos com clareza uma solução para os problemas. Se a impaciência orientar nosso comportamento no meio do sofrimento, então temos muito mais chances de cometer erros e ser derrotados. A paciência, ao lado da fé, faz uma condução segura. A leitura da epístola do domingo faz um corte ao final do versículo 4, indicando como continuação os versículos 11 e 12. Nesses versículos, o apóstolo Paulo olha para os tempos do fim como próximos. É a perspectiva da pessoa cristã de olhar o futuro. No futuro, ela sempre vê a volta de Cristo. O quadro do futuro imediato não antevê o final da tribulação como algo que acontecerá. Mas o que o texto deixa muito claro é que, no fim dos tempos, Deus dará o prêmio da vida eterna aos que permanecerem fiéis. E aos que perseguiram os fiéis de Deus será dado o castigo eterno. Com esse pano de fundo, nos versículos 11 e 12, o apóstolo diz que ora pelos tessalonicenses para que fiquem firmes em meio às dificuldades. Por meio de uma vida de fé, consagrada, o nome de nosso Senhor Jesus é glorificado. As palavras do apóstolo querem estimular os tessalonicenses, com base na graça de Deus em Cristo, a se manter firmes na fé e na vida consagrada. Se os tessalonicenses desistirem no meio do caminho, o propósito de Deus para com eles não se cumpre. Para que eles possam seguir firmes é importante que a relação com Deus em Cristo siga sem interrupção. O nome de Jesus é glorificado pela vida deles e neles; e eles permanecem firmes em Cristo. O jogo de palavras – ele em vós e vós nele –, no versículo 12, resume a relação estreita que o apóstolo vê e recomenda a seus leitores. O apóstolo, no versículo 11, atribui tudo à ação de Jesus na vida dos tessalonicenses. Jesus, pelo seu poder, realiza os desejos dos tessalonicenses
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e completa o trabalho iniciado – a salvação deles. Os desejos são os que provêm da fé e o trabalho é o que é feito a partir da fé.
3 Meditação Quais são os objetivos do apóstolo Paulo ao escrever este texto? Entendendo os objetivos do autor é mais fácil estabelecer o objetivo da prédica. O apóstolo tem mais de um objetivo. Ele quer dar a seus leitores informações sobre os tempos do fim. Mas não podemos dizer que seu objetivo maior seja na área dos conhecimentos. As informações que o apóstolo traz visam firmar seus ouvintes na fé para enfrentar os tempos de dificuldades. Este é o grande objetivo: firmar seus ouvintes na fé em Jesus Cristo para prepará-los para os tempos do fim. Embora ele chame a atenção para o comportamento dos tessalonicenses, que deveria ser coerente com a fé, a preocupação maior é que seus leitores passem firmes na fé pelos tempos difíceis, alcancem a salvação, e Deus, com isso, seja louvado. Se olharmos para a situação atual no mundo, veremos a realidade de sofrimento dos cristãos? Por um lado, sim. Dizem as estatísticas que nos dias de hoje são mortos mais cristãos do que em outros tempos da história. Estima-se que, ao longo da história, 70 milhões de cristãos foram martirizados. Metade desse número foi martirizada no século passado. E nos primeiros dez anos do século XXI, a média de cem mil cristãos morreram por martírio a cada ano (dados do The Center for The Study of Global Christianity). Esses números são tão altos por causa de perseguições políticas, religiosas e ideológicas que o cristianismo sofreu e sofre em diversos países. Mas há outra realidade que não pode ser ignorada. Em muitos países tradicionalmente cristãos, uma boa parte da igreja vive aparentemente de forma tranquila, sem perseguições e até de maneira acomodada. Muito se fala em um esfriamento da fé. Os tempos do fim, segundo as Escrituras, apontam para essas duas realidades: sofrimento e perseguição, por um lado, e esfriamento da fé, por outro. A advertência do texto bíblico de 2 Tessalonicenses adverte para as duas situações. Não é a perseguição que faz com que a fé e a vida dos cristãos sejam mais coerentes. Mas é necessário ficar firmes na fé em Deus para que tanto a perseguição como o esfriamento sejam enfrentados e vencidos. Outra lição que podemos aprender do texto é que a lembrança do que acontecerá no futuro, no caso do texto bíblico, no final dos tempos, ajuda a mudar a atitude das pessoas no presente. Isso é muito comum no dia a dia das pessoas. Os especialistas em finanças aconselham as pessoas a guardarem recursos financeiros no presente para poder enfrentar o futuro com mais tranquilidade. Os pais aconselham os filhos a estudarem durante a infância e juventude para poder enfrentar melhor os desafios do mundo do trabalho no futuro. Perder a fé no presente tem consequências funestas no futuro. Como se exercita a fé no presente? Olhando para o autor e consumador da fé, Jesus Cristo. Cristãos podem se exercitar na fé buscando força e orientação na palavra de Deus. A leitura e o estudo da palavra de Deus aproximam de Jesus, e isso fortalece a fé. Mas isso não é apenas um exercício teórico. Quanto mais perto
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estivermos de Jesus, mais vamos praticar as obras que ele quer que pratiquemos. Ele começa e completa seu trabalho em nós. O texto chama a atenção para o fato de que Deus é louvado por meio de nossa vida de fé. A glória de Deus é sermos salvos. Se alcançarmos a salvação eterna, Deus é louvado. E esse louvor já começa nesta vida. Deus é honrado com a vida de fé e boas obras dos cristãos. As perseguições e os sofrimentos são obstáculos que querem nos impedir de andar nos caminhos do Senhor. Aqui é bom lembrar o que dizem as demais leituras do domingo. Isaías fala de uma fé não praticada. O evangelho fala de Zaqueu, uma pessoa corrupta que se arrependeu e mudou de vida. Vale a pena examinar como estamos vivendo a nossa fé. Pelo nosso viver e agir, Deus é glorificado ou desonrado? Muito se fala que o Brasil é um país cristão. As estatísticas dizem que o número das pessoas que se declaram cristãs (católicos e evangélicos) chega perto de 90% da população. No entanto, o Brasil também é conhecido por ser um dos países mais corruptos do mundo. E isso não é só no mundo da política. O desrespeito aos bens alheios, à vida alheia, à honra alheia é constantemente noticiado nos meios de comunicação. A família brasileira também vive momentos difíceis. Há crianças que preferem viver na rua a ficar em casa. Pais não sabem como deveriam educar e orientar seus filhos. Até o que é uma família parece não estar claro em nossa sociedade. O que a lembrança do final dos tempos pode nos ensinar? Como deveríamos viver sabendo que o final dos tempos está próximo? O apóstolo Paulo, no texto da epístola deste domingo, aponta para Jesus Cristo. Se ficamos firmes em Jesus, podemos enfrentar e superar as dificuldades que o mundo coloca diante de nós.
4 Imagens para a prédica As reações das pessoas ao ouvirem falar sobre o fim do mundo são diversas. Algumas ficam com medo e outras, felizes. Na virada do milênio, em 1999, em muitas escolas, as crianças ficavam com medo quando alguém falava das profecias que eram divulgadas sobre o fim do mundo. Tente fazer uma pesquisa com os membros da igreja a respeito dos sentimentos que eles têm em relação a esse assunto. Isso ajudará a fazer com que a prédica esteja mais contextualizada. Os movimentos preservacionistas em geral falam que o ser humano está destruindo a natureza, que isso provocará a extinção de diversas espécies e a extinção do próprio ser humano. O que os membros da igreja pensam dessa discussão? Como falar sobre esse tema à luz do texto de 2 Tessalonicenses? Uma experiência bastante comum ao ser humano é ter de enfrentar a notícia de que tem uma doença grave que poderá levar a pessoa à morte em pouco tempo. Não é o fim do mundo como um todo, mas, de certa forma, é o fim do mundo para aquela pessoa. Como o texto pode ajudar a pessoa a enfrentar essa situação de vida?
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5 Subsídios litúrgicos A liturgia da igreja, em vários momentos, fala da eternidade. Isso fica muito claro, por exemplo, no Credo Apostólico, onde se diz que Cristo há de vir a julgar os vivos e os mortos e que haverá um juízo final. Mostrando essas expressões na liturgia pode-se mostrar aos participantes do culto como a igreja sempre teve esse conceito de que a visão cristã de história caminha para o fim e aí virá a eternidade. A visão cristã de história é linear, e não cíclica. É isso que o texto nos lembra. Como nos preparar para os tempos do fim? – Firmando-nos na fé em Cristo. – Colocando em prática o que cremos.
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO NTLH. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil. Disponível em: <http://www.gordonconwell.edu/ockenga/research/documents/2Counti ngmartyrsmethodology.pdf>. Acesso em: 26 fev. 2018.
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PRÉDICA: LUCAS 20.27-38
22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
10 NOV 2019
JÓ 19.23-27a 2 TESSALONICENSES 2.1-5; 2.13-17
Luiz Temóteo Schwanz
Cremos na vida, cremos na ressurreição!
1 Introdução Faremos uma breve análise temática dos textos previstos. O texto de Jó lembra todo o sofrimento de um justo. Mas, em meio a toda a situação caótica, Jó é fiel a Deus e tem uma certeza: seu Redentor vive, ele se levantará sobre a terra e também Jó o verá. O texto de 2 Tessalonicenses nos faz enxergar que a fé cristã (fé no Cristo ressuscitado) vem aumentando nessa cidade e que os colaboradores suportam perseguições. Esses serão considerados dignos do reino de Deus, pelo qual estão sofrendo. A motivação está em dar graças e permanecer firmes, guardando as tradições e os ensinos, seja por palavra ou epístola, consolo mútuo e confirmação em boas obras e boas palavras são uma recomendação. O texto em questão, previsto para a prédica – Lucas 20.27-38 –, traz à tona a pergunta de alguns saduceus sobre a ressurreição; Jesus, no diálogo, conclui que Deus não é um Deus de mortos, e sim de vivos, porque para ele todos vivem! A unidade temática que perpassa as perícopes em questão é a confissão de fé “Creio na ressurreição!”. Em Jó, o Redentor vive; em 2 Tessalonicenses, a fé cristã (na ressurreição) tem aumentado; e Jesus, diante da pergunta dos saduceus, afirma que “para Deus todos vivem”. Embora os questionamentos e as dificuldades estejam presentes nos textos, a afirmação na ressurreição também está presente nas perícopes.
2 Exegese A perícope está delimitada a Lucas 20.27-38, mas poderíamos ainda incluir os v. 39 e 40, que concluem a narrativa. O texto anterior é Lucas 20.19-26; os principais sacerdotes e os escribas questionam se é legítimo ou não dar tributo para César, ao que Jesus responde magistralmente: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. No texto posterior – Lucas 20.41-44 –, Jesus questiona o título “Cristo, Filho de Davi”. Nos textos paralelos de Mateus e Marcos, a perícope aparece entre os textos da questão do tributo e do grande mandamento do amor. Podemos comparar o texto com as versões paralelas e ver que ele se repete nos evangelhos sinóticos com pouquíssimas nuanças. Em si, a unidade temática e a problemática permanecem em “uníssono”, sem muitas alterações.
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No início do texto, os saduceus questionam Jesus acerca da ressurreição. Os saduceus são um grupo sobre o qual temos poucas informações no Novo Testamento. Essas provêm de grupos oponentes. Eles formavam um grupo influente pela sua posição social. Aparentemente, esse grupo surgiu no contexto da revolta dos macabeus. Há teorias de que o grupo descendia de Zadoque (1 Reis 2.35), cujos descendentes, conforme o profeta Ezequiel, detêm a linhagem sacerdotal para o exercício do sumo sacerdócio (Ez 40.46; 43.19; 44.15; 48.11). Outra hipótese, mais provável, é que o nome do grupo derive de zaduk (justo), que é como os saduceus se consideraram (Hoefelman, 2018, p. 116). O partido dos saduceus era constituído da aristocracia e nobreza leiga, sendo em sua maioria anciãos, e constituída pelos chefes dos sacerdotes e nobreza sacerdotal. A teologia dos saduceus baseava-se na defesa da Torá escrita e rejeição da tradição oral, negação da ressurreição e da vida após a morte (At 23.8). Eles também negavam a existência de anjos e espíritos. Achavam que bem e mal estão ao alcance da escolha do ser humano. Caracterizavam-se ainda pelo rigor no cumprimento da lei e aplicação de sentenças. Sabe-se pouco sobre os saduceus a partir do Novo Testamento. João Batista e Jesus eram contrários a eles (Mt 3.7-9; 16.1-12). A discussão dos saduceus e Jesus acerca da ressurreição aparece nos evangelhos sinóticos. O assunto também vem à tona em Atos 23.6-9, quando Paulo é interrogado pelo Sinédrio em Jerusalém no final de suas viagens missionárias. O grupo era contrário a Jesus (Jo 11.48-51) e tinha interesse em eliminá-lo (Mc 8.31) (Hoefelman, 2018, p. 117 e 118). Os saduceus eram fiéis à Torá, rejeitando os outros escritos que viriam a compor o Antigo Testamento. Também rejeitavam a tradição oral dos escribas e fariseus. No Antigo Testamento não há uma teologia da ressurreição do corpo. O tema é recente para o Antigo Testamento. Antes do exílio, imagina-se a perpetuação humana através da descendência. No restante do Antigo Testamento, pode-se falar de uma existência crepuscular no Sheol, o mundo dos mortos ou mundo da não existência, mas não de ressurreição. Politicamente, os saduceus, a princípio, eram contra o Império Romano, mas eram suficientemente espertos para saber que era impossível obter autonomia. Por isso eles se aliavam ao poder dominante para defender seus interesses e procuravam acalmar os ânimos da população. O texto mais importante sobre a relação entre os saduceus e Jesus, sem dúvida, é Lucas 20.27-38 e paralelos. Os saduceus, com base na lei do levirato (Dt 25.5-10), questionam Jesus sobre um caso construído. Segundo essa lei, se um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão ou parente mais próximo deveria casar-se com a viúva e ter descendência com ela, que seria contada como se fosse do falecido. De acordo com a tradição normativa, eles baseiam sua pergunta na Torá escrita e iniciam a provocação com: Moisés nos deixou escrito (v. 28). A questão levantada pelos saduceus é sobre uma mulher que esteve casada, sucessivamente, com sete irmãos. A pergunta é: de quem ela será esposa após a ressurreição? A intenção, obviamente, é ridicularizar a ressurreição como algo completamente inviável. Jesus responde que a vida ressurreta não é simplesmente um prolongamento das relações existentes neste mundo: Os filhos deste mundo
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casam e se dão em casamento e os que são havidos de alcançar a era vindoura e a ressurreição não casarão. Porque estes serão iguais a anjos e são filhos de Deus, sendo assim filhos da ressurreição (v. 34-36). Jesus conclui argumentando também com uma passagem do Pentateuco, onde Moisés é o protagonista: a passagem da sarça ardente, onde Deus se apresenta a Moisés como sendo o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Êx 3.6). Jesus interpreta essa passagem no sentido de que Deus é Deus de vivos, e não de mortos. Portanto, se ele é (e não foi) o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, esses devem estar “vivos”, pelo que passaram pela experiência da ressurreição. Sobre o termo filhos de Deus, segundo J. Jeremias, o termo aparece três vezes nos sinóticos (Mt 9.45 par.; Lc 6.35; Lc 20.36) e possui sentido escatológico nesses três lugares (Jeremias, 2011, p. 271).
3 Meditação Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé e somos as pessoas mais infelizes deste mundo, afirma o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15.19. No entanto, Cristo ressuscitou e por isso existe a páscoa da ressurreição. A páscoa é a vida que ressurge, vida plena. Hoje não estamos no dia de Páscoa, mas estamos nos reunindo em culto, poucos dias após Finados. Lembro que, certa vez, em culto, no cemitério da Colônia Rio-grandense em Maracaí/SP, uma pessoa me disse que eu trouxe uma prédica “mais leve” para um dia tão “pesado” como Finados, dia em que lembramos pessoas amadas que nos antecederam na morte. Apenas falei de ressurreição, e se cremos nela, o restante da vida comunitária tem sentido de ser/acontecer. No texto da prédica Jesus é questionado quanto à questão da ressurreição. E como acontece a ressurreição? Não sabemos, mas sabemos que ela é plena, é o ressurgir do corpo, da alma e do espírito. Por isso confessamos que cremos na ressurreição do corpo – do nosso corpo em plenitude –, mas também na ressurreição do corpo de Cristo, a sua igreja, nós ramos unidos em Cristo, a videira verdadeira (Jo 15.1ss). Jesus foi questionado de como seria a ressurreição. Nós também nos questionamos e perguntamos. Os saduceus, um grupo que não acreditava na ressurreição, pergunta a Jesus: se uma mulher ficar viúva sete vezes, na eternidade, como será e quem será o seu legítimo esposo? Jesus responde com sua sabedoria e diz que nos céus não haverá casamento nem estruturas familiares como as que conhecemos, mas nós seremos como anjos. Claro que sempre o nosso desejo é o do reencontro. Como ele será também não sabemos, mas será conforme os parâmetros celestiais e não os nossos. Serão como anjos, diz Jesus! E o Deus da ressurreição é o Deus dos antepassados, os que nos antecederam na morte. Jesus cita um texto, o de Êxodo 3.6, onde se afirma que Deus é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, porque Deus não é um Deus de mortos, e sim de vivos, porque para Deus todos vivem. Inclusive aqueles que nos antecederam na morte e dormem em Deus no pó da terra. Esses, porém, aguardam o dia da ressurreição, sendo acordados pela voz do bom pastor, Cristo Jesus (Jo 10). Nós sempre nos lembramos de nossos entes queridos. Lembramos o que eles nos deixaram como legado. E de forma simbólica nós ainda cuidamos deles.
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Nós lavamos os túmulos e cuidamos deles, levamos flores, visitamos o cemitério. Cemitérios são lugares que merecem todo o cuidado. Que bom que nós cuidamos deles e também deveríamos ensinar isso aos pequeninos. Assim, passamos para eles a memória dos que nos antecederam. O cemitério é um lugar que fala muito a respeito das pessoas daquela comunidade. Quanto mais cuidado, mais dignidade damos ao lugar em que deixamos nossas pessoas falecidas. Mais respeito demonstramos pela nossa própria história, nossa herança de vida, nossas raízes, pelo legado que temos dos que nos antecederam na morte. E mais, valorizamos e publicamente proclamamos que cremos no Cristo ressuscitado e na ressurreição. Cuidar dos cemitérios, dos túmulos de nossos entes queridos mostra a reciprocidade do amor e a fé na ressurreição. Cada um de nós é único perante Deus e por isso, mesmo “dormindo”, para ele nós vivemos. Em nossa memória são mantidas “vivas” as pessoas que nos precederam através de objetos, músicas, comidas, poemas, textos bíblicos, lugares, cheiros etc. E também podemos ver isso nas lápides, nos túmulos, nos epitáfios, nas flores que depositamos e como ornamentamos os túmulos de nossos entes queridos. Mais importante do que essas pessoas estarem vivas em nossas memórias é saber que elas “dormem” e estão vivas na memória de Deus, pois para ele todos vivem (Lc 20.38). Vivemos na atualidade diante de muita informação e confusão quanto ao assunto da ressurreição. Influências de outras denominações e religiões estão por toda parte, e por isso seria importante ressaltar qual é o proprium da fé cristã: a ressurreição. Essa é nossa razão de ser igreja de Jesus Cristo. A razão da igreja cristã existir não tem apenas como motivo as curas, as glossolalias, os arrebatamentos, os livramentos, nem os milagres nem a prosperidade. Mas seu motivo principal é a ressurreição de Cristo! Deus ressuscitou Jesus Cristo e essa é a promessa para nós. Tudo o que nós realizamos na igreja é porque Cristo vive. Por isso celebramos a Páscoa, e também pelo mesmo motivo é que cada culto deve ser considerado como uma pequena Páscoa (mesmo dentro do tempo litúrgico da Quaresma e do Advento!), pois ali rememoramos e vivemos o motivo de Cristo ter ressuscitado. Por isso ouvimos palavras de vida e que nos exortam para a esperança. Ao longo do ano, vivemos as pequenas páscoas em nossos cultos e celebrações para celebrar a grande Páscoa: a ressurreição de Cristo e a nossa ressurreição!
4 Imagens para a prédica Considerando que estamos “caminhando” para o Último Domingo do Ano Eclesiástico, Cristo Rei ou Domingo da Eternidade, o tema de ambos os domingos apontam para uma dimensão escatológica. Julgo ser importante trabalhar de forma poimênica a questão do luto, da perda, sensibilizando assim a comunidade para o cuidado de Deus para com todas as pessoas em uma dimensão holística. Deus cuida dos vivos e cuida dos mortos. Sugiro ao ministro e à ministra usar alba com estola latino-americana da cor do tempo litúrgico, com seus destaques coloridos das “cores de Páscoa”, um sinal visível que, através da vestimenta, perpassará todo o culto e poderá ser mencionado e enfatizado na prédica.
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Sugiro citar pensamentos que muitas vezes confundem; esses viralizam por redes sociais e aplicativos de mensagens. A partir das contestações, afirmar com veemência a ressurreição de Cristo, a fé na ressurreição e quais são as respostas que nós damos diante dos “saduceus” cibernéticos.
5 Subsídios litúrgicos Invocação trinitária Iniciamos este culto em nome de Deus Pai, Criador e Mantenedor da vida; em nome do seu Filho Jesus Cristo, ressuscitado e que traz vida abundante; e em nome do Espírito Santo, consolador que nos reúne e congrega como comunhão dos santos. Amém! Oração do dia Deus Celestial, agradecemos por teres enviado teu Filho amado; que veio para nós, através do madeiro da cruz morreu, ressuscitou dentre os mortos e tornou-se árvore da vida, nos proporcionando salvação. Santifica-nos com teu Santo Espírito, para que a cada dia mais possamos ver sinais de vida em nossa sociedade e nos indivíduos. Que situações de morte e desrespeito à vida possam ser tematizadas, a fim de que as pessoas possam conversar e se respeitar, começando em casa, na família, na comunidade de fé e na sociedade. Cremos na vida, cremos na ressurreição! Por Jesus Cristo, teu Filho amado, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina eternamente. Amém! Aclamação do evangelho Fiquem vigiando, pois vocês não sabem em que dia vai chegar o seu Senhor (Mt 24.42). Mementos ou dípticos (caso haja Ceia do Senhor) Lembra-te, ó Deus, de todas as pessoas que viveram em tua amizade, que nos antecederam na morte e que já não estão entre nós – apóstolos e apóstolas, profetas e profetisas, pais e mães na fé (mencionar pessoas falecidas da comunidade). Sabemos, ó Deus, que para ti todas e todos vivem. Confiamos no reencontro com elas no banquete eterno em teu Reino. Nesta ceia nos unimos a todas essas pessoas e proclamamos teu Reino, para o qual, em Cristo, nos convidaste. Cantar o hino 256 do Livro de Canto da IECLB. Bênção final Hino 296 do Livro de Canto da IECLB, recitado ou cantado. A bênção do Deus de Sara, Abraão e Hagar; a bênção do Filho, nascido de Maria; a bênção do Santo Espírito de amor, que cuida com carinho, qual mãe cuida da gente, esteja sobre todos nós. Amém. Hinos
Livro de Canto da IECLB 113, 440, 436 e 617.
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Bibliografia BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição Revista e Ampliada. São Paulo: Paulus, 2011. JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. Nova Edição Revista e Atualizada. São Paulo: Hagnos, 2011. HOEFELMANN, Verner. Contexto Histórico e Social do Novo Testamento. Núcleo de Educação a Distância da Faculdades EST. São Leopoldo, 2018.
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PRÉDICA: 2 TESSALONICENSES 3.6-13
23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
17 NOV 2019
SALMO 98 LUCAS 21.5-19 Vera Lúcia Engelhardt
Enquanto o dia não chega...
1 Introdução Estamos quase lá! Fim do ano da igreja, início de tempo novo! O fim é marcado pela esperança de iniciarmos o novo. A comunidade cristã de Tessalônica aguardava o completamente novo: Jesus vem logo. Está chegando! O que fazer nesses últimos dias enquanto aguardamos e ele ainda não chegou? Como viver nesses últimos dias? O Salmo deste domingo convida-nos a louvar ao Senhor. Convida toda a criação a bater palmas e cantar. O motivo é que o Senhor vem governar a terra. E esse governo de Deus será um governo justo, de acordo com o que é direito. O evangelho ajuda-nos a entender que quando o fim está perto, esse tempo também é a hora oportuna para anunciar o evangelho. Nada é perdido enquanto vivemos o penúltimo. Melhor é anunciar a esperança do que preocupar-se com a época em que isso vai acontecer. O texto dirigido à comunidade dos tessalonicenses traz uma orientação para o tempo de espera: não ficar cansado de fazer o bem, tampouco abandonar o trabalho e tornar-se estorvo e peso a ser carregado pelos irmãos e irmãs da comunidade. Temos aqui uma dica para uma situação que está ameaçando a comunidade: cada qual deve continuar trabalhando em vista da expectativa da parusia de Cristo, sem tornar-se um peso para os outros.
2 Exegese Nosso texto foi abordado no Proclamar Libertação (PL) 24, no contexto do Penúltimo Domingo do Ano Eclesiástico e, ainda, no PL V, numa abordagem para o Dia do Trabalhador. Encontram-se ali muitas considerações exegéticas que enriquecem o estudo e a preparação da pregação. De acordo com estudiosos do Novo Testamento, as duas cartas aos tessalonicenses fazem parte dos escritos mais antigos do apóstolo Paulo. Caso a segunda carta realmente seja paulina, é possível que ela tenha sido escrita não muito tempo depois da primeira, que é a mais antiga do apóstolo e foi escrita no início da década de 50. Já em 1 Tessalonicenses 4.11 a questão dos que querem viver sem trabalhar é tematizada. Agora o assunto ganha novo destaque, indicando que o problema havia ficado maior. A carta foi escrita de Corinto. A carta é dirigida
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“à igreja dos tessalonicenses” (2Ts 1.1), a quem Paulo reiteradamente chama de irmãos (2Ts 1.3; 2.1; 3.1 e 3.6). A autoria da carta é de Paulo, Silvano (Silas) e Timóteo (2Ts 1.1), um trio de missionários itinerantes. Em Atos 17, temos o relato do início da comunidade, ocorrida na segunda viagem missionária do apóstolo Paulo. Os três foram de Filipos para Tessalônica, isso por volta do ano 50. Depois de pregar na sinagoga local, eles sofreram perseguições da parte de judeus e incrédulos. Tiveram de deixar a cidade às pressas, mas uma igreja ali permaneceu, uma comunidade de irmãos. No tempo em que permaneceram na cidade, eles se sustentaram através de árduo trabalho próprio (1Ts 2.9 e o nosso texto mostram isso). Atos 17.2-4 afirma que participavam da comunidade judeus, gregos piedosos e “muitas distintas mulheres”. Tessalônica era a capital da Macedônia. Ocupava um lugar estratégico, tanto que três estradas romanas cruzavam a cidade. Como cidade portuária, era também um centro comercial, que explorava as riquezas agrícolas e minerais da Macedônia. Em 2 Coríntios 8.1-4 Paulo escreve sobre a pobreza dos cristãos da Macedônia. A comunidade é nova, recém-fundada, quando recebe a carta de Paulo. Ela vive num ambiente adverso. Precisa ser fortalecida em sua fé diante de tribulações. É preciso manter-se perseverante no sofrimento e não perder o ardor inicial. Na situação de sofrimento e perseguições, a fé viva levou a comunidade a esperar ansiosamente a vinda de Jesus. Em vista da espera pela volta de Jesus para muito breve, surgiram compreensões equivocadas. Essas compreensões precisavam ser corrigidas. Dessa compreensão equivocada resultou que algumas pessoas deixaram de trabalhar e passaram a viver à custa de outros irmãos da igreja ou de seus parentes, passando a viver de forma desordenada, como Paulo qualifica a atitude. Esse problema havia sido informado a Paulo (2Ts 3.11). Ele procura então uma solução. Sua intenção é restaurar o bom convívio entre todos e não punir os que vivem desordenadamente. O versículo 6 inicia nosso texto para pregação. Os três missionários não fazem apenas um pedido, senão ordenam a partir de sua autoridade apostólica que é preciso se afastar daqueles que andam desordenadamente ataktos (fora de ordem, sem trabalhar). A ordem é dada em nome do Senhor Jesus Cristo e na convicção de que a comunidade a cumprirá. O afastar-se desses irmãos possui intenção pedagógica: para que eles modifiquem sua conduta. A comunidade já havia recebido instrução sobre isso, mas os que viviam desordenadamente parecem tê-la deixado de lado, com o argumento de que Cristo voltaria logo. Os missionários utilizam o exemplo da própria conduta para exortar os preguiçosos: quando estiveram na cidade, eles não se portaram de modo desordenado (v. 7). A comunidade sabe que Paulo trabalhou com as próprias mãos para se sustentar. O versículo 8 continua a argumentação: em labor e fadiga, com trabalho árduo e esforço é que os missionários se sustentavam, obtendo pelo trabalho seu alimento e suprindo suas necessidades. Assim, não se tornaram um peso para ninguém. A carta diz que eles teriam o direito de viver do anúncio do evangelho, mas que eles preferiram não utilizar esse direito, antes trabalharam dia e noite.
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Em Atos 20.33-35, temos uma fala de Paulo sobre esse trabalho árduo. Seu objetivo é sustentar-se a si próprio e não ser pesado aos pobres, além de coibir a cobiça aos bens de outros. O tema do trabalho voltará à tona em 1 Coríntios 9. Em 2 Tessalonicenses 3.9 a comunidade novamente é lembrada de que os apóstolos teriam o direito de viver dos recursos ofertados pelos cristãos, podendo assim dedicar-se ainda mais ao ministério de anunciar o evangelho. O próprio Cristo assim havia ensinado (Mt 10.10; Lc 10.7). O trabalho com as próprias mãos trazia liberdade a eles. Na medida em que não deviam favores a ninguém, eles podiam pregar livremente o evangelho da liberdade. Trabalhar com as próprias mãos era exemplo a ser seguido. No versículo 10, temos um dito popular conhecido do judaísmo e do Talmude, inspirado em Gênesis 3.19: quem não quer trabalhar, também não coma. Assim Paulo quer coibir os abusos que se verificam na comunidade. A palavra trabalhar é repetida cinco vezes em nosso texto. É assunto importante, que se transformou em tradição repassada para a comunidade (2Ts 3.6). No mundo grego e romano, ao contrário, o ideal propagado era poder viver sem trabalhar. Quem trabalhava eram os escravos. As pessoas livres não sujavam as mãos no trabalho. Essa tradição não deve ser seguida! Inverte-se tudo na visão cristã: trabalhar para viver, e não viver à custa de outros! Não explorar os outros e sustentar-se do próprio trabalho. A comunidade sabia que devia imitar os apóstolos e não os opressores, que viviam à custa do trabalho de outros. Não deviam, por isso, entrar nessa onda. Muito menos ainda usando o argumento de que a vinda de Cristo é iminente. Outra constatação muito importante: nada é falado aos que não podem trabalhar. A esses cabe fazer o bem. O versículo 11 diz que os apóstolos foram informados da situação. Há quem não trabalhe e anda se intrometendo na vida dos outros. Tempo é o que não lhes falta. O problema é que essa intromissão atrapalha a vida dos outros. No versículo 12, com muita ênfase novamente, os desordeiros são exortados “no Senhor Jesus Cristo” para que trabalhem tranquilamente e comam do seu pão. Trabalhar tranquilamente é o contrário de viver desordenadamente. Finalmente, encerrando a argumentação e dirigindo-se a toda a comunidade, ela é exortada e encorajada a não se cansar de fazer o bem, a não desanimar de fazer o bem.
3 Meditação Conforme 2 Tessalonicenses 2, algumas pessoas estavam dizendo que o Dia do Senhor já havia chegado. Parece que a informação foi veiculada através de uma carta por alguém que se fez passar por Paulo. Por isso o apóstolo lembra a comunidade dos ensinamentos que lhes foi trazido, seja presencialmente ou pela carta anterior, para que persevere firme e guarde aquela verdade. Por conta da compreensão de que o Dia do Senhor já havia chegado, algumas pessoas acharam que não era mais necessário trabalhar, ou que se podia viver desordenadamente à custa de outros, intrometendo-se na vida deles. Com base em seu próprio exemplo, os apóstolos exortaram essas pessoas a trabalhar tranquilamente e a comer o seu pão do seu próprio trabalho.
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Trabalhar tranquilamente remete a relações de trabalho justas. De dois modos havia exploração ali: primeiro, os que detinham o poder econômico exploravam o trabalho escravo. Dentro da comunidade a exploração era de outra ordem: havia os que deixaram de trabalhar por conta de uma esperança equivocada, tornando-se um peso para outros, além de intrometer-se em suas vidas. Os jovens aqui da comunidade onde exerço o ministério, bem como as famílias, mulheres e homens adultos, estão no mundo do trabalho. Cria-se uma situação muito difícil quando há o desemprego. O estudo e a escolha profissional consomem todo o tempo dos jovens. Causa-lhes angústia a decisão pela escolha profissional e, por fim, a entrada no mundo do trabalho também gera estresse. Trabalhar tranquilamente não é algo fácil. Há exploração, insegurança, salários menores para mulheres, entre outras situações injustas nas relações de trabalho. A situação de não trabalhar não é motivo para excluir nenhuma pessoa. São irmãos e irmãs. Quem vive a situação de desemprego precisa, sim, de suporte da comunidade, pois quer trabalhar tranquilamente e comer seu pão com o fruto de seu trabalho. Mas não é dessas pessoas que o texto fala. Ele se dirige a pessoas que, baseando-se numa compreensão equivocada da vinda do Senhor, querem viver sem trabalhar, tornando-se um peso para os outros. Para o apóstolo, a esperança cristã não pode servir de pretexto para preguiça, inércia ou exploração dos outros. Pelo contrário, a esperança é fonte para renovar as energias éticas do ser humano, de modo que passe a viver de acordo com aquilo que espera.
4 Imagens para a prédica Lembro-me de como meu pai encarava o trabalho: ele gostava de trabalhar. Era agricultor e fazia com alegria todo tipo de trabalho que envolvia a agricultura. Na sua lógica, ele não conseguia compreender quem tem forças e condições de trabalhar, mas não se dispunha a fazê-lo quando havia oportunidade. Lembro-me também da gratidão de poder comer do pão feito pelas próprias mãos, partilhando-o com as filhas e o filho. Tem sabor e cheiro de vida, proporciona comunhão e saciedade do corpo. Enquanto o fim não chega, enquanto o novo não vem, nosso desafio é fazer o bem, viver tranquilamente, comendo do próprio pão. Fazer o bem implica colocar os dons recebidos de Deus no trabalho que dignifica o próximo. Fazer o bem implica buscar relações justas no trabalho e trabalhar para que todas as pessoas possam comer o próprio pão. Uma dica é utilizar um pão como imagem para a pregação. Eventualmente, pode-se envolver a própria comunidade para fazer o pão. Como se faz pão para os eventos comunitários? Ele é doado? Como conseguimos ter o pão? O que ele gera de novidade de vida nas relações? Aguardamos que ele chegue à mesa ou ajudamos a servi-lo? Tecer a pregação de modo que a comunidade possa sentir o cheiro e o sabor do Dia do Senhor – a alegria da salvação.
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5 Subsídios litúrgicos – Acolher a comunidade com o refrão do hino De bons poderes. “Por bons poderes muito bem guardados, confiantes esperamos o que há de vir. Deus é conosco sempre em noite e dia. Assim é certa hoje sua alegria” (Livro de Canto da IECLB 399). – A leitura do salmo do dia em responsório pela comunidade. – Anunciar o perdão com o versículo de Romanos 8.39: Em todo o universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus. Não são correrias, nem estresse de fim de ano, nem falta de saúde que nos separa de Deus. Nada mesmo nos separa de Deus, ele nos ama e nos perdoa. – Hinos para o culto do Livro de Canto da IECLB: Em tuas mãos – 15; A mesa posta – 271; Sim, vale a pena viver – 559; Bênçãos virão – 301.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millennium, 1983. v. V. SILVA, Valmor da. Segunda Epístola aos Tessalonicenses – Não é o fim do mundo. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1992.
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DOMINGO CRISTO REI
PRÉDICA: COLOSSENSES 1.11-20
24 NOV 2019
LUCAS 23.33-43 JEREMIAS 23.1-6
Marcos A. Rodrigues
O Rei na cruz!
1 Introdução A celebração de Cristo Rei é recente na tradição litúrgica. Ela surge no início do século XX, instituída pelo papa Pio XI. Embora muito questionada na liturgia latino-americana, ela foi incluída no calendário litúrgico ecumênico. Ela nos diz que é importante reconhecer Jesus como rei, cujo reino não é deste mundo. Um rei que, ao contrário daqueles que conhecemos, é sábio, justo e honesto com sua gente, que ajunta e não divide as pessoas em classes ou ideologias, que traz paz e segurança ao seu povo (Jr 23.1-6). Reconhecer em Jesus o Rei soberano de toda a criação pode ser libertador diante das tensões, ansiedades e culpas que as últimas semanas do ano trazem consigo. Objetivos não alcançados, promessas não cumpridas, desejos não realizados e necessidades não supridas vêm à tona nesses dias. Reconhecer e sentir que do Rei na cruz vem o perdão, a força e a paciência de que tanto precisamos para enfrentar os tempos difíceis é estar ligado a um reino que transcende este mundo, que une céu e terra (Cl 1.11-20). Na crucificação, encontramos uma referência importante sobre seu jeito de reinar. Na cruz está escrito: Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus. Seu trono é a cruz! A seu lado estão pecadores. A seus pés, soldados roubam suas vestes, e líderes do povo zombam de sua impotência. Seu discurso final afirma um amor que vence as inconsciências e contradições de nossa frágil humanidade, através do perdão e da certeza de que no seu reino há lugar também para pecadores (Lc 23.33-43).
2 Exegese Reflexões, material homilético e trabalhos exegéticos importantes sobre Colossenses 1.11-20 foram apresentados em duas edições anteriores do Proclamar Libertação, nos volumes 23 e 37, ambos direcionados à celebração do Domingo de Cristo Rei. Sugerimos a leitura dos mesmos, dada a riqueza e assertividade de suas colaborações. Embora conhecida como Epístola aos Colossenses, sua mensagem foi difundida e destinada às comunidades cristãs em Laodiceia, Hierápolis e Éfeso. Apesar de ter sido atribuída ao apóstolo Paulo e seu amigo Timóteo, há muita diversidade e controvérsia a respeito de seus possíveis autores, data e local. As opiniões variam de Éfeso até Roma, e do ano 54 até 70 d.C. Na atualidade, muitos exegetas aceitam
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a existência de um núcleo paulino, acrescido de contribuições posteriores. Essas conclusões estão fundamentadas em estudos linguísticos e estatísticos. Soma-se a isso o fato de que nela se destacam formulações teológicas que não são comuns nos escritos de Paulo no tocante à cristologia e escatologia cósmica. Por um lado, a extensão em espaço e tempo encontrada no estudo exegético desta carta valida sua importância, relevância e utilização na vida das comunidades cristãs a partir da segunda metade do primeiro século. Por outro lado, não se pode afirmar com convicção se essa mensagem foi escrita a uma ou várias mãos. Isso atesta a atualidade e contundência de seus temas na definição da fé vivida pelas primeiras comunidades cristãs. Nosso texto é parte do discurso introdutório da carta (1.1-23). Quatro momentos importantes compõem esse bloco: a) saudação (1.1-2); b) oração em favor dos cristãos e cristãs (1.3-14); c) hino cristológico (1.15-20); d) o perdão na cruz que aproxima e incorpora a comunidade ao povo de Deus (1.21-23). Nosso texto é, portanto, composto em parte pelo bloco que chamamos de oração em favor dos cristãos e cristãs (v. 11-14) e pelo bloco denominado de hino cristológico (v. 15-20). Essa compreensão da estrutura na qual nosso texto está inserido e de sua composição nos parece importante. Ela revela os elementos que emolduram e compõem o texto. Os blocos a e d constituem a moldura do quadro. Eles valorizam, realçam e dão sentido ao conteúdo. Saudações identificam e aproximam pessoas. Atestam sua origem e qualificam o encontro. A certeza da amizade de Deus e do perdão, que confere cidadania no reino personificado em Jesus, compõe o limite último desse discurso que visa fortalecer e apascentar a comunidade conturbada com ideias e posturas teológicas que terminavam por confundir e afastar as pessoas da realidade amorosa do Deus, Pai de Jesus Cristo. No seu interior fica guardada a imagem principal: blocos b e c. Orações revelam gratidão, necessidades e intenções profundas que transcendem a capacidade das pessoas de realizar por si mesmas as esperanças que acompanham seu momento de vida. O hino cristológico é a confissão de fé na divindade de Jesus e sua soberania sobre todos os poderes, espaços e tempos da existência humana e de toda a criação. O mundo para o qual nosso texto foi escrito estava marcado pelo encontro entre a fé cristã e o mundo helenista. Algo inédito na história. O apóstolo Paulo e seus seguidores tiveram o primeiro e mais importante papel nesse diálogo. Não se tratava apenas de traduzir as categorias de pensamento religioso monoteísta, vindas do mundo judaico e rural da Galileia para o mundo helênico politeísta e urbano do Império Romano. A nova visão cristã afirmava a existência de um único e amoroso Deus, criador de tudo o que existe. Um Deus que era soberano cósmico não pela força de seus exércitos, mas por sua bondade, misericórdia e compaixão. Um Deus que enviou seu único filho para reestabelecer, através do perdão dos pecados, a amizade ferida entre ele, suas criaturas e toda a criação. A
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fé cristã afirma que não há mais gregos ou judeus, livres e escravos, homens ou mulheres. Em Cristo, a justiça e o amor de Deus alcançam a todos e todas de igual modo. Isso muda o mundo. O pensamento religioso helenista naquela época estava marcado pela experiência do gnosticismo. Ele não era propriamente uma religião. Mas, em essência, afirmava a separação radical entre espírito e matéria, conferindo à matéria um valor negativo e ao espírito um valor positivo. Deus jamais poderia ser matéria, pois essa era má por princípio. Logo, Deus não poderia existir em forma humana, em Jesus. Deus, por ser bom, não poderia haver criado nada material, pois a matéria é má. A fé cristã afirma que este mundo foi criado a partir do amor de Deus e que os seres humanos são sua boa criação. Generosidade, bondade e amor expressos na cruz de Cristo envolvem cada criatura e toda a criação de Deus. Esse encontro suscitou reações de aceitação e exclusão de ambos os lados, o que resultou em necessidades de explicação e fortalecimento das convicções cristãs diante do mundo urbanizado do Império Romano. Neste sentido, a estrutura que envolve e compõe nosso texto aclara a importância do encontro para as primeiras comunidades. Cristãos e cristãs precisam se apresentar diante do novo mundo (saudação); oram pelo fortalecimento mútuo diante de ameaças e agradecem a possibilidade da comunhão restauradora (oração); confessam diante de outras crenças sua fé no único Deus Criador e Pai de Jesus Cristo (hino cristológico); e se sentem confortados por saber que o perdão oferecido na cruz de Cristo restabelece a amizade perdida (perdão).
3 Meditação Enquanto escrevo, a mídia traz à tona escândalos na igreja chilena por seu envolvimento com a ditadura militar. Ao mesmo tempo, no Brasil, igrejas, pastores e fiéis fazem apologia ao regime militar e alardeiam nas mídias sociais mensagens pedindo a volta da ditadura, do porte de armas e qualificam como doentes as pessoas homoafetivas. Tudo isso em tons de canário e oliva bastante agressivos e pautados ideologicamente pelo fascismo. Emissoras de TV apoiam um governo “ilegítimo”, cujo programa ameaça a soberania nacional, retira direitos de pessoas trabalhadoras e aposentadas, retira indígenas e pessoas negras das universidades e devolve grande parte da população brasileira a condições de pobreza. O final do Ano Eclesiástico abre uma porta para a avaliação e outra para o planejamento. Por um lado, somos convidados a olhar para trás com a pergunta sobre como se deu esse reinado de Jesus em tudo o que vivemos e realizamos até aqui. O rei, cujo reino não é deste mundo, mas que é Senhor soberano sobre toda a criação em todos os tempos e lugares, nos questiona a respeito de nossa relação com os poderes e poderosos. A quem a igreja – com seu esforço, trabalho e missão – serviu ao longo do ano que está terminando? Antes, contudo, é necessário ter presente que o Rei na cruz nos alertou de que não basta dizer Senhor, Senhor!, é necessário um amor capaz de transformar a si mesmo e o mundo. É necessário reconhecê-lo como faminto, sedento, enfermo, despido, com fome e na prisão.
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Essa pergunta pela soberania de Jesus na igreja precisa ser refletida com maior profundidade ainda. Não basta dirigir a questão da estrutura, lideranças, ministros/as ou a sociedade. Ela precisa ser respondida por cada um e cada uma de nós nos lugares de nosso viver diário. Quem reinou em nossa casa? Que autoridades e poderes governaram nosso casamento, nossa relação com nossos filhos, filhas, irmãos, irmãs, pais, colegas, amigos e amigas? Quem ou o que nos governou e dirigiu nossos pensamentos e atitudes? A soberania de Jesus em nossa vida precisa superar a ladainha do “Deus em primeiro lugar na minha vida!”. Essas palavras precisam se converter em atitudes, deixar de ser discursos vazios, sem relevância para nossas finanças, nosso relacionamento com as pessoas e a comunidade de fé. Contudo, nossas respostas a essas perguntas precisam também ser restauradoras. É necessário reconhecer e valorizar os momentos da vida da igreja, onde de fato permitimos que Jesus fosse o rei soberano. Lembrar momentos em que a solidariedade e a compaixão nos tocaram e nos fizeram capazes de amar concretamente: quando oramos juntos por pessoas que precisavam de nossa comunhão; quando superamos preconceitos e nos aproximamos enquanto pecadores que somos para receber o perdão nos braços abertos de Jesus. Posicionamentos da igreja em favor das pessoas mais vulneráveis, ações solidárias, momentos de fé partilhados com o coração aberto. Retiros, cultos, grupos de oração e louvor, de visita a enlutados e a enfermos precisam ser celebrados. Eles revelam nossa fidelidade ao Rei na cruz. É importante lembrar os momentos em que nos sensibilizamos e agimos com amor. Jardins e pomares que plantamos precisam ser festejados. Campanhas de reciclagem devem ser alegremente comemoradas, pois elas afirmam a soberania de Jesus sobre toda a criação. Saber e poder celebrar pequenas e grandes conquistas do amor em nossas vidas é também dar a honra e o louvor a esse Rei na cruz que nos reconcilia pelo perdão. Não existe apenas um lugar para nós em seu reino futuro. Também aqui e agora há lugar para viver a justiça, a compaixão, o perdão e o amor que vêm da cruz, libertam do pecado e nos reconciliam com toda a criação. Por outro lado, há ainda uma porta para o futuro, para o planejamento. O Natal anuncia o novo Rei, o mesmo Rei na cruz, gestado no ventre da humilde jovem Maria e recebido pelos braços do silencioso e obediente José. Seu trono será a manjedoura! Ao seu lado estão os pastores do campo, com sua fama de beberrões e seu cheiro de ovelhas. Esperar por esse rei no tempo de Advento pede de nós a consciência de que o Rei na cruz é o menino na manjedoura. Deixar que um menino reine sobre todos os aspectos da nossa vida é tarefa para a qual precisamos nos preparar. Estabelecer metas e prioridades para o futuro a partir dessa consciência implica dar lugar aos mais vulneráveis de nossa sociedade não apenas em nosso coração e oração, mas também em nossas atitudes. Desafiar a comunidade para ações de solidariedade e justiça diante do Rei que vai nascer pode dar um novo sentido ao viver em comunidade.
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4 Imagens para a prédica Proponho que o tema do dia nos conduza e que esta mensagem seja construída com a ajuda dos três textos de leitura. O Domingo de Cristo Rei nunca foi uma unanimidade na igreja. Muitas pessoas cristãs não queriam que Jesus pudesse ser confundido ou visto como os reis que governaram este mundo. Em sua imensa maioria, reis foram tiranos, promoveram guerras por interesses pessoais, não tinham consideração pelas pessoas. Reis e reinos poderosos invadiram terras, mataram populações para acumular ouro e poder. No entanto, os textos propostos para a pregação no Domingo de Cristo Rei nos mostram um rei diferente. Ele não governa pelo poder das armas e dos exércitos, mas pelo poder do amor. Temos, assim, a oportunidade de refletir sobre a soberania de Jesus em todos os tempos e espaços, em nosso tempo e espaço, em nossa vida comunitária e pessoal. A leitura do profeta Jeremias mostra-nos o contraste entre os reis que governam o povo a partir de seus interesses egoístas e o rei que cumpre a vontade de Deus. Jeremias nos dirá como deve ser esse rei. Ele será como um pastor que cuida, reúne e traz paz a suas ovelhas. Ele será descendente de Davi, enviado por Deus para fazer justiça aos injustiçados, pobres e humildes e trará a paz ao seu povo. Marcos mostra-nos um Rei na cruz. Essa foi a acusação que pesou contra Jesus. Ele, no entanto, mostrou-se um rei cujo reinado não é igual ao dos reis deste mundo. O reino de Deus pedia outras estruturas e relacionamentos. Paulo mostra-nos um reino de luz em oposição a um reino de trevas, contrastando o reino de Jesus e os reis do mundo e seus reinos.
5 Subsídios litúrgicos Este parece ser um momento propício para a utilização do Credo Niceno. Ele foi elaborado em meio às controvérsias cristológicas para afirmar a verdadeira divindade e humanidade de Jesus. Sugiro que cópias sejam feitas e distribuídas para que as pessoas possam ler em voz alta. Por se tratar do Último Domingo do Ano Eclesiástico, sugiro selecionar fotos e imagens ampliadas de atividades feitas durante o ano que evidenciaram o reinado de Jesus em nossa comunidade. Encontros, ações conjuntas, campanhas etc. Se a cruz do altar for grande, elas podem ser fixadas sobre ela. Ou as imagens podem ser dispostas em forma de cruz na parede do altar. Espalhadas do lado de fora ou nas paredes laterais da igreja, podem ser fixadas ainda imagens que mostram as dores e dificuldades de um mundo que não permite que Deus seja soberano sobre todas as realidades. Cenas de guerras, conflitos, descuido com a natureza. Tudo isso poderá ilustrar a pregação.
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Bibliografia LÄPLLE, Alfred. Bíblia: interpretação atualizada e catequese. São Paulo: Paulinas, 1980. v. 4: O Novo Testamento. As epístolas. CROSSAN, J. D. O Nascimento do Cristianismo: O que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.
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AUXÍLIOS ESPECIAIS
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Texto-base do Tema e Lema da IECLB para 2019 Tema: Igreja, Economia, Política Lema: Deixo com vocês a paz, a minha paz lhes dou. (João 14.27a) O tema do ano já é uma tradição na IECLB. A primeira edição foi em 1976. Normalmente, o tema é tratado pelo período de um ano. Alguns temas conduziram a reflexão e a ação da igreja por dois anos. Em 2019, mantemos o tema do ano de 2018, mas sob a luz de um novo lema. Por quê? Em 2018, apresentamos os motivos pelos quais escolhemos Igreja, Economia, Política como tema. Segundo Lutero, essas são as três ordens da Criação de Deus. Recordamos o texto-base de 2018: Igreja (que ensina a Palavra de Deus), Economia (que organiza a produção e a distribuição justa dos meios de sustento da vida) e Política (que zela pela boa convivência humana) são os instrumentos que Deus usa para evidenciar quem ele é e o que ele quer. A concepção de Lutero interligou âmbitos que eram considerados desiguais, separados e sobrepostos. Para o Reformador, Deus age mediante as três ordens, e todas as pessoas se colocam a serviço de Deus nas três ordens. Esta é uma indicação importante para nós: cada pessoa é chamada a atuar com Deus nesses três âmbitos da vida. O ensino de Lutero sobre as três ordens da criação se refere a um estado ideal que não existe mais. A natureza humana foi corrompida pelo pecado e, com isso, também as ordens da criação estão corrompidas. Ainda assim, todas elas permanecem sob a promessa de Deus e continuam sendo os âmbitos nos quais Deus atua. O ser humano está inserido nas três ordens da Criação. Mesmo que uma pessoa queira se retrair da dinâmica das ordens, o que nelas acontece vai refletir em sua vida. Pela fé, apesar da nossa condição de pessoas pecadoras, atuamos nas três ordens e através delas. Nossa ação pode ser compreendida como colaboração com Deus para o melhoramento do mundo. Isso também aponta a abrangência da fé cristã. Ela vai além do âmbito pessoal e do círculo da comunidade. A pessoa cristã é, simultaneamente, cidadã. Em 2018, tivemos a oportunidade de compreender a concepção luterana das ordens da Criação. Em 2019, queremos avançar, identificando e indicando ações para o melhoramento do mundo através das três ordens. Na concepção luterana, o alvo da Economia e da Política [e de políticas] é a promoção do bem-estar das pessoas. Em seu comentário ao Magnificat, Lutero diz ser necessário que “governantes se deixem governar pela graça e ajuda de Deus, para o bem do povo. A qualidade de vida do povo evidenciará se o governante é governado ou não pela graça de Deus. [...] O bem-estar de muita gente depende de um príncipe tão importante, quando ele é governado pela graça de Deus. Por outro lado, dele depende a desgraça de muitos, quando ele se volta para
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si próprio e não é governado pela graça”. Diante dessa visão e considerando o novo lema, a tarefa de governantes e de pessoas cidadãs, particularmente do povo de Deus, é promover a paz e o bem-estar de todas as pessoas. Para isso é preciso compreender o que é paz. É disso que trata o lema. Deixo com vocês a paz, a minha paz lhes dou (João 14.27a). Jesus não define a paz nessa sua frase. Também em outras ocasiões em que fala sobre a paz, o Mestre nunca define o termo. A razão é que paz era um termo conhecido e, seguidamente, usado em saudações pessoais (p. ex.: João 20.19). Para o povo judeu, shalom – a palavra judaica para a paz – é um termo abrangente que pode ser resumido assim: é a felicidade, o mútuo entendimento e o bem-estar espiritual, físico, social, econômico e político das pessoas, das famílias ou grupos com quem elas se relacionam, das cidades em que moram, dos povos aos quais pertencem. Paz é, portanto, felicidade, saúde, bom entendimento e bem-estar em todos os sentidos. Para a Bíblia, paz é uma dádiva de Deus, também o é a bênção: O Senhor te abençoe e te guarde [...] e te dê a paz (Números 6.24-26). Como judeu, Jesus tinha em mente esse sentido abrangente de paz quando disse em seu discurso de despedida que deixaria e daria o seu shalom (a sua paz) aos discípulos (João 14.27-31). Que a paz para Jesus pressupõe integridade e saúde física mostram-nos trechos como Marcos 5.34 e Lucas 8.48, onde Jesus cura uma mulher e então diz: Vai em paz. Também a palavra de Jesus sobre a vida abundante que ele veio para dar tem a ver com o restabelecimento da saúde das pessoas (João 10.10). Talvez a maior contribuição de Jesus para uma prática de paz nas diferentes dimensões dos relacionamentos humanos é sua insistência no perdão sem limites. Foi Jesus quem disse para perdoar não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete (Mateus 18.22). O perdão traz a paz para relacionamentos tensos, difíceis e carregados de culpa (Lucas 7.36-50). Quando não há prática de perdão, o que sobressai são atitudes de discriminação ou de ódio. O Evangelho de João acentua justamente este aspecto: o mundo “odeia” quem não reza seus credos nem se orienta por suas práticas (João 7.7; 15.18,23,25; 17.14). A paz de Jesus incluía uma prática decidida de não violência e, em consequência, não armamentista. Ele pede para orar pelas pessoas que nos perseguem ou caluniam (Mateus 5.44; Lucas 6.28), para não revidar mal com o mal (olho por olho, dente por dente – Mateus 5.38). Jesus negou-se a apelar para os exércitos celestiais para livrá-lo da cruz (Mateus 26.53). Sua entrada triunfal em Jerusalém não foi sobre um cavalo de guerra, mas sobre um jumentinho da paz, inspirado no texto de Zacarias 9.9-10. Ali diz que Deus vai destruir os carros, os cavalos e os arcos de guerra, para que seja anunciada a paz (cf. Oseias 2.20). Diante disso, precisamos perguntar se propostas como as de leis que possibilitam e promovem o porte de armas condizem com o espírito da paz divina. Também é necessário perguntar em que medida o fomento de uma indústria bélica no Brasil exporta paz ou matança, sangue e destruição. É claro que ninguém seria tão ingênuo de achar que num país como o Brasil, só por não existir guerra declarada, já exista paz. Os índices anuais de assassinatos no campo e nas cidades, de desemprego, de milhões de pessoas abaixo da
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linha de pobreza, do caos da segurança pública, da saúde etc., dão testemunho de que a ausência de guerra é ainda insuficiente para caracterizar nossa vida como estando em paz. Por isso no Antigo Testamento a paz tem uma coirmã, denominada justiça (cf. Isaías 48.18). Sem paz dificilmente haverá justiça; sem justiça certamente não haverá paz: O efeito da justiça será paz, e o fruto da justiça será repouso e segurança para sempre (Isaías 32.17). Daí resulta a importância da justiça social para a paz. Enquanto não oferecermos as mesmas oportunidades e espaços iguais de formação e trabalho a todas as pessoas, estaremos contribuindo para a manifestação da marginalidade, do crime, das drogas e de outros males. A justiça também falha quando ela não aplica as leis de forma igual para todas as pessoas, criando e mantendo privilégios para uma minoria. Quando há desequilíbrio da justiça, geralmente as pessoas pobres, negras, indígenas e migrantes são as mais prejudicadas. No Salmo 85.10-13, a paz tem mais uma coirmã: além da justiça, a verdade. A graça e a verdade se encontraram, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o seu olhar. A verdade como segundo fundamento da paz tem uma importância decisiva para Jesus no Evangelho de João (p. ex.: João 1.17; 4.24; 14.6,17; 17.17). O conhecimento da verdade tem função libertadora: conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (João 8.32). No Brasil, a divulgação malévola de fake news com o interesse de acobertamento da verdade, a transmissão de meias verdades e a omissão de outras tantas pelos grandes órgãos de imprensa torna o pouco de paz que temos ainda mais frágil e danoso, gerando desconfiança, desorientação e má informação. Por vezes, os que falam de paz o fazem somente da boca para fora. Jeremias 6.14 afirma que muitas pessoas, movidas pela ganância, não têm nenhuma vergonha de mentir descaradamente e de proclamar “Paz, paz”, quando não há paz. São aquelas pessoas que dizem ter o interesse de curar as feridas do povo, mas na realidade buscam o seu próprio interesse ou o interesse de uma minoria. A paz que querem é que o povo não se manifeste nem proteste diante de mentiras e injustiças. Nesses casos, as pessoas cristãs têm o compromisso ético da denúncia. Jesus também criticou as pazes falsas, que podem estar inclusive dentro das famílias, onde a discriminação das mulheres, a submissão doentia e o machismo impedem que as pessoas vivam e se desenvolvam em liberdade. É dentro desse espírito de denúncia que entendemos as palavras em Mateus 10.34-36: Não pensem que eu vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas a espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e a sua mãe e entre a nora e a sua sogra. No Evangelho de João há, por fim, uma terceira coirmã da paz. Trata-se do amor: Permaneçam no meu amor [...] O que eu lhes ordeno é isto: que vocês amem uns aos outros (João 15.9-17). O amor de Cristo é essencial para o estabelecimento da paz por uma razão muito simples: ele é universal. Cristo o deu para todas as pessoas, independentemente de classe ou condição social, política e religiosa. E ele assim o fez por entender que todas as criaturas, indistintamente, eram filhas queridas do Pai do céu. Se permanecermos e defendermos esse amor universal de Cristo, promovemos a paz: Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus (Mateus 5.9). Nesse caso, defenderemos
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políticas públicas, governos e projetos voltados para o bem comum e não, como costuma ser, para minorias privilegiadas. Uma paz que procure pelo bem comum estará sintonizada com a verdadeira paz de Deus que Jesus veio trazer. Deus não quer o bem de poucas pessoas, mas de todas.1 No tempo em que vivemos, as relações em todos os âmbitos (inclusive na família) estão determinadas pela polarização. A tendência é a de optar por um dos polos como sendo a única verdade. Exclui-se a possibilidade de convivência na diversidade. Desconhece-se ou ignora-se a complexidade dos fatos. É uma polarização odiosa que atrapalha e até impede nosso desempenho na missão de Deus. Quanta energia se gasta por causa do ódio nosso de cada dia! Em meio a essa realidade, a teologia evangélico-luterana nos diz que, por causa do pecado, as ordens da Criação e todas as pessoas estão sob a marca da imperfeição. Justificadas por graça, através da fé, permanecemos sob o pecado. Somos pessoas simultaneamente justas e pecadoras (simul iustus et peccator). Vivemos em meio a essa ambiguidade. Daí que nunca uma suposta verdade estará plenamente deste lado ou do outro. Ter clareza dessa condição certamente nos ajuda a compreender as dificuldades e os desafios para promover a paz. Se as três ordens existem para o louvor a Deus e para a promoção e organização da vida, então o caminho não está na polarização que divide, mas na busca conjunta para a convivência em favor da paz. A IECLB está comprometida com essa busca ao insistir, por exemplo, no tema da justiça de gênero. Abandonar o ódio para, conjuntamente, promover a paz no mundo ainda tem outra motivação: se em comum temos a condição de pessoas pecadoras, carregamos também em comum a marca do Batismo. Congregamos na igreja. Integramos o mesmo corpo. Em Cristo, somos um só corpo (1 Coríntios 10.17). Reafirmar esse princípio evitará que nos percamos em meio a conflitos, confrontos e contradições. O tema e o lema do ano nos motivam a agir em regime de colaboração na construção de pontes de aproximação para o melhoramento do mundo. Diante das forças, na sociedade e também na IECLB, que dificultam e até impedem que nos reconheçamos como irmãos e irmãs, somos porta-vozes do evangelho, a alegre notícia. Dali provém o anúncio da paz como antítese à onda do ódio. Por isso um dos objetivos do tema é justamente apontar formas de baixar essa onda, sinalizando o que já se faz em favor da paz. A paz que Jesus deixou entre nós é motivo para que nos perguntemos de modo bem franco e direto, tanto ministras e ministros como membros e a sociedade em geral: as minhas palavras e a Palavra que eu anuncio contribuem no quê? E no que contribuem nossas ações? Ajudam a sair do círculo dramático no qual se cultiva o ódio nosso de cada dia? A palavra de Deus é a fonte inspiradora e orientadora para que nossas palavras fomentem a paz, sem mascarar a realidade. Ao promover a paz (que beija a justiça, a verdade e a não violência) e romper a escalada do ódio e da polarização, defrontamo-nos com a via do diálogo, da mediação e da reconciliação. A persistência sincera nisso não pode, obviamente, A reflexão sobre o texto bíblico (o Lema) é do P. em. Uwe Wegner, a quem agradecemos.
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acobertar injustiça, inverdade, violência. Diálogo em vista da reconciliação requer compromisso com a identificação e a superação de barreiras e fossos que impedem o florescimento da paz. De igual modo, diálogo, mediação e reconciliação, inspirados no evangelho, contribuirão para identificar balizas e limites para a boa convivência. O diálogo não pressupõe concordância e aceitação de tudo. Não podemos concordar, por exemplo, com discursos racistas ou que pregam o extermínio de quem é diferente. A igreja contribui (e pode contribuir ainda mais) na promoção da paz através do diálogo, da mediação e da reconciliação. As comunidades da IECLB oferecem numerosas ocasiões para reunir os membros do corpo de Cristo para analisar e interpretar o que se passa no contexto em que vivem, iluminando esse contexto com a luz do evangelho. Exatamente diante dos fossos que nos distanciam é que insistimos no diálogo com vistas à construção de pontes como exercício do amor e da cidadania. Importa reaprender a ouvir e evitar impor a “minha verdade”. Haja mais diálogo e menos ofensas! Não se trata de aproximar pessoas para que pensem da mesma forma, mas de identificar iniciativas, a partir das quais é possível caminhar na mesma direção, vislumbrando a paz que Cristo deixou entre nós. Opiniões e posicionamentos divergentes precisam ser ouvidos. O foco deve estar nas causas e não nas pessoas com suas posições. Essa prática é parte do DNA da IECLB! Não temos na IECLB uma instância que dita a verdade. Orientamo-nos e nos inspiramos no Cristo, que é a Verdade. Somos igreja a caminho. Construímos o entendimento a caminho. Somos igreja sinodal! Nisso precisamos insistir e apostar mais e mais. Igreja, Economia e Política são corresponsáveis pelo cuidado ou pela depredação da Criação de Deus. Consideremos, por exemplo, o que representam em nosso país a poluição decorrente do gás carbônico, do uso indiscriminado do plástico e dos agrotóxicos. A IECLB não tem a força de um Governo. Mas, como igreja, contribuímos (e interferimos) com iniciativas de gestão ambiental responsável e de preservação da boa Criação de Deus (Gênesis 2.1-3). O Programa Ambiental Galo Verde é um exemplo. Ele promove gestão ambiental em comunidades e instituições, ajudando a reduzir a pegada ecológica. As comunidades e instituições que o adotam elaboram um programa para reduzir o consumo de água e energia elétrica, para destinação correta dos resíduos de suas atividades, como festas e encontros, e colocam o cuidado com a Criação como uma de suas prioridades. O objetivo é ir além do discurso e vivenciar a responsabilidade ambiental. O Galo Verde tem como lema: A Criação é de Deus; a responsabilidade é nossa! Ao implantar um programa de gestão ambiental, a igreja demonstra que a fé é vivida com responsabilidade. É possível iniciar uma reflexão ambiental sobre esse tema na comunidade, convidando alguém do Galo Verde para um encontro ou uma palestra. Quem quiser mais informações pode visitar o site www.galoverde.org.br e solicitar palestras e auxílio, fazendo contato com a coordenação (gjschalombr@web.de). Políticas e modelos econômicos são determinantes para que a paz vingue ou mingue. Também são necessárias ações de empreendedorismo que reconheçam a função social das empresas na geração de postos de trabalho dignos, na distribuição da renda e na preservação ambiental. Há, a partir de comunidades
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da IECLB e em parceria ecumênica, iniciativas de empreendedorismo que perguntam pelo papel da empresa na sociedade e pelo desenvolvimento econômico como fator para a promoção da justiça. Tais iniciativas, que surgem a partir da escuta do evangelho, merecem pleno apoio. Para regar a semente da paz semeada por Jesus, a IECLB apoia, há quatro décadas, iniciativas no âmbito da agroecologia através do CAPA – Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (http://www.capa.org.br/). Nos últimos anos, o CAPA desenvolveu o projeto Comida boa na mesa (http://comidaboanamesa. com.br/), que promove reflexão sobre o acesso à alimentação saudável, o papel da agricultura familiar, das feiras, cooperativas e organizações de apoio. Em 2018, na celebração dos 40 anos de história e testemunho do CAPA, fez-se este registro: “Como sinal de esperança, anunciamos a Agroecologia como projeto de sociedade transformadora de vidas, que viabiliza relações sociais justas, harmonia com a natureza e oferta de alimentos saudáveis para todos os seres”. O cuidado com a vida humana (diante de doença, desemprego, criança em situação vulnerável, pessoa idosa abandonada) deixa muito a desejar por parte do Estado brasileiro. Diante desse quadro, a IECLB não se omite. Ao nos aproximarmos da celebração do jubileu de 200 anos de história da IECLB (1824-2024), podemos olhar com alegria e gratidão para as iniciativas das comunidades da IECLB no âmbito da diaconia. Há muitos projetos de cuidado de pessoas onde a vida dói, não importando se o abraço alcança membros ou pessoas que nem integram a IECLB (http://www.luteranos.com.br/organizacao/missao-diaconia). Temos consciência de que as ações diaconais da igreja não são suficientes para suprir a omissão do Estado, mas temos a alegre convicção de que nossas ações diaconais demonstram que da solidariedade no sofrimento humano brota a paz semeada por Jesus. A vontade de Deus traduz-se na sua decisão de criar, preservar (vida digna) e salvar. Nessa decisão está expresso o amor de Deus e a própria força do amor que dele emana. Tudo passa. O amor fica. É esse amor que quer a paz. Paz é o alvo; o amor, o meio. Igreja, Economia, Política. Diante das ordens criadas pelo Pai, o Filho afiançou: Deixo com vocês a paz, a minha paz lhes dou (João 14.27a). Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente da IECLB
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – 43 A ceia do Senhor – O sacramento do altar...........................................................................34, p. 369 Advento – Celebração..........................................................................................................29, p. 325 AIDS – Um grande desafio.................................................................................................XV, p. 304 Ação de graças............................................................................... XII, p. 300; 20, p. 322; 33, p. 394 Ação de graças pela colheita....................... 32, p. 212; 34, p. 371; 35, p. 370; 36, p. 365; 37, p. 348 Achados e perdidos – experiências................................................................................. XVII, p. 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17)............IX, p. 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10)........................ X, p. 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12)........................................................IX, p. 83 As três primeiras petições do Pai-Nosso..............................................................................39, p. 359 A velhice................................................................................................................................VI, p. 43 Batismo, alocução para .......................................................................................................26, p. 357 Batismo, culto de.............................................................................21, p. 327; 24, p. 358; 27, p. 299 Bênção matrimonial..........................................................................................XIX, p. 310, 317, 319 (Jr 29.13)..............................................................................................................................20, p. 351 (Ct 8.7).................................................................................................................................20, p. 353 (Ec 4.9-12)...........................................................................................................................21, p. 329 (Ct 1.2-3)............................................................................................................21, p. 332; 22, p. 311 Bíblia e arte...........................................................................................................................XV, p. 77 Breve exortação à confissão.................................................................................................39, p. 375 Cadê a mulher? (Jz 5.24-31)................................................................................................... X, p. 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11).................................................................................IX, p. 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35)...............................................................................VI, p. 40 (Sl 133.1-3)..........................................................................................................................22, p. 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28)......................... XII, p. 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4)..................... X, p. 84 Componentes éticos da organização popular.................................................................. XVII, p. 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16).......................................................................................................... X, p. 11 Confirmação (Fp 3.12-16)..................................................................................................... II, p. 187 (Dt 30.11-20)....................................................................................................................... VIII, p. 23 (Jo 6.66-69)........................................................................................................................ XII, p. 293 (Mt 5.14-16).........................................................................................................................20, p. 339 (Ap 1.9-18)......................................................................................................................... XX, p. 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20)..................................................... XII, p. 51 Contribuição para a igreja – Pago para ter (2Co 8.1-5)...................................................... XIII, p. 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22).................................................IX, p. 107 Culto como evento celebrativo ............................................................................................ XIV, p. 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13)..................................................21, p. 309 Culto em época de eleição (1Sm 11.1-15).............................................................................V, p. 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42)..........................................................................................20, p. 346 Culto eucarístico (alocução para).........................................................................................23, p. 237 (Lc 22.14-15).......................................................................................................................20, p. 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas.................................................................................22, p. 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1Co 8.2)..................................................... XIII, p. 42
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Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34)............................................ XII, p. 27 Deus na marginalidade..........................................................................................................XVI, p. 9 Dedicação de templo............................................................................................................26, p. 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8).................................................................................................24, p. 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22)......................................................................................I, p. 68 (Jo 4.31-38)........................................................................................................................... II, p. 256 (Ec 3.1-8)...............................................................................................................................VI, p. 48 (1Tm 4.4-5)....................................................................................................................... XIII, p. 298 (Mt 13.24-30,36-43)....................................................................................................... XVIII, p. 289 Dia da Colheita (2Co 9.6-15).................................................................................................V, p. 323 (Dt 26.1-11)..........................................................................................................................20, p. 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15)..................................................................................................V, p. 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) .......................................................................................34, p. 353 (Fp 3.20-21)........................................................................................................................... I, p. 143 (1Co 15.50-58).................................................................................................................... III, p. 176 (1Co 15.35-39,42b-44)...........................................................................................................V, p. 256 (Mt 22.23-33).................................................................................................................... VIII, p. 336 (2Pe 3.8-14)..................................................................................................................... XVII, p. 237 (Jo 5.24-29).................................................................................................................... XVIII, p. 267 (1Co 15.12-20)..................................................................................................................... 32, p. 311 (Is 35.1-10)...........................................................................................................................35, p. 347 (1Ts 4.13-18)........................................................................................................................36, p. 335 Dia da Independência (1Pe 2.13-17).......................................................................................I, p. 109 (1Tm 2.1-4)........................................................................................................................... II, p. 336 (Mc 12.13-17)......................................................................................................................III, p. 138 (Hb 13.12-16).........................................................................................................................V, p. 205 (Mt 6.9-13)...........................................................................................................VI, p. 53; 20, p. 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)................................................................................................XIX, p. 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11)....................................................................................................I, p. 125 (Jo 8.31-36)........................................................................................................................... II, p. 383 (Rm 3.19-28)........................................................................................................................III, p. 169 (Mt 5.1-10)........................................................................................................................... IV, p. 212 (Ap 14.6-7).............................................................................................................................V, p. 249 (Mt 10.26b-33).....................................................................................................................VI, p. 291 (Is 62.1-12)........................................................................................................................ VIII, p. 331 (Mt 10.26b-33)................................................................................................. XII, p. 268; 34, p. 347 (Gl 5.1-6).........................................................................................................XIII, p. 267; 35, p. 341 (Fp 2.12-13)........................................................................................................................XV, p. 282 (Jo 8.31-36).................................................................................................................... XVII, p. 225 (Mt 5.1-10)...........................................................................................................................32, p. 307 (Jr 31.31-34).........................................................................................................................36, p. 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17)............................................................................................XV, p. 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15)...........................................................................................III, p. 62 (2Ts 3.6-13)..............................................................................................................................V, p. 97 Dia do Trabalho (1Co 7.29-32a)........................................................................................... II, p. 213 (Ez 34.1-2 (3-9), 10-16, 31).................................................................................................VI, p. 170 (Tg 5.1-6).......................................................................................................................... XIII, p. 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19)....................................................................................................21, p. 321 Dia Internacional da Mulher (Ct).........................................................................................21, p. 316 Domingo de Louvor através da Música.............................................................33, p. 401; 37, p. 353
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Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)]).......... XII, p. 307 (Ap 3.14-22)...................................................................................................................... XIII, p. 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16)..................................................20, p. 309; 36, p. 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15)....................................................................... XIII, p. 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18)................................................ X, p. 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25).......................... XII, p. 34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21)................................................................................ XIII, p. 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25)...............................IX, p. 15 Epifania, reflexões para o período de...................................................................................27, p. 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7).................................................................................................VI, p. 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46)..........................................................................................VI, p. 29 Época da Paixão III (Sl 130.4)...............................................................................................VI, p. 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30)........................................................................................VI, p. 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15)........................................................................................IX, p. 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18).....................................................................XVI, p. 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores...................................................................... XIV, p. 60 Exercício homilético............................................................................................................ XII, p. 91 “E viu Deus que isto era bom...”....................................................................................... XIV, p. 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15)........................................... X, p. 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo.......................................................................................30, p. 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4)........................................................................XI, p. 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19)........................................................ XIII, p. 80 (Is 65.17-25).........................................................................................................................20, p. 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).....................................................XI, p. 20 Hermenêutica feminista latino-americana........................................................................ XIV, p. 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20)........................................................................................... XIII, p. 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19)....................................... XII, p. 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a)........................................................................ XIII, p. 312 Introdução a Dêutero-Isaías................................................................................................ VIII, p. 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29)........................................................... X, p. 74 Joga limpo, Brasil................................................................................................................38, p. 363 Jubileu 500 anos da Reforma...............................................................................................38, p. 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer.................................... XVII, p. 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida...............................................XV, p. 71 La lucha por la tierra en el Paraguay....................................................................................XV, p. 55 Leitura da Bíblia entre indígenas..........................................................................................XV, p. 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16)................................................................. XII, p. 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1Jo 3.13-18)......................................................................IX, p. 57 Lutero e a educação.............................................................................................................41, p. 345 Lutero e a música.................................................................................................................40, p. 335 Marketing e igreja....................................................................................................................24, p. 7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28)............................................................XI, p. 77 Meditação sobre a oração ....................................................................................................31, p. 303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37)..........................V, p. 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos...........................................................V, p. 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43)...........................................XI, p. 65 Missão (1Co 12).................................................................................................................. XIII, p. 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)..... X, p. 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45)............................. X, p. 106 Mulheres agricultoras..........................................................................................................XVI, p. 15
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Mulheres na Reforma Protestante........................................................................................40, p. 341 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1Co 1.26-31)...............................................IX, p. 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18)........................................................ X, p. 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus........................................... II, p. 176 Lucas .................................................................................................................................... X, p. 139 João ...................................................................................................................................... VIII, p. 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25)............................................................. XII, p. 34 O desafio de ser autor de PL.................................................................................................XV, p. 12 O ecumenismo na formação de lideranças............................................................................XV, p. 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas..............................XV, p. 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22)........................................... X, p. 48 O Lecionário Ecumênico....................................................................................................XV, p. 315 O nosso Pai que está no céu.................................................................................................39, p. 351 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo...........XV, p. 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10).............................................................................. XII, p. 11 Pago para ter (2Co 8.1-15).................................................................................................. XIII, p. 18 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade......................................................................................39, p. 364 Palavra e pregação em Lutero..............................................................................................40, p. 348 Pastoral Ecumênica de Periferia......................................................................................... XIV, p. 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1Jo 4.1-6)...............................IX, p. 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (Jo 11.17-37)..........................................................22, p. 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112)........................................................ XII, p. 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens..................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia).....................28, p. 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6)...................................................................... X, p. 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21)..........................................................VI, p. 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1Pe 2.15-17).....................................................VI, p. 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)..................................................VI, p. 19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]).................................................................... XIII, p. 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12).................................................................IX, p. 50 Quem não faz política sofre política (1Rs 12.1-15)...............................................................XI, p. 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia................................................................XVI, p. 21 Ressurreição de que e para quê? (1Co 15.35-38)............................................................... XIII, p. 29 Roteiro para encontros de preparação visando à ordenação ao pastorado junto à IECLB....31, p. 307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16)..............................................................XI, p. 85 Semana do excepcional................................................................................................... XVII, p. 264 Semana dos povos indígenas...............................................................................................24, p. 347 Sepultamento...............................................................XIX, p. 321, p. 323, p. 325, p. 327; 22, p. 240 (Jo 6.28-40)..........................................................................................................................20, p. 355 (Jo 19.25-27)........................................................................................................................20, p. 360 (Sl 39.5-7)............................................................................................................................20, p. 362 (Sl 142.1-2,5a).....................................................................................................................21, p. 336 (Ec 3.1-8).............................................................................................................................28, p. 365 Servo-arbítrio / livre-arbítrio................................................................................................40, p. 329 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1Co 12.20-26).......................................................................................................................XI, p. 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39)...................................................................IX, p. 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém.................................................................................................................XVI, p. 37 Tema e Lema da IECLB 2017 …........................................................................................41, p. 339
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Tema e Lema da IECLB 2018.............................................................................................42, p. 343 Tema e Lema da IECLB 2019.............................................................................................43, p. 355 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro............................20, p. 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10,14)............................................................ XII, p. 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35)................................................IX, p. 63 Trabalhando com agricultores sem terra............................................................................. XIV, p. 78 Trabalho com agricultores assentados................................................................................ XIV, p. 20 Trabalho com idosos...................................................................................................... XVIII, p. 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10)................................................................................XI, p. 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram.......................................................... XIV, p. 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8).................................................XI, p. 9 Vida está em perigo: socorro! (Gn 2.8-15)......................................................................... XIII, p. 74 Vigília pascal.....................................................................................................................XVI, p. 146 Violência no campo (Js 8.1-8)............................................................................................. XII, p. 61
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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – 43 ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a........................ VIII, p.185 1.26-31; 2.1-3..................................... III, p. 105 2.4-15................................................. 28, p. 301 2.4b-15...............................V, p. 330; 35, p. 211 2.7-9,15-17; 3.1-7......... 30, p. 66; XVIII, p. 84; ......................................... 35, p. 127; 40, p. 150 2.8-15................................................ XIII, p. 74 2.18-24...........22, p. 254; 25, p. 282; 33, p. 343 3.1-9..................................................XII, p. 170 3.1-19(20-24).................................... 25, p. 214 3.1-24.................................................VI, p. 133 3.8-15................................................. 39, p. 195 4.1-16...........................VII, p. 203; XIII, p. 246 8.1-13................................................XV, p. 135 8.15-22..........................................I, p. 71; p. 78 11.1-9......................... XII, p. 205; XVII, p. 130 12.1-4............................................. XVIII, p. 88 12.1-4a........................... VII, p. 165; 38, p. 125 15.1-6.............26, p. 256; 34, p. 283; 40, p. 231 15.1-12,17-18..................................... 43, p. 122 17.1-13................................................. 27, p. 40 18.1-10a(10b-14)..............20, p. 208; 37, p. 223 18.20-21(22),23-32............................ 20, p. 214 21.8-21.............................................. XIII, p. 60 22.1-13...............................................VI, p. 144 22.1-14(15-18)..................................... 22, p. 65 28.10-17(18-22)................................... 22, p. 71 32.23-31.........................................XVII, p. 240 32.23-33......................................II, p. 207(374) 45.3-11,15............................................ 43, p. 98 50.15-21..........................24, p. 272; 27, p. 240; ......................................... 35, p. 295; 38, p. 284 Êxodo 1.8-22................................................ IX, p. 107 2.1-10................................................. 28, p. 181 3.1-14................................................XII, p. 154 3.1-8,13-15......................................... 26, p. 108 6.2-8........................... XVIII, p. 218; 30, p. 214 12.1-14............................. 21, p. 108; 40, p. 109 13.20-22............................................... 25, p. 46 16.1-5(6-11),12-21(22-30)................. 28, p. 276 16.2-4,9-15......................................... 36, p. 251 16.2-3,11-18.....................................XIV, p. 283 19.2-8a .............................................. 21, p. 176
20.1-3(4-6),7-8(9-11),12-17................. 22, p. 75 20.1-17............................................... 42, p. 101 22.21-27............................................. 21, p. 280 24.1-11............................. 32, p. 123; 38, p. 146 24.3-11........XVI, p. 224; 25, p. 164; 28, p. 272 24.12,15-18......................... 21, p. 78; 32, p. 79 32.7-14........... XV, p. 225; 23, p. 177; 37, p. 272 33.18-23.............................................VI, p. 102 34.4b-10..........................III, p. 153; XV, p. 273 34.29-35............................. 25, p. 123; 37, p. 87 Levítico 19.1-2,9-18......................................... 38, p. 101 Números 6.22-27.................33, p. 58; 36, p. 48; 40, p. 48 11.11-12,14-17,24-25...................... VIII, p. 205 11.24-30........................... 32, p. 169; 41, p. 196 12.9-16................................................XII, p. 18 21.4-9......... VII, p. 101; XIII, p. 159; 22, p. 80; ......................................... 33, p. 146; 39, p. 114 24.15-19............................................XV, p. 120 Deuteronômio 4.1-2,6-8........................... 22, p. 235; 36, p. 274 4.32-34,39-40 .................................... 27, p. 148 5.12-15............................... III, p. 43; 38, p. 171 6.1-9................................................... 33, p. 373 6.4-9.............................XV, p. 246, XIX, p. 164 7.6-12.................................................VI, p. 219 8.6-10..................................................XII, p. 11 8.7-18................................................. 37, p. 348 10.12-22............................................. 26, p. 336 11.18-21,26-28................. 21, p. 164; 32, p. 184 17.14-20..............................................XII, p. 51 18.15-20...........XIX, p. 67; 31, p. 57; 33, p. 92; ............................................................. 39, p. 81 24.14-15...............................................IX, p. 63 26.1-11............................... 33, p. 394; 40, p. 81 26.3-11................................................. 26, p. 91 30.9-14............................................... 34, p. 257 30.11-20............................................ VIII, p. 23 30.15-20............................. 34, p. 303; 35, p. 93 32.36-39............................................... 23, p. 79 34.1-12.............................XVII, p. 74; 29, p. 77 Josué 1.1-9....................................................VII, p. 36 8.1-8....................................................XII, p. 61 24.1-2a,13-25................... III, p. 117; 39, p. 262
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Juízes 4.1-7................................................... 32, p. 319 5.24-31.................................................. X, p. 37 9.7-15...................................................IX, p. 98 Rute 1.1-19a............................................... 29, p. 289 1 Samuel 2.1-10..................... II, p. 176 (343); VII, p. 113 2.18-20,26............................................ 40, p. 43 3. 1-10(11-20)...................................... 42, p. 64 3.1-10(19)..........................XIX, p. 55; 31, p. 44 3.1-10,19.............................................. 25, p. 86 11.1-15.................................................V, p. 337 2 Samuel 7.1-11,16 ............................................. 36, p. 24 7.4-6,12,14a,16.................................... 25, p. 35 11.26-12.10,13-15...........29, p. 199; 34, p. 231; ........................................................... 40, p. 189 12.1-10,13-14.....................................IX, p. 264 12.1-10,13-15a..................................XV, p. 261 1 Reis 3.5-12............................... 24, p. 240; 32, p. 236 3.16-28............................................... 30, p. 143 8.(21-23,27-30)41-43.....................XVII, p. 141 8.22-24,26-28.....................................VI, p. 189 8.22-30..............................................XII, p. 191 8.41-43............................................... 29, p. 188 17.8-16........ XVI, p. 292; 31, p. 286; 36, p. 346; .......................................... 39, p. 332; 42, p. 323 17.17-24.... XVII, p. 146; 29, p. 192; 37, p. 193 19.1-8(9-13a)..................................... 22, p. 226 19.1-13a...................XIV, p. 185; XVIII, p. 204 19.1-18................................................. III, p. 92 19.4-8................................................. 33, p. 285 19.9-13a ............................................ 30, p. 204 19.(14-18)19-21...........XVII, p. 159; 29, p. 205 2 Reis 2.1-12 ................................................ 36, p. 105 2.9-18................................................. 37, p. 174 4.42-44............................................... 39, p. 238 5.1-14................................................... 31, p. 71 5.1-19a................................................VII, p. 58 Neemias 5.1-5(6-12)........................................ XIII, p. 11 5.1-12...................................................IX, p. 83 8.1-2,5-6............................. 20, p. 183; 34, p. 95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36).... 31, p. 263 Jó 7.1-7 .................................XIX, p. 73; 31, p. 63 19.23-27a........................................... 37, p. 329 38.1-11............................. 25, p. 221; 42, p. 208
Salmo 1......................................................... 39, p. 177 8 .......................................................... 43, p. 50 16....................................................... 38, p. 165 22....................................................... 40, p. 115 22.1-19............................................... 35, p. 169 22.1-12,17-20..................................... 30, p. 104 22.2-12,17-20................................XVIII, p. 116 23..................................... 35, p. 187; 40, p. 137 31.1-5,15-16....................................... 41, p. 171 46.1-7(1-11) ................... 26, p. 313; 37, p. 311 84.1-6................................................. 43, p. 313 105.1-7............................................... 38, p. 356 111........................................................ 26, p. 27 112.......................................................XII, p. 77 116.1-2,12-19..................................... 42, p. 124 118.1-2,19-29..................................... 41, p. 130 118.14-29 .......................................... 43, p. 166 130.4....................................................VI, p. 34 147.12-20............................................. 39, p. 54 Eclesiastes 1.2,12-14; 2.18-23 ............................. 43, p. 254 1.2; 2.18-26........................................ 20, p. 225 3.1-8(-13).............................VI, p. 48; 35, p. 51 3.9-15.................................................... X, p. 16 4.1-4...................................................... X, p. 84 5.18....................................................... X, p. 65 9.13-18.................................................. X, p. 25 10.12-18 ............................................ 43, p. 275 Provérbios 8.22-31............................................... 23, p. 109 9.1-6................................................... 42, p. 248 9.1-6,10.............................................. 22, p. 230 9.7-13................................................. 23, p. 172 16.1-9................................................ VIII, p. 80 24.10-14 .............................................XII, p. 45 30.5-9................................................. 26, p. 215 Isaías 1.1-9................................................ XIII, p. 116 1.10-17..............................................XV, p. 297 2.1-5.................VI, p. 225; XVIII, p. 9; 30, p. 9 5.1-7..............VII, p. 87; XIII, p. 147; 21, p. 252 6.1-13........... VI, p. 198; XII, p. 213; 42, p. 187 7.10-14................................................. 21, p. 37 7.10-14(15-17).. ..............XIII, p. 104; 32, p. 27 9.1-4..................................................... 38, p. 80 9.1-6............................................... XVIII, p. 31 9.1-6,10.............................................. 22, p. 230 9.2-7.....................................V, p. 294; 38, p. 39 11.1-5................................................ XVI, p. 63
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11.1-9............. XVIII, p. 58; 33, p. 31; 37, p. 31; ...............................................39, p. 30; 43, p. 33 11.1-9(10-11)...................................XIV, p. 148 11.1-10................................. 27, p. 16; 38, p. 15 12.1-6................................................. 26, p. 114 24.12-16a........................................ XIII, p. 312 25.1,8-9.............................................. 43, p. 324 25.6-8.............................................. XIX, p. 114 25.6-9.............21, p. 258; 31, p. 128; 34, p. 353 29.17-24............................................XII, p. 233 29.18-24............................................. III, p. 130 30.(8-14),15-17....................................VI, p. 97 33.13-17,22........................................ 36, p. 187 35.1-10..........21, p. 273; 24, p. 306; 28, p. 346; .........35, p. 22; 35, p. 347; 38, p. 334; 41, p. 19 35.3-7............................31, p. 248; XIX, p. 237 35.3-10............................X, p. 158; XIV, p. 115 35.4-7a............................................... 33, p. 315 40.1-11.......VIII, p. 40; XIV, p. 124; XIX, p. 15; ..................................................31, p. 9; 42, p. 15 40. 21-31.............................................. 42, p. 81 40.25-31.............................................IX, p. 216 42.1-7(-9)............21, p. 51; 25, p. 80; 35, p. 69; ........................................... 39, p. 131; 41, p. 64 42.14-21......................... XVIII, p. 92; 30, p. 72 43.1-7.........................II, p. 132 (299); 40, p. 58 43.16-21............................................... 40, p. 97 44.1-5................................................. 33, p. 401 44.6-8............................... 35, p. 246; 38, p. 242 44.9-20.............................................. XIII, p. 50 45.1-7............................... 21, p. 264; 32, p. 293 45.19-25............................................. 40, p. 298 45.22-25............................................... 28, p. 49 49.1-6................................... III, p. 85; 37, p. 58 50.4-9.....................II, p. 28, (195); XIII, p. 166 50.4-9a............................... 30, p. 94; 42, p. 268 50.4-10..........................XIX, p. 241; 31, p. 252 51.1-6................................................. 32, p. 259 52.7-10.............XV, p. 100; 22, p. 37; 33, p. 70; ............................................................. 39, p. 58 52.13 – 53.12..................... V, p. 72; IX, p. 196; .................... XV, p. 185; XII, p. 109; 36, p. 146 53.4-12............................................... 39, p. 310 53.10-12............................................. 25, p. 294 54.7-10............................IX, p. 183; XV, p. 170 55.1-5..... III, p. 68; VIII, p. 213; XVIII, p. 198; ......................................... 30, p. 197; 41, p. 244 55.1-9................................................. 34, p. 120 55.6-7...................................................VI, p. 24 55.6-11................................................. 34, p. 63
55.(6-9),10-12a............................... VIII, p. 119 55.10-11............................................. 24, p. 223 56.1,6-8..................... XVIII, p. 213; 30, p. 209; ......................................... 35, p. 274; 38, p. 263 58.1-9a..............................................XV, p. 147 58.1-12...............IX, p. 50; 33, p. 125; 39, p. 97 58.5-9a................................................. 24, p. 88 58.7-12..............................................XII, p. 300 60.1-6............ V, p. 11; VIII, p. 92; XVII, p. 39; .............................24, p. 63; 29, p. 54; 38, p. 63 61.1-3(4-9),11................................. XIII, p. 120 61.1-3,10-11........................................ 28, p. 20 61.1-3,11,10........................................VII, p. 44 61.10 – 62.3......XIX, p. 42; 25, p. 68; 28, p. 59 62.1-5................................... 20, p. 23; 28, p. 31 62.1-12.................II, p. 256, (423); VIII, p. 331 62.6-7,10-12 ................XIX, p. 279; 22, p. 272; ........................................................... 24, p. 297 63.7-9(10-16)....................... 24, p. 44; 32, p. 46 63.15-64.3......................................... XIII, p. 91 63.15-16;19b-64.3...................... I, p. 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7........................ 22, p. 9 64.1-9....................................... 33, p. 9; 39, p. 9 65.17-25.............................IX, p. 15; 30, p. 133 66.10-14.........29, p. 213; 37, p. 217; 43, p. 234 Jeremias 1.4-10......................... VII, p. 184; XIII, p. 228; ............................................................. 37, p. 82 7.1-11............................................. VIII, p. 257 7.1-11(12-15)...................................XIV, p. 301 7.21-26................................................. 30, p. 15 8.4-7............................VIII, p. 349; XIV, p. 390 9.22-23................................................VII, p. 71 11.18-20....... XIX, p. 246; 31, p. 256; 39, p. 287 14.7-10,19-22................... 37, p. 305; 40, p. 286 15.15-21.....XVIII, p. 222; 30, p. 220; 41, p. 266 17.5-8................................................... 23, p. 55 20.7-13........ VIII, p. 145; 21, p. 181; 38, p. 219 22.13-19............................................ XIII, p. 80 23.1-6............................XVI, p. 217; 42, p. 232 23.2-6................................................. 20, p. 301 23.5-8............................... VI, p. 62; XII, p. 103 23.16-29..............II, p. 144, (311); XIII, p. 209; ........................................................... 37, p. 251 26.8-15................................................. 26, p. 97 28.5-9............................... 21, p. 186; 32, p. 208 29.1,4-14a............................................ III, p. 34 31.1-13................................................. 29, p. 35 31.7-9(-14)......................... 25, p. 301; 35, p. 58 31.10-13(14).....................................XVII, p. 34
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31.31-34............................. 22, p. 85; 36, p. 329 33.14-16................................... 26, p. 9; 43, p. 9 Lamentações 3.21-26,31-32.....................................VI, p. 269 3.21-33............................. 25, p. 226; 39, p. 212 Ezequiel 2.1-5................................................... 36, p. 226 2.1-8a................................................. 25, p. 231 2.3-8a;3.17-19.............................II, p. 96, (263) 17.22-24............................................. 33, p. 239 18.1-4,21-24,30-32.............................IX, p. 247 18.1-4,25-32....................................... 41, p. 291 18.1-4,25-37....................................... 27, p. 243 33.7-9................................................. 27, p. 230 34.1-2(3-9),10-16............................... 21, p. 192 34.1-2(3-9),10-16,31..........................VI, p. 170 34.11-16,23-24................24, p. 328; 35, p. 363; ........................................................... 38, p. 347 37.1-3(4-10),11-14 ...................... XVIII, p. 103 37.1-3,11-14......................................... 30, p. 89 37.1-14.........XV, p. 193; 24, p. 117; 32, p. 108; ........................................................... 33, p. 228 37.24-28............................................ VIII, p. 55 Daniel 5.1-30................................................. III, p. 188 7.(1-12)13-14(15-28)..... XVI, p. 311; 39, p. 344 12.1-3........................... XIX, p. 296; 31, p. 293 Oseias 5.15 – 6.2....................... XVIII, p. 95; 30, p. 83 5.15 – 6.6........................................... 21, p. 169 11.1-4,8-9......................... 24, p. 323; 27, p. 284 Joel 2.1-2,12-17......................... 36, p. 111; 41, p. 98 2.12-18..............................................XII, p. 166 2.21-27............................................... 32, p. 212 2.28-29............................................... 21, p. 153 Amós 3.1-8..................................... 24, p. 75; 30, p. 54 5.6-7,10-15....................... 36, p. 309; 42, p. 292 5.18-24............................. 35, p. 352; 41, p. 326 5.21-24................................................VII, p. 76 6.1a,4-7.............................................. 43, p. 291 6.1-7................................. 23, p. 189; 37, p. 286 7.7-15................................................. 33, p. 264 7.10-15(16-17)................................ XVI, p. 211 8.4-7................................................... 23, p. 181 9.7-10.................................................. X, p. 128 Jonas 3.1-5(6-9),10....................XIX, p. 61; 31, p. 52; ............................................................. 36, p. 81 3.10-4.11............................................ 32, p. 274
Miqueias 5.1-4a............................... VI, p. 88; XII, p. 114 5.2-4..................................................... 29, p. 21 5.2-5.................................XVI, p. 63; 27, p. 29; ............................................. 34, p. 30; 40, p. 24 6.1-8.....................24, p. 79; 27, p. 58; 35, p. 87 6.6-8............................VIII, p. 324; XIV, p. 385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4...............................XVII, p. 219; ......................................... 29, p. 281; 34, p. 327 Sofonias 3.14-20................................. 20, p. 20; 37, p. 20 Zacarias 7.9-10................................................. 26, p. 267 8.1-8 .................................................. 24, p. 337 9.9-10.............X, p. 91; XIX, p. 106; 31, p. 107 9.9-12................................................. 41, p. 227 12.7-10(11).....................................XVII, p. 153 Malaquias (2.17)3.1-5.......................................... 25, p. 207 2.17 – 3.5.............................................. 23, p. 9 NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25.......................... XVIII, p. 25; 24, p. 29; .............................30, p. 19; 35, p. 28; 41, p. 24 2.1-12........... X, p. 193; XVIII, p. 49; 25, p. 74; ............................................................. 32, p. 62 2.13-18(-23)........................V, p. 304; 35, p. 46; ............................................................. 38, p. 47 3.1-12............................ XVIII, p. 15; 24, p. 24; ............................................. 35, p. 14; 41, p. 14 3.13-17......... X, p. 206; XVIII, p. 53; 24, p. 67; .............................30, p. 44; 32, p. 66; 38, p. 68 4.1-11.................. IV, p. 14; 27, p. 70; 32, p. 85; ........................................................... 38, p. 119 4.12-17..............................................XII, p. 142 4.12-23........................... XVIII, p. 61; 35, p. 81 4.23-25..............................XII, p. 35; XII, p. 34 5.1-10............. IV, p. 212; 32, p. 307; 41, p. 315 5.1-12............................. XVIII, p. 64; 38, p. 85 5.13-16................................................ X, p. 390 5.13-16(17-20)............................... XVIII, p. 69 5.13-20................................................. 41, p. 81 5.17-20............................................... IV, p. 125 5.20-37........................... XVIII, p. 73; 38, p. 96 5.38-48.....................II, p. 193,(360); X, p. 460; ............................................. 35, p. 99; 41, p. 92 6.1-4............................VIII, p. 279; XIV, p. 332
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6.1-6,16-21........ 34, p. 115; 37, p. 94; 38, p. 114 6.5-13..................... II, p. 57, (224); XIV, p. 247 6.9-13.............................. VI, p. 53; VIII, p. 192 6.16-18............................................... IV, p. 133 6.24-34............................. IV, p. 180; 32, p. 179 6.25-34 ............................. X, p. 428; 38, p. 352 7.15-23............................................... IV, p. 140 7.21-29.......XVIII, p. 157; 24, p. 178; 30, p. 163 7.24-27...............................................VI, p. 233 9.1-8................................................... IV, p. 198 9.9-13......VIII, p. 110; XVIII, p. 161; 32, p. 188 9.35-10.8...................................... XVIII, p. 170 10.7-15......................................II, p. 104, (271) 10.24-39........................... 32, p. 204; 41, p. 216 10.26-33.....XVIII, p. 176; 30, p. 168; 34, p. 347 10.26b-33..... VI, p. 291; XII, p. 268; 43, p. 318 10.26-36........................................XXIV, p. 203 10.34-39............................................XII, p. 274 10.34-42..................... XVIII, p. 181; 30, p. 174 10.40-42.........35, p. 229; 38, p. 225; 41, p. 222 11.2-10................................................ X, p. 170 11.2-11 .............III, p. 215; 21, p. 30; 27, p. 22; ............................................. 32, p. 21; 38, p. 21 11.16-19,25-30................................... 32, p. 221 11.25-30.....XVIII, p. 186; 24, p. 216; 30, p. 184 12.14-21............................................... 36, p. 63 12.22-30............................................. IV, p. 217 12.33-35(36-37)................................XII, p. 307 12.38-42................ II, p. 225, (292); XII, p. 175 13.1-9(18-23)..................21, p. 196; 27, p. 188; ........................................30, p. 189; 35, p. 240; ......................................... 38, p. 237; 41, p. 233 13.24-30(36-43)........ XVIII, p. 289; 21, p. 203; ........................................................... 32, p. 229 13.31-33............................................. 38, p. 247 13.44-46..............II, p. 150, (317); VIII, p. 253; ...................................... XIV, p. 295; 35, p. 253 13.44-52........................... 21, p. 207; 27, p. 194 14.13-21..........................21, p. 213; 24, p. 245; ......................................... 27, p. 198; 32, p. 241 14.22-33........VI, p. 109; 24, p. 249; 27, p. 202; .......................35, p. 267; 38, p. 258; 41, p. 249 15.21-28........................... X, p. 445; 21, p. 218; ......................................... 27, p. 208; 32, p. 255 16.13-19............................................... 23, p. 40 16.13-20..........................24, p. 260; 27, p. 216; .......................35, p. 278; 38, p. 268; 41, p. 259 16.13-20(23)............................... II, p. 72, (239) 16.21-26.......... 21, p. 223; 27, p. 222; 32, p. 264 17.1-9........... X, p. 216; XVIII, p. 78; 30, p. 60; ........................................................... 35, p. 114
18.1-5................................. 37, p. 48; 38, p. 310 18.15-20............II, p. 123,(290); XVIII, p. 226; .......................30, p. 227; 35, p. 290; 41, p. 273 18.21-35..................... X, p. 467; XVIII, p. 232; ......................................... 30, p. 234; 32, p. 269 19.16-26................................... II, p. 182, (349) 20.1-16a....... IV, p. 7; X, p. 221; XVIII, p. 236; ........................................................... 30, p. 239 20.1-16............................29, p. 296; 35, p. 302; ......................................... 38, p. 290; 41, p. 285 20.17-28............................... 21, p. 96; 27, p. 87 21.1-9................................ III, p. 194; X, p. 149 21.1-11............................................... 38, p. 140 21.14-17................. II, p. 52, (219); XII, p. 185; ........................................................... 37, p. 353 21.23-32............................................. 32, p. 282 21.28-32..................... VI, p. 247; XVIII, p. 243 21.33-43(-46)............ XVIII, p. 250; 35, p. 315; ......................................... 38, p. 304; 41, p. 297 22.1-10 (11-14).......... XVIII, p. 254; 30, p. 243 22.1-14........... IV, p. 205; VI, p. 207; 32, p. 289 22.15-21(-22)............ XVIII, p. 259; 35, p. 323; ......................................... 38, p. 314; 41, p. 308 22.23-33.... VIII, p. 336; XVI, p. 288; 20, p. 285 22.34-40............................................. IV, p. 194 22.34-40(41-46)............... 30, p. 253; 32, p. 298 23.1-12...................II, p. 158, (325); 30, p. 259; ........................................................... 35, p. 335 24.1-14......................... VI, p. 68; XVIII, p. 275 24.15-28............................................. IV, p. 222 24.37-44.....21, p. 21; 27, p. 9; 32, p. 9; 38, p. 9 25.1-13..........IV, p. 243; XI, p. 336; 24, p. 312; ........................................................... 30, p. 277 25.14-30..................II, p. 233, (400); X, p. 394; ................. XVIII, p. 272; 30, p. 286; 41, p. 331 25.31-37....................................... XVIII, p. 297 25.31-46.....IV, p. 231; X, p. 472; XVIII, p. 298; ............. 21, p. 302; 27, p. 291; 32, p. 51; p. 324; ............................................................. 41, p. 44 26.14-27.66........................................ 35, p. 157 26.30-56....................................... XVIII, p. 109 26.36-46(-56).... VI, p. 29; 35, p. 162; 38, p. 154 26.36-56............................................. 41, p. 135 26.57-75 ............................................ 24, p. 122 27.11-26............................................. 32, p. 116 27.33-50(51-54)............ VIII, p. 162; 38, p. 154 27.33-54............................. 21, p. 111; 27, p. 99 27.33-56...........................................XIV, p. 201 28.1-10............................VI, p. 167; 24, p. 139; ......................................... 35, p. 176; 41, p. 147 28.16-20.........X, p. 374; 30, p. 156; 34, p. 203; .......................35, p. 222; 40, p. 156; 41, p. 205
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Marcos 1.1-8....................................22, p. 14; 28, p. 13; ............................................. 33, p. 16; 39, p. 13 1.4-11.... 22, p. 48; 28, p. 64; 36, p. 69; 42, p. 56 1.9-15............................... 33, p. 132; 39, p. 102 1.12-15............XIX, p. 79; 25, p. 129; 31, p. 84 1.14-20................22, p. 56; 28, p. 73; 33, p. 84; ............................................. 39, p. 75; 42, p. 71 1.21-28..............XVI, p. 99; 28, p. 79; 36, p. 86 1.29-39...............28, p. 87; 33, p. 101; 39, p. 87 1.32-39........................... VI, p. 284; XII, p. 261 1.40-45......... VI, p. 258; XII, p. 241; 36, p. 100 2.1-12................................ X, p. 453; 28, p. 100 2.18-22............................................ VIII, p. 105 2.23-28...... VIII, p. 311; XIV, p. 367; 22, p. 169; ........................................................... 28, p. 228 2.23-36............................................... 42, p. 193 3.1-6..................................................... X, p.114 3.20-35........XVI, p. 192; 28, p. 233; 36, p. 209 3.31-35...............................................VI, p. 252 4.26-29............................................... VI, p. 113 4.26-34..........22, p. 175; 28, p. 240; 36, p. 216; ........................................................... 42, p. 203 4.30-32..............................................XII, p. 313 4.35-41.......XVI, p. 200; 22, p. 182; 28, p. 247; ......................................... 32, p. 244; 39, p. 209 5.21-24a,35-43................28, p. 253; 33, p. 378; ........................................................... 39, p. 327 5.21-43............................................... 42, p. 216 5.24b-34............................................. 22, p. 188 5.25-34................................................XII, p. 27 6.1-6............XVI, p. 205; 22, p. 200; 28, p. 260 6.1-13............................... 33, p. 256; 39, p. 218 6.6b-13..........................XIX, p. 201; 25, p. 236 6.14-29.............. X, p. 74; 36, p. 235; 42, p. 225 6.30-34.......XIX, p. 206; 25, p. 241; 31, p. 208; ........................................................... 33, p. 270 6.30-34,53-56..................................... 39, p. 231 6.34-44 .............................................. 30, p. 247 7.1-8,14-15,21-23.........XIX, p. 233; 31, p. 242; ......................................... 33, p. 309; 39, p. 270 7.24-37............................. 36, p. 279; 42, p. 263 7.31-37........... IV, p. 163; X, p. 408; 22, p. 239; ........................................................... 28, p. 307 8.22-26........................VIII, p. 269; XIV, p. 317 8.27-35........XVI, p. 247; 33, p. 323; 39, p. 280 8.31-38..........X, p. 234; XIX, p. 83; 25, p. 134; ...........................31, p. 91; 36, p. 121; 42, p. 97 9.2-9...........XVI, p. 105; 28, p. 108; 33, p. 119; ............................................................. 42, p. 87
9.17-29...............................................VI, p. 278 9.30-37.......XVI, p. 255; 22, p. 245; 36, p. 289; ........................................................... 42, p. 273 9.38-50..........22, p. 250; 28, p. 322; 33, p. 334; ........................................................... 39, p. 293 9.43-48.................II, p. 138, (305); XVI, p. 263 10.2-12...........28, p. 326; 36, p. 303; 42, p. 283 10.13-16............................................. 28, p. 313 10.17-27.....XII, p. 256; XVI, p. 268; 22, p. 260; ........................................................... 33, p. 348 10.17-31............................................. 39, p. 305 10.32-45.............................................. X, p. 106 10.35-45.....28, p. 289; XVI, p. 277; 34, p. 270; ......................................... 36, p. 316; 42, p. 298 10.46-52....... XVI, p. 283; 22, p. 265; 39, p. 315 11.1-11............................. 33, p. 160; 39, p. 126 12.1-12 ............................................... X, p. 242 12.13-17............................................. III, p. 138 12.28-34........................... 36, p. 340; 42, p. 318 12.41-44.........VI, p. 138; 22, p. 281; 33, p. 387 13.1-8............................... 36, p. 353; 42, p. 329 13.1-13........XVI, p. 302; 22, p. 286; 28, p. 351 13.24-31............................................. 28, p. 358 13.24-37................................... 36, p. 9; 42, p. 9 13.31-37...........................................XIV, p. 397 13.33-37..............................XIX, p. 9; 25, p. 17 14.3-9.................................VI, p. 149; 22, p. 93 14.6-9................................................XII, p. 181 14.12-26.....XVI, p. 134; 22, p. 104; 28, p. 144; ........................................................... 36, p. 140 14.17-26.............................................VI, p. 156 15.1-15(16-20)..............XVI, p. 129; 28, p. 139 16.1-8.......... IV, p. 144; X, p. 294; XVI, p. 153; ...................... 22, p. 112; 28, p. 159; 36, p. 152; ........................................................... 42, p. 136 16.9-14(15-20)............VIII, p. 173; XIV, p. 225 16.12-18........................... 33, p. 184; 39, p. 148 16.14-20............................................... IV, p. 77 Lucas 1.1-4................................................... 23, p. 200 1.26-33(34-37),38............ VI, p. 81; XII, p. 109 1.26-38..........XVI, p. 56; XIX, p. 27; 22, p. 28; .............................28, p. 26; 33, p. 24; 39, p. 24 1.39-45(46-55)..................... 26, p. 20; 37, p. 26 1.(39-45)46-55(56) ............................. X, p. 175 1.46-55.................................................V, p. 288 1.47-55................................................. 43, p. 28 1.57-66............................................... 24, p. 200 1.67-79..............................V, p. 270; VIII, p. 30 1.68-79................................................. 43, p. 14
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2.1-7..... 30, p. 24; 34, p. 38; 38, p. 33; 39, p. 36; ............................................................. 40, p. 29 2.1-7,8-14,15-20................................ XVI, p. 63 2. (1-7)87-20........................................ 42, p. 31 2.1-14........ I, p. 161, (168); X, p. 181; 32, p. 41 2.(1-14)15-20......24, p. 41; 34, p. 69; 37, p. 54; ............................................................. 41, p. 50 2. 15-21................................................ 42, p. 46 2.1-20..........III, p. 218; IV, p. 273; XVII, p. 28; .........................XIX, p. 26; 21, p. 41; 23, p. 21; .............................24, p. 34; 27, p. 34; 33, p. 37 2.22-40................................................. 36, p. 56 2.41-52................................................. 20, p. 35 3.1-9.....................................V, p. 281; 37, p. 14 3.1-14...................................................VI, p. 76 3.7-18............. XVII, p. 21; 23, p. 15; 29, p. 16; ............................................. 34, p. 24; 40, p. 18 3.15-17,21-22.......20, p. 40; 26, p. 36; 37, p. 64 4.1-13................23, p. 60; 29, p. 81; 37, p. 100; ........................................................... 43, p. 116 4.14-21................VI, p. 19; 26, p. 47; 37, p. 76; ............................................................. 43, p. 77 4.14-21(22).................20, p. 50; p. 59; 27, p. 47 4.16-21................................................ X, p. 186 4.21-30...............26, p. 54; 34, p. 100; 43, p. 83 5.1-11............IV, p. 118; XVII, p. 57; 20, p. 65; ............................................................. 26, p. 59 6.17-26.................20, p. 69; 26, p. 66; 43, p. 93 6.27-38................................. 20, p. 73; 26, p. 74 6.36-42...............................IV, p. 112; X, p. 368 7.1-10............................... 26, p. 206; 40, p. 176 7.11-17...........................IV, p. 186; VIII, p. 293 7.36-50..... VIII, p. 262; XIV, p. 309; 26, p. 220 7.36-8.3.............................................. 37, p. 199 8.4-10.................................................. X, p. 228 8.26-39............................. 34, p. 237; 40, p. 196 9.10-17............................................ VIII, p. 241 9.18-24(25-26)................. 20, p. 190; 26, p. 226 9.28-36...............20, p. 82; 26, p. 85; 34, p. 109 9.28-36(37-43)................................... 43, p. 104 9.51-56..............................................XV, p. 167 9.51-62...........20, p. 198; 37, p. 212; 43, p. 229 9.57-62................................................ X, p. 251 10.1-11,16-20................... 34, p. 252; 40, p. 209 10.1-12,16.......................................... 20, p. 204 10.17-20............................................. 24, p. 285 10.21-24......................................II, p. 82, (249) 10.25-37.... X, p. 413; XVII, p. 163; 23, p. 135; ........................................................... 43, p. 237 10.38-42.....VI, p. 124; XVII, p. 170; 23, p. 140; ...................... 29, p. 216; 34, p. 264; 40, p. 214
11.1-13..........23, p. 145; 29, p. 223; 37, p. 229; ........................................................... 43, p. 248 11.5-13...............................................VI, p. 184 11.14-23......................... VI, p. 297; XII, p. 283 12.13-21........23, p. 149; 29, p. 228; 34, p. 278; ........................................................... 40, p. 224 12.32-40.... XVII, p. 183; 37, p. 241; 43, p. 260 12.35-40............................................ III, p. 226 12.41-48.............................................VI, p. 302 12.42-48............................................XII, p. 289 12.49-53... XVII, p. 189; 23, p. 154; 29, p. 235; ......................................... 34, p. 289; 40, p. 237 13.1-9............. XVII, p. 83; 23, p. 72; 29, p. 93; ......................................... 37, p. 111; 43, p. 128 13.10-17........................... 37, p. 257; 43, p. 271 13.22-30......XVII, p. 193; 23, p. 159; 29, p. 241 13.31-35......... XVII, p. 78; 23, p. 65; 29, p. 88; ............................................................. 40, p. 87 14.1,7-14........23, p. 167; 29, p. 247; 40, p. 248 14.7-14...........................................XVII, p. 196 14.15-24.............................. IV, p. 96; X, p. 354 14.25-33.....VIII, p. 235; 20, p. 251; 26, p. 277; ......................................... 37, p. 266; 43, p. 280 15.1-3,11b-32................. XII, p. 220; 34, p. 125 15.1-3,11-32..................IV, p. 209; XVII, p. 88; ........................................... 29, p. 100; 40, p. 92 15.1-7(8-10)........................................ X, p. 361 15.1-10.......... IV, p. 106; 20, p. 255; 34, p. 309; ........................................................... 40, p. 252 15.8-32............................................... 28, p. 265 16.1-9................................................. IV, p. 147 16.1-13............ 20, p. 260; 26, p. 286; 37, p. 277; ............................................................... 43, p. 286 16.19-31.......... IV, p. 88; 20, p. 265; 35, p. 321; ........................................................... 40, p. 262 17.1-10............................. 20, p. 270; 26, p. 298 17.5-6..........................VIII, p. 286; XIV, p. 346 17.5-10............................. 37, p. 291; 43, p. 296 17.7-10 .......................... VI, p. 117; XII, p. 160 17.11-19....... IV, p. 172; X, p. 421; XX, p. 275; .......................26, p. 305; 34, p. 371; 40, p. 275 17.20-35...............................................V, p. 275 18.1-8a ............................ 20, p. 291; 23, p. 213 18.1-8............VIII, p. 343; 26, p. 325; 37, p. 301; ............................................................... 43, p. 307 18.9-14........... IV, p. 158; 28, p. 333; 34, p. 340 18.18-23............................................XII, p. 249 18.31-43.......................................... VIII, p. 124 19.1-10................II, p. 112, (279); VIII, p. 219; .................... XIV, p. 275; 37, p. 324; 40, p. 292
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19.28-40........ 26, p. 121; 34, p. 138; 37, p. 116; ......................................... 40, p. 103, 43, p. 144 19.41-48............................ IV, p. 153; X, p. 401 20.9-19...........................XVII, p. 94; 29, p. 105 20.27-38.........23, p. 223; 34, p. 359; 43, p. 335 21.5-19............................. 20, p. 296; 37, p. 336 21.25-36........... III, p. 209; XVII, p. 9; 34, p. 9; ............................................................... 40, p. 9 22.7-20............................. 20, p. 116; 26, p. 126 22.31-34 .....................VIII, p. 131; XIV, p. 172 23.33-43.........26, p. 344; 34, p. 365; 40, p. 322 23.(26-32)33-49...........XVII, p. 102; 29, p. 119 23.33-49...........................VI, p. 162; 37, p. 127 23.35-43.........................................XVII, p. 248 24.1-11(12)......................................... 20, p. 127 24.1-12............ II, p. 201; 37, p. 132; 40, p. 121 24.13-35..........VI, p. 40; 21, p. 125; 27, p. 114; ......................................... 32, p. 137; 38, p. 176 24.36b-48........................................... 42, p. 148 24.36-49.... XVI, p. 164; XIX, p. 128; 36, p. 162 24.44-53........................... 28, p. 201; 35, p. 206 24.(44-49)50-53............XIX, p. 148; 22, p. 145 24.50-53.............................................. X, p. 331 João 1.1-5,9-14.........XIX, p. 35; 25, p. 39; 31, p. 24; ............................................. 37, p. 36; 40, p. 35 1.1-14................................................... 43, p. 38 1.1-18................................... 33, p. 30; 29, p. 46 1.(1-9)10-18......................... 33, p. 64; 38, p. 59 1.6-8,19-28.......XIX, p. 22; 25, p. 29; 31, p. 14; ............................................................. 42, p. 20 1.19-23(24-28).................. VIII, p. 49; 36, p. 19 1.29-34.............................................. VIII, p. 98 1.29-34(35-41).............. XVIII, p. 57; 21, p. 55; ............................................. 35, p. 75; 41, p. 70 1.35-42..............................................XII, p. 227 1.43-51......... XII, p. 129; XVI, p. 92; 22, p. 52; ............28, p. 68; 34, p. 80; 36, p. 76; 40, p. 53; ............................................................. 43, p. 58 2.1-11..................IX, p. 41; 20, p. 44; 26, p. 40; .............................34, p. 89; 40, p. 64; 43, p. 69 2.13-22............................VI, p. 237; XIX, p. 87 3.1-11(15)............................................ X, p. 347 3.1-17..............22, p. 165; 28, p. 220; 32, p. 91; ....................... 33, p. 232; 39, p. 189; 41, p. 112 3.14-21...........XIX, p. 95; 25, p. 144; 31, p. 96; ......................................... 36, p. 128; 42, p. 107 4.1-11 ................................................ 31, p. 149 4.5-26................................. 21, p. 82; 35, p. 139 4.31-38 .......................................II, p. 89, (256)
4.46-54..............................................XII, p. 148 5.1-9................................................... 37, p. 168 5.1-16...............................................XIV, p. 360 5.1-16(18)........................................ VIII, p. 304 5.19-21.............................................XIV, p. 215 5.24-29.... XVIII, p. 267; 22, p. 277; 29, p. 302; ........................................................... 30, p. 271 5.39-47...............................................VI, p. 204 6.1-15............ IV, p. 24; X, p. 383; XIX, p. 211; .......................25, p. 247; 31, p. 213; 36, p. 245 6.(22-23)24-35.............XIX, p. 217; 21, p. 218; .....25, p. 254; 33, p. 280; 36, p. 365; 39, p. 245 6.35................................................. VIII, p. 151 6.35,41-51........................ 36, p. 257; 42, p. 242 6.37-40(41-43),44.....................II, p. 200, (367) 6.41-51.......XIX, p. 220; 25, p. 259; 28, p. 284; ........................................................... 31, p. 226 6.51-58.......XIX, p. 225; 31, p. 232; 33, p. 292; ........................................................... 39, p. 257 6.56-69............................. 36, p. 269; 42, p. 253 6.60-69........XIX, p. 229; 25, p. 264; 31, p. 237 6.66-69..............................................XII, p. 293 7.14-18.............................................. VIII, p. 87 7.37-39a...... XVI, p. 187; 22, p. 158; 28, p. 211 7.37-39........ VI, p. 194; XII, p. 199; 22, p. 158; ........................................................... 35, p. 216 8.1-11.............................................. VIII, p. 228 8.21-30........................VIII, p. 138; XIV, p. 179 8.31-36..................II, p. 216, (383); VIII, p. 73; ......................................................XVII, p. 225; ......................................... 23, p. 209; 42, p. 307 9.1-7............................VIII, p. 248; XIV, p. 290 9.1-11................................................. 38, p. 135 9.1-41................................................. 32, p. 104 9.13-17,34-39....................... 21, p. 91; 27, p. 81 9.35-41............................................ VIII, p. 299 10.1-5,27-30................................II, p. 40, (207) 10.1-10.......... 21, p. 133; 27, p. 119; 32, p. 144; ........................................................... 41, p. 165 10.11-16............................................... IV, p. 53 10.11-18.....XIX, p. 135, 25, p. 181; 31, p. 139; ........................................................... 33, p. 199 10.11-18,27-30.................................... X, p. 310 10.14-16,27-29..................................... 33, p. 50 10.22-30........................... 29, p. 141; 37, p. 149 10.22-30(31-39).............................XVII, p. 117 11.1,3,17-27............II, p. 188, (355); 35, p. 151 11.1(2),3,17-27(41-45)........................ X, p. 434 11.1-5,17-21..................... 37, p. 319; 40, p. 310 11.1-45............................................... 41, p. 123
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11.47-53.................... VIII, p. 157; XIV, p. 192; ......................................... 21, p. 103; 33, p. 154 12.1-8................................................. 43, p. 140 12.12-16........................... 36, p. 134; 42, p. 118 12.12-19............................ X, p. 269; 20, p. 110 12.20-26.............................................. X, p. 258 12.20-30............................................. 25, p. 150 12.20-33.....XIX, p. 102; 31, p. 103; 33, p. 154; ........................................................... 39, p. 120 12.44-50............................................ VIII, p. 65 13.1-15,34-35...................................... X, p. 277 13.1-17,31b-35................................... 43, p. 149 13.1-17,34.......................... 30, p. 99; 34, p. 144 13.31-35.....XVII, p. 121; 29, p. 149; 34, p. 144; ............................................... p. 191; 40, p. 145 14.1-6................................................XII, p. 134 14.1-12........... 21, p. 139; 27, p. 124; 39, p. 170; ............................................................. 42, p. 169 14.1-12(14)................II, p. 63, (230); 35, p. 192 14.8-17(25-27)................. 34, p. 219; 43, p. 211 14.15-19............................................XV, p. 232 14.15-21.........34, p. 165; 35, p. 200; 41, p. 177 14.23-27.............................. IV, p. 82; X, p. 341 14.23-29.......................XVII, p. 126; 29, p. 154 15.1-8...............X, p. 317; XIX, p. 139; 25,189; .......................31, p. 146; 36, p. 174; 42, p. 158 15.9-12(13-17).................................XIV, p. 374 15.9-17......................VIII, p. 317; XIX, p. 143; ....................... 25, p. 192; 33, p. 211; 39, p. 165 15.(18)26-16.4..................................... X, p. 337 15.26-27; 16.4b-11..........20, p. 171; 26, p. 191; ........................................................... 36, p. 197 15.26-27; 16.4-15............................... 42, p. 181 16.5-15................................................. IV, p. 65 16.12-15.......... 20, p. 177; 26, p. 200; 37, p. 184; ............................................................... 43, p. 217 16.16-23a........................... IV, p. 57; VI, p. 179 16.16,20-23a..........................VI, p. 129; p. 176 16.22-28............................................... IV, p. 72 16.23b-28,33....................................... X, p. 323 17.1-11..........21, p. 148; 27, p. 132; 38, p. 200; ........................................................... 41, p. 191 17.1a,6-19.......................................... 33, p. 221 17.1-15............................................... 24, p. 159 17.9-19............................... IV, p. 31; 25, p. 197 17.(9-10)11-19...............XIX, p.153; 31, p. 157 17.20-26........................ VIII, p. 198; 29, p. 168 18.33-37........................XIX, p. 299; 31, p. 296 18.33-38a........................................... 36, p. 358 19.16-30........ IV, p. 38; X, p. 284; XIX, p. 110; .....25, p. 170; 31, p. 123; 33, p. 168; 39, p. 136
20.1-18...........34, p. 162; 38, p. 159; 43, p. 160 20.1-2,11-18 ...................................... 24, p. 230 20.1-9(10-18)............ XVIII, p. 120; 26, p. 136; ........................................................... 30, p. 109 20.11-18......................VIII, p. 166; XIV, p. 207 20.19-23.........24, p. 173; 30, p. 150; 38, p. 206 20.(19,23)24-29............. X, p. 301; XIX, p. 119; ........................................................... 32, p. 134 20.19-31..... XIX, p. 119; 21, p. 121; 27, p. 110; ......................................... 29, p. 128; 31, p. 133 20.26-31............................................. 37, p. 138 21.1-14.........................XVII, p. 111; 29, p. 136 21.1-19............................. 34, p. 178; 40, p. 131 21.15-19.......................................... VIII, p. 179 21.20-25............................................... 34, p. 53 Atos 1.8-14................................................ 24, p. 168 1.1-11..................20, p. 155; p. 160; 26, p. 182; .....29, p. 161; 32, p. 162; 38, p. 195; 43, p. 197 1.15-26..........................XVI, p. 184; 28, p. 206 1.3-4(5-7),8-11...................................XI, p. 242 1.15a,21-26........................................ 36, p. 193 2.1-13.................................................XI, p. 249 2.1-21..........XIX, p. 158; 27, p. 139; 40, p. 162 2.14a,22-32...................... 24, p. 143; 41, p. 152 2.14a,36-47........................................ 24, p. 150 2.22-23,32-33,36-39..........................XV, p. 239 2.36-41................................................. III, p. 59 2.41a,42-47........................................XI, p. 284 3.1-10................................................VII, p. 198 3.12-19............................................... 39, p. 153 3.13-15,17-26................XVI, p. 158; 28, p. 165 4.5-12................................................. 36, p. 168 4.8-12 ................................................ 28, p. 172 4.32-35............................................... 42, p. 141 4.32-37................................................ V, p. 310 5.12,17-32......................................... 20, p. 130 5.27-32............................................... 40, p. 126 6.1-7................................ III, p. 134; 24, p. 155 7.55-60............................................... 38, p. 182 8.14-17................................ 34, p. 85; 43, p. 64 8.26-40....XIII, p. 222; XVI, p. 169; 28, p. 188; ........................................................... 33, p. 205 9.1-20................................................. 20, p. 136 9.36-43............................................... 34, p. 184 10.34-38...............23, p. 35; 27, p. 52; 31, p. 38 10.34-48(10.1 – 11.18)...................... XIX, p. 49 10.34-43........................... 27, p. 105; 33, p. 177 10. 44-48............................................ 42, p. 163 11.19-30........................XVI, p. 178; 28, p. 196
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13.16-17,22-25..................................... 22, p. 33 13.44-52................................. 20, p. 140; p. 143 14.8-18.............................................. 20, p. 148 16.6-10............................................... 20, p. 164 16.9-15......... IX, p. 171; XV, p. 141; 43, p. 191 16.16-34............................................. 34, p. 211 16.23-34.......................VII, p. 122; XIV, p. 233 17.1-15............................................... 24, p. 159 17.16-34 .................................................I, p. 34 17.22-31......................... XV, p. 213; 32, p. 156 19.1-7................................................... 39, p. 63 Romanos 1.1-7.................XVI, p. 77; 25, p. 55; 28, p. 54; .............32, p. 36; 36, p. 30; 38, p. 28; 42, p. 26 1.16-17; 3.21-28................................. 38, p. 327 3.19-28........... II, p. 169; 20, p. 278; 21, p. 267; ......................................... 25, p. 287; 33, p. 364 3.21-25a................................. 27, p. 156, p. 272 4.1-5,13-17....................... 24, p. 100; 35, p. 133 4.13-25............................. 33, p. 138; 39, p. 108 4.18-25............................. 24, p. 184; 27, p. 161 5.1-5......... XVII, p. 137; 29, p. 180; 34, p. 224; ........................................................... 40, p. 168 5.1-8................................. 32, p. 197; 41, p. 212 5.1-11................. V, p. 51; 28, p. 122; 32, p. 98; ........................................................... 38, p. 129 5.6-11............................... 24, p. 190; 27, p. 166 5.12-15............................................... 27, p. 172 5.12-19............................................... 41, p. 104 6.1b-11............................. 24, p. 211; 27, p. 183 6.3-8...................................................XI, p. 278 6.19-23 ............................. V, p. 164; IX, p. 258 7.15-25a........................... 35, p. 234; 38, p. 231 8.1-11............... I, p. 39; XIV, p. 253; 24, p. 111 8.12-17...............................V, p. 170; 36, p. 203 8.12-25............................................... 41, p. 239 8.14-17............................. 25, p. 203; 37, p. 179 8.14-17,22-27..................................... 29, p. 174 8.18-23.................................................V, p. 150 8.18-23(24-25)............................. XVIII, p. 192 8.22-27............................................... 39, p. 183 8.26-27............................................... 30, p. 193 8.26-30...............................................IX, p. 233 8.31b-39.............................................XI, p. 144 8.31-39............................... IX, p. 91; 28, p. 115 8.(31-34)35-39................................ XVI, p. 110 9.1-5................................. 35, p. 261; 38, p. 252 9.1-5,31-10.4 .................................. XIII, p. 235 9.1-5; 10.1-4.........................................V, p. 185 9.30b-33............................................. III, p. 124
10.5-13.......................... XVI, p. 115; 32, p. 248 11.1-2a,29-32..................................... 41, p. 255 11.13-15,29-32................................... 25, p. 255 11.25-32....................................... I, p. 95, (102) 11.32-36...............................................V, p. 126 11.33-36 ............................................XI, p. 256 12.1-8...............................XI, p. 152; 24, p. 265 12.9-12............................................... 35, p. 284 12.9-21............................................... 38, p. 273 12.6-16...................................................V, p. 19 13.1-10............................................... 21, p. 229 13.8-10(13-14)...................................XI, p. 107 13.11-14............................ IV, p. 251; 24, p. 19; ................................................. 35, p. 9; 41, p. 9 14.1-12............................................... 41, p. 278 14.5-9................................................. 21, p. 234 14.7-13 ................................................ III, p. 79 14.10-13 ............................................XI, p. 266 15.4-13 ................................ 21, p. 25; 32, p. 16 16.25-27............................................... 31, p. 19 1 Coríntios 1.1-9 .....................24, p. 70; 32, p. 72; 38, p. 75 1.3-9 ...................................XVI, p. 51; 28, p. 9 1.4-9.....................................................V, p. 228 1.10-17................................. 31, p. 60; 41, p. 75 1.18-25................................................. 20, p. 97 1.26-31.. ..............V, p. 190; IX, p. 24; 21, p. 65 2.1-5..................................... 21, p. 71; 22, p. 60 2.1-10.............................VII, p. 50; XIII, p. 126 2.1-12(13-16)....................................... 38, p. 91 2.6-13................................................... 21, p. 74 2.12-16..............................................VII, p. 150 3.1-9..................................................... 41, p. 87 3.9-15..............................XV, p. 266; IX, p. 269 3.16-23............................................... 22, p. 193 4.1-5................................. IV, p. 261; XI, p. 119 6.9-14,18-20................................... I, p. 78, (85) 6.9-14(15-17),18-20....................... I, p. 86, (93) 6.12-20................................. 33, p. 76; 39, p. 69 6.24-34............................................... 35, p. 106 7.29-31 ................................................ 24, p. 90 7.29-32a ...................................... I, p. 46, (213) 8.1-3..................................................... 42, p. 76 8.2 .................................................... XIII, p. 42 9.16-23............ XIV, p. 264, 25, p. 96; 36, p. 90 9.24-27............................. XI, p. 165; 33, p. 112 10.1-13.................................V, p. 179; 20, p. 91 10.16-17.......................VII, p. 107; XIII, p. 171 10.16-17(18-21)................................. 31, p. 113 10.31-11.1.......................................... 25, p. 107
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11.23-26...........24, p. 127; 27, p. 94; 37, p. 120 11.23-29.................................................V, p. 65 12...................................................... XIII, p. 34 12.1,4-11......... XVII, p. 47; 29, p. 59; 37, p. 70 12.12-21,26-27..................... 23, p. 45; 29, p. 64 12.12-31a............................................. 40, p. 70 12.27-13.13......................XVII, p. 52; 29, p. 71 12.31b-13.13....................... V, p. 32; XI, p. 182 14.1-3,20-25......................................VII, p. 158 14.12b-20............................................. 23, p. 49 15.1-11..................... XVII, p. 108; 324, p. 105; ........................................... 39, p. 142; 43, p. 88 15.1-20................................................. III, p. 13 15.12,16-20...................XVII, p. 63; 32, p. 311; ........................................................... 41, p. 321 15.19-28........... I, p. 16; IX, p. 207; XV, p. 207; ................................... XVIII, p. 280; 25, p. 175 15.20-28..................... XVIII, p. 280; 30, p. 293 15.35-38............................................ XIII, p. 29 15.45-49...........................................XVII, p. 69 15.50-58......... V, p. 78; XIX, p. 286; 26, p. 320 2 Coríntios 1.3-7.......................................... I, p. 112, (119) 1.18-22...........VII, p. 14; XIII, p. 98; 25, p. 113 3.1b-6................................................. 25, p. 118 3.3-9...................................................IX, p. 283 3.12-4.2.............................XIX, p. 76; 31, p. 78 4.3-6.............. IX, p. 157; XIV, p. 165; 39, p. 93 4.5-12............................XIX, p. 169; 31, p. 171 4.6-10.................................................XI, p. 158 4.7-18................................................... III, p. 53 4.13-18..........................XIX, p. 173; 31, p. 177 4.13-5.1.............................................. 42, p. 198 4.16-18............................................ XIII, p. 192 5.1-10..............................IX, p. 295; XV, p. 288 5.6-10 .......................... XIX, p. 178; 31, p. 183 5.6-10,14-17....................................... 39, p. 203 5.14-21.................................I, p. 7; XIX, p. 181 5.(14b-18)19-21...........XVI, p. 140; 28, p. 153; ........................................................... 41, p. 140 5.16-21............................................... 43, p. 135 5.20b – 6.10......................35, p. 120; 40, p. 76; ........................................................... 43, p. 110 6.1-10 .................................................VII, p. 82 6.1-13................................................. 36, p. 221 8.1-9,13-14 .................................... XIX, p. 188 8.1-15................................................ XIII, p. 18 8.7-15................................................. 33, p. 251 8.9 ................................................... XV, p. 112 9.6-15................................ V, p. 323; XI, p. 272
(11.18,23b-30); 12.1-10.................. XIII, p. 142 12.1-10...................................................V, p. 26 12.2-10............................................... 42, p. 220 12.7-10..........................XIX, p. 195; 31, p. 199 13.11-13........IX, p. 240; 21, p. 158; 32, p. 174; ........................................................... 38, p. 214 Gálatas 1.1-12................................................. 37, p. 189 1.11-24............................. 23, p. 113; 40, p. 182 2.16-21.........................VII, p. 192; XIII, p. 241 3.(23-25)26-29................. 23, p. 119; 37, p. 206 3.23-29............................................... 43, p. 223 3.28.....................................................XII, p. 70 4.1-7...................................................IX, p. 144 4.4-7 ..........XV, p. 106; XVIII, p. 38; 30, p. 31; ............33, p. 44; 35, p. 33; 39, p. 43; 41, p. 29; ............................................................. 42, p. 40 5.1-6................................................ XIII, p. 167 5.1-11..................I, p. 118, (125), p. 124, (131); ........................................................... 35, p. 341 5.1,13-25......... 23, p. 126; 34, p. 243; 40, p. 204 5.25-26; 6.1-3,7-10......VII, p. 214; XIII, p. 253 6.14-18............................................... 23, p. 131 Efésios 1.3-6,15-18..... XVIII, p. 43; 24, p. 58; 30, p. 37 1.3-14................III, p. 62; 22, p. 204; 34, p. 75; ........................................................... 39, p. 225 1.3-6,15-18..................................... XVIII, p. 43 1.15-23............................................... 41, p. 181 1.(16-20a)20b-23............. 21, p. 144; 30, p. 138 1.20b-23............................................ IX, p. 227 2.1-10................................................. 30, p. 265 2.4-10............................XVI, p. 120; 28, p. 128 2.11-22................................ X, p. 48; 36, p. 239 2.13-22............................................... 22, p. 209 3.1-12...................31, p. 30; 35, p. 64; 41, p. 59 3.2-12 ...............................XVI, p. 83; 22, p. 43 3.14-21...............................V, p. 212; 33, p. 275 4.1-6 ............................... V, p. 218; XIV, p. 353 4.1-7,11-16......................................... 22, p. 215 4.1-16................................................. 42, p. 238 4.17-24............................................... 22, p. 220 4.20-32.................................................V, p. 235 4.25-5.2.............................................. 39, p. 251 4.30-5.2........................................... XVI, p. 228 5.1-8a ................................................XI, p. 205 5.1-9.......................................................V, p. 46 5.8-14.............. 24, p. 105; 35, p. 145; 41 p. 118 5.9-14 ................................................ III, p. 100 5.15-20..........................XVI, p. 233; 36, p. 264
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5.15-21................................................ V, p. 241 5.21(22-25),26-31........................... XVI, p. 236 5.21-31............................................... 28, p. 294 6.10-20..........................XVI, p. 242; 33, p. 300 Filipenses 1.3-11............. XI, p. 324; XVII, p. 14; 29, p. 9; ............................................. 34, p. 16; 40, p. 14 1.12-21................................................VII, p. 95 1.20c-27............................................. 24, p. 280 2.1-4................................................. VII, p. 173 2.1-5(6-11)........................................ 21, p. 245 2.1-13............................... 35, p. 309; 37, p. 297 2.5-11.............V, p. 57; XI, p. 216; XVII, p. 97; ......... 25, p. 158; 29, p. 111; 32, p. 59; 39, p. 49 2.12-13..............................................XV, p. 282 3.4b-14............................................... 34, p. 133 3.12-21............................. 24, p. 290; 27, p. 251 3.7-11.................................................XI, p. 291 3.7-14 ..................................................V, p. 261 3.8-14................................................. 20, p. 102 3.12-16........................................ II, p. 20 (187) 3.12-21............................................... 27, p. 251 3.17-21...............................................XI, p. 330 3.17-4.1.............................. 20, p. 86; 37, p. 105 3.20-21..................... I, p. 136, (137); 129,(143) 4.1-9................................................... 41, p. 303 4.4-7..................................... 26, p. 15; 43, p. 23 4.10-20...............................................IX, p. 150 Colossenses 1.1-6................................................... 26, p. 233 1.11-20............................................... 43, p. 346 1.12-20............................. 23, p. 229; 37, p. 342 1.15-23....................................................I, p. 47 1.15-28............................................... 43, p. 243 1.21-28............................................... 26, p. 240 1.24-27................................................. 42, p. 50 2.3-10 ..............................................XIV, p. 140 2.6-15............................... 26, p. 250; 40, p. 218 2.12-15............................................ XIII, p. 186 3.1-4................. III, p. 48; 21, p. 117; 32, p. 127 3.1-11................................................. 37, p. 236 3.12-17.................V, p. 107; 37, p. 42; 43, p. 45 4.2-6................................V, p. 114; XIII, p. 199 1 Tessalonicenses 1.1-5a.............................. 24, p. 294; 27, p. 256 1.5b-10............................................... 27, p. 263 1.2-10................................................VII, p. 210 2.1-8............................... 35, p. 329; 348, p. 321 2.8-15................................................. 27, p. 277 3.9-13..................................... 20, p. 15; 37, p. 9
4.1-8.................................... V, p. 38; XI, p. 315 4.13-14(15-18)................................... 21, p. 285 4.13-18...........21, p. 292; 36, p. 335; 42, p. 313 5.1-8...................................................IX, p. 288 5.1-11.............21, p. 297; 35, p. 357; 38, p. 340 5.12-24...............................................IX, p. 274 5.16-24.................22, p. 19; 33, p. 20; 39, p. 18 2 Tessalonicenses 1.1-4,11-12......................................... 43, p. 330 2.1-17............................... III, p. 165; 40, p. 316 2.(13-15)16-17;3.1-5.......................... 29, p. 311 3.1-5.................................................. IX, p. 252 3.6-13.................V, p. 97; 29, p. 317; 43, p. 341 1 Timóteo 1.12-17........ III, p. 74; XVII, p. 206; 29, p. 265 2.1-4 ........................................ II, p. 169, (336) 2.1-6................................................... 38, p. 279 2.1-8..........XVII, p. 211; 34, p. 314; 35, p. 370; ........................................................... 40, p. 257 3.16 ................................................ XIV, p. 132 4.4-5 .............................................. XIII, p. 298 6.6-16...........................XVII, p. 215; 29, p. 274 6.11b-16............................................. IV, p. 255 2 Timóteo 1.3-8(9-12),13-14............................... 23, p. 195 2.8-13............................... 23, p. 205; 37, p. 296 2.8a(8b-13) ...................................... XV, p. 198 2.8-15................................................. 43, p. 301 3.14-4.5............................ 34, p. 333; 40, p. 280 Tito 2.11-14.................. II, p. 263, (430); XI, p. 128; .............................24, p. 34; 35, p. 40; 41, p. 37 3.4-7................... IV, p. 280; 20, p. 29; 34, p. 45 Filemom 8-21.................................................... 29, p. 254 9b-17(18-21)..................................XVII, p. 201 Hebreus 1.1-4(5-12).......36, p. 35; 39, p. 299; 40, p. 267 1.1-9 ................................................ XVI, p. 70 2.9-11............................XIX, p. 257; 31, p. 274 2.10-18 ............................................. IX, p. 188 3.1-6 ............................................... XIX, p. 262 4.9-16............................XIX, p. 268; 31, p. 281 4.12-13...............................................XI, p. 171 4.14-16...............................................XI, p. 192 4.14-16; 5.7-9.....24, p. 133; 34, p. 153; 43, p. 154 5.1-6(7-10)....................XIX, p. 273; 33, p. 356 5.5-10................................................. 42, p. 113 5.7-9............XI, p. 211; XVI, p. 125; 28, p. 134 7.23-28............................. 36, p. 322; 42, p. 304
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9.11-14............................................... 39, p. 322 9.15-17,26b-28................................... 20, p. 122 9.15,24-28.............................................. III, p. 7 9.15,26b-28..................................... XIII, p. 179 9.24-28 .......................................... XIX, p. 291 10.11-25............................................. 39, p. 337 10.16-25............................................. 42, p. 130 10.19-25...................II, p. 241 (408); IX, p. 119 11.1-2,6,8-10......................................IX, p. 178 11.1-3,8-16......................................... 20, p. 229 11.1-4................................................... 28, p. 39 11.8-10..............................................XV, p. 160 11.29 – 12.2........................................ 43, p. 265 12.1-3................................................XV, p. 178 12.1-13.............................................. 20, p. 233 12.12-18(19-21),22-25a....................XV, p. 127 12.18-24.........20, p. 242; 34, p. 296; 40, p. 242 13.1-8................................................. 20, p. 246 13.1-8,15-16....................................... 37, p. 262 13.(7)8-9b ....................................... XIV, p. 153 13.12-16 ..............................................V, p. 205 Tiago 1.12-18 ............................................ XV, p. 154 1.17-27 ............................ 25, p. 268; 42, p. 258 2.1-13 ............................................ XIII, p. 262 2,1-5,8-10,14-18............... 25, p. 275; 39, p. 275 2.14-24 ............................................. III, p. 110 3.1-12................................................. 36, p. 283 3.13-4.3,7-8a...................................... 33, p. 327 4.13-17 ............................... IX, p. 34; 29, p. 40 5.1-6.........XIII, p. 265; XIX, p. 252; 37, p. 160 5.7-8 .................................................. XI, p. 114 5.7-10............................................. XVIII, p. 19 5.13-16..............................................VII, p. 220 5.13-20............................. 36, p. 295; 42, p. 277 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ................................ XIII, p. 152 1.17-21............................................... 30, p. 118 1.17-22..... XVIII, p. 129; 35, p. 182; 41, p. 158 1.3-9..........III, p. 22; XI, p. 221; XVIII, p. 125; ........................................................... 30, p. 114 2.1-10...... I, p. 55, p. 61; XV, p. 254; 32, p. 149 2.4-10......................... XVIII, p. 138; 30, p. 128 2.13-17........................................ I, p. 102 (109) 2.15-17 ............................................... VI, p. 13 2.18-25............................................... 30, p. 122 2.19-25 ....................................... XVIII, p. 133 2.21b-25.............................. V, p. 91; XI, p. 229 3.8-17.................................................. V, p. 156 3.13-22............................................... 38, p. 188
3.15-18 ...................... XVIII, p. 146; 24, p. 165 3.18-22............................... 36, p. 116; 42, p. 92 4.7-11 ................................................. V, p. 120 4.13-19 ....................................... XVIII, p. 152 5.1-5..................................................... III, p. 27 5.5b-11.............................. V, p. 144; XI, p. 307 2 Pedro 1.3-11 ............................................... III, p. 145 1.16-19(20-21).................................. IX, p. 165 1.16-21...............24, p. 95; 27, p. 65; 38, p. 108 3.8-14......... XVII, p. 237; 23, p. 218; 25, p. 23; ............................................................. 36, p. 14 1 João 1.(1-4)5 – 2.2.................... 22, p. 124; 36, p. 157 1.5-10; 2.1-6.................. XIII, p. 216; 36, p. 181 2.21-25................................................VII, p. 30 3.1-3................................................... VII, p. 21 3.1-7................................................... 33, p. 191 3.13-18................................................ IX, p. 57 3.16-24............................................... 42, p. 153 3.18-24............................ III, p. 159; 22, p. 130 4.1-6 ................................................... IX, p. 72 4.1-11................................................. 22, p. 135 4.11-16............................................... 31, p. 165 4.7-12 ............................................... XI, p. 299 4.7-16 ................................................. V, p. 196 4.(7-16a)16b-21............... 22, p. 149; 39, p. 159 4.16b-21 ............................................. V, p. 135 5.1-5.................................... V, p. 84; XI, p. 235 5.1-6 ................................................. 22, p. 118 5.9-13................................................. 42, p. 175 5.11-13.............................................. XI, p. 138 Apocalipse 1.4-8......... VII, p. 131; XIII, p. 204; 34, p. 169; ........................................................... 42, p. 334 1.9-18.............................VII, p. 65; XIII, p. 133 1.9-20................................................. 26, p. 145 2.8-11...........................VII, p. 228; XIII, p. 275 1.9-20................................................... 23, p. 84 3.1-6..... IX, p. 127; IX, p. 135; XV, p. 89, p. 95 3.7-13........................ II, p. 248 (416); 36, p. 42 3.14-22............................................ XIII, p. 304 4.1-11........................................... I, p. 144(151) 5.1-14....................................................VII, p. 7 5.11-14............23, p. 90; 26, p. 150; 37, p. 144; ........................................................... 43, p. 172 7.9-12 ........................................... XVII, p. 230 7.9-17........... III, p. 182; XIII, p. 110; 23, p. 94; ......................................... 26, p. 159; 43, p. 178 12.1-6 .................................................. 23, p. 26
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12.7-12 ............................................. 21, p. 241 14.6-7 ................................................. V, p. 249 15.2-4 .............................................. XV, p. 218 19.11-16 ........................................... III, p. 195 21.1-5...............26, p. 170; 37, p. 155; 38, p. 52 21.1-6................................................. 43, p. 183
21.10-14,22-23................................... 26, p. 176 21.10,22 – 22.5.................................. 34, p. 195 22.10-16................................................ X, p. 11 22.12-14,16-17,20-21......................... 43, p. 205 22.12-17,20......................................... 23, p. 99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES E COLABORADORAS DO VOLUME 43 ABENTROTH, Anelise L. ACKER, Gerson ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor BAADE, Joel Haroldo BATISTA, Roberto Natal BLASI, Márcia BRAKEMEIER, Gottfried BRAUN, Odair CHRISTMANN, Nilo ENGELHARDT, Vera Lucia FRIEDRICH, Nestor P. FRIES, Marcos Henrique FRITSCHE, Gleidson Ademir GAEDE, Leonídio GARCIA, Paulo R. GARIN, Norberto da Cunha GAUSMANN, Samuel GIESE, Nilton GOEBEL, Evelyne Regina GRAF, Geraldo GRÜTZMANN, Geraldo HAACKE, Beatriz Regina IMMICH, Vera M. JUNG, Jaime JUNG, Marcelo KOWALSKA PRELICZ, José M. KONZEN, Léo Zeno KRONBAUER, Adélcio KRÜGER, Eldo KUNZ, Claiton A. KUNZ, Marivete Z. MARTIN, André L. MEURER, Evandro J. MORAES, Jilton OLIVEIRA, Antonio Carlos OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de RAMOS, Luiz C.
anelisevilmar@gmail.com gersonacker@yahoo.com.br juliocezar@est.edu.br albrechtastor@gmail.com baadejoel@gmail.com roberto2017@hotmail.com retalhos13@hotmail.com brakemeier@terra.com.br sinodo@sinodoparanapanema.com.br niloch@uol.com.br vlengelhardt1@gmail.com presidencia@ieclb.org.br mhenriquefries@yahoo.com.br glefrit@yahoo.com.br leonidiogaede@hotmail.com paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com samuel_gausmann@yahoo.com.br giese1959@gmail.com pastoraevelyne@gmail.com g.graf@uol.com.br g.gruetzmann@luteranos.com.br haacke.beatriz@gmail.com veraodair@gmail.com jotajung@hotmail.com ma2jung@hotmail.com pastorkowalska@luteranos.com.br leokonzen@urisan.tche.br adelciokron@gmail.com eldokruger@yahoo.com.br claiton@batistapioneira.edu.br marivete@terra.com.br anlumartin@gmail.com evandromeu@gmail.com jiltonmoraes@terra.com.br antonio.ieclb@gmail.com jorge.dietrich@hotmail.com luiz.ramos@textoetextura.com.br
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REIS, Ana Isa dos RIECK, Kurt RODRIGUES, Marcos SANTANA FILHO, Manoel B. de SCHELL, Vítor Hugo SCHMITT, Flávio SCHWANZ, Luiz Temóteo SEIBERT, Erní Walter SELL, Wilhelm SILVA, Leandro Luís da SOUZA, Carolina Bezerra de STANGE, Klaus A. STAUDER, Eduardo Paulo STÜEWER, Aline Damielle TEHZY, Sandra Kamien TREIN, Hans Alfred ULRICH, Claudete Beise VOIGT, Emilio WANKE, Roger Marcel WEBER, Eloir Enio WEEGE, Adriana WEGNER, Uwe WITTER, Teobaldo ZWETSCH, Roberto E.
anaisadosreis@yahoo.com.br kurtrieck@gmail.com marcos65br@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com vhschell@gmail.com flavio@est.edu.br luizimmeister@gmail.com wilhelmsell@gmail.com pastorleandro@luteranos.com.br k.stange@flt.edu.br eduardostauder@luteranos.com.br stuewer@gmail.com sktwt@hotmail.com hansatrein@gmail.com claudetebeiseulrich@hotmail.com emilio.voigt@terra.com.br roger.wanke@fl t.edu.br eloir@sinodal.com.br frauweege@gmail.com uweest@yahoo.com.br twitter@terra.com.br rezwetsch@gmail.com
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Texto: Times New Roman 11 Títulos: Bangkok 15 Datas: Arial 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12
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PL 43 - CAPA quarta-feira, 17 de outubro de 2018 08:03:55