PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 42 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO B Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann
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© Editora Sinodal, 2017 Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Tel.: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, Martin Volkmann, Júlio Cézar Adam, Robson Luís Neu e Verner Hoefelmann Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção editorial e gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 Fax: (51) 2111-1411 est@est.edu.br www.est.edu.br Conselho editorial: Prof. Dr. Rudolf von Sinner (coordenador), Prof. Dr. Iuri Andréas Reblin, Profª Drª Karin Hellen Kepler Wondracek, Profª Ms. Selenir Corrêa Gonçalves Kronbauer
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Proclamar libertação: auxílios homiléticos / Coordenação de Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2017. 15,5x22,5 cm. ; 376 p. ISBN 978-85-8194-117-2 Volume 42 1. Homilética. 2. Teologia prática. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
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APRESENTAÇÃO
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Fórum Nacional de Missão (junho de 2017) apontou o momento crucial em que a IECLB se encontra no mercado religioso brasileiro. Já gastamos a “gordura” que havíamos acumulado em décadas passadas, quando o pertencimento à religião da mãe e do pai era um fato dado, algo natural. Aquele tempo passou. Agora são outros 500! A IECLB precisa – e pode! – avançar na direção de ser uma igreja de comunidades mais atrativas, inclusivas e missionárias. Para isso, precisa focar ainda mais em seu Plano de Ação Missionária, colocando intencionalidade em tudo o que faz. Um dos aspectos fundamentais para esse avanço é a pregação da palavra de Deus – ou, como afirma o PAMI, a dimensão da evangelização. Fundamental para o fortalecimento da evangelização é justamente a capacidade de pregar a palavra de Deus de forma simples, porém profunda; instigante, mas acolhedora; convincente, porém participativa; transformadora, mas convidativa. Para isso, apostamos na preparação cada vez mais acentuada das pessoas incumbidas da pregação da Palavra. Para contribuir nessa tarefa, fazemos chegar a suas mãos mais uma edição do auxílio homilético Proclamar Libertação, carinhosamente conhecido por PL. Ao longo de várias décadas, o PL tem sido ajuda importante para que pregadoras e pregadores cumpram uma de suas principais atribuições: proclamar a palavra de Deus e, assim, contribuir com a evangelização e a missão. Em 2018, o Tema do Ano da IECLB será “Igreja, Economia e Política”, e o Lema: “Eu sou o SENHOR, teu Deus” (Êx 20.2a). Entendemos que nas reflexões do Reformador Martim Lutero há subsídios importantes para promover formação e diálogo sobre a relação entre os três “estamentos” ou “hierarquias”, que, segundo Lutero, são os três âmbitos da vida, ordens da criação divina. Este novo ano traz muitas oportunidades. É um ano de grande importância no campo da democracia e da política. Há eleições gerais programadas, tanto nacionais como estaduais. A própria IECLB terá suas eleições para a presidência e para os pastorados sinodais. Muito debate e diálogo deverão existir. Cabe às pregadoras e aos pregadores a tarefa de ajudar a comunidade a discernir o seu papel na missão de Deus, que passa pela relação intrínseca entre igreja, economia e política. A pregação da Palavra pode jogar luzes importantes para as reflexões neste novo ano. Abençoada pregação! P. Dr. Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente
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PREFÁCIO
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om alegria e gratidão a Deus, entregamos ao público da IECLB e de outras igrejas irmãs o volume 42 de Proclamar Libertação. Completamos assim mais um capítulo desse longo e abençoado empreendimento, iniciado em meados da década de 1970, com intuito de subsidiar pregadores e pregadoras em sua tarefa de proclamar a palavra libertadora do evangelho em terras brasileiras. Este volume contempla 59 auxílios homiléticos sobre a série B do Lecionário Comum Revisado da IECLB. Além disso, como já fizemos no ano passado, incorporamos a este volume o texto-base do tema da IECLB para 2018 (Igreja, Economia, Política) e seu respectivo lema (Eu sou o SENHOR, teu Deus – Êxodo 20.2a). Ressoando ainda os eventos celebrativos dos 500 anos da Reforma, a reflexão contempla o tema a partir de três funções que Lutero considerava essenciais para a organização social em sua época: alimentar, proteger e ensinar. Expressamos aqui nossa gratidão profunda a autores e autoras que participaram desta obra feita em mutirão. Saudamos em especial àquelas que a partir deste volume passam a integrar-se a esse projeto como colaboradores e colaboradoras, por sugestão de pastores e pastoras sinodais. Proclamar Libertação necessita dessa renovação constante para resistir ao tempo e continuar cumprindo com sua tarefa histórica de subsidiar a pregação da igreja. Agradecemos igualmente à direção da IECLB que, mais uma vez, decidiu presentear ministros e ministras com um exemplar, como parte de sua tarefa de zelar pela pregação qualificada do evangelho. Apenas um ou outro domingo, desta vez, não foi suprido com um auxílio homilético. Mesmo assim, voltamos a lembrar que todas as contribuições de volumes anteriores estão disponíveis no portal da IECLB. Consulte para tanto o link: <http://www.luteranos.com.br/conteudo_organizacao/governanca-rede-derecursos-auxilios-homileticos/origens-da-serie-proclamar-libertacao>. Para acessar um texto específico, faça uso do mecanismo de busca do portal (<http://www. luteranos.com.br/busca-avancada-conteudo/>). Para localizá-lo, digite o nome do livro bíblico por extenso, utilizando o padrão de citação adotado (por exemplo, Lucas 10.38-42 ou Lucas 10.1-11,16-20). Verner Hoefelmann pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação
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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS............................................................................... 7 1º Domingo de Advento – Marcos 13.24-37........................................................ 9 2º Domingo de Advento – Isaías 40.1-11........................................................... 15 3º Domingo de Advento – João 1.6-8,19-28 ...................................................... 20 4º Domingo de Advento (Noite de Natal) – Romanos 1.1-7 ............................. 26 Dia de Natal – Lucas 2.(1-7) 8-20 ..................................................................... 31 1º Domingo após Natal/Véspera de Ano-Novo – Gálatas 4.4-7 ........................ 40 Ano-Novo (Nome de Jesus) – Lucas 2.15-21 .................................................... 46 Epifania – Colossenses 1.24-27 ......................................................................... 50 1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor) – Marcos 1.4-11 .................... 56 2º Domingo após Epifania – 1 Samuel 3.1-10(11-20) ....................................... 64 3º Domingo após Epifania – Marcos 1.14-20 .................................................... 71 4º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 8.1-13 ................................................ 76 5º Domingo após Epifania – Isaías 40.21-31 ..................................................... 81 Último Domingo após Epifania – Marcos 9.2-9 ................................................ 87 1º Domingo na Quaresma – 1 Pedro 3.18-22..................................................... 92 2º Domingo na Quaresma – Marcos 8.31-38 ..................................................... 97 3º Domingo na Quaresma – Êxodo 20.1-17 .................................................... 101 4º Domingo na Quaresma – João 3.14-21........................................................ 107 5º Domingo na Quaresma – Hebreus 5.5-10.................................................... 113 Domingo de Ramos – João 12.12-16 ............................................................... 118 Quinta-Feira da Paixão – Salmo 116.1-2,12-19 ............................................... 124 Sexta-Feira da Paixão – Hebreus 10.16-25 ...................................................... 130 Domingo da Páscoa – Marcos 16.1-8 .............................................................. 136 2º Domingo da Páscoa – Atos 4.32-35............................................................. 141 3º Domingo da Páscoa – Lucas 24.36b-48 ...................................................... 148 4º Domingo da Páscoa – 1 João 3.16-24.......................................................... 153 5º Domingo da Páscoa – João 15.1-8............................................................... 158 6º Domingo da Páscoa – Atos 10.44-48........................................................... 163 Ascensão do Senhor – João 14.1-12 ................................................................ 169 7º Domingo da Páscoa – 1 João 5.9-13............................................................ 175 Domingo de Pentecostes – João 15.26-27; 16.4-15 ......................................... 181 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) – Isaías 6.1-13 ................................ 187 2º Domingo após Pentecostes – Marcos 2.23-3.6 ............................................ 193 3º Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 4.13-5.1 ...................................... 198 4º Domingo após Pentecostes – Marcos 4.26-34 ............................................. 203 5º Domingo após Pentecostes – Jó 38.1-11 ..................................................... 208 6º Domingo após Pentecostes – Marcos 5.21-43 ............................................. 216 7º Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 12.2-10 ....................................... 220 8º Domingo após Pentecostes – Marcos 6.14-29 ............................................. 225
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9º Domingo após Pentecostes – Jeremias 23.1-6 ............................................. 232 11º Domingo após Pentecostes – Efésios 4.1-16 ............................................. 238 12º Domingo após Pentecostes – João 6.35,41-51........................................... 242 13º Domingo após Pentecostes – Provérbios 9.1-6.......................................... 248 14º Domingo após Pentecostes – João 6.56-69................................................ 253 15º Domingo após Pentecostes – Tiago 1.17-27 .............................................. 258 16º Domingo após Pentecostes – Marcos 7.24-37 ........................................... 263 17º Domingo após Pentecostes – Isaías 50.4-9a .............................................. 268 18º Domingo após Pentecostes – Marcos 9.30-37 ........................................... 273 19º Domingo após Pentecostes – Tiago 5.13-20 .............................................. 277 20º Domingo após Pentecostes – Marcos 10.2-12 ........................................... 283 21º Domingo após Pentecostes – Amós 5.6-7,10-15 ....................................... 292 22º Domingo após Pentecostes – Marcos 10.35-45 ......................................... 298 23º Domingo após Pentecostes – Hebreus 7.23-28.......................................... 304 Dia da Reforma – João 8.31-36 ....................................................................... 307 Dia de Finados – 1 Tessalonicenses 4.13-18.................................................... 313 24º Domingo após Pentecostes – Marcos 12.28-34 ......................................... 318 25º Domingo após Pentecostes – 1 Reis 17.8-16 ............................................. 323 26º Domingo após Pentecostes – Marcos 13.1-8 ............................................. 329 Domingo Cristo Rei – Apocalipse 1.4b-8 ........................................................ 334 AUXÍLIOS ESPECIAIS .................................................................................. 341 Tema e lema da IECLB 2018 ........................................................................... 343 ÍNDICES .......................................................................................................... 351 Temas e textos nos volumes I – 42 .................................................................. 351 Perícopes dos volumes I – 42........................................................................... 357 Colaboradores e colaboradoras do volume 42 ................................................. 371
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PRÉDICA: MARCOS 13.24-37 ISAÍAS 64.1-9 1 CORÍNTIOS 1.3-9
1º DOMINGO DE ADVENTO
03 DEZ 2017
Eduardo Paulo Stauder
1 Introdução Estamos no 1º Domingo de Advento. Ainda não é Natal! É importante que isso seja dito, pois os símbolos que apontam para a festa de Natal já estão tão presentes, que o tempo de Advento pode passar despercebido. Corremos o risco de acompanhar a propaganda natalina e antecipar o Natal, colocando já nos espaços litúrgicos o pinheirinho, a manjedoura, o presépio. Mas ainda não é Natal. Muitos querem antecipá-lo, mas é preciso aguardar. É tempo de espera, de permanecermos vigilantes e nos prepararmos. Esse é o chamado dos textos bíblicos para este 1º Domingo de Advento. O texto de Isaías 64.1-9 faz parte de uma oração, na qual o povo reconhece os seus pecados e pede que Deus esqueça dos seus pecados e volte para junto do seu povo. Na carta de 1 Coríntios 1.3-9, a comunidade aguarda a volta de Cristo com gratidão e fé. A comunidade permanece firme na fé porque está unida a Cristo. Graças a essa união, ela é enriquecida em tudo, “tanto no dom de anunciar o evangelho como no dom da sabedoria espiritual” (v. 5). O texto da pregação do Evangelho de Marcos 13.24-37 anuncia a vinda do Filho do Homem, mas como não sabemos nem o dia nem a hora da sua chegada, somos chamados a permanecer vigilantes. Os três textos falam da comunidade que espera pela vinda de Deus. Nossa espera não é marcada pelo medo e pela insegurança. Somos chamados a ser vigilantes, a nos arrepender e confiar na misericórdia de Deus, e a permanecer na fé em gratidão, pois estamos unidos a Cristo.
2 Exegese O texto da pregação está inserido no capítulo 13 do Evangelho de Marcos, que faz parte dos acontecimentos que antecedem o relato da paixão e ressurreição de Jesus. Esses acontecimentos têm como cenário a cidade de Jerusalém e expressam a crítica de Jesus ao sistema religioso centralizado no templo. Ao sair do templo, Jesus é questionado por um dos discípulos e, em sua resposta, anuncia a sua destruição. A conversa continua no monte das Oliveiras, de onde eles podem olhar o templo. Os discípulos Pedro, Tiago, João e André lançam uma pergunta a Jesus: Conte para nós quando é que isso vai acontecer. Que sinal haverá para mostrar quando é que todas essas coisas vão começar? (Mc 13.4).
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A partir dessa pergunta, Jesus inicia um discurso que vem carregado com uma linguagem apocalíptica. É um discurso bastante trabalhado, que junta material da tradição cristã com material que vem da apocalíptica judaica. O discurso de Jesus é marcado por imperativos (v. 5b, 9a, 11b, 23, 28, 29, 33, 35, 37), revelando que a intenção do evangelista é a parênese. Ele fala de uma escatologia presente e procura mostrar o essencial. Assim, corrige visões triunfalistas e revela que o caminho que a comunidade tem pela frente é semelhante ao de Jesus. Marcos 13 é formado por duas partes: a introdução (v. 1-4), na qual acontece o diálogo entre Jesus e os discípulos, e o discurso de Jesus (v. 5-37). O discurso de Jesus, por sua vez, pode ser dividido em duas partes: a primeira, formada pelos v. 5-23, apresenta os sinais dos últimos tempos (sobre esta primeira parte leia os estudos no PL XVI e 22); a segunda parte, formada pelos v. 24-37, revela como devemos esperar pela vinda do Filho do Homem. O texto de Marcos 13.24-37 é um conjunto formado por três perícopes: a vinda do Filho do Homem (v. 24-27), quando ele virá (v. 28-32) e como devemos aguardá-lo (v. 33-37). A Bíblia na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) também acompanha essa divisão do texto em três perícopes. Para demarcar o início de cada uma dessas pequenas unidades, a NTLH acrescenta as expressões “Jesus disse” no v. 24, “Jesus disse ainda” no v. 28 e “e Jesus terminou, dizendo” no v. 33. Essas expressões não constam nos manuscritos originais, mas ajudam a compreender a estrutura do texto, demarcando o início de cada uma dessas pequenas unidades. v. 24-27 – A vinda do Filho do Homem. Os sinais dos fins dos tempos são apresentados nos v. 24-25: o sol e a lua se apagam e a criação de Deus se desintegra. Essas imagens faziam parte da tradição profética, como vemos em Isaías 13.10. Essas imagens mostram que estamos diante de uma grande manifestação de Deus. O que aparenta ser o fim, na verdade, é o início de um novo tempo governado pelo Filho do Homem (v. 26-27). A parusia do Filho do Homem revela a soberania de Deus. A primeira ação do Filho do Homem será a reunião dos seus escolhidos. É um anúncio de consolo e esperança para uma comunidade que vivia num contexto de grande instabilidade, gerada pelo conflito com o Império Romano. Na Palestina, esse conflito leva à destruição do templo e da cidade de Jerusalém, em 70 d.C. Na cidade de Roma, os cristãos sofrem perseguições e falsas acusações, como se vê na perseguição sob Nero, em 64 d.C. É um cenário de grande tribulação e sofrimento, quando parece que o fim se apresenta. Para essa realidade é anunciada a vinda do Filho do Homem, que não abandona a sua comunidade, mas vem acolhê-la. A vinda do Filho do Homem não é marcada por juízo, mas por salvação e pela reunião dos fiéis. v. 28-32 – Quando ele virá. A conclusão do discurso de Jesus é feita por meio de duas parábolas (a da figueira e a do porteiro), que vêm acompanhadas de uma aplicação prática para a situação da comunidade. As parábolas também são marcadas pelos verbos no imperativo: aprendei (v. 28), olhai e vigiai (v. 33). Os v. 28-29 nos apresentam a parábola da figueira. Devemos aprender com a figueira: quando ela brota, o verão está chegando. Somos convidados a aprender, a ler os sinais do tempo. A realidade não está pronta, mas é um processo, no qual vamos
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aprendendo a perceber a presença de Deus. No tempo certo, a figueira brota e produz os seus frutos. Observar a figueira é aprender a ter paciência, reconhecendo o que podemos e o que devemos fazer em cada tempo de nossas vidas, em cada momento da história. Deus age na história e no momento por ele determinado virá o Filho do Homem. Na sequência, nos v. 30-31, temos três sentenças apodíticas introduzidas pela expressão “em verdade, vos digo”: a geração presente não tem como impedir a tribulação (v. 30); a criação é transitória (v. 31a) e as palavras de Jesus não são transitórias, mas permanecem (v. 31b). O v. 32 conclui afirmando que somente o Pai sabe quando tudo isso acontecerá, ou seja, em suas mãos está o domínio da história. Somente Deus conhece o dia da parusia. v. 33-37 – Como devemos aguardá-lo. O v. 33 inicia com um chamado, uma ordem: olhai, vigiai. Alguns manuscritos acrescentam a expressão “e orai”. Essa ordem é ilustrada pela parábola do porteiro, nos v. 34-36. No centro dessa parábola está o retorno do viajante, que pode chegar a qualquer momento, obrigando os servos e o porteiro a uma vigilância permanente. O v. 37 encerra o discurso de Jesus com um apelo à vigilância, mas salientando que essa é uma tarefa de todos. É uma exortação dirigida a toda a comunidade: vigiai.
3 Meditação O texto de Marcos 13 é dirigido para uma comunidade que vive momentos de tribulação e precisa encontrar esperança em meio ao sofrimento. As parábolas da figueira e do porteiro mostram que esta situação de tribulação é pensada considerando a experiência de agricultores e de servos. É considerando a realidade desses trabalhadores que o texto foi pensado e nos chama a permanecer vigilantes. O texto de Marcos foi escrito para uma comunidade em crise, que se perguntava se haveria futuro para a sua vida de fé. Na Judeia, o conflito com o Império Romano se acentuava, desembocando na revolta dos zelotes. Essa teve como consequência a grande repressão do Império Romano, que destruiu a cidade de Jerusalém e o templo. Na cidade de Roma, os cristãos passavam por um período de perseguições. Basta lembrarmos da acusação de Nero, que culpou os cristãos pelo incêndio de Roma. Essas crises da história não vão terminar com a criação, mas vão revelar uma nova manifestação de Deus. Lá vem o Filho do Homem sobre as nuvens. As estrelas caindo, a lua perdendo o seu brilho: isso parece ser o fim do mundo. Muitas situações de crise deixam as pessoas sem saber para onde ir e se apresentam como se fossem o fim. Num processo de crise acontecem mudanças. Perdemos nossos referenciais e temos que repensar a vida, descobrir novos caminhos. Será que Deus não pode construir vida nova a partir dos escombros? Quando as estrelas caem, vem o filho do Homem, não para decretar o fim da criação, mas como sinal da presença graciosa de Deus que acolhe o seu povo para dar continuidade à vida. O futuro também se apresenta incerto diante de nós: crise econômica, violência urbana, reforma da previdência, falta de ética na política e no todo da
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sociedade. Podemos planejar estratégias missionárias, poupar recursos financeiros, fazer um bom plano de aposentadoria, mas nada nos dará a garantia de que tudo irá acontecer conforme o nosso planejamento. Boa parte dos trabalhadores tem grandes dificuldades em realizar planejamentos a longo prazo. Planeja a sua sobrevivência diária e se contenta com o pão de cada dia. Portanto planejamos o futuro não para controlá-lo, mas para permanecermos vigilantes. As nossas incertezas não precisam se transformar em inseguranças, deixando o medo controlar a nossa vida. Olhamos para o futuro carregando a promessa de que o Filho do Homem virá. Por pior que o futuro se apresente, podemos enfrentá-lo nessa fé de que Jesus virá, ou seja, não estamos abandonados por Deus. O tempo de Advento nos ensina a enfrentar o futuro e as crises da vida com fé e esperança. Permanecemos vigilantes. Não sabemos quando será o fim, mas esperamos pelo tempo oportuno (kairos, v. 34), que pertence à vontade e ao conhecimento de Deus. Quem espera o tempo oportuno não se preocupa com cálculos ou especulações cronológicas, mas unicamente com a vigilância. Sem negar o futuro salvífico, orientamos a comunidade para viver a sua fé no presente. Esta geração passará, a criação passará, mas a palavra de Jesus permanece. Estar vigilante é deixar se orientar por essa palavra, que revela a presença de Deus entre nós. Vigiai! Não é um pedido. É uma ordem. Na parábola do porteiro, o vigia tinha a tarefa específica de permanecer acordado para receber o dono da casa. O porteiro precisa ficar atento, pois ele aguarda a volta do dono da casa. O porteiro não controla as ações do dono da casa. Neste sentido ele lida com o imprevisto, algo que não depende dele. O porteiro tem uma tarefa que lhe foi dada, uma responsabilidade que lhe foi confiada. A necessidade da ação de vigiar revela a existência de conflitos. Quem vigia quer se proteger de bandidos e inimigos. Quem vigia revela a existência de perigos e a necessidade de proteção. Quem vigia busca por segurança. Permanecer vigilantes deve determinar o nosso jeito de viver a fé. É uma atitude para quem se compromete com a vivência da fé, que quer ser exercitada e experimentada neste tempo de advento. Estabelecemos as nossas relações com as pessoas, com a criação de Deus, com a sociedade organizada como vigias. O vigia duvida, questiona. Ele não pode acreditar em qualquer conversa, em qualquer pessoa que deseja passar pela porta. Ele precisa desconfiar para garantir a segurança do lugar que ele vigia. Não podemos dormir diante da realidade. Em meio às crises da vida, que podem ter uma dimensão pessoal ou social, permanecemos vigilantes. Em meio aos escombros, a palavra de Deus permanece, construindo esperança e ensinando a viver o amor.
4 Imagens para a prédica O texto de Marcos 13 é rico em imagens: o Filho do Homem vem sobre as nuvens; a figueira brota, indicando a chegada do verão; o porteiro vigia. Uma dessas imagens pode ser trabalhada com mais profundidade.
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A conclusão do texto de Marcos 13 enfatiza a ação de vigiar, o que nos aproxima da figura do porteiro, cada vez mais presente nas cidades. Dificilmente há um prédio que não conte com a presença desse profissional. Diante da violência urbana, cresce a importância do porteiro como vigia. Ele não está lá apenas para receber as pessoas, abrir e fechar as portas. Também precisa controlar quem pode e quem não pode entrar. É um trabalho realizado por gente simples, mas que exige uma atenção constante. Vamos nos colocar no lugar do porteiro e conversar com a comunidade sobre a nossa tarefa de permanecermos vigilantes. O porteiro cuida de um patrimônio que não lhe pertence. Abre a porta para os moradores entrarem num prédio, no qual ele, em geral, não tem condições de morar. Deixa carros entrarem e saírem e volta de ônibus para casa. A figura do porteiro revela uma sociedade em crise, marcada por divisões, uma sociedade marcada pelo medo que busca por segurança e paz. Neste mundo marcado por conflitos, somos chamados a permanecer vigilantes. Muitas famílias ainda preservam o costume antigo de lavar, limpar, pintar a casa para o Natal. A espera do Natal é marcada por uma série de pequenas ações que podem servir de exemplo para compreendermos a ação de permanecermos vigilantes.
5 Subsídios litúrgicos O 1º Domingo de Advento marca o início de um novo ano litúrgico. Neste culto também temos o lançamento do novo tema do ano. Estamos iniciando os próximos 500 anos da Reforma. Agora são outros 500! Neste culto introduzimos a Coroa de Advento e acendemos a primeira vela. É um tempo de espera que nos ensina a paciência, a viver a tensão entre o já e o ainda não. Contamos os dias, as semanas, mostrando que a fé acontece em meio à história, contando os dias, acompanhando e participando dos acontecimentos históricos. A confissão de pecados pode ser elaborada a partir das imagens do texto do profeta Isaías 64: as nossas boas ações são comparadas a trapos sujos (v. 6); somos folhas secas carregadas pela ventania dos nossos pecados (v. 6); Deus é o oleiro e nós somos o barro (v. 8). Podemos cantar o hino 194 do HPD 1. As palavras do livro de Isaías pedem que Deus se lembre que nós somos o seu povo e se esqueça dos nossos pecados. Pede-se que Deus não permaneça distante de nós, mas venha ao nosso encontro. Refletindo sobre a tarefa e o compromisso de vigiar, as palavras de Wolfgang Müller-Weiser também podem nos ajudar durante a celebração: “A vida nunca está pronta. Nunca se pode imaginar que nada mais se possa fazer, que o trigo já esteja todo nos armazéns, que a safra da vida já esteja concluída. Não faças teu próprio calendário. Não sabes o que os próximos anos vão trazer, por qual luz a meia-noite ainda será invadida. Apenas deves estar sempre preparado para seres chamado e partir”.
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Bibliografia RAMIREZ, F. D. Compromisso e Perseverança; Estudo sobre Marcos 13. RIBLA 7: Apocalítica. Petrópolis: Vozes, 1990. p. 59-75. WALKER, Césio J. e KONZEN, Léo Z. Evangelho segundo Marcos; Comentário para Catequese. São Leopoldo: CEBI, 1991. (A Palavra na Vida 37/38).
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PRÉDICA: ISAÍAS 40.1-11
2º DOMINGO DE ADVENTO
10 DEZ 2017
MARCOS 1.1-8 2 PEDRO 3.8-15a Marcos Henrique Fries
1 Introdução Estamos no tempo de Advento. É a época em que a igreja celebra a chegada de Jesus Cristo ao mundo, ao mesmo tempo em que se prepara para recebê-lo em sua segunda vinda. Celebra-se a inauguração do reino de Deus, com o nascimento do Salvador, e celebra-se a esperança pela consumação definitiva desse Reino. Neste sentido, os textos propostos apontam para a esperança (2Pe 3.8-15) e convidam para uma atitude enquanto se espera: a preparação do caminho para o Senhor (Mc 1.1-8). Pelo fato de haver uma explícita unidade temática entre os textos previstos para este domingo, a leitura de Marcos e 2 Pedro no culto/estudo bíblico pode ser de grande ajuda para a compreensão da perícope de pregação: Isaías 40.1-11. O texto de Isaías, que será em seguida analisado, já foi apresentado por Proclamar Libertação em quatro oportunidades (VIII, 40; XIV, 124; XIX, 15; 31, 9). Sugere-se que, se possível, esses excelentes estudos sejam lidos pelo pregador ou pregadora.
2 Exegese O texto foi escrito no contexto do exílio babilônico, por um autor denominado na pesquisa bíblica de Dêutero-Isaías, normalmente situado entre os anos 550-540 a.C. Embora o autor ainda desconhecesse a tomada da Babilônia pelo rei Ciro, da Pérsia, em 539 a.C., esse já era conhecido como um grande conquistador desde 550 a.C., época de sua ascensão. Essa perspectiva da proximidade dos exércitos persas já influenciou Dêutero-Isaías em seu escrito. Os escritos proféticos, em geral, denunciam pecados e injustiças, preveem a punição aos que insistem no erro e chamam ao arrependimento, como forma de evitar o castigo. Mas os textos proféticos também apresentam palavras de conforto em meio aos tumultos da vida, convidando para a esperança e a ação. Esse é o caso de nossa perícope. v. 1: Consolai, consolai. Remete à misericórdia de Deus, que tendo ouvido a queixa dos exilados (Lm 1.1-2), deseja colocar um fim no sofrimento, ou seja, permitir ao povo que retorne para a sua terra após décadas de exploração e opressão no exílio. Ainda que o exílio não tenha terminado, é possível alegrar-se novamente, pois há esperança de um novo recomeço. v. 2: É findo o tempo da sua milícia. Estão por terminar os anos da dura servidão de Judá na Babilônia. Isso porque o pecado que levou o povo ao exílio está
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perdoado. O povo já recebeu castigo dobrado. Não há mais razão para permanecer cativo em terra estranha. O exílio era entendido como punição pelos pecados do povo: Teu pai pecou primeiro. Os teus guias prevaricaram contra mim. Pelo que profanei os príncipes do santuário, entreguei Jacó à destruição e Israel ao opróbrio (Is 43.27-28). v. 3, 4: Voz do que clama no deserto. A voz que clama no deserto foi associada, mais tarde, a João Batista, que convocou o povo ao arrependimento e à mudança de vida, a fim de receber o Messias. Preparai o caminho do Senhor... todo vale será aterrado... e os lugares escabrosos, aplanados significa remover obstáculos, fazer limpeza, endireitar o que está torto. Na Babilônia, os habitantes de uma localidade a ser visitada por um rei ou uma celebridade empenhavam-se para que o visitante pudesse desfilar triunfalmente em caminhos livres de qualquer barreira. O Senhor que passará pelo caminho é Deus, que vem para libertar. Mas aqui também é possível que Dêutero-Isaías estivesse se referindo ao rei Ciro, que em breve chegaria. No discurso de João Batista, Cristo, o enviado de Deus, era quem passaria por esse caminho, e o caminho é o coração, que deve ser preparado para receber o Salvador. v. 5: A glória do Senhor se manifestará. No caminho a ser preparado desfilará o próprio Deus, glorioso e triunfante, que será visto por todas as pessoas. Ele é poderoso para derrotar os babilônios e levar seu povo de volta a Jerusalém. A boca do Senhor o disse atesta a veracidade e credibilidade da promessa. v. 6-8: Toda carne é erva... o povo é erva. Denota a fragilidade dos seres humanos que são como a erva, que seca, cai a sua flor e desaparece. Essa afirmação do texto pode ter duas explicações: 1) Apenas uma parcela da população de Judá esteve exilada na Babilônia: a elite econômica e intelectual. Essas pessoas haviam pecado contra Deus, explorando, espoliando e julgando injustamente o povo. O exílio as fez perceber que a glória humana é passageira. Elas são como a erva que seca e desaparece. Sua glória foi destruída pelos babilônios. Se num momento elas oprimiram, o exílio as fez experimentar a opressão. 2) A erva que seca e morre pode ser uma referência ao próprio Império Babilônico. Seus dias de glória estavam por terminar, já que Ciro se aproximava e, de fato, derrotou a Babilônia alguns anos mais tarde. v. 9: Boas novas. A boa notícia a ser anunciada em voz alta e do alto de um monte é que Deus vem chegando para pôr fim à escravidão do seu povo. v. 10: O seu braço dominará: é uma referência ao poder absoluto de Deus, tanto para o juízo dos babilônicos como para salvação do seu povo. O galardão, ou recompensa, é a própria liberdade. v. 11: Como pastor. No antigo Oriente Médio, imaginava-se o rei ideal como um pastor de ovelhas. Também a Bíblia compartilha dessa simbologia. Deus passará pelo caminho preparado, levando consigo o seu povo, agora liberto, de volta para o lar. Ele o fará como um pastor que carinhosa e zelosamente conduz o seu rebanho. O texto de Isaías 40.1-11 contém uma dupla mensagem, que tem fortes paralelos com os textos complementares de Marcos e 2 Pedro: 1) É um apelo à esperança, que não deve morrer. Embora o fim do exílio ainda levaria alguns anos
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para acontecer, o povo já deveria se alegrar, pois o Deus forte os havia perdoado e em breve os libertaria da servidão. 2) É um apelo para que, enquanto espera, o povo trabalhe, preparando o caminho para a chegada do Deus libertador.
3 Meditação Quando preparo a prédica para o domingo, uma das coisas que costumo fazer é fechar os olhos e pensar nas pessoas que estarão diante do púlpito, ouvindo e meditando a palavra de Deus. Entre os membros das comunidades que atendo, vejo muitas pessoas marcadas por árduas lutas, que sofreram ou que ainda estão sofrendo, gente que chora, que lamenta e até mesmo protesta. São casais em conflito, pais e mães com dificuldades para criar seus filhos, irmãos disputando heranças, doenças que entraram em casa e afligem os corpos e as mentes, limitações financeiras ou mesmo o fantasma do desemprego, o flagelo da violência ou a tragédia do álcool e outras drogas. São situações que angustiam, deprimem, tiram o sono e a paz. Por que tanto sofrimento? De onde vêm todas essas lutas? Quem está sofrendo costuma se fazer essas perguntas. E é certo que nem sempre temos uma resposta satisfatória. Embora muitas vezes sejamos vítimas, que não provocaram a dor e não buscaram as adversidades, em boa parte das situações, o que sofremos são consequências das escolhas que fizemos. O salário do pecado é a morte (Rm 6.23). O pecado de hoje deixa marcas para amanhã. Assim, é possível dizer que muitas das nossas mazelas são resultado da rebeldia para com a vontade de Deus. Como sinais de trânsito, os preceitos de Deus são uma seta a indicar caminhos seguros que, se trilhados, poderiam evitar muitas das lágrimas que derramamos. Hoje, pagamos um alto preço por não termos sido obedientes ontem. O povo de Judá amargou décadas de exílio como consequência de seu pecado. A Babilônia foi o castigo de Deus para eles. Assim também nós amargamos os nossos exílios (agruras, adversidades, sofrimentos) porque, tal como aquele povo, somos igualmente desobedientes. A boa notícia é que as coisas podem mudar. Há esperanças de um novo tempo, onde o sofrimento terá passado. O profeta anunciou que o tempo de sofrimento estava no fim, porque o próprio Deus estava chegando e, como pastor, levaria seu rebanho de volta para casa. O exílio estava com os dias contados. E nós ouvimos que também o nosso sofrimento está no fim. Deus está chegando em Jesus, vem nos visitar, vem como bom pastor para dar a vida por suas ovelhas, remover seus pecados e conceder vida plena, abundante, com novo sentido (Jo 10.10). Os pecados de ontem são perdoados; a vida ganha um novo sabor. Deus, em Cristo, auxilia na reorganização da vida, inspira para a reconciliação com o cônjuge, fortalece para o abandono dos hábitos nocivos, orienta os pais na educação de suas crianças e adolescentes, encoraja para a luta por dignidade. As coisas voltam a entrar nos eixos. As lágrimas, aos poucos, dão lugar aos sorrisos. O nosso exílio parece estar no fim. Mas assim como na Babilônia era necessário preparar o caminho para o libertador que estava chegando, assim é preciso que também nós preparemos o
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caminho para Jesus. O caminho aqui é o coração, que precisa estar pronto para receber o Redentor. E como preparamos o coração? Alguém poderia dizer que um coração preparado é um coração puro, sem pecados; que a vida preparada para acolher o Salvador é aquela que está em ordem. Mas isso não é possível. O perdão dos pecados, que purifica o coração, e a própria reorganização da vida competem a Jesus, que vem em busca do doente para oferecer a cura (Mc 2.17). Preparar o coração tem a ver com arrependimento, fé e permissão. Está pronto para receber o perdão aquele que se arrepende de seus pecados e crê que Jesus é o enviado de Deus para nos redimir. Está pronto para receber Jesus Cristo aquele que sabe que sozinho nada pode, mas confia no poder transformador do Filho de Deus. Está pronto para receber o Redentor aquele que permite a sua entrada para se submeter ao seu senhorio, abdicando do desejo muito humano de se autogovernar, com base em seus próprios preceitos e desejos. Arrependimento, fé e permissão, portanto, são os sinais de que o coração/caminho está preparado para a visita do Messias, do libertador, daquele que vem para pôr fim ao nosso exílio.
4 Imagens para a prédica Na conhecida tela de Holman Hunt, “A luz do mundo”, há um casebre abandonado e em ruínas. Em frente à janela existe um grande espinheiro com ervas daninhas quase cobrindo o caminho. A porta está coberta de musgo. Diante da porta bem fechada, de gonzos enferrujados, acha-se na obscuridade e no sereno um homem de estatura grande e possante, cujo rosto revela cansaço e fadiga. Uma das suas mãos está levantada para bater à porta, enquanto a outra segura uma lâmpada, cujo raio talvez possa penetrar por uma fresta da porta. É Cristo, o Filho de Deus, procurando entrar no coração do pecador! Ele está esperando a porta se abrir. Quando Holman pintou esse quadro maravilhoso do Rei coroado de espinhos, batendo do lado de fora, mostrou a tela na sua oficina a um de seus melhores amigos, antes de apresentá-la ao público. O amigo examinou a figura real de Cristo, do lado de fora daquela porta, e disse: – Mas você cometeu uma grande falta! – Qual? – perguntou o artista. – Pintou uma porta sem maçaneta. – Não é um erro – disse o artista. – Esta porta não tem maçaneta por fora, ela só se abre por dentro. Assim, a porta do coração só pode ser aberta pelo lado de dentro. Cristo não força, apenas bate.
5 Subsídios litúrgicos Versículo de acolhida: o lema da semana, indicado pelas Senhas Diárias: O profeta Isaías disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. E toda a humanidade verá a salvação de Deus (Lucas 3.4,6). Kyrie: Ó Senhor, que visitas o mundo, manifestando tua misericórdia, enche nossa vida de esperança, abre nosso caminho para celebrar tua chegada, visita-nos,
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mais uma vez, com a graça do teu Santo Espírito. Ó defensor dos pobres, refúgio dos fracos, alívio dos pecadores, consolo dos enlutados, orientação dos desnorteados, vem salvar o que está perdido. Vem criar um mundo novo. Concede-nos a tua paz. Kyrie eleison! (René Krüger) Sugestão de hino: HPD 1, 9: “Ó vinde, em humildade vossa alma preparai”.
Bibliografia RADMACHER, Earl D. O Novo Comentário Bíblico – Antigo Testamento. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2009. SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo: Sinodal, 1987.
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3º DOMINGO DE ADVENTO
17 DEZ 2017
PRÉDICA: JOÃO 1.6-8,19-28 ISAÍAS 61.1-4,8-11 1 TESSALONICENSES 5.16-24
Odair Braun
Advento, tempo de renovação, luz e esperança
1 Introdução Estamos no 3º Domingo de Advento. A tônica deste tempo é a esperança e a preparação para o novo. A comunidade cristã é desafiada a levar uma vida de alegria e oração, assim como de ações de graça em vista do que virá. As passagens bíblicas indicadas para as leituras e a pregação apontam nesse sentido. Isaías 61.1-4,8-11 é um texto do período pós-exílico, quando o povo estava em calamidade e sofrimento, diante de incertezas. Ali o profeta fala da ação de Deus que cura, liberta, consola, promove justiça (v. 1-4), faz aliança eterna (v. 8), produz renovo, fazendo o jardim brotar tudo aquilo que se semeia (v. 9). A promessa do profeta é que Deus fará brotar a justiça e o louvor entre as nações. Nesse sentido, a passagem quer fortalecer o povo angustiado e em sofrimento. Isaías fala de dores concretas na vida das pessoas. Em cada pessoa que encontrava, Isaías via estampada a dor. Essa dor era causada pela guerra e pelos sofrimentos. Por onde passa um exército, fica um rastro de violência, humilhação, fome e morte. As lavouras eram saqueadas e destruídas; as casas, queimadas; as mulheres, violentadas; as crianças ficavam, na maioria das vezes, órfãs. Guerra tem como consequência a destruição da família, da vida e da dignidade. Nesse contexto, a esperança se ausenta. Na época em que o profeta Isaías escreve este texto, a guerra já havia terminado, mas as ruínas, a destruição e, principalmente, a fome ainda eram visíveis. Isaías foi instrumento de Deus para dar liberdade e esperança a quem estava preso, para quem tinha sido escravizado. Isaías tinha a tarefa de fazer com que as dívidas fossem perdoadas, os bens devolvidos, mas, principalmente, ele era instrumento de Deus para consolar as pessoas que choravam. Este aspecto é o mais marcante no texto: trazer consolo aos enlutados, alegria aos que choram. Isaías era instrumento de Deus para fazer com que as pessoas se tornassem carvalho de justiça para a glória de Deus. Em 1 Tessalonicenses 5.16-24 observa-se a intenção de encorajar e consolar, razão pela qual se pede por tenacidade, fidelidade e perseverança. Denota-se dessa passagem que é Jesus Cristo quem prepara a comunidade para o dia da chegada. Por isso estamos em tempo de Advento, que antecede o Natal. Neste tempo devemos nos preparar para acolher a criança da manjedoura, que traz uma nova luz aos nossos dias, que faz a esperança reavivar e se fortalecer.
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A passagem do evangelho apresenta João Batista pregando o arrependimento como caminho para manter o coração humano devidamente preparado para o novo que virá, como referido nas passagens de leitura. Essa novidade de vida provoca alegria para a qual o Advento conduz e prepara. Por isso as passagens deste domingo apontam que a luz vinda de Deus é mais forte do que as trevas que insistem em ocupar espaço. Advento tem o intuito de preparar nosso agir para evidenciar que Cristo é a luz e que ele traz a luz para o mundo. A pergunta de fundo que deve permear é: como desejamos acolher e “viver à luz dessa luz”?
2 Exegese O Evangelho de João apresenta João Batista, enviado de Deus, ao qual compete testemunhar e falar da luz que vem de Deus (v. 6-8). Ao dar valor e testemunhar sobre a luz de Deus, João Batista acentua o valor da fé cristã. Os v. 19-23 apresentam o que podemos considerar como a primeira parte de um inquérito investigativo, uma interrogação de uma testemunha ou acusado. O ponto fundante dessa investigação é observado no v. 25: por que batizas? As perguntas formuladas e as respostas dadas fazem recordar um inquérito. De modo contundente se observa João Batista afirmando que ele não é Jesus. Nos v. 24-28, segunda parte do inquérito, persiste a tônica inquisitiva e João Batista aponta enfaticamente para o senhorio de Jesus (v. 26). É significativo observar que, no interrogatório, João Batista não permanece calado. Pelo contrário, aproveita a oportunidade, fala e testemunha sobre o significado e a importância de Jesus Cristo. Disse a que veio, sem maiores rodeios. João Batista enfrenta o interrogatório de modo singelo e humilde. Sobressai a sua personalidade humilde do deserto, vestido de trapos. Ele se alimentava de mel e gafanhotos. Em meio a essa humildade, ele fala de um reino que estava se aproximando. A primeira novidade era a pregação vinda do deserto falando de luz. Deserto é espaço de pouca vida, lugar árido e de dificuldades. Como pode surgir “renovo” desse meio? Sob esse aspecto se pode deixar um questionamento, que pode ser considerado na elaboração da mensagem deste dia: onde hoje se revelam os desertos e o que vemos brotando neles? João Batista sofre inquérito. Ele é investigado. Isso nunca é algo simples. Um inquérito é sempre momento de tensão, afinal, em última instância, é a liberdade da pessoa que está ameaçada. Mas, mesmo assim, vemos João Batista respondendo cheio de humildade e sem perder a oportunidade de testemunhar Jesus. Vindo do deserto, de região de pouca vida, sob risco e perigo, ele formula uma pregação que visa proporcionar e incentivar a vida, razão pela qual fala em endireitar os caminhos do Senhor. Portanto observamos que a passagem deste dia faz ver que do lugar de pouca vida, lugar de aridez, surge proposta inovadora que aponta para vida plena, digna e abundante (Jo 10.10). Olhando atentamente para o texto, observa-se o que já foi anteriormente mencionado, ou seja, o fato de João Batista agir e responder com naturalidade e humildade às questões que lhe eram propostas pelos seus interrogadores. Ele recusa o papel de personagem relevante na história. Está ali para preparar e mostrar
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o caminho para a salvação. Mas ele não é a salvação. O caminho requer a fidelidade ao Filho de Deus, bem como o seu seguimento com determinação e bravura. Por isso é importante olhar para a humildade de João Batista, observar sua forma de vida, seu jeito de agir e pregar, do qual se percebe um testemunho prático, assim como se observa nas orientações contidas em 1 Tessalonicenses 5.16-24. A forma do inquérito ao qual João Batista é submetido deixa evidente que as lideranças religiosas daqueles dias estavam preocupadas com a ação daquele personagem vindo do deserto e, especialmente, com o conteúdo de sua mensagem. Olhando o texto, observamos que as três primeiras perguntas feitas recebem respostas negativas. Na quarta questão apresentada, João Batista afirma enfaticamente: Sou a voz do que clama no deserto (v. 23). E essa voz prepara o caminho de Deus em nosso meio. O texto de pregação, conjugado com as passagens de leitura, oferecem um amplo leque de possibilidades para a mensagem deste dia. Não se deveria fugir do pano de fundo dos textos deste dia, no qual está colocada a presença de Deus que deseja ser luz e orientação para o seu povo. Aceitar essa luz e orientação requer se submeter a determinadas recomendações, assim como visto em 1 Tessalonicenses, bem como entender que é Deus que vem ao nosso encontro para que tenhamos orientação, esperança, consolo e fé, a fim de seguir na jornada.
3 Meditação O tempo de Advento apresenta a voz de João Batista que clama do deserto e que afirma vir para preparar o caminho. Essa voz e seu clamor visam proporcionar renovação, retirando-nos das trevas e apontando para a luz ofertada pelo Senhor da vida. Por isso Isaías 61.1-3,10-11 afirma um novo tempo, no qual deverá reinar a justiça, forte como um carvalho. Também em vista disso observamos que 1 Tessalonicenses 5.16-24 expõe recomendações variadas para o dia a dia comunitário. Essas recomendações apontam para a oração, para a vida em alegria e para a necessidade de ter gratidão. Esse tripé não pode ser esquecido jamais por uma pessoa cristã. Esse tripé deve ser o alvo de nossa caminhada comunitária. E esse tripé não é algo válido para alguns escolhidos. Ele representa o desejo de Deus para a sua criação. No Castelo Forte de 2017, na meditação do dia 21 de maio, lemos esta palavra de Lutero: A igreja na terra precisa estar e lutar em fraqueza, miséria, pobreza, medo, morte, humilhação e vergonha. Pois a situação de aperto certamente fará com que você saia de si mesmo e deixe de confiar em orientação, ajuda e força de pessoas, e tenha Cristo no coração e considere o seu nome, a sua Palavra e o reino de Deus as coisas mais importantes e valiosas do mundo. Pressupõe-se que João Batista, com a sua mensagem vinda do deserto, tenha oportunizado esperança e renovo para o povo do seu contexto. Advento, tempo de preparação, conduz pela mesma vereda. Advento visa preparar para celebrar o novo, o nascimento de Jesus, razão da nossa esperança. Com sua mensagem vinda do deserto, João Batista se torna propulsor da luz de Deus e da proposta de seu reino. Esse ato de ser propulsor do novo se dá por meio do testemunho
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humilde de João Batista. Como nós testemunhamos? Com ousadia? Como nós nos preparamos? O testemunho dado por João Batista pode ser interpretado no sentido de que a salvação não é alcançada por ação/obra humana, mas é obra de Deus. Em vista disso ele chama ao arrependimento, sendo esse o caminho indicado para estar preparado para a chegada do reino de Deus. Por isso nos referimos ao Advento como um novo tempo, uma nova oportunidade para buscar mudanças que perpassem a vida pessoal e comunitária. Porém, esse novo não pode ser esquecido assim que passou a festa do Natal. Esse novo deve permear o caminhar e o agir no novo ano que se coloca no horizonte, com seus desafios e suas possibilidades. Na mensagem do dia não se deveria deixar de apontar para o fato de João Batista ter ciência de seu papel no plano de Deus, plano esse que era preparar o caminho, apontar para possibilidades e desafios, mostrar meios e formas sob as quais seguir na jornada. João Batista fala em aplainar, em outras versões, em endireitar os caminhos. Também em nossos dias, o Advento aponta para isto: precisamos pôr em ordem aquilo que não está bem. Precisamos promover acertos, reconciliações e formas de caminhar juntos em diálogo e respeito. E, lamentavelmente, vemos nos últimos tempos debates e embates de posições políticas, teológicas, econômicas, de ideologia, onde lados se enfrentam, perdem a razão, perdem o respeito e pouco avançam. Vemos pessoas se encastelando à frente de seu celular ou computador e dali disparam mensagens, críticas, agressões de diferentes matizes, como se esse fosse um caminho para mudança e transformação. Logo, não há como fugir do questionamento: como vivo o tempo de Advento e como me preparo para a celebração do Natal? Como desejo enfrentar o novo ano que Deus já coloca no horizonte? Quais as alegrias e esperanças que são luz nessa caminhada? Os textos bíblicos incentivam, exortam e apontam para a necessidade de buscar e estar vigilante, em oração, sóbrio e com a alegria que a fé proporciona. 1 Tessalonicenses 5.16-24 é um roteiro para a pessoa cristã seguir, se portar e agir ao longo de sua jornada neste mundo. Esse roteiro tem o intuito de preservar nossa integridade para a vinda do Senhor. É importante viver focado em Deus, em Jesus Cristo e no Espírito Santo, permitindo que a Trindade conduza e oriente os nossos passos e nossa ação. Advento é o tempo especial no qual se destaca que Jesus Cristo é o caminho certo, que a oração e preparação são fundamentais para estar apto a seguir confiante.
4 Imagens para a prédica A caminhada de uma comunidade cristã deve sempre almejar o testemunho da Boa-Nova e suas implicações. João Batista surge do deserto, em posição de humildade e a partir disso prepara o caminho para a vinda de Jesus. Assim, ele se colocou como protagonista e servo de Deus. Como fazemos isso hoje em nossa comunidade? Advento é tempo especial de rememorar a comunidade do fato de termos que agir e nos portar para sermos testemunhas exemplares de Deus em nosso meio. A estrutura da mensagem deste dia poderia ser formulada em torno de:
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a) A humildade de João Batista. O que aprendemos dela? Apontar para a simplicidade de João Batista, suas origens, o inquérito sofrido e a sua conduta humilde, sem deixar de dar testemunho contundente de Deus. Como comunidade, conseguimos agir assim? b) A salvação não pode ser comprada, não é alcançada por nós mesmos. Ela não é produto de comércio. Poder-se-ia fazer referências ao uso do Evangelho para alcançar poder e finanças fartas, fazendo ver que a proposta do Reino é distinta e que como comunidade temos um papel nessa tarefa. c) Onde e como damos o nosso testemunho e como ele transforma? Exemplificar com ações práticas do contexto comunitário, mostrando de que forma é possível promover transformação, sendo luz de Deus para a transformação do meio. d) Somos colaboradores de Deus na proposta do Reino. Advento quer nos deixar preparados para tal. Deus jamais deixou o seu povo abandonado. Ele veio ao longo da história e continuará vindo e orientando na caminhada, razão pela qual estamos às vésperas da celebração do Natal.
5 Subsídios litúrgicos Acolhida: Vimos a terceira vela da coroa de Advento ser acesa. Sabemos que neste período celebramos a vinda do Jesus menino e também celebramos a espera pela segunda vinda de Jesus em glória e poder. Mas será que nós queremos celebrar somente isso? Ou também podemos celebrar a nossa vida? Um poema de um autor desconhecido, intitulado Meu Mundo, afirma: Saio pelas ruas e o que vejo? O reflexo do que há no mundo, do que marca a humanidade. A fome bate à porta e invade a vida das pessoas. A violência interrompe vidas jovens sem piedade. As drogas, a bebida, destroem lares. O desemprego está estampado no rosto do povo, enquanto cifras estão estampadas nos olhos dos corruptos. Nos jornais, o sangue escorre por entre manchetes catastróficas. O povo está acorrentado a uma realidade que só não vê quem não quer. A corrente machuca as mãos e transforma a vida numa prisão, nesta terra onde muitos têm pouco e poucos têm tudo. No rosto se vê estampado o desejo pela mudança e ela depende de nós. Pregação: O poema a seguir pode ser usado na pregação: Transformemos o mundo num mundo de paz, com justiça e direitos iguais. Onde não haja ódio ou cobiça, e a morte da identidade humana não seja celebrada com a vitória da vida. Um mundo onde o sangue não seja o troféu dos que se dizem mais poderosos. Onde os lares sejam reconciliados e todos tenham seus direitos respeitados.
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Que cada um possa ter seu próprio sustento e a corrupção que impera seja substituída pela conscientização. Que ao invés de muitos terem pouco ou quase nada, que todos tenham tudo que necessitam. Que as armas se tornem flores, os canhões arbustos, e as algemas e correntes que prendem vidas sejam jogadas para longe. Que todos possam andar juntos como uma única nação, de mãos dadas se colocar ao redor do mundo. E lançar a fé, a esperança e o amor e que todos vivam unidos como irmãos e irmãs. (autoria desconhecida) Bênção: Senhor, tu que és a fonte da bênção, abençoa-nos. Tu que és a fonte da força, fortalece-nos. Tu que és a fonte do amor, anima-nos para amar todas as criaturas e a, confiantes, seguir teus caminhos. Amém.
Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O NT interpretado versículo por versículo. Lucas e João. São Paulo: Hagnos, 2002. BLANK, J. O Evangelho Segundo João. Petrópolis: Vozes, 1990.
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4º DOMINGO DE ADVENTO
24 DEZ 2017
PRÉDICA: ROMANOS 1.1-7 ISAÍAS 1.1-9 LUCAS 2.1-7
(NOITE DE NATAL) Geraldo Graf
1 Introdução Neste ano, o 4º Domingo de Advento coincide com a Véspera de Natal. Em várias comunidades, o culto matutino não será realizado em virtude da programação natalina à noite. Sugerimos o texto de Romanos 1.1-7 onde, neste dia, o foco for a celebração do nascimento de Jesus.
2 Quanto ao texto: Eis que vos trago uma boa nova! Tanto a introdução como a conclusão de Romanos não deixa dúvidas de que se trata de uma carta (epístola). Há dois mil anos, não se usavam envelopes. Por isso remetente e destinatário eram identificados no topo da carta, logo no início da mesma. Era o estilo da época. Além disso, era usual apresentar um escopo (uma síntese) do assunto a ser tratado. Hoje, os e-mails seguem este modelo: quem envia – para quem – assunto. No término da carta (Rm 16), aparecem, como de costume, as admoestações e as saudações finais. Paulo usou esse modelo e desenvolveu a introdução em sete versículos, fazendo uma autoapresentação e comunicando, resumidamente, o motivo principal de sua carta, que seria o fio vermelho de toda a epístola. Paulo escreveu essa carta aos cristãos em Roma. A comunidade era composta por cristãos provenientes dos mais diversos lugares e origens. A capital do Império Romano atraía pessoas de todas as partes, vindas voluntariamente ou forçadas (escravos reféns de guerras). Havia cristãos de origem judaica, de tradição religiosa greco-romana e de muitos outros credos e povos. A tradição religiosa original ainda estava muito arraigada nas pessoas. Essa diversidade provocava algumas tensões e conflitos na comunidade de Roma. Através da carta, Paulo transmitiu uma doutrina ampla, fundamental e sistemática da fé cristã e procurou promover a união dos cristãos romanos sob o senhorio do único e verdadeiro Salvador: Jesus Cristo. Paulo se intitulou “servo” (doulos = escravo). Diferentemente dos escravos em Roma, que não tinham liberdade, Paulo se declarou servo de Jesus Cristo. Verdadeiros servos de Jesus Cristo são aqueles que se submetem voluntariamente e servem por amor. A liberdade em Cristo (Gl 5.1) nos motiva a servir o Senhor no próximo em obediência e fé. Paulo também se declarou “apóstolo”, mensageiro de Deus. No Novo Testamento, é anunciado que o Espírito Santo concede dons espirituais. Um deles é o dom de ser apóstolo (1Co 12.28s). Paulo foi chamado e enviado para dizer às pessoas como elas poderiam se tornar cristãs, para anunciar o Evangelho de
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Deus. Paulo não pregou a si mesmo, mas atendeu ao mandato que vem do alto. Ele não escreveu somente para os romanos, mas sua mensagem vale para os cristãos de todos os tempos e lugares. Também para todos e todas que se reúnem nesta Véspera de Natal, em 2017. Dois aspectos são ressaltados por Paulo acerca do Evangelho: a) Ele já fora profetizado anteriormente (Antigo Testamento); b) É o Evangelho que anuncia Jesus Cristo, o Filho de Deus, nascido da descendência de Davi. Tudo isso é comprovado pela ressurreição de Jesus, que dá credibilidade à mensagem da Salvação. Paulo também apontou para a obediência e a fé (obediência para crer e obediência através da fé). Obediência significa dar ouvidos à palavra de Deus, aceitar e crer, viver ativamente, segundo ela.
3 Quanto ao conteúdo: Jesus é Senhor! Todo o conteúdo da Carta aos Romanos gira em torno do Evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele é apresentado na introdução e é o fio vermelho de toda a carta. Sobre a importância desse Evangelho, Martim Lutero escreveu na sua Introdução à Carta aos Romanos: Sem dúvida, esta Epístola é a parte principal do Novo Testamento e o Evangelho mais genuíno. Vale a pena e merece não só ser decorada pelos cristãos, palavra por palavra, mas que os mesmos também se alimentem dela como pão diário da alma. Ela jamais será totalmente esgotada na leitura e na contemplação. Quanto mais consultada e estudada tanto mais preciosa e saborosa será. Assim escreveu Paulo: Aos cristãos em Roma, vocês são amados por Deus. Vocês são santificados. Eu desejo que na vida diária vocês experimentem a paz do Pai celestial. Eu lhes anuncio o Evangelho de Jesus Cristo, o único e verdadeiro Senhor. Desde que ele ressuscitou dos mortos, ele tem a soberania sobre todas as coisas. Para ampliar o raio de sua influência, governantes enviam emissários aos povos. Semelhantemente, Paulo foi um enviado pessoal do rei Jesus. E foi ousado no seu testemunho. Roma era a capital do império. Lá era governante o homem mais poderoso da época, o Imperador. Entre seus títulos constavam: “filho dos deuses” e “senhor” (Kyrios). Seu nascimento fora anunciado como “boa-nova” (evangelho). Na sua pessoa, ele concentrou todo o poder do império e exigia submissão e fidelidade de todos os governados. Contrariando tudo isso, o apóstolo enviou uma carta aos cristãos que viviam na capital desse imperador, e já na introdução da mesma, ele acentuou que Jesus é o verdadeiro e único Senhor. Paulo lembra que Jesus, o Filho de Deus, é humanamente um descendente de Davi, portanto pertencente a uma casa real, que já existia há mil anos, muito antes da fundação de Roma. Muito mais do que a genealogia real de Jesus, decisiva é a constatação de sua ressurreição dentre os mortos, que mostra um poder acima do poder de todos os tiranos e ditadores. Esses têm o poder de tirar a vida, mas não de criar nova vida. Fazendo a ligação com o Antigo Testamento, Paulo lembra que há muito tempo os profetas já haviam anunciado que Deus enviaria um Messias para liber-
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tar seu povo e que ele reinaria com justiça. Durante muitos anos, o povo alimentou essa esperança de que um dia Deus enviaria alguém para eliminar a violência e a injustiça e para estabelecer um reino de paz. Paulo afirma: Esta promessa já se cumpriu! Deus é fiel e cumpre suas promessas. O Messias prometido já veio. É Jesus, nosso Senhor, o ressuscitado. Ele me enviou para anunciá-lo a todas as pessoas e reunir aqueles que lhe dão ouvido e nele creem. Essa é a mensagem do Evangelho, essa é a Boa-Nova. Ela aponta para o Salvador e para as transformações que acontecerão no mundo. O Evangelho revela que, com sua vinda, o Filho de Deus se tornou gente, viveu e morreu pela humanidade. A morte pareceu um sinal de fraqueza e de derrota. Porém, na ressurreição de Jesus, Deus revelou que, de fato, ele é seu Filho amado e Senhor. E ele enviou o Espírito Santo para incluir as pessoas nessa nova vida em união com Cristo. O verdadeiro Senhor (Kyrios) do mundo não é o imperador romano ou qualquer outro governante ou poder econômico. Senhor é este totalmente outro, que exerce o poder de forma totalmente diferente. Seu poder se manifesta no fato dele conquistar e transformar os corações das pessoas, superando pecado, morte e mal. Este é o Evangelho que Paulo anuncia na Carta aos Romanos: o poder da vida, da solidariedade e da liberdade a partir da ressurreição de Cristo. Esse poder está agindo e nada nem ninguém pode impedi-lo. Os cristãos são aqueles que se deixam cativar e conduzir por esse Senhor e se colocam a seu serviço no mundo. Compreende-se o significado do Natal a partir da ressurreição de Jesus. O convite está lançado!
4 Quanto à mensagem: Natal é Deus conosco Véspera de Natal: muitas luzes, enfeites, presentes, chocolates, ceia, família reunida. Qual é o significado de tudo isso? A resposta nós iremos saber somente quando as lanternas estiverem novamente guardadas, chocolates e biscoitos consumidos, presentes desembrulhados, visitantes tiverem ido embora. O que sobrar, esse será o significado que nós damos ao Natal. O apóstolo Paulo nos envia uma carta e nos anuncia o verdadeiro e único Evangelho: Deus vem a nós por meio de seu Filho Jesus Cristo. É essa mensagem que quer nos acompanhar depois das festividades do Natal e fazer morada em nossa vida. O texto de Romanos 1.1-7 não nos conta a história clássica do Natal com presépio, menino Jesus, José e Maria, pastores, magos e anjos. Porém, em sua mensagem, ele é o mais genuíno Evangelho, que nos fala da vinda de Jesus Cristo, do menino que nasceu na manjedoura de Belém, descendente da casa de Davi, que foi crucificado e que ressuscitou na manhã da Páscoa. De acordo com o apóstolo Paulo, Natal se explica e se compreende a partir da Páscoa, a partir da ressurreição. Paulo não conta uma história de Natal, como estamos acostumados, mas testemunha aquilo que o Natal quer desencadear em nossa vida. O seu testemunho é este: Deus veio a nós na criança de Belém. Deus veio a nós no crucificado. Deus está conosco no ressuscitado. É Natal! Em Cristo, Deus está conosco. Essa é a mensagem que Paulo anunciou aos cristãos da comunidade em Roma. Essa é a mensagem que ele anuncia a cada pessoa reunida na Véspera do
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Natal, para que, além dos presentes e das festividades, permaneçam a aceitação do genuíno Evangelho, a acolhida da graça de Deus, a obediência em fé à sua Palavra, a confiança na sua presença e no seu cuidado, a disposição para servir, anunciar e vivenciar esse Evangelho. Esta é a Boa-Nova: Deus vem a nós através do Filho, na criança deitada na manjedoura, na prática do amor através de Jesus, entre os mais sofridos e desamparados, no sacrifício da cruz e na vitoriosa manhã da Páscoa. Quem ouve Jesus, ouve o Pai (Jo 12.44-45). E não existe poder deste mundo que consiga “fazer sombra” ao senhorio de Jesus Cristo. Esse é o legítimo Evangelho do Natal! Qual é a nossa missão? Paulo escreve sua carta para despertar em nós a confiança, a fé em Deus. Por isso sua carta é Evangelho para ser lido e proclamado no Natal. Para crermos! Se confiarmos em Deus, na sua presença em nossa vida através de Cristo, então seremos verdadeiramente livres. Livres para servir! Essa obediência na fé e pela fé nos permite seguir os passos da criança de Belém, do homem de Nazaré. Quem se coloca a serviço de Jesus Cristo não se conforma em deixar tudo como está, não se conforma com a violência e o terror que grassam no mundo; quem carrega a criança de Belém no coração luta contra toda forma de fome e indiferença social; quem vive unido com Cristo responsabiliza-se pelos desalojados, despatriados e refugiados; quem confia na presença de Deus através do ressuscitado deixa de pensar somente em si e abre o coração para as pessoas que estão à sua volta. Foi exatamente isso que Deus fez conosco. Ele veio a nós, pecadores, através do Filho e nos resgatou, dando-nos graça e apostolado por amor do seu nome (v. 5). O Evangelho do Natal nos envia a anunciar e vivenciar essa Boa-Nova. Natal é o Evangelho que nos anuncia: Deus está conosco!
5 Conclusão “Eu, (...), filho/a de Deus, pastor/a (ministro/a) de vocês, me alegro em poder falar a vocês da grande alegria que Deus nos prometeu desde os tempos antigos, para vocês e para mim, para nossos pais e para nossos antepassados. Eu me alegro em poder falar a vocês de Jesus Cristo, nosso Salvador, que nasceu para ser luz no meio de nossa escuridão. No ar que respiramos, Deus está presente! Em cada momento. E me causa grande alegria poder anunciar esse Evangelho a vocês, meus irmãos e minhas irmãs, vocês que são os amados de Deus, chamados para serem santos aqui em (…). Graça seja a vocês e paz de Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Amém. Sugestão: Na Véspera de Natal, muitas comunidades fazem uma programação com teatro de Natal. Onde isso acontece, a mensagem costuma ser mais breve. Sugestão é pedir que alguém adentre o recinto trazendo uma carta de Paulo, o texto bíblico (pode ser em forma de pergaminho). Esse pode ser lido por uma liderança da comunidade. A mensagem (pregação) pode ser feita em diálogo com a comunidade.
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Bibliografia JANSSEN, Martina. Predigt zu Römer 1:1-7. Disponível em: <www.predigten. uni-goettingen.de>. Göttinger Predigten im Internet, 2009. LOHSE, Eduard. Das Präskript des Römerbriefes als theologisches Programm. In: TROWITZCH, M. (Hrgb.). Paulus, Apostel Jesu Christi. Tübingen: FSG Klein, 1998. p. 65-78. LUTHER, Martin. Die Epistel St. Pauli an die Römer. In: Luthers Epistel-Auslegung. Stuttgart: Verlag der Evangelischen Bücherstiftung, 1866. p. 69-73.
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PRÉDICA: LUCAS 2.(1-7)8-20
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ISAÍAS 52.7-10 HEBREUS 1.1-4
25 DEZ 2017
Kurt Rieck Rafael Mosak Krüger
O grande anúncio
1 Introdução O texto previsto para a prédica deste dia de Natal é Lucas 2.8-20 (opcionalmente também os v. 1-7). Os textos paralelos são Isaías 52.7-10 e Hebreus 1.1-4. Um tema comum aos três textos é o anúncio da salvação. O texto de Isaías inicia saudando o mensageiro que traz uma boa notícia. O conteúdo dessa notícia é a salvação de Sião, que será operada por Deus. Tal boa nova traz paz e alegria aos seus habitantes. No texto de Lucas, o anúncio da boa notícia se dá através de um anjo, que aparece aos pastores durante a noite. Ele também traz alegria, pois é a notícia do nascimento do Salvador, de forma que não se refere a um evento futuro, mas a um fato acontecido. Após esse anúncio, os pastores vão a Belém e encontram a situação exatamente como descrita pelo anjo. O texto de Hebreus apresenta o anunciador, sendo ele o próprio conteúdo da mensagem. O Filho, por meio de quem Deus falou, é o próprio Salvador. Esse que purificou os seres humanos por meio de sua morte e ressurreição, agora se assenta ao lado de Deus, com toda a glória.
2 Exegese Vejamos detalhes de cada versículo. v. 8 – Apresenta a figura de pastores de ovelha, cuja prática é outra do que a conhecida no contexto brasileiro. No período patriarcal, devido ao estilo de vida nômade, as tribos dependiam dos seus rebanhos. A tarefa era difícil, pois consistia em encontrar pastagens durante os períodos de seca, assim como proteger o rebanho contra ladrões e animais selvagens. Mesmo após a ocupação de Canaã, após o êxodo, a cultura do pastoreio permaneceu como uma das alternativas de vida. No período pós-exílico, o pastoreio é desvalorizado, especialmente por parte dos fariseus. Os pastores recebiam baixos salários, eram tidos como desonestos e lhes eram negados seus direitos civis. Devido aos seus ofícios, eram incapazes de cumprir as exigências da lei, resultando em ainda mais desprezo por parte dos fariseus. Apesar desse conceito negativo, o Novo Testamento apresenta a profissão pastoral como honrosa e utilizada por Jesus como metáfora do amor de Deus para
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com os pecadores. Apenas na perícope em análise, pastores exercem uma função ativa. Nas demais menções, trata-se de figuras de linguagem ou parábolas. v. 9 – O grego clássico emprega o termo angelos para o mensageiro/embaixador, que fala em nome de quem o enviou. No Antigo Testamento, anjos são seres celestiais, pertencentes à corte de Javé. Esses o louvam e servem. Por outro lado, o AT conhece a figura do Anjo de Javé, como vemos em Êxodo 14.19, Números 22.22 e 2 Reis 1.3-4. É um ser celestial com uma tarefa específica. Neste caso, a personalidade do anjo fica em segundo plano, pois se trata de uma aparição de Javé através do seu Anjo, que vem para ajudar Israel. No evento da aparição de anjos acontece a irrupção do mundo sobrenatural no mundo natural. No NT, os principais momentos da história de Jesus são marcados pela presença de anjos. v. 10 – Essa irrupção sobrenatural causa medo nos pastores. Porém, os anjos os acalmam. Sua missão é pacífica e traz uma boa nova de grande alegria. Esse “evangelho de alegria” se destina a todo o povo. v. 11 – Anuncia aos pastores a identidade do menino nascido, ou seja, conformidade com o que mais tarde se transformou na confissão de fé da igreja primitiva, Jesus Cristo, Filho de Deus, o Salvador. A palavra soter/salvador remonta a conceitos veterotestamentários atribuídos a um líder nacional ou a Deus. Nesse sentido, Jesus é o Salvador de Israel, escolhido e capacitado por Deus para tal missão. A origem da designação de Jesus como Salvador se deriva a partir do próprio nome “Jesus”, que significa “Javé é salvação”. A palavra Cristo é o correspondente grego da palavra hebraica “Messias”, que se refere a uma pessoa cerimonialmente ungida para ocupar determinado cargo. No AT, os detentores de dois cargos recebem essa denominação: o sumo sacerdote e o rei. Porém, apenas sobre o rei recaem as expectativas messiânicas. O NT não olha mais para a chegada do Messias como expectativa, mas como cumprida em Jesus de Nazaré, de tal forma que todas as menções a Jesus pressupõem que ele seja o Cristo. Tanto é que a palavra “Cristo” logo veio a se tornar nome próprio. O termo kyrios é o correspondente grego para o hegraico adonay e, portanto, foi utilizado para traduzir o tetragrama YHWH, na versão grega do AT, seguindo a tradição de não pronunciar o Nome de Deus. O senhorio de Deus é consequência do seu domínio sobre a criação, visto que essa é obra sua. O senhorio de Jesus é resultado de sua exaltação, que passa pela cruz e pela ressurreição, por meio da qual ele recebe “nome sobre todo nome” (Fp 2.9). Assim, a comunidade cristã paulina confessa que “Jesus Cristo é o Senhor”. v. 12 – Como, porém, reconhecer esse Messias que nasceu? Antes de sua canção de despedida, os anjos anunciam um sinal, a fim de que os pastores tenham certeza da identidade do Salvador. Ele não se encontra em um palácio, mas “envolto em faixas e deitado em manjedoura”. v. 13 – A expressão grega plethos stratias ouraniou (uma multidão de outros anjos/NTLH; uma multidão da milícia celestial/RA) é semelhante ao texto hebraico zeba ha-schamain (com todos os seus anjos/NTLH; e todo o exército do
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céu/RA) que encontramos em 1 Reis 22.19. O texto de Lucas ressalta ser “uma multidão”, mas permite deduzir ser apenas uma parte de um todo maior. Os pastores foram testemunhas de uma grande festa de anjos. O primeiro canto de Natal foi executado pelos anjos. v. 14 – Glória a Deus nas maiores alturas do céu e paz na terra para as pessoas a quem ele quer bem! Os anjos louvam o nascimento de Jesus. Algo transcendente aconteceu. É lá do alto, de um lugar indescritível, que procede um louvor e desce entre os humanos. Deus é glorificado. Trata-se de uma expressão extraordinária, de enorme impacto naqueles que fazem parte desse momento. Lutero, baseado em edições bíblicas de seu tempo, dividiu essa frase em três partes: 1. Glória a Deus nas alturas; 2. paz na terra; 3. entre as pessoas a quem ele quer bem. Nessa versão, eudokia encontra-se no nominativo. Eudokia, em manuscritos mais antigos, como o Vaticanus e Sinaiticus, encontra-se no genitivo. Desta forma, o texto se divide em dois: 1. Glória a Deus nas maiores alturas do céu!; 2. E paz na terra para as pessoas a quem ele quer bem! A primeira parte tem seu olhar dirigido ao céu. A expressão grega doxa significa glória, honra, majestade, esplendor. No hebraico, kabod significa “sua honra/reputação”. A encarnação de Deus na pessoa de Jesus é um fato histórico extraordinário, único, que não pode ser compreendido apenas com a dimensão da nossa humanidade. A segunda parte relata o que acontece na terra. A versão portuguesa IB (Imprensa Bíblica Brasileira) traduz: “entre os homens de boa vontade”. Considerando essa tradução, a paz não se destina a todos? É de Deus que procede a paz. As atitudes de Jesus frente a diversas situações cotidianas demonstram uma postura capaz de promover a paz entre as pessoas. A paz é presente divino para todos os que creem e vivem a boa nova de Cristo. Essa fé redunda em salvação da humanidade. Eirene, Shalom – quanta força há por trás dessas palavras. A paz é o próprio Senhor Jesus (Ef 2.14-17). Ele é a paz que temos de viver. v. 15 – Os anjos voltam ao céu. Eles transitam entre o céu e a terra. Trata-se de uma perspectiva não humana. Os pastores foram para Belém. Convencidos da autenticidade da experiência vivida, colocaram-se a caminho, obedientes ao que ouviram. Eles reagem positivamente. Acreditam. Reconhecem ser revelação de Deus. A experiência de fé lhes faz andar. A palavra dita pelos anjos foi primeiramente apenas ouvida. Essa palavra precisava ser vista. A boa nova não é apenas ouvida, mas é também presenciada. Ela é experimentada com todos os sentidos. Vamos ver o que o Senhor nos contou. v. 16 – Os pastores reagiram depressa. Foram e encontraram a manjedoura tal qual lhes havia sido contado (v. 12). Aquele bebê era nada mais nada menos do que o Messias, motivo suficiente para se ter pressa em vê-lo. A imagem da estrebaria foi retratada de diversas formas. Dentre as não tão conhecidas encontramos a caverna, dentre as muitas que haviam nas rochas calcárias da Judeia. Também poderia ser um cômodo estendido de uma casa. v. 17 – Os pastores contaram para Maria e José a experiência vivida quando da aparição do coro dos anjos. O que se lhes tinha sido dito agora estava na sua frente. Eles contaram o que ouviram e viram.
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v. 18 – Maria, José, enfim, todos que ali estavam ficaram admirados pelo relato que ouviram dos pastores. Maria sabia do que se tratava. Um anjo também a havia visitado. O mesmo se deu com José. Embora admirados pelo relato, havia uma linguagem comum e compreensível para os que ali se encontravam. Todos foram visitados por anjos. v. 19 – Neste momento nada de apoteótico acontece. Maria não está sendo visitada pelo exército celestial. Ela está sendo visitada por pessoas muito simples que têm algo para lhe contar. Ela se encontra na sua pequenez, numa estrebaria, com poucos recursos. Tem seu primeiro filho, com tudo para aprender acerca da maternidade. Ela não recebe outra revelação a não ser as palavras trazidas pelos pastores. O que naquele instante move a sua alma são essas palavras. Meditar nas palavras ditas foi o que Maria se colocou a fazer. Meditação é aquilo que move o íntimo, está no centro da pessoa e tem nela a sua morada. v. 20 – Os pastores voltaram ao seu cotidiano, ao relento, às noites frias, aos perigos do ofício, aos dias de sol e chuva, em busca de água e pastagens. Certamente a experiência tida impactou positivamente no seu modo de vida. O que provém do transcendente repercute diretamente no imanente, proporcionando uma nova forma de encarar a vida.
3 Meditação: O grande anúncio Lá estavam os pastores, gente simples, com a expectativa de um novo dia. Algo inesperado e extraordinário acontece. A presença de um anjo é impactante, mas ainda maior que a presença dele é a notícia trazida. a) Nasceu o Salvador de vocês A circunstância em que o povo se encontrava era deplorável. A espera por uma boa notícia era latente. Não mais se suportava a realidade social, política e religiosa. Algo precisava acontecer. Mudanças se faziam necessárias. A hora chegou para que essa expectativa fosse cumprida. De que forma uma notícia dessa envergadura poderia ser difundida? Percebam a singeleza dos fatos. Os primeiros chamados foram pessoas do campo, pastores, gente muito simples. Segue a mesma lógica do nascimento de Jesus. No versículo 11 temos uma descrição detalhada de quem se trata. Dá-se o endereço e a identidade. O título dado ao que nasceu é extremamente claro. Não há dúvida, esse que nasceu é realmente o Messias esperado. b1) Glória que vem dos céus Acreditamos nas palavras do evangelho. Sabemos que anjos existem. Eles se manifestam quando as circunstâncias exigem a sua presença. Nossa fé não depende desse evento. Mas se necessário for, também presenciaremos semelhante experiência. Anjos são seres celestiais, não humanos, com a missão de proclamar a boa nova. Possuem um poder de convencimento que extrapola a realidade humana. O anúncio simples se deu por intermédio de um anjo, e esse anúncio foi sublinhado
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por um exército celestial. Muitos “anjos” nos rodeiam no nosso cotidiano, pessoas comuns que nos auxiliam com palavras de alento e orientação, ou ajudando concretamente em situações diversas. Porém, aqui se trata de um acontecimento transcendente. Um coro de muitas vozes é impactante. Emociona, toca a alma, fala com uma linguagem que transcende simples palavras. É uma composição de texto e melodia. Assim, os pastores são visitados. É algo extraordinário. Nasceu o Messias e essa verdade devemos repassar aos que estão celebrando o Natal. A força desse evangelho é impactante. A encarnação de Deus é impactante. Portanto a celebração de Natal precisa ser impactante. Não é qualquer coisa que aconteceu. Deus se fez gente. Essa notícia foi e é única, e jamais se repetirá. Não pode haver notícia maior do que essa. Cabe fomentar uma sincera e profunda adoração a Deus. b2) Paz que desce à terra Jesus é o príncipe da paz e ele deseja que as pessoas vivam em paz. São as pessoas que causam o caos, a injustiça, o desgoverno, a miséria, a corrupção e as guerras. O propósito de Deus para com a humanidade é o que se encarna no Cristo. As comunidades cristãs querem ser um ensaio dessa nova ordem que Jesus chamou de reino de Deus. Paz não é um sentimento, mas uma situação de vida¸ que não pode ser abalada por sofrimento algum. Paz não é ausência de conflitos, mas é saber lidar com eles. Paz acontece lá onde Jesus se torna Senhor. São inúmeras as situações em que Jesus agiu pela paz. Mostrou concretamente como se exercita o amor incondicional, movido por uma força transcendente. Há situações nos relacionamentos humanos em que a reconciliação parece impossível. Dotados do Espírito Santo de Deus, tornamo-nos promotores do perdão, da reconciliação, da misericórdia, da compaixão. É desse ambiente que procede a verdadeira paz. c) A resposta dos pastores A mensagem, tão surpreendente, não poderia ser ignorada. Tal evento precisa ser visto com os próprios olhos. Os pastores vão depressa para Belém. Depois de tudo que experimentaram, eles não hesitam em fazer tudo o que lhes foi dito. A visita dos anjos lhes pôs a caminho. De muitas formas também Deus nos visita. A palavra de Deus nos visita e nos põe a caminho. Temos uma tarefa nobre em nossa existência e ela se dá neste momento de adoração, quando aqui nos encontramos para festejar o nascimento de Jesus. Repetimos o gesto dos pastores, chegando em comunidade para celebrar o Natal. Também damos a nossa resposta em decorrência desse evento único, magnífico, extraordinário da encarnação de Deus em Jesus. d) Meditar com Maria Ir meditar com Maria é se aquietar, silenciar, entrar em um espaço de introspecção. No fundo da alma reside o sentimento de fé, a convicção da verdade do fato ocorrido. O exemplo de Maria, o meditar, precisa ser reaprendido. Implica
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contemplar a grandeza dos feitos de Deus. Maria sabia quem era o pai da criança. Sabia, embora admirada, do significado do testemunho dos pastores. Tudo convergia na natureza divina de Jesus. Aquele bebê é o próprio Deus visitando a humanidade. A certeza da obra salvífica de Cristo nos leva a crer em Deus. Sem Cristo, não temos como fazê-lo. Deus desce de sua grandeza e se torna gente, valendo-se da linguagem humana para comunicar a salvação que há para a humanidade.
4 Imagens para a prédica Canalizando a mensagem na figura dos anjos, enfatizaremos a força de elementos transcendentes no imanente. É necessário encontrar algum exemplo local em que se possa relatar esse extraordinário. Deus continua se valendo de experiências que fogem à lógica racional. Os anjos são arautos da paz, arautos daquele que traz a paz. Observando os pastores, poderemos olhar para aqueles que foram tocados pelo evangelho de Jesus Cristo e saíram correndo para ver a mensagem de Deus encarnada. Ela é tão impactante que retornam ao seu cotidiano, expressando a enorme alegria provinda da pessoa do Messias. Poderíamos nos deter na canção entoada pelos anjos: Glória a Deus nas maiores alturas do céu! E paz na terra para as pessoas a quem ele quer bem! Dirigimos nosso olhar aos céus e também ao nosso redor. Dos céus percebemos a glória de Deus. Essa glória repercute nas relações humanas, promovendo a paz. Maria nos impulsiona a ter uma atitude de meditação. Num mundo atribulado, bombardeado de informações, somos convidados a nos aquietar e refletir acerca da grandeza da realidade da encarnação ocorrida na pessoa de Jesus.
5 Subsídios litúrgicos A canção a seguir merece ser vista com atenção pela sua melodia e texto. Depois de “Noite Feliz”, é a canção natalina mais cantada em nossa comunidade. Já é Natal no meu coração Já chegou mais um Natal e o presépio está a nos lembrar que nasceu na manjedoura o Rei e vieram os pastores para o adorar. Brilha a estrela a anunciar: Nasceu Jesus, o Rei. Venha adorar ao Rei, Senhor da Criação. Com Maria e José os reis magos adoraram o Salvador; e os anjos a cantar louvores deram glória e majestade ao Criador. Nasceu o Salvador da humanidade. A luz da verdade brilhou seu esplendor. /: Já é Natal no meu coração. Brilhou a luz na escuridão. O meu caminho iluminou; minha vida transformou. :/ Ele veio para nós; com humildade ensinou que seu reino é de paz, de gratidão, perdão e amor. Que é preciso acreditar num mundo bem melhor, que existe uma razão pra ser Natal no meu coração.
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Texto e música: Daniel Muniz (membro da Comunidade da Paz de Porto Alegre)
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Dia de Natal
Bibliografia BROWN, Colin; COENEN, Lothar (Orgs.). Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. v. 1. Guaratinguetá, SP: A Sociedade Religiosa; A Voz Bíblica. RIENECKER, Fritz. Das Evangelium des Lukas. Darmstadt: Brockhaus Verlag Wuppertal, 1982.
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1º DOMINGO APÓS NATAL
31 DEZ 2017
Véspera de Ano-Novo
PRÉDICA: GÁLATAS 4.4-7 ISAÍAS 61.10-62.3 LUCAS 2.22-40
Antônio Carlos Ribeiro
Filiação redime e bons poderes guardam
1 Introdução A indigência existencial humana é extremamente sofrida. Esvazia o cotidiano, destrói as expectativas e obscurece os horizontes, sem deixar qualquer esperança. De onde esperar um fundamento sólido, consistente e com densidade espiritual para a superação dos grandes sofrimentos? A resposta vem de leituras profundas, de esperanças abandonadas e retomadas, da coragem heroica para afirmar que ninguém pode nos arrancar o que não recebemos de humanos, que devemos nos agarrar àquilo que nos firma a existência desde nossos tempos imemoriais, como acontece com seres humanos. E que devemos afirmar, mesmo afrontando ilusões, fantasias e ideologias, a liberdade em Cristo. Essa foi a coragem do apóstolo Paulo na Carta aos Gálatas, já chamada de “o mais combativo dos muitos escritos combativos de Paulo”, mostrando que suporta o debate, não foge ao confronto e mantém a disposição de admitir os gentios ao evangelho – estrangeiros que não eram judeus – sem a necessidade de se submeterem à circuncisão. É o raciocínio que desenvolve nessa carta. O apóstolo passou pela região em sua segunda viagem missionária, quando chegou à região da Galácia (At 16.6), retornando a segunda vez no início da terceira viagem (At 18.23). Esse nome se origina dos gauleses, que emigraram da Europa para essa região da Ásia Menor, atual Turquia, no século II a.C. A tensão passava pela visita já feita por ele aos gálatas. Surgiram tensões nessas comunidades, como a imposição da circuncisão aos gentios convertidos pelos judaizantes e a observância da Lei de Moisés (Gl 1.6-10; 5.7-12). Havia pessoas que questionavam a legitimidade apostólica de Paulo (Gl 1.1-2), outros parecem ter se afastado dos seus ensinamentos, levando-o a referir-se a eles como os que adotaram outro evangelho. Por isso a orientação do apóstolo aos gentios foi mais severa ao afirmar que se nós, ou um anjo do céu, pregarmos outro evangelho além do que o que vos pregamos, seja amaldiçoado (Gl 1.8). Das outras duas perícopes indicadas para a leitura, a primeira vem do testemunho do Dêutero-Isaías (61.10-62.3) em relação aos moradores de Jerusalém e que traduz a confiança dos que se sentem amparados na fé em Deus, orientando a comunidade a se sentir como um noivo que põe um turbante de festa na cabeça, como uma noiva enfeitada com joias (61.10). É o mesmo profeta do exílio que
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ajudará o povo a reeguer a cabeça e nutrir convicções, como não se calar e não descansar. A outra perícope é a do evangelista Lucas (2.22-40), com sua visão oriunda do mundo grego, e por isso mais racional. Ela descreve Jesus sendo levado por seus pais ao Templo para a cerimônia da purificação, como mandava a Lei do Senhor. Nessa circunstância, os pais e o menino encontram o piedoso Simeão, que esperava a salvação de Israel. Ele pegou o menino nos braços e louvou a Deus por estar vendo a salvação de Israel, apesar da idade avançada. Ao devolver Jesus a Maria, disse que ele seria a perdição e a salvação de muitos, além da satisfação e o desprezo que sofreria e a dor da perda que marcaria a mãe. Da mesma forma a profetisa Ana, piedosa e devota, louvou a Deus por ver Jesus com os pais no Templo. Os textos do profeta Isaías, do evangelista Lucas e da carta enviada à Galácia apontam para a promessa dos que têm uma firme esperança, dos que viram a esperança se concretizar no menino nascido e do apóstolo corajoso que viajou do mar Mediterrâneo ao território que hoje é a Turquia, movido pela fé universal no Cristo, pelo direito dessa gente poder vivê-la, e do poder do evangelho que relativiza todos os poderes religiosos, políticos e culturais, assegurando sua capacidade de professá-la. Essa compreensão renova nossa confiança dos brasileiros de que a atual crise da vida pública “comprada” – como se o país estivesse à venda – por grandes interesses internacionais e nossas elites incultas, mal-formadas, sem perspectiva de futuro e que reluta a acertar as contas com nosso passado escravista e explorador de imigrantes.
2 Exegese A perícope da pregação, Gálatas 4.4-7, conclui o raciocínio teológico da parte central da Carta aos Gálatas. Para Paulo, o ato de Deus ao enviar seu Filho e o Espírito Santo é o fundamento da filiação divina da pessoa cristã. Nele se firma o apóstolo Paulo ao comunicar a filiação divina dos cristãos a partir da encarnação de Jesus Cristo, o filho de Deus, nascido de mulher e sob a lei. O apóstolo dos gentios enfatiza a encarnação – adentrar a condição humana – como fundamento da divina adoção filial dos cristãos. O texto se estrutura da seguinte forma: nos v. 4-6, fala do tempo a partir da encarnação, pela qual enfatiza a adoção filial dos cristãos como dom recebido, sendo esse o ponto central do texto. Mas isso não significa uma existência distanciada dos sentidos e das lutas da vida, essa mesma que cria o espaço e o modo de ser, e possibilita expressar-se e empenhar-se por um modo de vida saudável, justo e digno para todos. Os gritos e os clamores dos cristãos são os mesmos do Filho de Deus. No v. 7, Paulo apresenta uma conclusão, após retomar o ato redentor de Deus no tempo antigo, antes da encarnação, na era de escravidão; em seguida, nos conduzindo ao ato da filiação, através da qual Deus nos acolhe para junto de si e do filho unigênito, dando-nos integridade pela filiação. O tempo da menoridade foi superado, possibilitando-nos viver de forma consciente, integrando o
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amor e os sentidos, e nos dando condições de viver o tempo da maturidade da fé, superado o estágio da menoridade. A partir dessa clareza, o apóstolo passa a defender sua atuação de pregador do evangelho de forma veemente (Gl 1.6-2.10), a combater o legalismo dos judeus-cristãos, exortando os gálatas a viverem sua conversão à fé cristã e a permanecerem firmes no amor, já que a plenitude da lei está no cuidar do próximo. É desse modo que ele convida os leitores a se guiarem pela liberdade cristã e pela ação do Espírito que produz frutos visíveis (Gl 5.13-26), e a decidirem se desejam viver segundo o instinto humano, egoísta e que conduz à morte, ou viver guiados pelo Espírito, que conduz à vida eterna. A grande contribuição de Paulo para a pregação do evangelho é a admissão dos gentios, os estrangeiros que não eram judeus e por isso ficavam alheios ao evangelho. Essa decisão afasta a necessidade de terem que passar pela circuncisão. Essa foi a compreensão teológica decisiva para afrontar o evangelho do ambiente cultural judaico e forjar um novo espaço cultural não judaico. Com o impacto teológico-cultural-social causado, o apóstolo Paulo precisa defender decididamente seu estatuto apostólico, sua pregação e sua compreensão do evangelho. Esse grande avanço na teologia paulina, já nos primeiros escritos, faz abrir trilhas, como a clara distinção entre fé e obras ou graça e lei, que aparece na Carta aos Romanos, embora já tenha aparecido na Carta aos Gálatas. Sabendo que um homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé de Jesus Cristo, cremos também em Jesus Cristo, para que sejamos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei, porque pelas obras da lei ninguém será justificado (Rm 2.16). Para construir seu fundamento teológico sobre a supremacia da fé, Paulo argumenta que Abraão é pai de Cristo, já que este é da “semente de Abraão”, que a lei é “nosso mestre de escola para nos levar a Cristo”, situando a história judaica como preparação para Cristo. Assim, no batismo todas as distinções entre Jesus e os gentios são removidas. Isso cria o estatuto libertador: porque vocês foram batizados para ficarem unidos com Cristo e assim se revestiram com as qualidades do próprio Cristo. Desse modo já não existe diferença entre judeus e não judeus, escravos e livres, homens e mulheres; todos vocês são um só por estarem unidos a Cristo Jesus (Gl 3.27-28).
3 Meditação: Viver pela graça sob a tormenta das elites O povo brasileiro sofreu abandono, perdeu parte das conquistas da última década e meia, conquistadas a duras penas, para quadrilheiros do desperdício do dinheiro público, legisladores corrompidos e juízes comprados a preço de soldo, coadjuvantes do golpe de uma mídia corrupta, faminta de poder, associada a criminosos, e que repete a mesma mentira, até se tornar verdade. Diante da perversidade do golpe midiático-parlamentar-judiciário, precisamos agir com clareza, sem perder a oportunidade de dialogar a respeito. A corrupção torna-se intensa e rápida, já que os golpistas não terão muito tempo para saquear. Por isso uma forma de denunciar a falsidade da objetividade das
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grandes empresas de comunicação é analisar seu discurso. Três ideias do filósofo e sociólogo Edgar Morin nos fazem pensar nos crimes midiáticos que sofremos: – “É necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade.” – “O que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente.” – “Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis.” Quando o conhecimento é um serviço à curiosidade das pessoas, a comunicação da imprensa é clara e supõe que ela não esteja corrompida, diz a primeira ideia. Quando se entende o conhecimento como uma tradução, os mais atentos esperam para saber os pressupostos e, logo, percebem como os pressupostos do órgão que informam são utilizados artificialmente e sem nenhuma responsabilidade com os leitores, a cidadania e o país, afirma a segunda ideia. O conhecimento como tradução sempre nos pede uma reconstrução, para fazer sentido, é a terceira ideia. Nestas circunstâncias em que vivemos, o risco apresenta o ponto vital não abordado no ensino: a possibilidade das pessoas ligarem as pontas e darem um nó no erro a que estão sendo induzidas. Para sair dessa charada, é preciso lembrar que somos idênticos e diferentes, exatamente o ponto do qual enxergamos melhor. Esse index sui et falsi, de Baruch Spinoza, já usado para desmontar a noção da única fé verdadeira, é o que nos ajuda neste momento. É aí que vamos perceber os erros de quem se atrapalha, e ao assumir seu discurso, expõe sua posição real.
4 Imagens para a prédica A letra do hino de Dietrich Bonhoeffer diante das atrocidades impostas pelo regime nazista nos ajudam sempre a recobrar a serenidade para perceber, nos organizar e nos preparar para enfrentar o mal, começando o novo ano com disposição e força. De bons poderes fiel e em paz cercado, tranquilo consolado, sem pesar, ao vosso lado nestes dias quero estar, convosco em ano novo entrar. Maravilhosamente bem guardados, confiantes esperamos o porvir. De noite e dia em Deus aconchegados e assim em cada dia que surgir. Ainda nos oprimem dias idos, fantasmas do passado sobrevêm. Ó Deus, concede aos homens desvalidos a salvação que guarda lá no além. E caso o amargo cálice servires, de sofrimento a transbordar, então mui gratos, sem tremer, conforme o queres, o recebemos de tua boa mão. Porém, se queres dar-nos alegrias no mundo, ainda, com o seu fulgor, então lembrar queremos idos dias, e a vida tua só será, Senhor. E que ardam hoje cálidas as velas que vieste em nossas trevas acender. E a todos nós reúne – que o concedas! A noite tua luz há de vencer.
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E quando agora a calma nos envolve, do mundo ouçamos o celeste som que imperceptível sobre nós se estende, dos filhos teus a glória em alto tom. Autor da letra: Dietrich Bonhoeffer Autor da melodia: Siegfried Fietz (Veja o vídeo do Coral da União Paroquial de Vitória, na Comunidade de Campo Grande: https://www.youtube.com/watch?v=hxZTDFkqCgY)
5 Subsídios litúrgicos Saudação: Amada comunidade, neste 1º Domingo após Natal, queremos renovar nossa confiança no Espírito, que não nos abandona na mágoa inútil, mas nos traz esperança diante do futuro. Não nos esquecemos dos grupos que controlaram nossa sociedade por séculos, amealhando nossas riquezas para construir as próprias fortunas com o fruto do trabalho do nosso povo. Oração: Ajuda-nos a recobrar nossa articulação para lutarmos por governos justos e bons, por parlamento que legisle para o bem-estar da nação e a riqueza distribuída aos filhos deste país e por uma justiça que cumpra o papel que lhe foi confiado pelo nosso povo. Que o Senhor nos liberte de espíritos maus, amplie os horizontes do nosso povo e nos restitua a serenidade para tomar decisões. Que mantenhamos a ousadia, o amor e a leitura dos sinais dos tempos. Para que possamos assumir a tarefa que nos confias, pedimos. Amém. Confissão e lamento pelos pecados: Pelas vezes que somos forçados a crer na mentira e a chamar a mentira de verdade, pedimos perdão, Senhor! Pelas vezes em que descremos o anúncio da salvação e praguejamos contra os criminosos que preferem lucrar a respeitar as demais pessoas, pedimos perdão, Senhor! Por falharmos na confiança de que és um Deus que acompanha o sofrimento dos pobres, mesmo num momento de tempo diferente do nosso, pedimos perdão, Senhor! Para termos coragem de enfrentar as elites corruptas, de denunciar, anunciar e atuar pela tua salvação, pedimos perdão, Senhor! Ajuda-nos a construir possibilidades de assumir riscos e viver desse modo, pedimos: Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Somos política e socialmente fracos, sustenta-nos em nossa fraqueza. Vem ao nosso encontro e nos chama à vida de comunhão para sermos libertados de medo, angústia e opressão na luta pela vida de compromisso, amor e dignidade para todos. Ajuda-nos a assumir tarefas e responsabilidades, em companhia de gente de fé firme e caráter, que assuma riscos em nome dos fracos da nossa comunidade de fé. Na tua esperança, clamamos. Amém!
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Bibliografia SCHERER, Cristina. Gálatas 4.4-7. 1º Domingo após Natal. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2008. v. 23. THE BIBLE AUTHORIZED KING JAMES VERSION. Introduction and Notes by Robert Carroll and Sthephen Prickett. Oxford: Oxford University Press, 2008.
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ANO-NOVO (NOME DE JESUS)
01 JAN 2018
PRÉDICA: LUCAS 2.15-21 NÚMEROS 6.22-27 FILIPENSES 2.5-11
Roberto Natal Baptista
1 Introdução O texto para a prédica de Ano-Novo em 2018 já foi analisado em Proclamar Libertação. Podemos ler o estudo de Werner Wiese no volume 34. Além desse comentário, temos outros que abrangem o nosso texto. No volume 24, para o dia de Natal, Günter Wehrmann trabalhou Lucas 2.(1-14)15-20. Já Geraldo Graf, no volume 37, trabalhou a perícope de Lucas 2.(15-20)21, também para o Ano-Novo – Nome de Jesus. Além desses textos, temos uma série de outros, de Lucas 2.1-20, com ênfase no culto de Natal, e ainda algumas liturgias sobre o nosso texto principal e também sobre nossas leituras. Se desejar, veja, por exemplo: <http://www.luteranos.com.br/textos/lucas-2-15-21-ano-novo-nome-de-jesus-01-01-2017>. Atualmente, está muito fácil ter acesso aos textos do Proclamar Libertação. Quando comecei a escrever textos, muitos pregadores e muitas pregadoras não tinham acesso a todos os volumes do PL em seus locais de trabalho. E lembro-me que eu carregava a preocupação de fazer a minha análise e, além disso, tentar recuperar os textos trabalhados anteriores e dispô-los aos leitores. Acredito que hoje não mais precisamos fazê-lo.
2 Exegese Para uma análise exegética, recomendo o texto de Werner Wiese no PL 34. Quero enfatizar alguns pontos importantes. Primeiro, a nossa perícope de estudo faz parte de uma unidade literária maior: Lucas 2.1-20(21). Para a análise é fundamental respeitar o contexto maior. Entretanto, em relação à prédica, convém aproveitar as subdivisões. Isso porque não podemos nem devemos abordar muitos assuntos na prédica. Escolher um assunto apenas pode nos ajudar a comunicar o que desejamos e fazer com que os ouvintes também tenham a sua compreensão satisfatória. Nesse sentido, o que diferencia a nossa perícope dos textos do contexto maior no Natal é o versículo 21. Neste, vemos o menino, no dia da sua circuncisão, recebendo o nome de Jesus. Esse é o ponto central da nossa prédica. Mas, antes de abordamos essa ênfase central, vejamos como a nossa perícope se desenrola. É relevante perceber a transição entre o v. 14 e o v. 15. Os anjos saem de cena. A partir do v. 15 a ação é humana. Cabe primeiro aos pastores serem agentes do grande anúncio do nascimento de Jesus. É muito relevante saber que simples pastores foram escolhidos como agentes dessa grande notícia. Isso está ressaltado e não é à toa. Os v. 15-17 nos mostram como aqueles pasto-
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res logo se deslocam em direção a Belém e, ao chegar ali, anunciam o que lhes fora dito pelos anjos (v. 17). No v. 18 percebemos que já há um pequeno público ouvinte das boas novas. O v. 19 acentua as reações de Maria. O v. 20 retorna aos pastores, mas não como anunciadores da grande notícia, e sim como pessoas que louvam a Deus pela alegria que os atingia. Chegamos ao v. 21. Esse se liga aos versículos anteriores e aponta para os seguintes, para a apresentação do menino no Templo de Jerusalém e para o encontro com a figura de Simeão. Quero me ater mais a essa ênfase, ao nome de Jesus. Antes desejo lembrar que os textos que nos servem de leitura para este domingo enfatizam também a temática do nome. Em Números 6.22-26, a famosa bênção araônica encerra no v. 27, onde Deus fala a Moisés: Assim porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei. No texto de Filipenses, temos a bela poesia sobre a humildade de Jesus. Cumprindo a sua missão, o nome de Jesus é agora exaltado sobre todos os outros nomes. É isso. Nossa prédica tem que tratar da temática do nome de Jesus. O nome Jesus seria novidade? A raiz hebraica para o nome Jesus, no texto grego, está relacionada com a raiz do substantivo salvação, ou do verbo salvar na língua hebraica do Primeiro Testamento. Nomes como Josué, Josias, Joshua possuem essa mesma raiz. Uma explanação completa sobre as variações fonéticas do nome de Jesus jamais poderia ser esgotada. Importante é percebermos que o significado desse nome está ligado à missão do próprio Cristo.
3 Prédica Pensando na prédica, levo em conta duas considerações. 1) Lembro que uma semana antes de utilizarmos esse texto de Lucas em nossa comunidade, passamos por um momento de participação intensa em nossos cultos de Natal. Pelo menos, essa é a realidade em minha comunidade. Uma semana após, nosso público cai consideravelmente. Acredito que em muitas de nossas comunidades ocorra o mesmo. Entretanto, falamos para pessoas. Não importa quantas estarão presentes. E o que pode ser uma verdade para todas ou quase todas é a minha segunda consideração. 2) Apesar do Ano-Novo ser uma convenção, boa parte do mundo para e festeja esse salto de um ano a outro. E todos somos contaminados de alguma maneira. Ano-Novo é momento de planos e preocupações. Ouvimos projeções alarmantes que irão acontecer no próximo ano. Notícias boas quase não são veiculadas. Nós fazemos nossos planos para o novo ano. Aí sim, nossos planos costumam ser otimistas e esperançosos. As pessoas que sentarão nos nossos bancos em um culto logo após o Natal, ou, mais exatamente no Ano-Novo, esperarão por uma mensagem de esperança. A minha contribuição para a prédica quer ser mais de uma maneira hermenêutica. Precisamos falar não apenas do passado, e sim falar ao presente. Essa é a nossa tarefa em qualquer prédica que realizamos. Hoje, precisamos falar do nome de Jesus e o que isso quer nos dizer agora. Para isso precisamos entender o que é o nome.
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Ano-Novo (Nome de Jesus)
Você poderia imaginar, ao ter um filho ou uma filha, em não colocar neles nenhum nome? Será que iremos encontrar alguém sem nome neste mundo? Mesmo em lugares distantes da urbanidade, onde não há a menor possibilidade de registrar um bebê, os pais irão chamar a criança por algum nome. Esse bebê que nasce não é psiu ou um hein. Não! Imagine você no culto de Ano-Novo. Faça uma pergunta interessante à plateia. Será que todos saberiam dizer como receberam cada qual o seu nome? Será que conhecem a história e o significado do seu nome? Quem os deu? Em que ocasião? Nem sempre acontece conosco o mesmo que aconteceu a Jesus. Em Mateus 1.21, José recebeu uma orientação em sonho para dar à criança que iria nascer o nome de Jesus. Em Lucas 2.21, por ocasião da circuncisão da criança, é dado a ela o nome de Jesus. Você e eu não tivemos uma história assim parecida. Isso não é comum. Meu nome não veio nem de um sonho nem de uma mensagem divina. Mas você e eu recebemos um nome. O nome nos distingue. Não gostamos de ser chamados pelo nosso número de CPF, por exemplo. Gostamos de ouvir as pessoas chamando-nos pelo nosso nome. Reclamamos se usam o nome errado ou se o pronunciam de maneira inadequada. O nome não é apenas um sinal sonoro. Muitas vezes, vejo pessoas lembrando do segundo mandamento como uma advertência a não pronunciar o nome de Deus levianamente. Muito mais que isso, o nosso nome ou o nome de Deus diz respeito à pessoa. Definitivamente, “o nome não é apenas um nome”. Basta lembrar as pessoas que tiveram seus nomes relacionados na famosa lista de Rodrigo Janot, procurador da República. Através de depoimentos sobre a Operação Lava Jato, Janot, auxiliado por outros 16 procuradores, elaborou uma lista de pessoas que devem responder às investigações de corrupção. Ali, como em qualquer situação, não é apenas um nome. Esse representa uma pessoa. Sua ética e seu caráter. Sua história de vida. É isso que está em jogo, ou pelo menos deveria estar. Agora podemos falar, sim, do nome de Jesus. Reconhecer o nome de Jesus e se curvar diante dele, como nos diz o texto de Filipenses, é reconhecer a pessoa, dar valor à sua história e aos seus ensinamentos. Esse Jesus não tinha só um nome. Recebeu muitos títulos ou apelidos, como Jesus de Nazaré, por exemplo. E quero ressaltar apenas um desses muitos títulos que considero ser o mais significativo – Salvador, por exemplo, já está contido em seu nome de circuncisão, ou como hoje dizemos, seu nome de batismo. Trata-se do que Mateus 1.23 nos diz: Imanuel, Deus conosco ou Deus entre nós, ou Deus no meio de nós. Lindo título. Finalizando, precisamos acentuar as perspectivas para o Ano-Novo. Como será que as pessoas do nosso culto de Ano-Novo gostariam de ser chamadas, ou melhor, de ser reconhecidas? Parece um pouco estranho? Não! Todos temos um nome e já o utilizamos há muito tempo. Uns mais, outros menos, dependendo da idade de cada um. Mas a pergunta para este novo ano é como queremos ser transformados a partir do nome de Jesus? Percebemos no relato de Lucas 2.15-21 que a tarefa de modificar a difícil realidade no país cabe às pessoas comuns. Longe de estarmos em qualquer lista tipo “Janot”, temos uma empreitada ética de anunciar e honrar o nome de alguém que, por acreditar num projeto – o projeto do reino de Deus, seu Pai – nunca desistiu ou voltou atrás. Não fez concessões. Não propôs
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acordos escusos. Nosso projeto para o próximo ano pode bem ser este: como o próprio Jesus o fez, honrar cada qual o seu próprio nome.
Bibliografia GRAF, Geraldo. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2011. v. 37, p. 54ss. HÜTHER, Vanderlei. Caderno de Cultos 2017. Lucas 2.15-21 - Ano Novo (Nome de Jesus) – 01.01.2017. Disponível em: <www.luteranos.com.br/textos/ lucas-2-15-21-ano-novo-nome-de-jesus-01-01-2017>. Acesso em: 21 maio 2017. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982. WEHRMANN, Günter K. F. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1998. v. 24, p. 41ss. WIESE, Werner. Proclamar Libertação. Auxílio homilético de Lucas 2.15-21. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2009. v. 34, p. 69ss.
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EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
06 JAN 2018
PRÉDICA: COLOSSENSES 1.24-27 ISAÍAS 52.7-10 MATEUS 12.14-21
Wilhelm Sell
Cristo, mistério de Deus revelado
1 Introdução Estamos na Epifania, data litúrgica na qual celebramos a manifestação de Deus em Jesus, o Cristo. Ele é luz que irrompe nas trevas. É a esperança concreta, real e divina, que se manifesta diante de toda desesperança. É palavra de Deus, em quem subsistem todas as coisas, fazendo-se presente, irrompendo na história e revelando o amor de Deus. É Deus que se revela como aquele que nasce humilde, pobre, à margem do mundo, e que abraça todo o mundo e todas as pessoas, iniciando com aquelas que, negligenciadas, foram e são esquecidas e excluídas no decorrer da história. O texto de Isaías 52.7-10 relata, como experiência do povo de Israel, a esperança que brota diante de toda desesperança. No contexto histórico da passagem bíblica, vemos como o povo de Deus, que está em situação de exílio na Babilônia, é abraçado com a notícia de que os persas avançam em suas conquistas e que logo chegariam à Babilônia. Aliado a isso, a notícia da benevolência do rei da Pérsia no trato com os povos sob seu domínio certamente era a grande possibilidade de retorno e reestabelecimento da nação e, assim, de sua identidade e dignidade. Numa leitura cristológica, é também profecia de uma esperança que, ampliada, se concretiza na vinda de Jesus Cristo, meio pelo qual Deus reconciliará consigo o mundo e restaurará a criação, não somente num evento local na história, mas de forma supra-histórica. Ou seja, Deus se movimenta na história com sinais que ultrapassam seu próprio tempo e que encontram em Cristo seu núcleo e plenitude, trazendo o reestabelecimento do próprio ser. É no evangelho, por exemplo Mateus 12.14-21, que enxergamos a concretização da promessa e profecia em toda a sua amplitude. No encontro com Jesus Cristo, encontra-se o repouso da espera, mesmo inconsciente, de todos os povos (v. 21). Assim também os “magos”, lembrados sempre em tempo de Epifania, são “gentios” que, atentos aos sinais na terra, procuram com esperança até encontrar o menino nascido em Belém, cidade simples e sem atributo notável, repouso de todo anseio; reconhecem nele aquilo que Agostinho expressou na seguinte frase: “Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”.
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2 Exegese O texto indicado para a pregação é o de Colossenses 1.24-27. Ele encontra correspondência com os outros dois textos indicados para leitura. É uma perícope pequena, mas densa em conteúdo, principalmente pelo contexto da carta e a intencionalidade de seu autor. Existem, na pesquisa, alguns questionamentos acerta da autoria da carta. As dúvidas se dão por encontrar-se na carta alguns aspectos não tão comuns em outras cartas paulinas, principalmente com relação à linguagem e ao estilo, pela introdução de uma cristologia “cósmica”, e algumas nuanças com relação à eclesiologia e também escatologia. Isso daria possibilidade de pensar num discípulo de Paulo como autor da carta. No entanto, reflexos dessa cristologia “cósmica” já se encontram em 1 Coríntios 2.8; 8.6; 2 Coríntios 4.4; Gálatas 4,3,9; Filipenses 2.10; e os outros aspectos apontados, como a eclesiologia e escatologia, são diferenças de ênfases que Paulo dá devido ao contexto e às circunstâncias da comunidade de Colossos. Colossos era uma cidade pequena e relativamente insignificante no tempo da carta. Estava situada no vale do rio Lico, há aproximadamente 160 km a leste de Éfeso e, com Laodiceia e Hierápolis, pertencia à província romana da Ásia. A comunidade era resultado indireto das missões de Paulo. O apóstolo contou com a ajuda de cristãos “discipulados” por ele, cooperadores, que implantaram uma série de igrejas na província da Ásia. As igrejas surgidas em Colossos, Laodiceia e Hierápolis são frutos do trabalho de Epafras (At 1.7; 4.12,13). Supõe-se que ele, natural de Colossos, tenha se tornado cristão numa visita a Éfeso e que, impactado pelo evangelho, volta para sua cidade e, pelo seu ensino, forma essa comunidade. A maioria das pessoas dessa nova comunidade era antes gentia. No entanto, surge aparentemente na vivência comunitária uma ameaça externa com relação à doutrina. A carta surge então porque em determinada ocasião Epafras faz uma visita a Paulo em Roma e o informa como estão as comunidades do vale do Lico. Grande parte do relato foi muito positivo e encorajador, mas um aspecto inquietante era um falso ensino que, pela sua atratividade, estava ameaçando a vivência de um evangelho libertador. Essa realidade positiva, mas também a preocupação quanto ao evangelho faz com que Paulo escreva sua carta. Ao que se percebe, os membros da comunidade estavam sob algumas pressões externas que são possíveis de identificar pelas exortações, falas e conselhos do apóstolo. Por exemplo, em Colossenses 2.8-23, texto que imediatamente sucede a perícope aqui em estudo, notamos algumas preocupações: “filosofias vãs”; possiblidade de nova escravidão; referências à “plenitude” de Cristo e à “circuncisão feita por Cristo”; instruções específicas sobre autodisciplina; regulamentação sobre comida e dias sagrados, forte ênfase no que “Cristo já realizou” e a liberdade recebida; revelam o teor dessas heresias que estavam se fazendo presentes na igreja. Não se sabe ao certo a dimensão de sua influência e talvez não seja tão ampla, já que Epafras não volta logo para Colossos e permanece com Paulo em Roma. O que se pode presumir é que essas “doutrinas” eram influências vindas de duas perspectivas não excludentes: parece ser um misto da religiosidade judaica,
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com a qual passava-se a exigir que certas leis da Torá não fossem deixadas de lado no propósito de alcançar uma santidade mais condizente com a vida cristã, com algo parecido com um pré-gnosticismo, uma filosofia judaico-mística com influências externas, que afirmava a necessidade de um aperfeiçoamento da obra de Cristo por meio da ascese, para dessa maneira alcançar a verdadeira plenitude (Cl 1.9,28; 2.10,16,18,21,23; 3.5,14; 4.12). Diante disso, o que nitidamente se percebe é que Paulo, pelo seu zelo em relação ao evangelho, quer mostrar que o querer aperfeiçoar a obra redentora de Cristo através de esforços e empenhos próprios no agir e pensar é pura religiosidade humana e não tem a ver com o que Deus realizou em Cristo, aliás, é sua própria negação. Se a carta foi mesmo escrita em Roma, então a data mais provável de seu envio foi entre 60 e 61 d.C. Quanto ao texto em questão: v. 24: Paulo fala do seu sofrimento. Enquanto escreve a carta, está preso em Roma por causa de sua insistência na propagação do evangelho. No entanto, esse sofrimento não pode ser entendido como completude da obra de Cristo, mas são aflições que ele e toda a igreja, como corpo de Cristo, enquanto fiel ao evangelho, sofrem. E sendo sofrimento da igreja (Jo 15.21ss) é sofrimento do próprio Cristo, já que se entende a igreja como Cristo presente na realidade, por isso a favor de seu corpo. O batismo nos conecta a Cristo tanto no sofrimento como na salvação. Paulo entende que seu sofrimento trouxe benefício para a igreja (2Co 1.5-7; 4.10-12; Ef 3.13). v. 25: a palavra que neste versículo é traduzida como dispensação é o termo oikonomia, no grego. No sentido que Paulo emprega o termo, tem a ver com a missão que ele recebeu de mordomia da “casa do Senhor”. Não é ele que se institui nesse cargo, como fazem alguns “pastores” em nossos dias, mas foi chamado e instituído pelo próprio Senhor da igreja. Seu serviço, como ele o entende, está em fazer conhecido o plano de Deus acerca de toda realidade a partir do evangelho e da obra vicária de Jesus Cristo. v. 26: o mistério é aqui empregado por Paulo referindo-se a um discurso das filosofias místicas por ele combatido. O verdadeiro mistério de Deus, que estava oculto, foi revelado plenamente em Jesus Cristo (Cl 2.2). Contrastando com os “segredos ocultos” da mística, presente no contexto de Colossos e revelados a alguns “iniciados”, Paulo mostra a verdade não mais oculta, mas revelada no amor de Deus à humanidade. v. 27: foi por iniciativa de Deus o conhecimento advindo por meio da sua revelação em Cristo Jesus. E isso não acontece somente entre o “povo de Deus”, mas é para todas as pessoas, também os gentios. E Cristo continuamente se faz presente na vida dos cristãos pelo agir do Espírito Santo. Essa presença é renovada de maneira viva e eficaz na palavra e nos sacramentos (Rm 8.10). Essa realidade se dá já em esperança da glória, trazendo resquícios e sinais do reino de Deus no dia a dia.
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3 Meditação À primeira vista, essa passagem parece ser restrita para formular uma pregação ou mensagem. No entanto, se levarmos em conta o contexto e os textos paralelos, teremos boas possibilidades de reflexão. Destaco algumas questões que chamam atenção e que podem servir de auxílio homilético. a) É muito interessante o contexto da carta. A atuação de Epafras na divulgação do evangelho na região do rio Lico é admirável. Ele fica impactado pelo evangelho libertador pela boca do apóstolo Paulo, em Éfeso, e provavelmente decide passar um tempo aprendendo sobre o Deus revelado em Jesus Cristo; depois, ao voltar para sua terra, compartilha a mensagem a ponto de, a partir disso, serem formadas três comunidades: Colossos, Laodiceia e Hierápolis. Sua preocupação diante de discursos duvidosos que estavam influenciando membros da comunidade de Colossos e região o faz procurar Paulo em Roma, ao qual relata as alegrias e também suas preocupações em relação às comunidades, situação a partir da qual o apóstolo se dirige também à comunidade de Colossos por carta. Mesmo não conhecendo as comunidades da região do rio Lico pessoalmente, ele é conhecido como apóstolo, chamado pelo próprio Cristo. Vemos aqui o zelo e a preocupação, tanto de Paulo como de Epafras, para que a comunidade e seus membros permaneçam fiéis ao evangelho libertador e pleno de Cristo. Sabe-se que essa situação não é algo novo. Também hoje existe uma enorme dificuldade na vivência da fé diante de tantas vozes que destoam do evangelho de Cristo, da plenitude de sua obra, dele como Palavra eterna por meio do qual todas as coisas foram feitas e subsistem. Assim como diz a terceira estrofe do hino 336 do HPD 2: Quando o povo se reúne o Evangelho atento a ouvir, se apercebe que no mundo há mil vozes a iludir. A palavra desafia, não nos deixa acomodar. /: A mensagem que traz vida aos aflitos quer chegar. :/ b) Aliado a isso, uma das grandes lições que a perícope em questão nos traz é o exemplo de serviço do apóstolo Paulo. Como bem sabemos nem tudo eram flores. Por sua fidelidade ao evangelho de Cristo, ele sofreu perseguições e prisão. No entanto, diante de todas as circunstâncias, ele é mordomo na oikonomia, no serviço que recebeu da parte de Deus. Nessa mordomia, Paulo serve com os dons que recebeu da parte de Deus. A pergunta reflexiva que poderia ser feita é sobre a disponibilidade dos dons para o serviço no reino de Deus. Em muitas situações, pessoas somente servem ao reino de Deus de maneira que seja confortável, mas, quando surgem algumas dificuldades, ficam de fora. Como Bonhoeffer bem nos lembra, a igreja, a partir de seus membros, é presença de Cristo no mundo. Nesse sentido, como lemos no v. 24, todos os cristãos, assim como Paulo, quando seguem o chamado ao serviço preenchem o que resta das aflições de Cristo. Como visto na exegese, não como completude da obra de Cristo, mas como Cristo concreto na realidade por meio da igreja, seu corpo. c) Por último, vimos que a comunidade de Colossenses é formada, ao que se aponta nas pesquisas, de maioria gentílica. No tempo de Epifania, na qual
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estamos, somos mais uma vez lembrados, também por essa perícope, que Deus, em amor por toda a humanidade, por toda a sua criação, realiza a reconciliação com o mundo na pessoa de Cristo. O mistério que esteve oculto foi revelado (v. 26). As perguntas pelo sentido da vida, a busca por entendimento, por realização, por justificação, encontram em Cristo todas as respostas. Ele é a imagem do Deus invisível (v. 15), nele todas as coisas foram criadas (v. 16), por ele e para ele a criação existe (v. 17), por meio dele o mundo é reconciliado (v. 20), e pela sua obra nos tornamos de inimigos em amigos de Deus (v. 21). Diferente de todos os outros tipos de crenças e religiosidades, a fé cristã, de maneira ímpar, revela um Deus gracioso, do qual o amor não depende de obras ou ações anteriores, mas é sua própria natureza. É essa plenitude em Cristo que o próprio Deus quis dar a conhecer (v. 27) entre toda a humanidade. É essa verdade e realidade que podem dar verdadeira esperança. Nesse sentido, o evangelho tem uma mensagem preciosa que precisa estar revelada na vida de todas as pessoas. Pois, como confessa Agostinho: “Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”.
4 Imagens para a prédica Compartilho um poema de Dietrich Bonhoeffer, de julho de 1944, que ajuda na reflexão: Pessoas se aproximam de Deus na sua dor, imploram por auxílio, felicidade e pão; por salvação de doença, culpa e morte. Assim fazem todos, todos: cristãos e pagãos. Pessoas se aproximam de Deus na sua dor, acham-no pobre, insultado, sem agasalho, sem pão. Veem-no coberto de pecado, fraqueza e morte. Cristãos ficam ao lado de Deus na sua paixão. Deus se aproxima de todas as pessoas na sua dor, satisfaz o corpo e a alma com o seu pão, sofre por cristãos e pagãos a morte na cruz e a ambos concede perdão.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de fé (Dietrich Bonhoeffer) Creio que Deus pode fazer com que de tudo, mesmo do negativo, resulte algo bom. Para isso necessita de homens e mulheres que permitam e creiam que tudo lhes servirá para o bem. Creio que Deus nos pode dar em cada situação difícil a capacidade de resistir. Mas não a dá adiantado, para que não confiemos em nossas próprias forças, e sim em seu poder. Essa confiança nos livrará do medo e do temor pelo futuro. Creio que nossos erros e fracassos não são em vão e que para Deus não é mais difícil utilizá-los como faz com nossos sucessos. Creio que Deus não é um destino cego e indiferente, mas que espera nossas orações e nossos atos responsáveis.
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Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2003. BOOR, Werner de. Carta aos Colossenses. Curitiba: Esperança, 2006. (Comentário Esperança). CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2001. RIENECKER, Fritz; ROGERS, Clean. Chave linguística do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1995.
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1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)
PRÉDICA: MARCOS 1.4-11 07 JAN 2018
GÊNESIS 1.1-5 ATOS 19.1-7
Júlio Cézar Adam
Epifania e batismo como novo começo em Cristo
1 Introdução Encontramo-nos no 1º Domingo após Epifania, tempo da revelação de Deus em Jesus Cristo, como Messias e Salvador. Em especial, neste domingo, refletimos sobre o batismo de Jesus Cristo, como marco inicial de seu ministério, que terá sua culminância na cruz. As antigas veredas da sociedade e do velho jeito de viver chegaram ao fim. Em seu lugar surge algo novo, um novo começo em forma de boa notícia: Jesus Cristo. Assim inicia o Evangelho de Marcos, início direto, dentro do qual se encontra a perícope de Marcos 1.4-11. É urgente revelar Jesus Cristo como aquele que João Batista anuncia e promete. Algo novo está para acontecer e esse novo é muito bom. Esse novo passa pela água, pelo batismo de arrependimento e pelo batismo do próprio Jesus Cristo. Lembremos que as grandes passagens do povo de Deus estiveram relacionadas com água: antes de criar o mundo (Gn 1.2), o Espírito paira sobre as águas; após o dilúvio, Deus faz nova aliança com Noé; a libertação do Egito tem na travessia do mar uma de suas marcas; a entrada na Terra Prometida passa pelo Jordão. Trata-se, portanto, neste início do Evangelho, da prefiguração de uma nova criação, da nova luz, da boa luz do primeiro dia (Gn 1.4-5), de uma nova libertação, um novo começo, uma nova aliança que está em curso. Essa nova criação irá se completar no Domingo da Páscoa, no novo primeiro dia da semana, no domingo (Mc 16.9), culminância do novo tempo e da nova aliança. A novidade, porém, não é algo restrita à economia divina. O batismo de Jesus Cristo, através do qual Deus revela o Messias, seu filho, respinga água para dentro do nosso batismo, onde também Deus, por meio da obra de Jesus Cristo, nos possibilita uma nova relação como filhos e filhas de Deus. Essa nova relação tem como consequência o seguimento a Jesus Cristo no ministério cristão, na igreja, de modo que aquilo que é divino torna-se também humano. Nenhum sentido tem o batismo se não for para integrar a pessoa no corpo de Cristo, no ministério da igreja. Exatamente isso será relatado em Atos 19.1-7. Aqui se relata sobre o batismo de 12 discípulos, em Éfeso, para dentro da vida e obra de Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo e da fé. Como avisara João Batista, ele batizava com água, mas viria aquele que é mais poderoso e batizaria com o Espírito Santo. Ou seja, viria aquele que realizaria a obra ampla da salvação e da libertação, obra que se expandiria através de discípulos e discípulas, um batismo diário, profético e transformador.
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Epifania será, portanto, a revelação do novo começo, da nova criação de Deus em Jesus Cristo, marcada pelo seu batismo e pelo desdobramento desse no ministério de todas as pessoas batizadas. Essa revelação encontra seu sentido no serviço (no ministério) de esparramar o evangelho para dentro da vida de todos os tempos e lugares.
2 Exegese A escrita do Evangelho de Marcos é situada pela pesquisa em torno do ano 68. A atribuição a Marcos, como autor, foi feita pela tradição cristã do século II. Considera-se que o autor seja João Marcos, parente de Barnabé (Cl 4.10), conhecido da igreja primitiva. Ele acompanhou Barnabé e Paulo na missão (At 12.12, p. ex.). Outra possibilidade é de que o texto tenha sido escrito por mais de uma mão, em forma de mutirão, em torno das comunidades cristãs de Roma e do sul da Itália ou por comunidades da Galileia e da Síria. A pesquisa também aponta que as comunidades de Marcos podem ser de pessoas que saíram da Galileia e Síria e foram para Roma e o sul da Itália (Mosconi, 1996, p. 19). Marcos não só foi o primeiro evangelho a ser escrito, mas é o único que de fato recebeu o título de evangelho (Mc 1.3). Evangelho é uma boa notícia. Originalmente, ela era trazida por reis e imperadores em forma de anúncio dos benefícios que seriam feitos ao povo. A boa notícia em Marcos é Jesus de Nazaré e a possibilidade e a necessidade de segui-lo, como forma de viver concretamente a novidade. Com Jesus Cristo, o Messias prometido, o filho que agrada a Deus, o Reino irrompeu. A novidade desse Messias chama-se serviço. É isso que agrada a Deus. Segundo Bortolini (2003), o versículo No mesmo instante o cego começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho (Mc 10.52b) é como uma síntese do Evangelho de Marcos. Com a epifania de Jesus Cristo, os olhos se abrem e o seguimento ao Messias, o serviço cristão, será a consequência. Para Marcos, Jesus é o Messias, um Messias diferente, um Messias que serve, é o servo sofredor, o crucificado e ressuscitado, verdadeiro filho de Deus. A boa notícia de Marcos acontece na região da Galileia, região pagã, onde há mistura de raças e impureza. O evangelho acontece enquanto Jesus anda rumo a Jerusalém com os seus discípulos, como uma escola de discipulado, caminho no qual, mais que falar, ele age e faz, cura, expulsa demônios, sendo os pobres e marginalizados os principais agraciados. Há grande entusiasmo em torno de Jesus (multidões vão até ele, assim como vão até João Batista), para perguntar quem ele é. Assim como há entusiasmo, há também resistências, suspeitas, calúnias, principalmente por parte dos poderosos e das autoridades de Jerusalém. Há também desentendimentos com os próprios discípulos (1.36-38, p. ex.). O conflito com o poder terá como desfecho sua morte na cruz. Após a ressurreição, ele aparece aos discípulos na Galileia, onde tudo iniciou. Quanto aos destinatários do evangelho, podemos imaginar que as comunidades em torno das quais o evangelho foi formulado, estavam vivendo momentos de perseguição, crises, dúvidas, por vezes perdidas, convivendo com opiniões
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diferentes. Também essas pessoas estão em um itinerário de fé. Faz-se necessário uma fé firme e unânime, uma atitude confiante para assumir a cruz A boa notícia de Marcos está dividida em duas grandes partes (Mosconi, 1996, p. 14ss). Marcos 1.16 até 8.26 – Lança-se a pergunta sobre quem é Jesus de Nazaré. Marcos 8.27 até 16.20 – Busca-se responder quem é Jesus de Nazaré. Uma outra pergunta que permeia todo o evangelho é o que significa ser discípulo de Jesus Cristo e como segui-lo (46 vezes aparece a palavra discípulo e 18 vezes a palavra seguir, em Marcos). Nossa perícope faz parte de um conjunto maior (1.2-13), que pode ser dividido em três pontos: O cumprimento da profecia (1.2-5) João Batista como o precursor desse cumprimento (1.6-8) O batismo de Jesus Cristo como sua investidura messiânica e horizonte da sua missão (1.9-13) Analisemos especificamente a perícope 1.4-11: v. 4: apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão dos pecados. Após se retomar Êxodo 23.20 e a profecia de Isaías 40.3 (v. 2 e 3), João Batista é apresentado como novo profeta. Sua tarefa é ser o precursor do Messias. Ele prepara o caminho, seguindo uma tradição antiga. Em Êxodo 23.20 e 33.2, Deus promete enviar um anjo para guiar e preparar a Terra Prometida. Em Isaías 40.3, o profeta anuncia o fim do cativeiro babilônico, pedindo para abrir caminho e aplainar a estrada. Em Malaquias 3.1 anuncia-se o retorno de Elias para restaurar a aliança com Deus (Bortolini, 2003, p. 21). A partir de tudo isso João Batista representa: um anjo, um anunciador do fim do cativeiro, um restaurador da aliança de fidelidade com Deus. Isso irá custar a vida do profeta (Mc 6.14-29). O deserto, lugar onde Israel é engendrado, está aqui em oposição à sociedade constituída. Deserto é o lugar onde o povo de Deus prepara projetos alternativos de vida e liberdade. Lá o povo peregrinou 40 anos, sendo tentado para voltar ao Egito, tentando a Deus. Do deserto o povo entrou na Terra Prometida, cruzando o Jordão. Agora João Batista, que veio do deserto, batiza pessoas no Jordão, chamando-as ao arrependimento e à mudança de vida. Para o deserto Jesus será, logo após seu batismo, impelido pelo Espírito, para ser tentado por Satanás. A mensagem de João Batista é uma ação simbólica: um banho como forma de marcar duas ações interligadas, o arrependimento e a remissão dos pecados. É uma mensagem que se dirige a indivíduos e não a instituições. v. 5: Saíam a ter com ele toda a província da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém; e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. Judeia e Jerusalém formam um paralelo à terra da opressão, o Egito. De lá partem as pessoas que vão até João. Não vão até o templo para buscar a redenção, mas até João, nas margens da outrora Terra Prometida, e o deserto, no rio Jordão, para confessar os pecados. O pecado é o reconhecimento pessoal da necessidade de um novo começo e a libertação da situação de crise e de injustiça social. Ou seja, o pecado pessoal está relacionado às injustiças sociais da sociedade. O
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batismo marcará a morte e a renúncia do passado de injustiça e disposição para começar de novo. v. 6: As vestes de João eram feitas de pelos de camelo; ele trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. As vestes de João Batista o identificam com Elias (2Rs 1.8). As vestes também são uma forma de denúncia ao luxo de alguns às custas da miséria de outros. Também a comida natural é uma forma de denúncia dos excessos de uns e da miséria de outros. Gafanhotos e mel silvestre são comidas naturais, simples, que remetem ao nomadismo, representando aqui alguém que está afastado, separado do estado de corrupção da sociedade. João Batista é colocado, assim, como profeta precursor, alguém com autoridade para preparar o caminho do Messias. Palavras, roupa, comida, o lugar, o rito do batismo, tudo faz parte de uma mesma mensagem, a denúncia das estradas tortas e velhas nas quais o povo de Deus se encontrava e a preparação do povo para o novo. v. 7: E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhes as correias das sandálias. João Batista atrai multidões e, por isso, provavelmente, era considerado o próprio Messias. Mas o protagonismo não é seu. Por isso ele faz questão de anunciar alguém mais forte e poderoso do que ele. A força e o poder aqui não são algo sobrenatural ou político, mas estão relacionados a uma intervenção divina, à possibilidade de batizar o povo com o Espírito Santo. A metáfora de desatar as sandálias lembra a lei do cunhado, a lei do levirato (Dt 25.5; Rt 4), segundo a qual, desatar e tirar as sandálias significava assumir o direito do esposo. Com isso João Batista coloca Jesus como messias-esposo, ao qual João está totalmente submisso. É uma forma clara de dizer o quanto Jesus é maior que ele. v. 8: Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo. Segundo Isaías 44.3-5 e Ezequiel 36.26-28, o Espírito infunde o novo ser humano. Esta será a tarefa do Messias que vem, por meio do Espírito, criar a possibilidade de um novo ser humano. O batismo no Espírito Santo se tornará mais claro com o recebimento de Jesus do Espírito, em forma de pomba. Mais do que mergulhar nas águas (significado do termo grego batizar), Jesus mergulha no Espírito (ou o Espírito “mergulha” nele) e nos convida a fazer o mesmo (Bortolini, 2003, p. 23). Esse mergulho será estendido a toda pessoa. Ou seja, João não só anuncia a vinda do Messias, mas promete que sua vinda e seu batismo possibilitarão uma profunda mudança na vida das pessoas, mais que o próprio batismo de João. v. 9: Naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galileia e por João foi batizado no rio Jordão. Finalmente, o portador da boa notícia é apresentado. Ele vem da Galileia, de onde, de acordo com o Evangelho de João (1.46), nada de bom poderia vir. Essa região, ao norte da Palestina, há séculos era considerada terra de gente pagã, sem valor, de pobres e excluídos (Bortolini, 2003, p. 25). Embora não precisasse, Jesus se submete ao batismo de João. Seu batismo é prefiguração da cruz: morte e ressurreição – afogar e sair da água. Deixando-se batizar, Jesus não só apoia e reforça o movimento de João, mas assume o compromisso de entrega
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para uma causa divina. “Naqueles dias” é uma fórmula usada pelos profetas para anunciar uma nova aliança (Jr 31.31-33). v. 10: Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito descendo como pomba sobre ele. O céu rasgado significa o cumprimento de um antigo desejo do povo de Deus (Is 63.19b): Quem dera rasgasses o céu para descer! Ou, ainda, a descida do Espírito sobre alguém que faria justiça ao povo (Is 11.1-5). Rompem-se, assim, a fronteira entre o mundo divino e o humano, indicando plena e permanente comunicação de Deus e o ser humano. O verdadeiro batismo de Jesus Cristo será o do Espírito Santo, como uma verdadeira unção messiânica. Jesus Cristo é investido pelo Espírito, o mesmo Espírito que pairava sobre as águas antes da criação, para sua missão. A partir de agora ele está sob o domínio do Espírito. O mesmo Espírito irá em seguida impeli-lo para o deserto, para a tentação. v. 11: Então foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. A voz que vem do céu é a voz de Deus, a qual reconhece Jesus como filho, mas também como amado, alguém que agrada a Deus, o que remete ao servo de Javé (Is 42.1) ou a adoção por Deus (Sl 2.7). O Espírito Santo não só batiza Jesus, mas passa a conduzi-lo. É o Espírito que o impele para o deserto, para a tentação (40 dias significa totalidade, a vida inteira).
3 Meditação A perícope leva-nos a pregar a novidade do evangelho de Jesus Cristo. Essa novidade é anunciada e preparada por João Batista, como novo profeta, precursor do Messias, aquele que faz a ponte entre a primeira aliança e a nova. A novidade inicia com o batismo de Jesus de Nazaré e sua investidura, sua unção como Messias pelo Espírito, para o ministério do serviço em favor dos pobres e desfavorecidos. Ele mesmo irá nos possibilitar o acesso a um batismo ainda mais significativo, o batismo que leva à fé em Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo. Batismo aqui, tanto o de Jesus como o das pessoas que irão segui-lo, implica seguimento radical, tomar a cruz e servir de forma a transformar as velhas estradas em novos caminhos. Tudo neste texto aponta para a novidade, para mudança radical de vida, para uma marca significativa por parte de Deus na história do seu povo e da pessoa individualmente. Só temos como entender essa radicalidade da novidade se olharmos todo o restante do evangelho, onde se descreve toda a obra de Cristo. Encontramo-nos no final do ciclo natalino, ainda celebrando o novo começo do ano civil e também o começo do ano litúrgico. Epifania complementa esse estado de novidade, de revelação de algo novo, a experiência da boa notícia. Na cultura brasileira, misturado com o Natal e o novo ano, celebra-se muito mais o fim de um ciclo, o ano velho, que o início de outro. Mesmo assim, o ciclo do Natal vem carregado com a esperança de que começando um novo ano, o ano será melhor que aquele que passou. No culto de Epifania, muitas pessoas talvez estejam de férias, marcando assim, com o descanso, o ano que passou e o novo ano que inicia, com planos, expectativas, promessas e possibilidades. Para a maioria das pessoas é um bom tempo. Ao mesmo tempo, apesar de toda essa carga emocional positiva, o Brasil
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vive tempos sombrios, difíceis, de profunda crise ética, moral, com reflexos muito visíveis na política do país. Anseia-se por novos ares, um tempo onde a justiça e equidade sejam mais presentes na vida cotidiana. O Brasil precisa ser passado a limpo, dizem vozes das mais diferentes procedências. Também no âmbito da fé e do ministério cristão se vive certo marasmo, desânimo e mesmice. Carece-se de uma espiritualidade que viva e perceba a novidade do evangelho e a radicalidade do batismo, como meio da graça e caminho do seguimento e discipulado de Cristo. A prédica deveria apontar para a novidade, mesmo em meio a uma realidade de resignação e desesperança.
4 Imagens para a prédica Celebrar e pregar a epifania de Jesus Cristo e seu ministério, neste contexto, a partir do texto bíblico de Marcos 1.4-11 nos leva a organizar pelo menos dois aspectos: um novo começo e o batismo. Um novo começo: Vivemos tempos de cansaço frente às velhas ordens, à mesmice, às situações que não mudam, como a corrupção na política, a violência cotidiana, o excesso de trabalho e o corre-corre, o consumismo e individualismo, falta de entusiasmo na igreja. Carecemos de uma novidade que nos desperte para um novo começo, como um novo dia, diferente e totalmente bom. Precisamos de uma boa nova notícia! Não basta qualquer novidade, como a nova oferta do mercado, um novo celular, um novo modelo de carro, mas algo que impacte para a vida inteira, algo que dê um sentido novo. Jesus Cristo e seu evangelho de serviço é essa novidade. Precisamos redescobri-lo e vive-lo em intensidade, pessoalmente, na comunidade e na sociedade. Seria interessante pensar em novidades que de fato transformam a vida: o nascimento de uma criança, uma nova relação que se inicia, iniciar os estudos universitários ou uma nova carreira, aquisição de uma casa, ou, ainda, receber o diagnóstico de cura de uma doença, perdoar e ser perdoado, conseguir pagar uma dívida, ou encontrar um sentido e uma razão para viver. Esses talvez sejam exemplos que possam ajudar a entender a radicalidade do evangelho de Jesus Cristo. Poderíamos, na preparação da prédica, sondar membros da comunidade para pensar como a novidade do evangelho poderia ganhar um novo colorido, se tornar uma epifania cativante e transformadora. Batismo: Nas aulas de batismo na Faculdades EST, falamos da necessidade de redescobrir o batismo na vida pessoal e comunitária. Um dos espaços para trabalhar essa redescoberta é na pregação do culto. Originalmente, na tradição da igreja, Epifania, ao lado da Páscoa e de Pentecostes, era um dia de batismo. Por isso, neste domingo, quando celebramos o batismo de Jesus Cristo e temos como base o texto de Marcos 1.4-11, seria bom refletir sobre o significado do batismo. Mais que um rito social ou um rito de proteção pessoal ou de mera salvação individual, o batismo é um sacramento, um meio da graça, que nos dá acesso à fé em Jesus Cristo e seu ministério. Somos batizados diariamente para dentro da fé em Jesus Cristo, fé que nos compromete com o evangelho e, consequentemente, com a transformação do mundo. O Batismo de Jesus também é o nosso batismo.
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O batismo é uma escola, um itinerário de como tornar-se pessoa cristã. O batismo nos confronta com as tentações de viver ao largo da vida ou servindo a tantos senhores e poderes, afastados de um sentido mais profundo para a vida e a existência. Perguntas que poderiam auxiliar na construção da prédica (uma enquete nas redes sociais poderia ser feita) é sobre o que significa o batismo para cada pessoa e como a partir do batismo e da fé temos deixado marcas do evangelho em nosso contexto. Sobre o novo começo a partir do batismo, lembrei-me de uma história chamada “Pai, começa o começo!”: Quando eu era criança e pegava uma tangerina para descascar, corria para meu pai e pedia: – “Pai, começa o começo!” O que eu queria era que ele fizesse o primeiro rasgo na casca, o mais difícil e resistente para as minhas pequenas mãos. Depois, sorridente, ele sempre acabava descascando toda a fruta para mim. Outras vezes, eu mesmo tirava o restante da casca a partir daquele primeiro rasgo providencial que ele havia feito. Hoje, já adulto e sem meu pai, sinto falta dele para, pelo menos, “começar o começo” de tantas cascas duras que encontro pelo caminho. Hoje, minhas “tangerinas” são outras. Preciso “descascar” as dificuldades do trabalho, os obstáculos dos relacionamentos com amigos, os problemas no núcleo familiar, o esforço diário que é a construção do casamento, os retoques e pinceladas de sabedoria na imensa arte de educar os filhos, ou, então, o enfrentamento sempre tão difícil de doenças, perdas, traumas, separações, mortes, dificuldades financeiras, e até mesmo as dúvidas e os conflitos que nos afligem diante de decisões e desafios. Em certas ocasiões, minhas tangerinas se transformam em enormes abacaxis... Lembro-me, então, que a segurança de ser atendido pelo pai quando lhe pedia para “começar o começo” era o que me dava a certeza que conseguiria chegar até ao último pedacinho da casca e saborear a fruta (autor desconhecido). Em Jesus Cristo e no batismo temos uma clara ajuda para começar o começo.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Deus da vida, assim como João Batista chamava ao arrependimento e à confissão de pecados, como forma de experimentar algo novo; assim como Jesus Cristo é reconhecido no batismo como teu filho amado e ungido pelo Espírito Santo, dando início à novidade, assim queremos nós hoje, aqui, por causa do nosso batismo, reconhecer o nosso pecado. Reconhecemos que não vivemos nosso batismo de forma comprometida com o evangelho. Reconhecemos que criamos divisões e qualificações entre nós e julgamos as pessoas conforme sua aparência, suas posses e suas ideias. Reconhecemos que não cuidamos e preservamos o planeta, as plantas e os animais, desperdiçamos os recursos naturais, vivemos orientados para o lucro sem medida. Reconhecemos que nos resignamos diante da corrupção dos governos e dos velhos esquemas e não acreditamos que podemos construir uma sociedade de paz e justiça social, uma sociedade onde todas as pessoas tenham dignidade, direito e espaço. Reconhecemos que não mais nos impactamos com a novidade
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de Jesus Cristo e da sua boa notícia, mesmo que ele, a cada ano, se revele a nós como o Messias servidor. Deus do novo começo, pedimos que tu perdoes o nosso pecado, nossa indiferença e descrença, e que o mesmo Espírito que rasga o céu e desce sobre Jesus Cristo, desça sobre cada um e uma de nós, nos dignificando para com fé vivermos o nosso batismo, limpos dos pecados. Em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que contigo e o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Oração eucarística: L. Deus da vida, tu que deste início à vida, tu que criaste os céus e a terra, chamaste à existência a luz e tudo mais que existe, tu que nos deste Jesus Cristo, teu filho amado, luz da nova criação, nós te louvamos, agradecemos e engrandecemos, unindo nosso canto com o louvor dos anjos, cantando o sempiterno hino: Santo, Santo, Santo. C. Santo, Santo, Santo L. Deus do novo começo, tu que no tempo oportuno enviaste João Batista para preparar o caminho de Jesus de Nazaré da Galileia, tu que nomeaste Jesus no batismo como teu filho amado, o Messias servidor, nós te agradecemos pelo seu serviço em favor das pessoas simples e frágeis, serviço que lhe custou a própria vida, na cruz, serviço que rememoramos nesta ceia, pois Jesus Cristo na noite em que foi traído... (segue a narrativa da instituição). C. Jesus, tua morte anunciamos e louvamos tua ressurreição, até que venhas com teu poder. L. Que os céus também hoje se rasguem e que teu Espírito desça sobre nós, tua comunidade, fortalecendo a nossa fé, e que o pão e o fruto da videira sobre esta mesa sejam para nós comida e bebida da salvação. C. Envia teu Espírito, Senhor. Bênção e envio: A bênção e o envio podem ser proferidos desde a fonte batismal. O liturgo ou a liturga pode molhar as mãos na água da fonte e proferir a bênção e o envio, lembrando, assim, o batismo como possibilidade de novo começo no seguimento e no serviço a Jesus Cristo.
Bibliografia BORTOLINI, José. O Evangelho de Marcos: para uma catequese com adultos. São Paulo: Paulus, 2003. CAMACHO, Fernando; MATEOS, Juan. Marcos: texto e comentário. São Paulo: Paulus, 1998. MOSCONI, Luis. Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos: para cristãos e cristãs rumo ao novo milênio. São Paulo: Loyola, 1996. MULHOLLAND, Dewey M. Marcos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, [s.d.].
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2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
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PRÉDICA: 1 SAMUEL 3.1-10(11-20) JOÃO 1.43-51 1 CORÍNTIOS 6.12-20
Gerson Correia de Lacerda
A atuação de Deus em tempo de crise
1 Introdução O texto da prédica deste domingo já foi objeto de análise e estudo em três números anteriores de Proclamar Libertação. Primeiramente, no volume XIX, em trabalho preparado por Martin Volkman. Depois, no volume 25, em estudo de Mayke M. Kegel Dutra. Finalmente, no volume 31, que apresenta análise de Baldur van Kaick. Todos esses estudos podem ser examinados na preparação da prédica para o 2º Domingo após Epifania, pois oferecem rica contribuição para a compreensão dos textos bíblicos indicados. Maike M. Kegel Dutra sugere, na introdução do seu estudo, que o texto de 1 Coríntios 6.12-20 não seja aproveitado na elaboração da prédica por apresentar temática diferente dos outros dois textos. De fato, o texto da epístola trata de um dos problemas que afligiam a igreja de Corinto: a imoralidade sexual. Por outro lado, os outros dois textos abordam a questão da vocação, a saber, o chamado de Deus a Samuel e o chamado de Jesus a Filipe e Natanael. Contudo, devemos observar que, ao tratar da imoralidade sexual, Paulo desenvolve um estudo a respeito do corpo do cristão e afirma, entre outras coisas, que o nosso corpo faz parte do corpo de Cristo, sendo templo do Espírito Santo, que nele habita. A partir daí, o apóstolo dos gentios conclui: Vocês não pertencem a vocês mesmos, mas a Deus, pois ele os comprou e pagou o preço. Portanto, usem o seu corpo para a glória dele (1 Co 6.20). Com base nessa exposição de Paulo, podemos, pois, afirmar que também o texto de 1 Coríntios 6.12-20 se encaixa na temática dos outros dois textos bíblicos, a saber, a vocação. Existe uma vocação para o nosso corpo. Ele foi criado por Deus com uma finalidade, isto é, para a sua glória. Isso é reafirmado pelo Catecismo Menor de Westminster, que traz, para sua primeira pergunta: “Qual é o fim principal do ser humano?”, a seguinte resposta: “O fim principal do ser humano é glorificar a Deus e usufrui-lo para sempre”. Portanto, nos três textos indicados para hoje, a temática é a vocação de Deus ao ser humano para glorificá-lo integralmente, incluindo a utilização de seu corpo.
2 Exegese a) Um período histórico de profunda e intensa crise (1 Samuel 3.1) O texto de 1 Samuel 3.1-20 refere-se a um dos períodos mais críticos da história de Israel. Tinha ficado para trás o tempo da libertação do Egito e da pe-
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regrinação rumo à Terra Prometida, sob a liderança de Moisés. Também havia ficado para trás o tempo da conquista parcial da terra de Canaã sob a liderança de Josué. O povo de Israel vivia disperso e sem unidade na terra de Israel, ocupada também por outros povos que os atacavam e os oprimiam. Sem estrutura de governo e administração, os israelitas dependiam do surgimento de líderes carismáticos que os uniam temporariamente no enfrentamento a adversários poderosos e na administração da justiça. Mas a situação era tão caótica que o livro dos Juízes termina com as seguintes palavras: Naquele tempo, não havia rei em Israel, e cada um fazia o que bem queria (Jz 21.25). A crise, porém, não era somente moral, política, social e econômica. Era também uma crise de caráter espiritual. É isso o que podemos constatar quando o texto bíblico afirma: Naqueles dias, poucas mensagens vinham do Senhor e as visões também eram muito raras (1Sm 3.1). A crise espiritual não se limitava ao silêncio quase total de Deus. Ela também se manifestava na prática da liderança religiosa dos israelitas. Era o caso do que ocorria com a família de Eli, sacerdote do Senhor em Silo, um dos locais de adoração das tribos de Javé, onde estava guardada a arca da aliança. Segundo o texto bíblico, os filhos do sacerdote Eli não prestavam e não se importavam com Deus, o Senhor [...] Eles estavam tendo relações com as mulheres que trabalhavam na entrada da Tenda Sagrada (1Sm 2.12 e 22). b) Para enfrentar uma grande crise, um pequeno garoto que não conhecia o Senhor (1 Samuel 3.7) Frente a essa profunda e intensa crise, Deus resolveu intervir. E a intervenção divina teve início de uma forma estranha e inesperada: Deus se manifestou chamando um menino, que tinha sido consagrado ao Senhor antes do seu nascimento e que vivia com o sacerdote Eli. Tal menino não era um sacerdote nem pertencia à linhagem sacerdotal. Apesar de auxiliar Eli na adoração a Deus, ele não conhecia o Senhor, pois o Senhor ainda não havia falado com ele (1Sm 3.7). Por isso, nas três primeiras vezes em que Deus chamou Samuel durante a noite, ele correu para onde Eli estava, pois considerava que era o sacerdote que o estava chamando. Tudo isso parece muito estranho e absurdo! Seria o caso de se perguntar: não havia alguém mais capacitado para enfrentar a crise em nome do Senhor? O que poderia fazer um simples garoto, que não conhecia o Senhor, para auxiliar o seu povo? Na verdade, temos aqui mais uma demonstração da estranha forma de atuação divina. Em toda a Escritura sempre nos defrontamos com esta mesma verdade: Para envergonhar os sábios, Deus escolheu aquilo que o mundo acha que é loucura; e para envergonhar os poderosos, ele escolheu o que o mundo acha fraco (1Co 1.27). c) Para orientar o garoto, Deus se serviu de um sacerdote desmoralizado (1 Samuel 3.8-9) Como já destacamos, os filhos do sacerdote Eli não prestavam e não se importavam com Deus. O texto bíblico afirma: Os filhos de Eli tratavam com muito desprezo as ofertas trazidas a Deus, o Senhor. E para o Senhor o pecado desses moços era muito grave (1Sm 2.17).
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Toda essa situação tornou-se pública e notória. Eli, já de idade avançada, chegou a ouvir falar das práticas de seus filhos. Resolveu, então, chamar a atenção de seus filhos. Ordenou-lhes que mudassem seu comportamento e parassem de fazer o que aborrecia a Deus. No entanto, os filhos de Eli pouco se importaram com a repreensão de seu pai. O velho sacerdote ficou, dessa maneira, desmoralizado diante do seu próprio povo. Era alguém que não tinha autoridade nem diante de seus próprios filhos. Apesar disso, Deus usou Eli para orientar Samuel. Por três vezes, Deus chamara a Samuel e, por três vezes, ele julgara que Eli o havia chamado. O texto bíblico afirma: Foi Eli quem compreendeu que era o Senhor quem estava chamando o menino e ordenou: – Volte para a cama e, se ele chamar você outra vez, diga: “Fala, ó Senhor, pois o teu servo está escutando” (1Sm 3.8-9). Algo semelhante se observa no texto do Evangelho de João, quando conta que Jesus chamou Filipe para ser seu discípulo. Esse, por sua vez, foi chamar Natanael e anunciou-lhe que tinha se encontrado com o Messias na pessoa de Jesus, da cidade de Nazaré. Ao ouvir isso, Natanael perguntou: E será que pode sair alguma coisa boa da cidade de Nazaré? (Jo 1.46). O mesmo poderia ser dito a respeito do desmoralizado sacerdote de Silo: “Será que o sacerdote Eli poderia servir para alguma coisa boa?”. Naquele momento de crise, porém, Eli foi o instrumento de Deus para orientar Samuel a fim de que este compreendesse a vocação divina. d) O silêncio de Deus chega ao fim (1 Samuel 3.20) Orientado por Eli, Samuel se colocou à disposição para ouvir a voz de Deus. Naquele tempo de crise, em que poucas mensagens vinham do Senhor e as visões também eram raras (1Sm 3.1), Deus colocou um fim ao seu silêncio e passou a transmitir a sua mensagem através de Samuel. Não era uma mensagem agradável nem confortadora. Ao contrário, era uma promessa de castigo ao povo de Israel e a Eli e sua família. Apesar disso, Eli fez questão de ouvir a mensagem do Senhor e Samuel foi fiel na sua transmissão. O texto termina afirmando: Samuel cresceu. O Senhor estava com ele e fazia tudo o que Samuel dizia que ia acontecer. Assim todo o povo de Israel, do Norte ao Sul do país, ficou sabendo que Samuel era, de fato, um profeta do Senhor (1Sm 3.20). Terminara o quase silêncio completo de Deus. Novamente Deus voltava a se comunicar com o seu povo. Num grave momento de crise em todos os sentidos, Deus não estava ausente, mas manifestava a sua presença e transmitia a sua orientação através de um profeta.
4 Meditação No momento em que estamos preparando este texto, o Brasil está atravessando uma das piores crises de sua história. Denúncias de corrupção envolvendo políticos dos mais altos escalões do governo estão sendo veiculadas por todos os meios de comunicação. Empresários riquíssimos falam em bilhões gastos com propinas pagas em troca de recebimento de vantagens ilícitas em seus negócios. A famosa operação Lava Jato tem colocado atrás das grades tanto políticos de di-
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versos partidos como empresários de vários setores. Fala-se até em impeachment do presidente da República. Por outro lado, a situação do mundo em geral não é mais animadora. Também se fala em impeachment do presidente da maior potência mundial, os Estados Unidos, eleito há poucos meses. Enquanto isso, ocorrem guerras em diversas partes do globo, levas de refugiados não encontram lugar para sobreviver, e ataques terroristas geram insegurança e medo. Nessa situação, muitos perguntam por Deus. Como os escravos negros do poema de Castro Alves, muitas vozes clamam: “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?”. Essa sensação da ausência de Deus era a mesma que se sentia no tempo dos juízes de Israel. Isso pode ser comprovado na história de um levita e sua concubina na cidade de Gibeá. Ela foi abusada pelos homens da localidade até a morte. Revoltado, o levita cortou o corpo dela em doze pedaços, enviando um pedaço para cada tribo de Israel. E a história termina dizendo: Todos os que viam isso diziam: Nunca vimos uma coisa assim! (Jz 19.30). Foi nessa época que viveu Samuel. E a sua vocação serve para nos mostrar a atuação de Deus numa época de crise, a respeito da qual destacamos os seguintes pontos: a) Havia muita religião, mas pouca presença de Deus O contexto histórico do nosso texto demonstra que aquela era uma época profundamente religiosa. Vários exemplos podem ser dados: os pais de Samuel, Ana e Elcana cultivavam o hábito de ir, todos os anos, a Silo a fim de adorar e oferecer sacrifícios ao Senhor. Ana mantinha uma vida de intensa oração, suplicando a graça de gerar um filho e, ao ser atendida, consagrou-o a Deus. O povo de Israel observava a prática de sacrifícios ao Senhor e um respeito muito grande pela arca da aliança etc. Contudo, toda essa intensa religiosidade não significava que Deus estava presente na vida do povo de Israel. Eram poucas as suas mensagens e raras as visões (1Sm 3.1). Essa situação era semelhante à enfrentada pelo profeta Isaías, que profetizando, disse: O Senhor diz: “Eu não quero todos esses sacrifícios que vocês me oferecem. Estou farto de bodes e de animais gordos queimados no altar [...] Lavem-se e purifiquem-se! Parem de fazer o que é mau e aprendam a fazer o que é bom. Tratem os outros com justiça [...]” (Is 1.11-17). Esse é também o problema do nosso país na atualidade. Somos um povo intensamente religioso. Templos das mais diferentes denominações atraem multidões. Isso, porém, não significa que a vontade de Deus esteja prevalecendo na vida nacional. Ao contrário, até mesmo autoridades políticas que se apresentam como evangélicas estão indo para a cadeia acusadas de corrupção. b) A iniciativa é de Deus Na época de Samuel, havia, pois, muita religiosidade, mas pouca presença de Deus. Nessa situação, percebemos que é Deus quem toma a iniciativa de se
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manifestar a seu povo. A maior autoridade religiosa em Silo era o sacerdote Eli. Em sua mensagem a Samuel, Deus lhe disse assim: Farei contra Eli tudo o que disse a respeito da família dele, do começo até o fim [...] Eli sabia que eu ia fazer isso, mas não os fez parar (1Sm 3.12-13). Em outras palavras, não foi o sacerdote Eli quem tomou a iniciativa de buscar o auxílio divino para solucionar a crise vivida em Israel. Também não foi Samuel quem recorreu ao Senhor, apesar de ter sido consagrado a ele desde o seu nascimento e viver ajudando Eli na adoração a Deus. Ao contrário, o texto bíblico é claro em afirmar que Samuel não conhecia o Senhor (1Sm 3.7). Portanto foi o próprio Senhor Deus quem tomou a iniciativa de atuar em meio à crise vivida por Israel. Quando Deus chamou Samuel, este não estava orando ou praticando qualquer ato religioso em busca da presença divina. Na verdade, Samuel estava dormindo e Deus o acordou, o instituiu para ser profeta e transmitir a sua palavra. Foi assim também que agiu o Senhor Jesus. No início de seu ministério, antes de ir para a região da Galileia, ele foi procurar Filipe e disse: – Venha comigo! (Jo 1.43). Na verdade, é sempre assim! Quando o ser humano se distancia do Senhor e se aprofunda em crise, Deus toma a iniciativa de vir ao seu encontro para salvá-lo. c) A força de Deus se manifesta na fraqueza Finalmente, o último ponto a ser destacado sobre a atuação de Deus numa época de crise é que a força do Senhor se manifesta na fraqueza. Ele não buscou uma autoridade poderosa para se manifestar. Ao contrário, vocacionou um garoto que, aparentemente, nada poderia fazer para resolver os problemas do povo de Israel. No entanto, contando com a força de Deus, Samuel tornou-se uma das mais importantes figuras da história de Israel no Antigo Testamento. Assim todo o povo de Israel, do Norte ao Sul do país, ficou sabendo que, de fato, Samuel era um profeta do Senhor (1Sm 3.20). Não somente um profeta, mas também um sacerdote e um juiz. Tudo isso só ocorreu porque as palavras de Paulo, o apóstolo, pronunciadas muito tempo depois, já eram uma realidade na vida de Samuel: seu corpo era um templo do Espírito Santo. Samuel não pertencia a si mesmo, mas ao Senhor; e vivia para a glória de Deus! (1Co 6.19-20).
5 Imagens para a prédica a) O Brasil precisa de profetas Para este Brasil tão rico, país que livre se diz, Onde há tanto pobre perdido e tanta gente infeliz, Precisa o Senhor de profetas para as boas-novas levar, Cientes da chamada e com sua presença a marcar. E o Deus que chamou profetas no passado e os desafiou a seu trabalho realizar É quem nos tem chamado agora para ao nosso Brasil ministrar. Para este Brasil tão grande, que independente se apresenta, Onde há tanta gente sofrendo e onde a servidão cada dia aumenta,
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Precisa o Senhor de profetas, capazes de ficar de pé, Prontos a ouvir a voz do Senhor e obedecer pela fé. E o Deus que desafia e chama exige que lhe sejamos leais, Exercendo a missão profética e amando mais e mais. Para este Brasil tão lindo, Brasil lindo e sofrido, Onde o feio está a acontecer e do pobre se ouve o gemido, Precisa o Senhor de profetas identificados com a mensagem E que vivam de tal modo que reflitam sua imagem. E, se você quer ser um profeta, para ao Brasil ministrar, Deve se identificar com Jesus para, em nome dele, falar. (MORAES, Jilton. Ilustrações e Poemas para diferentes ocasiões. São Paulo: Editora Vida, 2010.) b) Para plantar o reino de Jesus Cristo no Brasil “O fim a que nos propomos é vasto e importante, além do que podemos conceber [...] Pretendemos tornar conhecido o evangelho e trazer o povo do Brasil a submeter-se a Jesus como seu único salvador e rei. Em outras palavras, temos em vista evangelizar no Brasil a paz, que é fruto da paixão, morte e intercessão de Jesus Cristo [...] Em primeiro lugar, a boa e santa vida de todo crente é uma pregação do evangelho. Esta é a mais eficaz. Na falta desta pregação, os demais meios empregados não hão de ser bem-sucedidos. Os crentes são o sal da terra.” (SIMONTON, A. G. Diário – 1852 – 1867. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982.)
6 Subsídios litúrgicos Oração pela transformação do mundo (O texto a seguir pode ser utilizado para leitura alternada) Num tempo em que a guerra e os rumores de guerra não cessam de crescer, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que os bens sociais e, até mesmo, a própria vida são considerados simples artigos de compra e venda, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que a terra e os que nela habitam são destruídos em nome do progresso e do lucro fácil, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que a lógica consumista parece dominar as relações entre os seres humanos e a natureza, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que a fome e miséria se intensificam a cada dia, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que a desigualdade e a injustiça caminham lado a lado, promovendo a exclusão social, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo.
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Num tempo em que teus filhos e filhas lutam entre si buscando ampliar seu espaço e influência, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que teu povo se encontra dividido e se mostra incapaz de sinalizar o teu amor, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que confiamos demasiadamente em nós mesmos e nos esquecemos de ti, Em tua graça, ó Deus, transforma o nosso mundo. Num tempo em que a indiferença torna os nossos corações insensíveis aos teus apelos e à dor do próximo, Em tua graça, ó Deus, transforma a nossa vida e todo o nosso ser. (SOUZA, José Carlos. Auxílios Litúrgicos. São Paulo: CLAI, 2011.) Oração de gratidão Deus Criador, damos-te graças pela força que teu Espírito Santo nos dá para podermos realizar mudanças. Damos-te graças porque tu estás conosco sempre e jamais nos abandonas quando confiamos em ti. Em meio a todo sofrimento, tu estás presente e tens sempre um desígnio para o teu povo. Teu desígnio é bom porque nos anuncia vida em abundância, mesmo quando enfrentamos dificuldades. Obrigado por seres um Deus de justiça e por desejares que a justiça prevaleça na terra. Obrigado por nos escolheres para sermos teus colaboradores e trazermos paz e justiça onde o povo está em dores. Dá-nos coragem de realizar aquilo que é certo, e de confiar em ti nas coisas que não conseguimos mudar. Obrigado por lembrar-nos que tua graça basta para conduzir-nos através das coisas que não conseguimos mudar. Pelo nome de Jesus. Amém. (PHIRI, Isabel Apawo. A África em Oração. Genebra: Conselho Mundial de Igrejas, 2003.)
Bibliografia DAVIDSON, F. (ed.). O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova,1963. GASS, Ildo Bohn (org.). Uma Introdução à Bíblia. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2011. v. 3
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PRÉDICA: MARCOS 1.14-20 JONAS 3.1-5,10 1 CORÍNTIOS 7.29-31
3º DOMINGO APÓS EPIFANIA
21 JAN 2018
Aline Danielle Stüewer Joel Haroldo Baade
Aceite o convite e assuma o compromisso!
1 Introdução Estamos vivendo o 3° Domingo após Epifania, momento em que lembramos da revelação de Deus em Jesus. Deus revela a sua vontade e a sua missão em Jesus. Por isso o texto do evangelho fala do início da pregação de Jesus. Após ser batizado e passar pela tentação no deserto, Jesus volta para a Galileia, pregando o arrependimento e lembrando que o tempo está cumprido. No caminho, Jesus chama discípulos para junto com ele espalharem a boa nova. O texto do Antigo Testamento fala do segundo chamado de Jonas para ir a Nínive exortar ao arrependimento dos pecados. Também destaca que os ninivitas se arrependeram dos seus maus caminhos, mudaram de vida, e por isso Deus lhes concedeu uma nova chance. Na mesma direção, o apóstolo Paulo alerta a comunidade de Corinto a prestar atenção no modo como tem vivido, pois o tempo está chegando. Por isso não devem se prender a nada deste mundo, pois “a aparência deste mundo passa”. Os três textos exortam ao arrependimento dos pecados e à mudança de vida a partir do encontro com Jesus.
2 Exegese A análise exegética baseia-se na comparação de quarto versões: Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Pastoral e Jerusalém. Foi também consultado o texto grego para avaliação das traduções. A leitura das análises anteriores em Proclamar Libertação também foi realizada; contemplou-se o texto de 2014 (PL 39). Os versículos 14 e 15 constituem uma pequena unidade dentro do texto da prédica, retratando o início da ação pública de Jesus como anunciador do reino de Deus. v. 14: O versículo marca o início da atuação de Jesus no anúncio do evangelho. Informa-se primeiro a prisão de João Batista, depois a ida de Jesus para a Galileia e, por fim, o anúncio do “Evangelho” (ARA e Pastoral) ou a Boa Notícia (NTLH e Jerusalém). Kunz (2014) chama a atenção para as demarcações claras feitas pelo evangelista. É destacada a prisão de João Batista, que não aparecerá
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mais no evangelho, salvo na referência ao seu martírio no capítulo 6. João sai de cena e entra Jesus. v. 15: O versículo apresenta a fala de Jesus, conteúdo da sua pregação. Anuncia a proximidade do reino de Deus e a necessidade de arrependimento e confiança no evangelho. A versão Pastoral destoa das outras três ao empregar o termo conversão ao invés de arrependimento. Contudo, o sentido do termo grego permite essa interpretação, pois expressa mudança de pensamento. Conforme Kunz (2014), as duas expressões no indicativo “está cumprido” e “está próximo” fazem referência à esperança messiânica de libertação de Israel de seus opressores. Do mesmo modo, os imperativos “arrependei-vos” e “crede” apontam para a realidade de que nesse tempo que se cumpre (kairos), há respostas que são exigidas das pessoas que ouvem o evangelho anunciado por Cristo. De qualquer modo, não há espaço para passividade. Dos versículos 16 a 20, temos a vocação dos primeiros discípulos. O texto tem os seus paralelos em Mateus 4.18-22 e Lucas 5.1-11. A versão de Marcos é bastante sintética. v. 16: Neste versículo se apresenta a cena em que ocorre a vocação dos primeiros discípulos. Jesus caminha às margens do mar da Galileia e convoca alguns pescadores para acompanhá-lo como discípulos. Os dois primeiros a serem chamados são Simão e André. De certo modo, a escolha parece aleatória, pois anuncia-se que Jesus simplesmente caminhava à beira do mar e, ao ver os dois irmãos, dirige-se a eles. v. 17: Fala de Jesus que chama ao seguimento e promete que os discípulos deixarão de ser pescadores de peixes para se tornar pescadores de “gente” (NTLH) ou “homens” (ARA, Jerusalém e Pastoral). Kunz (2014) acentua a autoridade presente nas palavras de Jesus e a clara diferença em relação aos discursos dos rabinos. O chamado não implica imediatamente o discipulado. Esse é promessa e condição futura a ser construída. As pessoas tornam-se discípulas de Cristo à medida que convivem com ele. A existência cristã é caminho e não ponto de chegada. Os verbos no futuro parecem indicar nessa direção. Ao mesmo tempo, a antiga vocação não é abandonada, mas serve de referência para a nova, na qual deverão pescar pessoas (Kunz, 2014). v. 18: Ao pedido de Jesus, Simão e André deixam as suas vidas de pescadores e seguem o mestre. As decisões dessas duas pessoas de simplesmente seguirem a Cristo, deixando o restante para trás, são envoltas de uma “naturalidade misteriosa” (Kunz, 2014). Mostra-se a força da boa notícia do evangelho, que pode transformar vidas de modo absolutamente radical, surpreendente e misteriosa. Ao mesmo tempo, essa ação é espontânea e livre de coações. Vê-se aqui a concretização do “crer” do v. 15. v. 19: Aqui são apresentados os dois próximos a serem chamados, Tiago e João, filhos de Zebedeu. A única diferença entre as versões está na ordem dos elementos, especialmente em NTLH, de modo a tornar o texto mais fluente ao leitor contemporâneo. v. 20: Tiago e João, após o chamado de Jesus, deixam família e conhecidos para seguir a Cristo, a exemplo de Simão e André. A brevidade e simplicidade do
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texto de Marcos podem talvez dar a entender que o evangelista não tenha dado o devido crédito à importância do momento. Por outro lado, podem também indicar que o seguimento de Cristo, ou mais precisamente o encontro com Cristo produz uma mudança completa na vida das pessoas. Nesse encontro não sobra espaço para dúvidas ou estabelecimento de outras prioridades. Quem encontra Cristo face a face não resiste ao seu chamado, mas larga o que está fazendo e o segue.
3 Meditação Os irmãos Simão e André estavam pescando. Um pouco mais à frente, os irmãos Tiago e João consertavam suas redes de pesca. Quatro pescadores. Possivelmente, a rotina de suas vidas era esta, passar horas no mar da Galileia buscando o sustento de suas famílias. Era para ser mais um dia como todos os outros: verificar as redes, consertá-las, jogá-las ao mar, puxá-las na esperança de estarem carregadas de peixes e voltar para casa após mais um dia de trabalho. Eles não imaginavam que suas vidas iriam mudar radicalmente. Jesus se aproxima deles e faz um convite: Venham, e eu lhes farei pescadores de gente. Convite estranho. Pescadores de gente? O que se passara na cabeça dos pecadores? Estranheza, dúvida, incerteza... Não se sabe exatamente o que eles pensaram, mas o texto diz que no mesmo instante deixaram tudo o que estavam fazendo e seguiram Jesus. Não deram nenhuma desculpa nem pediram que voltasse outra hora. O convite de Jesus lhes exigiu uma rápida resposta e eles não titubearam. Aceitaram o convite e assumiram o compromisso de serem pescadores de gente. De alguma forma, o encontro com Jesus mexeu com aqueles pescadores. O evangelho provoca mudança de vida. Eles não eram mais os mesmos. Sentiam que não era mais possível apenas jogar as redes para “pescar peixes”. Aqueles pescadores foram convidados a continuar “pescando pessoas”. Eles já haviam sido pescados por Jesus e agora deveriam pescar outras pessoas através da “rede” do evangelho. Quantas pessoas continuam sendo chamadas por Jesus. Infelizmente, nem todas aceitam de prontidão o convite. Ouvem o evangelho, mas esse não provoca mudança nas suas vidas. Pelo contrário, querem continuar vivendo da mesma forma, sem mudar suas prioridades. Quantas continuam dando desculpas e inventando argumentos para não aceitar o convite. Quantas pessoas se acham tão cheias de preocupações para vir a um culto, para ouvir Jesus, para participar de alguma atividade na paróquia, para aceitar um convite do pastor ou da pastora. “Temos tantas outras preocupações, não é verdade? Ainda ter que se preocupar com a igreja?” Ouvem o chamado, mas não querem assumir nenhum compromisso. Por isso, em tantos lugares, é tão difícil conseguir pessoas que aceitem o convite para se tornar lideranças na igreja. A procura por presbíteros, orientadoras do culto infantil e líderes na juventude, por exemplo, é cada vez mais difícil. O encontro com Jesus provoca mudança. Ao ouvir o evangelho, somos convidados a reavaliar nossas prioridades e assumir o compromisso com o reino de Deus. Jesus espera uma resposta nossa. Ele olha para nós, assim como olhou
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para os pescadores, e diz: “Eu quero a companhia de vocês! Venham pescar comigo”. Ao ouvir esse chamado, somos convidados a segurar a rede de pesca junto com Jesus e ir ao encontro de pessoas que ainda precisam ser pescadas. Ao longa da nossa caminhada cristã, somos convidados a demonstrar e viver o nosso compromisso com Deus. Ao sermos convidados por ele, não podemos ficar parados apenas olhando para Jesus. Ele quer que mudemos nossas prioridades e o sigamos. Para seguir Jesus é necessário largar as antigas redes, abandonar antigas convicções e ir em busca de uma nova vida.
4 Imagens para a prédica Ilustração: Os pescadores sem peixes Era uma associação de pescadores. Esses viviam no meio de rios e lagos, cheios de peixes famintos. Eles se reuniam regularmente para discutir sobre o chamado para pescar, a abundância de peixe e a emoção de pegar peixes. Ficavam muito animados com o assunto da pescaria, pois amavam isso. Alguém sugeriu que o grupo precisava de uma filosofia de pesca. Assim, cuidadosamente, definiram e redefiniram a pesca e o propósito da pescaria. Desenvolveram estratégias e táticas. De repente, perceberam que haviam começado de trás para frente – haviam se interessado pela pescaria do ponto de vista do pescador, e não do ponto de vista do peixe. Como o peixe vê o mundo? Como vê o pescador? O que o peixe pensa? Ele pensa? O que e quando o peixe come? Era importante entender essas coisas. Por isso iniciaram estudos e pesquisas. Participaram de conferências sobre pescaria. Muitos viajaram a lugares longínquos para estudar diferentes tipos de peixes, com diferentes hábitos. Alguns obtiveram Ph.D. em piscicultura. Contudo, ninguém havia ido pescar. Formou-se, então, um comitê para enviar pescadores. Havia muito mais lugares propícios para pescar do que pescadores. Por isso o comitê precisava determinar prioridades. A lista de prioridades foi colocada em quadros de avisos em todos os salões da associação. Mas, como antes, ninguém estava pescando ainda. Foi feita uma pesquisa para saber o porquê. A maioria não respondeu ao questionário, mas entre os que responderam, descobriu-se que alguns se sentiam chamados para estudar a pesca, outros para fornecer equipamentos de pesca e outros, ainda, para encorajar os pescadores. E, com tantas reuniões, conferências e seminários, simplesmente não tiveram tempo para pescar. Jacó era novato na associação de pescadores. Depois de uma reunião muito animada, ele foi pescar. Fez algumas tentativas, pegou o jeito e conseguiu pegar um lindo peixe! Na reunião seguinte, ele contou sua história e foi elogiado pelo sucesso. Acabou sendo convidado para falar em todos os núcleos da associação e contar como havia sido a sua pescaria. Assim, com tantos compromissos e por ter sido eleito para a diretoria da associação, Jacó nunca mais teve tempo para pescar. No entanto, não demorou muito e ele começou a se sentir intranquilo e vazio. Teve saudades da pesca propriamente dita, de sentir o puxão no anzol. Assim, decidiu deixar a diretoria da associação, bem como os demais
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compromissos com os núcleos, e convidou um amigo para ir pescar com ele. Os dois foram sozinhos e, simplesmente, pegaram peixes. Os membros da associação de pescadores eram muitos e os peixes eram abundantes. Mas os pescadores continuavam sendo muito poucos. A grande maioria era pescador sem peixes! Uma pena! (Adaptado – Fonte: Ultimato) Essa ilustração pode ser usada para destacar que, muitas vezes, lideranças de comunidades passam muito tempo discutindo assuntos burocráticos e administrativos e esquecem o objetivo principal de ser comunidade: pescar gente!
5 Subsídios litúrgicos Sugestões de hinos: HPD 2: 448 (Pedro, Pedro, Pedro), 413 (Senhor, se tu me chamas), 329 (Como foi o teu encontro lá no lago). Sugere-se passar o vídeo da música “A Barca”, composta em 1979 pelo padre espanhol e compositor Cesáreo Gabaraín (1936-1991), cujo título original é “Pescador de hombres” (<https://www.youtube.com/watch?v=frC_VQ5gl5A>). A música pode servir para complementar a mensagem. Refrão: Senhor, tu me olhaste nos olhos, a sorrir, pronunciaste meu nome, lá na praia, eu larguei o meu barco, junto a ti buscarei outro mar.
Bibliografia KUNZ, Claiton André. Todos somos chamados. In: HOEFELMANN, Verner. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2014. v. 39, p. 75-80.
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4º DOMINGO APÓS EPIFANIA
28 JAN 2018
PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 8.1-13 DEUTERONÔMIO 18.15-20 MARCOS 1.21-28
Samuel Gausmann
Mais coração, menos cabeça!
1 Introdução: fartar-se de que, por quê? O texto previsto para a pregação nos traz um banquete de argumentações para nutrir nossa convivência social a partir da fé. Num contexto farto de opções, a sobriedade em favor do próximo deve pautar a convivência comunitária e social. Deuteronômio destaca que o conhecimento da vontade de Deus nos vem intermediado e aponta para a pessoa do profeta. O conhecimento por si só pode ser traiçoeiro. Deus é quem revela sua vontade para quem se compromete com ele. Como cristãos, desde nosso batismo, somos incluídos no sacerdócio geral e essa “fidelidade profética” também nos é exigida. A partir de nossa fidelidade é que vamos temperar nossa vida e ser tempero em nosso ambiente. Na leitura do evangelho fica claro que onde Deus está o mal não permanece. Diante da presença de Jesus, os espíritos maus se manifestam e são expulsos. Novamente o critério não é o conhecimento, mas o amor e a fidelidade, pois até os demônios conheciam quem era Jesus! É o amor que faz do conhecimento uma ponte que aproxima e não um muro que separa. Se tivermos a fé firme no coração, ela nos auxilia a ter clareza em nossas decisões. No período da Epifania, em que celebramos que Deus se manifesta à humanidade na pessoa de Jesus Cristo, vale ressaltar que o caminho da sabedoria não é o de uma mente que concorda, mas o de um coração que se converte. Fé cristã é muito mais um relacionamento inspirado que um conhecimento acumulado, é um relacionamento com Deus, inspirado por ele, que inspira a nos relacionar melhor conosco mesmos e com o próximo.
2 Exegese: analisando o cardápio 1 Coríntios 8.1-13 pertence ao contexto maior dos capítulos 7 a 16, em que Paulo responde a perguntas sobre problemas existentes na comunidade. O capítulo 7 trata de questões relativas ao casamento e à vida familiar, e no capítulo 9 o apóstolo relata sobre seu exemplo pessoal de renunciar em favor das outras pessoas. Paulo foi um missionário urbano que escolheu estrategicamente os grandes centros, como Corinto (a segunda maior cidade grega daquele tempo), de onde as comunidades podiam atingir todo o contexto à sua volta. A vida em Corinto se concentrava ao redor da ágora, a praça principal, onde templos, casas de comércio e órgãos político-administrativos disputavam o mesmo espaço.
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Naquela época, era praticamente impossível viver em uma cidade grega sem deparar-se diariamente com o problema de comer carne que tinha sido oferecida em sacrifício a ídolos. Uma parte da carne sacrificada aos ídolos era queimada no altar, outra parte era comida em uma refeição no templo e uma terceira parte, a carne de menor qualidade, era vendida no mercado para uso doméstico. Para os judeus, comer esse tipo de carne era proibido. Para cada casa, pórtico ou departamento público havia uma divindade e um altar. As festas aos ídolos eram eventos sociais. Alguns dos cristãos coríntios julgavam que apenas assistir a um festival religioso não representaria conflito com a fé. A questão era: comer carne sacrificada aos ídolos é a mesma coisa que adorá-los? Seria uma transgressão ao primeiro mandamento? Esse dilema afligia também outras comunidades, como o demonstram outras referências (At 15.29; Ap 2.14), inclusive o livro da Didaquê [6.3]). Os gregos aplicavam o termo “deuses” para suas divindades tradicionais, e o termo “senhores” para as divindades de seus cultos de mistério. O ídolo é de si mesmo nada no mundo, mas o apóstolo admite, entretanto, que existem aqueles que se chamam deuses. No contexto urbano pluralista estava lançado o desafio de afirmar, a partir do evangelho de Jesus Cristo, que há um só Deus e um só Senhor (8.6) e que os demais chamados “deuses e senhores” (8.5) na verdade não o são. É a confissão monoteísta marcando presença no contexto urbano politeísta. Paulo qualifica esse conhecimento de libertador (8.9), pois ele liberta as consciências em relação à influência do pensamento politeísta e capacita para a empatia com os que não têm conhecimento e por quem Cristo também morreu (8.11). A edificação dos “fracos” tem prioridade sobre a liberdade dos “fortes”. Paulo percebe a complexidade da questão, pois o fator “familiaridade com o ídolo” (8.7) desempenha decisivo papel na convivência, pois não se troca um padrão cultural como se troca de roupa. A arrogância torna o conhecimento já adquirido um ponto final, que provoca um comportamento inconveniente, sendo que a arrogância não só leva a um conhecimento limitado, como também a um comportamento inadequado. O conhecimento na perspectiva cristã não é tanto algo ativo (que a própria pessoa busca), mas algo passivo. É o relacionamento com Deus que traz a sabedoria, e não o contrário. Nesse sentido, vale ressaltar que o v. 3 fala que é pelo amor que temos acesso a Deus e não pelo conhecimento. É através do amor que Deus se revela a nós e nos mantém junto dele. Paulo percebe que os cristãos em Corinto dividiram sua igreja em partidos (fortes e fracos) pela sua imaturidade, cometendo um pecado muito maior que comer ou não carne sacrificada: mutilaram o corpo de Cristo – a unidade da comunidade. Da gastronomia à teologia, tudo deve ser cozinhado em amor tal como em banho-maria, com a devida persistência. Nas questões morais secundárias, como o comer da carne oferecida aos ídolos, a liberdade deve ser dosada pelo amor. Em primeiro lugar, a tirania em querer impor sua forma de pensar e agir e a soberba de julgar-se superior representam ingredientes nocivos, os quais fazem qualquer receita de convivência desandar. Em segundo lugar, o apóstolo enfatiza que a decisão de amar e a atitude de renúncia pelo bem do todo é do irmão mais “forte”. Paulo identifica-se com o “grupo forte”, mas está disposto a abrir mão da liber-
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dade de comer carne para não escandalizar os irmãos “fracos”. A palavra grega skandalizo significa tropeço, armadilha, impedimento, ou seja, é tudo aquilo que faz tropeçar ou que seduz para o pecado, é o que desvia de Cristo. Nesse sentido, o crente maduro não é regido pelos seus direitos, mas pelo amor. É pelo seu conhecimento que o irmão forte vai ao encontro do mais fraco e, se preciso, renuncia a seu direito voluntariamente. É muito significativo que Paulo, ao tratar da carne sacrificada aos ídolos, não apela para o pronunciamento do Concílio de Jerusalém (At 15.19-20). Teria sido fácil resolver o problema mediante o recurso a uma lei em vigor em toda a igreja. Em vez disso, ele apela aos conceitos espirituais mais sublimes, que os gregos apreciavam muito. O desafio que Paulo lança é encontrar uma maneira de viver na cidade, agora que o critério se tornou o evangelho de Cristo. O caminho do evangelho no meio urbano é caracterizado pela conflitividade. No entanto, o exercício evangélico da cidadania não se concretiza no isolamento em relação ao urbano, mas no esforço organizado e comunitário para uma inserção embasada na fé.
3 Meditação: dor de barriga ou peso na consciência? À primeira vista, pode causar estranheza o assunto de comida sacrificada a ídolos como se fosse algo desconectado do mundo atual. Pode causar desconforto ao pregador e à pregadora lidar com um assunto complexo por precisar de muita pesquisa para compreendê-lo e muita inspiração para contextualizá-lo. Por isso começo questionando o seguinte: será que, de fato, não continuamos a comer comida sacrificada a ídolos e principalmente ao “ídolo Mammom”? Em 1589, o bispo alemão Peter Binsfeld elaborou sua própria classificação de demônios, associando cada um deles a um pecado capital. A cobiça/ganância foi associada a Mammom. O lucro é como uma divindade na sociedade moderna e tudo gira em função dele. Vivemos em um tempo em que sabonetes têm vitaminas, e a comida veneno. O lucro a qualquer custo torna nossas mesas altares de Mammom. Se pesquisarmos a procedência de tudo o que comemos, vamos perder o apetite! Que postura cristã precisamos ter diante do “deus mercado”? Assim como a sociedade de Corinto da época de Paulo estava imersa no pluralismo religioso, nós estamos imersos no consumismo desenfreado. E sem falar em outras situações como, por exemplo: um cristão pode comer acarajé sendo que esse alimento é geralmente oferecido a orixás? Até que ponto um cristão pode consumir bebida alcoólica sem implicar prejuízo para si mesmo ou causar escândalo a outros? Uma comunidade cristã pode promover festas regadas a bebidas alcoólicas? Como definiu muito bem o filósofo Zigmunt Baumann, vivemos em tempos líquidos. É difícil distinguir o preto do branco quando tudo se manifesta em tons de cinza. É sintomático que livros como “50 tons de cinza” fazem tanto sucesso porque também na sexualidade e afetividade a permissividade predomina. O enfoque é o próprio prazer sem levar a outra pessoa em consideração. Sacrifício e doação estão fora de questão quando o assunto é relacionamentos. Não é necessário isolar-se do mundo em uma estufa espiritual, cortando todos os vínculos com pessoas de outra orientação religiosa. A liberdade cristã
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termina onde começa a consciência do seu irmão, da sua irmã. O amor, não o conhecimento, estabelece os limites da liberdade cristã. Para muitos, o conhecimento é a chave que destranca a liberdade. Se não for dosada essa liberdade, nos tranca numa prisão egocêntrica. Pode ser que existam coisas que para nós não representam uma tentação, mas que são tentações violentas para outras pessoas. Portanto, ao considerar se faremos ou não determinada coisa, devemos pensar não só em seu efeito em nós, mas também no impacto ao próximo. Liberdade cristã é um estilo de vida difícil e desafiador, que exige muita maturidade, humildade e decisões diárias sobre o certo e o errado, o melhor e o pior, o conveniente e o inconveniente. Vai além do nosso conhecimento porque exige amor. Há pessoas que sabem muito, mas não amam. O uso de minha liberdade, sem levar em conta a situação do meu próximo, poderá fazê-lo recair no contexto nocivo do qual Cristo o libertou. Precisa-se cuidado para não cair em conduta legalista. Nesse sentido, é inspirador lembrar que as novas comunidades em formação na época de Paulo apresentavam uma nova proposta de convivência social a partir de sua inserção, e não isolamento ou pré-condenação da ordem estabelecida. Por isso a abordagem do apóstolo é argumentativa e flexível, pois tudo ainda estava em construção. Paulo é quem fez a transição do ser igreja do contexto rural dos primeiros discípulos e Jesus para o contexto urbano. O que ocorre em grande parte nessa e em todas as cartas paulinas é a busca concreta pelo caminho novo. Nossa prática deve ser inclusiva sem deixar nossa teoria ser relativizada. Admitindo-se as diferenças, tem-se condições de aprender, crescer e ensinar. O cristianismo é exemplo clássico disso, pois enquanto os judeus-cristãos insistiam em abolir diferenças, impondo o modo de vida judaico, o cristianismo correu sério risco de tornar-se seita judaica. Com a proposta paulina de assumir as diferenças como parte integrante e constituinte da fé, o cristianismo tornou-se apto para superar-se e crescer. Toda essa doutrina moral cristã é comunitária e não individual. A dimensão individual é moldada pelo coletivo e não vice-versa. Baseados na excelência da sua gnose, os diversos grupos religiosos e culturais de Corinto entendiam-se libertos e Paulo redimensiona essa noção de liberdade vinculando-a ao servir por amor.
4 Imagens para a prédica: apetecendo a comunidade para o serviço Mostrar à comunidade um sabonete com vitaminas e um alimento (tomate, maçã etc.), comparar os dois como introdução à temática, conforme a reflexão da meditação acima. Não podemos seguir a estratégia da avestruz que, escondendo a cabeça na terra e por não ver a realidade e o perigo, acha-se seguro. Nem podemos agir como um camaleão que, conforme o ambiente, muda de cor. A igreja de Cristo é enviada ao mundo, vive no mundo, mas não é do mundo. Não podemos ser sal apenas dentro do saleiro. Sua serventia está no contato com o exterior. Afinal, o sal só vai salgar o alimento em contato com ele. Nem sempre se acerta a receita
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na primeira vez. Mas não vamos desistir de buscar sabor porque uma vez experimentamos amargor. A comunidade deve ser lembrada de que em seu meio também há “fortes” e “fracos”. Como os departamentos na comunidade se relacionam e de que forma as orientações do apóstolo podem servir de inspiração na interação entre paróquia, sínodo e IECLB? Como isso pode impulsionar a parceria ecumênica e a ação social da comunidade em seu contexto? Na perspectiva da justificação, a cultura também deve ser pensada em função da prática do amor consciente e libertador. Dessa forma, também a cultura popular, por mais simpática e “inofensiva”, deve passar por esse filtro: serve a quem? Celebramos 500 anos da Reforma Protestante: agora são outros 500. Temos propostas de interação com a sociedade e inserção nos contextos urbanos de nosso país? O que estamos informando (receitas), formando (cozinhando) e reformando (temperando) como comunidades de fé, herdeiras da Reforma de Martim Lutero?
5 Subsídios litúrgicos: alimentando a espiritualidade Versículo de acolhida ou para a Liturgia da Palavra: 1 Coríntios 1.23-25 Engolimos sapos. Engolimos o choro. Mas não engolimos o orgulho. Vomitamos palavras de ódio. Não alimentamos a alma. Sobrecarregamos o corpo pela estética e afrouxamos a moral por falta de ética. Ruminamos o que a mídia propõe. Queremos sabor, mas temos pressa. Queremos quantidade e esquecemos a qualidade. Não questionamos a procedência, queremos mesmo é a aparência. Onde foram parar a fome e a sede por justiça? Somos empanturrados pelo narcisismo, individualismo, materialismo. Fechemos a boca, abramos os olhos, estendamos as mãos! Busquemos Jesus, que de si mesmo diz: Eu sou o pão da vida, quem vem a mim não terá fome e quem crê em mim não terá sede.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2008. SCHNEIDER, Nélio. Primeira Carta de Paulo aos Coríntios. São Leopoldo: CEBI, 2008.
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PRÉDICA: ISAÍAS 40.21-31 MARCOS 1.29-39 1 CORÍNTIOS 9.16-23
5º DOMINGO APÓS EPIFANIA
04 FEV 2018
Nelson Kilpp
1 Introdução Epifania é a época da manifestação de Deus ao mundo através de Jesus, o Cristo. Desde o nascimento na humilde estrebaria, para onde os magos do Oriente são levados, passando pelo batismo de Jesus e o seu primeiro milagre – as bodas de Caná – até a experiência no monte da transfiguração – em tudo se manifesta a grande luz (cf. o versículo de aclamação João 8.12: Eu sou a luz do mundo). O evangelho se insere nesta temática: os demônios reconhecem a messianidade de Jesus. Mas a missão de Jesus ultrapassa o curar doentes e expulsar demônios. É anunciar a vinda do reino de Deus: para isso é que vim (Mc 1.38). A Primeira Epístola aos Coríntios é lida de forma semicorrida nos domingos após Epifania. No texto previsto para este domingo, Paulo defende seu apostolado diante de seus adversários, afirmando que renuncia ao seu salário de evangelista para não se tornar pesado à comunidade. Não evangeliza por interesse; o próprio evangelho o constrange. Paulo faz isso de boa vontade, pois quer alcançar as pessoas. Com o texto de Isaías 40, previsto para a pregação, podem ser estabelecidos temas comuns: a) Deus se manifesta na criação e na história (Is 40), na pessoa e nos sinais de Jesus (Mc 1) e na força de seu evangelho (1Co 9); b) em sua manifestação, Deus busca aproximar-se das pessoas para animá-las e ajudá-las em suas necessidades.
2 Observações exegéticas Is 40.21-31 pertence ao bloco dos ditos atribuídos ao profeta anônimo que atuou, em meados do século VI a.C., entre os exilados judaítas na Babilônia (Is 40-55). Informações sobre a situação dos exilados e sobre a mensagem do chamado Segundo Isaías podem ser encontradas nas introduções ao Antigo Testamento, bem como em textos do profeta, tratados em Proclamar Libertação (p. ex., PL VI, p.16-21, e a meditação de Augusto E. Kunert sobre Is 40.25-31, em PL IX, p. 216-226, a única a tratar o nosso texto na série). Encontrei diversas maneiras de delimitar a perícope em comentários e versões da Bíblia. Não creio ser possível chegar a um consenso. Os v. 12-31 têm em comum o tema da incomparabilidade do Deus Criador e Senhor da história. Ao mesmo tempo em que é majestoso, esse Deus também consola e dá forças ao povo desanimado. Nas palavras de Severino Croatto: “Javé pode e quer salvar” (1998, p. 34). Dentro desse complexo maior, é possível fazer o recorte previsto (v.
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21-31), já que se preservam essas duas dimensões: o “poder” e o “querer” salvar. Sigo a divisão da perícope efetuada por Klaus Baltzer (1999, p. 115ss): v. 21-24: o Criador do universo e o Senhor dos poderosos (entronizado sobre o círculo da terra – v. 22) v. 25-26: o Deus que garante a ordem dos astros e da história (ele faz sair o seu exército bem contado – v. 26) v. 27-31: a superioridade de Deus possibilita esperança (mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças – v. 31). ad 1) 40.21-24: As três partes iniciam com perguntas retóricas por meio das quais o profeta pretende provocar a reação de seus ouvintes. Às perguntas seguem trechos com característica de hinos. Na primeira seção, o profeta motiva seus ouvintes a perscrutar a sua tradição, aquilo que aprenderam dos antepassados (“desde o princípio”) sobre os “fundamentos da terra”. O autor aponta para as extremidades da terra: Deus se encontra desde as “profundezas da terra” (v. 21) até as alturas do céu onde está o seu trono (v. 22). A cosmologia do antigo Oriente concebe a terra como um disco redondo, limitado pelo horizonte e sustentado em fundamentos, e o céu como abóboda assentada nas extremidades (“confins”) da terra (v. 28). No zênite da redoma celestial se encontra o trono de Deus; a distância até os habitantes da terra é tão grande que estes se parecem com gafanhotos. Porém, apesar de transcendente, esse Deus quer que sua magnífica criação seja uma “tenda que sirva de habitação” aos humanos (v. 22). Além de Criador do universo, o Deus de Israel também é Senhor de “príncipes” e governantes (“juízes”). Impérios e governos são transitórios. Isso certamente não vale apenas para o Império Babilônico. Também os atuais impérios e governos são passageiros. A transitoriedade do poder político faz com que ele seja visto em sua real dimensão: é uma planta que tem a sua hora. Só o verdadeiro Senhor permanece. ad 2) 40.25-26: Cita-se, aqui, uma fala divina: A quem, pois, me comparareis? A resposta é óbvia: Deus não pode ser comparado com ninguém! O argumento apresentado para fundamentar essa incomparabilidade de Deus são os astros. O profeta evita o termo “astro”. Ele exorta a olhar para o alto e observar como Deus passa revista no “exército” (celestial). Impressiona, também aqui, que a majestade do Criador é combinada com sua proximidade e carinho com as criaturas. Deus conhece cada estrela pelo nome (cf. Sl 147.4s). O canto “Sabes quantas estrelinhas” foi feito tendo em mente a nossa passagem. Conhecer o número e o nome de cada uma delas é sinal de que Deus se importa com elas. Não é acaso que o canto termine com: “Vê e ama a ti também”. ad 3) Também a última seção é introduzida por (quatro) perguntas (v. 2728a), seguidas de (três) afirmações em forma de hino (v. 28b-29). Até aqui, o profeta se dirigira a uma segunda pessoa do plural; agora ele fala a uma pessoa no singular: “Jacó/Israel”. O povo é personificado; ele é tratado carinhosamente como uma pessoa querida. Cita-se uma queixa do povo: “O meu caminho está oculto ao Senhor” e “o meu direito passa despercebido a Deus” (v. 27). O caminho que Israel tem que trilhar é o da semiescravidão em terra estrangeira, essa é a sina que carrega. Deus parece não ver o que está acontecendo. Deus oculta a
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sua face (Sl 13.2; 22.25; 27.9; 30.8 etc.). O “direito”, ou seja, a expectativa criada no povo pelas promessas feitas aos pais não encontra eco em Deus. Aos olhos do povo, elas não estão sendo “honradas”. A situação emocional e espiritual entre os exilados é desoladora: em vez de ânimo e esperança, existe a terrível desconfiança de que Deus não mais quer saber do povo. Três são as respostas do profeta. Primeiramente afirma que Deus é eterno: ele se manifesta desde o distante passado até o longínquo futuro. Ele molda o tempo com suas mãos. Além disso, também o espaço geográfico a ele pertence. Não só o centro, mas também os espaços periféricos (“extremidades”) da terra estão sob seu domínio. Isso inclui os esquecidos lugares de desterro do povo. Por fim, ele – incansável que é – “dá forças ao cansado” (v. 29). Isso parece incompreensível à primeira vista. Como alguém que causou tanta desgraça ao povo e aparentemente está distante e oculto pode querer reanimar os sem esperança? Os seus pensamentos, de fato, não são os nossos. O profeta conclui com uma comparação: até os fortes e os jovens, no auge do vigor, em algum momento, cansarão. Mas os que esperam em Deus estão em melhores condições, pois renovam constantemente as suas forças (cf. Rm 5.5). A metáfora da águia é marcante: as pessoas que recobram a esperança conseguem alçar voo como as águias. Alçar voo é libertar-se de desânimo, abatimento, resignação.
3 Meditação Será que somos felizes? De acordo com o Relatório Mundial da Felicidade de 2017, o Brasil ocupa o 22º lugar na lista dos países mais felizes do mundo. Um ano antes estava em 17º. O nível de felicidade é calculado a partir de dados da economia, saúde, educação, expectativa de vida e da percepção subjetiva de satisfação dos habitantes do país. Apesar de estarmos em queda, parece que ainda somos um país de pessoas razoavelmente satisfeitas e otimistas. Afinal, na América Latina, estamos apenas atrás de Costa Rica e Chile. E, ao tentar caracterizar o povo brasileiro, por ocasião da Copa do Mundo da FIFA, um jornalista holandês lhe conferiu três qualidades: paciência, criatividade e otimismo. Ainda assim, nos últimos anos, as esperanças que depositamos numa renovação política de nosso país foram frustradas de forma dramática. O momento em que escrevo é de profunda descrença nos políticos que governam nosso país, por causa dos infindáveis casos de corrupção que continuam vindo à tona. Não só a economia, a saúde e a educação se encontram num estado de abandono total. O povo perdeu completamente suas esperanças nas pessoas que comandam o destino de nosso país. Ainda há motivos para esperança? Conforme o IBGE, a expectativa de vida no Brasil dos que nasceram em 1940, comparada com a daqueles que nasceram em 2015, passou de 45,5 para 75,5 anos. Sem dúvida, são reflexos dos avanços da medicina, da tecnologia e de políticas de saneamento básico, ainda que mal distribuídas. Mas estatísticas também são enganadoras, porque nivelam extremos. Além disso, quantidade de vida ainda não significa qualidade de vida. Conforme a Organização Mundial da Saúde, em 2015, 300 milhões de pessoas sofreram de depressão no mundo e
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a estimativa é de que, em 2030, a depressão será o mal de maior incidência na população mundial. Sua atual taxa de mortalidade é superior a 30%, com 800 mil suicídios por ano. No Brasil, a depressão atinge 5,8% da população, algo entre 11 e 12 milhões, ficando nas Américas somente atrás dos Estados Unidos. A incidência do transtorno de ansiedade é ainda maior, atingindo 9,3% da população, o que faz do Brasil o recordista mundial. Vivemos mais, mas não vivemos melhor. Desemprego, atendimento médico público catastrófico, estresse no trânsito, conflitos no lar, violência nas ruas, profissão desgastante, bullying na escola, insegurança – tudo isso tem levado a burn outs, desagregação familiar, fuga nas drogas, banalização da vida, perda da autoestima, suicídio. Sintomaticamente aumenta, por outro lado, a busca por igrejas e grupos de autoajuda. Também os primeiros destinatários do texto de Isaías 40.21-31 viviam uma situação de desânimo e de resignação. Já não tinham mais forças para esperar uma melhora da situação. Parecia que Deus estava ausente e até desinteressado na sorte do povo: Meu caminho está oculto a Javé! À primeira vista, a “tática” do profeta parece inadequada. Pois inicia com a afirmação da incomparabilidade de Deus, ou seja, em termos dogmáticos, prega a transcendência, onipotência e onisciência divina. Quem, hoje, ouve falar num Deus transcendente provavelmente dirá: “Esse Deus não me interessa. Ele está muito distante. Eu necessito é de um Deus próximo, companheiro, que me entenda”. Será que o profeta aponta para Deus poderoso para relativizar os poderes políticos deste mundo, que nos fazem desesperar e desanimar? Em todo caso, mostra a maravilha da criação. A contemplação da criação não só atesta o poder de Deus, mas, ao contrário do que esperávamos, também evidencia o interesse e o carinho do Criador por suas criaturas. A contemplação das maravilhas da criação de Deus não precisa ser algo reservado apenas a saudosistas românticos. Não deveríamos recuperar a capacidade de admirar as maravilhas da natureza? Não só as estrelas, mas o despertar da vegetação na primavera, a mudança da folhagem no outono, a variação das estações do ano, ainda que diferente nas diversas latitudes, a vida que se renova a cada ano – será que tudo isso se tornou “cafona” para as pessoas “modernas”? A postura que nos leva à degradação do ambiente natural é a mesma que leva à perda de nossa capacidade de nos maravilhar? Sem essa sintonia com a criação, da qual somos parte, pode existir esperança para o nosso planeta? A contemplação não se dirige somente aos astros do céu e ao ambiente que nos cerca. Também se volta ao passado, à nossa tradição, à nossa história com Deus. Quais foram os momentos em nossa vida em que estivemos totalmente abatidos e recebemos nova chance de vida? Certamente cada qual poderia contar uma experiência singular, em que esteve abatido e foi “reanimado” (recobrou a sua “alma”), esteve “no fundo do poço” e foi reerguido. Na retrospectiva, essas experiências se tornam ainda mais importantes, pois sustentam a esperança de que Deus abre novos caminhos.
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4 Imagens O texto bíblico é rico em imagens que podem ser exploradas na pregação. A primeira é o “olhar para cima” (v. 26). Quem está triste e abatido costuma olhar para baixo, para o chão. Aí só vê os próprios pés e a sujeira em que pisa. Quanto muito, vê os limites de sua trilha. É necessário erguer um pouco a cabeça para ver o que está à frente, além de si. A perspectiva se torna diferente, o raio de visão mais amplo. Podem-se ver possibilidades de seguir adiante, quem sabe com pessoas que estão ao nosso lado. Se erguermos ainda mais a cabeça, talvez vejamos um horizonte mais amplo, quem sabe o azul do céu, o brilho do sol, a serenidade da lua ou a melodia das estrelas. Aí talvez possamos sonhar para além das nossas próprias modestas possibilidades, com um mundo novo, diferente, melhor. Uma segunda imagem é a de Deus passando em revista o exército celestial, contando todos os seus “soldados”, dirigindo-se a cada um deles, chamando-os pelo seu nome. Apesar do ambiente militar, sobressai a relação pessoal de Deus com cada uma de suas criaturas. Também nós temos um nome, uma identidade. Deus nos conhece; nele, a nossa identidade está preservada para sempre. Deus não se esqueceu dos nomes dos milhões de indígenas massacrados na conquista do continente americano e das milhares de pessoas anônimas que morreram nas guerras promovidas pelos grandes e pequenos impérios. A imagem que mais se destaca é a da águia abrindo suas asas para alçar voo. Talvez possamos dar um toque latino-americano a essa imagem. É impressionante observar o voo do condor andino. Fica-se maravilhado como ele consegue deslizar no ar, aos rodopios, quase sem mover as suas enormes asas. A resposta é simples: ele aproveita as correntes de ar ascendentes que o erguem para o alto. Uma bela figura para expressar que podemos nos deixar levar ao alto pelas maravilhosas promessas de Deus. As pessoas que esperam em Deus correm, mas não se esgotam, porque ele renova as forças do cansado. Canseira, fadiga, enfado, desânimo, frustração, impotência – tudo isso nos é muito familiar. Muitas vezes, nós nos deitamos à noite e os problemas não resolvidos durante o dia vão conosco para a cama. Quando acordamos, no dia seguinte, os problemas não sumiram. Eles continuam aí, mas não mais apavoram. O novo dia abre novas perspectivas. Assim também Deus renova as forças aos que nele esperam.
5 Subsídios litúrgicos Dois cantos de Hinos do Povo de Deus (HPD 1) se candidatam naturalmente por causa de sua relação com o texto de pregação: “Sabes quantas estrelinhas” (236) e “Os que confiam no Senhor” (229). Confissão de pecados: O nosso cotidiano fornece diversos motivos para as pessoas, como a correria diária e a falta de tempo, para a contemplação da criação, a meditação; a busca frenética por assegurar o que temos: saúde, dinheiro, proprie-
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dade, emprego; a pouca confiança na misericórdia divina; nossa incapacidade de ver “sinais” de Deus no dia a dia. Oração de coleta: Agradecer pelas múltiplas manifestações de Deus no passado e no presente: na pessoa de Jesus Cristo, na pregação do evangelho durante os séculos, na maravilhosa criação de Deus, na história da nossa comunidade. Pedir por sabedoria e por olhos capazes de discernir o amor de Deus na atualidade. Versículo de aclamação (Jo 8.12) do Evangelho e o Salmo (147.1-11) do dia estão intimamente ligados ao tema da prédica. Confissão de fé: quem quiser inovar, sugiro o Credo da Igreja Unida do Canadá (ALTMANN, W. (Org.) Nossa fé e suas raízes. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2004. p. 172). Intercessões: o texto é dirigido a pessoas cansadas, sobrecarregadas, desanimadas e sem esperança. Muitas se enquadram nessa categoria, também as pessoas que (acham que) estão perdendo a sua fé.
Bibliografia BALTZER, K. Deutero-Jesaja. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 1999. (Kommentar zum Alten Testament). CROATTO, J. S. Isaías. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1998. v. II: 40-55. (Comentário Bíblico). KUNERT, A. E. Domingo Quasimodogeniti: Isaías 40.25-31. In: KIRST, N. (coord.) Proclamar Libertação. São Leopoldo: Faculdade de Teologia; Sinodal, 1983. v. IX, p. 216-226.
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PRÉDICA: MARCOS 9.2-9 2 REIS 2.1-12 2 CORÍNTIOS 4.3-6
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
11 FEV 2018
Gleidson Ademir Fritsche
Tempo de aprender e agir
1 Introdução Deus revela o seu poder também através daqueles que ele envia. Elias recebeu do céu o auxílio solicitado para vencer os soldados do rei Acazias. Com sua capa bateu na água do rio Jordão, que se abriu e, assim, com Eliseu, atravessou o rio andando em terra seca e, em seguida, foi levado para o céu. O apóstolo Paulo lembra que no rosto de Cristo vemos a glória de Deus. Marcos escreve sobre a ação de Deus que testifica de forma visível (transfiguração) e audível (este é o meu Filho o amado, a ele ouvi) a natureza divina de Cristo e seu serviço. Nos três textos previstos para este domingo, último antes do início da Quaresma, notamos a certeza de que Deus não apenas envia. Ele acompanha os que são enviados. Nas palavras de Paulo: Deus é quem brilhou em nossos corações (2Co 4.6). O fato de Jesus estar junto com Moisés e Elias, servos de Deus no Antigo Testamento que experimentaram também os sofrimentos em consequência do servir, mostra que a cruz não é algo apenas da Sexta-Feira Santa. No entanto, a glória de Deus não é apenas para o tempo depois da ressurreição. Deus está em Cristo. Nos três textos percebemos Deus agindo na história. Ele salva, proclama, faz resplandecer das trevas a luz. Estamos no Último Domingo após Epifania, tempo de lembrar como Deus se revela a nós. Porém, também tempo de reconhecer o sofrimento que espera Jesus, o qual experimenta o deserto e a tentação antes de iniciar seu ministério. A cruz e a ressurreição, como expressão, respectivamente, de sofrimento e glória, irão permitir um pleno e claro reconhecimento de Jesus, o Cristo.
2 Exegese Marcos escreve provavelmente em Roma, por volta do ano 70 d.C. É o evangelho mais antigo. A perícope em foco consta nos três evangelhos sinóticos. A transfiguração ocorre alguns dias após o diálogo em Cesareia de Filipe (Mc 8.27-33). Mateus e Marcos mencionam “seis dias depois”, Lucas, “aproximadamente oito dias depois”. Nesse discurso, Jesus havia anunciado sua morte e ressurreição, havia sido reprovado por Pedro, a quem chamou de Satanás. Talvez um desânimo tenha se apoderado dos doze diante do anúncio do sofrimento e da morte de Jesus. Os discípulos continuam a ser ensinados. A transfiguração aconteceu por causa dos discípulos. Jesus os “toma”, “conduz” ao alto do monte, é transfigurado
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“diante deles”, assim como Elias e Moisés apareceram “a eles”. Outro detalhe importante é que Lucas menciona o fato de que Jesus foi ao monte para orar, o que não é mencionado nos relatos de Marcos e Mateus. Abaixo, trazemos uma tradução mais literal, em parte, baseada no Novo Testamento Interlinear, de Vilson Sholz, e um breve comentário sobre cada parte do texto. Marcos 9.2-3: E depois de seis dias, toma Jesus consigo Pedro e Tiago e João e conduz os mesmos para um monte alto em particular sozinhos. E foi transfigurado perante eles, e as vestes dele se tornaram brilhantes, muito brancas, tais como lavandeiro sobre a terra não pode assim branquear. Os discípulos apenas acompanham. Primeiro, são conduzidos por Jesus, que toma a frente, age e conduz. Na sequência, assistem à transfiguração de Jesus. Deus age, transfigura Jesus. Os três discípulos em questão são testemunhas do que viram e ouviram. Servem de vanguarda. Há outras situações em que o mesmo grupo seleto de testemunhas é chamado, como podemos conferir em Marcos 5.37 e 14.33. Marcos 9.4-6: E apareceu a eles Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. E respondendo Pedro diz a Jesus: Rabi, bom é nós aqui estarmos, e façamos três tendas, para ti uma e para Moisés uma e para Elias uma. Pois não sabia o que responder, pois apavorados tinham ficado. A presença dos dois representantes da antiga Aliança junto com Jesus é uma maneira de honrá-lo e autenticá-lo como Messias. Em Cristo se cumprem as promessas de Deus registradas no Antigo Testamento. Pedro não foi perguntado, mas foi respondendo. A palavra avpokriqei,j/apokritheis também pode ser traduzida como “falando”, mas de qualquer forma, Pedro abriu a boca em hora inoportuna, e para colocar uma sugestão que sequer mereceu resposta. Ficar na glória antes do tempo é algo que não serve para Jesus. Sua salvação quer alcançar os confins da terra, não apenas os três que o acompanhavam. Pedro cai na tentação de querer ficar com a parte boa para si e mais alguns. Talvez quisesse esquecer definitivamente ou achar uma solução rápida para a questão da morte e ressurreição de Cristo, anunciada pelo próprio Jesus alguns dias antes. Mas quando não se sabe o que dizer, é melhor ficar calado. Soluções fáceis, receitas prontas para um “grupinho” não são características de Jesus. Pouco tempo antes, Jesus chama Pedro de Satanás, por ele ter falado o que não tinha fundamento. Aqui Jesus sequer respondeu. Para os discípulos, era tempo de ver e ouvir, eles deviam aprender. Esse é o sentido da transfiguração. O assunto era entre Jesus, Moisés e Elias. Eles estavam falando. Marcos 9.7-8: E apareceu uma nuvem sombreando a eles, e houve uma voz da nuvem: Este é o meu filho o amado, ouvi a ele. E de repente tendo eles olhado em volta não viram mais ninguém, somente Jesus com eles. A nuvem é a aconchegante presença de Deus sobre todos. Da nuvem vem a voz. Em outros momentos, a voz de Deus foi ouvida. Porém, há peculiaridades que precisamos observar. No batismo de Jesus, em Marcos 1.11, a voz do céu se dirige a Jesus pessoalmente, na segunda pessoa do singular: Tu és o meu filho o amado, em ti me comprazo. Já na perícope em foco, Marcos não utiliza a segunda pessoa do singular, mas sim a terceira: “Ele”. A voz ouvida dirige-se às demais pessoas. As palavras vindas dos céus são uma proclamação pública da filiação de Jesus ao grupo ali reunido: Este é o meu filho amado, ouvi a ele. Tal voz autoriza, qualifica e legitima Jesus
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diante dos ouvintes e leitores do evangelho. Nessa ocasião, está revelada a glória divina de Jesus. Para dar certeza total de quem é o Filho de Deus, quando os três discípulos olham em volta, não há mais ninguém, somente Jesus com eles. Marcos 9.9: E descendo eles do monte, ordenou a eles para que não contassem a ninguém as coisas que viram até o dia em que o Filho do homem dos mortos ressuscitasse. O texto em foco termina ressaltando o segredo messiânico. A ordem é ficar em silêncio até que ocorra a ressurreição de Jesus Cristo. Os discípulos ainda não conheciam bem Jesus. Não compreendiam sequer o que era esse “ressuscitar dos mortos”. No versículo seguinte, Marcos relata que eles ficaram perguntando uns aos outros o que seria esse ressuscitar dentre os mortos. Apenas a cruz e a ressurreição vão permitir um pleno reconhecimento de Jesus Cristo (Schnelle, 2010, p. 531). O fato de os discípulos não o compreenderem fica evidente em Pedro, que quer montar três barracas e ficar por ali. Sem a paixão, morte e ressurreição, o anúncio de Jesus como o Cristo é incompleto. Aliás, nem mesmo os milagres revelam integralmente quem é Jesus. Por isso várias vezes Jesus ordena que os demônios silenciem quando eles corretamente o reconhecem como Filho de Deus (Mc 1.23-24; 1.32-34; 3.11-12). Tais relatos confirmam que os milagres não são suficientes para compreender e conhecer Jesus. “Uma compreensão integral da pessoa de Jesus não pode limitar sua alteza e glória e eclipsar sua Paixão. Antes, os dois aspectos pertencem a um conhecimento abrangente de Jesus” (Schnelle, 2010, p. 530). O segredo messiânico visa levar a uma compreensão correta a respeito de Jesus e seu ministério. É a forma como Marcos apresenta a teologia da cruz, sendo ela, nesse primeiro evangelho, o centro.
3 Meditação Não é mais tempo de ficar calado. Cristo foi crucificado, mas não permaneceu morto. Ele ressuscitou! Portanto é tempo de falar. A ordem agora é: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura (Mc 16.15). Porém, não se trata de sair falando qualquer coisa. Só conhece Jesus a pessoa que o compreende como crucificado e ressurreto. Aí está o centro do evangelho, o centro de nossa fé. Se não o percebemos e reconhecemos dessa forma, corremos o risco de falar bobagens, assim como Pedro o fez. Para que possamos falar desse Cristo de forma correta, precisamos de espaço de formação. “Subir o monte” para aprender é importante. Temos encontrado tempo, como ministros e ministras, para isso? Os membros têm buscado formação? Estamos oferecendo espaços de formação como igreja, sínodo, paróquia e comunidade? Estamos nos deixando ensinar ou pensamos já saber tudo e saímos falando antecipadamente como Pedro? Como é difícil conviver com quem só quer ensinar! Precisamos valorizar os momentos de aprendizado, momentos em que ouvimos. Porém, não é permitido montar uma tenda e ficar só contemplando. É necessário descer, praticar, falar, viver diariamente o que de Cristo aprendemos. É importante participar dos grupos comunitários de leitura e reflexão bíblica, que perpassam a maioria ou todos os nossos encontros. É importante ler dia-
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riamente a Bíblia, mas não podemos guardar esse evangelho como segredo para nós. Pelo contrário, devemos colocá-lo em evidência através de palavras e ações. O evangelho não está mais encoberto. Cristo venceu o pecado, a morte e o diabo. Foi publicamente proclamado como Filho de Deus. Por isso nós somos convocados a anunciá-lo com clareza. Não pregamos a nós mesmos, nem nos baseamos em discursos morais, filosóficos etc. Nós anunciamos o Cristo vivo que traz em sua face a glória de Deus. Firmes na palavra de Deus, pois a igreja não é apenas pessoas, apenas comunhão de gente, onde eu me sinto bem e confortável! A igreja é a comunhão dos santos onde o evangelho é lido e pregado de maneira pura e onde os sacramentos são administrados de maneira correta. Nessa pureza do evangelho está a teologia da cruz que lembra toda a dor, solidão, tristeza, tortura e crueldade que Cristo passou antes de ressuscitar. Teologia da cruz não é teologia da glória. Quaresma e Sexta-Feira Santa não podem ser deixadas de lado, sob pena de não revelarmos a totalidade de Cristo em nossas pregações.
4 Imagens para a prédica Algumas sugestões para a prédica: esclarecer os detalhes do texto usando uma linguagem adequada para cada contexto e público; enfatizar a necessidade de aprender e praticar o evangelho que nos é revelado em Cristo, que morreu e ressuscitou por nós; valorizar a oportunidade de ouvir e aprender; deixar claro o motivo pelo qual Jesus pede segredo aos discípulos; reforçar o centro de nossa fé. Para o final da pregação, proponho contar e mostrar com gestos o texto que segue: Deus ressuscitou Jesus da morte, mas seu corpo continuou com as feridas. Um dos discípulos as tocou, foi Tomé. Por que as feridas? Por que dava para sentir a marca dos pregos com a mão? Será que o recado do evangelho não é o seguinte: para conhecer integralmente Jesus você precisa conhecer também suas feridas? Precisamos compreender que o Cristo ressuscitado é o Cristo ferido. Vivo, mas nunca sarado. Livre da morte, mas marcado por ela. Os surdos têm um sinal em sua linguagem que significa Jesus. O dedo médio de cada mão é colocado no centro da palma da outra mão. Jesus, eles sinalizam, é aquele com as mãos feridas. Quando eles tocam suas próprias mãos dessa forma, eles lembram, eles sentem o nome dele na sua própria pele (John Vannorsdall). A figura ao lado ajuda a compreender. Outro exemplo que pode ser usado é o da própria cruz. O amor de Deus vem a nós em Jesus Cristo (eixo vertical da cruz: de cima para baixo). Porém, não quer ficar apenas em nós, quer chegar às outras pessoas (eixo horizontal da cruz: para os lados). Pode-se vincular esse exemplo com o aprender e praticar.
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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Querido e amado Deus, diante de ti reconhecemos que somos pecadores. Por vezes deixamos de lado a tua palavra e não dedicamos tempo suficiente para aprender de ti. Nem sempre praticamos aquilo que aprendemos. Não te amamos de todo o coração, nem amamos o nosso próximo como a nós mesmos. Por amor de teu filho Jesus Cristo, que revelou seu grande amor por nós na cruz e que ressuscitou para nos dar a vida eterna, nós te pedimos: tem compaixão de nós e perdoa-nos. Amém! Oração do dia: Senhor, agradecemos o teu imenso amor por nós e pedimos-te: vem nos ensinar através da tua palavra. Que como testemunho da obra de teu Filho Jesus por nós, ela alimente nossa fé em ti e nos fortaleça para um testemunho claro através de palavras e ações. Que a semente do evangelho, lido e pregado, encontre solo fértil em nossa vida para crescer e frutificar, sendo constantemente revigorada pela memória do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo em nosso favor. Amém! Sugestões de hinos: HPD 1 n° 44: Na cruz eu quero te saudar HPD 1 n° 165: Há sinais de paz e de graça HPD 1 n° 166: Dá-nos olhos claros HPD 1 n° 200: Cantai e folgai HPD 2 n° 407: O grão (para a Santa Ceia, se houver) HPD 2 n° 414: Quem quer cantar do amor HPD 2 n° 434: Momento novo
Bibliografia POHL, Adolf. Evangelho de Marcos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998. SCHNELLE, Udo. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010.
QUARTA-FEIRA DE CINZAS JOEL 2.1-2,12-17 MATEUS 6.1-6,16-21 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10
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1º DOMINGO NA QUARESMA
18 FEV 2018
PRÉDICA: 1 PEDRO 3.18-22 GÊNESIS 9.8-17 MARCOS 1.9-15
Humberto Maiztegui Gonçalves
Boa consciência diante de Deus
1 Introdução Estamos iniciando o tempo da Quaresma. Esse evoca a “quarentena”, isto é, os quarenta dias de Jesus no deserto, mencionados na leitura do evangelho segundo a comunidade de Marcos (1.13), e que, por sua vez, evocam quarenta dias e quarenta noites do dilúvio purificador da terra e da arca de Noé, cujo final aparece na leitura de Gênesis para este domingo (cf. 7.4 e 9.11). Também evoca os quarenta anos de peregrinação pelo deserto do povo libertado do Egito rumo à terra prometida (cf. Êx 16.35) e – dentro desse mesmo relato – o jejum de Moisés no monte santo, ao receber os dez mandamentos (Êx 34.28). São quarenta dias antes de celebrar a ressurreição, tendo a vitória de Cristo crucificado sobre a morte como seu horizonte teológico, como nos lembra também o texto de pregação (1Pe 3.21). A Quaresma nos remete para os desertos de nossa vida (solidão, angústias, dúvidas, desesperos, tristezas etc.), de nossa sociedade e de nosso mundo (violência, preconceitos, discriminações, exclusões, impunidades, opressões...). São essas coisas que não queremos ver e das quais preferimos nos afastar, que com a graça de Deus temos – como nos tempos de Noé, Moisés e nosso Senhor – que enfrentar e colocar dentro do projeto maior do seu reinado. O texto da pregação resume esses propósitos, convidando-nos a assumir “uma boa consciência diante de Deus” a partir dos exemplos do passado e do sentido de nosso batismo e confirmação na fé.
2 Exegese A Primeira Carta de Pedro foi escrita a partir do martírio do apóstolo, que se deu no contexto da primeira perseguição promovida pelo Império Romano contra as comunidades cristãs (por volta de 64 d.C.). Esse contexto foi atualizado diante de uma perseguição, ainda maior, sob o imperador Domiciano (94 d.C.). Portanto a motivação da carta foi fortalecer as comunidades de fé que estavam sendo perseguidas. Vemos que o foco são as pessoas refugiadas ou peregrinas, isto é, comunidades e famílias que se viam obrigadas a fugir de um lado para outro, sem casa. Daí vem o termo “para-oikos” e depois o termo “paraoikia” ou “paróquia” como o lugar que abriga as pessoas em peregrinação (cf. 1Pe 1.17; 2.11).
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2.1 O lugar do texto no plano geral da carta Dentro do plano geral do livro, o texto de 3.18-22 encontra-se no final da primeira parte (1.3 a 4.11), que pode ser chamada de “sermão batismal”. Ali se resgata o sentido redentor e inclusivo do batismo cristão que, nesse texto, é comparado com a salvação promovida pela arca de Noé (1Pe 3.20-21). O batismo proclama a inclusão para as pessoas perseguidas, refugiadas e peregrinas e o compromisso que temos com elas! Por sua vez, a delimitação da perícope carrega algumas controvérsias, já que para alguns estudos o texto iniciaria em 3.14 (Trimaille, 1987, p. 285); outros, ainda, indicam o começo em 3.13. Lohse, no entanto, delimita a perícope entre os versículos 18 e 22, como exemplo de “formulações querigmáticas de confissões e hinos cristãos primitivos, de maneira que o padecimento dos cristãos é colocado em relação ao sofrimento de Cristo (1.18s; 2.21-15; 3.18-22)” (Lohse, 1985, p. 229). Sendo assim, o autor convida a buscar alguns desses elementos na sua composição. 2.2 Análise do texto O primeiro versículo dessa perícope oferece desafios em relação à sua tradução. Na tradução segundo Almeida (Revista e Atualizada, Edição Missionária, 1993), lemos: Pois também Cristo morreu uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito. Na Bíblia Sagrada da Editora Vozes, lemos: Pois também Cristo morreu uma única vez pelos pecados, o Justo pelos injustos, para vos conduzir a Deus. Sofreu morte em sua carne, mas voltou à vida pelo Espírito. As diferenças parecem sutis, mas outorgam a alguns termos valor hermenêutico diferente. A primeira parte do versículo (3.18a) não oferece diferenças. Porém, na segunda parte, o texto grego diz tanatotheis men sarki, o que literalmente seria “foi morto verdadeiramente em carne”. A pequena partícula men é que faz toda a diferença, resgatada sutilmente por Almeida no “sim”. Parece haver aqui uma contestação à visão gnóstica da morte de Cristo só em aparência, não na carne. Depois se afirma zoopoeiteis de to pneumati, isto é, “foi vivificado”, só que a conjunção de pode ser adversativa (mas, porém) ou continuativa (e, então), continuado pelo artigo definido to (este, o). Portanto a interpretação que nos parece correta é que foi vivificado pela ação do Espírito, com maiúscula, ou, do Espírito de Deus, e não que teria voltado à vida apenas “em espírito”, o que seria contraditório em relação à afirmação de que morreu verdadeiramente em carne. Esse versículo vai como que se “derramando” nos versículos seguintes, sendo que ali o pronome ho (o qual, a qual), desempenha um papel claramente estruturante, iniciando o v. 19 en ho (no qual), o v. 21 (o qual), e o v. 22 (hos / quem). Como em uma confissão de fé! Outra questão que chama a atenção encontra-se no v. 20, que parece iniciar com a interrogação: Rebeldes (apeitesasin)? Ao que lhe segue a expressão pote hote, que Almeida traduz “noutro tempo” e a Bíblia Sagrada da Vozes como “outrora”, referindo-se aos tempos de Noé. A pergunta, omitida em ambas as versões, é também importante, pois exclui um sentido meramente afirmativo ou confessio-
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nal e coloca um sentido reflexivo. Também a palavra hapax (único), presente no v. 18, aparece aqui novamente – mesmo que sem ser considerada pelas traduções aqui consultadas – para se referir ao evento de Noé que, como a morte de Cristo foi único, ligando-o a um único batismo de salvação. Sendo assim, propomos a seguinte estrutura para a perícope: 3.18: A afirmação da verdadeira morte e verdadeira vida em Cristo, o Justo, pelas pessoas injustas. 3.19: o qual, isto é, no Espírito, foi resgatar os espíritos prisioneiros. 3.20-21: Reflexão sobre rebeldia/desobediência passada e salvação pela água do único batismo na ressurreição de Cristo, na busca da “boa consciência para com Deus”. 3.22a: Afirmação da ascensão de Cristo, e seu reinado à destra de Deus. 3:22b: Subordinação a Cristo de anjos, potestades e poderes. Enfim, a perícope assume a configuração de uma confissão de fé que, por sua vez, é usada para provocar uma reflexão introduzida no meio dela pelo uso da interrogação e pelo exemplo da salvação pela águas no relato de Noé, e no batismo de Cristo morto e ressuscitado em favor das pessoas injustas.
3 Mensagem: uma boa consciência para com Deus: como? Tenhamos em mente aquelas pessoas escravizadas pelo domínio romano, desvalorizadas pela sociedade preconceituosa grega (especialmente contra os seres chamados “físicos” ou “carnais” em oposição a pessoas consideradas “psíquicas” ou “espirituais”), que abraçaram a fé em Cristo e receberam um batismo que as tornava iguais em dignidade, através do qual sentiram o sentido de ser justificadas e redimidas. Então, acontece outra grande perseguição, da mesma origem da que antes promoveu o assassínio do apóstolo Pedro (de quem receberam a fé), que ataca impiedosamente. Essas pessoas, refugiadas, são forçadas a abandonar suas casas e buscar abrigo em outras comunidades, também amedrontadas, gerando uma situação dramática tanto para as refugiadas como para comunidades desafiadas a acolhê-las. Diante de um quadro de angústia e desespero houve dúvidas sobre o sentido da fé. Além de afirmar ou reafirmar a fé, havia que ir mais fundo e refletir radicalmente, isto é, desde as raízes, sobre o sentido profundo da morte de Cristo, sua ressurreição e sobre o batismo que expressava essa fé. A confissão de fé começa afirmando que Cristo é o único justo! A justiça de Cristo se revelou no fato de ser morto para salvar todas as pessoas injustas. Isso coloca toda a humanidade em igual dignidade diante do justo e injusto. Não há discriminação possível! Ninguém pode ser “superior” ou “mais justo”, havendo, portanto, uma única justificação em Cristo. Ele se fez carne. Morreu de forma verdadeiramente carnal. Isto é, como aquelas pessoas mais discriminadas e desvalorizadas. Essa vitória se deu pelo mesmo Espírito que lhe vivifica e salva os “espíritos encarcerados” na morte (3.18).
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A confissão de fé se completa, em um segundo momento, no versículo 22, dizendo que não há poder maior do que Cristo que ascendeu, que está a direita de Deus, e tudo a ele é submetido nos céus. Não há império perseguidor e assassino de apóstolos e comunidades que possa derrotá-lo. No meio da confissão de fé, encontramos o convite à reflexão sobre a vida concreta, sobre a realidade da perseguição, medo e angústia. Uma reflexão quer gerar uma nova consciência para com Deus, a consciência de Noé. Essa consciência leva a nos ajudar solidariamente e a fazer de nossas comunidades arcas que proclamem a vida no meio da morte. Essa consciência não se acanha porque somos “pouca gente”, nem mesmo as “oito pessoas”, que é a comunidade pequena de Noé. A consciência de que o batismo que nos inclui, nos iguala em dignidade e nos une a Cristo e a toda a humanidade em sofrimento e esperança, pode resistir e vencer. Temos essa fé? A fé da rebeldia redimida pelo justo que vence a morte através da água do batismo? Temos a fé que acredita que pouca gente pode fazer a diferença através da fé? Acreditamos que nada mais precisamos? Da resposta que, em Cristo, pela sua graça, damos a essas perguntas dependerá se temos ou não “uma boa consciência para com Deus”. Hoje, vivemos em um mundo em guerra. Mais de 60 milhões de pessoas foram obrigadas a se refugiar, na maior onda migratória da história da humanidade. Diante disso há governantes e pessoas que defendem posicionamentos políticos, querendo construir muros cada vez mais altos, querendo expulsar, expondo seres à morte e ao sofrimento; veem-nos como ameaça terrorista, e assim por diante. Essa é a boa consciência que recebemos pelo batismo? Há um genocídio da juventude, especialmente da juventude negra, e os poucos direitos recuperados pelas comunidades indígenas e quilombolas voltam a ser ameaçados. Será que isso tem a ver com a boa consciência diante de Deus vivenciada em nossas comunidades de fé como arcas de Noé? Podemos ter uma boa consciência em Cristo e nos omitir diante desses genocídios? Qual é a boa consciência para com Deus diante de tudo isso?
4 Imagens para a prédica O texto nos convida a partir do batismo. Batismo é uma imagem forte para nós: a água, a família reunida, a afirmação da fé, o sentido da nossa identidade na igreja de Cristo e do compromisso com sua missão. Lembremos desses momentos tão felizes, tão significativos, até mostrando as lembranças ou certidões que atestam que fomos uma vez batizados(as), onde e quem em nome de Cristo nos acolheu, quem foram nossas madrinhas e nossos padrinhos. Ao lado disso, coloquemos as imagens das migrações forçadas, das pessoas que se afogam no Mediterrâneo tentando chegar à Europa, dos campos de refugiados na Turquia, dos discursos contrários ao acolhimento dessas pessoas, de quem tem assumido sua defesa e coloquemos um grande sinal de interrogação. Coloquemos também imagens das pessoas refugiadas vendendo coisas pelas ruas de nossas cidades, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas
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e do genocídio promovido por todo tipo de violência. Aqui segue outro sinal de interrogação. No meio de tudo coloquemos nossa afirmação de fé e uma grande arca de Noé que vá navegando em meio de tudo. Essa arca somos nós, a igreja de Cristo, formada pelas pessoas batizadas e comprometidas com sua missão.
5 Subsídios litúrgicos Na confirmação, outro momento importantíssimo da vida cristã, é que reafirmamos os votos do batismo. Dado o sentido deste texto, podemos propor que no momento do Credo respondamos às perguntas da confirmação, ou façamos uma fórmula alternativa que reafirme a nossa boa consciência diante de Deus e da vida do mundo. A confissão pode ser feita em silêncio, apenas afirmando as situações de morte e perseguição vividas na nossa realidade e dizendo (ou cantando) após cada uma delas o Kyrie Eleison. A absolvição também pode seguir uma fórmula alternativa, usando o próprio texto de 1 Pedro: Cristo, que sendo justo, morreu uma única vez, pelos pecados das pessoas injustas, nos conceda o perdão de nossos pecados e, pela sua graça, uma boa consciência para com Deus, no compromisso com a sua missão através da fé a nós dada pelo batismo. Da mesma forma, podemos colocar, no momento das intercessões, as situações de morte que encontramos no mundo e na nossa realidade local, usando como resposta: “Cristo, tu que estás à destra de Deus, ouve nossas orações”.
Bibliografia LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1985. TRIMAILLE, Michel. As Epístolas Católicas. In: As Cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987.
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PRÉDICA: MARCOS 8.31-38 GÊNESIS 17.1-7,15-16 ROMANOS 4.13-25
2º DOMINGO NA QUARESMA
25 FEV 2018
O que vale ganhar o mundo e perder a alma? Joel Haroldo Baade
1 Introdução Os três textos de leitura abordam o tema do discipulado. O texto da prédica, Marcos 8.31-38, retrata a primeira situação em que Jesus anuncia a sua paixão, morte e ressurreição, sendo repreendido por Pedro. A isso Jesus reage de forma enérgica, repreendendo Pedro e dirigindo-se a todas as pessoas que estão em sua presença. O seguimento de Cristo é apresentado não como futilidade, mas como questão de vida ou morte, como algo que diz respeito à existência autêntica e verdadeira segundo os preceitos de Deus. Não há espaços para meio-termo ou indefinição. Em Gênesis 17.1-7,15-16 retrata-se a promessa de Deus a Abraão e Sara de tornarem-se pai e mãe, respectivamente, de muitas nações. Andar ao lado de Deus e confiar em sua promessa é garantia de usufruir de tudo o que Deus concede. Mesmo contra todas as probabilidades, Deus é fiel e garante o cumprimento de tudo o que promete. Estar ao lado de Deus é mudança de vida, expressa no texto com as mudanças de nome de Abraão e Sara. No texto de Romanos 4.13-25, por sua vez, Paulo ressalta a importância da fé e da confiança nas promessas de Deus, fazendo referência ao texto de Gênesis e à promessa de Deus a Abraão e Sara. Salvação não está em leis ou obras, mas unicamente na confiança nas promessas de Deus. Seguimento a Cristo é confiança e fé, é entregar-se à vontade de Deus em Cristo. Em se tratando do 2º Domingo na Quaresma, a temática proposta pelas três leituras é extremamente propícia para se refletir sobre o servir a Cristo em um mundo marcado pelo individualismo e produtivismo, em que pessoas a todo tempo procuram satisfação e reconhecimento a partir de suas próprias obras. Quaresma é tempo de reflexão e avaliação sobre o que alcançamos com isso: ganhamos ou perdemos nossas vidas?
2 Exegese A análise exegética baseia-se na comparação de quarto versões: Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Pastoral e Jerusalém. Foi também consultado o texto grego para avaliação das traduções. v. 31: As quatro versões não apresentam diferenças expressivas no versículo. ARA é mais próxima do texto grego. As três outras traduções apresentam a informação do sofrimento de Cristo na forma de fala do próprio Jesus, o que
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não corresponde ao original, mas também não altera o sentido. NTLH traduz “anciãos” por “líderes judeus”, “escribas” por “mestres da Lei”, enquanto a Pastoral emprega “doutores da Lei”. v. 32: ARA e NTLH qualificam a exposição de Jesus com “claramente” e “com clareza”, respectivamente, enquanto Pastoral e Jerusalém preferem defini-la como “abertamente”. O sentido do texto grego está mais próximo das Bíblias Pastoral e Jerusalém, ou seja, Jesus anuncia em público, abertamente, o seu sofrimento, sua morte e ressurreição. A tradução de NTLH e ARA pode dar a entender que apenas o discurso de Jesus era claro, mas não necessariamente público. Esse ponto é importante e o possível motivo da repreensão de Pedro. Falar tais coisas de modo tão público poderia render dificuldades a Jesus e também aos seus seguidores. A ação de Pedro é traduzida como reprovação (ARA), repreensão (Pastoral e NTLH) e recriminação (Jerusalém). O chamar à parte dá a entender que tenha sido de modo a não contradizer o Cristo em público. v. 33: Usa-se o mesmo verbo para expressar a ação de Jesus que no versículo anterior foi usado para expressar a ação de Pedro. A reação de Jesus foi de repreensão, dirigida não à multidão, mas diretamente aos discípulos, a quem “fita” (ARA) ou para quem se vira e vê (Jerusalém, Pastoral e NTLH). Pedro é chamado de “Satanás” nas quatro versões, de quem Jesus quer distância. “Satanás” prioriza as coisas do próprio “ser humano” (NTLH) e não as de Deus. NTLH é feliz por empregar o termo “ser humano” ao invés de “homem” (Pastoral, Jerusalém e ARA), mas peca por inverter a ordem na fala de Jesus. v. 34: ARA, Pastoral e Jerusalém são fiéis ao texto original. NTLH interpreta mais ao traduzir “tomar a sua cruz” por “esteja pronto para morrer como eu vou morrer”. NTLH pode conduzir a mal-entendidos com essa interpretação, pois o que quer dizer, afinal, “tomar a sua cruz”? A partir do contexto maior do texto, é possível entender que “tomar a sua cruz” é estar disposto a viver o evangelho com todas as suas consequências, ainda que isso signifique, muitas vezes, sofrer oposição, perseguição e até morte. v. 35: A fala de Jesus neste versículo é um jogo de palavras sobre perder e ganhar a vida. ARA, Jerusalém e Pastoral mantêm-se fiéis ao texto grego nesse sentido, enquanto NTLH interpreta e contrapõe “próprios interesses” e “vida verdadeira”. A tradução de NTLH não está totalmente equivocada, mas perde força comunicativa. “Salvar a vida” é mais do que “interesses próprios”, trata-se de questão vital, essencial, de fundamento. Tomar a cruz e seguir a Cristo, ganhar e perder a vida são questões que dizem respeito ao cerne da existência cristã, assumir riscos e consequências, transcendendo em muito a preocupação apenas com um ou outro interesse. Conforme Wegner (1999, p. 140): “Nessas ocasiões, o seu testemunho, por ferir interesses poderosos, suscitará reações violentas que podem implicar assassinatos. Vidas assim perdidas representarão sempre vidas ganhas diante de Deus, vidas em que tenham prevalecido a fidelidade a Deus e o compromisso com a humanidade”. v. 36: Jesus propõe mais uma oposição: ganhar o mundo e perder a “alma” (ARA), “vida” (Jerusalém e Pastoral) ou “vida verdadeira” (NTLH). ARA é mais literal em sua tradução do texto grego, no qual se emprega o termo usualmente
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traduzido por alma. Há que se cuidar aqui no sentido desse termo. Deve-se a todo custo evitar o dualismo platônico de corpo e alma. “Alma” deve ser entendida e interpretada a partir do contexto judaico-cristão. Alma tem o sentido de vida em todo o Novo Testamento (Strathmann apud Dreher, 2011). v. 37: Este versículo é uma pergunta feita por Jesus aos seus interlocutores. O que daria alguém pela sua “alma” (ARA) ou “vida” (Jerusalém e Pastoral)? NTLH interpreta e não preserva o formato de pergunta, afirmando que não há nada que se possa pagar para ter de volta a vida. A pergunta é recurso retórico e pode ser útil para a adequada compreensão do texto e também pode ser ferramenta interessante por ocasião da prédica. Quanto vale a sua vida? Quanto vale a sua alma? Pelo que temos perdido a nossa alma/vida? v. 38: Após a pergunta do v. 37, Cristo apresenta a consequência dos que não o seguirem: quem não se lembrar do “Filho do Homem” também não será lembrado por ele. A diferença entre as versões está em NTLH, que traduz o qualificativo da geração a que Cristo se refere (adúltera e pecadora) por “época de incredulidade e maldade”. Novamente a tradução de NTLH parece reduzir a força comunicativa dos termos em sua tradução literal. Com base na análise exegética, sugere-se a leitura do texto na versão de ARA.
3 Meditação Em muitos adesivos de carros, encontramos a seguinte frase: “Eu sirvo a Jesus” ou, então, “Eu sigo a Jesus”. Será que todas as pessoas sabem o que significa seguir a Jesus? Nem mesmo os discípulos de Jesus haviam entendido o que significa seguir a Jesus. Jesus começou a contar aos seus discípulos tudo o que iria passar. Falou que sofreria muito, seria rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas. Seria morto, mas depois de três dias seria ressuscitado. Ao ouvir essas palavras, Pedro não se conteve e, querendo que Jesus parasse de falar aquelas coisas, chama-o em particular e o repreende. Como Jesus poderia falar tais coisas? Ele não era o Cristo enviado por Deus para libertar o seu povo? Como seria possível passar por sofrimento, perseguição e morte? Pedro e também os outros discípulos queriam ver em Jesus vitória, poder e glória. Jesus, entretanto, abre os seus olhos para uma outra realidade. Jesus havia pregado o evangelho e, com isso, denunciou atitudes e poderes que iam contra a vontade de Deus. Ao fazer isso ele assumiu todas as consequências que a pregação do evangelho traria. Ele sabia que ao falar e viver o evangelho confrontaria uma série de opiniões e desagradaria muitas pessoas. Por isso a sua pregação o levaria ao sofrimento e à morte. Ser discípulo de Jesus significa “tomar essa cruz”, ou seja, assumir os riscos e as consequências do anúncio do evangelho. Quantas pessoas dizem “estou carregando a minha cruz” ou “o peso da cruz nunca é maior do que podemos suportar”. Geralmente, essas frases são usadas para expressar conformismo com uma situação de sofrimento. Jesus também usou essa frase ao falar para os seus discípulos “tomem a sua cruz e sigam-me”. Entretanto, é importante não confundirmos o significado da frase usada por Jesus
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com o significado que é empregado a ela nos dias de hoje. Ao exortar os seus discípulos para que “tomem a sua cruz”, Jesus não está sugerindo uma atitude de conformismo diante das situações difíceis, nem tão pouco incentivando uma vitimização de seus discípulos, mas está deixando claro que seguir os seus passos e os seus ensinamentos requer coragem para assumir todas as consequências. Além disso, seguir a Jesus significa deixar de lado nossos desejos egoístas. Ainda que meu desejo seja, muitas vezes, de vingança, ódio e inveja, em Jesus devo negar esses sentimentos e fazer a vontade de Deus. Ao invés de buscar a vingança, oferecer o outro lado da face; ao invés de guardar mágoas, perdoar; ao invés de alimentar o ódio, amar os inimigos; ao invés de falar mal dos que falam a nosso respeito, bendizê-los; ao invés de odiar os que nos perseguem, orar por eles. Vale a pena seguir Jesus? O próprio Jesus responde a essa pergunta: Que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a vida verdadeira? Somente em Jesus temos a vida verdadeira. Ainda que o discipulado exija abnegação e compromisso árduo, somente a vida em Jesus tem propósito e sentido. A decisão de seguir a Cristo não pode estar baseada em sentimentos ou vontade momentânea, mas sim na fé. É ela que nos leva a assumir o evangelho e suas consequências, e nos mostra o horizonte da promessa de Deus.
4 Imagens para a prédica A história de Dietrich Bonhoeffer pode ser usada como exemplo de discipulado que “carrega a cruz e nega a si mesmo”. Esse jovem teólogo cristão se opôs ativamente ao movimento nacional socialista na Alemanha, no tempo de Hitler. Foi enviado a um campo de concentração, onde sofreu as mais terríveis torturas. Contudo, com sua fé e esperança encorajou muitos prisioneiros. Em seu livro “O Preço do Apostolado”, Bonhoeffer diz que muitos de nós não queremos pagar o preço total como servos de Cristo. Ele foi um exemplo vivo do sofrimento que um discípulo de Jesus está sujeito a sofrer. Bonhoeffer pagou o preço com sua própria vida, pois não deixara de pregar o evangelho, nem mesmo num campo de concentração.
5 Subsídios litúrgicos Sugestões de hinos: HPD 2, 414 (Quem quer cantar do amor), 411 (Se eu tiver Jesus ao lado)
Bibliografia DREHER, Scheila dos Santos. Marcos 8.31-38. In: HOEFELMANN, Verner (Coord.). Proclamar Libertação: Auxílios homiléticos. São Leopoldo: Sinodal; EST. 2011. v. 36, p. 121-127. WEGNER, Uwe. Marcos 8.31-38. In: SILVA, João A. M. da; WITT, Osmar (Coord.). Proclamar Libertação: Auxílios homiléticos. São Leopoldo: Sinodal; EST. 1999. v. 25, p. 134-143.
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PRÉDICA: ÊXODO 20.1-17 JOÃO 2.13-22 1 CORÍNTIOS 1.18-25
3º DOMINGO NA QUARESMA
04 MAR 2018
Léo Zeno Konzen
Loucura que garante a vida
1 Introdução “Você é louco” – diz Herodes a João Batista, no calabouço, no filme “O Messias”, de Rosselini. Essa cena nos remete ao culto deste domingo, no qual refletimos sobre a “loucura de Deus”, que é sabedoria e salvação para os que creem, incompreendida, porém, pelo “mundo”. O Decálogo é, a seu modo, expressão dessa aparente loucura. No caminho para a Páscoa, confrontamo-nos com as sábias palavras do Decálogo, palavras que desde sua origem tentaram garantir uma sociedade estribada, não na lógica e sabedoria dos poderosos (seja dos faraós do Egito, seja dos poderosos e dominadores de outra estirpe, como os “donos” do Templo de Jerusalém), mas na “loucura da cruz”, que brilhou mais forte que o sol, em Cristo. As três leituras deste domingo têm, neste sentido, um ponto de encontro bastante evidente. A “loucura” do Decálogo (Êx 20.1-17) não aparece a olhos nus, mas pode ser percebida com nitidez com a ajuda das lentes de uma análise contextualizada. A experiência da libertação do Egito e o desafio de construir uma sociedade alternativa à lógica do poder que escraviza e mata estão por trás das “dez palavras” de Deus. Essas exigências deveriam ser a constante referência ao longo da história do povo de Deus. Certamente, isso nem sempre foi assim, de modo que profetas e o próprio Jesus tiveram de intervir para cobrar respeito e observância desses princípios constitucionais. Nossa Páscoa será tanto mais cristã quanto melhor assimilarmos, neste “tempo de conversão”, o que é a Quaresma, o espírito e a prática desses mandamentos humano-divinos, pois eles também constituíram a base da espiritualidade de Jesus.
2 Exegese A experiência do Êxodo é, para o Antigo Testamento, mais ou menos aquilo que é a experiência de Jesus para o Novo Testamento: experiência fundante, a mais importante de todas, da qual derivam de alguma forma todas as demais. Do acontecimento histórico da libertação, interpretado e reinterpretado ao longo da história como intervenção salvífica maior de Deus a favor de seu povo, depende também o texto que hoje tomamos como referência para a pregação, ou seja, o Decálogo (Êx 20.1-17).
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A saída do Egito não foi apenas uma libertação de uma situação de morte, mas o início de uma caminhada para uma nova condição de vida. Livre da escravidão, o povo, já no caminho, e também depois, na terra conquistada, precisava organizar-se em novas relações que garantissem e aprofundassem a liberdade conseguida a duras penas. O Decálogo situa-se basicamente nesse contexto. Ele representa as exigências de uma nova organização da sociedade para garantir o direito e a justiça a todos os membros do povo. Essas exigências aparecem como sendo de origem divina. Deus, que libertou o povo, é também aquele que o orienta na busca de um mundo de vida fraterna e justa. O Decálogo encontra-se no livro do Êxodo, mas também em Deuteronômio (5.6-21), com algumas variantes. Em Êxodo, situa-se no contexto da aliança que Yahweh oferece e celebra com o seu povo. É constituído por exigências ou mandamentos que Deus de certa maneira impõe, mas poder-se-ia também dizer que são as luzes e as sinalizações que ele coloca no caminho do povo, indicando por onde andar para encontrar vida e evitar a morte, em suas mais diversas expressões. As origens dessas dez palavras certamente se espalham ao longo de um período histórico relativamente longo (Pixley, 1987, p. 143, 158), mas sua moldura teológica e literária atual as apresenta como um bloco único entregue por Deus ao povo, por meio de Moisés. O Decálogo apresenta-se como uma “lista de mandamentos dirigidos ao homem israelita adulto” (Pixley, 1987, p. 143). Isso é compreensível numa sociedade patriarcal, como a hebraica daquele tempo. Apresenta-se também como mandamentos categóricos, sem considerar exceções e sem levar em conta circunstâncias especiais. Outras partes da legislação de Israel farão essa necessária flexibilização. O que interessa aqui é “deixar estabelecidos os limites do possível para a nova sociedade que agora se funda” (Pixley, 1987, p. 143). O Decálogo inicia com a autoapresentação daquele que pronuncia essas palavras: trata-se de Yahweh teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão (20.1). Essa fórmula introdutória é o sustentáculo de todo o quadro, como o gancho que segura o quadro na parede. Apresenta as credenciais de Deus para propor e exigir o que segue; apresenta também o motivo da necessária acolhida das exigências pelos israelitas: a libertação do povo, por Deus. As três “palavras” seguintes podem ser reunidas num pequeno bloco, pois tratam diretamente de ordens referentes a atitudes e comportamentos diante de Deus: não ter outros deuses, não fazer imagem desses deuses nem se prostrar diante deles, e não pronunciar em vão o nome de Yahweh. Exige-se que Israel se mantenha exclusivamente fiel a Yahweh. Diante do contexto politeísta da época, o israelita deve manter-se crítico diante de propostas religiosas que, direta ou indiretamente, “abençoavam” regimes e práticas de injustiça social ou de violência contra a vida, especialmente contra a vida dos mais fracos, mesmo que essas divindades parecessem mais concretas (imagens) e simpáticas. A exclusividade de Yahweh como Deus do israelita impede-o também de promover ou sancionar sutilmente injustiças ou violências em nome desse Deus. O nome de Yahweh só
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pode ser pronunciado a serviço da vida. O desrespeito a essa ordem implicará graves consequências. A quarta “palavra” diz respeito ao sábado, instituição importante em Israel. Esse mandamento tem um sentido profundamente social: “O descanso de todos os trabalhadores será obrigatório em Israel” (Pixley, 1987, p. 152). A fundamentação teológica é buscada no relato da criação, no descanso de Deus no sétimo dia (Gn 1). Mas o Deuteronômio (5.12-15) prefere a alusão à servidão do Egito, onde o povo não tinha direito a descanso. Além desse sentido social, o sábado também era vivido como um dom precioso, um presente de Deus a Israel, um memorial da centralidade de Deus na história desse povo e um anúncio profético de um sábado definitivo (Ravasi, 1985, p. 113-120). Sua sacralidade chegou a torná-lo uma lei implacável, questionada por Jesus, que o entendia como um serviço à vida. O quinto mandamento postula o respeito e os cuidados com o pai e a mãe, não apenas os pais biológicos, mas também os anciãos da comunidade, que já não são produtivos. Diversos desdobramentos dessa importante exigência podem ser encontrados ao longo da Bíblia. “Não matarás” é a sexta palavra, talvez a mais central do Decálogo (Balancin; Storniolo, 1991, p. 56). Fica totalmente excluído o homicídio. É a defesa radical do direito à vida. Porém, é preciso reconhecer: “É evidente que a lei contra o homicídio dentro do decálogo não busca ser precisa, mas contundente. Outras leis formularão as circunstâncias atenuantes” (Pixley, 1987, p. 155). “Não cometerás adultério” (sétima palavra) postula o respeito para com a família, no caso, especialmente a família do próximo. “O homem peca contra o seu próximo quando comete adultério com sua esposa”, mas não era considerado adultério se tivesse relações sexuais com prostituta ou mulher não casada. “A mulher casada, porém, pecava contra o marido e cometia adultério quando tinha relações sexuais com outro homem qualquer, casado ou não” (Pixley, 1987, p. 156). O homem tinha o compromisso de não prejudicar o matrimônio do próximo; já a mulher casada tinha de zelar também pelo seu casamento. A oitava e a décima palavra têm um conteúdo semelhante: não roubar nem cobiçar a casa do próximo. Sóbria e categórica, a proibição de não roubar não entra em circunstâncias e não estabelece pena em caso de ser desobedecida. Pixley (1987, p. 156) afirma que “o delito de roubar não é tão grave como os outros que se enumeram no decálogo, mas dificilmente poderia subsistir uma sociedade sem aplicar-lhe penalidades”. A proibição de não cobiçar a casa do próximo enfatiza o impulso e a inclinação, não propriamente a violação na prática dos direitos alheios. Mas é do coração que nascem as práticas, as más ações, lembra o evangelho, e é preciso evitar que se desenvolvam. A “casa do próximo” inclui também a mulher dele, o que aproxima esse mandamento da sétima palavra. A nona palavra protege o próximo nas disputas legais, quando deviam ser ouvidas as duas partes. “Testemunho falso era grave ofensa à vítima falsamente acusada, bem como à corte de vizinhos respeitados no lugar e à própria sociedade em seu conjunto” (Pixley, 1987, p. 157). Portanto “o decálogo não foi feito para ser compreendido de forma espiritualizada e individualista”, o que lhe tiraria sua “significação concreta de estimu-
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lar leis e práticas que vão encarnando historicamente profundas transformações sociais exigidas por esse ideal” (Balancin; Storniolo, 1991, p. 56). Ele pretende garantir, isto sim, uma sociedade alternativa àquela do Egito da época, bem como dos outros povos vizinhos, cujas religiões e organizações políticas e sociais eram pautadas por princípios e interesses dos poderosos. Israel devia ser diferente!
3 Meditação O Decálogo, ou “as dez palavras” de Deus aos israelitas, representa uma espécie de loucura que governava ou devia governar a vida do povo de Deus. Por que loucura? Porque ele propõe exigências contundentes que diferem da “sabedoria” dos poderosos. Muitas vezes e de muitos modos – parafraseando o início da Carta aos Hebreus – ele expressa o direito dos pobres, em contraposição ao direito dos ricos e poderosos. Ele previne também contra a influência do direito dos ricos na mentalidade e nas práticas no meio dos pobres. Fica expressamente proibido “ter outros deuses”, mesmo que eles existam... Exclui-se a fixação de uma imagem de Deus porque ele é quem caminha com seu povo (Ele é Yahweh, que significa justamente isso). Proíbe-se terminantemente usar Deus ou a religião para favorecer os poderosos e intimidar os fracos. Os poderosos, em geral, gostam da religião, mas fazem dela um apoio para seus interesses. Em Israel, Deus e a religião deviam ser divorciados desse tipo de aliança. Ao contrário, o único Deus que podia ser venerado, adorado e ouvido era Yahweh, aquele Deus que tirou Israel da “casa da servidão”. Tudo o que pudesse favorecer uma religião opressora devia ser cuidadosamente evitado. Essa postura pode parecer intolerante e pouco respeitosa para com as outras religiões. Hoje, costumamos dizer que “Deus é o mesmo”, e que é um só. Mas estamos longe de ver que esse único e mesmo Deus tenha para todos as marcas de um Deus comprometido com a vida, com a libertação das opressões e escravidões, com a transformação da sociedade, da política e das relações interpessoais, de modo a garantir o direito à vida plena de todos. O Decálogo, conhecido entre nós como os dez mandamentos, também parece ser algo moralizante e ultrapassado aos olhos de muitos. Como falar aos jovens, por exemplo, sobre “mandamentos”? Como superar a aparente intolerância desses mandamentos? Como mostrar que não se trata de uma mentalidade antiquada e moralista? Certamente, será de proveito evitar a palavra “mandamentos” e aproveitar a expressão “dez palavras”, bem como contextualizar essas palavras na história e nos sonhos do povo de Israel e mostrar como elas representam uma defesa da vida, dos direitos fundamentais de todos, bem como um desafio para a construção de uma sociedade de justiça e de paz. Talvez falar da “loucura” dessas exigências e do sonho que as sustenta auxilie na captação da benevolência. Olhando bem, Deus somente ordena coisas que beneficiam a vida humana. E a base para que a vida possa ser humana para todos é um conjunto de atitudes de respeito ao próximo. Esse respeito vai desde o direito ao descanso, lazer, férias etc., passando pela atenção aos idosos e às crianças (que nem aparecem nos
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mandamentos), pela consideração a instituições, como a família, pela verdade no julgamento das dissenções e pela não perturbação da posse dos bens do próximo. No alto dessa pequena lista de respeito, está o da vida: “não matarás!” Essa palavra proíbe o homicídio, mas esse não se limita ao assassinato, pois se pode matar de muitas maneiras – o que é expresso nas diversas “palavras” que tratam das relações entre as pessoas. O povo de Israel se orgulhava da sabedoria que lhe vinha das palavras de seu Deus. Sabia muito bem que nem todos pensavam do mesmo modo. Mas ousava elogiar a “loucura” de sua sabedoria diferente. Os Salmos reiteram esse sentimento. Quem sabe, isso também nos provoque a valorizarmos os grandes sonhos contidos nos evangelhos e a nos orgulharmos deles.
4 Imagens para a prédica Bem entendida, a palavra “loucura” pode ser usada na prédica caracterizando o senso crítico que o Decálogo expressa em relação ao direito vigente nas sociedades vizinhas de Israel, bem como na sociedade na qual nós vivemos. A cruz de Jesus – muito lembrada na Quaresma e na Páscoa – faz parte dessa sabedoria de Deus, que é “loucura” para muitos. Outra palavra que pode ser aproveitada é “sonho”. O Decálogo traduz um grande sonho, nunca plenamente realizado, de pessoas éticas, de comunidades comprometidas com o direito e a justiça, especialmente dos fracos e pobres, e de uma sociedade livre de violências e injustiças que matam. Imagem que também pode ser aproveitada é aquela do gancho ou suporte na parede que sustenta um quadro. A autoapresentação de Deus como aquele que tirou Israel da casa da servidão representa esse sustentáculo de todo o Decálogo. Ainda se pode lembrar a importância de se ter, numa sociedade ou comunidade, um conjunto abreviado de princípios que inspirem toda a legislação de um povo. O Decálogo é isso. Mas nele se inspiram e a ele se referem muitas leis e normas que detalham as práticas, pois a vida é complexa e traz sempre novas perguntas, que precisam ser respondidas à luz das referências maiores, as “dez palavras”. Nem tudo está explicitado nessas poucas palavras, mas elas traçam o rumo a seguir.
5 Subsídios litúrgicos Para o culto, pode ser importante escolher hinos que se refiram à importância e grandeza da sabedoria de Deus e do seu povo, expressa nos mandamentos. Pode auxiliar também rezar algum Salmo que exalte a grandeza da lei de Deus. A cruz pode receber um destaque visual, representando a sabedoria de Deus, que é loucura para muitos. Ela é, certamente, a maior das palavras que Deus pronunciou na história do povo de Israel e da humanidade, e essa palavra precisa ser meditada e proclamada também hoje. Estamos no tempo favorável para isso: a Quaresma.
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Bibliografia BALANCIN, Euclides; STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro do Êxodo: o caminho para a liberdade. São Paulo: Paulus, 1991. PIXLEY, George V. Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1987. RAVASI, Gianfranco. Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1985.
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PRÉDICA: JOÃO 3.14-21 NÚMEROS 21.4-9 EFÉSIOS 2.1-10
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11 MAR 2018
Gerson Acker
Olhar para a cruz
1 Introdução É muito conhecida a frase de Antoine de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”. Concordamos. A essencialidade do evangelho não é apenas captada pelo olhar. Vai além, transcende. Porém, as perícopes propostas para o 4° Domingo na Quaresma exploram o olhar como impulso da fé. O texto de Números 21.4-9 apresenta-se no formato “revolta-castigo-intercessão-perdão” e relata a insatisfação do povo de Israel com a vida no deserto, com o longo tempo gasto contornando obstáculos e com a “monocomida” do maná, chegando inclusive a pedir a volta ao Egito (v. 5b). Deus manda serpentes mortais para castigar a rebeldia. O povo se arrepende e pede que Moisés interceda para que a praga seja retirada. Deus atende, não retirando as serpentes, mas providenciando a serpente de bronze para ser erguida numa estaca; assim, quem fosse picado poderia olhar para a cobra de bronze e ser curado. A cura das mordidas está ligada à obediência e à fé. E, por ironia, a fonte de cura é semelhante à do castigo. Em Efésios 2.1-10, o autor lembra aos seus leitores seu modo de vida cristão atual, contrastando-o com o passado pagão deles, quando esses estavam mortos nos vossos delitos e pecados (v. 1) e seguiam o príncipe da potestade do ar (Almeida) ou, mais claramente, o espírito que agora controla os que desobedecem a Deus (NTLH). Em contrapartida, apresenta a misericórdia de Deus que salva os “espiritualmente mortos” através de Jesus Cristo. Essa ação salvífica é um dom de Deus que vem pela fé e não depende da pessoa, é pura graça de Deus (v. 5b). Esse amor salvador será visto e percebido eternamente (v. 7), pois venceu a morte pelo poder da ressurreição de Cristo. Portanto as boas obras em si e por si mesmas não salvam, de modo que ninguém pode se orgulhar de alcançar a salvação por esforço próprio (v. 9). Por outro lado, como ação do próprio Deus, fomos criados em Cristo para as boas obras como parte integrante da vida cristã. Seguindo essa linha hermenêutica, o texto proposto para pregação, João 3.14-21, apresenta o amor de Deus como princípio dinâmico para a salvação. O Deus de Jesus é um Deus motivado por um amor tão grande, que envia seu Filho ao mundo, não para condenar, mas para salvar, e para isso é preciso que o Filho do homem seja levantado (v. 14). Nota-se, portanto, uma intencional ligação entre o “erguer a serpente numa haste” de Moisés e a crucificação-ressurreição de Jesus como forma de redenção. É preciso olhar para a cruz para compreender o amor de Deus pela humanidade.
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2 Exegese O Evangelho de João é sem dúvida um escrito que sugere diversas possibilidades quanto à sua ambientação. Sabe-se com certeza que o autor é de origem judaica e escreveu em grego. Em grandes traços, o evangelho polemiza contra o judaísmo e o gnosticismo, tendo sido influenciado por estes em sua linguagem. As antíteses “carne/espírito”, “luz/trevas”, “coisas celestes/coisas terrenas” são alguns exemplos que comprovam isso. Bultmann, em sua Teologia do Novo Testamento, está convencido de que o quarto evangelho exprime uma única afirmação sempre repetida: Jesus é o revelador. É essa maneira de se revelar do Cristo que queremos auscultar na perícope de João 3.14-21. O recorte bíblico proposto é a parte final do diálogo de Jesus com Nicodemos (3.1-21). Nicodemos não conseguia compreender a liberdade e a espontaneidade do Espírito Santo (o vento sopra onde quer – v. 8) e muito menos compreenderia a entrega do Filho do Homem na cruz. Então, Jesus fornece uma ilustração de Moisés que Nicodemos, como fariseu, conheceria muito bem: o evento descrito em Números 21.4-9. Analisaremos detalhadamente o evangelho proposto, dividindo a perícope em três partes. 2.1 A analogia da serpente (v. 14-15) A narrativa sobre a serpente de bronze é uma história muito antiga que visa explicar por que havia uma serpente de bronze no Templo de Jerusalém. Essa imagem foi destruída no reinado de Ezequias por causa do culto em torno dela (2Rs 18.4). Por causa da sua capacidade de se regenerar, a serpente simboliza a vida, era usada como símbolo de fertilidade desde os tempos primitivos. A base de comparação entre João e Números está no fato de que em ambos os casos a salvação se opera mediante o enaltecimento. O termo tem duplo sentido: alude ao enaltecimento de Jesus na cruz e também à ressurreição e ascensão para junto do Pai. Essa referência ao Antigo Testamento e, sobretudo, a visão da cruz como enaltecimento fazem com que João dê à paixão de Cristo um tom de revelação. A expressão é preciso que o Filho do Homem seja levantado será repetida mais três vezes (Jo 8.28; 12.32,34) e a teologia de crucificação-exaltação joanina será esclarecida à medida que o evangelho continua. 2.2 A salvação (v. 16-18) Central na teologia joanina e cristã é a convicção de que o amor de Deus é o princípio dinâmico para a salvação universal. O amor divino é tão grande que Deus manda seu Filho para salvar o mundo, não para julgá-lo. João usa a palavra “mundo” em diversos sentidos. No v. 17 o uso é generalizado. Toda a criação é objeto do amor salvífico de Deus. Porém, tal salvação pode ser acolhida ou recusada. Embora Jesus tenha vindo para salvar e não para condenar, a resposta humana desempenha importante papel para determinar a salvação e a condenação. Parece até que não é tanto Deus quem julga, e sim a própria pessoa, pela decisão que adota em relação à fé. Crer significa reconhecer
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e acolher a fé em Jesus Cristo como Salvador. Sua aceitação ou recusa implica salvação ou condenação, a luz ou as trevas. 2.3 O paradoxo luz e trevas (v. 19-21) João define os incrédulos como os que “amaram mais as trevas”. Não se trata somente de fazer o mal, o que é natural do nosso ser pecador. O problema é amar o mal e tê-lo como orientação profunda de vida. Por isso o evangelista está convencido de que quem tem uma prática má termina odiando a luz. Portanto a condenação é um processo que vem de dentro, consistindo em não crença na luz que é Jesus, acompanhada pelas más ações realizadas nas trevas. Curiosamente, a oposição luz-trevas faz memória ao prólogo (Jo 1.4-5). Observa-se aqui uma expressão aparentemente curiosa: “praticar a verdade” (v. 21). Na nossa maneira corriqueira de nos expressar, a “verdade” não é para se fazer, e sim para se conhecer. Para João, pelo contrário, a verdade não é uma noção que se aprenda, tampouco simplesmente uma realidade cognitiva, ainda que divina; é o plano salvífico de Deus para ser acolhido e construído.
3 Meditação No diálogo com Nicodemos, Jesus chega ao ponto decisivo de sua resposta à pergunta feita pelo fariseu: o local a partir do qual se nasce da água e do Espírito. Jesus vai falar da cruz. Nada mais luterano do que apontar para a cruz e, sobretudo, para o crucificado como fonte de perdão, salvação e nova vida. O envio do Espírito não poderia acontecer antes do sacrifício do Filho e sua exaltação. É isso que Nicodemos precisa compreender a partir da história da serpente de bronze. No tempo do deserto, a salvação para Israel veio por meio da serpente de bronze. A mordida letal das serpentes era curada pela imagem da serpente. A cura acontecia através de uma coisa que pudesse ser feita também pela pessoa mais frágil: olhar para a serpente. Como pessoas cristãs, somos “mordidos” pelo pecado e nossa salvação depende de voltarmos nossos olhos para o Cristo erguido no madeiro. Eis o cerne da perícope: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (v. 16). Em nossa vida, topamos com limites. Ficamos doentes, somos acometidos por medos, culpas, dúvidas e depressões. Nossa existência abarca, em grande parte, conviver com sombras das quais não conseguimos nos livrar, apesar de nossos esforços. Em tudo isso, desejamos sempre a liberdade de uma realidade redentora. De uma forma diferente, a passagem de João 3.14-21 quer nos ajudar a refletir sobre como nós entendemos e experimentamos a redenção. Como pessoas cristãs, entendemos, às vezes, a redenção em sentido demasiado transcendente. Um olhar para a Sagrada Escritura revela outra coisa: a redenção começa aqui e agora. A história de Jesus é exemplar nisso. Ele veio para nos remir, salvar e curar. Ele curou enfermos, endireitou encurvados, perdoou os pecados aos pecadores e deu às pessoas desanimadas e “mordidas pela serpente” nova disposição
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e coragem de viver. Isso mostra que podemos experimentar a redenção em nossa vida como algo terapêutico e libertador. A redenção é concreta. Quando o ser humano sente-se amado incondicionalmente, fica livre da compulsão e da necessidade de se mostrar através de realizações e obras. Portanto redenção significa olhar para aquele que por mim morreu na cruz e ficar livre de todas as depreciações incidentes sobre a minha própria pessoa. É reconhecer: eu tenho valor! Quem olha para o Cristo levantado na cruz, crendo nele como luz, não é julgado. É muito interessante como o juízo de Deus é apresentado de forma tão misericordiosa. A intenção de Deus não é condenar, mas salvar. Tal postura serve perfeitamente como modelo de atitude para a vida cristã: não julgar, não condenar, mas proporcionar acolhimento e salvação. Quem nele crê não é julgado (v. 18). Como é estranho que, ao contrário do que diz essa frase, geralmente pregamos nas igrejas que também os que creem terão de sofrer o juízo que virá sobre o mundo. Com base na palavra de Jesus, cada pessoa que crê tem o privilégio de viver e morrer com a certeza de não ser julgado. Se isso for verdade, necessariamente também é verdade o seguinte: “O que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do único Filho de Deus”. Percebe-se aqui a centralidade da fé como meio da redenção. A fé é dádiva de Deus, mas que apesar disso não exclui nossa vontade própria. Ninguém chega à fé e permanece nela sem uma decisão em sua vontade pessoal. Seja como for, negar-se a crer é uma decisão da própria pessoa. Em última análise, essa rejeição origina-se no orgulho do ser humano, que pensa que não necessita desse amor, porque não quer admitir sua perdição (v. 20). Dentro dessa lógica dogmática, quem não quer aceitar o ato redentor de Deus na entrega do Filho está forçosamente sujeito ao juízo e, consequentemente, já está julgado, ainda que isso venha a ser definitivamente manifesto apenas diante do trono celestial (Ap 20.11). O amor salvador de Deus, expresso na cruz, nos redime de todos os pecados. Porém, quem rejeita esse amor salvador entrega-se a si mesmo à perdição. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz (v. 19). A luz veio ao mundo, ela quer brilhar nas trevas, iluminar, salvar da escuridão, conceder na luz a vida. Porém, fica evidente que as pessoas amam mais as trevas do que a luz. Para Jesus, essa terrível predileção das pessoas pelas trevas é o que as afasta de Deus. O convite deste evangelho é uma mudança ética concreta pessoal e relacional: “praticar a verdade” (v. 21) para novamente nos aproximarmos da luz. Nós pensamos que importa reconhecer a verdade, sabê-la, entendê-la. No cristianismo geralmente também buscamos apenas essa percepção racional da verdade. Usamos um conceito de verdade que significa apenas um pensamento correto. O evangelista João, porém, usa o termo “verdade” para expressar a realidade efetiva da vida em contraposição a toda a aparência e a todo o encobrimento da realidade pela mentira. Praticar a verdade, portanto, em primeiríssimo lugar, significa arrepender-se. É deixar a escuridão que nos encobre e olhar para a luz, na qual obviamente são expostos os nossos pecados. Por isso arrependimento verdadeiro, sem restrições, acontece unicamente diante da cruz. A pessoa arrependida
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de seus pecados, que volta seu olhar para o Cristo Crucificado, é verdadeiramente gerada do alto por graça e nascida de novo, respondendo assim à pergunta de Nicodemos.
4 Imagens para a prédica No processo de tornar a prédica mais criativa e vívida, a imagem da serpente poderia ser bastante explorada. Pode-se contrapor a ideia de que a serpente produz o veneno que mata e, simultaneamente, através do veneno se produz o antídoto. Uma analogia à cruz de Cristo: ela expõe o nosso pecado e, simultaneamente, dela provém nossa salvação, desde que olhemos para ela. É em Cristo levantado numa cruz que nossos olhos devem estar focados O próprio verbo “olhar” pode ser muito útil, dada a importância dele na perícope de João 3.14-21. O convite do olhar para a cruz/luz também tem uma dimensão de lei e evangelho, pois revela nosso pecado e nos apresenta a redenção de Deus através da entrega do Filho Unigênito. Caso se opte por essa abordagem, a pequena fábula abaixo pode ser útil, pois usa a figura da “serpente”, da “luz” e explora a tendência de “amar mais as trevas”. “Uma cobra estava perseguindo desesperadamente um vagalume. E a cobra seguia o vaga-lume, que voava, voava... e ela se arrastando loucamente. O vagalume, cansado da perseguição, parou e falou para a cobra. – Posso lhe fazer três perguntas? A cobra respondeu: – Sim. O vagalume, então perguntou: – 1º: Por acaso eu faço parte da sua cadeia alimentar? A cobra respondeu. – Não. – 2º: Eu te fiz alguma coisa? A cobra respondeu. – Não. – 3º: Então, por que você está me perseguindo? A cobra respondeu: – A sua luz me incomoda”.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Amado Cristo, nós nos voltamos à tua cruz e, assim, enxergamos o nosso pecado. Confessamos-te a nossa predileção por seguir a escuridão. Confessamos-te as nossas más ações e todo mal que cometemos contra nossa integridade e a de nosso próximo, sobretudo quando julgamos de forma cruel. Perdão por nos afastarmos da prática da verdade e por faltar verdade nas nossas palavras, nos nossos gestos e nos nossos relacionamentos. Olhamos para ti, Senhor, e humildemente suplicamos teu perdão. Que tua luz brilhe sobre nós. Amém. Oração do dia: Querido Deus, teu amor pela humanidade é tão imenso que entregaste teu Filho para que tenhamos vida eterna. Ajuda-nos para que aqui e agora já possamos sentir os sinais da tua redenção. Que a proclamação da tua Palavra nos sensibilize, para que compreendamos e vivamos a verdade do evangelho sem nunca deixar de olhar para a cruz. Por Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo, vive e reina eternamente. Amém.
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Bibliografia BERGANT, Diane; KARRIS, Robert (Org.). Comentário Bíblico. São Paulo: Loyola, 1999. v. 3. FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. São Paulo: Loyola, 1995. v. 2.
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PRÉDICA: HEBREUS 5.5-10 JEREMIAS 31.31-34 JOÃO 12.20-33
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18 MAR 2018
Geraldo Grützmann
Exercitando a obediência no sofrimento
1 Introdução Com o 5° Domingo na Quaresma estamos nos aproximando do ápice da história da Paixão de Jesus. Na leitura do profeta Jeremias é anunciada a nova aliança que Deus fará com o seu povo. Nesse novo tempo, a lei vai tocar o coração das pessoas e o perdão será dado definitivamente. O Evangelho de João descreve o cenário onde o desenrolar da história acontece. Motivado pela procura de alguns gregos, Jesus anuncia novamente a sua morte. Fala da necessidade de decisão para obter a vida em abundância. Nas suas palavras transparece o momento de confronto e angústia. Agora, está angustiada a minha alma, que direi eu? (Jo 12.27). A Carta aos Hebreus apresenta Jesus como o sumo sacerdote. Jesus é o sumo sacerdote definitivo, pois foi integralmente obediente a Deus. Através da sua entrega ele nos oferece a salvação.
2 Exegese v. 5: Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei; A Carta aos Hebreus faz uso da tradição sacerdotal do povo de Israel para destacar aspectos importantes no sacerdócio de Jesus. Cabem a Deus a vocação e instituição de um sacerdote (Êx 28.1, Nm 3.10). É a escolha de Deus que lhe dá legitimidade e responsabilidade. Na perspectiva da antiga aliança era assim. Jesus é apresentado como aquele que preencheu esse requisito em toda a sua abrangência. Jesus não se fez sumo sacerdote. É Deus, o Pai, que o eleva à condição de filho. A glorificação consiste exatamente nisto: o Pai constituiu Jesus para servir como verdadeiro sumo sacerdote. v. 6: como em outro lugar também diz: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. Quando pensamos em sacerdotes do Antigo Testamento, lembramos de Arão e da tribo de Levi. Mas quem era Melquisedeque? Primeiramente, ele era rei na cidade de Salém, no tempo do patriarca Abraão (Gn 14.18), pelo que é reconhecido como “sacerdote do Deus Altíssimo”. Abraão reconhece Melquisedeque como servo do Deus Altíssimo, o mesmo Deus que o mandou sair da sua pátria em busca da terra prometida. Quando Hebreus apresenta Jesus como sendo da
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ordem de Melquisedeque, aponta para o fato de que esse sacerdócio é alternativo, fora da linhagem do sacerdócio levítico oficial. A vocação vem diretamente de Deus e não está delimitada cronologicamente, mas é para sempre. v. 7: Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, Hebreus destaca a humanidade de Jesus. No período em que exerceu seu ministério na terra, incluindo o tempo entre a ressurreição e a ascensão, permanece ser humano. Fazia parte do ministério sacerdotal da Antiga Aliança o oferecimento de sacrifícios. Jesus, como sumo sacerdote, assume essa tarefa. Todo o tempo de vida de Jesus aqui nesta terra foi um caminho de sacrifício, executado com muita paixão. Destaca-se, em especial, o acontecimento de Getsêmani e do Gólgota, oração e morte de Jesus (Fp 2.5). Jesus ofereceu orações e súplicas. Em sua oração abdica da sua própria vontade. Ele sabia que sua vida estava nas mãos de Deus e que o Pai era o único que poderia mudar o seu caminho de sofrimento. Mas em sua oração destaca que seja feita a vontade do Pai e não a sua. O caminho de sacrifício não encerra no Getsêmani, mas o leva até a cruz. Lá Jesus morre sob gritos de sofrimento (Mt 27.46-50). A carta descreve o caminho da paixão de Jesus com palavras que destacam a sua humanidade. Mas também no caminho mais difícil que Jesus teve de seguir está presente o brilho da glória divina. Ele foi elevado com base na obediência a Deus. Essa certeza está presente em todas as orações de Jesus. Ele podia orar: Pai, eu te agradeço. Jesus nunca foge do sofrimento e por isso Deus ouve sua oração. Há, porém, uma distinção entre o “ouvir” e o “atender” da súplica de Jesus. Jesus foi ouvido em suas orações. No Getsêmani recebe o apoio do anjo, que lhe faz companhia e o conforta (Lc 22.43). Ele foi fortalecido para o sofrimento e para vencer o medo da morte, mas não para rejeitar a morte. v. 8: embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu Jesus foi ouvido em suas orações, mas isso não o libertou da obediência em relação ao Pai. Essa obediência não surgiu do nada, foi aprendida por Jesus, exercitada em sofrimento. Também o Filho de Deus teve que aprender a obediência, que o levou ao sofrimento até a morte na cruz. Jesus mesmo compreendia seu caminho aqui nesta terra como obediência total. v. 9: e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, A perfeição em Jesus é o aprimoramento da ética baseada na justiça e no projeto de Deus. Ele pregou essa ética e, principalmente, a transformou em atitude de vida. Esse aperfeiçoamento não fica sem frutos, é salvação para aqueles que nela acreditam. O posicionamento ético, adotado também no sofrimento, confere a Jesus a autoridade divina para recomendar aos seus discípulos: Aprendam de mim (Mt 11.29). Assim como Jesus teve que ser obediente em relação ao Pai, também é premissa para os filhos de Deus a obediência a Cristo. A carta conscientiza os crentes de que também a comunidade pode se solidificar através do sofrimento e da obediência. Obediência prática significa não recuar no sofrimento, mas permanecer firme na confissão em Jesus Cristo. Somente através do caminho
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de sofrimento e morte Jesus pode conquistar a nossa salvação. Após a conclusão desse caminho através da sua ressurreição e ascensão, ele se tornou o caminho para a salvação eterna. v. 10: tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque. Com a sua ascensão, Jesus inicia o seu reinado como sumo sacerdote divino. A palavra profética do Antigo Testamento se cumpriu. Jesus é sumo sacerdote pela ordem de Melquisedeque. Nas afirmações da Carta aos Hebreus sobre o sacerdócio de Jesus, encontramos um claro crescendo: Jesus é o sumo sacerdote (3.1). Ele é o fiel sumo sacerdote. Ele é o grande sumo sacerdote (4.14). E, finalmente, sumo sacerdote pela ordem de Melquisedeque (5.10).
3 Meditação Jesus sofreu. Percorreu um caminho amargo e difícil. Os evangelhos nos contam a sua trajetória de vida. Ler esses relatos ainda não significa compreender a dor, o medo e o desespero de Jesus. Só iremos de fato saber do seu significado se passarmos por experiências de vida semelhantes à que Jesus passou. Quando tivermos passado por “momentos de inferno”, será mais fácil sentir o que Jesus e os seus seguidores sentiram. O sofrimento de Jesus não está apenas nas feridas dos espinhos, nos açoites ou na pesada cruz que carregou até o Gólgota. O sofrimento vem também das palavras da multidão, do silêncio ou da fuga dos seus discípulos. E, finalmente, da gozação: Se de fato és filho de Deus, desce da cruz. Jesus não desceu da cruz, mas foi fiel até o fim. Segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento de Jesus não foi em vão, mas se transforma no serviço sacerdotal definitivo. Como nós lidamos com o sofrimento que está presente em nossos dias? Quanto sofrimento absurdo por decisões políticas injustas! Quanto sofrimento por causa dos nossos próprios erros! Jesus foi obediente. Por que Jesus não mostrou o seu poder e desceu da cruz? Teria sido muito mais fácil para ele. Seria muito mais fácil para nós, cristãos, anunciar um Senhor poderoso ao invés de anunciar o crucificado. Por que teve que ser assim? A Carta aos Hebreus aponta para a obediência. Essa obediência não é um seguimento cego a ordens ou leis. É um processo onde nos tornamos ativos como sacerdotes. Buscamos a Deus e temos o direito de questioná-lo, de suplicar. Tornamo-nos obedientes quando descobrimos, através de Jesus, a verdadeira face de Deus. No exercício da obediência a Deus, descobrimos que sua face não é de força e violência, mas de amor e solidariedade. Faz parte do aprendizado trilhar o caminho do sofrimento. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á (Mt 16.25). Na Carta aos Hebreus vai ficando claro por que Jesus é chamado repetidamente de sumo sacerdote. Como povo de Deus, estamos a caminho e temos saudades de um lugar onde podemos ter paz, onde nossas dúvidas e perguntas encontram respostas. Para o povo de Israel o sonho era a terra de Canaã e o Templo de Jerusalém, onde o sumo sacerdote era o mediador entre Deus e o seu povo amado. Para nós, o alvo e o sonho é o reino de Deus, do qual Cristo se tornou
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o mediador e o sumo sacerdote. Jesus Cristo é o caminho certo que nos leva ao lugar onde encontramos Deus. Somos desafiados a permanecer firmes na nossa confissão, pois temos um sumo sacerdote, o próprio filho de Deus.
4 Imagens para a prédica a) Há alguns anos, eu estava participando de uma manifestação na cidade de Rostock. Ali perto, no norte da Alemanha, estava reunido o G8. Os líderes dos países mais ricos do mundo estavam lá para tomar importantes decisões sobre o futuro da humanidade. Era hora do povo ir para a rua e defender projetos e propostas em favor da vida, principalmente nos países mais empobrecidos de nossa terra. No início, eu me senti muito bem caminhando com a multidão e fazendo coro com tantas organizações, mostrando sua força e exigindo direitos. Mas em poucos instantes o cenário mudou. Houve o confronto entre grupos black block e o aparato policial. Na minha frente, carros da polícia sendo tombados e incendiados. Paus e pedras cruzando o ar contra bombas e balas de borracha. A pimenta ardeu nos olhos e imediatamente corri em busca de um lugar mais seguro. Não é assim em nossa vida? Somos obedientes e fiéis às nossas convicções enquanto estamos num espaço protegido. Quando “a coisa aperta”, abandonamos a luta. E como ficam os que não têm para onde correr? b) No momento em que preparo este subsídio, leio o clamor da colega que expressa sua dor nas redes sociais. Ela perdeu o filho em morte trágica e grita com três palavras: Dói! Dói! Dói! Em 25/11/2007, ela havia publicado um poema que fala da dor no momento da perda. Pedaços... Despedaça Um pedaço da vida De sofrida que é... Quando um pedaço De um todo Sai de todo Sai de tudo Fica o todo Todo em pedaço Porque um pedaço Não é mais parte Não faz mais parte Nem em parte Parte o coração! (Louraini Christmann )
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4 Subsídios litúrgicos Oração de coleta: Deus bondoso e misericordioso, tu falaste em tempos antigos através de sacerdotes e profetas. O teu filho Jesus Cristo veio a este mundo para ser o nosso sumo sacerdote. Ele proclamou um novo tempo com palavras e gestos de amor e solidariedade. Dá que a tua Palavra desperte em nossos corações a obediência ao teu projeto de vida. Que em momentos de sofrimento ela seja como um anjo que nos conforta. Por Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. Sugestão de cantos: HPD 1, 111; HPD 2, 432 e 459.
Bibliografia LAUBACH, Fritz. Der Brief an die Hebräer. Wuppertal: Brockhaus, 2000. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1983.
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DOMINGO DE RAMOS
PRÉDICA: JOÃO 12.12-16
25 MAR 2018
SALMO 118.1-2,19-29 MARCOS 14.1-9
Manoel Bernardino de Santana Filho
Uma semana decisiva
1 Introdução Hoje, celebramos a entrada de Jesus em Jerusalém com ramos. A origem dessa aclamação é a Festa das Tendas, que era realizada no outono, depois da colheita (Dt 16.13; Lv 23.34). Ela lembra o tempo em que o povo israelita fazia sua caminhada pelo deserto (Lv 23.43), morando em tendas. Por isso, durante uma semana, eles recolhiam ramagens e formavam tendas por toda parte (Ne 8.14-17). O povo agitava os ramos e dizia: Bendito o que vem em nome do Senhor. E os sacerdotes respondiam: Da casa de Javé nós vos abençoamos (Sl 118.25-27). A Festa das Tendas era um momento de alegria e de louvor, que mantinha a identidade do povo e lhe dava resistência. Todos os evangelhos falam desse acontecimento. O texto do Evangelho de Marcos assinala os dias que antecedem a Páscoa com a preparação do cordeiro para o grande dia. Jesus, em Betânia, é ungido pelo gesto simples de uma mulher que, ao honrá-lo com seu feito, prepara-o para a crucificação e a morte que o espera em Jerusalém. Sua unção é messiânica, uma preparação para o sepultamento. Ela antecipa a preparação para a morte de Jesus. Desta forma, ela demonstra solidariedade com o caminho da cruz. Ela é elogiada porque compreende o evangelho, e esse será, de agora em diante, identificado com ela. O Salmo 118 apresenta a entrada do rei pelas portas da cidade e nele Deus promete restaurar a ventura do povo. Ele entra pelas portas da justiça inteiramente por sua ação, que foi aperfeiçoada pelo sofrimento. A multidão, ao saudá-lo com Hosana!, mostra que de modo intuitivo percebeu quem era aquele a quem agitava seus ramos de oliveira. O Salmo era cantado toda manhã pelo coro do templo durante a Festa das Tendas. Ele, o rejeitado pelos homens de influência da nação, era a pedra principal.
2 Exegese Provavelmente, a experiência aqui apresentada se deu no domingo da semana da Páscoa. Desde aquele dia o volume de pessoas que chegavam a Jerusalém aumentava. Eram peregrinos de várias regiões da nação que se reuniam para a celebração da festa. Jesus foi encontrado na estrada de Betânia por peregrinos que já haviam chegado a Jerusalém. Certamente muitos desses peregrinos eram galileus já familiarizados com a pregação de Jesus; outros teriam ouvido falar
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da ressurreição de Lázaro e, dessa forma, procuravam uma oportunidade para se aproximar de Jesus. Alguns autores sugerem que o relato do quarto evangelho é baseado no testemunho de alguém que já estava em Jerusalém, enquanto que o relato sinótico é contado do ponto de vista dos peregrinos que acompanhavam Jesus. Os ramos de palmeiras eram encontrados nos arredores de Jerusalém. Esses se tornaram um símbolo nacional desde que Simão Macabeu expulsou as forças sírias da cidadela de Jerusalém. Naquela ocasião ele foi festejado com música e acenos de ramos de palmeiras. Ao mesmo tempo em que aclamavam com o Hosana!, as pessoas agitavam os ramos de palmeiras numa coreografia que ganhava beleza à medida que o povo se multiplicava. As palavras bendito o que vem em nome do Senhor são também uma citação do Salmo 118.26. Era uma forma de conferir bênção sobre o peregrino que se dirigia a Jerusalém. No salmo, as boas-vindas e a bênção eram pronunciadas sobre um rei davídico, embora isso não esteja explicitado. No midrash sobre o Salmo 118, essa expressão é entendida de forma messiânica: aquele que vem é o Messias. Aqui também, no quarto evangelho, as multidões não pronunciam simplesmente uma bênção em nome do Senhor sobre aquele que vem, mas pronunciam uma bênção sobre aquele que vem em nome do Senhor. Elas proclamam: Bendito é o rei de Israel, que não é uma citação do Salmo 118, mas uma identificação messiânica daquele que vem em nome do Senhor. João afirma que tendo Jesus conseguido um jumentinho... (v. 14), montou nele para entrar na cidade. Os sinóticos são mais precisos e abundantes nas informações acerca desse acontecimento. Certamente, Jesus utilizou os contatos de seus discípulos com pessoas que pudessem suprir essa necessidade. A expressão “jumentinho” confirma que ele cavalgou um animal novo, sobre qual Marcos vai dizer que nunca havia sido montado (11.2). A cena cumpre o dito de Zacarias (9.9) que afirma que o Messias virá em paz, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. Isso mostra que suas aspirações não são políticas nem nacionalistas. Um rei guerreiro entraria na cidade montado num cavalo imponente como expressão de suas intenções. Ao associar a entrada de Jesus em Jerusalém com a profecia messiânica de Zacarias, o contexto pleno do Antigo Testamento deve ser levado em conta. Após a promessa da vinda do rei humilde, Deus ainda promete: Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e os arcos de batalha serão quebrados. Ele proclamará paz às nações e dominará de um mar a outro, e do Eufrates até os confins da terra. Quanto a você, por causa do sangue da minha aliança com você, libertarei os seus prisioneiros de um poço sem água (Zc 9.10-11). Três conclusões se destacam aqui: 1) a vinda do rei humilde está associada com o fim da guerra. Isso também foi entendido por João como definidor da obra de Jesus, de tal forma que ele nunca poderia ser reduzido a um zelote fanático; 2) a vinda do rei humilde está associada com a proclamação da paz às nações, estendendo seu reino aos confins da terra. A última parte de Zacarias 9.10 é uma citação do Salmo 72.8, que promete um reino mundial para o rei de Sião, um filho de Davi; 3) a vinda do rei humilde está associada com o sangue da aliança de Deus, que resulta em libertação para os prisioneiros, associado com a Páscoa e com a morte do servo-rei que está imediatamente à frente.
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João destaca, no versículo 16, que os discípulos não entenderam o significado do gesto de Jesus. Parece haver uma incoerência no fato de os discípulos não entenderem o significado da entrada do salvador humilde, enquanto que a multidão o saúda como rei de Israel. No entanto, as multidões confessam Jesus como rei de Israel antes de Zacarias 9.9 ser citado. Jesus se recusou a reforçar suas aspirações políticas e nacionalistas. Seu gesto de humildade começa em sua montaria. O pleno significado dele nem os discípulos nem a multidão perceberam naquele momento. Esse conhecimento só se deu quando Jesus foi glorificado e o Espírito Santo derramado (Jo 14.26; 16.12-15). O contexto mais amplo retrata duas multidões: uma vinha caminhando com ele desde a ressurreição de Lázaro. Essa multidão poderia incluir também pessoas que foram se alinhando pelo caminho, como, por exemplo, gente de Betânia, algumas das quais foram convidadas para o jantar (12.2). Essas pessoas estavam ali para dar testemunho de tudo que tinham visto e ouvido e, dessa forma, espalhar os fatos como se deram. A outra multidão saiu de Jerusalém para encontrá-lo, estimulada em parte pelos relatos dos milagres. A cena completa estava carregada de potencial explosivo. Jesus podia ter começado uma revolta armada naquele momento. Os fariseus observavam tudo e estavam inquietos. Achavam que o melhor era suportar a ocupação romana. Por isso estavam aborrecidos com a crescente popularidade de Jesus. O Sinédrio tomou sua decisão (11.49-53), mas teve que executá-la furtivamente por causa das multidões. Temiam por si mesmos, pois não queriam se opor à vontade do povo. Quando eles afirmam olhem como o mundo todo vai atrás dele, soa também como uma ironia joanina. Ainda que eles quisessem dizer que todas as pessoas presentes para a festa se voltassem para o messias-humilde, no entanto, o evangelho, em sua plenitude, quer mostrar que a missão de Jesus é salvar o mundo (3.17). Essa multidão, na verdade, antecipa o alcance mais amplo que a humanidade desfrutará do reino de salvação de Jesus.
3 Meditação Como eu mesmo afirmei no Proclamar Libertação 33, entrar em Jerusalém significa que Jesus está pronto para cumprir o seu destino. Ele adentra a cidade e ali toca na ferida do sistema político-religioso, que se corrompeu. Os judeus, com seus ritos de purificação, buscavam sua santidade sacramental. Lavavam-se da imundície do convívio social, do qual às vezes não podiam fugir. Jesus transforma a intolerância em tolerância para recuperar a festa da convivência. Não é por acaso que Jesus inicia seus “sinais” com o milagre da transformação da água em vinho (Jo 2.1-12). A água dos judeus promove a diferença, a separação das classes. O vinho que Jesus traz à festa une. Isto é, produz a volta da amizade, da conversa livre, do bate-papo amigo. Olhando assim, o milagre em si é secundário. O que importa é o resultado que esse gesto produz. Dizer que o vinho acabou é dizer que desapareceu a possibilidade do diálogo, da convivência saudável. Quando a intolerância predomina, o vinho da convivência se transforma nas talhas petrificadas da intransigência e da separação.
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O evangelho de Jesus denuncia a incapacidade de construção de um povo sem que primeiro se reconstrua os caminhos da convivência. Quando se fala de igreja como povo de Deus, não é um povo já estabelecido, é um povo que está sendo construído, edificado. Mais e mais pessoas excluídas precisam entrar. Jesus chama a todos, mas nós queremos chamar apenas alguns que nós julgamos que sejam dignos. Nesse sentido somos antipovo. Lembramo-nos do cego de Jericó? Ele estava “à beira do caminho” (Lc 18.35). Por que à beira? Excluído. Fora da estrada. Quando grita por Jesus, mandam que se cale. Mas o que Jesus faz? Chama-o para a estrada e o inclui na comunidade. Este é o maior milagre: é a inclusão no povo de Deus. Não é a cura física. Jesus não veio meramente curar doentes físicos. A religião que estiver construindo sua fé em cima de milagres, exorcismos e curas está se distanciando do verdadeiro evangelho de Cristo. Jesus recria as condições para a convivência. Deseja nos ensinar a compartilhar, a dar mais atenção para as pessoas do que para as coisas. Para se viver o evangelho, é preciso se recuperar a convivência. É aqui que começa o evangelho. A entrada em Jerusalém é prenúncio da mensagem do Reino que chega até nós. Jerusalém é o mundo. A ordem vigente e injusta precisa ser denunciada. Os poderes da morte precisam ser derrotados. Jesus vai ao templo e se enche de indignação. Quebra as tendas de negócios no entorno do templo. Por quê? Porque as tendas lembram o sacrifício pelo mérito. Só sacrifica quem pode pagar. Será que tem alguma semelhança com hoje? O quarto evangelho apresenta o tema da inclusividade. Jesus encontra uma samaritana e fala com ela (Jo 4). Ela se assusta. Por quê? Porque os judeus não falavam com samaritanos, muito menos uma mulher. Havia uma muralha étnica. Ele quebra a muralha e traz a mulher para dentro. No capítulo 5, ele vai ao tanque de Betesda, lugar de excluídos de toda ordem. Ali jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos (5.3). Jesus ordena que se ponham de pé e saiam para a vida. No capítulo 8 está a mulher pega em adultério, sozinha. Ela não tem parceiro. Queriam apedrejá-la, pela lei. Jesus confronta aqueles religiosos hipócritas, manda que atirem pedras se estiverem sem pecados. Ele então põe a mulher dentro da comunidade. Eles queriam sua exclusão radical, com a morte. Jesus a inclui no conceito de povo. E joga a lei deles para fora da muralha. Jesus queria incluir todo mundo no conceito de povo de Deus. João 11.50 é a chave para se entender todo o Novo Testamento. Já que Jesus queria incluir a todos, é necessário que morra para que não venha a perecer toda a nação, isto é, toda aquela compreensão de povo de Deus que eles criaram para si. A sentença de morte foi estabelecida na ressurreição de Lázaro. O evangelho de Jesus Cristo, na narrativa de João, é o evangelho da inclusão. Nele cabem judeus, samaritanos, gregos, gente de qualquer lugar e qualquer nacionalidade. O reino de Deus é formado por pessoas de todas as etnias e de todas as condições sociais. Não há distinção. A universalidade do ministério de Jesus começa a ser mostrada em sua entrada em Jerusalém e é ampliada pelo evangelista nos trechos seguintes, quando o Senhor começa a ser reconhecido por gregos e povos de outras nações. Ele veio
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para inaugurar o reino de Deus e mostrar a todos os benefícios de pertencer a ele, assumindo seus valores, que são eternos.
4 Imagens para a prédica A entrada de Jesus em Jerusalém pode ser encenada pela comunidade. Dependendo da geografia da localidade do templo, o Domingo de Ramos pode ser coreografado a partir da participação de vários personagens percorrendo o entorno do templo, utilizando ramos de palmeiras ou de outras plantas. No interior do templo, a coreografia pode ser também utilizada com os participantes acenando com as folhas de palmeiras, enquanto a comunidade saúda aquele que chega com vestes brancas: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Deve-se cortar os ramos com bastante antecedência e oferecê-los às pessoas adultas e crianças. Estas, principalmente, haverão de participar com alegria de algo tão interessante. Também é possível organizar dois grupos de pessoas que caminham em direção umas às outras para representar os peregrinos que vinham seguindo Jesus desde a Galileia e aqueles que o esperavam às portas de Jerusalém, impressionados pelos relatos de milagres e, provavelmente, da ressurreição de Lázaro. A entrada de Jesus em Jerusalém aponta para o significado último do evangelho: a concretização de um projeto de Deus, que é a constituição de uma comunidade que abrace e que seja solidária, que anuncie o Reino não tanto com a verbalização do evangelho, mas com a prática, com a experiência de quem teve um verdadeiro encontro com Jesus Cristo. Jesus entrou em Jerusalém. Podemos ilustrar essa entrada como um plano estabelecido por Deus. Essa é uma figura para mostrar que ele deseja entrar na vida de todas as pessoas. Ele disse (Jo 12.32) que, quando fosse levantado, atrairia para si a muitos. Somos atraídos pelo seu amor e por sua solidariedade.
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: Deus, nosso Senhor, queremos louvar-te e agradecer-te porque te humilhaste por nossa causa, através de teu amado Filho, para exaltar-nos em tua incompreensível misericórdia. Queremos louvar-te e agradecer-te por este impressionante propósito para com teu povo Israel e para com os gentios, de quem chamaste nossos antepassados. Queremos louvar-te e agradecer-te por nos teres escolhido e chamado em tua graça, por seres também o Deus dos rejeitados e dos esquecidos, por sempre aceitares todos nós de forma paterna e plena. Não cansamos de te reconhecer e te adorar em todos esses mistérios e de tomar para nós na fé a tua Palavra, pela qual és glorificado e nos concedes paz e alegria através da bem-aventurança eterna já nesta vida. Rogamos a ti por tua igreja aqui e em todos os países: pela igreja adormecida, que ela acorde; pela igreja perseguida, que ela permaneça alegre e confiante em tua causa; pela igreja confessional, que ela não viva para a sua própria, mas apenas para a tua glória. Rogamos a ti por todos os governantes e autoridades no mundo inteiro: pelos bons, que os mantenhas; pelos maus, que transformes seus
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corações ou ponhas fim à sua violência, conforme a tua vontade; que te reveles a todos como aquele a quem devem servir. Pedimos que haja resistência à toda tirania e desgoverno e que as pessoas e os povos oprimidos possam obter os seus direitos. Rogamos-te também pelos pobres, pelos enfermos, pelos prisioneiros, pelos desamparados, pelos aflitos, por todos aqueles que sofrem e talvez só tu saibas. Que encontrem consolo em ti e na esperança em teu reino! Amém. (Barth, 2013, p. 32-33, adaptado)
Bibliografia BARTH, K. Senhor! Ouve nossa oração! São Leopoldo: Sinodal, 2013. BRUCE, F. F. João; introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1987. CARSON, D. A. O Comentário de João. São Paulo: Shedd, 2007.
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QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
29 MAR 2018
PRÉDICA: SALMO 116.1-2,12-19 MARCOS 14.12-26 APOCALIPSE 19.6-10
Klaus A. Stange
Este é meu corpo, este é meu sangue – dado e derramado por ti!
1 Introdução Culto de Quinta-Feira da Paixão: somos lembrados que no crepúsculo desse dia Jesus se reuniu com seus discípulos e instituiu a Santa Ceia. Nessa noite, Jesus come e bebe com seus discípulos e, na medida em que reparte o pão e distribui o fruto da videira, aponta para a sua vida que será entregue e derramada numa cruz. Não somente os discípulos, mas também nós somos convidados a nos envolver com Jesus, a participar da sua ceia, a comungar com ele e uns com os outros, a lembrar que o evento da paixão foi realizado por nós. O culto de Quinta-Feira da Paixão conecta com o texto da instituição da Santa Ceia. Por isso foi sugerido para esse domingo o texto do Evangelho de Marcos 14.12-26 como texto de leitura bíblica, que narra a instituição da Santa Ceia. Semelhantemente, o texto de Apocalipse 19.6-10 é uma doxologia que convida a comunidade cristã ao louvor e à adoração, porque se aproxima o dia em que o “Cordeiro”, Jesus Cristo, celebrará a ceia definitiva com sua igreja. O texto convida a comunidade a crer e esperar, a viver na expectativa do grande dia do “casamento do Cordeiro”, ou seja, o dia em que a igreja de Jesus Cristo haverá de celebrar de forma plena a comunhão com ele. Pessoalmente, percebo como muito significativo que a consumação da história é descrita na Bíblia através da metáfora de uma grande festa de casamento.
2 Exegese a) Primeiras impressões Lendo o Salmo 116, percebe-se que o salmista expressa seu amor, louvor e gratidão a Deus porque ele se inclinou para o salmista, ouviu o seu clamor e o livrou da morte. A menção de um cálice da salvação imediatamente traz à memória o cálice da ceia de Jesus com seus discípulos, o cálice da nova aliança, do qual nós bebemos quando celebramos a Ceia do Senhor. O texto também fala de votos a serem cumpridos de forma pública. Pergunto-me como entender esses votos: como uma ação / obra humana ou como uma resposta do ser humano à intervenção salvadora de Deus? Também o v. 15 causa estranheza na primeira leitura. Como pode a morte dos fiéis ser vista como algo precioso para Deus? (Assim traduz a Bíblia de Jerusalém). Seria o versículo uma referência à ressurreição? A Bíblia na Nova Versão
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Internacional procura amenizar esse estranhamento e traduz como: O Senhor vê com pesar a morte de seus fiéis. b) Estrutura, contexto histórico e gênero literário A estrutura do Salmo me parece ser bem evidente: v. 1-2: Abertura do Salmo na forma de uma declaração de amor a Deus, pelo fato dele ter inclinado o seu ouvido e atendido a súplica do salmista. v. 3-4: O salmista olha para trás e relata a calamidade pela qual passou e testemunha a salvação do Senhor. v. 5-7: Insere um testemunho que pode ser o testemunho da comunidade (coletivo). Os atributos de Deus são louvados. v. 8-9: Relato da graça e do livramento recebido e a promessa de andar diante do Senhor. v. 10-11: Novamente um relato da calamidade e o testemunho da salvação do Senhor. v. 12-15: Votos e promessas de cumprimento dos votos. v. 16: Novo testemunho do livramento e da salvação do Senhor. v. 17-19: Novo voto e promessa de cumprimento. O Salmo encontra paralelos expressivos (estrutura e conteúdo) no Salmo 30. Os Salmos podem ser classificados, de maneira geral, em: a) súplicas ou agradecimentos individuais do salvo; b) súplicas ou agradecimentos coletivos; c) hinos festivos de diversas festas públicas; d) poemas espirituais, de ensinamento, meditação. No nosso caso, a perícope em estudo se classifica como um agradecimento individual. A oração é intensamente pessoal, no entanto, o louvor e a gratidão do salmista serão manifestados de forma ritual e comunitária. Assim, o Salmo mistura elementos individuais e pessoais com elementos comunitários e coletivos. Não é mais possível situar com precisão o contexto histórico, o lugar vivencial original desse Salmo. Mas podemos perceber que o salmista recorda as desgraças que o afligiram e testemunha de forma vibrante como Deus o livrou. O salmista pediu por socorro e seu clamor foi ouvido. Agora ele traz a sua gratidão e o seu louvor a Deus, acompanhados de um rito litúrgico e cumprindo um voto que fez quando se encontrava em perigo. De que perigos ou desgraças foi libertado? O Salmo aponta para, pelo menos, quatro aspectos: um grave perigo de morte (v. 3,8), uma aflição interior (v. 3b,8b,10), uma situação de segregação social (v. 6,11,14) e a escravidão (v. 16). Não fica claro se o salmista vivenciou literalmente todas essas situações. Se esse for o caso, ele nos lembra a narrativa de Jó, que também vivenciou uma sequência de calamidades. Mas também é possível imaginar que os sofrimentos do salmista são metáforas usadas para descrever uma situação real de ameaça à vida. É possível que o salmista tenha experimentado o perigo da morte, pois ele fala de morte e abismo (v. 3), de morte e lágrimas (v. 8), de vida (v. 9) e de novo de morte (v. 15). A aflição profunda (v. 3b) e a segregação social (v. 6) são elementos que, muitas vezes, acompanham a pessoa que vivencia o perigo de morte. A escravidão também é uma metáfora usada para falar da própria morte. O salmista explicita seus sentimentos de forma muito intensa. Internamente ele estabelece uma conversa mental com sua própria alma, ou seja, consigo
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mesmo. Ele recorda o que passou, quais foram seus pensamentos e suas palavras quando experimentou o perigo da morte. Ele conversa consigo mesmo antes de propor algo. c) Observações exegéticas v. 1-2: O salmo abre com uma declaração de amor, uma declaração de afeto. Chama a atenção que o verbo se encontra na primeira pessoa do singular, denotando um sentido absoluto. Esse uso é raro no Antigo Testamento. O verbo aparece 10 vezes no Salmo 119, mas ali o objeto do amor é a lei. Também no Salmo 26.8 encontramos o verbo, mas o objeto do amor é a “casa onde o Senhor habita”. O Salmo 31 faz um convite para que “os leais” amem o Senhor. Finalmente, o Salmo 18 inicia com a expressão “amo o Senhor”, mas nesse salmo é usada uma palavra sinônima, portanto diferente do Salmo 116. Fora do saltério, o verbo ainda aparece no texto clássico de Deuteronômio 6.5 e 11.1 como um mandamento. Por isso o Salmo 116 se destaca, porque é a única ocasião em que o amor a Deus é expresso de uma forma singular, espontânea, como um agradecimento. Penso que esse versículo é chave para entendermos todo o salmo. Tudo o que é dito no salmo é envolvido por essa atmosfera do amor a Deus. É o amor que brota da gratidão. Paralelamente, no v. 10 o salmista expressa a sua fé, a sua confiança nesse mesmo Deus. É em Deus que ele confia, não em algum ser humano. Portanto o amor e a fé perfazem a postura do salmista e se dirigem a Deus. O salmista revela com suas palavras uma relação direta e de confiança para com seu Deus, cujo nome e atributos não se cansa de repetir. v. 12: O salmista pergunta pela forma como pode retribuir a Deus o bem que recebeu. Quando ele faz a pergunta, já está reconhecendo sua gratidão e seu desejo de retribuir e, ao mesmo tempo, reconhecendo a impossibilidade de cumprir seu desejo. Deus não dá para que o ser humano lhe retribua; nem o ser humano tem que dar para que Deus lhe retribua. A ética ou a espiritualidade do do ut des falha em ambas as direções. O verbo “retribuir” significa devolver, restituir em espécie ou em dinheiro. No livro dos Salmos, o sujeito desse verbo normalmente é o próprio Deus (21 de 28 vezes). O ser humano não pode restituir a Deus. O que ele pode fazer é reconhecer o agir gracioso de Deus e expressar sua gratidão na forma de louvor ou de uma oferta. v. 13-14: O salmista decide que expressará a sua gratidão na forma de um rito público, com invocação do nome do Senhor e cumprimento de votos. O rito consiste em elevar o cálice, invocando o nome de Deus. É o cálice da libação, do vinho aspergido ou derramado em honra a Deus. Mas também pode indicar o cálice da comunhão, que vai passando de mão em mão entre aqueles que participam do momento solene e festivo (Sl 23.5). Fazer votos em momentos de angústia era algo comum no Antigo Testamento (cf. Sl 66.13-14). Havia inclusive uma legislação que regulamentava o cumprimento dos votos (Lv 7.16-17; 22.17-25). Os textos de sabedoria previnem contra votos precipitados (Pv 20.25) e aconselham cautela na hora de fazer os votos (Ec 5.3-5). v. 15: Conhecemos a expressão “custou o olho da cara”. Há quem diga que ela tenha se originado quando o conquistador espanhol Diego de Almagro perdeu
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um de seus olhos durante certo conflito em uma fortaleza inca. Após retornar à sua pátria, diante do imperador Carlos I, o espanhol teria soltado a máxima: “Defender os interesses da Coroa espanhola me custou um olho da cara”. Depois desse episódio, foi apenas uma questão de tempo para que a expressão se espalhasse entre o povo. A mesma lógica é usada pelo salmista. Nós conhecemos a instituição do “seguro de vida”, que paga uma soma de dinheiro em caso de morte. Quanto vale a morte, ou seja, quanto vale a vida de uma pessoa? O salmista testemunha que Deus fixou um preço muito alto pela sua vida. Deus é aquele que vende por um preço muito alto a vida de um fiel, faz pagar muito caro a sua morte. Na legislação da aliança, encontramos um paralelo no seguinte caso: Trata-se de um boi que já costumava chifrar e nada foi feito. Se, todavia, o boi costumava chifrar, e o dono, ainda que alertado, não o manteve preso, e o boi matar um homem ou uma mulher, o boi será apedrejado e o dono também terá que ser morto. Caso, porém, lhe peçam um pagamento, poderá resgatar a sua vida pagando o que for exigido (Êx. 21.29-30). A lei não quantifica quanto deverá ser pago. O Salmo 49.7-9 dirá que a vida não pode ser comprada por dinheiro algum. No Salmo 72.1-14 o rei taxa muito alto a vida do pobre e do indigente. No Salmo 30.9 o salmista pergunta: Senhor, o que ganhas com a minha morte? Em outras palavras: Senhor, quanto pagarias para salvar a vida de alguém que é fiel a ti? No Salmo 116.15 o salmista afirma que o preço seria muito alto. v. 16: O salmista se compreende como alguém que é fiel a Deus. Mas não somente isso: ele também se vê como um servo. Não é apenas uma expressão poética. A expressão é derivada do mundo jurídico. O que o salmista está testificando é que quem nasce de uma escrava é escravo de nascimento (Êx 21.4). O dono do escravo podia alforriar, libertar o escravo. O salmista testemunha que Deus o alforriou, o libertou da escravidão da morte. v. 17-18: Esses versículos repetem os versículos 13-14, substituindo o cálice por um sacrifício de louvor. v. 19: O último versículo do salmo menciona o templo e a cidade de Jerusalém. Isso é muito comum nas celebrações litúrgicas. No entanto, o que é estranho nesse versículo é que o salmista se refere a Jerusalém na segunda pessoa do singular, demonstrando seu profundo afeto pela cidade. O afeto do salmista pela cidade de Jerusalém contrasta com o episódio do profeta Ezequiel, que perdeu sua esposa e não pode pranteá-la, e o povo, que perde o templo e a cidade de Jerusalém e não poderá pranteá-la (Ez 24). Talvez os dois últimos versículos do salmo lancem uma luz sobre o momento histórico em que o salmo foi escrito. Podemos imaginar um israelita desterrado em país estrangeiro ou um repatriado que encontra o templo reconstruído. Talvez o israelita represente todo o povo. Assim, o salmista ou a comunidade é salva da morte. Ela estava longe, mas agora retorna à pátria. Já não é mais escrava, já não está mais no cativeiro, foi alforriada pela ação de seu dono. O Senhor taxa muito alto a vida de sua comunidade e esta não sabe como agradecer a Deus. A comunidade retorna para seu lugar de repouso, enxugadas as lágrimas, porque o Senhor foi bom para com ela.
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3 Reflexão teológica com vistas à prédica Creio que a intenção da equipe de teólogos que escolheu este texto como texto de prédica para a Quinta-Feira da Paixão foi de que o texto fosse interpretado numa perspectiva cristológica. A experiência do salmista no Salmo 116 possui muitos paralelos com o evento da Paixão, especificamente, a última ceia que Jesus celebra com seus discípulos. Da mesma forma como o salmista, Jesus expressa sua relação de obediência (lealdade), afeto e de amor para com o Pai. Um aspecto que chama a atenção, não mencionado anteriormente, é o fato que no Salmo 116 se encontra uma lacuna. Normalmente, na estrutura de um salmo de gratidão encontra-se um tópico de arrependimento da culpa e confissão de pecados (cf. Sl 30, 32 e 38). O salmista do Salmo 116 não se confessa réu de delitos ou pecados que pudessem eventualmente ter provocado a ira de Deus e a situação de calamidade pessoal. O salmista considera-se leal, fiel a Deus, sem que com isso julgasse obter méritos junto a Deus. Em todas as coisas Jesus foi tentado, mas sem pecar. Ele é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Diferentemente do salmista, Jesus não foi poupado da morte, mas entregue a ela. Aliás, o próprio Jesus entrega a sua vida de forma voluntária. No entanto, o evento da morte de Jesus (que aos olhos do mundo foi um retumbante fracasso), é revertido em absoluta vitória com a ressurreição de Jesus. Para Jesus, o cálice oferecido na noite da Quinta-Feira da Paixão é o cálice de libação: a sua própria vida é derramada, oferecida para perdão dos pecados. Lembramos da narrativa de Maria que unge Jesus e antecipa simbolicamente o evento da paixão e morte de Jesus (Jo 12). Para a comunidade dos discípulos, e também para nós, o cálice é o da comunhão, do convite que Deus estende a todos para que recebam a dádiva do perdão. Que vida Deus Pai estimou mais preciosa do que a vida de seu Filho Jesus? No entanto, Deus Pai entregou seu Filho. A nossa vida custou um alto preço para Deus. Do “lado de cá” a salvação é gratuita, mas do “lado de lá” custou muito caro! É a troca maravilhosa que Deus faz conosco e a qual Lutero se referia quando escreveu: “Cristo é Deus e homem, mas jamais cometeu pecado. Sua justiça é invencível, eterna e onipotente. Ao apropriar-se Cristo do pecado da alma crente em virtude do anel de bodas, isto é, por sua fé, é como se Cristo mesmo houvesse cometido o pecado; resulta dar que os pecados são absorvidos por Cristo e permanecem nele, pois não há pecado capaz de resistir à invencível justiça de Cristo. Deste modo, a alma se vê limpa de todos os pecados, em virtude da aliança de bodas, ou seja, a alma é libertada pela fé e dotada com a justiça eterna de seu esposo, Jesus Cristo. Não é acaso um lar feliz, que Jesus Cristo, o noivo rico, nobre e justo, se case com uma insignificante rameira, pobre, desprezada e má, tirando-a desta forma de todo o mal e adornando-a com toda espécie de bens?” (Da liberdade Cristã, p. 20). Graças à morte e ressurreição de Jesus, a comunidade cristã é alforriada, liberta da escravidão do pecado e da morte (Rm 8.20, 1Co 10.16). Toda vez que
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celebramos a Ceia do Senhor, somos lembrados disso. Quem é livre pode verdadeiramente colocar-se a serviço do próximo. Toda vez que a comunidade celebra a Ceia do Senhor, ela antecipa, em fé, o grande dia das bodas do Cordeiro, quando definitivamente serão enxugadas todas as lágrimas, quando retornaremos ao nosso definitivo descanso. Nesse dia, a comunidade dos crentes dará graças, louvor e adoração a Deus na Jerusalém celeste.
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Imagens para a prédica
A unção de Jesus por Maria (Jo 12) pode ser lembrada como imagem para o Salmo 116.
Bibliografia SCHÖECKEL & CARNITI. Salmos II. São Paulo: Paulus, 1998. (Grande Comentário Bíblico). GERSTENBERGER, Erhard. Como estudar os salmos? São Leopoldo: Sinodal, 2015.
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SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
30 MAR 2018
PRÉDICA: HEBREUS 10.16-25 ISAÍAS 52.13-53.12 JOÃO 19.16-30(31-37)
Flávio Schmitt
1 Introdução Sexta-Feira da Paixão é uma data central no calendário litúrgico cristão. Por fazer memória da prisão, morte e crucificação de Jesus, passou a concentrar as mais diferentes formas de atenção e devoção ao longo do tempo. O texto indicado para a pregação trata de um aspecto da interpretação da morte de Jesus: o sacrifício. Ao tematizar a morte de Jesus e sua relação com o ritual de sacrifício praticado em Israel, o texto aponta para a relação entre a morte de Jesus e o perdão dos pecados. Este texto já recebeu atenção na edição do Proclamar Libertação II e IX. Nesses volumes, o texto é recomendado para a pregação no 1º Domingo de Advento. Nesse caso, o acento está na segunda parte do v. 25.
2 Exegese Hebreus 10.16-25 pode ser dividido em duas partes maiores. Os v. 16-18 são uma parte e os v. 19-25 são outra. Alguns autores inclusive agrupam os v. 16-18 na unidade maior, que vai de 9.15-10.18 (sacrifício de Cristo cumpre a promessa da nova aliança), inserida no conjunto que vai de 8.1-10.18 e que trata do ministério de Cristo como sumo sacerdote. Os v. 19-25 começam a unidade (10.19-12.29) que trata das aplicações práticas da nova aliança. “A caminhada parte da obra salvífica de Cristo (v. 19-21) e leva, pelo caminho da fé, da esperança e do amor (v. 22-25a), à meta do dia que se aproxima, o advento de Cristo (v. 25b)” (PL II, 1977, p. 242). v. 16-18: O texto de Hebreus sugerido como perícope começa com uma transcrição das palavras do profeta Jeremias. Os v. 16-17 reproduzem o que está escrito em Jeremias 31.31ss. Essa passagem já havia sido mencionada em Hebreus 8.10. Na ocasião, o texto de Hebreus explora um trecho maior do livro de Jeremias. Em Hebreus 8.10, a lei é “posta na mente” e “escrita no coração”. Agora a ordem é invertida. A lei primeiro é “escrita no coração” e depois “posta na mente”. O que o autor procura destacar é a necessidade de uma nova lei e a transformação que ela opera. O que está em jogo na mudança de uma para outra aliança é o tipo de lei. Na primeira aliança vigora a lei da carne. Agora vigora a lei do espírito. Na nova aliança a transformação é de tal natureza que não somente é eliminado o pecado, mas são infundidos no ser humano o amor, a esperança e a fé. v. 16-17: O texto começa falando da aliança. Trata-se do acordo firmado pelo próprio Deus com seu povo. A primeira aliança foi escrita em pedras. Ela
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tem na lei sua orientação central. Não se trata de uma mera legislação a ser cumprida pela disposição humana. Nessa primeira aliança o ser humano precisava se esforçar para cumprir a lei e suas condições. A expressão “depois daqueles dias” aponta para o momento de instituição da nova aliança, depois do cumprimento da antiga aliança. A aliança é instituída por Deus mesmo. A iniciativa é divina e a determinação é de Deus. Aos humanos resta acolher, obedecer e cumprir. Por isso as leis precisam ser postas nos corações e nas mentes: Pondo as minhas leis nos seus corações e inscrevendo-as na sua mente. Ao falar de coração, o autor está aludindo à dimensão emocional do ser humano. A expressão destaca o ser interior da pessoa. Coração diz respeito ao ser humano real. O texto também fala em “mente”. Aqui se trata da dimensão racional do ser humano. Em Romanos 12.2 Paulo fala da renovação da mente. Está em jogo a dimensão cognitiva do ser humano. A função racional do ser humano não está dispensada na nova aliança. Coração e mente, juntos, querem expressar a totalidade do ser humano, sua integralidade, totalidade. Bondade e razão orientam a nova aliança. O objetivo da citação do v. 17 é mostrar que não há mais necessidade de qualquer sacrifício. O sacrifício perfeito já foi realizado. Na nova aliança a mente de Deus nem se lembra mais dos pecados, razão pela qual não há nenhuma necessidade de sacrifício. Na antiga aliança, cada sacrifício relembrava os pecados. Agora, na nova aliança, os pecados são esquecidos, não havendo necessidade de novos sacrifícios (Champlin, 1982, p. 600). v. 18: Este versículo destaca o sacrifício da nova aliança. Visto que o perdão dos pecados é perfeito, fica eliminada toda e qualquer necessidade de sacrifícios. Desta forma fica sacramentada a superioridade do ministério sumo sacerdotal de Cristo: uma única vez e por todos os pecados de todas as pessoas em todos os tempos. A oferta de Cristo foi completa e final. Nada há que possa ser acrescentado para a salvação do ser humano. O perdão dos pecados é a característica da nova aliança. v. 19-25: Os v. 19-25 tratam do privilégio de acesso à presença de Deus. A unidade pode ser subdividida em duas partes. Os v. 19-21 falam dos irmãos na casa de Deus. Os v. 22-25 trazem uma série de exortações fundamentadas na fé, na esperança e no amor. v. 19-21: O v. 19 começa apelando para a ousadia. A palavra grega parresia, aqui traduzida por ousadia, fala de pessoas tomadas de coragem. O aspecto da iniciativa está presente. Como em toda a Carta aos Hebreus, o pano de fundo é o culto israelita. Nesse culto, o templo e o papel nele desempenhado pelo santo dos santos, como lugar considerado santíssimo pelos judeus, são fundamentais para o perdão dos pecados. Esse recinto não acessível a qualquer pessoa, nem mesmo a qualquer sacerdote, era visitado somente uma vez por ano pelo sumo sacerdote (cf. Lv 16.11-14) para entregar a Deus os pecados do povo, por meio da aspersão do sangue do cordeiro no propiciatório (Rm 3.25). O sangue era o passaporte do sacerdote para entrar no santo dos santos. Agora, por causa do sangue de
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Jesus, o acesso ao santo do santos, portanto, a Deus mesmo, está liberado. Todo acesso a Deus está liberado e em todo tempo. Não há mais restrições. Qualquer dia, qualquer lugar e qualquer hora é tempo de acessar Deus. v. 20: O acesso é denominado de “novo e vivo caminho” (Jo 14.6). Jesus abriu um novo e vivo caminho por meio de sua morte e ressurreição. “Novo, porque foi recentemente aberto por Cristo”. Também é novo em relação ao antigo. Substitui o antigo. “Vivo, porque está ligado à pessoa de Jesus, que vive. Por isso este caminho não pode ser percorrido de modo independente ou desligado da pessoa de Cristo” (PL IX, 1983, p. 120). Nesse novo caminho todo crente é um sumo sacerdote (Rm 1.6). Tem acesso direto, catraca livre. Nada impede de chegar a Deus. Quem deseja pode se achegar à presença de Deus. v. 21: Fala do grande sacerdote. Para falar da autoridade maior, o normal é empregar a expressão sumo sacerdote. Ao falar de Jesus como grande sacerdote, o texto distingue Jesus dos sacerdotes comuns, que tinham menor autoridade e, ao mesmo tempo, destaca a natureza da autoridade de Jesus. Ele não é um sumo sacerdote, como eram os sacerdotes da antiga aliança. Jesus é o sacerdote. A expressão “sobre a casa de Deus” tem um duplo sentido. Por um lado, trata dos crentes como uma casa, um templo vivo, lugar onde habita o Espírito Santo. Por outro lado, casa de Deus também pode ser entendido como morada de Deus, lugar celestial (Ef 1.3), a casa onde os crentes se encontram com Deus, o templo. Três aspectos são destacados nessa unidade: ousadia para estar na presença de Deus, um caminho novo e vivo, e a presença do grande sacerdote Jesus. v. 22-25: Discorrem sobre a fé, a esperança e o amor. Esses são os ingredientes fundamentais para uma vida espiritual. Aqui são apresentadas várias exortações, a saber: devemos nos aproximar; devemos nos apegar à profissão de fé; devemos promover a prática do amor; devemos apostar na mútua edificação; devemos continuar na comunidade. v. 22: A expressão “aproximemo-nos” é retomada em diferentes momentos da carta (4.16; 7.15; 11.6). Por meio do novo e vivo caminho, podemos nos aproximar de Deus. Além de convite, a declaração expressa a possibilidade. O caminho está livre. A expressão “com coração verdadeiro” aponta para a sinceridade. Ninguém precisa fingir ou fazer de conta. Autenticidade é a palavra de ordem. Novamente é mencionado o coração, sede da decisões humanas. A palavra grega traduzida por “cheios” é pleroforia. Um coração autêntico e pleno de fé é o que precisamos para nos aproximar de Deus. Embora sendo dom de Deus, a fé também é expressão desse acolhimento. Não basta Deus doar a fé se não há quem a abrace. Na sequência, o versículo fala de “coração aspergido”. A expressão alude à aspersão do sangue no propiciatório. O sentido da expressão é de um coração perdoado, limpo, purificado. Purificado da má consciência. A palavra grega suneidesis, aqui traduzida por consciência, é usada para distinguir o bem do mal. É empregada como se fosse um disposto ético presente no ser humano. Em outras palavras, Jesus permite que nos aproximemos para sermos libertados. Por fim, o versículo ainda fala do “corpo lavado com água pura”. Aqui cabe lembrar que os sacerdotes levitas deviam passar por um banho de imersão
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antes de servir em seu ofício nas abluções batismais. A água pura alude à limpeza prática. Somente a água limpa pode limpar. Agora esse ritual serve como símbolo para expressar um novo estar na presença de Deus. Segundo o livro de Levítico (8.6,24), aspersão e lavagem fazem parte da consagração dos sacerdotes. A condição para estar na presença de Deus passa apenas pela pessoa convidada. Não há mais obstáculos rituais ou arquitetônicos. As exigências da antiga aliança estão definitivamente superadas. v. 23: O texto grego emprega a palavra katecho. O termo significa “manter”, “conservar” ou “reter”. Manter firme a confissão da esperança. Aqui a perseverança está sendo invocada. A homologia da fé é a própria confissão da esperança. É preciso manter firme a confissão da esperança. Ao que parece, o autor está desafiando seus ouvintes a manter a bandeira da resistência hasteada. Os leitores da Carta aos Hebreus haviam mantido firme a esperança, em palavras e ações, não obstante as adversidades e hostilidades de pagãos e judeus. v. 24: Para expressar a ideia de que é preciso dar atenção ao bem-estar dos outros, o grego se vale da palavra katanoeo, que significa “notar, olhar para, contemplar, considerar”. O verbo comunica um interesse atento e contínuo. No “uns aos outros” ou “pelos outros” está presente a ideia da reciprocidade e mutualidade. “Para nos estimularmos”, expresso com eis paroksusmon no grego, significa “visando à incitação”. O autor chama a atenção de seus ouvintes para a natureza das relações com os outros. Essas devem ser de estímulo e encorajamento mútuo, visando ao amor e às boas obras. Deus é amor (1Jo 4.8). O amor é dom do Espírito Santo. O amor é um dos frutos do Espírito (Gl 5.22). Sem amor, prevalece o ódio e a violência. O amor de Deus começa pelo serviço prestado aos outros (Mt 25.35ss). Deve ser esse o princípio normativo das relações na família de Deus. Também as boas obras precisam ser estimuladas. Boas obras são as obras da fé (Ef 2.8-10). As boas obras são expressão da graça. As boas obras dão testemunho da fé. As boas obras são as obras do amor. Elas têm como alvo o próximo. O amor ao próximo que equivale ao amor a Deus se dá a conhecer pelas boas obras. O bem-estar e o bem viver começa onde pessoas são incitadas ao amor e às boas obras. v. 25: O último versículo da perícope dá continuidade ao processo de estímulo mútuo. Ao contrário do que vem acontecendo, é preciso continuar apostando na comunidade como espaço da nova aliança, espaço de resistência. Aqui não há lugar para indiferença. Há um grau de intensidade a ser cultivado. Quanto mais o dia se aproxima, maior deve ser o comprometimento mútuo na comunidade. A urgência é real, mesmo que a vinda seja demorada. Não é possível ficar indiferente. Para a tradição rabínica, a separação da comunidade equivale à destruição. “Não vos separareis da congregação, e nem confieis em vós mesmos até o dia da morte” (Pirke, Aboth 2.5). Para o Talmude, quem se mostra negligente não terá parte no mundo vindouro (Champlin, 1982, p. 607). A palavra grega parakalountes expressa esse compromisso de chamamento mútuo. Uma tradução possível seria: chamemo-nos mutuamente, convoquemo-nos. Na expressão “vedes se aproximar o dia” há uma alusão à parúsia, à vinda
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de Cristo. O “dia” é termo técnico para falar da vinda do Senhor (cf. Mc 14.25 e 1Ts 5.4). Quanto mais o dia se aproxima, maior deve ser o compromisso recíproco.
3 Meditando sobre o texto Na antiga aliança, a função do sacerdote era fazer o encontro entre Deus e o povo por meio dos sacrifícios. Nos ritos e rituais, mediados pelo sacerdote, o povo não tinha acesso a Deus. A missão do sacerdote era reconciliar o povo com Deus. Em cada ação de reconciliação o sacerdote era agente de libertação da escravidão do pecado. Na nova aliança, Jesus, de uma vez por todas, realiza o sacrifício que abre caminho direto à presença de Deus. Como cordeiro de Deus imolado, Jesus passa a ser o sumo sacerdote, superior a todos os demais. Ele entrou na presença de Deus e exerce seu ministério sacerdotal nessa presença. Esse caminho novo e vivo permite acesso direto a Deus a todas as pessoas. O ministério sacerdotal de Jesus nos dá confiança para nos aproximarmos do trono de Deus. O caminho aberto por Jesus nos coloca em conexão com nosso próximo. Ninguém que tenha tomado conhecimento do sacerdócio de Jesus pode abrir mão do princípio do amor, da fé e da esperança na relação com seus semelhantes. O comprometimento e a instigação mútua se tornam visíveis nas obras do amor.
4 Pistas para a pregação O texto de Hebreus dá margem para diferentes abordagens. A Sexta-Feira Santa convida a falar do sacrifício de Jesus. Graças à fidelidade de Jesus até a morte, e morte de cruz, o véu que separava as pessoas da presença de Deus foi rasgado. Agora o acesso está liberado. “A mensagem do acesso livre a Deus, sem intermediação de uma instituição com seu pessoal, será uma boa nova. A mensagem de Cristo, o grande sacerdote, isto é, mediador entre Deus e os homens, é libertadora, porque convida a tratar Deus como Pai. Esta autorização custou caro. Para conquistar-lhe a posição de filhos, foi necessária a obra redentora de Cristo, o sacrifício do próprio sumo sacerdote. Mas agora são filhos!” (PL IX, 1983, p. 123) Num mundo onde cada vez mais pessoas dizem “Deus sim, igreja não”, somos chamados a ressignificar o sentido de ser comunidade. Como na Carta aos Hebreus, a sustentabilidade da comunidade passa pelo estímulo recíproco. A confissão da esperança precisa ser mantida viva. Como discípulos e discípulas de Jesus também nós estamos a caminho. As exortações do texto também cabem em nossa vivência comunitária. Também nós precisamos ser incitados ao amor e às boas obras. Solidariedade e partilha nunca são demais. Um ponto a ser explorado na pregação diz respeito ao aspecto da reciprocidade e mutualidade. O “uns aos outros” é de uma densidade teológica pouco explorada na tradição cristã. Em geral, a fé é entendida na direção vertical – eu e Deus. O texto convida-nos a destacar a relação horizontal – eu e o próximo e vice-versa. Aqui a simbologia da brasa, que somente se mantem acesa em meio a outras brasas, pode servir de ilustração.
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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor, confessamos envergonhados que não temos nos incitado mutuamente na confissão de nossa esperança. Em nossa vida, em nosso culto, nem sempre seguimos pelo caminho novo e vivo. Também para estar em tua presença temos nos acovardado. Arrependidos, te pedimos: Perdoa-nos, e tem piedade de nós, Senhor! Oração de coleta: Agradecemos-te, Senhor Jesus, porque nos permites orar em teu nome. Assiste-nos, para que nosso encontro de irmãos e irmãs nos comprometa mais e mais mutuamente. Abre nossos ouvidos e mentes para recebermos e praticarmos o amor e as boas obras. Amém. Assuntos para a oração final: agradecer pelo sumo sacerdote Jesus e pelo sacrifício da paixão e morte, pelo perdão dos pecados; pedir para que Deus nos acolha em sua presença e nos mantenha firmes na confissão da esperança; pedir para despertar na comunidade a reciprocidade no amor e nas boas obras; interceder para que a comunidade efetivamente seja sal da terra e luz do mundo, comprometida com o caminho novo e vivo; pedir perseverança pelos que lutam na linha de frente em favor da pessoa humana e de seus direitos; pedir resistência e alegria para quem trabalha em hospitais e instituições de assistência; recomendação de todos à proteção e cuidado de Deus.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1982. v. 5. EHLERT, Heinz. Meditação sobre Hebreus 10.19-25. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1983. v. 9. FISCHER, J. Meditação sobre Hebreus 10.19-25. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal; EST, 1977. v. 2.
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DOMINGO DA PÁSCOA
01 ABR 2018
PRÉDICA: MARCOS 16.1-8 SALMO 118.1-2,14-24 1 CORÍNTIOS 15.1-11
Nilton Giese
1 Exegese O texto de Marcos 16.1-8 vem sendo refletido nos volumes de Proclamar Libertação desde 1979. Portanto já temos excelente material exegético e homilético. Apresento alguns comentários desses volumes, que serão importantes para a reflexão neste momento. Ninguém contava com a ressurreição. As mulheres que foram ao túmulo no domingo de Páscoa contam com a morte definitiva de Jesus. Esse foi amado e merece sinais e gestos desse amor; por isso é certo e justo que se derrame bálsamo sobre ele. Com esse propósito elas peregrinam até sua sepultura, assim como nós peregrinamos em finados até as sepulturas de nossos mortos. É um gesto de piedade, com que demonstramos o amor por quem foi, mas que não é mais capaz de perceber nosso gesto. (Martin Norberto Dreher, PL 27) Elucidar o que se crê. O Evangelho de Marcos enfatiza que não bastou anunciar às mulheres a mensagem da ressurreição, mas também foi necessário indicar o lugar vazio. Na dimensão educacional é muito salientada a necessidade de se trabalhar com questões concretas. Ou seja, o processo de aprendizagem na fé não ocorre somente de forma abstrata e intelectual, mas precisa integrar elementos palpáveis, momentos vivenciais e situações concretas. Portanto não devemos compreender esse fato como uma demonstração de falta de fé das mulheres, mas como a necessidade de elucidar o que se crê. (Manfredo Wachs, PL 22) Quem eram essas mulheres? As mulheres que são descritas nos primeiros versículos de Marcos 16.1-8 são as mesmas relacionadas em 15.40. Elas foram as testemunhas dos últimos momentos da vida de Jesus. Mas elas não são simplesmente pessoas curiosas que presenciam a morte de alguém polêmico nem são moradoras de Jerusalém. O evangelista Marcos salienta que elas eram seguidoras de Jesus na Galileia e o acompanharam até Jerusalém. Portanto essas mulheres não são seguidoras recentes. Duas delas, Maria Madalena e Maria, mãe de José, assistem, provavelmente de longe, a José de Arimateia tirar o corpo de Jesus da cruz e enterrá-lo. Portanto elas sabem o lugar do túmulo de Jesus. (Manfredo Wachs, PL 22) A ressurreição é um milagre: O certo é que a ressureição não faz parte de nossa visão de mundo, ela não pode ser comprovada, nem mesmo com a sepultura vazia. Por isso é um exercício inútil tratar de prová-la por analogia e correlação. Só entende a ressurreição quem não contou com ela como uma possibilidade. Só a entende quem a percebe como milagre. A fé não crê em si mesma e naquilo que conseguiu elaborar historicamente, mas em Deus e naquilo que ele
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fez. A fé não diz: “Viva! Podemos crer novamente porque provamos por analogia e correlação!”, mas: O Senhor ressuscitou! Somente a fé sabe disso, porque sabe que é ação de Deus que não depende dela, mas dele. Quando todos puderem ver o ressurreto, inclusive aqueles que o transpassaram (Ap 1.7), então constataremos que tudo o que pretendemos afirmar a respeito dele terá sido insuficiente (lCo 13.12). (Martin Norberto Dreher, PL 28) A ressurreição é um protesto de Deus. A ressurreição é um protesto contra a morte, um protesto do próprio Deus, criador e doador da vida. A mensagem da ressurreição anuncia que a morte que cerca e marca a humanidade já não é mais a derrocada do ser humano. Isso abre espaço para a esperança que vai além do nosso campo de visão demarcado pelos túmulos em nossos cemitérios. Essa mensagem grandiosa deve ser pregada a plenos pulmões. Cristo é as primícias dos que dormem (1Co 15.20). O mesmo Deus que confessamos ser o criador do céu e da terra, tem e usou o seu poder para ressuscitar o seu Filho. No entanto, a mensagem da ressurreição não se restringe à proclamação de uma nova vida, à esperança pós-morte. Se a ressurreição é um protesto contra a morte, então isso não significa que ela o seja somente em relação à morte física de cada um, mas é um protesto contra todos os tipos de morte que estão aí e caracterizam o mundo e a (des)convivência humana. E a morte se manifesta ali onde pessoas não têm espaço para a sua vida. Deus não se deixou vencer por aqueles que lhe decretaram a morte e ele não quer que a sua criatura se deixe vencer por aqueles que decidiram e decidem que só uma minoria tem direito à vida. Por isso a mensagem da ressurreição encerra um desafio: protestar, a partir do protesto de Deus, contra a morte em todas as suas formas de aparição; falar e agir contra a morte e a favor da vida. Protestar é levantar sinais de vida plena desejada por Deus em meio a um mundo marcado pela morte. (Harald Malschitzky, PL X)
2 Meditação: O que aprendemos da Páscoa? Uma pessoa da comunidade me disse que as celebrações da Semana Santa e da Páscoa apenas confirmam a convicção de que a vida não é justa. Jesus era uma pessoa jovem, estava na plenitude de suas forças. Ele passou sua vida fazendo o bem, curando os doentes, abraçando os leprosos, reunindo-se com pecadores, com as pessoas marginalizadas da sociedade. Ele se encontrou até mesmo com os corruptos daquele tempo, com a intenção de convencê-los a mudar de vida. Jesus foi um homem bom, que tinha dedicado sua vida a Deus e à construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Foi capaz de simplificar todas as leis religiosas em um só mandamento: amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Como foi possível prender, condenar e executar alguém assim? As pessoas poderosas daquele tempo condenaram Jesus por ser uma pessoa perigosa. Que crime ele cometeu? A vida não é justa. Muitas pessoas também hoje se perguntam: por que isso está acontecendo comigo? Por que tenho que sofrer essa doença? Por que Deus permite que tanta gente esteja sofrendo? Na maioria das vezes, não encontramos resposta. Muitas vezes apenas podemos abraçar e concordar que a vida não é jus-
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ta. E se o sofrimento caiu sobre Jesus – e ele acabou morrendo de uma maneira brutal e injusta –, então qualquer pessoa está sujeita a sofrer injustiças. Por isso muitas vezes devemos aceitar as coisas como Deus manda. Mas será que é essa a atitude que Jesus espera de nós como seus seguidores? Uma atitude passiva? Uma atitude conformista? Uma atitude fatalista? Se olharmos para a vida de Jesus, vamos perceber que ele lutava todos os dias contra os sinais de morte. Ele curou leprosos, cegos, paralíticos, alimentou uma multidão de famintos, andou sobre as águas, defendeu os estrangeiros e até mesmo ressuscitou mortos. Diante do sofrimento, Jesus se empenhava por sinais de vida, de superação do sofrimento. Lutar por sinais de vida, isso também é necessário para alimentar a nossa fé. A aprendizagem na fé não ocorre somente de forma abstrata e intelectual, mas precisa integrar elementos palpáveis, momentos vivenciais e situações concretas. Aquele senhor no início dessa meditação dizia que a vida não era justa porque Jesus foi condenado, ele que só fazia o bem. No entanto, Jesus não veio para este mundo para nos mostrar como se vive bem. Ele veio para nos mostrar que atitudes Deus espera de cada um de nós para enfrentar esta vida injusta. Quem confia em Deus não se conforma com as injustiças desta vida. Ele não se conforma com a presença constante dos sinais de morte. A mensagem e a ressurreição de Jesus nos dizem que a fé cristã não se conforma com a morte. Jesus mostrou que Deus não quer nos deixar largados ao azar desta vida. Jesus curou doentes, libertou pessoas atormentadas. Sua mensagem trouxe conforto e consolo para muitos. Não foi o conformismo que curou o paralítico, o leproso, o cego Bartimeu, a filha de Jairo, a mulher que sofria há doze anos com uma hemorragia. Elas encontraram ajuda em Jesus porque lutavam contra a sua situação, não se conformaram, não resignaram. Os sinais de morte neste mundo e o sofrimento que eles causam não são vontade de Deus. Deus não se alegra com o sofrimento de ninguém. A existência dos sinais de morte denuncia as injustiças neste mundo e a falta de solidariedade entre nós. A maior parte do sofrimento humano e da natureza pode ser transformada. E naquelas situações onde não podemos fazer mais nada, ali ainda podemos ser solidários e não deixar que a pessoa sofra sozinha. Mensagens que pregam o conformismo não vêm do evangelho. A fé em Deus não pede resignação ao sofrimento humano. A fé cristã deve afrontar o sofrimento, deve superá-lo. Quem tem fé luta, busca forças em Deus para resistir . E quando já não pudermos lutar porque a morte física parece ter-nos derrotado, então podemos confiar que Deus mesmo lutará contra a morte por nós. Uma senhora lá no Equador passou vários anos acamada. Nos seus últimos momentos de vida, ela me pediu que na cerimônia de sepultamento eu colocasse uma colher de sobremesa nas suas mãos. Eu perguntei a ela qual era o sentido disso, e ela me disse o seguinte: Quando eu participava de um almoço ou jantar, depois que os pratos eram retirados da mesa, ainda ficava a colher de sobremesa. A colher de sobremesa era o sinal de que algo bom ainda estava por vir. Desta forma, minha fé em Deus me diz que, apesar de ter lutado nesta vida pela paz com justiça, agora que chegou a minha morte, eu sei que algo bom ainda está por vir.
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É por isso que a fé em Deus é tão importante na nossa vida. A vida por si só não é justa, mas a fé em Deus nos fortalece para lutar por uma vida digna. Quem confia em Deus vai encontrar na fé em Deus fortaleza para resistir e lutar contra as fatalidades da vida. A vida e a ressurreição de Jesus nos mostram o enorme poder de Deus, que não nos desamparará. Só entende a ressurreição quem a recebe como um milagre de Deus. Quem confia em Deus no meio das tempestades da vida entenderá as palavras de Isaías 43.1-2 e a palavra de Jesus, que promete: Eis que estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28.20) . A ressurreição é um protesto de Deus contra os sinais de morte e contra a própria morte em si. O Deus Criador e Doador da vida nos faz ver, pela fé em Jesus Cristo, os espaços de esperança que ele mesmo abre e vão além de nosso campo de visão e de nossas forças. Assim como Deus não se deixou vencer por aqueles que decretaram a morte de Jesus Cristo na cruz, assim ele não quer que nenhum de seus filhos e filhas se deixe vencer pelos sinais de morte. Tu duvidas? Pois confia em Deus, luta contra os sinais de morte ao teu redor, e verás. Amém.
3 Recursos litúrgicos Confissão de pecados: “A grande culpa do ser humano não são os pecados que ele comete. A tentação é poderosa e sua resistência é pequena. A grande culpa do ser humano consiste em poder se arrepender a qualquer instante – e não o fazer” (Rabí Bunam). Oremos: Misericordioso Deus, que nos perdoas e sempre nos dás uma nova oportunidade de vivermos como teus filhos e filhas, para nós é difícil perdoar uma vez, muito mais setenta vezes sete. Mas sabemos que a falta de perdão quebra a comunhão entre nós, enfraquece nossa fé em ti e começamos a carregar intrigas, desgostos, rancor, ofensas e a guardar ressentimentos. Isso nos faz muito mal. Ajuda-nos, Senhor, no esforço para perdoar e assim podermos outra vez ter paz em nosso coração. Em nome de Jesus, Amém. Pelas dores deste mundo... Anúncio da graça de Deus: Aquele que atravessa portas trancadas para trazer paz, aquele que se coloca diante dos olhos das pessoas que duvidam e dissipa todo medo, ele quer aproximar-se também de ti. Que Deus nos torne audazes na fé, puros no amor e inflame nossos corações e línguas para despertar a comunidade. E ainda que nossos olhos não possam perscrutar seu plano, tenhamos confiança que ele nos levará das trevas à luz, arrebentará trancas e fechaduras (Friedrich Spitta). Assim Deus alivie e fortaleça o teu coração. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Que isso nos leve a cantar alegremente: Aleluia! Oração de intercessão: (Para preparar essa oração: Na hora do temporal, quando falta energia elétrica, uma pequena vela é suficiente para nos orientar. Deus quer nos orientar também nos temporais da vida. Ter um local preparado com tijolos, por exemplo, e convidar as pessoas da comunidade reunida para acender uma pe-
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quena vela (tea light), pedindo que a luz de Deus brilhe sobre uma pessoa querida que atravessa um momento difícil em sua vida, para que ela não perca a fé e as forças para continuar lutando. Durante esse momento espontâneo, pode-se cantar suavemente a canção “Cuida bem, Senhor”, do Grupo Ânima. Oremos: Senhor, ajuda-nos a silenciar. As agitações do dia confundem os nossos pensamentos. Imagens nos afligem, notícias e discussões dispersam as nossas forças. Que a tua paz venha sobre nós como a sombra das nuvens em um dia de forte calor. Que vejamos chegar a tua justiça como um nevoeiro que aparece por cima da serra, e que aos poucos vai se tornando mais denso, até que a chuva caia suavemente sobre a terra e faz brotar um perfume da terra agradecida. Que a dignidade dos humildes não seja vendida nos mercados. Que os meninos e as meninas adolescentes não tenham que se vender nas ruas. Que nada seja mais sagrado do que teu tempo sagrado: as pessoas. Que não haja um só rincão de nossa pátria (continente latino-americano) que não receba a atenção e os serviços merecidos. Que nossa maior glória seja a dignidade dos mais pobres e a tranquilidade dos desamparados. Resgata-nos, Senhor, do inferno de todas as violências: da guerra, das ditaduras, da impunidade, da corrupção, das dívidas e dos ajustes, dos governos impopulares e da riqueza depredatória sem medida. Que as riquezas que tu nos presenteaste sejam retiradas da mãe terra sem forçá-la, para que também nossos netos e netas possam um dia desfrutá-las. Pai nosso... Bênção: Que Deus te dê para cada tempestade um arco-íris; para cada lágrima um sorriso; para cada provação uma bênção; para cada problema, que Deus te traga alguém fiel que te faça olhar para o seu amor e, assim, fortaleça a tua fé e a necessidade de continuar a tua luta. Que Deus te faça ver uma resposta para cada oração. Assim te abençoe Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
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PRÉDICA: ATOS 4.32-35
2º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 133 MARCOS 16.12-18
08 ABR 2018
Cristina Scherer
Páscoa: partilha da vida em comum unidade
1 Introdução Celebramos a Páscoa. Tempo de afirmar a vitória e a força da vida, de anunciar a certeza da ressurreição. Tempo de meditar sobre como Deus age para que a vida vença os poderes de morte deste mundo. Uma das formas que Deus encontra para fazer valer a força da vida sobre os sinais da morte é através da comunhão, uma comum união que faz com que as pessoas saiam de seus individualismos, comodismos e se reúnam em comunidades, partilhando tempo, tesouros e talentos. No tempo da Páscoa, a palavra de Deus reafirma a força da união, da comunhão, da partilha, da solidariedade, da festa da vida que renova esperanças e alimenta o amor. O Salmo 133 quer afirmar o desejo da vida em comunidade, em comunhão como o jeito e o desejo de Deus em seu Reino. O Evangelho de Marcos 16.12-18 revela como Jesus Cristo ressuscitado aparece para sua comunidade de discípulos e discípulas e os anima para a missão através do batismo, da cura, do anúncio da palavra e da fé. O texto da pregação de Atos 4.32-35 quer motivar comunidades cristãs para o firme testemunho e serviço numa vida de partilha, de caminhada conjunta, fortalecida pela fé no ressuscitado, pela prática da oração, pelo ouvir e meditar da palavra, e do repartir o pão e os bens com todas as pessoas.
2 Exegese O livro de Atos dos Apóstolos lembra como a boa nova da salvação por meio de Jesus Cristo foi anunciada em Jerusalém (cap. 2-5) passando pela Judeia e Samaria (8.1), indo para a Fenícia, Chipre e Síria (11.19-22), chegando a Roma (28.14-31). O livro demonstra assim a universalidade do plano de salvação de Deus para todos os povos e religiões, abordando temas como conversão e testemunho do Cristo ressuscitado, batismo, ação do Espírito Santo e perdão dos pecados. Lembra como o Espírito Santo fortalece e orienta a vida das primeiras pessoas que foram chamadas de cristãs (cf. At 11.26; 26.28). A obra lucana (Evangelho de Lucas e livro de Atos) é destinada a Teófilo (Lc 1.3; At 1.1) e forma um conjunto literário por volta dos anos 90. O centro da vida dos cristãos era a alegria da ressurreição de Jesus Cristo que os contagiava para a missão, para o anúncio do evangelho por palavras e ações. Nesse contexto, as comunidades se reuniam em casas e partilhavam a palavra e o pão (At 2.4247). Fortalecidas pela vida comunitária, elas encontravam força para anunciar
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os atos de Deus por meio de Jesus Cristo e por meio dos atos dos apóstolos, que perseveravam na fé, na oração, na comunhão e na partilha generosa e voluntária, valores esses contrários ao Império Romano, que apostava no acúmulo de bens nas mãos de poucos, o que aumentava o empobrecimento, a prática da violência e a escravidão entre as pessoas. 2.1 Contexto anterior Em 4.1-31, os apóstolos Pedro e João são interrogados pelas autoridades ligadas ao Sinédrio. Foram presos e interrogados pelo anúncio da gloriosa ressurreição de Jesus Cristo, sendo que aumentava consideravelmente o número dos que criam e aderiam à fé cristã. Com coragem e fé os apóstolos anunciam que a pedra angular, que havia sido rejeitada, é a principal (4.11), que concede salvação aos povos e permite que as pessoas sejam curadas e salvas (4.14). Após um dia de prisão, os apóstolos foram punidos por seus atos e testemunhos, sendo que não deveriam mais mencionar o nome de Jesus. A isso eles respondem: Não podemos calar o que vimos e ouvimos (4.20). A comunidade é um lugar especial. É para lá que devemos nos voltar e nos abastecer para a vida e o testemunho de fé no Cristo ressuscitado. Quando João e Pedro foram soltos, eles voltam para o meio da comunidade, a fim de informar tudo que lhes havia acontecido. Na comunidade são fortalecidos e animados pela palavra de Deus, prática da oração e ação do Espírito Santo. Juntas, as pessoas oram e agradecem a Deus, relembrando um trecho do Salmo 2, que mostra como Deus trata os governantes e os povos que têm ousadia de conspirar contra os planos e atos do Salvador. Atualizam o salmo para a vida e o momento que estão vivenciando, lembrando que o Messias é Jesus Ressuscitado; os reis e príncipes são Herodes e Pilatos, as nações e os povos são os romanos e os judeus que mataram Jesus. Os que estão sendo perseguidos na comunidade naquele momento são as pessoas que se dedicam a executar os planos de Deus e servem-no até o fim. Ao término da oração, o Espírito Santo enche-lhes de coragem para anunciar a palavra de Deus. O lugar todo tremeu, fato esse que pode ser chamado de um novo Pentecostes, uma nova manifestação do Espírito Santo no meio da vida do povo (cf. At 2.1-4; 10.44-46; 13.2; 19.4-6). 2.2 Atos 4.32-35 Após o testemunho de fé e coragem dos apóstolos, que voltam para o meio da comunidade cristã para se fortalecerem mutuamente por meio da palavra de Deus, da oração e da força do Espírito Santo, o texto revela como viviam nas comunidades cristãs os que iam aderindo à fé no Cristo Ressuscitado. Tal qual o texto de Atos 2.42-27, Lucas oferece um segundo retrato da comunidade, que unanimemente pratica a partilha dos bens entre todas as pessoas. As pessoas se encontravam na comunidade cristã. Não viviam todas juntas, na mesma casa. Cada uma tinha sua família, seu trabalho e bens. Quando vendiam suas posses, eram chamadas a repartir com as pessoas mais necessitadas da comunidade, exercendo a prática da partilha, a exemplo de Barnabé e outras pessoas de posse, mencionadas no livro de Atos.
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A “multidão” faz referência à grande comunidade cristã que se reunia nas casas, formando uma unidade humana que pensava, agia, orava e partilhava a vida de fé com um só coração e uma só alma. Essa expressão é cara para a fé judaica, pois coração e alma expressam o centro da vida humana. Israel é uma só alma e coração que ama e serve a Deus (Dt 6.5; 10.12; 11.13.18; 13.4). É a força do Espírito que faz com que haja unidade e unanimidade na prática de partilha dos bens entre todos, onde as pessoas se apoiam mutuamente e lutam contra divisões e ameaças à fé cristã, que tem sua base na prática do ouvir a palavra de Deus, na oração e na partilha do pão. A riqueza da comunidade não é econômica, centrada em bens ou acúmulos materiais, mas provém do poder e da força de Deus que acompanha o serviço de testemunho do povo e cuida de seus atos em prol do anúncio da salvação e de uma vida digna de partilha, amor e justiça. O grande poder de Deus sempre acompanha o seu povo em seu testemunho e vida de fé que aposta na vida em comunhão (At 2.2; 3;12; 4.7; 6.8; 8.13; 10.38). Para entender essa prática de partilha dos bens, convém atentarmos para a Torá, que na palavra de Deuteronômio 15.4 afirma: Em teu meio não poderá haver nenhum pobre. A lei judaica insistia na importância da partilha, solidariedade e ajuda para com as pessoas necessitadas (Dt 15.7-8). É a prática da diaconia bem concreta e transformadora, presente na vida comunitária cristã desde os primórdios. Agindo dessa maneira, as primeiras comunidades cristãs não poderiam ser acusadas de transgressoras da lei de Moisés, e sim praticantes da mesma. Em Atos 6.1 é relatado um conflito interno na comunidade referente à falta de auxílio financeiro às viúvas helenistas. De fato, a ajuda e partilha dos bens para com as pessoas necessitadas era uma questão importante para a vida de fé das primeiras comunidades cristãs. As pessoas com mais posses materiais eram motivadas a vendê-los e partilhá-los com a comunidade, levando o dinheiro “aos pés dos discípulos”, que eram administradores e ecônomos dos bens, partilhando de maneira igualitária com todas as pessoas envolvidas na missão e vida cristã. Bem observado era o exemplo da prática de Jesus Cristo que desafiava as pessoas para partilharem e não acumularem (Lc 12.38; 18.22). “Na comunidade primitiva o interesse concentra-se na partilha dos bens, situação que deveria espantar os ricos (2.44-45; 4.32-37). Claro que essa comunhão dos bens é novidade extraordinária numa sociedade tão dividida socialmente como era o caso da sociedade imperial. Para os ricos é um enigma incompreensível. Precisam de explicação — que está nos casos de Barnabé, Ananias e de Safira” (Comblin, 2001). Após o texto em estudo segue o gesto espontâneo de Barnabé, que é motivado para a generosa partilha com toda a comunidade, colocando o resultado da venda de seu terreno diante de toda a comunidade para administração dos apóstolos. Ele tinha casa e outros bens, sendo considerada pessoa rica, de posses. Não vendeu tudo o que tinha, de maneira radical e literal. Para Barnabé, a providência divina passava pela organização fraterna e solidária na comunidade de fé. O mesmo não ocorre com Ananias e Safira, que entregam aos apóstolos apenas uma parte da venda do terreno, mentindo e retendo uma parte para si. São punidos pelas atitudes que não condizem com o reino de Deus (At 5.1-11). Vale lembrar
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que, com o aumento da comunidade, também ingressavam pessoas mais ricas na comunidade cristã da qual Lucas fala. Assim também surgia o conflito entre classes (ricos e pobres), presente na sociedade romana (Ap 3.17; 1Co 11.20-21; Tg 2.1-4). Com o exemplo de Barnabé, Ananias e Safira, Lucas pretende auxiliar a comunidade no discernimento de suas ações e conclama a optar pelos valores do reino de Deus. “Para a comunidade, a prova de fogo é a partilha dos bens. É o divisor de águas, onde as pessoas se definem. Como acontece a partilha na nossa comunidade? E você, como se coloca diante dessa prova de fogo?” (Mesters; Orofino, 2002, p. 77). Lucas exalta Barnabé e condena Ananias e Safira, porque quer exortar e advertir os ricos, aos quais especialmente se destina o livro de Atos, motivando-os para a partilha de seus bens e a prática de solidariedade com os pobres e pequeninos (Comblin, 2001).
3 Meditação Após a Páscoa é crucial o testemunho da fé no Cristo Ressuscitado. Este é o centro da fé cristã: Cristo ressuscitou! Ele vive! O ressuscitado vive entre nós, amém, aleluia! É essa certeza que nos dá força por meio do Espírito Santo, que nos capacita e motiva para uma vida em comum unidade, partilhando nosso tempo, tesouros e talentos. O seguimento a Jesus Cristo exige partilha, doação, entrega, amor encarnado em palavras e gestos. A primeira comunidade cristã precisou permanecer unida e firme, a fim de que pudesse dar claro testemunho e confessar abertamente sua fé, apesar de todo o contexto de perseguição do Império Romano. Diante dessa situação de perigo e perseguição iminente, a união, coesão, partilha e oração eram essenciais. Esse foi o antídoto para que as comunidades pudessem resistir e viver comunidade num tempo em que nada era fácil. Foram animadas pelo Espírito Santo a viver com coragem, ousadia e fé. Acreditaram na força da vida e na fonte da vida. Apostaram num modo de viver que os favorecia e auxiliava a vida em comunidade contra a divisão e a opressão, modo de vida do império que não condiz com o desejo do reino de Deus. Lucas deixa claro em que a comunhão é a realização prática do evangelho anunciado aos pobres, famintos, aos que choram e que o evangelho quer transformar os que acumulam e exploram, a fim de redistribuir suas riquezas e partilhá-las com os semelhantes, motivando para uma economia justa e solidária (Lc 6. 20-21; 18.24-25). Algumas perguntas podem ser feitas na reflexão comunitária na busca por respostas em conjunto: Em que aspectos a vida partilhada com nosso tempo (dedicação, compromisso), tesouros (bens materiais) e talentos (dons a serviço) nos anima e motiva hoje? O que significa entregar e partilhar o tempo, tesouros e talento aos pés dos apóstolos hoje? Onde a diaconia está presente em nosso viver comunitário como firme testemunho do Ressuscitado entre nós? Qual poder e graça agem em nosso jeito de viver comunidade hoje (At 4.32)? Como nos fortalecemos mutuamente na vida em comunidade? O que podemos partilhar em comunhão e generosidade ainda hoje? Que exemplos de partilha da palavra de Deus, de oração e de bens temos em nosso contexto hoje, que nos fortalecem para
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o testemunho do Ressuscitado? Que exemplos há na comunidade que condizem com a prática de Ananias e Safira e pensam em reter para si o que pertence ao povo de Deus? O que as pessoas retêm somente para si e não querem partilhar ainda hoje? Por que não querem partilhar? A quem servem: aos impérios ou ao reino de Deus? Comunidade cristã aposta na vida de partilha, de solidariedade, de ajuda mútua, de reciprocidade, de cuidado com a vida das pessoas e suas necessidades. Sugiro a reflexão e o aprofundamento do provérbio africano: “Se quiseres ir rápido, vai sozinho. Se quiseres ir longe, vai acompanhado”. Também partilho um texto de Cortella para fortalecer e animar para a vida em comunidade no tempo pós-pascal:“Nós não fomos um animal que trouxe a competição como modo de vida. Aliás, se não fôssemos um animal cooperativo, não teríamos sobrevivido. As outras espécies que são mais fortes do que nós, mais velozes do que nós, têm mais condições de sobrevivência. Somos um animal frágil, e a nossa fragilidade é tão grande que nós temos que viver juntos o tempo todo para termos força. Por isso mesmo é que somos animais gregários. O radical greg, em indo-europeu, significa ‘rebanho’. Temos de viver em rebanho, não no sentido de indiferenciação e comportamento disperso, mas, isso sim, no sentido de ‘juntos’. Por causa do greg, é que a gente ‘congrega’, ‘agrega’, adora ‘congresso’ e precisa ter cuidado para não ‘segregar’. Há pessoas que, em vez de admitir mecanismos de construir a consolidação da congregação, acham mais fácil segregar. E essa segregação se dá no ambiente familiar, no ambiente da saúde mental, no ambiente da escola, no ambiente empresarial. Por exemplo: ‘Temos um problema sério com alguém da escola, vamos segregá-lo. Porque se nós o congregarmos, vamos ter de lidar com ele e com o problema’ [...] A perspectiva de vida da congregação, aquilo que faz com que vivamos juntos, exige a ideia de que vivamos em paz [...]” (2013, p. 24-25). Como o texto de Atos nos motiva para uma vida de congregação, e não de segregação em nosso contexto comunitário e social hoje? Como a mensagem da Páscoa nos capacita para uma vida de partilha em meio às segregações defendidas pelos impérios deste mundo? Como dialogar com pessoas com práticas sociais distintas na comunidade? Qual é o conflito entre ricos e pobres existente ainda hoje na igreja? José Comblin nos ajuda nesta reflexão atualizada. Ele afirma: “Se o povo de Deus é dos pobres, há espaço para os ricos que colocam a sua riqueza à disposição dos pobres. Não precisam necessariamente tornar-se semelhantes aos pobres – que, no fundo, é impossível. O que os integra no povo dos pobres é o dom de si próprios – o dom de suas capacidades [...] É verdade que na descrição da comunidade primitiva intervêm também Pedro e João. Pedro diz explicitamente: ouro e prata não tenho (At 3.6). Pedro e João não são ricos. Não têm ouro nem prata para responder ao pedido do mendigo. Não teriam resposta para os pobres? Como entender a resposta de Pedro? Hoje, se a narração fosse refeita, Pedro diria: ‘Meu amigo, eu sou tão pobre quanto você. Vamos formar uma associação para reivindicar os nossos direitos’. Na mente de Lucas tal ideia não teria podido ser concebida. Não caberia no contexto da sociedade antiga. Mas, então, Pedro e
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João não vão dar nada? Por serem pobres, não podem dar nada? Pelo contrário, não têm ouro nem prata, mas têm um poder maior: o poder de restituir a saúde: O que tenho, porém, isto te dou: em nome de Jesus, o Nazareu, põe-te a caminhar! (3,6). O poder de cura supre a falta de dinheiro. Os apóstolos podem dar também. São ricos de outra riqueza. Sendo ricos, podem dar.”
4 Imagens para a prédica Sugiro usar o símbolo de uma trama de fios que formam um casaco de lã ou uma toalha de crochê. Refletir sobre o processo dos fios que foram tramados e comparar com a atuação da comunidade que se entrega para partilha de seus dons, com amor, dedicação, generosidade e testemunho de fé no Cristo Ressuscitado que une todas as pessoas na comunidade cristã. Sobre o símbolo dos fios entrelaçados, que são distintos em suas cores e formas, segue a oração abaixo que pode ser usada na liturgia ou final da pregação.
5 Subsídios litúrgicos Acolhida (oração): Deus uno, sozinho jamais ficaste. Criaste em comunhão com a Ruach, sopro de Vida, espírito de vida e luz. Deus Triúno se faz partilha, amor, presença, unidade, humanidade, divina ação. Teu Filho contigo agia em amor e partilha fraterna. Em parceria ativa e criativa, criaste o mundo com toda perfeição. De luz em luz habitaste o mundo, plenitude de vida e luz que dissipa a escuridão. Vieste ao encontro dos seres humanos, oriundos do pó. Vieste amar e envolver quem estava só. Enquanto aqui estamos juntos, permaneces ao nosso lado, nos passos, sussurros, cantos, casas e caminhos, jamais nos deixas sozinhos. Tu és Deus em relação, o Cristo humano que entra nas casas, preenche as vidas, amassa o pão e sacia as fomes de vida, nos ensina os passos e as batidas de uma comum união. Deus da vida em comunhão, ensina-nos a repartir o que temos e o que é teu: o tempo, os dons, os bens, o amor, a paz e o perdão. Em união vieste e para a comunhão fortaleces nosso viver. A sós jamais estamos. Graças, Senhor! Oração de comunhão: Ó Deus da vida, Deus de todos os fios e laços de união Entrelaça minha vida na tua Tece o fio de minha vida para que crie laços de amizade, convivência e compreensão. Fortalece a trama que surge com outros fios Bordando entre nós encontros de alegria e gratidão. Desata os nós da frieza, da falta de amor e perdão. Desata as amarras da amargura, da tristeza e solidão. Liberta os nós que criamos gerando orgulho e opressão. Ó Deus, que crias todos os fios, todas as cores e laços, Que o fio da minha vida se entrelace com outros fios coloridos Tecendo sonhos, despertando dons.
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2º Domingo da Páscoa
Entrelaça a tua vida na minha e borda uma história de comunhão, testemunho e serviço, ó Deus dos fios, laços e tramas de união! Sugestão de cantos: Não se deve dizer Sabes, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar Bom que já nos pertencemos (Grupo Ânima)
Bibliografia COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. Petrópolis: Vozes, 1988. COMBLIN, José. Ricos e pobres nos Atos dos Apóstolos. Vida Pastoral, maio/ junho 2001. CORTELLA, Mário Sérgio. Não se desespere – provocações filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2013. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Atos dos Apóstolos – Círculos Bíblicos: Pés no chão, sonho no coração – olhar no espelho das primeiras comunidades. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2002.
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3º DOMINGO DA PÁSCOA
15 ABR 2018
PRÉDICA: LUCAS 24.36b-48 SALMO 4 1 JOÃO 3.1-7
Vera M. Immich
As marcas do amor
1 Introdução O Salmo 4 revela confiança em Deus e clama por sua fidelidade, mesmo na adversidade; fala em irar-se e não pecar, em consultar o travesseiro. Esse salmo chama para a prudência e a renúncia, assim como a confiança em qualquer circunstância. O texto de 1 João 3.1-7 lembra-nos de nossa filiação divina através do batismo, nossa justificação por graça e da transformação que o conhecimento de Deus opera em nós. Quem o conhece não vive pecando, e quem vive pecando é porque não o conheceu. A fé em Deus redunda em transformação. O Evangelho de Lucas 24.36b-48 ensina, através das marcas que o amor deixa na carne de Jesus, o seu compromisso conosco: apalpai e verificai. Ele não desiste. Ele ensina. Ele se revela humano e real: pede para comer. Ele anuncia mais uma vez a extensão do seu amor: todas as nações. Um ponto comum aos três textos é o relacionamento de Deus conosco, permeado pelo amor que caminha junto e que não desiste. Neste período posterior à grande celebração da Páscoa e da Quaresma, não menos marcada por momentos litúrgicos bastante significativos, temos um período de acomodação de eventos. Caminhamos para o Pentecostes, mas ainda temos passos para dar nessa direção. Assim como os discípulos de Jesus são preparados para esse novo evento, assim também nós precisamos abrir nossos corações e mentes para aceitar e vivenciar a Páscoa da ressurreição em nossa vida.
2 Exegese A saudação “paz seja convosco” é uma tradicional saudação israelita, com a qual Jesus se revela àquele grupo reunido, gerando dúvidas, uma vez que não sabem se se trata de um fantasma ou se verdadeiramente é Jesus quem está com eles. Mas Jesus está disposto a provar definitivamente sua ressurreição, pois carrega em seu corpo as marcas físicas da cruz, nas mãos e nos pés. Ele carrega os cravos de um amor único: bom, fiel e redentor. Um amor que transcendeu a morte, confirmando-se na ressurreição. Ele mostra as marcas em seu corpo. Segundo Luís Carlos Ramos, Lucas insere esse encontro com o Ressurreto no quadro maior do caminho de Emaús, que ficou lembrado por dois estágios marcantes: o primeiro, ao redor da Palavra, enquanto Jesus expunha as
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Escrituras, caminhando ao longo da estrada; o segundo, à mesa, quando se dá a experiência reveladora, no partir do pão, já na aldeia de Emaús. Na mesma noite, em Jerusalém, reunidos os discípulos (e discípulas, por suposto) no cenáculo (cômodo reservado para as refeições), Jesus teria se apresentado colocando-se “no meio” (gr. meso, v. 36). Dessa raiz grega, passando pelo latim (medus e mensa), herdamos a palavra “mesa”. A construção da cena fica mais clara quando, para superar a incredulidade dos que estavam no cenáculo, Jesus pede algo para comer. A mesma experiência reveladora de Emaús se repete: A seguir, Jesus lhes disse: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras (v. 44-45). Desde então, a igreja entendeu que a vida cristã se estrutura sobre dois pilares (a palavra e a mesa), e vive fundamentada na comunhão da palavra e do alimento físico, na Santa Ceia e na singela comunhão de mesa e partilha (ágape), tantas vezes experimentada na vida comunitária. Cristo se revela quando nos reunimos ao redor da sua palavra encarnada e quando repartimos o pão da solidariedade numa mesa inclusiva.
3 Meditação Jesus aceita as marcas em seu corpo não para benefício próprio, mas por amor ao pecador. Ele ressuscita e carrega as marcas da sua dor para que os discípulos também possam curar-se das suas dores e da sua incredulidade. Ele aceita as marcas que essa aprendizagem deixa em seu corpo (marcas da experiência e da frustração, marcas da traição) e faz-se instrumento para aprendizagem de outros. Essas marcas levam ao crescimento na fé e na confiança de um Deus que se doa, que se entrega sem restrição. São marcas do amor incondicional de Jesus pelo mundo e por cada um de nós. Jesus pede algo para comer. Será que o ressurreto está com fome? Acredito que não. Acredito ser a prova definitiva de que não é um fantasma, mas o próprio ressuscitado. Ele come um peixe e um favo de mel. Ele é real. A ressurreição é real. Jesus revela-se ao seu grupo da maneira como sempre viveu: ensinando com amor e à exaustão, sempre de novo e quantas vezes forem necessárias; antevendo situações e especulações sobre a qualidade dessa aparição. Por isso ele se alimenta, não deixando margem nenhuma que está aí de maneira real e concreta. Não é um fantasma. Fantasmas não se alimentam, ou melhor, nem existem. Ele responde à incredulidade daquela época e também à nossa incredulidade. A escolha de alimentar-se também remete ao valor sagrado do ágape, da partilha com o forasteiro, com quem necessitar. É o “paz seja convosco” materializado na comunhão de mesa e no olhar para as misérias do outro como fonte inesgotável de testemunho e fé. É a humildade de falar das minhas misérias e reconhecer que necessito do amor de Jesus e da acolhida do outro para seguir adiante. As marcas que permanecem no corpo de Jesus são a prova real que ele venceu a realidade da morte e cruz. Ele chama os presentes para apalpar suas marcas, olhar e sentir a superação das amarras de dor e sofrimento.
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Através das marcas de suas feridas curadas, ele ensina que também as nossas feridas podem ser curadas. Que essas também deixarão marcas no corpo e em toda a nossa existência, em nossa história. Serão as marcas da superação e da vitória, da persistência e da fé. Dores e sofrimentos não são apagados nem esquecidos. São superados e fazem parte da história de vida e de fé, de nossa esperança e confiança, de nossa busca incansável pela cura de nossas angústias e enfermidades, de nossa falta de fé e humildade para aceitar o ressurreto com suas chagas. O texto de 1 João 3 fecha a pregação com a chave do amor: o grande amor de sermos chamados filhos e filhas de Deus através do batismo, que vai fazer diferença em nossa vida. Pertencemos a uma nova família, a da fé, devemos viver com essa família e nos deixar conduzir por ela pelas veredas da vida, resistindo às suas tentações e nos fortalecendo nas tribulações.
4 Imagens para a prédica Em nossa vida crescemos e amadurecemos nossos conceitos e nossos conhecimentos. Nossos corpos também testemunham essas mudanças. Crescemos e ficamos fortes, e muitas vezes gozamos de uma boa saúde. Opções e a própria vida deixam marcas indeléveis. Verdadeiras cicatrizes. Às vezes cirurgias que auxiliam a vencer uma enfermidade; às vezes uma cesariana, aliada a um parto complicado, possibilita o romper de uma nova vida. Cicatriz ou flacidez, ou ambas, continuam a testemunhar o acontecido. Muitas pessoas mostram suas cicatrizes, outras ocultam. Há filmes que exibem marcas de tiros pelo corpo de seus personagens como troféus de resistência, de força, de coragem e de determinação, assemelhando-se a Jesus, por também marcar o corpo e permitir uma comprovação. No entanto, enquanto alguns o fazem para exibir força própria e promover-se, Jesus o faz motivado por amor e obediência a um projeto. Ele não exibe as marcas, mas as mostra e permite que os incrédulos toquem-no para auxiliar na fé. Seu corpo passa a ser prova real desse projeto e objeto didático para a fé. Ele não se promove, mas promove o amor e a fé. As marcas no seu corpo são marcas do amor que quer ensinar de maneira concreta, sem margem alguma para dúvida. São uma prova indelével desse amor.
5 Subsídios litúrgicos Poesia de acolhida: A todos e todas que nesta manhã chegam à casa de Deus para lhe render graças e louvor, saúdo com uma oração de Tomás de Aquino, que diz o seguinte: Que eu chegue a ti, Senhor, Por um caminho reto e seguro, Caminho que não se desvie entre prosperidades ou adversidades, De tal forma que eu te dê graças nas horas prósperas E nas adversas conserve a paciência Não me deixando exaltar pelas primeiras,
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Nem abater-me pelas outras. Que nada me alegre ou entristeça, Exceto o que me conduz a ti ou o que de ti me separe. Que eu não deseje agradar ou não receie desagradar a ninguém senão a ti. Tudo o que passa torne-se desprezável aos meus olhos por tua causa, Senhor, E que tudo o que te diz respeito me seja caro, Mas tu, meu Deus, mais do que o resto. Dá-me, Senhor Deus, Um coração vigilante. Que nenhum pensamento curioso arraste para longe de ti, Um coração nobre que nenhuma afeição indigna debilite; Um coração reto que nenhuma afeição inequívoca desvie; Um coração firme que nenhuma adversidade abale; Um coração livre que nenhuma paixão subjugue. Concede-me, Senhor, meu Deus, Uma inteligência que te conheça, Uma angústia que te procure, Uma sabedoria que te encontre, Uma vida que te agrade, Uma perseverança que te espere com confiança E uma confiança que te possua, enfim, quando a derradeira hora chegar. Bênção celta: Que o caminho venha ao teu encontro. Que o vento sempre sopre às tuas costas e a chuva caia suave sobre teus campos. E até que voltemos a nos encontrar, que Deus te sustente suavemente na palma de sua mão. Que vivas todo o tempo que quiseres e que sempre possas viver plenamente. Lembra sempre de esquecer as coisas que te entristeceram, porém nunca esqueças de lembrar aquelas que te alegraram. Lembra sempre de esquecer os amigos que se revelaram falsos, porém nunca esqueças de lembrar aqueles que permaneceram fiéis. Lembra sempre de esquecer os problemas que já passaram, porém nunca esqueças de lembrar as bênçãos de cada dia. Que o dia mais triste de teu futuro não seja pior que o dia mais feliz de teu passado. Que o teto nunca caia sobre ti e que os amigos reunidos debaixo dele nunca partam. Que sempre tenhas palavras cálidas em um anoitecer frio, uma lua cheia em uma noite escura, e que o caminho sempre se abra à tua porta. Que vivas cem anos, com um ano extra para arrepender-te. Que o Senhor te guarde em sua mão, e não aperte muito seus dedos.
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Que teus vizinhos te respeitem, os problemas te abandonem, os anjos te protejam e o céu te acolha. Que as bênçãos do Santo Espírito te contemplem. Que teus bolsos estejam pesados e teu coração leve. Que a boa sorte te persiga, e a cada dia e cada noite tenhas muros contra o vento, um teto para a chuva, bebidas junto ao fogo, risadas que consolem aqueles a quem amas, e que teu coração se preencha com tudo o que desejas. Que Deus esteja contigo e te abençoe, que vejas os filhos de teus filhos, que o infortúnio te seja breve e te deixe rico de bênçãos. Que não conheças nada além da felicidade, deste dia em diante.
Bibliografia RAMOS, Luiz Carlos. A comunidade da ressurreição ao redor da mesa. Disponível em: <www.luizcarlosramos.net>.
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PRÉDICA: 1 JOÃO 3.16-24 SALMO 23 JOÃO 10.11-18
4º DOMINGO DA PÁSCOA
22 ABR 2018
José Manuel Kowalska Prelicz
Amor: teoria e prática
1 Introdução Este auxílio refere-se ao 4º Domingo da Páscoa (Jubilate). Neste dia, Deus é lembrado como bom pastor (Sl 23 e Jo 10.11-18). Mas também estamos na continuação das leituras do tempo de Páscoa (ano B): Atos e 1 João. Parece um agrupamento artificial dos textos escolhidos e, por isso, num primeiro olhar, temos uma temática muito diversa. Porém, podemos observar certa continuidade de temas ao redor do conceito “Deus é amor”, no sentido de que Cristo/Deus agiu amorosamente em favor dos seus. No Salmo 23, o salmista coloca-se diante de Deus reconhecendo-se como uma ovelha bem cuidada por seu pastor. Ele se sabe parte do rebanho divino e se sente bem cuidado, apesar dos possíveis problemas no caminho. No Evangelho de João, estamos na segunda metade do texto, em que Jesus, o bom pastor, coloca-se em contraste com o mercenário. Também nesse texto existe uma grande relação entre as ovelhas e o pastor, ou seja, entre Jesus e seus seguidores. No livro de Atos, encontramos Pedro diante do Sinédrio, argumentando que aquilo que fizeram foi a partir do nome de Jesus, que foi considerado como a pedra rejeitada, mas que na verdade era a pedra principal. Nesse sentido, a Primeira Carta de João continua desenvolvendo a temática do amor que Cristo teve, agora como base para o amor entre os discípulos. O nosso texto não foi estudado em sua totalidade segundo o atual corte do lecionário. Mas foi estudado em parte em três volumes de PL anteriores, sendo no tempo comum no PL III (v. 18-24), no PL IX como parte da Série: Quer seja oportuno, quer não (v. 13-18), e no 5º Domingo da Páscoa no PL 22 (v. 18-24).
2 Exegese A Primeira Carta de João é um texto que argumenta a partir da teologia da tradição joanina. Assim, temos a diferenciação entre os que são parte da comunidade de fé e o mundo, aqueles que estão na luz e aqueles que estão nas trevas. 1 João trava uma batalha contra os hereges que querem diminuir o sentido e o poder da encarnação e morte de Jesus. Nessa carta, o autor se coloca perto do fim dos tempos e preza para que a comunidade permaneça firme numa prática condizente com a confissão de Jesus como Filho de Deus. Nosso texto de estudo encontra-se inserido num bloco que vai do 2.18 ao 3.24. Num primeiro momento, em 2.18-27 é ressaltado o critério da confissão de
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Jesus como o Filho de Deus, e num segundo momento, em 2.28-3.10 é lembrado que os filhos de Deus não devem pecar, pois na prática da justiça encontra-se a diferenciação entre os filhos de Deus e os filhos do diabo. Em 3.11-15, observamos o exemplo de Caim e sua ação como filho do diabo, sendo o protótipo daquele que não ama e permanece na morte. Com esse panorama entramos em nosso texto. Uma primeira aproximação do texto demonstra que existem diversas palavras que se repetem no texto em estudo: conhecer/saber (v. 16, 19, 20, 24), amor/amar (v. 16, 17, 18, 23), coração (v. 19, 20, 21), permanecer (v. 17, 24), mandamento/s (v. 22, 23, 24). v. 16: Origem do amor: Cristo deu sua vida. O autor coloca como base de sua argumentação posterior que a ação salvífica de Cristo é o alicerce da ação das pessoas que integram a comunidade de fé. O verbo ginosko é interpretado tanto como conhecer (ARA) quanto como saber (NTLH). A NVI utiliza os dois termos como sinônimos intercambiáveis. Ginosko é o conhecimento como entendimento, sabedoria que tem aplicação. O tipo de amor apresentado como base para os cristãos é o agape, aquele amor que tem relação com interesse ou preocupação. É um amor relacional que vai além do companheirismo. Interessante também observar que o o verbo “devemos” é um termo relacionado literalmente com dívidas financeiras, com estar obrigado a quitar alguma dívida obtida anteriormente. No caso da NTLH, o agir em relação às pessoas é causado pelo agir de Cristo. v. 17-18: Como é o amor de verdade? Depois do baseamento teórico, o autor coloca as pessoas diante de um exemplo prático que pode ter acontecido. Uma pessoa com bios tou kosmou (traduzido de diversas formas: NTLH: rico; ARA: recursos deste mundo; NVI: recursos materiais) fecha suas splanchnon (entranhas, sede das emoções, em nosso uso, coração, onde se tem compaixão). Poderia ser dito da seguinte forma: uma pessoa que não tem compaixão pelo outro e não compartilha aquilo que tem não pode realmente amar a Deus. A partir do exemplo da pessoa com bens, o autor indica que não é possível somente amar por meio de palavras ou com a língua (nós diríamos amar da boca para fora). Mas é solicitado que as pessoas amem em ergon (ato, ação, realização) e em aletheia (verdade, realidade). Em resumo, agape resulta em ações concretas. v. 19-22: Como saber se estamos na verdade? Depois do marco teórico e de um exemplo prático, o autor faz delineamentos para que cada indivíduo possa saber se o seu agir está de acordo com aquilo que foi colocado anteriormente. Por isso utiliza o verbo ginosko no tempo futuro (conheceremos), diferentemente do v. 16, onde já é conhecido. Agora será uma aplicação futura e que atualiza aquilo que é conhecido. O coração (kardia) é entendido como o centro e a fonte da vida interior, das emoções, da vontade, aproximando-se ao nosso conceito de “consciência”. Em nosso texto funciona como medidor do nosso agir, para conferir se é coerente com aquilo que foi solicitado. Teremos o reconhecimento do agir amoroso em verdade através daquilo que o coração indicar.
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v. 20: Se o coração estiver condenando. O condenar dos v. 20s (kataginosko) significa não apenas acusar (ARA). Neste caso, também denota a detecção do mal em si mesmo. Aqui se escreve sobre o reconhecimento da condenação que se dá a partir daquilo que pode ser falado, pensado ou se realmente está sendo reconhecido no coração (no lugar da consciência). Estamos na procura do amor consciente, ou seja, daquilo que é realizado de forma não automática ou intuitiva. v. 20b: Deus ajuda. Diversos autores indicam que João não escreve aqui para assustar, mas para consolar os que já são parte do corpo de Cristo e que deveriam viver no amor ativo pela fé. Deus desculpa aquele que acusa a si mesmo. Deus acolhe o cristão que reconhece em si mesmo a culpa daquilo que foi feito errado. v. 21-22: Se o coração não estiver condenando, teremos bons resultados. Se a pessoa não sentir peso no coração, ela estará numa relação de confiança diante de Deus (melhor do que coragem, como traduz a NTLH). Por isso podem ser realizados pedidos que serão concretizados. A lógica apresentada para receber aquilo que é pedido relaciona-se, por um lado, com um coração que não condena, ou seja, a pessoa faz, constrói com ações de amor; por outro lado, com o guardar, cumprir dos mandamentos de Deus. Então estamos diante de uma duplicidade que denota não somente o crer, mas também o agir a partir desse crer. v. 23: Motivação do amor: mandamento do amor dado por Cristo. Dando continuidade ao versículo anterior, é lembrado o objeto do crer, ou seja, crer no nome de Cristo, no sentido de que o nome lembra a autoridade de Jesus como Filho de Deus. Assim também é indicada a relação amorosa entre os cristãos, a partir daquilo que Cristo indicou em João 15.12, o mandamento do amor. v. 24: União com Deus a partir de guardar o mandamento. Para terminar nosso texto e, ao mesmo tempo, servir de elo com o próximo capítulo, aparece a aplicação de tudo aquilo que foi dito até agora, ou seja, a permanência ou continuidade (menō) das pessoas em Deus e de Deus nas pessoas, intensificando assim a relação entre a pessoa e Deus. Ao mesmo tempo, é apresentado um novo medidor dessa permanência, que é o Espírito. A explicação sobre o Espírito é desenvolvida posteriormente em 4.1-3.
3 Meditação Só pode amar quem foi amado. Nesse sentido, o autor da Primeira Carta de João lembra aos cristãos que foram tornados aptos a amar por Cristo. Ao dar sua vida em sacrifício extremo realizado por amor, Jesus possibilita que as pessoas amem. Com esse argumento é iniciado nosso texto de estudo. O que é desenvolvido depois é a relação verdadeira entre saber e agir. Pois o que Cristo realizou faz com que as pessoas, além de terem o conhecimento teórico, sejam exortadas à prática. A fé em Deus vai além do simples conteúdo conhecido pelo crente: a fé leva a uma prática diferenciada que permite exprimir esse conteúdo em ações concretas. O que é observado em nosso texto não é só para alguns, mas é para todas as pessoas que seguem a Cristo. Os que estão dentro da comunidade de fé devem experimentar o amor de Cristo em suas vidas de forma que possam transmitir esse amor aos demais. Não existe uma casta especial de pessoas que, por serem mais
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santas ou terem certas atribuições, devem realizar ou deixar de realizar certas ações. Em nosso texto é indicado que todas as pessoas pelas quais Cristo morreu vivem o amor em todas as suas ações. Aqui não temos uma luta entre teoria e prática, mas a complementaridade entre o saber conhecido e o saber exercitado. Fé e amor andam juntos. Assim também a fé não é concorrente do amor ou das boas obras, mas, ao contrário, é o fundamento a partir do qual a pessoa que reconhece a graça de Deus age em relação com as outras pessoas. Muitas vezes se faz uma diferença entre o Jesus da fé que acredita e o Jesus do amor em ação, entre aquilo que cremos em nosso coração e aquilo que fazemos com nossas mãos. Mas o texto nos convida a não separar esses dois aspectos do ser cristão. Essas duas convicções (a primazia da fé e a primazia do amor) estão profundamente embebidas na tradição joanina. Na carta, o autor age como comentarista e atualizador daquilo que foi colocado no evangelho. Se na época de Lutero a principal preocupação das pessoas era a realização de obras para alcançar a salvação, hoje nós estamos no outro extremo. O nosso problema é a falta de boas obras. A apatia e o individualismo afetam o agir cristão: “A salvação é minha somente, os outros que se virem para tê-la”. Barreiras individuais são colocadas e a fé não é mais vivida de forma coletiva. Muitas vezes tem-se a impressão de que a vivência coletiva atrapalha o exercício da espiritualidade. Assim, as boas obras, frutos da fé em amor, chegam a ser consideradas desnecessárias, pois o próximo não tem mais nada a ver com a salvação alcançada pela fé. Em nosso contexto, o próximo torna-se até um elemento que atrapalha a vivência individualista da fé. Interessante observar que, já naquela época, o autor coloca o indivíduo e a sua consciência no centro. A própria pessoa deverá saber se pode dormir com a consciência tranquila ou não. Não existem aqui parâmetros externos ou algum agente externo que indique para o crente se está exercitando sua fé corretamente. Não precisa de alguém que o acuse exteriormente. Cada pessoa tem a possibilidade de ter o controle sobre suas ações e ter a certeza de que está realizando a ação correta. Mas, depois de realizar as ações e ter a consciência tranquila, deve-se observar se o que foi realizado é realmente em benefício das outras pessoas de acordo com a vontade divina, e não somente o resultado de uma consciência dopada pelos valores maléficos. Aqui entra em jogo a ação do Espírito de Deus, que permite ter um medidor externo que ajuda a consciência na sua medição. Ninguém deve ser obrigado a amar, mas o agir cristão tem como base o amor. Da pessoa cristã brota o amor, assim como de um manancial brota água. Não é por obrigação que o cristão ama, mas porque é sua essência, seu ser. Fazer as obras da fé em amor é copiar do melhor jeito possível o amor divino. O agir em amor leva a um novo estágio nas relações humanas. O próximo não é empecilho, ao contrário, é um facilitador no cumprimento da vontade divina e no exercício da espiritualidade cristã.
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4 Imagens para a prédica Uma reportagem falava sobre o aumento da população em situação de rua em algumas cidades. Dizia que algumas prefeituras ofereciam uma passagem para que essas pessoas voltassem para seus lares e lugares de origem, mas a grande maioria se recusava voltar. O repórter indicava que as pessoas não deviam dar qualquer tipo de ajuda, forçando assim as pessoas a voltarem ao seu lugar de origem. Qual é a verdadeira ajuda? Dar um pouco agora para acalmar a consciência ou ajudar realmente para que voltem ao convívio familiar? O que realmente estava por trás da reportagem? Seria o interesse de “limpar” as ruas ou ajudar aquelas pessoas? Como um mecânico sabe de máquinas e como um agricultor sabe da roça, um cristão deveria saber as coisas de Deus e o que Deus quer e ensina, vivendo de acordo com aquilo que sabe e prega. A cruz tem duas barras, uma vertical, que lembra a relação de Deus com o indivíduo, e outra horizontal, que lembra a relação entre as pessoas. Para a cruz ser cruz, deve ter os dois elementos. Assim também a fé cristã deve levar em conta tanto a relação da pessoa crente com Deus como a relação das pessoas entre si.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Amoroso Deus, sabemos que Jesus fez seu sacrifício por cada uma das pessoas que acreditam em ti, mas muitas vezes nos esquecemos que isso foi feito por amor. Ao viver nossa vida, esquecemos que nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações são reflexo daquilo que acreditamos. Vivemos neste mundo como se o amor de Cristo não valesse para as outras pessoas. Nosso agir é mesquinho. Ainda que nossa consciência nos alerta, continuamos no pecado. Ajuda-nos, Senhor, para que escutemos a nossa consciência e vivamos o teu amor com ações concretas a cada momento. Permite que teu Espírito Santo nos guie na verdadeira fé e no verdadeiro amor. Oramos em nome de Cristo, que por amor morreu por nós. Amém. Oração do dia: Deus, tu que és amor, obrigado por tudo o que Jesus fez e falou, obrigado especialmente pelo seu sacrifício na cruz. Ajuda-nos para que possamos viver realmente o amor de Cristo em nossa vida diária. Permite que possamos ter uma consciência tranquila e que nossas ações sejam um sinal do teu amor neste mundo. Pedimos em nome de Cristo. Amém.
Bibliografia BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2009. ODEN, Thomas C. (ed.). Ancient Christian Commentary: James, 1-2 Peter, 1-3 John. Jude. New York: Routledge, 2013.
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5º DOMINGO DA PÁSCOA
PRÉDICA: JOÃO 15.1-8
29 ABR 2018
SALMO 22.25-31 1 JOÃO 4.7-21
Beatriz Regina Haacke
1 Introdução O texto da prédica para o 5º Domingo da Páscoa não aborda temas e acontecimentos pós-pascais. Mesmo assim, a comunidade, neste domingo, ainda vive e celebra impulsionada pela ressurreição. Trata-se de uma fala de Jesus inserida no contexto dos eventos que antecederam a crucificação. A imagem da videira verdadeira não traz apenas mera comparação ou metáfora, mas é um discurso autêntico e autorrevelador de Jesus, através do qual ele assinala como é seu relacionamento com seus discípulos e discípulas e o que espera deles. O texto da epístola, 1 João 4.7-21, está intimamente ligado ao da prédica quando se aponta para o amor como fruto que brota da união com Cristo. No pensamento joanino, tanto no evangelho como também nas epístolas, a vivência do mandamento do amor recíproco está baseada no amor que Deus demonstrou primeiro (1Jo 4.19). O Salmo 22, muito lembrado durante as celebrações anteriores ao Domingo de Páscoa, tem sua atenção voltada, até o versículo 24, para o sofrimento humano e o pedido por livramento. Já os versículos 25 a 31, que acompanham os demais textos para este momento, concentram-se na grandeza de Deus. Todas as famílias das nações se prostrarão diante do Senhor. A ele pertence o reino e ele é quem governa as nações.
2 Exegese A perícope está localizada dentro do discurso de despedida de Jesus (Jo 13.31-16.33). O bloco dos capítulos 15 a 17 parece ter sido uma inserção, pois ao final de 14.31 Jesus diz vamo-nos daqui, indicando movimento, e apenas em 18.1 a cena é a ida ao Getsêmani. Quase todo o material dos capítulos 15 a 17 é fala de Jesus. O autor do evangelho relata os últimos momentos de Jesus com os seus discípulos com uma preocupação: a continuidade da existência da comunidade de discípulos no mundo. São palavras de despedida, mas também de consolo e encorajamento. Afinal, o mundo logo não o verá mais, mas Jesus não pretende deixar os seus discípulos abandonados (14.18-19). O Evangelho segundo João foi escrito ao final do século I. Para o seu autor, era importante mostrar à comunidade cristã de sua época que Jesus não a havia esquecido em um mundo hostil. Diante da ausência corporal de Jesus, as pessoas cristãs poderiam confiar em sua presença em seu meio e junto de sua comunidade através do Espírito Santo (14.16).
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Os v. 1 e 8 são como molduras para o texto; apontam para a ação de Deus como o agricultor (geōrgos). O Pai é o responsável por plantar a videira e seus frutos são para a sua glória. Jesus é a videira verdadeira, pois Deus já havia plantado uma videira anteriormente: Israel. A videira ou vinha é uma imagem usada para representar o povo de Israel (Sl 80.8-16; Is 5.1-7; Jr 2.21; 5.10-11; Ez 15.16). Os profetas Isaías e Jeremias anunciam o juízo de Deus sobre seu povo, que se voltou contra ele. A opressão de outros povos sobre Israel compara-se a uma vinha que é arrasada, que tem suas cercas derrubadas para que qualquer animal a pisoteie, que tem seus galhos arrancados e jogados ao fogo. Os profetas testemunham que a videira “Israel” trouxe decepções ao seu agricultor. Apesar de ser plantada com ramos bem escolhidos e de todo o cuidado e dedicação de seu agricultor, a videira não frutificou como Deus desejava. Porém, em Cristo, Deus dá início a uma nova vinha. Ao enviar seu próprio Filho ao mundo, ele proporciona o surgimento de uma comunidade ao seu redor, que pode produzir fruto não por si mesma, mas porque está ligada à videira. A videira não mais é o povo, mas Cristo. O que sustenta os ramos é a ação do próprio Deus em seu Filho e não mais a ação humana. O cuidado do agricultor para com a sua videira acontece através da limpeza dos ramos produtivos e da poda dos improdutivos (v. 2). Nos v. 1 e 5 encontram-se as palavras “eu sou” de Jesus (egō eimi), que são como chaves para a hermenêutica joanina. Através delas, Jesus se autoproclama, respondendo a pergunta sobre quem ele é e o que isso significa para quem crê nele. De acordo com Schnelle, essas sentenças são como evangelhos em miniatura, pois são palavras de vida, apresentam um convite ou chamado para a fé e uma promessa. Elas possuem uma estrutura básica (apresentação, palavra metafórica, convite e promessa), que no texto em questão aplica-se da seguinte forma: Apresentação Eu sou
Palavra metafórica a videira verdadeira
Convite Promessa o que permanece este produz muito em mim e eu nele fruto
No v. 2 fica claro que a ligação do ramo à videira não o isenta de ser limpo pelo agricultor. A limpeza ou poda dos ramos tem como finalidade a produtividade (para que produza mais fruto ainda). No entanto, ramo que não dá fruto é porque está fora da relação vital com Jesus e, logo, está exposto ao juízo (v. 6: é lançado fora e queimado). Assim, o vínculo com Cristo é vital para a pessoa cristã. Ao final do v. 5, o termo grego que foi traduzido por “sem” (sem mim nada podeis fazer) é chōris, que significa, originalmente, “separado de”. Somente através do vínculo com Cristo é que se possibilita todo o ser, poder e fazer dos discípulos e discípulas (v. 5). Por sua vez, é a palavra de Jesus que promove a limpeza (v. 3). Podem ser observadas no texto de João 15.1-8 algumas ocorrências das chamadas fórmulas de imanência, que visam expressar a unidade do Pai com o Filho e, consequentemente, de Deus com a pessoa que crê, por meio de Cristo (Jo 15.4,5,7; outras ocorrências, por exemplo, em 14.10,20; 15.9; 17.21). Nas palavras e ações de Jesus, o próprio Pai é revelado e age. Estar ligado a Cristo, a videira, é o mesmo que estar ligado ao Pai. O verbo menō (permaneço, v. 4, 5, 6
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e 7) expressa a dimensão ética da comunhão com Deus e com Cristo, pois permanecer em Deus/Cristo implica permanecer no amor (15.9) ou produzir frutos, que é a expressão usada na perícope. O mesmo verbo no imperativo (meinate) é empregado em permanecei em mim e permanecei no meu amor (v. 4 e 9). As palavras de Jesus que purificam e que devem permanecer nos discípulos e discípulas se resumem no chamado para amar uns aos outros. Na verdade, isso perpassa todo o discurso de despedida de Jesus, desde o lava-pés – modelo e vocação para o serviço –, da instrução do novo mandamento até a promessa do Consolador. A base para esse chamado é o amor que o Pai tem pelo Filho e este pelos seus (14.23; 15.10).
3 Meditação O verbo permanecer é palavra-chave nesta perícope, enquanto que “amor” vem a ser a palavra-chave do texto que segue: 15.9-17. Contudo, não é possível dissociar essas palavras neste contexto. A mensagem central da alegoria da videira está clara: Permaneçam em mim e eu permanecerei em vocês. Quando isto acontece, a pessoa que crê produz muito fruto. Permanecer em Jesus é possibilidade que acontece por meio da fé. Por isso quem permanece na palavra de Cristo já está limpo (v. 3). A fé, por sua vez, nos conduz para o amor, que é o fruto que brota da união com Cristo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida (v. 13). Permanecer na fé em Cristo significa permanecer no amor. A partir disso podemos compreender o sentido do versículo 7. Discípulos e discípulas de Jesus produzirão frutos para a glória do Pai, e suas orações serão atendidas à medida que amarem uns aos outros. Quem permanece em Cristo e Cristo, nele, pede e ora: “seja feita a tua vontade”. A imagem dos ramos da videira aplica-se inicialmente em nível pessoal, pois o permanecer é condição dirigida a cada discípulo e discípula. Mas amplia-se para o nível comunitário, pois todos os ramos têm em comum a união com uma mesma videira e o chamado para frutificar para a glória de Deus, e estende-se para além da comunhão cristã quando o amor é fruto notado também através da presença e do testemunho cristão no mundo. Que frutos são esses que Deus nos chama a produzir? Ora, nunca poderiam ser frutos diferentes daqueles que Jesus produziu. O fruto é a multiplicação da vida que está na planta. Os frutos da videira representam a vida nova que corresponde à própria videira. Assim como o fruto da videira não pode ser outro do que a uva, dos discípulos e discípulas de Jesus são esperados o mesmo amor e disposição em servir de seu mestre. Dar fruto equivale à observância ativa do mandamento do amor. O amor recebido de Cristo e do Pai nos impulsiona para o amor uns aos outros. O amor de Deus nos é dado e de nós é esperado o mesmo amor. Assim como o amor de Deus e sua graça vêm antes do nosso amor, o permanecer em Cristo só é possível porque, primeiramente, o próprio Cristo permanece nos seus (v. 4). Esse indicativo é graça experimentada pela igreja cristã em meio às condições adversas de um mundo marcado pelo afastamento de Deus, pelo pecado.
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Para a comunidade de sua época, o evangelista registrou as palavras de Jesus na intenção de confortá-la na ausência do Senhor. E ainda hoje, na expectativa pela volta de seu Senhor e enfrentando dificuldades na tarefa de testemunhar o amor, as pessoas cristãs sabem que ele não está ausente, mas permanece junto delas. Cristo permanece presente em mim, no irmão e na irmã. Na comunhão isso pode ser percebido. A união de um ramo com a videira não é nada estática ou inerte, assim também a fé não o é. Ao contrário, é dinâmica e viva. Há a nutrição do ramo através da seiva. Há o crescimento e o fortalecimento do mesmo. A relação dos discípulos com Jesus é mediada pela sua palavra, conforme os v. 3 e 7. Permanecer implica ouvir a palavra de Jesus. Pela palavra acontece a limpeza dos ramos. O permanecer em Cristo por meio da fé concretiza-se no dia a dia da pessoa cristã, no viver o seu batismo, pelo arrependimento, pelo perdão, pelo servir e amar. Ser discípulo e discípula de Jesus significa estar unido com ele, significa proximidade e relacionamento. A união com a videira é graça de Deus, porém relacionamentos são cultivados. O relacionamento com Jesus, que envolve o cuidado que é recebido do agricultor para melhor produzir e a seiva que alimenta a vida dos ramos, é cultivado através da palavra, da comunhão com irmãos e irmãs, do envolver-se na vida comunitária, dos sacramentos, da bênção. Sem o vínculo com a videira não haverá fruto. Por outro lado, sem fruto a ligação com a videira é rompida. O juízo também é claro para aqueles e aquelas que não frutificam. Todavia, ramos não cortam outros ramos. A limpeza e a poda são ações do agricultor. Todos estão suscetíveis à tentação de assumir o papel que pertence a Deus. O querer ser igual a Deus coloca em risco a vida de todos os ramos numa comunidade. Da mesma forma, a união com a videira abala-se quando a glória dos frutos não mais é dada a Deus. Quando os ramos são saudáveis, os frutos vêm por si. Não há mérito nosso. Nada fizemos a não ser aquilo para o qual fomos criados.
4 Imagens para a prédica O que significa “permanecer”? De acordo com o dicionário, é continuar a ser, ficar, estar. E o que significa permanecer em Cristo? Será algo passivo, como não sair do lugar, ou sofrer as intempéries sem mudanças em seu estado? Na verdade, permanecer em Cristo tem sentido dinâmico, transformador, participativo, pois acontece mediante a fé e resulta em frutificação. Podem ser lembradas as palavras de Martim Lutero: “Fé e amor perfazem a natureza do cristão. A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima das demais. Através da fé ela aceita os benefícios de Deus, através do amor ela beneficia seus semelhantes”. No que consiste o amor (1Jo 4.10-11)? Uma médica conta que conheceu uma menina chamada Liz, que sofria de uma doença rara. A única possibilidade de recuperar-se era a transfusão de sangue de seu irmão de cinco anos, que milagrosamente havia sobrevivido à mesma doença e desenvolvido anticorpos para combatê-la. A médica explicou a situação ao menino que, após pensar um pouco, tomou fôlego e disse: “Sim, vou fazer isso para salvar a Liz”. À medida
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que a transfusão progredia, o menino sorria para a irmã ao ver que o rosto dela tomava cor novamente. Após alguns minutos, o garoto ficou pálido e, com voz temerosa, perguntou à doutora: “É agora que eu vou morrer?”. O pequeno havia interpretado mal a explicação da médica. Mas, por amor, estava disposto a fazê-lo. Pensou que tinha que doar à irmã todo o seu sangue, junto com sua vida (autor desconhecido).
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor Deus, a dádiva do teu amor em Jesus nos impulsiona para o amor ao próximo. Assim como de uma boa árvore se espera bons frutos, tu nos vocacionas para a prática do amor. Mas nem sempre nossas ações e palavras são condizentes com a relação que tu queres ter conosco. Por isso pedimos perdão quando apontamos o dedo para o erro do irmão, da irmã e o julgamos, antes de reconhecer nossas próprias falhas. Perdão quando duvidamos e quando nossa fé é fraca. Perdão quando deixamos que nosso orgulho fale mais alto e não apontamos para a tua honra e glória. Também necessitamos ser limpos e podados naquilo que nos afasta de ti e uns dos outros. Ouve a nossa confissão, por Cristo Jesus, perdoa-nos. Amém. Oração do dia: Deus de amor e bondade, tu que demonstras o teu cuidado para com teu povo da mesma forma que o agricultor cultiva com dedicação a sua plantação, envia teu Santo Espírito para que sejamos alcançados pela tua palavra. Que essa palavra seja nutriente para a fé. Fortalece entre nós os vínculos do amor, o mesmo amor com que amaste Jesus, teu Filho, e com o qual ele também nos amou. Por Jesus Cristo, que contigo vive e reina, na unidade do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia BOOR, Werner de. Evangelho de João: comentário esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002. SCHNELLE, Udo. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010.
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PRÉDICA: ATOS 10.44-48 SALMO 98 JOÃO 15.9-17
6º DOMINGO DA PÁSCOA
06 MAIO 2018
Eldo Krüger
A universalidade da missão de Deus
1 Introdução O que os três textos têm em comum? O amor e o agir redentor de Deus, por meio de Cristo, em favor do ser humano, e o testemunho missionário que precisamos dar sobre isso. Salmo 98: O salmista diz que Deus, Rei e Salvador, por misericórdia e fidelidade, manifestou de forma visível a sua justiça/salvação em favor do povo de Israel e da humanidade toda. Em reconhecimento a tudo o que Deus fez e ainda fará para consumar plenamente a sua obra de justiça e salvação, o salmista propõe que o povo de Israel e a humanidade toda (também a natureza), em todos os cantos da terra, celebrem cultos de adoração e louvor a Deus, e façam isso com júbilo, com a voz e com instrumentos musicais. João 15.9-17: Jesus pede aos seus discípulos e amigos que, por amor e obediência a ele, amem uns aos outros assim como foram divinamente amados por ele até o fim (Jo 13.1). O amor do qual Jesus fala é o agape, amor incondicional, amor “apesar de”. Esse é o padrão e o verdadeiro fruto (testemunho) que Jesus espera ver sendo praticado permanentemente entre os seus amigos e seguidores (Mt 7.16-21; 1Co 13). Quando isso acontece, os que o seguem permanecem unidos a ele, assim como o ramo frutífero permanece unido à videira; experimentam a sua alegria, participam do seu ministério (Jesus vive e age na e através da vida dos seus discípulos). Atos 10.44-48: O texto diz que depois que os gentios ouviram Pedro pregar a Palavra (Rm 10.17), Deus enviou o Espírito Santo sobre eles e todos passaram a exaltá-lo com gratidão e alegria. Os judeu-cristãos ficaram admirados e surpresos com essa manifestação de Deus. O sentido e propósito desse acontecimento foi revelar que Deus ama e quer salvar todas as pessoas (Jo 3.16; 1Tm 2.4), e por isso o evangelho de Cristo precisa ser pregado indistintamente para toda a humanidade, conforme Jesus ordenou (Mt 28.19 e At 1.8).
2 Exegese Contexto: A igreja estava vivendo um processo missionário de crescimento e expansão. Ela havia começado em Jerusalém (igreja mãe), mas, por causa de perseguições, muitos judeu-cristãos saíram de Jerusalém e foram viver em outras cidades, nas regiões da Judeia e Samaria (At 8.1), lugares por onde Jesus andou
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e pregou (Jo 4.1-42). Nessas cidades eles pregaram a palavra de Deus para judeus e não judeus (At 8.4,37). Pedro, apóstolo e líder da igreja em Jerusalém, entendia que a palavra de Deus deveria ser anunciada somente aos judeus e não aos gentios. Pedro e a igreja em Jerusalém tinham muita dificuldade com essa questão (Gl 2.11-16). Eles cultivavam uma ideia seletiva e exclusivista de que somente o povo de Israel era o povo de Deus e de que a salvação só era possível para esses. Como a igreja em Jerusalém ficou sabendo que judeu-cristãos estavam pregando o evangelho aos não judeus (gentios), Pedro e mais algumas pessoas foram encarregadas de ir até Samaria para investigar o que estava acontecendo. Graças ao mover e agir livre e soberano do Espírito Santo, Pedro teve uma “visão” no qual se confrontou com uma revelação divina, que o fez reavaliar e corrigir a sua (também da igreja) forma de pensar e agir (At 10.9-16). Deus mudou o coração e a visão de Pedro, revelou para ele que não poderia fazer acepção de pessoas (At 10.34), não poderia discriminar e considerar impuro e indigno quem não fosse judeu. Conforme a ordem dada por Jesus, o evangelho da paz por meio de Cristo (At 10.36) era para ser pregado a todas as pessoas, indistintamente, sem excluir ninguém. Afinal, todas as pessoas foram criadas à imagem e semelhança de Deus, têm dignidade e valor e Deus deseja que todos sejam salvos por meio de Jesus (At 10.43). Quando Cornélio, centurião romano, homem piedoso e temente a Deus, homem de oração e que dava esmolas (At 10.35; Ef 2.8-9), mandou chamar Pedro e reuniu sua família, parentes e amigos íntimos para ouvi-lo em sua casa, Pedro, inspirado e orientado pelo Espírito Santo, desobedeceu às barreiras impostas pela lei e foi até a casa de Cornélio, entrou e comeu com eles (At 11.3,12). Depois, pregou a todos o evangelho da salvação em Cristo (At 10.17-43). E o que aconteceu? v. 44: O apóstolo Pedro, ungido pelo Espírito Santo, fez uma pregação fundamentada na ressurreição e no testemunho que os profetas do Antigo Testamento deram a respeito de Jesus (Lc 24.44-47). Enquanto Pedro pregava sobre Jesus, sobre os seus ensinamentos e suas obras (curas e milagres), sobre a sua morte na cruz e sua ressurreição, sobre o perdão dos pecados e a salvação (At 10.36-43), Deus enviou o Espírito Santo sobre todos que escutavam a pregação (At 10.24,34; 16.31). O envio do Espírito confirmou que a mão de Deus estava com Pedro (At 11.21). Um detalhe importante: as pessoas que receberam o Espírito Santo não eram judias (v. 45), não faziam parte da igreja, não eram batizadas e, mesmo assim, receberam o Espírito Santo (At 11.15-18). Isso foi algo novo, inédito e revolucionário. Provocou consequências na vida dos ouvintes (nasceram de novo – Jo 3.3-6; passaram a ser templo do Espírito – 1Co 3.16; 6.19-20; a pertencer a Cristo e ter a salvação – Rm 8.9-11; Ef 1.13-14) e, especialmente, na vida e na missão da igreja (At 11.1-18; 13.46-48). As lideranças da igreja se reuniram em concílio e decidiram que o evangelho poderia ser pregado aos gentios, que poderiam fazer parte da igreja e não precisavam ser circuncidados (At 15.6-29). v. 45: Os que acompanhavam Pedro ficaram admirados porque também sobre os não judeus (incircuncisos) foi derramado o dom do Espírito Santo. Por que
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tiveram essa reação? Preconceito? Discriminação (At 10.28)? Falta de discernimento espiritual? Bem provável, pois não esperavam que gentios também pudessem receber o Espírito Santo e fazer parte do povo de Deus. Uma compreensão teológica equivocada que os levou a não pregar para não judeus. Pedro e os que o acompanhavam foram surpreendidos e sentiram-se confrontados na sua fé. Depararam-se com uma lição de difícil aprendizado – a universalidade da graça da salvação e do cristianismo, a inclusão plena de não judeus na comunidade cristã sem a necessidade de observar as formalidades religiosas do judaísmo. Testemunharam que Deus é soberano e quer conceder a sua misericórdia e graça redentora a todos, que o Espírito Santo não se deixa aprisionar ao entendimento humano, mas é livre e sopra onde quer (Jo 3.8). v. 46: Este versículo relata como Pedro e seus companheiros constataram que Deus havia derramado o Espírito Santo. O sinal e a evidência disso foi que todos começaram a falar em línguas (línguas/idiomas humanos, e não língua angelical), de forma inteligível e compreensível (At 2.11), exaltando e glorificando a Deus e a salvação recebida de graça. Ou seja, vivenciaram a mesma experiência divina que os discípulos tiveram em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.111; 15.8-9). Partilharam do mesmo e único Espírito, através do qual todos são batizados e passam a fazer parte do corpo de Cristo (1Co 12.13). Isso suscitou perguntas em Pedro. v. 47: Como os gentios receberam o Espírito Santo (sinal da aprovação divina) sem seguir os ritos judaicos, Pedro perguntou aos seus companheiros sobre como deveriam agir em relação a eles? Poderiam recusar e impedir que fossem batizados nas águas? A resposta foi não. Filipe já havia se confrontado com essa questão com o eunuco e concluiu que não se pode negar o batismo a não judeus quando esses acolhem a Palavra e creem de todo o coração que Jesus Cristo é o Filho de Deus (At 8.37; 2.41). Pedro reafirmou esse pensamento teológico. Concluiu que o amor e a graça de Deus são para todos, que a missão de Deus de salvar o ser humano não tem fronteiras e limites. Qualquer pessoa pode ser batizada em Cristo e fazer parte do povo de Deus, independente de raça (nacionalidade), cor, sexo, condição social (1Co 12.13). v. 48: Pedro reconheceu que Deus aceitou os não judeus, despertou fé neles e os selou com o dom do Espírito, lhes deu a oportunidade de se arrepender e ganhar a vida eterna (At 11.18). Isso era suficiente o bastante para poderem ser batizados. Negar o batismo seria o mesmo que resistir a Deus e agir contra ele. Por isso, usando de sua autoridade como líder da igreja em Jerusalém, não fez nenhuma exigência da lei cerimonial prescrita para os prosélitos (circuncisão) e ordenou que todos fossem batizados. O batismo foi celebrado em nome de Jesus Cristo, uma fórmula batismal cristã usada na igreja primitiva (At 8.38-39). Um detalhe importante: o batismo não precisava ser celebrado por um apóstolo, por isso Pedro mandou outras pessoas batizarem os novos cristãos. Ou seja, praticou-se o sacerdócio de todos os crentes. O texto termina dizendo que, depois que foram batizados (sinal externo do arrependimento e do perdão dos pecados, de que foram oficialmente reconhecidos e aceitos como membros plenos da igreja – At 2.38), pediram para Pedro ficar
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alguns dias com eles. Certamente queriam ouvir mais pregações e ensinamentos de Pedro. Eram iniciantes na vida cristã e tinham muito a aprender. Pedro, como “pai espiritual” responsável, aceitou o convite e ficou com eles por alguns dias. Nesse tempo, exerceu o cuidado pastoral com seus “novos filhos na fé”. Instruiu-os e firmou-os nos primeiros passos da fé (Mt 28.20). Ajudou a consolidar a nova comunhão na igreja composta de judeus e não judeus.
3 Meditação O texto de Atos 10.44-48 (também 8.14-17 e 19.1-7) tem sido usado especialmente por pentecostais e carismáticos para fundamentar o batismo do Espírito Santo (At 11.16) e o dom de línguas. Afirmam que essa experiência é separada e independente do batismo nas águas. No entanto, quando estudamos o texto dentro do contexto maior em que está inserido, fica claro que o sentido e a mensagem do texto são outros. O tema principal que o texto trata não é o batismo do Espírito Santo, mas a relação dos judeu-cristãos com os não judeus. O texto nos desafia a refletir sobre a importância da pregação a todas as pessoas, indistintamente, e a sua plena inclusão na comunhão da igreja. E é sobre esse tema que faço a meditação. Jesus ordenou aos seus discípulos ir por todo o mundo e pregar o evangelho a todas as nações (Mt 28.18-19). Ou seja, a missão da igreja é universal e não tem limites. No entanto, os discípulos demoraram a entender e praticar o que Jesus ordenou. A primeira igreja constituída, Jerusalém, por um bom tempo teve uma visão restrita da obra de Deus, foi uma comunidade fechada, étnica, formada só por judeus. Ela só aprendeu a se tornar uma igreja atrativa, aberta, acolhedora, inclusiva e missionária, como propõe a IECLB, quando Deus tomou a iniciativa, agiu em seu meio e convenceu Pedro, líder da igreja, a pregar aos não judeus. E quando isso aconteceu, Deus enviou o Espírito Santo sobre eles e lhes concedeu a graça da salvação por meio da fé em Jesus Cristo (At 15.11). Foram batizados e com isso passaram a fazer parte do povo de Deus (corpo de Cristo); foram admitidos na igreja visível. Tudo graça, bondade e misericórdia de Deus. Isso tudo foi algo novo, inédito e inesperado. O “novo” irrompendo dentro do “velho”. O que Deus fez confrontou e mexeu profundamente com a vida e a missão da igreja, com o seu entendimento e sua prática da fé, com a sua configuração social e incumbência missionária. Se Deus reconheceu o valor e a dignidade humana dos gentios, a igreja não podia fazer diferente. Tinha que vencer todas as suas barreiras, principalmente a da acepção de pessoas (At 10.34 e 15.9), do preconceito e da discriminação racial e religiosa. Não foi fácil, mas aos poucos foi aprendendo a ter um novo olhar e percepção em relação aos não judeus, a amar a todos como Jesus ensinou a amar, a não julgar e condenar quem é diferente, mas respeitar e querer bem a todos; a se reconciliar e conviver em paz, como irmãos e irmãs em Cristo, como família de Deus (Ef 2.11-22). Acredito que esse é um aprendizado necessário também para nós como igreja luterana, que é oriunda da etnia e cultura alemã e, em muitos lugares, as comunidades ainda não acolhem e integram plenamente os novos que chegam.
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Deus ama todas as pessoas e quer que todas conheçam, desfrutem do seu amor e sejam salvas (Jo 3.16). Isso nos leva a perguntar: estamos pregando o evangelho de Jesus Cristo além do templo e da vida da comunidade? O nosso coração é acolhedor e missionário? A nossa comunidade é aberta, atrativa, acolhedora, inclusiva e missionária? Como acontecem a acolhida e a integração dos novos membros na vida da comunidade? Quais têm sido o nosso entendimento e a nossa prática sobre essas questões? Lembremos sempre de que Cristo venceu todas as barreiras que dividem a humanidade. Que Deus tem o propósito de unir todas as coisas em Cristo, de que na igreja e por meio da igreja Deus quer criar uma nova humanidade (Ef 2). Deus quer nos usar como suas testemunhas e seus mensageiros para evangelizar o mundo e para construir uma sociedade inclusiva e fraterna. Estamos dispostos? Sempre que for oportuno, preguemos (sem preconceito nenhum) o evangelho de Cristo a todas as pessoas. Pode ser na família, com os vizinhos, amigos, colegas de estudo ou trabalho, na sociedade em geral. Nunca limitemos o mover do agir de Deus (At 1.8). Todos devem ter acesso ao evangelho, não importa o lugar, a raça das pessoas, sua cor, posição social, gênero etc. Em segundo lugar, lembremos que, quando pregamos o evangelho, Deus se manifesta na vida das pessoas por meio do Espírito Santo e concede salvação. Aconteceu quando Pedro pregou para Cornélio, sua família e amigos, e acontece ainda hoje. Como disse o profeta Isaías (55.10-11), a palavra de Deus nunca retorna sem antes produzir os frutos que Deus quer. A pregação é um meio de graça. Através dela Deus desperta o arrependimento e o dom da fé (At 11.18; Rm 10.17), reveste a pessoa do Espírito Santo, concede a maravilhosa e imerecida graça da salvação, o perdão dos pecados e a vida nova e eterna com Cristo (At 15.11). Em terceiro lugar, procuremos sempre acolher bem todas as pessoas que chegam à nossa comunidade. Olhar com os olhos de Cristo e receber como nossos irmãos e irmãs, como pessoas que são amadas por Deus. Comunhão com diferentes é um desafio e um aprendizado permanente na vida da igreja. E em quarto lugar, vamos nos dispor a acompanhar e dar suporte e apoio aos visitantes, aos novos membros. Isso é muito importante para o desenvolvimento e fortalecimento da fé (discipulado), para ajudar no processo de inclusão e integração plena na comunhão dos crentes, para capacitar e envolver essas pessoas a partir dos seus dons na missão da comunidade. Que Deus nos ajude para que assim seja. Amém!
4 Imagens para a prédica – O PAMI (Plano de Ação Missionária da IECLB) estabelece como prioridade criar “comunidades atrativas, acolhedoras, inclusivas e missionárias [...]”. – Ilustrar, através de um vaso com flores diferentes, o quanto a comunidade pode ser rica e bela quando acolhe e congrega todas as pessoas com as suas diferenças. – Uma maneira de ilustrar a mensagem desse texto poderia ser criar um espaço para apresentar as diferentes etnias das pessoas que fazem parte da comunidade. Os membros poderiam ser motivados a falar quais são suas etnias.
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5 Subsídios litúrgicos Acolhida: Saudar as pessoas que estão participando pela primeira vez do culto e sugerir que alguém próximo a elas as cumprimente. Abraço da paz: Criar um momento de integração no culto para que todas as pessoas presentes possam se cumprimentar, abraçar, perguntar o nome um do outro (caso não saibam). Oração de confissão de pecados: Pedir perdão pelas atitudes de julgamento, preconceito, discriminação e exclusão em relação às pessoas que são diferentes. Kyrie eleison: Lembrar as pessoas e os povos que sofrem por causa do preconceito, da discriminação e da exclusão social e religiosa, do individualismo e da solidão social. Oração geral da igreja: Pedir a Deus pela superação de todo tipo de barreiras que ainda existem entre as pessoas e que as separam umas das outras; para que sejamos pessoas que tenham posturas acolhedoras; para que a comunidade não seja fechada, mas acolhedora, inclusiva e missionária; para que a comunidade seja evangelizadora e o reino de Deus possa crescer e se expandir no mundo. Ceia do Senhor: Caso seja celebrada no culto, procurar enfatizar que a IECLB é uma igreja ecumênica e pratica a hospitalidade eucarística; convidar todas as pessoas presentes no culto (membros e não membros) para participar da Ceia do Senhor. Sugestão de hinos: HPD 2 – Prelúdio nº 321, 322, 332, 365; hino da comunidade nº 325, 469; hino da oferta nº 318, 319, 327, 412, 434; durante o momento de integração nº 395; oração geral da igreja nº 367; final nº 377, 378. Bênção: – Pedir para que todos fiquem de mãos dadas para receber a bênção e que ao final todos se abracem. – Cantar uma bênção em conjunto, acompanhada de gestos. Formam-se duplas, um fica de frente para o outro, e cantam: Deus te abençoe (levantar os braços e colocar as mãos sobre a cabeça do outro). Deus te proteja (colocar as mãos sobre os ombros). Deus te dê a paz (dar um abraço de um lado). Deus te dê a paz (dar o abraço do outro lado).
Bibliografia CHAMPLIN, Russell N. O Nosso Testamento Interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1982. v. 3 MARSHALL, Howard I. Atos introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1982.
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PRÉDICA: JOÃO 14.1-12 SALMO 113 COLOSSENSES 3.1-11
ASCENSÃO DO SENHOR
10 MAIO 2018
Jaime Jung
O caminho verdadeiro que conduz à vida “Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar. Aprendi (o caminho me ensinou) a caminhar cantando como convém a mim e aos que vão comigo. Pois já não vou mais sozinho.” (Thiago de Mello)
1 Introdução A Ascensão do Senhor situa-se, dentro do calendário litúrgico, no trecho do caminho compreendido entre Páscoa e Pentecostes. Não seria demasiado explicar brevemente o termo “ascensão” à comunidade, já que não é de uso corriqueiro. Deriva do latim ascensio, significa “elevação, subida”. Pode surgir, então, uma primeira “pedra” no caminho, tanto para quem prega quanto para quem ouve, que é contrapor o significado literal da palavra ascensão ao sentido teológico mais amplo que se quer dar a essa data litúrgica: se Jesus ascendeu, como pode estar presente aqui e agora? Uma pista para contornar esse percalço traz o teólogo Gerhard Ebeling: “Deus não está lá onde é o céu, mas o céu é ali onde Deus está”. Essa afirmação pode permear grande parte da proposta litúrgica para o culto, bem como auxiliar no preparo da pregação. No culto, a comunidade está reunida em nome e na presença de Deus onipresente, que a acompanha também no cotidiano. O conteúdo do Salmo 113 é coerente com os demais textos previstos, ao lembrar que nosso Deus, que tem o seu trono nas alturas, [...] se inclina para ver o que há no céu e na terra (v. 5 e 6). Também a perícope de Colossenses 3.1-11 aponta para o evento da ascensão: ponham o seu interesse nas coisas que são do céu, onde Cristo está sentado ao lado direito de Deus (v. 1b) e lembra que Cristo é tudo (e está) em todos (v. 11b). Numa realidade carente de direção, parâmetros e esperança, é consolador e animador saber que Jesus é o caminho, a verdade e a vida.
2 Exegese O texto de João 14.1-12 já foi objeto de estudo em Proclamar Libertação: PL I-II (Hermann Brandt), PL 21 (Ari Knebelkamp), PL 27 (Uwe Wegner) e PL 34 (Júlio Cézar Adam). Recomendo a leitura. A perícope está dentro dos assim chamados “discursos de despedida” de Jesus. Ele já havia apontado para sua partida anteriormente (cf. Jo 13.33 e 36).
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Ascensão do Senhor
Martim Lutero afirma que neste e nos dois capítulos seguintes temos o sermão de Cristo proferido aos discípulos “a fim de consolá-los e fortalecê-los duplamente: contra a tristeza presente, causada pela sua partida, e contra o sofrimento futuro, que lhes sobreviria”. Para o reformador, as palavras de Jesus aos seus seguidores são tão permeadas de amor e cuidado “a ponto de, por isso, esquecer seu próprio sofrimento e medo com a finalidade única de preservá-los por intermédio de seu consolo” (OSel 11,45). O título dado a esse trecho na tradução de Almeida (ARA), mesmo sendo arbitrário, vem ao encontro de um dos pontos centrais da passagem: Jesus conforta os discípulos. Quem conforta oferece proteção, morada; oferece chão firme para que a outra pessoa encontre sentido para sua existência e sinta-se apta a continuar trilhando o caminho. O trecho imediatamente seguinte (Jo 14.16ss) traz a promessa do envio de um outro Consolador. Jesus usa termos concretos para tentar esclarecer aos discípulos os acontecimentos que se seguiriam, como “casa, moradas, caminho”. Mesmo assim, eles não o compreendem. “O fim do tempo de Jesus na terra é como o início: um mistério envolto na linguagem do mito e do símbolo” (Braaten; Jenson, 2002, p. 536). O episódio da ascensão de Jesus é precedido por um período de 40 dias após sua ressurreição. O significado simbólico do número 40 já estava firmemente estabelecido na história bíblica da salvação. Podemos lembrar os 40 dias e as 40 noites que Moisés passou no topo da montanha (Êx 24.18), os 40 anos da peregrinação de Israel no deserto, os 40 dias de jejum e tentações que Jesus passou no deserto. Esses “40 dias entre a ressurreição e a ascensão foram um tempo em que o Cristo ressurreto e exaltado se revelou às pessoas que ainda tinham que viver e pregar a mensagem sob as velhas condições deste mundo de transitoriedade e morte” (Braaten; Jenson, 2002, p. 535). A sequência do trecho de João 14.1-12 pode ser assim entendida: Jesus vai para o Pai, para lá preparar morada para os seus seguidores (v. 1-4). O caminho para essa morada é o próprio Jesus (v. 5-7) e nele é possível encontrar o próprio Deus (v. 8-11). Uma aproximação despretensiosa ao texto permite observar que: v. 1: Jesus conhece o que se passa no coração de seus discípulos, por isso os consola e exorta para a fé, com o imperativo “crede”. v. 2: Jesus assegura aos seus seguidores que conhece qual é o melhor lugar para eles estarem: debaixo do mesmo “teto” de Deus. Ele vai adiante para preparar esse lugar. O teólogo Karl Barth designou a ascensão de Jesus como “o regresso ao lar do Filho que tinha viajado a um país distante, um regresso à casa do Pai” (Braaten; Jenson, 2002, p. 536). A expressão “muitas moradas” e “vou preparar-vos lugar” também será trazida pelo apóstolo Paulo, de forma semelhante, como em 2 Coríntios 5.8 “habitar com o Senhor”e em 1 Tessalonicenses 4.17 “estaremos para sempre com o Senhor”. v. 3: A expressão de Jesus “voltarei” aponta já para seu retorno, que é e será a conclusão do evento da ascensão. Esse evento “preparou o caminho para o tempo da Igreja, situado entre a ascensão de Cristo e seu retorno no fim do tempo” (Braaten; Jenson, 2002, p. 535ss).
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v. 4: Jesus pressupõe que os discípulos saibam o caminho, já que nada lhes ocultara durante o tempo em que andaram lado a lado. Lutero interpreta essa fala de Jesus como quem lhes diz: “Agora, visto que me conhecem, também conhecem o caminho e sabem tudo o que devem saber” (OSel 11,70). Mas a dúvida de Tomé, no v. 5, mostra que eles não detêm esse conhecimento e ainda estão com os olhos fixos nas coisas deste mundo, pensando num caminho terreno. v. 6: A afirmação tripla de Jesus “Eu sou” (ego eimi) deixa clara qual é a sua posição: ele é o caminho porque revela a verdade de Deus e, por meio disso, ele é e concede vida. No texto original grego, os substantivos caminho, verdade e vida estão todos precedidos pelo artigo definido, ou seja: Jesus não é um dos caminhos, mas sim o caminho; ele não é uma verdade, mas a verdade; ele não é uma opção de vida, mas a vida. A respeito de Jesus como caminho, Lutero impele a que “não se pense em um caminho ou em uma estrada onde se pisa e anda com os pés, mas entenda-se que se trata de um caminho onde se caminha com a fé que está no coração, que se apega tão somente a Cristo, o Senhor ” (OSel 11,75). Nos versos 7 a 11, a resposta de Jesus à pergunta de Filipe aponta para o relacionamento intrínseco e sem igual que existe entre ele, Jesus e o Pai. Quem vê e conhece um também vê e conhece o outro. O v. 12 deixa claro que a obra, a atuação de Jesus tem e terá continuidade por meio das pessoas que o seguem, sem se prender a um local ou a um tempo específico (Holze, 1977, p. 61). Braaten afirma que “a ascensão marcou o início de algo novo na história [...] A ausência de Cristo segundo a carne (kata sarka) abriu a possibilidade de uma nova forma de presença, segundo o Espírito (kata pneuma)”.
3 Meditação Um desafio para a pregação sobre João 14.1-12 por ocasião da Ascensão do Senhor é deixar claro que esta “não foi uma viagem espacial ou interplanetária. Céu é espaço, mas não o espaço sideral. Céu é o espaço ocupado por Deus. Onde Deus se faz presente e exerce o domínio, ali está o céu” (Voigt, 2014, p. 45). O evento da ascensão quer deixar claro para a comunidade (a daquele tempo e a de hoje) qual é a posição de Jesus. Ele coparticipa do poder de Deus Pai e da sua presença. Não está longe, mas perto; ele não foi embora, mas está presente. A pergunta pelo “céu” pode provocar as pessoas a saírem de um eventual caminho já trilhado e a indagarem: Onde fica o céu? O que significa “Pai nosso que estás nos céus”? Como experimentar o céu aqui e agora? O texto pode suscitar nos ouvintes sentimentos com os quais se identificam. A insegurança dos discípulos é plausível, como a de uma criança que se agarra à mãe quando tem que se separar, mesmo que seja por um breve tempo, e ela lhe diz: “Meu filho, desta vez não posso levá-lo comigo. Mas logo eu volto”. Possível também é a identificação com alguma situação pessoal de despedida. Uma pessoa de referência está indo embora, as demais ficam para trás, com seus medos e dúvidas: O que virá agora? Individual e comunitariamente, situações como essa não são raras. E então, como seguir adiante?
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A despedida de Jesus é diferente. Aqui, um fim é, ao mesmo tempo, um começo. Uma porta se fecha, mas outra se abre. Esse “ir embora” de Jesus acontece em benefício daquelas pessoas que ficam, mesmo que ainda não o compreendam. Elas recebem de Jesus a promessa de que a obra que foi iniciada terá continuidade e ficam com o desafio de esperar ativamente pela sua volta. Nesse sentido, o filósofo Mário Sérgio Cortella disse, numa entrevista a respeito do seu livro “Sobre a Esperança”, em 2013: “É urgente ter a prática da Esperança Ativa. Em outras palavras, aquela que vem do verbo esperançar e não do verbo esperar. Esperançar é ir atrás, é buscar, é persistir, enquanto que esperar é apenas aguardar, ficar na expectativa imóvel”. As falas de Jesus para que seus discípulos querem libertá-los do medo e capacitá-los para dar continuidade à obra, também hoje: “A ascensão inicia uma nova realidade para Jesus e um novo momento para as pessoas que o seguem. O que caracteriza esse momento não é a ausência de Jesus, mas o compromisso com o testemunho. Agora, os discípulos e as discípulas têm a tarefa de continuar a missão dele (Mateus 28.18-20). Esse compromisso permanece atual, assim como a presença de Cristo é uma realidade hoje. Enquanto vivia, Jesus estava limitado pelo seu corpo. A partir da ascensão, ele pode estar em todos os lugares. Experimentamos sua presença nos sacramentos, especialmente na Ceia do Senhor, nos encontros em seu nome [...] e em cada atitude de serviço e de amor ao próximo” (Voigt, 2014, p. 46). Cada pessoa crente sabe que está debaixo do mesmo céu que as demais e é chamada a “caminhar com os pés firmes neste chão”, pois “enquanto falta tanto pão não posso me acovardar,” conforme a canção Resistência, de Rodolfo G. Neto. A pessoa cristã sabe, pela fé, que já tem uma morada definitiva. Não precisa ter medo, pois Jesus está perto. Acima de tudo, ela pode ter esperança, pois Deus tem a última palavra. Assim, o céu pode ser entendido como “Deus, aquele que está e estará ao meu lado, onde quer que seja” (Holze, 1997, p. 60). Outro aspecto relevante a ser abordado é a falta de parâmetros do mundo atual, ou o reverso disso, o excesso de opções de caminhos que querem ser trilhados e verdades que querem ser cridas, cada qual querendo apontar o caminho mais fácil, rápido e agradável para se chegar a Deus. A pergunta pelo caminho para chegar a esse alvo já foi feita pelos discípulos, na figura de Tomé. Ele incorpora a pessoa que, nos dias de hoje, não sairia de casa sem um mapa ou um aplicativo de localização. E faz a pergunta mais importante de sua vida, que vale também para as pessoas de hoje: Como podemos saber o caminho que nos conduz com segurança até o alvo? Em resposta, ele não recebeu orientações complicadas, como as que dão as pessoas que querem o indicar o caminho aos perdidos numa cidade estranha e que as deixam ainda mais confusas. Jesus é certeiro ao dizer: Siga em frente! Eu sou o caminho!
4 Imagens para a prédica Como introdução à prédica, sugiro tematizar o labirinto como símbolo do caminho da vida. Pode ser a projeção ampliada da imagem de um labirinto. Em
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grupos menores, pode ser distribuída para cada pessoa a ilustração de um labirinto e uma caneta, desafiando-a, em alguns minutos, a traçar o caminho até o centro deste. Há modelos na internet. Uma sugestão de texto motivador: O labirinto remete à contemplação, à avaliação, ao planejamento do caminho da vida. Há aqueles desenhados no chão de alguma igreja ou um labirinto de plantas vivas. Há aqueles em que a pessoa segue até certo ponto e tem que retornar porque a passagem está bloqueada – é hora de rever decisões. Há também o caminho que leva a um alvo certo, sem obstáculos; basta perseverança para seguir em frente, mesmo sem ter a chegada diante dos olhos. Ao percorrer o caminho do início ao fim, com paciência, lembre-se de seu caminho da vida, das voltas e reviravoltas, das curvas suaves, tranquilas e acentuadas. No caminho da vida, tenha a certeza de que não está só. Há pessoas que caminham ao seu lado e, acima de tudo, há a companhia de Deus, em Jesus Cristo, que traz ânimo pela força do Espírito Santo. Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, o alvo e o próprio caminho. A pergunta pelo caminho para chegar a esse alvo já foi feita por seus discípulos (aqui pode seguir a leitura do texto). O labirinto quer ser um incentivo e um convite para cada pessoa trilhar seu caminho, em alegrias e em dificuldades, em linhas retas ou curvas. Mas não sozinha e, sim, sabendo que Deus a conduz e, em Cristo, é o próprio caminho (aqui caberia resgatar, ainda que brevemente, o significado da palavra sínodo – “caminhar juntos”). A certeza de que alcançaremos nosso alvo último nos motiva a continuar andando, lado a lado.
5 Subsídios litúrgicos Saudação inicial: O labirinto é um símbolo antigo e remete à contemplação e ao planejamento do caminho da vida. Há labirintos em que se segue até certo ponto e pode ser que se tenha que retornar, porque a passagem está bloqueada – é hora de rever decisões. Há também aquele que leva a um alvo certo, basta perseverança para seguir em frente, mesmo sem ter a chegada diante dos olhos. Quantas vezes somos confrontados com dificuldades em nossa vida privada, na família, no trabalho e também em comunidade! Aí surgem perguntas: quanto ainda vou ter que caminhar? É o caminho certo? Quanta força ainda tenho? No início não era melhor? Mas seguimos adiante. Mesmo que a vida seja por vezes permeada por dúvidas ou medo da solidão, um labirinto quer ser um incentivo para trilharmos o caminho. Mas não sozinhos, e sim sabendo que Deus nos conduz e que ele, em Jesus Cristo, é o próprio caminho. Junto conosco andam outras pessoas. Jesus diz: Segue em frente, um passo após o outro! Eu estou contigo e, mais que isso, eu sou o caminho! Oração: Senhor, nosso Deus: Jesus nos assegura que não estamos sozinhos, mesmo quando a vida se assemelha a um labirinto no qual não vemos o centro. Cristo é o caminho. Nós cremos que tu és o centro de toda a vida e, por isso, pedimos: Fortalece nossa fé quando duvidamos, dá-nos um coração aberto para ti e para quem caminha conosco. Anima-nos a ser pessoas dispostas a indicar e a ser caminho, a exemplo de Cristo, em nome do qual oramos. Amém.
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Bênção: Vamos em frente, passo a passo, com a bênção de Deus. Que ele te guarde e te mantenha firme na fé e no caminho que leva à vida eterna. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia BRAATEN, Carl E. e JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2002. v. 1. HOLZE, Henry. Johannes 14, 1-12: Der Himmel ist offen. In: KRUSCHE, Peter et alii. Predigtstudien zur Perikopenreihe V. Stuttgart; Berlin: Kreuz, 1977. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2010. v. 11. [OSel]. VOIGT, Emilio. Quem somos nós? Princípios da Fé Cristã e da Confessionalidade Luterana. São Leopoldo: Sinodal, 2014.
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PRÉDICA: 1 JOÃO 5.9-13 SALMO 1 JOÃO 17.1a,6-19
7º DOMINGO DA PÁSCOA
13 MAIO 2018
(DIA DAS MÃES) Anelise Lengler Abentroth
1 Introdução “Mãe! Como posso ter certeza de que tu és minha mãe?” Talvez, algum dia, um filho ou uma filha fez essa pergunta. Imaginemos as respostas possíveis... O texto indicado para a pregação neste domingo (quando pelo calendário civil comemoramos o Dia das Mães) nos faz ver que temos vida e vida eterna porque cremos em Cristo, no Filho de Deus. Somos feitos filhos e filhas de Deus. Ele nos deu a vida eterna e essa vida é nossa por meio do seu Filho. Podemos crer nisso de todo o coração! Pois quem tem o Filho tem a vida. O Salmo 1 tem como acento o ensinamento. Na oposição de dois caminhos, aponta para a lei dada às pessoas para a sua felicidade (Sl 19.8-15; 119). A escolha por um deles trará consequências no julgamento (v. 5). Segundo o texto massorético, esse julgamento tem sentido escatológico, mas, segundo a tradição grega, é algum julgamento de Deus nesta vida. A tradição judaica e cristã compreende esse salmo numa perspectiva messiânica e escatológica. Haverá um julgamento final de Deus. Nesse momento, será feita a purificação da comunidade e ficará claro quem serão os abençoados e os condenados. Lutero (OSel 8, 361) entende que o Salmo 1 não só repreende os ímpios e pecadores, já que todas as pessoas são pecadoras, mas repreende especialmente aqueles e aquelas que pecam duplamente, pois sendo ímpios, não reconhecem Cristo e andam no conselho e no caminho dos pecadores. Desta forma, querem aparentar ser justos e santos através de uma piedade de fachada. Por outro lado, felizes serão aquelas pessoas a quem Deus conhece. Pois o conhecimento de Deus não tem a ver somente com tomar conhecimento da existência, mas sim com o estar próximo de forma amorosa. Portanto aquelas pessoas são abençoadas porque Deus as sustenta e as nutre como faz com a seiva da árvore plantada junto ao rio. Ela não seca. E por receber essa seiva, vai poder encontrar sentido no seu viver, dando frutos que saciam a quem precisa. No Evangelho de João, Jesus diz que foi enviado para revelar o nome de Deus às pessoas amadas e acolhidas por ele (Jo 17.6,25). Em Jesus, Deus revela o seu nome na sua vida, morte e ressurreição. Quem vê Jesus, vê o Pai (14.9). Jesus se autodenomina EU SOU, assim como Deus fez a Moisés no Egito: Eu sou quem sou (Êx 3.14). É o nome pelo qual Deus se revela como aquele que age na história, que desce, que se compadece com quem sofre, que liberta as pessoas escravizadas, que cura doentes e endemoninhados, que salva as pessoas perdidas em suas amarras, preconceitos, caminhos errados, que dá vida, vida em abundância e eterna.
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7º Domingo da Páscoa
O tempo litúrgico nos coloca no final do tempo pascal, com o discurso de despedida de Jesus junto aos seus amados e amadas. Ele vai para junto de Deus, mas quer preparar os seus para a missão. Há muito o que fazer aqui e agora.
2 Exegese O texto de pregação proposto é um epílogo da Primeira Carta de João. O v. 13 traz uma conclusão sobre o porquê da carta. Ele afirma a veracidade do testemunho sobre o Filho de Deus (v. 9). E isso não é dado por argumentos racionais ou humanos, mas é colocado no coração humano pelo próprio Deus (v. 10). O autor desenvolve com ênfase o testemunho cristológico: Cristo é o Filho de Deus que se tornou carne (4.2s), morreu pelos nossos pecados e é o salvador do mundo (4.14). Esse é o motivo, o centro da fé. Assim como Deus nos deu a vida e vida eterna por meio da fé em Cristo, assim a vida precisa ser partilhada, espalhada e cuidada no mundo. Destacam-se dois temas: a exortação ao amor fraterno como consequência do andar na luz em comunhão com Deus; e o rechaço aos hereges, especialmente gnósticos. Não se trata de um tratado religioso, “antes é um escrito exortativo enviado às comunidades que precisam ser advertidas do perigo de uma heresia e instadas à fidelidade aos mandamentos” (Lohse, 1972, p. 198). O autor faz graves acusações aos hereges: sua ética é condenável e sua cristologia errada. Na passagem do primeiro para o segundo século, Cerinto defendia na Ásia Menor uma cristologia docética. Nela, Jesus não teria nascido da virgem, mas seria filho de José e Maria. Ele seria apenas mais sábio e justo que as demais pessoas. No batismo de Jesus, Cristo teria descido em forma de pomba sobre ele. Esse sim, veio daquele que tudo governa. Por isto teria proclamado o Pai desconhecido, feito milagres e prodígios e, no final, Cristo teria se separado de Jesus para que este pudesse morrer na cruz. Assim, como ente espiritual, Cristo teria permanecido sem sofrimento. Os gnósticos não levavam a sério a corporalidade, não observam os mandamentos e, portanto, crer em Cristo não tinha consequências para sua conduta ética ou para sua práxis. Na visão do autor da carta, não há como separar a prática do amor ao próximo da fé em Deus, assim como não é possível separar a pessoa de Cristo de Deus. Quem conhece e crê em Cristo vive a partir desse amor e tem a vida verdadeira. Conforme Kummel, para João ou o autor da carta, a fé em Deus coincide com a fé em Cristo, porque em Cristo Deus vem ao nosso encontro. E o testemunho que Cristo dá no seu viver, morrer e ressuscitar é que Deus nos deu a vida eterna e essa vida é nossa por meio do seu Filho (1Jo 5.11). Em outra tradução é dito: e esta vida está no seu Filho (Almeida Revisada e Atualizada). Chama a atenção que João indica a fé como o caminho para ter a vida eterna. Porém, o uso da palavra fé aparece apenas uma vez, em 1 João 5.4. É o verbo crer que é usado repetidas vezes. Isso nos mostra que fé não é algo que se possa ter como posse ou acumular, mas revela uma atitude, um comprometimento em seu ser e fazer. Aqui não estamos falando em conteúdo de fé ou na concordância
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desse, mas em aceitação da palavra de Deus, testemunhada em Cristo, em dar crédito a ela e viver envolto, amparado, dirigido por ela. E isso é obra de Deus imputada em nossos corações. Se não acreditamos no testemunho que Deus dá em Cristo, fazemos de Deus um mentiroso. Mas quem dá crédito, confia e vive a partir de Cristo tem a vida, e vida eterna. Por que essas palavras são tão importantes a ponto de serem colocadas no desfecho da carta? Talvez o texto do Evangelho de João nos dê uma pista em 17.11-13. Aqueles e aquelas que Deus dá a conhecer a Cristo e creem nele conhecem a verdade da unidade do Pai e do Filho. E assim como eles são um, os seus são um também. Viver a partir dessa graça nos traz plena alegria, nos consagra para um viver diferente do que o mundo e suas estruturas de engano e morte induzem, e nos dá a paz que Cristo nos dá. Para as comunidades existentes na virada do primeiro para o segundo século, essa carta traz alento e força porque a fé nos faz ter a certeza de que Deus age e está presente em nossos dramas, assim como Cristo esteve junto aos seus. Sua presença trouxe vida, não somente após a ressurreição, mas para todas as pessoas que o buscaram, pois estavam sofrendo com as mazelas do mundo. É característico em João que o mundo tenha uma conotação negativa, pois assim é designado tudo que se opõe ao poder e ao amor de Deus. A libertação do mundo não significa se isolar do mundo, como os ascetas, mas a libertação do poder coercitivo e nocivo das estruturas que geram injustiça, segregação, violência e morte. Libertação do mundo é mudança de senhorio possível já aqui, mas totalmente na eternidade. Percebe-se que as afirmações a respeito da libertação frente ao mundo são, de fato, genéricas. O autor não descreve concretamente como se dá essa vitória. Isso demonstra que seu interesse não está na especulação do como será essa vida eterna. Mas ele quer falar de uma realidade concreta, onde impera sofrimento e dúvidas. Este é o motivo, o centro da fé: assim como Deus nos deu a vida e vida eterna por meio da fé em Cristo, assim a vida precisa ser partilhada, espalhada e cuidada no mundo. Podemos perceber que a intenção do autor não é trazer uma esperança de vida plena apenas para o futuro, para a eternidade. Ele afirma que quem tem o Filho tem a vida e vida em abundância. Que efeito essas palavras tem para aqueles e aquelas que creem e que estão cheios de dúvidas por causa do sofrimento diário?
3 Meditação O tema da vida eterna tem inquietado pessoas ao longo do tempo. Assim como aquela criança tinha dúvidas quanto à sua filiação e tudo que daí poderia decorrer, assim pessoas sofrem da angústia de não se saberem amadas e aceitas por Deus e, portanto, têm dúvidas sobre a vida eterna, especialmente quando essa está relacionada às suas escolhas, caminhos e atitudes. Em nossas comunidades, a interpretação do Salmo 1 muitas vezes acontece de forma dualista: aqueles que se afastam das pessoas não cristãs e procuram viver uma vida piedosa, de oração e encontros comunitários, deixando para os demais as demandas sociais, políticas e econômicas do presente. Não raras vezes,
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ainda há quem nomine os salvos e os não salvos. Porém, encontramos entre aqueles que se autodenominam de “salvos” muitas dúvidas sobre a sua salvação, pois, por mais que orem, estudem, participem, não conseguem ser santos ou perfeitos. Então a ideia do juízo da lei os atormenta. Também a leitura do Evangelho de João, quando feita de forma literal, pode trazer uma conotação dualista. O mundo seria o que diz respeito à carne, às coisas materiais, à política, ao econômico. E, assim, aqueles e aquelas que aceitam o testemunho de Deus em Cristo não deveriam se envolver com essas coisas do mundo, pois há muito pecado, muita corrupção, ganância e maldades. Interpretar os textos dessa forma não faz jus ao testemunho de fé dessas comunidades primitivas, já que o que se percebe é justamente o contrário. Eles foram redigidos para que as comunidades soubessem que estavam sobre o senhorio de Deus, que venceu o mundo por meio do seu filho Jesus, que sofreu as mazelas do mundo, mas ressuscitou. Por meio de Cristo Deus nos dá a vida e a vida eterna. Aqueles e aquelas que guardam as palavras de Cristo, que acolhem e reconhecem essas palavras, fazem parte da unidade que Pai e Filho têm. São pessoas santificadas na verdade. Estão no mundo, mas não são dominados por ele. São tornadas santas pela fé e, assim, passam a viver revelando que é possível ter alegria e paz, mesmo diante de tantos sinais de morte e sofrimento que o mundo produz. Como tornar essas palavras possíveis para aquietar corações e mentes que sofrem com dúvidas sobre a filiação divina e a vida eterna? Poderíamos nos perguntar: Como sabemos que somos filhos e filhas de nossa mãe? Você lembra que saiu dela? Quantas crianças ainda se perguntam se são realmente filhos e filhas de seu pai e de sua mãe? Por que isso gera dúvidas e angústias se são cuidados, amados, ensinados? Lembro que para mim foi essencial ouvir de minha mãe: “Não importa o que tu fazes, se eu gosto ou não gosto, se acho certo ou não, se me fazes sofrer ou me dás alegria, tu sempre serás minha filha!”. Amor incondicional, amor que vem primeiro, amor que não é negócio. É gratuito, é grande, é espontâneo. Ser alcançada por esse amor é experimentar tudo aquilo que precisamos para viver, crescer, fazer nossas experiências, errar, acertar, amadurecer. E se como pessoas conseguimos compreender e aceitar essa filiação, então por que não conseguimos aceitar e admitir o amor de Deus por nós? É preciso crer sem provas, somente pelo testemunho que Deus dá acerca do seu Filho. Mas quando cremos, então não há mais por que duvidar ou sofrer a angústia. Agora é possível viver dessa certeza e fazer tudo aquilo que temos como possibilidade para que a vida seja plena em nosso tempo, onde estamos. Lutero escreve acerca de 1 João 5.13: “João diz que todas as nossas doutrinas e exortações visam persuadir nossa consciência de que temos um meio certo de conhecer a vida eterna. Pois nosso coração é estreito demais para poder entender e compreender essas dádivas de Deus, a não ser que seja continuamente admoestado e exercitado, pois nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam (1Co 2.9). Quase não entendemos estas coisas terrenas e transitórias, muito menos as coisas celestiais! Por isso o Espírito nos foi dado para que saibamos quão
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grandes coisas nos foram presenteadas por Deus. Mas nada contribui tanto para a compreensão destas coisas quanto uma prática assídua e a cruz” (OSel 11, 540).
4 Imagens para a prédica Sugiro usar a pergunta inicial da criança que tem dúvidas quanto à sua filiação. Como ela vai saber que é realmente filha? Pelo testemunho da mãe, do pai, dos seus padrinhos e madrinhas. É preciso que ela acredite nas palavras, que ela aceite como verdade esse testemunho. Mas o que mais pode ajudá-la são as suas experiências vividas com essa mãe: do seu cuidado, do seu carinho, das suas palavras, das suas broncas, das suas exigências e orientações. Pode-se comparar com a filiação que nos foi dada por Deus e o seu amor revelado em Cristo. Somos seus filhos e suas filhas. Pela fé temos a vida eterna. Mas isso não é motivo para uma vida egoísta, alheia a tudo que acontece. Ao contrário! É justamente por nos tornar santos e santas que Deus espera nosso comprometimento com a vida de todas as pessoas e da sua boa criação. A única forma de agradar a Deus é amando e fazendo o bem ao próximo. Assim como as mães se enchem de alegria quando veem seus filhos e filhas fazendo a diferença neste mundo que vira as costas para Deus.
5 Subsídios litúrgicos Credo
Creio no Espírito Santo, que, junto com o Pai e o Filho, é verdadeiramente Deus e procede do Pai e do Filho desde a eternidade. Sendo, no entanto, uma pessoa distinta em uma essência e natureza divina. Através dele, qual dádiva viva, eterna e divina, todos os crentes são agraciados com a fé e outros dons espirituais, são ressuscitados dos mortos, libertados do pecado, e feitos alegres e consolados, livres e tranquilos de consciência. Pois esta é a nossa força: que sentimos em nosso coração esse testemunho do Espírito, que Deus quer ser nosso Pai (Mãe), perdoar nossos pecados e conceder vida eterna. (Martim Lutero – OSel 4, 371) Bênção Antes mesmo de procurarmos a Deus, ele se revela a nós em Jesus. Antes de invocarmos o seu nome, ele nos chama pelo nosso nome. Antes mesmo de nos achegarmos a ele, Deus nos envolve com sua luz. Coloquemo-nos sob sua proteção nas palavras: Que Deus nos conceda olhos abertos para reconhecer a sua glória; Ouvidos abertos para escutar e acolher a sua palavra; Corações abertos para confiar e esperar nele; Pés e mãos dispostos a amar e servir, Pois é ele quem nos salva, está sempre cuidando de nós. Ele nos dá a vida e vida eterna.
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Bibliografia KUMMEL, Werner Georg. Síntese Teológica do Novo Testamento. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1979. LOHSE, Eduardo. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2003. v. 8. [OSel]. _______. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2010. v. 11. [OSel]. _______. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1993. v. 4. [OSel]. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco; LOPES, Mercedes. Raio-X da Vida. Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de João. São Leopoldo: CEBI, 2000.
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PRÉDICA: JOÃO 15.26-27; 16.4-15 SALMO 104.24-34,35b ROMANOS 8.22-27
DOMINGO DE PENTECOSTES
20 MAIO 2018
Eloir Enio Weber
Pentecostes – festa para toda a criação que geme
1 Introdução Pentecostes é a festa de Deus com a sua igreja, a demonstração do amor incondicional de Deus para com a humanidade e a criação como um todo. Para Deus, não bastou vir em forma humana, morrer, ressuscitar em Jesus Cristo. Deus vai além, ele envia o Espírito Santo, o Consolador (Auxiliador na NTLH). Ele se faz presente na história humana e em nós faz morada pelo Espírito Santo, que mantém a chama da fé acesa e aquece a nossa vida no corpo de Cristo, a igreja. A composição dos textos bíblicos é bem interessante para celebrar Pentecostes. O texto de Romanos 8.22-27 destaca o gemido, o clamor, as “dores de parto” que ainda afligem a humanidade e o universo todo. Coloca a ação libertadora e consoladora do Espírito Santo, que intercede e nos auxilia a orar quando estamos fracos e desanimados demais para fazê-lo. Pentecostes, nesse contexto, é luta por libertação, é o agir de Deus para que saiamos da escravidão e do jugo que pesam sobre a criação (universo, na NTLH). O Salmo 104.24-34,35b nos auxilia na contextualização do que significa criação (ou universo). Ressalta que todos somos criaturas de Deus e que dependemos dele para termos o alimento necessário e a manutenção da vida. Coloca o ser humano como parte da criação de Deus. Dá-nos a dimensão de que Pentecostes é a festa para toda a criação. O texto do evangelho mantém uma relação bonita da Páscoa com Pentecostes. O Tríduo Pascal ganha um significado diferente com a vinda do Espírito Santo, com o Batismo e a junção do primeiro núcleo da igreja cristã (At 2). O Tríduo Pascal tem sentido por si só – ali está o cerne da fé cristã –, mas a dimensão como o percebemos e a forma como ele chega a nós têm uma percepção diferente ao relacioná-lo com Pentecostes. Dá uma noção de continuidade, de esperança, apesar dos gemidos ainda estarem fortemente audíveis em nosso meio.
2 Exegese O texto de João 15.26-27; 16.4-15 está dentro de um contexto maior. Trata-se de um recorte da narrativa da última ceia de Jesus com seus discípulos. Depois da ceia, Jesus toma um grande tempo, no Evangelho de João, com o discurso (diálogo) de despedida. Aliás, o Evangelho de João, pela sua origem tardia, é diferente em relação aos três primeiros: concede pesos diferentes aos diversos momentos narrativos da vida de Jesus. Reserva, por exemplo, grande espaço para
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o Tríduo Pascal. Não traz a narrativa de nenhuma parábola; em contrapartida, nos outros evangelhos encontramos cerca de quarenta. Os sinais (sēmeion) têm um valor teológico grande em João, bem como as afirmações prefixadas com “Eu sou” (egō eimi). Por uma questão pedagógica, sugiro fazer um recorte da perícope em quatro partes: a) o Espírito Santo, Consolador – 15.26-27; b) o vínculo da Páscoa com Pentecostes – 16.4-11; c) a revelação não completa da verdade – 16.12-14; d) unidade na Trindade – 16.15. É óbvio que uma análise profunda concede mais temas latentes ou uma divisão diferente. Mas nesse texto, pela limitação de espaço, vamos nos manter na estrutura sugerida. a) Nesse bloco, Jesus retoma o que já havia sido tema no capítulo anterior, também no contexto da última ceia – 14.15ss –, quando ele prometeu a vinda do Espírito Santo. Jesus fala do Espírito Santo como o Consolador (Auxiliador na NTLH). O termo original parakletos pode ser traduzido como ajudador, intercessor, advogado. O verbo parakaleō significa “chamar para o lado”, rogar, exortar, consolar, confortar, encorajar. Além disso, Jesus o designa de “Espírito da Verdade” (pneuma tēs alētheias). Em relação a essa denominação, Lutero escreveu: “O Espírito Santo não é só um consolador que torna os cristãos confiantes e corajosos diante de qualquer terror, mas também é um Espírito da verdade, ou seja, é um Espírito verdadeiro e confiável, que não te engana ou abandona. Pois também faz parte de um caráter cristão tornar-se ousado e intrépido” (OSel 11, 153). O Espírito Santo é enviado da parte de Deus a fim de testemunhar a respeito de Cristo. Esse testemunho do Espírito Santo é a prefiguração da missão que os discípulos, as pessoas cristãs e a igreja precisam assumir. b) Jesus inicia este bloco com um alerta para que os discípulos rememorem o que ele havia alertado diversas vezes: a necessidade da sua morte. Jesus tem como propósito, no discurso de despedida, preparar os discípulos para a Sexta-Feira da Paixão e, na sequência, para a árdua missão de levar o evangelho para o mundo. Jesus relaciona a Páscoa com Pentecostes na medida em que fala da necessidade da sua morte para que ocorra o envio do Espírito Santo. Percebo uma bonita intencionalidade em pregar, no dia de Pentecostes, a partir de um texto que narra um episódio do Tríduo Pascal. As datas têm um sentido em si mesmas, mas relacionadas ganham uma dimensão maior, mais profunda, próxima de nós, e na história cristã se solidificam em cada nova geração que recebe o presente do evangelho anunciado. O anúncio e a proximidade da morte de cruz trazem, aos discípulos (e ao próprio Jesus), o sentimento de tristeza no coração. Jesus procura preparar os discípulos para a crise que se abaterá sobre suas vidas quando ele for preso naquela noite. A morte de Jesus não será em vão e os discípulos não ficarão desamparados – essa é a promessa de Jesus – quando diz que, se ele não for o Consolador não virá, mas se for, ele enviará o Consolador. Celebramos a Páscoa porque antes já sofremos com a paixão de Cristo. Festejamos Pentecostes porque antes já nos alegramos com a ressurreição. Recebemos o evangelho porque antes o Espírito Santo foi enviado. Somos salvos porque antes Deus agiu em nosso favor e nos
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acolheu pela sua graça, mediante a fé que nos é concedida pelo ouvir da Palavra e a recepção dos sacramentos. O Espírito Santo vem para trazer conhecimento e discernimento em relação ao pecado, à justiça e ao juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado (v. 10-11). c) Este bloco inicia com a fala de Jesus de que nem toda a revelação foi dada. O Espírito da verdade ensinará a verdade. Wilbert Howard diz: “Nos seus discursos de despedida, o Senhor Jesus fala da franqueza que ele havia demonstrado para com os seus amigos diletos, mostrando-lhes tudo quanto ouvira da parte de Deus Pai. No entanto, a imaturidade espiritual deles deixa-os incapazes para aprender imediatamente muito do que Jesus ainda tinha em reserva para eles. Essa forma incompleta da revelação dada por Cristo, em sua encarnação, teria prosseguimento através do ministério do Espírito da Verdade, até que pudessem receber a revelação em sua plenitude”. d) O recorte do texto termina com um sumário resumido do entendimento, comunicação e indissolubilidade que há na Trindade. Só é possível sofrer com a paixão de Cristo, alegrar-se com a Páscoa e celebrar Pentecostes porque há um Deus Triúno, que se desdobra em amor e paga um alto preço para estar conosco e nos acompanhar, geração após geração, chamados e transformados pelo evangelho, que nos alcança pela ação do Espírito Santo.
3 Meditação “Quando não há mais esperança e tudo começa a acontecer ao contrário de nossas orações e nossos desejos, iniciam aqueles gemidos inexprimíveis. Então, o Espírito ‘nos assiste em nossa fraqueza’. Porque, sem a assistência do Espírito, nos seria impossível suportar essa forma que Deus usa para ouvir e atender nossas orações. Aqui se diz à alma: Coragem! Fique firme! Anime-se e espere pelo Senhor!” (Martim Lutero – Castelo Forte 11/05/2017). Escrevo o presente estudo em meados de maio de 2017, em meio a uma crise política histórica no Brasil. Há um ano a presidente da República, Dilma Rousseff, foi impedida de seguir no cargo, sendo que o lugar foi ocupado pelo vice-presidente, Michel Temer. Há dois dias (hoje é 19/05/17), veio a público uma delação premiada que traz gravações comprometedoras em relação ao ocupante temporário do cargo máximo da República. Nas gravações, o presidente da República autoriza e avaliza um empresário a seguir comprando o silêncio de um deputado cassado, preso pela operação Lava Jato. Estamos em meio a uma crise sem precedentes. Daqui a exatamente um ano (20/05) será tema de pregação, no dia Pentecostes, o texto em questão. Até lá saberemos como foi o desenrolar das investigações – espero. Será, ao lado disso, se tudo continuar conforme está em princípio estabelecido, ano de eleições. Em maio algumas movimentações sobre possíveis candidatos já são percebidas e são tema de discussão. Ninguém no Brasil, hoje, tem certeza de nada sobre o futuro político da nação. Na noite em que Jesus esteve com
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os discípulos para celebrar o jantar de despedida, no qual ele tomou o pão e depois o vinho, dizendo, respectivamente, serem o seu corpo e o seu sangue, era uma noite de incertezas. Em meio às incertezas Jesus anunciou, ainda sentado à mesa com os discípulos, a necessidade da crise, da dor e da tristeza provocadas com a sua morte, a alegria da ressurreição e a vinda do Consolador, o Espírito da Verdade. O Espírito da Verdade precisa ser anunciado em nosso meio. Clamamos por “verdade verdadeira”. Dores de parto e gemidos são sentidos e ouvidos por todos os lados. No Brasil atual, ninguém mais sabe em quem acreditar. Não existe mais o lado da verdade. Parece que há, sim, um jogo de esconde-esconde, no qual o povo tateia na escuridão para procurar e encontrar o lugar no qual pode bater e anunciar: “um, dois, três, estou salvo”. O problema é que parece que esse lugar não existe, ou pelo menos está bem difícil de encontrá-lo. O Espírito da Verdade precisa continuar sendo o sinal de Deus, a presença divina, no anúncio do evangelho e na denúncia profética. Aliás, como ser profeta em uma sociedade na qual tudo é classificado como partidarista, bolivariano, mortadela... A coragem deve vir do Espírito da Verdade. O parakletos (advocatus em latim) é aquele que intercede em nosso favor, como um defensor numa corte – o advogado. Neste país, no qual nem na justiça nem em nobres juízes se pode confiar, precisamos de um advocatus que nos assista em nossas fraquezas e incertezas. Por isso a mensagem de Pentecostes é atual e necessária. O Espírito de Deus santifica diariamente a nossa vida e o nosso agir na fé. Santificar significa exatamente conduzir ao Senhor Jesus Cristo, que nos salva. O Espírito Santo faz nascer, conserva e vivifica a nossa fé, por meio da Palavra e dos sacramentos. Sem ele não chegaríamos a crer, pois sempre de novo falhamos e caímos em pecado: O Espírito nos assiste em nossa fraqueza (Rm 8.26). Da mesma forma, ele sopra onde, quando, como e por quem lhe aprouver, pois é livre e nunca poderá ser manipulado por nenhuma força humana. O Espírito Santo é realmente o Deus presente para nós: [...] nos deu o penhor do Espírito em nossos corações (2Co 1.22). O Espírito Santo transfere Jesus Cristo da história distante e da sua elevação celeste para dentro de nossa vida concreta. Jesus Cristo se torna para nós uma realidade viva e salvadora. O Espírito Santo fundamenta, portanto, a nossa relação pessoal e comunitária de fé com Cristo. A pregação do evangelho em Palavra e sacramentos é obra do Espírito Santo na igreja, pois é ele, em seu agir criativo, que torna presente e vivifica na palavra externa a palavra de Deus propriamente dita, a saber, Cristo. É o Espírito Santo que sustenta a Palavra e os sacramentos. Na sua relação com os meios da graça, a igreja depende da presença e da ação do Espírito Santo. Pois ele cria, vivifica e congrega a igreja (At 2). A unidade da igreja, em torno da Palavra e dos sacramentos, em seguimento a Jesus Cristo é obra exclusiva do Espírito Santo (1Co 12.13). O Espírito Santo dá coragem, clareza e discernimento para a igreja. Jesus soprou sobre a comunidade de discípulos o seu Espírito (Jo 20.22). Portanto é o Espírito Santo quem encorajou aquele amedrontado grupo de discípulos a sair do gueto (Jo 20.19) e proclamar a boa nova, a novidade de vida que Cristo trouxe (At 2). Pois o Espírito Santo produz frutos na vida das pessoas: amor, alegria,
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paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gl 5.22-23).
4 Imagens para a prédica Penso que o conjunto de textos nos dá uma direção bem sinalizada para a celebração. Em uma sociedade que geme, a voz profética que é concedida à igreja, pelo Espírito Santo (Consolador, Verdade), precisa reverberar nos corações e chamar para a consciência e ação. Lembro que há uma bonita coincidência no dia 20 de maio de 2018 – Pentecostes. Nesse dia, no ano de 1886, foi criado o Sínodo Riograndense (1886 – 2018 = 132 anos). Naquele contexto, as comunidades viviam isoladas. Com o objetivo de criar uma unidade e servir de suporte para as comunidades, por iniciativa do pastor Wilhelm Rotermund, foi criado o Sínodo Riograndense. Essa foi a primeira tentativa exitosa na caminhada para criar uma igreja de confissão luterana em solo brasileiro. Esse sínodo, junto com outros três que foram criados em diferentes regiões do Brasil, formou a Federação Sinodal em 1949, que, mais tarde, passou a ser a IECLB. Pela coincidência, penso que no dia de Pentecostes essa nossa origem precisa ser lembrada. Somos igreja que não iniciou na Reforma, mas cinquenta dias após a Páscoa de Cristo, em Jerusalém, com a vinda do Espírito Santo. Temos uma forma de nos relacionar com Deus, uma teologia que tem a cruz de Cristo como centro, uma história de fé de mulheres e de homens que, movidos pelo amor e a graça de Deus, edificaram a igreja em solo brasileiro. A logomarca da IECLB contém as colunas do Palácio da Alvorada. Isso nos mostra que a teologia precisa estar comprometida com a situação social e política do país.
5 Subsídios litúrgicos Essa celebração pede um Kyrie bem significativo e elaborado. O Consolador é o Deus que ouve o clamor, os gemidos e compreende as “dores de parto”. Sugiro que se faça uma projeção de fotos e manchetes de jornais (locais, nacionais e internacionais) da semana ou do mês (conforme exemplo). Ao final de todas as imagens e manchetes, a comunidade canta: “Pelas dores deste mundo, ó Senhor...” 1. A delação do empresário da JBS é escandalosa. 2. Rocha Loures entrega mala com R$ 500 mil na sede da PF em São Paulo. 3. Inglaterra – Explosão após show deixa ao menos 22 mortos. 4. Porto Alegre – Delegado busca imagem de câmera para identificar assassino de motociclista. 5. IBGE: total de desempregados cresce e atinge 14,2 milhões. 6. Pacientes sofrem com falta de leitos em hospitais da Capital. 7. O sucateamento da educação pública no Brasil.
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Domingo de Pentecostes
Bibliografia BROWN, Colin. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1981. v. 1: 1 – D. CHAPLIN, Russell Normann. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, 1983. v. 2: Lucas e João. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2010. v. 11. [OSel].
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PRÉDICA: ISAÍAS 6.1-13 JOÃO 3.1-17 ROMANOS 8.12-17
1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
27 JUN 2018
(TRINDADE)
Hans A. Trein
Profecia para corações engordurados
1 Introdução A visão de Isaías pode ter ocorrido dentro do átrio do templo em meio ao público presente, como um sonho diurno. “O profeta participa conscientemente da visão, olhando, confessando, ouvindo, dispondo-se, protestando” (Schwantes, 2008, p. 49). Recomendo acrescentar os v. 9-13, pois uma vocação sem uma tarefa histórica clara, por mais espetacular que seja, não faz sentido! De fato, a vocação não é algo que ocorre apenas em nossa alma e que nos engrandece e nos torna mais autoconfiantes. É compromisso público! A vocação de Isaías nos interpela: como é que nós recebemos a nossa vocação para o ministério e o que estamos fazendo com ela? A proposição deste domingo também pode ser entendida como de conversão seguida de uma missão. Isaías é convertido, antes de qualquer coisa. A impureza sentida por Isaías, nos textos neotestamentários previstos, aparece como a essência da carne em contraposição ao renascimento no Espírito. Nicodemos tem dificuldades em entender que nascer de novo é metanoia. Não viver segundo a carne, mas segundo o Espírito nos faz herdeiros e herdeiras de Deus junto com Cristo, de modo que podemos nos dirigir a Deus como Aba. As mensagens proféticas são históricas, sendo a palavra de Deus para aquele momento sem um valor atemporal. Entretanto, para nós não interessa apenas o que Isaías quis dizer em seu tempo, mas o que cabe dizer agora, para a nossa situação, à luz de Isaías. Manter a tradição é atualizá-la. É passar adiante brasas vivas e não apenas cinzas. Essa também é a nossa tarefa de pregação.
2 Exegese Nossa perícope está dividida em três partes: os v. 1-5 contêm o espetáculo da visão, contracenando com o emudecimento do profeta de lábios impuros; os v. 6-8 focam a purificação do profeta e preparam seu envio; os v. 9-13 contêm a tarefa profética e a resistência da classe dirigente de Jerusalém a ela. A visão/ purificação/audição/vocação/envio ocorre no átrio central do templo (os pinos do pórtico estremeceram, os serafins trazem a brasa com um utensílio [espevitadeira/tenaz], a sala se enche de fumaça), possivelmente até durante um culto. Diante da proximidade de Deus, o mundo estremece. Lembra o terremoto, o véu do templo na divisa entre o santo e o profano rasgando por ocasião da morte de
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1º Domingo após Pentecostes
Jesus (Mt 27.51s). O relato de Isaías 6.1-13 tem uma estrutura semelhante à de 1 Reis 22.19-28. A Assíria, por anos uma aliada, começa a insinuar-se como iminente invasora de Judá. A visão deve ser do ano 738 ou 736, data da morte de Uzias, que havia ilegalmente invadido o templo. Não é apenas uma data, é um começo com morte. “Foi um momento de crise; terminou um ‘século de ouro’ (veja 2Cr 26.1-15) e começou uma época de agitação e declínio” (Van de Kamp, 1987, p. 28). Isaías vê Javé como SENHOR, um rei em toda a sua majestade, enchendo o templo com seu manto (o templo terrestre não comporta mais do que as bainhas de sua vestimenta), a terra com sua glória/energia/carga/peso (do hebraico kabod) e a casa/templo com fumaça, possivelmente de um pequeno “altar do incenso de oferendas vegetais” (Schwantes, 2008, p. 62) que oportunamente se faziam nesse átrio. Uma teofania que se move da esfera divina para a esfera humana, do santo para o profano. A fumaça encobre a visão e a devolve à esfera do mistério. Toda a terra está cheia de energia salvífica. Mas ela não é para “este povo”! Em sua visão, Isaías participa de um conselho celestial, obtém conhecimento dos planos de Deus. Os serafins (do hebraico sarap/serapim, remonta às serpentes abrasadoras que mordiam o povo no deserto [Nm 21.6,8] e como verbo significa “queimar”. A serpente fazia parte dos símbolos do culto de Jerusalém, figuras cultuais pagãs integradas ao culto javista. Os serafins seriam, então, como no Egito, seres mistos com traços de gente [rosto, pés, mãos], de serpente [corpo] e de aves [asas]), provavelmente mais do que só dois (a formulação é plural e não dual), a Bíblia só fala neles em Isaías 6, “devem ser entendidos como divindades vencidas” (Schwantes, 2008, p. 55) que rodeiam o Senhor, os elohim, o exército dos céus estão em postura de serviço. Voam, cobrem os olhos (para não ver Deus) e as genitais (do hebraico réguel, cf. Êx 4.25 e Is 7.20) por causa da santidade de Javé e cantam o triplo santo – o máximo da santidade –, que representa sua exclusividade para Israel. Isaías utiliza muito “o Santo de Israel”. Ele é o outro, separado, totalmente apartado (do hebraico qadosh) do mundo pecaminoso. Embora a Trindade não fosse ainda um conceito de Deus, no tempo veterotestamentário a ideia de conselho é mais adequada; alguns a veem já embutida no triplo santo de Isaías 6. De qualquer forma, Deus é comunitário e não solitário. O “Santo, Santo, Santo” do culto terreno entra em sintonia com a liturgia celeste. Não deveríamos esquecer essa raiz ou substituí-la por qualquer inovação. Isaías se dá conta do “beco sem saída em que está metido” e emudece apavorado. “Quisera acompanhar os gritos de louvor dos serafins; porém, teve que ‘silenciar’ (!dmh) porque seus lábios eram úteis para o ‘grito de angústia’, contudo imprestáveis e ‘impuros’ para o louvor” (Schwantes, 2008, p. 61), como, aliás, são os nossos. E não só por causa de sua culpa individual, mas por causa da culpa coletiva. Ele vê o Santíssimo, sendo de lábios impuros, participante de um povo de lábios impuros, e tem consciência de que isso significa sua morte. Seu dilema é resolvido por um dos serafins que traz uma brasa viva do altar, toca os seus lábios, sana sua impureza e perdoa o seu pecado, consagra (torna santa, ou seja, elimina a diferença que o angustiava). Sua boca agora falará por Deus. A pergunta de Deus, em seguida, chama a atenção, por referir-se a si mesmo no
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plural: quem há de ir por nós? Nessas alturas, Isaías não tem escolha. Deus já o escolheu. Ele não é porta-voz do povo, mas mensageiro de Deus. Chama a atenção também que Deus não se refere a Israel como “meu povo”, mas a “este povo”, denotando distância. “Este povo” é a elite de Jerusalém que se regala, os dirigentes “que enchem de gordura os seus corações” (Schwantes, 2008, p. 34). E eles vão ouvir, mas não vão entender, vão ver e não perceber. E mais ainda: o próprio profeta é encarregado de tornar insensível o coração “deste povo”, embotar o coração que já estava empedernido, tornar ainda mais pesados os ouvidos, tapar ou colar ainda mais os olhos. A recepção neotestamentária da profecia de Isaías 6.9-10 é considerável (Mt 13.13-15; Mc 4.12; Lc 8.10; Jo 12.40). O apóstolo Paulo aplica-a aos judeus romanos, dos quais uma parte não aceitou sua pregação a respeito de Jesus Cristo (At 28.26-27) e que, por isso, a salvação de Deus foi enviada aos gentios (28). “Através de sua ação, o profeta torna ‘este povo’ incomunicável (olhos e ouvidos) e incapaz de pensar (coração – ‘órgão da compreensão entre semitas’” (Croatto, 1989, p. 60); “para o hebraico sede do ‘entendimento’ [não da emoção!]” (Schwantes, 2008, p. 40). Quando fica sabendo do que deve dizer e das consequências, o profeta grita desesperado: Até quando, Senhor? Até a desolação total. Os v. 11 e 12 confirmam que se trata dos governantes (“os homens” são os governantes e não “os habitantes” (Almeida) ou a população em geral, Schwantes, 2008, p. 41). A finalidade última dessa ação profética é que este povo não se converta e seja salvo (v. 10). Enquanto Isaías vê, ouve e dialoga com a esfera divina, a classe dirigente se fecha. Assim como no endurecimento de faraó reside a catástrofe do Egito, a incomunicabilidade e o endurecimento da classe dirigente têm consequências desoladoras. “Até que estejam desertas: as cidades sem governante, e as casas sem “chefe” e a roça está se desolando em deserto” (Schwantes, 2008, p. 34).
3 Meditação A tarefa profética é incômoda. Dá a impressão de que sua profecia é apenas confrontação improdutiva, pois “este povo” vai ouvir e não entender, ver e não perceber. O encargo de ainda potencializar o endurecimento do coração vai às raias do absurdo. Não se trata de sentimentos negativos, mas de resistência ao entendimento, por isso seu vínculo com ver e ouvir. Mais dura ainda é a conclusão: não suceda [...] que ele [este povo] se converta e consiga a cura. Então, por que ainda pregar? Quando o coração já está endurecido, a palavra profética serve para evidenciar o endurecimento. Para que não pareça apenas uma diferença de opinião. Lembra, de um lado, a atitude de Javé com Faraó e a missão de Moisés, para furar o seu bloqueio com as pragas do Egito, e lembra também de quando Jesus se refere ao porquê dele falar em parábolas (Mt 13.13-15; Mc 4.12; Lc 8.10; Jo 12.40). Enquanto escrevo este auxílio, estamos vivendo uma situação de desemprego em massa (14,2 milhões); de flexibilização profunda na legislação trabalhista
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em favor do capital; de uma reforma, talvez necessária, mas muito suspeita, por ser inoportuna e sem transparência, da previdência social; de rumores sobre uma reforma política de blindagem de políticos investigados; escancaramento do país ao investimento estrangeiro (terra, empresas, aviação, pré-sal, redes...) ou melhor seria dizer “a venda do país”, e perguntar: por ordem de quem?; de congelamento do orçamento da União por 20 anos, o que terá seus reflexos mais contundentes justamente nas políticas públicas de cunho social. Tudo isso vem acompanhado: a) de uma justiça descaradamente partidarizada; b) de um congresso com sua maioria envolvida em denúncias e investigações de corrupção; c) de uma mídia que não prima pelo jornalismo independente, mas atua corporativamente no interesse próprio, disseminando versões e pós-verdades; d) e de uma polarização rasa e odiosa nas assim chamadas redes sociais. Como louvar a Deus nessa situação? De ontem para hoje (18.05.17), mais uma delação com provas está implodindo o governo impostor e escancarando toda a quadrilha que vem, há anos, dilapidando o Estado. Estão absolutamente seguros de que vão permanecer no governo. Os que bateram panelas e vestiram verde-amarelo para destituir o governo anterior estão quietos. A população está cansada de ir para a rua, pois percebe as manipulações e observa que nada muda. A democracia está na UTI, arfando pesadamente e agonizando. O desvio de dinheiro público, a corrupção, as propinas não são delitos de cavalheiros que provocam sorrisos constrangidos; são crimes que têm consequências nefastas concretas. O povo não recebe mais atendimento de saúde. Um exemplo concreto: no Rio de Janeiro, do ex-governador corrupto Sérgio Cabral, uma mulher esperou mais de uma hora no táxi até que fosse liberada uma cadeira de rodas para levar sua mãe para dentro do hospital, sendo que esta estava tendo um AVC; lá dentro esperou mais horas para ser atendida, pois não tinha médico disponível. Bem comentou um jornalista: o governador responsável por essa calamidade não deve ser apenas julgado por roubo e desvio de dinheiro, mas por assassinato! Isso não é má gestão, é crime. E crimes têm consequências perversas. Agora, imagine o profeta Isaías criticando a classe dirigente encastelada no Estado. Não lhe parece óbvio que estão vendo e não percebem, estão ouvindo e não entendem, e que seu coração se endurece ainda mais, executivo, legislativo e judiciário, todos com os corações engordurados por salários indecentes, agarrando-se ao poder e ao seu exercício, cegos, surdos e endurecidos às críticas ou aos alerta do movimento social ou de agremiações e conselhos? Não parece óbvio que tudo isso resultará em desolação? Até quando, Senhor? Como a situação política, social e econômica mudou muito rapidamente nos últimos meses, cabe perguntar: como está agora, quando você se prepara para a pregação dominical? O desemprego diminuiu? As reformas passaram? O que estão provocando? Estão a serviço do capital e do funcionalismo público de salários indecentes ou das pessoas trabalhadoras, pensionistas, aposentadas, empobrecidas? Mudou alguma coisa no congresso, na justiça, na mídia? As eleições diretas estão garantidas? Quem são os candidatos? O que representam? Há alguma luz no fim do túnel, ou tudo está a indicar desolação contínua? Essa é a desolação do qual fala Isaías. Até quando, Senhor?
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Qual será o efeito a médio e longo prazo de toda essa indecência que grassa no meio político, jurídico e midiático de nosso país? A que cenário nos conduzirá a recusa de nossa classe dirigente em ver, ouvir e entender o que se passa no país? Certamente não seremos mais vítimas de uma deportação ou exílio para outro país. Mas não está fora da realidade pensar que nos tornaremos exilados no próprio país ou que a paciência popular possa chegar aos seus limites e desencadear um conflito civil. A despeito de sua mensagem profética e de crítica severa a “este povo” e ao reinado, o broto de esperança do toco, ao final, permanece. Javé não retira seu compromisso com todo o povo, por causa da iniquidade de uma geração. Quando a opressão tiver cessado, quando a devastação tiver terminado e os que espezinham a terra tiverem desaparecido, o trono será firmado sobre o amor e sobre ele, na tenda de Davi, se assentará um juiz fiel que buscará o direito e zelará pela justiça (16.4-5).
4 Imagens para a prédica Apenas o ato “sacramental” purificador de Isaías o dispõe para ser enviado e cria as condições para sua tarefa profética. Isaías não é um herói. Sua disposição é consequência da ação sacramental. Cabe a nós, ministros e ministras, resistir à idealização e à sublimação de qualquer experiência de vocação que possamos ter tido. Em primeiro lugar, cabe-nos descobrir a nossa pequenez e perdição em meio à nossa gente. Estamos integrados no pecado de nosso povo. Cabe-nos humildade, o que não significa carência de verdade. O texto fornece uma imagem fantástica. Descrevê-la em detalhes pode enriquecer a compreensão e impregnar a visão de Isaías na mente de ouvintes. A atualização da profecia de juízo deverá tomar a realidade do poder e de seus abusos em consideração. Nesse ponto, cabe uma análise da conjuntura política, econômica e social em oração, buscando ver e ouvir o que Deus à luz de Isaías 6 tem a dizer. Nossa tarefa é pregar o evangelho, a boa notícia, para uma comunidade cristã. Entretanto, o texto não permite maquiar a realidade, nem perfumar o que está apodrecido. O evangelho que temos a tarefa de pregar nunca o será, se estiver escamoteando ou encobrindo a realidade que necessita de uma palavra profética. O evangelho não anula o juízo de Deus, mas o cumpre. A verdade tem de ser dita. Queima e dói como uma brasa nos lábios. Flagrar-se do que está acontecendo também pode ser evangelho, na medida em que é o primeiro passo para uma transformação. O profeta fez a sua parte, nós vamos fazer a nossa parte. Deus faz a sua parte! Há que se tomar cuidado para não resvalar para algum partidarismo pífio. Nesse ponto, todo cuidado com a linguagem é decisivo.
5 Subsídios litúrgicos Hinos: Santo, Santo Santo – HPD 1, 125 (refere-se a Isaías 6), poderia ser o hino de entrada ou parte da liturgia da Eucaristia. Uma costura litúrgica é a comunidade entrando em sintonia com o coro celestial. Outro santo litúrgico breve para a
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Eucaristia encontra-se em HPD 2, 364: Antes que te formasses dentro do seio de tua mãe (refere-se a Jeremias). Salmo: Considerar a leitura em responsório do Salmo 29, previsto para este domingo. Kyrie: Compartilhar três questões que estão afligindo na economia/ecologia, na política, na sociedade e nas ideias. Até quando, Senhor? poderia ser o lamento em coro da comunidade, repetindo o desespero de Isaías. Confissão de pecados: Costumamos pensar os nossos pecados como carências morais, omissões ou falhas; de fato, não podemos negá-las, mas elas são criações culturais. Diante de Deus, porém, a nossa situação de pecado é muito mais grave. Estamos em pecado porque nossa relação com Deus está interrompida. Só diante de Deus estamos em condições de reconhecer a nossa verdadeira situação. Como pecadores não suportamos a proximidade de Deus. Não podemos falar de Deus com lábios impuros. Nosso pecado é não participar da política, pois se a deixarmos apenas para os eleitos, vamos colher o que está escancarado. Só uma sociedade organizada é capaz de garantir a continuidade da democracia. Temos que participar da comunidade, das reuniões de condomínio, de associações, de partidos políticos, envolver-nos quando vereadores convocam para reuniões periódicas com eleitores.
Bibliografia CROATTO, José Severino. Isaías – O profeta da justiça e da fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal, 1989. v. 1: 1-39. VAN DE KAMP, Peter W. O Profeta Isaías – comentário a Isaías 1-39. São Leopoldo: Sinodal, 1987. SCHWANTES, Milton. Da Vocação à Provocação – estudos e interpretações em Isaías 6-9 no contexto literário de Isaías 1-12. São Leopoldo: Oikos, 2008.
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PRÉDICA: MARCOS 2.23-3.6 DEUTERONÔMIO 5.12-15 2 CORÍNTIOS 4.5-12
2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
03 JUN 2018
Antonio Carlos Oliveira
Viva! Hoje é dia de descanso
1 Introdução A temática para este 2º Domingo após Pentecostes é o descanso. O povo judeu respeita o sábado como dia de descanso semanal. Nesse dia da semana é proibido fazer determinados trabalhos. É um dia destinado para as preces e a confraternização com a família e os hóspedes. Para as pessoas cristãs, o dia de descanso passou a ser o domingo, dia da semana em que ocorreu a ressurreição de Jesus. No entanto, alguns grupos dentro do cristianismo ainda guardam o sábado, como é o caso da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Em Deuteronômio 5.12-15 encontramos a ordem de Deus para guardar o sábado como dia de descanso. O texto é parte da perícope dos dez mandamentos, aqui repetida a partir do livro de Êxodo 20.8-11. O relato se refere à lei do sábado, que diz respeito não só às pessoas da família, mas também às pessoas escravas ou mesmo às estrangeiras, tanto homens como mulheres. O mandamento também inclui no descanso semanal os animais domésticos usados para o trabalho. No texto de 2 Coríntios 4.5-12, o apóstolo Paulo usa os potes de barro como exemplo para se referir à missão de anunciar o evangelho. O valor do tesouro não depende do pote onde está guardado. O evangelho de Jesus Cristo pode ser levado por pessoas simples, suscetíveis e fracas. O poder vem unicamente de Deus e não depende da eficácia humana. Deus, inclusive, é capaz de mostrar seu poder através daquilo que as pessoas consideram como mais frágil e insignificante.
2 Exegese Em vários textos Jesus questiona a lei do sábado, considerada fundamental para a religião judaica. No texto de Marcos 2.23-3.6, indicado para a prédica desta semana, Jesus rompe com essa lei e a redimensiona em dois momentos: em primeiro lugar, quando seus discípulos, num dia de sábado, colhem espigas no campo para se alimentar; em segundo lugar, quando, no mesmo sábado, Jesus cura a mão ressequida de um homem na sinagoga. O ensinamento de Jesus é que todo dia é dia de fazer o bem. Vamos caminhar com Jesus de uma plantação de trigo até uma sinagoga e entender melhor esse assunto. O termo grego paraporeuesthai, traduzido como “atravessar”, também pode significar “passar por”. Isso nos permite entender que Jesus e seus discípulos realizam uma viagem naquele dia e rompem ou estavam prestes a romper
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o sábado caminhando mais do que a lei permitia, nesse caso, aproximadamente 880 metros. Mas parece que esse detalhe passou despercebido aos espiões fariseus. Fato é que Jesus e seus discípulos seguem viagem e caminham por entre uma plantação de cereais (Mc 2.23). Os discípulos arrancam espigas, debulham os grãos com as mãos e comem, pois estão com fome. Jesus, ao que parece, não participa da singela refeição, pois o questionamento dos fariseus que espreitavam o grupo se dirige unicamente aos que seguiam Jesus. No entanto, Jesus não repreende os discípulos, sua resposta vai em defesa deles. A lei judaica permitia que pessoas necessitadas ou famintas colhessem algumas espigas e frutas que ficavam à margem dos caminhos para saciar a sua fome. Essa prática não era considerada crime nem roubo. Inclusive, recomendava-se que as pessoas, ao ceifarem seus campos, deixassem uma pequena parte da produção sem colher, para que esses alimentos ali deixados para trás pudessem saciar a fome das pessoas viajantes e carentes. O problema, nesse caso, não está na coleta desses grãos, mas no dia da semana em que isso acontece. O respeito pelo sábado como dia de descanso é uma das marcas do judaísmo. Segundo Adolf Pohl (1998): “A importância do sábado para os judeus daquela época pode ser percebida pelo simples fato de que a palavra retorna quase 60 vezes nos evangelhos. No AT a obrigação de santificar o sábado é confirmada mais que qualquer outro mandamento. O tratamento deste tema no judaísmo ofusca qualquer outro assunto. Junto com a circuncisão, o sábado é o sinal que une o povo de Deus disperso pelo mundo inteiro”. Na época de Jesus, a violação intencional da lei do sábado era considerada um crime, punido com a pena de morte. Havia uma lista extensa de atividades que não deveriam ser feitas nesse dia, entre elas, por exemplo, a colheita e o preparo de alimentos. Debulhar espigas era considerado como preparação de alimentos. Os fariseus espionam Jesus e seus discípulos e aproveitam qualquer oportunidade para questionar e criticar as ações e os ensinamentos de Jesus. Isso acontece em passagens anteriores: Jesus perdoa os pecados e cura um paralítico (Mc 2.6ss); Jesus e seus discípulos comem na casa de um cobrador de impostos e se sentam à mesa junto com outros pessoas de má fama (Mc 2.16ss); Jesus e seus discípulos não jejuam como os fariseus e os discípulos de João Batista (Mc 2.18ss). Na sequência do capítulo 2, lemos: Por que é que os seus discípulos estão fazendo uma coisa que a nossa lei proíbe fazer no sábado? (v. 24ss). Jesus responde citando uma passagem de 1 Samuel 21.2-7, em que o rei Davi e seus companheiros, por estarem famintos, entraram no santuário de Nob e comeram os pães consagrados. A máxima de Jesus (v. 27) cala momentaneamente os seus opositores: O sábado foi feito para servir as pessoas e não as pessoas para servirem o sábado. E com a frase seguinte (v. 28) Jesus afronta ainda mais seus interlocutores: Portanto, o filho do Homem tem autoridade até mesmo sobre o sábado. No v. 27, a preposição diá significa “por causa de”. Ela se refere à instrumentalização das pessoas em relação ao sábado. E revela quem detém maior importância na perspectiva de Jesus. Para os fariseus, a lei e o seu cumprimento eram o mais importante. As pessoas existiam para cumprir a lei. Para Jesus, as
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pessoas vêm em primeiro lugar, ou seja, as leis existem com o propósito de ajudar as pessoas, e não para escravizá-las. O texto continua ainda contando sobre os acontecimentos daquele sábado (Mc 3.1ss). Jesus vai para uma sinagoga, onde realiza a cura de homem com a mão ressequida (paralisada). Curar era considerado um trabalho proibido segundo a lei do sábado. Era permitido prestar socorro em caso de risco de morte ou evitar que um ferimento piorasse, mas não se podia fazer algo para a melhora do doente. O homem da mão ressequida não corria perigo, ele certamente poderia esperar mais um dia. Jesus apresenta a seguinte questão diante de seus perseguidores: O que é permitido fazer no sábado? O bem ou o mal? Salvar alguém da morte ou deixar morrer? (Mc 3.4). Nesse versículo o termo apokteinai fica melhor se traduzido como “matar” ou “tirar” a vida. Jesus parece conhecer o pensamento e as intensões de seus acusadores. Enquanto ele planeja, no dia de sábado, salvar uma vida, os fariseus que ali estavam conspirando contra ele planejavam tirar a vida. Diante do silêncio de seus interlocutores, Jesus mostra o que deve ser feito. Ele chama o homem e pede que estenda a mão, e naquele momento ele recuperou o movimento da mão. O texto conclui essa parte com a indicação de que os fariseus saíram da sinagoga e, juntamente com outros simpatizantes de Herodes, começaram a tramar a morte de Jesus (Mc 3.6).
3 Meditação No relato de Marcos 2.23-3.6, Jesus rompe com a lei judaica do sábado ou a redimensiona em dois momentos: quando seus discípulos, no dia de sábado, colhem espigas no campo para se alimentar; quando Jesus, no mesmo sábado, cura a mão ressequida de um homem na sinagoga. Ched Myers (1992), em seu comentário ao Evangelho de Marcos, chama essas ações de Jesus de desobediência civil. Em seu entendimento, Jesus está sistemática e propositadamente desobedecendo a uma lei de sua época para revelar o problema da desigualdade social. “Como na prática moderna da desobediência civil, que faltaria à lei a fim de discutir problemas mais profundos de sua moralidade e de seus objetivos, também Jesus, antes de cruzar a linha, dirige um desafio ao seu auditório. Mostrando sua missão de compaixão e justiça junto aos pobres e contra os imperativos da ordem dominante, Jesus questiona todo o edifício ideológico da lei. Ele reproduz a conhecida pergunta da fé deuteronômica (Dt 30.15ss): É legal no sábado fazer o bem ou o mal?”. A reflexão sobre essas passagens do evangelho nos faz questionar sobre algumas leis ou comportamentos injustos de nossa sociedade atual. Podemos relacionar isso aos escândalos da corrupção no governo das cidades e do país, às reformas nas áreas educacional, trabalhista, previdência, entre outras que ouvimos nos últimos anos. Diante disso, qual tem sido a reação da maior parte da população? Será que o povo está cansado de exercer seu dever político? Mesmo em nossas igrejas, por vezes, parece haver necessidade de um entendimento melhor sobre o que é mais importante (Mc 3.4): fazer o bem ou fazer
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mal?. A comunidade precisa estar atenta para ser acolhedora, inclusiva, diaconal, missionária. O perigo de ficar olhando só para si mesma é constante. Facilmente as lideranças são absorvidas por um trabalho só de manutenção e atendimento. Isso acaba por se tornar um trabalho sem fim e sem descanso. Não raramente as pessoas são “pegas a laço” para ocuparem os cargos das diretorias. São imprescindíveis o planejamento, a formação e a visitação. Podemos falar de um descanso mais amplo e profundo do que o de ficar de “pernas e papo para o ar”. Mesmo porque o descanso e o conforto de algumas pessoas são muitas vezes conquistados às custas do esforço e cansaço de outras. Jesus questiona o que se pode fazer no dia de descanso. Para ele, santificar o dia de descanso não significa uma rotina do que se deve ou não se deve fazer, e sim, antes disso, de uma opção forte e contundente em defesa da vida e do direito das pessoas mais fracas. Pensando nisso, o dia de descanso das pessoas cristãs, que é comemorado aos domingos ou em qualquer outro dia da semana eleito para ser santificado, pode ser uma ótima oportunidade de contato mais intenso com a nossa espiritualidade e como investimento em nossas relações familiares e de amizade, inclusive comunitárias. Mesmo que em todos os dias e com todos os nossos afazeres e trabalhos possamos render glórias a Deus, é importante marcar um tempo para nos encontrarmos com esse propósito. Pensemos em como seria difícil nos reunirmos para um culto caso não existisse um dia predeterminado. É o caso, hoje em dia, quando nem sempre todas as pessoas têm o mesmo dia disponível. Por isso é preciso encontrar esse momento e aproveitar as oportunidades da melhor maneira possível. O equilíbrio entre o trabalho e o descanso também pode ser uma marca do povo de Deus e da liberdade que temos em Jesus Cristo. Podemos entender que o mais importante não é a corrida desenfreada pelo sucesso ou pelo dinheiro, mas partilhar e aproveitar bem a vida que nos foi presenteada por Deus. Por outro lado, é preciso incentivar as pessoas ao trabalho, a progredirem nos estudos e em suas profissões, visando ao próprio bem e ao bem da coletividade. As palavras de Jesus e sua prática nos provocam e nos questionam, mexem com nossos conceitos e rotinas. Pode ser que a resposta ao Jesus que desafia no dia de descanso com seu convite para segui-lo seja uma reles desculpa. Talvez se diga: Poxa, mas hoje preciso descansar! Quem nunca usou justificativas para fugir de um compromisso, ou mesmo para ficar mais um tempinho na cama recuperando o sono atrasado? Podemos também nos perguntar: o que fazemos com o restante do dia, ou qual a causa de tanto cansaço? Quem sabe uma caminhada com Jesus em busca de pão e justiça cure nossas “tendinites” e ociosidades.
4 Imagens para a prédica Três cadeiras de praia, colocadas lado a lado no altar. Sente-se em uma delas e convide uma pessoa da comunidade para se sentar em outra, deixe a terceira vazia. Pergunte para a comunidade o que significa essa cena. A cena pode representar descanso, amizade, tempo para conversar. A imagem nos faz pensar que em geral não temos muito tempo livre em nossa semana para coisas desse
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tipo. A correria do dia a dia nos absorve a ponto de não termos tempo para as outras pessoas, e inclusive para a gente mesmo. Mas será que é importante ter um tempinho para descansar e conversar? A palavra de Deus diz que sim. Seu mandamento é que inclusive tenhamos um dia todo na semana para isso. E como está o nosso tempo para Deus? Será que temos encontrado tempo para orar, ler a Bíblia e nos reunir como comunidade? A terceira cadeira representa que Deus sempre está ao nosso lado em qualquer lugar, mas especialmente no culto. Pois Jesus diz: onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles (Mt 18.20). Fazer o bem ou o mal está em nossas mãos. A história a seguir pode ser usada para ilustrar essa questão: “Numa pequena cidade da Grécia, vivia um sábio famoso que conhecia as respostas a todas as perguntas que lhe eram feitas. Um dia, um jovem estudante, conversando com seus amigos, disse que pretendia desafiar o sábio e iria enganá-lo. Disse que faria o seguinte: Apanharei um passarinho e o levarei escondido em minha mão até o sábio. Então vou perguntar a ele se o passarinho está vivo ou morto. Se ele disser que está vivo, esmago o passarinho e o mato, deixando-o cair no chão. Se ele disser que está morto, abro a mão e o deixarei voar, na frente de todas as pessoas. E assim fez. O jovem aproximou-se do sábio com o passarinho na sua mão e perguntou: Sábio, o passarinho em minha mão está vivo ou morto? O sábio olhou para o rapaz e disse: Meu jovem, a resposta está em suas mãos. Você me perguntou se o passarinho está vivo ou morto, mas isso é algo que depende unicamente de você” (Toillier, 2000).
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: Senhor, tu chamaste os teus discípulos e as tuas discípulas para te seguir. Andaste com eles e elas nas vilas e nos campos, ensinando a boa nova do reino de Deus. Tu também chamas a cada um e cada uma de nós para caminhar contigo. Teu convite nos desafia a santificarmos este dia e todos os outros dias ao teu evangelho de paz e justiça. Humildemente te pedimos, Senhor, que o teu Espírito Santo nos guie na reflexão da tua Palavra. Que através dela tu nos ensines sobre a missão de Deus e do nosso compromisso com ela. Que este tempo que dedicamos a ti e ao convívio da comunidade seja uma oportunidade para fazer o bem e ajudar as outras pessoas, principalmente as que mais necessitam de apoio. Por Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém!
Bibliografia POHL, Adolf. O Evangelho de Marcos. Curitiba: Esperança, 1998. (Comentário Esperança). MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Paulinas, 1992. TOILLIER, O. Cem histórias de vida e sabedoria. São Leopoldo: Sinodal, 2000.
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3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
10 JUN 2018
PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 4.13-5.1 GÊNESIS 3.8-15 MARCOS 3.20-35
Renato Küntzer
Enriquecendo a esperança
1 Introdução Gênesis 3.8-15 está no contexto da desobediência do ser humano à ordem de Deus. É a tentativa de um olhar retrospectivo à humanidade e, assim, descobrir e afirmar qual é a condição humana diante de Deus. O ser humano se esconde de Deus e, ao seu chamado, receia responder e se apresentar diante de seu Criador. Sua condição está envolta em vergonha e medo. Necessita se esconder por causa de sua nudez e, ao se confrontar com Deus, o ser humano está cheio de desculpas e dubiedade ao transferir sempre aos outros a culpa e esquivar-se de sua própria responsabilidade. E isso tem consequências para a vida. O texto do evangelho apresenta Jesus em contato com a humanidade sofrida e colocada à margem. Ao lidar com as demandas desse público, Jesus enfrenta dois conflitos. Um com a sua família que considera Jesus fora de si. O outro conflito é com os representantes da tradição religiosa, que o acusam de servir ao demônio por curar, perdoar e expulsar demônios. Por suas ações e pelo público que atende, ou se reconhece Jesus como o Messias ou se rotula ele de estar possuído pelo demônio. Não reconhecer a opção de Deus em Jesus pelos que estão à margem é pecar contra o Espírito Santo. Entender o ser humano em sua condição de pecador e as consequências que isso provoca no âmbito pessoal, familiar e social é o fio vermelho que pretendemos seguir neste estudo.
2 Exegese O texto está dentro de um contexto maior (2.14-7.4), que tematiza a defesa de Paulo da autoridade e veracidade de seu ministério apostólico. Alguém “casou tristeza” não somente a Paulo, mas a toda a comunidade (2.5ss). Por isso ele escreve à comunidade afirmando que seu ministério se fundamenta na delegação divina (2.14-4.6), sendo ministério do Espírito Santo que provoca consequências concretas, no presente tempo, de sofrimento, perseguição e tribulação (4.7-5.10) e que identifica o seu ministério com as marcas da morte de Cristo. É o que se vê e isso é passageiro. O que não se vê, a promessa de Deus, isso é eterno. Paulo cumpre o seu ministério com fidelidade. Um ministério que lhe foi dado por misericórdia, pelo qual não age com astúcia nem adultera a palavra de Deus. Prega intensamente Cristo como Senhor e entende a comunidade como
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serva por amor de Cristo. O centro dessa pregação é a afirmação de Paulo: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós (4.7). Paulo escreve à comunidade afirmando que seu evangelho é claro e o faz de maneira afirmativa. Temos o mesmo espírito de fé. Significa que há elementos da fé comuns entre Paulo e o salmista, a quem recorre para tornar compreensível o seu ministério tão questionado. O mesmo espírito significa o espírito que habitava no salmista. Eu cri, por isso é que falei. Paulo recorre ao Salmo 116.10: Eu cria, ainda que disse. O contexto das palavras expressas no Salmo está em harmonia com os sentimentos que o apóstolo também vivencia no seu ministério. Paulo se identifica com o sofrimento do salmista: Laços da morte me cercaram; angústias do inferno me cercaram; caí em tribulação e tristeza (Sl 116.3). O salmista estava perturbado, mas sua fé permitiu-lhe triunfar sobre a aflição e declarar a bondade amorosa do Senhor. Uma fé semelhante permitiu que Paulo e seus colegas de trabalho declarassem as boas novas de Cristo, embora envoltas em sofrimentos e problemas. Sua experiência pessoal é idêntica à do salmista. E reforça isso com a afirmação: também nós cremos, por isso também falamos. O apóstolo não tem nada mais, mas também nada menos que a fé. E quem crê fala do que crê. O conteúdo e a centralidade da fé estão na afirmação seguinte: Deus ressuscitou Jesus e nos ressuscitará com ele e nos levará junto com vocês até a presença dele (v. 14). Traz à memória o poder de Deus que se revelou na fraqueza extrema da morte. E é aí que reside a esperança sustentada na fé. A ressurreição é a esperança. Aqui reside a clareza da fé e a autoridade da fala. O que para os adversários de Paulo parece uma situação absurda, que conduziu o apostolo à ignorância, é justamente o essencial da vida cristã. Quem tem fé pode e deve falar. Há um fundamento comum de fé e esse é comunitário. Não poderia haver motivos para controvérsias e conflitos. A fé em comum não justificaria isso. Aquele que ressuscitou ao Senhor Jesus, também nos ressuscitará, e nos apresentará convosco (v. 14). E isso se realiza em favor da comunidade para que a graça, multiplicando-se entre muitos (da comunidade), transborde a ação de graças para a glória de Deus. Ou seja, o ministério de Paulo é para o bem da comunidade e visa ao maior número de pessoas. Todos vão ressuscitar em virtude de Cristo. Paulo está em Cristo pela fé. “A união futura que é esperança, já se vive na fé. Porque ele tem tanta fé, pode falar como se tivesse visto. Pode falar com tanta confiança. Sua vida apostólica está inteiramente fundada na fé. Ele não apela para nenhuma experiência sensível ou mística presente. Tudo é fé. Ora essa fé é tão forte que chega a ser uma verdadeira vida em Cristo ressuscitado” (Comblin, 1991). Paulo demonstra entusiasmo. Por isso não desanimamos: pelo contrário, mesmo que o nosso corpo vá se gastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia. A afirmação pode induzir a um dualismo (corpo x espírito), vindo a contrapor-se a uma visão de complementaridade do ser humano. O que Paulo quer afirmar, sem dúvida, é o aspecto passageiro e frágil do corpo humano, sujeito aos efeitos do tempo. Em contraposição, o ser humano pode assumir uma postura de humildade, acolhendo a proximidade de Deus por meio da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Carregamos naturalmente os sinais da morte no corpo, mas pode-
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mos nos revestir de nova vida pela fé em Cristo. A primeira é leve e momentânea. A segunda experiência é de um peso inimaginável e eterna. Paulo descreve de maneira efusiva a esperança de estar com Cristo. Nossa tribulação é momentânea e leve em relação à glória eterna que nos espera. As coisas visíveis duram um momento e por isso não as procuramos, enquanto as invisíveis duram para sempre. Nossa morada terrestre/casa e tenda/tabernáculo serão desfeitas e receberemos de Deus uma morada no céu/casa eterna, não construída por mãos humanas. O que é inimaginável é descrito por meio de uma comparação: morada terrestre e morada celeste. A ressurreição futura significa deixar a nossa morada terrestre (corpo) e receber uma morada celeste (corpo espiritual – 1Co 15). A morte será vencida pela vida. Há algo no futuro que supera a temporalidade e a fragilidade dos bens de agora. A morada terrestre vai ser revestida por outra melhor e que vai acabar com a condição passageira, frágil e temporal da atual. Isso ainda não ocorreu, mas há de ocorrer no futuro. Essa esperança é o fundamento que Paulo tem para animar o seu ministério e os seus leitores.
3 Meditação Paulo tenta enriquecer a sua esperança e a da comunidade para a qual escreve. Ele o faz a partir de uma esperança bem precisa: a ressurreição. Ela está presente na comunidade por meio do Credo. É a esperança na qual deposita o seu futuro. A esperança na ressurreição não é pessoal, mas comunitária. Deus ressuscitou Jesus e nos ressuscitará com Jesus. É a fé dos cristãos à qual ele recorre para se animar, animar os que o seguem e aqueles aos quais escreve. Paulo fala a partir do que crê. E o que Paulo crê é fruto da esperança comunitária. A autoridade do falar vem do seu conteúdo, da mensagem, não do mensageiro. A ressurreição de Jesus e a fé nesse acontecimento autorizam o falar. Por essa razão, não ficamos desanimados. Mesmo a fragilidade do corpo, as tribulações, o tempo não impedem a esperança que brota da certeza da ressurreição. Em virtude da ressurreição, o corpo frágil e passageiro, sujeito aos efeitos do tempo, sofre e colhe sofrimentos e limitações. Como agir em relação a essa condição humana e não perder a esperança ou desistir do ministério? Paulo recomenda que se assuma nesta vida uma atitude de humildade e de exercício da fé. Não se submeter aos desejos da carne, nem as exigências duras da lei, mas revestir-se, pela fé em Cristo, da proposta de vida do evangelho de Jesus Cristo, que inclui o caminho da cruz. Os sofrimentos continuarão fazendo parte da vida, mas não definirão o conteúdo da vida. O que define a vida é a ressurreição. Confiança e ânimo não brotam exclusiva e unicamente do que se vive e vê atualmente. A fé permite olhar para além da realidade atual, orientando-se nas promessas de Deus. A gente vive antecipadamente, pela fé, o que espera com a ressurreição. Para a pregação, percebo três tarefas essenciais: enriquecer a esperança das pessoas; falar do que se crê porque se crê; a esperança da ressurreição define o conteúdo da vida. Procuremos perceber esses três pontos da pregação no fato da vida que relato. Pode ser este ou outro semelhante.
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4 Imagens para a prédica A Assembleia da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) de 2017 teve um momento muito significativo. Ela iniciou com uma visitação a um dos projetos apoiados pela CESE. Os participantes da assembleia se uniram aos pescadores e pescadoras da Ilha de Maré, em Salvador/BA, para realizar um ato ecumênico na região conhecida como Prainha. O local, utilizado pelos moradores de Ilha de Maré e turistas para pesca e também lazer, corre o risco de ser destruída para a ampliação do Porto de Aratu. Se aprovada, a obra causará perdas inimagináveis para o meio ambiente, manutenção da vida marinha e, consequentemente, para a população que tira o sustento do mar. Durante o ato, os pescadores e as pescadoras presentes contaram sobre as mobilizações que já realizaram contra a poluição na região, como o Estado e as indústrias não se responsabilizam pela destruição ambiental das áreas e o risco de morte da população em virtude da poluição química proveniente de indústrias mantidas pela Braskem e Petrobrás. Nesse contexto, foi importante a fala de protesto e pedido de apoio de uma pescadora quilombola e líder comunitária: “Esse ato é para mostrar nossa indignação. Fazemos o que estamos fazendo porque estamos indignados da forma com que nos tratam. A nossa terra é chamada pelas grandes empresas e pelos políticos como ‘área de sacrifício’. Ela está destinada à morte. E assim também nós. O que nos dá esperança é que a injustiça não pode prevalecer. Por isso queremos que vocês participem dessa esperança e divulguem a nossa luta para tentar barrar essa construção. Os pescadores tiram o sustento das atividades que exercem na Prainha. A gente não é contra o progresso, mas somos contra o progresso que extermina a vida da gente”.
5 Subsídios litúrgicos Oração Cria um coração novo Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e dá-me um espírito novo e reto (Sl 51.12) Quando eu estiver solitário, cria em mim um coração alegre que sinta a tua presença. Quando estiver esgotado, cria em mim um coração esperançoso que me lembre do sentido de minha vida. Quando estiver sofrendo, cria em mim um coração paciente que carregue o seu fardo em quietude. Quando estiver sendo tentado, cria em mim um coração firme que lute contra a tentação. Quando tiver caído, cria em mim um coração crente que receba teu perdão. Quando tiver sido abençoado com bens, cria em mim um coração generoso que reparta com os pobres as tuas dádivas.
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Quando estiver reunido com amigos, cria em mim um coração sensível que lhes passe adiante o Evangelho. Amém! (Johnson Gnanabaranam)
Bibliografia COMBLIN, Jose. Segunda epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal; São Bernardo do Campo: Metodista, 1991.
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PRÉDICA: MARCOS 4.26-34 EZEQUIEL 17.22-24 2 CORÍNTIOS 5.6-10
4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
17 JUN 2018
Astor Albrecht
Tenhamos bom ânimo
1 Introdução No ano litúrgico, estamos no tempo após Pentecostes, evento a partir do qual a boa nova do evangelho é espalhada a muitos lugares. Surgiram e desenvolveram-se as primeiras comunidades cristãs. Assim a palavra continua hoje sendo pregada em nossas comunidades, pois permanece a ordem de Cristo de fazer discípulos e discípulas. E o que temos visto e experimentado? Como nos sentimos? Há ânimo? Ao olharmos para os textos da palavra de Deus indicados para este domingo, destaco: o texto de Ezequiel 17.22-24 contém uma promessa de esperança na forma de uma comparação. Deus irá tirar a ponta de um cedro alto (um descendente do rei Davi), cortar um broto novo que se tornará num cedro muito lindo (v. 23), onde pássaros de todo tipo viverão e acharão abrigo na sua sombra. Jesus usa essa figura de linguagem e aponta para sua pessoa e obra (Mc 4.32). Na leitura de 2 Coríntios 5.6-10, o apóstolo Paulo, que serviu ao evangelho levando-o a lugares distantes e que encontrou nesse ministério grande luta e tribulação, diz ter bom ânimo (v. 6). Apesar de experimentar oposição ao evangelho, testemunha que quer continuar no esforço de servir e agradar ao Senhor. Isso é possível? Os motivos para desanimar não seriam mais fortes do que as alegrias experimentadas? Sua “receita” seria: “visto que andamos por fé e não pelo que vemos”. Também nós, ministros, ministras, membros e comunidades precisamos de encorajamento e de ânimo. É preciso “olhar com fé”. Com isso em mente, olhemos mais de perto o texto para a pregação.
2 Exegese A perícope proposta para a pregação encontra-se no contexto que trata da proclamação do reino de Deus (3.13-6.6). Como reino de Deus entende-se o reinado de Deus quando todo o mundo obedecer e se sujeitar à vontade de Deus, quando a vontade de Deus for feita em toda plenitude na terra assim como no céu. Em direção a esse alvo, lemos em 3.14: Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar e pregar. Os discípulos então seguem Jesus com grandes expectativas de que Deus muito em breve estabeleça seu reino. Mas eles estão equivocados. Há multidões que o seguem, mas também cresce a oposição. Os líderes religiosos, de quem se esperaria que seguissem Jesus, são seus maiores
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oponentes. Os romanos não seriam expulsos da sua pátria por um grupo de pescadores. Seus discípulos podem pensar: será que investimos nossa vida numa causa perdida? As parábolas trazem luz para essas questões. Os discípulos precisavam conhecer mais sobre a atuação de Deus antes de sair e proclamar a chegada de seu reino. As parábolas no capítulo 4 têm a função de explicar como crescem os caminhos do reino de Deus. A passagem toda oferece encorajamento aos que estão abatidos, sob a aparente estagnação do crescimento do reino de Deus em meio ao mal desenfreado. Assim, vamos voltar nossa atenção às parábolas propostas no texto. A parábola da semente (v. 26-29) oferece encorajamento aos semeadores e semeadoras, especialmente quando os resultados são invisíveis. Como se um homem lançasse a semente à terra (v. 26), assim inicia. Mas agora não é feita análise do solo, como na parábola em 4.1-20. Fala-se do semeador. Mais especificamente, trata-se da sua passividade ao excluir a sua intervenção no período que vai da semeadura até a colheita. Depois de semear, a rotina diária do agricultor (dormisse e se levantasse, de noite e de dia, v. 27) prossegue. Ele se ocupa com outros trabalhos. Mas no que trata da sementeira, está tranquilo. Não é perturbado pela ansiedade a respeito da semente plantada. Ele está contente sabendo que a terra “por si mesma frutifica”. Em outras palavras, ele deixa isso para Deus, que opera de modo desconhecido ao semeador. Ou seja, em relação ao crescimento, isso é Deus quem dá. Só Deus pode dá-lo, e ele quer fazê-lo. Por isso o agricultor não se preocupa, pois sabe que a colheita virá. Essa parábola é escatológica: o reino está presente tanto na semente como na colheita. Aqui podemos destacar a expressão logo se lhe mete a foice (v. 29), que em Joel 3.13 está ligada ao juízo, aos inimigos que são vencidos. Aqui essa exclamação não tem inimigos em vista, é antes expressão de grande júbilo em vista das espigas carregadas de grãos. No Antigo Testamento, a colheita também pode significar uma grande alegria (Is 9.3). O tempo da colheita denota o último estágio do reino de Deus, o do amadurecimento e da consumação final. Assim, o que agora é apenas um embrião presente na pessoa e no ministério de Jesus, depois será espiga cheia, oculta agora, totalmente manifesta depois. Essa parábola é uma das poucas passagens em Marcos que não aparece em nenhum outro evangelho. Assim, podemos entender que a comunidade precisava, de modo muito especial, de palavras de encorajamento. Pode bem ser que tinham muitos problemas e poucos resultados de seus trabalhos e, diante disso, faz-se necessária a paciência de um agricultor. Deveriam continuar semeando a semente do reino e confiar que a colheita viria. Todas as pessoas deveriam ser convidadas a receber o reino de Deus; todos os homens e mulheres recebem a tarefa de semear, mas é Deus quem dá o crescimento. Na parábola do grão de mostarda (v. 30-32), é interessante como Jesus inclui seus discípulos na reflexão ao lhes perguntar: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? (v. 30). Nessa época, o reino proclamado por Jesus não é muito evidente para seus seguidores. Há os críticos que o denunciam como fraude. Com essa pergunta, Jesus desafia seus discípulos a pensar enquanto lhes apresenta a parábola: o reino de Deus é como um grão de
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mostarda, quando semeado, cresce e torna-se uma planta tão grande que as aves podem aninhar-se à sua sombra. O grão de mostarda é um símbolo proverbial daquilo que é pequeno. Essa pequena semente torna-se uma hortaliça muito grande. A mostarda crescia do grão minúsculo, de um milímetro até o tamanho de uma folhagem, que podia atingir até 4 metros de altura nas margens do lago da Galileia. É a história dos contrastes entre um começo insignificante e um desfecho surpreendente, entre o oculto hoje e o revelado no futuro. O reino de Deus é como tal semente. Com sua copa ampla e cheia de vida até as pontas, a árvore prefigura um grande reino, no qual todos convivem em paz. Jesus está dizendo para não se deixarem levar pela aparência, mas que sejam encorajados a participar do reino e ter fé em um grande Deus. A aparente fraqueza será suplantada quando Deus manifestar seu poder soberano. O pequeno e fraco começo do reino de Deus não é indicação da sua consumação. Assim Jesus “expunha a palavra” (v. 33), a sua mensagem que proclamava o reino de Deus, que acontece em sua pessoa e sua obra. Os v. 33-34 ensinam que pelas parábolas os ouvintes são desafiados a ouvir com todo o ser a fim de experimentarem o bom governo de Deus (reino) em sua vida diária. O discipulado não deveria ser algo superficial, mas deveria levar a conhecer e depender mais das palavras de Jesus e, desse modo, de sua pessoa.
3 Meditação Certa ocasião, em um encontro do ensino confirmatório, um confirmando compartilhou o que lhe aconteceu na sala de aula e a pergunta que isso despertou nele. Sua pergunta era: “Pastor, por que tem cada vez mais pessoas que não querem saber de Deus e não acreditam nele?”. Ele relata que a professora pediu para que levantassem a mão os alunos que acreditam em Deus e, numa turma de 26 alunos, só ele e mais três colegas levantaram a mão. Eu estou alguns anos no estado de São Paulo, mas pensei: “Mas bah! O que vou dizer agora para esse guri?”. Eu penso que nos dias da comunidade de Marcos também não haveria muitas pessoas que iriam levantar a mão. Por isso precisavam de uma palavra de encorajamento. Também nós carecemos de bom ânimo. Em outra ocasião, Jesus mesmo lembrou que é necessário ânimo para segui-lo (Jo 16.33). Esse bom ânimo não se refere a um sentimento “legal”, mas sim a uma disposição de seguir a Cristo e testemunhar ao mundo o seu evangelho, de vivermos como comunidades que lhe pertencem neste mundo, que tem valores tão diferentes do que o evangelho de Cristo nos ensina. Ou como Paulo testemunhou: visto que andamos por fé e não pelo que vemos. Para tanto, o texto de Marcos nos quer abrir os olhos da fé e ajudar a olhar com ânimo. Algumas considerações que podemos partilhar com a comunidade. Do evangelho aprendemos que Cristo Jesus veio para trazer vida e salvação. Se tinha alguém que tinha “grandes” objetivos, este era Jesus. Ele vê o mundo como seu campo de missão para trazer as pessoas para junto do Pai, trazer o perdão dos pecados, trazer à luz a maravilhosa promessa da vida eterna.
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Objetivos grandes! Como lemos em Ezequiel: cortarei o renovo mais tenro, e o plantarei sobre um monte alto [...] e produzirá ramos, dará frutos e se fará cedro excelente (17.22,23). Jesus deveria ter toda pressa do mundo para fazer o máximo possível para que esses objetivos fossem logo alcançados. O seu “planejamento estratégico” pede muita coisa! Mas ele o faz como um agricultor que lança a semente e espera, dia e noite, germinar e crescer. O reino de Deus vem por si mesmo (conforme Lutero). Nele está a presença de Deus e, assim, as suas dádivas, seu agir e seu guiar. A sua palavra que temos entre nós é uma semente viva que tem em si a força para crescer e amadurecer. Essa palavra deveria sempre ordenar nossos passos e nosso servir. Ela nos quer livrar da impaciência e até mesmo do desânimo. Não é o caso de atuarmos como se tudo dependesse de nosso serviço. É preciso confiar que sua palavra é uma semente viva. A obra de Deus também tem seu tempo de lançar a semente, germinar, crescer e amadurecer. Por isso se faz necessário que atuemos com esperança. Há vezes que irmãos e irmãs que servem ao Senhor desanimam e se frustram. “Já que os outros não se envolvem, eu também não vou mais! Cansei!”. Alguém já me disse isso, com essas palavras. Mas essa é uma atitude para quem pensa que a partida já acabou. Não é assim! Conforme a palavra das Escrituras que hoje lemos e que testifica do Deus que nós cremos, nós não somos aqueles que se deixam abater. Karl Bernhard Garve escreveu: “Ainda que meu desânimo veja perigo e eu tenha medo de sucumbir, Cristo me alcança a sua mão. Cristo ajuda os fracos a vencer. Que o Poderoso de Deus me defende, essa é a minha confiança”. Do mesmo modo, na segunda parábola (grão de mostarda), aprendemos que não devemos desanimar ou ficar desencorajados diante de um início pequeno e humilde. Aqui poderíamos compartilhar de experiências da comunidade na sua missão, nos seus grupos, seus desafios, bem como a sua perseverança. Pode acontecer que há ocasiões que temos o sentimento de que não vai valer a pena, afinal de contas, somos poucos e não podemos fazer muito. De maneira lógica, Cristo nos lembra que nada está pronto no seu início. Nossa tarefa e missão é fazer conforme nossa força e dons. Foi assim que naquela conversa com o confirmando, falei: “Que bom que você levantou a sua mão!”. Foi algo pequeno, mas foi o modo de mostrar ali a sua fé. E isso vem do Senhor, é maravilhoso e ao seu tempo trará mais frutos. Disso não podemos duvidar, pois a semente do evangelho frutifica. Confiantes continuemos orando e pedindo “Venha o teu reino”. Através dessas parábolas somos animados e animadas a seguir a Cristo. Podemos ter bom ânimo, pois Deus não ficará devendo sua atuação. Como pessoas chamadas por Cristo, podemos afirmar nossa humanidade, também nossa incapacidade. O reino é de Deus e, por isso, podemos saber que acontecem muito mais coisas do que fazemos e sabemos. Podemos realizar tranquilos nossas pequenas ações, na confiança das grandes ações de Deus. Entre nossa semeadura e a colheita transbordante está o fiel e constante agir de Deus. Assim, lá na frente, no dia da colheita, cheios de alegria, louvaremos a Deus dizendo: Grandes coisas o Senhor tem feito (Sl 126.2).
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4 Imagens para a prédica “A majestosa montanha que aparece no horizonte nos parece próxima. Aos nossos olhos parece que ela se ergue logo além da primeira cadeia de montes que parcialmente a cobrem. Mas de nosso ponto de observação, deixamos de ver um sem-número de cadeias de montanhas mais baixas intermediárias, que existem por detrás da primeira, e que assomam ante nossos olhos ao longo de nossa caminhada. Logo que chegamos à próxima elevação, descobrimos que a distância que nos separa da montanha ainda é maior do que havíamos pensado. Os primeiros cristãos viviam esperando pelo reino de Deus. Eles viam a montanha no horizonte e não podiam esperar o dia em que chegassem ao alvo. Maranata – Senhor, vem! No decorrer da história da igreja, o povo de Deus aprendeu a atravessar vales e cadeias de montanhas que esperavam. O Senhor estava perto, mas não da forma como eles haviam pensado, em sua perspectiva humana. Tinham de aprender que só Deus tem a perspectiva correta da história e da vinda do reino de Cristo. Por isto ‘somente o Pai sabe o dia’ (Mateus 24.36). Na perspectiva do Pai, Jesus está realmente perto. E o que importa para nós é nossa caminhada rumo à montanha.” (Lindolfo Weingärtner, Parábolas da vida – meditações)
5 Subsídios litúrgicos Oração: Senhor, tu disseste que as aves do céu poderiam se aninhar à sombra da árvore do Reino. Graças por tua fidelidade, que hoje nós estamos abrigados. Mas é preciso continuar semeando. Então, vai conosco, Senhor, por onde quer que andemos. Ensina-nos a orar o que devemos orar. Abençoa o que fazemos, e nada mais nos atormentará nem nos faltará bem algum. Senhor, continua enviando servos e servas fiéis à tua seara e à tua casa, irmãos e irmãs que se dedicam a ti em gratidão. Um pequeno início foi feito, mas a terra ainda está cheia de trevas. Queiras despontar em nosso tempo, ó sol da justiça! Amém.
Bibliografia MULHOLLAND, Dewey M. Marcos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1978. (Série Cultura Bíblica). POHL, Adolf. Evangelho de Marcos. São Paulo: Editora Evangélica Esperança, 1997. (Comentário Esperança).
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5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
24 JUN 2018
PRÉDICA: JÓ 38.1-11 MARCOS 4.35-41 2 CORÍNTIOS 6.1-13
Roger Marcel Wanke
1 Introdução O texto previsto para a pregação do culto do 5º Domingo após Pentecostes deste ano se encontra no livro de Jó 38.1-11. Sem dúvida, esse é um dos textos mais curiosos e, ao mesmo tempo, mais sensacionais de toda a Bíblia. O drama de Jó, conhecido dentro e fora do âmbito da igreja, encontra nesse texto o seu ápice. Deus vem ao encontro de Jó. Não o deixa sem palavras e se revela ao sofredor em meio à sua angústia. Os textos previstos para leituras bíblicas são ambos do Novo Testamento. Também eles falam da situação de angústia e livramento. Na perícope de Marcos 4.35-41, o evangelista narra, por um lado, o desespero e a angústia dos discípulos ao estarem quase afundando em seu barco, por causa de uma tempestade e, por outro lado, a sua indignação ao verem Jesus dormindo no barco, sem se importar com esse momento de aflição. Marcos narra que Jesus, o Messias, tem autoridade sobre a tempestade. O fato de Jesus se levantar e acalmar a tempestade causa admiração e grande temor nos discípulos, que perguntam: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (v. 41). O evento narrado por Marcos aponta para a natureza divina de Jesus, que o identifica com Javé do Antigo Testamento, que não apenas é o criador de tudo o que há, mas aquele que tem toda autoridade e controle sobre a sua criação. Já o segundo texto previsto para a leitura bíblica é do apóstolo Paulo. Em 2 Coríntios 6.1-13, após falar do ministério da reconciliação, Paulo menciona as dificuldades experimentadas nesse ministério da reconciliação. A igreja (nós), como cooperadora (embaixadora) de Cristo, não deve receber a graça de Deus em vão, mas sim assumir seu ministério tanto em circunstâncias favoráveis como em não favoráveis. Nessa direção, Paulo lista uma série de circunstâncias opostas entre si, que qualificam o ministério da reconciliação. Tais circunstâncias são oriundas da própria vivência do apóstolo. Para Paulo, o que determina sua abnegação ao ministério, apesar de todas as circunstâncias, inclusive as contrárias, é o amor e a graça de Deus, daquele que estava em Cristo reconciliando consigo o mundo (dimensão cósmica – 2Co 5.19) e daquele que não conheceu pecado, mas foi feito pecado por nós, pelo próprio Deus, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (dimensão antropológica – 2Co 5.21). Porque Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, pode haver redenção tanto para o ser humano como para a criação. A perícope prevista para a pregação e essas mesmas leituras bíblicas foram já apresentadas em Proclamar Libertação 25, por Almir dos Santos, em 1999 (p. 221-225).
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2 Exegese Dois grandes discursos de Deus dão respostas a Jó em seu sofrimento e em sua angústia (Jó 38-39 e 40-41). Eles formam o ápice literário e teológico de toda a história do homem de Uz (Edom). Já não era sem tempo, diriam alguns hoje. Deus parece vir sempre atrasado quando o ser humano clama por seu socorro. O livro de Jó, uma das mais belas obras da literatura sapiencial do Antigo Oriente e do Antigo Testamento, apresenta o justo e servo Jó em grande conflito com o seu Deus por causa de uma série de sofrimentos sem causa. Jó experimenta as perdas mais dolorosas da vida de um ser humano, mas se coloca diante de seu Senhor em perseverança, contra sua fé e contra sua razão, clamando para que Deus apareça e lhe dê as respostas e, ao mesmo tempo, compareça em seu julgamento. Deus vem. Sua chegada, ansiosamente esperada por Jó, acontece de forma inusitada e bem diferente do que se esperava. O livro, até então, além do sofrimento e da postura de Jó narrou seus diálogos com seus três amigos: Elifaz, Bildade e Zofar, bem como com um quarto amigo, chamado Eliú, que parece ter “furado a fila” para chegar antes de Deus no evento. Com essa série de diálogos, o autor do livro de Jó torna o drama de Jó insuportável, ao ponto do leitor ora se compadecer de Jó, ora concordar com os amigos, ora lamentar e sofrer junto com Jó, ora condená-lo junto com os amigos. Fato é que, em todo o enredo do livro, o leitor é tentado a se posicionar ou em favor de Jó e suas razões, ou em favor do argumento dos amigos. Quando não há mais o que dizer, todos, Jó, seus amigos e os leitores do livro de Jó, se fazem uma única pergunta: onde está Deus, afinal de contas, que ainda não se manifestou? Todos os personagens envolvidos, inclusive você e eu, leitores do livro, estamos na expectativa de saber o que Deus vai dizer de toda essa situação. Que respostas Deus tem para as perdas e para o sofrimento de Jó? Quem terá razão no final, Jó ou seus amigos? Deus vem! Mas vem diferente do que o esperado. O texto diz que Deus vem e responde a Jó a partir da tempestade (38.1). O termo usado para tempestade expressa um vendaval, um vento forte e furioso, que espalha tudo o que há pela sua frente (2Rs 2.1; Jr 23.19; Zc 7.14). Esse fenômeno meteorológico é na Bíblia muitas vezes utilizado para descrever a teofania divina (1Rs 19.12; Sl 18.8-16; 50.3; Ez 1.4; Na 1.13). Ele aponta tanto para a distância e grandeza de Deus quanto para a sua indescritível presença, sem, contudo, automaticamente ser sinal de ira e juízo de Deus. Abalos sísmicos e cósmicos, bem como a admiração e o medo do ser humano são típicas reações dessas teofanias. No entanto, em todas elas e também aqui nesta perícope, o que se percebe é que a revelação de Deus e sua presença significam ao ser humano o voltar-se gracioso e salvador de Deus, que vem para livrá-lo de sua angústia (cf. Sl 18). Deus vem de forma graciosa até Jó. Isso se manifesta também pelo fato de Deus não acusar Jó de algo. Diferente de Elifaz, que se aproximou de Jó com uma lista de pecados (Jó 22), Deus não atribui a Jó falta alguma. Só esse fato já indica que os amigos de Jó e sua doutrina da retribuição estavam equivocados. Deus fala com Jó. Deus tem palavras para Jó, diferente de seus amigos, que no início
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não sabiam o que dizer-lhe diante de tamanho sofrimento (Jó 2.13) e, durante os diálogos, apenas disseram palavras de acusação e condenação ao amigo sofredor. Deus não acusa Jó, mas também não lhe explica a razão de seu sofrimento. O que acontece na cena do céu (Jó 1.6-12; 2.1-7) não é revelado a Jó. Os questionamentos de Jó não são respondidos por Deus, como era de se esperar diante de um julgamento, lembrando que Jó, ao final, chamou Deus de réu e o convocou para o tribunal (Jó 13 e 31). Pelo contrário, Deus é quem questiona Jó. Uma série de perguntas retóricas é lançada (como uma metralhadora) sem parar ao miserável e encarquilhado Jó. Ao todo, considerando os dois discursos de Deus (Jó 38-41), são feitas 70 perguntas retóricas a Jó, que só pode dar uma única resposta a Deus: “Não sou eu”. No contexto de sofrimento, muitas são as perguntas que o ser humano faz: por quê? Como? Onde? Para quê? Nesse contexto, Deus tem uma pergunta diferente: Quem? Esse pronome interrogativo aponta para a soberania de Deus em meio ao sofrimento. Por trás dele está a pergunta: quem está no controle de todas as coisas? Aqui se pergunta pela identidade de Deus Esse “quem” inicia a primeira pergunta retórica feita pelo Senhor diretamente a Jó: Quem é aquele que torna em trevas o meu conselho com palavras sem entendimento?. Aqui, por sua vez, pergunta-se pela identidade do ser humano. O conselho de Deus é algo que remete à tradição sapiencial e pode significar as decisões de um sábio. Ao ser de Deus, esse conselho aponta também para os seus planos, que são cumpridos e executados plenamente (Sl 33.11; 119.24; 2Rs 18.20; Is 46.11; 1Cr 12.20). Jó sabe dos planos de Deus e que eles são executados e cumpridos. Jó sabe que o que Deus decide acontece. Em Jó 12.13-16 ele deixa claro que o conselho de Deus é como o próprio Deus, ou seja, soberano. Somente Deus tem poder de concretizar o seu plano, conforme o seu conselho e sua decisão. Ao ser humano isso permanece oculto. A sabedoria deste mundo não tem condições de compreender a sabedoria de Deus. Em outras palavras, dizemos que Deus sempre sabe o que é melhor para nós, mesmo que para nós seja difícil de compreender. No texto em estudo, Deus diz que Jó está obscurecendo esse conselho, esse plano de Deus, justamente porque ele fala sem entendimento. Já Eliú, o quarto amigo, havia dito que Jó falava sem entendimento (Jó 34.35; 35.16). Entendimento é outro termo típico da tradição sapiencial. Ele se refere às questões profundas da vida, aquelas que a mera observação superficial não dá conta de compreender. É como cavar bem fundo para ver o que há nas mais profundas camadas da terra. É como querer perscrutar algo olhando em um microscópio. Entendimento, conforme a tradição sapiencial, só tem aquele que enxerga por detrás dos fenômenos que acontecem na vida e os compreende porque reflete com profundidade sobre eles. Deus diz a Jó que este está transformando o conselho daquele em trevas, por não saber com profundidade do que está falando. Jó, assim como todo o ser humano, só consegue ver o seu sofrimento. Deus é o único que pode enxergar para além do sofrimento e o que está por trás do sofrimento. Diante dessa constatação, Deus dá um desafio a Jó: Cinge, pois os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber (v. 3). Cingir os lombos é uma linguagem que vem do contexto militar. O texto da vocação do profeta Jeremias pode ser usado aqui como um paralelo (Jr 1.17): Tu, pois, cinge os lom-
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bos, dispõe-te e dize-lhes tudo quanto eu te mandar; não te espantes diante deles, para que eu não te infunda espanto na sua presença. Deus desafia, dessa forma, Jó a estar preparado para responder aos questionamentos que agora tem para ele. Tanto para Jeremias como para Jó o desafio de Deus de cingir os lombos é um desafio a não temer. Jeremias, como profeta, não precisa temer os seus ouvintes. Jó não precisa temer os questionamentos de Deus ao ser seu ouvinte nesse grande discurso, que vem do meio da tempestade. Na verdade, Jó está agora onde queria desde o início de seus lamentos: diante de Deus (cf. 9.34-35; 13.3, 18-22; 23.3; 31.35-37). Deus veio ao seu encontro. Deus não o deixou sem palavras. Mas Deus deixa bem claro que ele é Deus. Jó, porém, deve chegar-se diante de Deus como “homem”. O texto hebraico usa um termo também militar: “homem valente, homem forte, vigoroso, herói, campeão” (gibbor). Assim, nesses termos, Deus está chamando Jó para uma disputa (linguagem militar). Essa formulação pode ser entendida, inclusive, como irônica. Uma disputa entre Deus e o ser humano, mesmo que esse seja chamado de “homem valente”, será sempre uma disputa entre pares desiguais. No entanto, ao chamar Jó de valente e forte, Deus destaca aqui sua coragem em lutar. Deus aceita esse desafio sem condená-lo, sem proibi-lo. O ser humano, mesmo que não seja “como Deus” (cf. Jó 40.9), pode lutar com Deus em seu sofrimento. O interessante é que Deus transforma essa disputa em instrução. Essa instrução é o conteúdo central dos dois discursos de Deus, no final do livro de Jó. O primeiro discurso (Jó 38.1-39.30) é uma instrução sobre o cosmo e a ordem da criação, no qual Deus fala do espaço criado por ele neste cosmo (38.4-38) e dos seres que nele habitam (38.39-39.30). Parte da perícope para a pregação se encontra exatamente no início dessa instrução sobre o cosmo. Vejamos alguns detalhes. Os v. 4-11 se concentram na criação do cosmo, especificamente, a criação da terra (v. 4-7) e a criação dos mares (v. 8-11). Em forma de hino, Deus vai instruindo Jó retoricamente sobre a fundação do mundo. O fato de Deus criar a terra e o seu fundamento é parte fundamental da tradição sapiencial e hinológica do Antigo Testamento (cf. Sl 24.2; 89.12; 104.5; Pv 3.19). O pronome “quem” do v. 2, utilizado por Deus para se referir a Jó, contrasta fortemente com o que é usado por Deus para falar dele mesmo nos v. 4-7 ao se referir àquele que criou a terra e os seus fundamentos. Assim, Deus leva Jó a fazer distinções, em primeiro lugar entre Deus como criador e Jó como criatura. Essa distância entre criador e criatura é essencial para o temor do Senhor, princípio básico da sabedoria bíblica (Pv 9.10; Jó 28.28). Essa distinção leva Jó a refletir sobre o seu entendimento acerca da ordem da criação. Por isso Jó só pode dar uma única resposta a Deus à pergunta por quem está por detrás da criação da terra e de seus fundamentos: Deus, somente Deus. A isso Jó responde mais tarde: na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia (Jó 42.3). Um segundo tema é abordado por Deus em forma de pergunta retórica para ajudá-lo a refletir sobre a ordem da criação: a criação do mar. No Antigo Testamento e também no Antigo Oriente, o mar representa um poder caótico, uma forte ameaça à vida humana. Contudo, em seu discurso a Jó, Deus deixa claro que pôs limites para o mar (portas – v. 8). Também aqui, por meio de sua
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Palavra, Deus diz ao mar: “Até aqui virás e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas” (cf. Sl 104.6-9; Pv 8.29; Jr 5.22). Fica evidente o uso das perguntas retóricas, que não tem como função esperar uma resposta clara, mas sim trazer um fato à tona, que leva o ser humano à seguinte reflexão: a criação é obra somente de Deus. Jó tem os seus horizontes alargados por Deus, que não apenas pode enxergar o que não se vê, mas também aquilo que lhe é estranho e misterioso: os fundamentos da terra e dos mares. Podemos perceber três aspectos importantes da instrução de Deus a Jó, a partir desta perícope: a) Percepção da criação: O caos faz parte da criação de Deus, mas tem seu limite posto pelo próprio Deus. O caos não é inimigo da criação, mas vencido por Deus. O discurso de Deus, em sua totalidade, não apresenta um mundo idílico e sem problemas. Pelo contrário, mostra que a vida do ser humano diante de Deus é possível apesar de sua ambivalência, contraste e limites. b) Percepção do Criador: Em sua revelação a Jó, como Criador, Deus deixa claro a sua distância, por um lado, à criação e, por outro, ao ser humano. Deus é Deus, o ser humano e a criação não são deuses. Essa distinção preserva a identidade de Deus contra toda e qualquer tentativa de qualificar Deus. O conceito de Deus no livro de Jó exclui toda imagem que se tenta fazer de Deus (Das Gottesbild im Hiobbuch schliesst alle Bilder Gottes aus – Wanke, 2013, p. 369). Isso explica teologicamente o que o pronome “quem” expressa gramatical e sintaticamente. c) Percepção da criatura: Diante de Deus, em meio à tempestade, sendo levado pelo próprio Deus a refletir sobre “quem” Deus é, Jó acaba refletindo e chegando à conclusão de “quem” ele, ser humano, é. Jó reconhece que Deus é o Senhor. Ele, porém, é ser humano e limitado. O ser humano não é o centro do mundo, e adquire através dessa instrução divina a certeza de que existe ordem no mundo mesmo quando o sofrimento parece prevalecer. Assim, o discurso de Deus a Jó (não apenas esses versos previstos para a pregação) aponta para o limite entre a vida e tudo aquilo que a ameaça e dá a certeza de que Deus mesmo, por um lado, colocou esse limite e, por outro, é esse próprio limite. Por isso, diante de Deus, a experiência da abscondicidade marcada muitas vezes pela realidade de sofrimento humano não é excluída da vida do ser humano e do seu encontro e confronto com Deus. Também ela, porém, serve para o seu conforto.
3 Meditação A realidade do sofrimento humano perpassa a história da humanidade. Muitas pessoas, nesse contexto, fazem a pergunta: onde está Deus? Neste texto, no entanto, percebemos que o foco não está, num primeiro momento, na pergunta pela presença de Deus, mas sim na identidade de Deus: “Quem?”. Interessante é perceber que essa mesma ênfase aparece no texto de Marcos 4. Após ter exortado o vento e acalmado a tempestade, os discípulos de Jesus estão admirados e perguntam: Quem é este, que até o vento lhe obedece?. Como vimos, a disputa de Deus é transformada pelo próprio Deus em instrução. Essa instrução, típica da
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tradição sapiencial, tem como objetivo levar o ser humano à reflexão e à certificação, ou seja, à certeza de que Deus está presente e no controle de todas as coisas, mesmo quando o ser humano não consegue compreender tudo o que está por trás dos planos de Deus e da ordem de sua criação. A vinda de Deus para o confronto com Jó, a fim de lhe trazer conforto, é sinal de sua graça. Por mais sábio ou experiente que seja o ser humano, ele nunca terá palavras para consolar aquele que sofre. O sofredor necessita das palavras que vêm do próprio Deus. Jó não se sentiu consolado por seus amigos, nem encontrou consolo em si mesmo. O consolo teve que vir de Deus, que se revelou, vindo ao seu encontro em confronto e conforto, em meio à tempestade. A pregação não deve buscar dar respostas à realidade do sofrimento humano, mas sim apontar para a vinda de Deus em meio à tempestade, causada pelo sofrimento humano. O texto quer assegurar, dar certeza ao ser humano, que mesmo diante de situações de catástrofes, angústias, sofrimento e morte, Deus está no controle. Ele teve a primeira palavra ao criar este mundo, os fundamentos da terra, o mar e o próprio ser humano. Ele tem as palavras que trazem a ordem onde há o caos, a graça onde há a desgraça. Ele tem a última palavra, que traz redenção ao ser humano e a este mundo, que lhe pertencem; em Jesus Cristo tem autoridade também sobre as tempestades. Somos assegurados que o nosso sofrimento não tem a última palavra sobre as nossas vidas. Sugestão homilética: A perícope tem uma intenção poimênica e pedagógica. Assim poderia ser também a direção da pregação. Tema da pregação: Deus está comigo no meio da tempestade 1. O ser humano experimenta sofrimentos (tempestades) 1.1 Os sofrimentos na vida do ser humano 1.2 As tempestades tendem a querer nos derrubar 1.3 Em meio ao sofrimento, sentimo-nos sozinhos e desamparados 1.4 Pergunta: onde está Deus? 2. Deus vem e confronta o ser humano em seu sofrimento 2.1 Deus vem no meio da tempestade 2.2 Deus não vem para o julgamento, mas com sua graça 2.3 Deus mostra ao ser humano que este não é capaz de compreender os seus propósitos eternos 3. Deus vem e conforta o ser humano em seu sofrimento 3.1 Deus mostra ao ser humano quem está no controle de todas as coisas 3.2 Deus tem palavras para o ser humano sofredor 3.3 Em Jesus Cristo, Deus venceu o sofrimento
4 Imagens para a prédica Com o auxílio de projetor (data show), fotos com cenas do sofrimento humano podem ser mostradas para iniciar a pregação, que pode iniciar com a famosa frase: onde está Deus diante dos sofrimentos e das “tempestades” da vida? Em muitas palestras sobre o livro de Jó que eu, pessoalmente, tenho feito em comunidades e sínodos, apresento algumas imagens do sofrimento humano em power
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point e coloco como música de fundo, o hino “Deus está presente” (HPD 1, 124). A letra do hino é projetada junto com as imagens. A ideia é reforçar o paradoxo entre a letra do hino e as imagens vistas. Esse contraste ilustra o diálogo de Deus com Jó nos capítulos finais do livro (Jó 38-42) e o contraste da experiência do ser humano em seu sofrimento. O hino pode ser também cantado com a comunidade, enquanto as imagens são mostradas. O efeito é provocar na comunidade a reflexão acerca da certeza da presença de Deus, mesmo em meio a contextos de dor e sofrimento. A primeira estrofe do hino 124 deveria ser repetida ao final e a última imagem a ser mostrada deveria ser da cruz, para se encaixar com a última frase do hino: “Vinde ao Pai clemente!”. Assim, ficaria evidente, pedagogicamente, o convite de Deus a Jó e o consolo. Na cruz de Jesus Cristo, toda pessoa sofredora pode encontrar-se diante do seu sofrimento.
5 Subsídios litúrgicos Como dito anteriormente, o tema deste culto tem um caráter mais poimênico e didático, por conta da natureza do texto bíblico previsto para a pregação. Liturgicamente, esses dois elementos poderiam ser bem explorados. No aspecto poimênico, o momento do Kyrie na liturgia do culto cristão tem essa função de interceder pelas dores deste mundo. Situações atuais de sofrimento e dor podem ser projetadas, comentadas ou, ainda, testemunhadas por pessoas da comunidade; após cada um desses momentos pode-se cantar o hino “Pelas dores deste mundo, ó Senhor”. Vejamos algumas sugestões para a liturgia do culto: Liturgia de entrada: No início do culto pode ser cantado o hino “Deus está presente” (HPD 1, 124). Kyrie: já foi abordado anteriormente. Liturgia da Palavra: Após a leitura do texto previsto de Marcos 4.35-41, pode-se cantar o hino 98: “Qual barco singra pelo mar” (HPD 1). Esse hino apresenta um aspecto mais comunitário, comparando a igreja de Jesus a um barco que navega em meio ao temporal e que confia no amparo e no guiar de Deus. Após a leitura do texto apostólico de 2 Coríntios 6.1-13 e antes da pregação, pode-se cantar o hino 97: “Deus é castelo forte e bom”. Após a pregação sugere-se cantar o hino 221: “Senhor, porque me guarda a tua mão”. Ou, ainda, do mesmo hinário o número 216: “Se as águas do mar da vida”. Liturgia de despedida: Ao final do culto sugere-se cantar o hino 118: “Deus vos guarde pelo seu poder”. O hino expressa a bênção e aponta para o poder e cuidado de Deus. Observação: Na ocasião da elaboração deste auxílio homilético, o novo hinário da IECLB ainda não havia sido publicado. Por isso sugere-se procurar no novo hinário os mesmos hinos ou outros, compatíveis com a temática da pregação.
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Bibliografia SCHWIENHORST-SCHÖNBERGER, Ludger. Um Caminho através do sofrimento. O Livro de Jó. São Paulo: Paulinas, 2011. WANKE, Roger Marcel. Praesentia Dei. Die Vorstellungen von der Gegenwart Gottes im Hiobbuch. Berlin; Boston: De Gruyter, 2013. (Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, Band 421.)
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6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
01 JUL 2018
PRÉDICA: MARCOS 5.21-43 LAMENTAÇÕES 3.22-33 2 CORÍNTIOS 8.7-15
Marcia Blasi Marli Brun
1 Introdução As necessidades humanas, individuais e coletivas variam conforme o tempo, o lugar, o contexto, o gênero, a classe social, a raça, a etnia, as condições físicas e psicológicas, entre outras. O texto do evangelho (Mc 5.21-43) fala da necessidade de cura e restauração da vida de uma menina, filha de Jairo, e de uma mulher que sofria de hemorragia. O texto de Lamentações 3.21-33 (PL 25, p. 226-230; PL 39, p. 212-217) apresenta o clamor do povo que, em 587 a.C, viu Jerusalém sendo destruída e a elite político-religiosa sendo levada para a Babilônia. A dor do povo de Jerusalém e Judá era tão grande que o caminho encontrado foi o de confessar a culpa, queixar-se, resistir com resiliência, silenciar e confiar que a misericórdia de Deus se renova a cada manhã. A fraqueza e a impotência naquela situação de guerra eram tantas que dar a face ao que o fere (Lm 3.30) era um jeito de permanecer com vida. Em 2 Coríntios 8.7-15 (ver PL XIX, XIII, XV, 33) a comunidade de Corinto é desafiada pelo apóstolo Paulo a se deixar “tocar” pelo testemunho de Cristo. Os textos previstos para o 6º Domingo após Pentecostes nos fazem olhar para as causas das guerras (injustiças, violências, mortes, preconceitos, discriminações, opressões) e, a partir da graça de Deus, nos fazem olhar para as necessidades humanas, indicando caminhos de cura, restauração e fortalecimento da vida pessoal e comunitária.
2 Observações exegéticas O texto de Marcos 5.21-43 contém a narrativa da cura da filha de Jairo e da mulher que sofria de hemorragia. Em Proclamar Libertação 33 estão disponíveis observações exegéticas referentes ao texto de Marcos 5.21-24,35-43, escritas pela teóloga Ana Isa dos Reis. Outras análises estão disponíveis no PL 28, 39, 22 e XII. Enfocaremos aqui a análise de Marcos 5.25-34. O evangelista Marcos narra diferentes eventos salvíficos protagonizados por Jesus. As ações de Jesus provocam seu deslocamento (ora está num lugar, ora noutro) e geram reações de aproximação e de perseguição. Por curar enfermidades, muitas pessoas, de diferentes lugares, seguem-no: pessoas da Galileia, Judeia, Jerusalém, Idumeia, do lado leste do rio Jordão e da região de Tiro e Sidom, como podemos ver em Marcos 3.7-8. Por contrariar a lei vigente, em situações como a da cura do homem com a mão deficiente, realizada em dia de sábado, na
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sinagoga, Jesus se torna alvo de perseguição violenta: Logo depois os fariseus saíram dali e, junto com as pessoas do partido de Herodes, começaram a fazer planos para matá-lo (Mc 3.6). No início do capítulo 5, conforme o evangelista Marcos, Jesus está na região de Gerasa, no lado leste do lago da Galileia (5.1). Nesse lugar, aconteceu a cura de um homem que estava com “espírito mau” (Mc 5.1-20). As pessoas que testemunharam o acontecimento pediram insistentemente que Jesus saísse da terra delas (Mc 5.17), possivelmente para a proteção da vida dele. O “sair” está associado contextualmente ao risco que Jesus corria de ser morto, entre outros motivos, devido à cura realizada em dia de sábado (Mc 3.1-6). Ao iniciar a narrativa da cura da filha de Jairo e da mulher com hemorragia, Jesus novamente está no lado oeste do lago da Galileia (Mc 5.21-43). A narrativa dessas curas termina com o pedido de Jesus de que não fosse espalhada a notícia da cura da menina (Mc 5.43). A notícia da chegada de Jesus atraía uma multidão de pessoas. Jairo, uma autoridade leiga da sinagoga, prostrou-se diante de Jesus, clamando com insistência para que fosse até sua casa impor as mãos sobre sua filha, salvando-a da morte. Jesus coloca-se a caminho. A multidão o segue. Supostamente, por ser Jairo uma liderança da congregação, sabia do conflito com as autoridades religiosas. Mesmo assim, enquanto a mãe ficou cuidando da menina, ele foi buscar ajuda para salvar a filha. Durante o deslocamento de Jesus até a casa de Jairo, uma mulher com hemorragia rompe as fronteiras da lei (Lv 15.19ss), tocando em Jesus, o Messias. Essa lei religiosa, oriunda possivelmente do período pós-exílico, dizia que a hemorragia tornava seu corpo impuro. Consequentemente, tudo o que ela tocava tornava-se impuro também. Por isso, ao tocar em Jesus, ela rompe as fronteiras da lei, construindo uma nova relação com o sagrado. Na época de Jesus, prevalecia o entendimento de que a chamada “impureza das mulheres” as incapacitava para o acesso ao âmbito sagrado (Neuenfeld, 2001, p. 124), pois contaminava o “lugar onde Deus habita” (Neuenfeld, 2001, p. 52). Para evitar catástrofes, como a narrada no livro de Lamentações, buscava-se seguir rigorosamente um conjunto de leis, definida por um corpo sacerdotal masculino. A mulher que sofria de hemorragia, com sua fé, revela que é a vida que define uma nova relação com o sagrado. A hemorragia causa “anemia, desproteinização, astenia, podendo, inclusive, causar morte” (Queiroz, 2013, p. 35). Apesar da fraqueza física, ela buscou, sem sucesso, ajuda na medicina (Mc 5.26). Ao saber que Jesus estava na região, ela pensou: Se eu apenas tocar na capa dele, ficarei curada (Mc 5.28). Com fé, temor e tremor, ela toca no manto de Jesus. Ao tocar, a relação com o sagrado é reestabelecida. Seu silêncio em relação ao ocorrido dura apenas o tempo entre o toque e a reação de Jesus, perguntando pela protagonista da ação. Sua resposta à autoidentificação é imediata. Com tremor e temor ela prostra-se aos pés do Messias (Mc 5.33). Em resposta Jesus testemunha que foi a fé que a salvou. Diz que pode ir em paz, pois está curada do seu mal (Mc 5.34). A mulher, cujo nome não é identificado pelo evangelista Marcos, buscou a cura e encontrou também a salvação. Agora ela poderia voltar inclusive a frequentar a sinagoga e o templo, embora de forma limitada. Na época, as normas de expressão de fé
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limitavam o acesso das mulheres. No templo e nas sinagogas, as mulheres não podiam ocupar os mesmos espaços que os homens, falar nas cerimônias religiosas e realizar a leitura dos textos sagrados. Os sinais do Reino, testemunhados por Jesus, rompem com essa forma de relação com o sagrado. Em Jesus não são os códigos que comandam a vida, e sim a vida que comanda os códigos. Ao chegar à casa de Jairo, Jesus estende a mão para a menina, quebrando também a lei que impedia o contato com o corpo de alguém que tinha falecido. Assim, restaura a vida em sua integralidade. Apesar da ordem dominante excluir as pessoas doentes, elas permanecem na confiança de que a misericórdia e o amor de Deus são mais fortes do que qualquer forma de exclusão. Esse sentimento fez a mulher com hemorragia ir ao encontro de Jesus. E, embora Jairo fosse funcionário da sinagoga, não hesita em buscar a ajuda de Jesus, mesmo sabendo da perseguição que este sofria pelas autoridades da época.
3 Meditação O texto narra o encontro de Jesus com duas mulheres. Uma já não tão jovem, outra na adolescência. Ambas estão interconectadas por serem mulheres e por precisarem de auxílio. A idade da mais jovem era exatamente o tempo de doença da mais velha. Se, no caso da jovem, é o pai quem intercede e procura ajuda, no caso da mais velha é ela mesma quem toma a atitude e “rouba” um milagre. Assim como a mulher percebeu as mudanças em seu corpo, Jesus também reconheceu que algo havia acontecido, mesmo não tendo desempenhado nenhum papel consciente na cura. Ele sentiu que havia saído poder de si, mas não sabia muito bem para quem e nem para quê. Jesus não estava disposto a permitir que a saída de seu “poder” ocorresse sem reconhecimento. O “roubo” de um milagre de cura era inadequado. Ela não teve opção de simplesmente ir embora. Ela poderia ter fugido com sua “cura roubada”, mas isso não teria sido a cura total, pois ela precisava de cura para além da física. Ela precisava de cura social e comunitária. Depois da pergunta e do olhar insistente, a reação de Jesus foi inesperada. Ao invés de acusar a mulher, ele afirmou a fé dela. E ela foi em paz. Jesus também seguiu seu caminho. Ele foi salvar a vida da jovem. Mas desta vez Jesus cuidou para não haver uma exposição pública da sua ação nem da situação da menina. A vida de Jesus, suas ações de cuidado, seu amor pela vida de todas as pessoas garantiu cura que atravessa fronteiras e barreiras étnicas (cf. 5.1-20), de gênero (ver 5.21-43), de idade. Jesus escolheu não deixar as pessoas nas condições em que as encontrava.
4 Imagens para a prédica O texto de Marcos apresenta pessoas que tiveram a coragem de buscar ajuda num momento de dificuldade. A vida de duas mulheres está em risco. A mulher com hemorragia por 12 anos e a jovem de 12 anos, com a morte declarada.
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É importante lembrar na hora de preparação da prédica que há situações em que as pessoas têm muita fé, elas se jogam aos “pés” de Jesus e, mesmo assim, suas doenças não são curadas ou as pessoas amadas não voltam à vida. Fazer uma ligação simplista entre fé e cura não ajuda. Convide a comunidade a refletir sobre a coragem de pedir ajuda e sobre a valorização da vida de todas as pessoas. Vivemos em um tempo em que pedir ajuda passou a ser sinal de fraqueza ou incompetência. Na verdade, pedir ajuda é um ato de extrema coragem e confiança. Pedir ajuda e receber uma resposta empática ajuda a curar muitas dores e males. Resgate histórias na própria comunidade onde pequenos gestos de cuidado significaram vida. Tome cuidado para não fazer um “nós” pessoas boas e “elas” pessoas que precisam de ajuda. Todas e todos nós já recebemos o cuidado de alguém e todas e todos nós vamos precisar de cuidado ao longo da vida. Isso é normal e saudável. O que é anormal é não receber cuidado em tempos de dor, fragilidade e solidão. O amor de Deus não escolhe pessoas, mas nossas atitudes e discursos impedem pessoas de experimentarem esse amor. Desafie a comunidade a responder ao chamado de Jesus sendo igreja diaconal e inclusiva.
5 Subsídios litúrgicos Litania de acolhida: L: Quando olhamos para o lado e vemos outras pessoas, C: nós fazemos parte do milagre de Deus! L: Quando olhamos para o lado e respondemos ao clamor das pessoas em sofrimento, C: nós fazemos parte do milagre de Deus! L: Quando olhamos para nós mesmas e nós mesmos com amor, C: nós fazemos parte do milagre de Deus! L: Nós fazemos parte dos milagres de Deus que acontecem na simplicidade da vida a todo instante e em todos os lugares. Dá-nos, Deus, coragem para perceber a tua ação no mundo e responder ao teu chamado.
Bibliografia NEUENFELDT, Elaine Gleci. Sangue, fluxos e poderes – ditos e entreditos em torno da menstruação e do parto no Levítico 12.1-8 e 15.19-30. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, 2001. QUEIROZ, Lauro José Coelho. A cura da mulher hemorrágica: um diálogo entre a teologia e a medicina a partir de uma leitura de Lucas 8.43-48. São Leopoldo: EST/PPG, 2013. 84 p.
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7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
08 JUL 2018
PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 12.2-10 EZEQUIEL 2.1-5 MARCOS 6.1-13
Claiton André Kunz
Minha graça te basta
1 Introdução Paulo provavelmente escreveu a Segunda Carta aos Coríntios na Macedônia, em 55/56 d.C. A carta foi escrita para a igreja de Corinto, formada por cristãos gentílicos, que tinha sido fundada por ele em 49/50 d.C., em sua segunda viagem missionária. Ela era constituída em grande parte por gentios pouco familiarizados com o Antigo Testamento e seus costumes morais e religiosos eram o oposto dos princípios cristãos. Por isso era preciso muito trabalho e ensino para levá-los à maturidade espiritual (1Co 3.1-3). Corinto era a capital da província da Acaia, cidade portuária aberta ao mundo. Seus moradores eram provenientes de todas as camadas sociais, culturais e religiosas. Antes da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo já tinha lhes escrito uma carta (conhecida como “Carta Perdida” – 1Co 5.9). O conteúdo total dessa carta não é nem será totalmente conhecido, visto ela ter se perdido, mas sabe-se, pela própria citação de Paulo, que condenava a prostituição que existia no meio deles. Timóteo leva a primeira carta de Paulo a Corinto com o objetivo de regularizar a situação o quanto antes. Parece que isso não aconteceu. Por isso Paulo viaja para colocar as coisas em ordem. Conclui-se de 2 Coríntios 12.14; 13.1 (onde Paulo anuncia sua terceira viagem a Corinto) que essa tenha sido uma viagem intermediária, que Atos não menciona. Essa visita não foi feliz (2Co 2.1ss). Há um incidente lamentável, em que Paulo é injustiçado. Levanta-se forte oposição contra ele (2Co 1.15ss; 3.1; 5.11; 6.3-4; 7.2; 12.16; 10.10s; 11.6; 12.12; 13.3). Paulo lhes escreve, então, uma carta severa, que é chamada de “carta de lágrimas” (2Co 2.3-4; 7.8) que, como a primeira, se perdeu. Provavelmente foi Tito quem levou essa carta (2Co 7.14ss). Tito volta e traz notícias de Corinto, dizendo que a igreja está arrependida (2Co 7.6-16). Mesmo assim, nem todos os problemas tinham sido resolvidos. Por isso Paulo envia a segunda carta, novamente através de Tito (2Co 8.16s) e nessa carta anuncia a sua terceira visita. Todo aquele que precisa de motivação e novo ânimo para o trabalho vai achá-los nessa carta. Mas Paulo não esconde o fato de que o ministério traz sacrifícios, privações, hostilidades e sofrimentos. A Segunda Carta aos Coríntios foi escrita para se defender, não só contra as críticas ocasionais da igreja de Corinto, mas também contra as calúnias e acusações que os seus inimigos lhe dirigiam onde quer que pregasse. Especialmente os capítulos 10 a 13 são uma defesa de sua autoridade apostólica.
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2 Exegese Algumas observações exegéticas do texto de 2 Coríntios 12.2-10. v. 2: Faz parte do estilo rabínico colocar uma palavra impessoal, como, por exemplo, “homem”, no lugar da primeira pessoa quando o autor fala de si mesmo. Quando fala que aconteceu há 14 anos, é provável que tenha acontecido no período em que esteve em Tarso (At 9.20; 11.25), do qual não temos muitas informações. v. 3: Paulo fala sobre sua visão e declara que não sabe se de fato aconteceu. v. 4: A expressão paraíso é o equivalente ao terceiro céu (v. 2). A expressão deve designar o céu mais elevado, onde está a presença de Deus. A expressão “palavras inefáveis” (arreta remata) é um antigo adjetivo verbal que ocorre somente aqui no Novo Testamento e era usado com o sentido de “segredos divinos”, ocultos aos seres humanos. v. 5: Nesse homem me gloriarei, mas não em mim mesmo... Fala-se como se houvesse dois Paulos: aquele que teve o privilégio de ter uma experiência com Deus há 14 anos, e aquele que reconhece as suas fraquezas (cf. 11.30). v. 6: A expressão não seria insensato (tolo) parece uma contradição aos versos 11.1 e 11.16, mas aqui em 12.6 está falando do Paulo arrebatado. O termo grego aphron significa falta de sanidade e sobriedade mentais, um hábito mental sem controle. v. 7: “Um espinho na carne”. O termo grego skolops é uma palavra antiga e pode significar lasca, estaca ou espinho. Em papiros e inscrições antigos aparece tanto com o significado de lasca como de espinho, mas na LXX aparece normalmente como espinho. Ainda há quem defenda que a tradução possa ser uma estaca para torturas ou vara de madeira pontiaguda. Muitos irão defender de que se trata de uma enfermidade física persistente, aparecendo todo tipo de teoria (malária, problemas de visão, epilepsia, insônia, dores intensas de cabeça etc.). Parece confortante não sabermos exatamente qual a aflição em particular que assolava a Paulo, pois muitos cristãos também têm seus “espinhos” particulares. Quando Paulo afirma que era um mensageiro de Satanás (angelos Satana), deixa claro que era uma aflição personalizada. Esse espinho/mensageiro de Satanás foi enviado para o atormentar/golpear (kolaphizei). O tempo presente do verbo refere-se a um acontecimento constante e recorrente. Essa palavra não é frequente no Novo Testamento e deriva de kolaphos (punho). Pode ser comparada com textos de Mateus 26.67 e 1 Coríntios 4.11. O mensageiro de Satanás persistia em golpear Paulo no rosto, mas parece que ele entende que era a vontade de Deus que assim fosse. v. 8: Na expressão “que o tirasse de mim” (hina apostei aph’ emou), o verbo aphistemi está na voz ativa do segundo aoristo do subjuntivo, e a ideia é “que o aparte de mim definitivamente”. v. 9: A expressão “Mas ele me disse” está com o verbo eireken, na voz ativa do perfeito do indicativo, como se fosse a última palavra de Deus sobre o assunto. Mas, ao mesmo tempo, deve ser entendida como uma palavra permanente de consolo e segurança (minha graça é suficiente para você). O termo para “aperfeiçoar”
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é teleitai e está no presente do indicativo passivo, ou seja, o tempo presente enfatiza a ação contínua de forma que o poder está sendo aperfeiçoado na fraqueza. Paulo fala então que o poder de Cristo “repouse” sobre ele. Para isso utiliza o termo episkenosei. Pode ser uma referência à glória de Deus habitando na tenda ou no tabernáculo. Paulo poderia estar dizendo que o poder de Deus desceu sobre ele e fez sua morada no frágil tabernáculo de seu corpo físico. v. 10: Por isso... regozijo-me. Os inimigos de Paulo terão dificuldades na sua intenção de atacá-lo, pois mesmo nos insultos, perseguições e angústias, Paulo se alegra.
3 Meditação O apóstolo Paulo, ao escrever aos cristãos coríntios, diante das críticas e oposições recebidas, passa a defender o seu apostolado. Ao fazê-lo, nos ensina como Deus lida com o ser humano em diferentes situações. Podemos perceber neste texto três formas de Deus agir conosco. a) Um Deus que exalta (v. 2-6): Em meio à série de argumentos da defesa de Paulo, ele avisa que passará agora às visões e revelações que Deus havia lhe dado (v. 1). Pelo contexto todo das cartas paulinas e também dos relatos sobre sua vida, no livro de Atos, sabemos que Paulo não buscava honras humanas. Entretanto, deixava que Deus o honrasse. E Deus fez isso dando-lhe visões e revelações. Conforme o livro de Atos, podemos ver que em sua conversão havia visto o Cristo glorificado (At 9.3; 22.6), teve a visão de Ananias ministrando a ele (At 9.12), a visão de Deus chamando-o a pregar aos gentios (At 22.17), a visão do chamado para ir à Macedônia (At 16.9), além de várias visões de encorajamento (At 18.9; 23.11; 27.23). Mas aos coríntios, entre os quais muitos o criticaram e menosprezaram, ele compartilhou uma experiência especial dada a ele por Deus. Foi uma experiência tão especial e maravilhosa que o apóstolo nem sequer tinha conhecimento se havia sido levado fisicamente ao céu ou se seu espírito havia deixado o corpo físico. Ele afirma duas vezes se foi no corpo, ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe (v. 2 e 3). Um contraste no mínimo interessante: uma vez foi descido numa cesta como fugitivo; outra vez é arrebatado ao terceiro céu. É interessante que Paulo guarda essa informação para si durante 14 anos sem compartilhá-la. Deus o honrou e exaltou, levando-o ao paraíso, permitindo que ouvisse “palavras inefáveis”, coisas que ao ser humano não é permitido falar. Parece que Paulo ouviu segredos divinos compartilhados no céu; coisas proferidas por Deus e pelos seres celestiais, mas impronunciáveis pelos seres humanos. Uma honra como essas teria enchido a maioria das pessoas de orgulho. Dificilmente alguém conseguiria ficar 14 anos calado, sem espalhar algo assim imediatamente para o mundo todo. Mas Paulo prefere não se vangloriar. Apenas fala a verdade e deixa os fatos falarem por si mesmos. b) Um Deus que humilha (v. 7-8): Deus sabe como equilibrar as coisas em nossa vida. Se tivermos apenas bênçãos, poderemos nos tornar orgulhosos. Assim, ele permite que também tenhamos algumas lutas. A maravilhosa experiência
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de Paulo no céu poderia arruinar o seu ministério na terra. Por isso Deus permite um espinho na carne de Paulo a fim de evitar que se orgulhasse. O sofrimento também pode ser um instrumento de Deus para construir o nosso caráter (Rm 5.1-5). Como Deus havia feito no caso de Jó (Jó 1 e 2), agora também permite que Satanás afligisse a Paulo. Apesar de não entendermos plenamente a origem do mal no universo nem os propósitos de Deus ao permitir que o mal viesse a existir, sabemos que Deus controla o mal e que pode usá-lo inclusive para glorificar a si mesmo. Satanás não pode afligir um cristão sem a permissão de Deus. Assim, qualquer coisa que Satanás tenha feito a Jó ou a Paulo estava dentro da permissão divina. Não temos condições de determinar exatamente o que era o “espinho na carne” de Paulo. O termo pode significar uma estaca afiada usada para tortura. Parece que se tratava de uma aflição física de algum tipo que causava dor e agonia ao apóstolo. Desta forma, Satanás recebe permissão para “esbofetear” Paulo. A expressão significa “bater, acertar com o punho” e o tempo verbal indica que era algo constante e repetitivo. Há quem pregue hoje em dia afirmando que quem tem fé em Deus nunca ficará doente. Há quem acredite inclusive que alguém que está doente ou aflito envergonha o nome de Deus. Entretanto, quando lemos sobre a vida de Paulo, entendemos que Deus não promete tornar os cristãos imunes a enfermidades e sofrimentos. Que contraste entre as duas experiências de Paulo! Ele passou do paraíso à dor, da glória ao sofrimento. Provou as bênçãos de Deus no céu e os golpes de Satanás na terra. Aprendeu que as duas coisas podem andar juntas. c) Um Deus que sustenta (v. 9-10): Quando Paulo pede a Deus que tire o espinho de sua carne, a resposta do Senhor é contundente: minha graça te basta (é suficiente). O tempo verbal da expressão ele me disse denota que a palavra de Deus era definitiva, de uma vez por todas. Em meio a toda aquela situação de sofrimento, a graça de Deus era suficiente para o apóstolo. Se a sua graça é suficiente para nos salvar, também será suficiente para nos guardar e fortalecer em meio aos sofrimentos. Muitas vezes Deus nos permite enfraquecer, para que possamos receber a sua força. Deus não remove a aflição, mas nos dá sua graça, de modo que a aflição trabalhe em nosso favor e não contra nós. Assim, Paulo descobre que o espinho na carne era uma dádiva de Deus. Deus sabe equilibrar em nossa vida as bênçãos e os fardos, o sofrimento e a glória. Nem toda enfermidade é causada pelo pecado. Na verdade, a maior enfermidade que temos é o pecado e o pior pecado é o orgulho. Por isso Deus precisa dosar algumas coisas em nós para que aprendamos a nos submeter a ele e desfrutar de sua graça. É uma grande ironia Deus ter usado Satanás, o mais orgulhoso de todos os seres, para conservar a humildade de Paulo.
4 Imagens para a prédica “Usa-me, meu Salvador, para qualquer propósito, em qualquer terreno, conforme a tua vontade. Eis aqui meu pobre coração, um vaso vazio; enche-o
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com tua graça. Eis aqui minha alma pecadora e aflita; desperta-a e refresca-a com teu amor. Toma o meu coração para tua morada; a minha boca para divulgar a glória do teu nome; meu amor e todos os meus recursos, para o progresso da obra cristã. Não permitas que minha fé jamais se enfraqueça ou diminua, de modo que, seja quais forem as circunstâncias, eu possa dizer: ‘Jesus precisa de mim e eu dele’” (Dwight L. Moody). “A melhor maneira de veres a luz divina é apagar tua própria vela” (Francis Quarles). “As partes mais baixas da terra são quentes e férteis; as montanhas imponentes são frias e estéreis” (Spiros Zodhiates). (Apud Blanchard, 1993.)
5 Subsídios litúrgicos “Foi o orgulho que transformou anjos em demônios; é a humildade que faz homens serem como anjos” (Agostinho). “Deus pensa mais no homem que pensa menos em si” (J. Blanchard). “Se aprendêssemos a humildade, ela poderia poupar-nos da humilhação” (Vance Havner). “Da mesma forma como o primeiro requisito de uma conversão sadia é o pecador perder a esperança de qualquer ajuda que possa prestar a si próprio, a perda de toda confiança em si mesmo é o primeiro elemento essencial para que o crente cresça em graça” (A. W. Pink). “Quanto mais elevado estiver o homem na graça, menor ele será a seus próprios olhos” (C. H. Spurgeon). “Humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu” (Andrew Murray). “Da mesma forma como o orgulho foi o princípio do pecado, a humildade deve ser o princípio da disciplina cristã” (Agostinho). “Para os que desejam aprender os caminhos de Deus, a humildade é a primeira, a segunda e a terceira lição” (Agostinho). “Não acredite que a religião lhe tenha feito algum bem, a não ser que você tenha um conceito elevado dos outros e inferior de si mesmo” (Jeremy Taylor). “Erra quem pensa que fé e humildade são incompatíveis; não somente combinam como não podem ser separadas” (Robert Traill). (Apud Blanchard, 1993.)
Bibliografia BLANCHARD, John. Pérolas para a vida: pensamentos para sermões e palestras. São Paulo: Vida Nova, 1993. ROBERTSON, Archibald Thomas. Imágenes verbales en el Nuevo Testamento. Barcelona: CLIE, 1989. (Tomo 4 – Las epístolas de Pablo). WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Novo Testamento 1. Santo André: Geográfica, 2006.
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PRÉDICA: MARCOS 6.14-29 AMÓS 7.7-15 EFÉSIOS 1.3-14
8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
15 JUL 2018
Ana Isa dos Reis
Tua palavra, Senhor, anunciamos, comprometidas e comprometidos!
1 Introdução Mesmo no mês de julho, podemos ainda encontrar “festas juninas”. O que muitas vezes é desconhecido é a origem das mesmas. Ao falarmos sobre o martírio de João Batista, é importante nos apropriarmos de sua história. João era de uma família sacerdotal rural. O Evangelho de Lucas (Lc 1) traz informações sobre seus pais e sua infância. Segundo pesquisadores (Meier, Theissen e Merz, Ernst e Webb), essas informações de Lucas não são aceitas como históricas, a não ser o fato de João pertencer ao ambiente camponês de uma aldeia dada sua linguagem rude e as imagens que emprega. A tradição, a partir do Evangelho de Lucas, coloca João como filho do casal já idoso Zacarias e Isabel. Essa criança vem ao mundo com o objetivo traçado por Deus de preparar o caminho para o Messias. A data de nascimento de João foi atribuída após o cristianismo definir o dia 25 de dezembro como nascimento de Jesus. De acordo com Lucas 1.26,36, o nascimento de João se dá seis meses antes do nascimento de Jesus, sendo ambos festejados na noite anterior. A festa de São João tem sua origem fora do cristianismo, no hemisfério Norte, especialmente entre os povos germânicos, que ritualizavam o solstício de verão, comemorado, em especial, através de fogueiras e tochas, representando a vitória do sol, o auge da luz. É também a época de maturação de cereais e seria um tempo de bênção, especialmente depois de um longo e rigoroso inverno. A partir do séc. V, a festa passa a ser integrada ao calendário eclesiástico. Lutero valida e recomenda o Dia de São João: “Não comemoramos esta festa de São João Batista por causa dele, mas por causa de seu ministério [...] Este dia de festa se refere a Cristo. Por isto a festa de João Batista deve ser enaltecida como a de Cristo” (prédica proferida por Lutero em 1525). No Brasil, a Festa de São João chega em sua versão lusitana, passando do solstício de verão para o do inverno, sendo acolhidos usos e costumes regionais que dão um colorido todo peculiar à festa. A festa junina é parte do calendário do folclore brasileiro. Na igreja ocidental, atribuiu-se a data de 29 de agosto como recordação da decapitação de João Batista, ainda que Lutero pregasse sobre a morte de João na data em que se comemorava seu nascimento. Os textos previstos falam sobre os riscos e a alegria em anunciar a mensagem de Deus. A alegria se dá por causa da possibilidade de testemunhar e levar às
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outras pessoas a mensagem do evangelho. Contrastam com essa alegria os riscos em anunciar a palavra de Deus, que pode levar, inclusive, a sofrimentos e morte.
2 Exegese v. 14-16: A perícope não fala da morte de João Batista em termos cronológicos. A morte de João é mencionada porque Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, pensa que Jesus poderia ser João ressuscitado, após ouvir sobre relatos de milagres praticados por Jesus e sobre os resultados impressionantes da missão dos discípulos. v. 17-20: Entre o outono do ano 27 e a primavera de 28, surge na Palestina um profeta original e independente que causa forte impacto nas pessoas, diz José Antonio Pagola. Ele deixou sua pequena aldeia e dirigiu-se para uma região desabitada da bacia oriental do Jordão, na região da Pereia, às portas da terra prometida, mas fora dela. Um lugar intencional, onde havia água abundante para o rito do “batismo” e por onde passava uma importante via comercial, que ia de Jerusalém em direção às regiões situadas a leste do Jordão, e por onde transitava muita gente, a quem João podia proclamar sua mensagem. Foi chamado de “Batista” ou de o “Batizador”, porque praticava um rito inusitado e surpreendente nas águas do rio Jordão. Apesar dos vários ritos de purificação amplamente difundidos naquele tempo, o rito de João não era praticado de qualquer maneira. João queria purificar o povo da impureza radical causada pela maldade. Seu novo batismo aponta para uma purificação total. Logo, as pessoas passam a falar sobre o batismo de João. Ser submergidos pelo Batista nas águas vivas do Jordão significa acolher seu chamado e incorporar-se à renovação de um Israel corrompido pelo mal. João reconhece que é Deus mesmo quem concede a purificação. Ele é apenas seu mediador. Ao experimentar o batismo de João, a pessoa, que assume sua própria responsabilidade em confessar seus pecados e reconhecer o pecado do povo, expressa solenemente o abandono do pecado e o retorno à aliança com Deus, procurando dar “frutos dignos de conversão”. “O Batismo de João é muito mais do que um sinal de conversão. Inclui o perdão de Deus”, diz Pagola. João proclama um batismo de conversão para o perdão dos pecados, perdão esse concedido por Deus na última hora àquele povo completamente perdido, o que comove muitas pessoas, escandalizando os sacerdotes. As pessoas batizadas retornam às suas casas para viver de maneira nova, como membros de um povo renovado, preparadas para acolher a chegada já iminente de Deus. João nunca se considerou o Messias, ele mesmo se diz como aquele que inicia a preparação. Sua tarefa é chamar as pessoas a olharem para si mesmas, chamando o povo a reconhecer que está perdido, que está longe de Deus. João desafia as pessoas a reconhecerem seus pecados e a pedirem perdão, experimentando as águas restauradoras e vivendo um novo relacionamento com Deus, agindo de acordo com a sua palavra. João Batista denunciava, sem medo, o pecado do povo e não se detinha nem sequer diante das autoridades. João acaba se tornando um profeta perigoso, especialmente quando Herodes repudia sua esposa para
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casar-se com Herodias (ou Herodíades), mulher de seu meio-irmão Filipe. Não se sabe qual o motivo que leva Herodes a casar-se com Herodias. Sabe-se que Herodes Antipas era casado com a filha de Aretas IV, rei da Nabateia. João denuncia publicamente a atuação do rei, que era contrária à lei judaica. O Evangelho de Marcos diz que Herodes gostava de ouvi-lo, mesmo sabendo que João apontava seus erros. O texto de Marcos aponta apenas Herodias como quem nutria um ódio mortal por João. Já segundo o historiador Flávio Josefo, “Herodes temeu que a enorme influência de João sobre as pessoas provocasse uma espécie de revolta [...] e considerou muito melhor eliminá-lo antes que enfrentar depois uma situação difícil com a revolta e lamentar a indecisão”. v. 21-28: Esses versículos, de acordo com pesquisas, retratariam uma lenda popular que corria entre as pessoas sobre a execução do Batista. Fato é que, preocupado com a popularidade de João e suas denúncias, apontando os erros também do seu governo e de sua vida, Herodes Antipas manda encarcerar João Batista na fortaleza de Maqueronte. Não se sabe bem ao certo o momento ou as circunstâncias, fato é que, mais tarde, João é executado e, assim, silenciado. Milton Schwantes destaca que a forma como se dá o relato da decapitação de João deve fazer parte da tradição criada pelos sucessores do Batista, que criaram um movimento significativo no primeiro século. v. 29: A morte de João Batista deve ter causado grande impacto. Entre os discípulos e colaboradores de João, tudo é inquietude e confusão, ainda que esses tenham continuado a atividade de João após sua morte. Com a morte de João, já temos um prenúncio da morte de Jesus. Denunciar o pecado, apontar o mal é perigoso.
3 Meditação Preparar o caminho para o Senhor – essa foi a missão de João. Segundo historiadores, inclusive Josefo, João era muito conhecido. Sua pregação se espalhou entre os judeus e muitas pessoas vieram até ele para ouvi-lo e para experimentar “seu batismo”. Também Jesus foi ao encontro de João, acolheu seu projeto e, segundo Pagola, aderiu ao grupo de discípulos e colaboradores de João. Muitas são as formas de preparar o caminho para o Senhor. A principal forma de João se dá através da pregação da palavra de Deus. Essa pregação se dava através da denúncia do pecado e do anúncio da vontade de Deus. Pregar a Palavra é denunciar os pecados, ainda que com amor, mas denunciá-los e provocar ações de mudança. À denúncia juntam-se o anúncio e o ânimo para que aconteça arrependimento, rasgar o coração, mudar o caminho (a direção), andar no caminho certo, na palavra de Deus. Essa era a tarefa dos profetas. Essa é a nossa tarefa também hoje. Pregar a Palavra faz parte da tarefa pastoral. Não é qualquer palavra que é pregada, mas a palavra de Deus. Sobre as pessoas que pregam há um peso sobre os ombros, afinal, conhecemos histórias de muitas pessoas que perderam a vida por causa dessa pregação. Quando pregadoras e pregadores atualizam a Palavra e falam forte contra os poderes deste mundo, não raro se ouve quem diga que a
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igreja não deve se meter em questões de política, economia e cultura, porque a ela cabe apenas o espiritual. Quando a igreja faz uma denúncia, já temos quem atire pedras, querendo cercear a ação da igreja, colocando-a dentro de “sua cerca”. Ainda mais, existem ameaças à igreja quando ela se posiciona a partir da palavra de Deus. Ainda que pareça que vivemos em liberdade, onde cada pessoa pode falar o que pensa, sabemos que não é bem assim. As redes sociais mostram que muita gente se manifesta no virtual (será que ao olhar nos olhos eu já não tenho mais tanta convicção assim do que escrevi?), não aceita opiniões diferentes. Essas, até mesmo da própria igreja, são banidas, ridicularizadas e até mesmo excluídas. Não só no mundo virtual, sabemos disso! Quando ministras e ministros da igreja (ou mesmo lideranças e pessoas das comunidades) precisam falar diferente daqueles que se acham no poder, sabemos dos conflitos que surgem. Em geral, somos mandados embora ou somos rotulados de “comunista”, “PT”, “sem terra”, e sabe-se lá o que mais. E quando a gente não entra logo em atrito, procura falar de uma forma não tão direta quanto João Batista, também levamos “ferro”, sendo taxados de “água com açúcar”, “ovelhinha mansa”, “sem opinião própria”, “infiel ao Evangelho”, “reacionário” etc. Pregar a Palavra não é tarefa tão fácil quanto pode parecer. Anunciar a palavra de Deus é tarefa de toda pessoa batizada, especialmente confiada às pessoas ordenadas. Pregar a palavra de Deus é uma oportunidade, uma alegria e, ao mesmo tempo, um perigo. Pregar a Palavra é ser fiel ao evangelho, levando em conta que cada texto bíblico tem seu contexto, sua história. Não considerar isso é tirar parte da beleza e da profundidade dos textos bíblicos ou eclesiológicos. Pregar a Palavra é considerar a lei e o evangelho. É deixar que, em primeiro lugar, a Palavra fale para mim. O que esse texto diz para minha vida? A seguir, o texto precisa encontrar chão no lugar onde estou. João Batista conhecia a terra onde estava pisando. Sabia que Israel tinha se perdido de Deus em seus pecados, querendo guiar a si próprios, como se fosse possível se salvar sozinho da lama puxando-se pelos próprios cabelos. Ao reconhecer que o povo estava perdido, João se vale de uma interessante estratégia. Às portas da terra prometida, mas fora dela, João Batista chama as pessoas a se situarem simbolicamente no ponto de partida. Assim como aconteceu com a “primeira geração do deserto”, também agora o povo deve escutar a Deus, purificar-se nas águas do Jordão e entrar renovado no país da paz e da salvação. Enquanto escrevo este texto, ouço os mandos e desmandos com relação à aposentadoria, seguridade e corrupção que assolam nosso país. Percebo gente perdida. Outras agindo como se fossem um deus. Não escuto mais os famosos panelaços, parece que silenciaram porque agora está “tudo bem”. Talvez seja hora de voltar para o início. Quando nos perdemos em uma estrada, sabemos que o melhor é voltar para o início e começar de novo; além de mais fácil e seguro, é mais rápido e eficaz. O preço que João Batista pagou por anunciar a palavra de Deus foi a vida. Sua cabeça rolou porque não ficou quieto enquanto percebia o povo perdido, longe de Deus, alguns sendo explorados e outros se julgando deuses. João chama a atenção de todas as pessoas. O pecado é maior do que o meu umbigo. Também
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precisamos pedir perdão pela omissão, pela apatia e comodismo e por não sermos agentes de transformação. Ao chamar à confissão de pecados, João dava a oportunidade às pessoas de reconhecer seus erros, reconhecer que não são perfeitas, perceber que estavam longe de Deus, ainda que vivessem às portas do templo. Ao ouvirem a palavra de Deus, confessarem sua culpa e experimentarem o perdão do próprio Deus nas águas vivas do Jordão, as pessoas tinham a chance de voltar para o início e começar de novo. Muitas voltavam para suas casas e procuravam viver de forma nova, e outras passavam a seguir João e ajudá-lo na tarefa de chamar as pessoas. As palavras de João, anunciando a palavra de Deus, comoveram profundamente as pessoas e as transformaram. A palavra de Deus nunca volta vazia. Mas para outras pessoas, essas mesmas palavras foram ataque e significaram que poderiam perder seu status, seu prestígio, seu poder, sua riqueza. Para essas, que se colocavam no topo do poder, sobre a vida e a morte, João tinha que morrer. Ele atrapalhava e também representava perigo. Ele abria os olhos das pessoas para que voltassem a Deus e não aceitassem os poderes deste mundo como vitalícios. Assim também foi com Jesus. Ao anunciar o reino de Deus, ao resgatar as pessoas colocadas à margem, ao questionar o que era apresentado como “o certo”, Jesus também perde a sua vida. Suas palavras, que era a palavra de Deus, incomodaram o poder estabelecido, significaram perigo e problemas. Poderíamos dizer que a questão é como a palavra de Deus é anunciada. João Batista se vale do deserto, de palavras duras e vida austera; é chamado de “batizador”. Jesus deixa de lado a maneira de vestir do Batista e substitui seu estilo e atitude austera por um estilo de vida festivo; é chamado de “comilão” e “amigo de pecadores”, porque costumava celebrar a acolhida de Deus fazendo refeições com indesejáveis. Mesmo com estilos diferentes, ambos pregam a palavra de Deus. Ambos experimentam a morte. Ou seja, a fidelidade à Palavra pode levar à morte, indiferente do recipiente que usamos para anunciar essa Palavra. Certamente porque a palavra de Deus é lâmpada para todas as pessoas e não apenas para algumas que se autointitulam de “escolhidas”, é luz que não deixa injustiças debaixo do tapete nem fecha os olhos para mentiras, corrupção, barganhas e segregações. É preciso coragem para anunciar a Palavra. Podemos usar estratégias, como João Batista fez. Mas não podemos calar. A pergunta que nós fazemos na igreja muitas vezes é: “quem nos dá costas quentes nesta hora?”. Bem lá no fundo sabemos que apenas Deus é capaz de nos apoiar até o fim. A Palavra precisa ser pregada. O amor talvez seja a melhor forma de anunciar a Palavra. Isso não significa que estaremos imunes a sofrimentos ou morte. A palavra de Deus visa à transformação, construção do reino de Deus e não do reino deste mundo. Essa Palavra irá comover muitas pessoas. Muita gente irá se apaixonar por essa Palavra, irá investir seu tempo, seus dons e até bens para ajudar na construção do reino de Deus. Há muitas pessoas assim em nossas comunidades e em muitos lugares. Mas não dá para se tornar indiferente à palavra de Deus. Haverá pessoas que odiarão quem anuncia a Palavra, que tentarão distorcer a palavra de Deus, dizendo que hoje Deus não pensa mais assim (por incrível que pareça, isso existe,
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também dentro das igrejas). Haverá pessoas que não deixarão a Palavra transformá-las, que não romperão o incurvatus in se, que tentarão boicotar a Palavra, que infernizarão ou tirarão a vida de quem prega. A partir de Jesus, a morte não tem mais a última palavra. Cremos na ressureição. Por isso, bem no fim das contas, nada pode contra a palavra de Deus nem contra quem a anuncia. A palavra de Deus precisa ser pregada. Ela é dirigida a todas as pessoas, também a quem a detesta; ela é oportunidade para confissão de pecados, para perdão e para nova vida, para construção e edificação de novos céus e nova terra, já aqui e agora. Assim como João Batista, que não se considerava digno de se abaixar e desatar as correias das sandálias do Messias, assim somos chamados a ser preparadoras e preparadores do caminho. Jesus já está entre nós. Mas o reino de Deus ainda está por vir plenamente. Enquanto aguardamos o Rei vir em glória, anunciamos a Palavra, chamamos ao arrependimento, à transformação de vida e nos engajamos em lançar sementes do Reino, ajudando na construção de uma nova sociedade.
4 Imagens para a prédica Caso seja possível, um boneco ou manequim poderia ser vestido como João Batista. Ou mesmo alguém poderia interpretar João. É importante resgatar a memória e a história de João também em nossas igrejas. Outra possibilidade seria tornar plásticos os perigos e as oportunidades que o anúncio da palavra de Deus trazem.
5 Recursos homiléticos Confissão de pecados: O hino “Se sofrimento te causei, Senhor” (HPD 1, 150) poderia ser usado como confissão comunitária, logo após um momento de silêncio para confissão individual dos pecados. Kyrie: Ao Senhor confiamos nosso clamor. Há pessoas pelas ruas que já não têm mais esperança, que experimentam injustiça, que são esquecidas e que não são alvos de um olhar de misericórdia. Clamamos ao Senhor denunciando que sofremos com corrupção, com leis que privilegiam os mais fortes, com descaso em relação às pessoas idosas ou pouco investimento para garantir vida digna a todas as pessoas. Ao Senhor elevamos nossas vozes junto com pessoas que são ameaçadas porque anunciam o evangelho, porque são cristãs. Juntamos nossas vozes às de tantos mártires, clamando a Deus: “Compadece-te de teu povo, ó Senhor”. Clamemos juntos, cantando: “Pelas dores deste mundo, ó Senhor...”. Oração do dia: Bondoso Deus, chamaste João Batista para preparar o caminho do Messias esperado. Hoje, como pessoas batizadas, somos chamadas a preparar o teu caminho, enquanto aguardamos tua volta, ajudando a construir teu Reino já aqui e agora. Encoraja-nos, Senhor, a anunciar a tua Palavra. Dá-nos a certeza de
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que estás ao nosso lado enquanto testemunhamos teu evangelho, especialmente em momentos de perigo. Prepara nossos ouvidos, mente e coração para ouvirmos tua Palavra e nos deixarmos transformar por ela. Em nome de Jesus Cristo, nosso Salvador. Amém.
Bibliografia PAGOLA, José Antonio. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010. SCHWANTES, Milton. In: Proclamar Libertação. Quer seja oportuno quer não. v. X, p. 74ss.
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9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
22 JUL 2018
PRÉDICA: JEREMIAS 23.1-6 MARCOS 6.30-34,53-56 EFÉSIOS 2.11-22
Vítor Hugo Schell
A corrupção dos pastores de Israel e o Renovo do Senhor
1 Introdução O texto de Jeremias 23.1-6 deve ser analisado a partir da atividade de Jesus Cristo como o Messias, como bom pastor que se compadece de seu povo por estar perdido e desorientado como ovelhas sem pastor, como relatado pelos textos do evangelho de Marcos 6.30-34,53-56. A imagem trazida pelo evangelista no episódio da multiplicação dos pães é a mesma: o povo é o rebanho que precisa ser apascentado e que se mostra exausto, carente e sem esperança. O v. 34 descreve de forma plástica a atitude de Jesus diante daquela situação. Jesus é “impactado em suas entranhas” (esplanchnisthē). A revolta de Jesus é a demonstração da mesma revolta que é apresentada no texto do profeta Jeremias, pela situação em que se encontra o povo sob seus “pastores”. Tanto a multiplicação dos pães, relatada nos v. 35 a 44, quanto o fato de ter ido na direção dos discípulos andando sobre as águas e a cura de enfermos que eram trazidos à presença de Jesus (v. 5356), apontam para o cumprimento da palavra de Jeremias 23.5, ou seja, Jesus é o Renovo justo prometido por Deus, e com ele são chegados os dias da execução do juízo e da justiça na terra. O texto de Efésios 2.11-22 aponta para o aspecto da reunião do povo de Deus, composto de judeus e gentios, através daquele que evangelizou paz àqueles que estavam perto e aos que estavam longe (Ef 2.17). Aqueles que viviam sem esperança e sem Deus no mundo (v. 12), como estrangeiros e peregrinos, são feitos agora parte do rebanho, parte da família de Deus (v. 19).
2 Exegese O texto da prédica se encontra no final de uma profecia que diz respeito aos “pastores de Israel”. Depois de descrever a forma vergonhosa como Israel havia se prostituído, abandonando o Senhor, buscando auxílio político seja no Egito ou junto aos assírios (cf. 2.18,36,37), servindo a deuses inúteis e indo atrás dos baalins (cf. 2.11,23,25) e depois de descrever a desgraça que sobrevirá sobre o povo como consequência do seu pecado (cf. 4.6), o Senhor fala contra as lideranças do povo, os responsáveis pela corrupção de Israel. Tanto sacerdotes como intérpretes da lei e profetas e demais líderes do povo estão em rebelião: Os sacerdotes não perguntavam pelo SENHOR; os intérpretes da lei não me conheciam, e os líderes do povo se rebelaram contra mim. Os profetas profetizam em nome de Baal,
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seguindo deuses inúteis (2.8, veja também 5.31). Todas essas lideranças do povo são os assim chamados “pastores” que “destroem e dispersam as ovelhas”, aos quais o Senhor dirige sua palavra em várias partes de Jeremias. No capítulo 22 encontra-se a palavra que o profeta deveria pronunciar no palácio do rei de Judá, àquele que se assentava no trono de Davi (cf. 22.1ss). O capítulo 22 nos traz ainda a descrição de uma sequência de reis corruptos e idólatras, a quem é proclamado o juízo, uma vez que constroem palácios por meios corruptos, seus aposentos, pela injustiça, fazendo os seus compatriotas trabalharem por nada, sem pagar-lhe o devido salário (22.13), uma vez que não veem nem pensam noutra coisa além de lucro desonesto, derramar sangue inocente, opressão e extorsão (22.17). No final do capítulo 22 temos, então, as palavras proféticas de Jeremias a respeito de Joaquim, que deportado pelos babilônios (leia 2Rs 24.8-17), é substituído por seu tio Zedequias, que governou Judá de 598-587 a.C. até a plena derrocada de Jerusalém sob Nabucodonosor (2Rs 25). O texto da prédica pode ser dividido em duas partes principais: 1) Os versículos 1 e 2 descrevem a realidade das lideranças de Israel e confirmam tanto seu pecado quanto o castigo que virá sobre eles por causa de seu mau procedimento; 2) a partir do versículo 3, o próprio Senhor se apresenta como aquele que reunirá o seu rebanho e estabelecerá outros pastores que cuidarão dele. Em Jeremias 23.7-8, após o texto da prédica, o retorno do remanescente de Israel do exílio babilônico, conforme a promessa que encontramos no texto da prédica, é apresentado como novo marco da história de salvação do Senhor a ser recordado pelas gerações futuras. O primeiro versículo do texto da prédica é iniciado com o juízo descrito por meio de um “ai” onomatopeico que expressa a dor reservada pelo Senhor aos pastores de seu rebanho. Os pastores de Israel, justamente os que deveriam tomar conta do povo, são os mesmos que “não cuidaram dele”. Na segunda ocorrência do mesmo verbo, pāqaḏ, seu significado é “castigar”, sendo que o próprio Senhor é quem então “castigaria” esses pastores, ou seja, cuidaria dessa situação fazendo justiça. Temos aqui um claro jogo de palavras com esse verbo. Os dois primeiros versículos utilizam-se de conhecidas metáforas do mundo bíblico: pastores, ovelhas, rebanho. O povo de Deus é comparado ao rebanho que é confiado a pastores, para que esses o conduzam. São imagens riquíssimas, muitas vezes encontradas como forma de evidenciar o relacionamento de Deus com seu povo, como lemos por exemplo no Salmo 23, o conhecido “salmo do pastor”, ou até mesmo pelo próprio Cristo ao falar de sua obra como o “bom pastor”, como lemos em João 10.1ss. O texto de Ezequiel 34 é um importante paralelo. Trata-se também de uma profecia contra os “pastores de Israel”. A partir de Jeremias 23.3, o Senhor afirma que será ele mesmo aquele que reunirá o remanescente do seu rebanho destruído e disperso (v. 1) e os levará à pastagem para que cresçam e se multipliquem (v. 3). Ao contrário dos “pastores” que dispersaram e expulsaram (v. 2), o Senhor reunirá e trará de volta à pastagem (v. 3). O Senhor mesmo estabelecerá pastores para cuidarem do rebanho (v. 4). A expressão “dias virão” não faz referência a um tempo em particular, mas captura a atenção para a proclamação solene que aparece a seguir (compare, p. ex. Jr 7.32; 9.25 e 31.31). A reunião do rebanho, assim como seu sustento, será providenciada pelo próprio Senhor. Ele é quem dará ao
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povo sustento e fertilidade. Não seriam as negociações dos governantes idólatras nem a semente de Baal que traria esse novo tempo, mas o agir gracioso de Deus. A identidade do “Renovo Justo”, levantado por Deus, o nome pelo qual seria chamado, seria “O Senhor é a nossa Justiça”. Deus, ele mesmo, seria a justiça e cumpriria a justiça. Nada do que é dito sobre esse Renovo (o que brota das raízes de uma árvore caída) pode ser dito em relação aos reis em Israel. Seu reino é de sabedoria e ele fará o que é justo e certo, Judá será salva, Israel viverá em segurança. Ainda que o nome Zedequias, o rei que estava no comando por ocasião da queda de Jerusalém sob os babilônios, signifique “o Senhor é a minha justiça”, também ele acabou em ruína e pecado (2Rs 24.19). O Renovo Justo, chamado “o Senhor é a Nossa Justiça”, da dinastia restaurada de Davi, esse sim traria de fato algo novo (compare com Jr 33.14ss, onde num crescendo, a própria cidade sob a marca desse Rebento de Davi seria chamada “o Senhor é a nossa Justiça”). A profecia sobre o Renovo Justo, que tem seu cumprimento parcial em Zorobabel, em um novo momento de restauração para o povo cumpre-se plenamente em Jesus Cristo.
3 Meditação O texto da prédica pode ser considerado como um dos pontos altos da profecia de Jeremias, na medida em que deflagra a destruição e dispersão do povo, causadas justamente por aqueles que deveriam edificar e reunir. O texto aponta para a situação, em especial, sob o comando dos últimos reis de Judá antes do exílio babilônico; é interessante pensarmos que aqui os reis são considerados pastores, ou seja, os governantes políticos são considerados como pastores do povo. Eles são maus pastores! Governo político é, nesse sentido, “pastorado”, serviço ao Senhor. Podemos identificar facilmente a conexão entre nossas experiências com as lideranças políticas de nosso tempo e os pastores do povo de Deus, criticados no texto de Jeremias. Aqueles que eram responsáveis por guiar, cuidar, mostrar o rumo, são justamente aqueles que se tornam um peso ao povo, naqueles que maltratam e matam as “ovelhas”. São mercenários, “ladrões e salteadores” (cf. Jo 10.8-12). A descrição trazida por Jeremias 22.13-17,22 é muito atual, pois também os nossos governantes, infelizmente, poderiam ser descritos com as mesmas palavras. A maioria deles edifica seus palácios por meios corruptos, seus aposentos, pela injustiça, fazendo os seus compatriotas trabalharem por nada, sem pagar-lhe o devido salário (22.13), uma vez que não veem nem pensam noutra coisa além de lucro desonesto, derramar sangue inocente, opressão e extorsão (22.17). Não é muito difícil associarmos a palavra de Jeremias com os eventos recentes em nosso país. Pensemos apenas nos desdobramentos da famosa “Operação Lava Jato” da Polícia Federal, se o que se vê não é justamente corrupção sem fim, injustiça, opressão e extorsão, enquanto tantos compatriotas morrem em filas de hospitais, trabalham sem ver o resultado desse trabalho e sem ter o mínimo para seu sustento, enquanto palácios são construídos, joias e viagens são compradas com dinheiro de lucro desonesto. Fala-se em propinas de milhões de reais com grande naturalidade.
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A idolatria praticada e incentivada pelos “pastores” do povo reflete na situação de calamidade e confusão em que o povo se encontra. No pano de fundo da desgraça do povo está o abandono ao Senhor e a prática da religião de Baal. A busca por socorro, a busca por outras fontes, em outras formas de espiritualidade ou na tentativa de conchavos políticos, seja com a Assíria, no norte, ou, no Egito, ao sul, mostram a perdição e o desespero, assim como a perda de referenciais e perspectiva de onde, de fato, poderia vir o socorro. Também essa é uma realidade em nossos dias e que se mostra nas mais variadas formas de “idolatria moderna”. O povo havia abandonado o Senhor, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas que não retêm as águas (cf. Jr 2.13). O ponto alto do texto está, sem dúvida, nas palavras de Jeremias a respeito do Renovo, da linhagem de Davi, que reinaria e agiria sabiamente, trazendo juízo e justiça à terra. A salvação, a redenção e a justiça definitiva e completa estão somente em Jesus Cristo e esperamos por essa justiça em sua segunda vinda. Governantes políticos sempre são chamados à obediência a Deus, à justiça e ao juízo. São chamados em todas as épocas – também em nossa época – a serem “pastores” servos do povo e se encontram também sob o juízo de Deus, caso venham a apascentar somente a si mesmos, caso venham a agir somente em benefício próprio (compare com Ez 34.10). Zedequias, rei no momento da derrocada final diante dos babilônios, cujo nome significa “o Senhor é a minha justiça”, também não seria a salvação que viria de Deus. A verdadeira salvação deveria ser esperada adiante. O Senhor diz que “ele mesmo” agiria e recolheria o remanescente do seu rebanho e colocaria sobre ele verdadeiros pastores. A promessa trazida pelo Senhor por meio de Jeremias transcende qualquer tentativa humana de salvação. Somente Deus mesmo é aquele que dissipa qualquer temor e espanto (v. 4), que faz com que o povo se torne de fato fecundo (v. 3) e que viva sob completa justiça (v. 5). Jesus não é somente mais um rei da lista de reis justos, mas ele é a própria encarnação da justiça, e essa não é compreendida apenas como lei escrita em tábuas de pedra, mas como nova justiça, como justiça melhor, gerada por ele mesmo naqueles que são seus por meio de seu Espírito Santo (compare com Jr 31.21ss). Os textos de Marcos 6.30-34,53-56 e Ef 2.11-22, sugeridos como leituras paralelas à pregação, mostram na prática, a partir do ministério de Jesus, o cumprimento dessa profecia, a concretização dessa esperança em Jesus e na sua igreja.
4 Imagens para a prédica Ainda nos encontramos no período pós Pentecostes e, assim, seria muito importante ressaltar justamente o ponto alto do texto da prédica, ou seja, o agir do Espírito de Jesus como aquele que capacita para o agir com justiça. É o Espírito de Jesus aquele que batiza com o Espírito Santo, ou seja, com a capacidade para um novo agir, e com fogo, ou seja, aquele que nos coloca diante do juízo de Deus (a compreensão de lei e evangelho é muito importante nesse sentido). A própria história da expulsão dos vendilhões do templo por Jesus em João 2.13ss pode ser usada muito bem como ilustração do agir concreto de Jesus.
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Devemos observar que também em nossa realidade, a cobiça, a dissimulação, a falsidade e o engano se disfarçam de fé evangélica. A prostituição do povo, deixando o Senhor e seguindo o deus Baal, como aquele que, segundo a fé apóstata, traria a fertilidade e prosperidade à terra, pode ser muito bem utilizada para a comparação com a prostituição do povo do Senhor, ao seguir os deuses de nossa época, entre eles, o deus “mercado”. Várias imagens da corrupção em nosso país, em suas diversas épocas, assim como as esperanças frustradas pelo agir de líderes humanos em diversos momentos de nossa história podem ser utilizadas para ilustrar a prédica.
5 Subsídios litúrgicos Sugiro a leitura ou recitação do seguinte texto poético: Eu sou ateu! “Sou ateu a um deus que precisa do meu dinheiro, que dizem trazer prosperidade, mas não se importa com os pobres e miseráveis da nossa sociedade. Não acredito nesse deus indiferente, afastado do seu povo, sem amor por sua gente, que é seguido por hipócritas, que largou o mundo entregue ao mal. Sou ateu para esse deus de político, de corrupto, conservador, opressor, machista, ou liberal, de direita, esquerda, feminista e até racista. Eu sou ateu ao deus que dá mandamentos, regras, obrigação. Só que me deixa sozinho, a buscá-lo na escuridão. E eu sou ateu pra um deus que depende de mim, que foi criado, que é um espelho da minha vontade. O que eu falo dele é o que faz ele se tornar verdade. Mas eu acredito no Deus que já estava no princípio, que é meu Criador. Que estava e está presente. Que veio pro rico e pro pobre, que chega até o doente. Acredito na Bíblia como sua Palavra. Que nos mostra que desde sempre nos amava. Tanto que mesmo em nosso pecado, por nós nasceu, sofreu, morreu e ressuscitou. E em si, em seu Filho, consigo nos reconciliou. Por isso entende o nosso sofrimento. Sobre si levou a minha culpa, pagou com sangue o meu perdão. E, assim, somente naquela cruz é que eu encontro a salvação. O Deus vivo, que nunca falhou com suas promessas, promete que em glória seu Filho vai voltar. O que é minha esperança, em meio a todo esse caos, a esse mal, pois ele me dá a vida eterna, isso aqui não é o final. E esse Deus é maior que tudo, tudo pode, basta querer. Não há conceito que o defina, não há ideia que o descreva, pelo menos sem seus atributos desmerecer... Rei Eterno, soberano em glória! Senhor do tempo, da minha história, mas que por mim escolheu sofrer... E há quem ache que o domestica. Em próprio favor, usa o nome seu; e pra esse deus, eu sou ateu” (William Strebe).
Bibliografia HARRISON, R. K. Jeremias e Lamentações. Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1980.
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KEIL, C. F. Jeremiah, Lamentations. In: KEIL, C. F.; DELITZSCH, F. (Eds.). Commentary on the Old Testament in Ten Volumes. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1980.
10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES JOÃO 6.1-21 2 REIS 4.42-44 EFÉSIOS 3.14-21
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11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
05 AGO 2018
PRÉDICA: EFÉSIOS 4.1-16 ÊXODO 16.2-4,9-15 JOÃO 6.24-35
Paulo Roberto Garcia
Vocacionados para a unidade
1 Introdução A unidade é um desafio e um desejo constante nas tradições bíblicas. Ao mesmo tempo, é parte dessas mesmas tradições o desafio de que o povo de Deus seja bênção para todas as famílias da terra. Unidade e compromisso com o próximo são duas características que deveriam marcar a ação do povo de Deus no mundo. Em especial, em um mundo conflitivo como o nosso, onde a solidariedade está dando lugar ao individualismo, ao egoísmo e ao hedonismo. Infelizmente, essas características negativas da atualidade são encontradas também em comunidades de fé. Expressões de fé que valorizam o “eu” e a posse em detrimento do “nós” e da solidariedade. O resultado dessa situação, tanto nas comunidades de fé como no mundo, são os conflitos. Nosso texto nos convida a repensar a unidade do corpo de Cristo, a repensar os alicerces de nossa fé diante do egocentrismo que marca a sociedade atual e, infelizmente, também as comunidades cristãs.
2 Exegese A Carta aos Efésios é um texto marcado pela singularidade. Buscando fazer uma comparação, poderíamos chamar essa carta de “legado de Paulo”. Com essa comparação queremos destacar o caráter compilatório da teologia paulina. A situação que demanda essa organização é determinada pelo tempo decorrido desde o início do movimento cristão. Não podemos nos esquecer que as primeiras lideranças do movimento tinham a expectativa pela volta iminente de Cristo. Isso significava que o movimento teria curta duração. Deste modo, ele se organizava em torno das lideranças que caminharam com Jesus. Porém, com o passar do tempo, de um lado o movimento se expandiu, criando a necessidade de novos líderes e, por outro, os apóstolos e as primeiras lideranças, em especial, as detentoras da memória dos ensinamentos, foram morrendo. Com isso, tornaram-se necessárias a organização do pensamento cristão e a busca por solucionar os conflitos que surgiram nesse processo. Um dos grandes desafios nessa compilação do ensino paulino era o de promover a unidade. Precisamos ter em mente que na substituição de lideranças, no crescimento do movimento, no surgimento de novas comunidades, na consolidação dos diversos ministérios, os conflitos começaram a aparecer e a unidade das comunidades entrou em risco. Vale destacar que essa unidade sempre foi frágil.
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Isso pode ser percebido tanto nas cartas paulinas como também no livro de Atos. É nesse horizonte que nosso texto se localiza. Ele é uma exortação e uma argumentação didática buscando levar a comunidade a alcançar a “unidade da fé” (v. 13). Na organização geral da carta, temos nos três primeiros capítulos um tratado de organização da fé. Os capítulos 4, 5 e 6 são exortações para a vida cotidiana. O texto, portanto, ao desafiar a comunidade à unidade da fé, insere nossa perícope nas exortações para a vida cotidiana. A busca pela unidade manifesta-se no cotidiano da comunidade. Nosso texto se organiza em partes. A primeira (v. 1-7) se apresenta como uma argumentação, visando levar a comunidade a agir de acordo com os modelos apresentados: a unidade de um corpo e a unidade de Cristo com o Pai. O v. 7 é uma exortação, conclui essa argumentação e abre a segunda parte, que é uma interpretação do Salmo 68.18: Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro; recebeste homens por dádivas, até mesmo rebeldes, para que o Senhor Deus habite no meio deles. A interpretação, em estilo judaico, usa Cristo como chave de interpretação. Cristo é o que desceu e também subiu. Nessa forma de interpretação, faz-se uma leitura livre do Salmo. Nela, Cristo oferece dons aos seres humanos. Deste modo, nessa interpretação da Escritura é ressaltada a morte/ressurreição de Cristo e o Pentecostes. A dádiva dos dons resulta nos diversos ministérios da igreja, todos eles com o objetivo de aperfeiçoar “os santos” e edificar o corpo (v. 12). No v. 13, aparece novamente uma exortação, fechando essa segunda parte. A exortação é central nesse texto. O desafio visa levar a comunidade a vivenciar “a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus”. A última parte aparece na forma de advertência aos convertidos: deixarem de ser “criancinhas” facilmente conduzidas. Os verbos no v. 15 determinam o desafio: seguir (a verdade) e crescer (em Cristo). Essa estrutura é, ao mesmo tempo, didática no conteúdo e na forma. Ela conclama à unidade através da argumentação e também oferece as fontes para a busca da unidade. A primeira fonte para o encontro da unidade é o conceito de vocação. O desafio é andar de acordo com a vocação (v. 1 e 4). A comunidade de fé é vocacionada a ser um corpo (v. 4). Essa estrutura emoldurada pela vocação tem no centro um catálogo de virtudes que seguem essa vocação: humildade, mansidão, longanimidade, apoio mútuo em amor, unidade e paz. A comunidade, um corpo a partir de sua vocação, é desafiada a cultivar as virtudes que preservam a unidade. A segunda fonte é Cristo. A fé em Cristo está vinculada ao batismo (v. 5) e proporciona graça (v. 7). No centro, uma vez mais, aparece o desafio à unidade. Agora, a unidade é gerada pela presença do Pai. Há um só Pai, um só Senhor e um só batismo. Deste modo, a comunidade é uma só. Não pode haver divisões. A frase um só Senhor, uma só fé, um só batismo é importante para o cristianismo primitivo. Ela aparece com variações nas cartas paulinas e deve ter sido uma fórmula batismal, ou seja, integrante da liturgia do batismo. Assim, nessa segunda fonte encontramos a memória do ensinamento cristão primitivo como caminho para refletir sobre a unidade. A terceira fonte é a Escritura. A reflexão nas escrituras da época (O Antigo Testamento – Pentateuco e Torá – e o livro dos Salmos), no caso de nosso texto,
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o Salmo 68.18. Possivelmente a partir de comentários rabínicos sobre o Salmo, encontramos Cristo (v. 9-10) como paradigma de interpretação. O Cristo que subiu às alturas, desceu às regiões inferiores e, por isso, pleno de todas as coisas, concedeu dons aos seres humanos. Assim, os dons são dádivas de Cristo para o aperfeiçoamento do corpo (v. 12) visando à unidade (v. 13). A reflexão termina com uma admoestação para que a comunidade não seja formada por meninos (conduzidos por forças externas – v. 14) e com o desafio para o crescimento em amor. A figura do corpo reaparece nesses dois últimos versículos (15 e 16) como uma síntese do que foi ensinado. Esse final, em estilo de síntese e, ao mesmo tempo, ápice da argumentação, mostra o centro do problema que ameaça a unidade: as funções de liderança na igreja. Qual o papel dos apóstolos, profetas, evangelistas e mestres (v. 11)? A resposta é o serviço à comunidade para promover a unidade e a edificação do corpo de Cristo.
3 Meditação Um dos grandes desafios do cristianismo para a vida em comunidade é a manutenção da unidade. Isso porque a comunidade não pode se estruturar em cargos de poder. O próprio Cristo se anunciou como servo. Porém, com o crescimento e a expansão da fé cristã no primeiro século e a morte dos primeiros líderes que andaram com Jesus, novas lideranças surgem, e com elas surge o conflito em torno do seu papel como líder. Apóstolos, profetas, mestres, evangelistas começam a entrar em choque; surge o questionamento do alcance de autoridade de cada um desses. Nessa hora, é preciso retornar às origens. A comunidade é desafiada a refletir sobre sua origem e sobre os princípios da fé. Esse é o desafio enfrentado pela epístola aos Efésios: compilar os ensinamentos paulinos para orientar a fé da comunidade nesse momento crítico de surgimento de novas lideranças. O caminho da reflexão é relembrar os pilares da fé cristã e as fontes que alimentam os mesmos. As escrituras, a vocação e o próprio Cristo são os pilares que sustentam a fé cristã. A partir deles, a reflexão sobre a unidade e sobre o papel das lideranças deve ser realizada. Uma primeira reflexão é que a comunidade cristã é vocacionada à unidade, exemplificada metaforicamente como um corpo. Cada parte do corpo tem sua função específica e complementar. Essas funções são exemplificadas em um catálogo de virtudes que marcam a comunidade orientada pelo Espírito. Uma segunda reflexão é que a fé em Cristo, sinalizada no batismo, nos liga ao Pai. A fórmula batismal aponta para o Pai como centro da unidade trinitária (Espírito – Pai – Cristo). A unidade da Trindade é também desafio para a unidade da comunidade, forjada no batismo. Por fim, esse texto é marcado por uma reflexão trinitária primitiva; Cristo, que subiu aos céus e desceu às profundezas, é aquele que, conforme interpretado nas escrituras, concede dons aos seres humanos. Ou seja, os dons de Cristo são conferidos aos seres humanos para o serviço, para a unidade, para a edificação do corpo e para a manutenção da paz.
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A unidade trinitária se desenvolve na vida comunitária a partir do uso dos dons, visando à edificação do corpo e no “esforço diligente” de, através das virtudes que marcam a vida cristã, “preservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”. Nesse ponto, encontramos o contato com os demais textos que marcam o calendário litúrgico para essa data (Êx 16.2-4,9-15; Jo 6.24-35). Moisés enfrenta a murmuração do povo pela falta de pão (ou por só ter pão) e Jesus também critica ser seguido só pelo pão. Dois textos que mostram a quebra da unidade a partir dos interesses pessoais. Diante disso, o texto de João apresenta Jesus conclamando o povo a buscar o alimento que não perece: realizar as obras de Deus. Isso só é possível a partir de Cristo. Esse desafio é muito presente para os tempos em que vivemos. Tempos em que os interesses pessoais se sobrepõem às necessidades comunitárias. Tempos em que as pessoas dão mais valor aos seus interesses do que a espaços de convivência e de exercício da fé e da cidadania. Tempos de conflito e de divisões. Tempos de preconceito e de exclusão. Nesse tempo, o desafio da unidade em Cristo, da vivência do vínculo da paz a partir do serviço, é uma prioridade.
4 Imagens para a prédica Sugerimos usar imagens e situações atuais de violência, como fruto da intolerância, do egoísmo etc. Situações locais são ideais. Não faltam imagens da intolerância transformada em violência. Desde o cotidiano do trânsito até as guerras entre as nações, passando pela violência religiosa, violência doméstica, sistemas de exclusão. Em especial, destacamos as situações em que esses processos de violência, de exclusão, de crítica surgem para defender o interesse próprio ou de um grupo, como o povo de Deus no deserto reclamando da falta de pão e da falta de variedade, ou de multidões que seguiam Jesus por ele dar pão. Situações em que a convicção do seguimento ou o questionamento de uma liderança estão fundamentadas em alimentar o próprio desejo.
5 Subsídios litúrgicos Sugerimos, na liturgia, o uso da “Oração pela unidade”, de autoria de Luiz Carlos Ramos. “Senhor Jesus, é teu desejo que sejamos um, como tu és com o Pai, e por isso esse também é o nosso desejo. A despeito de todas as forças contrárias, de todas as ameaças de dispersão, de toda pressão e repressão desintegradora… Apesar de tanta maldade, de tanto egoísmo, de tanta intolerância… Nós nos dispomos a fazer a tua vontade. E, no que depender de nós, nos comprometemos a construir a paz para toda a família humana. Cumpre em nós a tua palavra, ó Cristo, de tal maneira que o mundo creia que tu nos enviaste em missão de paz e em comunhão fraterna. Amém.” Rev. Luiz Carlos Ramos† (Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, 2015) Fonte: http://www.luizcarlosramos.net/oracao-pela-unidade-ii/
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12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
12 AGO 2018
PRÉDICA: JOÃO 6.35,41-51 1 REIS 19.4-8 EFÉSIOS 4.25-5.2
(DIA DOS PAIS)
Jorge Batista Dietrich de Oliveira
O pão da vida
1 Introdução Os textos previstos para este domingo nos falam de pão. O primeiro fala do pão que alimenta e sustenta o profeta Elias na sua caminhada. O evangelho traz o pão como metáfora para o testemunho e a revelação de Jesus. O texto de Efésios apresenta qual deve ser a conduta de quem se alimenta desse pão. Em 1 Reis 19.4-8 Elias se confrontara com o rei Acabe e a rainha Jezabel, matando no monte Carmelo os profetas de Baal (18.20-40). Por causa disso, a rainha decreta a sua morte (19.1-2). Ele sente-se dominado pelo medo, foge para o deserto e deseja morrer. Deus reanima e alimenta o profeta que, com a força daquele alimento, caminha quarenta dias e quarenta noites até o monte onde o Senhor se revelou a Moisés (Êx 3) e onde a aliança foi concluída (Êx 19). Assim, Elias une sua obra com a de Moisés e simboliza o próprio povo de Deus, que fora liberto da escravidão do Egito e fora alimentado com o maná durante a peregrinação pelo deserto até chegar à terra prometida. Em João 6.35,41-51 se apresenta o debate entre Jesus e alguns judeus sobre o sentido da multiplicação dos pães. Jesus revela sua identidade aos judeus, que não conseguem crer que ele é o filho enviado por Deus. Então, ele faz uso da metáfora do pão para colocar-se dentro da narrativa judaica, ao comparar-se com o maná. Assim, Jesus se oferece como o verdadeiro pão do céu que Deus mandou para dar vida ao mundo. Em Efésios 4.25-5.2, o apóstolo Paulo apresenta vários conselhos práticos a respeito da vida cristã. Nosso texto deve ser entendido como uma exortação e um convite a viver de acordo com a nova vida proposta por Jesus. Quem se deixa alcançar por um Deus tão próximo, que interveio gratuitamente na história de seu povo, dando força, coragem e sustento para a caminhada em meio a situações de morte (1ª leitura), um Deus tão humano que se revela como o pão que desce do céu e se oferece como o pão da vida, que sacia a fome do mundo (evangelho), cria laços de fraternidade, de respeito e de comunhão na comunidade de Jesus que caminha, como o povo de Deus no deserto, para o dia da redenção.
2 Exegese A perícope em questão situa-se na seção que tem como tema a autorrevelação de Cristo (5.1-10.21). O capítulo seis narra dois grandes milagres – a multipli-
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cação dos pães e dos peixes (v. 1-15) e Jesus andando sobre as águas (v. 16-21) – e os conecta para formar a introdução a um diálogo cristológico muito importante, em que Jesus se revela como o pão da vida (v. 22-59). Esse diálogo, em seguida, ocasiona uma crise de fé entre os discípulos e termina com a confissão de Pedro que Jesus é o enviado de Deus que tem as palavras da vida eterna (v. 60-71). Os v. 41-51 aprofundam a afirmação de Jesus que está condensada no v. 35. Pode-se subdividir a perícope em dois complexos: v. 41-47, cuja temática concentra-se no murmurar dos judeus; os v. 48-51, que retomam a imagem do pão da vida. v. 35: Aqui aparece a primeira das sete afirmações feitas por Jesus sobre si mesmo (Eu sou), que recordam as palavras com as quais Deus se revelou a Moisés (Êx 4.14). Esse versículo é a chave hermenêutica de todo o capítulo seis, pois nele Jesus revela-se como o pão da vida. Além dele ter vida em si mesmo, pode também transmiti-la aos outros. Mas é preciso ir a ele, que equivale a crer nele. Aqueles que vêm terão a fome saciada. O milagre da multiplicação dos pães no início do capítulo demonstra claramente que Jesus é o pão que sacia a fome do corpo também. O pão da vida é alimento físico e alimento espiritual, que dá salvação, ao mesmo tempo em que sacia a fome. v. 41-42: Os judeus são os representantes do Sinédrio. Eles começaram a criticar Jesus por ter dito ser o pão que desceu do céu. Para os líderes religiosos, o fato deles conhecerem os pais de Jesus era a prova de que ele não viera do céu. Para eles, não havia nada de sobrenatural na origem de Jesus. A palavra grega utilizada para “murmurar” é a mesma utilizada na Septuaginta, em Êxodo 16. Jesus faz uma comparação entre o murmúrio dos judeus e o de seus pais, o que reforça a comparação entre o pão e o maná. v. 43-44: Devido a essas murmurações, Jesus prossegue explicando que “vir a ele” ou “crer nele” é resultado da ação de Deus, que é a fonte derradeira, que o enviara ao mundo e que agora traz cada um que vem a ele. A fé não é obra humana, mas criação de Deus. Assim também afirma Martim Lutero: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele”. v. 45-46: Quando Jesus cita os profetas dizendo E serão todos ensinados por Deus, faz alusão a uma visão do Antigo Testamento do Reino messiânico onde todo o povo seria ensinado diretamente por Deus (Is 54.13; Jr 31.31-34). Jesus destaca a importância de não apenas ouvir, mas aprender. Pois o conhecimento imediato de Deus só pode vir por meio de alguém que tenha visto o Pai. Essa é a proclamação principal do evangelho (1.18). v. 47-48: As verdades apresentadas anteriormente são novamente enfatizadas. A fórmula solene “em verdade, em verdade” identifica uma revelação divina às descobertas seguintes, esclarecidas nessa altura do diálogo. Jesus deixa claro que todo aquele que crê no Filho tem a vida eterna aqui e agora, sem precisar esperar pelo último dia. Jesus concede a visão de Deus que ele mesmo tem de maneira direta e constante; e com a visão de Deus vem a vida eterna. v. 49-51: Jesus não é só o pão vivo em contraste com o alimento perecível. Ele é o pão que dá vida, que liberta do poder da morte os que o recebem. Isso nem o maná podia fazer por aqueles que o comiam. O maná foi um pão físico e tem-
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poral. O povo o comia e se sustentava por um dia. Mas era necessário que conseguissem mais pão todos os dias, e esse pão não poderia impedi-los de morrer. Jesus garante que a ressurreição depende da adesão a ele e ao seu projeto, pois a nova lei que Deus oferece à humanidade é a pessoa de Jesus. O verdadeiro pão celestial, que é o próprio Filho de Deus, concede vida espiritual àqueles que comem dele, isto é, que se apropriam dele pela fé. A carne de Jesus, sua verdadeira existência corpórea, seria dada pela vida do mundo. Isso apontava para a cruz. Comer a carne de Jesus e beber seu sangue eram sinônimos de assimilação da pessoa de Jesus na sua totalidade: aceitá-lo como dom do Pai e doar-se como dom de vida para a humanidade. Jesus tornou-se o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. 1.29). Aceitá-lo em sua humanidade é passar da morte à vida, pois a salvação que Cristo oferece não é somente espiritual, mas acolhe todas as dimensões da vida humana.
3 Meditação Que o pão faz parte do dia a dia do brasileiro todo mundo sabe. Geralmente, o café da manhã não começa sem ele. Certamente, antes de vir ao culto cada um comeu pão no café da manhã. No domingo reservado para homenagearmos os pais e a todas aquelas pessoas que exercem a função paterna, o tema proposto é sobre o pão: “o pão da vida”. Creio ser oportuno estabelecer uma relação entre o pão, alimento tão necessário para a vida, e o papel paterno de prover o pão, não esquecendo que em muitos lares são as mulheres que desempenham essa tarefa. Os pais obtêm o pão com o seu trabalho e, assim, alimentam seus filhos e suas filhas. Essa é a lógica de toda a criação e também dever dos pais, segundo nossa legislação. É tarefa dos pais prover tudo aquilo que é necessário para a sobrevivência e o crescimento saudável de seus filhos em todas as dimensões da vida. Por isso pai e mãe são, de certa forma, o pão da vida para os filhos, que necessitam e continuamente alimentam-se deles. O pão é uma metáfora muito forte, pois nos convida a pensar na situação de milhões de pessoas que passam fome em todo o mundo. Por outro lado, lembramos que a humanidade também tem fome de um outro tipo de pão, que vai mais longe do que o estômago. O pão que toca o coração e que transforma a vida. Sabemos que o pão é indispensável para a saúde do corpo, mas não é a vida em si. Deus é a vida. Sua palavra criou o mundo e sua palavra o mantém. Também nós somos criaturas de Deus e nossa vida é mantida pelo que provém das suas mãos. Quem se descobre sabedor disso nunca pensará que o pão é mais importante que a vida. Por isso Jesus, no evangelho deste domingo do Dia dos Pais, contrapõe dois tipos de alimento: um que não conduz à vida definitiva (o maná do deserto), apesar de comê-lo, os antepassados morreram sem entrar na posse da terra prometida; o outro conduz à vida que dura para sempre. Quem comer deste pão viverá eternamente. É na pessoa de Jesus enquanto pão, na sua carne para a vida do mundo, que se revela o amor de Deus. Jesus tornou-se o Cordeiro de Deus que
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tira o pecado do mundo (cf. 1.29). Por isso aceitá-lo em sua humanidade é passar da morte à vida. Comer do pão da vida é revestir-se da força de Cristo para enfrentar os dilemas da existência. É buscar disposição para seguir em frente, ainda que o caminho pareça difícil e longo. É encontrar coragem e criatividade para trilhar novos caminhos. O pai que se alimenta do pão da vida ofertado por Jesus, reparte esse pão com seus filhos, promovendo no seu lar um ambiente de amor, respeito e convívio saudável. Ensina seus filhos a lutar, não por fartura de pão, mas por um mundo onde todos tenham acesso ao pão de cada dia. E mais, onde todos tenham o verdadeiro pão que sacia a fome de vida. Que neste Dia dos Pais sejamos todos exemplos para nossos filhos. Que através da nossa vida de fé, nossos filhos e filhas possam desfrutar do pão da vida. Um feliz e abençoado Dia dos Pais a todos!
4 Imagens para a prédica “Certa vez, um médico faleceu um pouco antes de completar 90 anos de idade. Com tristeza e dor no coração, seus três filhos o acompanharam até a sepultura. Passada uma semana, encontraram uma série de preciosidades, muito bem guardadas pelo pai, num pequeno armário. Entre outras coisas, havia um pedaço de pão – sim, um pedaço de pão seco e duro. Os filhos olharam aquele pão cheio de rachaduras, duro como pedra. Como é que esse pão se encontrava entre as preciosidades do pai? Ninguém sabia responder. Perguntaram então à velha empregada, que por muitos anos cuidara da casa do pai. Ela deu a resposta. Nos tempos depois da guerra, havia pouca comida. O pai adoecera. Necessitava de alimento que o fortalecesse. Certo dia, um velho amigo o visitou e lhe deu aquele pedaço de pão. O velho médico doente, porém, recusou-se a comê-lo. Mandou que fosse levado para a vizinha, cujo filho também estava doente. Eu já estou velho, disse ele, mas aquela criança ainda está no começo da vida. A vizinha agradeceu, mas logo mandou o pão para um viúvo idoso que encontrara refúgio num cantinho do sótão. Só que o pão também não ficou ali. O idoso viúvo levou o pedaço de pão até sua filha, que morava com duas crianças num porão não longe dali. Essa, porém, viu a possibilidade de prestar um favor ao velho médico doente, como sinal de gratidão por ter tratado de suas crianças sem nunca cobrar nada. O médico ficou profundamente emocionado e disse: ‘Enquanto permanecer vivo entre nós o amor que reparte seu último pedaço de pão, não temo pelo nosso futuro. Este pão saciou a fome de muitas pessoas, sem que ninguém tivesse comido dele um pedacinho sequer. Vamos guardá-lo bem; e quando o desânimo quiser se abater sobre nós, olhemos para ele!’.” (Autoria desconhecida)
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5 Subsídios litúrgicos Hinos sugeridos: HPD 1, 197; HPD 2, 356, 402, 404, 405, 424, 459. Acolhida: Filho meu, guarda o mandamento do teu pai e não deixes a instrução da tua mãe (Pv 6.2). Com esse provérbio, saudamos vocês neste culto. Bom dia a todos e todas! Sejam bem-vindos e bem-vindas neste domingo especial, reservado para homenagearmos e lembrarmos nossos pais e tudo que eles significam para nós. Confissão de pecados: Neste Dia dos Pais, apresentemo-nos perante Deus, nosso Pai maior, com nossas falhas e com nossas fraquezas, mas com o coração aberto para a ação transformadora de Deus. Oremos: Deus eterno, tu que amas a todos como um pai e uma mãe responsáveis amam a sua família, aceita o que trazemos à tua presença neste Dia dos Pais aquilo que nos angustia. Muitas vezes, como pais, não somos exemplo para nossos filhos. Como filhos, não obedecemos à tua Palavra. Deus compassivo e justo: ouve e aceita nosso pedido de perdão, que clamamos em nome de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Anúncio da graça: Quando somos sinceros e confessamos os nossos pecados, ouvimos a seguinte promessa da palavra de Deus (Sl 103.13): Como um pai se compadece de seu filho, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem. Por isso, como ministro chamado e ordenado (ministra chamada e ordenada) pela igreja de Jesus Cristo, declaro a vocês o perdão de seus pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (+). Amém. Oração de intercessão: Querido Deus e Pai, agradecemos-te por mais este dia de vida que nos concedes, por esta maravilhosa oportunidade de nos congregarmos em torno da tua Palavra. Agradecemos-te pelos pais, tanto os que vivem conosco quanto os que já partiram. Agradecemos-te por esta comunidade e por cada irmão e irmã presente neste culto. Prece 1: Eterno e misericordioso Deus, queremos também clamar pelas situações de guerra, onde pais perdem a vida e filhos ficam órfãos. Clamamos também por todos os pais e mães que choram a perda de seus filhos. Por isso te pedimos: ♫ /: Ouve nossa oração e atende a nossa súplica :/ Prece 2: Pedimos-te por aqueles que sofrem por enfermidades, lembramos (citar nomes). Consola e restaura a saúde de todos, ajude para que encontrem ânimo e sejam perseverantes na oração. Por isso te pedimos: ♫ /: Ouve nossa oração e atende a nossa súplica :/ Prece 3: Intercedemos por todas as pessoas que exercem a função paterna neste mundo. Ilumina-as com sabedoria e discernimento em todos os dias de suas vidas, para que exerçam sua missão paterna com ternura e dedicação pelos filhos e filhas. Por isso te pedimos:
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♫ /: Ouve nossa oração e atende a nossa súplica :/ Prece 4: Clamamos, nosso Deus, por este mundo corrompido e desviado do teu amor e da tua fraternidade, que quebra a unidade familiar separando pais e filhos. Rogamos pela tua paz em nossos lares e no mundo. Por isso te pedimos: ♫ /: Ouve nossa oração e atende a nossa súplica :/ Tudo isso e também aquilo mais que está guardado em nosso coração, colocamos sob o teu olhar, orando em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. Bênção: Neste culto fomos animados e animadas a confiar no Deus que está sempre conosco, que nos protege, nos ampara e nos conduz. E para que possamos retornar às nossas rotinas com essa certeza, Deus nos quer agraciar com a sua bênção. O Senhor esteja à tua frente, para te mostrar o caminho certo. O Senhor esteja ao teu lado, para te abraçar e te proteger. O Senhor esteja atrás de ti, para te salvar da falsidade de pessoas más. O Senhor esteja abaixo de ti, para te amparar quando caíres. O Senhor esteja dentro de ti, para te consolar quando estiveres triste. O Senhor esteja ao redor de ti, para te defender quando outros te atacarem. O Senhor esteja sobre ti, para te abençoar. Assim te abençoe o bondoso Deus, Pai, Filho e Espírito Santo (+). Amém.
Bibliografia BLANK, Josef. O evangelho segundo João. Parte 2. Petrópolis: Vozes, 1991. BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1983. BRUCE, F. F. João. Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1990.
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13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
19 AGO 2018
PRÉDICA: PROVÉRBIOS 9.1-6 JOÃO 6.51-58 EFÉSIOS 5.15-20
Luiz Carlos Ramos
Saberes e sabores da sabedoria
1 Introdução Os textos indicados para o 13º Domingo após Pentecostes estão conectados pelo tema da sabedoria e do banquete da vida. Na Epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo admoesta aqueles e aquelas que o leem a adotarem um modo de vida sábio: administrando bem o tempo e aproveitando cada minuto; procurando compreender qual é a vontade de Deus para suas vidas; não se inebriando com vinho, mas transbordando no Espírito; louvando e cantando hinos ao Senhor; rendendo sempre muitas graças por tudo o que Deus faz; tratando a todos sempre com respeito e dignidade. No texto do evangelho, Jesus se apresenta como o pão que desceu do céu e que se dá como alimento a todos quantos vêm até ele. Sua carne é verdadeira comida e seu sangue é verdadeira bebida, sustento para a vida eterna.
2 Exegese (Observação: as versões da Bíblia utilizadas são referidas por suas siglas: NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; ARA – Almeida Revista e Atualizada; ARC – Almeida Revista e Corrigida; TB – Tradução Brasileira; BP – Bíblia do Peregrino). O livro de Provérbios faz parte da vasta literatura sapiencial de Israel que, por sua vez, vai desde os livros de Jó, Eclesiastes e alguns salmos, dentre os textos canônicos, até numerosos outros da literatura apócrifa, do judaísmo mais tardio. Quanto ao livro de Provérbios, conquanto a tradição atribua a maior parte do conteúdo ao lendário rei Salomão, as pesquisas demonstram que parte do material tem origem pré-exílica, sua compilação e edição final se deram em período muito mais recente: os aramaísmos e referências à lei e à profecia, por exemplo, sugerem um período posterior a Esdras. De fato, não se pode indicar precisamente quem são os verdadeiros autores dos provérbios que aí vão colecionados, porque são, na prática, pinçados da sabedoria popular. São máximas, aforismos, ditos, axiomas, anexins, adágios que circulavam nas ruas, na roça, nas praças, nas casas, nos campos de batalha, enfim, nos lugares onde o povo convivia. Alguns desses ditos se destacaram e acabaram caindo no gosto popular. Alguns ficaram gravados na memória coletiva e iam
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passando de geração em geração, até que alguém teve as condições objetivas de registrá-las por escrito. Essa informação sobre a autoria é relevante porque nos revela um dado determinante para a nossa chave hermenêutica: a verdadeira sabedoria não é patrimônio exclusivo de um autor esclarecido da classe privilegiada. O copyright da sabedoria pertence ao povo e, por isso, seus dividendos devem ser devolvidos a ele. No capítulo 9, a sabedoria e a insensatez são apresentadas de maneira personificada, como se fossem duas mulheres, muito diferentes entre si contudo. A Senhora Sabedoria (NTLH, ARA, ARC, TB) é a própria Sensatez (BP, v. 1-6), respeitável, diligente e operosa. Já a Dona Insensatez (BP, v. 13-18) é indolente, desocupada, falta-lhe juízo (NTLH), louca e apaixonada (ARA), alvoroçadora e néscia (ARC), turbulenta e estúpida (TB). A perícope que nos corresponde omite a narrativa referente à Dona Insensatez, mas para compreender melhor os v. 1-6 é bom ter no horizonte os v. 13-18. v. 1: A Sabedoria edificou a sua casa, lavrou as suas sete colunas. A Senhora Sabedoria é empreendedora e operosa. Edificar uma casa requer inteligência, conhecimento, experiência, tino, força, destreza. O uso simbólico do número sete é frequente. Pode-se supor, entre tantas outras possibilidades interpretativas, que a sabedoria é o resultado de uma construção (“sua casa”) que tem como base a busca diligente pela perfeição, a completude e o próprio Deus (número sete). Uma associação natural se dá com a parábola de Jesus a respeito do homem sábio que constrói sua casa e a fundamenta sobre a rocha. Neste caso, enfatizando a correlação intrínseca entre teoria e prática. v. 2: Carneou os seus animais, misturou o seu vinho e arrumou a sua mesa. A Senhora Sabedoria é detalhista, atenta e caprichosa na organização do banquete, que está preparando para oferecer aos inexperientes, incautos e desajuizados: prepara o prato principal (animais cevados, cf. TB), prepara o bom vinho (ao que parece o vinho de então era mais denso que os atuais, precisava ser diluído com água e, eventualmente, com outras especiarias, para ser servido), arranja cuidadosamente a mesa. A abastança de carne e vinho da Senhora Sabedoria contrastam com a frugalidade de pão e água da Dona Insensatez. Parece sugerir que o alimento da sabedoria é substancial e de bom sabor, coisa de bom gosto, enquanto o da insensatez é escasso e insípido. v. 3: Já deu ordens às suas criadas e, assim, convida desde as alturas da cidade. A Senhora Sabedoria é mulher de iniciativa, articulada, tem autoridade para enviar embaixadoras e poder de convocatória para atrair convidados. Ao passo que a Dona Insensatez apenas aguarda, sentada, que passem por ela os transeuntes, para então abordá-los e aliciá-los. Sua caracterização lembra a da prostituta, apresentada no capítulo 7. O banquete mencionado em Mateus 22 também surge como uma associação fácil. v. 4: Quem é simples, volte-se para aqui. Aos faltos de senso diz. Seus convidados são a “gente tola” e “sem juízo” (NTLH), “simples” e “faltos de senso” (ARA), “faltos de entendimento” (ARC), “estúpido” (TB), “inexperiente” e “quem carece de juízo” (BP). Curiosamente, a Dona Insensatez usa as mesmas palavras no convite que faz à mesma gente simples e tola (v. 16). A semelhança
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nos termos do convite seria a razão pela qual os que carecem de entendimento são ludibriados pela Insensatez e acabam seduzidos por ela. v. 5: Vinde, comei do meu pão e bebei do vinho que misturei. Pão e vinho no Novo Testamento haverão de se tornar termo técnico, associado ao convite para entrar na festa do reino de Deus. A associação com o memorial eucarístico é inevitável. O texto do evangelho do dia apresenta Jesus como o pão que desceu do céu, sua carne é verdadeira comida e seu sangue é verdadeira bebida. Estabelecendo as correlações, numa releitura cristológica dos Provérbios, sugere ser Jesus essa mulher sábia que dá de comer, que se dá como comida, e que come com os famintos e necessitados de juízo e entendimento (fome e sede de justiça?). v. 6: Deixai os insensatos e vivei; andai pelo caminho do entendimento. Os que aceitarem o convite (imperativo) da sabedoria encontrarão o caminho para a vida e adquirirão a capacidade de discernir o que é certo e o que é errado. Mas sensatez e prudência (BP) não são meras aquisições intelectuais. São o resultado alcançado por quem se dispõe a assentar-se à mesa e se alimentar das ricas e saborosas iguarias servidas pela Sabedoria.
3 Meditação Há uma diferença radical entre senso comum e bom senso. O senso comum é, amiúde, preconceituoso, discriminatório, reducionista, simplista e, a rigor, reflete a ideologia dominante. Por essa razão, o senso comum predomina nas massas e é ostentado pelas maiorias. O bom senso, por sua vez, requer muito discernimento, capacidade crítica, autonomia de pensamento, lucidez e coragem, porque com frequência caminha na contramão do senso comum. É, por isso mesmo, para poucos. A Sabedoria é o estado próprio daquela pessoa que conseguiu migrar do senso comum e alcançar o bom senso. A sabedoria não é, como alguns sugerem, o contrário da inteligência, mas a pressupõe. Considere-se o processo: na base estão os dados; colecionando-se dados, obtêm-se informação; cruzando-se informações, chega-se ao conhecimento. Com o conhecimento pode-se fazer muita coisa, desde encontrar a cura para uma doença até construir uma arma de destruição em massa. Quem constrói uma arma de destruição em massa detém, certamente, muito conhecimento, mas não se pode dizer que seja alguém sábio. Daí se depreende que sabedoria não é o mesmo que conhecimento. A sabedoria, conquanto tome em conta dados, informações e conhecimento, é governada por uma força maior que a razão, o que determina seu modo de ser é o amor. Rubem Alves, escrevendo para a Folha de São Paulo sobre a ciência e a sapiência, conclui: “[...] um piano, em si mesmo, é estúpido. [...] Os pianos obedecem tanto ao toque de um macaco, de um louco ou do Nelson Freire. Os pianos não são fins em si mesmos. São ferramentas. São construídos para tornar possível a beleza da música. […] Para que o piano produza beleza, há os pianistas. [...] A diferença está entre ‘ciência’ e ‘sapiência’. Os teólogos medievais diziam que a
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ciência era uma serva da teologia. Parodiando, eu digo que a ciência é uma serva da sapiência. A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta. Mas, se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas, é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro...”. Sugiro que a prédica se encaminhe de tal maneira que termine com um convite, tal como o da Senhora Sabedoria do texto de Provérbios 9.1-6. Um convite para que nos aproximemos da mesa da comunhão e participemos do saboroso banquete oferecido pela Senhora Sabedoria, que nos desafia a superar os preconceitos, discriminações, reducionismos, próprios do nosso senso comum, e elevemos o nosso coração para o alto, até onde está a Sabedoria, o discernimento, a sensatez, a prudência e o supremo bom senso. E assim nos alimentemos do pão que desceu do céu, de tal maneira que seja para nós o corpo de Cristo, e o cálice seja para nós a vida de Cristo. Assim, alimentados pela sabedoria divina, podemos seguir revigorados pelo caminho do entendimento e da vida plena e abundante.
4 Imagens para a prédica Há muitos contos que tratam do tema da sabedoria. Escolhi um, de autoria não identificada, que poderia vir a ilustrar, isto é, lançar luz sobre o tema da prédica. A mulher sábia e a pedra Uma mulher sábia, em sua jornada, quando atravessava as montanhas, encontrou em um córrego uma pedra preciosa. No dia seguinte, ela cruzou com outro viajante que estava faminto. Ela abriu sua mochila para compartilhar um pouco da sua comida. O viajante faminto viu a pedra preciosa e pediu à mulher que a desse a ele. Ela lhe deu a pedra sem a menor hesitação. O viajante partiu, regozijando-se por sua boa fortuna. Ele sabia que a pedra era valiosa o suficiente para garantir-lhe conforto pelo resto da vida. No entanto, alguns dias mais tarde, o homem devolveu a pedra à mulher sábia. “Eu estive pensando” – disse ele. – “Sei quão valiosa é essa pedra, mas eu a devolvo na esperança de que você possa me dar algo ainda mais precioso. Dê-me o que você tem dentro de você, que é ainda mais valioso. Dê-me o que fez com que você fosse capaz de me dar aquela pedra.
5 Subsídios litúrgicos Credo
Creio na sabedoria de Deus. Creio na sabedoria divina, cuja casa está edificada sobre as colunas inabaláveis da justiça e do direito, da bondade e da ternura, da sensatez e da paz, e, acima de tudo, sobre a coluna do amor. Aceitamos de bom grato o feliz convite
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13º Domingo após Pentecostes
para nos assentarmos à mesa farta do pleno conhecimento, e nos alimentarmos do Pão da Vida e bebermos do Cálice da Salvação. Reafirmamos nosso desejo e compromisso de deixar a insensatez, para andar pelo caminho da vida plena e abundante. Bênção Que a instrução divina nos ensine. Que a educação divina nos transforme. Que a sabedoria divina nos conduza hoje, amanhã e depois. Amém.
Bibliografia STORNIOLO, Ivo. Bíblia do peregrino. Tradução de José Bortolini. São Paulo: Paulus, 2002. 2 v., il., mapas. THE INTERPRETER’S Bible: the Holy Scriptures. The Book of Psalms. The Book of Proverbs. New York: Abingdon; Nashville: Cokesbury, 1954. v. 4.
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PRÉDICA: JOÃO 6.56-69 JOSUÉ 24.1-2,14-18 EFÉSIOS 6.10-20
14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
26 AGO 2018
André Martin
Por quem se decide o teu coração?
1 Introdução O texto previsto para este 14º Domingo após Pentecostes já foi trabalhado pelo colega P. Guilherme Lieven no PL 36. Os textos sugeridos apontam para a decisão em favor de Jesus Cristo, o enviado de Deus, o pão que desceu do céu. Essa temática irá nos conduzir no estudo que proponho. As palavras de Pedro, ao final do texto proposto para a pregação, quando Jesus pergunta aos doze se eles também querem ir embora, são cruciais para a interpretação que daremos ao texto: Simão Pedro respondeu: Quem é que nós vamos seguir? O senhor tem as palavras que dão vida eterna! E nós cremos e sabemos que o senhor é o Santo que Deus enviou. No texto de Josué 24.1-2,14-18, Josué admoesta o povo a decidir a quem iriam servir, afirmando que a sua casa serviria ao Senhor, tendo como resposta do povo que não poderiam decidir diferente, haja vista tudo o que Deus já fizera por eles. Em Efésios 6.10-20, entendo o uso dos muitos imperativos também como admoestação/orientação do apóstolo Paulo para a comunidade em Éfeso no tocante ao viver a fé em Cristo.
2 Exegese O texto que nos é proposto para a pregação no 14º Domingo após Pentecostes está incluído no bloco dos sinais diversos de Jesus e também das controvérsias em torno da sua figura e pregação (Jo 5.1-9.41). A leitura de Jo 6.56-69 abrange o final do discurso de Jesus na sinagoga em Cafarnaum (Jo 6.56-59) e também a controvérsia acerca dos ensinamentos de Jesus, considerados por muitos difíceis demais para serem entendidos, culminando na prova da fé dos doze discípulos e na sua decisão em seguir a Jesus Cristo (Jo 6.60-69). O Evangelho de João tem um propósito muito claro, explicitado no final, em 20.30-31: Jesus fez diante dos discípulos muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, crendo, tenham vida por meio dele. Nesse afã também precisamos ler o texto que nos é proposto para a pregação. O objetivo é tirar qualquer dúvida que ainda possa existir acerca de quem é Jesus Cristo. Ele é Filho de Deus, o Verbo que se fez carne. Nossa fé não se baseia apenas num Cris-
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to imaginário ou, mesmo que real, num Cristo cuja presença sentimos apenas na esfera espiritual. Nossa fé se baseia num Cristo cuja presença real temos na Santa Ceia. Nós comemos da sua carne e bebemos do seu sangue. v. 56-59: O evangelista João busca responder à pergunta pela vida verdadeira. Como e onde encontrá-la. Neste aspecto, a partir do texto percebemos que no comer da carne e no beber do sangue de Cristo encontramos essa vida. A verdadeira vida surge da comunhão com Cristo. Essa comunhão com Cristo nos prova que ele é real; que o contato do divino com o humano é autêntico e que buscar a Deus por meio de Cristo faz com que sejamos literalmente habitados pelo Espírito Santo. Em Cristo temos a vida e tão somente nele, pois ele é o enviado do Pai. Quem come deste pão, Jesus Cristo, viverá para sempre, tem a vida eterna. Lembramos que vida eterna não é somente entendida no sentido cronológico, quantitativamente, mas também no sentido qualitativo. v. 60-69: O discurso de Jesus é considerado duro por aqueles que o seguem. Os judeus tinham pavor de consumir sangue e Jesus fala em comer da minha carne e beber do meu sangue. Champlin também lembra que deve ter sido difícil para os judeus aceitarem o discurso de Jesus em que ele assume sua messianidade, pois eles o conheciam e também a sua família: um carpinteiro nazareno. O termo “escandalizar”, usado por Jesus, deriva de um termo grego cujo significado é “fazer tropeçar”. Jesus pergunta se o seu discurso se torna pedra de tropeço. E continua afirmando que se só o discurso já escandaliza e faz com que queiram abandoná-lo, que dirá o virem subir ao céu, ao lugar onde ele estava antes. Embora não haja uma referência direta à ascensão de Jesus, o texto parece aludir ao fato, corroborando a sustentação de que Jesus é, de fato, o Messias e que somente por ele temos a vida plena e perfeita comunhão com o Deus que nos dá esta vida plena. Jesus retoma que as suas palavras são de procedência divina, pois elas vivificam. Jesus sabe que muitos vão abandoná-lo, mas nem por isso abranda o discurso. O texto nos indica que a debandada dos seguidores de Jesus foi geral. A situação chega a tal ponto que Jesus se dirige aos seus doze e pergunta se também eles querem ir embora. Claro que também Jesus deve ter ficado desapontado com a multidão que o abandonava por considerarem o seu discurso muito duro. Pelo visto, o povo buscava apenas o maná, alimento para o corpo; não tinham interesse no pão que desceu do céu, o messias Jesus Cristo. Jesus está num momento limítrofe e interroga seus discípulos para sondar a profundidade de sua fé. Jesus coloca seus doze na situação de escolha: querem ficar comigo ou querem me abandonar e seguir suas vidas? O que escolhem? Nesse momento Simão Pedro toma a palavra, justamente ele que em outros momentos faz colocações superficiais ou dando mostras de que não entendeu muito do que Jesus trazia. Mas nesse momento crucial para Jesus, onde ele deve ter experimentado a decepção com a multidão que deixara de segui-lo, Simão Pedro faz uma profunda declaração, uma profunda confissão de fé: Quem é que nós vamos seguir? O senhor tem as palavras que dão vida eterna! E nós cremos e sabemos que o senhor é o Santo que Deus enviou.
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Pedro, como porta-voz dos doze, afirma que não há mais escolha para eles. Pela convivência com Jesus viram tudo o que ele fez e ouviram tudo o que pregou, por isso não veem mais outra perspectiva de alguma fonte da qual possam beber da água da vida. Apenas em Cristo a sua sede é definitivamente saciada. Apenas em Cristo eles recebem o pão da vida e participam da verdadeira comunhão com Deus. Pedro, de forma singela e muito honesta, retorna a pergunta a Jesus e diz: A quem nós vamos seguir? Ele mesmo dá o indicativo afirmando que apenas Jesus tem as palavras da vida eterna. Somente ele é o Messias, o santo que Deus enviou. A decisão estava tomada, com certeza, já antes dessa afirmação de Pedro, mas nesse momento de crise no ministério de Jesus, ela aflorou de forma muito profunda e decisiva.
3 Meditação Foi num momento crítico de seu ministério em que muitos o abandonavam que Jesus coloca seus discípulos para pensar e decidir se queriam permanecer com ele ou se também queriam ir embora. Momentos críticos não faltam também para nós. No momento em que escrevo, o que mais se ouve é sobre a crise política que se abateu sobre o Brasil. Aliás, essa crise política está profundamente arraigada numa crise de valores. Roubar, corromper, tirar vantagem, isso já parece fazer parte de nossa cultura enquanto brasileiros. Interessante é que o Brasil é um país majoritariamente cristão. Como fica a pregação de Jesus Cristo em nossa situação? A vida plena é buscada? A comunhão com Deus é vivida? A pergunta de Pedro soa alto: a quem vamos seguir? Parece que opções a serem seguidas não faltam. O caráter profético da mensagem de Cristo parece que deu lugar, muitas vezes, a uma massagem no ego das pessoas ou satisfação de desejos intrinsicamente humanos e egoístas. O deus mâmon, que satisfaz os desejos imediatos e luxuriosos, tem seguidores por todos os lados. Parece ser imperativo que a pergunta de Pedro ecoe e nos leve à reflexão. Quando participamos da Santa Ceia, comendo da carne e bebendo do sangue de Cristo, participando plenamente da comunhão dos santos, devemos ter claro que esse momento é, sim, uma resposta à pergunta de Pedro. Ansiar pelo sacramento é ansiar pela vida plena que apenas em Jesus Cristo podemos ter. No mesmo Evangelho de João, no capítulo 14, Jesus, também em diálogo com seus discípulos, afirma que nos deixa a sua paz, não como o mundo a dá, mas a paz que experimentamos na comunhão com Deus. Não estamos sozinhos, o Espírito Santo está conosco. Decidir-se pela comunhão com Deus a partir de Cristo nos traz a vida plena, nos faz compreender o discurso de Jesus. Esse discurso não é mais pesado ou duro, ele salva. Não há mais crise ou dificuldade? Claro que isso permanece, mas na orientação do apóstolo Paulo à comunidade em Éfeso, ele a desafia a se tornar cada vez mais forte, vivendo unida com o Senhor e recebendo as forças do seu grande poder. Só assim poderemos andar pelo vale da sombra da morte e não temer mal algum.
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14º Domingo após Pentecostes
Todos ouvimos falar de Jesus, sabemos que é o Filho de Deus, testemunhamos a sua vida, aclamamos e aplaudimos seus ensinamentos, sabemos que suas palavras dão vida, participamos da comunhão dos santos. Resta-nos suplicar a Deus que, dia após dia, nos fortaleça na fé em Cristo, para que a vida plena prometida por Jesus, experimentada na Santa Ceia, se desdobre em gestos concretos para que a partir de nós, como instrumentos do agir do Santo Espírito de Deus, vivamos e promovamos a vida eterna, plena, em abundância, que Jesus prometeu e que só por meio dele podemos alcançar e vivenciar. Que com todos os caminhos e possibilidades que se colocam à nossa frente, nosso coração se decida, a cada novo dia, pelo caminho de Jesus Cristo, pois somente ele nos leva à comunhão verdadeira com o Pai.
4 Imagens para a prédica Todos nós nos escandalizamos com a situação da corrupção, para ficar apenas em um aspecto das muitas mazelas que nos assolam no Brasil. Compartilho duas observações feitas por Charles Darwin quando de sua passagem pelo Brasil no século XIX: “Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena daquelas qualidades que dá dignidade à humanidade”. “Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados.” Claro que são palavras fortes e generalizadas, mas creio que poderiam ser usadas para “chocar” a comunidade presente no culto. Afinal de contas, a pregação de Jesus também “chocou” a multidão que o seguia. Emendaria a pergunta de Pedro: A quem vamos seguir? A quem estamos seguindo? Quem ou o que orienta o nosso dia a dia? Lembrar que é Jesus quem tem as palavras que dão vida eterna. Buscar exemplos da comunidade onde a vida plena é experimentada, nos encontros dos grupos, na diaconia, enfim, exemplos concretos e conhecidos da comunidade onde pessoas, motivadas pela sua fé em Cristo, proporcionaram a vida plena apregoada por Jesus. Quando em meio a tantos exemplos ruins, mesmo em meio a um país majoritariamente cristão, percebem-se exemplos concretos de mudança de vida e realidade, só nos resta reconhecer que isso somente é possível quando se coloca o reino de Deus em primeiro lugar, se busca em Deus, pela força do Espírito Santo, a armadura da qual fala Efésios e é declarada assim como Pedro: Cremos e sabemos que Jesus é o Santo que Deus enviou.
5 Subsídios litúrgicos Sugiro que o culto seja eucarístico. Na Eucaristia, poder-se-ia, claro que dentro das possibilidades que o espaço litúrgico proporciona, dar a cada participante algo em torno de um metro de barbante, com o qual cada participante se
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uniria à outra pessoa. Seria o sinal de que a vida plena acontece quando cada qual é inserido no convívio da comunhão dos santos, com seu jeito de ser, suas limitações e possibilidades. Penso na forma “andante” de comunhão, onde todos se colocariam no mesmo compasso e, óbvio, as dificuldades seriam resolvidas. Só conseguimos sentir e vivenciar a plenitude de vida quando estamos em sintonia com Deus e com a pessoa ao nosso lado. Enquanto é distribuída a Ceia, sugiro ser executado o hino 443 (HPD 2). É uma proposta louca? Sim, mas é possível! Sugestão de hinos: HPD 1, 197; HPD 2, 411, 443.
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. v. 2. VOIGT, Gottfried. Die Geliebte Welt. Göttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1980.
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15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
02 SET 2018
PRÉDICA: TIAGO 1.17-27
DEUTERONÔMIO 4.1-2,6-9 MARCOS 7.1-8,14-15,21-23
Ramona Weissheimer
Diante do espelho: desafio à coerência e ao cuidado “Assim como o fogo sempre produz calor e fumaça, também a fé sempre vem acompanhada do amor.” (Martim Lutero)
1 Introdução Como ser igreja de Jesus Cristo num mundo pós-moderno, carente de valores ou desiludido dos velhos valores? Como enfrentar o vazio, tão recheado de banalidades que pretendem preenchê-lo? Como olhar no espelho e não esquecer, no próximo minuto, a imagem ali vista, confundida entre as milhares que bombardeiam o celular, o notebook que, enfim, tornaram-se nosso HD externo, substituindo o cérebro? Como ser coerente, como ser cuidadoso? Como não perder a alma? Seriam essas perguntas semelhantes às feitas pelo autor da Carta de Tiago em sua época? Mas, quem sabe, diante dos desafios, da solidão, da superficialidade ou do vazio de um mundo pós-moderno, carente de graça, a “epístola de palha” nos ajude a enxergar o menino Jesus deitado na manjedoura, a encontrar o evangelho que une as duas traves da cruz: a graça que vem de Deus e que se doa horizontalmente aos irmãos e irmãs. O texto de Tiago 1.17-27 já foi trabalhado uma vez no PL, por Arteno I. Spellmeier, para o 16º Domingo após Pentecostes (01º.10.2000), mas acompanhado de outras leituras (Is 35.3-7 e Mc 7.31-37). Marcos 7.1-8,14-15,21-23 – Fariseus e mestres da Lei questionam Jesus pelo fato de seus discípulos não seguirem as regras dos antigos, que mandam lavar as mãos antes de comer. Fazem de tradições humanas a lei de Deus. Porém, não é o que vem de fora que contamina, mas o que está dentro, pois é do coração que brotam as impurezas e maldades. Deuteronômio 4.1-2,6-9 – Traz a admoestação para que os israelitas sigam a lei que recebem de Deus, pois não há nenhum outro povo que tenha um Deus tão próximo e que lhes dá leis tão boas. E que não acrescentem nem tirem nada! Tiago 1.17-27 – Tudo de bom que existe foi criado por Deus. Inclusive nós mesmos (v. 17-18). Devemos estar prontos para ouvir, lentos para falar e ficar com raiva. Porque a raiva só leva a coisas que Deus não gosta. Aceitar a Palavra com humildade, pois ela é para a salvação. Colocar em prática a mensagem recebida. Quem não coloca em prática não exercita e esquece. Olha-se no espelho e já não lembra mais. Deus abençoa quem não esquece sua palavra, quem a põe em prática.
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15º Domingo após Pentecostes
Não adianta se dizer religioso se não souber controlar a língua. O que Deus quer é ajudar as viúvas e os órfãos e não se deixar levar pelas coisas do mundo. Portanto os textos falam da lei de Deus, da boa lei com que Deus nos presenteia, de justiça e misericórdia, e da mensagem do Evangelho de justiça e misericórdia, que não podem ser transformadas conforme nossa vontade nem esquecidas.
2 Exegese Foram comparadas as versões da Bíblia de Jerusalém (BJ), Almeida, Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Nova Versão Internacional (NVI) e Nestlé-Alland. Não há grandes diferenças que produzam graves discordâncias, mas sim mudança de linguagem ou vocabulário e alguns acréscimos. Assim, no v. 17, nele não há mudança nem sombra de variação (BJ e demais), a NTLH acrescenta o que causaria escuridão; no v. 18, a BJ traz “gerados”, e as demais versões “nascidos”; v. 22, Almeida acrescenta ao não se enganem as palavras com falsos discursos. Nos v. 25 e 27 há uma mudança um pouco maior na NTLH em relação às demais, trazendo o evangelho é a lei perfeita que dá liberdade às pessoas, no lugar de a lei perfeita dá liberdade (v. 25); e para Deus, o Pai, a religião pura no lugar de religião pura para com Deus. Desta forma, vemos que Almeida faz uma acréscimo, no v. 22, enquanto NTLH acrescenta no texto expressões que constam na explicação dos versículos de BJ, fazendo uma interpretação. Porém, nada que traga dificuldades para o presente estudo. Conforme E. Lohse, a Carta de Tiago não foi aceita por todos os pais da igreja e nem tão pacificamente; alguns não a conheciam, outros não aceitavam. Lutero a considerou “epístola de palha” por valorizar muito as obras; o critério de Lutero era “o que promove a Cristo”. Porém, mesmo assim, Lutero decidiu deixar a Carta de Tiago no cânon por ocasião da tradução. Por volta de 200 d.C., para Irineu, entre as cartas católicas não figura ainda Tiago; nem em Tertuliano, Clemente de Alexandria ou no cânon Muratoriano. “Se também II Pedro, II e III João, Judas e Tiago devem ser incluídas no cânon, é um problema que foi profundamente tratado nos séculos III e IV, sendo finalmente decidido afirmativamente” (Lohse, 1985, p. 17). Orígenes, na igreja grega, classificou Tiago entre os livros “controvertidos”, junto com 2 Pedro, 2 e 3 João, Hebreus e Judas. Eusébio, no século IV, classificou Tiago entre os livros que encontram contestação, mas que são reconhecidos pela maioria dos cristãos. O bispo Atanásio de Alexandria, em pastoral comemorativa da Páscoa de 367 d.C., enumerou 27 livros no Novo Testamento, aí incluída a Carta de Tiago. No final do século IV, com a aproximação das igrejas latina e grega, a aceitação do cânon foi confirmada nos Concílios de Hipona (393) e Cartago (397). Aí estava incluída a Carta de Tiago. A igreja síria aceitou logo Tiago entre as cartas católicas. A igreja medieval e os Reformadores aceitaram os 27 livros. Alguns humanistas, porém, punham em dúvida a autoria apostólica de alguns escritos, em especial, das cartas católicas. Lutero, no prólogo da Carta de Tiago, em 1522,
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coloca como “pedra de toque” o que promove a Cristo. Daí sua desconfiança com a chamada “epístola de palha”, por ressaltar demais as obras. A designação “católicas” teria sido empregada no final do século II pelo apologeta Apolônio. O título se deriva do fato de não serem dirigidas a pessoas ou comunidades específicas, mas aos cristãos em geral. Desta forma, carta “católica” designa bem a Carta de Tiago, dirigida a todo o povo de Deus espalhado pelo mundo inteiro (v. 1) (NTLH) ou às doze tribos da dispersão (BJ). Lohse traz um breve esquema do conteúdo da carta. De forma solta, ela contém sabedoria proverbial e parênese: saudação inicial (1.1), sobre tentações (1.2-18 – os dois primeiros versículos de nosso texto estão aqui), sobre o ouvir e o fazer (1.19-27 – nosso texto em si), da acepção de pessoas (2.1-13), sobre a fé e as obras (2.14-26), sobre o perigo do cargo de ensinar e o poder da língua (3.112), contra a disposição de brigar (3.13-4.12), contra comerciantes de orientação mundana e contra os ricos (4.13-5.6), palavras de consolo e exortação (5.7-12), normas para diferentes situações da vida (5.13-20). A carta começa com uma saudação, mas não tem conclusão. Não se enquadra facilmente nos moldes tradicionais de epístola, parecendo mais ser uma homilia, conforme a introdução em BJ. Nas instruções para o comportamento dos cristãos no mundo, há muito material de tradição (sabedoria veterotestamentária, provérbios, filosofia popular helenista, “lógica”). Muito material de tradição judaica. Chama a atenção várias aproximações a ditos do Senhor nos evangelhos sinóticos. Mas não citados como sendo palavras do evangelho, porém inseridos junto com uma série de exortações. “O Sermão do Monte finaliza com um apelo insistente de praticar as palavras de Jesus (Mt 7.24-27), e em Tg 1.22 lê-se: Sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes” (Lohse, 1985, p. 222). A explicação de Lohse e da BJ é que não há uma relação de dependência literária. Mas tradições transmitidas oralmente teriam sido compiladas em complexos semelhantes a catecismos, por um lado no sermão do monte, respectivamente, do campo, por outro lado, em Tiago. Na questão sobre fé e obras, é provável que Tiago não tenha querido combater Paulo, mas certos cristãos que tiravam consequências nefastas de sua doutrina (fé x obras). Para Lohse, não se argumenta à base de um conhecimento exato da teologia paulina, porém se realiza um distanciamento de citações mal entendidas de Paulo, a fim de realçar a cooperação de fé e obras, que deve levar ao alvo da perfeição. Sobre a autoria, conforme a tradição da igreja antiga, seria Tiago, irmão do Senhor. Tiago, filho de Zebedeu não pode ser, pois foi mandado matar por Herodes, em 44 d.C. (At 12.2). Porém, entre outras coisas, se fosse o irmão do Senhor o autor, a carta não teria tido tanta dificuldade para se impor. Além disso, foi escrita diretamente em grego, elegante, com vocabulário rico e boa retórica. Pensou-se num secretário helenista, mas isso também não se manteve. A provável composição fica no fim do século I ou início do II, quando a atuação de Paulo já ficava para trás há algum tempo. Apresenta regras de vida permanentemente válidas, não determinadas por local ou situação, o que não permite deduzir local de redação.
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3 Meditação “Epístola de palha!” Que falar sobre ela, tão pouco conhecida, nem sempre ouvida? Ao longo da história, esta carta foi ora vista com reservas, ora deixada de lado e rejeitada. Mas por quê? O que a faz assim tão diferente, que alguém chega a dizer que não é evangélica? Os antigos a excluíram dos cultos ao longo do século II, e só em 367 d.C. passou a integrar o cânon. A Idade Média a relegou ao esquecimento, não quis ouvi-la. Talvez porque à igreja medieval, rica e poderosa, não agradassem as marteladas de Tiago contra os que dormem tranquilos sobre seu luxo e riqueza, conquistados às custas do trabalho mal pago e do sofrimento alheio. Lutero a chamou “epístola de palha”, vendo em seu chamado às obras e na necessidade dessas para a salvação uma teologia diametralmente oposta àquela de Paulo, que diz que o justo viverá por fé – se bem que na segunda versão do Novo Testamento a tenha reabilitado, lembrando o que de bom e belo havia em seu texto. Há os que dizem nem tratar-se de uma carta cristã, mas de uma circular judaica, apenas maquiada. E há ainda os que buscam nela as palavras de alguém que vendo o sofrimento do seu povo, curvado diante de miséria e injustiça, toma de empréstimo a radicalidade dos profetas e do próprio Jesus Cristo para clamar por justiça e coerência. Alguém que, em fins do primeiro século ou início do segundo, entende por “lei perfeita” não as obras para “contar pontinhos no céu”, mas a união entre o ouvir atento e o praticar amoroso, enfim, da fé com seus frutos: visitar o órfão e a viúva em suas tribulações, guardar-se dos males do mundo. Ao contrário do que muitos pensam, talvez o autor da Carta de Tiago não estivesse polemizando com Paulo e sua teologia, mas tendo em vista um cristianismo frouxo que invoca a fórmula paulina apenas para servir de pretexto para sua acomodação. A mensagem de Tiago põe a descoberto todo o cristianismo que se esconde sob aparências, e vive de palavras bonitas, mas vazias. Deixava entrever Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica (século IV), que o martírio era necessário para manter a igreja viva e fervorosa, para que não se acomodasse. Tiago é ainda hoje uma correção salutar para toda fé que degenerou em teoria, em puro “saber de Deus”, descarnado e desencarnado. Talvez as expressões mais moralistas e as exigências mais complicadas nos afastem de Tiago. Mas o que dizer de seu apelo para se cumprir aquilo que se ouve? Atualidade tremenda! Maior até do que gostaríamos. Tiago escreve para uma comunidade ou para uma cristandade em que há pobres explorados e ricos exploradores e pede coerência. Para Tiago, a denúncia do hoje e o anúncio da esperança para o amanhã não são suficientes. Não bastam belas palavras e boas intenções. É preciso cumprir a “lei perfeita”, lei que não prende nem amarra, mas liberta: a lei do amor. Vivemos em uma “sociedade do efêmero”. Agita-se durante algum tempo, também sob o embalo da mídia, mas passado o bonde logo perde o trilho. “Assim é que o ouvinte da palavra e não cumpridor olha-se no espelho...”: vê uma ruga, um cabelo branco, olheiras, uma barriguinha. Promete a si mesmo seguir os conselhos do médico, dormir mais, alimentar-se melhor. Sai de diante do espelho,
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arma-se de uma Coca-Cola e de uma barra de chocolate e vara mais uma noite diante do computador, enquanto lá fora a noite cai, está frio, e muitos vão dormir com fome. É preciso prestar mais atenção, ouvir mais, falar menos, dedicar-se mais, antes que a vontade passe e os detalhes sejam esquecidos. O desafio de Tiago nada mais é que a coerência, desafio de Cristo também: ouvir e pôr em prática.
4 Imagens para a prédica Além da pessoa diante do espelho com suas rugas e cabelos brancos, que logo esquece de suas intenções de mudança, poderíamos iniciar a meditação tendo por “gancho” uma historinha. “João e Maria vão ao culto, pois já estava na hora. Ali ouvem a prédica envolvente que, expondo as dores do mundo, convida a agir diferente, a cuidar e amar. As imagens do powerpoint apertam seus corações, e eles ficam encantados com as palavras da ministra, prometendo a si mesmos que, ao sair dali, vão ajudar a quem precisa, seja o velhinho a atravessar a rua ou o mendigo que pede um pão. Saem enlevados, mas, atravessado o pátio da igreja, vem o primeiro som do celular e, então, as belas imagens de borboletas voando ou fofos gatinhos brincando os impede de ver o velhinho que não consegue atravessar a rua movimentada, e de ouvir a criança esfarrapada que pede um pão. Chegando em casa, alguém pergunta: ‘Como foi o culto?’ ‘O culto? Nem lembro... mas olha aqui que lindos gatinhos eu recebi!’.”
Bibliografia LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1985.
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PRÉDICA: MARCOS 7.24-37
16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
09 SET 2018
ISAÍAS 35.4-7a TIAGO 2.1-10 (11-13),14-17
Vera Lucia Engelhardt
Por causa dessa palavra!
1 Introdução O texto causa reações e os sentimentos afloram. Ouvir que os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças e que migalhas podem saciar a fome certamente inquieta. Mas, ao mesmo tempo, é também um evangelho cheio de ousadia e insistência, cheio de palavra. A mulher estrangeira, mãe de uma menina, insiste e não se deixa desanimar diante da resposta primeira que ouviu para seu pedido. Seu pedido é pela filha, e ela argumenta, reage: mesmo que sejam as migalhas que caem da mesa, socorre minha menina! Por causa dessa palavra dita pela mulher, Jesus a manda ir, porque a filha está bem agora. Ela chegou à sua casa e a menina estava sobre a cama, liberta. Aquele surdo e gago vivia no mundo do silêncio, sem ouvir e atrapalhando-se com as palavras. Precisava se abrir para a palavra – ouvir e falar. Após ter sido trazido para esse encontro com Jesus, ele fala sem dificuldades, ele se comunica e não pode mais ficar no mundo do silêncio. Todas as pessoas que ali estavam podem dizer, podem se expressar, podem comunicar evangelho. Evangelho não pode ser silenciado. O texto do Antigo Testamento, a profecia de Isaías, também nos remete à palavra e à ação do Messias esperado: os surdos ouvirão e os mudos cantarão. Deus vem salvar e a vida será boa. As palavras evangelizadoras da Carta de Tiago remetem-nos ao nosso agir neste mundo. De nada adianta falar belas palavras e não agir de acordo com elas ou não traduzir a fé em palavra-ação. O tempo do ano litúrgico é após Pentecostes: com o impulso do Espírito Santo, a palavra de Deus vai sendo anunciada, falada, a igreja vive a missão de Deus, vamos ouvindo falar de Jesus e vivendo vida com Deus.
2 Exegese O texto é formado por duas perícopes: a cura da filha da mulher siro-fenícia e a cura de uma pessoa surda e gaga, sendo esta última perícope material exclusivo do Evangelho de Marcos. O primeiro relato é uma cura à distância. No segundo há o toque de Jesus: Jesus toca com seus dedos nos ouvidos e na língua daquela pessoa. Em ambos os relatos a palavra tem força extraordinária. No primeiro, a fala resistente, persistente e perseverante da mulher-mãe que confia, que tem certeza da ajuda de Jesus, porque ouviu falar de Jesus, por isso não desiste;
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no segundo, o ouvir e o falar são ações missionárias. Divulgavam o acontecido. A ordem de Jesus era guardar silêncio. Não era possível silenciar. Era preciso palavrear. v. 24: Jesus limitou seu ministério quase integralmente ao território judaico, porém alargou e foi para outras regiões em certos momentos. Queria passar despercebido pela região de Tiro e Sidom. Essa região pertencia à Siro-Fenícia. Queria ocultar-se numa casa ali. Mas não pôde. Em nenhum lugar ele pôde ficar longe da vida das pessoas. v. 25: Uma mulher gentia, mãe de uma menina, procura Jesus por ter ouvido falar dele. Sua filha estava possessa de um espírito imundo. Os espíritos malignos têm influência sobre as pessoas e procuram ocupar seus corpos. Com frequência encontramos pais procurando Jesus e intercedendo por seus filhos: o pai Jairo intercede por sua filha (Mc 5. 21ss); o pai que tem um filho possesso por espírito imundo o traz até Jesus (Mc 9.14ss); são trazidas até Jesus crianças para que ele as tocasse (Mc 10.13ss). A mulher-mãe sabia algo sobre Jesus e prostra-se a seus pés buscando ajuda para sua filha. Uma mulher, segundo a compreensão judaica, era reduzida a nada. v. 26: Aquela mãe tinha amor pela sua filha. Ela é insistente. Pede, expõe seus motivos e confia no poder de Cristo para realizar aquilo que ela solicitou. v. 27: A resposta de Jesus é intrigante. Há uma rejeição muito dura por parte de Jesus. Na linguagem do povo judeu, os cães são os pagãos e os judeus são os filhos de Deus (em Mt 7.6 Jesus usa a comparação Não deem para os cachorros aquilo que é sagrado). Aqui no nosso texto é usado o diminutivo cachorrinhos. Há fronteiras a serem alargadas. v. 28-29: Sim, Senhor – disse a mulher. Nenhum argumento a desencorajou. Ela não desistiu. Ela aceita o juízo de Jesus com o “Sim, Kyrios”. Eu quero o que estás dizendo: as migalhas que sobram da mesa dos filhos. A mulher-mãe continuou falando e por causa dessa palavra Jesus a manda para casa com seu pedido atendido. O texto paralelo de Mateus chama isso de fé. São as palavras de gentios pedintes que convencem a Jesus com sua fé. v. 30: A filha estava em casa, em sua cama, o demônio não a dominava mais. É uma cura efetuada à distância. v. 31: Jesus vai adiante, parte de Tiro, passando por Sidom até o mar da Galileia, e chega à Decápole, lugar estrangeiro. Também nesse contexto Jesus caminha e é conhecido. v. 32: As pessoas daquele lugar trazem um surdo, que falava com dificuldade, e pedem que Jesus ponha a mão sobre ele. Algo sobre Jesus eles sabiam para agir assim. Uma pessoa que não ouve fala com muita dificuldade, muitas vezes de modo incompreensível emite sons. Não ouvir e falar com dificuldades mantinham aquele homem fechado em seu mundo. Não conseguia comunicar-se com seus semelhantes e precisa ser trazido até Jesus. O desejo de incluir na sociedade aquele que não se comunica motiva o agir solidário daquelas pessoas. Os conterrâneos de Jesus entendiam ser a limitação física um castigo por eventuais pecados. v. 33-35: Aqui nos é contado o que acontece entre aquela pessoa e Jesus.
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1º – Jesus tira-o/afasta-o da multidão e dá sua atenção àquela pessoa que vive no mundo do silêncio. 2º – Jesus põe os dedos nos ouvidos dele. Mesmo não ouvindo, pôde sentir. Jesus toca com seus dedos o ponto sensível do doente. 3º – Jesus lhe toca a língua com saliva. O uso da saliva como medicamento era conhecido, especialmente para os olhos (Mc 8.23; Jo 9.1-7). A língua é o órgão da fala e revela a intimidade da pessoa. Aqui ela estava presa. 4º – Jesus ergue o olhar para o céu. 5º – Jesus suspira. 6º – Jesus fala: Abre-te! E a ordem de Jesus é bem-sucedida: os ouvidos se abriram e pôde falar. A cura vai sendo um processo. Abre-te para comunicar-se, para interagir, para viver. O autor da cura é Jesus. Ele tem autoridade sobre a doença. Jesus usa a palavra efata, conhecida de seu povo, mas que precisou logo ser traduzida para ser entendida pelos ouvintes do evangelho. É preciso comunicar de modo que todos entendam. v. 36-37: Jesus proíbe que fosse divulgado o que ali ocorrera, que não deveria ser dito qualquer coisa sobre a cura que recebeu aquela pessoa. Porém, a reação dos que ali estavam foi maravilhar-se e falar. O pedido de Jesus de que não falassem nada para ninguém não foi ouvido. Ao contrário, Jesus não pode ficar oculto, sua autoridade não pode silenciar. Ao realizar milagres Jesus demonstra seu amor e sua autoridade. Tudo ele tem feito esplendidamente bem, é a palavra dos que presenciaram esse encontro com Jesus.
3 Meditando – não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos O Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito e nos quer fazer caminhar para seguir a Jesus. Há movimento aqui, Jesus caminha e a seu encontro caminham pessoas porque ouviram a respeito de Jesus. O mundo pós-moderno nos ensurdece, nos fecha dentro do nosso próprio mundo com um hedonismo exagerado, onde interessa satisfazer minhas necessidades, onde importa ser feliz imediatamente! Minha filhinha me dizia: “Eu quero agora!”. O mundo pós-moderno tem nos ensurdecido às dores e clamores de quem está sofrendo, isolado, de quem não entende as palavras, de quem não consegue nem mesmo falar e comunicar-se. O mundo pós-moderno nos emudece. Preferimos ficar calados para não nos incomodar, para não nos “metermos”. E injustiças continuam imperando. Cremos em nossas próprias verdades. Cada um tem a sua verdade. O mundo pós-moderno nos quer competitivos. Vivemos uma competição em todos os sentidos. Leva-nos à ganância, à cobiça, e fecha o nosso coração, traz separação, indiferença, desvia o nosso olhar da realidade do outro, nos faz querer o que é do outro e sentimo-nos satisfeitos quando nos sobressaímos aos demais. O argumento usado pela mulher-mãe sobre migalhas que caem da mesa e os cachorrinhos comem é inquietante. A palavra cachorrinho era usado pelos judeus para se referir aos gentios. Talvez o uso do termo possa indicar que, caso
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a mulher fosse atendida em seu pedido, seria por causa da graça e bondade do Kyrios Jesus. Os cachorrinhos domésticos recebem os benefícios da abundância da casa. A mulher entendeu que até as migalhas que caem da mesa eram suficientes para suprir suas necessidades. O próprio povo de Jesus rejeitou a comida sobre a mesa. No texto são outras pessoas que intercedem por aquelas a serem curadas: a mulher-mãe e quem trouxe o surdo e gago até Jesus. São outras pessoas que dialogam com Jesus, suplicando-lhe que faça algo em favor dos sofredores (a filhinha e o surdo gago). E em nossa realidade, a nossa compaixão por pessoas em sofrimento nos faz agir em seu favor? Quando há obstáculos, ainda assim persistimos? Como a comunidade age diante de sofrimento e dores das pessoas? A doença é um mal a ser combatido. Com qual linguagem traduzimos o evangelho para as pessoas? A fé sem ação é uma fé morta. A fé nos põe em movimento, nos faz ver e ouvir quem hoje clama por dignidade; a fé no Kyrios nos impõe falar, trazer e incluir os que não ouvem e não falam. Duas opções para a pregação: O evangelho insiste na palavra – ouvir e falar ou não se calar. Poder-se-ia convidar pessoas na comunidade para “dar razão da sua fé”, ou seja, testemunhar, falar por que e como creem, por que vivem em comunidade, o que as atrai e as cativa a crer e ter vivência comunitária. Deve-se conversar com antecedência e estabelecer um pequeno roteiro, duas ou três perguntas norteadoras. Poderia ser uma pessoa que está presente e participante desde o início de sua vida, uma pessoa jovem e uma pessoa que se achegou à comunidade recentemente. Poderiam pautar seu testemunho, sua fala, sua palavra nas seguintes perguntas norteadoras: o que eu ouço falar de Jesus em minha comunidade? O que eu falo da fé que tenho em Cristo? O que me cativa a viver a fé em uma comunidade luterana? Outra opção: preparar com a comunidade um culto com vistas a uma ação diaconal que cuida e inclui, que busca tornar as pessoas protagonistas. Pode-se perguntar e motivar a comunidade a refletir em quais ações diaconais as pessoas estão envolvidas ou em que a comunidade está envolvida. Aquelas pessoas que trouxeram o surdo e gago até Jesus se dispuseram a agir. Dispomo-nos a ações que expressam o que cremos, que confiamos no Senhor da igreja, diante do qual os mudos falam e os surdos ouvem?
4 Subsídios litúrgicos Acolhida: “Tenham no coração de vocês respeito por Cristo e o tratem como Senhor. Estejam sempre prontos para responder a qualquer pessoa que pedir que expliquem a esperança que vocês têm. Porém, façam isso com educação e respeito” (1Pe 3.15-16a).
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Gloria in excelsis: “Louvado seja o Senhor, que dia a dia leva as nossas cargas! Deus é a nossa salvação. O nosso Deus é o Deus que salva; ele é o SENHOR, o Senhor nosso, que nos livra da morte” (Sl 68.19-20). Bênção final: Que Deus, que faz os surdos ouvirem e os mudos falarem, abençoe-nos com sua graça e nos impulsione a anunciar suas maravilhas. Amém. Hinos: HPD 1, 249; HPD 2, 415, 466.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. O Segredo do milagre: uma perspectiva bíblico-teológica. São Leopoldo: Sinodal, 2012 CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1983.
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16 SET 2018
PRÉDICA: ISAÍAS 50.4-9a MARCOS 8.27-38 TIAGO 3.1-12
Marivete Zanoni Kunz
Razões para crer e obedecer
1 Introdução É sempre bom lembrar que Isaías foi o profeta que trouxe sua mensagem no século VIII, ou seja, ele pregou quando as tribos do reino do Norte estavam quase sendo destruídas pela Assíria. Quando falamos em texto de Isaías, alguns estudiosos acreditam que a partir do capítulo 40 há um segundo autor, chamado Dêutero-Isaías. Esse autor estaria falando de questões que envolvem o período da Babilônia e também após os acontecimentos do cativeiro. É nesse bloco de textos que se encontra o texto de reflexão. O contexto que envolve o texto de Isaías 50.4-9a tem relação com os exilados da Babilônia. Percebe-se que, desde o capítulo 49 de Isaías, o texto apresenta uma imagem de Jerusalém como uma mulher enlutada e estéril (49.21), e agora o texto do capítulo 50 mostra que embora os exilados tivessem recebido seu castigo, eles não eram como uma mulher divorciada ou como um filho vendido como escravo. A partir do capítulo 50, entende-se que os exilados não precisam entrar em desespero, pois seu Deus não os trataria assim. Diante da situação de calamidade que Jerusalém viveu desde 587 a.C., o presente texto traz uma mensagem de esperança, pois mostra que a cidade será restaurada e o povo retornará para sua pátria. Nesse sentido há um grande desafio para o povo, ou seja, de crer em Javé e obedecer a suas orientações. Depois de tantos anos (606 até 538 a.C.) poderia surgir a pergunta: por que crer e obedecer depois de tanto tempo? É isso que o texto vai mostrar, ou seja, nada pode impedir a redenção do povo de Israel. O texto mostra razões para crer e obedecer, embora as lutas tenham acontecido. Abaixo, eis algumas razões para crer e obedecer.
2 Exegese v. 4-9: De forma geral, o texto de Isaías 50.4-9 apresenta o servo obediente. Ele enfatiza a missão desse servo no que diz respeito a ter fé, ou crer e obedecer. Esses versículos que descrevem o terceiro cântico do servo, no livro de Isaías, mostram os sofrimentos que o servo enfrentaria. Há uma ênfase na questão de submissão a Deus para o cumprimento do serviço e da vontade de Javé. É muito interessante que, nesse poema, os versículos 4, 5, 7 e 9 iniciam ou apresentam as expressões: o Senhor Deus. É esse “Senhor Deus” que será o juiz e avaliará aqueles que ouvem o servo e os seus inimigos.
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v. 4: A expressão todas as manhãs pode indicar momentos especiais e a sós com Javé. Este versículo mostra que o servo sujeita sua própria mente ao seu Deus para chegar à compreensão de qual seria a obra que ele tinha para realizar através de sua vida. Esse servo também submete seu ouvido. Isso foi significativo, pois em muitos momentos, nesse contexto, Isaías transmitiu a mensagem, mas não foi ouvido. Sendo assim, era importante o servo estar atento à voz de Deus para não cair na tentação de anunciar aquilo que o povo queria ouvir, ao invés da verdadeira mensagem de Javé. Jesus, da mesma forma, como servo que obedece ao Pai, cumpriu sua missão, embora isso tivesse significado muita humilhação e até rejeição daqueles que o ouviram. Este versículo também mostra que Javé concederá ao servo uma fala adequada para que ele possa falar a verdade com muita coragem. Neste versículo aparece um termo bem particular de todo o Antigo Testamento, o termo “cansado”. Esse termo (que é transliterado por ‘ut) só aparece neste texto em todo o Antigo Testamento. O servo deveria sustentar o “cansado” com sua palavra, ou ajudar e fortalecer. É bem possível, conforme Crabtree (1976), que esse termo tenha relação com o povo queixoso que estava no exílio. A língua dos eruditos ou instruída, que aparece neste versículo, pode ter ligação com o treinamento que o profeta recebeu para falar a verdade com “coragem e poder”. É a partir daquilo que o servo recebeu de Javé, seu Senhor, que ele irá consolar os israelitas que estavam no exílio. A descrição deste versículo mostra que o servo a cada novo dia recebia inspiração do Senhor para cumprir sua tarefa. v. 5: Desde o versículo 4, mas também aqui bem como no v. 7, o servo testifica que depende de seu Senhor, pois é ele quem o ajuda e o orienta. Este versículo mostra que o Senhor deu ao servo ouvidos abertos e este não se mostrou rebelde, mas realizou o que lhe cabia. Assim também foi com Cristo, ou seja, ele cumpriu sua missão sem vacilar ou desistir. v. 6: Do versículo 4 até o 6, é possível ver a descrição da obediência do servo, mesmo em meio a duras oposições. Ele terá que enfrentar tais dificuldades para cumprir sua missão. Arrancar a barba e cuspir no rosto eram grandes insultos para o homem do Oriente. O texto não mostra os motivos das perseguições que o servo sofria, apenas que o servo seguiu em frente com sua missão, embora sofresse oposições. Assim foi com Cristo, ele sofreu perseguição e muitos insultos, mas foi fiel na sua missão. v. 7: Os exilados viviam numa situação de vergonha, pois mesmo com as promessas do profeta, não havia como compreender a forma como a libertação aconteceria. As esperanças haviam acabado e, por isso, eles não criam mais na providência divina e na sua manifestação, embora o profeta anunciasse. O servo, embora tivesse sofrido perseguições, estava convicto e foi fiel à sua missão, transmitindo o recado e seus ensinos, porque, como o texto indica, o seu Senhor o ajudou. Com ajuda do Senhor ele enfrenta o futuro e não fica ou se sente envergonhado. Assim, seu rosto foi feito como pederneira e ele está pronto para sofrer as consequências de sua fidelidade, cumprindo sua tarefa. Assim também foi Cristo, ou seja, era destemido e enfrentava toda oposição para cumprir sua tarefa.
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v. 8-9: Estes versículos mostram um vocabulário de tribunal. Ciente da sua condição, o servo convida seus adversários para estarem com ele perante o tribunal, pois sabe que o Senhor o defenderá contra todas as injustiças. O servo sabe que seu Senhor será justo e condenará a injustiça, por isso leva avante sua missão, cumprindo o propósito que a ele foi designado e desafia alguém que o possa condená-lo. A parte final do poema mostra que é o próprio Senhor quem fala através do mensageiro e que o servo encontra-se feliz diante da ajuda divina recebida.
3 Meditação: Razões para crer e obedecer Diante do contexto em que o povo de Israel vivia (estava há anos no cativeiro) e diante daquilo que o texto de Isaías 50.4-9 apresenta sobre o servo obediente, pode-se verificar algumas razões que levam a crer e obedecer a Javé. Antes desse destaque é preciso estar ciente de que o verdadeiro servo de Javé passa por sofrimentos, mas em tudo mantém-se submisso diante do serviço e da missão a ele entregue. Tudo é possível porque o Senhor Deus se faz presente com seu servo. Ainda é importante estar ciente que o servo consegue obedecer se tiver seus momentos com Javé, como diz o texto: todas as manhãs. É assim que o servo tem condições de sujeitar-se e compreender sua obra e recado de forma clara. Só é possível ouvir o recado de Javé estando com os ouvidos atentos à voz de Javé. Se não for assim, haverá uma grande tentação para transmitir o recado da mente humana e não aquele que vem de Javé. Estando próximo a Javé, não há razão para temer, pois o servo terá condições de ser forte, ajudar e fortalecer aquele que precisa. Além disso, esse servo também terá as palavras certas em sua língua. É isso que permite que o servo não vacile ou desista em sua missão. Todos têm uma tarefa, como servos de Javé, mas oposições e dificuldades virão, até mesmo situações de humilhação; com a ajuda de Javé a missão pode ser realizada e os resultados serão os melhores. Para isso é preciso crer e obedecer. Por isso seguem algumas razões para crer e obedecer. a) Porque Javé é poderoso e cumpre o que prometeu Não é difícil de imaginar que muitos não acreditavam nas predições do profeta Isaías. Afinal, uma geração já havia passado desde que o povo havia ido para a Babilônia. Entretanto, o profeta mostra para o povo, ainda no capítulo 49, que Javé é conhecido como o “Deus Poderoso” desde os antepassados de suas gerações. Desde a saída do Egito, Javé já vinha mostrando-se Poderoso e Salvador, mesmo diante daqueles que pareciam ser os mais poderosos. Ele se mostra como uma mãe ou como um marido, sendo que, ambos jamais abandonaram aqueles com quem tinham um compromisso, mesmo que os tenha entregue nas mãos de opressores como consequência de desobediência. Javé fez o que fez devido aos pecados de seu povo, mas tal povo ainda lhe pertencia, e agora novamente o seu grande poder seria manifesto para que os seus voltassem. Essa foi a mensagem e foi o que aconteceu quando Ciro proclamou o decreto que todo estrangeiro poderia voltar para sua terra natal. O decreto foi de Ciro, mas a promessa e palavra de
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libertação vieram de Javé muito antes. Entretanto, é bom lembrar que o momento certo foi escolhido pelo Senhor, por isso tal espera. A obediência acontece quando o servo tem determinação e crê no seu Senhor. Esse foi o exemplo deixado por Cristo. Embora Cristo tenha sofrido a ponto de morrer na cruz, ele sabia que o seu Senhor estaria ao seu lado, suas promessas seriam cumpridas e um dia o próprio Senhor o justificaria diante de todos. b) Porque o servo é fortalecido por seu Senhor e assim se torna um mediador Por mais estranha que pudesse ser a mensagem que o profeta Isaías deveria transmitir, ele a transmite. Assim como a palavra para anunciar vinha do Senhor desse servo, as forças para proclamar a mensagem também vinham de seu Senhor. Após tanto tempo e em meio a tanta incredulidade, era necessário que o próprio Javé enchesse o profeta de disposição. Diante de tão preciosa força não haveria quem pudesse condenar o profeta (v. 9a). Assim como Javé fortalecia o profeta, agora o profeta vai receber “língua de eruditos”, ou seja, ele será um canal para trazer conforto aos cansados (v. 4). É isso que o verdadeiro servo faz; quando despertado (v. 4), ele ouve e depois fala. No contexto do povo de Israel, ouvir seu Senhor era algo que fundamentava o estilo de vida do povo, pois ouvir fazia parte do credo israelita em Javé e essa importância já é evidenciada em Deuteronômio 6.4. O servo verdadeiro não é rebelde, mas obediente. Obediência é a marca do próprio Cristo. É a marca daquele que confia em seu Senhor. Jesus é apresentado como o servo que foi obediente, além disso, ele também traz mensagem de esperança e consolo para todo aquele que o busca e quer seguir seus ensinos, deixando para trás tudo o que a Palavra condena. O servo apresentado no texto de Isaías é aquele que, a exemplo de Cristo, mesmo sendo ferido e maltratado (v. 6), encontra e recebe forças do Pai Celestial (v. 7) para entregar-se totalmente a ele, para não sentir vergonha ou medo (v. 7 e 8) e cumprir sua missão. Cumprir a missão, a exemplo de Cristo, significa buscar no próprio Javé e rogar que ele mostre a sua vontade soberana. O servo que tem comunhão com seu senhor recebe forças dele, por isso esse servo obedece à voz divina.
4 Conclusão Não importa a situação ou o erro cometido, o servo de Javé e seu povo são convidados a crer nas suas promessas e ter esperança nele. O servo precisa ter esperança que a libertação do sofrimento virá. Ele precisa manter-se fiel e cumprir a missão que seu Senhor lhe entregou, seguindo o exemplo do servo mais fiel de todos, o próprio Cristo. O servo também deve estar ciente de que, embora as reflexões e consequências dos erros apareçam, Javé sempre está disposto a perdoar e derramar sua graça, renovando os laços antes rompidos. Em muitas situações, crer e obedecer não é algo fácil, pois isso pode levar a desafios, entretanto, é certo que haverá o momento em que o Senhor cumprirá sua Palavra. Por isso o melhor sempre será que o servo creia e obedeça. Afinal, como bem enfatizam vários versículos do texto, o Senhor Deus é quem ajuda a seguir em frente e julgará o servo e seus adversários.
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Imagens para a prédica
Mensagem do livro Coletânea de Ilustrações, do autor Natanael de Barros de Almeida que mostra que ajudar os cansados é um privilégio, bem como dizer boas palavras em tempo oportuno ou realizar nossa missão com zelo. “Certa vez, um cantor famoso foi convidado a dar um concerto em benefício dos soldados da Primeira Guerra Mundial. O presidente da comissão que o convidou lhe disse: ‘Como se trata de um benefício, não exigimos naturalmente que o senhor apresente o que tem de melhor. Seu nome é suficiente para atrair as multidões. Eu sugiro canções simples, que não exijam grande esforço de sua parte’. Dizem que o cantor sentiu-se ofendido e, enchendo-se de orgulho, respondeu: ‘Eu não me contento em fazer menos do que o melhor que posso’.” É nosso dever solene tirar o máximo proveito de nossos dons e oportunidades, e cumprir fielmente e da melhor maneira qualquer tarefa, seja grande ou pequena. Deus espera que façamos o melhor, não importa qual seja a obra que temos em mãos. Estamos nós fazendo o melhor para ter a aprovação do mestre: Muito bem, servo bom e fiel?
6 Subsídios litúrgicos Pensando no contexto do texto de reflexão, ou seja, o povo no cativeiro, e nos muitos corações que se encontram como o povo que estava no cativeiro, o texto que segue pode trazer consolo, como as boas palavras de Cristo. Jesus proferia palavras ao cansado, ele olhava aos aflitos e desalentados, aqueles que se encontravam sem esperanças, e procurava trazer alento aos anseios da alma. Mateus 11.28-29: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.
Bibliografia CRABTREE. A. R. A profecia de Isaías: texto, exegese e exposição. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1976. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Santo André: Geográfica, 2006.
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PRÉDICA: MARCOS 9.30-37 JEREMIAS 11.18-20 TIAGO 3.13-4.3,7-8a
18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
23 SET 2018
Adélcio Kronbauer
Morte e ressurreição: vida diferenciada
1 Introdução As perícopes sugerem uma temática em comum: a corrida do ser humano atrás de prestígio e poder, atrás da satisfação de vontades e desejos. Os textos denunciam implacavelmente uma característica bem perigosa e ameaçadora presente na ação das pessoas: o sentido e o auge da vida acontece quando se alcança o topo, a fim de exercer fascínio e influência sobre os demais, sentir-se superior e impor aos demais a condição de servos. Neste sentido, os textos levantam a temática do exercício da autoridade. A serviço do que a autoridade está posta? Os textos apresentam dois caminhos. Um é pecaminoso e diabólico; o outro é o de Deus. Um promove a morte, a destruição e a guerra; o outro, a vida e a paz. Mais especificamente, o evangelho apresenta uma novidade: a ressurreição. Os discípulos não conseguem entender do que se trata, a mente deles está extremamente influenciada pela lógica do mundo, pois discutem quem será o mais importante.
2 Exegese Compartilho a ideia de que o Evangelho de Marcos é o mais antigo dentre os sinóticos. Foi escrito por volta do ano 70. Lembramos que foi em 70 d.C. que Jerusalém foi destruída pelos romanos. O autor é desconhecido, no entanto, tem gente que defende a tese de que deve ter sido uma pessoa muito próxima ao apóstolo Paulo. Segundo Oscar Cullmann (2012), era “um judeu transplantado em uma comunidade cristã”. Creio que não há grandes novidades na pesquisa em relação a esses dados sobre o evangelista Marcos. O objetivo central do evangelho é testemunhar que Jesus é Filho de Deus, portanto de natureza divina. Verdadeiramente este homem era Filho de Deus (15.39). Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (1.1). A morte e a ressurreição, anunciadas no texto que nos ocupa – vale lembrar que é a segunda vez que isso ocorre no evangelho (8.31-33) – estão em sintonia com o âmago da mensagem geral que Marcos quer levar aos seus leitores, isto é, Jesus é verdadeiramente Filho de Deus. Ainda que o tema central do Evangelho de Marcos seja a natureza divina de Jesus, o mesmo repete com certa insistência que o seu messianismo não deve ser divulgado. Provavelmente para evitar uma má interpretação do mesmo. A má interpretação já começa pelos próprios discípulos, que não entendem o anúncio
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da morte e ressurreição. Esses seguem um pensamento messiânico que não transcende os seus próprios desejos, anseios e necessidades temporais. A questão é assumir um poder. Na primeira vez que Jesus anuncia a sua morte e ressurreição, Pedro o repreende, ao que Jesus reage dizendo: porque não cogitais das coisas de Deus e sim a dos homens (8.33). Na segunda vez que ocorre esse anúncio, é dito que os discípulos não entenderam e em seguida passaram a discutir sobre quem seria o primeiro. O termo gnoridsō significa entender ou conhecer. Os discípulos não conheciam e não entendiam a questão da ressurreição. Mas para que a filiação divina se concretizasse, era isso que deveria ocorrer. O anúncio da morte e ressurreição feito pelo Filho de Deus exige uma inversão na lógica do pensamento e das ações quanto aos relacionamentos interpessoais. A lógica imperante até então é a de ser o primeiro e a de impor autoridade sobre os demais, se preciso for com uso de violência, normalmente usada. A nova lógica prega a máxima: quanto maior o poder, maior o serviço em favor da vida e da paz. Aquele que detém o poder morre em favor da vida. Essa é a boa nova de Jesus. Quem morre em favor dos outros vence a morte, promove paz e é de Deus. A expressão que encontramos em nossa passagem é Filho do Homem. Essa expressão os evangelistas usam quando o próprio Jesus fala. Mas não se tem certeza sobre se o próprio Jesus se atribuía tal título ou se é uma tradição da comunidade. Mais provavelmente, no Evangelho de Marcos estava ligado ao cuidado sobre a questão do segredo messiânico referida acima. Sobre a ressurreição que aponta para a esperança da eternidade, podemos citar Paul Tillich: “Nesta visão o processo do mundo significa algo para Deus. Ele não é uma entidade separada, auto-suficiente que, dirigido por um capricho, cria aquilo que quer e salva a quem quer. Antes, o ato eterno da criação é dirigido por um amor que encontra realização somente através do outro, daquele que tem liberdade de rejeitar ou aceitar o amor. Deus, por assim dizer conduz a atualização e essencialização de tudo o que tem ser. Pois a dimensão eterna do que ocorre no universo é a própria Vida Divina. Ela é o conteúdo da beatitude divina. Essas formulações referentes à Vida Divina e sua relação com a vida do universo parecem transcender a possibilidade das afirmações humanas, mesmo dentro do círculo teológico” (2005, p. 708). Não nos diferenciamos em essência quanto ao entender dos discípulos. E andamos buscando cada um ser o primeiro, os lugares mais altos e continuamos a promover a guerra no mundo, seguindo a sua lógica. A esperança na ressurreição pode inverter essa lógica? A ressurreição é uma promessa de vida. Nós a entendemos hoje ou estamos na mesma condição dos discípulos naquele momento?
3 Meditação A vida é relacional. Mesmo que nos isolemos, estamos em relação com a vida e tudo o que implica viver. Cremos que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A criação já nos impôs uma relação: com o Criador e com a própria criação. Viver é sempre estar em relação uns com os outros e com Deus,
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não importando em que condições. Viver é experimentar as relações entre as criaturas. A pergunta é: que tipo de relações nós estamos tendo a fim de edificar, experimentar? Cremos que Deus, na própria criação, através dos mandamentos, na pregação profética e, por fim, ele mesmo em Cristo nos indicou um caminho, uma indicação ou critérios para nos relacionarmos. Nós entendemos a proposta de Deus? O texto indica que temos dificuldades quanto ao entendimento. As passagens bíblicas indicadas apontam que apresentamos profundas dificuldades para produzir experiências de relações que estejam em um nível pelo menos razoável no sentido de promoverem dignidade e paz. Estamos em busca de poder e praticamos um rol enorme de tramas para alcançá-lo. Mas qual o objetivo de alcançar poder, prestígio e fama? Qual o sentido do acúmulo sem limites de riquezas? Em nossas relações domésticas, como lidamos com o poder? Estabelecemos que tipo de relação? Parece ainda haver uma disputa de afirmação pessoal e busca por imposição de vontades e desejos com uma dose excessiva de satisfação de interesses individuais. Nem sempre se compreendem as medidas necessárias entre vontades pessoais, reais necessidades e possibilidades ou até as responsabilidades. O poder exercido por Deus se manifesta no serviço ao outro, no serviço à sua criação. Deus presta um serviço à vida. O anúncio da morte e ressurreição indica o poder de Deus, o poder absoluto de Deus em última instância. Só a fé pode captar isso. O entendimento humano, a compreensão humana não possui “frequências” para captar essa mensagem, somente a fé. A fé no poder de Deus, revelado na morte e ressurreição de Jesus, tem efeito prático na vida relacional. A fé transforma o ser humano para uma experiência diferenciada de relações. Foi o que ocorreu na comunidade de Jerusalém, a comunidade experimentou o Pentecostes, cujo resultado foi a busca por uma vida comunitária e relacional bem diferenciada. Ainda podemos sonhar com relações de paz? Ainda podemos ter a utopia de relações diferenciadas das que vivenciamos? A morte e ressurreição de Cristo nos movem em que direção de vida relacional? Por fim, nós de fato cremos nisso? Cremos na ressurreição? Que sentido isso faz para nós? Em que medida estamos na mesma condição dos discípulos, com dificuldades de entendimento e profundamente preocupados com os lugares que almejamos ocupar?
4 Imagens para a prédica Sugiro usar a figura das frequências eletromagnéticas, que são a forma de transmissão de sinal de rádio, TV ou internet sem fio. Há um equipamento que emite um sinal com os dados a serem transmitidos e outro equipamento que recebe esses dados através de uma frequência. Os discípulos tiveram grande dificuldade em entender a mensagem da morte e ressurreição de Jesus. Seguiram na frequência do entendimento humano, na lógica “mundana”. A mensagem de Deus em Jesus revela o poder de Deus, um poder transformador de vidas. Ela precisa ser decodificada pela fé, o que faz com que sejamos transformados no
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sentido de edificarmos relações diferenciadas no mundo, mesmo que não sigam a sua lógica.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Sugiro um período de silêncio com a motivação de que a comunidade medite sobre as relações que cada pessoa tem estabelecido ao longo da vida. Súplicas: Entre uma súplica e outra canta-se, por exemplo, o hino 367 do HPD 2. Concede, ó Deus, ao mundo o entendimento do teu poder, a fim de que possamos superar o poder do mal no mundo. Socorre-nos, Senhor, socorre o teu povo que geme por causa das dores, por causa das feridas abertas em função de relacionamentos conflituosos e violentos. Ouve os nossos clamores, não feches os olhos para as nossas aflições. Tem misericórdia de nós, o teu povo. Nós cremos em ti, por isso cantamos louvores e te damos glórias. Oração do dia: Misericordioso Deus, nós cremos que em Cristo assumiste a natureza humana e revelaste teu poder solidário através da morte e ressurreição, alicerçando uma firme esperança de vida. Porém, também confessamos a nossa dificuldade em entender tudo isso. Humildemente reconhecemos as nossas incertezas e dúvidas. Ajuda-nos a crer, transforma nossa mente e ensina-nos a nos relacionar bem uns com os outros, com dignidade e paz.
Bibliografia CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2012. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
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PRÉDICA: TIAGO 5.13-20
19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
30 SET 2018
NÚMEROS 11.4-6,10-16,24-29 MARCOS 9.38-50
Leonídio Gaede
Discipulado é loucura, como a cruz
1 Introdução Quando li os textos previstos e me caiu a ficha de que precisava elaborar, a partir deles, um auxílio para a pregação, tive o sentimento de ter entrado numa fria. A começar pelo desafio de precisar encarar a controvertida Carta de Tiago, a tarefa me pareceu difícil. O que fazer com o texto de quem, segundo Martim Lutero, “quis combater os que confiavam na fé sem obras, e foi fraco demais” (PL XV). O que fazer com um documento de exortação que cita o nome de Jesus Cristo apenas duas vezes (PL XIII) e omite a teologia da graça de Paulo? Será que a Carta de Tiago teve a sua importância diminuída na teologia depois que os ricos tomaram conta da igreja e se tornaram os porta-vozes do que tem importância e do que não tem (Elsa Tamez)? Se lidar com a Carta de Tiago é complicado, o que dizer do fracassado Moisés retratado em Números 11? Depois que a ira de Javé fez o fogo consumir parte do acampamento, o “populacho” (Almeida) provocou outro tipo de incêndio, que quase consumiu a liderança de Moisés, a ponto dele pedir para morrer. E, em terceiro lugar, como se não bastasse a falta de graça nas exortações de Tiago e a desgraça no acampamento de Moisés, as cenas de terror de Marcos 9, patrocinadas pelos versículos 42 a 48. Alguém pode ser lançado ao mar com uma pedra de moinho no pescoço; alguém pode ir para o céu com mão e pé decepados e olho arrancado. Encarando o desafio, podemos falar de uma espécie de parceria dos três textos previstos para o 19º Domingo após Pentecostes na forma de afirmar o desenvolvimento do projeto de Javé (Antigo Testamento) e do discipulado de Jesus Cristo (Novo Testamento). Assim sendo, temos diante de nós um conteúdo que é sobre o seguimento. Além disso, temos diante de nós uma maneira de ensinar sobre esse seguimento.
2 Exegese Se na liturgia, originalmente, os 40 dias que antecedem a Páscoa preparavam neófitos para o batismo e os 40 dias que seguem a Páscoa serviam para afirmar a centralidade da ressurreição, temos agora um período posterior a Pentecostes para afirmar o seguimento do ressurreto através de uma igreja inundada pelo Espírito Santo. Esse terceiro período deve ser didaticamente, no mínimo, tão forte como os dois primeiros. E se formos radicalizar esses “três tempos” da fé
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cristã com o mesmo peso pedagógico, chegaremos ao seguinte: 1º) 40 dias antes da Páscoa: a loucura da cruz é poder de Deus para quem se salva (1Co 1.18); 2º) 40 dias depois da Páscoa: sem ressurreição tudo é em vão (1Co 15.14); 3º) o tempo posterior a Pentecostes: a igreja é fruto da inundação do Espírito Santo (Gl 5.22-26), e isso aplica a loucura da cruz ao discipulado. Com essa chave de leitura, encaramos o desafio de trabalhar com os textos previstos. Era evidente que o grupo de Moisés entraria em crise. Faltava-lhe a dimensão do terceiro tempo. O grupo não tinha ideia do que era a loucura da cruz no seguimento do plano de Javé. A inundação espiritual veio depois da crise de fogo, quando foram preparados mais 70 líderes (Nm 11.16). A partir do princípio de que a Bíblia lê a Bíblia, podemos aplicar Lucas 9.57-10.3 à situação narrada em Números 11 e notar que o grupo de Jesus se antecipou ao tipo de crise sofrida pelo grupo de Moisés. Em outras palavras, evitou a crise porque tinha a dimensão do terceiro tempo, e o grupo de Moisés entrou em crise por causa da ausência desse tempo no processo que seu grupo estava vivendo. Por causa da questão do seguimento, Marcos 9 precisava radicalizar o assunto na questão dos tropeços (v. 42). O texto anterior acabou de ensinar que o último é o primeiro, que o menor é maior e que a tolerância faz parte do processo (v. 33-41). E esse ensinamento tinha como motivação o fato de os discípulos de Jesus terem demonstrado que não estavam inundados pelo Espírito que aplica a loucura da cruz ao discipulado, mas sim pelo mesmo espírito que incendiou o acampamento do grupo de Moisés. E, por seu lado, Tiago, às vezes visto como quem omite a dimensão da graça e da fé, está, na verdade, alinhando a fé cristã à radicalidade do seguimento de Jesus Cristo, o que é tema do tal terceiro período, que vai de Pentecostes ao Advento. Por coerência das Sagradas Escrituras, Tiago também está alinhado ao desenvolvimento do projeto de Javé no caso do grupo de Moisés. Em outras palavras, as exortações de Tiago teriam caído bem naquela situação em que estava o grupo de Moisés. Tiago diminui o volume sobre a fé confessada e aumenta o som da fé praticada. Parece que era isso que estava faltando às pessoas que se agregaram ao grupo de Moisés: queriam participar do projeto de libertação de Javé, mas não conseguiam se livrar do way of life de escravos sob jugo do faraó no Egito. Nestor Paulo Friedrich, no PL XIII, p. 262, diz que Tiago “não está polemizando contra Paulo e sua teologia” e lembra que, segundo Goppelt (1982), “tem em vista um cristianismo frouxo que invoca a fórmula paulina apenas para lhe servir de pretexto para sua acomodação” (p. 461) e “põe a descoberto todo o cristianismo que se esconde sob aparências e vive de palavras vazias e ideias quietistas” (p. 471). Também cita Wendland (1981): “Tiago é ainda hoje uma correção salutar a toda fé que degenerou em teoria, em puro saber de Deus” (p. 130). Percebemos melhor o sentido desses comentários quando situamos a autoria da Carta de Tiago entre o fim do 1º e o início do 2º século. Trata-se de um ensino a partir da crise da inexistência de cristãos testemunhas oculares das obras de Cristo. Imagine: a fé cristã agora era defendida por quem não tinha visto tudo o que a primeira geração viu.
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v. 13: A palavra kakopathei (de kakopateō) pode indicar sofrimento espiritual decorrente de doença ou outra crise pessoal. O texto não apresenta o sofrimento como motivo para conformação com o destino, mas como razão para um chamado à resistência e à ação. A pessoa sofredora torna-se protagonista. Na oração assume-se o que está havendo. Ela torna objetiva, delimita com palavras, o que está subjetivamente presente na pessoa que sofre. A nuvem pesada que paira sobre a pessoa doente é dissipada pela oração quando ela promove uma compartimentação e delimitação do sofrimento. A dor não pode inundar a alma. O Espírito Santo deve inundar a alma. A dor deve ser cercada pela consciência da razão. O Espírito deve atuar sem as fronteiras do pensamento. v. 14: A palavra usada aqui é asthenei (de astheneō). Trata-se da mesma palavra usada para se referir à multidão de enfermos que estavam nos cinco pavilhões do tanque Betesda, dos quais Jesus curou aquele homem que estava na sua enfermidade há 38 anos e não conseguia se mover a tempo para chegar ao tanque antes dos outros, quando as águas se agitavam, e não tinha alguém que o levasse (Jo 5). Aqui no texto de Tiago, a pessoa doente tem encargos, isto é, ela exerce protagonismos. Ela deve chamar presbíteros, não são outras pessoas que o fazem. A função do presbitério aqui não se resume à verificação se a pessoa doente está em dia com a tesouraria, mas torna-se uma liderança espiritual. Talvez ao nosso ouvido soe mais comum alguém indicando uma pessoa a ser visitada. Costumamos tornar a pessoa doente demasiadamente passiva, como se a doença fizesse perder as faculdades do querer, gostar, desejar, ter opinião, preferência etc. Chamados, os presbíteros fazem oração, mas comunicam não só com palavras. Comunicam com o gesto concreto da unção com óleo que o poder da cura não falta a Deus. v. 15: Tiago parece prevenir contra a tendência que viria depois dele de entregar o legado da cura aos procedimentos advindos do conhecimento humano. A forma de cura que viria a ser aceita como modelo padrão é aquela baseada nos conhecimentos adquiridos graças ao desenvolvimento da ciência. Ela se dá mecanicamente por procedimentos invasivos que extirpam o mal, ou através de adicionamentos que o anulam por combinações ou combates inorgânicos. Aqui, na proposta de Tiago, é preservada a integridade do ser humano, levando em conta que também o alívio de um eventual sentimento de culpa pode favorecer a cura. O sucesso da obra é atribuído ao extra nós: o Senhor o levantará. Neste sentido, a expressão salvação do enfermo também remete ao sentido da salvação expresso em Marcos 8.35: Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. v. 16: É interessante que existe a orientação de, justamente na situação de doença, acontecer a confissão mútua de pecados. Talvez tenhamos aí uma informação sobre um costume da época e do contexto em que o texto foi concebido. Tiago parece indicar uma comunidade onde as pessoas se conhecem. A confissão mútua aponta para uma prática comunitária em que ninguém é rebaixado e tampouco alguém é exaltado. Não acontece um empoderamento extraordinário de alguém para que exerça e demonstre poderes sobre outra pessoa. Neste sentido, aqui é evocada a lembrança de Romanos 14.11 e Filipenses 2.11, onde é dito que todo
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joelho se dobrará e toda língua dará louvores e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor. v. 17: A citação de Elias pode estar indicando para a origem judaico-grega da Carta de Tiago. No meio judaico, Elias costumava ser lembrado. Mateus 16.14 informa que achavam que Jesus era o Elias que tinha retornado. No texto sobre a transfiguração, em Marcos 9.4, Elias aparece com Moisés, o que indica a presença da “lei” e dos “profetas”, ou seja, o cerne da fé judaica. Também quando Jesus clama na cruz Eli, Eli... (Mc 15.34-35), alguns pensaram que Jesus chamava Elias. v. 18: O assunto da chuva pode ser indicativo na procura por uma localização “na área palestino-siríaca” dos destinatários da Carta de Tiago, que não é uma carta, mas uma coleção de orientações e exortações com prefácio de carta (Goppelt, 1982, p. 461). Em 1 Reis 17.1ss; 18.41ss, não está dito expressamente que Elias orou para parar de chover. v. 19-20: Aqui é preciso, em primeiro lugar, assim me parece, levar em conta as características parenéticas da Carta de Tiago. “A parênese efileira advertências éticas tradicionais sem perseguir um nexo lógico”, diz Goppelt (1982, p. 462). “Meus irmãos” parece ser a palavra-chave que aqui interliga artificialmente as partes. Temos assim um sinal das características empíricas (Goppelt, 1982, p. 471) do escrito aqui. É preciso, pois, levar em consideração que “jamais é possível descrever a existência cristã como estilo de vida” e que somente “a palavra de Cristo produzirá existência cristã” (Goppelt, 1982, p. 462).
3 Meditação A partir de observações feitas nos lugares onde atuei e atuo, tenho a impressão de que a igreja cristã deveria agregar o ensino cristão ao calendário litúrgico ou vice-versa. A Quaresma deveria ser um período de preparação para o Batismo, para a Confirmação, para a Profissão de Fé. Deveria se constituir no período essencial da administração de conteúdos que, por assim dizer, constituem os argumentos da fé cristã. Seria o auge da atuação de uma Pastoral do Batismo. A Quaresma, por seu lado, seria um tempo de ensino que fundamenta a conversão e que leva à participação no corpo de Cristo. Em seguida, o tempo entre o Domingo de Páscoa e a Ascensão deveria firmar a diferença entre a ekklesia e as demais organizações existentes no mundo. A comunhão dos santos existe para promover o encontro com o ressurreto. Ora, isso não existe em outra organização, só existe na igreja. É, portanto, o específico. O que se faz além disso serve apenas para melhorar essa parte. E o tempo de ensinar isso está entre a Páscoa e a Ascensão. Evidentemente, antes disso, o ciclo natalino deveria ensinar a paixão de Deus pelo mundo, com uma bela teologia da encarnação. Digamos, até aí tudo bem. Trata-se de períodos mais ou menos intensivamente demarcados pelas práticas comunitárias. Agora vem, ao meu modo de ver, a grande deficiência missionária, que é o ensino a respeito da história da salvação entre a Ascensão e o Advento, que inclui a assimilação da despedida de Jesus e a superação comunitária da dependência de Jesus, uma espécie de emancipação das pessoas que creem e que têm a sua apoteose na inauguração do
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período, na festa de Pentecostes, e depois segue pelo longo período da Trindade e do grande Tempo Comum, até o Advento. A partir daí Jesus Cristo não estará mais com os seus e as suas, mas ele será o que forem as pessoas que tiveram a apoteose. Aí reside a nossa fraqueza missionária. Natal, Quaresma e Páscoa são impactantes. Talvez Deus tenha escrito certo por linhas tortas através do consumismo, mantendo a importância dessas datas. O Tempo Comum é, porém, comum demais. Falta a incorporação da parênese de Tiago, das duras exigências do seguimento cristão expressas no Evangelho de Marcos 9 e do espírito que trouxe a solução da crise no acampamento de Moisés. Os textos bíblicos previstos para este final de semana querem nos ensinar que, assim como é impactante, forte e radical o nascimento de Jesus na estrebaria, a sua morte na cruz e a sua ressurreição, assim é impactante, forte e radical a decisão de seguir o Cristo.
4 Imagem para a prédica Preparar fitas coloridas e dois canos de PVC do mesmo comprimento, porém, de bitolas diferentes, assim que um caiba dentro do outro. O mais fino deve ficar inteiro e o mais grosso cortado em cinco pedaços, simbolizando tempos do Ano Litúrgico: 1) um pedaço – Advento, Natal e Epifania; 2) dois pedaços – Quaresma e Páscoa; 3) um pedaço – Ascenção e Pentecostes; 4) um pedaço (maior que os outros) – Após Pentecostes. Colocar os quatro primeiros pedaços sobre o cano inteiro, relembrando rapidamente, com poucas palavras, os tempos litúrgicos. Destacar o último e maior pedaço, dizendo que ele representa o tempo que Deus nos dá durante o ano para aprender a seguir Jesus Cristo. Marcar com um laço de fita colorida cada tópico desenvolvido na prédica como parte do seguimento de Cristo. Tópicos sugeridos: 1) amparar e cuidar das pessoas que sofrem; 2) amparar e cuidar das pessoas doentes; 3) praticar a confissão mútua de pecados; 4) ficar em primeiro lugar servindo; 5) ser tolerante; 6) praticar caridade; 7) partilhar a liderança.
5 Recursos litúrgicos 1) Segui-me, diz Cristo, o Senhor Hino 177 do HPD 1. Pode ser incluído como canto, recitação ou responsório. 2) Cristo não tem mãos “Jesus, tu não tens mãos. Tens apenas nossas mãos para construir um mundo no qual reine a justiça. Jesus, tu não tens pés. Tens apenas nossos pés para por em marcha a liberdade e o amor. Jesus, tu não tens lábios. Tens apenas nossos lábios para anunciar ao mundo a Boa-Nova aos povos. Jesus, tu não tens meios. Tens apenas nossa ação para fazer que todos sejam irmãos. Jesus, nós somos o teu evangelho, o único evangelho que as pessoas podem ler, quando nossas vidas são obras e palavras eficazes. Jesus, dá-nos teu amor e tua força para seguir teus passos e dar-te a conhecer a todas as pessoas que nos cercam.”
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Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1982. 575p. NEUE CALWER PREDIGTHILFEN. Vierter Jahrgang, Band B: Exaudi bis Ende des Kirchenjahres. Calwer Verlag Stuttgart, 1982. 309s. WENDLAND, Hans-Dietrich. Ética do Novo Testamento. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1981.
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PRÉDICA: MARCOS 10.2-12 GÊNESIS 2.18-24 HEBREUS 1.1-4;2.5-12
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07 OUT 2018
Teobaldo Witter
O reconhecimento: amor, direitos e solidariedade
1 Introdução Não se espante se inicio a reflexão sobre o texto para o 20º Domingo após Pentecostes com um título tão secularizado. Reconhecimento: amor, direitos e solidariedade. O casamento, comunhão radical entre homem e mulher, está em debate entre Jesus e os fariseus. O casamento é algo profundamente humano, social, religioso e secular. O texto, no debate, explicita lutas e conflitos humanos. São lutas por reconhecimento. Essas iniciam pela experiência do desrespeito nas dimensões de não reconhecimento: falta amor, faltam direitos e falta solidariedade (Honnetth, 2003, p. 159). Gênesis 2.18-24 parte de uma decisão de Deus de não deixar o homem só. Há multidões de corpos que podemos contemplar na imensidão da criação divina: céu, estrelas, lua, sol, terra, animais, florestas, águas. Tudo muito lindo e organizado, vivendo em perfeita harmonia e comunhão. No entanto, o homem estava na solidão. Faltava-lhe uma pessoa que lhe fosse companheira e solidária. Deus tomou as providências e criou a mulher, colocando-a ao lado do homem. Ela é ossos dos meus ossos e carne de minha carne, disse o homem. O texto é uma liturgia de casamento, de aprovação de Deus e de bênção matrimonial. É a gênese da comunhão de corpos e da vida entre seres humanos. Algo maravilhoso. O casamento, mais especificamente o rompimento do matrimônio é o ponto de discussão de Jesus e dos fariseus que o encontram no território da Judeia. Os fariseus perguntam: É lícito ao marido repudiar a sua mulher? Jesus responde perguntando: O que foi que Moisés disse? Eles dizem: Moisés permitiu dar carta de divórcio e repudiar. E Jesus concluiu dizendo que Moisés permitiu, porque são gente dura de coração, mas, na origem, no princípio da criação, não foi assim. Cita, então, o texto de Gênesis 2.18-24. Hebreus 1.1-4;2.5-12 afirma que Deus falou pelo seu Filho, nos últimos tempos. O que aí se fala não é uma mera opinião, mas é fala definitiva de Deus criador e libertador. Inclui o ser humano nas maravilhas da criação de Deus, como também testemunha o Salmo 8. A honra e glória são de Jesus, por causa do seu sofrimento vicário. Os textos e o assunto por eles tratados são coisa humana, da terra. Em Jesus, Deus vem dos altos céus e entra em comunhão libertadora com os seres humanos, que se atrapalham até mesmo com assuntos bem terrenos que Deus
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criou e lhes deu para sua felicidade. A comunhão humana e o reconhecimento na dimensão do amor, do direito e da solidariedade são pilares da vida digna.
2 Exegese v. 2: E, aproximando-se dele os fariseus, perguntaram-lhe, tentando-o: É lícito ao marido repudiar sua mulher? Jesus está na Judeia, além do Jordão. A população o seguia. Havia ali uma multidão. E Jesus ensinava, como era o seu costume. O encontro era público. Participava quem quisesse. As perguntas das multidões eram as mais variadas. Pelo contexto, os temas giravam ao redor de doenças (possessos), morte de Jesus e ressurreição, crianças, amor e solidariedade, sobre altos e baixos da vida humana, sobre tropeços e missão dos discípulos. Este versículo 2 apresenta uma temática nova no contexto. É parte introdutória do debate público sobre “o homem repudiar a mulher”. São alguns fariseus que se aproximam de Jesus para fazer o questionamento. Os fariseus eram um grupo de gente dedicada. Eles observavam a lei de Moisés nos mínimos detalhes, bem como a tradição dos rabinos, a tradição judaica. Cobravam que o povo fizesse o mesmo. Eles tinham críticas em relação às práticas da vida de fé de Jesus e seus discípulos. Jesus entrou vários vezes em debates com eles. Um dos assuntos diz respeito à importância da lei e dos profetas, a prática da justiça e a inversão que os fariseus faziam. Eles separavam as pessoas entre boas e más, puras e impuras. A lei era a medida de todas as coisas, nos juízos deles. É como se alguém tivesse uma vara para medir e saísse por aí medindo todas as pessoas, conforme sua própria medida. Diziam que quem fazia coisas boas ganhava recompensas de Deus. Portanto faziam negócios de boas obras com Deus. Assim, Deus teria obrigação de aceitá-los. Para Jesus, a lei deve servir as pessoas, e não o contrário (Mc 2.27; 3.4). E a salvação não é obra de conquistas. Mas ela é dada de graça pelo Pai que vê e ouve em secreto (Mt 6.18). Jesus cumpre toda lei e os profetas (Mt 5.17). A salvação é dada por Deus. Importante ter esse pano de fundo da relação entre Jesus e os fariseus para percebermos o que está por trás das palavras da pergunta dos fariseus e do diálogo de Jesus com eles. Jesus está sendo interrogado por homens com mentalidade patriarcal. Tanto no senso comum como nos pensamentos religiosos e científicos da época, o patriarcalismo foi dominante e teve a última palavra. O pensamento patriarcal cunhou a história humana no mundo religioso dominante, mas também na filosofia e na ciência. Os gregos, no nascimento da filosofia ocidental, colocavam as mulheres como dependentes, incapazes. Ao tratar da questão da cidadania, por exemplo, segundo Chaui, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da polis. Como consequência, a democracia garantia a todos a participação no governo, e os que dele participavam tinham o direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Devemos observar que estavam excluídos da cida-
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dania o que os gregos chamavam de dependentes: mulheres, escravos, crianças e velhos. Também estavam excluídos os estrangeiros (Chaui, 2000, p. 42). São os fariseus que criam a lei oral junto com a lei escrita, em Israel. Portanto, quando os fariseus se firmaram como grupo forte e dominante no judaísmo, em torno do século II a.C., a filosofia já havia consolidado o reconhecimento dos homens como cidadãos plenos e o não reconhecimento das mulheres como cidadãs. Nessa época, a cultura grega se expandiu pelo mundo, também na terra de Israel. O patriarcalismo judaico foi consolidado também com essa visão filosófica grega. Jesus está diante de homens que agem conforme os costumes globais dominantes, e o ordenamento jurídico judaico em que repudiar a mulher é legal, filosófica, social e religiosamente lícito. O direito dos homens sobre as mulheres, no casamento, é legítimo na visão deles. Na discussão, Jesus problematiza. Isso nós encontramos no diálogo relatado nos versículos seguintes. v. 3: Mas ele, respondendo, disse-lhes: Que vos mandou Moisés? Jesus não responde diretamente, mas faz com que os fariseus participem do diálogo e pensem sobre assuntos que, quem sabe, nem tinham se dado conta. A pergunta de Jesus conscientiza, abre os olhos e a cabeça. E ajuda os fariseus a entender a sua própria história, suas próprias origens e suas manias e distorções. Jesus conhece bem o assunto. O que aqui transparece é o interesse patriarcal, representado pelos fariseus, de os homens decidirem sobre a vida das mulheres. Nesse ponto do patriarcalismo, não havia diferença entre religiões, ciência e cultura dominante. Mas Jesus não se deixa influenciar pelo conhecimento de sua época. E vai ao debate, libertando e criando consciência. Ao perguntar sobre o que Moisés manda fazer, Jesus problematiza as posições da época. Convoca-os para olhar para a origem, a história da lei, dos profetas, da posição religiosa e cultural da época. v. 4: E eles disseram: Moisés permitiu escrever carta de divórcio e repudiar. Jesus pede que os fariseus se posicionem, pois nesse assunto não há neutralidade, não se pode ficar em cima do muro. Ele não o faz sem critérios, pois pede que os fariseus se posicionem a partir da lei de Moisés, sendo essa a lei do mundo cotidiano deles. Os fariseus fundamentam sua resposta em Deuteronômio 24.1-4, dizendo que Moisés permitiu dar carta de divórcio e repudiar a mulher. Para eles, isso é suficiente. O legislador de Israel legitima as ações de divórcio de maridos contra suas esposas, repudiando-as. v. 5: Mas Jesus, respondendo, disse-lhes: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento. Jesus conhece a base legal mosaica (Dt 24.1-4). Mas faz uma nova leitura dela. Ele considera o que está por trás das palavras dessa lei. Poder-se-ia dizer que nem tudo o que é legal é justo. Argumenta que a lei de Moisés está aí por causa da dureza do coração do homem, que procura na mulher algo indecente para poder repudiá-la, depois do uso (Dt 24.1). Aqui está em voga a visão dos homens, dos machos. No contexto social e antropológico do texto, algo indecente pode significar desde o fato de a mulher sair com cabelos soltos pela rua até o adultério. No campo da tradição e fé judaica, o rabino Hillel diz que “pode ser tudo o que o
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homem quiser, se estiver em seu interesse divorciar-se da mulher”. Na área da história, Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas IV, 8, interpreta a passagem de Deuteronômio 24.1-4. Ele diz que a “prática legal do divórcio acontece por qualquer motivo e sempre existem motivos, em qualquer relação conjugal”. Qualquer homem e em qualquer situação, se for de seu interesse, pode repudiar a mulher. Essa arbitrariedade dos homens é questionada por Jesus, classificando essa prática como esclerose do coração (Reimer, 2002, p. 328). Antropologicamente, o coração é o centro das decisões que implicam práticas cotidianas. Se o coração está esclerosado, endurecido, estagnado, então as práticas cotidianas, e dentro delas a construção de relações conjugais justas, estarão distantes do seu objetivo. E é exatamente isso que Jesus quer recordar e trazer à tona, argumentando com os relatos da criação. Deuteronômio 24.1-4 considera somente a situação do homem. São homens que perguntam pelos direitos do homem sobre a mulher. Ausente, ela é objeto do julgar e agir dos homens. Ela não fica livre da concepção de pecado, mesmo divorciada, por causa de sua sexualidade. Ela é considerada contaminada por causa da relação sexual com o segundo marido, em caso de divórcio e segundo casamento (Dt 24.4). Não mais poderá casar com o primeiro marido. Os fariseus, no diálogo com Jesus, não querem a justiça. Mas eles querem fazer valer o interesse patriarcal do homem sobre a mulher. E Jesus toma partido. Já que a lei de Moisés foi feita por um grave problema dos homens (coração endurecido), ele busca em Gênesis a origem da aliança do casamento. Jesus não faz um debate legalista sobre Moisés e a tradição, o costume judaico da lei. Jesus problematiza essa forma de lidar com a lei que justifica a prática social do divórcio em prejuízo da mulher. Com o divórcio patriarcal, a mulher continua à mercê de outros homens ou é jogada ao vento e fica na rua, na prostituição (Reimer, 2003, p. 329). Jesus reconhece o direito das mulheres e quer protegê-las da arbitrariedade dos homens, partindo da origem da criação divina. v. 6: Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. A palavra é como a janela aberta entre céu e terra. Entre Deus e sua criação. A tradição e a lei parecem tentar fechar essa janela. Jesus não reconhece a tradição judaica e sua lei sobre o casamento patriarcal como criação de Deus. Pelo contrário, ele faz com que todos voltem seus pensamentos e sentimentos para o princípio, para o gênesis. A tradição, o costume e a lei, muitas vezes, são como o mofo ou a teia de aranha que vai crescendo ao redor da janela. A teia de aranha ofusca a visão. Jesus é o faxineiro que limpa a janela. Ele pega esponja, sabão, água e esfrega, limpando a janela. No princípio, Deus os fez homem e mulher, afirma (v. 6b). O que significa isso? Deus não criou uma sociedade patriarcal, nem a dominação de uns sobre os outros. Criou seres humanos iguais em dignidade e direitos. Ele criou homem e mulher para viverem felizes, na reciprocidade do amor (Gn 1.27 e Gn 2.24). Assim é nos relatos da criação, que Jesus vai nutrir a sua interpretação e a sua prática diante de conflitos socioconjugais (Reimer, 2002, p. 330). Ao fazê-lo, ele problematiza todas as relações que dividem as pessoas e justificam a dominação e o desprezo de pessoas sobre outras. Ele problematiza de
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tal forma que os próprios fariseus precisam rever sua posição, quando diz que o problema não está com as mulheres, mas com os homens que têm o coração duro e constroem um arcabouço legal/jurídico para justificar a dominação e colocar os seus próprios interesses sobre outras pessoas. Deus criou todas as pessoas para a felicidade e não para serem dominadas e desprezadas. v. 7: Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, [e unir-se-á a sua mulher], No entendimento aqui, o casamento tem por finalidade possibilitar que homem e mulher se tornem uma só carne. Isso se dá em todos os sentidos humanos: antropológicos, culturais, filosóficos, psicológicos, sociológicos, econômicos etc. Nas relações sexuais se realiza uma comunhão íntima, profunda, prazerosa e feliz. Nela, tanto o homem como a mulher tomam a iniciativa e têm igual satisfação, no reconhecimento de amor, direitos e solidariedade. v. 8: e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. O que significa isso? Significa vida digna para ambos, com respeito e cuidados em comum, mútuo e em conjunto. Ser uma só carne é compartilhar de todas as dimensões da vida, ter projetos comuns e concretizações realizadas em conjunto. É construir uma história comum em conjunto desde o sonho, o planejamento, o processo todo de sua realização. Dela fazem parte a festa e o choro, a decepção e o prazer na caminhada. Assim, a proposta de Deus é que homem e mulher realizem-se numa vida humana comum, querida por ambos (Reimer). Jesus pensa o casamento como reciprocidade de amor entre homem e mulher. Ambos necessitam do outro para serem seres humanos completos e viver a vida graciosa, o presente de Deus. Assim, o amor é o único poder que pode nos mostrar a cada dia um pouco do mundo que Deus quer. Com o argumento no princípio era assim, Jesus anuncia a originalidade da existência desejada por Deus. Jesus está diante do julgamento do casamento pela lei. Sobre isso os fariseus o interpelam. A lei mosaica, neste caso em questão, não foi escrita por causa do amor de Deus, mas por motivo da dureza do coração humano. Jesus, então, busca sentido da reciprocidade no amor que Deus quer para homem e mulher. Essa é a profunda diferença. v. 9: Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Jesus pondera, nas considerações finais, partindo do caráter originário da comunhão matrimonial. Jesus não concorda com o casamento e o divórcio patriarcais. Ele tem a visão paradisíaca do matrimônio. Por isso é fundamental que seja entendido como união originária, recíproca e íntegra do amor entre homem e mulher. Portanto o ser humano não deve separar o que Deus uniu. “Jesus usa o termo choridsein, que tem mais o sentido de colocar algo entre duas pessoas unidas pelo amor para atrapalhar seu projeto de vida conjunto. Ele contesta a maneira como a prática patriarcal introduz uma cisão na unidade e na igualdade originalmente articuladas na aliança matrimonial” (Myers, p. 321). “Jesus reafirma, assim, a utopia e a concretização da reciprocidade do amor, objetivo da criação de Deus” (Reimer, 2002, p. 330). v. 10: E em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto.
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v. 11: E ele lhes disse: quem repudiar a sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. v. 12: E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério. Antes Jesus estava no debate público. O assunto foi definido por uma pergunta dos fariseus: É lícito ao marido repudiar sua mulher? (v. 2). No debate público com os fariseus Jesus atua por perguntas e explicações. Considera a lei da tradição judaica (Dt 24.1-4). Explicita a motivação de Moisés ao permitir o divórcio: por causa da dureza do coração. Mas não concorda com ela e propõe o debate a partir da criação e libertação. Agora, conforme os v. 10-12, Jesus se encontra com um grupo reduzido, o de seus discípulos. E esses voltam à pergunta sobre o mesmo assunto. A discussão não ocorre mais com o público, mas em particular. Agora o foco da discussão não é o casamento patriarcal, mas a realidade do divórcio existente. Não há como negá-lo. Essa é a realidade do divórcio legal para homens e mulheres, e a iniciativa pode partir de ambos. O conflito, agora, é o novo casamento. Pergunta que precisa de encaminhamento por nós: como reconstruir a vida após o divórcio? Isso parece ter sido um grande problema nas primeiras comunidades (veja lCo 7.1011). Do ponto de partida teológico (6º mandamento), quem se divorcia e casa novamente vive em pecado. Aqui, o novo casamento é o problema. Cabe também afirmar que as primeiras comunidades cristãs viviam na iminência do reino de Deus. Então, nessa situação, em caso de divórcio, Jesus parece indicar que homem e mulher permaneçam sem casar novamente, e se casarem, devem saber que estão cometendo adultério em relação à primeira união (Reimer, 2002, p. 331). Sempre lembramos que, na igreja, o assunto é tratado de forma poimênica, em diálogo, onde as partes participam ativamente.
3 Meditação 1. O casamento é um contrato entre o casal. Ao assinarem o contrato, no cartório, o casal concorda e assume compromissos de direitos e deveres individuais e recíprocos. A confessionalidade evangélico-luterana reconhece o casamento civil como completo. Também nesse momento Deus age. A igreja, por sua vez, abençoa esse casamento realizado pela lei civil. O casal, ao solicitar a bênção de seu casamento, reconhece que casar é fácil, mas viver em comunhão é difícil. Por isso pede socorro, consolo, amor a Deus e sua bênção para poder construírem juntos vida digna para ambos, com respeito e cuidados em comum, mútuo e em conjunto. Ser uma só carne é compartilhar de todas as dimensões da vida, ter projetos comuns e concretizações realizadas em conjunto. É construir uma história comum em conjunto desde pulsões sexuais, sonhos, planejamentos, o processo de sua caminhada e realização. Dela fazem parte a festa e o choro, a decepção e o prazer na caminhada. Viver casados deve ser querido e amado por ambos. 2. Ninguém casa para se separar. A separação sempre é uma tragédia. Há muita gente, igrejas, pessoas e instituições oferecendo ajuda e apoio para casais, em conflito ou não, para melhorarem seu relacionamento conjugal. Apesar disso, o divórcio é realidade social e também eclesial. O divórcio e o novo casamento
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são realidades da sociedade e da igreja. Não precisa de exemplo, pois há casos aos montes. Ele existe por diversos motivos, como, por exemplo, incompatibilidade de interesses entre o homem e a mulher, pelo fim do entusiasmo inicial, pela ausência do diálogo, pelo desgaste no relacionamento, por indiferença, pela rotina e outros. Mas, às vezes, separar é uma tragédia, permanecer juntos igualmente o pode ser. E aí, fazer o quê? A comunidade e a igreja tratam o assunto poimenicamente, em diálogos e decisões, em que as partes participam ativamente. 3. O culto deve centrar-se no sentido que Jesus explica, isto é, a vida conjugal se fundamenta, tem sua origem no ato criador de Deus. Com isso se afirma que a vida conjugal é vida conjunta e vivida na reciprocidade do amor entre homem e mulher. Esse é o projeto de Deus desde o princípio, buscando construir relações sólidas, justas e prazerosas que não necessitem da aplicação da lei do divórcio. Além disso, deve-se lembrar da prática de Jesus que colocava o perdão como postura privilegiada, relativizando o cumprimento da lei patriarcal. Afinal, quem não tiver pecado que atire a primeira pedra (Jo 8.1-11). O amor, no casamento, se alimenta na fonte: Deus é amor (1Jo 4.8). Nessa fonte, ele é alimentado cotidianamente. 4. Conflito e diálogo, como proceder? Não há receita. Os casos são individuais e diversificados. Assim são as pessoas. Na minha prática pastoral, a visão bíblica teológica é fundamental. Nunca pode ser substituída. Estou ainda me valendo de descobertas de ciências como sociologia, filosofia e psicologia. As descobertas de Jürgen Habermas, “Teoria da linguagem e ação comunicativa”, são importantes para se aprofundar na prática de um bom diálogo. No mais, algumas questões sempre são importantes observar antes de entrar no diálogo com casais. A oração, por exemplo, restabelece a alegria de viver e reconcilia com Deus. Isso é fundamental para quem entrar num diálogo profundo com um casal. O casamento é relacional e dialógico. Pessoas que casam têm intensão de relacionamento profundo, vivo, diário e cotidiano diálogo. A cumplicidade, existencial para o matrimônio, perpetua-se pela comunicação, por gestos, palavras, olhares, carícias. O diálogo pressupõe disposição de ambas as partes. Mas elas precisam estar dispostas a dialogar e discutir o assunto livremente. E quem coordena a mediação deve ser uma pessoa em quem todas as partes podem confiar. Precisa estar claro em que situação cada parte pode ceder, em que pode colaborar para que a relação possa ser “como no princípio”. Nisso é fundamental que seja entendido como união originária, recíproca e íntegra do amor entre homem e mulher, no sentido de não colocar nada entre duas pessoas unidas pelo amor que possa atrapalhar seu projeto de vida conjunto.
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Imagens para a prédica
4.1 Janela aberta A palavra de Deus é a janela que Deus deixa aberta para que possamos ver, refletir e conviver no casamento, conforme o seu desejo originário de convivência humana. Mas, às vezes, nos atrapalhamos e queremos fechar essa janela. Quando colocamos os valores da lei, da cultura, da sociedade, da tradição ou do
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modismo no lugar do amor, estamos querendo fechar a janela que Deus deixa aberta para nós. Às vezes, valores sociais, filosóficos, religiosos, históricos, econômicos e outros são empurrados para o lado da janela, forçando o fechamento da mesma. Foi essa a realidade que Jesus encontrou na pergunta dos fariseus sobre a lei mosaica. A dureza do coração precisava da lei que permitisse repudiar. Mas no Gênesis, no início, Deus criou as pessoas para o amor e a felicidade. Essa é a janela que está aberta. 4.2 A pulga e o homem ou mulher Certa vez, uma pulga estava incomodando um homem sem parar. Então, ele a apanhou, gritando-lhe: “Quem és tu, que passas em todos os meus membros, picando-me a torto e a direito?”. E ela respondeu: “É assim que nós vivemos. Não nos mates, porquanto eu sou pequena e não te posso fazer grande mal”. O homem pôs-se, então, a rir e replicou-lhe: “Tu vais morrer imediatamente e por minhas próprias mãos, porque qualquer que seja o mal, pequeno ou grande, é absolutamente necessário que não se desenvolva”. (As Fábulas de Esopo) Essa fábula mostra que não se deve ter compaixão do mal, quer seja grande, quer seja pequeno. Pequeno mal surge na vida do casal. É inevitável, pois, somos humanos. O que fazemos com o pequeno mal? Deixamos que ele cresça e fique grande? Uma boa medida para tratar do mal é o diálogo, a conversa sobre a vida conjugal. A maioria dos casais se desentende por pequenos problemas que, depois de muitos anos presentes, sem que tivessem conversado sobre eles, tornam-se insuportáveis na vida. Casal cuidadoso da relação mata o silêncio e atiça o diálogo. Qual é a pequena pulga que perturba seu casamento, seu namoro? Não permita que se desenvolva, senão a relação entre vocês poderá ficar comprometida.
5 Subsídios litúrgicos 5.1 Marco constante Não tenha eu restrições ao casamento / De almas sinceras, pois não é amor/ O amor que muda ao sabor do momento, / Ou se move e remove em desamor./ Oh, não, o amor é marca mais constante / Que enfrenta a tempestade e não balança,/ É a estrela-guia dos barcos errantes, / Cujo valor lá no alto não se alcança./ O amor não é o bufão do Tempo, embora / Sua foice vá ceifando a face a fundo./ O amor não muda com o passar das horas, / Mas se sustenta até o final do mundo./ Se é engano meu, e assim provado for, / Nunca escrevi, ninguém jamais amou./ William Shakespeare – Tradução de Geraldo Carneiro 5.2 Marco eterno De almas sinceras a união sincera / Nada há que impeça: amor não é amor/ Se quando encontra obstáculos se altera / Ou se vacila ao mínimo temor./ Amor é um marco eterno, dominante, / Que encara a tempestade com bravura;/
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É astro que norteia a vela errante / Cujo valor se ignora, lá na altura./ Amor não teme o tempo, muito embora / Seu alfanje não poupe a mocidade;/ Amor não se transforma de hora em hora, / Antes se afirma, para a eternidade./ Se isto é falso, e que é falso alguém provou, / Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou./ William Shakespeare – Tradução de Bárbara Heliodora
Bibliografia CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2012. HONNETH, Axel. Luta por reconhecimenro: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003. REIMER, Ivone Richter. 20º Domingo após Pentecostes: divórcio-Marcos 10.212. In: HOEFELMANN, Verner & SILVA, João A. M. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2002. v. 28, p. 326-332.
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14 OUT 2018
PRÉDICA: AMÓS 5.6-7,10-15 MARCOS 10.17-31 HEBREUS 4.12-16
Evandro Jair Meurer
Teologia da losna
1 Introdução Cinco anos depois me foi colocado o mesmo desafio: apresentar auxílios homiléticos a respeito dos mesmos três textos. No PL 36, apresentei informações exegéticas e sugestões homiléticas para a pregação sobre o texto de Amós no 20º Domingo de Pentecostes. Vejamos então o que posso apresentar de novo e complementar para bem apresentarmos a palavra de Deus seis anos depois. Desta vez, gostaria de propor deixarmos um pouco de lado o clássico verbete literário em Amós – Buscai o bem e não o mal e “explorar” (desculpe a palavra tão carregada de mau uso – exploração) um detalhe que muitas vezes passa “batido” em nossos estudos bíblicos sobre a perícope. Falo da “alosna”. Há um fio azul muito nítido nos três textos para este dies dominica: Em Amós é dada a exortação a que se busque o Senhor e se viva sob a ética por ele proposta (v. 5); se busque o bem e não o mal, a fim de que a vida sobreviva à presença da morte em seus mais diferentes sinais reais (v. 14); se aborreça o mal, se ame o bem e se estabeleça o juízo, na expectativa de que Deus mude de ideia e não faça o que caber-lhe-ia fazer em uma situação de tamanho pecado (v. 15). Em Marcos nos é narrada a história daquele homem (jovem) que tinha muitas posses (rico) e que está interessado em saber o caminho para a vida eterna. Jesus lhe propõe um caminho árduo (amargo) e de abnegação espiritual e material. Uma inversão de vida. Ou seja, se em Amós viria castigo aos desobedientes, em Marcos são anunciados desprendimento e inversão de posições e valores aos que desejam obedecer e seguir ao Deus de Jesus Cristo. Em Hebreus, temos a clássica imagem da “espada” a ilustrar a vontade e o desejo de Deus para nós (v. 12). O desafio posto é de nos achegarmos ao trono da graça de Deus (v. 16), para que não sejamos “penetrados”, “perfurados”, “divididos”, “amputados” pelos dois afiados fios da sua palavra, que denuncia pensamentos e intenções pecaminosas às quais nos rendemos quando tentados. Sob esse olhar, cada um dos três textos faz menção a “amargores” da vida em Deus. “Amargores” àqueles e àquelas que não andam no caminho, e também “amargores” aos que, por andarem no caminho, são provados e perseguidos por seu seguimento e vivência da fé. Ou seja, o que está proposto às pessoas que querem seguir a Jesus é a “teologia da losna” (Am 5.7) e não a “teologia do vinho” (Am 5.11).
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2 Exegese A botânica bíblica é muito rica. Através dela encontramos mensagens belíssimas que enriquecem nosso viver cristão de tal forma que podemos enriquecer outras pessoas, repartindo o que recebemos de Deus. Das imagens dos profetas às figuras utilizadas nas cartas dos apóstolos, passando pelas parábolas de Jesus, os exemplos que utilizam coisas da natureza e, em especial, as plantas são magníficos e muito pedagógicos. Revelam conhecimentos profundos sobre Deus e também de sua criação. Uma dessas ilustrações proféticas é a losna, planta que em hebraico se chama laanah, e em grego apsinthos, em português absinto, alosna ou simplesmente losna. Na Bíblia ela aparece nove vezes: oito no Antigo Testamento e uma no Novo Testamento (Apocalipse). É símbolo de injustiça (Am 5.7), punição (Jr 9.15), sofrimento (Lm 3.19). Sob esses três enfoques aparece ainda em outras seis passagens bíblicas: Dt 29.18; Pv 5.4; Jr 23.15; Lm 3.15; Am 6.12. E no único texto do Novo Testamento: Ap 8.11. Sem desmerecer as qualidades medicinais da losna, que também é parte da criação de Deus, e que quando devida e orientadamente utilizada pode curar e trazer vida e saúde, nas passagens bíblicas acima o Pai se utiliza dela para, no destaque ao amargor da losna, exemplificar o mal que acompanha muitas vezes o seu povo, os seus filhos e filhas. A profecia de Amós é um exemplo disso. O povo andava errante. A mensagem divina que Amós deveria trazer a Israel está bem clara: chegou o fim (confira as visões proféticas em 7.1-8, 8.1-2 e 9.1-4). Javé tinha, com certeza, motivos muito fortes: as transgressões do povo (cf. 2.6-8; 3.9-12a,12b-15; 4.1-3; 5.7-11; 8.4-7), as de ordem social (2.8; 3.14; 4.4-12,2125; 5.10-12) e as de deturpação do culto (5.18-20; 6.1-7,8-14), fruto de uma falsa segurança proporcionada por uma má compreensão da eleição. Ou seja, os ouvintes da profecia de Amós pareciam mostrar-se seguros frente ao anúncio de juízo contra eles. Porém, estavam agarrados a uma falsa ideia (qualquer semelhança com o “jovem rico” não é pura coincidência). Tinham já experimentado toda a proteção de Javé, que lhes proporcionou vida. Já tinham feito a experiência de que a prática do bem, seguir os mandamentos (olha o “jovem rico” aí novamente!) e buscar a Javé havia lhes trazido vida. Mas agora era visível que uma parte deles estava se lembrando somente da promessa de vida e esquecendo de preocupar-se em fazer o bem: – praticavam o comércio, tendo muitos lucros, porém ilícitos e exploradores; – viviam em luxuosidade, em grandes casas de marfim, e a soberba estava presente; – viviam em grandes festas com muita comida e bebida; – eticamente a imoralidade não estava ausente; – relações sexuais ilícitas, maus-tratos de um para com o outro estavam à vista; – não faltavam os que eram falsos em sua religiosidade e que ao lado de oferendas, dízimos e sacrifícios, visitavam templos pagãos; – injustiças no tratamento dos pobres;
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– alguns acumulavam tesouros para si, fartavam-se, não se lembrando do necessitado; – tratavam injustamente os pobres nos tribunais, levando a culpa pessoas inocentes. Para os endereçados da profecia, não restou senão uma remota esperança: uma radical conversão ética talvez levasse a que a compaixão de Deus se revelasse ao menos para uma parte desse povo – “resto de José” (v. 15). Assim entendemos o mar de losna em que o povo de Deus estava envolvido e para o qual Amós foi chamado a profetizar.
3 Meditação Parece-me que a losna é uma perfeita imagem para os nossos dias atuais, tanto no país como na comunhão eclesial. Nadamos atualmente em um “rio de fel”, que pelo visto ainda desembocará num “mar de losna”. De operações “gospistas” (no legislativo) a “lava-jistas” (no judiciário), passando pelo “4x3” (no TSE), eis o cenário político brasileiro de 2016-17. Nós, que pregaremos sobre a profecia de Amós neste 14 de outubro de 2018, com certeza temos novos “amargores” para ilustrar uma pregação contextualizada. Escrevo este auxílio em junho de 2017. Neste momento, o presidente Temer, com o apoio de seu grupo parlamentar, ainda teima em se intitular assim e o “amargor” ainda persiste na boca de brasileiros e brasileiras, quando têm que suportar tanta justiça sendo transformada em “boldo” e tanto direito sendo lançado por terra. Fico aqui conjeturando como vai estar a conjuntura brasileira um ano e quatro meses depois. Mas de uma coisa infelizmente tenho certeza: a denúncia profética de Amós ainda terá seu espaço e sua atualidade em nossa realidade brasileira. De outra forma, seria recomendável que avaliássemos nossa postura relacional comunitária também. Em que medida somos um irmão ou uma irmã “losna”? Em que medida somos um irmão ou uma irmã “vinho suave”, ou um irmão ou uma irmã mel? O “amargor” muitas vezes também se concretiza em nossas relações de amizade, familiaridade e de fraternidade cristã. O texto de Amós também é uma profecia para dentro da igreja. O “amargor” muitas vezes e infelizmente é a marca em nossas convivências ditas fraternas, que se mostram tantas vezes azedas e até repugnantes. Numa tentativa de um neoprofetismo transcrevo: Sim. É isso que vocês estão fazendo: O direito está sumindo e a justiça está no chão. Vocês erram ao não temperar o mundo. Vocês pecam quando se calam diante da inversão de valores. Vocês frustram o Criador de vocês... Quando se matam e se violentam uns aos outros... Quando não punem nem castigam os violentos e os infratores... Quando incentivam a imoralidade, a pornografia, o adultério e a exploração sexual e reproduzem tudo isso em suas TVs e computadores... Quando maltratam a natureza e fazem mal uso dos recursos naturais...
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Quando institucionalizam o suborno e a corrupção de juízes e legisladores... Quando agem com egoísmo querendo levar vantagem em tudo... Quando manipulam as estatísticas e distorcem as informações para fazer parecer que está tudo em paz e segurança... Quando fazem com que os honestos paguem impostos demais e incentivam as pessoas a roubar e mentir em suas declarações de faturamento... Quando tornam o circo mais importante do que a educação... Quando humilham os professores, os policiais e os médicos, e superestimam os malandros, os atletas e os animadores de circo... Quando não valorizam mais o papel do pai e a função da mãe... Quando desprezam a comunhão da igreja e ridicularizam o cajado dos pastores... Quando tornam o dinheiro a razão de existir... Quando levantam falsos pastores que lhes acariciam os ouvidos... Quando perdem o conceito de pecado e ignoram o temor de Deus... Quando transformam o culto em show e a profecia em autoajuda... Quando vivem no egoísmo e orgulho e não sabem o que é a bondade e o amor... Quando adestram supersticiosos fingindo lhes mostrar o caminho e misturam a fé com a crendice... Quando roubam de mim as pessoas levando-as à idolatria de Maamom... Quando se calam diante do mal e se omitem perante a injustiça... Quando deixam a viúva sem consolo e perpetuam a amargura do órfão... Quando deixam de evangelizar e discipular para Jesus a fim de atrair membros para seus grupos de amigos... Quando julgam que estão agindo bem porque ajuntam grande número de adeptos... Quando reclamam da chuva ou do calor e me atribuem a culpa por desastres... Quando pensam que podem determinar o que eu devo fazer e acham que existo para mimar seus desejos nojentos... Quando mentem e enganam uns aos outros pensando que os fins justificam os meios... Quando gastam o tempo tão escasso com joguinhos de crianças desocupadas... Quando ignoram a palavra da vida e resistem ao verdadeiro jejum... Por isso e por outras coisas, eu tenho poucas alternativas para vocês senão derramar meu juízo... É somente por causa da minha misericórdia e minha grande paciência que vocês ainda não foram consumidos... Aguardo por mais um pouco de tempo para ver se ao menos mais alguns de vocês podem ser salvos... A minha ira está à porta. O meu furor não poderá ser suportado... Não deseje que este dia venha para você e para os seus... Chore, lamente-se, arrependa-se e convoque reunião sem música e sem risos, para que eu mude de ideia e cancele o castigo... O tempo da vingança está próximo! Se ao menos um remanescente me ouvir, se me buscar de coração e me honrar junto aos oprimidos, se confessar o pecado que me ofende e zelar pelo direito e pela justiça... então eu me levantarei e cancelarei o juízo que está por vir, perdoarei a iniquidade e transformarei a sua nação... Convertam-se os corações dos pais aos filhos e dos filhos aos pais...
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Voltem os maridos para as suas esposas e as esposas para os seus maridos… Haja confissão de pecados nos púlpitos e gritos de vergonha nas assembleias… Eu não quero mais ser louvado ao som de cordas e tambores. Eu quero ser glorificado pelo pulsar de corações e pelo gemido dos espíritos quebrantados. Eu quero mentes que me queiram... Eu estou chegando e chamando. Quem me ouvir será bem-aventurado. O vencedor será recompensado. A sabedoria, a verdade e a justiça aguardam a manifestação da verdadeira fé, da atitude de fidelidade, da força do amor. Vocês estão fazendo tudo errado, mas eu os convido a corrigir! Convertam-se!” (Disponível em: <http://blogdopastortulio.blogspot.com.br/2014/06/ voces-estao-fazendo-tudo-errado-amos-57.html.> Acesso em: 28.06.2017.)
4 Imagens para a prédica Seria certamente ousado oferecer na entrada do culto um chá de losna ou, então, chá de boldo aos que estão chegando à celebração. Combinado com a equipe litúrgica da comunidade ou grupo responsável pela recepção no culto, essa surpresa seria bem interessante. Em tom de gentileza, convidar a um chazinho. Contudo, não aquele chá gostoso costumeiro nas confraternizações de final de eventos da igreja, mas aquele copinho com um gole de chá bem amargo. Na pregação poderia se fazer menção a essa experiência. Em contraposição, ao final do culto, poderia ser oferecido e servido um gostoso chá com aquela pitadinha de gengibre, limão ou mel para a comunhão e confraternização junto à porta da igreja. Caso o culto seja com a Ceia do Senhor, a figura do “vinho” também poderá ser “explorada” positivamente apontando para comunhão no sangue salvífico de Cristo, fonte de toda a justiça e direito, verdade e bem.
5 Subsídios litúrgicos Mesmo que de um material já de três décadas atrás e de um contexto específico (Santarém/PA), a coleção Projeto de Deus (Edições Paulinas) me vem à lembrança quando reflito sobre os profetas do Antigo Testamento. O livrinho apresenta desenhos, ilustrações e passagens bíblicas que apontam para o “Projeto dos reis”, distinguindo-os do “Projeto de Deus”. Talvez o resumo possa inspirar-nos a criar e contextualizar um responsório litúrgico que aponte profeticamente para o projeto de poderosos e poderosas de nosso tempo, contrastando com o anúncio de Projeto Divino para a igreja e a sociedade de nosso tempo:
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Projeto dos reis 1. Sociedade dividida 2. Exploração do trabalho 3. Concentração do poder 4. Leis que defendem o sistema 5. Exército de mercenários 6. Monopólio do saber 7. Vários deuses 8. Culto de ritos 9. Sacerdote latifundiário
Projeto de Deus 1. Sociedade igualitária 2. Autonomia de produção 3. Poder comunitário 4. Leis que defendem o povo 5. União do povo 6. Escola para todos 7. Único Deus libertador 8. Culto a partir da vida 9. Sacerdócio profético
Bibliografia EQUIPE de Catequese Rural da Diocese de Santarém-PA. Projeto de Deus. São Paulo: Paulinas, 1987. KIRST, Nelson. Amós – textos selecionados. Comissões de Publicações da Faculdade de Teologia da IECLB. São Leopoldo: 1981. (Série Exegese, v. 1, Fascículo 2).
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22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
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PRÉDICA: MARCOS 10.35-45 ISAÍAS 53.4-12 HEBREUS 5.1-10
Claudete Beise Ulrich
1 Introdução No Brasil desenvolveu-se uma cultura da meritocracia. O que significa isso? No dicionário lemos que meritocracia (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e há uma predominância de valores associados à educação e à competência. O que significa mérito? Mérito: s.m. Aquilo que faz com que uma pessoa seja digna de elogio, de recompensa; merecimento. Qualidade apreciável de uma coisa, de uma pessoa. O que caracteriza a ação de merecer honras ou castigos; merecimento: condenado pelos seus méritos; prêmio recebido pelos seus méritos. A meritocracia, como tem sido entendida no Brasil, tem gerado desigualdade e exclusão de pessoas, especialmente da população pobre, negra, indígena. É necessário deixar claro que as oportunidades não são as mesmas para as pessoas. Nem todas as crianças estudam em escolas particulares. Nem todas as pessoas são de famílias ricas e brancas. Percebe-se que algumas pessoas também querem viver a meritocracia na vida comunitária. Algumas pessoas pensam que têm mais direitos porque o avô foi do presbitério no passado ou porque a avó é fundadora do grupo da OASE, e assim por diante. São situações bem conhecidas entre as ministras e os ministros. Mas o que de fato constitui o mérito? É a pessoa fazer mais, isto é, ir além daquilo para o qual estudou ou no qual trabalha; reconhecer que o que se alcança através dos estudos, do esforço, da dedicação, do trabalho são apenas capacitações. Por exemplo: alguém que se forma depois de muito esforço, especialmente aquela pessoa que chega lá às custas de muito sacrifício pessoal e familiar, com certeza tem o direito de aceitar e receber o reconhecimento de mérito da parte de seus familiares, e tem o direito de se orgulhar pelo que fez e pelo que atingiu, mas não de pretender levar esse mérito pessoal além dos limites de sua esfera pessoal. Da mesma forma, não se pode levar relações de amizade ou parentesco para além da vida pessoal. No entanto, isso tem acontecido em nosso cotidiano brasileiro. Por ser filho ou filha de fulano ou fulana, parece que a pessoa já nasce com o mérito, sem nenhum esforço. Para permanecer em qualquer lugar que se atinja, é necessário a constante capacitação. Claro está que o mérito pessoal alcançado sempre fará parte de sua história pessoal e faz parte de uma etapa da vida e não de toda a vida. Portanto é necessário saber que o mais importante é se capacitar constantemente, isto é, ser um eterno aprendiz, garantindo direitos iguais de oportunidades para todas as pessoas.
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O texto da pregação para este domingo desconstrói toda a cultura do mérito e aponta para o serviço desinteressado, para uma fé ativa em amor. Este texto já foi tratado em vários volumes da série Proclamar Libertação, por exemplo: Rui Bernhard, PL X; Werner Kiefer, PL XVI; Gottfried Brakemeier, PL 28; Anelise Lengler Abentroth, PL 34; Manoel Bernardino Santana, PL 36. O texto de leitura do Antigo Testamento, Isaías 53.4-12, aponta para o servo sofredor, aquele que tomou sobre si as nossas enfermidades. O texto da Epístola aos Hebreus (5.1-10) apresenta Jesus como sumo sacerdote, que vive a solidariedade através do sofrimento na paixão e morte de cruz. O texto da pregação aponta para a diaconia (serviço em amor) de Jesus (que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos) em contraste com atitudes dos discípulos que desejam o poder do mérito, isto é, sentar à direita e à esquerda de Jesus quando ele voltar em glória.
2 Exegese O texto de Marcos 10.35-45 está inserido no contexto das narrativas que descrevem a caminhada de Jesus, juntamente com as pessoas que o seguiam a caminho de Jerusalém (8.27-10.52). De acordo com Elisabeth Schüssler Fiorenza (1992, p. 362), esse contexto trata do “verdadeiro discipulado”. Nesses textos, Jesus anunciou três vezes a sua paixão e morte (8.31ss; 9.30ss; 10.32ss). No entanto, após cada anúncio, ele foi incompreendido pelas pessoas que o seguiam (8.32s; 9.32s; 10.33s). A cada bloco de anúncio e incompreensão segue um ciclo de ensinamentos de Jesus a seus discípulos, tendo como objetivo deixar claro o que significa o verdadeiro discipulado (8.34-38; 9.33-37; 10.32-45). No entanto, apesar dos vários ensinamentos de Jesus, dois discípulos pensavam que mereciam mais do que os outros. Tiago e João, filhos de Zebedeu, pediram a Jesus os lugares de honra no seu reinado messiânico (10.35-41). Segundo Rodolfo Gaede Neto (2001, p. 48), “Marcos nos apresenta discípulos que, apesar dos reiterados ensinamentos de Jesus sobre o caminho da cruz, insistem no caminho da glória: discutem entre si sobre quem haveria de ser o maior e quem ocuparia os lugares privilegiados”. Eles não entendem o caminho da cruz e o que o verdadeiro discipulado acontece no agir em favor de todos aqueles que Jesus menciona em seus ensinamentos. Essa questão também reflete as situações de disputa da comunidade de Marcos. Segundo Bruno Godofredo Glaab (1995, p. 99), “um antigo dito sobre a humildade ativa, vindo de Jesus, foi reinterpretado e retocado na comunidade pós-pascal e na Comunidade de Marcos para servir de base para o modelo de Igreja dos primeiros tempos. Portanto, também para a Igreja de nossos tempos”. A igreja de Jesus se mostra no serviço que ela presta aos desprivilegiados do mundo. Pode-se dividir o texto da seguinte forma: Marcos 10.35-37 – O pedido pelo primeiro lugar: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda (Mc 10.37). Eles estão preocupados somente consigo mesmos. Esqueceram de todas as pessoas
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que caminharam junto com Jesus. Eles se colocam como aqueles que merecem um lugar especial. Consideram-se melhores, por isso o direito à meritocracia. Marcos 10.38-40 – Jesus responde, novamente buscando ensinar o que significa o discipulado. Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis: Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizados? (Mc 10.38). Jesus quer saber se eles, em vez do lugar de honra, aceitam entregar a vida pela causa do Reino até a morte. Os dois respondem: Podemos! (Mc 10.39). Jesus responde novamente: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado (Mc 10.39). No entanto, o evangelho relata que poucos dias depois, abandonaram Jesus e o deixaram sozinho na hora do sofrimento (Mc 14.50). Quanto ao lugar de honra no Reino ao lado de Jesus, quem o dá é o Pai: Quanto, porém, ao assentar-se um à tua direita e outro à tua esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado (Mc 14.40). O que Jesus tem para oferecer é o cálice e o batismo, o sofrimento e a cruz. Marcos 10.41-44 – Entre vocês não seja assim. Os outros discípulos se indignaram com a atitude de João e Tiago. No entanto, Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seus domínios, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade (Mc 10.42). A ação dos discípulos e da comunidade de Marcos necessita ser diferente da atuação dos poderes da época, isto é, do Império Romano. O poder dos romanos era marcado pela repressão e pelo abuso do poder. Jesus coloca outra proposta. Ele diz: Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva (diáconos), quem quiser ser o primeiro entre vós será servo (doulos) de todos (Mc 10.43-44). Jesus apresenta ensinamentos contra os privilégios e a rivalidade. Ele inverte o sistema e insiste no serviço como remédio contra a ambição pessoal. O paradigma para liderança comunitária apresentado por Jesus a partir da resposta a Tiago e João é o diakonos, é o doulos. As palavras usadas por Jesus apontam para o serviço realizado pelas mulheres e pelos escravos. Marcos 10.45 – O resumo da vida de Jesus. Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Ele é o Messias servidor, anunciado pelo profeta Isaías (texto de leitura Is 53.4-12). Jesus aprendeu da sua mãe Maria, que disse: Eis aqui a serva do Senhor! (Lc 1.38). Jesus vive e apresenta uma proposta totalmente nova para a sociedade daquele tempo. O verdadeiro poder está no servir com amor, responsabilidade, respeito e ética.
3 Meditação Jesus dá um ensinamento ético-moral de convivência em sociedade para seus discípulos a partir do pedido de João e Tiago. Eles fazem um pedido e Jesus os questiona se estão dispostos a seguir o que ele sofrerá. O discipulado se mostra no serviço, assumindo o compromisso até o fim. Jesus assumiu a diakonia, serviço desinteressado (fé ativa em amor), numa postura de humildade ativa. A postura que Jesus assume se contrapõe ao sistema político e religioso do seu
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tempo. Quando Jesus afirma que veio para servir e não para ser servido, ele está invertendo toda uma lógica de poder. O poder mostra-se nas relações em que se supera a ordem hierárquica e excludente. De acordo com Luise Schottroff (apud Glaab, 1995, p. 103), a comunidade de Marcos se inspira no servir das mulheres, pois todas as vezes que se fala em servir utiliza-se de formas que era a diakonia exercida pelas mulheres. A comunidade de Marcos, portanto, inverte a ordem social. O trabalho não reconhecido das mulheres e das pessoas escravas torna-se importante e indispensável para a vida comunitária e social. A diakonia, o servir em amor, sem vislumbrar privilégios, é fundamental para a organização da vida. O texto de Marcos 10.35-45 tem como mensagem central o próprio ministério de Jesus e a sua atuação no servir incondicional. A humildade vinda de Jesus e de sua comunidade é reinterpretada como serviço em um ambiente pós-pascal. Jesus, com sua forma humilde de servir em amor (diaconia), deslegitimou a ordem romana e judaica oficial, devolvendo, desta forma, ao povo uma nova esperança. A cruz, base da instrução aos seguidores e seguidoras de Jesus, foi e continua sendo um enfrentamento aos regimes que destroem a vida. Há mais de dois mil anos as palavras de Jesus da humildade ativa no servir com amor e justiça social são proclamadas nas comunidades cristãs em todo o mundo. No entanto, o discurso sobre o direito de ter o mérito continua muito atual, especialmente no momento histórico brasileiro que estamos atravessando. Esse pensamento da meritocracia, discriminatório, injusto continua presente também em nossas comunidades cristãs. As palavras de Jesus ainda continuam sendo incompreendidas, assim como foram por aqueles que sempre caminhavam junto com ele. Nossas atitudes continuam muito parecidas com as de Tiago e de João, que estavam querendo garantir um cargo no primeiro escalão da administração, pois pensavam que Jesus estava para instalar um reino em terras palestinas. Hoje, o mesmo pedido continua, cotidianamente, repetindo-se na sociedade, nas famílias e nas igrejas. Muitos querem ocupar os primeiros lugares. Mas quando se pergunta o que se pode fazer para servir, muitas vezes a resposta é o silêncio. Percebe-se que em muitas situações as orações são súplicas por demais individualistas, voltadas somente para si mesmo. A proposta de Jesus é de transformação, libertação da ambição por poder, para a recuperação da verdadeira dignidade do ser humano. A resposta de Tiago e João (v. 39) foi afirmativa: estão aptos para beber o cálice e receber o batismo de Cristo. A morte de Tiago como mártir nos mostra a confirmação da resposta dada a Jesus (At 12.2). A realidade da cruz e da ressurreição não deve ser vista como mero acidente no discipulado. Antes, faz parte e é consequência do viver e ensaiar a proposta do reino de Deus já aqui e agora. A cruz é o crivo que caracterizará a pedagogia de ação dos discípulos e das discípulas. O servir fará a diferença. O serviço do discipulado direciona-se contra o favoritismo do mundo, viabilizando a transformação da sociedade. Aponta para a realidade do reino de Deus. Jesus não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45).
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É bom lembrar que a palavra diaconia era profana nos dias de Jesus. Para os gregos, tinha um sentido negativo, pois servir era tarefa exclusivamente de escravo ou mulher e sinal de humilhação. Portanto um homem que quisesse ser honrado não podia servir, e sim ser servido. Jesus inverte totalmente essa lógica de pensar e agir. Ao invés de honrarias e privilégios, Jesus propõe uma vida de serviço (diaconia) a favor do próximo. Jesus dá o exemplo de como funciona o sistema mundano, opressor. Entre os seus seguidores não deveria ser assim, aquele que quisesse ser grande necessitava se tornar pequeno (servo). O ensinamento e a vivência de Jesus questionam todo o sistema baseado em méritos em nosso cotidiano. Jesus ensina que o mais importante é o servir em amor. A proclamação do reino de Deus é para todas as pessoas, especialmente para quem assume o servir em amor. Jesus inverte a ordem do sistema: Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10.45). O serviço desinteressado, baseado no amor ativo, tendo como objetivo a construção de um mundo de paz e justiça, continua sendo um desafio permanente para todas as pessoas cristãs. O discipulado consiste em sermos eternos aprendizes do amor de Deus, revelado em Jesus Cristo, o crucificado e ressurreto.
4 Subsídios litúrgicos Hinos: HPD 2, 325 no início; HPD 1, 170 após a prédica e 181 no final. Acolhida: Com alegria acolhemos a todas e todos neste culto, serviço de Deus a todos nós e ao mundo. Que o anúncio da Palavra chegue até os nossos corações. Que a Palavra transforme as nossas vidas, encorajando-nos a colocar sinais de esperança e de possibilidades de novidade de vida. Estamos reunidos e reunidas em nome daquele que era, que é e que há de vir: Deus, que nos ama, Jesus Cristo, que nos ensina, e o Espírito Santo, que nos encoraja a agir. Amém. Confissão de pecados: HPD 1, 150. Absolvição: Em vista da vossa confissão e confiando na promessa do perdão de Deus, vos declaro, como ministro ordenado (ministra ordenada) da igreja, o perdão dos vossos pecados, em nome do Pai (+), e do Filho, e do Espírito Santo. Kyrie: Pelas dores deste mundo Gesto da paz: HPD 2, 368. Bênção: Deus de toda ternura, abençoa-nos em nossas lides cotidianas. Ensina-nos a servir com humildade, amor e ética. Que o exemplo diacônico de Jesus, de servir com humildade e não de ser servido, nos acompanhe em todo o nosso ser e afazeres. Sê conosco, Deus de toda ternura, sempre presente. Amém.
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Envio: Que o exemplo amoroso de Jesus Cristo acompanhe a todos e todas. Vão em paz, sirvam às suas irmãs e seus irmãos com a humildade e a ética amorosa e a Deus com alegria. Amém.
Bibliografia FIORENZA, Elisabeth Schüssler. As origens cristãs a partir da mulher: uma nova hermenêutica. São Paulo: Paulinas, 1992. GAEDE NETO, Rodolfo. A diaconia de Jesus: contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal; Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus, 2001. GLAAB, Bruno Godofredo. O Modelo Igreja Servico: uma análise teológica de Marcos 10.42-45. Revista Cultura Teológica, p. 99-107, 1995 MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes. Caminhando com Jesus – Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos. São Leopoldo: CEBI, 2012. (Coleção A Palavra na Vida 184/185).
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23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
28 OUT 2018
PRÉDICA: HEBREUS 7.23-28 JEREMIAS 31.7-9 MARCOS 10.46-52
Paulo Sérgio Macedo dos Santos Carlos Musskopf
1 Introdução Pouco se pode acrescentar ao estudo sobre Hebreus 7.23-28 realizado por Verner Hoefelmann na edição 36 de Proclamar Libertação. Tanto as questões a respeito da autoria, desconhecida do texto, sua origem e a quem se destinava são tratadas no estudo, assim como as interconexões com os outras leituras previstas para o dia: Jeremias 31.7-9 e Marcos 10.46-52. Tanto no texto de Jeremias como no Evangelho de Marcos, a esperança que provém de um auxílio externo perfaz a temática central. Se no texto de Jeremias essa esperança vem da boca do profeta, no texto de Marcos a esperança vem do cego sentado à beira da estrada que, ao sentir que o Messias passa por ali, pede que tenha misericórdia dele. Os dois textos criam uma moldura para o que vai ser lido em Hebreus. No Primeiro Testamento, os sacerdotes eram necessários para que houvesse a conexão entre o povo e Deus. No texto de Marcos, um cego que pede esmolas à beira da estrada, marginalizado e invisível em sua cegueira, é capaz de enxergar a única maneira verdadeiramente eficaz de se chegar a Deus: através de Cristo.
2 Exegese Também para a exegese remetemos ao estudo de Verner Hoefelmann no PL 36.
3 Meditação a) O sacerdote como representação A função sacerdotal entre os hebreus é hereditária e também essencial não só para prestar culto, como na organização social. O sacerdote representa tanto a presença de Deus no meio do povo, como também representa o povo na presença de Deus. Somente através desse é possível o diálogo entre o Criador e a criação. Ele atua nessa fronteira e delimita as ações tanto sociais como religiosas. Essa dupla atuação reporta a outras manifestações sacerdotais de que temos notícia. Para John Gassner, teórico do teatro, o primeiro sacerdote foi o primeiro ator, pois emulou em sua representação a necessidade de seu povo, e de forma poética externou e criou em sua figura a ideia do “representante” do sagrado entre os seres humanos.
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Jung afirma que para o “primitivo não basta ver o Sol nascer e declinar; esta observação exterior deve corresponder – para ele – a um acontecimento anímico, isto é, o Sol deve representar em sua trajetória o destino de um deus ou herói que, no fundo, habita unicamente a alma do homem. Todos os acontecimentos mitologizados da natureza, tais como o verão e o inverno, as fases da lua, as estações chuvosas etc., não são de modo algum, alegorias destas experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através de projeção – isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza” (2000, p. 18). A base humana do conhecimento é a imitação. Representando, o humano pode compreender tanto o nascer e declinar do sol apontado por Jung, como sua própria existência. Ao ator-sacerdote cumpre dar “voz” àqueles que são incapazes de falar com Deus, de maneira que possam ser compreendidos. Na postura mais antagônica possível, o sacerdote, quando diz que está dizendo o que os outros dizem, e que não compreendem, emudece os dois lados. Nessa busca pela representação, que oferece respostas às dúvidas humanas mais primordiais, o sacerdote ganha espaço na vida. Espaço para a libertação ou para um aprisionamento ainda maior que o desconhecimento pode provocar. Aos poucos o assustador desconhecido recebe respostas que o sacerdote oferece. E aquilo que se passa por resposta nem sempre pertence à dúvida de todos. Assim como o ator faz com que o público sofra por algo que nunca viveu, o sacerdote oferece respostas para dúvidas que nem sempre são essenciais para a vida humana. O ato íntimo e pessoal de construção de diálogo é substituído pela impessoalidade, pela interferência, dominação e distanciamento. O texto de Hebreus, como Klaus Berger salienta, é de uma erudição gigantesca, que leva à incompreensão em certos momentos. Para Berger, essa ritualística aprimorada que a erudição provoca possui duplo caráter: pode por vezes ser libertador, outras vezes provoca uma escravidão inebriante. b) A continuidade da fé O próprio Berger afirma que por mais que o texto de Hebreus busque romper com a mediação proposta pelo sacerdote no diálogo com Deus, o autor não visa à extinção da representação e do culto, pois “ a carta aos Hebreus não é o fim do pensamento cultual, mas sua fixação para a fé cristã” (2005, p. 82). Não se trata de romper com modelos apenas, trata-se de atribuir novos significados a esses modelos, fazer com que possam ser verdadeiros a partir daquele que atua. E comparando ao teatro, não se trata mais do teatro tradicional, com atores treinados e capazes de expressar todas as emoções que a plateia é considerada incapaz. Agora, todos são capazes de representar, como no teatro de improviso, onde todos são capazes de “colocar para fora” suas emoções, desencantos e alegrias. A religião, no campo simbólico, continua a construir sentido para a vida. No ritual o símbolo ganha visibilidade; quando verdadeiro, a vida ganha sentido. Não existe uma incompatibilidade entre o culto e o rito. O que segue é o verdadeiro sacerdote, o Cristo, este não encena sua morte como expiação dos humanos;
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ele a experimenta verdadeiramente. Já não há a necessidade de um “astro” para encenar e criar um mito.
3 Imagens para a prédica Sugerimos introduzir uma dança de roda durante o culto ou preparar o salão paroquial para após o culto. Música suave e um aparelho de som serão suficientes. Essa sugestão se baseia no sacerdócio universal de todos os crentes, que foi tão caro a Lutero. A graça do sacerdócio mostra toda a sua grandeza aqui. Como numa dança de roda, todos podem participar, mesmo que exista um que “conduz” a dança, não é ele quem a determina. Existe um espaço para a dança, mas não é o espaço que a determina. A dança é a capacidade de dançar, de ouvir a música e se inebriar com isso. A representação dá sentido, não é o sentido. O próprio Cristo, que redime toda a criação na sua paixão e morte, compreende a necessidade da representação quando pede: façam isto em memória de mim. Não é o rito que é colocado de lado, e sim a cena é aberta, todos podem participar daquilo que dá significado à vida.
4 Subsídios litúrgicos Oração de coleta: Querido Deus, graças te rendemos por podermos agora, saindo das agitações da semana que passou, chegar a ti, e diante de ti ficar em sossego e silêncio. Dá que essa quietude se torne tão profunda a ponto de silenciar as vozes fortes da angústia e das preocupações. Dá que ouçamos nas palavras da pregação a tua Palavra; que ela fale a nós a partir desse silêncio, pois tu tens as palavras que consolam e curam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. BERGER, Klaus. Para que Jesus morreu na cruz? São Paulo: Loyola, 2005.
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PRÉDICA: JOÃO 8.31-36
DIA DA REFORMA
JEREMIAS 31.31-34 ROMANOS 3.19-28
31 OUT 2018
Roberto E. Zwetsch
A verdade libertará quem crê em Jesus!
1 Introdução A perícope do Evangelho de João 8.31-36 é instigadora e nos coloca diante de um diálogo polêmico entre Jesus e um grupo de judeus, conflito que perpassa todo o evangelho desde o capítulo 1 e se encaminha para o desenlace, que acaba na paixão, cruz, morte e ressurreição de Jesus, o Filho de Deus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (1.10s; 1.29). Os capítulos 7 e 8 formam uma unidade, mesmo que os vários diálogos que neles se apresentam, por vezes, nos pareçam um tanto desconexos. Alguns temas sobressaem como as várias afirmações de Jesus que começam com a fórmula ego eimi (eu sou). Aliás, o Evangelho de João, o quarto a ser escrito, se diferencia bastante dos sinóticos por sua linguagem e conteúdo. Trata-se da mesma mensagem centrada em Jesus, mas esse é diferente daquele que guarda o “segredo messiânico” como no Evangelho de Marcos (8.39), por exemplo. Em João, Jesus revela uma clara autoconsciência como o “enviado do Pai” (8.42). Ele é a imagem encarnada de Deus (1.1-14). Ele e o Pai são um só (10.30); ele conhece o Pai e guarda a sua palavra (8.55; 8.18s; 17.20-23). Jesus se apresenta como a luz do mundo, a água da vida, a porta, o caminho, a verdade, o pão da vida, o bom pastor. É uma torrente de palavras que João escolhe como identificadoras daquele que é o Filho de Deus, em quem o Pai se revela plenamente, mas os seus não o conheceram nem o receberam ou creram nele. Esse evangelho provavelmente surgiu na década de 90 da era cristã e foi escrito ao que tudo indica em Éfeso. A comunidade joanina era formada por pessoas judaico-cristãs e de outras origens e etnias. O texto grego reflete em vários temas a origem da língua hebraica de muitos conceitos centrais do evangelho, tais como: a compreensão de termos como “verdade”, “vida”, “liberdade”. Perpassa o evangelho uma polêmica ou conflito aberto de Jesus com os “judeus” e sua compreensão da tradição, representada pela lei de Moisés, a filiação de Abraão (8.33), sua compreensão de filiação e liberdade baseada na prerrogativa que a tradição lhes garantia: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres? Argumento que se choca com a perspectiva crítica de Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado (8.34). São duas visões opostas a respeito da liberdade, da tradição e do pecado. Que significa ser livre? De que liberdade se trata, então? Esse foi o evangelho preferido de Lutero. Possivelmente porque ele já é o testemunho apurado da mensagem de Jesus, num contexto em que já acontecera a
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ruptura entre a comunidade cristã seguidora de Jesus e a sinagoga (a queda de Jerusalém, no ano de 70, já acontecera e o templo já fora destruído). Jesus se apresenta como aquele que veio para redimir os que nele creem: quem crê no Filho tem a vida eterna. Jesus é a luz do mundo, a luz da vida, quem o segue não andará mais nas trevas (8.12). É este Jesus que chama seus discípulos e suas discípulas a caminhar com ele neste mundo e a permanecer firmemente alicerçados na sua palavra (8.31), que ilumina o mundo, a vida, o caminho, mesmo para além da morte (12.44ss). Sua mensagem ultrapassou os limites judaicos, sem qualquer dúvida. Algo paradoxal nesse evangelho é ainda o fato de que Jesus reitera, em muitos momentos, que não veio para julgar o mundo, as pessoas, mesmo os incrédulos (3.17; 8.44ss). No entanto, quem o rejeita já está julgado, porque rejeita o enviado de Deus (8.50-59). Esse mistério não tem solução a não ser na escatologia. Nesse ínterim, cabe a pregadoras e pregadores da igreja cristã anunciar o evangelho que liberta e dá sentido à vida neste mundo. É o que a perícope deste Dia da Reforma nos desafia a proclamar com ousadia e fé.
2 Exegese Os exegetas Xavier Léon-Dufour e Charles H. Dodd coincidem em afirmar que os capítulos 7 e 8 formam uma unidade temática no Evangelho de João: o primeiro coloca como tema do conjunto “a luz da vida”, enquanto o segundo , numa apreciação mais ampla, denomina os capítulos 2 a 12 como o “livro dos sinais”, situando o texto de 8.31-36 no quarto episódio dos “sinais”, intitulando essa unidade “a luz e a vida, a manifestação e a rejeição”. Em comum, há o tom polêmico dos encontros de Jesus com líderes judaicos, o conflito aberto, as ameaças à vida de Jesus, os diálogos tensos e as incompreensões, as afirmações duras de Jesus contra seus interlocutores e, finalmente, sua rejeição. Dodd escreveu que, embora haja outras passagens controversas no evangelho, dificilmente se achará outra unidade em que os conflitos sejam tão agudos e tão extensos. Essa observação é que confirma a unidade desses dois capítulos, exceto a narrativa da mulher flagrada em adultério (8.1-11) e salva por Jesus. É uma interpolação, mas mesmo assim o texto faz todo o sentido sobre a prática de Jesus e seu gesto de não julgar nem condenar, como se verá a seguir. Essa unidade acontece na subida de Jesus para Jerusalém no tempo da Festa dos Tabernáculos ou da Colheita, em que muitos romeiros iam celebrar no templo de Jerusalém. Dois rituais sobressaíam nessa festa: as libações de água, pelas quais a água era trazida solenemente do reservatório de Siloé, transportada para o templo e derramada sobre o altar dos sacrifícios. Esse rito era associado às orações para pedir chuva, e bem pode significar uma reminiscência de antigo ritual para causar chuva. Não por acaso, a necessidade de água para a vida aparece nas discussões rabínicas sobre a festa e seu significado. Talvez esse dado ajude a entender a afirmação de Jesus: Eu sou a água da vida. Outro rito da festa era a iluminação do Pátio das Mulheres no templo. Algumas informações atestam que o pátio ficava tão brilhante que todo o pátio de Jerusalém ficava também iluminado. Também essa informação ajuda a entender a afirmação polêmica de
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Jesus neste evangelho: Eu sou a luz do mundo. De qualquer forma, no evangelho essa festa é o cenário dos diálogos de Jesus com seus interlocutores. Para Dodd, teríamos aqui um exemplo da característica ironia joanina. Jesus, um profeta que vem da Galileia, chega para pregar a um grande público na capital. Nela, Jesus se apresenta como a palavra de Deus, como a luz da vida, como aquele que revela o sentido da vida, a vida eterna. Ele se mostra como quem conhece o Pai porque vem dele e por ele foi enviado (7.29) e isso se torna escandaloso para seus ouvintes. Na verdade, esses se dividem: uns creram nele, outros o contestam (8.30-33). Por trás do acontecimento público, as autoridades tramam contra a vida de Jesus (8.44; 59). O evangelho vai preparando seus leitores para o final da vida de Jesus e o significado de sua morte para a comunidade fiel. No diálogo tenso de 8.31-36, temos então o seguinte: v. 31: Jesus desafia aqueles que creram: se permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos. Aqui temos algo típico da compreensão hebraica da palavra. Permanecer na palavra não é o mesmo que afirmar um dogma, é antes seguir a palavra do mestre, ficar firme, praticar a palavra que Jesus anuncia. Discipulado é seguimento, é praticar a palavra que torna a pessoa livre. Bortolini (1994) explica: a “adesão a Jesus [...] não é feita só de palavras. Ela exige prática, pois o ensinamento de Jesus é uma prática de vida. E a prática pressupõe sempre uma ruptura com o que não está a serviço da vida”. v. 32 e 33: Essa prática de vida diz respeito à verdade de Jesus: conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. João atesta aqui um conceito de verdade e de liberdade diferente da concepção grega. Não é só o conhecimento que está em jogo, mas a vida na sua inteireza, a ação, a realidade vivida. A verdade em João é verdade encarnada numa pessoa: Jesus. Ele não apenas proclama a verdade, ele a encarna. Ele é verdadeiramente Filho de Deus, ele é a verdade que liberta do pecado, ele é Deus libertador. Mas os judeus são ciosos de sua origem e tradição e rebatem com ousadia: somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos; como dizes tu: sereis livres? v. 34: Jesus avança no conflito: toda pessoa que comete pecado é escrava do pecado. Impossível não retomar aqui a narrativa da mulher adúltera, pois Jesus arriscou a sua vida para defender a pobre mulher. Nessa perícope Jesus escutou a acusação dos homens piedosos e enfurecidos que lhe armaram a armadilha. E à acusação que redundaria no apedrejamento da mulher, ele contesta com autoridade. À pergunta “que dizes?” ele reage com autoridade: Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra (8.7). Um a um os piedosos foram se retirando, desde os mais velhos até aos últimos, ficando somente Jesus e a mulher. E então Jesus estabelece o diálogo restaurador e garantidor da vida: Mulher, onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? (8.10). A mulher responde: Ninguém, Senhor. E Jesus lhe responde: Nem eu tampouco te condeno, vai e não peques mais (v. 11). No conflito aberto com os judeus, eles não querem debater este tema duro: quem comete pecado é escravo do pecado. Jesus, porém, não para por aí. v. 35: Os judeus argumentam que, sendo filhos de Abraão, são livres de tudo e todos. E isso que estavam vivendo num país ocupado pelos romanos e
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deviam obediência às autoridades do império. Julgavam que a lei de Moisés os colocava num patamar acima da realidade de um país ocupado, que pagava caro por sua submissão. Arrogantemente fechavam os olhos à realidade do pecado, da submissão, da hipocrisia. Jesus contesta tal teologia. Ele os confronta com a realidade da vida e anuncia outra concepção de vida e liberdade. Quem comete injustiça é dominado pelo pecado e isso não só nas relações morais das pessoas individualmente. Há um sistema baseado na injustiça para com os mais pobres que nem sequer tem uma pombinha para levar ao sacrifício. Há pessoas com deficiência que são desprezadas e, ainda mais, tidas como responsáveis por seus infortúnios, numa maldade sem igual (9.1-34). Jesus defende essas pessoas e acusa quem não tem nem sabe exercer misericórdia, cuidado com quem sofre, numa palavra – amor. v. 36: Diante dessa outra compreensão da ação divina, Jesus proclama: Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. Aqui se percebe que o conteúdo da liberdade que Jesus proclama não é nem pode ser abstrato ou legalista. Não se restringe a uma “lei escrita”, a um princípio político ou a uma regra de boa convivência. A liberdade para a qual Jesus chama seus discípulos e discípulas é liberdade “para que tenham vida”, para que a vida seja salva, dignificada, liberta. Jesus rejeita o papel de juiz ou de quem tem o poder para condenar quem quer que seja. Ele vem para salvar, para libertar, para oferecer vida e uma nova chance renovada a cada momento. Nesse sentido, a menção de Abraão é equívoca na boca de quem o advoga. Jesus contesta essa manobra teológica quando em seguida afirma: Sois descendência de Abraão, contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não está em vós (v. 37). Eles não aceitam Jesus, rejeitam-no e, com isso, afirmam que Jesus é mentiroso. É por isso que mais adiante Jesus faz uma acusação feroz: Vós sois do diabo [...] Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade [...]. Ele é mentiroso e pai da mentira. Mas porque eu digo a verdade, não me credes (8.44s). Entre a verdade e a mentira tem um abismo que separa a vida e a morte. E Jesus é caminho, verdade e vida.
3 Meditação O debate sobre a verdade que liberta é colocado diante da mentira que mata e está calcada na injustiça e na mentira. Esse debate cruza os tempos, não pode ser eludido da realidade da vida, nem ontem nem hoje. É o que se apresenta como tema para esta pregação. Não basta basear a vida em leis ou nomes de família. A verdade não é jamais uma conquista plena, é uma vocação que faz caminhar na verdade, na justiça, no direito, no amor. Eis o tema para esta data de rememoração da Reforma. A verdade que liberta é uma caminhada, um seguimento que tem como promessa a vida eterna (8.51). Liberdade, na ótica do evangelho, é viver a fé e da fé em Cristo. A verdade de Cristo não é uma doutrina simplesmente, embora a reflexão teológica tenha ao longo das épocas demonstrado a necessidade de preservar o ensinamento evangélico em afirmações sistemáticas. Jesus, ao chamar para segui-lo, para “permanecer na sua palavra”, desafia a viver o evangelho que se baseia no amor
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de Deus (3.16). A verdade de Cristo é a verdade do seu amor, a verdade do “novo mandamento”: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei (15.12). O desafio maior da verdade de Cristo é viver esse amor que, no limite, significa dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos (15.13). A amizade de Jesus é para a vida toda e para o todo da vida. Não pode se restringir a um papel (ser luterano, por exemplo) ou a um status social. Tem consequências eternas – diria eu se pudesse arriscar. Viver a verdade que liberta é uma experiência permanente, pois jamais chegamos a viver plenamente a liberdade para a qual Cristo nos libertou (Gl 5.1). Por isso precisamos do Auxiliador, do Espírito da Verdade que o mundo não conhece nem reconhece (Jo 16.1-13). A liberdade em Cristo que nos permite viver na verdade é dom do Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (2Co 3.17). Como se pode depreender, estamos aqui no coração da mensagem cristã, mensagem de liberdade, de justiça e de amor. Viver a verdade evangélica é experiência da graça de Deus que nos liberta para agir em liberdade e amor para que o mundo creia. Menos do que isso é infidelidade e, no limite, traição ao evangelho. Que Deus nos ajude a viver da graça e do perdão que nos anima na caminhada da fé.
4 Auxílios litúrgicos Jeremias 31.31-34: Trata-se de texto profético central na mensagem de Jeremias. É uma mensagem de esperança numa nova aliança, não mais como a do passado. Intérpretes da Bíblia chegam a afirmar que esse texto é o evangelho presente no Primeiro Testamento. A antiga aliança não foi suficiente. Mesmo libertado da escravidão do Egito, o povo judeu não foi fiel, mesmo que o Deus do Êxodo jamais tenha falhado na sua aliança. A nova aliança não será mais gravada em pedras, mas na mente e nos corações. Deus será o seu Deus e o povo será o seu povo. E então vem uma descrição impressionante: não haverá mais catequese, educação cristã contínua ou qualquer outra forma pedagógica de convencimento da palavra de Deus. É que o próprio Deus será conhecido por cada pessoa, desde a menor ou vulnerável até a mais preparada ou com poder. E isso será possível porque Deus perdoará as iniquidades do povo e dos seus pecados jamais se lembrará. Somente o incondicional e libertador perdão de Deus pode proporcionar uma nova aliança de vida, liberdade, justiça e verdade. Romanos 3.19-28: Texto central na teologia de Paulo e para o movimento da Reforma do século XVI. A lei de Deus torna cada pessoa culpável perante Deus, visto que não justifica nem liberta quem está dominado pelo pecado. Aliás, a lei nada mais faz do que revelar o pecado, a incredulidade e a separação de Deus. Diante desse diagnóstico implacável, Lutero se angustiou por muito tempo, mesmo sendo monge piedoso e rigoroso no cumprimento da penitência. Para ele, a mensagem da lei só aumentava sua angústia. Até que uma luz brilhou em sua mente e transformou sua vida. Relendo incessantemente a mensagem de Paulo e meditando nela, Lutero descobriu que a justiça de Deus – testemunhada pela lei e pelos profetas – realiza-se em nós mediante a fé em Jesus Cristo para todas as
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pessoas que nele creem. Essa é a verdadeira justiça salvadora (restauradora) de Deus. Ela vem pela fé e por graça. Em Cristo há redenção, libertação, vida nova. Pois ele assumiu o nosso pecado e nos conferiu a sua justiça, de modo que já não há mais qualquer chance para a arrogância de uma piedade egoísta. A nova lei é a “lei da fé”, a fé que justifica, que nos liberta e, ao mesmo tempo, vocaciona a viver a nova justiça de Deus como pessoas livres e libertadoras. Não somos nós que nos justificamos ou que nos libertamos dos pecados espontaneamente. É Deus quem faz essa obra maravilhosa em nós, tornando-nos pessoas que vivem a “justiça da fé” (4.13), a justiça que caracteriza pessoas, cujo centro não são elas mesmas, mas Cristo. Por isso é que Gustavo Gutiérrez – na teologia da libertação – escreveu que as pessoas cristãs são “excêntricas”, pois o seu centro é Cristo e o pobre onde ele se apresenta a nós sub contrario. Essa mensagem libertadora da graça faz toda a diferença na vida de fé. Pois é pela fé que vivemos, existimos e caminhamos. E a fé atua pelo amor (Gl 5.6; Rm 13.8ss). A lei que vigora em Cristo é a da nova aliança, a “lei do amor”. Símbolo: Como os textos deste culto apontam para a experiência libertadora da fé e da graça de Deus em Cristo, isto é, a nova justiça que Cristo nos proporcionou por sua vida, morte e ressurreição, a elaboração de um símbolo para essa experiência de libertação pessoal e comunitária pode se constituir num oportuno momento de reflexão. Penso que uma pessoa poderia entrar na igreja, atada por correntes ou cordas, com palavras escritas em papel e coladas no corpo e nas correntes: egoísmo, violência doméstica, injustiça social, arrogância espiritual, indiferença para com as pessoas mais vulneráveis e fracas, discriminação e preconceito para com as pessoas diferentes. São palavras e situações que apontam para o nosso “pecado”, a nossa distância de Deus e sua lei. Ao entrar no templo, a pessoa cairia várias vezes sem que ninguém a apoiasse. Somente ao chegar junto à fonte (pia) batismal, uma mão se aproximaria e uma voz in off seria ouvida: “Deus te ama e te perdoa. Fica livre e não peques mais! A verdade de Deus te liberta em Cristo. Permanece firme neste evangelho. Vai em paz!”. Cantos: Semente de libertação (HPD 2, 316); A verdade vos libertará (O Povo Canta nº 70). Para o Kyrie, sugiro “Pelas dores deste mundo”, do P. Rodolfo Gaede Neto.
Bibliografia BORTOLINI, José. Como ler o evangelho de João. O caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994. DODD, Charles H. A interpretação do quarto evangelho. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003. LÉON-DUFOUR, Xavier. Lectura del evangelio de Juan. Juan 5-12. Salamanca: Sígueme, 1992. v. 2.
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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 4.13-18
DIA DE FINADOS
DEUTERONÔMIO 12.1-3 MARCOS 5.21-24,35-43
02 NOV 2018
Gottfried Brakemeier
Existe futuro apesar da morte?
1 Preliminares O Dia de Finados é de luto. Em sinal de carinho aos que partiram desta vida, as pessoas costumam visitar os cemitérios, enfeitar as sepulturas, cultivar a memória dos falecidos. O que prevalece é a tristeza. Assim também no caso de Jairo (Mc 5.21s;35s). Ele acaba de perder a filha. Isso é terrível. A morte causa uma ferida que custa para sarar, se é que um dia isso acontece. Toda vida tem inata em si a inconformidade com a morte. Ela quer durar. Sofre sob a brutal desapropriação a que a vida é submetida compulsoriamente em dado momento. Então, não vai restar senão o desespero? O evangelista Marcos diz que não. Seu texto é importante complemento ao da Primeira Carta aos Tessalonicenses. Enquanto isso, é difícil descobrir relação positiva com a instrução do livro de Deuteronômio. Por estimular a violência, merece reflexão crítica à parte. Ela não acrescenta nada ao tema em pauta, podendo ser tranquilamente desconsiderada por essa razão. Permanece a pergunta se diante da morte é possível sustentar esperança. Jesus diz a Jairo: Não temas, crê somente! (Mc 5.36). Como interpretar essas palavras? E o apóstolo Paulo, como ele trata essa questão? Também em Tessalônica a comunidade se debatia com o problema. Estava preocupada com a sorte dos falecidos. Vejamos em que termos isso acontece.
2 Observações exegéticas Pelo que tudo indica, a Primeira Carta aos Tessalonicenses é a mais antiga do apóstolo Paulo. Há amplo consenso entre os especialistas nesse tocante. Vindo de Filipos, Paulo conseguiu criar um primeiro núcleo cristão em Tessalônica, importante cidade da Grécia, hoje Saloniki. Isso pelo ano de 49/50 da nossa era (cf. At 17.1s). Houve quem acolhesse a mensagem cristã com entusiasmo e gratidão. Simultaneamente, porém, ela provocou inveja, agitação e hostilidade. Diante das agressões, Paulo e seu colaborador Silas preferiram abandonar a cidade e seguir viagem a Atenas. A carta deve ter sido escrita não muito tempo depois da partida. Ela expressa a preocupação do apóstolo com a jovem comunidade, ainda insegura com relação à vida na fé cristã. No início, porém, está o retrospecto que agradece a Deus e aos próprios membros pela recepção do evangelho. Esses cristãos se tornaram exemplos a serem seguidos por outros. Isso não impede o apóstolo Pau-
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lo de acrescentar exortações no sentido de permanecerem firmes numa conduta agradável a Deus. Entre elas, Paulo faz referência especial a questões da ética sexual (4.3s), bem como à de trabalho. Importa evitar tanto a prostituição, como também a preguiça que se esquiva de ganhar o pão de cada dia com as próprias mãos (4.11s). Aparentemente houve gente que se considerava dispensada de trabalhar sob alegação de o fim do mundo estar próximo. Para que plantar se já não resta tempo para colher os frutos? Também de outras fontes sabe-se do fervor nas primeiras comunidades que julgava iminente o retorno glorioso de Jesus Cristo e a chegada de um novo céu e de uma nova terra (Ap 21.1s). Supunha-se que o mundo dentro de breve iria acabar para ceder espaço ao reino de Deus. O apóstolo Paulo se vê obrigado a acalmar os ânimos. O entusiasmo necessita de sobriedade. Certamente a esperança não deve ser abandonada. Ela é parte constitutiva do credo cristão. Deus há de vencer os poderes do mal e submeter a criação à radical “reforma”. Então, as promessas das bem-aventuranças irão cumprir-se e as preces do “Pai-Nosso” serão atendidas. No entanto, é preciso dar tempo a Deus. Quem quiser forçar a vinda do perfeito se compara a um agricultor que não tem paciência para ver o fruto amadurecer. O resultado será a destruição da lavoura. É inútil especular sobre a data da consumação de todas as coisas. Ninguém a conhece. O “dia do Senhor” virá como ladrão à noite (5.2). Por isso mesmo perde tempo quem se entregar a cálculos sobre probabilidades e procurar identificar sinais precursores do fim. Mais importante é saber que Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo (5.9). O resto podemos confiar à providência divina. Essa certeza resolve também a angústia específica dos tessalonicenses. A comunidade deplora alguns casos de óbito entre seus membros. Estariam esses em desvantagem em comparação com aqueles que sobrevivem até a chegada do Senhor? A resposta é um categórico “não”. Paulo afirma: […] nós, os que ficarmos até a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem (4.15). Portanto é indiferente se falecemos antes da parúsia ou não. Ao falar sobre o assunto, Paulo faz uso de linguagem apocalíptica. Refere-se à trombeta, cujo som inaugura o drama do retorno de Cristo e o arrebatamento dos fiéis. Mas já para ele tais imagens são secundárias. A esperança pode articular-se também como simples desejo de partir e estar com Cristo imediatamente após a morte (Fp 1.23). A moldura apocalíptica, pois, é prescindível, assim como ela o é na promessa que Jesus faz ao ladrão crucificado a seu lado, quando diz: Hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23.43). Imagens apocalípticas fazem parte do material ilustrativo do evangelho, mas não são parte integrante do mesmo. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, não há motivos para a apreensão com relação à sorte dos falecidos. A morte certamente continua a apavorar, mas já não provoca pânico. Não somos como os demais que não têm esperança (4.13). Morte e ressurreição de Cristo abrem a perspectiva de vida para além da morte. Revelam-se como poderoso consolo.
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3 Ouvindo o texto hoje No século 21 as angústias das pessoas são outras do que aquelas em Tessalônica. Certamente ainda há quem se preconize como “atalaia do arrebatamento”. As ideias apocalípticas não sumiram por completo. Mas o que prevalece é antes o ceticismo. As imagens bíblicas perderam plausibilidade. Não assim o temor, que está em sua origem. As gerações de hoje vivem atormentadas por cruéis incertezas. Quais as chances de sobrevida num planeta progressivamente devastado, inóspito, superpovoado? Haverá emprego para todos? Será que consigo assegurar um salário suficiente para atender as necessidades básicas? Enfim, como escapar da violência que passou a ser flagelo endêmico e ameaça mortal à paz na sociedade? O futuro parece estar bloqueado. Em comparação com essas questões cruciais, os “finados” já não preocupam. As prioridades são outras. E, no entanto, engana-se quem julga ser capaz de aí separar. Pois a sorte dos falecidos e a de minha pessoa estão estreitamente vinculadas. Se os mortos sucumbiram, eu vou sucumbir com eles. Da mesma forma vale que, se para eles existe esperança, então para mim também. Justamente no cemitério cabe perguntar pela estação final da vida humana. Será suficiente dizer que levamos os defuntos a seu último repouso? Por mais correto que isso seja, tal resposta por si só não basta. Jamais a humanidade com ela se conformou. E, com efeito, a perspectiva da aniquilação total é incompatível com a dignidade do ser humano. Ela conflita com a afirmação de um sentido inerente à vida, enfim, com a própria fé em Deus. Por isso mesmo proclamamos esperança também no Dia de Finados. A fé cristã tem o privilégio de não permanecer afônica frente ao enigma da morte. Ela tem evangelho a anunciar. Enquanto a inibição é uma das grandes tentações de um lado, a fantasia solta o é de outro. É curioso observar o pretenso grau de conhecimento de certas pessoas sobre as condições no além. Trata-se de projeções humanas que já seduziram os saduceus à tentativa de ridicularizar a fé na ressurreição (cf. Mc 12.18s). Propõe a Jesus um caso melindroso: como resolver, no mundo vindouro, o problema dos casamentos múltiplos? De quem será cônjuge quem aqui na terra contraiu matrimônio várias vezes? Ora, quem imagina o céu à maneira humana constrói tolas ficções e cai no ridículo. Jesus, ele mesmo alertou para o perigo. Há que se tomar distância, pois tanto do silêncio característico da perplexidade quanto da curiosidade indisposta a respeitar o mistério. O que deve permanecer é a fé convicta de o poder de Deus ser superior ao da morte. Não temas, crê somente – assim diz Jesus. Com isso ele colocou um parâmetro seguro contra todas as distorções de discurso escatológico, inclusive aquele no Dia de Finados. A perspectiva da morte mistura fel às alegrias da vida. Tudo é provisório, nada definitivo. Isto é revoltante, capaz de produzir raiva, cinismo, niilismo. A fé cristã permanece realista. Não esconde a dureza da morte nem nega as dolorosas despedidas a que nos obriga. Não se resolve o impacto da morte com falácias e mentiras. A honestidade detesta ser ludibriada com recompensas paradisíacas no além. É charlatão quem procura motivar pessoas para o martírio com promessas
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enganosas. A única maneira de resistir ao poder arrasador da morte é a resiliência da fé que aposta no Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem (Rm 4.17). Ou Deus é todo poderoso, ou a morte. Essa é a alternativa. Outra não há. A fé cristã crê na Páscoa, razão pela qual proclama esperança também no cemitério.
4 Imagens para a prédica O Dia de Finados cultiva a memória dos antepassados. Não permite que simplesmente mergulhem no anonimato. Isso é bom. Seres humanos não se igualam a peças descartáveis, facilmente substituíveis. Possuem até mesmo uma “dignidade pós-mortal”. Permanecem sendo pessoas com nome e identidade inconfundível também depois do óbito. Nós nos lembramos de fulano tal e tal, de sua história, de sua biografia. E essa é singular. Marca presença também depois de decorridos muitos anos. De certa forma poderíamos dizer que a memória mantém as pessoas vivas. Daí porque é importante guardar fotos, cartas e outros objetos pessoais. Possibilitam reviver o passado. Verdade é que cedo ou tarde, todas as lembranças se apagam. Não há nada que resista ao desgaste do tempo. Mesmo assim, preservar a memória dos falecidos é um eficiente meio de se opor ao poder aniquilador da morte. Será uma demonstração de inconformidade com a transitoriedade da vida, bem como de respeito aos que nos antecederam. Permanece verdade que nenhuma investida humana consegue de fato romper o cativeiro da finitude. Por isso mesmo a esperança necessita do recurso à memória de Deus, da qual é símbolo a imagem do “livro da vida”. A ele a Bíblia se refere em várias passagens (Fp 4.3; Ap 20.15 e outros). Bem-aventurados os que nele se encontram inscritos. Têm a sua memória preservada para todo o sempre. Estão isentos da ameaça de simplesmente ser “deletados” do arquivo histórico, jogados na lixeira, condenados à inexistência. Não há coisa pior do que ter negado seu valor de pessoa, respectivamente ser reduzido a um “João ninguém” ou a uma “Maria ninguém”. Insignificância é castigo que ninguém aguenta. Pessoas rebaixadas, excluídas, feridas em sua dignidade costumam reagir com agressão e violência. Serão candidatas a “terroristas”. Todos necessitam da confirmação de sua razão de ser. Por isso lutam por reconhecimento. Querem ser aplaudidas, prezadas, amadas. A negação da “certidão de nascimento” e com ele do “atestado de existência” cria seríssimas patologias e está na raiz de crimes hediondos. A paz social exige o cuidado com o outro e sua integração numa comunhão. Eu devo saber a que grupo eu pertenço, onde estou em casa, quem são os meus pais, meus amigos, respectivamente, para quem valho alguma coisa. Sem pertença social e sem nenhuma acolhida as pessoas adoecem. Sua vida murcha e se apaga. A memória de Deus previne contra a ameaça da extinção do ser humano, já agora e para todo o sempre. Ela é a mais poderosa afirmação de esperança. Para tanto serve a metáfora do livro da vida. Quem tiver seu nome registrado nesse “arquivo” ainda que morra viverá (Jo 5.25). Ninguém será esquecido ou vai sucumbir na solidão da morte. Sugiro concentrar a prédica nessa imagem e explorar seus aspectos. Ela pode trazer ânimo ao luto típico do Dia de Finados, articulando
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Dia de Finados
a esperança a que a fé dá motivo. Mais do que qualquer outro, o Dia de Finados é um dia de afirmação da vida.
5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: Senhor Deus, nosso Pai e Criador, antes de falar das nossas dores, queremos expressar a nossa gratidão. Somos devedores das pessoas cuja memória está no centro de nossa atenção hoje. Por elas temos recebido amparo, carinho, orientação. Ninguém deu a vida a si mesmo. Percebemos nas pessoas que acompanharam nossa trajetória algo da tua bondade e providência. Certamente também elas tinham falhas e ficaram em débito conosco. Mas isso não desincumbe da necessidade de lhes dizer o nosso sincero obrigado. Sentimos dolorosamente o vazio que deixaram. Ao mesmo tempo, sabemos que nesta vida nenhuma despedida é definitiva. Celebramos a tua vitória impedindo que sejamos tristes como os sem esperança. A fé não se dobra diante das evidências da morte. Mesmo em meio a escombros, destruição e cadáveres ela aposta no teu poder, que faz renascer vida e possibilita um novo início. Por isso rogamos: Pai que estás no céu, fortalece em nós tal fé e concede-nos imunidade frente aos poderes da destruição. Amém. Confissão dos pecados: Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador, o que nos oprime não deixa de ser entre outros o nosso pecado. Acumulamos culpa em nossa vida. Ficamos devendo uns aos outros a palavra de conforto, pela qual todos ansiamos. Não raro trata-se de culpa que não gostamos de confessar ou que até mesmo escapa de nossa percepção. Nós magoamos pessoas, causando-lhes feridas, prejuízos, traumas. Somos injustos em nossos juízos, xingamos onde deveríamos mostrar compreensão, queremos ver o nosso próximo derrotado. Em vez de trabalhar pela paz, atiçamos o ódio na sociedade. Senhor, só tu conheces todo o nosso pecado. Nós imploramos teu perdão por nossas falhas, omissões, maldades. Tem compaixão de nós. Amém! Intercessão: Senhor Espírito Santo, consolador, ajuda a combater o desânimo que se multiplica em nossa sociedade em razão de estupidez, safadeza e ganância. Estamos cansados dos escândalos, da corrupção, dos crimes trazidos à luz pela operação “lava jato” e outras ações semelhantes. Inquieta-nos a proliferação de uma cultura da violência. Já não mais podemos viver sem medo de assaltos, assassinato, arrombamentos. Sumiram os princípios éticos constitutivos para a saúde social. Que mundo é este em que o medo se torna normalidade e já não mais podemos nos sentir seguros? Não menos angustiante é a situação internacional. Os horrores de guerras intermináveis com pavoroso saldo de fugitivos, feridos e mortos causam indizível sofrimento. Todo mundo fala em paz. Mas essa se encontra mais distante do que nunca. Nós denunciamos um mundo em que a luta por poder pisa os direitos humanos, desrespeitando as liberdades democráticas e ceifa a vida de vítimas inocentes. Senhor, nosso Deus, é longa a lista de nossas queixas. Nós te pedimos: reorienta a humanidade. Dá-lhe um novo espírito para que reconheça o que lhe serve para a paz. Faze-nos cooperadores de tua salvação, para que a alegria volte a reinar na sociedade. Vem socorrer-nos com o teu poder. Amém!
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24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: MARCOS 12.28-34
04 NOV 2018
DEUTERONÔMIO 6.1-9 HEBREUS 9.11-14
Marcos Rodrigues
Amar de coração e mente
1 Introdução Quando chega novembro, o peso de carregar todos os dias um ano inteiro de correrias, compromissos e esforços se faz notar. Estresses, ansiedades e depressões se anunciam e já cobram seu preço. Entre as muitas coisas necessárias, importantes e urgentes na vida, existe algo que não podemos descuidar, sob pena de perdermos o essencial: o amor. Deuteronômio 6.1-9 nos lembra que para viver bem é necessário um investimento consciente e voluntário no amor. Moisés lembra que é preciso amar a Deus de todo o coração, toda a alma e todas as forças. O amor a Deus deve deixar marcas na pele, sinais concretos em nós e em nossos lugares de vida. Escrevê-lo na testa, nos braços, nas portas e portões! Nenhuma promessa se cumprirá na nova terra se o povo descuidar disso. O texto de Hebreus 9.11-14 contrasta o amor com os rituais e sacrifícios do dia a dia. Algumas coisas nos purificam por fora, mas o sangue de Cristo nos purifica por dentro. O amor que recebemos de Deus em Jesus é mais precioso e profundo do que aquilo que conquistamos com nosso suor, lágrimas e ritos. Só o esforço de amar vale a pena! A conversa entre Jesus e o escriba (Mc 12.28-34) funciona como uma atualização dos textos anteriores. Quando, apesar das diferenças, concordamos que o amor a Deus e ao próximo são mais importantes do que sacrifícios e rituais, não estamos mais tão longe do reino de Deus. Reencontramos a essência. Podemos seguir nossos diferentes caminhos em direção ao mesmo amor de Deus.
2 Exegese Nossa narrativa, Marcos 12.28-34, não é exclusiva desse evangelho. Ela também aparece em Mateus 22.34-40 e Lucas 10.25-28. Os textos paralelos ratificam o duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo como o mais importante. Em Mateus e Marcos, isso acontece logo depois de uma controvérsia com os saduceus a respeito da ressurreição. Os evangelistas Mateus e Lucas carregam de más intenções as perguntas feitas pelo escriba. Ele estaria coligado com os fariseus e estaria procurando arranjar uma prova de heresia ou blasfêmia contra Jesus. Esse tem consciência disso.
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Em Lucas, o duplo mandamento serve de introdução à parábola do bom samaritano, reforçando o caráter urgente do amor ao próximo. A conversa nasce da pergunta sobre como alcançar a vida eterna. O levita e o sacerdote, cumpridores de leis e rituais, desconsideram o ferido e passam longe dele. Eles consideravam suas necessidades pessoais e ritos mais importantes do que a fragilidade da vida machucada, largada à beira do caminho e carente de cuidado. Legalismos, fundamentalismos e ritualismos ocultam preconceitos, mascaram exclusões, legitimam apatias, terminando por gerar conivência com o sofrimento e a morte imposta aos mais fracos. Por isso Jesus afirmará que quem se fez próximo do homem caído foi o samaritano, aquele que não entende nem cumpre os ritos e leis. Por consequência, o samaritano está mais perto do reino de Deus do que o sacerdote e o levita. Por não compreenderem que o imperativo do amor a Deus (expresso muito além de rituais, sacrifícios e do cumprimento literal da lei) está inseparavelmente ligado ao imperativo do amor ao próximo, fariseus e mestres da lei perdem a essência do amor e se afastam do reino de Deus. Embora reconheçam a importância do amor a Deus, desconsideram a urgência de que esse amor se traduza em relações de cuidado, justiça e liberdade no convívio diário. Em Marcos, embora o ponto de partida também seja a controvérsia com os saduceus, parece haver um clima muito menos carregado de más intenções e conspirações. Jesus e o escriba parecem manter um diálogo mais frutífero a respeito da interpretação do duplo mandamento. Tanto a pergunta motivadora como a resposta de Jesus e a nova colocação por parte do escriba quase nos permitem deduzir um clima de respeito, concordância e admiração entre ambos. As primeiras palavras de Jesus são: Ouve, ó Israel (v. 29). Essa era uma expressão litúrgica da oração diária do povo de Israel (shemá). Todos os dias se fazia necessário ouvir e repetir de forma reverente que o amor a Deus era o mais importante e não poderia ser descuidado. Todos os dias era necessário lembrar que não haveria promessa cumprida na terra se a vida não fosse um exercício consciente e livre de amor a Deus e ao próximo. A shemá também tinha o caráter de confissão de fé diária. Era mais do que apenas uma lembrança ou oração reverente. Era a afirmação de que o Deus no qual o povo acreditava era o Deus do amor libertador que, através dos mandamentos, cuidava para que o amor e a liberdade pudessem ser percebidos, compreendidos e praticados pelo povo. Esse é o Deus no qual Jesus de Nazaré crê. Esse também parecia ser o Deus no qual o escriba acreditava, pois ele reafirma as palavras de Jesus e confirma a sua autoridade. Ao recitar o mandamento do amor a Deus, Jesus acrescenta a palavra “mente”. Para ele, o exercício do amor deve ser com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças (v. 30). Alguns autores acreditam que isso se deve ao encontro do pensamento greco-romano com a cultura judaica. Contudo, coração e mente não são palavras essencialmente diferentes na antropologia judaica. Conforme Hans Walter Wolf, “[...] só em casos raros coração significa o temperamento; com muito mais frequência, indica caracteristicamente o órgão do conhecimento, e, finalmente unida a ele a vontade, seus planos, suas resoluções e
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intenções, a consciência moral e a entrega cônscia e sincera em obediência. [...] Sem dúvida, ele abrange as esferas do corporal, do emocional, do intelectual e das funções da vontade, mas deve-se registrar com a mesma clareza que a Bíblia vê no coração do ser humano, antes de mais nada, o centro do ser humano que vive de modo cônscio” (Wolf, 1988, p. 90). Sendo assim, acredito não ser exagero de nossa parte utilizar aqui como sinônimo de mente/coração a expressão conhecida de Leonardo Boff, afirmando que o diálogo entre Jesus e o escriba estava imerso numa “razão cordial”. Uma proximidade sentida no exercício do diálogo, entendido como um ir além de seu restrito horizonte de compreensão e um adentrar no novo horizonte apresentado pelo Outro. Essa capacidade dialogal que se aproxima, se emociona, se envolve, se deixa afetar pela realidade do outro. Jesus reconhece isso como a sabedoria do escriba (v. 34). Esse reconhecimento permitirá a Jesus afirmar que o escriba não estava longe do reino de Deus. Não por último, parece oportuno frisar que o verbo “ouvir” desempenha um papel importante em nosso texto. O escriba havia ouvido a discussão entre Jesus e os saduceus. Ouvir não era um dos melhores atributos dos escribas. Eles tinham audição seletiva. Procuravam por coisas que lhes interessava (v. 38-40). Jesus inicia sua resposta com Ouve, ó Israel. Ouvir, nesse contexto, é mais do que a capacidade auditiva. Ele revela discernimento, capacidade de compreensão do pensamento e da realidade do outro. Ele aponta para uma postura de reverência diante de Deus e do outro.
3 Meditação Enquanto escrevo este auxílio homilético, o Brasil atravessa a pior crise política e institucional de sua história. Os noticiários escancaram a corrupção nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da nação. Ameaças de impeachment e delações premiadas aprofundam a crise. No ano em que celebramos os 500 anos da Reforma Protestante, reformas institucionais da previdência social e das leis trabalhistas têm passado a conta da corrupção para trabalhadores e aposentados, beneficiando grandes empresas e bancos. Protestos são violentamente reprimidos com balas, gás e bombas. Usuários de drogas são ferozmente expulsos da Cracolândia, respondendo ao interesse especulativo do capital imobiliário de São Paulo. Nenhuma preocupação com o ser humano. No Norte, áreas de preservação são diminuídas, ameaçando comunidades indígenas. Os trabalhadores rurais são assassinados e têm a imagem de seus corpos, amontoados em sangue, circulando pelas mídias, revelando a violência no campo. O agronegócio pulveriza veneno sobre populações indígenas e colonos sem-terra. Fugas em massa de presídios infundem medo na população. Não há segurança nas ruas. Uma espécie de apatia toma conta dos movimentos sociais e políticos. Tudo isso terá um impacto profundo e certamente será trazido à tona nas eleições de 2018, algo que terá acontecido, se houver um segundo turno, alguns dias antes de nossa pregação sobre Marcos 12.28-34. O Brasil, certamente, estará
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expondo os desacordos com o resultado desse pleito eleitoral. Intolerâncias, preconceitos e radicalismos deixarão suas marcas. Um encontro de Jesus com uma autoridade judaica permite uma aproximação à nossa realidade. Com o final do ano se aproximando, as pessoas se encontram no limite de suas forças. Ainda resta um longo caminho até o fim do ano. Estes tempos são marcados por dificuldades de relacionamento, estresse e problemas de saúde. Entre o necessário, o importante e o urgente, precisaremos organizar a nossa vida. Neste sentido, nosso texto tem alguns elementos que podem nos ajudar a passar por este tempo mantendo nossa saúde pessoal e social em bom estado. O primeiro deles é o ouvir. O texto está imerso nesse exercício. As pessoas ouviam os ensinamentos de Jesus. Ele ouvia as suas perguntas. Saduceus, escribas e fariseus ouviam Jesus com diferentes intenções. Formas diferentes de ouvir: uns procuram erros e possiblidades de desmoralizar; outros querem ouvir algo que faça sentido em suas vidas, que os ajude a superar dificuldades; Jesus ouve com reverência e amor. Aqui cabe a pergunta: como nós ouvimos as pessoas, a sociedade, a nós mesmos e a palavra de Deus? Em nosso texto, ouvir pressupõe uma postura de oração. Recitar o mandamento duplo do amor tanto é lembrança alentadora daquilo que Deus já fez como confissão de fé no Deus que ouve o clamor de seu povo, que o livra da escravidão e o conduz pelo deserto até a terra prometida. É a afirmação de uma esperança para este tempo de desalento. Ouvir inclui o exercício da obediência à vontade de Deus e aos seus mandamentos. Não basta apenas orar e confessar. É necessário se submeter a esse amor maior que pede de nós outra postura diante das pessoas, do mundo e de Deus. Outro elemento importante é o encontro entre Jesus e o escriba. Aqui, aparentemente, confrontam-se duas maneiras de olhar a vida, o mundo, as pessoas e Deus. O mundo do mestre da lei era o mundo do legalismo, do literalismo e do ritualismo, onde as formas têm mais importância do que a essência. A aparência e a superficialidade eram mais importantes do que o ouvir, ver e compreender profundamente a realidade do outro. O mundo de Jesus era o mundo da profundidade! Não basta um amor que se expresse ritualmente. Não basta o amor confessado em palavras. Não basta o amor comprado com sacrifícios. O amor de Deus por nós, nosso amor a Deus e o amor fraterno precisam se fundir em nosso ser. Cada um de nós precisa ser o amor que deseja, confessa e espera. Gosto da imagem de Deuteronômio que pede que esse amor seja tatuado em nossa pele. Que ele seja a lembrança de cada dia, a esperança de cada dia, a oração de cada dia, o esforço de um dia inteiro. Nada supera esse amor. Nestes tempos de correrias, desconfortos e estresses, aproveitar cada encontro como uma oportunidade de ouvir reverentemente, com devoção e amor pode fazer a diferença entre o deixar-se atropelar pela loucura da competitividade e o caminhar livre e amorosamente ao lado de quem amamos.
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4 Imagens para a prédica O mandamento do amor é uma daquelas passagens bíblicas que muitos de nós podem repetir de cor. Todos sabemos que o mais importante é o amor. No entanto, como a maioria dos mestres da lei, temos dificuldade em compreender que esse amor pede de nós um postura de cuidado e reverência diante da vida. A imagem contida no texto de Deuteronômio 6.1-9 pode nos ajudar a visualizar o que se espera de nós quando recebemos de Deus a capacidade de amar. O amor precisa ser visto nos lugares que habitamos. Deuteronômio pede que escrevamos nas portas, janelas e portões os mandamentos de Deus. Nossas estruturas sociais, políticas, de justiça e cuidado deveriam ser a escrita viva do amor de Deus. Elas deveriam traduzir de forma visível e sensível o desejo de Deus para todos os seus filhos e filhas. Nossas casas, lugares onde abrigamos e somos abrigados em família, deveriam ser o lugar do diálogo, do carinho, da sensibilidade e da ética. Como seria viver numa casa feita de amor? O amor deve estar guardado em nossos corações, não no cofre, na garagem ou na geladeira. Deve estar grudado como tatuagem em nossa pele. Nossos braços e testa devem deixar transparecer o amor de que fomos feitos. Braços que abraçam com amor são mais fortes, mais carinhosos e mais solidários. Cabeça que pensa com amor vê mais, ouve melhor e fala com ternura e clareza. O coração que guarda o amor de Deus guarda o essencial para a vida e não se perde em meio às incertezas e correrias deste tempo.
5 Subsídios litúrgicos Nosso canto, nossa oração e nossa confissão de fé, enfim, nosso culto precisa ser expressão desse amor que nos envolve e orienta. Neste sentido, sugiro fixar papel pardo em alguma parede da igreja. Providenciar tintas, canetinhas, pincéis, giz de cera etc., para que as pessoas, logo depois da prédica, possam deixar nas paredes da igreja expressões do amor que as envolve. Elas podem escrever, pintar, desenhar frases ou palavras que expressem esse amor de Deus por toda a sua criação. Reservar para isso uns 10 minutos do tempo total do culto. Esse material poderia ficar exposto até o Primeiro Domingo de Advento. Ao início de cada culto, pedir à comunidade para se deixar inspirar pelo que está na parede. Caso alguém queira explicar o que desenhou, pintou ou escreveu, deixar um pequeno espaço para isso. Essa seria a lembrança viva do que verdadeiramente importa neste tempo de correrias e transtornos de final de ano. Poderia ser a escrita viva do que realmente pode nos orientar para que a vida tenha leveza e sentido.
Bibliografia NÖREMBERG, Klaus Dieter. 18. Sonntag nach Trinitatis – Mk 12, 28-34. In: Calwer Predigthilfen. Neue Folge. 2. Halbband. Stuttgart: Calwer Verlag Stuttgart. 1991. p. 167-174. WOLF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Agnos, 1988.
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PRÉDICA: 1 REIS 17.8-16 MARCOS 12.38-44 HEBREUS 9.24-28
25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
11 NOV 2018
Jilton Moraes
Na desventura, a ventura da obediência
1 Introdução O texto básico exibe duas pessoas em tempo de fome: Elias, o profeta que, obedecendo ao Senhor, procura uma viúva pedindo-lhe comida; e a viúva, que lhe deu o que seria sua última refeição. Eles formam um enredo que, sem a intervenção divina, seria desgraça. Confiando no Deus de Israel eles passam da fome à fartura; o pranto cede lugar ao canto e, em clima de encanto, ocorrem os fatos. O texto de Marcos 12.38-44 apresenta o ensino de Jesus aos que ministram a Palavra, a partir do exemplo negativo dos mestres da lei que, cheios de ostentação, buscavam os lugares mais destacados nas sinagogas e banquetes. O agir deles contrastava com o de Elias, enquanto este protegeu a viúva, aqueles devoravam suas casas e, como disfarce, faziam longas orações. Já o texto de Hebreus 9.24-28 aborda a supremacia do trabalho redentor de Cristo. Os sacerdotes sacrificam um animal, Cristo doa a sua vida em sacrifício; os sacerdotes entravam no santuário feito por homens, Cristo entra nas mansões celestiais e nos resgata, tornando-nos participantes da herança eterna. Os sacrifícios dos sacerdotes eram oferecidos várias vezes, mas o sacrifício de Jesus é único: assim como morremos uma só vez, ele foi oferecido uma só vez e nos dá libertação completa. Servimos a Deus, mas no servir a ele não há razão para a soberba. O poder é dele e é ele quem nos convoca e nos capacita. O sentido do servir está em humildemente ajudar pessoas e nunca aumentar-lhes a aflição. Assim, obedecemos a quem por nós se entregou.
2 Exegese Além da Nova Versão Internacional (NVI), uma leitura comparativa é utilizada com Almeida Revista e Atualizada (ARA), A Mensagem (M), Bíblia Interconfessional (BI), Bíblia de Jerusalém (BJ), Melhores Textos (MT) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). A perícope fala de Elias e da viúva de Sarepta. v. 8: Então a palavra do Senhor veio a Elias. Mesma linha de MT: Veio-lhe, então a palavra do Senhor. ARA traduz: O Senhor Deus disse a Elias. BI: Então o Senhor disse a Elias. NTLH e M: O Eterno disse a Elias. Como saber se é Deus quem está realmente falando? De que modo o Senhor fala hoje? O autor
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da Carta aos Hebreus responde: Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo (Hb 1.1-2). Tudo quanto Deus tem a nos falar está na sua palavra. v. 9: Vá imediatamente para a cidade de Sarepta de Sidom e fique por lá. Ordenei a uma viúva daquele lugar que lhe forneça comida. Uma ordem a ser obedecida (1) no tempo certo – sem demora; (2) em um destino definido – Sarepta de Sidom; (3) com uma clara incumbência – ficar ali para ser alimentado por uma viúva. Essa determinação não era fácil de ser cumprida. Os antecedentes da narrativa mostram claro como Elias fora provado. Ficou escondido, por ordem do Senhor, junto ao riacho de Querite, onde por algum tempo foi alimentado pelos corvos e bebeu água do riacho. Mas, como consequência da seca, o córrego secou. Nesse contexto, Deus lançou um novo e terrível desafio ao profeta: ser alimentado por uma viúva. Deus tinha uma nova experiência de fé para o profeta. Tendo vivido a solidão de ser alimentado pelos corvos, agora ele tinha uma família com quem compartilhar. Mas nem por isso os dias seriam mais fáceis. De qualquer modo, a troca da mantenedora parecia vantajosa: uma mulher, mesmo sendo uma viúva, certamente seria melhor do que os corvos. Se Deus a ordenou que sustentasse o profeta, certamente ela teria condições de fazê-lo. Mas não era exatamente alguém com provisão financeira que Elias encontraria. v. 10-12: E ele foi. Quando chegou à porta da cidade, encontrou uma viúva que estava colhendo gravetos. Ele a chamou e perguntou: Pode me trazer um pouco d’água numa jarra para eu beber? Enquanto ela ia indo buscar água, ele gritou: Por favor, traga também um pedaço de pão. Juro pelo nome do Senhor, o teu Deus, ela respondeu, não tenho nenhum pedaço de pão; só um punhado de farinha num jarro e um pouco de azeite numa botija. Estou colhendo uns dois gravetos para levar para casa e preparar uma refeição para mim e para o meu filho, para que comamos e depois morramos. Elias não questiona, tão somente obedece. Quem transmite a palavra do Senhor precisa estar pronto a obedecer tudo quanto ele manda. Elias foi, levantou-se para obedecer, mesmo não podendo compreender. Logo na entrada da cidade ele encontra uma viúva apanhando gravetos. Ele se aproxima dela com dois pedidos: água e um pedaço de pão. Diante desse segundo pedido, a mulher revela sua condição de pobreza absoluta. Não tinha nenhum pedaço de pão. Tudo que tinha era um punhado de farinha e um pouco de azeite, ingredientes para a última refeição dela e do filho. Diante desse quadro, o que fazer? Essa mulher é a mantenedora do profeta. Deus mandou que ele a procurasse, então ele tem algo especial. O mantimento do profeta não virá dela, mas do Senhor. Ela o alimentará porque Deus proverá. “O nome ‘Sarepta’ significa em hebraico ‘lugar de fundição’. Com certeza, o Senhor, ao conduzir Elias para o ‘lugar de fundição’, tinha o propósito de prepará-lo para seu grande desafio, mas também fundir (derreter) a vã e velha fé daquela viúva nos deuses pagãos para uma fé viva e eficaz no único e verdadeiro Deus, o Deus de Elias” (<http://www.abiblia.org/ver.php?id=8017>. Acesso em:
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1º maio 2017). A confiança de Elias na palavra do Senhor era tamanha que ele não se abala e fala para acalmar, desafiar e orientar a viúva: v. 13-14: Elias, porém, lhe disse: Não tenha medo. Vá para casa e faça o que disse. Mas primeiro faça um pequeno bolo com o que você tem e traga para mim, e depois faça algo para você e para o seu filho. Pois assim diz o Senhor, o Deus de Israel: A farinha na vasilha não se acabará e o azeite na botija não se secará até o dia em que o Senhor fizer chover sobre a terra. Junto com o alento, o desafio, ela e o filho não morreriam de fome. Mas ela precisaria confiar em Deus e repartir, viver na convicção de que Deus abençoa e habilita os que recebem a também abençoar outros necessitados. A oportunidade dela era participar do sustento do profeta. Não é quem menos tem condições financeiras que deixa de ser abençoado, mas quem não é capaz de repartir. Crendo no cumprimento da promessa, a mulher obedece. Deus ordenara a essa viúva para sustentar o profeta (v. 8). Já havendo sido tocada pelo Senhor, ele ouviu na palavra de Elias a confirmação do desafio divino. v. 15-16: Ela foi e fez conforme Elias lhe dissera. E aconteceu que a comida durou todos os dias para Elias e para a mulher e sua família. Pois a farinha na vasilha não se acabou e o azeite na botija não se secou, conforme a palavra do Senhor proferida por Elias. A obediência ao Senhor é sempre uma resposta de fé. Cremos que ele cuida de nós e que a vontade dele é sempre o melhor. No reino de Deus, a capacitação nunca é pessoal, é dom do Alto. Com ela Deus nos abençoa, possibilitando-nos ajudar aos outros. Deus abençoou a viúva para que ela abençoasse o profeta e essa bênção se estendesse a outras pessoas.
3 Meditação Da fome à fartura Uma história com dois personagens: Elias, o profeta, e a viúva, conhecida por sua cidade, Sarepta. Esse fato mostra o apego ao Senhor, capaz de fazer alguém se desapegar de seus planos para cumprir o que Deus manda. Assim foi com os dois protagonistas. Obedecendo à palavra do Senhor, eles passaram da fome à fartura. A bênção vem pela submissão: somente obedecendo à palavra do Senhor vivenciamos completa fartura. Da fome à fartura ouvindo a palavra do Senhor – Deus falou à Elias e à viúva: (v. 8): A palavra do Senhor veio a Elias. (v. 9): Ordenei a uma viúva daquele lugar que lhe forneça comida. – A ordem foi detalhada (v. 9): Vá imediatamente para a cidade de Sarepta de Sidom e fique por lá. O desaparecimento das águas do riacho fez desaparecer as condições de vida em Querite. Sarepta seria o novo esconderijo do profeta, a opção de vida que Deus concedia. – O problema não era a ordem em si, mas seu complemento. (v. 9b): Ordenei a uma viúva daquele lugar que lhe forneça comida.
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O profeta não questiona. No lugar dele muita gente discutiria. – Saber ouvir é indispensável ao crescimento espiritual (Rm 10.17): A fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo. Qual tem sido a nossa experiência? Nossa preocupação deve ser escutar e atender o Senhor. Bênçãos resultam da nossa audição e submissão a ele. Ouvimos o Senhor porque ele nos orienta: nessa orientação está a bênção. Da fome à fartura obedecendo à palavra do Senhor Elias ouviu e obedeceu prontamente (v. 10): Elias foi. – Mas a viúva é pobre demais (v. 10): Quando chegou à porta da cidade, encontrou uma viúva que estava colhendo gravetos. No lugar do profeta, o que pensaríamos? Essa viúva não tem o bastante para fornecer o meu alimento; essa viúva sem recursos para se manter pode cuidar da minha manutenção? Será que em Sarepta não tem alguém mais indicado? Mas Elias agiu de acordo com o que lhe falara o Senhor. – Chamou a viúva e pediu (v. 10): Pode me trazer um pouco d’água para eu beber? Era a primeira prova para testar a liberalidade da viúva. Ela foi aprovada. – Mas a prova maior chegava. (v. 11): Enquanto ela ia indo buscar água, ele gritou: Por favor, traga também um pedaço de pão. Saciar a sede seria possível, mas providenciar alimento era impraticável. – Comer e morrer (v. 12). Ela respondeu: Juro pelo nome do Senhor, o teu Deus, Não tenho nenhum pedaço de pão; só um punhado de farinha num jarro e um pouco de azeite numa botija. Estou colhendo uns dois gravetos para levar para casa e preparar uma refeição para mim e para o meu filho, para que a comamos e depois morramos. A viúva expõe a situação: ela e o filho morreriam de fome; tudo que tinham era a última refeição. Comeriam e morreriam. O Deus de Elias, o nosso Deus, torna possível o impossível. Ele muda a história. Da fome à fartura usufruindo a bênção do Senhor – Quando tudo parecia perdido, sem mais qualquer esperança, surge o anúncio da ação divina (v. 13): Elias, porém, lhe disse: Não tenha medo... – O cumprimento da palavra profética dependia do agir da viúva. Mantendo a calma: Não tenha medo; Realizando o que planejou (v. 13): Vá para casa e faça o que disse; Mudando a prioridade (v. 13): Mas primeiro faça um pequeno bolo com o que você tem e traga para mim e depois faça algo para você e o seu filho. – Mudar a prioridade era o desafio; sair do comando em obediência ao Senhor; servir primeiro ao profeta e só depois prover alimento para ela e o filho. – A promessa clara (v. 14): Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: A farinha na vasilha não se acabará e o azeite na botija não se secará até o dia em que o Senhor fizer chover sobre a terra.
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– Ela foi aprovada! Ouvindo e obedecendo à Palavra, a viúva usufruiu a bênção do Senhor: passou da fome à fartura. (v. 15-16): Ela foi e fez conforme Elias lhe dissera. E aconteceu que a comida durou todos os dias para Elias e para a mulher e sua família. Pois a farinha na vasilha não se acabou e o azeite na botija não se secou, conforme a palavra do Senhor. Passar da fome à fartura, mais que ter garantia da manutenção do sustento material, é ter convicção de viver na presença do Senhor. A pior fome é a carência do alimento espiritual e o melhor suprimento é ser recebido pelo Pai, ser alimentado pela Palavra dele, sabendo que ele cuida de nós. Ouvindo e obedecendo à palavra do Senhor, somos abençoados. Amém.
4 Imagens para a prédica Marcos e Lucas contam a história de outra viúva que, à semelhança da viúva de Sarepta, entregou tudo o que tinha ao Senhor. Ela tem sido identificada como a viúva pobre. Mas essa designação é falha. Jesus a observou no momento da entrega das ofertas: enquanto os ricos ofereciam grandes quantias, ela doou duas moedas, aparentemente insignificantes. Ainda assim, Jesus, que vê o coração, afirmou haver ela dado mais do que todos os outros. Ela e a viúva de Sarepta se parecem: as duas doaram o que aos olhos humanos era impossível – ambas deram tudo o que tinham; as duas foram honradas pelo Senhor. As maiores bênçãos na vida de Moisés começaram a acontecer a partir do momento em que ele se dispôs a obedecer. Somente a partir da obediência ao Senhor veio sua realização. Responder “sim” aos desafios do Senhor não é fácil. Saber exatamente o que ele quer exige busca, renúncia e, muitas vezes, sacrifício. A melhor capacitação para obedecer é buscar conhecer mais e mais quem é o Senhor que nos desafia: Conheçamos o Senhor; esforcemo-nos por conhecê-lo. Tão certo como nasce o sol, ele aparecerá; virá para nós como as chuvas de inverno, como as chuvas de primavera que regam a terra (Os 6.3). Aprendemos às duras provas que é melhor ter menos recursos e nos ajustarmos para obedecer ao Senhor do que ter todas as condições possíveis, fugindo da vontade dele. A felicidade não está no centro das riquezas materiais, mas no centro da vontade de Deus. Não somos mais ricos quando temos mais, mas quando temos coragem para obedecer à palavra do Senhor.
5 Subsídios litúrgicos Litania Leitura bíblica: Salmo 119.16-17 – Tenho prazer nos teus decretos; não me esqueço da tua palavra. Trata com bondade o teu servo para que eu viva e obedeça à tua palavra. Hino: HPD 2, 379 – Estou pronto, Senhor, para ouvir-te falar
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Leitura bíblica: Salmo 119.18,105 – Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei. A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho. Hino: HPD 1, 119 – Chuvas de bênçãos teremos Oração: Pai, confiamos completamente nas tuas misericórdias; elas se renovam a cada dia e são a causa de não sermos consumidos. Ajuda-nos a nos firmar mais e mais na tua Palavra e a estar para sempre firmes no Senhor. Amém. Hino: HPD 1, 119 – Os que confiam no Senhor (1ª estrofe)
Bibliografia MATHENEY JR., M. Pierce. In: ALLEN, Clifton J. (editor geral). Comentário Bíblico Broadman, Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1993. v. 3.
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PRÉDICA: MARCOS 13.1-8
26º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
18 NOV 2018
DANIEL 12.1-3 HEBREUS 10.11-14(15-18),19-25
Norberto da Cunha Garin Edgar Zanini Timm
Que pedras!
1 Introdução A leitura do Antigo Testamento (Dn 12.1-3) aponta para a salvação do povo de Israel a despeito do tempo de angústia. É Deus quem comanda a história e mais uma vez será ele quem irá garantir o futuro dos seus filhos. Uma palavra de ânimo para aqueles que estavam dando suas vidas nos campos de batalha ou que as perderam como consequência de perseguições religiosas, vítimas da opressão de Antíoco IV Epífanes. Da mesma forma, no Novo Testamento o texto de Hebreus é dirigido a pessoas que estão sofrendo na carne a perseguição e necessitam ser animadas com a promessa fiel de Cristo. A narrativa de Marcos 13.1-37 pode ser denominada como discurso da parúsia. Trata-se de um texto complexo em virtude do capítulo utilizar uma linguagem misteriosa e codificada, muito comum à linguagem apocalíptica. Entre as dificuldades está a determinação do contexto histórico do texto. Tradicionalmente é tomada como uma resposta à destruição do templo, que apontaria para o fim do mundo ou para o fim de uma era. Outra forma de interpretar essa narrativa está em associar a queda de Jerusalém como uma prefiguração do fim do mundo. Entretanto, há quem entenda o discurso como uma profecia da queda de Jerusalém. Há exegetas que interpretam esse texto como uma profecia apocalíptica sobre o final do mundo próximo e os acontecimentos que o antecederam, sendo entendida por alguns como um discurso originário de Marcos com materiais oriundos de diferentes fontes. A literatura apocalíptica, comum aos momentos em que as referências se desfazem, se desenvolveu em Israel entre o segundo século antes de Cristo e os primeiros séculos de nossa era. A apocalíptica apareceu no contexto do sofrimento, no qual eram necessárias novas condições para a reconstrução da vida. Desde o século IX tem prevalecido que esse é um discurso apocalíptico de origem judaico-cristã, destinado a animar as pessoas durante a guerra judaica contra Roma (66-70). Considerando o contexto do discurso em pauta, vê-se que, depois de entrar em Jerusalém, Jesus se dirige ao templo, no qual ministra ensinamentos (12.112). Recebe questionamentos dos fariseus sobre a quem se deve dar o tributo (12.13-17). Os saduceus o pressionam sobre o tema da ressurreição (12.18-27); e os escribas, a respeito de qual é o principal mandamento e se o Messias era filho de Davi (12.28-37).
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A narrativa de Marcos 13.1-8 está inserida num cenário de contraste entre poderosos/ricos e desapoderados/pobres. Marcos 12.38-40 se reporta aos escribas, que detendo poder, vestindo-se com gala, enganam os outros. Colocam-se nos lugares de destaque, mas enganam as pessoas mais pobres e desapoderadas da sociedade: as viúvas. Marcos 12.41-44 aponta para o local no qual fica o gazofilácio do templo. Jesus observa os ricos colocando suas fortunas e a viúva pobre ofertando duas moedas de pequeno valor. Esse quadro prepara o cenário para a visão do templo, local de poder e de riquezas, no qual se desenrolam as piores injustiças da sociedade judaica de então. Deixando os questionamentos dos opositores, Jesus se retira com seus discípulos. Esse é o momento no qual se estabelece um diálogo entre o Mestre e os discípulos, que são mencionados frequentemente nos evangelhos. Para eles, o fim do templo representava o fim do mundo, mas Jesus lhes mostra que esses fatos não coincidem. Não se trata de fim, mas de início de um novo tempo.
2 Exegese v. 1: Ao sair Jesus do templo, disse-lhe um de seus discípulos: Mestre! Que pedras, que construções! Um discípulo, cujo nome é omitido, interpela Jesus a respeito do templo, construído sobre o monte Moriá, e de sua magnitude, que estava em restauração por ordem de Herodes, o Grande, desde 18 a.C. O templo representava um vínculo importante entre os judeus, tanto os que viviam na Palestina como os que habitavam em outras regiões do mundo. O gigantismo da obra, considerando o custo social que representava para o povo, bem como a sinalização da presença romana, acaba por oprimir o peregrino do interior. Abre-se a oportunidade para que Jesus fale sobre edificações e quedas de um dos importantes símbolos dos judeus. v. 2: Mas Jesus lhe disse: Vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra, que não seja derribada. Do interior do templo eles se dirigem para o monte das Oliveiras, em frente ao monte Moriá, onde estava edificado o santuário. A predição que Jesus faz do templo monumental intriga os discípulos. Trata-se de uma previsão inesperada, que levanta outra dúvida: a época em que isso iria acontecer. A expressão é forte e tem o significado de destruição completa. O templo se constituía no símbolo do sistema tirânico representado pelo Templo-Estado. Isso aparece com evidência na cena da oferta da viúva pobre, na qual os ricos oferecem das sobras, e a viúva, que deveria ser protegida e beneficiada pelo Estado, oferta todo o seu sustento (Mc 12.41-44). Essa expressão de Jesus será utilizada contra ele durante o seu julgamento (Mc 14.58). v. 3: No monte das Oliveiras, defronte do templo, achava-se Jesus assentado, quando Pedro, Tiago, João e André lhe perguntaram em particular: [...]. O questionamento era sobre como se desenrolariam os acontecimentos previstos por Jesus e sobre os sinais da sua chegada. Os discípulos se aproximam de Jesus, num círculo mais íntimo, como quando ele explicava as parábolas (Mc 4.10); eram os mesmos que presenciaram a transfiguração (Mc 9.2) e a sua agonia (Mc 14.33). Ao se afastarem do templo, sinalizam também um afastamento teológico
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daquilo que representava aos peregrinos um monumento à opressão. Há um simbolismo nessa caminhada para o monte das Oliveiras: ele é mais alto que o monte Moriá e o palco do início dos eventos finais de Jesus. v. 4: Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para cumprir-se. Essas expressões que projetam o futuro saem da boca dos discípulos e preparam o discurso de Jesus nos v. 5-27, num estilo que se reporta à apocalíptica judaica. A utilização dessa linguagem simbólica era apropriada para a época, pois vivia-se um período de grande crise. A linguagem era inteligível aos discípulos, mas codificada para as autoridades romanas. Entretanto, essas especulações sempre foram rejeitadas por Jesus. A destruição do templo não estava relacionada à segunda vinda de Cristo. v. 5: Então, Jesus passou a dizer-lhes: Vede que ninguém vos engane. A resposta de Jesus se constituía numa precaução contra os sedutores ideológicos. Alertava-os para que se desviassem desse pessoal que tentava enganar os desavisados. Jesus conhece a natureza humana, passível de enganos, e alerta os discípulos para tomarem cuidado, como advertiria que deveriam ser símplices como as pombas, mas prudentes como as serpentes (Mt 10.16). v. 6: Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e enganarão a muitos. Tratava-se de gente que utilizava o nome de pregadores famosos para disseminar confusão. Mateus 24.5 se reporta aos que se apresentavam como “messias”. Ao examinarmos com cuidado, percebemos que esse é um versículo isolado, visto que a partir do v. 7 aparece uma outra temática. É possível que a referência seja aos aliciadores de cristãos para lutarem na Guerra Judaica. No ano 70 d.C., o exército romano, comandado por Tito, filho do imperador Vespasiano, arrasou essa construção. No contexto da guerra (66-70), vários líderes judeus se levantaram em forte rebelião contra Roma. João Giscala, da Galileia, Eliazar, da Indumeia, Simeão Bem Giorga de Jerusalém estavam entre os que se apresentavam como messias. v. 7: Quando, porém, ouvirdes falar de guerras e rumores de guerras, não vos assusteis; é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim. Não queria dizer que guerra ou catástrofe se constituíam em sinais da vinda de Cristo. Esses fenômenos apontavam para o início de uma nova era. A missão dos cristãos estava apenas começando. As guerras se constituíam em sinais das crises humanas e as catástrofes podiam apontar para as limitações próprias do ser humano. v. 8: Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino. Haverá terremotos. A temática dos v. 7 e 8 já estava presente no Antigo Testamento, constituindo a apocalíptica judaica. Guerras e terremotos, na concepção da apocalítica, eram parte do processo natural e representavam o início das dores e sinais do fim dos tempos. Esse fim apontava para o surgimento de uma nova era trazida pelo messias. A intenção era evitar que os cristãos se desesperassem, mas que permanecessem firmes na fé. Quando falava que ainda não era o fim, estava salientando que não se tratava do fim do mundo, mas da destruição de Jerusalém. Foram tempos de grandes dificuldades descritas por Flávio Josefo, nas quais até mesmo os filhos roubaram o pão que os pais levavam à boca.
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3 Meditação Assim como na época de Jesus, vivemos tempos de dificuldades. Há ameaças sérias, de inseguranças, de profecias apocalípticas. A cada época surgem novos pregadores apontando o “único” e “legítimo” caminho para a salvação. Apresentam doutrinas ditas “verdadeiras” para encontrar o caminho do “sucesso” de uma vida com Deus. Seguidamente aparecem líderes que se fazem adorar como semideuses. Arautos da prosperidade abençoada aparecem nas ruas e avenidas. Estão com suas Bíblias bradando pregações de “salvação”, nos meios de comunicação, nos vídeos do Youtube e nas rádios das cidades. Pregações prometem livrar as pessoas das garras de satanás e do fogo do inferno. Assim como Jesus e seus discípulos se retiram do templo em busca de um lugar mais alto, a igreja precisa abandonar a proximidade com autoridades corruptas, enganadoras do povo e descobrir um topos distinto, fora das estruturas consumistas escravizadoras. A igreja não deve se deixar seduzir pelo sucesso de templos lotados, pois seu compromisso é com Deus, que tem compaixão para com os empobrecidos. A missão da igreja não é “atingir” as massas, mas mostrar um reino de paz e de alegria como contraponto às ofertas generosas do liberalismo econômico. Não vivemos o fim da história nem o fim do mundo. Entretanto, os dias atuais apontam para a exaustão de um sistema calcado na competição desregulamentada que premia o mais esperto. As garras da injustiça e da má distribuição de bens e de condições assolam populações em todos os continentes. Não é diferente aqui no Brasil. A desestabilização política e a insegurança institucional constituem sinais de que um tempo está se exaurindo. Uma nova era necessita se estabelecer e que ela venha sob o signo do reino de Deus. A história do povo de Deus foi marcada por crises e erguimentos. Deus proporcionou, a despeito do pecado e da infidelidade do seu povo, um caminho de regeneração e salvamento. Isso aconteceu no êxodo egípcio, ao enviar Moisés para conduzir o povo através do deserto. Posteriormente, depois da deportação babilônica, o povo encontrou a reconstrução do templo com Esdras e Neemias. Deus suscitou uma nova esperança no coração do povo e o fez seguir em busca de um novo tempo. Isso também se repetiu com a ressurreição, depois de uma tenebrosa Sexta-Feira da Paixão. Agora as esperanças se renovam quando nos preparamos para uma nova etapa de Advento. Precisamos celebrar a chegada do Filho de Deus como esperança para todos, especialmente para os empobrecidos de nossa América Latina.
4 Imagens para a prédica Em 5 de novembro de 2015, a cidade de Mariana/MG foi soterrada por um lamaçal tóxico, aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos, efluente da barragem do Fundão, pertencente à mineradora Samarco Mineração S. A., preju-
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dicando cerca de 230 municípios dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Tem sido considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, no qual vários de ecossistemas foram destruídos para sempre. A ganância desenfreada das empresas, aliada à sede de lucros auferidos a baixo custo, desconsidera o respeito pela vida dos mais diferentes seres vivos, inclusive dos humanos que vivem e dependem da bacia do rio Doce. Essa catástrofe demonstra como as ambições de um sistema econômico baseado na competição sem regras seguras e mal fiscalizada pode pôr fim às aspirações de populações inteiras. A grandiosidade de uma mineradora contrasta com a precariedade do cuidado à vida.
5 Subsídio litúrgico Litania: Dirigente: Deus de amor, os teus sinais são visíveis ao redor. Nós te reconhecemos no desabrochar das flores, no canto dos pássaros, no cintilar da brisa e em todas as outras manifestações da natureza. Congregação: Senhor, Senhor, eu percebo os teus sinais! Dirigente: Os teus sinais também aparecem nas obras dos teus filhos e filhas que, com amor, realizam ações de solidariedade e de misericórdia ajudando a tua criação a suportar o sofrimento provocado pela ganância dos inescrupulosos. Congregação: Senhor, Senhor, percebo os teus sinais! Dirigente: Os teus sinais revelam os caminhos corretos e denunciam as torpes veredas de morte de quem se ocupa apenas com os próprios interesses. Congregação: Senhor, Senhor, eu percebo os teus sinais! Dirigente: Deus de amor, faz com que nossas ações, atitudes e pensamentos se voltem para a manifestação dos teus sinais de bondade, amor e graça, a fim de que as pessoas possam se firmar em sua humanidade. Congregação: Senhor, Senhor, eu percebo os teus sinais!
Bibliografia SCHMID, Josef. El evangelio según San Marcos. Barcelona: Herder, 1967. BORTOLINI, José. O evangelho de Marcos: para uma catequese com adultos. São Paulo: Paulus, 2003.
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DOMINGO CRISTO REI
PRÉDICA: APOCALIPSE 1.4b-8
25 NOV 2018
JOÃO 18.33-37 DANIEL 7.9-10,13-14
Emilio Voigt
Em Deus podemos confiar
1 Introdução A festa do “Cristo Rei” foi instituída em 1925 pelo papa Pio XI e entrou no âmbito protestante com a adoção do lecionário ecumênico. Há críticas em relação ao nome dado para este, que é o último domingo do calendário litúrgico. Qual mensagem o título “Cristo Rei” estaria transmitindo? O texto previsto para a pregação menciona o trono de Deus e identifica Jesus como o maioral dos reis da terra. As leituras de Daniel e do Evangelho de João igualmente reforçam a ideia de um reinado. Neste sentido, a terminologia do domingo não está distante da perspectiva bíblica e da concepção de exaltação decorrente da fé na ressurreição e ascensão. Entretanto, é necessário explicitar o conceito de reinado. A declaração meu reino não é deste mundo (Jo 18.36) pressupõe dois indicativos importantes: não está sob o nosso controle e se manifesta de forma sui generis. A soberania divina não pode ser comparada ao exercício humano de poder. Não é baseada em privilégios, dinheiro, força ou armas. Dispensando teologias da glória, é concebível falar em Cristo Rei. Jesus é nosso Senhor e Rei porque nos serviu com sua vida, morte e ressurreição. A proposta de delimitação omite a parte inicial do v. 4 provavelmente para que as pessoas ouvintes de hoje não se sintam excluídas. Considerando que o contexto do livro do Apocalipse é relevante para compreender a sua mensagem, proponho integrá-lo à perícope. O Império Romano era o palco no qual o sofrimento e a ousadia de comunidades cristãs se evidenciavam. Esse império tinha sua capital em Roma e abrangia territórios na Europa, Ásia Menor e África. O domínio se expandiu com base em um poderoso e cruel aparato militar. Roma não é citada explicitamente no Apocalipse, mas o enfrentamento com o Império Romano perpassa todo o livro.
2 Exegese v. 4-5a: Sobre João sabemos que era profeta (22.9) e que entendia sua mensagem como profecia (1.3; 22.7,10,18s). Levando em conta a época e o estilo de redação, é muito pouco provável que tenha sido o discípulo de Jesus ou o autor do quarto evangelho. Em todo caso, ele se considera irmão e companheiro nos sofrimentos das comunidades para as quais escreve (1.9). O escrito é endereçado a sete igrejas (comunidades) da Ásia Menor: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira,
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Domingo Cristo Rei
Sardes, Filadélfia e Laodiceia (1.11). As cidades estavam localizadas ao longo de rota comercial, eram estações de correio e, em parte, centros de justiça. A localização atual é a Turquia. Na tradição judaica, o número sete indica totalidade, perfeição, plenitude. Simbolicamente, as sete comunidades seriam a representação do conjunto da igreja. O Cânon de Muratori (por volta de 200 d.C.) menciona que João, ainda que escreva a sete igrejas, está falando para todas. O Apocalipse é classificado como livro, mas os v. 4-8 correspondem a uma introdução de carta, semelhante ao modelo das epístolas paulinas. A estrutura inicial dessas cartas continha menção ao remetente, a pessoas ou comunidades destinatárias e uma palavra de saudação. Graça e paz era uma típica saudação paulina (Rm 1.7; 1Co 1.3; 2Co 1.2; Gl 1.3; Fp 1.2; 1Ts 1.1), o que pode ser indício da influência do apóstolo na região. Paz era saudação característica do povo judeu. Graça remete ao conteúdo central do evangelho de Jesus Cristo. A graça e a paz provêm de Deus, dos sete espíritos e de Jesus Cristo. É algo que pode ser recebido, porém nunca como posse definitiva. Ao ser humano cabe pedir e compartilhar aquilo que recebe. Com base em Êxodo 3.14, Deus é caracterizado – em três tempos verbais – como aquele que é, que era e que virá. A lógica insinuaria o futuro do verbo ser, (é, era, será), porém João utiliza o verbo vir. A escolha do verbo provavelmente tem fundamentação em Daniel 7.13 e no fato de Jesus Cristo ser concebido como aquele que estava para vir (Mt 11.3). Aqui, todavia, o próprio Deus é identificado como aquele que está para chegar. A referência aos sete espíritos (1.5; 3.1; 4.5; 5.6) pode indicar seres celestiais, tais como anjos (8.2). Na tradição judaica há referências a sete arcanjos que poderiam ser equiparados aos sete espíritos. Eles também poderiam corresponder ao Espírito Santo, mas essa interpretação trinitária é igualmente especulação. Não há como saber. Tal como Deus, Jesus Cristo recebe tríplice definição: testemunha fiel, primogênito entre os mortos, soberano (chefe, líder) dos reis da terra. Encarnação, ressurreição e exaltação estão desta forma circunscritas. A designação como “testemunha” remete à atividade de Jesus. Suas palavras e ações foram sinais e testemunhas do reino de Deus. Sua fidelidade culminou com a morte na cruz. A ressurreição marcou a vitória sobre a morte. Nesse sentido, ele é o primogênito – o primeiro – a ressuscitar. Com a ascensão, Jesus foi exaltado e colocado em posição superior à qualquer autoridade humana. Tornou-se rei dos reis e senhor dos senhores (1Tm 6.15; Ap 17.14; 19.16). v. 5b-6: À introdução segue-se uma doxologia (louvor, adoração), elemento comum em salmos e orações, a exemplo do Pai-Nosso. Doxologias são costumeiramente dirigidas a Deus (Sl 41.13; 72.18s; Rm 11.36), mas aqui é direcionada a Cristo, assim como em outros escritos tardios do Novo Testamento (Hb 13.21; 1Pe 4.11; 2Pe 3.18). Seu conteúdo faz referência à obra salvífica: Jesus Cristo nos ama, nos libertou dos pecados, nos constituiu reino e sacerdócio. O amor é a essência da obra salvífica. A libertação dos pecados foi outorgada pela morte na cruz. Diferentemente da teologia paulina e da compreensão luterana da simultaneidade de justiça e pecaminosidade, o Apocalipse parece pressupor que
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já estamos plenamente livres do poder do pecado. A constituição como sacerdócio é resultante da exaltação e evoca Êxodo 19.6: vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. O caráter teocêntrico da função é preservado: o sacerdócio está a serviço de Deus. v. 7: A palavra profética resulta da interpretação cristológica de Daniel 7.13 (vem com as nuvens) e Zacarias 12.10-14 (foi traspassado). Jesus Cristo virá com as nuvens e todas as pessoas o verão, também aquelas que não professam a fé cristã. Chama a atenção que todas as pessoas lamentarão sua vinda. O motivo do lamento não é explicitado. Pode ser manifestação de arrependimento ou de temor em relação ao juízo, mas é mais provável que seja demonstração de compaixão pelo sofrimento ao qual o crucificado foi submetido. v. 8: A metáfora do alfa e ômega, a primeira e a última letra do alfabeto grego, evoca Isaías 44.6: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus. Deus está no princípio e no fim de todas as coisas, abrange tudo, preenche tudo e em seu poder estão todos os acontecimentos. A caracterização de Deus como todo-poderoso (pantocrator) é frequente no livro do Apocalipse (1.8; 4.8; 11.17; 15.3; 16.7,14; 19.6,15; 21.22). Fora dele, aparece somente em 2 Coríntios 6.18. Essa caracterização é uma contestação notória ao culto imperial e à pretensão de controle absoluto do Império Romano.
3 Meditação A prédica pode ser elaborada com base na seguinte estrutura: 1. Identificação Quem escreve: João Para quem: sete igrejas (toda a igreja) 2. Saudação Graça: conteúdo do evangelho Paz: justiça e vida digna 3. Motivação: Quem Deus: era, é, há de vir concede graça e paz Sete Espíritos: estão diante do trono de Deus Jesus Cristo: Fiel testemunha, primogênito dos mortos, soberano máximo 4. Doxologia: Glória e Nos ama domínio a Jesus Nos libertou dos pecados Nos constituiu reino e sacerdócio 5. Profecia: Jesus Cristo Todas as pessoas verão virá Todas as pessoas lamentarão 6. Afirmação: Quem é Alfa e Ômega Deus Aquele que é, que era e há de vir Todo-Poderoso 1. Identificação – João escreve para comunidades que estavam sofrendo perseguições. Provavelmente não havia ataques sistemáticos em todo o Império Romano, mas ações circunstanciais que, todavia, eram cruéis e resultavam em prisão, tortura e execução. Na Ásia Menor ocorreram perseguições brutais sob o imperador Domiciano (81-96 d.C.), sobretudo nos últimos anos do seu reinado.
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Desde Nero (66 d.C.), o cristianismo era considerado superstição ilícita e perigosa. A recusa de prestar culto ao imperador deve ter impulsionado a repressão sob Domiciano. Inicialmente, esse culto consistia na veneração ao imperador falecido, especialmente a César Augusto. Calígula (37-41 d.C.) exigiu devoção também a si próprio. Domiciano foi mais longe. Ele mandou colocar imagens e estátuas de sua pessoa em diversas regiões do império. No templo romano de Éfeso foi erigida uma estátua, cuja dimensão da cabeça equiparava-se à estatura de uma pessoa. A avidez por reverência não parava por aí. Suas leis e ordens costumavam iniciar com as palavras: “nosso senhor e deus” (dominus et deus noster). Nesse contexto, confessar Jesus como “senhor” significava insubordinação política e traição ao imperador. O testemunho de Jesus Cristo e a negação do culto imperial não se limitavam a uma questão litúrgica. Havia concepções e formas de vida divergentes. A fé cristã contém princípios que contradizem regimes políticos e sistemas econômicos baseados em violência, corrupção, injustiça e desigualdade. Há muitos sistemas inconciliáveis com a fé, a exemplo da economia de mercado que propicia riqueza para uma pequena parcela, penalizando a maioria com dificuldades e miséria. A ganância desmedida resulta em agressão à criação e esgotamento dos bens naturais. Muitas vezes a crueldade e os malefícios são camuflados. Convém examinar até que ponto nos acomodamos, nos constrangemos ou nos beneficiamos com práticas e estruturas incompatíveis com a fé. Que tipo de sofrimento o enfrentamento desses poderes pode suscitar? 2. Saudação – O apocalipse foi escrito quando vigorava a assim chamada pax romana, um período de relativa estabilidade nos territórios ocupados. Ameaças externas estavam controladas e indícios internos de insurreições eram suprimidos pelo aparato militar. A paz que João deseja às comunidades não está baseada em força e repressão. O profeta anuncia a paz que decorre da relação com Deus e leva ao esforço pelo bem-estar de todas pessoas. Em sentido bíblico, somente há paz quando se concretizam a justiça e a vida digna. 3. Motivação – Nessa motivação há um chamado a confiar. Apesar da situação de sofrimento, as comunidades podem sentir graça e paz. Mesmo em sensação de impotência e abandono, Deus não está ausente, mas acompanha a vida das comunidades. O imperador tem autoridade limitada porque o poder divino está acima dele. 4. Doxologia – A doxologia é um louvor e também uma declaração daquilo que Cristo fez e continua fazendo. A afirmação de que ele nos ama está no tempo presente para assinalar processo contínuo, que não se limita a uma ação singular ou a um período determinado. Por outro lado, a libertação dos pecados e a constituição como sacerdócio são ações específicas que, todavia, contêm perspectiva ininterrupta. A libertação dos pecados significa, em primeiro lugar, que a natureza pecaminosa não é um entrave. Deus nos aceita apesar de sermos pessoas pecadoras. O apóstolo Paulo diria: Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5.8). Em segundo lugar, a libertação dos pecados diz respeito aos atos pecaminosos que
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cometemos. Também desses eventos circunstanciais carecemos reiteradamente de libertação. A nossa constituição como sacerdócio não acontece por merecimento, mas pela obra de Jesus Cristo. Não há meritocracia. Quem usa tal terminologia somente pode apontar para os méritos de Cristo. Essa obra em nosso benefício tem três implicações: acaba com as hierarquias, nos aproxima de Deus e nos coloca ao seu serviço. Não há pessoa que esteja mais próxima de Deus ou que seja mais importante dos que as outras. Todas são iguais. A comunidade toda é elevada à posição sacerdotal e toda a comunidade participa de igual forma do sacerdócio. Todavia, é necessário ressaltar que não recebemos um cargo, e sim uma função. O sacerdócio está a serviço de Deus no mundo e se efetiva em ações do dia a dia. Na prédica se pode apontar para a concepção luterana de sacerdócio geral, que tem também aqui a sua base. 5. Profecia – Com a vinda de Cristo, a soberania de Deus se estabelecerá completamente. Essa esperança perpassa todo o livro do Apocalipse. Nós igualmente vivemos na esperança de algo totalmente diferente – um novo céu e uma nova terra. Mas como preservar a paciência se a espera já dura quase dois mil anos? Como manter a confiança quando se tem a impressão de que as coisas pioram? Tal como uma praga, o mal se dissemina sobremaneira. Como manter a confiança quando parece não haver alternativas para a situação do país ou para a conjuntura global? Na época de Domiciano, havia pessoas obcecadas pelo poderio militar romano. Imaginava-se que ninguém seria capaz de vencê-lo (Ap 13.4), mas também esse impressionante império teve seu fim. Neste sentido, podemos nutrir a esperança. A espera não consiste num permanente olhar para cima. O céu não precisa ser buscado na longitude do firmamento. Ele já se manifesta no decurso que me aproxima das pessoas, especialmente daquelas que necessitam. 6. Quem é Deus? Deus age no passado, no presente e no futuro. O alfabeto grego possui 24 letras, assim como o dia tem 24 horas. Com isso a metáfora expressa que Deus é o início e o fim do tempo e da história. Para o cristianismo, somente Deus é o pantocrator (todo-poderoso, onipotente). Poder geralmente é associado com força e riqueza, e muitas vezes é exercido para oprimir e matar. O poder de Deus, por outro lado, não é arbitrário e despótico. Sua função é criar, proteger e manter a vida. A onipotência de Deus só pode ser entendida a partir do amor e do serviço. Nossos tempos são marcados por transformações rápidas e intensas. Tudo parece ser relativo e as verdades parecem não mais constituir referência. É difícil saber ou mesmo acreditar que existe verdade. Talvez por isso o termo “pós-verdade” esteja tão em voga. O texto de pregação aponta para uma verdade absoluta que permanece como fundamento da nossa fé: Deus era, Deus é, Deus virá. Em Deus podemos confiar.
4 Indicações para a prédica – Preparar um envelope grande, com várias folhas dentro, como se fosse o escrito de João.
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– Iniciar a prédica dizendo que recebemos uma mensagem, que será o tema da reflexão. – Sem abrir o envelope, ler o remetente. Falar um pouco sobre o profeta, mencionando que está preso na ilha de Patmos por causa do testemunho de Jesus Cristo (Ap 1.9). – Ler o nome das sete comunidades destinatárias, mencionando que elas representam o conjunto da igreja da época. Descrever brevemente o contexto de perseguição sob Domiciano. – Explicar que, como palavra de Deus, o escrito também se destina à nossa comunidade. – Abrir o envelope, ler o texto de pregação e seguir com a reflexão.
Bibliografia LICHTENBERGER, Hermann. Die Apokalypse. Stuttgart: Kohlhammer, 2014. WEGNER, Uwe; VOIGT, Emilio. Apocalipse: manual de estudos. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2013.
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TEMA DO ANO 2018 Igreja. Economia. Política. Lema do ano 2018: Eu sou o SENHOR, teu Deus (Êxodo 20.2a).
Por que este tema? Igreja. Economia. Política. Por que a IECLB escolheu estas três palavras para compor o tema do ano de 2018? O que Igreja tem a ver com Economia e Política? Quem na história da Igreja relacionou essas três palavras? E por quê? Deus viu que era muito bom tudo aquilo que havia criado (Gn 1). O ser humano foi colocado num belo espaço para viver. Tinha liberdade e podia cooperar com Deus. O ser humano, porém, rompeu com Deus e caiu em pecado (Gn 3). Deus, por seu lado, não desiste do ser humano e, em Jesus Cristo, promove reconciliação (Rm 5.10). Tal ato de Deus faz de nós seus cooperadores e suas cooperadoras (2 Co 6.1). E é nesse encontro entre ação de Deus e cooperação humana que Martim Lutero identifica e descreve a relação entre Igreja, Economia e Política. Para ele, estes três âmbitos da vida são ordens da criação divina e podem ser também denominados de hierarquias ou estamentos: “A Bíblia fala e ensina sobre as obras de Deus, a respeito do que não há dúvida; essas, no entanto, estão divididas em três hierarquias: Economia, Política e Igreja” (Bayer, 2007, p. 88). A comemoração dos 500 anos da Reforma renovou o interesse por temas fundamentais da tradição evangélico-luterana. Com o tema do ano 2018 trazemos à tona esta temática da Reforma por entendermos que continua relevante e é oportuna no atual cenário brasileiro e mundial.
O que são as ordens da criação? Lutero fala de Economia, Política e Igreja a partir de três funções consideradas essenciais para a organização social em sua época: alimentar, proteger e ensinar. As duas primeiras funções têm origem em um antigo conceito de sociedade baseado nos âmbitos privado e público. A casa, chamada de oikos na língua grega, era o âmbito privado e a unidade básica de produção. Oikos abrangia a casa propriamente dita e tudo aquilo que estava vinculado a ela: as pessoas com laços de parentesco, empregadas e empregados, propriedades, animais. A partir do oikos surgiu a Economia (oikonomia), que era essencialmente agrária. O âmbito público era determinado pela cidade, chamada de polis. A polis tinha função administrativa e jurídica e era composta por vilarejos e territórios. Do termo grego polis se originou a palavra Política. A Política tem a ver com a organização do espaço público, mas também tem influência no âmbito privado.
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A Igreja (ecclesia), com a função de anunciar e ensinar, foi acrescentada mais tarde a este esquema grego de sociedade. Considerando as funções de alimentar, proteger e ensinar, é possível dizer que: • A responsabilidade de alimentar estava a cargo das pessoas agricultoras e artesãs. Este era o âmbito da Economia, a produção baseada no oikos. • A responsabilidade de proteger era atribuição dos membros da nobreza. Aqui temos o âmbito da Política, a organização da polis. • A responsabilidade de ensinar cabia ao clero, e este é o âmbito da Igreja, a ecclesia.
Na Idade Média, esta determinação de funções se manifestava numa organização social de classes separadas e profundamente desiguais: membros do clero, pessoas nobres e povo comum. Lutero, entretanto, entendia que Igreja, Economia e Política não formam categorias isoladas e sobrepostas. De acordo com o reformador, Deus organiza a existência humana em Igreja, Economia e Política, e todo ser humano, particularmente a pessoa cristã, participa de igual forma nos três âmbitos. Um âmbito não é mais sagrado ou mais profano, mais espiritual ou menos espiritual do que o outro. As três ordens da criação são modos pelos quais Deus atua e através dos quais o ser humano, pela fé, coopera com Deus para o melhoramento do mundo.
A Igreja A Igreja é instituída sem muros e sem qualquer pompa, num lugar amplo e agradável. Essa é a instituição Igreja, antes que houvesse organização econômica e política (...). [...] institui-se a Igreja antes de existir uma Economia doméstica. Pois, aqui, o Senhor prega a Adão e lhe apresenta uma palavra (OSel, v. 12, p. 134-136). Segundo Lutero, em sua forma originária a Igreja consistia basicamente na Palavra que Deus dirige ao ser humano e na resposta de gratidão que Deus dele espera. No paraíso, Deus deu ao ser humano a Palavra e o culto em sua forma mais pura e simples. A árvore da vida pode ser interpretada como lugar de
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culto onde Deus serve com sua Palavra e o ser humano responde em gratidão e obediência. Por isto é que Lutero também parte do pressuposto de que cada pessoa possui um conhecimento natural a respeito de Deus. E é por isto que a Igreja podia existir antes mesmo de Jesus Cristo. A Igreja é a ordem primordial, da qual procedem as outras duas. Para Lutero, o fato de a Igreja vir em primeiro lugar era um “sinal que o ser humano foi criado com um propósito diferente dos demais seres vivos” (OSel, v. 12, p. 135). O ser humano foi criado para louvar a Deus e observar a sua Palavra aqui na terra, o que requer que providencie o necessário para a sua Economia (produção, reprodução e cuidado da vida). Depois de viver agradavelmente na terra, seria transferido para a eternidade.
Economia Depois da instituição da Igreja, organiza-se também o regime doméstico, quando se dá Eva a Adão como parceira (OSel, v. 12, p. 134). Portanto, depois que se estabeleceu a Igreja, também se confiou a organização econômica a Adão no paraíso (OSel, v. 12, p. 135). Depois da Igreja, foi instituída a Economia para proporcionar o sustento da vida. A esta ordem pertencem todas as conexões familiares, bem como o esforço do ser humano para obter os seus meios de vida e o propósito de propagação da espécie. A Economia (oikonomia) engloba matrimônio, família e todas as relações de produção e de reprodução fundamentadas na casa (oikos). De acordo com Lutero, é a partir do matrimônio que surgem a vida e o seu sustento. Por isto o matrimônio e a família constituíam a base da Economia. Sob esta ótica, o quarto mandamento era considerado o maior dentre os que se referem à vida terrena. Na compreensão de Lutero, Igreja e Economia subsistiam em sua forma ideal no paraíso. O ser humano, criado à semelhança de Deus, recebeu autonomia para organizar sua vida. Deus esperava apenas que o ser humano o louvasse, se alegrasse nele e lhe obedecesse, sendo seu cooperador. Porém, em vez de viver responsavelmente a sua liberdade, o ser humano caiu em pecado. Afastou-se da vontade de Deus. Com a queda no pecado, a natureza humana foi corrompida. A produção e a reprodução perderam seu ambiente natural e a Economia foi igualmente pervertida. Com isto surge a necessidade de uma terceira ordem: a Política.
Política Tampouco houve organização política antes do pecado, porque não era necessária. Pois a organização política é o remédio necessário para a natureza corrompida (OSel, v. 12, p. 134). Após a queda, a liberdade do ser humano se transformou em poder que ameaça a vida. Por este motivo Deus instituiu a Política como uma disposição emergencial. A Política tem sua expressão no poder coercitivo e punitivo do Estado, cuja tarefa é manter a ordem e proteger contra a corrupção. Ao mesmo
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tempo, a Política tem a função de promover a justiça econômica: “Precisamos de soberanos e autoridades que tenham olhos e ânimo para instaurar e manter a ordem em todos os negócios e transações comerciais, para que os pobres não sejam sobrecarregados e oprimidos, tendo que arcar com pecados alheios” (Catecismo Maior, p. 64). Lutero não compreendia a Política apenas como mal necessário ou poder coercitivo. Ele reconhecia que Deus criou as pessoas para que se relacionassem de forma amistosa e pacífica. A partir desta predisposição para a organização social, a Política é também um elemento constitutivo e garantidor da existência humana. E isto faz com que cada ser humano participe da Política, seja como cidadão ou como pessoa que desempenha um cargo político.
As ordens da criação em nosso contexto O ensino de Lutero sobre as três ordens da criação se refere a um estado ideal que não existe mais. A natureza humana foi corrompida pelo pecado e, com isto, também as ordens da criação estão corrompidas. Ainda assim, todas elas permanecem sob a promessa de Deus e continuam sendo os âmbitos nos quais Deus atua e institui a existência humana. Deus oferece a possibilidade de reconciliação e de recomeço. A iniciativa divina de reconciliação teve sua expressão máxima na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Através da fé em Cristo, Deus nos chama e capacita para uma nova existência (2 Co 5.18-21). A nossa configuração social é diferente e mais dinâmica que a sociedade da época medieval. A base da Economia mudou e a Política ganhou configurações diversas, inclusive com enorme desgaste e falta de credibilidade. A estrutura mais ou menos rígida das três ordens está ultrapassada, mas os desafios éticos permanecem válidos. Em termos de função básica ideal podemos dizer que a Igreja ensina a Palavra de Deus, a Economia sustenta a vida e a Política protege a vida. A concepção de Lutero interligou âmbitos que eram considerados desiguais, separados e sobrepostos. Para o reformador, Deus age mediante as três ordens, e todas as pessoas se colocam a serviço de Deus nas três ordens. Esta é uma indicação importante para nós: cada pessoa é chamada a atuar com Deus nestes três âmbitos da vida.
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A Igreja não se define pelo templo ou pela denominação. Igreja é o conjunto das pessoas que se congregam por causa da Palavra de Deus e dos sacramentos. Na compreensão luterana, cada pessoa é chamada a ouvir o Evangelho, responder com gratidão e alegria, reunir-se em comunidade, contribuir com recursos e dons, e dar testemunho da vontade de Deus no contexto em que vive. Lutero compreende esse testemunho como cooperação com Deus para o melhoramento do mundo. O que esta definição de Igreja significa para a nossa comunidade, paróquia, sínodo? Os modelos de Economia hoje vigentes são caracterizados por concentração de bens e renda, exploração de mão de obra, esgotamento e degradação dos bens naturais. Avaliando a sua realidade, Lutero não teve dúvidas em denunciar: “[...] alguns vendem sua mercadoria acima da cotação da praça”; “existem os que compram todo o estoque [...] para tê-lo em seu exclusivo poder e então poderem fixar o preço”; “como é possível [...] que um homem fique rico em tão pouco tempo, a ponto de conseguir comprar reis e imperadores?” (OSel, v. 5, p. 390, 397). Em que se diferencia a nossa Economia? Que testemunho nos cabe em favor de modelos econômicos que sustentem a vida? Considerando que os bens naturais são finitos, que mudanças são necessárias para garantir as condições de vida das gerações futuras? A tarefa da Política consiste em punir o mal, ordenar a convivência e proteger a vida, promovendo uma Economia pautada pela justiça. A Política jamais deve se tornar instrumento para a prática do mal e a obtenção de privilégios pessoais. Na explicação do Cântico de Maria, Lutero enfatiza: “Enquanto a terra existir, tem que haver autoridade, governo, poder e tronos. Mas Deus não tolera por muito tempo que abusem deles e os usem em oposição a ele, para praticar injustiça e violência” (Lutero, 2015, p. 63). A partir da compreensão de que a Política é um âmbito necessário e que dele somos parte natural, cabe-nos a tarefa de avaliar ações políticas e trabalhar para a superação de confrontos e polarizações inadequadas. A teologia evangélico-luterana oferece subsídios significativos para
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contribuir na definição do papel da Política como meio de proteção da vida, promovendo paz e justiça. Conseguiremos dar esse passo diferenciado?
Lema do ano: Eu sou o SENHOR, teu Deus (Êxodo 20.2a) Ao caminhar pela cidade de Atenas, o apóstolo Paulo constatou que ali eram adorados muitos deuses. Havia um altar com a inscrição: “AO DEUS DESCONHECIDO”. Paulo aproveitou para afirmar: Esse Deus que vocês adoram sem conhecer é justamente aquele que eu estou anunciando (At 17.23). Quem é esse Deus? Quinze séculos depois, Martim Lutero constatou que a questão do apóstolo precisava ser retomada. Porque Deus criou todas as coisas, o ser humano teria condições de conhecer algo de Deus (Rm 1.18-21). O problema é que esse conhecimento natural de Deus foi corrompido pelo pecado. Após a queda (Gn 3), a razão humana pode apenas reconhecer que existe Deus, porém não conhece quem é Deus: “O principal que se perdeu na alma é o conhecimento de Deus, que não lhe rendemos graças em toda parte”, constata o reformador. Quem é Deus? O lema deste ano contribui para responder esta pergunta. Após o livramento da escravidão do Egito (Êx 14ss), a caminho da terra que mana leite e mel (Êx 3.8), o grupo hebreu saciava sua fome e sede com o que Deus lhe provia (Êx 16-17). Para consolidar a liberdade alcançada, Deus estabeleceu um pacto: Se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade peculiar dentre todos os povos (Êx 19.5). Que promessa! Que perspectiva de vida! A melhor possível. Mas os fatos demonstram que a efetivação dessa perspectiva não foi (e não é!) tão simples assim. Deus ensinava o povo através de Moisés, que se retirava para o alto de um monte a fim de receber as orientações divinas. O primeiro conjunto de leis que Deus anunciou inicia com uma afirmação: Eu sou o SENHOR, teu Deus (Êx 20.2). Esta expressão é recorrente no contexto do Êxodo (Êx 6.2,8). É afirmação repetida e pela qual Deus diz quem ele é. Ao receber outro conjunto de leis (Êx 24.12ss), Moisés demorou para retornar. Por isto o grupo decidiu moldar deuses para irem à sua frente (Êx 32.1-4). Com esse gesto, o povo deixou de confiar em Deus e praticou idolatria. A idolatria não consiste na mera fabricação de ídolos, mas na confissão de que teriam sido eles que o libertaram da escravidão. A este povo, que não compreende a sua liberdade e a sua vocação, Deus afirma: Eu sou o SENHOR, teu Deus! Quem sou eu? Fui eu que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão. Essa é a razão pela qual não terás outros deuses diante de mim (Êx 20.2-3). Em meio a altares já existentes e outros tantos novos criados, Deus revela quem ele é. É Deus que liberta e caminha com seu povo. É insuficiente dizer que Deus existe. É necessário afirmar quem é Deus. E, para Lutero, o primeiro mandamento é o mais importante, pois Deus representa aquilo do qual se pode esperar todo o bem. Neste mandamento, Deus está dizendo: “Deixe somente eu ser seu Deus e nunca procure nenhum outro, ou seja, o que lhe fizer falta, espere-o de mim, procure-o junto a mim. E quando você estiver passando por infortúnio
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e aperto, arraste-se para junto de mim e fique comigo, EU é que lhe darei o suficiente e ajudarei em toda necessidade” (Catecismo Maior, p. 26). Deus se fez humano em Jesus Cristo. A vida, morte e ressurreição de Cristo revelam quem é Deus: um Deus misericordioso que oferece perdão, justificação e uma nova oportunidade (Mc 14.24). Pela reconciliação em Cristo e sua resposta de fé, o ser humano é nova criatura (2 Co 5.17), chamada a atuar em cooperação com Deus nos três âmbitos da vida. Pela força do Espírito Santo, que cria comunhão, orienta e promove o testemunho, o ser humano atua a serviço de Deus para o melhoramento do mundo. Igreja (que ensina a Palavra de Deus), Economia (que organiza a produção e a distribuição justa dos meios de sustento da vida) e Política (que zela pela boa convivência humana) são os instrumentos que Deus usa para evidenciar quem ele é e o que ele quer. Na argumentação de Lutero, Igreja, Economia e Política são utilizadas por Deus para efetivar sua vontade no mundo por ele criado. Numa perspectiva cristã, nisto podemos confiar e em favor disso nos empenhamos, pois é Deus quem diz: Eu sou o SENHOR, teu Deus!
Bibliografia para aprofundamento BAYER, Oswald. A Teologia de Martim Lutero: uma atualização. São Leopoldo: Sinodal, 2007. LUTERO, Martim. Catecismo Maior. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012. LUTERO, Martim. Magnificat – O louvor de Maria. São Leopoldo: Sinodal; Aparecida: Santuário, 2015. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1995. v. 5. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2014. v. 12. WESTHELLE, Vítor. Poder e Política – Incursões na teologia de Lutero. In: HELMER, Christine (Ed.). Lutero: um teólogo para tempos modernos. São Leopoldo: Sinodal, 2013. p. 315-331. Presidência da IECLB
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – 42 A ceia do Senhor – O sacramento do altar ..........................................................................34, p. 369 Advento – Celebração .........................................................................................................29, p. 325 AIDS – Um grande desafio ................................................................................................XV, p. 304 Ação de graças .............................................................................. XII, p. 300; 20, p. 322; 33, p. 394 Ação de graças pela colheita ...................... 32, p. 212; 34, p. 371; 35, p. 370; 36, p. 365; 37, p. 348 Achados e perdidos – experiências ................................................................................ XVII, p. 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) ...........IX, p. 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ....................... X, p. 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) .......................................................IX, p. 83 As três primeiras petições do Pai-Nosso .............................................................................39, p. 359 A velhice ...............................................................................................................................VI, p. 43 Batismo, alocução para ......................................................................................................26, p. 357 Batismo, culto de ............................................................................21, p. 327; 24, p. 358; 27, p. 299 Bênção matrimonial .........................................................................................XIX, p. 310, 317, 319 (Jr 29.13) .............................................................................................................................20, p. 351 (Ct 8.7) ................................................................................................................................20, p. 353 (Ec 4.9-12) ..........................................................................................................................21, p. 329 (Ct 1.2-3) ...........................................................................................................21, p. 332; 22, p. 311 Bíblia e arte ..........................................................................................................................XV, p. 77 Breve exortação à confissão ................................................................................................39, p. 375 Cadê a mulher? (Jz 5.24-31) .................................................................................................. X, p. 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ................................................................................IX, p. 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..............................................................................VI, p. 40 (Sl 133.1-3) .........................................................................................................................22, p. 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ........................ XII, p. 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) .................... X, p. 84 Componentes éticos da organização popular ................................................................. XVII, p. 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16)......................................................................................................... X, p. 11 Confirmação (Fp 3.12-16).................................................................................................... II, p. 187 (Dt 30.11-20) ...................................................................................................................... VIII, p. 23 (Jo 6.66-69) ....................................................................................................................... XII, p. 293 (Mt 5.14-16) ........................................................................................................................20, p. 339 (Ap 1.9-18)........................................................................................................................ XX, p. 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) .................................................... XII, p. 51 Contribuição para a igreja – Pago para ter (2Co 8.1-5) ..................................................... XIII, p. 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ................................................IX, p. 107 Culto como evento celebrativo ........................................................................................... XIV, p. 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) .................................................21, p. 309 Culto em época de eleição (1Sm 11.1-15) ............................................................................V, p. 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) .........................................................................................20, p. 346 Culto eucarístico (alocução para)........................................................................................23, p. 237 (Lc 22.14-15) ......................................................................................................................20, p. 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ................................................................................22, p. 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1Co 8.2) .................................................... XIII, p. 42
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Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ........................................... XII, p. 27 Deus na marginalidade .........................................................................................................XVI, p. 9 Dedicação de templo ...........................................................................................................26, p. 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8) ................................................................................................24, p. 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .....................................................................................I, p. 68 (Jo 4.31-38) .......................................................................................................................... II, p. 256 (Ec 3.1-8) ..............................................................................................................................VI, p. 48 (1Tm 4.4-5) ...................................................................................................................... XIII, p. 298 (Mt 13.24-30,36-43)...................................................................................................... XVIII, p. 289 Dia da Colheita (2Co 9.6-15) ................................................................................................V, p. 323 (Dt 26.1-11) .........................................................................................................................20, p. 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .................................................................................................V, p. 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ......................................................................................34, p. 353 (Fp 3.20-21) .......................................................................................................................... I, p. 143 (1Co 15.50-58) ................................................................................................................... III, p. 176 (1Co 15.35-39,42b-44)..........................................................................................................V, p. 256 (Mt 22.23-33) ................................................................................................................... VIII, p. 336 (2Pe 3.8-14).................................................................................................................... XVII, p. 237 (Jo 5.24-29) ................................................................................................................... XVIII, p. 267 (1Co 15.12-20) .................................................................................................................... 32, p. 311 (Is 35.1-10)..........................................................................................................................35, p. 347 (1Ts 4.13-18) .......................................................................................................................36, p. 335 Dia da Independência (1Pe 2.13-17) ......................................................................................I, p. 109 (1Tm 2.1-4) .......................................................................................................................... II, p. 336 (Mc 12.13-17) .....................................................................................................................III, p. 138 (Hb 13.12-16)........................................................................................................................V, p. 205 (Mt 6.9-13) ..........................................................................................................VI, p. 53; 20, p. 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...............................................................................................XIX, p. 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) ...................................................................................................I, p. 125 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................................... II, p. 383 (Rm 3.19-28) .......................................................................................................................III, p. 169 (Mt 5.1-10) .......................................................................................................................... IV, p. 212 (Ap 14.6-7)............................................................................................................................V, p. 249 (Mt 10.26b-33) ....................................................................................................................VI, p. 291 (Is 62.1-12)....................................................................................................................... VIII, p. 331 (Mt 10.26b-33) ................................................................................................ XII, p. 268; 34, p. 347 (Gl 5.1-6)........................................................................................................XIII, p. 267; 35, p. 341 (Fp 2.12-13) .......................................................................................................................XV, p. 282 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................... XVII, p. 225 (Mt 5.1-10) ..........................................................................................................................32, p. 307 (Jr 31.31-34)........................................................................................................................36, p. 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...........................................................................................XV, p. 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..........................................................................................III, p. 62 (2Ts 3.6-13) .............................................................................................................................V, p. 97 Dia do Trabalho (1Co 7.29-32a) .......................................................................................... II, p. 213 (Ez 34.1-2 (3-9), 10-16, 31) ................................................................................................VI, p. 170 (Tg 5.1-6) ......................................................................................................................... XIII, p. 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ...................................................................................................21, p. 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) ........................................................................................21, p. 316 Domingo de Louvor através da Música ............................................................33, p. 401; 37, p. 353
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Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])......... XII, p. 307 (Ap 3.14-22)..................................................................................................................... XIII, p. 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16) .................................................20, p. 309; 36, p. 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, p. 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ............................................... X, p. 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ......................... XII, p. 34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ............................................................................... XIII, p. 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..............................IX, p. 15 Epifania, reflexões para o período de ..................................................................................27, p. 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ................................................................................................VI, p. 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).........................................................................................VI, p. 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..............................................................................................VI, p. 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) .......................................................................................VI, p. 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) .......................................................................................IX, p. 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ....................................................................XVI, p. 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ..................................................................... XIV, p. 60 Exercício homilético ........................................................................................................... XII, p. 91 “E viu Deus que isto era bom...” ...................................................................................... XIV, p. 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .......................................... X, p. 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ......................................................................................30, p. 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) .......................................................................XI, p. 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ....................................................... XIII, p. 80 (Is 65.17-25)........................................................................................................................20, p. 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).....................................................XI, p. 20 Hermenêutica feminista latino-americana ....................................................................... XIV, p. 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .......................................................................................... XIII, p. 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) ...................................... XII, p. 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ....................................................................... XIII, p. 312 Introdução a Dêutero-Isaías ............................................................................................... VIII, p. 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .......................................................... X, p. 74 Joga limpo, Brasil ...............................................................................................................38, p. 363 Jubileu 500 anos da Reforma ..............................................................................................38, p. 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ................................... XVII, p. 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..............................................XV, p. 71 La lucha por la tierra en el Paraguay ...................................................................................XV, p. 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .........................................................................................XV, p. 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) ................................................................ XII, p. 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1Jo 3.13-18) .....................................................................IX, p. 57 Lutero e a educação.............................................................................................................41, p. 345 Lutero e a música ................................................................................................................40, p. 335 Marketing e igreja ...................................................................................................................24, p. 7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...........................................................XI, p. 77 Meditação sobre a oração ...................................................................................................31, p. 303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) .........................V, p. 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..........................................................V, p. 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..........................................XI, p. 65 Missão (1Co 12)................................................................................................................. XIII, p. 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10) .... X, p. 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ............................ X, p. 106 Mulheres agricultoras.........................................................................................................XVI, p. 15
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Mulheres na Reforma Protestante .......................................................................................40, p. 341 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1Co 1.26-31) ..............................................IX, p. 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ....................................................... X, p. 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .......................................... II, p. 176 Lucas ................................................................................................................................... X, p. 139 João ..................................................................................................................................... VIII, p. 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ............................................................ XII, p. 34 O desafio de ser autor de PL ................................................................................................XV, p. 12 O ecumenismo na formação de lideranças...........................................................................XV, p. 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .............................XV, p. 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .......................................... X, p. 48 O Lecionário Ecumênico ...................................................................................................XV, p. 315 O nosso Pai que está no céu ................................................................................................39, p. 351 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..........XV, p. 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ............................................................................. XII, p. 11 Pago para ter (2Co 8.1-15) ................................................................................................. XIII, p. 18 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade .....................................................................................39, p. 364 Palavra e pregação em Lutero .............................................................................................40, p. 348 Pastoral Ecumênica de Periferia ........................................................................................ XIV, p. 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1Jo 4.1-6) ..............................IX, p. 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (Jo 11.17-37) .........................................................22, p. 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ....................................................... XII, p. 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ....................28, p. 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ..................................................................... X, p. 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .........................................................VI, p. 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1Pe 2.15-17) ....................................................VI, p. 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21).................................................VI, p. 19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ................................................................... XIII, p. 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)................................................................IX, p. 50 Quem não faz política sofre política (1Rs 12.1-15) ..............................................................XI, p. 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...............................................................XVI, p. 21 Ressurreição de que e para quê? (1Co 15.35-38) .............................................................. XIII, p. 29 Roteiro para encontros de preparação visando à ordenação ao pastorado junto à IECLB ...31, p. 307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).............................................................XI, p. 85 Semana do excepcional .................................................................................................. XVII, p. 264 Semana dos povos indígenas ..............................................................................................24, p. 347 Sepultamento..............................................................XIX, p. 321, p. 323, p. 325, p. 327; 22, p. 240 (Jo 6.28-40) .........................................................................................................................20, p. 355 (Jo 19.25-27) .......................................................................................................................20, p. 360 (Sl 39.5-7) ...........................................................................................................................20, p. 362 (Sl 142.1-2,5a) ....................................................................................................................21, p. 336 (Ec 3.1-8) ............................................................................................................................28, p. 365 Servo-arbítrio / livre-arbítrio...............................................................................................40, p. 329 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1Co 12.20-26) ......................................................................................................................XI, p. 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ..................................................................IX, p. 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém ................................................................................................................XVI, p. 37 Tema e Lema da IECLB 2017 …........................................................................................41, p. 339
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Tema e Lema da IECLB 2018 …........................................................................................42, p. 343 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ...........................20, p. 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10,14) ........................................................... XII, p. 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...............................................IX, p. 63 Trabalhando com agricultores sem terra ............................................................................ XIV, p. 78 Trabalho com agricultores assentados ............................................................................... XIV, p. 20 Trabalho com idosos ..................................................................................................... XVIII, p. 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...............................................................................XI, p. 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram ......................................................... XIV, p. 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ................................................XI, p. 9 Vida está em perigo: socorro! (Gn 2.8-15) ........................................................................ XIII, p. 74 Vigília pascal ....................................................................................................................XVI, p. 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ............................................................................................ XII, p. 61
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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – 42 ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ....................... VIII, p.185 1.26-31; 2.1-3 .................................... III, p. 105 2.4-15 ................................................ 28, p. 301 2.4b-15 ..............................V, p. 330; 35, p. 211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ........ 30, p. 66; XVIII, p. 84; ......................................... 35, p. 127; 40, p. 150 2.8-15 ............................................... XIII, p. 74 2.18-24 ...........................22, p. 254; 25, p. 282; ........................................................... 33, p. 343 3.1-9 .................................................XII, p. 170 3.1-19(20-24) ................................... 25, p. 214 3.1-24 ................................................VI, p. 133 3.8-15 ................................................ 39, p. 195 4.1-16 ..........................VII, p. 203; XIII, p. 246 8.1-13 ...............................................XV, p. 135 8.15-22 .........................................I, p. 71; p. 78 11.1-9 ........................ XII, p. 205; XVII, p. 130 12.1-4 ............................................ XVIII, p. 88 12.1-4a .......................... VII, p. 165; 38, p. 125 15.1-6 ............26, p. 256; 34, p. 283; 40, p. 231 17.1-13 ................................................ 27, p. 40 18.1-10a(10b-14) ............ 20, p. 208; 37, p. 223 18.20-21(22),23-32 ........................... 20, p. 214 21.8-21 ............................................. XIII, p. 60 22.1-13 ..............................................VI, p. 144 22.1-14(15-18) .................................... 22, p. 65 28.10-17(18-22) .................................. 22, p. 71 32.23-31 ........................................XVII, p. 240 32.23-33 .....................................II, p. 207(374) 50.15-21 .........................24, p. 272; 27, p. 240; ......................................... 35, p. 295; 38, p. 284 Êxodo 1.8-22 ............................................... IX, p. 107 2.1-10 ................................................ 28, p. 181 3.1-14 ...............................................XII, p. 154 3.1-8,13-15 ........................................ 26, p. 108 6.2-8 .......................... XVIII, p. 218; 30, p. 214 12.1-14 ............................ 21, p. 108; 40, p. 109 13.20-22 .............................................. 25, p. 46 16.1-5(6-11),12-21(22-30) ................ 28, p. 276 16.2-4,9-15 ........................................ 36, p. 251 16.2-3,11-18 ....................................XIV, p. 283 19.2-8a ............................................. 21, p. 176 20.1-3(4-6),7-8(9-11),12-17 ................ 22, p. 75
20.1-17 .............................................. 42, p. 101 22.21-27 ............................................ 21, p. 280 24.1-11 ............................ 32, p. 123; 38, p. 146 24.3-11 ......XVI, p. 224; 25, p. 164; 28, p. 272 24.12,15-18 ........................ 21, p. 78; 32, p. 79 32.7-14 ......... XV, p. 225; 23, p. 177; 37, p. 272 33.18-23 ............................................VI, p. 102 34.4b-10 .........................III, p. 153; XV, p. 273 34.29-35 ............................ 25, p. 123; 37, p. 87 Levítico 19.1-2,9-18 ........................................ 38, p. 101 Números 6.22-27 ................33, p. 58; 36, p. 48; 40, p. 48 11.11-12,14-17,24-25 ..................... VIII, p. 205 11.24-30 .......................... 32, p. 169; 41, p. 196 12.9-16 ...............................................XII, p. 18 21.4-9 ........ VII, p. 101; XIII, p. 159; 22, p. 80; ......................................... 33, p. 146; 39, p. 114 24.15-19 ...........................................XV, p. 120 Deuteronômio 4.1-2,6-8 .......................... 22, p. 235; 36, p. 274 4.32-34,39-40 ................................... 27, p. 148 5.12-15 .............................. III, p. 43; 38, p. 171 6.1-9 .................................................. 33, p. 373 6.4-9 ............................XV, p. 246; XIX, p. 164 7.6-12 ................................................VI, p. 219 8.6-10 .................................................XII, p. 11 8.7-18 ................................................ 37, p. 348 10.12-22 ............................................ 26, p. 336 11.18-21,26-28 ................ 21, p. 164; 32, p. 184 17.14-20 .............................................XII, p. 51 18.15-20 ..........XIX, p. 67; 31, p. 57; 33, p. 92; ............................................................. 39, p. 81 24.14-15 ..............................................IX, p. 63 26.1-11 .............................. 33, p. 394; 40, p. 81 26.3-11 ................................................ 26, p. 91 30.9-14 .............................................. 34, p. 257 30.11-20 ........................................... VIII, p. 23 30.15-20 ............................ 34, p. 303; 35, p. 93 32.36-39 .............................................. 23, p. 79 34.1-12 ............................XVII, p. 74; 29, p. 77 Josué 1.1-9 ...................................................VII, p. 36 8.1-8 ...................................................XII, p. 61 24.1-2a,13-25 .................. III, p. 117; 39, p. 262
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Juízes 4.1-7 .................................................. 32, p. 319 5.24-31 ................................................. X, p. 37 9.7-15 ..................................................IX, p. 98 Rute 1.1-19a .............................................. 29, p. 289 1 Samuel 2.1-10 .................... II, p. 176 (343); VII, p. 113 2.18-20,26 ........................................... 40, p. 43 3. 1-10(11-20) ..................................... 42, p. 64 3.1-10(19).........................XIX, p. 55; 31, p. 44 3.1-10,19 ............................................. 25, p. 86 11.1-15 ................................................V, p. 337 2 Samuel 7.1-11,16 ............................................ 36, p. 24 7.4-6,12,14a,16 ................................... 25, p. 35 11.26-12.10,13-15 ..........29, p. 199; 34, p. 231; ........................................................... 40, p. 189 12.1-10,13-14 ....................................IX, p. 264 12.1-10,13-15a .................................XV, p. 261 1 Reis 3.5-12 .............................. 24, p. 240; 32, p. 236 3.16-28 .............................................. 30, p. 143 8.(21-23,27-30)41-43 ....................XVII, p. 141 8.22-24,26-28 ....................................VI, p. 189 8.22-30 .............................................XII, p. 191 8.41-43 .............................................. 29, p. 188 17.8-16 ....... XVI, p. 292; 31, p. 286; 36, p. 346; ...........................................39, p. 332; 42, p. 323 17.17-24 ... XVII, p. 146; 29, p. 192; 37, p. 193 19.1-8(9-13a) .................................... 22, p. 226 19.1-13a ..................XIV, p. 185; XVIII, p. 204 19.1-18 ................................................ III, p. 92 19.4-8 ................................................ 33, p. 285 19.9-13a ........................................... 30, p. 204 19.(14-18)19-21 ..........XVII, p. 159; 29, p. 205 2 Reis 2.1-12 ............................................... 36, p. 105 2.9-18 ................................................ 37, p. 174 4.42-44 .............................................. 39, p. 238 5.1-14 .................................................. 31, p. 71 5.1-19a ...............................................VII, p. 58 Neemias 5.1-5(6-12) ....................................... XIII, p. 11 5.1-12 ..................................................IX, p. 83 8.1-2,5-6 ............................ 20, p. 183; 34, p. 95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) ... 31, p. 263 Jó 7.1-7 ................................XIX, p. 73; 31, p. 63
19.23-27a .......................................... 37, p. 329 38.1-11 ............................ 25, p. 221; 42, p. 208 Salmo 1......................................................... 39, p. 177 16....................................................... 38, p. 165 22....................................................... 40, p. 115 22.1-19 .............................................. 35, p. 169 22.1-12,17-20 .................................... 30, p. 104 22.2-12,17-20 ...............................XVIII, p. 116 23..................................... 35, p. 187; 40, p. 137 31.1-5,15-16 ...................................... 41, p. 171 46.1-7(1-11) .................. 26, p. 313; 37, p. 311 105.1-7 .............................................. 38, p. 356 111 ....................................................... 26, p. 27 112 ......................................................XII, p. 77 116.1-2,12-19 .................................... 42, p. 124 118.1-2,19-29 .................................... 41, p. 130 130.4....................................................VI, p. 34 147.12-20 ............................................ 39, p. 54 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ....................................... 20, p. 225 3.1-8(-13) ............................VI, p. 48; 35, p. 51 3.9-15 ................................................... X, p. 16 4.1-4 ..................................................... X, p. 84 5.18....................................................... X, p. 65 9.13-18 ................................................. X, p. 25 Provérbios 8.22-31 .............................................. 23, p. 109 9.1-6 .................................................. 42, p. 248 9.1-6,10 ............................................. 22, p. 230 9.7-13 ................................................ 23, p. 172 16.1-9 ............................................... VIII, p. 80 24.10-14 ............................................XII, p. 45 30.5-9 ................................................ 26, p. 215 Isaías 1.1-9 ............................................... XIII, p. 116 1.10-17 .............................................XV, p. 297 2.1-5 ................VI, p. 225; XVIII, p. 9; 30, p. 9 5.1-7 ........... VII, p. 87; XIII, p. 147; 21, p. 252 6.1-13 .......... VI, p. 198; XII, p. 213; 42, p. 187 7.10-14 ................................................ 21, p. 37 7.10-14(15-17) ............... XIII, p. 104; 32, p. 27 9.1-4 .................................................... 38, p. 80 9.1-6 .............................................. XVIII, p. 31 9.1-6,10 ............................................. 22, p. 230 9.2-7 ....................................V, p. 294; 38, p. 39 11.1-5 ............................................... XVI, p. 63 11.1-9 ............ XVIII, p. 58; 33, p. 31; 37, p. 31; ................................................................39, p. 30
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11.1-9(10-11)...................................XIV, p. 148 11.1-10 ................................ 27, p. 16; 38, p. 15 12.1-6 ................................................ 26, p. 114 24.12-16a ....................................... XIII, p. 312 25.6-8 ............................................. XIX, p. 114 25.6-9 ............21, p. 258; 31, p. 128; 34, p. 353 29.17-24 ...........................................XII, p. 233 29.18-24 ............................................ III, p. 130 30.(8-14),15-17 ...................................VI, p. 97 33.13-17,22 ....................................... 36, p. 187 35.1-10 .........21, p. 273; 24, p. 306; 28, p. 346; .........35, p. 22; 35, p. 347; 38, p. 334; 41, p. 19 35.3-7 ...........................XIX, p. 237; 31, p. 248 35.3-10 ...........................X, p. 158; XIV, p. 115 35.4-7a .............................................. 33, p. 315 40.1-11 ......VIII, p. 40; XIV, p. 124; XIX, p. 15; ..................................................31, p. 9; 42, p. 15 40. 21-31 ............................................. 42, p. 81 40.25-31 ............................................IX, p. 216 42.1-7(-9) ...........21, p. 51; 25, p. 80; 35, p. 69; ........................................... 39, p. 131; 41, p. 64 42.14-21 ........................ XVIII, p. 92; 30, p. 72 43.1-7 ........................II, p. 132 (299); 40, p. 58 43.16-21 .............................................. 40, p. 97 44.1-5 ................................................ 33, p. 401 44.6-8 .............................. 35, p. 246; 38, p. 242 44.9-20 ............................................. XIII, p. 50 45.1-7 .............................. 21, p. 264; 32, p. 293 45.19-25 ............................................ 40, p. 298 45.22-25 .............................................. 28, p. 49 49.1-6 .................................. III, p. 85; 37, p. 58 50.4-9 ....................II, p. 28, (195); XIII, p. 166 50.4-9a .............................. 30, p. 94; 42, p. 268 50.4-10 .........................XIX, p. 241; 31, p. 252 51.1-6 ................................................ 32, p. 259 52.7-10 ............XV, p. 100; 22, p. 37; 33, p. 70; ............................................................. 39, p. 58 52.13-53.12 ....................... V, p. 72; IX, p. 196; .................... XII, p. 109; XV, p. 185; 36, p. 146 53.4-12 .............................................. 39, p. 310 53.10-12 ............................................ 25, p. 294 54.7-10 ...........................IX, p. 183; XV, p. 170 55.1-5 .... III, p. 68; VIII, p. 213; XVIII, p. 198; ......................................... 30, p. 197; 41, p. 244 55.1-9 ................................................ 34, p. 120 55.6-7 ..................................................VI, p. 24 55.6-11 ................................................ 34, p. 63 55.(6-9),10-12a .............................. VIII, p. 119 55.10-11 ............................................ 24, p. 223
56.1,6-8 ................... XVIII, p. 213; 30, p. 209; ......................................... 35, p. 274; 38, p. 263 58.1-9a .............................................XV, p. 147 58.1-12 ..............IX, p. 50; 33, p. 125; 39, p. 97 58.5-9a ............................................... 24, p. 88 58.7-12 .............................................XII, p. 300 60.1-6 ........... V, p. 11; VIII, p. 92; XVII, p. 39; .............................24, p. 63; 29, p. 54; 38, p. 63 61.1-3(4-9),11 ................................ XIII, p. 120 61.1-3,10-11 ....................................... 28, p. 20 61.1-3,11,10 .......................................VII, p. 44 61.10-62.3 ........XIX, p. 42; 25, p. 68; 28, p. 59 62.1-5 .................................. 20, p. 23; 28, p. 31 62.1-12 ................II, p. 256, (423); VIII, p. 331 62.6-7,10-12 ............... XIX, p. 279; 22, p. 272; ........................................................... 24, p. 297 63.7-9(10-16) ...................... 24, p. 44; 32, p. 46 63.15-64.3 ........................................ XIII, p. 91 63.15-16;19b-64.3 ..................... I, p. 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ....................... 22, p. 9 64.1-9 ...................................... 33, p. 9; 39, p. 9 65.17-25 ............................IX, p. 15; 30, p. 133 66.10-14 .......................... 29, p. 213; 37, p. 217 Jeremias 1.4-10 ........................ VII, p. 184; XIII, p. 228; ............................................................. 37, p. 82 7.1-11 ............................................ VIII, p. 257 7.1-11(12-15) ..................................XIV, p. 301 7.21-26 ................................................ 30, p. 15 8.4-7 ...........................VIII, p. 349; XIV, p. 390 9.22-23 ...............................................VII, p. 71 11.18-20 ......................XIX, p. 246; 31, p. 256; ........................................................... 39, p. 287 14.7-10,19-22 .................. 37, p. 305; 40, p. 286 15.15-21 .. XVIII, p. 222; 30, p. 220; 41, p. 266 17.5-8 .................................................. 23, p. 55 20.7-13 ....... VIII, p. 145; 21, p. 181; 38, p. 219 22.13-19 ........................................... XIII, p. 80 23.1-6 ...........................XVI, p. 217; 42, p. 232 23.2-6 ................................................ 20, p. 301 23.5-8 .............................. VI, p. 62; XII, p. 103 23.16-29 .............II, p. 144, (311); XIII, p. 209; ........................................................... 37, p. 251 26.8-15 ................................................ 26, p. 97 28.5-9 .............................. 21, p. 186; 32, p. 208 29.1,4-14a ........................................... III, p. 34 31.1-13 ................................................ 29, p. 35 31.7-9(-14) ........................ 25, p. 301; 35, p. 58 31.10-13(14)....................................XVII, p. 34
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31.31-34 ............................ 22, p. 85; 36, p. 329 33.14-16 ................................................ 26, p. 9 Lamentações 3.21-26,31-32 ....................................VI, p. 269 3.21-33 ............................ 25, p. 226; 39, p. 212 Ezequiel 2.1-5 .................................................. 36, p. 226 2.1-8a ................................................ 25, p. 231 2.3-8a;3.17-19 ............................II, p. 96, (263) 17.22-24 ............................................ 33, p. 239 18.1-4,21-24,30-32............................IX, p. 247 18.1-4,25-32 ...................................... 41, p. 291 18.1-4,25-37 ...................................... 27, p. 243 33.7-9 ................................................ 27, p. 230 34.1-2(3-9),10-16 .............................. 21, p. 192 34.1-2(3-9),10-16,31 .........................VI, p. 170 34.11-16,23-24 ...............24, p. 328; 35, p. 363; ........................................................... 38, p. 347 37.1-3(4-10),11-14 ..................... XVIII, p. 103 37.1-3,11-14 ........................................ 30, p. 89 37.1-14 .......XV, p. 193; 24, p. 117; 32, p. 108; ........................................................... 33, p. 228 37.24-28 ........................................... VIII, p. 55 Daniel 5.1-30 ................................................ III, p. 188 7.(1-12)13-14(15-28) ................... XVI, p. 311; ........................................................... 39, p. 344 12.1-3 .......................... XIX, p. 296; 31, p. 293 Oseias 5.15-6.2 ......................... XVIII, p. 95; 30, p. 83 5.15-6.6 ............................................. 21, p. 169 11.1-4,8-9 ........................ 24, p. 323; 27, p. 284 Joel 2.1-2,12-17 ........................ 36, p. 111; 41, p. 98 2.12-18 .............................................XII, p. 166 2.21-27 .............................................. 32, p. 212 2.28-29 .............................................. 21, p. 153 Amós 3.1-8 .................................... 24, p. 75; 30, p. 54 5.6-7,10-15 ...................... 36, p. 309; 42, p. 292 5.18-24 ............................ 35, p. 352; 41, p. 326 5.21-24 ...............................................VII, p. 76 6.1-7 ................................ 23, p. 189; 37, p. 286 7.7-15 ................................................ 33, p. 264 7.10-15(16-17) .............................. XVI, p. 211 8.4-7 .................................................. 23, p. 181 9.7-10 ................................................. X, p. 128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ...................XIX, p. 61; 31, p. 52; ............................................................. 36, p. 81
3.10-4.11 ........................................... 32, p. 274 Miqueias 5.1-4a .............................. VI, p. 88; XII, p. 114 5.2-4 .................................................... 29, p. 21 5.2-5 ................................XVI, p. 63; 27, p. 29; ............................................. 34, p. 30; 40, p. 24 6.1-8 ....................24, p. 79; 27, p. 58; 35, p. 87 6.6-8 ...........................VIII, p. 324; XIV, p. 385 Habacuque 1.2-3(4);2.1-4 .............................. XVII, p. 219; ......................................... 29, p. 281; 34, p. 327 Sofonias 3.14-20 ................................ 20, p. 20; 37, p. 20 Zacarias 7.9-10 ................................................ 26, p. 267 8.1-8 ................................................. 24, p. 337 9.9-10 ...........X, p. 91; XIX, p. 106; 31, p. 107 9.9-12 ................................................ 41, p. 227 12.7-10(11) ....................................XVII, p. 153 Malaquias (2.17)3.1-5......................................... 25, p. 207 2.17-3.5 ................................................ 23, p. 9 NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 .....................XVII, p. 46; XVIII, p. 25; ................ p. 49; X, p. 193; 21, p. 46; 24, p. 29; ................. 25, p. 74; 30, p. 192.1-12; 32, p. 62; ............................................. 35, p. 28; 41, p. 24 2.13-18(-23) .......................V, p. 304; 35, p. 46; ............................................................. 38, p. 47 3.1-12 .......................... XVIII, p. 15; 24, p. 24; ............................................. 35, p. 14; 41, p. 14 3.13-17 ........ X, p. 206; XVIII, p. 53; 24, p. 67; .............................30, p. 44; 32, p. 66; 38, p. 68 4.1-11 ................. IV, p. 14; 27, p. 70; 32, p. 85; ........................................................... 38, p. 119 4.12-17 .............................................XII, p. 142 4.12-23 .......................... XVIII, p. 61; 35, p. 81 4.23-25 ...............................................XII, p. 35 5.1-10 ........... IV, p. 212; 32, p. 307; 41, p. 315 5.1-12 ............................ XVIII, p. 64; 38, p. 85 5.13-16 ............................................... X, p. 390 5.13-16(17-20) .............................. XVIII, p. 69 5.13-20 ................................................ 41, p. 81 5.17-20 .............................................. IV, p. 125 5.20-37 .......................... XVIII, p. 73; 38, p. 96 5.38-48 ....................II, p. 193,(360); X, p. 460; ............................................. 35, p. 99; 41, p. 92
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6.1-4 ..........................VIII, p. 279; XIV, p. 332 6.1-6,16-21 ....................... 34, p. 115; 37, p. 94; ........................................................... 38, p. 114 6.5-13 .................... II, p. 57, (224); XIV, p. 247 6.9-13 ............................. VI, p. 53; VIII, p. 192 6.16-18 .............................................. IV, p. 133 6.24-34 ............................ IV, p. 180; 32, p. 179 6.25-34 ............................ X, p. 428; 38, p. 352 7.15-23 .............................................. IV, p. 140 7.21-29 ... XVIII, p. 157; 24, p. 178; 30, p. 163 7.24-27 ..............................................VI, p. 233 9.1-8 .................................................. IV, p. 198 9.9-13 ... VIII, p. 110; XVIII, p. 161; 32, p. 188 9.35-10.8 ..................................... XVIII, p. 170 10.7-15 .....................................II, p. 104, (271) 10.24-39 .......................... 32, p. 204; 41, p. 216 10.26-33 ................... XVIII, p. 176; 30, p. 168; ........................................................... 34, p. 347 10.26b-33 ..................... VI, p. 291; XII, p. 268 10.26-36 .......................................XXIV, p. 203 10.34-39 ...........................................XII, p. 274 10.34-42 .................... XVIII, p. 181; 30, p. 174 10.40-42 .........................35, p. 229; 38, p. 225; ........................................................... 41, p. 222 11.2-10 ............................................... X, p. 170 11.2-11............ III, p. 215; 21, p. 30; 27, p. 22; ............................................. 32, p. 21; 38, p. 21 11.16-19,25-30 .................................. 32, p. 221 11.25-30 ... XVIII, p. 186; 24, p. 216; 30, p. 184 12.14-21 .............................................. 36, p. 63 12.22-30 ............................................ IV, p. 217 12.33-35(36-37) ...............................XII, p. 307 12.38-42 ............... II, p. 225, (292); XII, p. 175 13.1-9(18-23) .................21, p. 196; 27, p. 188; ........................................30, p. 189; 35, p. 240; ........................................ 38, p. 237; 41, p. 233 13.24-30(36-43) ....... XVIII, p. 289; 21, p. 203; ........................................................... 32, p. 229 13.31-33 ............................................ 38, p. 247 13.44-46 .............II, p. 150, (317); VIII, p. 253; ...................................... XIV, p. 295; 35, p. 253 13.44-52 .......................... 21, p. 207; 27, p. 194 14.13-21 .........................21, p. 213; 24, p. 245; ......................................... 27, p. 198; 32, p. 241 14.22-33.. .....VI, p. 109; 24, p. 249; 27, p. 202; .......................35, p. 267; 38, p. 258; 41, p. 249 15.21-28 ........X, p. 445; 21, p. 218; 27, p. 208; ........................................................... 32, p. 255 16.13-19 .............................................. 23, p. 40
16.13-20 .........................24, p. 260; 27, p. 216; .......................35, p. 278; 38, p. 268; 41, p. 259 16.13-20(23).............................. II, p. 72, (239) 16.21-26 .........................21, p. 223; 27, p. 222; ........................................................... 32, p. 264 17.1-9 ......... X, p. 216; XVIII, p. 78; 30, p. 60; ........................................................... 35, p. 114 18.1-5 ................................ 37, p. 48; 38, p. 310 18.15-20 .......... II, p. 123,(290); XVIII, p. 226; .......................30, p. 227; 35, p. 290; 41, p. 273 18.21-35 .. X, p. 467; XVIII, p. 232; 30, p. 234; ........................................................... 32, p. 269 19.16-26 .................................. II, p. 182, (349) 20.1-16a ...... IV, p. 7; X, p. 221; XVIII, p. 236; ........................................................... 30, p. 239 20.1-16 ...........................29, p. 296; 35, p. 302; ......................................... 38, p. 290; 41, p. 285 20.17-28 .............................. 21, p. 96; 27, p. 87 21.1-9 ............................... III, p. 194; X, p. 149 21.1-11 .............................................. 38, p. 140 21.14-17 ................ II, p. 52, (219); XII, p. 185; ........................................................... 37, p. 353 21.23-32 ............................................ 32, p. 282 21.28-32 .................... VI, p. 247; XVIII, p. 243 21.33-43(-46) ........... XVIII, p. 250; 35, p. 315; ......................................... 38, p. 304; 41, p. 297 22.1-10 (11-14) ......... XVIII, p. 254; 30, p. 243 22.1-14 ......... IV, p. 205; VI, p. 207; 32, p. 289 22.15-21(-22) ........... XVIII, p. 259; 35, p. 323; ......................................... 38, p. 314; 41, p. 308 22.23-33 ..VIII, p. 336; XVI, p. 288; 20, p. 285 22.34-40 ............................................ IV, p. 194 22.34-40(41-46) .............. 30, p. 253; 32, p. 298 23.1-12 .. II, p. 158, (325); 30, p. 259; 35, p. 335 24.1-14 ........................ VI, p. 68; XVIII, p. 275 24.15-28 ............................................ IV, p. 222 24.37-44 .................21, p. 21; 27, p. 9; 32, p. 9; ............................................................... 38, p. 9 25.1-13 .........IV, p. 243; XI, p. 336; 24, p. 312; ........................................................... 30, p. 277 25.14-30 .................II, p. 233, (400); X, p. 394; ................. XVIII, p. 272; 30, p. 286; 41, p. 331 25.31-37 ...................................... XVIII, p. 297 25.31-46.... IV, p. 231; X, p. 472; XVIII, p. 298; ............21, p. 302; 27, p. 291; 32, p. 51, p. 324; ............................................................. 41, p. 44 26.14-27.66 ....................................... 35, p. 157 26.30-56 ...................................... XVIII, p. 109 26.36-46(-56) ...................VI, p. 29; 35, p. 162; ........................................................... 38, p. 154
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26.36-56 ............................................ 41, p. 135 26.57-75 ........................................... 24, p. 122 27.11-26 ............................................ 32, p. 116 27.33-50(51-54) ........... VIII, p. 162; 38, p. 154 27.33-54 ............................ 21, p. 111; 27, p. 99 27.33-56 ..........................................XIV, p. 201 28.1-10 ...........................VI, p. 167; 24, p. 139; ......................................... 35, p. 176; 41, p. 147 28.16-20 ........X, p. 374; 30, p. 156; 34, p. 203; .......................35, p. 222; 40, p. 156; 41, p. 205 Marcos 1.1-8 ...................................22, p. 14; 28, p. 13; ............................................. 33, p. 16; 39, p. 13 1.4-11 ..22, p. 48; 28, p. 64; 36, p. 69; 42, p. 56 1.9-15 .............................. 33, p. 132; 39, p. 102 1.12-15 ...........XIX, p. 79; 25, p. 129; 31, p. 84 1.14-20 ...............22, p. 56; 28, p. 73; 33, p. 84; ............................................. 39, p. 75; 42, p. 71 1.21-28 .............XVI, p. 99; 28, p. 79; 36, p. 86 1.29-39 .............................28, p. 87; 33, p. 101; ............................................................. 39, p. 87 1.32-39 .......................... VI, p. 284; XII, p. 261 1.40-45 ........ VI, p. 258; XII, p. 241; 36, p. 100 2.1-12 ............................... X, p. 453; 28, p. 100 2.18-22 ........................................... VIII, p. 105 2.23-28 ... VIII, p. 311; XIV, p. 367; 22, p. 169; ........................................................... 28, p. 228 2.23-36 .............................................. 42, p. 193 3.1-6 ................................................... X, p. 114 3.20-35 ........................XVI, p. 192; 28, p. 233; ........................................................... 36, p. 209 3.31-35 ..............................................VI, p. 252 4.26-29 .............................................. VI, p. 113 4.26-34 ...........................22, p. 175; 28, p. 240; ......................................... 36, p. 216; 42, p. 203 4.30-32 .............................................XII, p. 313 4.35-41 ......XVI, p. 200; 22, p. 182; 28, p. 247; ......................................... 32, p. 244; 39, p. 209 5.21-24a,35-43 ...............28, p. 253; 33, p. 378; ........................................................... 39, p. 327 5.21-43 .............................................. 42, p. 216 5.24b-34 ............................................ 22, p. 188 5.25-34 ...............................................XII, p. 27 6.1-6 ...........XVI, p. 205; 22, p. 200; 28, p. 260 6.1-13 .............................. 33, p. 256; 39, p. 218 6.6b-13 .........................XIX, p. 201; 25, p. 236 6.14-29 ............. X, p. 74; 36, p. 235; 42, p. 225 6.30-34 ......XIX, p. 206; 25, p. 241; 31, p. 208; ........................................................... 33, p. 270 6.30-34,53-56 .................................... 39, p. 231
6.34-44 ............................................. 30, p. 247 7.1-8,14-15,21-23........XIX, p. 233; 31, p. 242; ......................................... 33, p. 309; 39, p. 270 7.24-37 ............................ 36, p. 279; 42, p. 263 7.31-37 .......... IV, p. 163; X, p. 408; 22, p. 239; ........................................................... 28, p. 307 8.22-26 .......................VIII, p. 269; XIV, p. 317 8.27-35 ........................XVI, p. 247; 33, p. 323; ........................................................... 39, p. 280 8.31-38 .........X, p. 234; XIX, p. 83; 25, p. 134; ...........................31, p. 91; 36, p. 121; 42, p. 97 9.2-9 ..........XVI, p. 105; 28, p. 108; 33, p. 119; ............................................................. 42, p. 87 9.17-29 ..............................................VI, p. 278 9.30-37 ......XVI, p. 255; 22, p. 245; 36, p. 289; ........................................................... 42, p. 273 9.38-50 ...........................22, p. 250; 28, p. 322; ......................................... 33, p. 334; 39, p. 293 9.43-48 ................II, p. 138, (305); XVI, p. 263 10.2-12 ..........28, p. 326; 36, p. 303; 42, p. 283 10.13-16 ............................................ 28, p. 313 10.17-27 .. XII, p. 256; XVI, p. 268; 22, p. 260; ........................................................... 33, p. 348 10.17-31 ............................................ 39, p. 305 10.32-45 ............................................. X, p. 106 10.35-45 ......................28, p. 289; XVI, p. 277; .......................34, p. 270; 36, p. 316; 42, p. 298 10.46-52 ...... XVI, p. 283; 22, p. 265; 39, p. 315 11.1-11............................. 33, p. 160; 39, p. 126 12.1-12 .............................................. X, p. 242 12.13-17 ............................................ III, p. 138 12.28-34 .......................... 36, p. 340; 42, p. 318 12.41-44 ........VI, p. 138; 22, p. 281; 33, p. 387 13.1-8 .............................. 36, p. 353; 42, p. 329 13.1-13 .......XVI, p. 302; 22, p. 286; 28, p. 351 13.24-31 ............................................ 28, p. 358 13.24-37 .................................. 36, p. 9; 42, p. 9 13.31-37 ..........................................XIV, p. 397 13.33-37 .............................XIX, p. 9; 25, p. 17 14.3-9 ................................VI, p. 149; 22, p. 93 14.6-9 ...............................................XII, p. 181 14.12-26 ......................XVI, p. 134; 22, p. 104; ......................................... 28, p. 144; 36, p. 140 14.17-26 ............................................VI, p. 156 15.1-15(16-20) .............XVI, p. 129; 28, p. 139 16.1-8 ......... IV, p. 144; X, p. 294; XVI, p. 153; ..... 22, p. 112; 28, p. 159; 36, p. 152; 42, p. 136 16.9-14(15-20) ...........VIII, p. 173; XIV, p. 225 16.12-18 .......................... 33, p. 184; 39, p. 148 16.14-20 .............................................. IV, p. 77
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Lucas 1.1-4 .................................................. 23, p. 200 1.26-33(34-37),38 ........... VI, p. 81; XII, p. 109 1.26-38 .........XVI, p. 56; XIX, p. 27; 22, p. 28; .............................28, p. 26; 33, p. 24; 39, p. 24 1.39-45(46-55) .................... 26, p. 20; 37, p. 26 1.(39-45)46-55(56) ............................ X, p. 175 1.46-55 ...............................................V, p. 288 1.57-66 .............................................. 24, p. 200 1.67-79 .............................V, p. 270; VIII, p. 30 2.1-7 ...................30, p. 24; 34, p. 38; 38, p. 33; ............................................. 39, p. 36; 40, p. 29 2.1-7,8-14,15-20............................... XVI, p. 63 2. (1-7)87-20 ....................................... 42, p. 31 2.1-14 ....... I, p. 161, (168); X, p. 181; 32, p. 41 2.(1-14)15-20 .....................24, p. 41; 34, p. 69; ............................................. 37, p. 54; 41, p. 50 2. 15-21 ............................................... 42, p. 46 2.1-20 ........ III, p. 218; IV, p. 273; XVII, p. 28; .........XIX, p. 26; 21, p. 41; 23, p. 21; 24, p. 34; ............................................. 27, p. 34; 33, p. 37 2.22-40 ................................................ 36, p. 56 2.41-52 ................................................ 20, p. 35 3.1-9 ....................................V, p. 281; 37, p. 14 3.1-14 ..................................................VI, p. 76 3.7-18 ............ XVII, p. 21; 23, p. 15; 29, p. 16; ............................................. 34, p. 24; 40, p. 18 3.15-17,21-22 .....................20, p. 40; 26, p. 36; ............................................................. 37, p. 64 4.1-13 ................23, p. 60; 29, p. 81; 37, p. 100 4.14-21 ................VI, p. 19; 26, p. 47; 37, p. 76 4.14-21(22) ...............20, p. 50; p. 59; 27, p. 47 4.16-21 ............................................... X, p. 186 4.21-30 .............................. 26, p. 54; 34, p. 100 5.1-11 ...........IV, p. 118; XVII, p. 57; 20, p. 65; ............................................................. 26, p. 59 6.17-26 ................................ 20, p. 69; 26, p. 66 6.27-38 ................................ 20, p. 73; 26, p. 74 6.36-42 ..............................IV, p. 112; X, p. 368 7.1-10 .............................. 26, p. 206; 40, p. 176 7.11-17 ..........................IV, p. 186; VIII, p. 293 7.36-50 .... VIII, p. 262; XIV, p. 309; 26, p. 220 7.36-8.3 ............................................. 37, p. 199 8.4-10 ................................................. X, p. 228 8.26-39 ............................ 34, p. 237; 40, p. 196 9.10-17 ........................................... VIII, p. 241 9.18-24(25-26) ................ 20, p. 190; 26, p. 226 9.28-36 ..............20, p. 82; 26, p. 85; 34, p. 109 9.51-56 .............................................XV, p. 167 9.51-62 ............................ 20, p. 198; 37, p. 212
9.57-62 .............................................. X, p. 251 10.1-11,16-20 .................. 34, p. 252; 40, p. 209 10.1-12,16 ......................................... 20, p. 204 10.17-20 ............................................ 24, p. 285 10.21-24 .....................................II, p. 82, (249) 10.25-37 .....X, p. 413; XVII, p. 163; 23, p. 135 10.38-42 .. VI, p. 124; XVII, p. 170; 23, p. 140; ......................29, p. 216; 34, p. 264; 40, p. 214 11.1-13 ...........................23, p. 145; 29, p. 223; ........................................................... 37, p. 229 11.5-13 ..............................................VI, p. 184 11.14-23 ........................ VI, p. 297; XII, p. 283 12.13-21 ........................23, p. 149; 29, p. 228; ......................................... 34, p. 278; 40, p. 224 12.32-40 ......................XVII, p. 183; 37, p. 241 12.35-40 ........................................... III, p. 226 12.41-48 ............................................VI, p. 302 12.42-48 ...........................................XII, p. 289 12.49-53 .. XVII, p. 189; 23, p. 154; 29, p. 235; ......................................... 34, p. 289; 40, p. 237 13.1-9 ........... XVII, p. 83; 23, p. 72; 29, p. 93; ........................................................... 37, p. 111 13.10-17 ............................................ 37, p. 257 13.22-30 ... XVII, p. 193; 23, p. 159; 29, p. 241 13.31-35 ........ XVII, p. 78; 23, p. 65; 29, p. 88; ............................................................. 40, p. 87 14.1,7-14 ......23, p. 167; 29, p. 247; 40, p. 248 14.7-14 .........................................XVII, p. 196 14.15-24 ............................. IV, p. 96; X, p. 354 14.25-33 ....VIII, p. 235; 20, p. 251; 26, p. 277; ........................................................... 37, p. 266 15.1-3,11b-32 ................ XII, p. 220; 34, p. 125 15.1-3,11-32 .................IV, p. 209; XVII, p. 88; ........................................... 29, p. 100; 40, p. 92 15.1-7(8-10) ....................................... X, p. 361 15.1-10 ......... IV, p. 106; 20, p. 255; 34, p. 309; ........................................................... 40, p. 252 15.8-32 .............................................. 28, p. 265 16.1-9 ................................................ IV, p. 147 16.1-13 ............ 20, p. 260; 26, p. 286; 37, p. 277 16.19-31 ......... IV, p. 88; 20, p. 265; 35, p. 321; ........................................................... 40, p. 262 17.1-10 ............................ 20, p. 270; 26, p. 298 17.5-6 .........................VIII, p. 286; XIV, p. 346 17.5-10 .............................................. 37, p. 291 17.7-10 ......................... VI, p. 117; XII, p. 160 17.11-19 ........ IV, p. 172; X, p. 421; 20, p. 275; .......................26, p. 305; 34, p. 371; 40, p. 275 17.20-35 ..............................................V, p. 275 18.1-8a ........................... 20, p. 291; 23, p. 213
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18.1-8 ............VIII, p. 343; 26, p. 325; 37, p. 301 18.9-14 .......... IV, p. 158; 28, p. 333; 34, p. 340 18.18-23 ...........................................XII, p. 249 18.31-43 ......................................... VIII, p. 124 19.1-10 ...............II, p. 112, (279); VIII, p. 219; .................... XIV, p. 275; 37, p. 324; 40, p. 292 19.28-40 .........................26, p. 121; 34, p. 138; ......................................... 37, p. 116; 40, p. 103 19.41-48 ........................... IV, p. 153; X, p. 401 20.9-19 ..........................XVII, p. 94; 29, p. 105 20.27-38 .......................... 23, p. 223; 34, p. 359 21.5-19 ............................ 20, p. 296; 37, p. 336 21.25-36 ........................ III, p. 209; XVII, p. 9; ................................................. 34, p. 9; 40, p. 9 22.7-20 ............................ 20, p. 116; 26, p. 126 22.31-34 ....................VIII, p. 131; XIV, p. 172 23.33-43 ........26, p. 344; 34, p. 365; 40, p. 322 23.(26-32)33-49 ..........XVII, p. 102; 29, p. 119 23.33-49 ..........................VI, p. 162; 37, p. 127 23.35-43 ........................................XVII, p. 248 24.1-11(12) ........................................ 20, p. 127 24.1-12 ........... II, p. 201; 37, p. 132; 40, p. 121 24.13-35 .........VI, p. 40; 21, p. 125; 27, p. 114; ......................................... 32, p. 137; 38, p. 176 24.36b-48 .......................................... 42, p. 148 24.36-49 ..XVI, p. 164; XIX, p. 128; 36, p. 162 24.44-53 .......................... 28, p. 201; 35, p. 206 24.(44-49)50-53 ...........XIX, p. 148; 22, p. 145 24.50-53 ............................................. X, p. 331 João 1.1-5.9-14 ........XIX, p. 35; 25, p. 39; 31, p. 24; ............................................. 37, p. 36; 40, p. 35 1.1-18 .................................. 23, p. 30; 29, p. 46 1.(1-9)10-18 ........................ 33, p. 64; 38, p. 59 1.6-8,19-28 .....XIX, p. 22; 25, p. 29; 31, p. 14; ............................................................. 42, p. 20 1.19-23(24-28) ................. VIII, p. 49; 36, p. 19 1.29-34 ............................................ VIII, p. 98 1.29-34(35-41) ............ XVIII, p. 57; 21, p. 55; ............................................. 35, p. 75; 41, p. 70 1.35-42 .............................................XII, p. 227 1.43-51 ....... XII, p. 129; XVI, p. 92; 22, p. 52; .............28, p. 68; 34, p. 80; 36, p. 76; 40, p. 53 2.1-11 .................IX, p. 41; 20, p. 44; 26, p. 40; ............................................. 34, p. 89; 40, p. 64 2.13-22 ...........................VI, p. 237; XIX, p. 87 3.1-11(15) ........................................... X, p. 347 3.1-17 .............22, p. 165; 28, p. 220; 32, p. 91; ....................... 33, p. 232; 39, p. 189; 41, p. 112
3.14-21 ..........XIX, p. 95; 25, p. 144; 31, p. 96; ......................................... 36, p. 128; 42, p. 107 4.1-11 ............................................... 31, p. 149 4.5-26 ................................ 21, p. 82; 35, p. 139 4.31-38 ......................................II, p. 89, (256) 4.46-54 .............................................XII, p. 148 5.1-9 .................................................. 37, p. 168 5.1-16 ..............................................XIV, p. 360 5.1-16(18)....................................... VIII, p. 304 5.19-21 ............................................XIV, p. 215 5.24-29 ... XVIII, p. 267; 22, p. 277; 29, p. 302; ........................................................... 30, p. 271 5.39-47 ..............................................VI, p. 204 6.1-15 ........... IV, p. 24; X, p. 383; XIX, p. 211; .......................25, p. 247; 31, p. 213; 36, p. 245 6.(22-23)24-35 ............XIX, p. 217; 21, p. 218; .....25, p. 254; 33, p. 280; 36, p. 365; 39, p. 245 6.35................................................. VIII, p. 151 6.35,41-51 ....................... 36, p. 257; 42, p. 242 6.37-40(41-43),44 ....................II, p. 200, (367) 6.41-51 ..... XIX, p. 220; 25, p. 259; 28, p. 284; ........................................................... 31, p. 226 6.51-58 ........................XIX, p. 225; 31, p. 232; ......................................... 33, p. 292; 39, p. 257 6.56-69 ............................ 36, p. 269; 42, p. 253 6.60-69 .......XIX, p. 229; 25, p. 264; 31, p. 237 6.66-69 .............................................XII, p. 293 7.14-18 ............................................. VIII, p. 87 7.37-39a ......................XVI, p. 187; 22, p. 158; ........................................................... 28, p. 211 7.37-39 ....... VI, p. 194; XII, p. 199; 22, p. 158; ........................................................... 35, p. 216 8.1-11 ............................................. VIII, p. 228 8.21-30 .......................VIII, p. 138; XIV, p. 179 8.31-36 .................II, p. 216, (383); VIII, p. 73; .................. XVII, p. 225; 23, p. 209; 42, p. 307 9.1-7 ...........................VIII, p. 248; XIV, p. 290 9.1-11 ................................................ 38, p. 135 9.1-41 ................................................ 32, p. 104 9.13-17,34-39 ...................... 21, p. 91; 27, p. 81 9.35-41 ........................................... VIII, p. 299 10.1-5,27-30 ...............................II, p. 40, (207) 10.1-10.. ......................... 21, p. 133; 27, p. 119; ......................................... 32, p. 144; 41, p. 165 10.11-16 .............................................. IV, p. 53 10.11-18 ....XIX, p. 135; 25, p. 181; 31, p. 139; ........................................................... 33, p. 199 10.11-18,27-30 ................................... X, p. 310 10.14-16,27-29 .................................... 33, p. 50
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10.22-30 .......................... 29, p. 141; 37, p. 149 10.22-30(31-39) ............................XVII, p. 117 11.1,3,17-27 ...........II, p. 188, (355); 35, p. 151 11.1(2),3,17-27(41-45) ....................... X, p. 434 11.1-5,17-21 .................... 37, p. 319; 40, p. 310 11.1-45 .............................................. 41, p. 123 11.47-53 ...VIII, p. 157; XIV, p. 192; 21, p. 103; ........................................................... 33, p. 154 12.12-16 .......................... 36, p. 134; 42, p. 118 12.12-19 ........................... X, p. 269; 20, p. 110 12.20-26 ............................................. X, p. 258 12.20-30 ............................................ 25, p. 150 12.20-33 .....................XIX, p. 102; 31, p. 103; ......................................... 33, p. 154; 39, p. 120 12.44-50 ........................................... VIII, p. 65 13.1-15,34-35 ..................................... X, p. 277 13.1-17,34 ......................... 30, p. 99; 34, p. 144 13.31-35 .. XVII, p. 121; 29, p. 149; 34, p. 144; ............................................... p. 191; 40, p. 145 14.1-6 ...............................................XII, p. 134 14.1-12 .......... 21, p. 139; 27, p. 124; 39, p. 170; ............................................................. 42, p. 169 14.1-12(14)...............II, p. 63, (230); 35, p. 192 14.8-17(25-27) .................................. 34, p. 219 14.15-19 ...........................................XV, p. 232 14.15-21 ........34, p. 165; 35, p. 200; 41, p. 177 14.23-27 ............................ IV, p. 82; X, p. 341 14.23-29 .....................XVII, p. 126; 29, p. 154 15.1-8 ............. X, p. 317; XIX, p. 139; 25,189; .......................31, p. 146; 36, p. 174; 42, p. 158 15.9-12(13-17) ...............................XIV, p. 374 15.9-17 ...VIII, p. 317; XIX, p. 143; 25, p. 192; ......................................... 33, p. 211; 39, p. 165 15.(18)26-16.4.................................... X, p. 337 15.26-27;16.4b-11 ..........20, p. 171; 26, p. 191; ........................................................... 36, p. 197 15.26-27;16.4-15 ............................... 42, p. 181 16.5-15 ................................................ IV, p. 65 16.12-15 .......... 20, p. 177; 26, p. 200; 37, p. 184 16.16-23a ......................... IV, p. 57; VI, p. 179 16.16,20-23a .........................VI, p. 129; p. 176 16.22-28 .............................................. IV, p. 72 16.23b-28,33 ..................................... X, p. 323 17.1-11 .........21, p. 148; 27, p. 132; 38, p. 200; ........................................................... 41, p. 191 17.1a,6-19 ......................................... 33, p. 221 17.1-15 .............................................. 24, p. 159 17.9-19 .............................. IV, p. 31; 25, p. 197 17.(9-10)11-19 .............XIX, p. 153; 31, p. 157 17.20-26 ....................... VIII, p. 198; 29, p. 168
18.33-37 .......................XIX, p. 299; 31, p. 296 18.33-38a .......................................... 36, p. 358 19.16-30 ....... IV, p. 38; X, p. 284; XIX, p. 110; ......................25, p. 170; 31, p. 123; 33, p. 168; ........................................................... 39, p. 136 20.1-18 ........................... 34, p. 162; 38, p. 159 20.1-2,11-18 ..................................... 24, p. 230 20.1-9(10-18) ........... XVIII, p. 120; 26, p. 136; ........................................................... 30, p. 109 20.11-18 ....................VIII, p. 166; XIV, p. 207 20.19-23 ........................24, p. 173; 30, p. 150; ........................................................... 38, p. 206 20.(19,23)24-29 ........... X, p. 301; XIX, p. 119; ........................................................... 32, p. 134 20.19-31 .... XIX, p. 119; 21, p. 121; 27, p. 110; ......................................... 29, p. 128; 31, p. 133 20.26-31 ............................................ 37, p. 138 21.1-14 ........................XVII, p. 111; 29, p. 136 21.1-19 ............................ 34, p. 178; 40, p. 131 21.15-19 ........................................ VIII, p. 179 21.20-25 .............................................. 34, p. 53 Atos 1.8-14 ............................................... 24, p. 168 1.1-11 .................20, p. 155; p. 160; 26, p. 182; .......................29, p. 161; 32, p. 162; 38, p. 195 1.15-26 .........................XVI, p. 184; 28, p. 206 1.3-4(5-7),8-11 ..................................XI, p. 242 1.15a,21-26 ....................................... 36, p. 193 2.1-13 ................................................XI, p. 249 2.1-21 .........XIX, p. 158; 27, p. 139; 40, p. 162 2.14a,22-32 .................... 24, p. 143; 41, p. 152 2.14a,36-47 ....................................... 24, p. 150 2.22-23,32-33,36-39.........................XV, p. 239 2.36-41 ................................................ III, p. 59 2.41a,42-47 .......................................XI, p. 284 3.1-10 ...............................................VII, p. 198 3.12-19 .............................................. 39, p. 153 3.13-15,17-26 ...............XVI, p. 158; 28, p. 165 4.5-12 ................................................ 36, p. 168 4.8-12 ............................................... 28, p. 172 4.32-35 .............................................. 42, p. 141 4.32-37 ............................................... V, p. 310 5.12,17-32 ........................................ 20, p. 130 5.27-32 .............................................. 40, p. 126 6.1-7 ............................... III, p. 134; 24, p. 155 7.55-60 .............................................. 38, p. 182 8.14-17 ................................................ 34, p. 85 8.26-40 ...XIII, p. 222; XVI, p. 169; 28, p. 188; ........................................................... 33, p. 205 9.1-20 ................................................ 20, p. 136
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9.36-43 .............................................. 34, p. 184 10.34-38 ..............23, p. 35; 27, p. 52; 31, p. 38 10.34-48(10.1-11.18) ....................... XIX, p. 49 10.34-43 .......................... 27, p. 105; 33, p. 177 10. 44-48 ........................................... 42, p. 163 11.19-30 .......................XVI, p. 178; 28, p. 196 13.16-17,22-25 .................................... 22, p. 33 13.44-52 ................................ 20, p. 140; p. 143 14.8-18 ............................................. 20, p. 148 16.6-10 .............................................. 20, p. 164 16.9-15 ...........................IX, p. 171; XV, p. 141 16.16-34 ............................................ 34, p. 211 16.23-34 ......................VII, p. 122; XIV, p. 233 17.1-15 .............................................. 24, p. 159 17.16-34 ................................................I, p. 34 17.22-31 ........................ XV, p. 213; 32, p. 156 19.1-7 .................................................. 39, p. 63 Romanos 1.1-7 ...............XVI, p. 77; 25, p. 55; 28, p. 54; .............32, p. 36; 36, p. 30; 38, p. 28; 42, p. 26 1.16-17; 3.21-28 ................................ 38, p. 327 3.19-28 .......... II, p. 169; 20, p. 278; 21, p. 267; ......................................... 25, p. 287; 33, p. 364 3.21-25a ................................ 27, p. 156, p. 272 4.1-5,13-17 ..................... 24, p. 100; 35, p. 133 4.13-25 ............................ 33, p. 138; 39, p. 108 4.18-25 ............................ 24, p. 184; 27, p. 161 5.1-5 ........ XVII, p. 137; 29, p. 180; 34, p. 224; ........................................................... 40, p. 168 5.1-8 ................................ 32, p. 197; 41, p. 212 5.1-11 ............... V, p. 51; 28, p. 122; 32, p. 98; ........................................................... 38, p. 129 5.6-11 .............................. 24, p. 190; 27, p. 166 5.12-15 .............................................. 27, p. 172 5.12-19 .............................................. 41, p. 104 6.1b-11 ............................ 24, p. 211; 27, p. 183 6.3-8 ..................................................XI, p. 278 6.19-23 ............................ V, p. 164; IX, p. 258 7.15-25a .......................... 35, p. 234; 38, p. 231 8.1-11 .............. I, p. 39; XIV, p. 253; 24, p. 111 8.12-17 ..............................V, p. 170; 36, p. 203 8.12-25 .............................................. 41, p. 239 8.14-17 ............................ 25, p. 203; 37, p. 179 8.14-17,22-27 .................................... 29, p. 174 8.18-23 ................................................V, p. 150 8.18-23(24-25) ............................ XVIII, p. 192 8.22-27 .............................................. 39, p. 183 8.26-27 .............................................. 30, p. 193 8.26-30 ..............................................IX, p. 233 8.31b-39 ............................................XI, p. 144
8.31-39 .............................. IX, p. 91; 28, p. 115 8.(31-34)35-39 ............................... XVI, p. 110 9.1-5 ................................ 35, p. 261; 38, p. 252 9.1-5,31-10.4 ................................. XIII, p. 235 9.1-5; 10.1-4 ........................................V, p. 185 9.30b-33 ............................................ III, p. 124 10.5-13 ......................... XVI, p. 115; 32, p. 248 11.1-2a,29-32 .................................... 41, p. 255 11.13-15,29-32 .................................. 25, p. 255 11.25-32 ...................................... I, p. 95, (102) 11.32-36 ..............................................V, p. 126 11.33-36 ...........................................XI, p. 256 12.1-8 ..............................XI, p. 152; 24, p. 265 12.9-12 .............................................. 35, p. 284 12.9-21 .............................................. 38, p. 273 12.6-16 ..................................................V, p. 19 13.1-10 .............................................. 21, p. 229 13.8-10(13-14) ..................................XI, p. 107 13.11-14...IV, p. 251; 24, p. 19; 35, p. 9; 41, p. 9 14.1-12 .............................................. 41, p. 278 14.5-9 ................................................ 21, p. 234 14.7-13 ............................................... III, p. 79 14.10-13 ...........................................XI, p. 266 15.4-13 ............................... 21, p. 25; 32, p. 16 16.25-27 .............................................. 31, p. 19 1 Coríntios 1.1-9 ....................24, p. 70; 32, p. 72; 38, p. 75 1.3-9 ..................................XVI, p. 51; 28, p. 9 1.4-9 ....................................................V, p. 228 1.10-17 ................................ 31, p. 60; 41, p. 75 1.18-25 ................................................ 20, p. 97 1.26-31 ............... V, p. 190; IX, p. 24; 21, p. 65 2.1-5 .................................... 21, p. 71; 22, p. 60 2.1-10 ............................VII, p. 50; XIII, p. 126 2.1-12(13-16) ...................................... 38, p. 91 2.6-13 .................................................. 21, p. 74 2.12-16 .............................................VII, p. 150 3.1-9 .................................................... 41, p. 87 3.9-15 .............................XV, p. 266; IX, p. 269 3.16-23 .............................................. 22, p. 193 4.1-5 ................................ IV, p. 261; XI, p. 119 6.9-14,18-20 .................................. I, p. 78, (85) 6.9-14(15-17),18-20 ...................... I, p. 86, (93) 6.12-20 ................................ 33, p. 76; 39, p. 69 6.24-34 .............................................. 35, p. 106 7.29-31 ............................................... 24, p. 90 7.29-32a ..................................... I, p. 46, (213) 8.1-3 .................................................... 42, p. 76 8.2 .................................................... XIII, p. 42 9.16-23 ........... XIV, p. 264; 25, p. 96; 36, p. 90
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9.24-27 ............................ XI, p. 165; 33, p. 112 10.1-13 ................................V, p. 179; 20, p. 91 10.16-17 ......................VII, p. 107; XIII, p. 171 10.16-17(18-21) ................................ 31, p. 113 10.31-11.1 ......................................... 25, p. 107 11.23-26 ..........24, p. 127; 27, p. 94; 37, p. 120 11.23-29 ................................................V, p. 65 12...................................................... XIII, p. 34 12.1,4-11 ........ XVII, p. 47; 29, p. 59; 37, p. 70 12.12-21,26-27 .................... 23, p. 45; 29, p. 64 12.12-31a ............................................ 40, p. 70 12.27-13.13 .....................XVII, p. 52; 29, p. 71 12.31b-13.13 ...................... V, p. 32; XI, p. 182 14.1-3,20-25 .....................................VII, p. 158 14.12b-20 ........................................... 23, p. 49 15.1-11 .................... XVII, p. 108; 34, p. 105; ........................................................... 39, p. 142 15.1-20 ................................................ III, p. 13 15.12,16-20 ..................XVII, p. 63; 32, p. 311; ........................................................... 41, p. 321 15.19-28 ......... I, p. 16; IX, p. 207; XV, p. 207; ................................... XVIII, p. 280; 25, p. 175 15.20-28 .................... XVIII, p. 280; 30, p. 293 15.35-38 ........................................... XIII, p. 29 15.45-49 ..........................................XVII, p. 69 15.50-58 ........ V, p. 78; XIX, p. 286; 26, p. 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................................... I, p. 112, (119) 1.18-22 ..........VII, p. 14; XIII, p. 98; 25, p. 113 3.1b-6 ................................................ 25, p. 118 3.3-9 ..................................................IX, p. 283 3.12-4.2 ............................XIX, p. 76; 31, p. 78 4.3-6 ............. IX, p. 157; XIV, p. 165; 39, p. 93 4.5-12 ...........................XIX, p. 169; 31, p. 171 4.6-10 ................................................XI, p. 158 4.7-18 .................................................. III, p. 53 4.13-18 .........................XIX, p. 173; 31, p. 177 4.13-5.1 ............................................. 42, p. 198 4.16-18 ........................................... XIII, p. 192 5.1-10 .............................IX, p. 295; XV, p. 288 5.6-10 ......................... XIX, p. 178; 31, p. 183 5.6-10,14-17 ...................................... 39, p. 203 5.14-21 ................................I, p. 7; XIX, p. 181 5.(14b-18)19-21 ..........XVI, p. 140; 28, p. 153; ........................................................... 41, p. 140 5.20b-6.10 ......................... 35, p. 120; 40, p. 76 6.1-10 ................................................VII, p. 82 6.1-13 ................................................ 36, p. 221 8.1-9,13-14 ................................... XIX, p. 188 8.1-15 ............................................... XIII, p. 18
8.7-15 ................................................ 33, p. 251 8.9 ................................................... XV, p. 112 9.6-15 ............................... V, p. 323; XI, p. 272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ................. XIII, p. 142 12.1-10 ..................................................V, p. 26 12.2-10 .............................................. 42, p. 220 12.7-10 .........................XIX, p. 195; 31, p. 199 13.11-13 ......IX, p. 240; 21, p. 158; 32, p. 174; ........................................................... 38, p. 214 Gálatas 1.1-12 ................................................ 37, p. 189 1.11-24 ............................ 23, p. 113; 40, p. 182 2.16-21 ........................VII, p. 192; XIII, p. 241 3.(23-25)26-29 .............. 23, p. 119; 37, p. 206 3.28.....................................................XII, p. 70 4.1-7 ..................................................IX, p. 144 4.4-7 ........ XV, p. 106; XVIII, p. 38; 30, p. 31; ............33, p. 44; 35, p. 33; 39, p. 43; 41, p. 29; ............................................................. 42, p. 40 5.1-6 ............................................... XIII, p. 167 5.1-11 ...............I, p. g118, (125), p. 124, (131); ........................................................... 35, p. 341 5.1,13-25 ........ 23, p. 126; 34, p. 243; 40, p. 204 5.25-26; 6.1-3,7-10 .....VII, p. 214; XIII, p. 253 6.14-18 .............................................. 23, p. 131 Efésios 1.3-6,15-18 ................... XVIII, p. 43; 24, p. 58; ............................................................. 30, p. 37 1.3-14 ...............III, p. 62; 22, p. 204; 34, p. 75; ........................................................... 39, p. 225 1.3-6,15-18 .................................... XVIII, p. 43 1.15-23 .............................................. 41, p. 181 1.(16-20a)20b-23 ........... 21, p. 144; 30, p. 138 1.20b-23 ........................................... IX, p. 227 2.1-10 ................................................ 30, p. 265 2.4-10 ...........................XVI, p. 120; 28, p. 128 2.11-22 ............................... X, p. 48; 36, p. 239 2.13-22 .............................................. 22, p. 209 3.1-12 ................. 31, p. 30; 35, p. 64; 41, p. 59 3.2-12 ..............................XVI, p. 83; 22, p. 43 3.14-21 ..............................V, p. 212; 33, p. 275 4.1-6 .............................. V, p. 218; XIV, p. 353 4.1-7,11-16 ........................................ 22, p. 215 4.1-16 ................................................ 42, p. 238 4.17-24 .............................................. 22, p. 220 4.20-32 ................................................V, p. 235 4.25-5.2 ............................................. 39, p. 251 4.30-5.2 .......................................... XVI, p. 228 5.1-8a ...............................................XI, p. 205 5.1-9 ......................................................V, p. 46
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5.8-14 ............. 24, p. 105; 35, p. 145; 41 p. 118 5.9-14 ............................................... III, p. 100 5.15-20 .........................XVI, p. 233; 36, p. 264 5.15-21 ............................................... V, p. 241 5.21(22-25),26-31 .......................... XVI, p. 236 5.21-31 .............................................. 28, p. 294 6.10-20 .........................XVI, p. 242; 33, p. 300 Filipenses 1.3-11 ............ XI, p. 324; XVII, p. 14; 29, p. 9; ............................................. 34, p. 16; 40, p. 14 1.12-21 ...............................................VII, p. 95 1.20c-27 ........................................... 24, p. 280 2.1-4 ............................................... VII, p. 173 2.1-5(6-11) ...................................... 21, p. 245 2.1-13 .............................. 35, p. 309; 37, p. 297 2.5-11 ............V, p. 57; XI, p. 216; XVII, p. 97; ......... 25, p. 158; 29, p. 111; 32, p. 59; 39, p. 49 2.12-13 .............................................XV, p. 282 3.4b-14 .............................................. 34, p. 133 3.12-21 ............................ 24, p. 290; 27, p. 251 3.7-11 ................................................XI, p. 291 3.7-14 .................................................V, p. 261 3.8-14 ................................................ 20, p. 102 3.12-16 ....................................... II, p. 20 (187) 3.12-21 .............................................. 27, p. 251 3.17-21 ..............................................XI, p. 330 3.17-4.1 ............................. 20, p. 86; 37, p. 105 3.20-21 ................... I, p. 136, (137); 129,(143) 4.1-9 .................................................. 41, p. 303 4.4-7 .................................................... 26, p. 15 4.10-20 ..............................................IX, p. 150 Colossenses 1.1-6 .................................................. 26, p. 233 1.12-20 ............................ 23, p. 229; 37, p. 342 1.15-23 ...................................................I, p. 47 1.21-28 .............................................. 26, p. 240 1.24-27 ................................................ 42, p. 50 2.3-10 .............................................XIV, p. 140 2.6-15 .............................. 26, p. 250; 40, p. 218 2.12-15 ........................................... XIII, p. 186 3.1-4 .............. III, p. 48; 21, p. 117; 32, p. 127 3.1-11 ................................................ 37, p. 236 3.12-17 ................................V, p. 107; 37, p. 42 4.2-6 ...............................V, p. 114; XIII, p. 199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ............................. 24, p. 294; 27, p. 256 1.5b-10 .............................................. 27, p. 263 1.2-10 ...............................................VII, p. 210 2.1-8 .............................. 35, p. 329; 348, p. 321 2.8-15 ................................................ 27, p. 277
3.9-13 .................................... 20, p. 15; 37, p. 9 4.1-8 ................................... V, p. 38; XI, p. 315 4.13-14(15-18) .................................. 21, p. 285 4.13-18 .........21, p. 292; 36, p. 335; 42, p. 313 5.1-8 ..................................................IX, p. 288 5.1-11 .............................21, p. 297; 35, p. 357; ........................................................... 38, p. 340 5.12-24 ..............................................IX, p. 274 5.16-24 ................22, p. 19; 33, p. 20; 39, p. 18 2 Tessalonicenses 2.1-17 .............................. III, p. 165; 40, p. 316 2.(13-15)16-17;3.1-5 ......................... 29, p. 311 3.1-5 ................................................. IX, p. 252 3.6-13 ..................................V, p. 97; 29, p. 317 1 Timóteo 1.12-17 ....... III, p. 74; XVII, p. 206; 29, p. 265 2.1-4 ....................................... II, p. 169, (336) 2.1-6 .................................................. 38, p. 279 2.1-8 ........XVII, p. 211; 34, p. 314; 35, p. 370; ........................................................... 40, p. 257 3.16 ................................................ XIV, p. 132 4.4-5 ............................................. XIII, p. 298 6.6-16 ..........................XVII, p. 215; 29, p. 274 6.11b-16 ............................................ IV, p. 255 2 Timóteo 1.3-8(9-12),13-14 .............................. 23, p. 195 2.8-13 .............................. 23, p. 205; 37, p. 296 2.8a(8b-13) ..................................... XV, p. 198 3.14-4.5 ........................... 34, p. 333; 40, p. 280 Tito 2.11-14 ...II, p. 263, (430); XI, p. 128; 24, p. 34; ............................................. 35, p. 40; 41, p. 37 3.4-7 ................. IV, p. 280; 20, p. 29; 34, p. 45 Filemom 8-21 ................................................... 29, p. 254 9b-17(18-21) .................................XVII, p. 201 Hebreus 1.1-4(5-12) ......36, p. 35; 39, p. 299; 40, p. 267 1.1-9 ............................................... XVI, p. 70 2.9-11 ...........................XIX, p. 257; 31, p. 274 2.10-18 ............................................ IX, p. 188 3.1-6 .............................................. XIX, p. 262 4.9-16 ...........................XIX, p. 268; 31, p. 281 4.12-13 ..............................................XI, p. 171 4.14-16 ..............................................XI, p. 192 4.14-16; 5.7-9 .................. 24, p. 133; 34, p. 153 5.1-6(7-10) ...................XIX, p. 273; 33, p. 356 5.5-10 ................................................ 42, p. 113 5.7-9 ......... XI, p. 211; XVI, p. 125; 28, p. 134 7.23-28 ............................ 36, p. 322; 42, p. 304
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9.11-14 .............................................. 39, p. 322 9.15-17,26b-28 .................................. 20, p. 122 9.15,24-28 ............................................. III, p. 7 9.15,26b-28 .................................... XIII, p. 179 9.24-28 ......................................... XIX, p. 291 10.11-25 ............................................ 39, p. 337 10.16-25 ............................................ 42, p. 130 10.19-25 ................ II, p. 241 (408); IX, p. 119 11.1-2,6,8-10 .....................................IX, p. 178 11.1-3,8-16 ........................................ 20, p. 229 11.1-4 .................................................. 28, p. 39 11.8-10 .............................................XV, p. 160 12.1-3 ...............................................XV, p. 178 12.1-13 ............................................. 20, p. 233 12.12-18(19-21),22-25a ................. XV, p. 127 12.18-24 ........20, p. 242; 34, p. 296; 40, p. 242 13.1-8 ................................................ 20, p. 246 13.1-8,15-16 ...................................... 37, p. 262 13.(7)8-9b ...................................... XIV, p. 153 13.12-16 .............................................V, p. 205 Tiago 1.12-18 ........................................... XV, p. 154 1.17-27 ........................... 25, p. 268; 42, p. 258 2.1-13 ........................................... XIII, p. 262 2,1-5,8-10,14-18 ............. 25, p. 275; 39, p. 275 2.14-24 ............................................ III, p. 110 3.1-12 ................................................ 36, p. 283 3.13-4.3,7-8a ..................................... 33, p. 327 4.13-17 .............................. IX, p. 34; 29, p. 40 5.1-6 .......XIII, p. 265; XIX, p. 252; 37, p. 160 5.7-8 ................................................. XI, p. 114 5.7-10 ............................................ XVIII, p. 19 5.13-16 .............................................VII, p. 220 5.13-20 ............................ 36, p. 295; 42, p. 277 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ............................... XIII, p. 152 1.17-21 .............................................. 30, p. 118 1.17-22 .... XVIII, p. 129; 35, p. 182; 41, p. 158 1.3-9 .........III, p. 22; XI, p. 221; XVIII, p. 125; ........................................................... 30, p. 114 2.1-10 .... I, p. 55, p. 61; XV, p. 254; 32, p. 149 2.4-10 ....................... XVIII, p. 138; 30, p. 128 2.13-17 ....................................... I, p. 102 (109) 2.15-17 .............................................. VI, p. 13 2.18-25 .............................................. 30, p. 122 2.19-25 ...................................... XVIII, p. 133 2.21b-25 ............................. V, p. 91; XI, p. 229 3.8-17 ................................................. V, p. 156 3.13-22 .............................................. 38, p. 188 3.15-18 ..................... XVIII, p. 146; 24, p. 165
3.18-22 .............................. 36, p. 116; 42, p. 92 4.7-11 ................................................ V, p. 120 4.13-19 ...................................... XVIII, p. 152 5.1-5 .................................................... III, p. 27 5.5b-11 ............................ V, p. 144; XI, p. 307 2 Pedro 1.3-11 .............................................. III, p. 145 1.16-19(20-21) ................................. IX, p. 165 1.16-21 ............................. 24, p. 95; 27, p. 65; ........................................................... 38, p. 108 3.8-14 ........ XVII, p. 237; 23, p. 218; 25, p. 23; ............................................................. 36, p. 14 1 João 1.(1-4)5-2.2 ..................... 22, p. 124; 36, p. 157 1.5-10; 2.1-6 ................. XIII, p. 216; 36, p. 181 2.21-25 ...............................................VII, p. 30 3.1-3 ................................................. VII, p. 21 3.1-7 .................................................. 33, p. 191 3.13-18 ............................................... IX, p. 57 3.16-24 .............................................. 42, p. 153 3.18-24 ........................... III, p. 159; 22, p. 130 4.1-6 .................................................. IX, p. 72 4.1-11 ................................................ 22, p. 135 4.11-16 .............................................. 31, p. 165 4.7-12 .............................................. XI, p. 299 4.7-16 ................................................ V, p. 196 4.(7-16a)16b-21 ............ 22, p. 149; 39, p. 159 4.16b-21 ............................................ V, p. 135 5.1-5 ................................... V, p. 84; XI, p. 235 5.1-6 ................................................ 22, p. 118 5.9-13 ................................................ 42, p. 175 5.11-13 ............................................. XI, p. 138 Apocalipse 1.4-8 .......................... VII, p. 131; XIII, p. 204; ......................................... 34, p. 169; 42, p. 334 1.9-18 ...........................VII, p. 65; XIII, p. 133 1.9-20 ................................................ 26, p. 145 2.8-11 ..........................VII, p. 228; XIII, p. 275 1.9-20 ................................................. 23, p. 84 3.1-6 ...........IX, p. 127, p. 135; XV, p. 89, p. 95 3.7-13 ...................... II, p. 248 (416); 36, p. 42 3.14-22 ......................................... XIII, p. 304 4.1-11 ......................................... I, p. 144(151) 5.1-14 ..................................................VII, p. 7 5.11-14 ............................ 23, p. 90; 26, p. 150; ........................................................... 37, p. 144 7.9-12 .......................................... XVII, p. 230 7.9-17 ......... III, p. 182; XIII, p. 110; 23, p. 94; ........................................................... 26, p. 159 12.1-6 ................................................. 23, p. 26
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12.7-12 ............................................ 21, p. 241 14.6-7 ................................................ V, p. 249 15.2-4 ............................................. XV, p. 218 19.11-16 .......................................... III, p. 195 21.1-5 ............................26, p. 170; 37, p. 155; ............................................................. 38, p. 52
21.10-14,22-23 .................................. 26, p. 176 21.10,22-22.5 .................................... 34, p. 195 22.10-16 ............................................. X, p. 11 22.12-17,20 ....................................... 23, p. 99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES E COLABORADORAS DO VOLUME 42 ABENTROTH, Anelise L. ACKER, Gerson ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor BAADE, Joel Haroldo BAPTISTA, Roberto Natal BLASI, Márcia BRAKEMEIER, Gottfried BRAUN, Odair BRUN, Marli ENGELHARDT, Vera Lucia FRIEDRICH, Nestor P. FRIES, Marcos Henrique FRITSCHE, Gleidson Ademir GAEDE, Leonídio GARCIA, Paulo R. GARIN, Norberto da Cunha GAUSMANN, Samuel GIESE, Nilton GONÇALVES, Humberto Maiztegui GRAF, Geraldo GRÜTZMANN, Geraldo HAACKE, Beatriz Regina HOEFELMANN, Verner IMMICH, Vera M. JUNG, Jaime KILPP, Nelson KOWALSKA PRELICZ, José M. KONZEN, Léo Zeno KRONBAUER, Adélcio KRÜGER, Eldo KRÜGER, Rafael Mosak KUNZ, Claiton A. KUNZ, Marivete Z. KÜNTZER, Renato LACERDA, Gerson Correia de MACEDO DOS SANTOS, Paulo Sérgio MARTIN, André L. MEURER, Evandro J.
anelisevilmar@gmail.com gersonacker@yahoo.com.br juliocezar@est.edu.br albrechtastor@gmail.com baadejoel@gmail.com roberto2017@hotmail.com retalhos13@hotmail.com brakemeier@terra.com.br sinodo@sinodoparanapanema.com.br marlibrun@gmail.com vlengelhardt1@gmail.com presidencia@ieclb.org.br mhenriquefries@yahoo.com.br glefrit@yahoo.com.br leonidiogaede@hotmail.com paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com samuel_gausmann@yahoo.com.br giese1959@gmail.com humbertox@uol.com.br g.graf@uol.com.br g.gruetzmann@luteranos.com.br haacke.beatriz@gmail.com vernerhoe@hotmail.com veraodair@gmail.com jotajung@hotmail.com nkilpp@uol.com.br pastorkowalska@luteranos.com.br leokonzen@urisan.tche.br adelciokron@gmail.com eldokruger@yahoo.com.br claiton@batistapioneira.edu.br marivete@terra.com.br renato.kuntzer@terra.com.br gersonclacerda@gmail.com anlumartin@gmail.com evandromeu@gmail.com
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MORAES, Jilton MUSSKOPF, Carlos OLIVEIRA, Antonio Carlos OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de RAMOS, Luiz C. REIS, Ana Isa dos RIBEIRO, Antônio Carlos RIECK, Kurt RODRIGUES, Marcos SANTANA FILHO, Manoel B. de SCHELL, Vítor Hugo SCHERER, Cristina SCHMITT, Flávio SELL, Wilhelm STANGE, Klaus A. STAUDER, Eduardo Paulo STÜEWER, Aline Danielle TIMM, Edgar Zanini TREIN, Hans Alfred ULRICH, Claudete Beise VOIGT, Emilio WANKE, Roger Marcel WEBER, Eloir Enio WEISSHEIMER, Ramona WITTER, Teobaldo ZWETSCH, Roberto E.
jiltonmoraes@terra.com.br pastorkali54@gmail.com antonio.ieclb@gmail.com jorge.dietrich@hotmail.com luiz.ramos@textoetextura.com.br anaisadosreis@yahoo.com.br antoniocarlosrib@gmail.com kurtrieck@gmail.com marcos65br@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com vhschell@gmail.com crisitati@yahoo.com.br flavio@est.edu.br wilhelmsell@gmail.com k.stange@fl t.edu.br eduardostauder@luteranos.com.br stuewer@gmail.com hansatrein@gmail.com claudetebeiseulrich@hotmail.com emilio.voigt@terra.com.br roger.wanke@flt.edu.br eloir@sinodal.com.br ramonaew@gmail.com twitter@terra.com.br rezwetsch@gmail.com
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Texto: Times New Roman 11 Títulos: Bangkok 15 Datas: Arial 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12
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Despertando a igreja
LUTERO E A TEOLOGIA PENTECOSTAL Roberto E. Zwetsch (Org.)
144 páginas – 16x23 cm
São seis artigos que abrem caminhos promissores e oferecem uma contribuição valiosa para o diálogo e a aproximação entre a teologia luterana e a teologia pentecostal. Cristo nos deu o seu Espírito para que sejamos testemunhas hoje e aqui. Não podemos nos fechar ao que o Espírito diz às igrejas em nosso tempo. Leitura imprescindível!
O autor propõe um novo modelo de igreja, fundamentado no pensamento trinitário, na antropologia social e na reflexão bíblica. Mostra como essa noção de igreja coloca as comunidades cristãs em condições para lidar com a esfera pública, o pluralismo religioso, a globalização e a oração comunitária.
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216 páginas - 16x23cm
O EVENTO IGREJA Chamado e desafio a uma igreja protestante Vítor Westhelle
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Mantendo os valores e olhando para o futuro COMPÊNDIO DO ENSINO RELIGIOSO Sérgio Rogério Azevedo Junqueira, Laude Erandi Brandenburg e Remí Klein (Orgs.)
408 páginas – 16x23 cm
O Compêndio do Ensino Religioso dá um panorama dos principais assuntos que envolvem a área do Ensino Religioso, abordando aspectos da história, da legislação e da sua organização. Esta obra conta com a participação de 32 autores e autoras, que se dedicam à pequisa e à docência do Ensino Religioso em diferentes regiões do Brasil.
Esta obra é fruto de um estudo internacional de teólogas e teólogos comprometidos com a releitura da tradição da Reforma. Seu objetivo é retomar as descobertas e intuições do movimento da Reforma, avaliá-las criticamente e nos inspirar pela força do Evangelho que liberta e envia a viver como cidadãos do reino de Deus, que escuta o clamor do seu povo.
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364 páginas – 16x23 cm
RADICALIZANDO A REFORMA Outra teologia para outro mundo Martin Hoffmann, Daniel C. Beros e Ruth Mooney (Editores)
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Mantendo a chama na missão de Deus JUNTOS É MELHOR! Convite ao diálogo missionário Sherron Kay George
176 páginas - 16x23cm
Nas quatro décadas em que ela trabalhou no Brasil e em outros países da América do Sul, Sherron descobriu muito cedo que um elemento fundamental para a pessoa missionária não é, em primeiro lugar, falar, mas escutar. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. Neste livro, Sherron nos relata como essa experiência mudou sua vida e transformou sua fé.
Apresenta 27 reflexões a partir de questionamentos existentes na Bíblia. Aborda temas diversos e os atualiza partindo de uma pergunta específica. Por exemplo, no diálogo entre Deus e Caim: Onde está Abel, teu irmão? É um valioso instrumento tanto para leitura e estudo pessoal como para aprofundamento bíblico comunitário. Uma leitura edificante!
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104 páginas - 16x23cm
PERGUNTAS NA BÍBLIA Um convite ao diálogo, à reflexão e à transformação Sherron Kay George
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