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Proclamar Libertação 41 - 2016-2017

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PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 41 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO A Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann

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© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, João Artur Müller da Silva, Martin Volkmann, Júlio Cézar Adam e Robson Luís Neu Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos

Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963

Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br

Proclamar libertação: auxílios homiléticos / Coordenação de Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2016. 15,5x22,5 cm. ; 370p. ISBN 978-85-8194-090-8 Volume 41 1. Homilética. 2. Teologia prática. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273

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APRESENTAÇÃO

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o ano do Jubileu da Reforma, 2017, a IECLB anuncia por intermédio do Tema do Ano: Alegres, jubilai! Igreja sempre em Reforma: agora são outros 500. Não é um mero acaso o convite para o júbilo. Temos muitos motivos para tal. Um deles está diretamente relacionado a Proclamar Libertação – Auxílios para o anúncio do evangelho. Como? O lema bíblico que acompanha o Tema da IECLB neste ano é de Atos dos Apóstolos: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (17.28a). Esse versículo-lema faz parte do discurso de Paulo em Atenas no Areópago. Como acontecera em outras cidades, também em Atenas, Paulo encontrou um contexto onde a religião desempenhava um papel importante para a população. Por isso, ao pregar ali, Paulo foi questionado: “Qual é a tua, Paulo? Soa-nos muito estranho esse teu discurso!” (v. 18-19). Discutir religião era parte do cotidiano da cidade de Atenas. Por isso Paulo foi convidado a explicar a sua “crença”. Em sua abordagem, o apóstolo assumiu uma atitude respeitosa em relação à religiosidade reinante: “Vejo que vocês são pessoas religiosas (v. 22). Isso se confirma pelo número de altares”. Apesar dessa sua estratégia respeitosa, Paulo avaliou o contexto criticamente. Revoltou-se diante do que classificou de idolatria (17.16). Para ele, se Deus pudesse ser representado em imagens, seria um deus manipulável e controlável pela vontade humana. Diante do quadro reinante, Paulo diz em alto e bom tom: “Quero lhes falar Daquele que também já recebeu a atenção de vocês, o DEUS DESCONHECIDO” (v. 23). E o apóstolo conclama ouvintes ao arrependimento. Anuncia-lhes o evangelho. Evidencia que o Deus do altar desconhecido é o Deus que não cabe nas imagens, nos conceitos, nas molduras e nas definições humanas; sempre será maior do que quaisquer dessas representações. É o Deus que está próximo de cada pessoa. É o Deus Criador. É o Deus que serve em vez de querer ser servido. É o Deus que se fez próximo em Jesus Cristo, aquele que veio, viveu entre nós, morreu, foi ressuscitado dentre os mortos e que há de vir. Ali estava e está Deus. É nesse Deus que “vivemos, nos movemos e existimos”. Paulo anunciou o evangelho em Atenas – e por onde andou – em confiança na promessa feita pelo profeta: “Deus diz: A palavra que sair da minha boca não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.11). Pois é essa mesma promessa que sustenta o projeto Proclamar Libertação, que neste ano, além de oferecer os estudos para as perícopes de cada domingo, traz um especial sobre Lutero e a Educação, além do texto-base do Tema do Ano da IECLB. Em parceria com irmãs e irmãos da ecumene, vemos no anúncio do evangelho nossa principal tarefa como Igreja de Jesus Cristo. Para tal, Proclamar Libertação é uma ferramenta oportuna. Por isso jubilamos! E, diante dessa bendita tarefa, faz bem lembrar duas ponderações importantes de Lutero: “Um pregador deve fazer três cousas: ler a Bíblia com afinco; orar de coração e permanecer um discípulo e aluno; assim será um grande doutor. A Bíblia é uma erva, quanto mais se manuseia, mais perfume ela exala”. Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente

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PREFÁCIO

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om alegria e gratidão a Deus apresentamos a leitores e leitoras o quadragésimo primeiro volume da série de auxílios homiléticos Proclamar Libertação. O presente volume contempla cinquenta e cinco auxílios homiléticos sobre a série A do Lecionário Comum Revisado da IECLB, um auxílio especial sobre Lutero e a Educação, alusivo aos quinhentos anos da Reforma, e um material elaborado pelo Pastor Presidente da IECLB sobre o tema e o lema do ano para 2017. Como tem sido ao longo desses anos, a série mantém-se graças ao espírito voluntário e trabalho abnegado de muitas pessoas, que dedicam tempo e talento ao propósito de suprir pregadores e pregadoras com informações exegéticas sobre textos bíblicos e subsídios litúrgicos para as celebrações do povo de Deus. Nossa gratidão e reconhecimento a essas pessoas, sem as quais esse empreendimento não teria a longa história que tem. Por falar em história, aconteceu em 25 de maio de 2016, em São Leopoldo, nas dependências da Faculdades EST, um evento comemorativo aos quarenta anos de Proclamar Libertação, com a participação de cerca de quarenta pessoas. A programação teve um painel sobre perspectivas e desafios da pregação, com a participação do Pastor Presidente da IECLB, P. Dr. Nestor Paulo Friedrich (que falou sobre pregação na IECLB), do Secretário da Ação Comunitária, P. Dr. Mauro de Souza (que falou sobre nova homilética: uma mudança de paradigma), e do professor P. Dr. Júlio C. Adam, da Faculdades EST (que falou sobre sobre novas formas de pregação). A programação terminou com um culto de ação de graças na capela da EST, ocasião em que a pastora e professora Márcia Blasi pregou sobre Lucas 4.16-30, o texto que deu origem ao título da série. Lembramos, uma vez mais, que as contribuições de volumes anteriores estão disponíveis no portal da IECLB. Assim sendo, eventuais lacunas deste volume podem ser compensadas com a busca de contribuições de volumes anteriores. Para procurar um volume, utilize o link http://www.luteranos.com.br/ conteudo/publicacoes-2. Para acessar um texto específico, faça uso do mecanismo de busca do portal (http://www.luteranos.com.br/busca-avancada-conteudo/). Para localizá-lo, digite o nome do livro bíblico por extenso, utilizando o padrão de citação adotado (por exemplo: Lucas 10.38-42 ou Lucas 10.1-11,16-20). Que Deus abençoe os que proclamam e os que ouvem a palavra de Deus para que ela produza frutos entre nós! Verner Hoefelmann pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação

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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS............................................................................... 7 1º Domingo de Advento - Romanos 13.11-14 ..................................................... 9 2º Domingo de Advento - Mateus 3.1-12 .......................................................... 14 3º Domingo de Advento - Isaías 35.1-10 ........................................................... 19 4º Domingo de Advento - Mateus 1.18-25 ........................................................ 24 Noite de Natal - Gálatas 4.4-7............................................................................ 29 Dia de Natal - Tito 2.11-14 ................................................................................ 37 1º Domingo após Natal/Véspera de Ano Novo - Mateus 25.31-46 ................... 44 Ano Novo (Nome de Jesus) - Lucas 2.15-21 ..................................................... 50 Epifania - Efésios 3.1-12.................................................................................... 59 1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor) - Isaías 42.1-9 ....................... 64 2º Domingo após Epifania - João 1.29-42 ......................................................... 70 3º Domingo após Epifania - 1 Coríntios 1.10-18 ............................................... 75 5º Domingo após Epifania - Mateus 5.13-20 ..................................................... 81 6º Domingo após Epifania - 1 Coríntios 3.1-9 ................................................... 87 7º Domingo após Epifania - Mateus 5.38-48 ..................................................... 92 Quarta-feira de Cinzas - Joel 2.1-2,12-17 .......................................................... 98 1º Domingo na Quaresma - Romanos 5.12-19 ................................................ 104 2º Domingo na Quaresma - João 3.1-17 .......................................................... 112 4º Domingo na Quaresma - Efésios 5.8-14 ...................................................... 118 5º Domingo na Quaresma - João 11.1-45 ........................................................ 123 Domingo de Ramos - Salmo 118.1-2,19-29 .................................................... 130 Quinta-feira da Paixão - Mateus 26.36-56 ....................................................... 135 Sexta-feira da Paixão - 2 Coríntios 5.(14-18)19-21 ......................................... 140 Domingo da Páscoa - Mateus 28.1-10 ............................................................. 147 2º Domingo da Páscoa - Atos 2.14a,22-32....................................................... 152 3º Domingo da Páscoa - 1 Pedro 1.17-23 ........................................................ 158 4º Domingo da Páscoa - João 10.1-10 ............................................................. 165 5º Domingo da Páscoa - Salmo 31.1-5,15-16 .................................................. 171 6º Domingo da Páscoa - João 14.15-21 ........................................................... 177 Ascensão do Senhor - Efésios 1.15-23 ............................................................ 181 7º Domingo da Páscoa - João 17.1-11 ............................................................. 191 Domingo de Pentecostes - Números 11.24-30 ................................................. 196 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) - Mateus 28.16-20 .......................... 205 2º Domingo após Pentecostes - Romanos 5.1-8 .............................................. 212 3º Domingo após Pentecostes - Mateus 10.24-39 ............................................ 216 4º Domingo após Pentecostes - Mateus 10.40-42 ............................................ 222 5º Domingo após Pentecostes - Zacarias 9.9-12 .............................................. 227 6º Domingo após Pentecostes - Mateus 13.1-9,18-23 ..................................... 233 7º Domingo após Pentecostes - Romanos 8.12-25 .......................................... 239

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9º Domingo após Pentecostes - Isaías 55.1-5 .................................................. 244 10º Domingo após Pentecostes - Mateus 14.22-33 .......................................... 249 11º Domingo após Pentecostes - Romanos 11.1-2a,29-32............................... 255 12º Domingo após Pentecostes - Mateus 16.13-20 .......................................... 259 13º Domingo após Pentecostes - Jeremias 15.15-21........................................ 266 14º Domingo após Pentecostes - Mateus 18.15-20 .......................................... 273 15º Domingo após Pentecostes - Romanos 14.1-12 ........................................ 278 16º Domingo após Pentecostes - Mateus 20.1-16 ............................................ 285 17º Domingo após Pentecostes - Ezequiel 18.1-4,25-32 ................................. 291 18º Domingo após Pentecostes - Mateus 21.33-46 .......................................... 297 19º Domingo após Pentecostes - Filipenses 4.1-9 ........................................... 303 20º Domingo após Pentecostes - Mateus 22.15-22 .......................................... 308 Dia da Reforma - Mateus 5.1-10...................................................................... 315 Dia de Finados - 1 Coríntios 15.12-20 ............................................................. 321 23º Domingo após Pentecostes - Amós 5.18-24 .............................................. 326 24º Domingo após Pentecostes - Mateus 25.14-30 .......................................... 331 AUXÍLIOS ESPECIAIS .................................................................................. 337 Tema e Lema da IECLB 2017 ......................................................................... 339 Lutero e a Educação ......................................................................................... 345

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

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PRÉDICA: ROMANOS 13.11-14

1º DOMINGO DE ADVENTO

ISAÍAS 2.1-5 MATEUS 24.36-44

27 NOV 2016

Odair Braun

Preparados e vigilantes

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Introdução

No hino 04 do HPD lemos: “O barco vai suave, em meiga e santa luz. Não é igual a outra nave, pois vem trazer Jesus (...)”. Assim somos lembrados desse tempo especial que temos diante de nós: o Advento. Advento vem do latim Adventus e significa chegada. Para a cristandade, é um tempo especial de preparação e alegria pela vinda de Jesus a este mundo. Advento é um tempo especial. Luzes surgem nas casas e cidades, sobrepondo-se à noite e à escuridão. Essa luz também se deve colocar em nossa vida, a fim de sobrepor-se às dores e dificuldades, às pedras que encontramos em nosso caminho, à falta de esperança que, às vezes, se abate. Nesse espírito, o Advento traz consigo a expectativa pelo nascimento do menino Jesus, quando, usando as palavras do verso 4 do hino 04 do HPD, “o barco toca a terra – mistério celestial! O santo Deus encerra, que fez-se nosso igual”. Nesse contexto, o tempo de Advento vem lembrar que devemos estar preparados sempre em busca da paz e da fraternidade. Logo a mensagem desse dia não se pode furtar a refletir sobre a importância de estarmos vigilantes e preparados, assim como fazemos quando esperamos por uma visita à nossa casa. Nessa oportunidade, colocamos as coisas em ordem. Limpamos. Caprichamos. Da mesma forma, precisamos agir neste tempo de Advento, ou seja, revisando a nossa vida, as prioridades, o espaço dado a Deus e à vida em comunidade. A espiritualidade do tempo de Advento é permeada pela preparação para receber Jesus, assim como é perpassada pela oração e pela avaliação da caminhada, buscando pôr tudo em ordem na vida, nas relações familiares e na vida comunitária. O hino 04 do HPD resume isso no sétimo verso: “Enfrente morte e inferno, firmando-se em Jesus. Receba o dom eterno, herdando vida e luz”. Parece-nos serem esses os objetivos dos textos apontados para este primeiro domingo de Advento. Vale frisar que os mesmos já foram amplamente trabalhados em edições anteriores do Proclamar Libertação, a última vez no PL de 2010 por mim mesmo.

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Exegese e meditação

As passagens indicadas para as leituras bíblicas deste domingo são de Isaías e do Evangelho de Mateus. Em relação a Isaías, observamos que o contexto

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1º Domingo de Advento

de surgimento dessa palavra era controverso, incerto e violento. Aqui temos um paralelo com os nossos dias. Em junho de 2016, quando este texto é elaborado, vivemos um tempo de incertezas políticas e escândalos de corrupção. A violência física contra mulheres é assombrosa. Notícias de estupros são vistas todos os dias. Casos de racismo são manifestos nas redes sociais e publicamente. A violência nos centros urbanos parece não ter fim. E com isso fica difícil esperar pelo novo, pela renovação. O futuro, na época de Isaías, não tinha uma perspectiva muito promissora ou animadora. Para muitos, no Brasil de 2016 não é diferente. A violência e a falta de perspectivas para os menos favorecidos não davam e não dão motivos para esperança. Em meio a esse quadro, o profeta revela a visão de Deus para o futuro. É importante observar que, no versículo 5, há um convite: “Vinde, ó casa de Jacó, e andemos na luz do Senhor”. Para andar na luz, que é Jesus, precisamos estar preparados e vigilantes. Nesse sentido, a passagem de Isaías 2.1-5 parece querer projetar, despejar esperança em meio à escuridão na qual o povo de então e também o de hoje se encontram. É importante observar que o profeta fala do monte, lugar elevado, que permite uma visão ampliada e de maior distância. O monte também é espaço que, pelo fato de permitir ver mais longe, permite estratégias, facilitando o estar vigilante, atento ao que acontece nas proximidades. Em suma, o profeta Isaías faz uma profecia sobre a restauração da dignidade, do respeito e da integridade das pessoas naquilo que diz respeito à vida, à política, à segurança e ao bem-estar. Essa profecia diz respeito à noite escura que pairava, mas que será, nas palavras de Isaías, suplantada pela boa-nova vinda de Deus e sua misericórdia redentora. O evangelho deste dia apresenta palavras de Jesus sobre o fim dos tempos, ressaltando a importância de estar devidamente preparado, razão pela qual destaca o evangelho: é preciso “vigiar, porque não sabeis em que dia vem o Senhor”. Assim temos em mãos um texto que se alinha ao espírito do tempo de Advento, pois pede e adverte para estarmos vigilantes e preparados, “sempre alertas”, como diz o slogan dos escoteiros no Brasil. Mateus fala de algo novo que está brotando. Assim como cuidamos das plantas que germinam, regando, protegendo do sol e de ervas daninhas e insetos, devemos estar e viver em prontidão para a vinda do Filho do Homem. Advento é tempo especial para tal. Ele quer preparar-nos de modo especial para este novo que vem surgindo, sem ao certo saber onde, como e quando. Mas sabemos que provém de Deus, nosso Senhor e Redentor. E se vem algo novo, equivale a dizer que algo de velho será vencido, terá que ser deixado de lado. O novo é a vida sob a luz e a orientação da palavra de Deus. O velho a ser deixado de lado devem ser a nossa autossuficiência e arrogância de achar que sozinhos tudo podemos. O novo é deixar Deus caminhar junto a nós, de tal forma que, quando não somos mais capazes de seguir andando, permitamos que ele então nos carregue e sustente. Advento chama a crer e viver a partir disso. A pregação deste dia é baseada em Romanos 13.11-14. Também ali a palavra de Deus chega a nós de um modo confiante e proclama: “E vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.

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Andemos dignamente... Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”. Importante também observar que nesse contexto a palavra de Romanos determina enfaticamente: “Já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos” (v. 11). Na passagem de Romanos, além do chamado para despertar do sono, fazem-se paralelos interessantes, como é o caso da menção à alta noite e manhã próxima. Quero crer que essa linguagem é uma menção daquilo que é velho e que não serve mais, que atrapalha e será sobreposto por algo novo que vai chegar. Esse novo provém do nascimento de Jesus, para o qual nos preparamos especialmente neste Advento. O novo provém da cruz, da ressurreição, que nos enche de esperança, de modo que possamos nos revestir com Cristo para estar firmes e inabaláveis. Romanos 13.11-14 fala de noite e trevas. Espaço de medo. De pouca segurança. De incerteza. Ao acordarmos à noite, tateamos em busca da luz que nos concede segurança e certeza de como nos locomover sem riscos. Neste tempo de Advento, a luz nos é posta diante dos olhos e nos dá a certeza de que não vamos seguir sozinhos pelos caminhos. Dá-nos a certeza de que a palavra de Deus, seu Santo Espírito e sua proteção nos guardam e orientam. Dá-nos a certeza de que em meio às dificuldades podemos contar com a presença de Deus. O despertar do sono, do qual fala Romanos, e o tempo de preparação do Advento desejam orientar e preparar para tal. E isso equivale a deixar para trás as trevas, ousando caminhar pela luz, pelo novo caminho, proposto pela palavra de Deus. Assim sendo, despertar do sono requer ousadia e determinação. Requer disposição para enfrentar e ajustar-se ao novo. Em razão disso, neste tempo especial que é o Advento, as passagens deste primeiro domingo convidam e desejam despertar e fazer perceber que Deus está à porta, que ele vem nos visitar. Como nos preparamos para tal? Como vamos recebê-lo? Como nos organizamos para uma visita tão especial? Da mesma forma, essas passagens nos convocam e convidam a viver nossa fé com coragem e ousadia, com determinação e afinco. Para despertar do sono e vencer a escuridão, faz-se necessária a luz. Com ela as trevas serão vencidas. Usando a linguagem de Romanos, deixar as obras das trevas (v.12) e revestir-se da luz (v.12). A luz é Jesus, sua boa-nova de salvação.

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Imagens para a prédica

Advento pode ser definido como um tempo alegre e especial que marca a esperança da transformação e a chegada do reino de Deus para vencer as trevas e a escuridão. Para tal, cada um de nós deve estar atento, desperto, vigilante e participativo. Parece-nos que esse deve ser o foco da mensagem do dia. Em razão disso, vislumbramos que a pregação poderia ser desenvolvida em três tópicos: a) Despertar do sono – Estar preparado requer envolver-se com a palavra de Deus, deixando-a desafiar-nos para seguir por caminhos novos, mesmo que esses possam parecer desconhecidos. Despertar do sono equivale a dar espaço

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para Deus caminhar conosco por meio da oração, do estudo da Palavra, da vida comunitária. Como se deu isso no ano que finda? Como queremos que seja no novo ano? b) Estar vigilantes para ter tempo de alegria e salvação – Se dermos espaço a Deus para seguir ao nosso lado, estaremos sendo vigilantes. Isso não significa que estamos livres de dificuldades, de problemas ou mesmo livres de enfermidades. Porém equivale a ter mais confiança para enfrentar esses momentos, pois teremos a certeza de que não estamos sozinhos, mas caminhando com Deus ao nosso lado. Dar espaço para Deus (Advento lembra isso) é ter prioridades. É estar preparado. Sempre vigilante. E tudo isso para que a boa-nova da salvação seja a nossa luz orientadora em meio às trevas e à escuridão. c) Qual o desafio que fica para nós? Fica o desafio de assentar prioridades para a vida. Iniciamos um novo ano eclesiástico. O ano secular vai terminando. Que avaliemos o que foi bom e no que devemos mudar nossa conduta. Que analisemos nosso agir frente à palavra de Deus e à vida comunitária. Como posso ajudar mais? Como posso ajudar a despertar mais pessoas de seu sono? Como posso ajudar a vencer a escuridão?

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Subsídios litúrgicos

Acolhida Sejam todos bem-vindos, sejam todas bem-vindas. Este é o primeiro domingo de Advento. Começa o ano litúrgico da igreja. É tempo de preparação para a chegada do Menino Jesus. Sabemos que esperar é difícil, porque vivemos num tempo de satisfação rápida, num tempo de impaciência. Queremos tudo para ontem. Enquanto preparamos a celebração do nascimento de Jesus, esperamos por sua vinda. É um tempo de reavivar a esperança e a vontade de viver e trabalhar por um mundo mais justo e pacífico. É um tempo para estar vigilante e preparado. Quero acolher todos com as palavras do Salmo 85.7: “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia e concede-nos a tua salvação”. Que Deus nos inspire para a vigília e a espera desse que vem ao nosso encontro neste culto por meio de sua Palavra e da Ceia que iremos receber hoje. Amém. Invocação trinitária Celebramos este primeiro culto de Advento em nome de Deus Pai, o criador da vida; em nome de Jesus Cristo, que se encarnou para trazer a salvação a seus seguidores; e em nome do Espírito Santo, que nos fortalece e nos anima neste culto para sempre estar preparados e vigilantes. Amém. Confissão de pecados Bondoso Deus, criador da vida. Nestes últimos dias do ano, o nosso tempo parece que passa cada vez mais rapidamente. Temos a sensação de que as horas estão correndo. As tarefas e preocupações aumentam, a demanda do trabalho

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exige mais tempo, gerando desgaste físico e emocional, afastando-nos da comunhão contigo. Por isso te suplicamos perdão, Senhor. Esquecemos até mesmo de estudar a tua Palavra, a qual aponta para nós o quanto tu nos amas; deixamos de olhar para as pessoas que convivem conosco no dia a dia, causando dor e sofrimento àqueles que querem o nosso bem. Ocupamo-nos extremamente com coisas secundárias e esquecemo-nos de estar vigilantes e preparados para a tua vinda. Neste tempo de final de ano, muitas vezes, as festas, as comemorações, os presentes e outras demandas existenciais acabam tomando nosso tempo. Muitas vezes, a correria faz com que nos esqueçamos de tudo aquilo que tu fizeste por nós até os dias de hoje. Não damos ouvidos à mensagem que nos convida ao arrependimento para preparar o caminho para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Não damos a devida atenção à misericórdia e ao amor para conosco quando vieste até nós na humildade de uma criança nascida em uma estrebaria em meio aos animais. Por isso nos dirigimos a ti, ó Deus misericordioso, para implorar teu perdão. Anúncio da graça Deus não rejeita o nosso pedido de perdão. Deus, por sua infinita bondade e misericórdia, aceita e acolhe todos os que verdadeiramente confessam os seus pecados. A palavra de Deus no Evangelho de João 15.16 diz: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros”. Misericordioso Deus, que vieste ao mundo para nos salvar, foi com teu amor mais profundo que libertaste o ser humano. Por isso, como ministro/ministra de Cristo, anuncio-vos o perdão de todos os pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Bênção Que neste tempo de Advento e em todos os dias de tua vida a bênção de Deus te acompanhe: Desejo que Deus te abençoe e te mantenha com vida. Que na vida ele te mantenha com fé. Que na fé Ele te mantenha em Cristo. Que em Cristo Ele te conceda a salvação Que na salvação a tua vida seja um testemunho. Que o teu testemunho seja uma bênção. Assim te abençoe o Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

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2º DOMINGO DE ADVENTO

04 DEZ 2016

PRÉDICA: MATEUS 3.1-12 ISAÍAS 11.1-10 ROMANOS 15.4-13

Samuel Gaussmann

Adubando a esperança para a fé frutificar

1 Introdução Isaías fala da expectativa pelo rebento do tronco de Jessé: brota a esperança em meio a um presente árido e sofrido. O discurso de João fala do machado posto à raiz da árvore. São a esperança, a fé e o amor que devem frutificar e crescer. Tudo aquilo que não for desse fruto e dessa raiz será cortado. A poda, mesmo sendo um ato agressivo, é necessária para o saudável crescimento da planta. Muitas coisas na vida de fé deverão ser podadas e outras cultivadas. É preciso escolher o que cortar e o que adubar e regar. Também é complexo saber até que ponto a poda fortalece e quando mata. A fé dá o discernimento. Advento é tempo de discernimento. A Quaresma poda o pecado, e o Advento aduba a esperança. A perícope de Romanos também sinaliza para a esperança, principalmente o v. 4, que destaca que o ensino que as Escrituras fornecem tem o objetivo de criar esperança e mantê-la viva através da paciência e da coragem. A esperança cristã não é ilusão, mas algo baseado nas promessas de Deus. Mesmo que não seja algo palpável e demonstrável diante dos olhos, é algo que se pode sentir e que fornece a serenidade para enfrentar qualquer desafio. Também o v. 13 destaca a dimensão da esperança, adjetivando Deus como Deus da esperança e no pedido do apóstolo para que seus leitores sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo. Nisso se aproximam os três textos: a esperança cristã comove o coração e move os passos numa caminhada solidária e engajada. É algo que o mundo desconhece, pois provém da ação de Deus em nosso favor e concretiza-se através do comprometimento de cada qual.

2 Exegese Diferentemente do texto paralelo de Lucas, que detalha o momento histórico de João Batista (Lc 3.1-2), Mateus parece pressupor que seus leitores sabem que dias são aqueles a serem descritos. João pregava no deserto e batizava no rio Jordão, movimento que remete à dinâmica do arrependimento: o ouvir no deserto simboliza a interiorização e o reconhecimento da culpa; a volta à civilização no batismo no rio Jordão simboliza o compromisso de uma nova ética na interação com o meio social. “Metanoeite, ēggiken gar hē basileia tōn uranōn”, ou seja: “Mudem de mente (ou de ideias ou de comportamento) porque chegou o reino dos céus”,

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ou numa tradução mais livre: “Arrependam-se, porque já chegou o reino dos céus”. Foi esse o incômodo grito de João Batista. Incômodo como o martelar do monge Martim Lutero pregando suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, cuja primeira era: “Quando nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo diz: Arrependei-vos (Mt 4.17), ele queria que a vida inteira dos crentes fosse arrependimento”. Nesse sentido, o Batismo não pode ser apenas uma formalidade, mas precisa permanecer uma afirmação de entrada na nova vida e de compromisso com essa nova vida. “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (3.2). Aqui é relevante olhar para o texto de Isaías (40.3). Tanto Mateus como os demais sinóticos usam as expressões do profeta, mas não seu significado original. Isaías fala do retorno do povo de Israel do exílio e da preparação que essa esperança deveria provocar nas pessoas. Os evangelistas associam essa preparação com a conversão diante da promessa de Deus encarnada: Jesus Cristo. Nesse mesmo sentido pode ser interpretado o texto paralelo de Isaías 11. O tronco indica a casa real de Davi, que então está “cortada” pelas consequências da desobediência a Deus. O profeta não fala sobre Davi, e sim sobre Jessé (o pai de Davi) para indicar que a família real de Judá não tem mais aquela glória e grandeza ligadas ao nome e ao governo de Davi. O profeta quer dizer que Deus vai começar de novo: Ele suscitará um novo Davi, assim como fez um novo começo com Davi na época de Saul. Daí a analogia que do humilde Jessé (associado no NT a José) sairá um grande rei como Davi (associado no NT a Jesus). Esse grande rei do futuro será espetacular, porque “repousará sobre ele o Espírito do Senhor” (v. 2). Seu reinado será de paz, mas de uma paz nunca antes vista, como é descrito na convivência harmoniosa entre animais de posições opostas na cadeia alimentar. Isso tudo fez surgir a analogia com o reinado de Jesus, com o reino da paz que Ele veio instaurar quando afirma que a paz que Ele traz não é a paz que o mundo conhece (Jo 14.27). João Batista também prega sobre algo novo, um novo tempo que requer preparação. Nos dias de João Batista, o povo israelita havia perdido sua liberdade política para o Império Romano e não havia nenhuma perspectiva de recuperá-la a curto prazo. Internamente, o povo estava dividido em diversos grupos. É para esse contexto de crise que João Batista fala. E a palavra com a qual ele anuncia a chegada de Deus é arrependimento. As pessoas que se sentiam tocadas por esse chamado deixavam-se batizar. João era um homem que vivia sua mensagem. Três aspectos marcavam a realidade de seu protesto: 1. O lugar onde vivia: deserto; 2. Suas roupas: Elias tinha usado roupa semelhante (2Rs 1.8); 3. Sua alimentação: gafanhotos e mel silvestre (esse exótico cardápio é alvo de diferentes interpretações na pesquisa bíblica, mas é consenso que significa uma dieta simples). Tirar as sandálias do caminhante era um trabalho que correspondia ao escravo. João não se considerava digno de servir ao Mestre, nem mesmo na qualidade de escravo (v. 11), entendendo-se como apenas um canal de ligação com o Filho de Deus. “Produzi frutos dignos” (v. 8). Trata-se, portanto, de produzir, e não de encontrar frutos prontos. A produção de frutos inicia com a semeadura. Por semente vamos entender a vida mental que elegemos, é a elaboração de novos componen-

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tes germinativos, saber selecionar a proposta, aprender a cultivar e ser coerente e perseverante na proposta. A qualidade do fruto está diretamente relacionada à qualidade do que é lançado. Se quisermos melhorar a colheita, melhoremos a semeadura! João compara as pessoas com árvores. E o que se espera de uma árvore? Que seja útil. O foco aqui está na produção de frutos. Os machados eram feitos de ferro puro, e na Bíblia ferro é símbolo da justiça de Deus. João expressa que a justiça de Deus já foi aplicada às raízes das árvores que não produziam bons frutos. O Salmo 1.3 descreve a respeito do ser fiel: “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria”. Jesus fala figurativamente a respeito da árvore, representando a vida de uma pessoa quando diz: “Pelo fruto se conhece a árvore” (Mt 12.33). Outra palavra contundente de João está no v. 9: ainda que ser judeu inclua os privilégios externos da aliança, os verdadeiros filhos de Deus somente o são em virtude de ação divina. No paralelo de Lucas são exemplificadas algumas atitudes coerentes com o arrependimento, quando publicanos e soldados questionaram João sobre o que deveriam fazer (Lc 3.10-14).

3 Meditação A ênfase da pregação de João Batista era a necessidade de cada pessoa experimentar o arrependimento para poder participar do reino de Deus. Para sentir a direção e condução de Cristo, é preciso retificar a estrada em que se tem vivido. Caminho seguro é por meio daquele que veio trazer vida em abundância a nós. Para nossa felicidade, não existe caminho diferente daquele que Jesus nos traçou com sua própria vida. E o roteiro continua sendo o da manjedoura ao calvário. O resto é atalho perigoso, beco sem saída. Preparar o caminho (v. 3) significa trabalhar o terreno do coração do ser humano no qual Deus deseja entrar, removendo os obstáculos à sua presença, mas também olhar para o contexto onde se vive e pensar: quais são as pedras no caminho das pessoas? A partir do autoexame, agir com disciplina, e a partir da análise do contexto, agir coletiva e solidariamente. João Batista é apresentado como aquele que tem um cinto de couro em volta dos rins e alimenta-se de gafanhotos e mel. Cinto é o acessório que dá firmeza à vestimenta e propicia segurança (sem cinto minhas calças jeans caem!). E não são justamente segurança e firmeza o que as pessoas mais procuram? Pois bem, cinto nos rins! A simbologia dos rins remete-nos à capacidade seletiva, ao processo de filtragem e de seleção de valores para uma vida com propósitos, assim como os rins filtram as impurezas do sangue no organismo. Ninguém chegará a seu objetivo captando todos os valores e padrões de forma indiscriminada. As pessoas cristãs selecionam seus valores, testam suas escolhas, depuram seus sentimentos e intenções a partir da fé em Cristo através da Bíblia. A dieta à base de gafanhotos e mel remete-nos à humildade e à simplicidade, em que menos é mais! Assim, deparamo-nos com dois personagens conflitantes no Advento: o comedido e famigerado João Batista diante do exagerado e rechonchudo Papai Noel! Roupa de pelos de camelo conectam-nos mais com o humilde presépio do que com as

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árvores de Natal abarrotadas de enfeites e os papais-noéis do comércio em geral. Mas todo esse processo de seleção tem que ser com a doçura do mel. A seleção de valores não precisa ser amarga, mas comedida, disciplinada e comprometida, sem excessos e inconstância. João chamou seus conterrâneos fariseus e saduceus de “raça de víboras”. Como ele chamaria os luteranos hoje? Penso que nos chamaria de “traças de Bíblia”. (As traças de livros – Thysanura –, ao contrário das traças de roupas, não apresentam asas e já saem dos ovos com a mesma forma da traça adulta. Elas têm coloração prateada, não gostam de umidade nem de luz.) A acusação de sermos “traças de Bíblia” justifica-se porque conhecemos a Bíblia, orgulhamo-nos de ser a “igreja da Palavra”, mas só roemos a Bíblia e não a praticamos. Somos muito mais ruminantes do que praticantes da Palavra! Essa característica de traça pode ser atribuída também aos evangélicos de nosso país, que decoram (roem) as partes da Bíblia que lhes convêm e fazem de seus feitos intervenções do próprio Deus, como se pudessem roer do sagrado o que lhes é “de direito”. Eles seriam traças com síndrome de abelha, que julgam ser os únicos a polinizar o mundo com o evangelho, ferroam todos os que não são e agem como eles e voam em enxames que “dão medo” pelo número que reúnem e pelo barulho que fazem. Estamos a caminho de celebrar os 500 anos da Reforma Protestante. João Batista lembra os israelitas de que o fato de ser da linhagem de Abraão não significa salvação. Da mesma forma, ser herdeiro da Reforma não significa que continuamos na linha de pensamento e ação do reformador Martim Lutero. A Reforma precisa de sucessores e não de herdeiros, porque é uma causa de fé! O meio evangélico no Brasil é um grande denominador comum que mais confunde do que explica. Como a IECLB apresenta sua identidade? Evangélica? De confissão luterana? Protestante? Igreja dos alemães? Escrevo num momento político-econômico conturbado no Brasil: denúncias de corrupção, Operação Lava-Jato, votação no Congresso em que políticos usam e abusam do nome de Deus, impeachment. Assim como Israel passava por uma crise de identidade em que o povo estava dividido em partidos e seitas que reivindicavam cada qual para si o verdadeiro Israel, a sociedade brasileira também atravessa um período de crise: está dividida em classes, polarizada em seu discurso político, desarticulada em sua cidadania, alienada de informação, carente de cuidado. Não consigo imaginar como será o desfecho dessa situação até o final do ano, até este segundo domingo de Advento. Mas rogo, com esperança, que a crise ensine o povo e que a sua memória não adormeça na hora do voto.

4 Imagens para a prédica Esse texto desestabiliza-nos da alegria do Natal e transporta-nos para a apreensão da Quaresma, tal como um portal no Calendário Litúrgico. Deus teve que vir e intervir diretamente na história da humanidade. Jesus veio para amar e levar-nos para perto de Deus, mas o pecado é tão terrível, que levou Jesus para a cruz e colocou-nos na encruzilhada para decidir: qual é a minha posição? O segundo domingo de Advento tem ares “quaresmais” por conscientizar-nos

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de que o nascimento de Cristo requer de nós não somente alegria e gratidão, mas comprometimento com a causa de fé, que é, sim, questão de vida ou morte. Com o nascimento de um filho são despertados nos pais sentimentos de alegria e gratidão, mas chega um momento em que “cai a ficha” e sobrevêm os sentimentos de insegurança e até de angústia: “E agora? Vou dar conta do recado?”. Em meio aos preparativos do Natal, tudo colorido e alegre à espera do Papai Noel, gordo, bonzinho e cheio de presentes para dar, vem ao nosso encontro o rude e maltrapilho João Batista, que nos tira toda a maquiagem e perscruta-nos como espelho incômodo, nada colorido, tudo “preto no branco”, um azedume em meio aos chocolates. Pode-se comparar o pinheiro de Natal a uma árvore frutífera: o pinheiro só tem beleza e não tem frutos. O pinheiro, uma vez cortado, por mais bem decorado que esteja, vai murchar e morrer. A árvore frutífera, estando plantada e tendo água, luminosidade e adubo em proporções adequadas, vai frutificar e pode durar muitos anos e, mesmo sendo podada, renova-se e frutifica novamente. Natal não pode ser somente beleza e encantamento, mas deve trazer sentido para um comprometimento. Se já houver árvore de Natal montada na igreja, colocar embaixo dela ou apontada para ela um machado ou dois que formem uma cruz para destacar que Deus não quer beleza; ele quer frutos dignos. Enfatizar que a sombra da cruz já incide sobre a manjedoura.

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados (Mostrar um machado) Árvore que não produz nada vira lenha; só serve para queimar e vira cinza na fogueira. Anúncio da graça (Mostrar um cesto de frutos) A graça de Deus capacita-nos a frutificar pela fé. Cada estação do ano tem seus frutos, mas gente cristã é desafiada a produzir bons frutos sempre, todo dia. A pessoa que aprofunda suas raízes na Palavra frutifica, porque a graça de Deus é tal como sol a iluminar e chuva a irrigar; ela “é como árvore plantada junto à corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ela faz será bem-sucedido” (Sl 1.3). Se houver Santa Ceia, que tal usar pães asmos para destacar os ares “quaresmais” do texto bíblico?

Bibliografia GARDNER, Paul (ed.). Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 2005. p. 10-16. JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no tempo de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1990. p. 368ss.

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PRÉDICA: ISAÍAS 35.1-10 MATEUS 11.2-11 TIAGO 5.7-10

3º DOMINGO DE ADVENTO

11 DEZ 2016

Norberto da Cunha Garin Edgar Zanini Timm

As flores do deserto

1 Introdução Estamos nos preparando para o Advento. É o penúltimo domingo, momento no qual precisamos recordar a ação misericordiosa de Deus, que vem demonstrar seu amor pelo ser humano de maneira explícita na pessoa de Jesus Cristo. A leitura de Mateus 11.2-11 contextualiza-nos no anúncio da chegada do tempo salvífico. A moldura da narrativa é a dúvida de João Batista, que diante dos comentários a respeito de Jesus envia mensageiros em busca de clareza: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” (11.3). Na narrativa de Mateus, Jesus não responde diretamente, mas ilustra sua palavra com o que está acontecendo ao seu redor: “Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (11.5). Na verdade, o que se contava a respeito de Jesus não correspondia ao que se esperava popularmente de um messias. Mesmo os partidos político-religiosos de Israel não tinham um perfil de messias que fechasse com as características apresentadas pela pregação pública de Jesus. Mais do que uma resposta, os sinais falavam do novo tempo que já havia chegado, mas muito mais de um messianismo distinto, todo voltado aos que estavam excluídos do convívio social. Ao complementar sua mensagem, fala do escândalo daqueles que esperavam um outro messias. A pregação de Jesus constitui, na sequência, um esclarecimento sobre o tempo de preparação para o advento que chegou em sua pessoa. Tiago conforta os cristãos na expectativa da chegada da parousia. Assim como o agricultor espera que a lavoura dê seu fruto, assim os crentes devem aguardar o tempo que já está chegando e ilustra essa espera com o sofrimento dos profetas, que se dedicam integralmente à missão na expectativa da realização do reino de Deus.

2 Exegese Lançamos, a seguir, algumas considerações sobre o texto da prédica: V. 1 – A devastação da terra pode simbolizar a ausência de Deus, mas há uma esperança que vem da mudança de enfoque: agora haverá flores e vida. Em

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41.19, o autor retoma essa temática apontando para a vegetação que nasce e cresce no deserto. Há uma ação de Javé que altera o mundo natural: ele não é apenas senhor do povo, mas senhor da natureza, da vida. V. 2 – A primeira parte do v. 2 repete informações do v. 1 e dá-lhe continuação. É anunciada a presença de Javé, representada pela abundância de vida nas flores que antecipam a vinda dele. A glória de Deus aparecerá. Não aparecem os protagonistas que recebem essa epifania. O sufixo feminino (foi dada a ela), pelo contexto, reporta-se a Jerusalém. Pode-se estabelecer um paralelo com a glória de Javé, contida em 60.13. A glória do Líbano reporta-se aos cedros amplamente utilizados nas construções mais elaboradas de Israel, como por exemplo o templo de Jerusalém sob Salomão (1Rs 5.19-20). V. 3-4a – O foco destes versículos são o estímulo e a confiança que Deus há de fazê-los vencer, pois os destinatários do texto já o conhecem. Representa que eles já tiveram uma experiência de profunda convivência com ele. 40.29-31 reporta-se ao vigor dos cansados, que é restabelecido como a força dos jovens. V. 4b – Repisando o v. 3, este versículo inicia com uma palavra de estímulo: “sede fortes, não temais” e apresenta a justificativa para a força e o destemor: “eis o vosso Deus”. Fala da forma como a ação divina se estabelecerá, apontando para o conteúdo dessa ação na experiência do povo: “ele vem e vos salvará”. É errôneo afirmar que a vingança vem de Deus ou que ele promove a vingança. Ele nunca promove esse tipo de ação, pois se trata de um Deus de amor. V. 5-7 – Aqui uma nova perícope se abre: há uma apresentação do conteúdo da obra de Javé na forma de contrastes qualitativos fortes: cegueira/olhos abertos; surdos/ouvidos desimpedidos; coxos/saltam etc. Quando Pedro e João estão à porta Formosa e curam um coxo, trata-se de uma comprovação de que a era messiânica chegou. Da mesma forma, esses conteúdos são retomados por Mateus 11.5, quando João Batista envia mensageiros a Jesus para questioná-lo sobre sua messianidade. Outra figura, a da água brotando no deserto, também pode ser associada à chegada do tempo salvífico (Is 41.18) e de atos extraordinários de Javé (Ex 17.6). Os v. 6 e 7 podem ser comparados às palavras de 41.18-19, um tempo de refrigério para os exilados, que voltavam pela transformação operada por Javé. V. 8-10 – Parece que a expressão “caminho” não está colocada aqui com muita certeza, e alguns autores preferem a tradução da sequência: “Imundo nenhum pisará nele e loucos nele não perambularão”. É por isso que alguns comentaristas consideram o v. 8 uma glosa. Contudo esse aponta para a preparação dos resgatados de Sião. Estão abertas as veredas seguras. Em 11.16, a figura do caminho aparece referindo-se tanto a Moisés no episódio do Êxodo como ao resto que estava na Assíria. Reporta-se ao retorno dos dispersos. No v. 9, parece estranha a menção ao leão e a outros animais ferozes, porque isso não parece ser uma ameaça para os peregrinos (SOBOTTKA; BECKER, 1996, PL 21). A alegria eterna é uma figura que se reporta à bagagem que se carrega na cabeça e tem como significado um contentamento grande. Em relação ao contexto, torna-se importante considerar quem são os destinatários desse texto, assim como os emissores da mensagem, de igual modo em que data esse texto teria sido composto. Há muitas incertezas, mas parece que

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a composição está mais relacionada aos séculos VI e V. Há certa dificuldade de datação porque não aparece nenhum fato histórico ou referência a alguma nação ou rei contemporâneo. Também não se pode deduzir que se refira ao retorno dos exilados, visto que se poderia reportar à caminhada anual dos filhos de Israel da diáspora em direção a Sião. Por isso há quem o considere um texto atemporal. É possível que o destinatário dessa mensagem seja todo o Israel. No caso dos exilados, é importante considerar que alguns não se animaram com a liberdade para retornar, ainda que Judá estivesse reduzido a um pequeno território, e nesse caso o texto poderia fazer parte de uma mensagem de estímulo ao retorno. As informações dos v. 1 e 2 parecem apontar para um locus no qual havia exuberante vegetação temporária: o deserto alegrar-se-á e florescerá, e o Líbano, o monte Carmelo e a planície de Saron aparecem como lugares nos quais há muita vida. Quem sabe, muito mais uma promessa de Deus, que é capaz de fazer milagres. O texto parece apontar para uma alegre acolhida aos caminhantes e mostrar a grandiosidade de Deus, capaz de sua intervenção na natureza a ponto de transformar deserto, ermo e morte em flores e vida. Essa visão aponta não apenas para a abundância de vegetação, mas também para a expectativa de que os frutos virão, fundamentais para a permanência na terra. Os v. 3 e 4 apontam para um estímulo e uma consolação. Entretanto não se pode distinguir quem é o emissor dessa mensagem e a quem se destina. Os desalentados de coração seriam os judeus voltando da diáspora em busca de vida na terra prometida? Seriam os retornantes do exílio babilônico? Seriam outros povos que encontrariam acolhida no seio da terra prometida? Ao considerar a composição dos v. 5 e 6, pode parecer que os destinatários são pessoas que já retornaram do exílio, mas que não encontraram uma situação favorável, como esperavam antes do retorno. Deve-se notar que entre esses destinatários estão as pessoas com deficiência, pois são mencionados surdos, mudos, coxos e cegos, pessoas que habitualmente são invisíveis na sociedade. Outra dúvida é sobre o conteúdo dessas mensagens: tanto pode ser um dito do mensageiro como pode ser uma vocação profética ou mesmo um imperativo do próprio autor (SOBOTTKA; BECKER, 1996).

3 Meditação Há momentos nos quais a trajetória de uma comunidade se assemelha a um enorme deserto ressequido. As relações ficam desgastadas. Não há entrosamento, e as pessoas não se conseguem unir em torno de um objetivo. Considerando as possibilidades humanas, certas comunidades caminhariam para o fracasso total. É nessas circunstâncias que se torna necessário perceber que o trabalho realizado possui outra dimensão. Deus é capaz de fazer coisas inimagináveis, como fazer brotar vida onde somente existem secura e morte. Em meio às muitas desesperanças, é possível vislumbrar flores e florestas. A glória de Deus não se manifesta apenas em eventos espetaculares, mas também em fazer o impossível tornar-se possibilidade.

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A comunidade necessita ser estimulada e fortalecida, porque muitas vezes está imersa na desesperança. São adversidades econômicas, políticas e de outra ordem, que abatem as pessoas e, por consequência, a coletividade. A opressão promovida pelos tributos elevados, pelos jogos de poder dos dirigentes provoca desânimo e tristeza. Sobretudo é necessário dizer: “sede fortes”, porque Deus está aqui e está vencendo, assim como venceu a morte na ressurreição de Cristo. Jesus é o Emanuel, um Deus capaz de fazer maravilhas onde só aparecem securas e desesperos. Esse é um Deus distinto dos totens de pedra e de madeira que circulavam no contexto social de Israel. Ele não está interessado em louvores e exaltações, mas na prática da misericórdia para com aqueles que se encontram à margem da sociedade competitiva de mercado, ressequidos pela escorchante prática dos negócios a crédito: os abatidos, os coxos, os cegos, os surdos. Ele não está interessado em tronos ou entronizações, mas nas veredas de justiça que promovem o humano que há em cada pessoa e que é coroada com a compaixão de Cristo. Com Ele abrem-se caminhos por onde trilham os mansos, os puros de coração, os que desejam e constroem um novo tempo de solidariedade, em que antes só havia disputas e intrigas. Nesse novo tempo, o tempo do Reino, não haverá mais tortura nem dor. Nessa nova terra haverá alegria e gozo, porque Deus será o Senhor que julga e que ama, que corrige e que alenta. Dela desaparecerão a tristeza e o choro, pois um novo sorrir será colocado no rosto dos filhos do Eterno. A secura provocada pelo desespero das dívidas será transformada na alegria de uma vida comunitária de solidariedade e misericórdia, sem dinheiro e sem preço (Is 55.1). O deserto, ressequido de uma vida sem sentido, é transformado na abundância da água da vida (Ap 21.6), cuja concretude se dá no advento de Cristo.

4 Imagem para a prédica Conseguir um exemplar, de bom porte, de um cacto florescido. Colocar o cacto bem à frente da congregação. Durante a prédica, mostrar que a planta nasce e desenvolve-se dentro de um vaso com terra seca. Apesar disso, faz desabrochar uma flor maravilhosa. Assim Deus faz nascer as manifestações mais preciosas de vida no meio da secura. A aparente esterilidade de nosso meio nunca deve ser motivo para parar de lutar. Alimentados pela certeza de que Deus em Cristo nos mostra o impossível, mantenhamos a esperança contra todas as desesperanças. Uma alternativa seria conseguir uma orquídea florida, presa a um galho seco de árvore.

5 Subsídios litúrgicos LITANIA DE ADVENTO Dirigente: Bendito seja o Deus de misericórdia, que acolhe todas as pessoas que se encontram cansadas e enfraquecidas por causa das vicissitudes da vida. Congregação: Bendito sejas, Senhor, porque tu nos revigoras sempre.

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Dirigente: Bendito seja Deus, porque faz nascer a vida em meio às situações de morte, como enfermidades, crimes, opressões, misérias. Congregação: Bendito sejas, Senhor, porque tu nos revigoras sempre. Dirigente: Bendito seja Deus, porque faz brotar a vida do mais ressequido solo de adversidades, de incompreensões, de conflitos, de desamores. Congregação: Bendito sejas, Senhor, porque tu nos revigoras sempre. Dirigente: Bendito seja Deus, porque faz nascer a esperança em meio à total desesperança. Congregação: Bendito sejas, Senhor Deus, que te manifestas em Jesus Cristo, nosso Salvador.

Bibliografia CROATTO, J. S. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. v.1. Petrópolis; São Paulo; São Leopoldo: Vozes; Imprensa Metodista; Sinodal, 1989. SOBOTTKA, Emil; BECKER, Renato. Is 35.1-10. In: PL 21. São Leopoldo: Sinodal, 1996. Disponível em http://www.luteranos.com.br/conteudo/ isaias-35-1-10-2. Acesso em 11 abr. 2016. .

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4º DOMINGO DE ADVENTO

18 DEZ 2016

PRÉDICA: MATEUS 1.18-25 ISAÍAS 7.10-16 ROMANOS 1.1-7

Marcia Blasi Ketlin Laís Schuchardt

1 Introdução Nos textos indicados para o tempo de Advento, mais especificamente para o 4° Domingo, o evangelista Mateus relata o anúncio do nascimento de Jesus, o Salvador. O que une o texto de Mateus aos textos paralelos é justamente o cumprimento da promessa feita por Deus ao povo de enviar o Salvador. Isaías destaca a presença de Deus entre o povo; Mateus, o nascimento de Jesus, e a Carta aos Romanos, a descendência davídica de Jesus e sua ressurreição. Comparado a outros relatos, o texto de Mateus é o que descreve com menos detalhes o nascimento de Jesus, dando ênfase especial à concepção virginal e ao papel de José. O texto fala de seu carácter, de suas dúvidas e das escolhas que precisa fazer.

2 Exegese V. 18 – Precisamos entender o que significava o casamento. No caso de Maria e José, estabeleceu-se o compromisso de noivado, em que a noiva, em geral, estava na idade de 12 a 13 anos e legalmente já estava sob tutela do futuro marido, que tinha direitos sobre a mulher e podia chamá-la de esposa, mas não ter relações sexuais com ela. Qualquer violação dos direitos legais do marido era considerada adultério, portanto passível de punição, inclusive até de morte. Era pressuposto que a noiva fosse virgem, portanto não é de estranhar que o texto de Mateus tenha um tom de escândalo quando relata que, antes de ter relações com José, Maria havia engravidado. O escândalo é abafado através da continuação da frase: “grávida pelo Espírito Santo”. No entanto, o texto também não explica como esse processo aconteceu e nem como repercutiu na comunidade. V. 19 – José era um homem obediente às leis de sua época e também era justo, mas era Maria quem estava em uma situação difícil. A acusação mais comum para essas situações era o adultério. Mas Maria também poderia ter sido violentada ou seduzida. No caso de adultério, a punição para Maria seria o apedrejamento (Dt 22.21-22). Se José se divorciasse de Maria em silêncio, evitaria essa punição, e isso significaria que José não acreditava que Maria tivesse cometido adultério. O verbo utilizado na frase, apolyō, tem o sentido primário de soltar, deixar ir embora, libertar. Pode também significar liberar alguém de uma obrigação ou até perdoar. Nesse contexto, pessoas que traduzem o texto preferem a tradução divorciar-se, fazendo uma ligação com as palavras do anjo

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no v. 20. José, então, tem duas opções: expor Maria, envergonhá-la publicamente, ou divorciar-se dela em segredo. V. 20 – A decisão de José é interrompida quando um anjo aparece em um sonho. Anjos têm um papel importante de anúncio nos evangelhos. Diferentemente de Lucas, aqui o anjo aparece a José e não a Maria. O anjo afirma que a criança foi gerada pelo Espírito Santo, removendo qualquer suspeita sobre os atos de Maria referente à sua gravidez. A ênfase aqui talvez seja muito mais no “não tenha medo” do que em “receber Maria como esposa”. Numa cultura construída sobre valores de honra e vergonha, a decisão de ficar com Maria requeria de José um coração afetuoso e uma boa dose de coragem, pois sua própria reputação estava em jogo. Talvez fosse isso que o narrador queria enfatizar ao dizer que José é um homem “justo”, que “sempre fazia as coisas certas”. Essa escolha já questiona a sociedade patriarcal da época e atual, que coloca toda a responsabilidade na vivência da sexualidade sobre as mulheres e coloca o termo “justo” no significado de ficar ao lado da parte mais fraca, de agir com justiça. V. 21 – José passa de espectador para integrante da história. O anjo diz-lhe para assumir a criança que não gerou e dar a ela o nome de Jesus. O nome não era incomum, e é José quem deve nomear a criança, conforme diz a tradição. Mateus parece muito preocupado em garantir a legalidade da criança. José, aceitando uma mulher grávida, também aceita a responsabilidade sobre a criança, que é destacada na genealogia de Jesus, que não é a da mãe biológica, mas sim do pai “adotivo” (Jacó, José e Jesus). V. 22-23 – O anjo continua a instrução: tudo aconteceu para cumprir a profecia. Mateus faz referência ao texto de Isaías 7.14, onde já havia sido previsto uma virgem para conceber o Salvador. A palavra parthenos, no texto grego de Isaías (Septuaginta), pode ser traduzida, sobretudo a partir do original hebraico, como “moça” ou “jovem em idade para casar” e não como virgem. Mateus usa a mesma palavra com o sentido de “virgem” para destacar o papel do Espírito Santo na concepção. O que precisa ficar claro para José (e por isso a ênfase do anjo) é que essa criança é Emanuel, o Deus conosco, e está em continuidade com a história de Israel, significando a presença constante de Deus dentro da história de seu povo. V. 24-25 – Ao acordar, José faz conforme a instrução recebida pelo anjo. Mesmo não sendo o pai biológico de Jesus, José recebe Maria como sua esposa, mas não tem relações sexuais com ela até a criança nascer. Quando a criança nasceu, cumpriu também com a tarefa recebida de dar nome ao menino. Com essa atitude, tanto a mãe como a criança estão legalmente protegidas e aceitas na sociedade.

3 Meditação Para a comunidade de Mateus, com fortes antecedentes judaicos, fazia-se necessária uma justificativa sobre a concepção de Jesus. Por isso Mateus precisa preocupar-se tanto em enfatizar esse fato. O que não deveria receber ênfase na narrativa é a concepção “virginal”. Associar a justificativa de uma concepção

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virginal de Jesus e seu papel de Salvador pode ser muito perigoso. O fato de dizer que Jesus não tinha pecados não tem a ver com a forma de sua concepção. Fazer essa ligação pode abrir caminho para que a Bíblia seja usada para relacionar sexualidade a pecado. A concepção virginal é informação exclusiva de Mateus e Lucas. Para os demais evangelistas, essa informação não é importante e não deve ser determinante para nossa fé hoje. Em sua versão, Mateus escolhe contar história na perspectiva de José. Havia muitas coisas em risco para esse homem, noivo da jovem Maria. Ele tinha o poder de decisão sobre o futuro de Maria e da criança em suas mãos. A vida e a aceitação pública da jovem e da criança dependem da sua decisão. Maria, pelo relato de Mateus, é quase uma coautora da história. Tem um papel secundário. É do “justo” José que dependem seu presente e seu futuro. Com toda a certeza, a decisão de José era difícil. Numa sociedade patriarcal, é muito importante para os homens terem o domínio sobre “sua mulher” e sobre “seu filho” no ventre. Aceitar uma mulher grávida de outro homem é algo que não é comum ainda hoje, como não era comum no tempo e contexto do nascimento de Jesus. A atitude de José poderia ser motivo de piada, desonra, exclusão do círculo de homens “de verdade”. Para Maria, a situação era muito mais difícil: era uma situação de vida e morte. A ênfase de Mateus na situação de José encobre a realidade de Maria. Não há nenhuma preocupação com a situação angustiante em que ela se encontrava. A intervenção do anjo não é somente uma maneira de organizar a situação, mas é a escolha de Deus em favor das pessoas fracas e em maior perigo. Deus assumiu um risco enorme no plano do nascimento de Jesus. Precisou, além de confiar numa jovem moça para carregar a criança, também assumir o risco de convencer um homem a assumir uma criança que não era sua. O anjo é enviado para garantir a vida e a dignidade da jovem escolhida.

4 Imagens para a prédica Sugerimos iniciar a pregação falando sobre riscos: como é arriscar-se a fazer alguma coisa que dentro de nós parece certa ou de acordo com nossa compreensão de justiça a partir do evangelho, enquanto que para todas as outras pessoas isso parece ridículo? Ou então qual é o sentimento de ter que fazer uma escolha entre duas opções que não parecem certas? Qual é o sofrimento, a dor que está presente nessas situações? Busque exemplos em sua experiência pessoal. Num segundo momento, descreva o contexto da comunidade de Mateus, enfatizando as questões legais envolvendo o casamento, para que a comunidade compreenda o dilema de José. É preciso tomar muito cuidado para não transformar José em um herói. A situação de José é difícil, não é possível negar, mas a de Maria é pior. Dentro de uma sociedade patriarcal, há uma cobrança enorme para que o corpo e a sexualidade da mulher pertençam ao marido. Qualquer situação que foge a essa regra legitima o abandono ou a violência contra a mulher. Homens que continuam uma relação com mulheres grávidas de outro homem são ridicularizados e diminuídos em

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sua masculinidade. Logicamente, os homens sofrem e também são vítimas desse sistema, mas é sobre as mulheres que as cargas mais pesadas são colocadas, e isso não deve ficar invisibilizado na pregação. Uma jovem solteira e grávida é motivo de vergonha, de exclusão da família e do círculo de amizades. Isso raramente acontece com um homem. É muito importante enfatizar a escolha de José (após a visita do anjo) dentro da sociedade em que vivia e também dentro de nossa sociedade. Conte também que a intervenção do anjo funciona como uma justificativa legal para a aceitação de Maria e da criança naquela comunidade, mas acima de tudo enfatize a atitude de Deus, que se coloca ao lado de Maria e da criança. Aqui também é possível falar da realidade das mulheres na sociedade atual, das cargas colocadas sobre as mães solteiras, daquelas que são vítimas de violência e excluídas dos espaços. Mencione também os pais que, assim como José, assumem filhos que não são seus e os amam de todo o coração. O Natal aproxima-se. Motive a comunidade a assumir riscos de amor e a não ter medo do que as outras pessoas vão dizer. Motive a comunidade a relembrar o nascimento de Jesus, as dificuldades presentes, os riscos envolvidos e a confiar em Deus, que continua arriscando muito ao confiar nos seres humanos.

5 Subsídios litúrgicos Hinos

HPD 2 – Advento de Cristo (n° 307); O Povo Canta – Cântico de Maria (p. 40). Oração Deus de ternura e misericórdia: agradecemos-te por enviar, por meio de Maria, teu Filho Amado, nosso Senhor e Salvador. Permita que sejamos pessoas justas como José e corajosas e fortes como Maria. Permita que ouçamos o que tu tens a nos ensinar e capacita-nos para romper com os obstáculos legais e sociais, que oprimem homens e mulheres em nossa sociedade. Dá-nos alegria de poder estar ao lado de outras pessoas, de saber que tu enviaste a nós teu Filho Amado, que nasceu como ser humano, viveu e morreu por nós. Amém. Bênção Que a bênção do Deus de Sara, Abraão e Agar, a bênção do Filho nascido de Maria, a bênção do Espírito Santo de amor, que cuida com carinho qual mãe cuida da gente, estejam sobre todos nós. Amém! Envio

Agora vão em paz, assumam riscos de amor e preparem com alegria e esperança a chegada do menino Jesus.

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Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. V. 6. São Paulo, SP: Milenium, 1982. DEIFELT, Wanda. Mateus 1.18-25. In: Proclamar Libertação XVIII. São Leopoldo: Sinodal, 1992. p. 25-30.

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PRÉDICA: GÁLATAS 4.4-7

NOITE DE NATAL

SALMO 96 LUCAS 2.1-7

24 DEZ 2016

Júlio Cézar Adam

Uma manjedoura para os filhos e filhas de Deus

1

Introdução

Se eu lembro de minha infância nos interiores de Santo Antônio da Patrulha/RS, na pequena comunidade evangélica de Entrepelado, onde até hoje temos culto apenas uma vez por mês, sempre no primeiro domingo, e raras outras atividades comunitárias, o culto de Natal era, sem dúvida, a atividade mais marcante e aquela que reunia mais gente. No calorão de dezembro, a igreja lotava. Lembro também da minha participação na preparação desses cultos, com crianças e jovens da comunidade, fazendo teatro, jograis e cantos. A história do Natal sempre me impactou muito. Por isso sinto-me muito desafiado a contribuir para a pregação desse culto. O Evangelho de Lucas é o que dá mais detalhes do nascimento do menino Jesus. Por isso as informações desse evangelho servem de base para as muitas atividades em torno do culto de Natal de todos os tempos e lugares. Em Lucas, mais do que nos outros evangelhos, temos informações importantes sobre as circunstâncias do nascimento. Na perícope de Lucas 2.1-7, temos a descrição dos motivos por que Maria e José foram a Belém na Judeia. Não era para cumprir a profecia, como em geral referem os textos de Mateus, mas sim por decreto imperial, por causa do censo. Vemos assim que Lucas está preocupado com os personagens da trama, com as relações de poder, com questões políticas, com as pessoas envolvidas, com as dificuldades e misérias em torno do nascimento. O que são o Cântico de Maria e o Cântico de Simeão, um pouco antes dessa perícope, senão um hino de denúncia de um Deus que olha para baixo, visita seu povo, enche de bens as pessoas famintas? Lucas relata que Jesus foi deitado numa manjedoura, um cocho de animais, porque não havia hospedagem digna. Aqui está uma clara relação da perícope com o texto de Gálatas 4.4-7: a solidariedade e a misericórdia de Deus manifestam-se acontecimentos de Belém, solidariedade divina que nos torna filhos e filhas de Deus. Ou seja, o Lecionário coloca ao lado de Gálatas não apenas um relato do nascimento de Jesus, mas o relato de Lucas, um relato proveniente de um evangelho carregado da ampla misericórdia de Deus, que nos torna, em Jesus, seus filhos e suas filhas, legítimos/as. O Salmo 96, por sua vez, é uma explosão de louvor a Deus, este Deus que julga os povos com equidade (v. 10) e julga o mundo com justiça (v. 13). A esse Deus grandioso, majestoso, forte, que se manifesta por meio da exuberância da

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criação, dos seus feitos justos e da salvação do povo, todas as terras, povos e a própria criação (céus, terra, mar, campos, árvores e bosques, v. 11 e 12) louvam e adoram. É tão grandioso e magnífico, tão digno de louvor, que um canto apenas não basta. Faz-se necessário um canto novo! Um canto novo e grandioso como novidade do menininho de Belém. Esse Deus tão poderoso nasce, na noite de Natal, frágil e pobre, em uma estrebaria. Aqui temos um interessante choque de imagens de Deus: Deus é poderoso, majestoso e ao mesmo tempo frágil, singelo, pequeno. Acho essa tensão de imagens algo fascinante. Não temos como construir uma imagem de Deus coesa e única na Bíblia. Podemos dizer que Deus não se deixa agarrar por uma única imagem. Nem mesmo na estrebaria conseguimos absorvê-lo por completo. Deus é sempre Deus. Mesmo assim age em favor da gente ontem e hoje. O texto da Carta aos Gálatas (Gl 4. 4-7), nossa perícope para a pregação, é a reflexão teológica sobre a ação de Deus, que se manifesta e age em favor do povo e do mundo, especificamente sobre o significado do nascimento de Jesus Cristo para a fé e a nossa nova relação com Deus. No Natal, ganhamos espaço na manjedoura. Esse Deus Menino que lá está não só vem ao mundo por nós, mas através dele Deus nos coloca na manjedoura, reconhecendo-nos como seus legítimos/as filhos/as. Temos assim o fato (Lucas 2.1-7), o louvor litúrgico (Sl 96) e a reflexão teológica (Gl 4. 4-7), fontes para a elaboração da liturgia e da pregação.

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Exegese

Reflitamos primeiramente sobre Paulo e a Carta aos Gálatas. Paulo subiu para a região que na época era chamada de Galácia (parte do que hoje é a Turquia) em sua primeira viagem. Foi para lá criar novas comunidades, lugares onde o evangelho de Jesus Cristo pudesse ser vivido com intensidade e promovesse liberdade. A região caracterizava-se pela presença de comunidades judaicas, presença essa que Paulo aproveitou para pregar o evangelho. Tempos depois, em outra de suas viagens, provavelmente quando estava na Grécia, Paulo é avisado de que os gálatas estão duvidando daquilo que ele ensinou. Inclusive a autoridade de Paulo é questionada. Há inconstâncias entre eles. Os gálatas duvidam da boa notícia sobre Jesus Cristo. Preferem voltar a viver suas práticas e crenças antigas, inclusive tradições religiosas antigas. Buscam refugiar-se nas tradições e na fé judaica, voltando a submeter-se à Lei, por exemplo. Esse é o pano de fundo da Carta aos Gálatas. É uma carta de advertência e admoestação, mas também uma carta de recapitulação, de retomada dos princípios do evangelho. Por isso ela é tão fundamental nas Escrituras. Provavelmente a carta foi escrita para ser lida nas diferentes comunidades da região. Nela, Paulo lembra os gálatas de tudo o que ele fez, todas as suas andanças, todos os riscos pelos quais passou, todas as mudanças que ele viveu, como vemos no início da carta (Gl 1. 1-24). Em toda a Carta aos Gálatas, porém, o assunto principal é a liberdade que a fé em Jesus Cristo traz para as pessoas (2.4; 5.1ss). Crer em Jesus Cristo é estar livre para viver o amor (5.13ss). Já não precisam lutar

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por sua salvação por meio da Lei. Já não mais precisam ser escravos da Lei. Os gálatas são livres para amar as pessoas, viver o evangelho da vida, deixar-se guiar pelo Espírito e produzir seus frutos (5.16ss). Podemos dizer, portanto, que dois são os propósitos da carta: convencer as pessoas da mensagem do evangelho; reforçar que crer em Jesus Cristo dá liberdade verdadeira. Podemos organizar a carta da seguinte forma: • A origem do evangelho – O evangelho é de origem divina, não é humano: Gl 1-2; • A defesa do evangelho – tanto o Antigo Testamento como a experiência com Jesus Cristo dão testemunho de sua veracidade: Gl 3-4; • A aplicação do evangelho – a produção da verdadeira liberdade e a vida segundo o Espírito: Gl 5-6 (HENDRIKSEN, p. 31). Dentro desse contexto, podemos entender muito bem o tema de nossa perícope: Gl 4.4-7. Em Jesus Cristo e por meio da fé nele o ser humano torna-se filho e filha pleno/a de Deus. Por meio da Lei, as pessoas eram herdeiras menores e necessitavam de tutores, condição na qual em nada diferiam de escravos, pessoas sujeitas a algo, no caso a Lei. A discussão central, já no capítulo 3, é a questão dessa submissão à Lei. O capítulo 4 reflete especificamente sobre os benefícios e a alegria de viver pela justificação por meio da fé em Jesus Cristo. Mais especificamente, a nossa perícope trata de explicar a situação e condição de herdeiros (3.29 e 4.1). E aqui precisamos aclarar melhor o que significa herdeiro nesse contexto. No contexto greco-romano, quando o pai morria, o herdeiro natural passava a ser o filho. Sendo, porém, o filho ainda menor, um tutor tornava-se responsável pelo herdeiro e acabava respondendo por ele. O herdeiro menor é herdeiro e, ao mesmo tempo, não é. Trata-se, portanto, de uma liberdade cativa, limitada. Com Jesus Cristo essa condição de herdeiro menor foi suplantada, e a fé nele coloca-nos na condição de filhos e filhas de Deus em uma liberdade plena. Exatamente a essa figura refere-se toda a perícope. Olhemos os versículos separadamente. V. 1 – Ora, eu digo: enquanto o herdeiro é menor, embora dono de tudo, em nada difere de um escravo (Tradução da perícope segundo a Bíblica de Jerusalém). Nesse contexto, o herdeiro, embora fosse por direito, não era herdeiro de fato. Estava submisso, numa situação de escravo. Essa é a condição à qual os seguidores da Lei estão submetidos. São herdeiros, mas apenas em parte. V. 2 – Ele fica debaixo de tutores e curadores até a data estabelecida pelo pai. O tutor, amo ou curador era, por assim dizer, o dono de tudo o que pertencia ao herdeiro, tornava-se ele mesmo o herdeiro legal, até a idade que o pai havia estabelecido. O tutor seria aqui a Lei. V. 3 – Assim também nós, quando éramos menores, estávamos reduzidos à condição de escravos, debaixo dos elementos do mundo. Esta é a situação das pessoas que viviam segundo a Lei: herdeiros menores. Os gálatas, mesmo tendo recebido e entendido a “maioridade” (a liberdade do evangelho), querem, segundo Paulo, voltar à condição de herdeiros menores. Almeida traduz a expressão “elementos do mundo” por “rudimentos do mundo”, que seriam justamente as

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formas, as regras, prescrições, tradições religiosas antigas, por meio das quais tanto judeus como gentios buscavam conquistar a salvação e garantir segurança pelas próprias mãos. V. 4 – Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei. Jesus Cristo, divino (Filho enviado por Deus, sob a Lei) e humano (nascido de mulher), é a plenitude do tempo, porque pode, segundo a própria Lei, cumpri-la plenamente. Esse nascimento é a possibilidade da maioridade humana, da plena liberdade. Plenitude do tempo pode ser também entendida como as condições favoráveis para a expansão do evangelho, como o uso do grego como língua corrente, a diáspora judaica e as sinagogas em diferentes regiões, os caminhos romanos, condições que facilitaram a divulgação da novidade (HENDRIKSEN, p. 165s), inclusive para os gálatas. V. 5 – Para remir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. Jesus Cristo liberta-nos do fardo da Lei, da tutela, da escravidão, e torna-nos filhos e filhas adotivos/as de Deus. Na condição de Filho de Deus, ele é o único que nos pode livrar da Lei, tanto judeus como gentios. Por meio dele não só somos libertados do mal e da morte, mas recebemos a mais especial bênção e riqueza: tornar-nos filhos e filhas de Deus, membros da família de Deus. E mais ainda, recebemos a imagem de Cristo (Rm 8.29). Importante observar que “adoção” (huiothesia) aqui significa exatamente o ato de conceder o título de filho, como relatamos acima. Adoção filial é, portanto, “tornar filho ou filha”. V. 6 – E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! Não só nos tornamos filhos e filhas, mas recebemos no coração o Espírito de Jesus Cristo, que nos permite intimidade com Deus, intimidade a ponto de chamá-lo de Abba, de paizinho, tamanha é a proximidade com Deus. Abba, pai em aramaico, representa aqui essa intimidade, já que o termo provém da língua materna de Jesus. Também nós podemos falar com Deus na intimidade e segurança da língua materna. Jesus dirige-se ao Pai usando Abba quando está no Getsêmani em profunda angústia (Mc 14. 36). E mais uma riqueza do versículo: Pais podem amar muito seus filhos/as e dar-lhes uma herança, mas jamais podem dar aos filhos/as o seu espírito. Deus, porém, além de nos tornar filhos e filhas, dá-nos o Espírito de seu Filho. V. 7 – De modo que já não és escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro, graças a Deus. Tamanha é a graça dada aos gálatas e a nós. Aqui o apelo de Paulo sai do plural, aos gálatas em geral, e passa para o singular, para a pessoa, separadamente. Ao contrário do que os gálatas estavam tentando, buscando a salvação e o acesso a Deus por meio de seus rudimentos e forças, Paulo reforça aqui a graça. É Deus quem por meio de Jesus nos torna seus filhos e filhas, herdeiros/ as, não mais escravos/as. É graça. Almeida traduz o “graças a Deus” por “por Deus”. É ação de Deus por nós. Nos versículos seguintes, 8-10, Paulo questiona-se como os gálatas, tendo conhecido a Deus e tendo sido reconhecidos por ele, decidem voltar à situação de subalternos e escravos. Não por menos, Paulo chama os gálatas de insensatos (3.1).

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Meditação

A mensagem do Natal é mais do que uma história bonita sobre uma criança sem lugar decente para nascer, sobre uma mãe sem condições dignas para ter seu filho, sobre um pai que não encontra lugar na cidade. É mais do que o nascimento de um bebê em uma estrebaria, tendo um cocho de animais como berço, assim como nascem muitas crianças na periferia do mundo dois mil anos após esse nascimento. Toda essa dimensão social e política está presente, obviamente, no evento e deve ser tema da pregação de Natal: Deus digna-se a nascer em um estábulo na periferia do mundo para solidarizar-se com tantos que vivem em situações semelhantes ou até piores, bem como para denunciar toda forma de desigualdade, indignidade e injustiça. Mesmo assim, o acontecimento de Natal é mais do que essa história. O texto de Gálatas abre-nos para uma perspectiva mais profunda, tornando as questões aqui levantadas ainda mais instigantes para a pregação. A abordagem de Gálatas é uma abordagem mais pessoal do que social. É uma abordagem que leva a refletir sobre a dinâmica humana da fé, nossa relação pessoal com Deus e com a liberdade daí decorrente. A manjedoura abre um espaço para cada pessoa fazer parte de um evento que transcende a lógica e as forças humanas. O nascimento de Jesus Cristo coloca cada um/a dentro da manjedoura como filho/a de Deus. Essa é a mensagem principal. Deus nasce na periferia do mundo, Deus faz-se Emanuel, Deus Conosco, faz-se gente para viver entre nós, sim, mas através desse feito e de seus desdobramentos, a cruz, Deus torna-nos seus filhos e suas filhas, alimentados/as pelo próprio Espírito de Cristo. É como se naquele menino na estrebaria estivesse cada um e cada uma de nós. Essa é a grandiosidade do Natal. Jesus Cristo – na manjedoura e na cruz – é o feito de Deus que nos tira da condição de herdeiros/as menores/as, sujeitos/as a tutores e rudimentos do mundo, e torna-nos seus filhos e suas filhas plenos, completos, dignos. Essa é uma importante mensagem que o Natal pode proporcionar. O Natal coloca todos/as na manjedoura. Em Jesus Cristo, Deus torna-nos seus herdeiros/as plenos/as, seus filhos e filhas, recebemos a imagem de Cristo em nós mesmos/as. Não precisamos cumprir protocolos e leis, não precisamos pagar alguém ou comprar algo. Apenas a fé em Jesus Cristo nos dá acesso a essa adoção. O Natal lembra-nos de que estamos livres das tutelas, das amarras, das estruturas alienantes e podemos viver em intimidade com Deus, chamando-o de paizinho, Deus próximo, não mais segundo a tutela da lei, mas segundo a graça do Espírito de Cristo. Esse seria outro enfoque da mensagem: Natal lembra-nos da liberdade cristã. Celebrar o Natal é sempre celebrar aquilo que Deus faz por nós. É dádiva para a liberdade. Penso que, infelizmente, vivemos ainda muito longe dessa liberdade presenteada em Jesus Cristo. De forma semelhante aos gálatas, tendemos a voltar a viver como herdeiros menores, subalternos às regras e às leis da cultura, da sociedade, da própria religião. É difícil ser livre de fato. Paradoxalmente, até mesmo

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no Natal, ato de Deus para nossa liberdade, tornamo-nos pessoas escravas dos costumes e das tradições. Sucumbimos às regras do mercado, dos presentes, do papai-noel, das viagens, das ceias, dos afazeres nas casas, da felicidade forçada, do êxito e sucesso pessoal. Por fim, ser adotado por Deus não é pouca coisa! Ser herdeiro com Jesus Cristo compromete-nos com o reino de Deus. Na manjedoura cabem todos/as os que têm fé: homens, mulheres, crianças, idosos; hetero e homoafetivos/as; brasileiros/as, imigrantes/as e refugiados/as; brancos, negros, pardos, amarelos; pobres e ricos; empregados/as e desempregados/as; membros da comunidade, mas também membros de outras denominações religiosas. A estrebaria não tem tramela na porta. Nela há espaço para todo o mundo. Na liberdade para a qual fomos chamados/as, o Natal compromete-nos a deixar-nos guiar pelo Espírito de Cristo em nossos corações. Nesse sentido, o Natal não é feito de Deus apenas para a pessoa isolada. É um feito que inaugura uma nova relação de Deus com cada pessoa, e essas, por sua vez, umas com as outras e o mundo e a criação, da qual somos parte.

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Imagens para a prédica

A figura do herdeiro menor submisso ao tutor até uma determinada idade, básica para a compreensão de nosso texto, é uma figura estranha para nosso contexto hoje. Uma figura semelhante deveria ser buscada. Algo que aparentemente temos, mas efetivamente não possuímos. De forma concreta, lembro que uma vez minha esposa e eu ficamos escutando, mais do que uma hora, um vendedor que nos queria vender um apartamento de férias, o qual só poderíamos usar durante uma determinada semana ao ano. O valor era muito alto para nossos recursos. O que mais nos incomodou, porém, nessa oferta era o fato de ter algo e ao mesmo tempo não ter. Algo mais comum é o próprio aluguel. Também quando alugamos algo, uma casa ou apartamento, ou quando arrendamos um pedaço de terra para plantar ou criar o gado, temos algo, mas ao mesmo tempo não temos. Caso o proprietário resolver receber o imóvel de volta, teremos que devolver. São exemplos que auxiliam a entender a condição do herdeiro menor. De forma mais abstrata, por sua vez, a posse da própria liberdade pode ser uma boa figura para refletir. Até que ponto somos livres na compra de bens de consumo, como roupas, calçados, eletroeletrônicos. Os jovens intitulam-se pessoas livres. Basta, porém, a propaganda mostrar um novo celular/smartphone ou um novo corte de cabelo e cria-se uma padronização do consumo e da adesão. Paulo chama-nos a refletir sobre essa contradição. Em Cristo, temos liberdade plena de viver como filhos e filhas de Deus. Mesmo entendendo essa graça especial de Deus, parecido com os gálatas, tendemos sempre de novo ao apego a algo palpável ou depositamos nossa confiança em nós mesmos ou em propostas fugazes e alienantes. O Natal de Jesus Cristo chama-nos de volta à liberdade. Em Jesus Cristo, de inquilinos/as tornamo-nos proprietários.

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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Confesso-Te, ó Criança Eterna, que é difícil ter o coração de criança: perdoar aqueles que oprimem, os que tiram a vida de nossas crianças; amar os inimigos, aqueles que maltratam nosso povo com a violência da fome e do desemprego; ter misericórdia daqueles que matam os que buscam terra e justiça. Mesmo assim, sei que me compreendes. Meu coração fica alegre. Nem tudo é tão sério. Afinal, Deus também é criança. (Inês de França Bento) Hino

Cantai ao Senhor um cântico novo (HPD 260).

Oração do dia Deus de infinita bondade, que, assumindo nossa carne no seio de Maria, conheceste e compreendeste a fraqueza humana... Ó Rei da paz, ó Luz nas trevas, ó Imagem da nova humanidade, faze de nós, por tua misericórdia, uma só família; transforma nossa vida para reconhecer-Te em cada pessoa; ilumina nossos passos para trilhar os caminhos da paz e da verdadeira fraternidade. Tu que és um com o Pai no Espírito Santo. Amém. (Paulo Roberto Rodrigues) Oração Eucarística (Recomenda-se que várias pessoas, inclusive crianças, dirijam as diversas partes dessa oração). L: Querido Deus, tu nos dás o pão. Tu nos dás o que precisamos para a vida. Rendemos-te graças e a ti cantamos: C: (canto) Aleluia. L: Deus bondoso, tu nos convidas à tua mesa: pequenos e grandes, alegres e tristes, doentes e sadios. Todos estão convidados. Louvamos-te e a ti cantamos: C: (canto) Aleluia. L: Deus, tu nos criaste e nos conheces pelo nome, como teus filhos e tuas filhas. Tu nos queres bem. Rendemos-te graças e a ti cantamos: C: (canto) Aleluia. Enviaste a nós Jesus, teu Filho. Ele tornou-se uma criança, nascido de Maria. Alegrou e libertou pessoas. Ele entende também a nós. Louvamos-te e a ti cantamos: C: (canto) Aleluia. L: Às vezes, nossa vida é obscura. Mas não estamos sozinhos. Jesus está conosco. Rendemos-te graças e a ti cantamos: C: (canto) Aleluia. L: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomem, comam; isto é meu corpo, que é dado por vocês; façam isso em memória de mim. A seguir, depois de cear, tomou também o cálice e, tendo dado graças, o deu a seus discípulos, dizendo: Bebam dele todos; porque este cálice é a nova aliança em

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meu sangue, derramado em favor de vocês para remissão dos pecados; façam isso todas as vezes que o beberem, em memória de mim. Bom Deus, rendemos-te graças e a ti cantamos: C: (canto) Aleluia. L: Cá estamos, amado Deus, Abba, como teus hóspedes e te rogamos: sê entre nós com teu Espírito. Abençoa-nos e o que nos concedeste. C: Pai-nosso (Adaptado de EG, 659-660/Livro de Culto da IECLB, p. VII. 534s).

Bibliografia GIAVINI, Giovanni. Gálatas: liberdade a lei na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1987. HENDRIKSEN, Guilhermo. Galatas: comentario del Nuevo Testamento. Grand Rapids: Subcomision Literatura Cristiana, 1984. PETTINGILL, William L. Estudios sobre la Epístola a los Gálatas. Barcelona: CLIE, 1984.

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PRÉDICA: TITO 2.11-14

DIA DE NATAL

ISAÍAS 9.2-7 LUCAS 2.1-4 (15-20)

25 DEZ 2016

Gerson Correia de Lacerda

A redescoberta da graça de Deus

1 Introdução O texto para a prédica deste domingo já foi estudado quatro vezes em números anteriores de Proclamar Libertação. A primeira vez no volume 2, em 1977, com texto de Ervino Schmidt. A segunda vez no volume 11, em 1985, com texto de Luís M. Sander. A terceira vez no volume 24, em 1998, com texto de Lurdes Caron. Finalmente, a quarta vez no volume 35, em 2010, com texto de René Krüger. Todos esses estudos devem ser examinados com bom proveito na preparação da prédica para este culto do Dia de Natal. O texto do profeta Isaías é muito utilizado pelas igrejas na época do Natal. Em especial, destaca-se o seu sexto versículo, que diz: “Já nasceu uma criança, Deus nos mandou um menino que será o nosso rei. Ele será chamado de ‘Conselheiro Maravilhoso’, ‘Deus Poderoso’, ‘Pai Eterno’, ‘Príncipe da Paz’”. Para os cristãos, o texto é uma clara referência ao nascimento de Jesus de Nazaré. O texto de Lucas, por sua vez, apresenta uma das narrativas do nascimento de Jesus. A outra narrativa de que dispomos é aquela que se encontra no Evangelho de Mateus. Os textos de Isaías e Lucas têm, portanto, algo em comum: eles são muito utilizados nos cultos de celebração do Natal. Não é esse, porém, o caso do texto de Tito. Raramente ele é utilizado nas celebrações natalinas. Aparentemente trata-se de um texto que não tem relação alguma com o nascimento de Jesus nem com os outros dois textos indicados para esse dia. No entanto, ao abordar a revelação da graça de Deus para a salvação, esse é um texto muito adequado para o Dia de Natal.

2 Exegese Dispomos de poucas informações a respeito da data e do lugar em que essa carta foi redigida. O que sabemos é que Tito era um gentio-cristão, amigo e companheiro de viagem de Paulo, apesar de pouco mencionado no livro de Atos. Trabalhou em Corinto e em Creta, onde recebeu a carta de Paulo. Esteve com Paulo em seu segundo cativeiro. Posteriormente, foi enviado à Dalmácia e veio a falecer em Creta, de acordo com a tradição. Ao escrever para Tito, Paulo teve dois focos: combater as heresias e estimular a vida correta dos cristãos, de acordo com a doutrina verdadeira. As heresias referiam-se a mitos ou histórias inventadas pelo judaísmo a respeito da

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pureza. Nesse sentido, Paulo é muito firme ao dizer: “Parem de dar atenção a histórias inventadas por judeus e a ensinamentos humanos que vêm de pessoas que rejeitam a verdade. Tudo é puro para os que são puros: mas nada é puro para os impuros ou descrentes, pois a mente e a consciência deles estão sujas” (Tt 1.15). Contra as heresias e para estímulo à vida correta ocupa lugar central, de forma especial, o texto de Tito 2.11-14, do qual destacamos os seguintes pontos. 2.1 – Epifania da graça salvadora Graça, “no grego, é charis, que indica graciosidade, atrativo, favor. Neste ponto não está em foco a graciosidade geral de Deus e, sim, aquele favor particular que enviou Cristo para ser o nosso Salvador e que agora eleva os homens à salvação moral e metafísica, conferindo-lhes o que chamados de salvação” (CHAMPLIN, p. 431, 432). Aí está a razão da utilização desse texto nas celebrações natalinas, pois, no Natal, nós celebramos exatamente a epifania da graça de Deus, manifestada no envio de Jesus ao mundo para morrer por nós e libertar-nos do pecado e da morte. Nesse caso, a graça de Deus revela-se graça salvadora. 2.2 – Graça ensinadora O texto de Paulo a Tito, porém, não se limita a destacar a graça como salvadora. Acrescenta também que a graça de Deus é ensinadora. Como graça ensinadora, ela envolve dois aspectos educativos na vida das pessoas: por um lado, negativamente, ensina as pessoas a deixar de lado a descrença e as paixões mundanas; por outro lado, positivamente, ensina-nos “a viver neste mundo uma vida prudente, correta e dedicada a Deus” (Tt 2.12). Isso significa que, na graça ensinadora, não se trata simplesmente de uma graça que nos ensina intelectualmente a respeito de novas doutrinas ou formas de pensar. Sua atuação é muito mais profunda e muito mais intensa. Trata-se de um ensino prático, relacionado com a vida, que muda o comportamento das pessoas. 2.3 – Graça esperançosa A manifestação da graça de Deus não se deu unicamente na vinda de Jesus ao mundo para nos salvar. Em outras palavras, a graça de Deus não se refere tão somente a um evento do passado. Ao contrário, ela aponta também para o futuro. Haverá uma segunda epifania da graça de Deus: “O dia feliz em que aparecerá a glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.13). Isso significa que a vida do cristão no mundo atual envolve uma esperança. Ele não está envolvido com a realidade do mundo atual como se nada mais houvesse para acontecer. Ele não celebra o Natal simplesmente como um evento do passado, ocorrido dois milênios atrás. Além disso, ao contemplar a situação atual de nosso mundo, o cristão não entra em desespero nem fica sem qualquer expectativa quanto ao futuro. Não! Há a expectativa de um outro Natal, diferente do primeiro, quando o Senhor Jesus aparecerá em glória.

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2.4 – Graça que nos torna povo de Deus Finalmente, a graça de Deus não está relacionada somente ao indivíduo de forma isolada. Ao contrário, ao morrer na cruz para nos salvar, Jesus liberta o indivíduo do pecado e de toda a maldade e integra-o a uma comunidade, a um povo, que pertence a Ele e que deseja praticar o bem. Cumpre-se, assim, o projeto divino anunciado a Abraão, o qual foi chamado por Deus com o propósito de fazer dele um povo e de, por meio dele, abençoar todos os povos da terra. Essa mesma ideia é destacada na Carta de Pedro, quando esse diz: “Vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a Ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz. Antes, vocês não eram o povo de Deus, mas agora vocês são o seu povo; antes não conheciam a misericórdia de Deus, mas agora receberam a sua misericórdia” (1Pe 2.9-10). Natal é a manifestação maior da graça de Deus. Com base no texto bíblico, procuramos destacar os vários aspectos presentes na graça de Deus revelada em Cristo Jesus. Nisso tudo torna-se claro que o apóstolo Paulo, ao escrever a seu discípulo Tito, tinha uma compreensão muito ampla da graça de Deus. Ele não se limitava a compreender a graça simplesmente como graça salvadora, como ocorre nos dias de hoje em muitas igrejas. Essa é uma compreensão muito pobre e limitada da graça de Deus. Por isso precisamos resgatar o sentido da graça de Deus, que, além de salvar, ensina, dá esperança e torna-nos um povo escolhido. Em nossas celebrações natalinas, a utilização do texto de Tito pode ajudar-nos muito nesse sentido. Ele completa a mensagem do Antigo Testamento, apresentada em Isaías 9, e a mensagem dos evangelhos, proclamada em Lucas 2.

3 Meditação Em 1937, Dietrich Bonhoeffer publicou um singelo e pequeno texto sob o título “Discipulado”, que se tornou famoso. Nessa obra, ele tratou da graça de Deus, estabelecendo uma distinção entre a “graça preciosa” e a “graça barata”. Disse ele: “A graça ‘barata’ é inimiga mortal da nossa igreja. A nossa luta trava-se hoje em torno da graça preciosa. Graça barata é a graça adulterada, o falso perdão, o falso consolo, o falso sacramento; a graça como inesgotável tesouro da igreja, distribuído com mãos prontas, sem pensar e sem limites; a graça sem preço, sem custo. A essência da graça é, ao que pensamos, a conta ter sido liquidada antecipadamente para toda a eternidade. Essa conta paga permite que tudo se obtenha gratuitamente... A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo, vivo, encarnado”. Por outro lado, a graça ‘preciosa’ “chama ao discipulado; é preciosa por custar a vida de um homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por o ter sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu filho... A graça preciosa é a encarnação de Deus”.

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Essa distinção estabelecida por Bonhoeffer serve perfeitamente para introduzir uma prédica a respeito da graça de Deus, que é o grande tema do texto de Tito para o culto de Natal. 3.1 – A dificuldade de compreender o que é graça Apesar da clara manifestação da graça de Deus ao enviar Jesus ao mundo para nos salvar, existe uma enorme dificuldade para compreender o que significa graça. Isso porque nós vivemos num mundo profundamente marcado pelo capitalismo, no qual aprendemos que nada é de graça. Tudo tem seu preço. Por causa disso, quando se anuncia ou se faz propaganda a respeito de algo que é oferecido gratuitamente, a desconfiança é geral. Ninguém acredita. Por trás do que se divulga como gratuito existe sempre um engodo. Aproveitadores da ingenuidade popular oferecem coisas de graça, que sempre acabam custando um alto preço. Nesse contexto, no campo religioso, acaba sendo muito difícil acreditar num Deus que se revela gracioso para dar a salvação a todas as pessoas. E a graça de Deus termina sendo desvirtuada em sua compreensão. 3.2 – Os desvirtuamentos da graça Dietrich Bonhoeffer chamou a atenção para um dos desvirtuamentos da graça. Referiu-se a tal desvirtuamento como a graça ‘barata’, ou seja, a graça que não produz mudança de vida, a graça que, para usarmos o texto de Tito, não “nos ensina a abandonar a descrença e as paixões mundanas”, nem nos leva “a viver uma vida prudente, correta e dedicada a Deus”. No momento em que preparamos este texto, o nosso país está vivendo os terríveis dias da operação Lava-Jato, a qual tem revelado a imensa corrupção e podridão que tomou conta de nossos líderes políticos. O mais incrível nessa história toda é que pessoas que se apresentam como evangélicas, isto é, como seguidoras do Senhor Jesus, estão sendo apanhadas como criminosas por desvio de recursos públicos e estão indo para a cadeia. São pessoas que falam na graça de Deus e que declaram viver sob essa graça, sem, no entanto, ter suas vidas transformadas. Temos aqui um total desvirtuamento do sentido da graça de Deus, que se choca frontalmente com o ensino de Paulo a Tito, pois não é uma graça salvadora nem ensinadora, nem esperançosa, nem formadora de um povo escolhido para praticar o bem. Além disso, na religiosidade brasileira, existe outro desvirtuamento da graça, profundamente arraigado no coração do nosso povo. Trata-se daquela forma de entender que a graça de Deus não pode ser recebida graciosamente. Ela tem um preço. É preciso pagar por ela. Entre os católicos romanos a forma mais comum de pagamento é o cumprimento de promessas. Aliás, é exatamente essa a linguagem utilizada popularmente: as pessoas fazem uma promessa para a obtenção de uma graça; recebida a graça, é preciso cumprir a promessa para pagar pela graça obtida. Por outro lado, entre os evangélicos, principalmente no movimento pentecostal e neopentecostal, a forma de pagamento da graça são os dízimos e as ofertas. Ensina-se e proclama-se que os contribuintes adquirem o direito de de-

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terminar o que querem de Deus. Em outras palavras, nada recebem de graça de Deus, pois transformaram-se em compradores de suas bênçãos. 3.3 – A redescoberta da graça de Deus Frente a essa realidade, a mensagem de Paulo a Tito serve para levar-nos ao redescobrimento da graça de Deus. Essa graça foi prometida no Antigo Testamento pela mensagem profética ao povo que vivia nas trevas, “sem dinheiro e sem preço”. O cumprimento dessa graça aconteceu no Novo Testamento com o nascimento de Jesus, providenciado por Deus, sem que o ser humano tivesse ao menos buscado a presença do Senhor. Ao contrário, pela sua graça, Deus tomou a iniciativa da encanação de Jesus, “que se tornou um ser humano e morou entre nós, cheio de graça e de verdade. E nós vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Sem dúvida alguma, numa época em que o Natal se transformou na maior festa comercial do mundo, a redescoberta da graça de Deus é a grande mensagem que precisa ser proclamada.

4 Imagens para a prédica 4.1 – O espírito do Natal Dona Avara fazia jus ao nome. Era avarenta, mesquinha e sempre apegada aos valores materiais. Na segunda quinzena de dezembro, no entanto, ela mudava por completo o comportamento. Ajudava algumas pessoas, distribuía sorrisos e favores e dizia a todo instante: “O Natal está chegando. Precisamos viver o espírito do Natal”. O problema é que, passado o Natal, findava também toda a onda de bondade, e Avara voltava à sua avareza. Dona Wal, ao contrário, amava ajudar os outros. Não havia um tempo escolhido para ela: todo tempo era oportuno para fazer o bem. Visitava os mais necessitados e, de alguma forma, os ajudava. E, quando alguém lhe perguntava o porquê daquela ajuda, daquele presente, ela sorria e dizia: “É porque o espírito do Natal chegou”. Todos os que a conheciam, contudo, sabiam que o espírito do Natal não havia chegado. Ela é que vivia nesse espírito o ano todo. E esse é o verdadeiro espírito do Natal. Não só para alguns poucos dias, mas para o tempo inteiro. Deus tanto nos ama, que nos dá o seu Filho para que tenhamos vida (MORAES, Jilton. Ilustrações e poemas para diferentes ocasiões. São Paulo: Vida. p. 233). 4.2 – Porta do coração Um homem havia pintado um lindo quadro e, no dia de apresentá-lo ao público, convidou todo o mundo para vê-lo. Chegado o momento, tirou-se o pano que cobria o quadro. Houve um caloroso aplauso. Era uma impressionante figura de Jesus batendo à porta de uma casa. O Cristo parecia vivo. Com suas mãos de dedos longos, batia suavemente e, com os ouvidos junto à porta, parecia querer ouvir se lá dentro alguém respondia. Houve discursos e elogios. Todos admiravam aquela obra de arte. Um observador curioso, porém, achou uma falha no quadro: a porta não tinha fechadura.

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Como se fará para abri-la? – É assim mesmo – respondeu o pintor. – Esta é a porta do coração humano; só se abre do lado de dentro (RANGEL, Alexandre (org.). As mais belas parábolas de todos os tempos. V. I. Belo Horizonte: Editora Leitura. p. 198).

5 Subsídios litúrgicos É Natal É Natal quando recebemos a boa-nova de Deus. É Natal quando a ressurreição se anuncia no horizonte. É Natal quando chegam a justiça e a alegria entre os pobres. É Natal quando o evangelho mesmo se faz carne. É Natal quando cantamos, rimos, oramos e anunciamos um reino de irmãos. É Natal quando o “nós” se torna abraço, promessa, futuro. É Natal quando, em Cristo, recebemos o presente da vida. (Igreja Evangélica Valdense do Rio Negro, 1977, em: Para que lo digas em oración. CABRERA, Miguel Angel. Uruguai, Igreja Valdense, p. 85).

O sagrado se fez gente Não, moço. Não foi uma noite tão feliz. Fazia frio. O vento cortante feria os lábios, ressecava os ossos... Eu estava ao relento, sob as estrelas de um céu gelado-escuro, como de costume. Não, não. Não é que eu seja uma criatura soturna, boêmia ou romântica. Sou só um pastor. Isto é, sou um sem-teto, sem-terra, sem-educação, sem-eira-nem-beira... Cuido de ovelhas, só isso... Uma dessas famílias-sem-nada havia ocupado uma das grutas onde os animais se abrigavam e ali disputavam aconchego junto a bois e jumentos.... Entrei devagar, quase solene. Tudo era tão igual, mas, ao mesmo tempo, tão radicalmente diferente. Era como se eu não fosse eu. Meus olhos viam o que jamais haviam visto... Ajoelhei-me porque me dei conta de que estava diante do mistério da Vida. Chorei porque tudo era tão singelamente fantástico. Orei porque, naquele momento, percebi que estava face a face com o Sagrado, que habita o cotidiano. Não. Não foi uma noite tão feliz... Eles, como eu, continuavam sem-teto, sem-agasalho, sem-nada. Choravam sorrindo. Sorriam chorando. Tudo era exatamente igual. A única coisa que já não era a mesma éramos eles e eu. Porque nossos olhos viam não uma noite feliz no céu, mas o amanhecer de um novo dia de paz na terra. (RAMOS, Luiz Carlos. Natal. São Bernardo do Campo, SP: Texto & Textura, 2010. p. 9-11).

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Bibliografia CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo – v. V. São Paulo: Milenium, 1982. STAAB, Karl; BROX, Norbert. Cartas a Tesalonicenses, Cartas de la Cautividad, Cartas Pastorales. Barcelona: Editora Herder, 1974.

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1º DOMINGO APÓS NATAL

31 DEZ 2016

Véspera de Ano Novo

PRÉDICA: MATEUS 25.31-46 ECLESIASTES 3.1-13 APOCALIPSE 21.1-6a

Wilhelm Sell

Boas obras, liberdade e juízo na perspectiva de Deus

1 Introdução Estamos em época de festividades. O tempo de Natal é cheio de luzes, cores, brilhos, festas, encontros com familiares e amigos, viagens. Em meio a isso, para a maioria, é tempo de descanso, com um sentimento de alívio diante de mais um ano que encerra, mas também de expectativas diante de um novo ano que inicia. Sendo assim, é aquele tradicional tempo de fazer planos, desejar coisas boas, pensar os próximos passos. É nesse tempo que somos brindados com os textos indicados. Eles precisam ser vistos e refletidos no intuito de iluminar esse tempo de encontros, festas e descanso, mas também ajudar no planejamento, a refletir os próximos passos neste próximo ano na perspectiva do Reino. Nesse sentido, somos lembrados do conhecido texto de Eclesiastes 3.1-13, que fala do tempo. Interessante lembrar que, no pensamento hebraico, o tempo é associado com a vida e seus eventos, que podem ser tanto positivos como negativos, mas diante dos quais o dom de Deus nos propõe a optar entre a vida e a morte, entre o tempo e a eternidade, nas escolhas concretas e diárias. Essas, por sua vez, devem ser percebidas à luz do novo céu e da nova terra, onde habitaremos com Deus e onde Ele mesmo enxugará dos olhos todas as lágrimas, onde não haverá mais morte nem luto ou pranto, pois tudo isso terá passado (Ap 21.1-6a). É encontrar-se no tempo, mas com a perspectiva do tempo de Deus. O texto do Evangelho de Mateus 25.31-46 lança um desafio profundo em meio a este tempo, proporcionando uma reflexão importante e colocando Cristo como mediador de toda a vida e obras.

2 Exegese Segundo a tradição uniforme da igreja primitiva, o autor do Evangelho de Mateus foi Levi, também conhecido como Mateus, coletor de impostos que se converteu, abdicou de sua posição e riqueza e integrou o grupo dos doze apóstolos (Mt 9.9-13; 10.3; Mc 2.13-17). Por sua profissão, é bem provável que fizesse parte de uma minoria letrada entre toda a população. Suas frequentes citações de passagens do Antigo Testamento também mostram que, embora trabalhasse de forma ao menos indireta para as forças romanas de ocupação, não deixara de ser judeu. Seu público-alvo eram, predominantemente, cristãos judeus que viviam em Antioquia da Síria e seus arredores, com o interesse de mostrar como um judeu pode encontrar

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em Jesus Cristo tudo o que há de mais precioso em sua herança judaica. Percebe-se o realce das etapas singularmente judaicas da missão de Cristo: “Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta” (1.22; 2.15,17, 23; 4.14; 8.17; 12.17; 13.35; 21.4; 27.9). O Evangelho de Mateus contém profundas e importantes observâncias acerca da seriedade e do compromisso na vivência da fé. É possível deduzir que isso seja um dos primeiros problemas que o evangelista detecta no início de sua própria comunidade. Por isso lida com o aspecto do juízo de Deus diante da rebeldia e passividade frente a uma espécie de “fé” que não produz frutos (21.43). É também o evangelho que amplia o povo de Deus para além dos judeus. Percebe que Cristo é o Deus para todos (2.1-12; 8.5-13; 15.21-28), pois Ele é o verdadeiro Israel. E termina o evangelho com Jesus enviando seus discípulos para que façam discípulos de todas as nações. Portanto não é mais uma questão de pertença nacionalista, mas de pertença relacional pela fé, a ekklesia de Jesus Cristo. Esse contexto geral possibilita-nos entender o fio vermelho do autor do texto em questão. Especificamente Mateus 25.31-46 encontra-se num bloco de textos proféticos de juízo: primeiro anunciando julgamento sobre os mestres da Lei e os fariseus (23.1-39), depois Jesus deixando o templo (23.38) e pronunciando julgamento contra Jerusalém (24.1-28) à luz do próprio fim (v. 29-35), conclamando seus seguidores à vigilância e ao serviço (24.26-25.46). Ao longo desse bloco de discursos, Jesus termina com a descrição impactante do Filho do Homem no trono de sua glória, julgando todas as nações. V. 31-33 – Mesmo que, muitas vezes, a passagem seja descrita como parábola, não é uma história ilustrativa, mas uma visão do futuro. O único elemento de uma parábola nessa história é a semelhança no uso de Deus como pastor que separa os bodes das ovelhas (v. 32-33). É bem provável que a imagem e o uso de linguagem adotada por Mateus na referência ao Filho do Homem, glória, anjos, trono e juízo estejam baseados em Daniel 7.9-14. A ideia de reinado e autoridade que a profecia de Daniel previra para o Filho do Homem, à qual o próprio Jesus se havia referido em diversas vezes (Mt 10.23; 16.28; 19.28; 24.30), encontra-se realizada. A reunião de todas as nações para julgamento relembra a visão de Joel 3.2. Isso indica o quanto Mateus atribui tranquilamente a Jesus o reinado e a autoridade que no Antigo Testamento e na apocalíptica judaica pertencem somente a Deus. Ao fazer uso da imagem das ovelhas e dos bodes, Jesus fá-lo com o intuito de ilustrar a separação que se fará dos justos dentre todos os “outros”. V. 34-40 – Neste primeiro bloco, a imagem trazida é a do Rei chamando as ovelhas como as benditas do Pai. E assim são reconhecidas pelas atitudes frente à necessidade do próprio Cristo na pessoa marginalizada, necessitada e carente. É nessa realidade concreta e vivencial do pequeno irmão que se mostrou fiel o crente que, a partir da fé relacional e ativa, cuidou-o e amou. A pergunta dos “benditos” de surpresa deve ser entendida no sentido da inocência pelo fato de que a fé simplesmente atua pelo amor compartilhado com todos de forma espontânea, natural e corriqueira. Os “benditos” não se perguntam e nem planejam fazer boas obras, mas sua maneira de viver e agir é a partir do impulso que o amor de Deus cria no novo ser humano.

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V. 41-46 – No segundo bloco, a imagem não é positiva como no primeiro. Aos da sua esquerda a palavra é de juízo e de afastamento e, por isso, passam a ser considerados como aqueles que estão debaixo da maldição de Deus. Sua falta é reconhecida também pelas atitudes frente à necessidade do próprio Cristo na pessoa marginalizada, necessitada e carente. Também é nessa realidade concreta e vivencial que esses se demonstraram infiéis diante da fé recebida e conhecida. Deduz-se que essa separação citada já no início da perícope não se dá entre pessoas de fé e pessoas sem fé, mas entre aqueles que receberam a fé e a vivenciaram daqueles que se omitiram diante da graça recebida. Esses últimos viviam mais preocupados em demonstrar a fé em momentos pontuais, pensados e planejados. A fé havia sido transformada em simples religiosidade, em que a ação está ligada sempre a uma necessidade pessoal. Nesse sentido, a surpresa da pergunta dos da esquerda pode ser entendida num certo tom de arrogância “quando é que deixamos”, pois a certeza era de que não houve falta alguma. E aí são surpreendidos pelo fato de que a fé não pode ser privatizada, mas que sua vivência e ação são públicas na direção do outro. Por fim, aparecem duas sentenças, a primeira marcada pelo juízo e a segunda pela graça: “portanto, estes irão para o castigo eterno” enquanto que “os bons irão para a vida eterna”. Um erro grosseiro seria entender que essa perícope tem como intenção falar das boas obras como o caminho ou parte do caminho para a vida eterna. De forma alguma é isso! Mateus, sabiamente e de forma contundente, alerta lembrando as palavras de juízo do próprio Jesus Cristo de que a vivência da fé resulta em frutos e obras. A pessoa, a partir da fé, é liberta de si mesma e vive uma nova realidade, atuando, agindo a partir da perspectiva do amor de Deus. Essa nova mentalidade abre os horizontes, faz enxergar o outro como alvo de amor do mesmo Deus que o amou, libertou e salvou.

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Meditação

No Evangelho de Mateus, de maneira mais acentuada do que nos outros três evangelhos, há uma tomada de partido de Deus pelos mais pequeninos como decorrência de sua misericórdia. A maior probabilidade é que o motivo seja a ameaça, em especial por parte de mestres cristãos, do uso indevido da pregação da graça ao fomentar a antinomia (esquecimento da Torá – Mt 24.11s; cf. 7.1523). Contra esse risco Mateus acentua o caráter compromissivo do discipulado de Cristo. Lutero, comentando o capítulo 18 de Gênesis, no contexto do tema da hospitalidade e acolhida, recorda o texto em questão e afirma: “Pode haver louvor maior dessa virtude do que o fato de que aqueles que são hospitaleiros não acolhem um ser humano, mas o próprio Filho de Deus? Por outro lado, que é mais repugnante do que a falta de hospitalidade? Pois não excluis da tua casa um ser humano, mas o próprio Filho de Deus, que sofreu e morreu por ti na cruz” (p. 415). O texto que temos à nossa frente desafia os participantes da igreja de Cristo. O evangelista deixa claro que a ligação com Deus engloba construtivamente o relacionamento com o próximo, seja pelo amor aos inimigos (Mt 5.43-48), seja

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pelas obras em favor dos pequeninos irmãos. É acentuado o agir humano como parte integrante indispensável da justiça. No entanto, precisa estar claro que o autor aqui, lembrando as palavras de Jesus Cristo, não está apontando o caminho para a justificação pelas obras, mas desdobrando o que é viver pela fé como aquele que já está justificado. Aliás, o evangelho como um todo pressupõe que é só a proximidade com Deus, aberta pelo próprio Filho, que possibilita a alguém tornar-se ele próprio um filho de Deus (Mt 5.9,45) e, por esse meio, corresponder ao que Deus por meio de Jesus Cristo como o Emanuel (Mt 1.23) se tornou também “nosso Pai celeste”. A pró-existência de Deus na vida do ser humano torna claro o caráter participativo do poder de Deus, no qual Cristo concede participação a seus seguidores e companheiros na constituição de seu Reino (Mc 10.40 par. Mt 20.23; Lc 22.30 par. Mt 19.28). É nesse contexto que há um divisor de águas entre a mera religiosidade da vivência genuína da fé. Enquanto no primeiro se criam esquemas, meios, edifícios para, por meio das obras, arrancar algo de Deus, como investimento a curto, médio ou longo prazos (a exemplo do que temos na atualidade na busca instantânea de cura, da prosperidade e eternidade), o segundo vive a fé entendendo que seu mundo está ampliado, pois se tornou na liberdade, adquirida por meio de Cristo, um novo cidadão que está aí para outros. É participar da realidade do próprio Cristo, o que, segundo o teólogo e pastor Dietrich Bonhoeffer, é a essência da existência da igreja de Cristo. Deus em Cristo como servo do ser humano “está aí para mundo” e, ao ser parte dessa realidade por meio da graça, estou liberto da necessidade religiosa de empreender verticalmente uma relação para benefício próprio, para estar na mesma perspectiva do próprio Deus, estar-aí-para-outros numa relação horizontal em benefício daqueles que são alvo do amor desse Deus. Isso quer dizer que, quando a pessoa faz parte de uma mesma perspectiva, visão, casa, família, ela não entende que aquilo que ela faz é para ter o que já possui, mas faz porque se entende como parte do todo e do mesmo projeto: o reino de Deus. Nesse sentido, podemos lembrar aqui da frase conhecida de Lutero: “O cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém [pela lei]”; “O cristão é servo de todas as coisas e sujeito a todos [pelo amor do próprio Deus]”. A surpresa dos que nessa profecia de Jesus Cristo estarão à sua direita, de não ter percebido quando tinham servido a seu Senhor, deve-se ao fato da naturalidade do realizar as boas obras. Aliás, somente em Cristo existe essa possibilidade. A religião, como empreendimento humano de se re-ligar a Deus por meio de esquemas e empreendimentos, é capaz de impulsionar boas obras sim, no entanto essas sempre estarão ligadas ao egoísmo por partir de uma busca pessoal em benefício próprio na busca por bênção, proteção, cura, prosperidade, sorte, eternidade etc. Já o cristão, libertado dessa necessidade por ser participante da existência de Cristo enquanto membro de seu corpo, é aquele que com naturalidade realiza boas obras por entender-se como participante ativo do reino de Deus, sendo perfume de Cristo (2Co 2.15), sal e luz no mundo (Mt 5.13-16).

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Por fim, não nos é permitido esquecer o caráter de juízo e alerta que essas palavras de Jesus Cristo nos trazem também hoje, especialmente neste fim de ano, em que todos são impulsionados a pensar no novo ano que logo inicia. A surpresa dos que estão à esquerda é por ter certeza de que alguma falta foi cometida na relação com seu Senhor. Mas sua perspectiva é pessoal, limitada, humana e, por isso, de uma fé que foi privatizada. Onde a fé é assim reduzida, também existem boas obras, mas elas são pontuais, pensadas, planejadas para criar uma sensação de paz e dever cumprido, mas nunca são naturais; estão presas às circunstâncias favoráveis. E aqui a palavra de Deus, como diz Lutero, deve ser como espelho que revela minha condição diante do anúncio desse juízo. Na minha percepção pessoal, o que esse texto fala para mim? Qual desafio recebo neste próximo ano novo? Sabemos que é na dinâmica de lei e evangelho que Deus me dá a possibilidade de amadurecer na fé.

4 Imagens para a prédica Compartilho parte de uma reflexão de Dietrich Bonhoeffer e duas frases que possibilitam auxílio na reflexão: “Observo aqui repetidamente que há muito poucas pessoas que conseguem abrigar diversas coisas ao mesmo tempo dentro de si; quando vêm os bombardeios, elas são só medo; quando há algo bom pra comer, são só avidez; quando algum desejo é frustrado, são só desespero; quando alguma coisa está certa, não veem mais outra coisa. Elas passam ao largo da plenitude de vida e da integralidade de sua existência própria; tudo o que é objetivo e subjetivo desfaz-se em fragmentos. A fé cristã, em contrapartida, coloca-nos em diversas dimensões da vida simultaneamente; abrigamos, por assim dizer, Deus e o mundo inteiro dentro de nós. Choramos com os que choram e, ao mesmo tempo, alegramo-nos com os que estão alegres; tememos por nossa vida, mas, ao mesmo tempo, precisamos ocupar-nos com pensamentos que sejam mais importantes para nós do que a nossa vida”. “A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência” (Mahatma Gandhi). “A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça preferimos normalmente optar pela arrumação” (Carlos Drummond de Andrade).

5 Subsídios litúrgicos Oração de confissão Querido e amado Deus, agradecemos-te pela possibilidade de estar juntos, como irmãos e irmãs, na certeza de que tu compartilhas conosco tua palavra e atuas em nossas vidas pelo Espírito Santo. Agradecemos-te por teu amor, que nos dá liberdade, que nos permite viver a partir da graça conquistada por nosso salvador Jesus Cristo. Tua palavra revela como um espelho nossas imperfeições, faltas, falhas e, além disso, mostra-nos o quanto muitas vezes somos egoístas,

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1º Domingo após Natal

o quanto falhamos em olhar para a outra pessoa como aquela que é alvo de teu amor. Pedimos-te perdão! Por teu amor, vem encorajar-nos a vivenciar a fé com mais responsabilidade. Que também neste novo ano que se aproxima possamos fazer planos, traçar sonhos nos quais o outro é contemplado. Por Cristo Jesus nosso Senhor é que oramos. Amém! Oração de intercessão Eterno Deus, agradecemos por teu inesgotável amor. Sabemos que por meio da tua Palavra tu queres nos orientar, ensinar e abençoar. Também hoje pela reflexão da tua Palavra estamos diante de um grande desafio. Confessamos que temos dificuldades para olhar além de nós mesmos, em compreender e perceber o que significa ser participante do teu Reino. Mas te pedimos que com o auxílio do Espírito nos encorajes e sempre de novo nos desafies a atuar neste mundo que tanto necessita de sinais desse teu Reino, para que também diante dos mais pequenos tenhamos disposição e amor para ir ao encontro. Faze-nos perceber o que é viver a partir desse amor. Ajuda-nos a não privatizar a nossa fé em nossas necessidades e nem permite que vivamos em tola religiosidade. Mas que possamos, como pessoas libertas, viver a partir da tua graça. Queremos acolher-te e servir-te nas pessoas que tu colocas em nosso caminho. Que em todos os planos que fizermos para este novo ano esteja a tua vontade como prioridade. Em Cristo e por Cristo é que te pedimos. (Pai-nosso) Amém!

Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 413. FELDMEIER, Reinhard; SICKERMANN, Hermann. O Deus dos vivos: uma doutrina bíblica de Deus. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2015. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas / Martinho Lutero. Volume 12 - Interpretação do Antigo Testamento – Textos selecionados da Preleção sobre Gênesis. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2014.

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ANO NOVO (NOME DE JESUS)

01 JAN 2017

PRÉDICA: LUCAS 2.15-21 NÚMEROS 6.22-27 FILIPENSES 2.5-11

Teobaldo Witter

Jesus na história do povo Deus, Pai Eterno. A luz, Emanuel. Jesus, Palavração. Espírito, vida plena.

1 Introdução Estamos em um momento muito significativo para as famílias e comunidades. Viemos do tempo de Advento, quando a Palavra nos chamou para a preparação individual e comunitária com vistas à presença de Deus Emanuel, Deus-conosco. Veio o Natal de Jesus com cultos que encerraram um processo de preparação e realização da obra de Deus. Entre Natal e Ano Novo há um certo vazio. Ou, para outras pessoas, recesso, preparação para o início das férias. Dia 1º de janeiro inicia o Ano Novo. O clima de fim e de começo entra em órbita, meio sem jeito, porque parece tudo muito diferente do que a agitação dos últimos meses. Às vezes, a gente nem consegue se localizar nesses tempos de mudanças. Nas igrejas e nas praças, já inicia a desmontagem dos presépios e outros ornamentos com mensagem natalina. As músicas de Natal, antes abundantes, agora nem são mais cantadas. O novo ano já veio, mas o velho permanece vivo em nossas memórias, em nossos sentidos. Lembro ainda que as mensagens do Natal e do Ano Novo são para todos os seres humanos. Não são tempos apenas para as pessoas com saúde, bem resolvidas e que podem gozar do bem-estar numa época de gastança. Estão incluídas também as pessoas para as quais muitas coisas dão errado: doentes, endividadas, preocupadas, em dificuldades de relacionamento etc. Nesse contexto acima, olhamos para os textos indicados para a pregação e leituras, seu conteúdo e mensagem para a vida. Os textos acima indicados foram trabalhados em vários auxílios para o anúncio do evangelho nos volumes anteriores de Proclamar Libertação. Isso é realizado de uma forma muito linda. Apesar de serem textos bem conhecidos, os autores e autoras são criativos e sempre trazem boas novidades em cada auxílio. Seguindo o exemplo, também no presente trabalho, apresento elementos pertinentes novos. Boa leitura e reflexão. Deus, pelo Espírito Santo, nos entusiasme na missão de anunciar a Palavra e meditá-la na mente e no coração. Quanto às leituras, Números 6.22-27 traz a bênção sacerdotal: “o Senhor te abençoe e te guarde” (v. 24). Saber-se abençoado por Deus é um imenso consolo

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e compromisso. Não estamos sozinhos em nossas opções de vida e em jeitos de viver. “O Senhor tenha misericórdia de ti” (v. 25b). Deus sofre de coração por causa de nossas misérias. Que consolo! “O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz” (v. 26). Deus mostra a sua face. Deus fala: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo” no batismo de Jesus Cristo (Mc 1.9-11). Deus dá a sua paz. Paz seja com vocês, diz Jesus (Jo 20.26b). Na bênção e na promessa de vida e salvação de Deus, a comunidade está muito bem cuidada e esperançosamente provocada para proclamar as maravilhas de Deus, louvando e glorificando seu nome (Lc 2.20) por tudo o que o tem ouvido no Advento e Natal. Quero ainda lembrar do testemunho de Dietrich Bonhoeffer, que no livro “Resistência e Submissão”, nas cartas e anotações escritas na prisão, expressa o sentimento vivido também nesta época do ano. Sobre Natal, em carta circular de novembro de 1943, ele escreve: [...] Caso eu ainda esteja no cárcere por ocasião do Natal, não fique abatido por causa disto. De fato não tenho medo disso. Como cristão, pode-se festejar o Natal também na prisão [...] (BONHOEFFER, 2003, p. 181).

Na noite de Natal de 1944, quatro meses antes de ser executado, compõe a poesia e o belo hino: Por bons poderes sinto-me cercado: Maravilhosamente bem guardados,/confiantes esperamos o porvir./De noite e dia em Deus aconchegados/ e assim em cada dia que surgir.

Na prisão, e não na igreja, em meio a luta e sofrimento, dores e angústias, sente-se amparado e bem guardado. Na prisão, ele escreve, vive em comunhão e compõe músicas que marcaram sua vida. Bonhoeffer parece ter entendido a palavra de Filipenses 2.5-11 no que se refere à opção de Jesus, que “[...] a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (v. 7-8). E escreve: Cristo sofreu em liberdade, na solidão, à margem e em desonra, no corpo e no espírito, desde então muitas pessoas cristãs com ele. [...] Continua sendo uma experiência de valor incomparável termos aprendido a olhar os grandes eventos da história do mundo a partir de baixo, da perspectiva dos excluídos, dos que estão sob suspeita, dos maltratados, dos destituídos de poder, dos oprimidos e dos escarnecidos, em suma dos sofredores (BONHOEFFER, 2003, p. 40, 43).

Concluímos que estamos sendo provocados para ouvir a narrativa e a mensagem dos acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer em meio ao povo sofredor (Lc 2.15) e confessar que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai (Fl 2.11). Assim, iniciamos o Ano Novo sob a bênção e a misericórdia de Deus Triúno no compromisso ético comum da defesa e da promoção da dignidade da criação.

2 Exegese V. 15 – E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pastores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos deu a conhecer. Um fenômeno aconteceu. Ele impactou a vida, as percepções, os sentidos e a razão das pessoas. Pelas notícias, testemunhado inclusive por anjos, o

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acontecido não pode ficar oculto. Sim, um “menino nasceu”, que é o Salvador, é Cristo... veio dos altos céus. Veio para ficar e ser Emanuel, Deus conosco. Bateu a curiosidade nos pastores de ovelhas no campo. Decidem verificar o que há nesse fenômeno: “Vamos... e vejamos o que aconteceu, o que Deus nos deu a conhecer”. O fenômeno não é para ser admirado a distância, pois ele coloca tudo em movimento. Louvor e glória a Deus são ensinados, são revelados. Deus, em Jesus, deu-se a conhecer como o Deus que se importa com tudo e com todos. Natal: o Filho é luz. / O Filho desce e toca./ E deixa resplandecer a luz/ A luz toca as pessoas... Tocadas pela Palavra, as pessoas se mobilizam. Vão ao encontro da manjedoura, ao encontro do menino, ao encontro da vida. O fenômeno revela e mobiliza para ir ao encontro do povo-criança-mãe-pai que não tem lugar para nascer. Sendo assim, os pastores vão ao encontro de sofredores. V. 16 – Foram, apressadamente, e acharam Maria, José e a criança deitada na manjedoura. Não se encontra Deus fora da manjedoura. A palavra manjedoura significa cocho na estrebaria, onde comem vacas e cavalos. Ali têm palha, pasto, alimento de animais. Serviu de berço para o menino Jesus. A palavra manjedoura (ebus, no hebraico) é mencionada duas vezes no Antigo Testamento: em Jó 39.9, no diálogo de Deus com Jó, e em Isaías 1.3, quando diz que o jumento conhece o dono de sua manjedoura. No grego do Novo Testamento, temos o vocábulo phátne, “manjedoura”, usado somente em Lucas (2.7,12,16). No Antigo Testamento, a referência é a uma espécie de caixa ou gamela, em que era servida a forragem oferecida aos animais. O termo grego phátne refere-se mais a uma manjedoura ou estábulo. Na época, os migrantes e viajantes pobres não encontravam abrigo e abrigavam-se junto aos animais. Há algo de muito apropriado nisso, pois o Logos, o Filho de Deus, em sua encarnação, humilhou-se, em sua fidelidade foi ao “fundo do poço”, morto e ressuscitou, sendo revelado e glorificado universalmente. Segundo informações da biblioteca bíblica (http://bibliotecabiblica.blogspot.com.br/2013/09/qual- significado-palavra-manjedoura-biblia.html), a atual Igreja da Natividade, em uma colina baixa em Belém da Judeia, cobre uma antiga manjedoura que havia em uma gruta. Essa tem sido identificada como o local do nascimento de Jesus. Porém, em redor de Belém, havia muitos lugares possíveis similares. No Oriente Próximo, era comum escavar lugares nas rochas ou então eram usadas cavernas naturais para abrigos. O fato é que o local exato da manjedoura de Jesus é desconhecido, mas o seu fato e significado têm seu sentido radical, profundo, ou seja, Jesus não foi acolhido pelos “reinos deste mundo”. Nasceu humilde, recusado, pobre, viveu em meio ao povo, fiel ao Pai (Fp 2.5-11), sofreu todas as dores humanas, com morte na cruz. V. 17-18 – E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino. Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores. Os cuidadores de ovelhas nas montanhas foram os evangelizadores na estrebaria, anunciando e testemunhando a respeito do evangelho de Jesus, a boa notícia. Traziam em seus corpos os cheiros de suas lutas de noite e de dia. O fenômeno em torno de Jesus aconteceu naquela noite na montanha e provocou

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reações. No caso, as pessoas ouviram com muita atenção as coisas narradas pelos pastores. V. 19 – Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração. A mulher, no caso a mãe de Jesus, entrega-se de mente e de coração à palavra de Deus. Sua vida tem o sentido feliz, apesar das dores e rejeições que sofreu e sofre por não se “enquadrar” nos estilos humanos do que se esperava na época da mulher e mãe. E canta com todas: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade de sua serva” (Lc 1.46). V. 20 – Voltaram, então, os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado. Estão muito felizes por tornar-se arautos da boa-nova. A formação inicial deles foram os primeiros momentos marcantes da notícia de Jesus e da visita à manjedoura em que está a criança. Ninguém nasce cristão. As pessoas tornam-se cristãs, assim como também se tornam pessoas (Karl Rogers). Foram introduzidas ao discipulado. A Palavra (Rm 10.10) torna-nos pessoas cristãs. Somos induzidos, como os pastores, a ser cristãos pela Palavra nos acontecimentos de Belém (manjedoura) e de Jerusalém (cruz e Páscoa). O louvor e a glorificação a Deus são expressões reais do prazer de saber-se pessoa cristã. Nenhuma alegria tem real valor se não tiver seus sentidos fundamentados no encontro reflexivo com Deus e tornar-se, no processo continuado, pessoa cristã e, como Maria, guardar a Palavra e meditá-la em seu coração. V. 21 – Completados os oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de Jesus, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido. Deus inicia a sua missão de salvação por meio de sua inserção na história e numa cultura humana. No caso, a cultura judaica. A partir desse local específico abre a perspectiva da vida e liberdade universais, em que nenhuma cultura o prende. Na criança encontrada pelos pastores do campo na manjedoura de Belém, Deus é “Emanuel-Deus Conosco” (Mt 1.23) em todos os tempos, culturas e lugares. Desde os tempos antigos, conforme Gênesis 3.1ss, é a primeira vez que a humanidade tem a possibilidade da comunhão plena com Deus, de vê-lo face a face. É Deus que possibilita isso nessa sua encarnação através dessa criança. Finalmente, Deus está plenamente conosco. O Evangelho segundo Mateus explica, em 1.18, o nome de Jesus, dizendo: [...] “lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. O menino seguiu a tradição judaica da prática da circuncisão, ainda muito pequeno, no oitavo dia. O signo do seu nome explica a sua missão, ou seja, salvar o povo de seus pecados desde a origem.

3 Meditação A época do ano civil, com o fim de mais um ano, leva-nos a pensar na transitoriedade de tudo. Tudo termina. Terminam o dia e a noite. Terminam o bom tempo e a tempestade. Terminam o sofrimento e a tranquilidade. Terminam a alegria e a tristeza. Terminam a fome e o alimento. Terminam a seca e a chuva. Terminam a

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comunhão e a solidão. Terminam a vida e a morte. Terminam o descanso e o sono. Terminam a guerra e a paz. Terminam o ódio e o amor. Terminam a doença e a saúde. Terminam o trabalho e as férias. Terminam a guerra e a paz. Tudo vai se alternando como num ciclo de vida esfericamente organizado. O que começa termina para dar lugar ao que começa. Na alternância, não há espaços vazios. A época do início de mais um ano novo, agora 2017, leva-nos a pensar que tudo continua. Mudou o ano, mas a vida continua. Começam o dia e a noite. Começam a alegria e a tristeza. Começam a doença e a saúde. Começam o trabalho e as férias. Começam o ódio e o amor. Começam a comunhão e a solidão. Na dinâmica da vida, o que começa também termina. Mas as coisas não se sobrepõem. Na alternância, a vida nasce, cria-se e se recria. Assim são o Natal e o Ano Novo, épocas que agora vivemos. Caminhando e indo adiante em círculos, chegamos ao ano de 2017, ano dos 500 Anos da Reforma da Igreja Cristã. A priorização dos cenários do camponês, espaço aberto, estrebaria e manjedoura no nascimento e na evangelização não é casualidade nem modismo tampouco romantismo. O cenário é profundamente evangelizador. O nascimento de Jesus, de sua mensagem predominantemente camponesa, em meio aos animais, à terra e aos seres humanos, é emblemático. A notícia aos pastores no campo, à noite, com abundante presença de seres do céu e da terra (estrelas, animais, por certo também serpentes etc) não é um fenômeno isolado. O estábulo e a manjedoura como cama de Jesus e abrigo de Maria e José falam-nos de humildade, de desprendimento, de pobreza, de rejeição, mas também falam da vida de relacionamentos recriados e plenos. O significado de Filipenses 2.5-11, que nos ensina da transformação através das obras de obediência ao Pai por parte de Jesus Cristo, é de profundidade, justiça e paz integral nunca vistas por nós nem imagináveis. “... ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai” (v. 10b-11). O testemunho do nascimento de Jesus e de sua missão de “salvar o povo dos seus pecados” engloba-se na história dos testemunhos da criação, queda e nova criação. Por isso, na meditação, vou ampliar os horizontes, partindo da criação, despencado na queda humana, mas optando pelo caminho do seguimento de Jesus para participar do novo céu e da nova terra ( Ap 21.1). A história humana faz-se nos processos entre começos e términos, início e fim. Uma vez tudo começou. “A terra estava sem forma e vazia. E havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. E disse Deus: haja luz e houve luz. E viu Deus que a luz era boa” (Gn 1.1-2a). E assim começou. Deus criou perfeita comunhão entre todas as suas criaturas. É gênese da vida. Dela nos falam os capítulos 1 e 2 do livro de Gênesis. O que marca dois capítulos, segundo Schwantes, são a comunhão e integralidade da criação, a interdependência dos seres criados. Os dois capítulos do livro de Gênesis apresentam a vida do campo, a sintonia do homem e da mulher numa relação de solidariedade. Há um convívio com a terra, a qual é o espaço de sua existência. A pessoa é parte da terra. A terra é trabalhada para dar alimento. Gênesis 1.15 afirma: “A pessoa está no jardim para cultivá-lo e guardá-lo”. O verbo guardar designa a função de proteção que o lavrador realiza em relação a plantas e árvores. Cultivar expressa

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a dimensão produtiva, e guardar relaciona-se às necessidades da própria natureza (SCHWANTES, 2001, p. 111). Há relação de cumplicidade, de comunhão. A comunhão de Deus prolonga-se no relacionamento das dimensões da vida. A relação do homem e da mulher com os animais é profunda. Os animais fazem parte da vida das pessoas. “Numa casa de camponês, pessoas e ovelhas realmente convivem num mesmo pátio, num mesmo espaço. Eram amigos no sentido pleno da palavra. Também havia uma relação de complementaridade entre o homem e a mulher. A mulher é parte do homem e vice-versa. Gênesis 2.24 relata que era o homem que deixava a casa de seu pai e de sua mãe. O homem integra-se ao mundo e à cultura da mulher” (SCHWANTES, 2001, p. 113). Há a quebra dos relacionamentos. Ao seguirmos com os textos de Gênesis, no capítulo 3, a narrativa da destruição das relações a partir de uma postura de domínio e de poder. “[...] em três níveis são destruídas as relações como causa da influência da serpente. Estes três níveis correspondem aos três aspectos do projeto do campo” (SCHWANTES, 2001, p. 114). O primeiro é a relação de amizade com os animais, que se transforma em luta de vida e morte. A serpente, imprevisível, esperta, incontrolável, resume o reino animal em situação de conflitos (que, por certo, os pastores do campo tentavam evitar: que os lobos matem as ovelhas). É importante observar que, no mundo antigo, monarquias e impérios expressavam seus poderes e suas forças por meio de esculturas e animais (p. 115). A segunda destruição das relações é a parceria entre mulher e homem, que muda da parceria e da igualdade para a dominação, o patriarcalismo. É a serpente que provoca a dor do parto, representando a força dos interesses da cidade-estado. Ela surge na medida em que a procriação não mais se fundamenta nas necessidades do clã e obedece aos interesses do Estado, que promove guerras e tem um aparato de funcionários para dominar e controlar a vida de tudo e de todos. Há uma dominação estrutural e social, “de ricos sobre pobres, de governantes sobre súditos, de generais sobre camponeses” (p. 116). A terceira destruição ocorreu na relação de criatividade entre os camponeses e o chão para a relação de destruição e ruína. “A causa mais profunda é a própria serpente” (p. 116). A serpente é o próprio aparelho estrutural da cidade-estado que explora o povo do campo para manter-se poderoso e ampliar o seu domínio. “A serpente destrói a vida em três dimensões. Aniquila a vida dos animais. Esmaga a mulher. Enterra o lavrador” (SCHWANTES, 2001 p.117). Por desconfiança e sua infidelidade ao Criador, o ser humano se “segura” nos poderosos deste mundo, mas sofre as consequências: a expulsão do paraíso. A vida de Jesus justifica-se pela reconstrução das relações, reconciliando todos: Deus com os humanos, esses com os animais, com a terra e com o universo criado. O nascimento de Jesus efetiva-se fora das relações de domínio do Estado. Assistido por animais, Maria dá à luz Jesus, José é o parteiro e os anjos convocam os pastores do campo (que cuidam de animais). De certa forma, desde a origem, Jesus restabelece relações e a comunhão plena perdida. Neste início de ano, estamos sendo lembrados, pela palavra que se encarna, de que algo profundamente novo deve acontecer. Jesus quebra a regra de submissão à “serpente”, que é a causa da destruição da vida no paraíso. Ele mesmo

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passa pelo “mal” e aniquila-o desde a raiz, desde a origem. Assim como os seres humanos passam, como pecado original, pelo elo da desconfiança, Jesus é levado ao encontro do pecado e o vence. Isso se dá na cruz. Por isso novo começo dá-se no Natal e na cruz, culminando na Páscoa.

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Imagens para a prédica

4.1 – Dicas a partir dos textos e época Na pregação, é significativo destacar alguns pontos: 1) Importante seria observar as implicações da universalidade do nome: Jesus, Deus Conosco. Deus chama o ser humano de volta ao paraíso. Sua vocação é promover a reconciliação entre Deus e o ser humano, entre os seres humanos, entre o ser humano e os animais e a terra. Essa é a grande esperança. No campo e na manjedoura, Jesus Cristo dá início à relação totalmente transformada que ele assume em toda a sua obra, ensino, vida e morte. 2) Proclamação dos feitos de Deus e assumidos por Jesus. Essa é uma das razões da alegria dos pastores que “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado” (v. 20). Desejo que, também em 2017, quando celebramos os 500 anos da Reforma, a comunidade local possa entusiasmar-se e cativar pessoas para a fé viva e confiante. 3) Crer e confiar. Jesus recria a confiança perdida pela humanidade ao tentar ser seu próprio deus e confiar na serpente, que é o próprio aparelho estrutural da cidade-estado que explora o povo do campo para manter-se. Essa prática da exploração escraviza e destrói a vida em três dimensões: aniquila a vida dos animais, esmaga a mulher, enterra o lavrador. 4) Falar/mencionar elementos da comunidade local que induzem as pessoas a “confiar” em si próprias e em promessas que não podem ser cumpridas. 5) Convite à liberdade cristã, à confiança, à fé, ao louvor pela graça e compromisso cristão de divulgar tudo o que tenham lido, ouvido, apreendido, celebrado, vivido e percebido a respeito de Deus Emanuel, Deus Conosco. 4.2 – Percepções e reflexões A época do ano em que vivemos desperta sentimentos de compaixão, solidariedade, carinho e companheirismo entre as pessoas. Mas para que isso possa ser possível, é necessário falar ao coração das pessoas. Como falar ao coração? Conta a história que uma mulher vivia diariamente na entrada do caminho para o Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Ano velho e ano novo, lá estava ela, mãos abertas para receber esmolas. Uma guia turística, quando passava por ali, sempre depositava uma moeda na mão da mendiga. Muitos turistas, sensibilizados pelo clima de Ano Novo e pelo gesto da guia, também depositavam uma ajuda. A mulher continuava olhando para o chão e balbuciava: “Obrigada, Deus lhe pague”. À noite, pegava sua cesta e desaparecia nas ruas da cidade. No outro dia, de manhã cedo, lá estava ela novamente sentada no chão, cabeça baixa, cesta na frente e mãos abertas. A maioria depositava alguma moeda. Naquele dia, uma turista reconhecida e prestigiada passou por lá. Como ela era a última da fila, observava o gesto dos outros turistas e da mulher mendiga. Foi a

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única que não depositou nada. Na subida do bonde para o Cristo, a guia turística lhe disse: “Estou admirada. Permita-me uma pergunta: por que a senhora não depositou nada?”. Ao que a turista famosa respondeu: “Além de dar algo para as mãos e o estômago da mulher, o que todos fazem, temos que dar algo fundamental para o seu coração! Eu não dei nada porque ainda não sei o que dar”. Na descida, depois do passeio, lá estava a mulher, ainda esperando. As pessoas depositam alguma moedinha. Aquela turista sentou-se lado dela, pegou sua mão e perguntou: “O que a senhora necessita e quer que eu lhe faça?”. A mulher levantou os olhos pela primeira vez naquele fim de ano, deu um aperto de mão e um abraço na turista. Guardando o gesto e as palavras no coração, pegou a sua cesta e saiu caminhando feliz. Ela não veio mais. Na noite do ano novo, enquanto a guia turística caminhava por Copacabana, encontrou a mulher, cuidando e animando outros famintos. Aproximou-se dela e perguntou: “Por que a senhora não veio mais ao Cristo Redentor pegar as suas esmolas? Do que a senhora vive agora?”. Ela respondeu: “Eu vivo do carinho, da atenção e das palavras daquela turista que falou a meu coração”. Aquele gesto e as palavras tocaram seu coração, e ela, cativada pelo amor de Deus, encontrou seu jeito de louvar e glorificar a Deus em meio aos sofredores, restabelecendo confiança nos relacionamentos. 4.3 – Encontros 1. Deus disse: Haja luz. E houve luz. A luz desce, Encontros, prisões...

5. Campo, a luz desce. O Filho encarna. Maria, José e menino. Nas barracas e rincões...

2. Deus: Vai, Filho. E o Filho ouve. O Filho desce. E desce aos porões...

6. Cocho, Deus desce. Descida, festa em vida. Deus desce, morre. Vazio! Nada! Silêncio!..

3. Jesus Filho: Nossa luz. O Filho desce e toca. E permite a luz. A luz toca os campos...

7. Morte do Deus desce. Desce e encontra. Deus desce às prisões. Algemas! Solidão! Desamor!

4. Povo, o Filho toca. Nos encontros, Rompe barreiras. Vidas brotam nas cinzas...

8. Deus desce às trevas. Comoção humana. Descida sem medida. Deus saindo de si...

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9. A luz resplandecente, Mudando barreiras, Acontecendo salvação. A vida ressurge...

11. Céus, vida de Deus. Vidas, sem prisões. Vidas, sem trevas. Vidas, aos clarões...

10. Deus de filhas e filhos. Dignidades humanas, Possibilidades reais, Vidas secas recriadas.

12. Deus, Pai Eterno. A luz, Emanuel. Jesus, plavração. Espírito, vida plena (Teobaldo Witter)

Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão: Cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2003. 638 p. SCHWANTES, Milton. Projetos em conflito (Gênesis 2-3). In: ___. Projetos de Esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2001. http://bibliotecabiblica.blogspot.com.br/2013/09/qual-significado-palavra-manjedoura-biblia.html, acessado em 01/06/2016. http://www.luteranos.com.br/textos/natal-presidio-e-direitos-humanos, acessado em 10/06/2016. http://seer.ucg.br/index.php/caminhos/article/viewFile/1345/909, acessado em 30/05/2016.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 3.1-12 ISAÍAS 60.1-6 MATEUS 2.1-12

EPIFANIA DE NOSSO SENHOR

06 JAN 2017

Marcos Henrique Fries

Unidade na diversidade

1 Introdução “Unidade na diversidade.” Essa expressão tão conhecida é como uma bandeira de muitos grupos da sociedade que defendem a convivência fraterna e respeitosa entre pessoas diferentes. Também a igreja apela para esse lema constantemente, no que está correta, principalmente por causa de textos bíblicos como esse que o presente auxílio abordará. É que tolerância é (ou deveria ser) uma das marcas da comunidade cristã. O texto está previsto para ser pregado no dia de Epifania, data litúrgica que comemora a revelação de Deus em Jesus Cristo, a luz que brilha sobre as trevas deste mundo (Is 60.1-6). Tradicionalmente, também se lembra nesse dia a visita dos magos ao Deus-criança (Mt 2.1-12), salientando que a luz oferecida por Jesus não é exclusividade de um só povo ou raça. Efésios 3.1-12 já foi estudado e apresentado em PL XVI, XXII, XXXI e XXXV. Recomenda-se a leitura desses auxílios, que são muito ricos e esclarecedores principalmente na análise exegética, mas também na diversidade de enfoques.

2 Exegese A Epístola aos Efésios tem sido objeto de muitas discussões entre biblistas nos últimos tempos, especialmente quanto aos destinatários originais, autor e data do escrito. Embora já no prefácio e saudação (1.1-2) o nome de Paulo seja mencionado como autor e a igreja de Éfeso seja apresentada como destinatária da carta, muitos estudiosos, por diversos motivos, como linguagem, temas abordados ou mesmo a falta de observações mais pessoais e saudações, atribuem a autoria a um discípulo do apóstolo, que nessa carta teria tentado sistematizar o pensamento paulino. No que se refere aos destinatários, considerando que muitos manuscritos da época não fazem menção a Éfeso, é possível, dizem, que essa seja uma carta circular, tendo passado por diversas igrejas da Ásia. Se o autor foi mesmo o apóstolo Paulo, então a epístola foi escrita enquanto ele era prisioneiro em Roma, na mesma época em que escreveu Filipenses, Colossenses e Filemom: por volta de 60-61 d.C. Se é de autoria de algum de seus discípulos, pode ter sido escrita após a destruição da cidade de Jerusalém: em 70 d.C.

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O estilo dessa carta é muito semelhante a uma pregação, e o seu tema central parece ser a igreja. No trecho selecionado para a pregação (3.1-12), o autor fala do seu chamado para anunciar o evangelho entre os gentios (os povos não israelitas). Nesse anúncio está a revelação de um mistério, “a saber, que mediante o evangelho os gentios são coerdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus” (3.6). Antes disso, o tema já fora tratado pelo autor em 2.11-22. Essa verdade ficara oculta às gerações passadas, mas agora, depois da vinda de Jesus Cristo, deveria ser revelada a todos os povos. Era de conhecimento geral que os “incircuncisos”, quer dizer, aqueles que não faziam parte do povo de Israel, que não se sujeitavam às leis desse povo nem observavam suas tradições, estavam excluídos das promessas de Deus. O próprio Jesus entendera seu ministério como primordialmente destinado aos judeus: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15.24). Condição um pouco melhor desfrutavam os gentios convertidos ao judaísmo. Entretanto mesmo a esses se impunham restrições. No templo de Jerusalém, por exemplo, uma parede separava o átrio dos gentios do átrio dos judeus. Havia um aviso de que qualquer não judeu que ultrapassasse essa parede receberia morte imediata e súbita. Essa parede de separação é usada como ilustração pelo autor da carta em 2.14. Embora Jesus tenha muitas vezes assistido não judeus durante seu ministério e, em suas palavras de despedida, tenha ordenado que seu nome fosse testemunhado até nos confins da terra (At 1.8), portanto, que o anúncio do evangelho ultrapassasse as barreiras geográficas e culturais do judaísmo, parece que sua declaração em Mateus 15.24 permaneceu sendo referência. A decisão de testemunhar o evangelho também para os gentios só aparecerá de forma inequívoca em Atos 13.46, depois que Paulo e Barnabé pregaram numa sinagoga em Antioquia: “Cumpria que a vós outros em primeiro lugar fosse pregada a palavra de Deus; mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos volvemos para os gentios”. Paulo, portanto, passa a ser reconhecido como o apóstolo dos gentios. Sobre isso escreve o autor de Efésios em 3.8: “Embora eu seja o menor dos menores dentre todos os santos, foi-me concedida esta graça de anunciar aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo”. O centro da perícope que estamos analisando é, portanto, a revelação de que os gentios são, a partir de Cristo, assim como os judeus, herdeiros de Deus, membros da família de Deus e participantes da promessa de salvação. O autor reflete sobre sua missão de ajudar os judeus e os gentios crentes a aceitar-se como parceiros na aliança de Deus, na igreja, na família. Judeus e gentios, por causa da fé em Jesus, são um só corpo, do qual Cristo é a cabeça. Judeus e gentios são parceiros no testemunho da “multiforme sabedoria de Deus” (v. 10). Judeus e gentios, por causa de Cristo, não mais se excluem, baseados em seu passado e suas tradições (circuncisos e incircuncisos), porque “dessarte, não pode haver judeu nem grego, nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

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3 Meditação Judeus e gentios foram chamados a ser parceiros e a conviver fraternalmente na igreja. Trata-se de um apelo difícil de atender. Judeus e gentios tinham tradições diferentes, tiveram um passado diferente, nasceram em lugares diferentes, seguiram deuses diferentes, viam o mundo de maneira diferente. Judeus e gentios eram diferentes. E desde sempre o ser humano teve grandes dificuldades em conviver com o diferente. O diferente sempre representou uma ameaça, um perigo. É porque o diferente nem sempre foi visto apenas como diferente, mas como um equivocado em suas concepções, preferências e costumes. Logo os grupos estabeleceriam paredes para proteger-se dos outros, dos diferentes. E as mesmas dificuldades de relacionamento outrora enfrentadas por judeus e gentios são experimentadas ainda hoje. O diferente continua sendo um obstáculo para a igreja no século 21. Embora o discurso oficial seja viver uma unidade na diversidade, na prática as coisas não funcionam bem assim. Um exemplo: a “igreja dos alemães”, como as comunidades evangélicas luteranas eram conhecidas por muito tempo, continua tendo problemas, ainda que velados, com os nascidos fora do germanismo. Evidentemente, a questão étnica não é mais motivo para restringir o acesso de pessoas aos nossos templos, mas observações como a que ouvi há poucas semanas em minha comunidade (“Nossa igreja está escurecendo!”) mostram que a presença de pessoas de outras origens étnicas ainda causa estranhamento. Ainda no contexto da IECLB, é flagrante a dificuldade de entrosamento e trabalho conjunto entre as diferentes correntes teológicas. No discurso, a coexistência das diversas linhas de pensamento é vista como uma vantagem, pois os segmentos se enriqueceriam mutuamente. Mas, na prática, sejamos francos, os grupos acabam se excluindo. Mesmo dentro de uma comunidade, pessoas com diferentes estilos de piedade ou diferentes modos de cultivar a espiritualidade se estranham. Ninguém admitirá isso, mas, no fundo, parece que o meu jeito de ser igreja é mais correto, mais bíblico, mais fiel à tradição, mais responsável que o de os outros. Tenho a impressão de que temos mais facilidade em criar e manter relações ecumênicas (com outras denominações) do que conviver com os diferentes dentro de nossa própria casa. Além das questões étnicas ou teológicas, é preciso olhar também para o chamado pluralismo de nossa sociedade: as mais diversas “tribos”, com as mais distintas preferências e gostos, que compõem nosso povo. E talvez em razão das muitas mudanças culturais que a sociedade vem experimentando nas últimas décadas, o que inevitavelmente gera desconforto, ao menos inicialmente, nossas comunidades parecem ficar cada vez mais conservadoras, fechando-se cada vez mais para aqueles que não se enquadram nos padrões estabelecidos pela tradição. Como podemos ver, a dificuldade de relacionamento que existia entre judeus e gentios perpetua-se entre nós, ainda que com nova roupagem. Perguntamos então se há solução para esse impasse. Creio que sim. Uma palavra deveria tornar-se atitude entre nós: “tolerância”. Tolerante é aquele que admite opiniões contrárias

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à sua, que aceita sentar-se ao lado de quem é e pensa diferente. No contexto da igreja, toleramos as diferenças, porque estamos unidos por uma mesma fé num mesmo Senhor, Jesus Cristo. Por causa desse Jesus, que foi radicalmente tolerante com o diferente, nós precisamos aprender a tolerar-nos mutuamente. É possível discordar do diferente? Claro que sim. Às vezes, discordar será até mesmo necessário. Tolerância não significa acatar como corretas todas as formas de pensamento. Mas a discordância não justifica alienar pessoas do nosso convívio. Jesus nem sempre concordou com as pessoas com quem interagiu, mas nunca lemos que Jesus tivesse rejeitado alguma delas. Aquelas que precisavam mudar de vida foram encorajadas a isso justamente porque experimentaram um amoroso acolhimento.

4 Imagens para a prédica Minha sugestão é que a prédica trabalhe o tema da tolerância. E a história da visita dos magos ao menino Jesus pode ser de grande ajuda para isso, pois os magos eram representantes de outros povos, outras raças, outras culturas e outras tradições. Deus guiou, por meio de sua estrela, esses homens diferentes até Belém para salientar que Jesus é Salvador de todos indistintamente. A pregação poderia seguir a seguinte estrutura: – Iniciar falando da intolerância em todas as suas formas, que tem estado presente também na igreja. – Ler e comentar o texto de Efésios 3.1-12. – Falar de Jesus e de sua postura tolerante, inclusive para conosco. – Comentar o texto de Mateus 2.1-12, cuja leitura já terá sido feita durante a Liturgia da Palavra.

5 Subsídios litúrgicos Oração da Ecumene Abraâmica (Hans Küng) Deus oculto, eterno, insondável, misericordioso, fora de ti não há outro Deus. És grande e digno de todo louvor; teu poder e graça sustentam o universo. Tu, que és Deus de fidelidade, verdadeiro e justo, escolheste Abraão, teu fiel servidor, para ser o pai de muitas nações e falaste por meio dos profetas. Bendito e abençoado seja o teu nome em todo o mundo. Seja feita a tua vontade onde quer que haja um povo. Deus vivo e misericordioso, escuta a nossa prece: nossa culpa agora é grande. Perdoa-nos, descendência de Abraão, por nossas guerras, nossas inimizades mútuas e maldades.

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Epifania de Nosso Senhor

Resgata-nos do infortúnio e dá-nos a paz. Tu que conduzes a história e és guardião de nosso destino, abençoa os líderes e governantes das nações, para que eles não cobicem o poder e a glória, mas ajam com responsabilidade para o bem-estar e a paz da humanidade. Guia nossas comunidades religiosas e suas lideranças para que não apenas proclamem a mensagem da paz, mas também a revelem em sua vida. A todos nós, e a quantos não compartem a nossa fé, dá-nos tua graça, misericórdia e bondade, e guia-nos, Deus dos vivos, pela via reta que conduz à glória eterna. Amém.

Bibliografia RADMACHER, Earl D. O Novo Comentário Bíblico – Novo Testamento. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2009. VAN DEN BORN, A. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1977.

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1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)

PRÉDICA: ISAÍAS 42.1-9 08 JAN 2017

MATEUS 3.13-17 ATOS 10.34-43

Klaus A. Stange Tornem-se filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo. (Fp 2.15) 1 Introdução As ruas clamam por justiça e paz. Mas, ao que parece, somos excessivamente egoístas. Nossa solidariedade dificilmente é desinteressada. Nossa elite política e econômica não será capaz de servir a mesa inclusiva em que ninguém fique de fora, partilhar o pão que é nosso, tendo dado graças ao nosso Pai. “As ideologias e os sistemas políticos, os avanços científicos e tecnológicos, a educação e o desenvolvimento não se mostram suficientes para atender ao clamor de bilhões de pessoas que vivem à margem dos benefícios das sociedades organizadas ao redor da riqueza partilhada entre poucos” (Kivitz, 2016). O clamor de nosso mundo por mais compaixão, solidariedade e generosidade deve encontrar nos cristãos e em todos os homens e mulheres de boa vontade e que cultivam o temor a Deus as primeiras respostas. Qual é nossa resposta?

2 Exegese 2.1 – Primeiras impressões Num primeiro momento, o texto me irrita. A justiça com a qual todos sonhamos, a justiça universal – como lemos no primeiro verso –, é mediada por um servo. O que dá para esperar de alguém com uma identidade ou atitude de servo? Não vai sobreviver muito tempo em nosso mundo competitivo. Além do mais, ele não é alguém que ergue a voz denunciando a injustiça. Ele não vai para a rua protestar. Alguém que deseja prevalecer precisa aparecer. Os movimentos sociais de nossos dias deixam isso bem claro: quando se pretende reparar uma injustiça, é necessário que se vá para a rua, é necessária a mobilização das massas, são necessárias palavras de ordem. Então, como o servo de Deus pretende que suas reivindicações se façam ouvir? Como ele imagina introduzir mudanças em nossa sociedade? Como ele pretende obter êxito? Um servo não combina comigo, e sua estratégia de ação parece fracassada. Ironicamente, ainda se diz do servo que “não mostrará fraqueza, não se deixará ferir” (v. 4). Isso não é autoengano? Uma ilusão? Palavras de alguém alienado da realidade? Como confiar e como colocar a esperança em alguém tão frágil, com tão pouco poder, tão vulnerável?

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

Percebo que a descrição do servo de Deus não corresponde, num primeiro momento, a meu imaginário de alguém que pudesse fazer alguma diferença em nossa sociedade. Preciso atentar melhor para o que Deus mesmo diz de seu servo (v. 7), preciso compreender melhor o jeito de Deus, a pedagogia divina. 2.2 – Estrutura, contexto histórico e literário A perícope é composta de duas partes: a) o cântico do servo de Javé (v. 1-4) propriamente dito; b) um comentário, uma explicação e um desdobramento do que foi dito na primeira parte sobre o servo (v. 5-9). A perícope para a prédica é o primeiro dos assim chamados “cânticos do servo de Javé” (cf. Is 49.1-6, 50.4-9 e 52.13-53.12). Certamente houve personagens históricos (o próprio Isaías, o povo de Israel, um soberano, um personagem do futuro etc.) que se encaixam parcialmente na descrição do servo de Javé. Mas tomo a liberdade de não aprofundar nesse espaço a discussão sobre as várias hipóteses a respeito da identidade histórica do servo de Javé e opto por uma interpretação cristológica do texto. Fundamento a minha opção nos vários textos neotestamentários que interpretam a passagem de Isaías 42 (e os demais textos do servo de Javé) de forma cristológica (cf. Mt 3.13-17, Mt 12.17-21, At 8.26ss), sem negar o lugar e o momento histórico do texto. O texto possui o seu Sitz im Leben no contexto do exílio babilônico. Portanto é escrito para os judeus no exílio. O texto precisa ser compreendido como um texto profético, cuja palavra é dita a partir de uma situação concreta e que procura mediar consolo e esperança para dentro dessa situação. 2.3 – Observações exegéticas Para mim, não há dúvidas de que o texto de Isaías 42.1ss, proposto para servir de texto-base para a prédica diante da comunidade cristã, tem como tema central o tema da justiça. Três vezes a palavra justiça (mischpat) é mencionada no cântico do servo (v. 1-4) e uma vez é mencionada no comentário ao cântico (v. 6). Mischpat é traduzido por trazer justiça, o direito, julgar ou decidir uma questão, sentenciar, absolver. Portanto tem como pano de fundo o cenário de um fórum. Denota uma ação, por meio da qual uma relação que se encontra em desordem novamente é restabelecida. Essa ação envolve três partes: duas partes, cuja relação não está mais intacta, são julgadas por uma terceira parte, que coloca as partes em conflito sob o shalom, trazendo paz, a salubridade e a salvação (cf. Gn 16.5). Nesse sentido, “julgar” é compreendido como “ajudar”. Essa mediação não é realizada apenas uma vez, mas denota uma ação constante no sentido de preservar o shalom. Daí se estabelece a relação de mischpat com “governar”, “reger”. Mischpat relaciona-se com a palavra zedaka – justiça. Denota, assim, um negócio justo, uma balança correta. Pode também adquirir o sentido de “religião, verdade” e até pode significar “graça, misericórdia, salvação” (cf. 1Rs 18.28, Is 30.18, Sl 76.10, 82.3s). Especificamente em nosso texto, mischpat representa salvação para os povos, compaixão pelos oprimidos e o agir gracioso de Deus em favor de seu povo Israel.

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V. 1 – Este versículo apresenta o servo de Javé. Deus, o criador e mantenedor do mundo (v. 5), escolhe e sustenta o seu servo. A eleição não tem um fim em si mesmo, mas aponta para as nações. Portanto o envio do servo tem um caráter universal. O Deus criador tem nele o seu prazer. Ele é empoderado para a sua missão pelo Espírito de Javé. A expressão “servo” (ébed) possui sentido ambíguo. Pode evocar a imagem de um escravo, de alguém que não possui autoridade. Mas, literalmente, o termo descreve alguém que é designado por um soberano, é alguém da absoluta confiança e age em nome daquele que o enviou. Ele não tem autoridade própria, mas é investido de autoridade por aquele que o envia. A missão do servo é proclamar e estabelecer o direito e a justiça de Deus. V. 2-3 – Este versículo descreve a forma como o servo desenvolve a sua missão. O servo não se desincumbirá de sua missão fazendo uso da violência, do estardalhaço, da espetacularização. Pelo contrário: o direito e a justiça que o servo proclama são um anúncio de graça e compaixão. A vara (caniço) e a lamparina são imagens que denotam e expressam uma condenação à morte. “Quebrar a vara” sobre alguém ou “apagar a sua luz” significa sentenciar alguém à morte. Portanto o ser humano (as nações) encontra-se como culpado diante do juízo de Deus. A vara já está rachada, e a luz da lamparina já foi apagada, mas, inesperadamente, institui-se um ato de graça, de modo que a vara não é quebrada em definitivo nem o pavio apagado em sua centelha. Portanto a mensagem que o servo proclama indica para um agir gracioso, para uma possibilidade de subsistir diante do juízo de Deus, pois a vara está apenas rachada e o pavio ainda possui uma centelha. No entanto a restauração não acontece por esforço próprio, mas pela intervenção do servo. O servo de Deus proclama a graça e a compaixão de Deus. Mas não o faz com espetacularização, com manifestação de milagres e prodígios, com autointitulamentos para comprovar sua autoridade. Ele não banca o herói. Não anuncia seus feitos na TV. Ele não pressiona, não constrange, não força a consciência do ser humano. Pelo contrário, ele quer ganhar a confiança do ser humano, de modo que livremente o ser humano corresponda ao amor de Deus. Ele quer envolver-se com as pessoas, de modo que a sua mensagem alcance os corações. V. 4 – O agir do servo representa esperança para “as ilhas”. Na língua hebraica existe apenas uma palavra para expressar “ilha” e “costa”. A palavra designa tanto o limite entre a terra e a água como expressa o limite “do mundo”. “Lá onde Judas perdeu as botas”, no “fim do mundo”. “Ilhas”, portanto, designam lugares distantes, mas também lugares limítrofes, lugares nos quais se perde o chão firme debaixo dos pés. Não se trata de lugares paradisíacos, lugares exóticos, onde desejaríamos passar as nossas férias. Trata-se de situações limítrofes, de situações de ameaça, de situações extremas. V. 5-9 – Este segundo bloco apresenta uma espécie de comentário ao cântico do servo de Javé. O Deus que vocaciona o servo é o Deus criador e sustentador da vida no mundo. O Deus criador coloca-se ao lado do servo para que a sua missão alcance êxito, inclusive entre os gentios. Sua missão consiste em abrir os olhos para que uma nova realidade seja discernida, consiste em livrar da opressão e libertar os que habitam na escuridão.

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3 Meditação A lógica de Deus inverte a lógica humana. O que é grande aos olhos humanos é pequeno aos olhos de Deus. Nós valorizamos a aparência; Deus valoriza a essência. Para nós, se não estiver postado no facebook, é como se não existisse; mas Deus entra neste mundo pela porta dos fundos. Se não reconhecemos a presença de Deus na criança da manjedoura, então só resta a palha. Essa realidade não pode ser percebida com os olhos naturais, apenas com o olhar da fé. Lutero designava isso como a clareza interna das Escrituras – aquela mediada pelo Espírito Santo e que nos permite ver além, ver o mundo com o olhar de compaixão do Pai. O Senhor e criador do mundo inverte a lógica humana. Ele envia a este mundo o seu Filho Jesus Cristo. Jesus vem a este mundo como servo. Seu estilo e seu jeito de cumprir a missão que lhe foi designada não é a avenida, não são os holofotes, não é o caminho da fama, da eloquência, do marketing. O profeta Isaías explica-nos por que Deus inverte a lógica humana: somente quem se movimenta silenciosamente, quem anda com cuidado ainda tem a possibilidade de considerar as pessoas que estão a seu lado. Somente assim somos capazes de perceber as pessoas cujo pavio está apenas fumegando e cuja vara quase já se quebrou. Uma sociedade que está em constante agitação, onde tudo gira freneticamente, onde a música em seu volume alto não cessa, não percebe mais aqueles que estão sucumbindo. Pessoas quebram e apagam – e ninguém percebe. Nem mesmo quando decidem dar cabo da própria vida em um ato de terror. Estamos rodeados de “ilhas”, pessoas que perderam o chão firme debaixo de seus pés. São pessoas que se encontram no limiar da existência. São como uma vara rachada, um pavio que fumega. Mais ainda: só aquele que se movimenta silenciosamente, que anda com cuidado, que não grita constantemente procurando convencer o outro leva o outro a sério e permite que o outro seja livre para decidir. Quando uma pessoa fala com um alto-falante, ele se impõe. Ele grita e alcança todos, quer queiramos ouvir ou não. Por isso quem quer se fazer ouvir faz uso de mídias que potencializam sua voz. (Ex.: pessoas que fazem protestos, que fazem um discurso etc.) Mas Deus não se impõe como quem usa um alto-falante. Por isso ele não envia seu servo para nascer em Roma, capital do Império Romano, nem em Jerusalém, capital da Judeia. O nascimento de Jesus em Belém não é noticiado por um porta-voz numa coletiva de imprensa. Pelo contrário, o nascimento do servo de Javé não chama a atenção do mundo. Também em seu ministério público, Jesus, quando ensinava, curava e fazia milagres, frequentemente o fazia sem “pompa e circunstância”. Quem quiser reconhecer em Jesus o servo de Javé necessita aquietar-se. Apontamentos para a prédica e atualização A prédica está prevista para o primeiro domingo após Epifania. A leitura do evangelho remete para o batismo de Jesus. A leitura do evangelho conecta com o texto de Isaías e ajuda-nos na interpretação cristológica do texto, sem esquecer a realidade histórica para a qual originalmente o profeta Isaías proferiu as suas

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palavras. O tempo de Epifania também lembra a igreja cristã de sua responsabilidade missionária. Toda a terra, todas as nações devem ouvir o evangelho: Jesus – a luz do mundo (v. 6-7). Eu gostaria de propor que a prédica tivesse esse acento na missio Dei. A prédica poderia ser introduzida com a linha de raciocínio que se encontra na introdução desse texto. Diante do clamor em nosso país por justiça, paz, equidade, qual a resposta cristã? Como respondemos? O desenvolvimento da prédica poderia apontar para a lei e para o evangelho que se encontram no texto de Isaías: Deus envia seu servo. Ele vem para estabelecer o direito sobre a terra. Ele julga. Se pessoas escapam da justiça dos homens, não escapam da justiça divina. No entanto, o juízo de Deus também atinge a minha existência. Não sou melhor! Também em meu coração habita a iniquidade. Também eu não tenho como prevalecer diante do juízo de Deus. No entanto, inesperadamente é introduzido um ato de graça e de compaixão em meio ao processo penal. Antes que se anuncie a sentença derradeira, antes que a vara se parta de vez e a centelha se apague, o servo de Deus anuncia oportunidade de reconciliação. O que está quebrado pode ser restaurado. Isso vale, em primeiro lugar, para o nosso relacionamento com Deus. Ele está interrompido por causa dos nossos pecados, que fazem separação entre nós e Deus. Mas o anúncio do evangelho consiste em proclamar o desejo de Deus de reconciliar-se conosco, seu desejo em viver uma relação de amizade conosco. Por causa do evangelho, porque nossos olhos se abriram, porque fomos libertos de nós mesmos, porque agora não vivemos mais para nós mesmos, mas para Cristo, porque fomos arrancados de trevas e escuridão e transportados para a luz: por isso somos testemunhas desse agir de Deus em nossa vida e na vida de nossa comunidade. A missão da comunidade concretiza-se em palavras e ações. Somos testemunhas do agir de Deus em nossa vida. Mas penso que, como comunidade, somos chamados a dar um testemunho prático e concreto da realidade do reino de Deus entre nós. E não precisamos dar o nosso testemunho de forma espalhafatosa. Mas damos o nosso testemunho na medida em que, como comunidade, vivemos de forma alternativa, como uma comunidade de contraste. Somos uma comunidade em que, em meio às muitas falas que querem nossa atenção, aprendemos a distinguir a voz de Cristo. Ouvimos o seu evangelho, somos encorajados e fortalecidos em nossa fé. Em meio às provações e dificuldades em que vivemos, não desanimamos nem resignamos, mas somos agentes da esperança. A lógica de Deus inverte a lógica deste mundo. Há algo mais poderoso do que o anúncio do evangelho? Há testemunho mais contundente do que aquele que expressamos concretamente à medida que, em atos concretos, percebemos as pessoas que se encontram ao nosso lado, percebemos aqueles que estão prestes a sucumbir e amamos as pessoas – especialmente aquelas que não merecem nosso amor?

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Imagens para a prédica

Um pai com seus 70 anos de idade visita o filho e repara sobre a mesa um buquê de flores. Como é o mês de maio, o pai imagina que o filho presenteou a esposa pelo dia das mães. Mas o filho responde que as flores são um presente para a esposa por causa do aniversário de casamento. Diante desse fato, o pai responde: Meu filho, você nem postou no face o seu aniversário de casamento! (Moral da história: o que não é compartilhado no face não existe. Valores invertidos: o virtual é mais real do que a vida real.) Exemplos concretos de cuidado na comunidade, motivados pelo evangelho, poderiam ilustrar concretamente situações limítrofes e o alcance do evangelho.

5 Subsídios litúrgicos Oração

Deus, Antes mesmo de te procurarmos, tu te revelaste a nós. Antes de invocarmos o teu nome, tu nos chamaste pelo nosso nome. Antes mesmo de nos achegarmos a ti, tu nos envolves com a tua luz. Concede-nos olhos abertos que reconhecem a tua glória, ouvidos abertos que escutam e acolhem a tua palavra, corações abertos que confiam e esperam em ti. Amém.

Bibliografia KIWITZ, René. A floresta e seus leões. In: Revista Ultimato. Viçosa: Ultimato, ano XLIX, nº 360, 2016.

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2º DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: JOÃO 1.29-42

15 JAN 2017

ISAÍAS 49.1-7 1 CORÍNTIOS 1.1-9

Joel Haroldo Baade Aline Danielle Stüewer

Fé, testemunho e vida em Jesus

1 Introdução Estamos no 2º Domingo após Epifania. Celebramos a revelação de Jesus como Filho de Deus. Jesus dá-se a conhecer. Essa sua revelação acontece em diferentes situações. Jesus revela-se como Filho de Deus ao profeta João Batista. Ao encontrar Jesus, João Batista reconhece-o como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Ao reconhecer o Filho de Deus, João Batista testemunha a todas as pessoas que Jesus é aquele que batiza com o Espírito Santo. Seu testemunho faz com que pessoas comecem a seguir Jesus. O texto de Isaías fala da escolha do Servo do Senhor e da sua tarefa de testemunhar a glória de Deus a todos os povos, para que esses reconheçam seu nome e poder. No texto de 1 Coríntios, o apóstolo Paulo escreve às pessoas que adoram Jesus como Senhor. Ele explica que foi chamado pelo próprio Deus para ser apóstolo de Cristo. Ainda ressalta que, por estarem unidos com Cristo, a mensagem do evangelho tem sido anunciada por intermédio de suas vidas. Os três textos enfatizam o compromisso que temos de testemunhar, em palavras e ações, nossa fé em Jesus ao reconhecê-lo como o Messias, Filho de Deus. Ao reconhecer Jesus como tal, nossa missão é espalhar essa notícia para que mais pessoas possam segui-lo.

2 Exegese O Evangelho de João destina-se, em sua forma final, a uma comunidade gentílico-cristã, mas cuja origem está em uma comunidade judaico-cristã. A explicação detalhada de costumes judeus e a tradução de nomes são evidência disso (veja, por exemplo, Jo 1.41,42). Diferentemente dos sinóticos, que apresentam uma narrativa mais histórica, João tem uma organização mais temática e possui uma redação com reflexões mais elaboradas. A data de redação deve ser situada entre os anos 100 e 110. O local de origem deve ser localizado na Ásia Menor (especialmente Éfeso) ou na Síria (BULL, 2009). O Evangelho de João tem a seguinte estrutura básica: 1.1-18: Prólogo (hino do Logos) 1.19-51: O Batista como testemunha do revelador, vocações dos discípulos

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2º Domingo após Epifania

2.1-12.50: A revelação de Jesus diante do mundo 13.1-17-26: A revelação de Jesus diante dos seus 18.1-20.29: A elevação e glorificação do revelador (paixão e ressurreição) 20.30s: O propósito do evangelho 21.1-25: Capítulo acrescido pela redação (BULL, 2009, p. 47). Quanto à teologia, João “faz uso constante de afirmações dualistas. Luz e trevas, em cima e embaixo, o ‘mundo’ distante de Deus e o enviado e revelador de Deus e ‘os seus’ são confrontados entre si” (BULL, 2009, p. 48). É preocupação central do evangelho a correta compreensão de Cristo frente às interpretações errôneas, sendo que a vida eterna depende de um relacionamento coerente com Jesus Cristo (LADD, 2003, p. 356). O texto da prédica deste domingo está inserido no bloco que trata do Batista como testemunha do revelador e das vocações dos discípulos. O propósito dessa parte é estabelecer a relação entre Jesus e João Batista, mas, ao mesmo tempo, diferenciar ambos. Afirma-se expressamente que João Batista não é o Messias (1.20). Ao contrário, o Batista é precursor e subalterno daquele que vem. Jesus é apresentado como o “Cordeiro de Deus” (1.29,36) e como aquele que tem o Espírito Santo (1.32). O Batista batiza com água, mas Jesus batiza com o Espírito Santo (v. 33) (BULL, 2009). João 1.29-42 retrata duas cenas distintas do testemunho de João Batista a respeito de Jesus. Na primeira (v. 29-34), João esclarece a respeito do propósito de seu próprio trabalho, que é preparar o caminho do Senhor, batizando com água; depois sinaliza para o caráter próprio do trabalho do Jesus, o Cordeiro de Deus, que já caminha diante dele, que batizará com o Espírito Santo. Na segunda parte do texto da prédica (v. 35-42), fala-se de outro encontro de João e Jesus, em que André e Pedro, dois dos discípulos de João, passam a seguir Jesus. Para uma análise mais detalhada do texto, faz-se a seguir uma comparação entre as versões Almeida Revista e Atualizada com comentários de Lutero (ARA), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Pastoral e Jerusalém. ARA subdivide a perícope de João 1.29-42 em três partes: v. 29-31 (João Batista torna a repetir seu testemunho); v. 32-34 (O batismo de Jesus); v. 35-42 (Dois discípulos de João Batista seguem Jesus). NTLH prefere v. 29-34 (O Cordeiro de Deus) e v. 35-42 (Os primeiros discípulos de Jesus). A versão Pastoral adota v. 29-34 (A testemunha reconhece o Salvador) e v. 35-51 (As testemunhas apontam o Salvador). A versão de Jerusalém, por sua vez, emprega apenas v. 19-34 (O testemunho de João) e v. 35-51 (Os primeiros discípulos). As diferenças evidenciam as ênfases teológicas subjacentes a cada versão, mas parece claro que os v. 29-34 constituem uma unidade, em que se apresenta o testemunho de João Batista a respeito de Jesus como Cordeiro de Deus (v. 29), o primogênito (v. 30), o que possui o Espírito Santo (v. 33), ou seja, o próprio Filho de Deus (v. 34) em contraposição a João, que é apenas uma testemunha do que vem (v. 30-31). A referência ao batismo de Jesus por ARA (v. 32-34) pretende mais um paralelo com os sinóticos (Mt 3.13-17; Mc 1.9-11; Lc 3.21-22), pois não se menciona explicitamente o batismo, apenas a presença do Espírito

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Santo expressa pela pomba. A partir do v. 35, por sua vez, a ênfase recai sobre o chamado dos primeiros discípulos de Jesus. V. 29-34: Deste bloco do texto pode-se destacar alguns elementos importantes para a construção da mensagem da prédica. Jesus é apresentado no v. 29 (e também depois no v. 36) como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É Cristo quem carrega o pecado e purifica o ser humano para a nova vida. O dualismo joanino está presente aqui quando se contrapõe o mundo sem Jesus ao mundo com Jesus. Cristo representa uma ruptura entre o antes e o depois. Da mesma forma, João Batista coloca-se em posição distinta daquela que ocupa Jesus. Ele se compreende como o que falou a respeito do que virá, mas o Cordeiro (v. 29 e 36) é o próprio Jesus. Ele é o Filho de Deus (na versão de Jerusalém, fala-se no Eleito de Deus) e o Messias. Jesus é apresentado no v. 30 como o varão, segundo a versão ARA, ao passo que nas demais traduções fala-se em “homem” apenas. Ou seja, ele é o que já existia antes de João (v. 30b) como Logos ou Verbo (Jo 1.1) e, portanto, primogênito e herdeiro, o que tem mais direito. Lutero, em seu comentário sobre essa passagem, também acentua a importância central de Cristo como redentor, pois não apenas uma parte do ser humano careceria de salvação, mas ele completo. Dessa forma, a contraposição do rito com água como sinal do batismo e o batismo no Espírito Santo, ou seja, a vivência efetiva do batismo, constitui elemento central no texto. V. 35-42: Neste trecho, apresenta-se a vocação dos primeiros discípulos. Face ao testemunho de João, dois de seus discípulos o deixaram e passaram a seguir Jesus. Primeiramente, eles o chamam de mestre (Rabi) (v. 38), mas o convívio, mesmo que breve (v. 39), logo os fez mudar sua concepção, pois quando André encontra seu irmão Simão, já se refere a Jesus como Messias. Esta é uma informação preciosa para a mensagem: o reconhecimento de Jesus como o Cristo não acontece como que por um passe de mágica, mas se dá pelo convívio com ele. Por fim, ocorre o primeiro encontro de Jesus com Simão, a quem passa a chamar de Cefas, que é a versão em aramaico da palavra grega petra, de onde vem Pedro.

3 Meditação Hoje somos lembrados de que Jesus é o Filho de Deus, o Messias, nosso Salvador. O profeta João Batista reconhece e testemunha que Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Jesus Cristo é o prometido de Deus, que veio ao mundo para nos mostrar quem é Deus e aproximar-nos dele. Ao reconhecer quem era esse simples carpinteiro que veio a seu encontro, João Batista fala a todas as pessoas a respeito desse homem que veio mudar a história do mundo e a nossa história. João Batista não pode simplesmente guardar para si a alegria dessa descoberta. O mundo precisa saber. As pessoas precisam conhecer o Filho de Deus. Quando reconhecemos Jesus como Senhor e Salvador de nossas vidas, não conseguimos guardar essa alegria, mas nos sentimos impulsionados a testemunhar essa verdade. A alegria em reconhecer em Jesus aquele que batiza

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com o Espírito Santo e transforma nossas vidas é tão grande, que sentimos a necessidade de compartilhá-la com o mundo. Vivemos em uma sociedade que necessita conhecer o Filho de Deus. Como temos testemunhado nossa fé em Jesus? Temos falado de Jesus às pessoas? Somos chamados a falar a todas as pessoas à nossa volta quem é esse Jesus. Esse testemunho não pode ser feito somente em palavras, mas nossas vidas devem revelar nossa fé. Cada vez mais, temos visto pessoas colarem adesivos em seus carros dizendo: Jesus Cristo é meu Salvador; Jesus Cristo é Rei; Jesus Cristo é Senhor. São tantas as pessoas que falam de Jesus, mas tão poucas as que realmente o reconhecem como Senhor e Salvador. Se realmente todas as pessoas que falam de Jesus o reconhecessem como Filho de Deus, haveria menos injustiça, violência e guerras. Reconhecer Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, é buscar viver seus ensinamentos, para que o mundo o conheça através de nossas vidas. Reconhecer Jesus como Filho de Deus é muito mais do que frequentar uma igreja; é ser igreja. Somos chamados a não só falar de paz, mas viver a paz; não só falar de amor, mas viver em amor; não só falar de justiça, mas praticar a justiça; não só falar do amor de Deus, mas viver esse amor.

4 Imagens para a prédica O dualismo pode ser um recurso didático interessante para contrapor a realidade proporcionada pela vida em Cristo em oposição aos que se deixam governar pelas regras deste mundo. O batismo em Cristo e, portanto, a recepção do Espírito Santo a ele associado poderiam constituir elementos importantes da mensagem à comunidade. E essa vivência do batismo, que é a vida com Jesus, é também condição para que ele seja reconhecido como o Cristo. A estória a seguir ilustra o que decorre do seguimento de Jesus. No corre-corre do dia a dia, algumas pessoas que se dirigiam a um terminal rodoviário esbarraram numa menina que vendia maçãs próximo à entrada do terminal, ao lado de um belo canteiro de jardim. Derrubaram sua cesta de maçãs, esparramando-as pelo chão, mas não se importaram... estavam todos com muita pressa... Somente um homem parou para ajudar a pequena vendedora. Ao começar a recolher as frutas, ele percebeu que ela era cega. Gentilmente ajudou-a a levantar a cesta e a ajuntar as maçãs. Ao ficar, verificou que várias de suas frutas se estragaram na queda, a menina ficou visivelmente apreensiva: – Minha mãe vai ficar muito triste. – Não se preocupe, minha querida, disse-lhe o homem, eu pago as maçãs que estragaram. Pagou e despediu-se dela, mas, quando estava partindo, ela o chamou e perguntou:

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– Moço, é você que é Jesus? O homem parou, voltou-se para trás e respondeu: – Não, minha querida, mas sou um dos amigos dele. (Autor desconhecido)

5 Subsídios litúrgicos Sugestão de hino: HPD 2 – 466: Anunciar as maravilhas do Senhor. No momento do envio, enfatizar que Jesus nos envia ao mundo para testemunhar seu amor. A palavra ouvida não pode ser guardada, precisa ser vivida e testemunhada.

Bibliografia BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento: história, contexto, teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009. LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003.

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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 1.10-18 ISAÍAS 9.1-4 MATEUS 4.12-23

3º DOMINGO APÓS EPIFANIA

22 JAN 2017

Nilton Giese

1 O conflito nas primeiras comunidades cristãs A reflexão sobre o contexto de 1 Coríntios 1.10-18 vai ajudar-nos a entender que, desde o início da história do cristianismo, havia divergências entre as comunidades cristãs. A afirmação que todos eram um e tinham tido em comum (At 4.32) era mais um apelo do que uma realidade. A diversidade de opiniões, aparentemente inofensiva, produziu um forte enfrentamento interno entre as comunidades. Portanto a igreja cristã jamais existiu no singular. Desde o seu nascimento até os dias de hoje, deveríamos falar em igrejas cristãs, no plural. E, nessa pluralidade, o maior desafio nem sempre foi unificar a mensagem, mas muito mais unir os mensageiros. Qual era o centro do debate? A maior divergência era em torno da Lei judaica. Nas primeiras comunidades cristãs, o maior conflito ocorria entre os que pensavam que os cristãos deveriam continuar cumprindo a Lei judaica (chamados, portanto, de judeu-cristãos) e os que pensavam que a Lei judaica era coisa do passado e não era necessária para o cristianismo (esses foram chamados de gentio-cristãos). O apóstolo Paulo, embora fosse judeu, pertencia ao segundo grupo – dos gentio-cristãos –, enquanto Pedro e Tiago eram os líderes dos judeu-cristãos. Para os judeu-cristãos, era uma exigência que os cristãos cumprissem a Lei de Moisés. Eles defendiam a necessidade da circuncisão, a abstinência aos alimentos impuros e a observância do sábado. Os gentio-cristãos não consideravam nada disso importante. O apóstolo Paulo argumenta que a lei somente tem a função de revelar a incapacidade humana de cumprir a lei. E por isso estabelece uma íntima relação entre lei e pecado. A lei não salva, ela somente revela o pecado (Rm 5.20; 7.8). A salvação somente é possível pela fé em Cristo (Gl 2.16). A grande prova de fidelidade a Deus já não é mais a obediência à lei, mas o reconhecimento do ato salvador de Cristo na cruz. Portanto a teologia paulina afirma que a força salvadora da lei caducou com a teologia da cruz. A lei é água passada, que não move mais o moinho da salvação. Outro ponto de divergência era em relação à divindade de Cristo, ou seja, se Jesus era mesmo o Filho de Deus. Nas comunidades judaico-cristãs, Jesus era considerado o “Eleito”, o “Ungido”, o “Messias” ou “Cristo”. Para Paulo, Jesus Cristo é o Filho de Deus. Essas questões fizeram de Paulo um herói para os gentio-cristãos e um traidor para os judeu-cristãos (At 13.45-46). A tensão entre os dois grupos parece ter levado Saulo a mudar de nome (At 13.4-12). Ele troca seu nome hebraico Saulo

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para Paulo (nome greco-romano), numa clara identificação com os gentios e não com os judeus. O livro de Atos dos Apóstolos, mostra em vários momentos, que essas duas comunidades se criticavam e desprezavam mutuamente. Havia uma divergência aberta e declarada entre eles. Podemos ler essas notícias em Atos 15.2 e Gálatas 2.11ss. O apóstolo Paulo procurou, várias vezes, mediar os conflitos e colocar um pouco de paz entre eles (Rm 14.3; 14.10,13; 15.7; 1Co 1.10s etc.). Mas seus apelos foram recebidos com suspeita por causa da sua clara identificação com os gentio-cristãos (Rm 14.14; 15.1). Conta o livro de Atos dos Apóstolos que, no final de sua vida, Paulo foi denunciado pelos judeu-cristãos e preso em Jerusalém sob a acusação de ser um agitador social (At 21.27-40). Ficou dois anos preso na Palestina e depois foi trasladado a Roma para ser julgado pelo imperador. Mas, curiosamente, ao chegar na capital do império, o livro de Atos dos Apóstolos termina e deixa os leitores sem saber o que aconteceu com o apóstolo Paulo em Roma. É surpreendente que Atos dos Apóstolos, que narrou o martírio de Estevão (At 7.55-60) e Tiago (At 12.1-2), não diga nada sobre a morte de Paulo, que é o único apóstolo que teve seus escritos incluídos no cânone do Novo Testamento. O que sabemos da morte de Paulo vem de textos escritos muito tempo depois. Somente no ano 170 d.C., o bispo de Corinto chamado Dionísio escreveu que Pedro e Paulo foram executados juntos em Roma. Em seguida, no ano 180 d.C., aparece um escrito apócrifo chamado Os Atos de Paulo, no qual consta que o imperador Nero mandou cortar a cabeça de Paulo. Mas não diz do que ele foi acusado. 1.1 – Paulo morreu junto com outros cristãos Em julho do ano 64, um incêndio de grandes proporções atingiu quase toda a cidade de Roma. Dos catorze bairros, somente quatro ficaram intactos. O imperador Nero foi o mandante, mas a propaganda imperial culpou os cristãos, o que desatou uma forte perseguição e assassinatos dos cristãos. O historiador Tácito escreveu uma obra no ano 117 intitulada Os Anais do Império Romano, na qual menciona que os soldados romanos prenderam grupos de judeu-cristãos, mas eles negaram a responsabilidade pelo incêndio. No entanto, eles denunciaram outro grupo, chamado de gentio-cristãos. Também o historiador romano Plínio (o Jovem) conta – numa carta enviada ao imperador Trajano no ano 112 d.C. – que os cristãos se delatavam uns aos outros durante a perseguição romana. Os próprios evangelhos (Mt 24.3-14; Mc 13.3-13 e Lc 21.7-19) dão a entender que os cristãos traíam-se mutuamente e denunciavam uns aos outros às autoridades durante o conflito com os romanos. A partir disso, podemos suspeitar de que a morte de Paulo não tenha sido nenhuma execução heroica, mas que ele morreu junto com outros cristãos que foram vergonhosamente denunciados pelo grupo de judeu-cristãos em Roma.

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1.2 – Outros grupos mais moderados Além desse conflito visceral entre judeu-cristãos e gentio-cristãos, havia ainda outras comunidades cristãs que não chegaram a esse nível de oposição e agressividade, mas que também marcaram sua diferença e independência uns dos outros. O grupo galileu, centrado na Galileia, era liderado por Pedro e por Maria Madalena. Do grupo galileu vem o Evangelho de Maria Madalena. As referências à Galileia são muito evidentes nos evangelhos de Marcos e Mateus. No entanto, esse grupo logo foi dominado pelo apóstolo Tiago, do grupo de Jerusalém, por volta do ano 44 d.C. Outro grupo importante foi o sírio, muito vinculado ao grupo galileu e mencionado em Marcos 7.26, Mateus 15.21 e Atos 21.4. Esse grupo sírio tinha seu centro em Damasco, onde Paulo foi convertido ao cristianismo (At 9.3-22; Gl 1.17; 2Co 11.32) e também na cidade de Antioquia, onde os seguidores de Jesus foram chamados pela primeira vez de cristãos (At 11.26). Do grupo sírio provêm o Catecismo de Didaqué e o Evangelho de Tomé. O grupo asiático tinha sua sede em Éfeso e era fortemente gentio-cristão. Ele se estendeu por grande parte da atual Turquia. Está representado na Carta aos Colossenses e na Carta aos Efésios, no Evangelho de Lucas e em grande parte do livro de Apocalipse, assim como nas cartas às sete igrejas da Ásia: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Os cristãos gregos expressavam-se nas igrejas da Macedônia (Filipos, Tessalônica) e Acaia (Atenas e Corinto). E, por fim, ainda devemos mencionar o grupo alexandrino ou egípcio. Judeus alexandrinos, liderados por pessoas como Apolo (Atos 18.24), viriam a ser conhecidos como gnóstico-cristãos, que defendiam que Jesus é a encarnação do Ser Supremo para trazer conhecimento à terra. O estudo do gnosticismo e do cristianismo primitivo de Alexandria recebeu um forte impulso a partir da descoberta da biblioteca de Nag Hammadi em 1945. Como vimos, todos esses grupos tinham seus escritos. Os escritos que, por volta de 200 d.C., foram considerados no cânone do Novo Testamento, em sua maioria, obedeceram a dois critérios: 1) Quase todos os textos do Novo Testamento foram escritos no século 1 (a única exceção é a Carta de 2 Pedro, que foi escrita no ano 120 d.C.) e 2) Com exceção das cartas de Tiago e de Judas (puramente judeu-cristãs), todos os outros escritos do Novo testamento têm como pano de fundo a teologia paulina da salvação, centrada na teologia da cruz. Os livros que ficaram de fora do cânone neotestamentário inicialmente não foram proibidos nem queimados. Apenas foram considerados apócrifos, isto é, textos que não eram lidos em público. Foi somente o decreto gelasiano (referente ao papa Gelásio – falecido em 496) que divulgou uma lista de 60 livros apócrifos do Segundo Testamento, ocasião em que se proibiu a leitura, e muitos desses livros apócrifos foram para a fogueira.

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2 Da reflexão para a pregação Dentro desse contexto está inserida a discussão apresentada em 1 Coríntios 1.10-18. Pela experiência, Paulo chama a atenção para as divergências que têm causado muitos problemas entre as comunidades cristãs. Paulo procura destacar dois fatores importantes para a unidade: o batismo (não a circuncisão) e a teologia da cruz (não a obediência à Lei judaica). Com essas duas questões o apóstolo Paulo prova seus ouvintes, pois eram os pontos de conflito mais visíveis com os judeu-cristãos. Portanto as divisões entre os cristãos, as rivalidades e os ciúmes internos na igreja não são uma característica de nossos dias. Já desde o começo da história do cristianismo, eles causaram muito sofrimento. Os conflitos internos sempre foram mais prejudiciais para as comunidades do que os conflitos externos. As lutas e as divisões entre os cristãos ao longo da história enfraqueceram mais as igrejas do que qualquer perseguição externa, denunciando a credibilidade de sua pregação. O apóstolo Paulo menciona em todas as suas cartas a necessidade de conciliar posturas opostas nas comunidades (Rm 14.3). Mas ele não teve muito êxito nessa missão. O principal conflito entre as comunidades judaico-cristãs e gentílico-cristãs nunca se resolveu. O texto de 1 Coríntios 1.10-18, assim como as duas leituras de Isaías 9.14 e Mateus 4.12-23, lembram que, mais do que falar de paz, temos um grande desafio como comunidades cristãs: ajudar as pessoas para que consigam ver que pequenas divergências podem transformar-se em grandes problemas em nossas comunidades. Esse assunto deveria ser parte da formação contínua de lideranças. Pois uma das atribuições da liderança é estabelecer um ambiente de harmonia na comunidade. Isso não significa uniformizar opiniões, e sim zelar para que as diferentes opiniões não venham a cultivar o ódio de uns pelos outros. Lamentavelmente, o espetáculo de denúncias, acusações e censuras em nossas igrejas ainda não acabou. Exercitar a tolerância e o respeito nos momentos de conflito, ajudar as pessoas a negociar seus problemas, aprender a conviver com quem pensa diferente, sem pretender eliminar uns aos outros, continua sendo uma grande necessidade interna. Das ciências sociais nós aprendemos que a violência e o ódio não têm vida própria. Eles sempre estão relacionados com algum fator que os alimenta. A violência e o ódio não crescem por si só. Por isso é importante descobrir as causas que geram e alimentam a violência e o ódio. Não precisamos começar do zero. Esse é um desafio que não podemos realizar sozinhos. Precisamos convidar profissionais da psicologia e recursos humanos para ajudar-nos a prestar atenção aos seus sinais não verbais. A maioria dos conflitos é mediada pela linguagem, mas os gestos não verbais, a postura, o tom de voz, o contato com os olhos são coisas que comunicam e podem nos dizer se as pessoas têm vontade para resolver o conflito ou não. Outro tema é aconselhar as pessoas a dialogar sobre seus problemas sem generalizar. A generalização

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é perigosa, porque ela acaba atacando todo o indivíduo em vez de algo que ele faz de vez em quando. Um terceiro tema é ajudar as pessoas a administrar a forma de reagir às palavras de outra pessoa. Reagir da maneira correta garante uma troca amigável em vez de uma explosão acalorada. 2.1 – Comunidades como santuários de paz – não basta querer a paz, é preciso trabalhar por ela Em nossa realidade, marcada pela polarização social, econômica e política, surge o chamado para que as igrejas sejam santuários de paz. Isso significa insistir em celebrações como o Culto de Tomé; desenvolver celebrações e reflexões bíblicas sem o discurso bélico, mas que destaquem o Deus do amor apresentado por Jesus; proporcionar um espaço onde as pessoas se sintam seguras, governado por um princípio irrenunciável de jamais sacrificar o respeito e a dignidade do outro; ajudar as pessoas a identificar-se com aqueles a quem elas se opõem e tratar de entender o ponto de vista do outro e a partir daí ajudá-lo a mudar seu coração, conquistando-o para o bem. Os objetivos de um tal programa de paz seriam: a) criar referenciais não violentos; b) fortalecer conexões comunitárias e renovar a esperança; c) formar consensos para a paz; d) promover a justiça e o fim das desigualdades sociais; e) oportunizar vivências plurais para além dos preconceitos e estereótipos; f) instrumentalizar a resolução não violenta de conflitos; g) ajudar a lidar com a agressividade, canalizando-a construtivamente; h) desenvolver uma crítica à cultura de violência; i) celebrar o Deus da vida. Existem várias propostas pedagógicas a esse respeito. O guia Aprender a educar para a paz: Instrumental para capacitação de educadores em educação para a paz, de Marcelo Rezende Guimarães, é um material que pode ser encontrado no Google.

3 Imagens para a prédica A saudação usual de Francisco de Assis era desejar a todas as pessoas “paz e bem”. Pedia a seus seguidores: “Todo aquele que se aproximar, seja amigo ou inimigo, ladrão ou bandido, recebam-no com bondade”. Um bando de ladrões escondia-se nos bosques perto do convento de Francisco e saqueava a redondeza e os transeuntes. Movidos pela fome, os ladrões foram ao convento dos frades para pedir comida. Foram atendidos, mas não sem resistência: “Não é justo que demos esmola a essa casta de ladrões que tanto mal faz neste mundo”. Os frades apresentam a questão a Francisco. Ele sugeriu a seguinte estratégia: levar ao bosque pão e vinho e gritar-lhes: “Irmãos ladrões, venham aqui; somos irmãos e trouxemos-lhes pão e vinho. Comam e bebam”. Digam que vocês

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vieram em nome de Deus, mas não lhes peçam que abandonem a vida que levam, porque seria pedir demais por um pouco de pão e de vinho; apenas peçam que, ao assaltar, não façam mal nem machuquem as pessoas. Passadas algumas semanas, Francisco disse: Levem coisa melhor, além de pão e vinho. Levem também queijo e ovos. Eles ficarão ainda mais felizes. Deixem que comam, e bem. Depois de comer, aconselhem o seguinte: “Larguem esta vida de fome e sofrimento; deixem de roubar; convertam-se ao trabalho, e o bom Deus vai providenciar o necessário para o corpo e para a alma”. Os ladrões, comovidos por tanta bondade, deixam aquela vida, e alguns até viraram frades. Aqui se renuncia ao dedo em riste, acusando e condenando, em nome da aproximação calorosa e da confiança. Francisco busca nos ladrões a energia escondida neles de ser outra coisa do que ladrões. Supera-se todo maniqueísmo que distribui a bondade de um lado e a maldade do outro. Na verdade, em cada pessoa se escondem um possível ladrão e um possível frade. O afeto pode resgatar o frade escondido dentro do ladrão. Se você quer um mundo melhor, então “seja a mudança que você deseja para o mundo” (Gandhi).

Bibliografia RIBLA. Pablo de Tarso. Petrópolis: Vozes, 1995. v. 20. RIBLA. Cristianismos Originários (30-70 d.C.). Petrópolis: Vozes, 1995. v. 22.

4º DOMINGO APÓS EPIFANIA MIQUEIAS 6.1-8 MATEUS 5.1-12 1 CORÍNTIOS 1.18-31

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PRÉDICA: MATEUS 5.13-20 ISAÍAS 58.1-9a 1 CORÍNTIOS 2.1-10

5º DOMINGO APÓS EPIFANIA

05 FEV 2017

Ana Isa dos Reis

1 Introdução A celebração de Epifania convida-nos a dar continuidade ao testemunho dos sábios do Oriente – também conhecidos, na tradição, como reis magos – de que Jesus é Senhor e Salvador do mundo inteiro, também meu e para dentro da minha vida. O tempo após Epifania também é conhecido como “pequeno” Tempo Comum, que perfaz os domingos depois de 06 de janeiro até a Quarta-Feira de Cinzas. Nesse breve Tempo Comum, encontraremos os festejos do Batismo de Jesus e de sua Transfiguração. No evangelho, Jesus afirma que as pessoas que o seguem são sal da terra e luz do mundo e desafia-as a viver a partir desse compromisso. A Lei foi doada a Israel para ensinar o caminho da justiça e não como mero ritualismo. Jejum, oração e esmola eram práticas de piedade que no exílio serviam para garantir a identidade dos judeus exilados. No entanto, no pós-exílio, o rito de jejuar é institucionalizado e realizado, na grande maioria das vezes, por ritualismo, desprovido de sentido profundo e transformador. Isaías 58 traz a denúncia profética dessa prática e aponta para a justiça como sendo o culto agradável a Javé. 1 Coríntios 2 fala sobre a sabedoria de Deus, que não consegue ser entendida e captada pela razão humana. Paulo apoia-se no poder de Deus para anunciar o evangelho, pregando a Cristo, o crucificado. Uma realidade difícil de ser compreendida, porque a razão humana não consegue entender que na fraqueza se esconde a verdadeira força.

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Exegese

2.1 – Localizando o texto A perícope está inserida dentro do sermão do monte, o primeiro dos cinco discursos sobre a vida cristã, que traz a busca pelo reino de Deus e sua justiça como força motriz. O texto está dentro do grande bloco, Mateus 4.12-18.35, que aborda a atuação de Jesus na Galileia. O sermão do monte abarca de 5.1 a 7.29. Nossa perícope segue logo após as “bem-aventuranças”. E pode ser dividida, como também trazem as versões bíblicas, em: a) 5.13-16: sal e luz; b) 5.17-20: cumprimento da Lei.

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Poderíamos unir as partes, concluindo que as pessoas bem-aventuradas (5.1-12) têm a função ativa de ser sal da terra (5.13) e luz do mundo (5.14-16) e a missão/responsabilidade de observar, ensinar e praticar a justiça e a lei do Reino (5.17-20). 2.2 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope V. 13 – O texto usa o verbo no indicativo, afirmando que suas pessoas discípulas são sal da terra. O sal tem várias funções: serve para salgar e dar gosto à comida, conservar alimentos, sarar feridas, manter o equilíbrio fisiológico, além de suas funções religiosas. Sal é sempre sal. Contudo existem explicações que dizem que o sal pode perder seu sabor ou sua potencialidade de salgar quando misturado a impurezas. O sal dos charcos, pântanos e rochas próximos ao Mar Morto tem um alto teor de gipsita e de outras impurezas. Ele perde seu sabor e torna-se arenoso. Assim, era usado como areia, jogado nas ruas enlameadas das cidades da Palestina para diminuir a lama, como se fosse areia. Em vez de salgar o mundo, era pisado por ele. Ou seja, sal que já não serve para dar sabor só pode ser jogado fora. Assim escreve Cristina Scherer sobre esse texto no Portal Luteranos: “Marcelo Barros, no livro Conversando com Mateus – Ed. CEBI e Paulus, 1999, nos lembra que este sal do qual fala Jesus Cristo não se refere unicamente ao sal usado na cozinha, que conserva e dá sabor aos alimentos. Jesus fala de fato sobre o sal da terra. Como explicar isto? Na Palestina, no tempo de Jesus, era comum que pastores do campo deixavam seus rebanhos soltos para pastar. Durante a noite voltavam ao aprisco. Nesse caminho de retorno se alimentavam do sal da terra que se encontrava em abundância na beira do Lago de Tiberíades e do Mar Morto”. Afirma o autor: “... O sal da terra conduzia as ovelhas de volta ao rebanho. Assim, quando Jesus disse: ‘Vocês são o sal da terra’, estava dizendo: ‘Vocês têm a função de reunir as pessoas dispersas no aprisco do Pai para que não se percam nem sejam presas das feras do mundo’” (p. 38). Da mesma forma, “o sal era usado para acender fogueiras durante a noite nos campos; tinha, portanto, função de combustível, e quando perdia sua função, não servia para mais nada, cf. Lc 14.34”. V. 14-16 – Em João 8.12, Jesus autodefine-se como a “luz do mundo”. Aqui ele diz que também as pessoas que o seguem são luz. A luz, uma vez acesa, espanta as trevas, aquece o ambiente e serve como guia, se doa/se termina em favor de sua função: dar luz e calor. As casas na Palestina eram bastante escuras, com uma pequena abertura que servia como janela. Ao indicar que suas pessoas discípulas são luz, Jesus diz que são como “cidade edificada sobre um monte”, que pode ser vista a quilômetros de distância, porque a luz que brilha é impossível de ser escondida. A candeia é uma lâmpada de óleo, bem conhecida pelo povo, que não tinha a infraestrutura de luz elétrica como temos hoje. O alqueire serve para apagar a luz sem produzir fumaça. Ou seja, a pessoa cristã é chamada a ser luz que brilha e não aquela apagada pelo alqueire; deve ser ativa, pessoa que vive e leva adiante o evangelho de Jesus Cristo. Ao ser luz, a pessoa cristã produz boas obras – essa é a essência do

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discipulado. E a justiça é por excelência a grande obra que deve ser exercida pela pessoa cristã. V. 17-20 – Jesus é o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Ele se coloca como aquele que veio cumprir as Escrituras. As pessoas que seguem Jesus devem aprofundar o significado dos mandamentos, assim como Martim Lutero procurou expressar em “O que significa isto?” logo após cada mandamento.

3 Meditação O texto utiliza o verbo no modo indicativo ao falar sobre as pessoas que são suas discípulas: vocês são o sal da terra... vocês são a luz do mundo. A essas afirmações seguem os imperativos: seja sal, seja luz. As pessoas cristãs são sal e são luz a partir de Cristo. Em nosso Batismo, ao sermos chamadas pelo nome, seladas pelo Espírito Santo e marcadas pela cruz de Cristo, recebemos a tarefa de ser e viver como pessoas cristãs, pessoas que são e agem como sal da terra e luz do mundo, pessoas que se empenham pela justiça e pelo cumprimento dos mandamentos, reunidos no mandamento do amor. Olhemos para o sal: – O sal não é feito para ficar no saleiro ou no pacote, mas para ser usado. Ou seja, a pessoa cristã não deve ficar isolada do mundo, restrita a louvar, adorar e cantar dentro da igreja como um gueto, mas é chamada a viver a fé, a louvar, adorar e cantar no lugar onde vive. – Quando misturado à comida, o sal dá sabor aos alimentos. Não se usa uma xícara de sal para uma xícara de arroz. Basta uma pitada de sal para que a comida tenha sabor. Ou seja, a ação das pessoas cristãs não precisa ser medida em quantidade; basta uma pitada para que se sinta o sabor. Não precisamos ser a maioria; basta que deixemos a marca do sabor do Reino. – No entanto, também sabemos que sal demais estraga a comida. Pessoas “sal demais” só conseguem aceitar seu modo de ser e pensar e querem impô-lo (mesmo que a ferro e a fogo) às demais pessoas. Essas se tornam fanáticas, inoportunas e invasivas. – Comida sem sal, contudo, também é comida que não tem sabor, insossa, sem gosto. Pessoas “sem sal” são aquelas que não se expressam, não opinam, não se envolvem, não se comprometem, não contribuem em nada e com nada, com quem não podemos realmente contar. – O próprio Jesus é quem nos ajuda a ser sal na medida certa. Importa permanecer unidos a ele, participar da comunidade de fé, dos grupos, dos estudos, envolver-se com sua missão. – O sal desaparece quando misturado à comida, contudo seu sabor permanece. Somos chamados a ser presença discreta e, ao mesmo tempo, essencial no mundo. – O sal como conservador dos alimentos desafia-nos a ser pessoas que conservam e divulgam os valores do reino de Deus, sendo a justiça uma das maiores marcas.

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– Entre várias funções, o sal tinha a função de preservar, evitar a putrefação. Assim é também a pessoa discípula: sua presença evita o alastramento do mal no mundo; para isso penetra no mundo, insere-se na sociedade, mistura-se, interage com as outras pessoas e com o mundo. Somos sal, damos sabor a este mundo e o preservamos com os valores do Reino. Seja sal, deixe suas marcas, seja o bom tempero de um mundo insosso ou demasiadamente salgado. Olhemos para a luz: – Basta uma fagulha de luz para dissipar as trevas. Ou seja, a pessoa cristã pode ser uma luz bem pequena, mas iluminará o mundo, dissipando as trevas. A função das pessoas discípulas é iluminar o mundo, o contexto, o lugar onde vivem; não esconder-se, mas também não atuar para que sejam admiradas e vistas mais do que a verdadeira luz: Jesus. – A luz foi feita para brilhar. Qual a função da vela? Ou da lamparina? Se não forem acesas, não produzirão luz; e se não brilharem, não terão utilidade. A pessoa cristã que se guardar a si própria, não produzindo luz, não serve para a tarefa para a qual foi chamada. Será apenas um enfeite, cheio de poeira e sem utilidade. – Nem a vela tampouco a lamparina podem acender-se a si próprias. Também a pessoa cristã não é capaz de produzir sua própria luz. Somos luz porque Jesus é a luz. É ele quem nos acende a partir de nosso Batismo. Somos luz a partir da luz de Cristo e chamados a refletir sua luz. – O mundo hoje produz muita luz artificial. Somos seduzidos com promessas de luz, mas que só criam trevas e desilusão. A pessoa cristã precisa deixar que sua luz seja reflexo da luz de Cristo, que nela brilhe Cristo e não as luzes artificiais deste mundo. – Muita luz também pode ofuscar a outra pessoa e não permitir mais enxergar nela o rosto da irmã e do irmão. – Cristo acende-nos na medida certa. Se ventos teimarem em apagar a luz que brilha em nós, deixemos que Cristo nos acenda sempre de novo e nos proteja. – Que luz nós somos? Quando Cristo nos faz suas pequenas luzes, brilhamos de diferentes maneiras: agindo com justiça e honestidade; envolvendo-nos na luta por dignidade, pão e paz para todas as pessoas (especialmente as excluídas e que sofrem violência e preconceito); olhando todas as pessoas com respeito, também as que são diferentes de nós; envolvendo-nos com a missão de Deus; vivendo os valores do Reino, que contradizem os valores do mundo. O que mais mostra que somos luz? Ao nos doarmos a fim de trazer luz e calor às outras pessoas, temos sinais concretos de que entendemos a afirmação de Jesus e de que atendemos seu chamado. Eis o mistério: a vela doa a si própria para que as pessoas ao seu redor experimentem luz e calor. Somos luz que ilumina as trevas do mundo. Sejamos luz que brilha em meio a tantas luzes artificiais e que produz calor, luz e vida. Em Jesus experimentamos o cumprimento das promessas do Antigo Testamento e a radicalização dos mandamentos. Ao “não” de cada lei segue a afir-

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mação de uma ação em prol da promoção da justiça e do amor. Em um mundo onde o capitalismo é a lei, onde o capital cria vencedores e vencidos, milionários e miseráveis, escolhidos e excluídos, redescobrir e reafirmar a lei de Deus é uma tarefa urgente e inquietante, que pode custar a cruz. Dentro da realidade em que vivemos, somos chamados a agir como sal e como luz. Haverá quem tentará retirar o sabor do sal e apagar a luz, assim como as primeiras comunidades cristãs experimentaram. É preciso permanecer firme. Lembremos que Jesus diz que “somos” sal e luz. Não estamos sozinhos. Como pessoas cristãs, importa deixar que Jesus nos tempere e acenda sua luz e, assim, possamos agir comunitariamente, deixando marcas saborosas e brilhando a fim de dissipar as trevas. Como podemos começar? Perguntemos olhando para dentro de nossas próprias comunidades e paróquias e dali para o mundo todo.

4 Imagens para a prédica Caso consiga preparar o estudo em grupos, poderia realizar a dinâmica a seguir e confeccionar imagens a mais para distribuir no culto.

Caso o culto aconteça à noite, poderia utilizar velas, preparando o ambiente à meia-luz. Compartilhar uma pipoca sem sal ou outra comida sem sal e, depois, uma que foi temperada com sal para conversar sobre a importância do sal. Na internet existem boas sugestões de dinâmicas quanto a ser sal e luz.

5 Subsídios litúrgicos Sugestão de hinos: Que a luz de Cristo brilhe (Portal Luteranos); Sabor e brilho (HPD 2 – 431).

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Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986. PONICK, E.; WITT, Maria Dirlane (Orgs.). Encontros Bíblicos com crianças. São Leopoldo: Sinodal, 2010. v. 1. PORTAL LUTERANOS. Interpretações e estudos sobre Mateus 5.13-20. Disponível em: <www.luteranos.com.br>.

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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 3.1-9 DEUTERONÔMIO 30.15-20 MATEUS 5.21-27

6º DOMINGO APÓS EPIFANIA

12 FEV 2017

Aline Danielle Stüewer Joel Haroldo Baade

O desafio da vida em comunidade

1 Introdução É tempo de Epifania. Deus aproxima-se da humanidade e revela sua vontade. Os textos previstos para o 6º Domingo após Epifania revelam a vontade de Deus para a vida das pessoas, principalmente no âmbito dos relacionamentos interpessoais. Deuteronômio 30.15-20 chama a atenção para a constante escolha que temos diante de nós. A obediência aos mandamentos e à lei de Deus, optando assim pela vida e pelo bem, ou então a desobediência à lei de Deus, optando pela morte e pelo mal. O texto do evangelho faz parte do sermão do monte proferido por Jesus. Ele retoma as leis de Moisés e as reinterpreta, mostrando que a vontade de Deus é que o amor prevaleça em todas as nossas atitudes e escolhas. No texto de 1 Coríntios 3.1-9, o apóstolo Paulo lembra a comunidade de Corinto de que a vontade de Deus é que haja paz, harmonia, cooperação e reconciliação entre as pessoas e não discórdia e desavenças, como ocorria em Corinto.

2 Exegese A comunidade de Corinto, à qual se dirige a carta do apóstolo, é marcada pela pluralidade cultural, típica de uma cidade portuária. Tratava-se de uma cidade de porte razoável, localizada no caminho da Ásia para Roma. Havia muito comércio, negócios financeiros e produção artesanal. As duas cartas do apóstolo à comunidade evidenciam que, na realidade, se mantinha uma correspondência mais intensa, mas somente nos restaram as duas cartas do Novo Testamento como testemunho da comunicação entre Paulo e a comunidade. A Primeira Carta aos Coríntios é uma resposta a uma demanda da comunidade (BULL, 2009). O contexto maior da perícope de 1 Coríntios 3.1-9 é uma fala de Paulo sobre desavenças entre partidos na comunidade (1.10 - 4.21), que possui a seguinte estrutura: divisões na comunidade de Corinto (1.10-17); a palavra da cruz como fundamento da existência cristã (1.18-2.5); prédica de Paulo sobre a sabedoria (2.6-16); crítica teológica à existência do partidarismo (3.1-23); crítica à reivindicação dos coríntios por liberdade absoluta (4.1-21). Assim, o contexto menor da perícope constitui uma reflexão teológica sobre o partidarismo na comunidade cristã (BULL, 2009).

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Feita essa introdução, cabe agora olhar mais atentamente o texto de 1 Coríntios 3.1-9. Para tal, foram analisadas comparativamente as versões da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Almeida Revista e Atualizada com reflexões de Lutero (ARA) e Jerusalém (JER). A consulta ao texto grego foi realizada para identificar a tradução mais próxima do original. V. 1-2a – Na comparação entre as versões, ARA possui o texto mais breve, em que se refere às pessoas simplesmente como espirituais e carnais, evitando a problemática de gênero com o uso do substantivo “homens”, como ocorre em JER. Na NTLH, possivelmente na busca de mais didática, fala-se em “pessoas que têm o Espírito de Deus” e “pessoas do mundo”. ARA e JER também falam em “crianças em Cristo”, enquanto NTLH emprega “crianças na fé cristã”. No v. 2, JER e ARA empregam “alimento sólido” e “podíeis suportar”, enquanto NTLH emprega “comida forte” e “não estavam prontos para isso”. NTLH distancia-se mais do texto original com o propósito de tornar o texto mais acessível ao leitor atual. No v. 1, o apóstolo constata a necessidade de um testemunho diferenciado da mensagem do evangelho aos que já são familiarizados com ele em contraposição aos que ainda não o conhecem. Para explicar isso, no v. 2, emprega a metáfora da criança, que ainda não tem condições de comer qualquer tipo de alimento. A referência nesse bloco é com relação aos primórdios da comunidade. V. 2b-3 – No segundo bloco da perícope, Paulo faz referência à situação atual da comunidade. As versões possuem diferenças. JER e ARA empregam “carnais”, ao passo que NTLH utiliza “pessoas deste mundo”; e para especificar o que caracteriza esse comportamento, usam-se “invejas e rixas” (JER), “ciúmes e contendas” (ARA) e “ciumeiras e brigas” (NTLH). As três versões preservam o sentido original. Para Paulo, o que acontece em Corinto é prova de que ainda se age “de maneira meramente humana” (JER), “segundo o homem” (ARA) ou “fazendo o que todos fazem” (NTLH). NTLH, apesar de divergir das outras versões, parece preservar melhor o sentido do texto grego, que sugere uma oposição ao que é espiritual, característica da existência cristã. V. 4-6a – A partir do v. 4, Paulo deixa claro o motivo da existência de partidos na comunidade de Corinto, qual seja, algumas pessoas declaram-se seguidoras de Paulo e outras de Apolo. As diferenças entre as versões no v. 4 são as mesmas do v. 2. No v. 5, tanto um como outro são caracterizados como servidores (JER e NTLH) ou servos (ARA), por meio de quem Deus leva as pessoas à fé (JER) ou a crer (ARA e NTLH). Mas qual a diferença entre Paulo e Apolo então? A carta responde a isso a partir do v. 5b: cada um “segundo os dons que o Senhor concedeu” (JER), “conforme o Senhor concedeu” (ARA) ou “faz o trabalho que o Senhor lhe deu para fazer” (NTLH). A versão de ARA é mais fiel ao texto grego, embora JER e NTLH forneçam bons exemplos do que o Senhor concede a cada um, ou seja, os diferentes dons e a diversidade no trabalho. A existência de uma diversidade de dons e trabalhos na comunidade não implica necessariamente maior proximidade ou fidelidade a Cristo. O que cada um fez no caso de Corinto? Paulo “plantou” e Apolo “regou” (v. 6a). Em sua reflexão sobre essa passagem, Lutero insiste para que não se comprometa a unidade cristã, o que ocorre quando cada um faz com o evangelho o que lhe convém. Não

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se pode esquecer o principal, diz Lutero: “que Cristo é a nossa salvação, justiça e redenção” (ARA). Também em relação a essa passagem, o reformador exorta: “Peço omitir meu nome e não se chamar de luterano, mas cristão. Que é Lutero? A doutrina não é minha. Tampouco fui crucificado em favor de alguém. [...] Que pretensão seria essa de um miserável e fedorento saco de vermes como eu se quisesse que os filhos de Cristo fossem chamados por seu desastrado nome? [...] Junto com a comunidade, comungo da única universal doutrina de Cristo, que é nosso mestre exclusivo” (OS 6, p. 481 apud ARA, p. 1074). V. 6b-9 – A partir do v. 6b, o apóstolo Paulo realiza a fundamentação teológica do trabalho realizado por ele e Apolo em Corinto. Também desautoriza qualquer tipo de partidarismo decorrente das ações de um ou de outro. A ação última e que provê o surgimento, crescimento e florescimento da comunidade cristã é do próprio Deus. As diferenças entre as versões estão a partir do v. 8b. NTLH emprega “recompensa”, ARA utiliza “galardão” e JER prefere “salário” para se referir ao que cada pessoa recebe por suas ações. Deve-se evitar uma interpretação teológica de prosperidade dessa passagem, pois Paulo se refere mais ao caráter único da ação de cada pessoa e de como Deus a vê. Para Paulo, não há um critério único a partir do qual todos são julgados, mas Deus olha para cada um e cada uma de forma absolutamente individualizada. Assim, não há ação essencialmente mais ou menos digna aos olhos de Deus. Aos olhos de Deus, os cristãos são cooperadores (ARA e JER) ou companheiros (NTLH) de Deus (v. 9).

3 Meditação Quantas vezes já ouvimos pessoas dizerem: “Isso não deveria acontecer na igreja”. Ou então: “É inadmissível algo assim acontecer na igreja”. Por trás dessas palavras está a certeza de que certas atitudes são incompatíveis com pessoas que creem em Jesus e participam de uma comunidade de fé. Quantas pessoas deixam de participar da igreja porque percebem que também ali não se vive a vontade de Deus. É muito comum em nossas comunidades, assim como ocorreu na comunidade de Corinto, existirem brigas, discussões ou até mesmo sentimentos como inveja e ciúmes. É comum haver divergências entre os membros ou até mesmo entre as próprias lideranças. Sim! Também na igreja existem situações de conflito. Os motivos, ainda que absurdos, são reais. Infelizmente, algumas comunidades sofrem por causa dos conflitos gerados pelas disputas de poder, divergências de opinião e até mesmo pelas finanças. Muitas vezes, comportamo-nos como “crianças birrentas”, que por qualquer motivo arranjam confusão e discórdia. Quantas vezes atitudes infantis dos membros e lideranças de nossas comunidades têm provocado a divisão. Ao agir assim, perde-se o foco que é Jesus Cristo e a mensagem do evangelho. Qual tem sido nosso comportamento como pessoas cristãs que vivem em comunidade? Será que muitas vezes também temos agido como crianças birrentas, que se apegam a futilidades e esquecem o verdadeiro motivo de ser comunidade?

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Assim como uma criança birrenta, a pessoa cristã imatura consegue produzir uma tempestade num copo d´agua; tudo é motivo para desavenças e briguinhas. Basta a sua vontade ser contrariada numa reunião, já quer deixar o presbitério. Se o ministro ou a ministra não concordam com suas ideias, já fica ressentida. Se não é elogiada por seu trabalho, já fica magoada. Quando é convidada para ajudar numa programação da igreja, reclama que são sempre os mesmos, mas, quando não é convidada, fica chateada por não ter sido lembrada. A pessoa cristã imatura facilmente esquece que o objetivo do seu servir é espalhar o amor de Jesus. Quantas comunidades têm perdido seu tempo discutindo quem vai bater o sino, acender as velas do altar ou então ficar com a chave da sala da OASE. Enquanto perdemos nosso tempo com futilidades, o evangelho de Jesus Cristo deixa de ser ensinado e vivido. A pessoa cristã madura busca viver a pregação de Jesus. Ao invés de discórdia, busca a paz; ao invés de brigas, busca a reconciliação. Ela consegue focar sua vida e seu trabalho no que realmente importa: a edificação do Reino. Não perde seu tempo arranjando e alimentando discussões sem propósito, mas sabe que sua missão é plantar a semente do evangelho. Conflitos nas comunidades cristãs existem. É próprio do ser humano deslizar, esquecer os valores de sua fé e colocar seus interesses em primeiro lugar. Ainda assim, Jesus oferece as coordenadas para voltarmos nossos olhos a ele e buscarmos viver como pessoas cristãs maduras, que vencem os conflitos e as discórdias. No sermão do monte, Jesus ensina-nos que toda atitude cristã deve ser regida pelo amor a Deus e pelo amor ao próximo. Que essa seja a base para nosso viver em comunidade!

4 Imagens para a prédica A seguinte história, de autoria desconhecida, pode ser contada para ilustrar como, muitas vezes, nós nos perdemos em discussões vazias e sem propósito, perdendo a oportunidade de um convívio harmonioso e fraterno: Estava observando duas irmãs preparando o jantar de Ação de Graças. Elas fizeram seu recheio especial, meteram algumas colheradas dentro do peru e estavam se preparando para colocá-lo dentro do forno. Pegaram a folha de alumínio para cobrir a carne com ele para ajudar a reter os molhos. Betty tinha começado a colocar a folha no peru, quando Paula contestou asperamente: “Isso não está certo! O lado brilhante do papel deve ficar para o lado de fora”. “Isso é ridículo”, respondeu Betty, “todo mundo sabe que o lado brilhante deve ficar virado para dentro”. Seguiu-se uma discussão calorosa, e não tenho certeza de quem ganhou a questão. Descobri mais tarde que ambas as irmãs tinham razão. Não faz diferença nenhuma qual o lado do papel que fica virado para fora ou para dentro.

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5 Subsídios litúrgicos Esta imagem pode ser projetada para ilustrar as divisões existentes dentro de nossas comunidades.

Sugestão de hinos HPD 1 – 94, 109, 117, 176; HPD 2 – 322, 328, 334. Confissão de pecados Querido e amado Deus, nós chegamos humildemente à tua presença e te pedimos perdão. Confessamos, Senhor, que também no convívio em comunidade temos falhado. Nem sempre temos nos comportado como pessoas cristãs, filhos e filhas de Deus. Muitas vezes, deixamos de lado os ensinamentos de Jesus e vivemos a partir dos nossos próprios interesses. Confessamos que, muitas vezes, somos tomados de sentimentos ruins de ciúme e inveja, que nos levam a brigas e discórdias, assim como já acontecia na comunidade de Corinto. Quantas vezes, Senhor, também no convívio comunitário, não aceitamos ideias diferentes das nossas ou então brigamos por reconhecimento e poder. Confessamos que temos ocupado muito do nosso tempo em discussões vazias e sem propósito, perdendo a oportunidade de te servir em gestos de amor, perdão, solidariedade e justiça. Perdoa-nos, Senhor, e ajuda-nos a viver em comunhão e amor, assim como o próprio Cristo nos ensinou. Amém!

Bibliografia BÍBLIA SAGRADA com reflexões de Lutero. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento: história, contexto, teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009.

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7º DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 5.38-48

19 FEV 2017

LEVÍTICO 19.1-2,9-18 1 CORÍNTIOS 3.10-11,16-23

Ramona Weissheimer

Entre vocês não pode ser assim! Pois eu afirmo a vocês que só entrarão no Reino do Céu se forem mais fiéis em fazer a vontade de Deus do que os mestres da Lei e os fariseus. Mateus 5.20

1 Introdução O texto proposto já foi trabalhado outras três vezes no PL em tempos litúrgicos diferentes. Trindade: Ulrico Sperb, PL II e Otto Porzel Filho, PL X; Epifania: Gerson Correia de Lacerda, PL 35. Levítico 19.2 diz: “Sejam santos, pois eu, o Senhor Deus de vocês, sou santo”. A partir disso, os versículos indicados para a leitura deste dia mandam que não se retorne para colher o que caiu na beira da estrada nem se faça segunda colheita nas plantações de uva, pois o que fica para trás é para os pobres e estrangeiros. Não roube, não minta, não explore, não retenha o salário, não julgue com falsidade, não use o nome de Deus em vão, não se vingue nem guarde ódio de alguém do seu povo. Mas ame, como a si mesmo, pois “Eu sou o Senhor seu Deus”. 1 Coríntios 3.11 lembra que Deus já pôs Jesus Cristo como único alicerce a ser colocado. Nenhum outro é necessário. Que ninguém se julgue sábio aos próprios olhos. Tudo nos pertence, nós a Cristo, Cristo a Deus. O texto da Carta aos Coríntios parece destoar dos demais, mas talvez não, se buscarmos os v. 2 e 3, onde um Paulo decepcionado diz que os alimentou com leite, pois ainda não podiam receber mais e ainda não estão prontos, pois continuam fazendo aquilo que todo mundo faz: brigas e ciumeiras. Entre os que creem tem que ser diferente!

2 Exegese 2.1 – O Evangelho de Mateus Uma das particularidades do Evangelho de Mateus são os grandes sermões: sermão do monte (cap. 5-7); sermão missionário (cap. 10); sermão parabólico (cap. 13); sermão sobre a conduta da comunidade (cap. 18); sermão polêmico (cap. 23) em conexão com o sermão escatológico (cap. 24-25). Eles concluem com uma fórmula mais ou menos assim: “Quando Jesus acabou de falar; de dar essas ordens; de contar; de ensinar...”. Que Mateus igualmente dá uma importância muito grande ao cumprimento dos anúncios do AT na história de Jesus é sabido. Conforme Brakemeier: 1. “Ma-

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7º Domingo após Epifania

teus faz questão de mostrar que o AT se cumpriu na história de Jesus e que, por essa razão, a igreja cristã é a herdeira legítima do antigo povo de Israel. Jesus é o Messias de Israel, profetizado no AT, enviado às ovelhas perdidas desse povo, mas rejeitado pelos judeus. A igreja cristã é o novo Israel, que obedece ao Filho de Deus e por isso não nega os devidos frutos a Deus (Mt 21.33ss)”. 2. “Historização”, i. e., Mateus distingue claramente dois períodos: o da profecia, AT, e o do cumprimento da profecia. “Do particularismo judaico a história da salvação passa ao universalismo do evangelho, tendo a história de Jesus por centro. O AT conduz a ele e a igreja cristã dele se deduz” (BRAKEMEIER, 1983, p. 182). Tasker é ainda mais incisivo: “A meta apologética do autor pode ser resumida na sentença: “Jesus é o Messias e nele a profecia judaica foi cumprida. Portanto a religião chamada ‘cristã’ (‘Cristo’ sendo a forma grega da palavra ‘Messias’), longe de ser a invenção fantasiosa de um grupo de fanáticos, é de fato a verdadeira consumação da religião de Israel, tal como está contida nos registros sagrados da revelação específica de Deus a seu povo, conhecida como AT. A velha Lei do judaísmo, posto que não tinha sido derrubada, foi recheada com novo significado e suplementada com o ensino de Jesus” (TASKER, 1980, p. 14). Importante na teologia de Mateus é a compreensão de lei, em cuja validade Mateus insiste. A lei do AT é a codificação da vontade de Deus. Quem dissolve a lei e deixa de cumpri-la deverá ouvir a maldição do juiz escatológico: “Apartai-vos de mim, os que praticastes a iniquidade” (7.23). Mas Mateus também critica com vigor a hipocrisia de escribas e fariseus, cegos e incapazes de descobrir o que há de mais importante na lei, i. e., a justiça, a misericórdia, a fé. “Em Mateus, a compreensão da lei ou da vontade de Deus é genuinamente cristã, superando o legalismo judaico, e isto apesar da forte insistência no agir e no cumprimento da vontade de Deus em termos da lei. Dos discípulos, isto é, dos cristãos, é exigida a justiça (5.20; 6.33), que excede a dos fariseus e dos escribas, não quantitativamente, mas qualitativamente” (BRAKEMEIER, 1983, p. 184). Jesus requer a transformação do coração – nada menos do que isso, pois onde o ódio for substituído pelo amor, ali não mais pode acontecer assassínio (cf. 5.21ss); os ritos destinados a proteger o homem da contaminação com coisas impuras tornam-se irrelevantes, se a fonte da impureza humana, a saber, o coração, for renovada (15.16ss)” (BRAKEMEIER, 1983, p. 185). 2.2 – O texto Dito isso sobre o Evangelho de Mateus, seus longos sermões e uso do AT, voltemo-nos ao texto propriamente dito. Mateus 5.38-48 faz parte do sermão do monte (cap. 5-7), mas tem sua introdução em 5.17-20 (... Não pensem que vim para acabar... mas para dar o seu sentido completo...). Com a fórmula “ouviram o que foi dito... eu, porém, lhes digo” seguem-se leis do AT referentes ao ódio, ao adultério, ao divórcio, aos juramentos, à vingança, ao amor aos inimigos. Mateus 5.38-48 trata destas duas últimas antíteses: da vingança e do amor aos inimigos. Na comparação das três versões da Bíblia (NTLH, BJ, Almeida RC) não há nada que mude grandemente o significado. Principais questões ficam com o

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v. 39 (não se vinguem dos que fazem mal a vocês – resistais ao mal – cf. Tasker, “ao que te fere”, por causa do artigo definido); v. 41 (“se algum dos soldados estrangeiros forçá-lo a carregar uma carga”); o grego hostis, “que, qual”, geralmente indefinido, não fala nada sobre quem está obrigando a carregar; porém aggareuō refere-se a constranger, obrigar ao serviço público. W. C. Taylor aponta para 27.32 (os soldados obrigam Simão Cirineu a carregar a cruz); v. 43 (amigos – próximo); v. 45 (bons e maus, NTLH – justos e injustos, BJ). Otto Porzel Filho (PL X) apresenta uma tradução quase poética de Carlos Mesters. O v. 38, após o “vocês ouviram o que foi dito”, apresenta a lei penal básica: olho por olho, dente por dente (Êx 21.24; Lv 24.20; Dt 19.21). E com o “mas eu lhes digo” vai desfiando situações críticas que devem ser tratadas de forma diferente da usual. Vai num decrescendo da agressão física – um tapa na cara – ao processo injusto – tirar a túnica – constrangimento/coerção – carregar uma carga ou acompanhar forçadamente – ao simples emprestar a quem pedir. Não se vingar ou não resistir aos que lhe fazem mal, mas dar o outro lado, oferecer também a capa, andar mais um quilômetro, não se desviar de quem pede. Agir de forma diferente. A próxima antítese refere-se ao “amar os seus amigos e odiar seus inimigos”. Levítico 19.18 manda que “não se vingue nem guarde ódio de alguém do seu povo, mas ame os outros como você ama a você mesmo. Eu sou o Senhor”. Mas não fala de odiar os outros. Mas essa, conforme alguns autores, parece ter sido a interpretação corrente e ensinada na época: quem não é do povo, o outro, não precisa ser amado, pode ou deve ser odiado. Jesus convida a agir de forma diferente: amar os inimigos e orar pelos que os perseguem – é preciso amar também, o que não se pode fazer só com palavras. Deus não faz distinção e manda a chuva para bons e maus – ou cf. Almeida e a BJ, para justos e injustos. Se só amam aqueles que os amam, o que fazem de mais? Isso até mesmo os publicanos (!) fazem. Se só saúdam os amigos (Almeida e BJ “irmãos”) – e a saudação israelita era “paz seja convosco” –, o que fazem de mais? Até os pagãos, ou os gentios, fazem isso. Sejam perfeitos como o Pai de vocês é perfeito. Outra forma de agir. “[...] Em três destas aparentes antíteses Jesus está claramente ressaltando o que está implícito nos mandamentos mosaicos em oposição às interpretações literais ou legalistas dos mesmos escribas (v. 21-26; 27-30; 43-48) [...] ele não está investindo nem de leve contra a validade permanente do 6º e 7º (5º e 6º) mandamentos, nem contra a ordenança levítica para amar o próximo. O que ele está dizendo é que as exigências de Deus nessas questões são muito mais amplas, inclusivas e rigorosas do que pareciam sugerir as interpretações correntes dadas pelos escribas. O assassino, insiste o Mestre, tem seu nascedouro na ira fomentada por um descontrolado espírito de vingança, sendo tal ira só por si a quebra do 6º mandamento” (TASKER, 1980, p. 52).

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3 Meditação “Radicalidade do discurso de Jesus.” Lembro-me que, quando cursava o segundo grau – hoje Ensino Médio – tradutor intérprete/pré-teológico – TIPT em Ivoti, esse foi o título de um trabalho que devíamos fazer. E nós, como alunos, bem pouco entendíamos do que nos estava sendo pedido. O que Jesus pede de nós e com que intensidade! Os autores consultados interpretam o texto de maneira distinta: da não violência mais clássica à resistência não violenta. Conforme essa, Jesus não estaria ordenando submissão irrestrita ao perverso, mas o não bater de volta deixaria claro que não se deixou intimidar por quem se julga superior; entregar também a túnica exporia a injustiça do processo; carregar a carga voluntariamente seria mostrar ao soldado que ele não tem o controle da situação; emprestar exporia o sistema econômico que defende o egoísmo e a avareza. Não o simples cruzar de braços, mas o renunciar à vingança (Lacerda). Sem fechar os olhos para a realidade, o ensino de Jesus anuncia a chegada de um novo reino, onde prevalece a vontade de Deus. Numa progressão, da ordem negativa “não se vinguem dos que fazem mal a vocês / não resistais ao perverso” para uma positiva “amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês”. O fundamento e o objetivo do anúncio de Jesus estariam no v. 48: a perfeição (misericórdia) de Deus que visa à perfeição (misericórdia) das pessoas. Leandro Karnal, professor da Unicamp, em entrevista à revista Planeta, fala sobre “tolerância ativa”. Diferente da intolerância, que deve ser combatida, e da tolerância passiva, que seria o “sofrer resignado”, a tolerância ativa seria a utopia a ser perseguida: justamente porque domino minha cabeça, posso baixá-la, ou pelo menos não deixá-la se abater. Não seria diferente do renunciar à vingança, proposto anteriormente. Mas, enfim, o que nós fazemos com quem nos faz mal? Pagamos na mesma moeda? Calamos por medo, costume ou comodismo – para não nos indispor mais, não criar problemas ou parecer santos aos olhos dos outros? Guardamos rancor, baixando a cabeça, mas rangendo os dentes? Gostei da frase de Agostinho citada por Sperb (PL II): “Muitos têm aprendido a oferecer a outra face, mas não sabem como amar a pessoa que os esbofeteou” (p. 103). Recebi um texto pelo WhatsApp que falava de forma diferente do famoso círculo do ódio: a espiral vai descendo do dono da empresa ao farmacêutico, mas é quebrada pela esposa desse que não se deixa abater pelas palavras rudes do marido, mas oferece consolo, carinho. Não precisava ser justamente a esposa, é uma história, poderia ser qualquer um que se dispusesse a simplesmente quebrar o círculo. Agir diferente, não se deixar levar pela torrente. “Entre vocês não pode ser assim” (Mt 20.26), pois se agimos como todo mundo age, em que seremos diferentes dos fariseus e publicanos? Jesus propõe uma ética diferente, que transforma a partir de dentro. Como diz Brakemeier: “Jesus requer a transformação do coração – nada menos do que isso, pois onde o ódio for substituído pelo amor, ali não mais pode acontecer

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assassínio (cf. 5.21ss); os ritos destinados a proteger o homem da contaminação com coisas impuras tornam-se irrelevantes se a fonte da impureza humana, a saber, o coração, for renovada (15.16ss)” (p. 185). Na explicação do 1º Mandamento no Catecismo Menor, Martim Lutero diz: “Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de tudo”. A explicação de todos os demais mandamentos inicia com isso, pois, se tememos (respeitamos) e amamos a Deus, não enganamos o outro, não matamos, não roubamos... Porque nos dizemos cristãos, somos chamados a agir de forma diferente, para além da decoreba e ética farisaica. Mudar seu próprio ser para enxergar no outro não um inimigo a ser combatido e odiado, mas alguém digno de amor. As palavras do sermão do monte são ditas a pessoas que receberam a graça pela fé em Jesus Cristo. Nessa fé, as pessoas são transformadas em novas criaturas. Essa nova vida vale agora ser vivida com uma nova postura diante daquilo que a cerca. As colocações de Jesus, portanto, devem ser entendidas a partir da grandeza da dádiva de Deus. O sermão do monte não é lei; é evangelho. Vivem-se suas palavras quando se vive a fé. Isso acontece no amor a Deus e ao próximo, no agradecimento pelo que Deus fez. Essa é a vida de filhos de Deus.

4 Imagens para a prédica “Retribuir o bem com o mal é demoníaco; retribuir o bem com o bem é humano; retribuir o mal com o bem é divino” (Alfred Plummer apud LACERDA, 2010, p. 102). Penso que uma boa imagem seria a “corrente do ódio” a ser quebrada. Começando pelo dono da empresa que grita com seu gerente, que xinga a esposa que gasta demais, que briga com a empregada, que chuta o cachorro, que morde alguém que passa na rua, que grita com o farmacêutico que lhe aplica a vacina, que reclama com a esposa, que em vez de continuar o círculo de ódio o acolhe, acalma, como muitas vezes as mães fazem com seus filhos queridos.

5 Subsídios litúrgicos Oração de São Francisco Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz.

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Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1983. v. II, p. 176-186. LACERDA, Gerson Correia de. 7º Domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2010. v. 35, p. 99-105. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1985. PORZEL FIHO, Otto. 21º Domingo após Trindade. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1984-1985. v. X. SPERB, Ulrico. 18º Domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1983. v. II, p. 360-366. TASKER, R. V. G. Mateus – introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.

ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA ÊXODO 24.12-18 MATEUS 17.1-9 2 PEDRO 1.16-21

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QUARTA-FEIRA DE CINZAS

PRÉDICA: JOEL 2.1-2,12-17

1º MAR 2017

MATEUS 6.1-6,16-21 2 CORÍNTIOS 5.20b – 6.10

Ângela Lenke

Arrepender-se e viver

1 Introdução Estamos na Quarta-Feira de Cinzas, período de abertura da Quaresma. Neste dia, queremos lembrar o tema arrependimento. Alguns dados sobre o livro de Joel são importantes para nossa mensagem. Não se tem muita certeza de quem foi e onde viveu o profeta Joel. Na análise literária, algumas indicações mostram que ele pregou depois do exílio babilônico (por volta de 400 a. C.). A mensagem central do livro é o Dia do Senhor (2.2) que virá, ou seja, a expectativa escatológica do profetismo exílico/pós-exílico da derrocada do povo, da bênção, da salvação e redenção de Jerusalém. Conforme Werner H. Schmidt, “a estrutura geral forma uma espécie de composição litúrgica, constituída de lamentações (1.4-20; 2.1-17) e promessas de salvação (2.9ss; 3ss)” (1994, p. 270). Depois do acontecimento com a praga de gafanhotos (cap. 1), o profeta solicita ao sacerdote que convoque o povo de Judá a uma assembleia no templo para buscar o arrependimento sincero do povo com jejum e pranto (2.13).

2 Exegese 2.1 – Estrutura do livro de Joel 1. Devastação pelo gafanhoto: o “Dia do Senhor” (1.1-2.2a) 2. Novo anúncio do “Dia do Senhor” (2.2b-11) 3. A misericórdia do Senhor (2.12-27) 4. Derramamento do Espírito de Deus (2.28-32) 5. Juízo do Senhor sobre as nações (3.1-15) 6. Libertação de Judá (3.16-21) 2.2 – Análise de termos e expressões Toque da trombeta ou chifre de carneiro – A trombeta era tocada pela sentinela e indicava que o perigo de invasão ou alguma atividade cósmica estava chegando ou sinalizava a convocação da assembleia no templo. Sião – Era o nome da fortaleza que Davi conquistou para fazer dela a capital de seu reino. Também era o nome da colina ao norte onde Salomão construiu o templo de Deus. Mais tarde, passou a designar o nome de toda a cidade de Jerusalém.

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Dia do Senhor – Um dia com dimensões cósmicas e miraculosas (trovões – 1Sm 7.10; pedras que caem do céu – Js 10.11; trevas – Êx 14.20, Js 24.7; nuvens que gotejam – Jz 5.4ss). As nações serão julgadas pelos males que fizeram ao povo de Deus, mas quem invocar o nome do Senhor será salvo. Dia de Javé – Em Joel, o Dia do Senhor traz todos os sinais de que Deus está pronto para a guerra. No caso do texto de 2.1-11, percebe-se que a guerra é contra a invasão dos gafanhotos. O profeta é perspicaz em descrever como será essa invasão e mostrar a desgraça. Ele utiliza imagens da tradição passada e compreensível para o povo. Joel 2.1-2 identifica os gafanhotos como o exército que avança para combater o Dia do Senhor, com o que se lhe tornam disponíveis todos os lugares-comuns dos eventos bélicos que caracterizam o Dia de Javé. Em seguida, os versículos compõem a liturgia que indica o arrependimento e um convite ao jejum (Gerhard von Rad, Teologia do AT, p. 554). Rasgar as vestes – Sinal de dor e luto. Entre o pórtico e o altar – A fachada do edifício do templo e o altar de bronze situado no átrio onde se ofereciam os sacrifícios. 2.3 – Análise dos versículos V. 1 – O fato das trombetas serem tocadas significa que o profeta está convocando toda a nação (coletivo) e não de forma individual, ou seja, toda a nação era culpada diante de Deus. O povo tinha seus cultos e cerimônias, mas sem a sinceridade almejada por Deus (2.12-13). O anúncio é um pedido ao povo por arrependimento, humilhação e reforma de conduta. Lugar do alarme – Em Sião, lugar de culto a Deus, de onde saem a palavra e o juízo de Deus. Nesse tempo, o ritualismo dizia que, enquanto existissem as celebrações, o povo era inexpugnável. O povo confiava no templo e não no Senhor do templo. Significado do alarme – O alarme deveria ser para fora dos muros e para dentro, mas nesses casos é para dentro, para o povo. Nesse texto, o próprio Deus está se armando contra seu povo; sendo assim, o anúncio de graça dá lugar ao juízo e à condenação da desobediência. As razões do alarme – Primeiro, o perigo é iminente no caso da recordação dos gafanhotos e com a possibilidade de exércitos vindo em direção à cidade santa. Segundo, o povo está perturbado e desamparado diante da iminência do Dia do Senhor. V. 2 – Contém o anúncio do Dia do Senhor, que chama o povo ao arrependimento (v. 12-17). Esse dia, mesmo contendo o juízo, quer levar o povo ao arrependimento e à mudança de atitude diante de Deus. Será um dia de calamidade com trevas, escuridão, ao qual o povo não poderá resistir, pois Deus é Deus. Na segunda parte do versículo, Joel descreve como é o exército que será enviado por Deus: poderoso e veloz – “alva sobre a montanha [...] grande e poderoso”. Os próximos versículos continuam descrevendo esse exército mandado por Deus: poderosos para devastar (v. 3); poderoso, por sua comparação com os cavalos (v. 4-5); poderoso, pelo terror que coloca sobre os povos (v. 6); poderoso,

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pela invasão ameaçadora (v. 7-9); poderoso, pelo impacto que produz na natureza (v. 10); e poderoso, pelo seu comandante (v. 11). V. 12 – Depois dos últimos versículos em que o profeta fala da destruição poderosa, eis que surgem dois caminhos: arrependimento ou devastação (v. 11b). “Arrependimento é o único caminho da restauração. É a única porta de escape do juízo. O arrependimento é o único portal da vida. É arrepender-se e viver ou não se arrepender e morrer. Dionísio Pape ressalta o fato de que não era suficiente ser o povo do Senhor. Não bastava morar na terra santa. Era necessária a conversão integral ao Senhor” (LOPES, 2009, cap. 4). Nesse versículo, Deus chama seu povo para a conversão, mas também explica como deve ser esse voltar-se. Primeiro é uma volta para um relacionamento pessoal com ele: “convertei-vos a mim”. O povo precisava voltar a firmar o pacto, a aliança com o Deus verdadeiro e confiar nele e não nos seus cultos místicos no templo, nos rituais religiosos. Em segundo lugar, é preciso voltar de todo o coração, o centro da vida. Depois, em terceiro lugar, com jejum, nesse caso começando com o indivíduo e envolvendo todo o povo. Em quarto lugar, com choro e pranto. Colocar-se diante de Deus com lágrimas é algo que caracteriza também a vida do cristão. Jacó, Neemias, Pedro e tantos outros colocaram-se diante de Deus, reconhecendo quem eram e quão grande era o Senhor. V. 13 – E, por último, com arrependimento, “rasgando os corações e as vestes”: colocar-se na presença de Deus com sinceridade, tendo um coração rasgado, quebrantado, arrependido e transformado. Agora é hora de voltar para Deus, que é “misericordioso e compassivo”, que em todo o tempo mostra essas características a seu povo arrependido. Ele é “tardio em irar-se e se arrepende do mal”. Deus coloca-se ao lado do ser humano em seus sentimentos e, quando existe o arrependimento, transforma a morte pela vida. V. 14 – O versículo inicia com uma pergunta retórica: “Quem sabe?”. Dessa forma, o profeta está dizendo que a aliança feita há tantos anos com Deus, demonstrada na fidelidade descrita no versículo anterior, não mudou, muda ou mudará. Cabe agora ao povo voltar-se ao Senhor e ter o castigo removido e as bênçãos de Deus serão restituídas (manjares e libação). V. 15-16 – Esse chamado mostra a urgência da convocação de todo o povo para o anúncio da culpa e a consequência do arrependimento. O povo é convocado não para a luta contra os inimigos externos, mas contra seu próprio pecado. Joel denuncia o pecado coletivo, buscando a conversão e posturas transformadas de um povo condenado por eles. Sendo assim, de um jejum individual é preciso atingir todo o povo de Deus. V. 16-17 – Todos devem fazer parte dessa volta para Deus, começando pelos anciãos, que têm sabedoria e experiência. Os líderes devem ser os primeiros a chamar o povo para mostrar o caminho da conversão. Os filhinhos e os jovens são os que têm confiança em Deus e com sua vitalidade e compromisso encaram as adversidades da vida em nome do Senhor. As crianças também eram atingidas pelos pecados dos seus pais e foram convocadas para vê-los rasgando suas vestes e chorando por seus pecados. Recém-casados – na cultura da época, os recém-casados eram dispensados dos serviços militares por um ano. Aqui os casais são

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chamados para transformar a alegria das núpcias na tristeza da culpa. Sacerdotes – foram convocados para chorar não por seus pecados, mas de todo o povo. O líder espiritual deve chorar por sua comunidade e orar por ela para que não seja envergonhada pelas nações vizinhas e vire chacota. 2.4 – Escopo O Dia de Javé está muito perto e será terrível, porém Deus se coloca ao lado de seu povo, pronto para agraciá-lo com o perdão a partir do arrependimento e da conversão.

3 Mensagem É cada vez mais comum a busca por espaços de silêncio, meditação e a busca pelo sentido da vida por vivermos numa sociedade estressante, que só corre, que quer lucro e não pensa em suas ações. A Quarta-Feira de Cinzas tem um significado todo especial. Cinzas lembram arrependimento. Na Bíblia, esse termo aparece inúmeras vezes. Jó jogou cinzas em si e ficou no meio delas como sinal de arrependimento e tristeza. Jesus também faz referência às cinzas: “Ai de ti, Corazaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidom os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas” (Mt 11.21). Será que vivemos num período em que temos uma justificativa para cada atitude errada? Será que é justo abandonarmos Deus como o povo de Judá? Eram outra realidade e outras dificuldades, mas eram pessoas com suas preocupações, assim como hoje. Ouvimos dizer que antigamente não era assim. No entanto, eram outras as dificuldades que ameaçavam a vida sobre a terra e o relacionamento das pessoas com Deus. Chegamos à conclusão de que não importa o espaço de tempo: as pessoas afastam-se de Deus porque outras ocupações e preocupações ganham morada no coração. Talvez seria interessante perguntar: Do que precisamos nos arrepender, pessoal e socialmente? Podemos apontar a ganância humana que tem gerado divisões, destruição da natureza, violência, comunidades com conflitos, pessoas que se afastam de Deus devido às atitudes e palavras de outras, falta de tolerância, desobediência ao primeiro e segundo mandamentos, com venerações a ídolos e partidos. Ninguém é tão santo que não tenha do que se arrepender. Sim, nós temos do que nos arrepender! E Joel faz muito bem em convocar toda a nação, desde crianças até líderes governamentais e sacerdotes. Por que arrepender-se? Porque longe do Senhor, o caminho é cheio de devastação e morte. Longe de Deus, erramos os caminhos e as escolhas da vida. Longe de Deus, a disputa será pelos poderes, e ninguém quer servir aos outros. Longe de Deus, outros deuses disputarão o coração do ser humano. Em alguma coisa sempre haverá fé ou crença/confiança. Como arrepender-se? Joel diz que Deus não quer qualquer arrependimento. Precisa ser de todo o coração, com lágrimas e prantos. Sinal de percepção da escolha errada que se fez e agora voltar-se como filhinho e filhinha para seu Criador. Arrependimento é

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contrição, é vergonha, é encarar Deus de frente e abaixar o olhar diante dele, porque ele é que tudo sabe. Relacionando ao texto do evangelho, pergunto: Como é a prática do jejum, da caridade e da oração em nossa vida? Abordar o significado do símbolo que as pessoas receberam na porta (com cinzas, um coração rasgado: ver abaixo). E a boa-nova é que Deus está ao nosso lado. Ele caminha junto no sofrimento do arrependimento. Ele condena as escolhas erradas, mas diz: “Estou contigo, agora faz diferente por amor a mim”. E mais do que caminhar com as pessoas, ele vem e doa-se em Jesus Cristo. Ele valoriza nosso arrependimento, pois sabe que nos livrará de sofrimentos posteriores, contudo sabe que somente nos abraçando em Cristo e lavando-nos com seu sangue é que nossos pecados são perdoados. Quarta-Feira de Cinzas lembra-nos das nossas responsabilidades enquanto filhas e filhos de Deus; lembra-nos do quanto Deus espera humildade de nós e o reconheçamos como o único Deus. Ele faz isso cobrando, mas também caminhando conosco e doando-se por nós. Que esse tempo seja de silêncio, reflexão e de transformação da mente. Amém.

4 Imagens para a prédica Penso que poderíamos fazer uso de alguns elementos litúrgicos neste dia, por exemplo: cinzas, folhas e galhos secos e um desenho de coração rasgado. Desenha-se um coração com cinzas em cada pessoa à medida que for chegando para o culto. No altar e abaixo dele, folhas e galhos secos, um pouco de cinza e, no meio, um coração rasgado (de tecido camurça fica bem bonito).

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados L: O profeta Joel diz: “Voltem para o Senhor, nosso Deus, pois ele é bondoso e misericordioso, paciente e muito amoroso” (Jl 2.13b). Voltemos nossa face para Deus e peçamos perdão. No final da confissão, façamos silêncio: Senhor, nosso Deus! Compadece-te de nós, segundo a tua boa vontade e grande misericórdia. Apaga nossos pecados, lava nossa iniquidade e purifica nossas maldades. Porque reconhecemos nossos pecados e temos sempre diante de nós nossas culpas. Pecamos contra ti e contra as pessoas e fizemos o que não te agrada. Cria em nós um coração puro e faze nascer dentro de nós um espírito puro. Não nos afastes da tua presença. Dá-nos de novo a alegria da tua salvação e sustenta-nos com teu Espírito. Abre nossa boca para cantar o teu louvor. Tem misericórdia, Senhor! Amém (silêncio). Bênção L: O bondoso Deus acolha tuas súplicas e tenha misericórdia de ti. Ele te ouça nos momentos de angústia e acalme teu coração. Ele te conduza nos cami-

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nhos certos e te dê a sabedoria necessária. Ele sempre te traga de volta para que recomeces com novo ânimo. Assim te abençoem Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.

Bibliografia LOPES, Hernandes Dias. Joel: o profeta do pentecostes. São Paulo: Hagnos, 2009. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994.

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1º DOMINGO NA QUARESMA

05 MAR 2017

PRÉDICA: ROMANOS 5.12-19 GÊNESIS 2.15-17; 3.1-7

Flávio Schmitt

Viva o fim de Adão

1 Introdução O texto de Romanos, indicado para a pregação no 1º Domingo na Quaresma, confronta a comunidade cristã com sua condição de peregrina. Chama atenção que, ao longo dos quarenta anos de existência do auxílio homilético Proclamar Libertação, esse texto de Romanos somente foi contemplado uma vez (PL 27), delimitado pelos versículos 12-15, e indicado para pregação no 5º Domingo após Pentecostes. Também chama atenção que não há indicação de leitura do evangelho para o domingo. No PL 27, havia a indicação da leitura de Mateus 10.26-33. A leitura do texto de Gênesis abre o entendimento para o texto da pregação. O fato de remeter à figura de Adão torna a leitura do texto de Gênesis imprescindível para a compreensão e contextualização da questão discutida no texto de Romanos. Em Romanos 5.12-19, somos confrontados com uma questão que não está totalmente resolvida no âmbito da discussão teológica. Para Paulo está claro que o pecado passou a fazer parte da existência humana com Adão. Da mesma forma, por meio de Jesus o ser humano alcança a vida que vence a morte. Contudo a forma como as palavras e ideias do apóstolo foram interpretadas ao longo do tempo nem sempre contribuem para a edificação do corpo de Cristo.

2 Exegese O quinto capítulo da Carta de Paulo aos Romanos ocupa um lugar especial não somente na carta, mas no conjunto do pensamento de Paulo. Ao longo desse capítulo, Paulo desdobra as implicações do ser declarado justo diante de Deus por causa de Jesus. Ser declarado justo implica fundamentalmente estar em paz com Deus. Num primeiro momento, em Romanos 5.1-11, escrito na primeira pessoa do plural, o apóstolo desenvolve o tema da justiça da fé. A partir de Romanos 5.12-21, escrito na terceira pessoa do plural, trata da relação entre pecado/morte e justiça/vida eterna, tendo a lei e Jesus como paradigmas. O assunto iniciado em Romanos 5.12 tem seu desenvolvimento até Romanos 7.25. Em todos esses versículos, a argumentação de Paulo gira em torno da libertação da morte, do pecado e da lei decorrente da morte e ressurreição de Jesus. V. 12-14 – O v. 12 abre um novo assunto no capítulo ao retomar uma discussão que vinha sendo desenvolvida ao longo dos capítulos anteriores e que

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trata da universalidade do pecado (“todos pecaram”, Rm 3.9) e da justificação por intermédio de Cristo (Rm 4.25). Justamente por causa de um homem o pecado entrou no mundo. E por causa do pecado, a morte. Inicialmente, Paulo faz uma comparação entre a condição humana antes de Cristo e depois de Cristo. Antes de Cristo predomina a condição adâmica. A diferença está no pecado. Paulo estabelece um paralelo entre Adão e Cristo. Em cada unidade desse paralelo há um protótipo. Adão é o tipo ideal relacionado com o pecado e a morte. Cristo é o tipo ideal da justiça e da vida. O paralelismo antitético reforça o contraste entre Adão e Cristo. “Adão é a cabeça da humanidade pecadora; Cristo é a cabeça da humanidade justificada” (PL 27, p. 176). O apóstolo tem em mente o texto de Gn 3.1-7. “O caráter etiológico da narração do Gênesis aponta para o pecado como causa da miséria geral da humanidade (dor, aflição, divisão, morte). A desobediência de Adão arremessou no mundo uma força ativa e nefasta. O pecado é apresentado como um poder mau personificado e inimigo de Deus, que afasta dele os homens” (PL 27, p. 176). Na primeira parte do v. 12, Paulo afirma que o pecado entrou na humanidade por meio de Adão. Como consequência, a morte também entrou. Até aqui ainda não está claro se a morte alcança todos como consequência direta do pecado de Adão ou do pecar de cada ser humano. As duas primeiras orações do versículo não dizem mais do que está dito em Gênesis (Gn 2.17; 3.3,19). Na terceira e quarta orações do versículo, o apóstolo acrescenta algo que não está explícito em nenhuma narrativa do Antigo Testamento, embora seja dedução natural da narrativa de Gênesis, a saber, que o ser humano morre por causa do pecado de Adão e não por causa de seu próprio pecar. Ao confrontar Adão e Cristo, Paulo destaca a universalidade do efeito da ação de Deus em Jesus. Se o pecado de Adão atinge todos os seres humanos, a morte de Cristo não é menos universal. Aqui toda a humanidade está contemplada. Para Paulo, a “existência de Jesus não determina apenas a existência dos crentes” (CRANFIELD, 1992, p. 113). No desenvolvimento de seu pensamento, Paulo dá sequência à ideia a partir do conteúdo que já está implícito. “Por meio de um só ser humano o pecado entrou no mundo” e “pelo pecado a morte” e, desse modo, a “morte passou a todos os seres humanos”. A palavra pecado/hamartia encontra-se no singular. Pode ser entendida como uma potência pessoal que atua no e através do ser humano. Hamartia é o pecado que somente a fé reconhece. O poder total desse pecado somente é reconhecível em Cristo. “O pecado entrou no mundo: o pecado é personificado e apresentado como que vindo de fora para se introduzir no mundo da humanidade. Deixa a impressão de um personagem que abre a porta do mundo e nele entra vitorioso e satisfeito. Contudo Paulo não se detém nos detalhes para explicar a origem do mal. Só quer afirmar o domínio do pecado e da morte espiritual como condenação definitiva antes da justificação pela morte de Cristo” (PL 27, p. 176). “Tratando-se de ‘morte’ como afastamento de Deus, uma vez que todos foram atingidos por ela, significa que todos se tornaram pecadores (v. 19). Essa é a base

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da argumentação para dizer que a justificação é decorrência de “um só” (PL 27, p. 177). Cumpre destacar que, em cinco versículos, a expressão “um só” aparece onze vezes, reforçando o contraste entre um e todos. Para Paulo, um é mais do que todos. A palavra grega thanatos remete à morte de um sentido de vida do ser humano. Diferente de nekros, morte da vida biológica, thanatos inclui a morte simbólica. Em Romanos 6.10, Paulo pode falar em mortos para o pecado e vivos para Deus. Em Gálatas 2.19, fala em morrer para a lei e viver para Deus. Também o “morrer com Cristo” (Gl 6.14) expressa essa dimensão simbólica. A expressão grega traduzida por “porque todos pecaram” tem sido alvo de polêmicas. Agostinho entendeu que todos os seres humanos pecaram em Adão em virtude de sua identidade seminal com esse antepassado. Porém a expressão também pode ser entendida no sentido de que cada ser humano protagoniza seu próprio pecar. Nesse sentido, o “pecado humano não seria derivado de Adão (desobediência), mas da condição humana comum com esse antepassado” (CRANFIELD, 1992, p. 115). Os v. 13 e 14 rompem a lógica do paralelismo para explicar em que consiste o pecado. Como explicar que todos pecaram se não havia lei? Paulo argumenta que o pecado estava presente na humanidade mesmo no tempo em que não havia lei. Paulo reconhece que o pecado existe desde Adão. Contudo o pecado não era imputado, não era colocado na conta de ninguém, pois não havia lei. Nesse contexto, os judeus viviam como os gentios. Eram guiados pela lei da razão e da consciência (Rm 2.12-16). “Como a lei (revelada a Moisés) ainda não era conhecida, os pecados não podiam ser imputados, em seu aspecto formal de transgressão, nem receber a sanção prevista pela lei (cf. 4.15). Mas a responsabilidade pessoal pelo pecado fica a mesma, pela lei natural escrita no coração (Rm 2.14-15). Portanto, ao receberem a Lei, os judeus só viram aumentar sua responsabilidade e sua culpa” (2.9) (PL 27, p. 178). A morte reinou de Adão até Moisés. Aqui Paulo tem em mente a divisão da história humana segundo os rabinos de seu tempo. Para os rabinos, a história é constituída de três períodos: “de Adão até Moisés – dois mil anos de caos; de Moisés até o Messias: dois mil anos de lei; a partir do Messias: dois mil anos de bênçãos”. “No primeiro período, sem a lei, o pecado estava no mundo e, mesmo sem imputação de transgressão, a morte reinou desde Adão sobre todos os pecadores. No segundo período, o regime da lei só fez acrescentar a responsabilidade pelas ofensas e a merecida cólera de Deus (cf. v. 20). No terceiro período, há liberdade da lei, porque reina a graça de Jesus Cristo, o Messias. Também sobre os que não pecaram da mesma forma da transgressão de Adão” (PL 27, p. 178). “O pecado de Adão foi a transgressão formal de um preceito. Mas os que viveram depois, até a lei chegar, não pecaram da mesma forma. Isso significa que o mal que fizeram não é considerado no seu aspecto formal de transgressão, porque ainda não tinham recebido algum preceito (cf. v. 13)” (PL 27, p. 178). Paulo retoma a ideia de que na última época o Messias daria uma nova lei ou uma reinterpretação da lei. No final, o versículo 14 destaca o caráter de tipo, modelo, exemplo prefigurado por Adão. No plano de Deus esboçado por Paulo, Adão prefigura o tipo

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universal do pecado e da morte. Cristo prefigura o tipo universal da salvação. O qual é ‘figura’ daquele que havia de vir. A “figura” do passado é um exemplo, um tipo, algo que tem uma semelhança com a realidade futura, chamada antítipo (cf. At 7.43; 1Ts 1.7; 2Ts 3.9; 1Co 10.6). Jesus é o antítipo, o “segundo/último Adão” (cf. 1Co 15.45-47), mas somente como contraste, e de maneira absolutamente superior e perfeita (PL 27, p. 179). V. 15-17 – Os v. 15-17 sublinham a incomensurável superioridade do benefício de Jesus em contraposição ao dano de Adão. Os versículos retomam a dessemelhança de Cristo e Adão. Paulo apresenta duas dessemelhanças. Cada uma delas é acompanhada por argumentos explicativos. Na primeira dessemelhança, o apóstolo contrapõe o dom gratuito e a ofensa ou falta do ser humano. Ao falar do dom imerecido, Paulo pode estar falando de Jesus e sua obra em favor dos seres humanos ou do “dom gracioso de status de justiça perante Deus”. No primeiro caso, o foco está em Jesus. No segundo caso, no crente. A afirmação da dessemelhança entre Cristo e Adão é explicada na segunda parte do v. 15. Aqui os artigos definidos e termos do original grego “um só”, “um só homem”, “os muitos” desempenham importante função. Destacam que o contraste não está em qualquer ser humano e muitos, mas entre Adão e Cristo, ou seja, entre Cristo e toda a humanidade. Ao ser empregada em oposição à expressão “um só”, a palavra “muitos” adquire função inclusiva e não exclusiva. A palavra “muitos” é oposta a “um só” e não a “todos”. O “muito mais” faz parte do rol de hiperbolismos paulinos que destacam a superioridade de Cristo. O que está em contraste com Adão não é nada mais do que a graça de Deus. Paulo já havia recorrido ao “muito mais” nos v. 8 e 10. Nessa parte também emprega a expressão duas vezes: nos v. 15 e 17. A segunda explicação da dessemelhança entre Cristo e Adão aparece na primeira parte do v. 16. O dom dado por Deus não é um mero equivalente ao pecado de Adão. Não se trata de uma simples compensação. Por isso Paulo afirma: “Porque o julgamento seguiu-se a uma só falta e resultou em condenação, mas o dom gracioso seguiu-se a muitas faltas e resultou em justificação” (CRANFIELD, 1992, p. 119). Há, portanto, uma diferença substancial entre o pecado de Adão e o dom gracioso em Cristo. A falta diz respeito a uma circunstância e contexto externo. O dom diz respeito ao número incalculável de faltas. Na sequência, a dessemelhança continua com a morte e o dom da justiça. Aqui Paulo retoma os argumentos já empregados no v. 15b. A expressão “pela falta de um só” retoma a ideia do “um só” do v. 15b. No entanto, em lugar de “muitos morreram” em v. 15b, agora é utilizada a expressão a “morte imperou”. O correspondente ao “através de um só homem” é “por meio de um só”, complementado por Jesus Cristo. O que Paulo já havia dito no v. 15b diz novamente na oração principal do v. 17, acentuando assim a iniciativa da graça de Deus. Em vez de dizer “a vida reinará” em oposição à expressão “a morte imperou”, Paulo diz: “os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida”.

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Paulo destaca que não há uma simples substituição do reino da vida pelo reino da morte, mas uma verdadeira vida regida pela vontade de Deus. Com isso Paulo também está dizendo que os verdadeiros receptores da graça ainda não reinam, mas “reinarão” com Deus. V. 18-19 – Depois de esclarecer a dessemelhança entre Adão e Cristo, Paulo continua sua comparação. A declaração formal de comparação é introduzida pela expressão “por conseguinte”. Toda a sequência está empenhada em esclarecer a relação entre a “falta” de um só homem, Adão, e a “conduta justa” de um só homem, Cristo. O v. 18 repete e completa, de forma mais breve, o essencial do v. 12. Os versículos anteriores haviam destacado a superioridade de Cristo em relação a Adão. Isso será repetido com um paralelismo antitético e palavras sinônimas também nos v. 18-19. A falta de Adão e a obediência de Cristo não estão no mesmo plano. Não há a menor possibilidade de igualar um e outro. Pois a condenação de fato decorre para todos os seres humanos. Porém não se trata de uma fatalidade ou algo irreversível. Pelo contrário, Cristo já começou o processo de reversão do processo. Do status de justiça realizado por Cristo em proveito de todos os seres humanos decorre a vida. Em seguida, o apóstolo confirma que pela culpa de Adão todos os demais seres humanos, exceto Jesus, tornaram-se vulneráveis à transgressão ao tornar-se pessoalmente pecadores. O destaque fica por conta da solidariedade no pecado. A última parte do v. 19 destaca o papel de Cristo. Ao se tornar solidário como os humanos, Cristo tomou sobre si o fardo que pesava sobre todos. Ao receber o dom gratuito, tornam-se justos. Assim como a falta, também o status de justo vale para cada ser humano pessoalmente. Assim como a obediência está para Cristo, a desobediência está para Adão. O ponto de partida para qualificar a falta de Adão e a justiça de Cristo é a vontade revelada de Deus. Não se trata de um mero juízo humano. O paradigma é dado pelo Deus da vida. E isso não vale somente para o juízo final, mas para a vida a ser vivida aqui e agora.

3 Meditação De imediato, quem deseja pregar sobre esse texto de Romanos precisa ter presente dois aspectos teologicamente discutíveis. O primeiro diz respeito à compreensão de pecado original. As principais ideias sobre pecado original remontam a Agostinho. Segundo esse pensador, todos somos herdeiros do pecado de Adão. Todos nascem com uma culpa herdada dos antepassados. Essa seria nossa sina. Não há como escapar dessa condição. Agostinho praticamente iguala nossa condição pecadora com nossa condição humana. Precisamos perguntar-nos se é essa a compreensão de Paulo comunicada no texto. Há quem diga que não. Ao contrário do que afirma Agostinho, essa tem sido também a interpretação dos padres orientais desde os tempos antigos, segundo os quais Paulo ensina nesse texto que o ser humano, e somente o ser humano, é responsável pela condição pecadora da humanidade. O apóstolo afir-

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ma que por um só ser humano entrou o pecado no mundo... Todos os humanos pecaram (5.12), e pecaram pessoalmente. Não foi Adão quem pecou por nós, mas nós pecamos por nós mesmos. Ainda que Adão tenha pecado, esse pecado não nos culpa, apenas revela nossa condição pecadora. O que Adão foi capaz de fazer também nós somos capazes de realizar. Diferente do mito gnóstico que considerava a humanidade como vítima ignorante e culpável de um trágico acontecimento cósmico original, o apóstolo argumenta aqui que o destino humano, seja para o bem ou para o mal, não é algo inevitável, mas algo querido e acolhido. “Assim, os que ‘viverão e reinarão por Jesus Cristo’ o farão tanto quanto tenham acolhido a superabundância do dom da salvação (Rm 5.17). A participação no reino da vida – como no da morte – não é algo mágico. Entra-se nele como pessoas e, portanto, como seres livres” (RAMOS; OPORTO; GARCÍA, 2006, p. 425). No esquema “morte em Adão e vida em Cristo” utilizado por Paulo, é introduzido um “decisivo elemento de liberdade e responsabilidade que elimina o caráter mecânico e fatalista de uma solidariedade mal-entendida”. Tanto em Adão como em Cristo, a adesão faz-se necessária. Assim como há um efeito mortífero universal em Adão, há um efeito salvífico “pan-universal” em Cristo. A segunda questão diz respeito ao conceito de pecado em si. Por ser indicado para pregação na Quaresma, tempo por si só dado à penitência, é preciso ter presente qual é a compreensão de pecado que vamos comunicar à comunidade. Pecado aqui “não é uma ação isolada, nem do primeiro ser humano, nem de qualquer outro”. Muito menos algum deslize moral que eventualmente possa ser invocado diante das inúmeras atrocidades cometidas em nossa sociedade. “Não se trata de um fato perverso que misteriosamente se transforma em próprio de todos os homens. É, antes de tudo, uma potência maléfica, uma forma hostil a Deus e a seu reinado, que fez irrupção na vida do homem e o submeteu à escravidão (Rm 6,12-16; 1 Cor 15,56)” (RAMOS; OPORTO; GARCÍA, 2006, p. 426). Paulo ensina aqui que a condição pecadora da humanidade está na origem da morte. Ou seja, fala da origem e dos efeitos do pecado. A morte é como uma força cósmica que trata de separar o ser humano de Deus (Rm 8.38; 1Co 3.22), é o último inimigo a ser vencido (1Co 15.56) e que Cristo, o Senhor da vida, a derrotou com sua própria morte (Rm 6.8-11). É preciso ter presente que em Romanos 5.12-19 não é Adão, mas Cristo que interessa para Paulo. O centro do texto está em Cristo e sua eficácia libertadora, infinitamente superior ao dano causado pelo pecado do primeiro humano e de todos os demais e definitivamente vencedor da morte pela ressurreição. Mesmo que pecado e morte apareçam como personificados no texto, o propósito de Paulo é mostrar que a esperança cristã é um “destino” de vida e não de morte. Esse estar aí para a vida tem “origem num acontecimento libertador: a intervenção de Jesus Cristo, o Filho de Deus, na história humana”. Por isso quem está em Cristo é nova criatura, já passou da morte para a vida. Agora, pelo amor vivido na fé e, depois, pela vitória sobre a morte física e biológica. Em relação à pregação, o texto de Romanos 5.12-19 permite diferentes

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abordagens e ênfases. Uma primeira possibilidade é organizar a pregação tendo como eixo central a questão do pecado. Nesse caso, convém explicitar que somos criados à imagem e semelhança de Deus, mas nem por isso isentos da possibilidade de pecar. Por outro lado, ninguém transcende sozinho essa condição. Somente em Cristo vencemos essa parada. Outra possibilidade consiste em explorar algumas antíteses do texto: Adão – Cristo Obediência – desobediência Justiça/perdão/retidão – pecado/culpa/transgressão Vida/justiça – morte/lei Um só – muitos Há ainda a possibilidade de organizar a pregação tendo como eixo a excelência de Cristo. Diante da justiça de Deus revelada em Cristo, todas as demais condicionantes da vida (morte, lei, pecado) e suas múltiplas formas de manifestação ficam definitivamente vencidas pela superabundância da graça. Essa perspectiva ressalta a grandeza do amor de Deus e da morte de Jesus.

4 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Bondoso Deus! Colocamo-nos diante de tua presença com tudo o que somos e temos feito. Tua palavra revela nossa obediência e desobediência. Com Adão temos sido solidários no pecado. Nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações não nos deixam mentir: somos pecadores e pecadoras. Individual e coletivamente, somos necessitados de tua graça e de teu perdão. Por Jesus Cristo, pedimos-te: perdoa nossos pecados. Amém! Oração de coleta Bom e misericordioso Deus! Há pouco confessamos que somos pecadores e pecadoras. Mas também somos teus filhos e filhas. Acreditamos no teu amor para conosco. Reconhecemos teu amor manifestado na morte de teu Filho Jesus e derramado no coração, por meio do Espírito Santo, de todos os que recebem a graça da justificação. Por isso dá-nos teu Santo Espírito e abençoa tua palavra em nossas vidas. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, amém. Oração de intercessão Amado Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Reunidos aqui na companhia uns dos outros, voltamos nossa palavra e atenção para rogar e interceder por nós, por nossa comunidade e igreja, bem como pela humanidade da qual somos parte. Pedimos-te, de modo especial, por todas as pessoas que se encontram afundadas no pecado. Por isso concede-nos, Senhor:

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dade.

serenidade para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras. Que o pecado e a morte possam dar lugar à obediência e à vida. Que a mentira e o engano possam dar lugar à verdade e à confiança. Que a omissão e o individualismo possam dar lugar à justiça e à solidarieQue o ódio e a raiva possam dar lugar ao teu amor e à tua justiça. Por Jesus Cristo, pedimos-te e oramos. Amém.

Bibliografia BROWN, Raymond Edward. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. São Paulo: Paulinas, 1992. 360 p. (Grande Comentário Bíblico). OESSELMANN, Dirk Juergen. 5º Domingo após Pentecostes. Romanos 5.1215. In: Proclamar Libertação: Auxílios Homiléticos. São Leopoldo: Sinodal/ EST, 2002. v. XXVII, p. 172-182. RAMOS, Federico; OPORTO, Santiago Guijarro; GARCÍA, Miguel Salvador. Comentário ao Novo Testamento. São Paulo: Ave-Maria, 2006.

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12 MAR 2017

PRÉDICA: JOÃO 3.1-17 GÊNESIS 12.1-4a ROMANOS 4.1-5,13-17

Dietmar Teske

1 Introdução Na contagem regressiva para os 500 anos da Reforma Luterana vem a pergunta: Em que esse acontecimento do século XVI nos ajuda a viver uma fé significativa no presente século XXI? Entendo que Martim Lutero nasceu de novo. Foi abraçado pela fé no Deus misericordioso e libertador. E de Luder, o vagabundo, pessoa altamente reprovável, surgiu Lutero, o liberto pelo evangelho de Cristo (cf. Martin N. Dreher em “De Luder a Lutero”, p. 15s). Nascer de novo não significou para Lutero uma experiência única e suficiente para blindá-lo por toda a sua vida. No Catecismo Menor, ele mesmo afirma que batismo é “arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos”. No evangelho deste domingo, do encontro entre Nicodemos e Jesus, não há evidências de que algo semelhante tenha acontecido na vida de Nicodemos. Na leitura do Antigo Testamento (Gn 12.1-4a), lemos sobre Abraão, o pai da fé. Sem se importar com sua idade avançada, Abraão e Sara vão à terra que Deus mostraria. Eles rompem com o passado e abrem-se a uma nova realidade. Essa fé coloca-os a caminho. Implica risco, aventura, mas também abertura para um novo aprendizado e ir em direção a novos horizontes. Fé tem a ver com mudança e necessariamente humildade para o novo. Na leitura da epístola (Rm 4.1-5,13-17), o apóstolo Paulo apresenta Abraão como o pai espiritual de todos os que creem. Conhecendo a tradição religiosa de Israel, o apóstolo cita Abraão, que, mesmo em idade avançada, creu e pôs-se a caminho. A perícope indicada encerra dizendo que “este é o Deus que ressuscita mortos e faz com que exista o que não existia” (Rm 4.17).

2 Texto 2.1 – Objetivo e origem do evangelho João, diferentemente dos evangelhos sinóticos, não traz um relato completo da atuação de Jesus, mas isso não compromete nem torna seu evangelho menos expressivo. João diz que o Verbo, por meio do qual o mundo foi criado, graças ao amor de Deus, veio para salvar o mundo. Em todo o evangelho, João descreve a luta de Jesus com o povo e suas lideranças (sacerdotes, fariseus, zelotes). João mostra a profundidade do conflito, e há um crescendo dessa luta até a cruz. João apresenta Jesus não apenas como o Messias de Israel, mas de toda a criação. É por

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isso que Jesus, sendo o Salvador, está no mundo, mas o mundo não o conhece (Jo 1.10). João Batista vê Jesus como o Cordeiro de Deus, que carrega não somente as transgressões de Israel, mas os pecados do mundo (Jo 1.29). Por isso não ama apenas o povo eleito, mas “ama o mundo” (Jo 3.16). Estamos diante de um Jesus que luta por Israel, sem deixar de focar o mundo todo. No final do evangelho, afirma que não teve como registrar todos os sinais, mas que “esses, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus...” (Jo 20.31). Com origem num ambiente gnóstico da Ásia Menor, onde o início da gnose cristã fala em percepções superiores e métodos especiais de vida espiritual, João não quer ser um escrito antignóstico, mas um evangelho integral, mostrando aos leitores que, movidos pela fé, encontrem em Jesus o caminho, a verdade e a vida. Quanto ao surgimento do evangelho, esse teria sido escrito, o mais tardar, no final do século I, já que João, discípulo de Jesus, teria vivido na Ásia Menor (Éfeso) e publicado ali, depois de Mateus, Marcos e Lucas, um evangelho. 2.2 – Exegese V. 1 – O encontro entre Nicodemos e Jesus confirma os ânimos acirrados existentes em Jerusalém. Com a dominação romana cresce a expectativa pela vinda de um messias. A atuação de Jesus, porém, preocupa. Ela não atende exatamente as expectativas e o perfil que as autoridades religiosas esperavam. É preciso conhecer Jesus, e Nicodemos vai à noite. V. 2 – No encontro com Jesus, Nicodemos, apesar de sua liderança e autonomia, traz consigo as interrogações de outras lideranças. Chama o seu interlocutor de “mestre”. Não o faz por reconhecer em Jesus um estudioso das Escrituras, mas pela admiração que a atuação de Jesus causa entre o povo. O tom investigativo de Nicodemos evidencia-se na pergunta que lhe dirige. V. 3 – Jesus não leva em conta o tom amistoso de Nicodemos, porque percebe que o clima não é para tanto. Por isso diz que “ver o reino de Deus” não depende de observância da lei, mas de um “nascer de novo” (do alto). Apesar de uma vida devota, Nicodemos não compartilha do pensamento de Jesus. V. 4-5 – A reação de Nicodemos evidencia que ele não acolhe o que Jesus diz, caso contrário não diria o que ele mesmo sabe: é impossível que “um homem velho não pode voltar para a barriga da sua mãe e nascer outra vez”. Jesus diz que é preciso mais: “nascer da água e do Espírito”. Nascer não está em nossas mãos. É iniciativa de fora. V. 6-7 – Sob a palavra “pais humanos” entende-se a natureza do ser humano separado de Deus e, por isso, vivendo na realidade do pecado. O que é nascido do “Espírito” é um presente de Deus e não mérito do ser humano. Com essas palavras Jesus acaba constrangendo Nicodemos, porque ele se vê entre aqueles que são fiéis cumpridores da lei e está entre os justos de Israel. V. 8 – O ser humano não tem como controlar a ação e a direção do “vento”, a mesma palavra usada nas línguas hebraica e grega para “Espírito”. Aqui se aponta para uma liberdade imprevisível. Uma liberdade que não está sob o controle do ser humano. Mesmo assim, a ação do Espírito é eficaz e perceptível.

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V. 9-10 – Se Nicodemos ouviu atentamente o que Jesus diz, mesmo assim não demonstra acolhida. A sua reação “Como pode ser isso?” tem em Jesus uma resposta em tom de indignação: “O senhor é professor (...) e não entende isso?”. V. 11-13 – Ao responder, Jesus não apela para questões de interpretação da Escritura, mas vê a relação entre Deus e Israel. No passado, Deus já enviara mensageiros (profetas) que falaram da necessidade de renovação através da “água e do Espírito”. Ele, ao dizer “vocês”, não tem dúvida de que Nicodemos está entre os que “não querem aceitar a nossa mensagem”. Há um abismo entre Nicodemos e Jesus quando esse fala das “coisas deste mundo” e das “coisas do céu”. Aqui o evangelho pressupõe o acontecimento pascal e que é preciso acolhê-lo pela fé. V. 14-15 – Sem os eventos de Sexta-feira Santa e Páscoa, é impossível falar do envio do Espírito Santo. O perdão da culpa e a reconciliação do mundo com Deus, bem como o sacrifício do Filho na cruz e sua ressurreição abrem o caminho para que o Espírito Santo habite na igreja e em cada pessoa que crê. Jesus recorre à história de Israel para que Nicodemos entenda o acontecimento da cruz. Moisés ergue uma estaca e pendura a cobra de bronze: basta a pessoa mordida por uma cobra venenosa, devido à sua desobediência, voltar o seu olhar para a cobra de bronze, que ela será curada e salva. Deus colocou sobre Cristo a culpa de nossos pecados (2Co 5.21) a fim de salvar do pecado. Assim Jesus também terá de ser levantado, e no olhar de quem crê começará, aqui e agora, uma vida renovada. Apesar de não estar livre dos sofrimentos, existe a perspectiva de futuro. V. 16-17 – O versículo 16 é conhecido como evangelho no evangelho. O amor de Deus é “tanto”, o que caracteriza a sua enorme intensidade. Esse é direcionado ao “mundo”. O evangelista fala do mundo alienado de Deus. Sob a ação desse amor, o mundo não ficará indiferente, mas será contagiado. Nascido na manjedoura, rejeitado, traído, preso, açoitado, cuspido, pregado à cruz e morto, Jesus assume o “tanto” do amor de Deus pelo mundo. É por meio do Filho que Deus quer que o mundo seja salvo e não julgado.

3 Meditação Vivemos um tempo de mudanças acentuadas e até rápidas demais. Nicodemos percebe que há mudanças no ar e é necessário agir. Ele tem uma posição de destaque no Sinédrio, e Jesus começa a preocupar a classe religiosa. Apesar de seu conhecimento profundo da Escritura e observância rigorosa da lei, ele se dirige a Jesus como “mestre que Deus enviou”. A vinda do Messias estava no horizonte da classe religiosa; a própria Escritura comprova-o. E a presença do Messias garantirá a instalação do reino de Deus com uma interpretação correta da lei de Moisés e seu fiel cumprimento. Porém a atuação do jovem mestre repercute entre a liderança judaica de Jerusalém e cria um nervosismo geral. Nicodemos, ao procurar Jesus, espera encontrar respostas para suas interrogações e das lideranças judaicas. Jesus, no entanto, não trava nenhum debate teológico. Diz que, para ver o reino de Deus, é preciso “nascer de novo”. Nicodemos fica desconcertado e reage: “Como pode um homem velho nascer de novo?”. Jesus desafia o seu in-

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terlocutor a entrar numa nova realidade: “nascer da água e do Espírito”. Para que Nicodemos entenda o que isso significa, Jesus recorre à história de salvação do povo de Deus. Ele lembra Moisés e o povo de Israel no deserto a caminho da terra prometida. A desobediência e revolta contra Deus fizeram muita gente morrer por meio das mordidas de cobras venenosas. O clamor por misericórdia reverteu em cura e salvação. Como? Olhando para o alto, para a cobra de bronze pendurada na estaca por Moisés. Mesmo quem estivesse moribundo, ao olhar com fé para a cobra, experimentaria salvação. Agora Deus fará com que a ação salvadora seja completa mediante o olhar confiante para o Filho de Deus. Ele será erguido à cruz, porque “Deus amou o mundo tanto”. “Nascer de novo” não é ser salvo “do mundo”, pois o mundo todo está dentro do amor salvador e libertador de Deus através da entrega de seu único Filho. A própria estrutura social e política do tempo de Jesus contribuiu para a prisão, o sofrimento e a morte na cruz do Filho de Deus. O pecado, portanto, não é um mal que acontece somente a nível pessoal, mas também a nível social, político e econômico. Se “Deus amou o mundo tanto”, a salvação não se limita à vida pessoal, mas surge o desafio de construir, aqui e agora, uma realidade em que se experimenta uma paz duradoura, fruto do amor de Deus. Isso resultará que os membros da igreja cristã em todo o mundo não mais permanecerão com sua fé dentro dos muros da instituição eclesiástica, mas colocarão sinais do reino de Deus no mundo que “Deus ama tanto”. Não podemos garantir que Nicodemos “nasceu de novo”, mas também não é possível afirmar que ele tivesse saído do encontro assim como veio. Ao longo do evangelho, vamos encontrar um Nicodemos, no mínimo, em atitude de respeito em relação a Jesus. E do nosso encontro com Jesus? O que resulta? Como nascidos da “água e do Espírito” e, conforme Martim Lutero, em “arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos (...) e ressurgir diariamente nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre”. É isso o que queremos? Caso sim, será um caminho libertador, não sob a tutela da lei que condena ou absolve. O caminho libertador estará acontecendo ao longo de toda a vida, porque o olhar estará focado naquele que salva: Jesus Cristo. Nas noites escuras em que Lutero esteve debruçado sobre a letra da lei e que lhe tirou o sono durante dias, meses e anos, surgiu a luz de um novo dia. Não mais por conta de seus méritos, mas unicamente porque Deus ama “tanto”. Lutero redescobriu o evangelho, que é boa-nova. Foi necessário “nascer de novo”, um coração e mente humildes, para refletir o que Deus fez por nós e o significado disso para a vida no mundo.

4 Imagens para a prédica 4.1 – Para que serve o horizonte? Certa vez, alguém chegou ao céu e pediu para falar com Deus. De acordo com seu ponto de vista, havia uma coisa na criação de Deus que não fazia ne-

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nhum sentido. Deus atendeu-o imediatamente. O próprio Deus estava curioso para saber qual era a falha que havia na Criação. “Senhor Deus! Sua criação é muito bonita, muito funcional. Cada coisa tem sua razão de ser... mas, do meu ponto de vista, tem uma coisa que não serve para nada”, disse aquela pessoa a Deus. “E que coisa é essa que não serve para nada?” , perguntou Deus. “É o horizonte! Para que serve o horizonte? Se eu caminho um passo em direção ao horizonte, ele se afasta um passo de mim. Se eu caminho dez passos, ele se afasta outros dez passos. Se eu caminho quilômetros em direção ao horizonte, ele se afasta os mesmos quilômetros de mim... Isso não faz sentido! O horizonte não serve para nada.” Deus olhou para aquela pessoa, sorriu e disse: “Mas é justamente para isso que serve o horizonte: para fazê-lo caminhar”. Abraão, crendo na promessa de Deus, pôs-se a caminho. Nada o deteve, apesar da idade avançada e do risco de ficar no meio do caminho. Para o apóstolo Paulo, a atitude de Abraão fá-lo ser o pai espiritual de todos os que creem. À luz do evangelho, quem “nasceu de novo”, “nasceu da água e do Espírito”, redescobre o amor de Deus que é “tanto” e caminha na direção de um novo horizonte. E o faz movido pela fé no Deus que ama o “mundo”, que deseja vê-lo salvo. 4.2 – Estou fora do movimento evangélico No Facebook, onde “curto” e também “compartilho”, deparei-me com a meditação de Ricardo Gondim. Não acompanho todos os seus escritos como teólogo no campo protestante. Lembro que, em outubro de 2013, quando do 2º Encontro Nacional de Ministros e Ministras da IECLB, Gondim foi um dos palestrantes convidados e, recentemente, em sua meditação de 20 de maio de 2016, escreve sob o título: “Estou fora do movimento evangélico” (www.ricardogondim.com.br). Embora cite muitos outros motivos para “estar fora”, chama-me atenção que esse texto surge após a admissibilidade do impedimento da presidente da República e de seu afastamento por até 180 dias a partir de 12 de maio de 2016. Sabe-se que um bom número de políticos e lideranças do “movimento evangélico”, de quem Gondim se considera fora, está na chamada “bancada evangélica” em Brasília. Ouso dizer que, em assuntos de fé, essa bancada se vê como “nascidos da água e do Espírito”. Sua atuação e manifestação pública, no entanto, estão comprometidas com a manutenção de privilégios e com uma democracia em que não há espaço para a diversidade. Na concepção deles, está fora o “mundo” que Deus ama tanto e quer que seja salvo e não julgado.

5 Subsídios litúrgicos Na saudação formal, proponho a leitura do Salmo 121, indicado para este domingo, bastando ler o primeiro versículo. Para o anúncio da graça, proponho os dois versículos finais do texto proposto do evangelho e mensagem: os versículos 16 e 17 de João, capítulo 3.

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Canções que contemplam os textos indicados para o 2º Domingo na Quaresma ou complementem a mensagem: a) HPD 131, 393 (Salmo 121); b) HPD 154 e 159 (Gênesis 12); c) HPD 203, 209, 195 (João 3.16); d) HPD 380, 432, 450 e destacando nesse item o HPD 459.

Bibliografia BOOR, Werner de. Evangelho de João 2. ed. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002.

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4º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: EFÉSIOS 5.8-14

26 MAR 2017

1 SAMUEL 16.1-13 JOÃO 9.1-41 Astor Albrecht

O privilégio de ser luz no Senhor

1 Introdução O texto-base para a prédica ensina que em Cristo Jesus não vivemos mais nas trevas, mas somos “luz no Senhor” (v. 8). Segue o chamado para que a vida corresponda a esse novo espaço em que a vida acontece: não mais nas trevas, mas na luz. Isso não é de modo nenhum um mérito da pessoa, mas é Cristo Jesus quem nos “desperta”, “levanta” e “ilumina” (v. 14) para essa vida. O Evangelho de João (capítulo 9) apresenta o relato da cura de um cego de nascença. A narrativa é extensa e tem muitos detalhes. Sugiro observar a pergunta feita ao cego após a sua cura: “Como te foram abertos os olhos?” (v. 10). Às vezes, quando uma pessoa tem possibilidades para uma vida feliz e não consegue acertar o caminho, costuma-se dizer: “Mas será que você não enxerga?”. O Senhor é quem abre nossos olhos para não andarmos nas trevas, mas na sua luz. Isso ele nos concede porque nos ama. Na leitura bíblica do texto proposto de 1 Samuel, podemos destacar que Deus conhece nosso coração. Ele sabe o que se passa. Conhece nossos medos e nossas fraquezas. Sugiro apresentar isso de modo positivo, a saber, já que o Senhor tão bem conhece nosso coração, podemos confiar nele. Não há razão para esconder algo de quem sabe todas as coisas. Uma vida autêntica inicia quando toda mentira é deixada de lado e abraçamos a verdade que vem de Deus para nós.

2 Exegese O capítulo 4 inicia com um apelo aos cristãos para andar de modo digno de sua vocação. Em seguida, o apóstolo Paulo descreve em termos práticos como esse chamado deve ser obedecido. Em 4.17-24, trata do despojar-se da velha natureza humana e revestir-se da nova natureza criada por Deus. Essa é a vida verdadeira em que o crente é dedicado a Deus. Em 4.25-5.2, Paulo escreve sobre a necessidade de abandonar o sentimento de engano e animosidades pessoais, substituindo-o pelo de verdade e amor em palavra, pensamento e ação. No texto de 5.3-14, Paulo lembra seus leitores que agora são luz em lugar de trevas. Vamos ver com maior atenção os versículos 8-14. Paulo inicia uma das mais comuns e fortes ilustrações no Novo Testamento sobre a diferença entre a velha vida pagã e a vida em Cristo: luz e trevas. Deus é luz (1Jo 1.5). A luz expressa sua majestade e glória. Ela também indica que Deus quer

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revelar-se ao ser humano: “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte e aos teus tabernáculos” (Sl 43.3). O oposto dessa luz são as trevas. Portanto todas as pessoas que encontram a vida em Cristo foram transferidas do domínio das trevas para o domínio da luz (Cl 1.13). Há uma diferença na tradução entre ARA (Almeida Revista e Atualizada) e NTLH (Nova Tradução na Linguagem de Hoje). A NTLH diz “vocês mesmos viviam na escuridão” e “vocês estão na luz”. A ARA diz “outrora éreis trevas” e “agora sois luz no Senhor”. Vamos preferir a tradução da ARA, pois, distantes do Senhor, não somente estamos nas trevas, mas somos trevas. Não é apenas o ambiente que está nas trevas, mas, distante de Deus, a própria pessoa é treva. Mas, agora que receberam a luz de Cristo em sua vida, tornaram-se luminosos. Lembramos a palavra de Jesus no sermão do monte: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5.14). Em razão de ser luz, segue o chamado para andar “como filhos da luz”. Isto é, devem prosseguir a jornada da vida de acordo com uma pessoa que vive conforme a vontade de Deus. Não somos nem temos a luz em nós a partir de nós mesmos. Essa luz se irradia à medida que seguimos Jesus: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8.12). Os versículos 9 e 10 descrevem como essa luz deve ser irradiada na vida cristã. A vida em Cristo não pode passar no anonimato. Ela deve testificar dessa novidade de vida. Isso é chamado de “fruto da luz”. É apresentada a “bondade”, que é a procura ativa pelo bem em cada área da vida. Expressa a força atrativa de um bom caráter e de integridade. A “justiça” é o fruto da vida em Cristo (Fp 1.11). Injustiça e corrupção não devem estar presentes no relacionamento da pessoa cristã com seus semelhantes. A “verdade” lembra que as trevas da ignorância, cegueira e engano ficaram para trás. Em Cristo, o andar é na verdade. Assim, o v. 10 convoca para agradar ao Senhor. O povo de Deus precisa conhecer a vontade de Deus e agir de acordo com ela. Isso indica que é preciso pensar e discernir cuidadosamente. A luz de Deus é dada, mas isso não tira da pessoa a responsabilidade de pensar e escolher. Esse texto lembra Romanos 12.2, onde Paulo fala de experimentar a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Andar na luz é não procurar ser agradável a si mesmo, e sim agradar ao Senhor. É uma vida condizente com a posição que agora ocupamos em Cristo Jesus. É por isso que nós pedimos na oração do Senhor: “Seja feita a tua vontade”. Que ela se faça também em nosso andar! Os versículos 11 a 13 tratam das obras infrutíferas das trevas e, de forma enfática, Paulo pede que ninguém do povo de Deus se torne participante ou parceiro dessas. Uma vez que as trevas foram banidas com a vinda da luz, não devemos ser cúmplices delas. O texto é semelhante a João 3.20-21, que lança luz para a compreensão dessa passagem: “Pois todos os que fazem o mal odeiam a luz e fogem dela, para que ninguém veja as coisas más que eles fazem. Mas os que vivem de acordo com a verdade procuram a luz, a fim de que possa ser visto claramente que as suas ações são feitas de acordo com a vontade de Deus”. Na escuridão, não vemos nada. É somente na luz que as coisas são reveladas. A vida de quem foi feito luz no Senhor revelará as obras infrutíferas das trevas. O povo de Deus tem a vocação de ser luz para este mundo.

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O versículo 14 tem seu conteúdo tirado do Antigo Testamento (Is 9.2). Comentaristas sugerem que se trata de um fragmento de um hino cristão primitivo. O desafio para despertar da insensatez e do pecado é parecido com Romanos 13.11, que foi a passagem que levou Agostinho a converter-se. Estar no pecado é descrito como estar morto espiritualmente (Ef 2.1), mas o dom de Deus em Cristo Jesus é uma nova vida. É Cristo Jesus que nos faz filhos e filhas da luz. Ninguém pode despertar sem essa luz que vem de Jesus. Essa luz revela que o pecado nos separa de Deus e do nosso semelhante, mas ela também nos mostra a vontade de Deus e une-nos com ele.

3 Meditação O texto bíblico faz um apelo para que cada crente no Senhor viva de modo digno de sua fé. É temática que aparece outras vezes nas Escrituras. Vale aqui lembrar o chamado de Jesus: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7.21). Paulo apresenta essa declaração de Jesus de maneira positiva com as seguintes palavras: “Agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (v. 8). Pela fé em Jesus somos feitos filhos e filhas de Deus. Somos filhos e filhas da luz. E Jesus já deixou claro em outra oportunidade: ele não acende uma luz para que fique escondida! Ela deve brilhar! É assim que deve ser a vida no reino de Deus (Mt 5.14-16). Andar como filho e filha da luz é nossa vocação. Isso é desafiador. Afinal de contas, este mundo anda nas trevas. As “obras infrutíferas das trevas” (v. 11) estão aí! Dependendo de cada situação, é possível aqui citar situações bem concretas. Quando escrevo este texto, além do Brasil ser notícia sobre a corrupção, é também notícia pela barbárie de uma jovem que foi estuprada por vários homens no Rio de Janeiro. Mas podemos pensar em situações do nosso cotidiano: Como vai a vida em nossa casa? Como vai nossa família? Como é nosso convívio? Como é nossa participação em nossa comunidade de fé? Somos ativos? Andamos distantes? Aparecemos somente quando precisamos algo da comunidade? O leque das “obras infrutíferas das trevas” é amplo. Muito “joio” foi semeado. Além dos escândalos de corrupção em nosso país, há o crescimento da maldade, desrespeito, roubos, crimes, insegurança, drogas, mentiras, enganos, infidelidade. É nesse meio que estão nossa comunidade, nossa família. É nesse meio, em maior ou menor grau de “trevas”, que vivemos. Mas nós não somos trevas nem podemos ser cúmplices delas. Nós somos luz no Senhor. Temos o privilégio de seguir Cristo, e por isso nossa vida pode revelar os frutos da luz. Aqui podemos destacar os v. 9 e 10 como um chamado para a vida de todos os batizados e batizadas em nome do trino Deus. Bondade, justiça, verdade e o agradar a Deus podem ser apresentados como um caminho cheio de luz para cada pessoa e família. Bondade é algo que experimentamos. É o que se faz. É a disposição em fazer o bem para a vida daquelas pessoas que Deus colocou ao nosso alcance. A justiça é indispensável para estabelecer bons relacionamentos. Podemos aqui nos lembrar da importância da honestidade, do ser correto e justo.

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A verdade quer tornar isso tudo muito concreto. Não podemos deixar a bondade e a justiça no campo da filosofia. Precisam ser praticadas e experimentadas. A verdade pede isso! Sem verdade, fica a ilusão, e essa nos deixa frustrados! É preciso ser despertado e ter os olhos abertos para uma vida em que se agrada ao Senhor. É por isso que oramos ao Pai quando pedimos “faça-se a tua vontade”. Que ela se faça também em nossa vida! Com certeza Cristo nos iluminará para que seja assim (v. 14). Tudo deve ser feito na confiança de que Cristo é nosso auxílio. Seu Santo Espírito, que em nós habita, assim vai guiar nossos passos. Lembramos uma palavra de Agostinho: “Cristãos, o que está dentro de vós deve arder, a fim de que incendeie a outros”. Vamos viver toda a plenitude da vida para a qual Cristo nos chamou.

4 Imagens para a prédica Para ilustrar as “obras infrutíferas das trevas” e os “frutos da luz”, pode-se fazer uso da conhecida estória do lobo mau e dos três porquinhos. Cada porquinho constrói a sua casa, e o lobo mau vai soprar para derrubar a casa. As “obras infrutíferas das trevas” seriam este lobo mau que vem para destruir nossa casa: família, relacionamentos, propósito de vida, nosso seguir a Cristo. Essa estória também narra a respeito de construir bem a casa. Andar na luz tem a ver com edificar bem sua casa. Qual o material que usamos para edificar nossa casa (vida cristã)? Aqui pode ser apresentado o fruto da luz (v. 9-10). Um testemunho de uma pessoa pode ser usado para ilustrar a mensagem. Numa família, o pai em idade avançada está com câncer em fase terminal. Está no hospital. O filho vai visitá-lo e não sabe o que dizer ou fazer. Mas ele vai. Está em dúvida, porque imagina ser, quem sabe, a última vez que pode ver seu pai. O que poderia dar? Ele visita. Conversa demoradamente. Sem pressa. Faz a barba do pai. Antes de sair, dá um beijo. Alguns dias depois, seu pai falece. O filho conta que sempre se lembra daquele dia e que está em paz em seu coração. Não comprou nada de valioso, mas tudo o que fez foi de coração. Às vezes, os melhores presentes não custam dinheiro: um gesto de amor, um abraço, palavras de carinho, olhar de ternura, elogio sincero, ajudar com boa vontade. Isso é coisa que nasce do coração. Esses são presentes que você tem para dar, pois você é luz no Senhor. Você é filho da luz! Você é filha da luz! Portanto viva como tal! Por onde você pode começar?

5 Subsídios litúrgicos Acolhida para o culto Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8.12). Nosso Senhor dirige essa palavra a todos e todas batizados em seu nome. Que, neste culto, nosso Senhor ilumine os olhos de nosso coração para vermos o quanto nossa vida pode alegrar, animar e abençoar todos os que nos cercam.

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Oração Senhor, tua palavra nos diz que em ti somos luz. Queremos ser luz em nossa família, em nosso trabalho, entre nossos colegas. Que nas trevas, Senhor, nós possamos ser uma clara luz que tu acendeste. Que nossa comunidade, ó Deus, seja luz aqui onde vivemos e reflita a luz de Cristo. Que nós não tenhamos vergonha de testemunhar teu evangelho. Que haja homens e mulheres cristãos em todas as atividades públicas, na política, na economia, nos diversos setores da cultura e principalmente na lavoura de Cristo, tua igreja. Concede-nos isso por tua graça em nome de Cristo Jesus. Amém. Sugestão de hinos Considerando a temática proposta neste auxílio, podemos cantar com a comunidade os seguintes hinos: HPD 2 – 463: Caminhamos pela luz de Deus HPD 2 – 422: Comece em sua casa HPD 2 – 452: Senhor, eu quero amar-te sempre de todo o meu coração

Bibliografia FOULKES, Francis. Efésios – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1981. SCHLATTER, Adolf. Die Briefe an die Galater, Epheser, Kolosser und Philemon. Stuttgart: Calwer, 1987.

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PRÉDICA: JOÃO 11.1-45 EZEQUIEL 37.1-14 ROMANOS 8.6-11

5º DOMINGO NA QUARESMA

02 ABR 2017

Sílvia Beatrice Genz e Marli Brun

Ressurreição em vida e na morte

1 Introdução Neste culto do 5º Domingo na Quaresma do ano de 2017 chega até nós o desafio de unir na pregação da Palavra o testemunho de fé que encontramos em João 11.1-45, Ezequiel 37.1-14 e Romanos 8.6-11. O ponto comum de todos os textos são as situações-limite que podem ser transformadas com o poder restaurador do Espírito de Deus. O profeta Ezequiel leva-nos ao encontro de pessoas que, em terra estrangeira, experimentaram a dor de ser expropriadas de si e de seu lugar comunitário de expressar a fé em Deus (Jerusalém). São pessoas que passaram da podridão da carne dos corpos e tornaram-se ossos secos, sem vida, na Babilônia. Distante de seu país, sonham com a restauração de Israel, compreendido aqui como um país autônomo em relação aos impérios estrangeiros, capaz de romper com o círculo de dominação, expropriação conjugada com mortes e destruição e subjugação. É preciso ter cuidado aqui para não legitimar um Estado de Israel que hoje, em nome de Deus e com o apoio de potências estrangeiras, expropria as terras, subjuga, violenta e mata mulheres, crianças, homens palestinos. O texto escrito pelo apóstolo Paulo (Rm 8.6-11) lembra à comunidade de Roma e também a nós que o “Espírito de Deus” (v. 9b), “Espírito de Cristo” (v. 9c) e o “Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos” (v. 11) ajudam-nos a viver o “ainda não” com seus desafios e adversidades (Quaresma) e remetem-nos à plenitude (ressurreição). O texto de Martin Volkmann em Proclamar Libertação 24 (p. 111-116) inspirou este parágrafo e ajudar-nos-á a não reproduzir o dualismo corpo/carne – espírito da filosofia platônica. Se o corpo não fosse importante, Deus não teria vindo ao mundo na pessoa de Jesus Cristo. O evangelista João (11.1-45) leva-nos com Jesus até Betânia, onde ele encontra as irmãs Marta e Maria. Em seguida, vamos ao túmulo de Lázaro. Naquele local, pela fé, ultrapassando as barreiras do tempo e do espaço, somos testemunhas da ressurreição de Lázaro. Pouco depois, no mesmo capítulo, vemos o Sinédrio condenar Jesus à morte. Como diz Flávio Schmitt (PL 37, p. 320): “Enquanto Lázaro é reanimado para a vida, Jesus é condenado à morte pelo Sinédrio” (v. 3).

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2 Exegese V. 1-2 – A narrativa inicia referindo-se a um tempo em que Lázaro (Eleazar, que quer dizer “Deus é auxílio”) estava doente. O cenário menciona Betânia, pequeno lugarejo situado a aproximadamente três quilômetros de Jerusalém. Nele moravam Lázaro, Marta, Maria (e Simão). Claudio Molz (PL 10, p. 434ss) chama atenção para o fato de que, nesse cenário, mulheres dialogam com Jesus sobre a ressurreição, tema central da fé cristã. No texto, Maria é identificada como aquela que ungiu os pés de Jesus (Jo 11.2; 12.1-8). Em Marcos, não aparece o nome de quem ungiu, e a unção é realizada na cabeça. Supõe-se que a comunidade de João sabia que Maria era a mulher que ungira Jesus e que a unção de fato tinha sido na cabeça, como faziam os profetas e sacerdotes ao ungir um rei. O fato desse ato ser realizado tradicionalmente por homens pode ser a razão que fez com que o evangelista Mateus (26.6-13) e o evangelista João tenham transformado a unção da cabeça em unção dos pés (Uwe Wegner, PL 22, p. 94-95). Pelo testemunho do evangelista Marcos, Maria uniu a tradição de preparar o corpo para a morte com o reconhecimento de Jesus como Messias. V. 3-5 – Quando Lázaro adoeceu, as duas irmãs mandaram avisar Jesus: “Senhor, eis que está enfermo aquele tu amas (phileō)”. Ao ficar sabendo, Jesus considerou o adoecimento uma oportunidade para a manifestação da glória de Deus e para que Ele próprio, o Filho de Deus, fosse glorificado (v. 4). Segundo Champlin, “Lázaro não podia enfermar e morrer sem afetar Jesus. E nenhum milagre poderia ser realizado em favor de Lázaro que não afetasse o destino de Jesus” (p. 461). V. 6-13 – Passados dois dias do recebimento da notícia, Jesus anunciou a seus discípulos que retornariam à Judeia. Eles reagem: “Mestre (Rabi), ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te e voltas para lá?” Diante dessa preocupação, Jesus responde: “Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo” (v. 8). Para ir de Pereia até Betânia, era necessário caminhar um dia. Se saíssem de manhã, chegariam à noite. No momento de chegada, supostamente estariam protegidos. Chegando lá, encontrariam Lázaro dormindo (dormir real ou simbólico – morte) e poderiam despertá-lo do sono (v. 11) e acordaria bem (v. 12). O versículo 13 enfatiza que o sono é a morte. V. 14-19 – Depois de ter sido embalsamado, Lázaro foi colocado em uma sepultura na rocha. Pessoas judias foram até a casa de Marta e Maria para consolá-las. Sobre esse momento comunitário de consolo e luto Champlin informa que “o choro perdurava por três dias; as lamentações por sete dias; e, durante três dias, a pessoa enlutada não trabalhava; e, se porventura fosse saudada por alguém no caminho, não deveria corresponder à saudação. Havia, igualmente, outros sinais de luto, tais como deitar-se no chão, não banhar-se por sete dias e não usar sandálias” (p. 466). V. 20-22 – Ao saber da chegada de Jesus, Marta foi a seu encontro; Maria ficou sentada em casa. O costume era virar as cadeiras em direção às paredes e sentar-se no chão da casa em sinal de tristeza. Ao encontrar Jesus, Marta diz que, se ele estivesse ali, seu irmão não teria morrido. E provocou Jesus: “E mesmo

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agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus te concederá” (v. 22). Jesus lhe diz: “Teu irmão há de ressurgir” (v. 23). Ela pensa que é no “último dia”. Jesus então se autoidentifica como ressurreição e vida e afirma que quem crê nele, ainda que morra, viverá. Em seguida, pergunta à Marta se ela crê nessas palavras. Marta responde: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (v. 27). Em seguida, ela diz a Maria: “O Mestre está aí e te chama” (v. 28). Maria, também em segredo, vai ao encontro de Jesus. Dessa forma, ambas as irmãs quebram as regras estipuladas às pessoas enlutadas de não sair pela própria porta da casa na primeira semana de luto. E Marta, assim como Maria, já havia feito isso ao derramar óleo sobre a cabeça de Jesus (M4.1-9) e reconhece Jesus como Messias. V. 29-37 – Maria foi encontrar Jesus fora da cidade. Na época, as pessoas eram sepultadas fora da cidade, e quem as tocasse era considerado impuro até o entardecer (Champlin, p. 470). Pessoas que tinham ido visitar Marta e Maria seguiram-na. Ao encontrar Jesus, Maria disse a ele: “Senhor, se tu estiveras aqui, meu irmão não teria morrido” (v. 32). Ouvindo isso e vendo a tristeza no rosto da Maria e das pessoas que a acompanhavam, Jesus ficou comovido em espírito e perguntou onde o corpo fora sepultado (v. 34). As pessoas levaram Jesus até o sepulcro. Ao chegar lá, Jesus chorou. Algumas pessoas começaram a dizer: “Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também que esse não morresse?” (v. 37). V. 38-47 – Quando Jesus ordenou que se tirasse a pedra da frente do sepulcro, Marta lembrou-lhe que o corpo já cheirava mal. Jesus respondeu-lhe: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (v. 40). Naquele momento, Jesus agradeceu a Deus por sempre o atender e que, por isso, as pessoas também creriam nele. Após isso, mandou que Lázaro viesse para fora. Lázaro saiu com seus pés e braços enrolados em faixas e seu rosto envolto com um pano. Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o ir” (v. 44). Dessa forma, muitos judeus creram nele. Mas alguns foram avisar os fariseus sobre o que havia acontecido. Então os principais sacerdotes e fariseus reuniram-se para ver o que fariam com ele por causa dos sinais que vinha realizando (v. 47). Pouco tempo depois, Jesus foi crucificado.

3 Meditação Ossos secos causam uma cena horripilante. Vivemos esse momento num culto. Uma pessoa da equipe de liturgia prontificou-se a ler o texto e, no dia do culto, surpreendeu-nos com uma bandeja de ossos secos de animais. Ninguém sabia da ideia dela. Quando ela levantou para ler, levou consigo a bandeja e deu um tempo para a comunidade olhar e perceber o que são ossos secos. Lembrou que aqueles eram de animais, mas ajudavam a imaginar o que o profeta Ezequiel falara e o que é a esperança no poder de Deus. Disse que o povo que havia sido levado de Jerusalém para a Babilônia sentia-se como aquela bandeja de ossos secos. Mas confiava nas palavras do profeta Ezequiel, que anunciava que o Espírito de Deus poderia devolver-lhes a vida. O poder de Deus pode restaurar em vida o que já passou da podridão da carne dos corpos e já é só osso seco em novos seres com vida.

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De modo semelhante, o apóstolo Paulo, ao falar à comunidade de Roma, testemunha que o Espírito de Deus tem o poder de renovar a vida, fazendo com que perceba a graça de Deus em suas vidas. Viver no Espírito daquele que ressurgiu da morte ajuda-nos a testemunhar a paz em meio às forças da violência e da morte, presentes em nosso dia a dia. E você, como está se sentindo? Em João 11.1-45, encontramos o relato da ressurreição de Lázaro. A artista brasileira Anita Malfatti, em um momento de grande tristeza, inspirou-se nesse testemunho de fé para superar sua dor, suas preocupações, na época em que ela estava estudando em Paris (1925). O quadro “A Ressurreição de Lázaro” encontra-se exposto no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Enquanto eu leio a palavra do evangelho, convido você a pensar sobre essa história, relacionando-a com o momento que você vive hoje ou que nós, como comunidade, como sociedade brasileira, estamos vivendo. [Leitura] Se você fosse pintar essa história, o quê você incluiria em sua obra? Para ajudar-nos a relacionar a nossa vida com a narrativa da ressurreição de Lázaro vamos reconstruir cenários que compõem a trama: Cenário 1 – Há um homem chamado Lázaro que está doente. Ele mora em Betânia junto com suas irmãs Marta e Maria. Talvez também esteja na casa um homem chamado Simão. Nessa casa, em que agora encontramos Lázaro doente, Maria ungiu a cabeça de Jesus com óleo, preparando-o para a morte e reconhecendo-o como Messias (Mc 14.1-9). Na versão do evangelista João, Maria ungiu os pés de Jesus. O bonito dessa história é que o próprio Jesus disse a Maria que o gesto dela será lembrado ali onde o evangelho for pregado. Maria e Marta, percebendo a gravidade da doença de Lázaro, mandam avisar Jesus. Pergunto: Em algum momento de sua vida, sua casa ou a casa de alguém que você conhece estava parecida com a casa da narrativa bíblica? Quem você se preocupou em avisar? Onde você buscou socorro? Cenário 2 – Jesus, que está no outro lado do rio Jordão, recebe a notícia enviada por Marta e Maria: Senhor, eis que está enfermo aquele que te ama. A primeira reação de Jesus é uma reação de fé: o que está acontecendo com Lázaro não é caso de morte, mas um modo de Deus manifestar sua glória e glória do Filho que fora ungido naquela casa. Pergunto: Como você reage quando recebe a notícia de que alguém está doente? Você consegue imaginar-se no lugar de Jesus recebendo essa notícia? Cenário 3 – Passados dois dias, Jesus decide voltar à Judeia (Betânia). Seus discípulos falam a Jesus para não ir, pois os judeus queriam matá-lo a pedradas. Jesus responde dizendo que o dia tem 12 horas e que, se andarem de dia, não tropeçarão porque enxergam o caminho. Se saírem cedo, chegarão à noite. Ao chegar, Lázaro despertará do sono (morte). Estando ainda além do Jordão, Jesus lamenta a morte de Lázaro. O discípulo Tomé decide ir junto com Jesus e conclama os demais a ir também. Pergunto: Você visitaria alguém estando ciente de que pessoas pretendiam matar a você assim que o encontrassem? Que sentimentos você teria ao fazer uma viagem dessas? Cenário 4 – Em Betânia, o sepultamento de Lázaro já havia acontecido. Ele fora colocado num túmulo fora da cidade. Mulheres e homens judeus foram

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visitar e consolar a família. O período de luto, que durava 30 dias, envolvia choro, consolo, não usar sandálias, não tomar banho durante sete dias. Pergunto: Que lembranças você tem de situações de morte e luto? Você consolou ou recebeu consolo? Cenário 5 – Jesus chega a Betânia quatro dias depois do sepultamento e fica escondido fora da cidade. Marta, ao ficar sabendo, foi a seu encontro. Ao chegar lá, logo manifestou sua opinião de que, se Jesus estivesse lá, seu irmão não teria morrido. Mas sabia que tudo o que Jesus pedisse a Deus seria atendido. Jesus simplesmente diz: Seu irmão irá ressurgir. Marta pensa que é no “último dia”, mas Jesus lhe diz que Ele é a ressurreição e a vida. Quem nele crer terá a vida eterna. Crês nisso? Nesse cenário, Marta identifica Jesus como o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo. Em seguida, Marta levanta e vai, a pedido do Mestre, chamar Maria. Pergunto: Você lembra de alguma conversa que marcou algum período de luto que você viveu? Sobre o que foi a conversa? Cenário 6 – Maria, que havia ficado sentada no chão da casa, como era costume fazer no tempo de luto, ao saber da chegada de Jesus, correu a seu encontro. As pessoas que estavam em sua casa foram apressadamente atrás dela. Ao encontrar Jesus, ela reitera que, se ele estivesse ali, seu irmão não teria morrido. Jesus, vendo a ela e as demais pessoas chorando, ficou comovido e pediu onde fora sepultado Lázaro. Naquele momento, Jesus também chorou. Suas lágrimas foram interpretadas pelas pessoas presentes como sinal de seu amor por Lázaro. Questionando, diziam: Assim como ele curou uma pessoa cega, não poderia ter curado Lázaro? Pergunto: Por quem você já chorou? Estando triste pelo falecimento de um ente querido, você recebeu o questionamento de alguém que achou que você não fez o suficiente pela pessoa que faleceu? Como você se sentiu? Como você reagiu? Cenário 7 – Comovido, Jesus foi ao sepulcro e pediu que tirassem a pedra. Marta lembrou-lhe que o cheiro devia estar insuportável. Jesus respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”. A pedra foi tirada, e Jesus deu graças a Deus porque fora ouvido em seu pedido. E clamou, em voz alta, pedindo que Lázaro viesse para fora. Esse, que estava com os pés e as mãos amarrados com faixas e com um lenço cobrindo o rosto, saiu. Jesus pediu às pessoas que o desamarrassem e deixassem ir. Com isso muitas pessoas creram em Jesus. Outras foram avisar as autoridades de Jerusalém para saber o que havia ocorrido. Pouco tempo depois, o próprio Jesus foi preso e condenado à morte. Pergunto: Você compreende a ressurreição de Lázaro como uma manifestação da glória de Deus no mundo? Por que Jesus foi condenado à morte após fazer sinais como esse? Uma comunidade que está sendo perseguida, como a comunidade do evangelista João por volta de 90-100 depois de Cristo, o que sente ao ouvir o relato da ressurreição de Lázaro? O que nós sentimos hoje? Ao relembrar esses cenários, você e eu fomos imaginando que cenário desenharíamos interligando nossa vida pessoal, comunitária com a vida e os acontecimentos narrados pelo evangelista João. A reflexão inspirada nessa história ajuda-nos na busca por vida que foi e é sempre o maior esforço do ser humano. O texto de João 11.1-45 em nenhum momento afirma que Lázaro morreu porque não tinha fé. Lázaro morreu porque estava doente, e Jesus fez o que estava

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a seu alcance para salvá-lo da morte. Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, demonstrou por meio de vários sinais que era Deus. Após muitos sinais que descrevem o poder de Deus e antes do maior que é a ressurreição do próprio Cristo, a comunidade tem na ressurreição de Lázaro um sinal do poder de Deus para com seus queridos e queridas ou seus amigos e amigas, como Jesus diz em João 15.13. O amor de Jesus por Lázaro é expresso de modo forte, inclusive no gesto claro de tristeza, quando o texto relata que Jesus chorou. A ressurreição de Lázaro foi um efeito positivo para a fé dos discípulos e discípulas, por exemplo, quando Marta diz: “Sim, creio que Deus o ressuscitará no último dia”, quando afirma “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (v. 27). Mas também aumentou o ódio dos opositores de Jesus, como lemos em João 11.45ss, procurando matá-lo. As reflexões deste 5º Domingo na Quaresma conduzem-nos a muitas experiências de solidariedade e fé espalhadas nas comunidades. Corpos quebrados, doentes são cuidados em sua maioria por mulheres, com amor e esperança de vida. A busca pelo consolo de Marta e Maria está fundamentada na fé e na ressurreição que Jesus testemunhava. A esperança é a certeza de que Jesus é a vida. Que bom que podemos sentir a presença do Espírito Santo em nossas vidas, transformando a nossa dor, o medo, a vergonha, a fraqueza em um novo sentimento de paz e de esperança!

4 Imagens para a prédica a) Na vida comunitária, percebemos muitas situações de ressurreição em vida. Lembro de um depoimento num encontro de alcoolistas: “Hoje quero falar de uma nova vida que recebi. Era bêbado sempre; começava de manhã e terminava de manhã. Tentei várias vezes encontrar a morte: deitava no meio da estrada e acordava na valeta, pois alguém, por compaixão, me socorria. Há um ano, recebi o maior chamado após mais um grande porre: magoado com a vida, decidi deitar no meio da ponte, pois ali não teria valeta ou acostamento. Acordei numa pequena parte lateral da ponte. Então percebi que há pessoas que querem que eu viva. Decidi buscar ajuda e parar de beber. Levantei da morte e vivo uma nova vida”. b) Depoimento de Roberta Paredes Valin sobre a vida de Anita em 1925: “Olhando em perspectiva, Anita apropria-se de uma passagem bíblica para narrar em imagens o início do estágio conturbado, sua superação em todos os obstáculos pelos quais passou – um levantar-se rumo a uma nova vida, cujo efeito foi o começo de uma nova etapa para a sua produção artística. Para ela, somente a fé, especialmente a leitura do Evangelho de São João, conseguiu curá-la e dar-lhe fôlego novo para os anos que se seguiriam em Paris. Anita sintetiza em carta (...) e menciona justamente essa passagem (Jo 11.1-46) como sendo a fonte que a levou a ser curada. Logo a ideia de ressurreição presente na passagem bíblica e a ideia de cura vigente na fala de Anita Malfatti aproximam-se no espaço da criação. Nesse sentido, é possível enxergar na tela ‘Ressurreição de Lázaro’ um testemunho autobiográfico da artista do período em Paris”.

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5 Subsídios litúrgicos Champlin reproduz um poema de Alfred Lord Tennyson: Onde estiveste, irmão, naqueles quatro dias? Não há registro algum de uma resposta, A qual, dizendo o que significa morrer, Tenha adicionado louvor a louvor. De toda casa os vizinhos chegam, As ruas se enchem de ruídos alegres, Um solene júbilo chega mesmo a coroar As alturas purpurinas do monte das Oliveiras. Eis aqui um homem ressuscitado por Cristo! O resto continua sem revelação. Ele não disse; ou algo selou Os lábios daquele evangelista. (Tennyson, In Memoriam, parte XXXI). (Champlin, p. 476)

Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: Volume 2: Lucas, João. São Paulo: Hagnos, 2002. VALIN, Roberta Paredes. Cadernos-diários de Anita Malfatti – uma trajetória desenhada em Paris. 2015. Dissertação (Mestrado em Culturas e Identidades Brasileiras) – Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/31/31131/tde-01102015-174251/>. Acesso em: 2016-07-07. p. 89

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DOMINGO DE RAMOS

PRÉDICA: SALMO 118.1-2,19-29

09 ABR 2017

MATEUS 21.1-11 FILIPENSES 2.5-11

Humberto M. Gonçalves

Liturgia: misericórdia e bem comum

1 Introdução A tradição litúrgica do Domingo de Ramos apresenta-nos, no relato de Mateus (21.1-11), uma autêntica liturgia, isto é, “trabalho do povo”. Mas o que motiva o povo a fazer uma liturgia? Uma resposta lógica seria: “o bem comum”. Mas há outro tipo de trabalho do povo, chamado “trabalho forçado”, que hoje também poderíamos chamar de “trabalho escravo”. Esse não é para o bem comum, mas para beneficiar algumas pessoas, geralmente com grande poder, que obrigam, seja por pressão econômica ou política, outras pessoas a trabalhar. O relato bíblico faz questão de mostrar que se tratou de um trabalho alegre e espontâneo, certamente porque as pessoas reconheceram nesse galileu montado em um jumento alguém capaz de promover o bem comum. A igreja, olhando na perspectiva da cruz-ressurreição, viu nessa tradição a porta de entrada no processo da paixão de Cristo (daí o nome de Domingo da Paixão). As liturgias recomendavam a leitura de todos os acontecimentos, desde a entrada em Jerusalém até a paixão, manipulada pelos interesses de chefes religiosos. A leitura da Carta aos Filipenses é um dos primeiros hinos compostos a esse respeito, o hino do esvaziamento (kenosis), onde Jesus, sendo Deus e Rei, se faz “nada” por amor a todos e todas (Fp 2.5-11). Assim, está montada a tela em que podemos desenhar a poesia do salmo de ação de graças que é o texto de nossa pregação (Sl 118.1-2,19-129). Sempre lembrando que salmo é poesia, e a poesia, como disse Mario Quintana, é um “mistério evidente”. Que mistério evidente pode ser desenhado sobre a tradição do Domingo de Ramos, ou Domingo da Paixão, a partir do Salmo 118?

2 Exegese O Salmo 118 é também um hino litúrgico, feito para ser cantado em diálogo entre seu intérprete e um coro. Segundo Werner Schmidt (1994, p. 289), esse tipo de hino caracteriza-se pelo uso da partícula ki em hebraico, cujo sentido é “pois”. Assim, a partícula indica razão do louvor e/ou da ação de graças proposta pelo salmo para o povo que vivencia a liturgia. Essa partícula aparece logo no primeiro versículo (traduzido livremente do hebraico): “Aclamai a YHVH, pois é bom; pois para sempre é sua misericórdia!”. Há dois “pois” que indicam que YHVH (SENHOR, Javé) promove o bem comum através da sua bondade (em hebraico tov – também indica dar felicidade) e através da sua misericórdia (em hebraico hesed – que pode

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ser traduzido como solidariedade, lealdade, amizade, comprometimento, fidelidade, bondade, favor, benevolência e piedade). Quando Deus revela sua misericórdia, desperta o louvor litúrgico do seu povo. O povo busca o que Deus traz, e Deus traz o que as pessoas precisam. O nexo entre ambas é a partícula ki. Os primeiros três versículos do salmo – dos quais a seleção do lecionário resgata os primeiros dois – começam de forma muito parecida. O versículo 2 apresenta um imperativo, “diga!”, referindo-se à casa de Israel, e repete, como no v. 1, pois para sempre é sua misericórdia!. Apesar de algumas versões manterem “diga” nos v. 3 e 4, há uma mudança perceptível no hebraico: no versículo 3 usa-se o plural “digam!”. Esse plural aponta primeiro à casa de Arão e depois, mas genericamente, a “quem teme a YHVH”. Isso é o que chamamos “personalidade corporativa”, isto é, a “casa de Israel” como sinal da unidade de todo o povo de Deus. Já a casa de Arão é uma das partes que formam essa casa comum. Então podemos dizer que todo o povo é motivado para a liturgia da misericórdia de YHVH, e a casa de Arão é chamada a animar todas as pessoas que temem a Deus para participar dessa liturgia. A partícula ki desaparece dos outros versículos, aparecendo novamente no versículo 17. Assim podemos deduzir que, enquanto entre os versículos 4 e 16 desenvolve-se a motivação inicial e principal, que é a misericórdia, no versículo 17 essa misericórdia é complementada com outro importante aspecto motivador da liturgia. Diz o versículo 17: “Não morrerei, pois, viverei para proclamar as glórias de YHVH”. Vencer a morte, isto é, viver, é um excelente motivo, e só acontece pela manifestação da misericórdia de YHVH. Os versículos 18 a 20 desenvolvem essa motivação, vinculando a vitória sobre a morte à implantação da justiça (mencionada nos versículos 19 e 20). A misericórdia de YHVH é celebrada com a vida, e a vida é vitoriosa sobre a morte pela prática da justiça divina. Um novo ki apresenta-se no versículo 21, “pois tu respondes e vens para me salvar”. A misericórdia – isto é, solidariedade, lealdade, amizade, comprometimento, fidelidade, bondade, favor, benevolência e piedade – possibilita a vitória sobre a morte, promove a prática da justiça e revela a proximidade entre Deus e seu povo. Deus Próximo – que na profecia de Isaías foi chamado “Emanuel” (Is 7.14; 8.8) – torna-se a base, a “pedra angular”, de uma nova construção litúrgica, isto é, como trabalho do povo para o bem comum (v. 22). Nova, porque antes foi rejeitada por outros construtores. Assim toda a casa de adoração se torna bela, pois celebra e constrói com Deus o bem comum. No final, uma doxologia ou louvor. Os versículos 25 e 26 seriam aqueles citados em Mateus 21.9. Ali estaria a origem do termo aramaico “Hosana”, usado pelo povo na liturgia dos ramos. Ele se derivaria de hoshiy’ah – YHVH – aná – literalmente “seja o nome de YHVH salvo”. É um louvor que exalta o momento, daí o uso da interjeição ‘aná, que pode ser traduzida como ah! ou por favor. Os versículos 27 a 29, finalmente, chamam para a festa ou celebração, em hebraico hag. Realmente, a liturgia da misericórdia, quando as pessoas encontram em Deus o caminho da construção da misericórdia, é uma verdadeira festa. (v. 27). Depois mais um louvor (v. 28) e a repetição da antífona do v. 1 no versículo 29: “Aclamai a YHVH, pois é bom; pois para sempre é sua misericórdia!” Vamos celebrar!

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3 Mensagem O povo que estava na porta de Jerusalém no tempo da Páscoa – época em que afluíam para lá muitos peregrinos e peregrinas – deveria ser, em sua maioria, gente pobre. As pessoas mais ricas não ficavam na porta, apenas passavam por ela. Eram pessoas a caminho; e caminho é igual a esperança. Quem caminha é porque espera chegar. Quando Jesus aparece montado em um jumentinho, atrai para si essas esperanças e provoca uma liturgia com ramos e roupas, formando um tapete de esperança e alegre louvor de quem recebe alguém que traz boas-novas. Jesus é identificado com um rei com jeito de pobre, que no tempo do domínio helenista fora anunciado na profecia de Zacarias (Zc 9.9). Um rei sem tropas cercando-o, um profeta que reflete a bondade, a misericórdia, a justiça, abraçando e acolhendo as esperanças do povo. Essa gente da porta da cidade fez a liturgia de ramos sair de dentro dos seus sonhos, mesmo que ainda não compreendessem muito bem que tipo de rei era aquele. Ainda não sabiam o que seria a dor da cruz. Como Deus em Cristo mostraria seu amor incondicional. Ainda não sabiam que muitas pessoas seguidoras de Cristo crucificado/ressuscitado também dariam suas vidas pelo evangelho. Essas pessoas – como propõe o Salmo 118 – apenas deixaram a liturgia acontecer, celebrando a misericórdia (que se completa na cruz de Cristo), lembrada neste Domingo da Paixão. A porta de Jerusalém é, nesse momento, a porta da justiça (não apenas para Jesus, mas para todas as pessoas injustiçadas da história). A porta de Jerusalém evidencia o Messias pobre como expressão da proximidade entre Deus e seu povo e o começo de uma nova construção sobre uma nova pedra angular, antes rejeitada, como também lembraria o apóstolo Paulo (Ef 2.20) e mais adiante na Carta de Pedro (1Pe 2.6-7).

4 Imagens para a prédica A imagem principal é a liturgia como resposta à misericórdia de Deus no seu sentido mais amplo, como vimos aqui na exegese e mensagem. Mas o foco deve estar, mais do que no cerimonial – que pode e deve variar –, nas pessoas que fazem a liturgia ser liturgia. Isto é, a forma participativa expressada no Domingo de Ramos em que ninguém assiste passivamente, mas todas as pessoas fazem parte da ação que celebra o bem comum e a presença de Deus no meio do seu povo. A própria procissão de Ramos, de preferência iniciando fora da comunidade, e os ramos são as imagens principais desse dia. No entanto, nem a procissão nem os ramos devem estar no foco. O foco é a misericórdia de Deus expressa na cruz. O foco está em Cristo provocando isso em nós. A cruz, como muitas vezes já foi dito, tem duas dimensões: a vertical (que aponta para o alto, para as utopias divino-humanas e para a transcendência) e a horizontal (que aponta para as relações entre as pessoas e delas com toda a criação). Portanto é importante que, ao usar ramos e procissões, encontremos um momento para intercambiar ramos e/ou saudar-nos com a paz de Cristo.

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5 Subsídios litúrgicos Se quisermos olhar para o Domingo de Ramos pela ótica da misericórdia e do bem comum, podemos pensar em uma confissão. Mas para que não seja uma confissão igual às outras e se encaixe dentro da liturgia de Ramos e todo o seu simbolismo, propomos que seja feita durante a própria procissão ou que a procissão seja durante a confissão e absolvição de pecados, usando o Kyrie Eleison como fio condutor. 1ª parada da procissão (Com toda a comunidade dentro do templo segurando ramos/palmas, a cruz entra até a primeira fileira de bancos ou cadeiras.) Oficiante: Deus, Pai/Mãe de toda a humanidade, quantas vezes nos mostraste teu amor na criação, tua misericórdia na chamada de Israel para ser teu povo, tua vontade libertadora na palavra que disseste por meio de vozes proféticas e especialmente tua presença solidária no verbo feito carne, teu filho Jesus. Comunidade: No entanto, desrespeitamos, destruímos e abusamos da tua criação, esquecemos os valores de paz, justiça e solidariedade e desprezamos o sacrifício de teu filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em favor de todos e todas nós. Oficiante: Por isso dizemos (cantamos)... Senhor, tem piedade de nós; Cristo, tem piedade de nós; Senhor, tem piedade de nós. 2ª parada da procissão (A procissão para no meio da nave do templo ou na metade da distância entre a primeira parada e a mesa eucarística.) Oficiante: Senhor Jesus Cristo, tu entraste em Jerusalém, enfrentando a morte, a humilhação e a traição em um ato sublime de amor, doação e vida. Comunidade: Mas nós não queremos compartilhar nada, fechamo-nos em nossas vidas, isolamo-nos dentro de nossas famílias e afazeres e deixamos de ser pessoas solidárias. Oficiante: Por isso dizemos (cantamos)... Senhor, tem piedade de nós; Cristo, tem piedade de nós; Senhor, tem piedade de nós. 3ª parada da procissão (A procissão para na mesa eucarística.) Oficiante: Santo Espírito de Deus, procedente do Pai e do Filho, que é presença divina nos templos de nossos corpos, que nos vivificas, fortaleces e nos ensinas o caminho da misericórdia. Comunidade: No entanto, não deixamos que tu nos guies, fechamos os ouvidos para tua voz falando em nosso interior e para o clamor de irmãs e irmãos ao redor de nós; não praticamos a misericórdia que ensinas, mas seguimos nossos pensamentos egoístas.

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Oficiante: Por isso dizemos (cantamos)... Senhor, tem piedade de nós; Cristo, tem piedade de nós; Senhor, tem piedade de nós.

Bibliografia SCHMIDT, Werner. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994.

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PRÉDICA: MATEUS 26.36-56 ÊXODO 24.1-11 1 CORÍNTIOS 10.16-17

QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

13 ABR 2017

Emilio Voigt

Quando chegamos ao limite

1 Introdução O texto de prédica e as leituras possuem em comum o tema da aliança entre Deus e as pessoas, embora em Êxodo o pacto se restrinja ao povo de Israel. Em Mateus e em 1 Coríntios, a palavra aliança não aparece explicitamente, porém é pressuposta nas expressões cálice e sangue (Mt 26.28). No Novo Testamento, a aliança é ampliada e configura-se como possibilidade para toda a humanidade. O tema da aliança, contudo, não está no centro da perícope. Ela possui dois eixos específicos: o momento da oração de Jesus (36-46) e o momento de sua prisão (47-56). Cada um deles constitui uma unidade autônoma e poderia servir de base para pregações com ênfases distintas. Nesse sentido, vale a pena conferir as edições anteriores de Proclamar Libertação que abordam o texto.

2 Exegese V. 36 – Getsêmani (em hebraico: “prensa de óleo”) é uma área localizada no monte das Oliveiras. No v. 30, havia sido indicado que Jesus e seus discípulos foram para lá após a ceia da Páscoa. Nessa época do ano, havia grande número de pessoas em Jerusalém e não era incomum ir ao monte à noite. Excepcional é o sentimento de tristeza e angústia (ARA) ou tristeza e aflição (NTLH) que toma conta de Jesus. A palavra grega para o segundo termo é pouco usada no Novo Testamento e poderia também indicar uma sensação de medo. Em todo caso, a narrativa aponta para um momento dramático. V. 37-38 – Pedro, Tiago e João presenciaram o resplendor no monte da transfiguração (Mt 17.1-8), e agora o trio testemunha o pavor diante da morte que se aproxima. Jesus revela seu sofrimento com palavras dos Salmos 42.6,11 e 43.5 (LXX: 41.6,12; 42.5). A tradução “profundamente triste” talvez seja ainda fraca para representar a condição de Jesus. Nessa situação de choque e de extrema necessidade, ele pede o apoio dos três discípulos. Anteriormente, Pedro havia assegurado que o acompanharia até a morte. E todos os outros disseram a mesma coisa (26.35). V. 39 – Não é a primeira vez que Jesus se retira para orar sozinho (Mt 14.23). Prostrar o rosto em terra era uma forma de demonstrar reverência a Deus (Gn 17.3,17). A oração reflete a consciência do que está para vir: o cálice representa o sofrimento. Jesus reconhece ser esse um plano divino, mas perscruta a

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possibilidade de evitá-lo. Embora tenha anunciado que seria crucificado (26.2), pede que, se possível, não precise passar pelo martírio. Isso está de acordo com a tradição bíblica de que Deus pode mudar seus planos (2Rs 20.1-5; Jr 18.7-9; Jn 3.10). A vontade pessoal é ser poupado de sofrimento e morte. Entretanto Jesus se submeterá à primazia da vontade de Deus, conforme ensinou no Pai-nosso. V. 40-41 – Ao retornar da oração, Jesus encontra os discípulos dormindo. A repreensão dirigida a Pedro inclui os outros. Os discípulos não conseguiram colocar em prática o que foi requisitado no v. 38: vigiai comigo. Nesse contexto, “vigiar” significa estar no discipulado e tomar parte no sofrimento do mestre. Dormir significa, em termos coloquiais, deixar Jesus na mão. Os discípulos devem orar para não cair em tentação. Essa orientação está associada ao sexto pedido do Pai-nosso. Quem está no discipulado não está livre de tentações, mas precisa superá-las. Nesse sentido deve ser entendida a contraposição entre carne e espírito. Não se trata de uma divisão dualista da pessoa, mas do contraste entre a disposição para o seguimento e a dificuldade de sua efetivação. Aqui a tradução da NTLH ajuda a romper com o dualismo moderno. Os discípulos estavam com o espírito pronto, ou seja, estavam dispostos a permanecer com Jesus para o que der e vier (26.33,35). Na prática, não conseguiram sequer ficar acordados por uma hora. Teriam condições de encarar algo mais? O v. 56 mostrará o quanto a carne é fraca. V. 42-43 – A repetição da oração reforça a sujeição à vontade de Deus. O desejo de afastar de si o cálice não é mais mencionado, e Jesus ora exatamente como ensinou: Seja feita a tua vontade (Mt 6.10). Ao retornar, novamente encontra os discípulos dormindo. Dessa vez, não há uma reprimenda, nem mesmo se diz que eles acordaram, assim como pressupõe Marcos 14.40. A observação de que os olhos dos discípulos estavam pesados pode estar relacionada à fadiga de um longo dia ou ao momento de transtorno pelo qual passavam. V. 44-45 – Pela terceira vez, Jesus afasta-se para orar. A repetição aponta para a intensidade e a força da oração (2Co 12.8). Dessa vez, o evangelista apenas relata que Jesus orou com as mesmas palavras da prece anterior, indicando que ele superou o medo e está absolutamente decidido a assumir o plano divino. Essa disposição é manifestada na referência de que a hora já chegou. Pela terceira vez nesse capítulo é anunciado que o filho da humanidade será entregue (26.2,24,45). O termo “pecadores” pode ser um sinônimo para gentios, ou seja, para Pilatos e seus soldados. V. 46 – A indicação de que o traidor se aproxima prepara a nova cena. Embora pareça estranho, a ação de Judas faz parte do expediente divino. O traidor somente poderá demonstrar sua deslealdade porque isso representa a vontade de Deus e porque Jesus submeteu-se a ela. V. 47 – Judas chega acompanhado de uma tropa armada, enviada pelos principais sacerdotes e anciãos. A referência a espadas e porretes indica que guarnições romanas estavam envolvidas, uma vez que a polícia do templo não portava espadas. V. 48-49 – Para que a tropa soubesse quem deveria ser preso, Judas combinou identificá-lo com um beijo. A necessidade de identificação pode ser um in-

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dício de que o galileu Jesus não era suficientemente conhecido em Jerusalém. Ou ainda: na escuridão poderia ser confundido com outra pessoa. A saudação com beijo era costume entre pessoas próximas, especialmente entre familiares. O beijo era também manifestação de respeito diante de rabinos, reis ou outras pessoas importantes. Não sabemos se esse costume era praticado no círculo das pessoas próximas a Jesus, assim como foi nas comunidades pós-pascais (Rm 16.16; 1Co 16.20; 1Pe 5.14). Em todo caso, Judas fez mau uso de um gesto de reverência e pertencimento. A invocação “mestre” (Rabi) lembra o v. 25. No Evangelho de Mateus, somente Judas se dirige a Jesus com o termo Rabi, o que indica um certo distanciamento. V. 50 – A reação de Jesus não tem interpretação consensual. Ela pode ser entendida como pergunta ou como constatação. A comparação entre as versões ARA e NTLH evidencia as duas possibilidades. A tradução como constatação parece ser mais plausível: Jesus sabia por que Judas estava ali e, em tom de repreensão, diz: Para isto (para a traição) vieste! A expressão “amigo”, assim como em Mt 20.13 e 22.12, não caracteriza necessariamente amizade. Após a breve interação entre Jesus e Judas, a prisão é efetuada, mas a narrativa ainda não chegou a seu ápice. V. 51 – Numa demonstração da disposição de defender Jesus ou até de morrer por ele, um de seus adeptos acerta a orelha do servo do sumo sacerdote com uma espada. A cena é retratada pelos quatro evangelistas com algumas nuances. Em Lucas e João, o golpe ocorre antes de Jesus ser preso, enquanto em Marcos e Mateus isso acontece depois. Lucas e João noticiam que foi a orelha direita a sofrer o golpe. João diz ser Malco o nome do servo que teve a orelha amputada e define o agressor como sendo Simão Pedro. Em Mateus, o agressor é identificado como “um dos que estavam com Jesus”. Em Lucas, narra-se a cura do homem ferido. A utilização de espada para defesa pessoal era permitida inclusive em dia de sábado. Mas, se os discípulos não deveriam sequer ter um bastão (Mt 10.10), como explicar o porte de uma espada e o uso de violência? A resposta de Jesus amenizará esse paradoxo. V. 52-55 – Jesus não ofereceu resistência à prisão e reprovou a ofensiva de seu adepto, ordenando-lhe guardar a espada. A fundamentação inicia com uma sentença – os que lançam mão da espada à espada perecerão – que lembra Gênesis 9.6 e segue com uma pergunta retórica afirmando a soberania de Jesus. Se ele quisesse, poderia pedir ao pai doze legiões de anjos (em torno de 70.000) para ajudá-lo nesse momento. Jesus abdica dessa possibilidade, assim como já fizera em Mateus 4.5-7. Em obediência a Deus, não demonstra o seu poder nesse momento. Afinal, como as Escrituras poderiam cumprir-se se ele reivindicasse a proteção a que teria direito? V. 56-56 – Jesus dirige a palavra ao bando que veio prendê-lo, lembrando que pregava publicamente no templo (Mt 21.23) e não havia necessidade de uma tropa armada para capturá-lo. A cena termina com uma breve referência à fuga dos discípulos: todos fugiram. Essa atitude contrasta com a determinação expressa no v. 35, mas se compatibiliza com o enunciado do v. 31. Com o líder preso, o grupo desarticula-se.

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3 Meditação A primeira cena do Getsêmani representou uma grande dificuldade para grupos cristãos nos primeiros séculos. Jesus fora proclamado como Deus e vencedor sobre a morte. Mas como afirmar a divindade de Jesus com essa narrativa? Críticos do cristianismo perguntavam: Pode um Jesus amedrontado e angustiado com a possibilidade de crucificação ser considerado Deus? No próprio cristianismo havia vertentes que vislumbravam nesse texto uma indicação de que Jesus tinha apenas a natureza humana. Talvez por isso a tradição interpretativa na igreja antiga procurou limitar e relativizar o seu sofrimento. Somente a partir da Idade Média, quando a paixão de Jesus se torna elemento central na piedade cristã, o texto começa a despertar interesse novamente, também na arte sacra. A tradição da Reforma Protestante não vê dificuldades em reconhecer um Jesus frágil e temeroso no Getsêmani. Lutero, porém, destaca a intencionalidade, o pro nobis. Por nossa causa, ou seja, por carregar nossos pecados, Jesus estava nessa condição. Um Jesus fraco e temeroso não coaduna com teologias da glória e da prosperidade que infestam o cristianismo atualmente. Procura-se, a todo custo, associar a pessoa e a atividade de Jesus a esplendor e vitórias. Não há dúvida de que Jesus Cristo nos deu a vitória. Mas a vitória que recebemos é o triunfo do bem, a reconciliação com Deus e as pessoas. Não é conquista individual, orientada por padrões de prosperidade. O grande poder de Deus não se revelou em pompa, e sim na pobreza e morte atroz. Em Jesus Cristo, Deus faz-se presente na miséria, na fraqueza, na dor, no sofrimento. Deus não é somente força gloriosa, que a tudo subjuga, mas é também fraqueza e humilhação da cruz. Jesus havia ensinado: “Tudo o que pedirdes em oração, crendo recebereis” (Mt 21.22). Se ele não foi poupado da dor, teria ficado sem resposta a súplica “afasta de mim este cálice”? O complemento “seja feita a tua vontade” é a chave para entender a questão, pois deixa a critério de Deus decidir qual será a resposta. Aceitar a vontade divina quando ela está de acordo com os próprios desejos é agradável. Mas quão difícil é aceitar algo diferente daquilo que imaginamos ou esperamos. Essa parte da oração é um grande exercício de confiança. A disposição de Jesus para aceitar a vontade de Deus também coloca limites em teologias que pretendem ordenar que Deus faça isso ou aquilo. Nem tudo se pode atribuir à vontade divina. Há coisas que são de responsabilidade humana. Jesus foi crucificado porque a sua pregação e a sua ação incomodaram pessoas e grupos. Ao anunciar a proximidade do reino de Deus, Jesus atingiu interesses e perturbou a ordem estabelecida. Por isso foi preso, condenado e crucificado. A responsabilidade das forças políticas na morte de Jesus não pode ser omitida. Ainda assim, a vontade de Deus manifesta-se no fato de que Jesus assumiu sua morte como oportunidade de redenção para a humanidade. Não apenas Jesus, mas também seus discípulos estavam sob pressão naquele momento. Virtudes e defeitos precisam ser observados a partir dessa perspectiva. Sob que condições ou por quais motivos Judas traiu e delatou Jesus? Poderia ser que suas compreensões sobre o papel do messias não mais se compatibilizassem? Enquanto grupos estavam dispostos a lutar em guerra santa para libertar Israel, Jesus procla-

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mava a renúncia à violência. Talvez Judas estivesse mais próximo dos movimentos revolucionários e se tenha decepcionado com a atuação de Jesus. Também Pedro não esperava por um messias que pudesse sofrer (Mc 8.31-33). Muitas vezes, havia discrepância entre o que Jesus falava e aquilo que era compreendido e efetivado por quem que o ouvia. Em todo caso, chama a atenção que todos abandonaram Jesus no momento mais difícil. Possivelmente, a fuga foi motivada pela ânsia de salvar a própria vida. O que levou Judas a trair Jesus permanece um mistério. É fácil recriminá-lo, porém convém lembrar que o julgamento de seus atos cabe unicamente a Deus. Provavelmente estavam todos no limite de suas forças e convicções.

4 Indicações para a prédica O texto é longo e carregado de detalhes, que dificilmente podem ser tratados em uma única pregação. Os sentimentos de Jesus, a ação de Judas ou a reação dos discípulos diante da prisão são os tópicos normalmente abordados. Com enfoque na súplica de Jesus, é possível abordar o tema da prática da oração e sua importância para a vivência cristã. Foi justamente a oração que permitiu a Jesus superar a inquietação e o pavor. O medo e o desejo de ser poupado de sofrimento fazem parte da encarnação, da natureza humana que Jesus assumiu. A temática das duas naturezas pode ser um aspecto a ser desenvolvido. Outra possibilidade para a pregação seria analisar o papel dos diferentes personagens a partir de algumas perguntas: o que dizem, o que fazem, o que seria esperado, o que faríamos nós se lá estivéssemos, o que fazemos quando chegamos ao limite de nossas forças e convicções? Abaixo segue um panorama breve e parcial de ações dos personagens: Jesus: começou a entristecer-se e a angustiar-se (37), alma profundamente triste (38), vigiai comigo (38), passe de mim este cálice, mas não seja como eu quero (39), vigiai e orai (41), se não é possível passar este cálice, faça-se a tua vontade (42), orou pela terceira vez com as mesmas palavras (44), chegou a hora (45), o que tens a fazer, faze-o agora (50), guarde a espada (52), poderia rogar ao Pai para enviar doze legiões de anjos (52). Pedro, Tiago e João: achou-os dormindo (40), outra vez dormindo (43), ainda dormis e repousais (45). Judas: eis que chegou Judas (47), aquele a quem eu beijar, prendei-o (48), salve, Mestre! E o beijou (48), amigo, para isto vieste (50). Um dos que estavam com Jesus: sacou da espada e cortou a orelha do servo (51). Lideranças e seus enviados: grande turba com espadas e porretes (47), deitaram as mãos em Jesus e o prenderam (50), saístes com espadas e porretes para prender-me? (55). Todos os discípulos: Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram (56).

Bibliografia FIEDLER, Peter. Das Matthäusevangelium. Stuttgart: Kohlhammer, 2006. LUZ, Ulrich. Das Evangelium nach Matthäus (EKK, I/4). Düsseldorf, Zürich: Benziger, Neukirchener, 2002.

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SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

14 ABR 2017

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.(14-18)19-21 ISAÍAS 50.4-7 MATEUS 27.33-50

Roberto E. Zwetsch

A diaconia da reconciliação e a justiça de Deus

1 Introdução O texto previsto para a pregação nesta data central da fé cristã e da liturgia da igreja – Sexta-Feira da Paixão – é da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios 5.(14-18)19-21. Trata-se de um texto central da teologia de Paulo e, por isso mesmo, fundamental para a teologia cristã, que serve de base à mensagem que a comunidade de Cristo é chamada a anunciar ao mundo, às pessoas de todos os tempos e lugares. Por isso mesmo é um desafio encontrar a maneira apropriada de relacionar esse texto de Paulo com a narrativa da crucificação de Jesus, o justo, o Filho de Deus, segundo Mateus. Lendo e relendo o texto muitas vezes, fiquei convencido de que é necessário ler todo o conjunto de 5.14-21. Só assim se poderá anunciar sua mensagem com fidelidade. Minha impressão é que a perícope é tão densa, que mereceria várias pregações, tão rico se apresenta seu conteúdo, como quem conhece Paulo já se acostumou a considerar. Na impossibilidade de estender a pregação por algumas semanas, inevitavelmente a pregadora ou o pregador deverão fazer escolhas, ênfases que, em sua avaliação, devem ser consideradas em vista da situação da comunidade de fé e das pessoas que nela congregam e a partir da qual elas procuram viver sua fé nos dias de hoje. Paulo expõe um argumento teológico da mais alta importância e que diz respeito à vida ou à morte das pessoas, de todas as pessoas. Aqui Paulo elabora uma reflexão que tem a pretensão de explicar a caducidade deste mundo mau e injusto. Sem Cristo, não temos como nos libertar da morte, que nos persegue diariamente e contra a qual todas as nossas ações são fadadas ao fracasso. Há algum caminho que nos conduza a uma “nova vida”? Se este mundo caducou, há chance de uma “nova criação”? O velho Saulo pensava que sim, mas não conhecia Cristo, o Messias. Só depois de ser abalado pelo amor de Cristo, julgou tudo o que sabia como lixo, refugo, sem valor, “excremento” (Fp 3.8). O encontro com o Cristo de Deus mudou radicalmente sua visão do mundo e da vida. A experiência que ele denomina “o amor de Cristo” colocou toda a sua existência, sua compreensão de Deus e sua fé sob uma nova luz. É isso que está em questão aqui. Digo de forma polêmica: não se trata de “religião”, mas de “fé”, quer dizer, da confiança que liberta para uma vida de amor, misericórdia e justiça. E essa luz não brilha sem mais: ela tem preço, implica o confronto de forças terríveis que levam à morte ou à vida. E a vida a que Paulo se refere não é apenas uma experiência intimista e

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descontextualizada. Ela tem a ver com as outras pessoas, tem a ver com o mundo, para recorrer a um termo central no texto.

2 Exegese Para a finalidade deste auxílio homilético, precisamos ser concisos e escolher algumas informações que possam ser úteis para a compreensão do texto e ajudem a realçar o desafio que ele guarda para a vida de fé da comunidade. Assim vamos destacar o seguinte:  A Segunda Carta de Paulo aos Coríntios suscitou muita discussão porque ela reúne fragmentos de pelo menos três cartas de Paulo, posteriormente reunidas e colocadas num esquema mais ou menos coerente. É bem fácil conferir essa reconstrução, que em nada compromete seu rico conteúdo. Uma estrutura possível seria a seguinte: 1.1-11: introdução; 1.12-2.11: relato de viagem; 2.14-7.4: 1ª apologia de Paulo (defesa de seu ministério contra acusadores judaizantes); 7.5-16: continuação do relato de viagem; 8.1-9.15: duas vezes o tema é a coleta para a comunidade de Jerusalém; 10.1-12.13: 2ª apologia de Paulo; 12.14-13.1: parênese final. 13.12s: pós-escrito.  Por essa estrutura percebe-se que Paulo está envolto num debate muito forte com a comunidade de Corinto, possivelmente influenciada, na ausência do apóstolo, por outros “apóstolos” que questionam a fraqueza de Paulo, sua inconsistência, chegando a espalhar calúnias sobre ele. Esse embate de diferentes práticas evangelizadoras dá origem a uma carta (possivelmente perdida), chamada de “carta das lágrimas” (2.4). Paulo, porém, não recua. Ele desafia seus adversários e defende a justeza de seu ministério. A linguagem lembra a Primeira Carta aos Coríntios, mas tem diferenças que mostram sua capacidade de reelaborar sua mensagem em vista de problemas concretos e desafios novos. Ele questiona os “superapóstolos” (11.5; 12.11), polêmica que fica mais evidente nos capítulos 10-13.  Qual o critério para Paulo? Sua defesa tem como fundamento a cruz de Cristo. É a partir desse evento que se pode estabelecer o critério para avaliar o evangelho anunciado. O evangelho de Deus foi claramente anunciado na Primeira Carta aos Coríntios (1.18ss). Se ele parece encoberto, se Paulo parece não ter força e não apresenta “cartas de recomendação”, isso é assim para os que se perdem (4.3). O apóstolo reafirma: “Nós não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos por amor de Jesus” (4.4). Aqui temos uma informação importante: Paulo geralmente atuava em equipe, tinha muitos colaboradores e colaboradoras. Estudiosos dos seus escritos contam mais de 60 pessoas com quem Paulo trabalhou no anúncio do evangelho de Cristo e na formação de comunidades na Ásia Menor e na Europa. Destacar esse tipo de ministério compartilhado hoje é muito importante para reforçar a necessidade de trabalharmos de forma mais colaborativa e descentralizada, evitar personalismos e aproveitar melhor a diversidade de carismas e qualificações que sempre encontramos na comunidade de fé.  Paulo reage com firmeza, a tal ponto que o acusam de ser duro nas cartas quando está longe, mas fraco quando presente em pessoa (10.10). Mas também

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é suficientemente humilde para dizer que a comunidade é sua alegria, ela é sua carta de recomendação, principalmente quando as diferenças e mal-entendidos são explicados e superados (2.1ss). Além disso, ele escreve: “o tesouro nós o temos em vasos de barro”, e isso é assim “para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”. Em toda a carta e, de certo modo, nas comunidades cristãs dessa segunda parte do século 1, a questão do “poder” gradativamente vai se tornando central na formação da igreja de Deus, a ekklesia tou Theou. Paulo não se esquivou do tema, mas o colocou sob a luz da cruz e do amor de Cristo. Se existe algum poder no ministério, é o poder de Deus para que as pessoas sejam salvas. Não há qualquer possibilidade de um poder autocrático que poderia tornar-se fonte de privilégios eclesiásticos. No entanto, foi o que gradativamente aconteceu e se fortaleceu, a ponto de já no segundo século iniciar a separação entre ministério da igreja e laicato ou povo de Deus.  Nem mesmo a experiência carismática que Paulo conheceu muito bem (12.1ss) serve para justificar sua autoridade. É nessa carta que Paulo estabelece numa frase genial o que significa exercer o ministério cristão: ao ser acossado por uma doença que o debilita, sem, porém, impedi-lo de viajar e anunciar o evangelho, e mesmo quando perseguido, preso, padecendo sofrimentos de toda forma, ele descobre: “A minha graça te basta, diz Jesus, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. É esse apóstolo que, num texto antológico, apresenta o ministério da reconciliação, seu fundamento e tarefa. Quanto ao texto da pregação, gostaria de destacar o seguinte:  Sugiro a quem pregar sobre esse texto ler diversas traduções que tenha em casa. Faça uma comparação. Qual das traduções você sente pulsar mais forte? Use essa tradução para preparar sua meditação. É que Paulo escrevia com a mente e o coração. Era visceral, e isso transparece no texto, mesmo traduzido para o português. A melhor maneira de compreender a mensagem paulina é ir à veia do apóstolo, é chegar ao espírito que o fez formular frases que chegam até nós de forma novidadeira ou desgastada. A nós compete escolher qual o tom que vamos dar ao conhecimento de que ele fala e pelo qual aposta a vida.  Qual o tema da perícope? Sem dúvida é a dignidade do ministério que nos foi dado por Deus. Destaco aqui que a palavra “ministério” vem do latim ministerium, que traduz o grego diakonia. Pois é, nós transformamos essa palavra num ministério ao lado de outro. Precisamos dizer ao nosso povo que pastor ou pastora é, sim, diácono ou diácona da reconciliação, para ficarmos com Paulo (v. 18). Isso quer dizer que somos servidores de Deus para a reconciliação das pessoas com Deus. Esse é o nosso serviço. Claro que nos dedicamos a muitas outras tarefas na comunidade, mas essa é a principal.  O ponto de partida não é nossa formação teológica ou intelectual, ainda que essas ajudem muito. É antes “o amor de Cristo” (v. 14). Somos diáconos da reconciliação por causa do amor de Cristo. É ele que nos constrange, impulsiona, incentiva. É o amor que nos habilita em última instância. Temos de voltar sempre e cada vez a esse amor primeiro. E o povo percebe isso, não tem como nos iludir a esse respeito. Creio que, em meio às brigas comunitárias e debates ferrenhos, também os coríntios perceberam isso em Paulo.

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 Paulo então retoma um argumento conhecido e desdobra-o aqui. Cristo morreu na cruz, e a comunidade dos discípulos e discípulas entendeu: um morreu por todos, logo todos morreram com ele (v. 14). Esse argumento volta ao longo da perícope. Morte vicária. Alguns comentários enfatizam que Deus cobrou o preço do pecado entregando seu Filho à morte por nós. Penso que podemos interpretar diferentemente. Jesus tornou-se Cristo na morte injusta, e Deus o fez Senhor e Cristo ressuscitando-o da morte injusta. Ele fez de um caminho torto uma estrada nova, estrada da vida (cf. Gn 50.20). E nessa ação redentora ele nos tornou justos, aceitáveis, não levando em conta nossas transgressões (v. 19), nosso pecado, que nos faz morrer no absurdo.  Já vou incluindo a nós na história de Cristo. Paulo fá-lo igualmente. Não se trata apenas de um evento histórico do passado, embora ele seja datado sim. É que no drama de Jesus e do povo de Israel fomos incluídos numa obra misteriosa que nos permitiu redescobrir a “vida”, o sentido da vida. Cristo morreu por todos, para que as pessoas que vivem não vivam mais para si mesmas, mas para quem por elas morreu e ressuscitou (v. 15). É essa a troca feliz de que falou Lutero e que nos permitiu conhecer o Cristo/Messias escondido naquele Jesus justo e crucificado. Conhecer é verbo da maior importância para o povo hebreu. Quem ama uma mulher conhece-a profundamente, corpo, alma e espírito. Também conhecer Cristo é mais do que saber de sua história e da bondade e mansidão que o caracterizou. É estabelecer relação com ele, profunda, de coração, de vida verdadeira, de confiança mútua e entrega.  Tal conhecimento é por demais maravilhoso. É conhecimento que ultrapassa a erudição, é a experiência de tornar-se “nova criatura” (v. 17). A experiência da fé em Cristo é ser jogado na “nova criação”. O Deus criador oferece nova chance de vida, de modo que vencemos o egoísmo e a mesquinhez. Não vivemos mais para nós mesmos, mas para Cristo e – em Cristo – para as demais pessoas. O evangelho é força excêntrica, ele nos tira de nós mesmos. “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no (!) Filho de Deus, que me amou [...]” (Gl 2.20). As velhas coisas passaram. Tudo é novo, faz-se novo, rejuvenesce! Eis o evangelho, notícia boa e redentora. Nova de grande alegria, como canta Lucas.  Mais ainda. Tudo que diz respeito a essa troca feliz vem de Deus (v. 18). Isso Deus realizou em Cristo, por meio de Cristo, seu Filho amado. Mas Deus não olhou apenas para o nosso grupo, para gente piedosa. Sua obra vale para o mundo. É o mundo que Deus quis reconciliar consigo (Jo 3.16). Nada menos do que isso. A reconciliação é sua obra exclusiva, que nos livra do peso das transgressões, das contradições, das traições que praticamos dia a dia. Essa obra libertadora faz de nós nova criatura, a quem Deus, então, confia uma tarefa também grandiosa: a palavra da reconciliação. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (SBB, 2000) traduz reconciliação por tornar-nos de inimigos em amigos de Deus. Deus não quer inimigos, mas amigos. E por isso vem a nós. Outros textos do NT também usam essa palavra (Jo 15.13; Tg 1.8; Jesus em algumas parábolas; Ef 2.16 fala que a inimizade foi destruída na cruz). Ela pode servir como sinônimo para falarmos da diaconia da reconciliação: a tarefa de recriar laços de verdadeira

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e confiada amizade com Deus. Essa é a tarefa. Mas ela não para por aí. A nova relação com Deus abre nossos olhos, ouvidos, mãos e coração.  Paulo tira as consequências dessa ação de Deus em nosso favor. Ele diz que dessa forma Deus nos fez seus embaixadores. Será que algum dia já nos demos conta da força dessa palavra? Embaixador no sistema político é cargo de alto escalão. Poucas pessoas chegam lá. Na caminhada da fé cristã, porém, este é o chamamento: Deus quer fazer de cada pessoa cristã embaixadora da reconciliação, de modo que ela se torne mediadora para outras pessoas da nova relação com Deus. Por isso Paulo pede, implora, exorta seus amigos e amigas da comunidade de Corinto: “reconciliem-se com Deus”. Essa é a resposta. Uma vez que Deus veio a nós, também nós nos achegamos a ele como gente renovada e reconciliada (v. 20). E então saímos pelo mundo como gente que reconcilia, que cria novas amizades para Deus. Ênio R. Mueller escreveu que, ao nos fazer seus embaixadores em nossa realidade terrena, é como se ele mesmo estivesse agindo por nosso intermédio. Ao nos perdoar o pecado, reconciliou-nos com ele em Cristo, revestindo-nos com sua justiça. Por isso mesmo a cruz se torna parte de nós, como também a ressurreição.  Por fim, a frase mais carregada teologicamente: Cristo foi feito pecado por nós. É daí que vem o pro nobis da Reforma ou a troca feliz de Lutero. Houve uma inversão de papéis. Cristo assumiu nosso papel de gente pecadora, separada de Deus, ele que foi justo, para que nós nos voltássemos a Deus, fôssemos novamente gente de Deus. Mas o que significa isso? Vida piedosa, separada do mundo, avessa às responsabilidades que nossa vida terrena nos coloca diariamente? De jeito nenhum! Quem assim interpreta Paulo não o entendeu. Paulo sabe muito bem que o amor só se completa com a justiça transformadora que muda este mundo ao nos tornar novas criaturas. Por isso escreve: Deus fez de Cristo o nosso pecado para que nós fôssemos feitos justiça de Deus. Nada menos do que isso. É algo radical. Se não levarmos isso em conta, reduziremos o “amor de Cristo” a um exercício espiritual sem consequências. Ora, o amor de Cristo por nós teve um alto preço: a cruz. Seus seguidores e seguidoras não podem esperar menos do que isso se, de fato, cremos que fomos tornados justos em Cristo, se cremos que somos – hoje e aqui neste país injusto – justiça de Deus. Elsa Tamez fez a crítica de interpretações que reduziram a compreensão da justiça de Deus a uma experiência fora da história. Ela faz referência ao documento Kairós da África do Sul, no qual teólogos e teólogas daquele país afirmaram que seria “totalmente anticristão convidar à reconciliação e à paz antes de terem sido removidas as injustiças”. Não podemos separar a justiça de Deus da justiça entre os seres humanos, ainda que não sejam a mesma coisa. Distinguir, sim; separar, jamais.

3 Auxílios litúrgicos O texto começa com o amor de Cristo e termina afirmando que Deus nos fez – em Cristo – sua justiça. Um símbolo poderia ser o arco-íris. Numa ponta temos o amor de Cristo (e não o pote de ouro, como na lenda popular) e na outra a justiça de Deus. No meio, a diaconia da reconciliação, da nova amizade com

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Deus. Na pregação, poderíamos desenvolver a troca feliz, aproveitando esse arco em cujo centro está a obra amorosa de Cristo. Deus fê-lo pecado por nós para que nós fôssemos feitos justiça de Deus. Por isso lutamos pela justiça neste mundo como um exemplo da justiça que nos salva, redime, liberta, numa palavra, que faz de nós “novas criaturas”. 3. 1 – Sobre as leituras Isaías 50.4-7: O profeta descreve aquele que será conhecido como servo de Javé. Ele fala com uma língua que diz boa palavra, evangelho, às pessoas cansadas. Ele, de fato, ouve seu Deus, atende sua palavra libertadora e não a rejeita. Ainda que isso o coloque em perigo e diante de situação vergonhosa, ele não vacila. Levanta o rosto como se fosse de pedra e resiste aos adversários soberbos. Aliás, para enfrentar essa gente, ele convida a comunidade a assumir em conjunto esse enfrentamento: “apresentemo-nos juntos!” E Javé ajuda, sustenta, dá força. Por isso quem poderá condenar o servo de Javé? Contudo, quando o Messias vem, ele sofre, é condenado, torturado e, finalmente, morto na cruz. O justo toma o lugar dos injustos. O profeta anuncia o fim dos adversários: “a traça os comerá” (v. 9), mas antes é o servo de Deus que é sacrificado. O Segundo Testamento completa o Primeiro, convida e chama para uma nova vida, uma nova criação. Mateus 27.33-50: É o evangelho da Sexta-Feira da Paixão. O justo, o Filho de Deus, como depois reconhecem os soldados romanos, esse Jesus é condenado e crucificado num lugar maldito, o Gólgota, lugar da Caveira. A acusação é afixada na cruz: “Este Jesus, o Rei dos judeus”. Que rei fraco, sem qualquer poder visível, sem exército, sem defensores, um homem solitário e cercado por malfeitores, por escarnecedores, gozadores, gente sem qualquer sinal de piedade por um sofredor. Pior: invertem as palavras de Jesus ao cobrar dele que se salve: “salvou outros, a si mesmo não pode salvar-se” (v. 42). Vexame total. “Confiou em Deus; pois que este venha livrá-lo agora” (v. 43). O crucificado só consegue gritar as palavras conhecidas do Salmo 22: “Eli, Eli, lemá sabactâni. Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Terrível solidão. Aquele que confiou radicalmente em Deus e chamava-o de “Abba, Pai” está irremediavelmente só. Pode haver desgraça maior? O grito confunde os observadores obscenos que pensam estar o crucificado clamando por Eli. Mas Jesus continua a gritar e, por fim, entrega o espírito. Acabou. Não há mais o que fazer. Além dos soldados e seu chefe, só um pequeno grupo de mulheres fiéis, seguidoras de Jesus, fica por ali observando tudo, chorando muito, imagino eu, vendo o que fizeram com seu amado mestre. Os discípulos homens fogem nem são mencionados na cena do crime. A cruz é a crise maior naquele momento e ainda hoje. A cruz é o espelho que condena a comunidade que diz crer, mas foge, busca segurança, tem vergonha de seguir e servir a um profeta tão fraco. Entre a cruz e o que virá há uma lacuna, um vazio difícil de ser preenchido. Ontem e hoje. Prestemos atenção a esse vazio. Porque a terra treme quando Deus morre completamente só. O véu do templo rasga. A lei chega a seu limite. Só um ato de Deus pode reverter esse beco sem saída. Como Deus age? Isso a sexta-feira não explica. Ela só nos coloca o espelho para que tentemos caminhar com Jesus até a cruz e sintamos com ele e as mulheres fiéis

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o sem-sentido da morte de um justo. Só quem permanece com Jesus sob a cruz compreenderá o que vem por trás dela ou depois dela. Não é prudente ocultar o que aconteceu com Jesus, o justo, nessa sexta-feira de trevas e extrema crueldade.

Bibliografia BOOR, Werner de. Cartas aos Coríntios. Tradução Werner Fuchs. Curitiba: Esperança, 2004. (Comentário Esperança). BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento. História – Contexto – Teologia. Tradução Uwe Wegner. São Leopoldo: Sinodal, EST, 2009. MUELLER, Ênio R. Caminhos de reconciliação. A mensagem da Bíblia. Joinville: Grafar, 2010. TAMEZ, Elsa. Contra toda condenação. A justificação pela fé, partindo dos excluídos. Tradução Georges I. Maissiat. São Paulo: Paulus, 1995.

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PRÉDICA: MATEUS 28.1-10 JEREMIAS 31.1-6 COLOSSENSES 3.1-4

DOMINGO DA PÁSCOA

16 ABR 2017

Leonídio Gaede

1 Introdução Poderia alguém afirmar que a Páscoa é o lado glorioso da salvação de Deus. Que o Natal tem lá suas glórias com a luminosidade da estrela e dos anjos, mas ganha logo a contraposição de uma espécie de opção preferencial pelos pobres pastores do campo. Tem a gloriosa visita dos reis do Oriente, que passam pelo palácio e trazem ouro como presente, mas ganha logo a explicitação do terrível plano do rei contra o recém-nascido. Segundo esse jeito de pensar, a Páscoa seria finalmente a vitória definitiva de Deus. A ressurreição triunfal de Cristo sepultaria todas as experiências de cruz deste mundo, do qual Deus, em sua glória celestial, resgataria seu povo. Não. Não é isso que os textos bíblicos previstos para a celebração da Páscoa de 2017 anunciam. Páscoa não é para quem se sente ou quer se sentir na glória. Em Jeremias 31.2, lemos que “o povo que se livrou da espada logrou graça no deserto”. A graça lograda não é no céu. O milagre da Páscoa logra graça no deserto. É como o canto de Paulo e Silas enquanto estavam na prisão torturante (At 16) e não depois que saíram dela. A Páscoa é um futuro certo que atua no presente incerto. A Carta aos Colossenses, no outro texto previsto para a leitura, confirma essa linha de reflexão. Paulo diz: “Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (3.2). Essa orientação faz sentido se o pensar nas coisas de lá atua sobre o pensar nas coisas de cá. Se Paulo alerta os colossenses a não pensar nas coisas aqui da terra, é porque as coisas da terra existem e ameaçam tornar-se bússola que conduz ao abismo. A Páscoa não é, pois, fuga da cruz. Ela é a inexplicável força presente no processo de sua superação. E o processo de sua superação dá-se, obviamente, quando ela ainda não está superada. Se ela é essa força agora, quanto mais após! Não há comparação com a glória a ser revelada, diz Paulo em Romanos 8.18. O Evangelho de Mateus 28.1-10 é uma obra de arte que explica a ligação entre a cruz com o crucificado sobre a mesa do altar e a grande cruz vazia iluminada na parede dos fundos da igreja, atrás do altar.

2 Exegese V. 1a – Quando o sábado tinha passado, ao chegar o primeiro dia da semana. De acordo com a tradição judaica, o sábado termina ao pôr do sol, véspera de domingo para nós. Se as Marias esperaram o sábado passar, porque a lei lhes proibia a ação pretendida no dia do descanso, então deveriam ter ido ao túmulo ao anoitecer e não ao amanhecer. É assim que compreende, por exemplo, a versão

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popular do Novo Testamento Dios Habla Hoy das Sociedades Bíblicas Unidas. A palavra grega para falar do momento em que a ação acontece é ἐπιφωσκούσῃ – epifōscusē. Descreve o momento em que os raios de claridade se misturam com as trevas. As mulheres chegam ao túmulo quando há simultaneamente raios de luz e trevas. Com a fé cristã rima, porém, a vitória da luz sobre as trevas: é domingo, dia do Senhor. V. 1b – Vieram Maria Madalena e a outra Maria para verificar o túmulo. Podemos tematizar os dois verbos da frase. 1) As Marias foram ou vieram ao túmulo? Almeida diz que foram, e Lutero diz que vieram. A NTLH também usa o ponto de vista de outro ponto, não o do túmulo. O mesmo verbo é usado em Mateus 8.28 para mencionar os dois sujeitos endemoninhados que vieram ao encontro de Jesus, vindo dos túmulos. De novo a NTLH diz que eles foram ao encontro de Jesus. Diz, porém, que vinham do cemitério. Almeida prefere vieram-lhe ao encontro saindo dentre os sepulcros. Adotar uma perspectiva que protagoniza o Cristo, mesmo estando ele morto e sepultado, torna-se teologicamente significativo. Adotemos o ponto de vista (Standpunkt) do anjo: as mulheres não foram, mas vieram ao túmulo. 2) O segundo diz o que elas vieram fazer no túmulo. Falar em visitar (NTLH) cria a imagem do Dia dos Finados de hoje. O verbo grego não permite, em todos os casos, pensar num tipo de “andar à toa”. Diz-se que θεωρῆσαι – teōrēzai é usada para “expressar propósito” (Chave Linguística de F. Rienecker e C. Rogers). Prefiro, portanto, dizer que as mulheres vieram verificar o túmulo. V. 2 – E eis que houve um grande tremor de terra, pois o anjo do Senhor desceu do céu, chegou, revolveu a pedra e sentou-se nela. O tremor acontece porque o anjo desceu do céu e revolveu a pedra. Ele, porém, não instaura com isso o caos. O gesto de sentar-se sobre a pedra mostra domínio perfeito da situação, assim como Jesus tinha o domínio perfeito da situação quando acalmou a tempestade no mar. O anjo sentado na pedra (Mt 28.2) e Jesus na popa, dormindo no travesseiro (Mc 4.38), indica o mesmo: domínio da situação catastrófica e caótica. As palavras σεισμὸς μέγας – seismos megas, são as mesmas aqui em Mateus 28.2 e lá em Mateus 8.24. V. 3 – Sua feição era a do relâmpago e sua vestimenta branca como a neve. O tema é a percepção que se tem da presença do anjo. A palavra grega para falar disso (εἰδέα = eidea) é a mesma no texto que fala do que se percebeu quando Jesus foi batizado (Lc 3.22) e também no momento de sua transfiguração (Lc 9.29). Importa aqui o registro de uma coerência de relatos dessas percepções, o que as distingue do fenômeno humano de enxergar vultos e ouvir vozes, cujas causas podem ser surto psicótico ou infecções graves. Penso que devemos entender os relatos de experiências deslumbrantes com o sagrado como um fazer teologia na certeza da presença de Deus. A função da frase aqui não é pouca coisa: é transformar uma percepção de morte em percepção de vida. Há uma infinita distância entre a palidez de um corpo morto a reclamar a verificação das mulheres e a percepção que tiveram do anjo presença de Deus. V. 4 – Os guardas ficaram pálidos diante dele, paralisados de medo, como mortos. Almeida diz que os guardas “tremeram espavoridos”. Parece uma expressão mais próxima do original do que simplesmente dizer que “tremeram de

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medo”, como faz a versão da NTLH. A situação era mais grave do que tremer de medo. Por isso falar em pavor parece mais próximo. A questão é, porém, perceber a oposição entre o semblante do anjo e o semblante dos guardas. A distância entre o branco da neve e o branco da palidez é a distância entre a vida e a morte. O rosto de cera que as mulheres esperavam verificar no corpo do túmulo pulou para a cara corada dos guardas fortões. V. 5 – Mas o anjo, reagindo nessa situação, disse às mulheres: Não tenham medo; porque sei que estão procurando Jesus, que foi crucificado. O anjo, que na cena representa o oposto da morte, orienta as mulheres no sentido de não ser como os guardas, que na cena representam o oposto da vida. Podemos traduzir que o anjo reagiu na situação porque a palavra usada (ἀποκριθεὶς = apokritheis) tem a ver com resposta. Como não há pergunta, mas uma situação na qual o anjo toma a palavra, podemos entender a sua fala como uma reação naquela situação criada pela mistura dos “ingredientes”: guardas desmaiados, mulheres perplexas, túmulo vazio e o anjo em pessoa resplandecente. V. 6 – Ele não está aqui: ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde tinha sido deitado. O jogo de tempos verbais impressiona neste versículo. É um fazer teológico interessante. As afirmações são categóricas: “Ele não está aqui”: não há a mínima chance de encontrar Jesus entre os mortos. “Já ressuscitou”: embora nenhum morto possa ressuscitar, mas ser ressuscitado, aqui se opta pela forma ativa do verbo. É o protagonismo do Cristo. “Como tinha dito”: não há motivo para dúvidas ou espanto. Quem viveu o processo desde o princípio já sabia. “Venham ver”: é um imperativo. Faz parte ver o lugar onde o corpo estava. O ir ver é uma ordem do anjo (ἴδετε – idete). “Onde tinha sido colocado”: (ἔκειτο – ekeito). João 20.5-6 descreve com mais detalhes esse lugar. É como se existisse uma tradição a respeito do lugar do não. Não há como encontrar Jesus entre os mortos. V. 7 – E vão já, anunciem aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos e vai na frente de vocês para a Galileia, onde vocês poderão vê-lo. É isso, está dito. As mulheres não poderiam ter imaginado antes o tamanho daquela missão de ir verificar o túmulo. O texto bíblico dá plasticidade ao relato, criando a cena de uma espécie de momento pedagógico durante o qual a força dos guardas causadores de morte empalidece e a força de vida anunciada pelo anjo resplandece. Essa fabulosa inversão, que mata o matador e revive o anunciador de vida eterna, traz embutida a missão de ir e anunciar. A verificação das mulheres tem agora a direção invertida. A ordem é ir já e verificar Jesus longe do túmulo. V. 8 – E saíram já do túmulo, com medo e grande alegria, e foram correndo para anunciá-lo aos discípulos. A ordem de ir já é sucedida pelo saíram já do túmulo. A missão é assumida imediatamente, como que não havendo espaço para dúvidas e perguntas. Não se nega, porém, a existência do que poderia ser visto como oposição: a simultânea existência do medo e da alegria. Pode-se entendê-lo como reflexo da situação anterior do empalidecer e do resplandecer. Também podemos considerar a proximidade da alegria com a graça. A χαρᾶς μεγάλης (charas megalēs = grande alegria) é quem torna a missão possível no contexto do φόβου (fóbu = medo).

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V. 9 – E eis que Jesus veio ao encontro delas e disse: Graça a vocês! E elas foram a ele, abaixaram-se até o chão, abraçaram seus pés e o adoraram. Assumida pelas mulheres a missão de verificar o Cristo longe do túmulo, nessa inversão fabulosa de direção, a realidade ele não está aqui também se inverteu e Jesus passa a estar aqui. Elas agora podem cair a seus pés e adorá-lo. V. 10 – Então Jesus disse a elas: Não tenham medo! Vão e digam aos meus irmãos para eles irem até a Galileia, lá eles me verão. A graça agora vence definitivamente o medo. As mulheres passam a fazer com os irmãos de Jesus o que o anjo fez com elas. Assim, a fé na ressurreição é portadora do evangelho até os confins da terra (At 1.8).

3 Meditação A ressurreição é um tema da fé cristã. O bom período estabelecido pela igreja para celebrar, proclamar e ensinar esse tema mostra sua centralidade. Os cinquenta dias que seguem a Páscoa formavam, para a igreja dos primeiros séculos, um período propício para arraigar no coração dos neófitos e das neófitas a verdade da ressurreição. O fato de se tratar de um assunto de fé não permite, porém, um descuido com a boa articulação racional do tema. Mateus 28.1-10 é prova disso. A aurora de um novo tempo inicia com o raiar de um novo dia, ligado diretamente, sem o intervalo da noite escura, ao fim do sétimo dia de descanso. “O sol fulgente, resplandecente, com luz brilhante e confortante nos revigora, nos dá seu calor”, diz o hino 271 do HPD 1. A ressurreição é como o sol que vem. Não dá para parar. É proclamação, não conjetura. A causa perdida (assim), o Senhor morto, continua com um protagonismo às avessas. As mulheres vêm ao túmulo com seu gesto sem sentido (assim) de verificação do que já está verificado. Lá no túmulo, aliás, aqui no túmulo, dá-se o discernimento entre o que verdadeiramente é morte e vida. A poderosa força destruidora representada pelos guardas fica com cara de cera, empalidecida como a morte, diante do resplendor daquilo que era para ser o fim fúnebre. Como o próprio Jesus, dormindo no travesseiro, na popa do barco que afundava, o anjo senta na pedra irremovível agora removida após a tempestade do grande tremor. Como Jesus lá no barco, o anjo aqui reordena o caos. “Ele não está aqui” substitui “ele tinha sido colocado aqui”. Como contraposição ao “estar deitado”, o anúncio é: “Ele levantou!” Decorrentes disso são os imperativos: “venham ver”, “vão já”, “anunciem”.

4 Imagens para a prédica -IPassamos aquela noite em claro. Fizemos a fogueira às 20h e dali em diante, a cada hora par, reunimo-nos para a oração, às 22h, 24h, 02h, 04h e 06h. Às 07h, recepcionamos a comunidade para a Alvorada Pascal. A grande mesa na frente do altar foi sendo posta com comes e bebes que as pessoas iam trazendo

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para o café da manhã na igreja. Iniciado o culto com a comunidade, cantando diversos refrões de Aleluia, o grupo de jovens apresentou cenas da ressurreição de nosso Senhor. A tentativa de encenar a ressurreição inclui o desafio de representar o que é extraordinário, como tremor de terra, relâmpagos, aparições de anjo e do próprio Jesus ressurreto. Essa manifestação do surpreendente provoca manifestações no mundo ordinário, causando desmaios, medo, dúvida e alegria. Diferentemente dos “teatros de Natal”, que incluem quase sempre grandes textos a serem recitados de cor, resolvemos fazer o “teatro de Páscoa” com palavras próprias, como se estivéssemos contando trechos que nos chamaram a atenção na leitura das quatro histórias de ressurreição que lemos nos evangelhos. Valquíria e Viviani resolveram criar uma cena a partir do perfume: andavam pela rua conversando sobre o que lhes restava daquela amizade vivida com Jesus. Concluíram que nada mais podiam fazer a não ser comprar óleos e perfumes e embalsamar o corpo do amigo que estava posto lá no túmulo. Em nossa encenação, a porta da sacristia tinha sido transformada em entrada de túmulo. Com esse intento vinha agora a preocupação com a grande pedra fechando a entrada do túmulo, e as meninas dirigiram-se para lá. Moisés, um rapaz que não gosta de falar em público, dispôs-se a representar a grande pedra na entrada do túmulo. Ele segurava um enorme quadro encapado com papel pardo, escondendo-se atrás dele. Os fortões Marco Antônio e Lázaro resolveram representar os guardas que desmaiam, e a Camila, como no Natal, vestiu sua roupa de anjo novamente. Mateus e Josué resolveram representar os discípulos que receberam a notícia do túmulo vazio, notícia trazida pelas apavoradas Valquíria e Viviani. É claro, os homens não acreditaram na conversa das mulheres e foram conferir para eles mesmos constatarem a verdade. Finalmente, todos se reuniram para falar da novidade diante do altar, quando aparece Rafael, representando o ressurreto e dizendo: “Como vocês custam a acreditar no que dizem as Escrituras, que o Filho do Homem seria morto e ressuscitaria”. Todos gritam “Cristo vive!” e, de mãos dadas, desejam “Feliz Páscoa!” à comunidade, que rompe em palmas.

vazia.

- II Mostrar e falar a partir de uma cruz com o crucificado e uma outra cruz

5 Subsídios litúrgicos HPD 1 – 271.

Bibliografia GORGULHO, Frei Gilberto; ANDERSEN, Ana Flora. A Justiça dos Pobres, Mateus. São Paulo: Paulinas, 1981. 259 p. SCHIRLITZ-EGER. Griech.-Deutsch Wörterbuch zum Neuen Testament. 6. Aufl. Giessen: Emil Roth.

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2º DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: ATOS 2.14a,22-32

23 ABR 2017

SALMO 16 JOÃO 20.19-25

Eloir Enio Weber

A cruz de Cristo está e deve permanecer no centro

1 Introdução O tempo da Páscoa é recheado de imagens, sons, sentimentos e lembranças. Há uma espiritualidade própria que gira em torno dessa data festiva. Mal o Domingo da Páscoa ficou para trás, olhamos para frente e temos um longo caminho a seguir. É hora de olhar para o 2º Domingo da Páscoa. Os textos bíblicos previstos para este domingo reúnem uma boa harmonia e sequência temática lógica. O texto de pregação é uma antecipação dos acontecimentos posteriores à Páscoa. Trata-se de um recorte da narrativa do dia de Pentecostes. O texto está recortado de tal forma que traz uma parte da pregação de Pedro no dia em que os discípulos receberam o Espírito Santo. O tema que fica evidente nesse texto é a centralidade da pregação na pessoa de Jesus Cristo e no agir de Deus no evento da Páscoa. O texto do salmista tem sua importância temática à medida que recebe, no texto de Atos, um destaque. Pedro cita, em sua pregação, alguns versículos desse salmo. Os v. 25 a 28 do texto de pregação são uma citação do Salmo 16.8-11. A temática que o perpassa é a confiança em Deus, a alegria que isso representa na vida do salmista e a esperança/certeza da vida eterna. O texto do evangelho reporta-nos ao Domingo da Páscoa. Retrata o aparecimento de Jesus aos discípulos e a dificuldade de Tomé em crer na ressurreição. De fato, crer na ressurreição é crer em algo que não cabe dentro da lógica humana, no entanto é vida e paz para as pessoas que creem. Temos, portanto, esse conjunto de textos que nos guiarão nesse culto.

2 Exegese O livro de Atos dos Apóstolos, cuja autoria é atribuída a Lucas, traz uma narrativa muito rica e documental dos primeiros passos do cristianismo. Inicia com o relato da ascensão de Jesus Cristo, a vinda do Espírito Santo e traz ricos detalhes da atuação dos discípulos na criação de comunidades e do testemunho de cristãos. A atuação dos discípulos Pedro e Paulo merece, por parte do autor, um olhar e um enfoque especial. Em relação ao texto específico de pregação, é necessário dizer que se trata da primeira pregação na igreja cristã. Isso se aceitarmos a ideia de que a igreja teve

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seu início, sua data inaugural, no dia de Pentecostes. Se essa é, de fato, a primeira pregação, então Pedro já nos dá a letra sobre quais devem ser os rumos de todas as pregações cristãs: tudo precisa passar pelo crivo do evangelho de Jesus Cristo. Como luteranos, logo somos lembrados de que Lutero alicerçou todo o seu pensar teológico sobre esta base: Jesus Cristo, sua morte na cruz (teologia da cruz) e a ressurreição. A Bíblia explica a si mesma a partir do seu centro Jesus Cristo, tendo a cruz como evento central e fundante. A escolha desse texto como perícope para o 2º Domingo da Páscoa tem um significado bonito. Aproxima a festa da Páscoa e de Pentecostes. Aquele que morreu e ressuscitou, que havia prometido que não deixaria os discípulos sós, mas que enviaria o Auxiliador, cumpre a promessa na festa de Pentecostes. Celebrar, no contexto pascal, a primeira pregação da igreja cristã tem um sentido especial: aproximar e perpassar a história cristã (das próprias pessoas cristãs) com a mensagem da centralidade e do sentido da morte e ressurreição de Jesus Cristo. O texto não pode ser lido de forma separada, sem fazer relação com os acontecimentos dos dias que o antecedem e o próprio dia de Pentecostes. Os discípulos, que na Páscoa haviam passado por todo o drama da morte e foram confrontados com a ressurreição, tiveram que “reinventar” seu jeito de olhar para a própria vida e ressignificar seu papel como seguidores de um mestre que estava prestes a sair, de forma visível e palpável, de sua convivência diária. O texto do evangelho auxilia a perceber o quão difícil foi para eles assimilarem o acontecido. Quarenta dias depois acontece a ascensão. Para os discípulos, representa uma nova ruptura, mas esse período também mostra um amadurecimento para assumir a missão do mestre neste mundo, que não queria sua presença e cuja mensagem atrapalhava e questionava o jogo de poder da época. Há uma expressão popular que diz: “Quem te viu, quem te vê!”. Fazer uma relação entre os textos do evangelho e de Atos confronta-nos com os mesmos discípulos, no entanto muito diferentes. No texto de João, eles aparecem amedrontados, trancados em casa, refugiados e assustados. No texto de Atos, são outras pessoas. O período de “estágio” de quarenta dias foi mais valioso do que toda a caminhada de três anos? Creio que não! No entanto, levou-os a perceber de forma diferente os seus potenciais e encorajou-os a viver os princípios, valores e a mensagem do mestre de forma fidedigna, sem a “sombra” do mesmo. Teologicamente, acentuamos a mudança de postura dos discípulos na vinda do Espírito Santo. Esse acento é feito pelo próprio Cristo no contexto da última noite com eles, quando, depois da ceia, ele tomou um precioso tempo para o diálogo e para fazer a promessa da vinda do Espírito Santo. O contexto do recorte de hoje está exatamente posto nesse episódio. O recorte proposto para este domingo, num olhar superficial, poderia ser apresentado com uma introdução, três blocos temáticos, mais um versículo de escopo do que havia sido falado. a) Introdução – v. 14: está posto no recorte para localizar o ouvinte e dar autoria para a pregação que está por vir. b) V. 22-24 – Essa parte inicia com o endereço da mensagem: “homens – pessoas – de Israel”. Nesta parte, Pedro quer mostrar a seu público aquilo que

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Jesus fez (ações de Jesus – Ele é o verbo encarnado. Ele fez “maravilhas, prodígios e sinais”). Ele realizou isso “no meio de vós”: vocês viram e sentiram. Pedro não está inventando uma história; fala de experiência vivida no meio da vida cotidiana do povo. A morte de Jesus não aconteceu fora do horizonte de Deus (v. 23). A salvação dos seres humanos teve um alto preço, foi decisão e vontade de Deus. Não foi obra do acaso ou ato acidental fora dos planos amorosos de Deus. Nada foge aos cuidados dele. “Vocês o mataram”: mesmo que o evento estivesse no horizonte de Deus, há culpados, sim: “vocês (nós)”. A morte vicária de Jesus não nos isenta de culpa, aliás coloca nossa culpa no centro do evento e sempre de novo nos lembra que “foi pela nossa culpa e foi por nós”. Na teologia, culpa e perdão devem andar de mãos dadas. Nunca sozinhas: a culpa sem o perdão não faz jus ao amor de Deus e não aponta para a graça, enquanto o perdão sem a culpa não aponta nosso erro, nosso pecado, nossa condição humana. A morte e o sofrimento real de Jesus não podem ser retirados da teologia sob o risco de perdermos a essência do evangelho da graça. A teologia da cruz precisa estar no centro de nosso agir, refletir e ensinar. A partir da teologia da cruz, a temática da pregação é conduzida para o tema do agir máximo de Deus por nós, que ressuscitou Jesus diante da morte de cruz (v. 24). A morte de Jesus na cruz só tem sentido a partir da ressurreição. Vale a mesma máxima. Não dá para falar de uma e deixar a outra de lado. A cruz/morte sem a ressurreição relata mais uma morte igual a muitas outras, já a ressurreição sem a cruz/morte é glória sem sofrimento. Pedro aponta para o cerne da teologia cristã, o ponto a partir do qual a vinda do Espírito Santo ganha sentido e lugar existencial. c) V. 25-28 – Pedro dá um destaque ao Salmo 16, citando parte dele nessa pregação. Para exemplificar, ele faz uma relação da palavra do salmista (atribuída a Davi) com a pessoa de Jesus. Assim ele resgata a fé do Antigo Testamento e dá um novo significado à palavra da Escritura. O Salmo fala, inicialmente, da presença constante de Deus “diante de mim” e “à minha direita” (v. 25). Se quisermos vincular isso a Pentecostes, podemos lembrar a promessa de Jesus: “Não vou deixá-los sós, enviarei o Espírito da Verdade” (Jo 14) ou “Estarei com vocês até a consumação do século” (Mt 28). A presença constante de Deus traz alegria e louvor. Mas o mais importante é: “a minha carne há de repousar em esperança”. É a esperança de vida eterna, especialmente relacionada ao evento pascal e a Pentecostes. Esse Deus que foi adorado pelos antepassados, que é louvado pelo salmista, é o mesmo que agiu na morte e ressurreição de Jesus Cristo e que agora está agindo novamente ao enviar o Espírito Santo. Esse é, sem dúvida, o motivo da alegria e do júbilo do qual fala o salmista. Essa mesma alegria precisa permear as relações entre as pessoas que creem em Jesus. d) V. 29-31 – O tema segue na mesma linha, fazendo a vinculação da fé do AT com o novo (Jesus). Ao citar a vida, a fé, a morte e sepultura de Davi, Pedro está falando diretamente de um assunto que interessa a seus patrícios. A figura de destaque (Davi), cujo sucessor era esperado na figura de um rei guerreiro, mostra

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que a pregação precisa também falar para dentro da realidade e dos assuntos importantes da comunidade reunida. Mas Pedro não concorda simplesmente com a esperança popular. Ele dá um novo sentido ao citar a realidade da morte concreta de Davi, que não teve/tem poder de ressuscitar. Jesus, sim, ressuscitou. Jesus não é Davi. Ele é o Deus encarnado que venceu a morte. e) V. 32 – Chamo essa parte de escopo. Penso que o escopo não se comenta, ele é claro e autossuficiente para a compreensão: “Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas” (v. 32).

3 Meditação Cristo – o centro de tudo! Uma afirmação teológica fundamental. Defendi amplamente esse aspecto teológico na exegese, trazendo elementos dos três textos em destaque para este domingo. Fico, no entanto, um tanto quanto inquieto com essa afirmação. Como está sendo isso no dia a dia. Nas igrejas cristãs? Em nossa IECLB? Na sociedade, no dia a dia das pessoas, tanto daquelas que são cristãs, das que dizem ser e daquelas que se autodenominam ateias? Aliás, de forma assustadora está crescendo o número de pessoas fora da igreja. Por opção pessoal, por alguma mágoa no convívio comunitário, por entrar na onda, por não ver sentido, por simplesmente nunca ter tido a experiência comunitária. Enfim, motivos há muitos, nem sempre plausíveis. Há um filme chamado “Dogma”, que faz uma sátira/paródia a partir do desespero de ministros de igrejas históricas para manter o rebanho ou para ampliá-lo e para tornar a pregação mais simpática aos olhos do povo. No filme, um padre contrata uma empresa especializada em marketing para tornar a figura do Cristo morto na cruz, cheio de sangue, com expressão de sofrimento e dor, em uma figura mais simpática e leve. A empresa apresenta uma nova estátua com um novo Cristo: “Jesus Buddy” (Jesus amigo, parceiro, camarada – que permite, aprova e curte tudo). Trata-se de uma estátua na qual Jesus aparece sorrindo e piscando um olho, enquanto aponta para os fiéis com o dedo indicador de uma mão e mostra o polegar para cima com a outra mão (sinal de positivo – curtir). Talvez em muitos aspectos nós também nos identificamos com esse padre. Estamos sempre em busca de uma forma agradável de apresentar o evangelho e não “vender” uma imagem muito sofredora de Jesus. Desde 2015, tenho a oportunidade de atuar no pastorado escolar. Uma experiência incrível! A convivência com os alunos tem sido um aprendizado diário. Tenho encontros celebrativos semanais com todos os 1.700 alunos nas duas unidades do Colégio Sinodal. Esses momentos de celebração são muito desejados pela escola e pelos alunos. Percebo uma necessidade muito grande em relação à espiritualidade, mas não sinto a mesma busca por Jesus, o centro da teologia cristã – luterana. Essa percepção não é minha; já foi detectada como uma tendência na sociedade atual. No momento em que escrevo este estudo, estou em Córdoba/Argentina, acompanhando um grupo de estudantes brasileiros em intercâmbio. Estão sendo

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dias de muito convívio, pois ficamos hospedados em casas de famílias nos 14 dias de estadia. A casa na qual estou hospedado é composta por um multicolorido cultural. O pai é nascido argentino e viveu muitos anos nos EUA e Espanha – escritor e pesquisador. A mãe é de origem armênia, nascida no Líbano, cujos pais eram membros da Igreja Protestante da Armênia no Líbano, formou-se no Canadá, fez carreira como professora, escritora e conferencista nos EUA. A filha, nascida nos EUA, veio para a Argentina com sete anos, hoje tem 17. Todas as pessoas da família se dizem descrentes. A convivência com eles tem sido algo maravilhoso. As longas horas de convívio e diálogo são muito enriquecedoras. Perguntei para a mãe o que ela pensava sobre Jesus Cristo e como ela percebia a sua espiritualidade. A resposta dela tem um peso pela quantidade de lugares pelos quais já passou e viveu. Ela nos auxilia a perceber uma tendência da qual falei anteriormente. Vejamos a resposta: “Jesus era uma pessoa muito forte, corajosa e preocupada em auxiliar as pessoas da sua época e do seu povo a viver melhor. A pessoa que mais influenciou a história da humanidade. A minha espiritualidade vem daquilo que eu compreendo da vida a partir da forma como penso. Se há algo difícil, penso como posso superar isso da melhor forma, e se percebo que não há como resolver, sei que preciso conviver de forma saudável com a questão. Minha espiritualidade tem a ver com uma forma responsável de viver em relação aos outros. Sei que aquilo que faço influencia outras pessoas e por isso faço o melhor; isso é espiritualidade para mim.” Como você percebe essa questão no meio em que você vive? O que pensam as pessoas da sua comunidade, aquelas que vão ouvir sua mensagem no domingo? De que forma abordar a centralidade da teologia da cruz em um mundo no qual se quer evitar olhar para a dor do nosso Salvador? A reflexão traz, para mim, bem mais perguntas do que respostas. Desejo que possamos continuar com o coração, os olhos e os ouvidos abertos.

4 Imagens para a prédica Para a pregação, penso que não se pode deixar de recapitular a Páscoa, a espiritualidade própria da época e trazer à tona o assunto da centralidade de Cristo. As relações entre os três textos também não se pode deixar de lado. O texto do evangelho, que destaca a dificuldade em crer (de Tomé). A relação que os dois textos estabelecem entre as duas datas importantes do calendário: Páscoa e Pentecostes. Por fim, o resgate da fé do Antigo Testamento, que é estabelecido pelo pregador Pedro. Mas o tema central, a centralidade da pregação, da vida de fé, na pessoa (vida, morte e ressurreição) de Jesus Cristo precisa perpassar o todo dessa pregação e de todas as outras proferidas na igreja de Cristo. Poder-se-ia experimentar fazer a leitura do texto de Atos logo após a leitura do evangelho, em forma de pregação, sem avisar que se está lendo uma pregação

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de Pedro no dia de Pentecostes. Depois de lê-lo em forma de pregação, dizer que essa foi uma parte da primeira pregação feita na igreja cristã e seus reflexos para dentro da nossa realidade hoje. Algumas reflexões, especialmente no texto de exegese, podem ser úteis na prédica. Pode-se também utilizar a figura do “Jesus Buddy” (encontra-se essa imagem na internet) para o diálogo com a comunidade, fazendo uma relação com o Cristo da cruz.

5 Subsídios litúrgicos Que tal preparar o lugar da celebração confeccionando com os jovens da comunidade uma estátua de “Jesus Buddy”? (Pode-se fazer uma bela reflexão anterior na reunião do grupo de jovens.) E, a partir dela, iniciar a fala sobre a centralidade de Cristo, mas ao mesmo tempo a dificuldade que temos em colocar esse Cristo sofredor no centro da vida de fé.

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30 ABR 2017

PRÉDICA: 1 PEDRO 1.17-23 ATOS 2.14a,36-41 LUCAS 24.13-35

Manfredo Siegle

O amor dignifica Deus aceita-nos por amor, assim como somos. No entanto, Ele não nos deixa assim como somos. Cada pessoa tem o direito de ser transformada e de viver a novidade de vida. O amor e a graça de Deus dignificam o ser humano e dão sentido ao mundo.

1 O texto 1.1 – Contexto A perícope faz parte da primeira parte principal de 1 Pedro. O trecho em análise é emoldurado pela constatação da pertença ao povo de Deus. O enunciado é desenvolvido de modo especial nos capítulos 1.1s e em 2.1-10; vida renovada acontece como vida em renascimento. A carta inicia com o hino de louvor a Deus. Ele é protagonista da salvação. 1 Pedro 1.13-2.3 aponta para a relação entre salvação e santificação. Vida transformada por Deus é existência que supera a transitoriedade, fato característico da vida humana, assim 1 Pedro 1.23-25. Vida sob a promessa da salvação e vida renascida acontecem sob o poder da esperança (1Pe 1.3,13,21); é a esperança que remete ao Cristo crucificado e ressuscitado. À semelhança do apóstolo Paulo, o autor aplica o esquema hermenêutico e parte do indicativo da ação salvadora de Deus, relacionando-a ao imperativo ético dos leitores. O evangelho ouvido requer uma resposta coerente. 1.2 – A situação Na segunda metade do século I, provável tempo da redação das cartas de Pedro, as comunidades cristãs estão em fase de construção e buscam a integração e aceitação no contexto social. Nessa busca enfrentam isolamento, discriminação; desconfiança, alienação, difamação e animosidade fazem parte da realidade. Os membros das comunidades cristãs obedientes a Deus destoam como se fossem estranhos no ambiente em que vivem. No mundo antigo do cristianismo, a vida de fé mais parecia uma provocação. A “carta” tem um forte interesse em levar consolo aos círculos cristãos diante do rol de sofrimento, acusações e calúnias. Os destinatários vivem em meio a uma sociedade hostil e são motivados a agir como missionários-apologetas. As ações devem demonstrar comprometimento com o evangelho transformador de Jesus Cristo. Enquanto sofredores, os membros das comunidades vivenciam novas forças, sentem-se fortalecidos pelas marcas do sofrimento de Jesus Cristo, autor da fé e da esperança. Jesus é celebrado como

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exemplo para a vida de amor a Deus e ao próximo. O Cristo sofredor, pedra rejeitada, tornou-se “pedra angular”. “Deus a escolheu como pedra de grande valor” (1Pe 2.4-7). A perícope recebe o complemento e aprofundamento de dois outros textos: Atos 2.14a,36-47 e Lucas 24.13-35. O primeiro sublinha o fundamento e a vida da comunidade de Jerusalém após a primeira Páscoa, e o segundo conta a história dos discípulos a caminho de Emaús. Eles só entendem o evento da Páscoa à medida que seus olhos são abertos ao Cristo ressuscitado. 1.3 – Destinatários Os destinatários são identificados como forasteiros. São eles que integram o povo de Deus. A introdução da carta observa o modelo de carta conhecido no meio pagão e também em outros contextos do Novo Testamento. Os destinatários são apresentados como gente espalhada em várias províncias da Ásia Menor. A carta revela que a comunidade compõe-se, em sua maioria, de cristãos gentílicos. São pessoas recém-convertidas à fé cristã, gente não cristã de nascença. A situação dos destinatários poderia indicar perseguição e sofrimento. A vida atribulada que atormentava os destinatários recebe o impacto de uma nova luz, sinaliza esperança transformadora. Sua vivência passada fala em “fútil procedimento” (1.18), e as atitudes de então são questionadas por causa de um comportamento tachado de idolátrico (1.14; 2.25; 4.3). Historiadores antigos da era cristã (Policarpo e Eusébio) mencionam o escrito como documento conhecido e divulgado na Ásia Menor. 1.4 – Autoria O autor apresenta-se sob a identidade de Pedro; em grego, equivale a “pedra”. É sabido que o nome assim identificado tinha um efeito especial na comunidade cristã primitiva (Mt 16.18). O nome é vinculado ao título de honra “apóstolo”. A tradição neotestamentária concedeu um papel importante à pessoa de Pedro; assim ocorreu, por exemplo, no testemunho da ressurreição de Jesus (Mc 16.7; Lc 24.12; 1Co 15.5). Na Carta aos Gálatas, Pedro é apresentado como um dos três líderes da comunidade de Jerusalém (Gl 2.9). O escrito de 1 Pedro exerceu forte influência sobre as comunidades cristãs em razão de seu caráter poimênico. O eterno poder de Deus é sobremodo exaltado sendo “Pai e Criador”. Martim Lutero reportou-se à Epístola de Pedro de modo muito positivo. Afirmou tratar-se de “um dos mais nobres livros do Novo Testamento”, pois seu conteúdo é reto e “puro evangelho”. No comentário ao prólogo de 1 Pedro, Lutero observou: “A partir dela tu podes julgar todos os demais livros quanto a serem ou não evangelho”.

2 Exegese V. 17 – O que concretiza a relação com Deus é a “vida em temor”. Deus, que julga “com igualdade” (1.17), merece respeito e temor. Ele é o manancial da esperança, poder que determina o presente. Deus é identificado como Pai a ser invoca-

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do; a oração conduz os crentes à fonte de regeneração (1.3). O nome Pai expressa a proximidade relacional e inspira confiança nos filhos. A relação com Deus, que é Pai, preserva a fé de falsa segurança, faz prevalecer a lei do amor e conduz ao compromisso da prática. Em referência a Deus, que “julga com igualdade”, chama a atenção que cada qual é responsável por suas obras. O critério ético torna-se parâmetro para a entrada no Reino. A ênfase na obediência resulta em purificação da alma e compromete os cristãos no amor mútuo (1.22). A vivência da fé obediente corresponde à prática da piedade e traduz-se em regeneração e renascimento. V. 18 – Os cristãos foram “comprados” da “fútil existência”. O fútil procedimento herdado dos pais significava para o apóstolo Paulo escravidão do pecado. O resgate protagonizado por Deus sinaliza uma mudança de propriedade. As relações existenciais pré-cristãs caem por terra, considerando-as como tempo de escravidão. No Antigo Testamento, a exemplo do profeta Isaías 52.3, a alusão ao preço da compra da escravidão está presente. O resgate (v. 19) aconteceu não por intermédio de “coisas corruptíveis”, mas é consequência do sangue derramado por Jesus Cristo; o seu efeito é comparado ao sacrifício do Cordeiro veterotestamentário. Para que o resgate pudesse acontecer, foi necessário que Jesus doasse a sua vida. O v. 20 acentua que “por trás da morte de Jesus encontra-se a vontade do próprio Deus”. A notícia de que Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos fundamenta a fé e é fonte da esperança, poder transformador. Chegar à fé em Deus (v. 21) significa chegar à obediência para com a verdade. V. 22-25 – A vida amorosa sincera entre irmãos decorre da esperança em Jesus Cristo, o sacrificado e ressuscitado: “Agora que vocês já vivem um amor sincero, fraternal para com os irmãos na fé, amem, de fato, uns aos outros”. O amor entre irmãos não implica menosprezo daqueles que não pertencem à mesma comunhão. Em outra passagem (2.17), os cristãos são conclamados a “honrar todas as pessoas”. V. 23: A fundamentação do mandamento do amor ocorre em função da vida humana em renovação. A semente da qual os cristãos receberam sua nova vida não é corruptível, como aconteceu na vida anterior. A vivacidade e a criatividade da palavra de Deus são destacadas também pelo profeta Isaías (Is 40.6-8). É palavra com força criadora (Gn 1.20). É boa notícia dinâmica, que liberta da transitoriedade e da fútil existência; é palavra que dura para sempre. A palavra eterna é semente da qual renascemos. Ao falarmos da palavra que faz nascer, de novo poderíamos focar a força criadora inerente ao Batismo, dádiva de Deus. O v. 23 anuncia que o nascer de novo nesse contexto específico é presente da Palavra. É dádiva adquirida pela obediência à fé na palavra de Deus.

3 Meditação A Primeira Carta de Pedro é, sobretudo, um documento exortativo e consolador. A chave hermenêutica dá acesso à realidade de confronto vivenciada por círculos cristãos no início da história do cristianismo. A atmosfera é de hostilidade e serve como pano de fundo para os argumentos colocados. Aos leitores da “carta circular” são direcionadas palavras de consolo, de esperança. O anúncio

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convida à coerência de fé e à prática da piedade. Razão maior para a novidade de vida, para a qual os destinatários são chamados, fundamenta-se na lembrança do Cristo sacrificado e ressuscitado. Jesus, que trouxe vida em abundância, tornou-se a “pedra angular”. A vida sobrepujou a realidade da morte. Agora é preciso praticar a vida vitoriosa. Ele é o fundamento sólido para a casa que Deus está construindo com as pessoas da família cristã. A santidade de Deus (sejam santos como eu sou santo) serve de âncora para os imperativos e para as exortações aplicadas. Assim a fé e a esperança que vocês têm estão firmadas em Deus (v. 21). Vocês foram libertados pelo precioso sangue de Cristo (v. 19); pela viva e eterna palavra de Deus, nasceram de novo como filhos de um Pai que é imortal (v. 23). “O temor a Deus não se encontra em oposição a um relacionamento de confiança com Deus como Pai” (R. Feldmeier). Quem vive a esperança pascal foi colocado no novo caminho de vida. Pois vocês, pela viva e eterna palavra de Deus, nasceram de novo (v. 23). O texto, assim como o contexto estão repletos de imagens, metáforas, símbolos; a linguagem simbólica aplicada é notória. Se, por um lado, as imagens e metáforas permitem uma maior proximidade do texto, o uso da simbologia, por outro lado, pode dificultar a descoberta de acentos especiais aplicados na pregação. Escolhas entre os vários acentos são necessárias. O que esperam os ouvintes, no terceiro domingo depois da Páscoa, da pregação que faz referência à ação de Deus na Páscoa? Quem ouviu a mensagem pascal agora deve vivê-la no mundo que apresenta tantos sinais de morte. A força da morte está muito presente na situação brasileira. A vida está sob constante ameaça: o descuido com a saúde pública, a escola básica não recebe a devida atenção, o desemprego gera instabilidade na família, na sociedade, questões das terras, a política indígena continua sem solução e a prática da justiça apresenta sérias falhas. Aos olhos da fé obediente ao evangelho, a vida é pautada na ética do amor. Deus amou a sua criatura (Jo 3.16), anúncio fundamental para a salvação. A preocupação com a ética não pergunta prioritariamente o que é útil e bom para mim, mas amplia o horizonte em direção ao próximo e inclui toda a natureza, dentro da qual acontece a vida. Somam-se a isso as enormes desigualdades sociais e a realidade dos desencantos, frutos do egoísmo que aflige povos inteiros, gerando vida sem dignidade. Ainda que observada com estranheza pelo mundo que a cerca, disposta a nadar contra a correnteza do consumo, da luxúria e questione as leis que regem o mercado do lucro e do prazer, a comunidade cristã local não vive explicitamente a condição de comunidade perseguida. A vida acontece em meio à realidade do mundo, cujo cenário demonstra transformações rápidas e profundas. No mundo globalizado renasce o fundamentalismo, ameaçando a paz e espalhando medo e terror. Os arsenais de guerra evidenciam os frutos da tecnologia em favor da destruição, da morte e de inúmeros males. A complexidade nas relações de poder, os passos acelerados da intolerância, também religiosa, dificultam a coexistência na sociedade humana e geram confusão. A estratificação social, presente na realidade do mundo, cria compartimentos e distância entre “camarotes” caríssimos e “arquibancadas” comuns na sociedade. Um pensador crítico assim se manifesta: “O que está acontecendo nos últimos anos é a ‘camarotização’” do mundo. O abismo social é uma porta aberta

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à violência, à corrupção, ao ódio. O alimento para o ódio é consumido quando o ser humano não mais enxerga perspectivas para sua vida presente e futura. Vivemos um período de inquietação política e de crises profundas. Para onde segue o caminho, quem paga a conta? Ou o que o dinheiro não compra? O fenômeno da violência, os crimes hediondos, a barbárie da cultura do estupro, do tráfico, assim como a cultura da corrupção têm raízes profundas e minam o chão brasileiro. A liberdade que ultrapassa os limites tem consequência e manifesta desvios de conduta em busca de vantagens próprias em detrimento da justiça e do amor. Princípios éticos fundamentais, a liberdade com responsabilidade, valorizando a vida que favorece a convivência harmoniosa, são atropelados ou ignorados. São muitos os sinais de morte e de desesperança no dia a dia. Ouvintes da boa notícia do Cristo vivo são desafiados a fazer frente aos sinais da desgraça. Sua missão é semear esperança e construir pontes de reconciliação que aproximam e transformam, servir como instrumento da paz. A liberdade que Jesus conquistou e viveu impulsiona-nos a servir e amar... “Portanto estejam prontos e alertas” (v. 13). Assim é a exortação insistente face à nova vida oferecida às pessoas renascidas. É vida nova construída sobre a graça de Deus. E Jesus disse: “Vai e faze o mesmo” (Lc 10.37).

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Imagens para a prédica

Ser cristão no mundo acontece em via dupla. Por um lado, evoca o sentimento de ser pessoa estranha e contestada na sociedade; por outro lado, aplica-se à convicção de sermos pessoas aceitas por Deus por causa de sua generosidade e graça. O amor de Deus santifica-nos, e recebemos dele uma dignidade singular. Quando o texto fala de uma postura de vida anterior e de uma vida depois, poderíamos suspeitar de que uma antiga liturgia de Batismo tenha servido como fundamento e motivação. A vivência do discipulado pressupõe uma transformação profunda no conceito de humanidade. A fé cristã oferece-nos o presente do amor de Deus e da esperança que ultrapassa a existência humana. Em busca da espinha dorsal, visando à estruturação e à elaboração da prédica, sugiro partir de quatro pilares. Para tanto proponho os seguintes títulos: Mundo confuso – Cristo rejeitado – Deus cuida – Nossa missão. • O autor de 1 Pedro abre os olhos e, naturalmente, também os ouvidos para que se tornem transparentes e sensíveis à realidade do mundo no qual a comunidade cristã vive e convive. É neste mundo que as pessoas nos enxergam, onde somos avaliados e também questionados. O que dizer quando perguntados sobre a qualidade de nossas ofertas de valores e das convicções sendo frutos da fé? Como nos relacionamos na sociedade, qual é a visão de mundo? Muitas são as forças que nos dominam, inclusive a sensação de vivermos um futuro incerto. Adaptamo-nos ou sentimo-nos encorajados como voz profética, dispostos a vivenciar a vocação especial que nos identifica: ser sal da terra e luz do mundo? • Deus enxerga-nos com outros olhos. Seus olhares enxergam-nos através da pessoa de Jesus Cristo. E Cristo doou-se à humanidade para resgatar a imagem de Deus, um dom presente no ato criador. O autor da “carta circular”, 1 Pedro,

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quer abrir os nossos olhos. E eles precisam ser urgentemente abertos: estejam alerta, prestem atenção (v. 13)! Cristãos e cristãs não são melhores, mas diferentes no modo de confiar, pensar e agir, são diferentes na maneira de relacionar-se. Sentem-se livres para amar, servir e celebrar. As nossas ações sempre serão uma resposta de gratidão à maravilhosa graça de Deus. Quem se sabe amado por Deus assume uma responsabilidade social. Por isso o cristão fará frente aos desmandos vivenciados neste mundo. • Deus cuida do mundo que Ele tanto ama. É um amor incondicional. Deus faz uso de pessoas a seu serviço; capacita-as para que anunciem e pratiquem a sua palavra que concretiza o cuidado. Somos chamados à cooperação na missão de Deus. O serviço acontece em liberdade e em amor. Em tempos passados, os escravos e presos de guerra eram comprados com dinheiro. Cristãos, discípulos/ as de Jesus Cristo, foram “comprados”, libertados pelo precioso sangue de Jesus Cristo. Somos vocacionados a anunciar ao mundo o amor de Deus. Manifestamos gratidão quando pessoas se sentem animadas a integrar a família de fé, vivendo em comunidade. O cuidado brota das mãos de pessoas agradecidas. Pessoas cristãs não são moralmente melhores, mas se distinguem por nova mentalidade e por um novo Espírito. Tema da prédica: Deus é amor. Agora somos propriedade de Deus, de inestimável valor. Ele ofereceu ao mundo o presente mais precioso, Jesus Cristo, o crucificado e ressuscitado. Em decorrência, há liberdade para servir e repartir o amor com o próximo. Viver o exemplo de Jesus Cristo fará o mundo mais humano e mais fraterno.

5 Subsídios litúrgicos Oração do dia Senhor, fonte da vida, agradecemos-te pela revelação de teu filho Jesus Cristo. Ele anunciou e viveu a mensagem do perdão, da paz e da reconciliação sem medo. Faze com que dele aprendamos a perdoar as pessoas e dá-nos forças para resistir ao ódio. Concede-nos o poder do teu santo e bom Espírito, fonte de paz entre pessoas e povos. Abençoa este culto e a nossa comunhão. Amém. Kyrie e glória Ó Deus, observamos o tamanho e o peso das cargas que carregamos sobre os nossos ombros; padecemos sob as feridas que a vida nos traz. É tão difícil reconhecer as cargas e sentir o sofrimento de outras pessoas. Com facilidade se sobrepõem os falsos juízos e as atitudes de rancor. Dá-nos coragem para romper as falsas barreiras em relação a nós mesmos e em relação ao próximo. Kyrie... Jesus carregou o fardo de tantas pessoas, assumiu a culpa alheia; acima de tudo isso, ele viveu o espírito da reconciliação. Dessa maneira, ele rompeu o círculo vicioso da busca do direito próprio, que traz cegueira e violência. Felizes e agradecidos, louvamos a Deus cantando: ... Glória, glória...

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Intercessão Deus bondoso, reconhecemos no sofrimento e na morte de teu Filho o quanto tu nos amas. A tua graça estende-se e vai muito além de nossas falhas e também de nossa covardia. Tu nos garantes o espaço necessário para enxergar a vida como ela é de verdade. Descobrimos os nossos limites e também as nossas possibilidades de fazer frente aos sinais do poder da morte. Ó Deus, lembramos nesta oportunidade das pessoas que machucamos com palavras a ações, gente que contava conosco e que de nós precisava. Em vez de auxiliar, marcar presença, abandonamo-los. Dá-nos coragem para pedir perdão e ajuda-nos a aprender dos fracassos. Dispõe-nos ao diálogo, que aproxima e edifica pontes de reconciliação. Concede que os corações humanos não sejam petrificados. Assumimos culpa diante de outras pessoas e também diante da natureza. Carecemos, Senhor, do teu auxílio, do teu bom Espírito para resgatar o bom sentido na vida. Tua palavra é necessária e atual, pois ela nos anima, exorta, transforma. Dá-nos da tua misericórdia para que novos inícios de vida e de convivência sejam possíveis. Em nome do teu Filho amado e nosso Salvador. Amém.

Bibliografia BUCHWEITZ, Wilfried. Meditação sobre 1Pe 1.17-22. In: Proclamar Libertação, vol. XVIII. S. Leopoldo: Editora Sinodal, 1992. FELDMEIER, Reinhard. A Primeira Carta de Pedro. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2009. SCHLÜTER, Ulf. Der Brief des Petrus 2,2-10, in: Gottesdienst Praxis Bd 3. Gütersloh, 2002.

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PRÉDICA: JOÃO 10.1-10 SALMO 23 1 PEDRO 2.19-25

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07 MAIO 2017

Anelise Lengler Abentroth

Eu sou o verdadeiro pastor que leva à vida

1 Introdução Chama a atenção a indicação do texto para a pregação deste domingo, já que, normalmente, incluem-se os v. 11-18, onde Jesus diz: “Eu sou o bom pastor”. Em nossa delimitação aparecem apenas “Jesus, o verdadeiro pastor” e “Jesus, a porteira (a porta do aprisco)”. Nos evangelhos sinóticos, temos mais de quarenta parábolas, mas nenhuma delas aparece no Evangelho de João. E as duas que normalmente chamamos de parábolas são, na verdade, alegorias exclusivas do Quarto Evangelho: a do bom pastor (10.1-18) e a da videira (15.1-17). Temos aqui um exemplo de como foi escrito esse evangelho. O longo discurso sobre o bom pastor é como tijolos que foram colocados numa parede já pronta. Ela ficou mais forte e resistente, mas cada tijolo contém seu específico. Esse pastor verdadeiro, essa porteira do aprisco quer possibilitar o acesso ao verdadeiro pastor do povo: o próprio Deus. Assim está descrito no Salmo 23, texto de leitura complementar. Ele nos faz descansar em pastos verdes (alimento) e águas tranquilas (segurança). Ele guia seu povo pelo caminho da justiça, mesmo por sombras da morte e vales escuros. Em sua presença e companhia há vida, há dignidade, fartura, comunhão, alegria. Jesus é a porta, é o verdadeiro e bom pastor, é o cordeiro que levou sobre si nosso pecado na cruz, para que vivêssemos uma vida em retidão e justiça. O autor remete-nos à esperança do povo de Deus contida em Isaías 53.1-6. Seus ferimentos nos sararam. De ovelhas perdidas fomos trazidos/as de volta para seguir nosso pastor. E é ele quem orienta nossas escolhas para uma vida com sentido e íntegra.

2 Exegese Situemos a comunidade joanina em seu contexto. A partir dos anos 30 a 50 d.C., há a imposição do culto ao imperador, a “paz romana”. As comunidades cristãs da Galileia, Samaria e Judeia eram perseguidas, e as lideranças apostólicas, mortas. Dois grupos estão na origem da comunidade: judeus da Galileia, seguidores de João Batista, e judeus fiéis às tradições judaicas. Provavelmente, após a ressurreição de Jesus, as pessoas começaram a congregar-se em comunidade ao redor do discípulo amado, uma figura-chave para

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elas, pois lhes transmitia seu testemunho sobre Jesus. Esse testemunho marca o início da formação do Evangelho de João (tradição oral). Com a expansão missionária pelo Império Romano, intensificam-se as perseguições, mas a vontade de anunciar o evangelho levou os cristãos para fora da Palestina: passagem para o Ocidente, para uma cultura urbana, comunidades organizadas ao redor da casa (oikos). Percebem-se tensões entre cristãos vindos do judaísmo e os novos vindos de outras etnias e culturas. Dois grupos integram e são acolhidos na comunidade: Jo 4.39-42: samaritanos e Jo 7. 5; 12.20-22: gentios (não judeus). Aos poucos, parte da pregação oral foi sendo colocada por escrito para uso na catequese ou na liturgia. Dos anos 80-100 d.C. há a dominação dos imperadores Domiciano (81-96 d.C.), Nerva (96-98 d.C.) e Trajano (98-117 d.C.). Domiciano atribuiu a si mesmo títulos divinos, exigindo culto à sua pessoa. Fazia-se chamar de “Senhor” e “Deus”. As perseguições aos cristãos foram desencadeadas porque esses se negavam a prestar culto ao imperador (Ap 6.9; 7.14). Ele emitiu um decreto contra as comunidades cristãs, considerando sua religião como ilícita. Em torno de 85 d.C., o judaísmo reorganiza-se em Jâmnia e nasce o farisaísmo rabínico: um judaísmo sem templo sob a liderança dos fariseus e escribas. Esses decidem expulsar das sinagogas os judeus que aderiram a Jesus como Messias esperado por Israel. Os fariseus reorganizaram a religião judaica a partir do culto da sinagoga, gerando conflitos com as comunidades cristãs joaninas. O conflito com a autoridade dos judeus provoca uma releitura das palavras de Jesus. Esse conflito influi na transmissão das palavras de Jesus e na formação do evangelho. Por isso as expressões: “a Páscoa dos judeus” (Jo 2.13); “a festa dos judeus” (Jo 5.1); “a purificação dos judeus” (Jo 2.6); “vossa lei” (Jo 8.17); “vossos pais” ( Jo 6.49). O Evangelho de João apresenta uma costura de dois livros, o Livro dos Sinais e o Livro da Glorificação, que foram ligados através das reflexões e informações contidas no capítulo 12 (Jo 11.55-12.50). Acrescido de um prólogo (Jo 1.1-18) e o apêndice (Jo 21.1-25). Alguns estudiosos concluem que a redação final foi realizada por volta do ano 100 na cidade de Éfeso, Ásia Menor. Nosso texto, portanto, está inserido no “Livro dos Sinais”. Sinais (= semeion) é um termo peculiar ao Quarto Evangelho, que narra alguns sinais realizados por Jesus que se tornaram significativos para a história da comunidade. As ações de Jesus não são chamadas de milagres, pois o milagre é feito para encantar as pessoas e satisfazê-las em suas buscas, mas o sinal é uma indicação para o engajamento das pessoas na missão de Jesus. Jesus não veio para ser admirado, mas para ser seguido em seu testemunho e em sua missão. A situação de perseguição levou a comunidade joanina a usar uma linguagem simbólica, mas que lhe era familiar, com imagens tiradas do cotidiano, da tradição judaica e do momento presente. Imediatamente antes do texto, Jesus está se referindo à cegueira espiritual dos fariseus. A conclusão dessa discussão vai aparecer em João 10.19-21. Portanto o discurso sobre o pastor verdadeiro, a porta, o bom pastor foi inserido aqui para tirar esse tipo de cegueira.

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O “eu sou” introduz sete discursos de Jesus: desde “eu sou o pão da vida” (6.34-48) até “eu sou a videira verdadeira” (15.1-5). Nosso texto encontra-se nesse contexto. Nessas afirmações “eu sou”, Jesus autoapresenta-se com o mesmo nome de Javé: “eu sou” (cf. Êx 3.14). É uma resposta à inquietante pergunta feita pelos contemporâneos de Jesus, tanto discípulos como fariseus e o povo judeu nos capítulos 8 e 9: “Quem és tu?”. Para responder essa questão e, ao mesmo tempo, revelar a profunda identidade entre ele e o Pai, Jesus repete a expressão, mostrando o verdadeiro rosto de Deus. Na Palestina, a cultura de criação de cabras e ovelhas garantia a sobrevivência do povo. As imagens usadas por Jesus fazem parte do cotidiano da comunidade. A imagem do pastor indica a função de quem guia, governa, cuida, mostra o caminho e guarda dos perigos. Já os profetas criticavam os reis por cuidar mal dos seus rebanhos, do povo, a ponto de serem levados ao cativeiro. A partir daí surge a esperança de que venha o verdadeiro pastor e que o povo saiba reconhecer sua voz: o Messias. Jesus realiza essa esperança e apresenta-se como o pastor verdadeiro, diferente dos que vêm para roubar o povo. Nos evangelhos sinóticos, a expressão preferida de Jesus para referir-se à sua missão é o anúncio do reino de Deus. Em João, a expressão preferida é vida eterna, vida em abundância ou simplesmente vida. Por isso crer em Jesus é o verbo-chave, empregado 98 vezes (nove vezes nas epístolas). O objetivo é mostrar que o ato de crer é algo dinâmico, é adesão à pessoa e ao projeto de vida de Jesus, tendo uma prática consequente, manifesta por seus sinais.

3 Meditação Jesus inicia o discurso de João 10.1-10 com a comparação entre o verdadeiro pastor que entra pela porta (porteira) e os ladrões e assaltantes que não entram pela porteira, mas pulam o muro. Para entender essa comparação, temos que lembrar que, naquele tempo, pastores cuidavam dos rebanhos o dia todo. Quando a noite chegava, levavam as ovelhas para um curral comunitário, protegido por muros contra ladrões e perigos. Todos os pastores da mesma região levavam para lá os seus rebanhos. Um porteiro tomava conta durante a noite. No dia seguinte, o pastor chegava, batia palmas na porteira e o porteiro abria. Então o pastor entrava e chamava as ovelhas. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor e saíam com ele para a pastagem. Acontecia, de vez em quando, que ladrões entravam por atalhos, derrubando o muro, feito de pedras amontoadas, e roubavam ovelhas. Eles não entravam pela porteira, pois havia o porteiro tomando conta. Nessa comparação, Jesus está relacionando a figura do pastor com a função de quem lidera ou governa o povo. Os profetas criticavam os reis por ser maus pastores, que não cuidavam dos seus rebanhos. No contexto das comunidades joaninas, podemos afirmar que a comparação também inclui os governantes, especialmente quando eles se autodenominam “Deus” e “Senhor” e, ao invés de cuidarem das necessidades do povo, exploram, perseguem e agem em benefício próprio. Porém a comparação também se estende às lideranças judaicas, que por meio dos preceitos e leis excluem, intimidam e matam, especialmente, gentios, mulheres, doentes,

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samaritanos, pobres e demais grupos que não se alinhavam às suas normas. Jesus chama essas lideranças de “estranhos”, pois o rebanho ouve sua voz, mas não a reconhece, pois esses não as conhecem nem as chamam pelo nome. Diante de tantas frustrações sofridas com os desmandos dos “ladrões e assaltantes”, aparece a comparação com o verdadeiro pastor, que é o próprio Deus (Sl 23). Jesus é o verdadeiro pastor. Ele conhece as ovelhas pelo nome, e elas reconhecem sua voz. Creio que aí está o centro: na hierarquia e no poder instituído há roubo, enganação, violência e morte. A proposta de Jesus, compreendida pelas comunidades, é outra. O curral é espaço comunitário, coletivo e seguro. As comunidades joaninas eram comunidades abertas, tolerantes e ecumênicas. Reuniam pessoas de diferentes grupos, culturas e mentalidades: judeus, galileus, samaritanos, estrangeiros, doentes, pobres, ricos, mulheres e homens, chamados a viver a nova aliança, baseada no amor e na solidariedade. Eram comunidades de periferia, sem poder, marginalizadas e excluídas do sistema. Mas experimentam o amor de Deus que se revelou em Jesus de Nazaré. “Amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, que vocês se amem uns aos outros!” (13.34). O amor era a única lei. A vivência do amor como sinal do discipulado de Jesus. O verbo agapein aparece 67 vezes em João. Isso mostra que ser cristão é amar com gratuidade, sem esperar ou exigir algo em troca; sentir a presença viva de Jesus no Espírito enviado pelo Pai. Essa é a autoridade nas comunidades. Por isso não se permitia que suas comunidades se hierarquizassem (ou, pelo menos, esse era o princípio). O perigo de que ladrões e assaltantes venham para roubar as ovelhas sempre há. Mas o desejo é que elas, agora, ouçam e reconheçam a voz do verdadeiro pastor. Então Jesus diz: “Eu sou a porta... Os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes...”. Aqui ele está se referindo aos líderes religiosos que arrastavam o povo atrás de si, mas não respondiam às esperanças por vida que eles tinham. Entrar pela porteira é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para discernir é a defesa da vida e vida plena, vida abundante. Tarefa da comunidade cristã é colocar em prática o sonho de Jesus: garantir vida e vida em abundância para todos, sem exclusão de ninguém, sem um poder hierarquizado que busca manter a si próprio e seus interesses, e sim baseado na lei do amor. Somos chamados/as a organizar nosso modo de ser e de viver de acordo com os princípios que o pastor verdadeiro Jesus ensinou: uma comunidade de diferentes, mas iguais em valor, dignidade e cuidados. Será isso possível? Reconhecemos a voz do pastor verdadeiro? Passamos pela porta? Ou deixamo-nos roubar e assaltar por propostas diferentes?

4 Imagens para a prédica 1) Se for possível o recurso de audiovisual, um vídeo mostra como as ovelhas se comportam ao chamado de diferentes vozes. Elas só reagem à voz conhecida: <https://www.youtube.com/watch?v=vbdAefpziro>.

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2) Pode-se abordar as diferentes teologias trazidas pelas diferentes autoridades religiosas nos cultos e missas em nossos dias. Há aquelas que dão sustentação ao sistema vigente à medida que Deus precisa me abençoar com bens materiais, pois a “vida em abundância” é a capacidade de possuir riquezas. O desejo humano passa por aí. Desejamos ter especialmente o que os outros têm. Nos tempos passados, a moral e a religião davam limites claros a esses desejos através das normas socialmente aceitas e leis de cada cultura. Hoje, “o céu é o limite”. Ou seja, não há limites... e tudo pode na medida em que “eu” quero, sonho, mereço, almejo... O sistema vigente promete realizar todos os desejos, e a religião da prosperidade também, pois Deus “tem que me ouvir”. Nesse contexto, onde está a voz do pastor verdadeiro? Qual a porta para pastos verdes e águas tranquilas? Primeiramente, precisamos ser lembrados de que nada é infinito: nem o planeta, nem os recursos naturais, nem as riquezas, nem os seres viventes. Tudo é limitado. E necessita de limites, de cuidados. Jung Mo Sung disse, numa entrevista concedida na EST, que o papel das igrejas cristãs (que ouvem a voz do verdadeiro pastor) é dar um “limite saudável aos desejos”. Diríamos em outras palavras, está mais do que na hora de mudar nossos critérios de vida: o dinheiro e o poder econômico não podem continuar sendo os deuses do nosso viver, agir, votar, incluir ou excluir. A vida da criação e de todas as criaturas é o valor máximo para as ovelhas que ouvem e reconhecem a voz do pastor. É preciso buscar soluções em conjunto para o convívio humano fraterno e o respeito com a criação. Essa é nossa tarefa!

5 Subsídios litúrgicos Acolhida Aqui nos reunimos em nome daquele que disse: “Eu sou”. Eu sou o pão da vida. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Eu sou a luz do mundo. Eu sou o verdadeiro pastor. Eu sou a porteira. Eu sou o bom pastor. Eu sou a ressurreição e a vida. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Eu sou a videira. No Êxodo, “Eu sou” tirou o povo da casa da servidão e levou-o à liberdade. Em Jesus, “Eu sou” revela seu rosto amoroso e a sua proposta de vida: E vida em abundância! Kyrie

Vida é muito mais do que ter. Vida é muito mais do que querer. Vida é muito mais do que parecer. Vida é muito mais do que desejar.

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Vida é muito mais do que prazer. Vida é muito mais do que consumir... Clamamos a Deus por todas as vidas assaltadas por esses valores. Clamamos a Deus por todas as vidas que são levadas dos pastos verdes para caminhos enganosos e águas lamacentas. Faz-nos somente ouvir e reconhecer a tua voz, ó verdadeiro pastor!

Bibliografia BROWN, Raymond E. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo: Paulinas, 1984. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco; LOPES, Mercedes. Raio-X da Vida. São Leopoldo: CEBI, 2015.

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PRÉDICA: SALMO 31.1-5,15-16 JOÃO 14.1-14 1 PEDRO 2.2-10

5º DOMINGO DA PÁSCOA

14 MAIO 2017

Manoel Bernardino de Santana Filho

1 Introdução A primeira impressão sobre esse salmo é algo confuso. É como se o autor houvesse expressado todos os seus angustiantes sentimentos em forma de oração: tudo o que ele sofre e espera, tudo o que experimentou e conhece do Senhor, a atividade de seus inimigos e das pessoas más de modo geral. O salmista fala de fatos individuais em termos convencionais, mas trata também de questões genéricas, como se fossem máximas. Recorda o passado e procura tranquilizar-se no presente. Dirige-se ao Senhor usando a segunda pessoa, mas fala dele na terceira. Cita-se a si mesmo e interpela um grupo de amigos. Os salmos foram usados para moldar a adoração pessoal e a oração dos judeus piedosos. O salmo faz uma viagem da angústia para a certeza. A crise da angústia transparece nos primeiros versos e no final é relembrada. Por isso o salmista se fortalece nessa recordação que mostra suas desventuras e ao mesmo tempo se revigora com sua atitude de tomar a iniciativa acertada de procurar refúgio naquele que pode restaurar a paz interior. A ligação entre os textos propostos para leitura dá-se pelo caráter do cuidado e proteção de Deus. O texto do Evangelho de João (14.1-14) expressa o conforto que Jesus Cristo oferece a seus discípulos. É uma conversa íntima entre Jesus e aqueles que confiam nele, ainda que vacilantes em sua fé. No entanto, é confortante saber que temos um Senhor que olha para nós, tanto no presente como no futuro. Seu cuidado é para todo o tempo. O texto da Primeira Carta de Pedro (2.1-10) expressa essa relação amorosa do Senhor no âmbito da comunidade.

2 Exegese Um grande número de estudiosos dos textos sagrados acredita que algumas coleções menores de salmos incluídos no saltério canônico foram organizadas durante as eras pré-exílica e exílica. Durante a primeira parte do período do Segundo Templo, 516 a.C. em diante, os salmos foram compostos e organizados em coleções, e as coleções de salmos pré-exílicos e exílicos foram reunidas com elas para formar o livro de Salmos que temos agora. Os salmos são considerados por muitos estudiosos como o “hinário do Segundo Templo”. A associação tradicional entre Davi e os salmos foi expandida nesse período. O número de salmos que traz o nome de Davi cresceu de 73 no saltério hebraico para 85 na Septuaginta (LXX). Segundo indicações dos manuscritos de Qumran, Davi teria escrito 3.600 salmos. Essa atribuição de tantos

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salmos a Davi pode significar a busca de uma Escritura autorizada, tendo como modelo similar a prática bem atestada de citar “Moisés” quando houvesse referência à Torá. No Segundo Templo, houve uma apropriação gradual dos salmos no sentido de uma orientação futurista. As mortes dos profetas pós-exílicos Ageu, Zacarias e Malaquias sinalizaram o fim da voz profética em Israel. Os cantores levíticos compensaram esse silêncio ao trazer para o templo uma mensagem escatologicamente orientada de esperança e consolação para a comunidade pós-exílica. Há um aspecto incomum no salmo: duas vezes faz a viagem da angústia para a certeza: 1-8 e 9-24, o que pode significar tanto que “as nuvens voltam depois da chuva” como também pode significar uma atitude de recordação, para ser desenvolvida uma segunda vez, com maior profundidade. Na perícope selecionada para exegese (1-5; 15-16), Davi fortalece-se ao lembrar suas antigas aventuras e escapadas. Em sua oração de fé, mostra que sabe também que a força defensiva não basta. As iniciativas certas são tão vitais quanto o refúgio certo (3b e 4a). Seu apelo concentra-se não em sua capacidade persuasiva, e sim na justiça de Deus. Sabe que o Senhor é zeloso em ver feita a justiça. Há duas palavras no hebraico – mishpat e tzedakah – que significam justiça e direito. É preciso praticar a justiça para fazer valer o direito. Um modo de encontrar ordem no salmo é aplicar-lhe o esquema gunkeliano (Hermann Gunkel) do gênero “súplica”. Aparece imediatamente uma revelação de motivos básicos com uma tríplice motivação: do autor, que sofre e faz e espera; dos inimigos, a perseguição e a maldade; de Deus, sua justiça, fidelidade, lealdade, bondade. Daí passa à confiança presente e segura e à promessa de uma festa de ação de graças com um convite aos companheiros. O autor não pensa em seu próprio bom nome envergonhado (1), mas no de Deus; não pensa meramente que ele é inocente, mas que é redimido (5) e que confia no Deus único e verdadeiro. É interessante notar que Jesus cita a primeira parte do verso 5 em sua paixão no Calvário (Lc 23.46). No Antigo Testamento, a palavra “redimir”, encontrada no verso 5, raras vezes foi empregada no sentido de expiação. O sentido mais comum é salvar ou resgatar de dificuldades, livrar dos atropelos da vida. Somente no Salmo 130.8 tem o significado de “pagar o preço do pecado”. O significado de “redimir” no verso 5 é: ou a libertação é tão certa como se já tivesse acontecido, ou libertações do passado impulsionam Davi a esse ato de dedicação nessa ocasião. Nos versos 15 e 16, aparece mais uma vez a oração de fé do salmista. Ele toma a iniciativa, sai de uma atitude defensiva e volta-se numa nova direção. Sua oração é mais sólida por fazer declarações antes de fazer petições, pois atribui a Deus seu lugar verdadeiro como soberano. Seu relacionamento de intimidade com Deus é de dependência absoluta. A expressão “nas tuas mãos estão os meus dias” mostra que ele enfrenta o fato necessário da transição e da mudança, tanto de si mesmo como do ambiente, e torna mais aceitável a adversidade. As mudanças não vêm pelo acaso, mas pela ação direta de Deus, que age e estabelece os acontecimentos do mundo. Desse modo, a oração de entrega do verso 5 (“nas tuas mãos entrego o meu espírito...”) revela agora as implicações práticas.

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Essa dependência de Deus promoverá estabilidade e confiança para aqueles que nele confiam. Isso nos faz lembrar o dito de Isaías em 33.6: “Haverá, ó Sião, estabilidade nos teus tempos, abundância de salvação, sabedoria e conhecimento; o temor do Senhor será o teu tesouro”.

3 Meditação Os Salmos constituem parte da literatura sapiencial do Antigo Testamento. O livro distingue-se de todos os demais por conter apenas orações. São canções de pessoas orantes. O Salmo 31 carrega em si um conceito de tempo como uma referência sobre a qual dependuramos nossa história: “nas tuas mãos estão os meus dias”. Tudo que há está sob a noção de localização no tempo. A ideia de passado, presente e futuro é universal, e por meio dela habitamos a realidade. Entre os semitas, por exemplo, passado e futuro são menos importantes do que as noções de completo e incompleto. Não se trata de saber se o acontecimento está atrás ou à frente no tempo, mas discernir se a ação está pronta ou inacabada. Na língua grega existe um tempo chamado aoristo, que não existe para as línguas modernas. O aoristo é um tempo indefinido. É uma ação verbal que não indica tempo de duração. É como na expressão usada por Jesus em Mateus (12.28): “é chegado o reino de Deus sobre vós”. De todo modo, não há dúvidas: o tempo é mais do que mera convenção; é, nas palavras do poeta argentino Martín Fierro, “a tardança daquilo que está por vir”. Algo que vem do futuro – daquilo que ainda não está – e emprenha o presente e ressignifica-o por completo. Nossa percepção da realidade passa pelo conceito de tempo. Vemos a realidade por meio do tempo e do espaço. O espaço é uma forma de percepção externa; o tempo é a forma de percepção interna, dizia Kant. Quando a Bíblia diz: “ensina-nos a contar os nossos dias...”, a oração pede que Deus nos dê sabedoria para lidar com o tempo de que dispomos. O Salmo 31 é uma poesia de ação de graças, mas também nos apresenta uma ação, uma circunstância histórica genuína: é a oração de Davi, cansado por tantas desventuras e perseguições. Por isso esse salmo se estabeleceu como uma oração para tempos difíceis, para tempos de crise. Tem sido leitura obrigatória para aqueles que estão dispostos a refletir sobre o sentido da vida. É aqui que o autor retrata a majestade e a glória de Deus. Ele é o Eterno, o refúgio seguro contra as tempestades da vida. Os cuidados de Deus estendem-se a todas as gerações e vêm desde a eternidade. E isso é uma garantia de que não estamos entregues apenas à brevidade da vida. Aqui nos deparamos com a fragilidade do ser humano. Aqui nos vemos descobertos, fracos, um nada diante de Deus. Nada somos diante do Eterno, e no entanto ele se volta para nós com olhar de misericórdia. Por outro lado, alguns têm encontrado na leitura desse salmo razões para frustração e abatimento. Afinal, para que serve a vida se no final é tudo um vale de lágrimas? Porém tristeza e sofrimento são a vida do ser humano sem Deus, pois aquele homem e aquela mulher que servirem ao Senhor encontrarão alegria em todas as fases da vida.

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O Senhor nos fará construtores de um novo amanhã. “No qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22). Toda a nossa vida move-se no tempo. Há um passado com suas gratas memórias, que nos fazem bem à lembrança, cuja acumulação de experiências constrói o nosso ser e nos edifica; e há memórias ingratas, que é melhor esquecer, especialmente as memórias das nossas falhas e das falhas dos outros em relação a nós. Quanto ao passado – aos anos velhos –, vivemos entre as memórias da graça e a memória das desgraças. Nosso tempo de hoje é o resultado desse tempo de ontem, mas o tempo de hoje é uma breve passagem em direção ao tempo do amanhã com seus sonhos e seus temores, seus alvos e suas dúvidas, suas aspirações e suas inseguranças. Se não podemos fazer mais nada em relação ao passado, apesar do seu caráter imponderável e da soberania de Deus, podemos fazer algo pelo futuro: pensar, planejar, decidir, comprometer. Como cidadãos do reino de Deus, nossa presença no reino pode contribuir para um mundo novo, menos violento, menos injusto, menos desonesto, menos mentiroso, menos hipócrita, menos opressor, menos discriminador. Mas para isso precisamos estar bem. O salmo dá-nos a consciência da finitude e do pecado, pela necessidade do arrependimento, pela busca da santificação, pela forma com que devemos depender do Senhor. A vida com Deus é uma vida de recomeços, porque ele é o Deus da nova oportunidade. É o Deus que chama de volta o aflito, que anima o abatido. É aquele que diante dos discípulos à beira da desistência total afirma: “Lançai a redes à direita do barco e achareis” (Jo 21.6). É Deus presente, que não desiste de nós, que ouve, age e desarma as armadilhas redimindo-nos para a salvação. Mas como se reanimar em uma igreja tão marcada pelo velho: o divisionismo, o isolacionismo, o caciquismo, o sectarismo, o moralismo, o legalismo, os cismas, as heresias? Um tempo novo e sadio a partir de uma igreja enferma? Entre a pessoa nova e o mundo novo há a igreja nova, a família nova, a comunidade nova, o trabalho novo, o país novo, os hábitos novos e, tantas vezes, pessoas novas ou relacionamentos renovados. Eduardo Galeano dizia: “Somos o que fazemos. Mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”. O salmo começa com um lamento, mas termina com um cântico de louvor. O Senhor é bom, por isso devemos orar a ele, não desistir e confiar que ele fará resplandecer o seu rosto sobre cada um de nós. O verso 16 termina em tom solene. Davi evoca a bênção aarônica de Números 6.25. No Salmo 4.6, ele busca essa bênção para ele e seus companheiros: “Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto”. Aqui ele a busca para si mesmo: “Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo: me salva por tua misericórdia”.

4 Imagens para a prédica Podemos usar algumas imagens para exemplificar o cuidado do Senhor para com cada um de nós. Podemos pensar num pequeno ninho, feito com palha ou mesmo com papel em tiras para formar um espaço aconchegante. Acima desse

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ninho um laço quase imperceptível e contar para as pessoas dos laços de morte que às ocultas armam contra nós. Lembro, quando era menino, das armadilhas que os caçadores de passarinhos faziam para capturar suas presas. Localizavam seus ninhos, e enquanto a ave saía para buscar o que comer, essas pessoas armavam laços invisíveis sobre os ninhos. Eram feitos de pelos de rabo de cavalo, o que fazia com que se tornassem invisíveis num primeiro instante. Quando o passarinho pousava para descansar do calor do dia ou no final do dia para passar a noite, era capturado pelo laço que lhe armaram. Quando mais se debatia, mais forte apertava o nó invisível. Pessoas armam laços invisíveis sobre nós. Gente que parece amiga e até sorri vem ao nosso encontro, estabelece relações, mas tem planos ruins para nos atingir, ferir e causar dano. Por isso outro salmista diz: “Quão amáveis são os teus tabernáculos. Nesse lugar o pardal encontrou casa e a andorinha, ninho para si” (Sl 84.1 e 3). Na presença do Senhor, o laço do passarinheiro é quebrado, como diz Davi no Salmo 124. Ele, o Senhor, quebra o laço e põe-nos em liberdade. Essa imagem do pássaro preso no laço invisível é muito forte para mim. Nunca me esqueci do sofrimento daqueles pequenos pássaros sufocados até a morte. O caçador nem sempre queria a morte do pássaro. Queria capturá-lo vivo para uma gaiola. Mas, não raras vezes, o laço prendia o pescoço e nesse caso levava à morte. Somente Deus nos livra desses laços de morte.

5 Subsídios litúrgicos Sugiro que, nas celebrações do dia, haja espaço para a partilha das experiências do cotidiano, para que as pessoas possam expressar as situações de perigo, os dramas pessoais, familiares e da comunidade, os apertos da vida, as situações que primeiramente parecem para nós completamente fora de controle, e que Deus, em sua graça e amor, vem a nós com sua misericórdia e livra-nos das situações mais imprevistas. Os cânticos comunitários, as orações do povo de Deus devem expressar esse sentimento de grande tensão e conflito, ao mesmo tempo em que somos confortados e redimidos dos abismos da vida para um ambiente de paz e sossego. Oração do dia Amado Pai Celestial! Queremos agradecer-te por permitires e ordenares que nos reunamos nesta hora para orar a ti, para proclamar, ouvir e guardar tua palavra em nossos corações. Mas não somos pessoas que podem fazer isso de modo que seja do teu agrado e salutar para nós. Pedimos-te, assim, de coração e humildemente: fica entre nós, Senhor, e toma tudo em tuas mãos! Purifica nosso falar e ouvir! Abre e ilumina nossos corações e nossa compreensão! Acorda e fortalece nossa vontade de conhecer-te e nossa disposição para dar-te razão! Permite que possamos respirar fundo o ar puro de teu Espírito, para que amanhã, com renovada modéstia, afeição e alegria, possamos voltar ao nosso trabalho!

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À tua presença e à tua orientação queremos confiar a nós e todas as pessoas ao nosso redor nesta cidade, neste país, em todos os lugares. Tu tens meios e maneiras para falar a todos, consolar todos e admoestá-los. Não nos abandones, nem a eles, para que haja claridade onde agora está escuro – para que haja paz onde agora existe desavença – para que a coragem e a confiança nasçam onde agora imperam a aflição e o medo. Ouve nossa prece – não porque tenhamos merecido, mas em nome de Jesus Cristo, por intermédio de quem, em tua inconcebível graça, desde a eternidade nos consideraste dignos de ser teus filhos! Amém! (BARTH, 2013, p. 64-65).

Bibliografia BARTH, Karl. Senhor! Ouve a nossa oração! Tradução Paul Tornquist. São Leopoldo: Sinodal, 2103. KIDNER, Derek. Salmo 1-72; introdução e comentário. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Mundo Cristão, 1980. WALTKE, Bruce K. et al. Os Salmos como Adoração Cristã; um comentário histórico. Tradução Angelino Júnior do Carmo. São Paulo: Shedd Publicações, 2015.

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PRÉDICA: JOÃO 14.15-21 SALMO 66.8-20 1 PEDRO 3.13-22

6º DOMINGO DA PÁSCOA

21 MAIO 2017

Erní Walter Seibert

1 Introdução O período do Ano Eclesiástico é determinante na escolha dos textos para a prédica deste domingo. Estamos no 6º Domingo da Páscoa – imediatamente antes da festa de Pentecostes. Os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição de Jesus ainda estavam vivos na mente dos discípulos. Mas, ao mesmo tempo, aproximava-se outra separação: a ascensão. E aí estaria sendo inaugurado o período que seguiria até a segunda vida de Cristo. Nesse período, a igreja receberia o Consolador, o Espírito Santo. Presença de Jesus e ausência de Jesus, um sentimento paradoxal que iria acompanhar a igreja. Em outras palavras, isso é por vezes expresso pelas expressões “já” e “ainda não”. Já se vive a vitória conquistada por Cristo, mas ainda não estamos na glória, estamos ainda sob a cruz. Segurança e insegurança, presença e ausência de Cristo, esses sentimentos e situações paradoxais acompanharão o dia a dia dos cristãos desde a ascensão até a segunda vinda de Jesus. Será um período em que os cristãos precisam de amparo para poder viver a vida cristã. E Jesus providencia isso. Ele promete o Espírito Santo. Jesus promete que o Espírito Santo acompanhará a vida da igreja e será o grande consolador, ensinador, auxiliador dos cristãos.

2 Exegese O texto da perícope deste domingo está inserido no contexto em que são descritos os últimos dias de Jesus perto de e em Jerusalém. Jesus estava preparando seus discípulos para os acontecimentos da Semana Santa, quando ele seria preso, crucificado, passaria pela morte, sepultamento e depois ressuscitaria. Os versículos 16 e 17 falam de como será a vida dos discípulos de Cristo no futuro. Uma característica do discípulo é o amor. Esse amor tem como consequência guardar os mandamentos ou obedecer a Deus. Isso é distintivo dos discípulos. Em contraste com os discípulos está o mundo. Os discípulos estão no mundo, mas se distinguem do mundo por causa da obediência a Deus. Não é fácil obedecer a Deus num mundo hostil. Por isso Jesus faz a promessa de que os discípulos receberão o Auxiliador (parakletos), o Espírito da verdade. O mundo não tem esse espírito. O espírito do mundo é outro. O espírito do mundo não é santo. Os versículos 18 a 20 estão cheios de promessas de Jesus a seus discípulos. A primeira promessa é que eles não estarão sós, não estarão abandonados. Jesus estará com eles. Mesmo que os discípulos aparentemente estejam sós, a promessa de Jesus é de que ele estará sempre com eles. É altamente consoladora essa pro-

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messa. Em qualquer situação, por mais difícil que seja, os que confiam em Cristo contam com sua presença. Os discípulos estão sempre na companhia de Jesus. A segunda promessa é de que os discípulos verão Jesus. O mundo não o verá, mas os discípulos o verão. Isso mostra que a visão de Deus é algo especial. Não é algo corriqueiro, que qualquer pessoa pode ter. Isso está reservado aos discípulos. A presença de Jesus pode ser vista na palavra de Deus e nos sacramentos. O mundo não reconhece a palavra de Deus e não vê nada especial nos sacramentos (Batismo e Santa Ceia). Mas os discípulos sabem que onde a Palavra é ouvida, ali está a presença de seu Senhor; e onde os sacramentos são distribuídos, ali está o Salvador presente. De um lado, é uma presença misteriosa ou sacramental. Por outro lado, é uma presença real. Jesus cumpre sua promessa de que seus discípulos o verão e o mundo não o verá. A terceira promessa é que os discípulos viverão como Cristo. Ele venceu a morte. Os discípulos de Jesus igualmente não serão vencidos pela morte. Eles viverão. A morte é uma grande ameaça para todas as pessoas. É altamente consolador saber que a morte foi vencida por Cristo e que essa promessa vale para todos os que creem em Cristo. Finalmente, a promessa é de unidade dos discípulos com Cristo e com Deus. Todas essas promessas têm a finalidade de animar e consolar os discípulos, preparando-os para os tempos depois da ascensão de Jesus. E a maior de todas as promessas é que eles terão o Consolador, o Espírito Santo. O versículo 21 volta a dar uma palavra de ânimo aos discípulos, para que eles guardem os mandamentos de Deus. O amor é novamente lembrado. A perícope começou a falar do amor e agora encerra com o mesmo tema. A obediência a Jesus tem a ver com amor. A obediência é fruto do amor.

3 Meditação O texto do evangelho deste domingo traz uma mensagem para a igreja que vive o tempo entre a ascensão e a segunda vinda de Jesus. O texto traz uma mensagem para nós. O que Jesus previu para seus discípulos é o que estamos passando hoje. Os discípulos de Jesus aparentemente estão sós no mundo. O Senhor Jesus subiu aos céus e não pode ser visto. Mas sua voz pode ser ouvida. A pregação da palavra de Deus pelos discípulos é a mensagem do próprio Deus. Além disso, Deus instituiu os sacramentos. No Batismo e na Santa Ceia, a igreja tem a presença sacramental do Senhor em seu meio. As promessas de Deus que estão vinculadas ao Batismo e à Santa Ceia são cumpridas neles. Ele prometeu perdão dos pecados, vida e salvação. Jesus não abandonou seus discípulos. Ao contrário, ele está presente. Além disso, o Consolador, o Espírito Santo foi dado para a igreja. O Espírito Santo consola a igreja, dando testemunho de Cristo. As promessas que Cristo fez são verdadeiras. Se olharmos para os vinte séculos que separam a igreja de quando ele fez a promessa, vemos que tudo se cumpriu. Na igreja primitiva, durante o período em que muitos foram perseguidos e mortos por causa da fé, houve

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vários exemplos de pessoas que testemunharam a fidelidade das promessas de Jesus. Policarpo de Esmirna é um conhecido exemplo disso. Ele foi instado pelos oficiais romanos a abandonar a fé. No entanto, ele teria dito que por 86 anos havia servido ao Senhor Jesus e esse sempre lhe fora fiel. Por que haveria de abandonar a fé nesse momento extremo? Hoje muitos cristãos ainda passam por martírio. E o testemunho de muitos é de que Deus lhes tem sido fiel durante toda a vida. Por isso eles não estão dispostos a negá-lo na hora da morte. Deus dá seu Espírito Santo a seus filhos. E eles manifestam um espírito santo em suas vidas. E esperança da vida eterna é um ânimo especial para seguirem fiéis, fazendo a vontade de Deus em suas atividades diárias. A imagem que correu o mundo dos jovens cristãos egípcios sendo conduzidos por seus algozes para o fuzilamento chocou muitas pessoas. Aqueles jovens mártires perderam a vida por sua fé. Mas com os jovens cristãos permaneceram as promessas de vida eterna. Deus amparou-os até o fim.

4 Imagens para a prédica A palavra “promessa” tem especial sentido no Novo Testamento. Enquanto “evangelho” significa boa notícia, a palavra promessa – em grego euangelia – remete a uma promessa que haverá de se cumprir. A fé apega-se às promessas que são as mesmas do evangelho. O evangelho e as promessas estão centrados em Cristo. Quando pais prometem um presente aos filhos pequenos, eles confiam que receberão. Pais que prometem dar um presente de Natal aos filhos, se não conseguirem cumprir a promessa, terão problemas. As promessas de Deus se cumprem. Deus é fiel. Por isso confiar nas promessas de Deus que se cumprem em Cristo; é o centro da fé. Fé e fidelidade têm a mesma raiz. Essa imagem é muito importante para a prédica. A outra imagem que aparece é que a fé leva a viver uma vida consagrada, em que se faz a vontade de Deus. A fé é viva. Ela não é preguiçosa ou inativa. Por causa da fé os cristãos vivem a vida em conformidade com a vontade de Deus. A vida cristã é fruto da fé. Essa imagem também aparece de forma destacada no texto. Finalmente aparece a imagem de que não estamos sós. Deus faz suas promessas e dá-nos o Espírito Santo. Ele nos lembra do que Cristo fez por nós. Essa memória de Cristo nos é dada pela palavra de Deus. Ao mesmo tempo, o Batismo e a Santa Ceia são lembranças importantes do que Cristo fez por nós.

5 Subsídios litúrgicos As demais leituras deste domingo servem como subsídio para a prédica. A leitura do Salmo mostra como Deus não permite que seu povo sucumba, mesmo que esteja submetido a situações difíceis. Deus, no final, conduz seu povo a lugar seguro. Da mesma forma, a leitura da epístola lembra que é importante viver a

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vida cristã em conformidade com a vontade de Deus e ter sempre a consciência limpa. Além disso, a leitura lembra os benefícios do Batismo. Palavra e sacramentos são meios pelos quais o Espírito Santo nos consola e orienta.

6 Sugestão de esboço para a prédica Tema: Deus anima-nos com suas promessas: a) Não estaremos sós. Ele nos dá o Espírito Santo. b) Nós veremos a Deus. c) Venceremos a morte. d) Estaremos unidos com Cristo, com Deus.

Bibliografia BETTENSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. 3. ed. São Paulo: ASTE, 1998. KNOX. John. A Integridade da Pregação. São Paulo: ASTE, 1964. LIVRO DE CONCÓRDIA. Catecismo Maior. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 1.15-23 SALMO 47 LUCAS 24.44-53

ASCENSÃO DO SENHOR

25 MAIO 2017

Uwe Wegner

Ascensão do Senhor

1 Introdução Ascensão significa “subida”. Dia da Ascensão do Senhor significa, portanto, o dia em que se comemora ou relembra a subida de Jesus ao céu para junto de Deus. Há só um escritor do NT que conta, literalmente, uma história de ascensão, subida de Jesus ao céu: Lucas. Inicialmente, ele a traz em Lucas 24.50-53. Ali escreve: “Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado (verbo = anaferō) para o céu. Então eles, adorando-o, voltaram para Jerusalém [...]”. Essa cena, considerando a cronologia em Lucas 24, ocorre no mesmo dia da ressurreição. O outro texto é de Atos 1.(2-3)9-11. Ali Jesus promete aos discípulos poder para ser suas testemunhas e, depois de lhes dirigir a palavra, “foi Jesus elevado (verbo = analambanō) às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos”. Nesse caso, a subida ao céu ocorre só depois de 40 dias em que Jesus apareceu e ensinou seus discípulos como ressuscitado (At 1.3). Em outros textos não temos histórias sobre a ascensão, mas só referências verbais à subida ou descida de Jesus (exemplos: Jo 6.62; 16.10; 20.17; At 1.2; 2.33; Ef 4.8-10). Interessante é que vários textos de ascensão fazem uso do Salmo 110.1 (assenta-te à minha direita [Mc 14.62; Cl 3.1; Ef 1.20; Hb 1.3; 8.1; 12.2] até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés [1Pe 3.22; Ef 1.20-22]) ou do Salmo 8.6 (Deste-lhe [sc ao filho do homem] domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste = hypotassō [1Co 15.27; Ef 1.22 e Hb 2.6-9]. Em nosso texto de prédica são citados ambos os salmos. Nesses casos, os textos deixam entrever os efeitos da ascensão, a saber, o domínio de Cristo sobre os poderes existentes no mundo. Fala-se então da “exaltação” ou “entronização” de Jesus como Senhor sobre o universo e regente dele. Há passagens no NT (Fp 2.6-11, 1Tm 3.16 ou Hb 1.1-4) em que não se faz menção explícita à ressurreição, mas se passa a falar diretamente da exaltação de Cristo (como regente universal sobre todos os principados e poderes). Isso parece indicar que ressurreição, ascensão e exaltação de Cristo são eventos coincidentes, embora os termos destaquem cada qual um aspecto específico da vitória de Jesus sobre a morte.

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2 Exegese O texto proposto para a pregação engloba toda a intercessão de Paulo em favor dos crentes para os quais escreve, ou seja, Efésios 1.15-23. O conteúdo da intercessão é plural, sendo que só a partir do v. 19 tematiza-se expressamente o assunto da ascensão. Minha proposta é que se aproveite a data para fazer uma pregação concentrada na data da ascensão; isso evitaria abordar todos os aspectos anteriores da intercessão (v. 15-18) e incorrer no perigo de dispersar a concentração dos ouvintes. O texto compreenderia os v. 19-23. O pregador teria que adaptar o início da leitura. Por exemplo, em Efésios 1.19-23, Paulo ora pelos cristãos para que eles adquiram conhecimento a respeito da “suprema grandeza do poder de Deus para conosco, os crentes, segundo a eficácia da força do seu poder” (v. 20-23). V. 19 – Este versículo é um louvor prestado à excelência do poder divino. Paulo descreve o poder de Deus com vários substantivos, procurando dessa forma ressaltar sua grande qualidade e eficácia. A grandeza do poder divino é qualificada como “extraordinária” ou “suprema” (grego: hyperballon). O poder de Deus é poder superlativo. E o detalhe: toda essa eficácia e extraordinária grandeza do poder divino são “para nós”. Segundo Comblin, o destaque de Paulo recai exatamente nesse “para nós”: “a palavra central é o ‘nós’: vejam quantas maravilhas todas oferecidas a ‘nós’! Que grandeza é a nossa! Como somos grandes, ‘nós’”(p. 35). Uma tradução literal seria: “e qual a extraordinária grandeza do seu poder para nós, os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder”. V. 20 – Aqui se descreve onde e como Deus evidenciou esse seu extraordinário poder. Onde: Ele o evidenciou na pessoa de Jesus Cristo. Como: O modo pelo qual o poder foi evidenciado foi duplo: a) pela ressurreição de Jesus dentre os mortos. Com isso, o maior poder contrário à vida, a morte, foi definitivamente vencido; e b) pela sua entronização à destra de Deus. Com isso Deus outorga a Jesus seu poder de rei, de reinado, de regência. A imagem é extraída de um costume arraigado nas antigas cortes régias orientais, em que, enquanto o rei se encontrava assentado em seu trono, a pessoa que participava do reinado e desempenhava o poder do rei era convidado a sentar-se à sua direita. A mão direita simbolizava autoridade e poder. Era nessa que o rei segurava seu bastão real. Assim, o assentar-se de alguém à sua mão direita simbolizava participação no poder de Deus. Nordstokke também destaca que “à direita” quer dizer à mão direita = destra de Deus. Ele acha que a versão portuguesa do Credo Apostólico não deveria traduzir o original latino sedet ad dexteram Dei Patris como “sentado à direita de Deus”, mas “sentado à destra de Deus”. Para ele, “destra” afirma algo mais do que a mera presença de Jesus ao lado direito de Deus Pai. Ora, “a metáfora ‘mão’ expressa o poder de Deus e sua atuação no mundo para salvar o seu povo. Foi por essa mão que Javé libertou da escravidão no Egito (Êx 15.6) [...] Na maioria dos casos em que a Bíblia usa essa metáfora [...] a mão de Deus expressa sua presença para proteger, abençoar e salvar [...] na mão de Deus há salvação e vida. É nessa tradição que os cristãos confessam que Jesus está sentado à destra de Deus Pai,

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pois nessa posição ele ‘intercede por nós’ (Rm 8.34) e garante que nenhum poder alheio possa ‘separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor’(8.39)” (Nossa fé e suas razões, p. 129-130). No final do v. 20 e no v. 21, a carta localiza a referida “destra de Deus” – ela se encontra “nos lugares celestiais”, muito acima (grego: hyperanō) de todos os demais poderes. A Carta aos Efésios e outras dão testemunho de uma cosmovisão que estrutura o universo em espaços geográficos distintos. A cosmovisão de Efésios subdivide o universo em três ou quatro espaços claramente delimitados, como mostra o quadro abaixo:

“acima de todos os céus” (4.10) “acima de todo poder...” (1.21) “subiu às alturas/ao alto” (4.8) “nas regiões celestes” (1.20; 2.6) “as regiões celestes” (1.3; 6.12) “príncipe da potestade do ar” (2.2) “terra” (1.10; 3.15; 4.9; 6.3) “regiões inferiores da terra” (4.9)

O trono de Deus (e de Cristo) (1.20; 2.6)

Reino dos poderes demoníacos (do diabo) (1.21; 2.2; 3.10; 6.12) Seres humanos Lugar da habitação dos mortos

(Cf. EBNER, M.; SCHREIBER, S. Einleitung in das Neue Testament. 2008. p. 419 [com pequena adaptação]). Dúvidas quanto a essa cosmovisão em Efésios há só em relação ao último ítem, pois em Efésios 4.9 a descida de Cristo para as “regiões inferiores da terra” pode indicar simplesmente sua encarnação como ser terreno, sem pressupor, necessariamente, uma descida ao reino dos mortos (p. ex. Mt 12.40). O v. 21 afirma que Deus exaltou Jesus muito acima de todos os demais poderes. Essa colocação espacial de Jesus bem acima de todos os outros poderes deixa transparecer, é claro, a superioridade do poder de Cristo. Quem são esses poderes bem acima dos quais/sobre os quais Cristo exerce seu domínio? Os exegetas afirmam que não é mais possível delimitar exatamente o sentido dos quatro poderes mencionados (principados, potestades, poderes e domínios), mesmo porque o próprio NT não apresenta interesse em descrevê-los ou caracterizar sua essência separadamente. Textos do NT que se referem a poderes “celestes” que podem opor-se a Deus por vezes apresentam elementos dessa lista aqui no v. 21, mas também podem representá-los com termos parcialmente diferentes, como se pode verificar em Romanos 8.38 ou na própria Carta aos Efésios (2.6 e 6.12) (cf. também Cl 1.13,16; 1Pe 3.22). Todos eles constituem o que Efésios 6.12 resume como sendo as “forças espirituais do mal nas regiões celestes”. Interessante é também que a carta pode resumi-los num só termo ou expressão, como em 2.2 (o “príncipe da potestade do ar”) ou em 6.11 (o “diabo”). Além dos quatro poderes mencionados, há, por fim, ainda a menção a “todo nome que se possa referir”. Segundo pensamento antigo, os “nomes” po-

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diam expressar a essência e o poder que emanava de coisas, seres ou pessoas. A referência quer deixar claro: nada escapa à soberania de Cristo. “Não só no presente século, mas também no vindouro” – é discutível se essas palavras devem ser ligadas a “todo nome que se possa referir” ou se se referem à afirmação final do v. 20. Nesse último caso, as palavras quereriam afirmar que Jesus foi assentado à destra de Deus não só no presente, mas também no futuro. V. 22 – Este versículo afirma a superioridade do poder de Cristo sobre todos os demais poderes de duas maneiras. Primeiro: recorrendo às palavras do Salmo 8: “e pôs todas as coisas debaixo dos seus (isto é, de Cristo) pés”. Na Antiguidade, colocar algo ou alguém aos pés de uma pessoa equivalia a submetê-los a seu poder (Sl 8.6; 1Co 15.25,27; Rm 16.20 e outros). O v. 22 faz a afirmação no pretério: Deus (já) colocou todas as coisas sob seus pés (assim também em 1Co 15.27 e Hb 2.7; em Mt 22.44 par.; At 2.34; 1Co 15.25 e Hb 1.13). Segundo: Cristo é qualificado como o “cabeça” de todas as coisas. Aqui, como em outros textos (Jz 11.8; Os 2.2; Cl 1.18; 2.10,19; Ef 5.23 etc.), ser o cabeça tem o significado de ser o chefe, o dirigente, o que está investido de poder. Todas as coisas, portanto, estão sob o seu poder e comando. V. 23 – Nessa qualidade de “cabeça”, Deus também deu Cristo à igreja. Ela é caracterizada como seu corpo, “a plenitude daquele que tudo enche em todas as coisas”. A igreja, como plenitude de Cristo, reflete valores e práticas de Jesus dentro do mundo. Dessa plenitude de Cristo ela é receptora, sendo convidada a repassá-la e vivenciá-la cada vez melhor na sociedade circundante. A Carta aos Efésios convida a igreja, os cristãos, a ser tomada de toda a plenitude de Deus (3.19), a chegar à medida da estatura da plenitude de Cristo (4.13), a encher-se do Espírito Santo (5.18). Mas, diante da plenitude de Cristo, os cristãos são primariamente receptores: agentes do enchimento com a plenitude são Cristo (4.10) e o Espírito (5.18). A pergunta que se coloca é: mas, afinal, qual o conteúdo dessa plenitude, dessa abundância e profusão de Cristo na igreja e, por ela, no mundo? Quanto a isso, remetemos às duas outras passagens em Efésios em que é usado o termo “plenitude” em referência a Deus e Cristo: Efésios 3.19 e 4.13. Em 3.19, Paulo intercede a Deus que os cristãos venham a conhecer o amor de Cristo “para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus”. Dois versículos antes, em 3.17, ele afirma semelhantemente: “E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor”. Na segunda passagem, em 4.13, o apóstolo dá conta de que o objetivo dos cristãos não pode ser o de permanecer eternas crianças na fé, mas tornar-se adultos, alcançar a estatura da plenitude de Cristo. E como é que se consegue isso? O v. 15 responde: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo”. Conclusão: a plenitude de Cristo, em direção da qual cabe crescer, é o amor que ele tem vivido e oferecido à humanidade.

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3 Meditação 3.1 – A área de atuação dos poderes, a cosmovisão da época e uma tentativa de atualização O quadro cosmológico de Efésios mostrado acima dá conta de que as pessoas da época se sentiam determinadas, ameaçadas e à mercê de poderes “supraindividuais, suprassociais, realidades espirituais que influenciavam os acontecimentos e o comportamento” (DUNN, 2003, p. 146). Esses poderes, segundo crença da época, podiam determinar o curso dos anos, dos astros, mas também catástrofes, guerras, distúrbios, infortúnios pessoais e sociais e afastamento dos deuses. Eles eram cridos como responsáveis últimos pela sorte, pelo destino das pessoas. Para Efésios, eles redundavam numa espécie de “morte” ou escravização das pessoas. Sob sua influência, elas andam “segundo o curso deste mundo [...] segundo as inclinações da carne, fazendo a vontade da carne e dos próprios pensamentos” (Ef 2.1-3) ao invés de obedecer a Deus. Atualmente, só poucas pessoas ainda possuem essa cosmovisão espacial, imaginando o espaço acima de nós (= firmamento) permeado de espíritos e anjos hostis a Deus, influenciando direta ou indiretamente nossas vidas. Esse arcabouço é mitológico. Todo mito, porém, mesmo não sendo histórico, testemunha verdades históricas. Assim sendo, o valor perene dessa representação é que, como antigamente, ainda hoje continuamos cercados por forças e poderes suprapessoais e suprassociais que nos podem prejudicar e manter nossa vida afastada de Deus e do próximo, mesmo que agora os situemos ao nosso redor e não acima de nós, no firmamento. A igreja antiga falava aqui dos poderes do “pecado, morte e diabo”. Wink, nos tempos modernos, procurou atualizar o significado de “principados e potestades” (grego: archas kai exousias) afirmando: representam para nós hoje “os aspectos interno e externo de qualquer manifestação de poder. Como aspecto interno eles são a espiritualidade das instituições, o ‘interior’ das estruturas e sistemas corporativos, a essência interna de organizações externas de poder [aqui também entram as legitimações, sanções e permissões que dão suporte ao exercício cotidiano de poder]. Como aspecto externo são sistemas políticos, funcionários nomeados, a ‘carne’ de uma organização, leis – em suma, todas as manifestações tangíveis que o poder assume” (apud DUNN, 2003, p. 147, nota 42). Semelhantemente se manifesta também Schlier, que, para efeitos de uma atualização, afirma que referidos poderes atualmente se apoderam de pessoas ou de instituições políticas e sociais, de determinadas condições e situações históricas, influenciando correntes religiosas e de pensamento (em seu livro Mächte und Gewalten im Neuen Testament, p. 63). Na teologia da libertação, poderes e principados suprapessoais são geralmente vinculados à ideia da dimensão social do pecado, do pecado social, do pecado estrutural. A estrutura social dominante, p. ex., de um liberalismo econômico ou de um modo de produção capitalista, pode condicionar de antemão negativamente nossas melhores intenções. As estruturas engessam nossas ações com condicionantes e consequências das quais

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não é possível escapar se quisermos sobreviver dentro do sistema. Essas estruturas têm “espírito” próprio, leis próprias, contra as quais é muito difícil lutar para quem vive dentro do esquema/sistema. Exemplo: se você quer prosperar, terá que ser às custas da concorrência: tem que acabar com ou vencer os concorrentes. Assim também Nordstokke: “Em nosso contexto latino-americano, esses poderes se manifestam nas estruturas injustas, nos mecanismos de exclusão e na lógica de morte que justifica a miséria da maioria da população [...]”. E se você prefere vê-los menos em sua atuação social do que na pessoal, diria: pessoalmente, esses poderes escravizantes se manifestam na dependência das drogas de todo tipo, no apego ao dinheiro e bens materiais, exaltando o ter sobre o ser; no consumo irrefreado e irresponsável, no descaso com o meio ambiente etc. 3.2 – A representação espacial metafórica do céu como a mais alta esfera do firmamento e de um Deus ali assentado sobre um trono e de Jesus assentado no lado de sua mão direita Também esse conjunto de ideias tem a ver parcialmente com a cosmovisão da época bíblica, para a qual o mundo se subdividia espacialmente em várias esferas: a divina, acima de todas as demais (escritos apocalípticos falam de um, três, cinco ou mesmo sete céus, sendo que o paraíso, a habitação divina, situa-se sempre no último), denominada de céu; depois a esfera do ar, em que habitavam os espíritos, anjos, principados e poderes; a seguir, a terra, local de habitação dos seres humanos, e por último, o reino dos mortos, abaixo da terra. Essa cosmovisão não é unívoca na Bíblia, apresentando muitas variantes. Por vezes, céu é simplesmente outro termo para designar Deus (Mt 5.10; 6.20; Mc 11.30; Lc 10.20; 15.18,21; Jo 3.27), em especial na expressão mateana “reino dos céus” 3.2; 4.17 etc.), em que a maioria dos paralelos apresenta “reino de Deus”. Que o céu, local da presença de Deus, não pode ser simplesmente limitado a um espaço superior definido dentro do sistema sideral já sugere a própria Bíblia em passagens como 1 Reis 8.27 (“Mas, será verdade que Deus habita nesta terra? Se os céus e os céus dos céus não te podem conter, muito menos esta casa que construí!”), Isaías 66.1 (“O céu é o meu trono, e a terra, o escabelo dos meus pés” [cf. Mt 5.34s; At 7.4955]), Jeremias 23.24 (“Pode alguém esconder-se em lugares secretos, sem que eu o veja? – oráculo de Iahweh. Não sou eu que encho o céu e a terra? – oráculo de Iahweh.”) ou 1 Timóteo 6.16, que afirma habitar Deus “em luz inacessível”. Ou seja, Deus não pode ser limitado a um lugar definido; está em todas as partes de sua criação, “nos céus e na terra”. Crer diferentemente seria limitar o poder de Deus e sua irradiação e abrangência universais. Também o antroporfismo da “destra” = mão direita de Deus não passa de analogia humana para expressar a ideia de um Deus poderoso e salvífico. O mesmo vale para a ideia de um Deus assentado sobre um “trono”. Um Deus que se assenta sobre um trono soa parecido a uma pessoa = rei, assentado num trono. Mas essas são imagens terrenas que, por analogia, os autores bíblicos empregavam para expressar a ideia de que Deus reinava e tinha poder. A própria Bíblia delimita e relativiza todas essas representações antropomórficas e metafóricas de Deus com palavras como Isaías 55.8s

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(“Meus pensamentos não são os vossos, nem vossos caminhos são os meus, diz o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os vossos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos”); 64.4 = 1 Coríntios 2.9 (“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”) ou mesmo com o mandamento de não fazer imagem de Deus (Êx 20.4s) ou, por fim, com a declaração de que Deus não é ser humano, mas Espírito (Jo 4.24), embora ela própria, por seu emprego de tal linguagem, demonstre que, como humanos, não temos outros meios para falar de Deus senão por analogias e metáforas tiradas de nossa realidade. Assim sendo, não há – para finalizar esta reflexão sobre o céu nas alturas, com trono e um Deus assentado sobre ele – como não compactuar com a célebre frase de Gerhard Ebeling numa prédica sobre o Pai-Nosso: “Deus não está onde se localiza o céu, mas o céu se localiza ali onde Deus se encontra”. A cosmovisão de esferas espaciais distintas tende a separar e a distanciar um Deus nas alturas de suas criaturas aqui embaixo. Nordstokke: “A fé cristã questiona profundamente essa cosmovisão por ter como cerne a convicção de que Deus atua em nosso meio, na história e nos eventos diários e, principalmente, na periferia, onde estão os excluídos e humildes” (Nossa fé e suas razões, p. 132). Ora, segundo a Bíblia, Deus quer armar sua tenda justamente entre nós (Jo 1.14) e quer, em Jesus, oferecer-nos sua companhia “todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28.20; cf. 18.20). Resumindo: Quando a Bíblia afirma que Deus está no céu, acima de todas as regiões celestiais com seus principados e potestades, e que Jesus está ali à sua destra, ela o faz com o uso de metáforas que sinalizam – espacialmente – que Deus está acima, ou seja, é infinitamente superior em poder (trono) a todos os demais poderes, permitindo que, no presente, esse poder esteja sendo exercido por Jesus (sentado à sua destra). 3.3 – Como devemos entender o reinado presente de Cristo, segundo o qual Deus lhe pôs todas as coisas sob os pés para ser o cabeça de todas as coisas (v. 22) na igreja e no mundo? Como entender que Deus JÁ submeteu todas as coisas a Cristo? A afirmação do v. 22, segundo a qual todas as coisas, todos os poderes JÁ estariam submetidos aos pés de Cristo é entendida em Efésios a partir da “escatologia realizada” que a carta defende: essa compreende Cristo juntamente com os cristãos como já ressuscitados com ele (provavelmente pelo Batismo [Ef 2.5; cf. Cl 2.12-13], pela fé, pela posse do Espírito e pela união com Cristo num mesmo corpo) e assentados/entronizados com ele nos lugares celestiais (Ef 2.6). A afirmação poderia sugerir a ideia de que, uma vez submetidos aos pés de Cristo, os poderes atuantes no mundo não teriam mais como se opor a ele, em outras palavras, sua entronização à destra de Deus representaria a vitória última e definitiva sobre toda e qualquer atuação antidivina dessas forças. Se assim fosse, não haveria mais necessidade de uma conclamação à ética ou resistência na Carta aos Efésios. Também ficariam inverossímeis palavras como 1 Coríntios 15.25 (“Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos

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pés”). Contudo não é esse o caso. Na carta, os cristãos são conclamados a viver santos e irrepreensíveis em amor (1.4), a seguir a verdade em amor, crescendo em tudo no cabeça, que é Cristo (4.15), e a viver o aperfeiçoamento e fortalecimento dos santos no amor (3.17-19; cf. 4.12); além disso, em 6.12-20, os cristãos são diretamente conclamados à luta e resistência contra exatamente os poderes que, em 1.21-23, são caracterizados como já submetidos por Cristo, sendo que as armas propostas para essa luta são a verdade, a justiça, o evangelho da paz, a fé, a palavra de Deus (que é a espada do Espírito) e orações e súplicas. Ou seja, com a entronização de Jesus à sua destra, Deus empossa-o como Senhor sobre todos os poderes, senhorio confirmado na vitória da ressurreição sobre o poder maior da morte. Mas a entronização de Cristo por Deus acima dos principados e potestades ainda não representa que os poderes destrutivos a eles inerentes deixem de existir ou se conformem com o empoderamento concedido a Jesus. Efésios 6.12ss mostra exatamente o contrário. A vitória do amor de Jesus sobre a morte na ressurreição pode, ao contrário, transformar todos os poderes contrários a Deus em adversários e inimigos ainda mais decididos do reinado de Cristo. Disso resulta: a entronização de Jesus revela que o poder do seu amor é superior a quaisquer outros poderes existentes. Esse fato, porém, nem sempre implica que os poderes subjugados aceitem a derrota e passem a confessar Jesus como Senhor. Isso é assim, pois o poder de Jesus tem um modo de procedimento e uma escolha de meios para imperar que diferem de outros poderes. O império de Jesus estabelece-se com um modo de procedimento especial: não pela imposição com violência ou força de armas, mas pela persuasão, buscando e propondo o livre assentimento das pessoas, sua fé e obediência. Deus quer-nos como filhos, não como escravos! Também as armas usadas na implantação do poder de Jesus são próprias: fala-se em verdade, justiça, amor, fraternidade etc. Essas armas constroem comunhão e vida; as outras, geralmente, destruição, divisão e morte. Diante do mundo, esse modo de proceder e esse tipo de armas revelam fragilidade, fraqueza e muitas vezes também uma certa vagarosidade (dois passos para frente, três para trás...), mas, segundo o evangelho de Cristo, é só assim que o diabo e a morte podem ser derrotados em sua raiz. O poder de Deus constrói-se na “fraqueza” do amor, diria Paulo refletindo sobre a cruz (1Co 1.18-29), mas é só nessa fragilidade que ele é mais forte do que qualquer outro (Rm 8. 31ss). Quanto à prédica: Nosso texto é eminentemente político. O poder de Deus, acima de todos os demais principados e poderes, é confirmado pela ressurreição (v. 19-20a), repassado a Cristo à destra de Deus (v. 20b-21) e infundido na igreja por Cristo, o seu cabeça (v. 22), igreja que é o corpo de Cristo, no qual habita a plenitude do seu amor, que preenche tudo em todas as coisas (v. 23). Como poderia ser uma prédica sobre o texto, considerando a data do Dia da Ascensão? Uma sugestão: fazer a pregação explicando a ascensão de Cristo como aceitação dele por Deus na condição do mais poderoso regente universal 1) Breve referência à data do Dia da Ascensão de Cristo. Explicar o código espacial usado pela Bíblia quando se refere a uma “subida” de Jesus ao céu. Explicar que não se pode interpretar isso simplesmente como um distanciamento geográfico de nós, pois, nesse caso, textos como Mateus 18.20 ou 28.20 não fa-

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riam sentido. A melhor explicação é que a “subida” pretendia sinalizar o término de uma presença física de Jesus na terra. Essa presença física limitava geograficamente o campo de sua atuação. A ascensão sinaliza que, a partir de sua “subida”, Jesus está “no céu”, ou seja, junto de Deus. E Deus, como afirma a Bíblia, é Espírito e, por isso mesmo, está em todos os lugares. 2) Com a “subida” de Jesus às maiores alturas, nosso texto quer sinalizar ainda uma segunda coisa: que o poder de Deus está “acima” de todos os demais poderes e que Jesus foi entronizado por Deus como o detentor e regente desse poder. Na Bíblia, esse código espacial sinaliza o seguinte: o que está acima é sempre o melhor, mais poderoso, o que rege o resto. A razão dessa afirmação é a ressurreição: ela mostrou que nem a morte é mais poderosa do que o poder de Deus. 3) O texto afirma que ascensão tem algo a ver diretamente com a comunidade. Pois o poder de Jesus, a plenitude desse poder, foi derramado por Deus na igreja – esse poder é, sem sombra de dúvidas, o amor de Cristo. Fazendo de Cristo o cabeça da igreja, que é seu corpo, Deus quer que a igreja seja testemunha, pregadora e vivenciadora desse poder do amor, que está acima de todos os poderes. Nós estamos convidados a participar do poder de Deus que rege o universo, sendo discípulos e discípulas de Jesus na igreja. 4) Por último, a prédica poderia dar ênfase ao poder de Deus que se aperfeiçoa na fraqueza e que nos cabe pregar e vivenciar. Mostrar a natureza das “armas” (Ef 6. 12-18) com as quais os cristãos estão convidados a combater o mal e os poderes contrários a Deus dentro das comunidades e do mundo: são armas fracas à vista do mundo, mas superpoderosas diante de Deus: o amor e toda a variedade de suas expressões, como verdade, justiça, reconciliação, aceitação, paz etc. A verdade e justiça em amor (Ef 4.15; 6.14 – cf. Jo 18. 37) são talvez as armas mais poderosas que temos de Deus para combater a mentira, a corrupção, os gastos exorbitantes e a insensibilidade que apresentam os políticos e os governos municipais, estaduais e federal de nosso país na atualidade. Isso comprova que a igreja e seus membros, como testemunhas do poder de Deus, não podem ser apenas anunciantes do poder de Deus, precisam ser também denunciantes dos poderes corruptos e contrários a ele dentro do mundo.

4 Imagens para a prédica Isaías 9.7 – Ele será descendente do rei Davi; o seu poder como rei se multiplicará sobremaneira, e haverá plena paz em todo o seu Reino. As bases do seu governo serão a verdade e a justiça, desde agora e para sempre. Provérbios 29.4 – Quando o governo é honesto, o país tem segurança; mas, quando o governo cobra impostos demais, a nação acaba em desgraça. Augusto Branco: “Enquanto forem permitidas campanhas eleitorais milionárias, haverá corrupção no governo, pois alguém precisará pagar a conta da campanha, certo? Ninguém doa tanto dinheiro para uma campanha eleitoral à toa. Não existe tanto idealismo assim neste mundo, ou a humanidade não padeceria de tantos males”.

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Provérbios 17.23 – O ímpio acerta o suborno em secreto para perverter as veredas da justiça. Isaías 5.22a,23 – Ai dos que... justificam o ímpio por suborno e ao justo negam justiça.

Bibliografia COMBLIN, J. Epístola aos Efésios. Petrópolis: Vozes; São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal, 1987. DUNN, J. D. G. A teologia do apóstolo Paulo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003. EBNER, M.; SCHREIBER, S. Einleitung in das Neue Testament. 2008. SCHNACKENBURG, R. Der Brief an die Epheser. Neukirchen: Benzinger; Neukirchener, 1982. [EKK , v. 10].

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PRÉDICA: JOÃO 17.1-11 SALMO 68.1-10,32-35 1 PEDRO 4.12-14; 5.6-11

7º DOMINGO DA PÁSCOA

28 MAIO 2017

Gottfried Brakemeier

O testamento de Jesus

1 Introdução O texto sugerido para a prédica no dia 28 de maio de 2017, juntamente com as respectivas leituras, refere-se ao domingo entre a Ascensão e a celebração de Pentecostes, tradicionalmente chamado Exaudi. O cenário possui características peculiares. Somos colocados entre o céu e a terra. Quem fala é o Jesus que enfrenta a paixão, portanto um Jesus muito “terreno”. Mas já a essas alturas algo de “céu” se percebe. Isso se exprime na união intrínseca entre Jesus e seu pai celeste. Um só e o mesmo espírito os une. Nesse sentido, o texto prepara a comemoração de Pentecostes. Mas vejamos isso mais de perto. As leituras possuem cada qual uma mensagem própria. Existem paralelos, sim. O tema da glorificação de Deus ocorre tanto no Salmo 68 como em João 17. Algo semelhante vale para o trecho de 1 Pedro. O autor encoraja os fiéis a suportar o sofrimento na certeza da futura participação na glória de Deus. Mesmo assim, recomenda-se não forçar a construção de convergências. É preciso atentar para as particularidades. Assim também no que diz respeito ao texto em pauta.

2 Exegese O capítulo 17 do Evangelho de João reproduz a assim chamada oração sacerdotal de Jesus, da qual faz parte o texto para a pregação. A designação provém de um teólogo luterano do século 16. Portanto ela não constitui o título original. Mas ela é procedente. Jesus intercede por seus seguidores, ou seja, por aqueles que o “pai lhe deu” (v. 6). Ele age e porta-se como “sacerdote”, mediador. A oração assemelha-se à bênção de despedida que na tradição bíblica era concedida pelos pais aos filhos que partiam de casa. Também Jesus se despede. Está de partida para voltar ao Pai celeste, de onde veio, deixando seus discípulos sozinhos num mundo hostil. Nesse exato momento, ele pede a Deus que guarde os fiéis, a fim de que sejam um “assim como ele é com o pai”. O tema dominante é a unidade, primeiro entre o Pai e o Filho e a seguir dos crentes entre si. Formula-o de modo marcante o v. 21: Jesus roga “[...] a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós”. Não é sem razão que essa oração se reveste de especial importância para o esforço ecumênico que procura resgatar a unidade da igreja.

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No início, porém, está a prece pela glorificação mútua. Após constatar que tem glorificado Deus na terra, consumando a obra a ele confiada, Jesus pede que o Pai, por sua vez, o glorifique com a glória que tinha no princípio (v. 4/5). Que significa “glorificar” nesse contexto? Ora, significa não só o ato de enaltecer. Inclui a revelação de poder, de autoridade, de dignidade. Jesus, em sua atuação na terra, tem feito exatamente isto: Mostrou quem Deus é. Sua prática e seu discurso têm sido transparentes para o agir e falar do próprio Deus. Jesus tem manifestado o nome de Deus na terra (v. 6) e assim despertado conhecimento de Deus e fé. Esse nome se resume na palavra “Pai”. Jesus não revela qualquer Deus, e sim aquele que se porta como pai de seus filhos. Isso, em primeiro lugar, com relação a Jesus, o Filho por excelência. Ele invoca Deus com precisamente esse termo. “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti” (v. 1). Se Jesus mostrou quem é Deus, pede-se agora que Deus mostre quem é Jesus Cristo. O mundo deve saber que nele Deus mesmo se aproxima da criação. Pois o Pai e o Filho são um (10.30). E é nisso que está a vida eterna, a saber, em conhecer Deus e aquele que por ele foi enviado (v. 2). Deuses falsos conduzem à ruína e perdição. Por isso é essencial saber quem Deus de fato é. É o Deus que ama o mundo de tal maneira que por ele deu seu filho unigênito (3.16). De outros deuses é impossível esperar salvação. Por isso mesmo Jesus roga em favor de seus discípulos (v. 9). Embora não sejam do mundo, vivem no mundo, ameaçados e sujeitos a tentações e perigos (v. 11). Eles não são propriedade de nada e de ninguém. Pertencem unicamente a Deus. São dele. Mas continuam vivendo sob as condições da humanidade ainda sujeita ao poder do pecado. Consequentemente, Jesus pede: “Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, para que eles sejam um, assim como nós”. “Guardar” significa, nessa passagem, incluir na comunhão do Pai com o Filho. Ela protege a comunidade contra os males à espreita por todos os lados. Nesses termos Jesus formula algo semelhante a um testamento. O capítulo 17 do Evangelho de João é o depoimento da última vontade de Jesus antes de enfrentar a cruz e a morte. É óbvio que, na unidade do Pai com o Filho e vice-versa, antecipa-se algo do futuro mundo de Deus. Trata-se do vislumbre de novidade na terra, da manifestação do espírito de Deus, de vida e salvação (v. 3). Aquele que em breve terá que sofrer o horror da cruz traz por essa oração esperança e consolo. Convida a reconhecer em Jesus Cristo a imagem de Deus, o Pai, que concede vida eterna à criatura.

3 Meditação O testamento de Jesus porventura terá validade ainda hoje? A resposta é dificultada pela linguagem abstrata dessa oração, típica do quarto evangelho. Jesus quer que Deus guarde a comunidade na fé verdadeira e a mantenha na rota da verdade. Quer que permaneça unida com ele, assim como ele e o Filho são um. Justamente no século 21, há nada mais relevante. A globalização acarretou o pluralismo e com ele a confusão dos credos. O mercado oferece religião para todos os gostos. Religião acabou privatizada, entregue à preferência do freguês.

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Proliferam as igrejas, as seitas, os grupos religiosos. Há tantas que ninguém as pode contabilizar. Já não há certeza sobre o que podemos e devemos crer. Aliás, devemos de fato crer em alguma coisa? Afinal de contas, quem é Deus? Eis uma das grandes incógnitas da atualidade. Não só na Europa e em países secularizados, a exemplo da China, também no Brasil se deve falar de um sumiço de Deus. Ele deixou de ser uma realidade para muitas pessoas. A humanidade aprendeu a viver sem ele, a resolver os problemas sem o recurso à religião, a gerenciar a vida em absoluta autonomia. Deus está simplesmente sobrando. Cresce o grupo dos que se declaram “sem religião”. Atuam também em nossas bandas propagandistas da descrença. Dizem: Não acredito em Deus e sou feliz. É verdade que a maioria não rompe com a religião. Prefere continuar filiada formalmente a uma das denominações. E, todavia, a dúvida avança. Está sendo veiculada pelos meios de comunicação e contagiou principalmente a classe intelectual. Essa, porém, é apenas uma faceta da realidade. Ao lado dela existe outra, não menos preocupante. É o mundo do fanatismo religioso. Há pessoas que matam em nome de Deus, achando que praticam boas obras. Talvez o novo fervor religioso, que renasce com vigor, seja até mais perigoso do que o indiferentismo. Deus está sendo abusado para legitimar a violência e dar cobertura a barbáries incríveis. Não existe unanimidade no discurso sobre Deus. A multiplicidade de imagens provoca antes o conflito. Basta examinar o código ético atribuído a Deus nas diversas religiões para ter comprovada a incompatibilidade dos credos. De que é que Deus se agrada e o que ele abomina? Muitas pessoas afastam-se da religião, cansadas da ambiguidade do fenômeno e da fúria dos crentes. Religião pode ter efeitos altamente nefastos. A oração sacerdotal de Jesus vincula o conhecimento de Deus a Jesus Cristo. Fé autêntica está condicionada à descoberta da unidade do Filho com o Pai e vice-versa. E é nessa fé que Jesus quer que sua comunidade seja preservada. Isso não soa bem em uma sociedade plural que considera escandalosos os exclusivismos religiosos. Com que direito proclamamos Jesus Cristo como único caminho à salvação? Como vamos relacionar-nos com os muçulmanos, para os quais o profeta Maomé é a encarnação de Deus, e somente ele? Esse é apenas um exemplo para o choque dos credos, cada qual com a reivindicação de ser a mediação da autêntica e única verdade. Maomé ou Jesus? Buda ou o Dalai Lama? Como sair do labirinto? Para avançar, necessário se faz sepultar a ideia de que todas as religiões adoram o mesmo Deus. O problema está justamente na diversidade das divindades. Qual o Deus no qual nós cremos? É isso o que se deve clarear antes de qualquer coisa. Devemos prestação de contas sobre nosso discurso de Deus. Será um Deus tirano, brutal, vingativo, que castiga e odeia seus inimigos? O pai de Jesus Cristo é misericordioso. Perdoa os pecados e não persegue os incrédulos. É exatamente isso o que a invocação “pai” quer expressar. Erra quem a interpreta em sentido “machista”. “Pai” é antes sinônimo de carinho, proteção, cuidado, aliás, assim como também o termo “mãe”. É ali, nos braços dos pais, que a criança encontra proteção, segurança, amor. Sem tal experiência, as pessoas sofrem graves sequelas psíquicas. Jesus revela Deus como sendo “pai”, ensinando a invocá-lo

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“Pai Nosso”. Isso é puro evangelho. Jesus, ao despedir-se dos seus, roga que Deus preserve a comunidade nessa verdade. Existe outra? Eis por que também é estúpido fazer coro com a descrença. A negação de Deus deixa um vácuo impossível de ser preenchido por um substitutivo. Sem Deus já não há o que segure as pessoas nas vicissitudes da vida e que as console na futilidade de todas as coisas. O ateísmo é cruel. Anima a aproveitar o que a vida tem de melhor a oferecer, mas “no vale da sombra da morte” (Sl 23.4) deixa as pessoas na mão. Está fixado no aquém e suas possibilidades sem nenhuma perspectiva além do horizonte. A fé cristã tem a coragem de afirmar que o despejo de Deus produz irrecuperável prejuízo. Dizia Sören Kierkegaard, grande teólogo luterano da Dinamarca, que a nobreza do ser humano consiste em ter necessidade de Deus. Distingue-se nisso do animal e da máquina. O testamento de Jesus em João 17 confirma essa verdade e convida-nos a ser incluídos na unidade do “Pai com o Filho”.

4 Imagens para a prédica A igreja copta no Egito sofre brutal perseguição. Frequentemente tem sido vítima de atentados suicidas com terrível saldo de mortos. Uma das reações mais impressionantes foi um cartaz lembrando a passagem do Evangelho de Mateus com as palavras de Jesus dizendo: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem [...]” (Mt 5.44) Existem exemplos semelhantes em outros países. Deus reprova a retaliação. O Pai de Jesus Cristo é o Deus do amor, uma verdade infelizmente esquecida também por cristãos. Não raro cedem também eles à tentação da vingança. Mas não é isso o que o Pai ensinou ao Filho. Vingança é sempre traição aos propósitos de Deus. Dela jamais vão nascer paz e bem-estar. Eis o que deve ser uma ênfase cristã no diálogo inter-religioso. A glorificação de Deus no mundo não permite outra conclusão. Nem tudo é relativo. Da mesma forma, a fé em Deus compromete com o respeito à dignidade do ser humano. Não existem pessoas de segunda categoria, que valham menos do que outras. Todo racismo é do diabo. O mesmo vale em relação à mulher. É vergonhosa a discriminação de que continua vítima em pleno século 21. Não se trata de uma simples questão social. Não! Um conceito de Deus está em jogo. Religião não é tão inocente como muitos pensam. A maneira de imaginar Deus tem incisivas consequências para o dia a dia das pessoas, para seu discurso e sua conduta. Por isso mesmo devemos, cada qual em particular e em conjunto, prestar contas de nossa “teologia”, uma exigência extensiva também aos ateus e demais “descrentes”. Também eles têm algo em que acreditam. O testamento de Jesus coloca parâmetros para a fé. Deixa claro que todo discurso “teológico” deve passar pelo crivo de Jesus Cristo, de sua atuação e de seu destino. Certamente se trata de uma provocação. Mas vale a pena fazer o teste. Esse exclusivismo tem argumento. É a tese com que iniciamos o “diálogo inter-religioso”. A prédica deverá ser oportunidade para explicá-la. Deverá mostrar a unidade que há entre o Pai, o Filho e o Espírito, ou seja, entre Deus, Jesus Cristo e as manifestações em seu nome.

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5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Existem crimes cometidos em nome de Deus. Isso não só por outros, também nós não nos podemos excluir. Achamos que a fé não pode tolerar isso e aquilo, fazendo com que reagimos com violência, furor e ódio. Ofendemos nossos irmãos e nossas irmãs, causamos prejuízo à sua vida, somos fracos no amor ao próximo. Dessa forma acumulamos culpa diante de Deus e de nossos semelhantes. Em vez de nos engajar em favor da paz, multiplicamos os conflitos em nosso entorno social. Senhor, nosso Deus. Perdoa-nos a dívida. Tem compaixão de nós. Oração de coleta Agradecemos pelo amor em evidência na intercessão de Jesus em favor de sua comunidade. Assusta-nos a força do mal no mundo. Estamos angustiados com a situação política e econômica no país, em nosso continente e nos demais países. Vida humana já não vale muito. Ansiamos por condições que nos permitam viver sem medo, em harmonia com nossos vizinhos e em segurança. Queremos um mundo sustentável de respeito à natureza e ao futuro das novas gerações. O que nos inspira a tal prece é o exemplo de Jesus, que intercedeu por nós. Preserva-nos a fé, a confiança e a coragem de resistir ao mal. Amém. Intercessão A intercessão de Jesus serve de inspiração à sua comunidade. Assim como ele intercedeu por outros, assim fazemos também nós. Rogamos a Deus que segure sua comunidade na fé e no amor para que seja sal da terra e luz do mundo. Não menos nos preocupa o mundo não cristão. Pedimos a Deus: queira ensinar a todos os povos a diferença entre fé verdadeira e fé falsa, entre o bom senso e a loucura, entre sabedoria e estupidez. As pessoas necessitam de orientação, de uma barra de sustentação, de um guia para indicar-lhes o caminho. Recorremos a Jesus Cristo, no qual reconhecemos a imagem de Deus Pai. Nele encontramos consolo nas angústias e proteção nos tormentos da vida. Nós lhe agradecemos por sua graça. Amém.

Bibliografia FUNKE, Alex. Joh. 17.1(2-5)6-8. Neue Calwer Predigthilfen. Stuttgart, 5. Jahrgang, Bd. A, p. 214-221, 1982. KÄSEMANN, Ernst. Jesu letzter Wille nach Johannes 17. Tübingen: J. C. B. Mohr, 1967. SCHULZ, Siegfried. Das Evangelium nach Johannes. Das Neue Testament Deutsch. Teilband 4. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1972.

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DOMINGO DE PENTECOSTES

04 JUN 2017

PRÉDICA: NÚMEROS 11.24-30 JOÃO 20.19-23 1 CORÍNTIOS 12.3b-13

Roger Marcel Wanke

1 Introdução Em tempos pós-modernos, a igreja de Jesus Cristo deve ser exortada a viver a partir do Espírito Santo e não a partir do espírito da época. Aqui reside a relevância de um culto de Pentecostes ontem e hoje. O diálogo com o espírito da época é necessário e saudável para a igreja, para que ela possa conhecer o contexto no qual ela deve estar inserida. Mas não é o contexto, muito menos o espírito da época que deve determinar o agir, a palavra e a relevância da igreja. A igreja é de Jesus Cristo. Ele é do seu Senhor. Por isso somente a voz de seu Espírito Santo tem permissão para falar à igreja e nortear sua atuação no mundo, independente do que diz o espírito da época em que se vive. Conforme o relato bíblico, o Espírito Santo é a presença do próprio Deus, que age no seu povo e no mundo, o qual criou. A ênfase dos textos previstos para o culto de Pentecostes deste ano aponta para a presença e para a ação do Espírito Santo dentro da comunidade. Ao soprar seu Espírito, Deus capacita sua comunidade a assumir sua tarefa missionária, catequética, diaconal e pastoral, não apenas para ministros ordenados, mas sobre toda a sua comunidade. O texto previsto para a pregação do culto de Pentecostes deste ano encontra-se no livro de Números 11.24-30. Como veremos a seguir, a ênfase do texto está na dádiva do Espírito Santo sobre os anciãos de Israel, capacitando-os a ser auxiliadores de Moisés na condução do povo de Israel durante sua caminhada pelo deserto até a Terra Prometida. Já os textos previstos como leitura bíblica são do Novo Testamento. O primeiro, João 20.19-23, está inserido no contexto do domingo da Páscoa. Ele relata a aparição do Cristo ressurreto a discípulos, que estavam trancafiados em uma casa com medo dos judeus. Após desejar a paz aos seus discípulos e dizer-lhes que veio para enviá-los, pelo fato do próprio Pai tê-lo enviado (missio Dei), Jesus sopra-lhes o Espírito Santo, dizendo: recebei o Espírito Santo (v. 22). Diferente da tradição lucana, que compreende o sopro do Espírito Santo no dia de Pentecostes [50 dias após a Páscoa], João localiza-o no próprio dia da Páscoa. A ênfase de João em seu relato não está na cronologia, mas nas implicações de receber o sopro do Espírito Santo. Tendo como ponto de partida o “discurso de despedida” (Jo 13-17), no qual Jesus anuncia a vinda do “Consolador”, referindo-se ao Espírito Santo, João aponta para a capacitação que os discípulos vão receber do próprio Cristo ressurreto ao soprar sobre eles o Espírito Santo. Para João, o Espírito Santo é a presença do próprio Cristo ressurreto em sua comunidade, consolando-os e fortificando-os e certificando-os da paz com Deus diante das aflições deste mundo (Jo 16.33). O Espírito Santo é

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aquele que convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 14.7-11). Ele os guiará à verdade e anunciará todas as coisas que hão de vir (Jo 16.13-15). Jesus não deixa sua igreja órfã ou à mercê deste mundo. Mas prometeu estar presente nela por meio do seu Espírito Santo. Assim fica evidente que a igreja só poderá cumprir sua função e tarefa no mundo se o Espírito Santo habitar no meio de sua comunidade, consolando-a e capacitando-a a fazer o que Jesus Cristo fez e anunciou. O segundo texto previsto é do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12.3b-13. No contexto conturbado da comunidade de Corinto, Paulo exorta-os a olhar para a comunidade da forma como Deus a pensou, ou seja, como um corpo vivo, em que há vários membros com seus dons, presenteados pelo Espírito Santo, a fim de edificar a comunidade. É o Espírito Santo que cria a igreja e capacita-a para seu serviço dentro dela e também no mundo. Em Corinto, parece haver uma concorrência entre os membros no que se refere aos melhores dons, e esses acabam esquecendo que o principal de todos os dons é o amor (cap. 13). Esse texto deixa claro que, infelizmente, também é possível haver dificuldades de relacionamento dentro da comunidade cristã quando o assunto são os dons do Espírito Santo. Alguns acham que são melhores do que outros. Outros acham que são incapazes se comparados com alguns. Alguns acham que precisam fazer tudo sozinho no reino de Deus. Outros acham que não precisam fazer nada. Em suma, a relação entre os dois textos previstos como leitura bíblica com o texto da prédica está em apontar para a realidade da missio Dei, que agora ganha dimensões comunitárias, ou seja, Deus enviou Jesus, que enviou (soprou) o Espírito Santo sobre os discípulos, e esses agora são enviados a criar e edificar comunidades. Deus desce do céu (nuvem) para partilhar e conceder dons a seu povo (Nm 11.25). Na comunidade, o Espírito Santo age concedendo a palavra de Deus e os dons para o serviço e para a edificação da comunidade. Portanto não é possível ser cristão sem ser tocado, transformado, convencido e capacitado pelo Espírito Santo tanto para crer como para servir. A perícope indicada já foi trabalhada em duas contribuições anteriores de Proclamar Libertação. Ambas também estão previstas para o Domingo de Pentecostes.

2 Exegese O texto de Números 11.24-30 está inserido num grande bloco chamado na pesquisa de perícope do Sinai [Êxodo 19 – Números 10], que narra os eventos que aconteceram ao pé do monte Sinai. Entre eles destacam-se a dádiva da Lei (Decálogo e outros mandamentos – Êx 20-21), as orientações relativas à construção do tabernáculo (Êx 25-31), o bezerro de ouro e a renovação da aliança (Êx 32-34), leis cultuais e relacionadas aos sacrifícios (Êx 35-40; Lv 1-16), a Lei de Santidade (Lv 17-26). É muito curioso perceber que a moldura desse bloco (o que vem antes e o que vem logo depois) narra os mesmos assuntos entre si: a murmuração do povo de Israel no deserto e a escolha de anciãos para auxiliar Moisés na condução e orientação do povo. A primeira moldura está em Êxodo 15-18, na qual o povo de Israel reclama das águas amargas e da falta de alimento. Deus, então, envia-lhes o maná e codornizes para alimentá-los e faz com que

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águas amargas se tornem água doce (potável) para saciar sua sede. Em Êxodo 18, Moisés recebe uma visita inusitada de seu sogro, Jetro, que fica horrorizado com a forma como Moisés orienta o povo: “Não é bom o que fazes. Sem dúvida, desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não o podes fazer” (Êx 18.17-18). Diante disso Jetro sugere a Moisés escolher pessoas capazes entre o povo para auxiliá-lo. A segunda moldura repete esse mesmo enredo em Números 11. Após partir do Sinai, finalmente rumo à Terra Prometida, o povo de Israel começa a murmurar novamente: “Quem nos dará carne a comer?” (Nm 11.4). A saudade dos peixes gratuitos do Egito, dos pepinos e cebolas, dos melões e dos alhos silvestres (v. 5) fazia-os embrulhar o estômago só em pensar que tinham somente o maná para comer. E então começaram a chorar e a lamentar diante de Moisés. Quando finalmente tudo parecia estar certo para seguir a viagem sem problemas, a fé e a motivação dos israelitas são bombardeadas pelo ronco de seus estômagos, pela ingratidão em seus corações e rebeldia no seu relacionamento com Deus (em hebraico: amargura, como paralelo às águas amargas). Diante dessa situação, a ira de Deus acende-se contra os israelitas (Nm 11.1-3). E não era por menos! Deus até então estava sustentando-os, não apenas com sua presença e seu guiar no meio do deserto, mas também com o sustento físico, dando-lhes alimento e água e tudo o que lhes era necessário para viver. Moisés, como líder do povo, cumpre sua tarefa. Ele se assenta à porta de sua tenda (v. 10) e ouve um por um (por famílias) chorar diante dele, reclamando da situação. O texto diz que mais uma vez a ira do Senhor se acende. Mas dessa vez também Moisés fica irado. O fato de Deus estar novamente irado com seu povo “pareceu mal aos olhos de Moisés” (v. 10). Por isso Moisés ora a Deus e questiona seu agir, questiona seu chamado, questiona o fato de Deus ter escolhido o povo de Israel, de ter com ele um plano e de usar o próprio Moisés como líder desse povo. Moisés diz a Deus que sozinho não tem condições de continuar guiando esse povo por ser um fardo pesado demais. Sua oração termina com um pedido de morte: “Mata-me de uma vez!” (v. 15). O contexto da perícope deixa o cenário da nossa perícope bem claro diante dos nossos olhos: vemos um povo ingrato, rebelde e manhoso, vemos um líder cansado, solitário e decepcionado com Deus. Vemos também um Deus cheio de planos e promessas, animado com a condução de seu povo até a Terra Prometida, mas irado com esse mesmo povo por conta de sua falta de fé, confiança e perseverança. Contudo Deus, por sua vez, não deixa essa situação ficar desse jeito. O povo está sem perspectivas. Moisés está sem perspectivas. Mas Deus tem perspectivas! Deus sabe do que sua comunidade precisa. O povo quer carne, mas Deus envia e dá-lhe seu Espírito. O povo quer algo visível e palpável. Deus, porém, dá-lhe algo invisível: seu Espírito. Moisés quer abdicar da sua função. Prefere a morte a viver. Deus, porém, concede-lhe auxiliadores e dá aos anciãos o Espírito que concede vida e força para viver e servir. Assim chegamos à perícope proposta para a prédica. O texto não apresenta nenhuma dificuldade lexical ou gramatical. As poucas chamadas textuais do aparato crítico não alteram o sentido da perícope.

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Muitas delas apontam apenas para mudanças em comparação ao Pentateuco Samaritano. Da mesma forma, as pequenas variações nas traduções em português apenas ajudam a compreender melhor o texto em si. Uma única informação interessante é o fato da Nova Tradução da Linguagem de Hoje traduzir um pouco diferente no v. 29 a reação de Moisés à sugestão dada por Josué de repreender Eldade e Medade por profetizar no arraial e não na tenda. Ela traduz: “Por que você está preocupado com os meus direitos, quando eu é que deveria estar?”. Todas as outras versões portuguesas usam o termo ciúmes. Ainda assim, o sentido permanece o mesmo. A perícope pode ser dividida e compreendida da seguinte maneira: a) Moisés obedece ao Senhor e reúne-se com os anciãos (v. 24) Após a oração de Moisés a Deus pedindo para morrer diante dessa situação tão lastimável dos israelitas, Deus vem a seu encontro e orienta-o no que deve fazer. O v. 24 inicia falando que Moisés obedece às ordens dadas por Deus. Ele vai até o local onde está o tabernáculo (tenda), convoca setenta anciãos e juntos colocam-se na presença do Senhor, esperando o agir de Deus. Esse é o lugar do culto. Ali Deus vai revelar-se ao povo. Ali ele vai ajudar Moisés e seu povo. O texto deixa algo de suspense no ar, embora Moisés saiba bem ao certo o que Deus vai fazer, pois foi instruído por ele (v. 16-23). Os anciãos não são apenas os mais idosos dentre o povo, mas também aqueles que assumem funções dentro do povo. b) Deus desce e sopra seu espírito sobre os anciãos (v. 25-26) Deus desce da nuvem onde está e tira uma parte do Espírito Santo que ele havia concedido a Moisés e concede aos setenta anciãos do povo de Israel (cf. Gn 46.27; Lc 10.1,17). Isso não significa que Moisés perde uma parte do Espírito de Deus ou que ele fica enfraquecido por isso. Pelo contrário, o Espírito Santo permanece agindo na vida de Moisés. Pode-se entender essa atitude de Deus de forma pedagógica a Moisés. Não apenas o fardo e o peso do ministério são tirados de Moisés, mas também eles são tirados e compartilhados quando o Espírito que é dado também é compartilhado. O Espírito Santo é de Deus e não de Moisés. O texto continua dizendo que o Espírito repousou sobre eles e que imediatamente os anciãos começaram a profetizar. O dom de profecia é na Bíblia um fenômeno visível do agir do Espírito Santo (cf. 1Sm 10.6-13; 19.20-24; 1Rs 22.6,10-12; Jl 2.28; At 2.4; 1Co 12.10). Muitos estudiosos associam esse dom aqui a um estado de êxtase (cf. 1Co 12-14). O texto não fala a razão de Eldade e Medade não estarem juntos, ao redor da tenda, com os demais anciãos. Fato é que ambos não são excluídos de receber o dom do Espírito e de apresentar os sinais dessa dádiva, descritos no texto como o dom da profecia. O que se pode depreender disso é que o Espírito Santo age na comunidade lá onde há culto (na tenda) e lá onde se vive (no arraial). c) Reações distintas diante do Espírito que sopra onde e como quer (v. 27-28) A concessão do Espírito Santo aos anciãos foi um fenômeno notório no meio do povo de Israel e causou reações distintas. Um jovem anônimo, ao ver Eldade e Medade profetizando no meio do arraial, corre em direção a Moisés para

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informá-lo do ocorrido. O texto não deixa claro se o fato causa indignação ou espanto. O que fica evidente é que isso não seria algo normal, e por isso Moisés deveria ficar sabendo. Já no v. 28, vemos a reação de Josué, filho de Num (cf. Êx 17.1-16; Dt 31.1-8; Js 1.1), que assume uma reação negativa diante do fenômeno da profecia, ocorrida no meio do arraial. Para Josué, os dois anciãos profetas deveriam ser repreendidos por Moisés. Também aqui o texto não dá maiores explicações. A razão poderia ser o fato de eles terem desobedecido à ordem de Moisés de estar todos ao redor da tenda. Mas também isso seria especulativo, pois o texto não os recrimina por estar no arraial. Moisés e Josué permanecem como espectadores do agir de Deus por meio da dádiva do Espírito Santo aos anciãos. Moisés agora pode estar mais tranquilo e aliviado. Deus capacitou setenta anciãos para auxiliá-lo. Também Josué, um dia, vai colher os frutos dessa dádiva, quando ele deixar de ser o servidor de Moisés e passar a ser o substituto de Moisés, escolhido por Deus e aprovado pelos anciãos para liderar o povo e entrar com ele na Terra Prometida (cf. Js 1.1-18; 23.1-24.25). d) A visão de ministério de Moisés (v. 29-30) Moisés reage de forma inusitada ao pedido de Josué: “Tu tens ciúmes por mim?”. É muito interessante essa resposta de Moisés. De fato, ele poderia ter ficado com ciúmes. Afinal, Deus chamou-o para libertar o povo de Israel da escravidão do Egito e capacitou-o o tempo todo para liderar esse povo. Moisés poderia pensar que era o único capaz de fazer tal obra e pensar que teria sozinho força para isso. Mas, pelo contrário, Moisés aprova a profecia de Eldade e Medade no arraial ao dizer a Josué: “Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhe desse o seu Espírito!” (v. 29). Moisés deixa claro que o dom do Espírito Santo não era algo somente dado a ele como líder do povo de Deus. Seu desejo, talvez dito até por desabafo, era que todos pudessem receber o Espírito de Deus. O que Moisés expressa aqui se torna realidade com a profecia de Joel 2 e principalmente com o derramamento do Espírito Santo sobre os discípulos em Atos 2, no dia de Pentecostes, inaugurando assim a atuação da igreja no mundo.

3 Meditação Ao meditar sobre esse texto, fazemo-nos algumas perguntas: Como pode o povo de Deus reclamar tanto e ser tão ingrato a Deus? Esse é o povo de Deus, sua comunidade! Como pode? Como pode um líder, servo de Deus, como Moisés ter tanta dificuldade para aprender a delegar funções? A visita de Jetro não adiantou nada? Por que vemo-lo novamente cansado e sobrecarregado, querendo “carregar o piano” sozinho? Como pode um servo do Senhor pedir para morrer por não dar conta do seu ministério? Por mais que todas essas perguntas sejam legítimas e inusitadas, elas podem ser percebidas também hoje na comunidade cristã e no ministério cristão. Por isso não é difícil contextualizar a perícope de Números 11.24-30. O texto fala de realidades bem comuns hoje no contexto eclesial. A rebeldia do povo de Deus hoje, a sobrecarga, bem como o cansaço ministerial são notórios. Mas

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também a iniciativa de Deus de vir ao encontro de seu povo ingrato, que possui dura cerviz, bem como de vir ao encontro de seus servos cansados e sobrecarregados é realidade visível hoje. O escopo do texto deixa claro que o agir do Espírito Santo não apenas gera a fé, mas também o serviço. Esse serviço não é dado por Deus como fardo, mas como bênção, se for entendido do jeito de Deus. Por isso ele é chamado de ministério. O texto aponta não para a inércia na comunidade. Problemas, dificuldades e desafios sempre vão existir. Deus chama, capacita e envia pessoas para justamente não haver sobrecarga ao lidar com situações difíceis no seio da comunidade. Talvez nossa maior vontade seja que não haja carga alguma para carregar no ministério. Talvez desejamos ser o centro das atenções no ministério. O texto parece mostrar, por um lado, que Moisés não se convence de que a forma como Deus resolve o problema será realmente acertada. Deus desafia-o sarcasticamente. Leia o v. 23! Por outro lado, parece que Josué entende que Moisés estaria com ciúmes, já que agora não apenas ele, mas setenta anciãos receberam o poder do Espírito de Deus e que dois deles estão meio sozinhos profetizando pelo arraial. Como lidamos com a concorrência? Ou melhor, como lidamos com o ministério compartilhado? Não somos os únicos que “profetizamos”. O Espírito de Deus sopra também em outras igrejas. Com isso não se quer defender um carismatismo exacerbado. Fato é que a igreja de Jesus Cristo é sim carismática, no sentido bíblico do termo, ou deixa de ser igreja. Isso significa que na igreja de Jesus Cristo não há espaço para um pastorcentrismo, ainda bastante presente em nossas comunidades. As razões para isso partem tanto de ministros como também dos próprios membros. Ministros podem pensar que, por conta da ordenação, são os únicos chamados, capacitados e autorizados para exercer o ministério (cf. artigo XIV da Confissão de Augsburgo). Já os membros podem pensar que não precisam envolver-se no trabalho da comunidade, porque pagam um ministro para fazer esse trabalho. Ministros podem reagir com ciúmes de membros que exercem os dons na comunidade. Ministros podem querer impedir e repreender o sacerdócio geral por medo de perder espaço ou por excesso de zelo confessional. Membros podem esquivar-se de seu chamado e de seu serviço dentro da comunidade. Há também outro fenômeno perceptível, chamado por alguns de leigocentrismo. Tal visão transforma ministros em funcionários da igreja, que precisam apresentar níveis de qualidade (Pastor ISO 9001), que, além de destruir sua autoestima, sobrecarregam-no em demasiado. O texto deixa-nos bem claro o caminho do equilíbrio diante de tal situação. De qualquer forma, falar do Espírito Santo também é polêmico no contexto eclesial brasileiro. Mas isso não deveria ser empecilho. O Espírito Santo continua agindo na igreja, continua chamando, capacitando com seus dons e enviando pessoas para a edificação da comunidade. Se, por um lado, esse texto é uma exortação clara à edificação da comunidade por meio dos dons do Espírito Santo, ele também é um bálsamo para todos os ministros que andam assim como Moisés, cansados e sobrecarregados, sem perspectivas para o ministério, em vias de pendurar o talar.

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O Senhor tem perspectivas para sua igreja. Ele respondeu à oração de Moisés não como ele esperava, mas como ele precisava. Do que nós precisamos hoje em nosso ministério e em nossas comunidades? Considerando que estamos em plena época do jubileu dos 500 anos da Reforma, cabe aqui ainda lembrar que Lutero se ocupou com esse assunto também no contexto da Reforma. Tanto a pneumatologia como a edificação da comunidade são temas centrais da teologia de Lutero. Sobre isso indico abaixo literatura para aprofundamento. Cito, a título de sugestão para meditação, palavras do próprio Lutero no Catecismo Menor ao explicar o terceiro artigo do Credo Apostólico: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a Ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé [...]”. Ser chamado pela fé e servir pelo amor é obra única e exclusiva do Espírito Santo em nossa vida. Moisés é testemunha disso. A perícope parte de uma realidade sem perspectivas (o povo de Israel e Moisés) e culmina no agir surpreendente do Espírito Santo. Assim deveria ser a direção da pregação. Tema da pregação: Deus capacita sua igreja 1. O Senhor sabe do que sua comunidade necessita 1.1 Há demandas e mais demandas na comunidade 1.2 Moisés sente-se sozinho e sobrecarregado 1.3 Deus chama pessoas para ajudá-lo 2. O Senhor concede seu Espírito Santo 1.4 Deus envia o Espírito Santo 1.5 O Espírito Santo habita (repousa) no meio do povo de Deus 1.6 O Espírito Santo age no meio do povo de Deus 3. O Senhor capacita com seus dons 1.7 Os dons do Espírito Santo são partilhados na comunidade 1.8 Os dons do Espírito Santo servem para edificar a comunidade 1.9 Os dons do Espírito Santo impulsionam à missão da comunidade

4 Imagens para a prédica O futebol pode auxiliar muito bem a exemplificar a perícope. Conta-se que, certa vez, um técnico de futebol foi entrevistado por um repórter de uma revista esportiva muito famosa, que tinha interesse em saber qual seria a grande contribuição do futebol para a saúde e para manter a forma física. Ao ser perguntado pelo repórter, o técnico responde: “Em minha opinião, o futebol não ajuda em nada para manter a forma física, muito menos ajuda na saúde”. O repórter, espantado, indagou: “Mas como? Que explicação você daria para essa afirmação?”. O técnico prosseguiu convicto de sua afirmação, dizendo: “Num jogo de futebol, encontramos 22 atletas correndo 90 minutos de um lado para o outro num campo de futebol atrás de uma bola sem poder descansar. Eles vivem sob a pressão de uma grande multidão, mais de 50 mil, que estão meramente sentados nas arquibancadas sem

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fazer um esforço sequer para que o jogo tenha um vencedor”. Esse exemplo, por mais simples que possa parecer, ajuda-nos a entender o que muitas vezes acontece na igreja cristã. Poucos fazem todo o trabalho, que são alvo de críticas daqueles que não participam da vida da comunidade, que não se envolvem nas atividades, não servem com seus dons. A igreja sofre com as expectativas e críticas de muitos e padece com a falta de participação de muitos. Na igreja de Jesus, não há arquibancadas nem banco de reservas. Todos são chamados a jogar. Além desse pequeno exemplo, e como estamos no ano do jubileu da Reforma, nada melhor do quer ilustrar a pregação para o culto de Pentecostes com informações, textos, imagens de Lutero e da confessionalidade luterana. O texto de Números 11.24-30 aponta para a realidade do sacerdócio geral de todos os crentes. Esse tema foi desenvolvido bastante por Lutero em alguns de seus escritos. A título de sugestão e de informação, deixo abaixo algumas referências bibliográficas sobre o tema do Espírito Santo e do sacerdócio na perspectiva de Lutero e da confessionalidade luterana, que podem inspirar nesse sentido a prédica: a) LUTERO, Martim. Catecismo Maior. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012. p. 82-88. b) LUTERO, Martim. À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão. In: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. v. 2, p. 277-340 [especificamente p. 282-286]. c) LUTERO, Martim. Dos Concílios e da Igreja. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1992. v. 3, p. 404-408; 413-420. d) SPENER, Phillip Jakob. Mudança para o futuro – Pia Desideria. Curitiba: Encontrão; São Bernardo do Campo: IEPG, 1996. p. 90-94. e) BAYER, Oswald. A Teologia de Martim Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 2007. p. 173-184; 185-203. f) LOHSE, Bernhard. Luthers Theologie in ihrer historischen Entwicklung und in ihrem systematischen Zusammenhang. Göttingen: V&R, 1995. p. 248255; 294-315. g) WACHHOLZ, Wilhelm. História e Teologia da Reforma. Introdução. São Leopoldo: Sinodal, 2010. p. 127-131. h) DREHER, Martin. Igreja, Ministério, Chamado e Ordenação. Estudos a partir de Lutero. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2011. i) VOIGT, Emilio. Quem somos nós? Princípios da Fé Cristã e da Confessionalidade Luterana. São Leopoldo: Sinodal, 2014. p. 51-57; 96-97. j) BRAKEMEIER, Gottfried. Confessionalidade luterana – Manual de Estudo. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2010. p. 67-73. (Série Educação Cristã Contínua).

5 Subsídios litúrgicos O culto de Pentecostes na IECLB tem sido, nos últimos anos, o culto de lançamento da Campanha Vai e Vem. Sugiro não esquecer de contemplar esse aspecto importante da missão de nossa igreja no culto. O sustento missionário também é um aspecto do agir do Espírito Santo na vida do cristão e da comunidade cristã.

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Vejamos algumas sugestões para a liturgia do culto: Liturgia de entrada Para o início do culto pode ser cantado o hino Vem, Espírito Divino (HPD 1 – 85). Ao orarmos pelas dores do mundo ou pela confissão dos pecados, podemos cantar um hino de Lutero sobre Pentecostes: Ó Santo Espírito do Senhor (HPD 1 – 82). Ele nos ensina a dirigir-nos ao Espírito Santo enquanto clamamos: Kyrie Eleison! Se houver um momento de louvor mais delongado, sugere-se cantar os hinos 318: Vem Espírito de Deus, vem nos consolar e 320: Espírito Santo de Deus, ensina-nos a orar (ambos do HPD 2). Liturgia da palavra Após a leitura do texto previsto de João 20.19-23, pode-se cantar o hino 319: Vem, Espírito Santo, vem iluminar (HPD 2), baseado no texto do Evangelho de João. Após a leitura do texto apostólico de 1 Coríntios 12 e antes da pregação, pode-se cantar o hino 78: Santo Espírito clemente (HPD 1), também por estar baseado no texto bíblico indicado. Liturgia de despedida No final do culto, sugere-se cantar o hino 81: Espírito, Deus, ó Santo Senhor (HPD 1). O hino é uma oração que se encaixa muito bem no momento da oração final de intercessão.

Bibliografia BLIND, Sisi. Números 11.24-30 – Domingo de Pentecostes. Proclamar Libertação: Auxílios para o anúncio do evangelho. São Leopoldo: Sinodal, 2007. v. XXXII, p. 169-173. NOTH, Martin. Das 4. Buch Mose – Numeri. Göttingen: V&R, 1977. [ATD 7]. SCHWANTES, Milton. Números 11.11-12,14-17,24-25 – Domingo de Pentecostes. Proclamar Libertação: Auxílios para o anúncio do evangelho. São Leopoldo: Sinodal, 1982. v. VIII, p. 205-212. WENHAN, Gordon J. Números. Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1985.

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PRÉDICA: MATEUS 28.16-20 SALMO 8 2 CORÍNTIOS 13.11-13

1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

11 JUN 2017

(TRINDADE)

Hans Alfred Trein

Todos os povos são eleitos

1 Introdução Estamos no período pós-Pentecostes. O Espírito Santo já foi derramado. O medo da perseguição e o sentimento de fracasso ainda vinculado à experiência da cruz foram vencidos pela disposição ao testemunho. Os discípulos reclusos já tinham experimentado as aparições encorajadoras de Jesus, recebiam o estímulo da ascensão do Senhor, embora também ela não tenha dirimido todas as dúvidas (Mt 28.17). A fé não isenta de dúvidas. O texto de Mateus é a referência bíblica sempre invocada para embasar a missão cristã. Jesus está se ausentando e confere a seus discípulos a tarefa de continuar seu projeto de instalação do reino de Deus. Não promete prosperidade nem ausência de dificuldades e dilemas. Promete presença, promete não deixar seus discípulos e discípulas sozinhos. “E estarei convosco até a consumação dos séculos” é a reafirmação de seu nome Emanuel (Is 7.14; Mt 1.23) – Deus conosco – e a lembrança da própria identidade de Javé, cujo significado é: “Eu estou e estarei aí” com vocês (Êx 3.14). O Salmo 8 revela uma noção antropológica contraditória. No versículo 4, a pergunta dá a entender que, diante da grandeza de toda a criação, o ser humano é nada. Já nos versículos 5-7, o salmista elabora a ideia de o ser humano estar só um pouco abaixo de Deus e dominar sobre o restante da criação. É a ideia que consta no primeiro relato da criação, recheado de verbos devastadores sobre esse domínio, o que aqui se repete na expressão “e sob os pés tudo lhe puseste” (6b). Essa mesma expressão se repete em 1 Coríntios 15.27; Efésios 1.22; Hebreus 2.8. O fecho da Segunda Carta aos Coríntios reafirma a presença do Deus de amor conosco, o que se materializa no voto tão apreciado como saudação litúrgica no púlpito.

2 Exegese Para a maioria de nós, acostumados a identificar a grande comissão com o texto de Mateus 28, é uma surpresa descobrir que cada um dos quatro evangelhos traz uma tarefa missionária com ênfases próprias: Mateus acentua o “fazer discípulos”, Marcos (16.15) foca “proclamar o evangelho”, Lucas (24.47ss) sublinha “ser testemunhas” e João (20.21) “ser enviados”. Além disso, pode surpreender também que Jesus nunca falou de uma grande comissão, mas sim de um grande mandamento.

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1º Domingo após Pentecostes

Refletindo criticamente sobre a missão realizada historicamente em nosso continente, cabe perguntar por que outros textos, de conteúdo missionário mais respeitoso com seu público-alvo, acabaram debaixo do tapete. Por exemplo, o envio dos doze em Mateus 10 e dos setenta em Lucas 10, o método animador de Jesus com os discípulos de Emaús (Lc 24) ou de Felipe com o eunuco em Atos 8, a história de Pedro e Cornélio em Atos 10, que poderia ter se tornado um paradigma metodológico da missão cristã... Minha hipótese é de que a “grande comissão” de Mateus e seu emprego isolado do evangelho todo se adequavam mais para embasar a missão colonizadora do que outros. E para tornar isso possível, um gerúndio foi traduzido por imperativo. Durante o V Encontro Continental de Teologia Índia, com o tema A Força dos Pequenos – Vida para o Mundo, em Manaus/AM, entre os dias 23 e 26 de abril de 20061, estávamos sentados à mesa conversando sobre a relação entre a fé cristã e os povos indígenas quando um indígena do Peru nos interpelou: “Vocês sabiam que o tão badalado imperativo missionário da grande comissão, na verdade, é um gerúndio? Jesus não mandou seus discípulos irem a todas as nações, apenas os instruiu a testemunhar o reino de Deus onde estivessem!” Essa leitura, de certa forma, desautoriza biblicamente toda a empresa missionária colonialista, destruidora das culturas e das espiritualidades indígenas, que se abateu sobre a América Latina desde o período medieval. Como, naquela ocasião, eu não tinha acesso ao meu NT grego, fui olhar em casa, e de fato: no v. 19, a forma verbal que está traduzida por ‘Ide’ é poreuthentes, grego do verbo poreuomai – ir, uma forma verbal (gerúndio no aoristo) que indica uma ação concluída e deveria ser traduzida por “tendo ido”. Talvez se pudesse traduzir poreuthentes mais adequadamente com “onde vocês estiverem”. A mesma forma verbal também aparece no texto análogo de Marcos 16.15. Além disso, a maioria dos pesquisadores concorda que Mateus, membro de uma comunidade cristã judaica, emigrado da Judeia antes da Guerra Judaica, já estava estabelecido num ambiente predominantemente gentílico, provavelmente na Síria (Cf. Mateus 4.24) (BOSCH, 2009, p. 83). Portanto, para a comunidade de Mateus, não havia nenhuma necessidade do imperativo “Ide”. Nesse contexto, lembrei-me de uma constatação: “cada tradução é uma traição” e pode ter consequências históricas imprevisíveis.2 E aí vem a pergunta: Como pode ser que, depois de tantos séculos de pesquisa, essa tradução ainda não foi consertada? Quando foi que essa tradução se inferiu e passou a induzir que se aliassem a colonização e a missão para submeter as nações a um cristianismo eurocêntrico, desrespeitando as diferentes revelações de Deus a outros povos e nações? Fui olhar como esse verbo é traduzido na Vulgata, que foi base para muitas traduções para outras línguas: Euntes, “indo” ou “quando forem”, é a formulação de Jerônimo na primeira tradução para o latim depois da formação do cânone bíblico no século IV. Já Lutero adotou a forma imperativa “Gehet hin”. Será que o ímpeto missionário aliado à expansão colonizadora3 foi capaz de influenciar até a tradução bíblica? Onde mais é necessário descolonizar nossa teologia? As traduções do Almeida, da BLH, da Bíblia Sagrada da Vozes, da Bíblia de Jeru-

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salém, de La Bíblia Latinoamericana, da Bíblia Sagrada Edição Pastoral..., para citar apenas as mais importantes no vernáculo, todas traduzem o gerúndio como imperativo. Outra consideração exegética veio do colega Werner Fuchs. Um objeto direto do “fazei discípulos” todas as nações é traduzido pelo Almeida4 como objeto indireto: de todas as nações. O correto seria: Tornai discípulas todas as nações (como na tradução alemã de Lutero) ou, num neologismo mais adequado ao matheteusate grego (aqui, sim, um imperativo), discipulai todas as nações. Portanto não se trata de cada denominação ou “missionário” catar membros num bairro, numa cidade ou país, mas de “evangelizar” o bairro todo, o país todo e de ser sal e luz nele com suas mazelas, falta de saneamento, jogo político, exploração do trabalho, violência cotidiana etc. Fazer discípulos5, batizando e ensinando são os três termos que resumem a missão para Mateus. Interessantemente falta o verbo “pregar”. Jesus nunca “pregou” nas sinagogas, no templo ou para seus discípulos. Ele sempre “ensinou”. Entretanto Mateus usa a palavra “pregar” nove vezes, “proclamar o evangelho” quatro vezes, evangelizar uma vez, sempre se referindo a pessoas de fora. Por que ela falta na “grande comissão”, pensada como de alcance universal? É necessário ainda considerar a tensão existente entre as comunidades cristãs de origem judaica e as primeiras comunidades cristãs de origem gentílica, que visivelmente é uma realidade na comunidade de Mateus. O mesmo Mateus que coloca na boca de Jesus “discipulai todos os povos” é o mesmo que também o faz dizer: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos, mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.5b-6). Pedro e Paulo lideram movimentos em parte contraditórios nas primeiras comunidades. Enquanto Pedro advoga um cristianismo mais intestino, em continuidade com a fé judaica, quase um judaísmo reformado, Paulo apóstolo aposta na expansão da fé cristã entre os gentios, enfatizando a descontinuidade e o novo. Enquanto Pedro continua na postura judaica reservada, na consciência de que cabe uma tarefa especial ao “povo eleito”, Paulo empenha-se por um novo conceito de eleição ekklesia6, inclusiva de todos os povos que estão dispostos a aceitar e viver o evangelho do reino de Deus instaurado por Jesus Cristo. A ação missionária acabou se impondo, não por último, como atividade necessária a um pequeno grupo que, diante do tamanho da missão recebida, certamente teve razoáveis receios de diminuir, de definhar e de morrer com sua mensagem tão revolucionária em meio a uma hegemonia imperial totalmente hostil. Quando os evangelhos foram escritos, a atividade missionária de Paulo já havia criado e ajudado a consolidar pequenas comunidades, já constituíra fatos históricos em vários pontos da Ásia Menor, o que está em consonância com a ênfase universalista de Mateus.

3 Meditação Inicialmente restringindo sua atuação ao povo eleito de Israel em continuidade com a primeira aliança vigente, Jesus comunica nesse mandato uma mudança de

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método7 na implantação do projeto de reino de Deus. Não são mais um povo e uma nação apenas8 que têm a tarefa de ser nes amim, luz para os povos: mostrar como se pode construir uma sociedade igualitária e pacífica com justiça social e econômica. Agora todas as nações devem ser convocadas para participar dessa empreitada. Mas o que são nações discípulas? Será que dá para imaginar que elas existam ou possam existir? As nações colonizadoras, que se entendiam cristãs, apropriaram-se desse mandato de Jesus e atribuíram a si mesmas submeter outras nações com a espada e a cruz à sua cultura socioeconômica, política e religiosa. Teria sido esse o sentido original de discipular todos os povos? Apesar de todos nós termos tido acesso ao evangelho do reino de Deus por meio dessa história infame, não é possível responder essa pergunta com um límpido sim. Além disso, há que distinguir claramente entre discipular um Estado-nação e um povo culturalmente definido. Muito antes, entendo que o discipular todos os povos deve ser interpretado à luz da primeira aliança com Israel. Ou seja: os discípulos são encarregados de atribuir a todos os povos a condição de eleitos de Deus para a implantação de seu reino. Todos os povos são capazes da nova aliança, cada qual contribuindo com o que tem de mais precioso em sua cultura. Cada povo tem sua revelação de Deus. Todos os povos são objetos do discipulai, mas a partir daí passam a ser sujeitos no projeto do reino de Deus. Não precisa haver colonização cultural. O método colonialista de forçar ou mesmo induzir sutilmente pessoas de outras culturas a tornar-se cristãs, mesmo que seja apenas de nome, parece mais com um plano de metas de banco; para alcançá-lo, os funcionários têm de se desdobrar para convencer os clientes a comprar títulos de capitalização e outros produtos para que o banco tenha lucros. Pior ainda é saber que a palavra missão foi emprestada do âmbito militar, significando conquista e submissão de outros aos domínios políticos próprios. Talvez as igrejas visíveis não vivam sem isso, mas a igreja de Jesus Cristo não precisa de lucros desse tipo, e missão cristã não pode significar sujeição e sim imitatio Christi. Basta o testemunho concreto da boa-nova do reino de Deus em amor, compaixão, solidariedade, serviço a exemplo de Jesus e se as pessoas perguntarem pela razão da esperança que há em nós, também pela pregação da multiforme graça de Deus. O restante é obra do Espírito Santo. Não somos nós humanos os responsáveis por produzir o reino de Deus, mesmo que muitas vezes tenhamos a sensação de estar apenas um pouquinho abaixo de Deus (Sl 8). De mãos dadas com o poder de Estado, na fatídica aliança de espada e cruz, a pretensa evangelização discursiva só podia resultar em perversão. Aí mesmo as pessoas bem-intencionadas na missão não escaparam de ser engolidas por esse projeto colonialista. O cristianismo ficou marcado por esse projeto e hoje tem dificuldades para desvencilhar-se dele. Talvez uma boa parte do marasmo em que nos encontramos com a fé cristã tenha a ver exatamente com o equívoco do gerúndio traduzido por imperativo. “Tendo ido” ou “onde estiverem” parece partir do princípio de que cristãos e cristãs são migrantes por excelência e que a migração, da qual estamos tomando mais e mais consciência nos últimos anos, na verdade é o maior fenômeno global, como bem afirmou o fotógrafo Sebastião Salgado com sua grandiosa exposição fotográfica sobre o tema. A ênfase está na vivência do reino de Deus, no fazer a vontade do Pai e não na “cristianização” nominal. A produção missionária

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de cristãos nominais foi uma traição ao Evangelho de Mateus, cuja ênfase está no discipulado que vive e aprende a tornar-se cidadão no reino de Deus, onde reina a justiça, notadamente superior à dos fariseus (dikaiosyne). “Essa é a dimensão constitutiva: Deus nos justifica, tornando-nos retos e santos a seus olhos. Depois de constituídos na justiça de Deus, ‘Deus nos usa para fazer brotar a justiça e o louvor perante todas as nações’ (Is 61.11). Deus suscita pessoas que tornam-se para outras ministros da mesma justiça que experimentaram da parte de Deus... É isso o que expressa o tempo verbal consecutivo na língua hebraica, que lamentavelmente não existe em nossas línguas ocidentais. A justiça humana é o esforço que nós fazemos para responder à bondade de Deus, cumprindo a sua vontade” (BOSCH, 2009, p. 99s). Mateus destaca o “fazer a vontade de Deus”. Só ele traz a petição “seja feita tua vontade...” na oração do Pai-nosso (6.10b). Dela depende a entrada no reino dos céus (7.21) e que nenhum só desses pequeninos pereça (18.14). O único aspecto que distingue os dois filhos da parábola (21.28-31), exclusiva de Mateus, é que um fez a vontade do pai e o outro não.

4 Assuntos para a prédica Valho-me das questões formuladas por Arias (2003, p. 22-48).  O método para a missão: fazer discípulos e discípulas, batizando e ensinando. Cristãos não nascem, fazem-se durante toda a vida. O catecumenato é permanente. Como estão o ensino e o estudo do evangelho em nossa comunidade? A dimensão catequética da prédica é insuficiente se não for acompanhada de um programa de formação cristã permanente na comunidade com ênfase na vivência do evangelho e não apenas no aprendizado intelectual. A meta é formar discípulos do reino de Deus, imitando Jesus Cristo, e não consumidores do mercado religioso. Ortopraxis em lugar de ortodoxia.  O conteúdo da missão: cumprir tudo o que Jesus ordenou, ou seja, viver o reino de Deus. Esse é o tema de Jesus em palavra e ação. No sermão do monte encontram-se o caráter, o estilo de vida e a espiritualidade dos discípulos e discípulas do reino. Buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça. Pregar, ensinar e curar. A ênfase ética está na justiça. Mateus apresenta Jesus e sua mensagem do reino como o cumprimento da visão de Isaías do servo sofredor, que “proclamará justiça às nações” (12.18s). Trata-se da justiça maior do que a dos escribas e fariseus, não apenas em nível pessoal, mas nas estruturas da sociedade. Os discípulos e discípulas são bem-aventurados quando têm fome e sede de justiça (5.6). A justiça passa pelo próximo. “Não existe discagem direta para Jesus; nosso próximo está na central telefônica!” (p. 36).  A motivação para a missão: a experiência do Cristo vivente. Cristo vive e está conosco! As dúvidas não são só de hoje. “Como dizia Calvino: A história da igreja é uma história de morte e ressurreição”. Ter compaixão como Cristo teve com o sofrimento das pessoas desamparadas e dispersas, ovelhas sem pastor. As pessoas não são apenas pecadoras, mas também são vítimas do pecado.  Os destinatários da missão: as nações e as pessoas mais pequenas. Todas as nações estão habilitadas a tornar-se discípulas do reino. A Galileia das pessoas

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empobrecidas e desprezadas é o ponto de partida e de chegada de toda a evangelização. A Galileia é o lugar, território semigentio para Mateus, de onde a boa-nova do reino de Deus passa a se espalhar. A Galileia, e não Jerusalém, é o lugar privilegiado da missão. Os pequenos são destinatários e sujeitos preferidos da missão: as crianças, as pessoas humildes, as pessoas sobrecarregadas, as pessoas privadas de direitos e dignidade... lidando com elas, lida-se diretamente com Cristo.  O sujeito da missão: uma igreja de discípulos. Onde está essa igreja apostólica capaz de fazer discípulos do reino? Nossas igrejas divididas e imperfeitas ainda têm autoridade para cumprir o mandato de fazer discípulos? A igreja primitiva também não era perfeita: havia desentendimentos, falsos profetas, falsos messias, onde se enganavam uns aos outros, onde a maldade se multiplicava e o amor de muitos esfriava. Mesmo assim, a igreja primitiva foi encarregada de fazer discípulos, como nós somos hoje.

5 Subsídios litúrgicos Hino de entrada HPD 1 – 94: Corações em fé unidos. Oração inicial Em conjunto com a comunidade, HPD 1 – p. 381: Sal da terra. Oração de coleta Deus de amor e de justiça, que escolheste o povo de Israel para viver exemplarmente o teu projeto de vida para toda a criação e que através de Jesus Cristo escolheste todos os povos para viver exemplarmente o teu reino, nós te pedimos: Olha para nossa comunidade e assiste-nos na missão que nos deste de fazer discípulos, para que sejamos fiéis ao mandato que nos deste. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, teu Filho, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Saudação do púlpito A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós (2Co 13.13). Hino depois da prédica HPD 1 – 197: Buscai primeiro o reino de Deus. Oração de intercessão Deus de misericórdia! Agradecemos pelo ânimo que nos deste através de tua palavra. Agradecemos pela confiança imerecida que tens em nossa comunidade para que façamos discípulos de teu reino, onde quer que estivermos. Abençoa toda a pregação do evangelho. Anima tuas comunidades a investir na educação cristã permanente e na formação de cidadãos de teu reino. Sobretudo, capacita-nos a lutar pela justiça e a enxergar-te em todos os pequeninos irmãos e irmãs

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aqui em (nome do lugar). Esteja com nosso povo humilde e com nossos governantes. Dá que possamos livrar-nos da corrupção e dos desmandos, dá-nos um governo que olha as reais necessidades da população e que priorize as pessoas mais fragilizadas. Acompanha de perto todas as pessoas que estão tristes e sem esperança. Dá-lhes a experiência da ressurreição para que também se engajem como discípulas do teu reino. E tudo o mais... Pai-Nosso. Hino de saída HPD 1 – 117: Jesus, pastor amado.

Notas 1 Participaram 178 pessoas de 16 diferentes países latino-americanos e duas de países europeus. 106 eram indígenas de 50 diferentes povos e 72 não indígenas, 125 eram homens, 53 mulheres, ao redor de 15 os representantes indígenas não cristãos. 2 Um exemplo clássico: a tradução na Septuaginta do termo hebraico almah (de Is 7.14, citado em Mt 1.23): jovem mulher em idade de conceber, para o grego parthenos: mulher virgem que ainda não teve relação sexual, resultou no dogma da virgindade que, nos dias atuais, mais atrapalha do que ajuda. 3 BOSCH, 2009, p. 17 sustenta que “missão” adquiriu o significado de difusão da fé cristã a partir do século 16. “Antes, o termo era usado exclusivamente com referência à doutrina da Trindade.” 4 A Edição Pastoral traduz: “Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”. A BLH traduz: “Vão a todos os povos do mundo e façam que sejam meus seguidores”. 5 Esse verbo só ocorre quatro vezes no Novo Testamento, três delas em Mateus (13.52; 27.57; 28.19) e uma em Atos (14.21). O substantivo “discípulos” é comum aos quatro evangelhos e em Atos, mas Paulo nunca o usa. 6 Aliás, dos quatro evangelhos apenas Mateus utiliza o termo ekklesia por duas vezes (16.18; 18.17). 7 Jesus nunca foi missionar os gentios, os gentios é que vieram a ele. Mateus enfatiza a mudança de método em coerência com as histórias de fé de não judeus, os magos do Oriente (2), o centurião de Cafarnaum (Mt 8.10s), a mulher cananeia (Mt 15.21-28), a reação do centurião romano e de seus acompanhantes sob a cruz (27.54). 8 Embora Mateus em 21.33ss coloque a substituição do povo eleito na boca de Jesus e a vinha a ser entregue a outros arrendatários, depois que o Filho foi morto, a eleição de Israel nunca foi revogada, o que deveria inibir as investidas missionárias conversionistas sobre os judeus. A missão de Deus com Jesus deu um salto metodológico de qualidade.

Bibliografia ARIAS, Mortimer; ARIAS, Eunice. El Último Mandato. La Gran Comisión, Relectura desde América Latina. Bogotá: Ediciones Clara-Semilla; San José: Visión Mundial, 2003. BOSCH, David J. Missão Transformadora – Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. 3. ed. São Leopoldo: EST/Sinodal, 2009.

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PRÉDICA: ROMANOS 5.1-8

18 JUN 2017

ÊXODO 19.2-8a MATEUS 9.35-10.8

Claiton André Kunz

As bênçãos da justificação pela fé

1 Introdução A Carta aos Romanos é um escrito fantástico do apóstolo Paulo. Ela foi escrita para uma igreja que não havia sido fundada por Paulo e que ele ainda não havia visitado. A carta tem sido há muito tempo reputada como a espinha dorsal da teologia por expor sistematicamente as principais doutrinas da teologia cristã. Poderíamos dizer que o problema central na Carta aos Romanos é a seguinte pergunta: “Como o ser humano pecador pode alcançar uma posição (ou relação) justa perante Deus?”. A resposta já aparece na introdução da carta quando Paulo lança mão de uma citação de Habacuque (2.4) e afirma que o “justo viverá pela fé” (Rm 1.17). Paulo passa então a esboçar sua teologia. Trata primeiro da condenação de todos (cap. 1-3): fala da condenação dos gentios (1.18-32), da condenação dos moralistas (2.1-16), da condenação dos judeus (2.17-3.8) e termina afirmando a condenação de todos (3.9-20). Depois disso, trata da justificação (3.21-5.21), fazendo uma descrição da justiça divina (3.21-31), ilustrando a justiça divina (4.125), falando dos benefícios da justiça divina (5.1-11) e, finalmente, aplicando a justiça divina (5.12-21). Depois ainda tratará da santificação (cap. 6-8), falando dos princípios, da aplicação e do poder da santificação. Em Paulo fica claro que a justificação não significa que a pessoa é tornada justa, pois ainda poderá vir a pecar, mas sim que ela é “declarada justa” por Deus, de forma que, ao olhar para ela, Deus não a verá como pecadora e sim como justa, por vê-la através do sangue de Cristo. Essa justificação não é de forma alguma operada por obras que essa pessoa possa ter praticada ou pela obediência à lei, que, embora requerida, não é alcançável por nenhuma pessoa. Essa justificação ocorre única e exclusivamente por graça e pela fé em Jesus Cristo, que cumpriu a lei a favor de todas as pessoas. No texto da mensagem dessa data, Paulo apresenta vários benefícios de uma pessoa justificada pela fé. Vamos primeiramente verificar alguns aspectos exegéticos do texto e depois esboçar os benefícios apresentados no texto.

2 Exegese No trecho que inicia no capítulo 5 desaparecem palavras-chave como “fé” e “crer”, que eram centrais nos dois capítulos anteriores. Em seu lugar aparecem conceitos como “paz”, “graça”, “esperança”, “amor”, “Espírito”, “reconciliação”,

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“redenção” e “vida”. O conceito “vida”, que só ocorrera em 2.7, agora aparecerá em 5.10,17,18,21; 6.2,4,8,10,11,13,22,23; 7.1,2,3,9,10; 8.2,6,10,12,13,38. V. 1 – O trecho anterior encerrava, em 4.25, com as palavras: “nossa justificação”. O trecho de Romanos 5.1 começa: “justificados, pois...”. Essa justificação acontece mediante a fé. Nós não experimentamos isso através daquilo que nós temos ou somos, mas por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto espaço de graça na qual estamos firmes (v. 2). V. 2 – “Acesso” denota o privilégio de aproximar-se ou ser introduzido à presença de alguém de alta posição, especialmente uma personagem real ou divina. Nesse texto, Cristo é visto como aquele que introduz os cristãos em seu novo estado de graça e de aceitação diante de Deus. V. 3 – A palavra “tribulação” vem do latim tribulum. Na época do NT, tribulum era um pedaço pesado de madeira com cravos de metal usado para debulhar cereais. Ao ser arrastado sobre os cereais, o tribulum separava o grão da palha. Ao passarmos por tribulações e dependermos da graça de Deus, as dificuldades purificam-nos e nos ajudam a eliminar a palha. O cristão não se gloria apesar de sofrer, mas precisamente porque sofre, pois sabe que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança (v. 4). De repente, descobrimos o sofrimento para Cristo como sendo um sofrimento com Cristo, como um presente da mais íntima comunhão com ele e como marca da autenticidade de nosso seguimento a ele. V. 5 – Aparece a expressão “não confunde / não decepciona / não envergonha”. Isaías 28.16 afirma que “todo aquele que nele crer não será envergonhado (confundido)”. Uma esperança que não se realiza deixa a pessoa envergonhada, mas a que se baseia na promessa de Deus tem seu cumprimento garantido. Poderíamos nos perguntar: de onde um atribulado retira sempre de novo seu vigor? O texto afirma que é devido ao amor de Deus derramado em nosso coração. V. 6 – Paulo faz questão de apresentar a condição daqueles por quem Cristo entregou sua vida com amor. “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”. O “ainda” ressalta que a paixão de Cristo alcançou pessoas num estado de fraqueza absoluta. “Fracos” refere-se a uma condição sem Deus. Nessas pessoas, a força ética e a dignidade humana estão totalmente quebradas. Estão rendidas a suas paixões (Rm 1.24,26,28), são incapazes de uma vida com Deus. V. 7 – Dificilmente alguém morreria por um justo, embora pelo homem bom talvez alguém tenha coragem de morrer. Os gregos e romanos glorificavam a morte de um soldado. “É doce e honroso morrer pela pátria” (Horácio, séc. I a.C.). Entre os judeus, o martírio pela religião dos pais era considerado de máxima honra (2 Macabeus 6.18-7.42). Reconhecem-se aqui motivos compreensíveis, mas que são restringidos e postos de lado pela expressão “poderá ser”. V. 8 – Deus provou seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós... Na cruz não aconteceu um heroísmo na potência máxima, mas uma humilhação extrema, um contrassenso escandaloso (Fp 2.8; 1Co 1.18).

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3 Meditação A justificação pela fé em Cristo não é apenas uma garantia do cristão ir para o céu, por mais empolgante que seja essa ideia. A justificação é ao mesmo tempo uma fonte imensa de bênçãos que podem ser desfrutadas ainda neste mundo. Entre essas bênçãos que podem ser desfrutadas estão: a) Paz com Deus (v. 1) – uma pessoa não salva é inimiga de Deus (cf. Rm 5.10; 8.7) pelo fato de que não pode cumprir a lei de Deus e também não pode obedecer à sua vontade. Uma pessoa assim não poderia experimentar a paz, pois já o profeta Isaías havia afirmado: “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o Senhor” (Is 48.22). Enquanto condenado por Deus, o ser humano encontra-se separado de Deus, numa espécie de “declaração de guerra”. Já no capítulo anterior, Paulo afirmou que a “lei suscita a ira” (Rm 4.15), ou seja, nenhum condenado pela lei pode desfrutar da paz com Deus. Entretanto, quando uma pessoa é justificada pela fé, quando é declarada justa, a lei não pode mais condená-la nem declarar guerra. Isso representa agora uma declaração de paz, possibilitada pela morte de Cristo na cruz. b) Acesso a Deus (v. 2a) – Quando se observa o templo, somos informados de que os judeus eram separados da presença de Deus pelo véu do santuário ao mesmo tempo em que os gentios eram isolados pelo muro externo do templo. Havia advertências claras quanto aos gentios de que, se passassem daquele ponto, seriam mortos. Mas em Cristo essa situação é radicalmente modificada. Através da sua morte Cristo rasgou o véu (Lc 23.45) e derrubou o muro de separação (Ef 2.14). Em Jesus Cristo, todos, judeus e gentios, podem ter acesso a Deus (Ef 2.18; Hb 10.19-25). O acesso, nesse caso, significa a “permissão para entrar na presença do rei mediante o favor de outro”. c) Esperança gloriosa (v. 2b) – Enquanto a “paz com Deus” trata do passado, pois Deus não condena mais o ser humano por seus pecados, e o “acesso a Deus” trata do presente, pois o cristão pode entrar em sua presença a qualquer momento para obter a ajuda de que necessita, a “esperança gloriosa” trata do futuro, pois um dia participaremos da glória de Deus. Enquanto pecadores, os seres humanos não têm do que se gloriar (Rm 3.27), pois estamos separados da glória de Deus (Rm 3.23). Mas agora, em Cristo, podemos gloriar-nos na sua justiça e na sua glória. Em Romanos 8, Paulo desenvolve mais esse tema ao falar da glorificação final (Rm 8.18-30). d) Caráter cristão (v. 3-4) – A justificação experimentada pelo cristão não é uma fuga da realidade da vida nem das tribulações. Jesus já havia deixado claro que “no mundo passaríamos por aflições” (Jo 16.33). Entretanto, no caso dos cristãos, as tribulações não trabalham contra eles, mas a favor. As tribulações aproximam o cristão do seu Senhor e tornam-no mais semelhante a Ele. O próprio sofrimento ajuda a moldar o caráter cristão. Tiago também nos ensina que as provações/tribulações devem ser, inclusive, motivo de alegria, pois nos ajudam a perseverar e a tornar-nos íntegros e maduros (Tg 1.2-4). e) Amor de Deus em nós (v. 5-8) – Paulo também afirma que o amor de Deus é derramado sobre o cristão em todo esse processo. Antes do cristão ser salvo, Deus já havia provado seu amor, enviando Cristo para morrer na cruz. Deus

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fez isso quando “ainda éramos pecadores” (v. 8). Isso demonstra que é um amor inquestionável, pois, como diz o texto, por uma pessoa boa “talvez” alguém até se habilite a morrer. Mas Cristo fez isso por pecadores. Agora, como filhos e filhas de Deus, as pessoas cristãs certamente serão ainda mais amadas por ele. É esse amor que o ajuda a suportar as tribulações mencionadas nos versículos anteriores. Essas são algumas das bênçãos que a pessoa já pode experimentar aqui neste mundo, se de fato for justificada pela fé. Se são tantas e tão preciosas as bênçãos aqui nesta vida, com certeza serão ainda maiores na era por vir.

4 Imagens para a prédica “E da parte de Jesus Cristo, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados [...]” (Ap 1.5). A palavra sangue é mencionada cerca de 460 vezes na Bíblia. No Novo Testamento, Jesus falou 14 vezes de seu próprio sangue. Porque, pelo derramamento do seu sangue, ele propiciou a possibilidade de nossa salvação e pagou a pena por nosso pecado e nos remiu. Voluntariamente, ele aniquilou sua vida e pagou a pena que nós devíamos pagar. É esse o significado da cruz. O sangue de Jesus Cristo não nos redime apenas, mas também nos justifica. Ser justificado significa mais do que ser perdoado. Posso dizer: “Eu te perdoo, mas não te justifico”. Deus, no entanto, não somente perdoa o passado. Ele reveste a nova criatura de justiça como se jamais houvesse pecado. Isso custou o sangue de seu Filho na cruz.

5 Subsídios litúrgicos Podem ser utilizadas algumas frases de efeito na introdução ou no decorrer do culto:  A justiça de Cristo, declarada na corte de justiça, é nossa absolvição completa e final.  Na justificação, o pecador não é apenas perdoado, é promovido. (J. Blanchard)  Deus tem duas mãos: a mão direita de misericórdia e a esquerda de justiça. (John Boys)  A justificação acontece na mente de Deus, não no sistema nervoso do crente. (C. I. Scofield)  Ninguém entende o cristianismo se não entende a palavra “justificado”. (John R. W. Stott)  A justificação é o eixo e o alicerce do cristianismo. (Thomas Watson)

Bibliografia POHL, Adolf. Carta aos Romanos: comentário esperança. Tradução de Werner Fuchs. Curitiba: Esperança, 1999. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Novo Testamento 1. Tradução de Susana E. Klassen. Santo André: Geográfica, 2008.

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3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

25 JUN 2017

PRÉDICA: MATEUS 10.24-39 JEREMIAS 20.7-13 ROMANOS 6.1b-11

Evandro Jair Meurer

Afirmar diferenças – missionar sem medo

1 Introdução Pela segunda vez, o texto de Mateus 10 aparece com tal recorte (v. 2439) no PL, acompanhado das mesmas leituras de apoio: tanto aqui como lá (PL XXXII, 2008), para o tempo após Pentecostes (lá, 6º Domingo; aqui, 3º). Numa primeira leitura dos três textos, percebemos um eixo comum: a necessária distinção entre quem está com Deus e quem está sem Ele e as consequências disso para uma caminhada de vida cristã (discipulado) sem medo. Jeremias 20 confirma que o “pote de barro” (Jerusalém, Judá) está para ser quebrado. O profeta está sendo ameaçado, pois não estão gostando de sua mensagem. De forma poética, Jeremias apresenta sua “queixa” perante Deus, nitidamente dividida em duas partes distintas e antagônicas: v. 7-10, o lamento diante da situação difícil pela qual passa; e v. 11-13, a confiança na presença de Deus, que “livra os pobres do poder dos maus” (v. 13). Em Romanos 6, a tônica está na velha vida em pecado e na nova vida em Cristo: a morte daquela, para a vida nessa, e isso por meio da graça revelada na cruz (v. 1b). Morte e vida fazem aqui o contraste. Mortos para o pecado e vivos para Deus (v. 11). O evangelho para este domingo apresenta mais figuras (mashal) que corroboram essa ideia de que, quando afirmamos o que nos distingue/diferencia como discípulos, firmamos nossa caminhada com Deus, em Cristo e assim podemos segui-lo/servi-lo sem medo. Mateus 10.24-39 quer capacitar-nos ao seguimento de Jesus e à realização distinta, qualificada e sem medo da missão pentecostal.

2 Exegese Nosso texto precisa ser “exegetizado” na perspectiva do que já sabemos, consenso entre os estudiosos neotestamentários, de que Mateus é o mais judaico dos quatro evangelhos, escrito para judeus com o objetivo de apresentar-lhes Jesus como Messias: “Não vão aos lugares onde vivem os não judeus”, mas sim “procurem as ovelhas perdidas do povo de Israel” (10.5). Reflete uma comunidade judaica em busca de um “novo judaísmo” (cristão). Esboços do Evangelho de Mateus concordam que, intercalados às narrativas, encontram-se cinco (Pentateuco?!) discursos de Jesus. Nosso texto em estudo estaria inserido no segundo (Êxodo?!): “As instruções para os doze” (9.35-

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10.42). Esse discurso viria antecedido pelas “narrativas de milagres” (8.1-9.34) e seguido pelas “narrativas de rejeição do Messias” (11.1-12-50). Essas narrativas que ladeiam o discurso ilustram, no próprio exemplo de Cristo, sua ação e sua consequente rejeição, prenúncio para o discipulado. Ou como alguns preferem chamar: “os pró e os contra a pessoa de Jesus”. Os versículos 10.1, 10.5 e 11.1 confirmam essas subdivisões textuais. São palavras “fortes” que aparecem nesse contexto: Jesus “chamou”, “deu autoridade” (v. 1), “enviou”, deu “ordem”, “instruções” (v. 5), “essas ordens”, “instruções” (11.1). Interessante constatar que esse “envio” dos apóstolos é, estrategicamente, antecedido pela reafirmação do ministério de Jesus (9.35-cf. 4.23), pelo seu compadecimento à “multidão aflita e sem pastor” (v. 36) e pela constatação de “escassez de trabalhadores” (v. 37-38) = AÇÃO. E seguido por relatos como o da prisão de João Batista (11.2) e os de acusação de falta de arrependimento (v. 20) = REJEIÇÃO. Como muito bem resume Margarete (PL 32), nessa missão dada aos discípulos, “fazer parte da comunidade cristã acarretou riscos e rompimentos, acarretou dificuldades sociais e familiares”. Inclui renúncia e até martírio, “exigências” divinas do chamamento. Provoca rupturas radicais nas relações familiares e humanas. Esses temas apresentam-se em sintonia com o prenúncio de Miqueias (7.6), que já apareceram no primeiro discurso de Jesus (Mt 5.11-12); que encontram eco nos sinóticos – Marcos 8.31ss, Lucas 9.23, 12.1ss, 17.33; que são, posteriormente, vivenciados pelos primeiros cristãos/apóstolos (Atos 13.50) e corroborados por Paulo – tanto aos de Filipos (Fp 3.10) como a Timóteo (2Tm 2.12). Esse fato de que haverá, de um lado, pessoas que confessam Jesus e, do outro, pessoas que o negam indica que a vinda de Cristo trouxe divisão, diferenças e distinções. E essas são aqui muito tipificadamente apresentadas por diversos mashal rabínicos, linguagem muito bem conhecida pela comunidade judaico-cristã, a quem se remete o evangelista. Nas proposições para a mensagem, a seguir, será bom nos perguntarmos se essa “ruptura” ainda vale para o discipulado hoje. E, afinal, em que medida a temática do “medo” deveria rondar igualmente o universo do seguimento de Jesus em nossos dias. Chama atenção, ao longo do texto, a dicotomia ou dualidade de situações, expressões, figuras e verbos. Esses “ditos paradoxais”, já sublinhados acima e que identificamos abaixo, são um meio literário que reflete não só uma comparação (no sentido de parábola), “mas sim um poderoso meio de questionamento”. Contém “um alto potencial hermenêutico”. São eles:  aluno x professor, discípulo x mestre; empregado x patrão, servo x senhor; pessoas da família x chefe da família, seus domésticos x dono da casa (v. 24-25);  coberto x descoberto, encoberto x revelado; escondido/oculto x conhecido (v. 26);  escuridão x luz, às escuras x à plena luz; segredo x abertamente, dito ao ouvido x proclamado dos eirados/telhados (v. 27);  matar corpo x matar alma (v. 28);

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 passarinho, pardais x fios de cabelo/cabelos da cabeça (v. 29-31);  não pertencer x pertencer, confessar x não confessar, negar x não negar (v. 32-33);  espada x paz (v. 34);  contra x a favor (v. 35);  inimigos x amigos (v. 36);  amar menos x amar mais (v. 37);  morrer x viver, não tomar a cruz x tomar a cruz (v. 38);  procurar seus interesses x esquecer a si mesmo; vida “falsa” x vida verdadeira; não ser seguidor x ser seguidor, perder a vida x achá-la (v. 39). Por fim, vale destacar uma palavra, a qual Jesus insiste (v. 26, 28 e 31) em repetir: fobēthēte. Que “fobia” é essa que os discípulos e as discípulas não precisam ter? Deve ser a mesma proclamada aos profetas (Is 41.10, 14; 43.1; 51.7, 12, 13; Jr 1.8,17; Ez 2.6), a mesma posteriormente superada pelos primeiros cristãos diante do Conselho Superior, por exemplo (At 4.13-21), a mesma que Pedro prescreve aos cristãos da diáspora (1Pe 3.13-14). Jesus parece estar dizendo a seus seguidores o mesmo que Deus afirmou a seus profetas: “Tenham a segurança de que nada lhes permitirei fazer que não favoreça a missão”. Estejam sempre associados a ele na missão porque, acima de tudo, a missão que eu lhes confiei a ele pertence. É dele. Ele sim tem poderes ilimitados, que abrangem a vida aqui e agora, bem como a vida posterior nos tempos eternos. Ele os ajudará a enfrentar as dificuldades na perseguição e toda outra dificuldade que houver nos trabalhos missionários. Nada lhes acontecerá sem o amparo dele. Pois tem sido uma marca ao longo de sua caminhada com seu povo destacar seu valor e seu cuidado por todos os seus escolhidos, chamados, seguidores (Mt 6.26, 12.11,12; Sl 8.5; Lc 12.24; 1Co 9.9,10). Por isso “não tenham medo”.

3 Meditação Como motivação para a reflexão e a meditação trago três questionamentos: 3.1 – Enquanto redijo este “auxílio para o anúncio do evangelho”, corre no Congresso Nacional em Brasília a polêmica e dicotômica disputa pelo impeachment ou permanência da presidenta Dilma Rousseff na função. “Direita x esquerda”, “situação x oposição”, “verde-amarelo x vermelho”, “a favor x contra” são apenas algumas das posições paradoxais que se levantam no momento brasileiro atual. Tal conjuntura tem levado inclusive a, se não “rupturas”, pelo menos situações desconfortáveis entre membros de uma mesma comunidade, entre integrantes de uma mesma família, entre amigos e amigas, entre ministros/as e confissões religiosas, entre cantores/as, atores/atrizes. A verdade é que o país está dividido, e essa polarização já se espalha (de modo vergonhoso e vexatório inclusive) pelo mundo. Com certeza hoje, quando você se prepara para a pregação no culto do próximo domingo, o “cenário nacional” é outro, mas a polarização ainda continua presente de outras formas. Em muito se assemelhando aos clássicos futebolísticos espalhados pelo país (Grenal, Atletiba, FlaFlu, BaVi...). Para mim fica a pergunta:

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por que a fé cristã não provoca mais essa distinção e polarização no mundo? Por que o cristianismo se acomodou e se amoldou ao mundo e não é mais “luz no mundo”? Ser cristão, ser discípulo, é ser igual ao mestre, em tudo, incluindo as perseguições, os sofrimentos, as blasfêmias, o ódio (10.22). Gera inclusive, nos discípulos, satisfação e alegria por essa equiparação e igualdade no sofrimento (cf. também Mt 5.11-13). Contudo não é isso que vemos no que se refere à vivência e diferença cristã. Onde e quando cristãos são perseguidos e blasfemados pelo seu testemunho de fé hoje? Pelo texto do evangelho “exegetizado”, depreende-se que, no que se refere à missão, o discípulo deveria inclusive ultrapassar os desafios pelos quais o mestre passou. Os discípulos deveriam ser como que um “raio X” revelador da verdade, doa a quem doer (em termos de denúncia), cause o que causar (em termos de consequência). A presença da renúncia cristã, aqui reforçada pela afinidade com o tema dos sacrifícios e das renúncias que a vida cristã exige de todo seguidor de Cristo, muito ligado ao tema do martírio pelo seguimento de Jesus, parece estar fora da pauta evangélica em nossos dias. É como se algumas páginas dos evangelhos tivessem sido rasgadas das Escrituras Sagradas. A ação pentecostal e carismática mostra-se limitada ao louvor individualista em detrimento, ou pelo menos abafamento, do fervor profético, denunciador e transformador coletivo e social. 3.2 – Outro questionamento que trago é sobre o medo. O que leva as pessoas cristãs a ter medo hoje? A violência, o roubo, o assalto, o câncer, a morte, uma bala perdida. Contudo algum eventual medo causado pelo efetivo testemunho de fé, posicionamento perante uma situação incompatível com a vontade de Deus, esse sim me parece totalmente (ou pelo menos minoritariamente) ausente do dia a dia do discípulo, da discípula contemporânea. As palavras de preparo para o profetismo, as instruções para o discipulado, a advertência para a ação missionária – “não tenham medo” – mostram não ter praticamente mais sentido hoje. Nosso discipulado e seguimento cristãos estão tão inoperantes, inofensivos, despretensiosos, inertes, infrutíferos, inativos, que a décima bem-aventurança pode ser até riscada da Bíblia (Mt 5.10). O cuidado divino não é mais nem necessário: “Já lhes disse, volto a repeti-lo para que nunca o esqueçam: não tenham medo de seus perseguidores. Vocês são mais valiosos para Deus que todos os pardais juntos. Ele cuidará de vocês cada instante da vida”. Quem de nós cristãos é literalmente perseguido por ser cristão? 3.3 – Finalmente, pensemos como será nosso encontro com o Senhor na eternidade sob a perspectiva dessa passagem que estamos a estudar. Longe de nós negarmos a justificação por graça e fé, que nos é muito cara e inegável como luteranos. Mas pensemos um pouco, diante das dicotomias presentes no texto em estudo, como alcançaremos o reino dos céus (Mt 5.11)? Como seremos afirmados por Cristo, diante do Pai, no dia do juízo final (v. 32)? Será que “merecemos”, “somos dignos de”, “servimos para” ser seguidores/ras de Cristo? Ouço muitas pessoas se manifestarem surpresas com tanta violência, criminalidade, maldade e tantas outras coisas ruins crescentes no mundo. Tenho dito a elas que, a meu

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ver, dois são os motivos principais. Primeiro uma questão muito simples: o crescimento populacional. Como a maldade já está naturalmente presente em maior quantidade no mundo, com o crescimento populacional ela aumenta proporcionalmente mais em relação à bondade, presente em menos quantidade no mundo. E segundo: o crescimento do cristianismo. Sim, isso mesmo, uma forma de fé majoritária no mundo não é mais perseguida nem causa mais impacto transformador, mas só legitimador, do mundo que a cerca. A “vida verdadeira” (v. 39) fica cada vez mais apagada, abafada, distante, negligenciada. Seguindo o desafio do evangelho, vamos convidar nossas comunidades para trazer mais espada e menos paz. Mais luta do mal contra o bem. Mais espadas cortantes de decisões radicais que respondam ao chamamento de Jesus, que exijam muitos cortes e sacrifícios dolorosos com o mundo, com a sociedade corrompida, com a família e, se necessário for, com a própria comunidade, abraçando prioritariamente o seguimento de Jesus.

4 Imagens para a prédica 4.1 – Quem ainda não utilizou em suas pregações a crônica “A pipoca”, de Rubem Alves, pode ser uma boa oportunidade (cf. sugestão de Margarete no PL 32). 4.2 – Poder-se-ia ainda perguntar à comunidade reunida: O que leva uma pessoa a colocar-se inerte, de braços abertos, “desarmado” diante de um tanque de guerra, diante de uma “tropa de choque” da polícia, de um trator ou de uma máquina de demolição para impedir a ação desses? A imagem daquele chinês anônimo ainda nos cala fundo, mesmo passados 27 anos. Mas, depois dele, também no Brasil se registraram/registram situações e imagens semelhantes com índios, professores, sem-teto, agricultores em manifestações de defesa das suas

causas. Quem tiver o recurso poderia projetar uma ou mais destas imagens: Disponíveis em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Protesto_na_Pra%C3%A7a_da_Paz_Celestial_em_1989> <https://blogdotarso.files.wordpress.com/2015/05/11188240_8144360052 70160_827263778042081208_n.jpg > <http://profcmazucheli.blogspot.com.br/2010/05/depoimento-de-gildo-jorge-terena-gildo.html> <http://www.contextolivre.com.br/2014/09/os-sem-teto-e-os-predios-abandonados-no.html>

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4.3 – Não há como deixar de fazer uso aqui do momento pessoal que vivo enquanto me debruço no estudo e redação deste (abril/maio de 2016). Em março, fiz exames de rotina para monitoramento médico. No urologista, em especial, queria ficar tranquilo de que não teria novas surpresas com crises renais já vivenciadas em anos anteriores. Contudo a ultrassonografia revelou outra coisa: um nódulo no rim direito. O médico indicou uma tomografia, a qual revelou “tumoração, sugestivo de neoplasia”. Para um parecer mais preciso ainda do que estava se revelando, seguiu-se uma ressonância magnética, na qual as imagens minuciosas confirmaram um tumor, sendo que, pelo parecer de cinco profissionais que consultei, carece de uma cirurgia para retirada do rim e posterior biópsia para confirmação (ou não) do que as imagens estão revelando. (De momento, enquanto escrevo, aguardo a realização da cirurgia.) Narro isso a título de sugestão de ilustração, caso opte por enfatizar as dualidades presentes nos versículos 26 e 27. Você não precisa citar o “meu caso”, basta levar ao púlpito uma lâmina de RX qualquer e, durante a pregação, mostrá-la como ilustração e recurso.

5 Subsídios litúrgicos Proponho que o texto de Jeremias seja lido como um salmo em responsório: o/a celebrante lê os versículos 7-10, e toda a comunidade lê os versículos 11-13. O hino “Não temas, pois eu te remi” (HPD 1 – 191) é bem sugestivo para a afirmação da temática do culto.

Bibliografia EARLE, Ralph; SANNER, A. E.; CHILDERS, C. L. Comentários Bíblicos 6. Mateus a Lucas. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006. Disponível em: <https://pt.scribd.com/doc/204617526/Comentario-Biblico-Beacon-Volume-6-Mateus-Lucas>. HENDRICKSEN, William. Mateus. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

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4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

02 JUL 2017

PRÉDICA: MATEUS 10.40-42 JEREMIAS 28.5-9 ROMANOS 6.12-23

Helga Rodrigues Pfannemüller

1 Introdução O texto de Jeremias 28.5-9 apresenta parte do embate entre Jeremias e o falso profeta Ananias. Ananias iludia o povo com boas notícias, falando aquilo que o povo queria ouvir. Não sendo alertado dos seus erros, o povo não se arrependia dos pecados que cometia. Isso levou Jeremias a colocar critérios para diferenciar os profetas e suas profecias como sendo enviados por Deus ou não. Os profetas de Deus são reconhecidos pelo conteúdo da sua mensagem, e Deus não envia somente mensagens de paz. Muitas vezes, ele manda que seus profetas anunciem os castigos que receberão como resultado e consequência dos seus pecados. Em Romanos 6.12-23, Paulo descreve as consequências do Batismo na vida prática da pessoa cristã: a liberdade em relação ao pecado deve produzir frutos de justiça e de amor. “O fruto do pecado é a morte, e a graça de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23). O fio vermelho que une os dois textos é a ideia de pecado e recompensa. No Antigo Testamento, o verdadeiro profeta reconhece e anuncia que o pecado gera castigo. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo afirma que o fruto do pecado é a morte, enquanto a graça de Deus tem como recompensa a vida eterna. Mateus 10.40-42 afirma que quem recebe as testemunhas de Cristo recebe a Cristo mesmo, ou seja, recebe o próprio Deus. Quem acolhe essas testemunhas é recompensado até mesmo pelo menor dos seus gestos.

2 Exegese O texto de pregação encerra um grande bloco iniciado em Mateus 10, que traz o discurso apostólico de Jesus. Nos versículos 1 a 17, Jesus chama os discípulos e dá-lhes a missão de multiplicar sua mensagem para todo o povo de Israel. Para tanto, Jesus instrui-os e anima-os diante das dificuldades que provavelmente encontrarão no caminho (v. 17-39). Depois desse grande bloco, Jesus conclui seu discurso com uma última palavra de estímulo: uma palavra de promessa que conscientiza o discípulo de que ele traz aos que o recebem o mais importante, a saber, o próprio Deus (Comentário Esperança, p. 110). A partir de sua pesquisa, Walter Grundmann sugere que os versículos 40 e 42 compõem uma unidade. Possivelmente reproduzem um logion (dito de Jesus) a respeito da retribuição às boas ações praticadas em relação às crianças. Nesse caso, a palavra “pequeninos” seria uma referência aos próprios discípulos

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de Jesus (cf. Lc 10.16 e Mc 9.37). O versículo 41, inserido no meio, seria um antigo provérbio judaico, acrescentado posteriormente ao texto. A ordem apóstolo-profeta-justo-pequenino, contida nesse provérbio, dá margem à pergunta se essa seria a reprodução de uma antiga hierarquia existente na igreja primitiva: os apóstolos como os portadores da palavra, os profetas, os justos representando os cristãos experientes e o grande número de membros da comunidade, chamados simplesmente de “discípulos” e que equivalem aos “pequeninos”. O que as pessoas fazem para os membros da comunidade não fica sem recompensa (GRUNDMANN, 1975, p. 301-302). Entretanto é importante ressaltar que o discurso de Jesus não é dirigido ao público em geral, para que esse acolha os discípulos amigavelmente, mas unicamente a seus discípulos. Assim Jesus incentiva a coragem de seus seguidores em sua tarefa de levar a mensagem do evangelho a todas as pessoas. É uma forte palavra de consolo, que mostra o quão valiosos eles são aos olhos de Deus. “De fato, Jesus considera a acolhida que se faz aos apóstolos como um benefício realizado a ele próprio, e mesmo a Deus. O Senhor tem em mente não somente a acolhida hospitaleira (cf. v. 41, oferecer um copo de água fria), mas também a aceitação da sua pregação” (RIENECKER, 1998, p. 121). Quem acolhe um missionário (profeta) ou um justo (pessoa cristã) por causa de sua pregação e de sua justiça recebe de Deus as recompensas correspondentes. Em outras palavras, quem aceita com fé a palavra desses profetas e defende sua causa torna-se cooperador da verdade (3Jo 8) e, portanto, participante das bênçãos divinas. Na categoria de “pequeninos”, o grupo de discípulos demonstra sua posição inferior diante dos grandes e poderosos do mundo. Contudo justamente sobre essas pessoas desprezadas pelo mundo repousam o cuidado e a benevolência de Deus.

3 Meditação Fazendo um apanhado das contribuições de autores e autoras de Proclamar Libertação a respeito do(s) texto(s) em estudo, é possível usufruir da diversidade e riqueza de temas propostos. Considerando o material produzido até agora, ocupei-me em oferecer uma opção a mais de tema para a pregação. Jesus deu uma tarefa importante a seus discípulos: o desafio de anunciar seu evangelho a todas as pessoas em palavras e ações. Isso significa que o anúncio do evangelho (a atividade missionária) é composto pela pregação da Palavra e pelo testemunho concreto de Jesus Cristo por meio das ações diárias de cada discípulo(a). Quem seriam hoje esses discípulos e discípulas? Esta é uma pergunta boa para ser abordada durante a pregação. A expressão “um desses pequeninos” indica que qualquer membro da comunidade eclesial pode e deve ser reconhecido na qualidade de discípulo de Jesus. Quem realiza a obra de Cristo no mundo? O guia de vida comunitária da IECLB “Nossa fé – Nossa vida” responde a essa questão da seguinte forma: “Todos nós, como membros da Igreja de Cristo, somos sacerdócio real, representantes de Deus, encarregados por ele mesmo para proclamar e

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viver a boa-nova da salvação em Cristo. Todos nós somos chamados a realizar a obra de Cristo no mundo, como Comunidade e individualmente no ambiente em que vivemos” (p. 10). Para tanto, somos animados e animadas pelo próprio Jesus com as palavras: “Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou”. Acolher um mensageiro ou mensageira de Jesus equivale a acolher o próprio Jesus. De igual modo, acolher Jesus significa acolher o próprio Deus. Estejamos certos de que “receber” aqui vai muito além da hospitalidade. Implica uma disposição de estabelecer relações com o visitante e aceitar a mensagem anunciada por ele. Nesse sentido, a recompensa a ser recebida não indica um pagamento por algum serviço prestado. Não é com a promessa de recompensa que Jesus anima seus seguidores. Ao contrário, recompensados são aqueles e aquelas que acolhem seus seguidores. Esses serão beneficiados com as bênçãos que Deus destinou a seus anunciadores. O encontro e a comunhão com eles levam ao encontro com o próprio Pai e à vida eterna oferecida por ele. Assim, tão valiosos aos olhos de Deus são seus seguidores, seus discípulos e discípulas que mundo afora testemunham Jesus Cristo.

4 Imagens para a prédica Sugestão de estrutura – Antes de partir para o encontro com o Pai, Jesus deixa uma importante missão a seus discípulos: a difícil, mas gratificante tarefa de pregar a Palavra. – Difícil, porque anunciar a Palavra exige coragem (ela aponta o pecado – leitura de Jeremias). – Gratificante, porque a Palavra traz bênçãos tanto para quem a anuncia como para quem a acolhe (leitura de Romanos). Existe uma história que fala a respeito de uma mulher que esperava a visita de Jesus. Para receber o Mestre, ela cuidou de tudo. Preparou sua casa nos mínimos detalhes e também cuidou de si mesma. Penteou o cabelo, botou uma roupa bem bonita; afinal, quem vinha era simplesmente o Filho de Deus! Quando ela achou que tudo estava de acordo com a importância do hóspede, sentou-se perto da lareira e esperou... O tempo passou, e nada de Jesus chegar. Ela já estava ficando preocupada quando alguém bateu à porta. Ela saltou ligeiro da cadeira, colocou rapidinho o tapete no lugar, ajeitou o cabelo e foi abrir a porta. Mas que decepção! Não era o Cristo. Era um mendigo querendo um pedaço de pão. Ela nem pensou duas vezes. Desculpe-me, estou esperando uma visita muito importante e não tenho tempo para você agora. Por favor, vá a outro lugar. Agora não dá! Voltou para sua cadeira e esperou... De repente, alguém bateu à porta. Agora é ele! Puxou um pouquinho para a direita o vaso de flores que estava sobre a mesa, passou ligeirinho na frente do espelho e correu para abrir a porta. Mas não era ele. Era um pobre velho que não tinha casa e que sempre buscava um abrigo na casa

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das pessoas bondosas da vila. Hoje eu não tenho tempo para você, estou esperando o Senhor Jesus. Por favor, não me deixe mais nervosa! Voltou para seu lugar. Na terceira vez que alguém bateu à porta, ela já levantou furiosa, pois pensou que não seria Jesus. Abriu a porta rapidamente, pronta para dar uma bronca em quem quer que fosse que viesse atrapalhar esse momento tão importante em sua vida. E não deu outra. Desta vez era uma forasteira que chegara à cidade e não tinha onde pernoitar. Ela queria um local para dormir e passar a noite. Mas a velhinha não quis conversa, despachou logo a mulher e disse que tinha coisa muito mais importante para fazer e desabafou dizendo: Parece que, sempre quando a gente quer ficar perto de Deus, alguma coisa atrapalha. Que coisa! Por fim, cansada de esperar, a mulher acabou adormecendo na cadeira e teve um sonho. Nesse sonho, Jesus chegou perto dela e disse: Estive três vezes na tua porta, pedindo para ser recebido, mas você não quis me receber. Uma outra história, achada na internet, ilustra como cada um(a) de nós pode anunciar Jesus e seu evangelho (não somente ministros e ministras da igreja). Deus deu-nos diferentes dons para realizar essa tarefa. E até mesmo quem acredita ser totalmente desprovido(a) de dons dá testemunho (ou não) de Deus com seu modo de viver a vida. Um jovem buscou batismo numa igreja evangélica. Na profissão de fé, perguntaram-lhe: Como se deu sua conversão? Ele respondeu: Pela leitura do quinto evangelho. Os irmãos estranharam, enquanto o jovem concluía: Eu li o evangelho da vida de minha mãe.

5 Subsídios litúrgicos Simbologia O último versículo do texto de prédica menciona o ato de “dar de beber” como gesto concreto de hospitalidade para com aqueles e aquelas que seguem Jesus e testemunham sua palavra. O altar pode ser decorado com alguns jarros d’água, e as pessoas podem ser recebidas na porta da igreja com um copinho de água ou chá em temperatura ambiente. Em algum momento durante a celebração, pode-se explicar esse símbolo. Onde houver celebração da Ceia do Senhor Pode-se comungar em grandes círculos ao redor da mesa da refeição (altar), onde cada pessoa recebe e passa adiante os elementos da Ceia a quem estiver a seu lado, dizendo as palavras: Este é o corpo de Cristo dado por ti / Este é o sangue de Cristo derramado por ti. Essa é uma excelente oportunidade para demonstrar como Cristo chega aos outros através de cada um e cada uma de nós: de nossas mãos (gestos) e boca (palavras). Chamado à confissão “Portanto, não deixem que o pecado domine o corpo mortal de vocês e faça com que vocês obedeçam aos desejos pecaminosos da natureza humana. E também não entreguem nenhuma parte do corpo de vocês ao pecado, para que ele a use a fim de fazer o que é mau. Pelo contrário, como pessoas que foram trazidas

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da morte para a vida, entreguem-se completamente a Deus, para que ele use vocês a fim de fazer o que é direito” (Rm 6.12-13 NTLH). Ouve, Senhor, eu estou clamando! Tem piedade de mim e me responde! (Simei Monteiro) Anúncio da graça “O pecado não dominará vocês, pois vocês não são mais controlados pela lei, mas pela graça de Deus. Mas agora vocês foram libertados do pecado e são escravos de Deus. Com isso vocês ganham uma vida completamente dedicada a ele, e o resultado é que vocês terão a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte, mas o presente gratuito de Deus é a vida eterna, que temos em união com Cristo Jesus, o nosso Senhor” (Rm 6.14,22-23 NTLH). Hinos

HPD 1 – 137: Fui em teu nome batizado; 166: Dá-nos olhos claros; 184: Vamos nós trabalhar; 195: Meu irmão, tu precisas falar com Jesus; 196: Se não houver quem profetize; HPD 2 – 413: Senhor, se tu me chamas; 448: Pedro; 449: Que estou fazendo? Oração Deus todo-poderoso, nós te agradecemos por teres ajudado teus mensageiros e tuas mensageiras a levar a luz da tua verdade a todos os cantos e povos da terra. Tu abriste veredas sobre os mares profundos e apontaste trilhas nos desertos, implantando assim a tua igreja em todos os lugares. Dá-nos forças para que trabalhemos sem nos cansar, levando tua palavra aos que por ela anseiam. Em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. (Baseada em uma oração do Manual do Culto, p. 298).

Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthaeus. 4. ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1975. RIENECKER, Fritz. O Evangelho de Mateus. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998.

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PRÉDICA: ZACARIAS 9.9-12 MATEUS 11.16-19,25-30 ROMANOS 7.15-25a

5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

09 JUL 2017

Michael Kleine

Alegria em meio à luta

1 Introdução Zacarias 9.9-12 (ou apenas 9.9-10) tem sido tradicionalmente um texto ligado ao Domingo de Ramos. Tanto Mateus 21.1-9 como João 12.12-19, que relatam a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, citam essa passagem de Zacarias. Mas nosso texto de prédica também tem uma ligação com o 1º Domingo de Advento por sua perspectiva escatológica: o anúncio da vinda do rei/messias e do reino de Deus. Imagino que sua colocação no tempo após Pentecostes tenha sido feita objetivando uma mudança na ênfase da pregação: da cristologia (Paixão) e da escatologia (Advento) para a eclesiologia. Em vez de refletir sobre a obra de Cristo no passado ou no futuro, somos desafiados/as a olhar para sua ação no tempo presente da comunidade: a conclamação ao júbilo (v. 9), o anúncio de paz e a destruição das “armas” da comunidade (v. 10), a libertação dos cativos e das cativas (v. 11s) e a participação na luta contra os poderes que querem impedir a vinda do reino de Deus (v. 12: “Voltai à fortaleza”; cf. v. 13). Em termos formais (sintaxe), faz sentido incluir o v. 13. O versículo segue usando a primeira pessoa do singular, como nos dois versículos anteriores e diferentes dos seguintes, que usam a terceira pessoa para falar de Deus. E ele começa com um “porque”, que fundamenta aquilo que foi dito nos versículos anteriores. Essa fundamentação liga o v. 13 aos v. 9-12 em termos de conteúdo. Mateus 11.28-30 (“Vinde a mim...”) pode ser visto como parte do anúncio de paz do rei/messias (Zc 9.10); ele governa com mansidão e humildade e ensina a todos/as que aceitem o seu jugo suave. Dessa forma, ele estende o seu “domínio... de mar a mar” (Zc 9.10), proporcionando “descanso” (paz) a quem o segue em lugar da opressão dos poderosos deste mundo.

2 Exegese Os escritos reunidos sob o nome de Zacarias possuem grande afinidade com a literatura apocalíptica. O tom é escatológico, o olhar está voltado para o futuro. Esse futuro é descrito de forma visionária com imagens que rompem a realidade presente e vão muito além das condições de vida conhecidas (do passado e do presente) – como no caso de nosso texto. Assim como Dêutero-Isaías, Zacarias proclama a volta de Javé a Sião, sendo que esse evento marca o fim da história e o início de um novo tempo: o reinado de Deus. O tempo presente –

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entendido como tempo final – é descrito como a luta entre o reino de Deus e os poderes do mundo que tentam impedi-lo. Esta é a temática que predomina nos capítulos 9-14: a luta e a expectativa quanto ao futuro de Jerusalém e de Judá/ Israel no “fim dos tempos”, que inicia com a volta de Javé a Sião. Há concordância entre os pesquisadores de que esses capítulos já refletem a situação do povo de Deus no período helenista (período que começa com a conquista da Palestina em 332 a.C. pelas tropas de Alexandre Magno). O contexto social caracteriza-se pelo domínio (político, econômico e cultural) estrangeiro sobre Judá, pelo desenvolvimento de uma sociedade de classes e pelo conflito entre judeus e gentios. Na época helenística ocorrem uma invasão de formas de vida gregas (cf. 1Mc 1.10-15.41-51) e o questionamento da identidade religiosa e cultural judaica (pressão para adaptação ao novo modo de vida). Tanto na diáspora como na Palestina, a religião e os costumes dos judeus tornavam-nos “diferentes” da cultura dominante (helenismo), gerando pelo menos dois grupos distintos: os que se adaptavam ao modo de vida helenista (com o abandono da própria identidade cultural/religiosa; geralmente membros da elite) e os que eram marginalizados e/ou perseguidos. Essa divisão dentro da comunidade judaica aparece no Antigo Testamento como polarização entre “justos” e “ímpios”. A literatura apocalíptica responde a essa situação de extrema crise (e à sensação de impotência para mudar as coisas) com resistência ideológica e contracultural, fomentando a preservação da identidade: “proclama uma esperança quando tudo parece perdido; sustenta a fidelidade a Deus quando o que foi recebido – e geralmente codificado em normas e leis – não responde adequadamente às crises do presente” (CROATTO, 1990, p. 13). As representações do futuro servem como “meio para exortar/consolar e manter a esperança para o momento presente de crise e sofrimento” (p. 20). Grupos apocalípticos surgem como uma forma de protesto e de resistência contra um sistema opressor e discriminador que os marginaliza. O conteúdo da proclamação apocalíptica é o fim da história e o início do reino de Deus. A finalidade dessa mensagem é a consolação – “os escolhidos devem aguentar o sofrimento, pois sabem que serão salvos quando chegar o fim da crise” (CROATTO, 1990, p. 13). O capítulo 9 inicia com a descrição de uma campanha militar vitoriosa (provavelmente a derrubada do império persa pelas tropas de Alexandre Magno, que dá início ao período de dominação helenista), interpretada como uma ação da palavra de Deus, “como intervenção de Deus no mundo da História” (GESE, 1983, p. 211s). No v. 8, Deus declara que assumiu o controle (“meus próprios olhos”) e a proteção (“posto avançado”) de sua “casa” (seu povo), que não mais sofrerá opressão estrangeira. Depois disso segue o hino escatológico de Zacarias 9.9s, que conclama o povo a alegrar-se com os feitos futuros de Deus. No v. 9, o mensageiro do rei convoca o povo de Jerusalém a uma manifestação pública para receber e homenagear o rei que chega vitorioso. De forma semelhante é proclamada em 2.14 (2.10 – Almeida) a chegada do próprio Deus para morar em Jerusalém (cf. Is 12.6/Sf 3.14s). Alegria e júbilo são as características do “tempo messiânico” (cf. Is 65.18). “Eis

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aí, teu rei” – esse que vem aí é um dos “teus”, um representante do próprio povo de Deus. E ele “vem para ti” – para o benefício do povo que o recebe. O rei é caracterizado como “justo e salvo” (em Is 44.21, Deus é caracterizado como “justo e salvador”). “Justo” (saddiq) pode ser entendido no sentido passivo de “justificado”, “declarado/feito justo” por Deus. Mas também é possível interpretar em sentido ativo, ou seja, “justo” como alguém que vive de acordo com os preceitos de Deus (cf. Ez 18.9; Ml 3.18), alguém que pratica e promove a justiça. Nesse sentido, combina com o anúncio do “Renovo justo” em Jr 23.5; “justo” também é o servo de Deus que “justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53.11). Nos séculos após o exílio, quando os textos bíblicos receberam sua redação final, o termo “justo” designava a pessoa que permaneceu fiel ao Deus de Israel e à Torá, em contraposição ao “perverso/ímpio”, que se adaptou à cultura dos povos dominantes (cf., p. ex., Sl 1). Não vejo contradição entre todos esses significados do termo saddiq; eles devem ter estado à disposição dos/as ouvintes e leitores/as de nosso texto na época helenista. Diferente do que traduz Almeida, o rei que vem não é “salvador”, mas “salvo” (forma nifal). Ele traz a vitória, mas não vence por força própria (cf. Zc 4.6: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos”). Além do mais, ele é “pobre/humilde/oprimido”. O termo hebraico ani pode significar uma condição socioeconômica, mas também é um dos termos usados para designar os “justos”, aqueles “que trilham o reto caminho” (Sl 37.14), ou seja, os que permanecem fiéis ao Deus de Israel e sua Torá (em contraposição aos ímpios). O “pobre” podia tornar-se um alvo duplo dos “ímpios”: mediante exploração econômica e por meio de discriminação e perseguição religiosa. Com esses pobres/ humildes identifica-se aquele que vem, representando-os. São os pobres e humildes os únicos que restarão após o juízo divino (cf. Sf 3.12) – O rei pobre vem “montado em jumento”. O jumento como montaria deixa transparecer dois aspectos: a) remete à tradição messiânica (cf. Gn 49.10-11; 1Rs 1.38) e b) demostra uma certa fraqueza diante do aparato militar da época, baseado no cavalo e no carro de guerra. V. 10 – O início na primeira pessoa do singular dá a entender que é Deus quem destruirá o armamento em Israel/Judá. Essa mudança de sujeito deixa claro que o rei apenas representa o reinado vindouro de Deus. O povo de Deus não apenas será desarmado, mas todo o armamento de guerra desaparecerá do seu meio, marcando o início de uma nova era. Assim como o rei depende totalmente de Deus, também o povo terá que confiar inteiramente em Deus (cf. 9.8). Após terem sido destruídos todos os instrumentos de ataque e de defesa do próprio povo, o rei humilde “falará paz para as nações”. A paz não é imposta por meio de armas, mas oferecida/criada por meio da palavra. O resultado é que seu reino será universal (“de mar a mar”). Pode-se concluir que a palavra de paz – respaldada pelo gesto concreto do desarmamento total – é aceita pelas demais nações (cf. Is 2.1-5: os povos acorrerão a Jerusalém, onde serão instruídos pela palavra de Deus, quebrarão as suas armas e as transformarão em ferramentas, dando início a um tempo de paz entre os povos). Šalom é um termo amplo que abrange pelo menos dois aspectos: a) “paz” e “amabilidade” em oposição a guerra, inimizade, hostilidade; b) “bem-estar”,

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“prosperidade” e “felicidade”. O sentido geral é “estar satisfeito”, “ter o suficiente”. Paz é um estado de equilíbrio entre o que se espera e o que se tem. Isso vale tanto para as relações sociais como para as expectativas e anseios em relação a si mesmo (paz interior). V. 11s – O início do versículo “quanto a ti” ou “também tu” faz a ligação com os versículos anteriores. Assim se estabelece um paralelo entre o caminho do rei e o caminho do povo. Assim como o rei vem de forma humilde e foi salvo/ ajudado por Deus, também a parcela do povo que está cativa será libertada por Deus. Difícil saber a que tipo de prisioneiros/cativos o texto se refere. Podemos imaginar pessoas que foram levadas ao estrangeiro como escravas; mas também é possível pensar em escravidão por causa de dívidas (cf. Ne 5.1-5). Deus permanece fiel ao compromisso que assumiu com o povo (“aliança”). Por isso ordena aos “cativos da esperança” que voltem para Sião, a cidade onde o próprio Deus é fortaleza (cf. Sl 46; Zc 2.8s; 9.8). São aqueles/as que continuaram confiando/ esperando na salvação de Deus, apesar de tudo indicar o contrário. “Também hoje”, ou seja, assim como na volta do exílio babilônico; “em dobro” (= abundantemente) foi a punição pelos pecados (cf. Is 40.2), ricamente será a graça com a qual Deus livrará seu povo da miséria (cf. Is 61.7). A esperança/fidelidade será recompensada, como relatam os v. 13-17: o próprio povo será o “armamento” (v. 13) que Deus usará para derrotar o novo império (os gregos) e seu modo de vida; eles/as experimentarão abundância (v. 17), proteção (v. 14s) e participarão da glória de Deus (v. 16).

3 Meditação Zacarias 9.9ss é uma convocação à alegria seguida da sua fundamentação. O próprio Deus convoca, através do profeta, seu povo para uma manifestação coletiva e pública de júbilo. O chamado não é dirigido a indivíduos isolados, mas a um coletivo. As razões para a alegria também não são individuais, mas dizem respeito a uma mudança radical nas condições de vida do povo. Trata-se do anúncio de que Deus está chegando para colocar um ponto final na história da humanidade assim como a conhecemos: uma história de conflitos, de violência, de injustiças e de opressões. Encerrada será a história baseada na lei do mais forte. Deus vem para começar o seu reino de paz junto com a humanidade. Ele começa trazendo primeiramente a seu povo (“para ti”) “o teu rei”. Esse rei é o oposto de todos os governantes humanos. Seu governo não está baseado na força da coerção nem na lei do mais forte, mas justamente numa demonstração de ausência de poder da forma como estamos acostumados/as. Ele não chega impondo seus planos, mas é alguém que se submete completamente à vontade e ao plano de Deus (“ele é justo”; cf. Mt 3.15). Ele próprio foi salvo por Deus e não pelo poder e recursos que controla. Ao contrário de todos os detentores de poder, ele é “pobre/humilde”. Desde o princípio, a comunidade cristã viu nessa descrição a pessoa de Jesus de Nazaré (Mt 21.1-11), a quem Deus “fez Senhor e Cristo” (At 2.36).

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Próprio desse texto é a destruição das armas do povo de Deus, seu desarmamento. Num mundo dominado pelas armas de guerra, em constante luta pelo poder, o povo de Deus é levado ao caminho inverso. Com a vinda do rei pobre começa um novo tempo; há um rompimento com o passado bélico e com o antigo ideal de dominação dos povos vizinhos. O reino de Deus começa neste mundo com o rompimento da lógica deste mundo e com a eliminação dos instrumentos que sustentam essa lógica. Ele traz uma paz diferente daquela que é imposta pelos mais fortes. É a paz como resultado da “Palavra”, que cria acordo e consenso, em que as nações em conflito não veem umas as outras como recursos a serem explorados em benefício próprio. Cessa a luta insana por poder e dominação. Mas o texto deixa bem claro que esse objetivo, essa paz, não surge como resultado de esforços humanos ou de uma evolução da humanidade. Há uma intervenção divina. Deus começa desarmando seu povo, destruindo suas armas. A divisão no seio do povo (Israel x Judá) é superada. Deus começa seu reino reconciliando e transformando seu povo, quebrando sua resistência, destruindo os instrumentos que lhe dão (falsa) segurança. A transformação visa deixá-lo semelhante ao próprio rei pobre, destituído de armas e de poder. Sua única arma é a palavra de paz. Deus oferece paz aos povos por meio do rei justo e pobre e de seu povo desarmado. Apesar de o reino de Deus representar um rompimento com a história humana, ele também apresenta continuidades. Nem tudo foi injustiça e opressão. Deus já colocou as bases de seu reino no passado através da aliança que fez com seu povo. Baseado na fidelidade a essa aliança (v. 11), Deus liberta aqueles/as que ainda estão cativos sob os poderes deste mundo (opressões políticas, econômicas, culturais, ideológicas). Zacarias 9.9ss é uma convocação ao júbilo num tempo que é descrito como sendo de luta entre o reino de Deus e o reino deste mundo. A ideia que perpassa o texto é que o reino de Deus não vem de uma hora para outra, mas como resultado de um (longo?) período de luta. Enquanto o mundo continua tentando manter-se com base no poder da coerção, Deus luta com seu povo destituído de poder, desarmado. Sua única “arma” é a confiança na vitória do rei pobre que foi salvo e exerce seu reinado por intermédio de sua palavra de paz. Zacarias 9.9ss convida-nos para refletir sobre nossas “armas” nessa luta entre reino de Deus e reino do mundo, baseados/as naquilo que Deus nos revela em Jesus. Deus revela-se ocultando seu poder na humanidade de Jesus Cristo. A única arma de Jesus foi a palavra. É dessa forma que ele está presente em sua comunidade: na Palavra. Onde cresce a Palavra, cresce o reino de Deus (cf. At 6.7). Deus não nos impõe seu reino, mas nos convence a participar dele, criando em nós a fé. Ele não usa artifícios ou sabedoria humana para nos incluir ou manter em seu reino. Ele não precisa disso. Até que ponto confiamos, como ministros/as e lideranças, nesse poder criador e mantenedor do evangelho? Não estamos apostando muito mais em estratégias e artifícios humanos para manter a instituição funcionando? Estamos dispostos/as a ser desarmados/as por Deus e a colocar nossa prioridade em edificar a comunidade por meio de palavra e sacramentos (= “palavra visível”)? É Deus

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mesmo quem edifica seu reino, começando pelo “desarmamento” do seu povo e anunciando a paz (= evangelho) às nações. Como pessoas cristãs, temos mais motivos de alegria do que os/as primeiros/as ouvintes de Zc 9.9ss: sabemos que o rei anunciado já veio e que ele já espalhou seu domínio “de mar a mar” por intermédio do evangelho. Sabemos também como o evangelho de Jesus Cristo foi capaz de transformar vidas e de carregar comunidades nos últimos dois milênios. Zacarias 9.9ss mostra-nos que Deus luta por nós e que ele continua libertando pessoas – principalmente das correntes que representam a ideologia e o modo de vida impostos pelos impérios que dominam este mundo.

4 Subsídios litúrgicos Um hino que contém imagens muito parecidas com Zacarias 9.9ss é “Deus é castelo forte e bom” (HPD 1 – n. 97). Ele lembra que o próprio Deus é nosso armamento e defesa contra as armas do inimigo que domina este mundo: poder e astúcia. “Com nossa força nada alcançaremos” (conforme o texto original da segunda estrofe), a vitória está nas mãos de Jesus Cristo. A palavra é a única arma que pode impedir e derrotar o inimigo (terceira e quarta estrofes): “As armas, o Senhor nos dá: Espírito, Verdade”. A esperança do Reino relativiza as dificuldades impostas pela luta contra os poderes contrários a Deus: “Se a morte eu sofrer, se os bens eu perder...”. O Reino que já começa e ser estabelecido é a razão da nossa alegria.

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Apocalíptica e esperança dos oprimidos (contexto sociopolítico e cultural do gênero apocalíptico). In: RICHARD, Pablo (Coord.). Apocalíptica: esperança dos pobres. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana / RIBLA, n. 7. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal , 1990. p. 8-21. GESE, Hartmut. Início e fim do apocalipsismo, à base do livro de Zacarias. In: Apocalipsismo: coletânea de estudos. São Leopoldo: Sinodal, 1983. p.190-218.

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PRÉDICA: MATEUS 13.1-9,18-23 ISAÍAS 55.10-13 ROMANOS 8.1-11

6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

16 JUL 2017

Cristina Scherer

Sair para semear, confiando na graça de Deus

1 Introdução A parábola da pessoa que sai para semear. Quem já não a ouviu? Quantas vezes já a ouviu? Quantas pregações sobre ela você já fez? Em quantas situações diferentes você a utilizou? O que há de novo sobre essa parábola? São perguntas que nos acompanham quando um texto tão conhecido do evangelho vem ao nosso encontro. Assim queremos deixar que esse texto venha mais uma vez até nós e nos desafie, faça-nos ver o que ainda não vimos e ouvir o que não ouvimos, pois Jesus disse: Quem tem olhos para ver, que veja; quem tem ouvidos, que ouça! Podemos acrescentar: quem tem coração, que coloque a Palavra em prática e seja receptivo a ela! Assim nos colocamos diante dessa parábola com humildade e confiança, a fim de que nos inspire para sempre sair a semear, na confiança da boa e farta colheita com a graça de Deus.

2 Exegese O texto de Mateus 13.1-9, com os v. 18-23, encontra-se também nos evangelhos de Marcos e Lucas. O capítulo 13 de Mateus apresenta sete parábolas. Interessante é observar que Mateus escreve para uma comunidade judaico-cristã. Para os judeus, os números possuem uma simbologia; no caso, sete significa a perfeição e a totalidade: sete dias da criação; sete anos de fartura e escassez no Egito; o número sete presente no livro de Apocalipse (sete anjos, taças, igrejas) e outras situações. Aqui, neste capítulo, as sete parábolas falam sobre o reino dos céus. Três delas são comuns com outros evangelhos (Mc e Lc): do fermento, do grão de mostarda, do semeador; e quatro são exclusivas de Mateus: do joio e sua explicação, do tesouro escondido, da pérola de grande valor e da rede. Duas possuem explicação: a do semeador e a do joio e do trigo. As sete parábolas de Mateus 13 falam da plenitude do reino de Deus, que deseja cumprir-se neste mundo pela graça de Deus e por nossas ações e decisões. Nosso texto é uma parábola. “Parábola vem do grego parabolē, verbete formado por duas palavras. Uma delas é para, cujo significado é ‘ao lado de’, ‘ao longo de’, ‘para além de’, como, por exemplo, em parapsicologia. A outra é bolē, que vem do verbo grego que significa ‘jogar’, ‘lançar’. Portanto parábola quer dizer jogar para além de, lançar ao longo de” (GASS, 2014).

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Jesus afirma que “aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles” (Mc 4.12). Jesus sabia que suas palavras, suas parábolas, sua semeadura não encontrariam sempre solo fértil, não encontrariam acolhida, não seriam sempre ouvidas ou lembradas. Ele sabia que muitos não iriam crer e ainda iriam persegui-lo. Mas ele aposta, semeia, lança a Palavra, confia no bom crescimento que provém da ação da graça de Deus neste mundo. Mateus 11 e 12 são essenciais para entender o que acontece na vida de Jesus e por que ele fala por meio de parábolas em seu ministério. Em Mateus 11.5, quando perguntado se ele era de fato o Messias, Jesus anuncia sua prática libertadora, sua missão, seu compromisso com os/as pequeninos/as do Reino. Ele diz: “Os cegos veem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”. E convida: “Venham a mim todos e todas que estão cansados/as de suas cargas pesadas, eu lhes darei alívio e descanso, pois sou bondoso e tenho um coração humilde” (Mt 11.28s). Algumas pessoas aceitam o convite de Jesus e junto dele encontram descanso e alívio, outras apegam-se ao peso da lei, das tradições, não estão abertas para a nova semeadura que ele propõe. Há uma crise instalada. A proposta de Jesus e sua missão não são acolhidas na realidade onde ele vive. As autoridades decidem acabar com a prática de acolhida de Jesus, com o novo jeito de ser, agir e pensar anunciado pelo Messias, que deseja cumprir a vontade de Deus. Decidem acabar com sua missão e prática libertadora. Jesus encontra a oposição das autoridades, que tentam desacreditá-lo e buscam uma forma de “levá-lo à morte” (Mt 12.1-2,14,24). “Pelo fato do reino de Deus não estar sendo acolhido e, ao contrário, ser recebido com indiferença por parte dos religiosos das sinagogas, Jesus sente necessidade de explicar que a culpa não é dele. O semeador joga a semente, mas o resto depende do terreno onde a semente caiu” (BARROS, 1998, p. 75). 2.1 – A parábola e seus verbos Celebramos o tempo após Pentecostes. Mês de julho é, em algumas comunidades, momento de render graças a Deus pela colheita, pelos frutos da terra, pela boa terra que acolheu a semeadura e é partilhada em mesas e estômagos com alimentos. Envolvidas pela ação do Espírito Santo, somos pessoas chamadas a agir, impulsionadas pelo sopro do vento e pelo calor do fogo (At 2). Deus desafia-nos sempre a agir, a sair para fazer algo em prol de alguém. O Espírito Santo evidencia-se na ação concreta em nosso cotidiano de vida. Nesse sentido, gostaria de lembrar os verbos presentes na parábola do semeador e, a partir deles, deixar-nos envolver pela ação da semeadura em nosso meio, na igreja e fora dela. V. 2 – Reunir: A multidão que estava em volta de Jesus queria ouvi-lo. Era muita gente. Assim, ele entra no barco a fim de ensiná-los por meio de parábolas. Jesus não faz esse ensino em pé, com empolgação e gritos, porém sentado, demonstrando humildade e mansidão, mesmo diante de um grande número de pessoas. V. 3 – Falar (por parábolas): Modo único e gostoso de Jesus ensinar, muito comum na cultura judaica, que cativava os ouvintes. Até hoje, nas pregações, as

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pessoas gostam de ouvir histórias que são tiradas do cotidiano da vida e fazem refletir. É claro que uma história não pode ter mais peso do que a palavra de Deus em si, mas por vezes serve como instrumento que ajuda a compreender a Palavra para que fique gravada com mais facilidade nos ouvidos e corações. Em suas parábolas, Jesus fala sobre o cotidiano da vida. Retira exemplos que giram em torno de três atividades: realidade do campo e do trabalho; realidade da casa e convivência diária; realidade afetiva (cf. BARROS, 1998, p. 75). Quer convidar os/as ouvintes a ampliar, a partir do conhecido, seus horizontes, pensar com um jeito novo e diferente do normal, deixar-se envolver pelo mistério da boa-nova que o reino de Deus traz. Jesus é enfático para com seus ouvintes quando é indagado por que ele fala por meio de parábolas. Ele diz: “A vós outros vos é dado o mistério do Reino de Deus” (Mt 13.11a). V. 3b – Sair: Lembra a tarefa missionária da igreja. A partir de Pentecostes, podemos sair de nós mesmos, de nossos medos, incertezas, preocupações; sair de nosso individualismo para ir ao encontro de outras pessoas; sair do nosso egocentrismo e colocar-nos no lugar da outra pessoa, com empatia e compaixão; sair de nossos preconceitos, de nossa visão limitada do mundo e pessoas; ampliar os horizontes do reino de Deus em nossa vida de fé, reino que é amplo, acolhedor, inclusivo, festivo (Mt 22.1-14). Sair lembra o movimento de ir ao encontro de pessoas, com braços abertos que abraçam, acolhem, encorajam, fortalecem. Sair é tarefa primária da igreja. Sair lembra missão e ação por meio de gestos e palavras. V. 4 – Semear: O mesmo que lançar, jogar a semente. Tarefa da pessoa que vive da agricultura no tempo de Jesus. “Na Palestina, a sementeira precede o trabalho de arar a terra. Por isso, na parábola do semeador, é descrito espalhando as sementes sobre o terreno despreparado” (MYERS, 1992, p. 221). Nesse contexto, Jesus usa a imagem cotidiana da agricultura para falar da semeadura de sua Palavra, de seus ensinamentos, de sua missão na região da Galileia e no mundo todo. Afirma que cumpre sua missão com afinco, porém nem sempre suas palavras encontram solo fértil e profundo para que o reino de Deus cresça e frutifique na vida das pessoas. V. 4, 5, 7, 8 – Caiu: Revela o aspecto da graça de Deus, que age independentemente de nós. “Com essa parábola, Jesus quer ensinar-nos que o Reino é dom de Deus e não depende só de nossos esforços. A semente, a sua palavra de vida, é lançada pelo próprio Deus. A ação do Espírito é como a energia do vento que sopra em todas as partes (Jo 3.8). É como a semente que germina por si só (Mc 4.26-29). E, ainda, a força do Reino é comparável com a energia da semente de mostarda que, sendo ‘a menor de todas as sementes, cresce e se torna maior que todas as outras hortaliças’ (Mt 13.32). Portanto fazer parte da comunidade de Jesus é acreditar nessa graça de Deus que age em e através de nós” (GASS, 2014). Nós somos instrumentos da semeadura de Deus neste mundo, em que o fruto surge onde nem mesmo imaginamos, onde a colheita é farta mesmo quando estamos sem esperança para com o plantio. Deus e sua graça carregam-nos e são maiores do que nossa ação de semear.

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2.2 – A explicação da parábola: quatro tipos diferentes de solo Para a cultura judaica, os números são importantes. Agora nos são apresentados quatro tipos de solos que nos lembram os quatro elementos para a vida, quatro pontos cardeais, quatro evangelhos, quatro vezes dez soma quarenta: quarenta anos no deserto do povo de Israel, quarenta dias no dilúvio, quarenta dias de jejum de Jesus e preparo para assumir sua missão. Para cada tipo diferente de solo, uma ação destaca-se: 1. Comer – as sementes foram comidas por aves predadoras. 2. Queimar – o solo não era rico, profundo, não tinha nutrientes para o crescimento da planta, e o sol queimou os primeiros brotos. 3. Sufocar – os espinhos cercaram a semente que brotou e pouco cresceu. Não houve espaço suficiente para seu crescimento. O que hoje ainda sufoca a boa semente da Palavra em nosso meio? 4. Dar/produzir – remete à farta produção de frutos abundantes: cem, setenta, trinta por um. Aqui a multiplicação anormal para a situação da agricultura no tempo de Jesus simboliza a superabundância escatológica da plenitude divina, superando todas as medidas humanas (MYERS, 1992, p. 222). “O agricultor palestinense tipicamente deveria esperar o resultado de cerca de sete por um; a produção de dez vezes maior seria considerada colheita estupenda. A colheita da parábola, pois, simbolicamente representa o dramático abismo existente nas relações da vassalagem entre o camponês e o senhor da terra. Com semelhante lucro, o agricultor poderia não só comer e pagar seu aluguel, seus dízimos e débitos, mas realmente ainda a propriedade da terra e, assim, pôr termo à sua escravidão para sempre. ‘O reino é como isso’, diz Jesus: ele vê a abolição das relações opressoras de produção que determinavam os horizontes do mundo social do agricultor palestinense” (MYERS, 1992, p. 222-223).

3 Meditação Anunciamos a palavra de Deus cumprindo o chamado que Deus nos fez na certeza de que frutificará na vida de algumas pessoas, na certeza de que se cumprirá a profecia de Deus neste mundo: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Is 55.11). O que significa ouvir a palavra e deixá-la que produza algo novo em nós? Quantas pessoas afirmam-se cristãs, ouvintes e praticantes da Palavra, mas produzem frutos contrários aos do Espírito Santo (Gl 5.22)? O desafio de Pentecostes à comunidade cristã é deixar que o Espírito Santo a conduza, guie, ilumine com seus dons, transforme solos áridos e espinhosos em terras receptivas para o amor e ensino de Jesus Cristo. Podemos confessar, a partir dessa parábola, que também por nossas próprias ações e decisões a semeadura da palavra de Deus sufoca e não cresce em nossa realidade. Que há pessoas cristãs assim como há diferentes tipos de solo não é novidade. A pergunta que essa parábola faz não é que tipo de solo você e eu somos. Creio que Jesus queria que todos os seus ouvintes deixassem a Palavra e seus ensinamentos transformá-los. Então a pergunta pode ser outra: Que

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transformação, a partir da graça de Deus, a Palavra gera em nosso viver? O que diariamente a palavra de Deus nos revela que nos atinge em nosso modo de ser, pensar, agir no mundo? Como estou aberta, receptiva para que a palavra de Deus aja em mim, por meio de mim e para mim? No meio comunitário cristão, encontramos pessoas que se dizem assíduas participantes, mas não deixam que a Palavra transforme suas vidas. Ela age, ela caiu em diferentes tipos de solo pela ação graciosa de Deus, pois por nossa própria força, capacidade ou competência nada podemos fazer para que haja bons frutos. É o Espírito Santo que age e opera em nós (cf. explicação de Martim Lutero do 3º Artigo do Credo Apostólico). Jesus, mesmo sabendo de seu oponente diante de sua missão, não receou. Nós hoje, como igreja e comunidades cristãs, presenciamos muitas dificuldades e tentações que nos assolam: desânimos, dúvidas, desencorajamento, sofrimentos, exclusões, falta de comunhão e partilha verdadeira, falta de profecia diante da realidade, falta de amor e compromisso com a igreja. Nem por isso vamos deixar de semear, de lançar a semente, de contar a parábola, de anunciar o evangelho, de proclamar a boa-nova da salvação no mundo de aves predadoras, espinhos sufocantes, solo infértil, sol escaldante. Ajamos com amor e confiança na graça de Deus, na certeza de que haverá abundância de frutos, haverá boa colheita, pois ela não depende de nós, mas da graça e do amor de Deus, que são muito maiores do que nossa vontade e capacidade de semear a boa palavra. Jesus convida-nos, com sua parábola, a confiar mais na graça de Deus, na semeadura, na boa esperança da produção de frutos, independentemente de nosso esforço ou capacidade em anunciar a Palavra. Deixemos Deus ser Deus! O texto de Mateus convida-nos a confiar que a palavra de Deus segue transformando realidades e vidas, comunidades, para que sejam mais abertas, inclusivas, acolhedoras, vivenciadoras do amor, paz e perdão, inaugurados por Jesus Cristo.

4 Imagem para prédica Elas levam a vida no cabelo “Por mais negros que crucifiquem ou pendurem em ganchos de ferro que lhes atravessam as costelas, são incessantes as fugas nas 400 plantações da costa do Suriname. Selva adentro, um leão negro flameja na bandeira amarela dos cimarrões. Na falta de balas, as armas disparam pedrinhas ou botões de osso; mas a floresta impenetrável é o melhor aliado contra os colonos holandeses. Antes de escaparem, as escravas roubam grãos de arroz e de milho, pepitas de trigo, feijão e sementes de abóbora. Suas enormes cabeleiras viram celeiros. Quando chegam nos refúgios abertos na selva, as mulheres sacodem cabeças e fecundam, assim, a terra livre. Elas levam a vida nos cabelos” (Eduardo Galeano, 100 Relatos Breves, p. 38).

5 Subsídios litúrgicos Versículos bíblicos que poderão ser usados durante a liturgia do culto “Que as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, ó Senhor!” (Sl 19.14).

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“Se nos calarmos, as próprias pedras gritarão” (Lc 19.40). “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Para a motivação da confissão dos pecados “Para chegares ao que não sabes, hás de ir por onde não sabes. Para chegares ao que não gozas, hás de ir por onde não gozas. Para vires ao que não possuis, hás de ir por onde não possuis. Para vires a ser o que não és, hás de ir por onde não és. Para vires a saber tudo, não queiras saber coisa alguma. Para vires a gozar tudo, não queiras gozar coisa alguma. Para vires a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma. Para vires a ser tudo, não queiras ser coisa alguma.” (São João da Cruz –1542-1591) Motivação para o Glória/Louvor “É a graça que me encoraja quando minha alma está abatida. É a graça que me sacia quando minha alma está sedenta. É a graça que me diz quem eu sou de verdade quando gostaria de me autopromover. É a graça que me lembra dos meus deveres quando me esqueço do sentido de minha vida. É a graça que me conforta quando estou abalado/a. É a graça que me ergue do chão quando caio. É a graça que garante o meu futuro quando estou pessimista.” (Johnson Gnanabaranam)

Bibliografia BARROS, Marcelo. Conversando com Mateus. CEBI: São Leopoldo; São Paulo: Paulus, 1998. GASS, Ildo Bohn. Mateus 13,1-23: A semente que cai em diferentes solos. Artigo on-line do CEBI, 2014. Disponível em: <http://www.cebi.org.br/_print. php?type=news&id=4984>. MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. Paulinas: São Paulo, 1992.

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PRÉDICA: ROMANOS 8.12-25 ISAÍAS 44.6-8 MATEUS 13.24-30,36-43

7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

23 JUL 2017

Guilherme Lieven

Deus está entre nós e na criação

1 Introdução Num contexto de dúvidas e desconfianças sobre o poder e a salvação de Deus, que não se podem ver, os textos indicados para o 7º Domingo após Pentecostes, em destaque Romanos 8.12-25, presenteiam a revelação do Deus que nos adota como filhos e filhas. Quando quase todas e todos experimentam uma certa “tonteira”, um vazio, a falta de clareza sobre a presença de Deus e de sua ação salvadora, chega uma mensagem de confiança e esperança no Deus único, o princípio e o fim, que revela o que há de vir e cumpre suas promessas. Aquele Deus que, por intermédio do Espírito Santo, sustenta o viver na provisoriedade neste mundo, no limite da natureza humana, imperfeita. Ainda não podemos ver a plenitude, a glória que virá. Conforme a parábola do texto de Mateus 13, o “joio e o trigo” crescem juntos, e é preciso esperar com paciência a chegada da liberdade completa. O universo e a vida humana gemem, padecem. Em nossas cidades e comunidades, convivemos com um vazio da fé, da esperança e do sentido maior da vida, a liberdade doada pelo Espírito Santo para participar na missão de Deus e em sua glória, plenitude de vida. Nesses contextos, ao mesmo tempo, subsiste a cultura religiosa desestabilizadora, despida de escatologia e da esperança na chegada da glória de Deus, a plenitude da vida que há de vir. Os textos do 7º Domingo após Pentecostes revelam a vontade de Deus de nos acompanhar e de nos cuidar, concedendo-nos dignidade para viver neste mundo com esperança. Essa mensagem é preciosa.

2 Exegese O apóstolo Paulo responde perguntas existenciais complexas, e seu fazer teológico edifica comunidades e aponta para o querigma do evangelho. Denuncia o limite da natureza humana, o pecado. Posiciona-se sobre o limite da lei e anuncia a nova vida com o Espírito Santo e a adoção de Deus, a ação salvadora realizada em Cristo na cruz e na ressurreição. Com a Carta aos Romanos, Paulo dirige-se às pessoas batizadas na cidade de Roma, tanto das comunidades judaicas como gregas. Os batizados agora estão com Deus, pela presença do Espírito Santo, através da obra salvadora realizada em Jesus Cristo. Não mais no seguimento à lei (baseada na aliança, no povo

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eleito) e na espera de uma intervenção messiânica de Deus. A lei foi substituída pela presença do Espírito Santo nas pessoas e pela adoção do Pai, tornando todas herdeiras da glória. Para alguns exegetas, Romanos 8 é o centro da carta de Paulo, não porque ela foi estruturada em 16 capítulos, mas por seu conteúdo teológico. O texto indicado para a mensagem (Rm 8.12-25) reúne os posicionamentos do apóstolo sobre a ação do Espírito Santo na vida das pessoas, superação da natureza humana, a consequente adoção de Deus; também a dimensão do universo, a esperança e a gloriosa liberdade que virá, ou seja, a dimensão escatológica da ação salvadora de Deus. Os versículos 12 e 13 apresentam o Espírito Santo como uma novidade: Deus habita nas pessoas. Ele substitui a lei. Uma dádiva que supera a imperfeita e pecadora natureza humana e torna as pessoas vivas. Essa ação do Espírito Santo cria no ser humano o compromisso de negar a natureza humana e não se submeter a ela. Antes separado de Deus, agora o Espírito Santo o une com ele (v. 14). Guia e substitui a aliança e a lei e torna-o filho de Deus (v. 15). Cria a passagem de escravo do pecado para a livre em comunhão com Deus. Certamente Paulo faz uso dessa metáfora, escravo, remetendo à escravidão do Egito e ao contexto local ligado ao mercado de escravos existente em Roma. O Espírito Santo revela para o ser humano a saída da escravidão e a paternidade carinhosa e bondosa de Deus. Essa ação de Deus torna-se real no sacramento do Batismo, que anuncia o surgimento da nova pessoa humana, agora guiada pelo Espírito Santo – a morte da velha pessoa humana e o novo nascimento dela com o Espírito Santo concretizam e revelam a adoção de Deus (v. 16). O Espírito Santo une-se ao espírito da natureza humana, sem destruí-lo, para superar a relatividade humana, a escravidão, e torná-la filha de Deus. O Espírito Santo incorporado ao ser humano é o Deus presente na criatura humana, que devolve para ele a dignidade perdida. A dimensão “espiritual” humana (natureza, mente, corpo, espírito e alma) recebe o Espírito de Deus. Deus amou sua criatura humana e veio estar com ela em sua realidade histórica e real. Essa presença do Espírito Santo não pode ser diminuída ao entendimento fantasmagórico do que é espírito nem se restringir ao sentido platônico, no qual o espírito comunica o reino das ideias ou o “mundo espiritual atingido pelo ser humano”. A presença de Deus é real e salvadora, compromete e impulsiona. O v. 17 aprofunda a adoção de Deus, referindo a herança que decorre dessa adoção ligada à obra salvífica de Jesus. Ressalta o vínculo do filho e da filha de Deus com seu sofrimento e com sua glória, ou seja, participam da morte, ressurreição e glorificação de Cristo (Ap 21.7). O apóstolo Paulo alerta que a glória que virá não se limita à libertação só dos sofrimentos que o ser humano conhece e vive. Ele surpreende quando, nos v. 18 a 23, vincula a salvação do ser humano com a libertação de toda a criação. Refere-se à criação como viva, também escrava, que geme, sofre e aguarda o parto, seu novo nascimento. A glória terá a proporção e manifestará a redenção de tudo, da criação e dos seres humanos. Esperar a glória. Os v. 24 e 25 apontam para o tempo de espera. Definem a esperança. Uma esperança não controlada pelos que esperam: a plenitude do

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novo ser humano e de uma nova criação, ainda não revelada completamente, por isso a glória de Deus, porém vinculada ao Redentor, a seu ato salvífico, ao Espírito Santo presente no ser humano, à adoção e à herança, também à libertação da criação. Trata-se da esperança que se “espera” pela fé, com perseverança e paciência (Hb 11.1; 2Co 5.7). Esperar uma nova realidade eterna, antecipada em Cristo na história e na criação, sem as armadilhas da reduplicação da vida realizada dentro da atual história. Esperar sem conhecer o que virá, levando em conta o fim da história e de tudo e o surgimento do Eterno. O Eterno que o ser humano não conhece está, por sua vez, antecipado em fragmentos. Deus veio morar na criação, e o Espírito Santo habita, desde o Batismo, no ser humano. O Espírito Santo antecipa a presença real de Deus no ser humano, como também a dádiva de viver a história atual na condição de filho ou filha de Deus, herdeiro ou herdeira da libertação do pecado e da morte, portanto da glória. Em Jesus Cristo e na presença do Espírito Santo, a presença real de Deus no ser humano e na criação está antecipada. O ser humano não a conhece completamente, mas participa da sua concretização histórica neste mundo e na criação. O texto de Paulo (Rm 8.12-25) contém a mensagem do evangelho de Jesus Cristo, que leva à fé (Rm 10.17). O texto permite a leitura do Deus salvador e Pai que ama suas criaturas e vem para elas com o Espírito Santo. Ama sua criação e inclui-a na glória que virá. Ambas são abraçadas pelo ato salvador realizado na cruz e ressurreição de Jesus Cristo. E elas participarão da sua glória. Esse é o Deus da salvação. Essa é a mensagem do evangelho de Jesus Cristo, que fascina, edifica e transforma.

3 Meditação Mais de 20 anos após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, Paulo dá testemunho do ato salvador de Deus, que torna o ser humano filho, herdeiro da liberdade, da dignidade, da justiça e da glória, mesmo condicionado à provisoriedade da natureza humana. Anuncia aos cristãos romanos que, com o Espírito Santo em suas vidas, eles recebem a graça de participar, já agora, do futuro que virá, quando na chegada da eternidade cairão, junto com a criação, no colo do Deus Pai/Aba. Paulo responde perguntas e dialoga com dúvidas e suspeitas diferentes das atuais. Os judeus cristãos tinham medo de despir-se das leis. Duvidavam se conseguiriam a salvação sem o seguimento a elas. Os cristãos gregos, pressionados pelos judeus, não confiavam que a fé em Jesus e em sua ação salvadora seria suficiente para a liberdade e para herdar a eternidade. O fazer teológico de Paulo naquele contexto edificou as comunidades e comprometeu os cristãos judeus e gregos com a presença de Deus no mundo e com a esperança na glória que virá. O fazer teológico de Paulo também hoje nos impulsiona. Somos chamados para dialogar, em nosso contexto, com a mensagem do evangelho a partir das nossas dúvidas, suspeitas, levando em conta a crise religiosa, ética, de fé, por onde circulam propostas de vida e sentido que anulam a esperança e negam a ação incondicional e salvadora de Deus.

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A ação salvadora de Deus nos compromete. Não podemos fechar os olhos e ouvidos diante da busca das pessoas por dignidade, confiança, sentido, justiça e paz. Diariamente, trombamos com a sede por salvação. Lemos os efeitos escravizantes da natureza humana sem a presença do Espírito Santo, presa ao pecado, que relativiza os valores vitais e expõe todas e todos aos modelos e propostas de prazer e felicidade falsos ou transitórios. Nesse contexto, nesse momento histórico como filhos e filhas de Deus, herdeiros da sua glória, estamos comprometidos pela fé com o dom de anunciar o amor de Deus, a salvação que aconteceu em Jesus Cristo na cruz e na ressurreição. A nossa tarefa envolve o diálogo com a presença real de Deus em nós, entre nós, nos eventos humanos e na criação. Hoje, milhões de pessoas, também em nossas comunidades de fé, vivem angustiadas e assustadas. Conhecem o vazio existencial e lidam com a ausência de horizonte e de esperança. Duvidam da presença de Deus em suas vidas, no contexto e na história. Trata-se de uma escravidão quase invisível que as afasta do bem como alvo e as anula como participantes na missão salvadora de Deus, presente nas comunidades, na história e na criação. Outros seres humanos que não se encontraram na vida comunitária de fé perderam seus referenciais, valores e tradições. Por vezes, negaram sua história, abandonaram sua identidade cultural e religiosa. Destribalizaram-se! E vagueiam entre as propostas humanas e religiosas em busca de sentido, refratários a promessas e ao futuro. Adaptam-se ao modo solitário de viver e cultuam a força e as possibilidades humanas como instância última. Outros milhões de pessoas ouvem a mensagem do evangelho e, mesmo com dúvidas constantes, creem na cruz e na ressurreição. Seguem com fé nos altos e baixos da vida em meio às contradições, na perda e no sofrimento. A vida humana e o universo gemem, padecem. Os seres humanos e a criação, sem a presença e o rosto de Deus, caminham para a destruição completa e não para a plenitude e a glória. Em nossas cidades e comunidades, a desorientação, as multiformes maneiras e projetos humanos de salvação formam um vulto, uma espécie de dinamicidade da desgraça, que cega e surda as multidões. Recebemos a vocação, os dons e a ordenação para anunciar a mensagem do evangelho de Jesus Cristo a partir do texto de Romanos 8.12-25. Dialogar e dar testemunho da presença real de Deus, o Pai nosso, na vida dos seres humanos e na criação.

4 Imagens para a prédica Proponho que a prédica inicie descrevendo várias situações reais que indicam a presença de Deus na vida das pessoas, na comunidade, na vila ou na cidade e na criação. A partir da mensagem do evangelho, essa presença pode ser visitada nas situações de sofrimento, de abandono, em que acontecem reconciliação, cuidado, superação, renascimento, em que horizontes da esperança e da glória podem ser vistos e esperados. Também nas situações de alegria, de solidariedade, de construção da paz, os valores do evangelho e a dignidade humana transitam e criam a dinamicidade da vida, sinais de justiça, de cuidados e de amor.

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Não é difícil! Porém é preciso contar e ouvir casos ou “causos”. Passar uma semana antes da prédica ouvindo as pessoas, lendo e interpretando a realidade do contexto das pessoas que estão em diálogo com Deus. O outro passo da mensagem precisa, por sua vez, referir-se ao texto de Romanos 8.12-25 e anunciar a sabedoria e a mensagem da fé que autoriza a busca anterior pela presença de Deus nas pessoas, na história e na criação. É fundamental ligar a presença real de Deus com o que há de vir. O provisório, a natureza humana e a criação participarão da plenitude, da glória de Deus. Semear a esperança. Lembrar que a mensagem da prédica certamente será anunciada para pessoas batizadas que receberam o Espírito Santo e foram adotadas por Deus. São filhas e filhos de Deus. O fazer teológico da prédica precisa considerar a dificuldade humana diante da presença incondicional de Deus na vida dos seus filhos e filhas e na criação. Responder perguntas e dúvidas próprias dessa situação e chamar todos e todas para participar das práticas comunitárias, das ações de solidariedade e de amor nos momentos e situações, lidas pela fé, que abrigam a presença de Deus, das ações e eventos em que Deus cura, cuida, cria comunhão, vence o sofrimento e salva.

5 Subsídios litúrgicos Canção Somos gente que espera (HPD 2 – 440): Somos gente que espera crente na promessa de um mundo novo. Paz queremos com justiça, uma vida digna para todo o povo. Somos Igreja, Corpo de Cristo, vida em comunhão. Povo liberto pela sua graça, que caminha e busca plena salvação. Somos gente solidária, junto aos pequeninos que vivem na dor. Partilhando sofrimentos somos testemunhas de nosso Senhor. Somos gente que celebra o agir de Deus, que é força e guarida. Convivendo em alegria, já participamos da festa da vida. Oração pelas dores dos seres humanos e da criação Kyrie, tem piedade de nós, Senhor. Clamamos a ti, ó Deus. Vem livrar-nos da mentira, das promessas humanas de salvação e de todos os valores que nos levam à morte e destroem a criação. Rogamos em favor das crianças, adolescentes, jovens, mulheres e homens que não conseguem ver tua presença, tua ação de amor, os sinais de vida que vêm da presença do Espírito Santo e que virá, despida da morte, a sua glória. Clamamos a ti, ó Deus. Fortalece todos os eventos humanos, associações e movimentos que abrigam tua presença salvadora. Onde as pessoas são ajudadas e unem-se pela dignidade e pela paz.

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PRÉDICA: ISAÍAS 55.1-5

06 AGO 2017

MATEUS 14.13-21 ROMANOS 9.1-5

Marivete Zanoni Kunz

Convite Aquele que te glorifica diz: Vinde!

1 Introdução Isaías é o profeta que viveu e trouxe sua mensagem no século 8 a.C. Ele apareceu no cenário e pregou quando as tribos do Reino do Norte estavam quase sendo destruídas pela Assíria, ou seja, no ano 736 a.C. O Reino do Norte foi conquistado pela Assíria no ano 722 a.C. A partir de alguns textos, como 2 Reis 18.7, é possível perceber que o Reino do Sul serviu à Assíria devido a certo apoio que recebeu dela ainda no período de Acaz. Entretanto, embora tivesse esse apoio, Acaz pagava tributos para a Assíria. Porém, quando Ezequias assumiu o reino, não quis mais pagar tais tributos e recebeu o consentimento e apoio de Isaías. O profeta incentivou os reis a confiar no Senhor e não em outras nações. Ezequias permaneceu fiel a Javé, ainda que enfrentando ataques da Assíria, porém mais tarde acabou fazendo aliança com o Egito e a Babilônia e sofreu as consequências por essa decisão. Diante desse contexto, percebe-se que Javé julga e também livra seu povo. Tendo esse pano de fundo, fica mais fácil compreender o convite que o texto de hoje faz a seu povo, a saber, que confie em Javé e com ele renove sua aliança, não com outras nações.

2 Exegese O capítulo 55 do livro de Isaías tem relação com a palavra de consolo apresentada no capítulo 40. O que temos em Isaías 55 é uma palavra de consolo, pois agora o povo da aliança será abençoado com o cumprimento da promessa de salvação que acontece com o retorno do povo para a terra natal. Assim, o bloco em que o texto de Isaias 55 está inserido é diferente da parte inicial do livro. A partir do capítulo 40 até o 55, o autor já não traz mais denúncias, mas palavras de esperança e conforto. Essa esperança não era algo distante, ou seja, era para aquele momento, tudo dependeria da atitude do povo. Agora Javé aparece como Senhor da história, que quer salvar seu povo. V. 1 – Neste versículo, o autor apresenta aquilo que é básico para ser possível viver: pão e água. Em todo o Oriente, a água é muito importante, e sua abundância é sinal de bênção. Além disso, ele fala de uma bebida de banquetes, ou seja, o vinho. Este também pode ser símbolo de alegria. O leite é o produto da

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terra prometida. Todos esses alimentos apresentados são os de melhor qualidade. O anfitrião desse banquete é o próprio Javé. Todos os alimentos citados nesse versículo – o vinho, o leite e o pão – também faziam parte do cardápio de alimentos básicos da dieta dos judeus. V. 2 – Naquela época, não havia dinheiro em moeda, por isso, conforme Crabtree, a ideia seria pesar a prata que possuíam, pois a prata e o ouro eram utilizados naquele contexto como moeda. V. 3-4 – O versículo 3 traz um ensino ligado às bênçãos do Senhor, as quais recebe quem se submete à sua vontade. Essas bênçãos dizem respeito à salvação espiritual e não somente à física, salvação esta que não pode ser alcançada sem obediência, pois “escutar” e “ouvir”, nesse contexto, significam obedecer. A aliança que será feita não é um simples acordo. O termo no original diz respeito à obra de Deus para com seu povo. Essa aliança é diferente, ela não terá fim. Dessa forma, é comparada com a aliança de Davi, e a sorte da dinastia de Davi serve de representação para a aliança. Davi, nesse texto, é descrito como aquele que recebe as bênçãos que são transmitidas à sua dinastia e ao povo da nova aliança. V. 5 – O v. 4 destaca Davi como testemunha aos povos, e o v. 5 destaca o povo de Israel como essa testemunha. No benefício dessa aliança também se destaca que o povo virá a ser testemunha de Javé na história. Deus usaria Israel para chamar os gentios à salvação. Assim, esse versículo é visto por alguns autores como uma predição de que os gentios serão convertidos e se juntarão a Israel por causa de seu Deus. Dessa forma, Deus será glorificado quando as nações, juntas com Israel, estiverem dando a honra ao Senhor.

3 Mensagem Aquele que te glorifica diz: Vinde! Um convite para saciar-se é o que pode ser encontrado no texto de Isaías 55.1-5. Nos versículos 1 a 3, o profeta apresenta um convite ao povo para comer e beber sem precisar pagar por isso. O autor mostra que Javé convida todos os que têm fome e sede para receber a provisão necessária, que o Senhor oferece abundantemente e sem custo. Essa bênção do alimento entregue ao povo é resultado de uma relação com Javé. Em vários momentos da história, ele usou a natureza para manifestar seu agrado ou desagrado. Não é possível dizer, hoje, em todos os momentos em que a natureza se manifesta de forma dura, que Deus esteja castigando seu povo, mas no contexto bíblico, em muitos momentos, essa era a realidade. No texto apresentado, a relação de proximidade com Javé traria muito mais do que apenas benefícios naturais ligados ao físico, ou seja, essa relação era tão pertinente que atingiria as outras nações (v. 4, 5). Conforme o texto, o povo de Javé teria destaque diante das outras nações. O texto afirma que o próprio Javé os glorificaria. Assim... Aquele que te glorifica diz: Vinde! Observando o contexto apresentado na introdução, é possível entender que o profeta está falando ao povo e aos líderes que muita coisa parece trazer ou dar

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sustento, mas, se for avaliado com cuidado, muitos elementos nos quais o ser humano coloca sua segurança acabam sendo ilusão e não satisfazem física ou espiritualmente. O profeta Isaías é claro ao manifestar como e onde é possível buscar satisfação, ou seja, na aliança com Javé. Por isso há um convite para que eles venham e façam uma aliança com Javé. O profeta também mostra o resultado daqueles que fazem uma aliança com Javé. Talvez seja necessário perguntar qual o motivo para fazer uma aliança com Javé, tendo em vista que havia tantas nações com quem essa poderia ser feita. Por que aceitar tal convite de Javé? O texto elucida algumas razões para a aceitação de tal convite. 1) Porque nele há verdadeira satisfação: o coração do ser humano é enganoso e, por incrível que pareça, em muitas situações difíceis, acaba por fazer exatamente o que não deve. O povo e os líderes descritos aqui no texto de Isaías estavam enganados e gastavam o que tinham em coisas erradas, ou seja, o ideal era o pão, mas gastavam naquilo que “[...] não é o pão [...]” e o resultado do trabalho naquilo que não satisfazia. O povo não percebia que estava inserindo em sua vida algo que não o sustentava nem fortalecia. Ele não percebia que precisava daquilo que somente Javé poderia dar, e não as outras nações. Mas o que acontecia? O texto também responde, a saber: faltavam ouvidos atentos (55.2b,3a). Observe a ênfase no “ouvir” em Isaías 55.2,3. Infelizmente, os descendentes de Davi estavam longe e não lembravam mais dos benefícios a eles prometidos. Quando Javé fosse parte real da vida da nação de Israel, outras nações, não somente ela, seriam beneficiadas. Quando Javé fosse ouvido (obedecido) por seu povo, ele também seria um bom testemunho para as outras nações, inclusive para aquelas que não conheciam Javé. Nesse processo de encontrar a verdadeira satisfação há um porém: os benefícios para o povo de Javé e os outros povos conhecerem e também glorificarem Javé dependiam tanto de ouvir como de fazer ou aceitar fazer uma aliança com esse Deus. Esse convite é algo urgente, e os resultados ou benefícios físicos ou espirituais são provenientes da relação com Javé. A ajuda ou salvação que Javé traz, a partir do que é apresentado no texto, não é o que aparece nos capítulos anteriores do livro de Isaías, a saber, a libertação do exílio, mas agora a ajuda diz respeito ao problema que o povo enfrentava e vivia naquele momento. Nesse sentido, o texto de Isaías apresenta um grande desafio, o desafio da aliança, e o povo precisa dar uma resposta. O povo tinha buscado satisfação em muitas coisas erradas. Agora o profeta dá o recado, ou seja, somente Deus poderia trazer a satisfação para o físico e para a alma humana. Depois de longos anos no cativeiro, os exilados seriam saciados e agora poderiam receber as bênçãos de seu Deus; teriam a comunhão espiritual na terra sagrada, Jerusalém. Essa graça estendeu-se e ainda é oferecida a todos os que têm sede espiritual. Mas para isso é preciso aceitar o convite e fazer uma aliança individual com Javé. 2) Porque nele não há acepção e porque ele é quem te glorifica: É isto mesmo, para Javé todos são bem-vindos. Embora seja necessário lembrar que, no contexto da época, o convite era primeiro para seu povo, ainda há um convite

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especial na contemporaneidade. Nesse sentido, talvez realmente surja a pergunta: mas para quem esse convite é estendido? Logo no início do texto, é possível ler: “Todos vós, os que tendes sede, vinde [...], e vós, os que não tendes dinheiro, vinde [...]”. Todo aquele que tiver interesse pode fazer uma aliança com Javé, não importa a situação financeira. Javé pode glorificar seus filhos, mas é importante que seus filhos também o glorifiquem. Em alguns momentos da história, o povo de Israel pode glorificar seu Deus. Um momento especial foi quando Deus libertou seu povo da Babilônia e levou-o de volta para Jerusalém. Isso foi um testemunho para as outras nações, pois assim todos souberam que Javé era Deus e era mais poderoso do que os outros deuses. Assim, Israel pode ser luz para outros povos, e não somente o povo de Israel, mas outras nações também puderam ter proximidade com Javé. Muito mais do que sustento físico e espiritual, o que pode ser encontrado numa aliança com Javé é algo nem mesmo esperado por muitos: a glorificação. No contexto do mundo antigo, as nações buscavam ser reconhecidas e glorificadas diante de outras, mas somente as que eram fiéis e obedientes, as que se prostravam diante de Javé poderiam receber tal glória, pois nele estava a vitória contra o inimigo. Conforme o texto lido, a partir do momento em que a aliança com Javé acontecia, qualquer povo poderia ser glorificado por ele. Conclusão: Um convite foi manifesto, quem irá aceitá-lo? O convite para fazer a aliança com Javé é para todos. Ainda que a decisão de aceitá-lo seja individual, não devemos demorar para tomá-la, pois tal convite manifesta a verdadeira graça e amor de Deus. Embora não seja natural para o ser humano receber benefícios gratuitos e da melhor qualidade, o convite feito por Javé é diferente de muitos convites apresentados na contemporaneidade. Esse é confiável, garantido e traz muito mais do que benefícios físicos; ele traz benefícios para a vida espiritual, pois aproxima o ser humano de seu Deus.

4 Imagens para prédica As palavras de Spurgeon podem ajudar a entender a importância de aceitar o convite feito há tanto tempo pelo profeta Isaías. Spurgeon disse: “Tenho pregado o evangelho de Cristo por muitos anos e jamais conheci alguém que tenha confiado em Cristo e pedido perdão pelos seus pecados e Ele o tenha lançado fora. Nunca me encontrei com um só homem que tivesse sido recusado por Jesus. Tenho conversado com mulheres às quais Ele restituiu a pureza primitiva; com bêbados a quem Ele livrou dos hábitos vis, e com outros culpados de horríveis pecados que se tornaram puros como crianças. Sempre ouço a mesma história: ‘Busquei o Senhor e Ele me ouviu; lavou-me no seu sangue e estou mais branco do que a neve’”.

5 Subsídios litúrgicos Alguns versículos para auxiliar na liturgia do culto que também falam sobre graça:

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– Diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio (Salmo 91.2). – Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mateus 11.28-29).

Bibliografia CRABTREE, A. R. A profecia de Isaías: texto, exegese e exposição. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1976. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Santo André: Geográfica, 2006.

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PRÉDICA: MATEUS 14.22-33 1 REIS 19.9-18 ROMANOS 10.5-15

10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

13 AGO 2017

Kurt Rieck

Salva-me, Jesus!

1 Introdução A palavra de Deus inspira nossa fé. O que pessoas experimentaram lidando com seus limites no passado continua evidente em nosso presente. 1 Reis 19.9-18 – Elias é o personagem do Antigo Testamento mais mencionado no Novo Testamento. Na literatura judaica, Elias aparece como o anjo protetor do povo eleito e precursor do próprio Messias (J. J. von Allmen, Vocabulário Bíblico, p. 287). Vejo semelhanças entre o texto de Reis e Mateus: 1) João Batista foi morto (Mt 14.1-12) e Elias é ameaçado de morte. 2) Jesus foi silenciar na presença de Deus e Elias, escondido numa caverna, é visitado por Deus. 3) Deus ordena que Elias vá orar no alto de um monte, e Jesus também foi para o alto de um monte orar. 4) A natureza mostrou sua força por intermédio do vento, tanto no episódio de Elias como no de Jesus quando caminhou sobre o mar. Mas Deus se revela na brisa mansa. Romanos 10.5-15 – Deus age na natureza e na história das pessoas. Deus interfere na história de seus filhos. Da experiência expressiva pela qual o apóstolo Paulo passou redundaram muita reflexão, meditação, elaboração de pensamentos. Ele recebeu o dom de sistematizar. No texto em pauta, Paulo faz um apanhado dos ensinamentos de Moisés e reinterpreta-os. Sublinha que Deus está perto. Boca e coração confessam sua fé e em decorrência surge o que é positivo. As histórias de Elias, Paulo, Moisés, Pedro e demais discípulos demonstram a diferença que faz a fé na vida de cada um.

2 Exegese Deus é soberano sobre tudo e todos, podendo valer-se de interferência extraordinária, confirmando sua deidade. Isso se expressa no evangelho que queremos estudar. Vale a pena ler as exegeses que se encontram em volumes anteriores de Proclamar Libertação. Tudo aconteceu depois da multiplicação dos pães e peixes, que alimentaram uma multidão. V. 22 – Surpreende a forma impositiva com a qual o evangelista expressa como Jesus enviou seus discípulos adiante. Ele “ordenou” que fossem de barco na frente. Ele “mandava o povo embora”. A que se deve essa forma de falar? Dá a impressão de que os discípulos não queriam partir sozinhos. Olhando para o Evangelho de João 6.15, encontramos uma pista que explica a atitude de Jesus:

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“[...] queriam levá-lo à força para o fazer rei”. Esse caminho político desejado pela multidão e pelos discípulos era rejeitado por Jesus. Ele queria ficar longe daquela pressão, queria aquietar-se. V. 23 – Subiu sozinho ao monte para orar. Estar a sós com Deus é experimentar o sopro de Deus, que alimenta a alma e dá forças ao corpo. V. 24 – O barco estava no meio do lago, e vem uma forte tempestade, uma grande dificuldade. O risco de morte se faz presente. O propósito traçado foi interrompido. V. 25 – De madrugada, entre 3 e 6 horas, Jesus vai ao encontro dos discípulos. V. 26 – Esses viram uma figura caminhando sobre as águas e ficaram apavorados. “É um fantasma!” Como é possível explicar a capacidade de caminhar sobre as águas? Podemos afirmar que o Deus feito gente tem poder de interferir na lei da natureza. V. 27 – Jesus identifica-se. O fantasma tem nome. V. 28 – Pedro desafia Jesus: “[...] mande-me que eu vá andando em cima da água até onde o senhor está”. Pedro, em seu temperamento expressivo, arrisca-se sob as ordens de Jesus, que tem o poder sobre a natureza. V. 29 – Jesus acolhe o desafio de Pedro: “Venha!” Venha até mim caminhando sobre as águas. A ordem foi dada. V. 30 – Pedro olhou as circunstâncias e ficou com medo. Ele é impulsivo, vacila ao sentir a força do vento e das ondas e não enfrenta o desafio até o fim. Jesus afirma que lhe faltou fé. A fé extrapola os limites físicos. V. 31 – Jesus estende a mão para Pedro e questiona sua fé. Mãos estendidas. Está se afogando. Precisa de um auxílio externo. Pedro precisa de Jesus. V. 32 – Subiram no barco, e houve calmaria. Os dois encontram-se num espaço seguro. V. 33 – Reconhecimento e adoração. Um fato extraordinário ocorreu. Extasiados, nada mais resta senão dobrar os joelhos e adorar Jesus. Eis um fato que se deu e que se torna um desafio para olharmos além dos limites da ciência humana.

3 Meditação A vida, por vezes, é um navegar no escuro de um grande lago. O tumulto havia sido grande. A multiplicação de pães e peixes fora impactante. Mais e mais pessoas queriam conhecer esse homem. Jesus precisava sossegar. Retirou-se. Foi falar com o Pai. Trata-se de uma necessidade bem humana. Todos nós precisamos de momentos a sós com Deus. Entramos na embarcação para seguir a trajetória da vida. Ondas e ventos simbolizam as adversidades. Nas tempestades, percebemos nossa vulnerabilidade. Somente após termos passado por uma grande dificuldade é que podemos entender o que significa sofrer. Tornamo-nos sensíveis com aqueles que passam por situações semelhantes.

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A madrugada já era alta. A viagem estava se tornando longa. Não bastassem ventos, ondas, tempestade, cansaço, ainda lhes aparece um fantasma. Ficaram aterrorizados. Coloquemo-nos no lugar daqueles experientes pescadores. Não é qualquer dificuldade que os deixaria aflitos. Trata-se de um momento existencial limítrofe. Tiveram medo, calafrios, insegurança. Nossos medos são muitos. Temos medo de perder o cônjuge, de perder um filho, de perder bens, de não ser aceito, de não ver supridas as necessidades financeiras, medos..., medos... Jesus vem ao encontro dos nossos medos. Não temais. Quando souberes de alguém que está em dificuldades, ouça seus medos e diga: “Não temais”, eu estou contigo, Deus está contigo. Não fique quieto. Fale. Não cruze os braços. Caminhe. Pedro arriscou. Ele teve coragem. No entanto, as circunstâncias o amedrontaram. Elas o fizeram afundar. Assim mesmo clamou: Salve-me, Senhor! Pedro foi humilde e pediu pelo auxílio de Jesus. Por vezes, somos orgulhosos a ponto de preferir pôr a vida em risco a pedir pela mão de Deus. Quando medos e dificuldades batem no casco do nosso barco, nada mais resta senão gritar: Jesus, ajuda-me. Os fatos repetem-se com um mesmo fim: reconhecer a necessidade que temos de Deus; reconhecer que Jesus tem tudo a ver com nossa vida. Tudo isso para confessar que Deus é Deus. Os humildes saberão clamar: Salva-me, Senhor!

4 Imagens para a prédica 4.1 – A vida em risco Em nosso barquinho, tudo estava muito bem. Nossa rota de navegação seguia o caminho indicado por Jesus. A brisa era mansa e as ondas, tranquilas. Inesperadamente veio uma tempestade. Atendendo seus pais, minha esposa Elisa tentou carregar uma máquina de costura, que machucou sua coluna. A fisioterapia não teve sucesso. Buscou então um médico especialista em coluna, que requisitou uma ressonância magnética. Nas observações, esse exame apontou a existência de uma massa heterogênea que deveria ser investigada. Então os exames se seguiram, e foi constatado um tumor neoplásico no ovário esquerdo, do tamanho aproximado de uma laranja. 4.2 – A graça de Deus Determinados tumores malignos agem silenciosamente. Nem nos damos conta da sua ação. Deus usou aquela pesada máquina de costura para provocar um diagnóstico antecipado de uma doença mortal, que faz toda a diferença no prognóstico. Clamamos pelo cuidado de Jesus, ele ouviu nosso clamor, deu-nos sua mão e colocou-nos na segurança do seu barco. Um segundo momento de graça ocorreu através de um sonho. Dias antes da cirurgia, a angústia era grande. Havia muitas interrogações. Qual a maligni-

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dade e dimensão do tumor? Em que estágio ele se encontrava? A alma estava angustiada. Num desses dias, acordei de madrugada e encontrei minha esposa dormindo e chorando, soluçando. Acordei-a. Ela me contou que estava sonhando. Na ponta de uma escada em uma loja de artes e decorações encontrava-se um vaso. Ao passar, ela o tocou, e esse rolou escada abaixo, quebrando em pedaços. Ela perguntou exasperada a uma senhora que estava sentada próximo à escada quem havia colocado aquela obra de arte em local tão vulnerável. A senhora sorriu. Desarmada, perguntou então o valor daquela obra de arte a fim de restituir a perda. E ela respondeu: Nem 25 milhões de seu tempo podem pagar esse vaso. A senhora idosa e gorda abraçou-a e jogou-se no chão, envolvendo-a por inteiro. Minha esposa interpretou esse sonho. Ela mesma estava se colocando em risco, em situação vulnerável, ao não respeitar seus limites, fragilizando o corpo. Deus, na figura da senhora idosa e gorda, acolhe, consola e cuida da minha esposa. Esse acontecimento permitiu compreender uma faceta muito importante de relatos bíblicos. Seguidamente, lemos que Deus fala conosco por intermédio de sonhos. Ele nos visita, vem até nós dando o consolo que de outra forma não seríamos capazes de entender. Isso ocorreu conosco. O Espírito Santo, por intermédio desse sonho, acalentou nossa alma. Deus visitou-nos, dando uma nova dimensão de consolo. 4.3 – A redenção A redenção dá-se de fora para dentro. Lembrei-me do Cristo Redentor. Experimentamos sua ação de forma concreta. A doença mortal precisa ser extirpada. Deus valeu-se de uma equipe médica que, com muito carinho e cuidado, agiu para retirar o tumor maligno iniciado na trompa de falópio direita. Seguiram-se 18 semanas de sessões de quimioterapia. Um tempo de tormenta, que passou. Agora vivemos um novo momento. Esperamos os exames vindouros para confirmar a resposta do tratamento. Deus vem ao nosso encontro e age de forma extraordinária através de milagres, sonhos e fatos que protegem e permitem seguir o itinerário da vida. Após a cirurgia, Elisa assim se expressou: “Estou serena e confiante no amor de Deus, na certeza de que ele conduz nossa vida e que saúde e doença fazem parte da vida. As senhas do dia da cirurgia diziam: ‘O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma’ (Sl 121.7) e ‘Até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois!’ (Mt 10.30-31). Deus está cuidando da minha alma e me fortalecendo. Agradeço pela vida que me deu até aqui e sempre. Agradeço pelos bons e maus momentos, pela fé e esperança... Deus cuidou de tudo. O tumor de trompas é silencioso, não se manifesta por dor, sangramentos etc. Proporcionou-me uma dor no ciático, que levou a um diagnóstico precoce, pois nada fora constatado nos exames ginecológicos preventivos realizados sete meses antes. Talvez no exame preventivo posterior, a extensão e o prognóstico seriam piores, já que o tumor estava encostado no intestino grosso e facilmente ocorrem metástases para o pulmão ou abdômen. A princípio, os médicos acham que está localizado. Vamos esperar os resultados dos exames, mas estou pronta para passar por quimioterapia. É isso. Agradeço pelas orações de todos. Um forte abraço. Elisa Brust Rieck (em 16/11/2016)”.

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Ao indagar o motivo pelo qual acontecem episódios dessa natureza, deparo-me com o Evangelho de João 14.11, em que lemos: “Creiam no que lhes digo: Eu estou no Pai, e o Pai está em mim. Se vocês não creem por causa das minhas palavras, creiam pelo menos por causa das coisas que faço”.

5 Subsídios litúrgicos Muitas são as situações de medo e angústia na vida dos membros da comunidade. Perceba o que se passa. Leve uma palavra de fé e esperança. Aja com o amor que acolhe e dá atenção. Na confissão de pecados, olhe para o apóstolo Pedro como aquele que teve coragem de arriscar-se indo em direção a Jesus. Na confissão de fé, aponte para o extraordinário milagre da vida. O sonho antes relatado aconteceu no dia 30 de outubro de 2015. No dia anterior, havíamos celebrado com os irmãos da IELB, na Igreja Cristo de Porto Alegre, um culto pelo Dia da Reforma. Estiveram presentes a Camerata do Instituto de Educação de Ivoti (RS) e um grupo reunindo diversos corais das comunidades de Porto Alegre. Aquele culto foi um bálsamo para nós. A cirurgia aconteceria no dia 9 de novembro. Nossos sentimentos estavam à flor da pele. Partilho partes daquela celebração que nos foi de grande alento: – HPD 1 – 86. – Salmo 130. – Anúncio da graça: “Deus, em seu infindável amor, escuta a oração de todos aqueles que buscam sua misericórdia. Deus vem a nós em Jesus Cristo e perdoa nossos pecados e nos alimenta para uma vida que não tem fim”. – Kyrie: Pelas dores deste mundo, ó Senhor, imploramos piedade. A um só tempo geme a criação. / Teus ouvidos se inclinem ao clamor dessa gente oprimida. Apressa-te com tua salvação. A tua paz, bendita e irmanada com a justiça, abrace o mundo inteiro. Tem compaixão! O teu poder sustente o testemunho do teu povo. Teu Reino venha a nós! Kyrie eleison! – Confissão de fé (Credo de Martim Lutero): Não ponho a minha confiança em nenhum ser humano deste mundo, nem em mim mesmo, nem em meu poder, habilidade, bondade, piedade ou em que eu possa ter. Não ponho a minha confiança em nenhuma criatura, esteja ela no céu ou na terra. Eu, porém, me atrevo e ponho toda a minha confiança unicamente em Deus. No Deus uno, invisível, incompreensível, Criador do céu e da terra, que reina sobre todas as criaturas. Não tenho medo de toda a maldade do príncipe deste mundo e de seus comparsas. Meu Deus está acima de todos eles. Eu confio, apesar de tudo, seja eu pobre, sem compreensão, sem sabedoria, desprezado ou carecendo de tudo. Eu confio apesar de tudo, ainda que sendo pecador. Porque essa minha confiança inabalável deve pairar sobre tudo o que existe e não existe, sobre pecados e virtudes e sobre tudo, para que em Deus, pura e sinceramente, se conserve a confiança, tal qual o primeiro mandamento exige de mim. Tampouco quero esperar prodígios, tentando a Deus. Eu confio nele constantemente, ainda que ele demore, nem imponho a ele termo ou tempo. Amém.

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– HPD 1 – 97. – Canto final: Daqueles(as) que estão à minha frente, cuida bem, Senhor. Daqueles(as) que me seguem no caminho, cuida bem, Senhor. Daqueles(as) que se encontram ao meu lado, cuida bem, Senhor. E como é infinito o teu cuidado, cuida bem de mim também. Outras sugestões: Entregar uma folha A4 a cada participante para juntos fazerem um barco de dobradura. Explorar o lado romântico da imagem de um barquinho. Lembrar que o barco simboliza a igreja. Estamos no barco em direção a um alvo. A trajetória da vida é feita de calmarias e tempestades. Escrever no barco uma dedicatória e trocar com outra pessoa, valorizando o sentimento de pertença, solidariedade e comunhão. Sugestão de hino: HPD 1 – 98.

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PRÉDICA: ROMANOS 11.1-2a,29-32 ISAÍAS 56.1,6-8 MATEUS 15.21-28

11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

20 AGO 2017

Atílio Hunzücker

Deus inclui na construção do seu Reino

1 Introdução Neste 11º Domingo após Pentecostes, podemos dizer que a temática que nos oferecem os textos é a inclusão no projeto salvífico que Deus concede a “todos” (e todas) conforme sua soberania. Isaías 56.6-7 fala claramente da inclusão salvífica do estrangeiro: é uma inclusão pelo serviço e obediência a Deus. O estrangeiro que cumpre com os preceitos, respeita o sábado, une-se à aliança, será reconhecido, aceitos seus sacrifícios e holocaustos; e conclui com a afirmação: “Minha casa será casa de oração para todos os povos”. Essa inclusão não está presente na promessa feita a Abraão? Gênesis 18.18: Visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra. Mateus 15.21-28 relata-nos o encontro de Jesus com a mulher cananeia e apresenta a inclusão como fruto da fé: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã. Jesus reconhece a fé da mulher, o amor dela por sua filha sofredora, a total falta de orgulho frente ao tratamento que ele lhe deu. Jesus, diante dessa demonstração de fé, modifica sua afirmação no v. 24: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Sua fé está em aceitar ao menos as migalhas que caem da mesa, e elas serão suficientes para curar sua filha. O texto de Romanos reafirma a inclusão dos gentios sem a rejeição definitiva a Israel. Creio que nossa celebração pode conter essas diferentes perspectivas de inclusão que Deus nos oferece para viver em seu Reino.

2 Exegese Ao tratar um texto da, quem sabe, mais rica carta de Paulo, encontramos o esforço de conciliar, mesclar a mensagem do evangelho aos gentios (alheios à história de Israel) com os que já pertenciam por nascimento a Israel, dando-lhe força para o paradoxo da ruptura e continuidade gerada em Cristo. No meu entender, há, pelo menos, quatro palavras-chave em nosso texto: rejeição, irrevogável, desobediência e misericórdia. Rejeição – Paulo sustenta que Deus não rejeitou seu povo; e ele mesmo se coloca como exemplo de israelita colocado a serviço dos gentios; se todo o

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Israel tivesse sido rejeitado, ele não poderia realizar sua missão. O estar fora, desobedecer, não aceitar a vontade de Deus não implica uma definitiva exclusão, somente significa uma oportunidade para voltar a ser enxertado no tronco, como o apóstolo descreve com a imagem dos ramos da oliveira. Irrevogável – Paulo necessita sustentar a continuidade do projeto divino com Israel, com Cristo e com os gentios. Os dons e o chamado não têm volta; mais tarde ou mais cedo está dito, dito está, não há possibilidade de mudança. Por isso o povo eleito seguirá sendo para sempre. Irrevogável refere-se à soberania de Deus e seu agir na história, às suas decisões, que nunca são carentes de amor e misericórdia. Desobediência – Poderíamos dizer que em nosso contexto significa autoexclusão como consequência do pecado, da cegueira, da surdez diante da Palavra. Não é a rejeição de Deus a seu povo; mas a rejeição do povo a Deus e à sua vontade. Essa ideia é incorporada em Romanos 11.32 com a afirmação: Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. Podemos pensar assim: desobediência = afastamento; reconhecimento do afastamento = oportunidade para que Deus ofereça sua misericórdia. Paulo inclui tanto judeus como gentios nessa experiência de afastamento-desobediência. Misericórdia – Não posso afastar de mim a mais rica imagem que dá pleno sentido ao termo: o regresso do filho menor em Lucas 15.20: E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou. Transportemos essa imagem aos israelitas que regressam, aos gentios que regressam, a cada um de nós que regressa e nos restaura com a misericórdia de Deus. Com isso podemos entender a última afirmação de Paulo no v. 32. Não devemos esquecer que a rejeição ao evangelho por parte dos judeus torna o apóstolo disponível para chegar aos gentios. Assim podemos explicar o conteúdo do v. 30. Porém Paulo segue inquieto a respeito do destino de Israel e afirma contundentemente que Deus não rejeitou o povo que chamou, embora não seja em memória dos patriarcas. Todos os que pertencem à raiz, como os que foram enxertados, recebem a seu tempo a misericórdia, alguns primeiro, outros mais tarde. O esforço de Paulo é fazer complementares as partes que antes resultavam excluídas: judeus e gentios complementam-se e necessitam-se para a plenitude da salvação.

3 Meditação Ao ter em nossa frente versículos da, quem sabe, mais rica carta de Paulo, não deixa de me surpreender a informação e o conhecimento que o apóstolo tem sobre a igreja de Roma. Conhecemos o projeto que ele tinha de visitar as pessoas que não conhecia pessoalmente. Havia uma disputa na igreja de Roma entre gentios e judeus? Havia uma rejeição manifestada na igreja aos judeus não convertidos? Que gravidade tinha esse problema? Creio que o esforço que Paulo realiza a respeito da não rejeição definitiva de Deus para com o povo eleito aponta para o risco que correm os gentios de tornar-se sem misericórdia frente aos judeus e desenvolver um orgulho vazio.

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A história da salvação, ou melhor, a história da ação de Deus no mundo (seu mundo) não é linear; pelo contrário, é manifestamente escabrosa e tortuosa. Por isso o povo de Deus, formado por gentios e judeus, ou o Israel não cristão, experimentou ao longo do tempo aproximações e distâncias, fidelidade e rejeição, sofrimento e felicidade. Paulo parece dizer-nos: Deus necessita de nós todos, e a plenitude chegará quando a salvação alcançar todos (todos chegam a ser incluídos). Os gentios devem ser considerados em relação aos judeus, já que pela desobediência desses aqueles receberam a misericórdia. Como essa mensagem de não rejeição e de inclusão afeta nossa igreja de hoje? O que nos diz Paulo diante de uma realidade em que a religião ou as diferentes ofertas religiosas fazem parte do mercado? Estamos em condições de aceitar que “todos fomos incluídos sob a desobediência para assim receber misericórdia”? Neste tempo, quando em mais ou menos dois meses celebraremos os 500 anos da Reforma protestante, estamos em condições de discernir sobre nossa própria fidelidade, nossa presença misericordiosa no mundo? Como olhamos para a história? O que aconteceu aos judeus nesses dois milênios? O que aconteceu e o que acontece hoje com os muçulmanos? Saindo agora da visão das religiões e suas lutas, penso no mais geral de nosso mundo social, econômico e político. Algum tempo atrás, escutei a Sra. Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), manifestando seriamente sua preocupação a respeito do aumento de sobrevida das pessoas após sua aposentadoria. Fica claro que o sistema econômico dominante (que fala e declama sobre inclusão) termina dizendo que “alguns, perigosamente, sobram” ou atentam contra o êxito do sistema econômico-financeiro mundial. Sobram os velhos porque gastam e não produzem; sobram os pobres dos países onde os ricos extraíram tudo e deixaram terra arrasada; sobram os que, por formação, condição social, lugar de residência, não conseguiram transformar-se em eficientes consumidores que colaborem para reproduzir o sistema. São milhões os rejeitados, os “esquecidos de Deus”; são milhares os que tentam integrar-se à misericórdia do sistema, seja no México, seja cruzando o Mediterrâneo, e somente encontram a morte. Os cristãos e as igrejas podem discutir com Paulo e dizer-lhe: Esses são os rejeitados de Deus. Como podemos ajudá-los minimamente em seus padecimentos? Ganhou relevância o problema dos refugiados nos países centrais. Seria mais apropriado poder reconhecer o que temos feito aos integrados no sistema para que tantos milhares estejam fora. É urgente ouvir e ampliar a voz profética do apóstolo: Misericórdia para todas as pessoas. Corremos o sério risco de tornar-nos sem misericórdia e perder o que faz de Deus nosso Deus, manifestado plenamente em Jesus Cristo: sua misericórdia. É necessário poder ter em nossas comunidades, por mais insignificante que nos pareça, um olhar amplo na perspectiva do projeto salvífico de Deus para não cair na impotência ou nos dopar com o orgulho.

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4 Imagens para a prédica Creio ser importante poder enumerar, brevemente, épocas históricas, quando distintos grupos foram excluídos a partir da perspectiva do privilégio de ser cristãos: as Cruzadas; a expulsão dos mouros na Espanha; a conquista “cristã” do continente agora chamado América; a situação dos negros nos Estados Unidos... Seguramente encontraremos exemplos mais próximos e atuais que possamos apresentar: Paulo foi lido? Foi entendida sua afirmação de que “todos” alcançarão a misericórdia de Deus?

5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados Podemos enumerar as exclusões próprias e alheias com suas consequências e rogar a Deus por seu perdão. Oração de coleta Recordamos os feitos de Deus e suas inclusões em seu projeto salvífico. Oração de intercessão Incluir e pedir por aquelas pessoas que ainda sofrem rejeição em nossas igrejas e em nosso mundo.

Bibliografia COMENTARIO BÍBLICO SAN JERÓNIMO. Nuevo Testamento. Madrid: Verbo Divino; Estella, 2004. LA SAGRADA ESCRITURA, BAC. Nuevo Testamento. Tomo II. Madrid, 1968. (Tradução: João Artur Müller da Silva)

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PRÉDICA: MATEUS 16.13-20 ISAÍAS 51.1-6 ROMANOS 12.1-8

12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

27 AGO 2017

Paulo Roberto Garcia

Reflexões sobre o compromisso cristão em um mundo excludente

1 Introdução Quando abrimos o Evangelho de Mateus e lemos a perícope-base deste domingo (Mt 16.13-20), defrontamo-nos com o desafio de refletir sobre nosso compromisso com a fé cristã e com nosso mundo, um compromisso que se desenvolve em nosso cotidiano. Nossa perícope aponta para os alicerces da fé cristã e confronta um conjunto de expressões e práticas cristãs que se apresentam com uma face excludente e violenta. O texto bíblico de Mateus torna-se voz profética para denunciar essas práticas e para desafiar as pessoas cristãs a uma vida de fé marcada por práticas de inclusão e de cuidado com todas as pessoas.

2 Exegese A perícope sobre a confissão de Pedro, registrada no Evangelho de Mateus, tem como ponto de partida o Evangelho de Marcos. Contudo o Evangelho de Mateus registra algumas peculiaridades que dão a essa perícope um colorido especial. Não só é um texto maior e mais desenvolvido do que o de Marcos, como também apresenta pequenos elementos diferenciais que o ressignificam. Nessa abordagem exegética, vamos buscar destacar essas diferenças e seus impactos na interpretação. 2.1 – O Filho do Homem Quando comparamos Marcos 8.27 com Mateus 16.13, percebemos que, na pergunta de Jesus, Mateus cria um jogo de palavras. A pergunta de Marcos “Quem dizem os homens que sou eu?” ganha em Mateus uma redação diferente: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. A mudança não apenas vincula a pergunta às expectativas messiânicas acerca do Filho do Homem como também cria um jogo de palavras no qual os homens não sabem quem é o Filho do Homem. Há um desconhecimento daqueles que tinham obrigação de reconhecer o Filho do Homem. A humanidade necessitava reconhecer o esperado Filho da Humanidade.

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2.2 – Pedro como marca do círculo petrino da Galileia As tradições petrinas desenvolveram-se muito fortemente na Síria e na Galileia. Não podemos deixar de citar que tradições paulinas (que também estavam na Síria) e tradições joaninas (da Transjordânia e Ásia) compõem esse rico mosaico de tradições que forjaram o cristianismo em suas origens. Nas tradições siro-palestinenses, Pedro aparece como personagem paradigmático dos cristãos. Ele é apresentado com toda a ambiguidade que marcava a caminhada de fé de qualquer discípulo/a: fé e medo, coragem e covardia etc. Por isso o papel que ele desempenha nesse texto é fundamental. Ele congrega os desafios que marcam a vida de qualquer um dos cristãos. Por isso a confissão de Pedro no Evangelho de Marcos é uma confissão da própria comunidade. Para entender isso, precisamos destacar as características próprias da narrativa de Mateus. Em primeiro lugar, encontramos no v. 14 o acréscimo de Jeremias na lista de comparações que os homens fazem acerca de quem é Jesus, uma vez que Jeremias foi considerado na tradição como um profeta que experimentou um sofrimento profundo. Ao mesmo tempo, é importante destacar que é possível que a vida de Jeremias tenha inspirado os cânticos do servo sofredor encontrados em Isaías. Esses cânticos de Isaías, na história da redação do Novo Testamento, serão ligados à vida de Cristo. Por isso essa inter-relação entre o profeta Jeremias, os cânticos do servo sofredor e o próprio sofrimento de Jesus forjam o conceito de Jesus como o Messias sofredor. Em segundo lugar, a confissão de Pedro, que é uma confissão da comunidade, afirma que Jesus é o Cristo (como Mateus e Lucas farão). Mas acrescenta que ele é o “Filho do Deus vivo”. Esse título cristológico dirige a interpretação do trecho exclusivo de Mateus – os versículos 17 a 19. 2.3 – Os enigmáticos versículos 17 a 19 Chamamos esses versículos de enigmáticos, pois a interpretação deles tem gerado muitas posições diferentes na história do cristianismo. Quem é a pedra sobre a qual a igreja está edificada? Esta é a grande pergunta. Devemos destacar que nesse texto, ao ressaltar a autoridade petrina, Pedro é colocado como um paradigma para a vida dos cristãos. Por isso as características dessa autoridade tornar-se-ão desafios para a vida da comunidade. A primeira característica aparece na afirmação de Jesus de que a confissão de Pedro não nasce do sangue nem da carne, ou seja, não é mérito humano. Essa confissão é revelada pelo Pai que está nos céus. Por isso a autoridade petrina, e consequentemente dos participantes da comunidade, não está baseada em ações e decisões humanas. A possibilidade de confessar Jesus como Cristo é obra do Espírito. A segunda característica é que Simão Barjonas recebe o nome de Pedro: “Tu és Pedro”. Pedro significa pedra. No texto, encontramos a afirmação de que “sobre essa pedra edificarei minha igreja”. Definir qual é a pedra torna-se o ponto crítico da interpretação, e encontramos diversas abordagens. Uma parte significativa dos pesquisadores defende que Pedro é a pedra. Desse modo, a igreja está edificada sobre ele. Essa interpretação ressalta a autoridade de Pedro como base da igreja. Outros pesquisadores colocam que a pedra é Cristo. O problema é que

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não há sinais narrativos para defender essa posição. É certo que em jogo está a pergunta sobre quem é Jesus para os discípulos, mas a ligação dele com a pedra não fica explícita. Por isso caminhamos por uma terceira possibilidade, que está baseada na revelação que Pedro recebeu dos céus: Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Com isso a Pedra sobre a qual a igreja está edificada é a proclamação de fé revelada pelo Espírito: Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Assim, assumimos aqui que a Pedra não é Pedro, mas a confissão de Pedro, em especial quando percebemos que o tema central de todo o diálogo de Jesus com seus discípulos é exatamente quem ele é para os “homens” e para os discípulos. A terceira característica é encontrada na afirmação de que Pedro recebe as chaves do reino dos céus. Diversos comentaristas entendem que essa frase visa reforçar a autoridade petrina, o que é fortalecido com a afirmação que segue: “Tudo o que atardes sobre a terra será atado nos céus, e tudo o que desatardes na terra será desatado nos céus”. Porém precisamos avaliar essas afirmações com um olhar mais amplo no Evangelho de Mateus. A frase enigmática “Tudo o que atardes sobre a terra será atado nos céus, e tudo o que desatardes na terra será desatado nos céus” é usada duas vezes no Evangelho de Mateus. A primeira vez em nossa perícope (Mt 16.13-20); a segunda vez no capítulo 18, onde encontramos o ensino sobre a igreja (Mt 18.15-22). O que chama nossa atenção é que essa frase aparece ligada às duas ocorrências da palavra ekklesia (igreja). No ensino sobre a igreja, contido no capítulo 18, o tema da perícope de 18.15-22 é o perdão. A perícope orienta sobre como agir nas situações em que alguém peca. A orientação é que, se um irmão pecar, deve ser procurado à parte. Se ele se convencer do pecado, o irmão foi ganho. Se ele não se convencer, devem-se levar dois ou três “testemunhadores” (pessoas hábeis na proclamação) para buscar firmar a convicção na palavra. Se ele não ouvir, deve-se levá-lo à igreja. Se não ouvir a igreja, deve-se tratá-lo como gentio ou publicano. Nesse ponto as interpretações divergem. Alguns pesquisadores entendem essa ordenança como exclusão da comunidade. Não podemos nos esquecer de que na lista dos discípulos o nome de Mateus vem seguido do “publicano”. Jesus considerou o publicano Mateus como objeto da missão. Portanto a orientação é exatamente o contrário das interpretações citadas: a ordem é não excluir, e sim considerar esse irmão como objeto da missão. A explicação é simples: o que desatar na terra será desatado no céu. Ou seja, fora da comunidade a pessoa não tem nenhuma possibilidade de vivenciar o Reino. Dentro da comunidade, a pessoa tem a oportunidade de mudar seu comportamento e voltar a vivenciar o compromisso com o reino de Deus. Por isso o perdão deve ser ilimitado: setenta vezes sete (18.22). Para confirmar a leitura acima, precisamos lembrar-nos de que nossa perícope é parte de uma estrutura do evangelho que liga o capítulo 13, que é central no Evangelho de Mateus – o discurso em parábolas –, ao capítulo 18 – o discurso sobre a igreja e sobre o perdão. No capítulo 13, duas parábolas exclusivas de Mateus enfatizam a não exclusão. A primeira é a parábola do joio (13.24-30). Nela, a conclusão é inimaginável na lógica de um agricultor. O joio deve crescer com o trigo. Só na colheita será separado. A segunda é a parábola da rede (13.47-50). Aqui temos uma informação básica: durante a pesca, enquanto a rede está na

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água, não se tiram peixes dela. A separação é feita na praia. Como a colheita na primeira parábola e o separar peixes na praia na segunda estão ligados à ideia do julgamento final, isso aponta que quem julga não é a comunidade, mas Deus no final dos tempos. Ou seja, não se deve seguir a lógica humana: retirar o mato para a semente boa crescer melhor. A lógica do Reino é diferente: não se exclui para que não se corra o risco de perder uma única semente boa. E também na parábola do Reino, excluir durante a pescaria é uma impossibilidade. Portanto possuir as chaves do Reino deve ser entendido como responsabilidade e não como privilégio. Levar a confissão de fé adiante implica não fechar o Reino para ninguém. O desafio é a inclusão de todas as etnias (28.19). Ninguém poderá ficar de fora. Com isso a terceira característica deve ser entendida como um compromisso de não exclusão, e sim de responsabilidade com o outro, mesmo com aquele ou aquela que não preenche os ideais de participação na comunidade. 2.4 – A responsabilidade com o próximo – compromisso da comunidade Diante do desafio de saber quem é Jesus, a igreja se consolida. O alicerce da igreja está na possibilidade de confessar que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Isso não é atributo humano, é revelado pelo Espírito. Por isso ninguém pode ser melhor que ninguém. Todos são iguais. Assim, Pedro passa a ser paradigma do ser cristão, apresentando as características que se espera encontrar na comunidade. Todas elas se fundem em um desafio missionário: confessar que Jesus é o Cristo deve ser vivenciado na perspectiva da inclusão. Quando confissão de fé vincula-se a práticas que consolidam a preocupação com o próximo, em especial com os pequeninos e, inclusive, com os que estão com práticas destoantes, e essa confissão não permite a prática da exclusão, as portas do Hades, não têm poder sobre ela. Por outro lado, se houver a exclusão, a comunidade fecha as portas do reino e abre as portas do inferno.

3 Meditação No calendário litúrgico, o Tempo Comum – dentro do ciclo que marca o pós-Pentecostes –, o desafio da comunidade cristã é a vivência cotidiana da fé. Os textos deste domingo apontam ao cuidado de Deus para com os seres humanos. O texto de Isaías 51.1-6 ressalta o cuidado que o Senhor tem com seu povo. Escavados da rocha aguardam a justiça de Deus. O texto de Romanos convida à transformação da mente para que o culto racional seja um exercício dos dons como parte de um corpo: a comunidade. Esses textos conjugados convidam a igreja a descobrir sua relação com Deus e sua responsabilidade para com a missão. Por isso o texto de Mateus 16.13-20 torna-se decisivo para aprofundar essa relação com Deus e a missão. Em primeiro lugar, devemos destacar que a missão se inscreve em um mundo no qual os seres humanos (no texto “os homens”) não distinguem quem é o Filho do Homem. Ou seja, a missão inscreve-se em um mundo de incompreensão e desconhecimento. Aquele que é esperado não é reconhecido. Por isso torna-se um desafio aclarar para a humanidade quem é o Filho da Humanidade.

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Em segundo lugar, o texto de Mateus lembra-nos de que o ser humano não é artífice da missão; é coparticipante. Ele não confessa Jesus como Cristo por mérito próprio. É revelação do Espírito. A missão acontece na comunhão do ser humano com o Espírito. Ele revela que Jesus é o Cristo. Em terceiro lugar, o desafio é possibilitar que todas as etnias conheçam a pedra sobre a qual a igreja está edificada: a confissão de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Essa confissão deve ter como alvo todas as etnias, todas as nações, todas as pessoas. Ou seja, a exclusão de qualquer pessoa da possibilidade de conhecer essa pedra atenta contra a missão. Por fim, a comunidade de fé tem as chaves do Reino. Isso não é direito, isso é responsabilidade. Quando a comunidade usa o poder das chaves para impedir que alguém entre, as portas do Hades (inferno) abrem-se, e elas prevalecem sobre o Reino. Quando a inclusão é a característica da comunidade alicerçada sobre a rocha, ela não exclui, e as portas do inferno não prevalecem contra ela. Vivemos em um mundo marcado por violência, exclusão e intolerância. A fé cristã tem sido em muitos casos artífice desses processos. O texto lembra que a rocha sobre a qual a igreja está firmada é uma confissão de fé que tem como característica as práticas de inclusão e o cuidado para com o outro. O corpo precisa agregar todos os membros (Rm 12). A salvação de Deus e sua justiça duram para sempre (Is 51). Os pertencentes à comunidade de fé devem anunciar esse cuidado de Deus com o mundo, com o corpo, com a justiça a todos os seres humanos. Quando vivemos o acolhimento e a inclusão como marcas maiores, as portas do inferno não prevalecem.

4 Imagens para a prédica Quando temos acesso aos noticiários, em especial da política, assombramo-nos com o crescente número de cristãos (evangélicos) ligados a práticas de corrupção e com discursos excludentes. Em nome da fé agradecem a Deus pelo dinheiro ilícito. Em nome da fé levantam-se contra pessoas e grupos. Ao mesmo tempo, quando temos acesso aos discursos oficiais de diversas igrejas, encontramos uma eclesiologia fundamentada em processos que refletem a lógica do mercado. Justifica-se a exclusão do outro por não apresentar um modelo de espiritualidade que reflete o modelo definido como único pela comunidade. Chega-se a consolidar essas práticas com frases como: “Se alguém não joga no seu time, tem que ser convidado a sair”. O cristianismo, influenciado por uma lógica empresarial, tem visto a exclusão como uma estratégia para melhorar o ambiente e a “produtividade” (leia-se conseguir adeptos). Para alcançar resultados mais efetivos, deve-se eliminar o que não se amolda às características aceitáveis dentro da comunidade. Diante desses dois aspectos da realidade moderna, que apontam para o crescimento de um cristianismo sectário e excludente, somos desafiados pelo texto de Mateus e pelos demais textos apontados em nosso calendário litúrgico a assumir uma postura de contestação. Se Jesus fosse aplicar o princípio que dirige essas práticas descritas acima, ele não escolheria, por exemplo, Pedro. O tempo

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todo, Pedro mostra os limites que os seguidores de Jesus têm. Por outro lado, ele aparece em nossa perícope como o paradigma para todas as pessoas cristãs: a coparticipação na missão, firmada na confissão de fé e em uma prática não excludente.

5 Subsídios litúrgicos Em junho de 2016, faleceu Federico J. Pagura, bispo da Igreja Metodista da Argentina, que marcou nosso tempo com sua palavra profética e com suas composições musicais. Um subsídio litúrgico que pode contribuir para o compromisso das pessoas cristãs em um mundo de exclusão é sua música Temos Esperança. Ela pode ser cantada na comunidade ou lida em forma de poesia: Temos esperança [Homero R. Perera, Federico J. Pagura; trad. Jaci Maraschin] Porque ele entrou no mundo e em nossa história; porque quebrou o silêncio e a agonia; porque mostrou na terra a sua glória; porque foi luz em nossa noite fria; porque nasceu em pobre estrebaria; porque viveu semeando amor e vida; porque partiu os corações mais duros e levantou os tristes e abatidos. Por isso é que hoje temos esperança; por isso é que lutamos destemidos; por isso olhamos hoje com confiança para o porvir dos povos oprimidos. Por isso é que hoje temos esperança; por isso é que lutamos destemidos; por isso olhamos hoje com confiança para o porvir. Porque atacou corruptos, mercadores e denunciou maldade e hipocrisia. Porque exaltou crianças e mulheres e condenou os que de orgulho ardiam. Porque levou a cruz de nossas penas e saboreou o fel de nossos males. Porque aceitou sofrer a nossa culpa e assim morrer por todos os humanos.

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Por isso é que hoje temos esperança... Porque uma aurora viu sua vitória sobre as mentiras, sobre a morte e o medo. Já nada pode interromper sua história nem a chegada de seu Reino eterno. Por isso é que hoje temos esperança...

Bibliografia LUZ, Ulrich. El Evangelio Según San Mateo – Mt 8-17. Salamanca: Sígueme, 2001. v. II. OVERMAN, J. Andrew. Igreja e Comunidade em Crise: O evangelho segundo Mateus. São Paulo: Paulinas, 1999. SALDARINE, Anthony J. A Comunidade Judaico-Cristã de Mateus. São Paulo: Paulinas, 2000.

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13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

03 SET 2017

PRÉDICA: JEREMIAS 15.15-21 MATEUS 16.21-28 ROMANOS 12.9-21

Cláudio Kupka

1 Introdução Alguém tem dúvidas se a vida cristã pode ser vivida sem conflitos e dúvidas? Alguém suspeita que possa haver um relacionamento vivo com Deus sem que a vida pessoal dessa pessoa seja profundamente afetada por crises e sentimentos de ambiguidade? Se responderem sim a essas perguntas, então o texto de Jeremias 15.15-21 é leitura e meditação recomendadas, um verdadeiro antídoto. Jeremias, o profeta cuja vida e dilemas pessoais talvez tenham sido os mais evidenciados na Bíblia, reflete nesse texto o âmago de sua crise em diálogo com Deus. À luz dos textos auxiliares, nosso texto é altamente valorizado, especialmente por Mateus 16.21-28. Nele, Jesus discute com seus discípulos sobre o impacto da perspectiva dos fatos que sucederão sua viagem a Jerusalém. Em diálogo com Pedro, Jesus revela total sintonia com os planos de Deus e censura a atitude daquele, acusando-o de “pensar como ser humano”. Jesus desafia Pedro a esquecer seus interesses sob o risco de perder a vida. Mateus ilumina o drama de Jeremias com o exemplo de Jesus, aquele que perfeitamente viveu sua humanidade em obediência ao chamado de Deus e sofreu humildemente as ambiguidades de seu sacerdócio. Romanos 12.9-21 dialoga com Jeremias na dimensão da postura de juízo de que todo profeta era portador, mas que em Jeremias se torna um traço emocional marcante. Enquanto Jeremias questionava Deus por sua manifestação tardia de juízo, Paulo alerta que o mal que criticamos e combatemos pode contaminar nosso testemunho, nosso olhar. Alerta que o mal só pode ser vencido pelo bem e que o exercício da misericórdia e da paz é um contraponto importante na vida de toda pessoa que sofre ou é perseguida por sua fé.

2 Exegese a) Os dois auxílios exegéticos de Ronald Baesler (PL XVIII, p. 222) e Valdemar Schultz (PL XXX, p. 55) abordam sobejamente nosso texto. O colega Schultz detém-se de maneira exemplar sobre o contexto histórico e literário de nossa perícope. Destaco somente alguns pontos essenciais. Jeremias 15.15-21 insere-se no bloco maior dos capítulos 1-24, que tem por tema o juízo contra Judá e Jerusalém. Desse bloco, os capítulos 11-20 centram-se no compromisso do profeta com o anúncio do juízo de Deus. Neles, encontram-se as cinco confissões: 11.18-12.6; 15.10-21; 17.14-18; 18.18-23; 20.7-20. A segunda confissão inclui os v. 10-14 como parte da perícope.

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Nesses textos, a característica mais óbvia é que Jeremias fala em seu próprio nome. Os oráculos não se referem a Deus, mas ao profeta. As confissões mostram que a vocação do profeta é uma vocação para o conflito, conflito entre o profeta e o mundo reinante e conflito entre o profeta e o Deus que chamou o profeta. Supõe-se que Jeremias tenha vivido entre 627 e 580 a.C. Ele atuou no tempo dos reinados de Josias (640-609), de Jeoaquim (608-598) e Zedequias (597587), um período político bastante conturbado. Sob o avanço do Império Babilônico, Israel debate-se em busca de sua preservação, fazendo alianças com o Egito. Jeremias manifesta-se independente de interesses de sacerdotes e reis. É por isso difamado e perseguido constantemente. Jeremias foi testemunha viva de um dos momentos mais angustiantes e sangrentos da história do povo de Deus, que teve inúmeras consequências políticas e religiosas para os períodos seguintes. Esse era o espaço primordial do profeta. Diante do perigo, da crise, aparecia a voz profética com sentido político e religioso. Nesse caso, Jeremias articulou-se num tempo de incertezas e falta de um projeto comum. O povo estava dividido entre diferentes interesses: apoiar os egípcios, favorecer os babilônicos, fortalecer o poder do rei ou opor-se ao rei. b) No início do capítulo (v. 1-9), Deus anuncia os detalhes do castigo que Judá, e especialmente Jerusalém, receberão como fruto de sua desobediência. O tema é pesado e cheio de detalhes pavorosos. Deus não está disposto a reconsiderar. Nem se Moisés e Samuel fossem os interlocutores do pedido de clemência Deus os ouviria. O diálogo de Jeremias começa no v. 10. Há uma ruptura no fluxo do texto, pois Jeremias interrompe o tema da condenação para chamar a atenção de sua condição de profeta. O tom da fala é de alguém que se sente desconsiderado no processo, alguém cujos sentimentos não são reconhecidos. Jeremias reclama do fardo que carrega. Compara sua reputação com a de devedores e pede que a condenação se cumpra logo, para que sinta alívio dessa condição profética ambígua: anunciar castigo e não ver sua palavra cumprida. Coloca inclusive sua fidelidade a Deus à prova. Deus responde que cumprirá em breve o que prometeu por meio dele. c) Nossa perícope inicia com a retomada do tema da vingança em função de sua condição de insultado. Jeremias parece transformar a causa de Deus numa causa pessoal. “Vinga-me dos meus perseguidores”, diz ele (v. 15). Há uma clara discordância de Jeremias em relação à demora de Deus em aplicar o castigo. Ele parece colocar sua condição acima do interesse de Deus. Mesmo assim, reconhece que é por amor que assume sua condição de profeta. O v. 16 é uma verdadeira declaração de fé e entrega. As palavras de Deus são alimento para o faminto. Alimento que dá satisfação e alegria. Apesar de sua fragilidade emocional, Jeremias não esquece sua identificação com a vocação de Deus e o quanto seu nome está ligado ao Senhor dos Exércitos; ele é o profeta de Deus. Na sequência (v. 17), Jeremias retoma suas lamentações alegando que não se reúne com pessoas alegres, ou seja, ele não trai seu espírito pesaroso e crítico buscando momentos de descontração e alegria. Ele acha importante ser coerente com seu papel. Se ele anuncia desgraça ao povo, não pode ser flagrado confrater-

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nizando com alguém. Ele assume essa posição difícil e solitária. Ele é possuidor de mensagens terríveis e não se consegue desvincular emocionalmente delas. Enfim, no v.18, Jeremias toca no tema central de sua fala e fá-lo em tom questionador. Por que ele sofre uma dor contínua, sem alívio nem cura? Lança suspeitas sobre a fidelidade de Deus em relação a ele, usando a metáfora poética de um ribeiro cujas águas podem escassear. É uma forma ousada de referir-se a Deus, mas Jeremias se sente impelido a desabafar por sua dor. A resposta vem no v. 19, quando Deus se refere ao tema do arrependimento. Está implícito que Jeremias passou do limite em sua postura como profeta. Ele deve retornar de uma posição inadequada. Há uma perda, um deslocamento da posição certa diante de Deus. O pecado fê-lo perder essa posição. O arrependimento possibilitaria que Deus o colocasse de novo nessa posição. Que pecado, que deslocamento seria esse? No v. 20, Deus já vê Jeremias em sua posição adequada. Ele continuará se colocando contra o povo como um muro. Só que agora com força, como um muro intransponível. Da posição adequada faz parte receber forças para suportar o desgaste, a tensão. A condição é colocar-se como voz de Deus e não falar por si coisas inúteis. Ao falar o que Deus pede, o povo vai voltar-se a Deus, mas nem isso deve mudar seu tom e sua postura. Ele não pode deixar-se seduzir por qualquer simpatia para que nada distorça ou diminua sua fidelidade a Deus. O v. 21 reafirma que ele está, na verdade, numa posição de ameaça. Como profeta de Deus, no entanto, está protegido e será libertado.

3 Meditação a) Pode parecer pretensão estabelecer comparação com Jeremias, mas não é. Jeremias, um dos grandes profetas do Antigo Testamento, atuou nos momentos mais tensos e trágicos da história de Israel. Jeremias vivenciou o profetismo com uma intensidade ímpar. Jeremias foi fiel a seu chamado como poucos e pagou um preço alto por sua fidelidade. No entanto, ele viveu seu chamado como ser humano, como todos nós. Se a Bíblia tem um papel, é mostrar como os personagens nela retratados viveram grandes capítulos da ação de Deus em meio a temas e dimensões bem humanas da vida. Isso não os diminui. Isso aproxima-os de nós, leitores e pessoas que se nutrem desse testemunho para balizar sua vida de fé. Nosso chamado pode parecer menor do que o de Jeremias, mas nossos dilemas não são diferentes, não são de outra ordem. b) Jeremias vive o dilema de toda pessoa que é chamada por Deus pela fé a seguir e servir à causa do evangelho de Jesus Cristo, ou seja, renunciar a si mesma e viver da graça revelada na cruz. Jeremias não conhecia Jesus, mas vivia a ambiguidade de ser simultaneamente um vaso de barro e esconder tesouros, nesse caso o conteúdo de sua mensagem profética e o agir poderoso de Deus. Nós cristãos não somos portadores da mensagem condenatória de Jeremias, mas anunciamos o mesmo conteúdo decisivo para a humanidade. Quem quiser salvar sua vida perdê-la-á, e quem perder sua vida por minha causa achá-la-á (Mt 16.25). Há, portanto, uma clara semelhança entre a condição de Jeremias e a nossa.

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c) O tema da ambiguidade da condição cristã é amplamente abordado pelos evangelhos e por Paulo. O desafio é perceber agora em Jeremias o que há de desafiador em sua condição e experiência nessa perícope. Inicio tocando no tema do deslocamento da posição do profeta. Em algum momento, ele se colocou de maneira diferente, inadequada em relação a Deus. Em algum momento, ele confundiu os papéis, colocando-se como causador da oposição do povo. Em algum momento, ele assumiu a causa de Deus como sua e assumiu a oposição como que dirigida à sua pessoa. Esse foi seu pecado. Sem que percebesse, ele se afastou de Deus, ele traiu sua vocação profética. O sinal do deslocamento foi seu discurso lamentoso e centrado em sua pessoa. Sua fala tornou-se irrelevante para Deus. Não se trata de desmerecer o sofrimento e a dor de quem serve a Deus. Trata-se de fazer desse tema o tema central, acima do chamado de Deus. Deus não é insensível à nossa dor. Deus não admite que coloquemos nossa humanidade acima do chamado dele. Essa é a confusão de Jeremias e de todos nós em algum momento da caminhada cristã. O caminho de volta é o caminho do arrependimento. Do reconhecimento desse deslocamento e do assumir novamente a posição adequada, o olhar adequado, a fala adequada. d) É verdade que situações de muita tensão (especialmente se forem de longa duração), como as que Jeremias viveu, são fonte especial de grande sofrimento emocional. No entanto, a capacidade de resiliência está ligada a como cada pessoa se prepara para enfrentar essa condição. Há quem se abata precocemente, e há quem resista com surpreendente força interior. Onde está o segredo? Independente de toda uma série de orientações psicológicas, muito úteis e necessárias, a fé cristã trata do tema e dá úteis e imprescindíveis orientações a respeito. A primeira diz respeito ao tema central da experiência de Jeremias: deslocar-se da condição de profeta para a de vítima. Colocar-se no centro do drama emocional, esquecendo-se de Deus, de seu chamado e de sua proteção. Quem retoma insistentemente o tema do chamado de Deus em oração, reconhece sua fragilidade e clama por misericórdia com certeza não se sentirá deslocado. Essa oração é o verdadeiro antídoto para o pecado de Jeremias. e) Somos por natureza inclinados a colocar-nos como centro do processo. Somos por natureza egocêntricos. Julgamos o que nos rodeia tendo como referência nosso ponto de vista. Nos momentos de fragilidade, somos mais egocêntricos ainda. O desespero e o medo fazem com que nos refugiemos em nosso frágil abrigo interior. Nessa hora, parece que nos esquecemos de Deus. Esse é o pecado do deslocamento, algo refletido já no relato do Éden. Deus quer ser o centro de nossa vida. É orbitando ao redor dele que encontraremos a posição em que nossa vida tem sentido. Referindo-nos a ele, é que nossas lutas e desafios adquirem outro caráter. O egocentrismo complica também nossa relação comunitária. Lutamos sozinhos por temas e demandas como se ninguém nos compreendesse e como se ninguém mais sentisse a mesma coisa. A vida comunitária pode ser solitária e sofrida se não sairmos de nosso caracol egoísta.

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Imagens para a prédica

Ilustração Certo dia, o fósforo disse à vela: – Minha missão é te acender. – Ah, não! – disse a vela. – Tu não vês que, se me acenderes, meus dias estarão contados? Não faças uma maldade dessas, não. – Então quer permanecer toda a tua vida assim dura, fria, sem nunca ter brilhado? – perguntou o fósforo. – Mas ter que me queimar? Isso dói. Consome as minhas forças – murmurou a vela. – Tens toda a razão – respondeu o fósforo. – Esse é precisamente o mistério da tua vida. Nós fomos feitos para ser luz. O que eu, como fósforo, posso fazer é muito pouco. Mas se passo a minha chama para ti, cumprirei o sentido de minha vida. Eu fui feito justamente para isto: para começar o fogo. Tu és a vela. Tua missão é brilhar. Toda a tua dor, tua energia se transformarão em luz e calor, e somente assim poderás ser útil àqueles que necessitam de luz. Ouvindo isso, a vela olhou para o fósforo, que já se estava apagando, e disse: – Por favor, acende-me!” Poesia O homem humano (Adélia Prado) Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta, o que seria de mim eu não sei. Sem o Teu Nome a claridade do mundo não me hospeda, é crua luz crestante sobre ais. Eu necessito por detrás do sol do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos. Porque acima e abaixo e ao redor do que existe permaneces, eu repouso meu rosto nesta areia contemplando as formigas, envelhecendo em paz como envelhece o que é de amoroso dono. O mar é tão pequenino diante do que eu choraria se não fosses meu Pai. Ó Deus, ainda assim, não é sem temor que Te amo, nem sem medo.

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Subsídios litúrgicos

Oração de confissão de culpa Nós nos dirigimos a ti, Senhor, sabendo que nos enganamos de caminho. Andávamos tentando andar, apalpando as paredes como cegos. Acreditávamos que o caminho que nos oferecias era suficientemente largo para poder andar nele, levando junto nossos caprichos, os rancores, as ambições desmedidas, a dureza de coração e a idolatria. Agora nos encontramos na escuridão desse caminho, órfãos de ti. Apaga, por tua graça, o pecado que nos conduziu a esse caminho equivocado. Orienta-nos mais uma vez ao caminho da vida, o estreito e difícil, ao caminho da cruz, ao caminho da ressurreição e da vida. Em nome de Jesus, nós te pedimos. Amém. Confissão de fé Creio que Deus pode fazer com que de tudo, mesmo do negativo, resulte algo bom. Para isso necessita de homens e mulheres que permitam e creiam que tudo lhes servirá para o bem. Creio que Deus nos pode dar em cada situação difícil a capacidade de resistir. Mas não a dá adiantado, para que não confiemos em nossas próprias forças, e sim em seu poder. Essa confiança nos livrará do medo e do temor pelo futuro. Creio que nossos erros e fracassos não são em vão e que para Deus não é mais difícil utilizá-los como faz com nossos sucessos. Creio que Deus não é um destino cego e indiferente, mas que espera nossas orações e nossos atos responsáveis. (Dietrich Bonhoeffer) Bênção (baseada no Salmo 139) Que Deus, para quem a noite é tão clara como o dia, guie teus passos no caminho. Que Deus, que está contigo quando estás sentado e levantado, te rodeie com seu amor e te segure pela mão. Que Deus, que conhece teu caminhar e teu descansar, esteja contigo, dando-te esperança, seja a boa notícia que tens para partilhar com o mundo, e te guie pelo caminho eterno. Amém. (Jan Sutch Pickard / Tradução: R. H. Jordan)

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Canto

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PRÉDICA: MATEUS 18.15-20 EZEQUIEL 33.7-11 ROMANOS 13.8-14

14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

10 SET 2017

Clarise Ilaine Wagner Holzschuh

Solidariedade e fraternidade

1 Introdução Estamos no 14º Domingo após Pentecostes, de 22 a 27 domingos possíveis nesse tempo, e no segundo domingo do mês de setembro, que segue o Dia da Independência do Brasil. Nos dias em que escrevo, estamos envolvidos em muitas situações de tristeza por acidentes nas estradas, pessoas sofrendo como frio intenso do inverno no sul do Brasil, insegurança na política, corrupção em todos os níveis e lugares, deputados rebatizando-se em pleno rio Jordão, luta pelo fim da violência contra a mulher, assassinato em massa nos Estados Unidos... Chega! Em meio a isso, não tem como ficar imune a essas situações quando refletimos sobre o Evangelho de Mateus 18.15-20, que nos traz a temática do pecado. Não só o evangelho, mas também os textos complementares. Ezequiel 33.7-11 traz-nos a tarefa profética de denunciar o pecado e chamar para um novo caminho. Da mesma forma, a Carta aos Romanos 13.8-14 traz a lembrança dos mandamentos de Deus e que esses se cumprem pela vivência do amor. Traz também a proximidade cada vez maior do fim e a necessidade de buscar uma vida orientada pelo mandamento de Deus.

2 Exegese O Evangelho de Mateus tem por conteúdo central apresentar Jesus como o Mestre da justiça. Ele é o único Mestre (9.11; 17.24; 19.16; 23.8; 26.18), que veio para “cumprir toda a justiça” (3.15). Cumprir a justiça é realizar a vontade do Pai que se expressa em sua Lei. O Evangelho de Mateus insiste muito na realização da justiça e no cumprimento da vontade de Deus. Diante da insistência desses temas, buscamos a origem do evangelho, sua comunidade, sua autoria, e imaginamos que deva ser uma comunidade que sofre injustiças de seu tempo e lugar. Pesquisas revelam que o Evangelho de Mateus foi escrito no final dos anos 80 d.C., certamente provindo de comunidades que viviam na Palestina, numa região em que predominavam igrejas formadas por pessoas de origem judaica que migraram por ocasião da guerra judaico-romana. A migração intensificou-se com a perseguição sofrida por parte de lideranças das sinagogas nos anos 80 e 90. Os judeu-cristãos foram expulsos das sinagogas quando os rabinos fariseus passaram a liderar o judaísmo.

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Mateus revela esse conflito entre as comunidades cristãs e as sinagogas, mas revela também tensão entre cristãos vindos do judaísmo e cristãos vindos de outras culturas, como pode ser visto em Mateus 5.17-48. A elaboração do evangelho foi realizada por escribas judeu-cristãos (Mt 13.52; 23.34). Assim como os rabinos fariseus tentam reconstruir o judaísmo depois da destruição do templo de Jerusalém nos anos 70, os rabinos cristãos tentam reconstruir a tradição de Israel a partir da fé em Jesus de Nazaré como o Messias e Filho de Deus. Jesus deu novos rumos a Israel, e o Evangelho de Mateus quer dar identidade ao novo Israel, comunidades cristãs hegemonicamente de origem judaica. O evangelho tem destinatários claros, quais sejam, as comunidades judeu-cristãs nascidas na Palestina e espalhadas pela Galileia e Síria depois de ser expulsas das sinagogas. Os membros dessas comunidades são “os pequeninos”: pessoas sem terra (Mt 5.1-5), desempregadas (20.1-6), migrantes (2.13-23; 4.1316), perseguidas (5.10-12; 23.13-32) e pobres (11.25-26; 6.25-34; 25.31-46). Diante de tanta injustiça, o libertador necessariamente precisa ser o Mestre da justiça. Mateus apresenta Jesus como Mestre da justiça, fazendo grandes discursos. E seu ensino tem autoridade (7.28-29), a tal ponto de propor alterações na Lei (5.21-48). Além de apresentar Jesus como o Mestre da justiça, há outros três aspectos centrais no conteúdo do Evangelho de Mateus: 1) Apresenta Jesus anunciando a boa-nova a todos os povos, fazendo com que os judeus aceitem Jesus como o Messias esperado e ajudando as comunidades a acolher pessoas não judias em suas igrejas. 2) Valoriza de modo especial a tradição de Israel, incluindo Jesus na genealogia real de Israel. Jesus é salvo do massacre de crianças, assim como Moisés vem do Egito, proclama a Lei na montanha e pronuncia cinco discursos, como os cinco livros da Lei. O evangelho quer ajudar a devolver a identidade aos judeu-cristãos em crise por ter sido expulsos de seu próprio povo. 3) E dá ênfase à presença de Deus em nosso meio, o Deus Emanuel. Esse tema perpassa todo o evangelho; está no anúncio de seu nascimento, passa pela confissão de Pedro e está na boca de Jesus no final no evangelho. O Evangelho de Mateus tem uma preocupação com o desenvolvimento de uma eclesiologia. É o único evangelho que cita a palavra ekklesia (assembleia, comunidade, igreja – Mt 16.18; 18.17). O capítulo 18, do qual faz parte nossa perícope, é o ponto alto dessa eclesiologia, e a maior parte é material exclusivo de Mateus. Mateus insiste na vivência fraterna (cap. 5-7, 18). A palavra “irmão” aparece cerca de 40 vezes. A reconciliação e a solidariedade são fundamentais para as relações entre novas mulheres e novos homens na comunidade. Ao analisar a estrutura do Evangelho de Mateus, percebe-se que ele não está preocupado em descrever a prática de Jesus, mas em organizar o ensino do Mestre da justiça em cinco grandes discursos, contendo uma parte narrativa e outra discursiva. Cada discurso termina com a fórmula “ao terminar Jesus estas palavras” (confira Mt 7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). Nossa perícope (18.15-20) é a parte inicial discursiva do quarto livro, que podemos intitular de “Comunidade, sinal do Reino”, que narra a igreja como seguidora do Mestre da justiça (13.53-

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17.27) e faz o discurso sobre o relacionamento entre os filhos e filhas do Reino na comunidade. Os cinco discursos (livros) são precedidos pelas narrativas do nascimento e infância de Jesus (cap. 1-2) e concluídos com as narrativas sobre a paixão e ressurreição de Jesus (cap. 26-28). Lutar pela justiça leva à morte, mas também gera vida e justiça plenas.

3 Meditação “[...] onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20). Esta palavra de Jesus é muito usada em situações em que há poucas pessoas para justificar o encontro. Assim, isolada, fora de seu contexto, até dá para invocar a palavra. Porém, em seu contexto, mesmo menor, seu sentido é bem outro. O evangelho tem como destinatários pessoas que tinham seu lugar de culto nas sinagogas e são expulsas. Isso causa perseguição, e elas migram para terras estranhas. Não têm mais lugar de culto. Sua religiosidade ainda está fortemente marcada pela expiação do pecado. Lembremos que as pessoas que formavam essas comunidades eram migrantes, sem-terra, pobres, desempregadas e perseguidas. A sociedade do Império Romano era dura e sem coração, sem espaço para os pequenos. Esses buscavam um abrigo para o coração e não o encontravam. Nas comunidades, o rigor de alguns na observância da Lei levava para dentro da convivência os mesmos critérios injustos da sociedade e, quiçá, da sinagoga. Assim, começaram a aparecer nas comunidades as mesmas divisões que existiam na sociedade entre rico e pobre, dominação e submissão, falar e calar, carisma e poder, homem e mulher, raça e religião. Em vez de a comunidade ser um espaço de acolhimento tornava-se um lugar de condenação. Jesus traz normas simples e concretas de como proceder no caso de algum conflito na comunidade. Se um irmão ou uma irmã pecarem, isto é, se tiverem um comportamento que não seja de acordo com a vida da comunidade, não se deve logo denunciá-los. Primeiro, procure conversar a sós. Procure saber os motivos do outro. Se não der resultado, leve mais duas ou três pessoas da comunidade para ver se consegue algum resultado. Só em caso extremo deve levar o problema para a comunidade toda. E se a pessoa não quiser escutar a comunidade, que ela seja para você como um publicano ou pagão, isto é, como alguém que já não faz parte da comunidade. Não é você que está excluindo, mas é a pessoa que se exclui a si mesma. Essa exclusão não significa que a pessoa seja abandonada à sua própria sorte. Ela pode estar separada da comunidade, mas não estará separada de Deus. Caso a conversa na comunidade não der resultado e a pessoa não quiser integrar-se na vida da comunidade, resta o último recurso de interceder junto ao Pai para conseguir a reconciliação. E Jesus garante que o Pai vai atender. O motivo da certeza de ser ouvido é a promessa de Jesus: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Jesus deixa claro que ele é o centro da comunidade e, como tal, junto com a comunidade, estará

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intercedendo junto ao Pai para que conceda o dom do retorno ao irmão ou à irmã que se excluem. Todo esse processo leva-nos a concluir que na comunidade é necessário que todas as pessoas tenham voz, inclusive as que porventura tiverem pecado. A comunidade tem autonomia e autoridade para definir seus caminhos. Mas há um eixo todo especial: a comunidade tem que se organizar em função dos pequeninos. A parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35), que segue a perícope, revela que se trata de uma comunidade empobrecida e endividada; da mesma forma, a parábola da ovelha perdida (Mt 18.12-14), que está imediatamente antes da perícope. Aqui em Mateus, a ovelha perdida é o pequenino, o frágil, o pobre, perseguido, sem-terra e sem emprego, jogado à própria sorte, e “não é da vontade do meu Pai que nenhum desses pequeninos se perca”. A solidariedade com os pequenos é fundamental; ela é que deve ser o eixo principal que orienta o caminho e a organização da comunidade. Juntando palavras de Jesus nesse discurso da comunidade, Mateus quer iluminar a caminhada dos seguidores e das seguidoras de Jesus, para que as comunidades sejam um espaço alternativo de solidariedade e de fraternidade. Devem ser uma boa notícia para os pequenos, pobres e desprovidos, sem qualquer segurança na vida.

4 Imagens para a prédica Jesus fala-nos da necessidade de perdoar o irmão, a irmã. Não é fácil perdoar. Pois certas mágoas continuam machucando o coração. Há pessoas que dizem: “Eu perdoo, mas não esqueço!”. Rancor, tensões, brigas, opiniões diferentes, ofensas, provocações dificultam o perdão e a reconciliação. Por que será que é tão difícil perdoar? Existe espaço para a reconciliação em nossa comunidade? De que maneira? Estamos em vias de celebrar os 500 anos da Reforma. Pensando nisso, trago uma imagem do reformador Martim Lutero quando ele fala do Batismo: são as pessoas que compõem a igreja, as comunidades nos dias de hoje. Lutero compara o Batismo a um barco. Se a pessoa pula fora, pode afogar. O barco não afunda, e as pessoas que ficam no barco chamam aquelas que caíram e as ajudam a voltar para o barco. Sempre é tempo de agarrar as mãos estendidas para voltar. É o processo de penitência e arrependimento dos seus erros. Quem assim vive está no caminho do Batismo, no caminho da salvação. Enquanto vivermos, precisamos de arrependimento. Quem está no barco precisa estar, sempre, de mãos estendidas para ajudar os que caíram.

5 Subsídios litúrgicos Sugiro a inclusão do Salmo 62 na liturgia do culto. Uma oração de Martim Lutero: “Bondoso, misericordioso Deus, querido Pai no céu, por graça e ardente amor divino tu nos deste teu querido Filho e com ele graça, felicidade e salvação. Pedimos-te, querido Pai, mantém para nós essa

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tua graça. Não deixes que percamos a face amiga de teu querido Filho Jesus Cristo por causa de ingratidão ou por outros meios. Somos realmente pessoas pobres, miseráveis, fracas e doentes. Caímos de um pecado em outro. Ora pecamos em pensamentos, ora em palavras, ora naquilo que fazemos. Custa-nos muito esforço conseguir subsistir diante de ti. Pois não há descanso nem paz. O diabo espia nossos pensamentos, atiça-nos e os estimula. O mundo observa atentamente tudo o que falamos e fazemos; ele observa nosso ser e vida e nos dá muita chance para o pecado. Nossa própria disposição também não nos permite ter paz. Além disso, nós nos tornamos culpados sem querer, passamos da medida e, muitas vezes, não conseguimos nos controlar. Tudo isso pressiona nossa consciência, destrói a alegria de nosso coração e transforma a alegria em aflição e amargura. Por isso nós te pedimos, bondoso e misericordioso Deus: Mesmo que nos transformemos em indiferentes e ingratos e mesmo que não nos comportemos como deveríamos, continua sendo nosso Deus misericordioso. Sê nosso amigo, bondoso e misericordioso. Consola-nos. Não nos faças sentir nossos muitos pecados. Purifica nosso coração e nossa consciência através da tua palavra, para que possamos servir a ti em paz e com alegria e para que te louvemos, honremos e glorifiquemos nesta vida assim como na eternidade” (Querido Deus! Orações, p. 23).

Bibliografia CENTRO DE ESTUDOS BÍBLICOS. A palavra na vida. N. 134: Felizes os que têm fome e sede de justiça: a Boa Notícia segundo a comunidade de Mateus. JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1977.

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15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

17 SET 2017

PRÉDICA: ROMANOS 14.1-12 GÊNESIS 50.15-21 MATEUS 18.21-35

Luiz Carlos Ramos

Comer ou não comer? Julgar ou desprezar?

1 Introdução Os textos escolhidos para este domingo têm em comum entre si a lição de que não temos o direito de arvorar-nos em juízes uns dos outros. Na passagem de Gênesis 50.15-21, José perdoa seus irmãos por tanta maldade que haviam cometido contra ele, dizendo-lhes: “Não tenham medo; eu não posso me colocar no lugar de Deus. É verdade que vocês planejaram aquela maldade contra mim, mas Deus mudou o mal em bem para fazer o que hoje estamos vendo, isto é, salvar a vida de muita gente” (50.19-20 – NTLH). A perícope evangélica narra o diálogo de Jesus com Pedro a respeito da tolerância para com o pecado do outro. Devemos perdoar da mesma maneira que Deus perdoa, e seu perdão é sem limites (Mt 18.22). Romanos 14 discorre sobre a tolerância mútua e a humildade para lidar com quem diverge da gente. Não devemos julgar, porque, assim como entendeu José, não podemos tomar o lugar de Deus e não devemos desprezar, porque, assim como Jesus ensinou, o perdão não tem limites.

2 Exegese Entende-se ser a Epístola aos Romanos a que mais se aproxima do que se poderia chamar de tratado ou sistematização da perspectiva teológica de seu autor. Diferente de outras cartas atribuídas ao apóstolo Paulo, nas quais sempre são abordados de maneira muito pontual e direta algumas questões e problemas imediatos, nessa, endereçada ao povo cristão de Roma, o que sobressaem são as abordagens de caráter mais conceitual da fé e da crença cristãs. Não obstante, tal teologia continua eminentemente prática. Isto é, trata de questões de fé plenamente aplicáveis ao cotidiano da comunidade, como certos princípios explicam e interpretam as mais diversas situações e também como essa ou aquela concepção teológica pode ajudar na resolução de conflitos e controvérsias vivenciadas ou por vivenciar no seio da igreja. Na perícope que nos compete analisar, essa vinculação teoria-prática fica muito evidente. A teologia da justificação pela fé, apresentada e defendida ao longo da primeira parte da epístola (Rm 1-8), e a discussão anterior sobre Israel, como povo pretensa e estritamente escolhido, em contraponto à universalidade do evangelho, plenamente colocado ao alcance dos gentios (Rm 9-11), serão aplicadas a

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situações concretas e práticas da vida diária da comunidade (Rm 12-15), especificamente às controvérsias entre: fortes versus fracos na fé; comer carne ou legumes; julgamento e desprezo; observância ou não de dias sagrados; viver e morrer. V. 1 – Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. A alusão a alguém que seja “débil/fraco” (ton asthenounta tē pistei) faz supor que a recomendação seja dirigida aos que seriam “vigorosos/fortes” na fé, entre os quais o autor se inclui (15.1: hēmeis hoi dynatoi = nós, os dotados de força...). Subentende-se aqui a existência de duas categorias de fiéis: alguns mais liberais, isto é, com visão mais aberta e horizontes mais amplos, libertos das crendices, superstições, legalismos e tabus religiosos; e outros mais fechados, conservadores, de tendências reacionárias, absolutistas e, por isso mesmo, ditatoriais. Esses últimos são identificados na perícope como débeis (asthenēs = fraco, doente, impotente, anêmico). Num primeiro olhar, poderia indicar aqui o neófito, aquele que está chegando para a comunidade cristã e que por inexperiência ainda não tem as firmes convicções nem o devido conhecimento das sólidas doutrinas que sustentam a fé cristã. Em sua debilidade arrastam consigo, para o seio da comunidade, suas convicções e superstições antigas. A respeito desses, Paulo recomenda que sejam “acolhidos” (proslambanō = tomado para si, recebido). No entanto, se considerarmos que os primeiros cristãos eram judeus e que somente depois os gentios vieram para a comunidade, temos que considerar que os tais “débeis” referem-se, antes, justamente aos velhos correligionários judeus, que abraçaram o cristianismo, mas que se mantinham arraigados às tradições judaicas e afeitos às práticas judaizantes. O cristianismo, diferente de outros grupos sectários, é receptivo, inclusivo e acolhedor e, por isso, é também tolerante em relação às crendices, superstições e às diferentes cosmovisões, quer judaicas, quer pagãs. “Discutir opiniões” (diacriseis dialogismōn = disputas judiciais ou julgamentos e debates, arrazoados, discussões) equivaleria, no dizer de hoje, ao jargão “bate-boca”, ao que leva à seguinte interpretação: acolher o débil sim, mas não para bater boca com ele. Paulo dá a entender claramente que o acolhimento não visa ao con(-)vencimento, à imposição (impositura) de conceitos, opiniões ou ideias, por melhores que essas possam ser. V. 2 – Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes. Essa referência remete às meticulosas restrições gastronômicas que as leis judaicas impunham a seus correligionários, e isso confirma nossa suposição de que o “débil” seja o judeu em relação ao gentio. Levítico 11 e Deuteronômio 14, por exemplo, apresentam um elenco que distingue os animais que deviam ser considerados puros e que, portanto, podiam servir de alimento aos humanos dos impuros, os quais não poderiam ser ingeridos em hipótese alguma, sob pena de atrair o castigo divino sobre quem o fizesse. Entre eles são citados o camelo, o porco, os coelhos e as lebres, bem como todos os peixes que não têm barbatanas nem escamas ou as aves de rapina e animais que rastejam, tais como lagartos, ratos, toupeiras e camaleões. Os judeus mais zelosos, entre eles os fariseus e os essênios, procuravam observar tais preceitos à risca. Os cristãos, entretanto, seguindo o ensino de Jesus de que não é o que entra, mas o que sai da boca que torna alguém impuro, foram aprendendo aos poucos a romper com tais tabus alimentares. Vale recordar

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a experiência traumática que o apóstolo Pedro teve durante uma visão na qual um lençol descia do céu contendo todo tipo de animais, acompanhados de uma voz que dizia: “Mata e come!” e que dizia ainda: “Não consideres impuro ao que Deus purificou” (At 10). Paulo tem plena convicção de que tais preceitos restritivos já não têm valor para a comunidade cristã. Mesmo assim, demonstra tolerância e condescendência para com o que ele chama de “débil” e que só come legumes. Ressalve-se que a discussão de então se dava no mesmo nível da que se trava nos dias atuais com os vegetarianos, que têm motivações éticas relativas aos direitos dos animais (que nunca são considerados impuros) e outras relacionadas com a saúde, o meio ambiente, a estética e a economia. V. 3 – Quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem come, ou seja, os gentios/pagãos fortes, versus os que não comem, isto é, os judeus débeis. Desprezar (eksoutheneō = subestimar, reduzir a nada) versus julgar (krinō = condenar, punir, vingar-se). A tendência do forte é ridicularizar, tripudiar o débil. E a propensão do débil é recriminar e desdenhar o forte. Fica claro que Paulo está ao lado dos que comem, mas entende que ambos os grupos devem respeitar-se mutuamente. V. 4 – Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. O julgamento é sempre presunçoso. Ademais, o julgamento de um servo (gr.: oiketēs = servo doméstico) que pertence a outrem está fora da “jurisdição” de quem critica. Em outras palavras, se há alguém que poderia julgar um servo, esse seria seu senhor (v. 9). Nesse caso, todos os seres humanos são servos de Cristo. Ele é o único Senhor. Nos v. 11 e 12, numa referência ao juízo final, somos lembrados de que cada um dará conta de si mesmo a Deus, de modo que resulta inútil querer dar conta ou exigir contas dos outros. Assim, entende-se melhor o que poderia significar que é o Senhor quem nos mantém em pé e nos sustenta. V. 5 – Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Novamente são os judeus (judaizantes) que observam à risca certos dias considerados sagrados. Uma alusão, por suposto, à tirania do sábado principalmente, mas não só (Gl 4.10-11). A atitude de Paulo corrobora a opinião de Jesus em relação à observância do sábado: “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27). O mesmo se aplicaria às demais datas, que, sim, podem ser celebradas, desde que estejam a serviço do reino de Deus e nunca da opressão ou escravização dos fiéis. Ter opinião “bem definida” pode ser entendido como uma exortação a que todos sejam responsáveis por seus atos, isto é, que não sejam meros repetidores de tradições, costumes ou crendices, mas que sejam capazes de transformar suas práticas em práxis (no sentido de prática fundamentada teoricamente) consciente e relevante. V. 6 – Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus. A condição para que tal práxis (distinguir dias e comer) seja considerada válida é estar ela a serviço do reino de Cristo em espírito eucarístico, isto é, acompanhada da ação de graças (eukaristeō).

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V. 7 – Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Aqui o aspecto comunitário é destacado: o respeito mútuo é necessário porque ninguém vive isolado, ilhado. Se quisermos existir como corpo vivo de Cristo, temos que aprender a coexistir. V. 8 – Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Vida e morte são aqui parte de uma mesma realidade: servir a Cristo (“para o Senhor vivemos... para o Senhor morremos”). Vida e morte são também sinais de pertença: “somos do Senhor”. Subentende-se que não cabe vivermos em função dos outros nem querer que outros vivam em função de nós. Se há uma referência a ser buscada é a de ambos para com Cristo. Antes de impor a minha opinião, devo perguntar qual seria o parecer de Cristo. V. 9 – Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Cristo morreu (apothnēskō ) e viveu (zaō = viver). A NTLH traduz mais adequadamente. O senhorio de Cristo abrange ambas as condições: tanto dos vivos como dos mortos, de modo que nada escapa a seu domínio. V. 10 – Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Diante do senhorio de Cristo, tanto de mortos como de vivos, não se justificam nem julgamento nem desprezo. O único tribunal que haveremos de enfrentar é o divino. V. 11 – Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. As palavras de Isaías 45.23 são evocadas: “Por mim mesmo tenho jurado; da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás. Diante de mim se dobrará todo joelho e jurará toda língua”. Fica posto que ninguém se deve curvar diante de outro que não seja o Senhor. Ninguém tem o direito de querer sujeitar ninguém, porque nosso único Senhor é Cristo. V. 12 – Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. Cuide cada um de si em lugar de ficar interferindo na vida dos outros e cuide para estar preparado para prestar contas de sua vida a Deus. A mesma temática segue sendo discutida nos versículos e no capítulo seguinte, de certa forma reforça o que já está posto até o versículo 12.

3 Meditação Os textos de hoje são um convite à inclusão e ao respeito. Também são um desafio à prática consciente. A tolerância para com os mais fracos não implica subjugação à sua estreiteza de pensamento, mas uma atitude educadora em relação a eles. A educação não se faz com desprezo nem com desrespeito (nem com discussões inócuas). Também serve de orientação para os que chegam na comunidade para que entendam sua posição de neófitos e predisponham seu espírito para o aprendizado e o crescimento em sua fé, aprendendo a rever conceitos e a amadurecer convicções.

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Guardadas as proporções e distinções entre as realidades, das comunidades bíblicas e da nossa, o princípio da convivência respeitosa permanece válido. Em nosso caso, é frequente que não necessariamente neófitos adotem posturas intolerantes e aliem-se a teologias conspiratórias, que consideram pecado, e veem o diabo em quase tudo o que não lhes agrada: música, dança, vestuário, gastronomia, arte e vários detalhes de usos e costumes. E acabam por confundir evangelização (anúncio de boas notícias) com enquadramento e condicionamento cultural (péssima notícia). Por outro lado, em nome da tolerância mal fundamentada e de uma ideia frouxa de democracia, nenhum processo pedagógico-educativo é realizado com vistas ao fortalecimento e à superação dos preconceitos, discriminações e superstições por parte desses “fracos na fé”. À luz do versículo 5, “cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente”, entendemos que a instrução do apóstolo é para que a comunidade adquira consciência e assuma responsabilidade plena por seus atos. Com isso o remetente da carta endereçada aos romanos não espera que todos permaneçam sempre irredutíveis em suas opiniões e práticas, mas que se apliquem a meditar e deixar-se instruir pelo exemplo de Cristo, a fim de vir a agir como ele. Paulo deixa claro que a postura madura é muito mais tolerante e espiritual do que a dos legalistas. Espiritualidade, nesse caso, não é sinônimo de pieguice e isolamento das “coisas do mundo”, mas libertação das superstições que oprimem os povos. A fé débil, ou fraca, não deve permanecer débil, mas fortalecer-se. O objetivo dos fracos na fé deve ser tornar-se fortes na fé. Nesse processo de crescimento e aprendizado, os mais avançados devem assumir uma atitude pedagógica de acolhimento e nunca de prepotência, sabendo que a vida em Cristo é um aprendizado constante. E os que chegam à comunidade (e mesmo os veteranos devem sempre recordar que) devem tomar consciência de imediato das regras da vida comunitária e que, ao aceitar essa regra, deverão abster-se de emitir julgamento precipitado sobre outra pessoa. Lembremo-nos de Lutero, que, comentando essa passagem, assim se expressa: “O que julga a outro sem dúvida o faz porque opina que aquele outro está fazendo coisas que obstaculizam a salvação e que lhe é necessário mudar de atitude. Porém, uma vez que há essa debilidade de fé [porque a salvação não depende dessas coisas menores, mas da graça divina], é lícito a cada qual guardar a lei segundo o voto que tenha feito”. Não devemos nunca, neófitos ou veteranos, colocar-nos no lugar de Deus. Deus é quem julga. O debate sobre o vegetarianismo também pode ser discutido aqui com alguma lucidez. No texto, os que não comiam carne faziam-no por motivações sobrenaturais e supersticiosas, a saber, a relação dos alimentos com os demônios, o que tornaria certos animais e alimentos impuros. No entanto, como já indicado, as motivações do movimento vegetariano contemporâneo são éticas e têm a ver com os direitos dos animais, que nunca devem ser considerados impuros, e também com os cuidados com a saúde, o meio ambiente, a estética e a economia. Bem diferente, portanto, do legalismo religioso de outrora.

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15º Domingo após Pentecostes

4 Imagens para a prédica A etimologia do termo “respeito” pode ser muito esclarecedora, pois vem do latim “re” = atrás + “spectare” = olhar. Respeitar é, portanto, olhar para trás (ou olhar de novo). Isso pode ser entendido em dois sentidos: olhar para a história de vida da outra pessoa faz-me ser mais compreensivo e entender por que ela é o que é e faz o que faz; mas também implica olhar para a nossa própria história de vida e, tomando consciência da nossa própria trajetória, com todos os erros e acertos, isso nos torna mais compreensivos para com a história do outro. Conta-se que, quando questionado sobre o uso ou não das vestes litúrgicas, Lutero teria respondido que, sim, ele achava que os religiosos deveriam usar roupas apropriadas, como fazem todos os outros profissionais em relação a seu ofício, mas complementa sua opinião dizendo: “Saiba, no entanto, aquele que usa, que, usando, nada acrescenta ao evangelho e o que não usa nada lhe subtrai”. Certos aspectos secundários nunca nos devem desviar do essencial. Nosso querido e saudoso professor Milton Schwantes advertia-nos de que não devemos permitir que os outros se sirvam de nossa democracia para impor seu autoritarismo. Com isso ele queria dizer que o exercício da tolerância, do respeito e da liberdade nunca deve ser irresponsável, a ponto de colocar em risco essa mesma liberdade. Não devemos, portanto, ingênua, irresponsável e preguiçosamente aderir ao velho princípio do laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer (deixai fazer, deixai ir, deixai passar). O fortalecimento na fé exige disciplina, esforço e empenho formadores e transformadores.

5 Auxílios litúrgicos Creio na diferença (Luiz Carlos Ramos) Creio em Deus, Pai de todas as gentes, Mãe de todas as raças; E em Jesus Cristo, Deus humano, em tudo semelhante a nós: no sangue vermelho na cor e no sangue vertido na dor. Creio no Espírito da Vida, consolador de tantos prantos, pacificador em tantas lutas, inspirador da vida santa. Creio na comunhão do povo oprimido, na ressurreição dos corpos abatidos e no gesto eterno do pão repartido. Creio na vida plena para todos os povos: do Norte e do Sul, do Oriente e do Ocidente. Creio na paz para todas as gentes: brancos e negros, amarelos e vermelhos. Creio na justiça para todos os homens e no direito para todas as mulheres. Creio, enfim, que somos idênticos na cor do sangue, diferentes na cor da pele e equivalentes na comunidade humana, rumo à plenitude divina. Amém.

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15º Domingo após Pentecostes

Para o momento das preces Deus de todas as gentes, Dá-nos habilidade para o convívio amoroso, leveza para praticar o perdão mútuo e alegria transbordante para repartir o amor entre todos. Que teu Santo Espírito nos ensine a conhecer as razões e também a respeitar os mistérios. Amém. Abertura do ritual eucarístico Amigos e amigas, o perdão de Jesus é sem limites, por você, por mim e por toda a humanidade. Hoje somos a comunidade que experimentou o perdão e aprendeu a perdoar, por isso podemos dizer que este é o Sacramento da Comunhão, que nos alimenta de perdão e nos permite conviver e caminhar juntos para a vida eterna. Por essa razão te rendemos graças e exaltamos o nosso Senhor, cantando: Santo, santo, santo...

Bibliografia COMENTÁRIOS DE MARTIN LUTERO. Carta del Apóstol Pablo a los Romanos. Barcelona: Editorial CLlE, s.d. THE INTERPRETER’S Bible: the holy scriptures. The Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans. v. 9. New York: Abingdon; Nashville: Cokesbury, 1954. 668 p.

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PRÉDICA: MATEUS 20.1-16 SALMO 145.1-8 FILIPENSES 1.21-30

16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

24 SET 2017

José Kowalska

Com Deus todas as pessoas têm o necessário

1 Introdução Entramos no último terço do Tempo Comum falando das relações. Fazemos isso com um texto relativamente bem conhecido das pessoas: a parábola dos trabalhadores na vinha, uma parábola em que se explica o reino dos céus a partir de uma reviravolta na lógica normal da gratificação pelo trabalho. O texto previsto do Salmo 145 é uma grande doxologia. Louvam-se de diversas formas a grandeza e a benignidade de Deus, e principalmente se dá ênfase à transmissão e à proclamação dos atos divinos. Interessante também é a indicação da leitura do Antigo Testamento pelo Leccionário, em que está proposta a última parte do profeta Jonas: depois que Nínive se converte, Jonas não gosta do acontecido e fica aborrecido com Deus, pois esse é muito clemente e misericordioso, mas Jonas deve aprender a ter compaixão com as pessoas, assim como teve com a planta. A lógica divina é diferente da humana. Ainda que a Carta aos Filipenses neste domingo inicie sua leitura semicontínua, a leitura prevista pode ser relacionada com o texto de Mateus a partir da lógica do reino de Deus, que é contrária à lógica deste mundo. O que para alguns é perdição, para os cristãos é salvação. Esse texto já foi muito trabalhado anteriormente, seja na antiga série de perícopes como no atual Lecionário. Foi estudado em Proclamar Libertação 4 e 10, no Domingo Septuagesima, nos PL’s 18, 30, 35 e 38, no Tempo Comum, além de ser base no PL 29 para o Dia da Reforma. Indico que verifiquem nessas contribuições a grande variedade de possibilidades de interpretação, tanto exegética como meditativa.

2 Exegese A comparação entre as traduções de Almeida Revista e Atualizada, Nova Tradução na Linguagem de Hoje e Nova Versão Internacional mostra as características de cada tradução. Em verdade, não existem grandes variantes que indiquem interpretações totalmente diferentes entre si. Somente a NTLH adiciona no início do texto quem é que está falando (“Jesus disse”), que pode ser definido a partir de Mateus 19.28. Somente essa versão traduz também denário como moeda de prata. Vale ressaltar que o anthrōpos oikodespotēs é traduzido de diversas formas: dono de casa (ARA), dono de uma plantação de uvas (NTLH) e proprietário

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(NVI); no caso de misthōsasthai ergatas, traduz-se como assalariar trabalhadores (ARA) ou contratar trabalhadores (NTLH e NVI). As horas são mantidas na contagem hebraica pela ARA e convertidas para o horário atual pelas outras (isso facilita muito o entendimento do sentido da parábola). A última grande diferença é que a ARA mantém o final do v. 16 [porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos], sendo que esse segmento não tem suporte nos manuscritos importantes. Estamos no evangelho que sintetiza a mensagem de Jesus como “evangelho do reino” ou a alegre mensagem da soberania/reino de Deus. Assim, para caracterizar essa mensagem, são utilizadas parábolas nas quais é descrita a realidade futura do reino dos céus. No capítulo anterior, Jesus subverte a ordem, troca as regras do matrimônio, aproxima crianças, fala claramente sobre os perigos da riqueza e a troca de perspectivas em relação aos bens terrenais. No capítulo 20, Jesus continua tentando pôr em prática aquilo que pregou, mas as pessoas perto dele não conseguem entender. Jesus usa uma parábola, ou seja, não utiliza uma linguagem direta, como nos textos predecessores ou posteriores. Aqui é apresentado, por meio de imagens e símbolos, um ensino que não pode ou deve ser dito diretamente. Por isso a parábola não quer ser entendida de forma clara e direta. As pessoas que ouvem entenderam a mensagem por associação e correlação. Em Mateus, “o reino dos céus é semelhante” não implica definição, mas assimilação. Assim, com o texto em estudo correm-se dois riscos: a simples alegorização ou a literalização. Por um lado, não relacionar com o contexto socioeconômico da época e, por outro, achar que cada parte tem uma correlação exata na teologia. Não se pode esquecer do “é como/semelhante” na interpretação do texto. No caso de nossa perícope, não tem muito sentido criar uma estrutura para tentar encontrar alguma lógica interna que ajude na interpretação. Pois nos é apresentado um texto coerente em que a trama é dada a partir da inclusão dos atores. A interação entre os atores chega a seu clímax no v. 8, ao cair do dia, quando o patrão pede ao administrador para fazer o pagamento. E é justamente a ordem do pagamento que cria o problema, pois, se os primeiros a serem contratados tivessem recebido primeiramente seu dinheiro, muito provavelmente não teriam tomado conhecimento do valor recebido pelos outros ou sequer reclamado ao receber o acordado previamente. Assim, a parábola é coesa: com início, meio e fim bem delimitados. Nessa parábola, especialmente, Jesus utiliza o contexto bem conhecido das pessoas. Pois, na Palestina, a colheita da uva dá-se justamente antes de começarem as chuvas, pelo que é necessária a contratação de mão de obra extra para recolher a fruta antes que a chuva a estrague. Qualquer trabalhador era bem-vindo para poder aproveitar ao máximo a colheita. A sociedade agrária na Palestina contém principalmente agricultores de subsistência, mas também existem proprietários, que são minoria, e arrendatários. Havia os diaristas, que se diferenciavam por estar geralmente afastados de suas famílias e trabalhar somente pelo salário, sem ter alguma outra relação com o proprietário da terra.

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16º Domingo após Pentecostes

A praça era o lugar para encontrar trabalho. Os homens que estavam disponíveis iam lá cedo com suas ferramentas e esperavam que alguém fosse contratá-los. A permanência de alguns até tão tarde (às 17h) mostra quão desesperados estavam para achar alguma forma de ganhar o pão daquele dia. Essas pessoas diaristas são diferenciadas dos escravos e servos, pois ninguém olha por sua sorte. Se não trabalham naquele dia, seus filhos ou filhas ficam sem comer, ainda que Stegemann os considere possivelmente pequenos agricultores, que, por ocasião da colheita, podiam ter um ganho adicional, porque simplesmente estariam fazendo “um bico”. Mas essa hipótese cai por terra ao vê-los esperar até as 17h por emprego. A vinha é uma figura muito conhecida dos judeus. Simbolizava a riqueza da terra. A vinha é uma propriedade muito valiosa, relacionada até com uma vida de luxo. Fora usada pelo profeta Isaías (capítulo 5), em que o povo de Israel e o de Judá são identificados com a vinha. O pagamento acordado e depois dado a cada um dos homens – um denário – é o pagamento normal por um dia de trabalho. Nos dias de hoje, seria o equivalente àquilo que a ONU mantém como o mínimo para não entrar na pobreza extrema, ou seja, US$ 1,25 por dia. Com esse valor é possível não morrer na miséria, porém não permite nenhuma poupança ou melhora significativa na vida. Pergunta técnica: por que o proprietário não contrata todas as pessoas de manhã cedo e tira mais proveito do denário pago? Elas não estavam lá? Só depois se deu conta de que precisava de mais mão de obra? “Os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos” – esse pensamento repete-se quando Jesus responde quem será salvo, seja em Lucas 13.30, quando fala da porta estreita, ou em Mateus 19.30 e Marcos 10.31, quando fala sobre o perigo das riquezas. Essa frase entra em nosso texto somente pela indicação dada no v. 8 ou terá outra possível explicação?

3 Meditação O que é necessário? “A conceição de reino de Deus do movimento de Jesus é também interpretada como proclamação e práxis de uma ordem de valores radicalmente diferente e de uma mudança radical das condições sociais” (STEGEMANN, p. 442). Jesus apresenta e vivencia uma nova realidade quando pratica o igualitarismo religioso e econômico. O reino de Deus move-se no contexto da satisfação das necessidades básicas de subsistência. Jesus chega a indicar que ele veio para que as pessoas tenham vida em abundância. Mas o que isso significava naquele contexto e o que significa hoje? Um denário é pouco, sendo possível trocar a moeda somente pelo indispensável para passar o dia. Mas o valor, além de ser o costume da sociedade, é usado por Jesus, que nem isso tinha para sobreviver cada dia. É o mesmo Jesus que convida a olhar os passarinhos e os lírios do campo e adverte: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6.34). Justamente alguém que vive da generosidade alheia indica que o mínimo necessário para viver é suficiente. Como refletir sobre

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isso se vivemos numa sociedade em que uma pequena quantidade de pessoas têm muito dinheiro, bens e poder, enquanto a gigantesca maioria está abaixo do limite da pobreza extrema? Poder-se-ia entender a parábola a partir da realidade como uma advertência aos discípulos de Jesus, não existindo a possibilidade de ter maiores honras por ter conhecido Jesus antes. Esse pensamento expressa-se no quadro de Cranach “A vinha do Senhor”, em que o papa é colocado recebendo o denário, enquanto os reformadores ainda estão na vinha. Mas também se pode entender como uma advertência aos judeus, que desprezavam os gentios por não fazer parte do povo eleito por Deus, assim como também os grupos do cristianismo primigênio, que complicavam a participação de gentios na formação da igreja. Com William Barclay podemos observar em nosso texto três atributos diferentes de Deus: consolo, compaixão infinita e generosidade. Sendo assim, procuraremos entender a parábola a partir desses conceitos. O consolo de Deus mostra que não importa quando a pessoa entrou no reino: Deus ama todas as pessoas de igual forma. Alguns rabinos diziam: “Alguns entram no reino em uma hora, outros somente entram numa vida toda”. Não importa se o contato com Deus acontece no início da vida, durante a juventude, no tempo adulto ou já no final da jornada. Deus acolhe todas as pessoas. Ninguém chega cedo demais e nem tarde demais ao encontro com o Salvador. A compaixão infinita de Deus é mostrada pelo proprietário ao contratar pessoas mesmo que o dia já estivesse no fim. Não era possível ver aqueles seres esperando a possibilidade de ganhar o dia, imaginando o sofrimento que seria voltar para casa com as mãos vazias. O senhor dá trabalho porque não podia vê-los daquele jeito. E ainda, quando chega a hora do pagamento, o dono sabe que o denário já é mixaria, então como seria possível dar menos do que aquilo? Por isso foi além da justiça e deu mais do que mereciam. Termina olhando que, ainda que seria justo, não necessariamente está certo ou é bom. Toda pessoa tem direito a trabalho digno e também o direito de viver dignamente. A generosidade divina aparece porque nem todas as pessoas fizeram o mesmo trabalho, porém todos recebem o mesmo pagamento. Pode-se entender de que todo serviço tem o mesmo valor para Deus. Não é a quantidade de serviço, mas o amor com o qual é realizado. Deus não olha se fizemos muito ou pouco; olha qual a motivação. Pois os primeiros jornaleiros trabalham somente pelo pagamento. Por isso a preocupação é receber o máximo por seu trabalho. Por isso fizeram acordo com o patrão antes de iniciar. Enquanto os que chegaram depois somente queriam ter a oportunidade de trabalhar; a recompensa fica nas mãos do patrão. Também poderíamos pensar em nossa vida que tudo o que temos foi Deus quem deu e o dá por graça. Não podemos merecer alguma coisa de Deus, não podemos transformar Deus em nosso devedor. O que Deus dá surge da bondade divina e não como recompensa. Não existe a lógica “fiz mais e por isso mereço mais”. Observando todo o anterior, se juntarmos os atributos de Deus (consolo, compaixão e generosidade) e os relacionarmos com a realidade humana, pode-se concluir que cada pessoa deveria ter o mínimo para subsistir. Não é possível apoiar um mundo onde muitas pessoas não conseguem sequer o mínimo. Todas

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as pessoas, justamente por ser pessoas, não podem ser rebaixadas a ponto de nem sequer ter o indispensável para viver. É algo que Deus dá, não algo a ser exigido. Isso não por ter merecido, mas porque é dádiva divina à condição humana.

4 Imagens para a prédica * Existem diversos acordos em que grupos de pessoas, países ou instituições definem o mínimo que todos os seres humanos devem ter, seja de forma geral ou específica. Temos, por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Declaração dos Direitos das Crianças, a Constituição Brasileira. Também se pode pensar em políticas de gênero, como a Política da Federação Luterana Mundial para a Justiça de Gênero, ou alguma outra afirmação de direitos mínimos indispensáveis para grupos específicos. * Um homem muito rico pode dar-nos milhões de reais num gesto de generosidade, e verdadeiramente nós podemos sentir-nos agradecidos. Se uma criança nos dá um presente de aniversário que custou só algumas moedas, mas que foram poupadas com amor e esforço, com certeza esse pequeno presente não tem valor em si mesmo, mas nos comove muito mais. * Dá para perguntar: Por que faço o que eu faço? Qual a motivação por trás de minhas ações? Aqui não existe resposta errada, ainda que seja a mais egoísta possível. É necessário ser sincero e reconhecer o que motiva a ter minhas atitudes. Daí, num segundo momento, seria necessário verificar se essa motivação está alinhada com a vontade divina. Cada aspecto da vida deve ser considerado. Desde “por que tomo banho todo dia?” até “por que participo de minha comunidade de fé?”. Muitas vezes, enganamos a nós mesmos ou, pelo menos, fazemos de conta.

5 Subsídios litúrgicos Hinos do Povo de Deus 184 (Vamos nós trabalhar), 209 (Deus sempre me ama), 325 (Aqui você tem lugar), 326 (O Povo de Deus), 434 (Momento Novo), 455 (Cada dia o dia inteiro). O Povo Canta 74 (Axê), 109 (Arrumando o mundo). Oração do dia Deus, tu que és generoso e amoroso: lembramos que teu Filho nos tem ensinado que no reino dos céus todas as pessoas têm suas necessidades cobertas. Obrigado porque tu nos fazes saber que cada ser humano tem valor e que todas as pessoas devem ter condições de viver dignamente. Ajuda-nos a fazer disso uma realidade ali onde estamos. Pedimos isso em nome de Cristo. Amém.

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Oração de ofertório Pai onipotente e misericordioso: tu és muito mais generoso para conosco do que merecemos. Ajuda-nos para que nós também sejamos pessoas generosas com aquilo que tu nos deste e que possamos em gratidão ofertar. Usa o que recolhemos para fortalecer a dignidade das pessoas mais necessitadas. Amém. Envio

Lembrem-se: aos olhos de Deus, vocês e todas as pessoas são dignas. Vão em paz e partilhem esse presente divino.

Bibliografia BARCLAY, William. Mateo II (capítulos XI al XXVIII). Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1973. STEGEMANN, Wolfgang. Jesus e seu tempo. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2012.

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PRÉDICA: EZEQUIEL 18.1-4,25-32 MATEUS 21.23-32 FILIPENSES 2.1-13

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

01 OUT 2017

Antonio Carlos Ribeiro

Do lamento infrutífero à decisão de avançar

1 Introdução A instabilização que pareceu tomar conta da sociedade brasileira nos últimos dois anos – do período pós-eleitoral à efetivação da tomada do poder –, movida por um conjunto de fatores, repete o mesmo alarido dos anos 1950, 1960 e, após o período de desenvolvimento da década e meia do novo século, volta a rondar os destinos de duas centenas de milhões de brasileiros, promovida pelas mesmas elites ensimesmadas, autodenominadas detentoras dos destinos dos brasileiros, sem projeto político e condenadas ao mecanismo das situações anteriores. A reação popular parece seguir rumos como os de outrora: não atribui credibilidade aos agentes, ridiculariza os métodos, denuncia a incapacidade de golpistas vencerem no pleito aberto, aponta o leque de ilegalidades, assiste à entrada ilimitada de dólares, divulga os nomes das lideranças nacionais descompromissadas, vê o interino amargar o silêncio dos governos regionais, assusta-se com o envolvimento dos poderes republicanos e desespera-se com a sanha insaciável de depredação do patrimônio público para todos os lados. Sem intervenção da Justiça! A força da tomada ilegal do poder vem do país que sonha em voltar a controlar a economia brasileira, dos diversos brasileiros que atuam como agentes do Estado e da sociedade e dos poderes republicanos acovardados, enquanto as empresas que foram recuperadas para garantir a soberania começam a ser vendidas a preço de banana. Os criminosos que as vendem já estão ricos e com dinheiro em paraísos fiscais. Esse conjunto de fragmentos da realidade brasileira propicia-nos elementos para ler os textos deste domingo e refletir sobre a mensagem divina para quem luta para resistir ao saque. O Evangelho de Mateus mostra a situação de Jesus diante dos dois discípulos que vêm pedir regalias e privilégios. Apesar de insólita, a narrativa mostra a postura de quem se mostra inteiramente cego diante da realidade. A situação é de miséria, exploração da pobreza, escravização de homens e jovens e prostituição de mulheres para pagar dívidas, e aparecem os que não enxergam a realidade e propõem-se a ocupar lugar de destaque e lucrar com privilégios. Além da rejeição do restante do grupo, os discípulos afoitos querem argumentar a partir dos limites mundanos em que se movem. Jesus precisa chamá-los à razão, usando a realidade que parecem não enxergar.

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17º Domingo após Pentecostes

Os governadores dos povos os dominam e (...) os maiorais exercem autoridade sobre eles (...) Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 21.25-28). O segundo texto da leitura deste domingo vem da carta paulina aos cristãos de Filipos, a cidade em que o apóstolo aos gentios ficou preso, houve um terremoto e o comandante pensou em suicidar-se ao imaginar que prisioneiros romanos sob sua custódia tinham fugido. Paulo aliviou-o dizendo que todos os prisioneiros estavam lá. Após o susto, ele e sua família converteram-se à fé cristã. À comunidade surgida dessa experiência Paulo escreve pedindo que tenha “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”, que “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8). Do profeta Ezequiel vem o terceiro texto, que trata da responsabilidade diante dos erros cometidos. O mote era o ditado corrente: “Os pais comeram uvas verdes, mas foram os dentes dos filhos que ficaram ásperos”. A exigência de responder pelos erros não tinha sentido apenas pessoal, mas também social e comunitário. As grandes falhas não são erros apenas de cidadãos, mas do conjunto da cidadania. E Ezequiel não era apenas o sacerdote que se tornou profeta, em quem o zelo pelo rebanho que lhe foi confiado tinha a mesma intensidade do zelo pela palavra divina, que lhe exige doação e entrega, mas também de quem não teme balizar caminhos para seu povo, mas insiste em respostas claras, já que em meio ao caos reinante as perspectivas não ficam claras e nem as conclusões são simples. A intensidade do profeta Ezequiel coloca-o em relações de muito comprometimento com Deus e sua gente. Olhar aguçado e capacidade de análise reflexiva abrangente fazem de Ezequiel um homem tenso e intenso. Tempos difíceis exigem pessoas firmes e consistentes, com pouca margem de manobra – que têm uma noção a mais aproximada possível da realidade e pouco tempo para colocar projetos em andamento – e determinação para fincar estacas e começar o empreendimento. No caso, aprofundar o entendimento e encontrar tempo para anunciá-lo. A luta para deter e evitar maiores estragos de quem tenta nos controlar e os cleptomaníacos que só chegam ao poder pelo golpe apenas começou. A julgar pelo pífio governo – que não tem confiança sequer do aliado externo –, seu nível de inteligência está embotada pela ganância de lucro, pela visão política equivocada e pela simples estupidez. Como lembrou Edgar Morin: “A capacidade e disposição de resistir estão nas forças de cooperação, compreensão, amizade, comunidade e amor, com a condição de que estejam acompanhadas de perspicácia e inteligência, cuja ausência pode favorecer as forças da crueldade... São essas forças débeis que nos permitem crer na vida e é a vida que nos permite crer nessas forças débeis”.

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2 Exegese A principal perícope deste domingo é Ezequiel 18.1-4,25-32, que trata da situação dos deportados para a Babilônia – já que, além dessa tragédia, tinham ainda seus próprios problemas espirituais, implicando culpa, e como lidar com seus efeitos, especialmente em gerações que nada tinham a ver com os fatos vividos por seus pais. Essa é a razão pela qual os versículos 5-18 do texto em tela são fundamentais para o entendimento do conflito e da consequente revolta para quem tem que lidar com as situações inóspitas da diáspora. A exegese constata que o problema fica potencializado diante do sofrimento do exílio, levando o povo a lamentar a atuação de Yahweh, desenvolvendo uma revolta com sua situação diante de Deus. Além dos que visivelmente sofrem com essa situação, há os que tentam mitigar essa insatisfação e seus efeitos psicológicos com uma atitude de cinismo. A insatisfação e a falta de perspectivas transformam-se em ressentimento (Ez 33.1020), enquanto o povo sofre com o problema de outrora, agora deslocado pelo exílio. Se o indivíduo está ligado à família, ao clã e à comunidade, ainda assim não consegue lidar com uma corresponsabilidade mútua, especialmente ao pensar na família e no mal-estar que atravessa gerações. A frase “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” é o desacato a seu Deus, sem lidar com as culpas de gerações anteriores. Parece não haver o esforço para assumir uma corresponsabilidade mútua para lidar com a culpa das pessoas através das gerações. Ainda assim, devem ter entendido o sinal de quando são questionados pelo próprio Senhor, como em: “Convertei-vos e vivei! Convertei-vos e desviai-vos de todas as vossas transgressões; e a iniquidade não vos servirá de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e criai em vós coração novo e espírito novo; pois, por que morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus. Portanto, convertei-vos e vivei” (v. 30-32). A proposta divina é mais abrangente do que as lamúrias, apresenta caminhos claros como “desviar-se das transgressões”, para que não tropecem na iniquidade, e dispor-se a criar em si mesmo um coração novo e espírito novo, sem deixar de perguntar o que ganhariam com a própria morte, lembrando que não há prazer na morte de ninguém. A versão moderna do referido texto deixa claro, para os que estão no exílio, que não mais repetiriam esse ditado em Israel. Além disso, fica mais decisiva na versão moderna: “Escutem aqui, israelitas! Vocês pensam que o meu modo de fazer as coisas não está certo? Pois o modo de vocês é que não está” (Ez 18.25). A promessa mais abrangente e imediata é que “quando um homem mau para de pecar e faz o que é certo e bom, ele salvou a sua vida” (v. 27). E conclui com um apelo dramático: “Agora, eu, o SENHOR Deus, estou dizendo a vocês, israelitas, que vou julgar cada um pelo que tem feito. Arrependam-se de todo mal que estão praticando e não deixem que os seus pecados os destruam” (v. 30).

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3 Meditação A atuação de Yahweh não se concentra no passado, para o qual as pessoas olham com uma mágoa inútil, mas se dirige ao futuro, em que a esperança pode tornar-se uma forte aliada. Não há como voltar ao passado, enredado numa conjuntura histórica que não se abre e nem oferece possibilidades de interferência. Só é possível agir de forma responsável sobre o presente com perspectivas para o futuro. O presente ainda é uma realidade aberta, enquanto o passado fechado nada possibilita nem disponibiliza e consequentemente só pode oferecer elementos que ajudem a entender sua constituição ou jogar luz sobre atualidades que só podem ser explicadas a partir dele. Esse é o caminho trilhado por quem não tem para onde avançar por ter antecipadamente escolhido o caminho errado. Essa é a estrutura da qual lançam a acusação de injustiça no agir divino, que reage indagando se o projeto equivocado não é dos israelitas. Se até mesmo uma pessoa justa se afasta da justiça para praticar o mal e morre em consequência disso, vai morrer por causa do mal que praticou. Por outro lado, se se dispõe a afastar-se dos erros cometidos e começa a praticar o direito e a justiça, terá nova chance de viver. Assim, o convite à conversão está baseado na promessa de que ele julgará cada um segundo a sua maneira de agir; que devem converter-se e afastar-se dos pecados, rejeitando todos os pecados e criando um coração novo e um espírito novo.

4 Imagens para a prédica Para refletir sobre o equilíbrio para lidar com o crime: O bêbado e a equilibrista Elis Regina Caía a tarde feito um viaduto E um bêbado trajando luto Me lembrou Carlitos. A lua tal qual a dona do bordel Pedia a cada estrela fria Um brilho de aluguel. E nuvens lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas. Que sufoco! Louco!

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O bêbado com chapéu-coco Fazia irreverências mil Pra noite do Brasil. Meu Brasil! Que sonha com a volta do irmão do Henfil, Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete. Chora A nossa Pátria mãe gentil. Choram Marias e Clarisses No solo do Brasil. Mas sei que uma dor assim pungente Não há de ser inutilmente. A esperança Dança na corda bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha Pode se machucar. Azar! A esperança equilibrista Sabe que o show de todo artista Tem que continuar.

5 Subsídios litúrgicos Saudação Estimada comunidade, neste 17º Domingo após Pentecostes, queremos renovar nossa confiança no Espírito, que não nos abandona numa mágoa inútil, mas nos anima diante do futuro. Não queremos nos esquecer dos grupos que controlaram nossa sociedade por séculos, amealhando nossas riquezas para construir as próprias fortunas com o fruto do trabalho dos brasileiros. Ajuda-nos a recobrar nossa articulação para lutar por governos justos e bons, por um Parlamento que legisle para a riqueza dos filhos deste país e por uma Justiça que cumpra o papel que lhe foi confiado por nosso povo. Que o Senhor nos liberte de espíritos maus, amplie os horizontes do nosso povo e restitua-nos a serenidade para tomar decisões. Que mantenhamos a ousadia, o amor e a leitura dos sinais dos tempos. Para que possamos assumir a tarefa que nos confias, pedimos. Confissão e lamento pelos pecados Pelas vezes que deixamos de lado as pessoas críveis e ficamos ao lado das pessoas incríveis, perdão, Senhor!

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Por termos falhado no anúncio da salvação, perdão, Senhor! Por nos esquecermos de tua reconstrução, sempre nos renovando como cidadãos e país, pedimos perdão, Senhor! Para superar as relutâncias no modo de denunciar, anunciar e atuar pela tua salvação, perdão, Senhor! Ajuda-nos a construir possibilidades de assumir riscos e viver desse modo, pedimos: Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia Queremos ser pecadores arrependidos e não santos blasfemadores. Vem ao nosso encontro e nos chame à vida de comunhão. Para sermos libertados para a vida de compromisso, amor e dignidade para todos. Ajuda-nos a assumir tarefas e responsabilidades sem buscar nosso próprio interesse ou de nossa comunidade. Na tua esperança, clamamos. Amém!

Bibliografia BERNHARD, Rui. Ezequiel 18.1-4,21-24,30-32. 3º Domingo após Trindade. Proclamar Libertação. v. 9. São Leopoldo: Sinodal, 1984. THE BIBLE AUTHORIZED KING JAMES VERSION. Introduction and Notes by Robert Carroll and Sthephen Prickett. Oxford: Oxford University Press, 2008.

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PRÉDICA: MATEUS 21.33-46 ISAÍAS 5.1-7 FILIPENSES 3.4b-14

18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

08 OUT 2017

Jilton Moraes

Credencial de Jesus: credencial de seus seguidores

1 Introdução A abordagem de Jesus nessa parábola é a vinha plantada pelo proprietário das terras, construída com todo o esmero e alugada a arrendatários desonestos, traidores e cruéis. O texto de leitura de Isaías 5.1-7 trata de assunto semelhante: vinhas bem plantadas, mas que não produziam boas uvas. Jesus usa a figura veterotestamentária, mas o final da parábola aponta para a exaltação do Filho: morto pelos arrendatários da vinha, ele se transforma na pedra angular. Só através dele temos acesso ao reino de Deus. No outro texto de leitura – Filipenses 3.4b-14 –, o apóstolo fala de sua realização de haver largado tudo por amor a Cristo: títulos, lembranças e vantagens perderam sentido diante da alegria de conhecer Jesus e prosseguir nesse conhecimento. A meditação foi elaborada partindo do contexto anterior, quando a autoridade de Jesus foi questionada. Quais as credenciais que o Mestre podia exibir? Quem o havia autorizado a agir daquele modo? É a partir desse contexto que nasce o foco sermônico: a aceitação da credencial de Jesus credencia-nos a viver para o louvor de sua glória. Minha oração é que os desafios de nossa perícope principal e dos textos paralelos possam impactar todos quantos os proclamem, capacitando-nos a alcançar os nossos ouvintes.

2 Exegese A tradução utilizada é da NVI (Nova Versão Internacional), lançando mão, paralelamente, das versões King James, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Bíblia de Jerusalém. V. 33 – Ouçam outra parábola: havia um proprietário de terras que plantou uma vinha. Colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para prensar as uvas e construiu uma torre. Depois arrendou a vinha a alguns lavradores e foi fazer uma viagem. O reino de Deus é comparado a uma vinha dotada de todos os detalhes necessários para uma administração e aproveitamento lucrativos. Ouçam outra parábola: essa parábola é a segunda de uma série de três, contadas aos sacerdotes e chefes dos líderes religiosos para responder ao questionamento feito por eles a

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Jesus, questionando a autoridade dele (Mt 21.23). Depois de contar a história dos dois filhos, Jesus introduz a segunda narrativa: Havia um proprietário de terras que plantou uma vinha. A mensagem é alegórica: apresenta Israel como a vinha. É a mesma figura utilizada por Isaías em 5.1-7. Colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para prensar as uvas e construiu uma torre. Tudo necessário para dar o melhor à sua vinha foi providenciado pelo proprietário benfeitor. Depois arrendou a vinha a alguns lavradores e foi fazer uma viagem; (BKJ; NTLH): e foi viajar; (BJ): partiu para o estrangeiro; (ARA, MT): ausentou-se do país; (BI): partiu para outra terra. O sentido no original é: foi para fora da região. V. 34-36 – Aproximando-se a época da colheita, enviou seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe pertenciam. Os lavradores agarraram seus servos; a um espancaram, a outro mataram e apedrejaram o terceiro. Então enviou-lhes outros servos em maior número, e os lavradores os trataram da mesma forma. Os servos eram os profetas, e os lavradores, os líderes religiosos de Israel; Jesus utilizou essa figura para lembrar o sofrimento dos profetas que falaram em nome do Senhor, proclamando a verdade divina e o dia do julgamento, e foram rejeitados por eles. V. 37-39 – Por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: ‘A meu filho respeitarão’. Mas quando os lavradores viram o filho, disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança’. Assim eles o agarraram, lançaram-no para fora da vinha e o mataram. Autoridade é o assunto dessa parábola. “É uma história de rebelião contra a autoridade e suas consequências” [...] Ao rejeitar e matar os servos e o filho, os lavradores maus rejeitaram a autoridade do senhor que os enviara [...] “Ao matar os profetas e o filho, eles estavam desafiando a autoridade de Deus e teriam que responder diante dele” (STAGG, p. 253). Lançaram-no para fora da vinha e o mataram. João afirmou (12.20): “o lugar em que Jesus foi crucificado ficava próximo da cidade”. O escritor de Hebreus (13.12) declara: “Jesus também sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo por meio de seu próprio sangue”. Tasker declarou: “Ele é o Messias, agindo com autoridade divina e destinado a, em obediência à vontade divina, ser morto fora da vinha de Israel” (p. 162). V. 40 – Portanto, quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores? Uma indagação lógica que levaria os líderes religiosos a proferir a sentença deles mesmos. A resposta veio em um quadro apresentando um senhor irado pronto a fazer justiça (v. 41). Responderam eles: Matará de modo horrível esses perversos e arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe deem a sua parte no tempo da colheita. Na afirmação deles estava a declaração da própria sentença que os aguardava. V. 42-44 – Vocês nunca leram isto nas Escrituras? ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isso vem do Senhor, e é algo maravilhoso para nós’. Portanto eu lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que dê os frutos do Reino. Aquele que cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó. “A parábola é da maior importância pela luz que lança sobre a compreensão que Jesus tinha de sua pessoa e sobre a certeza que ele tinha quanto ao des-

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tino que o esperava nas mãos de Israel” (TASKER, p. 162). A mesma figura da pedra foi utilizada pelo salmista (118.22): A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. Aos sacerdotes e aos líderes religiosos Pedro e João não apenas mencionaram a mesma figura, mas lançaram mão de uma aplicação direta (At 4.11): Este Jesus é ‘a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Aquele que seria desprezado pelos israelitas fora escolhido por Deus para ser a pedra principal do edifício que ele construía: os edificadores rejeitaram-no, mas o Senhor da edificação o elegeu. V. 45-46 – Quando os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, compreenderam que ele falava a respeito deles. E procuravam um meio de prendê-lo; mas tinham medo das multidões, pois elas o consideravam profeta. A clareza da mensagem de Jesus deixou-os mais rebeldes. Eles não imaginavam o curso que o Deus de Israel daria à história: “Jesus, embora destinado a ser rejeitado pelos homens, viria a ser a principal pedra angular de um novo edifício em que Deus seria adorado em espírito e em verdade. Posto de um lado em sua crucificação, retornaria para assumir o seu legítimo lugar depois da ressurreição” (TASKER, p. 163).

3 Meditação Lições e desafios da credencial de Jesus Quando viajo de metrô, mostro minha cédula de identidade. É a prova de que minha idade garante gratuidade. Somos sempre solicitados a provar quem somos. Essa parábola vem de uma situação assim (21.23). Jesus entra no templo, e os líderes religiosos aproximam-se e protestam sua autoridade: Com que autoridade você faz o que faz? Quem o credenciou? Jesus responde com outra pergunta e deixa-os sem resposta. Apesar de afirmar que também não lhes responderia, Jesus conta três parábolas que falam de sua identidade. A aceitação da credencial de Jesus credencia-nos a viver para o louvor de sua glória. Ouçam outra parábola (v. 33). Era a segunda narrativa de Jesus para ensinar aos líderes religiosos. Qual a sua credencial para fazer o que você faz? Quem o credenciou? A credencial de Jesus é expedida pelo Deus que nos dá oportunidades. • Uma história simples (v. 33): um homem constrói e equipa sua vinha com tudo o que é necessário; ele a aluga a plantadores e tanto neles confia, que se afasta. • O significado: os judeus faziam parte da história. Eram a vinha de Deus; tiveram sua oportunidade, mas não a aproveitaram. João 1.11-12: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornar filhos de Deus”. • A lição: não é a nacionalidade que garante o ser filho do Eterno, mas o nascer de novo (Jo 1.13): “os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus”. • A credencial de Jesus é autenticada pelo Deus a quem prestamos contas.

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• O próximo episódio (v. 34-36): Chega o tempo da prestação de contas, mas os inquilinos se rebelam: espancam e matam os servos do dono da vinha. • O sentido: Os servos são os profetas que, em nome do Senhor, pregaram o dia do julgamento, mas foram rejeitados, maltratados e mortos. Os lavradores são os líderes religiosos de Israel. • Um lembrete: A prestação de contas é realidade intransferível (Rm 14.12): “Cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus”. O que temos feito? Estamos sendo súditos fiéis? A credencial de Jesus é validada por ser ele o Filho de Deus. • O filho amado que foi rejeitado (v. 37-39): Por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: A meu filho respeitarão. Ao ver o filho, os lavradores disseram: Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e tomar a sua herança. Eles o lançaram para fora da vinha e o mataram. • O pai não mandou seu filho para morrer, mas para receber o fruto da vinha; o crime dos lavradores foi motivado pela rebeldia que os fez rejeitar e assassinar o filho. • Jesus, o Filho de Deus, “estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (Jo 1.2-3). A credencial de Jesus é comprovada em seu poder de dar acesso ao Reino. • Um Deus perdoador (v.40-41): ‘Quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores?’ Eles respondem: ‘Matará de modo horrível esses perversos e arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe deem a sua parte no tempo da colheita’. • Os aparentemente indignos não são excluídos. A próxima parábola conta o banquete de casamento. Nela abrem-se as portas do Reino. Pela fé, o acesso é irrestrito: não mais alguns poucos convidados, pela condição da nacionalidade, mas todos os que estão prontos a aceitar o convite do Senhor: “Vão às esquinas e convidem todos aqueles que vocês encontrarem” (22.9). A história do pródigo (Lc 15) prova essa realidade: Não é quem se julga digno que participa da festa, todavia quem, reconhecendo-se indigno, arrepende-se e volta ao Pai. Jesus é o único acesso ao Reino (Jo 14.6): “Eu sou o caminho... ninguém vem ao Pai a não ser por mim”. A credencial de Jesus é reconhecida porque ele é o marco maior do Reino. • Rejeitado pelos homens, exaltado pelo Pai (v. 42-44). Jesus lhes disse: Vocês nunca leram isto nas Escrituras? ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isso vem do Senhor, e é algo maravilhoso para nós’. Portanto eu lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que dê os frutos do Reino. Aquele que cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó. • Ele humilhou-se, mas o Pai o exaltou (Fp 2.7-9): “Sendo Deus não se apegou à ideia de ser igual ao Pai; esvaziou-se a si mesmo; tornou-se servo, foi obediente até a morte; morreu na cruz. Deus o exaltou a mais alta posição e lhe deu o nome acima de todo nome”. • Somente por Jesus participamos do reino de Deus (Fp 2.10-11): “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e

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debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para a glória do Deus Pai”. A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isso vem do Senhor, e é algo maravilhoso para nós. A credencial de Jesus desafia-nos a um melhor aproveitamento das oportunidades, a lembrar-nos da prestação de contas, a manter comunhão com o Filho de Deus e a propagar que só nele, o marco maior do Reino, há acesso a Deus.

4 Imagens para a prédica Beverly Shea foi o músico mais conhecido na equipe de Billy Graham. Quando era jovem, começou a afastar-se de Deus. Um dia, a mãe dele encontrou uma tocante poesia sobre Jesus. Lembrou-se do filho e colocou-a junto ao piano dele. A mensagem falou tanto ao jovem, que ele resolveu reaproximar-se de Deus. Transformou aquela letra em uma música que se tornou um hino conhecido em muitos países: Jesus é melhor, sim, que ouro e bens; Jesus é melhor do que tudo que tens. Melhor que riquezas e posições, melhor, muito mais, do que milhões. Pode ser um rei com poder nas mãos, mas do mal, escravo, sim; Mil vezes prefiro o meu Jesus e servi-lo até o fim. (Jilton e Ester MORAES. Viver com Deus é uma bênção) Quando Eurico Nelson foi comprar a passagem para vir ao Brasil como missionário, solicitou o desconto que era dado aos pastores. Ele disse ao agente da companhia de navegação que ainda não era pastor, mas que estava vindo ao Brasil como missionário. O agente perguntou: “Que prova o senhor me fornece de que está dizendo a verdade?” Nelson respondeu sem hesitar: “Olhe no meu rosto”. E foi o bastante; comprou a passagem com o desconto para pastores e missionários. O momento atual está marcado pela falta de compromisso: precisamos viver os valores do Reino. Não basta ser cristão, precisamos estar com Jesus e aproximar-nos mais e mais dele (Jose dos Reis Pereira. O apóstolo da Amazônia).

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Subsídios litúrgicos

Litania: Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornar filhos de Deus. HPD 109, 1ª estrofe: Da Igreja é fundamento Jesus, o Salvador; em seu poder descansa, é forte em seu amor. Porquanto permanece, a Igreja existirá: com vida renovada, jamais perecerá. Mas o que para mim era lucro passei a considerar como perda por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema

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grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. HPD 109, 2ª estrofe: A pedra preciosa que Deus predestinou sustenta pedras vivas que a graça trabalhou. E, quando o monumento se erguer em plena luz, a glória do edifício será do Rei Jesus! Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Hino 109, 3ª estrofe: Senhor, que este edifício, erguido por amor e para a tua glória, redunde em teu louvor: e que almas redimidas, aqui em comunhão, se tornem templo santo de tua habitação. Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade. (Jo 1.10-12; Fp 3.7-8a; 1.21; Jo 1.14).

Bibliografia STAGG, Frank. In: ALLEN, Clifton J. (editor geral). Comentário Bíblico Broadman, v. 8. Rio de Janeiro: JUERP, 1982. TASKER, R.V.G. Mateus: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.

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PRÉDICA: FILIPENSES 4.1-9 ISAÍAS 25.1-9 MATEUS 22.1-14

19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

15 OUT 2017

Renato Küntzer

1 Introdução O conjunto de textos indicados para o 19º Domingo após Pentecostes convida as comunidades para celebrar a vida a partir da revelação de Deus, que se caracteriza pela justiça que condena o opressor e salva o fraco e indigente, culminando com a promessa de uma experiência de comunhão universal de todos entre si e com Deus (Is 25.1-9). Essa esperança é recontada por Jesus de Nazaré por meio de uma parábola (Mt 22.1-14). As lideranças e autoridades religiosas e políticas, comprometidas com o sistema que privilegia os interesses pessoais, rejeitam o convite à festa de casamento que representa a aliança para a formação do novo povo de Deus. O convite é então dirigido aos pequenos, fracos e marginalizados. Inclusive a participação desses é condicionada a estar devidamente preparados. Há que se ter firmeza e sobriedade no testemunho da fé, porque esse nos é concedido por graça de Deus. Na comunidade, não há espaço para a banalização do testemunho, mas ela necessita estar animada a continuar firme o seu serviço.

2 Exegese Na opinião de vários exegetas, o texto indicado para a pregação reúne e mescla partes de duas cartas independentes escritas por Paulo à comunidade de Filipos. Os v. 2-7, em sua origem, seriam parte de uma segunda carta, enquanto os v. 1, 8-9 teriam sido parte de uma terceira e última carta. O texto é, portanto, resultado do trabalho redacional do autor final da carta, que agrupou, nesse texto específico, parte de duas cartas. Segundo a hipótese de que a Carta aos Filipenses é o resultado final da junção de três diferentes cartas, elas podem ser identificadas da seguinte forma: Primeira carta: Fp 4.10-20 Segunda carta: Fp 1.1-3.1a e 4.2-7,21-23 Terceira carta: Fp 3.1b-4.1 e 4.8-9 Parte do texto (4.2-7) pertence à segunda carta, escrita por Paulo a partir da experiência da prisão. É escrita sob a experiência da cruz, trazendo aspectos do receio da morte ou da esperança da libertação (1.22). Tem a preocupação central e a tarefa de deixar clara a verdade do evangelho, centrada na cruz de Cristo e nas consequências na vida missionária do próprio Paulo. A mais bela formulação desse evangelho encontramos no hino cristológico (2.6-11). Paulo aponta para o que define como a autenticidade do evangelho, motivo pelo qual está preso, pelo

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qual inclusive aceita morrer, mas pelo qual também expressa a esperança de conquistar a liberdade e continuar a tarefa missionária. A outra parte do texto (4.1,8-9) faz parte de uma terceira e última carta, que envolve uma polêmica contra adversários de Paulo e do evangelho da cruz. Há denúncias contra erros provocados pelos adversários. Os adversários de Paulo são missionários cristãos de origem judaica. São acusados de desviar-se do evangelho, anunciando assim obras/milagres extraordinários, e divulgar uma visão triunfalista de Cristo, tendo por fundamento a ressurreição. Para Paulo, não há verdadeiro evangelho fora da cruz de Cristo. O caminho da comunidade é o caminho da cruz. A boa-nova a ser anunciada pela comunidade cristã é o escândalo da cruz. Qualquer outra pregação é tratada como inimiga da cruz. O que dá unidade ao nosso texto é a afirmação de que Jesus Cristo é o caminho da cruz. Não há outro que possa ser pregado sob o risco de falsificar/ deturpar o evangelho senão o Jesus Cristo crucificado. O texto indicado para a pregação caracteriza-se por agrupar uma série de breves recomendações e conselhos. Inicia com uma exortação à comunidade para que ela permaneça firme na graça de Deus, na qual foi chamada pela evangelização (4.1). A exortação para que permaneçam firmes no Senhor é para que a comunidade continue a conduzir a sua vida de modo que corresponda ao evangelho de Cristo. Disso brota o sentimento de alegria e vitória para Paulo. A condição já está dada pela pregação do evangelho feita por Paulo e seus colaboradores. Agora é só permanecer firme no evangelho. Possivelmente, a exortação leve em conta uma situação de conflito envolvendo duas mulheres e líderes da comunidade. Evódia e Síntique são chamadas a fazer as pazes, entrando em acordo e entendimento mútuo. Isso é necessário, pois se trata de duas mulheres cuja liderança é importante na comunidade, visto que ambas lutaram junto com Paulo na evangelização, a ponto de seus nomes estarem no livro da vida. Para isso, Paulo sugere que Sízigo (que Almeida não traduz como nome próprio e sim como referência a um colaborador: “fiel companheiro de jugo” – v. 3), seu fiel colaborador, ajude-as. Após tratar dessa questão específica de conflito entre líderes, Paulo faz uma série de breves recomendações e conselhos à comunidade: “Fiquem sempre alegres no Senhor” (v. 4); “Que a bondade de vocês seja notada por todos” (v. 5); “Não se inquietem com nada. Apresentem a Deus todas as necessidades de vocês através da oração e súplica, em ação de graças” (v. 6). Alegria por causa do evangelho, bondade na relação com os outros e oração como serviço diante das necessidades. Eis aqui a medida, o equilíbrio e o bom critério para a vida comunitária, porque o Senhor está próximo (v. 5b). É o que permite a expressão do desejo de paz no v. 7. A presença antecipada de Cristo na comunidade é real pela firmeza no evangelho, pela alegria na fé e na prática da bondade e da oração. Quando se esperava que as recomendações tivessem terminado, Paulo retoma citando uma série de adjetivos que devem identificar os cristãos (v. 8-9). Enumera uma série de virtudes que têm sua origem na moral popular romana. São valores da vida social e do ambiente das cidades romanas adotados para a

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comunidade cristã. Paulo mostra que está aberto à sociedade circundante com aquilo que ela tem de bom. Também os valores da sociedade circundante, fora do ambiente comunitário, podem ajudar pessoas cristãs a qualificar o seu discernimento. A pessoa cristã encontrará na sociedade os elementos que a ajudarão em seu caminho de evangelização e testemunho, sempre sob o cuidado de julgar todas as coisas, apropriando-se apenas do que é bom.

3 Meditação Em tempos da banalização da fé por meio da teologia da prosperidade, da pregação repetida e em forma de mantra de chavões teológicos cristãos, nada mais sóbrio do que ser remetido pelas recomendações de Paulo à vivência da fé para dentro da realidade de uma comunidade. Paulo elogia e cobra da comunidade de Filipos a fidelidade ao evangelho da cruz e do esvaziamento de toda forma de manifestação de poder. A autenticidade do evangelho, anunciado e vivido, está na cruz de Cristo (Fp 2.5-11). Há uma demonstração de afeto e gratidão pela comunidade que coopera e participa do trabalho, anunciando, defendendo e confirmando o evangelho. Não há evangelho na teologia de prosperidade nem em chavões teológicos e tampouco numa pregação triunfalista e gloriosa do Cristo. A proposta comunitária é viver a teologia da cruz, o esvaziamento diante de toda forma de poder e domínio. A comunidade é chamada a ter os mesmos sentimentos que havia em Cristo, que se esvaziou a si mesmo, tornando-se servidor. Isso certamente nos obriga a ser críticos com nossos modelos e práticas comunitárias, a fazer uma releitura de nosso testemunho público a partir do conteúdo de nossas mensagens e corrigir as nossas práticas comunitárias e pessoais, tendo em vista a realidade que nos cerca. Não queremos divulgar e tornar público um conjunto de crenças e doutrinas, reunir-nos isolados e separados do mundo em pequenos grupos e instituições confessionais. Desejamos consolidar-nos como comunidades daqueles e daquelas que decidiram engajar-se no seguimento de Jesus. Nosso lugar na sociedade vai definir o anúncio, a defesa e a confirmação do evangelho. Não estamos na condição de espectadores do evangelho, mais propriamente definido por Paulo como evangelho da cruz e do esvaziamento de Cristo. Somos envolvidos nessa experiência mediante a fidelidade a esse evangelho. “Por isso somos ensinados aqui a crer contra a esperança na esperança; essa sabedoria da cruz está hoje por demais oculta em mistério. Também para o céu não há outro caminho do que essa cruz de Cristo. Por isso é preciso precaver-se, para que a vida ativa com suas obras e a vida contemplativa com suas especulações não nos seduzam. Ambas são extremamente atrativas e tranquilas, e por isso também perigosas, até que sejam temperadas pela cruz e perturbadas pelas adversidades. A cruz, no entanto, é de todas as coisas a mais segura. Bem-aventurado quem entende” (Martim Lutero). Segundo Lutero, o que é atrativo e tranquilo necessita ser temperado pela cruz e perturbado pelas adversidades.

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Imagens para a prédica

Penso que a melhor maneira de atender os conselhos de Paulo (ter alegria na fé e ser motivo de alegria para outras pessoas) é que a comunidade e cada pessoa que dela participa exercitem gestos samaritanos. A comunidade necessita de pessoas que façam a diferença no atual contexto da sociedade. Partilho duas imagens que nos podem ajudar a encher a nossa mente com tudo o que é bom e merece elogios. 4.1 – Que tens na tua mão? – Que tens na tua mão, Moisés? – Apenas um bordão, Senhor. Com ele eu guardo o meu rebanho. – Toma-o e usa-o no meu serviço! O homem de Deus fez conforme o Senhor lhe pediu. E aconteceram maravilhas tais que os egípcios e o faraó jamais tinham visto. – Que tens na tua mão, viúva pobre? – Apenas uma moeda, Senhor. É tão pouco, mas o que tenho é para ofertar em favor do serviço do templo. E ela a deu ao Senhor, e seu sacrifício tem servido de inspiração durante os séculos para cristãos de todo o mundo. – Que tens na tua mão, Tabita? – Somente uma pequena agulha, Senhor. E os pobres de Jope foram agasalhados com as roupas que ela fez. – E tu, o que tens na tua mão? 4.2 – O protagonismo de uma mulher Tereza é uma mulher agricultora e pescadora, ribeirinha do rio Uruguai. Desde dezembro de 2010, além de se preocupar com as questões cotidianas que envolvem a agricultura camponesa, ela está envolvida em um pesadelo. Ela é uma das milhares de pessoas do meio urbano e rural que receberam a notícia da construção da barragem binacional Panambi. As preocupações do cotidiano tornaram-se pequenas e insignificantes diante de tamanho risco. Eu a conheci na primeira reunião promovida pelas igrejas (IECLB e ICAR), sindicatos (STR) e Movimento de Atingidos por Barragens (MAB). Em uma das primeiras manifestações públicas contra as barragens e em defesa dos direitos das famílias ameaçadas pela barragem, foi solicitado que alguém ameaçado se manifestasse diante do poder público. Ela foi escolhida. Até ali, a vida da Tereza envolvia a sua comunidade local, a comunidade religiosa, o envolvimento partidário nas eleições locais. Preocupada e nervosa, antes de se dirigir ao microfone, pediu-me: O que eu falo? Respondi: Fala com o coração. Desde lá, Tereza tem falado com o coração das coisas que a preocupam e que têm dificultado a vida de tantas outras mulheres e famílias, atormentadas diariamente pela ameaça da perda da propriedade, da sua vida comunitária, do seu lazer, do seu lugar no mundo. É lutadora, corajosa e protagonista. Fala em defesa do rio Uruguai, pela permanência dos camponeses e

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agricultores em suas propriedades. Fala em defesa das mulheres e do espaço para o exercício de sua cidadania. Tornou-se uma protagonista no MAB e sente-se agredida quando agentes públicos a tratam como uma qualquer sob a promessa de que ela não precisa estar envolvida nessa luta desgastante e sob ameaça de criminalização, quando eles podem tratar de seus problemas e defendê-los. Ela descobriu a capacidade de fazer a sua história, e dentro dessa construção cabem valores como dignidade, direitos humanos, protagonismo, igualdade de gênero, voluntariado. Apesar de todas as preocupações, ameaças e derrotas e de algumas pequenas conquistas e vitórias, sempre a vejo alegre. E essa alegria faz de sua fala leve e mansa uma manifestação em favor da vida.

Bibliografia BARTH, Gerhard. A Carta aos Filipenses. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1983. COMBLIN, José. Epístola aos Filipenses. Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

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20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

22 OUT 2017

PRÉDICA: MATEUS 22.15-22

ISAÍAS 45.1-7 1 TESSALONICENSES 1.1-10

Claudete Beise Ulrich

Todas as coisas pertencem a Deus

1 Introdução O tempo litúrgico para a prédica é o Tempo Comum após Pentecostes e praticamente uma semana antes da comemoração do culto da Reforma: 500 anos. O texto da prédica é difícil, mas é fundamental que se reflita sobre o conteúdo do mesmo. O tema do texto de Mateus 22.15-22 aponta para questões econômicas, sociais e políticas, o pagamento de impostos. (É lícito pagar tributo a César ou não? Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é Deus.) Essa perícope foi abordada duas vezes pelo professor Dr. Uwe Wegner nos volumes XVIII e XXXVIII do Proclamar Libertação e pela Pa. Silvia Genz no volume XXXV. Recomento a leitura dos mesmos para o aprofundamento desta contribuição. O texto do profeta Isaías (45.1-7) trata também de questões políticas, do chamado de Deus ao rei Ciro para que edifique a cidade de Deus, libertando os exilados na Babilônia (45.13). O texto aponta para o fato de que Deus promete grandes conquistas a Ciro. A vocação de Ciro como rei de Israel por Deus é devido ao “amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido” (45.4). Já o texto de 1 Tessalonicenses (1.1-10) apresenta uma extensa ação de graças de Paulo a Deus pela repercussão positiva da fé, do amor e da esperança que moviam a comunidade dos tessalonicenses. No v. 11, lemos: “Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo”. Mesmo que o texto não trate diretamente de política, também podemos orar para que a política brasileira se torne digna de sua vocação para cumprir todo o propósito em favor dos pobres na busca por um país mais justo e igualitário, menos corrupto.

2 Exegese Os fariseus armam uma cilada, uma armadilha para pegar Jesus (v. 15): “Então, retirando-se os fariseus, consultaram em si como o surpreenderiam em alguma palavra”. A ação é de simulação e oposição, e como eles farão isso só é explicado no v. 17.

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“E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos...” (v. 16). Importante destacar que os fariseus enviam discípulos e não vão sozinhos até Jesus. Levam junto os herodianos. Os herodianos eram os partidários de Herodes Antipas, que, como amigos dos romanos fiéis à monarquia, exerciam na Galileia o mesmo papel dos saduceus na Judeia. Eles nutriam uma admiração messiânica pelo imperador por causa de seus sucessos e da Paz Romana. Buscavam persuadir o povo da legitimidade do império (GALLAZZI, 2012, p. 445). Os fariseus, mesmo sendo adversários políticos, levam junto os herodianos, pois esses eram subservientes declarados dos romanos. Esse fato é usado como estratégia pelos fariseus, pois, dependendo da resposta de Jesus, os herodianos tão logo o denunciariam às autoridades imperiais, caso ele se manifestasse contra o pagamento do censo (kensos). Eles puxam conversa com Jesus, elogiando-o com um certo sarcasmo: “Mestre, sabemos que é verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens” (v. 16). Então fazem a pergunta, pedindo sua opinião, que, na verdade, é uma pegadinha safada desses dois grupos (fariseus e herodianos): Dize-nos, pois, que te parece? É licito pagar tributo (em grego kensos, que vem do latim censos e no português censo) a César ou não? (v. 17). Aqui não se está falando do tributo normal que se pagava. Segundo Gallazzi (2012, p. 446), “o tributo era um percentual sobre a produção que era destinada aos armazéns dos reis. Pagar tributo era um costume antigo; era cobrado desde os tempos de Salomão. Persas e gregos também cobraram tributo com o apoio dos sumos sacerdotes e dos encarregados oficiais pelo recolhimento” (Ne 5.4). Portanto o texto se refere a um outro tipo de tributo. Não haveria razão para armar uma cilada a Jesus com algo normal e corriqueiro. O pagamento do censo (kensos) era outra coisa. Esse era um imposto a mais, um imposto próprio cobrado pelos romanos. Esse imposto era resultado do recenseamento feito pelo Império Romano. Ele tinha dois objetivos, de acordo com Gallazzi (2012, p. 447): 1) “era a prova oficial da servidão à qual a população se submetia, declarando sua fidelidade ao imperador reconhecido como Senhor (kyrios em grego e caesar em latim)”; 2) o objetivo também “era organizar o recolhimento do imposto da terra e do imposto das pessoas. Toda propriedade e toda pessoa era recenseada e devia pagar o censo”. A cobrança desse imposto era a declaração de servidão e de escravidão ao Império Romano. Era o controle do império sobre o povo. Como afirma Wegner, há consenso nas pesquisas de que o censo “era o imposto cobrado pelos romanos das províncias conquistadas e mantidas ocupadas militarmente. Ora, Judeia era governada diretamente por um procurador romano, e nossa história acontece em Jerusalém. Portanto aqui não se trata de um Estado qualquer, mas de uma potência imperialista estrangeira que, via cobrança de tributos, oprimia o povo palestino para poder viver em regalias, privilégios, luxo e para poder dar continuidade à sua política hegemônica de dominação” (1992, p. 260). Conforme Gallazzi (2012, p. 447), houve resistência contra a cobrança desse tipo de imposto. A mais famosa rebelião foi liderada por Judas, o Galileu

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(At 5.37). Ele é considerado o iniciador do movimento zelote. No entanto, muitos seguidores desse movimento eram fariseus, que seguiam as orientações do sumo sacerdote Joazar, que, nomeado por Quirino, convenceu-os a aceitar o recenseamento. Mesmo sendo um grupo de oposição, tornou-se muito fraco e sem muita expressão. “A oposição desse grupo era tão confiável, que vários rabinos fariseus, em plena guerra zelote, foram autorizados a se reunir na cidade de Jâmnia e lá constituíram a escola responsável pela implantação do judaísmo formativo, que veio a substituir o judaísmo do segundo templo após a destruição do mesmo no ano 70” (GALLAZZI, 2012, p. 447). A comunidade de Mateus é contemporânea desses acontecimentos. Portanto a pergunta dos fariseus e dos herodianos a Jesus não é somente um debate político econômico sobre o pagamento de impostos. Trata-se também de uma questão de fé. Na verdade, eles queriam somente um sim ou não de Jesus. O contexto do texto deixa-nos entrever que eles esperavam um não de Jesus; esperavam que, mais uma vez, Jesus quisesse agradar o povo. No entanto, Jesus entendeu perfeitamente a cilada que esses dois grupos estavam preparando para ele. “Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas?” (v. 18). Sem esperar por uma resposta, ordena: “Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário” (v. 19). O denário era uma moeda romana que, por ser considerada impura, não deveria estar no templo; deveria ter sido trocada pelos cambistas antes de entrar no templo. A pergunta que Jesus faz é certeira e toca fundo a fé de qualquer judeu fiel. E Jesus lhes perguntou: De quem são essa efígie e inscrição? (v. 20). A moeda é uma ajuda visual. Mais do que isso, as moedas imperiais eram cartazes, instrumentos de propaganda que lembravam aos usuários o poder político do imperador e o status de Roma como favorito dos deuses. Os fariseus e os herodianos não tinham como fugir da resposta: “De César”. César não era o nome de uma pessoa. Era um título imperial. Portanto dizer de César é o mesmo que dizer do Senhor, do Kyrios. Assim, os recenseados deveriam obrigatoriamente chamar o imperador, jurando-lhe submissão e fidelidade. Era contra isso que milhares de fariseus se tinham rebelado e por causa disso tinham sido martirizados pelas autoridades romanas. Retomo aqui palavras de Wegner (1992, p. 262): “Jesus está mandando devolver a César uma coisa que pertence a ele. E o que lhe pertence é aquilo que mandou cunhar, ou seja, sua moeda. Importante que se perceba: Jesus não está afirmando que César mereça o pagamento do imposto e que, portanto, o imposto cobrado pelos romanos seja legítimo. Devolução da moeda que pertence a César é coisa bem diferente do que pagamento de um imposto pelo denário estatal. Portanto o que pertence a César Jesus deixou bem claro nos v. 19-21a: são as moedas que ele cunhou e que, por isso, levam sua imagem e inscrição. Essas devem ser devolvidas a ele?”. Continuando com a linha de pensamento de Wegner (1992, p. 262-263), a “resposta de Jesus foi muito inteligente. Sem os denários de César na Palestina ficaria difícil pagar impostos com denários imperiais. Jesus não nega a César o que lhe pertence: as suas moedas. Mas, por outro lado, deixa de afirmar que lhe pertencem também os impostos exigidos pelos romanos. Em termos polí-

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ticos, a resposta de Jesus implica perda para os romanos, perda do símbolo de seu poder, que representam os denários”. A segunda parte da resposta de Jesus é: “e a Deus o que é de Deus” (v. 22.21). O que vêm a ser as coisas de Deus? Devolver a Deus significa devolver a ele a sua terra e o seu povo, dos quais os imperadores romanos se apossaram desde 63 a.C. com a entrada/invasão de Pompeu na Palestina. “Para melhor compreender o texto, tenhamos presente o contexto social e religioso daquela época. Israel, ao longo de vários anos, alimentou o sonho de ser uma nação livre, uma nação formada por tribos confederadas, tendo Javé como seu único Senhor. Mas, nesse momento, sofria sob a opressão do jugo romano” (WEGNER, 1986, p. 263). Para manter sua gigantesca estrutura, Roma explorava as nações dominadas por meio de uma política fiscal que pesava, sobretudo, sobre os mais pobres, pois os impostos recaíam sobre os camponeses e os lavradores. Mas Jesus “percebe a maldade deles” e o que estava no fundo de seu coração. Com sua resposta ele os deixa “admirados”, “perplexos”, e eles não conseguem rebater sua sabedoria: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (22.21). Ouvindo isso, admiraram-se e, deixando-o, foram (22.22). Eles retornam admirados e nada podem fazer contra Jesus.

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Meditação

Todos os dias, ouvimos denúncias de corrupção no Brasil, bem como também em outros países. Então nos perguntamos: será que ainda devemos pagar impostos com tantos políticos desviando dinheiro de impostos destinados para as obras que envolvem o cuidado da cidade, do meio rural, da educação, da saúde, da cultura, do esporte, enfim das pessoas, entre tantas outras coisas que envolvem o bem comum? Essa, sem dúvida, é uma pergunta que muitas pessoas se fazem. É uma pergunta importante, mas também pode ser uma pegadinha. Pois necessitamos combater a corrupção, e essa também muitas vezes mora em nosso coração. Como afirma Boff, “a corrupção é um crime contra a humanidade”. Portanto não pagar impostos seria concordar com a corrupção. Seria deixar-nos levar por um coração corrupto. Segundo Boff: “Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de falar em pecado original, expressão que não consta na Bíblia, mas foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus) e pervertido. Cita Gênesis: A tendência do coração é desviante desde a mais tenra idade (8.21)”. O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer: “Somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita ao desvio, que é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, mas segue sua tendência. O que se soma à corrupção é a impunidade. Portanto é nossa função lutar pela transparência seja em qualquer âmbito da vida.

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Como comunidades cristãs luteranas, necessitamos agir com ética, prestar conta das contribuições, prestar conta das ofertas e enviá-las corretamente a seu destino. A partir da minha experiência como pastora em atuação nas comunidades, tenho percebido que a corrupção está presente também em nosso cotidiano comunitário. Enviamos corretamente as ofertas a seu destino? Enviamos corretamente os 10% ao Sínodo? A tentação de algumas comunidades é querer ficar com a oferta, não levando em conta o destino da mesma. Portanto entender que necessitamos vencer a corrupção cotidiana no processo de tornar-nos pessoas e comunidades éticas é um processo de conversão diária. É lutar contra o pecado. Pagar impostos é um dever que temos como cidadãos e cristãos, pois sem o pagamento dos mesmos não haverá serviços necessários ao bem comum, por exemplo a coleta do lixo, o cuidado das ruas, escolas públicas, farmácia popular, atendimento médico. O que nós também precisamos fazer como bons cidadãos e cristãos é verificar se os impostos cobrados estão sendo aplicados corretamente em nossa cidade. Para isso necessitamos organizar-nos melhor como sociedade civil, também nos informar, dialogar e ir além do que simplesmente assistir à televisão ou entrar no facebook. Necessitamos deixar de ser dominados. Hoje não somos mais dominados pelo Império Romano, mas outros impérios desejam nos dominar. Como comunidades cristãs também não podemos aceitar dinheiro ou outros benefícios de políticos corruptos. Portanto Jesus respondeu a pergunta, que era uma armadilha, de forma muito inteligente e sábia: Dai a Cesar o que é de Cesar, dai a Deus o que é Deus. Nesse processo, necessitamos ser vigilantes e agir coletivamente. Perguntar-nos o que é de Cesar, o que é de Deus. Tudo pertence a Deus, confessamos no Salmo 24. Portanto também aquilo que o império tenta tirar do povo pertence a Deus. Aqui está a tarefa das comunidades cristãs: pregar o cuidado com todos os bens para que sejam empregados de forma ética e correta.

4 Imagens para a prédica Iniciar retratando a realidade brasileira. Vivemos sob o domínio de políticos corruptos, que roubam do povo e, onde podem, privatizam os bens comuns, entregando-os ao domínio de estrangeiros. Como somos dominados pelos impérios do nosso tempo? 4.1 – Recontar o texto de Mateus 22.15-22 Deixar claro que o pagamento de tributos, taxas e dízimos necessita sempre ter como propósito a dignidade humana e o cuidado para com toda a criação. César é um ídolo (representa o império, dominação) e como tal deve ser tratado. Tudo pertence a Deus. Portanto isso também significa que necessitamos tornar-nos proativos, não somente pagando os impostos, mas cobrando o cumprimento de ações que visam ao bem comum, tendo em vista especialmente os pobres e

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necessitados. Se cremos e confessamos que tudo é de Deus e pertence a Ele, como pessoas que creem, necessitamos zelar por isso, afirmando que a salvação, a natureza e as pessoas não estão à venda. A vida é graça e por isso necessita ser respeitada em sua totalidade. Portanto é necessário entender que o cristianismo é uma práxis de vida. Não é uma teoria; é prática que se realiza no cotidiano da existência humana. Uma fé sem ética social não é cristã. O amor cristão implica responsabilidade para com a pessoa próxima e toda a criação. Necessitamos ser proativos e denunciar toda a injustiça, tudo aquilo que os impérios de nosso tempo fazem e que redunda em servidão, escravidão, que leva à morte, contrariando o bem comum. Necessitamos perguntar-nos se, de fato, estamos comprometidos/as com o tempo que nos toca viver. Buscamos o bem comum, lutamos para que haja mais justiça e igualdade social, racial, étnica, ambiental e de gênero?

5 Subsídios litúrgicos Kyrie – Pelas dores deste mundo Pelas dores deste mundo, ó Senhor! Imploramos piedade. A um só tempo geme a criação. Teus ouvidos se inclinem ao clamor Desta gente oprimida. Apressa-te com a tua salvação! A tua paz, bendita irmanada Com a justiça, Abrace o mundo inteiro. Tem compaixão! O teu poder sustente O testemunho do teu povo. Teu Reino venha a nós! Kyrie eleison! (Rodolfo Gaede Neto) Para a prédica sugiro trazer várias reportagens de jornais que apontam para os impérios e os abusos de nosso tempo, que prejudicam a vida em sua integralidade. Que roubam de Deus aquilo que é de Deus. Hinos do Povo de Deus: 246, 195, 455 (pós-prédica), 197, 377 (para bênção e envio) Oração Querido Deus, Através do teu filho Jesus Cristo, Pela graça do Espírito Santo,

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Tu venceste a escravidão, o pecado e a morte. Ajuda-nos a fazer política, Liberta-nos da corrupção, Ajuda-nos a ser proativos no bem comum. A lutar pela cidadania, um serviço à vida plena, A busca por libertação de todas as escravidões que os impérios de nosso tempo Impõem sobre as nossas vidas. Que os valores do teu Reino possam orientar as nossas atitudes e de todas as Decisões políticas em nosso país e no mundo. Esteja conosco na construção de um mundo sem exclusões, Sem privilégios, no respeito às diferenças, na convivência fraterna e amorosa. Ajuda-nos a ser cristãos em nossa prática diária, Na construção de um mundo novo, onde a justiça e a paz se beijem. Amém. Encerrar o culto com um abraço coletivo de compromisso cristão, objetivando a devolução a Deus daquilo que pertence a Deus, buscar um mundo livre das muitas escravidões que pesam sobre a vida das pessoas e da natureza.

Bibliografia BOFF, Leonardo. Corrupção: crime contra a sociedade. Coluna Jornal no Brasil. Disponível: http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2012/04/15/corrupcao-crime-contra-a-sociedade/ GALLAZZI, Sandro. O Evangelho de Mateus – uma leitura a partir dos pequeninos. Comentário Bíblico Latinoamericano Novo Testamento. São Paulo: Fonte, 2012. WEGNER, Uwe. 22º Domingo após Pentecostes: Mateus 22.15-21. Proclamar Libertação, v. XVIII. São Leopoldo: Sinodal, 1992. p. 259-266.

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LEVÍTICOS 19.1-2,15-18 MATEUS 22.34-46 1 TESSALONICENSES 2.1-8

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DIA DA REFORMA

PRÉDICA: MATEUS 5.1-12 ISAÍAS 62.1-12 GÁLATAS 5.1-11

31 OUT 2017

Geraldo Graf

(Re)descobrindo o evangelho

1 Introdução Neste dia 31 de outubro de 2017, celebram-se, de maneira especial, os 500 anos da Reforma. Além da “euforia” pelas comemorações, é necessário estar atento à mensagem do Senhor Jesus Cristo, manifestada claramente em Mateus 5.1-12. Nela está contida uma proposta de comunidade cristã e seu testemunho no mundo. 500 anos após a Reforma, cabe-nos perguntar se nós atendemos ao propósito de Jesus e à redescoberta do evangelho por Martim Lutero. Só celebraremos a Reforma coerentemente se vivenciarmos o evangelho de Jesus Cristo em sua integridade. As oito (mais uma) bem-aventuranças (makarismos) fazem a introdução ao Sermão da Montanha. Elas não somente apresentam a essência do ensino de Jesus Cristo, mas também compõem o texto mais bonito e mais provocativo do Novo Testamento. Ele é provocativo no sentido de ser desafiador. Ainda hoje, esses ensinamentos “incomodam” e nem sempre são observados (por exemplo, quem está disposto a oferecer espontaneamente a outra face? – Mt 5.39). O texto pode ser dividido em duas partes de quatro versículos cada (3 a 6 mais 7 a 10) e a conclusão (11 a 12). As duas partes são uma analogia às duas tábuas da Lei do Decálogo (Êx 20). Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés: no evangelho, Jesus faz cinco grandes discursos (Mt 5-7; 10; 13.1-52; 18; 24-25), assim como a Moisés eram atribuídos os cinco livros da Lei (Pentateuco). Como Moisés, Jesus também subiu ao monte e proclamou uma nova Lei. O monte significa: lugar da revelação divina. As partes narrativas entre os cinco discursos descrevem a prática de Jesus, mostrando como ele colocava a Lei em observância. Através das bem-aventuranças Jesus anuncia e apresenta o caminho que leva à verdadeira felicidade e à verdadeira santidade. O termo “bem-aventurado” (makarios) é expressão para uma reconciliação interior, uma integridade que se aproxima do shalom hebraico. Bem-aventurança não é mera felicidade. Ela significa uma vida sob a bênção de Deus na certeza da vinda do Reino. É uma vida plena em confrontação com as experiências da vida diária, experimentadas pela comunidade em sua situação de sofrimento, perseguição, fome e miséria. O reino de Deus é uma realidade futura que tem seus reflexos (consequências práticas) já agora: Bem-aventurados são, já agora, os que pertencem ao reino de Deus! Os cristãos creem que a plena bem-aventurança acontecerá no reino de Deus, mas que ela também já vale para esta vida, tal qual

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Dia da Reforma

é anunciada no início do Sermão da Montanha. Observe-se que os verbos fazem a ligação entre o presente (sofrido) e o futuro (abençoado). As bem-aventuranças querem refletir as qualidades de uma vida cristã diária (não uma mera exceção) e deveriam ser perceptíveis na vida de cada pessoa (2Co 5.17). O projeto do Reino, apresentado por Jesus nas bem-aventuranças, quer reconstruir a vida em sua totalidade: em seu relacionamento com os bens materiais, com as pessoas entre si e com Deus. Mahatma Gandhi tinha razão quando disse que, “se dos ensinamentos do Cristo ficassem apenas os extratos do Sermão do Monte, teríamos condições de pautar a nossa conduta para nos relacionar bem em sociedade. Se toda a literatura ocidental se perdesse e restasse apenas o Sermão da Montanha, nada se teria perdido”.

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Vivenciando o evangelho

“Vendo Jesus as multidões...” Assim inicia o relato do Sermão da Montanha (Mt 5 a 7). Ele prioriza o sermão das bem-aventuranças (Mt 5.3-12). Jesus vê, olha, enxerga, observa, percebe, sente. A visão é um dos principais sentidos, que desperta os demais. Através dela percebemos o que uma pessoa está sentindo e sofrendo. A visão é a janela do coração. Com nossos olhos nós enxergamos a beleza da criação, mas também todas as ameaças, os abusos e a destruição. Enxergamos as pessoas e percebemos seus sonhos e suas esperanças, mas também suas angústias, seus medos e seus sofrimentos. No Sermão da Montanha, Jesus inicia com um olhar: ele enxerga as pessoas com os olhos e sobretudo com o coração. Por isso ele percebe, sabe o que se passa com elas (“Vendo as multidões, Jesus se compadeceu delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” – Mt 9.36). Jesus vê as ansiedades, os sofrimentos, as feridas, que marcam profundamente a vida das pessoas. No entanto, a primeira palavra de Jesus não é de lamento sobre a situação, mas ele inicia com bem-aventuranças. Nove vezes no total, abordando situações específicas que observou. Jesus também enxerga nossas situações, sobretudo de dificuldade e sofrimento. Mas não só isso. A palavra bíblica é uma mensagem para a comunidade cristã tanto da época do evangelista Mateus como de nossa em 2017 no jubileu da Reforma. Também nós somos convidados a olhar para as situações e para as pessoas com o olhar misericordioso de Jesus (“Ele vos deixou exemplo para seguirdes seus passos” – 1Pe 2.21). Somos convidados a igualmente olhar com seus olhos de esperança. Jesus consegue enxergar o sofrimento, a opressão, a perseguição que vitimizam tantas pessoas, mas também consegue enxergar além, olha e faz olhar para o horizonte, porque ele enxerga com os olhos misericordiosos e amorosos de Deus. Através das bem-aventuranças Jesus liga o presente (a situação em que as pessoas se encontram) com aquilo que virá. Jesus é aquele que liga céu e terra. Muito mais do que fazer uma análise (diagnóstico) e julgamento da situação, Jesus dirige nosso olhar para frente, para o futuro de Deus. Ele enche nosso olhar com esperança pela irrupção do reino de Deus.

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Dia da Reforma

Trata-se de uma nova realidade, permeada pelo amor e pela misericórdia divinas, pelo consolo e pela justiça de Deus. É esse olhar de Jesus que nós descobrimos nas bem-aventuranças; é um olhar solidário, que enxerga o que está além da situação presente: o futuro de Deus. As bem-aventuranças trazem esse futuro de Deus para dentro das situações presentes das pessoas e, assim, despertam nelas novas esperanças. Esse novo tempo de Deus concretiza-se entre nós. Por amor Deus vem a nós por meio de Jesus Cristo, rompendo estruturas escravizantes, e convida cansados e sobrecarregados para assentar-se à mesa da comunhão (Mt 11.28). Ele traz luz aonde só havia trevas e solidão, traz vida aonde só dominava a cultura da morte. Vocês são bem-aventurados! Estas palavras finais valem para nós, a comunidade cristã. Não somente como consolo e esperança, mas também como desafio e estímulo para o discipulado, para o testemunho e a ação solidária (missão e diaconia). Onde nós só enxergamos sofrimento em consequência da injustiça e da opressão Jesus enxerga o futuro de Deus. As sementes do amor de Deus já estão germinando, irrompendo e crescendo. Se nós aprendermos com Jesus a olhar com o coração, então nossa visão se estenderá além dos sofrimentos presentes e, junto com a nossa solidariedade, brotarão palavras e ações de esperança, tanto para nós como para as outras pessoas. As bem-aventuranças ampliam nossos horizontes.

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Testemunhando o evangelho: bem-aventuranças e Reforma

A visão é um dos nossos principais sentidos. Nós reconhecemos os outros através da visão e percebemos seus aspectos exteriores. Com o coração nós enxergamos os seus sentimentos. Percebemos o mundo ao nosso redor com os olhos e com o coração. Com os olhos nós enxergamos a beleza da criação de Deus, mas também o que a ameaça e destrói. Enxergamos o rosto, o sofrimento e a angústia das pessoas, especialmente as que não têm esperança. Com os olhos não enxergamos o futuro. Só o imaginamos, esperamos ou tememos. Fazemos planos, projetamos o que se materializa em nossa mente e em nosso coração. Porém temos a consciência de que a realização de nossos sonhos depende de muitos fatores, que se apresentarão no futuro. Nada disso está sob nosso controle. No Sermão da Montanha, Jesus inicia com um olhar. Ele enxerga as pessoas com o coração e, assim, percebe o que se passa com elas. Ele vê as ansiedades, o sofrimento, as feridas que marcaram profundamente a vida delas. Só que Jesus não inicia falando desse sofrimento. Sua primeira palavra é: “Bem-aventurados”. Nove vezes ele a repete. É uma palavra rara em nossos dias. Alguns traduzem bem-aventurança por felicidade. Porém essa tradução não expressa o que Jesus quer dizer. Bem-aventurança é um misto de alegria e de esperança (liga o presente com o futuro) pelo fato de que nos sabemos cuidados por Deus. Deus vê a nossa situação. Com isso Jesus nos ensina a olhar para as situações e para as pessoas com um novo olhar. Jesus enxerga exatamente o que está acontecendo: a pobreza, o sofrimento, a perseguição, a opressão. Jesus consegue enxergar tudo isso porque ele enxerga com os olhos amorosos de Deus. Deus enxerga a nossa situação – enxerga com o coração. Jesus olha e vê a partir da ótica de Deus. Com suas palavras

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Jesus liga o que é agora com aquilo que virá. Pois o Pai Celeste já iniciou o seu Reino entre nós com a vinda de Jesus. Ele já iniciou novo céu e nova terra, que transformarão nossa vida e nosso mundo. Muito mais do que uma expressão de amor solidário por nossa situação atual, por seu amor, Deus permite que olhemos para frente, cheios de esperança pela irrupção de seu Reino entre nós. Trata-se de uma nova realidade, permeada pelo amor e pela misericórdia de Deus. Esse olhar de Jesus aponta para esse futuro que se faz presente. Por isso Jesus tem autoridade para nos abordar em nosso sofrimento e em nossa pobreza, porque ele tem o futuro de Deus diante de seus olhos. Esse novo tempo de Deus inicia em nós através de Jesus Cristo. Por amor a nós, Deus tornou-se gente, pleno de amor. E esse amor é ilimitado. Ele rompe estruturas, ele convida excluídos e cansados à mesa da comunhão. Isso também vale para nós. Pode ser que estejamos tristes e desesperados, perseguidos e injuriados. Deus vê. E nada disso permanecerá. Deus tem planos futuros para nós. As sementes do amor de Deus já estão germinando. Se passarmos a enxergar com o coração e confiarmos nessa boa-nova, então também nossos olhos enxergarão e perceberão os sinais do amor de Deus aqui e agora. Foi assim que Deus também abriu os olhos de Martim Lutero há 500 anos e, consequentemente, o seu coração, dando, assim, início à Reforma, confiando unicamente no gracioso amor de Deus. Lutero redescobriu a proposta de Jesus, que entra em confronto com a obsessão do mundo: ganância, hedonismo e poder. Para o mundo, bem-aventurança e felicidade são resultado de esforços e conquistas pessoais, de riqueza, bem-estar, status e poder, ou seja, tudo o que o ser humano pensa poder conquistar por seu mérito e sua capacidade. Para Jesus, bem-aventurada é a pessoa que enfrenta a vida, movida pelo Espírito Santo, na certeza de que Deus está presente por meio de Jesus Cristo, que alegria não depende das circunstâncias externas (Fp 4.3). Bem-aventurada é a pessoa que não vive por conta própria, mas vive em total confiança e dependência do Senhor. Este é um aspecto contido na redescoberta do evangelho feita por Martim Lutero: o decisivo de nossa vida não está sob nosso controle – não somos nós que a conduzimos ou moldamos, mas está nas mãos misericordiosas e amorosas de Deus e de sua palavra soberana. Lutero expressou a soberania divina sobre nossa vida na explicação ao Segundo Artigo no Catecismo Menor: “Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro ser humano, nascido da virgem Maria, é meu Senhor!”. Nisso consiste a nossa bem-aventurança. Em sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, Jesus Cristo fez tudo o que era preciso para nossa libertação e redenção. Por isso não precisamos mais nos deixar escravizar por este mundo, mas podemos permanecer diante de Deus. Somos filhos de Deus pelo Batismo. Somos bem-aventurados! Somos justificados pela graça e por fé, independente das obras (sola gratia). Porém a verdadeira fé não permanece sem obras. As obras de amor ao próximo não são qualidades ou méritos. Elas são expressão da profunda gratidão pela libertação e pelo pastoreio de nosso Senhor. A vivência da fé sob as bem-aventuranças acontece sob confiança, seja por caminhos suaves, seja por

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caminhos sofridos. Trata-se de uma fé e de uma confiança das quais brotam boas obras, assim como bons frutos nascem de boas árvores. Nós celebramos isso com gratidão e alegria. Deus abre os olhos e o coração das pessoas para enxergar, para perceber e, cheios de esperança, voltados para o futuro, testemunhar, agir, colocar o amor de Deus em prática. Lutero redescobriu esse “olhar com o coração” a partir da palavra de Deus e o propôs para a igreja de sua época. Ele apontou novamente para a única palavra de Deus: Jesus Cristo, expressão maior de seu amor e de sua misericórdia. Foram essa esperança e confiança nas promessas do futuro de Deus que deram a Lutero a perseverança e a força para resistir às oposições à Reforma. Portanto a Reforma não é tão somente um acontecimento histórico do passado, que relembramos com saudosismo, mas é um acontecimento presente, contínuo. Reforma é hoje! A palavra do Senhor Jesus Cristo é dirigida a nós: Vocês são bem-aventurados! São palavras que querem abrir nossos olhos e também nossos corações. Querem que percebamos que somos bem cuidados, carregados pelo amor de Deus em meio a tudo o que nos ameaça, amedronta e faz sofrer. O Senhor vê-nos e está conosco. O futuro lhe pertence. Ele já iniciou o seu Reino entre nós por meio de Jesus Cristo. Por isso podemos enfrentar qualquer situação na vida, amparados por sua palavra e agir movidos por profunda esperança. A partir do evangelho nós podemos enxergar além daquilo que foi ruim, negativo, que não deu certo, que causou mal e sofrimento. Em tudo podemos enxergar o amor de Deus, que nos carrega. Seu Reino já irrompeu entre nós através de Jesus Cristo. O amor de Deus contrapõe-se à violência e vai transformando situações passo a passo. Começa em nossos corações e vai preenchendo toda a nossa vida. Assim vamos percebendo que medo e angústia não são as últimas coisas, mas serão transformadas pelo amor de Deus. Por isso precisamos aprender a enxergar com o coração. Precisamos enxergar o amor de Deus presente entre nós por meio de Jesus Cristo e perceber que temos um futuro maravilhoso diante de nós. Essa mudança de olhar, de perspectiva, arranca-nos da imobilidade, das amarras e da prostração. No meio do sofrimento enxergamos o consolo; em meio ao medo, a coragem; em meio à perseguição, sentimo-nos amparados por Deus. É isso que nos faz levantar as cabeças e coloca em movimento – olhando para o futuro de Deus conosco. Faz-nos agir na transformação de situações. Passamos a enxergar o mundo com outros olhos: com os olhos do coração. E passamos a olhar para frente – para o futuro, pois nele está Deus com seu amor, sua misericórdia. Esse futuro já se faz presente nas bem-aventuranças proferidas por Jesus Cristo. Jesus convida-nos e nos desafia. Ele nos ensina o que pessoas bem-aventuradas produzem: • Elas são humildes e, espiritualmente pobres, perguntam pela vontade de Deus. • Elas sofrem pelo mundo e não se conformam com o mal nele praticado. • Elas são gentis, e seu objetivo é transformar situações. • Elas desejam relacionamentos pautados pela justiça que reflete a justiça de Deus.

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• Elas são misericordiosas, pois correspondem à misericórdia e ao amor de Deus. • Elas ouvem e obedecem à vontade de Deus para concretizá-la em seus relacionamentos. • Elas promovem a paz tal qual o Salvador promoveu paz entre Deus e a humanidade. • Elas suportam a hostilidade do mundo ao praticar os mandamentos divinos. Ali onde se procura viver segundo a vontade de Deus, ali o reino de Deus já se revela: • Muros são derrubados. • Armas são transformadas em ferramentas. • A justiça social torna-se uma prática geral. • Os excluídos são trazidos para a comunhão. • Os exilados são acolhidos. • Os doentes recebem tratamento e cuidado. • Inimigos reconciliam-se como irmãos. • Direitos humanos são respeitados. E Jesus Cristo conclui: Aos bem-aventurados pertence o reino dos céus! Sugestão de vídeo: www.hansgruener.de/docs_d/lieder/selig_seid_ihr.htm Tradução: 1. Bem-aventurados são vocês se viverem em simplicidade. Bem-aventurados são vocês se souberem carregar fardos. 2. Bem-aventurados são vocês se aprenderem a amar. Bem-aventurados são vocês se ousarem praticar o bem. 3. Bem-aventurados são vocês se forem sensíveis ao sofrimento. Bem-aventurados são vocês se permanecerem honestos. 4. Bem-aventurados são vocês se promoverem a paz. Bem-aventurados são vocês se perceberem a injustiça. (Letra: Friedrich Karl Barth e Peter Horst; Melodia: Peter Janssens)

Bibliografia GASS, Ildo Bohn. As bem-aventuranças como caminho de santidade (www.cebi. org.br). MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes e OROFINO, Francisco. Travessia: Quero misericórdia e não sacrifício. A Palavra da Vida 135/136 (www.ihu.unisinos.br). SCHUCHARDT, Peter. Prédica: Mateus 5.1-12. In: Göttinger Predigten im Internet (www.predigten.uni-goettingen.de).

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DIA DE FINADOS

PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 15.12-20 ISAÍAS 35.1-10 MATEUS 22.23-33

02 NOV 2017

Vera Maria Immich

Consolo e confiança na ressurreição

1 Introdução Os textos propostos para Finados falam do novo, tanto em Isaías como no Evangelho de Mateus e, por fim, na Primeira Carta à Comunidade de Corinto. Isaías aponta para a novidade de vida, sem opressão e dominação. Aos saduceus Jesus fala do cotidiano da eternidade, e Paulo precisa “convencer” a comunidade de que, assim como Jesus ressuscitou, todos também ressuscitarão. Isaías 35 é sucedido pelo capítulo 34, que relata a condenação dos opressores e das potências dominadoras. Ao povo de Deus são reservadas libertação, alegria e vida em abundância. Aos sofredores são dados força, ânimo, restauração, coragem e salvação. No texto do evangelho, encontramos uma linda explicação não somente da ressurreição, mas de como será no mundo dos ressurretos. Não será uma cópia do que vivemos aqui e do que conhecemos, mas seremos como anjos, embora não saibamos como os anjos vivem. Não devemos especular, mas confiar. Jesus apresenta Deus aos saduceus como um Deus que defende a vida. Ele não nos criou para a morte, mas para a aliança consigo mesmo para sempre. De acordo com essa carta, a comunidade de Corinto passava por muitos problemas, erros e tinha muito a aprender. Paulo enfrenta essas questões e não foge da correção desses problemas por causa de seu cuidado paterno com seus filhos e filhas na fé. Herdamos esses preciosos ensinamentos, que até hoje nos querem admoestar e ensinar. Cartas oferecem a oportunidade do registro, e embora tenham um destinatário, sua temática universaliza-se a todos os cristãos, embora requeira cautela, atenção e sabedoria para serem aplicadas aos dias de hoje. Paulo tem que lidar com problemas concretos, com dúvidas reais de seus irmãos na fé, e ele o faz conclamando todos a Cristo e à união. As muitas filosofias que conviviam em Corinto acabaram diminuindo e questionando a ressurreição de Cristo e a ressurreição de seu povo.

2 Exegese Em Corinto, algumas pessoas pensam que, depois da morte, a alma imortal continua vivendo sozinha, abandonando a matéria e o corpo, que são considerados coisas más e inferiores. Outros consideram que a morte é o fim de tudo e que

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é necessário aproveitar o presente. Paulo, então, precisa desconstruir essas convicções contrárias à fé cristã, a qual confessa que, assim como Cristo ressuscitou, também nós ressuscitaremos. Corinto era a sede da província senatorial da Acaia, centro comercial entre Ásia e Roma. A vida econômica da cidade era determinada pelo comércio, negócios financeiros e produção artesanal. Sua população era diversificada, com forte presença romana e diversidade religiosa. A grande parte da comunidade pertencia às classes sociais menos abastadas, e, em menor número, havia pessoas integrantes da classe alta, que punham suas residências à disposição para as celebrações e ceia do Senhor. Essa comunidade viva está com uma série de problemas teológicos e de convivência, que leva à criação de partidos que se comunicam com Paulo, relatando as ocorrências da comunidade. Então Paulo escreve a carta com o objetivo de tratar essas questões, conclamando os irmãos e as irmãs para a concórdia e a união. Paulo exorta a comunidade a lembrar-se de sua fundação, para que se lembre de ser uma comunidade e evite as divisões que poderiam levá-la à situação anterior. Ele lembra que Paulo e Apolo são apenas jardineiros, cuidadores da comunidade. A comunidade é templo de Deus, e seu fundamento deve estar apenas em Cristo. No texto em questão, Paulo procura alicerçar a ressurreição dos mortos nas testemunhas da ressurreição, para as quais Jesus aparece depois de morto e ressurreto. Quem nega a ressurreição dos mortos estaria negando a ressurreição de Jesus, que é o princípio da fé cristã.

3 Meditação A ênfase desta pregação está na ressurreição tanto de Jesus como dos membros da comunidade de Corinto e também de nossa ressurreição. No dia de Finados, esse tema recebe um destacado valor. Temos nos bancos das igrejas e nos corredores dos cemitérios de todo o país muitas pessoas com os corações cheios de saudade de entes queridos que partiram há muito tempo ou há pouco tempo. Talvez o próprio pregador ou pregadora tenham experimentado em suas vidas a dor da perda de alguém muito amado. Pode-se perguntar pela relevância da ressurreição de Jesus no processo de luto e aceitação. Assim como em Corinto, hoje também há muitas filosofias e crenças diferentes acerca da morte e do depois, não somente na cidade, mas também no campo. A globalização da comunicação chegou ao campo e ofereceu uma diversidade enorme de conteúdos sobre o tema, muitas vezes alheios à fé cristã. As telenovelas gostam de explorar o tema e contam com ibope elevado por pessoas em sofrimento e em busca de respostas. As cartas, ditas psicografadas, trazendo supostas mensagens dos que já partiram, trazem certo alento, e às vezes confusão, para aqueles que não têm a fé cristã alicerçada no Cristo ressurreto. Sensibilidade deve nortear a pregação e trazer para o centro da fé cristã, para a ressurreição de Cristo sem atalhos e sem desvios. Corações tristes podem ser alvo fácil para outras correntes e filosofias. Mas o evangelho de Cristo deve ser resposta suficiente para os enlutados. Convém ser

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didático e explicativo, ligando os dois textos, de 1 Coríntios e do Evangelho, sem contudo explicar o mistério inexplicável que é a ressurreição. Jesus não quis que soubéssemos de detalhes de como seria, senão ele mesmo o teria dito. Devemos aceitar esse mistério e contemplá-lo através da confiança e da fé inabalável. As mesmas perguntas que os saduceus fizeram a Jesus, a nossa comunidade também tem e deseja ouvir algo a respeito. Jesus responde sem detalhar e sem dar explicação, mas chama a atenção deles, dizendo que não conhecem as Escrituras e nem o poder de Deus (v. 29). E conclui dizendo: serão como anjos e não casarão e nem se darão em casamento (v. 30). Não sabemos como os anjos vivem, logo essa informação é uma resposta que exige confiança e não uma explicação detalhada de como será. Acontecerá, e isso basta. No início do capítulo 15, Paulo retoma suas pregações de maneira bem pastoral e afetiva, buscando convencer os coríntios e lembrar-lhes o que haviam crido. Ele reitera as testemunhas oculares da ressurreição, em grande número, sendo que muitos ainda vivem e outros já dormem. Ele coloca-se humildemente como o menor dos apóstolos. Nosso texto: Paulo inicia com a pergunta inquietante de que, se todos pregam e até creem na ressurreição de Cristo, como então não crer na ressurreição de todos os mortos? Paulo cresce na argumentação que agora adquire novo tom e questionamento. Se não cremos na ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou e toda a nossa pregação e nossa fé são vãs. Imagino Paulo chamando a comunidade de Corinto à razão ao lembrar-lhe que teria usado de falso testemunho contra Deus ao testificar que Cristo havia sido ressuscitado por ele. E arremata dizendo: se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens (v. 19). Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem (v. 20). O versículo 19 oferece ao pregador e à pregadora a possibilidade de contextualizar esse texto para o dia de Finados, falar da saudade da dor que tem sentido, pois tem fim e não é o fim. Nossa dor está ancorada na ressurreição de Cristo e em nossa ressurreição. A ressurreição é a confiança naquilo que não vemos, não tocamos e não dominamos. É poder de Deus e a ele pertence. Revelou-se em Lázaro, que reviveu e depois voltou a falecer, não sendo, portanto, uma ressurreição. Em Jesus houve a ressurreição e a promessa de que seja extensiva a todos os que creem e professam Jesus como seu Salvador. Deixar a ressurreição sob o poder de Deus e confiar nossos amados a seus cuidados, sem especular e permitir que nos iludam com cartas e comunicações do outro lado, é um desafio para este dia.

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Imagens para prédica

O pregador e a pregadora podem explorar a própria cruz como símbolo de consolo. Max Lucado diz-nos que é impossível olhar para algum lugar e não ver uma cruz: na igreja e capelas acenando para o mundo, esculpida em uma lápide, gravada em um anel ou suspensa em uma corrente. A cruz é o símbolo universal

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do cristianismo. Uma escolha improvável. De instrumento de tortura tornou-se objeto de esperança. Um símbolo que nos pode ajudar a compreender o amor de Deus: uma travessa horizontal e outra vertical, uma se estende sobre a outra e entra em contato como o amor de Deus; a outra eleva-se como a santidade de Deus; uma representa a largura de seu amor, e a outra, a altura de sua santidade. A cruz é o lugar em que Deus perdoa seus filhos sem baixar seus padrões. Podemos dizer que Deus nos une e reúne sob a sua cruz, em frente à sua cruz, sob o sinal de sua cruz (†) no início e no final do culto, quando realizado o gesto ou apenas mencionado. Sob a sua cruz realizamos batismos, casamentos, orações e bênçãos; também despedimos e entregamos pessoas falecidas sob seus cuidados. É o nosso selo real de pertença. Participamos de sua morte e ressurreição, de sua cruz. Nela morremos e ressuscitaremos. Pode-se fazer uma lembrança para os participantes do culto. Por exemplo, uma cruz que anuncie vida e ressurreição. O Google pode ajudar. As cruzes centro-americanas são coloridas e trazem, além de Cristo, também elementos da natureza. Ou colocar flores brancas na cruz da igreja atrás do altar ou onde estiver e fazer referência: o símbolo da morte e da tortura ressignificado e anunciando vida e ressurreição além dos túmulos.

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Subsídios litúrgicos

Acolhida “Eu sou aquele que vos consola, diz o Senhor!” (Is 51.12). Em Jesus Cristo, esse consolo tornou-se presente de forma concreta, pois assim afirma o apóstolo Paulo (2Tm 1.10): “Nosso Salvador, Cristo Jesus, não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade”. E num dia como o de hoje, “Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima e a morte já não existirá, não haverá luto, nem choro, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.4). Poesia Pode ser usada para encerrar a pregação, confirmando nossa fé e confiança na ressurreição. A morte não é nada A morte não é nada. Apenas passei ao outro lado do mundo. Eu sou eu. Você é você. O que fomos um para o outro ainda o somos. Dá-me o nome que sempre me deste. Fala-me como sempre me falaste. Não mudes o tom a um triste ou solene. Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos. Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo. Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou,

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sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra. A vida continua significando o que significou: continua sendo o que era. O cordão de união não se quebrou. Por que eu estaria fora dos teus pensamentos apenas porque estou fora da tua vista? Não estou longe; somente estou do outro lado do caminho. (Atribuído ao Padre Agostinho) Bênção • Que Deus, fonte da vida, abençoe o nosso viver em todas as estações da vida: na alegria, na festa, na tristeza, no luto, na saúde e na doença. • Que Deus abençoe o nosso viver durante o dia... durante a noite... no brilho do sol... no cair da chuva e na escuridão das trevas... no iluminar das estrelas e da lua... • Que Deus nos dê prazer e alegria naquilo que fazemos... • Que Deus abençoe o nosso viver para que nossa vida seja plena, fonte de bênçãos, jorrando águas vivas sobre o chão que viermos a pisar. 1 e 2 – Que Deus te abençoe e te guarde sempre. Amém. Envio

Confiantes de que o Senhor nos ampara, também em meio ao sofrimento, vamos em paz e sirvamos a ele com alegria! Amém.

Bibliografia BULL, Claus-Michael. Panorama do Novo Testamento. História. Contexto. Teologia. São Leopoldo: Editora Sinodal/Faculdades EST, 2009. LUCADO. Max. Seu nome é Jesus. O cumprimento da promessa do amor de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.

22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES MATEUS 23.1-12 MIQUEIAS 3.5-12 1 TESSALONICENSES 2.9-13

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23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

12 NOV 2017

PRÉDICA: AMÓS 5.18-24

MATEUS 25.1-13 1 TESSALONICENSES 4.13-18

Léo Zeno Konzen

Jorre o direito como água!

1 Introdução As leituras bíblicas do culto deste domingo representam um forte convite – talvez mais do que isso, uma vigorosa interpelação – para inserir-nos de maneira crítica e proativa no mundo em que vivemos. O evangelho das dez meninas – cinco munidas de práticas de serviço ao projeto do reino de Deus e cinco mais ou menos descomprometidas – revela que a superficialidade e o fazer de conta não conduzem a bom termo. A profecia de Amós indica isso de forma mais incisiva ao questionar falsas esperanças e cultos vazios e ao propor um efetivo compromisso com o direito e a justiça. A Primeira Carta aos Tessalonicenses lembra que os vivos e os que já morreram enfrentam em condições iguais o encontro definitivo com Deus. É admirável que o texto de Amós esteja entre as leituras de um culto, pois ele questiona o próprio culto. Mas um olhar atento evidencia que se trata de um questionamento de um culto viciado pela traição ao projeto e à vontade de Deus. Isso evoca o sentido mais profundo do próprio culto, que é celebrar a presença viva de Deus em nosso caminhar na história e nosso alegre e perseverante compromisso com os sonhos, as alegrias e os anseios de Deus. A escuta de sua palavra e a sempre renovada conversão a seus desafios devem caracterizar as celebrações das comunidades. Nelas, em vez de fugir dos problemas e desafios, temos de renovar o compromisso com o direito e a justiça, como lembra com força o profeta cuja profecia ocupa nossa reflexão de hoje.

2 Exegese Quem não se surpreende com o profeta Amós? A surpresa pode ser de admiração, mas também de estranhamento, decepção, discordância ou mesmo indignação contra ele. Natural de Tecoa, no Reino do Sul, agricultor e criador de gado, Amós experimentou um apelo avassalador da parte de Deus e foi profetizar no Reino do Norte, de onde acabou expulso pelo sacerdote do templo de Betel, Amasiá. Ele é uma voz alternativa à dos profetas que viviam do ofício junto aos templos de Israel. Não era pastor ou ministro religioso de alguma comunidade ou templo. E sua profecia em nada defendia os poderosos; pelo contrário, criticava-os veementemente.

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23º Domingo após Pentecostes

Aos olhos dos bem-sucedidos da época, a profecia de Amós não fazia sentido e não podia ser tolerada. Isso porque Israel, o Reino do Norte, no século VIII a.C., sob o governo de Jeroboão II, passava por um momento de crescimento econômico e de expansão política e não sofria ameaças de alguma potência estrangeira. Amós, no entanto, via as coisas sob outro prisma. Talvez seja significativo que sua vocação tenha tido origem em visões, verdadeiros encontros com Deus. Essas visões fundamentavam sua leitura do que acontecia na época. A nuvem de fumaça do otimismo dos poderosos, incrementada pelo delicioso perfume dos ritos realizados no templo, impedia as pessoas de ver o que estava ocorrendo de fato. Amós via o que poucos viam. Talvez por isso teve de usar uma linguagem tão chocante. Era preciso acordar as pessoas e abrir seus olhos. O futuro deu razão ao profeta: algumas décadas mais tarde, os assírios arrasaram o Reino do Norte e destruíram Samaria (722 a.C.), levando ao exílio boa parte da população e introduzindo na região diversos grupos humanos de culturas e religiões diferentes. O texto de Amós que tomamos como base para a prédica deste domingo está em 5.18-24. Situa-se no contexto dos oráculos contra Israel (cap. 3 a 6), que, por sua vez, dão continuidade aos oráculos contra as nações vizinhas e contra Judá e Israel (cap. 1 e 2). Os cap. 7 a 9 apresentam as visões que fundamentam a profecia de Amós. A perícope em questão pode ser dividida em três partes: os v. 18-20 tratam do “dia do Senhor”; os v. 21-23 são críticas ao culto; e o v. 24 conclui com chave de ouro, conclamando para a prática do direito e da justiça. O que une o texto é a contraposição das duas partes iniciais à proposição do versículo final: em vez de cultivar falsas seguranças, com base no “dia do Senhor”, e de iludir-se com cultos descompromissados, Israel deve assumir o desafio de fazer o direito jorrar como água e a justiça correr como uma torrente inestancável. A aposta no “dia do Senhor” é fortemente criticada por Amós, que vê nela uma ilusão (v. 18-20). Essa esperança desenvolveu-se historicamente como forma de reforçar a convicção de que os males que afligem o povo têm seus dias contados, pois Deus há de intervir mais radicalmente na realidade. Mas ela passou a ser usada como argumento para sustentar políticas injustas e insustentáveis. Era o caso no tempo de Amós. Deus seria a garantia de que nada de ruim aconteceria a Israel e que um dia Ele promoveria o domínio de seu povo sobre todos os povos vizinhos. Deus teria uma predileção pelo povo de Israel e não permitiria que ele sofresse derrotas. Deus estaria apenas esperando o momento oportuno para fazer Israel brilhar no meio das outras nações. Seria o “dia do Senhor”, um dia de luz. Amós adverte que esse “dia do Senhor” será totalmente diferente: em vez de luz haverá trevas. Ou seja, nele Israel estará entre aqueles que serão aniquilados por Deus. E o profeta é enfático: não adianta querer escapar. Ele usa imagens para expressar a inexorabilidade desse dia: será como fugir do leão e cair nas garras do urso ou apoiar-se na parede e ser mordido pela cobra. Nós diríamos: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. Portanto o “dia do Senhor” virá com certeza, mas será de terror para Israel. Esse anúncio está em sintonia com todo o livro de Amós. Há nele pequenos acenos de esperança, mas a tônica é a ameaça irrevogável.

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23º Domingo após Pentecostes

A segunda parte (v. 21-23) apresenta uma dura crítica ao culto. Os verbos usados são muito fortes: “detesto”, “desprezo”, “não posso suportar”, “nada há que me agrade” “viro o rosto”, “não posso nem ouvir”. São mencionadas diversas manifestações litúrgicas ou ritos: peregrinações, assembleias, holocaustos, oferendas, sacrifícios... Parece que nada escapa à rejeição de Deus, sequer os belos cânticos e os deliciosos toques de harpas. Os motivos para tamanha indignação divina encontram-se sobejamente no conjunto do livro do profeta. O v. 24, que constitui a terceira parte do texto, mostra que as críticas e os anúncios catastróficos não deixam de ser apelos e desafios para a conversão, pois Deus propõe que o direito e a justiça se tornem a prática comum, que o direito jorre como água e a justiça seja uma fonte inestancável. É bastante razoável pensar que, na própria visão de Amós, Deus não rejeita sistematicamente o culto e não renega inapelavelmente seu povo. Mas uma religião que cultive ilusões infundadas (“dia do Senhor” como garantia de proteção) e pretenda afastar Deus das questões sociais (culto sem compromisso com os direitos das pessoas, especialmente dos pobres) precisa ser desmascarada. Ela precisa ser libertada e transformada. Ao contrário, uma religião que alimente com sua teologia e seu culto um saudável comprometimento com a construção de uma sociedade inclusiva, justa e fraterna terá o beneplácito de Deus.

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Meditação

A fé em Deus gera esperança. A Bíblia está cheia de histórias que mostram intervenções de Deus. Essas histórias foram escritas para suscitar em nós a fé na presença e na atuação de Deus em nosso meio, em favor de seus filhos e filhas. A tal ponto desenvolvemos essa fé, que cultivamos uma esperança radical, escatológica, de que o reino de Deus vivido e anunciado por Jesus se plenificará pessoal e também universalmente. Com os cristãos das primeiras gerações oramos: “Vem, Senhor Jesus!”. Somos também convictos adeptos do culto em nossas comunidades. Acreditamos que reunir-nos em comunidade, ouvir a palavra de Deus, unir-nos a ele na Santa Ceia, dirigir a ele nosso louvor, implorar seu perdão e apresentar-lhe nossos pedidos, tudo isso tem um significado e uma importância que não colocamos em discussão e cujos benefícios nem conseguimos descrever adequadamente. Por que, então, temos de ouvir hoje as palavras duras do profeta Amós, arrasando uma das mais caras esperanças do povo de Deus (o “dia do Senhor”) e atropelando uma das mais preciosas e deliciosas práticas solicitadas pelo próprio Deus (o culto)? A resposta é simples, mas perturbadora: Deus não pode ser manipulado para justificar práticas de exploração, violência ou exclusão de uma parte de seus filhos e filhas. A saudável teologia da esperança, como aquela do “dia do Senhor”, não pode fundamentar ilusões num futuro construído a partir de estrangulamentos e derramamento de sangue. Algo semelhante ocorre com a famosa frase de Paulo na Carta aos Romanos: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Fora de seu contexto, tanto a teologia do “dia do Senhor” como a afirmação

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de Paulo podem produzir falsas profecias e induzir a ilusões desastrosas. Também não adianta escrever na moeda do dólar “In God we trust” (nós confiamos em Deus) ou no real “Deus seja louvado”! Algo semelhante pode ser dito em relação ao culto: a Deus não interessa um culto maravilhoso, mas chamuscado de manipulações e violações dos direitos de uma parte de seus filhos e filhas. Mais do que isso: ele não só não se interessa por tal culto, mas o detesta, por mais belo e comovente que seja. Esse é um culto que perverte o povo de Deus e não o santifica. É um culto que incentiva a injustiça e o fratricídio em nome de Deus. Por isso Deus não o aceita e manifesta diante dele sua indignação. O que torna um culto agradável a Deus é aquilo que lhe serve de base, ou seja, uma organização econômica, política, social e eclesial que promova a vida digna de todos os filhos e filhas de Deus, prioritariamente daqueles que são ou vão se tornando vítimas de um sistema seletivo e excludente. Não se trata apenas de práticas individuais. O julgamento, nesse caso, não é apenas de pessoas. Ele é também coletivo, porque se trata de questões políticas e sociais que ultrapassam as ações individuais de cada um de nós. Amós conclui suas denúncias com o apelo de que o direito corra no meio do povo como um rio e que a justiça seja como uma torrente no meio dele. A tudo isso poderíamos acrescentar hoje a questão ecológica: não podemos simplesmente anunciar a esperança de que Deus há de salvar o mundo se nós continuarmos a depredar tudo e tornar inviável a vida humana em nosso planeta. Imaginemos um Amós nos dias de hoje verberando contra as teologias e os cultos das igrejas e religiões por não levar a sério os lamentos da mãe terra! Se relacionarmos isso ao evangelho deste domingo, veremos que também esse traz um apelo semelhante ao de Amós: não basta uma comunidade ou igreja ser do grupo daquelas e daqueles que vão ao encontro do noivo; é preciso estar engajado no seu projeto de vida. É esse o sentido de estar munido com óleo para ter as lâmpadas acesas. A Primeira Carta aos Tessalonicenses também pode ser relacionada à profecia de Amós. Os vivos e os já mortos, todos estamos e estaremos em igualdade de condições perante Deus como indivíduos e também como comunidades. Não se trata, portanto, de combater ou eliminar a teologia da esperança nem de abandonar ou destruir nosso culto, mas de acolher o enorme desafio de comprometer-nos com o projeto de Deus, um projeto de libertação e de vida para todos os seus filhos e filhas e para toda a sua criação. Então nossa esperança escatológica terá sentido, e nossos cultos serão como fontes de água viva.

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Imagens para a prédica

Uma imagem para a prédica deste domingo pode ser a de filhos que excluem irmãos de direitos que pertencem a todos e mostram-se muito religiosos e carinhosos com os pais. Talvez estejam até conseguindo que os prejudicados achem normal aquilo que os mais fortes estão fazendo. É possível ainda que os pais permaneçam calados por algum tempo diante do que ocorre. Quem quebrará essa corrente de injustiças e de violação do direito dos fracos?

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Outra imagem é fornecida a nós pelo Evangelho de Mateus: Se estivermos diante do altar para apresentar nossa oferenda e nos lembrarmos de que nosso irmão tem algo contra nós, devemos primeiro reconciliar-nos com esse irmão; depois podemos voltar para apresentar nossa oferenda (Mt 5.23-24). Essa recomendação representa bem a necessidade de haver coerência entre o culto e a vida. Podemos, inclusive, lembrar uma desagradável e incômoda denúncia de filósofos do século XIX que diziam que a religião era o “ópio do povo”, ou seja, uma forma de cultivar ilusões e alienações no meio do povo injustiçado. De fato, às vezes, a religião tem sido usada para criar ou manter uma consciência de fuga do mundo ou de aceitação de sofrimentos injustos, com promessas de que haverá uma grande recompensa no céu. Nesse caso, pouco ou nada importaria a transformação da realidade social, econômica, política, cultural e religiosa na qual vivemos. Em situações como essas, cabe muito bem a palavra de Amós.

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Subsídios litúrgicos

Considerando as mensagens de Amós e do Evangelho de Mateus, pode-se realizar no culto um momento penitencial expressivo, especialmente na linha da comunidade comprometer-se com os direitos humanos, a justiça social e a prática da solidariedade e do amor entre as pessoas. As imagens do direito correndo como um riacho e da justiça como um córrego que não se consegue estancar (Amós), bem como aquela das meninas com lâmpadas com e sem o óleo combustível (evangelho), podem também ser representadas por meio de símbolos (cascatinha com água corrente, lâmpadas ou velas acesas e apagadas) colocados no local desde o início do culto ou introduzidos em momento oportuno. A escolha dos hinos também pode ser feita com o critério da coerência da vida com o culto litúrgico e da exigência de haver na sociedade respeito aos direitos de todos, especialmente dos socialmente fracos.

Bibliografia BALANCIN, Euclides Martins; STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Amós: a denúncia da injustiça social. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2005. BONORA, Antonio. Amós, o projeta da justiça. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1983.

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PRÉDICA: MATEUS 25.14-30

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19 NOV 2017

JUÍZES 4.1-7 1 TESSALONICENSES 5.1-11

Nilo Christmann

Ninguém é talentoso por acaso

1 Introdução Estamos no penúltimo domingo do Ano Eclesiástico. Ao término do assim chamado período comum para a igreja, os textos previstos tematizam a escatologia. A comunidade é chamada a refletir sobre a vinda de seu Senhor. Vinda que, a um só tempo, é iminente e imprevisível. Importa, pois, estar preparado. Parafraseando uma música antiga: “é preciso saber viver” sob o cuidado e orientação daquele que diz: Eu sou o Alfa e o Ômega, [...], o Todo-Poderoso, que é, que era e que há de vir (Ap 1.8). Juízes 4.1-7 retrata o tempo dos juízes e das juízas(!) em Israel. A cena provoca a imaginação. Débora, profetisa e juíza, ficava sentada debaixo de uma palmeira. Ali o povo lhe trazia as causas a serem julgadas. O texto em questão, no entanto, trata de uma causa maior. O povo de Israel, como consequência do seu pecado, estava subjugado pelo rei de Canaã, cujo poderoso exército era comandado por Sísera. Débora anuncia que Deus se cansou de ver seu povo sendo oprimido. Baraque é chamado pela profetisa e recebe a ordem de reunir o exército e lutar contra Sísera sob promessa de vitória. Em 1 Tessalonicenses 5.1-11, Paulo tematiza a vinda do Dia do Senhor, reafirmando não caberem especulações quanto à data, pois virá como ladrão da noite. Mesmo tempos de paz (aparente!) não são garantia de que o dia não esteja próximo. Por isso importa estar vigilante e sóbrio. As armas a serem usadas – a fé, o amor e a esperança da salvação – têm a marca da nova aliança. São as armas de quem está em Cristo. Os dois textos são perpassados pelo agir amoroso de Deus, que, bem entendido, não dispensa o juízo. Em Juízes, depois de permitir o sofrimento por algum tempo, Deus ouve o clamor de seu povo e providencia o socorro e a libertação. Em Tessalonicenses, o alerta sobre a vinda do Dia do Senhor vem acompanhado da exortação à vigilância. Mas também vem acompanhado de alento, pois quem está em Cristo não tem o que temer. Os textos de leitura contêm lei e evangelho. É um dado a ser considerado, pois, como veremos adiante, o texto da pregação – mais conhecido como parábola dos talentos – é dureza!

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2 Exegese A parábola dos talentos (Almeida e Bíblia de Jerusalém) ou dos três empregados (Bíblia na Linguagem de Hoje/BLH) está, em Mateus, no contexto do discurso escatológico dos capítulos 24 e 25. São as falas de Jesus sobre as coisas últimas. O texto imediatamente anterior é a parábola das dez moças. Por falta de juízo, cinco delas perderam a festa do Reino. A perícope seguinte trata do juízo de forma mais direta, quando serão separadas as ovelhas e as cabras, tendo por critério o que cada qual fez em relação aos doentes, presos, famintos, sedentos e estrangeiros. Percebe-se, pelo contexto imediato, que Mateus confere à parábola dos talentos sentido de “ajuste de contas”. Mateus 25.14-30 encontra paralelo em Lucas 19.11-27. No entanto, as diferenças entre os textos são tantas, que os exegetas sugerem tratar-se de histórias distintas, razão pela qual não vamos nos ater a comparações. Não se verificam maiores problemas na tradução do texto. A BLH converte os talentos (na origem, uma medida de peso) em moedas de ouro. A alteração contribui positivamente, pois quem ouve o texto tem imediatamente a noção de que os valores recebidos pelos empregados eram muito expressivos. Se não há maiores problemas com a tradução, o mesmo não se pode dizer sobre a interpretação da parábola. Talvez seja uma das razões para que o texto estivesse ausente como pregação no Lecionário por mais de dez anos. Jesus foi reconhecido em seu tempo como Mestre. Sua sabedoria e sua capacidade de ensinar eram magistrais. Recorrer a parábolas foi uma das suas marcas. Situações do cotidiano ou do imaginário popular eram para Jesus elementos preciosos para falar das coisas de Deus ou, mais especificamente, para falar do reino de Deus. Afinal, como poderiam as pessoas daquele tempo (e também as de hoje) entender as coisas de Deus se a fala não fosse mediada pela linguagem e pelo simbólico compreensíveis aos humanos? Jesus foi mestre em simplificar as coisas. Mas também sabia falar difícil e ser enigmático e usou esse expediente como meio pedagógico para levar à reflexão. Muitas parábolas de Jesus têm a inspiração na vida do campo, relacionadas a pastores, ovelhas, sementes, semeadores, vinhas... Já a parábola dos talentos se inspira no meio urbano. Ela tem a ver com negociar, fazer o dinheiro se multiplicar, cobrança de juros e sistema bancário. Faz todo o sentido que a parábola tenha sido proferida em Jerusalém. A um público predominantemente urbano cabe relacionar a mensagem com seu cotidiano. Coisa de mestre! Para Brakemeier, “se deve concluir ser a proximidade do reino de Deus na pessoa do Nazareno a chave hermenêutica das parábolas. Elas exigem a interpretação cristológica”. Ora, a parábola dos talentos está entre aquelas cujo início faz alusão direta ao reino dos céus, expressão preferencial de Mateus para reino de Deus: O reino dos céus será como um homem que ia fazer uma viagem [...] (v. 14), o qual chama três empregados para tomar conta dos seus bens durante sua ausência. Os valores diferenciados repassados aos servos são irrelevantes para a interpretação da parábola. Servem apenas para dizer que as quantias foram distri-

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buídas conforme a capacidade de cada um. O mérito de um e outro não é maior no acerto de contas, uma vez que os recursos pertencem ao proprietário. A recompensa, de fato, pela fidelidade do primeiro e do segundo servos é fazer parte da festa (v. 21 e 23). Um cuidado necessário na interpretação das parábolas é perceber para qual ou para quais aspectos a analogia quer apontar. A parábola dos talentos não se presta para fazer apologia da esperteza na multiplicação de recursos financeiros. Também não se presta para justificar a desigualdade social, legitimando o acúmulo de alguns e a miséria de outros. Observa-se também que a parábola original já está acrescida de elementos interpretativos. O proprietário dos bens do início da parábola no final já se transformou em um senhor que joga o terceiro servo na escuridão, onde vai chorar e ranger os dentes (v. 29). Ali o texto já deixou de ser parábola, dando lugar ao linguajar característico de Mateus para expressar o que acontece com os infiéis (assim em 8.12 e 22.13). Por isso, sem ignorar o juízo de Deus, o final do texto não ocupa lugar central. Cabe ainda o cuidado para não dar razão ao terceiro servo quanto à imagem que ele tem de seu senhor. O empregado justifica a atitude de enterrar o dinheiro pela severidade do patrão, atribuindo-lhe dureza de coração e a propensão a colher onde não plantou e a juntar onde não semeou (v. 14). Retoricamente, o senhor faz uso da imagem que o empregado tem a seu respeito para explicar o que deveria efetivamente ter feito com os recursos que lhe foram confiados. Mas isso não quer dizer que o patrão de fato fosse assim. Aliás, fazendo a leitura cristológica do texto, esse aspecto de forma alguma faz jus ao agir de Jesus e a seu ensino sobre justiça. Feitas essas considerações, o acento da parábola recai sobre a forma como três servos administraram os bens do seu senhor, que lhes foram entregues em confiança durante o período de sua ausência. Destaca-se que o primeiro empregado não perde tempo, não fica divagando; ao contrário, imediatamente se põe a negociar. Ele honrou o seu senhor naquilo que lhe cabia. Da mesma forma agiu o segundo servo. Ambos tiveram a confiança e ousaram. Em nenhum momento dão sinal de que o patrão era um carrasco. O argumento do terceiro servo para não negociar com os recursos que recebeu é o medo do patrão. Trata-se de argumento que soa a desculpa. O senhor diz simplesmente que o servo foi mau e preguiçoso. O problema desse empregado foi ter desconfiado do patrão. Desse empregado, assim como dos outros, não foi exigido nada além do que era capaz de fazer. O patrão conhecia seus empregados e considerava-os dignos de dar conta da tarefa que receberam. Não cabia, pois, desconfiança e apatia. O bem que receberam era muito precioso para ficar enterrado. O transcurso da parábola permite supor que, caso o terceiro servo tivesse ousado e tivesse perdido o dinheiro, ainda assim teria sido convidado a participar da festa. A falta de confiança e a apatia foram os motivos de sua condenação. É provável que, na origem, os endereçados da parábola fossem os fariseus e os escribas, especialmente os últimos. Eles eram os “fiéis depositários” da Lei de Deus, ou seja, dos mandamentos. Mas, com sua casuística, conseguiram en-

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terrar o tesouro precioso. Não fizeram render o amor, a justiça e a misericórdia de Deus contidos nas orientações passadas de geração em geração. Mateus já escreve a parábola reinterpretando-a para sua comunidade. De que forma ela fala para nosso tempo?

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Meditação

A parábola dos talentos é inquietante por várias razões. De um lado, parece justificar a desigualdade presente em nosso meio, na qual alguns têm muito e outros têm pouco ou nada. Como se não bastasse a diferença inicial nos recursos que cada um recebeu, no fim das contas quem já tinha muito recebe ainda mais e quem já tinha pouco fica sem nada. Imaginar-se na pele do terceiro servo talvez levasse à conclusão de que se faria o mesmo que ele fez. Por outro lado, quase de imediato, identifica-se o proprietário/patrão com Deus. No início e meio da parábola, a identificação parece coerente. Mas quando o “pobre coitado” (terceiro servo) recebe o veredito, fica-se um tanto indignado. É estranho que Deus possa agir dessa forma, e tem-se a impressão de que alguma coisa nessa história está fora do lugar. Onde está o Deus que se compara ao bom pastor e vai em busca da ovelha perdida, colocando-a sobre os ombros? Onde está o Deus que mostra especial misericórdia pelos pequenos e pelos mais fracos? Qual será a impressão da comunidade ao ouvir o texto? Um ouvido atento poderá fazer perguntas e ter sentimentos semelhantes aos expressos acima. Por outro lado, há de se considerar que a parábola é relativamente conhecida. Ainda assim, o título parábola dos talentos pode estabelecer relação imediata com talentos e capacidades pessoais, fazendo lembrar pessoas talentosas para uma ou outra tarefa. Mesmo que a associação não seja de todo negativa, pois tangencia o sentido da parábola, ainda assim pode desviar do foco principal. O penúltimo domingo do ano eclesiástico confronta a comunidade com o juízo de Deus. É um tema que fica na contramão na pós-modernidade. É quase tão esquisito quanto falar de pecado. Nem por isso deve ser evitado. A Bíblia não esconde que chegará o momento do ajuste de contas. Deus é misericordioso, como vemos no texto de Juízes e em 1 Tessalonicenses, mas não deixa de confrontar o ser humano. Se a graça fosse barata, o terceiro servo teria recebido um afago e o senhor se teria dobrado ao papel de vítima do medo que aquele tentou assumir e deixá-lo-ia igualmente participar da festa. O fermento do reino de Deus está entre nós a partir de Jesus Cristo. Trata-se de mensagem preciosa, libertadora e transformadora. A mensagem preciosa, contudo, não pertence às pessoas. Não é sua propriedade. Pertence ao Criador da vida. Pertence àquele que era, que é e há de vir. A boa-nova vem daquele e pertence àquele que trilhou o caminho da cruz em favor da salvação das pessoas. O reino é de Deus, e não nosso. Mesmo assim, Deus não dispensa as pessoas, dizendo que são inúteis. Ao contrário, no linguajar de Paulo (2Co 4.5-7), Deus coloca esse tesouro em frágeis potes de barro. Ele cria os seres humanos à sua imagem e semelhança e vem a seu encontro oferecendo-lhes o privilégio de serem feitos seus filhos e suas filhas.

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Mas, além disso, entrega em suas mãos algo que apenas cada um pode fazer para que a graça preciosa ganhe corpo neste mundo. Não há por que duvidar da justiça de Deus; por isso o que ele espera de cada um não está além da sua capacidade. Assim como os empregados da parábola, também hoje não se sabe quando o Senhor virá. Nesse tocante, não cabem especulações. Mas é certo que virá. Enquanto isso, não cabe duvidar daquilo que o Senhor confiou nas mãos das pessoas cristãs e das comunidades. Cabe confiar que ele fez cada um assim como é e concedeu dons que, por essa razão, não são fruto do acaso. Há que se cuidar com o medo e com a apatia, pois tesouro precioso existe para ser multiplicado e não para ser enterrado. Aqui há, sim, o risco de ser desqualificado para a festa do Reino. A parábola dos talentos confronta com o juízo de Deus e faz perguntar seriamente o que cada pessoa e comunidade têm feito com aquilo que recebeu de seu Senhor. E aí há um detalhe interessante: na parábola dos talentos, fica a impressão de que o patrão se ausentou deixando que os empregados dessem conta de sua tarefa sozinhos. Nesse ponto, ao lado da tarefa que recebemos, há um grande alento. Se aguardamos a volta do Senhor, não a aguardamos em solidão. No próprio Evangelho de Mateus, quando os discípulos recebem a ordem de pregar o evangelho, eles recebem também a promessa: Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (28.20). Aquele que vem ao encontro, que salva, que concede dons, que confia o tesouro nas mãos dos seus servos, discípulos e discípulas, é o mesmo que promete estar com eles em todos os momentos. Quem se percebe nas mãos de Deus pode confiar, ousar e lançar fora todo o medo.

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Imagens para a prédica

Uma possibilidade de abordagem da parábola é convidar a comunidade para refletir sobre o que considera ser uma pessoa talentosa. A reflexão pode incluir exemplos de pessoas especialmente talentosas em alguma área. Mas pode considerar também em que aspectos cada qual se considera talentoso. A partir disso, esclarecer que na origem a palavra talento significava um peso ou uma quantia em dinheiro. A parábola dos talentos “alterou” o sentido original do termo, dando-lhe o significado de uma aptidão distinta ou uma habilidade natural. Pode-se concluir preliminarmente que todos são talentosos. A questão central que a parábola coloca é o que as pessoas e a comunidade fazem com o conjunto dos talentos que receberam. Uma opção é considerá-los propriedade pessoal e particular, utilizando-os com esperteza para render em benefício pessoal e para ter o reconhecimento por parte das outras pessoas. Aliás, realidade e tentação nada incomuns quando o ser humano se deixa seduzir pelo velho Adão e pela velha Eva presentes em sua vida. Aos olhos de Deus, essa é uma forma clássica de enterrar os talentos. Merece a reprovação e seu juízo. O ensinamento de Jesus sublinha que ninguém é talentoso por si mesmo. Se os talentos estão aí, é porque, em última análise, eles apenas foram confiados às pessoas por algum tempo. Não lhes pertencem como se fossem sua propriedade. Importa, pois, que estejam a serviço daquilo que sinaliza a presença do reino

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de Deus neste mundo. Eles se expressam por meio da fé, do amor e da esperança (1Ts 5.8). Essa é a postura que alegra o Senhor enquanto aguardamos por sua volta. A pregação deveria ainda sinalizar, de acordo com a realidade de cada contexto, para oportunidades concretas que pessoas e comunidades têm para “investir” os talentos em seu meio.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados Reconhecer nossa tendência de achar que aquilo que temos e somos é nossa propriedade particular. Reconhecer que nossa gratidão é minguada. Reconhecer nossa falta de ousadia e negligência com os dons e possibilidades que Deus nos concede de anunciar seu Reino neste mundo. Hinos

HPD 2 – 413: Senhor, se tu me chamas HPD 2 – 359: Te ofertamos

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. As parábolas de Jesus: imagens do reino de Deus. São Leopoldo: Sinodal, 2016. JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1980.

25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES EZEQUIEL 34.11-16,20-29 MATEUS 25.31-46 EFÉSIOS 1.15-23

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AUXÍLIOS ESPECIAIS

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TEMA DO ANO 2017 Alegres, jubilai! Igreja sempre em Reforma: agora são outros 500 Lema Nele vivemos, nos movemos e existimos (Atos 17.28a) Dr. Nestor Paulo Friedrich

Introdução Chegamos ao Jubileu dos 500 anos da Reforma (1517-2017), momento para o qual as igrejas vinham apontando e preparando-se há tempos. No caso da IECLB, os últimos temas e lemas do ano sinalizaram para esse jubileu à medida que trataram sobre pontos centrais da teologia fundamentada no evangelho, conforme interpretado por Martim Lutero. Em 2017, ano do Jubileu, o tema da IECLB convida para celebrar, com alegria e gratidão, a nossa história, destacando aspectos centrais da Reforma. Ao mesmo tempo, queremos avaliar a pertinência dessa herança no tempo presente e sua importância com vistas ao futuro da igreja, na perspectiva da missão. A Igreja de Jesus Cristo é dinâmica. Segundo Lutero, a igreja carece de constante reforma. É característica sua, por isso mesmo é também uma característica da IECLB. Decisivo é que essa dinamicidade não depende da boa vontade humana. Ela se fundamenta na Palavra do Senhor da Igreja, e é isso exatamente o que queremos expressar, refletir e celebrar no Jubileu dos 500 anos da Reforma ao escolher como lema a palavra do apóstolo Paulo: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28a). Essa palavra ilumina o tema do ano: Alegres, jubilai! Igreja sempre em Reforma: agora são outros 500.

Lema “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28a). O versículo-lema faz parte do discurso de Paulo em Atenas, no Areópago (At 17.22-31), durante a sua segunda viagem missionária. Como acontecera em outras cidades, também em Atenas Paulo encontrou um contexto em que a religião e a religiosidade desempenhavam papel importante para a população. Nesse lugar, Paulo abriu o seu “ponto de pregação” (v. 17). Foi questionado: “Qual é a tua, Paulo? Soa-nos muito estranho esse teu discurso!” (v. 18-19). Como discutir religião fazia parte do cotidiano da cidade, Paulo foi convidado a explicar sua “crença”. Levado ao palco especial para debates públicos (o Areópago – um local retirado da cidade), Paulo pregou. Em sua abordagem, assumiu uma atitude respeitosa em relação à religiosidade reinante: “Vejo que vocês são pessoas religiosas (v. 22). Isso se confirma pelo número de altares”.

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Tema do Ano 2017

Apesar de sua estratégia respeitosa, o apóstolo avaliou esse contexto criticamente. Revoltou-se diante do que classificou como idolatria (17.16). Para Paulo, se Deus pudesse ser representado em imagens, seria um deus manipulável e controlável pela vontade humana. Diante do que constata Paulo diz: “Quero lhes falar Daquele que também já recebeu a atenção de vocês, o DEUS DESCONHECIDO (v. 23). Quem é esse Deus?”. Então o apóstolo apresenta Deus, que é muito distinto do rol de divindades adoradas em Atenas. Ele conclama ouvintes ao arrependimento. Anuncia-lhes o evangelho. Para ele, passou o tempo de viver na idolatria. Agora há um imperativo que notifica e requer o arrependimento, pois o Deus do altar desconhecido é o Deus que não cabe nas imagens, nos conceitos, nas molduras e nas definições humanas. Ele sempre será maior do que quaisquer dessas representações. É o Deus que está próximo de cada pessoa. É o Deus Criador. É o Deus que não está preso a lugares, que não se assemelha a imagens, ainda que revestidas de ouro. É o Deus que serve ao invés de querer ser servido. É o Deus que dá e mantém a vida. É o Deus que é Senhor do tempo e dos limites. Ele se fez próximo em Jesus Cristo, aquele que veio, viveu entre nós, que morreu, foi ressuscitado dentre os mortos e que há de vir. Ali estava e está Deus. Assim é Deus. É nesse Deus que “vivemos, nos movemos e existimos” (v. 24-29).

Tema As palavras acima apontam que tudo acontece perante Deus. Passado, presente e futuro estão em sua presença. Não se trata de um Deus severo, controlador. O seu interesse não é punir o ser humano, perante o qual deveríamos ter medo. Como Paulo, Lutero opôs-se a essa imagem de Deus e aos intentos de querer agradá-lo pelo cumprimento de regras ou da compra de indulgências. No lugar do deus que exigia sacrifícios humanos, que teriam como resposta o atendimento dos favores desejados, Lutero descobriu o Deus que já está entre nós e que revelou gratuitamente (por graça) a sua compaixão por nós, seus filhos e suas filhas. A resposta que Deus espera é a aceitação desse presente em atitude de fé que atua no amor. Lutero novamente desvelou o Deus desconhecido que Paulo anunciou no Areópago. Afirmou que a imagem de Deus está em Jesus Cristo crucificado e ressurreto. Trata-se de um Deus que, na cruz, por amor, solidariza-se plenamente com a fragilidade e a miséria humanas. Isso significa que a dor, o sofrimento, a morte e todas as contradições nossas e da criação não são indiferentes a Deus. No Cristo ressurreto encontramos a face do amor como poder que vence os males deste mundo – e até a própria morte. Se o ofendemos, é concedida a nós a possibilidade para o arrependimento e o perdão. Essa aproximação, que nos sustenta em meio à vida e salva-nos da morte, é graça de Deus. Dela nos apropriamos mediante a fé, confiando no anúncio do que Deus faz em Cristo. Essa perspectiva é descrita maravilhosamente em um dos hinos de Lutero: “Alegres jubilai; com fé e com fervor cantai. O que por nós fez o Senhor custou-lhe a própria vida” (HPD 155). É com essa convicção de fé que nos baseamos para, em uma perspectiva

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Tema do Ano 2017

de esperança renovada, no Jubileu dos 500 anos da Reforma anunciar: Alegres, jubilai! Igreja sempre em Reforma: agora são outros 500.

Celebrando a nossa herança Agradecemos a Deus, que guiou a sua igreja na fé, na esperança e no amor. Celebramos o fato de que a sua Palavra interpelou a igreja para a constante reforma, dispondo-a para ser instrumento do Santo Espírito. Como Lei, a sua Palavra denunciou caminhos errados da igreja, chamando-a para a confissão e o arrependimento. Como evangelho, a sua Palavra apontou para a reconciliação que vem do amor de Cristo, que tudo transforma e fortalece. Com alegria celebramos que Deus, por meio de sua Palavra, forma e sustenta comunidade de fé. Isso se dá quando, pelo evangelho, Ele chama pessoas, compromete-as pelo Batismo e envia-as a ser testemunhas da sua missão no mundo por meio da evangelização, da comunhão, da adoração e da diaconia. Celebramos a fidelidade de Deus para com sua igreja e com o mundo, pois Ele sempre vocacionou pessoas para a liderança e os ministérios, fazendo com que a palavra do evangelho fosse proclamada e encarnada na prática da misericórdia, da justiça e da paz.

Celebrando o nosso presente Celebramos com alegria o fato de que nosso viver como igreja de confessionalidade luterana só é possível porque Deus, que se fez presente através de Jesus Cristo, nos carrega, salva, consola e anima. Uma liderança da IECLB traduz essa convicção de fé ao assim descrever a comunidade que integra: “Em meio a teologias que oferecem sucesso, o grupo pequeno da nossa comunidade experimenta que vida de fé não é exclusivamente sucesso, mas alegria, apesar do sofrimento. A perda do filho para a morte ou para a droga. O sofrimento com o cônjuge, com os pais, com os filhos, a perda de emprego. A descoberta de que a vida nos confronta com o sofrimento e as nossas contradições (que somos pessoas justificadas por Deus, mas continuamos simultaneamente pecadoras) não se elimina com êxtase e não se exorciza com palavras de efeito, mas com gestos na comunidade. No centro do evangelho está o Cristo crucificado e ressurreto. Nele vemos para onde Deus olha (Mt 25) e aprendemos a mudar a orientação de nosso olhar”. E ela conclui, citando Paulo: “Decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2.2). Jubilamos porque Deus nos conduziu pelo seu Santo Espírito. Sob a sua orientação, o Plano de Ação Missionária da IECLB (PAMI), fruto de decisão construída conjuntamente, é o instrumento que, nas últimas décadas, nos ajudou a perseguir metas e a assumir compromissos decorrentes do evangelho. É também dessa caminhada histórica que derivam os traços que identificam o “rosto” da IECLB. É por isso que alegres, jubilamos!

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Alegres, jubilamos: – pelo fato de homens, mulheres, jovens e crianças aceitarem o chamado de Deus e colocarem os seus dons a serviço da causa de Deus, vivenciando o sacerdócio geral das pessoas batizadas; – com a prática da diaconia transformadora, que se compromete com ações de inclusão e solidariedade no sofrimento; – com o zelo pela vida celebrativa e a realização de ofícios, proporcionando comunhão e presença em todos os momentos da vida; – com a valorização da música em suas mais diversas formas de expressão; – com as comunidades que procuram ser atrativas e assumem uma prática inclusiva e missionária; – com o testemunho público, assumido por meio de pronunciamentos, manifestos e cartas pastorais sobre temas relevantes da sociedade e do mundo, refletindo a relação indissociável entre ser pessoa cristã e cidadã; – com a presença ativa em espaços ecumênicos e o respeito por parte de igrejas e organismos desse âmbito para com a IECLB; – com o engajamento na questão da justiça socioambiental e do cuidado com a criação; – com a busca persistente por justiça de gênero e pela presença de mulheres em cargos de liderança e no Ministério com Ordenação; – com o anúncio da Palavra, que convida e leva as pessoas a assumir responsabilidades decorrentes da liberdade cristã e capacita-as para o discernimento entre o bem e o mal; – com o batismo de crianças e sua participação plena na Ceia do Senhor; – com o envolvimento na vida educacional de crianças, adolescentes, jovens e adultos e também com a formação continuada das diversas gerações na fé cristã; – com a abertura para o diálogo intereclesiástico e inter-religioso e com o cultivo e a vivência de relações ecumênicas; – com a busca por transparência e o empenho de esforços por uma gestão responsável na vida eclesiástica; – com o fato de sermos Igreja no Brasil, um país continental, abençoado por Deus, com seu colorido cultural, racial, territorial, lugar privilegiado para testemunharmos o evangelho.

Celebrando o nosso futuro À semelhança do apóstolo Paulo e de Lutero, vivemos em um contexto determinado. Queremos continuar sendo igreja que pensa e vive a fé luterana no Brasil. Nessa realidade, estamos dominados e dominadas pela lógica do “deus-mercado”, que não busca comunhão, mas lucro e satisfação de clientes. A força e a sedução desse deus requerem de nós vigilância e autocrítica. Quais são os nossos pecados? Onde e como, à luz dos 500 anos da Reforma, erramos, fomos omissos e omissas, deveríamos ter agido diferente? Onde e quando promovemos o conflito? Buscamos reconciliação? Qual é a culpa que devemos confessar? O

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que temos aprendido para evitar a repetição desses pecados amanhã? Enfim, que igreja desejamos ser nos próximos 500 anos? Agora são outros 500! Como igreja que carrega marcas da Reforma, a nossa herança e os traços do rosto da IECLB encorajam-nos a olhar com confiança para o futuro. Podemos vislumbrar o futuro com esperança a partir da vida e das ações que são fatos reais em nossas comunidades. Dificuldades, reveses e decepções também nos acompanharão no futuro, como foi até aqui. São componentes da Igreja de Jesus. Ainda assim, podemos olhar o futuro e em direção a ele caminhar com alegria perseverante. Decisivo é que a presença da IECLB na missão de Deus não seja obra do acaso, mas fruto do cerne de sua confissão de fé no Cristo revelado pelo Deus desconhecido, identificado por Paulo. Com essa confissão de fé e com esse compromisso queremos continuar a nossa caminhada, sendo igreja que se caracteriza pela comunhão, a qual nos é dada na pessoa de Jesus. Nele é que a comunidade vive, se move e existe em comunhão. Há culpa? Em Jesus há perdão. Há conflito? Em Cristo há reconciliação e transformação. Agora são outros 500. A força que nos moverá é a Palavra, compreendida como a comunicação do amor de Deus, que se dá no testemunho missionário da fé (evangelização), na vivência concreta do corpo de Cristo (comunhão), no agir restaurador e curador (diaconia) e na celebração do amor divino (liturgia). Ao assim firmar-se na Palavra do Senhor, a IECLB procura ser fiel à herança da Reforma, traduzindo-a para o contexto brasileiro. Ao fazer o melhor uso dos seus dons e recursos, a IECLB ocupa um lugar reservado para uma igreja com seu perfil no mapa da Igreja de Jesus Cristo. Assim é que queremos e podemos participar mais e melhor na missão integral de Deus, que liberta, perdoa e consola. Somos uma igreja histórica. Sob a graça de Deus, na companhia e em parceria com outras igrejas, ajudamos a escrever a história da Igreja de Jesus Cristo. Vivemos dessa mesma graça e, a partir dela, cremos e agimos, comunicando o amor e a justiça de Deus. Vislumbramos que a IECLB seja, cada vez mais, reconhecida como igreja de comunidades atrativas, acolhedoras, inclusivas e missionárias. Ao nos associarmos às celebrações do Jubileu dos 500 anos da Reforma, podemos dizer com alegria redobrada: Sou luterano! Sou luterana! Sou parte dessa Igreja sempre em Reforma e agora são outros 500! links:

Arte oficial do cartaz do tema da IECLB 2017 pode ser encontrada nos

Corel Draw https://www.dropbox.com/s/0nq1yroroqxt71n/cartaz_ta2017_final_ v1.cdr?dl=0 PDF https://www.dropbox.com/s/ttme9z6k5q6t56h/cartaz_ta2017_final_v1.pdf?dl=0

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LUTERO E A EDUCAÇÃO PRÉDICA: SALMO 78.1-8 GÁLATAS 3.23-29 MATEUS 28.18-20 Walter Altmann

Nosso legado à futura geração

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Introdução

Comemorando a Reforma. No ano de 2017, as igrejas da Reforma, em particular as luteranas, mas não exclusivamente elas, recordam os 500 anos da Reforma, e isso de múltiplas formas, portanto também em pregações em cultos. É adequado que assim ocorra em gratidão pelo legado evangélico da obra do Reformador, sem, contudo, incorrer em qualquer tipo de glorificação de Lutero. Essa última o próprio Lutero nunca pretendeu e explicitamente rejeitou. É o evangelho que importa, não Lutero. Desse evangelho, porém, Lutero foi testemunha e arauto. A educação. Assim também é oportuno que neste ano se adote, excepcionalmente, a possibilidade de pregar sobre assuntos que ocuparam Lutero intensamente. Um desses temas é a educação. Já em seu escrito À nobreza cristã da nação alemã, acerca da melhoria do estamento cristão, de 1520, em que Lutero advogou uma série de reformas na sociedade de então, ele se ocupou com assuntos educacionais, em particular com a reforma do ensino nas universidades. Em 1524, ele viria a escrever Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas, escrito em que, assim podemos interpretar hoje, pugnou por uma educação pública universal, enfatizando-a como necessária tanto para meninos como para meninas, sem distinção e sem exceção. Foi algo revolucionário para a época, em que a esmagadora maioria da população era analfabeta. Para fazer essas recomendações, Lutero tinha uma dupla motivação. Primeiramente, tendo enfatizado no escrito de 1520 o sacerdócio geral das pessoas que creem, uma decorrência fundamental é que todas as pessoas tivessem acesso à Bíblia para sua própria formação cristã e discernimento da fé. De outra parte, porém, Lutero também divisou o benefício que a sociedade como um todo, em todas as suas esferas, poderia auferir se todas as pessoas fossem escolarizadas. Em 1530, Lutero publicou Uma prédica para que se mandem os filhos à escola, exortando os pais a propiciar o acesso escolar a seus filhos e filhas em vez de retê-los simplesmente como mão de obra auxiliar em seus próprios ofícios. Em suma, Lutero pugnou, em benefício da igreja e da sociedade, por uma educação universal, baseada em processos pedagógicos humanistas, que fizesse uso de um ensino em estilo lúdico e que combinasse o ofício prático do trabalho

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com o aprendizado escolar. Ele foi, em consequência, o maior responsável que levou a uma permanente característica das igrejas da Reforma em associar a escola à igreja. Os imigrantes evangélicos vindos ao Brasil muitas vezes erigiram uma escola também usada para culto, antes de erigir, ao lado, um templo. A escolha dos textos bíblicos. No entanto, ainda que nos reportando a Lutero, não será adequado em culto simplesmente reproduzir o que Lutero disse acerca da educação nem mesmo tomar seus escritos educacionais como condutores da pregação. Também esta pregação, evocando um tema especial da Reforma, deve estar baseada em texto bíblico, pois a linha mestra de qualquer pregação não deixará de ser o texto da Escritura. Assim foi preciso escolher os textos bíblicos orientadores para este culto especial, o que não deixa de ser algo ousado e de ter boa dose de precariedade, pois as séries de perícopes para pregação são o resultado de extenso processo de discernimento teológico e eclesial, mas, neste caso, a escolha teve de ser feita pelo autor deste auxílio homilético. Ademais, precisamente esses escritos educacionais de Lutero não são tratados bíblicos, mas muito mais um arrazoado racional, “político”, poderíamos dizer, e pedagógico, em que as referências bíblicas são apenas esparsas. Como seja, consciente da precariedade aqui exposta, os textos indicados são aqui oferecidos como uma seleção pessoal minha. A seleção de um salmo como texto-base para a pregação. Ousei também indicar um salmo como texto-base para a pregação. Ora, os salmos são já na própria Bíblia, como também na tradição litúrgica da igreja, um livro de orações e assim são assumidos normalmente na liturgia dos cultos. Contudo o Salmo 78, aqui indicado, contém uma peculiar instrução educacional, a saber, a transmissão da história da salvação de geração em geração. O fato de o Salmo 78 ser um dos textos a que Lutero faz referência é uma razão apenas secundária, por ser uma simples referência, sem exposição mais extensa. Mas ele faz jus à ênfase que Lutero deu a suas recomendações educacionais, que não se voltavam apenas à formação cidadã, mas muito em particular à formação de uma sólida consciência cristã de cada pessoa.

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Lutero e os salmos

Lutero lamenta que os salmos tenham sido tão negligenciados, pois eles são “uma pequena Bíblia” (OSel 8, p. 34). Neles, os santos (autores dos salmos) apresentam-se verdadeiramente como são, “como eles se postam diante de Deus, diante de amigos e inimigos, como eles se mantêm e se comportam em todos os perigos e sofrimentos. Encontram-se nele [no livro de Salmos] também todo tipo de ensinamentos e mandamentos divinos e proféticos” [p. 33]. Nos salmos, vemos não apenas as obras dos santos, que são algo exterior, mas ouvimos suas palavras, como falam com Deus e como oram, o que revela seu interior. Ao nos trazer as palavras dos santos, “acima de suas obras”, o livro dos Salmos “nos desvenda o seu coração e o tesouro íntimo de suas almas” [p. 34], o que é incomensuravelmente mais valioso do que observar suas obras, ainda que maravilhosas. Pois, mesmo em meio a tempestades, quem ora com os salmos pode ter

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“segurança e alegria” à base de “esperança e uma confiança atrevida quanto à felicidade futura” [p. 35]. “O que [...] predomina no Livro dos Salmos senão aquele falar com seriedade em meio a todos os tipos de vendavais”, de modo que nos salmos de louvor e de ação de graças podemos encontrar inexcedíveis “palavras de alegria”, enquanto nos salmos de lamentação encontramos palavras de tristeza as “mais profundas”, “como se visses a morte, sim, como se visses o próprio inferno”. Ou seja, os salmos falam de “temor e esperança” de uma forma tão contundente, que pintor algum nem orador algum conseguiriam retratar [p. 35]. Assim, os salmos proporcionam-nos um extraordinário benefício, pois neles se encontram, “na certeza de estar na comunhão dos santos”, “segurança e orientação bem definida, de modo que ali se pode seguir sem perigo a todos os santos” [p. 36]. Em resumo: se queres ver as santas igrejas cristãs pintadas em cores e formas vivas e representadas num pequeno quadro, então olha para o Livro dos Salmos diante de ti. Nele tu tens um espelho fino, claro e puro que te mostrará o que é a cristandade. Sim, dentro dele também tu irás encontrar a ti mesmo [...], além do próprio Deus e todas as criaturas [p. 36].

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Considerações exegéticas

O Salmo 78 é um chamado salmo histórico, mas que também pode ser caracterizado como um salmo didático, destinado ao ensino. À parte do extenso Salmo 119, ele é o mais longo dos salmos. Do ponto de vista da redação, ele certamente não é produto de um único autor, mas combina tradições diferentes e elementos diversos, como os propriamente de reminiscência histórica, de colocações sapienciais e exortações doutrinárias, numa composição deuteronomística, pressupondo o exílio babilônico. Em Mateus 13.35, há referência explícita ao versículo 2 como palavra profética, e João 6.31 cita o versículo 24. No salmo são referidos muitos episódios da história de Israel: desde a maravilhosa saída do Egito até a trágica perda da arca da Lei. Os fatos são referidos não necessariamente em sucessão cronológica, mas sim representativa para o que da história se pode depreender como ensino para a vida e a fé. Nossa perícope restringe-se aos oito primeiros versículos, de certa forma uma súmula do salmo inteiro, trazendo com clareza a exortação para o ensino. Nos versículos 1 e 2, redigidos em estilo sapiencial, “um professor dirige-se a seu público” [Seybold, p. 308]. Ele exorta a ouvir, segundo a versão revista e atualizada da tradução de João Ferreira de Almeida, a “lei”, provavelmente uma referência genérica aos livros do Pentateuco. Melhor é, no contexto de todo o salmo, a tradução como referindo-se à “doutrina” ou simplesmente ao “ensino”, como faz a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), da Sociedade Bíblica do Brasil. Assim também temos a referência clara à educação, intencionada como tema desse auxílio homilético e para a pregação. Como que aos borbotões – assim literalmente –, esse professor trará à tona conhecimentos antigos (revelando “enigmas” ou “segredos”), transmitidos de

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tempos passados, o que sustentará a exortação posterior à transmissão desses mesmos conhecimentos às gerações vindouras. Nos versículos 3 e 4, a comunidade confessante associa-se a seu mestre no compromisso de transmitir à próxima geração o conhecimento dos feitos de Deus na história de seu povo. Eles devem ser vistos em confronto com o versículo 8 (seguido dos versículos 9 a 11), em que se faz referência à inconstância e à infidelidade de gerações passadas, “obstinadas e rebeldes”, razão pela qual o povo veio a sofrer o castigo do exílio. Elas “encobriram” de seus descendentes “as maravilhas” que Deus fizera e os dons que lhes concedera, razão pela qual era importante agora, em tempos pós-exílicos, desvendar “os segredos” dessa história e assumir o compromisso de não incorrer no erro das gerações passadas. De certo modo, seria de se esperar que a partir do versículo 5 seguissem a narrativa do êxodo, isto é, a maravilhosa saída do Egito, a dura passagem pelo deserto e a exitosa entrada na terra prometida, como se encontram mais adiante nos versículos 43 a 55. Seybold (p. 309) chega a aventar a hipótese de que os versículos 5 a 8 tenham sido intercambiados com os versículos 43 a 51. Como seja, o texto segue a partir do versículo 5 de imediato com a questão do relacionamento do povo passado com a lei, o compromisso negligenciado de transmiti-la à geração seguinte. De maneira genérica, sem discorrer sobre como e onde o fato teria ocorrido, o versículo 5 assevera que Deus estabeleceu um testemunho em Jacó e instituiu uma lei em Israel, ao que tudo indica duas versões paralelas para o mesmo evento da instituição da Lei de Deus entre o povo, como orientação para seu comportamento e suas vidas. A instituição da Lei implicava, por isso mesmo, o compromisso de que ela fosse transmitida à geração vindoura, de modo que, segundo o versículo 6, filhas e filhos ainda não nascidos chegassem a seu pleno conhecimento e, por sua vez, dessem testemunho e transmitissem a Lei a seus descendentes. E assim sucessivamente, geração após geração. O versículo 7 deixa claro que o ensino da Lei não visa simplesmente a um conhecimento intelectual. Ao contrário, seu objetivo é a confiança depositada em Deus, ou seja, a fé. A evidência palpável de esse objetivo ter sido alcançado será o não esquecimento dos feitos de Deus e a observância dos mandamentos. Contudo, como o versículo 8 afirma, precisamente isso aconteceu com seus pais, “geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus”. Trata-se de um juízo duro sobre a geração passada, mas que aqui está a serviço não da condenação, mas da exortação a que a geração atual não recaia no mesmo erro, mas, ao contrário, não se esqueça dos feitos de Deus, observe os mandamentos e transmita o ensino da Lei com fidelidade à nova geração. Por fim, ao arrolar as referências que Lutero fez ao Salmo 78, constantes em várias fontes, Mülhaupt (p. 442) cita como resumo dado pelo Reformador: O Salmo 78 é um salmo de doutrina que, através dos exemplos e das histórias de todo o povo de Israel, desde o princípio até Davi, nos ensina a confiar em Deus e a crer e nos adverte diante da desconfiança e da descrença. Ele mostra o castigo que sofreram aquelas pessoas que tiveram desconfiança e a graça que experimentaram aquelas que confiaram.

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Meditação

O texto propicia uma reflexão acerca do fato de que educação é muito mais do que transmissão de conhecimento, mas fundamentalmente uma formação da própria pessoa, a saber, dos valores que dão orientação à sua vida. Assim também era para Lutero. Essa noção básica acerca da natureza e da finalidade da educação é atualmente negligenciada ou desconsiderada muitas vezes. Por exemplo, a limitação de acesso às universidades públicas e a concorrência, em algumas áreas, feroz para obter uma vaga acaba contaminando todo o sistema escolar, visto mais e mais como um treinamento para o vestibular e não como uma preparação para a vida. Aliás, muitos pais e mães fazem esse tipo de exigência em relação à escola de seus filhos e filhas. Uma segunda consideração importante é que o texto bíblico transmite uma palavra de exortação para o povo, não simplesmente para indivíduos. Também Lutero, ao reivindicar uma escola para todas as meninas e meninos sem distinção, coloca de lado o aspecto frequente de competição entre os educandos para enfatizar a comunhão participativa entre eles. A igreja e a sociedade como um todo beneficiar-se-ão com uma formação universal. No texto bíblico, é todo o povo de Israel que é exortado a transmitir à geração seguinte os valores contidos na Lei. Em terceiro lugar, um aspecto específico para a comunidade cristã, mas para ela bem fundamental, é que o “conteúdo” a ser transmitido tem a ver com os feitos de Deus e com seus mandamentos. Ou seja, está em jogo nossa relação com o próprio Deus e não apenas com a comunhão entre nós. O conhecimento dos feitos de Deus evoca o louvor e a gratidão. O conhecimento dos mandamentos de Deus orienta a vida na relação entre os seres humanos. Os outros textos bíblicos sugeridos para o culto servem para realçar, no contexto do tema específico, que o ensino faz parte da missão de Deus (Mateus 28.18-20) e que a Lei de Deus é serva (“aio”, no original “pedagogo”) para o evangelho e para a condução à fé em Cristo.

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Pistas para a prédica

A prédica, sendo temática suscitada pelo posicionamento de Lutero em relação à educação, deverá encontrar o equilíbrio entre as referências a Lutero, sem, porém, glorificá-lo, e o texto do Salmo 78, que coloca a questão do ensino no marco amplo da relação da comunidade de fé com Deus. Assim, sugiro que a ênfase seja dada ao texto bíblico, mas se incluam referências, relativamente breves, acerca de Lutero e da educação. Quem prega haverá de decidir como fazer isso. Poderia haver já no início uma referência aos 500 anos da Reforma e ao posicionamento de Lutero em relação à educação e uma retomada no final da pregação, mantendo-se a exposição bíblica como corpo maior da pregação. Mas também seria possível o inverso, ou seja, começar desde logo com o texto bíblico, introduzir a referência aos 500 anos da Reforma e a Lutero no transcurso da prédica para retornar ao texto bíblico como fechamento.

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Essa última opção poderia ter a seguinte sequência: • O Salmo 78 lembra-nos que temos uma história com Deus, uma história na qual Deus nos faz experimentar maravilhosos feitos, pelos quais podemos ser gratos e expressar louvor a Deus. De semelhante modo, Deus nos faz saber sua vontade, pela qual podemos orientar nossas vidas. • Disso decorre nossa responsabilidade em transmitir nossa fé a nossos filhos e filhas, à próxima geração. Referência pode ser feita ao ensino e à oração no âmbito familiar, bem como ao envolvimento na vida da comunidade de fé. • Isso é algo que podemos então relacionar a Lutero, em particular neste ano em que lembramos e comemoramos os 500 anos da Reforma. Em seus escritos educacionais, vemos o papel fundamental que o Reformador viu na educação, tanto para a formação pessoal das pessoas como para a integridade da igreja e o bem-estar social. • Retornando ao texto do Salmo 78, podemos lembrar a tentação sempre existente de negligenciar o ensino da palavra de Deus, tanto do evangelho (boa-nova) como da vontade de Deus (mandamentos). Por isso somos permanentemente exortados a colocar nossa confiança e coração em Deus, em Deus somente.

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Subsídios litúrgicos

As orações do culto haverão de expressar a gratidão pela graça experimentada nos maravilhosos feitos de Deus, bem como pelo legado de fé e ensino que recebemos de gerações passadas, de pedir perdão na medida em que temos negligenciado nossa responsabilidade para com a geração vindoura (nossos filhos e filhas) e de interceder em favor de que o Espírito de Deus nos guie no exercício de nossa responsabilidade educacional. Também que os governantes de nosso país e de todas as nações possam efetivamente priorizar a educação e que essa seja propícia à formação cidadã. E que as igrejas não negligenciem o ensino da fé. Hinos: do HPD 1, o hino 233 (“Até aqui me trouxe Deus”) e do HPD 2, o hino 413 (“Senhor, se tu me chamas”).

Bibliografia ALTMANN, Walter. Lutero e libertação: Releitura de Lutero em perspectiva latino-americana. 2. ed. revista e ampliada. São Leopoldo: Sinodal, Faculdades EST, 2016. 422 p. [Aqui p. 236-250.] Observação: As obras de Lutero, a seguir arroladas, são citadas no auxílio homilético como OSel [abreviatura para Obras Selecionadas], seguido do número do volume e página(s). LUTERO, Martinho. Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas. In: Obras selecionadas. Vol. 5 (São Leopoldo, Porto Alegre: Sinodal, Concórdia, 1995). p. 302-325. _____. À nobreza cristã da nação alemã, acerca da melhoria do estamento cristão. In: Obras selecionadas. Vol. 2 (São Leopoldo, Porto Alegre: Sinodal, Concórdia, 1989). p. 279-340.

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_____. Uma prédica para que se mandem os filhos à escola. In: Obras selecionadas. Vol. 5 (São Leopoldo, Porto Alegre: Sinodal, Concórdia, 1995). p. 327363. _____. Prefácio ao Livro dos Salmos. In: Obras selecionadas. Vol. 8 (São Leopoldo, Porto Alegre: Sinodal, Concórdia, 2003). p. 33-37. MÜHLHAUPT, Erwin (ed.). D. Martin Luthers Psalmen-Auslegung. 2. Vol.: Psalmen 26-90. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1962. 552 p. [Aqui p. 440-452.] SEYBOLD, Klaus. Die Psalmen. Tübingen: J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 1996. 548 p. [Aqui p. 303-313.]

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XLI A ceia do Senhor – O sacramento do altar ..................................................................... XXXIX, 369 Advento – Celebração .......................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio ....................................................................................................XV, 304 Ação de graças ................................................................................XII, 300; XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita ........................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370; XXXVI, 365; .......................................................................................................................................XXXVII, 348 Achados e perdidos – experiências .................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) ...............IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ........................... X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) ...........................................................IX, 83 As três primeiras petições do Pai-Nosso ........................................................................ XXXIX, 359 A velhice ...................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para ....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de .............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial .............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) ............................................................................................................................... XX, 351 (Ct 8.7) .................................................................................................................................. XX, 353 (Ec 4.9-12) ...........................................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................................ XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ..............................................................................................................................XV, 77 Breve exortação à confissão ........................................................................................... XXXIX, 375 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3) ........................................................................................................................ XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ............................ XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular ..................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16)............................................................................................................. X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)........................................................................................................ II, 187 (Dt 30.11-20) .......................................................................................................................... VIII, 23 (Jo 6.66-69) ........................................................................................................................... XII, 293 (Mt 5.14-16) .......................................................................................................................... XX, 339 (Ap 1.9-18)............................................................................................................................ XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ........................................................ XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2Co 8.1-5) ......................................................... XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1)........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo ............................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ..................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1Sm 11.1-15) ................................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ........................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)...................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ........................................................................................................................ XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1Co 8.2) ........................................................ XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ............................................... XII, 27

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Deus na marginalidade .............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo .........................................................................................................XXVI, 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38) .............................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) ..................................................................................................................................VI, 48 (1Tm 4.4-5) .......................................................................................................................... XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43).......................................................................................................... XVIII, 289 Dia da Colheita (2Co 9.6-15) ....................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11) ........................................................................................................................... XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .....................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ..................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21) .............................................................................................................................. I, 143 (1Co 15.50-58) ....................................................................................................................... III, 176 (1Co 15.35-39,42b-44)..............................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33) ....................................................................................................................... VIII, 336 (2Pe 3.8-14)........................................................................................................................ XVII, 237 (Jo 5.24-29) ....................................................................................................................... XVIII, 267 (1Co 15.12-20) .................................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10).......................................................................................................................XXXV, 347 (1Ts 4.13-18) .................................................................................................................. XXXVI, 335 Dia da Independência (1Pe 2.13-17) ..........................................................................................I, 109 (1Tm 2.1-4) .............................................................................................................................. II, 336 (Mc 12.13-17) .........................................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16)............................................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13) .................................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) .......................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36) .............................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) ...........................................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10) .............................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7)................................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33) ........................................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12)........................................................................................................................... VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ................................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6).........................................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13) ...........................................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36) ....................................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) .......................................................................................................................XXXII, 307 (Jr 31.31-34)................................................................................................................... XXXVI, 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...............................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..............................................................................................III, 62 (2Ts 3.6-13) .................................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1Co 7.29-32a) .............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ...................................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6) ............................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) .........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música .................................................XXXIII, 401; XXXVII, 353 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])............. XII, 307 (Ap 3.14-22)......................................................................................................................... XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16) .............................................. XX, 309; XXXVI, 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) .......................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ................................................... X, 25

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Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) .............................. XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ...............................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) ...........................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) ...........................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ............................................................................................................... XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...” .......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .............................................. X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) ...........................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ........................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25).......................................................................................................................... XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ........................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) .......................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ........................................................................... XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .............................................................. X, 74 Joga limpo, Brasil ....................................................................................................... XXXVIII, 363 Jubileu 500 anos da Reforma ...................................................................................... XXXVIII, 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ....................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay .......................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ........................................................................IX, 57 Lutero e a educação..............................................................................................................XLI, 345 Lutero e a música ...................................................................................................................XL, 335 Marketing e igreja .................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...............................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) .............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..............................................XI, 65 Missão (1 Co 12).................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10) ..... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ................................ X, 106 Mulheres agricultoras.............................................................................................................XVI, 15 Mulheres na Reforma Protestante ..........................................................................................XL, 341 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1Co 1.26-31) ..................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ........................................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .............................................. II, 176 Lucas ........................................................................................................................................ X,139 João ......................................................................................................................................... VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................................................ XII, 34 O desafio de ser autor de PL ....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças...............................................................................XV, 33

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O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .............................................. X, 48 O Lecionário Ecumênico .......................................................................................................XV, 315 O nosso Pai que está no céu ........................................................................................... XXXIX, 351 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2Co 8.1-15) ..................................................................................................... XIII, 18 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade ................................................................................ XXXIX, 364 Palavra e pregação em Lutero ................................................................................................XL, 348 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................ XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1Jo 4.1-6) ..................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (Jo 11.17-37) ........................................................ XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ........................................................... XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ............... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1Pe 2.15-17) ........................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ....................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1Rs 12.1-15) ..................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).................................................................XI, 85 Semana do excepcional ...................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) ........................................................................................................................... XX, 355 (Jo 19.25-27) ......................................................................................................................... XX, 360 (Sl 39.5-7) ............................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) .....................................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8) ....................................................................................................................... XXVIII, 365 Servo-arbítrio / livre-arbítrio..................................................................................................XL, 329 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1Co 12.20-26) ..........................................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém .....................................................................................................................XVI,37 Tema e Lema da IECLB 2017 ….........................................................................................XLI, 339 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ............................. XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ............................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ................................................................................ XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram ............................................................. XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (Gn 2.8-15) ............................................................................ XIII, 74 Vigília pascal ........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................ XII, 61

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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XLI ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ............ VIII,185 1.26-31; 2.1-3 ......................................... III,105 2.4-15 ............................................ XXVIII,301 2.4b-15 .................................V,330; XXXV,211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ............. XXX,66; XVIII,84; XXXV,127; XL,150 2.8-15 .................................................... XIII,74 2.18-24 ............................ XXII,254; XXV,282; ....................................................... XXXIII,343 3.1-9 ......................................................XII,170 3.1-19(20-24) ..................................... XXV,214 3.1-24 .....................................................VI,133 3.8-15 ............................................ XXXIX,195 4.1-16 ....................................VII,203; XIII,246 8.1-13 ....................................................XV,135 8.15-22 ..................................................I,71; 78 11.1-9 .................................. XII,205; XVII,130 12.1-4 ................................................. XVIII,88 12.1-4a .........................VII,165; XXXVIII,125 15.1-6 ........... XXVI,256; XXXIV,283; XL,231 17.1-13 ..............................................XXVII,40 18.1-10a(10b-14) .......... XX,208; XXXVII,223 18.20-21(22)23-32 ............................... XX,214 21.8-21 .................................................. XIII,60 22.1-13 ...................................................VI,144 22.1-14(15-18) .....................................XXII,65 28.10-17(18-22) ...................................XXII,71 32.23-31 .............................................XVII,240 32.23-33 ..........................................II,207(374) 50.15-21 ...................... XXIV,272; XXVII,240; ................................ XXXV,295; XXXVIII,284 Êxodo 1.8-22 ........................................ IX,107 2.1-10 ............................................ XXVIII,181 3.1-14 ....................................................XII,154 3.1-8,13-15 ....................................... XXVI,108 6.2-8 ................................XVIII,218; XXX,214 12.1-14 ..................................XXI,108; XL,109 13.20-22 ............................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) ........... XXVIII,276 16.2-4,9-15 .................................... XXXVI,251 16.2-3,11-18 .........................................XIV,283 19.2-8a ............................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ...................XXII,75 22.21-27 .............................................. XXI,280 24.1-11 ................... XXXII,123; XXXVIII,146 24.3-11 ........ XVI,224; XXV,164; XXVIII,272 24.12,15-18 ........................ XXI,78; XXXII,79 32.7-14 ........XV,225; XXIII,177; XXXVII,272 33.18-23 .................................................VI,102 34.4b-10 ...................................III,153; XV,273

34.29-35 ........................XXV,123; XXXVII,87 Levítico 19.1-2,9-18 ...................XXXVIII,101 Números 6.22-27 ........................... XXXIII,58; XXXVI,48; XL,48 11.11-12,14-17,24-25 .......................... VIII,205 11.24-30 .......................... XXXII,169; XLI,196 12.9-16 ....................................................XII,18 21.4-9 ...................VII,101; XIII,159; XXII,80; XXXIII,146; XXXIX,114 24.15-19 ................................................XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII,235; ....................................................... XXXVI,274 4.32-34, 39-40 ................................XXVII,148 5.12-15 ............................ III,43; XXXVIII,171 6.1-9 .............................................. XXXIII,373 6.4-9 ......................................XV,246, XIX,164 7.6-12 .....................................................VI,219 8.6-10 ......................................................XII,11 8.7-18 ...........................................XXXVII,348 10.12-22 ........................................... XXVI,336 11.18-21,26-28 ................XXI,164; XXXII,184 17.14-20 ..................................................XII,51 18.15-20 .......... XIX,67; XXXI,57; XXXIII,92; ......................................................... XXXIX,81 24.14-15 ...................................................IX,63 26.1-11 .............................. XXXIII,394; XL,81 26.3-11 ............................................... XXVI,91 30.9-14 ...........................................XXXIV,257 30.11-20 ............................................... VIII, 23 30.15-20 .......................XXXIV,303; XXXV,93 32.36-39 ............................................. XXIII,79 34.1-12 ................................XVII,74; XXIX,77 Josué 1.1-9..............................................VII,36 8.1-8 ........................................................XII,61 24.1-2a,13-25 ................... III,117; XXXIX,262 Juízes 4.1-7 .....................................XXXII,319 5.24-31 ...................................................... X,37 9.7-15 .......................................................IX,98 Rute 1.1-19a .................................... XXIX,289 1 Samuel 2.1-10.............. II,176 (343); VII,113 2.18-20,26 ...............................................XL,43 3.1-10(19).............................XIX,55; XXXI,44 3.1-10,19 .............................................. XXV,86 11.1-15 .....................................................V,337 2 Samuel 7.1-11,16 ........................ XXXVI,24 7.4-6,12,14a,16 .................................... XXV,35 11.26-12.10,13-15 ........................... XXIX,199; ......................................... XXXIV,231; XL,189 12.1-10,13-14 .........................................IX,264 12.1-10,13-15a ......................................XV,261

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1 Reis 3.5-12 ................ XXIV,240; XXXII,236 3.16-28 .............................................. XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43 .........................XVII,141 8.22-24,26-28 .........................................VI,189 8.22-30 ..................................................XII,191 8.41-43 ............................................ XXIX, 188 17.8-16 ....... XVI,292; XXXI,286; XXXVI,346; ..........................................................XXXIX,332 17.17-24 ...XVII,146; XXIX,192; XXXVII,193 19.1-8(9-13a) .....................................XXII,226 19.1-13a ............................XIV,185; XVIII,204 19.1-18 ..................................................... III,92 19.4-8 ............................................ XXXIII,285 19.9-13a ........................................... XXX,204 19.(14-18)19-21 ..............XVII,159; XXIX,205 2 Reis 2.1-12 ................................ XXXVI,105 2.9-18 ...........................................XXXVII,174 4.42-44 .......................................... XXXIX,238 5.1-14 ................................................. XXXI,71 5.1-19a ....................................................VII,58 Neemias 5.1-5(6-12) ............................. XIII,11 5.1-12 .......................................................IX,83 8.1-2,5-6 ............................XX,183; XXXIV,95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) .. XXXI,263 Jó 7.1-7 ...............................XIX,73; XXXI,63 19.23-27a .....................................XXXVII,329 38.1-11 ............................................... XXV,221 Salmo 1 ......................................... XXXIX,177 16.................................................XXXVIII,165 22........................................................... XL,115 22.1-19 ............................................ XXXV,169 22.1-12,17-20 .................................... XXX,104 22.2-12,17-20 ....................................XVIII,116 23.......................................XXXV,187; XL,137 31.1-5,15-16 ........................................ XLI,171 46.1-7(1-11) ............ XXVI,313; XXXVII,311 105.1-7 ........................................XXXVIII,356 111 ...................................................... XXVI,27 112 ...........................................................XII,77 118.1-2,19-29 ...................................... XLI,130 130.4.........................................................VI,34 147.12-20 ........................................ XXXIX,54 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ....................... XX,225 3.1-8(-13) ...............................VI,48; XXXV,51 3.9-15 ........................................................ X,16 4.1-4 .......................................................... X,84 5.18............................................................ X,65 9.13-18 ...................................................... X,25 Provérbios 8.22-31.......................... XXIII,109 9.1-6,10 ..............................................XXII,230 9.7-13 ............................................... XXIII,172 16.1-9 .................................................... VIII,80 24.10-14 .................................................XII,45 30.5-9 ............................................... XXVI,215

Isaías 1.1-9 ......................................... XIII,116 1.10-17 ..................................................XV,297 2.1-5 .......................... VI,225; XVIII,9; XXX,9 5.1-7 ....................... VII,87; XIII,147; XXI,252 6.1-13 ...................................... VI,198; XII,213 7.10-14 .................................................. XXI,37 7.10-14(15-17) ..................XIII,104; XXXII,27 9.1-4 ..............................................XXXVIII,80 9.1-6 ................................................... XVIII,31 9.1-6,10 ..............................................XXII,230 9.2-7 .................................. V,294; XXXVIII,39 11.1-5 .................................................... XVI,63 11.1-9 ........ XVIII,58; XXXIII,31; XXXVII,31; ............................................................XXXIX,30 11.1-9(10-11)........................................XIV,148 11.1-10 ....................... XXVII,16; XXXVIII,15 12.1-6 ............................................... XXVI,114 24.12-16a ............................................ XIII,312 25.6-8 .................................................. XIX,114 25.6-9 ......... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24 ................................................XII,233 29.18-24 ................................................. III,130 30.(8-14),15-17 ........................................VI,97 33.13-17,22 ................................... XXXVI,187 35.1-10 .......XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; ............. XXXV,22; XXXV,347; XXXVIII,334; ............................................................... XLI,19 35.3-7 ...............................XXXI,248; XIX,237 35.3-10 .....................................X,158; XIV,115 35.4-7a .......................................... XXXIII,315 40.1-11 .......VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 .................................................IX,216 42.1-7(-9) ............XXI,51; XXV,80; XXXV,69; ......................................... XXXIX,131; XLI,64 42.14-21 ..............................XVIII,92; XXX,72 43.1-7 ................................ II,132 (299); XL,58 43.16-21 ..................................................XL,97 44.1-5 ............................................ XXXIII,401 44.6-8 ..................... XXXV,246; XXXVIII,242 44.9- 20 ................................................. XIII,50 45.1-7 ..............................XXI,264; XXXII,293 45.19-25 ................................................XL,298 45.22-25 .......................................... XXVIII,49 49.1-6 .................................III, 85; XXXVII,58 50.4-9 .............................II,28, (195); XIII,166; 50.4-9a ................................................ XXX,94 50.4-10 .............................XIX,241; XXXI,252 51.1-6 ..............................................XXXII,259 52.7-10 ............. XV,100; XXII,37; XXXIII,70; ......................................................... XXXIX,58 52.13-53.12 ................... V,72; IX,196; XV,185; .........................................XII,109; XXXVI,146 53.4-12 .......................................... XXXIX,310 53.10-12 ............................................. XXV,294

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54.7-10 .....................................IX,183; XV,170 55.1-5 ................... III,68; VIII,213; XVIII,198; ............................................XXX,197; XLI,244 55.1-9 .............................................XXXIV,120 55.6-7 .......................................................VI,24 55.6-11 .............................................XXXIV,63 55.(6-9),10-12a ................................... VIII,119 55,10-11 ............................................XXIV,223 56.1,6-8 ........................ XVIII,213; XXX,209; ................................ XXXV,274; XXXVIII,263 58.1-9a ..................................................XV,147 58.1-12 ........... IX,50; XXXIII,125; XXXIX,97 58.5-9a ...............................................XXIV,88 58.7-12 ..................................................XII,300 60.1-6 ..........V,11; VIII,92; XVII,39; XXIV,63; ..................................... XXIX,54; XXXVIII,63 61.1-3(4-9), 11 .................................... XIII,120 61.1-3,10-11 ................................... XXVIII,20 61.1-3,11,10 ............................................VII,44 61.10-62.3 .......... XIX,42; XXV,68; XXVIII,59 62.1-5 ..................................XX,23; XXVIII,31 62.1-12 .........................II,256, (423); VIII,331; 62.6-7,10-12 .................... XIX,279; XXII,272; XXIV,297 63.7-9(10-16) ................... XXIV,44; XXXII,46 63.15-64.3 ............................................. XIII,91 63.15-16; 19b-64. 3 ........................ I,152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ........................XXII,9 64.1-9 .............................. XXXIII,9; XXXIX,9 65.17-25 ................................. IX,15; XXX,133 66.10-14 ....................XXIX,213; XXXVII,217 Jeremias 1.4-10 .................. VII,184; XIII,228; ........................................................XXXVII,82 7.1-11 ................................................. VIII,257 7.1-11(12-1 5) ......................................XIV,301 7.21-26 ................................................ XXX,15 8.4-7 ................................... VIII,349; XIV,390; 9.22-23 ....................................................VII,71 11.18-20 ..........................XIX,246; XXXI,256; ....................................................... XXXIX,287 14.7-10,19-22 ................ XXXVII,305; XL,286 15.15-21 ..........XVIII,222; XXX,220; XLI,266 17.5-8 ................................................. XXIII,55 20.7-13 ....... VIII,145; XXI,181; XXXVIII,219 22.13-19 ................................................ XIII,80 23.1-6 .................................................. XVI,217 23.2-6 ................................................... XX,301 23.5-8 ........................................ VI,62; XII,103 23.16-29 .......................II,144, (311); XIII,209; ......................................................XXXVII,251 26.8-15 ............................................... XXVI,97 28.5-9 ..............................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a ................................................ III,34 31.1-13 ............................................... XXIX,35

31.7-9(-14) .......................XXV,301; XXXV,58 31.10-13(14).........................................XVII,34 31.31-34 .........................XXII,85; XXXVI,329 33.14-16 ............................................... XXVI,9 Lamentações 3.21-26,31-32 .................VI,269 3.21-33 ......................... XXV,226; XXXIX,212 Ezequiel 2.1-5............................... XXXVI,226 2.1-8a ................................................. XXV,231 2.3-8a; 3.17-19 ...............................II, 96, (263) 17.22-24 ........................................ XXXIII,239 18.1-4,21-24,30-32................................IX,247; 18.1-4,25-32 ........................................ XLI,291 18.1-4,25-37 ....................................XXVII,243 33.7-9 ..............................................XXVII,230 34.1-2(3-9), 10-16 ............................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31 ..............................VI,170 34.11-16,23-24 ........... XXIV,328; XXXV,363; .................................................... XXXVIII,347 37.1-3(4-10), 11-14 ......................... XVIII,103 37.1-3,11-14 ........................................ XXX,89 37.1-14 .........XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ....................................................... XXXIII,228 37.24-28 ................................................ VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) ........................ XVI,311; ....................................................... XXXIX,344 12.1-3 .............................. XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2 ...................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ............................................... XXI,169 11.1-4,8-9 ..................... XXIV,323; XXVII,284 Joel 2.1-2,12-17 ...............XXXVI,111; XLI,98 2.12-18 ..................................................XII,166 2.21-27 ............................................XXXII,212 2.28-29 ................................................ XXI,153 Amós 3.1-8 .........................XXIV,75; XXX,54 5.6-7,10-15 .................................... XXXVI,309 5.18-24 ............................ XXXV,352; XLI,326 5.21-24 ....................................................VII,76 6.1-7 .......................... XXIII,189; XXXVII,286 7.7-15 ............................................ XXXIII,264 7.10-15(16-17) ................................... XVI,211 8.4-7 ................................................. XXIII,181 9.7-10 ...................................................... X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............XIX,61; XXXI,52; ......................................................... XXXVI,81 3.10-4.11 .........................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a........................ VI,88; XII,114 5.2-4 ................................................... XXIX,21 5.2-5 .................................. XVI,63; XXVII,29; .............................................. XXXIV,30;XL,24 6.1-8 ............... XXIV,79; XXVII,58; XXXV,87 6.6-8 .....................................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; .....................................XXIX,281; XXXIV,327

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Sofonias 3.14-20 ............... XX,20; XXXVII,20 Zacarias 7.9-10 ............................... XXVI,267 8.1-8 .................................................XXIV,337 9.9-10 ....................X,91; XIX,106; XXXI,107 9.9-12 .................................................. XLI,227 12.7-10(11) .........................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5 ............................................... XXIII,9 NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 ....XVIII,25; XXIV,29; XXX,192.1-12; ..................X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ........... XVII,46; XXXII,62; XXXV,28; XLI,24 2.13-18(-23) ..........................V,304; XXXV,46; .......................................................XXXVIII,47 3.1-12 ............................... XVIII,15; XXIV,24; ............................................. XXXV,14; XLI,14 3.13-17 ..................X,206; XVIII,53; XXIV,67; .................... XXX,44; XXXII,66; XXXVIII,68 4.1-11 ................. IV,14; XXVII,70; XXXII,85; .....................................................XXXVIII,119 4.12-17 ..................................................XII,142 4.12-23 ............................. XVIII,61; XXXV,81 4.23-25 .......................................XII,35; XII,34 5.1-10 ................ IV,212; XXXII,307; XLI,315 5.1-12 ...........................XVIII,64; XXXVIII,85 5.13-16 ................................................... X,390; 5.13-16(17-20) ................................... XVIII,69 5.13-20 .................................................. XLI,81 5.17-20 ................................................... IV,125 5.20-37 .........................XVIII,73; XXXVIII,96 5.38-48 ..............................II,193,(360); X,460; ............................................. XXXV,99; XLI,92 6.1-4 ....................................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-21 .............. XXXIV,115; XXXVII,94; .....................................................XXXVIII,114 6.5-13 .............................. II,57, (224); XIV,247 6.9-13 ....................................... VI,53; VIII,192 6.16-18 ................................................... IV,133 6.24-34 ............................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 ...........................X,428; XXXVIII,352 7.15-23 ................................................... IV,140 7.21-29 ........ XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 ...................................................VI,233 9.1-8 ....................................................... IV,198 9.9-13 ........... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 .......................................... XVIII,170 10.7-15 ..........................................II,104, (271) 10.24-39 .......................... XXXII,204; XLI,216 10.26-33 ........................ XVIII,176; XXX,168; ........................................................XXXIV,347 10.26b-33 ............................... VI,291; XII,268

10.26-36 ............................................XXIV,203 10.34-39 ................................................XII,274 10.34-42 ..........................XVIII,181; XXX,174 10.40-42 ................ XXXV,229; XXXVIII,225; ............................................................. XLI,222 11.2-10 .................................................... X,170 11.2-11............... III,215;; XXI,30; XXVII, 22; .................................... XXXII,21; XXXVIII,21 11.16-19,25-30 ................................XXXII,221 11.25-30 ...... XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.14-21 .......................................... XXXVI,63 12.22-30 ................................................. IV,217 12.33-35(36-37) ....................................XII,307 12.38-42 ........................ II, 225, (292); XII,175 13.1-9(18-23) ................ XXI,196; XXVII,188; ...................................... XXX,189; XXXV,240; ....................................XXXVIII,237; XLI,233 13.24-30(36-43) .............. XVIII,289; XXI,203; .........................................................XXXII,229 13.31-33 ......................................XXXVIII,247 13.44-46 ......................II, 150, (317); VIII,253; ......................................... XIV,295;XXXV, 253 13.44-52 ..........................XXI,207; XXVII,194 14.13-21 .......................... XXI,213; XXIV,245; ..................................... XXVII,198;XXXII,241 14.22-33.. .......VI,109; XXIV,249; XXVII,202; .................XXXV,267; XXXVIII,258; XLI,249 15.21-28 .......... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; .........................................................XXXII,255 16.13-19 ............................................. XXIII,40 16.13-20 ...................... XXIV,260; XXVII,216; .................XXXV,278; XXXVIII,268; XLI,259 16.13-20(23)................................... II,72, (239) 16.21-26 ........................ XXI,223; XXVII,222; .........................................................XXXII,264 17.1-9 ................... X,216; XVIII,78; XXX,60; ......................................................... XXXV,114 18.1-5 .................... XXXVII,48; XXXVIII,310 18.15-20 .................... II,123,(290); XVIII,226; ........................XXX,227; XXXV,290; XLI,273 18.21-35 ............ X,467; XVIII,232; XXX,234; .........................................................XXXII,269 19.16-26 ....................................... II,182, (349) 20.1-16a .....IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 ........................XXIX,296; XXXV,302; .....................................XXXVIII,290; XLI,285 20.17-28 .............................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 ......................................... III,194; X,149 21.1-11 ........................................XXXVIII,140 21.14-17 .......................... II,52, (219); XII,185; ......................................................XXXVII,353 21.23-32 ..........................................XXXII,282 21.28-32 .............................. VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46) .............. XVIII,250; XXXV,315;

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.....................................XXXVIII,304; XLI,297 22.1-10 (11-14) ..............XXX,243; XVIII,254 22.1-14 .................IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22) .............. XVIII,259; XXXV,323; .....................................XXXVIII,314; XLI,308 22.23-33 ............... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 ................................................. IV,194 22.34-40(41-46) ............ XXX,253; XXXII,298 23.1-12 .....II,158, (325); XXX,259;XXXV,335 24.1-14 .................................. VI,68; XVIII,275 24.15-28 ................................................. IV,222 24.37-44 .............. XXI,21; XXVII,9; XXXII,9; .........................................................XXXVIII,9 25.1-13 .................. IV,243; XI,336; XXIV,312; ........................................................... XXX,277 25.14-30 ..........................II, 233, (400); X,394; ..........................XVIII,272;XXX,286; XLI,331 25.31-37 ........................................... XVIII,297 25.31-46 ................ IV,231; X,472; XVIII,298; ..................... XXI,302; XXVII,291; XXXII,51; ........................................... XXXII,324; XLI,44 26.14-27.66 ..................................... XXXV,157 26.30-56 .......................................... XVIII, 109 26.36-46(-56) ......................VI,29; XXXV,162; .....................................................XXXVIII,154 26.36-56 .............................................. XLI,135 26.57-75 ...........................................XXIV,122 27.11-26 .......................................... XXXII,116 27.33-50(51-54) ..........VIII,162; XXXVIII,154 27.33-54 ............................XXI,111; XXVII,99 27.33-56 ...............................................XIV,201 28.1-10 ............................... VI,167; XXIV,139; ......................................... XXXV,176; XLI,147 28.16-20 ..........X,374; XXX,156; XXXIV,203; ...........................XXXV,222; XL,156; XLI,205 Marcos 1.1-8 ..................XXII,14; XXVIII,13; ..................................... XXXIII,16; XXXIX,13 1.4-11 ...........XXII,48; XXVIII,64; XXXVI,69 1.9-15 ...................... XXXIII,132; XXXIX,102 1.12-15 ................XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20 ........ XXII,56; XXVIII,73; XXXIII,84; ......................................................... XXXIX,75 1.21-28 .......... XVI,99; XXVIII,79; XXXVI,86 1.29-39 ......................XXVIII,87; XXXIII,101; ......................................................... XXXIX,87 1.32-39 .................................... VI,284; XII,261 1.40-45 .............. VI,258; XII,241; XXXVI,100 2.1-12 ................................ X,453; XXVIII,100 2.18-22 ................................................ VIII,105 2.23-28 .............. VIII,311; XIV,367; XXII,169; ....................................................... XXVIII,228 3.1-6 ........................................................ X,114 3.20-35 ......................... XVI,192; XXVIII,233; ....................................................... XXXVI,209

3.31-35 ...................................................VI,252 4.26-29 ................................................... VI,113 4.26-34 ........................XXII,175; XXVIII,240; ....................................................... XXXVI,216 4.30.32...................................................XII,313 4.35-41 ........XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ................................. XXXIII,244; XXXIX,209 5.21-24a,35-43 ........XXVIII,253; XXXIII,378; ....................................................... XXXIX,327 5.24b-34 .............................................XXII,188 5.25-34 ....................................................XII,27 6.1-6 .............XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 ...................... XXXIII,256; XXXIX,218 6.6b-13 ...............................XIX,201; XXV,236 6.14-29 ................................ X,74; XXXVI,235 6.30-34 ............XIX,206; XXV,241;XXXI,208; ....................................................... XXXIII,270 6.30-34,53-56 ................................ XXXIX,231 6.34-44 ............................................. XXX,247 7.1-8,14-15,21-23.............XIX,233;XXXI,242; ................................. XXXIII,309; XXXIX,270 7.24-37 .......................................... XXXVI,279 7.31-37 .....................IV,163; X,408; XXII,239; ....................................................... XXVIII,307 8.22-26 .................................VIII,269; XIV,317 8.27-35 ........................ XVI,247; XXXIII, 323; ....................................................... XXXIX,280 8.31-38 ....................X,234; XIX,83; XXV,134; ...................................... XXXI,91; XXXVI,121 9.2-9 ..........XVI,105; XXVIII,108;XXXIII,119 9.17-29 ...................................................VI,278 9.30-37 ........ XVI,255; XXII,245; XXXVI,289 9.38-50 ........................XXII,250; XXVIII,322; ................................. XXXIII,334; XXXIX,293 9.43-48 ..........................II,138, (305); XVI,263 10.2-12 .................... XXVIII,326; XXXVI,303 10.13-16 ........................................ XXVIII,313 10.17-27 .............XII,256; XVI,268; XXII,260; ...................................................... XXXIII, 348 10.17-31 ........................................ XXXIX,305 10.32-45 .................................................. X,106 10.35-45 ....................... XXVIII,289; XVI,277; ..................................XXXIV,270; XXXVI,316 10.46-52 ........XVI,283; XXII,265; XXXIX,315 11.1-11..................... XXXIII,160; XXXIX,126 12.1-12 ................................................... X,242 12.13-17 ................................................. III,138 12.28-34 ........................................ XXXVI,340 12.41-44 ..........VI,138; XXII,281; XXXIII,387 13.1-8 ............................................ XXXVI,353 13.1-13 .........XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 ........................................ XXVIII,358 13.24-37 ............................................ XXXVI,9 13.31-37 ...............................................XIV,397

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13.33-37 ...................................XXV,17; XIX,9 14.3-9 ..................................... VI,149; XXII,93 14.6-9 ....................................................XII,181 14.12-26 ........................... XVI,134; XXII,104; ................................. XXVIII,144; XXXVI,140 14.17-26 .................................................VI,156 15.1-15(16-20) .............. XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 .......IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; ................................. XXVIII,159; XXXVI,152 16.9-14(15-20) .....................VIII,173; XIV,225 16.12-18 .................. XXXIII,184; XXXIX,148 16.14-20 ................................................... IV,77 Lucas 1.1-4 ...................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 ..................... VI,81; XII,109 1.26-38 ................... XVI,56; XIX,27; XXII,28; ..................XXVIII,26; XXXIII,24; XXXIX,24 1.39-45(46-55) .............XXVI,20; XXXVII,26 1.(39-45)46-55(56) ................................. X,175 1.46-55 ....................................................V,288 1.57-66 ..............................................XXIV,200 1.67-79 .......................................V,270; VIII,30 2.1-7 ......... XXX,24; XXXIV,38; XXXVIII,33; .............................................XXXIX,36; XL,29 2.1-7,8-14,15-20.................................... XVI,63 2.1-14 .............. I,161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20 ................. XXIV,41; XXXIV,69; .......................................... XXXVII,54; XLI,50 2.1-20 ....................... III,218; IV,273; XVII,28; .......... XXI,41; XXIII,21; XXIV,34; XXVII,34; ........................................... XIX,26; XXXIII,37 2.22-40 ............................................ XXXVI,56 2.41-52 ................................................... XX,35 3.1-9 ................................... V,281; XXXVII,14 3.1-14 .......................................................VI,76 3.7-18 ................XVII,21; XXIII,15; XXIX,16; ............................................. XXXIV,24; XL,18 3.15-17,21-22 ....................... XX,40; XXVI,36; ........................................................XXXVII,64 4.1-13 .........XXIII,60; XXIX,81; XXXVII,100 4.14-21 .............. VI,19; XXVI,47; XXXVII,76 4.14-21(22) .............. XX,50; XX,59; XXVI,47 4.16-21 .................................................... X,186 4.21-30 ..........................XXVI,54; XXXIV,100 5.1-11 ........ IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI,59 6.17-26 .................................. XX,69; XXVI,66 6.27-38 .................................. XX,73; XXVI,74 6.36-42 ........................................IV,112; X,368 7.1-10 .................................XXVI,206; XL,176 7.11-17 ....................................IV,186; VIII,293 7.36-50 ............. VIII,262; XIV,309; XXVI,220 7.36-8.3 ........................................XXXVII,199 8.4-10 ...................................................... X,228 8.26-39 ............................ XXXIV,237; XL,196 9.10-17 ................................................ VIII,241

9.18-24(25-26) .................. XX,190; XXVI,226 9.28-36 .............XX,82; XXVI,85; XXXIV,109 9.51-56 ..................................................XV,167 9.51-62 .......................... XX,198; XXXVII,212 9.57-62 ................................................... X,251 10.1-11,16-20 .................. XXXIV,252; XL,209 10.1-12,16 ............................................ XX,204 10.17-20 ............................................XXIV,285 10.21-24 .........................................II, 82, (249) 10.25-37 ..............X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ........... VI,124; XVII,170; XXIII,140; ..................... XXIX,216; XXXIV, 264; XL,214 11.1-13 ......................... XXIII,145; XXIX,223; ......................................................XXXVII,229 11.5-13 ...................................................VI,184 11.14-23 .................................. VI,297; XII,283 12.13-21 ...................... XXIII,149; XXIX,228; ......................................... XXXIV,278; XL,224 12.32-40 ..................... XVII,183; XXXVII,241 12.35-40 ................................................ III,226 12.41-48 .................................................VI,302 12.42-48 ................................................XII,289 12.49-53 ......XVII,189; XXIII,154; XXIX,235; ......................................... XXXIV,289; XL,237 13.1-9 ............... XVII,83; XXIII,72; XXIX,93; ...................................................... XXXVII,111 13.10-17 .......................................XXXVII,257 13.22-30 .......XVII,193; XXIII,159; XXIX,241 13.31-35 ............XVII,78; XXIII,65; XXIX,88; .................................................................XL,87 14.1,7-14 ........XXIII,167; XXIX,247; XL,248 14.7-14 ..............................................XVII,196 14.15-24 ....................................... IV,96; X,354 14.25-33 .......... VIII,235; XX,251; XXVI, 277; ......................................................XXXVII,266 15.1-3,11b-32 .................. XII,220; XXXIV,125 15.1-3,11-32 ........IV,209; XVII,88; XXIX,100; .................................................................XL,92 15.1-7(8-10) ............................................ X,361 15.1-10 .............. IV,106; XX,255; XXXIV,309; ...............................................................XL,252 15.8-32 .......................................... XXVIII,265 16.1-9 ..................................................... IV,147 16.1-13 ...........XX,260; XXVI,286; XXXVII,277 16.19-31 .............. IV,88; XX,265; XXXIV,321; ...............................................................XL,262 17.1-10 .............................. XX,270; XXVI,298 17.5-6 ...................................VIII,286; XIV,346 17.5-10 .........................................XXXVII,291 17.7-10 ................................... VI,117; XII,160 17.11-19 .................. IV, 172; X, 421; XX, 275; ...................... XXVI,305; XXXIV,371; XL,275 17.20-35 ...................................................V,275 18.1-8a ............................. XX,291; XXIII,213

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18.1-8 .......... VIII,343; XXVI,325; XXXVII,301 18.9-14 ........ IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23 ................................................XII,249 18.31-43 .............................................. VIII,124 19.1-10 ......... II,112, (279); VIII,219; XIV,275; ....................................... XXXVII,324; XL,292 19.28-40 .....................XXVI,121; XXXIV,138; ........................................XXXVII,116; XL,103 19.41-48 ..................................... IV,153; X,401 20.9-19 ..............................XVII,94; XXIX,105 20.27-38 ......................XXIII,223; XXXIV,359 21.5-19 .......................... XX,296; XXXVII,336 21.25-36 .................................. III,209; XVII,9; ................................................. XXXIV,9; XL,9 22.7-20 .............................. XX,116; XXVI,126 22.31-34 ..............................VIII,131; XIV,172 23.33-43 ....... XXVI,344; XXXIV,365; XL,322 23.(26-32)33-49 ..............XVII,102; XXIX,119 23.33-49 ..........................VI,162; XXXVII,127 23.35-43 .............................................XVII,248 24.1-11(12) ........................................... XX,127 24.1-12 ...............II,201; XXXVII,132; XL,121 24.13-35 ............. VI,40; XXI,125; XXVII,114; ................................ XXXII,137; XXXVIII,176 24.36-49 ........XVI,164; XIX,128; XXXVI,162 24.44-53 .................... XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53 ................ XIX,148; XXII,145 24.50-53 ................................................. X,331; João 1.1-5.9-14 ....XIX,35; XXV,39; XXXI,24; ........................................... XXXVII,36; XL,35 1.1-18 ................................ XXIII,30; XXIX,46 1.(1-9)10-18 ..............XXXIII,64; XXXVIII,59 1.6-8,19-28 ............XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) .................. VIII,49; XXXVI,19 1.29-34 ................................................. VIII,98 1.29-34(35-41) ................... XVIII,57; XXI,55; ............................................. XXXV,75; XLI,70 1.35-42 ..................................................XII,227 1.43-51 .................. XII,129; XVI,92; XXII,52; ......XXVIII,68; XXXIV,80; XXXVI,76; XL,53 2.1-11 ........................IX,41; XX,44; XXVI,40; ............................................. XXXIV,89; XL,64 2.13-22 .....................................VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ................................................ X,347 3.1-17 ....... XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ..................XXXIII,232; XXXIX,189; XLI,112 3.14-21 ...............XIX,95; XXV,144; XXXI,96; ....................................................... XXXVI,128 4.1-11 .............................................. XXXI,149 4.5-26 ................................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 ..........................................II, 89, (256) 4.46-54 ..................................................XII,148 5.1-9 .............................................XXXVII,168 5.1-16 ...................................................XIV,360

5.1-16(18)............................................ VIII,304 5.19-21 .................................................XIV,215 5.24-29 .......XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; ........................................................... XXX,271 5.39-47 ...................................................VI,204 6.1-15 ......... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; .................................... XXXI,213; XXXVI,245 6.(22-23)24-35 ..................XIX,217; XXV,254; ................ XXI,218; XXXIII,280; XXXVI,365; ....................................................... XXXIX,245 6.35...................................................... VIII,151 6.37-40(41-43),44 ........................II, 200, (367) 6.35,41-51 ..................................... XXXVI,257 6.41-51 ....... XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; .......................................................... XXXI,226 6.51-58 ............................XIX,225; XXXI,232; ................................. XXXIII,292; XXXIX,257 6.56-69 .......................................... XXXVI,269 6.60-69 ............XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 ..................................................XII,293 7.14-18 .................................................. VIII,87 7.37-39a ........................... XVI,187; XXII,158; ........................................................XXVIII,211 7.37-39 ..................VI,194; XII,199; XXII,158; ......................................................... XXXV,216 8.1-11 .................................................. VIII,228 8.21-30 .................................VIII,138; XIV,179 8.31-36 ........ II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; .......................................................... XXIII,209 9.1-7 .....................................VIII,248; XIV,290 9.1-11 ..........................................XXXVIII,135 9.1-41 ..............................................XXXII,104 9.13-17,34-39 ......................XXI,91; XXVII,81 9.35-41 ................................................ VIII,299 10.1-5,27-30 ....................................II,40, (207) 10.1-10.. .........................XXI,133; XXVII,119; ......................................... XXXII,144; XLI,165 10.11-16 ................................................... IV,53 10.11-18 .........XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ....................................................... XXXIII,199 10.11-18,27-30 ........................................ X,310 10.14-16,27-29 ................................ XXXIII,50 10.22-30 ....................XXIX,141; XXXVII,149 10.22-30(31-39) .................................XVII,117 11.1,3,17-27 ..............II,188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45) ............................ X,434 11.1-5,17-21 .................. XXXVII,319; XL,310 11.1-45 ................................................ XLI,123 11.47-53 ............. VIII,157; XIV,192; XXI,103; ....................................................... XXXIII,154 12.12-16 ........................................ XXXVI,134 12.12-19 ....................................X,269; XX,110 12.20-26 .................................................. X,258 12.20-30 ............................................. XXV,150

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12.20-33 .........................XIX,102; XXXI,103; ................................. XXXIII,154; XXXIX,120 12.44-50 ................................................ VIII,65 13.1-15,34-35 .......................................... X,277 13.1-17,34 ...................... XXX,99; XXXIV,144 13.31-35 ........................ XVII,121; XXIX,149; ....................XXXIV,144; XXXIV,191; XL,145 14.1-6 ....................................................XII,134 14.1-12........XXI,139; XXVII,124; XXXIX,170 14.1-12(14)..................II,63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27) ...............................XXXIV,219 14.15-19 ................................................XV,232 14.15-21 ........XXIV,165; XXXV,200; XLI,177 14.23-27 ...................................... IV,82; X,341 14.23-29 .........................XVII,126; XXIX,154 15.1-8 .................... X,317; XIX,139; XXV,189 .................................... XXXI,146; XXXVI,174 15.9-12(13-17) ....................................XIV,374 15.9-17 ..............VIII,317; XIX,143; XXV,192; ..................................XXXIII,211; XXXIX,165 15.(18)26-16.4......................................... X,337 15.26-27; 16.4b-11 ........... XX,171; XXVI,191; ....................................................... XXXVI,197 16.5-15 ..................................................... IV,65 16.12-15 ....... XX,177; XXVI,200; XXXVII,184 16.16-23a ................................... IV,57; VI,179 16.16,20-23a .............................VI,129; VI,176 16.22-28 ................................................... IV,72 16.23b-28,33 .......................................... X,323 17.1-11 ........................................XXXVIII,200 .........................XXI,148; XXVII,132; XLI,191 17.1a,6-19 ..................................... XXXIII,221 17.1-15 ..............................................XXIV,159 17.9-19 .................................... IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 .................XIX,153; XXXI,157 17.20-26 ........................... VIII,198; XXIX,168 18.33-37 ............................XIX,299;XXXI,296 18.33-38a ...................................... XXXVI,358 19.16-30 ...................... IV,38; X,284; XIX,110; .................. XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168; ....................................................... XXXIX,136 20.1-18 .................. XXXIV,162; XXXVIII,159 20.1-2,11-18 .....................................XXIV,230 20.1-9(10-18) ............... XVIII,120; XXVI,136; ........................................................... XXX,109 20.11-18 ..............................VIII,166; XIV,207 20.19-23 ........................XXIV,173; XXX,150; .....................................................XXXVIII,206 20.(19,23)24-29 ..................... X,301; XIX,119; .........................................................XXXII,134 20.19-31 .........XIX,119; XXI,121; XXVII,110; ....................................... XXIX,128; XXXI,133 20.26-31 .......................................XXXVII,138 21.1-14 ............................XVII,111; XXIX,136

21.1-19 ............................ XXXIV,178; XL,131 21.15-19 ............................................. VIII,179 21.20-25 ...........................................XXXIV,53 Atos 1.8-14 ...................................... XXIV,168 1.1-11 ................ XX,155; XX,160; XXVI,182; ............. XXIX,161; XXXII,162; XXXVIII,195 1.15-26 .......................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 .......................................XI,242 1.15a,21-26 ................................... XXXVI,193 2.1-13 .....................................................XI,249 2.1-21 ............... XIX,158; XXVII,139; XL,162 2.14a,22-32 ...................... XXIV,143; XLI,152 2.14a,36-47 .......................................XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39..............................XV,239 2.36-41 ..................................................... III,59 2.41a,42-47 ............................................XI,284 3.1-10 ....................................................VII,198 3.12-19 .......................................... XXXIX,153 3.13-15,17-26 ................ XVI,158; XXVIII,165 4.5-12 ............................................ XXXVI,168 4.8-12 ........................................... XXVIII,172 4.32-37 .................................................... V,310 5.12,17-32 ........................................... XX,130 5.27-32 ..................................................XL,126 6.1-7 .................................... III,134; XXIV,155 7.55-60 ........................................XXXVIII,182 8.14-17 ............................................XXXIV, 85 8.26-40 ......... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ....................................................... XXXIII,205 9.1-20 ................................................... XX,136 9.36-43 ..........................................XXXIV, 184 10.34-38 ..........XXIII,35; XXVII,52; XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ............................. XIX,49 10.34-43 ................... XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 ........................ XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25 .....................................XXII,33 13.44-52 ................................ XX,140; XX,143 14.8-18 ................................................ XX,148 16.6-10 ................................................. XX,164 16.9-15 .....................................IX,171; XV,141 16.16-34 .........................................XXXIV,211 16.23-34 ................................VII,122; XIV,233 17.1-15 ..............................................XXIV,159 17.16-34 .....................................................I,34 17.22-31 .......................... XV,213; XXXII,156 19.1-7 .............................................. XXXIX,63 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ................ XXXII,36; XXXVI,30; XXXVIII,28 1.16-17; 3.21-28 ..........................XXXVIII,327 3.19-28 .................... II,169; XX,278; XXI,267; ...................................... XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ...................................XXVII,156,272 4.1-5,13-17 ................... XXIV,100; XXXV,133 4.13-25 .................... XXXIII,138; XXXIX,108

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4.18-25 ......................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 ......... XVII,137; XXIX,180; XXXIV,224; ...............................................................XL,168 5.1-8 ................................ XXXII,197; XLI,212 5.1-11 ................XXVIII,122; V,51; XXXII,98; .....................................................XXXVIII,129 5.6-11 ........................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 ............................................XXVII,172 5.12-19 ................................................ XLI,104 6.1b-11 ......................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 .......................................................XI,278 6.19-23 ...................................... V,164; IX,258 7.15-25a ................. XXXV,234; XXXVIII,231 8.1-11 ........................I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 ...............................V,170; XXXVI,203 8.12-25 ................................................ XLI,239 8.14-17 ........................XXV,203; XXXVII,179 8.14-17,22-27 ................................... XXIX,174 8.18-23 .....................................................V,150 8.18-23(24-25) ................................. XVIII,192 8.22-27 .......................................... XXXIX,183 8.26-27 .............................................. XXX,193 8.26-30 ...................................................IX,233 8.31b-39 .................................................XI,144 8.31-39 ............................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 .................................... XVI,110 9.1-5 ....................... XXXV,261; XXXVIII,252 9.1-5,31-10.4 ...................................... XIII,235 9.1-5; 10.1-4 .............................................V,185 9.30b-33 ................................................. III,124 10.5-13 ............................XVI,115; XXXII,248 11.1-2a,29-32 ...................................... XLI,255 11.13-15,29-32 ..................................XXIV,255 11.25-32 ........................................... I,95, (102) 11.32-36 ..................................................V,126; 11.33-36 ................................................XI,256 12.1-8 .................................. XI,152; XXIV,265 12.9-12 ............................................ XXXV,284 12.9-21 ........................................XXXVIII,273 12.6-16 .......................................................V,19 13.1-10 ................................................ XXI,229 13.8-10(13-14) .......................................XI,107 13.11-14 .....IV,251; XXIV,19; XXXV,9; XLI,9 14.1-12 ................................................ XLI,278 14.5-9 .................................................. XXI,234 14.7-13 .................................................... III,79 14.10-13 ................................................XI,266 15.4-13 ...............................XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ............................................. XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............ XXIV,70; XXXII,72; .......................................................XXXVIII,75 1.3-9 ................................... XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 .........................................................V,228 1.10-17 .................................... XXI,60; XLI,75

1.18-25 ................................................... XX,97 1.26-31 ........................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ...................................... XXI,71; XXII,60 2.1-10 ......................................VII,50; XIII,126 2.1-12(13-16) ................................XXXVIII,91 2.6-13 .................................................... XXI,74 2.12-16 ..................................................VII,150 3.1-9 ...................................................... XLI,87 3.9-15 .......................................XV,266; IX,269 3.16-23 ...............................................XXII,193 4.1-5 .......................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20 ....................................... I,78, (85) 6.9-14(15-17)18-20 ............................ I,86, (93) 6.12-20 ........................ XXXIII,76; XXXIX,69 6.24-34 ............................................ XXXV,106 7.29-31 ...............................................XXIV,90 7.29-32a .......................................... I,46, (213) 8.2 ......................................................... XIII,42 9.16-23 ............. XIV,264, XXV,96; XXXVI,90 9.24-27 ............................. XI,165; XXXIII,112 10.1-13 ........................................V,179; XX,91 10.16-17 ................................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ............................... XXXI,113 10.31-11.1 .......................................... XXV,107 11.23-26 ........................ XXIV,127; XXVII,94; ......................................................XXXVII,120 11.23-29 .....................................................V,65 12........................................................... XIII,34 12.1,4-11 ....... XVII,47; XXIX,59; XXXVII,70 12.12-21,26-27 .................. XXIII,45; XXIX,64 12.12-31a ................................................XL,70 12.27-13.13 .........................XVII,52; XXIX,71 12.31b-13.13 ................................ V,32; XI,182 14.1-3,20-25 ..........................................VII,158 14.12b-20 .......................................... XXIII,49 15.1-11 ...................... XVII,108; XXXIV,105; ....................................................... XXXIX,142 15.1-20 ..................................................... III,13 15.12,16-20 .................... XVII,63; XXXII,311; ............................................................. XLI,321 15.19-28 ..... I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ............................................................ XXV,175 15.20-28 ..........................XVIII,280; XXX,293 15.35-38 ................................................ XIII,29 15.45-49 ...............................................XVII,69 15.50-58 ................. V,78; XIX,286; XXVI,320 2 Coríntios 1.3-7 .......................... I,112, (119) 1.18-22 .................... VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ................................................. XXV,118 3.3-9 .......................................................IX,283 3.12-4.2 .................................XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ................... IX,157; XIV,165; XXXIX,93 4.5-12 ...............................XIX,169; XXXI,171 4.6-10 .....................................................XI,158

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4.7-18 ....................................................... III,53 4.13-18 ..............................XIX,173;XXXI,177 4.16-18 ................................................ XIII,192 5.1-10 .......................................IX,295; XV,288 5.6-10 ............................. XIX,178; XXXI,183 5.6-10,14-17 .................................. XXXIX,203 5.14-21 ..........................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 ........... XVI,140; XXVIII,153; ............................................................. XLI,140 5.20b-6.10 ...........................XXXV,120; XL,76 6.1-10 .....................................................VII,82 6.1-13 ............................................ XXXVI,221 8.1-9,13-14 ........................................ XIX,188 8.1-15 .................................................... XIII,18 8.7-15 ............................................ XXXIII,251 8.9 ........................................................ XV,112 9.6-15 ......................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ...................... XIII,142 12.1-10 .......................................................V,26 12.7-10 .............................XIX,195; XXXI,199 13.11-13 .......... IX,240; XXI,158; XXXII,174; .....................................................XXXVIII,214 Gálatas 1.1-12 .............................XXXVII,189 1.11-24 ............................... XXIII,113; XL,182 2.16-21 ..................................VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 ........ XXIII,119; XXXVII,206 3.28..........................................................XII,70 4.1-7 .......................................................IX,144 4.4-7 .................. XV,106; XVIII,38; XXX,31; ...................................... XXXIII,44; XXXV,33; ........................................... XXXIX,43; XLI,29 5.1-6 .................................................... XIII,167 5.1-11 ..........................I,118, (125), 124, (131); ......................................................... XXXV,341 5.1,13-25 ........XXIII,126; XXXIV,243; XL,204 5.25-26; 6.1-3,7-10 ...............VII,214; XIII,253 6.14-18 ............................................. XXIII,131 Efésios 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ............................................................. XXX,37 1.3-14 .................. III,62 XXII,204; XXXIV,75; ....................................................... XXXIX,225 1.3-6,15-18 ......................................... XVIII,43 1.15-23 ................................................ XLI,181 1.(16-20a)20b-23 ............. XXI,144; XXX,138 1.20b-23 ................................................ IX,227 2.1-10 ................................................ XXX,265 2.4-10 ............................ XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 ................................ X,48; XXXVI,239 2.13-22 ...............................................XXII,209 3.1-12 ................ XXXI,30; XXXV,64; XLI,59 3.2-12 ................................... XVI,83; XXII,43 3.14-21 ............................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 ........................................ V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 ........................................ XXII,215

4.17-24 ...............................................XXII,220 4.20-32 .....................................................V,235 4.25-5.2 ......................................... XXXIX,251 4.30-5.2 ............................................... XVI,228 5.1-8a ....................................................XI,205 5.1-9 ...........................................................V,46 5.8-14 ............XXIV,105; XXXV,145; XLI,118 5.9-14 .................................................... III,100 5.15-20 .......................... XVI,233; XXXVI,264 5.15-21 .................................................... V,241 5.21(22-25)26-31 ................................ XVI,236 5.21-31 .......................................... XXVIII,294 6.10-20 .......................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ............................................. XXXIV,16; XL,14 1.12-21 ....................................................VII,95 1.20c-27 ...........................................XXIV,280 2.1-4 .................................................... VII,173 2.1-5(6-11) ........................................ XXI,245 2.1-13 ..................... XXXV,309; XXXVIII,297 2.5-11 ..........V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; .................... XXIX,111; XXXII,59; XXXIX,49 2.12-13 ..................................................XV,282 3.4b-14 ...........................................XXXIV,133 3.12-21 ......................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 .....................................................XI,291 3.7-14 ......................................................V,261 3.8-14 ................................................... XX,102 3.12-16 ............................................ II,20 (187) 3.12-21 ............................................XXVII,251 3.17-21 ...................................................XI,330 3.17-4.1 ........................... XX,86; XXXVII,105 3.20-21 ........................ I,136, (137); 129,(143) 4.1-9 .................................................... XLI,303 4.4-7 ................................................... XXVI,15 4.10-20 ...................................................IX,150 Colossenses 1.1-6 ........................... XXVI, 233 1.12-20 ...................... XXIII,229; XXXVII,342 1.15-23 ........................................................I,47 1.21-28 ............................................. XXVI,240 2.3-10 ..................................................XIV,140 2.6-15 .................................XXVI,250; XL,218 2.12-15 ................................................ XIII,186 3.1-4 ................... III,48; XXI,117; XXXII,127 3.1-11 ...........................................XXXVII,236 3.12-17 ............................... V,107; XXXVII,42 4.2-6 .........................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ................ XXIV,294; .........................................................XXVII,256 1.5b-10 ............................................XXVII,263 1.2-10 ....................................................VII,210 2.1-8 ....................... XXXV,329; XXXVIII,321 2.8-15 ..............................................XXVII,277 3.9-13 .................................. XX,15; XXXVII,9

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4.1-8 ............................................. V,38; XI,315 4.13-14(15-18) .................................... XXI,285 4.13-18 ......................... XXI,292; XXXVI,335 5.1-8 .......................................................IX,288 5.1-11 .............................XXI,297; XXXV,357; .....................................................XXXVIII,340 5.12-24 ...................................................IX,274 5.16-24 .........XXII,19; XXXIII,20; XXXIX,18 2 Tessalonicenses 2.1-17 .........III,165; XL,316 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ....................... XXIX,311 3.1-5 ...................................................... IX,252 3.6-13 ......................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo 1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ............................................ II,169, (336) 2.1-6 ............................................XXXVIII,279 2.1-8 ....... XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370; ...............................................................XL,257 3.16 ..................................................... XIV,132 4.4-5 .................................................. XIII,298 6.6-16 ..............................XVII,215; XXIX,274 6.11b-16 ................................................. IV,255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ............ XXIII,195 2.8-13 ........................ XXIII,205; XXXVII,296 2.8a(8b-13) .......................................... XV,198 3.14-4.5 ........................... XXXIV,333; XL,280 Tito 2.11-14 ..II,263, (430); XI,128; XXIV,34; ............................................. XXXV,40; XLI,37 3.4-7 ...................... IV,280; XX,29; XXXIV,45 Filemom 8-21 .................................. XXIX,254 9b-17(18-21) ......................................XVII,201 Hebreus 1.1-4(5-12) XXXVI,35; XXXIX,299; ...............................................................XL,267 1.1-9 .................................................... XVI,70 2.9-11 ................................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ................................................. IX,188 3.1-6 ................................................... XIX,262 4.9-16 ...............................XIX,268; XXXI,281 4.12-13 ...................................................XI,171 4.14-16 ...................................................XI,192 4.14-16; 5.7-9 .............. XXIV,133; XXXIV,153 5.1-6(7-10) .................... XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ............... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 7.23-28 .......................................... XXXVI,322 9.11-14 .......................................... XXXIX,322 9.15-17,26b-28 ..................................... XX,122 9.15,24-28 .................................................. III,7 9.15,26b-28 ......................................... XIII,179 9.24-28 .............................................. XIX,291 10.11-25 ........................................ XXXIX,337 10.19-25 .......................... II,241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 ..........................................IX,178 11.1-3,8-16 ........................................... XX,229 11.1-4 .............................................. XXVIII,39 11.8-10 ..................................................XV,160

12.1-3 ....................................................XV,178 12.1-13 ................................................ XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ...................... XV,127 12.18-24 ........... XX,242; XXXIV,296; XL,242 13.1-8 ................................................... XX,246 13.1-8,15-16 .................................XXXVII,262 13.(7)8-9b ........................................... XIV,153 13.12-16 ..................................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 .............................................. XXV,268 2.1-13 ................................................ XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ......... XXV,275; XXXIX,275 2.14-24 ................................................. III,110 3.1-12 ............................................ XXXVI,283 3.13-4.3,7-8a ................................. XXXIII,327 4.13-17 ................................. IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ............XIII,265; XIX,252; XXXVII,160 5.7-8 ...................................................... XI,114 5.7-10 ................................................. XVIII,19 5.13-16 ..................................................VII,220 5.13-20 .......................................... XXXVI,295 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ...................... XIII,152 1.17-21 ...............................................XXX,118 1.17-22 ......... XVIII,129; XXXV,182; XLI,158 1.3-9 ........................III,22; XI,221; XVIII,125; ............................................................XXX,114 2.1-10 ................ I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 .............................XXX,128; XVIII,138 2.13-17 ............................................ I,102 (109) 2.15-17 ................................................... VI,13 2.18-25 .............................................. XXX,122 2.19-25 ........................................... XVIII,133 2.21b-25 ....................................... V,91; XI,229 3.8-17 ...................................................... V,156 3.13-22 ........................................XXXVIII,188 3.15-18 ..........................XVIII,146; XXIV,165 3.18-22 .......................................... XXXVI,116 4.7-11 ..................................................... V,120 4.13-19 ........................................... XVIII,152 5.1-5 ......................................................... III,27 5.5b-11 ...................................... V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ..................................... III,145 1.16-19(20-21) ...................................... IX,165 1-16-21 .......................... XXIV,95; XXVII,65; .....................................................XXXVIII,108 3.8-14 ............. XVII,237; XXIII,218; XXV,23; ......................................................... XXXVI,14 1 João 1.(1-4)5-2.2 ......XXII,124; XXXVI,157 1.5-10; 2.1-6 ................ XIII,216; XXXVI,181 2.21-25 ....................................................VII,30 3.1-3 ...................................................... VII,21 3.1-7 .............................................. XXXIII,191 3.13-18 .................................................... IX,57 3.18-24 ................................. III,159; XXII,130

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4.1-6 ....................................................... IX,72 4.1-11 .................................................XXII,135 4.11-16 ............................................. XXXI,165 4.7-12 ................................................... XI,299 4.7-16 ..................................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ......... XXII,149; XXXIX,159 4.16b-21 ................................................. V,135 5.1-5 ............................................. V,84; XI,235 5.1-6 ................................................. XXII,118 5.11-13 .................................................. XI,138 Apocalipse 1.4-8................. VII,131; XIII,204; ........................................................XXXIV,169 1.9-18 .....................................VII,65; XIII,133 1.9-20 ............................................... XXVI,145 2.8-11 ....................................VII,228; XIII,275 1.9-20 ................................................ XXIII,84 3.1-6 .................IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ....................... II,248 (416); XXXVI,42

3.14-22 .............................................. XIII,304 4.1-11 ............................................. I, 144(151) 5.1-14 .......................................................VII,7 5.11-14 .......................... XXIII,90; XXVI,150; ......................................................XXXVII,144 7.9-12 ............................................... XVII,230 7.9-17 .................. III,182; XIII,110; XXIII,94; .......................................................... XXVI,159 12.1-6 ............................................... XXIII,26 12.7-12 .............................................. XXI,241 14.6-7 ..................................................... V,249 15.2-4 .................................................. XV,218 19.11-16 ............................................... III,195 21.1-5 ......................XXVI,170; XXXVII,155; .......................................................XXXVIII,52 21.10-14,22-23 ................................. XXVI,176 21.10,22-22.5 .................................XXXIV,195 22.10-16 .................................................. X,11 22.12-17,20 ...................................... XXIII,99

Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

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COLABORADORES DO VOLUME 41 ABENTROTH, Anelise L. ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor ALTMANN, Walter BAADE, Joel Haroldo BLASI, Márcia BRAKEMEIER, Gottfried BRAUN, Odair CHRISTMANN, Nilo FRIEDRICH, Nestor P. FRIES, Marcos H. GAEDE, Leonídio GARCIA, Paulo R. GARIN, Norberto da Cunha GAUSMANN, Samuel GENZ, Silvia B. GIESE, Nilton GONÇALVES, Humberto Maiztegui GRAF, Geraldo HOLZSCHUH, Clarise I.W. IMMICH, Vera M. HUNZICKER, Atilio KLEINE, Michael KOWALSKA PRELICZ, José M. KONZEN, Léo Z. KUNZ, Claiton A. KUNZ, Marivete Z. KÜNTZER, Renato KUPKA, Claudio LACERDA, Gerson LENKE, Ângela LIEVEN, Guilherme MEURER, Evandro J. MORAES, Jilton PFANNEMÜLLER, Helga R. RAMOS, Luiz C. REIS, Ana I. dos RIBEIRO, Antônio C. S.

anelisevilmar@gmail.com juliocezar@est.edu.br albrechtastor@gmail.com walteraltmann@msn.com baadejoel@gmail.com retalhos13@hotmail.com brakemeier@terra.com.br sinodo@sinodoparanapanema.com.br sinodomt@terra.com.br presidencia@ieclb.org.br mhenriquefries@yahoo.com.br leonidiogaede@hotmail.com paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com samuel_gausmann@yahoo.com.br silvia.genz@luteranos.com.br giese1959@gmail.com humbertox@uol.com.br g.graf@uol.com.br clarisewh@yahoo.com.br veraodair@gmail.com ajh54@hotmail.com micha.kleine@yahoo.com.br pastorkowalska@luteranos.com.br leokonzen@urisan.tche.br claiton@batistapioneira.edu.br marivete@terra.com.br renato.kuntzer@terra.com.br claudio@paroquiamatriz.org.br gersonclacerda@gmail.com angelalenke@yahoo.com.br guilherme.lieven@luteranos.com.br evandromeu@gmail.com jiltonmoraes@terra.com.br pastorahelga@yahoo.com.br luiz.ramos@textoetextura.com.br anaisadosreis@yahoo.com.br antoniocarlosrib@gmail.com

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RIECK, Kurt SANTANA FILHO, Manoel B. SCHERER, Cristina SCHMITT, Flávio SEIBERT, Erni W. SELL, Wilhelm SIEGLE, Manfredo STANGE, Klaus A. STÜEWER, Aline D. TESKE, Dietmar TREIN, Hans Alfred ULRICH, Claudete B. VOIGT, Emilio WANKE, Roger M. WEBER, Eloir WEGNER, Uwe WEISSHEIMER, Ramona WITTER, Teobaldo ZWETSCH, Roberto E.

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kurtrieck@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com crisitati@yahoo.com.br flavio@est.edu.br erni@sbb.org.br wilhelmsell@gmail.com manfredo_siegle@hotmail.com k.stange@flt.edu.br stuewer@gmail.com teske.fz@terra.com.br hansatrein@gmail.com claudetebeiseulrich@hotmail.com emilio.voigt@terra.com.br roger.wanke@flt.edu.br eloir@sinodal.com.br uwe.wegner@terra.com.br ramonaew@gmail.com twitter@terra.com.br rezwetsch@gmail.com

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Texto: Times New Roman 11 Títulos: Bangkok 15 Datas: Arial 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.

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Teologia de qualidade e conteúdo A CARTA AOS ROMANOS Karl Barth

576 páginas - 16x23cm

Trata-se de uma edição crítica, cuidadosamente preparada para fornecer importantes informações acerca da gênese do livro e das principais controvérsias que suscitou. Barth entendia ter o direito e o dever de não ser simples. A leitura deste volumoso comentário desafia aqueles que se aventuram a lê-lo. Mas terá sua recompensa pelas geniais percepções e exposições de Barth.

Apresenta, interpreta e aprofunda o que Deus revelou de si mesmo desde a sua criação em sua relação com o povo de Israel no Antigo Testamento e com o povo judeu e gentio, unido pela fé em Jesus Cristo.

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681 páginas - 16x23cm

O DEUS DOS VIVOS Uma doutrina bíblica de Deus Reinhard Feldmeier Hermann Spieckermann

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Ampliando o conhecimento

INTRODUÇÃO HERMENÊUTICA AO ANTIGO TESTAMENTO Pablo R. Andiñach

544 páginas - 16x23cm

É comum ouvir que muitos textos do Antigo Testamento “são difíceis de interpretar”. Esta obra busca oferecer ferramentas para uma leitura que permita interpretar o texto bíblico como documento literário, que surgiu e alimenta a fé de Israel e da igreja cristã.

O Antigo Testamento revela muitas histórias de amor tanto da parte humana como de Deus. O livro apresenta aspectos incríveis, além de mostrar a multiplicidade de vozes com que Israel expressa suas experiências de fé.

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88 páginas - 15x21cm

DE ADÃO E EVA AOS PROFETAS MENORES Experiências de fé no Antigo Testamento Martin Rösel

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Sugestão para uma leitura edificante A MORTE DE JESUS E A NOSSA VIDA O significado da cruz Walter Klaiber 120 páginas - 16x23cm

As afirmações bíblicas são explicadas em uma linguagem compreensível para todos. Demonstra como os antigos conceitos expressam questões fundamentais, as quais têm a mesma centralidade para nós como tinham para os cristãos anteriores a nós.

77 páginas - 16x23cm

SONHANDO JUNTOS COM DEUS Uma jornada missionária pela Bíblia Sherron Kay George Uma perspectiva feminina, universal e intercultural da missão e do reino de Deus. A autora faz o convite para degustar com ela as delícias da Bíblia.

112 páginas - 16x23cm

PRA NÃO PERDER A ALMA O cuidado aos cuidadores Roseli Kühnrich de Oliveira O profissional cuidador sofre desgastes pelo contato diário com a dor, a perda, as dificuldades, necessidades e angústias das pessoas com as quais lida. O objetivo deste livro é ajudar o cuidador a refletir sobre si mesmo e como ele mesmo se pode cuidar.

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Auxílios exegéƟcos para uma boa pesquisa O LIVRO DO ÊXODO Um comentário exegético-teológico Pablo R. Andiñach 398 páginas – 16x23cm

Êxodo não pretende ser um livro de história, no sentido restrito do termo, mas antes uma obra que faz crescer a história de narrar um novo capítulo do encontro de Deus com a humanidade. A partir de suas páginas, encontraremos lutas por libertação, paixão pela justiça e a busca por dignidade para os povos oprimidos.

No trabalho de interpretação de Gênesis, a mensagem mais importante que este livro da Bíblia tem para nós e as gerações depois de nós é esta: Deus tem a ver com toda a nossa realidade. É a partir de Gênesis que a mensagem de Cristo adquire o horizonte que corresponde à sua importância, ou seja, o horizonte que abrange a história da criação e a história da humanidade.

407 páginas - 16x23cm

O LIVRO DO GÊNESIS Um comentário exegético-teológico Claus Westermann

246 páginas – 15,5x22,5cm

A PRIMEIRA CARTA DE PEDRO Um comentário exegético-teológico Reinhard Feldmeier O tema da Primeira Carta de Pedro é a autocompreensão dos cristãos e a sua relação com o mundo dentro de uma sociedade que os rejeita e, por isso mesmo, os faz sofrer. Esta “carta pastoral” oferece orientação e diretrizes de fé para a vida e o comportamento dos cristãos para que esses não fiquem à margem do mundo, ao mesmo tempo em que oferece teologia prática da melhor qualidade.

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Sugestão de leitura para ampliar horizontes

COMO ESTUDAR OS SALMOS Erhard S. Gerstenberger

200 páginas – 16x23cm

Estudar os salmos é imergir na literatura espiritual dos milênios que antecederam a vinda de Cristo. São diversas vozes, que articulam fé, angústias e júbilos. Um guia interativo para uso em seminários, grupos bíblicos e estudiosos da Palavra.

Oferece subsídios para a compreensão das párabolas de Jesus e um convite para acolher o reino de Deus, que com Jesus despontou num mundo sofrido e aflito.

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120 páginas – 16x23cm

AS PARÁBOLAS DE JESUS Imagens do reino de Deus Gottfried Brakemeier

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