PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 40 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO C Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann
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© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, João Artur Müller da Silva, Martin Volkmann, Júlio Cézar Adam e Robson Luís Neu Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos
Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963
Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br
Proclamar libertação: auxílios homiléticos / Coordenação de Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2015. 15,5x22,5 cm. ; 376p. ISBN 978-85-8194-073-1 Volume 40 1. Homilética. 2. Teologia prática. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
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APRESENTAÇÃO
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stamos às vésperas do 500º aniversário da Reforma. Será em 2017. Juntamente com milhões de pessoas cristãs espalhadas pelos cinco continentes, a IECLB celebrará cultos, cantando louvores a Deus pelas dádivas advindas com o movimento da Reforma. Nesse contexto, Proclamar Libertação será fonte e ferramenta imprescindível para quem tem o belo compromisso de anunciar a Palavra do Senhor. Por quê? Como? O Tema e o Lema da IECLB em 2016 apontam para o que podemos chamar de crivo para o anúncio da Palavra, como Lutero corretamente reafirmou. O Tema – Pela graça de Deus, livres para cuidar – fala do Deus da graça, que veio até nós em Jesus Cristo. É a Sua graça que nos sustenta e renova na fé e no testemunho. Foi o que Paulo disse aos gálatas: “Deus enviou seu Filho (...) para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos [e filhas]” (Gl 4.4-5). E deste presente – a graça de Deus – o ser humano se apropria por meio da fé. A lei que acusa e as obras meritórias não são mais o critério para receber o abraço, o perdão, a bênção – a graça – de Deus. Libertada por Cristo, a pessoa sabe-se livre. Mas não é liberdade para fazer qualquer coisa! O horizonte dessa liberdade é apontado pelo Lema da IECLB em 2016: Buscai o bem e não o mal (Am 5.14a). O fruto da graça é que a pessoa cristã está investida de responsabilidade. Em Cristo, a pessoa é livre para ser responsável, para viver eticamente. Ética “tem a ver com o discernimento do mal e do bem, do correto e do incorreto, do que é responsável e apropriado para o comportamento humano em suas relações sociais e pessoais” (Roy H. May). O amor de Deus em Cristo nos motiva, nutre e molda para buscar o bem e desprezar o mal no emaranhado da vida, para ser pessoas éticas! Pela sua morte e ressurreição Cristo nos liberta da lei e do pecado. Esse ato de amor, apropriado pela fé, nos atinge, envolve, transforma e sustenta, de forma que nos coloca sob os impulsos da gratidão. Gratidão que molda a vida e orienta a liberdade para um agir responsável, ético. Aí está o crivo para a correta pregação da Palavra à luz da teologia luterana! Nem por isso a tarefa da pregação que passa por esse crivo é simples. Por exemplo, uma dificuldade encontra-se no fato de que o exercício do discernimento e a escolha entre o bem e o mal pressupõem que a pessoa seja livre para realizar suas próprias escolhas. Enquanto isso, vivemos num contexto em que prepondera a pregação da lei, da “receita” dada: a pessoa cristã deve (sic!) fazer assim ou assado. Proclamar Libertação traz na sua raiz o comprometimento – e quer por isso continuar florescendo e jogando sementes – com a pregação que ausculta com profundidade a Escritura e traz a Palavra da graça, que redunda em gratidão que, com liberdade, se dispõe a servir na Missão de Deus. A decisão de presentear ministros e ministras da IECLB com um exemplar de Proclamar Libertação não é fruto do acaso, mas sinal de carinho, cuidado e apoio para com quem do púlpito “anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia cousas boas, que faz ouvir a salvação” (Is 52.7). Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente
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PREFÁCIO
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om a presente edição, Proclamar Libertação chega a seu quadragésimo volume. Quarenta é um número simbolicamente importante para a tradição bíblica. O povo de Israel, após ter sido libertado da escravidão no Egito, peregrinou durante quarenta anos pelo deserto antes de entrar na terra prometida. Jesus passou quarenta dias no deserto, onde foi duramente tentado por Satanás, antes de iniciar sua proclamação sobre o reinado de Deus e o chamado ao arrependimento. Como se vê, o número quarenta remete a um período de transição e provação, mas também de novas perspectivas e possibilidades. Olhando em retrospectiva para os volumes anteriores de Proclamar Libertação, pode-se perceber claramente as limitações humanas sobre o falar de Deus. Mas também se pode encontrar muitos motivos de gratidão pela caminhada feita. Olhando para a frente, temos diante de nós o desafio de continuar buscando novos caminhos e novas possibilidades de proclamar o evangelho de forma mais adequada e relevante para os nossos tempos. Este volume contempla cinquenta e três auxílios homiléticos sobre a série C do Lecionário Comum Revisado da IECLB, além de quatro auxílios especiais sobre temas relacionados à Reforma Protestante do século XVI. Esses auxílios especiais fazem parte do propósito de preparar a celebração dos quinhentos anos da Reforma em 2017. Expressamos nossa gratidão aos autores e às autores que contribuíram com este volume. Sem o seu trabalho e sua reflexão, Proclamar Libertação não teria condições de se viabilizar. Tem sido assim ao longo desses quarenta anos, e esperamos encontrar o mesmo empenho e voluntarismo também no futuro que nos aguarda. Agradecemos igualmente à direção da IECLB, que renovou sua decisão de presentear seus ministros e suas ministras com um exemplar, no intuito de qualificar a pregação do evangelho nas comunidades. O volume quarenta, mais uma vez, não conseguiu prover auxílios homiléticos para todas as ocasiões previstas. Para suprir as lacunas, lembramos que as contribuições de volumes anteriores estão disponíveis no portal da IECLB. Para procurar um volume, utilize o link http://www.luteranos.com.br/conteudo/publicacoes-2. Para acessar um texto específico, faça uso do mecanismo de busca do portal (http://www.luteranos.com.br/busca-avancada-conteudo/). Para localizá-lo, digite o nome do livro bíblico por extenso, utilizando o padrão de citação adotado (por exemplo, Lucas 10.38-42 ou Lucas 10.1-11,16-20). Verner Hoefelmann Pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação
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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1º Domingo de Advento – Lucas 21.25-36 --------------------------------------------9 2º Domingo de Advento – Filipenses 1.3-11 ---------------------------------------- 14 3º Domingo de Advento – Lucas 3.7-18 --------------------------------------------- 18 4º Domingo de Advento – Miqueias 5.2-5a ----------------------------------------- 24 Noite de Natal – Lucas 2.1-7 ---------------------------------------------------------- 29 Dia de Natal – João 1.1-14 ------------------------------------------------------------ 35 1º Domingo após Natal – 1 Samuel 2.18-20,26 ------------------------------------ 43 Ano Novo (Nome de Jesus) – Números 6.22-27 ----------------------------------- 48 Epifania – João 1.43-51 ---------------------------------------------------------------- 53 1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor) – Isaías 43.1-7 ----------------- 58 2º Domingo após Epifania – João 2.1-11 -------------------------------------------- 64 3º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 12.12-31a-------------------------------- 70 Quarta-feira de Cinzas – 2 Coríntios 5.20b-6,10 ----------------------------------- 76 1º Domingo na Quaresma – Deuteronômio 26.1-11 ------------------------------- 81 2º Domingo na Quaresma – Lucas 13.31-35 ---------------------------------------- 87 4º Domingo na Quaresma – Lucas 15.1-3,11b-32 ---------------------------------- 92 5º Domingo na Quaresma – Isaías 43.16-21 ---------------------------------------- 97 Domingo de Ramos – Lucas 19.28-40 ---------------------------------------------103 Quinta-feira da Paixão – Êxodo 12.1-4(5-10),11-14 ------------------------------109 Sexta-feira da Paixão – Salmo 22 --------------------------------------------------- 115 Domingo da Páscoa – Lucas 24.1-12 -----------------------------------------------121 2º Domingo da Páscoa – Atos 5.27-32 ----------------------------------------------126 3º Domingo da Páscoa – João 21.1-19 ----------------------------------------------131 4º Domingo da Páscoa – Salmo 23 --------------------------------------------------137 5 º Domingo da Páscoa – João 13.31-35--------------------------------------------145 6 º Domingo da Páscoa – Gênesis 2.7-17-------------------------------------------150 Ascensão do Senhor – Mateus 28.16-20 --------------------------------------------156 Domingo de Pentecostes – Atos 2.1-21 ---------------------------------------------162 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) – Romanos 5.1-5 ---------------------168 2º Domingo após Pentecostes – Lucas 7.1-10 -------------------------------------176 3º Domingo após Pentecostes – Gálatas 1.11-24 ----------------------------------182 4º Domingo após Pentecostes – 2 Samuel 11.26-12.10,13-15 -------------------189 5º Domingo após Pentecostes – Lucas 8.26-39 ------------------------------------196 6º Domingo após Pentecostes – Gálatas 5.1,13-25 --------------------------------204 7º Domingo após Pentecostes – Lucas 10.1-11,16-20 ----------------------------209 9º Domingo após Pentecostes – Lucas 10.38-42 ----------------------------------214 10º Domingo após Pentecostes – Colossenses 2.6-15(16-19) -------------------218 11º Domingo após Pentecostes – Lucas 12.13-21 ---------------------------------224 12º Domingo após Pentecostes – Gênesis 15.1-6 ---------------------------------231
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13º Domingo após Pentecostes – Lucas 12.49-56 ---------------------------------237 14º Domingo após Pentecostes – Hebreus 12.18-29 ------------------------------242 15º Domingo após Pentecostes – Lucas 14.1,7-14 -------------------------------248 17º Domingo após Pentecostes – Lucas 15.1-10 ----------------------------------252 18º Domingo após Pentecostes – 1 Timóteo 2.1-7 --------------------------------257 19º Domingo após Pentecostes – Lucas 16.19-31 ---------------------------------262 20º Domingo após Pentecostes – Hebreus 1.1-4; 2.1-4 ---------------------------267 21º Domingo após Pentecostes – Lucas 17.11-19 ---------------------------------275 22º Domingo após Pentecostes – 2 Timóteo 3.14-4.5 ----------------------------280 23º Domingo após Pentecostes – Jeremias 14.7-10,19-22 -----------------------286 24º Domingo após Pentecostes – Lucas 19.1-10 ----------------------------------292 Dia da Reforma – Isaías 45.19-25 ---------------------------------------------------298 Dia de Finados – João 11.1-5,17-21 -------------------------------------------------310 25º Domingo após Pentecostes – 2 Tessalonicenses 2.1-5,13-17 ---------------316 Cristo Rei – Lucas 23.33-43----------------------------------------------------------322 AUXÍLIOS ESPECIAIS PARA PREPARAR OS 500 ANOS DA REFORMA Servo-arbítrio / livre-arbítrio ---------------------------------------------------------329 Lutero e a música – Cantem um cântico novo! ------------------------------------335 As mulheres na Reforma Protestante -----------------------------------------------341 Palavra e pregação em Lutero --------------------------------------------------------348
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
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PRÉDICA: LUCAS 21.25-36 JEREMIAS 33.14-16 1 TESSALONICENSES 3.9-13
1º DOMINGO DE ADVENTO
29 NOV 2015
Atílio Juan Hunzicker
Atentos e vigilantes
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Introdução
Nosso texto inicia o tempo de Advento segundo a série “C”. O Evangelho de Lucas acompanhar-nos-á durante este ano litúrgico que começa neste 1º Domingo de Advento. É provável que os quatro domingos antes do Natal, também delimitados pela data, não sejam suficientes para expor toda a riqueza teológica deste tempo de preparação para uma espera ativa. Lamento não ter acesso a todos os exemplares do PL. Limito-me a lembrar que o nosso texto já foi refletido nos PL III, p. 209; XVII, p. 9 e XXIV, p. 9. O Natal, como celebração de gratidão pelo nascimento de Jesus, tradicionalmente tem um peso enorme em nossa devoção e piedade, o que pode eclipsar a importância do Advento. Na verdade, Advento é o tempo para recuperar nossas forças, fortalecer a esperança e dirigir o nosso olhar em direção ao “Filho do Homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória”. Estes quatro domingos têm como objetivo que a comunidade se prepare para caminhar através do ano eclesiástico que está iniciando, a exemplo de um grupo de amigos que se prepara para uma expedição e revisa reiteradamente a lista de tudo o que é necessário para que a viagem possa ser levada a bom termo: objetos pessoais e de uso comum, roupas e utensílios, alimentos adequados, medicamentos e a caixinha de primeiros socorros, além de mapas, bússola e informações precisas sobre o clima que enfrentarão durante todo o trajeto. Para uma viagem sempre é importante levar o que é necessário e evitar cargas e pesos que são dispensáveis. De modo semelhante, durante o Advento, como comunidade de fé, preparamo-nos para viver o novo ano e devemos escolher o que é necessário e imprescindível para este tempo, deixando de lado tudo o que não é necessário ou útil e que significa uma carga que dificultará a nossa caminhada.
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Exegese
O texto que estamos analisando (Lc 21.25-36) faz parte de uma passagem maior, que vai de 21.5 a 38. O início do capítulo é a conhecida cena da oferta da viúva com a observação e admoestação de Jesus a seus discípulos. Não resta dúvida de que Lucas valeu-se de Marcos 13 como fonte, fazendo as adaptações adequadas para a compreensão de seus leitores. Alguns comenta-
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ristas observam que a diferença entre Lucas e Marcos deve-se a um deslocamento temporal: o que é futuro para Marcos já é passado e presente para Lucas (queda de Jerusalém e perseguições); além disso, Lucas faz as alterações necessárias para adequar o relato de Marcos a outros leitores, a saber, os gentios que já faziam parte das comunidades cristãs. Antes de chegar ao nosso texto, temos ainda outros temas: 5-6: anúncio da destruição do templo; 7-19: sinais e perseguição; 20-24: a destruição de Jerusalém. A razão de todo o texto encontra-se na pergunta dos discípulos em 21.7: Quando sucederá tudo isso? E que sinal haverá de quando essas coisas estiverem para se cumprir?. Sem a pergunta como ponto de partida, toda a sequência restante não faz sentido. Ainda assim, o nosso trecho pode ser dividido em três partes: 1) 25-28: a vinda do Filho do Homem; 2) 29-33: o sinal da figueira; 3) 34-36: o estar alerta. 1 – Em seguida ao cerco a Jerusalém, “o tempo dos pagãos”, serão vistos os sinais cósmicos: sol, lua e as estrelas (Gn 1.14-18) e o bramido do mar e das ondas (Gn 1.9-10). Isso nos dá uma ideia da confusão da boa ordem que Deus havia estabelecido no princípio dos tempos. O temor e o terror das nações e dos seres humanos diante das forças que não conseguem controlar em toda a terra ultrapassam as fronteiras de Israel e do Império Romano. As nações que se apropriam de bens e vidas de outros descobrem-se impotentes. O poder do Filho do Homem irromperá ali onde perseguidos, mártires e subjugados puderem levantar as suas cabeças. Lucas faz uma distinção entre os que serão testemunhas e os que são atingidos por esses acontecimentos: “os homens” aterrorizados (26) e “vocês” que serão libertados. Os mesmos acontecimentos cósmicos terão consequências distintas para uns e para outros: o que para uns acarreta terror e morte, para outros dará ânimo e trará libertação. 2 – É importante ler os tempos, pois há dados na natureza que nos informam sobre o momento que vivemos. Por analogia, assim como lemos a natureza para situar-nos nas estações, é necessário ler também a realidade social, econômica, política... e sem qualquer dúvida, hoje temos que incluir a leitura ecológica, que nos permite saber onde estamos e para onde vamos. Vale lembrar que cada geração ou a humanidade como um todo têm seu momento, seu tempo que devem ser compreendidos corretamente em vista do futuro. 3 – A advertência final alerta sobre a hora da chegada do Filho do Homem, imprevista, impregnada de risco, de surpresa. Aqui, diferentemente das “pessoas” e de “vocês” de 26-27, todos correm risco, uns e outros, e podem ser caçados como aves distraídas. Esse estado de alerta não deve ser paralisante; a vida sempre é dinâmica. A diferença é o que se deseja mais: deixar-nos absorver pelos assuntos cotidianos ou pela busca do que dizemos vez por outra no Pai-Nosso: Venha a nós o teu reino. Aqui prevalece a ideia de que todos deveremos enfrentar o tribunal do juízo: crentes e pagãos. Para chegar em condições ante o tribunal, devemos estar preparados sempre na profundidade última de nosso ser.
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1º Domingo de Advento
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Meditação
Assim como Lucas adapta e atualiza o que recebeu de Marcos, também é nossa tarefa, permanecendo no espírito do evangelista, anunciar o evangelho de maneira compreensível e desafiadora em nossas comunidades bem como no mundo. A dificuldade maior reside no fato de que nós, como discípulos hoje, não fazemos a pergunta que dá origem ao texto. Não perguntamos como e quando acontecerá a parusia. Deveríamos investigar, descobrir e saber com clareza quais são as perguntas que a nossa comunidade faz. E se a pergunta pelo fim não é atual e nem vital, devemos descobrir qual a causa disso. Centenas de gerações passaram por esta terra desde o primeiro século de nossa era até hoje. Cada uma viveu o seu momento de terror cósmico, e um bom número de pessoas levantou seus olhos na expectativa do Filho do Homem que chega em glória e poder. Temos sinais cósmicos que metem medo, e nós os temos dos tipos mais variados e em número suficiente: aquecimento global, risco de ficar sem água doce não contaminada, métodos danosos na extração de petróleo, potenciais riscos nucleares em razão de armas ou bases nucleares “pacíficas”, mas obsoletas e mortíferas. Terremotos, tsunamis, vulcões... vemo-los por algumas semanas na mídia, e em seguida outro tema faz-nos esquecer tanta morte, dor e sofrimento. As perseguições por razões religiosas vêm aumentando nos últimos anos, e muitos irmãos e irmãs são mártires em diversos lugares do planeta. Sem dúvida, essas comunidades que hoje são perseguidas leem e entendem esse evangelho de forma radicalmente diferente do que nós o interpretamos, nós que vivemos em países onde conflitos religiosos não são significativos e nem graves. A presença cristã não é uma ameaça para os líderes políticos e para o poder econômico. Ainda que alguma atitude ou declaração dos cristãos lhes seja incômoda, preferem ter as igrejas como suas aliadas em favor do bem comum e da defesa de certos valores conservadores, desde que mantenham a coesão social. Nossas igrejas e comunidades estão ocupadas em pôr em prática projetos sustentáveis a médio e longo prazos. A questão dos recursos impõe-se sobre a pergunta pelas necessidades das pessoas. Em alguns casos, acontece algo semelhante, como se alguém, antes de ficar doente, tenha que fazer o levantamento para saber se há recursos ou não para a cura. Em minha igreja, muitas comunidades prosperaram nas últimas décadas graças à monocultura da soja na região. Prosperaram no sentido de que os seus membros têm mais dinheiro para doar, para construir, para ter uma igreja linda, bem de acordo com a prosperidade de seu meio. Ao mesmo tempo, está (somente) em discussão o dano ecológico e à saúde das pessoas que os agroquímicos causam de forma irreversível. Na igreja, pedimos por bom clima, chuvas na medida certa, boa colheita e agradecemos quando isso acontece, sem enxergar os danos que essa modalidade de cultivo acarretará às gerações futuras. Nas áreas urbanas, até hoje a presença dos pobres é incômoda para os setores melhor situados. Muitos acreditam que os gastos que o Estado despende com
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essas pessoas esquecidas e marginalizadas são inúteis e que esses recursos são cobrados deles através de maiores cargas tributárias. Essa forma de ver a realidade encontra-se também em nossas comunidades de fé. Será que em nossas comunidades podemos ler os sinais dos tempos com toda a liberdade? Estamos vendo os brotos da figueira? Ou isso levará a conflitos dentro da própria comunidade? Em uma sociedade onde as maiores aspirações são o consumo e o bem-estar, resta pouco espaço para esperar o regresso do Filho do Homem nas nuvens e pleno de poder e de glória. O desafio comunitário e individual consiste em identificar os diferentes sinais que Deus vai deixando em nosso tempo, aquilo que pertence a seu reino e aquilo que a ele se opõe, para assim chegarmos ao momento de comparecer diante do Filho do Homem.
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Exemplos para a prédica
Os exemplos serão diferentes de acordo com o contexto em que nossa comunidade está inserida. Podemos listar os sinais que vemos em nosso tempo e que nos comovem e assustam. Ou podemos listar os motivos que nos levam a esperar pelo regresso de Jesus. Em uma terceira lista, podemos anotar o que significa para nós estar atentos para não cair em uma armadilha. Vamos olhar como nossas três listas se relacionam entre si: sinais – razões para desejar a volta de Jesus – motivos para estar atentos. Confeccionemos um programa para, ao longo do ano, atingir uma leitura mais clara dos tempos à luz do evangelho e concretizar ações e tarefas que melhorem nossa atenção e espera ativa. Um possível roteiro para o pregador seria: sinais que vemos e não vemos; razões para desejar a volta de Jesus; o que nos distrai e o que nos ajudaria a estar atentos e vigilantes.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de culpa Misericordioso Pai: Tu nos deste a sensibilidade para compreender todos os sinais da criação. Confessamos-te que muitas vezes vemos e somos como cegos, ouvimos e agimos como surdos, tocamos e somos insensíveis, saboreamos e nada nos surpreende, sentimos o cheiro, mas nada nos comove. Perdoa-nos por não estar atentos a teus sinais e por viver distraídos sem desejar a volta do teu Filho. Tem piedade de nós. Oração de coleta Damos-te graças porque em cada geração tens iluminado a tua igreja e muitas pessoas de boa vontade. Elas identificaram teus sinais e estavam atentas à tua vontade. Obrigado, Senhor, pelos testemunhos dos profetas e dos discípulos, que são guias para nós hoje. Faze com que em nossa geração estejamos atentos e zelosos pelos caminhos do teu reino. Amém.
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Bibliografia SCHMID, Josef. El evangelio según San Lucas. Editorial Herder: Barcelona, 1968. (Tradução: Harald Malschitzky)
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2º DOMINGO DE ADVENTO
06 DEZ 2015
PRÉDICA: FILIPENSES 1.3-11 MALAQUIAS 3.1-4 LUCAS 3.1-6
Vera Maria Immich
Que vosso amor aumente mais e mais!
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Introdução
Advento chegou, e o ritmo que já era acelerado parece que acelera ainda mais, e não somente devido à proximidade do Natal. É o final do ano escolar, que requer algumas recuperações e pode trazer algumas frustrações. Empresas e grupos das comunidades envolvem-se em muitas festas de confraternização, amigos-secretos ou troca de presentes. E.... tem também o Natal com seu apelo comercial para festas e encontros de família e de amigos. Há também as trocas de presentes e lembranças. E, ainda, o texto de Filipenses para nos aquietar e falar de gratidão e oração. Palavras que ecoam do cárcere físico e da liberdade da fé do espírito libertário de Paulo.
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Exegese
Malaquias anuncia a vinda de um mensageiro que não deixará pedra sobre pedra. Ele “é como o fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros. Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata e purificará os filhos de Levi...” (Ml 3.2c). Aponta para o Advento como o tempo da espera do que há de vir, de mudar todas as estruturas, balançar as fortalezas e, do alto de sua humildade, anunciar o novo e derradeiro, quando o velho será depurado e transformado ou queimado e aniquilado. E o novo se instaurará. O evangelho confirma a profecia através de João Batista e sua ardorosa pregação de arrependimento. João prega sem cessar e possuído por fé e convicção. Ele atualiza Isaías. Filipos foi a primeira cidade europeia que recebeu a mensagem cristã (At 16. 6-40). Paulo visitou-a na primavera do ano 50 durante a segunda viagem missionária. Foi Lídia quem o recebeu e hospedou em sua casa. Ela era comerciante de púrpura. Ele voltou outras vezes a Filipos quando se dirigia à Macedônia. De acordo com Filipenses 4.16 e 2 Coríntios 11.19, essa comunidade era muita ligada a Paulo e socorreu-o financeiramente com generosidade. Paulo está preso, provavelmente em Roma, e desde o cárcere ele escreve para suas comunidades. Ele não se queixa, mas as anima e admoesta a permanecer firmes no evangelho e as ajuda a estabelecer critérios de discernimento. Não podemos esquecer que falsos profetas e falsos pregadores cercavam as comunidades. Ele alerta a pregar que a salvação depende somente de Jesus Cristo,
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aquele que se fez humano, morreu na cruz e recebeu do Pai o poder de dar aos seres humanos a salvação. A igreja de Filipos envia Epafrodito para levar ajuda material a Paulo, mas ele adoece gravemente, correndo risco de morrer. Quando ele se recupera, Paulo aproveita seu retorno para enviar uma carta. Essa carta ensina os cristãos a amadurecer e crescer na fé e na gratidão, alcançando a alegria e a comunhão com Deus e os irmãos e irmãs. A oração ocupa destaque em nosso texto, sendo mencionada duas vezes. É típico de Paulo falar de gratidão.
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Meditação
Quando nos deparamos com esse texto, surpreendemo-nos com um Paulo encarcerado e, mesmo assim, amoroso, que não atrai o foco para si, mas se volta para a comunidade. Ele coloca-a na presença de Deus, ora por ela e intercede amorosamente por ela. Paulo aponta para a boa obra iniciada pelo Espírito de Deus, uma obra de transformação, que ainda está sendo levada a termo, que está em processo em direção à eternidade plena. Em todo o tempo, Deus age para esse propósito. Paulo ensina sobre a importância da oração na vida da igreja para o mundo, para o estabelecimento do reino de Deus, para o aprofundamento da comunhão. Lembra que orar é um hábito necessário, humilde e constante da pessoa cristã. Não é uma opção; é parte importante da vida de fé. As primeiras comunidades deixaram-nos o legado da singeleza da oração. Os filipenses oram às margens do rio em liberdade. Paulo ora encarcerado no corpo e livre no espírito. A prisão de Paulo apenas mostra que o confinamento é físico, que ele está privado de relacionamentos e convívio, que a intenção é fazê-lo sentir-se oprimido e angustiado, isolado e solitário. Paulo esteve mais vezes preso, inclusive em prisão domiciliar, mas nunca conseguiram encarcerar seu espírito, “porque onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade” (2Co 3.17). A inocência e a convicção de sua fé não o deixam esmorecer; pelo contrário, animam-no ao testemunho. Pois neste tempo de Advento podemos experimentar o cárcere em plena liberdade sempre e quando nos esquecemos do verdadeiro sentido do Natal e nos submetemos ao Natal comercial, da aparência, da obrigatoriedade da felicidade plástica e maquiada. Paulo, no texto em questão, coloca a oração em primeiro lugar. Parece um contrassenso em um mês tão corrido e exigido. Ele tem, a partir da prisão, tempo e discernimento para elencar o prioritário que extrapola as grades do encarceramento. Talvez as pessoas que estão hospitalizadas e aquelas que enfrentam a dor do luto, aquelas que se veem ante a terminalidade da vida, possam ajudar-nos a discernir o que é o mais importante. Talvez elas possam aquietar nossa correria, que, muitas vezes, nos assemelha ao hamster que se exercita em sua roda sem chegar a lugar nenhum. A ação de graças e gratidão de Paulo é inspirada na lembrança (v. 3), expressa em oração (v. 4), seguida de alegria (v. 4) e robustecida pela convicção de que Deus mesmo fará perfeita sua obra da graça em suas vidas (v. 6). O apóstolo sente-se justificado nessa atitude para com Deus e para com os cristãos em Filipos
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por duas razões. Primeiro, ele diz que os tem posto em seu coração (v.7). Isso é uma confissão aberta de amor, interpretada mais adiante, no v. 8, como expressão do amor do próprio Cristo, o Salvador. Segundo, ele faz essa oração (9) para que o amor dos filipenses aumente mais e mais em pleno conhecimento e percepção. Portanto o amor de que Paulo fala não é ingênuo nem manipulável, mas carregado de sabedoria e discernimento. E, como Lutero, exorta e elogia para que eles permaneçam na fé autêntica e cresçam no amor.
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Imagens para a prédica
Assim como Jesus e Paulo, Glenn Ford (ilustração a seguir) e muitas outras pessoas ainda hoje são encarceradas sem ter cometido um crime. São julgadas e condenadas. Jogadas na masmorra, muitas perdem a esperança; outros dão um outro significado à injustiça, transformando-a em força para lutar. Paulo escreve cartas amorosas e orientadoras à sua comunidade. Em sua fragilidade, ele derrama força sobre os seus amados. Desde a prisão, ele os anima ao amor, ao conhecimento e à percepção verdadeira. Ele ora pelos outros e sequer pede por si. Advento é tempo de romper com as amarras que nos impedem de crescer no amor mais e mais; é tempo de romper os grilhões do egoísmo que nos fazem pensar somente em nós mesmos; é tempo de interceder pelos outros. O pregador e a pregadora podem escolher motivos de intercessão que estão distantes da comunidade ou motivar a comunidade a fazê-la. Advento é tempo de olhar para fora de nós mesmos e das belezas das luzes de Natal; é tempo de olhar para as injustiças do sistema carcerário, que apenas quer punir e não restaurar; que quer acalmar os ânimos da sociedade, sem se preocupar se o verdadeiro culpado está preso. Advento é tempo de anunciar a graça. Segundo a BBC Brasil, nas últimas décadas houve vários casos de condenados à morte nos EUA que acabaram inocentados e libertados depois de comprovado que não haviam cometido os crimes dos quais eram acusados. Um dos casos mais recentes é o de Glenn Ford, libertado em março de 2015 depois de passar quase 30 anos no corredor da morte por um crime que não cometera. Ford, de 64 anos, havia sido condenado por um assassinato ocorrido em 1983 e, desde 1985, estava preso no estado da Louisiana. No mês passado, ele foi finalmente inocentado e libertado. No entanto, apenas uma minoria consegue ter sua inocência provada e reconquista a liberdade. A maioria dos inocentes sentenciados à morte nunca é identificada ou libertada.
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Subsídios litúrgicos
Acolhida Neste tempo de Advento, tempo de acender a segunda vela, podemos acendê-la em nome do amor que Paulo deseja à sua amada comunidade. Acendemos essa vela lembrando a oração de Paulo em Filipenses 1.9: “E também faço essa oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção”.
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Hinos
414 (Quem quer cantar do amor) e 308 (Advento é tempo de preparação).
Oração inicial Deus de amor e de misericórdia! Rendemos-te graças por nos escolheres para ser teu povo eleito e amado e por nos acompanhares sempre. Damos-te graças por plantares em nossos corações o sentimento de busca e depuração, o desejo de mudança e de transformação. Sacode-nos neste tempo de Advento para despertar para as injustiças e buscar o amor testemunhado nas Sagradas Escrituras, que nos habilitam para a plenitude. Fortalece-nos por teu grande amor e aumenta nosso conhecimento e que teu Santo Espírito habite em nós. Amém! Bênção Que o Príncipe da Paz nascido em manjedoura vos abençoe; Que ele cuide de vós como os pastores dos campos cuidam das suas ovelhas; Que ele vos conceda a sabedoria dos magos para perceber o que é importante; Que eles vos dê a alegria dos anjos para testemunhar que nasceu o Salvador. Ide em paz. Ide na paz que o Príncipe da Paz trouxe para todos. Ide na humildade dos pastores do campo que ouviram o cantar do coro celestial, anunciando o nascimento do Salvador, e ajoelharam-se diante dele. Ide na sabedoria dos magos que perceberam nesse menino o Rei dos Reis e o adoraram. Ide como mensageiros dessa mensagem de amor e da graça de Deus. Ide como mensageiros da paz. E assim vos abençoe o trino Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!
Bibliografia STOTT, J.W. Comentário a Filipenses 1.3-11. Disponível em <http://bibliotecabiblica.blogspot.com.br/2009/07/comentario-de-jw-scott-filipenses-13-11.html> Acesso em: 15 jun 2015.
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3º DOMINGO DE ADVENTO
13 DEZ 2015
PRÉDICA: LUCAS 3.7-18 SOFONIAS 3.14-20 FILIPENSES 4.4-7
Nilton Giese
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Introdução
O texto de Lucas 3.7-18 foi trabalhado em quatro volumes anteriores de Proclamar Libertação. Tomo essas quatro reflexões como bibliografía de consulta para esta contribuição. Todas elas estão em formato on-line no portal www. luteranos.com.br. São excelentes abordagens teológicas. Ao mesmo tempo, utilizo os cursos bíblicos da Fundación Dialogo, presidida pelo ex-sacerdote católico Ariel Álvares Valdés, da Argentina. Ariel foi um bom colaborador da revista Signos de Vida, do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), da qual tive o privilégio de ser o diretor de 2005 a 2014. No ano de 2008, o então sacerdote Ariel foi condenado pelo Vaticano e silenciado a não dar mais aulas por “não acreditar na existência de Adão e Eva”. Minha proposta nessa nova tentativa de reflexão sobre Lucas 3.7-18 é destacar a importância que João Batista teve na vida de Jesus. Em que sentido a mensagem e o movimento de João Batista prepararam o caminho para Jesus e seu movimento? Gostamos de pensar que Jesus teve plena consciência desde sua infância de que ele era o Filho de Deus, de que ele havia vindo ao mundo para pregar o reino de Deus e que deveria morrer na cruz para assim salvar a humanidade. Imaginamos também que Jesus sabia que, a partir de determinado momento de sua vida, ele teria que abandonar a carpintaria de seu pai, José, e começar a anunciar a vinda do reino de Deus. Mas as coisas foram assim tão simples? Ou será que Jesus precisou da ajuda de outras pessoas para compreender sua tarefa e sua missão no mundo? João Batista parece ter jogado um papel crucial. Todos sabemos que esse pregador do rio Jordão batizou Jesus. Mas será que a ação de João Batista limitou-se ao batismo de Jesus?
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Quem era João Batista?
Flávio Josefo foi um historiador do primeiro século da era cristã. É curioso saber que ele dedica mais comentários à atuação de João Batista do que à atuação de Jesus. Flávio Josefo menciona a originalidade do movimento de João Batista: aparece no deserto e, mesmo assim, tem grande capacidade de mobilizar pessoas. As pessoas vão ao deserto para escutá-lo. João inventa o batismo. A água sempre foi um elemento religioso importante para a purificação, e João utiliza-a para chamar pessoas ao arrependimento em nome de Deus. E, por fim, Josefo menciona a novidade do discurso de João Batista ao dizer que praticar a justiça entre as pessoas é mais importante do que fazer sacrifícios a Deus.
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3º Domingo de Advento
No primeiro século, a religião judaica vivia um período de profunda letargia, dominada oficialmente por dois grupos dentro do judaísmo: os fariseus, que eram um partido religioso, e os saduceus, que eram um partido político-religioso. A situação política opressora que reinava no país, o cansaço moral pela espera de um salvador que não chegava nunca, a vida escandalosa da classe governante (supostamente representante de Deus) e a degradação dos próprios sacerdotes do templo (mais preocupados com seus próprios interesses do que em animar a fé do povo) esfriaram a devoção das pessoas e desanimaram a prática religiosa. Nesse contexto aparece João, filho de um sacerdote do templo chamado Zacarias. Ele vivia no deserto, levava uma vida austera. Vestia-se com pele de camelo e um cinturão de couro, ao estilo dos velhos profetas, e alimentava-se de insetos e mel silvestre (Mc 1.6). Sua voz espalhou-se como um trovão no tranquilo deserto da Palestina. Com um discurso forte, João Batista enfatizou que ser mais religioso não significava rezar mais e nem correspondia a fazer mais sacrifícios no templo. Ser mais religioso, para João Batista, era ter mais compromisso com as pessoas, praticando a justiça e a misericórdia. A sua pregação sobre o juízo de Deus assemelhava-se à dos profetas do Antigo Testamento. A novidade de João era que esse juízo de Deus viria com castigo e era iminente. Em pouco tempo, Deus mesmo castigaria com fogo todos os que não se arrependessem de seus pecados (Mt 3.7-12). No entanto, havia ainda uma possibilidade de escapar desse castigo de Deus se as pessoas se arrependessem de seus pecados e se dispusessem a uma mudança de atitude de vida em relação às outras pessoas. As pessoas que o escutavam ficavam magnetizados por seu discurso. Muitas vinham de longe em busca de seus conselhos. Àquelas que aceitavam seus ensinamentos e se dispunham a essa mudança de vida João pedia que recebessem o sinal do batismo no rio (Mc 1.4-5). Esse batismo não se limitava a um ritual de purificação, como no judaísmo. A novidade era que requeria um arrependimento e uma mudança ética da pessoa. Já não bastava dizer “sou filho de Abraão”. O compromisso do batismo deveria “dar bons frutos” em relação a outras pessoas. O ministério de João Batista acontecia junto ao rio Jordão. Mas ele não tinha um lugar fixo. Às vezes, instalava-se no tranquilo braço do rio, perto de Betânia (Jo 1.28). Outras vezes, mais ao norte, em “Enom, perto de Salim” (Jo 3.23), na província de Samaria. O evangelista Lucas diz que João andava por toda a região do rio Jordão (Lc 3.3), anunciando sua mensagem. No entanto, ele não ia ao encontro das pessoas, mas as pessoas iam ao encontro dele. O êxito desse fervoroso pregador foi extraordinário. Era muito difícil ficar indiferente. Muitos jovens que se haviam afastado da religião voltaram a comprometer-se com Deus. João não pedia nada para ele. Ele também não pregava uma mudança radical nas estruturas sociais e religiosas. O que ele pedia é que cada um fizesse seu trabalho praticando a justiça. Todas as pessoas que batizou ele enviou de volta a seus lugares, somente pedindo que a partir do batismo fossem justas e realizassem boas obras (Lc 3.8-14).
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Mesmo assim, um pequeno grupo formou-se ao seu redor. Esse grupo acompanhava seus ritos batismais (Jo 1.28.35-37), ajudava nas pregações (Jo 3.23), recebia ensinamentos mais aprofundados (Jo 3.26-30) e compartilhava da espiritualidade ascética do jejum (Mc 2.18) e da oração (Lc 11.1).
3
Jesus vai ver e ouvir o profeta
Também o jovem Jesus foi atraído pela mensagem de renovação espiritual de João Batista e, por isso, viajou de Nazaré até o vale do rio Jordão para ver e ouvir o profeta. Jesus escutou sua mensagem escatológica, que pode ser resumida em três pontos: * o mundo (a história) está sob a iminência do juízo de Deus; * o povo de Israel afastou-se da vontade de Deus e por isso corre o risco de ser consumido pelo fogo do juízo de Deus; * é necessário mudar de atitude – viver praticando a justiça e a misericórdia – e confirmar essa mudança com o batismo. Alguns comentaristas afirmam que provavelmente esse encontro com João Batista impressionou tanto o nazareno, a ponto de ter despertado nele sua vocação posterior. O batismo de Jesus fez com que ele abandonasse sua vida silenciosa, que até então ele levara em Nazaré. Na verdade, sabemos que Jesus aceitou a mensagem de João da mesma forma que muitos outros judeus e que foi batizado por João, como relatam os evangelhos (Mt 3.13-17; Mc 1.9-11; Lc 3.21-22). Conforme os evangelhos sinóticos, no momento do batismo, desceu sobre Jesus o Espírito Santo, proclamando publicamente que Jesus é o Filho de Deus, e que, depois disso, Jesus retirou-se 40 dias para o deserto como preparação para iniciar sua missão de proclamar o reino de Deus. No deserto, vivia também João Batista. Por isso o texto parece sugerir que Jesus – por algum tempo – integrou-se ao grupo de discípulos de João Batista. Antes de ser batizado por João Batista, Jesus era um desconhecido. No Evangelho de João (1.35-57), ouvimos de dois discípulos de João (André e um anônimo) que reconhecem Jesus como um Mestre e começam a segui-lo. Mais tarde, eles convidam também Pedro e Natanael para seguir o novo Mestre. Dessa forma, reforça-se a suspeita de que todos eles pertenciam ao mesmo grupo de João Batista. Mais adiante, no Evangelho de João (3.22-4.3), lemos que Jesus e seus discípulos foram para a região da Judeia e ali chegaram a batizar pessoas. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque lá havia muita água. Alguns discípulos de João tiveram uma discussão com um judeu sobre a cerimônia da purificação. Então eles foram falar com João: “Mestre, aquele homem que estava com o senhor no outro lado do rio Jordão está batizando as pessoas”. Essa passagem do evangelista João vai na mesma direção ao dizer que, por algum tempo, Jesus foi discípulo de João. Os discípulos de João sabiam que Jesus
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havia sido batizado por João e que esteve por algum tempo entre o grupo de João. Agora os discípulos veem que Jesus saiu do grupo de João, formou seu próprio grupo e começou a batizar por conta, reunindo seus próprios discípulos e fazendo uma espécie de competição com quem antes fora seu mestre. Somente com esse pano de fundo pode-se entender os sentimentos de frustração e rivalidade do grupo de discípulos que ainda permaneciam com João. Mas Jesus não queria essa rivalidade. Por isso continua o Evangelho de João: Quando Jesus ficou sabendo que ele estava ganhando mais discípulos e batizava mais pessoas do que João, ele saiu da Judeia e voltou para a Galileia (Jo 4.1-3). Portanto temos aqui três relatos que falam que, no início da vida pública de Jesus, ele também batizou por algum tempo. E que essa prática havia sido inaugurada por seu antigo formador, na época em que ele próprio – Jesus – fazia parte do grupo de João. Esses personagens que mencionam que Jesus esteve entre os discípulos de João são exclusivos do Evangelho de João. Eles não aparecem nos evangelhos sinóticos. E isso é bem interessante porque, na exegese bíblica, uma das características do quarto evangelho é esclarecer os seguidores de João Batista de que ele não era o Messias, mas que o Messias estava por vir. A memória de um “Jesus Batista” parece que incomodava a comunidade cristã, a ponto de se dizer em João 4.2: De fato, não era Jesus quem batizava, e sim os seus discípulos. Essa frase parece colocar Jesus da forma mais independente possível de João. No entanto, essa frase posterior contradiz as três referências anteriores, nas quais aparece que Jesus de fato batizava. Mas quanto tempo Jesus ficou no grupo de João Batista? Ao certo não sabemos. No entanto, não deve ter sido por muito tempo, considerando que a vida pública de Jesus durou somente três anos. Ao que parece, enquanto Jesus esteve no grupo de João Batista, ele descobriu a sua missão. Sentiu que o Pai o chamava para que anunciasse a presença do reino de Deus. Assim, Jesus começou a desenvolver seu ministério de forma independente e com um conteúdo diferente.
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O movimento de Jesus
Aquilo que separou Jesus de João Batista foi o conteúdo de sua mensagem. Para João Batista, o juízo e o castigo de Deus eram iminentes. A prédica de Jesus, no entanto, não anunciava o castigo de Deus, mas sim a misericórdia e o amor de Deus. Jesus e seus seguidores também mudam de metodologia. Não continuam vivendo no deserto, mas percorrem povoados e cidades. Jesus também tem uma atitude de vida e espiritualidade distinta de João. Não promove o jejum, mas sim comunhão de mesa, comendo e bebendo com os pecadores. Não se refugia no deserto, mas vai ao encontro das pessoas nos caminhos e nos povoados. Dessa forma, surge o movimento de Jesus dos evangelhos. Fica, no entanto, uma pergunta: Jesus realmente precisou de alguém como João Batista que lhe abrisse os olhos e a mente para mostrar-lhe o caminho que deveria seguir?
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Jesus era Deus e também foi plenamente humano
Certamente, Jesus era Deus. Mas ele também era plenamente humano. E uma das características do ser humano é a lenta assimilação das coisas novas. Jesus parece ter experimentado essa mesma pedagogia, como nos demonstra o Evangelho de Lucas 2.51-52: Conforme crescia, Jesus ia crescendo também em sabedoria, e tanto Deus como as pessoas gostavam cada dia mais dele. Os evangelhos dizem que Jesus era Deus e que dentro dele habitava toda a divindade de Deus. Mas essa infinita sabedoria de Deus para exteriorizar-se deveria passar pelas limitações da compreensão humana. Pensar que Jesus sabia de todas as coisas com total clareza e perfeição, além de não corresponder aos evangelhos, revela uma concepção simplista do Senhor. Desde que o Filho de Deus se fez ser humano, Deus quis atuar através dele de forma natural, isto é, segundo as características do mundo para o qual havia sido enviado. Por isso Jesus teve fome, sede, sentiu calor, sono, alegrias, tristezas e dúvidas no momento da prisão e crucificação. Assim como Maria e José foram o fator humano para que Jesus tivesse uma família, assim também parece que João Batista foi o fator humano para que Jesus descobrisse sua vocação. Deus pode falar de muitas maneiras e através de distintas circunstâncias. Se Deus privilegiou esse modo humano de comunicação com Jesus, então deveríamos estar mais atentos às pessoas que nos falam, exortam e advertem. Poderiam ser a voz de Deus, que nos quer orientar no deserto de nossa vida.
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Imagens para a prédica
O fósforo e a vela Certo dia, o fósforo disse à vela: – Minha missão é te acender. – Ah, não, disse a vela. Tu não vês que, se me acenderes, meus dias estarão contados? Não faças uma maldade dessas! – Então queres permanecer toda a tua vida assim dura, fria, sem nunca ter brilhado?, perguntou o fósforo. – Mas ter que me queimar, isso dói. Consome as minhas forças, murmurou a vela. – Tens toda a razão, respondeu o fósforo, esse é precisamente o mistério de tua vida. Tu e eu fomos feitos para ser luz. O que eu, como fósforo, posso fazer é muito pouco. Mas se passo a minha chama para ti, cumprirei com o sentido de minha vida. Eu fui feito justamente para isto: para começar o fogo. Tu és vela. Tua missão é brilhar. Toda a tua dor, tua energia vai transformar-se em luz e calor. Ouvindo isso, a vela olhou para o fósforo, que já se estava apagando, e disse: – Por favor, acende-me.
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Bibliografia Auxílios homiléticos anteriores sobre o texto: DREHER, Carlos A. (PL XVII), BRAKEMEIER, Gottfried (PL XXIII); DREHER, Claus (PL XXIX); BUTTELLI, Felipe Gustavo Koch (PL XXXIV). VALDÉS, Ariel Álvares. La vocación religiosa de Jesús de Nazaret. Curso Bíblico de la Fundación Dialogo, Santiago del Estero, Argentina.
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4º DOMINGO DE ADVENTO
20 DEZ 2015
PRÉDICA: MIQUEIAS 5.2-5a LUCAS 1.46-55 HEBREUS 10.5-10
Carlos A. Dreher
1
Introdução
O texto de Miqueias, com pequenas variações, já foi tratado diversas vezes em Proclamar Libertação (5.1-4a em PL 6 e 12; 5.2-4 em PL 29; 5.2-5 em PL 16, 27 e 34). Os textos de leitura também apresentaram variações. Na formação proposta para este domingo, ocorre pela terceira vez (cf. PL 29 e 34). Nesses dois casos, a leitura de Lucas foi proposta como 1.39-45 (46-55). Não é difícil relacionar o texto de pregação com a leitura do evangelho. Miqueias 5 anuncia “aquele que há de governar em Israel” (v. 2); ele “apascentará o povo”, e “eles habitarão seguros” (v. 4); “este será a nossa paz” (v. 5a). São afirmações retomadas em Lc 1.46-55, o Magnificat, em outra linguagem: a misericórdia de Deus não tem fim (v. 50); os poderosos são derrubados e os humildes exaltados (v. 52); Deus enche de bens os famintos e despede vazios os ricos (v. 53); ampara Israel, seu servo (v. 54). Em ambos os textos, os inimigos e opressores são afastados, e o povo de Deus pode experimentar bem-estar e paz. Bastante complicada, a meu ver, é a relação daqueles textos com a passagem de Hebreus 10.5-10. Talvez a disposição do salmista, citado na passagem, em fazer a vontade de Deus (v. 7 e 9) pudesse ser relacionada à afirmação de Maria, anterior a seu cântico, em Lc 1.38: “Eis aqui a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra”. Contudo é apenas uma relação de contexto. Importante é acentuar que estamos no 4º Domingo de Advento, a quatro dias da noite de Natal.
2
Miqueias 5.2-5
Uma boa introdução ao livro de Miqueias, bem como uma análise exegética competente já foi apresentada por Haroldo Reimer no PL 29, p. 21-24. Para maiores detalhes, aponto para aquele auxílio homilético, embora minha reflexão tome um rumo diferente daquela ali proposta. Embora haja certo consenso de que apenas os capítulos 1-3 do livro devam ser atribuídos a Miqueias de Moresete-Gat (725-701 a.C.), a passagem de 5.2ss tem grande probabilidade de remontar a ele. A semelhança com Isaías 11.1 é muito grande. Ambas as passagens apontam para um tipo de liderança própria da sociedade tribal anterior à monarquia. Aliás, parecem acabar deliberadamente com a monarquia e com a expectativa por um rei do futuro, um messias. Ao afirmar que “do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo”, Isaías está cortando a árvore numa linha abaixo de Davi. Não se trata do “tronco
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de Davi”, portanto monárquico; trata-se do “tronco de Jessé”, portanto tribal. A monarquia, ao menos a davídica e, como tal, messiânica, ainda não existe no tempo de Jessé. Da mesma forma, a Belém-Efrata, apresentada por Miqueias, é sim a aldeia da qual provém Davi, mas não o Davi rei, e sim o Davi pastor de ovelhas. Miqueias de Moresete-Gat, assumo-o, não quer mais um rei. Quer o fim da monarquia (cf. cap. 3, no qual o termo “rei” nem sequer aparece). Sim, aponta para um líder no futuro, mas já não para um rei. Da pequena Belém, da região do clã dos efrateus (cf. Rt 1.2), virá o novo líder. Trata-se de uma aldeia periférica, insignificante. É tão pequena, que é incapaz de figurar entre os alafim de Judá. A palavra traduzida na versão de Almeida por “milhares” é a forma plural do termo hebraico élef, que pode significar o numeral “mil”, mas pode indicar também a unidade de defesa de uma aldeia. Trata-se aí do grupo de homens jovens aptos para a luta quando for necessário. No geral, são grupos de oito a quinze jovens, dependendo da população da aldeia. Além de defender a própria aldeia de eventuais assaltos e ataques, essas unidades de defesa são convocadas para compor o exército tribal. Essa me parece ser a interpretação correta do termo na passagem: Belém é uma aldeia tão pequena e insignificante, que não dispõe nem mesmo de um élef – oito guerreiros – para defender-se, que dirá para compor um exército tribal! Pois é dessa Belém insignificante que virá aquele que há de governar em Israel. O v. 2 (no hebraico é o v. 1) utiliza o verbo mashal (“governar”), não o verbo malak (“reinar”). É evidente que um rei governa. Contudo o verbo aqui empregado não se refere à atividade de um rei. Refere-se à ação de um líder tribal, do tipo “carismático”, como definiu Max Weber, como os heróis do Livro de Juízes. São pessoas do campo, das quais o Espírito de Deus se apossa, capacitando-as para a liderança nas guerras contra os inimigos. Passada a ação de salvamento para a qual foram escolhidos, voltam a ser agricultores como antes. Tal liderança não se perpetua. Nessa direção parecem apontar também as referências seguintes contidas no v. 2. Esse líder que governará tem suas origens desde os tempos antigos, o que equivale a dizer “desde os dias da eternidade”, ou seja, desde sempre, como as aldeias tribais o experimentaram no tempo dos juízes e ainda experimentam. Apesar da monarquia, elas continuam a organizar-se como sempre o fizeram, procurando viver uma sociedade de iguais, solidária. O v. 3 diz-nos que “o Senhor os entregará”. Isso significa que o povo de Judá será entregue nas mãos de algum inimigo. Se acatarmos a ideia de que a passagem remonta a Miqueias, tais inimigos devem ser os assírios, que avançam e já tomaram a Galileia. Aliás, a Assíria é explicitamente mencionada no v. 5b. Seja como for, a ameaça de um inimigo muito forte paira sobre o povo de Deus. Muito difícil de interpretar é a expressão “até ao tempo em que a que está em dores tiver dado à luz”. É grande a tentação de relacionar de imediato a passagem ao nascimento de Jesus. Não creio que se deva fazer isso por respeito à comunidade judaica, à qual o texto pertence em primeiro lugar. Será, então, uma simples indicação de que o sofrimento terá a duração de uma gravidez, como em Isaías 7? Seja como for, ao cabo de um tempo, o líder que governará verá o
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restante de seus irmãos voltarem aos filhos de Israel. De fato, a julgar por essa frase, o texto parece indicar o retorno dos exilados ou de seus descendentes após 538 a. C. Não obstante, continuo a ver o conjunto como originário de Miqueias e, portanto, de um período anterior. A parte final da perícope transpõe-nos para um futuro de paz (v. 4 e 5a). Quando a situação de opressão e sofrimento estiver superada, aquele que há de governar assumirá sua função, mantendo-se firme e apascentando o povo na força do Senhor, seu Deus. O novo líder age com seu povo como um pastor lida com seu rebanho. Contudo só consegue fazê-lo porque se apoia na majestade de seu Deus, o verdadeiro rei. A partir dessa majestade, o povo habita seguro, e o nome do governante é engrandecido até os confins da terra. Na força e na majestade do Senhor, ele será a nossa paz.
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Pensando na pregação
De tanto ouvir e reler essa passagem na época de Advento e Natal, a tentação evidente é querer transformá-la, de imediato, em um texto “evangélico”, isto é, próprio do Novo Testamento e dos evangelhos ou, pelo menos, num dos textos ditos “messiânicos” que prefiguram o Messias Jesus Cristo já na Bíblia Hebraica. Na verdade, o texto de Miqueias 5.2-4a fala-nos de esperança. Anuncia a vinda de uma liderança comprometida com as origens de Israel, uma sociedade de irmãos na qual deliberadamente Gideão pode afirmar: “Não dominarei sobre vós, nem tampouco meu filho dominará sobre vós; o Senhor vos dominará” (Jz 8.23). Dessa mesma sociedade vem-nos a peça literária mais antimonárquica da literatura universal (Martin Buber), o apólogo de Jotão (Jz 9.8-15). Sim, o rei é como um espinheiro: não produz frutos, promete sombra, mas apenas espeta. Semelhante ao texto de Is 11.1ss, também aqui a esperança não é “messiânica”, no sentido de que espera pela vinda de um novo rei. Aquele que sairá de Belém-Efrata não será um rei. Será, sim, um herói tribal, um líder, como Eúde, Débora, Gideão, Jefté, sem pretensão ao poder absoluto e vitalício. Virá para prestar serviço, alicerçado na majestade do nome do Senhor, pois somente ao Senhor pertencem a majestade e a realeza. Essa esperança é prometida em tempos de aflição. A formulação também é típica do Livro de Juízes: o Senhor entrega seu povo nas mãos do inimigo, mas, a seu clamor, suscita um libertador (cf. Jz 3.8s; 3.12 e 15; 4.2; 6.1; 10.6). Evitaria, pois, falar da esperança por um rei na pregação. Acentuaria, antes, que Miqueias não espera por um rei. Aquele que vem é diferente. Não pretende o poder, não busca a glória, não quer dominar. Quer servir, quer apascentar, cuidar de seu povo, sempre em conformidade com a vontade do Senhor. Naquele que vem o seu povo habitará seguro. Naquele que vem haverá paz. Na mesma direção aponta o Magnificat. O cântico de Maria anuncia: [Deus] “Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. Amparou a
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Israel, seu servo, a fim de lembrar-se da sua misericórdia a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre, como prometera aos nossos pais” (Lc 1.51-55). E agora, sim, podemos estabelecer a relação com o evangelho. Maria está grávida. É ela que em breve estará em dores e dará à luz. E aquele que virá de Belém-Efrata será seu filho e será também chamado de Filho de Deus (Lc 1.35). Com sua vinda os soberbos serão dispersos, os poderosos serão derrubados de seu trono, os ricos serão despedidos de mãos vazias, ao passo que os humildes serão exaltados, e os famintos, enchidos de bens. Israel será amparado; será apascentado. E poderá viver em paz! Penso que a prédica deveria levar em conta a distância temporal entre Miqueias e Lucas – 700 a. C. – 70 d. C., em termos aproximados. Há que contar que a esperança expressa por Miqueias não se concretizou no passado, a ponto de João Batista enviar seus discípulos para perguntar a Jesus: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” (Lc 7.19). A pergunta de João tem, em sua primeira parte, uma esperança muito grande de que o prometido tenha, enfim, chegado. A segunda parte revela a frustração de séculos: havemos de esperar outro, porque mais uma vez fomos iludidos com vãs promessas? Proponho que se aborde primeiramente o texto de Miqueias em separado, sem relacioná-lo ao Natal. Isso ocorreria em uma segunda parte da pregação, agora com auxílio do texto de Lucas. Não consigo deixar de pensar numa provocação. Entre Miqueias e Lucas temos uma distância temporal de cerca de 770 anos. E entre Lucas e o Natal de 2015? 1.935 anos! Como não repetir a angustiante pergunta de João, talvez agora de uma maneira um tanto diferente: “Até quando, Senhor, havemos de esperar que tua paz se torne plena neste mundo? Até quando, Senhor, havemos de esperar que tu nos apascentes, para que, definitivamente, possamos habitar seguros?”. Que o Senhor, aquele que vem de Belém-Efrata, realimente a nossa fé e a nossa esperança neste Natal!
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Imagens para a prédica
Não disponho exatamente de imagens para a prédica. Não obstante, apresento uma sugestão. Nos últimos tempos, não temos tido muitas notícias positivas sobre a situação do mundo e de nossa sociedade. Escândalos, crimes hediondos, corrupção de alto a baixo etc. Não deve ser difícil enumerar algumas dessas imagens negativas, talvez bem mais recentes por ocasião da época de Advento. Proponho que o pregador ou a pregadora busquem algumas dessas notícias e apresentem-nas como situação de opressão, de sofrimento, enfim, de desesperança. Tome-se o cuidado de não enumerar aí notícias polêmicas que possam vir a fechar os ouvidos de pessoas da comunidade, de um lado ou de outro. O que se deveria deixar bem claro é a paz esperada por Miqueias, que ainda parece estar bem distante.
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4º Domingo de Advento
Em seguida, faça-se o mesmo em relação a notícias positivas e alentadoras, que mostrem, ainda que sejam pequenas e frágeis, que outro mundo é possível. São essas notícias pequenas e frágeis que têm a ver com a pequena Belém-Efrata, com a frágil manjedoura de Belém, com a menina escolhida para ser mãe do Salvador. São essas pequenas luzes que alimentam nossa fé.
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Subsídios litúrgicos
Como versículo de introito sugiro Isaías 11.1-2: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo. Repousará sobre ele o Espírito de Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor”. Para as leituras, proponho que se substitua o texto de Hebreus por outra epístola ou por um segundo texto do Antigo Testamento. Nesse caso, proponho Isaías 9.1-7 ou 11.1-10. Dos diversos hinos de Advento do HPD 1, os de número 1 e 3 parecem-me apropriados para a ocasião. Seria possível também cantar o hino 32, “Renovo mui delgado”, ou seu equivalente no HPD 2, “Da cepa brotou a rama”, hino 310. A confissão de pecados deveria lembrar algumas das notícias negativas que serão utilizadas na pregação. A oração de intercessão faria bem em agradecer pelas boas notícias e conclamar para a esperança.
Bibliografia Como bibliografia, sugiro os auxílios homiléticos sobre o texto de Miqueias 5.2-5a, já publicados em Proclamar Libertação, mencionados na introdução deste texto.
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PRÉDICA: LUCAS 2.1-7(8-20)
NOITE DE NATAL
ISAÍAS 11.1-9 ROMANOS 1.1-7
24 DEZ 2015
Geraldo Graf
E se o Natal fosse hoje? O culto da véspera de Natal costuma reunir muitas pessoas, sobretudo crianças. Em muitas comunidades, realizam-se o teatro de Natal e a distribuição de doces. Por isso sugerimos como mensagem uma encenação natalina para esta ocasião, com o objetivo de sensibilizar as pessoas para o verdadeiro sentido do Natal. Recomendamos a leitura do auxílio homilético preparado pela pastora Sisi Blind no Proclamar Libertação v. 30, p. 24-30. Personagens: Locutor, José da Silva, Maria da Silva, fazendeiro César Augusto Romano, capataz, secretária, empresário Heródio Pontes Pilates, agente de empregos, gari 1, gari 2, gari 3. Época: Natal de 2016. LOCUTOR: Hoje nós celebramos a véspera de Natal. As igrejas ficam lotadas, e as pessoas entoam a todos os pulmões os belos hinos que falam da vinda do Salvador. As pessoas enfeitam suas casas com multiformes cores e luzes. Presentes são dados e recebidos. Jantares reúnem as famílias. Mas será que isso tudo reflete e transmite a verdadeira mensagem do Natal? Essa mensagem diz que Deus veio ao mundo por intermédio de uma criança, frágil e ameaçada, e desceu à mais profunda fraqueza humana justamente para nos resgatar, nós que vivíamos afastados de seu amor por causa do pecado. Tanto assim Deus nos amou, “que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Conseguimos dimensionar esse amor? Temos a capacidade de compreender a profundidade desse gesto? E se acontecesse hoje entre nós, perceberíamos o sinal da salvação? Quando Lucas escreveu o seu evangelho, os cristãos estavam sendo perseguidos porque se negavam a endeusar o imperador romano, que se declarava o salvador do mundo. Lucas contrapôs esse culto ao imperador com outra história: a história de uma criança, nascida pobremente na longínqua província da Palestina. Essa, sim, era o Salvador do mundo. Deus escolheu reconciliar a humanidade consigo mesmo por meio de uma criança, humilde, frágil e ameaçada, mas que mudaria para sempre a nossa relação com Deus. Nós não queremos celebrar o Natal apenas como uma data que remete a um acontecimento esquecido lá no passado. E se o Natal fosse hoje? Reconheceríamos na criança recém-nascida o Salvador do mundo? Para refletirmos sobre essas perguntas, vamos assistir a uma
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Noite de Natal
encenação que bem poderia ser a história do Natal transportada para os nossos dias, para a nossa cidade. ATO 1 CENA 1 (na casa de José e Maria) MARIA: José, meu esposo, qual foi o recado que nosso patrão, o senhor César Augusto Romano, mandou a você? JOSÉ: Pois é, Maria, o patrão mandou avisar que eu vá ainda hoje à sede da fazenda. Sei não... Coisa boa não é. MARIA: Tem “caroço nesse angu”. JOSÉ: Do jeito que ele é ganancioso... Desde que você ficou grávida, ele vem jogando indireta, dizendo que nós só lhe damos prejuízo. Só que ele não reconhece que você não pode trabalhar neste estado em que você se encontra. MARIA: Você acha que ele vai tomar uma atitude contra nós? Só porque eu estou grávida? Ele não pode fazer isso! JOSÉ: Poder, ele não pode, mas faz! Ele até manda no prefeito e no delegado. Quem pode fazer alguma coisa contra ele? Tenho um péssimo pressentimento quanto à nossa permanência aqui na fazenda. Bom... Eu vou ver o que o patrão está querendo comigo. MARIA: Ficarei ansiosa aguardando a sua volta. Espero que você traga boas notícias. Meu estado adiantado de gravidez dificulta uma mudança agora. Eu preciso de repouso. JOSÉ: Estou indo. Ore a Deus pedindo que tudo dê certo. MARIA: Que a vontade de Deus seja feita! CENA 2 (na casa do fazendeiro) CAPATAZ: Boa tarde, José! JOSÉ: Boa tarde! O Dr. César Augusto mandou me chamar. Ele pode me atender agora? CAPATAZ: Vou ver se o coronel tem tempo. Espera um pouco. Mas não mexe em nada, viu? (falando ao público) A gente precisa ficar de olho nessa gentalha, senão eles acabam aprontando alguma coisa. (vai para a outra extremidade do palco) Patrão, com licença, chegou aquele seu empregado, o José, aquele que o senhor mandou chamar. Posso dizer que ele entre? FAZENDEIRO: Sim. Manda aquele traste entrar. Quanto antes eu o despachar, melhor. CAPATAZ (chama José): Pode entrar. Mas tira o chapéu. Mostra um pouco de respeito na presença do patrão... JOSÉ (cabisbaixo): Mandou me chamar, patrão? Eu vim o mais depressa que pude.
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Noite de Natal
FAZENDEIRO: Minha conversa com você é rápida. Não precisa nem sentar. Vamos direto ao assunto: andei reparando que, quanto mais cresce a barriga de sua mulher, menos você trabalha. Por isso eu vou mandar vocês embora. Vocês só me dão prejuízo. Aliás, a sua dívida no armazém da fazenda está bem grande. Vou ter que descontá-la do dinheiro que eu lhe devo. Acho que não vai sobrar quase nada. Isso se você não ficar devendo. JOSÉ: Patrão, eu nem compro tanto assim. O problema é que os preços no seu armazém são exorbitantes. E o senhor não nos deixa fazer compras lá na cidade... Além disso, o salário que o senhor paga não é lá grandes coisas... FAZENDEIRO: (esmurra a mesa) Agora você deu para me afrontar? Fica agradecido por eu não colocá-lo na cadeia por causa da sua insinuação e da sua dívida. Só não o mando prender em consideração à gravidez da Maria. JOSÉ: Desculpe, patrão, eu não quis ofender. Eu imploro: não nos mande embora. Nós não temos para onde ir, e a nossa criança está para nascer. Prometo trabalhar dobrado para compensar os dias parados... FAZENDEIRO: Não tem mais nem menos! Você está despedido e ponto final. Mas para mostrar que eu sou bonzinho, eu lhe dou uma carta com a qual você pode procurar emprego na firma do meu compadre Dr. Heródio Pontes Pilates, lá na cidade de (inclua a sua cidade). Quem sabe, ele tem uma vaga de faxineiro ou de auxiliar de serviços gerais para você. Mais do que isso vocês não sabem fazer. JOSÉ: (apanha a carta) Está bem, patrão. Desculpa qualquer coisa. Passar bem! (sai) FAZENDEIRO: Passar bem! (depois se volta para o público) Passar bem, ora essas... Esse já vai tarde. ATO 2 CENA 1 (no escritório do Dr. Heródio) JOSÉ: Bom dia, com licença, aqui é o escritório do Dr. Heródio Pontes Pilates? SECRETÁRIA: O que vocês querem? Já vou logo avisando: se é para pedir esmola, bateram na porta errada! MARIA: Não, senhora, nós somos pobres, mas somos honestos. Viemos a mando do Dr. César Augusto Romano, nosso ex-patrão. Ele nos mandou procurar emprego aqui. JOSÉ: Temos aqui uma carta de recomendação. O seu patrão, Dr. Heródio, pode atender? SECRETÁRIA: Bom, se é uma carta do Dr. César Augusto, então eu vou ver se ele pode recebê-los agora. (sai) MARIA: Será que vamos conseguir o emprego? Estou muito preocupada. Esta cidade é muito grande. Onde encontraremos um lugar para morar? Ainda mais agora que nosso neném está prestes a nascer. JOSÉ: Eu confio em Deus. Ele vai nos socorrer. Com a carta do Dr. César Augusto, o Dr. Heródio vai nos contratar.
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Noite de Natal
SECRETÁRIA: (na sala ao lado – outro lado do palco) Dr. Heródio, está aí um casal que trouxe uma carta do seu compadre, Dr. César Augusto. O senhor vai atendê-los? É um casalzinho bem “simplório”. HERÓDIO: O que o meu compadre César Augusto me arranjou desta vez? Ele simplesmente está transferindo seus problemas para mim. Mande-os entrar. Vou ver o que eles querem, mas só de curiosidade. SECRETÁRIA: (volta) O Dr. Heródio vai recebê-los. Podem entrar. JOSÉ: (entram) Bom dia, Dr. Heródio. MARIA: Bom dia. HERÓDIO: Bom dia? Péssimo dia. Então aquela raposa velha mandou vocês embora? E vocês acham que eu tenho emprego para vocês? JOSÉ: Nós precisamos muito desse emprego. Veja o estado de minha esposa! HERÓDIO: Lamento muito. Não tenho nenhum serviço para vocês. Se ao menos tivessem um diploma ou uma especialização. Mas assim, sem curso, não dá. E o pior. Com essa barriga a senhora não vai achar emprego fácil. Ninguém contrata para o empregado ficar à toa. Esse negócio de licença-maternidade é só para dar prejuízo para a gente. Mas procurem por aí. Quem sabe alguém precisa de uma capina de quintal, uma faxina ou algo semelhante... MARIA: Mas, Dr. Heródio, o Dr. César Augusto garantiu que o senhor arranjaria emprego para nós. HERÓDIO: Nada feito! Não tenho nenhum compromisso com vocês. Depois eu me entendo com o Dr. César Augusto. Agora vão embora. Tenho mais o que fazer do que ouvir as lamúrias de vocês. JOSÉ: Desculpe, doutor, nós não queríamos importunar. Até logo. (saem) CENA 2 (na agência de empregos) AGENTE: Já falei e repito: não temos emprego para gente desqualificada. Nem currículo vocês trouxeram! O que vocês querem aqui na cidade? Aqui não basta saber puxar uma enxada. Aqui é preciso ter diploma. Diploma! Entenderam? MARIA: Por favor, dê mais uma olhada em sua lista. Nós fazemos qualquer coisa, pegamos qualquer serviço. Nós precisamos arranjar um emprego, pois temos uma criança prestes a nascer, para alimentar e abrigar... AGENTE: E eu com isso? Isso não é problema meu. Botar filho no mundo para pedir esmola, isso é problema de vocês. Não tenho emprego para vocês. Se quiserem, procurem abrigo lá no albergue da prefeitura. JOSÉ: Vamos embora, Maria. Já vi que estamos perdendo tempo. Vamos continuar procurando. Em algum lugar encontraremos serviço e abrigo. Eu confio em Deus, e ele não haverá de nos abandonar. (saem)
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ATO 3 CENA ÚNICA (sob o viaduto, durante a noite) GARI 1: (varrendo) Gente, como as ruas ficam sujas neste tempo de Natal! Só para dar mais serviço para nós. E quando a gente pede “caixinha”, as pessoas acham ruim e nos chamam de vagabundos. GARI 2: É. Eu já me acostumei com tanta ofensa. Hoje parece difícil conseguir terminar nosso serviço no horário. E eu que hoje ainda não vi minha esposa e meus filhos. Quase nunca conseguimos passar o Natal juntos. O nosso serviço sempre dobra durante o Natal. GARI 3: É verdade. Natal sempre é muita correria. É gastança, é festa. O verdadeiro significado do Natal fica esquecido. GARI 1: No Natal, nós celebramos a vinda do Salvador. Nós nos alegramos por causa do maravilhoso presente que Deus nos dá. Só que tudo isso costuma ficar esquecido. Todos falam do Papai Noel e quase nunca do Salvador Jesus. GARI 2: Amanhã cedo, quando meus filhos acordarem, contarei essa história do amor de Deus para eles. É o presente que eu posso dar a eles. GARI 3: (ouve o choro de um bebê) Ouçam! Parece o choro de uma criança. E vem dali, debaixo do viaduto. Olhem! Ali tem um casal com uma criancinha recém-nascida. GARI 2: E a criança está dentro de uma caixa de papelão. Será que eles não têm onde ficar? Eles não parecem moradores de rua. Deve ser gente que veio de longe. GARI 3: (falando para José e Maria) Quem são vocês e o que fazem aqui tão tarde da noite e, ainda por cima, com uma criança recém-nascida? JOSÉ: Meu nome é José, e esta é minha esposa Maria. Nós somos do interior. Nosso patrão nos despediu, e viemos tentar a sorte aqui na cidade. Procuramos muito e em todos os lugares. Mas ninguém nos contratou. Também não temos dinheiro para pagar um hotel. O jeito foi achar um lugar coberto aqui debaixo deste viaduto. Foi então que o menino nasceu. MARIA: Nós não sabemos para onde ir. GARI 1: Não se preocupem. A gente dá um jeito nisso. Lá em casa tem um puxadinho. Vocês podem ficar lá até conseguir um emprego. GARI 2: Nosso chefe comentou que precisa de mais gente para dar conta do serviço neste fim de ano. José, você não se importa de trabalhar como gari? A gente pode conversar com o chefe e pedir a vaga para vocês. MARIA: Nós aceitamos. Viu, José, Deus não nos abandonou. GARI 3: O menino deve estar com frio. Aqui, peguem! Cubram-no com meu casaco. Aqui, peguem! Tenho uma garrafa térmica cheia de café quentinho e também um lanche. Acho que vocês ainda não comeram nada no dia de hoje. JOSÉ: Muito obrigado. São os presentes mais valiosos que poderíamos receber, especialmente a solidariedade de vocês. E tudo isso na noite de Natal! GARI 1: (pega o celular) Eu vou ligar para o SAMU. Só para garantir que está tudo bem com a criança.
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Noite de Natal
GARI 2: Se eu contar esta história, ninguém vai acreditar! Ela é parecida com a história do Natal. GARI 3: E vocês já escolheram um nome para o menino? LOCUTOR: E foi assim que nasceu a criança, sem ter um lugar para ficar. Os primeiros visitantes foram pessoas que exerciam uma profissão nem sempre reconhecida e valorizada. Os garis assemelham-se aos pastores de ovelhas do primeiro Natal. Foi mais ou menos assim a história do primeiro Natal. O Salvador veio ao mundo como uma criança humilde, pobre e ameaçada. Nasceu num curral porque não tinha lugar para ela. As primeiras testemunhas foram pastores de ovelhas, gente pobre, que exercia uma profissão desprezada e mal valorizada. Foi assim que Deus escolheu para revelar o seu infinito amor à humanidade. Ele desceu à mais profunda pobreza e dor para manifestar seu desejo de salvar todas as pessoas. E começou bem por baixo, ali onde as pessoas sentiam-se mais desprezadas e abandonadas. Pessoas continuam abandonadas, sem um teto, sem um lar, sem emprego e sem pátria. Continuam ameaçadas e perseguidas. Crianças continuam nascendo sem ter um lugar. Tudo isso lembra-nos que Deus escolheu a fraqueza do mundo para revelar-se através de Jesus Cristo e oferecer seu profundo amor à humanidade. Que nos sensibilizemos com a gratidão a Deus por seu infinito amor e nos motivemos ao amor fraterno e solidário para com o próximo. Então é Natal!
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PRÉDICA: JOÃO 1.1-14
DIA DE NATAL
ISAÍAS 62.6-12 TITO 3.4-7
25 DEZ 2015
Ana Isa dos Reis
A vida, a luz e o Verbo montaram sua tenda entre nós
1
Introdução
É Natal! A comunidade que celebra alegra-se com a mensagem, com o milagre do Natal: o Verbo se fez carne e habitou entre nós. O céu beija a terra. O Senhor veio montar sua tenda entre nós. Ele é um Deus presente, que se importa conosco, que faz o caminho até nós. O Evangelho de João não relata a história do nascimento de Jesus. Ele escreve o que esse nascimento significa para a humanidade, ele dá pistas teológicas, chamando à fé. Sem dúvida, o Natal é uma das festas mais queridas do Ano da Igreja, senão a mais querida. O fim do ano aproxima-se. E um clima diferente espalha-se no ar. É comum ouvir gente dizendo que, no Natal, as pessoas são mais solidárias, mais amáveis, mais dispostas. Que tal aproveitarmos esse clima? Assim já canta Roupa Nova na canção Natal todo dia: “Um clima de sonho se espalha no ar, pessoas se olham com brilho no olhar, a gente já sente chegando o Natal, é tempo de amor, todo mundo é igual. Os velhos amigos irão se abraçar, os desconhecidos irão se falar. E quem for criança vai olhar pro céu, fazendo um pedido pro Velho Noel. Se a gente é capaz de espalhar alegria, se a gente é capaz de toda essa magia, eu tenho certeza de que a gente podia fazer com que fosse Natal todo dia. Um jeito mais manso de ser e falar, mais calma, mais tempo pra gente se dar. Me diz por que só no Natal é assim? Que bom se ele nunca tivesse mais fim! Que o Natal comece no seu coração. Que seja pra todos sem ter distinção. Um gesto, um sorriso, um abraço, o que for. O melhor presente é sempre o amor” (https://www. youtube.com/watch?v=FjSDsg_8G8U). Este é o presente dado a nós no Natal: Jesus, o Logos, o Verbo encarnado, vem morar no meio de nós. Assim fala a mensagem: o presente não foi embrulhado. “O Primeiro Presente não foi embrulhado, não teve laço, não foi comprado na internet nem em um shopping. O Primeiro Presente de Natal foi um presente simples, um presente sagrado. Não foi ouro, nem incenso, nem mirra. Foi um presente de amor e vida e paz e esperança, dado por um pai a todos os seus filhos e filhas. ‘Porque Deus amou o mundo de tal maneira...’ e amou você... e você... e você... e a cada um de nós. Ele deu seu Filho. Ele é o Cristo. Ele é o Natal. Ele é O Presente! Neste Natal, descubra o Presente, abrace o Presente. Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que
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nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16)” (https://www.youtube. com/watch?v=ub1_MJ4UVgU). Tornar o Natal um momento inesquecível é sempre uma tarefa nova. Ainda que a tenda seja tão simples, ainda que a manjedoura seja tão dura, é ali que Deus vem a nós. Essa mensagem que desejamos que ecoe dentro das pessoas e as transforme. Que o Espírito de Deus sopre a fé, a esperança e o amor sobre todos nós e nos ajude a viver o verdadeiro sentido do Natal! Hoje e a cada dia!
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Exegese
2.1 – Momento histórico e autoria O Evangelho de João é bastante diferente dos evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc). Cerca de 90% do Evangelho de João contêm algo novo e diverso do que nos demais evangelhos: há poucos milagres narrados e não aparecem parábolas. Trata-se de um livro que pretende aprofundar a fé já conhecida, celebrada e vivenciada com vistas ao fortalecimento da comunidade, na certeza de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus: dele provém a vida. Foi escrito, provavelmente, de acordo com novas pesquisas, para um grupo de seguidores de Jesus em conflito com as autoridades religiosas judaicas e com algumas doutrinas falsas, como a dos gnósticos. Sua datação traz controvérsias: chegou-se a datá-lo para o final do segundo século. Mas a pesquisa descobriu que no ano 130 d.C. esse evangelho já estava bastante disseminado. Atualmente, as pesquisas indicam que o mesmo tenha sido escrito entre 90 e 100 d.C. A tradição da igreja, especialmente Irineu, atribui o evangelho a João, o discípulo amado, filho de Zebedeu. Existem controvérsias também em torno da autoria, sendo que nem todas as pesquisas concordam quanto à identificação do autor com o discípulo João. Importa ressaltar que, possivelmente, o autor seja judeu e tenha escrito em grego. 2.2 – Estrutura do Evangelho de João 1. Prólogo: Jesus, o Logos/Verbo encarnado – 1.1-18 2. João Batista e a vocação dos discípulos: 1.19-51 3. Jesus como enviado e revelador do Pai no mundo: 2.1-12.50 4. Discursos de despedida aos discípulos: 13.1-17.26 5. Paixão, morte e ressurreição de Jesus: 18.1-20.31 Adendo: aparições do Ressuscitado: 21.1-25 2.3 – Observações exegéticas acerca da perícope a) O Prólogo parece ter sido um poema ou um hino cristão primitivo, com comentários entremeados em forma de prosa. Seu conteúdo possui semelhanças com Provérbios, Sabedoria de Salomão e Eclesiástico.
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Dia de Natal
V. 1 – Atentemos para três termos deste versículo: a) No princípio (archē, em grego; bereshît, em hebraico) remete ao texto da criação em Gênesis 1, retomando temas como a “mediação” da Palavra Criadora e a “separação” entre trevas e luz, referindo-os a Jesus. Aqui, a obra inaugural da criação encontra-se relacionada com a obra definitiva realizada pelo mesmo Deus. b) Logos remete à sabedoria de Deus relatada em Provérbios, que era/existia em Deus desde sempre, antes mesmo da criação do mundo. Segundo Champlin, para o Evangelho de João esse Logos/Verbo/Palavra é: 1) uma força criadora; 2) uma força controladora; 3) uma pessoa (mesmo identificada com Deus, não obstante seja pessoa distinta de Deus Pai/Mãe, lançando o alicerce para o conceito da Trindade Divina); 4) uma personalidade, de natureza divina, embora tivesse encarnado como ser humano, ou seja, é vero Deus e vero homem; 5) o Logos é quem revela Deus, servindo de elo de conexão entre Deus e nós seres humanos; 6) o Logos veio para aproximar Deus dos seres humanos; 7) o Logos é a expressão de Deus na criação inteira e não meramente para o ser humano, pois ele sempre existiu. c) Ser: no grego faz-se diferença entre ser – einai, que só compete a Deus, e tornar-se – genesthai, que é a categoria das criaturas. Neste versículo, era aparece três vezes, com os respectivos sentidos: era o Verbo (existência), estava junto com Deus (relação), era Deus (predicação). Ao passo que o Verbo era Deus, que preserva uma unidade de substância ou de natureza essencial, também é conservada a distinção entre pessoas. Mesmo sendo divino, ou justamente por isso, existe uma distinção entre o Deus Pai/Mãe e o Verbo Encarnado, ainda que sejam idênticos em essência. O que estava e o que era acentuam a doutrina da consubstancialidade, refutando doutrinas que não identificavam as pessoas da Trindade como sendo da mesma substância. Lembro-me de Lutero que dizia: Deus eu conheço de costas a partir de Jesus. V. 2 – Parece repetir o v. 1, ainda que na ordem inversa. Contudo, ele intensifica que o Verbo, desde a eternidade, estava com Deus, ou seja, nunca houve um tempo em que o Verbo não era. V. 3 – Este versículo ataca a versão gnóstica que dizia que a natureza essencial da matéria é má. Colossenses 1.16 usa três preposições que nos ajudam a entender este versículo: a) em: o Filho como esfera, impulso inerente da criação; b) por: o Filho como causa da criação; c) para: o Filho como o alvo da criação. V. 4 e 5 – Jesus é apresentado por João como a vida e não qualquer vida, mas como aquele que derrota as trevas e a escuridão, que afastam o ser humano da fonte da vida verdadeira. O Evangelho de João apresenta Jesus como aquele que se autodefine como promotor da vida: João 10.10 (Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância); 10.11 (O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas); 14.6 (Eu sou o caminho, a verdade e a vida); 6.35 (Eu sou o pão da vida); 20.31
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(... creiam que Jesus é o Messias, Filho de Deus. E para que, crendo, tenham a vida por meio dele). E o texto clássico de João 3.16: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Esse Logos, que é a vida, é também a luz. Aqui a luz está em oposição à escuridão, às trevas, que lembram do pecado, do afastamento em relação a Deus. Apenas essa luz, o Logos, é quem pode dissipar as trevas. É a luz que põe fim ao caos do Gênesis, a primeira obra da criação. V. 6-8 – Estes versículos falam acerca de João Batista, constituindo-se em comentário, em forma de prosa, de poema ou hino de louvor ao Logos, que seria o Prólogo. De acordo com escritos do historiador judeu Flávio Josefo, João Batista tinha muita influência entre o povo comum, e imensas multidões costumavam segui-lo no deserto. Muitos consideravam-no o Messias. Contudo, o próprio João apresenta-se como “aquele que veio para preparar o caminho do Senhor”, cumprindo o que fora anunciado pelos profetas do Antigo Testamento. João sabia-se comissionado por Deus para ser o preparador, o enviado, a testemunha que haveria de testificar acerca de um poder maior e de uma pessoa mais exaltada, o Messias esperado, o Logos encarnado. O Evangelho de João não menciona o termo Batista ao dirigir-se a João, exclusivo em Marcos. João Batista, na compreensão do evangelista, foi chamado e incumbido pelo próprio Deus para chamar o Israel inteiro ao arrependimento (todas as classes sociais, abalando, inclusive, fariseus e saduceus), a fim de preparar o caminho para o Messias e testificar que aquele era a luz verdadeira. João Batista não era a luz do mundo, mas o precursor da luz. Essa humildade de João Batista sempre me constrange e me anima a reconhecer e viver como esse humilde precursor: “convém que Cristo cresça e que eu diminua”. V. 9 – Jesus é a verdadeira luz, reafirmando o que já se entrevia nos versículos 4 e 5. Desde sempre, o Logos era a luz e, ao vir ao mundo, ele se tornou, em forma mais ativa e palpável, o iluminador dos seres humanos. V. 10-12a – A vinda da luz, do Logos/Verbo ao mundo provocou duas reações distintas: a) incredulidade; b) fé. Diz-se que o mundo não o reconheceu, e os seus não o receberam. Contudo, houve aqueles que creram nele e o receberam. Fico me perguntando: o que teria impedido “alguns” de reconhecer em Jesus o Messias, o Logos, a encarnação? Talvez as expectativas criadas em torno do Messias, alicerçadas na conjuntura da época, em que se esperava um líder de reformas políticas, sociais, econômicas e que elevasse Israel à nação única e amada por Javé. E continuo me perguntando: o que fez com que “alguns” cressem nele? O que me faz crer em Jesus como o Logos, o Verbo encarnado? A fé é obra do Espírito Santo em nós. Fé, como diz Paul Tillich, é “estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente”. A mensagem transformadora que Jesus anunciava, seu jeito de ser, questionar, envolver deve ter seduzido muitos a segui-lo, assim como me enche de uma força tão grande, que toma conta totalmente de mim. Como diz Knebelkamp: o milagre do Natal (“a Luz veio ao mundo e resplandeceu sobre as trevas”) traz consigo a tragédia do Natal (“os seus não o receberam”), mas
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também, fortemente, a chance do Natal (“alguns o receberam, creram nele” e o seguiram). V. 12b-13 – Aqueles que creram no Logos foram tornados filhos e filhas de Deus, não por merecimento ou vontade, mas através da ação de Deus. A filiação divina dos que creram é presente imerecido de Deus. Deus deu o primeiro passo, vindo em Jesus, o Verbo encarnado. A resposta à ação de Deus foi de incredulidade de alguns e fé da parte de outros. Seja qual tenha sido a resposta, é impossível ser ou ficar indiferente à ação de Deus. V. 14 – Aqui se repudia a afirmação gnóstica que ensinava que o corpo é residência do princípio do mal e que o que se faz com o corpo pouca diferença faz para a alma/espírito. Os gnósticos também diziam que o Logos (Cristo Espírito) teria descido sobre o homem Jesus por ocasião do seu batismo, tendo-se afastado dele quando da crucificação. O evangelista contrapõe que Jesus é verdadeiro ser humano, e não fantasma. Neste versículo, tão querido em nossa teologia, a palavra em grego para habitou deriva do substantivo tenda. Ou seja, o Logos montou sua tenda entre nós. Essa pode ser entendida como uma alusão à tenda do Senhor, conforme lemos em Êxodo 25.8-9, 40.34. O contato com esse Logos, que montou sua tenda no meio dos seres humanos, ocorre face a face. Diferentemente dos evangelhos sinóticos, João não narra de forma plástica o nascimento de Jesus, mas fala de sua vinda como o Verbo que se fez carne e armou sua tenda entre nós, neste mundo, neste tempo, ainda que sempre tenha existido e continue existindo pelos séculos dos séculos.
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Meditação
Naquele primeiro Natal, os anjos cantaram, alegres, o nascimento de Jesus. Deus veio a nós na frágil criança da manjedoura de Belém. Essa criança é o Logos, o Verbo que se fez carne, o Deus que se torna palpável, aquele que sempre existiu e que esvaziou-se a si mesmo descendo até nós, seres humanos. Deus não está longe nem alheio à situação dos seres humanos; antes, é um Deus próximo, que abre seu coração para nós em Jesus Cristo. Saber que Deus tem tamanho amor pelos seres humanos impele-nos a experimentar desse amor de forma concreta, a viver a partir dele e a reparti-lo com os semelhantes. Penso que, de certa forma, a comunidade reunida espera rememorar aquele primeiro Natal, a mensagem simples, a estrebaria, o coro angelical, a visita dos pastores. É o milagre do Natal recontado sempre de novo. Mas, então, me pergunto: o que isso significa para minha vida? Em que isso transforma a minha rotina? O que isso muda e mexe em mim? Talvez hoje, a tragédia, a tristeza do Natal seja que a mensagem se tenha tornado tão conhecida, que já não chama mais a atenção de fato, já não mexe mais com minhas entranhas. A cada Natal, quando encenamos algo na comunidade ou recontamos aquele primeiro Natal, vejo os olhos marejados das pessoas e sua emoção. Mas pergunto: o que isso significa de fato? Isso me torna uma pessoa mais amável? Mais respeitadora? Mais acolhedora?
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Mais solidária? Mais justa e honesta? Mais sensível à dor dos outros? Mais envolvida com a causa do reino? Mais apegada a Jesus, a luz do mundo? Torna-me uma pequena luz onde estou? Sabemos que ainda hoje haverá “alguns” que não recebem e nem receberão o Verbo encarnado, que terão suas hospedarias cheias demais para acolher o Cristo, que terão pressa demais para ouvir os anseios dos que precisam. Sim, alguns terão presépios de muitos reais, mas não fazem de sua casa o presépio, não deixam seu coração ser manjedoura (como canta a última estrofe do hino “Ao pé da manjedoura estou” – HPD 26). A grande possibilidade do Natal é deixar que a mensagem anunciada há mais de dois mil anos encontre eco dentro de mim. É crer, é deixar-se possuir completamente pelo Logos, pelo Verbo que montou sua tenda em nosso meio. É ser como “aqueles que receberam o Logos, que creram nele”. Não importa se sua vida seja um simples estábulo ou um castelo; o que importa é que as suas portas estejam abertas para acolher o Messias, o Emanuel. É bem verdade que, ao acolhermos a luz, o Logos, já não seremos mais os mesmos. Sua luz invadirá cada pedaço de nós, afastará as trevas, trará a vida verdadeira, o sentido mais profundo da existência. E, sim, é um risco. Mas um risco que vale a pena correr, porque nenhuma vida compara-se à vida que o Senhor da Vida, a luz, o Logos, o Verbo encarnado nos traz. O Natal lembra-nos de que não precisamos construir nossa escada para alcançar a Deus, porque é ele quem faz o caminho até nós, quando vem montar sua tenda em nosso meio através de Jesus de Nazaré. Quando deixamos que Deus nos alcance, em gratidão e alegria, movidos pelo amor que vem do Senhor, engajamo-nos na construção de caminhos que vão ao encontro do próximo, especialmente daqueles que, neste Natal, têm muito pouco ou nada a festejar, que mal têm onde morar, que são injustiçados, que enfrentam as trevas da morte quando buscam saúde, educação, segurança, liberdade religiosa. É Natal! Jesus montou sua tenda e veio morar em nosso meio. Ele muda a realidade. Um novo tempo inicia. É Natal! Para todas as pessoas! Jesus nasceu para todos. A resposta depende de nós. À ação de Deus é impossível ficar sem resposta. Mas se percebe, no entanto, que existe uma certa morosidade na fé. A gente crê, vai na igreja, vive a espiritualidade... mas nem sempre isso me torna um Cristo para as outras pessoas. É Natal! Cristo nasceu! Ele quer nascer sempre de novo em minha vida, na vida de minha família e na comunidade. Ele quer alcançar a vida! A luz! A salvação! E eu, simplesmente, sou chamada a abrir as portas, a deixar que ele entre, monte sua tenda também dentro de mim, no meio da minha família e da minha comunidade. Tão simples! E tão radicalmente transformador! Sim, nunca mais serei a mesma! Porque, quando sua luz acender meu pavio, tudo em mim ficará iluminado, as trevas serão vencidas. Porque, quando a vida me dá vida, já não me contento mais com qualquer vida, mesmo que seja a mais cheia de badulaques. É Natal! Aquele menino frágil que experimentou o madeiro em seu nascimento voltará a experimentá-lo na cruz, mas ressuscitará e inaugurará um novo tempo. Esse menino, o Emanuel, é o Salvador, o Messias esperado, o Filho de Deus. Ele é a vida! Ele é a luz! Ele montou sua tenda entre nós!
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Imagem e dinâmica para a prédica e a celebração
A própria celebração do Natal traz várias imagens: presépio, pinheiro, velas, presentes. Sugiro, no entanto, que o presépio receba, nesta celebração, um destaque especial. Se for possível montar um presépio grande dentro da igreja. Sugiro que as suas luzes (a exemplo da estrela do Natal) estejam apagadas, bem como as luzes da igreja (se for à noite, deixe-se à meia-luz). Apenas o círio pascal poderia estar aceso junto ao presépio (quem sabe, ao lado do cocho), lembrando que Cristo é a luz verdadeira, o Logos que era e estava com Deus, que sempre existiu. No momento da proclamação do evangelho, quando lido que o “Verbo é a luz” (v. 4), sugiro uma pausa na leitura para que as luzes do presépio sejam acesas e, mais adiante, quando lido o versículo 12, outra pausa ocorra, enquanto as luzes da igreja são acesas. O Logos que vem montar sua tenda entre nós, que é a luz verdadeira, que sempre existiu, é a personificação da graça de Deus, é o Deus conosco, quem nos chama a uma resposta de fé, testemunhando e vivendo seu evangelho. A música de Rolf Zuckowski (Mitten in der Nacht) poderia ser um bom recurso. Ali diz: “Da wurde mitten in der Nacht ein Kind geboren. Da war mit einem Mal der Himmel nicht mehr fern (...) Da wurde dir und mir ein neues Licht gegeben, das unsere Herzen immer neu erwärmen kann. Und wenn es dunkel wird für uns in diesem Leben, fängt es mit seiner ganzen Kraft zu leuchten an” (https://www.youtube.com/watch?v=r1UHyVsbBCk).
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Subsídios litúrgicos
Recepção Uma equipe deve estar à porta recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Gloria in Excelsis Sugiro que ele seja entoado, completo, em sua versão clássica ou que seja elaborado um Glória a partir da realidade atual. C. ♪ Glória, glória, glória a Deus nas alturas. Glória, glória, paz entre nós, paz entre nós. 1: Senhor Deus, Rei dos céus, 2: Deus Pai todo-poderoso: 1: nós te louvamos, 2: nós te bendizemos, 1: nós te adoramos, 2: nós te glorificamos, 1: nós te damos graças 2: por tua imensa glória.
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C. ♪ Glória, glória, glória a Deus nas alturas... 1: Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito; 2: Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai: 1: tu que tiras o pecado do mundo, tem piedade de nós. 2: Tu que tiras o pecado do mundo, acolhe a nossa súplica. 1: Tu que estás à direita do Pai, tem piedade de nós. 2: Só tu és o Santo; 1: só tu, o Senhor; 2: só tu, o Altíssimo, 1: Jesus Cristo, com o Espírito Santo, 2: na glória de Deus Pai. Amém. C. ♪ Glória, glória, glória a Deus nas alturas... Oração do dia Querido Deus, agradecemos porque montaste tua tenda em nosso meio, ficando tão próximo de nós. Cremos no Verbo que se fez carne e habitou entre nós, esvaziando-se a si próprio. Pedimos, Senhor, que estejas sempre ao nosso lado para que também neste Natal o menino Jesus possa nascer em nosso coração e permanecer em nossa vida durante todos os dias do novo ano. Ensina-nos a ser fiéis testemunhas da Boa Nova que partilhas conosco a cada Natal. Por Jesus Cristo, a frágil criança da manjedoura, nosso presente, que era desde sempre e que vive e reina contigo e com o Espírito Santo hoje e para sempre. Amém. Sugestão de hinos Jesus Cristo, vida do mundo (OPC 158); Natal é vida que nasce (HPD 312); Cantai, cristãos (HPD 14); Ó vinde, meninos (HPD 24); Ao pé da manjedoura estou (HPD 26); Renovo mui delgado (HPD 32).
Bibliografia De anos anteriores, sugerimos a leitura das contribuições de WITT, Osmar (PL 37) e KNEBELKAMP, Ari (PL 31). CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986.
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PRÉDICA: 1 SAMUEL 2.18-20,26 LUCAS 2.41-52 COLOSSENSES 3.12-17
1º DOMINGO APÓS NATAL
27 DEZ 2015
Marivete Zanoni Kunz
A graça no crescimento espiritual da pessoa cristã
1
Introdução
Já passamos alguns dias de uma grande celebração: a festa de Natal. Os reflexos desse momento ainda pairam no ar e são lembrados por todos. Mas essa celebração deve fazer-nos pensar sobre como queremos que sejam todas as outras celebrações do ano, ou até mesmo como queremos que sejam todos os outros momentos em que participaremos de uma celebração ao Senhor. O texto da prédica bem como as outras leituras mostram que não importam a idade ou a época, todos os momentos em que estamos em alguma celebração ao nosso Deus são importantes e significativos, pois nos fazem crescer. Samuel, ainda menino, ministrava perante o Senhor (v.18); Jesus participava de uma celebração anual, interrogando e ouvindo os doutores da Lei. Tanto os pais de Samuel como os pais de Jesus estavam na mesma celebração junto com seus filhos e conduziam suas famílias ao local de adoração ao Senhor. Assim todos cresciam diante do Senhor e das pessoas. Nesse sentido, cada pessoa cristã pode perguntar-se como está seu crescimento espiritual diante do próximo e do seu Senhor bem como o que individualmente tem feito para alcançar esse crescimento. A atitude desses personagens, tanto de Samuel como de seus pais, tanto de Jesus como de seus pais, revela que há possibilidades de um novo começo espiritual. Mas é preciso participar dos momentos de celebração e estar em lugares que nos façam ou tragam tal crescimento. É preciso sensibilidade para buscar o crescimento. Aqueles que o buscam alcançam.
2
Exegese
A história de Samuel marcou um momento de grande mudança na forma de liderança do povo hebreu. Ele foi usado pelo Senhor no momento em que houve a transição do período dos juízes para a monarquia. A vida espiritual de Samuel foi extremamente importante para o Senhor usá-lo, pois foi especialmente pela autoridade espiritual que ele possuía que a mudança aconteceu. Samuel, ainda criança, foi levado ao sacerdote Eli como cumprimento de um voto feito por sua mãe. Assim ele serviu a Deus no santuário, sendo instruído por Eli, um bom homem, mas que tinha dificuldades com seus filhos. Os filhos de Eli, Hofni e Fineias, tinham uma vida moral comprometida, pois tinham rela-
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cionamentos ilícitos com mulheres que serviam na entrada do tabernáculo. Além disso, eles também eram glutões, pois ficavam com a melhor parte do sacrifício que deveria ser entregue ao Senhor. Em contraste com a vida irregular dos filhos de Eli, temos a vida de Samuel. Isso revela que, independentemente da situação espiritual que houver, é possível crescer espiritualmente. V. 18 – Diferentemente dos filhos de Eli, Samuel ainda criança já aprendia com o sacerdote Eli o trabalho no santuário em Siló e até ministrava. A imagem de um menino fazendo a ministração é algo que instiga a imaginação; não dá para chegar a uma total avaliação do que isso pode representar. Também usava vestes de linho, uma estola, que para alguns autores seriam de sacerdotes e levitas adultos e para outros seriam roupas de sacerdotes não tão graduados. Mas certamente o fato de tais vestes serem citadas revela algo diferenciado. V. 19 – A mãe de Samuel, de ano em ano, quando vinha a Siló, trazia roupas novas para Samuel. Wiersbe comenta: “Nas Escrituras, é comum as vestes se referirem à vida espiritual (Is 61.10; Zc 3.1-5; Ef 4.22-32; Cl 3.8-17; 1Pe 5.5), e mudar de roupa simboliza um novo começo (Gn 35.2; 41.14; 45.22; 19.10; Ap 3.18). As vestes novas de cada ano representavam não apenas o crescimento físico de Samuel, mas também seu crescimento espiritual (1Sm 2.21), o que nos lembra como crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens (Lc 2.52)” (p. 207). No texto hebraico, o termo traduzido como túnica pode referir-se a um manto usado pelos reis (1Cr 15.27), profetas (1Sm 15.27), mulheres da sociedade (2Sm 13.18) e outros. Alguns autores, como Hamilton Victor, informam que essa túnica poderia ser uma roupa utilizada pelo sumo sacerdote para cobrir a estola sacerdotal. A mesma era utilizada por pessoas de “reputação”, tais como Saul (1Sm 24.5), Davi (1Cr 15.27), Esdras (Ed 9.3), Jó (Jó 1.20) e outros. V. 20,26 – O termo traduzido como crescer é holēk no texto hebraico. Conforme Coppes Leonard, essa palavra denota “movimento em geral”, sendo que o termo pode ser utilizado com várias conotações e em vários contextos. No final do v. 21, temos a indicação de que o menino crescia diante do Senhor. Conforme Moody, esse termo que ali aparece, a saber, gedol, pode indicar desenvolvimento mental e moral, além de crescimento físico. Pode-se facilmente compreender o crescer em estatura. Mas o que significa crescer na graça? Graça é algo que nós recebemos, mesmo não a merecendo, e da qual nós podemos tornar-nos cheios.
3
Meditação
Estamos vivendo um momento em que tudo é permitido. Mas infelizmente isso não é tão real para aqueles que buscam uma vida espiritual de valor. Assim, os textos de hoje servem de incentivo para todos os que ainda anseiam e valorizam a vida com seu Deus. Olhando para esses exemplos, é possível entender alguns aspectos importantes da vida espiritual da pessoa cristã. 3.1 – A vida espiritual precisa ser constante e é influenciada pelo convívio e pelo exemplo familiar: o v. 19 do texto principal enfatiza a atitude dos pais.
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Ana, mãe de Samuel, cujo nome significa “graça”, era uma mãe adoradora de Deus, que soube levar seu filho a também crescer em “graça” diante do Senhor e dos seres humanos. Foi amparado pelos cuidados especiais de sua mãe que Samuel desenvolveu-se física e espiritualmente. Ana entregou ao Senhor o que tinha de melhor. A bem da verdade, tanto Ana como seu esposo Elcana tiveram muita coragem quando entregaram aos cuidados de Eli o maior bem que possuíam, pois Eli e sua família viviam em situação de complicada corrupção. Mas os pais de Samuel eram exemplos de pessoas de grande caráter. Ana não esqueceu de cumprir seu voto ao Senhor, e certamente no período de aproximadamente três anos em que esteve com Samuel a seu lado, ensinou-o a amar e servir ao Senhor, bem como deve tê-lo ensinado a orar, pois era uma mulher de oração (1Sm 1.27). Elcana, como esposo que a amava, permitiu que ela cumprisse o voto. Sabe-se que o marido poderia anular o voto da esposa caso não concordasse com ele (Nm 30) e que o filho primogênito poderia ser resgatado com um sacrifício (Nm 13.1113). Mas não foi isso que Elcana fez. Elcana permitiu e levou seu filho para que desse início a um novo momento espiritual na vida de uma nação. Assim, vemos que a atitude dos pais foi importante para o desenvolvimento espiritual de toda a nação. Existem momentos de celebração que são especiais, mas o crescimento da pessoa cristã acontece todos os dias. A celebração não pode cessar, e o papel dos pais é significativo nessa caminhada. Os lares e as famílias servem de ponto de partida para o crescimento espiritual. 3.2 – A vida espiritual reflete-se diante do Senhor e do próximo: a coisa mais importante é nossa vida diante do Senhor. Isso não significa que não seja importante testemunharmos diante das pessoas, mas se estamos bem diante do Senhor, não precisa haver dúvidas de como está nossa situação diante das pessoas. Pode ser que nem todas as pessoas concordem com nossa postura, mas é uma questão de escolha e prioridade. Ou seja, o que é mais importante em questões espirituais na minha vida? Ser primeiro aprovado diante do Senhor ou das pessoas? Certamente crescer espiritualmente é necessário. Mas é muito interessante que tanto o texto de Samuel como o texto que fala de Jesus apontem primeiramente para o crescimento diante do Senhor e depois diante dos seres humanos. Mas o que se quer dizer com crescer na graça diante do Senhor? Nossa vida espiritual certamente reflete-se a partir da graça que a nós foi manifesta através de Cristo e também daquilo que agora demonstramos ao próximo. Deus pode fazer abundar essa graça em nós, mas para isso é preciso crescer, desenvolver essa graça em nossa vida. Quanto à graça, nós a recebemos (Rm 1.5; 12.6; 2Co 8.1) e ela pode ser desenvolvida. Deus pode fazê-la abundar em nós (2Co 9.8) a ponto de estarmos, como citado em At 6.8, “cheio de graça e poder” (como estava Estêvão). Certamente o melhor exemplo de alguém que cresceu na graça foi o próprio Jesus, conforme o relato de Lucas 2.52, e ele deve ser a nossa maior motivação na busca de uma vida espiritual que agrade a nosso Deus. Vale considerar a fala de William Barclay referindo-se ao 2 Pedro 3.18: “Cristãos são pessoas que estão em constante desenvolvimento. Como cristãos
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deveríamos diariamente experimentar o milagre da graça e crescer naquilo que a graça nos proporciona. Diariamente deveríamos, como cristãos, penetrar mais a fundo no milagre de Jesus Cristo” (p. 331). Em conclusão: num mundo no qual tantos valores e atitudes são questionados, é preciso firmeza para permanecer assíduo nas celebrações cristãs. Pois elas estão entre aquelas que nos fazem “crescer” espiritualmente, se não diante dos seres humanos, certamente diante do nosso Deus. A decisão é de cada qual, ou seja, cada pessoa escolhe como quer dar continuidade àquilo que sucede a celebração de Natal. Mas, além da decisão individual, o bom exemplo pode ajudar aqueles que estão ao nosso redor a tomar sua decisão. Também é bom lembrar que não existe idade para buscar o crescimento diante do Senhor e do próximo. Tanto Samuel como Jesus mostraram isso. O mais impressionante é que os dois personagens de destaque foram pessoas que, ainda quando crianças, tinham uma vida espiritual significativa. E foram esses indivíduos que fizeram diferença para a realidade de suas épocas. Assim, como bem diz o texto de 2 Pedro 3.18: Cresçam, porém, na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! Amém.
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Imagens para prédica
Talvez uma ilustração ajude-nos a compreender melhor essa questão de crescer na graça: assim como grandes construções só podem ser levantadas sobre um fundamento sólido e somente árvores com raízes profundas podem crescer para o alto, assim também a vida do cristão só pode desenvolver-se para cima e para os lados se estiver alicerçada no fundamento sólido, ou seja, na graça de Deus (Barclay, p. 331).
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Subsídios litúrgicos
Alguns versículos para auxiliar na liturgia do culto, que também falam sobre graça: 2Co 9.8: E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra. 1Pe 4.10: Servindo uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. At 6.8: Ora, Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. 1Co 15.10c: Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo.
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Bibliografia BARCLAY, William. Auslegung des Neuen Testaments: Briefe des Jakobus und Petrus. Wuppertal: Verlag Gmbh, 1973. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Santo André: Geográfica, 2006.
VÉSPERA DE ANO NOVO HEBREUS 13.8-9b ISAÍAS 55.6-11 MATEUS 18.1-5
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ANO NOVO (NOME DE JESUS)
01 JAN 2016
PRÉDICA: NÚMEROS 6.22-27 LUCAS 2.15-21 FILIPENSES 2.5-11
Norberto da Cunha Garin
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Introdução
As bênçãos acompanham os atos litúrgicos de Israel em diferentes momentos de sua vida cúltica. No Salmo 121.7-8, um cântico convida os fiéis, em sua peregrinação a Jerusalém, a meditar sobre a proteção de Javé. É possível perceber o acabamento da peça litúrgica como se fosse uma prece impetrada pelo sacerdote sobre os peregrinos. Ele é guarda contra o mal, tanto na saída como na entrada na cidade santa. Nessa mesma direção, no Salmo 97, uma espécie de reminiscência de salmos anteriores, o v. 10 aponta para a proteção divina sobre aqueles que detestam o mal. Nesse texto específico, a proteção é explícita contra os ímpios. Quando se examina o sonho de Jacó, é possível encontrar, na promessa de Javé, a garantia de que o povo será guardado e será reconduzido àquela terra, conforme ele havia prometido. A resposta de Jacó aparece também na forma de compromisso sobre a fidelidade àquele Deus, erguendo uma pedra e prometendo dízimos (Gn 28.15; 20-22). A literatura deuteronomista, ao tratar da firmação do pacto entre Israel e Javé, retoma a forma dos pactos de vassalagem assíria. Acena com a bênção que virá sobre o povo, na entrada e na saída, reafirmada sobre toda a terra que será ocupada futuramente (Dt 28.6,8). Ao ser firmado o pacto, antes da entrada na Terra Prometida, a promessa da bênção é reafirmada duas vezes, quando estão se constituindo os acertos, e depois, quando acontece a resposta do povo na assembleia dos líderes (Dt 30.1,19). Outra construção deuteronomista promove um acabamento ao Código da Aliança (Êx 20.22-23.33), no qual a promessa de guarda e a presença da bênção de Javé são asseguradas. Assim, antes de entrar na Terra Prometida, Israel recebe a bênção (Êx 23.20,25). Hoje é o primeiro dia do ano, que costumeiramente inicia com muitas promessas. Ele começa com o anúncio da paz, como aquela que foi trazida pelos anjos aos pastores (Lc 2.14). Assim como provocou uma atitude nos camponeses da Palestina (Lc 2.15-21), essa paz deve provocar nossa atitude de testemunho no decorrer de todo o ano. Também é um convite à humildade ao esvaziar-se da soberba e assumir uma postura de simplicidade para confessar o nome de Jesus como o Senhor de nossas vidas para a glória de Deus (Fp 2.5-11).
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Ano Novo (Nome de Jesus)
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Exegese
O livro de Números chamava-se originalmente “No deserto”, isso no hebraico. Trata das provações que o povo enfrentou quando peregrinava pelo deserto e como se contextualizou nessa realidade. Listas, leis, relatos, ordens divinas, instruções para a liturgia demarcam o cuidado de Deus para com o povo em situação de vulnerabilidade existencial (ADAM, 2009). É um texto que se encontra inserido no final da permanência dos hebreus junto ao Sinai. Junto ao monte, Deus entrega a Torá ao povo, que segue sua trajetória em direção à Canaã (REIMER, 2012). Percebe-se que o papel do sacerdote tem um significado importante na parte inicial do livro de Números. É significativo referenciar que essa literatura fazia parte de um registro pré-monárquico, uma informação primária da primitiva vida de Israel. A repetição do nome de Javé, invocado três vezes na fórmula da bênção, significa a garantia da presença de Deus sobre o povo. Trata-se de uma fórmula semítica utilizada para invocar o favor divino. Essa bênção sacerdotal garante a luz divina sobre Israel. A força dessa fórmula alicerça-se sobre dois elementos: o nome de Javé e a ação do sacerdote, uma de suas principais funções. Não se trata de uma bênção pronunciada por um pai sobre seu filho, mas daquele que ouve e interpreta a voz divina e, portanto, conhece os desígnios de Deus. Sua presença abençoadora, enquanto mediador entre Javé e o povo, confirma e valida a eficácia da bênção. Entretanto, não se pode olvidar que, apesar de ser uma fórmula falada pela autoridade do sacerdote, a autoria pertence a Deus. Ele é o doador e garantidor da bênção. Mesmo que a presença seja do sacerdote, é Javé quem está abençoando. V. 24 – O ato de abençoar transmite tanto a marca do nome de Javé, impresso sobre o povo de sua aliança, como o dom da vida que se plasma como garantia; a proteção, expressa na fórmula sacerdotal, diz respeito à peregrinação do povo em busca do seu locus – trata-se de um povo andante que ainda aprende enquanto anda e, por isso mesmo, arrisca-se na andança. V. 25a – Aponta para o resplandecer da face divina. É possível que se possa perceber melhor a profundidade desse resplandecer se, em vez de procurar entender o que significa “resplandecer”, se pudesse substituir essa palavra por “sorrir”: Deus sorri sobre os filhos de Israel. Nada pode ser mais alentador do que contemplar o “sorriso” divino. Trata-se de um sorriso que transmite alegria. Ele constitui uma presença que pode livrar Israel das mãos dos inimigos. Evita que o povo seja envergonhado (Sl 31.14-17). Significa promessa de restauração de salvação. É demonstração de poder e de soberania (Sl 80.1-3). O resplandecer do rosto divino está associado às misericórdias de Javé (Sl 67.1). Mas essa luz divina também está associada à compreensão da sua vontade (Sl 119.135). O brilho do rosto está referido à sabedoria (Ec 8.1). V. 25b – A misericórdia é a síntese de todas as bênçãos. Para Israel, a misericórdia é representada por duas convergências do sentimento semita: a com-
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paixão e a fidelidade. Trata-se, em primeiro lugar, do apego comprometido de um ser pelo outro, um apego instintivo que tem seu nascedouro no seio materno, nas entranhas do coração (1Rs 3.26), algo que se pode traduzir por ternura. Em segundo lugar, trata-se do sentimento de piedade, que se traduz numa relação entre dois seres amarrados pelos laços da fidelidade; não só uma ternura, mas também uma bondade consciente, intencional, resposta a um dever interior de fidelidade a si próprio. A misericórdia é a oferta de um favor imerecido. V. 26a – Quando Javé está contra alguém, ele põe o seu rosto contra essa pessoa (Jr 21.10; 44.11). Quando Deus esconde o rosto, a maldade toma conta (Jr 33.5). O mostrar da face tem o valor de Deus. Não esconde nada, pois tudo está às claras, e seus propósitos não são obscuros. Por essa bênção, Javé manifesta-se em toda a extensão do seu projeto. É como se um novo e iluminado dia se mostrasse sobre Israel. O rosto de Javé constitui a fonte de luz mais expressiva de Deus. Na manifestação do seu rosto, Javé abençoa o povo através de coisas boas, tais como fartas colheitas, descendência, prosperidade, proteção contra os inimigos. V. 26b – A palavra paz (shalom), cuja possibilidade de tradução para português é quase impossível, possui o significado profundo de segurança de vida diante das provas terríveis da existência. Mas pode representar a harmonia interior da pessoa, o equilíbrio, a plenitude nas experiências de vida. Sobretudo é entendida como presença da paz, fruto da presença divina sobre a pessoa. V. 27 – Trata-se de uma expressão característica do semitismo, que se reporta ao favor divino. As três repetições do nome de Javé são garantias da presença e da proteção divina. Fala de uma tradição fundamental na formação do povo: a marca de Javé sobre as pessoas. Ela está relacionada à ideia de comunicação do dom da vida.
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Meditação
Na qualidade de povo de Deus, vivendo a fé em Jesus Cristo, somos uma comunidade peregrina. Avanços e retrocessos fazem parte de nossa trajetória em direção ao reino que já está presente, mas que ainda é almejado pela fé. Agora não mais carregamos o nome de Javé enquanto doador de leis e diretrizes de um caminhar perfeito. Portamos, pela bênção, o nome de Jesus, o Cristo, que em nós habita pela presença do Espírito. Não carregamos mais a Arca da Aliança, mas levamos o testemunho da graça que liberta e salva. Somos abençoados e portadores da bênção enquanto nos dirigimos à Terra Prometida: a plenitude do reino. Como povo abençoado, portadores da bênção, refletimos a luz de Cristo, que se esparge pelas campinas onde se encontram agricultores familiares e pelas vilas, bairros, becos, ruas e avenidas das cidades e metrópoles da era contemporânea. Levamos o “sorrir” de Deus, que transmite alegria em meio às tristezas; resplandecemos a face do Senhor, onde homens e mulheres acham-se cabisbaixos pelas agruras de uma sociedade dividida e esfarelada pelo consumo descomedido. Nosso resplandecer da luz divina repercute como esperança para os cansados de tantas lutas sem respostas.
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Como o sol que se levanta no horizonte de um novo ano, um alento novo levanta-se com a certeza da graça de Cristo ao alcance de todos a partir dos mais enfraquecidos. A graça, fruto da nova aliança, constitui a plenitude da misericórdia divina, que se estende sobre nós como um manto de expectativas boas para os novos tempos. Compaixão e fidelidade mostram-se como realização de bondade do Senhor sobre todos. A face de Javé, que outrora mostrava-se em atos de salvação e misericórdia para Israel, agora se apresenta desvelado em sua grandiosidade na face de Cristo. Ele revela a vontade soberana de Deus e o projeto de libertação e de salvação para toda a humanidade. Essa face não está mais ligada ao cumprimento de leis e normativas de convivência, mas ao usufruir da graça de Cristo em toda a sua plenitude. Se outrora o nosso coração estava oprimido pela consciência tenebrosa do pecado, agora a paz ampla, do novo shalom, espraia-se sobre o povo de Deus imerso na genuína e duradora alegria de participar da comunidade – o corpo de Cristo.
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Imagens para a prédica
Conta-se que, certa vez, um menino de oito anos distraiu-se brincando e por isso atrasou-se em recolher os animais para o estábulo. A noite de inverno caíra rapidamente sobre a campina. Com certa dificuldade, o menino encontrou as vacas e terneiros no meio da noite escura. Arrebanhou todos os animais e foi tocando-os pelo campo. Porém era necessário atravessar um bosque escuro, cortado por um riacho, e o menino começou a experimentar um sentimento de medo muito forte. Na entrada do mato, parou, orou e pediu que Deus lhe desse forças para enfrentar aquela dificuldade. Isso não foi suficiente, então ele começou a repetir insistentemente: “Deus está comigo!”, como se fosse a invocação de uma bênção, ao mesmo tempo em que o confessava como certeza. Assim, tocou os animais pelo estreito caminho através do bosque, atravessou o riacho e seguiu confiante para o estábulo. A invocação da bênção, combinada com a certeza da ação divina, aplacou o medo e fortaleceu o menino em sua trajetória confiante.
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Subsídios litúrgicos
Bem no início da celebração, o pastor ou a pastora convidam a comunidade para reunir-se em pequenos círculos em pé (4 ou 5 pessoas – pode ser por família). Todos levantam as mãos sobre as cabeças e as juntam, pelos punhos, no meio do círculo. As mãos ficam abertas numa atitude de recepção da bênção. O pastor impetra a bênção sobre todos. Essa é a primeira bênção de ano novo, e todos a recebem. O culto prossegue com todos os elementos litúrgicos. No final, o pastor ou a pastora convidam toda a comunidade a fazer um grande círculo no templo, e todos estendem os seus braços e colocam as suas mãos sobre a cabeça dos seus vizinhos, da direita e da esquerda. O pastor ou a pastora falam a bênção, frase por
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frase, e todos a repetem, transmitindo a bênção sobre todos os irmãos da comunidade. Assim termina o culto.
Bibliografia ADAM, Júlio Cézar. Auxílio Homilético: Números 6.22-27. In: Proclamar Libertação. Volume: XXXIII (2009). Disponível em: <http://www.luteranos.com. br/textos/numeros-6.22-27. Acesso em: 22 maio 2015>. CIMOSA, M. Levítico e Números. São Paulo: Paulinas, 1984. GIBSON, J.C.L. Antigo Testamento Comentado: Números. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983. REIMER, Haroldo. Auxílio Homilético: Números 6.22-27. In: Proclamar Libertação. Volume: XXXVI (2012). Disponível em: <http://www.luteranos.com. br/textos/proclamar-libertacao-volume-xxxvi-2011-2012>. Acesso em 22 maio 2015.
2º DOMINGO APÓS NATAL EFÉSIOS 1.3-14 JEREMIAS 31.7-14 JOÃO 1.(9)10-18
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PRÉDICA: JOÃO 1.43-51 ISAÍAS 49.1-7 2 CORÍNTIOS 4.3-6
EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
6 JAN 2016
Humberto Maiztegui Gonçalves
Venham e vejam: conhecer em comunhão
1
Como é possível conhecer Jesus Cristo?
Epifania significa “manifestação”. A palavra deriva do grego (epi/por cima e fanein/aparecer) e refere-se particularmente ao que está relatado no evangelho segundo a comunidade de Mateus (2.1-12), onde alguns “magos” (isto é, estudiosos dos mistérios da vida e do universo) chegaram a Jerusalém anunciando ter visto uma estrela que indicava “o recém-nascido Rei dos judeus” (Mt 2.2). Essa tradição na igreja cristã ocidental é comemorada separadamente do Natal (25 de dezembro) no dia 06 de janeiro. Neste auxílio homilético, a proposta é vincular essa lembrança da manifestação luminosa e universal da realeza de Cristo ao conhecimento. O verbo ginoskō, em grego, que pode ser traduzido por aprender, conhecer, perceber, entender e até sentir, será o instrumento para esse vínculo exegético hermenêutico. As duas leituras do Novo ou Segundo Testamento (2Co 4.6 e o texto de pregação, Jo 1.48) contêm esse verbo. No “Iluminismo” ou “Século das Luzes” (entre os séculos 17 e 18), a luz já foi relacionada ao conhecimento, algo que, aliás muito antes, também Platão tinha feito na famosa “alegoria da caverna”. Mas não pretendemos ressuscitar nem um nem outro; apenas vamos refletir como “conhecimento” e “epifania” podem ser relacionados.
2
O conhecer pela fé: João 1.43-51
Em primeiro lugar, temos que situar o texto de pregação dentro do contexto do evangelho segundo a comunidade de João, também chamado de “Quarto Evangelho” ou, como afirmou Raymond Brown, o Evangelho da “Comunidade do Discípulo Amado”. Esse apanhado de tradições sobre Jesus é tardio, próximo ao ano 100 d. C., e tinha a intenção de aproximar visões e “conhecimentos” diferentes sobre a pessoa de Cristo, isto é, diferentes cristologias, como afirma o mesmo autor. Por isso não se atém à sequência apresentada nos outros três evangelhos, mas inclui longos discursos e passagens compridas, em que Jesus diz seguidamente “Eu sou...” (4.26; 6.41,48; 8.58; 9.5; 10.9,11,14; 11.25; 13.13; 15.1), isto é, apresenta-se ou, na perspectiva que propomos, dá-se a conhecer. O verbo ginoskō aparece, segundo Bauer, “mui frequentemente (...) umas 80 vezes (...) ‘conhecer’ significa uma íntima comunhão entre Cristo e os seus, a qual na união só pode ser comparada com a unidade existente entre Pai e Filho” (BAUER, p. 208-209). Assim, conhecimento, dentro dessa perspectiva, dá-se através da co-
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munhão. É um saber que emerge da relação íntima que se estabelece entre quem “recebe” e quem é “recebido” (cf. Jo 1.10-11,26). O texto de João 1.43-51 é muitas vezes apresentado dentro de uma perícope maior, que inicia no v. 35. Mesmo assim, pode ser considerado uma unidade autônoma, especialmente pela expressão “no outro dia” (v. 43). Sendo assim, gostaria de abordar, primeiramente, a passagem dentro desse contexto maior. O texto, se visto a partir do v. 35, parte de João Batista, que anunciando o “Cordeiro de Deus” provoca seus discípulos a encontrar Jesus e perguntar: “onde moras?” (v. 38), ao que ele responde “Venham e vejam” (v. 39), isto é, a mesma provocação que Filipe faz a Nicodemos em 1.46b. Em ambos os casos, a consequência do “ir e ver” é uma profunda comunhão e uma descoberta (conhecimento) declarada em forma de confissão de fé. André diz a seu irmão Simão: “Achamos o Messias” (v. 41a), e Natanael declara: “Rabi, tu és o Filho de Deus, és o rei de Israel”. Podemos dizer assim que houve, em ambos os casos, uma Epifania! Se nos v. 35 a 42 a busca do conhecimento dá-se através da profunda comunhão (morar junto), nos v. 43 a 51 aparece outro grupo, que Raymond Brown chama de “criptocristãos”. Eram pessoas provenientes do judaísmo, que, mesmo inclinados a acreditar, faziam-no em segredo (cf. Jo 12.42). Esses, como ainda afirma o mesmo autor, não eram vistos como covardes, mas como “exemplos de prudência”, trabalhando dentro das sinagogas para levar os chefes das sinagogas – carregados de preconceitos e ofendidos – a uma tolerância em relação aos cristãos (BROWN, p.74-76). De fato, o enfrentamento do preconceito e até das “fobias” fica evidente na frase: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (v. 46a). Nesse caso, Jesus mostra um conhecimento prévio ao receber Natanael, quando afirma: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há maldade” (v.47), ao que, surpreso, Natanael responde: “De onde me conheces?” (v. 48a), em grego, pothen me ginōskeis. Então, o “pré-conceito” expresso na frase inicial de Natanael dá lugar ao conhecimento, esse por iniciativa de Jesus Cristo. A expressão “embaixo da figueira” (onde Jesus afirma ter conhecido Natanael antes dele o conhecer) não está ali por acaso. É a única vez em que uma árvore ou figueira é mencionada em todo esse evangelho. Em Mateus, aparece pelo menos três vezes (Mt 21.19,20,21 e 24.32), e em Marcos, que é anterior, aparece cinco vezes (Mc 11.13,14,20,21 e 13.28). Portanto essa era uma figura conhecida da igreja cristã, tanto quanto a “videira”, que é comum no Quarto Evangelho. Conforme Ramiro Mincato, “não se refere somente a um episódio concreto da vida de Natanael, mas trata-se do ‘estudo da Lei’, como diz o Rabi Aqiba, pois, no judaísmo, a figueira se havia tornado a árvore do conhecimento da felicidade e da desgraça” (MINCATO, p.11). Sendo assim, no estudo da Lei, era Natanael quem estava sendo conhecido, que se revelou “um verdadeiro israelita, sem maldade”, mas não tinha a capacidade de conhecer a fonte da Lei, o verdadeiro “Rabi”. Para conhecer o “Filho de Deus”, era necessária a intimidade da comunhão, isto é, o encontro pessoal, direto, intransferível, o verdadeiro convívio, o morar junto. Finalmente, o diálogo se abre, mesmo se dirigindo ainda a Natanael, a fala de Jesus passa para o plural: “vos digo”, “vereis” (v. 50-51). Quem são esses “vos”? É claro, são todos os criptocristãos e as criptocristãs para os quais se abre
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a esperança de ver claramente, sem segredos. A superação do preconceito e discriminação permite então participar de uma manifestação tal da presença divino-humana na história (“o Filho do ser Humano”) que não haveria mais segredo a ser guardado nem medo a ser justificado, nem razão para não ver. Isto é, trata-se de uma epifania universal do conhecimento através da comunhão, para a qual a comunidade joanina puxa a tradição de Jacó em Betel, onde se desfaz, inclusive, a fronteira entre céus e terra (v. 51; cf. Gn 28.12-17).
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Meditação: A Epifania do conhecimento além de preconceitos, fobias e medos
Vivemos em um mundo de medo, terror e preconceito, somando-se ainda as fobias étnicas, religiosas, sociais, políticas, econômicas e culturais. Nada que antes não existisse! Mas agora tudo isso é manifesto globalmente e se multiplica e se espalha como vírus, especialmente entre setores excluídos da educação e qualidade de vida, violentados e maltratados de nossas sociedades ocidentais e cristãs. Se a Epifania do conhecimento de Deus não é apenas conhecer, mas conviver intimamente com o amor libertador e salvador manifesto em Cristo Jesus – como nos mostra o texto de João 1.(35-42),43-51 – não estará Jesus ainda hoje, como fez ontem, chamando a “ir e ver” na busca da comunhão e da convivência? Em um mundo virtual, as mentiras parecem reais, enquanto as realidades que só podem ser apreendidas na convivência e comunhão ficam ocultas. Tendemos a nos acomodar embaixo das figueiras eletrônicas, dentro das casas e condomínios, e até dentro dos templos das igrejas, e cada vez parece mais difícil sair da chamada “zona de conforto” e ir ao encontro daquelas pessoas com as quais, em princípio, não iríamos conviver. Parece assim tão difícil sair ao encontro daquelas pessoas que chamamos “diferentes” ou que a sociedade classifica como “diferentes”, mas que em Cristo são iguais. A beleza do final deste texto está no resgate da tradição da escada de Jacó em Betel (Gn 28.12-17), para a qual não demos muita atenção na exegese, mas que ganha aqui, na mensagem, uma importância ímpar. Essa visão tão absolutamente mística é colocada nesta passagem do Quarto Evangelho dentro de uma história concreta de preconceito contra os galileus. À pretensa superioridade étnica, religiosa e cultural, que permite afirmar que “nada de bom poderia sair da Galileia”, é contraposta a visão da unidade mística entre os céus e a terra. Quantos lugares há sobre os quais diríamos: “dali nada de bom pode sair”? Certamente esses lugares têm nome, têm cor, têm sexo, têm expressões culturais e religiosas. Mas, quando superadas essas barreiras, podemos finalmente reconhecer a presença de Cristo, podemos finalmente acreditar que a grande barreira entre os céus (as utopias, a perfeita harmonia de tudo com todas e todos) e a terra (este lugar cheio de beleza e vida) pode ser superada. Quando vamos e vemos, quando nos libertamos do falso conhecimento, a epifania da presença divino-humana de Deus em Cristo passa a ser uma esperança concreta para todas as pessoas, em todos os lugares e para toda a criação. Então, como aqueles magos do Oriente, como Natanael, como André e os outros discípulos de João Batista, podemos caminhar,
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libertados e libertadas, ao encontro verdadeiro, aberto e feliz de comunhão entre nós e com nosso Senhor Jesus Cristo.
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Imagens para a prédica: Senhor, eu quero te ver em todos os rostos!
Uma boa sugestão é usar a expressão “Venham e vejam” para introduzir imagens que expressem esses lugares, situações, pessoas, onde geralmente achamos que Jesus não pode estar. Podemos, de forma mais interiorizada, abordar também aspectos de nossa própria vida em que Jesus está ausente. Podemos ainda convidar alguém, uma pessoa inesperada, para dar testemunho de como encontrou Jesus em sua vida de uma forma inusitada ou citar essa experiência como ilustração para a prédica. Finalmente, podemos também mostrar caminhos pelos quais podemos inteirar-nos mais do que realmente está acontecendo em nossa sociedade, diferentemente do que a grande imprensa e a mídia apresentam. As igrejas têm trabalhos sociais, apoiam e assessoram movimentos de transformação social e política que podem ser listados como forma de ir e ver.
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Subsídios litúrgicos
Entrada/Acolhida Ela pode ser feita com pessoas carregando as imagens de lugares e pessoas que serão mencionadas como exemplo de superação de barreiras de medo e de segredo, que podem ser colocadas na frente da mesa eucarística ou em outro lugar bem visível. Uma música adequada para esse momento é: “Que estou fazendo se sou cristão” (HPD 449). Ao cantar esse hino, pode entrar a estrela da Epifania, trazida por crianças ou outras pessoas que representam a busca de Jesus Cristo, com a frase “Venham e vejam!”. Ofertório/Partilha Neste momento podem ser juntadas às imagens iniciais cartazes com palavras como: serviço/diaconia, respeito, convivência, valorização, diálogo, amor fraternal/sororal, vida comunitária, mutirão/construção, comunhão, inclusão etc. Despedida/Bênção/Envio (Bênção da Inconformidade, pronunciada pelo Celebrante/Oficiante) Assim como os magos de Oriente não se conformaram, atenderam aos sinais e não foram instrumento de morte dos que dominavam, queremos pedir, Senhor, a tua bênção em nossa caminhada de seguimento e discipulado, dizendo juntas e juntos: Que Deus – Paterno e Materno – abençoe-nos com a inconformidade, diante de respostas fáceis, meias-verdades e relações superficiais, para que possamos viver sua divina presença na intimidade de cada coração.
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Epifania de Nosso Senhor
Que Deus – Fraternal e Sororal - abençoe-nos com a indignação diante da injustiça, da opressão e abuso das pessoas, para que possamos trabalhar a favor da justiça, igualdade e paz. Que Deus – Ventania Divina, Ensinador – abençoe-nos com lágrimas junto às pessoas que sofrem, vítimas da dor, rejeição, fome e guerra, para que possamos estender tua mão para consolar e transformar a sua dor em alegria. E que Deus – na Unidade Eterna da Divina Trindade – abençoe-nos com a insensatez, para pensar que podemos fazer diferença neste mundo, a fim de que façamos algo que outras pessoas dizem não ser possível. Amém.
Bibliografia BAUER, Johanes B. Dicionário de Teologia Bíblica. Vol. I. São Paulo: Loyola, 1984. BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1983. MINCATO, Ramiro. Confissão de Natanael (Jo 1,43-51) e o modo de revelação no Quarto Evangelho. Revista Eletrônica PUC-RS (Teocomunicação), V. 38, N. 159, p. 5-17. Porto Alegre: PUC, jan/abr. 2008. Disponível em: revistaseletronicas.pucrs.br/fo/ojs/index.php/teo/article/.../4011/3071. Acesso em: 17 mar. 2015.
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1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)
PRÉDICA: ISAÍAS 43.1-7 10 JAN 2016
LUCAS 3.15-17,21-22 ATOS 8.14-17
Klaus A. Stange
1
Introdução
Vivemos em uma sociedade líquida (Bauman, 2003). As pessoas carecem de identidade. Nas redes virtuais, assumimos avatares, publicizamos a nossa intimidade, ansiamos por alguém que nos “curta”. Queremos ser alguém! Deprimimo-nos se nossas postagens no Facebook não alcançam o número de visualizações e curtidas esperadas. Vivemos dias de angústia, gerada pelo vazio de identidade. Nesse contexto, como pessoas que proclamam o evangelho, temos o privilégio de anunciar neste 1º Domingo após Epifania, domingo em que lembramos o batismo de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos somos convidados: convidados pelo próprio Deus que se revelou a nós, o Deus que se deu a conhecer, o Deus que é missionário, que nos quer arrancar de nossa angústia e convidar-nos a experimentar o seu amparo, o seu cuidado e afirmação. Na presença do Deus Criador, ninguém é esquecido; na presença do Deus Salvador, somos todos valiosos; na presença do Deus Emanuel, temos uma identidade.
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Exegese
2.1 – Primeiras impressões O texto que temos diante de nós é um muito rico em imagens. Essas imagens provavelmente despertarão nos ouvintes toda sorte de impressões e sentimentos: o texto fala da criação, de ser formado (remetendo ao ofício de um artesão que molda vasos de barro), menciona elementos da natureza como água e fogo, remete a sentimentos como angústia (medo) e glória, fala de amor e aliança. É importante que procuremos compreender como essas imagens serão interpretadas pelos ouvintes. No texto também sobressai uma linguagem relacional: é Deus (1ª pessoa do singular) que se relaciona com Israel (2ª pessoa do singular). A linguagem relacional é sublinhada pelo constante uso do pronome possessivo, dando a entender que Deus e Israel encontram-se num relacionamento de pertencimento. 2.2 – Contexto histórico As palavras do profeta Isaías são dirigidas ao povo de Israel, que se encontra no exílio babilônico. Ao povo é prometido um novo êxodo, com dimensões universais, que culminará no ajuntamento de todo o povo de Deus (Is 40).
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
2.3 – Observações exegéticas V. 1 – O texto inicia com uma conjunção adversativa: “Mas agora!”. A expressão estabelece um contraste com o que foi dito no capítulo anterior, onde o profeta explicita o pecado de Israel. “Mas agora” Deus volta-se a seu povo com compaixão e amor. Os verbos hebraicos “criar” (bará) e “formar” (iazar) frequentemente estão correlacionados com o povo de Israel no contexto do capítulo 43 (Is 44.2,21,24; 40.26,28; 41.20; 42.5; 45.7,8,12,18). Finalmente, vale destacar que designar um “nome” na cultura do Oriente equivale a conferir status, poder, à pessoa (ou objeto) nominada (Gn 2.19ss). Na Bíblia, quando Deus muda o nome de uma pessoa, isso geralmente está associado a uma promessa que é dada por Deus ou a um novo status de relacionamento da pessoa com Deus (Abrão → Abraão – Gn 17.5; Sarai → Sara – Gn 17.15; Simão → Pedro – Mc 3.16). Em nosso texto, o povo é chamado pelo seu antigo nome (Jacó = enganador) e novo nome (Israel = Deus lutará). V. 2 – Neste versículo, duas vezes são mencionados os elementos da água e do fogo. Eles simbolicamente sintetizam toda a gama de perigos a que o povo está exposto. O texto não nega a possibilidade de estarmos expostos a perigos, mas nega a possibilidade da vitória do perigo a que estamos expostos. V. 3 – O versículo destaca o Deus relacional: “não temas”… (v. 1), “pois eu sou teu Deus… o santo de Israel… teu salvador”. O Egito, a Etiópia e Sebá designam simbolicamente o continente africano conhecido da época. V. 4 – Este é o versículo central da perícope. Destaca o amparo, o cuidado e o amor de Deus, não por causa de algum merecimento ou valor especial que o povo tivesse, mas simplesmente por causa do olhar benevolente de Deus para com ele. V. 5 – Aqui se repete o apelo do v. 1 para que o povo vença a angústia. O que sustenta o apelo é o Deus Emanuel, o Deus presente. Dos confins da terra ele reúne seu povo. Aqui se estabelece um paralelo com a obra do servo de Javé (Is 42.4 e 49.6). V. 6 – O texto não fala mais de povo, Jacó ou Israel, mas de meus filhos e minhas filhas. Destaca-se a dimensão relacional de Deus com seu povo. V. 7 – O versículo retoma palavras-chave do v. 1: chamar, nome, criar, moldar. E ao citar a palavra “honra”, conecta com o v. 4. No centro do v. 7 está o próprio Deus: “meu nome… minha glória”. Em resumo: O texto apresenta-nos um Deus que é ativo. Muitos verbos estão associados a Deus: Ele fala, cria, faz, salva, chama, ama, reúne, está presente… Os verbos descrevem o cuidado de Deus para com seu povo. O texto também nos apresenta um Deus com diferentes nomes/atributos: ele é Javé, Criador, Salvador, Emanuel, teu Deus, o Santo de Israel, Pai. O papel do povo de Israel é absolutamente passivo. O povo é reunido e nominado, é guardado para que não se afogue nem se queime. Também o povo recebe vários nomes: Jacó, Israel, meu povo, meu filho, minha filha.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
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Reflexão teológica com vistas à prédica
a) Provavelmente, nenhum dos nossos ouvintes literalmente vivenciou uma situação de exílio em sua vida. Nem por isso deixa de ser verdadeiro o fato de muitos ouvintes vivenciarem situações de exílio em seu cotidiano. Basta lembrar como muitas vezes temos que lidar com situações (limítrofes) na vida que nos aprisionam de modo que, existencialmente, nos encontramos num cativeiro, sem perspectiva de mudança, sem esperança. Exemplifico com a análise feita por Bauman, citado na introdução, quando ele descreve o brete em que se encontra a sociedade pós-moderna. Para dentro desse contexto de angústia vale tanto para o povo de Israel como para nós: Deus está presente! b) O anseio por aconchego, pertencimento e comunhão é recorrente em nossa sociedade e também em nossas comunidades cristãs. Diante desse anseio humano, a palavra afirma que somos amados, somos preciosos aos olhos do Criador. c) Em nossos relacionamentos, algumas vezes nos acontece que, ao mencionarmos um nome, não conseguimos associar o nome a um rosto ou vice-versa: vemos uma pessoa, mas não lembramos de seu nome. Implicação do texto bíblico que temos diante de nós é que podemos afirmar que na comunidade cristã ninguém fica sem nome, ninguém permanece anônimo. Deus mesmo é aquele que nos tira do anonimato e nos confere identidade. d) No Brasil, a legislação não permite, como regra, a troca de nosso nome. Não escolhemos os nossos nomes; eles nos foram dados por nossos pais. Deus, aquele que possui vários nomes, confere-nos um novo nome (Ap 3.12) e sobre a nossa vida evoca o seu nome. Esse é o sentido da bênção que proferimos no final do culto: invocamos o nome de Deus sobre a comunidade.
4 Apontamentos para a prédica e atualização O sentimento de angústia (exílio) no qual se encontra nossa sociedade pode servir como introdução à prédica. No “exílio”, corremos o risco de perder a nossa identidade. Não sabemos mais quem somos. Situação análoga experimenta o povo de Israel no exílio babilônico. O contexto histórico do exílio pode ser apresentado à comunidade. Diante da realidade da perda de identidade, do anonimato, Deus interfere e faz duas coisas: ele se apresenta a nós e nos diz quem ele é e, simultaneamente, diz-nos quem nós somos. Ele nos faz um convite para uma vida em comunhão com ele, que nos tira da angústia e nos confere identidade. Percebo duas possibilidades de estruturar a prédica: a) Note que no texto, por duas vezes, encontra-se a expressão “não temas” (v. 1,5). Da mesma forma, é frequente a conjunção “pois” (no hebraico é a partí-
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cula qui), mencionada cinco vezes no texto. Dessa forma, a estrutura da prédica poderia ser: Não temas, pois… 1) … eu te criei, te redimi e te salvei! 2) … eu te amei e escolhi! 3) … eu te trarei de volta! b) No texto também evidenciam-se os nomes de Deus e os nomes do povo. Dessa forma, a estrutura da prédica poderia ser: Não temas, pois… 1) … eu sou Criador, tu és meu! 2) … eu sou teu Salvador, tu és valioso! 3) … eu sou Emanuel, tu tens nova identidade! Opto pela segunda proposta de estrutura da prédica. Tema: “Não temas, pois...” 1) … eu sou Criador, tu és meu! A primeira forma como Deus apresenta-se no texto é como Deus Criador. Ele é o Criador do cosmo. Ele cria ex-nihilo (do nada). No entanto, a despeito de sua grandiosidade e majestade, ele não se esqueceu de nós. Com amor convida-nos à comunhão com ele. Ele deseja moldar a nossa vida (imagem do oleiro). Deus volveu o seu rosto para nós. Uma segunda implicação do Deus Criador reside na dimensão do pertencimento. Nós somos sua criação. Não pertencemos a nós mesmos, mas a ele (cf. Rm 14.7ss). Uma terceira implicação que deriva da dimensão do Deus Criador é que ele também é mantenedor, cuidador. No v. 2, são mencionados elementos da natureza que simbolicamente nos assombram. Deus nem sempre nos livra de todo sofrimento, mas entra conosco para dentro do sofrimento e não permite que sucumbamos. Ele se importa conosco. Por isso não precisamos temer. Uma quarta implicação que deriva da dimensão do Deus Criador pode ser associada ao fato de Deus chamar seu povo pelo antigo nome (Jacó = enganador) e, simultaneamente, por seu novo nome (Israel = Deus lutará). Isso significa que Deus pode renovar e transformar a nossa vida. A Bíblia está cheia de relatos de pessoas que experimentaram mudanças profundas em suas vidas por conta de uma intervenção de Deus. A própria história do patriarca Jacó poderia ser usada aqui como ilustração. 2) … eu sou teu Salvador, tu és precioso! (cf. imagens para a prédica 1) Num segundo momento, Deus apresenta-se como aquele que é o “teu Deus”, o “teu Salvador” (v. 3) Percebe-se claramente que o relacionamento é mútuo, ou seja, Israel não é somente o povo de Deus como também Javé é o Deus de Israel (cf. imagens para a prédica 2). É como Lutero o expressou na 7ª estrofe de seu hino “Cristãos alegres jubilai” (HPD 1, 155), em que ele escreve: E disse em sua compaixão: A minha mão segura. Alcançarás a salvação, eu venço
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a luta dura. Pois eu sou teu e tu és meu; onde eu estou terás o céu. Nada há de separar-nos. Somos preciosos aos olhos de Deus (cf. imagens para a prédica 3). Ou melhor, o olhar de Deus por nós faz de nós pessoas preciosas, especiais, valiosas. Por sermos valiosos aos olhos de Deus, ele se empenha radicalmente em nosso favor. Em se tratando do pequeno, insignificante, anônimo povo de Israel no exílio, poeticamente o texto diz que Deus estaria disposto a entregar todo o continente africano conhecido da época ou entregar povos inteiros por seu povo precioso. No Novo Testamento, parábolas de Jesus que expressam essa verdade são a parábola do tesouro escondido e a parábola da pérola preciosa (Mt 13.44ss). Numa perspectiva neotestamentária, vemos na encarnação de Deus em Jesus Cristo o quanto somos preciosos aos olhos do Pai. Por nossa salvação (cura) ele paga um alto preço. 3) … eu sou Emanuel, tu tens nova identidade! Uma segunda vez o texto convida-nos para fora da angústia, a não temer. Não se trata do consolo barato de alguém que, em última análise, não se compromete conosco. Pelo contrário, o apelo é feito pelo Deus que está conosco (v. 5), pelo Emanuel. Deus não abandona a sua comunidade, como não abandonou seu povo no exílio (a despeito de todas as evidências externas que apontavam na direção contrária). Deus está em meio à sua comunidade e reúne seu povo de todas as extremidades da terra para pertencer à sua família. Somos filhos e filhas do Pai celeste (Cf. oração do Pai-Nosso). Na comunidade cristã, somos irmãos e irmãs porque temos em comum Jesus Cristo como nosso irmão. Como família, carregamos um “nome de família”: somos cristãos. Em nosso Batismo foi invocado o nome do Deus triuno sobre a nossa vida. Portanto sobre nós não está mais o nosso “velho nome”, Jacó, mas recebemos uma nova identidade: carregamos o nome de Cristo (cf. 2Co 5.17). A nova identidade que recebemos objetiva que o nome de Deus seja honrado. Temos o privilégio, mas também a responsabilidade de viver a nova identidade que recebemos (cf. imagens para a prédica 4).
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Imagens para a prédica
1) Chama a minha atenção que, no filme “O senhor dos anéis”, o anel é carregado pelo mais fraco e insignificante personagem: Frodo Bolseiro. O anel é frequentemente chamado de “precioso” pelos personagens do filme. 2) Conta-se uma história que teria ocorrido numa pequena vila do interior. Na pequena e pacata vila, um dos grandes eventos sociais era o sarau, organizado anualmente. Cada membro da comunidade era estimulado a trazer uma contribuição cultural: uma poesia, uma música, um artesanato etc. Certa ocasião, um famoso orador deveria participar do sarau. No grande dia, toda a comunidade local, inclusive o idoso pastor da localidade, reuniu-se para ouvir o famoso orador, que cativava todos com sua eloquência. No final da apresentação, o orador decide fechar as apresentações, declamando o Salmo 23, e convida o pastor da localidade a fazer o mesmo. Após alguns segundos de hesitação, o pastor con-
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corda. O famoso orador pôs-se, então, a declamar o Salmo 23. No final, todos aplaudiram efusivamente o artista. Chegou a vez do pastor local declamar o Salmo 23. O pastor, já idoso, sobe lentamente os degraus do palco, fecha seus olhos, suspira profundamente e passa a declamar o Salmo 23. Quando ele termina, ninguém aplaude, mas a maioria das pessoas da comunidade estava com seus olhos marejados, emocionados pela forma como o pastor havia recitado o Salmo 23. O famoso orador, percebendo o que acontecera, tomou o microfone e pergunta: Sabem qual a diferença entre mim e o pastor da comunidade? Eu, disse o artista, conheço o Salmo do Pastor, mas ele – apontando para o pastor da comunidade – conhece o Pastor do Salmo! 3) Uma boa forma de compreender o que é algo precioso, percebemos quando decidimos fazer uma faxina em nossa casa. Faxina implica jogar fora coisas velhas, sem serventia. Mas quantas vezes não acontece que, quando fazemos a faxina e queremos jogar algo fora (um brinquedo velho de nossos filhos, por exemplo), nosso filho olha para o brinquedo e diz: Mãe, eu gosto desse brinquedo, esse não podemos jogar fora! Provavelmente o brinquedo em si não possui grande valor, mas o olhar faz toda a diferença. 4) Quando entramos numa escola e vemos alguém usando um avental branco, imediatamente identificamos a pessoa com um professor. Quando entramos num hospital, o avental branco identifica a pessoa como enfermeiro ou médico. Mas se em outro momento uma pessoa aparece diante de nós com o avental cheio de sangue, sabemos que se trata do açougueiro. É importante que o açougueiro não tente ser médico. Um avental identifica a pessoa e compromete a pessoa. Carregar o nome de cristão é como usar um avental: ele nos identifica e também nos compromete.
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Subsídios litúrgicos
Hinos
HPD 1: 155, 191
Bibliografia BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. RIENECKER/MAIER. Lexikon zur Bibel. Witten: SCM R. Brockhaus Verlag, 2013. SCHMAUDER, Sebastian. Zuversicht und Stärke. Holzgerlingen: Hänssler-Verlag, 2013. p. 52-61.
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2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
17 JAN 2016
PRÉDICA: JOÃO 2.1-11 ISAÍAS 62.1-5 1CORÍNTIOS 12.1-11
Emílio Voigt
As bodas em Caná
1
Introdução
Em edições anteriores de Proclamar Libertação, há vários auxílios homiléticos sobre a perícope. O presente subsídio entende-se como um complemento. O texto previsto é apropriado para o período litúrgico. Glória, bodas, alegria, esperança são elementos comuns entre Isaías 62.1-5 e o texto da prédica. A correspondência com 1 Coríntios 12.1-11 não é tão evidente. Considerando o papel de Maria no episódio, é possível fazer associação entre os dons do espírito e os ministérios de pessoas “anônimas” na comunidade.
2
Exegese
A falta de correspondência nos sinóticos é um argumento para sugerir que a narrativa seria criação do círculo joanino para fazer contraposição ao culto a Dionísio. Na mitologia grega, Dionísio era o deus do vinho, aquele que dominava os segredos do cultivo de parreiras e da produção de vinho. Mais plausíveis, porém, são as correlações com o Antigo Testamento e a literatura judaica. Também se poderia presumir que a acusação de Jesus como beberrão de vinho (Mt 11.19/ Lc 7.34) constituísse um pretexto para a omissão do relato pelos sinóticos. V. 1-2 – Na tradição judaica, apenas o sábado tem nome definido. Os outros dias são designados como primeiro, segundo, e assim por diante. O terceiro dia corresponde à nossa terça-feira e era dia comum para festas de casamento. Era considerado o dia apropriado para bodas, porque somente no terceiro dia da criação é dito duas vezes: “e viu Deus que era bom”. Há que se considerar, porém, que as celebrações de núpcias poderiam durar uma semana inteira. Os convidados e as convidadas iam e vinham sem muita cerimônia, ou seja, não participavam necessariamente de todo o festejo. É até possível que a chegada de Jesus e seu grupo tenha ocorrido alguns dias depois do início da festa. Maria, a mãe de Jesus, nunca é citada pelo nome no Evangelho de João. Além das referências nessa perícope, ela é mencionada como mãe ainda em 6.42 e 19.25-27. A cena em Caná (o primeiro sinal) e a cena na cruz (o fim da atuação pública de Jesus) são os dois únicos episódios com a presença de Maria. É estranho que o evangelista não se refira a ela pelo nome, enquanto menciona José
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(1.45; 6.42) e nomina outras mulheres: Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena (Jo 19.25). Pode haver uma razão simbólica ou teológica nesse procedimento. Além de Maria e Jesus, também os discípulos foram convidados. O capítulo 1 faz referência às vocações de André, Simão, Filipe, Natanael e de uma pessoa cujo nome não é informado. Depois do episódio de Caná, não há mais relatos de vocação. Em 6.67, o grupo está completo. É provável que, nas bodas, o evangelista já esteja falando dos doze. Isso parece estar implícito na conclusão da perícope: os seus discípulos [os doze] creram nele. O v. 12 pressupõe que também os irmãos de Jesus estavam presentes. V. 3 – Acabou o vinho! Não se sabe se faltavam condições financeiras, se a família errou nos cálculos, se vieram mais pessoas além do esperado, se as pessoas beberam mais do que o comum. O evangelista não se preocupa com o motivo, mas com a constatação do problema. A falta de vinho representava mais do que um constrangimento. Numa cultura fortemente marcada por padrões de honra e vergonha, o caso traria desonra à família anfitriã. Apoiada no Salmo 104.15, a tradição rabínica afirma que é obrigação do dono da casa alegrar seus filhos e convidados com vinho (b Pes 109a). Não está explícito se a fala de Maria é uma simples constatação ou um pedido para que Jesus resolva o problema. Quando ela conversa com Jesus, o fato parece não ser do conhecimento das pessoas convidadas nem do próprio noivo. Seja como for, Maria tem uma informação e considera relevante transmiti-la ao filho. V. 4 – Jesus responde à interpelação de Maria com uma pergunta: O que há entre mim e ti, mulher? Chamar a mãe de mulher não constituía grosseria ou falta de respeito. É assim que ele irá se referir novamente à sua mãe em Jo 19.26. Nos mesmos termos também se dirige a outras mulheres (4.21; 8.10; 20.15). Não há, contudo, outros casos na Bíblia em que um filho se dirige dessa forma à sua mãe. Teríamos aqui uma particularidade do Evangelho de João? A expressão – “o que há entre mim e ti?” – manifesta uma distância incomum. É com as mesmas palavras que demônios dirigem-se a Jesus no Evangelho de Marcos (Mc 1.24; 5.7). Há quem defenda que Maria é mantida a uma certa distância, porque a hora de seu filho não havia chegado. A hora que ainda não chegou é referência ao sofrimento, morte e glorificação de Jesus (Jo 7.30; 8.20; 12.23; 17.1). Ou seria essa distância uma afirmação da independência de Jesus? Com isso o evangelista indicaria que Jesus realiza milagres no momento que decidir e de acordo com a sua vontade (que é a vontade de Deus: 4.34; 5.30; 6.38-40)? V. 5 – A reação de Maria parece estar em descompasso com a réplica de Jesus. Talvez seja uma indicação de que a resposta – a minha hora não chegou – não tem relação com o problema da falta de vinho. A orientação de Maria – “fazei tudo o que ele vos disser” – demonstra autoridade. Se ela era conhecida da família a ponto de poder intervir junto aos serviçais, não o sabemos. Em todo caso, Maria coloca Jesus na posição de anfitrião ou chefe dos serventes. Agora é ele quem dará as instruções. V. 6 – Uma metreta correspondia a 39 litros, de maneira que cada um dos seis vasos comportava entre 78 e 117 litros. Logo, a quantidade total estaria entre 468 e 702 litros. A água dos vasos servia aos rituais de purificação que aconte-
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ciam antes e depois da refeição. O ritual de purificação judaico não era um mero cerimonial. Essa prática mantinha acesa a tradição bíblica de busca por santidade (Lv 19.2). Especialmente os fariseus procuravam levar a sério a identidade de Israel como povo de Deus (Êx 19.6). Aquilo que se esperava dos sacerdotes em Jerusalém os fariseus procuravam aplicar na vida diária. Por isso é preciso ter cautela com a interpretação, muito comum na exegese clássica, de substituição do ritualismo judaico. Segundo essa compreensão, a água dos rituais de purificação seria substituída pelo vinho, que representa a nova ordem de salvação. Há que se perguntar se essa perspectiva alegórica está no horizonte do texto ou se é um construto que, em alguns casos, pode conter um implícito enredo antijudaico. Mesmo que alguém perguntasse como o ritual de purificação seria realizado, já que a água foi substituída pelo vinho, essa não é a preocupação do texto. O foco do relato está no sinal e não em uma possível interpretação alegórica ou polêmica da água. V. 8 – Tudo o que Jesus faz é ordenar que se encham os recipientes com água e que se leve uma prova do líquido ao mestre de mesa. Não há nenhuma palavra ou ação que decreta a transformação da água em vinho. No ambiente greco-romano, o mestre de mesa era a pessoa encarregada para que as bebidas e os alimentos estivessem bem preparados e fossem servidos no tempo certo. Na literatura judaica, não há atestação da existência de um ofício semelhante. V. 9-10 – O mestre de mesa prova a bebida, sem saber de onde viera. A transformação da água em vinho é revelada agora ao leitor e à leitora do evangelho. A regra segundo a qual se ofereceria primeiro o melhor vinho e depois um vinho de qualidade inferior é desconhecida das fontes literárias. A menção a esse suposto costume tem o propósito de acentuar o predicado do vinho. Além de grande quantidade, sua qualidade é incontestavelmente melhor ao que foi servido anteriormente. A constatação corresponde à aclamação, um elemento característico em narrativas de milagre. Todavia a pessoa que elogia a qualidade do vinho não percebe que está aclamando um milagre. Além dos servos, o evangelista informa que também os discípulos ficaram sabendo, embora não se diga em que momento tomaram consciência do fato. V. 11 – A perícope encerra com a indicação de que há mais para vir: Jesus deu princípio a uma série de sinais. Aqui começa a se concretizar o que ele prometera a Natanael: “maiores coisas do que estas verás” (Jo 1.50). Princípio não define apenas o primeiro sinal, mas é também um arquétipo para os sinais que se sucederão. Através dos sinais, a glória de Jesus, que outra não é senão a glória de Deus (1.14), se manifestará cada vez mais. No Evangelho de João, o sinal alcança seu objetivo quando desperta a fé. Por isso o evangelista conclui: “e os seus discípulos creram nele”. Chama a atenção que João usa com frequência o verbo “crer”, porém não utiliza o substantivo “fé”.
3
Meditação
A aparente dureza com que Jesus trata sua mãe e o volume de vinho gerado podem causar embaraço. Não é incomum ouvir questionamentos como: por que os sinais da glória de Jesus iniciam justamente com a transformação de água em
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quantidade tão exorbitante de bebida alcoólica? Ele não poderia ter feito algo mais “útil”, necessário ou urgente? Muitas vezes, os questionamentos soam até como repreensão à ação de Jesus. Nesse caso, não se está considerando o contexto do texto. Para compreender o episódio, é preciso libertar-se do anacronismo. O anacronismo consiste em utilizar conceitos e valores de um tempo para avaliar eventos de outra época. No Antigo Israel, o vinho era elemento indispensável nas refeições festivas. A tradição bíblica fala do vinho como algo que alegra e dá ânimo (Jz 9.13; 2Sm 16.2; Sl 104.15; Pv 31.6). É considerada feliz a pessoa que pode adquirir, sem dinheiro, leite e vinho (Is 55.1). Jesus, que foi chamado de glutão e bebedor de vinho (Mt 11.19/Lc 7.34), fala da expectativa de tomar vinho no reino de Deus (Mc 14.25). Obviamente, não se pressupõe que o reino de Deus seja uma eterna farra. Por outro lado, a Bíblia refere-se às consequências danosas do vinho (Pv 23.20s,29s; Is 28.7s) e igualmente desaprova a embriaguez (Is 5.22; Lc 21.34; Rm 13.13). A abordagem, porém, não é moralista nem determinada pelas preocupações atuais. Do ponto de vista do texto bíblico, festa com vinho é expressão de convivência e alegria. Seguindo essa linha, não há nenhuma perversão em tomar vinho ou cerveja. A pergunta pela conveniência, entretanto, é legítima, pois nem sempre o resultado é a alegria. Não se pode negligenciar as consequências danosas da dependência e do consumo desmoderado. Violência, abuso sexual, acidentes, relacionamentos desfeitos, carreiras interrompidas, vidas ceifadas são alguns exemplos. Nesse sentido, as recomendações apostólicas (Rm 14.21; 1Co 6.12) são oportunas quando praticadas sem moralismo ou legalismo. Círculos proféticos do Antigo Testamento relacionam abundância de vinho com a expectativa de novos tempos (Am 9.13-14; Is 25.6-7; Jr 31.12-14). Núpcias são igualmente símbolo para dias messiânicos (Is 54.4-8; 62.4-5). A partir dessa perspectiva, o sinal em Caná manifesta uma realidade escatológica: o tempo messiânico iniciou. A glória de Jesus começa a se revelar (epifania). Se o vinho é expressão de alegria e as bodas um símbolo do reino de Deus, faz todo sentido que Jesus realize o primeiro sinal numa festa de casamento. O milagre surgiu de uma necessidade. Não era uma questão de luxo, mas de honra. Muitas festas de núpcias atuais são marcadas por sofisticação em trajes, decoração, cardápio, efeitos visuais e sonoros. Naquela ocasião, a preocupação básica era a satisfação das convidadas e dos convidados com comida e bebida. A carência de vinho deixaria de alegrar as pessoas e traria desonra à família anfitriã. Honra e vergonha eram valores que determinavam o status social. A perda da honra poderia ser equiparada à perda da própria existência. A ação de Jesus resolve duas questões urgentes e necessárias: evita a desonra e favorece a alegria. Aparentemente, o milagre foi percebido somente pelos discípulos, pela mãe de Jesus e por alguns servos. O mestre de mesa constatou a diferença na qualidade do vinho, mas não tomou conhecimento da procedência. Possivelmente, a maioria não ficou sabendo o que aconteceu nos bastidores. Na compreensão comum, tal proeza merecia e deveria ser divulgada. Tanto vinho com tão boa qualidade, e Jesus não leva a fama! O reino de Deus é muito estranho mesmo. A manifestação da glória de Deus é avessa à propaganda, ao show, ao alarde.
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2º Domingo após Epifania
Deus age com discrição e, muitas vezes, nos bastidores. Tal qual em Caná, a presença divina nem sempre é notada. Muitos milagres passam despercebidos, invisíveis aos olhos, inaudíveis aos ouvidos, imperceptíveis ao toque. Esperam ser apreendidos com a percepção da fé. Maria não é coadjuvante, mas assume um papel ativo, toma iniciativa. Considerando que a sua fala tivesse intenção de motivar Jesus para a ação, vemos aqui a preocupação em manter a alegria e evitar a vergonha da família. Quem se preocupa positivamente com outras pessoas faz toda a diferença. Em nossa vida comunitária, precisamos de pessoas atentas aos acontecimentos e sensíveis às necessidades. Se em Caná a hora ainda não havia chegado, entrementes já badalou o relógio. Jesus passou pela morte, ressuscitou no terceiro dia e está à direita de Deus. Qual o sentido da hora de Cristo na atualidade? A determinação “façam tudo o que ele disser” pode ser associada à prática comunitária. A comunidade atua sob orientação de Jesus Cristo, faz o que ele diz. É preciso encher os vasos com água, é preciso levar uma prova ao mestre-sala. Quais são as ações da comunidade de Cristo hoje? Obediência demonstra-se em ação e também em confiança, pois nem sempre se sabe de antemão o que acontecerá.
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Imagens para a prédica
O casamento em Caná é arquétipo da abundância e da alegria que caracterizam a presença do reino de Deus. A pregação poderia refletir sobre elementos considerados necessários para que aconteça uma festa. Alguns elementos, como aparelho de som, comida, bebida etc., poderiam ser trazidos. Que outros ingredientes e circunstâncias constituem uma festa? É pertinente lembrar que a festa faz parte da vida, mas nem tudo na vida é festa. Além de trabalho e preocupações, há momentos difíceis e até trágicos. A festa duradoura ainda está para vir (Ap 21.3-4). A partir da atuação de Maria é possível fazer uma reflexão sobre o papel de homens e mulheres anônimas na igreja e na sociedade. Uma pessoa lembrada pelo nome tem sua individualidade intrínseca definida. A pessoa lembrada por um atributo tem sua personalidade determinada extrinsecamente: mãe do fulano, esposa do beltrano, irmã do sicrano. Maria é apresentada como mãe. Sua identidade depende do filho. Como são definidos os papéis e como são conhecidas ou lembradas as pessoas em nossas comunidades? Como valorizamos dons e serviços que não são considerados tão “espetaculares”?
Bibliografia MEIER, John P. Um Judeu Marginal: repensando o Jesus histórico. Volume dois, livro três: Milagres. Rio de Janeiro: Imago, 1998. VOIGT, Emilio. Contexto e surgimento do Movimento de Jesus: as razões do seguimento. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
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2º Domingo após Epifania
WENGST, Klaus. Das Johannesevangelium. 1. Teilband: Kapitel 1-10. Stuttgart/ Berlin/Köln, 2000.
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3º DOMINGO APÓS EPIFANIA
24 JAN 2016
PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 12.12-31a NEEMIAS 8.1-3,5-6,8-10 LUCAS 4.14-21
Eloir Enio Weber
Unidos, sim. Iguais, não!
1
Introdução
Há textos que são tão conhecidos, tão “batidos”, que a gente tem dificuldades em lê-los sem se desfazer dos vícios preestabelecidos. O texto em questão, sugerido para a pregação deste domingo, é um exemplo claro. Quem de nós nunca o usou para falar em reuniões de lideranças da comunidade a fim de mostrar e conclamar as pessoas para uma caminhada conjunta? Para isso, sugiro ao pregador um olhar não só focado no texto da pregação, mas incluir os textos de leitura. Eles podem auxiliar muito na formatação da temática. Temos posto, então, três textos, que, em princípio, não têm uma ligação temática muito clara. O texto do evangelho é um clássico do tempo de Epifania. Relata o início do ministério de Jesus na Galileia. Jesus, em Nazaré, lugar onde cresceu e era conhecido por todos, surpreendeu depois de ler o rolo do profeta Isaías na sinagoga, ao dizer: “hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (v. 21). A Epifania de Deus acontece à medida que Jesus coloca em prática o que as palavras de Isaías predisseram. O livro do profeta Neemias, do qual vem o texto de leitura do Antigo Testamento, é um belo exemplo de trabalho conjunto, de distribuição de tarefas e de liderança comprometida com o bem-estar social e espiritual da comunidade de Jerusalém no período pós-exílico. Um povo que recebe dos seus líderes o devido valor e o incentivo adequado compromete-se e trabalha unido. O texto mostra um povo que, depois do trabalho realizado, reúne-se para celebrar em torno da Palavra. Essa celebração religiosa culmina com uma festividade e uma oração de confissão de pecados, que brota de um povo arrependido e pronto para recomeçar. No texto de pregação, o apóstolo Paulo fala dos carismas e dons e da diversidade, a partir da qual a comunidade de fé cristã é convidada para uma caminhada conjunta, de entendimento, compreensão, valorização mútua. Nessa comunidade do povo de Deus não pode haver espaço para superiores e inferiores, dominadores e dominados. Todas as pessoas receberam dons e todos os dons, unidos fazem a comunidade.
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Exegese
A questão sobre a diversidade na unidade, que o apóstolo Paulo descreve de forma pedagógica na figura do corpo humano e suas diversas partes, tem origem em seu posicionamento em relação à ceia do Senhor (11.17-34). A questão da ceia havia revelado um problema de relacionamento na comunidade: os que comiam e bebiam demais e aqueles que passavam fome e sede, ou seja, aqueles que dominavam na celebração da ceia e os que ficavam à margem. Logo após constatar a dificuldade na ceia, de apontar os erros e indicar caminhos, Paulo continua as admoestações, falando sobre os dons espirituais. Inicia dizendo que o assunto é abordado nessa carta porque ele não quer que sejam ignorantes (12.1). Aponta para o fato de que há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. (12.4-6). Após descrever alguns dons espirituais, ele diz que um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um (12.11). Fica explícito que, na comunidade de Corinto, havia uma minoria de carismáticos em condições de ostentar manifestações exaltantes do Espírito e, por isso, animados por evidente complexo de superioridade em relação aos outros. Esses coexistiam com uma maioria de crentes, que, não tendo dons extraordinários, sofriam de complexo de inferioridade. Em outras palavras, havia poucos que se consideravam (eram considerados?) mais cristãos e mais dignos do que a maioria. Deus teria preferidos e, consequentemente, alijara outros para o segundo plano. Deus teria sido mais generoso com alguns em detrimento da maioria. Paulo aborda essa situação em três etapas na sua reflexão teológica: a) a diversidade de dons que produz a unidade (12.12ss) – a perícope prevista para este estudo; b) os dons da graça e a agape (cap. 13); c) os dons e o crescimento da comunidade (cap. 14). Na perícope em destaque, Paulo ilustra a unidade na diversidade com a figura do corpo humano, que possui muitos membros, e cada um desses membros tem a sua função. Todas as funções visam fazer o corpo funcionar harmoniosamente, e tudo contribui para o bem-estar do corpo. Duas questões chamam a atenção: a) Paulo não diz aos coríntios que formem um só corpo a fim de constituir uma sociedade/comunidade coesa. O pensamento é o inverso. Ele parte do corpo único do Ressuscitado para mostrar que ele pode ser diversificado, articulado, sem deixar de ser um; b) ele não diz diretamente assim também é a igreja. Diz algo equivalente, no entanto, mais profundo: assim também é Cristo. Em um ponto posterior afirma, no entanto, vós sois o corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo (v. 27). Paulo cita o Batismo a fim de colocar todas as pessoas da comunidade de fé no mesmo patamar. Apesar dos dons diferentes, não pode haver superiores e inferiores. Assim ele ataca, de forma consciente, aquelas pessoas que se julgavam superiores por causa do dom e defende as que sofriam de complexo de inferioridade.
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3º Domingo após Epifania
O fundamental, neste texto, é a compreensão eclesiológica deixada por Paulo. Ele defende, de forma radical, que a igreja necessariamente é cristocêntrica. Essa unanimidade não é “burra” (Nelson Rodrigues dizia que “toda unanimidade é burra”), mas está firmada no centro da nossa fé cristã: Jesus Cristo, revelado na cruz e ressuscitado no domingo de Páscoa. Nesse corpo tem lugar para as diferenças. Por isso a unanimidade não é burra no corpo eclesial. O Deus que fez a “Epifania” em Jesus Cristo é o mesmo que se revela hoje em sua comunidade. Para o apóstolo Paulo, Cristo é o arquétipo de uma nova e glorificada humanidade, conforme a mesma se desenvolve na igreja. Nem todas as pessoas são iguais, incluindo aquelas que são parte do corpo de Cristo. Nem todas as pessoas exercem ou podem exercer as mesmas funções. Mas todos os dons espirituais operantes são importantes, e todos os membros são necessários. Além disso, há uma grande interdependência entre todos os membros. A saúde e o bem-estar do corpo dependem da saúde e da função apropriada de todos os seus membros. Por essa razão deve haver unidade em um serviço amoroso e não a exaltação de alguns membros em detrimento dos demais. O corpo humano necessita de todos os seus membros para funcionar e para que a pessoa se sinta bem. Assim também ocorre no caso do corpo de Cristo – igreja. Outrossim, tanto no corpo como na igreja, os membros são muitos porque há múltiplas funções, mas isso não deveria perturbar a unidade essencial e a comunhão do corpo e nem o seu alvo e propósito. Paulo salienta que todos os membros são indispensáveis. Seria uma visão grotesca ver um corpo transformar-se em um único membro. A própria diversidade do corpo são tanto a sua beleza como o seu meio de sobrevivência, bem como o bem-estar da pessoa. No entanto, essa diversidade seria autodestrutiva se não houvesse alguma espécie de unidade essencial. Marco Aurélio, o filósofo e imperador romano estoico, referia-se ao ser humano como um ser criado a fim de aprender a cooperar com seus semelhantes em paz, assim como pés, mãos, pálpebras e os maxilares superior e inferior devem cooperar entre si. Um membro pode até degradar a si mesmo ou então degradar outro membro, fazendo comparações desiguais entre os seus dons e os de outros membros. Porém essa degradação não elimina o membro degradado e nem a função e a necessidade que esse membro representa. Vimos que ser parte da comunidade de fé é ser parte do corpo de Cristo. Conviver com as diferenças e, mesmo assim, manter a unidade não é uma opção – é algo preestabelecido e é uma necessidade.
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Meditação
Já está virando chavão dizer que vivemos em uma sociedade na qual impera o individualismo. Que estamos cada vez mais isolados, mesmo cercados por pessoas, e que vivemos em uma sociedade doente porque não sabemos conviver. Tudo isso é verdade, e não ouso desmentir essa realidade. Só acho que essa constatação já foi feita, e é hora de dar um passo adiante.
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3º Domingo após Epifania
A partir dos textos bíblicos indicados para este domingo, podemos ir além. Os textos levam-nos a olhar para o tempo de Epifania. Deus revelou-se, em um tempo específico, no seu Filho Jesus Cristo. Ele continua revelando-se na história ainda hoje. Cremos nisso pelo fato de crermos em Jesus Cristo. Deus manifesta-se por meio de pessoas, de instituições eclesiais, sociais e educacionais. Ele o faz também por inúmeros outros meios, muitas vezes invisíveis aos nossos olhos. No texto de leitura, temos o exemplo bonito deixado pela liderança de Neemias, que animou, convidou e dividiu tarefas na grande obra de reconstrução de Jerusalém. O povo uniu-se não só para assentar tijolos, mas para reconstruir vidas, histórias, lembranças. O texto lido neste dia mostra um povo em comunhão em torno da Palavra. Um povo que trabalhou, empenhou-se, suou, mas recebeu em troca um brilho de esperança nos olhos – um pagamento e tanto por seu esforço. Talvez seja esta a dádiva mais bonita para aqueles que percebem a epifania de Deus: brilho de esperança nos olhos, coragem de seguir adiante, de não aceitar a situação, de erguer a cabeça e enfrentar medos e temores. Na leitura do texto de 1 Coríntios, somos lembrados da figura do corpo eclesial, do corpo de Cristo, das diferenças que temos, mas também das oportunidades de caminhar em conjunto. Quando falamos de corpo, precisamos lembrar que em nosso mundo vivemos um verdadeiro “culto ao corpo”. A mídia diz-nos como é o corpo ideal, e nós ficamos escravizados, correndo atrás desse ideal. Por isso é necessário refletirmos a respeito do corpo. Certamente a afirmação primeira é que Deus criou o ser humano e deu-lhe o corpo com seus diversos sentidos. É com o corpo que louvamos a Deus e através dele expressamos e vivemos concretamente a nossa fé. Mas nele também sentimos o peso da sede de vida, de aceitação, de realização. Infelizmente, em nossa sociedade atual, uma grande parte dos corpos de seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus não possui o direito de viver dignamente. São massacrados, explorados, enfraquecidos, destruídos e também mortos... A ânsia de todo ser humano são a vida, a utopia, o sonho, a transformação da realidade desumana e assassina. Essa também é a vontade de Deus, que em Cristo tornou-se corpo, tornou-se gente. Como pessoas cristãs, temos o compromisso de promover a vida para todos os corpos que a têm ameaçada. Não é porque buscamos ou ansiamos a vida somente para nós, mas porque, acima de tudo, Deus a quer e nos incumbe de buscá-la para todos os corpos por ele criados. Por mais que estejamos banhados pelo espírito excludente da atualidade, o evangelho é mais forte e quer nos tocar e nos trazer uma nova mentalidade. Sabemos que necessidades unem pessoas. Não é à toa que, quando há uma tragédia de grandes proporções, sempre há muitas mãos dispostas a colaborar. Mas o olhar da comunidade de fé precisa ser mais amplo. Pequenas tragédias, não mostradas no Jornal Nacional, fazem parte da vida de muitas pessoas em nosso meio. Elas necessitam sentir a diversidade de dons, os diferentes jeitos de consolar, animar e curar feridas presentes na unidade do corpo de Cristo. Por outro lado, não poucas vezes a convivência comunitária é atrapalhada e dificultada porque egoísmos, interesses pessoais, disputas de beleza e poder atravessam a mensagem do evangelho. Nas palavras de Lutero, aprendemos que
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na comunhão cristã todos os bens espirituais e também os pecados são compartilhados e passam a ser comuns, de todas as pessoas. Lutero compara isso a uma cidade: é assim como, numa cidade, cada cidadão passa a participar do nome, da honra, da liberdade, dos negócios, dos costumes, das tradições, do auxílio, da assistência e da proteção dessa cidade; em contrapartida, ele participa de todos os perigos, incêndios, inundações, inimigos, da mortandade, dos prejuízos, das taxas e impostos e de coisas semelhantes. Pois quem quer desfrutar também precisa contribuir e pagar amor com amor. Aqui se vê que quem causa algum mal a um cidadão, causa mal à cidade e a todos os cidadãos; quem faz bem a um cidadão merece o favor e a gratidão de todos os outros (OSel 1, 429).
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Imagens para a prédica
Penso que os tópicos anteriores já nos dão uma boa base e boas imagens para a pregação. Acrescento ainda algo que pode auxiliar. Pensei na questão da unidade e no que atrapalha a boa convivência em nossas comunidades. Lembrei do exemplo das doenças autoimunes. No fundo, nas questões de disputas nas comunidades acontece algo parecido com as doenças autoimunes. O próprio corpo acaba atacando a si mesmo. Leia abaixo o que retirei da internet a respeito do assunto: Doenças autoimunes são aquelas em que o sistema imunológico de um indivíduo ataca e destrói tecidos saudáveis do próprio corpo, como que por engano... Normalmente, os leucócitos que fazem parte do sistema imunológico de uma pessoa protegem o corpo contra a invasão de substâncias nocivas, como bactérias, vírus, toxinas, células cancerosas, sangue ou tecidos de outras pessoas. Nas doenças autoimunes, o sistema imunológico do indivíduo não consegue distinguir entre os tecidos saudáveis do corpo e os elementos estranhos ou nocivos e os danifica ou destrói. As causas dessa incapacidade de distinguir entre tecidos saudáveis do corpo e elementos estranhos ou nocivos ainda são desconhecidas, mas supõe-se que obedeçam a uma predisposição genética, a alterações hormonais e a uma baixa regulação imunológica.
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Subsídios litúrgicos
Hinos
O Povo Canta: 86 (Corpo); HPD: 325, 336, 89, 109.
Dinâmica Na semana que antecede a celebração, distribuir tarefas entre pessoas, famílias ou grupos da comunidade. Cada qual ganha a tarefa de confeccionar uma parte de um corpo humano: mão e braço direito, mão e braço esquerdo, perna e pé direito, perna e pé esquerdo, tronco, cabeça, pescoço. A regra é que ninguém pode ver como, em que material e em que tamanho o outro está confeccionando a sua parte correspondente. Durante a celebração, formar o corpo, juntando as partes. Certamente vai haver uma discrepância entre as partes confeccionadas
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– diferenças na textura, no tamanho, formato, coloração. Refletir sobre a unidade e a necessidade de comunicação para que o corpo (comunidade) consiga ser harmonioso.
Bibliografia BARBAGLIO, Giuseppe. 1-2 Coríntios - Pequeno Comentário Bíblico. São Paulo: Edições Paulinas, 1993. CARREZ, Maurice. Primeira Epístola aos Coríntios. São Paulo: Edições Paulinas, 1993. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. IV. 4. ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, 1983. DOENÇAS AUTOIMUNES: o que são? Disponível em: <http://www.abc.med. br/p/sinais.-sintomas-e doencas/574312/doencas+autoimunes+o+que+sao+quais+sao+as+causas+e+o+ diagnostico+e+tratamento+como+elas+se+manifestam+e+evoluem.htm>. Acesso em: 13 jun. 2015.
4º DOMINGO APÓS EPIFANIA LUCAS 4.21-30 JEREMIAS 1.4-10 1 CORÍNTIOS 13.1-13
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA LUCAS 9.28-36(37-43) ÊXODO 34.29-35 2 CORÍNTIOS 3.12-4.2
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QUARTA-FEIRA DE CINZAS
10 FEV 2016
PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10 JOEL 2.1-2,12-17 MATEUS 6.1-6,16-21
Ramona Weisheimer
Sem nada, mas possuindo tudo!
1
Introdução
Quarta-feira de Cinzas é início da Quaresma. Tempo de aquietar-se, de meditar, de arrepender-se. Utiliza-se a mesma cor litúrgica do Advento, quando se esperava e preparava o coração para o Senhor, que vem feito criança, que nasce entre nós e para dentro da nossa realidade. Preparamo-nos de novo, acompanhamos o Senhor de novo. Mas agora acompanhamos os passos finais do Senhor, que assume sua missão até as últimas consequências. Estamos com ele? Ou preferimos fazer o “enterro dos ossos” e tantos carnavais depois da hora, sem tempo de nos aquietar, sem tempo de parar e olhar para o coração, para a própria existência, para a vida? Aquietar-se pode ser um ato de coragem, até um “ser diferente” num mundo que cobra cada vez mais correria e emoção como critério de aceitação. O texto proposto já foi tratado com outras delimitações (2Co 5.(14b-18) 19-21, em PL 16 e 18; 6.1-10, em PL 7), mas nesta delimitação apenas no PL 35. Os textos das leituras bíblicas ajudam-nos na reflexão. O texto do Evangelho de Mateus 6.1-6,16-21 faz parte do Sermão do Monte. Trata do serviço ao próximo, da oração e do jejum sem hipocrisia (Deus vê mesmo que não seja manchete nos jornais...) e do juntar riquezas onde importa, pois “onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês” (v. 21). O texto do profeta Joel 2.1-2,12-17 chama ao arrependimento e a reconciliar-se com Deus. Eram tempos de crise – seca e praga de gafanhotos –, e todos são chamados a procurar o Senhor de todo o coração. Pois ele é bondoso e misericordioso, é paciente e muito amoroso (v. 13).
2
Exegese
2.1 – Corinto A cidade grega de Corinto foi destruída em 146 a.C., e os sobreviventes foram dispersos. Em 44 a.C., Júlio César decretou a fundação de uma colônia romana no local, mas, no lugar de veteranos de seus exércitos, mandou para lá uma população cosmopolita – da Síria, do Egito, judeus, talvez cartagineses –, composta principalmente de ex-escravos, os libertini. Foi sede da província senatorial da Acaia com um procônsul eleito a cada ano pelo Senado. Lucius Junius Gallio, com quem Paulo teve contato, esteve lá de julho de 51 a junho de 52. Perto de Corinto estavam dois importantes portos: Lechaion, no mar Adriático, e
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Cencreia, no mar Egeu. Assim, Corinto era o caminho mais seguro para o comércio entre a Itália e a Ásia. A língua falada era o grego, sendo o latim reservado para assuntos oficiais. Era ainda a sede dos “Jogos Ístmicos”, que, de dois em dois anos, reuniam representantes de todos os recantos da cultura grega. Além disso, era o centro da indústria de bronze, possuía muitas fundições e oficinas de artesanato. Aristocratas donos de terras, comerciantes, armadores, donos de oficinas, artesãos especializados, escravos. Uma cidade próspera, com “alguns milhares” de habitantes, com suas culturas e religiões, onde os ricos eram muito ricos, e os pobres, muito pobres. Para lá foi Paulo provavelmente em 50. Conforme Atos, começou a evangelizar pela sinagoga. J. Comblin, porém, percebe nesse começo uma visão tradicional que responde ao esquema teológico de Lucas. Paulo teria, conforme Lucas, sido expulso pelos judeus, mas permanecia apóstolo de judeus e gentios. Atentando para a importância de Áquila e Priscila, Comblin prefere ver Paulo entrando primeiro pelo bairro dos artesãos, fazedores de tendas, não pela sinagoga ou pela praça pública, onde se exibiam os oradores e vendedores de doutrinas, em geral sustentados pelos ricos, que tinham tempo para estar nas praças. Agindo diferente, Paulo teria criado um novo modelo de apostolado e de evangelização, que levou a controvérsias e deu motivo para cartas endereçadas à comunidade. Aquela que chamamos de Segunda Carta aos Coríntios é, provavelmente, a compilação de cinco cartas, aliás bem distintas. A compilação teria sido feita em meados do século II. Os fragmentos seriam os seguintes: 1.1-2.13 e 7.5-16 – carta de reconciliação; 2.14-7.4 – carta de apologia (a que mais nos interessa neste momento); 8 e 9, duas cartas sobre a coleta para os pobres; 10-13, carta de loucura. A Segunda Carta aos Coríntios pressupõe uma crise, e o assunto fundamental da carta é a legitimidade do apostolado: quem é o verdadeiro missionário e quais os critérios para discernir o verdadeiro do falso apóstolo? Para Paulo, o verdadeiro apóstolo gloria-se não no que ele faz, mas no que Deus faz através dele; gloria-se na fraqueza, não na força. Daí, conforme Comblin, já faz parte da própria proposta de missão de Paulo trabalhar com as próprias mãos, enxergando o trabalho não como os intelectuais o enxergam e com os nossos conceitos modernos, mas a partir da ótica dos trabalhadores: como sofrimento, provação, cansaço. Abandonar-se nas mãos de Deus, aproximar-se do Cristo que “era rico e se fez pobre” (8.9). Em vez do gloriar-se, fraqueza; em vez de ser servido, servir. 2.2 – Aproximando do texto Paulo explicou sua visão de apostolado, refutando a de seus adversários, e agora lança um apelo aos coríntios para que se reconciliem com ele, reconheçam seu ministério, tomem o partido dele, pois se haviam deixado seduzir por belas ideias e prestígios. A doutrina de reconciliação com Deus era, provavelmente, parte da catequese das comunidades, anterior a Paulo. Assim, Deus é quem vem ao encontro, sem esperar nada dos seres humanos. Muda a relação (de inimigos em amigos). Deus reconcilia-se conosco através de Cristo, único mediador. Paulo, aqui, será o embaixador que fala “em nome de” Cristo (5.20b – NVI: “por amor” a
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Cristo; NTLH e BJ: “em nome” de Cristo; no grego: hyper – em prol de, no lugar de). Então reconciliar-se com Deus é reconciliar-se com Paulo também. 5.21 muda um pouco a argumentação, deixando bem claro o papel de Cristo nessa reconciliação com Deus (NVI, BJ: “aquele” que não tinha pecado...; NTLH: “em Cristo”). Essa troca, o sem pecado feito pecado e (ou “para que”) os pecadores tratados como justos, é recorrente em Paulo (cf. Gl 3.13; Rm 8.3). Cristo morre em favor do pecador. 6.1 retorna ao que vinha sendo dito sobre ser Paulo o embaixador, “companheiro de trabalho no serviço de Deus”, sempre usando o plural para referir-se a si. Dirige aos coríntios o apelo do próprio Deus à reconciliação. Eles receberam o dom gratuito de Deus, receberam o batismo, então não lancem tudo fora. 6.2 traz outra vez o chamado (escutem!) com argumentação (cf. Is 49.8). NVI e BJ traduzem “no tempo favorável”; NVI acrescenta ainda “por excelência”; NTLH traduz por “tempo de mostrar minha bondade”, tanto em Isaías como aqui. De 6.3-10 temos uma apologia do ministério de Paulo. No v. 3, há uma pequena variação nas traduções: NVI, BJ parecem dar mais ênfase ao ministério, com pequena variação (“caia em descrédito” ou “seja sujeito à censura”), enquanto NTLH traduz “para não atrapalhar ninguém”. Paulo não se vangloria, mas se justifica diante da comunidade: como bom servidor não quer dar nenhuma margem a escândalo ou defeito. 6.4 vai discorrendo sobre o que seria uma “código do apóstolo verdadeiro”. Sem cartas de recomendação ou prestígio, o que o recomenda é apenas o seu serviço. E aí segue uma lista de características, a começar pela paciência (“perseverança” e “fortaleza” são parte do significado da palavra grega traduzida aqui por “paciência”), referida em nove momentos, em séries de três: as aflições, os sofrimentos e as dificuldades (Comblin vê nesses a evocação das provações do fim do mundo). 6.5 mais duas séries: chicoteados, presos e agredidos; e trabalhado demais, ficado sem dormir e sem comer – provações que Paulo sentiu na carne; basta olhar Atos dos Apóstolos e lembrar que devia trabalhar à noite para evangelizar de dia, e talvez nem sempre tivesse o suficiente que comer. Em 6.6, depois das provações, as virtudes. Virtudes próprias, mas que todos os apóstolos deveriam ter: pureza e conhecimento; paciência e bondade, que são formas de irradiação do amor de Deus; Espírito Santo (parece um pouco estranho aqui, pois o Espírito Santo é a fonte de todas as virtudes; NVI e NTLH “no” ou “por meio do” Espírito Santo, e BJ “por um espírito santo” – minúsculo e indefinido, enquanto N-A, en pneumati agiō minúsculo, na mesma enumeração) e amor verdadeiro (mesmo para com os adversários). 6.7 primeiro conclui a lista: mensagem da verdade – que não se desvirtuou do evangelho da cruz – pelo poder de Deus, único poder com o qual o apóstolo deve contar. Concluídas as virtudes, vêm umas imagens militares, tão ao gosto de Paulo: armas que se usam na mão direita e na esquerda, portanto ofensivas e defensivas. Em 6.8-10 Paulo conclui sua apologia com sete antíteses, que retomam as acusações que foram feitas contra ele em seu apostolado: elogiados e caluniados;
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alguns nos insultam, outros falam bem; tratados como mentirosos, mas falamos a verdade; tratados como desconhecidos, mesmo sendo bem conhecidos; como se estivéssemos mortos (ou moribundos), estando vivos, como vocês podem ver; castigados – e talvez alguns explicassem seus sofrimentos como castigo de Deus que o rejeita – mas não mortos – o que mostra que Deus não o castiga realmente; tristeza pelas provações e alegria que vem de Deus; pobre, que enriquece outros (escolheu essa maneira de evangelizar); não tendo nada, mas possuindo tudo – pobre como uma pessoa que não tem nada, mas tem tudo, porque tem o dom de Deus.
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Meditação
Estive lendo o belo texto que a colega Cristina Scherer escreveu para o PL 35 sobre esses mesmos versículos. Ela trouxe textos muito interessantes, palavras de Lutero sobre o compromisso “pesado e perigoso” que é o ministério; a contradição gritante do teólogo da glória, “que ignora o Deus oculto nos sofrimentos... por isso prefere as obras aos sofrimentos, a glória à cruz, o poder à debilidade, a sabedoria à tolice”; aquilo que as comunidades esperam do pregador e como, enfim, ele deve ser. Aliás, a figura do pastor transgênico – com genes de Sílvio Santos, Faustão e Roberto Carlos – pareceu-me perfeita. Lutero lembra ainda que é preciso “ter boa aparência para ser amado pelas mocinhas e senhoritas”. Pois é!... Teologia da cruz e teologia da glória, Cristo ao lado dos pobres e/ou perfilado aos ricos; aquilo precisa ser dito e show da fé, com isso se debateu Paulo, e Lutero, e nós também! E continua sendo um compromisso “pesado e perigoso”. Mas que eu não trocaria por nada. A edição de nº 2373 de 17/05/2015 da revista IstoÉ – com todas as críticas que se possa fazer à revista – sob o título “O Santo de esquerda” falou sobre a beatificação de Dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980. Falou sobre a Teologia da Libertação, conforme eles, “corrente que interpretava o evangelho à luz das questões sociais”, e a dificuldade de teólogos europeus de entender a realidade latino-americana, que deu razão ao surgimento dessa. Sem entrar nos méritos da questão, é bom ouvir da realidade do povo sofrido entrando em cena. Mas, olhando ao meu redor, agora nem preciso estar numa cosmopolita e multicultural Corinto para ver um entusiasmo gritante pela glória em detrimento da cruz. Como dizia um imponente outdoor na entrada da ponte entre Várzea Grande e Cuiabá (MT) há alguns anos: “missionário fulano de tal há 20 anos fazendo milagres” – em letras bem grandes – “em nome de Cristo” – embaixo, bem pequenininho, quase não dava para ler... Deus convida-nos à reconciliação por Cristo, com Cristo, em Cristo. Talvez precisamos chorar como Paulo, escrever loucuras, defender o que precisa ser defendido, marcar posição, orgulhar-nos não daquilo que nós fazemos, mas do que Deus faz através de nós.
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Quarta-feira de Cinzas
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Imagens para a prédica
É Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, início do ciclo da Páscoa. É tempo de reflexão e quietude – embora os “bailinhos” não tenham tempo para parar. Quem sabe se leva um pouquinho de cinza e mostra-a no início da pregação. Cinzas não se parecem muito com glória, bem mais com fim e arrependimento. Às vezes, a gente também se sente meio cinza, nadando contra a corrente. Mas a cinza tem lá as suas utilidades, e a Bíblia relata vários momentos em que pessoas vestiam-se com panos de saco e cobriam-se de cinzas como sinal de arrependimento e mudança de vida. Paulo fala de reconciliação com Deus; Mateus, de humildade; e Joel, de arrepender-se. Os textos relacionam-se muito bem e são um belo exemplo para a prédica.
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Subsídios litúrgicos
Retomar as cinzas, convidando as pessoas a vir, em duplas, até o altar – ou mesa auxiliar –, sujar o dedo na cinza e fazer o sinal da cruz no pulso uma na outra, desejando a paz de Cristo. Do que a fé é capaz? A fé em Cristo não transforma minha comida simples em iguarias, mas ela me leva a compartilhar o pouco que eu tenho com os pobres. A fé em Cristo não transforma minha cabana simples num palacete de luxo, mas ela me ajuda a ser feliz em minha cabana. A fé em Cristo não circunda minha cabeça com nenhuma auréola, mas ela me ergue e me purifica cada vez que eu caio. A fé em Cristo não me garante uma vida de cem anos, mas ela me encoraja a viver uma vida que dia a dia se torna útil a outros. A fé em Cristo não me eleva agora ao lugar onde vivem os anjos, mas ela traz Cristo ao meu coração. A fé em Cristo não me faz ser orgulhoso por poder crer. Antes me torna humilde para receber a sua graça. A fé em Cristo não me resguarda do morrer, mas ela me dá a certeza da ressurreição e a comunhão dos santos. (Johnson Gnanabaranam)
Bibliografia COMBLIN, José. Segunda Epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes, Sinodal, Metodista, 1991. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1985.
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 26.1-11 ROMANOS 10.8b-13 LUCAS 4.1-13
1º DOMINGO NA QUARESMA
14 FEV 2016
Léo Zeno Konzen
Cesta de memórias fecundantes
1
Introdução
No caminho para a Páscoa, a maior das celebrações cristãs, encontramo-nos, neste 1º Domingo na Quaresma, com textos bíblicos que lembram e fazem viver hoje a fé que nos une e que precisa ser constantemente reafirmada e renovada. A base da fé do povo bíblico encontra-se nos acontecimentos históricos da libertação da escravidão no Egito e da conquista da terra (Dt 26, texto de prédica). A tentação de esquecer a história e os compromissos éticos dela decorrentes precisava ser permanentemente enfrentada para não se cair numa religiosidade desencarnada e cômoda que caracterizava os cultos cananeus. Na Carta aos Romanos, Paulo lembra que não são ritos mágicos que salvam, mas a fé sincera, enraizada no coração, proclamada pela palavra e traduzida em ações concretas que lhe correspondam. No evangelho deste domingo, encontramos Jesus no deserto, sendo conduzido pelo Espírito e enfrentando as grandes tentações que lhe sugeriam seguir por caminhos espetaculares e imediatistas em vez de discernir e assumir o difícil processo de revelar mais profundamente o coração e as mãos do Deus libertador. Nossa fé tem raízes históricas e precisa traduzir-se em compromissos históricos. É por isso que, neste domingo, olharemos com mais atenção para o “credo histórico” do povo de Israel. Dele queremos extrair inspirações e forças para seguir fielmente a Jesus no caminho que culminou em sua morte na cruz e na ressurreição.
2
Exegese
O livro do Deuteronômio é uma encruzilhada. Nele deságuam as tradições primitivas dos quatro primeiros livros da Bíblia hebraica e dele partem as tradições mais recentes dos livros seguintes (de Josué a Reis) (LOPEZ, p. 8). Ele é, portanto, um “ponto de chegada” e, ao mesmo tempo, um “ponto de partida”. Como sugere seu nome, este livro ocupa-se fundamentalmente com as leis (nomos), não se atendo ao que já havia no passado, mas se tornando uma espécie de segunda (deuteros) lei, contendo a explicitação das implicações da primeira Lei, a lei maior, que é o Decálogo. Originalmente o livro continha, sobretudo, as leis referentes à liturgia do povo de Israel, isto é, suas celebrações e festas, a oferenda dos vários tipos de sacrifícios e a oferta do dízimo anual e trienal
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(KRAMER, p. 183). Passando por evoluções, ele nunca perdeu a perspectiva de que essas leis não se restringiam ao culto israelita, mas estavam voltadas para a realidade socioeconômica do povo de Israel (KRAMER, p. 183). O grande objetivo de tudo isso é a permanente construção de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos (KRAMER, p. 183). Deuteronômio 26.1-15 guarda a recordação de duas cerimônias litúrgicas com significados muito próximos: uma ligada às primícias dos frutos da terra (v. 1-11) e outra ao dízimo das colheitas (v. 12-15). Cada uma delas comporta confissão do israelita ao Senhor. Enquanto a primeira põe ênfase naquilo que o Senhor fez em favor de Israel, a segunda sublinha o que o israelita fez ou deve fazer (LOPEZ, p. 67). A relação direta com Deus nas duas cerimônias aparece junto com o contato do israelita com seu próximo. O culto mostra seu profundo enraizamento na vida. As práticas cultuais caminham ao lado das práticas sociais (LOPEZ, p. 67). Deuteronômio 26.1-11 recebe diversos títulos em nossas Bíblias (em português), quase todos incluindo a palavra primícias. Uma propõe o simples e sugestivo “creio no Deus que liberta” (Bíblia Edição Pastoral). O texto lembra as razões para o povo cumprir os preceitos explicitados no livro. Ele objetiva manter viva a convicção de que Deus continuará a cumprir suas promessas, ou seja, o cumprimento dos preceitos do Senhor produzirá os resultados prometidos. Ele conduz os leitores ao momento da celebração da realização da grande promessa de terra, ponto de chegada do processo de libertação da escravidão no Egito. Ele fornece as bases para o cumprimento dos preceitos relativos ao culto e à organização da vida solidária, inclusiva e fraterna. O fundamento é justamente este: Deus cumpriu sua promessa e o fará também no futuro. Por isso ele tem credenciais para pedir ao povo para obedecer às suas ordens. Os cinco versículos iniciais apresentam o preceito da entrega dos primeiros frutos da terra, tão logo essa tenha sido ocupada. A entrega deverá ser feita “no lugar que o Senhor escolheu” ao sacerdote que estiver em função. Essas indicações revelam que o texto passou por adaptações em função da centralização do culto num único templo em Jerusalém no tempo do rei Josias. Elas mostram também que o rito não se restringe a um momento histórico do passado, mas se tornou um costume em Israel. A entrega das primícias tem o sentido de celebrar a realização da promessa de Deus. Ela celebra as maravilhas que Deus fez na história em favor do seu povo e projeta a continuidade dessa ação no presente e no futuro do povo. Em seguida, os v. 5b-10a apresentam uma “história da salvação”, que culmina na posse da terra e fundamenta o preceito da entrega das primícias. O v. 9 fala da terra com muito entusiasmo: ela mana leite e mel! O israelita sabe valorizar o que considera dom de Deus. Deuteronômio 8.7-10 também apresenta um elogio semelhante, fornecendo detalhes sobre as riquezas da terra. Essa “história da salvação” começa na primeira pessoa do singular (v. 5b); depois passa para a primeira pessoa do plural (v. 6-9) e volta para a primeira pessoa (v. 10). A variação pode ser devida à evolução do texto ao longo da história, sendo as partes no singular as mais antigas (LOPEZ, p. 69).
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Os v. 10b-11 determinam como a entrega deve ser feita: com prostração diante de Deus e alegria por todas as coisas boas (felicidade, conforme TEB) concedidas por Deus. São lembrados como participantes dessa alegria “tua casa” bem como o levita e o migrante. O Deuteronômio contém a permanente preocupação pelos pobres e pelos que estão no meio do povo sem ter a propriedade da terra, como os levitas e estrangeiros. O rito da oferenda das primícias não é exclusividade e talvez nem seja uma criação do povo de Israel, pois nos cultos cananeus também havia ritos de primícias, onde se ofereciam esses produtos a Baal, deus da fecundidade do solo e das chuvas. Para os israelitas, porém, esse rito celebra acima de tudo a intervenção de Deus em sua história. Na fé bíblica, Deus garante a fecundidade do solo e manda as chuvas necessárias, não sendo necessário realizar ritos que sensibilizem a divindade para isso ou despertem as forças da natureza. O que importa, então, é construir a história à luz dos preceitos de Deus que cumpre suas promessas. A fé de Israel se funda nas intervenções de Deus na história. O culto é a expressão dessa fé e comemora a história da salvação. Em Dt 26 está conservada uma das páginas mais brilhantes dessa fé e desse culto do antigo povo de Deus (LOPEZ, p. 67).
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Meditação
A construção de uma vida que tenha sentido implica muita perseverança e manutenção do foco. O mesmo diga-se em relação à sociedade na qual todas as pessoas tenham seus direitos fundamentais respeitados e da qual ninguém seja excluído. As tentações de seguir por caminhos mais cômodos e talvez mais espetaculares sempre serão constantes. O livro de Deuteronômio testemunha o esforço do povo bíblico em manter-se fiel ao Deus libertador e encontrar, em cada etapa de sua história, a paz e a felicidade prometidas por Deus. Esse povo sabia que a realização das promessas de Deus passava pela fidelidade aos preceitos de Deus, porque eram normas a favor da vida. Para não cair nas armadilhas da lógica da concentração das riquezas e do poder, era necessário manter viva a memória dos acontecimentos do passado. Fazia-se necessário recordar concretamente que a posse da terra pelo povo de Israel era a realização de uma promessa de Deus. Mais ainda, não se podia perder a consciência das maravilhosas intervenções de Deus na história desse povo, tirando-o da escravidão no Egito e conduzindo-o à terra que veio a ocupar. Esse Deus tinha credibilidade. A ele era preciso escutar, não aos “falsos deuses”. Suas orientações eram como novas promessas: se o povo as cumprisse, se o povo fosse fiel a Deus, veria novas maravilhas. Isso evoca a afirmação muito posterior de Jesus: Procurai primeiro o Reino e a justiça de Deus e tudo vos será dado por acréscimo (Mt 6.33). Celebrações ajudavam o povo a reafirmar seus compromissos com Deus e com o próximo, especialmente o próximo pobre, que é uma preocupação cons-
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tante em Deuteronômio. Apresentar as primícias dos frutos da terra tornou-se um rito ao mesmo tempo de gratidão, de memória e de compromisso. Com essa celebração, carregada de sentimentos e compromissos, o povo fortalecia-se quando experimentava a tentação de seguir por atalhos menos exigentes, porém mais desastrosos. Isso aproxima o texto de Deuteronômio 26.1-11 ao evangelho deste domingo, no qual Jesus está no deserto, talvez para reavivar profundamente a experiência das maravilhas de Deus na história de seu povo e firmar um novo compromisso com esse mesmo Deus. Jesus, no caso, não realiza o rito das primícias, mas se concentra num lugar – o deserto – que por si mesmo era um memorial das maravilhas de Deus e das tentações nem sempre vencidas por esse povo no caminho do êxodo que culminou na posse da terra prometida. Jesus, de certo modo, revive todo esse processo histórico e, no final, volta para o meio do seu povo com uma força e uma lucidez para colocar-se inteiramente a serviço do projeto de libertação que Deus tem para com seus filhos e filhas. O texto do evangelho destaca as tentações que sugeriam a Jesus desviar-se do caminho exigente e desafiador do projeto do Pai. Mas ele venceu toda tentação. Ele já tinha aprendido a lição do Deuteronômio – da celebração das primícias, em particular – e apostou no projeto libertador de Deus, comprometeu-se com ele. Paulo situa-se, na Carta aos Romanos, na mesma perspectiva. Segundo ele, o que nos salva é a fé sincera (crer no coração) e expressa em palavras (culto e doutrina) e ações concretas. Com Jesus ele ajuda a entender que a observância dos preceitos do Senhor, tão acentuada em Deuteronômio, precisa inspirar-se no princípio maior da vida plena para todas as pessoas, que orientou a prática libertadora de Jesus. Portanto o seguimento cego e desfocado de leis e preceitos pode também representar uma tentação para desviar-nos do verdadeiro compromisso de construir uma sociedade de inclusão e de respeito aos direitos de todos, especialmente dos pobres e excluídos. No início de nosso caminho para a Páscoa, a leitura e a meditação de Deuteronômio 26.1-11 e as demais leituras bíblicas do 1º Domingo na Quaresma querem reavivar em nós o alegre e ousado compromisso com o projeto de Deus, que conduziu Jesus a dar a própria vida por amor a seus irmãos e irmãs. Não trazemos ao altar necessariamente uma cesta com frutos da terra, mas fazemos memória das maravilhas de Deus em nossa vida e história. Proclamamos que ele cumpre suas promessas e, por isso, comprometemo-nos com seu projeto na certeza de que ele caminhará conosco. E pedimos humildemente, como fazemos ao orar o Pai-Nosso: Não nos deixes cair na tentação.
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Imagens para a prédica
A sabedoria popular diz que se pegam mais moscas com um pouco de mel do que com um barril de vinagre. A imagem ajuda a entender que o foco da reflexão, neste início da Quaresma, não deverá ser a tentação, mas as razões para a fidelidade ao Senhor e seu projeto. O Deuteronômio mostra justamente uma celebração da realização das promessas divinas como razão maior para o cumprimento dos preceitos do Senhor que geram vida. O evangelho também não destaca
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apenas as tentações de Jesus, mas mostra a sua busca de inspiração no deserto e no jejum. As tentações são reais e precisam ser consideradas, mas elas só poderão ser vencidas no horizonte de razões e motivações mais profundas. Uma cesta com frutos da terra colocada diante do altar ou sobre ele pode ajudar a refletir sobre os dons de Deus e também sobre as tentações que ocorrem em torno dos bens, frutos da terra e do trabalho humano, necessários para viver. Esse símbolo pode ser facilmente relacionado às leituras deste domingo, particularmente ao texto do Deuteronômio. A cesta pode inclusive abrir a reflexão sobre o grande dom da natureza com suas múltiplas generosidades, bem como sobre as tentações nas quais a humanidade já sucumbiu e das quais, em grande medida, se recusa a sair. Pode ainda ser de proveito a imagem do caminho: a Quaresma quer ser um caminho que fazemos com Jesus até sua Páscoa. Ao partirmos, precisamos nos conscientizar do destino da viagem, das razões que nos põem a sair, daquilo que precisamos levar conosco e dos eventuais perigos do caminho.
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Subsídios litúrgicos
A comunidade pode preparar uma cesta com “frutas” de sua própria história. Podem ser símbolos dos bons “frutos” do evangelho na vida da comunidade. Essa cesta poderá ser levada ao altar em momento oportuno. Seria interessante preparar um “credo histórico” da comunidade para ser proclamado na entrega da cesta. Podem ser feitos alguns pedidos de perdão e uma renovação do compromisso de fidelidade ao Senhor: – Perdoa-nos, Senhor, porque não soubemos reconhecer as tuas maravilhas em nossa história pessoal e comunitária. Senhor, tem piedade de nós! – Perdoa-nos, Senhor, porque te louvamos no culto, mas te desprezamos muitas vezes em nossos irmãos e irmãs, especialmente nos pobres e diferentes. Senhor, tem piedade de nós! – Perdoa-nos, Senhor, porque caímos na tentação da exploração sem limites da natureza e tornamo-nos insensíveis aos sofrimentos atuais e futuros de tantos irmãos e irmãs. Senhor, tem piedade de nós! Oração Amado Deus. Nós reconhecemos que és o Deus que faz maravilhas em favor de teu povo. Concede-nos reavivar a memória das tuas graças em nossas vidas e ajuda-nos a renovar nosso compromisso de fidelidade para com teu projeto de vida. Faze de nosso caminho para a Páscoa um itinerário de conversão, para que experimentemos mais profundamente a ação de teu amor no meio de nós. E não permitas que sejamos enganados pela astúcia de projetos de morte com suas falsas promessas. Isso te pedimos, ó Pai querido, por meio de teu Filho e nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém.
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Bibliografia KRAMER, Pedro. Origem e legislação do Deuteronômio: programa de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos. São Paulo: Paulinas, 2006. LOPEZ, Félix Garcia. O Deuteronômio: uma lei pregada. São Paulo: Paulinas, 1992.
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PRÉDICA: LUCAS 13.31-35 GÊNESIS 15.1-12,17-18 FILIPENSES 3.17-4.1
2º DOMINGO NA QUARESMA
21 FEV 2016
Aline Danielle Stüewer Joel Haroldo Baade
Entre o cuidado e a rejeição: Cristo no caminho de Jerusalém
1
Introdução
A relação dos três textos de leitura previstos para o 2º Domingo na Quaresma não é totalmente explícita. Por isso propõe-se uma chave de leitura que sirva de ponte entre eles, qual seja: a promessa de Deus e a atitude das pessoas diante dela. O texto do Antigo Testamento (Gn 15.1-12,17-18) trata da promessa de descendência que Deus fez a Abraão e a dúvida e o medo do patriarca diante da improbabilidade de ter um filho. A aliança com Deus no Antigo Testamento é feita através de sacrifícios de animais. No texto do evangelho (Lc 13.31-35), que é o texto da pregação, o evangelista relata o diálogo de Jesus com alguns fariseus que vieram alertá-lo a respeito da intenção de Herodes de matá-lo. Em sua fala, Jesus faz referência à sua morte e declara-se profeta enviado por Deus. Igualmente lamenta a rejeição sofrida pelas pessoas a quem quis tantas vezes abraçar e cuidar, assim como uma galinha cuida dos seus pintinhos. Já na carta de Paulo aos Filipenses (3.17-4.1), o apóstolo exorta para que se persevere em fé na promessa de Deus através do Cristo crucificado. Paulo lamenta que muitas pessoas desviam-se, através de suas ações, do caminho e tornam-se, inclusive, inimigos da mensagem de Cristo. Igualmente o apóstolo manifesta a sua alegria pela persistência daqueles que se mantêm fiéis ao Salvador, pois ele fará com que sejam glorificados.
2
Exegese
Segundo Schneider, o Evangelho de Lucas pode ser dividido em cinco blocos: a) introdução (1.1-4.13); b) a atuação de Jesus na Galileia (4.14-9.50); c) relato de viagem (9.51-19.27); d) a atuação de Jesus em Jerusalém (19.28-21.38); e) paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus (22.1-24.53). O texto da pregação, portanto, localiza-se no terceiro bloco do evangelho, onde se relatam os acontecimentos durante a viagem de Jesus a Jerusalém, onde a sua atuação o levaria à morte na cruz. Esse bloco, por sua vez, pode ser dividido em três partes menores: 1) o envio dos setenta e ditos contra as cidades (9.51-10.24); 2) relato da atuação em viagem: ditos, curas, parábolas, ações diversas (10.25-18.14); 3) a caminho de Jerusalém, com retomada do relato do Evangelho de Marcos (18.15-
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19.27). Assim, o texto em análise está localizado na segunda parte do terceiro bloco do evangelho, no qual o evangelista colhe relatos diversos sobre a atuação de Jesus quando já estava a caminho de Jerusalém. O Evangelho de Lucas tem quatro temas de destaque: a misericórdia para com os mais fracos e necessitados; crítica em relação aos ricos e à riqueza; a espiritualidade de Jesus; e a exaltação dos samaritanos como modelos de fé (SCHNEIDER). A abordagem desses temas no texto da prédica não é totalmente explícita, mas transparece na crítica aos dirigentes, sendo que Herodes é chamado de “raposa”; e a crítica ao povo judeu de modo geral com a acusação de rejeitar os mensageiros enviados por Deus. Uma palavra de juízo é proferida por Jesus diante da rejeição: Agora a casa de vocês ficará completamente abandonada (v. 35a). Para análise versículo a versículo, foram comparadas as versões Almeida Corrigida Fiel (ACF), Almeida Revista e Atualizada (ARA) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). A versão grega foi consultada também. V. 31 – Na comparação das versões não foi encontrada diferença significativa. O tema de destaque do versículo é a ameaça de morte que já paira sobre Jesus. Herodes Antipas é apontado pelos fariseus como autor de tal ameaça. Ele era o dirigente da Galileia e Idumeia na época e governava com o título de tetrarca, que lhe fora concedido pelos imperadores romanos Calígula e Cláudio. Quanto aos fariseus, eles não são apresentados por Lucas necessariamente como inimigos de Jesus (7.36; 11.37; 14.1), embora haja controvérsias a esse respeito. De qualquer forma, eles acabam fazendo o jogo dos perseguidores de Jesus, tendo ido ao encontro de Jesus por incumbência de Herodes ou por ter a pretensão de atrair Jesus a Jerusalém para ser entregue nas mãos do Sinédrio (VOLKMANN). V. 32 – Neste versículo, não há igualmente diferenças expressivas entre as versões. A única diz respeito ao tempo verbal do verbo grego τελειοῦμαι/teleioumai, que é um indicativo presente passivo da primeira pessoa do singular, ou seja, “sou consumado”, “terminado”, “finalizado”. ACF mantém esse tempo verbal, enquanto ARA (terminarei) e NTLH (terminarei o meu trabalho) usam formas ativas do verbo. O verbo expressa o compromisso de Jesus com o projeto do reino, que não poderá ser interrompido por nenhuma pessoa. O temor de Herodes em relação a Jesus é porque ele o associa a João Batista, a quem mandou decapitar (9.7-9). Contudo Jesus não lhe atribuiu muita importância, chamando-o de “raposa”, que pode significar o que também hoje se entende com o termo, ou seja, pessoa esperta, ardilosa, como também um elemento insignificante. Por essa disposição de matar Jesus, Herodes é um inimigo do reino, tal como os fariseus e as autoridades de Jerusalém que matam os profetas enviados por Deus. Por isso as palavras de Jesus são uma advertência a todos eles (VOLKMANN). V. 33 – As diferenças entre as versões neste versículo são bastante sensíveis. οὐκ ἐνδέχεται/ouk endechetai traduz-se melhor por “é impensável” ou “não pode ser”. Assim, a melhor tradução é a de ARA: porque não se espera que um profeta morra fora de Jerusalém. Jesus vê-se em certo sentido como profeta, mas também entende a sua obra como consumação da ação salvífica de Deus
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para toda a humanidade, que se expressa através do verbo τελειοῦμαι/teleioumai (v. 32), o mesmo empregado nos anúncios da paixão (Mt 16.21; 17.22s; 20.18s) (VOLKMANN). V. 34 – A diferença mais substancial neste versículo está relacionada à tradução do termo grego τέκνα/tekna (plural de τέκνoν/teknon), que pode ser traduzido literalmente por “filho”, mas também significa “descendentes”, “posteridade” ou “filhos”. Dessa forma o termo é traduzido por ACF e por ARA, enquanto NTLH prefere usar o termo “povo”. Em outras passagens, a NTLH também emprega “filhos” para traduzir o mesmo termo (cf. Mt 2.18). A imagem da galinha que cuida dos seus pintinhos, reunindo-os sob as suas asas, pode ser a ênfase a ser dada ao texto durante a realização da prédica. Ao cuidado de Deus, pode-se chamar a atenção para as muitas situações de rejeição desse cuidado. V. 35 – A comparação das versões não permitiu identificar divergências significativas ou que alterassem a compreensão do texto. A NTLH prefere o sinônimo “abandonada” em vez de “deserta” como tradução de ἔρημος/erēmos, que serve de qualificativo para o substantivo casa (οἶκος/oikos). Em Mt 14.15, a NTLH traduz o mesmo termo por “deserto”, assim como ARA e ACF. Outra diferença está na tradução do verbo εὐλογημένος/eulogemēnos (de εὐλογέω/eulogeō – abençoar, louvar), que está no particípio perfeito passivo nominativo masculino singular, ou seja, “abençoado”, “louvado” ou “bendito” (ACF e ARA). A NTLH prefere a forma ativa “Deus abençoe”. Segundo Volkmann, o texto de Lucas reflete uma profunda contradição em relação à cidade de Jerusalém. Ela é a cidade toda especial, escolhida por Deus para ali habitar o seu nome; é a cidade do templo. E, ao mesmo tempo, é a cidade que mata os profetas, que se recusa a receber e ouvir a mensagem de Deus. Também não percebe agora esta ocasião toda especial e vai proceder com Jesus dentro da mesma lógica. Por isso Jesus não só morre em, mas por intermédio de Jerusalém: não é destino cego ou mera coincidência; é culpa consequente (VOLKMANN). A análise versículo a versículo permite concluir que as traduções mantém-se relativamente fiéis ao texto grego, e cada qual poderá fazer a leitura na versão usual em sua comunidade, sem que haja prejuízo para o entendimento do texto.
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Meditação
Quem não arriscaria a própria vida para salvar alguém que ama? Eis que foi isso o que Jesus fez. A caminho de Jerusalém, foi alertado sobre o perigo de continuar a viagem e entrar na cidade. Ali viviam as autoridades políticas e religiosas que estavam incomodadas com a mensagem que Jesus estava anunciando. Mesmo sabendo do risco iminente de morte, levou a sua missão até as últimas consequências. Correu risco de vida para levar vida. Na viagem a Jerusalém, Jesus curou e ajudou muitas pessoas. Bem próximo a Jerusalém, foi avisado pelos fariseus: Sabe, é melhor você sair daqui de fininho, porque o governador Herodes quer acabar com você. Jesus deve ter achado muito engraçado o pedido dos fariseus. O seu trabalho não poderia ser
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interrompido. Havia muitas pessoas sedentas pela verdade. Como ele iria simplesmente virar as costas a elas? Ao ouvir que alguém queria matá-lo, Jesus não manda recado a Herodes para simplesmente desafiá-lo ou provocar uma briga inútil. Manda dizer que continua trabalhando como sempre: dando atenção a quem mais precisa, libertando do poder do mal, oferecendo às pessoas uma vida digna e curando os doentes. Nenhuma autoridade irá intimidá-lo. Ao se referir a Jerusalém, Jesus parece sentir um aperto no peito. Inclusive, mais adiante, o texto de Lucas 19.41 diz que, ao avistar a cidade, Jesus chorou. A mesma cidade que fora cruel com os profetas no passado novamente se fecha à oferta de acolher o evangelho da graça e da paz. E Jesus lamenta que Jerusalém, seu povo e suas autoridades negaram a acolhida, a proteção e o aconchego do próprio Deus: Jerusalém, Jerusalém. Quantas vezes eu quis proteger você como a mãe galinha protege os seus filhotes, mas você não quis... Jesus compara o seu cuidado ao cuidado de uma mãe galinha por seus pintinhos. A galinha tem um grande cuidado por seus pintinhos. Quando ela pressente, por exemplo, a mudança de tempo, procura logo envolver completamente os seus filhotes com as suas asas para protegê-los. Assim os pingos de chuva não os atingirão. Desde o início da criação, Deus tem buscado nos alcançar. Porém teimamos em seguir nossos próprios caminhos e ignoramos a sua oferta de amor. Ele enviou profetas para avisar ao povo que deixasse o pecado e o obedecesse, porém muitos continuaram não dando atenção. Então Deus se fez gente e veio ao mundo em Jesus Cristo para que o amor se tornasse carne e assim fosse reconhecido pela humanidade. Mesmo assim, muitos o rejeitaram. Também nós, muitas vezes, rejeitamos o amor e o cuidado de Deus e preferimos viver a vida que achamos correta e ignoramos a proposta de Jesus. Insistimos em viver uma vida repleta de mentiras, brigas, fofocas, competição e indiferença. Mesmo assim, Jesus não desiste de nós e prova o seu amor, morrendo na cruz para nos dar uma nova chance. Ele quis tão insistentemente nos deixar debaixo das suas asas, que morreu de braços abertos.
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Imagens para a prédica
Após um incêndio no Parque Nacional Yellowstone, nos Estados Unidos, começou a tarefa de limpeza e avaliação dos danos. Um guarda-florestal ia caminhando pelo parque quando encontrou uma ave carbonizada ao pé de uma árvore, numa posição bastante estranha, pois não parecia que morrera escapando nem que fora apanhada; simplesmente estava com as suas asas fechadas ao redor de seu corpo. O guarda, intrigado, encostou nela suavemente com uma vara; três pequenos filhotes vivos apareceram debaixo das asas da mãe. A mãe sabia que seus filhos não podiam escapar do fogo; por isso não os abandonou nem os levou para o ninho sobre a árvore, onde a fumaça subiria e o calor se acumularia. Levou-os para debaixo da árvore, provavelmente um por um, e ali ofereceu a sua vida para salvar a vida deles. Podem imaginar a cena? O fogo rodeando-os, os filhotes as-
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sustados e a mãe muito decidida, dizendo-lhes: Não temam, venham debaixo das minhas asas, nada acontecerá. Estavam tão seguros e protegidos do fogo, que horas depois do incêndio terminado ainda não tinham saído de lá. Estavam confiantes na proteção da mãe; somente após o encostar do guarda no corpo morto da mãe pensaram que deveriam sair (Autor desconhecido).
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados Querido e bondoso Deus, tu que cuidas dos teus filhos e filhas assim como uma galinha protege os seus pintinhos, achegamo-nos à tua presença para te pedir perdão por justamente não reconhecer o teu cuidado diário para conosco. Confessamos que temos dificuldade para ver a tua ação em nossa vida, para ver o que tu tens planejado para nós. Sabemos que jamais tiveste a intenção de nos impor a tua vontade, mas queres ser aceito em amor e como cuidador, embora sistematicamente temos rejeitado esse cuidado ao não dar ouvidos às pessoas enviadas por ti para nos anunciar a tua mensagem de amor. Sugestão de hinos Do HPD: 130 – Senhor, tu nos chamaste; 198 – Oh bem cego eu andei; 209 – Deus sempre me ama; 46 – Agradecemos-te, Jesus.
Bibliografia SCHNEIDER, Nélio. Roteiro para a Leitura da Bíblia. São Leopoldo: Sinodal, 1996. VOLKMANN, Martin. 2º Domingo de Quaresma: Lc 13.31-35. In: SCHNEIDER, Nélio; WITT, Osmar. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1998. V. 23. p. 65-71.
3º DOMINGO NA QUARESMA 1 CORÍNTIOS 10.1-13 ISAÍAS 55.1-9 LUCAS 13.1-9
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4º DOMINGO NA QUARESMA
06 MAR 2016
PRÉDICA: LUCAS 15.1-3,11b-32 JOSUÉ 5.9-12 2 CORÍNTIOS 5.16-21
Erní Walter Seibert
Deus sempre nos recebe com amor
1
Introdução
Quaresma é o período do Ano da Igreja em que as pessoas cristãs fazem a preparação para a celebração da Páscoa. É um tempo de reflexão sobre os motivos que levaram nosso Senhor Jesus Cristo a enfrentar a paixão e a morte. A Quaresma é entendida à luz da Páscoa. Ela leva a pensar no antes e no depois. O texto do evangelho deste domingo conta a parábola do filho pródigo. O capítulo 15 do Evangelho de Lucas é o capítulo dos perdidos. A ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido compõem esse capítulo. Neste domingo, a ênfase está na história do filho, ou melhor, dos filhos perdidos. No começo do capítulo é feita a introdução ao assunto. Jesus era conhecido como alguém que “se mistura com gente de má fama e toma refeições com elas”. As pessoas consideradas de má fama nos tempos de Jesus continuam tendo a mesma fama nos dias de hoje: cobradores de impostos e prostitutas. Uma vez que essas pessoas buscam auxílio em Jesus, ele as aceita e dá nova oportunidade. Há um antes e um depois. As outras duas leituras do dia podem ser facilmente relacionadas com a leitura do evangelho. Em Josué 5.9-12 está descrita a chegada do povo de Israel à terra prometida. Depois de ter peregrinado 40 anos pelo deserto, após a saída do Egito, finalmente alcançou a terra prometida. Chegando à nova terra, o maná parou de cair. Agora eles podiam alimentar-se da fartura da nova terra. Os homens circuncidaram-se. Os homens que haviam saído do Egito e que eram circuncidados morreram todos. Os que nasceram no deserto não haviam sido circuncidados. Era hora de renovar a aliança com Deus. Veem-se claramente o antes e o depois. Pode-se dizer simbolicamente: está acontecendo a passagem da Quaresma para a Páscoa. Finalmente, temos a leitura da epístola do domingo: 2 Coríntios 5.16-21. O apóstolo Paulo mostra, nesse texto, a mudança que ocorre quando Deus reconcilia alguém em Cristo Jesus. Ele passa a ser nova criatura. O passado já não importa mais. Este é o ministério que Deus havia entregue a Paulo: o ministério da reconciliação. Deixamos de ser inimigos de Deus para tornar-nos seus amigos. A grande mensagem que perpassa os três textos é que Deus dá uma nova oportunidade para os seres humanos.
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4º Domingo na Quaresma
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Exegese
O capítulo 14 de Lucas termina com a expressão “Se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam”. Já o capítulo 15 começa dizendo que “muitos cobradores de impostos e outras pessoas de má fama chegaram perto de Jesus para o ouvir”. Ouvir Jesus é fundamental para a vida cristã. Ouvir Jesus faz a diferença entre o antes e o depois. A fé vem pelo ouvir. Os críticos de Jesus, os fariseus e os mestres da Lei, não queriam ouvir Jesus. Eles se indignavam com a atitude amorosa de Jesus para com os que eles consideravam pessoas que não deveriam receber a mensagem do amor de Deus. Esse é o cenário dentro do qual Jesus apresenta as parábolas do capítulo 15 de Lucas. As parábolas são uma resposta de Jesus às críticas dos fariseus e mestres da Lei. Jesus defendeu seu ministério das acusações que eles lhe faziam. E aí ele apresenta a essência da sua obra redentora: trazer para todos, especialmente para os perdidos, a mensagem do amor de Deus. A parábola do filho pródigo é a que tem o foco da leitura do domingo. É importante lembrar que a maioria das pessoas, embora conheça a expressão “filho pródigo”, não sabe o que a palavra pródigo significa. Pródigo significa gastador, aquele que por ser extremamente liberal nos gastos dissipa rapidamente sua fortuna. O filho pródigo é o filho gastador. Embora o título não faça parte do texto bíblico, talvez seja bom explicar às pessoas o sentido dessa palavra. Novas traduções da Bíblia, como a NTLH, colocam como título da parábola “o filho perdido”. A história está dentro de um ambiente rural. Um dono de terras, que tem animais e plantações, vive ali com seus dois filhos. A cultura da época é diferente da cultura contemporânea. Naquele tempo, não havia nada de errado em pedir a herança antes do pai falecer. Era normal. O que não era bem-visto era sair da casa do pai. Nos tempos de hoje, isso não é mais assim. Um filho pedir a herança antes da morte do pai não é algo normal. No entanto, um jovem sair da casa do pai para fazer a sua própria vida é algo corriqueiro e normal. O país distante para o qual o jovem saiu pode ser identificado hoje com as tentações que a cidade oferece: prostituição, jogos, bebedeiras, drogas. Enfim, existem muitas maneiras de um jovem gastar rapidamente uma fortuna com isso. Outra cena que o texto apresenta é que, enquanto a pessoa tem dinheiro, ela tem amigos. Acabado o dinheiro, todos os amigos também desaparecem, e sobram a pobreza e a mendicância. É na privação que o jovem começa a ter saudades da casa do pai. Ele pensa em voltar. Reconhece que não merece ser recebido, mas, mesmo assim, pensa em voltar. O que o atrai é o amor do pai. Esse processo de meia-volta pela qual o filho perdido passa descreve o itinerário do arrependimento. A meia-volta é a descrição do arrependimento – mudança de mente, metanoia, em grego. A parábola apresenta ainda a confissão dos pecados: “pequei contra Deus e contra o senhor”. O filho arrependido não encontra em si nenhuma razão para
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ser recebido por seu pai. Ele não tenta justificar-se. Não põe a culpa nos outros. Apenas reconhece sua culpa e confia no pai. O pai, por sua vez, aceita-o, recebe-o de volta. O pai não impõe condições para a volta. A atitude do pai descreve a graça de Deus para com o pecador. Não há ameaças implícitas ou explícitas. O que impera na atitude do pai é o amor. O amor é tanto, que ele faz uma festa para receber o filho perdido. O amor do pai é tão grande, que provoca a indignação do filho mais velho. Para o filho mais velho deveria haver uma fórmula de recompensa pela vida. Ele, por ter ficado a vida toda com o pai, deveria receber algo mais do que aquele seu irmão que desperdiçou a fortuna. O que indigna o filho mais velho é o amor extremo do pai. Em vez de fazer uma conta de méritos, o pai reafirma seu amor. A parábola bíblica não é difícil de entender. No entanto, ela é instigadora. Ela mexe com os seus leitores ou ouvintes. Se ela terminasse contando apenas a festa de recepção do filho perdido, não traria grandes dificuldades para o leitor. Mas ela mostra a cena de indignação do filho mais velho. Essa indignação encontra eco no coração da maioria das pessoas. É fácil entender que um filho se desvie e que o pai se alegre quando ele volta para casa. Mas não parece justo o pai fazer tudo aquilo pelo filho perdido sem dar um pouco de razão para o filho mais velho. Fariseus e mestres da Lei provavelmente sentiram-se na pele do filho mais velho. Essa era a crítica que eles faziam a Jesus: “ele se mistura com gente de má fama e toma refeições com eles”. Escribas e fariseus eram o irmão mais velho. É importante lembrar que escribas e fariseus na sociedade do tempo bíblico eram considerados pessoas religiosas, sérias. Eles criticavam Jesus. E aí está o paradoxo do ensino de Jesus. Era mais fácil pecadores e pessoas de má fama entenderem Jesus do que os religiosos. No entanto, Jesus veio para salvar os que estavam perdidos. E quando um deles se salvava, ele se alegrava.
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Meditação
Fazer a ligação da parábola de Jesus com a vida de nossos dias não é muito difícil. Embora o pano de fundo cultural seja diferente – a maioria vive em cidades e não no campo; herança e saída de casa são vistas de forma diferente –, há muitas conexões mais ou menos evidentes. É fácil encontrar em cada um de nós elementos que nos identifiquem com o filho perdido. Quem nunca fez algo que o afastou do Pai celestial? Quem poderá apresentar-se como sendo exemplo absoluto de santidade? Dificilmente alguém em boa consciência fará isso. Por outro lado, é fácil encontrar exemplos na vida da igreja que apontam para pessoas que não queriam receber um pecador de volta na casa do pai. Igrejas de origem étnica, por vezes, têm dificuldades para aceitar pessoas de outra etnia. Igrejas em que a média das pessoas pertence a uma classe social têm dificuldades para aceitar pessoas de outra classe. Além disso, há casos de pessoas que se desviaram e querem voltar ao convívio dos irmãos e são rejeitados. Admitir que dentro de nós há um pouco ou muito do irmão mais velho nem sempre é tão fácil.
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As igrejas têm dificuldade para aceitar a liberalidade do pai da parábola na admissão de volta dos pecadores. Em geral, preferem impor condições antes de receber a pessoa. Por outro lado, pecadores têm dificuldade para voltar ao pai sem tentar se esconder atrás de uma desculpa. Eu errei porque meus amigos me enganaram. Eu fiz isso porque a pressão era muito grande e não consegui resistir. E assim as desculpas vão se acumulando. A atitude do filho pródigo ao voltar para casa foi de reconhecimento absoluto de sua indignidade. Ele tão somente confiava no amor do pai. Encontrar as atitudes do filho mais novo e do mais velho nos outros não é muito difícil. É importante que reconheçamos essa atitude dentro de nós mesmos e assim voltemos ao Pai. Quem tem ouvidos para ouvir ouça. Por outro lado, é importante que se aponte também para a radicalidade do amor de Deus. Isso a parábola faz com maestria. Não há sombra de dúvida de que o pai é amoroso. Pode ser um amor que irrita as pessoas que pensam em méritos. Mas é um amor absolutamente puro e compassivo. Não há como não ficar extasiado diante do amor de Deus em Jesus Cristo. Na vida, esse tipo de amor não é tão comum. A Bíblia fala no amor de mãe. Em nossa sociedade, a mãe de filho presidiário vai visitá-lo e leva-lhe uma refeição, mesmo sabendo que o filho é um bandido. É um amor impressionante. O amor de Deus é maior. Isaías diz que uma mãe nunca pode esquecer-se do filho que ela amamenta. Mas, mesmo que isso fosse possível, Deus não se esqueceria de nós (Is 49). Essa é a radicalidade do amor de Deus. Lutero em certo momento diz que, quando uma mulher de fato ama o marido, ela não está interessada em nada que ele possui ou possa trazer para ela. Ela apenas quer o marido. Assim, diz o Reformador, seria o amor de Deus. São imagens da vida que tentam mostrar o indizível amor de Deus pelas pessoas.
4
Imagens para a prédica
A parábola do filho pródigo, por si só, é a imagem mais forte que pode haver. Jovens ou crianças podem facilmente teatralizá-la para a comunidade. Alguém pode ler o texto bíblico, e os jovens podem interpretar a figura do pai, a saída de casa, o desperdício dos bens, a pobreza, o arrependimento, a volta ao lar, a recepção do pai, a indignação do filho mais velho e o amor do pai. Tornar isso visível através de uma encenação ajuda as pessoas a fazer as ligações entre o que é narrado na história bíblica e o que acontece na vida hoje em dia.
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Subsídios litúrgicos
Na liturgia do culto existem vários elementos que podem ser conectados com a lição que a história bíblica nos traz. Na confissão e absolvição, nossa atitude deve ser a de confessar os pecados e confiar na graça de Deus. A absolvição não impõe condições para dar o perdão.
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O anúncio da Palavra é a continuação do ministério de Cristo. Quem tem ouvidos para ouvir ouça. E ninguém ouvirá se não houver quem pregue. A pregação deve ser centrada no evangelho, no anúncio do perdão, no anúncio do amor de Deus. A Santa Ceia é o grande banquete em que os pecadores são recebidos de volta ao Pai. Sugestão de esboço de prédica: Deus sempre recebe-nos com amor: 1. perdoando-nos; 2. dando-nos nova oportunidade.
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PRÉDICA: ISAÍAS 43.16-21 JOÃO 12.1-8 FILIPENSES 3.4b-14
5º DOMINGO NA QUARESMA
13 MAR 2016
Manoel Bernardino de Santana Filho
Um novo tempo
1
Introdução
O livro de Isaías, segundo o biblista argentino Severino Croatto, reúne tradições proféticas de quase quatro séculos: desde a pregação do próprio profeta, iniciada em torno de 740 a.C., até a redação final do texto em torno do ano 400. Nesse longo período, o povo de Judá experimentou a dominação assíria, depois caldeia e finalmente a persa, diferentes entre si, mas todas elas imperialistas. Nessa época, Judá experimentou o fim da monarquia, o exílio babilônico e as tentativas de restauração do período persa. A mensagem de Isaías 43 fala da vinda do Senhor para a salvação de seu povo. O texto realça os sinais dessa vinda, perceptíveis na transformação de pessoas e de seu meio ambiente. Outro aspecto importante é o “caminho” aberto por Deus para conduzir seu povo libertado até Ele. O texto de João (12.1-8) apresenta Jesus como aquele que foi ungido para o cumprimento de uma missão. A ênfase de Isaías é a preparação do caminho que servirá para a vinda do Senhor (Ml 3.1). Esse aspecto do consolo/ânimo diante do sofrimento, baseado na expectativa da vinda salvífica de Deus, está presente em Isaías 43.16-21. O texto de João (12.18) reflete a necessidade de preparação para a chegada de um novo tempo. Paulo aos Filipenses (3.4b-14) reflete a necessidade que temos de confiar na direção de Deus para a execução de nossos projetos para a vida. Nosso texto está inserido no período da Quaresma, tempo de preparação para a vida com Deus de forma intensiva, por meio de reflexão e desenvolvimento de uma vida de fé. É época própria para a prática do jejum, do arrependimento e do estudo bíblico, que apontam para a ação de Deus por meio da história de seu povo.
2
Exegese
O livro de Isaías é uma coletânea de textos produzidos durante um longo período da história do povo de Judá. O livro é dividido em três partes: 1) 1 a 39 – tempo em que viveu Isaías 2) 40 a 55 – destruição de Judá e exílio 3) 56 a 66 – restauração sob os persas
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A mensagem do Dêutero-Isaías é anônima. Não sabemos o nome do autor nem onde exerceu sua atividade. Pode ser que seja na Babilônia. Seu discurso caracteriza-se por uma elevada emotividade e uma retórica transbordante (G. von Rad). Nele pode-se reconhecer nitidamente o novo momento histórico em que Israel está para ingressar. E o profeta prepara-se para explicar como isso sucederá. Essa percepção “do novo” é um traço característico dos profetas do Senhor. Trata-se da época em que apareceu Ciro, o persa, que é citado nominalmente na profecia. Suas campanhas vitoriosas sacudiram todo o mundo de então e despertaram a atenção dos exilados na Babilônia. A pregação do Dêutero-Isaías está em correlação estreita com essa avalanche de acontecimentos que transformaram a história universal daquela época. O profeta retoma três grandes tradições da constituição do povo hebreu: as tradições relativas ao êxodo, a Davi e a Sião. No entanto, a tradição relativa ao êxodo está em primeiro lugar. Esse acontecimento, como evento salvífico que Javé proporcionou a seu povo, a libertação do cativeiro egípcio, ocupa tamanha centralidade que o profeta só consegue imaginar o evento futuro que Deus propiciará a Israel como um novo êxodo. O antigo êxodo é, sem dúvida, um acontecimento fundante, paradigmático como experiência libertadora que servirá como modelo para os conflitos de povos e pessoas oprimidas em todos os tempos. O Dêutero-Isaías utiliza com predileção especial o gênero literário do oráculo de audição, que é uma forma de discurso cúltico, através do qual o auxílio divino era assegurado à pessoa que vinha orar. Por isso são comuns as palavras: “não temas”, “eu te resgatarei, eu te fortifico, venho em tua ajuda, estou contigo, tu me pertences” (Is 41.10,13; 43.1,5; 44.2). O texto de Isaías 43.16-21 pertence à segunda parte da profecia, o que o situa claramente como um texto exílico, pois é dirigido aos “exilados” de Sião. Seu objetivo é convencer judeus exilados para que voltem a Jerusalém. A certa altura do exílio, os judeus receberam a permissão de Ciro para voltar à sua terra natal. Hoje há bons motivos para acreditar que eles não estavam interessados no retorno, pois sentiam-se plenamente integrados na sociedade babilônica. Por outro lado, Judá tinha sido reduzido a um pequeno território cercado de vizinhos hostis. A área disponível para cultivo era árida e pouco apropriada para a produção agrícola. O pouco que se produzia estava sujeito a pesados tributos, cobrados pela administração persa. Então por que voltar? Apesar das condições desfavoráveis, havia um grupo empenhado na edificação da nova comunidade judaica em Jerusalém. Isaías 43.16 expressa o cuidado de Deus com seu povo, baseado na crença da “vinda de Deus”. A profecia é introduzida com uma declaração solene com a fórmula oracular: “assim diz o Senhor”. O texto fala dos atos poderosos de Deus no passado para frisar que aquele que fala é o mesmo que libertou Israel da escravidão egípcia. Naquela época, ele preparou um caminho no mar, e nas águas impetuosas, uma vereda. Ele fez sair o exército egípcio para destruí-lo. Seus guerreiros e seus cavalos caíram por terra (17) e “jamais se levantarão”. Suas vidas foram apagadas como “uma torcida”.
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Os v. 18 e 19 descrevem os efeitos da presença de Deus. A exortação para esquecer as coisas antigas não é literal, pois o próprio profeta chama a atenção para elas com ênfase nos feitos de Deus por seu povo. Na verdade, esses acontecimentos antigos são maravilhosos e dignos de ser lembrados. O que se pretende aqui é dizer que, por mais que sejam eventos grandiosos, há algo de muito maior importância para o povo de Israel naquele momento, que era o fato de que Deus está para fazer “cousa nova”. Por isso a perspectiva do passado precisa dar lugar ao panorama do futuro. O passado serve como lembrança dos feitos maravilhosos de Deus e garantia de que as coisas novas se cumprirão. Essas coisas novas estão para chegar em um tempo relativamente curto: “está saindo à luz” agora. O “novo” ocorrerá rapidamente, e o povo ao qual o profeta se dirige o perceberá. Em 43.19b-21 começa a descrição das coisas novas. A recordação do êxodo antigo levanta a expectativa de que o que vai acontecer é algo semelhante. A imagem do caminho aberto no deserto aparece sempre em conexão com a vinda do Senhor para libertar seu povo. O objetivo é “dar de beber a meu povo”. No meio está a declaração de que os animais selvagens, os chacais e as corujas honrarão o Senhor. As águas que o Senhor fará brotar por amor a seu povo também o beneficiarão. Os sons de alegria que elas produzirão como resultado é uma expressão inconsciente de louvor ao Senhor. Essas descrições são entremeadas com a descrição do retorno do exílio e referem-se a uma época ainda mais gloriosa de redenção do que a que está começando a raiar. Através de todos esses acontecimentos o Senhor alcançará o seu alvo final com o povo que ele formou para si próprio para “celebrar o seu louvor”. Foi para isso que ele chamou Israel à existência e com esse objetivo o guia por seus atos de redenção. Fica claro que toda a ação de libertação tem seu centro em Javé. É ele que se volta para o povo, que o procura e deseja salvar. Era de se esperar que na angústia Israel clamasse ao Senhor, mas não foi isso que aconteceu. Deus, em sua misericórdia, tomou a iniciativa, graciosamente, chamando a Israel, a fim de levá-lo de volta para casa.
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Meditação
O texto tem por característica proclamar a salvação como processo de transformação da realidade. Deus liberta o seu povo da situação de opressão e leva-o de volta para casa. Isso promove outros acontecimentos, como o florescimento do deserto, a cura de cegos, surdos, coxos e mudos, o restabelecimento da justiça. Ou seja, a salvação é para os seres humanos, mas também para toda a natureza. A vinda de Deus coloca o povo em movimento. Os cansados e abatidos são fortalecidos com a presença de Deus. Ele liberta e revigora. Quem chega não precisa abrir caminhos. A estrada está aí, o caminho santo. No meio do deserto e protegido dos perigos, um caminho conduzirá aqueles que tiverem seus olhos e ouvidos abertos para a promessa da vinda de Deus. Só existe um caminho que leva a Deus: o caminho que ele mesmo estabeleceu.
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Se existe algo de que temos plena certeza, é que não sabemos o que nos sucederá amanhã. O nosso futuro está descrito nas linhas do nosso destino, o qual só a Deus pertence e que ninguém consegue desvendar. Essa certeza turba a nossa mente e traz angústia ao nosso coração, porque nós desejamos viver de certezas. Por mais precavidos que sejamos, por mais que planejemos o nosso futuro, somente Deus é sabedor do nosso caminho. Como questiona o apóstolo Tiago: do que é construída a nossa vida? Segundo Tiago (4.14), somos como uma neblina, que aparece e logo se dissipa. Assim também será em relação ao nosso futuro, por mais planos que façamos. Se o Senhor não preparar o nosso caminho, nenhum desses planos pode ser bem-sucedido. Todos os nossos dias estão escritos sob a mão abençoadora do Senhor. Nossos sonhos e planos são legítimos. Entretanto eles só se tornarão realidade em nossa vida se essa estiver sob a direção de Javé. Jesus ensinou-nos a permanecer nele para que a sua vontade permanecesse em nós, pois só assim nossas orações seriam atendidas pelo Pai, porque seríamos considerados seus discípulos. Podemos até não saber o que acontecerá noutro dia, mas a nossa esperança está estabelecida na promessa do Senhor, que cuidaria de cada uma das nossas necessidades. Dessa forma, vivemos pela fé e não por aquilo que temos visto. Vivemos na certeza inabalável de que todas as coisas cooperam para o nosso bem, até aquelas que não nos deixam tão felizes. Ser sábio é construir o futuro de mãos dadas com o Senhor. Por menores que sejam os nossos planos, eles se tornarão grandes se ele os abençoar. Por isso o tempo em que vivemos precisa ser um tempo de renovar esperanças, de construir atitudes diferenciadas e viver na plenitude da graça, partilhando as bênçãos e a misericórdia que o Senhor nos ensina. Deus quer fazer de nós construtores de um novo amanhã. Toda a nossa vida move-se no tempo. Há um passado com suas gratas memórias, que nos fazem bem à lembrança, cuja acumulação de experiências constrói o nosso ser e nos edifica, e memórias ingratas, que é melhor esquecer, especialmente as memórias das nossas falhas e das falhas dos outros em relação a nós. Quanto ao passado, vivemos entre as memórias da graça e a memória das desgraças. Nosso tempo de hoje é o resultado desse tempo de ontem, mas o tempo de hoje é uma breve passagem em direção ao tempo do amanhã com seus sonhos e seus temores, seus alvos e suas dúvidas, suas aspirações e suas inseguranças. Se não podemos fazer mais nada em relação ao passado, apesar do seu caráter imponderável e da soberania de Deus, podemos fazer algo pelo futuro: pensar, planejar, decidir, comprometer. Podemos e devemos querer um tempo qualitativamente diferente, abençoado e abençoador, em nossas respostas à voz de Deus em nossas vidas e nos relacionamentos e empreendimentos de que participarmos, com novos objetivos, novos valores, novas prioridades. Para os servos do Senhor, as coisas velhas podem sempre se tornar coisas novas. Como cidadãos do reino do céu, nossa presença no reino pode contribuir para um mundo novo, não violento, nem injusto, nem desonesto, nem corrupto, nem hipócrita, nem opressor, sem discriminação. Podemos ser mais “sal” e mais “luz” para o mundo em que vivemos.
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Entre a avaliação do passado e a construção do futuro passamos pela consciência da finitude e do pecado, pela necessidade do arrependimento, pela busca da santificação. Mas como construir o “novo” em uma igreja tão marcada pelo velho (o divisionismo, o isolacionismo, o caciquismo, o sectarismo, o moralismo, o legalismo, os cismas, as heresias)? Um mundo novo e sadio a partir de uma igreja enferma? E quando falo igreja, não me quero prender à igreja como determinado grupo confessional, mas à igreja no mundo. Entre a pessoa nova e o mundo novo há a igreja nova, a família nova, a comunidade nova, o trabalho novo, o país novo, os hábitos novos e, tantas vezes, pessoas novas ou relacionamentos renovados (feitos novos outra vez). Deus está trazendo à luz “cousa nova”. Não sejamos meros espectadores do mundo por vir, mas em Cristo construtores de um novo amanhã.
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Imagens para a prédica
Trago como imagens dois textos que propõem um novo mundo, uma nova sociedade, totalmente contrária ao conceito de mundo novo proposto por Deus. O primeiro, Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa), é um livro escrito por Aldous Huxley, publicado em 1932, que narra um hipotético futuro, em que as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e psicologicamente a viver em harmonia com as leis e regras sociais dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse “futuro” criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos eram dissipadas com o consumo da droga, sem efeitos colaterais aparentes, chamada de “soma”. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos de vida. O conceito de família também não existe. Aqui o tempo das guerras já terminou. O ser humano tornou-se totalmente realista. Sua mente agora é incapaz de ir além dos limites da realidade dominante. Sua razão é uma réplica das operações programadas pela organização dominante. Já não se sabe o que é rebeldia. A pessoa é totalmente funcional. Sua consciência sofreu uma radical transformação, e ela identifica o fato de ser controlada com a liberdade em si mesma. Pode-se também aqui lembrar a sociedade de Michel Foucault (Vigiar e Punir), em que o patrulhamento é constante e mórbido. É a sociedade do panóptico, do sujeito que perdeu toda a privacidade em nome de uma ideologia de dominação e submissão. O novo mundo que Javé nos proporciona nada tem a ver com esse mundo da sociedade tecnocrata. É um mundo de pessoas livres. Ele nos leva à liberdade plena na pessoa de Jesus Cristo. Sua salvação é oferecida graciosamente para a vida em seu reino. O novo é inaugurado em plenitude de liberdade. Não podemos novamente nos submeter a um jugo de escravidão. Foi para a liberdade “que Cristo nos libertou” (Gl 5.1).
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Subsídios litúrgicos
A liturgia no tempo da Quaresma deve ser plena de convites para a libertação. É tempo de reflexão, oração, confissão e arrependimento. Tempo de mudança de vida e de preparação para a vinda do Senhor. Por isso convidamos para o exercício da contrição, do jejum e da meditação. Um novo tempo avizinha-se, portanto é preciso esperá-lo com humildade e confiança no Deus que nos promete pleno acesso a esse novo tempo. Oração Deus, nosso Senhor! Em teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, tu nos fizeste teus filhos. Agora ouvimos teu chamado e reunimo-nos aqui para juntos te louvar, ouvir tua Palavra, clamar a ti e colocar em tuas mãos o que nos aflige e o que necessitamos. Fica aqui entre nós e ensina-nos, Senhor, para que todas as coisas que nos amedrontam e desanimam, toda a soberba e insolência, também toda a nossa descrença e nossas crendices se tornem pequenas, para que tu possas mostrar-nos como és grande e bondoso, para que voltemos nossos corações também aos outros, para que possamos compreender uns aos outros e assim nos ajudar um pouco, para que essa seja uma hora de luz, na qual vislumbramos o céu aberto e assim um pouco de claridade neste mundo de trevas. Pois as coisas antigas já passaram, eis que se fizeram novas. Esta é a verdade também para nós: certamente tu és nosso Salvador também em Jesus Cristo. Isso, porém, somente tu nos podes dizer e mostrar. Pois dize e mostra-nos, Senhor – a nós e a todos os que hoje oram conosco. Eles também oram por nós. Assim também oramos por eles. Ouve-nos, Senhor! Amém. (Karl Barth. Senhor! Ouve nossa oração – Editora Sinodal).
Bibliografia RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1986. VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Aste/Targumin, 2006.
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PRÉDICA: LUCAS 19.28-40
DOMINGO DE RAMOS
SALMO 118.1-2,19-29 FILIPENSES 2.5-11
20 MAR 2016
Jorge Batista Dietrich de Oliveira
Um Messias diferente
1
Introdução
O Domingo de Ramos, também chamado de Domingo da Paixão, abre a Semana Santa. Celebramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, poucos dias antes de ele sofrer a paixão e morte. Esse relato encontra-se nos quatro evangelhos, porém com alguns detalhes diferentes. Existe uma clara relação entre os textos previstos para este domingo: Jesus é reconhecido como o enviado de Deus, o Messias, o Bendito que vem em nome do Senhor. Essa é uma citação do Salmo 118.26. Despojado dos tradicionais aparatos dos reis, Jesus apresenta-se de modo humilde e pacífico. Traz a inversão de um sistema que se apoia na violência e na força das armas. Desperta nos sacerdotes e mestres da Lei o medo de perder o poder. Por isso a tentativa de calar aqueles que aclamam Jesus como Messias. Já o texto de Filipenses 2.5-11 apresenta um antigo hino que descreve as várias etapas do mistério de Cristo. Ele é o modelo de humildade, pois, embora tivesse a mesma condição de Deus, tornou-se simples homem, abrindo mão de qualquer privilégio e sofrendo até a morte na cruz. Por isso Deus ressuscitou-o e o colocou no posto mais elevado como Senhor.
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Exegese
V. 28-34 – Betânia era uma aldeia que ficava cerca de três quilômetros de Jerusalém, e Betfagé ficava no subúrbio da capital, sendo considerada o limite externo da cidade. Jerusalém, a cidade santa, atraía pessoas de todos os lugares e, por ocasião das grandes festas, acolhia enorme multidão de peregrinos. Jesus está indo a Jerusalém para ser reconhecido como o Messias e para assumir a cruz, mas ele não entra na capital despercebido nem sozinho. Ele organiza uma espécie de procissão. Manda dois discípulos buscarem um jumentinho para nele montar, um simples jumento. Isso mostra a humildade de Jesus. Contudo não deveria ser qualquer jumento. Deveria ser um animal que ninguém ainda havia montado. Isso mostra a realeza de Jesus, pois era costume que para uso real ou sagrado o animal fosse assim (cf. Nm 19.2; 1Sm 6.7). Os discípulos vão sem questionar e seguem todas as instruções do mestre. Encontram o jumentinho e fazem como Jesus ordenou. Provavelmente os donos do animal eram amigos de Jesus e, ao saber para quem era o jumento, permitem que os discípulos o levem.
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Domingo de Ramos
V. 35-38 – Na falta de arreios e cela, os discípulos preparam o animal com suas próprias capas empoeiradas para que Jesus possa montá-lo. Normalmente, um rei entraria na cidade montado num cavalo, que era usado nas batalhas, por isso símbolo de força e poder. Mas Jesus escolhe um jumentinho, que era a montaria de um homem de paz. E já bem perto da cidade, a multidão irrompe em gritos de alegria e louvores a Deus. Interessante observar que quem saúda Jesus são os discípulos, aqueles que vinham com ele na caravana de peregrinos. Somente em Lucas e João aparece a aclamação de Jesus como Rei, palavra que aparece poucas vezes nos evangelhos. Jesus é “o rei”, embora não o tipo de rei que o povo queria. Ele é sim o Messias, o enviado de Deus que vem para salvar o seu povo. No entanto, seus seguidores acreditam na tomada de poder por parte de Jesus. Finalmente teria fim o pesado jugo romano. Justiça, paz e prosperidade reinariam na terra de Israel. Lucas não menciona os ramos nem a aclamação Hosana. Cita as palavras do Salmo 118.26: Bendito o que vem em nome do Senhor, mas, diferentemente de Mateus e João, não faz uma referência direta à profecia de Zacarias 9.9, que diz que o rei de Sião viria montado num jumentinho, cria de jumenta. E a multidão faz um tapete com suas roupas para que Jesus passe, conforme o costume de dar boas-vindas aos reis ou a outras pessoas importantes (cf. 2 Rs 9.13). Somente Lucas informa que a aclamação incluiu Paz no céu e glória nas maiores alturas, fazendo uma relação com o louvor dos anjos no nascimento de Jesus (cf. 2.14) e confirmando que ele é o Salvador. Ele vem para reconciliar o ser humano com Deus. V. 39-40 – Os fariseus consideravam tais expressões messiânicas um tipo de blasfêmia, pois tratavam Jesus como um simples homem. Por isso começam a reclamar do Mestre e pedir que repreenda seus seguidores. Recebem a resposta de que, se as pessoas se calarem, as pedras falarão. Parece ser um dito proverbial que lembra Habacuque 2.11: Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento. Ou seja: não há como sufocar essas vozes. Se elas se calarem, outras vão clamar, pois nada pode impedir que Jesus seja aclamado como o Messias. Também apresenta uma clara relação com a perícope seguinte, onde Jesus chora sobre Jerusalém e anuncia que o juízo de Deus não deixará pedra sobre pedra nessa cidade como consequência da sua rejeição ao enviado de Deus (Lc 19.41- 44; 21.5-6, 20-24). As pedras serão testemunhas de que Jesus e seus seguidores estavam com a razão.
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Meditação
Domingo de Ramos marca a entrada de Jesus em Jerusalém e o início da paixão, morte e ressurreição daquele que é exaltado e recebe o nome de Senhor. Diante dele todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é Senhor. Os textos relacionados para este domingo oferecem muitos elementos a serem explorados. No entanto, o pregador e a pregadora não deveriam esquecer a relação entre a aclamação de Jesus como Rei e sua paixão e morte. A cristandade deve ser lembrada daquilo que Deus fez por nós através de Jesus Cristo e assim
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convidada a preparar a grande festa da Páscoa. A seguir, apresento uma proposta de mensagem. Havia um clima de festa em Jerusalém. De todos os lugares chegavam pessoas e hospedavam-se na cidade. Vinham para participar da grande celebração da páscoa judaica. Jesus também foi à cidade santa, mas não entrou na cidade como um peregrino qualquer. Ele organizou, junto com seus discípulos, uma entrada triunfal semelhante à entrada de um rei. O povo simples, que já ouvira falar de Jesus, aclamou-o cheio de alegria e esperança, pois ele era apontado como o ungido de Deus, o Rei que viria para restaurar a dinastia de Davi. E, mesmo que Lucas não mencione Zacarias 9.9, é difícil não associar esse evento com a profecia: Alegra-te muito, ó filha de Sião, exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento... Conforme o profeta anunciou, assim aconteceu. Por isso a entrada de Jesus em Jerusalém tem a aparência de um evento messiânico, com cortejo e aclamação popular. Jesus é recebido como o Messias, o Rei e Salvador de Israel. Isso parecia ser um sinal de novos tempos. Finalmente, o curso da história tomaria outro rumo. O Messias interviria com braço forte e os libertaria da escravidão política e econômica imposta pelos romanos e da opressão religiosa, que massacrava todos com rigores excessivos e leis absurdas. Por isso as pessoas receberam Jesus aos gritos com as palavras: Bendito o que vem em nome do Senhor! Afinal, muitas delas viram Jesus ressuscitar Lázaro em Betânia havia poucos dias e estavam maravilhadas. Depositavam em Jesus a esperança por uma radical transformação. Pensavam na restituição do glorioso reino de Davi e no apogeu dos tempos de Salomão. Mas esse mesmo povo se tinha enganado no tipo de Messias que Jesus era. Jesus mostra-se um rei bem diferente do que o esperado, do que era a expectativa daquele povo. Ele vem cercado pelo povo simples da Galileia, sem nome e sem expressão, povo que estende a Jesus suas roupas suadas da peregrinação para que Jesus possa passar por cima delas. Ele entra montado num jumentinho, não num cavalo, que era símbolo de guerra, um simples animal de carga que nem era seu. Era emprestado. Humildade e santidade: essas são as características principais que esse rei tem, não a pompa de um imperador nem os armamentos de um legionário, mas a simplicidade de alguém que é escolhido por Deus para trazer a paz. Ele é o príncipe da paz que veio para restaurar a paz entre as pessoas e Deus. Esse rei é bem diferente dos demais. Um rei pobre, aparentemente sem poder, que rejeita o uso da força e da violência. Por isso essa mesma multidão, que agora o aclama com júbilo, poucos dias depois, incitada pelos sacerdotes, gritará: Crucifica-o! O que aconteceu? Pelo que tudo indica, o povo esperava um outro Messias do que aquele que de fato veio. Jesus não corresponde às expectativas populares. O povo enganou-se com Jesus, pois esperava dele uma mudança de regime, um novo governo que traria paz e justiça social. Jesus frustra as esperanças até mesmo de seus seguidores. Os objetivos de Jesus são bem mais radicais. Ele não veio para substituir um governo por outro com as mesmas regras do jogo. Jesus veio para promover uma mudança radical no centro de todo o relacionamento humano: no coração
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das pessoas. Jesus não veio para impressionar nem se rende à tentação de usar a força para impor o seu reino. Jesus não veio para sentar-se no trono da dinastia herodiana nem veio com exércitos e soldados armados para derramar sangue e para conquistar a cidade pela força. Mas era justamente isso que o povo esperava! Por isso veio a frustração, que vai acabar no grito de “Crucifica-o!”. Jesus ensina humildade em lugar de exibição de glória e poder. Pratica a misericórdia em lugar de brutalidade e violência, porque a sua missão é uma missão de paz. E Jesus tentou mudar a forma do ser humano pensar, agir e sentir, não pela força, mas pelo amor. Pois somente a força do amor é que pode mudar as pessoas e, mudando as pessoas, mudar o mundo. Parece que a história não mudou. Hoje, como naquele dia, há homens e mulheres, jovens e idosos que aclamam Jesus como Senhor e Salvador. Muitos buscam em Jesus apenas a solução para as suas necessidades materiais. Não estão interessados no perdão e na salvação que Jesus dá. Quando ouvem falar de Jesus, ficam entusiasmados, mas, quando Jesus não condiz com as suas expectativas, abandonam-no, assim como o povo de Jerusalém. E aí as pedras precisam clamar. Isso acontece cada vez que calamos diante de uma injustiça. Cada vez que desperdiçamos a oportunidade de praticar o amor que Jesus viveu e ensinou. Cada vez que viramos as costas para os mais necessitados. E aí as pedras precisam falar do que os seguidores de Jesus já não conseguem ou não querem mais falar. Que nesse Domingo de Ramos Jesus seja aclamado como rei em nossa igreja, em nossos lares, em nossos corações. Ele é o nosso rei. Como o apóstolo Paulo escreveu aos filipenses: Jesus foi exaltado e recebeu o nome que está acima de todo nome. Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor... (Fp 2.9s). Jesus veio para que, com corações transformados, deixemos de lado práticas injustas, hipócritas, interesseiras e busquemos a prática do amor, da justiça, da solidariedade e da paz.
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Imagens para a prédica
Mesmo que o evangelho deste domingo não mencione os ramos, penso que eles não deveriam faltar. Exploramos pouco essa simbologia. Proponho ornamentar a entrada do templo com um grande tapete feito de capas e ramos: um caminho ligando a entrada do templo à cruz no altar. Essa poderia conter alguns ramos em sua base e um pano vermelho pendurado em um de seus braços. Na chegada para o culto, cada pessoa poderia receber um pequeno ramo, que seria utilizado na liturgia.
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Subsídios litúrgicos
O louvor do povo que acolhe Jesus como rei na chegada a Jerusalém move-nos a louvar esse Deus que vai até as últimas consequências em Cristo e morre
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para nos salvar. Movido por esse sentimento, creio que podemos abrir uma exceção e incluir o Glória nesta liturgia. Assim proponho: Acolhida Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. Com essas palavras do Salmo 118.1, saudamos todos e todas neste Domingo de Ramos, início da Semana Santa. Somos convidados e convidadas por Deus a meditar no sofrimento e paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. Que possamos render graças ao Senhor, nosso Deus, porque seu amor é sem fim. Canto de entrada HPD 392: Salmo 118 – Rendei graças ao Senhor. Que seu amor é sem fim. Saudação Canto de invocação Invocamos a presença do Espírito Santo, cantando: HPD 365 – Vem, Espírito Santo, vem, vem nos congregar. Confissão de pecados Neste domingo, a palavra de Deus recorda-nos o que o Senhor fez e faz por nós através de seu Filho Jesus. Ao mesmo tempo, essa palavra nos convida a revisar nossa vida. Confessemos, então, os nossos pecados a Deus: Deus de bondade, ouve a confissão dos teus filhos e das tuas filhas. Livra-nos do sentimento de culpa, pois confessamos que muitas vezes transgredimos teus mandamentos e os ensinamentos de teu Filho amado, Jesus Cristo. Pecamos em pensamentos, palavras e ações, seja pelo que temos feito e pelo que temos deixado de fazer. Nem sempre damos a glória devida a teu nome. Por vezes, buscamos a nossa própria glória. Perdoa-nos e orienta-nos para que encontremos a verdadeira alegria em cumprir a tua vontade e seguir os teus caminhos para a glória de teu Santo Nome. Amém. Anúncio do perdão Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Jesus levou sobre si os nossos pecados para que nós, perdoados por Deus, encontremos a paz. Como ministro/ministra chamado/chamada e ordenado/ordenada pela Igreja de Jesus Cristo, declaro a vocês o perdão de todos os seus pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (+). Kyrie
Gratos pelo perdão de Deus, queremos lembrar-nos das pessoas que sofrem, daqueles e daquelas que vivem em condições desumanas e ameaçadas por todo tipo de violência e injustiça. Intercedemos pelas dores deste mundo, cantando: Pelas dores deste mundo, ó Senhor...
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Glória in excelsis Assim como o povo de Jerusalém, também nós podemos aclamar o Senhor Jesus Cristo, cantando Gloria p’ra sempre ao Cordeiro de Deus (HPD 471). Oração do dia Deus de graça e misericórdia, que através de Jesus revelaste a tua paixão por nós: envia o teu Santo Espírito para falar aos nossos corações através da tua palavra. Que possamos compreender o teu chamado e dispor-nos a servir. Que possamos através de nossas vidas render glórias ao teu nome. Desperta em nossos corações a paixão por aquilo que faz a vida de todos florescer, crescer e desenvolver-se cada vez mais em tua paz. Por Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. Hino
Louvemos todos juntos o nome do Senhor (HPD 349).
1ª leitura bíblica Salmo 118.1-2,19-29 Hino
Pela Palavra de Deus saberemos por onde andar (HPD 381)
2ª leitura bíblica Filipenses 2.5-11 3ª leitura bíblica Lucas 19.28-40 Pregação Hino
Hosana hey! Hosana ha! (HPD 372)
Bibliografia KODELL, Jerome. El Evangelio de San Lucas. Collegeville: The Liturgical Press, 1995. MORRIS, Leon. L. Lucas: introdução e comentário. Edições Vida: São Paulo, 1986.
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PRÉDICA: ÊXODO 12.1-4 (5-10), 11-14 JOÃO 13.1-17 1 CORÍNTIOS 11.23-26
QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
24 MAR 2016
Kurt Rieck
Celebrar a história da Páscoa
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Introdução
É Quinta-feira da Paixão. O texto de leitura do Evangelho de João (13.117) atém-se ao lava-pés, um dos tantos fatos ocorridos na noite em que Jesus foi traído. Dentro do ciclo de celebrações, é o terceiro dia que antecede a Páscoa judaica. Na preparação da festa, Jesus vale-se da força de um simples ato: lavar os pés de seus discípulos. Em 1 Coríntios 11.23-26, o apóstolo Paulo relembra o que é dito na Santa Ceia e reproduz as palavras que norteiam a narrativa da instituição. O texto previsto para a pregação deste dia foca a preparação da primeira Páscoa, quando o povo israelita é instruído para a ceia que antecede a fuga do Egito, tornando-se um rito de passagem para uma nova vida.
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Exegese
No memorial da Páscoa judaica, Deus fala com Moisés e solicita que o mesmo diga ao rei do Egito que libere o povo para ir ao deserto oferecer sacrifícios ao Senhor (Êx 3.18). Arão e Moisés fazem a solicitação (Êx 5.3). Em resposta, o rei aumenta a carga de serviço aos escravos judeus. Coisas terríveis estão por acontecer. Deus chama novamente Moisés e promete libertar o povo da escravidão (Êx 6). Pragas acontecem (Êx 7-10). Chega a hora derradeira: a última praga. Farei pequenos comentários sobre cada versículo. V. 1 – “O Senhor Deus falou.” A expressão denota autoridade constituída, que determina uma ação. V. 2 – Dá-se o início de uma contagem. A Páscoa foi instituída para ser comemorada na lua cheia do primeiro mês do ano. A noite de lua cheia é estratégica. Esse mês é chamado no antigo calendário de Abibe (trigo recém-amadurecido) e no calendário pós-exílico de Nisan, primeiro mês da primavera. Páscoa torna-se uma festa da primavera e uma festa de ano-novo. V. 3 – Seguem as instruções para a refeição destinada a “todo o povo israelita”. Esta é a primeira ocorrência no Pentateuco do que viria a ser um termo técnico (edah) para descrever Israel em sentido religioso (COLE, p. 101). No décimo dia do mês, deveria ser escolhido o animal a ser ofertado, que seria sacrificado no décimo quarto dia. Poderia ser um carneirinho, que vem a ser uma ovelha macho, ou um cabrito, cujo animal adulto é chamado de bode e a fêmea,
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de cabra. O termo hebraico seh é neutro e deveria ser traduzido por “cabeça de gado (miúdo)”, aplicável igualmente às ovelhas e às cabras de qualquer idade (COLE, p. 101). V. 4 – Nada de desperdício. Havendo mais carne do que o necessário, seria dividido com a família vizinha. A carne deveria ser totalmente consumida. Vemos uma comemoração familiar restrita a pequenos círculos. Aqui não há templo, nem tenda da congregação, nem altar, nem sacerdote (Cole, p.102). V. 5 – Seria servido carne de primeira, animal de um ano de idade, sem apresentar deficiência física. V. 6 – Todos carneariam no mesmo dia entre o pôr do sol e o anoitecer. V. 7 – A marca de sangue no batente da porta sinalizaria que nessa casa foi sacrificado e consumido um animal, rito religioso que protegeria aquela família da décima praga. Como acontecia no período patriarcal, o chefe da família fazia as vezes de sacerdote (COLE, p. 103). V. 8 – O assado seria preparado na brasa, acompanhado de pão sem fermento e ervas amargas. A carne era assada sobre o fogo aberto, feito num buraco. O simples fato de o animal ser comido mostra que o sacrifício não era tido como oferta pelo pecado. O pão asmo simbolizava a pressa com que deveriam sair do Egito. As ervas demonstravam a vida amarga que tiveram (Êx 1.13-14). O que significavam esses três alimentos? Zerôa, um pedaço de carne assada, representa o cordeiro como sacrifício especial de Pessach na véspera do êxodo do Egito. Lembra os cordeiros que seriam mortos. O sangue do cordeiro protegeu o povo de Israel antes de Deus libertá-los. Maror, almeirão, escarola, alface-romana, ervas amargas, representa o sofrimento da escravidão, a tristeza do trabalho forçado, as crianças que eram sacrificadas, quando o trabalho estabelecido pelo Faraó não era alcançado. Matzá, pães sem fermento, representa a pressa. Não havia tempo para esperar que levedasse a massa. Quando lhes foi permitido sair, sabiam que tinham pouco tempo. Deixaram de colocar fermento na massa para não precisar esperar crescer. Simplesmente pegaram o que podiam. O pão não poderia deteriorar no caminho. V. 9 – A pele do animal era tirada. As partes internas eram extraídas, limpas e recolocadas no lugar. Então o animal era assado inteiro, com a cabeça, as pernas e os miúdos. Precisava estar bem assado, nada cru e sem que lhe quebrasse nenhum osso (Êx 12.46; Nm 9.12). V. 10 – Não podia haver nenhuma sobra. Havendo excedente de carne, devia ser queimada antes do amanhecer. V. 11 – Roupa posta, bastão na mão, refeição rápida. Vestidos e alimentados para desencadear a fuga. Esta é a Páscoa de Deus. V. 12 – A décima praga está por acontecer: a morte do primogênito, tanto das pessoas como dos animais. Terrível castigo de morte. V. 13 – Selar com sangue o marco da porta é fazer parte de um rito que identifica um ato de fé, que os livrará da morte. “Passarei”: o sangue do cordeiro sacrificado deveria ser aspergido nas ombreiras de suas casas. Quando o anjo passasse, passaria por cima daquelas casas que tivessem o sangue aspergido sobre
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elas. O nome “páscoa” significa passar por cima, passar por alto. ... eu verei o sangue e então passarei por vocês sem parar, ... V. 14 – Estabelecida está a Páscoa, que jamais deverá ser esquecida, para lembrar o que o Senhor fez a seu povo.
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Meditação
Há uma situação intolerável. O povo de Deus estava sendo subjugado. Deus intervém, chamando líderes para assumir a nobre e difícil tarefa. É o fim de um longo tempo de escravidão. O preço dessa libertação é altíssimo. Moisés e Arão (v. 1-4), tendo ouvido o Senhor Deus, orientam o povo para preparar uma refeição de cunho familiar. Definidos foram o dia, a forma como essa celebração se daria e o cardápio. A carne preparada era de primeira qualidade e não poderia ser desperdiçada. Dependendo do tamanho do animal, as famílias deveriam organizar-se para juntas usufruírem sem desperdício. O forte caráter familiar relatado em Êxodo 12 faz lembrar a forma como hoje é celebrada a ceia de Natal. Estavam vestidos e alimentados. A morte passaria ao largo. O sangue do cordeiro protegia-os. Essa data jamais deverá ser esquecida. A celebração faz com que haja o constante resgate da história. Jesus respeita e valoriza a tradição que celebra a fuga do Egito. Utiliza essa história para estabelecer uma nova aliança. Jesus reuniu aqueles que pertenciam ao seu núcleo mais íntimo e apresenta-lhes um rito que faz lembrar o que ocorreu desde a noite em que foi traído até o dia da sua ressurreição. Não por acaso, tudo culmina na Páscoa. Assim jamais será esquecido o que ocorreu quando da sua morte. Em Êxodo 12, encontramos as raízes da Santa Ceia. O texto mais antigo da tradição cristã que conhecemos é o de Marcos 14. 22-24. Nesse último versículo, ele fala do “sangue que garante a aliança feita por Deus com o seu povo”. Assim como na antiga aliança Deus conduziu o povo de Israel para fora da escravidão egípcia, assim Ele liberta o seu povo, por meio de Cristo, para uma nova aliança (EIS, p. 224). Ao olhar o texto de Êxodo a partir da nova aliança, o apóstolo Paulo escreve em 1º Coríntios 5.7 e 8: Joguem fora o velho fermento do pecado para ficar completamente puros. Aí vocês serão como massa nova e sem fermento, como vocês, de fato, já são. Porque a nossa Festa da Páscoa está pronta, agora que Cristo, o nosso Cordeiro da Páscoa, já foi oferecido em sacrifício. Então vamos comemorar a nossa Páscoa, não com o pão que leva fermento, o fermento velho do pecado e da imoralidade, mas com o pão sem fermento, o pão da pureza e da verdade.
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Percebam a relação entre os dois textos: Êxodo 12 1 Coríntios 5 v. 5 O animal deverá ser um v. 7 … Cristo, o nosso Cordeiro da Páscoa, carneirinho ou um cabrito sem já foi oferecido em sacrifício. defeito. v. 8 ... a carne deverá ser assada na v. 7 A “massa nova e sem fermento” faz brasa e comida com pães sem referência às pessoas que experimenfermento. tam uma nova vida a partir da fé em Cristo. v. 8 “... comemorar ... com o pão sem fermento, o pão da pureza e da verdade.” No Antigo Testamento, quem morre é um animal, cujo sangue afasta a morte e cuja carne alimenta o povo de Deus para a fuga. No Novo Testamento, Cristo ocupa o lugar do cordeiro, é sacrificado, e o pão asmo torna-se alimento que lembra o seu corpo. No Antigo Testamento, a morte acontece entre os opressores. No Novo Testamento, o próprio gerador da vida é que morre para mostrar a força inigualável da ressurreição.
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Imagens para a prédica
É Quinta-feira Santa. O texto de Êxodo marca o momento final de um tempo extremamente difícil. A festa guardará a lembrança do ocorrido. O Novo Testamento aponta, na mesma data, para uma revelação extraordinária, quando algo divino se revela. Toda a carga simbólica registrada no Antigo Testamento é acolhida e repassada para um novo momento histórico. A celebração da Santa Ceia é a nossa Pesach. Não só uma vez por ano, mas regularmente somos convidados a lembrar o que ocorreu na Páscoa de Cristo. O caráter festivo quer ser sublinhado. Preparamos a nossa roupa para seguir adiante. Alimentamo-nos de Jesus para nos fortalecer a seguir peregrinando na vida com pureza e verdade. A graça do perdão, que provém do sacrifício de Cristo, faz-nos romper com o velho e olhar de forma positiva para o futuro. Esta noite é oportuna para fazer da Quinta-feira Santa uma celebração que nos faz enxergar a graça de Deus que vence os poderes da morte. Dessa celebração todos deveriam fazer parte. A internet permite abrir um enorme leque em que somos informados sobre a tradição judaica da festa da Páscoa. Sugiro olhar no YouTube o filme “Yeshua, Nosso Cordeiro de Pessach”, produzido por judeus messiânicos.
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Subsídios litúrgicos
Se possível, trazer para a celebração três símbolos: zerôa, o cordeiro da Páscoa, matzá, o pão sem fermento, e maror, as ervas amargas. Promover um ambiente festivo em que esses elementos possam ser partilhados com a comunidade. HPD 413 Saudação trinitária Dirigente: Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus, que nos permites poder lavar as nossas mãos e assim contar a história da Páscoa. (Providenciar para que todos os participantes lavem suas mãos.) Fazer desse gesto a confissão de pecados. Oração do dia Ler Êxodo 12.26-27 Três alimentos trazemos, os quais queremos partilhar nesta noite: Zerôa – Ergue-se um pedaço de cordeiro assado. Ler Êxodo 12.3-5 e 9. Contar sobre o significado do cordeiro na Festa da Páscoa e na Santa Ceia. Dirigente mostra o símbolo e diz: Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus, que alimentaste o teu povo com assado de cordeiro antes de se pôr em fuga da escravidão do Egito. Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus, que deste teu Filho Jesus Cristo em sacrifício por nós. Amém. HPD 371 Partilhar pequenos pedaços de carne de cordeiro assados na brasa e servir aos participantes. (Valer-se de palitos ou garfos) Matzá – Ler Êxodo 12.8: “Nessa noite a carne deverá ser assada na brasa e comida com pães sem fermento...” (A cada leitura segurar na mão o alimento que está sendo mencionado.) Contar sobre o significado do pão asmo na Festa de Páscoa e na Santa Ceia. Dirigente mostra o símbolo e diz: Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus, que fazes nascer o trigo que alimenta o teu povo com pão, com pão sem fermento. Bendito sejas tu, Jesus Cristo, que deste teu corpo em nosso favor. Maror – Ler Êxodo 12.8: “Nessa noite a carne deverá ser assada na brasa e comida com pães sem fermento e com ervas amargas”. (A cada leitura, segurar na mão o alimento que está sendo mencionado.) Contar sobre o significado das ervas amargas na Festa de Páscoa. Dirigente mostra o símbolo e diz: Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus, soberano do universo, que permites que comamos ervas amargas. Servir aos participantes pão asmo com ervas amargas. HPD 424 Dar seguimento, celebrando a Ceia do Senhor na forma habitual. Comendo as “ervas amargas”, lembramos as amarguras da vida sem Deus e sem Jesus, quando escravizados pelo pecado. “Pão sem levedo” e o “cálice” do suco de uva sem fermento têm sido estabelecidos como símbolos apropriados do seu corpo sem pecado e da pura redenção, através do sangue, pelos seus e meus pecados, “até que ele venha”.
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Bênção HPD 378
Bibliografia COLE, R. Alan. Êxodo, introdução e comentário. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova e Associação Religiosa Editora Mundo Cristão, 1972. EIS, Werner. In: Neue Calwer Predigthilfen, Fünfter Jahrgang. Stuttgart: Calwer Verlag, 1982.
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PRÉDICA: SALMO 22 LUCAS 23.33-49 HEBREUS 4.14-16; 5.7-9
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
25 MAR 2016
Nelson Kilpp
“Deus meu, Deus meu!”
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Introdução
O Salmo 22 é o salmo previsto para a Sexta-Feira da Paixão nas três séries do Lecionário Comum. Essa escolha deve-se ao fato de o salmo ter sido uma das chaves utilizadas pelos evangelistas para entender a paixão e morte de Jesus. As narrativas da paixão em todos os quatro evangelhos trazem citações ou alusões a esse salmo. A mais conhecida é a invocação: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (cf. Mt 27.46; Mc 15.34). O relato da morte de Jesus segundo Lucas (Lc 23.33-49; cf. Jo 19.17-37), previsto para a Sexta-feira da Paixão do ano C, no entanto, não traz esse grito. Mas Lc 23.34 menciona que os soldados repartiram e sortearam as vestes de Jesus (cf. Sl 22.19). Lc 23.35-37,39 também descreve longamente como chefes, soldados e um dos malfeitores zombaram de Jesus, uma alusão ao Salmo 22.8s. Quem utiliza uma Bíblia publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) deve tomar cuidado com a numeração dos versículos do Salmo 22, que é diferente da numeração da Bíblia Hebraica, geralmente utilizada nas outras versões, bem como nesta meditação. O Lecionário Comum aparentemente não prevê um recorte do Salmo 22. A data do ano litúrgico favorece uma concentração na primeira parte do salmo: 22.2-22. Ainda assim, a interpretação deve ter em mente o todo. A epístola prevista para a data (Hb 4.14-16; 5.7-9) informa que a vida de Jesus foi uma vida de oração e obediência, tendo sido, por isso, atendido por Deus (5.7), e que sua morte traz a salvação aos que lhe obedecem (5.8). De resto, o vínculo com o próprio do dia é bastante solto.
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Considerações exegético-homiléticas
Proclamar Libertação publicou três meditações sobre o Salmo 22. M. Fluck apresenta um interessante leque de interpretações sobre o salmo (PL 18, p. 116ss); H. Ehlert traz uma boa estrutura do salmo e valiosas observações exegéticas (PL 30, p.104ss); M. Parlow, por fim, contribui com ótimas imagens e ideias para o todo da celebração da Sexta-feira da Paixão (PL 35, p. 169ss). Tentarei colocar meus próprios acentos. Os salmos normalmente são usados para orar e celebrar, mas não como textos de pregação. Proponho, portanto, uma homilia. A homilia possibilita re-
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Sexta-feira da Paixão
contar o texto do salmo fazendo analogias com o nosso sofrimento e com o sofrimento e morte de Jesus. Por esse motivo não separo, a seguir, claramente exegese de meditação. O Salmo 22 é composto de duas partes. A primeira (v. 2-22; SBB) descreve a aflição de alguém que se sente abandonado por Deus e que por isso lamenta e suplica por ajuda. A segunda parte (v. 23-32), por outro lado, é um canto de ação de graças pela ajuda recebida, entoado no seio da comunidade de fé. Há consenso de que não se trata de dois salmos distintos, mas de um salmo que podia servir de modelo ou “formulário” para duas situações distintas: a de suplicar por ajuda e a de agradecer pela ajuda recebida. A “dobradiça” entre as partes encontra-se na última palavra do v. 22: “tu me respondeste”. Algumas versões da Bíblia eliminam, sem nenhum motivo, essa palavra hebraica ou a substituem de acordo com versões gregas. O texto massorético dá a entender que o que segue (v. 23ss) é recitado após Deus ter atendido a súplica do sofrente (cf. v. 25), justificando-se, portanto, a ação de graças (todah). A atribuição a Davi, que aparece no “título”, é muito tardia e não tem nenhum fundamento histórico. Quem lamenta e sofre não é Davi nem outro rei, tampouco o rei futuro (“messias”). O orante sofre de muitos males: seu corpo está abatido, fraco, desfigurado (v. 18) e muito doente (v. 15s); encontra-se em estado febril, com a boca seca (“a língua se me apega ao céu da boca”, v. 16), e sente a proximidade da morte (“assim me deitas no pó da morte”, v. 16). Em seu delírio, ele se vê rodeado de inimigos ou então pelos demônios da doença (v. 13s,17,21s: “touros me cercam”, leões abrem suas goelas, os malfeitores são como cães ao seu redor, os búfalos mostram seus chifres) e observa que membros de sua própria família já estão repartindo a “herança”, pois já dão o suplicante como morto (v. 19: “repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes”). Talvez não se tenha em mente uma pessoa que sofre apenas de um único mal. Alguns intérpretes admitem que o suplicante também pode estar sendo perseguido ou acusado injustamente por malfeitores, seus inimigos. As metáforas, de fato, mais escondem do que revelam. Em todo caso, o sentimento de ausência de Deus predomina no todo nessa primeira parte do Salmo 22: Deus o abandonou e não mais responde a seu clamor (v. 2s). O aspecto teológico central é a experiência radical do abandono de Deus. Essa também era, conforme os evangelistas, a situação de Jesus na cruz. V. 2-3 – Os salmos de lamentação expressam uma profunda contradição da experiência humana: quem se sente abandonado por Deus é justamente quem o invoca: “Deus meu!”. Apesar da grande tribulação e da sensação de abandono, ele continua sendo um Deus pessoal, conhecido, íntimo: “meu Deus”! A pergunta “por que (me abandonaste)” tem aquele misto de incompreensão e censura de quem, como Jó, não consegue entender por que Deus deixa acontecer coisas que, em nossa visão, são injustas. Mesmo que Deus não seja a causa direta do sofrimento, ele não impede que pessoas sofram, muitas vezes injustamente. Por quê? Geralmente não há resposta lógica e racional. Por isso busca-se, no salmo, pelo menos, o aconchego da presença de Deus. Mas justamente esse não está à vista. Há muito tempo que o salmista sofre, grita e suplica – em vão!
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V. 4-6 – O suplicante busca razões para o seu ato de dirigir-se a Deus, apesar de experimentá-lo distante e mudo. Ele as encontra no poder de Deus, propalado pelos louvores da comunidade e experimentado no passado. Na aflição, importante é a memória. A memória traz à tona “casos precedentes” de intervenção divina. Isso anima. Talvez o sofrente também queira constranger Deus a ser coerente com a sua atuação no passado? Em todo caso, aparece no sofrente uma nesga de confiança. V. 7-9 – O salmista volta à descrição de sua situação. Ele é um não-humano, perdeu toda a semelhança com os seres humanos. Ele está desfigurado pela doença e deformado pela dor. O que mais dói, no entanto, são o desprezo e a humilhação das pessoas. Os inimigos e os próprios membros da família “meneiam a cabeça” em sinal de desprezo (cf. Sl 44.15; 64.9). A imagem de Deus transformou-se num “bicho” (cf. o poema de Manuel Bandeira). Pessoas famintas e doentes contam que a pior experiência, na verdade, não é a dor física, mas a dor da incompreensão e do preconceito. Muitas vezes, o desprezo resulta de uma simplória concepção de retribuição: se ele/ela está sofrendo, é porque deve ter “culpa no cartório” ou não fé suficiente. Flagrante é o sarcasmo dos inimigos (ou membros da família) que cercam o sofrente: “Confiou no Senhor! Livre-o ele!” Uma alusão à piedade “extremada” do salmista? Um desejo velado de que ele sofra as consequências de seus atos? Ou seja: está sofrendo e morrendo porque merece! Será que Deus abandona justamente os que mais creem nele? Os evangelistas viram na zombaria dos chefes e soldados aos pés da cruz de Jesus a flagrante contradição entre o que Jesus pregava e vivia e a realidade cruel da vida: Deus não ajuda quem fracassa na vida! Será que é assim? V. 10-12 – Novamente o orante procura nesgas de memória em que prender um fio de esperança. Nos salmos de lamentação, esse vaivém entre sentimento de abandono e recuperação da confiança é constante. Agora o suplicante encontra apoio em sua história de vida pessoal. Deus deu-lhe a vida. Ele a teria dado se não tivesse um objetivo para ela? Existe vida sem sentido? Aqui não se percebe a conformidade de um Jó que diz: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou. Bendito o nome do Senhor!” (Jó 1.21). Se Deus dá a vida, ele não se torna também responsável por ela? Não tem ele, antes, a “obrigação” de preservá-la? A expressão de confiança desemboca na súplica decisiva: “Não fiques longe de mim!” (v. 12). V. 13-16 – Em PL 18 e 30, esse trecho foi omitido. Por causa das metáforas difíceis ou por não apresentar nenhuma relação aparente com a morte de Jesus? Ele contém a descrição mais drástica dos efeitos da doença sobre o corpo do sofrente (v. 15s): por causa do ardor da febre, o seu corpo dissolve-se como água, deixando os ossos desfigurados e a boca seca como um caco de cerâmica. Já se pode sentir o gosto da “poeira da morte”. A doença e o sofrimento podem assumir a forma de animais. Os touros e leões que cercam a pessoa moribunda podem simbolizar os poderes demoníacos que causam a doença que leva à morte. Também podem ser metáforas de pessoas inimigas poderosas (os malfeitores do v. 17), que em sua grande fúria ameaçam a pessoa doente. Ou são imagens de um
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pesadelo de alguém em delírio? Seja como for: o salmista sente-se totalmente impotente, à mercê de poderes mortais. V. 17-19 – Uma segunda vez, o salmista descreve metaforicamente os poderes que o cercam e os efeitos de sua doença. O doente está nu e tão emagrecido, que se podem contar os ossos do seu corpo (v. 18). Dessa vez, os inimigos que o cercam são designados “malfeitores” (“cães”), que ficam observando o moribundo em seu leito. No v. 17, o verbo traduzido por “traspassar” (Almeida Revista e Atualizada), “rasgar” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje), “retalhar” (Bíblia de Jerusalém), “furar” (Pastoral) ou “amarrar” (TEB) é uma conjetura muito controvertida. O texto massorético lê “como um leão”, o que obviamente não dá sentido. A maioria das versões segue a tradução dos Setenta e a Vulgata (“furar, traspassar”). Comentários modernos preferem a conjetura: “prender, amarrar” (de acordo com as versões gregas de Áquila e Símaco). Não fica claro por que os “malfeitores” iriam “furar” ou “amarrar” as mãos e os pés do moribundo! O doente debate-se em seu leito de morte, de modo que há necessidade de amarrá-lo? Mais claro é o v. 19: “eles repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes”. Provavelmente não se trata de credores inimigos que vêm cobrar uma dívida do doente, mas de membros da família, que já dão início à repartição da herança da pessoa moribunda. A túnica é a peça de roupa mais valiosa de uma pessoa; ela não pode ser repartida, deve, portanto, ser sorteada. A própria família já considera o salmista um homem-morto e passa a tocar a vida para a frente sem ele. Pode haver sentimento de abandono maior do que esse? V. 20-22 – O trecho termina com uma derradeira súplica: “Senhor, não fiques longe de mim!” Abandonado pelos próprios parentes, o salmista só tem uma única esperança: que o Deus distante e silencioso se manifeste. E essa intervenção divina precisa acontecer de forma urgente, antes que seja tarde demais. A súplica termina mencionando novamente os poderes de morte que ameaçam o sofrente: “espada”, “presas de cães”, “gargantas de leões” e “chifres de búfalos” (v. 22). V. 23-32 – O hino de ação de graças é entoado após o sofrente ter sido atendido em sua súplica (v. 25) no seio da comunidade (v. 23,26). Certamente o hino fez-se acompanhar de um sacrifício de agradecimento (todah) e de uma refeição sacrificial, da qual também participaram os pobres (v. 27). Essa segunda parte do salmo é importante porque confirma que nossas orações são atendidas e que o sofrimento e a aflição não são a última palavra de Deus, como não foi a cruz de Jesus.
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Meditação e imagens
1) Ao gritar a Deus, antes de morrer, “Deus meu, por que me abandonaste?”, Jesus mostra-se totalmente humano, alguém que sente dor, geme, está desesperado, tem medo de morrer, é impotente diante de seus algozes – como qualquer um de nós. Ele não se mostra sereno, soberano diante da morte, como quem tem certeza de que a morte na cruz é apenas uma transição para algo maravilhosamente belo, planejado pelo Todo-poderoso. Ao contrário, ele se sente abandonado por
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seu Deus. A cruz é a experiência mais contundente da ausência e do silêncio de Deus e da humanidade de Jesus. 2) Analogias de sofrimento humano em que não se pode mais sentir a presença de Deus podem ser distribuídas ao longo da homilia. Muitas vezes, menciona-se o holocausto. Onde estava Deus quando permitiu que milhões de judeus fossem exterminados? Pode-se também lembrar os gritos que subiam dos navios negreiros que partiam da África. E onde estava Deus que permitiu que 21 cristãos coptas fossem degolados por grupos extremistas do Estado Islâmico no norte da Líbia em fevereiro de 2015? Mas não precisamos ir para fora do país. Com 64 mil homicídios por ano, o Brasil é o país com o maior número absoluto de homicídios no mundo. De cada 100 pessoas assassinadas no mundo, 13 são de nossa “terra adorada”. A maioria das vítimas tem idade e cor definidas: são jovens e negros. Em final de fevereiro de 2015, quando escrevo esta meditação, houve uma chacina de 13 jovens num bairro de periferia da cidade de Salvador, promovida por integrantes da polícia militar. Como as mães e os pais desses jovens ceifados em pleno vigor sentem o “abandono” e a “indiferença” de Deus? Sabemos também que o trânsito no Brasil (com mais de 20 mortos/ano por grupo de 100.000 habitantes) mata bem mais do que uma guerra. Mas assassinatos e mortes no trânsito deixaram de ser trágicos para tornar-se estatística. 3) Depois do ataque às torres gêmeas em Nova Iorque em 2001, alguém escreveu na parede do metrô da estação Times Square: God, why have you forsaken us? Há consolo? O fato de podermos lançar, em nossa angústia, o nosso grito de dor no rosto de Deus certamente é mais do que uma catarse psicológica. É velada esperança de que Deus se encontra na mais profunda miséria de nossa vida. Sabemos que Deus geralmente não age através de passes de mágica. Ele também não tirou seu filho da cruz. Os seus caminhos não são os nossos. Há esperança! Porque sabemos que o sofrimento e a morte de Jesus nos “carregaram” para dentro de uma nova vida. Essa é a nossa confiança. Ela talvez seja até mais clara do que a confiança do sofrente do Sl 22. Mas também esse não foi desapontado em sua confiança, pois “Deus não desprezou a dor do aflito, nem ocultou dele o seu rosto, mas o ouviu quando gritou por socorro” (v. 25). 4) Podemos, a partir do Salmo 22, aprofundar mais o significado da morte de Jesus “por nós”? O Salmo 22 não tem a mesma perspectiva da vicariedade da morte que se encontra, por exemplo, em Isaías 53. Não creio que seja o momento de abordar a complexa questão da necessidade de uma morte violenta para reconciliar as pessoas com Deus. A violência faz parte da existência humana; ela é praticada por pessoas imperfeitas e sofrida por pessoas fracas. Ela não está no plano de Deus. Se o império romano condena Jesus a sofrer uma morte violenta por causa da pregação de um Deus misericordioso e por causa da prática de solidariedade com os excluídos, então obviamente é também por causa de nós que ele morre. Sua paixão e morte ganham sentido. E Deus confirma-o com a ressurreição de Jesus.
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Subsídios litúrgicos
Remeto aos ótimos subsídios de PL 35, p. 173-175. Acrescento algumas sugestões adicionais. Pode-se iniciar a celebração com o poema de Castro Alves, “Vozes d’África”, cuja invocação lembra o “Deus meu!” do Sl 22. Confissão de pecados (de acordo com Sl 51) Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e apaga as minhas transgressões segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões e o meu pecado está sempre diante de mim. Não me expulses da tua presença nem me retires o teu santo espírito. Restitui-me a alegria da salvação! Anúncio da graça Deus estava em Cristo e reconciliou consigo o mundo; ele não imputou às pessoas as suas faltas e nos confiou a palavra da reconciliação. (2Co 5.19) Oração do dia Misericordioso Deus, por nossa causa permitiste que teu Filho sofresse a morte na cruz, para nos libertar dos poderes malignos. Faze com que reconheçamos que, através de seu sofrimento, fomos inocentados do pecado e livrados da morte eterna. Isso te pedimos por Jesus Cristo, que morreu na cruz e que agora, contigo e com o Espírito Santo, vive e reina eternamente. Amém! (M. Lutero)
Bibliografia KRAUS, Hans-Joachim. Psalmen 1-59. 5.ed. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1978 (Série Biblischer Kommentar Altes Testament, v. XV 1).
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PRÉDICA: LUCAS 24.1-12 ISAÍAS 65.17-25 1 CORÍNTIOS 15.19-26
DOMINGO DA PÁSCOA
27 MAR 2016
Flávio Schmitt
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Introdução
O Domingo da Páscoa marca o momento mais significativo de toda a tradição cristã. Fazer memória da ressurreição de Jesus marca o momento litúrgico mais importante da igreja. Os textos deste domingo estão ambientados no contexto da promessa, do cumprimento e da celebração em torno da Páscoa. O profeta Isaías remete-nos para a perspectiva do novo e da transformação da realidade cotidiana, operada pela ação de Deus. O texto de Isaías 65.17-25 lança-nos em direção à esperança. Ao falar do “novo céu e nova terra”, o profeta Isaías convoca seus leitores a comungar de uma possibilidade de transformação do “velho céu e da velha terra”. Javé é quem recria o céu e a terra. A realidade paradisíaca provocada pela ação de Deus subverte a realidade humana e a própria criação. Novo “céu e nova terra” abrem caminho para uma existência compartilhada, fundamentada na relação de paz e reciprocidade. Jerusalém é o lugar da transformação. Nas palavras anunciadas pelo profeta, o tempo de alegria e gozo suplanta o tempo da tristeza e dor, pois “nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor” (Is 65.19). O testemunho de Paulo em 1 Coríntios confronta-nos com os desafios enfrentados pelos primeiros cristãos ao se defrontar com as consequências e repercussões na vida dos crentes e das comunidades da fé na ressurreição. O testemunho da ressurreição mexe com a nossa vida, assim como mexeu com a vida das primeiras testemunhas. A partir da ressurreição, a vida recebe um novo sentido. Com a ressurreição, alegria e esperança passam a falar mais alto que dor e sofrimento. Porém nem sempre é fácil fazer a ponte entre o que nos é testemunhado acerca da ressurreição de Jesus e a nossa própria ressurreição. Como já havia feito em outras passagens da carta (7; 8-10; 11; 12-14), aqui em 1 Coríntios 15, Paulo trata de mais um dos mal-entendidos surgidos na comunidade. Depois de esclarecer dúvidas e fundamentar convicções, o apóstolo apresenta a ressurreição como razão fundamental da fé. Se Cristo não ressuscitou, tanto a pregação como a fé são vãs (1Co 15.14). Portanto a ressurreição é o fundamento de todo testemunho e pregação cristã. O texto de Lucas 24.1-12 aparece somente três vezes nas edições anteriores dos auxílios homiléticos (2, 201; 20, 127; 37, 132). Ainda assim, trata-se de contribuições valiosas, que ajudam a compreender o texto na perspectiva da pregação.
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Exegese
Os pesquisadores costumam estruturar o Evangelho de Lucas em três partes. Esse evangelho, escrito por Lucas e dirigido a Teófilo, apresenta um prólogo (1.1-4), mais duas partes que incluem Lc 1.5-4.13 e Lc 4.14-24.53. A partir da segunda parte (4.14-24.53), o evangelista narra como a promessa vai encontrando cumprimento na prática de Jesus. Depois de investido pelo Espírito Santo, Jesus assume sua missão na Galileia (4.14-9.50). Após a viagem missionária (9.5119.27), são narrados os últimos dias de Jesus em Jerusalém (19.28-24.53). Enquanto em Lucas 22.54-23.56 é narrada a paixão de Jesus, Lucas 24.1-53 narra a ressurreição. No texto de Lucas 24.1-53 podem ser identificadas seis unidades. A primeira trata do túmulo vazio (24.1-12). Na segunda unidade, é narrada a aparição de Jesus a dois discípulos no caminho de Emaús (24.13-32). Na sequência, a narrativa concentra-se na aparição de Jesus ao grupo dos discípulos (24.36-46). Depois das palavras finais de Jesus (24.47-49), segue a narrativa da ascensão (24.50-53). Nosso texto, portanto, está ambientado nesse contexto onde Lucas testemunha a ressurreição, as aparições e a ascensão de Jesus. A perícope apresenta três momentos distintos, a saber: 1-3, 4-8, 9-12. Nos v. 1-3, as mulheres são protagonistas. Nos v. 4-8, o protagonismo fica por conta dos dois homens encontrados na sepultura. Nos v. 9-12, o protagonismo é retomado pela narrativa do evangelista. O v. 1 começa com uma expressão que revela algumas informações importantes: primeiro, as mulheres foram ao sepulcro. Segundo, as mulheres foram ao sepulcro no “primeiro dia da semana”, ou seja, no domingo. Terceiro, foram de madrugada. Quarto, levaram materiais para preparar o corpo de Jesus para o sepultamento. No v. 2, as mulheres chegam ao sepulcro e vão direto ao túmulo. Constatam que não há pedra para ser removida. Esse trabalho já está feito. Nada é dito acerca de quem realizou a tarefa. Lucas apenas narra que a pedra já havia sido removida. O v. 3 apresenta o inesperado. Ao entrar no sepulcro, as mulheres não encontraram o corpo de Jesus. Importante que a palavra utilizada no grego para corpo é soma. Ao empregar a expressão “corpo do Senhor Jesus”, Lucas está fazendo uso de uma confissão de fé presente na vida das comunidades. Para essas comunidades, Jesus é Senhor. O texto faz alusão à ausência do corpo para testemunhar a ressurreição. As versões em português utilizam a palavra “perplexas” (v. 4) para falar do estado das mulheres. O termo grego aporeo, da mesma raiz da palavra aporia, indica o beco sem saída em que as mulheres se encontravam. O texto é enfático ao dizer que estavam perplexas a respeito daquilo (peri toutou), ou seja, da ausência do corpo. Em meio à perplexidade aparecem dois homens com roupas resplandecentes. O verbo empregado para falar da resplandecência (astrapto) é o mesmo
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usado para falar do brilho de um raio. Portanto as roupas (esthēs) brilhavam como brilha um raio. Aqui certamente há um interesse em testemunhar a intensidade do fenômeno. O v. 5 fala do medo das mulheres. O adjetivo grego (emfobōs) retrata o estado de pânico do qual as mulheres ficaram tomadas. Depois do medo, a expressão “abaixando o rosto para o chão” fala da humilhação e, de certo modo, da vergonha das mulheres. Toda essa descrição tem o propósito de salientar a ousadia e coragem dessas mulheres. Na sequência, o texto surpreende novamente ao apresentar a fala dos homens: “Por que buscais o vivente entre os mortos?”. O verbo grego usado (dzēteō) também pode significar procurar. As mulheres estão procurando Jesus entre os mortos. Ainda não tomaram conhecimento do maior acontecimento. O termo “vivente” (dzaō) remete ao que vive. O termo grego para mortos (nekros) refere-se a alguém destituído da vida. O evangelista não emprega o termo thanatos para falar da morte de Jesus. Os v. 6-7 dão sequência à fala dos homens. “Não está aqui, mas ressuscitou” apresenta duas informações. Que Jesus não estava ali as mulheres já haviam constatado. A informação nova vem expressa no emprego do verbo (egeirō). A voz passiva do verbo no aoristo fala da ação sofrida por Jesus. Ele foi ressuscitado. Trata-se de um termo técnico para falar da ressurreição de Jesus, que também é empregado em outras passagens. Depois do testemunho, vem o apelo à memória. As mulheres são desafiadas a lembrar o que Jesus havia dito quando se encontravam na Galileia. Aqui há uma nítida intenção de apontar para a lembrança das palavras e ações de Jesus na Galileia. Na memória da prática de Jesus consta o anúncio de sua paixão. O v. 7 reveste-se de uma importância ainda maior para a fé, pois relaciona a vida, morte e ressurreição de Jesus. No testemunho de Lucas, a ressurreição não é um fato isolado, mas consequência da fidelidade de Jesus ao projeto do reino de Deus. Para compreender a ressurreição, é preciso voltar à prática de Jesus. O v. 8 é genial por dizer expressamente que as mulheres se lembraram das palavras de Jesus. É preciso fazer memória! Sem memória é impossível compreender os acontecimentos. Os v. 9-11 tratam do testemunho das mulheres. Voltaram para junto dos doze e anunciaram (apangelō) “estas coisas” (v. 10) aos apóstolos. Nessas palavras está presente a dimensão missionária da igreja. Contudo, depois de informar quem eram as mulheres que estavam falando (“Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago”), vem a descrença. Embora a reputação das mulheres fosse inquestionável, os ouvintes não deram crédito ao lero (lēros) das mulheres. Essa palavra grega, traduzida por desvario, delírio ou devaneio, coloca em xeque o testemunho das mulheres. Não obstante as dúvidas acerca do v. 12, ele tem o propósito de apresentar Pedro como testemunha da ressurreição de Jesus. A repentina pressa de Pedro em verificar a procedência da fala das mulheres contrasta com a aparente frustração: “viu só os lençóis ali postos”. O texto termina dizendo: “e retirou-se, admirando consigo aquele caso”.
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Meditação
O pregador deve ter presente que túmulo vazio e os “lençóis ali postos” não provam a ressurreição de Jesus. É preciso partir do fato de que não temos evidências materiais para comprovar a ressurreição de Jesus. Ressurreição quer ser crida e não provada. Mesmo que não possamos comprovar a ressurreição de Jesus, pela fé cremos nela, e nosso texto tem sua relevância para o testemunho acerca da ressurreição de Jesus. Em primeiro lugar, por conta do protagonismo das mulheres. O relato de Lucas não deixa dúvidas quanto ao papel das mulheres no anúncio da ressurreição, por extensão do evangelho. Ainda assim, a credibilidade conferida às mulheres é colocada em dúvida. Contudo, na atitude das mulheres, Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, reside a inspiração para partilhar descobertas que anunciam a boa-nova. Outro aspecto do texto a ser destacado diz respeito à relação entre ressurreição e prática de Jesus. Quem quiser falar da ressurreição de Jesus precisa recorrer à memória. É preciso lembrar o que Jesus disse e fez. Sem essa vinculação da ressurreição à prática de Jesus, a Páscoa vira lenda e Jesus, um mito. Por fim, resta ainda lembrar que o testemunho da ressurreição em nada alterou o ânimo dos discípulos. Nem mesmo a admiração (taumadzō) de Pedro contribuiu para alterar a “moral da tropa”. Tampouco as aparições testemunhadas nos versículos seguintes desinstalaram os discípulos. Somente com a vinda do Espírito Santo, relatada por Lucas em Atos 2, o espírito missionário que anuncia e testemunha a ressurreição de Jesus começou a atuar.
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Pistas para prédica
O Domingo da Páscoa sempre é um dia especial. Mesmo para quem apenas faz desse dia um feriado, no Ocidente, Páscoa é Páscoa. Para a comunidade que se reúne no Domingo da Páscoa para ouvir a Palavra de Deus e comungar do corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, é preciso dizer que Jesus ressuscitou. Mas também é preciso dizer que na ressurreição de Jesus reside a perspectiva de nova vida destacada nas leituras do texto do profeta Isaías e da Carta de Paulo aos Coríntios. Ressurreição é vida. É o sim de Deus para a prática do amor. Na ressurreição, Deus valida a prática de Jesus. Quem vive como Jesus viveu não morre, mas passou da morte para vida. Eventualmente, a Páscoa pode proporcionar a ocasião para tratar de nossas dificuldades em falar da ressurreição de Jesus, da ressurreição dos mortos e da nossa própria ressurreição. Aqui nos deparamos com os limites da própria linguagem. Simplesmente não podemos e não temos como dizer o que não pode ser dito ou descrito. Mesmo que somente possamos falar da ressurreição de Jesus por meio de imagens, analogias e metáforas, isso de modo algum compromete a ressurreição. Além disso, sempre é bom lembrar que falar de ressurreição faz mais sentido quando estamos diante da sepultura para sepultar algum ente querido.
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Tendo o tema da vida como elemento fundamental do testemunho da ressurreição, a prédica poderá gravitar em torno da pergunta do texto: “Por que buscais o vivente entre os mortos?”. Em geral, não obstante os dois mil anos de história do cristianismo, como cristãos e comunidades, estamos buscando o vivente entre os mortos. A fé na ressurreição quer fazer de nós cidadãos de um “novo céu e nova terra”. A celebração da Páscoa é oportunidade para deixar que o amor de Deus, que vence a morte, invada nossas vidas. Nesse sentido, a comunidade precisa ouvir que não é possível encontrar Jesus onde ele não pode ser encontrado.
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Subsídios litúrgicos
Introito Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá (Jo 11.25). Oração Senhor Jesus! Confessamos-te como Senhor ressuscitado. Nem sempre conseguimos compreender o que isso significa para nossas vidas. Porém sabemos que venceste a morte e seu poder. Que tua vitória desperte em nós o compromisso com a vida. Ajuda-nos, Senhor, com teu Santo Espírito, a conhecer-te como Senhor vivo para que encontremos vida e salvação. Amém. Intercessão Pedimos por todos os que não encontram sentido para suas vidas na Páscoa; pedimos pelas pessoas que buscam Jesus entre os mortos; pedimos por todas as famílias que renovam suas forças na força da ressurreição de Jesus; pedimos pelas comunidades que testemunham a vida inspiradas na ressurreição de Jesus; pedimos que a fé na ressurreição nos conduza pelos caminhos da paz, da justiça e da solidariedade. (Incluir mais intercessões de acordo com o contexto da comunidade)
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo, SP: Hagnos, 2002. v. 2. HAGSMA, Alfredo Jorge; HAGSMA, Vera Regina. Domingo da Páscoa. In: HOEFELMANN, Verner (org.). Proclamar Libertação – Auxílios Homiléticos. v. 37. São Leopoldo: Sinodal, 2012. p.132-137.
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2º DOMINGO DA PÁSCOA
03 ABR 2016
PRÉDICA: ATOS 5.27-32 SALMO 150 JOÃO 20.26-31
Joel Haroldo Baade Aline Danielle Stüewe
O dilema da obediência a Deus e às pessoas
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Introdução
As três leituras bíblicas previstas para este dia apresentam, pelo menos aparentemente, temáticas distintas. O texto da prédica, Atos 5.27-32, relata a presença dos apóstolos diante do Sinédrio (Conselho Superior), o mais alto tribunal religioso dos judeus. O Grande Sacerdote indaga os apóstolos a respeito do testemunho de Cristo que havia sido realizado em toda a cidade, o que lhes havia sido expressamente proibido. Diante do Conselho, composto também pelos chefes religiosos e pelos professores da Lei, Pedro expressa a necessidade de obedecer a Deus e não às pessoas; confessa então a sua fé no Cristo que viveu, foi morto e ressuscitou pela ação de Deus, que continua a agir pela ação do seu Santo Espírito. O Salmo 150 conclama para o louvor a Deus no seu templo, por seu poder e por suas maravilhas. O salmista convida para que todos os instrumentos musicais sejam postos a serviço do louvor a Deus. O Deus que merece todo o louvor é o que ressuscitou Jesus Cristo, conforme confessa Pedro no texto de Atos 5.30: “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro”. E, finalmente, o evangelho previsto para o dia, João 20.26-31, relata a aparição de Jesus aos discípulos enquanto estavam reunidos a portas trancadas e a confrontação com Tomé, que precisou tocar as feridas de Cristo para crer. Jesus exalta a atitude de quem não precisa ver para crer. Assim, propõe-se a relação dos três textos a partir de atitudes que são essenciais à vivência cristã: a fé (Jo 20.26-31), o louvor (Sl 150) e o testemunho (At 5.27-32). Os três elementos são fundamentos da existência cristã e são indissociáveis. Fé sem louvor e testemunho é oca; louvor sem fé e testemunho é mero sentimentalismo; testemunho sem fé e louvor é hipocrisia.
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Exegese
Atos 5.27-32 integra a primeira parte do livro de Atos dos Apóstolos, na qual se relata o início da Igreja Primitiva (At 1.1-12.25). A partir do capítulo 13, relata-se a missão de Paulo. A primeira parte, por sua vez, está dividida em dois
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blocos: a) 1.1-8.3, no qual se relata sobre a comunidade de Jerusalém; e b) 8.412.25, em que se trata da missão para fora de Jerusalém (SCHNEIDER). O contexto maior da perícope analisada é, portanto, o desenvolvimento da igreja cristã em Jerusalém. Schneider propõe uma divisão desse bloco em seis partes: 1) antes de Pentecostes (1.1-26); 2) Pentecostes (2.1-47); 3) cura, pregação, prisão e libertação (3.1-4.37); 4) Ananias e Safira (5.1-11); 5) crescimento da comunidade e reações (5.12-42); 6) os “helenistas”, Estêvão e a perseguição (6.18.3). Assim, o contexto menor da perícope são o desenvolvimento da comunidade cristã em Jerusalém e as reações daí decorrentes (SCHNEIDER). O texto imediatamente anterior (At 5.17-26) relata a prisão dos apóstolos pelos líderes judeus e sua libertação por um anjo, bem como a surpresa e receio das autoridades diante do respaldo dos apóstolos pelo povo da cidade. O texto seguinte relata a intenção dos líderes do conselho judeu de matar os apóstolos e a intervenção de Gamaliel que levou ao castigo e à libertação deles (At 5.33-42). O texto da prédica, assim, relata o diálogo dos apóstolos com os líderes do Conselho Superior, ou Sinédrio, após sua segunda prisão. Para análise versículo a versículo, foram comparadas as versões Almeida Corrigida Fiel (ACF), Almeida Revista e Atualizada (ARA) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). V. 27 – O primeiro versículo serve de introdução ao diálogo. ARA prefere usar a transliteração do termo grego Sinédrio quando se refere ao conselho judeu, enquanto as outras versões usam simplesmente “Conselho”. Importa destacar que não se tratava de qualquer conselho, mas simplesmente da maior autoridade judaica em toda a Judeia. Isso pode servir de evidência para a importância da causa de Jesus e dos apóstolos. Uma segunda diferença está na interpretação feita por NTLH quanto à condição dos apóstolos diante do conselho. Na NTLH, diz-se apenas que “o Grande Sacerdote disse”, sendo que nas demais traduções prefere-se “o sumo sacerdote os interrogou”. O texto da NTLH pode levar a entender que a situação dos apóstolos era cômoda e que haviam sido convidados para um diálogo fraterno com os membros do conselho, o que não era o caso; a sua situação era de prisão e possível condenação à morte. Portanto tratava-se realmente de um interrogatório e julgamento. O grande sacerdote ou sumo sacerdote é a autoridade máxima dentro do conselho. Ou seja, o interrogatório dos apóstolos não foi conduzido por subordinados, mas pela liderança judaica responsável por toda a região da Judeia. V. 28 – Neste versículo, não há diferenças significativas entre as versões analisadas. Trata-se aqui das palavras do sumo sacerdote, inquirindo os apóstolos. Duas questões estão em pauta: a propagação dos ensinamentos de Jesus, o que lhes havia sido proibido segundo o texto, e a acusação de que o conselho tinha sido responsável pela morte de Jesus. Os versículos seguintes (29-32) apresentam a resposta de Pedro e dos demais apóstolos à pergunta do sumo sacerdote.
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V. 29 – O versículo tem duas partes. A primeira é uma introdução à fala, na qual se declara que a resposta que será dada não é exclusivamente de Pedro, mas de todos os apóstolos. A referência explícita a Pedro deve-se a seu papel de liderança. Na segunda parte, encontra-se o ponto alto do texto: a confissão de que importa obedecer a Deus e não às pessoas (NTLH). As versões ACF e ARA preferem o emprego do conceito “homens” como tradução do grego anthropōs, o que não está errado, mas pode ser indicativo de uma visão androcêntrica. O termo grego expressa o gênero humano; assim “as pessoas” expressa melhor o texto original. A resposta dos apóstolos contrapõe a obediência a Deus, ou o seguimento a Jesus, à obediência às leis humanas, ou do conselho diante do qual se encontravam naquele momento. Assim, não se trata de uma discussão abstrata, mas de uma escolha que ali deveria ser feita pelos apóstolos: continuar a confessar a Jesus ou negar os seus ensinamentos e submeter-se às leis do conselho. Não é a primeira vez que Pedro e João respondem ao Conselho Superior dessa forma. Já em Atos 4.19s, os apóstolos questionam as autoridades religiosas: “Os senhores mesmos julguem diante de Deus: devemos obedecer aos senhores ou a Deus? Pois não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido”. V. 30 – A diferença entre as versões reside numa inversão feita pela NTLH. Coloca-se primeiro a acusação de que os membros do conselho foram responsáveis pela morte de Jesus e, em seguida, afirma-se que o Deus dos antepassados o ressuscitou. Essa mudança leva a uma mudança de ênfase. O texto grego, ao qual as versões ACF e ARA são mais fiéis, afirma que o Deus dos pais ressuscitou Jesus, o qual havia sido morto pelos que agora interrogavam os apóstolos. Ou seja, trata-se de uma especificação do Deus a quem se deve obediência, referido no v. 29, e não de uma acusação ao conselho em primeiro lugar. V. 31-32 – Os dois versículos finais do texto não possuem diferenças significas entre as versões analisadas. Confessa-se a Jesus como o que está à direita de Deus, ou seja, que tem autoridade, e isso para que o povo de Israel tenha oportunidade de arrepender-se de seus pecados e receber a remissão/perdão. Já no último versículo, acentua-se o papel dos apóstolos como testemunhas do Cristo, que concede o perdão, mas igualmente se confessa que isso não é resultado de capacidade individual e mérito próprio, e sim fruto da ação do Espírito Santo, concedido pelo próprio Deus aos que fazem a sua vontade. Assim, no final do texto, evidencia-se um tema que é central no livro de Atos, qual seja, a ação do “Espírito Santo como aquele que confere força para o testemunho da palavra e que orienta as decisões e a missão da comunidade: 1.8; 4.8; 6.3; 8.29; 10.19; 10.44-48; 13.2-3; 15.8 e muitos outros” (SCHNEIDER, p. 72).
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Meditação
Há pessoas que vivem a vida buscando agradar os outros. Quando nos preocupamos excessivamente com o que as outras pessoas pensam a nosso res-
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peito, facilmente esquecemos a quem realmente importa agradar nesta vida: a Deus! O texto de Atos revela que agradar a Deus significa, muitas vezes, desagradar muitas pessoas. Os apóstolos estavam diante de uma grande decisão: agradar a Deus ou às pessoas? Eles sabiam que, ao optarem por Deus, isso poderia significar a morte, mas, mesmo assim, não tiveram dúvidas ao responder para os líderes religiosos judeus: “Nós devemos obedecer a Deus e não às pessoas”. Obedecer a Deus, agradar a ele e fazer a sua vontade pode significar ir contra interesses pessoais, políticos e sociais. No caso dos discípulos, significou fazer inimigos. Ministras e ministros religiosos têm a responsabilidade de testemunhar o evangelho, mesmo que isso signifique desagradar muitas pessoas. Quantos já passaram pela situação de, após uma pregação profética, ser abordados na saída do culto e ouvir: “Hoje a pregação foi muito dura”. A pregação não é um instrumento que serve para massagear o ego dos ouvintes. Ela é a Palavra de Deus sendo anunciada. Infelizmente, cada vez mais as pessoas vão apenas em busca daquilo que querem ouvir. Por isso igrejas que pregam a teologia da prosperidade conquistam tantos ouvintes. Temos a oportunidade de seguir a Jesus, que morreu por defender a justiça, a liberdade e o amor e ressuscitou para nos dar a salvação, mas muitas pessoas preferem seguir o Jesus que o ouvido quer ouvir. Numa pregação, nem sempre as pessoas vão sair felizes com o que ouvem. Não é esse o objetivo. O evangelho mexe conosco, abala as nossas estruturas, faz-nos questionar atitudes e rever a própria vida. A sociedade preocupa-se excessivamente com a opinião e a vontade das pessoas: “Ah, mas se eu deixar de fazer isso, essa pessoa vai ficar brava; se eu disser isso, posso ser julgado; é melhor não me envolver, já tenho tanto com o que me preocupar...” Preocupar-se com o que as outras pessoas pensam é perigoso, porque isso significa que facilmente esquecemos de fazer a coisa certa e fazemos aquilo que a maioria quer que façamos. A quem estamos agradando? Às pessoas ou a Deus? O servo de Jesus não pode agradar a Deus e às pessoas, e ainda assim continuar na condição de discípulo dele. Quando agimos assim, estamos simplesmente negando a nossa fé. Nosso viver diário deve ser coerente com o que determina a Palavra de Deus, ainda que isso desagrade muitas pessoas.
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Imagens para a prédica
O menino e o imperador Um menino estava sentado junto ao portão que dava acesso à propriedade de seu pai quando Napoleão aproximou-se com seus homens e queria cruzar aquela propriedade, porém o menino o impedia. Zangado, o imperador gritou com ele: “Menino, eu sou Napoleão Bonaparte, o imperador. Abra este portão!” Muito educado, o menino tirou o chapéu e perguntou: “O senhor vai querer que eu desobedeça meu pai? Este portão está fechado, aqui ninguém passa, conforme meu pai determinou!”
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Napoleão virou-se para seus generais e disse: “Deem-me mil homens como este, e conquistarei o mundo todo”, e foi por outro caminho (HORT, Mário. O Mensageiro, edição 2005, p. 42).
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Subsídios litúrgicos
É importante que durante toda a liturgia destaque-se a afirmação de Pedro e dos outros apóstolos: “Importa obedecer a Deus e não às pessoas”. Confissão de pecados Querido e amado Deus, confessamos que muitas vezes estamos mais preocupados em agradar as pessoas do que a ti. Confessamos que buscamos agradar as pessoas para obter benefícios e vantagens, mesmo sabendo que para isso precisamos fazer algo que não é da tua vontade. Confessamos que por medo e comodidade deixamos de ser voz profética neste mundo e fazemos aquilo que a maioria faz. Perdoa, Senhor, a nossa falta de compromisso com o evangelho. Perdoa-nos quando, por medo, covardia e comodidade, não testemunhamos em palavras e ações a nossa fé em ti. Perdoa-nos quando não temos coragem de dizer, assim como disseram os apóstolos: “Importa obedecer a Deus e não às pessoas”. Amém! Sugestão de hinos HPD 383 – A Lei do Senhor é perfeita; HPD 194 – Como tu queres, Senhor sou teu; HPD 411 – Se eu tiver Jesus ao lado; HPD 452 – Senhor, eu quero amar-te.
Bibliografia BIBLEWORKS – Versão 8.0. Norfolk: Bibleworks, 2009. SCHNEIDER, Nélio. Roteiro para a Leitura da Bíblia. São Leopoldo: Sinodal, 1996.
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PRÉDICA: JOÃO 21.1-19 SALMO 30 ATOS 9.1-6
3º DOMINGO DA PÁSCOA
10 ABR 2016
Luiz Carlos Ramos
Vinde, comei!
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Introdução
Os textos indicados para o Terceiro Domingo da Páscoa (Ano C) destacam a manifestação do ressuscitado à comunidade dos discípulos. Em João 21.14 lê-se: “E já era esta a terceira vez que Jesus se manifestava aos discípulos, depois de ressuscitado dentre os mortos” (v. 14). Neste terceiro domingo pascal, recordamos, portanto, esta que é a terceira manifestação, que é também a definitiva, a que durará para sempre (cf. MATEOS, p. 895). Atos 9 narra como Jesus teria vindo subitamente ao encontro de Saulo no caminho de Damasco. Na ocasião, Saulo repete a pergunta que também perpassa o Evangelho de João: “Quem és tu, Senhor?”. No evangelho, quando Jesus manifesta-se aos discípulos no Lago de Tiberíades (Mar da Galileia), “nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Porque sabiam que era o Senhor” (Jo 21. 12). Mas Saulo ainda não tinha esse discernimento. Ele o terá depois do encontro com o ressuscitado. Os paralelos simbólicos são vários: Saulo cai por terra e levanta-se da terra, enquanto Pedro se lança ao mar e com os discípulos salta em terra (ergue-se da água); Saulo fica três dias sem ver e sem comer, enquanto Pedro trabalha toda a noite (nas trevas) sem pescar nada, mas de manhã come a refeição preparada por Jesus; Saulo, que perseguia os do Caminho, reconcilia-se com Jesus, assim como Pedro, que negara Jesus, tem a oportunidade de reconciliar-se com o seu Senhor. Basta destacar do Salmo 30 o v. 5 para estabelecer a conexão com os demais textos: “Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã”. Pode-se relacionar esse canto de esperança com a pesca noturna infrutífera em contraste com a “pesca maravilhosa” ao amanhecer, bem como com o período de cegueira e abstinência de Saulo, depois do qual se seguiria um período de iluminação e discernimento sem precedentes.
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Exegese
Muito já se disse e escreveu sobre o Quarto Evangelho. Limitar-nos-emos a destacar aspectos gerais que ajudam na compreensão da perícope indicada para hoje. João é o mais tardio dos relatos evangélicos, fruto, portanto, de uma interpretação teológica mais elaborada. Por isso mesmo sua linguagem é repleta de simbolismos; dentre eles destaco aqui o contraste entre luz e trevas, noite e dia,
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anoitecer e amanhecer. De modo bem geral, pode-se dividir o evangelho em duas partes, girando a primeira ao redor da obra e da Páscoa do Messias, o chamado “Sexto Dia” (que vai até o cap. 19), e uma segunda, centrada na nova criação e na missão da comunidade, o “Primeiro Dia” (caps. 20 e 21). O texto que nos cabe está inserido neste último bloco. Alguns consideram o cap. 21 um apêndice ao livro, que parece ter uma conclusão já no cap. 20. Outros sugerem que a conclusão do capítulo 20 seria parcial, ao passo que a do capítulo 21 seria uma conclusão geral do evangelho. Outra maneira de entender o capítulo 21 é pensar que, assim como há um prólogo (cap. 1), haveria também um epílogo (cap. 21). Se no capítulo 20 o foco é a manifestação do ressuscitado à comunidade fechada dos discípulos, o do capítulo 21 trata da missão aberta ao mundo, migrando sua ambientação, portanto, da dimensão interna (comunidade) em direção à externa (mundo), simbolizada aqui pela pesca. Digno de nota é o contexto eucarístico. Há uma ceia no cenáculo (interna) e outra na praia (externa). A primeira dá-se ao anoitecer, a última ao romper da manhã. Também há inúmeros paralelos com a “multiplicação dos pães e peixes” (cap. 6): ambos os sinais deram-se no mesmo lugar junto ao Mar da Galileia (designação judaica) ou Mar de Tiberíades (denominação gentílica do mesmo lago); o número 200 aparece nas duas narrativas: “duzentos denários” e “duzentos côvados” (cap. 21); o termo usado para “peixe” (opsarion) é o mesmo nas duas ocasiões; os cestos sobejantes e as redes repletas a ponto de quase se romper; a “multiplicação” dá-se a partir dos pães e dos peixes ofertados por uma criança dentre a multidão, e a refeição na praia também é complementada pelos peixes trazidos pelos discípulos/pescadores, aqui chamados por Jesus de crianças/filhos; e, finalmente, a refeição com Jesus em ambas as ocasiões. Os discípulos mencionados em 21.2 são em número de sete (não se faz mais alusão aos doze): Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, os filhos de Zebedeu e mais dois dos seus discípulos. O primeiro nome é o de Simão Pedro, que havia negado Jesus, seguido por Tomé, que também demonstrara incredulidade, mas que já tivera sua oportunidade de reconciliação num outro “oitavo dia” (cf. cap. 20.26-28). A troca do número 12 pelo 7 parece indicar a ampliação da missão, inicialmente destinada à casa de Israel (12 tribos), para a totalidade dos povos, os gentios: a missão é universal. “Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Disseram-lhe os outros: Também nós vamos contigo. Saíram e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam” (21.3). Descreve os discípulos retornando às suas atividades cotidianas. Mas o fato de trabalharem à noite requer atenção. Nicodemos fora ter com Jesus à noite (cap. 3) e ouvira de Jesus “que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus” (v. 19-21). Por ocasião da cura do cego de nascença no cap. 9: “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (v. 4). Quando da ressurreição de Lázaro: “Não são doze as horas do dia? Se alguém
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andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz” (11.9). E na última ceia, indicando a ação do traidor: “Ele, tendo recebido o bocado, saiu logo. E era noite” (13.30). O Quarto Evangelho é um convite para a luz de um novo dia: “Mas, ao clarear da madrugada, estava Jesus na praia” (21.4). A manhã revela a presença de Jesus. No entanto, “os discípulos não reconheceram que era ele”, porque ainda permanecem fechados em si mesmos e insistem em trabalhar sem a vinculação com Jesus. No v. 5, Jesus pergunta: “Filhos [em gr. paidia = crianças], tendes aí alguma coisa de comer (para acompanhar o pão)?” A designação “crianças”, que lembra o episódio da multiplicação dos pães, quando uma criança pequena (paidarion) ofereceu os cinco pães e os dois peixes, sugere que os discípulos precisam reaprender a pescar como meninos (crianças) aprendizes. “Algo de comer”, vincula a missão à eucaristia, comer juntos. Da terra firme Jesus dá instrução aos pescadores que estão no mar (que simboliza mundo, alvo da missão), até então em vão esforço: “Lançai a rede à direita do barco e achareis. Assim fizeram e já não podiam puxar a rede, tão grande era a quantidade de peixes” (v. 6). Presume-se que essa era prática usual, que alguém ficasse na encosta, num lugar elevado, com visão privilegiada, observando a movimentação dos cardumes no lago translúcido. A visão de fora dá uma perspectiva que quem está dentro não tem. Com a orientação precisa do observador (“lançai a rede à direita do barco”), eles alcançam o sucesso na pescaria. Mas é preciso sensibilidade para perceber além do prosaico. Assim, “aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor!” (v. 7). A sensibilidade e a experiência amorosa abrem os olhos da fé. Esse é o mesmo discípulo que, diferente de Tomé, creu mesmo sem ter visto o corpo de Jesus (cf. 20.8). Aqui também é o primeiro a “crer”, mesmo sem reconhecer. Então, “Simão Pedro, ouvindo que era o Senhor, cingiu-se com sua veste, [...] e lançou-se ao mar” (v. 7). “Cingiu-se” lembra o ato de Jesus ao lavar os pés dos discípulos (13.4-5). E “lançou-se ao mar” relembra o episódio em que andou sobre as ondas com Jesus (cap. 6). “Ao saltarem em terra, viram ali umas brasas e, em cima, peixes; e havia também pão” (v. 9). “Brasas”, como na cena da negação de Pedro. “Peixes” (opsarion) já preparados, prontos para serem comidos, diferentes dos ichthyon (sing. ichthys) que estavam na rede (cf. v. 8). No entanto, no v. 9, “disse-lhes Jesus: Trazei alguns dos peixes (opsarion) que acabastes de apanhar”. De qualquer forma, a refeição é comum, e todos contribuem trazendo o que têm: Jesus dá pão e peixe, mas é preciso que também os discípulos deem a sua parte. A alusão aos “cento e cinquenta e três grandes peixes” (v. 11), três grupos de cinquenta mais três, parece ser outra conexão com a multiplicação dos pães, ocasião na qual havia uma multidão de cinco mil homens adultos (grandes), que, segundo Lucas, foram agrupados em grupos de cinquenta. Não obstante a quantidade e o tamanho dos peixes, “a rede não se rompeu”; o mesmo verbo (schizo) de 19.24, que menciona o fato de a túnica de Jesus não ter sido rasgada.
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“Disse-lhes Jesus: Vinde, comei” (v. 12). A eucaristia é aqui entendida como fonte e ápice da missão, ou ainda mais, a comunhão de mesa situada no próprio coração da missão. Dessa vez, “nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu?”. Pergunta que já havia sido feita em 1.19, vinda da parte de João Batista, e em 8.25, feita pelos judeus diante da afirmação de Jesus dizendo: “se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”. Essa seria a terceira vez que a pergunta poderia ser feita, mas já não era necessária. É na refeição comunal que o ressurreto revela-se abrindo olhos, mentes e corações dos discípulos. Podemos considerar essa a versão joanina da narrativa de Lucas, dos discípulos de Emaús (Lc 24.13ss). Veio Jesus, tomou o pão e lhes deu, e de igual modo o peixe (v. 13). O gesto de dar/repartir é a consumação da missão, tal como na “Última Ceia” e na “multiplicação dos pães”. “E já era esta a terceira vez que Jesus se manifestava aos discípulos, depois de ressuscitado dentre os mortos” (v. 14). A terceira vez é a última e a “definitiva, a que durará para sempre” (MATEOS, p. 895). O número três aparece reiteradas vezes em sentido figurado (2.1,6,9,20; 13.38; 21.11,17,17). Destacamos aqui apenas a relação com a negação de Pedro (13.38): três foram as ocasiões de negação, três são as de reconciliação. Como se verificará a seguir. “Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? [...]. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? [...]. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas?” (v. 15-19). A reconciliação de Pedro renova o convite ao pastoreio dos cordeirinhos e das ovelhas: “Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas” (v. 16). Apascentar implica cuidar, especialmente sair com as ovelhas em busca de alimento (pasto). Primeiro Jesus enfatiza o cuidado dos “cordeirinhos” (v. 15), os menores do rebanho, por último as “ovelhas” (v. 16-17), os adultos do rebanho. Se Pedro tivesse alguma pretensão de ocupar lugar de primazia como privilégio, aqui a situação se inverte. O primeiro papa (conforme a compreensão católico-romana) tem como tarefa cuidar primeiro das criancinhas, sem descuidar dos grandes. Mas o dever dos grandes é estar a serviço dos mais humildes. A perícope termina com uma alusão à morte de Pedro, o apóstolo, e a reiteração do convite ao discipulado. “Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (v. 18). Sugerindo o gênero de sua morte. Há tradições que sugerem que Pedro teria morrido crucificado. Clemente de Roma (que morreu em 95 d. C.) diz que a sua morte aconteceu no tempo de Nero por volta do ano 64. Outra tradição posterior diz que os romanos crucificaram Pedro de cabeça para baixo, a pedido do próprio apóstolo, que não queria vir a ser comparado com Cristo. Uma outra tradição diz que, no período em que devia ser crucificado, encontrou, às portas de Roma, Jesus, que lhe perguntou: Quo vadis? (aonde vai?). Porque isso teria
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acontecido enquanto Pedro estava fugindo de Roma para evitar a morte, o encontro teria mudado a sua decisão e o fez voltar a Roma para enfrentar seu destino. Pedro já havia feito a sua profissão de fé (6.68), mas agora chegara a hora de colocar sua fé em prática e à prova: “Depois de assim falar, [Jesus] acrescentou-lhe: Segue-me” (v. 19). O evangelho termina como começa, convidando ao discipulado (cf. 1.43). Seguir é o que fazem as ovelhas em relação ao bom pastor (cap. 10). O apóstolo também é um cordeirinho que segue os caminhos de seu bom pastor, que vai adiante, abrindo, pela eucaristia e a cruz, a comunhão e a paixão, o caminho da ressurreição.
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Meditação e imagens para a prédica
O Terceiro Domingo da Páscoa é ocasião para celebrar o reencontro com o ressuscitado na comunhão de mesa, na partilha da refeição comunal e na missão comunitária. Refeição para a qual nos achegamos trazendo o fruto do nosso trabalho solidário, para complementar com a nossa participação a refeição que Jesus mesmo nos oferece. Nesse sentido, seria interessante que, para este dia, os celebrantes não fossem os únicos a oferecer os elementos eucarísticos, mas que houvesse um processional de ofertório, no qual cada uma das pessoas presentes pudesse agregar algo à mesa comum. Nesse dia, quem sabe, a eucaristia pudesse ser uma refeição mais generosa, acrescentando ao cálice e ao pão outros alimentos (frutas, tipos variados de pão ou outros alimentos que caracterizam o contexto da comunidade). A participação das crianças merece ser destacada. Afinal, na multiplicação, uma criancinha foi a protagonista, e na pesca maravilhosa Jesus referiu-se carinhosamente a seus discípulos como “crianças”. Essa é também uma ocasião oportuna para os gestos de reconciliação. Se foram três as ocasiões nas quais Pedro negou seu Senhor, foram igualmente três as ocasiões em que o Senhor apresentou-se ressurreto, reconciliando consigo Pedro (a igreja) e o mundo inteiro. É ainda ocasião de renovação do compromisso com a missão de Deus no mundo, mas de maneira renovada, redesenhada. Não mais desconectada do Ressurreto, não mais na escuridão da noite, mas segundo as orientações que vêm daquele que, da “terra firme”, dá instrução para onde devemos conduzir nosso barco e onde devemos lançar nossas redes. Assim, renovamos o compromisso com a missão que é universal, que é colocada ao alcance de toda a humanidade, anunciando a aurora do “oitavo dia”, a nova criação, o tempo da vida plena e abundante, o tempo de Deus.
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Subsídios litúrgicos
Oração inicial Ó Deus, nosso materno Pai, nossos corações estão cheios de gratidão e louvor, porque tu nos reuniste novamente
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para podermos contemplar-te no rosto dos nossos queridos irmãos e irmãs e sentirmos novamente o teu amor como antes. Para o momento das preces Recebe em teus braços as nossas súplicas e conforta-nos com o teu amor, que é mais forte do que a morte. Recebe em teu colo a nossa lágrima e a nossa alegria e reparte conosco a vida da tua vida para sempre. Amém. Abertura do ritual eucarístico Amigos e amigas, o amor de Jesus é sem limites, sem idade; é amor por toda a humanidade. Esse amor é tão intenso, que nem a morte pode detê-lo. Por isso ele está vivo em cada um de nós, na lembrança dos seus gestos fraternos de solidariedade e partilha. Hoje repetimos esse gesto com saudade e o faremos até o último dia. Portanto: Elevemos nosso coração. Ao Senhor o elevamos... Canção para o momento eucarístico Peixe & Pão [Composição coletiva: Flávio Irala, Liséte Espíndola, Luiz Carlos Ramos e Paulo Roberto Garcia — Partitura disponível em http://www.luizcarlosramos. net/peixe-pao/] Rede trouxe peixe bom Nosso barco está repleto Sobre a mesa: peixe e pão Sobre a mesa: peixe e pão! Esperança e comunhão
Bibliografia BARCLAY, William. Juan II. Buenos Aires: La Aurora,1974. MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de São João: análise linguística e comentário exegético. São Paulo: Paulinas, 1989.
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PRÉDICA: SALMO 23 JOÃO 10.22-30 ATOS 9.36-43
4º DOMINGO DA PÁSCOA
17 ABR 2016
Wilhelm Sell
O pastoreio, o cuidado e a hospitalidade de Deus
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Introdução
Estamos no período pós-Páscoa. Algumas semanas atrás, pudemos vivenciar todo o significado da obra vicária de Jesus Cristo junto com os desdobramentos de sua ressurreição. É fato que inaugura em nossa fé a esperança que irrompe em nossas vidas enquanto indivíduo e pessoas. Esperança não só naquilo que vem após a morte, mas na própria vida e possibilidades de vida que surgem a partir dessa realidade que se fez história. Já agora se experimentam a nossa morte e ressurreição em Cristo, o que gera expectativa na própria criação, que aguarda nossa revelação enquanto filhos e filhas de Deus. Nitidamente, essa fé não convida a “fugir” do mundo, mas a agir nele, trazendo resquícios do reino de Deus para dentro da realidade após a queda. A igreja primitiva, descrita no livro de Atos, mostra-nos o desenvolvimento da vivência da fé, dos sinais do reino que irrompem a partir do pastoreio e cuidado de Deus. No texto indicado como leitura, Atos 9.36-43, encontramos a história da ressurreição de Dorcas, mulher reconhecida por seu envolvimento prático de fé, pois era “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (v. 36). Pedro, diante do pedido das pessoas presentes, ora a Deus pela falecida, que então passa a reviver. Essa história demonstra o Deus que continua presente de maneira pessoal em histórias de vida. Seu agir revela um Deus que se apresenta com cuidado, providência e diligência. Age como bom pastor que dá sua vida pelas ovelhas. Não qualquer pastor, mas o Deus Pastor. Suas ovelhas ouvem sua voz e o seguem. É isso o que nos falam o texto e o contexto do Evangelho de João (10.22-30). Diante do interrogatório Jesus revela-se. Ele é o bom pastor, enviado de Deus, o próprio Deus (“eu e o Pai somos um”). A imagem de Deus como bom pastor não é nova. Aliás, a figura de Deus como bom pastor tem toda uma carga simbólica que Jesus Cristo traz sobre si ao denominar-se de tal forma. Quem nunca ouviu o Salmo 23? É o texto previsto para este Quarto Domingo da Páscoa, sobre o qual queremos laborar abaixo.
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Exegese
O Salmo 23 é, por excelência, um salmo de confiança. Diferentemente da maioria dos salmos, onde se manifestam mais súplicas e orações, neste encontramos uma confissão na segurança que vem da parte de Deus como pastor e
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anfitrião, ao que parece fruto de uma experiência pessoal. Esse salmo torna-se um cântico de ação de graças, pronunciado dentro do templo como oração litúrgica para a celebração dos atos salvíficos de Deus. Seu período de surgimento é pré-exílico, provavelmente do tempo da monarquia de Davi. Nesse sentido, mesmo que seja controvertida a afirmação, entende-se que não há relevantes justificativas para não permitir a autoria ao próprio rei Davi; ou, em outro sentido, respeitar a intencionalidade histórica dessa atribuição. Torna-se um dos textos bíblicos mais conhecidos e populares de todo o universo judaico-cristão. São apenas seis versículos. Na versão hebraica, são cinquenta e seis palavras, ou seja, oito vezes sete, sendo que o número sete serve aos poetas hebreus como elemento estilístico que visava facilitar o impacto, a eloquência e a memorização dos poemas. Um dos motivos para sua simpatia e sucesso popular está ligado às duas imagens que o autor traz no poema. A primeira é a do Deus de Israel como pastor muito próximo da ovelha, que se sente acolhida de maneira pessoal (v. 1-4). Na segunda imagem, Deus é apresentado como anfitrião (v. 5-6), que recebe seu convidado, servindo-o e garantindo sua proteção. São duas imagens muito impactantes, metáforas que prendem a atenção do seu leitor, fazendo-o querer ter a mesma certeza, experiência e confiança em Deus. Sabemos que as figuras do pastor e do anfitrião são bastante conhecidas no contexto geográfico cultural do Antigo Oriente e, consequentemente, do Antigo Israel. Mas elas vão além! São imagens presentes que atravessaram os séculos, sendo assim continuamente acessíveis e compreensíveis. O salmista, enquanto locutor, fala a seus ouvintes sobre o comportamento de seu Senhor (v. 1b-3 e v. 6), enquanto que, num segundo momento, fala diretamente a ele (v. 4,5). É um poema que traz algo relativamente novo, que é a individualidade da experiência. Enquanto as imagens do pastor (divino) e do rebanho (coletivo) são bastante comuns e quase unânimes (Sl 80.2; Is 40.11; Jr 31.10; Ez 34.11-16; Mq 7.14), no Salmo 23 temos a experiência do pastor com uma só ovelha, descrevendo a atuação desse a partir da experiência de vida e fé da pessoa. Esse aspecto individual do poema também tem consequências para seu destaque. O Salmo 23 lembra a imagem trazida em Ezequiel 34.15a: Procurarei pela (ovelha) que se perdeu, farei voltar a que se dispersou, enfaixarei a que se quebrou e fortalecerei a que se retorce de dores. No entanto, o único momento em que um indivíduo confessa o Senhor como pastor pessoal acontece somente no Salmo 23 e em Gênesis 48.15. O Salmo 23 faz parte do primeiro saltério de Davi (Sl 3-41). Quando o poema é atribuído a ele, o leitor é convidado a recebê-lo como palavras do conhecido rei. Sabemos que Davi era pastor (2Sm 16.11) e que mais tarde pastoreou como rei o povo de Deus (cf. Sl 78.71-72). Há toda uma carga simbólica dessa sua função pastoral. Nesse sentido, torna-se significativo quando então se confessa Deus como o real e absoluto pastor. Essa confissão surge como proclamação da verdadeira hospitalidade e pastoreio, capaz de garantir bem-estar e sobrevivência. Esse conforto e proteção nem o homem mais “importante”, como o rei Davi, poderia dar, e sim, como ele mesmo confessa, somente Deus.
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a) O pastoreio do Senhor V. 1 – No primeiro versículo, encontramos a imagem de Deus como pastor. A ideia não é a distinção do pastor divino em relação a outros pastores, mas a descrição da atuação daquele. O anúncio dado aos ouvintes “O Senhor é meu pastor” é extremamente curto no hebraico; são apenas duas palavras, dispensando verbo auxiliar, destacando a ideia de Deus como o agente que oferece proteção e sossego. Esse é o primeiro lema do versículo em questão. Vale lembrar que a tarefa de pastorear no Antigo Israel não é vista de maneira romântica, mas como tarefa árdua, que exigia atenção e diligência no cuidado e manutenção dos animais (veja, por ex., Gn 31.38-40). Noutro momento do versículo, há a confissão “não sinto falta de nada”, um segundo lema, que também pela brevidade chama atenção para a plenitude da satisfação que se instala quando se é cuidado por esse pastor. V. 2 – Seguindo a apresentação, o salmista descreve de maneira completa a ação perfeita do pastor, justificando por que a ovelha não sente falta de nada. Ele oferece alimentos como pastagens verdes e águas em lugares de repouso. Essa realidade torna-se possível somente por causa da condução favorável do pastor. É sua atuação que restaura o vigor, dá novas perspectivas, possibilidades. Esse caminho de salvação rumo a uma situação de bem-estar e segurança passa pelas trilhas da justiça. V. 3 – É com justiça que Deus quer guiar o ser humano (Sl 5.9), pois ele pastoreia segundo o direito (Ez 34.16). A justiça, o direito e a retidão (Pv 2.9) são as trilhas pelas quais ele conduz seu povo. E esse caminho é conhecido! Desde as origens da história, Deus tem revelado sua vontade, que se transformou em ensino (mandamentos, torá). Feliz é quem sente prazer com esse ensino (Sl 1.2). No entanto, esse vai além de conceituações e com insistência desdobra-se na promoção da justiça, pensando no pobre, marginalizado e injustiçado. É pela promoção da justiça que o povo volta sempre ao templo e a Jerusalém (Sl 122). Fechando a primeira parte do salmo, o anunciante coloca o nome do Senhor como modelo de justiça. Assim como Deus santificou seu nome quando libertou seu povo da escravidão no Egito (Lv. 22.31-33), ele sempre estará com aquele que sente falta do que é necessário para a vivência digna. Nesse sentido, o pastoreio pessoal do Senhor é significativo. E é seu nome que dá a certeza desse cuidado e manutenção. b) O cuidado do Senhor V. 4 – Neste verso, a perspectiva do Salmo muda e o salmista passa a dirigir-se diretamente a Deus. A imagem e a experiência do pastoreio divino transformam-se agora numa alocução comprometedora de oração. Por meio dessa seu anunciante confessa de maneira prática sua confiança nesse pastoreio. Mesmo em situações extremas de perigo, com risco de morte, trazendo à memória a lembrança dos desfiladeiros e barrancos íngremes característicos da região desértica de Judá, que se acentuam na escuridão, a segurança continua por causa da diligência do pastor. Ele usa seu bastão para proteção e com o cajado segue firme no caminho e propósito. A palavra escuridão serve, na cultura do Antigo Israel, para ilustrar um lugar marcado pela opressão (Is 9.1-3), prisão, acorrentamento e miséria (Sl 107.10,14). Também a região pela qual Deus fez caminhar seu povo,
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quando o fez subir do Egito, é tida como terra árida e escura, lugar onde os seres humanos normalmente não caminham nem habitam (Jr 2.6). A escuridão simboliza o lugar onde a sobrevivência da pessoa ou sua dignidade não se encontram mais garantidas por causa de um poder opressivo que as nega. É nessa situação que o salmista confessa-se confiante no cuidado e na diligência do pastor. Diante dessa situação, o justo perseguido, que pronuncia sua confiança por meio das mesmas palavras, espera poder verificar o companheirismo confortante do Senhor ao andar num vale escuro como a morte. c) O Deus anfitrião V. 5 – O v. 5 inicia a segunda parte do salmo. Nessa encontramos outra imagem: Deus como bom anfitrião e a hospitalidade oferecida. Continuando a perspectiva do v. 4, o salmista dirige-se a seu Senhor, relatando como experimentou a ação hospitaleira dele como anfitrião. O primeiro aspecto vai de acordo com a cultura do Antigo Oriente de receber as visitas celebrando a hospitalidade e oferecendo a melhor possibilidade de alimentação. Além disso, traz certeza a partir da memória da ação de Deus no êxodo, quando preparou uma mesa para o povo no deserto após a saída do Egito (Sl 78.19). O segundo aspecto, a do agressor (adversários), refere-se a pessoas que causam aflições a outros. Esses podem ser conterrâneos que trazem pranto (Sl 6.7), escárnio (Sl 31.12), insulto (Sl 42.11), mas também invasores estrangeiros que ameaçam a paz e a segurança (Sl 74.13). Nesse sentido, o anfitrião dá garantias e conforto mesmo em meio à situação de perigo (Gn 19.4-11). O terceiro aspecto traz a ideia da cabeça ser oleada com perfume. “Composto por diversos aromas e tendo como base o azeite, o perfume oleoso refresca a pele da cabeça, favorecendo, desse modo, o repouso (v. 2b) e a recuperação do alento (v. 3a), devolvendo vigor ao corpo inteiro (cf. Sl 92.11)”. O quarto aspecto revela a hospitalidade oferecida com abundância: a taça transbordando significa alegria e bem-estar de coração (Sl 104.15). Em resumo, os aspectos trazidos nesse versículo são muito ricos em imagens e sensações para seu ouvinte. Além disso, a recepção com comida, bebida e unção remete à tradição da realeza, dando a ideia de ser recebido pelo próprio rei divino. V. 6 – Finalizando, o salmista muda a sua situação de perseguido pelos perigos e agressores a perseguido pela graça da bondade e misericórdia de Deus. Há aqui um paralelo com a ideia conhecida no Novo Testamento como metanoia, novidade de vida, que é oportunizada, gerada e construída pelo próprio Senhor. A bondade e a misericórdia tornam-se termos com os quais se celebra a nova situação. Acentuando esse estado de graça, termina contemplando a possibilidade de habitação, de permanência do estado, para a realidade de toda a experiência. O salmo termina assim revelando todo o movimento de Deus em direção ao ser humano. Revela segurança e proteção, oportunizando esperança em meio a realidades que a negam, e além disso inaugura um novo tempo de possibilidades, onde se celebram a paz, o sossego e sua permanência.
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Meditação
Karl Barth disse, certa vez, uma frase significativa ao teólogo preocupado em traduzir as Escrituras para a atualidade: “O cristão deve carregar em uma das mãos a Bíblia e na outra o jornal”. No momento em que esse auxílio exegético é escrito, vivencia-se um tempo de crise econômica e política, com novos escândalos de corrupção e moral. É um tempo marcado pela desesperança e desânimo da maioria dos brasileiros, segundo estatísticas recentes. Experimentam-se, nos últimos seis meses (janeiro a junho de 2015), alguns aumentos significativos: tributos, inflação, combustíveis, água, energia, alimentos, entre outros. Mas paradoxalmente as pessoas vivem de jeito altamente consumista. Parece que o lema do Império Romano em sua decadência, o carpe diem, “viva o hoje como se não houvesse amanhã”, está presente como jamais experimentado. O filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella tem chamado atenção para esse aspecto da vida contemporânea. Os jornais estão carregados de notícias a respeito de esquemas de corrupção e instabilidade no governo. Percebeu-se que não é um partido ou uma ideologia específica o problema, mas que a corrupção, a mentira, o descaso perpassam as estruturas de poder, que por mãos de pessoas oprimem, geram morte e causam grandes preocupações às pessoas que caminham nos trilhos da vida. Essa situação gera um forte sentimento de desesperança, que rouba das pessoas a capacidade de sonhar. Rouba a capacidade de acreditar que é possível ter escolas públicas de qualidade, hospitais que tratem as pessoas com dignidade, que é possível ter uma liderança política mais honesta e justa. Rouba a capacidade de sonhar com uma sociedade melhor e mais justa. Além disso, a desesperança sabota a nossa convicção de que vale a pena ser justo, afinal a injustiça virou a regra. Então se passa a pensar que não faz diferença ser justo. Por exemplo, pensemos uma vez na “ginástica” feita quando as pessoas declaram seu imposto de renda. A desesperança ainda rouba a convicção de que vale a pena ser bom. Afinal, de que adianta ajudar uma pessoa ou uma família a viver com mais dignidade se existem milhares delas vivendo de um jeito completamente indigno? E, por fim, a desesperança ainda nos tira a convicção de que vale a pena fazer a diferença. Fazer a diferença significa mudar vidas e realidades, levar a esperança de que a nossa realidade não é a realidade última, mas há um Deus que é o bom pastor que nos traz esperança e segurança em meio à desesperança e insegurança. O bom pastor deu/dá sua vida pelas ovelhas. Diante dessa realidade, o Salmo 23 mostra-se atual. Nele somos convidados a confessar, junto com o salmista, nossa confiança em Deus como pastor e anfitrião. Diante dos caminhos inseguros da vida, ele nos defende e guia com cuidado e diligência, levando-nos a lugares de satisfação e descanso. Refrigera-nos a alma, lembrando que sua vontade dá-nos a possibilidade de andar e inaugurar sinais de justiça para pessoas injustiçadas, de paz e liberdade para pessoas oprimidas pela situação vivencial, de esperança em meio ao caos. Esse Deus oferece-nos seu melhor, o Cristo, para que a vida transborde de alegria, derramando sobre todos a esperança que traz alento. Que em meio às estruturas de desesperança
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que perseguem a vida humana as pessoas cristãs possam ser chamadas sempre de novo a ser discípulas de Cristo, para que a sociedade se encontre constantemente perseguida pela graça, bondade e misericórdia de Deus.
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Imagens para a prédica
Improvisação sobre o Salmo 23 (Johnson Gnanabaranam) Não é uma criatura mortal, sujeita a sumir no mundo, não é um ser humano que muda a sua atitude, assim como faz o camaleão. És tu, o eterno Deus do amor, tu és o meu pastor. Tu não és nenhum ditador que oprime as pessoas, que não as deixa viver em liberdade. Tu não és nenhum mercador divino que troca virtude por riqueza. Tu és o bom pastor, que dá vida às ovelhas através da oferta da própria vida. Há quem diga: O Senhor não é o meu pastor. Há quem diga: Tudo me falta. Mas os que te conhecem dizem: O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Não sou eu – mas tu sabes onde se encontram os verdejantes pastos da paz. Lá me fazes repousar. Não sou eu – mas tu sabes onde correm as águas da alegria. Para lá me conduzes. As riquezas do mundo inteiro não são capazes de renovar minha alma. A sabedoria de todo o mundo não é capaz de renovar minha alma. Mas a tua graça refrigera e renova a minha alma. Tu me fizeste abandonar a vereda da injustiça.
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Tu me conduzes ao caminho da justiça. Com isso tua justiça se torna conhecida de todos. Não tenho medo da crueldade da morte. Não tenho medo do poder do mal. Porque tu, Ó Deus todo-poderoso, estás comigo. Tu sabes o que o futuro me reserva. Sabes o que é bom para mim agora. E eu sei que tu me amas, apesar de eu ser assim como sou. São estas duas coisas que me consolam. Tu me convidas para o grande festival, apesar de eu não ser digno. Tu me honras diante de meus inimigos. Por isso perdi o medo que antes me inquietava. Bondade me segue todos os dias da minha vida. Por isso tenho paz. Graça me segue todos os dias da minha vida. Por isso estou rodeado de salvação. Senhor, agradeço-te pela bondade e graça que me fizeste experimentar. Tu me convidaste a permanecer em tua casa para sempre. E tu me conduzes a ela. Viverei na companhia de pecadores transformados em santos. Esse convite me dá um antegosto da mais pura alegria. Amado Senhor, agradeço-te pelo poeta que escreveu o Salmo 23. Agradeço-te pelos poetas que escreveram cânticos como esse, que fortalecem a nossa fé. Desperta entre nós muitas pessoas como eles. Amém.
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Subsídios litúrgicos
Abaixo, uma meditação de Martim Lutero sobre o v. 5: “O meu cálice transborda” (in: http://www.luteranos.com.br/conteudo/o-meu-calice-transborda)
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Tal força, alegria e embriaguez bem-aventurada os crentes experimentam somente quando estão bem e em paz, mas, também, quando sofrem e morrem. Quando o Sinédrio de Jerusalém mandou açoitar os apóstolos, esses se alegraram com isso (Atos 5.41), e Paulo escreve em Romanos 5.3: “Também nos gloriemos nas próprias tribulações”. Mas, diz você, ainda não estou preparado a ponto de poder morrer alegre. Isso não faz mal, pois nem Davi dominou essa arte a todo momento. Também ele, por vezes, se lamentava estar rejeitado ante os olhos de Deus. De igual modo, também outros santos não estavam sempre cordialmente confiantes em Deus, e pouco agrado e paciência tiveram em suas tribulações e tentações. O apóstolo Paulo tinha momentos em que confiava com tanta segurança em Cristo, que nem a lei, o pecado, a morte e o diabo o faziam mexer-se (Gálatas 2.20; Filipenses 1.20; Romanos 8.35ss). Logo a seguir, porém, lamenta-se por ser o mais fraco e o pior pecador sobre a terra (1 Coríntios 2.3; Romanos 7.14,24; Gálatas 5.17). Por isso, você não deve logo desesperar quando se sente ainda fraco e pequeno na fé; pelo contrário, dedique-se à oração, pedindo que possa permanecer na palavra e cresça na fé e no conhecimento de Cristo.
Bibliografia GRENZER, Matthias. Pastoreio e hospitalidade do Senhor: exegese do Salmo 23. In: Atualidade Teológica. Revista do Departamento de Teologia da Puc-Rio, Ano XVI, n. 14, 2012, p. 301-321. KRAUS, Hans-Joachim. Psalms 1-59 – A commentary. v. 1. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1978.
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PRÉDICA: JOÃO 13.31-35
5º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 148 ATOS 11.1-18
24 ABR 2016
Ângela Lenke
O amor como princípio Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros (v. 35).
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Introdução
“Nós amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4.19). É um versículo muito conhecido e cheio de verdade. No entanto, parece que grande parcela das pessoas em nossa sociedade não deseja ir pelo caminho do amor. A cada dia vemos as consequências da falta de amor: aumento da violência, porte de armas, falta de respeito entre gêneros, falta de cuidado com crianças e idosos, desrespeito pelas vagas e acessibilidade das pessoas com deficiência, intolerância religiosa e étnica, desrespeito pelos enfermos e familiares. Poderíamos continuar a lista. Vivemos num tempo em que tudo precisa ser rápido, e a tendência é que as pessoas funcionem tão rapidamente quanto os computadores. Vivemos em grandes conflitos, e chega-se a afirmar que “não há tempo para amar”, para tomar um café em sua comunidade. Estamos mudando tudo e queremos que a igreja também faça tudo rapidamente. Mas o amor é paciente, bondoso e tolerante.
2 Analisando o texto bíblico Sobre o amor ser tolerante temos um exemplo no próprio texto. Jesus sabia quem era o traidor. Mas lavou os seus pés e deixou que comesse à mesa com os outros. A hora da crucificação aproximava-se, e ele sabia que estavam planejando matá-lo. Mas Jesus não maltrata Judas diante dos outros discípulos. Os dois falam numa linguagem que somente eles entendem, tanto que, quando Jesus diz a Judas para fazer logo o que deveria fazer, os outros discípulos achavam que era para comprar alguma coisa para a festa da Páscoa ou ainda dar dinheiro aos pobres, por ele cuidar do dinheiro do grupo. Quando Judas sai, Jesus sabe que seria apenas uma questão de tempo e logo o prenderiam. Ainda tinha que preparar seus discípulos para seguir unidos e acreditando nele. Ele não podia levá-los junto. No lugar de Judas um novo discípulo entraria, alguém que também tivesse convivido com Jesus desde o início, ou seja, Matias (At 1.15ss). Os discípulos correriam perigos, e Jesus estava entregando o testemunho nas mãos de homens e mulheres simples. Por isso deixa-lhes
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um segredo, para que essa comunhão na comunidade e com Jesus não quebre: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (v. 33). A glorificação de Jesus, consequentemente a glorificação do próprio Deus, passa pela cruz. Satanás vai pelo caminho curto. O texto deixa entender que, após receber o “bocado de pão com vinho”, Judas é dominado por Satanás para trair Jesus. Com Jó vemos algo parecido: Satanás só pode ir até onde Deus permite. Por amar sua criatura, Deus não deixa de testar o ser humano. Adiante no evangelho, vemos que o próprio Pedro é testado. Satanás tem as suas artimanhas e pode agir mesmo que pertençamos à comunidade de Jesus. Vacilamos como Pedro, negamos sem querer. Por isso Jesus é o glorioso! Sem ele nada somos. Ainda assim, Jesus chama seus discípulos para a nobre tarefa de testemunhar que o reino de Deus foi inaugurado: coxos andam, mulheres são respeitadas, crianças são cuidadas, o coração dos oprimidos e pobres é acalentado, enfermos são curados. Esses são os sinais do reino, sinais do amor, sinais do Senhor. A Lei serve para apontar o pecado, para que o ser humano perceba que não consegue cumprir a Lei por vontade ou força própria. Tudo foi purificado (At 11.9). A nova maneira de identificar-se como filho e filha de Deus passa pelo crivo do evangelho: o amor de Deus revelado em Jesus. Há um remédio contra toda prática de maldade: o amor. E “nisto conhecerão que são meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (v. 35). Pedro fala, em Atos, desse amor que vai além e alcança os gentios. Esses ouvem o evangelho e “se arrependem para a vida” (At 11.18). Sem amor a Jesus não há testemunho, porque levará à autobajulação e vanglória. Na prática do amor, o próprio Espírito Santo age. É o segredo: “amar a Deus e amar ao próximo, destes dois dependem toda Lei e os Profetas” (Mt 22.40).
3
Meditação
Jesus amava sua comunidade de discípulos e discípulas. Ele os havia encontrado em lugares simples, fazendo coisas simples e vivendo com suas famílias. Às vezes, percebemos que as coisas mais bonitas e que proporcionam alegria são as mais simples. Mas acabamos afastando-nos porque queremos “inventar” demais e, por querer inventar demais, acabamos não fazendo quase nada do que realmente importaria. Sabemos que cada pessoa é única. Por isso deveríamos valorizá-la mesmo se tivermos duas pessoas num grupo de estudo. A prática do amor depende de um coração bondoso. Onde há maldade, inexiste o amor. Algumas teorias dizem que nascemos sabendo amar, outras dizem que aprendemos a amar. Da mesma forma, a maldade. Vivemos numa sociedade onde vemos as duas coisas: pessoas que nasceram em situações de maldade não querem ser pessoas más. Por outro lado, pessoas que nasceram em contexto onde houve amor e nada faltou optam pela prática do mal. Essa dualidade existe em todos nós. Há mistérios que não conseguimos compreender. Se não fosse tão nosso, não cometeríamos tantas incoerências. Mesmo batizados na morte e ressurreição de Jesus, Adão e Eva continuam existindo em nós. Poderíamos, então, dizer que, se as pessoas respeitassem o próximo e vivessem eticamente, não teríamos tantas cenas de violência e desrespeito. Sim,
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seria uma regra de sociedade. Deus também deu regras ao povo de Israel, e no entanto falharam. Justamente por falharmos, Deus enviou Jesus Cristo para reconstruir a ponte da amizade entre o Criador e as criaturas. Fomos feitos filhos e filhas porque não sabemos andar longe do olhar do Senhor. Fomos aceitos porque o amor de Deus é maior do que o nosso. Por causa desse amor e da expectativa de responder ao chamado de Jesus para ser “sal e luz” neste mundo, muitas vezes partimos para a ação e queremos fazer tudo. Ficamos sobrecarregados quando alimentamo-nos de nós mesmos e não buscamos glorificar a Deus. Por isso Jesus lembra: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste” (Mt 6.1). Jesus deixa bem claro no texto (v. 35) que somente através do amor mútuo seremos reconhecidos como discípulos e discípulas. Importante reflexão para nossas comunidades, porque nenhuma delas vive sem conflito. E o amor é espontâneo, paciente, bondoso, não busca vingar-se. Comunidades quebram quando o outro ou a outra deixam de ser importantes e quando esquecem de defender a vida. Nossas lideranças também não podem esquecer que correm grande risco de servir sem amor, de alimentar-se de si mesmas e de mostrar ao mundo quão grandes coisas podem realizar. Nos grupos, importa viver o amor mútuo, o aconselhamento e a compreensão em vez de competir entre si. Não amamos por nós mesmos porque não merecemos. Amamos por causa de Cristo. Quem crê em Jesus Cristo terá consciência de que sempre há alguma coisa por fazer (Gl 5.6) e de que é o próprio Deus que precisa atuar, através do Espírito Santo, em nós. Lutero dizia que, ainda que o mundo estivesse acabando, plantaria uma macieira. Somos amados por Deus, portanto amemos uns aos outros e estaremos perto dele. Lutero escreve a respeito desse texto: Se escolho uma ou duas pessoas que me agradam e fazem o que quero, e sou amável e favorável a elas e a mais ninguém, isto nem de longe é amor quem de um coração puro, mas é pura sujeira. Pois de coração puro é assim que ele funciona: Deus me ordenou que devo ter amor pelo próximo e ser favorável a todos, amigos ou inimigos, assim como procede nosso Pai celeste, fazendo o seu sol levantar-se e brilhar sobre bons e maus (Mt 5.45). Amor verdadeiro, divino, inteiro e completo é o que não faz exceção, nem se divide ou fragmenta, mas é dirigido livremente a todos. O outro é um amor perverso, quando tenho amizade por aquele que me serve, pode me ajudar e me prestigia, enquanto odeio aquele que me despreza e não está do meu lado; pois esse amor não vem do fundo de um coração fundamentalmente bom e puro, que trata um como o outro; é um amor que apenas busca a própria vantagem e está cheio de amor para consigo próprio, e não para com os outros; pois não ama a ninguém a não ser em causa própria, buscando apenas o que lhe serve, seu próprio proveito junto a cada pessoa, e não o proveito do próximo (OS 5, 92 ou na Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero).
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Imagens para a prédica
Existem várias histórias bonitas de amor ao próximo. Talvez até na própria comunidade haja uma história bonita. Trago uma história que Alcides Jucksch escreveu no livro Amor sem Fronteiras, p. 44: Sundar Singh foi um evangelista no país do Tibete, terra com montanhas muito altas. Ele contou: ‘Certo dia caminhei junto de mais um tibetano. Fomos atingidos por uma tempestade de muita neve e intenso frio. No caminho encontramos um homem prostrado sem sentidos no chão. Eu disse para meu amigo: ‘Nós devemos ajudá-lo’. Porém ele respondeu: ‘Ninguém pode exigir de nós salvá-lo. Estamos em perigo de morrer na neve e no frio. Além disso, estou cansadíssimo’. Eu disse: ‘Se temos que morrer, é melhor morrer enquanto estamos ajudando ao próximo’. Ele não concordou e continuou sozinho o caminho. Eu, porém, com muito esforço, coloquei o desmaiado sobre os meus ombros e continuei a subir a montanha. O esforço de carregá-lo me esquentou e o calor do meu corpo transmitiu-se ao homem endurecido pelo intenso frio. O resultado foi que ele se sentia melhor quando chegamos na próxima aldeia. Porém, aquele homem que tinha continuado sozinho sua jornada, achei-o ao lado do caminho, duro e frio na neve. Evidentemente ele, cansado como estava, deitou-se para descansar um pouco e morreu gelado. Então, lembrei-me daquilo que Jesus disse, que aqueles que querem guardar a sua vida, perdê-la-ão. Eu queria salvar aquele homem, mas, enquanto estava ocupado em ajudá-lo, eu mesmo me salvei da morte na neve. Se pensarmos egoisticamente somente em nós, a nossa vida na fé esfria e pode morrer.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados Misericordioso Deus! Confessamos que não temos vivido nem servido como o Senhor deseja. Nossos pensamentos e nossas atitudes estão cheios de egoísmo e vanglória. Não olhamos o próximo como semelhante nem respeitamos as diferenças entre raças e credos. Esquecemos de defender a vida e, muitas vezes, queremos fazer conforme nossa inteligência, quando deveríamos buscar tua orientação. Perdoa-nos, Senhor, por sempre de novo deixarmos de amar. Tem misericórdia! C: Tem misericórdia de mim... (HPD 408) Anúncio da graça Diante da nossa confissão e da incapacidade de amar incondicionalmente Deus nos diz: Será que uma mãe pode esquecer o seu bebê? Será que pode deixar de amar o seu próprio filho? Mesmo que isso acontecesse, eu nunca esqueceria vocês (Is 49.15).
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Kyrie Eleison L: Clamamos, Senhor, pela falta de amor em nossa sociedade; pela violência que assola nosso país, nossas casas, nossas igrejas; pela falta de igualdade e justiça; pela falta de paz em todo o mundo; pelo egoísmo e consumismo; pela natureza que chora. C: Ouve, Senhor, eu estou clamando, tem piedade de mim e me responde (HPD 341). Sugestão de hinos HPD 170 , OPC 206 ou HPD 399, HPD 417, HPD 430, HPD 347. Bênção O Senhor te abençoe com a bondade da criança; o Senhor te abençoe com a ternura da paz; o Senhor te abençoe com a leveza das borboletas e dos passarinhos; o Senhor te abençoe com o seu amor, único e incondicional, revelado em Jesus Cristo e na presença do Espírito Santo. Amém.
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6º DOMINGO DA PÁSCOA
01 MAI 2016
(DIA DO TRABALHO)
PRÉDICA: GÊNESIS 2.7-17 MARCOS 2.23-28 1 TESSALONICENSES 2.3-12
Hans Alfred Trein
Trabalho humanizado numa terra humana
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Introdução
O tema do trabalho é a chave para a leitura sinótica desses três textos que, por si só, não têm muito a ver um com o outro. Lendo-os em separado, certamente não chegaríamos a estabelecer vínculos entre eles. Sobretudo o texto da pregação é extremamente rico em diferentes possibilidades de abordagem. Os textos de leitura e a ocasião do Dia do Trabalho indicam o caminho deste auxílio homilético: o foco no trabalho. O trabalho no texto de prédica é, fundamentalmente, a criação de Deus. Ao ser humano resta o mandato de cultivar e guardar essa boa criação paradisíaca, uma atividade leve, quase um hobby, como cuidar de um jardim, que ainda não tem nada da concepção de castigo implícita “no suor do teu rosto comerás o teu pão”. Ainda tem muito do “trabalhar para viver e não viver para trabalhar”. Lembra-me a colocação de Santiago Guarani, dizendo que tem pena dos brancos porque se matam trabalhando e têm muitas preocupações ao invés de prestar atenção nas coisas essenciais da vida e confiar na criação que alimenta essa geração e, em sendo bem cuidada, também as próximas. Na leitura de Marcos, tematiza-se o conflito entre a boa lei do descanso e a sua aplicação inflexível, quando se trata de superar necessidades imprevistas ou ocasionais. Com os tessalonicenses Paulo discute uma possibilidade de divisão do trabalho: pelo senso da época, ele e seus colaboradores poderiam exigir ser sustentados pelos destinatários da pregação do evangelho; entretanto, ao lado, ainda trabalham produtivamente para o próprio sustento. A associação desses três textos fornece-nos os três itens para a pregação: o trabalho criativo de Deus (gratidão e louvor), o direito (e não a obrigação ritual) ao descanso, a divisão do trabalho.
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Considerações exegéticas
O texto da prédica faz parte da narrativa mítica da criação oriunda da tradição oral agropastoril de Israel no período tribal, tendo sido registrada por escrito provavelmente no período do rei Salomão. A narrativa tem o cheiro da terra. A terra é o organismo vivo que fornece a matéria-prima para formar os humanos e fazer brotar toda sorte de árvores, inclusive a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
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Duas palavras, adam e adamah, merecem atenção especial. A tradução do Almeida Revista e Atualizada peca por imprecisão quando se vale de diferentes termos para a mesma palavra adamah. Às vezes, utiliza a palavra solo, outra vez pó da terra. A NTLH em sua versão não tem fidelidade terminológica e assim encobre relações intrínsecas entre a terra, humanos, animais e árvores. A Edição Pastoral traduz por “argila do solo”. Nenhuma utiliza a palavra húmus. A terra da qual Deus formou o humano não é qualquer tipo de solo; é terra agricultável, terra de plantio, aqueles 12 a 15cm de solo fértil e vivo que chamamos de húmus. Um punhado desse húmus contém bilhões de microbiologia viva. Os humanos, portanto, são partes dessa camada de húmus, animados pelo sopro de Deus. O vínculo linguístico aqui é fundamental. Assim como Adam tem uma relação imediata com a adamah, os humanos têm uma relação direta com o húmus. Para permanecer humano, essa relação não pode ser perturbada e muito menos interrompida. O humano é o próprio húmus que anda, que sente, que pensa e que ama. O vínculo com o sopro de Deus atribui-lhe a função de elo de ligação entre Deus e terra. Esse vínculo de terra e sopro divino constitui a humanidade. Quando Deus busca de volta o sopro de vida concedido, o humano volta a ser húmus. “Terra à terra, cinza às cinzas, pó ao pó. Da terra foste formado, à terra tornarás”... Tanto me parece belo quanto consolador estar integrado no ciclo da vida dessa forma, estando animado pelo sopro divino. Em Gênesis 2.19, também os animais são formados do mesmo material que os humanos. Assim, os indígenas entendem que o nosso vínculo com os animais é a humanidade e não a animalidade. Em Eclesiastes 3, surpreendemo-nos com a seguinte afirmação: Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais, porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. Quem sabe que o fôlego de vida dos filhos do homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra (v. 19-21)? Ou seja, toda a vida humana, vegetal (brotam da terra) e animal tem o seu vínculo existencial com a terra. A ameaça ou agressão a qualquer manifestação da vida também fere a terra. A terra abre a sua boca para receber o sangue de indígenas, escravos, Abéis de todos os tempos, declarados não pessoas, invisibilizados (Gn 4.11). Aliás, essa ligação intrínseca entre terra e as criaturas permeia praticamente todas as mitologias indígenas. O trabalho criativo é de Deus. Aos humanos resta cultivar e guardar. Para que os humanos não pensem de si mais do que devem, nada há do que descobriram, inventaram ou ainda venham a descobrir que já não tivesse sido criado antes. No v. 15, a palavra hebraica traduzida por cultivar é abad (trabalhar). Esse é, portanto, o trabalho humano: cultivar e guardar como bons mordomos da criação de Deus.
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Meditação
Por que Deus proibiu comer da árvore do conhecimento do bem e do mal? Será que Deus é contra que os seres humanos busquem ampliar o seu conhecimento? A sedução da serpente responde essa pergunta em parte: “sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal” (v. 5). Provérbios 3.13-18 justamente declara feliz a pessoa que acha sabedoria e adquire conhecimento. De outro lado, cabe a pergunta: é lícito fazer tudo o que estamos em condições de fazer? Esta pergunta é controvertida, pois, no seu período de maior poder, a igreja procurou controlar a ciência e impedir seus avanços. Mais adiante, o modernismo lambuzou-se com uma ciência que não admitia qualquer indício de pergunta pela ética, pois logo a repudiava como censura indevida (qualquer semelhança com as reações da nossa mídia privatizada não é mera coincidência!). Só que nenhuma ciência é neutra e muito menos ingênua. Com raras e honrosas exceções, está a serviço de seus financiadores. Por exemplo: os ideólogos da “revolução verde” na agricultura sabiam exatamente a que interesses corporativos multinacionais estavam servindo, a saber, à indústria química e mecânica da lavoura. Não apenas conquistaram espaços comerciais, mas também ganharam professores universitários que, em lugar de agrônomos, passaram a formar vendedores de adubos e defensivos químicos, tratando a terra como um mero substrato arenoso que serve de base para as plantas. Tudo em nome da facilitação do trabalho no campo e da produção de mais alimento para um mundo faminto. Entretanto, depois de poucas décadas, você ouve falar de processos de desertificação nas áreas exauridas por esse modelo? Hoje repete-se a mesma cantilena com os transgênicos. A rede da vida é como uma teia de aranha. Se você puxa um fio, mexe na rede toda, pois tudo é interdependente. Somos capazes de administrar esse conhecimento? Em Gênesis 3.7, depois de terem comido da árvore do conhecimento do bem e do mal, “abriram-se, então, os olhos de ambos...”, ou seja, o efeito do conhecimento tornou-se realidade. A seguinte percepção de sua nudez tem menos a ver com sexualidade e mais a ver com o sentimento de se ter exposto a um conhecimento que não se sentiam aptos a administrar. Atualizando: estamos em condições de avaliar adequadamente para nós, para as futuras gerações, para o planeta Terra os efeitos da aceleração do crescimento, da ideia de que é possível crescer – produzir e consumir – ilimitadamente num planeta limitado, do esgotamento dos recursos fósseis, do aquecimento global, da manipulação genética, da operação com células tronco, da lenta e progressiva extinção de espécies e redução da biodiversidade, das frações de aumento na temperatura do mar, da cibernética...? O progresso tecnológico, sobretudo o eletrônico e informático, dos últimos anos reforçou nos humanos o orgulho de poder tudo. Paulo, apóstolo, diria: Tudo nos é lícito, mas nem tudo convém. Estamos em condições de definir o que convém e o que não convém? Os cientistas nem mesmo se entendem quanto às causas do aquecimento global: se são antropogênicas ou devidas a grandes ciclos cósmicos. Não há uma resposta inequívoca. Essa é a nossa nudez até os dias de hoje.
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O trabalho de Deus é criativo. O trabalho humano é apenas de transformação do que foi criado. Não custa lembrar a famosa descoberta de Lavoisier no século 18: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Ao longo da história, o trabalho foi um espaço de realização humana, mas também de sujeição e exploração. No exílio babilônico, formula-se o primeiro relato da criação, organizando as obras de Deus pelos dias da semana e acentuando o descanso no shabbat. Se Deus descansou, os seres humanos também têm direito ao descanso. Esse certamente foi um grande ganho civilizatório, não apenas para oportunizar a recuperação da força de trabalho, mas também como uma confissão de fé: a manutenção da criação de Deus não depende do nosso trabalho. A criação de Deus é tão bem feita, que ela pode muito bem viver sem a intervenção do trabalho humano. Por isso trabalhar durante o shabbat chegou a ser considerado uma blasfêmia, ou seja, uma forma de negar a autossuficiência da criação de Deus. É nessa lógica que os fariseus manifestam a sua estranheza quanto à colheita das espigas durante um shabbat. Por outro lado, a nossa sociedade de produção e consumo inventou o trabalho de 24 horas em turnos; o comércio quer avançar a qualquer custo no dia de descanso, pois quer mais oportunidades de venda. No início do milênio, as igrejas alemãs opuseram-se veementemente a esse verdadeiro assalto ao dia de descanso com o slogan: sem dia de descanso, teremos apenas dias de trabalho. Ou seja, a crítica implícita era que se estava voltando para uma espécie de escravidão moderna que obriga pessoas a trabalhar e produzir e constrange pessoas a consumir para que o sistema sobreviva. O comércio entendeu que estava rivalizando com a igreja pelo mesmo público, pois não consegue mais pensar em outra categoria senão a da concorrência. Ao longo da história, também sempre houve uma relação tensa entre o trabalho manual e o trabalho intelectual. De um lado, trabalho verdadeiro é o trabalho manual, produtivo de bens materiais, o trabalho pesado, corporal, que faz a gente suar a camisa. Dessa perspectiva, o trabalho intelectual nem mesmo pode ser chamado de trabalho; fica mais no nível do passatempo sem nenhum esforço ou cansaço físico, sem o famoso “suor do rosto”. Certa vez, ao viajar para o Vale da Serra Azul/MT para visitas a membros e culto ao domingo, passei pela roça do Romalino, que estava colhendo arroz. Quando veio na direção do fusca da paróquia, parou e perguntou: “Passeando, pastor?”. Eu retruquei: “É, se tu tiveres passeando na tua colhedeira, eu também estou passeando com o fusca da paróquia!”. Por outro lado, em termos de remuneração, o trabalho intelectual, incluindo aí as artes e os esportes, sempre foi mais valorizado do que o trabalho manual e corporal. Inclui-se aí o salário pastoral, que para muitas famílias do interior agrícola é bem alto. Nessa mesma comunidade, certa vez, encontrei um caminhão carregado de arroz com a ponta de eixo quebrada. Membros da comunidade estavam transferindo a carga para outro caminhão. Eu me atraquei junto, era jovem, tinha vigor... Durante a atividade, propus que, nos períodos de preparação da terra e de colheita, eu trabalhasse de saqueiro, na manutenção das máquinas, na aragem da terra... Ninguém topou! Será que não acreditaram? Será que não me
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concediam que eu aguentaria? Será que em sua opinião esse trabalho não era digno o suficiente para um pastor? Anos mais tarde, noutra paróquia, repartindo um pastorado com a família pastoral Gaede, em Erval Seco/RS, fizemos interessantes experiências na combinação de trabalho pastoral e trabalho na terra. O nosso slogan era: queremos tornar-nos mais próximos e parecidos com agricultores, para que as famílias agricultoras se tornem mais próximas e parecidas com famílias pastorais. Queríamos intervir na cultura do trabalho, dignificando o trabalho na terra e tirando do trabalho pastoral a pecha de ser um exercício diversionista, além de repartir a responsabilidade por ele com todos os cristãos e cristãs batizados daquela paróquia.
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Imagens para a prédica
O trabalho humanizado numa terra humana dá-se no seguinte horizonte: Quando chegamos, a terra já estava aqui. Quando todos partirmos, a terra seguirá aqui também. O pó de tudo o que existe está aqui, tudo retorna à terra e a terra sobreviverá por muito tempo quando nós também voltarmos a ser pó. Se pegarmos a terra… podem pegar, não é sujeira. A terra tem muitos segredos a revelar. Em cada centímetro cúbico há milhões de micro-organismos, trabalhadores anônimos, que são responsáveis por mantê-la viva, fértil. Os adubos químicos matam parte desses micro-organismos; já o adubo orgânico é apenas o retorno à terra daquilo que um dia já foi terra. Vejam agora essas sementes; cada uma tem seu próprio rosto. Como as sementes chegaram até nós? Por séculos e séculos, lavradores colheram e replantaram, escolheram e cuidaram da terra, das plantas e das sementes. É preciso reproduzir esse ciclo. Transformações sutis foram acontecendo ao longo dos séculos e séculos, com uma complexidade que está além de nossa capacidade de compreensão. Os transgênicos interrompem esse processo natural. Devemos rezar pelos cultivadores das sementes crioulas, pois são eles que garantirão o futuro de nosso alimento. Somos 70% água, água em movimento. A que agora está em nosso corpo logo poderá estar naquele córrego, numa nuvem ou irrigando uma plantação. Poluir a água é poluir o nosso corpo; não há separação. Tudo está em tudo. A substância que nos forma é a que está na terra e que vem até nós com o alimento e a água. Introduzir veneno em qualquer etapa desse ciclo significa envenenar o sistema do qual nós – assim como nossos filhos e filhas, netos e netas – fazemos parte.
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Subsídios litúrgicos
Oração de coleta Santo Deus, Criador Todo-Amoroso! A tudo criaste com perfeição, concedendo a nós humanos o privilégio de cultivar e preservar o teu jardim. Pedimos que nos assistas com o teu Santo Espírito para que orientemos o nosso trabalho no sentido de aproveitar o que nos colocas à disposição e de cuidar para que também
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as futuras gerações possam viver em paz. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. Amém.
Bibliografia O texto das imagens para a prédica procede da seguinte fonte: AYER, Maurício. Que alimentamos, quando nos alimentamos. Disponível em: <http://outraspalavras.net/brasil/que-mundo-alimentamos-quando-nos-alimentamos/> Acesso em: 04 jun. 2015.
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ASCENSÃO DO SENHOR
PRÉDICA: MATEUS 28.16-20
05 MAI 2016
SALMO 93 ATOS 1.1-11 Roberto E. Zwetsch
Mateus e o discipulado precioso: adoração, dúvida e ortopráxis
1
Introdução
A crise que vivemos na igreja cristã dos nossos dias vem de longe. Talvez, sendo honestos conosco mesmos e com a história cristã, crise na igreja de Cristo é uma experiência permanente, contínua, não nos deixa sossegar, não nos permite cochilar ou “entrar em férias”. E isso porque não somos o que queremos e dizemos ser. Vivemos divididos entre uma vida fiel e de adoração ao Jesus que é nosso Mestre e Senhor e a traição ao seguimento, a dúvida atroz que nos tenta atrás de cada desculpa para nos isentar do discipulado, da caminhada missionária que nos poderia levar aos vizinhos, aos mais empobrecidos dos nossos semelhantes ou até aos confins da terra. Uma igreja cristã que se imagina pronta, bem-sucedida e farta de bens e frutos provavelmente já começou a negar o caminho de Jesus e a prática da justiça ao evitar a cruz e o arrependimento diário e libertador, a volta ao primeiro amor, quer dizer, a busca pelo reino de Deus e sua justiça (Mt 6.33), já aqui neste mundo pleno de possibilidades, mas também carregado de injustiças, frustrações, ilusões, fragilidades, violência e morte anunciadas e, muitas vezes, negadas. Nesse contexto difícil e desafiador, é muito oportuno que a série de perícopes para a pregação nos brinde outra vez com a chance de retomar esse verdadeiro “testamento de Jesus” que o evangelista Mateus deu-nos a conhecer de uma forma extraordinária e única. A oportunidade também pode ajudar a desfazer certas interpretações equivocadas dessa perícope – eminentemente missionária – e a procurar por novas interpretações mais justas para com o autor e desafiadoras para a comunidade que se dispõe a ouvir essas palavras e pô-las em prática. Esta perícope já foi trabalhada anteriormente por vários colegas. No PL 10 (1984), pelo colega P. Günter A. Wolff; no PL 30, texto do P. em. Wilfrid Buchweitz; no PL 34, pela colega Pa. Scheila dos Santos Dreher; e no PL 35, quem escreve é o colega P. Antonio Carlos Ribeiro. A quem puder, sugiro que consulte esses textos, cada qual com uma perspectiva própria de interpretação, que aponta para dimensões particulares do texto.
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Detalhes exegéticos
David J. Bosch, teólogo reformado da África do Sul, legou-nos um livro que vem se tornando clássico no estudo da missão da igreja na perspectiva da
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missão de Deus. Trata-se de Missão transformadora, traduzido e publicado pela Editora Sinodal em 2002, já com várias reedições. Uma das contribuições mais importantes de Bosch é sua fundamentação bíblica. Ele escreve 200 páginas para nos aproximar da caminhada missionária de Jesus, que dá origem à missão cristã. Ele reconstrói alguns dos modelos neotestamentários de missão e apresenta três paradigmas que remontam à igreja do primeiro século: Mateus, Lucas (evangelho e Atos) e Paulo. Aqui vou me valer especificamente de sua acurada releitura da teologia missionária de Mateus e, especialmente, de sua instigante interpretação do texto que vamos estudar e cuja mensagem queremos anunciar ao povo das comunidades. Para começar, sugiro que não se fale aquele subtítulo que praticamente encontramos em todas as diferentes traduções da Bíblia, isto é, a “Grande comissão”. Justamente pela importância desse trecho final do Evangelho de Mateus, é triste como na história da missão cristã, pelo menos no âmbito do protestantismo, se utilizaram mal essas palavras de Jesus, isolando-as do seu contexto maior, que é o próprio evangelho do qual elas são como que um clímax, um verdadeiro resumo. É um equívoco ler esse texto e interpretá-lo como se fosse uma “teoria da missão” com passos claros e insofismáveis de como “fazer missão” e angariar novos membros para a nossa igreja. Bosch alerta para o que segue. Várias pesquisadores e teólogas que estudaram Mateus são unânimes em alguns reconhecimentos: a perícope de Mateus 28.16ss seria algo como o “manifesto”, o “sumário” ou a “culminação” que coroa o evangelho. Mas isso não significa que se utilize a “grande comissão” como base bíblica – por vezes exclusiva – para a missão cristã, como mero slogan de uma teologia de missão que já está pronta, antes mesmo de reler e compreender o Evangelho de Mateus. Mateus é membro de uma comunidade cristã possivelmente situada na Síria (4.24), de tradição judaica, mas que vive uma forte crise entre a fidelidade à tradição judaica da Lei e a abertura para os gentios aos quais o evangelho foi anunciado e que o receberam “no poder do Espírito”. Seguramente o evangelho foi escrito no final da década de 80 d.C, pois algumas passagens só se entendem considerando que Jerusalém já foi destruída pelos romanos (em 70 d.C) e os fariseus já assumiram a direção da sinagoga e endureceram sua rejeição aos seguidores e seguidoras de Jesus. É uma comunidade que vive uma crise de identidade: pode ela continuar como um movimento dentro do judaísmo e apegar-se à Lei? Pode desistir de encarar Jesus como mais do que um profeta, quer dizer, reafirmar que, além de Mestre, ele é o Senhor? Pode desistir da missão aos demais judeus? E de uma missão que vai adiante e se estende ao mundo e “às nações”? Mateus é o mais judaico dos evangelhos (Mateus 15.24), mas bem aí se revela também como quem desafia a superar esses particularismos, quando faz o elogio à fé da mulher cananeia (15.24). Jesus é para os judeus, sim, mas também para as nações. Por isso Jesus em Mateus faz outros elogios à fé dos gentios, começando com os magos do Oriente que visitam o menino recém-nascido, o centurião romano e os soldados na crucificação e a inversão que encontramos no discurso escatológico de Mateus 25. Ocorre, porém, que o Jesus terreno só se torna Senhor para a
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humanidade depois da morte na cruz, não antes. E isso está bem presente nessa perícope. A autoridade que Jesus recebe e da qual está revestido é a autoridade do crucificado. Chama a atenção que é o mesmo Jesus conhecido e amado que aparece aos discípulos e discípulas no monte (o outro lado da tentação que lemos no cap. 4) na “Galileia dos gentios”, portanto fora do lugar do poder judaico e romano. Chamo a atenção que o envio aqui se dá baseado nessa autoridade, que não se assemelha à autoridade dos “que governam este mundo”. “Não é assim entre vós” (20.26). A autoridade de Jesus é a de quem serve e dá a vida pelos seus. E essa autoridade só é reconhecida quando se caminha com o Jesus que está presente entre os seus amigos e amigas que se dispõem a batizar, ensinar e guardar os seus ensinamentos, “tudo aquilo que vos tenho ordenado” (28.20). É interessante observar que em Mateus não encontramos o relato da ascensão nem a descida do Espírito, tampouco a ordem de perdoar pecados. Por quê? Parece claro que para Mateus todas essas questões estão implícitas na abertura da comunidade para seguir adiante (aliás, como afirmam os varões na leitura de Atos 1). É na caminhada missionária que a comunidade experimentará a força que vem do Jesus que está presente – para sempre – com aquelas e aqueles que o ouvem e seguem sem medo ou dúvida. E, mesmo assim, na comunidade há quem duvide e se sinta inseguro e com pequena fé (28.17). Considerando a realidade comunitária, em que dois grupos vivem em conflito de interpretações, é importante que Mateus inclua entre os crentes os que duvidam e fraquejam. Também esses fazem parte e são admoestados a engajar-se na missão. E possivelmente será no encontro com os diferentes que a fé se reanimará, quando os frutos da justiça começarem a iluminar o caminho. Uma possível tradução do verbo ir no v. 19 poderia ser na forma do gerúndio: Em indo no caminho, então, “fazei discípulos de todas as nações”, batizando “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ensinando “a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado”. Esse envio ou mandato não é uma simples ordem marcial que se deve obedecer cegamente e quase militarmente. Com Jesus, esse mandato ganha outra cor e realidade. Ele agora, como Ressurreto, dirige-se não mais exclusivamente “às ovelhas perdidas da casa de Israel”, mas a toda a humanidade. É uma mensagem inclusiva e que transcende as barreiras étnicas, de classe, de sexo ou religião. Aliás, o chamamento não é para seguir uma nova religião, mas para caminhar em direção ao reino de Deus e sua justiça (6.33). Trata-se, para Mateus, de uma compreensão vivencial, pastoral e missionária da fé em Jesus. Essa fé atualiza-se na vida do dia a dia, na caminhada que convida, que desafia, que congrega, que assume compromissos com a vida da outra pessoa, do outro povo, pelo qual também Jesus morreu e ressuscitou. Bosch chama a atenção para um detalhe: em Mateus, Jesus “proclama” para os de fora, para as multidões quando lhes anuncia “o evangelho do reino”. Mas junto a seu grupo de discípulas e discípulos ele sempre “ensina”. E seu ensino não é como o dos escribas e fariseus. Pois ele o faz com “autoridade”, no sentido acima esboçado. Sua autoridade está baseada em suas obras: Jesus cura, perdoa, salva, liberta. E isso o diferencia em última instância. Mais ainda: faz parte desse ensino o envio. Jesus confia nas pessoas que chama e congrega em torno de seu evangelho (de
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sua Palavra). Por isso a missão será sempre missão de Deus, pois é pela presença atual de Jesus entre nós, como o Emanuel (1.23), como aquele que “está conosco todos os dias”, que saberemos levar adiante a sua mensagem e a sua missão. O tema do discipulado é central em Mateus. Nessa perícope, ele ganha toda relevância outra vez e definitivamente. Fazer discípulos como tarefa da comunidade crente, dos seguidores e seguidoras de Jesus, é dar continuidade à obra dele. A “igreja” é a continuação da caminhada de Jesus. Essa é a sua glória e a sua cruz. E igreja aqui não deveria ser simplesmente compreendida nos termos de nossas instituições e denominações atuais, mas como aquela comunidade que ouve a palavra de Jesus, coloca-a em prática e aprende – a cada momento – o que seja viver da fé e do amor, da fé que crê e do amor que põe em prática a justiça que liberta e a misericórdia que cura e restaura vida, corpo e alma.
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Meditando rumo à pregação
Numa comunidade que vive crise de identidade, o Evangelho de Mateus abre novas possibilidades para rever a caminhada, para reconhecer os pecados, as resistências, a dureza do coração, de tal modo que as pessoas de fé reaprendam o que significa tornar-se, na caminhada, gente bem-aventurada (Mateus 5). A bem-aventurança não é para deleite pessoal, mas se dá justamente no sofrimento, na humildade, na luta e sede por justiça e paz. Não por último, também na calúnia e na perseguição. É a esses e essas que o reino de Deus é oferecido. São essas pessoas que o integram, que o vivenciam e desfrutam, não como troféu, mas antes como sinal de que o reino de Deus vem e já está chegando para transformar o mundo e a vida mesquinha em que nos enredamos. Envolver-se na missão de Jesus é algo extraordinário e desafiador. Renova a vida de qualquer comunidade e faz dela uma casa de acolhimento, um povo disposto a servir e a comunicar o “ensino que liberta”. Um povo que aprende a caminhar junto e ao mesmo tempo chamar outras e outros. Essa experiência é como sentir-se partícipe de um evento escatológico, um aperitivo daquele banquete para o qual Deus convida todas as pessoas, especialmente as que mais sofrem, as mais pobres e vulneráveis, as mais injustiçadas. O que sustenta a caminhada é a presença do Jesus ressurreto entre seus missionários e missionárias. E esse Jesus não é um monarca celestial, mas aquele mesmo que viveu “entre aldeias e cidades”, de carne e osso, que morreu por nossos pecados e ressuscitou e vai adiante de nós nas Galileias deste mundo e que agora – pelo seu Espírito – habita em meio a seu povo como força, poder e garantia dos “novos céus e nova terra”. Vivemos essa fé e esse chamamento entre contradições e renovação, entre adoração e dúvida. A práxis do amor e do perdão, a ortopráxis da justiça, da compaixão e da misericórdia são alento e desafio para cada pessoa e para a comunidade dos amigos e amigas de Jesus, daqueles e daquelas que experimentaram a força da oração de Jesus: “Pai nosso ...”. Dois pensamentos para concluir. O primeiro vem de David J. Bosch. Ele escreveu que, a partir da leitura desse evangelho, as pessoas cristãs encontram sua verdadeira identidade quando se envolvem na missão, em comunicar a ou-
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tros um novo modelo de vida, uma nova interpretação da realidade de Deus e em comprometer-se com a libertação e salvação de outras. Uma comunidade missionária é aquela que se entende como sendo diferente de seu ambiente e, ao mesmo tempo, como estando comprometida com ele; ela existe dentro de seu contexto de uma maneira que é tanto cativante quanto contestadora (p. 112). Sobre a compreensão do que venha a ser “igreja cristã”, vale recordar o que escreveu Vítor Westhelle sobre a imbricação íntima entre missão e igreja. Igreja, afirma ele, não é nem o sujeito e nem o objeto da missão, mas é o seu meio, o espaço libertado em que se celebra a presença de Deus ao lado inverso do mundo. Não é o lugar em que nasce, mas apenas aquele em que ressoa o anúncio. Nesse sentido, poder-se-ia dizer também que é na experiência missionária que nos fortalecemos, tornando-nos para nós mesmos e para outras pessoas e grupos uma “parteira da esperança”, uma comunidade que acolhe, aponta caminhos, experimenta um poder transformador, que significa algo diferente e novo neste mundo sempre mais competitivo, desigual, injusto e cruel para com os retardatários, as pessoas que sofrem com alguma deficiência e que, precisamente por isso, mereceriam maior atenção, cuidado, numa palavra: amor.
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Sobre as leituras
Salmo 93 Trata-se de um louvor à majestade e ao poder criador do Senhor que fez o céu e a terra. Ele firmou o mundo desde o início, e por isso o universo não vacila. O salmista percebe essa majestade na força da natureza, mas também na fidelidade eterna de Deus para com seu povo. É essa fidelidade que se proclama santa, que revela o que vem a ser santidade, para além de conceitos morais ou éticos, simplesmente. Atos 1.1-11 Texto conhecido e que compõe bem com o texto do Evangelho de Mateus o desafio para a ação missionária. Trata-se de falar das coisas referentes “ao reino de Deus”, ó Teófilo, como escreve Lucas. Na missão cristã, a comunidade que vive, celebra e divulga a sua fé fá-lo como serviço ao “reino de Deus”. É para isso que existe igreja, comunidade de crentes. E esse ministério – em grego, diaconia – só se consegue exercer sob o batismo do Espírito Santo, graça a nós concedida quando somos batizados e incorporados na comunidade de fé, graça que se renova a cada dia, quando, como escreveu Lutero, afogamos a nossa velha natureza e nos revestimos da nova que temos em Cristo, no Espírito de Cristo. E o Espírito nos é dado para que sejamos “testemunhas” aqui e em todos os lugares, se possível até “aos confins da terra”. Não fiquemos olhando para o céu, onde Jesus fica envolto no mistério divino, mas fixemos nosso olhar para esta humanidade com quem vivemos e sofremos e a quem somos enviados como rostos de Cristo, como colaboradores e colaboradoras do Pai.
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Sugestão de hinos HPD 2 – 336; OPC – 264; OPC – 252; HPD 1 – 158 (credo atualizado).
Bibliografia BOSCH, David J. Missão transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. Trad. Geraldo Korndörfer e Luís Marcos Sander. São Leopoldo: Sinodal, EST, 2002. GORGULHO, Gilberto E.; ANDERSON, Ana Flora. A justiça dos pobres. Mateus. São Paulo: Paulinas, 1981. WESTHELLE, Vítor. Missão e poder. O Deus abscôndito e os poderes insurgentes. Estudos Teológicos, ano 31, n. 2, p. 181-192, 1991.
7º DOMINGO DA PÁSCOA LUCAS 1.46-55 PROVÉRBIOS 6.20-23 GÁLATAS 3.26-29
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DOMINGO DE PENTECOSTES
15 MAI 2016
PRÉDICA: ATOS 2.1-21 SALMOS 104.24-34,35b ROMANOS 8.14-17
Valdemar Gaede
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Introdução
Considero importante a proposta do Proclamar Libertação de, num primeiro momento, realizar um esforço no sentido de perceber a proximidade que existe entre os três textos bíblicos que serão lidos durante a celebração na qual será proferida a prédica. Quase sempre a gente se surpreende com a beleza da proximidade que existe entre esses textos. É o que percebo também nos três textos previstos para o Domingo de Pentecostes de 2016. Os três falam do Espírito de Deus. Mas não só isso. Cada frase do Salmo 104.24-34,35b pode ser relacionada com o acontecimento narrado em Atos 2.1-21 e com o ensino de Paulo a respeito do Espírito de Deus em Romanos 8.14-17. Voltemos a nossa atenção para a proximidade existente entre os três textos, partindo do salmo proposto. “Que variedade, Senhor, nas tuas obras!” A admirável variedade ou diversidade presente na criação de Deus faz-se presente no acontecimento de Pentecostes narrado em Atos. Pessoas diversas, de lugares diversos e línguas diferentes participam ativamente do grande acontecimento da dádiva do Espírito Santo e da formação da primeira comunidade cristã. Pessoas piedosas, vindas “de todas as nações debaixo do céu”, estão reunidas no palco onde a promessa da vinda do Espírito Santo cumpre-se: partos, medos, elamitas, os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto e Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e “romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios”. Que variedade, Senhor, são as tuas obras! Que diversidade! Cada pessoa com o seu jeito, com a sua história, com a sua língua. Para que a igreja de Jesus Cristo possa nascer, o Espírito de Deus é dado num contexto de diversidade. A mesma variedade ou diversidade também está bem presente na pregação de Pedro em Atos 2. Em sua fala, ele evoca o profeta Joel: o Espírito Santo é dado a filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas. Que variedade, Senhor! Igualmente nas palavras de Paulo a respeito do Espírito de Deus está subentendida a diversidade humana. Se, por causa da dádiva do Espírito Santo, é-nos possibilitado clamar “Aba, Pai”, então disso resulta que somos todos irmãos e irmãs, por mais diversos que sejamos. Deus é o Aba de todos e de todas. Também em relação à diversidade humana, a ação do Espírito Santo leva-nos a clamar: Que bonita variedade, Senhor! É possível aproximar outras afirmações do Salmo 104.24-34,35b com o texto da prédica e da epístola do dia. Por exemplo: as palavras sabedoria e riqueza (v. 24), vastidão, imensidão e mobilidade (v. 25), trânsito e folga (v. 26). Chamam a atenção a sabedoria que o Espírito concedeu a Pedro em sua pregação a respeito
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de Cristo, a sábia explicação da profecia de Joel, a riqueza do dom de línguas, o transitar do evangelho em meio a pessoas de diferentes origens, a vastidão e imensidão das experiências de vida e fé presentes em Jerusalém naquele dia de Pentecostes, a imensidão geográfica ali representada e a tranquilidade presente naquele contexto de diversidade e novidade. Quanta folga, no bom sentido, o Espírito de Deus cria naquele dia na cidade de Jerusalém! O Espírito Santo acalma, une e tranquiliza uma comunidade diversificada, transformando um acontecimento festeiro no mais belo de todos os acontecimentos: a experiência de um sopro divino e suave, o ruah que faz folgar. A partir da afirmação “Todos esperam por ti, Senhor” (v. 27), outras bonitas proximidades podem ser verificadas entre os três textos previstos para Pentecostes. O acontecimento do Pentecostes não foi um episódio casual ou pontual, mas fazia parte de uma espera de séculos do povo de Deus desde os tempos dos profetas. A vinda do Espírito Santo veio saciar a fome de consolo, de paz e de capacitação dos apóstolos e do povo de Deus. O v. 28 ajuda-nos a entender que o Espírito é dádiva de Deus. Deus dá, nós recolhemos. Deus abre a sua mão para dar, e nós abrimos a nossa mão para receber. O Espírito Santo não é conquista nem posse humana, mas dádiva de Deus. Ninguém pode apossar-se do Espírito divino. E assim existe fartura. Quando acolhemos o Espírito como dádiva, existe fartura de dons. Nos v. 29 e 30, somos lembrados de que a ausência do Espírito de Deus significa perturbação e morte. Tudo volta a ser pó. O que seria dos seguidores de Jesus sem o acontecimento daquele Pentecostes? Perturbação e morte. Com a dádiva do Espírito Santo os discípulos amedrontados, perturbados e recolhidos são transformados em apóstolos, testemunhas. Ossos secos recebem o fôlego da vida (Ez 37). Na epístola do dia, essa possibilidade de reviver a partir do Espírito Santo tem expressão na afirmação de que, pelo poder do Espírito Santo, podemos clamar “Aba, Pai”. Da condição de estranhos, escravos e inimigos somos transformados em filhos e filhas, herdeiros e herdeiras em Cristo. A partir do v. 32, somos lembrados de que o Espírito Santo é o olhar de Deus que faz a terra tremer e as montanhas fumegarem. A primeira comunidade cristã, que nascia em Jerusalém, experimentou esse vento tempestuoso, esse barulho e esse fogo que desceu do céu e fez a terra tremer. Pelo poder e força do Espírito Santo, em muitas ocasiões da história da igreja de Cristo, a terra já tremeu e os montes já fumegaram, os ventos já sopraram tempestuosos e o fogo já ardeu. A Reforma Luterana é, para nós, o vento tempestuoso, o fogo ardente, a terra tremendo e os montes fumegando. Os versículos finais do salmo do dia conclamam para a alegria, para o louvor, para a gratidão por causa da dádiva do Espírito Santo, que veio a nós no Batismo e que nos possibilita adorar a Deus como Aba.
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Exegese
Ao abordar o texto proposto para a prédica (At 2.1-21), é preciso ter em mente o pano de fundo de que o derramamento do Espírito Santo fazia parte da esperança do povo de Israel desde o tempo dos profetas. Era uma esperança de séculos, bem viva no meio do povo de Deus: “Tomar-vos-ei de entre as nações e vos
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congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra. Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados. Dar-vos-ei coração novo, e porei em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis. Habitareis na terra que eu dei a vossos pais; vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus” (Ez 36. 24-28). As promessas de Jesus “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49) e “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas” (At 1.8) precisam ser vistas também com esse pano de fundo da esperança do povo de Israel. Pois a promessa e a esperança pela dádiva do Espírito Santo têm raízes bem profundas no Antigo Testamento. Da mesma forma, não é novidade que dessa esperança pela dádiva do Espírito Santo fazia parte a expectativa do ajuntamento escatológico em Sião (Jerusalém). Desde Isaías até Zacarias, esse tema está presente: “Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do Senhor será estabelecido no cume dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão todos os povos. Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém” (Is 2.2-3). Além disso, a festa de Pentecostes, assim como estava sendo realizada no dia do derramamento do Espírito Santo, vem da Antiga Aliança. Era a Festa das Semanas (Lv 23.15). Celebrava-se a colheita do trigo. Expressava-se gratidão pela colheita. A festa era realizada sete semanas, ou cinquenta dias, após o início da colheita. Pentecostes tratava-se, em sua origem, de uma festa essencialmente agrícola. Mas a esse significado original juntou-se, no decorrer do tempo, um segundo sentido. A Festa das Semanas foi relacionada com o acontecimento da outorga da lei no Sinai e, assim, passou a ser uma “Festa da Aliança”, aliança estabelecida por Deus ao dar a sua palavra, os seus mandamentos, a Torá, no monte Sinai. Esse detalhe é de especial importância para a interpretação de Atos 2.1-21. Pois o primeiro Pentecostes da comunidade cristã tem tudo a ver com a palavra, agora a palavra da Nova Aliança em Cristo. Quem foi agraciado pela dádiva do Espírito Santo naquele dia de festa da Antiga Aliança, agora, com o cumprimento da promessa do envio do Espírito Santo, foi colocado a serviço da boa palavra do evangelho de Cristo. Os seguidores de Jesus, que estavam amedrontados, paralisados e recolhidos, são transformados em apóstolos (testemunhas) da palavra da Nova Aliança. Portanto a comunidade cristã, quando celebra Pentecostes, dá testemunho de que no surgimento da igreja cristã realiza-se a esperança que animava a caminhada do povo de Deus nos últimos séculos de sua história, desde o tempo dos profetas. Com a formação da primeira comunidade cristã em Jerusalém, nos dias da festa da Antiga Aliança, teve início a grande seara de Jesus (Lc 10.2), a grande colheita do reino de Deus. Isso liga o Pentecostes cristão ao Pentecostes original da Antiga Aliança: festa da colheita do trigo. E assim Pentecostes é, para nós cristãos, a festa de gratidão pela dádiva da palavra da Nova Aliança em Cristo, do evangelho de Cristo. Os frutos da Nova Aliança são os dons que
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o Espírito de Deus desperta e concede. Pentecostes cristão é a capacitação que o Espírito Santo opera para a proclamação da Nova Aliança, não mais baseada na lei, mas na graça, pela fé. É a celebração de que o tempo escatológico já começou e realiza-se aqui e agora. A humanidade toda, em toda a sua diversidade, está incluída na Nova Aliança, porque ela não mais se baseia na lei que seleciona e exclui, mas sim na graça de Deus que acolhe e inclui. A missão da igreja de Cristo é universal. Para descrever esse evento salvífico universal, Lucas usa uma linguagem repleta de simbologia: vento impetuoso, som que vem do céu, línguas de fogo. Essa linguagem simbólica liga a experiência da inauguração do tempo escatológico às teofanias do Antigo Testamento, especialmente ao acontecimento do Sinai, mas também a outros, como por exemplo 2 Samuel 22.8-16; Jó 37 e 38; Ezequiel 13.13. O vento expressa a presença do Espírito de Deus. Na teofania do Antigo Testamento, o fogo está presente: “Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo” (Êx 19.18). No Sinai foi dada a Torá, a palavra de Deus. No Pentecostes cristão, toda essa simbologia que traz a Torá é colocada a serviço da palavra da Nova Aliança. Por isso não tem sentido querer buscar explicações para cada um dos símbolos presentes no Pentecostes cristão. O essencial é o seguinte: as pessoas que são agraciadas com o Espírito de Deus são capacitadas para entender, vivenciar e proclamar a palavra da Nova Aliança num contexto de diversidade humana. Os sinais, em Atos 2, estão a serviço da palavra e não a palavra a serviço dos sinais. O lugar onde a primeira comunidade cristã se forma e onde ela está reunida é o novo Sinai, onde a palavra de Deus se manifesta poderosa para trazer a Nova Aliança em Cristo. Segundo a esperança expressa no Antigo Testamento, a Torá outorgada no Sinai teria alcance universal. Tradições rabínicas posteriores diziam que a lei do Antigo Testamento tinha sido promulgada em 70 línguas diferentes, a fim de que todos os povos pudessem ouvir a voz de Deus. Uma única voz de Deus se dividira em sete vozes, que, por sua vez, subdividiram-se em 70 línguas diferentes. Possivelmente, Lucas tem em mente essa tradição quando acentua a questão das diversas línguas presentes no dia da “promulgação” da palavra da Nova Aliança, acentuando, assim, o alcance universal da boa-nova do evangelho. Com esse detalhe perdem sentido as especulações e suposições a respeito do “falar em línguas”. Não interessa se quem “fala em línguas” fala línguas humanas ou línguas de anjos. O que importa é que a nova Torá (evangelho) não tem as limitações de línguas, raças ou nações. Pela soberana intervenção de Deus, pelo poder de seu Espírito, a comunidade cristã primitiva é arrancada de seu silencioso isolamento e passa a testemunhar Jesus de tal forma que o mundo inteiro consegue entendê-lo e aceitá-lo. Por isso a enumeração das diferentes nações e regiões pelo autor de Atos. A primeira reação do público participante desse evento é a perplexidade. Mas o Espírito de Deus ajuda a entender os acontecimentos com os olhos voltados para a história do amor de Deus por seu povo desde os tempos antigos. Não foi preciso que Pedro em seu “discurso” elaborasse grandes argumentações para explicar o que estava acontecendo. Ele apenas apontou para as palavras da profecia da Antiga Aliança. A palavra do profeta Joel explica inclusive o falar em
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línguas. A expressão “toda a carne” explica o falar em línguas diversas. A afirmação “vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias” explica que a diversidade representada naquele dia em Jerusalém e tão presente em toda a criação divina é agradável aos olhos de Deus pela ação de seu Santo Espírito.
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Meditação
Que variedade nas obras de Deus! Que diversidade! E essa diversidade toda está a serviço da vida. Quanto mais diversidade na natureza, mais plena e abundante será a vida sobre a face da Terra. Essa é a lei da natureza, estabelecida por Deus. Importa que o ser humano aprenda e reaprenda o valor e a beleza da diversidade. Onde está o Espírito de Deus, a diversidade é vista como bênção e não como maldição. O Salmo 104 ensina isso. Queremos abundância de vida? Desejamos a sobrevivência da humanidade? Sonhamos com a salvação do planeta, nossa morada? Então admiremos e respeitemos a variedade, a diversidade criada e sustentada pelo sopro do Espírito de Deus. Celebramos o Pentecostes. Essa celebração esteve ligada desde a sua origem à variedade e diversidade da criação de Deus. Era a festa da colheita dos tempos bem antigos. Para que haja boas colheitas, a variedade na criação de Deus precisa ser admirada e respeitada. Por isso, no Antigo Testamento, não estão apenas registradas festas de gratidão por causa das boas colheitas, mas também textos que nos ensinam o valor da diversidade na criação de Deus. Aprendamos e reaprendamos o que nos ensina o Salmo 104. Mas a festa de Pentecostes no Antigo Testamento no decorrer do tempo também passou a ser a festa da Palavra da Aliança. Deus fez uma aliança com o seu povo, uma aliança baseada na palavra: a palavra da lei. Deus dá a lei, o povo cumpre a lei. E tudo estará bem. Essa aliança resultará em bênção. Deus sustentou essa Aliança durante séculos, milênios. Mas a bênção não veio. Deus falhou? Não, o ser humano falhou. E a carência de bênção virou sonho. Virou esperança. Quando será? Quando Deus derramar o seu Espírito. Este dia chegará. Assim anunciaram os profetas. E o dia chegou. Foi em Jerusalém, no monte Sião, em plena festa de Pentecostes, a festa da diversidade, da colheita, da palavra. O Espírito de Deus soprou forte. Vento forte, fogo. É a Nova Teofania. A palavra de Deus mostrando-se forte e poderosa. Estamos no tempo escatológico. O que era velho passou. É a Nova Aliança em Cristo que resgata a variedade da criação de Deus entre os humanos: filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas, pessoas vindas de todas as nações debaixo do céu. É a Nova Aliança em vigor. Não mais a palavra da lei, mas a palavra da boa-nova. O evangelho que transforma, que aproxima, que inclui, que derruba barreiras de raça, de idade, de religião. Qualquer barreira. O diferente é incluído. Que variedade, Senhor, em tuas obras! O Espírito Santo clareia tudo. A palavra profética explica. Argumentos humanos baseados na lei não explicam, confundem. A medida não mais é a lei, mas a graça. A graça que une , acolhe e inclui. A bênção tão sonhada não está na lei, mas no evangelho. Esta é a palavra da Nova
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Aliança: pelo poder do Espírito de Deus todos podem clamar Aba. Os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Se somos filhos e filhas, somos também herdeiros e herdeiras. No Batismo, o Espírito nos é dado. Deus abre suas mãos para dar, e nós abrimos nossas mãos para receber. Batismo é graça. Batismo por méritos é uma volta à lei. Não recebemos o espírito de escravidão para viver outra vez atemorizados, mas o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. Nestes tempos de intolerância e de exclusão de quem é diferente, o Espírito Santo cria espaços para a aceitação, a inclusão, a tolerância, a diversidade, a comunhão. A diversidade é bênção e não maldição. Porque, pela graça de Deus, nós também somos aceitos, incluídos e tolerados. A Nova Aliança está em vigor.
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Imagens para a prédica
Vários símbolos ou dinâmicas são possíveis e aconselháveis neste culto de Pentecostes. Fogo e vento são símbolos fortes. As pessoas participantes do culto podem acender suas velas, previamente distribuídas, no altar. Que sejam velas de várias cores, tamanhos ou formas para simbolizar a diversidade e a inclusão. Também podem ser distribuídas tochas de fogo confeccionadas com cartolina ou outro material disponível. Alguma dinâmica com cata-vento também será possível. Também nesse caso é importante a variedade de cores, de tamanhos ou de formas. Qualquer uma dessas dinâmicas pode ser feita logo após ou durante a pregação, incluindo-se a confissão de fé. Cuidar para que esses símbolos não sejam buscados pelos participantes, mas recebidos. O Espírito Santo é dádiva e não conquista ou mérito. Não deveria faltar, neste culto, o rito da rememoração do Batismo, ligado a alguma das dinâmicas acima sugeridas. Nesse rito não deveriam ser os participantes que molham a sua mão ou a sua testa com a água da pia batismal. A água, nesse caso, deve ser sentida e recebida como dádiva. Uma equipe deve ser preparada para “dar” água. O Espírito de Deus nos é dado. Deus abre sua mão, e nós acolhemos com gratidão. Outra dinâmica possível: distribuir uma variedade de sementes ou de plantas. Relacionar isso com o valor da diversidade na criação de Deus, com a diversidade de dons concedidos pelo Espírito Santo, com diversidade humana. O Espírito Santo rompe barreiras e faz da diversidade uma bênção, capacitando-nos para a edificação de comunidades inclusivas.
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1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
22 MAI 2016
(TRINDADE)
PRÉDICA: ROMANOS 5.1-5 SALMO 8 JOÃO 16.12-15
Walter Altmann
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Introdução
O texto proposto para a pregação é a perícope da Epístola de Paulo aos Romanos. Neste auxílio, baseio-me fundamentalmente no recente e exaustivo comentário de Michael Wolter, referido na bibliografia e a seguir várias vezes citado. Dentre as cartas de Paulo, essa é a mais densa sob o ponto de vista teológico. Isso se dá em especial por duas razões. Primeiramente, é a única carta de Paulo que não se refere nem responde a alguma situação específica das pessoas endereçadas. Mesmo suas exortações parenéticas nos capítulos 12 a 14 são direcionadas a situações típicas, não específicas a situações concretas em Roma. Em segundo lugar – e isso é particularmente significativo –, porque Paulo, completando uma intensa etapa de sua vida enquanto missionário, aproveita a ocasião para fazer um balanço teológico de seu apostolado até então. Paulo está em vias de retornar a Jerusalém, levando consigo a coleta que efetuara nas comunidades por ele visitadas ou criadas em favor dos “pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém” (Rm 15.26). O ensejo específico para escrever aos romanos (ver a seguir a quem especificamente) se dá pelo fato de que se dirigia a Roma a “irmã Febe”, “protetora” de muitas pessoas e do próprio Paulo. Ao que tudo indica (cf. Rm 16.1-2), Febe era uma pessoa de respeitáveis recursos, que apoiava a comunidade de Cencreia, cidade portuária, ou também de Corinto, não distante, além do próprio apóstolo, e estava prestes a viajar para Roma a negócios, nos quais Paulo pede o apoio dos irmãos em Roma no que ela venha a precisar. Ademais, Paulo intencionava, após sua ida a Jerusalém, abrir uma nova etapa de sua obra missionária, dirigindo-se à Espanha, para o que deveria passar pela capital do império, a saber, Roma (15.24). Por que Paulo pretendia ir especificamente à Espanha só pode ser especulado, pois ele não o explicita. Talvez fosse para alcançar com sua obra, numa nova etapa, o extremo oeste do império, depois de haver missionado no leste do império. (Bem diferente do que se imaginava, Paulo haveria de ser levado preso a Roma e, por sua condenação à morte, jamais haveria de alcançar a Espanha.) As pessoas endereçadas em Roma e o apóstolo Paulo não se conhecem pessoalmente, ainda que Paulo venha no final da carta saudar nominalmente uma série de pessoas (Rm 16.3-15). Assim, Paulo pretende estabelecer com elas uma relação de confiança e apresenta-se a elas como apóstolo e com sua teologia. Elas poderão ler a carta como “um comentário teológico ao evangelho pregado por Paulo” (Wolter, p. 47).
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1º Domingo após Pentecostes
Portanto o assunto da carta, segundo Wolter, não é alguma situação específica em Roma (muito menos a Espanha, que Paulo não conhecia nem viria a conhecer), mas o próprio Paulo. Ele dá razão de sua trajetória pessoal como judeu que pelo poder do evangelho se transformou no missionário dos gentios. Assim, ao referir-se na carta aos judeus ou a Israel, Paulo estaria dialogando “consigo mesmo” em sua condição de judeu. Ainda assim, brevemente, quem eram os endereçados da carta? É sabido que já décadas antes de Cristo havia em Roma um bom número de judeus da diáspora. Sem que se possa precisar com exatidão, seu número deve ter alcançado várias dezenas de milhares de pessoas. Elas não constituíam uma comunidade uniforme, mas um conjunto de sinagogas independentes num sistema muito descentralizado. Com o advento do cristianismo, primeiramente surgiram em seu interior ou a ela se somaram judeus cristãos. Aqui e ali surgiram tensões que o Império Romano encarou, a princípio, simplesmente como dissensões internas do judaísmo. Segundo Atos dos Apóstolos 18.2, o imperador Cláudio (gestão de 41-54 d.C.) teria emitido um decreto expulsando da cidade de Roma “todos os judeus”. Sueton, escritor romano da primeira metade do século II e por certo tempo funcionário do império, refere-se ao mesmo decreto que teria ocorrido por motivo de um tumulto causado por um certo Crestos (assim). Essas referências têm sido interpretadas muitas vezes como uma expulsão generalizada de judeus de Roma, tendo posteriormente havido uma nova onda de migração de judeus e cristãos à capital do império. A pesquisa de Michael Wolter torna muito mais plausível a hipótese de que o decreto mencionado tenha sido aplicado através da força e de qualquer modo atingido apenas uma pequena parcela do total de judeus e judeus cristãos (daí a referência a “Crestos”) residentes em Roma e talvez apenas uma ou de forma alguma muitas das sinagogas existentes. A maioria dos judeus e dos judeus cristãos pôde continuar vivendo em Roma. Posteriormente, o crescimento do número de cristãos, também pela adesão à fé cristã de um apreciável número de gentios, levou a que o Império Romano fizesse sob Nero uma clara distinção entre judeus e cristãos, culminando na conhecida perseguição massiva e cruel a cristãos sob Nero, imperador de 54 a 68, que os acusou de ter incendiado Roma, trágico acontecimento que a boca popular atribuía ao próprio imperador, interessado em obter espaço para novas construções por ele planejadas para a capital do império. A carta de Paulo é anterior a esse dramático e trágico desdobramento. O próprio Paulo, tendo sido preso em Jerusalém, sob acusação de ter profanado o templo (At 21.28-29) e, posteriormente, diante do governador Félix, de “sedição” (At 24.5-6), foi enviado a Roma, já que ele interpôs um apelo a César, um direito que cabia aos cidadãos romanos, condição que Paulo também possuía (cf. At 22.25-28). Em Roma, após período de detenção por dois anos e submetido a processo, Paulo foi com toda a probabilidade condenado à morte e executado mediante decapitação, a modalidade de sentença de morte reservada aos cidadãos romanos.
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1º Domingo após Pentecostes
Ainda assim, Atos dos Apóstolos não traz o relato da morte de Paulo, provavelmente porque o plano teológico de seu livro era a trajetória da pregação do evangelho desde a origem da comunidade cristã em Jerusalém, em Pentecostes, até sua difusão na capital do império, Roma, com a chegada de Paulo. Retornando, contudo, ao momento em que Paulo, antes de retornar a Jerusalém, escreve aos romanos, o número de gentílicos cristãos já se tornara significativo, e é a esses que Paulo, como apóstolo dos gentios, se dirige e se apresenta.
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Considerações exegéticas
Wolter detecta na Epístola de Paulo aos Romanos a estrutura a seguir apresentada resumidamente (cf. p. 68-72). Afora a saudação e o proêmio no início (cap. 1.1-17) e o epílogo e as saudações finais (cap. 15.14-16.24), seguidas de uma doxologia (16.25-27), há quatro partes principais. A primeira (1.18-5.21), dentro da qual se encontra a perícope prevista para a pregação, esclarece por que “a salvação de Deus só pode provir da fé em Jesus Cristo (3.22)” (p. 69). Nessa parte, há a contraposição entre a condição humana, tanto de judeus como de gentios, sob a ira de Deus, a causa de seu viver pecaminoso (1.18-3.20), e a salvação provinda de Deus, acessível a quem crê em Cristo (3.21-5.21). Entre os exegetas há, contudo, controvérsia se o capítulo 5 (precisamente a partir do v. 1, portanto início da perícope prevista para a pregação) deve ser incluído nessa primeira parte ou abrir a parte seguinte. A segunda parte, ainda segundo Wolter, estende-se de 6.1 a 8.39. Nela Paulo desenvolve “uma espécie de antropologia de quem é cristão” (p. 71), delimitando-se de seu passado pré-cristão e voltando o olhar para seu futuro em Deus. Na terceira parte (8.1-11.36), Paulo realça a fidelidade de Deus a suas promessas, dando resposta à pergunta de como fica a situação dos judeus que não aceitaram a fé em Cristo, pela qual os gentios obtiveram acesso à salvação. Finalmente, com a quarta e última parte principal (12.1-15.13), sempre segundo Wolter (p. 72), Paulo conclui seu arrazoado teológico com uma parênese, contendo recomendações éticas para a vivência cristã em determinadas situações. Assim, remetendo ao início da epístola, os gentios “glorificam a Deus por causa de sua misericórdia” (15.9), superando o pecado fundamental dos povos não judeus de não glorificar a Deus como Deus (1.21). Passando especificamente a Romanos 5, os v. 1-5 devem ser vistos em conjunção com os versículos subsequentes, 6-11. A contraposição com a primeira parte da epístola (1.18-3.20), a condição de estar sob a ira de Deus à causa do pecado humano, não deve ser entendida como a contraposição entre “nós” e “eles”, ou seja, nós que cremos em Jesus Cristo e as pessoas que não creem nele, mas entre nós que hoje cremos em Jesus Cristo e nós que anteriormente não críamos nele. Algo ocorreu radicalmente em nossas vidas. Uma transformação radical. Isso fica extremamente claro nos v. 6 e subsequentes: “quando nós ainda éramos fracos” (v. 6); Cristo morreu por nós, “sendo nós ainda pecadores” (v. 8); fomos reconciliados com Deus quando ainda “inimigos” (v. 10). Mudança tão radical ocorreu pela morte de Cristo (v. 8 e 10), por seu “sangue” (v. 9). Assim,
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já reconciliados com Deus (v. 10 e 11), podemos olhar com confiança ao futuro, pois “seremos por ele salvos da ira” (v. 9) e, consequentemente, podemos já agora nos “gloriar em Deus” (v. 11). Assim, o trecho não apenas destaca o presente em contraposição a uma condição do passado, quanto igualmente o futuro definitivo de Deus em relação à condição provisória do presente. Há, claramente, uma perspectiva escatológica. O glorificar a Deus é também um canto firme já nos v. 1 a 5. O gloriar-se “na esperança da glória de Deus” (v. 2) permite, inclusive, que nos gloriemos também nas “próprias tribulações” (v. 3). O v. 1 apresenta como que uma espécie de título ou tese, que é desdobrada e fundamentada nos versículos subsequentes. Nele, “paz com Deus” não deve ser entendido tanto no sentido subjetivo como um sentimento espiritual de tranquilidade que teríamos em nosso íntimo, mas como exposição objetiva da nova relação estabelecida com Deus à base de Jesus Cristo, em particular sua morte, o qual acolhemos em fé e fomos, portanto, justificados. Antes, estávamos sob a ira de Deus; agora, em paz com Deus. Ainda assim, persiste uma tensão. Podemos gloriar-nos em Deus já agora. Contudo “gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. Ou seja, Paulo descreve o ser revestido da glória de Deus, pelo menos em sua plenitude, como uma realidade a ocorrer no futuro, mas pela qual podemos esperar agora com uma esperança não incerta, porque já é certeza da fé e na fé. Ainda assim, na realidade atual persiste o sofrimento das consequências de que, enquanto pecadoras, todas as pessoas “carecem da glória de Deus”, o que Paulo havia exposto em 3.23 (cf. Wolter, p. 338). Defrontamo-nos, pois, aqui, com a dialética característica de Paulo do “já agora – ainda não”. Na fé, temos já agora em esperança o que no futuro teremos em plenitude. Mas no presente persistem as consequências das relações pregressas de rompimento com Deus. Trata-se, pois, de encarar a realidade presente em perspectiva escatológica. E isso fazemos “em esperança”. Daí também a referência de Paulo às tribulações, das quais as pessoas que creem não são poupadas de forma alguma. Contudo, à causa da fé, as tribulações que em si poderiam levar ao desespero ou a um sentimento de revolta são elas próprias “convertidas” em dons positivos e libertadores: primeiramente a perseverança, a qual, por sua vez, produz experiência, da qual brota a esperança (v. 3 e 4). “A realidade do sofrimento não apenas não se encontra em contradição à certeza cristã da esperança, como até mesmo a fortalece” (Wolter, p. 326). Por fim, trata-se realmente de dons, ou seja, dádivas divinas. Não será possível atribuir o vivermos baseados na esperança a esforços próprios, a uma disciplina voluntariosa. Ao contrário, é o próprio Espírito Santo quem livremente “derrama o amor de Deus em nosso coração” (v. 5), produzindo consequentemente aqueles benéficos dons. Não se pode deixar de ver a radicalidade do pensamento do apóstolo Paulo: através da ação do Espírito Santo o próprio amor de Deus, que se revelou de forma tão contundente e maravilhosa na morte de Cristo, passa a ser parte integrante da nova identidade de quem chegou à fé em Cristo. No final do capítulo 8, Paulo haverá de afirmar que nada “poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (8.39). Trata-se ainda de um claro
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paralelo ao que Paulo já asseverara aos coríntios: “As cousas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). Por isso mesmo não podemos deixar de nos gloriar em Deus, mas em Deus somente.
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Meditação
A perícope é proposta como texto para pregação no Domingo da Trindade, que sucede imediatamente a Pentecostes. De fato, ainda que relativamente breve, a perícope faz referência à obra de Deus (Pai), ao Filho Jesus Cristo e ao Espírito Santo. Contudo não parece ser apropriado tentar esboçar na pregação uma doutrina da Trindade. Aliás, não há em todo o Novo Testamento uma doutrina da Trindade, como foi desenvolvida em séculos posteriores na teologia da igreja. As doutrinas da Igreja Antiga foram desenvolvidas, à base do testemunho bíblico, para preservar a pregação do evangelho de desvios que comprometeriam o próprio entendimento da salvação, mas não abstratamente como finalidade em si, muito menos para que substituíssem os testemunhos descritivos das obras de Deus. Os textos neotestamentários e logo nossa perícope enfocam, pois, as maravilhosas obras experimentadas por quem crê, fazendo-o a partir de diferentes perspectivas, mas sempre as atribuindo ao único Deus. Tinha, assim, boas razões a igreja ao desenvolver uma doutrina da Trindade, enfatizando simultaneamente a unidade de três “pessoas”. Mas seria errôneo tentar esmiuçar teoricamente a “matemática”, pela qual três podem ser um e um seriam três. Ao contrário, Deus é aquele que se revela em suas obras e maravilhas em favor de quem dele se encontrava afastado. Em suma, neste domingo, a referência à Trindade não deve ser especulativa, mas propositiva, enfatizando incisivamente o que Deus tem feito e faz por nós. (Isso se refere também ao texto do evangelista João, previsto como uma das leituras do domingo. Ele reporta à ação do Espírito Santo conduzindo à verdade em Cristo.) O texto traz um espelho da vida de quem chegou à fé. Sobre o pano de fundo da vida sem fé já passada e traçada em capítulos anteriores, ele toma como ponto de partida a ação justificante de Deus em Cristo, de modo que pela fé em Cristo podemos ter paz com Deus e permanecer firmes nessa graça. Exaltar a glória de Deus também é o alvo da existência à medida que tomarmos em consideração os versículos subsequentes à perícope. (Esse aspecto é realçado pelo Salmo 8, também previsto para este domingo.) No entanto, a vida de fé não consiste numa sucessão ininterrupta de experiências sempre agradáveis, pelas quais pudéssemos exultar e nos gloriar. Ao contrário, o gloriar-se dá-se apenas na esperança da glória de Deus. Isto é, o apóstolo Paulo é muito realista quanto à condição de nossa existência atual. Ela pode trazer tribulações e ocasionar tentações. Pode acarretar uma carga de sofrimentos. De qualquer modo, ninguém escapa às limitações humanas e a menores ou maiores fracassos pessoais. Ainda assim, não precisamos vacilar. Podemos permanecer firmes na graça de Deus e sua paz, e a esperança que temos não é ilusória, mas consistente, por-
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que ancorada no próprio Deus. Assim, sustentado por essa esperança, a tribulação produz perseverança, e essa traz experiência, na qual a esperança é fortalecida. Assim, por fim, nosso texto, tão “realista” com a condição humana mesmo de quem chegou à fé, não deixa de ser “otimista”. Não redundará em lamúrias, mas em exaltação da glória de Deus.
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Pistas para a prédica
Há várias estruturas possíveis para a pregação. Poder-se-ia optar por uma prédica temática sobre a paz com Deus. Ela refletiria 1) sobre sua origem, a saber, a ação misericordiosa de Deus em Cristo, que em amor por nós perdeu sua própria vida. E refletiria 2) sobre seu fruto, a saber, a esperança e o amor. E teria 3) sua culminância em dar glória a Deus. Uma alternativa seria tomar mais diretamente em conta o problema de viver a fé em meio aos problemas que, conforme nossa experiência, temos que enfrentar, as tribulações pelas quais passamos. Ela partiria da pergunta: como está nossa relação com Deus? E, por consequência, nossa relação com o próximo? O texto fala principalmente de nossa relação com Deus. A relação com o próximo é uma decorrência. O ponto de partida do apóstolo Paulo nesse trecho é que temos paz com Deus, pois fomos por ele justificados pela fé (v. 1). Isso ele já desenvolveu em capítulos anteriores e reafirma aqui. E pouco mais adiante (v. 10 e 11) afirmará que por nosso Senhor Jesus Cristo estamos reconciliados com Deus. Há, porém, um problema. Pois no mundo ainda passamos por tribulações. Temos sofrimento. Como, então, pode o apóstolo Paulo afirmar que temos paz com Deus? O sofrimento e as tribulações não são prova da falta de paz? Não nos podem levar a protestar contra Deus ou, então, a afundar-nos em desespero? Paulo pensa diferente e quer mostrar-nos outra possibilidade, muito melhor do que essas. É bem verdade que do afastamento dos seres humanos de Deus – é nisso que consiste o pecado humano – resultam consequências que perduram, precisamente as forças do mal, o sofrimento e as tribulações. Mas na fé algo de novo estabeleceu-se e que é o mais importante que podemos ter na vida: a paz com Deus. E também uma nova maneira de viver que brota dessa fé. O apóstolo Paulo descobriu que, estando totalmente a serviço dessa mensagem, ele obtinha paz, paz com Deus, paz com seu próximo, paz consigo mesmo. Por isso também fala no final do texto na reconciliação. Muito consciente das tribulações que não pouparam tampouco a ele, apóstolo, Paulo caracteriza, primeiramente, esse novo modo de viver como estar com esperança. Por três vezes nesse curto trecho, Paulo fala da esperança (v. 2, 4 e 5). De certo modo, ela é tanto ponto de partida como de chegada da vivência cristã. Ela provém de Deus, pela fé em Jesus Cristo, e é sustentada pelo Espírito Santo. Daí que ele afirma no v. 5: “A esperança não confunde”. Ao contrário, estamos “firmes” na graça de Deus (v. 2). Em segundo lugar, essa realidade tornou-se possível unicamente por Cristo. E por isso passa a ser realidade unicamente na fé. É pura graça. Em vários versículos, Paulo descreve essa maravilha, particularmente nos versículos seguintes a
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nosso texto de pregação. Nada podemos ofertar para que isso se torne realidade. Porque a maravilha consiste precisamente em que “Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (v. 6). Ou seja: não pelos justos, não pelos bons, mas pelos ímpios. Ou seja, por pessoas como cada qual dentre nós. “Deus prova seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (v. 8). Pode haver algo mais libertador do que isso? Em terceiro lugar, aí, nessa graça, permanecemos firmes, ainda que passando por tribulações (v. 3). Ou seja: na vivência da fé não experimentamos um festival de experiências espetaculares e todas maravilhosas que possamos apresentar diante das demais pessoas, para que elas, contaminadas por nossa autoglorificação, busquem ter experiências iguais às nossas. Intentos desse tipo que podemos observar muitas vezes são todos falsos. Paulo gloria-se apenas em Cristo e tem perfeita noção de suas limitações, suas falhas e, inclusive, de situações de tribulação e sofrimento. Glória a Deus somente. Em quarto lugar, o apóstolo Paulo fala dos frutos dessa maravilhosa ação de Deus em sua vida, em nossas vidas. Aqui podemos estender-nos sobre os sucessivos passos dados por Paulo nos v. 3 e 4. Pela graça de Deus, em meio à tribulação, surge a perseverança. Dela provém a experiência e dessa, a esperança em que permanecemos firmes pela ação do Espírito Santo. Assim, portanto, pela ação misericordiosa de Deus, somos reconciliados e podemos permanecer em paz, embora com nossas limitações e sofrimentos, em paz e firmados na esperança que nos vem de Deus.
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Subsídios litúrgicos
Sugiro que, já no início do culto, no final do introito (ou da saudação), se levante a pergunta como é possível ter paz com Deus se na vida tantas vezes temos que passar por dificuldades e tribulações. Pode-se dizer que quanto a isso se pretende refletir neste culto e, ao mesmo tempo, celebrar a paz que vem de Deus. Consequentemente, entre os hinos selecionados, que pelo domingo do calendário litúrgico também podem evocar a Trindade, não poderão contudo faltar aqueles que abordam a paz. Por exemplo, será muito apropriado concluir o culto com o hino “A paz do Senhor” (HPD 377), que exalta a paz que vem de Deus e exorta a recebê-la e compartilhá-la. O breve hino “A paz nos queira conceder”, de Lutero (HPD 291), não tão conhecido, alternativamente, também poderia ser citado na pregação. Nas orações de intercessão será apropriado lembrar-se de situações de falta de paz no mundo e na sociedade, mas também na vida comunitária e familiar e igualmente na vida pessoal. Já nos motivos de gratidão, exaltar-se-ão as dádivas de Deus, para o que o Salmo 8 poderá servir de inspiração. Se não é ainda costume na comunidade, este culto será particularmente propício para incluir o compartilhar do abraço da paz entre a comunidade, ao qual se convidará com palavras bem selecionadas. A celebração da Santa Ceia, com suas dimensões de perdão dos pecados e reconciliação, também seria muito
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adequada. Antes de proferir a bênção final, quem oficia o culto poderá chamar a atenção da comunidade para que em todos os cultos ela se despeça com a bênção da paz do Senhor, que nos capacita a servi-lo no dia a dia com grande alegria.
Bibliografia WOLTER, Michael. Der Brief an die Römer: Teilband 1: Römer 1-8. Neukirchen-Vluyn, Ostfildern: Neukirchener V., Patmos V., 2014.
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2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
29 MAI 2016
PRÉDICA: LUCAS 7.1-10 SALMO 96.1-9 GÁLATAS 1.1-12
Anelise Lengler Abentroth
A fé de quem nos surpreende?
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Introdução
São poucos estudos sobre o texto indicado para pregação. Vamos procurar levantar alguns aspectos da perícope e buscar pistas em seu contexto para compreender sua dimensão teológica. Iniciamos pelas luzes trazidas pelos textos de leitura. O Salmo 96 conclama as famílias do povo de Deus para cantar louvores numa nova canção a Ele, porque fez coisas maravilhosas: Ele fez os céus! Ele merece (é digno!) o louvor e deve ser temido. Os demais deuses são ídolos, são de aparência. Nota-se um paralelo entre os v. 7-9 e o Salmo 29.1-2. Por seus acréscimos, percebemos que o Salmo 96 era usado no templo. Nele todos deveriam curvar-se e trazer as suas ofertas. Diante desse Deus toda a Terra deveria tremer. Glória e majestade são suas características. Paulo escreve aos gálatas sobre um assunto bastante difícil de ser abordado numa carta. Já nos versículos iniciais, em meio às suas costumeiras saudações, suas palavras vão direto ao ponto. Há um outro evangelho sendo divulgado e aceito pelas pessoas das comunidades na Galácia; ao que tudo indica, esse outro evangelho coloca o acento nas exigências da fé judaica (a circuncisão e os preceitos da lei) para a salvação ao invés da aceitação e da obediência à vontade de Deus que deu seu Filho, que se entregou à morte para nos livrar dos pecados e deste mundo mau. Há questionamentos sobre a legitimidade do seu apostolado. Com isso a legitimidade do evangelho que ele anuncia está em jogo. Lucas 7.1-10 traz com exclusividade o pedido, a intermediação de anciãos judeus, amigos de um centurião romano, para que Jesus curasse o seu servo muito doente. O argumento deles é que o centurião é digno de tal ação de Jesus, pois é amigo do povo judeu e construiu uma sinagoga. Porém Jesus admirou-se dele, pois não tinha achado uma fé como essa em seu próprio povo. E apenas com sua palavra, sem ir vê-lo ou tocá-lo, o rapaz foi curado. O centurião romano crê na autoridade de Jesus.
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Exegese
O texto de Lucas está inserido na primeira parte do evangelho, onde é apresentada a atuação de Jesus na Galileia. A perícope em estudo vem logo após o Sermão do Campo (Lc 6.20-49) e antes da ressurreição da filha da viúva de
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Naim (Lc 7.11-17). Conforme E. Lohse, o evangelista tentou estabelecer uma sequência compreensível das peças da tradição, aplanando as emendas entre as perícopes e chamando a atenção para o grande contexto da história governada por Deus, que vai desde a caminhada do povo de Israel e a atuação de Jesus até o presente da igreja (p. 159). Seu autor foi um gentílico-cristão de formação helenista, que tinha a intenção de levar ao mundo helenista a mensagem de Cristo através dos seus relatos. A época do surgimento do Evangelho de Lucas deve ser fixada por volta de 90 d.C. Uma possível tradução literal do texto seria a seguinte: 1. Quando terminou todas as palavras dele para os ouvidos do povo, entrou em Cafarnaum. 2. Um servo de um centurião, estando mal, estava por morrer, o qual era estimado por ele. 3. Tendo ouvido acerca de Jesus, enviou a ele anciãos dos judeus, pedindo a ele para que, vindo, curasse o seu servo. 4. Os que vieram a Jesus imploraram a ele insistentemente, dizendo que: digno é que concedas isso. 5. Pois ama a nossa nação e a sinagoga ele construiu para nós. 6. Jesus ia com eles. Já não longe estando eles da casa, o centurião enviou amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres sob o meu teto. 7. Por isso nem a mim mesmo considerei digno de ti ir, mas dize uma palavra e será curado o meu rapaz. 8. Pois eu sou homem sob autoridade colocado, tendo sob mim mesmo soldados e digo a este: vai, e vai; e a outro: vem e ele vem; e ao servo meu: faze isto, e faz. 9. Tendo ouvido essas coisas, Jesus admirou-se dele e, voltando-se à multidão que o seguia, disse: Digo a vós, nem em Israel encontrei tão grande fé. 10. E tendo voltado para a casa os que foram enviados, encontraram o servo saudável. Jesus entra em Cafarnaum, cidade de fronteira no nordeste da Galileia, onde acontece a cena. Nas fronteiras existiam destacamentos militares, cuja autoridade era um “cavalheiro, um cidadão romano”, no caso um centurião que poderia ter sido recrutado nas legiões estrangeiras, estando a serviço do exército romano. O centurião ocupava um posto entre sargento e tenente, o que corresponde hoje a um subtenente. Era um cargo de muita responsabilidade, que podia responder pelos pesados impostos indiretos cobrados por todo o transporte comercial que por ali circulava. Esse centurião apela aos anciãos judeus para que interpelem Jesus. Segundo J. Jeremias, esses anciãos deviam ser ricos, pois dentre eles os romanos escolhiam funcionários responsáveis pelos impostos. A questão da casa também merece destaque: Jesus inverte as regras sociais da época. O templo era visto como o lugar sagrado da presença de Deus. Mas Jesus vai às casas das pessoas, do povo indigno e lá acontecem cura, aceitação,
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perdão e salvação. É para a casa do centurião que Jesus se dirige e, mesmo ainda distante, lá acontece a cura. Os amigos que são enviados pelo centurião não têm uma identidade clara. São anônimos no texto. A tarefa deles é dizer a Jesus que, mesmo sem ser judeu, o centurião merece ajuda, apesar das leis de pureza e impureza que havia entre eles. Mas o próprio centurião não se considera digno dessa visita. Não é por sua pessoa que ele está pedindo, mas por seu servo. Ele está convicto de que Jesus tem autoridade para curar através de uma só palavra. Por ser militar, conhece o poder de uma ordem dada por quem tem o poder sobre os demais, assim como ele obedece fielmente a ordens recebidas de seus superiores. De onde o centurião conhece Jesus? Da sinagoga? De ouvir falar? O texto não nos revela maiores detalhes. O que sabemos é que ele crê na autoridade de Jesus e em seu poder para ajudar o seu servo. De onde vem isso? Da tradição e das normas humanamente formuladas e estudadas? Ou de uma vivência real e concreta com Jesus e com as pessoas que estão ao nosso redor? Ao ver tamanha confiança e fé, Jesus admira-se do centurião. E voltando-se para a multidão que o seguia, falou sobre ele. Certamente entre a multidão havia aqueles que o amavam e os que o observavam para condená-lo. Podemos entender as palavras de Jesus como uma provocação àqueles que se consideram o povo santo de Deus. Aqui um militar gentio é enaltecido como exemplo de fé. Mais tarde, Jesus vai colocar o samaritano, o publicano, as mulheres e tantos outros marginalizados ou excluídos como exemplos de fé. Um pouco antes, em Lc 6.46, Jesus questiona aqueles que o ouvem, dizendo: Por que vocês me chamam “Senhor, Senhor” e não fazem o que eu digo? O que adianta uma relação de autoridade se não há credibilidade e confiança para colocar em prática o que foi recebido? Qual a autoridade de Jesus para sua comunidade hoje?
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Meditação
Conta o texto que, na casa de um centurião romano, havia um servo doente. Também aqui não se tem clareza de quem se trata. O termo usado pode designar um serviçal, um escravo comprado por dinheiro, portanto valioso para o seu dono, ou um próprio filho, que na pirâmide social da família estava sob a autoridade e domínio do pai. Em todo caso, essa pessoa estava à beira da morte, e o centurião estava disposto a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, pois o amava. É de se compreender que ele tivesse pedido aos anciãos judeus que falassem com Jesus, que também era judeu. Conhecedores das tradições, costumes e leis eles saberiam como sensibilizar o Mestre para essa causa. E eles usaram argumentos fortes: o centurião é digno da atenção de Jesus, primeiro porque é simpatizante dos judeus, talvez até frequentador da sinagoga e, segundo, porque construiu uma sinagoga para o povo dali. Diríamos hoje: um homem bom! Os argumentos convenceram Jesus, pois ele foi com eles. Se o texto terminasse por aqui, era isso que compreenderíamos. Porque o centurião fez o bem, merece o
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bem em troca. Em outras palavras: para os judeus, justo perante Deus era somente aquele que tivesse obras para exibir, como a lei as exigia. Então, por que esse homem não se considera digno diante de Deus? Ele era bom e fazia o bem... O texto segue, e amigos anônimos do centurião vão a seu encontro e, antes que ele chegasse à casa, trouxeram um recado: “Lembre-se que ele não é judeu e não é digno da sua presença em sua casa...” Pelo menos era assim que regiam a lógica e os costumes da época. Quanto problema Jesus enfrentou por ir à casa de pessoas indignas, pecadoras e de outras origens... Comer com elas foi um dos argumentos que o condenou à morte. Mas agora aparece algo inusitado, que faz Jesus ficar admirado: o centurião crê que uma palavra sua curará o servo doente, mesmo de longe. Porque, como militar, o centurião conhece muito bem uma ordem dada por um superior. Ordem é ordem e deve ser cumprida. Não compete ao subalterno entender o porquê dela, apenas obedecer. De onde vem a autoridade de Jesus para o centurião? Mesmo convivendo com judeus e estando familiarizado com as suas regras religiosas, a partir de sua própria experiência o centurião experimenta algo: a fé em Jesus. Isso é novo, pois o próprio Jesus se admira! Para o centurião, a cura depende da palavra de Jesus, da sua manifestação, do seu querer. O que ele, centurião é ou faz, não o torna mais merecedor ou menos merecedor da ação salvadora de Jesus. Ele só pode pedir, acatar, acolher e crer. Imagino que, para a comunidade lucana e para as comunidades na Galácia, essas questões ainda traziam muitos conflitos. O que impera ainda é a forte influência da lógica religiosa do judaísmo. Também Paulo é acusado de não ser apóstolo legítimo e que o evangelho que prega, por não exigir circuncisão e os ritos religiosos e legais judaicos, não era verdadeiro. Foi preciso relembrar o seu chamado para ser apóstolo, que não se deu por meio de pessoas, mas pela ação de Deus. Pois se fosse para agradar as pessoas (assim como o estavam acusando), Paulo diz que poderia ter continuado um dos “melhores” judeus, pois conforme Gálatas 1.14, ele era bom no que fazia e estava à frente de muitos. Tinha muitos méritos a comprovar. Mas o apóstolo insiste que esse não é o evangelho verdadeiro. Esse é o que agrada as pessoas. Ele apela para que a comunidade permaneça firme, obediente à vontade de Deus, seguindo o evangelho de Cristo, para a aprovação dele e não de pessoas ou líderes religiosos. Méritos diante de Deus? Temos? O que vale para a ação da comunidade? Muitas vezes, nossa ação diaconal está condicionada para o que a pessoa faz, como ela vive, quanto participa, se paga ou não a contribuição etc. Medimos, colocamos uma fita métrica no lugar da graça e, não poucas vezes, pessoas sucumbem por falta de mãos amigas, da presença concreta, de palavras confortadoras, da força divina para transformar o seu viver. Há poucas semanas comemoramos Pentecostes. Eis o tempo da igreja, o tempo do serviço, do ir a campo, dos sinais do reino frutificar, pois o Espírito de Deus não está mais preso ao templo nem nos beneficia conforme as ofertas trazidas como ação de graças. Ele age onde quer. Ele inspira e inflama a fé. E pela ação de Jesus, nós percebemos que ele age nas casas e nas ruas, lá onde as
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pessoas estão. E esse é o seu envio a todas as pessoas que o chamam de Senhor e colocam-se sob sua obediência. Buscar forças e orientação na igreja, nos cultos e celebrações é importante. Traz-nos a lembrança, e experimentamos o grande amor de Deus em Cristo. Precisamos ser lembrados e lembradas de que a lógica do mérito, da escadinha social, de quem vale mais ou menos não funciona aos olhos de Deus. E se queremos viver o novo que Jesus veio inaugurar, então precisamos desconstruir essas compreensões meritórias sempre mais presentes diante da economia de mercado e das teologias da prosperidade e do espiritismo reinante. No texto, foi a fé do centurião que surpreendeu todos e todas. E hoje, a fé de quem nos tem surpreendido?
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Imagens para a prédica
Proponho que se crie uma situação “real” para a comunidade posicionar-se e ajudar a decidir. Pode-se propô-la através de uma explicação ou com uma encenação. A Páscoa aproximava-se, os preparativos na comunidade eram intensos... Ministros e ministras com agendas abarrotadas de celebrações da Ceia a doentes e idosos em suas casas, celebrações nas comunidades. Lideranças comunitárias dividindo-se entre os preparativos para a Páscoa familiar e na comunidade. Eis que vem dois pedidos para Ceia nas casas: o primeiro de uma mulher que ninguém lembra quem é, mas está num albergue municipal. Nem foi ela quem pediu, mas um familiar que gostaria que ela tivesse a celebração da Ceia, pois suas forças estavam enfraquecendo e seu fim não tardaria. A outra pessoa era alguém muito ligado à comunidade. Membro assíduo em cultos, ativo nas atividades e grande colaborador financeiro. Também ele não pediu, mas a sua família fazia questão da Santa Ceia, pois, afinal, a Páscoa se aproximava... A agenda pastoral só permitia uma das duas visitas. A outra teria que ficar para depois da Semana Santa. Qual das duas escolher? A reflexão poderia partir de ponderações sobre méritos a favor de um ou de outro. Poderiam entrar argumentos de classe social, de gênero, de mérito por trabalho, de abandono e de exclusão social. Lembrem que nenhum dos dois casos a pessoa pediu, mas seus familiares. Se não fosse atendido, quem cobraria ou reclamaria mais? Por quê? Como reagimos numa situação dessas como comunidade? O que é fazer o que Jesus nos pede nesse exemplo concreto? Por fim, é importante lembrar que Jesus foi à casa do centurião porque o rapaz estava morrendo. A vida estava em perigo. Essa é a prioridade de Jesus e deveria ser a nossa, independentemente de agradar ou não as pessoas. O que importa é a aprovação de Deus e fazer o que Jesus nos pediu, enquanto esperamos a plenitude do Reino.
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Bibliografia MORIN, Émile. Jesus e as estruturas de seu tempo. Edições Paulinas, 1982. VASCONCELLOS, Pedro Lima. A boa notícia segundo a comunidade de Lucas. A Palavra na Vida. CEBI, 1988. p. 123/124.
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3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
05 JUN 2016
PRÉDICA: GÁLATAS 1.11-24 1 REIS 17.17-24 LUCAS 7.11-17
Cristina Scherer
Creio no evangelho que liberta Sabemos que no hay tierra ni estrellas prometidas. Lo sabemos, Señor, lo sabemos y seguimos contigo trabajando. Sabemos que mil veces y mil veces pararemos de nuevo nuestro carro y que mil y mil veces en la tierra alzaremos de nuevo nuestro viejo tinglado. Sabemos que por ello no tendremos ni ración ni salario. Lo sabemos, Señor, lo sabemos y seguimos contigo trabajando. (León Felipe, España 1884-1968)
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Introdução
A maior ameaça vem de dentro! Essa afirmação pode ser aplicada aos nossos sentimentos, porém na vida da igreja ela também é realidade. Pois as maiores ameaças estão dentro dela e não fora. É claro, o cristianismo teve momentos fortes de perseguição e ameaças externas, de outros povos, outras religiões. Mas se tivermos um olhar mais atento, observaremos que as ameaças internas são as mais presentes e causadoras de grandes feridas ainda hoje. Olhemos para nossas comunidades: quantas feridas, palavras, gestos, omissões são causadas por pessoas cristãs, participantes da igreja, membros de grupos, do presbitério? Quanta inverdade, injustiça, desamor, falta de partilha e solidariedade estão presentes dentro das igrejas e povoam as mentes e corações das pessoas que são batizadas e pertencem ao corpo de Cristo? Quanta teologia não condiz com o evangelho da liberdade, da graça e do amor e está presente neste mundo e entra na comunidade cristã? As ameaças que nos querem escravizar com tradições, comportamentos, atitudes e sentimentos estão entre nós e provêm dos que são cristãos e cristãs, assim como as soluções para os problemas e adversidades também estão entre nós. O texto para pregação encontra-se na Epístola aos Gálatas. Em nenhuma outra carta o apóstolo Paulo fala com tanta ênfase do tema da liberdade cristã e da justificação por graça e fé como essa; pois ele não pretende que os gálatas voltem à submissão de forças que são capazes de obstruir a liberdade que haviam alcançado pela fé através da proclamação do evangelho realizada por ele. Paulo não deseja que cristãos e cristãs voltem a outro evangelho (Gl 3.1-5) e afirma que quem nega a liberdade está negando o próprio Cristo (TAMEZ, p. 89-90). As leituras que acompanham o texto para pregação deste culto apontam para a ação do evangelho anunciado por Paulo, que conduz a pessoa a crer, a con-
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fiar e a esperar em Deus. O evangelho que desperta fé, liberta de opressões, é sinal de graça e amor, recria a vida e alimenta a esperança por meio de Jesus Cristo.
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Exegese
Quem são os gálatas? No tempo do Novo Testamento, a Galácia era uma província romana da Ásia Menor, que abrangia os seguintes territórios: a Galácia propriamente dita, a Frígia, a Pisídia e a Licaônia. A Galácia é citada no livro dos Atos (At 16.6; 18.23) e era uma província romana desde 25 a.C. As igrejas da Galácia devem ter sido fundadas por ocasião da primeira viagem missionária de Paulo (At 13.1-14,26). No século I, o termo Galácia podia indicar regiões diferentes no centro da atual Turquia. Seus habitantes eram estrangeiros, indo-europeus (celtas/gálios), migrados para a Ásia Menor. A região da Galácia, onde Paulo anuncia o evangelho, fica provavelmente ao norte (Pisídia, Licaônia). Fica nas mediações do mar Negro. A Epístola aos Gálatas é uma espécie de carta circular, endereçada às “igrejas da Galácia”, escrita entre os anos 54 e 57. Estando em missão em Éfeso, Paulo recebe notícias sobre as igrejas da Galácia. Uma ameaça cerca essa comunidade. Paulo é acusado de anunciar um evangelho sem fundamento. A carta é, em primeiro lugar, uma resposta a essa situação. Paulo inicia dizendo que alguns pregadores põem em dúvida o seu estilo missionário e a sua legitimidade como apóstolo. A carta dá a entender que pessoas de fora fizeram adeptos na comunidade local, colocando em dúvida a ação evangelizadora de Paulo e o conteúdo que anuncia como apóstolo (confira Gl 1.6; 3.1; 4.17; 6.12). Assim temos nessa carta a preocupação de Paulo centrada em dois pontos: 1. provar sua autoridade e legitimidade como apóstolo; 2. explicitar a verdade e a liberdade do evangelho. Mas quem são esses falsos apóstolos e deturpadores da ação missionária de Paulo? Como Paulo lida com eles? Para os estudiosos, há várias possibilidades: judeus cristãos judaizantes, apegados à lei mosaica e à circuncisão; cristãos judaizantes de origem pagã e outros. A carta vai direto ao assunto. É polêmica do início ao fim. O que está em jogo é o evangelho de Jesus Cristo anunciado por Paulo – a essência de sua vida e de sua pregação. Esse evangelho produz liberdade e não a escravidão à tradição da lei. Paulo fala de sua experiência pessoal. Testemunha o que causou a invasão de Cristo ressuscitado em sua vida. Apela para o seu passado e vivência zelosa no judaísmo e a perseguição da igreja de Deus. Destaca sua vocação: separado desde o seio materno para evangelizar os gentios, a exemplo dos profetas Isaías e Jeremias (Gl 1.5). Nessa autodefesa inicial, o destaque é dado à revelação divina. Frisa que não foi por influência humana nem por ordem dos apóstolos de Jerusalém que começou a atuar. Ele só depende de Deus, de sua graça, de sua revelação, de sua força. Em outra carta, ele mesmo escreve: “Então o Senhor me disse: A minha graça te basta...” (2Co 12.9).
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Para Paulo, a verdade do evangelho que ele defende é a mensagem de salvação que lhe fora revelada pelo próprio Jesus, mensagem de liberdade e salvação. Essa revelação é sinal da mais pura graça de Deus, não é conquista ou mérito humano. A boa notícia do evangelho fala da liberdade que há no viver e no seguir a Cristo e a consequente quebra das algemas da observância da lei. Assim, em toda a carta, o destaque é dado ao evangelho que significa o acontecimento salvífico, realizado na morte e ressurreição de Jesus, cuja mensagem é anunciada por meio da vida concreta de Paulo, pois o que ele recebeu de Jesus Cristo é o que ele anuncia (cf. 1Co 1.17; 11.23). O conteúdo da Epístola aos Gálatas pode resumir-se no seguinte: Introdução: 1.1-10; I. Origem divina do evangelho: 1.11-2.21; II. O evangelho faz-nos filhos/filhas de Deus: 3.1-4.7; III. O evangelho faz-nos livres: 4.8-5.12; IV. Vida cristã, caminho de liberdade: 5.13-6.10; Conclusão: 6.11-18. No texto de Gálatas 1.11-24, Paulo quer provar a origem divina do evangelho que anuncia em sua missão como apóstolo (v. 11). Ele faz uma retrospectiva em sua vida, em sua caminhada. Lembra seu comportamento antes de sua conversão, quando perseguia os que eram do “caminho”, pessoas que confessavam o evangelho de Jesus Cristo. Fazia isso para preservar a tradição da lei judaica (v.13-14). Nesse trecho ficam claras a educação que Paulo recebeu e a linha farisaica que seguia. Após lembrar o episódio do passado em que era inimigo do evangelho, nos v. 15-16a, Paulo lembra o momento de sua transformação, quando lhe foi revelado que Jesus Cristo é Filho de Deus. Fala da visão que teve em Damasco (At 9) e do momento em que foi chamado para ser apóstolo. Tudo isso foi ação de Deus, ação amorosa e gratuita, anterior a qualquer obra sua (Rm 9.11s). Nos v. 16b-24, o apóstolo lembra aos gálatas que o evangelho que ele lhes havia anunciado não fora transmitido por intermédio dos apóstolos de Jerusalém e que o contato que teve com eles havia sido tardio e raro. Dessa forma, Paulo quer comprovar que o evangelho que anuncia é pura revelação de Deus a ele, sendo que o mesmo não tem sua origem em atuação humana. Ele afirma que foi à Arábia (v. 17) talvez em busca de quietude e solidão para ser fortalecido na missão. Lá permaneceu por um período de três anos (v.18). Mais tarde, foi a Jerusalém (cf. At 9.26) para uma rápida visita, onde permaneceu por quinze dias. Ali teve contato com somente dois apóstolos, Pedro e Tiago. Aqui o verbo usado é historeō, que significa visitar com o propósito de conhecer uma pessoa. Em seguida (v. 20-24), Paulo lembra que foi para a Síria e a Sicília (cf. At 9.30), afirmando assim que esteve mais presente em sua missão no norte do que na região da Judeia, pois lá o conheciam apenas de ouvir falar, destacando os rumores que aquele que outrora perseguia os cristãos agora era anunciador da fé. Por tudo isso glorificavam a Deus a seu respeito. Somente anos mais tarde (Gl 2.1), Paulo tem um contato mais intenso com os apóstolos em Jerusalém.
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Em Gálatas 1.6-10, Paulo deixa claro que há somente um evangelho, o mesmo que ele apresentou aos gálatas. E esse evangelho deve estar acima de toda e qualquer opinião ou julgamento humano. Agora, em 11-24, Paulo precisa defender a origem, ou seja, de onde vem esse evangelho que ele anuncia e qual sua legitimidade diante de distintas opiniões de pessoas que se achegam na comunidade e são chamadas pelo apóstolo de “falsos mestres” e anátema (Gl 1.8-9). O evangelho que Paulo anuncia é revelação de Jesus Cristo. Em Gálatas 1.1, Paulo afirma a origem de sua comissão apostólica. Nem a sua missão tampouco a sua mensagem derivam de seres humanos, mas unicamente de Deus. É como se Paulo afirmasse: o evangelho que preguei a vocês não é uma invenção, nem uma tradição, mas uma revelação. Em Romanos 16.25, Paulo fala em “meu evangelho”. Era “seu” não porque ele o havia criado, mas porque lhe fora revelado de modo especial. Suas palavras e mensagens não são suas, mas de Deus, que age por graça e amor.
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Meditação Não deixe morrer a profecia. (Dom Hélder Câmara)
A pergunta que esse texto suscita em nós pode ser esta: hoje falamos em nome de Deus ou de seres humanos, queremos agradar a Deus ou as pessoas? Lembremos, a exemplo de Jesus Cristo e tantas pessoas que lhe foram fiéis, que a tarefa de quem prega na igreja deve ser profética. A profecia vai no sentido de alertar que toda vivência cristã tem de ser coerente com o evangelho e não com ideias que levam a inversões ou distorções do mesmo. (...) Para descobrir sua palavra (de Deus), homens e mulheres que desenvolvem a vocação profética têm de viver uma profunda busca e discernimento da palavra divina que devem reproduzir. E devem ter muito cuidado para não projetar seus desejos e confundir a palavra de Deus com seus próprios discursos e pensamentos. Durante toda a sua vida, quem é profeta ou profetiza busca sinais para poder confiar que a sua intuição vem mesmo da inspiração divina. (Nascem profetas. Marcelo Barros: disponível em: http://www.cebi.org.br/_print. php?type=news&id=2721) A Palavra que eu levo deve ser uma Boa-Nova, uma Palavra que liberta, que salva e que dá esperança. E é por isso que os verdadeiros profetas não são sempre aqueles que nós pensamos. Eles são dificilmente apoiados pelas instituições, mesmo pela Igreja... Pois a Igreja, ela também não gosta do que incomoda, não gosta de mudança, de novidade, e os profetas são frequentemente suspeitos. O teólogo francês Hyacinthe Vulliez escreve: ‘Quando queremos nos desfazer de um profeta, é habitual tratá-lo de anormal, de atípico e mesmo de estrangeiro, o que permite distanciá-lo e mesmo fazê-lo desaparecer. Não gostamos da pessoa que tem um discurso diferente do convencional. Ele incomoda, ele faz sair da monotonia de sempre, e isso o pessoal não gosta!’ (Profetas desconcertantes. Raumond Gravel, disponível em: http://cebi.org.br/_print.php?type=news&id=3194)
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Quem está no processo de crescimento precisa encontrar força diante das adversidades para não abandonar o que iniciou. Diante dessa afirmação, cabe perguntar à comunidade à qual se prega: quais são as adversidades presentes em nosso meio hoje? São ameaças externas (extra nos) ou internas (intra nos)? Como lidamos com as ameaças internas hoje? É possível fechar os olhos e fingir que nada acontece ou tentar empurrar a sujeira para baixo do tapete ou vamos encarar os problemas e adversidades de frente, como Paulo fez? Evidencia-se dentro da igreja a força de pessoas que querem distorcer e perverter o evangelho, invertendo-o, virando-o de costas e de cabeça para baixo. Pessoas que fazem parte da comunidade cristã também agem perturbando, causando intrigas, problemas, criando discussões, colocando em dúvida a palavra de Deus e a atuação de quem a prega, ministros e ministras da igreja. Na verdade, os maiores perturbadores da igreja (agora e naquele tempo) não são os que se lhe opõem de fora, que a ridicularizaram e a perseguem, mas aqueles que dentro dela tentam alterar o evangelho. São eles que perturbam a igreja. Inversamente, a única maneira de ser um bom membro na igreja é sendo um bom adepto do evangelho. A melhor forma de servir a igreja é crer no evangelho e pregá-lo (STOOT, p. 24). Quem são as pessoas que hoje entram na comunidade cristã para semear divisão, dúvidas, conflitos, distorcer ou inventar outro evangelho a ser pregado? Há entre nós pessoas com resistências para aceitar o evangelho que anuncia a liberdade conquistada por Jesus Cristo mediante seu morrer e ressuscitar? Por que o fazem? Como a igreja pode ajudá-las? Nossas comunidades gostam de ouvir a palavra do evangelho que fala de acolhida (a todas as pessoas) de amor, de respeito à diversidade, de inclusão (dos mais pobres e pequeninos hoje...) e relacionamento respeitoso de igual para igual, sem divisões de raça, idade, classe, gênero. Pregador ou pregadora que é fiel a esse evangelho terá acolhida na comunidade. São questões que querem conduzir-nos no fiel testemunho da palavra de Deus entre nós, do qual não somos isentos, porém comprometidos com o evangelho da verdade, da justiça e da libertação. Se, de fato, a maior ameaça ao cristianismo vem de dentro das próprias comunidades, como ser igreja profética ainda? Como vislumbrar que a coerência da vivência do evangelho dos “de dentro” contagia “os de fora”? O perigo é que sempre olhamos para fora e vemos a ação de outros e até os culpamos (olhar o cisco no olho do outro sempre é mais fácil). Penso que a pessoa que prega deveria ter coragem para olhar bem para dentro da comunidade, parar e meditar como andam os relacionamentos e como e onde as pessoas estão ou não dando voz ao evangelho que liberta, produz alegria, paz, amor, lembrando os frutos do Espírito Santo (Gl 5.22), para fazer uma ponte com o tempo litúrgico no qual nos encontramos. Como pessoa ordenada para exercer o ministério na igreja, você já teve que se defender ou defender o interesse do evangelho perante o interesse de pessoas que tentavam inverter/distorcer/manipular a boa-nova de paz, amor e salvação a todas as pessoas? Como você se sentiu diante dessa situação? Como você percebeu a graça de Deus carregando-o nesse momento? Como denunciar profeti-
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camente situações em que há interesses de poder dentro da igreja? Relembre um episódio de sua vida ministerial e compartilhe-o como testemunho com a comunidade, a fim de perceber que as ameaças estão bem próximas de nós. Cite outros exemplos de sua realidade. Jesus Cristo afirmou que um profeta não é bem aceito em sua própria terra (Lc 4.24). Que implicações essa afirmação de Jesus tem para a pregação do evangelho hoje, aliada ao exemplo de Paulo? Como profeta de seu tempo, Jesus teve uma missão bem clara (Lc 4.18-19), e nós temos essa missão explícita em nosso ministério? Quais os empecilhos para que essa missão se cumpra entre nós como pequenos profetas e profetisas hoje?
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Imagem para a prédica
O que acontece com a inteligência? Você não é bobo. Não acredita em qualquer coisa. Sabe distinguir o possível daquilo que é mentira. Eu lhe digo que no meu sítio há uma raça de gansos verdes de três pernas que botam ovos quadrados. Você não acredita. O seu filho lhe diz que no seu quarto há um elefante cor-de-rosa soprando bolinhas de sabão verdes. Você não acredita. Ou o menino está fazendo uma brincadeira ou ficou louco. A inteligência “testa” as ideias para saber se elas são dignas de crédito. Agora me explique: por que é que, quando se entra no campo da religião, as pessoas estão prontas a acreditar em qualquer coisa que outra pessoa lhes diz? Será que, para ter sentimentos religiosos, é preciso abandonar a inteligência? (Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérolas, p. 225-226) Analisar esse texto e o texto bíblico e perguntar onde estamos deixando de lado a inteligência na vivência do evangelho, da boa-nova entre nós?
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Subsídios litúrgicos
Versículo de saudação Sempre falamos como Deus quer, porque ele nos aprovou e nos deu responsabilidade de anunciar a boa notícia do evangelho. Não queremos agradar as pessoas, mas a Deus, que põe à prova as nossas intenções (1Ts 2.4). Para o momento de Confissão, uma oração: Que eu chegue a ti, Senhor, por um caminho seguro e reto, caminho que não se desvie entre prosperidade ou adversidades, de tal forma que eu te dê graças nas horas prósperas e nas adversidades conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras, nem abater-me pelas outras. Que nada me alegre ou entristeça, exceto o que me conduz a ti ou de ti me separe. Que eu não deseje agradar ou não receie desagradar a ninguém senão a ti. Tudo o que passa torne-se desprezível a meus olhos por tua causa, Senhor, e que tudo que te diz respeito me seja caro, mas tu, meu Deus, mais do que o resto.
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Qualquer alegria sem ti seja-me fastidiosa e nada eu deseje fora de ti. Qualquer trabalho, Senhor, feito por ti seja-me agradável, e insuportável aquele em que estiveres ausente. Concede-me a graça de erguer continuamente o coração a ti, e quando eu cair, reconhecer meu erro (...). Dá-me, Senhor Deus, um coração vigilante, que nenhum pensamento curioso arraste para longe de ti, coração nobre que nenhuma afeição indigna debilite; coração reto que nenhuma intenção equívoca desvie; coração firme que nenhuma adversidade abale; coração livre que nenhuma paixão subjugue. Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que te conheça, uma angústia que te procure, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que te possua, enfim! (São Tomás de Aquino – 1225-1274) Bênção Não ter nada. Não levar nada. Não poder nada. Não pedir nada. E, de passagem, não matar nada, não calar nada. Somente o evangelho, como uma faca afiada. E o pranto e o riso no olhar e a mão estendida e apertada. A vida, a cavalo, dada. E este sol e estes rios e esta terra comprada, como testemunhas da Revolução já estalada. E mais nada! (Dom Pedro Casaldáliga) Hinos
Cancioneiro O Povo Canta: A verdade vos libertará, p. 70; Cântico de Maria, p. 40; Convite à liberdade, p. 267; Procurando a liberdade, caminheiro, p. 56.
Bibliografia COTHENET, Eduardo. A Epístola aos Gálatas. São Paulo: Paulinas, 1985. STOTT, John R. A mensagem de Gálatas. São Paulo: ABU Editora, 1989. TAMEZ, Elsa. Contra toda condena. San José: DEI, 1991.
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PRÉDICA: 2 SAMUEL 11.26-12.10,13-15 LUCAS 7.36-8.3 GÁLATAS 2.15-21
4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
12 JUN 2016
Gerson Correia de Lacerda
Deus perdoa, mas exige arrependimento
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Introdução
O texto para a prédica para este domingo já foi objeto de estudo duas vezes em Proclamar Libertação. A primeira vez ocorreu no volume 29, no ano de 2003, com texto produzido por Vera Maria Immich. A segunda vez no volume 34, do ano de 2009, com trabalho de Haroldo Reimer. O texto de 2 Samuel narra a conhecida história do encontro de Davi com Natã, logo após haver cometido um adultério e um assassinato. Foram dois pecados que não combinavam com a biografia da pessoa apresentada na própria Bíblia como homem segundo o coração de Deus (At 13.22). Apesar dos pecados, Davi não se sentiu arrependido imediata e espontaneamente. Ao contrário, somente depois da repreensão de Natã, o rei caiu em si, reconheceu seu erro e clamou pelo perdão divino (Sl 51). Portanto o texto gira em torno do pecado, do arrependimento e do perdão divino. A segunda leitura, extraída de Lucas 7.36-8.3, apresenta uma história de perdão concedido por Jesus a uma mulher pecadora em plena casa de um fariseu zeloso na observação dos mandamentos, que criticara o comportamento do Senhor por permitir que aquele tipo de mulher ungisse seus pés com perfume e com suas lágrimas, enxugando-os com seus próprios cabelos. E o texto termina destacando que, de fato, do grupo que acompanha Jesus não faziam parte somente discípulos homens, mas várias mulheres, que o serviam com seus recursos. A terceira leitura, Gálatas 2.15-21, destaca que ninguém é aceito por Deus pela observância dos mandamentos e pelas obras da lei. Ao contrário, todos os seres humanos, judeus e gentios, são pecadores que somente são salvos pelo perdão de Deus, cuja graça salvadora manifesta-se em Cristo Jesus. Os três textos, portanto, apontam numa só direção: o ser humano é pecador, mas Deus o ama e está sempre pronto para perdoar e conceder a possibilidade de uma nova vida.
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Exegese
No volume 34 de Proclamar Libertação, Haroldo Reimer chama a atenção para algo extremamente importante. Diz ele: o presente texto está tecido dentro de uma trama literária maior. Trata-se da Obra Historiográfica Deuteronomista, a qual busca descrever traços da história do povo hebreu desde a entrada na ter-
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ra de Canaã, passando pelas experiências do tribalismo e das monarquias, até a perda da autonomia política e da própria terra, com a destruição de Jerusalém em 586 a.C. e a subsequente experiência do exílio. O ‘autor deuteronomista’ que conta essa história situa-se numa espécie de metaponto do futuro na situação do exílio e olha para o transcurso da história e busca identificar uma lógica. Nessa lógica, o tema da transgressão do povo e o perdão de Yahveh é recorrente... Assim, pois, não se deve ver o tema da ‘conversão’ e do perdão de forma isolada nesta perícope (p. 232). a) Será que Davi pecou? Pode parecer absurda a pergunta, mas temos de pensar no contexto histórico daquela época. O costume generalizado era que os reis tinham poderes absolutos sobre todo o seu povo. Eram considerados seres divinos ou representantes das divindades aqui na terra. Nesse contexto, os atos dos reis estavam acima de qualquer avaliação. Não podiam ser condenados por coisa alguma. Tinham direito de vida e de morte sobre todos os seus súditos. Em tal situação, nenhum monarca dos outros povos poderia ser acusado por seus abusos e pecados. Talvez por viver em tal contexto, após cometer adultério e assassinato, Davi agiu como se nada de mais grave tivesse ocorrido. Simplesmente trouxe Bate-Seba para o seu palácio, tomando-a por esposa e tendo um filho com ela (2Sm 11.27). b) A monarquia israelita era diferente Acontece, porém, que a monarquia israelita tinha um caráter único. Nela, o rei não era considerado um ser divino. Nela, o rei também estava sujeito às mesmas leis divinas que todos os cidadãos tinham de obedecer. E nela ainda havia a figura do profeta, que proclamava sua mensagem em nome de Deus, sem estar submisso à vontade do rei. Na verdade, ao assumir o poder sobre Israel e Judá, Davi fez uma espécie de pacto com os dois povos: Assim, todos os líderes de Israel foram se encontrar com Davi em Hebrom. Davi fez um acordo sagrado com eles, e eles o ungiram rei de Israel (2Sm 5.3). Em outras palavras, Davi não era um rei com todo o poder. Ao contrário, era um rei segundo um contrato, pelo qual comprometia-se a defender o povo de seus inimigos, marchando à sua frente nas batalhas, e a governar segundo a justiça e o direito (1Sm 8.20). Dentro desse contexto específico da monarquia israelita, Davi pode ser acusado de ter cometido vários erros. c) Os erros de Davi Podemos afirmar que, em pouco tempo, Davi ficou inebriado com seu poder. Tanto Israel como Judá reconheciam-no como rei. Por outro lado, empreendeu diversas batalhas contra outros povos, tornando-se um imperialista bem-sucedido. Coberto de glórias, Davi deu início a seus desmandos. Enviou seus exércitos para atacar a cidade de Rabá. Como rei, sua obrigação era acompanhar seus soldados e estar à frente deles. No entanto, preferiu ficar em Jerusalém, deixando de cumprir um dos pontos do acordo sagrado que fizera com seu povo. Nesse sentido, Urias, o heteu, mostrou-se muito superior a Davi (2Sm 11.10-11).
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Depois disso, Davi acrescentou dois outros desmandos: adulterou, ficando com a mulher de Urias; tornou-se um assassino, providenciando a morte do esposo de Bate-Seba, a fim de tomá-la para sua esposa. Fica claro em tudo isso que Davi perdera toda noção a respeito de seus direitos e deveres como rei. Tornara-se um soberano semelhante aos dos outros povos que se consideravam seres divinos, com todo o poder sobre o seu povo. Pior ainda! Davi continuou a agir naturalmente, como se pecado algum houvesse cometido. d) A voz profética Contudo, havia algo diferente em Israel em relação aos outros povos. Referimo-nos aos profetas. Eles se apresentavam como representantes de Deus para transmitir a sua palavra sem se colocar submissos à vontade e aos caprichos dos soberanos. Foi esse o caso de Natã. Como mensageiro de Deus, Natã transmitira uma mensagem repleta de promessas divinas a Davi (2Sm 7.1-17). Isso, porém, não significou que Natã estivesse comprometido com Davi ou sujeito à sua autoridade. Como profeta, o compromisso de Natã era com Deus. Foi assim que, em nome de Deus, ele se apresentou a Davi e contou-lhe uma parábola, que serviu como armadilha para acusar o rei. E Davi caiu na armadilha. e) Arrependimento e perdão Foi somente após ouvir a voz profética que Davi caiu em si e reconheceu o seu erro. Ele disse: Eu pequei contra Deus, o Senhor (2Sm 12.13). Diante do arrependimento de Davi, ocorrem duas consequências. Em primeiro lugar, o profeta Natã, em nome de Deus, declara que ele foi perdoado. Contudo, em segundo lugar, como afirmam Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin, o pecado de Davi deve ser julgado num contexto maior. A violação do contrato feito com o povo traz outras consequências que agora escapam à simples penitência pessoal: a autoridade do rei fica comprometida e, em consequência, desencadeia-se a luta pelo poder dentro da própria família de Davi ( p. 42). E, de fato, apesar de ter sido perdoado, a história subsequente do reinado de Deus passou a ser uma história sangrenta de luta pelo poder com muitas tragédias e mortes.
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Meditação
a) A religiosidade sem pecado e sem arrependimento de nossos dias Nos dias de hoje, é muito fácil constatar que a religiosidade do povo está em alta em nosso país. Os templos das mais diversas igrejas estão cheios. As pessoas andam em busca da ajuda de Deus a qualquer custo. Nessa situação, devemos observar com muita atenção as manifestações dessa religiosidade. Como se desenvolvem os cultos? O que está sendo proclamado nos mais diversos púlpitos? O que o povo tem cantado nas mais diversas celebrações? Sem medo de errar, podemos destacar pelo menos duas grandes caraterísticas da religiosidade atual. Em primeiro lugar, é uma religiosidade festiva, repleta
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de cânticos, danças e alegria. Muitos cultos transformaram-se em espetáculos grandiosos com cantores ou grupos de cantores famosos, que exibem todo o seu talento, levando o povo a cantar, bater palmas, fazer gestos ritmados. Em segundo lugar, o que predomina em grande parte das celebrações religiosas é a chamada Teologia da Prosperidade. Os pregadores prometem sucesso, riqueza, bem-estar e saúde em troca, principalmente, de contribuições generosas. As pessoas são atraídas por essas promessas. E, para estimulá-las e atraí-las, são utilizados inúmeros testemunhos de pessoas que eram pobres e tornaram-se ricas, estavam enfermas e recuperaram a saúde, e assim por diante. Pois bem, nesse contexto, o que acabou deixando de fazer parte da religiosidade atual foi a denúncia de pecados bem como as manifestações de arrependimento. Nenhuma dessas duas coisas são populares ou atrativas. Assim, em muitos cultos das mais diversas igrejas, não existe espaço para a confissão de pecados. Aliás, é interessante observar o conteúdo das orações feitas em nossos cultos: as súplicas são feitas “a varejo”, ao passo que a confissão de pecados (quando ocorre) é “por atacado”. Em outras palavras, os pedidos de bênçãos são específicos e detalhados, enquanto se roga simplesmente o perdão “pela multidão de nossos pecados”. Podemos, pois, afirmar que o que ocorreu com Davi ao pecar, continuando a levar a vida normalmente como se nada de grave tivesse sucedido, não se trata de algo excepcional, mas de coisa corriqueira, que se repete em nossos tempos e em nossa vida. b) A importância da voz profética Frente a essa realidade, devemos recuperar a importância da verdadeira voz profética. Temos de lembrar aqui o que ocorria nos tempos do Antigo Testamento. Deus enviava os seus profetas para criticar a religiosidade festiva e sem arrependimento: Autoridades de Jerusalém, escutem o que o Senhor está dizendo! Moradores da cidade, deem atenção ao ensinamento do nosso Deus! O Senhor diz: ... Não adianta nada me trazerem ofertas; eu odeio o incenso que vocês queimam. Não suporto as Festas da Luz Nova, os sábados e as outras festas religiosas, pois os pecados de vocês estragam tudo isso (Is 1.10-13). No entanto, não era esse o tipo de mensagem profética que o povo desejava ouvir. Ao contrário, Eles pedem aos videntes que não tenham visões e dizem aos profetas: Não nos anunciem a verdade; inventem coisas que nos agradem (Is 30.10). Ora, a mensagem profética do Antigo Testamento nunca foi agradável de ser ouvida. Foi o que ocorreu no caso de Davi. A mensagem de Natã era tão desagradável, que ele não chegou denunciando abertamente o pecado de Davi. Ao contrário, o profeta foi bastante precavido e cuidadoso. Contou ao rei uma parábola que nada tinha a ver com ele. No final dela, o rei Davi estava disposto a condenar a pessoa da parábola que pecara e disse: Eu juro pelo Senhor, o Deus vivo, que o homem que fez isso deve ser morto! Ele deverá pagar quatro vezes o que tirou, por ter feito uma coisa tão cruel! (2Sm 12.5-6). Foi somente nesse momento que o profeta, com toda a autoridade e firmeza, denunciou que o rei Davi fora exatamente aquele homem que pecara.
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Aliás, convém lembrar que, no Novo Testamento, é nessa mesma direção que caminham as vozes proféticas de João Batista e de Jesus de Nazaré. O primeiro pregava: Arrependam-se dos seus pecados e sejam batizados, que Deus perdoará vocês (Mc 1.4). O segundo não era diferente: Chegou a hora, e o Reino de Deus está perto. Arrependam-se dos seus pecados e creiam no evangelho (Mc 1.15). É essa a voz profética que precisa se fazer ouvir nos dias de hoje: uma voz corajosa, ousada, que denuncie claramente os pecados e convide ao arrependimento. c) A necessidade de arrependimento para o perdão de pecados Davi só reconheceu que pecara depois de ouvir a voz profética. Apesar dos graves pecados cometidos, antes disso nada afligia a sua consciência. Foi a voz profética que abriu os seus olhos. Foi a voz profética que o acordou para a realidade. Nesse momento, Davi sentiu profundo arrependimento em seu coração. A expressão desse arrependimento ficou conservada no Salmo 51. Em suas palavras percebe-se que o arrependimento de Davi foi intenso. Ele afirmou: Eu conheço bem os meus erros, e o meu pecado está sempre diante de mim (Sl 51.3). Reconheceu que tinha pecado contra o próprio Senhor Deus (Sl 51.4). Sentia-se esmagado e quebrado (Sl 51.8). Apesar disso tudo, Davi não se sentia perdido nem condenado ao inferno. Ao contrário, ele continuava confiando no Deus da graça e do perdão: Por causa do teu amor, ó Deus, tem misericórdia de mim. Por causa da tua grande compaixão, apaga os meus pecados (Sl 51.1). Na verdade, esta é a grande mensagem do evangelho: pela graça de Deus, revelada em Cristo Jesus, os nossos pecados são perdoados.
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Imagens para a prédica
a) “Apareceu em casa do rabi Aarão Leib Primijlan um homem em cujo semblante aquele leu os sinais de adultério. Então, ele disse ao hóspede, depois de conversar um pouco com ele: Está escrito: Um salmo de Davi, quando Natã, o profeta, foi encontrá-lo após ter ele estado com Bate-Seba. O que quer dizer isso? Quer dizer que Natã escolheu o caminho certo para conseguir que Davi se arrependesse. Se o enfrentasse publicamente e como juiz, lograria apenas endurecer-lhe o coração. Mas ele admoestou Davi em segredo e com amor, da mesma maneira que esse fora ter com Bate-Seba. Então, a admoestação atingiu o coração do rei e o comoveu, e ergueu-se de seu interior o cântico de arrependimento. Tendo o rabi Aabrão Leib dito isso, o homem confessou a sua culpa e corrigiu-se inteiramente” (BUBER, Martin. Histórias do Rabi. São Paulo: Perspectiva. p. 199). b) Levantar-me-ei O conhecido cantor Caetano Veloso sofreu um pequeno acidente durante um show em Brasília no dia 16 de maio de 2009, um sábado. O artista cantava no Centro de Convenções Ulysses Guimarães quando se desequilibrou e caiu no fosso (pequeno espaço entre o palco e a plateia). Há dois detalhes nesse lamentá-
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vel acontecimento. O primeiro é que essa queda foi amplamente divulgada pela mídia. Antes da divulgação na imprensa, a internet expôs vídeos apresentando o momento em que o cantor foi ao chão. Cair é sempre embaraçoso, constrangedor. O outro detalhe é que o foco da notícia limitou-se à queda. Não houve nenhum realce para o que certamente seria o mais digno de nota: o cantor não ficou prostrado. Ele se levantou e, esquecendo os pequenos ferimentos sofridos, superando a dor física e o constrangimento da queda, terminou de cantar a música. Deus fez-nos capazes de nos levantar. Por maior que seja a queda, não há por que ficar prostrado. O filho pródigo, na parábola de Lucas, capítulo 15, é um grande exemplo de alguém que caiu e soube levantar. Se você caiu, esqueça a vergonha da queda, levante-se e prossiga. Cair causa embaraço, porém o mais vergonhoso ainda é ficar prostrado. (MORAES, Jilton. Ilustrações e poemas para diferentes ocasiões. São Paulo: Vida. p. 96).
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Subsídios litúrgicos
Afirmação de fé – “Quando eu caio” Quando eu caio, fico bravo e procuro um culpado pelo meu tombo... Mas a ira não me coloca em pé! Quando eu caio, sinto-me abandonado e fico esperando uma mão para me erguer... Mas, às vezes, nenhuma mão é capaz de fazê-lo! Quando eu caio, fico desanimado, sem forças... Penso, então, em desistir de me erguer, mas sinto que ficar em pé é uma vocação, um chamado, um sonho que me move... Quando eu caio, busco um olhar que me faça saber que estou sendo visto, quero um abraço que me faça sentir especial, procuro pés que caminhem na minha direção, mãos estendidas e um coração aberto que me dê amor! Quando eu caio, descubro que o chão não é o meu lugar permanente, que Deus move meus sonhos, minha esperança, minha vontade, minha decisão... Deus me levanta, me ergue e me sustenta! Louvado seja Deus! Amém! (Baseada em texto do Rev. Ézio Martins de Lima, pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil) Leitura alternada de confissão com base na oração do Pai-Nosso – Reunidos para te adorar e ouvir a tua palavra, confessamos-te, Senhor, os nossos pecados. Nós te chamamos pelo doce nome de Pai. – Mas de ti andamos tão distantes... – Oramos pedindo a vinda do teu reino, – mas levamos ao poder os que esmagam o povo... – Prometemos cumprir a tua vontade, – mas impomos aos outros a nossa maneira de ver... – Solicitamos de tua bondade o pão de cada dia, – mas não nos importamos com a fome de nossos semelhantes... – Suplicamos-te o perdão para os nossos pecados, – mas o arrependimento não chega a inquietar o nosso coração... – Esperamos que tu nos livres do mal,
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– mas não fazemos nada para liberar os outros dele... – Mesmo assim, Senhor, tão distantes de ti, aceita-nos em teu amor. – Pela atuação do teu Espírito, faze de nós novas criaturas. Amém! (Baseada em texto de J. T. Maertens)
Bibliografia GASS, Ildo Bohn (org.) Formação do Império de Davi e Salomão. São Paulo/ São Leopoldo: Paulus/Centro de Estudos Bíblicos, 2011. STORNIOLO, Ivo e BALANCIN, Euclides M. Como ler os livros de Samuel – a função da autoridade. São Paulo: Paulus, 2013.
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PRÉDICA: LUCAS 8.26-39
19 JUN 2016
ISAÍAS 65.1-9 GÁLATAS 3.23-29
Antonio Carlos Ribeiro
Da prisão atormentada à liberdade
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Introdução
A onda de ódio que invadiu o país e disseminou-se pela sociedade no ano passado assustou os brasileiros: dos mais simples e vitimados pela violência até pedagogos, sociólogos, filósofos e teólogos; da falta de elementos para sua construção até a utilização de refinadas técnicas de convencimento, amarradas num conjunto de informações encadeadas numa narrativa aparentemente coerente. As limitações para elaborar uma mimese – a imitação da realidade – esbarram na dificuldade de reflexão culta de pessoas conservadoras, incapazes de olhar os demais. E com um argumento fraco para a tessitura de uma intriga narrativa, capaz de encadear a sequência dos fatos. Diante da onda de ódio, ainda que mal construída, foi preciso desmontar o argumento que intermediava fatos individualizados, vistos de forma particular e dispensando o contexto. Quem só pensa em enriquecer e se afirmar não conhece sequer o vizinho. Sem esses elementos não consegue encadear a sucessão de eventos nem elaborar uma história sensata com um caráter unificador. Por isso o discurso da imprensa, liderada por uma emissora de TV, financiada por empresas e conduzida por jovens, não narrou os fatos nem estabeleceu a mediação entre os acontecimentos e, por isso, não foi propositivo na reconfiguração da realidade. A disputa pela narrativa foi vencida pelos que elaboraram as dimensões episódica e historicizante – que suportam discursos trágicos, incidentes lamentáveis e até fatos aterrorizantes, ao mesmo tempo em que propiciam um caráter integrador –, dando subsídios para a construção da unicidade narrativa e criando para a sociedade a possibilidade de percepção da totalidade temporal: o tempo semiotizado. Esses elementos da narrativa possibilitam-nos ler os textos deste domingo e refletir sobre a libertação que vem após a atormentada prisão que nos tolhe a liberdade, tira a alegria de viver, a capacidade de criar e a inventividade para propor. Sem ela, nossos horizontes afundariam em meio a um cotidiano medíocre, as elites seguiriam se locupletando das riquezas, alugando o Estado e controlando a narrativa. Assim como os espelhos do circo, que deformam nossa imagem ao refleti-la, deixando-nos sempre mais atônitos. O primeiro texto é do Trito-Isaías (65.1-9), que mostra um profeta impaciente com a rebeldia e a imaturidade do povo, que desaprendeu as conquistas do exílio, não valorizou a experiência de libertação de Yahweh e jogou fora o
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patrimônio espiritual que nasceu do sofrimento. Decidiu seguir seu próprio caminho, profanar bosques sagrados, sepulcros e lugares escondidos. Gente que se crê especial, sem noção dos riscos de estar entregue aos próprios caprichos e incapaz de valorizar as conquistas. O arrogante ampliou tanto o horizonte da autoestima, que sobraram apenas míseros milímetros para revelar o conjunto da realidade. Por isso o texto anuncia um Deus que não desiste, para que seu povo tenha descendência, vida abundante e paz. O segundo texto é da carta de Paulo aos cristãos da Galácia – atualmente na Turquia –, mostrando o avanço de sair do controle da lei, como crianças acompanhadas pela governanta que se tornam adolescentes e conquistam autonomia. Esse desenvolvimento não é apenas físico, mas se faz acompanhar de inteligência, maturidade afetiva e conquistas emocionais. Só quem de fato avançou descobre que os seres humanos são iguais em dignidade e assume os riscos do novo mundo. Emanuel Levinas, ensinou-nos que Deus é completamente extraordinário. Com efeito, para cunhar moeda, os Estados recorrem a um molde. Com um único molde, fazem muitas peças, de forma que são todas semelhantes. Deus chega com um molde, impondo sua imagem, a criar uma multiplicidade dessemelhante: de eus, os únicos em seu gênero. O Evangelho de Lucas, o terceiro, mostra-nos uma luta épica para vencer as armadilhas do mal, que condensa um conjunto de malefícios como crimes, ditaduras e dominações, acumulados ao longo de séculos na estrutura física, política e econômica das cidades, petrificados pela tradição, que enfeixam a tradição libertadora da escola de profetas de Isaías, os discípulos de apostolado de Paulo e culminam na maestria de Jesus de Nazaré, o rabino pobre e nômade que contemplou os filhos de Deus muito além de seu próprio povo. A narrativa da realidade integra o episódico e o factual, resiste aos discursos que não se submetem à hermenêutica, desconstrói estórias melodramáticas e enfrenta historicamente o terror – como a Comissão Nacional da Verdade fez com a ditadura militar –, reassumindo o caráter integrador da civilização. Mas não sem dor.
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Exegese
A principal perícope deste domingo é de Lucas 8.26-39 e diz respeito ao endemoninhado geraseno. O texto constitui uma “intrigante narrativa”, que parece tratar do fato ocorrido, embora mescle elementos contraditórios que deixam pistas significativas para quem não se atém exclusivamente a ele, mas também percebe fragmentos e acréscimos feitos pela tradição oral ao longo do tempo, que o evangelista que tinha os olhos no público grego fez questão de agregar. A terra dos “gerasenos” é uma localidade fictícia, onde aparece um homem que vivia nos cemitérios, estava despido, era conhecido por sua força incomum e tido como alguém que vários homens não conseguiam dominar. Ele grita, joga-se ao chão e indaga o que Jesus quer dele, ao mesmo tempo em que pede para não ser castigado. Ao ser indagado sobre quem é, os demônios apresentam-se como “legião”, por ser muitos, e pedem que Jesus não os mande para o abismo, mas os
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envie para os porcos que se alimentavam na encosta, e ele deixou. Vale lembrar que o símbolo da X Legião Romana, que da Síria controlava a Palestina, era um javali. Isso nos faz indagar: quem se alimentava de porcos na Palestina? Quem os criava para “lucrar” com a presença militar romana há dois séculos? Como a legião romana – além da ameaça psicológica (que fazia reinos se renderem), da brutalidade (de bater na face ou obrigar a caminhar, até a ocupação militar, sem deixar pedra sobre pedra) e da ordem jurídico-econômica (impor a Lex Romana pelas armas e cunhar o denário, a moeda para cobrar impostos na Palestina) – atormentava judeus e populações indo-latinas? Gerasa não estava perto de Genesaré. A contestação vem do fato do lago de Genesaré não ter margens escarpadas e nem morros, de onde os porcos se tenham precipitado ao mar e se afogado. O texto informa ainda que o homem do cemitério chegou a ser preso com correntes de ferro, mas ele as quebrava e era levado para o deserto. Esses dois lugares – cemitérios e desertos – eram comuns aos rebeldes judeus que lutavam contra os romanos e nunca frequentados pelos judeus piedosos, informa-nos Meeks. Ao lado desse conjunto de elementos, é preciso entender o exorcismo feito por Jesus para não perder de vista essa prática que integrou seu ministério, seguindo as pistas de Uwe Wegner. A palavra para demônio é o substantivo daimon (masculino e singular), que só aparece uma vez em Mt 8.31, enquanto a palavra daimónion é um adjetivo neutro, que é empregado em 63 passagens do NT e não se trata de uma pessoa, mas de uma coisa. Como adjetivo substantivado, indica a personificação de uma entidade abstrata que designa popularmente poderes impessoais, potências espirituais ou forças maléficas, capazes de alterar a sanidade e provocar doenças. A outra é a forma verbal daimonízomai, que se traduz como ser endemoninhado ou ser possuído por um demônio e é mais frequente no Evangelho de Mateus (Mt 4.24; 8.16,28,33; 9.32; 12.22; 15.22; Mc 1.32; 5.15,16,18; Lc 8.36; Jo 10.21). Esses “espíritos” são designados de impuros por três razões: provocam uma impureza que não é moral, mas ritual e cultual. As doenças são sinais de que o reino de Deus ainda sofre reação e resistência. Os espíritos impedem que a santidade de Deus torne-se plena e abrangente. E isso surge do contato de demônios com coisas, seres ou lugares impuros, como desertos (Lc 8.29), ruínas (Ap 18.2), cemitérios e sepulcros (Mc 5.2-5), fazendo com que o endemoninhado seja legalmente impuro e afastado da plena participação dos atos litúrgicos. Daí resulta que os demônios, como espíritos exclusivamente rebeldes e contrários a Deus, são fruto de um gradativo, mas demorado processo, em que o cristianismo assimilou ideias do AT, dos gregos e do Antigo Oriente. Os demônios eram tidos como seres espirituais responsáveis pela “partilha” dos destinos das pessoas, que davam a cada um a “sorte” que lhe era devida, seja para o bem, seja para o mal. Eles eram originalmente neutros, mas se tornam gradativamente concebidos como espíritos malignos e prejudiciais. Essa situação avança até serem considerados entidades apenas prejudiciais, sobretudo nos três
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séculos anteriores à era cristã, determinando decisivamente o entendimento vigente na época de Jesus. A fé cristã acabou herdando a demonologia como algo exclusivamente negativo, mesmo em relação às funções positivas reservadas exclusivamente aos anjos. Atribuir males ocorridos a pessoas ou à natureza como doenças, possessão, catástrofes, pragas e demônios respondia as perguntas e os questionamentos que esses fatos levantavam. A demanda cresce quando a demonologia diz que o responsável último pelas desgraças não é Deus, mas forças espirituais que lhe são hostis. Isso acaba com a tensão entre a crença num Deus poderoso e bom e a existência dos males que, aparentemente, teriam também nele a sua origem. O efeito prático é que a demonologia afasta Deus como causa última dos males, atribuindo-os à ação de espíritos rebeldes. Essa visão dos espíritos como sempre malévolos dificulta ainda hoje a abertura e escuta diante das religiões indígenas e afro-brasileiras, que conseguem admiti-los como malévolos e benévolos. É necessário distinguir entre o diabo e os demônios. O primeiro é o poder que seduz ao pecado, enquanto a ação dos demônios, a segunda, é a capacidade de provocar doenças, seja de ordem física, seja de ordem psíquica. O NT não se refere a pessoas “endiabradas”, mas só a “endemoninhadas”. Os demônios agem através de possessão; já o diabo seduz e tenta! O caso do possesso de Gerasa aponta para a doença da loucura, a insanidade. Essa pode ter causas psíquicas, funcionais, hormonais ou cerebrais, mas essas não são externas e perceptíveis, por isso a insanidade era vista no passado como ação demoníaca. Deve-se lembrar que as narrativas de exorcismos diferenciam-se das terapias ou simples curas por três características. No exorcismo, a pessoa possessa está inteiramente à mercê do demônio, sem sua identidade própria e sem liberdade sobre seu pensar e agir. A disputa é uma luta entre o demônio e Jesus por não querer abandonar o homem. E porque as ações dos demônios são seguidas por traços violentos e destrutivos, tanto à pessoa quanto ao meio ambiente. Dois fatos devem ser assegurados: Jesus realizou exorcismos com um código cultural, linguístico e religioso semelhante ao vigente em sua época e integrado às pessoas entre as quais atuou, sendo isso aceito como poder eficaz diante dos possessos. E que, apesar das coincidências desse código, quando se comparam os exorcismos de Jesus com a prática da época, percebe-se que ele não foi um “exorcista tradicional” (WEGNER, p.103). Além do exorcismo e da cura, deve-se lembrar que as ações sacramentais são “representações dramáticas de processos sociais”, que traduzem em linguagem simbólica o que se deseja que ocorra. Nessa hora, “executa-se simbolicamente, na ação performativa [...] a integração social: dos muitos, da diversidade surge a unidade” (THEISSEN, p.165-166). A função da ação sacramental é permitir que a experiência do “limiar” (a comunhão íntima do corpo de Cristo como unidade radical) flua para a vida da comunidade (MEEKS, p. 238-239). Integrado à “comunidade mística”, o homem, já curado, quer seguir Jesus, não no sentido do discipulado, mas quer acompanhá-lo na peregrinação e ensino. Mas Jesus prefere enviá-lo para evangelizar “a sua casa”. Nessa situação, sua missão é seu próprio contexto: testemunhar o reino para o povo do seu lugar,
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sua família, seu ambiente de vida e de trabalho. O envio foi de volta a si e a seu entorno, para agora discípulo fazer outros discípulos, em vez de se incorporar ao grupo itinerante de Jesus ou escondido em comunidades monásticas.
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Meditação O escuro da meia-noite, o vendaval grande, o redemoinho de pensamentos, o tornopio no pé-de-vento e o se entestar, ... o Diabo, na rua, no meio do redemunho... De dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego – da mais força, de maior-coragem Digo, direi de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos! Guimarães Rosa
O texto de Lucas 8.26-39 coloca-nos mais uma vez frente aos demônios de Gerasa, a cidade em que a chegada de Jesus e seus discípulos provoca o possesso dos lugares proibidos. A história mexe em elementos consistentes do drama humano da região: o povo despossuído de tudo, especialmente da dignidade, após quase dois séculos de dominação militar romana. Com todos os desmandos, desrespeitos e desavergonhamentos que a situação propicia. O homem que sai dos sepulcros ao encontro de Jesus é a perfeita composição da imagem das vítimas de conflitos armados ao redor do mundo. Daquele tempo até o nosso. Ele está maltratado – das perdas emocionais, políticas e econômicas históricas até a perda de si mesmo –, dominado por espíritos inferiores. A depauperização da cultura, da estrutura familiar e tribal tem tudo que lhe sobrou naquele homem pobre, que sequer consciência da nudez e dos parâmetros religiosos e culturais que a mandam cobrir. Até porque ele só encontra condições mínimas de sobrevivência em lugares amaldiçoados como o cemitério e os desertos. Como quem não tem nada mais a perder, já que sequer a consciência sadia ele mantém, ele pede que seja deixado. A imagem da qual Jesus está mais próximo é a dos que ali chegaram, revezaram-se por décadas e exploraram – da força física dos homens à beleza das mulheres – sempre de forma ultrajante. Já que de tiranos nada mais se pode esperar. A Jesus cabe a estupefação de defrontar-se com aquela síntese de contradições. Uma verdadeira “metamorfose ambulante”, para lembrar o artista mais conhecido da época da ditadura militar e que a descreveu como ninguém em suas canções, marcando o período do caos com sua música caótica, que não deixava os governantes esquecerem a realidade social.
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A primeira tarefa era libertá-lo das muitas dominações. Os véus iam caindo, um a um. A cada queda, mais um percentual de olhar, consciência e tomada de sentido integravam sua leitura da realidade. As imagens roubadas voltavam e reintegravam-se à memória. “Somente uma memória abrangente permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas” (Walter Benjamin), colocando “as coisas no lugar”, até que a sanidade retomasse o ritmo da vida. Os demônios fugazes, enfraquecidos a cada véu de neblina substituído pela faculdade épica da memória, começam a negociar novos espaços até encontrar a vara de porcos que levarão pelo desgoverno a se precipitar no mar. Começam os prejuízos cobrados dos judeus comerciantes de porcos que alimentam tropas militares – os únicos que podem pagar o preço da miséria de sua própria gente –, que entregavam o denário, a moeda de pagamento de um dia de trabalho, para manter a dominação estrangeira. Recobrada a sanidade, a cidadania é personificada no ser humano que perdeu tanto e agora recobra as forças para retomar a vida. Os romanos permaneceriam lá por décadas, mas a atuação do rabino pobre e nômade, apelidado com o nome da terra de gente pobre – o galileu –, já devolvera a saúde necessária à luta. Sem esquecer os sacerdotes, escribas e fariseus, zelotes e publicanos e todas as costuras político-religiosas a fazer para garantir a dignidade básica. Isso esse tal Jesus deixou: a capacidade de distinguir a voz que traz consciência do alarido restante da praça, que diante dos deserdados da sorte não tinha compromisso algum! O rabino nazareno deixou uma última lição ao afastar-se: não aceitou o liberto dos espíritos maus em seu grupo, mas o ajudou a sentir a libertação dos poderes das trevas. Mais. A sentir uma tal alegria, que a salvação extrapolou os limites do anúncio, transformando o testemunho do vivido no anúncio novo: o evangelho, a novidade que resgata a dignidade a todo o que crê. Assim, o que fora endemoninhado transformou-se no enviado à sua própria gente.
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Imagens para a prédica
Para refletir sobre a reconquista da cidadania espiritual, leia o texto da música Cidadão, de Zé Ramalho: Tá vendo aquele edifício moço Ajudei a levantar Foi um tempo de aflição, era quatro condução Duas pra ir, duas pra voltar Hoje depois dele pronto Olho pra cima e fico tonto Mas me vem um cidadão E me diz desconfiado “Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar” Meu domingo tá perdido, vou pra casa entristecido Dá vontade de beber E pra aumentar meu tédio
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Eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer Tá vendo aquele colégio moço Eu também trabalhei lá Lá eu quase me arrebento Fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar Minha filha inocente veio pra mim toda contente “Pai vou me matricular” Mas me diz um cidadão: “Criança de pé no chão aqui não pode estudar” Essa dor doeu mais forte Porque que é qu’eu deixei o norte Eu me pus a me dizer Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava Tinha direito a colher Tá vendo aquela igreja moço, onde o padre diz amém Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo Lá eu trabalhei também Lá foi que valeu a pena, tem quermesse, tem novena E o padre me deixa entrar Foi lá que Cristo me disse: Enchi o rio, fiz a serra, não deixei nada faltar.
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Subsídios litúrgicos
Saudação Amada comunidade: neste Pentecostes, renova em nós a confiança no Espírito que nos anima diante da adversidade. Não nos deixes esquecer os que controlaram nossa sociedade por séculos, fazendo fortunas com a riqueza dos filhos deste país, negando às populações os serviços mais básicos, amarrando-nos ao subdesenvolvimento e desconstruindo a certeza das convicções que fizeram nosso povo assumir os destinos de suas próprias vidas. Que ele nos propicie libertação dos espíritos maus, amplie nossos horizontes a cada véu que cai, restitua-nos a serenidade para tomar decisões. Que nos dê ousadia, amor, leitura dos sinais dos tempos. E nos equipe para ajudar nossas comunidades nestes novos tempos. E para voltar à nossa gente com o anúncio da salvação. Para que possamos assumir a tarefa que nos confias, pedimos: Confissão e lamento pelos pecados Pelas vezes que temos falhado no anúncio da salvação, perdão, Senhor! Quando esquecemos que nos reconstróis como pessoas e país, perdão, Senhor! Se deixamos de lado as pessoas críveis e ficamos ao lado das pessoas incríveis, perdão, Senhor! Pelas relutâncias no modo de atuar e anunciar tua salvação, perdão, Senhor!
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Se tememos viver na comunidade de fé buscando raras oportunidades de amar, perdão, Senhor! E pelas dificuldades de assumir riscos e viver desse modo, pedimos: Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia Tu vens sempre ao nosso encontro e nos chamas à vida de comunhão. Queremos ser libertados para a vida de compromisso, amor e dignidade para todos. Ajuda-nos a assumir tarefas e responsabilidades sem buscar nosso próprio interesse ou de nossa comunidade. Queremos ser pecadores arrependidos e não santos blasfemadores. Onde nos queres testemunhando a tua salvação? Na tua esperança, pedimos. Amém!
Bibliografia THEISSEN, Gerd. Sociologia da cristandade primitiva. São Leopoldo: Sinodal, 1987. WEGNER, Uwe. Demônios, maus espíritos e a prática exorcista de Jesus segundo os evangelhos. Estudos Teológicos, v. 43, n. 2, p. 82-103, 2003.
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6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
26 JUN 2016
PRÉDICA: GÁLATAS 5.1,13-25 1 REIS 19.15-16,19-21 LUCAS 9.51-62
Astor Albrecht
A dádiva de andar no Espírito
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Introdução
O texto para a prédica contém um chamado para todos e todas que são de Cristo Jesus para que andem no Espírito. Isso é dádiva de nosso Senhor. Não há vida cristã se essa não for guiada pelo Espírito Santo de Deus. Se ele não guiar, instala-se o caos (obras da carne). Com ele manifesta-se o fruto do Espírito. O texto de 1 Reis 19 apresenta o profeta Elias cumprindo as ordens de Deus ao ungir os reis da Síria e de Israel. Ele chama Eliseu como seu sucessor. A ação de Elias de lançar o manto sobre Eliseu equivale a tomar posse e adquirir um direito (Rt 3.9). Esse gesto é aqui uma espécie de ordenação para o ministério profético, já que Eliseu, ao ficar com a posse do manto de Elias, recebeu também o Espírito e o poder que o capacitaram para continuar a missão de seu mestre. Lucas 9 trata dos samaritanos que não recebem Jesus. Alguns discípulos desejam que a ruína venha sobre eles, mas são advertidos por Jesus. Em seguida, traz exemplos de pessoas que são provadas em seu propósito de seguir a Jesus. O texto não fala claramente do Espírito Santo, mas enfatiza que andar com Jesus precisa ter prioridade sobre as demais coisas. Não se deve ser fútil ao seguir Cristo e ser dele. Isso precisa perseverança e traz mudança para a vida. Ou, como Paulo escreve, quem é de Cristo produz o fruto do Espírito.
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Exegese
O que perfaz o estado do cristão é a liberdade. Esse foi o argumento final (4.31) no texto precedente (Sara e Hagar). Paulo trata das implicações práticas da liberdade cristã. Nos v. 13-15 escreve que o amor ao próximo deve preencher o espaço conquistado pela liberdade, pois onde quer que se pregue a liberdade, é possível entendê-la erradamente. Poderia servir para “dar ocasião à carne” (v. 13), isto é, há a possibilidade de que a liberdade degenere em licença. A palavra “carne” resume a tendência moral do ser humano que não é movido pelo Espírito de Deus. Para a liberdade não ser deturpada, segue o chamado: “sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (v. 13). Liberdade em Cristo é liberdade para o amor. O amor é a “lei” do cristão, não no sentido de norma que regulamenta o que se deve ou não fazer, mas como princípio fundamental do agir cristão em geral. Como uma antítese ao amor está a declaração no v. 15: Paulo pensa numa alcateia
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de animais selvagens precipitando-se um contra a garganta do outro. Representa a desordem total e a mútua destruição. O apóstolo passa a escrever sobre o caminho que torna possível ao crente permanecer na liberdade do amor: andar no Espírito (v. 16). Os gálatas receberam o Espírito de Deus e nele deram início à sua vida cristã, experimentando sua ação na comunidade. Agora também é preciso continuar seu caminho na força do Espírito. O cristão conduzido pelo Espírito Santo não satisfará a “concupiscência da carne” (v. 16). Essa palavra (epithymia) é geralmente usada no sentido de ansiar coisas proibidas, é vida contrária à vontade de Deus. Por isso é que no v. 17 se afirma que o Espírito e a carne são adversários irreconciliáveis entre si. Prepara-se assim o terreno para apresentar as obras da carne e o fruto do Espírito. Nos v. 19-21 são enumeradas quinze “obras da carne”, que em oposição ao Espírito de Deus que gera vida e ordem geram o caos. Como obras da carne apontam-se no início três pecados da sensualidade (v. 19), que tinham destaque em ritos de adoração pagã, do qual os gálatas foram tirados. “Idolatria” e “feitiçarias” (v. 20) têm em vista o falso culto a Deus. A pessoa procura apoderar-se do divino por meio da idolatria. A feitiçaria atribui a objetos e ações forças divinas que não podem ter. A pessoa acredita que basta saber manejar essas coisas para poder determinar a atividade de Deus. Seguem as obras da carne que são ameaça à vida social e comunitária. Quatro palavras descrevem as rixas: “inimizades”, “porfias” (discussão, disputa), “dissensões” (dichostasia = “colocar-se à parte”, formação de grupos separatistas hostis) e “facções” (“espírito partidário”). As outras quatro “obras da carne” perturbam profundamente a relação entre as pessoas da comunidade. O “ciúme” (a mesma palavra também significa “zelo”, e a ideia nesse contexto é de um “zelo pervertido”) e a “inveja” continuam sendo inimigos mortíferos na vida da comunidade cristã. “Ira” e “discórdias” cooperam para que o caos se instale. A lista termina com os pecados da intemperança (“bebedices”, “glutonarias”), que eram sancionados na adoração pagã. No final, uma advertência severa: “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (v. 21). Nos v. 22-23 é apresentado o fruto do Espírito. O contraste reinante entre as obras da carne e o fruto do Espírito é como o que reina entre as trevas e a luz, entre o caos e a ordem, entre a multiplicidade e a unidade. A linguagem figurada é sugestiva para transmitir a ideia de crescimento espiritual em contraste com a deterioração que segue as atividades da carne. É significativo o uso do singular “fruto” ao invés do plural. O alvo de Paulo é demonstrar vários aspectos da única colheita. O fruto do Espírito é o “produto” do crente guiado pelo Espírito. Os três primeiros frutos (v. 22: amor, alegria e paz) foram colocados no início da lista numa ordem de importância. Os seis últimos acham-se mais socialmente orientados. Mas essa deve ser considerada uma classificação apenas a grosso modo. Algumas considerações: o amor como primeiro fruto está em harmonia com o hino do amor em 1 Coríntios 13. O amor também se encontra no coração do evangelho (Jo 3.16). O próprio amor é derramado no coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5). É no amor que a fé se realiza. A paz e a alegria são parte integrante do reino de Deus (Rm 14.17). “Longanimidade” (contém a ideia de perseverança, resistir firme sob as pressões e tensões da vida), “benignidade”,
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“bondade” e “fidelidade” são virtudes que, na convivência humana, garantem a alegria e a paz. “Mansidão” transmite o sentido de brandura, é a disposição de submeter-se à vontade de Deus. “Contra estas cousas não há lei” (v. 23). Onde reina o Espírito termina a força da lei (5.18). Quem é conduzido pelo Espírito não transgride a lei, antes a cumpre. O v. 24 confirma que o fruto do Espírito é dádiva na vida daqueles e daquelas que “são de Cristo Jesus”. O texto proposto finda com um apelo: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (v. 25). Há distinção entre “viver” (expressa comunhão permanente) e “andar” (aplicação constante). A pessoa em Cristo tem uma vida diferente de quem está sob o domínio da carne. Contudo a aplicação dessa verdade não é automática. Requer perseverança, assim como uma criança que está aprendendo a andar precisa de persistência. A metáfora é sugestiva porque o mesmo Espírito que dá vida também dá força e orientação no decurso da jornada da vida.
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Meditação
Quando o texto trata das obras da carne e do fruto do Espírito, podemos constatar que são colocadas em contraste, por assim dizer, duas formas de viver. Em outro lugar das Escrituras, Paulo escreve que o “pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz” (Rm 8.6). Portanto, enquanto o andar na carne conduz para o caos e a morte, andar no Espírito conduz à vida e à salvação. A presença do Espírito Santo de Deus é quem produz na vida do crente o fruto de sua presença. Aqui cada qual precisa deixar que a palavra de Deus prove o seu andar: quando na vida pessoal, familiar ou comunitária os relacionamentos tornam-se pesados, o respeito é perdido, o amor é pálido, a disposição em cooperar desaparece e as intrigas parecem tomar conta, é porque falta submissão ao Espírito de Deus. Nesse caso, numa comunidade, toda a força e dons da igreja que deveriam estar voltados para a missão acabam perdendo-se ou tornam-se limitados em razão de discussões vazias e tolas. Eis um pecado que precisa, então, ser confessado! A dádiva de andar no Espírito é para todos e todas “que são de Cristo Jesus” (v. 24). Não é coerente que esses andem segundo a carne, demonstrando um viver contrário à boa vontade de Deus. Aqui devemos lembrar a dádiva do Batismo quando fomos inseridos na comunidade cristã e presenteados por Deus com a dádiva do seu Espírito. Deus é gracioso e tudo preparou para que o andar de cada filho e filha tivesse a companhia do seu Espírito (Rm 8.14). Portanto, para que a vida em Cristo seja frutífera, urge atender ao apelo: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (v. 25). Aqui é possível lembrar que o Espírito Santo de Deus é quem nos ajuda na prática da espiritualidade cristã. O Espírito Santo é dádiva de nosso Senhor, mas isso não quer dizer que podemos ser indiferentes. Na Escritura, somos exortados a não entristecê-lo (Ef 4.30), antes ser cheio dele (Ef 5.18). Sua presença há de abrir os olhos para o pecado (obras da carne) que precisa ser confessado. Nas obras da carne não somente pecamos diante de Deus, mas os relacionamentos e a
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boa convivência são afetados. Por exemplo, quantas discórdias, ciúmes e inimizades não afastaram pessoas umas das outras e dificultaram a missão da comunidade? Andar no Espírito é reconhecer isso e humilhar-se para buscar o perdão do Senhor e de uns para com os outros. É buscar a reconciliação. Lembro as palavras de Agostinho: São como duas coisas distintas: o ser humano e o pecador. O ser humano, Deus o fez. O pecador é obra da própria natureza humana. Destrói o que tu fizeste para que Deus salve o que ele fez. É necessário que odeies a tua própria obra dentro de ti, amando a obra que Deus criou em ti. Mas, quando começar a desagradar-te o que tu fizeste, então começam a surgir tuas boas obras, já que acusas tuas obras más. O início das obras boas é a confissão das obras más. No arrependimento crucificamos a carne (v. 24). Andar no Espírito é um chamado à perseverança. Infelizmente, há irmãos e irmãs que se afastam da comunhão de sua igreja. Por descontentamento, discórdia ou outro motivo ficam distantes. Não deve ser assim! O Espírito de Deus não nos é dado para nos conduzir durante uma determinada etapa da vida, como por vezes acontece após o ensino confirmatório. Ele também não é somente um convidado de honra em momentos especiais, como um batismo. Ele nos é dado para nos auxiliar e guiar todos os dias de nossa vida. E toda aquela pessoa que permanece apegada a Cristo Jesus pode dar graças pelo Espírito que assim a guia. Andar no Espírito manifesta-se de maneira prática no serviço fraterno. É o amor presente em nossa vida que testifica de sua presença. “Os que vivem sem amor são pesados para si mesmos, enquanto que os que amam carregam-se mutuamente” (Agostinho). Isso precisa ser destacado: o amor não pode ser espiritualizado! Quando isso acontece, o próximo é esquecido. E isso nós já não podemos chamar de amor. É preciso que o amor dê provas de sua autenticidade pelo serviço prestado aos necessitados dentro da comunidade, dentro de nossa família. Portanto, se temos tensões ou inimizades em nossos relacionamentos, devemos ter os olhos abertos: isso leva ao caos. Precisamos mostrar na prática como podemos, de maneira crescente, ajudar e cooperar uns com os outros. A comunidade é um belo canteiro onde o fruto do Espírito pode ser semeado. Isso pode começar de modo muito simples, como, por exemplo, em vez de criticar ou apontar falhas nos outros mostrar um olhar agradecido, dar uma palavra de ânimo. Isso não será difícil quando feito com amor. Com certeza, o Espírito será o auxílio para quem assim se dispõe.
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Imagens para a prédica
A missionária Edite R. Gillet conta que, durante um período de fome em Moçambique, duas mães vieram até ela pedindo para fazer algum trabalho em troca de um pouco de farinha de milho. Ela conta: “Deixaram suas duas filhas conosco enquanto trabalhavam. No decorrer da manhã, levei quatro frutas para as duas meninas. Agradeceram-me, e então ouvi uma delas dizer à outra: ‘Vamos comer uma só fruta cada uma e guardar as outras duas para nossas mães’. E assim elas fizeram”.
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Se duas meninas famintas podiam distribuir o pouco que tinham, quanto mais nós não havemos de pôr em prática a regra áurea de nosso Senhor? Todos nós precisamos ser mais atenciosos e generosos no uso que fazemos de nosso tempo, energia e bens. Acima de tudo, precisamos do Espírito de Cristo como base de todos os nossos atos. Não está o Espírito de Cristo resumido na regra áurea? Não é verdade que Cristo mesmo se colocou em nosso lugar e compartilhou conosco tudo o que ele era?
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Subsídios litúrgicos
Oração de confissão de pecados Nosso Deus e nosso Pai, bom é estarmos em tua presença. Em Cristo Jesus, teu filho, tu nos libertaste da escravidão do pecado e concedes a cada um e cada uma de nós vida nova. Tu não queres ver teus filhos e filhas andando neste mundo como pessoas que vivem em brigas, intrigas, discórdias, mentiras, ciúmes e tantas coisas mais que só trazem sofrimento para a vida, para a família e para a comunidade. Mas, Senhor, é assim que às vezes procedemos. Acontece porque não andamos contigo. O nosso coração pendeu para o orgulho, para a raiva, e então coisas bonitas de nossa vida foram prejudicadas. Perdoa-nos, Senhor! Ajuda-nos a ir ao encontro de nosso próximo e daquela pessoa de quem estamos distantes. Por teu Espírito, queremos acertar o nosso caminho para que seja de amor, de paz, de alegria e de tudo o mais que vem de tua bondosa mão. Fortalece-nos, Senhor, por teu Espírito Santo. Dá-nos força para que nosso coração se firme e se liberte de tudo o que é desnecessário e que prejudica. De tantas coisas que entram em nosso coração, que nada nos desvie de ti. Dá-nos a tua graça e que assim andemos no Espírito que tu enviaste. Assim damos graças por tua misericórdia, que nos alcança em nome de Jesus. Amém. Proclamação da graça de Deus Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça, para a santificação (Rm 6.19).
Bibliografia GUTHRIE, Donald. Gálatas – Introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1999. SCHNEIDER, Gerhard. A Epístola aos Gálatas. Coleção Novo Testamento e Mensagem – n. 9. Petrópolis: Vozes, 1967. WEINGÄRTNER, Lindolfo (editor). Flores no jardim de Agostinho. Curitiba: Encontro Publicações, 2005.
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PRÉDICA: LUCAS 10.1-11,16-20 ISAÍAS 66.10-14 GÁLATAS 6.7-16
7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
03 JUL 2016
Claiton André Kunz
Todos somos enviados para uma missão
1
Introdução
A Bíblia está repleta de exemplos de pessoas que foram enviadas para alguma missão, especialmente para testemunhar a respeito do reino de Deus. Essa missão não está restrita aos doze discípulos, que estiveram mais próximos de Jesus. Ela se estende também a todos aqueles que experimentaram o reino de Deus em suas vidas. O relato que o evangelista Lucas faz sobre o envio dos setenta é um exemplo de como essa missão de testemunhar as maravilhas de Deus é extensiva a todas as pessoas. Através desse relato podemos tirar inúmeras lições para as nossas vidas e de como essa tarefa diz respeito também a nós. Engajar-nos nessa missão de proclamar o reino de Deus não é uma questão de gosto ou opção; pelo contrário, é uma questão de obediência. Em nenhum lugar da Bíblia, entretanto, transparece que essa missão seja simples ou fácil. Ela trará dificuldades e até mesmo perigos. Mas essas dificuldades não nos isentam de cumprir a nossa parte. É nessa perspectiva que queremos olhar para o texto de Lucas, no qual o evangelista relata sobre o envio dos setenta e de sua missão.
2
Exegese
Somente Lucas relata sobre o envio desse grande grupo de discípulos. Muitas instruções dadas a esses setenta são semelhantes àquelas do relato de Mateus sobre o envio dos doze. Alguns pensam ser apenas uma variação daquele relato, mas é muito provável que Jesus utilizou o serviço de outras pessoas além dos doze e que o silêncio dos outros evangelistas se dá apenas devido ao destaque dado aos discípulos mais próximos de Jesus. O texto não relata o nome de nenhum desses setenta discípulos, e também não nos relata o que aconteceu com eles depois dessa missão. No texto de Lucas 10.1-11,16-20, podemos fazer as observações que seguem. V. 1 – As palavras que iniciam o capítulo 10 (“Depois destes acontecimentos, porém...”) apontam para o que havia acontecido anteriormente, ou seja, a escolha dos doze. A expressão grega “também outros” ou “ainda outros” caracteriza os setenta como sendo diferentes dos doze e confirma que essa atividade não era prerrogativa apenas dos doze apóstolos. Além disso, a dispersão da mensagem pelos setenta mostra que a obra do Senhor não era mais assunto oculto, mas um empreendimento missionário a partir daquele momento. Esse número redondo e
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simbólico ao lado do número doze (como em Êx 15.27) parece corresponder aos setenta anciãos de Israel do Antigo Testamento (Êx 24.1; Nm 11.16). Pode dar a ideia também de um “antissinédrio” do novo reino da graça. O fato de serem enviados de “dois em dois” transmite a ideia de “irmandade”; dois sempre é melhor do que um, pois, quando um cai, o outro ajuda-o a levantar-se (Ec 4.9). V. 2 – Jesus fundamenta a necessidade do envio dos setenta com uma ilustração da colheita. Na Bíblia, o trabalho de colheita constitui muitas vezes uma imagem fixa para o fim dos tempos (Jl 3.13; Mt 3.12; Lc 3.17; Ap 14.15; Gl 6.7). Jesus enviou tanto os doze como os setenta para colher. Assim, Jesus compara a proclamação das boas-novas com o trabalho de colheita. V. 3-4 – Os versículos seguintes indicam que o trabalho não seria uma tarefa fácil. Cordeiros no meio de lobos não é uma situação em que se gostaria de estar. O símile indica tanto a situação de perigo como a condição indefesa, necessitando, portanto, de extrema confiança em Deus. Essa confiança também deve ser demonstrada pelo fato de não levar nada, ou seja, os setenta deveriam “ir conforme estão”. V. 5-7 – A chegada em qualquer casa deveria ser acompanhada da saudação “Paz seja nesta casa”. Se essa saudação fosse aceita por um filho da paz, isto é, por alguém caracterizado pela paz ou um homem de paz (v. 6), promoveria uma interação entre o visitante e o hospedeiro; entretanto, se essa saudação não fosse recebida, retornaria aos discípulos, indicando que as bênçãos de Deus são especialmente concedidas àqueles que as valorizam. Ao encontrar uma casa que os recebesse, não deveriam ficar mudando de casa, escolhendo a melhor hospedagem (v. 7), mostrando a urgência da obra que deveriam fazer. Por outro lado, não deveriam sentir-se envergonhados de receber as refeições gratuitamente, alimentando-se com o que lhes davam, pois eram trabalhadores do reino e por isso eram dignos. V. 8-11 – os versículos seguintes tratam do tema de forma semelhante, mas agora não olhando mais para uma casa, e sim para uma cidade. Como possivelmente também entrariam em cidades gentias, poderia haver algum desconforto devido às prescrições rabínicas sobre o puro e o impuro (Mt 15.1-3). Parece que Jesus os está liberando para comer “tudo o que lhes fosse oferecido”. A tarefa da pregação deveria ser mantida livre de inibições, como o permanente temor da contaminação por meio do contato exterior com a vida gentia. Paulo ratifica essa ideia quando afirma: “comam o que for posto na frente de vocês” (1Co 10.27). O cerne da missão era anunciar o reino e realizar atos que comprovassem a sua presença, como por exemplo servir as pessoas, curando-as das suas doenças (v. 9). Esse anúncio do reino deveria ser bem claro, inclusive nas cidades que não quisessem recebê-los. A atitude para com os que rejeitassem a mensagem da salvação deveria ser muito objetiva: sacudir o pó dos seus pés; anunciar que o reino de Deus estava próximo deles e fazê-los entender que enfrentariam muito maior rigor do que Sodoma no dia final (v. 12). Sacudir o pó dos pés simboliza a eliminação de qualquer comunhão intelectual com os habitantes não hospitaleiros da cidade.
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V. 17 – Os discípulos que retornaram relatam sua grande alegria pela missão cumprida. Mencionam que até mesmo os demônios tiveram de obedecer-lhes quando eram enfrentados com a autoridade de Jesus. Vale salientar, que ao ordenar aos discípulos que curassem enfermos, Jesus não deu instrução expressa de expelir demônios. Mesmo assim, eles o fazem. Sua alegria é compreensível, porque no passado os nove apóstolos fracassaram na tentativa de curar um menino endemoninhado (Lc 9.37ss). V. 18 – Jesus precisava enfrentar o perigo de superestimarem a sua autoridade pessoal sobre os demônios. Ele corrige isso com um sincero amor por seus mensageiros, de forma que não ressoa a menor reprimenda. Faz isso afirmando que ele mesmo foi testemunha ocular quando Satanás foi precipitado do céu. V. 19 – A promessa de andar sobre serpentes e escorpiões e derrotar com autoridade todo o exército do inimigo sem sofrer danos pode ser uma recordação do Salmo 91.13. V. 20 – O que eles já haviam conquistado e a promessa de que fariam coisas ainda maiores seriam inúteis se não tivessem como fundamento a salvação pessoal.
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Meditação
Desde o convite, chamado e envio feito por Jesus aos discípulos, milhares de pessoas já foram convocadas pelo Mestre a segui-lo e envolver-se em sua missão. E ele continua enviando ainda hoje: A responsabilidade da nossa missão O texto da leitura inicia afirmando que “Depois destes acontecimentos, porém...”, indicando que tem ligação direta com o texto anterior. No capítulo 9 de Lucas, lemos que Jesus enviou os doze. Mas no capítulo 10, lemos que “depois disso” designou também outros. Isso deixa claro que a tarefa não estava restrita aos primeiros apóstolos, mas que Jesus dá-nos o privilégio de participar de sua missão. Assim como aqueles setenta foram enviados, todos nós temos a oportunidade e, mais do que isso, a responsabilidade de participar. A percepção de Jesus é que a “seara é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Ele não afirma que os responsáveis pela seara são poucos, mas sim que os que se dispõem para o trabalho na seara ainda são poucos. Nosso maior problema não é saber que precisamos nos envolver, mas nos dispor a nos envolver. Jesus ordena, portanto, que oremos pelo envio de mais trabalhadores para a seara. Chama a atenção o fato de ser usado nesse versículo um verbo muito forte para a expressão “mande trabalhadores”. O verbo grego utilizado é ekballō, que significa “expelir, expulsar, lançar com força”. Talvez esse verbo seja usado propositalmente, tendo em vista a comodidade da maioria dos cristãos para o cumprimento da missão. A missão é descrita em termos de: a) levar a paz a qualquer casa ou cidade aonde forem; b) curar os doentes, que pode dar a ideia de ajudar as pessoas em
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qualquer necessidade que tiverem; e, principalmente, c) anunciar que o reino de Deus está próximo. As dificuldades da nossa missão Em nenhum momento, Jesus afirma que a missão seria simples ou fácil. Embora seja gratificante e seja um privilégio para cada um de nós participar, enfrentaremos inúmeras dificuldades. De saída, Jesus afirma que está nos enviando “como cordeiros entre lobos”, mostrando tanto os perigos que nos cercam como a fragilidade daqueles que são enviados. Isso nos ensina que temos que cumprir a missão em total dependência de Deus. Não será por nossas forças, mas pelas forças que Deus nos dá. A mesma oração que deve mover os trabalhadores deve ser constante para que os trabalhadores também possam cumprir sua missão. O fato de que em muitos lugares os enviados do Senhor não são recebidos também mostra as dificuldades no cumprimento da missão. Muitas vezes, as pessoas serão hostis ao anúncio do evangelho. O texto ainda fala de pessoas endemoninhadas, de serpentes e de escorpiões. No cumprimento da missão, nem tudo é um “mar de rosas”. Mas, com certeza, o mesmo Senhor que nos envia há de nos acompanhar e nos proteger. A glória da nossa missão Cumprir a missão que nos é delegada trará muitas alegrias, assim como aconteceu com aqueles setenta enviados por Jesus. O fato de sermos bem recebidos em muitos lugares (casas e cidades), tendo inclusive as necessidades supridas, também é um motivo de grande satisfação. O texto também fala de pessoas sendo libertas do maligno pela instrumentalidade dos enviados. Fala ainda da autoridade dada aos enviados até mesmo sobre o inimigo, que não lhes poderá causar dano. Entretanto, a exortação final de Jesus nesse texto é que nos alegremos e nos gloriemos não por essas coisas terrenas que podem acontecer, por mais fantásticas que possam ser, mas sim pelo fato de nossos nomes estarem escritos nos céus. Participar como trabalhadores da seara do Senhor é um privilégio para aqueles que já experimentaram a boa-nova da salvação, podendo agora compartilhar com outros aquilo que já estão vivenciando, e a maior glória é justamente ter sido alvos da maravilhosa graça de Deus de que todos precisam.
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Imagens para a prédica
Certo dia, ao romper da manhã, eu estava nas costas da Fenícia e observava um aeroplano levantar voo. A bordo daquela aeronave estava o evangelista que havia trazido às congregações daquelas terras bíblicas a mensagem viva do evangelho. Duas horas depois, estaria ele em outro país, onde igualmente entregaria a preciosa mensagem. Quando o aeroplano sumiu no horizonte sob o céu de cristal que cobria o Mediterrâneo, lembrei-me de Paulo e Barnabé, que, séculos atrás, partiram daquela mesma baía. Embarcaram para navegar por semanas e semanas e visavam chegar às terras pagãs, onde havia pontes para o cristianismo. Não tinham
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juntas de missões para sustentá-los nem levavam nos bolsos cheques de turismo. A falta dessas coisas tão convenientes não os impediu de empreender a viagem. No mundo moderno, muitas são as oportunidades, conveniências e estímulos para aqueles que querem ser testemunhas da graça salvadora de nosso Senhor. A necessidade maior é que sejamos testemunhas de Cristo (P. C. Krikorian – Líbano).
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Subsídios litúrgicos
Podem ser utilizadas na introdução ou no decorrer do culto algumas frases de efeito: • Nenhuma igreja tem o direito de enviar missionários. Só Deus envia missionários. A parte da igreja é simplesmente liberá-los tão logo o plano de Deus seja revelado (Derek Bigg). • Evangelização é a tarefa perpétua de toda a igreja, não o passatempo peculiar de alguns de seus membros (E. Wilson Carlisle). • A missão cristã é a única razão de estarmos na terra (Andrew Murray). • Em último caso, empenhamo-nos hoje na evangelização não porque desejamos evangelizar, porque preferimos fazê-lo ou porque gostamos disso, mas porque nos foi ordenado que o fizéssemos (John R. W. Stott). • Evangelização é tarefa sempre perigosa, embora não seja tão perigosa como a falta de evangelização (George Sweazey). • Testemunhar não é algo que fazemos; é algo que somos (Anônimo). • A tarefa do cristão é tornar o Senhor Jesus visível, inteligível e desejável (Len Jones). • Uma testemunha em uma corte de justiça precisa apresentar provas; uma testemunha cristã precisa ser uma prova. Essa é a diferença entre a lei e a graça (Geoffrey R. King). • O verdadeiro problema do cristianismo não é o ateísmo nem o ceticismo, mas o cristão que não dá testemunho e tenta contrabandear sua própria alma para o céu (James S. Stewart).
Bibliografia MORRIS, Leon L. Lucas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1996. 330 p. RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. Curitiba: Esperança, 2005. 480 p.
8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES DEUTERONÔMIO 30.9-14 LUCAS 10.25-37 COLOSSENSES 1.1-14
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9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
17 JUL 2016
PRÉDICA: LUCAS 10.38-42 GÊNESIS 18.1-10a COLOSSENSES 1.15-28
Marcia Blasi Ketlin Lais Schuchardt
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Introdução
Os três textos indicados convidam-nos a refletir sobre a importância de receber a palavra de Jesus e confiar em suas promessas, sem deixar que as preocupações, as agitações, o medo e a insegurança nos afastem da companhia de Jesus. O texto previsto para a pregação no 9° Domingo após Pentecostes relata a visita de Jesus à casa de Marta e Maria. Por meio de Marta conhecemos o amor que serve e por meio de Maria a importância de ouvir a palavra de Jesus para aprender e poder servir com amor. Mesmo com os rígidos costumes da cultura da época em relação às mulheres, Jesus, ao hospedar-se na casa de Marta e Maria, manifesta o afeto e a confiança que tem pelas duas irmãs e desafia as regras culturais. Cristo diz que não veio para ser servido, mas para servir. Hospedar e cuidar das pessoas são atitudes boas e necessárias; acolher a palavra também é. A teologia feminista cita Lucas 10.38-42 como um dos textos que fundamentam biblicamente a tese do “discipulado de iguais”, enfatizando a importância e participação de mulheres no ministério de Jesus. Enquanto Marta se ocupa das “tarefas caseiras”, tipicamente entendidas como femininas na sociedade patriarcal, Maria tem a coragem de assumir a “atitude de um discípulo”: sentada aos pés de Jesus, aprendendo e sendo empoderada com conhecimento.
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Exegese
O texto indicado para a pregação é narrado somente no Evangelho de Lucas. Esse texto localiza-se entre a parábola do bom samaritano, que enfatiza o tema do amor às pessoas necessitadas, e os ensinamentos de Jesus sobre como se deve orar. O texto, entre outras coisas, fala da visita que Jesus faz a Marta e Maria em uma de suas viagens. V. 38 – Jesus e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém. Ao chegar a um povoado, provavelmente Betânia, a pouco mais de 3 km de Jerusalém (Jo 11.18), Marta recebe Jesus em sua casa. Tudo indica que Marta era a irmã mais velha, dona de casa e responsável pela família. V. 39 – A sua irmã, Maria, simplesmente assentou-se aos pés de Jesus como qualquer discípulo costumava sentar-se aos pés de seu mestre. Os rabis não aceitavam que mulheres se sentassem a seus pés como discípulas (Lc 8.1-3). Com esse gesto Maria assume a atitude de uma discípula para ouvir os ensinamentos do Senhor, que não a repreende.
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V. 40 – Marta estava preocupada com o muito servir – diakonia. Ela estava atarefada com muito servir, provavelmente cansada de fazer tudo sozinha. Ela censura sua irmã e apela a Jesus que ordene para que Maria a ajude. Marta estava ocupada, o que em grego significa “distraída”. V. 41-42 – A resposta de Jesus tem um ar de repreensão, mas não exclui a amizade e ternura que sente. “Jesus tinha muito amor por Marta” (Jo 11.5). Marta queixa-se com espontaneidade, e Jesus responde com carinho: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas” (Lc 10.41). Para o estilo de vida que Jesus adota para si e seus discípulos e discípulas, “pouco é necessário”. Jesus não condena o servir (diakonia) de Marta; sua atitude e preocupação também são de grande importância. No entanto, fica claro que Jesus está preocupado com a agitação de Marta.
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Meditação
Marta e Maria, amigas e seguidoras de Cristo em uma época em que as mulheres, principalmente as das classes pobres, viviam totalmente submissas, não tinham nenhuma participação ativa na vida da sociedade e nem nas decisões familiares ou políticas. Jesus questiona e quebra a tradição e fá-las suas discípulas. Marta é apresentada a nós como uma mulher trabalhadora, prática e cheia de vitalidade, uma anfitriã preocupada em receber bem o hóspede. Assim sendo, não mediu esforços para receber com hospitalidade e alegria um hóspede tão ilustre como Jesus. Assim como nós nos preocupamos com as coisas práticas e em servir bem quando recebemos uma visita querida, Marta também quis receber bem aquele amigo, talvez com uma boa refeição. Com toda a preocupação em servir bem a Jesus e talvez outras pessoas, Marta fica muito agitada e atrapalhada. Seu serviço (diakonia) é importante e vital na comunidade. O que teria levado Marta a tal atitude de constrangimento? Talvez Marta estivesse cansada de assumir todas as responsabilidades do serviço sozinha, como muitas mulheres ainda hoje precisam fazer, enquanto outras pessoas sentam e conversam. Talvez Marta gritava por ajuda e também queria poder “optar” pela melhor parte sem sentir-se culpada por isso? Não poderiam todas as pessoas da casa, inclusive Jesus, ter se ocupado com as tarefas enquanto ouviam seus ensinamentos? Maria também faz, age. Mesmo em um contexto que, em sua maioria, impede as mulheres de ser discípulas, Maria ousa inclusive agir contra a lei. Provavelmente ela não era a única. Com sua atitude Maria mostra ter consciência de que Jesus é o Mestre e que ela não quer perder nenhuma oportunidade de aprender com ele. Ela se coloca aos pés do Mestre para ouvir com atenção e esquece a responsabilidade de auxiliar nos afazeres, os quais preocupavam Marta. Jesus Cristo assume uma amizade com Marta e Maria e decide hospedar-se na casa delas, o que para a época já era bem preocupante. Jesus desafia o pensamento patriarcal e assume uma mulher como discípula, permitindo que ela sente a seus pés enquanto ele a ensina. Quando Marta reclama sua atenção, Jesus responde de forma carinhosa: Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada
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com muitas coisas. Uma só coisa é necessária; Maria optou pela coisa certa, e esta não lhe será tirada (Lc 10.41-42). As palavras de Jesus para Marta também nos convidam a refletir sobre nossas escolhas e nossas prioridades. Vivemos em um tempo de muita agitação. Precisamos fazer muito, fazer tudo, ser pessoas conectadas nas redes sociais o tempo todo e não “perder” tempo com conversas. A agitação e a agenda lotada são sinais de competência em nosso contexto. Ao contrário, descanso, conversas, estudo, momentos de reflexão e estudo da palavra são considerados perda de tempo. Vivemos em um mundo onde a justificação por graça está cada vez mais distante do dia a dia. Para o mundo, somos pessoas justificadas pelo quanto fazemos e pelo que temos. Quando assumimos as responsabilidades em conjunto, homens e mulheres, em todos os âmbitos de nossa vida, libertamos muitas “Martas” dentro de nós, as “Martas” que nos chamam para o ativismo, para a correria e a agitação, para o sentimento de incompetência. Servir é muito importante, mas é preciso mais. É preciso parar. Ao não cair na armadilha da resposta fácil, desejada por Marta, Jesus também fala a nós. No mundo patriarcal em que vivemos, exige-se que mulheres andem sempre agitadas com muitas tarefas, com várias jornadas de trabalho, cuidado com crianças, pessoas idosas e doentes, impedindo que muitas vezes possam escolher o estudo e o aprender. De modo semelhante, é exigido dos homens eficiência no trabalho, competitividade e o aprender constante. A palavra de Jesus desafia a transformar a realidade, a trabalhar em conjunto no servir e a ter tempo e condições justas para “escolher a melhor parte”.
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Imagens para a prédica
Inicie descrevendo o que acontece quando recebemos uma visita surpresa: abrir a porta, limpar o sofá para a visita sentar, colocar o cachorro para fora, preparar um café, ver se tem algo para fazer almoço (cada contexto trará subsídios para começar a história). Relacione essa experiência com a de Marta e Maria. Não havia celular nem facebook, a visita simplesmente chegava. E então era preciso agilidade para fazer tudo. Além disso, sugiro enfocar a palavra diaconia. Marta provavelmente estava preocupada com as visitas que tinha prometido fazer, com a pessoa batendo à sua porta pedindo um pedaço de pão, com a refeição que gostaria de preparar para Jesus. Com tantas tarefas estava atrapalhada. Descreva como tudo isso é importante. Conte também a atitude de Maria, sua sede de aprender, de ouvir as palavras do Mestre. No contexto onde elas viviam, isso não era desejado nem apoiado, e em muitas ocasiões até proibido. Saliente que para muitas mulheres essa não é uma escolha. Muitas mulheres assumem sozinhas a tarefa de cuidar, lavar, limpar, cozinhar e não tem tempo nem condições de escolher o estudo. O texto apresenta uma tensão que não precisa ser resolvida. Não é necessário escolher lados e muito menos condenar Marta e salvar Maria. Não creio que o
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texto queira isso. Aproveite para enfatizar que na companhia de Jesus somos pessoas livres para aprender, reivindicar, trabalhar em conjunto. Incentive as pessoas a procurar o ensino que liberta e encoraja-as a ser Martas-Marias no seu dia a dia.
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Subsídios litúrgicos
Hino
Diaconia, de Erli Mansk e Rodolfo Gaede Neto.
Oração Deus de ternura e misericórdia, agradecemos-te por permitires e compreenderes que por vezes somos como Marta, que se preocupa e serve incondicionalmente com seu trabalho e dedicação, outras vezes somos como Maria, com disposição para colocar-se a teus pés e ouvir. Permita que ouçamos o que tu tens a nos ensinar e capacita-nos para servir e ouvir as pessoas ao nosso redor, fazendo todas as coisas sempre com amor e em comunhão. Por Jesus Cristo, teu Filho amado. Amém. Bênção Que a estrada se erga ao encontro do seu caminho. Que o vento esteja sempre às suas costas. Que o sol brilhe quente sobre a sua face. Que a chuva caia suave sobre seus campos. E até que nos encontremos de novo, Que Deus o guarde na palma da sua mão. (Bênção irlandesa)
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo, SP: Milenium, 1982. 6 v. FIORENZA, Elizabeth Schüssler Fiorenza. Discipleship of Equals: A Critical Feminist Ekklesia-logy of Liberation. New York: Crossroad, 1994. OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de. Lucas 10.38-42. In: Proclamar Libertação XXXIV. São Leopoldo: Sinodal, 2009. p. 264-269.
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10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
24 JUL 2016
PRÉDICA: COLOSSENSES 2.6-19 GÊNESIS 18.20-32 LUCAS 11.1-13
José Kowalska
Cuidado! Permaneçam em Cristo!
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Introdução
Neste dia, encontramo-nos no terceiro domingo da leitura semicontínua da Epístola de Paulo aos Colossenses. Por isso o texto indicado para a pregação não está diretamente relacionado de forma temática com as outras leituras propostas. Mas, mesmo assim, podemos encontrar um elo que relaciona todas as leituras neste tempo após Pentecostes: como deve ser a vida daquelas pessoas que acreditam em Deus. No caso de Gênesis, apresenta-se o texto em que Abraão barganha com Deus sobre a situação de pecado em Sodoma e Gomorra e a conclusão de que talvez não se conseguirá a quantidade necessária de pessoas justas para evitar a destruição (Abraão começa com 50 e termina com 10). Por outro lado, no texto do evangelho, Jesus ensina o Pai-Nosso e, além disso, uma parábola sobre a necessidade da oração e que Deus escuta nossos pedidos. O texto de Colossenses é uma advertência para não seguir falsas doutrinas, mas se manter firme sob a supremacia de Cristo diante daqueles que se consideram melhor relacionados com Deus, pois possuem visões místicas ou experiências extáticas. Esse texto traz muitos desafios para serem interpretados, pois contém uma quantidade de imagens únicas, uso de palavras e conceitos que são raros ou até únicos no Novo Testamento, além de frases principais com muitas subordinadas. Por questão de espaço, ficaremos restritos a somente alguns detalhes. O texto da pregação já foi trabalhado no PL 26.
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Exegese
A Epístola de Paulo aos Colossenses é dirigida aos cristãos que moram em Colossos, mas é pedido que seja lida por outras comunidades (como indicado explicitamente em 4.16). Talvez o pedido da leitura em outros lugares seja motivado pela extensão da problemática existente ou pela prática de já nessa época circularem as cartas. A comunidade em Colossos não foi fundada por Paulo, mas por Epafras (1.7). É uma comunidade de forte presença gentílica, mas com grande influência judaica. As pessoas estão num diálogo entre o mundo judaico e o helênico, devendo definir-se e estabelecer limites. A Epístola de Paulo aos Colossenses traz como temática principal a supremacia de Cristo (mostrada especialmente em 1.9-2.5). Cristo é visto como a ver-
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dadeira imagem de Deus, ao qual são subjugados todos os poderes espirituais e forças deste mundo (kosmos). Esse justamente é o contexto anterior e fundamento de nosso texto. O texto indicado para a pregação aponta a motivação da carta: “filosofia e falsa doutrina” (2.8). O conteúdo da falsa doutrina, pode-se concluir, são práticas da religiosidade popular, um poder a partir do mundo (kosmos), seja personalizado (anjos) ou até com prescrições ascéticas (cuidado com comidas e observância de datas festivas). O autor do texto argumenta contra aqueles que ele considera enganadores de duas formas: uma positiva e outra negativa. De forma positiva, lembra aos leitores que já experimentaram uma verdadeira e plena relação com Deus, isso através de Cristo. Mas é negativo ao procurar manter essa relação com o divino apesar dos questionamentos e das exigências desnecessárias. A parte mais incisiva dos argumentos negativos encontramos justamente no texto em estudo (2.8, 6-19), versículos que são introduzidos com advertências e ordens (cuidado, ninguém vos julgue, ninguém se faça árbitro). No v. 8, é usado o verbo sylagōgeō, que significa ser levado como prêmio de saque (por isso traduzido pela NTLH como “tornar escravo”). Os ensinamentos desses mestres são classificados como uma filosofia vazia e enganadora, cujos parâmetros são a tradição humana ou conceitos elementares, esquecendo que para as pessoas cristãs o parâmetro é Cristo. No v. 16, os leitores são informados de que são julgados com base no uso de certas comidas, bebidas ou na observância de datas especiais, isso provavelmente para melhorar sua experiência de êxtase. Diante dessas situações e da perspectiva errada, os cristãos são chamados a não se preocupar com isso, pois não estão em sintonia com Cristo; ao contrário, distanciaram-se dele e de sua obra redentora. O autor do texto é enfático ao distinguir essas práticas e julgamentos teológicos do agir de Cristo e da realidade presente na comunidade, a qual existe e deve permanecer em Cristo. Por isso é importante observar que pelo menos seis vezes as frases que incluem “nele” ou “com ele” referem-se a Cristo. Isso já é usado no capítulo anterior da carta, em que Cristo é a realidade onde habitamos ou é em quem Deus ativamente está trabalhando. Dessa forma, nos v. 6 e 7, as pessoas são exortadas a fazer do seu comportamento um reflexo da realidade em que agora habitam, ou seja, em Cristo. Por isso é pedido que continuem enraizados (imagem rural) e edificados (imagem urbana) nesta realidade chamada Cristo. No v. 9, é lembrado que se permanecem em Cristo terão uma relação plena com Deus, pois a plenitude ou a totalidade de Deus habita em Cristo, não é somente ou apenas uma parte. Quem está em Cristo está complemente relacionado com Deus. Ao usar o verbo pleroō (ser completado, finalizado, cheio, ARA aperfeiçoados) como particípio perfeito passivo no v. 10, é lembrado que a realidade divina em curso foi iniciada no passado e continua no presente e no futuro. A ação divina não foi finalizada ou concluída ainda. Nos v. 10 e 19, Cristo é visto como a cabeça. Cristo é governante supremo sobre toda e qualquer força humana ou cósmica. Cristo é a cabeça da igreja, que é o seu corpo. Assim, Cristo unifica toda a realidade eclesial e dá nutrição. Por isso a comunidade deve lembrar que quem permite sua simples existência é Cristo.
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Nos v. 11 a 15 são usados a circuncisão e o batismo para descrever a realidade antiga e a atual. Todas as pessoas que foram batizadas experimentaram um tipo de circuncisão à medida que foram incluídas no povo de Deus. As pessoas foram transferidas de poderio, de um mundo onde o pecado escraviza a existência (11, cf. 1.13s). Os crentes foram apekdysis = os crentes são colocados livres de sua natureza pecaminosa através da união com Cristo. A circuncisão não é de qualquer um, mas de Cristo, ou seja, os crentes, ao serem batizados, entram numa nova realidade e ganham uma nova identidade: estão agora sob o senhorio de Cristo. Chegamos agora ao que podemos considerar o cerne do texto: os v. 13 a 15. Aqui Deus elimina nossa realidade anterior, na qual as pessoas estavam mortas diante da realidade do pecado e ganharam vida ao ser-lhes perdoada sua existência pecaminosa. Encontramos aqui de forma clara a teologia da cruz. Deus elimina o registro da pecaminosidade, pregando-o na cruz. O preço é pago não pelas pessoas, mas por Cristo. Por isso ele tem o poder sobre tudo e todos. Mas não acontece somente isso. Pois no v. 15, depois de cancelar a dívida, é feita uma passeata que lembra os desfiles em que os inimigos derrotados tinham que demonstrar sua derrota e desgraça. Assim, de forma paradoxal, a crucificação de Cristo torna-se sua vitória sobre os poderes do kosmos e permite que a igreja ganhe uma nova existência.
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Meditação
O ser humano tende a dividir as coisas para facilitar seu entendimento. Isso é uma prática que foi aprendida no Renascimento; ainda assim é atual. Dividimos os que estão conosco daqueles que são contra nós. Os cristãos têm má fama em alguns lugares do mundo porque as diversas casas missionárias enviaram seus trabalhadores para converter almas a Cristo, mas esqueceram que deviam trabalhar juntos e não pensar que os outros são concorrência. O testemunho cristão deixou muito a desejar nesses contextos. No Brasil, é interessante ver como as pessoas que se dizem cristãs não se diferenciam claramente do resto da sociedade. Claro que existem exceções, alguma igreja que exige uma vestimenta diferenciada. Mas, no geral, ninguém consegue descobrir quem é batizado no meio da rua. Estar em Cristo deveria fazer uma diferença na vida das pessoas, pois, do contrário, a morte de Cristo na cruz foi em vão. Como vivem os que foram batizados? Qual a diferença? Não podemos soar como aqueles que argumentam que são melhores cristãos do que os outros. Mas deveria existir alguma diferença. No Brasil, onde as pessoas voltaram a falar em poderes espirituais, em declarar tal cidade sob o senhorio de Cristo, a mensagem aos colossenses é atual. Estamos voltando a usar os mesmos padrões de entendimento sobre o mundo. Fala-se em encosto, demônio, acredita-se que as pessoas sofrem sob o efeito de poderes sobrenaturais. Tudo isso vai além da explicação científica. Agora as pessoas pensam em outras categorias.
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Estão sendo revistas antigas formas de pensar com uma nova roupagem. Existe o Estado Islâmico, que os próprios muçulmanos não reconhecem como correto. Mas é a tentativa de um grupo que acredita ter a total e absoluta verdade. Estamos aqui diante do perigo da teocracia, em que uma casta especial representa Deus na terra. Essas pessoas são as que “em nome de Deus” agem e até aniquilam quem pensa diferente. No caso do Estado Islâmico, esse não aceita a prescrição do profeta de respeitar os povos do Livro, ou seja, judeus e cristãos. Talvez para quem more no Brasil essa situação não deve afetar muito. Mas para quem está dentro dos territórios controlados pelo Estado Islâmico é questão de vida ou morte. No passado, a humanidade já sofreu com a Santa Inquisição, caça às bruxas, conversões forçadas etc. O problema é que, muitas vezes, pensa-se olhar de longe as situações em que outras pessoas sofrem. Mas, se olharmos de perto para o Brasil, poder-se-á constatar situações de dor e até de morte sob a roupagem de seguir o mandato divino. E não se está falando naquelas pessoas transtornadas que acham que Deus falou com elas. Mas estamos falando daquelas pessoas que jogam pedras em crianças que saem de centros de umbanda ou de gente que mata travestis ou homossexuais pelo simples prazer de fazê-lo. Diversas vezes, se tem questionado por que a IECLB não tem candidatos declarados ou por que os pastores devem deixar sua função eclesial. Mas, ao olhar para a “bancada evangélica”, vemos que muitas vezes não tem nada de evangélica além do nome. Pessoas com processos penais, denunciadas por corrupção e que muitas vezes estão lá somente porque o curral eleitoral da sua igreja conseguiu que fossem eleitas e devem defender as vontades da autoridade eclesial. Esse é um dos perigos do extremismo, para não dizer da tentativa de implementar uma teocracia no Brasil. Por outro lado, as pessoas hoje em dia também têm superstições. Intentam de uma forma ou outra manipular os poderes deste mundo para através de fórmulas ou rituais poder encontrar o efeito desejado. Alguns desses com embasamento científico ou da sabedoria popular, mas muitos simplesmente complicando a vida das pessoas. Pois, através dos rituais, as pessoas ficam presas ao que acham que deveria ser. Talvez não se preocupem com a festa da Lua Nova, mas, com certeza, existe outro tipo de preocupação e coisas que os mantêm afoitos. Em verdade, cada pessoa tem uma certa superstição. Preocupa-se se a bolsa de valores está caindo ou se tem que passar por baixo de uma escada. Tem aquele que cada dia compra sua aposta na lotérica ou precisa comprar óleo para colocar no parapeito da janela. Certas superstições podem considerar-se inocentes e até ingênuas, mas também existem aquelas que fazem com que as pessoas fiquem presas aos poderes inventados por elas. Como enfrentar as situações em que a superstição manda? O que fazer se bater de frente no mundo de hoje não funciona mais? Se antigamente era possível fazer como o escrito no texto da pregação, hoje em dia é quase impossível. Mas é necessário lembrar as pessoas de que não mais estão sob o senhorio da superstição, e sim sob o senhorio de Cristo. Como ser cristão sem cair nos extremos?
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Imagens para a prédica
Logo ao ler o texto, lembrei daquele caderninho de mercado em que se anotavam as dívidas. Sempre tinha aquela pessoa com problemas financeiros que fazia a compra e, ao terminar de totalizar o valor, perguntava à caixa: será que eu posso pendurar? Se a prédica puxar o texto a partir das superstições, pode-se olhar para o contexto local e trazer alguma superstição atual. Com certeza, ter-se-á muito material. Mas, se por necessidade pastoral é impossível utilizar uma superstição local, o livro de Nelso Weingärtner traz alguns bons exemplos, como “o caso da benzedeira que não conseguia morrer” ou “maldição pega”, que podem ser adaptados para a prédica. Por outro lado, também se pode ter como ilustração algum caso de intolerância ou discriminação que pessoas “cristãs” tenham realizado perto dos dias da pregação. Mas, para não ficar somente nos aspectos negativos, também se poderia lembrar atitudes ecumênicas em benefício de comunidades carentes ou até a própria campanha Vai e Vem da IECLB, que torna possível a existência de trabalhos que sem essa ajuda concreta não existiriam.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados Bondoso e misericordioso Senhor, estamos em tua presença e reconhecemos que nem sempre deixamos de lado aquilo que nos atrapalha. Pedimos perdão por isso. Muitas vezes, esquecemos que Jesus Cristo é nosso Senhor. Esquecemos de olhar por nosso próximo e cuidar daqueles que mais precisam de nós. Pedimos perdão por isso. A cruz custou a vida de teu Filho, mas a tratamos como um enfeite. Também crucificamos muitas pessoas com nosso egoísmo ao impor nos demais aquilo que achamos necessário, mas é sem sentido. Pedimos perdão por isso. Faz, Senhor, que teu Santo Espírito nos guie para que nos afastemos do mal e permaneçamos sob teu senhorio. Amém. Oração do dia Agradecemos-te, Deus onipotente, por nos resgatares da servidão do mundo através de teu Filho Jesus Cristo. Dá que te reconheçamos como Libertador e que te entreguemos nossa vida sem restrição. Dá que sirvamos uns aos outros e que cuidemos uns dos outros, auxiliando-nos fraternalmente, assim que fique evidente que tu és o nosso Senhor. (João Calvino. Tomada de Orações do Povo de Cristo. São Leopoldo: Sinodal, Curitiba: Encontrão Editora, 1995. p. 27).
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Bibliografia BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2009. WEINGÄRTNER, Nelso. Mundo da superstição. São Leopoldo: Sinodal, 2014.
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11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
31 JUL 2016
PRÉDICA LUCAS 12.13-21 SALMO 43 COLOSSENSES 3.1-11
Cledes Markus e Nienke Pruiksma
1
Introdução
O texto de Lucas está inserido em um grande bloco de ensinamentos de Jesus. O Messias está ensinando questões bem concretas da vida diária. A relação com os bens materiais, a herança e a riqueza também constam desses ensinamentos. Em Lucas 12.13-21, esse tema é abordado a partir da parábola do agricultor rico. Nas reflexões são incluídas as consequências dessa relação com os bens materiais na vida das pessoas e da comunidade. O texto apresenta o contraponto entre a economia do acúmulo e do egoísmo e a economia do amor e da solidariedade. Em relação às leituras deste domingo, elas ampliam os ensinamentos sobre o tema dos bens materiais. O Salmo 43 apresenta a confiança no Deus provedor. Deus cuida e guia as pessoas e as comunidades em todos os seus caminhos e em todas as suas necessidades. Já Paulo, na Epístola aos Colossenses (3.1-11), apresenta recomendações às pessoas e às comunidades, sendo que o tema fundamental é tornar-se uma nova criatura, um novo ser em Cristo, isto é, começar uma nova vida a partir do Cristo ressuscitado. Antes, os colossenses viviam para si mesmos e para as ambições terrenas. Agora, podem olhar para Cristo e receber dele outra possibilidade de vida. Ao entregar-se a Cristo, são transformados em seu ser e em seus princípios. Eles podem amar como Jesus amou e viver o bem, a justiça, a solidariedade e a partilha da mesma forma como Jesus viveu.
2
Exegese
2.1 – Sobre a obra de Lucas Inicialmente, consideramos importante trazer alguns aspectos do Evangelho de Lucas que ajudam a compreender esse texto em estudo. Segundo Goppelt, esse evangelho deve ter sido escrito depois dos anos 70, pois em Lc 21.20-24 faz-se referência à destruição de Jerusalém. Por outro lado, presume-se uma situação da igreja numa fase que precede a de I Clemente e Inácio. Com isso conclui-se que a obra foi escrita entre os anos 80 e 90. Assim, Lucas apresenta a visão do mundo em que Jesus viveu e também aquela em que surgiram as primeiras comunidades. Lucas, portanto, tem conhecimento da forma solidária como viviam as primeiras comunidades. Em seu caráter literário, Lucas é o único autor neotestamentário que abre seu livro com um prefácio (Lc 1.1-4). Nesse prefácio, Lucas tem consciência da distância histórica que o separa da origem de sua fé e da atividade de Jesus.
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Ele tenta superar essa distância mostrando a confiança que merecem as testemunhas oculares que compreenderam pela fé a mensagem de Jesus. Com isso Lucas quer descrever acontecimentos na história que correspondem ao cumprimento do plano de salvação de Deus mediante Jesus Cristo. Esse plano de salvação está expresso especialmente em Lucas 24, quando, ao aparecer aos discípulos depois da ressurreição, Jesus revela-lhes que sua retirada e o futuro caminho deles como testemunhas já estavam previstos nas Escrituras. 2.2 – Sobre o tema da riqueza e pobreza em Lucas Goppelt afirma que uma das particularidades da cristologia de Lucas seria que Jesus é o Salvador dos pobres e dos pecadores. Ele afirma que em Lucas o ponto de partida da atividade de Jesus é sua posição em relação ao problema do contraste entre ricos e pobres. Logo na introdução do evangelho, no cântico de Maria, Jesus é apresentado com o anúncio formulado em estilo veterotestamentário: “Ele derrubou os poderosos dos tronos, e exaltou os humildes. Saciou os famintos com bens, e despediu vazios os ricos” (Lc 1.52s). Nas bem-aventuranças (Lc 6.20ss) reafirma essa ideia quando os pobres são chamados de bem-aventurados e pronunciados “ais” sobre os ricos. Esses “ais” sobre os ricos aparecem somente em Lucas. Além disso, uma série de parábolas apresenta o tema da riqueza como matéria exclusiva de Lucas, como a do lavrador rico (Lc 12.16-21) e a do administrador infiel (Lc 16.19-31). Outras passagens em Lucas também se referem a como lidar com os bens, a herança e o dinheiro, como a história de Zaqueu (Lc 19.1ss), o filho perdido (Lc 15.1ss) etc. Lucas, porém, jamais defende a ideia como se Jesus tivesse anunciado apenas uma simples inversão da situação social. O rico não se perde pelo fato de ser rico, nem o pobre se salva pelo fato de ser pobre. O critério geral é aquele formulado no início e no fim da parábola do agricultor rico. Erra o sentido da vida toda a pessoa que acha que o mais importante é viver baseado no acúmulo de bens. Assim, em todas essas histórias de Lucas, Jesus vai fazendo um contraponto entre a economia do acúmulo e do egoísmo e a economia do amor e da solidariedade. Nesse critério, os ricos são chamados à comunhão e a se arrepender. Segundo Goppelt, as narrativas de Lucas 7.36-50 e 10.1-10 explicam como acontece a transformação da situação social preconizada em Lc 1.62s. O publicano Zaqueu declara: “Senhor, dou a metade dos meus bens aos pobres, e se tiver defraudado a alguém, retribui quatro vezes mais!” (Lc 19.8). Jesus, portanto, traz a transformação, inclusive a de cunho social. Transformando a relação da pessoa para com Deus e, com isso, para com todo o mundo em que vive. Nesse contexto, é importante mencionar também o relato sobre a assim chamada comunhão de bens da comunidade primitiva de Jerusalém (At 2.42-47), da qual Lucas tinha conhecimento. Essa liberdade de partilha é possível onde as pessoas das comunidades estão voltadas umas para as outras e veem-se como novas criaturas.
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2.3 – Sobre o texto Lucas 12.13-21 O texto faz parte de um grande bloco de ensinamentos de Jesus. Todo o capítulo 12 de Lucas pode ser entendido como instrução à comunidade. Trata-se de uma cuidadosa composição redacional em que o autor descreve a posição das pessoas que seguem Jesus neste mundo, dando conselhos para o testemunho em diversos contextos: perseguição, bens, sobrevivência. Todo o capítulo tem paralelos sinóticos, menos os v. 13-21, que são únicos para Lucas. Segundo Goppelt, a maior parte dos textos, à exceção da parábola do “homem rico”, provém de material da fonte dos Ditos (Q). O texto de Lucas 12.13-21, portanto, é um dos textos essenciais da concepção econômica do evangelista. Nele se chocam duas formas de lidar e agenciar os bens, ou seja, duas economias distintas: a do acúmulo egoísta e a economia do amor e da solidariedade em que os bens adquirem uma função social. V. 13-14 – A cena do episódio narrado ocorre num contexto onde havia uma multidão. Aliás, a palavra multidão (ochlos) está no começo, meio e fim desse capítulo (v. 1, 13 e 54). Ela pinta a cena desse episódio como uma cena pública. A multidão é o povo: não são os nobres e ricos, mas são as pessoas comuns do lugar. É com elas que Jesus fala neste capítulo. Frequentemente, elas não têm nome e nem voz. Mas Jesus disse que, mediante Deus, a multidão não é impessoal, mas é composta por pessoas conhecidas e diversas. E nenhuma delas está esquecida diante de Deus. Conforme Lucas 12.6-7, elas são tão conhecidas, que até os cabelos de suas cabeças estão todos contados. Segundo Moltmann, é de uma multidão de pessoas que não se conhecem que nascem as primeiras comunidades cristãs, e essas logo se transformam em “um só coração e uma só alma”. A solidariedade entre as pessoas fazia com que tivessem tudo em comum. Não havia carência entre elas. Repartia-se a cada uma segundo a sua necessidade. Assim, com grande eficácia testemunhavam a ressurreição de Cristo (At 4.32-35). Depois do monólogo de Jesus em Lucas 12.1-11, uma voz emerge da multidão, interrompendo o ensino e interrogando Jesus. O homem que levanta sua voz reconhece que Jesus fala com grande autoridade e pede orientação sobre a divisão da herança com o irmão. Esse homem vê em Jesus um rabino que tem autoridade não somente em assuntos religiosos, mas também em questões jurídicas. No Pentateuco estão descritas formas de implementar as regras em relação às heranças (Dt 21.15-17, Nm 27.1-11 e Nm 36.7-9). Diante da pergunta do homem, Jesus reage dizendo que não é juiz ou advogado para lidar com questões legais relacionadas a heranças. Podemos dizer que esse diálogo entre o homem e Jesus (v. 13-14) torna-se uma estratégia literária para introduzir uma parábola, cujo fim é instruir sobre o tema. V. 15 – Jesus, portanto, aproveita o assunto da herança para trazer um ensinamento sobre os bens materiais, especificamente sobre a avareza. Jesus recomenda a seus ouvintes para ter cuidado e guardar-se da avareza, porque a vida de qualquer pessoa não consiste na abundância do que possui. V. 16-21 – Para ilustrar esse ensinamento, Jesus passa a contar uma parábola a respeito de um agricultor rico, cujo campo produziu em abundância.
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Diante da abundante colheita, o homem iniciou uma reflexão consigo mesmo. Seu monólogo logra uma condensação literária inigualável mediante o uso dos muitos pronomes possessivos: meus frutos, meus celeiros, meus produtos, meus bens, minha alma. Tudo é meu! O agricultor rico faz uma reflexão absolutamente centrada em si mesmo. Nessa reflexão, não há espaço para a sua família, o seu administrador (subentende-se que um latifundiário sempre tinha um administrador) e muito menos a sua comunidade. Decide por sua conta e se convida a uma vida benfazeja somente para si mesmo! E como diz René Krüger (PL 29, p. 229), ele nem sequer pensa numa festinha com pessoas amigas, pois outras parábolas de Lucas incluem a dimensão festiva relacionada com uma alegria especial: a grande ceia, a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho pródigo. O imperativo “regozija-te” (eufrainou) corresponde à descrição do rico em Lucas 12.19. Ambas as parábolas acentuam as características do egoísmo, da avareza, da exclusão de outras pessoas e da falta de solidariedade. Depois de refletir e planejar o seu projeto de armazenamento, acúmulo e vida em regozijo, o monólogo do homem é bruscamente interrompido por uma avaliação muito negativa de sua forma de pensar: “Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”. É Deus mesmo que entra em cena e anuncia que essa forma de pensar e planejar o acúmulo de bens é insensata, é loucura. Nos escritos sapienciais do Antigo Testamento, o louco, o néscio, nega a existência de Deus (Sl 14.1 e Sl 53.2) e também vive sem Deus e não segue a sua vontade. Isso se refere não somente à religião, mas à vida em sua integralidade. Aqui no texto, Lucas atualiza esse conceito de louco e néscio, colocando-o no contexto do uso dos bens. Com isso, o mau uso dos bens tem a ver com a loucura e o viver sem Deus. O v. 19 não apresenta somente o juízo para quem faz mau uso dos bens, acumulando-os de forma egoísta. Apresenta também uma possibilidade de vida. A pergunta “O que tens preparado, para quem será?” inclui e coloca em evidência outras pessoas, faz refletir e aponta para outra forma de planejar e lidar com os bens que não é o acúmulo para si, mas o repartir com os outros. Ela também remete ao tema da herança, agora relativizado, apontando para o uso que se faz dos bens. No v. 21, Jesus conclui falando ao público que isso acontece aos que acumulam para si bens e tesouros e não são ricos para com Deus, ou seja, que esquecem de fazer o que é ser rico perante Deus. E ser rico perante Deus inclui fazer a sua vontade, ou seja, seguir o mandamento do amor a Deus e ao próximo!
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Mensagem
É importante considerar que a mensagem de Lucas encontra-se no contexto do anúncio do evangelho de Cristo. O fim último é proclamar o plano salvífico que é o reino de Deus que Jesus antecipou, anunciou e praticou. O evangelho é a plenitude da vida e do amor que se manifestou em Cristo e que é a vontade de Deus para toda a sua criação.
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Tocadas pelo evangelho de Cristo, as pessoas querem dar testemunho dessa vida e amor em plenitude. Então o testemunho acontece através da comunhão e da reciprocidade que promove vida. Assim acontece a vivência comunitária. É na comunidade que o amor pode ser praticado e a vida pode ser partilhada e experimentada de forma abundante. Na comunidade, todos têm um mesmo sentimento e a mesma alma. As pessoas ajudam-se e cuidam-se mutuamente. As ideias, as forças e os recursos existem para o bem de todas as pessoas. A partir desse contexto mais amplo da comunidade e da comunhão é que podemos ler esse texto de Lucas que inclui a parábola do agricultor rico. E nesse sentido apresentamos alguns aspectos que podem ser trazidos para a prédica. Um dos aspectos a ser destacado é que com essa parábola Jesus questiona e também condena todo acúmulo egoísta de bens em benefício próprio. No acúmulo em benefício próprio não há lugar para as outras pessoas. O mandamento do amor ao próximo e da comunhão são deixados de lado. Jesus reforça que o sentido e a dignidade da vida não consistem na acumulação de bens e fortunas, mas no fato de ser filha e filho de Deus que põe em prática o mandato do amor. E esse amor traduzido em termos econômicos aponta para uma economia do compartilhar, do repartir, da solidariedade. Nessa economia, os bens têm uma função social: possibilitar e manter a vida das pessoas e da comunidade. O acúmulo egoísta de bens em benefício próprio tem sido a tônica do mundo atual. Pessoas, sociedades e países são capazes de acumular de forma ilícita; passar por cima de familiares, amigos e compatriotas; em nome do acúmulo se destrói a natureza e se coloca em risco toda a comunidade planetária. Outra reflexão importante apresenta-nos Moltmann em seu livro “Ética da Esperança”, quando menciona que o oposto da riqueza não é a pobreza, mas a comunidade. Afirma também o inverso, ou seja, que a alternativa qualitativa à pobreza e à riqueza é a comunidade. Em comunidade, todas as pessoas tornam-se plenas e abundantes em relações, em confiança, em auxílio mútuo, em amparo e cuidados, em ideias e forças, em energias da solidariedade e do amor recíproco. Uma comunidade que tem “um só coração e uma só alma” é uma comunidade de confiança. Onde algo assim acontece, ali se experimenta a presença de Deus. As comunidades que têm experimentado a presença de Deus e vivido o amor em sua plenitude têm deixado inúmeros testemunhos de solidariedade. Quantas creches, escolas e hospitais são consequência dessa vivência solidária; auxílios emergenciais diante de catástrofes; apoios às instituições que atuam pela paz, justiça, contra discriminações; iniciativas de economia solidária e de revitalização de nosso planeta. O evangelho do amor e da vida, portanto, continua sendo testemunhado nos dias atuais. E ainda outra reflexão que se pode ressaltar a partir desse texto é que, para avaliar a partir da ética cristã um determinado sistema socioeconômico e político, a perspectiva bíblica coloca-nos a pergunta sobre as consequências que esse sistema tem para a vida, para a realização plena dos seres humanos, para a convivência em comunidade familiar, social, nacional e internacional; para a criação de Deus. Por mais que um determinado sistema produza um desenvolvimento tecnológico e um aumento dos ingressos de um país, sempre cabe perguntar pela
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distribuição interna dos benefícios. Se o sistema marginaliza e exclui seres humanos, ele é avarento.
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Imagem para a prédica
Ao pensar numa imagem para a prédica, logo vêm à mente diversos relatos de pessoas indígenas que falam de sua relação com Deus, com sua comunidade e com a natureza. Na convivência com os povos indígenas, sempre de novo surpreende que a forma de pensar e a ética desses povos assemelha-se aos ensinamentos de Jesus. Um dos aspectos relevantes para esses povos é a vida comunitária, baseada em relações de reciprocidade e complementaridade, não só entre as pessoas, mas com toda a natureza. São frequentes os relatos como os de Santiago Guarani num seminário em 2012, quando ele afirma: “Tenho pena dos não indígenas porque se matam trabalhando e estragam sua vida com muitas preocupações, querem juntar muito dinheiro... eles não têm confiança no Deus criador e na sua maravilhosa criação... mas nós temos que ter coração, não pensar só em dinheiro, ajudar as pessoas que necessitam, dar a mão...” Nesse sentido, outro relato do francês Jean de Léry, que em 1560 passou um bom tempo na Baía de Guanabara observando a principal atividade econômica local, que era a exploração do pau-brasil. Enquanto observava, Léry registrou as ideias de um ancião Tupinambá: “Uma vez um velho perguntou-me: ‘Por que vindes vós outros, maírs e perôs [franceses e portugueses] buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?’. Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas. “Retrucou o velho imediatamente: ‘E porventura precisais de muito?’. ‘Sim’, respondi-lhe, ‘pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados’. ‘Ah!’, retrucou o selvagem, ‘tu me contas maravilhas’, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: ‘Mas esse homem tão rico de que me falas não morre?’. ‘Sim’, disse eu, ‘morre como os outros’. “Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: ‘E quando morrem, para quem fica o que deixam?’. ‘Para seus filhos, se os têm’, respondi. ‘Na falta desses, para os irmãos ou parentes mais próximos’. ‘Na verdade’, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, ‘agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos
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certos de que, depois da nossa morte, a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados’.”
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Subsídios litúrgicos
Oração Sugere-se a oração 15, que se encontra no HPD 2, na página 335, que fala sobre a comunhão do povo de Cristo. Hinos Sugerem-se hinos do HPD 2 que falem da comunidade, da solidariedade e da partilha. Como exemplos, temos: o hino 333 – Canção de chegada; o hino 336 – Quando o povo se reúne e o hino 419 – Na mesa do Senhor.
Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1982. MOLTMANN, Jürgen. Ética da Esperança. Petrópolis: Vozes, 2012.
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PRÉDICA: GÊNESIS 15.1-6 LUCAS 12.32-40 HEBREUS 11.1-3,8-16
12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
07 AGO 2016
Samuel Gaussmann
Contando com a graça de Deus
1
Introdução
Gênesis é o livro das origens, que destaca o relacionamento de Deus com seu povo escolhido: Abraão, Isaque, Jacó, José e seus descendentes. Através de toda a narrativa, a principal preocupação do autor é apresentar o propósito de Deus em criar e providencialmente guiar esse povo eleito. Hebreus 11.1-3,8-16 procura, inicialmente, conceituar a fé: “Fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. É feita alusão à história de vida de Abraão e Sara a partir desse conceito de fé, destacando que o apego à palavra de Deus jamais decepciona. Lucas 12.32-40 não fala diretamente de Abraão e Sara, mas se pode fazer uma ligação entre a família de Abraão e Sara e o pequeno rebanho ali apresentado. O evangelista fortalece a comunidade, lembrando a presença e a promessa do reino de Deus. Assim como as promessas de Deus a Abrão expressam o amor e a graça divinos, o pequeno rebanho também é protegido pela graça de Deus. No v. 32b é dito que Deus tem prazer em dar o reino ao pequeno rebanho. Diante da promessa é preciso estar vigilante e crer, a exemplo de Abraão. Portanto os cuidados de Deus em cumprir sua promessa e a fé nele (e todo compromisso que isso implica) são os fios que entrelaçam os três textos. Em Lucas, é Jesus quem diz “não tenha medo” ao pequeno rebanho, e, em Gênesis, é Deus quem diz “não tenha medo” a Abrão e apresenta-se como escudo.
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Exegese
A perícope delimitada está inserida na “colcha de retalhos” de Gênesis 15, composta de duas narrativas independentes (Gn 15.1-6 e Gn 15.7-21) e com linhas de diferentes tradições (profética: com a expressão “veio numa visão/teve uma visão”; Dêutero-Isaías: de onde vêm expressões como “não temas”, entre outras). Recomendo consultar a pesquisa feita por Nelson Kilpp no PL 26, p. 257-260. É salutar pesquisar o contexto da história bem como as intenções dos redatores para não perder o “fio da meada” e não “rasgar” a colcha, mas valorizar seu colorido na pregação. O v. 1 faz referência a fatos anteriores ao afirmar “depois desses acontecimentos/ depois disso”. Os capítulos anteriores relatam que exércitos vindos do Oriente invadiram a terra de Israel e causaram muitos estragos. Abrão envolveu-
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-se no conflito por causa de seu sobrinho Ló, que fora feito prisioneiro de guerra. Além disso, vale recapitular acontecimentos marcantes que causaram profundo impacto em Abrão e sua família, como: fome e fuga para o Egito (12.10), mentira no Egito por causa de Sarai (12.13), separação de Ló (13.9), promessa de uma terra (13.14-15). Naquele momento específico, a maior preocupação de Abrão era uma retaliação militar. Por isso é tão significativa para sanar os medos de Abrão a revelação de Deus como escudo. O escudo é um instrumento de defesa e proteção do guerreiro. Deus assegurou a Abrão que não deveria considerar Eliézer como seu herdeiro. De acordo com as leis da época (relatadas em descobertas arqueológicas), era costume casais ricos e sem filhos adotarem um servo e torná-lo seu herdeiro. Não há relatos dessa tradição entre os israelitas. Nesse momento de crise de fé, Abrão cogita fazer uso do costume de outros povos para “viabilizar” a promessa de Deus. A desgraça de não ter filhos abala também a fé de Sarai, quando, fixando os olhos mais nas circunstâncias do que nas promessas, contando mais com as possibilidades humanas do que com os milagres de Deus, também recorre ao costume estrangeiro e entrega sua escrava Hagar a Abrão na esperança de que ela concretize o herdeiro que Deus havia prometido. Por agir sem contar com Deus, as consequências foram discórdia e sofrimento. Na época de Abrão, ter filhos era uma questão central, diferente de hoje, mas, ainda assim, os filhos representam um dos maiores galardões que se pode ter. O termo galardão associado a filhos consta no Salmo 127.3: Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Abrão trocaria todo o gado, todos os servos, todo o ouro e toda a prata para poder ter o galardão de um legado fiel. Deus, então, enfatiza que Abrão terá um herdeiro gerado de seu próprio corpo (no hebraico, o termo soa como “de tuas entranhas”, ou seja, das próprias capacidades procriativas). Outra tradução seria “do útero”, pois transfere a questão da procriação para Sarai. Abrão não opôs dúvidas ao que Deus lhe disse, embora já tivesse idade avançada. Ele creu firmemente em sua palavra, e isso lhe foi imputado por justiça (Rm 4.18-22), isto é, por causa da sua fé de que Deus cumpriria sua promessa, Deus o aceitou e, como as demais personalidades do Antigo Testamento (Hb 11), Deus declarou-o justo. Semelhantemente, todos os que põem sua fé em Cristo são declarados justos por Deus e herdeiros das bênçãos de Abrão. A perícope delimitada termina com um famoso versículo (citado em Rm 4.3; Gl 3.6; Tg 2.23): Abrão creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça. Essa é a manifestação de um coração acalmado, de alguém sereno e tranquilizado pela suficiência do Senhor. De tudo o que o ser humano pode fazer para agradar a Deus, o mais sublime é crer nele e nas palavras dele. Deus é glorificado em nós à medida que confiamos nele. A fé agrada a Deus porque evidencia que ele é digno de confiança, que ele é mais importante do que seus presentes. Em momentos de dúvida ou temor, confie na suficiência do Senhor: viva contando com a graça de Deus!
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Nesse contexto, justiça não é uma norma absoluta, mas conceito relacional: o conceito justo é conferido àquela pessoa que se porta corretamente em relação à comunhão na qual se encontra (com outras pessoas e com Deus). Deus é justo ao permanecer fiel ao pacto que estabeleceu com uma pessoa ou um povo. O conceito de fé que o texto nos revela também enfatiza o aspecto relacional. Em momentos de perigo ou desespero, Abrão deveria crer no cumprimento das promessas divinas. O contato com Deus estabelece-se no momento em que alguém crê no que Deus disse. Somente considerar verdade aquilo que Deus disse ainda não é ter fé, nem mesmo o fato de admitir somente a sua existência. Conforme afirma o P. Alcides Jucksch: “As palavras de Deus são o único fundamento da fé viva em um Deus vivo: Não importa o que as experiências mostram. Não interessa o que os sentimentos informam. Não é relevante o que o raciocínio pondera. Só importa, só interessa e só é relevante o que Deus disse”. Submissão confiante à vontade de Deus é o elemento básico na verdadeira religião, como destaca Hebreus 11.8, quando afirma que Abrão, sendo chamado, partiu sem saber para onde ia. Todo o ciclo de sua vida está dentro de três parâmetros: obedecer à palavra de Deus, retornar à palavra de Deus e esperar pela palavra de Deus. Fundamentais, nesse sentido, são também as palavras de Jesus Cristo para os cristãos, como, por exemplo, sua presença até o fim dos tempos (Mt 28.20) e as palavras de instituição da Santa Ceia.
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Meditação
Para a elaboração da pregação, é bom ter em mente que esse texto faz parte das sagas do povo de Israel, em que a história do povo é sempre história com Deus e, por isso, assim como ele agiu com os patriarcas, ele está agindo com seu povo em todos os tempos. As costuras proféticas da perícope destacam esse aspecto de consolo para leitores que se encontram em um presente conflitivo, e a lembrança de uma promessa divina do passado serve para vislumbrar um futuro com mais esperança. O medo é um instinto de sobrevivência, mas há medos infundados que limitam a vida. Deus teve paciência e trabalhou no coração de Abrão, reafirmando suas promessas. Quando Abrão ouviu a promessa de Deus, não aconteceu nada de extraordinário naquela noite: Deus não enviou um exército para proteger o acampamento e nem blindou as barracas contra as espadas dos inimigos. Abrão apenas sentiu a presença de Deus, e isso acalmou seu coração angustiado. Foi como uma criança com medo do escuro ouvir a voz da mãe ou do pai e sossegar porque soube da presença de alguém mais forte e que a ama. No Antigo Testamento, a fé apresenta um duplo aspecto: confiança em/ou dependência de/e lealdade. Nesse texto, o termo crer (do hebraico aman) significa perseverar confiando e crendo, evidenciando isso mediante uma fidelidade obediente. Era esse tipo de fé que Abrão tinha. Diante disso cabe questionar: será que Deus é a nossa suficiência? Ou será que, quando em apertos, nossa primeira opção é: Familiares? Namorado ou namorada? Livros de autoajuda? Multidão de conselheiros? Será que recorremos
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primeiro a Deus? Para isso acontecer, muitas vezes, Deus permite que caiamos... e até o “cair em si mesmo” pode servir aos propósitos divinos de revelar às pessoas os seus planos, que, por ser maiores do que nossa compreensão, não significam que não existam e que, por serem, às vezes, diferentes dos nossos, não significam que sejam contra nós. Em nosso mundo, onde tudo tem preço, medida, pressa, onde tudo parece possível, mas não há nenhuma segurança, em que tudo “cai na rede” e tanta gente não “cai na real”, onde cada vez mais coisas estão acessíveis no mundo virtual, mas no mundo real a consciência e o coração das pessoas estão cada vez mais inatingíveis, com o que, afinal, podemos contar? Não conte com nada a não ser com a graça de Deus! Essa conta parece desesperadora para quem não crê. Como assim, contar apenas com a graça de Deus? Esse foi o teste de Abrão e continua sendo uma prova de fogo para a pessoa cristã moderna, que conta com muito mais possibilidades do que Abrão, mas permanece com a mesma insegurança tão humana: com o que contar quando não posso contar com mais nada? Essa conta não tem solução matemática. Sua solução é Deus. Jesus Cristo pagou nossa conta na cruz e requer que apenas contemos com sua graça a cada novo dia. As decisões de fé podem levar-nos a perdas e renúncias para manter uma vida santificada, podem levar-nos a temer ou ficar desanimados. Podem até criar inimigos para nós. Podem custar caro e, aparentemente, não dar nenhum retorno. Mas não devemos temer o futuro. Não devemos temer que perdemos oportunidades inéditas. Deus é maior! Ele anda conosco, mesmo pelo vale da sombra da morte (Sl 23.4). A única solução para o medo de alguma coisa é ter algo maior a seu lado. Deus dá-nos o presente da coragem para viver pela fé, sabendo que ele está conosco. O v. 5 subentende que Abrão estava dentro de uma tenda: “Então Deus o conduziu até fora”. Esse versículo lembra-nos que Deus nos conduz para fora de nossas limitações. Abrão estava cercado por paredes de pano. Tantas vezes nós só vemos os problemas, só enxergamos até onde alcançam nossas “paredes de pano”: nossos recursos humanos limitados e frágeis. Então Deus pega-nos pela mão e nos tira de “nossa tenda” e manda-nos levantar os olhos (buscar a Deus) e contar estrelas (contar com a graça de Deus). O contar estrelas lembra-nos de duas coisas: não podemos contá-las assim como não podemos contar os recursos de Deus e não podemos tocá-las assim como não podemos interferir nas ações divinas. Eis uma reflexão desafiadora para nossa vida de oração: oramos “contando estrelas” ou encarando nossas “paredes de pano”? Deus tem muito mais a nos oferecer e pode realizar muito mais do que podemos contar. A partir do que Deus diz a Abrão todas as vezes que ele contemplava o céu estrelado, sua fé se renovava. A dúvida é inimiga da fé: ela agiganta os problemas e encolhe Deus. A exemplo de Abrão, podemos perceber que quem mede perde; quem crê vê!
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Imagens para a prédica
Usar uma lâmina de retroprojetor, pintá-la para deixá-la escura e opaca e então fazer furinhos em formato de estrela para projetar na parede ou no teto da igreja com pouca luz ou na escuridão para dar um efeito de céu estrelado. Nesse momento, cantar “Conta as bênçãos” ou usar essa projeção durante ou no final da pregação. Estória para exemplificar: Um acrobata apresentava, bem acima da cabeça das pessoas, suas sensacionais habilidades. Os espectadores estavam entusiasmados. De repente, ele ficou parado sobre a corda e exclamou: “Vocês acreditam que eu consigo pegar um carrinho de mão, sentar um homem nele e levá-lo em segurança sobre a corda até o outro lado?” “Sim, sim!”, gritaram as pessoas. Então o acrobata chamou um homem que tinha gritado “sim” com especial entusiasmo: “Você aí! Suba! Venha, você vai atravessar a corda comigo!”. O homem empalideceu. “Não! Eu não! Isso já é outra história!” Quantas vezes nossa fé é fervorosa, mas nossa vivência... bem, aí é “outra história”... Deus fez o convite a Abrão e enviou seu Filho para reforçar o convite, deixando claro que bem-aventuradas não serão as pessoas que gritarem “sim” (crer em Deus e acreditar no que ele diz), mas aquelas que ousarem e aceitarem o convite (viver segundo aquilo que Deus diz). Você aceita o convite?
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Subsídios litúrgicos
Hinos
HPD 1: 159, 161; HPD 2: 453, 454, 456, 460.
Versículo de acolhida Eu te amo, ó Senhor, força minha. O Senhor é a minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte (Sl 18.1,2). Participação do Culto Infantil Para destacar o compromisso em educar na fé as futuras gerações: uma sugestão para as crianças cantarem o hino “Sabes quantas estrelinhas lá no firmamento estão?” (HPD 1, 236). Anúncio da graça Jesus ensina em Lucas 12.32: Não temais, ó pequenino rebanho, porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Quem esvaziou seu coração de pecados e culpa seja preenchido pelo perdão de Deus; quem não vê mais graça nas coisas receba a graça de Deus, que nos faz enxergar mais longe e mais profundo; quem se arrependeu receba a coragem e a orientação de Deus para fazer melhor.
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Oração do dia Ó Deus misericordioso, tu vês a nossa caminhada. Perdão quando empacamos por causa de nossos medos. Concede que tua palavra desate nossas amarras, torna nosso caminhar mais leve e confiante. Agradecemos-te porque tuas promessas não mudam, apesar de nossos tropeços. Ensina-nos a contar estrelas como Abrão. Ensina-nos a seguir-te, apesar do que vemos e sentimos. Amém.
Bibliografia GARDNER, Paul (Ed.). Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Editora Vida, 2005. p. 10-16. RENDTORFF, Rolf. A formação do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1998.
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PRÉDICA: LUCAS 12.49-56 JEREMIAS 23.23-29 HEBREUS 11.29-12.2
13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
14 AGO 2016
Renato Küntzer
Vivemos num parque de divisões
1
Introdução
Jeremias 23.23-29 apresenta um oráculo de Deus no qual expressa claramente uma palavra de condenação, de confronto e conflito em relação aos falsos profetas, gente que extravia “as ovelhas do rebanho” (Jr 23.1). O texto expressa a vivência de Jeremias, que se confrontou a vida inteira com profetas profissionais que procuravam agradar a todos, movidos por seus próprios interesses. Por isso profetizam mentiras e fantasias de sua imaginação. Nenhum deles tem serventia para Deus. A tarefa do profeta, segundo Jeremias, é anunciar a palavra de Deus, que necessita sacudir e desinstalar o povo e levá-lo à prática do direito e da justiça. É tarefa do profeta orientar a vida do povo em direção ao projeto de Deus. Hebreus 11.29-12.2 confronta uma comunidade temerosa por seu testemunho. O autor recorre às raízes do Antigo Testamento, recuperando o testemunho e a fé dos antigos, essa “grande nuvem de testemunhas”, modelo para estimular à perseverança e à firmeza na fé. E, por último, faz referência ao modelo maior que é o próprio Jesus. A sua vida pública, a pregação e a firmeza na defesa da causa de Deus e, consequentemente, a sua morte e ressurreição por essa causa revelaram-no como o Deus vivo.
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Lucas 12.49-56: um texto perturbador e irritante?
A perícope é antecedida por uma série de textos nos quais Jesus fala, alternadamente, com os discípulos ou com o povo. A nossa perícope é uma fala de Jesus direcionada, na primeira parte (v. 49-53), aos discípulos. Faz referência específica à sua missão. A perícope tem por objetivo dar atenção ao sofrimento futuro de Jesus. O gosto pela linguagem figurada e enigmática aponta para uma camada de tradição antiga. O texto desdobra-se em três declarações ou atividades, entre as quais se estabelece uma relação de continuidade. Os dois primeiros versículos (v. 49-50) são bem próprios do ministério de Jesus. Estão ligados à sua vida e à pregação pública do reino de Deus. Envolvem vida e pregação. Diante disso, Jesus expressa algo bem humano e pessoal: a sua aflição em relação à perspectiva futura (como eu gostaria que ele já estivesse aceso). O que Jesus esperava no futuro deve ter como ponto de partida a sua convicção de que sua missão significava o prelúdio
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para a chegada do tempo escatológico da tribulação. Jesus está debruçado sobre a consequência de sua missão e dos seus sofrimentos. – Eu vim para pôr fogo na terra; como eu gostaria que ele já estivesse aceso; – Tenho de receber um batismo; como estou aflito até que isso aconteça. A expressão “vim pôr fogo na terra” tem uma relação direta com o batismo que ele tem de receber. Nesse contexto, o batismo de Jesus é, claramente, uma alusão à sua cruz, um evento que domina todos os momentos da sua missão. Expressa a impressão pessoal de Jesus de como vai impactar o seu ministério. Esse batismo só ele vai receber. Só ele, Jesus, vai vivenciar tal experiência. É uma experiência e uma situação aflitiva para Jesus, que ele gostaria que já estivesse concluída. Está ligado à pregação e suas consequências. Tem a ver com o caminho da cruz, diferentemente do caminho da glória, que os discípulos desejavam. Há também uma falta de sintonia entre os discípulos e Jesus. Jesus vê o resultado do seu ministério com outros olhos do que seus discípulos. É o que ele expressa no momento seguinte. “Vocês pensam que eu vim trazer a paz?” Jesus faz uso de um paralelismo antitético para expressar essa falta de sintonia com os seus discípulos. O uso do paralelismo antitético assume uma grande importância nas palavras de Jesus. Caracteriza o ensino de Jesus nos evangelhos e talvez esteja próximo das palavras originais de Jesus. O paralelismo apresenta-se da seguinte forma: Vocês pensam que eu vim trazer paz ao mundo? Não vim trazer paz, mas divisão. As duas linhas apresentam conteúdo equivalente, acrescido de uma nova informação: “mas divisão”. Os versículos seguintes (v. 52-53) expressam as divisões que ocorrerão. Esse material também se encontra em Mateus 10.34-36. Não se trata somente de uma projeção para o futuro, mas retrata uma experiência vivida, num primeiro momento quando do atendimento ao chamado para o seguimento feito pelo próprio Jesus e depois na opção por participar da vida da comunidade. A experiência de divisão nas famílias, no primeiro século, parecem ter sido experiências frequentes. Portanto a divisão era entendida literalmente. Seguir Jesus, muitas vezes, determinava divisões nas famílias. A divisão não é objetivo do ministério de Jesus, mas é consequência das diferentes decisões de pessoas diante do chamado ao seguimento a Jesus. Concluído o diálogo com os discípulos, Jesus volta-se ao povo (v. 54-56). Inicia constatando que, em termos de previsão do tempo, a experiência das pessoas é eficiente. Em previsão do tempo, o pessoal sabe aproveitar bem as informações (v. 54-55). Há no meio popular uma habilidade em leitura de indicadores de tempo. Mas isso não é acompanhado de uma outra habilidade muito mais importante. A objeção de Jesus e sua crítica ácida e dura são contra a falta de habilidade popular para ler e interpretar os indicadores “dos sinais desta época”. Jesus quer tematizar duas situações, que devem ser foco de leitura e interpretação por parte da comunidade: primeira, o reino de Deus vem por meio da cruz e somente pela cruz. É assim que se manifesta o tempo salvífico que irrompe
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em Jesus e tem sua continuidade na vida comunitária; segunda, Jesus sabia que os sofrimentos de seus discípulos estavam indissoluvelmente ligados a seu próprio. Eles seriam envolvidos em seu sofrimento. As falas e atitudes de Jesus, somadas às suas consequências, envolveriam os seus seguidores. Para esses sinais dos tempos deveriam estar preparados. O fato de que essa expectativa não se cumpriu tão precisamente indica que são ditos do período pré-pascal. Por isso Lucas reforça que o discipulado tem uma consequência e que o mundo não tem prazer em acolher o reino de Deus.
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Meditação
Temos na agenda comunitária uma série de assuntos que envolvem temas controversos. Esses temas são motivo de opiniões divergentes, que mereceriam espaços de diálogo. São assuntos necessários, mesmo que não desejáveis. Não soa muito estranho que Jesus afirme que a sua pregação e prática vieram para atear fogo na terra, trazer divisão e não uma paz fantasiosa que ignore conflitos latentes e diferentes posturas das pessoas em relação a esses conflitos. Sintomas dessa situação emergem na vida das comunidades e são perceptíveis no desânimo daqueles que expressam o desejo de largar tudo, de outros que se acomodam e se adaptam à injustiça e à indiferença e de outros que se isolam em pequenos grupos de pertença. São situações que se apresentam em nossas comunidades. Há toda uma diversidade de ânimos e humores que transitam em nossas atividades comunitárias. Elas já são sinais de divisões que a própria vida provoca. É Jesus que provoca divisões? Ou as divisões já estão presentes e tão somente agora são expostas, sem maquiagem, por exigência do evangelho? E se nisso concordamos, essas divisões devem ser foco de nosso testemunho de fé e fidelidade à proposta de Jesus. E é aqui que a comunidade participa do caminho da cruz e da cruz somente no tratamento e envolvimento em temas conflitivos da atualidade. É aqui que a comunidade se une e vivencia a paixão de Cristo. Conhecer o verdadeiro rosto de Jesus é o ponto de partida para uma nova postura de vida. A ação de Jesus não conhecia barreiras e nem preconceitos. Quando Jesus afirma que veio para botar fogo no mundo, está se referindo à profundidade de sua intervenção, que vai à raiz da realidade, marcada por muitas divisões, opressão e marginalização. Está claro e explícito no Evangelho de Lucas que Jesus veio para devolver dignidade a muita gente sem vez e sem voz. Veio para libertar consciências manipuladas pelo poder, pela intolerância e pela indiferença. Essa ação de Jesus questiona e interpela muito a nossa prática e o ambiente em que vivemos, tão dividido quanto desigual. Por isso é tão necessário tornar presente a memória de Jesus e buscar nela luzes e inspirações para a nossa caminhada tantas vezes confusa, dividida e inquieta. Misericórdia caracteriza a vida e a prática de Jesus. É seu modo de agir e de ser. A misericórdia de Deus sempre foi o critério radical e absoluto que orientou a prática de Jesus. Conhecer Jesus significa segui-lo. Segue-se com convicção o que se ama. Nós usamos a expressão “estar no fogo” para referir-se a alguém que é apaixo-
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nado por alguma causa ou propósito de vida. E a expressão “botar fogo” é utilizada no sentido de extremo empenho e dedicação a uma causa. Em circunstância nenhuma dá margem ao desânimo, desistência ou volta para trás. Tira da zona de conforto, procura envolver com a realidade de vida dos outros. A nossa perícope impressiona pelas exigências necessárias ao seguimento de Jesus. Significa romper com mentalidades e modos de vida diferentes no caminho de Jesus, pois estamos em uma sociedade dividida e desigual. As pessoas já estão devidamente divididas. É o sintoma mais visível de nossa civilização. Há uma escola muito eficiente para isso. Essa foi a notícia de uma revista semanal, de circulação nacional, no dia em que estava concluindo esse estudo: Jovens latino-americanos criam a “nova direita”: defendem o uso da tecnologia (mas não o seu acesso amplo), meritocracia, liberdades individuais (incluindo o uso de drogas), mas nada de acesso amplo e gratuito a serviços básicos como saúde e educação. Querem impostos baixos e Estado mínimo, enquanto negam a existência de minorias e pedem a abolição de programas sociais para os mais pobres, porque não existe desigualdade: riqueza “não se transfere”, cada um “constrói a sua”.
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Imagem para a prédica
A ilustração abaixo (Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht) ajuda na percepção acima esboçada. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os
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seus peixinhos e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói. Se os tubarões fossem homens, também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadar com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões. Também não faltaria uma religião se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões. Se os tubarões fossem homens, também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas etc. Em suma, se os tubarões fossem homens, haveria uma civilização no mar. Por enquanto, há uma civilização em terra, marcada por divisões, intolerâncias e sofrimentos. Convém que a comunidade não se identifique pela indiferença como um pedaço de tição fumegante. Antes que saiba botar fogo em questões essenciais para uma caminhada responsável na condição de seguidora dos passos de Jesus. Não há espaço para meio-termo e vacilo. Indiscutivelmente resultará em diferenças e divisões, consequência da postura diferenciada das pessoas diante da proposta do evangelho, confrontado com a realidade em que vivemos.
Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. Petrópolis: Ed. Vozes; São Leopoldo: Ed. Sinodal, 1983. MOSCONI, Luís. Leitura segundo Lucas. Série A Palavra na Vida. Belo Horizonte: CEBI, 1991.
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21 AGO 2016
PRÉDICA HEBREUS 12.18-29 ISAÍAS 58.9b-14 LUCAS 13.10-17
Jilton Moraes
Alento e desafio na peregrinação
1
Introdução
A perícope de Hebreus 12.18-29 inicia comparando a experiência do povo de Israel com a vivência da igreja. Os fatos reservados aos salvos na Jerusalém celestial são diferentes dos vividos pelos israelitas no monte Sinai. Enquanto lá a visão causava medo, para a igreja está reservado um encontro festivo. É uma narrativa da ação divina: o Criador revela-se ao ser humano com preceitos a serem seguidos. O acesso ao Pai está aberto, nossos nomes estão inscritos no livro da vida pelo sangue de Jesus Cristo. O texto de Isaías 58.9b-14 fala do mesmo Deus presente e da possibilidade concreta de ele ser encontrado por aqueles que vivem com integridade de coração. À semelhança da perícope de Hebreus, os fiéis devem cumprir os preceitos do Criador para serem guiados por ele constantemente, com a promessa de que ele “satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam” (v. 11). Lucas 13.10-17 também apresenta a ação divina: Jesus curou uma mulher encurvada, que assim vivia há 18 anos. Diante da ordem do Mestre: “Mulher, você está livre da sua doença” (v. 12), “ela se endireitou, e passou a louvar a Deus” (v. 13). O dirigente da sinagoga ficou indignado porque esse fato aconteceu num sábado. Em cenários diversos e de diferentes modos, Deus está agindo maravilhosamente.
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Exegese
O capítulo 12 de Hebreus inicia com uma chamada à firmeza. Depois da exposição dos heróis da fé vem o desafio a seguir para o alvo, deixando tudo o que atrapalha a caminhada. O texto apresenta a magnificência da graça que o evangelho dá-nos a conhecer, com o desafio para que o recebamos com reverência. Para tanto carecemos da disciplina que nos possibilita viver de acordo com a vontade do Senhor. A partir do v. 18, o autor menciona a vitória final e desafia a ouvir a palavra do Senhor, vivendo em gratidão e adoração. A perícope abre com os três versículos (v. 18-20): Vocês não chegaram ao monte que se podia tocar e que estava em chamas, nem às trevas, à escuridão, nem à tempestade, ao soar da trombeta e ao som de palavras tais, que os ouvin-
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tes rogaram que nada mais lhes fosse dito; pois não podiam suportar o que lhes estava sendo ordenado: Até um animal, se tocar no monte, deve ser apedrejado. Nessa abertura, temos uma clara alusão à experiência dos israelitas no Sinai. (Tradução Interconfessional): “Vocês não chegaram como os israelitas no monte Sinai”. A mensagem de Hebreus realça o contraste entre a experiência assombrosa do povo de Israel e o espetáculo extraordinário reservado aos salvos. O monte Sinai era palpável, local onde os filhos de Israel, peregrinando do Egito à Canaã, viveram marcantes experiências diante do Altíssimo (Êx 19). V. 22-23 – Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, As versões NVI, KJ e ARA mencionam: “À igreja dos primogênitos”. A versão MT fala da universal assembleia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus; a BJ traduz: assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão inscritos no céu; na NTLH lemos: A reunião alegre dos filhos mais velhos de Deus e a Mensagem parafraseia como: “A cidade onde o Deus vivo reside”. Na Tradução Interconfessional lemos: Vocês estão junto da assembleia festiva dos primeiros filhos de Deus, que já têm o nome inscrito nos céus. Estão ao pé de Deus, o juiz de toda humanidade e junto com os espíritos daqueles que já atingiram a perfeição. A ação vai do passado (a experiência vivida no Sinai) ao futuro (a experiência que viveremos na Jerusalém celestial). Os detalhes da narrativa Êxodo 19 podem ser comparados, por contraste, com a descrição das belezas da cidade do Deus vivo, contadas por João no Apocalipse. V. 24 – A Jesus, mediador de uma nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel. Jesus mediador de uma nova aliança – (Cf. 1Tm 2.5): Jesus é o único meio pelo qual o Pai reconcilia-se conosco. E ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel (11.4; Gn 4.2-9). A menção ao sangue aspergido lembrava ao povo o momento no êxodo quando, na viga superior e nas laterais das portas das casas dos israelitas, a marca do sangue livrou da morte os primogênitos das famílias israelitas. Esse detalhe na história de Israel apontava para uma realidade maior: o momento quando o Filho de Deus veio ao mundo e ofereceu a sua vida como propiciação pelos nossos pecados (Jo 1.29; Ef 1.7; 1Pe 1.18-20; Ap 5.12). V. 25 – Cuidado! Não rejeitem aquele que fala. Se os que se recusaram a ouvir aquele que os advertia na terra não escaparam, quanto mais nós, se nos desviarmos daquele que nos adverte dos céus? TI: Não deixem de escutar quem vos fala. ARA: Não recuseis. KJ, MT: Não rejeiteis. NTLH: Não recusem. M: Não tapem os ouvidos ao que fala. Ouvir atentamente a palavra do Senhor é indispensável em nossa peregrinação: “Por isso é preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido, para que jamais nos desviemos. Porque, se a mensagem transmitida por anjos provou a sua firmeza, e toda transgressão e desobediência receberam a devida punição, como escaparemos se negligenciarmos tão grande salvação? Essa salva-
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ção, primeiramente anunciada pelo Senhor, foi-nos confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2.1-3). V. 26-27 – Aquele cuja voz outrora abalou a terra, agora promete: “Ainda uma vez abalarei não apenas a terra, mas também o céu”. As palavras “ainda uma vez” indicam a remoção do que pode ser abalado, isto é, coisas criadas, de forma que permaneça o que não pode ser abalado. Deus revelou-se no Sinai ao divulgar a lei. O povo viu as maravilhas de Deus não apenas nessa ocasião, mas em vários outros momentos. Com grandes sinais Deus abalou a terra; sua promessa é de ainda uma vez abalar e não somente a terra, mas também o céu. O momento quando Cristo voltar para buscar os seus abalará terra e céus, de modo que permanecerá o que não pode ser abalado. V. 28-29 – Portanto, já que estamos recebendo um reino inabalável, sejamos agradecidos e, assim, adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor, pois o nosso ”Deus é fogo consumidor!” E diante da realidade de que receberemos um reino inabalável, devemos ser agradecidos e adorar nosso Deus de modo aceitável, com total reverência, que nos leva a temer diante daquele fogo consumidor.
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Meditação
Peregrino é alguém distante da terra natal, longe dos seus, um viajante sempre em marcha. Essa realidade surge na perspectiva dos heróis da fé: eles reconheceram ser estrangeiros e peregrinos na terra e buscaram uma pátria (Hb 11.13-14). Nesse sentido, estamos aqui de passagem. O texto conduz-nos ao fato de que um futuro incomparavelmente melhor nos aguarda, e essa realidade incentiva-nos e desafia-nos a permanecer firmes no Senhor. Somos peregrinos alentados e desafiados. a) Somos alentados sabendo que o pavor é substituído pelo encanto. As experiências do povo de Israel foram pavorosas. Nosso texto refere-se ao êxodo, tempo em que por 430 anos eles viveram o pavor da escravidão (Êx 12.40; Gl 3.17). Não somos escravos, vivemos em regime de liberdade; apesar disso, muitas pessoas ainda vivem escravizadas. Alenta-nos saber que o passado pavoroso será transformado em alegria. Nos v. 18-22, o autor lembra o momento pavoroso narrado em Êxodo 19. A descrição inclui o monte em chamas, trevas, tempestade e o fato do tangível haver se tornado inatingível, uma vez que o acesso ao monte fora proibido. O contraste entre esse momento e a ocasião do encontro dos salvos com o Senhor é marcante. V. 22: Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião. É um alento também a convicção de que a presença de Deus será realidade insofismável. Esse é o prêmio reservado aos que se tornam filhos de Deus pela fé em Jesus (v. 23): [vocês chegaram] à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Os detalhes da experiência na Jerusalém celestial são encantadores: será a morada de Deus com os salvos, Deus estará conosco e será
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para sempre o nosso Deus. O Pai enxugará as nossas lágrimas; ninguém mais vai chorar; não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. As coisas pavorosas terão passado (Ap 21.3-4). E o alento maior na peregrinação: saber que Jesus é o mediador e o centro para quem tudo converge (v. 24). Ele pagou o preço para que todo pavor fosse substituído pelo encanto. Velho hino afirma: “Livres do medo temos ficado, Cristo morreu levando o pecado; eis o resgate, o pacto se fez, Cristo salvou-nos de uma vez”. Isaías afirmou que “o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados” (53.5b). Nada melhor senão aguardarmos o dia quando estaremos com Jesus. Mas o mesmo texto que nos alenta também nos desafia. b) Somos desafiados à completa aceitação da palavra de Deus. Vivemos um tempo de descaso pela palavra. A indagação é: até onde aceitamos a Bíblia? De que modo essa palavra nos fala? O texto mostra-nos o modo como podemos aceitar a palavra de Deus. Com um comportamento de total obediência (v. 25): somos advertidos de modo claro: “É preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido para que jamais nos desviemos”. O texto prossegue, mostrando que sem isso todo esforço será em vão (Hb 2.3a): “Como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.1) Para vivenciarmos as maravilhas do Senhor (v. 26-27): A vinda de Jesus ao mundo foi um acontecimento muito maior do que tudo quanto os israelitas vivenciaram. “Aquele que é a palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). E tão grandes sinais que abalarão terra e céus serão vistos quando o Senhor voltar, como ele mesmo prometeu: Voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver (Jo 14.3b). Sendo continuamente agradecidos (v. 28a): a gratidão vem pela consideração. O Senhor estabeleceu um reino perfeito; o privilégio de pertencermos a ele acompanha o compromisso de uma vida de perfeição. Jesus falou da exigência para sermos seus amigos (Jo 15.14): Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. E o que é que Jesus nos ordena? O meu mandamento é este: Amem-se uns aos outros como eu os amei (Jo 15.12). A maior expressão da nossa gratidão ao Senhor é o amor ao próximo. Adorando ao Senhor com reverência e temor (v. 28b-29): o Altíssimo não aceita a adoração simulada; isso fica claro em Isaías 1. Nosso viver inteiro deve ser de contínua adoração em espírito e em verdade. Diante de Jesus todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é Senhor para a glória de Deus Pai (Fp 2.9-11). Em tempos de tanto espetáculo, vale a pergunta: como estamos adorando o Senhor? A graça do nosso Deus é o nosso bem maior. E é exatamente essa graça que nos dá alento para não desanimar e desafia-nos a prosseguir em completa aceitação da palavra do Senhor. Amém.
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Imagens para a prédica
Um futuro de alegria – “Olhem para o outro mundo!”, bradou à aglomeração de milhares de pessoas, com o dedo apontando para o céu em um gesto conhecido de muita gente. Não haverá morte, nem dor, nem tristeza, nem velhice, nem enfermidade, nem corpos deformados, nem olhos embaçados, nem lágrimas. Apenas alegria, paz, amor, felicidade. Não haverá cabelos brancos. Todos serão jovens. Pensem nisto! Vida! Vida! Vida sem fim! E, mesmo assim, muitos homens escolhem esta vida na terra em vez da vida no céu. Não fechem o coração à vida eterna. Aceitem a dádiva, aceitem. Os senhores farão isso? (POLLOCK, John. Moody: uma biografia. São Paulo: Editora Vida. p. 402) Jesus, o único mediador – O advogado é um profissional que serve como mediador; é um profissional habilitado a defender a causa dos seus clientes. Entre os homens, entre as mulheres, isso é possível; nos tribunais humanos, é isso que acontece no dia a dia; mas nenhuma pessoa ou instituição tem poderes para promover quem quer que seja à condição de mediador entre Deus e o ser humano. Ninguém tem essa autoridade. A afirmação de 1 Timóteo 2.5 é bem clara: duas realidades: (1) há um só Deus; (2) há um só mediador entre Deus e as pessoas. O homem Jesus é esse mediador. A iniciativa da mediação é divina; o Mediador é aquele que é enviado de Deus para realizar a obra da salvação. Nos dois textos que lemos, Paulo declarou ser Jesus, o único mediador que, por seu sangue, aproxima-nos de Deus. Jesus é o único mediador capaz de nos aproximar de Deus e nos dá paz completa (Jilton MORAES. Ilustrações e poemas para diferentes ocasiões. São Paulo: Editora Vida. p. 192).
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Subsídios litúrgicos
Dirigente: Somos peregrinos, Jesus está conosco. Ele é o nosso Senhor, é a razão da nossa fé. Deus exaltou-o sobremaneira e deu-lhe o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.9-11). Todos, cantando: Ontem, hoje e para sempre Cristo é o Senhor. Tudo muda, Cristo nunca: Glória ao Senhor! Glória ao Salvador, glória ao Salvador! Tudo muda, Cristo nunca: Glória ao Salvador! (Hino 248 – HPD). Dirigente: Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia (Ap 21.1-4). Homens: Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém, que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Mulheres: Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá.
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Todos: Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou. Todos, cantando: “Céu lindo céu, céu lindo céu há mansões celestiais todas feitas por Deus. Céu lindo céu, céu, lindo céu, eu vou pro céu, lindo céu, Com Cristo eu vou morar num lindo céu”. Todos: Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada (Rm 8.18).
Bibliografia ALLEN, Clifton J. Comentário Bíblico Broadman. v. 12. Rio de Janeiro: JUERP, 1985. CALVINO, Juan. Epístola a los Hebreus. Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1973.
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15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
28 AGO 2016
PRÉDICA: LUCAS 14.1,7-14 SALMO 112 HEBREUS 13.1-8,15-16
Marcos Henrique Fries
1
Introdução
Jesus tem muito a dizer sobre humildade. E isso não é de se admirar, pois foi o orgulho que causou a primeira ruína do ser humano por ocasião da queda (Gn 3). São, pois, inúmeros os textos bíblicos que tratam desse tema, incluindo o nosso. E é nessa perspectiva que vamos estudá-lo neste auxílio homilético. Os demais textos previstos, Salmo 112 e Hebreus 13.1-8,15-16, tratam do tema “humildade” indiretamente, pois convocam para uma vida de serviço em favor do próximo. Poderíamos dizer que apontam para uma ação concreta a partir de uma vida de humildade. O texto de Lucas 14.1,7-14 já foi apresentado em outras três oportunidades por Proclamar Libertação: PL 17, PL 23 e PL 29. Recomenda-se a leitura desses trabalhos, considerando que cada qual aborda a perícope com enfoques distintos.
2
Exegese
Nosso texto está inserido entre os muitos que apresentam diálogos e discursos de Jesus durante refeições. No Evangelho segundo Lucas, é a sexta vez que essa situação é retratada (5.29; 7.36; 9.16; 10.39; 11.37). O texto também está sob o pano de fundo das discussões sobre o sábado. Jesus é convidado para um jantar no sábado, provavelmente após o culto na sinagoga, na casa de uma importante autoridade religiosa. Esse convite não era exatamente uma cortesia a Jesus, mas uma oportunidade criada pelos fariseus para observar Jesus e encontrar motivos para criticá-lo (v. 1). Logo ao entrar no recinto do jantar, Jesus vê um homem doente, um hidrópico, alguém que sofre inchaço no corpo por causa do excesso de líquido nos tecidos. A presença desse homem motiva Jesus a iniciar um diálogo com os religiosos, que o observam sobre a legitimidade de curar em dia de sábado. Como eles nada respondem, Jesus cura e despede o homem. A seguir, é Jesus quem passa a observar. Ele nota a disputa entre os convidados para acomodar-se à mesa o mais próximo possível do anfitrião. É preciso entender que um antigo costume previa que os lugares à mesa em um banquete eram ocupados segundo a dignidade e o prestígio. Cada um escolhia para si o lugar que julgava poder ocupar pela sua importância. E todos almejavam os primeiros lugares, aqueles na cabeceira da mesa, onde se encontrava o dono da casa. Quem fosse visto sentado nesses lugares certamente seria reconhecido como pessoa privilegiada. Essa disputa pelos primeiros lugares acontecia em detrimento de
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um famoso provérbio, conhecido pelos doutores da lei, que dizia: “Não te glories na presença do rei, nem te ponhas no meio dos grandes; porque melhor é que te digam: ‘Sobe para aqui!’ do que seres humilhado diante do príncipe” (Pv 25.6-7). Também uma antiga tradição dos escribas dizia: “Mantém-te distante, dois ou três assentos, do lugar que te convém, e espera até que te seja dito: ‘Sobe mais! Sobe mais!’ em vez de que seja dito: ‘Desce mais! Desce mais!’”. E apesar disso, os convidados brigam pelos lugares de honra. Jesus observa a cena e propõe uma parábola para seus discípulos (v. 7-11). Igualmente inspirada pelas duas tradições mencionadas acima, a parábola sugere que, quando alguém for convidado para um banquete, não deve procurar os primeiros lugares, mas sim os últimos. Pois aquele que se prevaleceu, achando ser merecedor do lugar de honra, pode ser envergonhado, tendo que dar o lugar a outro, mais digno. É melhor, segundo a parábola de Jesus, ocupar o último lugar, pois o anfitrião poderá, então, dignificar o convidado, dando-lhe o primeiro assento. Aqui Jesus não apenas repreende o orgulho, mas oferece uma lição sobre o reino de Deus, como é característico de todas as suas parábolas: Deus honra aqueles que reconhecem sua própria inferioridade e indignidade e que confiam unicamente na misericórdia dele. Creio que aqui chegamos ao cerne do nosso texto. Ninguém pode prevalecer-se perante Deus, buscando conquistar os melhores lugares à sua mesa, porque é ele quem convida e é ele quem determina os lugares a serem ocupados. Com isso Deus anula qualquer tentativa de conquistar, por méritos próprios, a sua graça e salvação. Mais: o ensino dessa parábola aponta para o ministério do próprio Jesus. Pois ele ofereceu-se completamente na cruz em favor da humanidade numa atitude de total abnegação, sendo, mais tarde, exaltado por Deus. É por isso que “todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado” (v. 11). Se até esse ponto Jesus fala aos convidados que disputam os lugares, nos últimos três versículos ele se dirige ao anfitrião. Agora, porém, Jesus não fala mais por parábola, mas faz uma proposta explícita. A proposta consiste em, ao dar uma festa, não convidar aqueles que podem retribuir o convite, oferecendo um outro banquete ou então aumento do prestígio e influência do dono da casa. Deve-se convidar, conforme Jesus, aqueles que não poderão recompensar o convite, aqueles que a sociedade despreza, aqueles cuja companhia nem é tão agradável, aqueles que são diferentes de nós e com os quais, muitas vezes, nem concordamos. Esse pensamento está em conexão com as orientações de Jesus sobre o amor ao próximo no Sermão do Monte, quando apela para o amor aos inimigos, pois “até os pecadores amam aos que os amam” (Lc 6.32). É preciso fazer o bem e emprestar sem nenhuma paga (Lc 6.35). É essa atitude que, segundo Jesus, agrada a Deus e que resultará em recompensa (de Deus) na “ressurreição dos justos”.
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Meditação
Temos diante de nós um daqueles textos bíblicos que questionam profundamente a cultura e a prática de nosso mundo, propondo uma inversão de valores. As relações em nosso mundo são marcadas pelo “toma lá, dá cá” ou pelo “fazer
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por merecer”. Isso se aprende desde a mais tenra idade, quando precisamos nos comportar bem para ganhar presente de Natal ou quando precisamos estudar muito para passar de ano. Mais tarde, são precisos a roupa e o calçado mais transados para causar sensação junto aos amigos ou chamar a atenção da menina mais bonita e popular da escola. Passado mais algum tempo, é preciso investir em cursos de idiomas e afins para conquistar um bom emprego. Depois de empregado, é necessário fazer todo o esforço possível e até impossível para manter-se no emprego e galgar alguns degraus e isso, às vezes, até ao custo de ter de passar outros para trás. E assim tudo nas relações humanas precisa ser conquistado com muita luta e sacrifício. Até mesmo você, pregador/pregadora, que lê este trabalho para preparar sua prédica, precisou empenhar-se muito em trabalhos acadêmicos, exames e colóquios para poder ocupar um púlpito e, quem sabe, ser convidado para elaborar um auxílio homilético. E terá de se desdobrar para atender todos os anseios de uma paróquia, se quiser nela permanecer ou se pretende uma mudança. Talvez não haja outra maneira de organizar as coisas entre nós. Mas o problema está em aplicar a mesma fórmula do “fazer por merecer” na relação com Deus. E a prática pastoral revela: certamente esse é um dos temas mais difíceis de trabalhar na comunidade. A aplicação do “fazer por merecer” na relação com Deus vai mostrar-se na religiosidade popular brasileira com suas novenas, procissões, promessas ou mesmo com o apelo dos arrecadadores de dízimo, que prometem a bênção divina como consequência da contribuição. Mas também será vista no seio das comunidades da IECLB com a necessidade de estar em dia com a contribuição quando da realização de um ofício, com os nomes dos doadores estampados nos bancos e janelas dos templos, com a doação de um boi ou de uma ovelha para a festa anual etc. Em todas essas coisas está mais do que uma oferta despretensiosa para a obra de Deus, mas também um anelo por prestígio e reconhecimento por parte da comunidade do ministro ou da ministra e até mesmo de Deus. É preciso fazer por merecer. É preciso fazer muito para agradar os outros. É preciso fazer muito para arrancar das mãos de Deus as suas bênçãos, inclusive o céu. Assim pensam muitos, senão a maioria de nossos evangélicos luteranos. E tudo isso a despeito da doutrina mestra da Reforma Protestante: a justificação por graça mediante a fé. É preciso, pois, dizer novamente: a salvação é prerrogativa de Deus. Ele escolhe quem ocupará os lugares no banquete celestial, e essa escolha não tem nada a ver com os nossos méritos. É consequência do mérito de Cristo, conquistado com sua morte e ressurreição. A consequência prática disso serão membros que servem por gratidão àquilo que Jesus fez, sem querer com seu serviço conquistar algo de Deus e sem querer disputar com os irmãos um lugar de maior honra. O orgulho é um veneno para a unidade da igreja e um forte obstáculo à missão.
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Imagens para a prédica
Proponho que a pregação se concentre nos v. 7-11 do texto previsto, ou seja, o recado de Jesus para os convidados. Quanto aos v. 12-14, penso que eles merecem ser tratados numa pregação/estudo bíblico à parte.
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No bojo das comemorações dos 500 anos da Reforma, sugiro que a pregação desse texto seja inspirada pela reflexão sobre graça, fé e obras. Iniciar falando da cultura de nosso mundo, baseada na lógica do “fazer por merecer”. Ler e comentar a parábola de Jesus. Apresentar a mensagem evangélica de que é Deus quem convida e determina os lugares. A salvação pertence a ele. Sua escolha não está baseada em nossos méritos, mas naquilo que Jesus fez em nosso favor e que nós acolhemos pela fé. Nosso serviço (textos do Salmo 112 e de Hebreus 13) não será, a partir daí, mais uma corrida em busca de prestígio perante o Senhor, mas sim um sinal da nossa gratidão pelo que Cristo nos deu.
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Subsídios litúrgicos
Novo dia
(Cora Coralina) Senhor, fazei com que eu aceite minha pobreza tal como sempre foi. Que não sinta o que não tenho. Não lamente o que podia ter e se perdeu por caminhos errados e nunca mais voltou. Dai, Senhor, que minha humildade seja como a chuva desejada caindo mansa, longa noite escura numa terra sedenta e num telhado velho. Que eu possa agradecer a Vós minha cama estreita, minhas coisinhas pobres, minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas. E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão de taipa e acender, eu mesma, o fogo alegre da minha casa na manhã de um novo dia que começa.
Bibliografia STÖGER, Alois. O Evangelho Segundo Lucas. Petrópolis: Vozes, 1974.
16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES DEUTERONÔMIO 30.15-20 LUCAS 14.25-33 FILEMOM 1-21
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17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
11 SET 2016
PRÉDICA: LUCAS 15.1-10 ÊXODO 32.7-14 1 TIMÓTEO 1.12-17
Carlos Musskopf
1
Introdução
Até agora, o texto da prédica, na formatação proposta neste estudo, foi tratado no PL 4, p. 106; PL 20, p. 255 e PL 34, p. 309. Em outras formatações: Lc 15.1-3,11b-32 no PL 12, p. 220; PL 34, p. 125; Lc 15.1-3,11-32 no PL 4, p. 209; PL 17, p. 88; no PL 19, p. 100; e Lc 15.1-7(8-10), no PL 10, p. 361. Recomendo a leitura dessas contribuições que dão subsídios exegéticos importantes e têm boas propostas para prédicas. O presente estudo leva-as em conta, embora não sejam pressupostas para seu entendimento. A presente formatação (v. 1 a 10) não me parece a mais adequada; bastariam os sete primeiros versículos, tendo em vista que nos versículos seguintes o tema central repete-se, apenas apresentado em cenários diferentes. Os outros dois textos previstos para o 17º Domingo após Pentecostes (Êx 32.7-14 e 1Tm 1.12-17) abordam o tema usualmente tomado como central, a saber, o tema do arrependimento e da melhora na qualidade de vida. Mas não abordam o tema que tomo como central para este estudo, que é o tema da alegria. No presente estudo, pretendo trazer a possível relação entre a alegria de acolher pessoas de má fama em contraposição ao murmúrio e ao peso da lei defendida pela elite dominante. Os temas tradicionalmente abordados (perdidos, pecadores, achados, redimidos) estão suficientemente expostos e detalhados nos estudos anteriores.
2
Exegese
Lucas vinha fazendo sua exposição do evangelho com diversas histórias e ensinamentos: o capítulo 14 inicia com Jesus tomando uma refeição na casa de um fariseu (e a cura num sábado), segue com a ocasião em que Jesus observa como os convidados escolhiam os melhores lugares à mesa (v. 7 a 14) e com a parábola da grande festa (v. 15-24) e termina com as condições para ser seguidor e seguidora de Jesus. Nesse contexto, Lucas introduz em seu relato a questão da alegria no céu e na terra. Faz isso de forma inusitada, lembrando de um fato marcante: cobradores de impostos e outras pessoas de má fama procuravam Jesus, e isso provocava alegria. As pessoas legalistas não conseguem entender essa alegria e murmuram contra Jesus. Nos v. 1-3, Lucas introduz o tema da alegria, criando uma cena em que “muitos cobradores de impostos e outras pessoas de má fama” querem ouvir Je-
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sus. São pessoas à margem do peso da lei farisaica. Não significa que todos tenham vindo juntos ou que isso tenha ocorrido numa só oportunidade, mas em diversos momentos isso aconteceu. Lucas decide falar então sobre a alegria, citando esses fatos em seu relato. Logo transparece a oposição entre o pensamento dos fariseus e mestres da Lei e o pensamento de Jesus, profeta, pregador que arrastava multidões e assustava o poder judaico. A partir do peso da lei, os fariseus e mestres da Lei criticam Jesus. Em sua “sobriedade” e arrogância, não só se entristecem por Jesus conversar com a escória da sociedade, mas, ainda pior, por ter alegria nessas conversas. No céu e na terra há alegria quando o que estava à margem é integrado. Nos v. 4-7, a forma como Lucas lida com essa questão em seu relato é surpreendente: não faz Jesus entrar direto na discussão com os murmuradores, mas faz Jesus contar três parábolas, das quais duas estão em nosso texto. Elas não foram necessariamente ditas em alguma dessas ocasiões em que Jesus encontrou-se com pessoas de má fama ou foi alvo do murmúrio de legalistas. Note-se que, no texto paralelo de Mateus 18, os interlocutores são os próprios discípulos. Aqui está claro que Jesus fala às pessoas de má fama para contrapor a alegria desse encontro com a frieza dos legalistas. Chama a atenção que a primeira parábola (v. 4-7) não fala de um pastor de ovelhas que deixa as 99 para buscar a perdida; fala que “se algum de vocês”. Isso é dito para as pessoas de má fama que o ouviam e para nós hoje. Há alegria no viver quando se consegue mudar o foco, tirando o foco daquelas pessoas que não nos decepcionam para aquelas que o fazem. Lucas incentiva para aliviar o foco nas 99 ovelhas e focar naquela que está desgarrada, entristecida, marginalizada. Nos v. 8-10 está a segunda parábola. Ela não vem do ambiente rural, mas do urbano. Aqui comandam o dinheiro, as moedas, o valor das moedas. Para achar uma moeda perdida, é necessária muita dedicação, é preciso deixar de fazer outras coisas para dedicar-se à busca. Dá uma dimensão do tamanho da alegria que Jesus gostaria de ver as pessoas vivendo. Nos v. 11-32 está a terceira parábola, que não pertence ao nosso texto, mas tem o mesmo escopo: a alegria de uma pessoa quando experimenta a restauração de algo que foi quebrado ou separado.
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Meditação
a) Embora apareça dezenas de vezes na Bíblia, a alegria não tem recebido a devida atenção nos compêndios de teologia. Se existe, não conheço uma teologia sistemática que aborde a questão da alegria. Esse tema fica para verbetes em dicionários teológicos e artigos especializados. Pergunto-me se o peso da lei não se sobrepôs mais uma vez sobre a alegria da conversa de Jesus sobre a alegria provocada pela libertação exalada da cruz. Lucas deixa claro que os fariseus e mestres da Lei são pessoas tristes, pesadas, deprimidas, subjugadas por leis, regras e convenções que não permitem uma real alegria no viver. É da característica dos legalistas viverem sob o peso da lei, impondo a conversão para atitudes e comportamentos que geram tristeza e dureza do coração.
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Lucas vai em bem outra direção. As parábolas em questão não levam à conversão, mas à alegria na terra e sua correspondente alegria no céu. b) O dicionário Houaiss diz em seu primeiro verbete sobre alegria: “Estado de viva satisfação, de vivo contentamento, regozijo, júbilo, prazer”. Parece que a Bíblia diz que é mais: a alegria é fruto do encontro com Jesus, ou seja, é fruto de uma ação de Deus que procura e encontra algo ou alguém no mundo. Portanto o povo de Deus deveria ser sempre alegre. Aqui importa não confundir alegria com diversão. É possível ter diversão sem alegria e vice-versa. O cristão é alguém que foi encontrado, aquele que é feliz e recuperou sua posição como filho. c) Vejamos como o tema da alegria aparece na Bíblia. No Primeiro Testamento, aparece muito fortemente como alegria terrena. O texto de Deuteronômio 28.15-48 é um bom exemplo da importância da alegria. Moisés fala dos castigos que sobrevirão ao povo se não servir a Javé “com alegria e gratidão” (v. 47). As grandes festas de Israel são espaços privilegiados de viver a alegria do encontro, da dança, da música, da diversão. Mas, conforme Oseias (9.1-4), não se deve ir ao ponto de haver alegria orgíaca, como nas festas dos “outros povos”. Essa alegria é negada ao povo de Israel. A alegria deve estar bem presente nas refeições de sacrifício (Dt 12.7). A alegria vivenciada nesse contexto não se deve somente ao comer e beber, mas também é expressão da bênção recebida, que habilita para o trabalho e para a colheita dos frutos do trabalho. Na literatura sapiencial, a alegria também está muito fortemente presente. Mencione-se aqui apenas o Salmo 1.3, que fala da alegria pela sabedoria de Deus concedida aos seres humanos, e o Salmo 104.30-31, que fala da alegria de Deus pelo que fez na criação. Os textos posteriores ao exílio fazem a transição para a compreensão de alegria no Segundo Testamento. A esperança escatológica messiânica é fonte de alegria: até os céus se alegrarão pela misericórdia e salvação de Deus (Is 44.23); Deus consolará o seu povo (Is 49.13); uma nova aliança é estabelecida (Jr 31.31); Deus terá uma alegria matrimonial com seu povo (Is 62. 5). Na transição para o Segundo Testamento, já aparece a ênfase numa alegria mais afastada das coisas “mundanas” e mais ligada à relação com Deus. Como “bem religioso”, a alegria fica inteiramente ligada à pessoa de Jesus e à salvação nele oferecida. Alguns exemplos dessa nova concepção de alegria: o anúncio do nascimento do precursor de Jesus já é motivo de “alegria e felicidade” para Zacarias e para muita gente; João mexe-se de alegria na barriga de Isabel quando ela se encontra com Maria, grávida de Jesus; a proclamação dos anjos aos pastores é algo que trará uma alegria que supera o medo (Lc 2.10); o fato de os pequenos receberem a revelação do Filho é motivo de alegria (Lc 10.21); bem como Jesus mesmo se alegra porque os discípulos verão o sinal da revivificação de Lázaro (Jo 11.15). Assim chegamos às parábolas de Jesus e ao nosso texto, que se encontra
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dentro da forte tradição de alegria na Bíblia. Jesus está preocupado em mostrar que a alegria é o resultado de seu projeto histórico terreno e celeste. d) Por fim, algumas ideias tiradas de um dos poucos livros que falam sobre o assunto da alegria – do teólogo e sociólogo Peter Berger. Ele escreveu um livro sobre o riso, que é a expressão facial da alegria. Conforme Berger, “quando brincamos com alegria genuína, recuperamos a sensação de imortalidade que se tem na infância”. Não deixa de ser interessante que a alegria ganha uma dimensão de transcendência, uma manifestação de um universo que contém “sinais visíveis da graça invisível”. Berger afirma ainda: O lúdico faz surgir um mundo separado, diferente do mundo da realidade comum, que opera segundo regras diferentes. É também um mundo no qual as limitações da condição humana são milagrosamente superadas. A experiência do lúdico é, por fim, uma promessa de redenção. A fé religiosa é a intuição (algumas pessoas de sorte diriam a convicção) de que a promessa será mantida... Concluo que o culto deveria ser o espaço de conversa com Jesus, que provoca a murmuração dos legalistas e moralistas. Nessa conversa brotam a alegria, o riso franco, livre e espontâneo. Já na proclamação do perdão, logo após a confissão de pecados, ela deveria estar no rosto de cada participante do culto. Da mesma forma, a participação na Santa Ceia deveria ser com um autêntico sorriso no rosto. A seriedade da Eucaristia não é diminuída pela alegria da participação na festa ao redor da mesa do Senhor. Ao cantarem-se os hinos, não são necessárias palmas e watts de potência, mas uma alegria contagiante. Devemos colocar-nos ao lado das pessoas de má fama, que vêm para escutar Jesus, ouvir sua boa-nova de alegria, enquanto os legalistas acham que não têm nada para ouvir, mas só para dizer, ensinar, impor.
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Imagens para a prédica
A prédica pode começar com uma piada de bom gosto ou comentário jocoso que provoque riso e alegria no ambiente. Depois pode seguir com os sinais de legalismo em nossa igreja e na sociedade, que provocam peso nas costas e tristeza no coração. Contrapor a proposta de Jesus de entrar na casa dos membros para falar da alegria, para viver essa alegria, com a proposta legalista cheia de cobranças, exigências e cargas da lei. Chama a atenção que essa alegria expressa-se não só com piadas e citações jocosas, mas com o coração livre, que, como disse o novo papa Francisco, “nos faz sentir a beleza de estarmos juntos, de nos apoiarmos uns aos outros no caminho da vida”.
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Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados e absolvição Pastor/pastora: Muitas vezes, nossos corações estão frios e sem gratidão. Muitas vezes, nossas mãos estão fechadas e não querem entregar ações de misericórdia. Muitas vezes, nossos lábios ficam fechados, não querendo dizer palavras de amor. Comunidade: Muitas vezes, nós nos colocamos em atitude de separação e alienação de nossos irmãos e irmãs, separados e alienados de Deus. Pastor/pastora: Confessamos essa separação e alienação quando cantamos: ♫ HPD 410. Pastor/pastora: Deus, ouve nosso pedido, entra em nossa vida com sua alegria e nos perdoa. Demos graças por sua ação misericordiosa! Glória a Deus nas maiores alturas! Oração de coleta Deus de amor e misericórdia, somos teu povo e tua comunidade. Preserva-nos da falta de fé em ti e da falta de confiança no próximo. Permanece em união conosco para que possamos permanecer em união contigo como teu corpo na alegria fraterna da tua presença. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive contigo e com o Espírito Santo um só Deus, pelos séculos dos séculos. Amém.
Bibliografia BAUER, Johannes B. (Org). Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Ed. Loyola, 1973. HOUAISS, Antonio. DICIONÁRIO HOUAISS da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2004. TEOLOGIA DA ALEGRIA. Disponível em: <.http://crunicap.blogspot.com. br/2013/09/teologia-da-alegria. html>. Acesso em: 06 jun. 2015.
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PRÉDICA: 1 TIMÓTEO 2.1-7 AMÓS 8.4-7 LUCAS 16.1-13
18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
18 SET 2016
Odair A. Braun
1
Introdução
1 Timóteo é uma carta perpassada por orientações de ordem prática para os que integram as comunidades, no caso uma jovem comunidade com pouco tempo de fundação. Olhando o contexto da carta, especialmente 1 Timóteo 1.3, é possível notar que ali se enfrentava algum grau de dificuldades, provavelmente oriundo do ensinamento de doutrinas afastadas daquilo que as jovens comunidades cristãs haviam recebido e aprendido. Portanto tem-se como pano de fundo o surgimento de “interpretações e pregações” distintas do ensinamento de Paulo. E é dentro desse contexto que deve ser visto o texto indicado para a pregação deste domingo (1 Timóteo 2.1-6). Olhando para as leituras indicadas para este domingo, pode-se observar acentuado grau de semelhança com aquilo que vemos acontecer em nossa sociedade e no mundo. Amós denuncia falsidade, trapaças, roubos e mentiras, enfim, o agir em benefício próprio, afastado da necessidade da coletividade. Em junho de 2015, enquanto se elaborava este auxílio homilético, vimos a cada dia novas revelações a partir das investigações feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal na Operação Lava-Jato. Políticos de diferentes partidos estão envolvidos. Nada parece ter limite. Tudo parece ser perfeitamente aceitável. O grande problema é que os que se beneficiam de tal lambança não estão se ocupando com os menos favorecidos da sociedade. Isso é uma afronta aos ensinamentos da palavra de Deus e precisa ser repudiado e enfrentado pela comunidade cristã. Olhando para a leitura do evangelho deste dia, evidencia-se que há, entre os textos, um tema que os perpassa, ou seja, como nos relacionamos com o que é público, com o dinheiro. E essa é uma reflexão que não deve ser voltada somente à classe política. A nossa sociedade está cheia de exemplos em que os cidadãos também não respeitam aquilo que é da coletividade, como é o caso das escolas, das praças, telefones públicos etc. Esse bem coletivo é tratado muitas vezes de modo irresponsável, que se destrói sem pudor. Logo o mau trato do que é público, deve ser dito, não é somente uma característica da classe política. No caso, o administrador corrupto mais uma vez faz-nos olhar para as denúncias de malversação do público que temos visto nos últimos anos, independentemente de cor partidária ou posição política ocupada, e como dito acima, no qual todos temos participação. E nesse sentido os textos desafiam a olhar, a partir da fé, para essa dura realidade. Desse exercício devemos aprender que ninguém pode servir a dois senhores. Devemos aprender que não podemos criticar a forma pouco respeitosa com a qual os políticos nos tratam se a partir de nosso dia a
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dia também não estivermos dispostos a dar exemplos de como se pode, como se deve e como é possível agir diferente. Literalmente, aplica-se a lógica de que o mundo pode ser transformado a partir do agir que adotamos no micro em direção ao macro.
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Exegese
1 Timóteo 2.1 afirma de modo categórico: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça”. Pode ser afirmado que aqui se apresenta uma regra de que a oração deve ser feita a favor de todos, desenvolvendo-se pelo caminho de apresentar pedidos, intercessões, agradecimentos. Proceder desse modo leva à alegria e ao espaço comunitário saudável, solidário e de inclusão. Da mesma forma, aponta para o centro da vida cristã, que é Deus, do qual tudo provém e depende. Considerando essas afirmações e o contido na introdução, coloca-se então a pergunta instigante: como orar e interceder ante Deus por aqueles que tanto mal têm causado a toda a sociedade? É perfeitamente lícito perguntar-se e questionar assim. Mas também é importante que a passagem indicada para a pregação deste dia possa desafiar-nos a olhar para outro horizonte. E nesse horizonte vemos que Deus tem como principal desejo a salvação de todas as pessoas em todos os lugares e contextos. E nesse plano temos papel de relevância, ou seja, somos chamados a participar, a agir, por meio da oração e do nosso agir. Aqui também vale lembrar que, ao separarmos a palavra oração, temos Orar + ação. Nesse sentido, deve ser observado que a passagem de 1 Timóteo 2.1-7 inicia exortando a agir com moderação e calma, convidando para orar e acalmar-se. Ou seja, chama para que seja adotada uma postura de serenidade e tranquilidade, que é essencial para que possamos colocar-nos mais perto de Deus e conectados com ele e seus ensinamentos. O grande destaque nesse primeiro versículo é justamente em relação à oração, ao dialogar com Deus, ao ato de colocar nas mãos do Criador dificuldades, alegrias, fardos, sentimentos e angústias que se abatem sobre a vida. A oração não é algo somente voltado para si mesmo. Ela também deve ser voltada para o próximo, independente de como ele age conosco. Aliás, o desafio cristão é “amar aos inimigos e orar pelos que nos perseguem” (Mt 5.44). Nos v. 2 a 4 torna-se ainda mais evidente o desafio de orar também pelas autoridades constituídas em todas as instâncias, independente de como as mesmas se portam e agem. 1 Timóteo faz essa referência por entender que é de competência das autoridades constituídas zelar pelo bem-estar de todos e por entender que é papel da comunidade cristã orar e interceder pelas autoridades constituídas, uma vez que as mesmas também devem temor e obediência a Deus. E o segundo motivo pelo qual 1 Timóteo desafia a agir por meio da oração é o fato de que é desejo de Deus que todos sejam salvos, motivo pelo qual precisam conhecer a verdade, para que possam alcançar plena liberdade. Nesse sentido, a oração e a súplica devem ser vistas como parte da missão de Deus de anunciar a verdade, que é válida para todas as pessoas, também aquelas que exercem cargos de autoridade.
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A partir do anunciado nos v. 2-4, os v. 5-7 apontam que a verdade é Jesus Cristo, o qual, por meio de sua morte na cruz, reconciliou o ser humano com Deus. Eis a grande verdade e o grande desafio para a igreja e para os cristãos, ou seja, viver, pregar e testemunhar essa verdade. Todos são desafiados a integrar-se nessa tarefa e a participar dela, orando e também adotando ações que visem e promovam as transformações que são necessárias para que a sociedade seja mais justa e ofereça maior dignidade a todos. Portanto as leituras bíblicas deste domingo abrem os olhos para o Deus que se compadece dos esquecidos e excluídos. Conforme Amós 8, ele denuncia comerciantes que vendem o trigo, alimento básico, não só de má qualidade, mas ainda por preço extremamente elevado. Por isso os pobres, por não terem dinheiro para pagar suas dívidas, são obrigados a vender o pouco que têm e tornar-se meeiros ou mesmo escravos. Deus mesmo se sensibiliza com eles e anuncia um terrível juízo sobre os que arquitetam a injustiça. Já a passagem de 1 Timóteo 2.1-7 ensina-nos a orar, interceder perante Deus sobre as necessidades do mundo e sobre as suas autoridades. A oração não pode privilegiar um determinado grupo de pessoas. Ela tem um caráter universal e deve vir antes de qualquer outra prática por parte da comunidade cristã. A referida universalidade da oração expressa-se por meio do pedido de que se ore também pelo imperador e por aqueles que ocupavam cargos e agiam sobre os civis de então. Isso é fundamental, pois Deus deseja salvar todas as pessoas, razão pela qual todos devem e precisam conhecer a verdade, ou seja, Jesus Cristo. Nesse sentido, deve ser enfatizado que a obra salvífica de Deus não é exclusivista. Fecha-se então o círculo, apontando para a necessidade de toda a comunidade e de todos os cristãos agirem em favor da obra missionária maior, ou seja, anunciar a verdade que provém de Jesus Cristo.
3
Meditação
Jesus conta a parábola do administrador desonesto. O que ele faz não é apenas um gesto desonesto, um deslize moral; é crime. Está enriquecendo em cima de propriedade alheia. Nós interpretamos assim: ele cobra juros sobre empréstimos tomados do senhor daquele administrador. Isso era proibido pela lei judaica. Mais escandaloso ainda é que ele explora e fatura em cima de trigo e azeite de oliva, que na Palestina eram tidos como alimentos básicos. Colocar sobre esses produtos elevadíssimos juros de 20 ou mesmo 50% era o cúmulo da injustiça. Dessa forma, os devedores que não têm como pagar essa conta exorbitante eram condenados à eterna dependência e escravidão. É interessante ver como esse sistema de injustiça prolongou-se e se aperfeiçoou até os dias de hoje! Ele se manifesta nas relações sociais em todos os níveis, tanto em nosso país como entre os países. Poucos se deixam servir por muitos e concentram a riqueza em suas mãos. Os muitos estão na dependência dos poucos. Parece que esse sistema de injustiça reproduz-se com maior ou menor dramaticidade ou sutileza em todas as relações sociais.
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Tal injustiça comove o coração de Deus. Por isso Jesus conta na parábola que o patrão manda chamar o administrador dessa injustiça para que ele preste contas. Nesse fato, evidencia-se quem realmente tem a última palavra. Não são os administradores da injustiça que arquitetam os sistemas de exploração, marginalização e escravidão, nem são os seus executivos, seja em que nível for que atuem. Em termos da parábola, quem realmente tem a última palavra é aquele patrão ao qual tudo e todos pertencem. Diante dele nada subsiste, nem o sistema da injustiça, por mais camuflado que seja. Fazendo uso de sua autoridade e de seu poder, anuncia ao administrador da injustiça a demissão. É por isso que Jesus diz em Lucas 15.10: “Pois eu digo a vocês que assim também os anjos de Deus se alegrarão por causa de um pecador que se arrepende dos seus pecados”. Aqui se manifesta algo do mistério do amor de Deus. Ele não ama o pecado nem espalha “graça barata”. Pelo contrário, irrita-se com o pecado, não compactua com ele, castiga-o e pune. Contudo ama indizivelmente o pecador, a ponto de se sacrificar em favor dele. Toma sobre si mesmo o castigo que nós teríamos merecido. E essas questões devem ser alvo da oração de todos os cristãos e de todas as comunidades. É esse amor divino que toca e comove, liberta e transforma. Esse amor liberta-nos de todos os tipos de desamor. Já que vivemos do perdão de Deus, somos constrangidos a perdoar o próximo não só duas vezes, mas sempre quando necessário. É essa justiça de Deus que também nos sensibiliza para com o sofrimento das pessoas esquecidas e excluídas, as quais devem ser alvo de oração e de ação de graças. Ela nos faz valorizar pessoas idosas, doentes, dependentes e crianças sem lar. A justiça de Deus liberta-nos da obsessão de acumular para nós mesmos e possibilita o partilhar com quem necessita. A justiça de Deus liberta-nos de valores fatais como “lucro acima de tudo” e dirige a atenção à promoção de valores como “qualidade de vida e segurança para todas as pessoas”. O desafio que os textos deste domingo deixam é que a comunidade cristã deve orar e interceder, assim como deve adotar ações que promovam e privilegiem esse caminho, integrando-se assim na promoção da verdade que é anunciada por Cristo. Essa libertação faz-nos perceber que bens e riquezas não são valores em si mesmos. Eles possuem uma função social. Estão aí para possibilitar a sustentabilidade de tudo o que existe. É por isso que Jesus recomenda: “Usem as riquezas deste mundo para conseguir amigos a fim de que, quando as riquezas faltarem, eles recebam vocês no lar eterno”. As passagens bíblicas deste domingo convocam e convidam a comunidade para orar e sublinham a sua importância no dia a dia das comunidades e da vida dos cristãos. Isso equivale a dizer que a oração precisa estar em primeiro lugar sempre. E como tal, observamos na apreciação do texto, ela, a oração, não pode deixar ninguém de fora. Todos são e todos devem ser alvo da oração do cristão e da comunidade cristã. Não importa se são opressores ou oprimidos, injustiçados ou causadores de injustiça, vítimas ou violadores. A oração quer alcançar todos, para que haja transformação de vida e salvação. Esta parece ser uma das grandes características da comunidade cristã, ou seja: buscar a inclusão, a participação e o comprometimento de todos.
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Agir dessa forma, ou seja, orando por todos indistintamente, não significa agir de modo descomprometido. Pelo contrário, Amós deixa bem evidente que Deus destruirá aqueles que oprimem, roubam e exploram os menos favorecidos. Por isso é preciso orar com fé e devoção, não com ódio e rancor no coração. Orar é bom porque Deus ouve a nossa oração e súplica. 1 Timóteo 2.1-7deixa evidente que a oração é essencial e que a vontade de Deus é promover a salvação de todas as pessoas, razão pela qual precisam passar por mudanças e transformações, conhecendo Jesus Cristo. Orar pelas autoridades, opressores e causadores de injustiças não significa abrandar a nossa indignação com tais situações. Significa confiar e colocar nas mãos de Deus tais situações, clamando por transformação, ao mesmo tempo em que adotamos ações e posturas que transformem realidades.
4
Imagens para a prédica
Parece-nos que a ênfase maior da pregação deve ser centrada na oração. Nesse sentido, seria importante construir um quadro a ser visualizado pela comunidade, fazendo-o a partir da palavra ORAÇÃO e seu significado. A seguir, esse quadro poderia ser desdobrado em ORAR e AÇÃO, elencando motivos de oração extraídos de cada realidade e contexto, fazendo então um paralelo com ações que podemos ter e adotar enquanto pessoas e enquanto comunidades para viabilizar transformações que são necessárias. Esse quadro deveria ser construído ao longo da pregação e de modo que possa ser visualizado por toda a comunidade reunida. A estrutura da pregação poderia seguir o seguinte esquema: 1. O que significa orar? Quais são os momentos e qual espaço a oração ocupa na vida da comunidade? 2. Mostrar o que é denunciado pelos textos deste domingo, chamando para a oração no contexto comunitário e familiar. 3. Desafiar para que pessoalmente, em família e na comunidade se adote atitude de oração de gratidão, de louvor e de ações de graças. 4. Seria possível lançar o desafio de uma vez por mês a comunidade reunir-se para uma noite de oração?
Bibliografia CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millenium, 1986. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.
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19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
25 SET 2016
PRÉDICA: LUCAS 16.19-31 AMÓS 6.1a,4-7 1 TIMÓTEO 6.6-19
Martin Volkmann
Apego à riqueza – separação de Deus e entre as pessoas
1
Introdução
Os três textos bíblicos indicados para a pregação e as leituras têm em comum o tema da riqueza. Amós dirige sua acusação profética contra a elite econômica de seu povo, que se regala com suas riquezas, vivendo do bem e do melhor (moradia, comida, bebida, música), sem se importar com a desgraça do povo pobre. E sua acusação culmina no anúncio da consequência dessa desvirtuação de vida: o exílio e o fim dos privilégios. Na epístola, o apóstolo aponta para o perigo de se deixar seduzir pela riqueza e orienta Timóteo em relação a uma postura própria de fidelidade à fé e de exortação às pessoas com posses para a prática do bem a partir de seus bens materiais. O evangelho, texto de pregação, apresenta-nos, em forma de parábola (Gleichniserzählung), a contraposição de duas situações de vida – riqueza e pobreza – que causam separação entre as pessoas e com Deus e, por extensão, o consequente questionamento sobre o fundamento e a compreensão do sentido da vida. Assim, os três textos complementam-se mutuamente e, havendo tempo e disponibilidade para tal, que se aproveite a leitura dos mesmos na celebração. O texto de prédica, Lucas 16.9-31, já foi analisado em três exemplares do PL: vol. 4 para o 1º Domingo após Trindade; vol. 20 e vol. 34 para o 19º, respectivamente 18º Domingo após Pentecostes.
2
Exegese
A mudança radical de destino de pessoas (veja no Magnificat em Lc 1.5153) e a questão riqueza/pobreza (Lc 6.20-26; 12.16-21; 12.33s; 14.33) são temas frequentes no relato de Lucas. No cap. 16, o evangelista estruturou seu relato com duas parábolas, de tal forma que, na primeira (16.1-9), é elogiada a atitude de entrega e disposição altruísta de alguém que lida com dinheiro e, na segunda, no final do capítulo (16.19-31), descreve o destino fatal de quem se apega egoisticamente à riqueza. Entre essas duas parábolas há referências à avareza dos fariseus (16.14s) e à “lei e os profetas” (16.16-18), tema que retorna na segunda parábola, nosso texto de análise (v. 29). A parábola (na realidade, uma narração parenética – Beispielerzählung) inicia com a descrição das duas pessoas centrais do texto e da respectiva situação
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de cada qual (v. 19-21). O rico é caracterizado por sua vestimenta cara e preciosa (púrpura e linho finíssimo), bem como por um estilo de vida esplendoroso. A descrição do pobre é mais detalhada: coberto de chagas que os cães de rua vinham lamber; deitado à porta da casa do rico, ou seja, o verbo grego (ballo) indica que ele perdeu sua mobilidade. Além disso, sofre de fome, desejando alimentar-se das migalhas que caem da mesa do rico (Lc 15.16; Mt 15.27). Tudo isso destaca a profunda miséria em que ele se encontra. Mas a sua riqueza reside em seu nome – Lázaro –, enquanto do rico diz-se apenas “certo homem rico”. O nome é uma confissão de fé: Deus socorre. Portanto a descrição destaca o contraste entre a posição social (rico – pobre), a apresentação (vestimenta pomposa – coberto de chagas), o estilo de vida (banquetes diários – fome) e o local de vida (casa suntuosa – calçada à frente daquela). A descrição sugere que ambos são vizinhos, mas aparentemente não se conhecem. A ação dentro do relato inicia ali onde geralmente se encerram as narrativas: com a morte. Ambos os personagens morrem (v. 22) e, à semelhança do contraste durante a vida, também agora a situação de ambos é relatada radicalmente oposta: enquanto do pobre não se menciona o sepultamento, mas se diz apenas que é levado pelos anjos diretamente “para o seio de Abraão”, do rico é dito que foi sepultado e que se encontra no hades, no reino dos mortos. Ali também se encontra o pobre (como a cena a seguir evidencia), porém no “seio de Abraão”. A partir desse momento, a contraposição entre ambos encerra-se e o relato concentra-se no rico: a descrição de sua situação “em tormentos” e seu diálogo com Abraão. Enquanto durante a vida o rico não reparara, em sua altivez, no pobre na calçada em frente à sua casa, agora ele o vê junto a Abraão. E ele implora a Abraão – “pai Abraão” – que o alivie dos sofrimentos, inclusive mediante a ajuda de Lázaro. Pede a Lázaro que molhe seu dedo na água e refresque sua língua para aliviá-lo dos tormentos (v. 24). Essa primeira parte está estruturada de forma paralela ao período de vida dos dois. O rico tinha tudo de bom e agradável, enquanto Lázaro penava em sua miséria. Agora é o inverso: Lázaro encontra-se num local agradável, enquanto o rico se encontra num “local de tormentos” (v. 28). Além disso, enquanto em vida o rico não se dignava a oferecer algo ao pobre Lázaro para aliviar seu sofrimento, agora Lázaro é para “descer” e aliviar o sofrimento dele. O pedido é negado e, na resposta (v. 25), Abraão justifica a negativa, contrapondo o destino de ambos à semelhança da vida terrena de ambos: as coisas boas (ta agatha) – os males (ta kaka) durante a vida; agora ser consolado (parakaleitai) – estar em tormentos (adynasai). Justifica, além disso, o não atendimento ao pedido pelo fato de haver um grande abismo (chasma mega) entre a localização de cada qual que impede o ir e vir de um lado para outro (v. 26). Novamente uma analogia à situação terrena em relação ao abismo existente entre a situação de cada um: a opulência e a autossuficiência do rico impediam que pudesse ver o pobre à frente de sua casa; a invalidez e a situação miserável do pobre não permitiam aproximar-se do rico. Diante da negativa do atendimento, o rico faz uma segunda tentativa, dessa vez não em seu benefício, mas em favor de seus irmãos (v. 27s), novamente mediante a ajuda de Lázaro. Mais humilde do que no primeiro pedido – “eu te
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imploro” (erōtō se) –, ele pede a Abraão que envie Lázaro para junto de seus irmãos como testemunha, a fim de que também eles não venham para “este lugar de tormento” – uma descrição precisa do reino dos mortos: um lugar em que se sofre castigo em forma de tormentos. Também esse pedido é negado (v. 29) com um argumento característico da tradição judaica: eles têm Moisés e os profetas – síntese da Escritura Sagrada na época –, onde todo fiel tem a orientação correta para a sua vida com base na fé. O rico faz uma terceira tentativa, apontando para o efeito maior no caso de alguém ressurgir dos mortos e ir falar com os irmãos (v. 30). Uma clara referência à ressurreição de Jesus, muito provavelmente um acréscimo do próprio evangelista. Também esse pedido é negado: se não dão ouvidos a Moisés e aos profetas, também não se deixarão convencer, mesmo que alguém ressuscite dentre os mortos. Portanto a resposta de Abraão aos dois últimos pedidos rejeita qualquer efeito miraculoso que justificasse, provocasse ou substituísse a fé. Moisés e os profetas e o Cristo ressurreto relembram sempre de novo o povo de Deus para não esquecer nem negligenciar a fé, a obediência e o amor ao próximo. Em suma, essa narrativa parenética mostra, no exemplo do rico, uma compreensão de vida desvirtuada que não se entende a partir da confiança em Deus e, consequentemente, também não pratica o amor ao próximo. Por outro lado, o nome de Lázaro expressa uma compreensão de vida na fé: Deus socorre. Por isso tem a promessa de estar acolhido nos braços de Abraão.
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Meditação
Um dos aspectos que chama a atenção nessa narrativa parenética é a proximidade dessas duas pessoas e, ao mesmo tempo, a grande distância entre ambas. O pobre jaz à porta do rico, mas ele não o vê, porque, em sua autossuficiência, que se expressa em sua riqueza, seu estilo de vida, ele só tem olhos para si mesmo ou, no máximo, para quem está na mesma situação que ele. Nossa realidade atual está bem retratada por esses dois versículos iniciais do texto. As grandes desigualdades sociais, a concentração de renda em mãos de poucos, a ganância das pessoas, de um lado; do outro lado, pobreza, doenças, exclusão social, sofrimento por ter que fugir de sua terra/pátria. O apego à riqueza, tendo nela a razão única e última de sua vida, fazendo dela o seu deus – é isso que continua sendo o pecado da humanidade e que torna, para muitas pessoas, essa vida “um lugar de tormentos”. Diante disso, a continuidade da narrativa mostra a inversão da situação, do destino dessas duas pessoas. Com que finalidade? Para mostrar o restabelecimento da justiça, de uma realidade em que vida digna é o propósito de Deus para todas as pessoas. A narrativa justamente quer motivar os leitores a optar por um estilo de vida que não corresponda à situação do rico no mundo dos mortos, respectivamente ao pobre Lázaro em vida. Pelo contrário, quer desafiar para uma decisão ética que leva a uma postura em favor da justiça, da solidariedade, do repartir, do acolher. O texto motiva e anima para a construção de uma comunidade, mais, de uma sociedade inclusiva. A proposta de Jesus, expressa em toda a sua
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maneira de ser, foi de acolher, valorizar, integrar justamente quem, aos olhos dos autossuficientes, não merecia vez. Portanto a proposta de Jesus é em favor de uma sociedade na qual há espaço para todas as pessoas na mesma mesa abundantemente preparada por Deus. Isso é possível – e para tal essa narrativa nos convida – quando todas as pessoas – ricas e pobres – entendem as suas vidas a partir e na presença de Deus, assim como o nome Lázaro expressa. Portanto o texto não é contra a riqueza ou contra os ricos em princípio. Mas ele convida as pessoas ricas ou que se identificam com o rico a se confrontar com a pergunta pelo erro dele. O erro do rico foi ser autossuficiente em sua riqueza, esquecer-se de Deus, o doador da vida, e de não ver, não se solidarizar com o pobre, com a pessoa que precisa de sua ajuda. Para sair dessa situação, ele não precisa nem pode consegui-lo por conta própria. Importa ouvir a palavra de Deus – “eles têm Moisés e os profetas”. Da mesma forma, o texto não idealiza a pobreza e o sofrimento com a consequente recompensa no céu. O pobre não é melhor do que o rico por ser pobre. De Lázaro só se fala de sua fome, seu sofrimento, seu abandono. Não se diz que ele tem fé em Deus nem se destacam suas qualidades morais. A partir de seu nome é expresso que a ele só resta esperar em Deus. Quem é esse pobre hoje? O assalariado que tem seu salário achatado por medidas de ajuste fiscal. O aposentado que não recebe reajuste de sua aposentadoria conforme o índice da inflação. A senhora idosa que, por não ter plano de saúde privado, espera meses por um exame ou uma cirurgia nas filas do SUS. Jovens das periferias que são aliciados por gangues para o tráfico de drogas. Mas o ser pobre não é garantia de ser rico junto a Deus. Mesmo sendo economicamente pobre, poderá ter coração de rico. Isto é, viver de tal forma como se a vida estivesse em suas próprias mãos. Ou vivendo de forma irresponsável em relação a si mesmo, às pessoas de seu convívio, ao ambiente em geral. A narrativa inicia com uma breve observação sobre a situação dessas duas pessoas em vida, e a seguir há uma extensa reflexão sobre a situação após a morte. E essa reflexão é como um olhar retrospectivo sobre a vida dessas duas pessoas, em especial o rico. Como encaramos a própria morte? Como avaliamos a nossa vida diante da morte? A morte, respectivamente a consciência de que somos mortais, poderá ser como um espelho em que contemplamos nosso viver. A consciência de que também nós estaremos um dia no “mundo dos mortos” é oportunidade para olhar para a nossa vida e imaginar onde nós estaríamos: “no seio de Abraão” ou no “lugar de tormentos”? Portanto, diante das contradições de nosso mundo, a miséria de muitas pessoas em contraste com a ganância, a corrupção, a arrogância de tantas outras; diante da graciosa preservação da natureza e da vida por Deus em contraposição ao esbanjamento, à destruição do meio ambiente por larga escala de pessoas – diante disso nós somos confrontados com a pergunta: o que, em última análise, é a base que dá sustentação para a nossa vida? Em que depositamos a nossa confiança – em nós mesmos, em nossas posses ou em Deus doador da nossa vida e que quer oportunizar, por nosso intermédio, vida para todas as pessoas?
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Imagens para a prédica
Tanto em vida como depois da morte, o rico e o pobre Lázaro viviam muito próximos, mas, ao mesmo tempo, muito distantes. Como diz o versículo 26, entre ambos há um enorme abismo, abismo esse que já existia entre eles na situação de vida de ambos. Abismos semelhantes existem em grande número em nossas sociedades, ocupando os mesmos espaços: entre pessoas bem situadas economicamente e pessoas com dificuldades para se manter; entre grupos políticos que não se entendem; entre movimentos religiosos que se combatem; entre familiares que não conseguem conviver. Que abismos há na comunidade de fé que ouvirá a mensagem sobre esse texto? Como superar esses abismos? Entre partidos políticos, entre familiares em desentendimento só o diálogo e a construção do respeito mútuo podem transpor as separações. O abismo entre pessoas que compartilham a mesma fé – é o caso do rico e de Lázaro, é a situação da comunidade reunida em culto – somente a atenção à palavra possibilita isso. Assim como os irmãos do rico têm Moisés e os profetas, a quem devem dar ouvidos, assim a comunidade cristã tem a mensagem do Cristo ressurreto, o testemunho dos apóstolos. Werner Fuchs, no PL 4, p. 88-95, sugere uma prédica dialogada: depois de uma introdução pelo pregador, conduzir o diálogo a partir de perguntas motivadoras. Pode ser uma boa ideia. Quanto a imagens específicas, sugiro consultar na internet onde há uma série de gravuras sobre essa narrativa e que também poderiam servir como motivação para o diálogo.
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Subsídios litúrgicos
Considerando os aspectos das contradições e dos abismos existentes na sociedade, causados, não por último, pela falsa orientação de vida – no exemplo do rico –, seria oportuna a oração do Kyrie, pedindo pela misericórdia de Deus. Sugestão de hino: Pelas dores deste mundo, de Rodolfo Gaede Neto. De forma semelhante, a oração de confissão de pecados poderia enfocar essa dimensão de fundamentação de vida em base falsa, que tem como consequência um modo de vida desconexo com a vontade de Deus.
Bibliografia BOVON, François. El Evangelio según San Lucas. Salamanca: Sígueme, 2005. Biblioteca de Estudios Bíblicos, v. 3 (87). SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. Göttingen/Zürich: Vandenhoeck/Ruprecht, 1986. Das Neue Testament Deutsch, v. 3.
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PRÉDICA: HEBREUS 1.1-4; 2.1-4 LUCAS 17.5-10 2 TIMÓTEO 1.1-14
20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
02 OUT 2016
Teobaldo Witter
A fé do tamanho do grão de mostarda
1
Introdução
Como foi bom ler novamente a Carta aos Hebreus! Como foi bom relacionar a reforma que Hebreus propõe para a segunda geração de comunidades cristãs no século I com a Reforma Protestante de 1517! O desafio é relacionar ambas com os atuais desafios nos tempos pós-modernos. Na época em que vivemos, em que nossos pensamentos e planejamentos na igreja se voltam para a comemoração da Reforma Protestante, é mais do que justa essa preocupação, pois em 2017 celebraremos os 500 anos. Certamente a igreja vai celebrar e refletir aspectos do legado da Reforma e sobre desafios e possibilidades atuais e futuras. Segundo o calendário ecumênico, estamos vivendo no 20º Domingo após Pentecostes. Pentecostes é o período mais longo do ano da igreja. Unimos Pentecostes e Reforma, pois essa é obra do Espírito Santo de Deus. Na época da redação da Carta aos Hebreus, as comunidades eram perseguidas e humilhadas por causa de sua fé e comunhão. Nesse contexto, algumas pessoas abandonavam as comunidades. A carta anima-as a permanecer fiéis na fé, confiança, comunhão e amor fraternal. No tempo da Reforma, pessoas viviam oprimidas e amarguradas, porque não entendiam quem é Deus e o que ele faz. Sofriam, porque viviam na dependência da fé retributiva, de pagamentos e obras para chegar a Deus. A redescoberta da graça e fé provocou um grande alívio e libertou as pessoas de amarras da ignorância e do medo. Hoje, certamente as pessoas vivem a grande euforia do prazer a qualquer custo. Na maioria das igrejas, os sofrimentos são ignorados, sendo que as pessoas sofrem sozinhas as amarguras de suas vidas. Na opinião geral, problemas são coisas de fracos. A fé delas não chega ao tamanho do grão de mostarda, o amor fraternal esfriou. A elas se vende a ideologia da prosperidade e do pensamento positivo. Tudo é lixo. Enganação. A Carta aos Hebreus e a Reforma Protestante podem ajudar-nos a encontrar caminhos alternativos e novos. São caminhos de quem não engana, mas ama com compromisso.
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Exegese
Não há informações sobre a data de redação da Carta aos Hebreus. Há exegetas que colocam a redação em torno do ano 70 d.C., antes da destruição do templo de Jerusalém. Outros afirmam que seria em torno do ano 80 d.C. Mas não se pode aceitar uma época muito tardia, pois Clemente de Roma a cita por volta do ano 95. Por outro lado, a relativa afinidade entre a sua teologia e as cartas da prisão (Efésios, Colossenses, Filemon) caminha para uma data próxima do martírio de Paulo, ocorrido no ano 67. Uma vez que o autor se refere à liturgia do templo de Jerusalém como uma realidade ainda presente, tudo parece convergir para que os últimos anos antes da destruição de Jerusalém e do templo, ocorrida no ano 70, sejam a data mais provável de sua redação. Não se sabe quem é o autor, pois não há indicações claras sobre isso. Surgem algumas especulações que afirmam ser Paulo ou algum de seus amigos seguidores. Há uma referência a Timóteo (Hb 13.23), que, segundo referência da Bíblia de Jerusalém, seria o jovem companheiro de viagem de Paulo (At 16.1ss), filho de Eunice e neto de Loide, paradigmas da fé para muitas pessoas na época. Então o autor seria Paulo ou alguma pessoa muito próxima dele. Mas essa menção não identifica, claramente, o autor da carta. Pesquisadores, entre eles Lohse, afirmam que talvez nunca se descobrirá quem foi o autor ou os autores da carta. A intencionalidade da mensagem é clara. Explica que a revelação de Deus em Cristo Jesus é definitiva e única, sendo que os testemunhos de todos os tempos e lugares estão fundamentados nessa revelação (Hb 1.1-2). Sua posição teológica procura animar e colaborar com cristãos e cristãs da segunda geração. A carta quer animar essas pessoas a superar a tentação e o desânimo que pairam na comunidade. Procura animá-los na fé e na prática do amor (Hb 2.1-4). A carta não se dirige a uma comunidade específica, nem define a que grupos étnicos se reporta. Destina-se a pessoas que conhecem o Antigo Testamento e o serviço dos sacerdotes, pois explica várias passagens antigas sobre o assunto. Mas não podemos afirmar que se destina somente a judeus convertidos à fé cristã, pois também havia gregos convertidos que liam as Escrituras Sagradas do Antigo Testamento. Certamente as pessoas tinham muita familiaridade com as Escrituras e o sacerdócio em Israel. Ao longo da carta relata-se sobre sofrimentos e humilhações que atingem as pessoas fiéis. Hb 10.32ss e 13.3 mencionam humilhações, insultos públicos, perseguições, prisões e confiscos de bens. No Testemunho, a comunidade solidariza-se com as pessoas que sofriam como escravas, prisioneiras e humilhadas. Defendia os rejeitados e apoiava os explorados... Por seu testemunho, a comunidade havia perdido o seu status dentro da sociedade e via-se desonrada. Estava cansada e enfraquecida...Perguntava pelo sentido do sofrimento de Jesus Cristo e pelo sentido de seu próprio sofrimento... O risco de fraquejar era grande. Algumas pessoas abandonavam a comunidade (MARKUS, p. 300). A carta exorta para a prática da fidelidade. As comunidades precisam ler seu presente, fazendo uma releitura do passado. E olhar para o futuro com espe-
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rança. Em meio às dificuldades, precisam permanecer fiéis ao Senhor Jesus, que revelou os mistérios de Deus. A carta exorta para não abandonar a confiança e a fé por conta das dificuldades que enfrentam. Deus ama seu povo. Esse participará da glória do Filho de Deus. Ele nunca deixou de falar e de se revelar. Nesse sentido, a comunidade da segunda geração precisava de uma “reforma da igreja”. Jesus ainda não havia chegado. Mas a vida continua. A sua igreja está presente no mundo. A revelação definitiva de Deus em Cristo deve continuar no testemunho cristão. A carta explica aspectos importantes da “reforma”, indo às fontes e fazendo releituras. A carta faz uma releitura da história da salvação. Estabelece uma relação entre o Antigo e o Novo Testamentos numa perspetiva cristológica. O tema central são o sacerdócio de Cristo e o culto cristão. A novidade é radical, completamente atual. Uma pessoa, Jesus Cristo, Filho de Deus e irmão dos seres humanos, é o Sumo Sacerdote. Ele é superior a Moisés e a todos os que vieram antes e que vêm depois dele. Pela sua morte e glorificação, ele é o único mediador entre Deus e as pessoas. O seu sacrifício substitui todos os sacrifícios antigos, que já não têm capacidade para elevar as pessoas até Deus. Pela sua morte, Cristo realiza o perdão dos pecados uma vez por todas, estabelece uma aliança nova e eterna com a humanidade e inaugura um novo culto, imagem do culto celeste. Ainda não estamos lá, mas estamos caminhando para esse culto pleno e radical. No caminho estão as estações que levam à conversão, à fé fiel e perseverante, à celebração da palavra e à vivência do amor. A vida cristã é um contínuo exercício da fé, da esperança e do amor. As pessoas precisam permanecer integradas em comunidade cristã, escutar a palavra e viver em comunhão com Deus e com os irmãos e as irmãs, pois Deus nos encontra e integra na unidade com Cristo e seu povo. A oferta de Cristo ao Pai “uma vez para sempre” (Hb 10.10-14 e Hb 9. 26-28) constitui o grande acontecimento escatológico. Por meio desse gesto histórico cumpriu-se o ato de salvação que Deus nos oferece e permite nossa participação. Agora, continuemos a caminhada histórica da humanidade até a sua entrada na glória. Quando todos os inimigos forem submetidos a Cristo e forem vencidas a morte e todas as forças históricas do mundo, do pecado e de nossa carne, confirma Martim Lutero (Catecismo Menor), teremos, então, a realização do último ato da história da salvação. Ao encontro desse momento a humanidade toda está caminhando. Hebreus 1.1-2 – Estes dois versículos enfatizam a revelação de Deus. O cristianismo é revelação. A fé está fundamentada na revelação de Deus. Ele se revelou a nós de muitas maneiras, no passado pelos profetas. Hoje, definitivamente, fala e revela-se por meio de seu próprio Filho. Deus fala e age através dele. Além disso, o Pai constitui-o herdeiro de todo o universo. Deus constitui Jesus como zelador e cuidador das vidas preciosas de sua criação. Toda e qualquer fala em nome de Deus deve ter fundamento nessa revelação e ação de Deus. Por isso, entre outros elementos, a carta faz uma releitura cristológica do Antigo Testamento. Em Jesus Cristo Deus cumpriu sua promessa de vida e salvação feita aos
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antigos. A viagem continua, mas sempre e somente nessa perspectiva cristológica e comunitária. V. 3 – Depois de descrever a relação do Filho com a criação divina, a carta fala da relação do Filho com o Pai. É um versículo que resume a história da caminhada de Jesus. Ele é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser. Essa pregação está no mesmo sentido das palavras de Jesus no Evangelho segundo João, quando diz: Quem vê a mim, vê o Pai (Jo 14.9), e Eu e o Pai somos Um (Jo 10.30). Em seguida, o versículo menciona três momentos importantes: 1) Jesus está na centralidade do equilíbrio do universo: “... sustentando todas as coisas pela palavra de seu poder”. A palavra poderosa é a mesma palavra criadora que colocou paz no caos, conforme Gênesis 1.1ss. Apesar da situação de caos em que vivem as comunidades, Jesus não permite que o caos vença. Pelo contrário, ele sustenta e cuida do universo, das comunidades e das pessoas sofredoras e perseguidas para as quais a carta é escrita. 2) O Filho, como imagem exata do ser do Pai, é o mesmo ser que encarnou na história humana. A expressão “a purificação dos pecados” significa o sofrimento vicário e a morte expiatória em favor do outro e da outra, de Jesus e do serviço sacerdotal que nos limpa dos pecados. O Filho oferece sua vida, derramando seu sangue e entregando a sua vida em favor do povo para a purificação dos pecados. A caminhada do Jesus encarnado vai à cruz, derramando seu sangue como sua obra de salvação do mundo. 3) Na posição de escravo de escravos, Jesus passa por sofrimentos, perseguições públicas, humilhações, dores e culmina na morte de cruz. Numa obra do Pai, ressuscita. O versículo menciona a ascensão do Filho que ocupa posição de honra e autoridade, à direita do Pai. Ele está lá, em pé à direita do Pai (At 7.56), pronto para atender nosso chamado por vida e salvação. V. 4 – Este versículo nos quer ensinar que Jesus é, de fato, o único intermediário entre nós e Deus. Na época de Jesus e na história de Israel, em certos momentos pensava-se que anjos ocupavam lugares importantes de serviço, de mando, de proteção e de intermediação. Agora Jesus é superior a todos, não há nada na terra e no céu que seja superior a Jesus junto ao trono da majestade, Deus. Deus deu-lhe o nome acima de todo nome. Diante dele dobre todo joelho, na terra, no céu e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (confira Fp 2. 9ss). Hebreus 2.1-4 – Depois da exaltação de Jesus Cristo, para a glória do Pai, a carta exorta sobre os perigos e problemas da negligência na fé e na prática de fé. Se quem não era fiel ao testemunho de anjos no passado, já era castigado, muito mais será agora que o testemunho vem do próprio Filho e confirmado pelos que o ouviram (os da primeira geração de cristãos). Fé e comunhão são pura graça de Deus. Desprezá-las significa atrair sobre si o juízo de Deus.
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Meditação
Reformas são feitas para mudar algo. Se a casa está caindo, chovendo dentro, então se precisa reformar as paredes ou a cobertura. Se o casamento está
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afundando, então se precisa tomar jeito de reformar, de mudar de atitude e de mudar de comportamento. Se a vida na igreja não está dando certo, então se precisa planejar e mudar. A palavra dita e vivida de outro jeito, quem sabe, pode provocar a fé e esquentar as práticas do amor que estão esfriando. Na Carta aos Hebreus, o tema da reforma não é mencionado, mas ele está bem presente. Há pessoas que estão questionando o jeito da comunidade, as perseguições por parte de quem está fora. Pessoas estão preocupadas com a indiferença e o abandono de alguns membros. A carta tira algumas teias de aranha e mofos das comunidades para reanimar a fé através da mesma palavra de ontem, hoje e sempre. Inicia o mês de outubro. Outubro é um mês para celebrar, refletir e dialogar a partir de fatos importantes que fizeram desencadear a Reforma da igreja. Ela ocorreu em 31 de outubro de 1517. No próximo ano, serão realizadas atividades alusivas aos 500 anos da Reforma em todos os cantos da Terra. No presente ano, planejamentos e atividades convergem para as celebrações de 2017. Sob o prisma da Reforma Protestante, a igreja não parou. Pelo contrário, mudanças profundas internas e externas da igreja continuaram e continuam desafiando os povos em todos os tempos e lugares. O que Deus quer? O que ele nos oferece para que a vida e salvação possam ser a nossa a realidade? Qual é o seu jeito atual de revelação? O que Jesus espera de sua igreja em suas relações no mundo? As implicações da Reforma para a graça e fé que salva; para o amor que transforma; para a misericórdia que sustenta respeito e convivências; para a justiça restaurativa; para a educação que promove cidadania; para o povo que luta por liberdade; para o Estado que deve cuidar do pão e da justiça para todas as pessoas; para a defesa, promoção e garantia dos direitos humanos que deve fundamentar o direito à vida e dignidade na área civil; para o diálogo ecumênico que deve vencer a intolerância e construir a paz humana e planetária, incluindo todos os seres, a Terra. A Reforma refere-se à igreja cristã, mas teve influências em muitas áreas de diferentes ciências, entendimentos e práticas sociais. Por certo há muitas perguntas que movimentam a vida. O culto de hoje não consegue abordar tudo. Mas pelo menos dois temas são preciosos para as leituras bíblicas de hoje: graça e fé e suas consequências. O cristianismo é religião da revelação. Testemunha que Deus revelou-se de diversas maneiras. A revelação é graça. Quer provocar fé e salvação nas pessoas que presenciam ou que ouvem, veem, experimentam a graça de sua revelação. Ser amigo ou amiga de Deus, nesse sentido, significa aceitar a sua revelação, crer e confiar nele. É dessa revelação para a vida e salvação que Hebreus 1.1-4; 2.1-4 fala. E convida para que “nos apeguemos com firmeza às verdades ouvidas...” (Hb 2.1a). Os antepassados creram e confiaram. Graças a Deus, pelo testemunho, assim nós também temos a oportunidade de crer e confiar. Paulo escreve a seu jovem amigo Timóteo: “Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti” (2Tm 1.4-5). Orienta e admoesta o amigo para permanecer na fé e não entrar na onda dos que desistem. Prega para guardar a palavra com fé e amor em Cristo Jesus.
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Jesus, queremos fé forte e grande. Sim, queremos muita fé. Pedem: “Senhor, aumenta-nos a fé” (Lc 17.5). Quem não quer uma fé forte e grande? Até mesmo a maioria das pessoas que se declara ateia gostaria de ter. No entanto, Jesus não atende os apóstolos, mas ministra aula de ensino confirmatório. Ensina, explicando qual é o problema: se vocês tivessem a fé do tamanho de um grão de mostarda, que é a menor de todas as sementes, até mesmo as árvores ouviriam as palavras de vocês (Lc 17.5-10). Isso significa que o principal problema nesse texto não é fé, mas obediência (ou desobediência) e desejo por retribuição (v. 10). Certamente a comunidade já ouviu muitas pregações com base no texto de Hebreus. Ele já serviu em outros auxílios na história do PL, em diferentes épocas do ano litúrgico. O que muda na vida das pessoas? Lembramos que é mês de outubro, tempo de celebrar a Reforma. É também época de Pentecostes, pois é o 20º Domingo após Pentecostes. É também tempo de celebrar a vida e o entusiasmo que Deus, através do Espírito Santo, concede a seu povo. O testemunho apaixonado e firme da comunidade é graça de Deus. O Espírito que agiu no primeiro Pentecostes é o mesmo que age hoje. Através dele Deus permite que sejamos igreja com compromisso de fé e amor que cuida e transforma. Através do Espírito Santo a obra de Jesus continua e nos trouxe até aqui. A revelação de Deus foi realizada, decisivamente, por seu próprio Filho Jesus Cristo e continuada por profetas, apóstolos e povos de todos os tempos e lugares. A comunidade e seus membros são hoje as testemunhas vivas de Jesus da revelação. E ela tem continuidade.
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Imagens para a prédica
4.1 – Na aldeia havia uma casa de compra e venda de comidas. O comerciante já estava ali há muito tempo. Era conhecido de todas as pessoas. Com o passar do tempo, a ferrugem e a sujeira desequilibraram a proporção da medida dos produtos que eram pesados e vendidos por ele. Quando seu comércio completou 20 anos, ele verificou a sua balança. Constatou que a diferença da medida em seu favor era de 15%. Sendo assim, 850 gramas de arroz pesavam 1 kg na sua balança. Pensou em lavar, lixar e regular a balança. Mas como ninguém reclamou, deixou assim mesmo. Todos os dias enganava seus clientes em 15% no peso das comidas vendidas. Certo dia, chegou um homem simples, descalço e com roupas velhas no corpo. Disse que sua esposa estava doente e que precisava reforçar a comida. Seu dinheiro dava para comprar 1 tomate, 1 kg de arroz e 200 gramas de carne. Comprou a comida, pagou e foi embora. À noite, o comerciante teve uma crise de consciência. Aquele homem empobrecido com seu pequeno pacote de comida, saindo descalço pela estrada, não saía de sua cabeça. O tempo foi passando. E a crise de consciência do comerciante foi aumentando. O remorso corroía-o por dentro. Seis meses depois, o homem simples estava novamente em seu comércio. Mais do que depressa, o comerciante disse que estava arrependido porque o enganara com a sua medida. E agora queria restituir três vezes mais do que roubara.
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Portanto o homem poderia escolher o que queria. Esse, então, disse que precisava de tomate, arroz e carne. O homem comprou a mesma quantia, agora acrescida dos 45% de devolução do roubo na compra anterior. O comerciante ficou muito aliviado e feliz. De noite, fez a janta e lavou a louça para ajudar a sua esposa nas lidas da casa. No outro dia, voltou para o seu comércio e continuou medindo e pesando os produtos com a mesma balança enganadora. A experiência dolorosa não ajudou a mudar seu comportamento. Não teve mudança, porque nada nas relações comerciais mudou naquela aldeia. O comerciante devia ter reformado a balança e regulado a exatidão dos pesos e medidas e ser um homem de negócios justo. A Reforma da igreja, quando for o caso, deve fazer uma faxina e tirar as teias de aranha, a ferrugem e a poeira que enganam o povo, ofuscando a sua vida de fé e amor. A Carta aos Hebreus fez uma limpeza dessas quando pregou sobre a revelação, a fé, a comunhão e o sacerdócio de Jesus. Não permitiu que o povo fosse enganado. A Reforma Protestante em 1517 fez uma grande faxina na igreja. E possibilitou que a palavra fosse pregada de forma pura e reta. E as relações de trabalho e convívio fundamentam-se no sacerdócio das pessoas que creem. A fé em Jesus Cristo libertador integra o povo na comunhão divina e comunitária e na prática da esperança e do amor solidário. Como você avalia a sua comunidade? Está tudo bem? Ou que reforma ela necessita? A medida da fé, da comunhão, da vida e de todas as coisas em uso foi aferida pela palavra ou está enferrujada, suja e poeirenta? E Jesus disse: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda...” (Lc 17.6a). E ainda: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) . E mais: “Ora, se eu, sendo Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13.14). 4.2 – A leitura da exegese e da meditação é necessária para a pregação. Proponho 4 pontos para a prédica. 4.2.1 – A fé. A fé e a graça. Mas é graça que não se despreza, que não deixa as pessoas indiferentes às mil e uma dores humanas. A fé vem pela revelação de Deus. A revelação de Deus é fundamental para percebermos quem é Deus, o que ele faz e o que ele espera do seu povo. 4.2.2 – Jesus é divino, a imagem exata do Pai. Superior a todos os seres na terra, no céu e debaixo da terra. 4.2.3 – Deus, em Jesus, é humano. Está presente, cuidando, amando e fortalecendo nas lutas diárias, em que o povo passa por dificuldades. A comunidade não está sozinha, pois Deus está aqui, na igreja e na vida de cada dia e noite de cada pessoa. 4.2.4 – Viver a fé na gratuidade significa vida e salvação. Desprezá-la significa morte e condenação.
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Subsídios litúrgicos
Saudação Senhor, quem acreditou em nossa pregação? E, assim, a fé vem pelo ouvir a pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo (Rm 10.16b-17). Oração do dia Deus, tira de nós os embrulhos dos ouvidos, que atrapalham o nosso ouvir com atenção à pregação da tua palavra. Tira de nós as teias de aranha de nosso coração e mente, que prejudicam a nossa percepção e assimilação da tua palavra. Tira de nós o véu de nossos olhos, que não querem ver o clamor de teu povo. Desamarra as correntes de nossos pés e mãos, que impedem que assumamos compromissos com as pessoas para as quais muitas coisas saem erradas na vida. Tira de nós as rugas da racionalidade e da afetividade, que impedem legitimar a encarnação de tua palavra na realidade humana. Livres, libertados, agora fala conosco, Senhor, por tua palavra revelada. Vem e permaneça conosco, Deus. Antes das leituras bíblicas Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé (Rm 1.17).
Bibliografia LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. MARKUS, Cledes. 19º Domingo Após Pentecostes. HOEFELMANN,Verner (coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo, RS: IEPG, Sinodal, 2014. p. 299-304, v. 39. A CARTA AOS HEBREUS. Disponível em: <http://www.capuchinhos.org/biblia/index.php?title=Carta_aos_Hebreus, acessado em 29/05/2015>. Acesso em: 20 jun. 2015.
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PRÉDICA: LUCAS 17.11-19 2 REIS 5.1-3,7-15c 2 TIMÓTEO 2.8-15
21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
09 OUT 2016
Nádia Cristiane Engler Becker
Gratidão é demonstração de fé!
1
Introdução
Fritz Rienecker afirma em seu comentário ao Evangelho de Lucas: Cabe maravilhar-se de duas coisas: o persistente amor de Deus apesar da ingratidão dos humanos e a persistente ingratidão dos humanos apesar do amor de Deus (p. 233). A graça e o amor incondicional de Deus, a busca pelo auxílio divino e a (in) gratidão são centrais no texto do Antigo Testamento e também no evangelho. 2 Reis 5.1-3,7-15c relata a cura de Naamã, homem poderoso, comandante do exército sírio, herói de guerra, porém leproso. Por intermédio de uma menina escrava toma conhecimento do profeta Eliseu e vai em busca da cura. Num primeiro momento, decepciona-se e se indigna, pois não é recebido com a pompa e a honra da qual se considera merecedor. Eliseu nem mesmo sai para recebê-lo. Envia apenas um mensageiro com a ordem de que deve ir lavar-se no rio. Após a intercessão de pessoas próximas, Naamã vence o orgulho e obedece à ordem de Eliseu, sendo, desse modo, curado. A cura faz com que Naamã: 1) confesse publicamente o senhorio do Deus de Israel; e 2) queira agradecer-lhe/retribuir-lhe. Lucas 17.11-19 traz a história de dez leprosos que buscam Jesus para ser curados. À semelhança de Eliseu, Jesus não vai ao encontro dos homens; apenas ordena que eles se dirijam ao sacerdote para o ritual de purificação. Os homens obedecem, e ao perceber que foram curados, nove seguem seu caminho e apenas um volta para agradecer. A gratidão é acolhida por Jesus como sinal de fé. E revela que salvação acontece onde há gratidão: “... tua fé te salvou”.
2
Considerações exegéticas
Jesus estava de passagem pela divisa das províncias da Samaria e Galileia. Seu destino era Jerusalém. A fama de Jesus o precedia. Talvez menos seus ensinamentos e mais seu poder de curar e realizar milagres. Tanto que perto de uma aldeia vieram ao seu encontro dez homens. O sofrimento havia unido suas vidas. O texto não diz explicitamente, mas dá a entender que nove eram judeus e um era samaritano. Homens de povos que, historicamente, não se relacionavam bem, amargavam juntos a mesma dor: estavam doentes de lepra. Lepra era uma doença caracterizada por manchas brancas, inchaço e tumores na pele. A pessoa acometida de lepra era forçada a retirar-se do convívio social e morar longe das pessoas, geralmente fora dos muros das cidades. Eis o
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motivo pelo qual os dez perambulavam pela divisa das províncias. A lei ordenava que, quando uma pessoa doente de lepra se aproximasse de alguém, de longe deveria gritar: “Imundo, imundo!”, reforçando assim seu estigma. Para Jesus, no entanto, eles gritam pedindo socorro: “Jesus, Mestre, compadece-te de nós!”. De longe eles pedem ajuda. São solidários uns com os outros. Não intercedem apenas por si e pela cura individual. Sentem, literalmente na pele, o drama um do outro e, por isso, colocam-se juntos a clamar pela misericórdia de Jesus. Jesus não se move em direção a eles. Não há diálogo entre os dez e Jesus. Mas ele os vê. E assim, a distância, dá uma ordem, como que testando a fé dos dez no seu poder de curar. Sem examiná-los, sem tocá-los, Jesus ordena que eles devem ir e se apresentar ao sacerdote. Segundo Levítico 14.1-32, o sacerdote era responsável por examinar a pessoa e verificar se ela estava realmente curada e, depois de ordenar o ritual de purificação, declarar que a pessoa estava apta para retornar à vida social e cultual. Jesus tem poder e poderia ter dito uma palavra e reestabelecido de pronto a saúde dos dez. Ao invés disso, ele dá uma ordem. Os dez não questionam, eles obedecem. A obediência à ordem recebida revela que, mesmo sem Jesus ter prometido ou afirmado que eles seriam curados caso fossem até o sacerdote, eles confiavam que assim aconteceria. Jesus não condiciona a cura à obediência ou à gratidão. Mas acolhe ambas como atitudes de fé. Ele espera que a confiança seja explicitada na obediência às suas palavras. Os nove judeus talvez considerassem a cura como algo natural e seguiram sua caminhada até o sacerdote. O décimo, um samaritano, tomado pelo sentimento de não ser digno, entendeu a cura como dádiva graciosa de Deus e sentiu-se impelido a agradecer. E a gratidão não pode esperar. Ele não retorna apenas depois de ter sido declarado puro/curado pelo sacerdote. Seu retorno acontece no momento exato em que ele se percebe curado das chagas que cobriam sua pele. Jesus não esconde sua surpresa e sua decepção. Pergunta pelos outros nove. Eles não tinham motivos para dar glórias a Deus, apenas o estrangeiro? Surpreendeu a Jesus e certamente também aos discípulos que a adoração e o gesto de gratidão vieram de onde não se esperava. Vieram do samaritano. Judeus acreditavam que nada de bom poderia vir de Samaria. E aqui o gesto desse homem desbanca todos os preconceitos e de quebra ainda questiona a suposta superioridade da religiosidade judaica. Manfredo Siegle comenta que, ao lado de um já conhecido “bom samaritano”, temos agora um “samaritano agradecido”. Jesus acolhe a gratidão do homem e diz: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou (v. 19). Aqui Jesus fala em salvação. Até o momento, o assunto era cura física. Os nove acreditaram que Jesus tinha poder para salvá-los do sofrimento causado pela lepra. O samaritano assimilou que o poder de salvação de Jesus estava muito além da cura externa. Compreendeu que Jesus podia restaurar integralmente, concedendo perdão, nova vida e salvação eterna.
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Meditação
3.1 – No texto bíblico, o sofrimento enfrentado pelos dez está relacionado à doença física, mas também ao isolamento e à exclusão da vida social e religiosa. Salta aos olhos que a desgraça é capaz de estabelecer comunhão entre pessoas separadas, até hostis entre si. Judeus e samaritanos mantinham uma inimizade histórica entre si. De repente, a doença une seus caminhos, e os leprosos judeus passam a conviver com o samaritano em seu grupo. Ajudam-se mutuamente, são solidários e intercedem uns pelos outros. Depois de ser curado, cada um deles segue o seu caminho. A desgraça, a doença, o sofrimento permanecem unindo a vida de pessoas. Basta pensar em quantas amizades surgem em leitos de hospital e em filas de espera para tratamentos de saúde. A solidariedade, a intercessão e a ajuda mútua acontecem quase que naturalmente enquanto a dor é partilhada. Cessado o sofrimento, em muitos casos as pessoas nunca mais se encontram. Mas foram importantes uma para a outra num momento de aflição. 3.2 – Evidente também em ambos os textos é a dialética entre obediência e cura, merecimento e graça. Uma dialética perigosa. Numa olhada superficial, poderíamos compreender que as curas ocorreram porque existiu obediência. É verdade, a obediência é esperada de toda pessoa cristã. Assim afirma Hebreus 5.8-9: [Jesus] embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem... Porém não se pode esquecer que mesmo a capacidade de obedecer à palavra de Deus é fruto de seu agir gracioso em nós. Porque ele age, nós podemos reagir. E não o contrário. E por mais que sejamos obedientes, nunca seremos merecedores da graça divina. É dessa compreensão que nasce a gratidão da qual o samaritano estava cheio. O amor incondicional de Deus revela-se na compaixão demonstrada por Jesus pelos dez leprosos. Sua ação não se limita a uma religião, a um povo ou raça. A graça é de graça e para todas as pessoas. Isso se evidencia no fato de que a cura não foi retirada após a falta de demonstração de gratidão dos nove. A graça e a misericórdia divinas não se deixam limitar ou orientar pela ação humana. Ainda assim, o gesto de gratidão é interpretado por Jesus como demonstração de fé. E essa é fundamental para a salvação. 3.3 – Buscar a Deus na ânsia de ter seus pedidos atendidos e suas necessidades sanadas ainda está muito em voga. Na mesma proporção parece que a gratidão e a obediência à sua palavra seguem em baixa. No texto, os dez homens procuraram Jesus para ser curados da lepra, uma doença muito comum na época. Hoje talvez fosse necessário procurar Jesus e pedir por cura para outra doença, também muito comum: a ingratidão.
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Como nós somos? Somos gratos? Se refletirmos nossa vida e compararmos com a história dos dez leprosos, com quem nós nos parecemos: com os nove ou com o samaritano? A tendência é que a maioria se identifique com o samaritano. Não reconhecer os próprios pecados é da natureza humana. O central nesse texto é a incondicionalidade do amor de Deus e a pergunta pela gratidão, pelo reconhecimento humano. É interessante convidar a comunidade para fazer um “teste”. Perguntar quem já orou pedindo alimento, água, ar, casa, cama, saúde, trabalho... Quem já orou pedindo por seus olhos, ouvidos, voz, por seus pés, pernas, por seu cérebro?... Depois de cada pergunta, o convite para a reflexão: já agradeceu por isso? Com quem nós nos parecemos: com os nove ou com aquele um? Os nove compreenderam a cura como algo natural. Jesus tinha poder, podia curá-los. Eles pediram, foram atendidos e seguiram seus caminhos. Muitas coisas parecem naturais em nossa vida, e muitas vezes nem nos damos conta de que são uma grande bênção. Ver, ouvir, falar, andar, pensar, ter saúde, ter comida, ter um lugar para morar e tantas outras coisas não são naturais... São bênçãos, dádivas que recebemos da bondosa mão de Deus. E quantas vezes nós fazemos ainda mais “feio” do que os nove, pois não oramos nem para pedir, muito menos para agradecer. Por outro lado, Deus é tão maravilhoso, que, mesmo sem a gente pedir ou agradecer, ele continua cuidando de nós e concedendo-nos todo o necessário pelo simples fato de saber que nós precisamos disso. Isso é graça imerecida, generosa, amorosa, que não tem nada a ver com uma autoimagem distorcida de que somos obedientes e gratos.
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Imagens para a prédica
Uma imagem interessante é trazida por Emílio Voigt no livro Jesus de Nazaré, no capítulo sobre Doença e Cura. Voigt afirma que a “fé aparece como um elemento fundamental nos relatos de cura no Novo Testamento (Mt 8.10; 9.29; 15.28; Mc 2.5; 5.34; 10.52; Lc 17.19). Fé significa aqui a confiança na possibilidade de cura. A própria ida de pessoas doentes ou de seus familiares a Jesus indica que elas confiavam que ele tinha poder para curar. Algumas pessoas viam em Jesus apenas um grande curandeiro. Pessoas buscam um médico quando estão doentes. Depois da cura, não precisam mais dele. Isso pode ter acontecido com pessoas que foram até Jesus. Elas ouviram falar das suas curas, mas não ouviram falar da sua mensagem. Por isso não seguiram Jesus, assim como não precisariam seguir um médico”.
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Subsídios litúrgicos
Acolhida Vivemos rodeados da bênção de Deus, e não nos damos conta disso. (Martim Lutero)
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Confissão de pecados Disse eu: Compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma, porque pequei contra ti (Sl 41.4). Deus amoroso, aqui estamos de mãos vazias. Trazemos nossa ingratidão e nosso orgulho, que não nos deixam reconhecer que somos em tudo dependentes de ti. Confessamos que te buscamos muitas vezes apenas na ânsia de ter nossos desejos atendidos. Pensamos ser gratos e em tudo obedientes à tua palavra. Muitas vezes, olhamos a vida e tudo o que temos para mantê-la como coisas naturais, não reconhecendo que são dádivas de tuas graciosas mãos. Estamos cercados pelas tuas bênçãos e não nos damos conta disso. A nossa fé é fraca, nossa gratidão é pequena. Não conseguimos assimilar o que significam a graça, o perdão e a vida plena que tu nos concedes por meio de Jesus. Por tudo isso: Compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma, porque pequei contra ti. Amém. Anúncio da graça Jesus Cristo diz: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou. (Lc 17.19) Oração do dia (Se existir a possibilidade de uso de datashow, usar uma imagem para cada motivo de gratidão. Outra possibilidade é fazer gestos e incluir pessoas na apresentação de símbolos). A gratidão é acolhida por Jesus como expressão de fé. Agradeçamos a Deus por coisas simples, mas tão importantes que Deus nos dá: Obrigado, Senhor, pelos nossos olhos e por podermos enxergar! Obrigado, Senhor, pelos nossos ouvidos e por podermos escutar! Obrigado, Senhor, pela nossa voz e por podermos falar, cantar e consolar! Obrigado, Senhor, pelas nossas mãos e por podermos tocar, trabalhar, ajudar! Obrigado, Senhor, pelos nossos pés e por podermos caminhar! Obrigado Senhor, pelos nossos pulmões e pelo ar que tu nos dás! Obrigado Senhor, pelos nossos estômagos e por termos comida e por podermos comer! Obrigado, Senhor, pela nossa casa e por termos uma cama para repousar! Comunidade: Agradecemos-te, Deus gracioso, pela vida e pelo privilégio de ter todas as coisas de que necessitamos. Oramos para que nossos semelhantes tenham vida em abundância como nós temos! Amém. Na sequência, podem ser cantados hinos de gratidão (Obrigado, Pai celeste; Graças, Senhor, eu rendo; entre outros hinos do HPD). Costura para a oração de intercessões Mesmo tendo diferenças históricas que os separavam, os dez leprosos foram solidários uns com a dor dos outros. Uniram suas vozes e clamaram: Jesus, Mestre, compadece-te de nós! Unamos as nossas vozes e clamemos solidariamente!
Bibliografia RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005.
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22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
16 OUT 2016
PRÉDICA: 2 TIMÓTEO 3.14-4.5 GÊNESIS 32.22-31 LUCAS 18.1-18
Guilherme Lieven
Pregar o evangelho em meio à crise
1
Introdução
O texto indicado para a prédica no 22º Domingo após Pentecostes, 2 Timóteo 3.14-4.5, permite uma valorosa mensagem para as comunidades cristãs. Quando as primeiras comunidades cristãs procuraram estruturar-se como igreja de Jesus Cristo, foram necessárias perseverança, fidelidade e dedicação na divulgação do evangelho, além de discernimento entre o que ameaça e o que fortalece a comunidade. Em nosso tempo, a mesma mensagem convida-nos para o compromisso e a fidelidade na proclamação do evangelho e da ação salvífica de Jesus Cristo. Na liturgia da palavra, a prédica será precedida da leitura de Gênesis 32. 22-31 e Lucas 18.1-18. A palavra em Gênesis comunica que nem tudo deu certo para Jacó. Mesmo que tenha recebido a bênção de Deus após a luta, sofreu um golpe, foi marcado e ficou manco. O texto e seu contexto apresentam um Jacó líder, perseverante, destemido, que usa a sua força e sabedoria para alcançar seus objetivos. Jacó viu Deus face a face, sobreviveu e permaneceu fiel a ele. É instigante nesse texto a visão do Deus que se revela a Jacó na luta e na bênção. Em Lucas 18.1-18, ouvimos que Deus atende nossas orações, mas nem sempre conforme nossas vontades, exigências e esperanças. A mensagem do texto ensina a perseverança e a determinação na busca dos objetivos. Inspira a atitude de colocar-se sempre em movimento. Porque Deus atende, ouve e, segundo a sua misericórdia e vontade, revela sua bênção. Podemos preparar uma celebração e a mensagem no 22º Domingo após Pentecostes, permitindo que 2 Timóteo 3.14-4.5 conduza-nos e aponte o foco do serviço litúrgico, da proclamação e das reflexões.
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Exegese
Os cristãos de Éfeso enfrentavam dificuldades. Conforme a Segunda Carta de Paulo a Timóteo, conviviam com falsas doutrinas, falsos ensinos sobre a ressurreição (2.18), fábulas e mitos. E nessa situação Timóteo é chamado e incentivado a pregar em meio à crise, a ser persistente, fiel, justo, qualificado para toda a obra, em especial para proclamar o evangelho a partir de sua fé em Jesus Cristo. Timóteo nasceu em Listra na província da Galácia ou Gália da Ásia. Seu pai era grego e sua mãe judia, que se tornou cristã. Quando Paulo o encontrou, já
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era um discípulo dos apóstolos. Conhecia as Escrituras, os decretos dos apóstolos (At 16.4). Estudou sob a orientação de sua avó Loide e sua mãe Eunice (2Tm 1.5) e de Paulo aprendeu do evangelho. Timóteo participou das viagens missionárias de Paulo e da formação e do fortalecimento das primeiras comunidades cristãs. Foi um líder cristão, reconhecido em sua época. Pode ter sido o primeiro bispo de Éfeso. Era um jovem, líder da igreja, que recebeu a missão de pregar e ensinar numa comunidade em conflito. 3.14 – Timóteo é chamado para retomar os fundamentos de seu aprendizado, que teve origem anterior à crise instalada. Permanecer firme no que aprendeu. O de quem, na Vulgata aparece a variação de que mestres. E, certamente, refere-se à sua avó, à sua mãe e Paulo. 3.15 – As sagradas letras são os livros dos profetas e outros da tradição judaica. Também é traduzida por Escrituras Sagradas. Desde criança, Timóteo conheceu os livros sagrados da tradição judaica. O conhecimento de Timóteo das letras sagradas, com a fé em Jesus Cristo, conferiu-lhe a sabedoria para comunicar a palavra que tem o poder da salvação. 3.16 – Toda Escritura, inspirada por Deus, serve, é útil para ensinar a verdade, corrigir falhas e definir a maneira correta de viver. Os apóstolos ensinavam que as “Escrituras Sagradas”, as mensagens dos profetas, foram inspiradas pelo Espírito Santo e guiadas por Deus (2Pe 1.21). Timóteo é convencido de que a partir das Escrituras Sagradas, com a sua fé em Jesus Cristo, está pronto para ensinar a verdade, corrigir e discernir a maneira justa para as pessoas viverem. Ou, conforme outra tradução: Para educar na justiça. 3.17 – Para que o homem de Deus, ou em outra tradução, a melhor: O servo de Deus seja perfeito, preparado para servir, para boa a obra. O servir a Deus está relacionado com a maneira justa de viver. 4.1 – É uma admoestação diante, em nome de Deus e de Jesus Cristo e da sua obra de salvação que se completará. Tem a conotação de um ritual de confissão de fé, certamente já praticado nas comunidades. 4.2 – Pregar, insistir, admoestar, advertir, reprovar, aconselhar com paciência e ensino (com didática) são definições da tarefa, o ministério, transferido a Timóteo. 4.3 – Chegará o tempo em que não suportarão a sã doutrina. Conforme 1 Timóteo 6.3, a sã doutrina está relacionada com as palavras de Jesus Cristo, transmitidas pelo ensino com piedade. A sã doutrina não se baseia em preceitos das pessoas ou de seus costumes (Mc 7.7), mas naquela advogada pelo apóstolo Paulo, a boa-nova da graça de Deus (At 20.24). A doutrina de Jesus é a de quem o enviou, procede de Deus (Jo 7.16). A multidão ficou maravilhada com a doutrina que Jesus proferiu no monte (Mt 7.28). Encontramos a sã doutrina nos ensinamentos e na ação salvífica de Jesus. ... Mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos. Certamente esse é o conflito principal nas comunidades cristãs. Outra doutrina, ou ensinamentos, ou “verdades diferentes e contraditórias”, que agradam e encantam estão sendo ensinadas nas comunidades.
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4.4 – Desviarão os ouvidos da verdade. Está em questão a negação do conteúdo da fé, dos ensinamentos dos apóstolos e da sã doutrina de Jesus Cristo. ... Entregavam-se às fábulas. As fábulas religiosas daquele tempo pertenciam à tradição oral. De origem oriental, os gregos e romanos usavam-nas para sedimentar verdades sobre a alma, a natureza humana, os costumes e criar novas tradições, contrárias à verdade do evangelho. 4.5 – Tu, porém... Retoma a admoestação. Reafirma o pedido a Timóteo para que desempenhe a sua tarefa de pregar, insistir, admoestar, advertir, reprovar, aconselhar. ...sê sóbrio em tudo, suporta o sofrimento, faz o trabalho de um anunciador do Evangelho. Aconselha e aponta para as consequências da fidelidade aos ensinamentos dos profetas e apóstolos e ao chamado para anunciar a sã doutrina de Jesus Cristo. O conteúdo dos v. 3.14 a 4.1 prepara a definição da tarefa a ser assumida por Timóteo e destaca o seu currículo. Ele tem sabedoria, é justo, crê em Jesus Cristo, conhece as Sagradas Escrituras inspiradas por Deus, tem a confiança dos apóstolos. Está preparado para o ministério, para combater o bom combate. Portanto sua tarefa é proclamar a boa-nova do evangelho, a sã doutrina de Jesus Cristo, admoestar, insistir, aconselhar, fazendo isso com sobriedade, paciência e didática. 4.3-5 – Antecipam uma análise das consequências da ação em meio à oposição e aos opositores. Faz uma leitura do desafio. Renova a admoestação para desempenhar com zelo a tarefa e confirma o seu preparo e a sua fidelidade à sã doutrina, requisitos que garantem legitimidade para o seu ministério. Observo, ainda, que o texto indica um traço hermenêutico a ser adotado por Timóteo, qual seja: comunicar a palavra, inspirada por Deus, a partir da sua fé em Jesus Cristo, da sua fé na ressurreição de Jesus. O conhecimento do evangelho e da Sagrada Escritura ao passar pelo centro da fé, Jesus Cristo, leva à verdade e à salvação. A fé em Jesus Cristo, os seus ensinamentos e a sua ação salvadora, somados a sabedoria, paciência, didática e fidelidade, auxiliam na interpretação da sã pregação e no discernimento da verdade.
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Meditação
A nossa realidade é conflituosa. As comunidades cristãs formam-se e vivem a fé em Jesus Cristo em contextos de disputas e sofrimentos, vazios de certezas e de valores que assegurem justiça, caminhos, esperanças, sonhos, objetivos e horizontes novos. Os conteúdos da fé cristã, o evangelho e a vivência da fé em Jesus Cristo transitam na contramão do fluxo principal e imponente da sociedade. Não é estranha a percepção de que as comunidades fiéis ao evangelho enxugam gelo. Sua incidência humana, evangelizadora e missionária encontra-se invisível e, numa leitura racional, sem efeito. Assim como no tempo do chamado a Timóteo, em nosso tempo faz-se necessário perseverar na proclamação e na vivência da fé em Jesus Cristo para contrapor à crise. A realidade exige constante busca pelo discernimento entre o que ameaça e o que fortalece a comunidade na vivência da fé e em sua missão. A Bíblia, a
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palavra de Deus, está perdendo a sua autoridade. Seu conteúdo e sua mensagem seguem diluídos em discursos, ritos e práticas religiosas não menos contraditórias e conflituosas, que legitimam um modo de vida que nega o evangelho. Em outro viés, comunicam verdades teológicas e interpretações bíblicas que representam, ou estão a serviço, de segmentos e movimentos cristãos, geralmente autoritários, fundamentalistas, que incidem na sociedade, legitimando disputas, exclusão e injustiças. O cenário é desolador. A pessoa, a sua dignidade religiosa, seus direitos fundamentais estão cada vez mais comprometidos. Nessa crise, em meio à pluralidade de interesses religiosos, políticos, econômicos num palco hedonista, a palavra é manipulada e transformada em instrumento para legitimar fábulas, conteúdos de autoajuda e sistemas de desvirtuamento dos fins da estrutura social, com poder adulterador de valores comunitários e individuais que estão na contramão da vontade de Deus. Nesse contexto, os fracos são incitados a eleger inimigos entre si e a abandonar o espelho, mesmo que turvo, para não ver a si mesmos, sua história, seus valores e sentido e, consequentemente, os sistemas que os escravizam e matam. Esses são traços da atual perigosa crise, que reside também nas comunidades cristãs. Nesse contexto e situação em conflito, as comunidades cristãs são chamadas para se fortalecer, caminhar na contramão, enxugar gelo e proclamar a boa-nova do evangelho, a sã doutrina de Jesus Cristo, admoestar, insistir, aconselhar. Inserir-se na crise com coragem, humildade, sobriedade, paciência e didática. Em outra época, em realidade semelhante no século XVI, a reforma da igreja cristã, protagonizada por Martim Lutero, deu testemunho histórico da busca pelo retorno da sã doutrina de Jesus à boa-nova da graça de Deus. Martim Lutero afirmou: ... nossa doutrina e conduta não se baseiam em nós mesmos, e o que fazemos não por causa de nós, e sim, por causa de Cristo, o Senhor, de quem nos vêm todas as coisas e por cuja vontade pregamos, vivemos e sofremos. O movimento da Reforma moveu-se em direção ao retorno à palavra, à fé em Jesus Cristo e à cristologia. Necessitou da reelaboração da teologia da cruz, da justificação, da escatologia, da mediação e sacerdócio, também dos fundamentos da eclesiologia e da defesa da hermenêutica, cuja chave passou a ser Jesus Cristo, o próprio Cristo de Deus. Para Martim Lutero, toda a Bíblia deve ser interpretada a partir de Jesus Cristo, visando ao próprio Cristo. A comunidade cristã, chamada para dar testemunho do evangelho, está inserida na realidade conflituosa em que as multidões estão vazias de sentido e descomprometidas com a dignidade humana e justiça. A comunidade cristã acolhe as pessoas que conhecem as Escrituras e são fiéis à fé em Jesus Cristo e, simultaneamente, simpatizam com conteúdos que ajudam a viver e a abstrair vantagens no movimento expressivo e visível da sociedade em crise, onde as Escrituras Sagradas são úteis desde que não exijam compromisso, vínculos, comunhão, justiça e seguimento à ação salvadora de Deus em Jesus Cristo. Esse é o contexto da pregação do evangelho em atendimento ao chamado expresso em 2 Timóteo 4.14-4.5.
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Imagens para a prédica
Sugiro incluir na pregação a imagem de trafegar na contramão. Chamar a atenção dos e das ouvintes de que viver o evangelho coloca a comunidade na contramão do fluxo maior da sociedade, da realidade e do contexto. Pode-se também usar a imagem do “secar gelo”, que corresponde ao insistir em pregar e viver o evangelho e não ver mudanças, mesmo com a fé na ação livre do Espírito Santo. Sem a pretensão de dar uma aula sobre conhecimentos bíblicos, também seria importante solicitar a um grupo ou pessoa da comunidade para construir uma caixa em forma de Bíblia, semelhante a uma Bíblia. Mostrar aos ouvintes uma “bíblia vazia” em comparação à Bíblia com seus livros, que contêm a palavra de Deus. Essa dinâmica ajuda na pregação quando se abordar a questão da sã Escritura que ilumina a verdade, interpretada a partir da concepção de que Jesus Cristo é o centro da palavra. Considero de grande importância incluir na pregação a dimensão individual do chamado a Timóteo, nesse caso à liderança, e simultaneamente a dimensão comunitária da vivência da fé e pregação do evangelho. Apresentar a comunidade como um corpo que se move ou a igreja de Jesus Cristo, visível e invisível, inserida na sociedade conflituosa. Deve-se evitar uma pregação que não identifica o conteúdo do evangelho, da ação salvífica de Deus em Jesus Cristo. 2 Timóteo 4.14-4.5 exige uma síntese dos valores, das dádivas, da ação de amor de Deus presentes na realidade conflituosa, em que as comunidades cristãs movem-se na contramão.
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Subsídios litúrgicos
A celebração pode iniciar com um hino de exaltação ao amor de Deus. Ajudaria muito colocar próximo ao altar um grupo para puxar vários panos em direção contrária, para simbolizar um conflito, uma disputa. E sem se referir à cena, fazer a saudação trinitária. A cena ajudará a comunicar o Deus de amor, que está presente na realidade em crise, conflituosa. Incluir na confissão de pecados a tentação de viver e cultivar valores e ideias, acríticos à realidade controlada por poderes e valores, conteúdos, vozes e imagens que confundem e subvertem a verdade da salvação de Deus. Pedir perdão pela falta de fidelidade e coragem para mover-se na contramão do fluxo da sociedade violenta, vazia de valores da paz e da justiça. No Kyrie, rogar pelos fracos escravizados pela manipulação da interpretação e pregação da palavra de Deus e dos conteúdos do evangelho. Rogar pelas multidões que caminham sem rumo, vazias de esperança e fé no verdadeiro evangelho de Jesus cristo. Na oração do dia, referir-se ao contexto da comunidade, à sua fraqueza, à necessidade da proclamação do evangelho para movimentar-se e dar testemunho do amor, da presença e salvação de Deus.
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Fazer as três leituras bíblicas. No momento das leituras, poder-se-ia avaliar a importância de colocar uma pessoa da comunidade nas imediações do altar com aquela caixa em forma de Bíblia nas mãos, encenando uma leitura. A bênção e o envio precisam contemplar o desafio de retornar para casa e para o dia a dia fortalecido para viver a fé em Jesus Cristo, mesmo que não será fácil manter-se fiel ao evangelho e dar testemunho de sua fé.
Bibliografia BAYER. Oswald. A teologia de Martim Lutero. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007. MERKEL. H. Die Pastoralbriefe. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1991.
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PRÉDICA: JEREMIAS 14.7-10,19-22 23 OUT 2016 LUCAS 18.9-14 2 TIMÓTEO 4.6-8,16-18
Evandro Meurer
Deus castiga? Não! Deus convida à ética!
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Introdução
O texto de pregação já foi contemplado em 2013 (PL 37). O colega Musskopf apresenta como escopo da mensagem a “humildade ativa”. Naquela oportunidade, as leituras complementares eram as mesmas, bem como o tempo eclesiástico: 23º Domingo após Pentecostes, a uma semana da comemoração da Reforma. O profeta tem a tarefa de explicar ao povo de Judá o porquê de tamanha seca (14.1) que os assola: “Deus não está satisfeito com eles” (14.10). E mesmo diante do clamor do povo (14.7-9, 19-22) Jeremias deve anunciar que Deus está irredutível na decisão de “os castigar por causa dos seus pecados”, “mesmo que jejuem e orem” (14.12), ainda que “confessem os seus pecados” (14.20). O Mestre conta uma parábola “para os que achavam que eram muito bons e desprezavam os outros” (Lc 18.1). A conclusão de Jesus (v.14) é que “quem se engrandece será humilhado, e quem se humilha será engrandecido”. O apóstolo orienta Timóteo (2Tm 4.6-8,16-18) a dar conselhos aos irmãos na fé no sentido de “não terem nada a ver com as lendas pagãs e tolas” (v. 7). Paulo adverte que o jovem apóstolo “cuide de si mesmo e tenha cuidado com o que ensina” (v. 16). O profeta anuncia que a mudança virá só pelo “corretivo” divino (v. 10). O Mestre ilustra que a paz chegará àquele que se humilha (v. 14). O apóstolo aposta em “exercícios espirituais” (v. 7). O foco não está no “castigo” divino, mas no “agir” ético esperado e desejado por Deus.
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Exegese
O profeta Jeremias viveu numa época perigosa e turbulenta. Sua tarefa não era fácil. Foi até ameaçado de morte (26.8) por profetizar a “vinda do norte de uma panela fervendo e se derramando para o lado de Judá” (1.13). Tinha de anunciar a desolação de Jerusalém. O período abrangido pelo livro de Jeremias é de 67 anos (647-580 a.C.): de seu chamado (Jr 1) até a destruição do templo de Jerusalém e o exílio babilônico (Jr 52), passando pela profecia, denúncia/anúncio da “maldade” humana e o “castigo” divino (14.10).
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Conforme estruturações habituais “de cunho escatológico”, a perícope está inserida na primeira parte do livro (Jr 1-25): “ditos e profecias de desgraça contra o próprio povo” (SCHMIDT, p. 226). O capítulo 14 está incluso em sua segunda fase de atuação: durante o reinado de Jeoaquim (Jr 7-20). Jeremias toma a palavra, proferindo discurso contra o povo de Judá e o templo em Jerusalém (SCHMIDT, p. 230). Os dois trechos (14.7-10 e 14.19-22) apresentam o mesmo enfoque: a tentativa do povo em reverter a decisão já anunciada por Deus por meio do profeta; o apelo desesperado do povo em implorar a compaixão divina. Nesse “diálogo com Deus – em forma de lamentação” (SCHMIDT, p. 233), um recurso de linguagem que ocupa amplo espaço no livro de Jeremias, o profeta expressa sentimentos de tristeza e dor (v. 19) e até revolta contra a decisão de Deus (20.7ss), além do desejo do povo por misericórdia (v. 7) e manifestação de seu poder transformador (v. 22). Eis o diálogo presente no capítulo 14 (os textos que não fazem parte da perícope estão entre parênteses). (14.1-7 = Deus fala para Jeremias a respeito da seca) 14.7-9 = O povo fala para Deus 14.10 = Deus fala para Jeremias a respeito do povo (14.11-12 = Deus fala para Jeremias) (14.13 = Jeremias fala para Deus) (14.14-16 = Deus responde para Jeremias) (14.17-18 = Jeremias fala para o povo) 14.19,21-22 = O povo fala para Deus O que o povo fala para Deus? (entre parênteses a tradução de Almeida/ após a barra em itálico o termo em alemão, cf. Züriche Bibel) 1) O povo reconhece (v. 7a) os seus “pecados” (maldades) e admite que a própria vida e os seus atos os “acusam” (testificam/uns zeugen); que “muitas vezes” afastou-se de Deus (as rebeldias multiplicaram-se/oft sind wir treulos gewesen) e admite que tem pecado contra Deus. O povo confessa (conhece/erkennen) os seus pecados (maldades/Frevel) e o pecado (iniquidade) de seus antepassados (v. 20). 2) O povo pede (v. 7b) por ajuda (age por amor do teu nome). E exclama, quem sabe clama, grita, já desesperadamente (v. 9b.): “Não nos abandones!”(não nos desampares/verlass uns nicht!). Manifesta (v. 19b) sua expectativa de paz e cura (wir harren auf Glück... auf eine Zeit der Heilung). Pede (v. 21) para que Deus não os despreze, mas lembre de suas promessas; que não esqueça (não anule/bricht ihn nicht!) a sua aliança e não desista deles. Poupe o povo, a cidade – Jerusalém e o Templo. 3) O povo questiona (v. 8b) a ausência de Deus. Sente-o como um estrangeiro, viajante, ou poderíamos dizer “turista” (um Deus viandante que se desvia para passar a noite/Wanderer). Questiona sua presença (v. 9a) fraca, tal qual um soldado (valente) cansado e pego de surpresa, sem “força para defender (salvar) os outros”. O povo pergunta (v. 19a) o porquê dessa “rejeição completa”. Por que
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os “detestar” tanto (aborrecer a alma)? Por que tamanhos “ferimentos”? (Warum hast du uns so geschlagen?) Por que não a “cura”, a cicatrização, o perdão? 4) O povo testemunha seu conhecimento de que Deus (v. 8a) é a única esperança, o único salvador (Ó Esperança de Israel e Redentor seu no tempo de angústia). Reconhece (v. 9b) a presença de Deus e sua eleição (somos chamados pelo teu nome/deine Namen tragen wir). Testifica sua fé no poder do único Deus Criador, que inclusive “pode fazer chover” e no qual eles têm posto a sua esperança (v. 22). O que Deus fala a respeito do povo (v. 10)? 1) “Não estou satisfeito com eles” (o SENHOR não se agrada deles/hat kein Gefallen nach ihnen). 2) Eles “gostam de andar por aí” (errantes) e “não sabem se controlar” (não detêm os pés/ihre Füsse schonen sie nicht). 3) Vou “lembrar as maldades” (Verschuldung) e “castigar (punir/heimsuchen) os pecados” deles. O que precisamos pinçar em outro contexto é o porquê de tamanha irredutibilidade, o porquê dessa insatisfação, o porquê do anúncio desse castigo. Por que, afinal, diante de tanto reconhecimento, pedido, questionamento, clamor e testemunho, Deus não se dobra, não revê sua decisão, não “escuta o clamor do seu povo”, como é de seu feitio divino? Que “maldades” (v. 10), afinal, são essas que, cometidas pelo povo, escapam da misericórdia divina e fazem o povo ser preparado e prevenido a viver um tempo sem terra, sem rei e sem templo? (CHARPENTIER, p. 99). G. FOHRER (História da Religião de Israel) resume a resposta assim: Jeremias viu os pecados de seu tempo, os quais atacou na esfera política, cultual e ética. As passagens de 2.18; 2.23-25; 6.20; 5.1-13 ilustram e ratificam isso. A situação do povo é de completa alienação de Javé (6.13-14). Não faltam denúncias sociais (5.1s,26ss; 22.13ss) e de transgressão ao Decálogo (7.9). Jeremias resume com uma figura de linguagem (muito propícia em tempos de seca) em dois pecados: “Eles abandonaram a mim, a fonte de água fresca, e cavaram cisternas, cisternas rachadas que deixaram vazar a água da chuva” (2.13). Procurava-se em vão, nos becos e praças de Jerusalém, “alguém que faça o que é direito e que procure ser fiel em tudo” (5.1).
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Meditação
Deus castiga? Não! Na reflexão sobre o texto, o que mais inquieta qualquer cristão e pregador ciente da “justificação pela graça” é entender e aceitar esse agir punidor irreversível de Deus. Na profecia de Jeremias não há mais chance para Judá. A paciência de Deus chegou ao fim para com Jerusalém. Aliam-se a isso os conhecidos ditados populares: Quebrou, pagou! / Bobeou, levou! / Aqui se faz, aqui se paga. E o mais contundente de todos: Deus não mata, mas castiga.
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Por isso há que se fazer transpassar a profecia de Jeremias pela cruz e pela ação salvadora e graciosa de Deus em seu Filho unigênito, Jesus. Nesse sentido, buscando respostas àquela pergunta existencial e de fé que cada um já fez ou ouviu (“Será que Deus nos castiga quando pecamos?”), encontramos diversas compreensões. 1 – Havemos de fazer a distinção entre punição e disciplina. Para os crentes em Jesus, todos os nossos pecados (passados, presentes e futuros) já foram punidos na cruz. Como cristãos, nunca seremos punidos pelo pecado. Isso foi feito de uma vez por todas. “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Por causa do sacrifício de Cristo, Deus só vê a justiça de Cristo quando olha para nós. Nosso pecado foi pregado na cruz com Jesus, e nunca seremos punidos por causa dele. Nesse sentido, a ideia que Deus castiga e dá recompensas é uma ideia corrompida. 2 – O pecado que permanece em nossas vidas, porém, às vezes requer a disciplina de Deus. Se continuarmos a agir de forma pecaminosa e não nos arrependermos e voltarmos contra o pecado, Deus traz a sua disciplina divina sobre nós. Se não o fizesse, ele não seria um Pai amoroso. Conforme Hebreus 12.7-11, assim como disciplinamos os nossos próprios filhos para o seu bem-estar, assim também o nosso Pai celestial amorosamente corrige os seus filhos para o seu bem. A disciplina, então, é o que Deus usa para tirar os seus filhos da rebelião à obediência. Através da disciplina, os nossos olhos abrem-se de forma mais clara à perspectiva de Deus em nossas vidas. Davi afirma no Salmo 32 que a disciplina leva-nos a confessar os pecados e a arrepender-nos daqueles que ainda não foram tratados. Dessa forma, a disciplina é uma limpeza, um catalisador. A disciplina apresenta-nos a oportunidade de aprender e de conformar-nos à imagem de Cristo (Rm 12.1-2). 3 – Precisamos lembrar que o pecado é constante em nossa vida enquanto estivermos na terra (Rm 3.10,23). Portanto não temos apenas que lidar com a disciplina de Deus para a nossa desobediência, mas também temos de lidar com as naturais consequências resultantes do pecado humano. Nesse caso, nossas ações egoístas, pecaminosas, agem como bumerangues que voltam e batem em nossa cabeça. Deus convida à ética! Está explícito no profeta (Jr 14) que Deus deseja que o povo viva nos seus caminhos. Deus não se agrada quando eles se afastam da sua vontade. Não fica satisfeito quando eles andam errantes. Ele expressa tristeza e dor quando o povo desvia-se de seu querer. Seus olhos derramam lágrimas dia e noite (v. 17, cf. 13.17) quando não há um viver ético do povo. No evangelho (Lc 18. 9-14), uma postura de contrição e humildade perante Deus por parte de um cobrador de impostos (v. 13) é colocada como atitude mais ética (e merecedora da paz com Deus – v. 14) do que a oração e o jejum arrogante de um membro dos principais grupos religiosos dos judeus, que seguiam rigorosamente a lei de Moisés e as tradições e os costumes dos antepassados (v. 11). No trecho da carta paulina (2Tm 4.6-8,16-18), o apóstolo faz uma autoavaliação no final de seu ministério (v. 6) e conclui que na “rústica da vida” ele “fez o melhor que pode” (v. 7) e por isso aguarda “o troféu escatológico” reservado para quem, por fé, vive uma vida correta (v. 8). Nos momentos de dificuldade
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e abandono por todos (v. 16), percebeu a presença de Deus, que o livrou da morte e de todo mal (v. 18). O que está em jogo na relação de Deus com seu povo não é o castigo divino sobre o pecado humano, mas o nosso desejo e busca por viver sempre e mais a sua vontade. O que está em destaque nessa tríade bíblica para a homilia neste domingo é o desejo de ver sempre seus filhos e filhas andarem no caminho da justiça, da verdade, da vontade do Pai, revelada no Filho, um dos pilares da Reforma Luterana que celebraremos nesta semana.
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Imagens para a prédica
“A mensagem dos profetas pode chocar-nos porque muitas vezes nos apresenta Deus ameaçando castigar seu povo por causa de seus pecados. ... Essa imagem de um Deus vingador nos parece insuportável. Tomemos uma parábola. Um jovem, motociclista apaixonado, gosta de correr muito. Um belo dia acontece um acidente, e lá vêm hospital, tratamento prolongado, médicos, enfermeiras etc., e uma enfermeira que logo começa a atendê-lo com sentimentos diferentes. Depois eles se casam. É possível que um dia esse moço diga à sua esposa: “Machuquei-me muito naquele acidente, mas, no fundo, acho bom, porque do contrário, eu não te teria conhecido”. Concordamos com essa frase, mas não concordaríamos se fosse o capelão do hospital, que, ao receber o jovem, dissesse: “Foi bom para você...” Por quê? Porque no primeiro caso foi o próprio interessado que falou, por si mesmo, do seu interior e depois do fato, dando um sentido a seu acidente; as suas palavras não lhe foram impostas de fora. Além disso, para ele, o acidente continua sendo um mal; o que ele considera bom é o efeito que se seguiu ao mal. Transformemos a história para aproximá-la dos textos proféticos. Suponhamos que, antes do acidente, aquele jovem levasse uma vida dissoluta e egoísta. O sofrimento e a longa convalescença o teriam levado a refletir sobre o vazio de sua vida; ao sair do hospital, ele seria outro, decidido a mudar de vida e pôr-se a serviço dos outros. E até poderia acontecer que, tendo recobrado a fé, ele chegasse a dizer a Deus: Foi bom que permitiste aquele acidente; por causa dele acabei encontrando um sentido para a minha vida. Concordamos com essa oração, mas não aprovaríamos se o capelão dissesse: Está vendo! Deus o castigou... Os profetas são esse moço e não o capelão. ... Eles refletiam sobre os acontecimentos, que, para eles, eram um mal. Esses acontecimentos eram para eles – mesmo quando os exprimiam com palavras fortes – menos punições de Deus do que ocasiões de descobrir o amor de Deus, que os convidava a começar uma vida nova” (CHARPENTIER, p. 97).
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Subsídios litúrgicos
Proponho a inclusão do Salmo 32 na liturgia do culto. Escolha a tradução que melhor se encaixa na sua percepção e monte um responsório significativo e que contribua com o “todo temático” do culto.
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23º Domingo após Pentecostes
Uma Confissão de pecados, usando a figura de um carro sem catalisador, com certeza marcará e ilustrará o que o pecado faz em nossas vidas, na vida do próximo e em prejuízo ao mundo de Deus. Um Kyrie, fazendo uso da figura do bumerangue, mostrará o que o pecado da sociedade como um todo provoca na vida humana, seja em âmbito pessoal, social ou ambiental: ele se volta contra nós. Recomendo o uso da meditação de Martim Lutero a partir do Salmo 32 sob o título “Os incompreensíveis caminhos de Deus”. Você a encontra em http:// www.luteranos.com.br/conteudo/os-incompreensivels-caminhos-de-deus.
Bibliografia CHARPENTIER, Etienne. Para ler o Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1986. SCHMIDT, Werner. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994.
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24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
30 OUT 2016
PRÉDICA: LUCAS 19.1-10
ISAÍAS 1.10-18 2 TESSALONICENSES 1.1-4,11-12
Paulo Roberto Garcia
Encontros e desencontros: a superação das barreiras nos caminhos da vida
1
Introdução
No tempo comum, somos desafiados e desafiadas a pensar na fé que acontece e se desenvolve em nosso cotidiano. A fé em ação é tema central na perícope desta reflexão e também nas demais perícopes. Porém há um questionamento à fé que se estabelece em torno de rituais repetitivos, mas que não promovem justiça. Assim, o texto de Isaías é um clamor contra a injustiça praticada por aqueles que celebram as festas e praticam os rituais. O texto de 2 Tessalonicenses é a gratidão por uma fé ativa. Fé ativa que promove a prática da justiça. Esse é o desafio. Esse tema permeia a perícope de Lucas e leva-nos a perceber como o exercício da fé consolida-se na relação de luta pela justiça e pela dignidade do outro e da outra, de modo especial daquelas pessoas que mais sofrem em nossa sociedade.
2
Exegese
Dois temas importantes na obra redacional lucana (Lucas e Atos) encontram-se nessa perícope: o caminho e a mesa. Para entender a importância desse tema, precisamos compreender o entorno da comunidade lucana. 2.1 – O contexto da comunidade a) Localizando a comunidade: memória de Antioquia Teremos que assumir alguns pressupostos para nortear nosso entendimento sobre a comunidade. O primeiro é que a comunidade está localizada em Antioquia. No livro de Atos, percebemos o destaque que essa cidade recebe. É para onde Barnabé é enviado; é onde Paulo, depois da conversão e de um tempo em Tarso, é acolhido; é onde o título de cristão é atribuído aos seguidores de Jesus; é de onde partem as missões que levarão o evangelho até os confins da terra – na linguagem irônica de Lucas: Roma. A importância dessa cidade marca a memória da comunidade. Localizar Lucas/Atos em Antioquia aponta-nos uma realidade de fronteira entre o mundo siro-palestinense e o mundo greco-romano. Tradição judaica e tradição gentílica encontram-se e convivem nesse espaço. Por isso o caminho e a mesa são tão importantes.
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b) Caminho – onde os diferentes se encontram A ênfase no caminho dá-se tanto na perspectiva de movimento como de oportunidade. Movimento do evangelho e oportunidade do encontro. A obra lucana, quando lida em conjunto, oferece ao leitor o caminho do evangelho. A boa notícia anunciada aos pastores no início do evangelho passa por Jerusalém e é difundida até Roma, os confins da terra. Esse movimento possibilita que um evangelho diferente do evangelho de Roma faça o caminho inverso. Não é a boa notícia da vitória violenta de um imperador saindo de Roma e espalhando-a pela terra. É a boa notícia de salvação e de restauração saindo da manjedoura, passando por Jerusalém, espalhando-se pelo mundo e chegando a Roma. Mas o caminho é espaço plural. Nele os diferentes encontram-se. No evangelho, temos dez capítulos descrevendo Jesus caminhando da Galileia até Jerusalém (9.51-19.40). Nesse caminhar, Jesus envia discípulos às cidades; encontra-se com samaritanos; hospeda-se em casa de mulheres – Marta e Maria; cura impuros (enfermos, possuídos) e senta-se à mesa com impuros – o tema de nossa perícope. No livro de Atos, a partir do capítulo 6, o caminho e o caminhar tornam-se ênfase. Pedro, mesmo contra a vontade, vai pregar para Cornélio em Cesareia. Paulo, ora impelido, ora impedido pelo Espírito, caminha levando o evangelho. O caminho é lugar de encontros, desencontros e superação das diferenças. c) Hospitalidade e mesa – espaço de conflito Um segundo tema importante e que atravessa os dois escritos da obra redacional lucana é a mesa. A mesa é um lugar decisivo nesses escritos. Porém não podemos esquecer que a mesa de refeições é tema recorrente nas discussões sobre a prática da hospitalidade. Por isso, mesmo que a palavra mesa ou refeição não apareça em nossa perícope, a afirmação de Jesus de que ele necessitava permanecer na casa de Zaqueu insere o texto na prática da hospitalidade, fundamental nessa sociedade. Devido à influência greco-romana, a hospitalidade, praticada por um patrono, era espaço de intercâmbio, de uma partilha mínima, de alguma distribuição ou redistribuição de bens. Por isso, na dinâmica do recebimento do hóspede, a refeição tornava-se parte importante nessa mudança de status: de estrangeiro para hóspede. Porém as percepções do mundo greco-romano e do mundo judaico sobre a hospitalidade e sobre o assentar-se à mesa eram diferentes. Para a cultura greco-romana, a mesa era um lugar de superação de diferenças. O estrangeiro tornava-se hóspede. Com isso as relações de amizade, aliança, negócios etc. faziam-se possíveis. Na mesa, os estranhos tornavam-se próximos. Para a cultura judaica, no entanto, a mesa era um lugar de afirmação étnica e ética. Não se assentava à mesa com um impuro. Os critérios de pureza eram definidos em termos de rituais de purificação (como, por exemplo, lavar as mãos), rituais de saúde (enfermos e portadores de deficiência estavam banidos) e sanguíneos (um judeu deveria sentar-se à mesa com um judeu). Com essas práticas culturais a mesa tornava-se espaço de segregação. O problema é que o cristianismo tem na participação na mesa o seu sacramento cotidiano. “Toda vez que comer” pode indicar que toda refeição seria feita em memória de Cristo. Na leitura a partir da tradição, pelo menos uma vez por
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semana as pessoas deveriam ter uma refeição digna, realizada na comunidade em memória de Cristo. Em uma comunidade de fronteira isso se torna complicado. Judeus e gentios convertidos ao cristianismo deveriam sentar-se à mesa juntos. Aqui o conflito se estabelece. Frente ao conflito, a ênfase da obra literária lucana é sentar-se à mesa com os pecadores (como é o caso de nossa perícope), sentar-se à mesa com o estrangeiro desconhecido (os discípulos de Emaús). Não desprezar as viúvas gregas na partilha do alimento e não impor ao povo de Antioquia valores do mundo judaico são exemplos do livro de Atos. A mesa que congrega os diferentes restaura a vida e propicia salvação. É aqui, nesse ponto, que nossa perícope se localiza. 2.2 – A perícope Nossa perícope, como afirmamos, encontra-se no conjunto de relatos da viagem de Jesus em direção a Jerusalém. Alguns detalhes merecem destaque: a) Jesus atravessava a cidade O verbo usado (dierchomai) é comum em Lucas e Atos e fortalece esse sentido de movimento. Jesus está no caminho, atravessando a cidade. No caminho, o encontro acontece. b) Jesus, Zaqueu e a árvore Zaqueu é um impuro. Um cobrador de impostos era considerado impuro. Cobrador de impostos aparece no Evangelho de Mateus na mesma categoria das prostitutas (Mt 21.31). O recebimento do tributo colocava-o em contato com moedas e produtos ou tocados e conduzidos por pessoas impuras ou de origem impura. Desse modo, além de odiado pela população devido à função de recolher o imposto da dominação, era também religiosamente excluído devido à impureza adquirida pelo contato com tributos contaminados. É nessa situação que o encontro acontece. Há muitas discussões sobre a árvore em que Zaqueu sobe (se seria uma árvore ou uma varanda, por exemplo, uma vez que a palavra usada para definir a árvore só aparece uma vez no Novo Testamento e, consequentemente, é de difícil tradução). O grande foco deve ser o olhar. No caminho, as adversidades são superadas e Jesus vê Zaqueu. O impuro é enxergado. c) Jesus, Zaqueu e a refeição O olhar de Jesus ao encontrar o impuro no caminho provoca uma mudança. Como afirmamos acima, na cultura judaica, tomar a refeição junto era sinal de encontro dos puros, enquanto no mundo grego o anfitrião, ao convidar o estrangeiro para sua casa e consequentemente à sua mesa, mudava-lhe o status, tornando o estrangeiro/diferente em hóspede. No encontro de Jesus e Zaqueu, tudo acontece diferente. Jesus vê o impuro Zaqueu e convida-se a permanecer na casa dele. Para a cultura judaica, hospedar-se com o impuro é inaceitável. Para a cultura grega, ao se convidar, destitui Zaqueu do papel de anfitrião, de patrono do acolhimento
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e, consequentemente, da refeição. Encontramos aqui a novidade. Os valores são confrontados e transformados. O que segue a partir desse ponto é surpreendente. d) Jesus, Zaqueu e um novo olhar Quando lemos os diversos comentários sobre a atitude de Zaqueu após partilhar o alimento com Jesus, encontramos uma ênfase na conversão, na restituição do que foi roubado. Há uma ênfase na disponibilidade de mudar de vida. Ou seja, o foco recai sobre a salvação que chega à casa de Zaqueu à medida que ele muda sua postura. A ênfase é na mudança de atitude, de postura do indivíduo. Não podemos negar que isso faz parte do texto. Porém temos que perceber que há dois movimentos que devem ser valorizados aqui. O primeiro movimento é que, no encontro de Jesus e Zaqueu, a dignidade de Zaqueu é resgatada. Ele é designado como filho de Abraão. O impuro Zaqueu agora é descendência pura. No encontro dos diferentes, a dignidade é recuperada. O segundo movimento é de Zaqueu. Ao anunciar que dará metade dos bens aos pobres, o ato transforma-se em palavras de salvação. Não é apenas a mudança de atitude, tão valorizada como afirmamos acima. É também uma mudança de olhar. Ele passa a perceber os pobres. O olhar de Jesus que resgatou a dignidade de Zaqueu transforma-se no olhar de Zaqueu, que enxerga os pobres e assume o compromisso de resgatá-los. Esse novo olhar é salvífico. No caminho e no encontro dos diferentes, a vida é resgatada, a dignidade recuperada. Não apenas a de Zaqueu como também a dos pobres. Isso é verdadeiramente palavra de salvação.
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Meditação
Vivemos em um mundo imagético. Com o poder das mídias de comunicação temos acesso a imagens provindas dos mais diferentes espaços de nosso globo terrestre. Muitas dessas imagens compartilham situações de degradação da vida humana, de violência contra animais e destruição do meio ambiente. Temos acesso, em escala global, à percepção da maldade do ser humano. O problema é que esse acesso não gera indignação, não gera mobilização. A sociedade moderna perdeu a capacidade da indignação. O nosso olhar ao outro, ao diferente, acaba gerando indiferença, medo ou violência. A intolerância cresce. A apatia também. Zygmunt Bauman lembra, em seu livro Confiança e Medo na Cidade, que no passado as cidades construíam muros para proteger os que viviam nela (contra os ataques externos). Hoje, as cidades constroem muros dentro dela para proteger grupos de outros grupos da mesma cidade. O olhar para o outro, para o diferente, gera muros. O medo, a violência e o preconceito crescem em nosso mundo e em nossas cidades. Diante disso, o texto do Evangelho de Lucas leva-nos a repensar nossa forma de vivenciar a fé. Jesus aparece no relato como aquele que tem a capacidade de enxergar na multidão aquele que não é visto. Não apenas enxerga como muda as relações esperadas tanto na sociedade judaica (não se aproximar de alguém nessa condição) como
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também na sociedade greco-romana (ser acolhido como hóspede pelo patrono). Jesus enxerga, aproxima-se e possibilita a restauração da dignidade de Zaqueu. Porém a restauração da dignidade acontece quando Zaqueu, à luz do olhar de Jesus que o enxergou no caminho, tem também o seu olhar transformado, passa a enxergar os pobres e divide seus bens com eles. O processo de dignificação do ser humano completa-se. A salvação chega à casa de Zaqueu. A capacidade de olhar o que sofre, o que é diferente, o que está à margem da vida pede uma transformação na forma de olhar. Torna-se necessário sair da zona de conforto. O Evangelho de Lucas coloca o caminho como lugar das oportunidades. Ao sair dos guetos da existência e colocar-se a caminho, encontros e desencontros, conflitos e superações forjam uma nova forma de existir. A vida acontece “no caminho”. Por isso, na obra literária lucana, são chamados de cristãos “os do caminho”. Ser cristão é ser peregrino, um peregrino com a capacidade de olhar e amar.
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Imagens para a prédica
Caso haja possibilidade de projeção de imagens, sugerimos projetar a imagem que se encontra no seguinte site: http://imghumour.com/categories/comic-strips/view/people-nowadays A charge mostra alguém se afogando (apenas com a mão fora da água) e um grande grupo de pessoas tirando fotos com o celular. Lamentavelmente, em nossos dias, a tragédia humana não tem despertado compromisso. Tem se tornado alvo das câmeras fotográficas. Outra possibilidade para trabalhar imagens com a comunidade é trazer à memória situações vividas em seu entorno, onde o olhar das pessoas diante de situações de tragédia e de limites da vida humana foram apenas olhares de curiosidade ou de indiferença.
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Subsídios litúrgicos
Colocamos como subsídio para a liturgia a música de Xico Esvael, O Olhar de Quem Sabe Amar. Essa canção pode ser cantada se a comunidade a conhecer ou a letra pode ser lida em forma de responso. Nós a sugerimos no momento final do culto como ato de dedicação e compromisso da comunidade.
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O Olhar de Quem Sabe Amar Xico Esvael O olhar de quem sabe amar Tem o brilho das manhãs de sol “Ilumina as faces e distingue as cores Canta a vida como um rouxinol” O olhar de quem sabe amar Não tem medo de mirar no olhar “Partilhar os sonhos, sem fitar medonho No caminho a fé lhe faz andar” Refrão O olhar de quem sabe amar Se umedece quando vê a dor Fruto da ternura de quem tem doçura É Simão com a cruz do sofredor. O olhar de quem sabe amar Acredita e luta pela paz “Sabe que a justiça é dever, premissa Pra fazer a vida germinar.” O olhar de quem sabe amar, Tem poder pra terra semear. “Pega no arado sem olhar pra trás, Não se cansa da vida esperançar.” O olhar de quem sabe amar... (fonte: http://letraclub.com/xico-esvael/o-olhar-de-quem-sabe-amar.html acesso em 15 de junho de 2015)
Bibliografia FITZMYER, Joseph A. El Evangelio según Lucas – IV. Madrid: Ediciones Cristandad, 2005. LOCKMANN, Paulo Tarso de Oliveira. Jesus, o Messias Profeta. São Bernardo do Campo: Editeo, 2011. MOXNES, Halvor. A Economia do Reino – conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 1995.
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DIA DA REFORMA
PRÉDICA: ISAÍAS 45.19-25
31 OUT 2016
MATEUS 10.26b-33 FILIPENSES 2.12-13
Roger Marcel Wanke
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Introdução
O culto para o Dia da Reforma tem sido em muitas comunidades da IECLB um momento especial de aprofundamento confessional e catequético. Infelizmente, não se pode mais pressupor que todo membro da IECLB saiba as origens de sua igreja ou que tenha alguma ideia de quem foi Lutero e, não por último, que saiba o que significou a Reforma. Também é fato, que não se pode mais pressupor, que todos saibam o que significa a confessionalidade luterana e quais são os seus pontos teológicos principais. Nesse sentido, algumas paróquias e comunidades têm planejado constantemente palestras, seminários ou celebrações, especialmente durante o mês de outubro, e dessa forma aproveitam para reatualizar os principais pontos de nossa história e nossa confissão. Também é importante ressaltar que estamos às portas do jubileu de 500 anos da Reforma. Daqui a um ano, em 2017, em igrejas luteranas de todo o mundo acontecerão encontros, celebrações, congressos para discutir, partilhar e promover reflexões acerca de Lutero, do movimento da Reforma e de sua relevância para os dias de hoje. Nesse sentido, o culto previsto para este ano pode ser uma grande oportunidade, se ainda não foi feito algo nessa direção, de iniciar esse processo de celebração e reflexão no contexto da comunidade local. O texto previsto para a pregação do culto da Reforma desse ano encontra-se no livro profético de Isaías 45.19-25. Como veremos a seguir, esse texto faz-nos silenciar diante do Senhor Deus, o único Deus e Criador de tudo o que existe, e diante do único Salvador e Redentor de toda a terra. O texto aponta para a exclusividade do Senhor tanto na vida concreta do povo de Israel, que no momento está se preparando para retornar do exílio babilônico, como também diante do mundo politeísta da época. Tal exclusividade é tema central da Reforma e da confessionalidade luterana [cf. o primeiro artigo da Confissão de Augsburgo e a interpretação do primeiro mandamento no Catecismo Maior de Lutero]. Nessa direção também apontam os textos previstos como leituras bíblicas. O primeiro, de Mateus 10.26b-33, está no contexto do grande discurso de Jesus acerca do ministério. Jesus chama seus discípulos e capacita-os por meio de um discurso no qual os instrui, admoesta, estimula, no qual aborda também as dificuldades e, por fim, as recompensas. É no contexto dos estímulos que o texto da leitura se encontra. Ele aponta para a confissão de fé. Ao serem enviados, os discípulos devem confessar o nome de Jesus Cristo diante das pessoas. Eles não devem temer [expressão que aparece três vezes na perícope]. Já o segundo, de Filipenses 2.12-13, está no contexto das exortações de Paulo a respeito do amor
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fraternal e da humildade. Para isso, Paulo faz uso do famoso hino cristológico (Fp 2.5-11). Os v. 12-13 são consequência do exemplo de Jesus Cristo, que foi obediente até o fim, até a morte de cruz. A obediência e a submissão a Deus, marcadas pelo joelho dobrado (v. 10), caracterizam a vida daquele que confessa que Jesus Cristo é o Senhor (v. 11). Só por isso, para Paulo, é possível desenvolver a salvação (v. 13). A relação, portanto, com a perícope prevista para a pregação está no ponto de entrega e submissão diante do único e verdadeiro Deus, que por meio e por causa de Cristo é Criador e Salvador. Essa centralidade é tarefa da igreja anunciar. Esse foi o grande grito de liberdade dado por Lutero há quase 500 anos. A perícope indicada não aparece em nenhuma contribuição anterior de Proclamar Libertação, com exceção de uma análise de Is 45.22-25 da colega Elaine Neuenfeldt no volume 28, prevista para o 1º Domingo após o Natal. Também não a encontramos prevista para os cultos do Dia da Reforma de anos anteriores.
2
Exegese
Isaías 45.19-25 encontra-se dentro de um dos capítulos mais inusitados e profundos do Dêutero-Isaías. Nos v. 1-7, o profeta anuncia a palavra do Senhor, que, num primeiro momento, dirige-se ao rei persa Ciro. Deus mesmo escolheu Ciro como seu ungido e pastor, porque ele é o Senhor sobre tudo e todos e faz tudo por causa de seu povo. Ciro será instrumento de Deus para que a comunidade exílica da Babilônia possa retornar a Jerusalém. Nos v. 8-18, o profeta anuncia o poder soberano de Deus. Alguns, pertencentes à comunidade exilada, não conseguem perceber o agir de Deus na história da humanidade e questionam o fato de Deus usar Ciro, um rei estrangeiro e pagão, para libertar o seu povo e reconstruir Jerusalém bem como o templo. Centrais nesse capítulo são os v. 14-15 ao mostrar que da boca de nações estrangeiras será confessado por meio de uma súplica e doxologia: “Só contigo está Deus, e não há outro que seja Deus. Verdadeiramente, tu és um Deus que se esconde [abscôndito]1, ó Deus de Israel, ó Salvador”. Por meio da libertação de Israel da Babilônia, as nações conhecerão o Senhor, o Deus de Israel, e a partir desse testemunho reconhecerão e confessarão que o Senhor é o único Deus e Salvador. Chamam a atenção na leitura os seguintes aspectos, que podem ser úteis para a interpretação e pregação da perícope: a) A palavra terra aparece em vários momentos no capítulo (cf. v. 12, 18, 19, 22). Ela possui aqui um duplo sentido. Uma vez, refere-se à terra como parte da criação de Deus. E a outra possibilidade se refere à Terra Prometida, na qual Deus agiu por meio de sua palavra. b) A expressão e não há outro é mais do que central nesse texto (cf. v. 5, 6, 14, 18, 21, 22). Ela é o fio condutor de toda a argumentação de Deus no capítulo 45. Ela é, na verdade, o aspecto teológico nevrálgico de toda a teologia de Dêutero-Isaías. Ela pode ser considerada a expressão máxima do monoteísmo judaico, pois reflete a sua principal confissão de fé (cf. Dt 6.4). c) Na mesma direção, a expressão Eu sou o Senhor é fundamental aqui (cf. v. 3, 5, 6, 18). Ela remonta à autorrevelação de Deus em Êxodo 3.14. Deus revela-se à comunidade exilada da mesma forma como se revelou a Moisés. As
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mesmas objeções que tanto Moisés como o povo escravizado no Egito apresentaram a Deus naquela ocasião, duvidando do agir redentor no contexto do Êxodo, parecem se repetir, pelo menos na sua intenção, aqui e agora, no contexto do novo êxodo. Deus tem que se revelar com o seu nome Eu sou o Senhor para que os exilados lembrem diante de qual Deus eles estão. d) A perícope deixa claro que criação e redenção são dois temas inseparáveis e suas implicações são mais abrangentes do que temos condições de abarcar aqui neste auxílio homilético. Vale a pena, no entanto, refletir sobre isso em outro momento. Diferentemente das disputas contra os falsos deuses em Isaías 40.18-26; 41.21-29, na perícope em análise o Senhor entra em litígio com o próprio povo de Israel disperso, a comunidade exilada. As razões disso serão abordadas mais adiante. Quanto à delimitação da perícope, não há consenso entre os comentaristas, muito menos nas versões de Bíblias atuais. O v. 18, embora continue falando acerca do Deus Criador, tema dos v. 8-17, inicia o dito profético de Deus com a fórmula de mensageiro (Porque assim diz o Senhor). Por isso ele precisa ser incluído aqui nesta análise. Sua função é interligar a argumentação das duas perícopes. Ao mesmo tempo que ele conclui a perícope anterior, ele também inicia a nova perícope. Ou seja, Israel não se precisa envergonhar nem temer diante dos seguidores de falsos deuses, muito menos preocupar-se com o fato de Ciro ser um instrumento de Deus em favor de Israel, porque o Senhor vai salvá-los com salvação eterna (v. 17). A razão da salvação é porque Deus é o Criador de toda a terra (v. 18). A unidade interna na perícope é marcada pela moldura existente com as expressões descendentes de Jacó (v. 19) e descendentes de Israel (v. 25). Já o centro da perícope está no v. 22. Interessante é perceber que ali Deus se dirige a todos os confins da terra. Não se tem certeza a quem essa expressão se refere, se à comunidade exílica dispersa entre as nações ou às nações pagãs, a quem Deus sempre quis alcançar por meio do testemunho de Israel. Aqui se seguirá a primeira opção. A interpretação abaixo elucidará esse aspecto. De qualquer forma, a teologia do Dêutero-Isaías vai deixar claro que o foco do texto são as nações (cf. v. 14-15), mesmo que aqui a disputa seja com a comunidade exílica, que está obstinada diante do agir de Deus. O cap. 46, porém, inicia um novo tema, o anúncio da queda da Babilônia (cf. 46.1-2; 47.1-15). No entanto, os discursos que seguem continuam dirigidos a Israel, que permanece obstinado, resistindo ao que o Senhor planejou em favor deles (cf. Is 46.3-13; 48.1-9). No final, o próprio Senhor faz um apelo final para que os exilados fujam da Babilônia; caso contrário, seriam destruídos com ela (Is 48.20-22). A perícope apresenta uma estrutura clara e coesa. Considerando a unidade entre os v. 18-19, ela pode ser dividida em quatro partes: a) Na disputa com seu povo o Senhor revela-se como Criador (v. 18-19) Como dito acima, o v. 18 deve ser incluído aqui para que a argumentação do dito de Javé seja compreendida corretamente. Ele contém a descrição e autorrevelação do sujeito da perícope. Já o v. 19 expressa a maneira da revelação de Deus. Quem está falando aqui não é um deus qualquer. Três características
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são fundamentais no v. 18 para compreender de que Deus se está falando. Deus mesmo se apresenta em primeiro lugar como o Senhor. Essa designação repete-se no final do verso, remontando à fórmula de revelação de Deus em Êxodo 3.14, ao chamar Moisés para libertar os filhos de Israel da escravidão do Egito: Eu sou o Senhor. Em segundo lugar, esse Senhor é também descrito como o Criador do céu e da terra (cf. Gn 1). Sua criação não deve ser marcada pelo caos (cf. o termo usado tohu, que aparece também em Gn 1.2), mas sim ser habitada. O mundo existe por causa de seus habitantes. Inclusive a ligação interna entre os v. 18-19 encontra-se exatamente na relação. Por fim, a expressão não há outro aponta para a sua exclusividade, ou seja, ele é descrito como único Deus. Essa é uma expressão monoteísta, que caracteriza a fé de Israel, principalmente no período pós-exílico. Na disputa com falsos deuses, nesse caso a partir do contexto babilônico, Javé deixa claro que ao lado dele não existe outro deus. Ele não tem concorrente. Isso fica ainda mais evidente em Isaías 46. No v. 19, o que chama a atenção é o fato de Deus agora se apresentar como aquele que anuncia a sua palavra. Sua revelação não aconteceu de forma oculta. Pelo contrário, Deus sempre falou a verdade e sempre proclamou o que é direito do povo de Israel, aqui descrito como a descendência de Jacó. Deus não disse em vão aos descendentes de Jacó que deveriam buscá-lo em vão (cf. Am 5.6,14; Jr 29.11-14). Diante disso, Deus faz três convites a seu povo disperso (cf. v. 20, 21, 22). No contexto de litígio, esses convites de Deus podem ser interpretados como chamado a comparecer no tribunal, apresentar as provas diante do juiz e ouvir a sentença. b) Na disputa com seu povo, o Senhor convida os exilados a reconhecer que não há outro Deus além dele (v. 20-21) O v. 20 inicia com três verbos no imperativo. A ordem é uma convocação para congregar, vir e achegar-se diante do Senhor. Problemático aqui é compreender a quem se dirige o convite do Senhor. Em tese, a partir de Croatto, duas são as possibilidades: uma parte do fato de que a expressão hebraica sobreviventes das nações são provavelmente aqueles que sobreviveram aos ataques bélicos de Ciro e que seriam povos dispersos de todas as nações. A outra, porém, procura compreender a expressão referindo-se à comunidade exilada, os dispersos de Israel, levando em conta, acima de tudo, o contexto da perícope e do Dêutero-Isaías. Na pesquisa, a opinião se divide. Para Croatto, o v. 21 seria a chave hermenêutica para optar pela segunda possibilidade de interpretação, que também aqui será seguida, pois aponta para uma espécie de “memória histórica” [cf. Croatto, p. 147]. O convite de Deus seria dirigido aos dispersos de Israel, que estão vivendo como fugitivos entre as nações. Nele encontramos o segundo convite de Deus, que pede para que os exilados apresentem as provas, declarem as razões, que entre eles se levantam para atestar que os deuses teriam alguma força ou até mesmo a capacidade de salvar. No entanto, Deus mesmo, por meio de perguntas retóricas, desmonta todo e qualquer argumento que eles teriam, pois desde a antiguidade o Senhor já havia dito que os deuses não têm poder para salvar, pois não passam de uma farsa. O Senhor já havia dito ao povo de Israel, por meio de Moisés, por meio de outros profetas [período pré-exílico – cf. Elias, Amós, Oseias, Miqueias],
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que não há outro Deus justo e salvador além do Senhor. Somente os exilados saberiam desse argumento de Deus, apresentado em suas perguntas retóricas. Por isso somente eles poderiam ser interpretados aqui como os destinatários dessa convocação litigiosa de Deus. Isso se une ao argumento apresentado por Deus no v. 19, que não se revelou à descendência de Jacó em segredo. Deus já havia falado que a idolatria era falsa e que eles deveriam ter buscado o Senhor e não os falsos deuses. O Senhor deixa claro mais uma vez que não há outro Deus. Somente ele, ninguém além dele, é Deus justo e Salvador. c) Na disputa com seu povo, o Senhor convida os exilados a voltar-se para ele e ser salvos (v. 22-23) Já que não há outro deus capaz de salvar, porque todos eles não passam de falsos deuses e ídolos criados à imagem do ser humano (cf. Sl 115), Deus dirige-se a seu povo no v. 22 com mais um convite. É o terceiro, dirigido a seu povo disperso. Agora, Deus chama-os de limite da terra ou extremo da terra. Como dito acima, há muitos que interpretam essa expressão como menção às nações pagãs. Mas, no contexto do Dêutero-Isaías, principalmente a partir de Is 43.6, só é possível entender essa expressão como referência ao povo de Israel exilado, que está disperso em um âmbito maior, que é descrito como extremidade da terra, para destacar assim a distância e o alcance da diáspora. Deus convida, portanto, esse povo a voltar-se para ele e assim experimentar salvação. O verbo voltar-se aqui significa dirigir-se à face de Deus. No hebraico, a palavra face tem origem no verbo voltar-se, e ambos expressam a possibilidade de experimentar a graça de Deus. Quando Deus volta a sua face ao ser humano, esse é abençoado e salvo por Deus e pode viver em sua presença (cf. Nm 6.24-27). Quando o ser humano volta a sua face a Deus, então ele expressa o desejo de viver em sua presença e de relacionar-se com Deus. No contexto da idolatria, essa palavra ganha ainda mais peso. Os exilados não devem cair novamente no erro, como foi no passado da história de Israel, de voltar a sua face aos ídolos e falsos deuses. Deus convida-os a largar os falsos deuses, que no contexto do exílio eram uma grande tentação (cf. Js 24). O povo deve voltar-se a Deus, pois somente ele é o Senhor e não há outro deus que salve. O Senhor é o único Salvador. O convite de Deus é reforçado, uma vez, pela certeza dita anteriormente no v. 17: “Israel, porém, será salvo pelo Senhor com salvação eterna”, mas também por sua palavra reafirmada no v. 23. Deus jurou por ele mesmo que sua palavra é verdadeira. De sua boca só sai o que é justo (tsedaqa). Os exilados, chamados aqui de limites da terra, podem voltar-se a Deus e ser salvos, porque a palavra de Deus não volta atrás, não muda (shub). A fidelidade de Deus permanece. O Senhor é um Deus de palavra. Como consequência disso, a comunidade exilada poderá ter certeza de que não permanecerá na Babilônia, mas voltará a Jerusalém e diante dessa obra redentora de Deus todo joelho se dobrará e toda língua confessará o Senhor como o único Senhor e único Salvador. Essa frase aqui ainda tem um significado mais voltado a Israel. O Novo Testamento amplia essa dimensão a partir da obra redentora de Jesus Cristo (Fp 2.5-11).
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d) Na disputa com seu povo, o Senhor dá-lhes a certeza de sua presença e justificação (v. 24-25) O texto passa aqui a ter uma dimensão missionária. Por isso, mesmo que a perícope seja interpretada como palavra de Deus à comunidade exílica, que aqui é descrita com termos relacionados às nações, como os fugitivos das nações ou limites da terra, o que Deus vai fazer com Israel terá repercussão até nas outras nações. Isso já estava claro na perícope anterior [cf. v. 14-15]. Por meio de Israel a salvação chegará até elas. Isso é bem interessante, se levarmos em conta os textos de Gn 12.1-4; Zc 8.13; Mt 28.18-20; At 1.8. Deus diz no v. 24: De mim se dirá. O que o Senhor fez não ficará oculto, assim como sua palavra não foi revelada em segredo ou nas trevas (v. 19), mas será notória no mundo inteiro. No entanto, isso será um passo seguinte na revelação de Deus. O que os v. 24-25 querem destacar é que, no contexto da comunidade exílica do povo de Israel, se dirá de Deus que somente ele é justo e forte. Somente nele se encontram justiça e força. Justiça e força aqui não são categorias sociais, como muitos interpretam, mas expressam a fidelidade de Deus para com seu povo. Que no Senhor há justiça, a partir do hebraico, significa que ele não rói a corda, que ele é fiel à comunidade que lhe pertence [em alemão: gemeinschaftstreu]. Sua força aponta para o seu poder tanto de libertar o povo do exílio, de conduzi-lo novamente à Terra Prometida, como também de usar Ciro como seu pastor e ungido e assim cumprir o seu propósito salvífico. O v. 24 enfatiza, inclusive, que aqueles que se irritaram com o Senhor por ter ele escolhido Ciro como seu libertador e não alguém como Moisés do passado virão a Deus. Eles, num primeiro momento, serão envergonhados de ter duvidado do agir salvífico de Deus. Mas no Senhor, diz o v. 25, os mesmos serão justificados não por causa de sua justiça, mas da justiça do Senhor. Deus é missionário, em primeiro lugar, para seu próprio povo. A partir de seu povo, Deus quer fazer sua obra redentora ser conhecida em todo o mundo, entre todas as nações. Por isso o exílio não foi apenas sinal de juízo, mas também da graça de Deus.
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Meditação
A meditação deste texto parte do escopo exegético, que aponta para a disputa do Senhor com seu povo a respeito dos falsos deuses. Assim como a comunidade exílica, que prestes a ser liberta da Babilônia, precisa ser convencida do agir libertador e salvador de Deus na história e, dessa forma, ser salva, assim também o povo de Deus de todos os tempos e épocas precisa ser convencido por Deus de sua soberania, exclusividade e intervenção na história. O perigo de esquecer Deus, de não reconhecer o seu agir e a influência do meio em que vivemos podem cegar-nos para o que Deus tem preparado para seu povo. Como consequência, nossa missão como povo de Deus na terra ficará comprometida. O Senhor quer evitar que a comunidade exilada repita os mesmos erros, que seus pais já fizeram no passado e que foi a causa do exílio babilônico. Por isso ele os convoca para uma disputa, na qual deixa claro mais uma vez a seu povo quem ele é e o que ele é capaz de fazer em favor de seu povo e por extensão às nações de toda a terra, que ele criou.
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O texto de Isaías está inserido no contexto do cativeiro babilônico. Toda a mensagem do Dêutero-Isaías parte da promessa de salvação de Deus. É o mesmo Deus dos pais, de Abraão, Isaque e Jacó, que se revelou como o Eu sou (cf. Êx 3.1-20), para libertar Israel da escravidão no Egito e que se manifesta novamente, agora na Babilônia, como o Deus Criador e Salvador, o único Senhor e Deus, que prometeu o novo êxodo. Por isso a comunidade exilada não precisa temer, mas apenas crer no agir libertador desse Senhor. O Dêutero-Isaías como um todo e a perícope analisada são um chamado à liberdade diante do único Senhor e Salvador. O tema “cativeiro babilônico” também é conhecido no âmbito da Reforma. Em outubro de 1520, Lutero escreve um de seus principais escritos reformatórios, intitulado por ele de “O cativeiro babilônico da Igreja”2. Esse seu escrito é uma clara disputa teológica sobre a compreensão dos sacramentos. Nele, Lutero aponta, da mesma forma como o Dêutero-Isaías, para a obra salvífica de Deus. Lutero vai definir o sacramento a partir da promissio e da fides. Lutero afirma, com outras palavras, a exclusividade de Deus e de sua obra redentora em Jesus Cristo. Lutero põe na mesa do debate, para discussão na igreja de sua época, os pilares da compreensão da salvação. Tanto esse escrito de Lutero como toda a sua teologia são um chamado à liberdade diante do único Senhor e Salvador. De que forma nós como IECLB não vivemos em um tipo de “cativeiro babilônico” atualmente? Quero deixar aqui, a partir da análise exegética da perícope indicada para a pregação, alguns pontos para reflexão: a) Até que ponto nós afirmamos a exclusividade de Jesus Cristo em nosso envolvimento no diálogo interreligioso? Será que não a temos negado para não ser tachados de politicamente incorretos? O que Lutero nos pode ensinar sobre isso? Na atual disputa religiosa, ou se for preferível falar de um diálogo interreligioso, o texto de Isaías 45.19-25 não hesita em afirmar: não há outro além de mim. b) Até que ponto a discussão sobre a teoria de gênero promovida em nosso país e em nossa igreja não abre mão rápido demais do Deus Criador? A antropologia de Lutero, fundamentada na antropologia de origem judaico-cristã, é completamente atingida. Onde o ser humano não é mais visto como Deus o criou [Gn 1.26-27], ele se torna uma aberração histórico-social. Por isso não é à toa o que Paulo categoricamente afirma ao escrever Romanos 1.18-32. Quando a teologia não está clara, a antropologia é deturpada. c) Até que ponto nossa proclamação do evangelho e nossa visão missionária partem da realidade da exclusividade de Deus em Jesus Cristo e apontam para a mesma? De que forma somos testemunhas do agir e da salvação de Deus em nosso país? Que diferença faz a justificação em nossa vida, em nossas comunidades? Em Isaías 45.18-25, Deus tem que chamar o seu povo para uma conversa séria, pois ele se havia esquecido da base de sua confessionalidade. Que isso não aconteça conosco! A IECLB, a partir do que Deus fez em sua história, deve continuar em sua missão de anunciar que salvação só existe diante do único Senhor e Salvador, Jesus Cristo.
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Sugestão homilética: Falar da exclusividade de Deus como único Senhor e Salvador e sua confissão neste mundo é um dos fundamentos da Reforma Luterana. A prédica deve apontar para essa centralidade na pessoa de Jesus Cristo ou como Lutero formula: solus Christus. Tema da pregação: Solus Christus – A exclusividade de Jesus Cristo como fundamento da Reforma 1.Somente Jesus Cristo revela quem Deus é Deus é o Criador de toda a humanidade em Jesus Cristo Deus é o Senhor de toda a humanidade em Jesus Cristo Não há outro Senhor em quem devemos crer 2. Somente Jesus Cristo é o Salvador Deus intervém na história da humanidade em Jesus Cristo Deus é Salvador em Jesus Cristo Não há outro Senhor por meio de quem somos salvos 3. Somente Jesus Cristo deve ser confessado Deus é justiça e força em Jesus Cristo Deus nos justifica em Jesus Cristo Não há outro Senhor a quem devemos confessar e anunciar
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Imagens para a prédica
Um dos quadros mais famosos do pintor da Reforma Lucas Cranach é aquele que se encontra no retábulo do altar da igreja de Wittenberg, na qual Lutero, durante muitos anos, pregava semanalmente. Nesse quadro, pode-se ver Lutero, à direita, pregando a partir do púlpito, com sua mão esquerda sobre a Escritura e sua mão direita apontada para o centro da imagem, onde se vê o Cristo crucificado. Ao lado esquerdo, pode-se ver a comunidade reunida em culto para ouvir essa palavra. Tanto Lutero como a comunidade reúnem-se como igreja a partir da centralidade de Jesus Cristo, que de forma interessante é pintado por Cranach como o Cristo crucificado, mas com seus lençóis em movimento, apontando para o Cristo ressurreto. Esse quadro ilustra muito bem o conteúdo apontado pelo Dêutero-Isaías em nossa perícope. O mesmo pode ser encontrado hoje no Google imagem e pode ser projetado na parede da igreja, seja desde o início do culto ou apenas durante o tempo da prédica. Os seguintes aspectos podem ser comparados e abordados na pregação: a) A centralidade de Jesus Cristo no quadro aponta para a centralidade e exclusividade do único Deus, diante do qual não há outro que deve ser crido e
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confessado. O solus Christus, um dos pilares da Reforma, é claramente apontado no quadro de Cranach. b) O papel da pregação da igreja é testemunhar e anunciar esse Cristo. Quem confessa a Jesus Cristo como Senhor e Salvador confessa esse Deus que se revelou e falou sua palavra, não de forma oculta, nem em vão, mas impactante e decisiva em toda a terra que ele criou para ser habitada. c) Em Isaías 45.24, Deus mesmo diz que dele será testemunhado, que tão somente no Senhor há justiça e força. Somente em Jesus Cristo há justiça, pois ele é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, que justifica por seu sangue o pecador. Somente em Jesus Cristo há força, pois ele é o Cristo ressurreto. Seu poder manifesta-se na fraqueza e no escândalo da cruz e na vitória sobre a morte por meio de sua ressurreição. d) Na imagem da cruz pintada por Cranach, fica evidente que a pregação de Lutero aponta para o Deus Salvador e Criador; Salvador por apontar para a morte de Jesus Cristo e Criador por apontar para a sua ressurreição, primícia da nova criação. e) Em Isaías 45.20, encontramos o convite de Deus para o seu povo: “Congregai-vos, vinde, achegai-vos...”. No quadro, isso é caracterizado com a comunidade reunida em culto. Essa comunidade vive sempre da certeza de sua salvação em Jesus Cristo e diante de sua tarefa de anunciar no mundo em que vive a exclusividade de Jesus Cristo, pois ela pode existir e agir no mundo a partir da esperança do agir do próprio Senhor na história da humanidade: “Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua” (v. 23). f) Diante da cruz de Jesus Cristo e do anúncio da palavra de Deus não há espaço para outros deuses.
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Subsídios litúrgicos
O culto da Reforma, além de festivo, pode ter um caráter didático e confessional, como dito acima. Ele não deve concentrar-se apenas em um resgate meramente histórico, mas apontar para a identidade confessional da igreja, que leva em seu nome o fato de ser de confissão luterana. Atualizar os pilares e bases confessionais da Reforma é tarefa constante da igreja, principalmente se ela desempenha bem o seu papel missionário. Ao alcançar pessoas novas para dentro de suas fileiras, as mesmas devem ser acompanhadas não apenas em suas necessidades básicas, mas também em sua vida de fé. Por isso a prédica deveria ter esse caráter didático e contextual. Os participantes do culto deveriam sair da igreja nesse dia festivo sabendo o que significa crer num único Deus e Senhor, tendo a certeza de sua salvação apenas em Jesus Cristo, sendo confrontados a partir da dialética Lei e Evangelho com seu pecado, mas principalmente com a realidade do Salvador, e ser enviados de volta à sua família, à sua profissão, à sua vizinhança e ao mundo para confessar que somente nesse Deus há justiça e força. Como é um culto da Reforma, é imprescindível cantar em comunidade hinos compostos por Lutero. Se houver um coral ou grupo de canto na comunidade,
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esse pode ter momentos de apresentação de hinos de Lutero ou com conteúdos que ressaltem a fé centrada em Deus. Vejamos algumas sugestões para a liturgia do culto: Liturgia de entrada Para o início do culto pode ser cantado o “hino nacional” da Reforma, convidando todos a louvar a Deus: Deus é castelo forte e bom (HPD 97). No contexto da invocação trinitária, pode-se cantar o hino Clemência dá-nos, ó Senhor, e graça sempiterna (HPD 106). Esse hino possui três estrofes a partir da estrutura trinitária. Cabe ressaltar aqui o quanto Lutero insere a dimensão trinitária em seus hinos. Liturgia da palavra Durante as leituras bíblicas previstas podem-se intercalar as estrofes do hino de Lutero Cristãos, alegres jubilai (HPD 155). Sua base bíblica é o texto de Filipenses 2.5-11. Assim, haveria uma unidade entre o hino cantado com a comunidade e a leitura de Filipenses 2.11-12. A intercalação poderia acontecer da seguinte maneira: hino 155.1-4; leitura de Mateus 10.26-33; hino 155.5-7; leitura de Filipenses 2.12-13; hino 155.8-10. Após a prédica, seria bem interessante cantar com a comunidade o hino de Lutero Nós cremos todos num só Deus, criador do céu e da terra (HPD 88). Além de ressaltar o aspecto trinitário, que se faz presente na confissão de fé, o hino também reforça o aspecto monoteísta do texto de Isaías 45.19-25. O hino Nome sobre todo o nome é o nome do meu Cristo (HPD 264) também poderia ser aqui uma opção. Liturgia da Ceia Nem sempre no culto da Reforma há a celebração da Ceia do Senhor. Contudo, se ela for celebrada, retome a dimensão do Deus Salvador que Isaías aborda no texto da prédica. Ceia como anúncio do único Senhor e Salvador em Jesus Cristo. Liturgia de despedida No final do culto, sugere-se cantar o hino Conosco fica, fiel Jesus (HPD 89). Dessa forma, destacam-se os desafios que temos como Igreja da Reforma no mundo. Como o Jubileu de 500 anos da Reforma está às portas, já no próximo ano, seria interessante planejar junto com o conselho paroquial e das comunidades, ou até mesmo de forma interparoquial, como esse jubileu pode ser celebrado no contexto local. Uma sugestão bem concreta seria planejar uma Semana da Reforma. Contudo, deve-se considerar que o dia 31 de outubro de 2017 cai em uma terça-feira. Portanto fica de certa forma complicado fazer uma programação mais extensa nesse dia, salvo naquelas paróquias que se localizam onde esse dia é feriado municipal. No entanto, sugere-se iniciar uma série de atividades com um pouco mais de antecedência. Procure envolver todos os grupos e ministérios da
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paróquia na programação. Se houver em sua comunidade ou paróquia um grupo musical de metais, lembre-se que a Obra Missionária Acordai (OMA) tem desde 2014 se proposto a fazer 500 concertos – A caminho dos 500 anos da Reforma, em preparação para o Jubileu da Reforma [Maiores informações entre em contato com a Comunhão Martim Lutero (CML), apoiadora desse projeto]. Quem sabe pode haver um desses concertos em sua localidade. Promova palestras sobre temas relevantes da Reforma, principalmente relacionados à eclesiologia. Alguns desses temas podem ser: a) As marcas da igreja conforme Lutero: a relevância da nossa comunidade luterana em nossa cidade; b) O sacerdócio geral de todos os crentes: o envolvimento de nossos membros em nossa comunidade; c) Os pilares da Reforma – fundamentos em nossa vida. Aqui não há limites de temas para serem abordados. A riqueza da Reforma e suas implicações na atualidade são muito expressivas. Tomo a liberdade aqui de compartilhar a estrutura de uma série de pregações para a época da Reforma que fiz no ano de 2002 na Paróquia de Palhoça, quando lá atuei no ministério pastoral. Tratamos em todas as comunidades da paróquia, com o auxílio da liderança, o tema: O que significa ser luterano? Oito subtemas foram trabalhados: 1. Significa ter somente a Bíblia como norma de fé e de vida; 2. Significa crer somente em Jesus Cristo como único Senhor e Salvador; 3. Significa viver somente pela fé; 4. Significa viver somente pela graça; 5. Significa ser um cristão inserido na comunidade; 6. Significa viver em Cristo pela fé e no próximo pelo amor; 7. Significa viver a partir da cruz de Cristo; 8. Significa ser um cristão inserido no mundo. Essa série de pregações não dispensou uma palestra introdutória a respeito do contexto histórico no qual Lutero vivia e sobre os seus principais desafios. Sinta-se à vontade para retrabalhar esses temas.
Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías. A palavra profética e sua releitura hermenêutica. Vol. II: 40-55 – A Libertação é possível. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1998. LUTERO, Martinho. O Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012. VOIGT, Gottfried. Der helle Morgenstern. Homiletische Auslegung alttestamentlicher Texte. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1961. p. 196-200. Notas bibliográficas 1 Interessante é perceber que esse versículo faz parte da base bíblico-teológica de Lutero em seu embate com Erasmo de Roterdã em seu escrito De servo arbítrio. Esse escrito de Lutero precisa ser novamente lido e estudado em nossas comunidades. Cf. LUTERO, Martinho. Da vontade Cativa. In: Martinho Lutero. Obras selecionadas. Volume 4: Debates e Controvérsias II. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1993. p. 11-216.
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Cf. LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja. In: Martinho Lutero. Obras Selecionadas, volume 2: O programa da Reforma – Escritos de 1520. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 341-424.
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PRÉDICA: JOÃO 11.1-5,17-21
02 NOV 2016
ISAÍAS 25.1,8-9 ROMANOS 8.31-39
Uwe Wegner
O amor: mais forte do que a morte
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Introdução
As leituras adicionais para o texto da prédica são Isaías 25.1,8-9 e Romanos 8.31-39. Ambos os textos estão indiretamente relacionados com a história da ressurreição de Lázaro, pois também falam diretamente sobre ressurreição. Isaías 25.1,8s apresenta uma bonita palavra de esperança, também reproduzida em Apocalipse 21.4: “Tragará a morte para sempre e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos...” (v. 8). No Antigo Testamento, a fé na ressurreição recebeu contornos mais claros somente após o exílio, em que se aguardava uma ressurreição do pastor Davi (Ez 34.23ss; 37.24-28) e, depois, também de todo o Israel (Ez 37.1-4). Textos do Antigo Testamento comumente vinculados à ressurreição são ainda Isaías 53.10ss (servo sofredor), Jó 19.25-27 e os textos apocalípticos de Isaías 26.19 e Daniel 12.2; nesse último se fala de uma dupla ressurreição (“uns para a vida eterna, outros para horror e vergonha eternos”). Além disso, temos finalmente também o testemunho da ressurreição presente em alguns salmos, entre os quais os Salmos 16.10s; 49.14-16; 73.26. Romanos 8.31-39 é talvez a mais bela confissão de fé na ressurreição dentro das cartas do Novo Testamento. Seu nexo com João 11 dá-se também pelo fato de o texto referir-se diretamente ao amor (Jo 11.3, 5, 36), afirmando que nada, nem mesmo a morte, poderá separar os cristãos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.39).
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Exegese
Nos v. 1-6, o evangelista introduz o cenário. O texto não diz exatamente qual era o lugar “em que Jesus estava” (11.6). O cenário, de qualquer forma, dá-se no pequeno povoado de Betânia, a aproximadamente três quilômetros da cidade santa (15 estádios [1 estádio = 200 metros] = 3 km; cf. 11.18). Lázaro é abreviação do nome hebraico Eleazar e significa “Deus ajuda”. Ele se encontrava enfermo (um detalhe que, por ser repetido nos v. 2, 3, 4 e 6, talvez queira destacar a gravidade da enfermidade), sem que se especifique a natureza mais exata da doença. No v. 2, o evangelista faz uma apresentação mais detalhada de Maria, reportando-se a coisas que aparentemente são do conhecimento dos seus leitores. Maria seria aquela que “ungiu com bálsamo o Senhor” (história relatada em Mc
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14.3-9 e logo depois no capítulo 12.1-8 de João) e que “lhe enxugou os pés com seus cabelos” (referência à narrativa de Lc 7.36ss, cf. 7.38). O v. 3 relata que as irmãs mandaram avisar Jesus sobre a doença de Lázaro, que Jesus amava. Aliás, o narrador insiste nesse amor de Jesus a Lázaro também no v. 5 (e 36), no qual são incluídas também as duas irmãs. No v. 4, de posse da notícia, Jesus responde que a enfermidade “não é para a morte”, mas para a glória de Deus e para que o Filho de Deus seja por ela glorificado (semelhantemente em Jo 9.3). Uma vez que Lázaro efetivamente morreu, a expressão “não é para a morte” deve ser interpretada à semelhança de várias frases com “não... mas...”, ou seja, no sentido de “não só ... mas também” (cf. F.F. Bruce, João, p. 207). O v. 4 sugere uma mudança de foco: normalmente nos fixamos nas doenças e tragédias das mortes e não raro ficamos atolados na pergunta: por quê? Nosso versículo muda a perspectiva e mostra o “para que”, ou seja, para a glória de Deus e de Jesus. Os milagres praticados por Jesus eram expressão do grande poder de vida que Deus possui. Por isso eles glorificavam a Deus. Em nosso caso, a glorificação é ainda maior, pois se trata da manifestação de um poder que supera, inclusive, a morte. O v. 5 reafirma mais uma vez que Jesus amava Marta, Maria e Lázaro. Essa insistência no amor de Jesus pelos seus é um marco de nossos primeiros versículos. Parece sugerir: o amor de Jesus é a base sobre a qual se fundamenta o pedido das irmãs pela cura. Recorre-se a Jesus, pois ele ama os seus. Os v. 17-21 narram a chegada de Jesus a Betânia e palavras de Marta dirigidas a Jesus. Quando Jesus chegou, Lázaro já se encontrava enterrado há quatro dias. O v. 20 mostra uma comunidade solidária: há vários judeus na casa consolando as irmãs. Ouvindo sobre a presença de Jesus, Marta vai a seu encontro, enquanto Maria fica sentada em casa. Marta faz uma linda confissão de fé no poder de vida que Jesus tem: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!”. Aqui se confessa que o poder de Jesus é mais forte do que a morte. Em meio à sua tristeza, Marta acrescenta ainda outra confissão de fé, desta vez não diretamente no poder de vida de Jesus, mas no fato de que Deus atende tudo o que Jesus pede a ele. Essa segunda confissão mostra a total abertura de Deus para tudo o que Jesus lhe pede em oração. Em si, a segunda confissão prepara as palavras de Jesus imediatamente antes de ressuscitar Lázaro: “Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves...” (11.41-42). Esses versículos pressupõem que a ressurreição de Lázaro, narrada logo a seguir (11.43-44), tenha sido o resultado de uma prece de Jesus, dirigida e atendida por Deus.
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Meditação
Historicamente, de acordo com a Wikipédia, “desde o século II, alguns cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Desde o século XI, os papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX
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Dia de Finados
(1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII, esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos” (verbete “Dia de Finados”). Segundo Leonardo Ramlow, “com a Reforma, desencadeada por Martim Lutero, os cristãos luteranos também elegeram um dia para refletir sobre a morte. Isso ocorre no último domingo do ano eclesiástico (Domingo da Eternidade). Dessa forma, a cada ano, nesse dia, não se realizam cultos pelos mortos, como era costume católico, mas lembra-se dos limites da vida humana e do poderio de Deus sobre ela. Acredita-se, inclusive, que os mortos continuavam a fazer parte da comunidade, pois, juntamente com os vivos, continuam esperando a vinda do Senhor Jesus. Isso ajuda a compreender o antigo costume de algumas comunidades da Alemanha, onde os mortos são sepultados em volta da igreja. Em muitas comunidades da IECLB, o cemitério está anexado à igreja” (Portal Luteranos, pregação sobre Isaías 35.1-10 para o Dia de Finados). Características: O dia dos mortos é um dia de muita sensibilidade. Quem vai ao culto nesse dia geralmente o faz porque espera receber alguma mensagem relacionada com a perda e morte de algum ente querido. As situações que envolvem a perda de pessoas pela morte são variadas. Em muitos casos, a morte é um conforto para os enlutados, pois representou o término de longo e demorado sofrimento, e o ente querido realmente pôde descansar. Em outros casos, a perda é abrupta, inesperada, e a dor e o luto são mais profundos e as cicatrizes demoram mais para sarar. Podem-se fazer os seguintes destaques em nosso texto: 1. Tanto Marta como Maria estão cientes de que Lázaro, que morreu, não é pessoa qualquer para Jesus, mas que Jesus o amava (cf. em 11.3,5 e 11.36: os que veem Jesus chorando diziam: “vejam como ele o amava”). Elas não teriam mandado avisar ou chamar Jesus quando Lázaro ficou doente se não estivessem certas de que Jesus o amava. O amor é o primeiro elemento que explica o fato de Jesus ter ressuscitado Lázaro da morte. Ninguém se esforça para salvar pessoas da morte pelas quais não nutre nenhum sentimento de amor. 2. Marta faz uma impressionante confissão a respeito de Jesus. Ela afirma: “Senhor, se estivesses aqui, não teria morrido o meu irmão”. Como pode Marta afirmar tal coisa? Nesse caso, só o amor não explica toda a sua convicção. Para entendê-la, precisamos admitir que Marta tinha que ter também fé no poder de cura de Jesus. Também nós amamos muito pessoas queridas, mas ninguém afirma de nós: “Se estivesses aqui, essa doença não teria terminado em tragédia”. Jesus realmente tinha poder sobre as doenças, e, como doenças levam à morte, pode-se presumir que ele era poderoso também diante da morte! A confissão que encerra as palavras de Marta no v. 21 é, pois: onde há presença do Senhor Jesus, a morte é vencida, a vida prevalece; onde Jesus encontra-se ausente, o que prevalece é a morte. No fundo, a confissão de Marta confirma à sua maneira as próprias palavras de Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). 3. Pode-se perguntar: donde Jesus tira esse seu poder de vencer a morte? A resposta está naquela segunda confissão de Marta e referida no v. 22: “Mas também sei que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá”. É,
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pois, dos seus pedidos a Deus, de suas orações ao Pai que Jesus tira o seu poder de conceder vida e vencer a morte. Jesus e Deus vivem uma grande unidade, em que a vontade de um é a vontade do outro, o poder de um é o poder do outro: “Quem vê a mim, vê aquele que me enviou” (12.45); “quem me vê a mim, vê ao Pai” (14.9). 4. Marta acredita que Lázaro irá ressuscitar no dia do juízo final com todas as demais pessoas (11.24), não que Jesus pudesse ressuscitá-lo ali mesmo naquela situação de luto. O surpreendente da história é que Jesus ressuscita Lázaro ali mesmo, apesar de ele já ter sido sepultado há quatro dias. Essa ressurreição é, sem dúvida, apenas uma revivificação, mas mostra que o poder de vida que Deus tem já pode e deve ser sentido aqui neste mundo, e não só num futuro distante. 5. Os primeiros cristãos encaravam a morte como um sono (Lázaro “adormeceu”: 11.11; cf. 1Co 11.30; 15.6,18,20,51; 1Ts 4.13s). Isso é diferente de achar que com a morte tudo termina. Se a morte é um sono, haverá, depois dela, um despertar. Os cristãos creem nesse despertar depois da morte. A ressurreição de Jesus na Páscoa e o amor de Deus às suas criaturas são os maiores fundamentos dessa esperança.
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Sugestão para prédica
1. Descrição da morte como o que há de mais certo na vida: como fim da vida, seja fim trágico, seja final doloroso, seja como forma de pessoas chegarem finalmente a um descanso depois de longos sofrimentos. 2. Indicar que, ao contrário do que ocorre para muitas outras pessoas, para os cristãos a morte tem concorrência: refletir sobre o ditado “o amor é forte como a morte”. A concorrência da morte é o amor. O amor, para a Bíblia, é aquela prática, aquele sentimento, aquele compromisso que vai permanecer apesar de todas as outras coisas terem um fim (“O amor jamais acaba”: 1Co 13.8). 3. A história da ressurreição de Lázaro é a história bíblica sobre a vitória do amor de Jesus por Maria, Marta e Lázaro sobre a morte. É porque Jesus amava Lázaro que o ressuscitou. Jesus fez outras ressuscitações da morte: do filho da viúva de Naim (Lc 7), da filha de Jairo (Mc 5). Quando a gente se sabe amado por alguém, não é assim que a gente confia que esse alguém não vai nos abandonar, não vai nos deixar a sós, vai fazer de tudo para nos tirar da doença e morte? Pois é isso que se dá com o amor de Jesus e de Deus por nós. Ele é tão grande que nem a morte consegue vencê-lo (cf. Rm 8.31-39). Carlos Mesters: A fé na ressurreição nasce da palavra amiga que Alguém pronuncia em nosso favor. Assim como a palavra do amigo pode confirmar uma pessoa, restituir-lhe a consciência de si e reanimá-la para uma nova esperança, assim a palavra amiga de Deus atinge a pessoa humana na sua raiz, restitui-lhe a consciência de si mesma, ressuscita-a para uma nova vida e a faz viver para sempre (Carlos Mesters, Deus, onde estás?, p. 205). 4. Essa vitória sobre a morte, advinda do amor divino para conosco, pode começar já aqui nesta vida. No momento e à medida que nós encararmos e combatermos com amor aqui e agora todas as forças, poderes e valores que conduzem
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à morte de pessoas, grupos ou da natureza (por exemplo, no momento em que combatermos o ódio e a intolerância, que geram brigas e separações, quando combatermos o uso de álcool ao volante, que ocasiona milhares de mortes por ano, quando advogarmos pelo cuidado com os recursos naturais e contra o uso abusivo de defensivos agrícolas etc.), estaremos dando um testemunho de nossa fé na força que o amor tem para gerar e preservar a vida, estaremos sendo testemunhas da ressurreição. Citamos mais uma vez Carlos Mesters: A única prova verdadeira da ressurreição que convence é a vida que hoje ressuscita e se renova [...]. Esse é o comprovante de que, no homem, atua uma força mais forte do que a morte, a força de Cristo ressuscitado. Onde estão esses sinais da ressurreição na nossa vida, para que a nossa palavra sobre a ressurreição de Cristo possa ter um comprovante? (Deus, onde estás?, p. 207).
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Imagens para a prédica
Frases sobre a morte: “Morrer é o apagar da lâmpada ao nascer do dia, não o apagar do sol.” (Tagore) “Feliz o homem que no final da vida não tem senão o que deu aos outros.” (Armando Fuentes Aguirre) “O amor é forte como a morte.” “A morte despe-nos dos nossos bens para nos vestir das nossas obras.” “A morte, fechando as portas da vida, abre as da eternidade.” “Nada mais certo do que a morte e nada mais incertos do que o dia e a hora em que ela virá.” (Cícero) Imaginário sobre a morte em nossas comunidades: Ildo Franz, em prédica sobre Jo 11 no Dia de Finados de 2013 (Portal Luteranos), informa o seguinte: “Certa vez, um pastor realizou uma pesquisa sobre o que pessoas pensam em relação à morte e qual a sua esperança diante da morte. Esse pastor obteve seis tipos de respostas diferentes. 1) “Para mim não há vida depois de passarmos desta. Morreu, terminou; acabou tudo; termina como tudo aqui termina!” 2) “O que morre é o corpo, a alma reencarna noutro corpo e volta a viver na terra.” 3) “Eu continuarei vivo, se fizer grandes e boas obras em favor da humanidade durante o tempo que vivi; continuarei vivo se eu permanecer na lembrança dos outros.” 4) “Eu continuarei vivo no sangue e corpo dos meus descendentes.” 5) “Quando eu morrer, a alma vai para o céu. O que morre é o corpo.” 6) “Eu creio como confesso no Credo Apostólico: ‘Creio... na ressurreição do corpo e na vida eterna’! Eu vou morrer, mas hei de ressuscitar com um novo corpo, como ressuscitou o meu Senhor Jesus Cristo!”.
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Subsídios litúrgicos
Duas orações muito pertinentes para a data – uma mais para o início e a outra para o final do culto – podem ser encontradas nos subsídios litúrgicos para o Dia de Finados do PL 37, p. 323 (Flávio Schmitt).
Bibliografia KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 2000. MESTERS, C. Deus: onde estás? Belo Horizonte: Editora Vega, s.d. p. 195-208.
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25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PRÉDICA: 2 TESSALONICENSES 2.1-5,13-17 06 NOV 2016 JÓ 19.23-27a LUCAS 20.27-38
Clarise Holzchuh
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Introdução
Viver a fé na verdade
Vigésimo Quinto Domingo após Pentecostes, fim do Ano Litúrgico. É tempo de refletir sobre as últimas coisas, sobre o fim. Os textos bíblicos indicados para este tempo falam de ressurreição, de nova vida e fazem indicações de como viver para alcançar a ressurreição. O texto da pregação, 2 Tessalonicenses 2.1-5,13-17, chama a atenção das pessoas da comunidade cristã de Tessalônica para que não se deixem levar por doutrinas falsas e conclama-as para lembrar-se dos ensinamentos dos apóstolos, que são verdadeiros. A leitura complementar do Antigo Testamento lembra a saga de Jó 19.2327a. A perícope indicada revela a profunda esperança de Jó no Deus vivo e a certeza de que o verá pessoalmente. O evangelho do dia é de Lucas 20.27-38, no qual os saduceus interrogam Jesus acerca da ressurreição. A resposta de Jesus é amplamente desenvolvida, e o desfecho declara: Deus é Deus de vivos, pois para ele todos vivem. O tema comum das três leituras é a esperança que vai além desta vida. E essa esperança se fortalece e se mantém pela fé no Deus da Vida, que atua através de seus filhos e filhas já agora em ações de justiça e amor.
2
Exegese
A delimitação do texto indicado contém o objetivo central da carta: “Quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, não vos perturbeis como se o dia do Senhor já estivesse próximo. Não vos deixeis enganar!” (cf. 2Ts 2.1-2). 2 Tessalonicenses 2.1-12 apresenta um cenário apocalíptico. Havia muitas interrogações e preocupações na comunidade, que estranhava a demora da chegada do dia do Senhor, conforme foi escrito na primeira carta (cf. 1Ts 4.13-5.11). Essa diferença entre a temática da parusia nas cartas (1Ts e 2Ts) é uma das justificativas para suspeitar que 2 Tessalonicenses não foi escrita por Paulo. 1 Tessalonicenses 4.13-5.11 anuncia a súbita e imprevisível vinda do Senhor. 2 Tessalonicenses 2.1-12 declara que sinais devem acontecer (apostasia) antes da vinda do Senhor (parusia). Paulo nunca fez referência a esses sinais ali descritos. Seja como for, o contexto da Segunda Carta aos Tessalonicenses reflete uma situação posterior à primeira, principalmente no que se refere à expectativa da parusia. (...) É para esclarecer dúvidas sobre a demora da parusia que se
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escreve essa segunda carta. Seus autores querem ajudar as comunidades a sobreviver e a se manter firmes na esperança (Curso de Bíblia, p. 28). Tessalônica era uma cidade marcada pelo tumulto e conchavos políticos. Também foi assolada por guerras. Por sua situação geográfica privilegiada, com um grande porto, sempre foi alvo da cobiça imperial. Em 268 a.C. foi tomada pelos romanos, que a urbanizaram, e em 146 a.C., tornou-se capital da Macedônia. Sua fidelidade a Roma impedia qualquer insubordinação. Era reconhecida como “cidade livre”. Não tinha guarnição militar, mas prestava culto a César e a Roma, que eram divinizados. Quem se submetia ao sistema era premiado com postos como funcionários públicos, comerciantes, industriais. Os demais eram escravizados ou simplesmente deixados à margem. A comunidade de 2 Tessalonicenses é composta por pessoas que resistem a esse sistema e sofrem perseguição (1.4), opressão (1.6) e injustiça (2.12); mas permanecem esperançosas, perseverando na fé e na prática do bem. Uma característica importante da comunidade vemos a partir de 2 Tessalonicenses 3.6-15, onde se tematizam o trabalho e o sistema alternativo de economia. A comunidade é composta ... de uma maioria de pessoas de baixo nível econômico, pois devem trabalhar para viver. São pobres sem muita pretensão para subir na vida, ganhando o pão com esforço. Seriam diaristas, artesãos, num sistema de colaboração familiar e sem acúmulo, numa relação direta entre produtores e consumidores. Enfim, é um grupo experimentando uma nova alternativa, num grande centro urbano, sob a exploração e a injustiça (SILVA, p. 34). Uma comunidade assim só podia representar um grupo de oposição dentro do sistema econômico e social. Esse é acometido por injustiça, sofrimento e opressão; mas é uma resistência ativa de quem se fortalece no amor (1.3), no trabalho (1.11) e nas realizações em vista do bem (2.17; 3.4). Por volta do ano 51 d.C., as assembleias (convocação do povo) perderam espaço e poder. Agora, por volta do ano 80 d.C. (estimativa de data em que a carta foi escrita), elas retomam força entre o povo e representam uma ameaça inquietante aos esquemas sociais. A comunidade fortalece-se em relacionamentos de igualdade, chamando-se de irmãos, alicerçados na confiança (3.4) e no amor (1.10), revelando força profética (2.2), propondo um novo jeito de viver. Em meio ao sofrimento, a linguagem apocalíptica revela-se como meio mais seguro de comunicação e força para quem sofre. Diante da realidade social em Tessalônica, facilmente podemos identificar os personagens. É o imperador de Roma que passava por deus na cidade. A impiedade é a desordem causada pela falta de uma lei que organize as coisas. Nessa situação, a injustiça impera. A luta política aparece forte no início do capítulo 2. O termo parusia no mundo grego significava a volta vitoriosa do rei de uma batalha, trazendo os despojos da guerra, aclamado por seus súditos. Aqui é aclamada a vinda (parusia) de Jesus, o Senhor (título também conferido ao rei). A estrutura dominante do império romano era mantida por uma ideologia que unificava religião, política, cultura, artes e tudo mais. Era chamada de pax deorum (a paz dos deuses). A comunidade cristã desmascara essa ideologia como obra de Satanás. O sistema deve ser destruído porque é injusto e opressor,
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só levando à morte. A falta de fé (3.2) leva-os à perversidade, pois não creram na verdade (2.10,12). Venerando tantos deuses, vivem uma farsa, já que de fato não conhecem a Deus e não creem no Evangelho (1.8). O imperador quer passar por Deus, mas é um adversário, e seus portentos, milagres e prodígios são mentirosos (2.9) porque difundem a fé na mentira (2.11). Com toda a sua ideologia seduz o povo (2.11), mas para a prática da injustiça (2.10) (SILVA, p. 43). A igreja dos tessalonicenses é uma comunidade de fé. Essa fé é que mantém sua resistência e a luta pela vida. É a fé na verdade (2.13), portanto esclarecida, segura e inabalável em sua fonte, que é o Senhor. É a fé que dá sentido às atividades. Suas ações espelham-se em Deus, que os amou (2.6) e provoca o amor mútuo. A fé na verdade leva ao amor de verdade. A comunidade cristã de Tessalônica tem consciência clara de sua nova missão para formar um novo jeito de viver. É uma vocação dada por Deus, que os escolheu desde o princípio (2.13). A ideologia romana com sua força militar cairá. As novas comunidades, com sua intenção divina desde o começo, durarão para sempre com a eterna consolação de Deus (2.16). A derrota de todo poder será no dia do Senhor (2.2). A apocalíptica cria uma ideia de força e entusiasmo que supera todos os limites. Proporciona aos cristãos uma nova e verdadeira paz na graça de Deus e um ambiente de esperança e perseverança diante de qualquer dificuldade.
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Meditação
Hoje em dia, a maioria das pessoas não está mais preocupada com a salvação. Elas também não se preocupam em ter um objetivo na vida. Vão levando “de barriga”. Vai-se atrás do que dá mais vantagem pessoal, até que apareça algo melhor. Vai-se pulando de galho em galho, sem saber para onde vai ou aonde quer chegar. Esses são comentários que ouvimos em muitas conversas em grupos de família e rodas de amigos. Como diz o dito popular: “Para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve”. Que prato cheio para a ideologia do império romano e para a “ideologia capitalista” dos dias de hoje! Tem muita gente vestindo-se com autoridade da palavra de Deus, mas trabalhando pela ideologia que oprime, subjuga e persegue, separando entre abençoados e malditos, entre quem tem fé para receber dos milagres de Deus e quem não tem, entre quem merece e quem não é digno. Funcionários públicos da fé, comércio e indústria que promovem a fé; por outro lado, escravos que fazem o sistema prevalecer. Quem não se submete não tem nenhuma chance de usufruir de qualquer direito. E temos aí a “bancada evangélica” no Congresso Nacional – em defesa da família e da moral. Você já se perguntou que tipo de família constitui? Que moral defende? 2 Tessalonicenses 2.1-5,13-17 vem iluminar nosso caminho na busca pela verdade de Deus. Não se enganem ou não se deixem enganar (2.3), diz a palavra. Para que não haja engano, é preciso conhecimento, não só da palavra de Deus, mas também da realidade em que se vive, do objetivo de vida própria, da família, da comunidade na qual se vive a fé ativa.
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Não nos cabe procurar e identificar apocalipticamente sinais dos tempos ou separar o bem e o mal, mas nos compete conhecer a Deus através da sua palavra e da convivência na comunidade. Quanto melhor o autoconhecimento e o reconhecer-se no evangelho, maior clareza haverá no seguimento a Jesus Cristo. Se alguém te perguntasse: Qual é o teu objetivo na vida?, saberias dizer de imediato? E a comunidade onde buscas o fortalecimento da fé na verdade: qual o objetivo da tua comunidade de fé? Será que todas as pessoas que ali congregam têm o objetivo de proclamar o evangelho em palavra e ação de fato e verdade? O que se percebe atualmente é uma inversão de valores. Essa inversão é sutil e não é percebida pelas pessoas escravizadas pelo sistema econômico, social e político de nosso país e, quiçá, do mundo. A ideologia do sistema sociopolítico-econômico é reproduzida dentro das comunidades em vez de a comunidade levar o novo jeito de viver a fé e a verdade para dentro da sociedade. Por isso, também dentro das comunidades, tem que ser identificado “o perverso” – quem é, ou quem são, na sociedade ou mesmo na comunidade, aquela pessoa ou aquele grupo que manda e desmanda, mas que impede a vivência real do evangelho de Jesus Cristo. É hora de começar a se preocupar mais com o que se faz em nome da fé. É hora de buscar a fé na verdade que se revela no amor do Deus trino: nosso Pai (v. 16), identificado por seu amor à comunidade; nosso Senhor Jesus Cristo (v. 14 e 16); o Espírito, que age na santificação (v. 13). Esta segunda parte do texto (2Ts 2.13-17) só pode ser pronunciada por quem ama de fato a sua comunidade. Três virtudes prevalecem: fé, esperança e boa obra. Encontra-se fé na verdade como predisposição básica para a salvação; a boa esperança pela graça como dom de Deus; e tudo o fazem e dizem em vista do bem, como confirmação da nova forma de viver. A unidade da comunidade dá-se pela relação amorosa de Deus com os seus e desses entre si. O amor é agape – amor de Deus, amor divino, amor que se entrega verdadeiramente em ações de bem-querer ao próximo, amor eterno. Estabelece-se uma relação familiar na comunidade que busca uma vida nova na partilha, de fato e verdade, não só da fé, mas também do trabalho e dos bens materiais (o que será descrito pela carta no capítulo 3). Para que se realize a obra da salvação, já iniciada, é necessário continuar firme e perseverar. Mesmo que esse novo jeito de viver cause opressão, sofrimento, injustiça, porque vai contra a ideologia reinante. A boa-nova torna-se efetiva e cumpre a sua função criando nova mentalidade, transformando ideologias e levando a ações diferentes com novas estruturas sociais. É preciso ter bem claro aonde se quer chegar para poder enfrentar injustiça e dor, levando o amor de Deus.
4
Imagens para a prédica
Numa das paróquias onde atuamos, havia uma aparente dificuldade na compreensão do envio do dízimo por parte dos integrantes do presbitério de uma das comunidades. A questão foi abordada em reunião própria para o assunto, causando
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extenso diálogo, por vezes exacerbado. No fim da reunião, as despedidas foram amistosas. Poucos dias depois, um líder que não pôde estar na referida reunião veio até nossa casa e declarou: “Eu vim aqui dizer que os pastores têm que se preocupar com a parte espiritual da comunidade. Do dinheiro cuida a diretoria”. Essa é uma ideia muito presente em muitas comunidades. Ela revela a transposição do sistema econômico, político e social para dentro da administração e planejamento das comunidades e que o evangelho não é acolhido para esclarecer a verdade.
5
Subsídios litúrgicos
Se a canção abaixo de Jaci Maraschin não for conhecida, ela pode ser apresentada como jogral ou lida em dois grupos por toda a comunidade, com projeção no telão ou de forma impressa. Transcrevo-a abaixo como jogral: Jesus Cristo – vida do mundo 1 – Não é vida a vida que se vive por engano, essa triste vida que não tem calor humano. 2 – Pois viver a vida é muito mais do que aparência: De viver a vida que só é sobrevivência. 1 e 2 – Jesus Cristo é a vida, é a vida do mundo. 1 – Não é vida a vida que se vive como escravo, sem ter voz ou vez, sem lar, abrigo nem centavo. 2 – Pois viver a vida é como busca da aventura: Só é vida a vida enquanto a liberdade dura. 1 e 2 – Jesus Cristo é a vida, é a vida do mundo. 1 – Não é vida a vida que se vive sem futuro, que só tem memória, só passado vago e escuro. 2 – Pois viver a vida é muito mais do que a lembrança: Só é vida a vida que ressurge da esperança. 1 e 2 – Jesus Cristo é a vida, é a vida do mundo. 1 – Essa vida é a vida que em Jesus nós alcançamos quando junto a ele o mundo injusto transformamos, 2 – E, vencendo a morte, as opressões e a tirania, vivemos sempre em seu reino de alegria. 1 e 2 – Jesus Cristo é a vida, é a vida do mundo. Uma ótima ideia para a liturgia deste tempo de fim de ano da igreja encontra-se no Livro de Culto, p. 141-145, de uma forma especial a formulação do Kyrie.
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Bibliografia CURSO DE BÍBLIA POR CORRESPONDÊNCIA. As comunidades da segunda geração cristã. São Leopoldo: CEBI, 2004. SILVA, Valmor da. Segunda Epístola aos Tessalonicenses. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1992.
26º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LUCAS 21.5-19 MALAQUIAS 4.1-2a 2 TESSALONICENSES 3.6-13
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DOMINGO CRISTO REI
PRÉDICA: LUCAS 23.33-43
20 NOV 2016
JEREMIAS 23.1-6 COLOSSENSES 1.11-20
Pedro Kalmbach
1
Introdução
A festa do “Cristo Rei” foi estabelecida pelo papa Pio XI em 1925 e, como tal, não é uma festa tradicional cristã nem ecumênica. Seu surgimento deu-se no marco de teologias integristas que buscavam reafirmar o poder terreno do papado. No âmbito das igrejas protestantes, essa festa foi introduzida através do lecionário romano, quando esse passou a ser a base do lecionário ecumênico. Se bem que essa festa reafirma o senhorio de Cristo, o Rei, é importante ter em conta que Cristo é Rei a seu próprio modo: na cruz. Seu senhorio não se desdobra a partir da lógica do poder humano, mas a partir da entrega que expressa seu amor salvífico no qual reconcilia todos na criação. Seu reino não é um reino que se conquista com o poder das armas nem do dinheiro, mas é um reino que se construiu e se constrói com a paz, com a reconciliação, as quais passam pela cruz. A ideia de um reino de paz, de reconciliação e de justiça trazido pelo enviado de Deus está presente nos três textos. Diante da irresponsabilidade e da falta de cuidado do rebanho por parte dos pastores (chefes), Jeremias compartilha o anúncio que Javé enviará um broto legítimo que governará com justiça e será chamado “Javé, justiça nossa” (Jr 23.6). Em Colossenses, Cristo é caracterizado como o primogênito da criação. Através dele todas as coisas irão se reconciliar e mediante seu sangue será pacificado o que há na terra e nos céus. Segundo Lucas, Jesus pede ao Pai que perdoe seus executores (Lc 23.34) e promete ao malfeitor arrependido que ele estará junto dele no paraíso.
2
Exegese
O texto faz parte da cena da paixão de Jesus (Lc 22.1-23,56), especificamente da cena de sua crucificação. V. 33 – Lucas menciona dois malfeitores, que são crucificados junto com ele, um à sua direita e outro à sua esquerda. V. 34 – Já crucificado, Jesus roga a seu Pai que perdoe seus executores, porque não sabiam o que estavam fazendo. Esses repartiam entre si suas roupas. V. 35-37 – Estes versículos fazem referência ao povo que permaneceu olhando. Assim também os juízes e soldados que se divertiam com ele, dizendo Messias para ele e Rei, que se libertasse, devido à sua impotência e fraqueza. V. 38-43 – Lucas assinala a inscrição que havia acima de Jesus: “Este é o rei dos judeus”. Logo o evangelista continua com o diálogo entre os dois malfeitores. Um deles zomba de Jesus, e o outro reconhece a inocência de Jesus e a
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merecida condenação deles. Em seguida, roga a Jesus que se lembre dele, e Jesus promete-lhe que estará com ele neste mesmo dia no paraíso. Nesse texto, Lucas realiza citações de Salmos e alusões a textos que aparecem no evangelho: a) no v. 34, Jesus roga a seu Pai que perdoe seus executores, assim como ele havia ensinado no Sermão do Monte: “Amai, porém, os vossos inimigos” (Lc 6.35), “perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37), semelhante ao Pai-nosso (Lc 11.4); b) nos v. 34b a 37, onde Lucas descreve a reação das pessoas, leem-se partes do Salmo 22: “Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes” (Sl 22.18; Lc 23.34b); “Todos os que me veem zombam de mim” (Sl 227 e Lc 23.35), “Confiou no Senhor! Livre-o ele” (Sl 22.8 e Lc 23.35b,37). As seguintes expressões na boca de quem zombava de Jesus fazem referência à mensagem do reino de Deus que Jesus praticou e proclamou: “o Cristo de Deus, o escolhido” (v. 35), “rei dos judeus” (v. 37), “Não és tu o Cristo?” (v. 39) e a inscrição que havia acima dele: “Este é o rei dos judeus” (v. 38). Sua resposta diante do pedido de um dos malfeitores de que ele se lembrasse dele dá a entender que diante da morte iminente Jesus não duvida da verdade e realidade do reino de Deus hoje. Também na paixão da cruz Jesus é o Rei, o Senhor e Salvador. Jesus está convencido de que ele e o malfeitor arrependido estarão neste mesmo dia (“hoje”) no paraíso (v. 43).
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Meditação
Entre os diversos aspectos que o texto permite abordar, ressalto os seguintes: 1 – As reações e atitudes de quem foi testemunha da morte de Jesus Podemos observar: a) os governantes que zombaram dele dizendo que, se ele salvou a outros, salve a si mesmo; b) o povo que permaneceu olhando; c) os soldados que zombaram dele lançaram sorte sobre suas roupas e lhe ofereceram vinagre, dizendo: “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo”; d) um dos malfeitores que o insultou; e) o malfeitor que reconheceu Jesus como Salvador e Messias. Parece que o que esse último malfeitor viu em Jesus as demais pessoas não conseguiram ver. Aquelas que haviam convivido com Jesus e que o viram morrer não compreenderam nesse momento o que estava acontecendo. Foi necessária a ressurreição, a aparição do Ressuscitado para que compreendessem a radicalidade e a profundidade do ato salvífico de Deus em Jesus. Porém o malfeitor, do qual sabemos somente que foi condenado à crucificação por um crime que não sabemos qual foi, percebeu e viu que esse Jesus que estava morrendo na cruz é o Salvador. Esse malfeitor confia plenamente que Jesus será o rei no reino de Deus. Um reino diferente dos reinos conhecidos. Isso nos leva ao próximo aspecto. 2 – A “fraqueza” absoluta na qual o poder de Deus se mostra Aquele que é rei está agonizando na cruz, para a qual foi elevado como se fosse um criminoso. É justamente nessa situação tão “despida” de “poder”, tão frágil que se mostra o poder de Deus. Para os parâmetros humanos, o lógico seria descer da cruz e subjugar todos os que queriam vê-lo morrer na cruz. Porém
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o poder de Jesus responde a uma outra lógica. Não tem a ver com o poder dos exércitos, com o poder da força, com o poder que subjuga, que domina, que mata. O poder desse rei rompe qualquer lógica humana. Ele não luta para ter súditos, tampouco um exército, nem terras, nem bens. Seu poder passa pela entrega, dando valor aos que não têm valor, dignificando e incluindo as pessoas que são desprezadas e que são empurradas para as margens. Ele não promete uma revolução, uma mudança imposta pela força bruta. Sua promessa tem a ver com o amor, a misericórdia, a justiça. 3 – O arrependimento, a confissão O malfeitor que se arrepende e confessa sua fé em Jesus não fez nada para merecer o ato de estar neste mesmo dia com Jesus no paraíso. O pedido que faz a Jesus e as palavras com as quais repreende o outro malfeitor são um ato de arrependimento e confissão de fé. A resposta de Jesus expressa misericórdia e perdão, expressa que a morte não é um obstáculo para Deus. Ela aponta para a Páscoa, sem a qual o sofrimento, a crucificação e a morte de Jesus não teriam sentido. Estar com Jesus no paraíso refere-se a que a morte não tem a última palavra. Estar com Jesus ao reconhecer a mais absoluta fragilidade humana, a crua condição humana e pecadora, ao entregar-se cegamente em arrependimento sem ter a segurança de estar nesse mesmo dia com ele no paraíso.
4
Imagens para a prédica
Havia pessoas que estavam presentes na crucificação de Jesus com reações, atitudes e gestos diferentes. Também havia pessoas das quais se havia esperado que acompanhariam o Mestre até sua última hora, mas que por medo, dor ou desespero não o fizeram e permaneceram distantes ou escondidas. Como nós nos posicionaríamos? Como espectadores distantes ou próximos, em silêncio ou protestando contra a condenação injusta? Apontaríamos o dedo em direção ao condenado, dizendo: “Algo deve ter feito, por isso o condenaram”, sentindo-nos satisfeitos conosco mesmos por ser bons cumpridores da lei e estar livres da condenação? Diante da radicalidade da cruz, da crucificação de Jesus, todo o restante torna-se insignificante. Diante dessa cruz, revelam-se nossa total impotência, nossa mais absoluta fraqueza e nossa natureza corruptível. Estamos com as mãos vazias. Essa cruz mostra-nos que não somos merecedores de nada. Mas paradoxalmente e ao mesmo tempo ela nos mostra que somos alguém para Jesus. Por isso ele a carregou e foi até a crucificação. Assim como somos, pecadores, corruptíveis, frágeis, Jesus considera-nos, chama-nos e nos expressa seu amor. Isso é o maravilhoso, a boa-nova.
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Subsídios litúrgicos
Pode-se colocar o Círio Pascal em um lugar central da celebração como sinal da fé que professamos.
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Domingo Cristo Rei
Antes da confissão de fé, pode-se acender o Círio Pascal, e a pessoa encarregada da liturgia diz: “Recebam a luz de Cristo. Caminhem sempre como filhas e filhos da luz, essa luz que nos foi dada no Batismo e que nos ilumina sempre de novo, essa luz que nos ilumina e abre nossos olhos, nosso coração e nossos ouvidos”. Liturgo: Confessemos a nossa fé. A comunidade confessa sua fé com o Credo Apostólico.
Bibliografia BIERITZ, Karl-Heinz. Das Kirchenjahr. Feste, Gedenk- und Feiertage in Geschichte und Gegenwart. München: Verlag C.H.Beck, 1994. LANGNER, Córdula. Evangelio de Lucas – Hechos de los Apóstoles. Espanha: Editorial Verbo Divino, 2008. MÜLLER, Iára. Reflexões para o Domingo Cristo Rei (21-11-2010). In: VOLKMANN, Martin (Coord.) Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 2009. v. 34. p. 365-370. (Tradução: João Artur Müller da Silva)
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AUXÍLIOS ESPECIAIS PARA PREPARAR OS 500 ANOS DA REFORMA
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Servo-arbítrio / livre-arbítrio Gottfried Brakemeier PRÉDICA: FILIPENSES 2.12-13 JEREMIAS 1.4-10 MARCOS 9.24
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Introdução
Os três textos sugeridos para leitura e pregação colocam em pauta a relação entre a vontade de Deus e a do ser humano. Jeremias é chamado para ser profeta. Ele se opõe, mas acaba se rendendo. No Evangelho de Marcos, o pai do jovem possesso pede a Jesus a cura de seu filho. Para tanto é imprescindível a fé. Aquele homem diz que tem. Ao mesmo tempo, porém, pede ajuda para a sua falta de fé. A vontade para crer é incapaz de superar a incredulidade. O apóstolo Paulo, enfim, encoraja os membros da comunidade de Filipos a empenhar-se em favor de sua salvação com temor e tremor, muito embora ou justamente por ser Deus quem opera neles tanto o querer como o fazer. Como entender? O tema da pregação proposto para esta oportunidade é um dos mais polêmicos na época da Reforma. Seremos donos de nosso próprio nariz ou obedecemos a ordens alheias? Já em 1518, no debate de Heidelberg, Lutero havia afirmado que o livre-arbítrio seria “um mero título, ao qual não corresponde nenhuma realidade”. É o que provocou o protesto de Erasmo. Ele reagiu com um escrito intitulado “Da livre vontade”. Negar a possibilidade da livre decisão seria uma ofensa à nobreza do ser humano. Lutero, em contrapartida, insiste na “vontade cativa”, no que enxerga uma consequência fatal do pecado. Esse escraviza as pessoas, condicionando seu querer e seu agir. Proponho basear a pregação em Filipenses 2.12-13. Justamente em sua paradoxalidade, esse texto é instrutivo para o assunto em debate.
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Observações exegéticas
creve:
Julgo necessário iniciar com uma tradução própria. É assim que Paulo es-
V. 12 – Portanto, meus amados, assim como sempre foram obedientes, não sejam apenas na minha presença, mas agora muito mais na minha ausência. Trabalhem por sua salvação com temor e tremor. V. 13 – Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar para seu agrado. Com a palavra “portanto” Paulo retoma as exortações anteriores da carta (cap. 1.27-2.4) e encaminha uma conclusão. Ele solicita à comunidade de Filipos “obediência”, não à sua pessoa, e sim a Deus. Obediência foi o que marcou a
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conduta de Jesus Cristo (2.8). Por isso é compromisso que inclui os e as que o seguem. Trata-se de cumprir a vontade de Deus. Paulo quer que essa obrigação seja respeitada também em sua ausência. O imperativo não se prende à presença física do apóstolo. Em termos concretos, ele espera dos cristãos e das cristãs de Filipos que se engajem em favor de sua salvação. O verbo kathergazestai é de difícil tradução. Na raiz está a palavra “trabalhar”. Por isso a maioria das traduções alemães falam em sich mühen um (esforçar-se por). Portanto importa empenhar-se em favor de sua salvação. A passagem desencadeou fervorosas controvérsias. Por um lado, ela parece abrir as portas para a cooperação do ser humano na obra redentora de Deus e legitimar o que se chamou de “sinergismo”. Ela poderia insinuar não haver salvação sem algum esforço próprio. É indiscutível que ela vem de Deus, mas o ser humano deveria fazer a sua parte. É uma interpretação reforçada quando se traduz aquele “trabalhar em favor” por “completar”. Porventura devemos acrescentar algo à obra de Deus? Simultaneamente, porém, a passagem parece excluir qualquer participação humana na salvação. Pois se é Deus quem rege a vontade e a conduta das pessoas, qualquer ação humana chega tarde. Nesse caso, Deus é o único responsável por salvação ou perdição. O ser humano não passaria de um joguete nas mãos de Deus. Sinergismo ou determinismo, qual é a resposta correta? Ora, o texto não admite essa nem aquela interpretação. Já a expressão “com temor e tremor” o acusa (1Co 2.3; 2Co 7.15). Ela designa uma atitude de reverente humildade. Seria petulância aproximar-se de Deus com reivindicações e reclamações. A confiança em Deus não dispensa o temor que sabe de sua radical dependência da graça. Por isso proíbe-se qualquer forma de vanglória. Eu não salvo a mim mesmo. Era esse também o propósito da inclusão do hino cristológico citado por Paulo (2.5-11). Uma nova realidade se fez desde que Jesus Cristo, obediente até a morte na cruz, foi exaltado e feito Senhor no céu e na terra. Está aí a salvação. Pois onde Cristo governa, o reino de Deus chegou. Logo, engana-se quem julga necessário agregar à obra de Deus algum adendo próprio. O ser humano pode tão somente aceitar o que Deus fez por ele. Mais lhe é impossível. E é a tanto que Paulo conclama os filipenses. Trabalhar pela salvação não pode ter outro sentido senão acolher o dom de Deus. Tal acolhida possui a um só tempo uma dimensão passiva e outra ativa. Ao receber um presente, sou a princípio um sujeito passivo. Alguém me dá algo sem nada cobrar. Estou sendo presenteado (!). Mesmo assim, devo estender a mão e apropriar-me daquele presente. Devo tornar-me ativo. O mesmo acontece com a salvação. Devo investir na aprendizagem da fé. Ela não vai cair do céu. Para tanto é fundamental buscar a informação, a discussão sobre dúvidas, a leitura da Bíblia e muito mais. Cruzar os braços e lamentar que Deus, infelizmente, desconsiderou-me na distribuição dos talentos religiosos não é desculpa. E, todavia, apesar dos esforços, vou descobrir no fim das coisas que foi Deus quem efetuou em mim tanto o querer como o realizar. Foi ele quem me motivou, foi ele quem me inspirou, foi ele quem despertou em mim a fé. Vou confessar com o apóstolo Paulo: Pela graça de Deus sou o que sou (1Co 15.8).
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Isso significa que deve ser afastada a ideia de um Deus tirano. O Deus de Jesus Cristo não exerce pressão. Ele busca a livre adesão do ser humano à fé. Sempre que se preconizou a imagem de um Deus impositivo, opressor, despótico, o evangelho sofreu perversão. Certamente não é fácil fugir da vocação de Deus. Existem exemplos bíblicos comoventes de pessoas que lutaram com a incumbência que receberam. Disso é exemplo não só o profeta Jeremias. Também Jonas procurou fugir, embora inutilmente. O próprio Paulo falou numa “coação” que pesava sobre ele (1Co 9). Sente-se obrigado a pregar o evangelho. Ao mesmo tempo, porém, faz questão de deixar claro que o faz voluntariamente. Por esse motivo desistiu da remuneração pelas comunidades, documentando assim sua gratidão pelo privilégio de ser apóstolo. Deus não dispõe das pessoas como de escravos. Ele quer a sua concordância. Oferece-lhes a possibilidade de rejeitar a palavra de Deus, de cair da graça (1Co 10.12), de trair o evangelho. Falar em vontade cativa não é sinônimo de negação da vontade como tal. Deus não apaga o ser humano, não o transforma em peça morta. Ele o respeita como pessoa, como parceiro, como filho e filha. Seguem, em Filipenses 2.14-18, algumas exortações, insistindo que a comunidade seja exemplo de retidão, sem falha e mácula na sociedade. Tal apelo demonstra, por sua vez, a possibilidade de opções por parte dos fiéis. Eles de modo algum estão atrelados a um Deus que programou suas ações, assim como também não os deixa sem orientação do que espera deles.
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Meditação
Em tempos mais recentes, a posição de Lutero parece ter recebido respaldo tanto da psicologia como das neurociências. De acordo com S. Freud, estaria comprovado que o ser humano não é senhor nem mesmo dentro de sua própria casa. Estaria sendo manipulado por impulsos e paixões inconscientes. Já para as neurociências, ele é refém de seu cérebro, que toma as decisões antes da pessoa dar-se conta. Em ambos os casos, o livre-arbítrio seria uma ilusão. Trata-se de uma tese inaceitável. Ela conflita com a experiência diária. Pois ninguém se comporta como máquina. Nós tratamos as pessoas como seres livres, apelamos ao bom senso, ao juízo, à sua responsabilidade. O ser humano é dotado de livre-arbítrio, sim. Ele não é robô. Essa liberdade, porém, não é total. Não menos flagrantes são os condicionamentos a que o ser humano está sujeito. Não escolhemos o sexo nem os genes, nem mesmo os pais e a data de nascimento. Não poucas pessoas sentem-se como que engaioladas em sua vida. Se tivéssemos um livre-arbítrio, nossas opções seriam outras. Também Freud não deixa de ter razão. O inconsciente exerce forte influência na personalidade. Há muito o que cerceia a liberdade. Como pensa o luteranismo a esse respeito? Quem tem razão: Erasmo ou Lutero? A resposta está no 18º Artigo da Confissão de Augsburgo. Eis o texto: Sobre o livre-arbítrio (os assinantes da Confissão) ensinam que a vontade humana tem certa liberdade para operar justiça civil e escolher entre as coisas sujeitas à razão. Não tem, entretanto, a força para operar, sem o Espírito Santo, a justiça
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de Deus... O luteranismo é realista. Sabe que o ser humano tem liberdades. Ele pode errar ou acertar, escolher esse ou aquele caminho, fazer o bem ou o mal. E, no entanto, ele permanece sendo pecador, incapaz de erradicar o mau desejo dentro de si. Não consegue libertar-se das amarras do egoísmo, da dúvida, do cinismo e de outros vícios. É cego quem projeta no ser humano uma bondade original. As pessoas ficam em débito com Deus e seus semelhantes. Eis por que não conseguem salvar-se a si mesmas. São fracas demais para produzir a fé, o amor e a esperança. Para tanto necessitam da ajuda do Espírito Santo. Elas precisam do perdão de seus pecados, da certeza de serem acolhidos pela graça de Deus, da transformação de sua mente. O que vale para o indivíduo em particular vale para a sociedade em geral. Também ela está presa a seus caprichos, seus interesses, suas ficções. Isso não desculpa seus desajustes. Para a eliminação dos males, das ameaças, da violência, bastam a mobilização do bom senso e o exercício da responsabilidade decorrente do livre-arbítrio humano. A ação política, comprometida com o bem comum, pode perfeitamente garantir a paz e a justiça. Enquanto isso, os sonhos de uma sociedade perfeita devem ser sepultados. Eles costumam conduzir a regimes autoritários. O estado religioso atrofia a democracia, tolhe a liberdade e instala a ditadura. A construção do reino de Deus está fora do alcance humano. Ela é prerrogativa do Espírito Santo. Voltando ao texto para a pregação, faço um tríplice destaque: 1) Paulo exorta a trabalhar pela salvação. Isso de modo algum é natural. Prevalece no mundo de hoje, justamente em seus segmentos secularizados, um diabólico prazer na destruição, na violência, no horror. Convém lembrar que um mundo sustentável requer o decidido mutirão em favor da salvação das pessoas, do meio ambiente, do planeta. Para sobreviver, o mundo global necessita de urgente mudança de paradigma político, mental e social. Deve repensar prioridades e estratégias. 2) Quem embarca nessa empreitada (e seria estúpido não fazê-lo) vai inevitavelmente defrontar-se com os limites de suas potencialidades. Vai perceber o quanto depende de inspiração para algo novo. A igreja cristã prega o evangelho como poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.15). Aqui está a novidade pela qual o mundo anseia. Ela tem Deus por autor. Pois fé, amor e esperança têm nele sua fonte. 3) Mas quem faz a cabeça das pessoas? Ora, são inúmeros os agentes que disputam a preferência. A vontade humana sofre as mais diversas influências, nem todas benéficas. Enquanto isso, o apóstolo Paulo confessa: “Somos determinados (constrangidos) pelo amor de Cristo” (2Co 5.14). Portanto é ele, Jesus Cristo, quem opera em nós tanto o querer como o realizar. Por isso mesmo somos exortados a buscar o reino de Deus e sua justiça (Mt 6.33), a acolher a obra redentora de Deus e a traduzi-la em trabalho por salvação neste mundo.
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Imagens para a prédica
Na era digital, a opinião pública obedece aos ditames da mídia. Jornal, rádio, televisão e, sobretudo, a internet são imagens das forças que comandam a vontade e o comportamento das pessoas. É essa a versão moderna da controvérsia entre Lutero e Erasmo. Quem tem a coragem para afirmar o livre-arbítrio na guerra das propostas, da propaganda, dos comerciais? Quem consegue distinguir entre verdade e mentira na informação? Seria trágico se nos comportássemos como simples “consumidores” de programas alheios. Temos não só o direito ao juízo próprio, como também o dever de fazer uso dele. A democracia depende de cidadãos conscientes, criteriosos, responsáveis. Ela não tolera manipulação nem censura. O livre-arbítrio é condição da dignidade humana, e a liberdade de expressão, um dos pilares democráticos. Essa liberdade, porém, vive ameaçada. Pode ser abusada para fins não só dúbios, como criminosos, ou seja, ela pode ser colocada a serviço não da salvação, e sim da repressão, da exploração, do terror. A promessa de salvação então é vã e acaba produzindo desgraça. Enquanto cultua projetos centrados em vantagens econômicas, interesses classistas, conquista de poder e objetivos semelhantes, a vontade das pessoas mostra-se irremediavelmente cativa. O remédio para essa enfermidade é o evangelho. Comprometendo com o amor de Cristo, ele desprende as pessoas de si mesmas, promove a libertação das ilusões e capacita para novidade de vida (Rm 6.1s).
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Subsídios litúrgicos
Gratidão Senhor, nosso Deus! Estamos lembrados de teu convite que diz: “Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, eu lhes darei descanso”. Estamos aí neste culto para buscar alívio e novas forças. Nós te agradecemos por tua palavra, que nos conforta na caminhada; pela promessa de estar ao nosso lado nas dificuldades do dia a dia; pelo perdão quando falhamos. Liberta-nos de nossa falta de fé e dirige nossos olhares à obra de Jesus Cristo, teu Filho, que veio para demonstrar-nos teu amor. Dirige os nossos pensamentos e capacita-nos para cumprir a tua vontade. Amém. Confissão A honestidade, Senhor, obriga-nos a confessar que ficamos em débito contigo e com as pessoas ao nosso lado. Nós nos irritamos quando deveríamos ter paciência. Nós falamos mal de nossos vizinhos. Somos desconfiados sem motivos. Permanecemos indiferentes quando deveríamos ajudar. Muitas vezes, nem nos damos conta de nossas omissões nem das feridas que causamos por nosso falar e agir. Pedimos que nossa confissão de pecados seja mais do que formalidade. Nosso orgulho dificulta a admissão de culpa. Procuramos esconder e negá-la. Tu, porém, enxergas os nossos corações. Sabes onde falhamos. Apelamos à tua
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misericórdia. Perdoa-nos as dívidas e apaga nossas transgressões. Por Jesus Cristo te pedimos. Amém. Intercessão Ao rogar por tua proteção, Senhor, para nós, nossos familiares e amigos, nós o fazemos na solidariedade de todas as pessoas que necessitam de teu auxílio. A cada momento nos chegam notícias de atrocidades, de calamidades, assassinatos e guerras sangrentas. A maioria é causada pelo próprio ser humano, incapaz de garantir a paz. É pavoroso o saldo de vítimas mundo afora e enorme o sofrimento. Isso não só em países distantes. Também o povo brasileiro sofre sob violência e privação. Nós imploramos por tua clemência. Ouve o clamor da criatura maltratada e vem em seu socorro. Acaba com a injustiça em nosso país, com a corrupção, a mentira, com o descaso do poder público para com os legítimos direitos civis. Nós queremos um país seguro, que ofereça condições de vida condigna a cada cidadão e cidadã. Nós nos lembramos dos enfermos e moribundos, dos enlutados, dos desesperados. Fica a seu lado, dá-lhes força para resistir e fortalece-lhes a fé. Necessitamos de gente comprometida com a tua causa, de pais, professores, pastores, políticos que sejam exemplos na boa condução de seu ofício. Não por último, pedimos-te por tua igreja, pelas comunidades da IECLB, por todos os seus membros. Dá vigor a seu testemunho para que não fiquem devendo à sociedade a palavra de teu evangelho. Ah, Senhor, nós temos tanta coisa para te pedir. Atende nossas súplicas e concede-nos a tua bênção. Amém.
Bibliografia BARTH, Gerhard. Der Brief an die Philipper. Zürcher Bibelkommentare. NT 9. Theologischer Verlag Zürich, 1979. KÄSEMANN, Ernst. Philipper 2.12-18. Exegetische Versuche und Besinnungen, v. 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1960. p. 293-297.
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Lutero e a música Cantem um cântico novo! Christoph Küstner Franciele Vanessa Sander PRÉDICA: SALMO 98 COLOSSENSES 3.12-17 LUCAS 1. 46-55
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Introdução
Os textos escolhidos para esta celebração animam para o louvor através da música. Eles foram muito apreciados pelo reformador Martim Lutero e ainda hoje são referência para a nossa própria prática comunitária e de fé. A música cria realidade na vida das pessoas, cria sentimento de pertença, gera comunidade. Mais do que o ensinamento, mais do que seu conteúdo teológico, dirigidos ao cérebro dos ouvintes, a música, sua melodia e seus ritmos ecoam nas profundezas da alma. (Mauro Batista de Souza) No texto à comunidade de Colossos, Paulo anima as pessoas para uma postura de humildade, cuidado mútuo e gratidão a Deus. Em consequência de sua graça, ele recomenda o ensino e a alegria expressa através da música, “louvando a Deus com salmos e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (v. 16). O texto do Magnificat foi muito valorizado pelo reformador, que dentre outras coisas escreveu: Hoje todo mundo está cheio desse tipo de servir e louvar a Deus com canto, pregação, música de órgão, pífaros, e o Magnificat é cantado maravilhosamente. Ao mesmo tempo, porém, é lamentável que usemos esse precioso cântico de modo inteiramente destituído de vigor e sabor. (OSel 6,31) O texto escolhido para a pregação deste culto especial é o Salmo 98. Esse salmo começa com o liturgo animando a comunidade para cantar um cântico novo ao Deus Rei. O que significou um cântico novo para o salmista, para Lutero e o que significa, também, para nós hoje? Neste auxílio, buscamos dar algumas pistas para refletir sobre essas questões.
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Exegese
2.1 – Entendendo o Saltério O conjunto de salmos unidos em um único livro tem o nome hebraico de Tehillim – Livro dos louvores/hinos. Ele não é um bloco único e homogêneo e conta com diferentes partes escritas, adaptadas e compiladas em diversos períodos da história de Israel. Alguns dos salmos podem dar pistas de local e momento
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histórico, todavia a confirmação dessas informações é muito difícil. Por volta do século III a.C. foram reunidos em um único livro conhecido como Saltério. A maioria dos pesquisadores concorda que o livro pode ser dividido em cinco partes, cada uma delas sendo concluída com uma doxologia, isto é, uma exclamação de louvor (1-41, 42-72, 73-89, 90-106, 107-150). Para Carlos Mesters, o Livro dos Salmos foi o livro mais divulgado e conhecido por ser uma composição vinda do povo. São cantos que brotaram e que refletem a relação do povo com Deus e de Deus com o povo. Em seu entendimento, as pessoas viam nos cantos um pretexto de sua própria vida e, por que não dizer, um reflexo da mesma. Dessa maneira, os salmos atingem o fim para o qual foram inspirados: fazem descobrir quem somos e qual a nossa responsabilidade, dando-nos esperança e fazendo-nos caminhar sempre em direção ao que Deus nos propôs. 2.2 – Entendendo o Salmo 98 O Salmo 98 faz parte dos salmos de entronização. Neles, Javé é exaltado como o rei supremo, que é levado a seu trono e deve ser exaltado por todas as nações. Javé é o dominador das forças caóticas e das nações da terra. Rios, montes e mares são chamados para louvar junto com a comunidade (v. 7-8). Um elemento parece caracterizar esses textos: a entronização, isto é, a presença repetida da fórmula jahweh malak, Javé reina. Essa aclamação aparecia nas liturgias que celebram a vitória de Javé sobre seus inimigos. Há indícios de que esses salmos teriam sido usados nas liturgias que celebravam a realeza de Javé, estabelecida no monte Sião. Os salmos de entronização constituíram o centro de uma cerimônia de culto do antigo Israel. As particularidades dessa festa, e até mesmo a sua datação, ainda estão em debate, mas é provável que acontecesse nas festividades de ano-novo. De forma dramatizada, o cortejo, carregando a Arca da Aliança, relembraria o domínio de Javé sobre o mundo. Essa seria uma festa de intensa alegria e muita música. Deus acaba de chegar solenemente em meio aos gritos de alegria. Por isso os povos devem bater palmas. Por isso um canto de louvor deve ser entoado. Os poderes vencidos por Javé são, em parte, as forças caóticas do mundo e também as outras nações. Os salmos de entronização giram em torno de um único acontecimento que está prestes a se realizar e, parcialmente, já está presente: Javé é Rei! Primeira estrofe (v. 1-3) – Um hino de vitória: vitória é a palavra que predomina nessa estrofe e que dá vazão ao cântico novo. Não é possível afirmar, com certeza, qual é o motivo da vitória, mas se pode pressupor que seja o fato de o povo exilado poder voltar à terra prometida. Deus, mais uma vez, é aquele que com a sua mão e seu braço poderoso salvou o seu povo operando maravilhas. Ao contrário do que havia acontecido com o Israel sob a tutela do povo opressor, Deus age com justiça e fidelidade. Essa palavra costuma acompanhar a ideia do amor constante de Deus. A promessa feita a Abraão mais uma vez se cumpre. Essa confiança mantinha acesa a esperança do povo e precisava ser celebrada. Segunda estrofe (v. 4-6) – O louvor universal a Yahweh: Deus, Rei maravilhoso e poderoso, deve ser exaltado por todos os povos, e isso acontece através
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da música. A música aqui é bem específica: harpas e canto, trombetas e sons de buzinas. Champlim busca descrever esse momento de modo entusiástico: O cortejo seguia caminho na direção do templo, a fim de celebrar a cerimônia de entronização, fazendo de Yahweh, uma vez mais, o Rei de Israel e, de fato, o Rei Universal. O coro avançava cantando; as trombetas tocavam; os instrumentos musicais também; as mulheres dançavam. O coro convoca todos os povos de todos os lugares a juntar-se ao cântico, no espírito do evento, com uma dedicação correspondente a Yahweh como o Rei da vida. Há grande ruído de alegria, regozijo e atividade frenética. Diz aqui o original hebraico, literalmente “explodi e cantai em voz alta”, como se fossem águas precipitando-se, tal qual o estampido de um raio caído do céu. Terceira estrofe (v. 7-9) – Louvor da criação: ao colocar os rios, montes e mares a louvar a Deus, o autor do calmo parece atestar, de forma absoluta, a universalidade do reinado de Yahweh. Segundo Champlin, esse momento é a chegada do cortejo ao templo e quando os sacrifícios são iniciados. Enquanto isso, a música continua a ser feita e a dança continua. No templo, conclui-se a proclamação de que Javé, uma vez mais, foi coroado e proclamado Rei Universal. No final do salmo, há uma fala messiânica e profética de que ele virá para julgar o mundo com justiça e os povos com equidade. Como pessoas cristãs, entendemos a consumação dessa profecia no Cristo, vindo de Deus, para a nossa salvação. Essa certeza dá-nos motivos para cantar, tocar e dançar para o nosso Senhor, que é Rei sobre todo o universo e Senhor sobre toda a justiça.
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Meditação
O texto do Salmo 98 foi escolhido por nós por deixar bem claro que Deus deve ser louvado. A forma mais plena de fazer isso é através da música que envolve todo o corpo da pessoa e toda a comunidade. Lutero sabia da importância da música, pois ela esteve presente durante toda a sua vida. Havia música em sua casa com família e pessoas que por lá passavam, mas também em suas recomendações para a prática de fé das comunidades. Além disso, em diversos momentos, Lutero cobrou das autoridades que reconhecessem o valor da música na prática do ensino e também das pessoas que com ela trabalhavam (para mais informações sobre a música na biografia de Lutero veja as indicações bibliográficas). Ao falar sobre o Livro dos Salmos em seu prefácio (OSel 8), Lutero eleva-o à categoria de pequena Bíblia por conter o verdadeiro coração dos santos que o escreveram. Para ele, qualquer pessoa encontra palavras vindas do coração de quem os escreveu e encontra conforto para si mesma ao lê-los. Lutero recomenda a leitura dos salmos como quem come do maná do deserto, como um presente de Deus para todas e todos nós. Onde quer que cristãos tenham se reunido para adorar e louvar a Deus, eles entoaram canções – de fé e confiança, de penitência e confissão, de exílio e renascimento, de confissão e salvação. Ao longo de vinte séculos de história cristã, palavras juntas têm sido um meio para cantar o velho em uma nova terra. (SCHALK, Carl F. Paradigmas de Louvor, p. 39)
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Para Lutero, a música é criação e dádiva de Deus. Ele escreveu: Eu gostaria que todas as artes, particularmente a música, estivessem a serviço daquele que as concebeu e criou (OSel 7, 481). Ele entendia a música como proclamação, isto é, como instrumento através do qual Deus fala a seu povo. Do mesmo modo, Lutero via a música como forma de expressão do sacerdócio geral das pessoas que creem. Lutero compara a alegria do evangelho com música alegre e bem feita, entoada pelas pessoas que creem no Deus encarnado em Jesus Cristo. Para ele, a música é aliada na proclamação do evangelho e instrumento de Deus para tocar o coração e a mente das pessoas. No Salmo 98, lemos que nosso Deus é Rei. Mas que tipo de rei é esse? Que vitória esse rei nos dá? Nosso Deus é Rei, mas um rei que se entrega e nos convida a seguir os seus caminhos. Um rei que “derrubou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1.52). Nosso Deus é um rei que dá voz às pessoas marginalizadas para que possam cantar, como Maria, a alegria da encarnação do verbo. A música ajuda nesse processo, torna palavras em louvor, e essas palavras podem espalhar-se para todo o mundo, para todas e todos verem. A comunidade cristã e a música somente existem porque Deus é o seu Senhor. Esse Deus, porém, não é qualquer rei como o mundo conhece, mas um rei que se fez gente e habitou entre nós, cheio de graça e bondade. Um rei que em humildade e entrega venceu os poderes da morte para a nossa salvação. Essa é a nossa vitória, essa é a mensagem de nossos hinos e de nossa pregação. Esse culto pode ser um bom momento para que a comunidade avalie o espaço que tem dedicado à música em suas ações, em seus cultos. Ela tem o caráter de pregação? Ela tem chegado até as pessoas? Os hinos que escolhemos, a forma como eles são executados, a valorização que damos, como igreja, para as pessoas que se dedicam a esse ministério dizem muito sobre como nós estamos valorizando esse presente dado por Deus. À medida que nos empenhamos em fazer da música elemento importante em nossas celebrações, vamos estar valorizando um instrumento fundamental de pregação do evangelho, que toca as pessoas em seu íntimo e leva-as ao encontro do próprio Deus. O Salmo 98 fala em cântico novo. O que isso significa para nós? Não precisamos estar necessariamente buscando sempre novos hinos, mas podemos, sim, com qualidade, utilizar-nos de hinos que falam ao coração de nossos membros, tornando-os vivos e dinâmicos com arranjos diferenciados e instrumentos que dão vida à música, observando e valorizando o que é característico de cada comunidade e local onde ela está inserida. A música pode ser um caminho para a formação da comunidade que aprende e põe em ação o sacerdócio geral, colocando os seus dons a serviço e celebrando com alegria o Deus da vida em culto.
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Imagens para a prédica
Percebemos duas possibilidades claras para a elaboração desta prédica. Ambas podem ser usadas conjunta ou separadamente. A primeira é a questão da música presente nos três textos e na vida do reformador. A segunda possibilidade é a questão do reinado de Deus e sua vitória. Pode-se fazer uma atualização per-
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tinente para a sociedade atual. Algumas perguntas que surgem no texto indicado para a pregação podem ajudar-nos: em que Deus tem sido fiel? Qual é a nossa vitória? Nesse aspecto, os dois textos auxiliares expressam com clareza que nosso Deus é um Rei bondoso e misericordioso, cheio de humildade e bondade. O seu reinado é diferente do que tem sido pregado em nossos dias. Ao optarmos por aliar os dois aspectos na pregação, podemos apontar para o fato de que Deus é sim rei supremo, porém é como o conhecemos em Jesus. Um rei que em humildade entrega-se em favor de seu povo, concedendo-nos graça e salvação. Essa certeza dá-nos motivos para entoar hinos de louvor e gratidão, como fez Maria e como orientou Paulo. Como imagem, sugerimos fazer uma pregação um pouco diferente, utilizando um hino como parte ou até mesmo base da pregação. Ela seria montada sobre o texto do hino. Esse poderia ser cantado pela comunidade em diferentes momentos dentro da pregação, repetindo estrofes ou partilhando-as durante o tempo da pregação, ressaltando o aspecto de proclamação da música, assim como a participação da comunidade no culto como sacerdócio geral. Disponibilizamos algumas sugestões presentes em nosso hinário Hinos do Povo de Deus (HPD): 238, 242, 254, 258 e 260.
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Subsídios litúrgicos
Como este culto tem a música como centro da reflexão, ela deveria ser também o centro de toda a liturgia. Sugerimos que cada elemento litúrgico seja pensado visando à participação comunitária através do canto. É importante, porém, tomar o cuidado de não preencher a liturgia com cantos novos, mas sim usar cantos que a comunidade conheça, dando segurança à sua participação. Cantos novos podem ser entoados, mas em proporção adequada. Nos materiais publicados por nossa igreja, há grande diversidade de kyries, glórias, bênçãos etc., que podem ser usadas em culto. Acolhida Celebrai com júbilo ao Senhor, todos os confins da terra; aclamai, regozijai-vos e cantai louvores (Sl 98.4). Confissão de pecados Querido e misericordioso Deus, pedimos perdão por todas as vezes em que não confiamos plenamente em tua sabedoria, desejando para nós vitória, conforme vimos e experimentamos no mundo em que vivemos. Perdoa, bom Deus, pois nos afastamos de teus ensinamentos de humildade e bondade. Pedimos perdão por nossa indiferença diante das situações de desigualdade e injustiça deste mundo. Por Jesus pedimos, tem misericórdia de nós e conceda-nos o teu perdão. C.: (canta) Perdão, Senhor, perdão.
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Bibliografia DREHER, Martin N. Auxílio homilético sobre o Salmo 45.1-7,1-11 (Dia da Reforma). In: Proclamar Libertação 26, 2000, p. 313-319. SCHALK, Carl F. Lutero e a Música. Paradigmas de louvor. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2013.
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As mulheres na Reforma Protestante Claudete Beise Ulrich O que o movimento da Reforma trouxe para as mulheres? Foram elas encorajadas, fortalecidas e libertadas pelo movimento da Reforma? Não há dúvida de que muitas mudanças que vivemos hoje na igreja, e inclusive na sociedade, vieram da coragem de Martim Lutero. No entanto, o movimento da Reforma é mais do que somente Martim Lutero. Muitas pessoas, homens e mulheres, antes e depois dele, estiveram envolvidas e morreram por mudanças na igreja. Quando lemos ou falamos sobre a Reforma Protestante, logo pensamos nos grandes reformadores religiosos: Martim Lutero, Filipe Melanchthon, João Bugenhagen, João Calvino, Ulrico Zwínglio, entre outros. A pergunta pela presença e atuação das mulheres no movimento da Reforma Protestante pode-se dizer que é nova. Faz alguns anos que mulheres e também homens iniciaram projetos de pesquisa sobre a temática das mulheres. É importante lembrar que a pesquisa sobre a presença e a atuação das mulheres em processos históricos, como a Reforma e a vida cotidiana, recebe um impulso forte a partir do movimento das mulheres, do movimento feminista e atualmente através da pesquisa de gênero. Pesquisadores e pesquisadoras do movimento da Reforma1 descobriram não somente uma mulher forte, considerada a primeira administradora, Katharina von Bora (casada com o reformador Martim Lutero), mas também várias outras mulheres fortes: escritoras, teólogas, poetisas, regentes, intelectuais.2 Entre elas estava Catarina Zell, considerada uma fantástica e corajosa teóloga leiga, que escreveu e publicou várias cartas teológicas em forma de panfleto e também pregou publicamente por três vezes. Outra foi Argula von Grumbach, que há poucos anos saiu do silêncio da história. Ela vinha de família nobre e, quando tinha dez anos, já recebeu de presente de seu pai uma Bíblia. Portanto ela sabia ler e tinha conhecimentos bíblicos. Argula colocou-se ao lado de um jovem professor que tinha sido aluno de Melanchthon e que não fora aceito na Universidade de Ingolstadt devido às suas ideias reformatórias. Ela é reconhecida como a primeira escritora protestante. Escreveu cartas (tipo panfletos), que foram publicadas, defendendo o ideal da Reforma Protestante com conhecimento teológico e citações bíblicas, que traduzem a ideia da inclusão e igualdade, como, por exemplo, Joel 2.28 e Gálatas 3.27-28. A Igreja Territorial da Baviera criou, há pouco tempo, uma fundação com o nome da escritora, com o objetivo de promover direitos iguais para mulheres e homens bem como para auxiliar nas discussões sobre as questões de igualdade e justiça de gênero no contexto da igreja e da sociedade. É realmente incompreensível que ela ficou silenciada quando se estudam a sua história de vida e a contribuição que ela deu ao movimento da Reforma. Marie Dentiere, uma ex-abadessa, importante teóloga, que atuou em Genebra (Suíça), afirmou que a leitura da Bíblia realizada pelas mulheres fá-las descobrir mulheres na Bíblia e que os exemplos dessas mulheres as fortalecem em
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sua fé, em suas qualidades, virtudes, pensamentos, ações e conhecimentos. Dessa maneira, a Bíblia apresenta evidências claras de que as mulheres podem interferir, dizer a sua palavra, como sujeitas, como teólogas, e não devem ser difamadas, caladas ou deixadas dentro dos armários. Outra mulher intelectual do período da Reforma é Olympia Morata, uma grande conhecedora da língua grega. De origem italiana, Olympia aprendeu com muita facilidade as línguas antigas e conhecia muito bem os antigos filósofos. A sua simpatia em relação ao movimento da Reforma é influenciada pelos estudiosos e humanistas italianos. Com seu esposo mudou-se para Schweinfurt, na Baviera, e lá surpreendentemente recebeu o convite da Universidade de Heidelberg para lecionar grego. Como reconhecimento, a Igreja de Baden nominou o seu seminário de formação de pastoras e de pastores de “Morata-Haus” (Casa de Morata). Também mulheres regentes, princesas e poetisas colocaram-se ao lado do movimento da Reforma Protestante, instituindo mudanças em seus reinados como, por exemplo, as princesas Elisabeth von Calenberg-Göttingen (atualmente região de Hannover e Braunschweig) e Elisabeth von Rochlitz (atualmente região de Sachsen). Já Elisabeth Cruciger é considerada a primeira poetisa do movimento da Reforma. Ela escreveu um hino que se encontra no hinário na língua alemã e ainda hoje é cantado no tempo de Epifania. Esse, infelizmente, não se encontra mais no hinário em português. Contudo os ganhos reais que o movimento da Reforma trouxe para a vida das mulheres têm sido examinados de forma criteriosa somente nos últimos anos.3 É fácil constatar que as ideias revolucionárias da Reforma atingiram praticamente todas as esferas da vida, inclusive a vida das mulheres. Um exemplo é o princípio do sola scriptura, difundido por Martim Lutero, que sustenta que a autoridade da Bíblia está acima de todas as tradições da igreja e dos dogmas. Tal hermenêutica proposta pela Reforma Protestante, segundo a qual a leitura da Bíblia deve ser realizada a partir de Jesus Cristo, é fundamental para a atuação das mulheres. Outro exemplo é a propagação da doutrina do sacerdócio geral de todas as pessoas batizadas (2Pe 2.9), exposta no escrito “À Nobreza Cristã da Nação Alemã” (agosto de 1520), segundo a qual todas as pessoas se tornam iguais a partir do Batismo (Gl 3.27-28). A afirmação de que toda mulher e todo homem têm acesso direto a Deus, sem necessidade de nenhum intercessor ou intercessora, fortalece as mulheres, já que elas não necessitam de nenhuma pessoa, também de nenhum homem, para entrar em contato com Deus. Nesse mesmo escrito, Lutero também fala da ética do trabalho (Berufsethik), sustentando que todo trabalho é digno e tem igual valor. Não somente o trabalho espiritual agrada a Deus, mas todos os trabalhos são importantes; isso significa também o trabalho cotidiano e normal das mulheres. E não por último, outro texto muito importante de Lutero é o livro “Da Liberdade Cristã” (20 de novembro de 1520). As teses principais desse escrito dizem que “o cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito” e que “o cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito”. A primeira tese é válida “na fé”; a segunda, “no amor”. Esse tratado
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também encorajou as mulheres a assumir a sua própria forma de viver a vida, e assim muitas deixaram de viver enclausuradas no convento. É necessário frisar que a lista positiva dos efeitos que o movimento da Reforma trouxe para a vida das pessoas é apenas um lado da história. Existe também um outro lado: o lado sombrio da Reforma. Sempre é importante analisar a história a partir dos diferentes ângulos e sua influência na vida das pessoas. Para Katharina von Bora e as outras monjas que fugiram do convento de Nimbschen, aquele foi um ato de libertação. Também Elisabeth von Meseritz e Ursula von Münsterberg saíram do convento por vontade própria. Elas perceberam que no convento não havia a possibilidade de praticar o amor ao próximo que elas desejavam. Mas houve também mulheres que não quiseram deixar a vida no convento. Muitas não desejavam o casamento e nem mesmo a maternidade. Elas se sentiam bem com a vida monástica, pois estavam acostumadas e familiarizadas com os horários e as regras fixas, com a vivência da espiritualidade e com as mulheres que compartilhavam a vida monástica. As alternativas que se apresentavam para quem saísse do convento não eram as mais atraentes. Elas precisavam encontrar um homem com quem quisessem casar e assim tornavam-se esposas, donas de casa e mães. Outra alternativa seria voltar para a família de origem, mas muitas famílias já não as recebiam de volta, pois elas voltavam com as mãos vazias. Sair do convento era uma decisão difícil. Era deixar para trás uma vida protegida e privilegiada, que oferecia educação, conhecimentos de latim, de música, de medicina, de administração etc. Além do mais, nesse ambiente, elas não eram tuteladas por nenhum homem, não sofriam os perigos físicos da gravidez, do parto e do puerpério. Muitas freiras não sentiam a vida monástica como Lutero a tinha designado: uma “prisão eterna”. Naturalmente também a vida monástica tinha o seu lado sombrio. Algumas freiras superioras eram muito rígidas, lideravam a partir de um duro regimento, sendo que também a nobre profissão de pobreza, obediência e castidade nem sempre era respeitada. Com a crítica à vida monástica e a dissolução dos mosteiros, não só um modelo de vida feminina, mas um novo padrão de vida para as mulheres foi definido. Foi determinado um novo espaço para a mulher. Uma mulher deveria ser esposa, servir o marido, gerar e cuidar de crianças, cuidar da casa. Lutero também defendia que a mulher fora criada para o casamento e a gestação de crianças. Um tal pensamento, graças a Deus, foi deixado para trás, mas a fixação de que o ideal de vida para as mulheres ainda é o casamento é uma realidade que dura até a atualidade. Ainda hoje, quando uma mulher deseja outra vida do que o casamento, ela é vista com um certo ceticismo e uma certa suspeita. É interessante perceber como está ancorada em nossa forma de pensar o modelo tradicional de casamento e também de família. A liberdade cristã e o sacerdócio geral de todas as pessoas crentes, que eram tão caros para Martim Lutero, não foram de fato uma referência para a vida das mulheres. O potencial emancipatório da Reforma ainda não fora totalmente desenvolvido para as mulheres. É interessante perceber que as mulheres tiveram uma presença e atuação enquanto a Reforma era um movimento. No momento em que se institucionalizou como igreja da Reforma, as mulheres foram perdendo
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o seu espaço. Já há muito tempo, o sacerdócio geral de todos os crentes deveria ter aberto às mulheres a entrada em todos os ministérios. No entanto, isso demorou muitos anos para acontecer. Se pensamos na IECLB, faz 32 anos que temos a ordenação de pastoras. Levou quase 500 anos para que as mulheres pudessem estudar teologia, ser ordenadas e tornar-se pastoras, isso inclusive na Alemanha, berço da Reforma Luterana. Atualmente, temos pastoras, catequistas, diáconas, missionárias, presbíteras, doutoras em Teologia, mulheres líderes nas comunidades, em diferentes grupos comunitários. Temos várias mulheres estudando Teologia. Além do mais, se pensamos em nosso país, temos uma mulher presidente do país. Muitas mulheres são chefes sozinhas de sua família. No entanto, muitas mulheres ainda estão lutando por salário igual para trabalho igual. A questão da violência doméstica e do feminicídio é uma realidade muito presente em nosso cotidiano comunitário e também na sociedade brasileira. Além do mais, a nossa forma de entender a família ainda está baseada num modelo tradicional. Contudo há muitos novos modelos de família em nossas comunidades e na sociedade brasileira, que nós muitas vezes não reconhecemos. Temos mulheres chefes de família, que sozinhas criam as suas crianças. Os tipos de família estão em permanente processo de mudança e transformação. O mais importante deve ser o amor e não os modelos tradicionais de casamento e família que temos em nossas mentes. A liberdade cristã deve ser vivida com amor e responsabilidade. Uma outra pergunta reformatória para o tempo presente: por que rejeitamos aqueles e aquelas que têm outra orientação sexual senão a heterossexual? Em que nos baseamos para excluir essas pessoas de nosso meio? Por que elas não podem assumir e exercer os ministérios na igreja? Por que elas ainda necessitam ficar escondidas? Foi a Reforma um ganho em liberdade, significando um impulso para a emancipação das mulheres e também dos homens? O movimento da Reforma incentivou, fortaleceu e tornou as mulheres mais capazes de se envolver com a vida na igreja e na sociedade? Todavia os terrenos da igreja e da sociedade eram e ainda são muito rochosos, cheios de espinhos, e a semente da igualdade e do direito à diferença ainda não se pode desenvolver. Em muitos lugares, a semente da libertação que a Bíblia nos apresenta e que as ideias do movimento da Reforma nos trouxeram ainda se encontram no chão, esperando o momento certo para germinar, brotar e dar seu fruto. A palavra libertadora do apóstolo Paulo em Gálatas 3.28 (“Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”) também é uma semente que ainda está esperando um solo fértil para seu pleno desenvolvimento. Eu não desisto da esperança visionária de uma igreja igualitária e inclusiva para todos e todas. Estamos e continuamos sempre em Reforma, como o próprio Lutero protagonizou. Ser igreja de Jesus Cristo, herdeira do movimento reformatório, é ser uma igreja que constantemente se autocritica e se renova, tendo como base o amor solidário e o comprometimento com a vida em abundância para todas as pessoas e para toda a criação.4
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Alguns pontos para a prédica A Reforma Protestante não teria acontecido sem as mulheres. Ela trouxe mudanças fundamentais para a vida das pessoas. No entanto, também trouxe um modelo de mulher e de família que hoje necessita ser repensado. O cuidado da casa e das crianças necessita ser repartido entre a mãe e o pai. Além disso, necessitamos reconhecer outros modelos de família já presentes em nosso cotidiano. O importante em qualquer tipo de família é que o amor solidário e cuidadoso esteja presente. O destino natural das mulheres não são o casamento e a gestação de crianças. Elas também podem ser felizes escolhendo outros caminhos, por exemplo dando primazia à sua carreira profissional. Lembrar durante a pregação textos de Lutero: a autoridade está centrada na Bíblia e não nas tradições da igreja. A partir do Batismo, segundo Gálatas 3.27-28, somos todos iguais e não há diferença entre homens e mulheres. Importante é que tanto as mulheres como os homens desenvolvam um pensamento próprio e crítico a partir da leitura bíblica, tendo como referência o viver e fazer de Jesus Cristo. As mulheres e os homens devem hoje impulsionar o movimento da Reforma para frente, por exemplo a partir de um diálogo ecumênico com outras confissões cristãs religiosas ou um diálogo interreligioso com outras religiões que envolvem temas relacionados à vida das mulheres. Por exemplo: violência, falta de educação a que muitas ainda são submetidas, pobreza, salário igual para trabalho igual, tráfico humano etc. Colocar também em questão os modelos tradicionais atribuídos às mulheres e à família. Encerrar a prédica com uma citação de Argula von Grumbach: E mesmo se viesse a acontecer que Lutero negasse tudo o que disse – que Deus não o permita –, isso não mudaria em nada a minha opinião. Eu não construo a minha opinião sobre a opinião de Lutero ou de qualquer outra pessoa, mas sobre a verdadeira rocha: Jesus Cristo (Birnstein, p. 33). Argula von Grumbach é uma verdadeira teóloga protestante. Ela tem clara a sua convicção evangélica cristã: a sua rocha é Jesus Cristo. Que a esperança de uma igreja inclusiva e acolhedora fortaleça-nos em nosso processo de ser igreja sempre em reforma!
Subsídios litúrgicos Saudação e chamado à adoração Dar as boas-vindas, de forma que todas as pessoas no culto se sintam acolhidas e bem recebidas. Nós celebramos este culto em nome de Deus, fonte de vida, que nos põe em movimento; em nome de Jesus Cristo, que em sua vivência mostra a força do poder através da vivência do amor, e em nome do poder do Espírito Santo, verdade que liberta. Amém. Leitura do Salmo 46 (Em dois grupos)
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Kyrie
Deus da vida, há muitas dores e sofrimento em nossas famílias, comunidade, país e no mundo. Pensamos hoje especialmente na vida das mulheres que não têm igual oportunidade como os homens. Lembramos das tantas mulheres e meninas que não têm direito à educação e daquelas que são traficadas, prostituídas. Lembramos das mulheres que sofrem violência doméstica e de tantas outras que já faleceram, vítimas do feminicídio. São muitas as dores de nosso mundo. Por isso clamamos: Pelas dores deste mundo, ó Senhor (Kyrie – Rodolfo Gaede) Leituras bíblicas Joel 2.27-28; Gálatas 3.27-28; 1 Pedro 2.9 (Cantar entre um e outro texto um pequeno refrão) Sugestão de credo Hino composto pela primeira poetisa do movimento da Reforma: Elisabeth Cruciger. A mensagem desse hino afirma que a fé cristã não é apenas um ato de compreensão intelectual, mas um movimento do coração, voltado não para o céu distante, mas para uma espiritualidade engajada na vida concreta. Senhor Jesus Cristo, o único Filho de Deus, / Pai em eternidade / Do seu coração brotou, / como está escrito, / ele é a estrela da manhã, / a sua luz brilha até os lugares mais distantes, clara muito além das outras estrelas; Nascido para nós como ser humano, /quando completou-se o tempo / Para que nós não ficássemos perdidos na eternidade / Até a morte para nós aniquilou, / o céu ele abriu / A vida de volta foi trazida. Deixa-nos em teu amor / e que teu conhecimento tome conta, / que nós permaneçamos na fé, / e que te sirvamos em Espírito / que nós possamos aqui sentir o gosto / da doçura do teu coração / sendo sempre sedentos de ti. Tu, criador de todas as coisas, / Tu, força paterna, governas de eternidade a eternidade, / poderoso a partir do teu próprio poder. / Dirige nossos corações a ti / e transforma os nossos sentimentos. Para que não nos apartemos de ti. Faça-nos dormir com a tua bondade, / acorda-nos com tua graça. O velho ser humano adoece, / para que o novo possa viver. E aqui nesta terra / que a mente, todos os desejos e pensamentos sejam levados para ti. (Tradução própria)
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Bibliografia BIRNSTEIN, Uwe. Argula von Grumbach: Das Leben der bayerischen Reformatorin. Schwarzenfeld: Neufeld Verlag, 2014. DALFERTH, Heloisa Gralow. Katharina von Bora: uma biografia. São Leopoldo: Sinodal, 2010. DOMRÖSE, Sonja. Frauen der Reformationszeit: Gelehrt, mutig und glaubensfest. 2. Auflage. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2011. ELLRICH, Hartmut. Die Frauen der Reformatoren. Petersberg: Michael Imhof, 2012. KOCH, Ursula. Die gelebte Botschaft: Frauen der Reformation. Hamburg: Agentur des Rauhen Hauses Hamburg, 2010. LUTERO, Martinho: Tratado de Martinho Lutero sobre a liberdade cristã (1520), in: Obras Selecionadas, v. 2, p. 435-460, À Nobreza Cristã da Nação Alemã (1520) in: Obras Selecionadas, v. 2, p. 277-340; Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas. In: Obras Selecionadas, v. 5, p. 302-325, Uma Prédica para que Mandem os Filhos à Escola. In: Obras Selecionadas v. 5, p. Matrimônio – Bigamia – Divórcio – Prostituição, in: Obras Selecionadas v. 5, 149-292. PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC, 2005. Notas bibliográficas 1
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A colega Pa. Heloisa Gralow Dalferth e eu estamos elaborando um livro sobre as mulheres na Reforma Protestante, onde traremos mais detalhes biográficos de mulheres envolvidas no movimento da Reforma. O mesmo será publicado pela Editora Sinodal, de São Leopoldo (RS), em 2017. Infelizmente, há poucos registros sobre a vida das mulheres pobres.
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Este ano está sendo discutido o tema das imagens e a Reforma na Alemanha. Percebe-se nas pinturas de Lucas Cranach uma forte presença de mulheres e também de crianças.
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Um grupo de teólogos e teológas de várias partes de nosso mundo, depois de ampla discussão em trabalho em grupo e na plenária, elaborou novas 94 teses para uma igreja que necessita estar sempre em reforma. Consulte: http://reformation-radical.com/index.php/de/thesen.html.
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Palavra e pregação em Lutero Júlio Cézar Adam
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Introdução
Este auxílio homilético enquadra-se dentro dos auxílios especiais do Proclamar Libertação. Trata-se de um auxílio sobre o tema “Palavra e pregação em Lutero”, com vistas aos festejos dos 500 anos da Reforma em 2017. O auxílio pode contribuir tanto para uma prédica temática sobre a palavra e a pregação em Lutero como pode auxiliar para uma prédica textual, no caso com base em Romanos 10.14-21. Escolhemos como textos paralelos Isaías 55.6-11 e João 1. 1-14. Os três textos tratam da palavra de Deus como força dinâmica que cria vida, transforma, encarna-se na história de ontem e de hoje. A palavra de Deus sempre causa algo quando é ouvida ou experimentada. A pregação evangélica, qual sacramento, é sempre presença real, viva voz do evangelho, presença viva de Cristo no meio da comunidade e no mundo. Como a chuva, ela sempre deixará suas marcas na terra antes de voltar a ser chuva. Pregar sobre essa dinâmica da própria pregação pode ser algo muito importante para a caminhada de aprendizagem e de fé da comunidade.
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Palavra e pregação em Lutero
A pregação foi um dos principais pilares da Reforma. A importância da pregação advém de uma nova hermenêutica, uma nova maneira de entender a própria palavra de Deus. Para Lutero, a palavra de Deus é o meio através do qual toda a vida de fé e toda a vida da igreja tornam-se realidade. Quem faz da palavra algo efetivo é o Espírito Santo através da pregação. O que é a palavra para Lutero? A palavra é a Sagrada Escritura. Mas para ele, a Sagrada Escritura não é simplesmente a palavra de Deus, mas sim o registro mais importante da palavra de Deus. A palavra de Deus, para Lutero, é algo vivo, algo que escapa às letras da Escritura. A palavra são Cristo e seu evangelho. Jesus Cristo é o centro e o critério de toda a palavra. Como diz N. Kirst, Jesus Cristo é tudo o que Deus tem a nos dizer. A partir de Cristo pode-se, inclusive, criticar a Escritura. Deus efetua tudo por meio desta sua palavra: Sem a Palavra, o Espírito Santo não opera a santidade dos cristãos, da igreja, da communio sanctorum; sem a Palavra não há unidade, sem a Palavra a igreja fraqueja, sem a Palavra a igreja não pode servir de orientadora, pois a igreja é gerada pela Palavra, é alimentada pala Palavra, é fortalecida pela Palavra1. É por meio da palavra, Cristo, que o ser humano pecador é justificado. Como se dá isso? Por meio da pregação. A pregação cristã é em essência ouvir dessa palavra de Deus. Pregação é articulação da voz de Deus através da voz humana. Pregar é, portanto, dar voz àquilo que chamamos de evangelho, dar voz ao Cristo. Em outras palavras, a prédica faz o que ela diz. O próprio sermão é uma experiência com a palavra
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de Deus. Aqui Lutero toma por base o termo hebraico dabar. A palavra de Deus não apenas diz algo, mas no momento em que diz ela faz, acontece.2 Para Lutero, assim como a palavra de Deus estava no início do mundo e criou o mundo e continua presente no mundo, falando e ressoando, e na pessoa de Jesus Cristo não só transmite uma mensagem da salvação, mas ela mesma como palavra salva, perdoa, reconcilia e justifica, assim a prédica é continuidade do acontecimento da salvação em nosso tempo, compreensível para cada ouvinte.3 Partindo dessa compreensão, a pregação não é um instrumento para dar recados, informar, estabelecer regras morais para depois do culto, para a vida do dia seguinte. A própria prédica é audição ativa da palavra de Deus. A pregação é o momento de ouvir a palavra de Deus, viva vox evangelii. A experiência, o que se ouve, durante o tempo que dura a pregação está no primeiro plano. Podemos ampliar essa ideia porque nos parece que essa dimensão se tem perdido em nossas prédicas. Como acontecimento linguístico, a prédica não tem um sentido adicional que vá além dela mesma; i.é, ela faz sentido e é significativa em si própria. Não é portadora de informações para mensagens, apelos, medidas educacionais4. Quem faz isso arrasta o ouvinte para longe da palavra de Deus. O que poderia acontecer – a saber, que a palavra atinja o ouvinte – acaba ficando de fora. A gente fala “sobre” como eram as coisas nos tempos bíblicos, “sobre” aquilo que poderia resultar da palavra de Deus. Mas se deixam de fora o presente, o agora em que o pregador fala e o ouvinte ouve. Só mais tarde, após o culto, o ouvinte deve adaptar o que o pregador esboça em palavras como ideal, deve orientar-se por isso, “lá fora”, no cotidiano. Porém não se concede à prédica o atributo de que a palavra tenha uma força que pode atuar no aqui e agora.5 No acontecimento da palavra, por meio da pregação, os ouvintes estão, sim, exatamente por isso, implicados, como provocativamente nos dirá Ernst Lange: Pregar significa: eu falo com o ouvinte sobre a sua vida. Eu falo com ele sobre suas experiências e visões, suas esperanças e decepções, seus sucessos e fracassos, suas tarefas e seu porvir. Eu falo com ele sobre seu mundo e sua responsabilidade neste mundo, sobre as ameaças e oportunidades da sua existência. Ele, o ouvinte, é meu tema, não outro; livre: ele, o ouvinte diante de Deus.6 Portanto, na prédica, estamos diante de Cristo, tecendo a história da salvação aqui e agora. Não é falar sobre salvação, é salvar. Não é falar sobre perdoar, é perdoar. Não é teologizar sobre a graça, mas vivenciá-la. Não é relatar a ressurreição, e sim experimentá-la na dinâmica do já e ainda não.7 La predicación no consiste esencialmente en comunicar nuevas ideas sino en narrar de nuevo una historia, la de la gracia de Dios en nuestra salvación, y esperar que Dios vuelva a hablar y a actuar mediante esa historia.8 Algo muito importante deve ser lembrado. A pregação como forma de tornar viva a palavra de Deus só é possível pela ação do Espírito Santo. Como dirá Paulo: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou no coração humana o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2. 9-10). Como dirá Ebeling, o Espírito está oculto
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na letra. É sempre ele quem transforma a letra em boa-nova, em palavra da graça. Pois o Espírito Santo é por definição presença atualizante, Espírito vivificante, em contraste com a letra, que está presa ao passado e, por isso, entrega a pessoa ao passado.9 Toda fala de Deus, portanto, depende sempre e unicamente dessa dinâmica. Falar de Deus dá-se por meio da palavra pregada e experimentada nos sacramentos, sempre sob ação do Espírito Santo, por meio e na fé. A prédica não é, portanto, em primeiro lugar, uma lição, uma instrução, uma exortação, um roteiro para ser seguido depois do culto. A prédica é um acontecimento sonoro e concreto e real, presença, viva vox evangelii, no tempo em que dura a pregação. A prédica dá-se no momento em que é pregada, na experiência do ouvinte, no acontecimento sonoro da palavra de Deus, através da voz da pregadora, pela ação do Espírito. E mais, nessa dinâmica do Espírito, a palavra é autônoma. Ela age de forma livre, muito além da nossa ação humana, como muito bem exemplifica Lutero no trecho abaixo: Yo predicaré, enseñaré, escribiré, pero no forzaré a nadie, porque la fe necesita nacer libremente, sin coerción. Vean el ejemplo de mi propia persona. Yo me opuse a las indulgencias y a todos los papistas sin el uso de la fuerza. Yo simplemente enseñé, prediqué y escribí la Palabra de Dios, y nada más. Y mientras yo dormía o bebía cerveza con mis amigos Phillip Melanchton y Nicholas von Amsdorf, la Palabra de Dios incomodaba fuertemente al papado […] Yo nada hice; la Palabra lo hizo todo sola.10
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Texto de Rm 10.14-21: Ouvir faz a palavra viver, desperta a fé
3.1 – Introdução Lutero considera a Carta aos Romanos um dos principais escritos do Novo Testamento. Esta epístola é, sem dúvida, o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro Evangelho.11 No prefácio à Carta aos Romanos e depois no comentário à carta, Lutero reflete sobre os principais temas da teologia, como pecado, graça e dádiva, fé, justiça, carne e espírito, entre outros, temas que serão refletidos com base na nova hermenêutica da Reforma. Sobre pregação, especificamente, Lutero não fala. Ele pressupõe, obviamente, a pregação como forma de articular todos esses temas e torná-los vivos aos ouvintes. A pregação é tarefa primeira da igreja. A igreja existe por causa da pregação. Igreja é para ele, ao mesmo tempo, criatura da palavra, e a razão de ser da igreja é dar conta de pregar a palavra. Romanos 10.14-21 não é tratado por Lutero na perspectiva da pregação. Lutero reflete sobre o conjunto dos capítulos 9, 10 e 11, falando sobre nossa dependência da palavra como único meio para deixar-se conduzir por Deus e ser salvos, justificados, por meio de Jesus Cristo. Pois somos tão fracos e inseguros que, se dependesse de nós, naturalmente nem uma pessoa sequer se salvaria e o diabo, com certeza, a todas sobrepujaria.12 Toda vez que a palavra é pregada, a justificação torna-se real para aqueles que ouvem, pela fé e para a fé.
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3.2 – Exegese A preocupação principal de Paulo nessa perícope é o fechamento de Israel para o anúncio do evangelho. Paulo quer mostrar, assim, que não há desculpas por parte de Israel diante da salvação concedida. V. 14-15 – Paulo mostra aqui a necessidade da pregação. A pregação como princípio para o despertar da fé. Sem ouvir não há como crer, e sem crer não há como invocar. Por isso são imprescindíveis o ministério da pregação e o envio de pregadores. Por isso o apóstolo resgata o texto de Isaías que exalta a base para o despertar da fé: formosos são os pés daqueles e daquelas que pregam (Is 52.7). V. 16 – Mesmo assim, a constatação de Paulo aqui é de que nem todos os que ouviram obedeceram ao evangelho, assim como o profeta Isaías constatara em seu tempo. Mostra, assim, que o evangelho não obriga seus ouvintes a uma decisão, mas os deixa livres para ouvir ou não. V. 17 – Não há, portanto, automatismo da fé. A fé vem pelo ouvir de uma mensagem. A mensagem vem antes da fé. A fé é a aceitação dessa mensagem. No grego, temos aqui o verbo akouō (ouvir, de acústica). Ouvir é ação primeira e fundamental. Não é, porém, um simples ouvir. Ouvir é mais do que escutar. A segunda parte do versículo caracteriza o ouvir: ouvir pela palavra de Cristo (rema está aqui para palavra). Rema é expressão, assunto, dito. Ou seja, não é apenas ouvir “a fala de Cristo” nem ouvir “palavras” apenas, mas um ouvir ativo. Cristo é mais do que uma ideia, uma tese ou uma palavra. Cristo é uma expressão, algo palpável, concreto, vivo, um todo, palavra feito gente. V. 18-21 – Aqui Paulo trata especificamente da situação de não escuta da mensagem por parte de Israel. A pregação e o ouvir não têm efeitos mágicos e automáticos. Muitos ouvem e não entendem ou simplesmente não aceitam a mensagem como palavra. A fé não é simples reação automática à pregação. A pregação está fora do controle de quem prega.
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Meditação
Romanos 10.14-21 é um bom texto para refletir sobre a dinâmica da palavra de Deus por meio da pregação. Ouvir faz a palavra viver e desperta a fé. A fé vem pelo ouvir da voz do evangelho. No ouvir, os ouvintes estão sempre implicados. Eles são convocados para o processo. Pregação pela palavra de Cristo torna o ouvir algo ativo. Por isso a pregação evangélica não deveria deixar de falar de Cristo, porque nele temos proximidade com a vida. Na missão da pregação, tende-se a ver o que vem até o púlpito como o mais importante: o labor exegético em torno do texto bíblico, o labor homilético em torno do texto da prédica, o púlpito como espaço da performance homilética. Nessa lógica, a pregação está mais centrada no pregador. O texto leva-nos a refletir sobre o outro lado, o lado do ouvinte, da acústica. Ouvir é um processo que é desencadeado. Ou seja: a fé não vem por ações nem é desencadeada pela pregação, tampouco pelo estudo da teologia ou da homilética. A fé vem pelo
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ouvir de uma voz: a viva vox evangelii. Quando se ouve a voz do evangelho, algo tremendo, inusitado, novo, misterioso acontece. Nasce a fé. Fred Creddock, em sua proposta da nova homilética, corrobora provocativamente essa ideia. A pregação tem muito mais a ver com o ouvir do que com o exercício meticuloso e trabalhoso da pregadora. Segundo ele, a palavra de Deus não está localizada nas páginas (da Bíblia) nem nos lábios (de quem prega), mas nos ouvidos (de quem ouve).13 Essa forma de refletir sobre o texto de Romanos 10.14-21 tem relação com o que vimos acima sobre a compreensão de Lutero da palavra de Deus. A palavra de Deus, o dabar de Deus, que é Cristo, impacta, causa algo, move algo no ouvinte. A palavra encarna-se, sempre de novo, quando pregada, pela ação do Espírito Santo. Obviamente, não temos controle sobre essa dinâmica. Quem faz a Escritura e a prédica, como texto, ser palavra de Deus é sempre o Espírito Santo. A palavra de Deus é sempre autônoma para falar ou não. Também o ouvir ou não da palavra tem a ver com a ação do Espírito Santo, como o autor da fé das pessoas que ouvem. Parece-nos importante tratar dessa dinâmica da palavra no púlpito. A pregação da palavra não é uma fórmula de causa e efeito. Assim como o apóstolo Paulo mesmo constata: “nem todos obedeceram ao evangelho” (v. 16). A pregação é exercício de fé. Cremos que ela desperta a fé pelo ouvir da palavra de Cristo. Trata-se de um exercício frágil, falível e incerto para a razão. Pregação é um exercício des-controlado. Está fora do controle de quem prega. Escapa às explicações teológicas, hermenêuticas, homiléticas e da própria ciências da comunicação. Mesmo assim, esse exercício des-controlado, falível e frágil garantiu a caminhada da igreja por dois mil anos. Não há outra via para a igreja senão a via da pregação.
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Imagens para a prédica
Como falamos na introdução, esta prédica poderia ser uma prédica sobre a própria pregação. O que é pregação? Por que pregamos? Prédica é um momento para ouvir sobre textos bíblicos ou um momento de experimentar a palavra de Deus com um evento presente entre a comunidade? Como somos capturados pela pregação? Um outro caminho seria refletir sobre o texto de Romanos, sobre a fé que nasce da pregação do evangelho. O que isso significa? O que significa ouvir por meio da palavra de Cristo? Seria interessante perceber que a pregação da palavra extrapola o púlpito. A palavra é pregada e ouvida no todo do ministério da igreja: koinonia, diaconia, catequese, liturgia e martiria. Vale a pena aqui uma comparação. O livro “Coração de tinta”, da escritora Cornelia Funkel, talvez nos ajude a perceber um pouco essa dinâmica da palavra que cria algo, bastando ser lida. Com base nesse livro produziu-se o filme homônimo, dirigido por Iain Softley. Nessa história, quando as lendas são lidas, os personagens saem das páginas e ganham vida, tornam-se reais.
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Subsídios litúrgicos
Palavra e pregação vão além do púlpito. Os sacramentos, como palavra visível, a liturgia e a música, como pregação através de ritos, gestos e símbolos, são aspectos muito importantes nesta reflexão. Por isso proponho uma oração eucarística para os cultos em que essa temática for pregada. Oração eucarística Diálogo L: A Palavra Viva esteja convosco. C: E contigo também! L: Vamos voltar todo o nosso ser à Palavra Viva! C: Sim, voltemo-nos à Palavra Viva! L: Agradeçamos pela Palavra Viva estar no meio de nós. C: É justo e necessário agradecer. Prefácio L: Sim, é justo e necessário agradecer-te, tu, Palavra Viva, nosso Deus. Por meio da tua palavra tu fizeste e fazes acontecer o sol, a lua, as estrelas, a terra e a vida. Por meio da tua palavra, tu te comunicaste com teu povo por meio de homens e mulheres, pregadores e pregadoras, ao longo da história, tornando conhecida a tua palavra. No tempo certo, tua palavra tornou-se gente e morou entre nós cheia de graça, bondade e misericórdia. Por isso louvamos-te com nossas palavras, sons e sentimentos, cantando o permanentemente entoado hino “Santo, Santo, Santo”. C: (hino) Santo, Santo, Santo. Anamnese L: A palavra feito gente, Jesus Cristo, viveu entre nós. Nunca antes vimos tamanho amor e bondade! Nunca antes experimentamos tamanha justiça! Nunca antes vivenciamos tão concretamente um outro projeto de vida, o evangelho, cuja base são o amor, a paz e a justiça. Muitos, porém, não ouviram e não aceitaram a mensagem. Ele, porém, Jesus Cristo, a Palavra Viva, não recuou. Por causa da palavra Evangelho ele foi preso, torturado e morto na cruz. Tu, porém, o ressuscitaste no terceiro dia, fazendo assim com que tua palavra continuasse viva entre nós. Narrativa da instituição L: Nesta ceia, lembramos e tornamos presente tua palavra. Por ordem de Jesus Cristo, fazemos esta memória. Ele, na noite em que foi traído, tomou o pão... (segue a narrativa da instituição).
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Epiclese L: Envia a nós, Palavra Viva, o Espírito Santo, aquele que fala a nós por meio da tua eterna palavra. Que o Espírito Santo torne esta ceia comida e bebida da nossa salvação, palavra visível que alimenta nossa fé e nossa esperança pelo teu reino de graça e beleza, mesa farta onde todos e todas terão acento. C: (hino) Envia teu Espírito... Doxologia C: (hino) Por Cristo, com Cristo e em Cristo...
Bibliografia DREHER, Martin N. Igreja, Ministério, Chamado e Ordenação. São Leopoldo/ Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 2011. EBELING, Gerhard. O pensamento de Lutero: uma introdução. São Leopoldo: Sinodal, 1988. ENGEMANN, Wilfried. Einführung in die Homiletik. Tübingen/Basel: Francke, 2002. LUTERO, Martinho. A Epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo aos Romanos (1515-16). In: LUTERO, Martinho. Obras selecionadas. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 2003. v. 8, p. 254-330. LUTERO, Martinho. Prefácio à epístola de S. Paulo aos Romanos (1546). In: LUTERO, Martinho. Obras selecionadas. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/ Concórdia, 2003. v. 8, p. 129-141. POHL, Adolf. Carta aos Romanos: comentário esperança. Curitiba: Esperança, 1999. ROSE, Michael. Homilética. In: SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. (Org.). Teologia prática no contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal/ ASTE, 1998. p. 143-171. SOUZA, Mauro B. de. A nova Homilética: ouvintes como ponto de partida na pregação cristã. Estudos Teológicos, ano 47, v. 1, p. 5-24, 2007. SOUZA, Mauro B. de. La prédica en Martín Lutero: algunas implicaciones para la predicación cristiana latinoamericana de la actualidade. In: LÓPEZ RUBIO, Amós (Org.). Y el verbo se hizo carne: desafíos actuales a la predicación evangélica en la América. La Habana: Editorial Caminos, 2010. p. 116. STAM, Juan. Fundamentos teológicos de la predicación. In: LÓPEZ RUBIO, Amós (Org.). Y el verbo se hizo carne: desafíos actuales a la predicación evangélica en la América. La Habana: Editorial Caminos, 2010. p. 13-26. VOGT, Fabian. Predigen als Erlebnis: narrative Verkündigung einer Homiletik für das 21. Jahrhundert. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 2009.
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Notas bibliográficas DREHER, Martin N. Igreja, Ministério, Chamado e Ordenação. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 2011. p. 28. 2 DREHER, 2011, p. 53s. 3 ENGELMANN, Wilfried. Einführung in die Homiletik. Tübingen/Basel: Francke, 2002. p. 96. 4 ROSE, Michael. Homilética. In: SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. (Org.). Teologia prática no contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal/ASTE, 1998. p. 158. 5 ROSE, 1998, p. 158. 6 LANGE, apud VOGT, Fabian. Predigen als Erlebnis: narrative Verkündigung einer Homiletik für das 21. Jahrhundert. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 2009. p. 21. 7 VOGT, 2009, p. 33ss. 8 STAM, Juan. Fundamentos teológicos de la predicación. In: LÓPEZ RUBIO, Amós (Org.). Y el verbo se hizo carne: desafíos actuales a la predicación evangélica en la América. La Habana: Editorial Caminos, 2010. p. 13s. 9 EBELING, Gerhard. O pensamento de Lutero: uma introdução. São Leopoldo: Sinodal, 1988. p. 78. 10 Sermão de Martim Lutero, de 1522 (Luther´s Works 51, 77), referido em SOUZA, Mauro B. de. La prédica en Martín Lutero: algunas implicaciones para la predicación cristiana latinoamericana de la actualidade. In: LÓPEZ RUBIO, Amós (Org.). Y el verbo se hizo carne: desafíos actuales a la predicación evangélica en la América. La Habana: Editorial Caminos, 2010. p. 116. 11 LUTERO, Martinho. Prefácio à epístola de S. Paulo aos Romanos (1546). In: LUTERO, Martinho. Obras selecionadas. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 2003. v. 8, p. 129. 12 LUTERO, 2003, p. 139. 13 SOUZA, Mauro B. de. A nova Homilética: ouvintes como ponto de partida na pregação cristã. Estudos Teológicos, ano 47, v. 1, p. 5-24, 2007, p. 7. 1
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XL A ceia do Senhor – O sacramento do altar ..................................................................... XXXIX, 369 Advento – Celebração .......................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio ....................................................................................................XV, 304 Ação de graças ................................................................................XII, 300; XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita ........................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370; XXXVI, 365; .......................................................................................................................................XXXVII, 348 Achados e perdidos – experiências .................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) .....................IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ........................... X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) ...........................................................IX, 83 As três primeiras petições do Pai-Nosso ........................................................................ XXXIX, 359 A velhice ...................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para ....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de .............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial .............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) .................................................................................................................. XX, 351 (Ct 8.7)...................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12) ...............................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ..............................................................................................................................XV, 77 Breve exortação à confissão ........................................................................................... XXXIX, 375 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................ XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ............................ XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular ..................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) ................................................................................................ X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)........................................................................................................ II, 187 (Dt 30.11-20) ............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69) .............................................................................................................. XII, 293 (Mt 5.14-16) ............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18) ............................................................................................................... XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ........................................................ XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ........................................................ XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1)........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) .......................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ..................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) ...............................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ........................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)...................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ............................................................................................................ XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ....................................................... XIII, 42
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Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ............................................... XII, 27 Deus na marginalidade .............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo .........................................................................................................XXVI, 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38) ................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) ......................................................................................................................VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ............................................................................................................ XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43) ............................................................................................. XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) ...................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11) .............................................................................................................. XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .....................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ..................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21) .................................................................................................................. I, 143 (1 Co 15.50-58) ......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44) ................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33) .......................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) .......................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) .......................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20) ...................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10) ..........................................................................................................XXXV, 347 (1Ts 4.13-18) ..................................................................................................... XXXVI, 335 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) .........................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4) ................................................................................................................ II, 336 (Mc 12.13-17).............................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16) ...............................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13) ....................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) .......................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) ..............................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10) ................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7) ...................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33) ...........................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12) .............................................................................................................. VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ...................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6) ............................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13) ...............................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) ..........................................................................................................XXXII, 307 (Jr 31.31-34) ...................................................................................................... XXXVI, 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...............................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..............................................................................................III, 62 (2 Ts 3.6-13) ...................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ......................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) .........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música .................................................XXXIII, 401; XXXVII, 353 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])............. XII, 307 (Ap 3.14-22) ............................................................................................................ XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16) .............................................. XX, 309; XXXVI, 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) .......................................................................... XIII, 74
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Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) .............................. XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ...............................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) ...........................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) ...........................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ............................................................................................................... XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...” .......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .............................................. X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) ...........................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ........................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25) ............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ........................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) .......................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ........................................................................... XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .............................................................. X, 74 Joga limpo, Brasil ....................................................................................................... XXXVIII, 363 Jubileu 500 anos da Reforma ...................................................................................... XXXVIII, 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ....................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay .......................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ........................................................................IX, 57 Lutero e a música ...................................................................................................................XL, 335 Marketing e igreja .................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...............................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) .............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..............................................XI, 65 Missão (1 Co 12).................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)...... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ................................ X, 106 Mulheres agricultoras.............................................................................................................XVI, 15 Mulheres na Reforma Protestante ..........................................................................................XL, 341 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) .................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ........................................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .............................................. II, 176 Lucas .......................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................................................ XII, 34 O desafio de ser autor de PL ....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças...............................................................................XV, 33
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O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .............................................. X, 48 O Lecionário Ecumênico .......................................................................................................XV, 315 O nosso Pai que está no céu ........................................................................................... XXXIX, 351 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15) .................................................................................................... XIII, 18 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade ................................................................................ XXXIX, 364 Palavra e pregação em Lutero ................................................................................................XL, 348 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................ XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) .................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) ..................................................... XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ........................................................... XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ............... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) .......................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ....................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15) .................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB .........XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).................................................................XI, 85 Semana do excepcional ...................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) .............................................................................................................. XX, 355 (Jo 19.25-27) ............................................................................................................ XX, 360 (Sl 39.5-7)................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) .........................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8) ........................................................................................................... XXVIII, 365 Servo-arbítrio / livre-arbítrio..................................................................................................XL, 329 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ............................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém .........................................................................................................XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ................ XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ............................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ................................................................................ XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O)....................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, 74 Vigília pascal ........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................ XII, 61
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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XL ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ............ VIII,185 1.26-31; 2.1-3 .................................. III,105 2.4-15 ...................................... XXVIII,301 2.4b-15 ...........................V,330; XXXV,211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ....... XXX,66; XVIII,84; ....................................XXXV,127; XL,150 2.8-15 ............................................. XIII,74; 2.18-24 ...................... XXII,254; XXV,282; ................................................ XXXIII,343 3.1-9 .............................................. XII,170; 3.1-19(20-24) ............................... XXV,214 3.1-24 ...............................................VI,133 3.8-15 ...................................... XXXIX,195 4.1-16 ..............................VII,203; XIII,246 8.1-13 ..............................................XV,135 8.15-22 .................................... I,71 (68); 78 11.1-9 ............................ XII,205; XVII,130 12.1-4 ........................................... XVIII,88 12.1-4a ...................VII,165; XXXVIII,125 15.1-6 ..... XXVI,256; XXXIV,283; XL,231 17.1-13 ........................................XXVII,40 18.1-10a(10b-14) .... XX,208; XXXVII,223 18.20-21(22)23-32 ......................... XX,214 21.8-21 ............................................ XIII,60 22.1-13 .............................................VI,144 22.1-14(15-18) ...............................XXII,65 28.10-17(18-22) .............................XXII,71 32.23-31 .......................................XVII,240 32.23-33 ...................................II,207 (374) 50.15-21 ................ XXIV,272; XXVII,240; ......................... XXXV,295; XXXVIII,284 Êxodo 1.8-22 ........................................ IX,107 2.1-10 ...................................... XXVIII,181 3.1-14 ..............................................XII,154 3.1-8,13-15................................. XXVI,108 6.2-8 ..........................XVIII,218; XXX,214 12.1-14 ............................XXI,108; XL,109 13.20-22 ......................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) .... XXVIII, 276 16.2-4,9-15.............................. XXXVI,251 16.2-3,11-18 ...................................XIV,283 19.2-8a ......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ............XXII,75 22.21-27 ........................................ XXI,280 24.1-11 ............. XXXII,123; XXXVIII,146 24.3-11 .. XVI,224; XXV,164; XXVIII,272 24.12,15-18 .................. XXI,78; XXXII,79 32.7-14 ..XV,225; XXIII,177; XXXVII,272 33.18-23 ...........................................VI,102
34.4b-10 .............................III,153; XV,273 34.29-35 ..................XXV,123; XXXVII,87 Levítico 19.1-2,9-18 ...................XXXVIII,101 Números 6.22-27 ....... XXXIII,58; XXXVI,48; .................................................................XL,48 11.11-12,14-17,24-25.................... VIII,205 11.24-30 ....................................XXXII,169 12.9-16 ..............................................XII,18 21.4-9 .............VII,101; XIII,159; XXII,80; ...........................XXXIII,146; XXXIX,114 24.15-19 ..........................................XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII,235; ................................................ XXXVI,274 4.32-34, 39-40 .........................XXVII, 148 5.12-15 ..................... III, 43; XXXVIII,171 6.1-9 ....................................... XXXIII, 373 6.4-9 ..............................XV, 246, XIX, 164 7.6-12 ..............................................VI, 219 8.6-10 ...............................................XII, 11 8.7-18 .....................................XXXVII,348 10.12-22 .................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28 .........XXI,164; XXXII, 184 17.14-20 ...........................................XII, 51 18.15-20 .... XIX,67; XXXI,57; XXXIII,92; .................................................. XXXIX,81 24.14-15 .............................................IX,63 26.1-11 ........................ XXXIII,394; XL,81 26.3-11 ........................................ XXVI, 91 30.9-14 ....................................XXXIV, 257 30.11-20 ......................................... VIII, 23 30.15-20 ...............XXXIV, 303; XXXV, 93 32.36-39 ....................................... XXIII,79 34.1-12 ........................XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9.............................................VII, 36 8.1-8 ..................................................XII,61 24.1-2a,13-25 ............. III,117; XXXIX,262 Juízes 4.1-7 .....................................XXXII,319 5.24-31 ................................................ X,37 9.7-15 .................................................IX,98 Rute 1.1-19a .................................... XXIX,289 1 Samuel 2.1-10.............. II,176 (343); VII,113 2.18-20,26 .........................................XL,43 3.1-10(19) .....................XIX, 55; XXXI,44 3.1-10,19 ........................................ XXV,86 11.1-15 ...............................................V,337 2 Samuel 7.1-11,16 ........................ XXXVI,24 7.4-6,12,14a,16 .............................. XXV,35 11.26-12.10,13-15 ..................... XXIX,199; .................................. XXXIV,231; XL,189
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12.1-10,13-14...................................IX,264 12.1-10,13-15a ................................XV,261 1 Reis 3.5-12 ................ XXIV,240; XXXII,236 3.16-28 ........................................ XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43...................XVII,141 8.22-24,26-28...................................VI,189 8.22-30 ............................................XII,191 8.41-43 ...................................... XXIX, 188 17.8-16 .XVI,292; XXXI,286; XXXVI,346; ...................................................XXXIX,332 17.17-24 .................. XVII,146; XXIX,192; ...............................................XXXVII,193 19.1-8(9-13a) ...............................XXII,226 19.1-13a ......................XIV,185; XVIII,204 19.1-18 ............................................... III,92 19.4-8 ...................................... XXXIII,285 19.9-13a ..................................... XXX,204 19.(14-18)19-21 ........XVII,159; XXIX,205 2 Reis 2.1-12 ................................ XXXVI,105 2.9-18 .....................................XXXVII,174 4.42-44 .................................... XXXIX,238 5.1-14 ........................................... XXXI,71 5.1-19a ..............................................VII,58 Neemias 5.1-5(6-12) ............................. XIII,11 5.1-12 ................................................IX,83; 8.1-2,5-6......................XX,183; XXXIV,95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36)............. ................................................... XXXI,263 Jó 7.1-7 ..............................XIX, 73; XXXI,63 19.23-27a ...............................XXXVII,329 38.1-11 ......................................... XXV,221 Salmo 1 ......................................... XXXIX,177 16 ..........................................XXXVIII,165 22 .................................................... XL,115 22.1-19 ...................................... XXXV,169 22.1-12,17-20.............................. XXX,104 22.2-12,17-20..............................XVIII,116 23 ................................XXXV,187; XL,137 46.1-7(1-11) ..... XXVI, 313; XXXVII,311 105.1-7 ..................................XXXVIII,356 111................................................ XXVI,27 112 ....................................................XII,77 130.4 ..................................................VI,34 147.12-20 .................................. XXXIX,54 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ...................... XX, 225 3.1-8(-13) .......................VI, 48; XXXV, 51 3.9-15 ................................................. X, 16 4.1-4 ................................................... X, 84 5.18 .................................................... X, 65 9.13-18 ............................................... X, 25 Provérbios 8.22-31......................... XXIII, 109 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.7-13 ........................................ XXIII, 172 16.1-9 ............................................. VIII, 80
24.10-14 ..........................................XII, 45 30.5-9 ........................................ XXVI, 215 Isaías 1.1-9 ........................................ XIII, 116 1.10-17 ...........................................XV, 297 2.1-5 ................. VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7 .............. VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13 .............................. VI, 198; XII, 213 7.10-14 ........................................... XXI, 37 7.10-14(15-17) ..........XIII, 104; XXXII, 27 9.1-4 ........................................XXXVIII,80 9.1-6 ............................................ XVIII, 31 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.2-7 ........................... V, 294; XXXVIII,39 11.1-5 ............................................. XVI, 63 11.1-9 XVIII, 58; XXXIII, 31; XXXVII,31; .....................................................XXXIX,30 11.1-9(10-11) .................................XIV,148 11.1-10 ................. XXVII,16; XXXVIII,15 12.1-6 ......................................... XXVI,114 24.12-16a ...................................... XIII,312 25.6-8 ............................................ XIX,114 25.6-9 ... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24 ..........................................XII,233 29.18-24 .......................................... III, 130 30.(8-14),15-17 .................................VI, 97 33.13-17,22 ............................. XXXVI,187 35.1-10 .XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; ..... XXXV, 22; XXXV, 347; XXXVIII,334 35.3-7 .......................XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10 ...............................X,158; XIV,115 35.4-7a ................................... XXXIII, 315 40.1-11 . VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 ..........................................IX, 216 42.1-7(-9) ......XXI,51; XXV,80; XXXV,69; ................................................ XXXIX,131 42.14-21 ......................XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7 .......................... II,132 (299); XL,58 43.16-21 ............................................XL,97 44.1-5 ..................................... XXXIII, 401 44.6-8 .............. XXXV, 246; XXXVIII,242 44.9- 20 .......................................... XIII, 50 45.1-7 ......................XXI, 264; XXXII, 293 45.19-25 ..........................................XL,298 45.22-25 ................................... XXVIII, 49 49.1-6 ...........................III, 85; XXXVII,58 50.4-9 .....................II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a ......................................... XXX, 94 50.4-10 .......................XIX,241; XXXI,252 51.1-6 ........................................XXXII,259 52.7-10 ....... XV,100; XXII,37; XXXIII,70; .................................................. XXXIX,58 52.13-53.12 ............... V,72; IX,196; XV,185; .................................. XII,109; XXXVI,146 53.4-12 .................................... XXXIX,310
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53.10-12 ...................................... XXV, 294 54.7-10 .............................IX, 183; XV, 170 55.1-5 .......... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; ................................................... XXX, 197 55.1-9 ......................................XXXIV, 120 55.6-7 ................................................VI, 24 55.6-11 ......................................XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a ............................ VIII, 119 55,10-11 .....................................XXIV, 223 56.1,6-8 ................ XVIII, 213; XXX, 209; ........................ XXXV, 274; XXXVIII,263 58.1-9a ...........................................XV, 147 58.1-12 ..... IX,50; XXXIII,125; XXXIX,97 58.5-9a ........................................XXIV, 88 58.7-12 ...........................................XII, 300 60.1-6 . V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; .............................. XXIX,54; XXXVIII,63 61.1-3(4-9), 11 ............................. XIII, 120 61.1-3,10-11 ............................ XXVIII, 20 61.1-3,11,10 .....................................VII, 44 61.10-62.3 . XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5 ..........................XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12 ................II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12 XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16) ........... XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3 ...................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3 ................ I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ................XXII, 9 64.1-9 ........................ XXXIII,9; XXXIX,9 65.17-25 ......................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14 .............XXIX, 213; XXXVII,217 Jeremias 1.4-10 ................ VII, 184; XIII, 228; .................................................XXXVII,82 7.1-11 .......................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5) ...............................XIV, 301 7.21-26 ......................................... XXX, 15 8.4-7 ........................... VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23 ..............................................VII,71 11.18-20 ....................XIX,246; XXXI,256; ................................................ XXXIX,287 14.7-10,19-22.......... XXXVII,305; XL,286 15.15-21 ....................XVIII,222; XXX,220 17.5-8 ........................................... XXIII,55 20.7-13 . VIII,145; XXI,181; XXXVIII,219 22.13-19 .......................................... XIII,80 23.1-6 ............................................ XVI,217 23.2-6 ............................................. XX,301 23.5-8 .................................. VI,62; XII,103 23.16-29 .................II,144, (311); XIII,209; ...............................................XXXVII,251 26.8-15 ........................................ XXVI, 97 28.5-9 ........................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a .......................................... III,34 31.1-13 ......................................... XXIX,35
31.7-9(-14) ................XXV,301; XXXV, 58 31.10-13(14) ..................................XVII,34 31.31-34 ...................XXII,85; XXXVI,329 33.14-16 ........................................ XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32 .................VI,269 3.21-33 ................... XXV,226; XXXIX,212 Ezequiel 2.1-5............................... XXXVI,226 2.1-8a ........................................... XXV,231 2.3-8a; 3.17-19 .........................II, 96, (263) 17.22-24 .................................. XXXIII,239 18.1-4,21-24,30-32 .........................IX,247; 18.1-4, 25-37.............................XXVII,243 33.7-9 ........................................XXVII,230 34.1-2(3-9), 10-16......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31.......................VI,170; 34.11-16,23-24 ..... XXIV,328; XXXV,363; ............................................. XXXVIII,347 37.1-3(4-10), 11-14 ................... XVIII,103 37.1-3,11-14 .................................. XXX,89 37.1-14 ...XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ................................................ XXXIII,228 37.24-28 .......................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) .................. XVI,311; ................................................ XXXIX,344 12.1-3 ........................ XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2 ...................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ......................................... XXI,169 11.1-4,8-9 ............... XXIV,323; XXVII,284 Joel 2.1-2,12-17 .............................XXXVI,111 2.12-18 ............................................XII,166 2.21-27 ......................................XXXII,212 2.28-29 .......................................... XXI,153 Amós 3.1-8 .........................XXIV,75; XXX,54 5.6-7,10-15.............................. XXXVI,309 5.18-24 ...................................... XXXV,352 5.21-24 ..............................................VII,76 6.1-7 .................... XXIII,189; XXXVII,286 7.7-15 ...................................... XXXIII,264 7.10-15(16-17) ............................. XVI,211 8.4-7 .......................................... XXIII,181 9.7-10 ................................................ X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............XIX,61; XXXI,52; ................................................. XXXVI,81 3.10-4.11 ...................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a........................ VI,88; XII,114 5.2-4 ............................................. XXIX,21 5.2-5 ......... XVI,63; XXVII,29; XXXIV,30; ..........................................................XL,24 6.1-8 ......... XXIV,79; XXVII,58; XXXV,87 6.6-8 ...............................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; ............................XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-20 ............... XX,20; XXXVII,20
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Zacarias 7.9-10 ............................... XXVI,267 8.1-8 ...........................................XXIV,337 9.9-10 ..............X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11) ..................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5 ......................................... XXIII,9 NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12 .X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ............. XXVII, 46; XXXII,62; XXXV, 28 2.13-18(-23) ....................V,304; XXXV,46; ................................................XXXVIII,47 3.1-12 ....... XVIII,15; XXIV,24; XXXV, 14 3.13-17 ............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; ............. XXX,44; XXXII,66; XXXVIII,68 4.1-11 .......... IV,14; XXVII,70; XXXII,85; ..............................................XXXVIII,119 4.12-17 ............................................XII,142 4.12-23 ...................... XVIII,61; XXXV, 81 4.23-25 .................................XII,35; XII,34 5.1-10 .......................... IV,212; XXXII,307 5.1-12 .....................XVIII,64; XXXVIII,85 5.13-16 ............................................. X,390; 5.13-16(17-20) ............................. XVIII,69 5.17-20 ............................................ IV,125; 5.20-37 ...................XVIII,73; XXXVIII,96 5.38-48 ....II, 193, (360); X,460; XXXV, 99 6.1-4 ..............................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-21........ XXXIV,115; XXXVII,94; ..............................................XXXVIII,114 6.5-13 ....................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13 ................................. VI,53; VIII,192 6.16-18 ............................................. IV,133 6.24-34 ......................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 .....................X,428; XXXVIII,352 7.15-23 ............................................. IV,140 7.21-29 .. XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 ............................................VI,233; 9.1-8 ................................................. IV,198 9.9-13 ..... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 .................................... XVIII,170 10.7-15 ...................................II, 104, (271) 10.24-39 ....................................XXXII,204 10.26-33 .................. XVIII,176; XXX,168; ................................................XXXIV, 347 10.26b-33 ........................ VI,291; XII,268; 10.26-36 ......................................XXIV,203 10.34-39 ..........................................XII,274 10.34-42 ....................XVIII,181; XXX,174 10.40-42 ........... XXXV,229; XXXVIII,225 11.2-10 .............................................. X,170 11.2-11 ........ III,215;; XXI,30; XXVII, 22;
............................. XXXII,21; XXXVIII,21 11.16-19,25-30 ..........................XXXII,221 11.25-30 . XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.14-21 .................................... XXXVI,63 12.22-30 ........................................... IV,217 12.33-35(36-37) ..............................XII,307 12.38-42 .................. II, 225, (292); XII,175 13.1-9(18-23) ......... XXI,196; XXVII, 188; .......XXX,189; XXXV, 240; XXXVIII,237 13.24-30(36-43) ........ XVIII,289; XXI,203; ..................................................XXXII,229 13.31-33 ................................XXXVIII,247 13.44-46 II, 150, (317); VIII,253; XIV,295; ................................................. XXXV, 253 13.44-52 ...................XXI,207; XXVII, 194 14.13-21 XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ..................................................XXXII,241 14.22-33 ..VI,109; XXIV,249; XXVII, 202; ........................ XXXV, 267; XXXVIII,258 15.21-28 .... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ..................................................XXXII,255 16.13-19 ....................................... XXIII,40 16.13-20 ............... XXIV,260; XXVII, 216; ......................... XXXV,278; XXXVIII,268 16.13-20(23) .......................... II, 72, (239); 16.21-26 ................. XXI,223; XXVII,222; ..................................................XXXII,264 17.1-9 ............. X,216; XVIII,78; XXX,60; ................................................. XXXV, 114 18.1-5 .............. XXXVII,48; XXXVIII,310 18.15-20 .............II, 123, (290); XVIII,226; .............................. XXX, 227; XXXV, 290 18.21-35 ...... X,467; XVIII,232; XXX,234; ..................................................XXXII,269 19.16-26 ................................ II, 182, (349) 20.1-16a .IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 ..................XXIX,296; XXXV,302; ..............................................XXXVIII,290 20.17-28 .......................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 ................................... III,194; X,149 21.1-11 ..................................XXXVIII,140 21.14-17 .................... II,52, (219); XII,185; ...............................................XXXVII,353 21.23-32 ....................................XXXII,282 21.28-32 ........................ VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46) ........ XVIII,250; XXXV,315; ..............................................XXXVIII,304 22.1-10 (11-14) ........XXX,243; XVIII,254 22.1-14 ...........IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22) ........ XVIII,259; XXXV,323; ..............................................XXXVIII,314 22.23-33 ......... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 .......................................... IV,194; 22.34-40(41-46) ...... XXX,253; XXXII,298
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23.1-12 .................II,158, (325); XXX,259; .................................................. XXXV,335 24.1-14 ............................ VI,68; XVIII,275 24.15-28 ........................................... IV,222 24.37-44 ........ XXI,21; XXVII,9; XXXII,9; ..................................................XXXVIII,9 25.1-13 ............ IV,243; XI,336; XXIV,312; .................................................... XXX,277 25.14-30 .. II, 233, (400); X,394; XVIII,272; ................................................... XXX, 286 25.31-37 .................................... XVIII, 297 25.31-46 ....... IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ........... XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; .................................................XXXII, 324 26.14-27.66 ............................... XXXV,157 26.30-56 .................................... XVIII, 109 26.36-46(-56) ..............VI, 29; XXXV, 162; ..............................................XXXVIII,154 26.57-75 .....................................XXIV,122 27.11-26 .................................... XXXII,116 27.33-50(51-54) ....VIII,162; XXXVIII,154 27.33-54 ......................XXI,111; XXVII,99 27.33-56 .........................................XIV,201 28.1-10 ...... VI,167; XXIV,139; XXXV,176 28.16-20 ....X,374; XXX,156; XXXIV,203; ....................................XXXV,222; XL,156 Marcos 1.1-8 ..................XXII,14; XXVIII,13; .............................. XXXIII,16; XXXIX,13 1.4-11 .....XXII,48; XXVIII,64; XXXVI,69 1.9-15 ................ XXXIII,132; XXXIX,102 1.12-15 ..........XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20 .. XXII,56; XXVIII,73; XXXIII,84; .................................................. XXXIX,75 1.21-28 .... XVI,99; XXVIII,79; XXXVI,86 1.29-39 ................XXVIII,87; XXXIII,101; .................................................. XXXIX,87 1.32-39 .............................. VI,284; XII,261 1.40-45 ........ VI,258; XII,241; XXXVI,100 2.1-12 .......................... X,453; XXVIII,100 2.18-22 .......................................... VIII,105 2.23-28 ........ VIII,311; XIV,367; XXII,169; ................................................ XXVIII,228 3.1-6 .................................................. X,114 3.20-35 ................... XVI,192; XXVIII,233; ................................................ XXXVI,209 3.31-35 .............................................VI,252 4.26-29 ............................................. VI,113 4.26-34 ..................XXII,175; XXVIII,240; ................................................ XXXVI,216 4.30.32 ...........................................XII, 313 4.35-41 ..XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; .......................... XXXIII,244; XXXIX,209 5.21-24a,35-43 ..XXVIII,253; XXXIII,378; ................................................ XXXIX,327
5.24b-34 ......................................XXII, 188 5.25-34 .............................................XII, 27 6.1-6 .......XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 ................ XXXIII,256; XXXIX,218 6.6b-13 .......................XIX, 201; XXV, 236 6.14-29 .......................... X,74; XXXVI,235 6.30-34 ...XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208; ............................................... XXXIII, 270 6.30-34,53-56.......................... XXXIX,231 6.34-44 ....................................... XXX,247 7.1-8,14-15,21-23 ......XIX,233;XXXI,242; .......................... XXXIII,309; XXXIX,270 7.24-37 .................................... XXXVI,279 7.31-37 ............IV, 163; X, 408; XXII, 239; ............................................... XXVIII, 307 8.22-26 ...........................VIII,269; XIV,317 8.27-35 .................. XVI,247; XXXIII, 323; ................................................ XXXIX,280 8.31-38 ..............X,234; XIX,83; XXV,134; ............................... XXXI,91; XXXVI,121 9.2-9 ....XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29 .............................................VI,278 9.30-37 .. XVI,255; XXII,245; XXXVI,289 9.38-50 ..................XXII,250; XXVIII,322; .......................... XXXIII,334; XXXIX,293 9.43-48 ...................II, 138, (305); XVI,263 10.2-12 .............. XXVIII,326; XXXVI,303 10.13-16 .................................. XXVIII,313 10.17-27 .......XII,256; XVI,268; XXII,260; ............................................... XXXIII, 348 10.17-31 .................................. XXXIX,305 10.32-45 ............................................ X,106 10.35-45 ................. XXVIII,289; XVI,277; ...........................XXXIV,270; XXXVI,316 10.46-52 ..XVI,283; XXII,265; XXXIX,315 11.1-11 .............. XXXIII,160; XXXIX,126 12.1-12 ............................................. X,242 12.13-17 ........................................... III,138 12.28-34 .................................. XXXVI,340 12.41-44 ...VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-8 ...................................... XXXVI,353 13.1-13 ...XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 .................................. XXVIII,358 13.24-37 ...................................... XXXVI,9 13.31-37 ....................................... XIV,397; 13.33-37 .............................XXV,17; XIX,9 14.3-9 ............................... VI,149; XXII,93 14.6-9 ..............................................XII,181 14.12-26 ..................... XVI,134; XXII,104; .......................... XXVIII,144; XXXVI,140 14.17-26 ...........................................VI,156 15.1-15(16-20) ........ XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 .IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; .......................... XXVIII,159; XXXVI,152
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16.9-14(15-20) ...............VIII,173; XIV,225 16.12-18 ............ XXXIII,184; XXXIX,148 16.14-20 ............................................. IV,77 Lucas 1.1-4 ...................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 .............. VI,81; XII,109; 1.26-38 ............. XVI,56; XIX,27; XXII,28; ...........XXVIII,26; XXXIII,24; XXXIX,24 1.39-45(46-55) .......XXVI,20; XXXVII,26 1.(39-45)46-55(56) .......................... X,175 1.46-55 ..............................................V,288 1.57-66 ........................................XXIV,200 1.67-79 .................................V,270; VIII,30 2.1-7 ... XXX,24; XXXIV,38; XXXVIII,33; ......................................XXXIX,36; XL,29 2.1-7,8-14,15-20 ............................. XVI,63 2.1-14 ....... I, 161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20 ........... XXIV,41; XXXIV,69; .................................................XXXVII,54 2.1-20 ................... III,218; IV,273; XVII,28; . XXI,41; XXIII,21; XXIV,34; XXVII,34; .................................... XIX,26; XXXIII,37 2.22-40 ...................................... XXXVI,56 2.41-52 ............................................. XX,35 3.1-9 ............................. V,281; XXXVII,14 3.1-14 .................................................VI,76 3.7-18 ..........XVII,21; XXIII,15; XXIX,16; ...................................... XXXIV,24; XL,18 3.15-17,21-22................. XX,40; XXVI,36; .................................................XXXVII,64 4.1-13 ...XXIII,60; XXIX,81; XXXVII,100 4.14-21 ........ VI,19; XXVI,47; XXXVII,76 4.14-21(22) ....... XX,50; XX,59; XXVI,47 4.16-21 .............................................. X,186 4.21-30 ....................XXVI,54; XXXIV,100 5.1-11 .. IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI,59 6.17-26 ............................ XX,69; XXVI,66 6.27-38 ............................ XX,73; XXVI,74 6.36-42 ..................................IV,112; X,368 7.1-10 ...........................XXVI,206; XL,176 7.11-17 ..............................IV,186; VIII,293 7.36-50 ....... VIII,262; XIV,309; XXVI,220 7.36-8.3 ..................................XXXVII,199 8.4-10 ................................................ X,228 8.26-39 ...................... XXXIV,237; XL,196 9.10-17 .......................................... VIII,241 9.18-24(25-26) ........... XX,190; XXVI,226 9.28-36 .......XX,82; XXVI,85; XXXIV,109 9.51-56 ............................................XV,167 9.51-62 .................... XX,198; XXXVII,212 9.57-62 ............................................. X,251 10.1-11,16-20 ............ XXXIV,252; XL,209 10.1-12,16 ...................................... XX,204 10.17-20 ......................................XXIV,285 10.21-24 ...................................II, 82, (249)
10.25-37 ........X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ..... VI,124; XVII,170; XXIII,140; .............. XXIX,216; XXXIV, 264; XL,214 11.1-13 ................... XXIII,145; XXIX,223; ...............................................XXXVII,229 11.5-13 .............................................VI,184 11.14-23 ............................ VI,297; XII,283 12.13-21 ................ XXIII,149; XXIX,228; .................................. XXXIV,278; XL,224 12.32-40 ............... XVII,183; XXXVII,241 12.35-40 .......................................... III,226 12.41-48 ...........................................VI,302 12.42-48 ..........................................XII,289 12.49-53 .XVII,189; XXIII,154; XXIX,235; .................................. XXXIV,289; XL,237 13.1-9 ......... XVII,83; XXIII,72; XXIX,93; ............................................... XXXVII,111 13.10-17 .................................XXXVII,257 13.22-30 XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35 ......XVII,78; XXIII,65; XXIX,88; ..........................................................XL,87 14.1,7-14 ..XXIII,167; XXIX,247; XL,248 14.7-14 ........................................XVII,196 14.15-24 ................................. IV,96; X,354 14.25-33 .... VIII,235; XX,251; XXVI, 277; ...............................................XXXVII,266 15.1-3,11b-32 .......... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32 ..IV,209; XVII,88; XXIX,100; ..........................................................XL,92 15.1-7(8-10) ...................................... X,361 15.1-10 ........ IV,106; XX,255; XXXIV,309; ........................................................XL,252 15.8-32 ................................... XXVIII, 265 16.1-9 .............................................. IV, 147 16.1-13 .. XX, 260; XXVI, 286; XXXVII,277 16.19-31 ........ IV,88; XX,265; XXXIV,321; ........................................................XL,262 17.1-10 ...................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6 ...........................VIII, 286; XIV, 346 17.5-10 ...................................XXXVII,291 17.7-10 ........................... VI, 117; XII, 160 17.11-19 ............ IV, 172; X, 421; XX, 275; ............... XXVI,305; XXXIV,371; XL,275 17.20-35 ............................................V, 275 18.1-8a ..................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8 ...VIII, 343; XXVI, 325; XXXVII,301 18.9-14 .. IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23 .........................................XII, 249 18.31-43 ....................................... VIII, 124 19.1-10 ... II,112, (279); VIII,219; XIV,275; ................................ XXXVII,324; XL,292 19.28-40 ...............XXVI,121; XXXIV,138; .................................XXXVII,116; XL,103 19.41-48 ............................. IV, 153; X, 401
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20.9-19 ........................XVII,94; XXIX,105 20.27-38 ................XXIII,223; XXXIV,359 21.5-19 .................... XX,296; XXXVII,336 21.25-36 ..III,209; XVII,9; XXXIV,9; XL,9 22.7-20 ....................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ........................VIII,131; XIV,172 23.33-43 . XXVI,344; XXXIV,365; XL,322 23.(26-32)33-49 ........XVII,102; XXIX,119 23.33-49 ....................VI,162; XXXVII,127 23.35-43 .......................................XVII,248 24.1-11(12) .................................... XX,127 24.1-12 .........II,201; XXXVII,132; XL,121 24.13-35 ....... VI,40; XXI,125; XXVII,114; ......................... XXXII,137; XXXVIII,176 24.36-49 ..XVI,164; XIX,128; XXXVI,162 24.44-53 .............. XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53 .......... XIX,148; XXII,145 24.50-53 ........................................... X,331; João 1.1-5.9-14 ....XIX,35; XXV,39; XXXI,24; .................................... XXXVII,36; XL,35 1.1-18 .......................... XXIII,30; XXIX,46 1.(1-9)10-18 ........XXXIII,64; XXXVIII,59 1.6-8,19-28 ......XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) ............ VIII,49; XXXVI,19 1.29-34 .......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) ............. XVIII,57; XXI,55; .................................................... XXXV,75 1.35-42 .......................................... XII,227; 1.43-51 ............ XII,129; XVI,92; XXII,52; XXVIII,68; XXXIV,80; XXXVI,76; XL,53 2.1-11 ..................IX,41; XX,44; XXVI,40; ...................................... XXXIV,89; XL,64 2.13-22 ...............................VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ......................................... X,347 3.1-17 XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; .......................... XXXIII,232; XXXIX,189 3.14-21 ........XIX,95; XXV,144; XXXI,96; ................................................ XXXVI,128 4.1-11 ........................................ XXXI,149 4.5-26 ..........................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 ....................................II, 89, (256) 4.46-54 ............................................XII,148 5.1-9 .......................................XXXVII,168 5.1-16 .............................................XIV,360 5.1-16(18) ..................................... VIII,304 5.19-21 ...........................................XIV,215 5.24-29 ..XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; .................................................... XXX,271 5.39-47 .............................................VI,204 6.1-15 ... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; ............................. XXXI,213; XXXVI,245 6.(22-23)24-35 ............XIX,217; XXV,254; ...... XXXI,218; XXXIII,280; XXXVI,365; ................................................ XXXIX,245
6.35 .............................................. VIII,151; 6.37-40(41-43),44 ..................II, 200, (367) 6.35,41-51 ............................... XXXVI,257 6.41-51 . XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; ................................................... XXXI,226 6.51-58 ...................... XIX,225; XXXI,232; .......................... XXXIII,292; XXXIX,257 6.56-69 .................................... XXXVI,269 6.60-69 ......XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 ............................................XII,293 7.14-18 ............................................ VIII,87 7.37-39aXVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211 7.37-39 ............VI,194; XII,199; XXII,158; .................................................. XXXV,216 8.1-11 ............................................ VIII,228 8.21-30 ...........................VIII,138; XIV,179 8.31-36 .. II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; ................................................... XXIII,209 9.1-7 ...............................VIII,248; XIV,290 9.1-11 ....................................XXXVIII,135 9.1-41 ........................................XXXII,104 9.13-17,34-39...............XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 .......................................... VIII,299 10.1-5,27-30.............................II, 40, (207) 10.1-10 . XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16 ............................................. IV,53 10.11-18 ...XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................ XXXIII,199 10.11-18,27-30 .................................. X,310 10.14-16,27-29.......................... XXXIII,50 10.22-30 ..............XXIX,141; XXXVII,149 10.22-30(31-39) ..........................XVII,117; 11.1,3,17-27 .......II, 188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45) ..................... X,434 11.1-5,17-21 ............ XXXVII,319; XL,310 11.47-53 ....... VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.12-16 .................................. XXXVI,134 12.12-19 ..............................X,269; XX,110 12.20-26 ............................................ X,258 12.20-30 ....................................... XXV,150 12.20-33 ...................XIX,102; XXXI,103; .......................... XXXIII,154; XXXIX,120 12.44-50 .......................................... VIII,65 13.1-15,34-35.................................... X,277 13.1-17,34 ................ XXX,99; XXXIV,144 13.31-35 .................. XVII,121; XXIX,149; .............XXXIV,144; XXXIV,191; XL,145 14.1-6 ..............................................XII,134 14.1-12 .XXI,139; XXVII,124; XXXIX,170 14.1-12(14) ..........II, 63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27) .........................XXXIV,219 14.15-19 ..........................................XV,232 14.15-21 ..................XXIV,165; XXXV,200
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14.23-27 ................................ IV,82; X,341 14.23-29 ...................XVII,126; XXIX,154 15.1-8 .............. X,317; XIX,139; XXV,189 ............................. XXXI,146; XXXVI,174 15.9-12(13-17) .............................XIV, 374 15.9-17 ........VIII,317; XIX,143; XXV,192; ...........................XXXIII,211; XXXIX,165 15.(18)26-16.4 .................................. X,337 15.26-27; 16.4b-11..... XX,171; XXVI,191; ................................................ XXXVI,197 16.5-15 ............................................... IV,65 16.12-15 ..XX,177; XXVI,200; XXXVII,184 16.16-23a ............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a ......................VI,129; VI, 176 16.22-28 ............................................. IV,72 16.23b-28,33 .................................... X,323 17.1-11 ..................................XXXVIII,200 17.1a,6-19 ............................... XXXIII,221 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.1-11 ......................XXI,148; XXVII,132 17.9-19 .............................. IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 ...........XIX,153; XXXI,157 17.20-26 ..................... VIII,198; XXIX,168 18.33-37 ......................XIX,299;XXXI,296 18.33-38a ................................ XXXVI,358 19.16-30 ................ IV,38; X,284; XIX,110; ........... XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168; ................................................ XXXIX,136 20.1-18 ............ XXXIV,162; XXXVIII,159 20.1-2,11-18 ...............................XXIV,230 20.1-9(10-18) ......... XVIII,120; XXVI,136; .................................................... XXX,109 20.11-18 ........................VIII,166; XIV,207 20.19-23 ..................XXIV,173; XXX,150; ..............................................XXXVIII,206 20.(19,23)24-29 .............. X,301; XIX,119; ..................................................XXXII,134 20.19-31 ...XIX,119; XXI,121; XXVII,110; ................................ XXIX,128; XXXI,133 20.26-31 .................................XXXVII,138 21.1-14 ......................XVII,111; XXIX,136 21.1-19 ...................... XXXIV,178; XL,131 21.15-19 ....................................... VIII,179 21.20-25 .....................................XXXIV,53 Atos 1.8-14 ...................................... XXIV,168 1.1-11 .......... XX,155; XX,160; XXVI,182; ...... XXIX,161; XXXII,162; XXXVIII,195 1.15-26 .................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 .................................XI,242 1.15a,21-26 ............................. XXXVI,193 2.1-13 ...............................................XI,249 2.1-21 ......... XIX,158; XXVII,139; XL,162 2.14a,22-32 ................................ XXIV,143 2.14a,36-47 .................................XXIV,150
2.22-23,32-33,36-39 .......................XV,239 2.36-41 ............................................... III,59 2.41a,42-47 ......................................XI,284 3.1-10 ..............................................VII,198 3.12-19 .................................... XXXIX,153 3.13-15,17-26.......... XVI,158; XXVIII,165 4.5-12 ...................................... XXXVI,168 4.8-12 ..................................... XXVIII,172 4.32-37 .............................................. V,310 5.12,17-32 ..................................... XX,130 5.27-32 ............................................XL,126 6.1-7 .............................. III,134; XXIV,155 7.55-60 ..................................XXXVIII,182 8.14-17 ......................................XXXIV, 85 8.26-40 ... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ............................................... XXXIII, 205 9.1-20 ............................................. XX,136 9.36-43 ....................................XXXIV, 184 10.34-38 ...XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ....................... XIX,49 10.34-43 ............. XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 .................. XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25...............................XXII,33 13.44-52 .......................... XX,140; XX,143 14.8-18 .......................................... XX,148 16.6-10 ........................................... XX,164 16.9-15 ...............................IX,171; XV,141 16.16-34 ..................................XXXIV, 211 16.23-34 ..........................VII,122; XIV,233 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.16-34 ...............................................I,34 17.22-31 .................... XV,213; XXXII,156 19.1-7 ........................................ XXXIX,63 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ......... XXXII,36; XXXVI,30; XXXVIII,28 1.16-17; 3.21-28 ...................XXXVIII,327 3.19-28 .............. II,169; XX,278; XXI,267; ............................... XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ............................XXVII,156, 272 4.1-5,13-17............. XXIV,100; XXXV,133 4.13-25 .............. XXXIII,138; XXXIX,108 4.18-25 ................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 ... XVII,137; XXIX,180; XXXIV,224; ........................................................XL,168 5.1-8 ..........................................XXXII,197 5.1-11 ..........XXVIII,122; V,51; XXXII,98; ..............................................XXXVIII,129 5.6-11 ..................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 ......................................XXVII,172 6.1b-11 ................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 .................................................XI,278 6.19-23 ................................ V,164; IX,258 7.15-25a ........... XXXV,234; XXXVIII,231 8.1-11 ..................I,39; XIV,253; XXIV,111
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8.12-17 .........................V,170; XXXVI,203 8.14-17 ..................XXV,203; XXXVII,179 8.14-17,22-27............................. XXIX,174 8.18-23 ...............................................V,150 8.18-23(24-25) ........................... XVIII,192 8.22-27 .................................... XXXIX,183 8.26-27 ........................................ XXX,193 8.26-30 .............................................IX,233 8.31b-39 ...........................................XI,144 8.31-39 ......................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 .............................. XVI,110 9.1-5 ................. XXXV,261; XXXVIII,252 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4 ......................................V,185 9.30b-33 ........................................... III,124 10.5-13 ......................XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32 ............................XXIV,255 11.25-32 .................................... I, 95, (102) 11.32-36 ............................................V,126; 11.33-36 ..........................................XI,256 12.1-8 ............................ XI,152; XXIV,265 12.9-12 ...................................... XXXV,284 12.9-21 ..................................XXXVIII,273 12.6-16 .................................................V,19 13.1-10 .......................................... XXI,229 13.8-10(13-14) .................................XI,107 13.11-14 ...........IV,251; XXIV,19; XXXV,9 14.5-9 ............................................ XXI,234 14.7-13 .............................................. III,79 14.10-13 ..........................................XI,266 15.4-13 .........................XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ....................................... XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............ XXIV,70; XXXII,72; ................................................XXXVIII,75 1.3-9 ............................. XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 ...................................................V,228 1.10-17 ............................................ XXI,60 1.18-25 ............................................. XX,97 1.26-31 ..................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ................................ XXI,71; XXII,60 2.1-10 ................................VII,50; XIII,126 2.1-12(13-16) ..........................XXXVIII,91 2.6-13 .............................................. XXI,74 2.12-16 ............................................VII,150 3.9-15 .................................XV,266; IX,269 3.16-23 .........................................XXII,193 4.1-5 .................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................ I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20...................... I,86, (93) 6.12-20 .................. XXXIII,76; XXXIX,69 6.24-34 ...................................... XXXV,106 7.29-31 .........................................XXIV,90 7.29-32a ................................... I, 46, (213) 8.2 .................................................. XIII,42
9.16-23 ....... XIV,264, XXV,96; XXXVI,90 9.24-27 ....................... XI,165; XXXIII,112 10.1-13 ..................................V,179; XX,91 10.16-17 ..........................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ......................... XXXI,113 10.31-11.1 .................................... XXV,107 11.23-26 .................. XXIV,127; XXVII,94; ...............................................XXXVII,120 11.23-29 ...............................................V,65 12 .................................................... XIII,34 12.1,4-11 . XVII,47; XXIX,59; XXXVII,70 12.12-21,26-27............ XXIII,45; XXIX,64 12.12-31a ..........................................XL,70 12.27-13.13 ...................XVII,52; XXIX,71 12.31b-13.13 .......................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25....................................VII,158 14.12b-20 .................................... XXIII,49 15.1-11 ................ XVII,108; XXXIV,105; ................................................ XXXIX,142 15.1-20 ............................................... III,13 15.12,16-20 ............... XVII,63; XXXII,311 15.19-28 . I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ..................................................... XXV,175 15.20-28 ...................XVIII,280; XXX,293, 15.35-38 .......................................... XIII,29 15.45-49 .........................................XVII,69 15.50-58 .......... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................... I, 112, (119) 1.18-22 .............. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ........................................... XXV,118 3.3-9 .................................................IX,283 3.12-4.2 ...........................XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ............. IX,157; XIV,165; XXXIX,93 4.5-12 .........................XIX,169; XXXI,171 4.6-10 ...............................................XI,158 4.7-18 ................................................. III,53 4.13-18 ........................XIX,173;XXXI,177 4.16-18 .......................................... XIII,192 5.1-10 ............................... IX,295; XV,288; 5.6-10 ....................... XIX,178; XXXI,183 5.6-10,14-17............................ XXXIX,203 5.14-21 ....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 ...... XVI,140; XXVIII,153 5.20b-6.10 .....................XXXV,120; XL,76 6.1-10 ...............................................VII,82 6.1-13 ...................................... XXXVI,221 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15 .............................................. XIII,18 8.7-15 ...................................... XXXIII,251 8.9 ................................................. XV,112 9.6-15 ................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 .............. XIII,142 12.1-10 ................................................V,26; 12.7-10 .......................XIX,195; XXXI,199
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13.11-13 .... IX,240; XXI,158; XXXII,174; ..............................................XXXVIII,214 Gálatas 1.1-12 .............................XXXVII,189 1.11-24 ........................ XXIII,113; XL,182 2.16-21 .......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 .. XXIII,119; XXXVII,206 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 ............................................... IX,144 4.4-7 ............ XV,106; XVIII,38; XXX,31; ............ XXXIII,44; XXXV,33; XXXIX,43 5.1-6 ............................................ XIII,167 5.1-11 ..................I, 118, (125), 124, (131); .................................................. XXXV,341 5.1,13-25 ..XXIII,126; XXXIV,243; XL,204 5.25-26; 6.1-3,7-10 .........VII,214; XIII,253 6.14-18 ....................................... XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ...................................................... XXX,37 1.3-14 ............ III,62 XXII,204; XXXIV,75; ................................................ XXXIX,225 1.3-6,15-18................................... XVIII,43 1.(16-20a)20b-23 ....... XXI,144; XXX,138 1.20b-23 .......................................... IX,227 2.1-10 .......................................... XXX,265 2.4-10 ...................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 .......................... X,48; XXXVI,239 2.13-22 .........................................XXII,209 3.1-12 ........................ XXXI,30; XXXV,64 3.2-12 ............................. XVI,83; XXII,43 3.14-21 ......................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 .................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 .................................. XXII,215 4.17-24 .........................................XXII,220 4.20-32 ...............................................V,235 4.25-5.2 ................................... XXXIX,251 4.30-5.2 ......................................... XVI,228 5.1-8a ..............................................XI,205 5.1-9 ....................................................V,46; 5.8-14 ......................XXIV,105; XXXV,145 5.9-14 .............................................. III,100 5.15-20 .................... XVI,233; XXXVI,264 5.15-21 ............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31 .......................... XVI,236 5.21-31 .................................... XXVIII,294 6.10-20 .................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ...................................... XXXIV,16; XL,14 1.12-21 ..............................................VII,95 1.20c-27 .....................................XXIV,280 2.1-4 .............................................. VII,173 2.1-5(6-11) .................................. XXI,245 2.1-13 ............... XXXV,309; XXXVIII,297 2.5-11 ....V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; ............. XXIX,111; XXXII,59; XXXIX,49
2.12-13 ............................................XV,282 3.4b-14 ....................................XXXIV, 133 3.12-21 ................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 ...............................................XI,291 3.7-14 ................................................V,261 3.8-14 ............................................. XX,102 3.12-16 ..................................... II, 20 (187) 3.12-21 ......................................XXVII,251 3.17-21 .............................................XI,330 3.17-4.1 ..................... XX,86; XXXVII,105 3.20-21 .................. I,136, (137); 129,(143) 4.4-7 ............................................. XXVI,15 4.10-20 .............................................IX,150 Colossenses 1.1-6 ........................... XXVI, 233 1.12-20 ................ XXIII,229; XXXVII,342 1.15-23 ..................................................I,47 1.21-28 ...................................... XXVI, 240 2.3-10 ............................................XIV,140 2.6-15 ...........................XXVI,250; XL,218 2.12-15 .......................................... XIII,186 3.1-4 ............. III,48; XXI,117; XXXII,127 3.1-11 .....................................XXXVII,236 3.12-17 ......................... V,107; XXXVII,42 4.2-6 ...................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ................ XXIV,294; ..................................................XXVII,256 1.5b-10 ......................................XXVII,263 1.2-10 ..............................................VII,210 2.1-8 ................. XXXV,329; XXXVIII,321 2.8-15 ........................................XXVII,277 3.9-13 ............................ XX,15; XXXVII,9 4.1-8 ....................................... V,38; XI,315 4.13-14(15-18) .............................. XXI,285 4.13-18 ................... XXI,292; XXXVI,335 5.1-8 .................................................IX,288 5.1-11 .......................XXI,297; XXXV,357; ..............................................XXXVIII,340 5.12-24 .............................................IX,274 5.16-24 ...XXII,19; XXXIII,20; XXXIX,18 2 Tessalonicenses 2.1-17 .........III,165; XL,316 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ............... XXIX, 311 3.1-5 ................................................ IX,252 3.6-13 ................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo ..1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ..................................... II, 169, (336) 2.1-6 ......................................XXXVIII,279 2.1-8 . XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370; ........................................................XL,257 3.16 .............................................. XIV,132 4.4-5 ............................................ XIII,298 6.6-16 ........................XVII,215; XXIX,274 6.11b-16 ........................................... IV,255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ............ XXIII,195 2.8-13 .................. XXIII,205; XXXVII,296
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2.8a(8b-13) ................................... XV,198 3.14-4.5 ..................... XXXIV,333; XL,280 Tito 2.11-14 ..II,263, (430); XI,128; XXIV,34; .................................................... XXXV,40 3.4-7 ................ IV,280; XX,29; XXXIV,45 Filemom 8-21 .................................. XXIX,254 9b-17(18-21) ................................XVII,201 Hebreus 1.1-4(5-12) XXXVI,35; XXXIX,299; ...........................................................XL,267 1.1-9 ................................................ XVI,70 2.9-11 ............................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ............................................. IX,188 3.1-6 ............................................. XIX,262 4.9-16 .......................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13 .............................................XI,171 4.14-16 .............................................XI,192 4.14-16; 5.7-9 ....... XXIV,133; XXXIV,153 5.1-6(7-10) .............. XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ......... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 7.23-28 .................................... XXXVI,322 9.11-14 .................................... XXXIX,322 9.15-17,26b-28............................... XX,122 9.15,24-28 ............................................ III,7 9.15,26b-28 .................................. XIII,179; 9.24-28 ........................................ XIX,291 10.11-25 .................................. XXXIX,337 10.19-25 .................... II,241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 ....................................IX,178 11.1-3,8-16 ..................................... XX,229 11.1-4 ........................................ XXVIII,39 11.8-10 ............................................XV,160 12.1-3 ..............................................XV,178 12.1-13 .......................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ................ XV,127 12.18-24 ..... XX,242; XXXIV,296; XL,242 13.1-8 ............................................. XX,246 13.1-8,15-16...........................XXXVII,262 13.(7)8-9b .................................... XIV,153 13.12-16 ............................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 ........................................ XXV,268 2.1-13 .......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 .. XXV,275; XXXIX,275 2.14-24 ........................................... III,110 3.1-12 ...................................... XXXVI,283 3.13-4.3,7-8a ........................... XXXIII,327 4.13-17 ........................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ......XIII,265; XIX,252; XXXVII,160 5.7-8 ............................................... XI,114; 5.7-10 ........................................... XVIII,19 5.13-16 ............................................VII,220 5.13-20 .................................... XXXVI,295 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ..................... XIII,152;
1.17-21 .........................................XXX,118 1.17-22 ................... XVIII,129; XXXV,182 1.3-9 ..................III,22; XI,221; XVIII,125; .....................................................XXX,114 2.1-10 .......... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 .......................XXX,128; XVIII,138 2.13-17 ..................................... I, 102 (109) 2.15-17 ............................................. VI,13 2.18-25 ........................................ XXX,122 2.19-25 ..................................... XVIII,133 2.21b-25 ............................... V,91; XI,229; 3.8-17 ................................................ V,156 3.13-22 ..................................XXXVIII,188 3.15-18 ....................XVIII,146; XXIV,165 3.18-22 .................................... XXXVI,116 4.7-11 ............................................... V,120 4.13-19 ..................................... XVIII,152 5.1-5 ................................................... III,27 5.5b-11 ................................ V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ..................................... III,145 1.16-19(20-21) ............................... IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII,65; ..............................................XXXVIII,108 3.8-14 ..... XVII,237; XXIII,218; XXV,23; .................................................. XXXVI,14 1 João 1.(1-4)5-2.2 ......XXII,124; XXXVI,157 1.5-10; 2.1-6 ......... XIII,216; XXXVI,181 2.21-25 ..............................................VII,30 3.1-3 ................................................ VII,21 3.1-7 ........................................ XXXIII,191 3.13-18 .............................................. IX,57 3.18-24 ........................... III,159; XXII,130 4.1-6 ................................................. IX,72 4.1-11 ...........................................XXII,135 4.11-16 ....................................... XXXI,165 4.7-12 ............................................. XI,299 4.7-16 ............................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ... XXII,149; XXXIX,159 4.16b-21 ........................................... V,135 5.1-5 ....................................... V,84; XI,235 5.1-6 ........................................... XXII,118 5.11-13 ............................................ XI,138 Apocalipse 1.4-8................. VII,131; XIII,204; .................................................XXXIV,169 1.9-18 ...............................VII,65; XIII,133 1.9-20 ......................................... XXVI,145 2.8-11 ..............................VII,228; XIII,275 1.9-20 .......................................... XXIII,84 3.1-6 ...........IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ................. II,248 (416); XXXVI,42 3.14-22 ........................................ XIII,304 4.1-11 ....................................... I, 144(151) 5.1-14 .................................................VII,7
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5.11-14 .................... XXIII,90; XXVI,150; ...............................................XXXVII,144 7.9-12 ......................................... XVII,230 7.9-17 ............ III,182; XIII,110; XXIII,94; ................................................... XXVI,159 12.1-6 ......................................... XXIII,26 12.7-12 ........................................ XXI,241 14.6-7 ............................................... V,249
15.2-4 ............................................ XV,218 19.11-16 ......................................... III,195 21.1-5 ................XXVI,170; XXXVII,155; ................................................XXXVIII,52 21.10-14,22-23........................... XXVI,176 21.10,22-22.5 ...........................XXXIV,195 22.10-16 ............................................ X,11 22.12-17,20 ................................ XXIII,99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES DO VOLUME 39 ABENDROTH, Anelise L. ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor ALTMANN, Walter APPELT, Fabiani BAADE, Joel Haroldo BECKER, Nádia Cristiane Engler BLASI, Márcia BOOTZ, Éverton Ricardo BRAKEMEIER, Gottfried BRAKEMEIER, Ruthild CHRISTMANN, Nilo COSTA, Daniel Ricardo da DREHER, Carlos A. DREHER, Martin DREHER, Scheila dos Santos FRIES, Marcos H. GAEDE, Leonídio GAEDE NETO, Rodolfo GAEDE, Valdemar GARCIA, Paulo Roberto GARIN, Norberto da Cunha GAUSMANN, Samuel GENZ, Sílvia Beatrice GIESE, Nilton GONÇALVES, Humberto Maiztegui GRAF, Geraldo HOEFELMANN, Verner HUNZICKER, Atilio KLEINE, Michael KOWALSKA PRELICZ, José Manuel KUNZ, Claiton André KUNZ, Marivete KÜNTZER, Renato KUPKA, Cláudio LACERDA, Gerson MANSK, Erli MARKUS, Cledes
anelisevilmar@gmail.com juliocezar@est.edu.br albrechtastor@gmail.com walteraltmann@msn.com fabiappelt@hotmail.com baadejoel@gmail.com nanaengler@yahoo.com.br retalhos13@hotmail.com erbootz@hotmail.com brakemeier@terra.com.br ruthild@diaconisas.com.br niloch@uol.com.br danielrdacosta@yahoo.com.br carlosdreher@est.edu.br martindreher@terra.com.br drehersantos@uol.com.br mhenriquefries@yahoo.com.br leonidiogaede@hotmail.com Rodolfo@est.edu.br valdemargaede@pomernet.com.br paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com samuel_gausmann@yahoo.com.br silvia.genz@luteranos.com.br giese1959@gmail.com humbertox@uol.com.br g.graf@uol.com.br vernerhoe@hotmail.com ajh54@hotmail.com micha.kleine@yahoo.com.br pastorkowalska@luteranos.com.br claiton@batistapioneira.edu.br marivete@terra.com.br renato.kuntzer@terra.com.br claudiokupka@yahoo.com.br gersonclacerda@gmail.com liturgia@ieclb.org.br cledes@est.edu.br
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MEURER, Evandro MORAES, Jilton MUSSKOPF, Carlos OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de PFANNEMÜLLER, Helga Rodrigues RAMOS, Luiz Carlos REIS, Ana Isa dos RIBEIRO, Antônio Carlos Silva RIECK, Kurt SANTANA FILHO, Manoel Bernardino SCHERER, Cristina SCHMITT, Flávio SEIBERT, Erni W. SIEGLE, Manfredo STANGE, Klaus A. STÜEWER, Aline Danielle TREIN, Hans Alfred VOIGT, Emilio VOLKMANN, Martin WANKE, Roger Marcel WEBER, Eloir WEGNER, Uwe WEISSHEIMER, Ramona WIESE, Werner WITT, Osmar WITTER, Teobaldo ZWETSCH, Roberto Ervino
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evandromeu@gmail.com jiltonmoraes@terra.com.br carumus@gmail.com pastorjorgeoliveira@gmail.com pastorahelga@yahoo.com.br luiz.ramos@textoetextura.com.br anaisadosreis@yahoo.com.br antoniocarlosrib@gmail.com kurtrieck@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com crisitati@yahoo.com.br flavio@est.edu.br erni@sbb.org.br manfredo_siegle@hotmail.com k.stange@flt.edu.br stuewer@gmail.com comin_mob@est.edu.br emilio.voigt@terra.com.br ogaieclb@brturbo.com.br roger.wanke@flt.edu.br p.eloir@salvador.org.br uwe.wegner@terra.com.br ramonaew@gmail.com wwiese@flt.edu.br olwitt@est.edu.br twitter@terra.com.br rezwetsch@gmail.com
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Texto: Times New Roman 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.
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