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Proclamar Libertação 39 - 2014-2015

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PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 39 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO B Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann

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© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, João Artur Müller da Silva, Martin Volkmann e Júlio Cézar Adam Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos

Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963

Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br

Proclamar libertação: auxílios homiléticos / Coordenação de Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2014. 15,5x22,5 cm. ; 398p. ISBN 978-85-8194-042-7 Volume 39 1. Homilética. 2. Teologia prática. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273

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APRESENTAÇÃO

A

ssim como a chuva não volta aos céus sem antes regar a terra e fecundar a semente que nos dá o pão, a Palavra do Senhor “não volta para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei”, diz Deus (Is 55.10-11). É a Palavra que cria e sustenta a fé. É ela que cria, edifica e sustenta a igreja. Por isso a Palavra é e precisa ser pregada. Foi essa a razão pela qual o apóstolo questionou de forma enfática: “E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue?” E com base nessa convicção, Paulo afirmou de forma poética: “Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.14-15). Em 2015, ano para o qual se destinam os auxílios homiléticos deste volume de Proclamar Libertação, a IECLB orienta-se pelo tema do ano que diz: Igreja da Palavra – chamad@s para comunicar. E o tema está iluminado pela pergunta que Jesus dirigiu a quem caminhava cabisbaixo rumo a Emaús: “Então, Jesus perguntou: sobre o que vocês estão conversando pelo caminho?” (Lc 24.17). Para aquela dupla no caminho de Emaús, a vida perdera o sentido. Jesus fora crucificado. Alguma esperança? Como? Com base no quê? Hoje, os medos e a desesperança brotam das relações conflituosas, da falta de perspectiva de vida digna, da ausência de respostas a perguntas existenciais candentes etc. Não por acaso podemos perceber, sem muito esforço, pessoas sentadas no culto, parecendo estar atentas ao que ali acontece; de fato, porém, buscam como que um galho onde possam se segurar para não cair na cachoeira. Aos caminhantes de Emaús Jesus dirigiu a pergunta adequada e dali resultaram diálogo, revelação, fé, esperança, sentido de vida. Na função de pastorear comunidades, ministras e ministros da IECLB deparam-se com pessoas que carregam em seu coração as mais diversas perguntas, dúvidas, esperanças, aflições, têm o privilégio, às vezes como tarefa difícil, de procurar ouvir e identificar o que pesa no coração de nossos membros e de outras pessoas com as quais convivem. Tendo ouvido e compreendido, cabe-lhes comunicar a Palavra que, por sua força, não retornará vazia. “A referência para essa comunicação é o evangelho. Nele encontramos o conteúdo da nossa comunicação. Ele é o conteúdo da comunicação”, diz o texto-base do tema deste ano. “O evangelho traz o Deus da graça. A comunicação de Deus e a respeito Dele é a expressão da Sua graça nos dias de hoje. Em meio a um contexto saturado de notícias ruins, no qual, ainda hoje, há quem apresente um Deus cobrador, sisudo, com dedo em riste, que nos deixa com sentimento de estar sempre devendo, nós podemos nos comunicar e nos reunir à mesa da comunhão com aquele Deus que, sendo Palavra, se tornou carne e habitou entre nós (Jo 1.14), que se deu por nós. Por isso comunicamos e dialogamos com esperança, em perspectiva e com liberdade.” Vem, Espírito Santo, inspira, anima e sustenta-nos na tarefa de comunicar a Palavra do Senhor. Que nessa tarefa, em que somos teus instrumentos, Proclamar Libertação seja, mais uma vez, boa ferramenta. Amém. Dr. Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente

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PREFÁCIO

C

om esta edição chegamos ao trigésimo nono volume de Proclamar Libertação. Ele contempla cinquenta e nove auxílios homiléticos sobre a série B do Lecionário Comum Revisado da IECLB, além de cinco auxílios especiais sobre temas do Catecismo Maior de Lutero: três sobre o Pai-Nosso, um sobre a Santa Ceia e um sobre a Confissão. Esses auxílios especiais querem ajudar a aquecer a reflexão sobre os quinhentos anos da Reforma, que celebraremos em 2017. Esse empreendimento não seria possível sem o trabalho de muitos colaboradores e colaboradoras da IECLB e de outras igrejas, do Brasil e de outros países da América Latina. Nossa gratidão especial a eles e a elas. Percebemos nessa hora a importância de pertencer a um mesmo corpo: através do trabalho e empenho investidos, um ajuda a suprir a necessidade do outro. Nossos agradecimentos, também, à direção da IECLB, que mais uma vez decidiu presentear seus ministros e suas ministras com um exemplar no intuito de qualificar a pregação do evangelho nas comunidades. Ainda não foi desta vez que conseguimos oferecer auxílios homiléticos para todas as ocasiões previstas. Mas para as poucas lacunas sempre é possível recorrer a contribuições de anos anteriores. Lembramos, a propósito, que todos os auxílios até hoje publicados em Proclamar Libertação estão disponíveis no portal da IECLB (http://www.luteranos.com.br). Essa informação é especialmente importante para aquelas pessoas que não possuem todos os volumes impressos. Há dois caminhos para acessar esses auxílios: – Procurando por volume: no link http://www.luteranos.com.br/conteudo/ publicacoes-2 , sob o título Auxílios Homiléticos, clicar sobre o volume e então, na página que se abre, sobre o texto desejado. – Procurando por textos específicos: no mecanismo de busca do portal (http:// www.luteranos.com.br/busca-avancada-conteudo/), digitar o nome do livro bíblico por extenso, utilizando o padrão de citação bíblica de Proclamar Libertação (por exemplo, Lucas 10.38-42 ou Lucas 10.1-11,16-20). Sabemos, por fim, que todo empenho humano nada vale se Deus mesmo não abençoar a pregação de sua Palavra. Por isso só nos resta oferecer-lhe nosso humilde trabalho, na expectativa de que ele transforme em realidade a convicção do profeta em Isaías 55.10-11: Assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei. Verner Hoefelmann Pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação

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SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1º Domingo de Advento – Isaías 64.1-9 -----------------------------------------------9 2º Domingo de Advento – Marcos 1.1-8 -------------------------------------------- 13 3º Domingo de Advento – 1 Tessalonicenses 5.16-24 ----------------------------- 18 4º Domingo de Advento – Lucas 1.26-38 ------------------------------------------- 24 Noite de Natal – Isaías 11.1-9 --------------------------------------------------------- 30 Dia de Natal – Lucas 2.(1-7)8-20 ----------------------------------------------------- 36 1º Domingo após Natal – Gálatas 4.4-7 --------------------------------------------- 43 Ano Novo (Nome de Jesus) – Filipenses 2.5-11------------------------------------ 49 2º Domingo após Natal – Salmo 147.12-20 ----------------------------------------- 54 Epifania de Nosso Senhor – Isaías 52.7-10 ----------------------------------------- 58 1º Domingo após Epifania – Atos 19.1-7 -------------------------------------------- 63 2º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 6.12-20 ---------------------------------- 69 3º Domingo após Epifania – Marcos 1.14-20 --------------------------------------- 75 4º Domingo após Epifania – Deuteronômio 18.15-20 ----------------------------- 81 5º Domingo após Epifania – Marcos 1.29-39 --------------------------------------- 87 Último Domingo após Epifania – 2 Coríntios 4.3-6 ------------------------------- 93 Quarta-feira de Cinzas – Isaías 58.1-12 --------------------------------------------- 97 1º Domingo na Quaresma – Marcos 1.9-15 ----------------------------------------102 2º Domingo na Quaresma – Romanos 4.13-25 ------------------------------------108 4º Domingo na Quaresma – Números 21.4-9 -------------------------------------- 114 5º Domingo na Quaresma – João 12.20-33 ----------------------------------------120 Domingo de Ramos – Marcos 11.1-11 ----------------------------------------------126 Quinta-feira da Paixão – Isaías 42.1-4(5-9) ----------------------------------------131 Sexta-feira da Paixão – João 19.16-30(31-37) -------------------------------------136 Domingo da Páscoa – 1 Coríntios 15.1-11 -----------------------------------------142 2º Domingo da Páscoa – Marcos 16.12-18 -----------------------------------------148 3º Domingo da Páscoa – Atos 3.12-19 ----------------------------------------------153 5º Domingo da Páscoa – 1 João 4.7-21 ---------------------------------------------159 6º Domingo da Páscoa – João 15.9-17 ----------------------------------------------165 Ascensão do Senhor – João 14.1-12 ------------------------------------------------170 7º Domingo da Páscoa – Salmo 1 ---------------------------------------------------177 Domingo de Pentecostes – Romanos 8.22-27 -------------------------------------183 1º Domingo após Pentecostes – João 3.1-17 ---------------------------------------189 2º Domingo após Pentecostes – Gênesis 3.8-15 -----------------------------------195 3º Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 5.6-10,14-17 -----------------------203 4º Domingo após Pentecostes – Marcos 4.35-41 ----------------------------------209 5º Domingo após Pentecostes – Lamentações de Jeremias 3.22-33 ------------212 6º Domingo após Pentecostes – Marcos 6.1-13 -----------------------------------218 7º Domingo após Pentecostes – Efésios 1.3-14 ------------------------------------225

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8º Domingo após Pentecostes – Marcos 6.30-34,53-56 --------------------------231 9º Domingo após Pentecostes – 2 Reis 4.42-44 -----------------------------------238 10º Domingo após Pentecostes – João 6.24-35 ------------------------------------245 11º Domingo após Pentecostes – Efésios 4.25-5.2 --------------------------------251 12º Domingo após Pentecostes – João 6.51-58 ------------------------------------257 13º Domingo após Pentecostes – Josué 24.1-2a,14-18 ---------------------------262 14º Domingo após Pentecostes – Marcos 7.1-8,14-15,21-23 --------------------270 15º Domingo após Pentecostes – Tiago 2.1-10(11-13)14-17 --------------------275 16º Domingo após Pentecostes – Marcos 8.27-38 --------------------------------280 17º Domingo após Pentecostes – Jeremias 11.18-20------------------------------287 18º Domingo após Pentecostes – Marcos 9.38-50 --------------------------------293 19º Domingo após Pentecostes – Hebreus 1.1-4; 2.5-12 -------------------------299 20º Domingo após Pentecostes – Marcos 10.17-31 -------------------------------305 21º Domingo após Pentecostes – Isaías 53.4-12 -----------------------------------310 22º Domingo após Pentecostes – Marcos 10.46-52 -------------------------------315 23º Domingo após Pentecostes – Hebreus 9.11-14--------------------------------322 Dia de Finados – Marcos 5.21-24,35-43--------------------------------------------327 24º Domingo após Pentecostes – 1 Reis 17.8-16 ----------------------------------332 25º Domingo após Pentecostes – Hebreus 10.11-25 ------------------------------337 26º Domingo após Pentecostes – Daniel 7.9-10,13-14 ---------------------------344 AUXÍLIOS ESPECIAIS O nosso Pai que está no céu ----------------------------------------------------------351 As três primeiras petições do Pai-Nosso--------------------------------------------359 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade--------------------------------------------------364 A Ceia do Senhor — O sacramento do altar ---------------------------------------369 Breve exortação à confissão ----------------------------------------------------------375 ÍNDICES --------------------------------------------------------------------------------381

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

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PRÉDICA: ISAÍAS 64.1-9

1º DOMINGO DE ADVENTO 30 NOV 2014

MARCOS 13.24-37 1 CORÍNTIOS 1.3-9

Norberto da Cunha Garin

Novo tempo: reencontrando os outros

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Introdução

O texto da meditação deste Primeiro Domingo do Advento pressupõe um tempo longo após a queda de Jerusalém (587 a.C.), período no qual Israel se encontrava em desespero por causa dos acontecimentos trágicos que o envolveram na deportação para a Babilônia. Trata-se de uma súplica anunciada em Is 63.15 e encerrada em 64.11. Ao contrário do que se possa imaginar, o texto deste domingo não se insere no que ficou conhecido como Trito-Isaías. A centralidade de sua temática é a petição pela paternidade divina (64.7). Faz parte de um salmo de súplica coletiva que se estende de 63.7 até 64.11. As referências à destruição do Templo e da própria cidade de Jerusalém indicam uma proximidade histórica com esses acontecimentos (63.18; 64.9,10). Há uma porção de benefícios divinos que são invocados por Israel, que se reportavam aos acontecimentos do êxodo (63.11). Ao enumerar os pecados do povo, a oração recorda o perdão do pai Javé e consubstancia súplicas comoventes de arrependimento e contrição num paralelo com textos do Sl 78 e de Os 11.8. Israel chora a ausência da proteção de Deus, que parece ter se ausentado e cuja compaixão se recolheu, deixando o povo órfão (63.15).

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Considerações sobre o texto

Nas considerações que seguem, utilizaremos a numeração de versículos da Bíblia de Jerusalém: o v. 1 corresponde, na versão de Almeida, ao v. 2, e assim sucessivamente. V. 1/2 – Os versículos 1 e 2 constituem uma continuação do clamor de 63.19 e, de certa maneira, preparam a segunda súplica do povo (64.3-7). V. 3 – Este versículo inaugura a segunda oração com uma declaração significativa a respeito de um Deus que agia na história humana. O texto utiliza-se dos verbos que denotam conhecimento a partir dos sentidos: ... nunca se ouviu; ... nunca se havia sabido; ... o olho não tinha visto. É um agir divino na direção de quem está desesperado aguardando um socorro. É possível traçar um paralelo com o texto de 1Co 2.9 numa releitura, na qual a salvação vem de Cristo: “... o

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que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. V. 4 – Juntamente com o reconhecimento da ira divina, há uma reafirmação de confiança na aproximação de Deus aos que guardam os seus caminhos e a sua justiça. Não há meias palavras no que tange ao reconhecimento de que Israel se desviou de suas veredas. Mesmo que o texto pareça corrompido e indique a impossibilidade de salvação (permanecer nos caminhos do pecado), é possível, por outro lado, entender como certeza que o povo permanecerá nos caminhos divinos e, por isso, a salvação está no horizonte do seu olhar. V. 5 – O reconhecimento do pecado do povo continua, agora com mais ênfase do que no v. 4. Há uma confissão do pecado, classificado como imundície, pelo descumprimento dos caminhos de Deus. As ações positivas do povo não se direcionavam ao Senhor e por isso se comparavam a “um pano imundo”. Ele percebe que a exuberância de viver em comunhão com Deus havia murchado como folhas consumidas pelo inverno, folhas secas levadas ao vento, sem qualquer importância ou significação. Israel está longe de Javé, não invoca mais o seu nome (63.19). V. 6 – Faz uma explicitação daquilo que estava sendo afirmado no v. 5: Javé está sozinho, sem seguidores, pois ninguém invoca o seu nome. Ninguém mais se interessa por Javé. Não há mais invocação do seu nome, portanto ninguém mais se agarra a ele. Isso não é porque o povo o abandonou, mas porque o próprio Javé escondeu o seu rosto, assim como as pessoas reagiram diante do seu servo (53.3). Entenda-se que esse ocultar de Deus se dá porque a iniquidade se interpôs como abismo, separando-os e impedindo que Javé escutasse a voz do povo (59.2b). Por causa do seu pecado, o povo brada contra Javé, mas a causa está em sua própria desobediência (Dt 31.17). Por causa do afastamento de Javé, Israel fica à mercê de sua transgressão e vaga cambaleante nos caprichos de seu pecado. Esse versículo encerra o reconhecimento da iniquidade e as queixas do povo direcionadas a Javé, e, de certa forma, abre-se uma janela de expectativas. V. 7 – Há uma nova confissão de fé que escancara o coração do povo: “tu és o nosso pai”. É a terceira vez que essa declaração aparece nessa oração de clamor e súplica: duas vezes em 63.16 e agora. O versículo inicia com uma partícula adversativa que dá ênfase às considerações anteriores de reconhecimento da transgressão e do afastamento de Javé (v.4-6). Essa é uma reação positiva que indica confiança no “pai” criador: a imagem que segue é a do barro e do oleiro – criatura e criador, tão caros à primeira parte do profeta (22.11; 27.11) e ao segundo Isaías (43.1; 7;21); isso aponta para a consciência de uma conexão próxima com o criador e a uma origem privilegiada; a insistência na primeira pessoa do plural aponta para a comunidade convergindo em Javé, buscando a misericórdia dele sobre o povo. V. 8 – O v. 8 prossegue na mesma direção da comunidade que ora, implorando para que Javé não se demore em sua irritação. Faz uma retomada do v. 4b, no qual o lembrar-se de Javé transmuta-se no pedido para que a lembrança do pecado não se prolongue. Isso foi exaustivamente enfatizado no ato de arrependimento em v. 5b e v. 6b. Essa lembrança, retomada aqui, remete à primeira parte

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do salmo, no qual é evocada a lembrança de Javé em relação ao seu povo (63.1112). É notória a ambivalência entre o lembrar do povo e o deixar de lembrar as transgressões. O conteúdo da oração é um apelo para que Javé não se esqueça de que ele é o oleiro e o povo é a argila. V. 9 – O conjunto das diversas estrofes deste salmo parece pressionar Javé. Aqui, o povo apela para que olhe a destruição das cidades santas, para o deserto no qual se tornaram, tal a dimensão das suas ruínas, com ênfase na cidade de Jerusalém. O lamento do povo prolonga-se no v.10 quando fala do Templo como algo que pertence ao povo e onde os antepassados haviam adorado Javé e encerra com um apelo angustiado através de duas questões quase acusatórias, coroando a súplica pela assistência divina.

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Meditação

O Advento está próximo: uma luz no horizonte ilumina-nos e faz crescer a esperança. São momentos de preparação para celebrar a data que inaugura o novo tempo em Jesus Cristo. De novo a imagem das trevas que povoam os corações está por findar, a chegada do novo tempo será celebrada outra vez no Natal. O principal critério para nos habilitar à presença restauradora de Cristo é o reconhecimento da iniquidade que infestou nosso existir. As luzes do mundo capitalista seduziram nossos sentidos. Olhos, ouvidos, olfato, tato e paladar inebriaram-se com as cores fantásticas dos mercados. Nosso andar parou diante das vitrines belamente enfeitadas como se fossem altares de adoração. Como se estivéssemos recitando uma prece, imaginamo-nos envoltos nas maravilhas da tecnologia contemporânea de última geração. A conectividade com as diferentes redes substituiu nossa conexão com Cristo. Perdemo-nos nas telinhas dos smartphones e nas veredas dos shoppings, agarrados ao último saldo de nosso cartão de crédito. Agora, experimentamos o amargor da iniquidade que nos separa dos nossos queridos, pois fomos empurrados para extenuantes jornadas de trabalho para quitar os saldos negativos de todos os créditos que possuíamos. Não conseguimos mais tempo para brincar com nossos filhos nos finais de semana. Nossos amigos reclamam e nos acusam de ser workaholics, trabalhadores compulsivos. Não vamos mais à igreja, e a nossa comunidade de fé reclama da nossa ausência. Estamos perdidos em meio a tantas tarefas para cobrir os saldos devedores de nossas compras: a iniquidade tomou conta de nós. As nossas relações, em nível familiar, de amigos e de comunidade de fé estão esfaceladas, porque estamos envoltos em nós mesmos e nas nossas intermináveis dívidas, pois aderimos aos deuses estranhos, aos ídolos do mercado. Diante da luz que se aproxima, a escuridão de nossas vidas aparece na consciência. O tempo de afastamento da face de Cristo aparece como uma sombra sobre todos. Perante o desespero que nos separa dos outros e que nos afasta de Deus, somos levados a pensar naquele que tem seus sentidos aguçados para se sensibilizar com a dor e com o sofrimento. Ele não fechou os olhos nem fez ouvidos moucos para com o sofrimento de seus filhos e filhas. Agora, com a

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proximidade do Advento, contemplamos outra vez a sua face resplandecer sobre nós, dividindo e separando as trevas da luz. Cristo está a apontar um caminho de arrependimento, de conversão, de reencontro com a alegria de viver: com os amigos e amigas, com os irmãos e irmãs de fé, com os filhos e filhas, com a comunidade. Um caminho bem diferente daquele que nos empurrava para a solidão das quinquilharias e ídolos estranhos, mas muitos próximos do mercado capitalista mediado pelas tecnologias de informação contemporânea e por intermináveis redes sociais: verdadeiras bocas abertas dos novos mercados.

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Imagem para a prédica

Prepare duas cenas bem diante do povo dentro do templo: uma composta por um Papai Noel bem grande rodeado de ofertas. Se for possível, coloque alguns produtos que ele oferece todos os dias nas vitrines dos shoppings, com placas de ofertas imperdíveis, com a primeira prestação só para depois do Natal, 50% off etc.; a outra, composta por alguma representação de Cristo, como a manjedoura, ou Maria e José, ou outra qualquer. Ao redor, tudo o que se relaciona com o reencontro com a família, com filhos, com amigos, com a comunidade da fé. Coloque algo que simbolize a alegria da convivência com as pessoas, longe da solidão dos eletrodomésticos, das redes sociais e dos aparelhos que nos reduzem a operadores de robôs digitais.

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Subsídio litúrgico: Montagem do presépio

Prepare as peças com antecedência e reserve-as à entrada do templo. Após a prédica, convide toda a comunidade a montar o presépio num local que poderá permanecer até o Domingo da Manifestação. Comece com o Menino Jesus (filho de Deus e Salvador), acrescente Maria (mãe de Jesus Cristo), José (pai de Jesus Cristo), manjedoura com palhas em um curral (local onde nasceu Jesus), burro e boi ou ovelhas (animais do curral representam a simplicidade do local onde Jesus nasceu), anjos (responsáveis por anunciar a chegada de Jesus), estrela de Belém (orientou os Reis Magos quando Jesus nasceu), pastores (representam a simplicidade das pessoas do local em que Jesus nasceu), Reis Magos (Melquior, Baltazar e Gaspar). Transforme esse momento litúrgico num ato pedagógico para mostrar às novas gerações que no Natal celebramos o nascimento de Cristo e não do Papai Noel.

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. Petrópolis: Vozes, 2002. v. III. GARIN, Norberto da Cunha. 1º Domingo após Pentecostes. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1996. v. 22.

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PRÉDICA: MARCOS 1.1-8

2o DOMINGO DE ADVENTO

ISAÍAS 40.1-11 2 PEDRO 3.8-15a

07 DEZ 2014

Samuel Gaussmann

Preparação constante do amor confiante

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Introdução: Prepare-se!

Isaías 40 remete ao exílio babilônico. O profeta é enviado por Deus para anunciar “ao coração de Jerusalém” que a “consolação” do Senhor está próxima (v.1-2). “Falar ao coração” sugere a relação de amor entre Deus e seu povo. Para expressar essa mensagem são usadas duas imagens. A primeira é uma imagem ligada ao universo militar: o tempo de serviço que o povo foi obrigado a cumprir já terminou. A segunda é ligada ao universo cultual: o castigo que o povo sofreu foi aceito pelo Senhor como se fosse uma forma de sacrifício de expiação. É apresentada ainda uma misteriosa voz do deserto, que convida a “preparar o caminho do Senhor”, palavra retomada pelo evangelista Marcos. O trecho de 2 Pedro apresenta uma reflexão sobre o “Dia do Senhor” (v. 1-10) e uma exortação aos cristãos para levar uma vida santa (v. 11-18). Os cristãos dos primeiros tempos estavam convencidos da iminência da volta de Cristo. No entanto, o tempo passava e isso não acontecia. O autor explica que Deus não depende do tempo como nós, que vivemos na história, e que Deus pretende prorrogar o tempo para oportunizar a todos acolherem a salvação que ele oferece. A segunda vinda de Jesus será algo inesperado e surpreendente, e os crentes devem esperar preparados e vigilantes. A temática da preparação e vigilância é comum aos três textos. Marcos destaca o agir de Deus: ele fala pelos profetas, prepara através de João Batista, revela-se em Jesus Cristo e batiza no Espírito Santo. Advento é Deus que vem! E nós? Estamos atentos? Preparados?

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Exegese: O porquê da preparação

Marcos inicia seu evangelho afirmando: “Princípio da boa-nova de Jesus Cristo, Filho de Deus”. E no final, na hora em que Jesus morre, ele afirma de novo: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus” (Mc 15.39). No começo e no fim de sua obra está a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus. Essa afirmação expressa o que a primeira comunidade cristã respondeu à pergunta sobre quem é Jesus. A exemplo de Gênesis (Gn 1.1) e do Evangelho de João (Jo 1.1), também Marcos inicia com a expressão “princípio”, revelando que irá tratar do Deus que age, que cria o inexistente, que faz acontecer desde o início.

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O ponto de referência para sua narração é o Antigo Testamento, especialmente o Êxodo. Esse enfoque corresponde ao significado da morte de Jesus, na qual ele derramou o sangue da nova aliança. De maneira semelhante a Moisés, Jesus chamou para si o povo de Deus, demonstrando sua autoridade através de milagres e sinais, e outorgou seu ensinamento como o “novo mandamento” da nova aliança. “Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho.” Essa passagem é de Malaquias 3.1. Naquela época, o serviço do Templo era desempenhado sem entusiasmo. As oferendas sacrificiais eram animais defeituosos e de segunda qualidade. O mensageiro viria para purificar a adoração do Templo antes que o Ungido de Deus aparecesse sobre a terra. Nesse sentido, a vinda de Cristo seria uma purificação da vida. “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.” Essa passagem é de Is 40.3. Marcos fez uso de citações de Malaquias e Isaías para salientar que João Batista fazia parte, já nas profecias, da história salvífica de Deus como precursor de Jesus, que é, de fato, o Messias, o Ungido de Deus. A pregação de João Batista no deserto lembra a Israel, simbolicamente, as suas origens na aliança celebrada no Êxodo. O deserto é o lugar das revelações divinas, como a sarça ardente (Êx 3) e os Dez Mandamentos (Êx 20). Foi na travessia do deserto que Israel aprendeu a conhecer e a confiar em Deus. Marcos usa frequentemente hipérboles (recurso literário que exagera) em expressões como no v. 5: “toda a província da Judeia” e “todos os habitantes de Jerusalém”, para sublinhar o avanço e a abrangência do evangelho. Nos dias de João Batista, o povo israelita havia perdido sua liberdade política para o Império Romano e não havia nenhuma perspectiva de recuperá-la a curto prazo. Internamente, o povo estava dividido em diversos grupos, como, por exemplo, fariseus, zelotes e saduceus. É para esse contexto de crise que João Batista fala. E a palavra com a qual ele anuncia a chegada de Deus é arrependimento. A palavra grega (metanoia) traduzida aqui por arrependimento significa mudar de atitude, mudar a direção da vida, converter-se a Deus. Esse arrependimento é uma mudança de rumo na vida da pessoa em todas as suas dimensões. As pessoas que se sentiam tocadas por esse chamado deixavam-se batizar. Por meio das associações com o dilúvio nos dias de Noé e a derrota dos egípcios no Mar Vermelho, o batismo de João também lembrava ao povo que o pecado merece um castigo e o arrependimento é o início de uma nova caminhada. João veio anunciando o batismo de arrependimento. O judeu conhecia muito bem os lavamentos rituais (Lv 11-15). Quando um gentio convertia-se ao judaísmo, devia cumprir três coisas: em primeiro lugar, devia circuncidar-se porque esse era o sinal do povo da aliança; em segundo lugar, devia oferecer um sacrifício porque, como pagão, necessitava expiação, e somente o sangue derramado podia expiar o pecado; em terceiro lugar, devia batizar-se, ação que simbolizava a purificação de toda a impureza de sua vida anterior. O mais surpreendente do batismo de João era que ele, um judeu, pedia aos judeus que se submetessem a esse ritual, deixando claro que ser judeu no sentido racial não significava, neces-

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sariamente, pertencer ao povo escolhido de Deus; não era a vida judia, mas a vida purificada que agradava a Deus. Há continuidade entre o batismo de João e o batismo instituído por Jesus (Mt 28.19). Ambos eram símbolos de purificação e visavam à remissão de pecados. Porém não eram idênticos. Os que foram batizados por João necessitavam também do batismo cristão (At 19.5). O batismo cristão é um sinal de iniciação que indica o relacionamento com Cristo; o batismo de João foi um rito de preparação para a vinda de Cristo. João anunciava a espera, Jesus o cumprimento. João era um homem que vivia sua mensagem. Três aspectos marcavam a realidade de seu protesto: 1. O lugar onde vivia: deserto; 2. Suas roupas: Elias tinha usado roupa semelhante (2Rs 1.8); 3. Sua alimentação: gafanhotos e mel silvestre. Ambas as palavras são alvos de diferentes interpretações na pesquisa bíblica, mas é consenso que significam uma dieta simples. Tirar as sandálias do caminhante era trabalho que correspondia ao escravo. João não se considerava digno de servir o Mestre nem mesmo na qualidade de escravo, entendendo-se como apenas um canal de ligação ao Filho de Deus. Nesse sentido, G. J. Jeffrey, um famoso pregador, usava o seguinte exemplo: Quando fazemos uma chamada telefônica de longa distância e demora, o operador nos dirá: “Estou tentando conectá-lo”. Quando conseguiu a conexão, o operador desaparece e nos deixa em contato direto com a pessoa com quem queríamos falar. O propósito de João Batista não era ocupar ele mesmo o centro das atenções, mas conectar as pessoas com Jesus Cristo.

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Meditação: A preparação que comove e move...

O quanto somos prevenidos e vigilantes em nosso dia a dia? Você costuma levar guarda-chuva diante das primeiras ameaças de chuva ou é daqueles que geralmente tomam banho de chuva ou precisam pedir emprestado um guarda-chuva? Os textos bíblicos do 2° Domingo de Advento falam da vigilância e da preparação. O 2º Domingo de Advento faz-nos refletir também sobre as segundas chamadas na vida. A segunda chamada no vestibular ou em concursos representa uma nova chance para quem não atingiu a meta. Na vida escolar, a recuperação é uma segunda chance para quem não foi bem na prova. O segundo turno de uma eleição é oportunidade de analisar melhor os candidatos. Em reuniões e assembleias vale a segunda chamada/convocação. Nunca presenciei uma reunião em nossas comunidades da IECLB iniciar na primeira chamada. Quantas “chamadas” Deus precisa fazer para lhe obedecermos e o levarmos a sério? No Advento, Deus faz-nos quatro chamadas, e ainda tem gente que chega no Natal despreparada, estressada, desapercebida dos sinais... João Batista afirma claramente que preparar a vinda do Messias passa pela metanoia, isto é, pela transformação total do ser humano. Preparar a vinda de Jesus exige de nós uma transformação radical em nossa vida. Arrepender-se é confessar e abandonar o pecado, é não se apegar mais à ideia de que se é justo simplesmente por ser descendente de Abraão ou fazer parte de uma igreja, mas é

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produzir frutos de uma vida que corresponda ao arrependimento. O Advento gera comoção, mas qual a ação que permanece depois? Ao fazermos uma conversão no trânsito, devemos antes sinalizar essa intenção com o pisca-alerta. No Advento, as comunidades estão com vários pisca-alertas ligados, reflexivas e emotivas, mas, infelizmente, fica só no piscar e não há ação concreta através de uma mudança de direção. É como o automóvel que liga o pisca-alerta e não muda de direção. Saímos transformados, convertidos para uma real mudança após ouvir o chamado de João Batista? À semelhança dos pisca-piscas dos pinheirinhos, nosso pisca-alerta do batismo vai piscar enquanto a decoração natalina estiver exposta e depois tudo volta como era antes, sem mudar de direção, sem frutos de arrependimento? A imagem do deserto destaca que mais do que um determinado lugar, ele indica uma profunda experiência com Deus. Nesse sentido, o 2º Domingo de Advento torna-se um “estar com João no deserto”. O Advento pode ser comparado a uma caminhada com quatro estações (quatro domingos), e a segunda passa pelo deserto. E depois de passar pelo deserto, não saímos mais os mesmos, mudamos o ritmo e a maneira de caminhar. Advento é oportunidade de dar maior liberdade a Deus para agir em nós, abrindo espaços, alargando o coração, endireitando caminhos, abrindo fronteiras. O segundo domingo de dezembro é também o Dia da Bíblia para as igrejas oriundas da Reforma religiosa do século XVI. É oportunidade de destacar a Bíblia como o manual para nossa preparação e vigilância na vida de fé. Para usarmos corretamente um eletrodoméstico, precisamos conhecer seu manual de instrução. Para vivermos coerente e fervorosamente a fé, precisamos continuamente consultar a palavra de Deus. O que significa estar vigilante e preparado? Viver uma vida de acordo com a vocação recebida desde o Batismo, ou seja, uma vida santa, de serviço a Deus. A demora na segunda vinda de Jesus não é pretexto para esmorecer na preparação ou desistir de esperar e agir. A questão não é quando será, mas como você está se preparando para tal. É a esperança que torna a espera algo produtivo, pois, se o amor é confiante, a preparação será constante!

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Imagens para a prédica: Motivando para a preparação

A luz Uma vela ainda não é luz. Ela pode tornar-se luz. Só falta acendê-la. Com o fogo. Bem, assim é com as pessoas. De monte existem pessoas-vela. Mas há pouquíssimas pessoas-luz. Pessoas-vela receberam educação cristã, fazem parte de uma comunidade cristã. Mandam seus filhos para o Culto Infantil e para o Ensino Confirmatório. Defendem os valores da fé cristã. Cantam hinos religiosos no Natal. Mas ficam nisto: no Menino Jesus que dorme. Não se deram conta de que esse Menino Jesus cresceu e pregou: “Vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisesse que ela já estivesse a arder”. Pois é. Assim é com as pessoas-vela. Tudo bem com elas. Todas elas são gente boa! Só falta o fogo... O fogo do amor! O fogo da determinação! O santo fogo do Espírito Santo! Pois só esse fogo do

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Espírito Santo faz de pessoas-vela pessoas-luz, fazendo com que ardam em fé, esperança e amor. Na escuridão, a vela mais bonita não serve para nada se não estiver acesa. Porém a luz mais insignificante atrai, orienta, ilumina e espalha calor e aconchego. Imprescindível é o nosso relacionamento com Cristo, que é a luz do mundo. Somente quando ele arde e brilha dentro de nós, tornamo-nos pessoas-luz. E é essa a nossa tarefa: ser luz do mundo! Só uma vela acesa pode acender outras velas. (Sugestão: Distribuir velas entre todas as pessoas e, durante a leitura, deixar uma vela vermelha acesa. No final, a partir da vela vermelha, cada qual pode acender outras velas assim que a sua for acesa também.)

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Subsídios litúrgicos: Celebrando a preparação

Velas de Advento Pode-se acender a segunda vela da Coroa de Advento ou usar quatro velas de cores diferentes para assinalar o específico de cada domingo: a primeira vela é roxa, porque indica o tempo de penitência e conversão pela segunda vinda de Cristo; a segunda vela é vermelha, pois está relacionada ao testemunho de João Batista e lembra o sangue do Cordeiro de Deus; a terceira vela é rosa, pois esse domingo é também chamado Gaudate (Alegrai-vos), sinal da alegria pela vinda do Salvador; a quarta vela é branca, relacionada a Maria, que dará à luz um filho e representa Jesus já presente, mas ainda oculto no ventre materno. Simbologia para a confissão de pecados e anúncio da graça: Uma jarra cheia de água que ficará na pia batismal e vários copos transparentes vazios no altar ou em outro lugar visível. Vivemos uma vida vazia de sentido sem a fé. Cada copo vazio representará um aspecto da vida em que não agimos de acordo com a fé (profissão, comunidade, família, política etc.). Após as preces, destacar que no Batismo fomos preenchidos pelo Espírito Santo para uma vida com abundância. Buscar a jarra na pia batismal e encher os copos vazios. Destacar o Batismo. Se não houver batismos agendados, procurar fazer uma rememoração do Batismo à luz do Advento. Há várias sugestões no Livro de Batismo da IECLB.

Bibliografia MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. O Evangelho de Marcos: Um roteiro de viagem tendo Jesus como guia. Série: A Palavra na Vida, nº 290. São Leopoldo: CEBI, 2012. WESTPHAL, Hugo Solano. Círculos Bíblicos: O Evangelho segundo Marcos – fascículo 1. Blumenau: Sínodo Vale do Itajaí – IECLB, 2008. p. 13-26.

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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 5.16-24

3o DOMINGO DE ADVENTO 14 DEZ 2014

ISAÍAS 61.1-4,8-11 JOÃO 1.6-8,19-28

Michael Kleine

Conservados íntegros e irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo

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Introdução

A preocupação principal de Paulo é com a fé da comunidade em Tessalônica (3.1-10). Ele temia que, em sua ausência, a comunidade pudesse ter sido levada a deixar a fé (3.5), ou seja, deixando “o Deus vivo e verdadeiro” para servir “aos ídolos” (1.9). Por causa dessa preocupação com o “estado da vossa fé” (3.5), Paulo envia Timóteo a Tessalônica para “vos fortificar e exortar na fé” (3.2 – trad. Bíblia de Jerusalém). A carta também cumpre esse objetivo de exortar a permanecer na fé, apesar das “boas notícias da vossa fé” (3.6) e de que “estais firmados no Senhor” (3.8). Por isso não espanta que um termo importante na carta é parakaleō: chamar para perto, convidar, exortar, encorajar, consolar. O próprio anúncio do evangelho Paulo chama de paraklēsisj (2.3; cf. 2.2-4). Como “ama que acaricia os próprios filhos”, ele lhes oferece o “evangelho de Deus” (2.7s), como “pai a seus filhos... exortamos, consolamos e admoestamos” (2.11s). Ele exorta quanto à maneira de “viver e agradar a Deus” (4.1), bem como a progredir no amor (4.10). Os próprios membros da comunidade devem exortar/consolar uns aos outros a respeito da “vinda do Senhor” (4.18; 5.11). Tudo isso (sc. a ação do próprio Deus via anúncio do evangelho, exortação, consolo, edificação) tem um único objetivo: firmar/fortalecer os corações em santidade irrepreensível diante de Deus “na vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos” (3.13; cf. 5.23; 1Co 1.8). Dessa forma, o próprio Senhor Jesus prepara a sua comunidade para a sua vinda definitiva e a “livra da ira vindoura” (1.10; cf. Rm 5.9), a grande catástrofe que será o “dia da vingança do nosso Deus” (Is 61.2). Através da pregação/consolo/exortação do profeta/apóstolo/pregador (Is 61.1-4) o próprio Deus cobre o seu povo “de vestes de salvação” e com o “manto da justiça” (Is 61.10); e o povo alegra-se na expectativa pelo advento do dia em que “o Senhor fará brotar a justiça e o louvor perante todas as nações” (Is 61.11) como fruto daquilo que foi semeado. Essa ardente expectativa pela “vinda do Senhor”, pelo “Dia do Senhor” (5.2) – que perpassa toda a carta e toda a pregação de Paulo – lembra-nos que falar em Advento é muito mais do que falar em “preparação para o Natal”.

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Exegese

O bloco final da Primeira Carta aos Tessalonicenses (capítulos 4-5) contém exortações e conselhos práticos (4.1-12; 5.12-22) que emolduram uma explicação sobre a vinda do Senhor e o Dia do Senhor (4.13-5.11). O objetivo desse bloco é a exortação: “vigiemos e sejamos sóbrios” (5.6), “porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (5.9). De forma condensada, Paulo retoma nos v.16-24 o que ele diz no início da carta (1.2-10): ele recorda o motivo de alegria e gratidão dele e da comunidade, ou seja, o fato de terem chegado à fé, e exorta que permaneçam firmes nessa fé e alegria. V. 16 – Alegrai-vos sempre! A alegria é “fruto do Espírito” (Gl 5.22), ou seja, junto com o amor, a paz, a longanimidade, a benignidade entre outros, ela é resultado da ação do Espírito Santo naquelas pessoas que “são de Cristo” (Gl 5.24) e “vivem no Espírito” (Gl 5.25). É alegria que está em total conformidade com o reino de Deus que se está esperando, pois esse é “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Paulo também fala da “alegria da fé” (Fp 1.25), “na esperança” (Rm 12.12), “do Espírito Santo” (1Ts 1.6) e “no Senhor” (Fp 3.1). É o próprio Deus quem preenche os cristãos e as cristãs com “toda alegria e paz no crer” (Rm 15.13). Mesmo sendo puro fruto da ação de Deus – assim como a fé e o amor –, as pessoas que creem podem “cooperar” com a alegria umas com as outras (cf. 2 Co 1.24; 2.3; Fp 4.1; 1Ts 2.19s; 3.9), lembrando umas às outras do seu fundamento comum “no Senhor” (1Ts 3.7-9). É o que Paulo faz com essa sua carta, resumindo sua intenção com o chamado: Alegrai-vos! V. 17 – Orai sem cessar. Assim como a alegria, a oração é igualmente um fruto da ação do Espírito Santo (cf. Rm 8.15,26). A partir de 1Ts 1.2-3, vemos que para Paulo orar é, em primeiro lugar, colocar-se conscientemente “diante (emprosthen = na presença de) do nosso Deus e Pai”. Da mesma forma estaremos diante/na presença de (emprosthen) “nosso Senhor Jesus Cristo na sua vinda (parousia)” (2.19; cf. 3.13: “com todos os seus santos”). Esse estar na presença de Deus ou “do nosso Senhor Jesus” caracteriza e relaciona entre si a alegria, a oração e a ação de graças (cf. 1Ts 1.2s; 2.19; 3.9; 3.13). Da mesma forma caracteriza e relaciona entre si a existência presente “no Senhor” e o encontro futuro “em sua vinda” (cf. 2Co 5.10). Essa relação entre presente e futuro explica a frequente menção da oração (constante/incessante) junto com a vigilância em diversas passagens do Novo Testamento (Ef 6.18; Cl 4.2; Lc 21.36; Mt 26.41; Mc 14.38). V. 18 – Em tudo dai graças porque essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Segundo Rm 1.21, “dar graças” (juntamente com “glorificar”) é a atitude fundamental da criatura humana em relação a seu Criador: o auto-oferecimento e a submissão obediente a Deus. Paulo descreve ali a inimizade do ser humano em relação a Deus como a recusa em glorificá-lo como Deus e dar-lhe graças. Dando graças e glorificando, o ser humano aceita sua condição de

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criatura e de dependência absoluta de Deus. Essa é a vontade de Deus, revelada em Cristo Jesus. Paulo diz aqui (v.16-18), mas de forma extremamente condensada, o mesmo que escreveu aos filipenses (Fp 4.4-6). Ali também aparece a tríade alegrar-se – orar – dar graças. Tanto aqui como lá, Paulo não está falando de um estado emocional, mas de uma postura de vida. Como indicam as expressões sempre – constantemente – em tudo, a alegria, a oração e a gratidão constituem uma atitude permanente, ou seja, independem de condições outras que não sejam o “estar firmado no Senhor” e a expectativa confiante de que “perto está o Senhor”. Assim, alegrar-se – orar – dar graças – é atitude oposta à preocupação ansiosa com a própria sobrevivência (merimnaō: cf. Fp 4.6; Mt 6.25,28,31,34). Essa merimna biōtikos (Lc 21.34: preocupação com o que pertence à vida em sentido bio e psicológico) sobrecarrega o coração. Por isso vale aos que foram chamados “para o seu [de Deus] reino e glória” (1.12) aquilo que foi dito à comunidade em Roma: “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Segundo podemos depreender do que Paulo escreve em 1 Tessalonicenses, a preocupação primeira de quem está “no Senhor” é com o “estado da fé” (cf. 3.6: diante do perigo da provação e dos abalos causados pelas tribulações, cf. 3.2s.), ou seja, com o estar/permanecer “firmados no Senhor” (3.8) e não com a sobrevivência material, social e emocional. V. 19 – Não apagueis o Espírito. Trata-se da ação do Espírito Santo, que é a fonte dos múltiplos carismas atuantes na comunidade (1Co 12). Essa ação é concebida como fogo (cf. Mt 3.11; At 2.3). A recomendação de Paulo poderia ser a mesma que ele faz em Rm 12.11, só que formulada ao contrário: “Sede fervorosos/ardorosos no Espírito”. “Fervoroso no Espírito” era, por exemplo, Apolo, que “falava e ensinava com precisão a respeito de Jesus” (At 18.25). A formulação de Paulo é muito ampla, de modo que não podemos ter certeza se ele se refere a alguma situação específica em que estavam sendo colocados empecilhos à ação do Espírito na comunidade. Pode ser uma referência aos v. 16-18, ou também especificamente ao v. 20, que trata do carisma da profecia. V. 20 – Não menosprezeis profecias. A profecia é um dos variados carismas existentes na comunidade (Rm 12.6; 1Co 12.10), tida por Paulo em alta conta (1Co 14.1) por causa do seu benefício para a comunidade: na edificação, exortação, consolo (1Co 14.3) e ensino (v. 31). O dom da profecia consiste no falar a palavra certa na hora certa através de revelação divina (1Co 14.30). “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres” (1Co 12.28). Profetas estão, pois, entre aqueles “que vos presidem no Senhor e vos admoestam” (1Ts 5.12). Seja por causa de algum eventual abuso, seja pela sua função de admoestar (v. 14), o fato é que os “profetas” estavam sofrendo resistências para exercer sua função na comunidade (v. 12-13). V. 21 – Julgai todas as coisas, retende o que é bom. Para evitar abusos, todas as manifestações carismáticas devem ser examinadas (dokimazō). O próprio Paulo foi examinado/provado por Deus (2.4). Segundo Rm 12.6, o critério para examinar a profecia é a “analogia da fé”, ou seja, se ela está em conformidade

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com as afirmações fundamentais da fé, conforme foram ensinadas pelo apóstolo. Aquilo que foi aprovado como “bom” deve ser segurado com firmeza. V. 22 – Abstende-vos de toda forma de mal. Recomendação de caráter geral para evitar tudo o que pode causar dano à comunidade. Não parece estar se referindo diretamente ao versículo anterior. V. 23s – Aqui Paulo mostra a razão de tudo o que foi recomendado anteriormente: ser encontrados “íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Mas para que isto seja possível, é preciso ser santificado por Deus. As recomendações dos v. 16-22 significam a exortação a viver em conformidade com a santificação operada por Deus, “que vos chama para seu reino e glória” (2.12). As próprias recomendações dadas são instrumentos usados por Deus para santificar, ou seja, para “conservar” os/as tessalonicenses na fé que receberam, para que permaneçam “firmados no Senhor” (3.8). Paulo espera por uma catástrofe, a “ira vindoura”, da qual Jesus “nos livra”. Ele o faz através do Espírito e dos seus dons/carismas, da exortação, consolo, edificação. Tudo com a função de manter todos sem culpa e “inteiros” no dia da ira. O mesmo que “vos chama” (v. 24) se mantém fiel a seu chamado, conservando todos íntegros para o seu “reino e glória”. Paulo expressa sua confiança como em Fp 1.6: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”.

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Meditação

“Conservados íntegros e irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” – eis a preocupação de Paulo com a comunidade, eis a nossa preocupação como ministros e ministras. Este é o centro ao redor do qual deve girar a pregação neste domingo de Advento. Paulo exorta: “vigiemos e sejamos sóbrios” (5.6). Parece-me que as recomendações de 5.12-22 visam contribuir para que isso aconteça. Inicialmente, trata da relação pessoal com Deus (v.16-18); em seguida, aponta para a ação do Espírito na comunidade (v.19-22). Parafraseando os v.16-18: Deus quer que vocês, que estão na fé em Jesus Cristo, permaneçam nessa alegria que vos foi dada, através da oração incessante e da ação de graças permanente. Paulo está nos lembrando de que a vida, em todos os seus momentos (sempre – sem cessar – em tudo), deve ser vivida sob os olhos de Deus. É assim que Deus nos conserva por inteiro (“íntegros”), “espírito, alma e corpo”. Nada do que fazemos está excluído da esfera “espiritual”. “Espiritualidade” não é um ambiente separado da vida diária, mas abrange tudo. Também não é algo para ser vivido apenas individualmente. O “fogo” do Espírito Santo atua na comunidade (v.11-15,19-22). Quem fica longe da comunidade, no mínimo, está “desprezando as profecias”, ou seja, o anúncio da palavra de Deus que edifica, consola, exorta. A imagem que me vem à mente é a do caminho. Tendo o apóstolo como instrumento (1.5,9), o próprio Deus, através da sua palavra eficaz (2.13), tirou (converteu) os tessalonicenses do caminho dos ídolos e os colocou no caminho (serviço) do “Deus vivo e verdadeiro” (1.10). Da mesma forma, ele os mantém

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firmes (3.13) e os conserva (5.23) nesse caminho através da pregação/exortação do apóstolo, de Timóteo (“ministro de Deus no evangelho de Cristo”, 3.2) e dos “que vos presidem no Senhor” (5.12). Não basta estar no caminho certo, é preciso ficar nele até o fim, até alcançar o objetivo. Jesus Cristo – o Caminho – está vindo ao nosso encontro. Ele próprio nos colocou nesse caminho por onde ele vem nos encontrar. Ele mesmo nos conserva nesse caminho por meio de alguns instrumentos colocados à nossa disposição pelo Espírito Santo: o consolo e exortação mútuos (“uns aos outros”) e dos “que vos presidem no Senhor”, a oração, as “profecias” (anúncio oportuno da vontade de Deus/pregação) e – podemos acrescentar – a Ceia do Senhor. Nessa última, a comunidade está na presença do Senhor como em nenhuma outra parte ou momento. Torna-se com ele uma unidade indissolúvel. Vigiemos! É muito fácil sair do caminho no qual fomos colocados, esquecendo-nos dos “benefícios” recebidos (cf. Sl 103,2), confiando nas próprias escolhas e meios, afastando-nos da comunidade. É preciso ficar atento/a e desconfiar do caminho solitário, separado da comunhão. Diante de Deus somos e sempre seremos crianças, para as quais vale: não solta a mão do pai e da mãe! Fica o tempo todo de olho neles! É muito fácil perder-se nessa multidão! E a mão do Pai está nos meios da graça que ele coloca ao nosso alcance. A propósito: a alegria da qual fala Paulo (v.16) pode ser comparada à alegria da criança que se perdeu dos pais na multidão e foi encontrada. É a alegria de quem “estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (Lc 15.32). É ouvir o convite do próprio Deus: “Alegrai-vos comigo!” (Lc 15.6,9) e participar do “júbilo no céu” (Lc 15.7,10). Para alegrar-se, é preciso dar-se conta do perigo do qual se foi livrado. Alegrai-vos sempre significa: não se esqueçam do perigo que corriam antes de ser colocados no caminho. “Orai sem cessar” é o convite para colocar-se permanentemente na presença de Deus. A oração é o oxigênio que alimenta o fogo do Espírito Santo que nos foi dado. Buscar a presença de Deus em oração significa submeter tudo à sua vontade, aceitar nossa dependência total. O mesmo vale para o “dar graças”. Nos v. 19-21, temos o convite para buscar/aceitar a ação do Espírito que age através dos outros em nosso favor – na comunidade. É através deles que nossa alegria, nossa oração e nossa ação de graças – em suma: nossa fé – são alimentadas. Mas aqui vale: julgai todas as coisas. Existem critérios claros para saber o que é “bom”, o que edifica. O apóstolo ensinou-os, fazem parte da confissão de fé. Hoje temos a Bíblia, os Catecismos, a Confissão de Augsburgo para avaliar o que se faz e se fala na comunidade e na igreja. Mais uma imagem que pode ser útil: a da criança de poucos meses que quer dar seus primeiros passos. Ela ainda não consegue firmar as pernas, por isso precisa de ajuda. Pode ser segurada por um adulto que lhe dá firmeza e conduz ou pode ir se segurando nos móveis da casa que funcionam como corrimão que leva ao objetivo. Somos – e sempre seremos – como essa criança no caminho que Deus nos colocou para nos encontrar com o Senhor Jesus que vem em nossa direção. Precisamos da ajuda dele para ficar de pé e andar. Assim como a criança, não temos noção do perigo que está à nossa volta. Podemos e devemos implorar

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incessantemente por sua ajuda. Alegramo-nos quando ele o faz. Usamos os corrimões que ele colocou para nos auxiliar (pregação, sacramento, exortação mútua, oração).

Bibliografia BORNKAMM, Günther. Paulus. Vierte Aufl. Stuttgart/Berlin/Köln/Mainz: W. Kohlhammer, 1979. BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testaments. 3. durchg. u. erg. Aufl. Tübingen: J.C.B. Mohr, 1958. LÜNEMANN, Gottlieb. Kritisch exegetisches Handbuch über die Briefe an die Thessalonicher. Zweite verb. u. verm. Aufl. Göttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1859. (Disponível em: https://play.google.com/books)

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PRÉDICA: LUCAS 1.26-38

4o DOMINGO DE ADVENTO 21 DEZ 2014

2 SAMUEL 7.1-11,16 ROMANOS 16.25-27

Evandro Meurer

Continuidade, não continuísmo

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Introdução

Com certeza, o momento conjuntural brasileiro e o ministerial/pastoral que vivo enquanto escrevo este auxílio homilético (abril/maio de 2014) influenciou meu olhar sobre os três textos apontados como leitura e reflexão para o tempo de Advento (novembro/dezembro de 2014). Na busca por encontrar uma relação dos textos entre si, com vistas a uma amarração temática para a prédica e o culto, as eleições majoritárias no país e as manifestações populares contra os investimentos absurdamente grandes na Copa do Mundo devem ter me levado à pergunta pelo continuísmo e/ou continuidade dos poderes e sistemas. Mas também o fato de eu viver meus primeiros 100 dias de atividade ministerial numa área missionária na região ao sul da Bahia, sem presença contínua da fé luterana pela IECLB e, portanto, sem muitos “vícios” continuístas. A doxologia final do livro de Romanos (cap. 16) evoca o Deus que “pode conservar” os cristãos de Roma na “mensagem de Jesus Cristo” anunciada por Paulo. Uma “verdade secreta, que nunca foi revelada no passado” (v. 25), foi revelada “agora” pela ação de Deus, “se tornou conhecida em todas as nações”, com o objetivo de que, no futuro, “todos creiam e obedeçam” (v. 26). A mensagem de Deus a Davi, mediada por Natã (2Sm 7), reafirma a promessa de continuidade do culto (templo) e da descendência davídica (reinado) em um lugar onde o povo de Israel possa morar e viver em paz (v. 10). Um de seus filhos, seu sucessor, é que construirá a liberdade, o templo e uma descendência real que “nunca terminará” (v. 16). A gravidez de uma mulher idosa (já em seu sexto mês de gestação – v. 26) e o anúncio do nascimento de Jesus por uma mulher virgem (Lc 1.26ss) são (re) afirmações de que “para Deus nada é impossível”, especialmente quando a questão é a continuidade do reinado de Davi (v. 32) e a perpetuidade da descendência de Jacó (v. 33). A partir de tal olhar e “contágio” na (re)leitura dos textos, quero convidá-los a aproveitar este tempo natalino para rever nossas tradições, nossa prepotência e nossa arrogância exclusivista, seja ela pessoal, religiosa ou política; animá-los a buscar distinguir o que, disso tudo, é continuísmo e o que vem a ser desejo ardente de continuidade da fé, da esperança e do amor, o que precisa passar por rupturas e o que deverá seguir “de geração em geração” (Sl 90.1).

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Exegese

Lucas, em sua investigação cuidadosa dos fatos evangélicos (1.3), não deixa escapar detalhes da anunciação do nascimento de Jesus. Destaca que “a abençoada” (de nome Maria) será “uma virgem que tinha casamento contratado com um homem chamado José, descendente do rei Davi (!)” (v. 27). Na primeira parte de seu escrito (capítulos 1 e 2), após as palavras de apresentação no prólogo (1.1-4), dá detalhes sobre a concepção tardia de João Batista através de um casal já idoso (Zacarias e Isabel), que se sentia desprezado por não poder colaborar na descendência do povo de Israel (1.5-25). Lucas, como historiador acurado, destaca então a genealogia adâmica, abraâmica e davídica de Jesus. Além disso, o evangelista faz questão de dar pormenores: – do anúncio a Maria (nosso texto em estudo e proposto para pregação); do encontro das duas parentas grávidas – colaboradoras em potencial para dar sequência à posteridade (1.39-45); – do louvor e reconhecimento de Maria (1.47-56) e de Zacarias (1.57-80) pela continuidade da descendência de Abraão (1.55) e de Davi (1.69); – e do nascimento e da infância de Jesus (cap. 2). Lucas apresenta as informações sobre os antepassados de Jesus não após a narrativa do nascimento (como em Mateus 1), mas logo após o seu batismo e do detalhe sobre o início de seu ministério aos 30 anos de idade (3.23ss). Assim ele dá destaque à sua vocação e ascendência como filho de Deus (1.32 e 3.38). Nossa narrativa bíblica, já trabalhada sete vezes em auxílios homiléticos anteriores, contém detalhes que recebem agora menção especial com vistas ao enfoque que propomos. V. 26 – As duas informações, a de que o envio do anjo Gabriel se dá no sexto mês de gravidez de Isabel e a de que sua missão se dará na cidade de Nazaré, têm propósitos semelhantes. A gravidez de Isabel está para Zacarias assim como o nascimento do Messias está para Nazaré. Duas realidades praticamente impossíveis de se concretizar. Seguindo a racionalidade lógica, Zacarias questiona: “Como é que eu vou saber que isso é verdade? Estou muito velho, e a minha mulher também” (1.18). Conforme o imaginário e o dito popular: “Será que pode sair alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1.46). V. 27 – A informação de que José era um galho da árvore genealógica dos descendentes de Davi é um diferencial importante que deseja sublinhar a messianidade davídica e a origem da linhagem real de Jesus. V. 28 – A exclamação do anjo a Maria – “Você é muito abençoada”, “favorecida”, “destacada”, faz alusão não só à sua escolha como “invólucro” do Filho de Deus, mas como serviçal da continuidade da descendência davídica. O fato de Deus estar com ela é motivo de alegria. V. 29 – Contudo observamos na narração que a reação de Maria é de perturbação, dúvida, medo, perplexidade: uma, pela situação de, como mulher, estar

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recebendo aquela revelação e visita divinas; e outra, pela forma com que ela está sendo preparada por essa saudação, para receber uma mensagem e tarefa especial: continuar o legado davídico. V. 30 – O anjo percebeu sua reação e a animou, informando que o motivo que o levava a estar ali era para uma boa causa, uma boa notícia, uma “graça”. Portanto não havia motivos para temor ou medo. Ser instrumento de Deus na continuidade de sua missão de amor para com o seu povo era um presente. V. 31-33 – Os detalhes da tarefa são apresentados. Dela nascerá um rei – com nome e sobrenome. Ele será herdeiro do trono de Davi. “Seu reinado não terá fim”; “O Reino dele nunca se acabará.” V. 34 – Surpreendentemente, Maria não se surpreende com a informação de que será portadora/gestante de um Rei, mas sim com o inusitado da gravidez (ginoskein). “Como será isso?”. Isso não é possível? V. 35-37 – Os detalhes da narração testemunhal (passadas pela “caneta” de um historiador, médico, cristão gentílico) recebem força e significado ainda maiores: uma concepção santa para o nascimento de um ente santo, superando todos os impossíveis já vividos e testemunhados pelo povo de Israel em sua caminhada com esse Deus dos possíveis: desde as experiências no deserto, onde as “sombras” de Deus acompanhavam o povo, até a gravidez de um casal já idoso. V. 38 – Uma serviçal! Esta é a postura de Maria: humilde, disposta e disponível para cumprir o que fora dito, anunciado, revelado e verbalizado (“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” – Jo 1.14).

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Meditação

Conforme definição do dicionário, continuísmo significa: “1. Manutenção do poder político nas mãos das mesmas pessoas ou do mesmo grupo. 2. P. ext. manutenção, continuação ou continuidade de qualquer situação. 3. Ação, estratégia ou manobra para manter a situação política ou econômica” (http://aulete.uol. com.br/nossoaulete/continuismo). Continuidade, por sua vez, é: “1. Qualidade ou condição do que é contínuo. 2. Prosseguimento ou persistência de um fato, acontecimento ou contexto (continuidade cultural). 3. Ligação não interrompida das partes de um todo” (http://aulete.uol.com.br/nossoaulete/continuidade). Gostaria de motivá-los, colega pregador e pregadora, a primeiramente deixar o texto bíblico, com o enfoque que vislumbrei, perpassar nossas entranhas de servos, desse Deus perpétuo de graça e amor inesgotáveis. Permitamos nos questionar: nossa vocação ministerial está a serviço do quê? De um continuísmo nosso no campo ministerial por meses ou anos? De um continuísmo eclesiológico de nossa IECLB no Brasil, que já ultrapassou os 190 anos? De um continuísmo da tradição luterana, que já se aproxima dos 500 anos desde seu nascimento? Advento também é oportunidade de permitir que advenham a nós e à comunidade que nos ouve novos desafios. Desafios esses que ultrapassem o continuísmo e a perpetuação das estruturas históricas que nos cercam, desafios que nos conduzam a rupturas necessárias e urgentes.

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De outra forma, quem sabe, na pregação, possamos abordar um dos enfoques abaixo. Pessoal: A narrativa do advento de um anjo a Maria deve ter sido uma experiência pessoal com certeza muito marcante em sua vida. Ela também deve ter sentido por diversas vezes o Filho de Deus mexer-se dentro de sua barriga, como aconteceu com Isabel (1.44). Deve ter sido uma emoção. Sentir-se uma “abençoada” a fez cantar e render louvor a Deus com muita alegria (1.47-55). Isso poderia levá-la a uma atitude de soberba e orgulho por ser portadora de tão nobre missão. Contudo sua atitude foi posicionar-se como “humilde serva” (1.48). Ela poderia “ter se achada a tal” por dar sequência ao poder real da dinastia de Davi. Continuísmo da soberania de um povo, com uma história tão sofrida. Maria, porém, considerou um privilégio servir a Deus, mesmo em face de todo o sofrimento que enfrentaria. Sua disposição de serva sobressaiu. Sua atitude serviçal deu continuidade a um projeto mais amplo de amor de Deus pelo mundo (Jo 3.16). “A visitação de Deus, com certeza, bagunçaria a vida de Maria, iria lançá-la em um mundo de muita dor e de muito sofrimento. Há alguma coisa estranha com o anúncio do anjo. É que a palavra alegria não combina com o futuro que já sabemos que Maria teria. ... Alegre-se! Abençoada... (v. 28). Alegre-se! Seu casamento será perturbado e seu marido será obrigado a enfrentar o constrangimento de uma gravidez mal explicada. Alegre-se! Você ouvirá o choro das mães de Belém, lamentando a morte de seus filhos por uma perseguição que visava ao menino que você vai gerar. Alegre-se! Você será obrigada a viver no Egito, exilada dos que querem matar seu filho. Alegre-se! Você verá o seu filho sofrer e apanhar sob o chicote dos soldados romanos. Alegre-se! Você contemplará seu filho morrendo a mais terrível de todas as mortes” (LUZ, p. 1). Eclesial: Em alguns anos, já teremos passado os festejos dos 500 anos da Reforma. É bom nos perguntar: O que realmente intencionamos com a comemoração dessa data? Por que comemorar? E, afinal, quem deveria comemorar a Reforma? Ou talvez nem se deveria comemorar a Reforma, pois ela na verdade denuncia a nossa imperfeição e incapacidade cristã de viver unidos sob a única e verdadeira palavra de Deus. Independente da resposta que mais se adéqua à nossa compreensão dos fatos, o mais importante é o resgate da redescoberta do evangelho que aconteceu naquele momento da história da igreja cristã: que a salvação é graça de Deus. Essa foi a ruptura necessária, diante de um continuísmo, a descoberta da grande verdade bíblica, a resposta para todas as perguntas angustiantes: Justificados pela fé, temos paz com Deus, por intermédio de Jesus Cristo (Rm 5.1). Essa (re)descoberta rompeu correntes e libertou todos da falsa notícia de que a salvação seria alcançada por obra($) humana($). Essa é a mensagem de Advento: Deus já realizou a grande obra da salvação através de seu Filho Jesus. Qualquer ideia de continuísmos confessionais que se sobreponham à continuidade da oferta salvadora de Deus em Cristo deve ser rompida, reformada, sempre. A grande e importante ruptura deve ser anunciada: O NASCIMENTO DO DEUS-MENINO SALVADOR.

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O Deus onipotente a terra visitou: Criancinha indigente e servo se tornou. O pecador ansiado não há de perecer Se, crente e confiado, a criança receber. As trevas já se rendem. Eis o que aconteceu: Os laços que vos prendem o próprio Deus rompeu! De abismos insondáveis, de desespero e dor, de angústias incontáveis remiu-vos o Senhor. (Joh. Petzold, 1939 – HPD 3)

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Imagens para a prédica

Atuo num projeto missionário ainda sem muitos “vícios” continuístas ou de continuidade da tradição e/ou vivência da fé cristã no formato teológico e litúrgico de confissão evangélico-luterana. O que existe é a consciência da necessidade de ruptura com os “esquemas mercantilistas e de prosperidade” das igrejas evangélicas “de esquina”, também existentes aqui em grande número. Há uma sincera busca “geracionista” do “somente Cristo, somente a Escritura, somente a graça e somente a fé”. Quem sabe, pregar/refletir sobre “Advento e Missão” seja uma novidade para você comunidade. Gostaria de incentivar você mesmo ou em conjunto com um grupo de reflexão (equipe litúrgica?) a buscar exemplos do momento conjuntural brasileiro atual bem como do seu contexto local para exemplificar e distinguir o que vem a ser “continuísmo” e “continuidade”. Analisando os poderes políticos, religiosos e econômicos de seu tempo, você e seu grupo de reflexão encontrarão, “sem dar nomes aos bois”, ilustrações que distingam um do outro. A partir disso construa uma pregação sobre o Advento de Deus em Cristo sob a ótica da perpetuação do reino de amor que irrompeu na manjedoura. Um reino que veio quebrar com todos os poderes continuístas de injustiça, pecado e mal deste mundo.

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Subsídios litúrgicos

Creio que o Salmo 90 mostra-se como “o” subsídio litúrgico que ratifica o abstract de nossa exegese e mensagem para este último domingo de Advento. Este é o “GERACIONISMO”, que creio ser a máxima da vivência cristã. Viver, testemunhar e cantar: “Senhor, tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração. Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus” (HPD 213) Tirar um tempo para dar uma folhada nos hinários e fazer um estudo dos hinos de Advento que favoreçam a reflexão e conduzam à mensagem preparada. Isso sempre é uma boa prática. Fazendo isso em nossos HPDs, encontrei a seguinte oração:

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“Deus, abre-nos a porta eterna do Reino de justiça e amor! Só onde a tua paz governa, cessam angústia, medo e dor” (HPD 6, estrofe 3) E também o convite (desafio): “Vós, fortes e orgulhosos, o Rei vinde aceitar, se desejais, ditosos, por seu caminho andar. Segui os passos seus; se não, se o desprezardes e não vos humilhardes, rejeitareis a Deus” (HPD 7, estrofe 3) Uma experiência muito saudável para as comunidades que têm Culto Infantil/Escola Dominical paralelamente ao culto comunitário é o/a pastor/pastora propor às/aos orientadoras/es o uso da mesma narração bíblica do culto comunitário no Culto Infantil/Escola Dominical (a narrativa da anunciação à Maria). No final do culto, abrir um espaço para que as crianças compartilhem suas descobertas com a comunidade.

Bibliografia KUNERT, Augusto Ernesto. Lucas 1.26-38. In: Proclamar Libertação XIX. Sinodal: São Leopoldo, 1992. LUZ, João Ferreira Leite. Aprendendo virtudes com Maria mãe de Jesus. Lucas 1.26-38. Disponível em: <http://www.sfnet.com.br/~walter.pacheco/lucas8. htm>. Acesso em: 20.04.2014.

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NOITE DE NATAL

PRÉDICA: ISAÍAS 11.1-9

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LUCAS 2.1-7 ROMANOS 1.1-7

Jorge Batista Dietrich de Oliveira

O reinado pacífico do Messias

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Introdução

Os textos indicados para a noite de Natal formam uma unidade em torno daquele que vem para governar com justiça e estabelecer a paz e a harmonia sobre toda a criação. O profeta Isaías anuncia as transformações que a vinda do Messias trará. Virá um descendente de Jessé, sobre o qual repousará o Espírito do Senhor. Ele terá sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. Por isso julgará o seu povo com justiça e defenderá o direito dos pobres e necessitados. E a criação voltará a viver em paz e harmonia. Essa realidade sonhada é expressa em termos inusitados: lobos e cordeiros viverão em paz, leopardos e cabritos descansarão juntos, leões e bezerros pastarão juntos. O evangelho, ao relatar o nascimento de Jesus, anuncia que esse reino de paz e justiça, anunciado pelo profeta e esperado por todos, já chegou. Lucas apresenta a situação social da época. Sob o poderio do imperador Augusto, todos os cidadãos do império precisam participar do censo a fim de ser feita uma contagem da população. José e Maria viajam até Belém, onde ela dá à luz um menino numa estrebaria, pois não havia lugar para eles na hospedaria. O Messias compartilha da dominação a que seu povo está sujeito e identifica-se com o povo sofredor ao nascer de forma tão humilde. Paulo, nos primeiros versículos da Carta aos Romanos, apresenta-se como servo e apóstolo de Cristo. Afirma que recebeu a tarefa de levar adiante a mensagem desse Messias prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras. Fala dessa boa-nova que é a salvação em Jesus Cristo e de sua responsabilidade em fazer esse tesouro chegar a todas as nações.

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Exegese

O livro de Isaías é uma obra extensa, dividida em três partes que são atribuídas a três profetas distintos que atuaram em épocas e contextos diferentes, reunindo assim tradições proféticas de vários séculos. A perícope em estudo está inserida quase no final do primeiro bloco de textos, assim chamado de “Palavras contra Judá e Jerusalém” (Cap. 1-12), que pertence ao Proto-Isaías (Cap. 1-39), profeta com atuação em Jerusalém e Judá no final do século VIII a.C. O gênero literário é a poesia. A forma pode ter sido adaptada de oráculos reais recitados por ocasião da entronização de algum rei, pois expressa o que se

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esperava de um governante. Trata-se de uma profecia messiânica que se assemelha a Is 9.1-7. Quanto à data e à autoria, não há consenso. Em geral, prevalece o Isaías histórico do século VIII a.C. Entretanto, há exegetas que atribuem os versículos 6 a 9 à inserção pós-exílica, pois a visão escatológica do reino da paz universal que apresentam é uma concepção bem mais tardia. V. 1 – Do tronco de Jessé surge um rebento (netzer – renovo). O tronco indica a casa real de Davi que sofreu o juízo de Deus e foi “cortada”, voltando a uma posição insignificante (cf. Is 10.33s). Dessa árvore derrubada surgirá um broto, possibilitando um recomeço na história do povo de Deus, pois traz em si a promessa de uma nova glória. Ele virá de Jessé (pai do rei Davi e cabeça de sua linhagem, cf. 1Sm 16.1ss), indicando que o Messias será diferente de Davi, pois estabelecerá um governo de justiça que trará paz e harmonia a toda a criação (cf. Is 9.1-7; Mq 5.2-5). Percebe-se aqui uma crítica e uma palavra de juízo ao davidismo. Por isso a profecia não menciona o termo “rei” porque o governante esperado será totalmente diferente dos reis que governaram Israel. V. 2 – O verbo repousar literalmente significa descansar. Traz a ideia de permanência e habitação, diferente do que se entendia no tribalismo a respeito do Espírito de Deus que tomava temporariamente alguém vocacionado para uma tarefa específica. Ele receberá a ruah, o Espírito do Senhor, que será nele presença permanente e o capacitará para governar. Os atributos que a ruah concede relacionam-se com o nome dado ao Messias, cf. Is 9.6, e estão divididos em três pares complementares: 1º – Sabedoria e entendimento são qualificações fundamentais ao governante. Sabedoria é a habilidade administrativa de governar com retidão e justiça. O entendimento é a capacidade de discernir a natureza das coisas, circunstâncias e relacionamentos. 2º – Conselho e fora: É a capacidade de formular conclusões, tomar as decisões corretas e a energia necessária para executá-las. É comum em todas as monarquias haver um grupo de “conselheiros reais”. Aqui a plenitude do conselho e a capacidade de concretizar o que se deseja na prática do governo vêm da ruah. 3º – Conhecimento e temor do Senhor: São aspectos que descrevem a piedade dos homens justos do Antigo Testamento. O temor a Deus, no sentido bíblico, não é medo, mas uma atitude de profundo respeito, que inclui a adoração, o amor, o serviço a Deus e a obediência a seus mandamentos. Diferentemente de outros governantes, o Messias recebe a sabedoria, a força e o conhecimento do Espírito Santo, que impede a busca desenfreada por poder, enriquecimento e prestígio pessoais. V. 3 – A consequência dos atributos da ruah está no modo como o Messias exerce seu poder e domínio, baseando-se na justiça de Deus e não nas aparências ou pressões sociais. Aponta para o exercício efetivo do governo, pois o Messias fará o que se esperava dos reis (cf. Sl 72), não apenas obras públicas, mas basicamente justiça. Será um governante capaz de combater os poderosos, defender o direito dos indefesos e anular as injustiças. Deleitar-se-á ou alegrar-se-á, alude

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à linguagem sacrificial e ao aroma agradável que vem dos incensos sacrificiais, indicando que o temor do Senhor não é medo ou fardo, mas inspiração e prazer. V. 4-5 – O novo governante não necessita de força militar para se impor, pois o seu poder reside na palavra (“vara de sua boca/sopro dos seus lábios”). Palavra e espírito são base para uma liderança comprometida com a justiça e a honestidade. “Quanto a pobres, trata-se de uma categoria abrangente e não apenas sociológica: envolve empobrecidos, deprimidos, fracos e tidos como insignificantes. O juízo é exercido contra os perversos porque são os responsáveis pelo empobrecimento e injustiças. Tal como um cinto mantém a roupa no lugar, assim o padrão divino de justiça e fidelidade será uma constante e unificadora força do governo do Messias.” V. 6-9 – Estes versículos apontam para o retorno do paraíso criado por Deus, conforme Gn 2. A figura dos animais carnívoros vivendo em paz com os animais domésticos e permitindo que um pequenino os guie simboliza a remoção de toda hostilidade, ferocidade e temor. Também entre os seres humanos não haverá mais inimizades e violências. A base dessa paz e harmonia será o conhecimento pleno e adequado de Deus que toda a humanidade possuirá. Esse conhecimento será absolutamente universal e se refletirá em toda a criação. Jr 31.34 afirma que esse conhecimento de Deus resulta da nova aliança que Deus faz com o seu povo. A menção de um menino é um tema recorrente em Isaías e aponta para o Messias esperado. Aquele que vem para “redimir a criação do cativeiro da corrupção” (cf. Rm 8.2). Já a imagem da criança brincando junto à toca da serpente venenosa pode ser uma indicação de que o Messias desafiará e vencerá a morte. A expressão “santo monte” está relacionada à linguagem messiânica e faz uma alusão ao monte Sião, onde se situa Jerusalém, pois dali se irradia uma esperança não apenas para Israel, mas para toda a terra. Isaías tinha muitas esperanças no futuro reinado de Ezequias, herdeiro de Acaz. Mesmo não sendo Ezequias o cumprimento da profecia, o judaísmo incorporou essa esperança messiânica na oração diária pela vinda do Messias. Mais tarde, o cristianismo a assumiu, atribuindo-lhe uma leitura cristológica. Assim, a fé cristã proclama que a profecia se cumpriu no nascimento de Jesus, mas continua na esperança de que, um dia, o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a criação será redimida do cativeiro da corrupção.

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Meditação

Proponho que a pregação leve em conta os três textos bíblicos indicados para esta noite de Natal, priorizando o texto de Isaías, que nos convida a sonhar com um novo tempo, quando do tronco de Jessé brotará um rebento. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, que lhe concederá sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. Ele julgará os povos com justiça, e sua justiça afetará todas as relações, tanto do ser humano como dos animais. A paz reinará em todos os âmbitos da vida, a ponto do lobo habitar com o cordeiro, o leão comer capim junto ao boi e a criança brincar na toca do basilisco. Claro, isso é poesia que requer uma

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interpretação diferenciada, pois é metáfora que mexe com nossa imaginação. E, mesmo que o evangelista Lucas tenha interpretado que essa profecia se cumpriu no nascimento de Jesus, ainda assim existe uma grande distância entre nossas celebrações natalinas com o reinado pacífico do Messias. Talvez Paulo nos ajude a compreender que nossa tarefa é viver e proclamar a boa-nova da salvação em Cristo Jesus. Mais uma vez é Natal. Por toda a cidade encontramos símbolos e enfeites que nos lembram isso. O brilho das luzes, a decoração das árvores e das casas e a música ditam o clima. O “espírito natalino” contagia, despertando em nós sentimentos que a rotina da vida fez adormecer. Tornamo-nos mais sensíveis e mais suscetíveis ao apelo consumista do comércio, que “precisa” lucrar nesta época. Também nossas comunidades são contagiadas pelos tantos papais-noéis, presentes, festas e comemorações. Esse corre-corre e essa agitação chegam também à igreja, que, nesta época do ano, multiplica suas atividades. Certamente teremos, mais uma vez, a “casa cheia” com lotação máxima e muitas apresentações ao ritmo das músicas natalinas. Entre tantas não faltará “Noite Feliz”. Mas será que Natal é só isso: papais-noéis, presentes e festas que enchem o estômago e esvaziam a alma? Claro que não! Cremos que a esperança de um novo tempo anunciada pelo profeta se cumpriu no nascimento de Jesus. No primeiro Natal, Deus enviou seu Filho único ao mundo. O Salvador nasceu humilde. Jesus pequenino não ficou sempre deitado na manjedoura. Ele se tornou pessoa humana e anunciou: “Arrependei-vos e crede no evangelho, o tempo está cumprido – o Reino de Deus está próximo”. Cremos que na vida e obra de Jesus o reino de Deus se tornou presente, pois sua justiça afetará todas as relações, tanto dos seres humanos como dos animais. É bem verdade que a profecia de Isaías não se cumpriu em toda a sua plenitude. Ainda vigora entre nós a lei do mais forte, segundo a qual o poderoso oprime o mais fraco e o lobo devora o cordeiro. Por isso vivemos na dimensão do já e do ainda não do reino de Deus, aguardando, segundo a sua promessa, um novo céu e uma nova terra, onde habitará a justiça (2Pe 3.13). O Natal que celebramos não é a festa do consumo. É antes palavra de esperança para os desamparados, pobres, humilhados e oprimidos. É também palavra de juízo para os perversos, os que exploram, escravizam e diminuem o ser humano. Natal é anúncio de esperança e de justiça. É convite para assumir o compromisso de não entrar nessa lógica do consumo. Que tal fazer uma ceia sem exageros e desperdícios? Que tal fazer uma troca de presentes simples? Que tal reunir a família para compartilhar a palavra de Deus e cantar hinos natalinos? É Natal! É tempo de celebrar o nascimento do Salvador, pois o que o profeta anunciou se cumpriu em Jesus Cristo. Ele é o renovo da raiz de Jessé que veio trazer a esperança de uma nova vida. Não só para o povo hebreu e para todos os povos da terra, mas para toda a criação, incluindo os animais e a natureza. Lembro que os presépios que montamos nesta época trazem esta imagem – animais em torno do Menino Jesus. Toda a criação celebra o nascimento do Salvador, pois será por ele redimida.

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Enquanto esperamos que esse reinado de paz e justiça se estabeleça definitivamente, podemos, já agora, perceber pequenos gestos de amor, de solidariedade, de partilha e de bondade, que são sinais do reino de Deus presente entre nós. Podemos ver e também participar desse reino, colocando sinais de esperança, praticando a justiça, vivendo o amor para com todos, especialmente para com os mais necessitados. Também o cuidado com a natureza, a boa criação de Deus, faz parte do testemunho cristão e da espera pela plenitude do reino. Que tal, neste Natal, assumir o compromisso de reflorestar as matas, despoluir os rios, reciclar o lixo, proteger os animais? Que tal repartir um pouco do muito que temos com aqueles que não têm nada? Que tal sonhar com a justiça e a equidade deste novo tempo que certamente virá porque ele repousa em Deus, que prometeu: toda a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar. Agindo assim, alimentamos a esperança de um novo mundo que Jesus veio trazer e colaboramos para fazer brotar a vida em meio a tantos sinais de morte que presenciamos todos os dias. Nossa realidade necessita dessa esperança de vida renovada. Por isso, ao repicar dos sinos em cada Natal, anunciamos ao mundo que está chegando um novo tempo de paz e justiça para todos em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

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Imagens para a prédica

Conta-se que dois peregrinos decidiram visitar a cidade de Belém por ocasião das celebrações do Natal. Partiram muitos meses antes, de modo que a chegada coincidisse com as festas natalinas. Um deles só pensava na chegada a Belém e demais cidades e lugares santos. E, nesse espírito, fez sua peregrinação: em demanda dos santos lugares, não parou em outros lugares; nada viu na viagem longa e demorada, só lhe interessava chegar. O outro, à medida que caminhava e percorria as estradas, observava os lugares por onde passava. Quando descobria alguma necessidade, algum problema a resolver, demorava-se ali e ajudava a resolver o problema e a atender à necessidade. Por isso jamais chegou a Belém para participar dos festejos natalinos, no mesmo lugar onde Jesus nascera há dois mil anos. No entanto, dos dois, foi o segundo quem realmente festejou o Natal de forma apropriada. O primeiro só viu a festa, só a teve no dia de Natal; o segundo, embora não visse os acontecimentos de Belém, participou integralmente e durante toda a viagem do verdadeiro espírito de Natal. E, enquanto o outro viveu aqueles dias só para si, esse viveu a viagem inteira para os outros, dando-se e proporcionando a muitos a felicidade do amor que nasce também em Belém na pessoa daquele menino querido.

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Subsídios litúrgicos Entre outros, sugiro os hinos 235, 310 e 312 dos HPDs.

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Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías. A palavra profética e sua releitura hermenêutica, V. I: 1-39, o profeta da justiça e da fidelidade. Petrópolis: Vozes, 1989. KAMP, Peter W. van de. O profeta Isaías: comentário a Isaías 1-39. São Leopoldo: Sinodal, 1987.

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PRÉDICA: LUCAS 2.(1-7)8-20

DIA DE NATAL 25 DEZ 2014

ISAÍAS 52.7-10 HEBREUS 1.1-4 (5-12)

Erli Mansk e Rodolfo Gaede Neto

As infinitas possibilidades de Deus

1

O texto

Propomos olhar para a história de Natal a partir de Maria e sua atitude registrada no v.19: “... guardava todas estas palavras, meditando-as no coração”. “Guardava”, traduzido de synetērei (imperfeito de syntēreo), significa “conservar, reter em segurança, guardar na memória”. “Meditando-as”, traduzido de symballousa (do particípio de symballo), significa “juntar, reunir, avaliar, discernir”. “Coração”, traduzido de kardia, no contexto bíblico em geral significa “centro da personalidade, sede da vida intelectual e espiritual, âmago dos seres vivos”. O termo rēmata, traduzido para o português como “palavras” que Maria guardava em seu coração, na verdade remete à expressão concreta de logos, que é mais do que simplesmente palavras ditas; refere-se à ação concreta de Deus. Seja lembrado o logos que se fez carne: no colo de Maria está a criança que é a encarnação de Deus. Assim, o que Maria “guardava em seu coração” não eram necessariamente apenas palavras que ouviu, mas também todos os fatos que ela observava no contexto do nascimento de seu filho Jesus. Atenção especial merece a atitude de meditação e reflexão de Maria, traduzida do verbo symballousa. De symballō advém o termo “símbolo”, que, na sua origem, refere-se à união de duas coisas ou realidades separadas, que se complementam (symballō significa “pôr junto”). Assim, podemos dizer que Maria está juntando dois fatos: a) o nascimento de seu filho, uma criança inteiramente humana, que veio ao mundo em condições muito precárias; b) a ação de Deus justamente através dessa criança e toda a precariedade que envolve sua vinda ao mundo. A meditação e a reflexão de Maria levam-na a enxergar na criancinha miserável mais do que uma criancinha miserável, na manjedoura mais do que uma manjedoura, nos panos mais do que simples panos. Ela consegue enxergar além dessas realidades dadas e perceber a ação de Deus nelas, através delas. Isso é a capacidade de “simbolizar”, ou seja, “fazer o link” entre uma realidade dada e algo que está muito além dessa realidade. Ao fazer isso, Maria está, na verdade, teologizando; está elaborando a teologia do Natal: no nascimento da criancinha, em condições mínimas, Deus está atuando maximamente em favor de toda a humanidade. Tendo em mente o significado desses termos, podemos traçar um perfil de Maria a partir do contexto do Natal: a) mulher absolutamente atenta, observadora, esperta, ligada, conectada com os fatos, sabe enxergar e ouvir; b) mulher que

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lida com os fatos de modo absolutamente consciente: “salva” as informações recebidas no centro da sua personalidade, no centro da sua intelectualidade e espiritualidade, ou seja, apropria-se delas; o que está em evidência é a profundidade da atitude de Maria, longe de qualquer superficialidade; c) formata ou processa as informações recebidas, ou seja, realiza um processo de meditação, de avaliação, de reflexão, de discernimento, de elaboração. Colocado isso, olhemos com os olhos de Maria para toda a história do Natal: O que Maria está observando? Do que Maria está se apropriando? O que Maria está elaborando? 1. Maria observa que a promessa que lhe foi feita pelo anjo Gabriel no sexto mês de gravidez, de que ela daria à luz um filho que “será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1. 31-33), cumpre-se não no contexto de um palácio, de um trono e de um berço de ouro, mas no contexto de um estábulo, de um cocho de animais e de panos. Como reunir, juntar, lincar essas realidades tão contraditórias? Maria observa, medita, reflete, processa e elabora uma teologia surpreendente: Deus escolhe vir ao encontro da humanidade, encarnando-se numa pequena e simples criança, nascida num curral, enrolada em panos e deitada num cocho que serve para tratar animais. Essa teologia distancia-se de tudo o que é convencional; foge à lógica, beira ao escândalo e à loucura. Mas é a mais profunda de todas as teologias, absolutamente coerente com a teologia paulina, que apresenta Jesus como aquele que “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de pessoa humana; e, conhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (Fp 2. 5-11). Portanto a teologia de Natal remete às infinitas possibilidades de Deus, inclusive a de inverter as questões ligadas a poder e fraqueza, trono e manjedoura, riqueza e pobreza, céu e terra. 2. Maria ouve o relato dos pastores de ovelhas de que “um anjo do Senhor desceu onde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles... e o anjo disse: eis que vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi , o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2. 9-11). O que fazer com esse relato? Como processar esse fato contraditório de que um anjo do céu apareceu justamente a um grupo de pastores do campo, que representava uma categoria de pessoas consideradas desonestas, desacreditadas, não cidadãs? Como processar o fato de que esse grupo foi o primeiro a testemunhar o nascimento do Messias, sendo que na sociedade os pastores estavam impedidos de prestar testemunho? Sim, exatamente essa gente desprezada, sem credibilidade, suspeita, Deus elege como os primeiros a receber a notícia da sua vinda ao mundo, dizendo-lhes que o Salvador veio também para eles. Maria meditava sobre tudo isso! Certamente, a sua meditação não deve ter passado longe do que mais tarde o apóstolo Paulo formula da seguinte maneira: “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes, e Deus escolheu as coisas humildes do

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mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1Co 1.27-28). 3. Maria observa que os fatos que estão acontecendo não se restringem ao ambiente local e ao momento atual. A notícia do nascimento de seu filho (boa-nova) destina-se a todo o povo, a todo o império, a todo o mundo, para sempre. Segundo o testemunho dos pastores, essa notícia inclusive ultrapassa as barreiras deste mundo, porque por causa dela há festa nos céus. Os céus abrem-se a ponto de se poder ver seu brilho, seu esplendor, sua glória e de se ouvir o coro da milícia celestial, que louva a Deus, dizendo: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os seres humanos, a quem ele quer bem” (Lc 2. 13-14). Maria medita, reflete e elabora teologia sobre esse fato extraordinário: o nascimento de seu filho, nas condições humanas dadas, tem a ver com a glória dos céus, com a salvação do universo inteiro. Deus, através do nascimento do Menino Jesus, está construindo a ponte entre a terra e o céu, entre a miséria daquele curral e a glória divina. Através desse frágil Menino Jesus a glória dos céus está acessível para todas as pessoas.

2 A reflexão 2.1 – Prestar atenção A igreja aprende de Maria a prestar atenção, a ser vigilante. A igreja é atalaia. Observa. Faz vigília, como faziam os pastores do campo para proteger seus rebanhos. Ela quer saber o que se passa localmente e no mundo. É característica das pessoas cristãs “segurarem numa mão a Bíblia e na outra o jornal”, como ensinava Karl Barth. A igreja não quer estar alheia aos acontecimentos. Do exercício de “prestar atenção” fazem parte o enxergar e o ouvir atentamente. Sobre isso Dietrich Bonhoeffer escreve: “Quem não sabe ouvir por longo tempo e com paciência jamais se comunicará de fato com seu interlocutor e nunca o entenderá” e “quem não consegue mais ouvir o irmão em breve também não conseguirá mais ouvir a Deus”. Parece que Maria aprendeu essas virtudes da Escritura, quando ela testemunha Deus como aquele que diz: “Certamente vi a aflição do meu povo... ouvi o seu clamor... Conheço-lhe o sofrimento” (Êx 3.7). Na metodologia da teologia latino-americana, esse é o momento do “ver” ou da “mediação analítica”. Hoje, a igreja tem muito que prestar atenção. Está aí aquilo que chamamos de cultura pós-moderna: se ela produz a fragmentação das relações humanas, o individualismo, o que será da comunidade e da igreja (que são essencialmente “vidas em comunhão”)? O que será das novas gerações? O que será da sociedade e da civilização humana? Está aí o trânsito, que reflete bem o comportamento humano: levar vantagens, passar as outras pessoas para trás, falta de cuidado, falta de responsabilidade, falta de paciência, irritação, violência, mortes, especialmente de jovens. Está aí o medo de viver: de sair para a rua, de voltar para casa, de ir para o trânsito, de ser assaltado. Estão aí as drogas, causando estragos na vida de tanta gente. Estão aí os males do século: estresse, ansiedade, angústia, depressão,

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câncer em todas as idades, longevidade à custa de sofrimento. Está aí a grande mídia que conduz os fatos como lhe convêm. O que tudo isso significa? Para onde vai nos levar? Como agir? 2.2 – Guardar no coração A igreja aprende de Maria a lidar com os fatos de modo consciente. Por isso as pessoas de fé não “guardam” os acontecimentos numa memória curta, que já está acostumada a esquecer e a deletar, mas os guardam no centro do ser, que é o lugar da intelectualidade e da espiritualidade. Nesse lugar pode-se avaliar os fatos ao mesmo tempo com a nossa capacidade racional e espiritual. É um exercício de intensa reflexão e muita oração. É o exercício de olhar para os fatos com os olhos da fé e da consciência. O resultado dessa avaliação só poderá ser de grande equilíbrio. Realizamos esse exercício à luz dos valores do reino de Deus, dos valores do evangelho, do amor, da ética, da paz, da justiça, da solidariedade. Na metodologia da teologia latino-americana, esse é o momento do “julgar” ou da “mediação hermenêutica”. Interpretamos os fatos à luz do evangelho. 2.3 – Meditar A igreja aprende de Maria a elaborar teologia. No centro de nossa racionalidade e espiritualidade, analisamos os fatos, julgamos, interpretamos, discernimos, processamos e passamos a formatar e elaborar o nosso posicionamento teológico. Esse é o momento de responder perguntas, como: onde está Deus em meio a toda a realidade que nos inquieta e angustia? Ele tem um plano? Ele está atuando? Como? Será que ele usa formas de atuação diferentes do que estamos acostumados, conhecemos, imaginamos e compreendemos? De que recursos e instrumentos Deus lança mão? O ministério inteiro outra coisa não é do que constante elaboração teológica. Para cada passo, cada ação, cada visita, cada diálogo, cada projeto necessitamos construir primeiro uma base teológica sólida, sob pena de nos tornarmos superficiais. De Maria conhecemos uma elaboração teológica impressionantemente rica e profunda, que é o “Cântico de Maria” (Lc 1.46-55). Com base nesse posicionamento teológico, ela assume a missão prática recebida e coloca-se inteiramente a serviço da encarnação de Deus, com tudo o que isso implica, inclusive perseguição. Na metodologia da teologia latino-americana, esse é o momento do “agir” ou da “mediação prática”.

3 A pregação Para a pregação, propomos três passos:

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3.1 – Prestar atenção O texto de Natal desafia-nos a prestar atenção em duas coisas: a) aos acontecimentos da atualidade; b) à atuação de Deus em meio aos acontecimentos. Na doutrina dos Dois Reinos, Lutero lembra que Deus, como Criador, continua agindo neste mundo e que as formas de sua atuação para edificar seu reino podem nos surpreender. A partir disso podemos falar das infinitas possibilidades de Deus. Assim como Deus surpreendeu com a forma de se encarnar na frágil criança da manjedoura, lançando mão do serviço de Maria, assim ele pode surpreender hoje. Por isso a comunidade de fé precisa estar atenta sempre. Na IECLB existem muitos exemplos de realidades angustiantes e de intervenções surpreendentes de Deus: a) o templo da comunidade luterana é destruído por um temporal e não há recursos para reconstruí-lo. É o fim? Não; a comunidade católica convida para partilhar seu templo; ou vice-versa; b) “Todo mundo” diz: a juventude afastou-se da igreja; nos cultos só há pessoas idosas; o que será do futuro da igreja? É o fim? Não; os CONGRENAJEs (Congresso Nacional da Juventude Evangélica) reúnem em cada edição em torno de mil jovens; na ADL (Associação Diacônica Luterana) faltam vagas para jovens nas Semanas de Canto; c) a tragédia das enchentes no Natal frustrou as celebrações que estavam planejadas e ensaiadas; é o fim? Não; a solidariedade entre as pessoas deu um sentido tão profundo ao Natal, que o comentário foi que esse Natal foi mais autêntico. Certamente você tem outros exemplos. 3.2 – Guardar no coração O texto de Natal desafia-nos a não deletar, mas a “salvar” os fatos no “arquivo” central do nosso ser, para realizar o processo de meditação e reflexão, de avaliação, análise, discernimento e interpretação dos fatos, sempre a partir da razão e da fé e à luz dos valores do reino. “Guardar no coração” garante a profundidade do processo e evita a superficialidade. A comunidade de fé está sempre nesse processo de meditação e reflexão. É por isso que ela não pode parar de ler a Bíblia no dia a dia, em casa; de participar de estudos bíblicos na comunidade; de estudar os catecismos (Lutero os elaborou para tornar a teologia acessível aos membros da comunidade); de se ocupar com a hinologia e sua teologia; de celebrar em casa e na comunhão das irmãs e dos irmãos; de interceder; enfim, de exercitar a reflexão e a espiritualidade com vistas à interpretação dos fatos com profundidade. Lutero queria uma comunidade que tivesse maioridade na fé, que não dependesse da tutela de outras pessoas para interpretar. 3.3 – Elaborar teologia O texto de Natal desafia-nos a elaborar teologia a partir da realidade dada na atualidade e a partir das infinitas possibilidades de Deus diante dessa realidade. Aqui se trata de construir uma base teológica que sustente projetos práticos. Se Maria pode elaborar um posicionamento teológico capaz de sustentar seu ser-

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viço à causa da encarnação de Deus, a comunidade de fé também exercita essa elaboração, sempre que a realidade coloca novos desafios e sempre que surge a pergunta: onde e como Deus está atuando agora? Há muitas Marias entre nós, que olham, enxergam, ouvem, meditam, avaliam, interpretam e têm sensibilidade para perceber o que está acontecendo e propor soluções, a exemplo do que fez Maria nas bodas de Caná. Você as conhece.

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Subsídios litúrgicos

Meditando com Maria Maria, com ternura, olha o seu menino; O que vês, Maria? O que passa em seu coração? Maria ouve, atenta, o que dizem os pastores; O que sentes, Maria? O que diz seu coração? Maria, meditando, elabora cada fato; E descobre um Deus presente, surpreendente, Que transforma o impossível e dá sentido à vida da gente. Gloria in excelsis: Glória a Deus nas maiores alturas, assim cantaram os anjos na noite do nascimento do Filho de Deus. Deus nas alturas, Deus na terra, Deus na manjedoura, no colo de sua mãe. Pastores, animais, estrelas e anjos estavam presentes. Deus sai das alturas e habita entre nós, torna-se criança, é humano e sofre; Deus se identifica com a gente. Para nós, loucura de Deus; para Deus, amor pela gente. Glória a Deus nas maiores alturas, paz na terra, paz para o mundo, paz entre as pessoas e toda a criação. Deus entre nós é pura graça, é nosso maior presente. Cantemos felizes em louvor ao nosso Deus Surgem anjos proclamando: Paz na terra e a Deus louvor! Anunciam, jubilando: Eis, nasceu o Salvador! Gloria in excelsis Deo! Gloria in excelsis Deo! (HPD 20). Oração do dia Ó Deus, tu que nos surpreendes com tua vinda ao mundo na criança da manjedoura, dá-nos o dom de Maria, que olha os fatos com sabedoria, que enxerga além do aparente e percebe que tu ages nas coisas que para nós parecem contraditórias. Vem a nós neste dia de Natal e dá que por meio da tua Palavra possamos enxergar além da nossa própria realidade. Por Jesus, teu Filho, que viveu e

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experimentou a nossa humanidade e que, contigo e o Espírito Santo, vive e reina de eternidade a eternidade. Amém.

Bibliografia BAUER, Walter. Griechisch-Deutsches Wörterbuch zu den Schriften des Neuen Testaments und der übrigen urchristlichen Literatur. Berlin: Verlag Alfred Töpelmann, 1952. RIENECKER, Fritz. Sprachlicher Schlüssel zum Griechischen Neuen Testament. 14. Aufl. Giessen-Basel: Brunnen-Verlag GmbH, 1974. STÖGER, Alois. O Evangelho segundo Lucas: primeira parte. Petrópolis: Vozes, 1973. v. 3/1.

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PRÉDICA: GÁLATAS 4.4-7

1º DOMINGO APÓS NATAL 28 DEZ 2014

ISAÍAS 61.10-62.3 LUCAS 2.22-40

Kurt Rieck

Jesus mostra o rosto do pai

1

Introdução

O caminho pelo qual acontece a salvação é anunciado, e da boca daqueles que se dão conta do acontecido surge um hino de louvor e adoração. Assim o texto de Is 61.10 a 62.3 expressa alegria pelo que Deus fará. Na forma de ser vestido, no observar o que brota da natureza surgem analogias ao extraordinário ato da salvação. Jerusalém é a cidade onde a vitória de Deus é celebrada. Maria e José, de acordo com o Evangelho de Lucas 2.22-40, dirigem-se ao templo de Jerusalém, como ordena a Lei de Moisés, com o propósito de realizar a cerimônia de purificação e apresentação de Jesus. O personagem Simeão extravasa a sua alegria pelo privilégio de carregar no colo, nada mais, nada menos, do que o Messias. Ele sintetiza em seu canto a missão que Jesus terá de cumprir. Também Ana, a profetisa, confirma e se soma ao que Simeão havia proferido. Do reconhecimento de que essa criança é o Messias brotam expressões de adoração e louvor. Todos os que são alcançados pela salvação que se encontra em Jesus não conseguem ficar calados. Não foi diferente com o apóstolo Paulo. No momento em que compreendeu que Jesus era o Messias, não cansou de expressar de forma falada e escrita para que todos pudessem tomar conhecimento da grandiosidade do fato ocorrido quando do nascimento do Filho de Deus.

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Exegese

Há uma rica contribuição exegética sobre o texto em várias edições do Proclamar Libertação. Vale a pena conferir o que tudo já foi escrito sobre ele. Esse texto é um daqueles cernes das Sagradas Escrituras, ao qual nos achegamos com todo respeito e reflexão. Paulo consegue sintetizar onde reside a verdadeira alegria da festa de Natal. A sistematização das versões que se seguem é uma tentativa de facilitar a interpretação do texto proposto.

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1º Domingo após Natal

Gálatas 4.4-7 Grego Revista e Atualizada NTLH Bíblia de Jerusalém Martin Luther revidiert 1956-1964 4 o[te de. h=lqen to. plh,rwma tou/ cro,nou (Vindo, porém, a plenitude do tempo, Mas, quando chegou o tempo certo,) Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Als aber die Zeit erfüllet ward, evxape,steilen o` qeo.j to.n ui`o.n auvtou/ (Deus enviou seu filho, Deus enviou o seu próprio filho,) enviou Deus o seu Filho, sandte Gott seinen Sohn, geno,menon evk gunaiko,j (nascido de mulher, ) que veio como filho de mãe humana nascido de mulher, geboren von einem Weibe geno,menon u`po. no,mon (nascido sob a lei,) e viveu debaixo da lei nascido sob a Lei, und unter das Gesetz getan, 5 i[na tou.j u`po. no,mon evxagora,sh| (para resgatar os que estavam sob a lei,) para libertar os que estavam debaixo da lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, auf dass er die, so unter dem Gesetz waren, erlöste, i[na th.n ui`oqesi,an avpola,bwmenÅ (a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. a fim de que nós pudéssemos nos tornar filhos de Deus.) a fim de que recebêssemos a adoção filial. damit wir die Kindschaft empfingen. 6 {Oti de, evste ui`oi,( evxape,steilen (E, porque vós sois filhos, E, para mostrar que vocês são seus filhos,) E porque sois filhos, Weil ihr denn Kinder seid, o` qeo.j to. pneu/ma tou/ ui`ou/ auvtou/ eivj ta.j kardi,aj h`mw/n kra/zon\ abba o` path,rÅ (enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! Deus enviou o Espírito do seu Filho ao nosso coração, o Espírito que exclama: “Pai, meu Pai.”) enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! hat Gott gesandt den Geist seines Sohnes in unsre Herzen, der schreit: Abba, lieber Vater! 7 w[ste ouvke,ti ei= dou/loj avlla. ui`o,j\ (De sorte que já não és escravo, porém filho; Assim vocês não são mais escravos; vocês são filhos.) De modo que já não és escravo, mas filho. So bist du nicht mehr Knecht, sondern Kind; kai. klhrono,moj dia. qeou/Å (e, sendo filho, também herdeiro por Deus. E, já que são filhos, Deus lhes dará tudo o que ele tem para dar aos seus filhos.) E se és filho, és também herdeiro, graças a Deus. wenn aber Kind, dann auch Erbe durch Gott. Paulo fala do início da fé cristã. As circunstâncias permitiram que a encarnação ocorresse. O período pré-messiânico completou-se. A longa espera de muitos séculos está finda. “Desde então, nossa história está dividida em ‘antes’ e ‘depois’ de Cristo, o que corresponde também ao antes e depois de alcançarmos a fé” (G. Brakemeier, PL XV, p. 107). Faz-se um jogo de palavras nos versículos 4 e 5 com o termo filho. O Filho de Deus veio para permitir que nos tornássemos filhos de Deus. Outro jogo de

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palavras se dá com a palavra lei. O personagem principal da história nasceu sob a lei para resgatar os que estavam sob a lei. A fé judaica está construída sob a lei mosaica. Saulo conhecia muito bem os meandros da lei. “Jesus era de nascimento ‘humano’ e ‘judaico’” (Champlin, p. 482). O fato ocorrido em Jesus permite olhar para Deus de forma familiar, liberto do peso da lei. Há um elemento muito simples, no entanto, básico para o encontro existencial de uma pessoa: reconhecer que Deus é Pai. Entra em ação o Espírito Santo, que nos convence dessa verdade. O “Espírito do seu Filho” se achega ao nosso coração, e esse responde afirmativamente: Sim, Deus, tu és meu Pai querido. Eu sou teu filho. A vida recebe sentido pleno quando as pessoas entendem que Deus é Pai e que elas são filhas de Deus. Assim a pessoa deixa de pensar que é escrava de Deus e vive como filha de Deus. Essa verdade é libertadora. A lei escraviza. A graça liberta. O cristão não mais se relaciona com Deus com medo do inferno, por descumprir a lei, mas vive de forma responsável com o único propósito de com sua vida honrar o Pai. Saberá clamar Aba, expressão aramaica para pai. “Este clamor instintivo do coração da pessoa é, para Paulo, obra do Espírito Santo” (Barclay, p. 46). Como herança, já no presente temos qualidade de vida e vivemos em paz com o Pai, com toda a família da fé e com todas as pessoas, decorrente da graça do perdão reconciliador. O que há de vir é pura graça. Seremos surpreendidos com a herança que haveremos de receber.

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Meditação

A festa natalina continua em nossas celebrações. Chegou um novo tempo. A revelação de Deus dá-se no ser humano Jesus. 3.1 – Chegou o tempo certo Esse tempo foi único. Ele não se repetirá. De uma vez por todas, o Messias, o rei esperado por séculos, chegou. Esse fato repercute hoje na vida daqueles que se dão conta da grandeza da boa-nova que se dá no Natal. Precisamos aproveitar o tempo natalino para focar em seu verdadeiro sentido. De que forma podemos influenciar a nossa sociedade para fazer esse resgate? Nasceu o Messias, o Salvador, o nosso Senhor. Aniversário é sempre uma grande festa. Com enorme amor celebramos o aniversário do Messias. 3.2 – Encarnação de Deus: veio como filho de mãe humana e viveu debaixo da lei A graça de Deus tornou-se forma humana. Deus Pai é um grande mistério. Quem é ele? Donde ele veio? Para comunicar-se conosco, vale-se de uma linguagem compreensível. Dois personagens: o pai e o filho. A magnitude de Deus aproxima-se da humanidade, tornando-se ser humano, com o propósito de mostrar o rosto de Deus.

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A psicologia afirma que uma das razões de desvios de conduta é quando uma criança não volta seu olhar para o pai. Ela é gerada totalmente da mãe. Mas há um elemento psicológico em que o olhar dela deve dirigir-se ao pai. De igual forma, a conduta do ser humano é afetada enquanto não dirigir seu olhar para o Pai. Assim como o pai precisa aproximar-se do filho, Deus aproxima-se de nós. Tão simples e tão humana é a forma que Deus escolheu para nos conquistar! É algo tão humano que para muitos chega a ser incompreensível. Trata-se da revelação plena de Deus. Os profetas, os filósofos, os sábios, os teólogos, os rabis transmitiram a mensagem de Deus. Todos tinham a palavra de Deus, mas nunca foram a palavra de Deus. Jesus Cristo foi e é a palavra de Deus. E o verbo se fez carne e sujeitou-se à lei da natureza e viveu considerando os ritos, normas e leis da religião judaica. Para libertar os que estavam debaixo da lei. Quem está escrevendo é o apóstolo Paulo, que, antes da sua conversão ao cristianismo, era um legítimo seguidor da lei e valia-se da lei para afirmar a perseguição que ele fazia aos cristãos. A religião vigente tinha um arcabouço de leis que aprisionavam as pessoas, deixando de promover a vida. As religiões facilmente fecham as pessoas num esquema, e elas acabam servindo ao esquema e não a Deus. Semelhante foi a experiência de Lutero, que viu um povo escravizado pelo medo de Deus, longe do verdadeiro sentido da boa-nova anunciada por Jesus. Jesus resgata no Sermão do Monte o verdadeiro sentido da lei: “Não pensem que eu vim para acabar com a lei de Moisés ou com o ensinamento dos profetas. Não vim para acabar com eles, mas para dar o seu sentido completo” (Mt 5.17). Um filho que nunca precisou obedecer, que nunca teve limites, torna-se um joguete de seus caprichos, um escravo dos seus próprios desejos e de suas paixões. A lei se faz necessária, mas o simples cumprimento da lei não significa que a pessoa esteja convicta do que faz. A exemplo das leis de trânsito, quando compreendermos que elas estão a nosso favor, entenderemos a sua razão de ser. De igual forma, os Dez Mandamentos têm o propósito de promover a vida. O pai dá liberdade, amor e limites. Ao pai devemos obediência, porque ele, sendo Pai, deseja o melhor para seus filhos. Mas ele não fez de seus filhos robôs. Ele dá a liberdade de escolha, a exemplo da parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32). Deus enviou o Espírito do seu Filho ao nosso coração. Cristo ensinou-nos a chamar Deus de Pai. Ele nos atrai carinhosamente. É o Espírito Santo que nos convence de que Jesus é o Filho de Deus. Nele é possível ver o ser de Deus. Ele é a palavra divina. Nenhum profeta pôde dizer: Olhe para mim e saberás quem é Deus. Jesus por sua vez disse: “O que eu ensino não vem de mim, mas vem de Deus, que me enviou” (Jo 7.17). “Quem me vê a mim, vê o Pai” (Jo 14.9). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Jesus não prega acerca da salvação, mas ele mesmo é a salvação. Quando fala de si mesmo, fala de Deus. O que Cristo ensinou é definitivamente divino.

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3.3 – O Espírito que clama: Pai, meu pai Uma das primeiras palavras que uma criança aprende a falar é pai. E como se sente feliz ao poder chamar: Pai! Feliz também é o pai que ouve seu filho tratá-lo assim. Sou filho do Deus altíssimo. Aqui brota uma autoestima adequada, que favorece um encontro consigo mesmo. Vivemos aos cuidados do Pai. Se os nossos corações assim clamarem, haverá convicção de que somos filhos de Deus.

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Imagens para a prédica

4.1 – Natal em família É oportuno, por tratar-se do tempo natalino, explorar o ambiente familiar, lembrando o que significou ou significa a vinda de uma criança. Natal é a festa em que a família faz questão de estar reunida. Pensando nos avós, pais, filhos e demais familiares, poderemos encontrar uma linguagem que transmita o que o apóstolo Paulo nos deixou escrito. Todo parto traz consigo a tensão da espera. Depois da vinda vem a surpresa do estado físico do que nasceu. Encontrei-me no Dia de Natal de 2004 com um jovem casal. Três meses antes havia nascido uma linda menina com sérios problemas de formação. Buscaram todos os recursos possíveis na esperança de ver sua filha curada. No dia 23 à noite, a cardiologista pediátrica confrontou-os com a gravidade dos fatos. O que restou fazer foi clamar: Deus, se for da tua vontade, faça um milagre. As lágrimas rolam quando somos confrontados com o nosso limite. Nada mais resta do que dizer: Pai, paizinho, ajude-nos. Essa menina veio a falecer. Pensamos em nossa família e em nossos filhos. Como pais, a exemplo de Jesus, ansiamos que eles e as gerações que os seguem consigam encontrar em Jesus o rosto de Deus. Clamamos que eles creiam no Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Desejamos que eles creiam e se relacionem com Deus, tratando-o de pai querido. É algo tão simples e ao mesmo tempo tão elementar. Deus escolheu falar conosco a partir da paternidade. Deus faz-nos aprender com as crianças. Quando nos tornamos pais, conseguimos entender um pouco do sentimento que Deus tem por cada filho seu que nasce. O abraço em família pode ser a porta que abrirá o caminho da fé. 4.2 – Falando da lei Recomendo a leitura da meditação feita por Márcia Blasi no devocionário Castelo Forte, de 31 de maio de 2014. “As leis foram dadas para auxiliar, gerar vida e não oprimir, dividir e causar dor”.

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1º Domingo após Natal

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Subsídios litúrgicos

Invocação – Clamor ao Pai: Nos lábios de Jesus encontramos o clamor pelo Pai. A prova de que somos filhos dá-se no clamor instintivo do coração. Na necessidade mais profunda, as pessoas dirigem-se a Deus e clamam: Pai. Confissão de pecados: Deus, tu és nosso Pai. Cristo, tu és Deus que está conosco. Desde o nascimento de Jesus, a luz da tua verdade brilha sobre nós. A luz faz-nos deparar com nossas faltas. Tu vieste ao mundo para fazer diferença, para promover vida. É necessário que nos arrependamos dos caminhos que não condizem com a tua vontade. Converte-nos, Senhor Jesus. Transforma nossos corações. Perdão por duvidarmos que tu és o nosso Pai. Perdão quando nos portamos como filhos rebeldes. Tem piedade de nós, Senhor. Proclamação da graça de Deus: Ler HPD 22, estrofe 6. Há dois textos que sempre fazem parte do culto. O Pai-Nosso e o Credo Apostólico. Ambos iniciam citando o Pai, dizendo: “Pai nosso que estás nos céus” e “Creio em Deus Pai”. Realce esse conteúdo. Crer em Deus consiste em reconhecer que ele é o nosso Pai e assim nos colocamos na condição de filhos.

Bibliografia BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, Galatas y Efesios. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1973. V. 10. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo, SP: Milenium, 1982.

VÉSPERA DE ANO NOVO JOÃO 10.14-16,27-29

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PRÉDICA: FILIPENSES 2. 5-11

ANO NOVO (NOME DE JESUS) 01 JAN 2015

NÚMEROS 6.22-27 LUCAS 2.15-21

Carlos Musskopf

Ano Novo – Muda tudo e nada

1

Introdução

O texto já foi tratado em seis edições do PL: nº 5, p. 57 (M. Volkmann); nº 11, p. 216 (N. Bakken); nº 17, p. 97 (W. Brunken); nº 25, p. 158 (V. Lückemeier); nº 29, p. 111 (H. G. Dalferth); nº 32, p. 59 (W. Fuchs). O presente estudo pressupõe a leitura das contribuições anteriores. Chamo a atenção para o fato de que os cinco primeiros são estudos preparados para o Domingo de Ramos, e só a partir do PL 32 o texto está previsto para o dia 01 de janeiro (nome de Jesus). O tema proposto para o culto de Ano Novo é o nome de Jesus. Os dois textos do Segundo Testamento abordam o tema de forma bem clara. Lucas recorda que o ato da circuncisão era o momento de dar um nome à criança, como muitos hoje ainda dizem do Batismo. Nosso texto de Filipenses faz uma relação do nome de Jesus com: 1) o poder de Deus; 2) o rosto de Deus na identidade humana. Jesus é o nome que esse rosto recebe. Por causa da humildade extrema desse rosto recebe uma condecoração extrema: Senhor. Uma possível relação com o texto de Números é que o nome do Senhor seja uma bênção para as pessoas, o bem-dizer de Deus sobre seu povo, agora não mais de cima para baixo, mas na horizontal.

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Exegese

Os pesquisadores e as pesquisadoras deste texto são unânimes em ver o v. 5 como uma ligação entre a parênese dos versículos anteriores e esse hino cristológico que já circulava entre as comunidades. Pela linguagem usada e pela falta da dimensão soteriológica do hino, podemos dizer com toda a certeza que o autor não é o apóstolo Paulo. Também há consenso de que o hino pode ser dividido em duas partes (v. 6-8 e v. 9-11) e tem um acréscimo paulino no v. 8: “morte de cruz”. “Ter o mesmo modo de pensar” no v. 5 não deve ser entendido como a busca por uma imitação de Jesus Cristo para alcançar a salvação. Significa deixar-se embeber pelo drama salvífico pelo qual Jesus Cristo passou e que, sendo Deus, fez valer para toda a humanidade em todos os tempos. Os v. 6-8 tratam da “desdivinização” de Deus na pessoa de Jesus. Sua identificação com o ser humano ganha um rosto. Jesus tinha plena consciência de sua natureza divina, mas abre mão do que ela poderia representar para tornar-se

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Ano Novo (Nome de Jesus)

um rosto perfeitamente humano. Sua natureza divina está na humildade sobre-humana, e sua natureza humana na fragilidade que leva à cruz. Aqui se encontram humildade e humilhação, para que a segunda seja abolida. Nos v. 9-11, há uma “redivinização”. Deus se “rediviniza” a partir do nome “Jesus”. Aqui, o nome não é um slogan, um exemplo a ser seguido, como poderia sugerir o hino cristológico. A “redivinização” tem um sentido escatológico. O nome é de um ser humano com identidade e aparência, que viveu, morreu morte de cruz em total obediência e coerência para alterar a história das pessoas e de toda a criação. Portanto, no evento escatológico, Deus se reinventa, muda seu caráter, sem mudar, no entanto, sua essência. Seja aqui salientada a importância do pequeno acréscimo feito pelo apóstolo Paulo: “morte de cruz”. Caso contrário, o sentido gnóstico do hino teria prevalecido e se teria perdido seu sentido mais profundo.

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Meditação

Tendo em vista que todas as pessoas têm acesso aos estudos anteriores através do portal luteranos (http://www.luteranos.com.br), nos quais encontrarão boas reflexões, impulsos para a prédica e recursos litúrgicos, apresentamos uma reflexão que traz a questão do rosto de Deus para o texto proposto. Fazemos isso trazendo o mundo do teatro para o texto, lembrando que no teatro um personagem ganha um rosto, o rosto uma mensagem, uma missão. Traçamos, pois, um paralelo entre o herói aristotélico e o esvaziamento de Cristo. O texto de Filipenses 2.5-11 traz relações com a estruturação do herói trágico contida na Poética de Aristóteles. No texto do filósofo grego, o herói trágico tem entre seus traços mais comuns algumas características: – o herói descobre que sua queda é resultado de suas próprias ações, não por causa dos acontecimentos; – o herói vê e entende o seu castigo e que seu destino foi definido por suas próprias ações; – um herói trágico é muitas vezes nobre ou descendente de nobres; – o herói é confrontado com uma decisão séria; – o sofrimento do herói é significativo porque, embora o sofrimento seja o resultado da própria vontade do herói, não é inteiramente merecido e pode ser cruelmente desproporcional. Esses traços, segundo Aristóteles, se fazem necessários para que possa haver a catarse (em grego katharsis, purificação). Essa purificação só pode ser atingida através do reconhecimento, pois “o reconhecimento se dá entre pessoas; ocasiões há em que somente uma personagem reconhece outra, quando não existem dúvidas acerca da identidade de uma delas; outras vezes, as duas se reconhecem” (Aristóteles). Não pode existir reconhecimento entre um ser extremamente superior com um ser inferior. O reconhecimento só existe, segundo Aristóteles, nos casos em que um indivíduo se coloca no lugar de outro. Nesse reconhecimento existe a possibilidade da troca, de um experimentar as dúvidas e sofrimentos do outro e

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com isso purgar seus sentimentos e, através dessa ação, crescer. Existe, portanto, na catarse um caráter didático da tragédia grega, e existe também no esvaziamento de Cristo um caráter pedagógico do seu ministério. Aristóteles coloca a coerência como um dos pontos a ser abordado pela tragédia: “Mesmo quando o personagem é incoerente em relação a suas ações, precisa ser, na tragédia, incoerente com coerência”. Essa incoerência coerente faz-se visível em um Deus que se faz humano, incompreensível para a sociedade da época, mas absolutamente coerente para Paulo, quando diz em 1Co 1.23: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios”. Na perícope em questão, é absolutamente necessária a compreensão do conceito de herói para um aprofundamento da reflexão proposta pelo apóstolo Paulo. Na incoerência de um Deus que se faz humano, de um Deus que se permite fragilizar para demonstrar sua força, reside a inversão de valores que a sociedade greco-romana, e talvez a atual, não esteja apta a compreender. Esvaziando a divindade, surge o humano; surgindo o humano, evidencia-se o divino. Não seria possível a troca de personagem entre o divino e o humano. O divino é inatingível, intransponível e inimaginável. Para Deus, tudo é possível e exequível, não sendo possível a catarse com o humano e, por conseguinte, a troca de olhares e lugares e, por decorrência, o processo de aprendizagem. Esse processo de aprendizagem se faz, em Cristo, por imitação (mimeses, em grego), conceito também evidenciado por Aristóteles na sua Poética. Só é possível imitar aquele ou aquilo que nos é parecido, senão caímos no campo das incoerências incoerentes. Não está em questão o mito do super-herói moderno, do Super-Homem ou qualquer coisa que o valha. Não cabe o escapismo, de que esse só faz isso por ter poderes especiais. Cristo exalta no humano o poder real através da imitação de seus atos, que este, o humano, é capaz de realizar, não como elemento de salvação, mas de vida com sentido. Deus nos quer participantes do processo de criação de seu reino; por isso é preciso a identificação com o projeto e a compreensão desse. A humilhação de Jesus Cristo tem caráter profundamente pedagógico. Ele quer que os seres humanos aprendam algo sobre sua natureza divina. Uma divindade que se apresentasse como Deus talvez só validasse os cultos de até então, de deuses antropomórficos, com sentimentos humanos e propensos a toda forma de desvios existentes no humano. A vida desvalorizada pelo ser humano é apenas traço de deuses que também desvalorizam a vida humana. Zeus é capaz de prender Prometeu a uma rocha, colocar seu fígado à mostra para que aves de rapina o destrocem constantemente apenas por este, Prometeu, ter dotado os seres humanos de inteligência. Se um deus não se identifica com sua criação, não se coloca no lugar dessa, decorre que a ação humana será de desrespeito com a vida e com a criação. Uma vez que os deuses desrespeitam a própria criação, a criatura vê-se livre (ou constrangida) para não se respeitar também. É aí que se faz necessário o esvaziamento de Cristo para que haja o efeito pedagógico esperado. Exaltar o humilhado faz parte dessa inversão de valores. O panteão grego tem seus deuses exaltados pela sua força e pelo seu poder. Nisso podemos obser-

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var que o paganismo existente até então exalta o poder real, o poder como algo institucionalizado. Deus, em Jesus Cristo, exalta o humano na sua porção terra, no húmus original, na humilhação, e humildade que se faz necessária para a compreensão de que o ser humano faz parte da criação toda. Deus em Jesus Cristo oferece-se em holocausto, humilhação até para os humanos, e que Deus se permite em Cristo para demonstrar o caráter divino de seu reino.

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Imagens para a prédica

O assunto da humildade já foi ricamente abordado nos estudos anteriores, a maioria proposta para o Domingo de Ramos. Para esta prédica, propomos o uso do tema: rosto. No dia de Ano Novo, as preocupações giram ao redor do novo, do que pode e deve mudar, de esperanças e promessas de mudança; as pessoas são confrontadas com um novo ano, um número novo no calendário e as perspectivas de mudanças coletivas, estruturais e pessoais/individuais dali para a frente. Sugiro relacionar o nome com o rosto e conduzir a prédica para as perguntas: que rosto terá este novo ano? Que rosto terei eu neste novo ano? A proposta, pois, é fazer uma prédica relacionando o rosto de Deus (apresentado em Fp 2) com o nosso rosto pessoal. Dessa relação tirar como consequência a construção de uma identidade pessoal aberta, crítica e inovadora. Sou o que meu nome diz? Digo pelo meu rosto o que é meu nome? Nome de Jesus: como Jesus lidava com seu nome e com a condecoração “Senhor”? Como lido com o meu nome? O que ele diz para mim? O que ele diz de mim? Como meu nome, dado no Batismo, representa a divindade de Jesus Cristo na minha vida? Como apresenta a humanidade de Jesus na minha vida? Quando me olho no espelho, identifico meu rosto com meu nome? O que mudaria em mim se eu tivesse outro nome? Se eu pudesse escolher outro nome, eu o faria? Por quê? O novo ano é um novo nome para a mesma vida. Mas ao mesmo tempo é oportunidade para esperadas e necessárias mudanças. Como fazer essas esperadas e necessárias mudanças na minha vida com o nome e as características que tenho, as que posso e as que não posso mudar? Como esvaziar-me sem descaracterizar-me? Como esvaziar-me para descaracterizar-me e assumir algo novo, um jeito novo, uma atitude nova diante da vida e dos relacionamentos?

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Ano Novo (Nome de Jesus)

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Subsídios litúrgicos

Confissão e proclamação da graça: P – Ó Deus de amor eterno, este novo ano é novo tempo de graça. Nós o iniciamos com nossas dores, sonhos e esperanças. Mas também sabemos que o iniciamos sob a promessa da tua bênção e companhia. Queremos vivê-lo sob a promissão da tua ajuda. C – Ajuda-nos também para que não levemos para dentro do novo ano tudo o que nos pesa e oprime. Dá-nos força para confessar nossas faltas e repará-las neste tempo que foi colocado em nossas mãos. P – Perdoa-nos, por amor de Jesus Cristo, lá onde nos tornamos culpados. Que nossos ouvidos estejam atentos para ouvir a tua mensagem de perdão e reconciliação. C – Dá, Senhor, que o perdão e a reconciliação sejam como sementes de uma nova vida para cada um/cada uma de nós e para toda a tua criação. Porque eis que as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti. (Isaías 60.2) Oração do dia: C – Deus, nosso Salvador, que em todas as jornadas acompanhas teu povo, ajuda-nos a ouvir e acolher a tua palavra, para que ela nos fortaleça no amor e nos oriente nos caminhos da reconciliação. Não nos deixes desanimar quando o peso for grande e o desânimo ameaçar. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Temas para a oração de intercessão: – pelas pessoas que arriscam mostrar o seu rosto; – pelas pessoas que fazem do nome uma identidade; – pelas pessoas que têm a coragem de mudar.

Bibliografia ARISTOTELES. Poética. São Paulo: Nova Cultural,1999. PEREIRA, Sandro. A saga do herói e o esvaziamento de Cristo: Análise de Filipenses 2.5-11. Disposível em: <http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_ busca/arquivo.php?codArquivo=3196> O presente estudo teve a participação do membro da Paróquia do ABCD Paulo Sérgio Macedo dos Santos, estudante de Teologia na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo (SP).

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2o DOMINGO APÓS NATAL

PRÉDICA: SALMO 147.12-20

04 JAN 2015

JOÃO 1.(1-9)10-18 EFÉSIOS 1.3-14

Erní Walter Seibert

Motivos para louvar a Deus

1

Introdução

Para preparar este culto, é bom ter em mente duas coisas. Por um lado, do ponto de vista do calendário civil, este domingo marca o final do período de feriados que sempre marca o Natal e o começo de cada ano. Se a igreja teve horários de culto especiais para Natal e Ano Novo, este domingo é o final desses acontecimentos. Por outro lado, este domingo ainda está ligado ao período festivo de Natal. É o Segundo Domingo após Natal. Na semana que segue este domingo, será celebrada a Festa dos Reis Magos ou Epifania. É o período do calendário da igreja em que será lembrado que Jesus é o Salvador de todos. Muitas igrejas fazem nesse período especial menção às missões. No Brasil e em muitos países do hemisfério sul, as férias e o verão fazem com que as atividades nas igrejas sejam menores do que no restante do ano. Tendo tudo isso em mente, a prédica deste domingo levará em conta essas duas realidades – o ano civil e o ano eclesiástico. A memória da recém-acontecida festa do Natal e a propagação da mensagem da salvação a todos serão os assuntos que nortearão a pregação. Como o texto-base da pregação é a leitura do Salmo do dia, é bom levar em consideração também as demais leituras. O evangelho (Jo 1.10-18) fala da palavra que assumiu a forma humana e viveu entre nós. O evangelho mostra como o Cristo do Natal cumpriu sua missão e sua mensagem ficou evidente, encarnada, no mundo. A epístola (Ef 1.3-14) mostra a ação das três pessoas da Trindade em favor da salvação. O Pai que criou o mundo, o Filho que salvou e o Espírito Santo que santifica estão unidos nessa obra salvadora. É por isso que, no final da descrição da obra de cada pessoa da Trindade, aparece o estribilho “louvemos a sua glória”. As leituras do evangelho e da epístola do dia nos dão uma bela moldura para a compreensão do Salmo.

2

Exegese

O Salmo 147 é um salmo de louvor. O texto hebraico está formatado em três parágrafos. Os parágrafos são os versículos 1-6, 7-11 e 12-20. O primeiro trecho do Salmo 147 é um convite para louvar a Deus. Aí é dito que o louvor agrada a Deus e que devemos louvar por causa das coisas boas que o Senhor faz a seu povo. Ele está reconstruindo Jerusalém e trazendo de volta o seu povo.

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2º Domingo após Natal

No segundo parágrafo, o convite para louvar a Deus é repetido. Os argumentos para o louvor são os atos de provisão divina na natureza. E, no final desse trecho, o salmista lembra que o que agrada a Deus são pessoas que o temem e põem sua confiança nele. O terceiro parágrafo, que é a leitura deste domingo, continua com o convite ao louvor. Os argumentos falam do poder de Deus, mas no final é introduzido um tema novo. “O Senhor anuncia a sua mensagem aos descendentes de Jacó e dá as suas ordens e leis ao povo de Israel” (v. 19). Esse é o coroamento de toda a motivação para o louvor. Sem dúvida, aqui está uma referência ao ato gracioso salvador de Deus. Olhando os versículos do texto do domingo de forma pormenorizada, podemos observar os aspectos que seguem: V. 12 – Neste versículo, fala-se quem deve louvar o Senhor. Os que devem louvar a Deus são Jerusalém e Sião. Jerusalém é a capital do reino unido e, depois da divisão do povo de Israel, é a capital de Judá. Jerusalém é a cidade mais importante de Israel. Ali ficava o templo. Era, de forma simbólica, a referência a todo o povo de Israel. Sião, por sua vez, é muitas vezes usado como sinônimo de Jerusalém. É uma referência geográfica ao mesmo lugar. Na poesia hebraica, temos aqui, com os dois nomes, a mesma ideia repetida de forma diferente. O sentido é que todo o povo de Deus deve louvar ao Senhor. V. 13 – Aqui começam os argumentos para louvar a Deus. O primeiro argumento é porque Deus dá proteção. Ele reforçou as trancas das tuas portas. As cidades, nesse período da história, eram cercadas por muros para dar-lhes proteção. As portas eram os lugares mais vulneráveis. Poderiam ser arrombadas. Deus, reforçando as trancas das portas de Jerusalém, dá proteção a seu povo, e isso significa bênção para quem vive na cidade. Proteção e bênção de Deus são os motivos de louvor apontados neste versículo. V. 14 – Outro motivo de louvor é que Deus estabeleceu a paz. Jerusalém é a cidade da paz. A paz aqui é vista como segurança contra os inimigos externos. Além da paz, o sustento é apontado como motivo de louvor. Deus farta todos com o melhor do trigo. Quando uma cidade era sitiada, faltava alimento. Dessa forma, pode-se ver a ligação clara entre as duas ideias. Defesa contra os inimigos significa paz e tranquilidade, inclusive na questão do sustento. V. 15-18 – Nestes versículos é mostrado como Deus domina as forças da natureza. É dito que por sua palavra Deus dá ordens para as forças da natureza, e elas lhe obedecem. Como, nesse tempo bíblico, a sociedade era agropastoril, a dependência das forças da natureza era muito sentida. Se faltasse água ou se viesse frio ou calor exagerado, as consequências eram falta de comida e dificuldades no sustento. O Salmo 147 convida as pessoas a louvar a Deus porque ele cuida de tudo isso. V. 19 – Aqui dois nomes são mencionados: Jacó e Israel. Na verdade, são nomes diferentes que se referem à mesma pessoa. Jacó era o filho de Isaque e irmão gêmeo de Esaú. Jacó trapaceou Esaú na questão da herança. Seu nome foi modificado depois da luta que teve com o anjo em Peniel. Os descendentes de

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2º Domingo após Natal

Jacó/Israel foram chamados de israelitas. O texto deste versículo diz que Deus mostrou sua palavra, suas leis, seus preceitos a Jacó/Israel. A mesma ideia é repetida, em forma de poesia, no versículo 12. Jacó precisava ser lembrado da palavra do Senhor. Ele, que cometeu muitos erros, por causa dessa palavra sempre foi chamado de volta aos caminhos do Senhor. Essa atitude amorosa e compassiva de Deus, chamando Jacó com sua palavra, também é motivo de louvor. V. 20 – Neste versículo, é lembrado que essa atitude amorosa de Deus é única para com o povo de Israel. Certamente trata-se aqui de uma referência ao plano de salvação que Deus mostrou à humanidade logo depois da queda em pecado. Ele chamou para si um povo, descendente de Abraão, do qual nasceria o Messias. Desse povo ele cuidou de todas as formas, mas sobretudo mostrou pela sua palavra o seu cuidado e amor. Por isso o povo de Deus deve louvar a Deus.

3

Meditação

O tema central do texto apontado para este domingo é o louvor. Dentro do tema do louvor, o Salmo 147 destaca os motivos que o povo de Deus tem para louvá-lo. As palavras-chave que apontam para esses motivos são: proteção e bênção (v. 13); paz e sustento ou paz e tranquilidade (v. 14); proteção contra as forças da natureza (v. 15-18); a sua palavra e a salvação (v. 19-20). Esses motivos de louvor continuam válidos, de certa maneira, nos dias de hoje. Mas a situação social mudou muito dos tempos bíblicos para os de hoje. Nos tempos bíblicos, a proteção de uma cidade era providenciada pela construção de um muro. Muros não protegem mais nenhuma cidade hoje. Mesmo nas casas, os muros não são mais sinônimos de proteção, embora cada vez mais casas são construídas cercadas por muros altos e, muitas vezes, com arame farpado sobre o muro. Os prédios também são cercados de grades e muros, com guaritas que tentam identificar cada pessoa que quer entrar. Por toda a cidade se veem multiplicadas grades de ferro em portas e janelas. Mas nada disso significa segurança. O ambiente urbano também tem outras ameaças. Furtos e assaltos são praticados nas ruas. O inimigo não vem apenas de fora da cidade, como nos tempos bíblicos. Ele está ao nosso lado, sem que tenhamos condições de reconhecer quem é. Outras formas de insegurança também se multiplicam. Cartões de crédito são clonados. Contas de banco são invadidas. As pessoas sofrem prejuízos dessa maneira. Muitas pessoas que são entrevistadas depois de passar por alguma dessas situações de violência urbana reconhecem que só Deus pode protegê-las. Deus deve ser louvado porque, mesmo numa situação muito diferente do templo bíblico, ele continua protegendo o seu povo. Nas cidades, onde mora a absoluta maioria da população brasileira, as forças da natureza não têm ligação tão direta com a vida como numa sociedade agropastoril. Chovendo ou não chovendo, o comércio abre, as fábricas funcionam, os meios de comunicação executam suas tarefas. No campo, se não chove, as plantas não se desenvolvem e falta comida. Se não há água e pasto, os animais não sobrevivem. Na cidade, as forças da natureza são notadas se há um temporal forte,

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2º Domingo após Natal

se há uma enxurrada que atinge as casas ou se há uma seca prolongada que faz diminuir as reservas de água e ameaça a vida da população. Os perigos e ameaças da vida urbana, de qualquer maneira, são diferentes da vida rural. Mas a proteção que o habitante da cidade precisa da parte de Deus é tão fundamental como para o habitante do campo. Por isso também aí o motivo de louvor é válido. O último motivo de louvor que é apresentado no Salmo, a ação de Deus com sua palavra, trazendo orientação e salvação, é motivo de louvor em toda a situação, seja ela rural ou urbana. Lembramos mais uma vez que fazer referência aos textos do evangelho e da epístola deste domingo ajudará o ouvinte a reconhecer que deve louvar a Deus. O evangelho reforça a ideia de que Deus vem com sua palavra a nós em seu Filho Jesus Cristo. A epístola lembra toda a ação graciosa de Deus em favor da nossa salvação. Com isso temos mais do que motivos suficientes para sempre louvar o nosso Deus.

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Imagens para a prédica

Louvor é o resultado de um coração que reconhece a bondade de Deus de diversas maneiras. Louvor a Deus é uma atitude de humildade que reconhece que sem Deus não se poderia viver. A imagem que vale a pena trazer ao ouvinte desta prédica é a de que mais uma vez celebramos o Natal, terminamos um ano e começamos outro com muitos motivos para louvar e agradecer a Deus. O Natal, para a maioria das pessoas, traz boas lembranças: o encontro dos familiares, a troca de presentes, a alegria que essa festa proporciona, lembrando o nascimento de Jesus. O ano novo é tempo de avaliação e de planos. Na avaliação, temos muitos motivos para agradecer e louvar a Deus. Nos planos, temos necessidade da proteção e bênção de Deus. Essa imagem pode acompanhar a prédica deste domingo.

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Subsídios litúrgicos

Em muitas igrejas, há o costume de enfeitar um pinheirinho para o Natal e deixar essa árvore enfeitada até o dia 6 de janeiro, festa de Epifania. Se for esse o caso da igreja em que acontecerá a prédica que está sendo preparada, esse é um símbolo que pode ser utilizado. Os hinos que serão cantados também farão menção ao Natal e ao Novo Ano. Eles também são elementos litúrgicos importantes para reforçar a mensagem da pregação. Sugestão de tema para esboço dessa pregação: Motivos para louvar a Deus no início de mais um ano: * Ele nos protege e abençoa. * Ele nos dá paz e sustento. * Ele nos dá a sua palavra e salvação.

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PRÉDICA: ISAÍAS 52.7-10

EPIFANIA DE NOSSO SENHOR 6 JAN 2015

MATEUS 12.14-21 COLOSSENSES 1.24-27

Ana Isa dos Reis

1

Introdução

A celebração de Epifania convida-nos a dar continuidade ao testemunho dos sábios do Oriente – também conhecidos, na tradição, como Reis Magos – de que Jesus é Senhor e Salvador do mundo inteiro, também meu e para dentro da minha vida. O texto da pregação anima o povo ao afirmar que Javé vem restaurar Jerusalém e trazer o povo de volta ao lar, inaugurando um novo tempo, revelando-se a todos os povos como Deus forte, consolador e resgatador. Essa notícia traz ânimo e coragem ao povo exilado. Epifania reatualiza o texto de Isaías 52, afirmando que, em Jesus de Nazaré, o próprio Deus veio morar entre nós, revelando-se e doando-se a nós. Essa mensagem é grande e alegre demais para ficar guardada. Ela anseia ser anunciada até os confins da terra. Eis o nosso chamado: como pessoas batizadas, que se dobram aos pés do Menino, levamos adiante a boa-nova do evangelho, colocando sinais do reino de Deus onde estivermos.

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Exegese

2.1 – Momento histórico e autoria A perícope está inserida no período do exílio. Porém não mais como nos primeiros tempos em 597 e 587 a.C., quando se recomendava “plantar pomares”. A nossa perícope deve estar situada por volta dos anos 550 e 540 a.C., quando o império babilônico está em decadência e a Pérsia avança. Por volta de 550 a.C., Ciro, imperador da Pérsia, começou a dominar os povos vizinhos, pretendendo chegar à Babilônia. A grande estratégia dos persas é seu jeito político de atuar, mantendo os dominados em sua própria terra, concedendo-lhes maior liberdade religiosa e cultural, tudo em troca de submissão política e pagamento de impostos. É graças a esse avanço persa que os exilados, através de seu grupo profético, renovam as esperanças e a possibilidade de reconstrução e retorno à sua terra natal. Quanto à autoria, hoje a pesquisa aponta que o Dêutero-Isaías não seria uma única pessoa, e sim uma obra coletiva, uma composição de diferentes manifestações proféticas entre os exilados na Babilônia. Seria uma espécie de “compêndio” da profecia, surgida entre os exilados. Milton Schwantes ainda nos

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Epifania de Nosso Senhor

ajuda quanto à autoria, situando o “Segundo Isaías entre os cantores do templo”, encontrando-se na atmosfera hínica do culto. 2.2 – Estrutura do Dêutero-Isaías O Segundo Isaías pode ser dividido em duas partes, além da introdução e conclusão: 40.1-11 – Introdução: o novo êxodo e a Palavra de Deus. 40.12-48.22 – Primeira parte. Libertação e retorno a Jerusalém, tendo como modelo o êxodo. Insistência em Javé como único Deus da história. 49.1-55.5 – Segunda parte. Projeto de reconstruir Jerusalém. Predominam a figura do servo e a cidade de Jerusalém. 55.6-13 – Conclusão e resumo. O poder da palavra de Deus e a realização do novo êxodo. 2.3 – Observações exegéticas sobre a perícope A perícope poderia ser examinada a partir de três momentos: – mensageiro; – atalaia; – ruínas de Jerusalém. O mensageiro tem como principal ação o anúncio sobre o reinado de Deus. O mensageiro traz a boa notícia de que Javé reina, ele é o Senhor, não mais a Babilônia. Ou seja, os algozes nada podem contra o poder de Javé. Os atalaias são os que observam a chegada do mensageiro sobre os montes e, entendendo a mensagem, transmitem-na aos gritos. As ruínas de Jerusalém são a quem a mensagem é destinada. V. 7 – O texto aponta os pés como sinal de dinamismo, deslocamento, caminhante ativo e que traz como mensagem central: Javé reina. Para um povo que sofreu o exílio e a subjugação, esse anúncio é de esperança. Com Javé será tempo de paz, bem e salvação. V. 8 – Os atalaias (guardas) ouvem a mensagem e a compreendem e, mais do que isso, veem a chegada de Javé reinante. É a boa notícia que provoca os gritos, não mais de horror e medo, mas sim de alegria, esperança e júbilo. V. 9 – Às ruínas de Jerusalém são dirigidos os gritos de júbilo. O verbo “rompam” ou “explodi” está no imperativo, como um chamado aos que estão nas ruínas e, quem sabe, já não conseguiriam mais acreditar. O motivo para a explosão de alegria é aqui apresentado: Javé reina e sua ação dá-se através dos verbos: consolou e remiu/resgatou. Javé faz novas todas as coisas. V. 10 – Mais uma ação de Javé é descrita: ele usa seu braço para salvar e o faz diante de todas as nações, porque ele é Deus e sua ação é universal.

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Meditação

Para dentro do tempo de Epifania somos chamados a ser mensageiros, ou seja, aqueles que levam a mensagem do reinado de Deus, de sua revelação em Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, também poderíamos dizer que somos atalaias, aqueles que ouvem a mensagem e, cheios de júbilo, gritam-na adiante. E também somos as ruínas de Jerusalém, a quem a mensagem é destinada, em quem a mensagem “cala fundo”, inaugurando um novo tempo. Nos diferentes momentos da vida, ora somos um, ora outro. A interação entre esses três, no entanto, deve ser interativa, em que um completa o outro. E a ação é do Senhor. Para aquelas pessoas deportadas/exiladas, “consolo” e “paz” traziam à memória realidades muito concretas, sonhadas e almejadas. O exílio é uma vida sem lugar, sem chão, sem terra, porque ali não é onde desejamos estar, mas para onde fomos levados à força. Ali não é espaço de construção, porque não é da gente. Ao ouvir que Javé reina, que ele está junto, isso mexe com a esperança, reaquece o coração, implica poder voltar à terra da gente, onde a gente tem um lugar para plantar, viver, crescer, adorar Deus. Esse Javé que reina, que está voltando é o mesmo que foi junto para o exílio com o povo, que também experimentou não ter terra, ter a liberdade cerceada. Javé é solidário. Seu regresso acontece em companhia de seu povo. Olhando para o tempo de Epifania, Javé vem morar entre nós em Jesus de Nazaré. Ele vem para junto de seu povo. Ele reina, não em castelos afastados, mas entre o povo que está em ruínas. Como mensageiro, Jesus anuncia o reino de Deus. Como atalaia, grita que Javé já está entre nós. E às ruínas traz vida nova e salvação. A partir de nosso Batismo, somos chamados a ser mensageiros. Não quaisquer mensageiros. Mas aqueles que anunciam o reino de Deus. Reino de paz e justiça, que nos compromete com a causa da vida digna e boa para todas as pessoas, que nos inspira e anima a agir com honestidade, respeito para com os demais e os diferentes, rompimento com toda e qualquer forma de violência e injustiça. Somos mensageiros porque, em primeiro lugar, o Senhor veio até nós, compartilhou com a gente a sua mensagem viva. Nossos pés tornam-se formosos à medida que levamos adiante e partilhamos a mensagem do reino de Deus. Posso imaginar que, para alguns que compactuam com as forças do mal, esses são pés amaldiçoados porque não anunciam a mensagem que o “mundo” quer que seja anunciada, mas a mensagem do evangelho. Ao ouvirmos a mensagem, sejamos atalaias que vibram, extasiados, que gritam adiante, que se deixam envolver totalmente pelo Senhor que vem, na pobreza do Menino, na radicalidade da cruz e na transformadora ressurreição. Ser atalaia remexe a poeira, coloca em alerta, chama a atenção. Tem algo novo, promotor de vida a todos e não apenas a alguns em detrimento de outros. Lembremos: às ruínas é que fora destinada a mensagem. Também nós enfrentamos ruínas, sofrimentos, lutos, doenças, perdas, frustrações, fracassos,

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pobreza, miséria, desemprego, incapacidade de lidar com a opressão. Talvez algumas pessoas sentadas ali na igreja se sintam em ruína. A mensagem é dirigida especialmente a elas. Uma mensagem transformadora e desafiadora. O Senhor reina, ele consola, resgata, mas também chama à ação, à reconstrução.

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Subsídios litúrgicos

Recepção: Uma equipe deve estar à porta recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Confissão de pecados: Misericordioso Deus, confessamos que somos pessoas pecadoras e que carecemos de tua graça e de teu perdão. Perdoa-nos quando não ouvimos tua mensagem. Perdoa-nos quando não somos teus mensageiros, quando não levamos adiante a boa-nova do teu reino de graça e amor. Perdoa-nos quando nem sequer cremos nesse reino de justiça. Confessamos, Senhor, nossa omissão em anunciar o evangelho de Jesus Cristo. Nem sempre queremos ouvir os gritos alegres dos atalaias que repartem a mensagem da tua chegada transformadora. Perdoa-nos quando não levamos tua mensagem às ruínas, aprisionando-a dentro de nossos muros. A ti, Senhor, confessamos o que pesa em nosso coração, nossas atitudes e omissões que nos têm afastado de ti e do próximo. Que teu perdão, Senhor, nos transforme. Que teu perdão nos anime a ser os pés formosos que, sobre os montes, anunciam a tua boa-nova. Por Jesus Cristo. Amém. Anúncio da graça: Antes de tudo e de todos estão o amor e a graça de Deus. Ele ouve nossa confissão sincera e tem compaixão, perdoando-nos e chamando a viver em novidade de vida. Por Jesus Cristo. Amém. Oração do dia: Misericordioso Deus, que vieste a nós em Jesus Cristo, nós te agradecemos porque estás presente na história de teu povo e também em nossa vida. Como os sábios do Oriente, adoramos o Menino Jesus, confiando-lhe tudo o que somos. Abre nossa mente e coração para ouvir tua Palavra, reconhecer tua presença e ser testemunhas da tua boa-nova. Que teu consolo e remissão nos alcancem e, alegres, sejamos mensageiros do teu reino, atalaias da tua graça e alvo do teu amor. É o que te pedimos em nome de Jesus Cristo, o Messias, nosso Salvador. Amém.

Bibliografia BORTOLLETO Filho, Fernando. Auxílio homilético sobre Isaías 52.7-10. In: Proclamar Libertação XXXIII, p.70-75. CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986.

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SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no Exílio. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo: Sinodal, 1987. SCHWANTES, Milton. Auxílio homilético sobre Isaías 52.7-10. In: Proclamar Libertação XV, p.100-105.

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PRÉDICA: ATOS 19.1-7

1º DOMINGO APÓS EPIFANIA

GÊNESIS 1.1-5 MARCOS 1.4-11

(BATISMO DO SENHOR) 11 JAN 2015

Ramona Weissheimer

Em nome de Jesus O que Deus nos dá no Batismo? Pelo Batismo participamos da vida, morte e ressurreição de Cristo por nós. Somos marcados por sua cruz, que é a vitória sobre o nosso fracasso e o ponto de partida para um novo começo. Aceitos por graça, somos chamados a andar em novidade de vida, oferecendo-nos a Deus como instrumentos de justiça. (Nossa Fé – Nossa Vida)

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Introdução

At 19.1-7 está sendo contemplado pela primeira vez como texto de pregação em Proclamar Libertação. Aliás, a maior parte da literatura que esteve a meu alcance não dava muita atenção a esse texto. Então, quem sabe, já estava em tempo de encará-lo. E o tempo é bem propício: 1º Domingo após Epifania, Batismo de nosso Senhor. O Pai, o Filho e o Espírito Santo unidos, presentes no momento do Batismo, início da caminhada. As leituras propostas auxiliam na compreensão e meditação do texto de Atos. Iniciando por Gn 1.1-5, primeiro dia da criação: o céu e a terra, até a separação em “dia” e “noite”, e “a terra estava coberta por um mar profundo... e o Espírito de Deus se movia por cima da água” (v. 2). Em Mc 1.4-11, João Batista aparece no deserto, chamando para o arrependimento dos pecados, batizando com água e anunciando a vinda de alguém maior do que ele, que os batizaria com o Espírito Santo. Quando Jesus é batizado, o céu abre-se, e o Espírito Santo vem como uma pomba sobre ele, e ouve-se: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”. E então, At 19.1-7, quando em Éfeso, Paulo encontra discípulos que tinham sido batizados apenas com o “batismo de João Batista” para o arrependimento. Nem sequer haviam ouvido falar do Espírito Santo. Então Paulo os batiza, impõe-lhes as mãos, e eles recebem o Espírito Santo e dons de línguas e profecia. Batizados em nome de Cristo, tornam-se parte da família cristã.

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Exegese

Chamamos a atenção para algumas diferenças apresentadas por três versões da Bíblia, mesmo que elas não afetem muito a compreensão do texto. Com-

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paramos a Bíblia de Jerusalém (BJ), o Novo Testamento na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e a Nova Versão Internacional (NVI), verificando também a edição do texto grego de Nestle-Aland (NA). No v. 1, a BJ e a NVI trazem “atravessado o planalto” ou “atravessando as regiões altas”, enquanto a NTLH traz “viajou pelo interior da província da Ásia”; em NA, anōterika mais alto, hinterland. A diferença mais significativa está em “alguns discípulos” (BJ e NVI) para “alguns cristãos” (NTLH), tinas matetas em NA. No v. 2, a BJ traz “abraçastes a fé”, e a NVI e NTLH, “quando creram”. No v. 3, a NTLH acrescenta a João “Batista”, concordando com NA. No v. 4, a BJ traduz “Paulo explicou”, enquanto a NVI e a NTLH trazem “Paulo disse”. A diferença maior do versículo está em “batismo de arrependimento” (NVI, BJ) (em NA ebaptisen baptisma metanoias) em relação à NTLH “batizava os que se arrependiam dos seus pecados” – anunciando a vinda de Jesus – e não do Senhor Jesus Cristo. No v. 6, a NTLH traduz “anunciar a palavra de Deus”, e as demais, “profetizar”, eprofēteuon em NA. Antes de ir adiante, olhemos um pouco para o contexto. At 18.23-28 informa que Apolo, um judeu nascido em Alexandria (um centro de judaísmo helenístico), chegou a Éfeso. Ele fora instruído “no caminho”, mas só conhecia o batismo de João Batista, ignorando, porém, o batismo no Espírito Santo. Por isso Priscila e Áquila levam-no para sua casa e completam sua instrução. Ele teria ido para Corinto quando Paulo chega a Éfeso. Os comentários sobre Apolo não são tão abonadores. Teria sido eloquente, formado em escolas de retórica, mas, de princípio, conhecendo apenas um “evangelho incompleto”, que teria sido ensinado àqueles discípulos encontrados por Paulo em At 19.1. Faltava-lhe o conhecimento sobre o Espírito Santo. Depois do encontro com Priscila e Áquila, Apolo foi para Corinto, onde teria pregado com tanto sucesso, que formara um círculo de admiradores, que, enfim, acabaram por opor-se, de certo modo, aos “cristãos paulinos” (1Co 1.12; 3.4-6,22; 4.6). José Comblin lembra que Lucas achou uma maneira de colocar Apolo numa dependência de Paulo, já que Priscila e Áquila são ligados a Paulo. Mas, de qualquer forma, não encobre o fato de que a igreja de Éfeso não seria de fundação paulina. At 19.8-20 continua a história da terceira viagem de Paulo com incompreensão de uns, vários prodígios do apóstolo em Éfeso e a tentativa frustrada de alguns – os exorcistas filhos de Ceva – de se aproveitar dos sucessos obtidos. E assim a Palavra se fortalece. O comentário da Bíblia de Jerusalém para o v. 8 – Fundação da igreja em Éfeso – diz justamente que “a narrativa, interrompida pelas notícias sobre Apolo e sobre os joanitas, recomeça”. Assim, At 18.23 quebra a narrativa com a história de Apolo, e 19.1, com o encontro com os joanitas. Ao sugerir um “roteiro de estudos”, com base nos “Conflitos no Livro dos Atos dos Apóstolos”, Carlos Mesters coloca entre os “conflitos internos das comunidades dos primeiros cristãos” o fato de que havia cristãos que só conheciam o batismo de João e outros que nada sabiam do Espírito Santo. José Comblin não chama a atenção para uma “quebra”, mas acrescenta que o tempo passado em Éfeso foi o mais cheio de acontecimentos em toda a missão

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de Paulo. Sobre a “questão dos batistas” (v. II, p. 96) informa que as diferenças entre os discípulos de João e de Jesus são mínimas e que para Lucas interessa tornar mais claras essas diferenças. “O Espírito está ligado ao batismo de Jesus e à fé. Se os discípulos não receberam o Espírito, é sinal de que não receberam o batismo de Jesus” (v. II, p. 97). Segundo a doutrina cristã do Batismo (At 13.24; Lc 3.5-7), o batismo de Jesus é superior (Marcos aponta para aquele que vem e batizará com o Espírito Santo). É pelo batismo que aqueles homens tornam-se membros de Cristo. E a presença do Espírito manifesta-se nos dons habituais (comp. 10.46). O episódio bem poderia ser parte de uma “catequese cristã” dirigida aos discípulos de João (v. II, p. 97). Conforme Comblin, os paralelismos entre Pedro e Paulo no livro de Atos são intencionais. Assim, se em At 8.14-17 Pedro e João vão para a Samaria e oram sobre aquela gente que fora batizada em nome de Jesus (!), mas não receberam o Espírito Santo, que vem sobre eles após a imposição das mãos, em nosso texto Paulo batiza e impõe as mãos sobre aqueles discípulos que conheciam apenas o batismo de arrependimento de João Batista. Aqui se torna significativa a diferença entre “alguns discípulos” e “alguns cristãos”. Conforme ainda Comblin, a grande preocupação de Atos seria justamente Paulo, sua atuação e como fazê-lo ser o mais aceitável possível aos judeus, já que a comunidade lucana seria composta basicamente de prosélitos e adoradores de Deus. O autor não se preocupa tanto com cronologia – e talvez nem tanto com itinerários –, mas utiliza os fatos de maneira a colaborar com a sua tese. Bem mais na função de advogado que de historiador (vol. II, p. 13). Alguns conflitos que aparecem de maneira forte nas cartas de Paulo, como o problema da comunhão de mesa (Gl 2.11-14), são simplesmente amenizados. E é bom lembrar que a maneira de fazer história na época era, em larga medida, diferente da que usamos hoje. Portanto o autor age conforme sua época e seu propósito. “Inspira-se na literatura grega. Conhecia certamente as obras da historiografia grega e as regras desse gênero literário. Adaptou-as ao seu projeto” (COMBLIN, v. I, p. 63). Em sua introdução, Comblin diz que Lucas escreveu seu livro em dois tomos, divididos, mais tarde, pelos autores do cânone do NT no século II. Os títulos teriam sido dados nessa época. O livro mereceria, aliás, bem mais o título de “Atos de Paulo”, que passou a vida lutando pelo título de apóstolo, pois dos doze só de Pedro efetivamente se fala. E, ainda, Pedro é visto quase como um “precursor” de Paulo na evangelização das nações. “Os primeiros 15 capítulos são uma longa introdução aos Atos de Paulo com o fim de mostrar que o que segue concorda perfeitamente com o que precedeu” (COMBLIN, v. I, p. 67).

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Meditação: o Espírito Santo e o Batismo

“O livro dos Atos é de certo modo o evangelho do Espírito Santo, assim como o primeiro tomo de Lucas era o livro de Jesus. Após a ascensão, Jesus manifesta-se poucas vezes no ministério dos apóstolos ou de Paulo. Quem, porém, se manifesta é o Espírito Santo, fato que Lucas atribui a um anúncio do próprio Jesus. (...) O Espírito Santo é dado aos que ouvem a palavra. A vinda do

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Espírito Santo é para eles o sinal de que estão caminhando para o reino de Deus, pois experimentam uma nova energia que lhes era desconhecida” (COMBLIN, v. 1, p. 41). E, chegando, finalmente, ao tema do Batismo, conforme o “Livro de Batismo” da IECLB, “o testemunho do Novo Testamento sobre a relação entre o batismo e o Espírito Santo é, ao mesmo tempo, bastante uniforme e um pouco desconcertante” (p. 26). Cita, a seguir, passagens que demonstram uma relação estreita entre batismo e recepção do Espírito Santo, o que, porém, conforme as citações, nem sempre acontece no mesmo momento. Assim citam-se Mt 3.16 (o batismo de Jesus), o testemunho “mais eloquente”, mas também At 2.38 (arrependimento, batismo, perdão e concessão do Espírito Santo), At 19.1-7 (em que pessoas foram batizadas no batismo de João e nem ao menos o conheciam, sendo batizados no nome de Jesus e recebendo o Espírito Santo com a imposição das mãos), At 8.14-17 (em Samaria receberam o batismo de Jesus, mas não o Espírito Santo, que só vem mais tarde, com a imposição das mãos) e ainda Tt 3.4-7, 2Co 1.22, Ef 1.13-14 e 4.30. Não se pode jogar um texto contra o outro, mas captar o conjunto. Importante é que “a estreita relação entre o batismo e o Espírito Santo também se articula no fato de ser o batismo porta de entrada na Igreja. Segundo o testemunho bíblico, a Igreja é o lugar onde atua o Espírito Santo. Não se pode ingressar na Igreja sem ter parte na dádiva do Espírito Santo” (p. 27). “De acordo com a tradição judaica, a igreja cristã assimilou, no Batismo, os atos litúrgicos da imposição das mãos e da unção com óleo. O Antigo Testamento os conhece como atos que transmitem poder e bênção a pessoas especiais. Sacerdotes e reis são ungidos no antigo Israel. No Batismo cristão ocorre uma democratização absoluta desse gesto e de seu significado. (...) Toda e cada uma das pessoas batizadas recebe os dons do Espírito Santo e assim fica apta a exercer o sacerdócio real (1Pe 2.9; Ap 5.10).” Absoluta igualdade expressa por Paulo em 1Co 12.13, Gl 3.27-28 (Livro de Batismo, p. 32). Quanto ao rebatismo, o Livro de Batismo cita mais uma vez Paulo (Ef 4.46) e lembra que, no Novo Testamento, bem como na Igreja Antiga, não há sequer vestígios de uma prática de rebatismo, nem mesmo em épocas em que, por causa das perseguições, cristãos renegaram a fé. Lembra que o rebatismo acontece quando uma igreja ou comunidade não reconhece o batismo ministrado por outra, por desqualificar o ministrante ou a forma de realização. Ato que não deixa de pôr em dúvida a ação do próprio Deus no Batismo. E sobre as justificativas arroladas por defensores de um rebatismo, o Livro de Batismo cita as crises de consciência e alma ou a perda de significado de um batismo anterior. Mas, mais do que isso, lembra-nos que nossas crises e conflitos internos não invalidam a promessa de Deus, que é muito maior do que nossas quedas e tropeços (Livro de Batismo, p. 34-5). Conforme Lutero, “ser batizado em nome de Deus é ser batizado não por homens, mas pelo próprio Deus. Por isso, ainda que levado a efeito pelas mãos do homem, não obstante é verdadeiramente obra de Deus mesmo. (...) o próprio Deus aqui empenha a sua honra e nela põe sua força e poder” (Livro de Batismo, p. 23). Assim, são vários os significados do Batismo: perdão dos pecados, união com Cristo, recepção do Espírito Santo, incorporação na igreja, corpo de Cristo,

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novo nascimento. Dessa forma, o texto que, em princípio, nos parecia tão complicado, une-nos outra vez num mesmo pensamento: o Espírito Santo, que estava desde o princípio (Gn 1.2), veio sobre o Filho após o Batismo, quando se ouve a palavra do Pai, que nele se alegra (Mc 1.11). E é o Batismo em nome do Trino Deus porta de entrada na igreja de Jesus Cristo. Através do Batismo, dado por graça, recebido por fé, somos aceitos e enviados. E mesmo em meio às nossas crises, o Espírito Santo de Deus atua em nós. É dádiva que não se compra nem se anula. Ele não nos quer imóveis, mas nos incorporar no sacerdócio real.

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Imagens para a prédica

O texto fala de Batismo e o lemos justamente em tempo de Epifania. Aqueles homens haviam sido batizados no batismo de João para arrependimento de pecados. São chamados discípulos, mas nem sequer ouviram falar do Espírito Santo. Para refletir, quem sabe se possa fazer um mosaico com vários pedaços coloridos, formando uma cruz. O mosaico destaca que cada qual é uma parte e contribui do seu jeito para o corpo de Cristo na terra, apesar das nossas imperfeições. Pelo Batismo temos parte naquela cruz e também na ressurreição e na vida eterna com Deus. O desenho não ficará perfeito, mas a igreja não é perfeita, é interação, criatividade e nunca está “pronta”. O Batismo é ser parte, fazer parte, construir, somar junto.

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Subsídios litúrgicos

Voto inicial: “Onde a história de Jesus não é limitada ao sentido de lenda piedosa, mas se torna atualidade empolgante, ali está o Espírito Santo, ali Deus transforma a nossa vida. O desespero muda em esperança, o tédio em satisfação, o pranto em riso, a contenda mordaz em amor fraterno” (W. STIEGEMEIER. 3º Artigo do Credo Apostólico. In: Proclamar Libertação: Catecismo, 1981, p. 119). Em nome de Deus Pai, o Criador, Filho, o Salvador, e Espírito Santo, o doador da fé, é que nos reunimos. Amém. Oração: Bondoso Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Em tuas mãos estão todos os cristãos nesta terra e com o Espírito Santo tu os guias, diriges e reúnes. Mostra a cada um de nós que só seremos comunidade se houver entre nós comunhão. Nessa comunhão, dá-nos forças para não resignar, mas nos impulsiona para que possamos crescer juntos na fé, na esperança e no amor. Dirige-nos pela tua Palavra, por Cristo Jesus. Amém.

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

Hinos sugeridos: Nº 85, HPD I: Vem, Espírito divino; nº 421, HPD II: Eu quero ser; nº 338, HPD II: Onde dois ou três me invocam a orar.

Bibliografia COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. Petrópolis/ São Bernardo do Campo/ São Leopoldo: Vozes/ Metodista/ Sinodal , 1989. IECLB. Livro de Batismo (Org. KIRST, Nelson). 2. ed. São Leopoldo: Oikos, 2008.

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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 6.12-20

2º DOMINGO APÓS EPIFANIA 18 JAN 2015

JOÃO 1.43-51 1 SAMUEL 3.1-10(11-20)

Manfredo Siegle

Corpo como templo do Espírito Santo

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Introdução

1.1 – O texto Eis aí um dos poucos textos bíblicos que focalizam o corpo (ele é templo do Espírito Santo) na dimensão integral e, em especial, na perspectiva da sua sexualidade. 1Co 6.12-20 faz descobrir vários eixos: 1) O v. 12 sublinha, por um lado, a prática da liberdade, por outro lado, vincula a liberdade à confiança em Jesus Cristo (v. 15). Cristãos são pessoas livres porque pertencem a Cristo. O conceito de liberdade cristã sugere um movimento: é liberdade de algo... direcionada para outras realidades e situações... 2) O apóstolo Paulo faz um balanço de quem será herdeiro do reino de Deus e quem dele está excluído. 3) O autor do texto apela com insistência para que pessoas cristãs vivenciem a fé em Cristo mediante o cuidado do corpo (soma). 4) O corpo é digno de cuidado porque ele é o templo do Espírito Santo (v. 19). Apesar das limitações, dos defeitos e das falhas que nossos corpos podem apresentar, Deus Criador valoriza o corpo. A passagem bíblica situa-se sob o “guarda-chuva” da liberdade cristã e aponta para imperativos éticos de uma vida livre conforme “os frutos do Espírito”. O texto complementar no Novo Testamento sublinha o chamado de duas pessoas: Filipe e Natanael (Jo 1.43-51). Cristo Luz é incisivo no convite para segui-lo: Venha ver! Venha comigo! Afirmo: vocês verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. O texto do Antigo Testamento (1Sm 3) focaliza o chamado de Samuel, auxiliar do sacerdote Eli. Deus o chamou, desde menino, para ser profeta. Tornou-se um grande líder em Israel; caberá a ele unir as tribos de Israel em busca de uma resistência comum. A tarefa de Samuel consistia em reavivar política e espiritualmente a nação israelita. Quando pessoas são vocacionadas, acontece a liberdade para servir e cooperar na missão libertadora de Deus. 1.2 – O domingo Os textos em pauta servem de base e motivação à prédica no 2º Domingo após Epifania. Epifania, o que vem a ser? Deus tornou-se pessoa humana, e todo o mundo deve tomar conhecimento! O cheiro do Natal continua no ar, e o evento litúrgico recorda a revelação de Jesus Cristo. Pessoas confiantes na Luz do mun-

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do, que se colocam a caminho em razão do chamado ao discipulado, vivem da expectativa de encontrar novos referenciais para suas vidas. Não raro encontram esses referenciais, tais como liberdade, vidas em comunhão, clareza de objetivos e portas abertas que dão um novo sentido às existências. 1.3 – Boca no trombone Os meios de comunicação social em nosso país são ricos em criar títulos e palavras de efeito. Para exemplificar, nesses dias me deparei com um título bem chamativo: “Pacto mofado”. Também na visita do papa Francisco I, durante a Jornada Mundial de Juventude em 2013, foi divulgada uma frase bem conhecida, dita pelo primaz da Igreja Católica Romana: “O papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. O apóstolo Paulo não esteve tão em alta nos meios de comunicação do seu tempo, mas um conceito-chave lhe era de grande valia existencial: graça. Paulo, o apóstolo, viveu a graça de Deus, sentiu-se um agraciado e, por causa da graça divina, um enviado comprometido com o anúncio da reconciliação e da salvação imerecida. O apóstolo foi uma pessoa inspirada para formular belas palavras em suas cartas, assim como extrapolou sentimentos, tornando-se polêmico, duro e raivoso. Os argumentos focados em 1Co 6.12-20 demonstram o seu desapontamento em relação às atitudes libertárias em Corinto. Ele botou a boca no trombone. O apóstolo martela a consciência dos coríntios, minada por um “orgulho espiritual”. O que acontecia na cidade? Pessoas que se agregaram à comunidade de Corinto deturparam a mensagem da ressurreição de Cristo. Pressupunham que o reino de Deus já se manifestara em sua plenitude. A vida do presente, assim como a exigência ética de relacionamento interpessoal, deixou de ser relevante. Nesse contexto, o apóstolo Paulo, preocupado com a justificação por causa de Jesus Cristo, alerta os coríntios, entre outros abusos, para resistir às orgias sexuais, em especial frente à prática da prostituição.

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Exegese / Meditação

Situamos o texto no contexto do “catálogo dos vícios”. Paulo adverte os crentes em Corinto para que fujam do mal (1Co 6. 9-11), evitem a imoralidade, a porneia (1Co 5.1s; 6.9); ele não detalha os delitos maldosos em si, antes focaliza as pessoas que os praticam. Nos capítulos 1 a 4, o apóstolo questiona as divisões na comunidade de Corinto; nos capítulos 5 e 6, o autor denuncia a imoralidade. Em discussão está, em especial, a prostituição. A cidade portuária de Corinto oferecia um largo espaço para que ambições eróticas e sexuais e a imoralidade sexual fossem concretizadas a bel-prazer. Os prostíbulos da cidade eram bem visitados, prática justificada em razão do conceito deturpado de liberdade. “Eu posso fazer tudo o que quero.”; “Posso sim, mas nem tudo convém” (v. 12 e 13). Comida e sexo seriam coisas mundanas e, por isso, desprezíveis. Os coríntios exercitam um espiritualismo aéreo, influência da filosofia gnóstica. Paulo abriu os olhos dos coríntios para permanecer “com os pés no chão”. O pensamento gnóstico moldou

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o conceito de liberdade. O dualismo antropológico levou a desconsiderar o corpo em contraposição ao espírito. Para o apóstolo Paulo, toda ação divina tende a manifestar-se na corporeidade humana. O desprezo ao corpo manifestou-se entre os coríntios, tanto no desprezo da alimentação (1Co 6.13) como na imoralidade sexual. O corpo em sua dimensão integral merece dignidade e não existe para ser corroído pela imoralidade. Aos olhos da fé é questionável quando se perde de vista o próximo, assim como a comunhão comunitária. O apóstolo Paulo é defensor ardente da liberdade cristã. Interpreta, porém, a liberdade como dom de Deus; sou livre, mas nem tudo convém. Sentiu-se pessoa livre, compreendeu, porém, a liberdade vinculada a Jesus Cristo. Somos livres porque pertencemos a Jesus Cristo. A nova espiritualidade não é fruto de algum poder mágico; o Batismo é o divisor de águas. O indicativo de Deus é a pedra angular que fundamenta a prática da vida cristã. A pessoa batizada é chamada a viver a nova dignidade humana. “A vida nova acontece não para merecer o Reino de Deus, mas é vida de acordo com a promessa do Reino.” O autor foi incisivo ao lembrar que a graça de Deus confere liberdade e, simultaneamente, compromete a vida em fidelidade ao Batismo e ao evangelho. O apóstolo argumenta que a vida de fé não é somente expressão do coração piedoso, mas é também expressão do corpo (soma), é crer com o corpo. Paulo enfatiza a relação dialética entre liberdade e serviço. Quem segue na “luz de Cristo” assume a postura de “filho e filha da luz; o fruto da luz é bondade, justiça e verdade” (cf. Ef 5.8-9). É luz que se torna visível e concreta em vida de amor. Vida, sob o eixo da graça de Deus, conduz à tolerância, com argumentos. E, por causa do Batismo, conduz à nova obediência (Rm 6.12ss). A nova obediência deve estar encarnada e ser vivida com o corpo, antecipação da ressurreição corpórea dos mortos. Faz sentido sublinhar que o “corpo é templo do Espírito Santo”. No v. 14, Paulo usa o pronome “nós” quando define o conceito corpo (soma). O corpo que ressuscitará não pode ser desprezado pela libertinagem. É Cristo, pela fé, que se apodera do nosso corpo, tomando-o a seu serviço. Nos v. 15 a 18, o apóstolo tem em mente Gn 2.24: “tornando-se os dois uma só carne”. A união com a meretriz promove a comunhão íntima de corpos; em consequência é pessoa que deixou de viver a unidade com Cristo. A postura de Paulo não nega a prática da vida sexual; alerta, no entanto, para que “se fuja da imoralidade” (cf. v.18a). No capítulo seguinte, o apóstolo anuncia que o sexo não deixa marcas negativas, tampouco prejudica a relação com Cristo, o Senhor (7.2s). Conforme os v. 19 e 20, “o corpo é templo”, domicílio do Espírito Santo, lugar de culto e de adoração. O que valoriza a convivência na comunidade cristã é a relação filial com Deus e tem como referencial o mandamento do amor. Jesus Cristo, o crucificado e ressuscitado, resgatou a relação filial. Para o apóstolo, ser propriedade de Deus equivale a ser chamado à nova obediência, em não encontrar mais segurança em si mesmo. Embora humana, sendo membro do corpo de Cristo, a pessoa cristã é propriedade de Deus. Paulo não reconhece “homem forte” (cf. Rm 8.26; 1Co 1.27; 4.10s; 2Co 12.10). Persistem os conflitos terrenos;

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a superação do poder do pecado e da vivência das nossas limitações acontecerá, em esperança, quando Cristo reinará e Deus será tudo em todos (1Co 15.25ss.).

3 A caminho da prédica 3.1 – O corpo-templo Diante de mim observo a fotografia de uma pessoa idosa: 85 anos de vida. A foto é chocante e atraente ao mesmo tempo. A idade avançada resultou em marcas sem dó: a moldura dos olhos realça tecidos flácidos e incontáveis rugas; os olhos e o rosto enrugado aparentam cansaço. A fotografia reflete uma vida passageira, indica para uma realidade que vai muito além do culto à beleza e do culto à eterna juventude. O ser humano velho, gasto e fragilizado pelos anos corrige as imagens da mídia focada na estética para atrair, consumir, gerar suspiros e para vender. É possível dar amor a uma pessoa velha, marcada por flacidez ou pela experiência de décadas de vida, de trabalho, de conflitos? Quando espelhamos nossa própria vida naquela imagem da pessoa gasta, como fica o amor-próprio? Permanece o amor-próprio, continuamos a nos amar assim como somos no espelho de uma vida a indicar transitoriedade e sujeita às marcas do tempo e do peso de muitos anos? Para humanos pode ser um exercício difícil, para Deus é diferente. “Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é templo do Espírito Santo?” O apóstolo alerta que nosso valor independe das capacidades intelectuais, físicas ou espirituais. Também não é o corpo escultural, a estética que nos torna dignos do amor. A dignidade humana nasce do profundo amor que Deus dá e depende dos olhos bondosos mediante os quais Deus nos enxerga, valoriza e nos conduz pela vida. Apesar dos limites, embora imperfeitos e passageiros, Deus faz brotar da vida humana sinais significativos a resultar em confiança, amor, esperança e equilíbrio. Ó humano, a velhice pode colher a tua arcada dentária, embaralhar a boa memória, comprometer as tuas capacidades. De uma coisa não deverás abrir mão: sentimento sem preço – tu és sempre pessoa humana! 3.2 – Existência em compartimentos Aconteceu numa transmissão da TV. Na bancada de entrevistas, um grupo de senhoras jovens, dançarinas sensuais contratadas por uma casa noturna, algumas casadas, outras levando vida em parceria, foram perguntadas se os parceiros não demonstravam ciúme. Unânimes responderam que não era o caso. Continuaram dizendo: O que acontece no palco é show, entretenimento, dançamos para ganhar dinheiro. Sentimentos que pudessem gerar ciúmes estão descartados. Os parceiros presentes na entrevista dividiram a mesma opinião afirmando: De fato, não há nenhuma razão para ciúmes. No mundo artístico, nos shows da vida, nas casas noturnas, é grande a liberdade para a exposição dos corpos, gerando ambições eróticas e movimentando a indústria do prazer. É a realidade do cotidiano caracterizado como normal no show business.

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O fato apresentado revela a dicotomia entre o mundo do palco, do negócio e a realidade dos sentimentos fora desse ambiente. Por um lado, o corpo instrumento de trabalho; por outro, os sentimentos como se estivessem localizados em outro compartimento. Será possível levar uma existência dupla sem que a estrutura da personalidade sofra prejuízo? A resposta do apóstolo Paulo é contundente: Não, não é possível! O apóstolo investiu intensivamente no anúncio e na prática da liberdade cristã. “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou” (Gl 5.1a). Havia membros da comunidade que direcionavam o evangelho somente para a alma, sem que tivessem a preocupação com a materialização da fé, com atitudes éticas coerentes. Verdadeira liberdade, afirma o apóstolo, é fruto do evangelho de Cristo. Somos livres porque pertencemos a Cristo. O corpo é templo do Espírito Santo. Os alimentos, o corpo e a sexualidade, a realidade do prazer, assim como a política, a economia, a justiça humana, devem estar no foco da ação evangélica. O ser humano não tem corpo, ele é corpo e esse pertence por inteiro a Cristo. Não existem pessoas cristãs demissionárias do mundo e da responsabilidade para com o mundo. Conhecidas são as frases de Lutero inspiradas na teologia paulina: “O cristão é livre senhor e a ninguém submisso, simultaneamente, é servo de todos e submisso a todas as pessoas. Pela fé, ele se relaciona com Deus, no céu, pelo amor ele retorna ao mundo terreno”. O evangelho de Jesus Cristo liberta da “miopia teológica” sempre que tentarmos reduzir a nossa argumentação moral e ética a partir de alguns textos bíblicos. O alerta procede da teologia paulina: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15).

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Subsídios litúrgicos

Lema:

“Andai como filhos da luz porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade”. (Ef 5.8b e 9) Saudação e louvor: Salmo 85.9-14 Confissão dos pecados: Ó Deus, ao mundo é dada a liberdade de viver o teu amor e a tua alegria para com a humanidade e com a criação. Confessamos, porém, nossa falta da alegria e ausência do amor. Assumimos inúmeras tarefas, é difícil vencê-las. O sentimento que passamos é de uma vida aprisionada; as nossas ações não correspondem à exigência do evangelho. Sentimos limitações em amor-próprio, deixamos de amar as pessoas que caminham conosco. Alimentamos o ciúme; sentimos frustrações e sofremos sob o desespero. Rogamos, ó Deus: permite que possamos redescobrir a tua proximidade, que anima e reconcilia. Tem misericórdia conosco e perdoa a nossa insatisfação.

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Oração do dia: Deus, deixamos o agito da semana para trás. Viemos para cá em busca de um oásis, onde encontramos o alimento que nos satisfaz e anima. Dá-nos novas forças e a orientação do evangelho! Abre nossos olhos para que vejam não só o que é pesado, difícil e preocupante. Que nos tornemos sensíveis ao belo, à alegria, à esperança que abre novos caminhos. Em nome de Cristo. Amém. Intercessões: (Introdução) “Agradecemos, Deus, o privilégio de somarmos na tua comunidade. Obrigado pelos raios da bênção e da luz que iluminam os nossos caminhos...” Obs.: A partir dessa introdução, poderão ser formuladas intercessões concretas, abordando nomes, identificando assuntos e situações atuais que correspondam à realidade local e além-fronteiras. (No final) “Deus da misericórdia, obrigado pela sensibilidade aos clamores; os nossos pedidos não são em vão, de ti partem respostas e ações. Tu és o Deus da bênção, do amor, da esperança, hoje e sempre. Em nome de Jesus Cristo. Amém.”

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. 1ª Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. São Leopoldo: Sinodal, 2008. HERRMANN, Arnd. Werkstatt für Predigt und Liturgie, cadernos 5+6, Julho/ Agosto. Aachen: Bergmoser+Höller Verlag, 2006. p. 227-234. KÄSEMANN, Ernst. Perspectivas Paulinas. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.

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PRÉDICA: MARCOS 1.14-20

3O DOMINGO APÓS EPIFANIA 25 JAN 2015

JONAS 3.1-5,10 1 CORÍNTIOS 7.29-31

Claiton André Kunz

Todos somos chamados

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Introdução

Os quatro evangelhos relatam sobre o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, entre eles vários pescadores de profissão. Apesar de Marcos ser o evangelho mais curto e objetivo, reserva um espaço considerável ao chamado dos discípulos devido à importância do tema dentro do evangelho. Junto ao chamado para tornar-se discípulos, foi-lhes dado também a missão para a qual estavam sendo convocados. Tornar-se-iam “pescadores de homens”. De certa forma, continuariam a fazer o que já sabiam, mas o alvo de seu trabalho não seria mais o mesmo: ao invés de peixes, seres humanos seriam o objetivo de sua tarefa. O texto de Jonas, também relacionado para essa data, exemplifica essa missão, quando o profeta foi convocado por Deus para proclamar a mensagem aos homens perdidos de Nínive. Não obstante sua resistência à convocação divina, relatada no primeiro capítulo do livro, e sua possível displicência na execução da tarefa, relatada no capítulo três, Deus provoca transformação naquele povo, fazendo com que a “pescaria” seja abundante na longínqua Assíria. Já o texto de 1 Coríntios trata da urgência no cumprimento dos compromissos. Embora o contexto esteja tratando do tema do matrimônio, fica claro que o tempo se abrevia e, como consequência, deve-se realizar o serviço cristão sem demora.

2

Exegese

Quanto ao texto de Marcos 1.14-20, podemos fazer as observações que seguem. V. 14 – O texto informa que João Batista foi preso. Ele não aparecerá mais no evangelho, a não ser no seu martírio relatado no capítulo 6. Mas já nesse texto a experiência de João nos dá uma prévia do que está reservado para Jesus e seus discípulos. O pioneiro na pregação do arrependimento é também o primeiro a ser aprisionado. O verso ainda faz uma nítida demarcação do início do ministério de Jesus. Por um lado, afirma que o começo se dá após a prisão de João Batista – o tempo é demarcado. Por outro lado, informa que Jesus foi para a Galileia, cuja região dominará a metade do livro (até 8.26) – o espaço também é demarcado. No final do versículo, destaca-se a ênfase de todo o ministério de Jesus: ele foi “pregando (kēryssōn) o evangelho”.

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V. 15 – Os contemporâneos de Jesus aguardam ansiosamente a libertação do povo de Deus de seus opressores romanos. Havia a clara esperança messiânica quando Deus agiria na história, redimindo Israel, expulsando os conquistadores estrangeiros e instaurando uma nova época de paz e justiça. Provavelmente, a pregação de João Batista acendera novamente a esperança de que a intervenção divina estava próxima. A declaração de Jesus é enfática: o tempo (kairos) está cumprido, e o reino de Deus está próximo. O versículo apresenta duas expressões no indicativo (está cumprido e está próximo) e duas no imperativo (arrependei-vos e crede). Com os indicativos Jesus declara a existência de certas realidades criadas por Deus que demandam (imperativos) certas respostas daqueles que as ouvem (ou leem). V. 16 – A expressão “caminhando junto ao mar da Galileia” dá a impressão de que não há uma iniciativa proposital, nenhum encontro marcado. Jesus, entretanto, viu com um olhar de qualidade especial. Afinal, pode-se ver com olhos diferentes. Por exemplo: um animal, uma criança, um artista e um cientista olharão de modo bem diferente para uma flor no campo. Na parábola de Lc 10, o sacerdote e o levita “viram” o assaltado, porém no v. 33 o samaritano, “vendo-o, compadeceu-se dele”. Em Mc 10.21, percebe-se algo semelhante: “Fitando-o, o amou”. Jesus, portanto, abrangeu Simão e André não apenas com os olhos, mas também com o coração. E abrangeu-os com o coração para não mais perdê-los de vista. O acréscimo significativo “porque eram pescadores” parece aludir ao sentido da escolha deles e para o propósito que viria a seguir. V. 17 – A expressão Disse-lhes Jesus: Vinde após mim! é repleta de autoridade. Poderia quase ser comparada às declarações criadoras de Gn 1, nas quais chama-se algo à existência. Nenhum rabino judeu falava desse jeito. Jesus cria e exige obediência irrestrita como Deus. E eu vos farei pescadores de homens. O tempo é futuro: ainda se trata de um anúncio. Seguir Cristo ainda não é ser enviado; isso vem depois. Seja como for, o discipulado já foi direcionado com o envio anunciado. A nova vocação dos discípulos é esclarecida com auxílio da antiga. Assim como Davi, o pastor de ovelhas, de acordo com 2Sm 5.2, tornou-se pastor de pessoas, esses pescadores de peixes se tornam pescadores de gente. V. 18 – Então, imediatamente, eles deixaram as redes e o seguiram é uma expressão especial. Uma naturalidade misteriosa faz com que se voltem e os leva até Jesus. Tudo está sob a luz de 1.15, a boa notícia de Deus. Algo totalmente novo teve início. O chamado de Jesus é acompanhado da força espiritual que os faz considerar imediatamente velho o que é velho e viver o que é novo. Foi um chamado para a graça total. De forma que os discípulos não agiram por obrigação nem por leviandade, simplesmente deixaram que o Deus que se aproximara deles fosse Deus, realizando com isso o que o v. 15 chama de “crer”. V. 19,20 – Não muito distante dali, dois outros pescadores, Tiago e João, estão em seus barcos, consertando as redes. Jesus também os convida. Eles deixam seu pai Zebedeu no barco com os empregados e seguem Jesus. Essa é uma maneira irônica de começar um reino. Ninguém estabelece um reino com quatro pescadores. Mas isso é somente uma das surpresas que o relato nos oferece. O relato sucinto do chamado dos quatro pescadores enfatiza a autoridade marcante de

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Jesus e as exigências radicais de seu reino. Jesus aparece; sua palavra é revestida de autoridade. Aqueles que a ouvem obedecem sem demora, sem questionamento algum. Sua palavra encontra-os no meio de seu dia a dia. Todas as atividades e responsabilidades anteriores perdem a importância à luz das exigências superiores do reino.

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Meditação

Desde o convite e chamado feito por Jesus a Simão, André, Tiago e João, milhares (ou milhões) de pessoas já foram convidadas pelo Mestre a segui-lo. E ele continua chamando ainda hoje. Todos somos chamados para o arrependimento e a fé: O centro da mensagem, tanto de João Batista como de Jesus, era a proximidade do reino de Deus, a manifestação do domínio soberano daquele que criou todas as coisas. Diante dessa iminente manifestação, exige-se o devido preparo para aguardar a chegada do reino. A proclamação é clara: “arrependei-vos e crede no evangelho”. Arrependimento e fé são fundamentais nesse chamado. Arrependimento é o abandono ou repúdio do pecado. Em nossos dias, o arrependimento nem sempre é devidamente compreendido. Fala-se de aceitar Jesus e crer, sem mostrar que o indivíduo precisa reconhecer seu pecado e deixá-lo. É preciso ficar claro que o arrependimento é fundamento para a salvação (Lc 13.25; Mt 21.32; Mc 1.15). O arrependimento envolve três aspectos: a) O elemento intelectual: subentende uma mudança de ideia (em relação ao pecado, a Deus e a si próprio). A Bíblia fala epignosis hamartias, ou seja, o conhecimento do pecado (Rm 3.20; Sl 51.3). b) O elemento emocional: o arrependimento subentende uma mudança de sentimento. Tristeza pelo pecado e desejo pelo perdão são aspectos do arrependimento (Sl 51; 2Co 7.9-10). c) O elemento volitivo: o arrependimento subentende uma mudança da vontade e da disposição. É uma volta íntima contra o pecado. Fé é o ato de se apossar das promessas da obra de Cristo (At 16.31; Mc 16.16). Os termos básicos são o verbo grego pisteuo e o substantivo pistis. Significam “acreditar em alguém, aceitar uma verdade, crer em algo verdadeiro, confiança pessoal. A fé é uma forma de conhecimento. Ela atua em conjunto com a razão, não contra ela. A fé é o ato da alma voltar-se para Deus, assim como o arrependimento é o ato da alma voltar-se contra o pecado. Ela também envolve três aspectos: a) O elemento intelectual: a fé inclui a crença na revelação de Deus, na natureza e nos fatos históricos narrados pelas Escrituras. A fé nunca é baseada em hipóteses, mas nas melhores evidências (Rm 10.17). b) O elemento emocional: o elemento emocional é constituinte da fé, mas não pode ser tratado como o único elemento (Mt 13.20-21). c) O elemento volitivo: o elemento volitivo inclui a rendição do coração e a apropriação de Cristo como Salvador (Jo 1.12). Todos somos chamados para seguir Jesus: O convite de Jesus, após proclamação geral sobre o arrependimento e a fé, foi vinde após mim (v. 17). Assim

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como o Antigo Testamento, o judaísmo raras vezes usou “seguir” para adesão intelectual e religiosa. Essa figura, porém, de alguém que segue a certa distância uma pessoa que merece respeito, dessa forma expressando uma relação de admiração, deve ser nosso ponto de partida. Essa forma de “seguir” era comum entre os judeus nas ruas: o filho seguia seu pai, o soldado seu comandante e o escravo seu dono. O aluno também seguia seu “rabi”, o professor da lei. Nesse caso, fica evidente que o aluno faz parte da escola desse professor e, com isso, de íntima comunhão de vida com ele. O aluno estava à volta do seu professor no orar, comer, trabalhar, no dia a dia em casa e na rua. Dessa forma recebia dele uma formação marcante. Em troca, estava à disposição dele como servo (cf. 1.7). Não podemos deixar de ver as semelhanças formais com o discipulado com Jesus. As diferenças, todavia, também são grandes. Para ser aluno ou discípulo de Jesus não era possível inscrever-se, era preciso ser chamado. O ensino não se dava em lugar fixo, na sinagoga; antes, muitas vezes, em caminhos de fuga, ao relento ou no deserto. Não havia troca de professor nem formatura. O vínculo não estava na matéria a ser aprendida, mas na pessoa do próprio Jesus. “Siga-me” é a primeira e também a última palavra de Jesus a seus discípulos, de acordo com o Evangelho de Marcos (1.17; 16.7). Para esse caminho de discipulado Jesus chamou Simão e André; ele também chama todos. Todos somos chamados para nos tornar pescadores de homens: Jesus não inventou o termo “pescadores de homens”. Naquele tempo, essa era uma expressão comum, que descrevia filósofos e outros mestres que “cativavam a mente dos homens” pelo ensino e pela persuasão. Jogavam as “iscas” com seus ensinamentos e “fisgavam” discípulos. É provável que até sete dos discípulos do Senhor fossem pescadores (Jo 21.1-3). Sem dúvida, as qualidades dos pescadores bem-sucedidos também contribuiriam para o sucesso no difícil ministério de resgatar almas perdidas: coragem, capacidade de trabalhar em equipe, paciência, energia, resistência, fé e tenacidade. Pescadores profissionais não se podiam dar ao luxo de desistir e de murmurar. Assim, compete a nós, que fomos chamados ao arrependimento e à fé, que fomos chamados a seguir Jesus e trilhar o caminho do discipulado, também nos tornar pescadores de homens. A proclamação do reino e de suas exigências precisa chegar a muitas pessoas ainda, e o Senhor conta conosco para essa grande “pescaria”.

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Imagens para a prédica: A parábola dos pescadores sem peixes

Era uma associação de pescadores que viviam no meio de rios e lagos, cheios de peixes famintos. Eles se reuniam regularmente para discutir sobre o chamado para pescar, a abundância de peixe e a emoção de pegar peixes. Ficavam muito animados com o assunto da pescaria. Alguém sugeriu que o grupo precisava de uma filosofia de pesca. Assim, cuidadosamente, definiram e redefiniram a pesca e o propósito da pescaria. Desenvolveram estratégias e táticas. De repente, perceberam que haviam começado

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de trás para frente – haviam se interessado pela pescaria do ponto de vista do pescador e não do ponto de vista do peixe. Como o peixe vê o mundo? Como vê o pescador? O que e quando o peixe come? Era importante entender essas coisas. Por isso iniciaram estudos e pesquisas. Participaram de conferências sobre a pescaria. Muitos viajaram a lugares longínquos para estudar diferentes tipos de peixes, com diferentes hábitos. Alguns obtiveram Ph.D. em piscicultura. Contudo ninguém havia ido pescar. Formou-se, então, um comitê para enviar pescadores. Havia muito mais lugares propícios para pescar do que pescadores. Por isso o comitê precisava determinar prioridades. A lista de prioridades foi colocada em quadros de avisos em todos os salões da associação. Mas, como antes, ninguém estava pescando ainda. Foi feita uma pesquisa para saber por quê. A maioria não respondeu ao questionário, mas, entre os que responderam, descobriu-se que alguns se sentiam chamados para estudar a pesca, outros para fornecer equipamentos de pesca e outros ainda para encorajar os pescadores. E com tantas reuniões, conferências e seminários simplesmente não tiveram tempo para pescar. Jacó era novato na associação de pescadores. Depois de uma reunião muito animada, ele foi pescar. Fez algumas tentativas, pegou o jeito e conseguiu pegar um lindo peixe. Na reunião seguinte, ele contou sua história e foi elogiado pelo sucesso. Acabou sendo convidado para falar em todos os núcleos da associação e contar como havia sido a sua pescaria. Assim, com tantos compromissos e por ter sido eleito para a diretoria da associação, Jacó nunca mais teve tempo para pescar. No entanto, não demorou muito e ele começou a se sentir intranquilo e vazio. Teve saudades da pesca propriamente dita, de sentir o puxão no anzol. Assim decidiu deixar a diretoria da associação, bem como os demais compromissos com os núcleos, e convidou um amigo para ir pescar com ele. Os dois foram – sozinhos – e pegaram peixes. Os membros da associação de pescadores eram muitos, e os peixes eram abundantes. Mas os pescadores continuavam sendo muito poucos. (Autoria desconhecida – Fonte: Revista Ultimato)

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Subsídios litúrgicos

Na introdução, pode ser utilizada a ilustração que segue sobre O Garoto e o Pescador: Um garoto foi pescar, mas com uma ferramenta totalmente improvisada. De um galho fez a vara e com um alfinete, o anzol. Mesmo assim, conseguia fisgar peixes. Não demorou muito, e a seu lado se instalou um homem com uma tremenda tralha, uma verdadeira parafernália. Contudo não conseguia sequer perceber a presença de peixes. O garoto, que continuava fisgando lindos peixes, ficou admirado ao ver seu “companheiro” com todas as ferramentas não conseguir nada e lascou: – Ei, moço, será que o seu alfinete não está fechado? (Pr. José Wellington Bezerra da Costa)

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Bibliografia MULHOLLAND, Dewey M. Marcos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova. POHL, Adolf. Evangelho de Marcos. Curitiba: Esperança, 1998.

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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 18.15-20

4O DOMINGO APÓS EPIFANIA 01 FEV 2015

MARCOS 1.21-28 1 CORÍNTIOS 8.1-13

Gerson Correia de Lacerda

Um profeta semelhante a Moisés

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Introdução

Esta é a quarta vez que Deuteronômio 18.15-20 é colocado como texto de prédica em Proclamar Libertação. Ele já mereceu estudos de Nelson Kilpp (v. 19, de 1994) e de Haroldo Reimer (v. 31, de 2006, e v. 33, de 2009). O livro de Deuteronômio é apresentado sob a forma de discursos feitos por Moisés na época em que o povo de Israel estava na terra de Moabe, no final de sua peregrinação pelo deserto, depois da libertação da escravidão no Egito e antes da entrada na terra prometida. De acordo com tal forma de apresentação, o livro seria, então, uma “segunda lei” ou uma “repetição da lei”. Segundo essa forma de apresentação, o texto indicado para a prédica neste 4º Domingo após Epifania integra o segundo discurso de Moisés (Lv 4.44-28.68), no qual ele faz referência ao surgimento de um profeta semelhante a ele, ao qual Deus daria a sua mensagem e a quem todos deveriam ouvir. O segundo texto para este domingo é de Marcos 1.21-28, que narra a atuação de Jesus na cidade de Cafarnaum. Ali, ele transmite seu ensino de forma inusitada. Não o faz como os mestres da lei do seu tempo, que ensinavam apelando para a autoridade de famosos intérpretes da lei do passado. Ao contrário, “Jesus ensinava com a autoridade dele mesmo” (Mc 1.22). A reação das pessoas diante de Jesus foi de admiração. Surpreendentemente, porém, uma pessoa reagiu de forma diferenciada. Um homem reconheceu que Jesus era o “santo de Deus” (Mc 1.24). Em outras palavras, poderíamos afirmar que aquele indivíduo reconheceu que, em Jesus de Nazaré, cumpria-se a promessa do texto de Deuteronômio. O problema é que o único a reconhecer e a afirmar isso era considerado um homem possesso por um espírito imundo. Finalmente, o terceiro texto trata da questão dos alimentos sacrificados aos ídolos, ou seja, aos deuses. A pergunta que se fazia era a respeito da participação dos cristãos: podiam ou não podiam eles comer tais alimentos? A resposta do texto bíblico caminha em duas direções: por um lado, não havia nenhum problema na participação dos cristãos, visto que reconheciam que aqueles deuses não existiam; por outro lado, se os cristãos comessem alimentos sacrificados aos deuses, poderiam escandalizar pessoas mais fracas e, por essa razão, deviam abster-se deles. Ora, em tal contexto, o que interessa são a negação da existência de todos os deuses e a afirmação do senhorio único de Jesus (1Co 8.6), o “santo de Deus”,

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proclamado pelo homem possuído por um espírito imundo, e o “profeta semelhante a Moisés”, do texto de Deuteronômio.

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Exegese

O contexto: Tomando como ponto de partida a tese defendida por Frank Crüsemann de que o núcleo do Código Deuteronômico (Dt 12-26) tem sua origem no final do século VII a.C., quando o Império Assírio estava em franca decadência, fazendo com que houvesse um vazio no cenário político internacional e possibilitando a implementação de reformas no Reino de Judá, levadas a efeito sob o reinado de Josias, podemos afirmar que seu conteúdo representa uma revisão do Código da Aliança. Não se trata, pois, de uma repetição das leis do Código da Aliança. Ao contrário, como afirma Crüsemann, trata-se de uma substituição do Código da Aliança, tendo em vista a nova realidade histórica vivida pelos judeus. E essa substituição foi colocada sob a forma de discursos proferidos por Moisés. É importante ressaltar a diferença: o Código da Aliança é apresentado como procedente diretamente de Deus, ao passo que o Código Deuteronômico é colocado como resultado da intermediação de Moisés, que profere discursos nos quais apresenta a vontade do Senhor. O texto de Deuteronômio para este domingo deve ser visto levando em consideração o conteúdo que o precede a partir do versículo 9. Nele são condenadas as práticas religiosas pagãs. Eram práticas comuns naquela época. Por um lado, eram práticas através das quais as pessoas procuravam manipular os deuses, oferecendo seus próprios filhos em sacrifício. Por outro lado, eram práticas mágicas, mediante as quais procuravam desvendar os mistérios do futuro. Nem uma coisa nem outra eram permitidas ao povo de Israel. Ao invés de tentar ter o controle sobre a vontade de Deus, a orientação era a submissão a seus desígnios. Ao invés de buscar desvendar o futuro antecipadamente, a orientação eram a confiança e a fé nos propósitos divinos. É nesse contexto que se apresenta o texto em que aparece a promessa de envio de um profeta semelhante a Moisés. Através dele Deus manifestaria sua vontade soberana. Por intermédio dele o povo de Israel receberia orientação segura, sem necessitar de conselhos de adivinhadores do futuro. O texto: A partir daí temos a promessa do futuro profeta feita por Deus. Dessa promessa destacamos os seguintes pontos: 1) Um profeta de Deus, mas do meio do povo – Iahweh teu Deus suscitará um profeta como eu no meio de ti dentre os teus irmãos, e vós o ouvireis (v. 15). Destaca-se aqui, em primeiro lugar, a iniciativa de Deus. É o Senhor quem levanta um profeta. Trata-se, pois, de uma pessoa vocacionada e sustentada por Deus. Foi por vocação divina que surgiram os grandes profetas do Antigo Testamento. Todos eles se sentiram chamados por Deus para cumprir uma missão divina. Em outras palavras, o profeta a ser suscitado por Deus não seria um profeta profissional, como muitos que existiram no tempo da monarquia. Os profetas profissionais serviam aos reis. Eram profetas do palácio. Auferiam vantagens

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pessoais em troca de suas profecias. Viviam no luxo da corte. Em troca disso, só anunciavam mensagens que agradavam aos ocupantes do trono. Seu compromisso não era com uma vocação divina, mas com os ocupantes do trono. Mas, em segundo lugar, tal profeta seria suscitado do meio do povo, dentre os seus irmãos. Não é um mensageiro celestial, um querubim ou serafim. Nada de espetacular ou de sobrenatural indicaria sua vocação divina. Ao contrário, seria um profeta perfeitamente humano, assim como Moisés. Isso certamente poderia gerar um problema: seria possível identificá-lo como profeta de Deus? Não seria ele um desafio à fé? 2) Um profeta intermediário entre Deus e o ser humano – É o que tinhas pedido da Iahweh, teu Deus, no Horebe, no dia da assembleia: “Não vou continuar ouvindo a voz de Iahweh, meu Deus, nem vendo este grande fogo, para não morrer” (v. 16). A referência aqui é ao texto de Deuteronômio 5, quando o povo de Israel ficou com medo diante da manifestação da glória de Deus e pediu a Moisés que atuasse como intermediário. Naquela ocasião, o povo ficou com medo de ser destruído por contemplar a glória do Senhor. Foi o mesmo sentimento que tomou conta de Isaías ao contemplar a glória do Senhor no templo. Ele também sentiu que estava perdido e que iria perecer por ser um simples pecador diante da glória de Deus. Foi por causa disso que o povo solicitou que Deus atuasse através de um mediador. Deus considerou justo o pedido de um intermediário feito pelo povo. Esse iria receber a mensagem do Senhor e depois se incumbiria de transmiti-la ao povo. 3) Um profeta humano, mas com mensagem divina – Colocarei as minhas palavras em sua boca, e ele lhes comunicará tudo o que eu lhes ordenar (v. 18). Apesar de o profeta ser um intermediário humano, sua mensagem não seria dele mesmo, mas de Deus. Aconteceria com ele o mesmo que sucedeu a Jeremias, que, ao ser vocacionado, alegou que não poderia cumprir sua missão, pois não sabia falar. No entanto, o Senhor tocou sua boca, afirmando que colocava nela sua própria palavra. 4) Um profeta fiel – Todavia, se o profeta tiver a ousadia de falar em meu nome uma palavra que eu não lhe tiver ordenado, ou se ele falar em nome de outros deuses, tal profeta deverá ser morto (v. 20). Temos aqui uma referência aos falsos profetas. Eles eram aqueles que proferiam mensagens que não procediam de Deus ou que procediam de falsos deuses. Sua presença não podia ser tolerada no meio de Israel. Tinham de ser mortos. Havia, contudo, um sério problema: como distinguir a falsa profecia da verdadeira? Segundo o nosso texto, havia necessidade de esperar a fim de verificar se a história comprovava ou não a mensagem profética. Em outras palavras, eram precisos tempo e paciência. Nenhuma providência deveria ser intempestiva. Era preciso aguardar o que o futuro diria sobre a mensagem proferida. Somente o futuro poderia comprovar ou não a fidelidade profética.

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Meditação

Estamos no 4º Domingo após Epifania. Nele celebramos a manifestação de que Jesus é o Messias enviado por Deus para salvar o mundo. A criança nascida pobremente em Belém era bem mais do que uma simples criança. Nela se cumpria a promessa do envio de um profeta semelhante a Moisés, feita muitos anos antes. Que profeta era esse? 1) Um profeta revelador: Nos tempos do Antigo Testamento, as pessoas tinham um profundo interesse por revelações a respeito do futuro. Por isso tinham enorme sucesso as pessoas que eram consideradas possuidoras de poderes espetaculares para fazer “presságios, oráculos, adivinhações e magias ou que praticavam encantamentos, que interrogavam espíritos ou adivinhos, ou ainda que invocassem os mortos” (Dt 18.10,11). Tudo isso era muito comum, tanto entre os egípcios como entre os cananeus e os mesopotâmios. Contra toda essa prática religiosa colocou-se a vontade de Deus. No meio de Israel, todas essas práticas religiosas ligadas às revelações sobre o futuro foram interditadas. No lugar delas foi colocada a revelação de Deus e de sua vontade para o seu povo. Deus revelou-se como libertador (“Eu sou Iahweh, teu Deus, que te fez sair do país do Egito, da casa da servidão” – Êx 20.1) e Deus estabeleceu suas leis para o seu povo (“Tu farás...”). Foi nessa linha que atuou Jesus. Como o profeta prometido, ele nos revelou quem é Deus e o que Deus quer de nós. No entanto, ironicamente, nos dias de hoje, em muitas igrejas, profetas e profetisas apresentam-se em nome de Deus com presságios, oráculos e adivinhações. Em tal situação, temos de resgatar a face reveladora de Deus e de sua vontade no semblante de Jesus de Nazaré, o profeta semelhante a Moisés. 2) Um profeta intercessor: Nos tempos do Antigo Testamento, também era relativamente comum a prática de sacrifícios humanos. Eles eram realizados como uma forma extremada de pressionar os deuses, a fim de que atendessem os pedidos dos seus fiéis. Temos um exemplo disso na guerra contra Moabe, empreendida pelo rei Jorão (2Rs 3). Naquela oportunidade, sentindo-se perdido, o rei de Moabe ofereceu seu próprio filho em holocausto. Esse tipo de prática chegou a ocorrer em Israel. Foi essa a denúncia feita pelo profeta Jeremias quando disse: “Os filhos de Judá construíram altares para queimar seus filhos e suas filhas” (Jr 7.31). No lugar da realização de sacrifícios humanos, o povo de Israel contou com Moisés, que muitas vezes intercedeu em seu favor. Moisés chegou ao ponto de pedir que Deus riscasse seu próprio nome do “livro que escreveste” se não perdoasse o seu povo (Êx 32.32). No mesmo sentido atuou Jesus. Ele intercedeu por seus seguidores (Jo 17). Não somente orou em seu favor, mas entregou sua própria vida por nós. E, ressuscitado e elevado à presença de Deus, Jesus continua a interceder por nós (Rm 7.34). Infelizmente, ao longo da história, a igreja tem inventado outros intercessores junto a Deus. Mesmo em nossos dias, líderes religiosos apresentam-se

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como intercessores os quais Deus atende e conquistam muitos adeptos. Diante disso, temos de resgatar a fase intercessora de Jesus de Nazaré, o profeta semelhante a Moisés. 3) Um profeta libertador: Foi essa a grande missão desenvolvida por Moisés. Coube a ele enfrentar os poderes dos opressores que mantinham o povo de Israel no cativeiro. Coube também a ele conduzir o povo da terra da opressão para a terra da libertação. Também foi essa a missão desenvolvida por Jesus de Nazaré. E uma demonstração de sua atuação como profeta libertador foi dada exatamente no início do seu ministério em Cafarnaum, quando libertou um homem que vivia sob a opressão de um espírito impuro. Não foi, porém, só nesse momento que Jesus atuou como libertador. Durante todo o seu ministério, ele enfrentou os poderes opressores do seu tempo. Não foi por acaso que se uniram contra ele as forças políticas e religiosas do seu tempo. Assim como Moisés enfrentou toda a oposição do faraó, também Jesus sofreu o combate sem tréguas dos escribas, fariseus e sacerdotes, que o entregaram, finalmente, nas mãos dos romanos. Ao longo do tempo, porém, a atuação de Jesus como profeta libertador foi sendo obscurecida pelos poderes deste mundo. Poderes políticos, econômicos e ideológicos formaram um grande conluio para deformar sua apresentação. E, infelizmente, até mesmo a igreja, muitas vezes, tem tomado parte nessa conspiração. Precisamos resgatar a face libertadora do Jesus de Nazaré, o profeta semelhante a Moisés, suscitado por Deus do meio do seu povo.

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Imagens para a prédica

1) “Como o primeiro libertador (Moisés), assim também o último (Jesus)”: “Assim como Lucas traça um paralelo entre a infância de Jesus e a de João Batista, de forma semelhante Mateus traça um paralelo entre a infância de Jesus e a de Moisés. Era crença na época do Novo Testamento que o Messias libertador dos últimos tempos seria também o novo Moisés, fazendo sinais e milagres como Moisés. Até se dizia: ‘Como o primeiro libertador (Moisés), assim também o último (o Messias)’. Sabemos que Mateus apresenta, em seu evangelho, Cristo como o novo Moisés, que, à semelhança do primeiro, deu também uma nova lei na montanha: o Sermão da Montanha. [...] Como se deu com o primeiro libertador, assim também com o último. Jesus é realmente o Messias-Libertador esperado e o profeta escatológico” (BOFF, 1985, p. 127). 2) Moisés: “Moisés, por meio de visões e comunicação direta da vontade de Deus, recebeu a missão de conduzir a libertação dos israelitas escravizados do Egito. Pregando a confiança a um povo desesperado, ele organizou o movimento de libertação. [...] Depois Javé, através de Moisés, conduziu seu povo libertado através de provas e preparações no deserto até a entrada na terra prometida” (HORSLEY; HANSON, 1995, p. 127).

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Subsídios litúrgicos: Afirmação de fé

O Senhor da minha fé: Não creio no deus dos magistrados nem no deus dos generais ou das orações patrióticas. Não creio no deus dos hinos fúnebres nem no deus das salas de audiências ou dos prólogos das constituições ou dos epílogos dos discursos eloquentes. Não creio no deus da sorte dos ricos nem no deus do medo dos opulentos ou da alegria dos que roubam o povo. Não creio no deus da paz mentirosa nem no deus da justiça impopular ou das venerandas tradições nacionais. Não creio no deus dos sermões vazios nem no deus das saudações protocolares ou dos matrimônios sem amor. Não creio no deus construído à imagem e semelhança dos poderosos nem no deus inventado para sedativo das misérias e sofrimentos dos pobres. Não creio no deus que dorme nas paredes ou se esconde nos cofres das igrejas. Não creio no deus dos natais comerciais nem no deus das propagandas coloridas. Não creio no deus feito de mentiras, tão frágil como o barro, nem no deus da ordem estabelecida sobre a desordem consentida. O Deus da minha fé nasceu numa gruta. Era judeu. Foi perseguido por um rei e caminhava errante pela Palestina. Fazia-se acompanhar por gente do povo. Dava pão aos que tinham fome, luz aos que viviam nas trevas, liberdade aos que jaziam acorrentados, paz aos que suplicavam por justiça. O Deus da minha fé colocava o ser humano acima da lei e o amor no lugar das velhas tradições. Ele não tinha uma pedra onde recostar a cabeça e confundia-se com os pobres... O Deus da minha fé não é outro senão o filho de Maria e de José, Jesus de Nazaré. Todos os dias ele morre crucificado pelo nosso egoísmo. Todos os dias ele ressuscita pela força do nosso amor (Frei Betto).

Bibliografia BOFF, L. Jesus Cristo Libertador. Petrópolis: Vozes, 1985. CRÜSEMANN, F. A Torá – Teologia e história social da lei do Antigo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2002. HORSLEY, R.; HANSON, J. S. Bandidos, Profetas e Messias. São Paulo: Paulus, 1995.

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PRÉDICA: MARCOS 1.29-39

5O DOMINGO APÓS EPIFANIA 08 FEV 2015

ISAÍAS 40.21-31 1 CORÍNTIOS 9.16-23

Scheila dos Santos Dreher Deus, teu amor, é qual paisagem bela, qual campo aberto, lar e proteção. Libertos para o encontro de nós mesmos, libertos para em comunhão viver. (HPD 1, 176)

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Introdução

O tom comum aos três textos bíblicos propostos para este 5º Domingo após Epifania é o anúncio do evangelho: O reino de Deus está perto (Mc 1.15). O alvo são as pessoas mais fragilizadas na sociedade. Por isso a boa notícia é experimentada no cuidado emocional, espiritual e corporal, junto a Jesus. No Salmo 40.21-31, o salmista exalta o poder de Deus Criador. Deus, que está acima de tudo e de todos, governa em todos os tempos, coloca-se junto às pessoas cansadas e fragilizadas e intervém para o bem das pessoas que confiam nele. Marcos 1.29-39 descreve uma sequência de ações de Jesus num período de vinte e quatro horas: de sábado até domingo pela manhã. As ações de Jesus são libertadoras. No ensino, nas curas e na expulsão de demônios, o reino de Deus vai acontecendo por seu intermédio. O chamado é para uma nova vida (Mc 1.15b). A inclusão das pessoas pobres, doentes, discriminadas por razões diversas numa sociedade que classifica as pessoas com valoração distinta por gênero, condição social, condições físicas, raça e religião é sinal da irrupção do Reino. Em 1 Coríntios 9.16-23, o anúncio do evangelho é apresentado como algo intrínseco à pessoa cristã. Com relação a Marcos 1.29-39, o anúncio do evangelho acontece: 1) onde e quando eu percebo a necessidade da outra pessoa (junto à sogra de Pedro, por exemplo, através da cura); 2) quando a necessidade da boa-nova está diante de mim (situação experimentada por Jesus quando pessoas doentes foram trazidas a ele para ser curadas); 3) e no anúncio do evangelho para além da situação de conforto na qual me encontro (no texto principal, quando Jesus chama os quatro discípulos para sair da casa de Pedro e acompanhá-lo para anunciar o evangelho em outras localidades). “Ai de mim se não anunciar o evangelho” – diz o apóstolo Paulo. Meu pagamento é a satisfação de anunciar o evangelho (1Co 9.18).

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Exegese

O movimento de Jesus nasceu dentro do judaísmo. Assim como um escriba, Jesus estava cercado por discípulos, aos quais ele ensinava a vontade de

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Deus por meio de parábolas, ditos e interpretações da Bíblia de então. Porém a atividade messiânica de Jesus ultrapassava, e muito, a de um escriba. Segundo o v. 22, “as pessoas que o escutavam ficavam muito admiradas com a sua maneira de ensinar. Jesus ensinava com a autoridade dele mesmo e não como os professores da Lei”. Além disso, as ações de Jesus – a presença junto a pessoas consideradas de menor valor e junto a pessoas consideradas impuras e pecadoras, as curas, a expulsão de demônios e os milagres –, que acompanhavam os seus ensinamentos, distinguiam-no da atividade característica de um escriba. O texto de Marcos 1.29-39 acompanha-nos no tempo litúrgico de Epifania/ Revelação, que teve início no Dia dos Reis em 06 de janeiro e se estenderá até o 1º Domingo na Quaresma. O texto testemunha acerca do início do ministério de Jesus. A tensão manifesta no texto está justamente entre a messianidade oculta e a revelada de Jesus. Tanto as curas como os milagres e a expulsão de demônios revelavam o amor incondicional de Deus. O alvo da atividade de Jesus eram as pessoas mais fragilizadas; de forma alguma, as curas e os milagres visavam à promoção pessoal. No Antigo Testamento, Messias (mashiah, em grego christos) era a designação para o ungido, ou seja, o rei israelita que ocupava o governo. Segundo Goppelt, “a atividade de Jesus não corresponderia a nenhuma das imagens de Messias da concepção veterotestamentário-judaica, e Jesus não teria criado nenhuma nova imagem própria de Messias. [...] A única pessoa que, segundo a tradição sinótica, cogita seriamente a respeito da sua ‘messianidade’ nos dias terrenos é João Batista. João não pergunta se há correspondência com as imagens veterotestamentárias judaicas a respeito do Messias, mas pergunta a respeito do cumprimento da promessa: ‘És tu o que há de vir?’ E Jesus [...] aponta [...] para o conteúdo central do tempo da graça, anunciado por todas as profecias, e afirma: Por meu intermédio isso ocorre” (p. 187). No Evangelho de Marcos, o “mistério do Messias” engloba uma série de ordens de Jesus aos demônios para que se calem a respeito de sua identidade; proibição às pessoas curadas de contar a respeito do autor da cura e revelação somente aos discípulos de sua messianidade. É de se esperar que as pessoas não entendam claramente quem é Jesus no início do seu ministério. Marcos “costura” o testemunho bíblico acerca do ministério de Jesus ocultando sua messianidade, porque Jesus, enquanto Salvador, não corresponde ao Messias esperado pelo povo judeu – não é um Salvador que tomará o poder político nas mãos, como um rei ungido –, tampouco é um milagreiro, exorcista ou curandeiro, como passava a ser visto por muitos. Na vivência junto a Jesus, as pessoas experimentaram “os sinais da graça”, o reino acontecendo. Mas somente a partir do evento da cruz e da ressurreição a messianidade de Jesus pode ser totalmente compreendida. Se nos ativermos somente ao Evangelho de Marcos, teremos a impressão de que a relação de Jesus com Simão Pedro, André, Tiago e João era muito recente – a partir do convite à beira do lago da Galileia (Mc 1.16-20). O evangelista João testemunha, no entanto, que André era um dos seguidores de João Batista (Jo 1.35-42). Quando André teve um primeiro contato com Jesus, levou seu irmão Simão até ele, que passou a chamá-lo de Cefas (Pedro). Marcos 1.29-39 testemu-

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nha sobre a saída de Jesus da casa de oração em Cafarnaum após haver expulsado um espírito mau e sobre o deslocamento do grupo até a casa dos irmãos Simão Pedro e André. Já existia, portanto, entre o grupo, certa relação de familiaridade, e o seguimento dos discípulos ocorria a partir da relação de confiança e de fé (Jo 1.36s, 41). Na casa de Simão Pedro e de André, contaram a Jesus sobre a enfermidade da sogra de Pedro. Ele a tocou (num sábado!) e curou; e ela passou a cuidar deles. Ao entardecer, muitas pessoas doentes e possuídas por espíritos maus foram trazidas a Jesus, e ele também as curou. Todo o povo da cidade – testemunha o evangelista talvez com certo exagero – estava reunido em frente à casa da família de Pedro e André. Jesus não permitia que os espíritos maus anunciassem quem ele era. No amanhecer do dia seguinte, Jesus retirou-se para um lugar deserto para orar. Os discípulos e outras pessoas puseram-se a procurá-lo. Veja que no Evangelho de Lucas é o povo quem o procura e não quer deixá-lo seguir adiante. Jesus chamou os discípulos para acompanhá-lo aos povoados vizinhos. O texto conclui dizendo que Jesus anunciava o evangelho nas casas de oração e expulsava os espíritos maus. Ou seja, o testemunho bíblico de Marcos 1.29-39 descreve a atividade de Jesus durante o período de um dia – cura da sogra de Pedro durante a manhã, curas ao entardecer, oração ao amanhecer e convite para seguir adiante pela manhã – em favor das pessoas que o buscam: gente que se encontra fragilizada.

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Meditação

Para o povo que foi se aproximando de Jesus no início do seu ministério ainda não estava claro quem ele era. Ainda que sua autoridade em anunciar a palavra de Deus já fosse reconhecida como algo peculiar, suas curas e seus milagres certamente atraíam as pessoas mais do que seu ensino. Deus foi se revelando em Jesus. Nos ensinamentos e nas ações de Jesus, percebemos que Deus via e vê o sofrimento das pessoas e não fica alheio à sua dor. Jesus não fez algo com vistas a demonstrar o seu poder; mas a misericórdia do próprio Deus alcançou e alcança as pessoas em sua fraqueza, através de Jesus, e revela quem é Deus. Nos ensinamentos e nas ações de Jesus, Deus foi ganhando um rosto concreto. Durante todo o seu ministério, Jesus acudiu e acolheu as pessoas que se encontravam excluídas: doentes, pessoas consideradas pecadoras no âmbito do judaísmo, gente de “menor” valor, como as crianças e as mulheres, pessoas estrangeiras. Com Jesus e a partir do discipulado o reino de Deus já acontece entre nós, à medida que nos sentimos livres para servir, como no caso da sogra de Pedro, que, uma vez curada, se pôs a fazer o que se esperava das mulheres no âmbito doméstico, sem que houvesse diminuição do valor de sua ação. A saúde ocupa o topo da lista de prioridades na vida das pessoas em geral, especialmente a partir da meia-idade. Investe-se o que se tem e, às vezes, o que não se tem na busca pela saúde, porque, quando ela nos falta, ficamos “sem chão” diante da nossa fragilidade de ser humano e, em muitas ocasiões, confrontamo-nos com a finitude da vida – a morte – ao nosso redor. Assim como hoje, no tempo de Jesus as pessoas conviviam com a doença e a saúde. Entre outras doenças,

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identificavam-se a lepra (hanseníase) – embora não com o conhecimento que se tem hoje da doença –, a paralisia, a surdez, a cegueira e a disenteria crônica em função do clima. A febre violenta que tomou conta da sogra de Pedro era, provavelmente, segundo Daniel-Rops, uma malária. Os quatro evangelistas relatam sobre muitas situações de doença. Para a maioria das doenças não havia diagnóstico preciso. Doenças mentais e outras não diagnosticadas eram identificadas como possessão demoníaca. De Maria Madalena foram expulsos sete demônios (Lc 8.1-2). Isso significa que ela estava seriamente enferma, visto o número sete na Bíblia estar associado à plenitude (Deus criou o mundo em “sete” dias). Além disso, doença, no tempo de Jesus, era entendida como resultado de pecado. Por isso estar doente significava viver à margem da sociedade e da vida religiosa; em alguns casos, a pessoa ficava sujeita realmente ao isolamento, condenada a viver fora dos muros da cidade. Através das curas Jesus incluiu, reintegrou à sociedade e à vida religiosa; dignificou. Em várias ocasiões, nem mesmo o sábado lhe foi empecilho para curar. A necessidade da outra pessoa ditava sua ação. E as curas foram acontecendo. Houve pessoas que se arriscavam (em termos de saúde e diante da discriminação) a andar na companhia de pessoas doentes para trazê-las a Jesus, porque era fundamental que a saúde fosse restabelecida. Também hoje a doença da outra pessoa precisa ser encarada com a mesma seriedade com que encaro minha própria enfermidade. Somente assim haverá ação coerente com o evangelho, de minha parte, diante da falta de saúde de outra pessoa. Ao longo do ministério de Jesus, a oração mostrou-se como um momento de restauração. Em muitas ocasiões, Jesus retirou-se para um lugar sossegado a fim de orar. No silêncio, é possível ouvir a própria voz, é possível conversar com Deus e reencontrar o próprio equilíbrio. No silêncio, há tempo oportuno para meditar na palavra de Deus e retornar mais fortalecido para as lutas do dia a dia. Mas o culto comunitário se mostra como espaço privilegiado do encontro de Deus com seu povo. No culto, também nosso horizonte de oração se torna mais amplo. Tanto a meditação e oração individuais como a oração, a pregação e a participação na Santa Ceia no culto são fundamentais para a vida da pessoa cristã. Martim Lutero dizia: “Hoje tenho muito a fazer, por isso vou precisar orar muito”.

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Imagens para a prédica

a) Poder-se-ia iniciar o culto recitando, em forma de poema, uma canção do âmbito do culto das crianças, escrita por Zeni Soares, com melodia de Moisés Granado. 1. Será Deus um Pai bondoso, paciente, carinhoso, que me ouve com atenção e segura minha mão? 2. Será Deus a mãe que sente a tristeza e a dor da gente? Mãe que anima, que dá vida, que devolve a fé perdida? 3. Será Deus como um amigo a brincar, correr comigo, repartindo seu brinquedo e guardando o meu segredo?

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4. Deus, Deus é tudo isso e também bem mais do que isso! Pois sendo ele amor, é o pai que me guia, é a mãe que acaricia e é o amigo com quem posso contar dia após dia! (Essa canção está disponível no CD do culto das crianças: “Alô, alô, aqui estamos nós!”, produzido pelo Sínodo Vale do Taquari em 2002) b) Um cartaz que nos acompanha há algum tempo traz o seguinte dizer em língua alemã: Christus hat viele Gesichter – Deus tem muitos rostos. Nós encontramos Deus junto a quem sofre por doença, mas também por discriminação de raça, de sexo ou discriminação econômica; nós o encontramos nas pessoas que já nem contam, porque não produzem. Nesse sentido, o desafio de perceber o sofrimento e ser sensível a ele, de acolher e socorrer diante da necessidade manifesta e ainda de procurar conhecer a realidade das pessoas, para ser útil e coerente ao evangelho, não fica limitado somente à questão da saúde, também quando refletimos sobre o texto de Marcos 1.29-39. c) Ricardo Rieth publicou nos Estudos Teológicos um texto intitulado “Cruz e cura na teologia e na poimênica de Lutero”. A partir de escritos do reformador Martim Lutero e de um sermão proferido por ele em 1535 a respeito de Mateus 8.5-13, Rieth apresenta algumas teses para discussão muito interessantes. Para Lutero, o discipulado acontece sob a cruz. Nas palavras de Ricardo Rieth, “à vida cristã pertence uma prontidão, uma disposição ao sofrimento, que não rejeita confessar o nome de Cristo quando isso poderia trazer desvantagem. [...] O sofrimento, porém, não é um fim em si mesmo. [...] Que dizer do sofrimento espiritual e físico, que independentemente da confissão do nome de Cristo acomete uma pessoa. Com frequência, pessoas são levadas por causa disso a refletir sobre a própria vida, encontrando, aprofundando ou então perdendo sua fé em Cristo. As pessoas não precisam preservar esse sofrimento para permanecer cristãs. Podem, sim, devem pedir a Deus por cura” . Rieth chama a atenção para a prática indicada por Lutero da unção às pessoas doentes como algo pertencente ao cotidiano (e não como extrema-unção) a partir de orientação bíblica. Constata que Lutero convocava a pessoa que ministrava a unção, bem como os presbíteros que a acompanhavam, a insistir na oração “até que Deus escute”.

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Subsídios litúrgicos

Palavra de saudação: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mt 9.12). Canções sugeridas: HPD 1, 229 – Os que confiam no Senhor; HPD 2, 440 – Gente que espera; HPD 2, 441 – Jesus Cristo, esperança para o mundo; HPD 2, 459 – Oração da igreja; Canção do Cuidado e Cuida bem, Senhor (ambas as canções da autoria de Rodolfo Gaede Neto). Notícias atuais sobre o sofrimento em função da escassez de recursos de saúde Brasil afora podem ser apresentadas, em forma de manchete, no início da

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pregação ou no espaço do Kyrie. Da mesma forma, notícias que indiquem ações em favor do bem-estar das pessoas podem ser apresentadas em forma de partilha no final da pregação ou no espaço do Glória. Como Confissão de fé no culto, alguém poderia ler do texto indicado como leitura: “O Eterno criou o mundo inteiro e o governa em todos os tempos. Ele não se cansa, não fica fatigado; ninguém pode medir a sua sabedoria. Aos cansados ele dá novas forças e enche de energia os fracos. Até os jovens se cansam, e os moços tropeçam e caem; mas os que confiam no Deus Eterno recebem sempre novas forças” (Is 40.21-31). Caso no culto aconteça a celebração da Santa Ceia, sugiro utilizar como voto, no final da comunhão, Marcos 3.35: “Jesus Cristo diz: Quem faz a vontade de Deus é meu irmão, [e minha] irmã (e mãe)”. Na Oração geral, neste culto, é especialmente importante solicitar que a comunidade mencione o nome de pessoas adoentadas (também enlutadas, vítimas de catástrofes, vítimas de violência), para que se possa incluí-las na oração, lembrando também das cuidadoras e dos cuidadores.

Bibliografia DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1991. GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1976. v. 1. RIETH, Ricardo Willy. Cruz e cura na teologia e na poimênica de Lutero. Estudos Teológicos, São Leopoldo: IEPG, ano 43, n. 2, p. 7-19, 2003.

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PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 4.3-6

ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA 15 FEV 2015

MARCOS 9.2-9 2 REIS 2.1-12

Joel Haroldo Baade e Aline Danielle Stüewer

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Introdução

O texto de 2Co 4.3-6 já foi objeto de análise em outros volumes de Proclamar Libertação (v. IX, p. 157; v. XIV, p. 165). A temática central do texto está na distinção do pregar a si mesmo em contraposição à pregação do Cristo crucificado. O testemunho cristão é constantemente ameaçado pela pretensão de satisfação dos próprios desejos egoístas e pela acomodação à situação mais confortável, como ocorreu com os discípulos, segundo relato do texto de leitura em Marcos 9.2-9. No Último Domingo após Epifania, sempre é lembrado o episódio da transfiguração de Jesus. O texto do evangelho lembra que Jesus subiu um monte (que a tradição identifica como o monte Tabor) com seus discípulos e ali revelou sua natureza gloriosa. Tudo isso aconteceu um pouco antes de sua prisão e crucificação. Os discípulos gostaram de estar ali com esse Cristo tão majestoso e não queriam mais descer e enfrentar a realidade tão cruel que os esperava. Jesus, entretanto, chama-os para o testemunho. Para os discípulos, era importante conhecer o Cristo glorificado, mas também o Cristo crucificado. O verdadeiro discípulo de Cristo desce o monte e enfrenta a realidade, por mais difícil que seja, tendo a certeza de que o próprio Cristo permanece ao lado daqueles que o testemunham e vivem o evangelho. A fim de comparar duas versões distintas do texto, fez-se uso das versões de Almeida Revista a Atualizada (ARA) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), considerando que são as versões mais usadas no contexto da IECLB.

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Exegese

A Segunda Carta aos Coríntios é uma carta do apóstolo Paulo dirigida aos cristãos da cidade de Corinto. Corinto é uma cidade muito antiga. Estima-se que ela tenha sido fundada por volta de 1000 a.C. Além de um importante centro de comércio, era também local de adoração de divindades como Afrodite, Ísis, Osíris e Poseidon. Além disso, celebrava-se o culto ao imperador. Na época em que Paulo escreve sua carta, Corinto tinha algo entre 250 e 500 mil habitantes, sendo que 2/3 desse total eram constituídos de escravos. Alguns estudos apontam para uma má fama de Corinto, que supostamente era dominada pela riqueza e pela luxúria. Expressões como “viver à moda de Corinto” tinham conotação negativa.

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Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50/51 (At 18), dedicando-se inicialmente à evangelização dos judeus que ali residiam. Como houve resistência, passou a pregar também a não judeus, de modo que a comunidade cristã que ali se forma acaba sendo constituída de muitos gregos convertidos e de alguns judeus. 1Co 1.26-29 indica que se tratava de pessoas de origem humilde. Contudo não tardou para que divergências comprometessem a unidade da comunidade cristã ali constituída, o que levou Paulo a escrever sua Primeira Carta aos Coríntios. Depois disso, ao que parece, houve a presença de grupos judaizantes na comunidade, acarretando em risco de divisão ou mesmo dissolução da comunidade. Isso levou Paulo novamente a Corinto e também motivou a escrita da Segunda Carta aos Coríntios. Por isso a carta também tem forte conotação pessoal. Nos capítulos 8 e 9, aborda-se a questão da oferta para a comunidade de Jerusalém (HÖRSTER, 1996). 2Co 4.3-6 insere-se no bloco 1.12-7.16, que é basicamente uma retrospectiva do apóstolo sobre os fatos passados dele com a comunidade e uma autodefesa em vista de possíveis questionamentos sobre o caráter apostólico de sua atuação. Mais especificamente, 2Co 4.3-6 faz parte da reflexão sobre o ministério da nova aliança, que é tema nos capítulos 3 e 4 (HÖRSTER, 1996). Hörster (1996) considera o capítulo 4 uma unidade que pode ser denominada “A luz do evangelho no serviço do apóstolo”, sendo que os v. 5-7 seriam centrais. A perícope em questão (2Co 4.3-6) trata do entendimento do evangelho e do apóstolo como servo de Deus nessa tarefa. V. 3-4 – Faz-se aqui uma possível alusão a uma divisão da comunidade. Há pessoas que não veem a mensagem do evangelho, pois sua visão é encoberta pela escuridão ou o deus deste mundo não lhes permite ver a imagem de Deus revelada em Cristo. Portanto a descrença de alguns não se deve à atuação deficitária do apóstolo, mas da servidão a outros propósitos que não os do Deus de Jesus Cristo. Comparando-se as versões de ARA e NTLH no v. 4, destacam-se: a) “deus deste século” (ARA) e “deus deste mundo” (NTLH); b) “cegou o entendimento dos incrédulos” (ARA) e “conservou a mente deles na escuridão” (NTLH); e c) “imagem de Deus” (ARA) e “como Deus realmente é” (NTLH). V. 5 – Este versículo pode ser considerado central para a interpretação do texto: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus”. Com isso se diz que a autoridade da mensagem anunciada não decorre do anunciante, mas do próprio Deus, cujo seguimento não leva à posição privilegiada, mas deve mostrar-se no serviço ao próximo por amor de Cristo. Esse aspecto é, aliás, central na teologia de Paulo, que se reconhece escolhido desde antes do nascimento (Gl 1.15) para a realização de uma tarefa divinamente ordenada (LADD, 2003). A diferença entre as duas versões utilizadas é mais substancial no final do versículo: “por amor de Jesus” (ARA) e “por causa de Jesus” (NTLH). O aspecto do amor na causa de Cristo pode ser reforçado durante a mensagem. O discipulado cristão não é obediência a normas e procedimentos, mas é serviço em amor de Jesus. V. 6 – Por fim, o apóstolo reconhece a ação de Deus na transformação de sua própria vida. A ação de Deus não é exterior, mas é a mudança empreendida no

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coração; é a mudança de todo o ser, em que as trevas e a escuridão são dissipadas pela luz da glória de Deus. Essa luz “brilha no rosto de Jesus Cristo”. Assim, é Cristo quem revela a imagem de Deus, e somente a contemplação de Cristo pode produzir a mudança de vida e a fé. Considerando a linguagem mais rebuscada na versão ARA, sugere-se a leitura do texto para a comunidade na NTLH.

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Meditação

O apóstolo Paulo estava preocupado e triste com a maneira como o evangelho estava sendo pregado por algumas pessoas. Alguns pregadores enalteciam a si mesmos e não o Cristo crucificado. Olhando para a realidade da igreja, percebe-se que também hoje o evangelho está sendo pregado por muitos de forma equivocada. É preocupante a maneira como muitas igrejas têm usado o evangelho para ludibriar e enganar pessoas fragilizadas. O apóstolo Paulo fala que algumas pessoas foram cegadas pelo deus deste século e por isso não conseguem enxergar a verdade do evangelho. Contemplando essa realidade, qual é o deus deste século? O que tem escondido a verdade do evangelho? Há muitas pessoas buscando a igreja para conseguir sucesso financeiro e prosperidade econômica. O dinheiro e o sucesso profissional têm se tornado o objeto central da pregação do evangelho e não a fidelidade a Jesus e o comprometimento com sua obra. Pessoas têm buscado a igreja para seu entretenimento. Buscam assistir a um show. Querem ouvir sobre curas e milagres, mas não sobre arrependimento e transformação. Algumas pessoas têm buscado a igreja não para servir, mas para ali serem servidas. A partir do momento em que são pregados o compromisso, o comprometimento com o evangelho e a responsabilidade da pessoa cristã, muitas são as pessoas que se afastam. Não é por acaso que cada vez mais comunidades da igreja têm dificuldade para encontrar membros e não apenas espectadores. Que evangelho é esse em que as pessoas são motivadas a buscar a prosperidade e não uma vida digna para o seu próximo? Que evangelho é esse que ordena a cura e não se coloca aos pés de Jesus e clama por misericórdia, submetendo-se para que a sua vontade seja feita? Corre-se o risco de esquecer o senhorio de Jesus e não ouvir sua mensagem, mas buscar aquilo que satisfaz os próprios desejos. Corre-se o risco de querer adorar um deus que realiza apenas as próprias vontades. Corre-se o risco de, assim como os discípulos, querer permanecer no monte com o Jesus glorificado e não descer e enfrentar a cruz com esse mesmo Jesus. Corre-se o risco de esquecer que os verdadeiros discípulos percorrem com Jesus o caminho da cruz e do sofrimento. Muitos estão mais preocupados em falar aquilo que a massa quer ouvir do que pregar a verdade do evangelho. Há muitas pessoas que deixaram de enxergar a mensagem. É necessário que o verdadeiro evangelho, aquele anunciado por Jesus Cristo, seja redescoberto.

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O evangelho de Cristo mostra que a vida do cristão não é uma vida repleta de sucesso, prosperidade e glórias, mas que também há sofrimento e dificuldades, que devem ser enfrentados em humildade e devoção.

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Imagem para a prédica

É importante que durante a pregação fique claro que algumas pessoas têm esquecido o centro da fé: Jesus Cristo. Para isso, segue uma pequena ilustração do que pode acontecer quando o evangelho fica de lado. “Uma grande igreja do sudoeste dos Estados Unidos instalou um sistema de efeitos especiais que custou meio milhão de dólares, capaz de produzir fumaça, fogo, faíscas e luzes de laser no auditório. A igreja enviou alguns de seus membros para estudar, in loco, os efeitos especiais de Ballys Casino em Las Vegas. O pastor terminou um dos cultos sendo elevado ao “céu” por meio de fios invisíveis que o tiraram da vista do auditório, enquanto o coral e a orquestra adicionavam um toque musical à fumaça, ao fogo e ao jogo de luzes. O show foi muito bonito, mas ninguém saiu de lá arrependido de seus pecados nem com a vida transformada pelo poder de Deus!” (http://www.sitedopastor.com.br).

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Subsídios litúrgicos

Oração do dia: Senhor, tu que te revelaste de maneira tão gloriosa no monte Tabor, nós te pedimos: vem e revela a tua vontade para as nossas vidas. Que, contemplando a tua face, sejamos fortalecidos e encorajados a viver a realidade do dia a dia. Que saiamos daqui animados a enfrentar as dificuldades da vida, tendo a certeza de que tu caminhas ao nosso lado. Ajuda-nos a testemunhar através do serviço. Vem e revela a verdade do teu evangelho. Amém! Sugestões de hinos para a liturgia: HPD 1, 197 – Buscai primeiro o Reino de Deus; HPD 2, 414 – Cantar do amor.

Bibliografia HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Esperança, 1996. LADD, Georg Eldon. Teologia do Novo Testamento. Ed. rev. São Paulo: Hagnos, 2003.

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PRÉDICA: ISAÍAS 58.1-12

QUARTA-FEIRA DE CINZAS 18 FEV 2015

MATEUS 6.1-6,16-21 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10

Marivete Zanoni Kunz

A adoração na prática da vida cristã

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Introdução

Estamos nos aproximando da Páscoa. Esta é uma época de reflexão sobre a vida e sua fragilidade. Além disso, na data de hoje, muitos celebram o que é conhecido por “quarta-feira de cinzas”. Esse evento tem ligação com tradições antigas e com o costume bíblico de jogar e cobrir-se com sacos de pano e cinzas como sinal de arrependimento e busca da presença do Senhor. Por isso, para alguns, este é visto como um dia de fazer jejuns e penitências. Os textos de hoje falam desses costumes, mas mostram que, em alguns momentos da história, esses eram realizados sem condizer com a prática da justiça. O jejum, a adoração e outros rituais estavam acontecendo, mas faltava vida verdadeira. Diante disso e considerando aquilo que os textos lidos apresentam, é possível perguntar: o que realmente você tem buscado? Qual sua real intenção por trás daquilo que faz? Você é como os personagens citados no texto? Independente de sua resposta, a mensagem que os textos descrevem diz respeito à verdade ou à sinceridade que deve envolver a vida de todo cristão, não somente em ocasiões solenes. Podemos resumir essa verdade ou sinceridade em alguns aspectos, tais como: sinceridade na adoração; sinceridade na oração e jejum; sinceridade na contribuição; sinceridade na religião e outros.

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Exegese

É importante destacar que a profecia de Isaías diz respeito a questões de jejum, algo que, no exílio ou em qualquer lugar, todos podiam realizar. Ela mostra a diferença entre a religião verdadeira e o espírito de formalismo que pode invadir o ser humano. Assim, o profeta clama para que o povo use de misericórdia para com aqueles que necessitam da mesma. V. 1 – Chegou o momento em que a falsa religião praticada pelo povo seria denunciada. O desafio que o profeta trouxe ao povo pode ser comparado a algo tão impressionante quanto o sonido da trombeta que era tocada em momentos de solenidade. Todo o trecho inicial (v. 1-5) revela que o costume ou prática do jejum estava sendo condenado. Assim, o profeta faz o anúncio em alto e bom som. V. 2 – Este versículo mostra que o que existia era, na verdade, uma falsa observância da lei. O desejo, que o versículo demonstra existir, é meramente aparente, pois no coração isso não é verdadeiro. Fica evidente que o que funcionava

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eram questões formais ligadas à religiosidade, ou seja, tais obrigações eram bem conhecidas e praticadas entre o povo, trazendo uma aparência de prática da justiça. V. 3-5 – No versículo 3, vemos que o profeta está respondendo às queixas do povo de que Deus não estava atentando e olhando para os jejuns que eles faziam com as mesmas perguntas que o povo fazia a Deus. O texto original mostra que o povo chegava até mesmo a cometer “violência” contra o seu corpo com a finalidade de receber o favor do Senhor, mas isso não estava funcionando. O jejum realizado pelo povo não estava fazendo com que eles recebessem o favor do Senhor. A razão era que eles não jejuavam por verdadeiro arrependimento, mas por razões de realização pessoal. O texto, a partir do original hebraico, revela que o jejum acontecia por interesse em seus “próprios negócios”. Os versículos 3 a 5 revelam que, embora as pessoas jejuassem, não havia espiritualidade nesse jejum, e elas apenas buscavam cuidar de seus interesses particulares. Esse dia, conforme o versículo 4, era quando o povo fazia seus negócios, e inclusive havia o problema dos trabalhadores não serem liberados para participar do jejum, porque acreditavam que seriam prejudicados nos negócios particulares. O dia do jejum deveria ser um dia de descanso para todos, mas isso na prática não funcionava. Assim, a situação era tão degradante, que chegava ao ponto de acontecerem conflitos e agressões físicas, sem que o jejum cumprisse seu real propósito. Certamente quem sofria tais agressões, conforme descrição do versículo 4, eram aqueles que faziam parte da classe social inferior. Nesse sentido, tal jejum não era aceito pelo Senhor, porque não era o que constituía o verdadeiro jejum. Sua realização era sem sentido. V. 6-7 – Estes versículos revelam a necessidade da prática de justiça e misericórdia. Mostram que, enquanto o povo fazia jejum com a intenção de receber favor e misericórdia do Senhor, não praticava a mesma com seu próximo. Por isso foi solicitado que eles não praticassem opressão, mas olhassem para as necessidades de seu próximo. Os versículos em destaque mostram que o verdadeiro jejum pode ser visto no dia a dia na prática do bem para com o próximo em todos os dias e não somente em dias de solenidade especial. V. 8 – Aqueles que usam de misericórdia para com o próximo são como luz para eles. Esse reflexo das manifestações de boas ações ou de genuína retidão auxilia a dar fim em contendas. Toda a sociedade ganha com tais atitudes, e, além disso, há benefício especial para tais indivíduos, pois recebem a proteção do Senhor. V. 9 – Este versículo mostra que é mediante o olhar genuíno manifestado ao próximo que o indivíduo tem suas orações respondidas. Essas não são esquecidas pelo Senhor, mas quem assim age poderá ouvir a voz do Senhor dizer: “Eis-me aqui”. Para ouvir tal voz, é preciso remover da vida do ser humano as acusações, as ameaças, o desprezo e outras ações com o próximo. V. 10 – O benefício para o próximo é como a luz de um novo dia que se sobressai ante as trevas e a escuridão. V. 11 – Grandes benefícios são prometidos àqueles que agem com bondade para com o próximo. Esse receberá todo o sustento necessário de forma permanente e abundante. Ao que concede e serve o seu próximo é feita a promessa de suprimento contínuo e abundante por parte do Senhor, tal qual um jardim bem

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cuidado. Onde estiver tal ser humano, nada irá faltar devido à sua conduta para com seu semelhante. V. 12 – Aqueles que procedem de forma digna com seu semelhante são classificados como “restauradores de veredas”, ou seja, esses são indivíduos que fazem a diferença e são representativos no local que habitam.

3

Meditação: a adoração na prática da vida cristã

Nos tempos bíblicos remotos, o dia de jejum acontecia por causa de calamidades, mas no decorrer da história esse dia passou a ser celebrado em datas fixas. No texto de Isaías, o povo questionava e lamentava ao Senhor por que haviam jejuado e realizado sacrifícios sem que o Senhor atentasse para isso. Eles tinham um belo ritual de práticas religiosas que estavam sendo realizadas em vão; mas o que estava acontecendo? Por que o Senhor não aceitava tais práticas religiosas? A resposta é: porque tais práticas de adoração não condiziam com a vida diária desse povo. Assim aprendemos que os ritos fazem parte da adoração ao Senhor. Mas, para que a adoração venha a ser aceita, é necessário apresentar algumas coisas, pois existem a falsa e a verdadeira adorações. 3.1 – A falsa adoração A falsa adoração pode ser observada pelo agir diário. Quando refletimos sobre os textos, vemos que o jejum e as orações realizadas deveriam levar à mudança, mas isso não acontecia. A aparente espiritualidade não invadia o dia a dia prático. Os desfavorecidos ou operários não eram tratados de maneira adequada, mas eram oprimidos por seus senhores. Foi por isso que o Senhor se manifestou pelo profeta e pelo próprio Cristo, mostrando que as práticas religiosas (ritos e celebrações) precisam ser acompanhadas pela prática da justiça e amor ao próximo. Conforme o texto, vemos que o verdadeiro jejum deveria estar presente nessas ações manifestas ao semelhante (v. 5). Infelizmente, essa não era a realidade, mas sim a opressão e a violência com os menos favorecidos. Os textos mostram que o povo, tanto os judeus citados por Isaías como os fariseus citados por Mateus, queria mostrar que tinha intimidade com o Senhor, mas isso era irreal. Tal relacionamento de proximidade com o Senhor não era evidenciado na forma deles agirem com o próximo. As muitas cerimônias e ritos religiosos não eram expressos nas ações do dia a dia. As ações descritas nos textos mostram a real extensão da relação desses grupos com seu Deus e também que é no cumprimento das leis no cotidiano que se espera que sejam expressos o amor e a justiça com o nosso próximo. A forma como fazemos uso daquilo que possuímos em benefício do próximo mostra o quanto somos espirituais. A falsa adoração é evidenciada pela ganância e cobiça de coisas materiais. Infelizmente, os textos revelam que o povo judeu e os fariseus não tinham uma boa atitude no que diz respeito ao uso dos

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bens materiais e do poder, pois esses eram utilizados não para o benefício comum ou do próximo, mas para satisfazer seus anseios e ganâncias particulares. 3.2 – A verdadeira adoração Essa precisa ser sincera (de coração). O jejum ou qualquer outro rito religioso é significativo para o Senhor quando for sincero. É possível que muitos sejam obedientes e até cumpram as leis da Palavra, desejando, aparentemente, buscar o Senhor. Mas o perigo de isso ser algo apenas aparente continua sendo muito presente. A adoração de lábios e não de coração é muito real. Entretanto, o texto de Mateus 6.16-18 mostra que é necessário existir a adoração interior, e não apenas a ritual. A adoração apenas de lábios é hipócrita. Assim estavam agindo os fariseus: obedeciam às leis do Senhor, jejuavam, mas tudo era só aparência, pois no ritual exterior que praticavam estavam mais preocupados em ser vistos. O resultado era que isso não fazia diferença, e ninguém se importava com o que faziam, nem mesmo o Senhor. Eles não poderiam persuadir ou comprar o Senhor com seus ritos. Era preciso que houvesse obediência de coração a Deus. Isaías mostra que o povo buscava o reconhecimento humano. Jesus, nos textos apresentados, revela que também os fariseus buscavam isso. Tanto o povo do período de Isaías como os fariseus não queriam servir ao Senhor, mas chamar a atenção para sua espiritualidade; por isso faziam jejuns e ofertas que não surtiam efeitos, eram em vão. Quando a intenção é receber honras humanas, perdem-se as bênçãos de Deus. Os jejuns realizados pelos fariseus eram visíveis para todos, mas não foram aceitos por Deus, porque não eram realizados pelas razões corretas. Não houve adoração sincera, por isso tais ações também não redundaram em crescimento espiritual. A hipocrisia do povo rendeu-lhe um reconhecimento meramente superficial das pessoas e o silêncio de Deus. Essa foi a recompensa. Não vale a pena ser hipócrita na adoração, não vale a pena representar diante das pessoas e de Deus. Quem age assim já recebeu sua recompensa. Tudo o que fizermos deve ser feito com sinceridade. Nisso consiste a essência da adoração, que se refletirá em nossas ações. Para concluir, não vale a pena correr atrás do reconhecimento humano por meio de ritos e celebrações. Esse é o tipo de reconhecimento passageiro, que logo se esvai. O que importa são a glória e o louvor de Deus. Minha vida espiritual deve tornar-me um indivíduo melhor para o próximo e mais servo a Deus. Se isso não acontecer, minha adoração não é verdadeira, não passa de pecado diante de Deus. A vida na presença do Senhor deve redundar em ministério que leve justiça e amor aos outros, pois nisso consiste a verdadeira adoração. Assim nossa prática religiosa terá valor diante de Deus quando vier do interior.

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Imagens para prédica

Amor ao próximo – testemunho: “O Espírito Santo está bem vivo no mundo de hoje, mas talvez não reconheçamos essa verdade. Em 1957, minha

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esposa e eu ficamos perturbados pela condição dos refugiados da Hungria. Sentindo que deveríamos abrir o nosso lar para um jovem casal, expressamos o nosso desejo à comissão encarregada de alojá-los. Veio morar conosco um casal recém-casado, que ficou em nossa casa quatro meses. Não falavam uma palavra da nossa língua, mas logo verificamos que a linguagem universal do amor era entendida por todos. Recebemos muito mais alegria do que proporcionamos e sentimos a presença do Espírito Santo em nosso lar. Hoje, consideramos esse jovem casal como filhos. São membros respeitados em nossa comunidade e têm dois filhos. Se escutarmos, ouviremos o Espírito Santo falando a nós através de nossas emoções e de nosso intelecto” (E. Everett H. Palmar – EUA. Extraído de BARROS ALMEIDA, 1987). Amor: “‘Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros’ (Jo 13.35). Uma noite chegamos às muralhas da China depois de terem cerrado o portão. Através do guichê do portão, o guarda pediu-nos nossa carteira de identidade. Logo o portão se abriu e nos foi permitido entrar. Algum dia chegaremos às muralhas da Cidade Eterna. Que credenciais teremos para apresentar a fim de que a porta se abra? Será o nosso conhecimento da Bíblia? Nossa certidão de Batismo? Nossa carta de membro da igreja? Uma carta de recomendação do pastor? Ou a ficha de nossa vida diária? Jesus deu-nos a única resposta. Disse ele: ‘Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros’. Eis a prova principal de que fomos redimidos pelo sangue de Jesus Cristo: ‘amarmos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos’” (Leo K. Mader. Extraído de BARROS ALMEIDA, 1987).

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Subsídios litúrgicos Algumas frases de impacto para auxiliar na liturgia do culto: • A parte mais importante da vida cristã não é o que as pessoas veem, mas aquilo que somente Deus vê. • Não é errado possuir coisas, mas é errado permitir que as coisas nos possuam. • O jejum e outras celebrações não devem acontecer como uma forma de receber alguma bênção.

Bibliografia BARROS ALMEIDA, Natanael de. Coletânea de Ilustrações. São Paulo: Vida Nova, 1987. CHAMPLIN, Norman Russell. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo. 2. ed. São Paulo: Hagnos, 2001. v. 5. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Tradução de Susana E. Klassen. Santo André: Geográfica, 2006. v. 4.

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1º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: MARCOS 1.9-15

22 FEV 2015

GÊNESIS 9.8-17 1 PEDRO 3.18-22

Nádia Cristiane Engler Becker

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Introdução

O texto de Gn 9.8-17 traz o relato da aliança selada por Deus com Noé, sua descendência e todos os seres viventes. Deus estabelece o arco-íris como sinal de uma aliança unilateral, que ele solenemente sela com Noé, de que nunca mais tornará a destruir a criação por meio das águas. Não é uma aliança selada a pedido de Noé. A iniciativa é de Deus. Deus empenha sua palavra e coloca o arco-íris como lembrança para si mesmo de que “as águas não mais se tornarão em dilúvio para destruir toda carne” (v. 15b). O texto de 1Pe 3.18-22 deixa transparecer que a humanidade permaneceu tão má e pecadora quanto antes do dilúvio. Porém Deus manteve a promessa feita em Gênesis. O castigo não recaiu sobre a humanidade, como nos tempos de Noé, mas foi assumido por Cristo na cruz do Calvário. Aqui Pedro afirma que a água, que no dilúvio foi usada por Deus como instrumento de castigo e morte, agora, pelo batismo, torna-se veículo de vida, graça e salvação. O batismo é a nova aliança que Deus sela com a humanidade. Novamente a iniciativa de selar essa aliança é de Deus e não do ser humano. Mc 1.9-15 é o texto previsto para a pregação neste 1º Domingo na Quaresma. É um texto curto, mas riquíssimo em conteúdo. Ele apresenta três partes distintas: 1) batismo de Jesus nas águas do Jordão, a vinda do Espírito Santo sobre Jesus e a declaração de Deus de que Jesus é seu Filho querido, que lhe dá muita alegria; 2) a tentação de Jesus; 3) o início de seu ministério público.

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Exegese

Diferentemente de Mateus e Lucas, que iniciam o relato da história de Jesus com sua genealogia e nascimento, Marcos não traz detalhe algum sobre isso. O Evangelho de Marcos inicia com o relato breve do ministério de João Batista. Esse chamava ao arrependimento e batizava nas águas do Jordão como sinal do perdão dos pecados. Anunciava a vinda de Jesus e o batismo com o Espírito Santo. Para Marcos, basta dizer que aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu (v. 7) e vos batizará com o Espírito Santo (v. 8). É assim que Jesus surge no evangelho. De modo surpreendente, coloca-se entre as pessoas, “na fila”, para receber o batismo junto com aqueles e aquelas que estavam arrependidos de seus pecados e desejavam receber o batismo como selo do perdão recebido. Jesus coloca-se junto a essas pessoas como se ele mesmo tivesse necessidade de arrepen-

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dimento e perdão. Marcos não questiona a busca de Jesus. Simplesmente relata que ele foi batizado por João Batista no rio Jordão (v. 9). Subentende que para ele estava claro que o mesmo Jesus que agora se põe humildemente na posição de pecador que necessita do batismo de arrependimento para ser perdoado é aquele que três anos mais tarde assume, de novo, a posição de pecador e humildemente toma sobre si a cruz para pagar pelos pecados de toda a humanidade. “Em Cristo não havia pecado. Mas Deus colocou sobre Cristo a culpa dos nossos pecados [...]” (2Co 5.21a). Jesus assume o papel de pecador no começo e no fim de seu ministério terreno, na mais profunda humildade e obediência a Deus. Conforme o v. 10, os céus se rasgam! O caminho que havia sido trancado pelo pecado da desobediência e impedia o acesso à árvore da vida (Gn 1.24) está novamente aberto por meio da obediência humilde de Jesus. O projeto de salvação da humanidade começa a se concretizar. Poder salvar a humanidade, a quem tanto ama, enche o Criador de satisfação, e ele afirma: Tu és o meu Filho querido e me dás muita alegria! (v. 11). A vinda do Espírito Santo sobre Jesus nesse momento não indica a concessão de algo novo, de algo que já não estivesse em e com Jesus antes. Jesus foi concebido pelo Espírito Santo. A vinda do Espírito sobre Jesus no momento do seu batismo e a voz dos céus são apenas a confirmação externa e o testemunho público que empoderam Jesus para o ministério terreno. A salvação da humanidade é missão do Deus Triúno. Assim como no princípio da criação o Espírito pairava sobre as águas, agora, no princípio da nova criação, o Espírito paira sobre Jesus. Em Jesus tudo se faz novo. Nos v. 12 e 13, Marcos relata de modo muitíssimo breve a tentação de Jesus. Não traz nem de perto a riqueza de detalhes apresentada pelos paralelos de Mateus e Lucas. Para ele, basta dizer que Jesus foi tentado por Satanás, que havia feras, mas também anjos que serviam Jesus. É essencial dizer que, assim como todo ser humano, Jesus enfrentou tentações. A resistência à tentação revela a decisão de Jesus pelo caminho da humildade e da obediência. Ele não apenas foi entregue, ele também se entregou: “Em obediência à vontade do nosso Deus e Pai, Cristo se entregou para ser morto a fim de tirar os nossos pecados e assim nos livrar deste mundo mau” (Gl 1.4). O texto remete novamente ao princípio da criação de Gênesis e à tentação. Diferentemente de Adão (de toda a humanidade), Jesus, quando tentado, não pecou. Conforme o v. 14, o ministério de Jesus inicia com a pregação do evangelho, da boa notícia. Antes de qualquer coisa, convém falar do amor, da graça e da misericórdia de Deus. De acordo com o v. 15: O tempo está cumprido! O reino de Deus está próximo! De acordo com Kümmel, o povo judeu esperava que, com a irrupção do Reino, o poder de Deus se tornaria visível. Jesus dá a entender que, através da sua ação, a salvação esperada para o fim dos tempos já está se concretizando no presente. A pregação de Jesus aponta que já agora Deus estabelece seu Reino e que, por essa razão, já é possível participar da ação salvífica de Deus, aderindo com fé a essa proclamação de Jesus.

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Deus inicia seu projeto de salvar a humanidade perdida por meio daquele que agora é a encarnação e o porta-voz dessa notícia. Junto com o chamado ao arrependimento está o chamado à fé, a crer no evangelho. A boa notícia anunciada por Jesus não traz alegria externa ou superficial. Ela convida à reflexão da própria vida, ao reconhecimento dos próprios pecados, ao arrependimento. Convida a viver de um modo diferente, crendo no único que pode oferecer perdão, paz, alegria verdadeira e o reino de Deus. O texto da pregação é construído de maneira a nos ajudar a entender que, pelo batismo, renascemos como novas criaturas. Morremos, junto com Cristo, para o pecado (Rm 6.1ss), para que, assim como Cristo foi ressuscitado, também nós vivamos uma nova vida de humildade e obediência. Porém também subentende que “o velho homem, mesmo afogado, permanece sendo um bom nadador”. Ou seja: a inclinação ao pecado permanece viva em nós, e as tentações são constantes. Por mais que exista o desejo de sermos obedientes a Deus, falhamos. Daí o chamado ao arrependimento e para crer no evangelho. Esse é o caminho do reino de Deus.

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Meditação

O calendário litúrgico marca o início da Quaresma. A cada ano, essa desafia cristãos e cristãs a trilhar com Jesus o caminho da paixão, refletindo a própria vida, reconhecendo que o sofrimento e a morte de Jesus na cruz foram necessários para a nossa salvação. Quaresma é tempo de refletir sobre o infinito amor de Deus e sobre a infinita miséria humana sem a graça de Deus. É tempo que convida, em especial, para duas coisas às quais o ser humano resiste: reconhecer os próprios pecados e arrepender-se deles. De modo geral, quando se trata de pecado, existe um sentimento de autojustificação e a compreensão de que “existe gente bem pior do que eu”. A cultura da corrupção, da infidelidade, do “jeitinho”, que marca a nossa sociedade em todos os níveis sociais, torna o pecado justificável: afinal, “todo mundo faz”. Assim, o médico pode cobrar por fora por procedimento no SUS. O policial pode receber propina para encobrir o tráfico e o contrabando. O cidadão pode pagar propina para não ser multado. O empresário pode sonegar impostos. O leite pode ser temperado com água, soda cáustica e ureia. O combustível pode ser “batizado” com água. Documentos falsos podem ser adquiridos. Rapazes, moças, homens e mulheres podem ser desleais e infiéis em seus relacionamentos. Famílias podem jogar quilos de alimento na lata do lixo e desperdiçar centenas de litros de água. Em contrapartida, existe um moralismo hipócrita que ataca e condena “Brasília” pela corrupção. O cisco no olho alheio sempre é muito grande. As tentações são constantes na vida de todos e todas nós. E falar de pecado é um grande desafio do qual ministros e ministras muitas vezes se esquivam. Não me refiro a falar de pecado de modo genérico, e sim da necessidade de trazer a reflexão para o chão da vida cotidiana da comunidade, dizendo de modo claro, a partir da Palavra, o que é pecado. Apenas o confronto com o próprio pecado leva à consciência da necessidade do perdão. E sem essa consciência a cruz de Cristo

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será apenas um ornamento em nossas igrejas, casas e pescoços. Não há pecado justificável. Mas todo pecado é perdoável pela graça de Deus. Por isso requer arrependimento e confissão. A consciência do pecado pode levar à autojustificação ou ao arrependimento. Esse termo é facilmente associado ao sentimento de remorso, que faz o peito e a consciência doerem, mas que não leva necessariamente à mudança de atitude. Poderíamos dizer que remorso é o sentimento de tormento, de lamento pela consciência de um ato pecaminoso ou culpável que se praticou. Remorso vem junto com arrependimento, mas esse é mais do que sentimento. Arrependimento requer humildade, requer abandono de atitudes de arrogância e superioridade, pecados que, aliás, foram apontados e condenados por Jesus em diversas ocasiões. Arrependimento leva à ação, à mudança das atitudes. Não é apenas um lamentar de algo errado que se fez. É traduzido por Werner G. Kümmel como “meia-volta” e designa uma “mudança de rumo, abandono do caminho falso e um trilhar decidido no caminho certo”. Ou seja, arrependimento implica comprometer-se a viver a vida de um modo diferente, sem repetir os mesmos erros à exaustão. Na prática, isso quer dizer que, mesmo que o arrependimento em si seja doloroso e difícil, dele pode nascer uma nova realidade, mais feliz, construída com atitudes mais assertivas. Isso, ao mesmo tempo, é profundamente libertador à medida que assimilamos que não precisamos nos autojustificar, mas que podemos entregar toda a nossa miséria nas mãos amorosas de Deus e receber dele o seu perdão gracioso. Esse é o desafio de viver como nova criatura que renasceu pelas águas do batismo. No batismo, Deus mais uma vez toma a iniciativa de vir ao encontro do ser humano. Pela sua graça, ele nos chama pelo nome, torna-nos seus filhos e suas filhas e, como tais, herdeiros do seu reino pela fé em Jesus. No batismo, ele nos concede o Espírito Santo. Pelo evangelho e pelo agir do Espírito Santo em nossas vidas, Deus cria em nós a fé e capacita-nos para enfrentar as tentações.

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Imagens para a prédica

É marcante no texto o v. 11: E do céu veio uma voz que disse: Tu és o meu Filho querido e me dás muita alegria! Jesus, por causa de sua humildade e obediência, é chamado de Filho querido, que dá muita alegria ao Pai. A imagem do filho obediente que alegra pai e mãe (ou desobediente, que lhes causa tristezas) é bastante palpável para qualquer família em qualquer contexto. Iniciar a pregação com um breve diálogo sobre o assunto pode ser bem interessante. A ideia é caminhar com a comunidade de modo a despertar a reflexão de que, pelo batismo, todos e todas nós fomos tornados filhos e filhas de Deus. Vale perguntar: Como temos sido como filhos de Deus? Damos alegrias ao nosso Pai Celestial? Ou nossas atitudes, pensamentos e palavras antes lhe têm causado tristeza e sofrimento?

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Subsídios litúrgicos

A partir da reflexão do texto, sugiro o seguinte escopo para a pregação: Pelo batismo, Deus nos torna seus filhos e suas filhas e nos concede o dom do Espírito Santo. Por meio dele somos capacitados a viver como filhos e filhas que dão alegrias ao Pai Celeste. Como filhos e filhas também somos fortalecidos/as para: a) enfrentar as tentações; b) viver uma vida de arrependimento; c) e crer no evangelho. Costura para a confissão de pecados: Muitas vezes dizemos: “Sabe como é... a carne é fraca. Eu não consegui resistir à tentação”. O apóstolo Paulo desmente essa nossa afirmação, dizendo, em 1Co 10.13, que ninguém será tentado além das suas forças, de modo que não seja capaz de resistir: “As tentações que vocês têm de enfrentar são as mesmas que os outros enfrentam; mas Deus cumpre a sua promessa e não deixará que vocês sofram tentações que vocês não têm forças para suportar. Quando uma tentação vier, Deus dará forças a vocês para suportá-la, e assim vocês poderão sair dela”. De acordo com essa palavra, não existe “não conseguir resistir à tentação”. O que existe, na verdade, é não querer. Reconhecendo isso, confessemos os nossos pecados! Oração de intercessão: M: Intercedemos, Senhor, pelas lideranças que são tentadas pelo poder a se sentir superiores às demais pessoas e a usar esse poder para fazer o que é mau, para que se tornem humildes e obedientes a ti. C: Dá que resistam à tentação! M: Intercedemos, Senhor, pelas lideranças políticas que são tentadas pela riqueza a pegar e a desviar dinheiro que não lhes pertence em detrimento do bem de toda uma nação, para que governem com temor a ti e amor ao povo. C: Dá que resistam à tentação! M: Intercedemos, Senhor, pelas lideranças políticas que são tentadas a fazer uso de armas e de guerras para assegurar seu poder e domínio, para que compreendam que a força mais poderosa é a do amor. C: Dá que trabalhem pela paz! M: Intercedemos, Senhor, por cada um e uma de nós que diariamente se encontram diante da possibilidade de escolher entre o bem e o mal, entre obedecer aos teus mandamentos ou desprezá-los. C: Pela tua palavra, orienta as nossas decisões! M: Pelo agir do teu Espírito, dá-nos a capacidade de resistir às tentações. Conscientiza-nos, Senhor, de que não é porque muitas pessoas fazem o que é mau aos teus olhos que nós também podemos fazê-lo. Ajuda-nos a resistir à tentação de roubar, subornar, caluniar, cobiçar bens e também os cônjuges de nossos semelhantes.

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C: Faze de nós filhos e filhas queridas que te deem muita alegria! M: Ajuda-nos, ó Pai, a resistir à tentação de nos omitir em situações de injustiça e de endurecer nossos corações diante daquelas pessoas que necessitam de nós e do nosso apoio. C: Ajuda-nos a tomar a iniciativa de ir ao encontro de quem sofre, assim como Jesus fez! M: Isso te pedimos em nome de Jesus, que assim como nós foi tentado, mas resistiu, e nos ensinou a orar: Pai nosso...

Bibliografia KÜMMEL, Werner Georg. Síntese teológica do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1974.

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PRÉDICA: ROMANOS 4.13-25

2º DOMINGO NA QUARESMA

MARCOS 8.31-38 GÊNESIS 17.1-7,15-16

01 MAR 2015

Astor Albrecht

Crer... até quando?

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Introdução

Em Rm 4, Abraão é apresentado como exemplo da justificação pela fé. A leitura em Gn 17 relata a mudança do nome de Abrão para Abraão. Deus faz isso como um sinal da promessa: “por pai de numerosas nações te constituí” (v. 5). Também muda o nome de Sarai para Sara, pois ela dará à luz um filho (v. 16). Abraão crê na promessa de Deus, que é feita em meio à total impossibilidade humana: idade avançada do casal e a esterilidade de Sara. É possível crer em Deus em tal situação? Não seria mais do que plausível abandonar a fé? E se crer, até quando? No texto de Mc 8, Jesus apresenta o caminho da cruz a seus discípulos. Pedro sugere que outro caminho possa ser viável, um caminho que possa prescindir da cruz. Ele é reprovado severamente por Jesus, que afirma que é nesse caminho que encontramos a vida. Portanto não devemos nos envergonhar das palavras de Jesus e das promessas que nos são feitas no evangelho. Todas as promessas de Deus são para nós como povo de Cristo Jesus e são essas promessas que sustentam a fé e a caminhada do seu povo.

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Exegese

Em Rm 3.21-31, Paulo define e descreve a justificação pela fé em Jesus Cristo. Agora, no capítulo 4, ele ilustra a justificação e a fundamenta na Escritura com o exemplo de Abraão. Nos v. 1-8, Paulo afirma que a justificação não vem pelas obras. A questão é como Abraão foi aceito ou justificado? Foi devido às suas obras ou porque teve confiança em Deus? A resposta está clara no v. 3: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Paulo ainda cita o exemplo de Davi sobre essa verdade. Nos v. 9-12, Paulo ilustra, pela experiência de Abraão, que a justificação é separada das ordenanças da religião (circuncisão). Abraão foi justificado antes da circuncisão. Ele não foi justificado por ter sido circuncidado, mas foi circuncidado por ter sido justificado por Deus (v. 11). Assim chegamos aos v. 13-25 indicados para a pregação. Em continuidade com a argumentação anterior, Paulo afirma que, se a circuncisão não tinha nada a ver com a justificação de Abraão por parte de Deus, a lei tinha menos ainda a ver com isso. Pois, como Paulo indicara aos gálatas, a lei foi dada 430 anos depois da promessa feita por Deus a Abraão (Gl 3.17). Se muito depois de ter sido feita

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a promessa se tornasse condicionada à obediência a uma lei não mencionada nos seus termos originais, toda a base da promessa seria anulada. A justificação de Abraão fundamentava-se em sua fé em Deus. Ele não a recebeu por mérito ou esforço, como seria se estivesse condicionada à guarda da lei, mas sim pela graça de Deus. A característica que deu a Abraão uma posição peculiar na história do povo de Deus foi o fato de crer. Ele se tornou o pai de todos os crentes. Quero aqui destacar os v. 17-25: Paulo mostra Abraão como paradigma do que é a fé e o que ela significa. Qual era a situação de Abraão para que a fé pudesse se revelar e tornarse evidente? Deus lhe havia feito uma promessa: “serás pai de numerosas nações” (Gn 17.4). Mas quando Abraão considerava a si mesmo e as possibilidades humanas, a promessa de Deus poderia lhe parecer simplesmente impossível. Ainda que a condição de Abraão e Sara fosse inviável (v. 19), ele não duvidou (v. 20). O que é característico na fé de Abraão? Às vezes, diz-se que é crer no impossível. Será que a característica da fé de Abraão é o crer no improvável? Naquilo que parece ser inconcebível? Não é essa a natureza da fé de Abraão. O essencial é que ele tinha uma promessa de Deus para crer. Pelo fato de ter a promessa de Deus, as circunstâncias totalmente adversas não o levaram a duvidar de Deus. Abraão ateve-se às promessas de Deus, ainda que todos os cálculos humanos falassem contra o que esperava. Quando Abraão creu em Deus, não o fez porque existia alguma esperança para ele do ponto de vista humano. Pelo contrário, creu ainda que humanamente não existisse esperança alguma. Todas as circunstâncias apontavam que a sua esperança daria em nada. Ainda assim, ele se ateve a ela. E isso ele podia fazer, pois não a firmava em outra coisa senão na promessa dada por Deus. Essa dupla situação de que, por um lado, não havia esperança e, por outro lado, ainda assim esperava é essencial para a fé. Paulo escreveu: “Abraão, esperando contra a esperança, creu” (v. 18). Sem esperança, não obstante com esperança: isso é sinal da fé verdadeira. Ali onde ambas lutam entre si, existe a fé. Quando a pessoa pode valer-se dos seus próprios meios, não se trata de fé, pois a fé não é confiança em si mesmo. A fé é bem mais o oposto da confiança em si mesmo, da confiança na capacidade e nos recursos próprios. A fé de Abraão não prescinde da realidade. Quer dizer, Abraão não foge da realidade e da manifestação de todas as dificuldades para que a promessa de Deus se cumpra. A fé não é um refugiar-se em outro mundo. A fé não é fechar os olhos diante da realidade. Não é uma espécie de autoengano. Ele via a realidade como ela era e dava-se conta de tudo quanto parecia fazer ser impossível à promessa de Deus. Como Paulo escreve, Abraão levou “em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara” (v. 19). Mas isso não o fez “enfraquecer na fé” (v. 19), antes “se fortaleceu” (v. 20). Como a fé pode debilitar? Como ela se fortalece? Pode ser natural pensar que a fé enfraquece quando as dificuldades aumentam e que a fé é fortalecida quando as perspectivas melhoram. Paulo afirma o contrário: quando nossas próprias possibilidades diminuem, a fé aumenta. Isso porque ela não descansa em nós mesmos e em nossas capacidades, mas em Deus e em suas promessas. Ao não confiar em suas próprias

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possibilidades, Abraão pôde encarar a impossibilidade de sua situação sem debilitar sua fé, pois tinha a promessa de Deus para se firmar. Fica claro que, para Paulo, Deus e a fé são uma unidade inseparável. Não se pode falar da fé sem referir-se a Deus. A fé é o que é por estar ligada a Deus. A fé não é uma função psíquica ou qualidade interior do ser humano. Quando se diz que a fé é fé em Deus, não se trata de uma fé indefinida e generalizada. Mas uma fé em Deus “que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (v. 17). Quando Deus disse a Abraão que seus descendentes seriam numerosos como as estrelas, ele ainda não tinha filhos. Não só isso, mas tinha ultrapassado a idade em que um homem pode esperar vir a ser pai, e Sara, sua mulher, estava ainda mais além da fase da maternidade. Ele não fechou os olhos a essas circunstâncias desfavoráveis, mas cria que a vontade e a capacidade de Deus cumprir suas promessas sobrepujava todas essas dificuldades. Esse era o Deus em quem Abraão cria. Ele cria que Deus, por sua promessa poderosa, poderia vivificar seu corpo e dar a Sara a capacidade de conceber e fazer dele o “pai de muitas nações” (v. 17). Por crer na promessa de Deus, Abraão deu glória ao nome de Deus (v. 20). A honra e a glória são para Deus. Paulo fala dela em Rm 1.21,23: “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus [...] e mudaram a glória do Deus [...]”. O que o pecado “tirou” de Deus, a fé “devolve”. Ela reconhece a presença e o agir salvador de Deus. Assim, somente na fé o ser humano está em reta relação com Deus. Por essa razão, Paulo fala ao mesmo tempo da fé e da justiça de Abraão: “Dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça” (v. 20-22). E isso não é válido somente para Abraão, mas para todos os que são da fé como ele (v. 23-25). O “nós” do v. 24 refere-se à comunidade que crê no agir de Deus em Jesus Cristo. A palavra “por” no v. 25 traduz dia (por causa de): Cristo foi entregue para morrer a fim de expiar os pecados do seu povo e ressuscitou para garantir a justificação dele. Há uma relação entre a fé que vemos em Abraão e a fé daqueles que creem em Cristo. Quando cremos em Jesus como aquele que “foi entregue por causa de nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (v. 25), então cremos no Deus que dá vida aos mortos. Somos filhos e filhas da ressurreição. Passamos da morte para a vida, pois Deus tratou conosco por meio de Cristo: “E estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos” (Ef 2.5).

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Meditação

“Abraão, esperando contra a esperança, creu” (Rm 4.18). A idade avançada do casal, aliada à esterilidade de Sara, não era com certeza um bom indício de que dali viria uma família. Mas Abraão não se firmou naquilo que as pesquisas sobre natalidade informavam: firmou-se na promessa de Deus. Ele creu que a promessa de Deus era verdadeira e que ele iria cumpri-la. A experiência da vida ensina-nos quão pequenos somos, quantas situações adversas se apresentam para nós. Nossa força é pequena diante das dificuldades

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que se levantam contra nós. Quanta preocupação e ansiedade nós experimentamos diante das exigências da vida pessoal, familiar e comunitária! Não poucas vezes sentimos medo. Nessas horas, pensamos em Deus e sobre a nossa fé: Será que ele não nos responde? Até quando vou conseguir crer? Quem sabe já conhecemos pessoas que disseram algo como “não vale a pena crer, pois nada muda”. Talvez esse pensamento seja ainda fortalecido quando a fé é hoje apresentada como um “show”. Isto é, ela tem de fazer as coisas acontecerem. E se nada acontece, é porque essa fé não está firme o suficiente. Além do mais, quem crê não vai enfrentar lutas; é logo vitorioso. O texto esclarece sobre o caminho da fé. Há a luta da fé: quero crer, mas me parece tão difícil crer. A fé está ali cheia de vida e força quando parece que ela nada pode. Não é isso que acontece em outros momentos nas Escrituras? Quando chegou a notícia da morte da filha de Jairo, Jesus disse: “Não temas, crê somente, e ela será salva” (Lc 8.50). Em toda a sua aflição, Jó confessou a sua fé: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 18.25). A luta da fé é, com certeza, muito bem externada pelo pai de um jovem possesso. Diante da impossibilidade de ajuda dos discípulos e, ao mesmo tempo, esperando que Jesus fizesse algo, ele confessa: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé” (Mc 9.24). Creio que essa palavra é de grande consolo para as pessoas que enfrentam longas e duras provas em sua vida. É preciso afirmar que essas dificuldades não atestam a ausência ou fraqueza de fé; são antes um testemunho de que a fé está presente quando a pessoa espera no Senhor. Aqui aprendemos com Abraão a acolher a palavra de Deus com fé no coração. Apesar de toda uma situação desfavorável, ele confiou que Deus é fiel em cumprir a sua promessa. Assim também a nossa fé deve ser firmada na palavra de Deus. Nós podemos ser instáveis, mas a palavra de Deus não é. Se segurarmos nela firmes, vamos permanecer. Podemos lembrar que a Escritura está repleta das boas promessas de Deus, e elas não estão ali para que tenhamos uma informação a respeito de Deus, mas sim para que creiamos e sejamos fortalecidos nessa mesma fé. Importante lembrar que a fé não nos leva a viver num “mundo fechado e isolado”. É justamente no mundo que a fé deve ser vivida e testemunhada. É diante das dificuldades e dos sinais de morte no mundo que a fé se revela como sinal de vida. É assim porque é tão somente pela fé que temos relação certa com o Deus que enviou seu Filho, que morreu e ressuscitou para nossa salvação. Nessa fé, somos filhos e filhas de Deus. Somos testemunhas da ressurreição. Aqui é possível apresentar situações concretas em que o nosso testemunho de fé se faz necessário. E não é o caso de pensar que esse testemunho é pequeno, pois o que conta é a promessa de Deus que conosco está. Não devemos nos envergonhar de Jesus e de suas palavras; antes a fé sempre as terá em grande consideração (conforme a leitura de Mc 8). Ainda que dificuldades da vida persistam, na fé o nome de Deus é glorificado. É glorificado, pois ele está presente, está ao lado. Assim como caminhou com Abraão, caminha com cada crente em Cristo hoje. Isso nós não conseguimos por iniciativa própria. Só faz isso quem é vencido pela palavra de Deus, que atua no

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poder do Espírito Santo. É assim que experimentamos que as promessas de Deus são para o nosso benefício.

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Imagens para a prédica

Crer é como entrar na água do mar: entrar só um pouquinho não faz muita diferença. A água só torna o corpo leve quando entramos para valer, quando nadamos com todo o corpo imerso. A nossa grande tentação é crer fazendo de conta, crer de mentirinha. É tentar fazer o caminho da fé como quem testa a temperatura da água, mas só entrando nela para molhar os dedos dos pés. Não admira que assim não experimentemos a força e a alegria de uma vida de comunhão com Deus. As promessas que Deus fez a Abraão são renovadas e consumadas no povo de Cristo. O Deus que andou com Abraão anda conosco. O Deus que sustentou Abraão nos sustenta hoje. Como experimentar essa água que nos carrega? Vamos ouvir seu convite e aceitar Jesus como Senhor. Vamos nos abrir à ação do Espírito Santo, que testifica dentro de nós que estamos no caminho certo e que estamos vivendo na graça de Deus (WEINGÄRTNER, 1998).

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Subsídios litúrgicos

Sugestão de hinos: Creia sempre, sem cessar – HPD 1, 159; Firme nas promessas do meu Salvador – Cantarei ao Senhor, v. 2, 119; Senhor, porque me guarda a tua mão, confio em ti – HPD 1, 221. Motivação para a confissão da fé: Poderiam ser citadas situações adversas que se têm levantado para a comunidade, famílias ou na vida pessoal. Nesse caso, é bom conversar antes com envolvidos para que consintam com o compartilhar. Os membros podem ainda ser desafiados a compartilhar situações difíceis. Citar que são situações que nos fazem sentir pequenos. Mas, ainda que a luta se apresente, podemos crer. Pois crer não é “crer que”, mas é “crer em”: a saber, em Deus mesmo, no Deus do evangelho, que é Pai, Filho e Espírito Santo. Essa confissão de fé é também honra e glória ao nome do Trino Deus.

Bibliografia BRUCE, F. F. Romanos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2004. NYGREN, Anders. La Epistola a Los Romanos. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1969. WEINGÄRTNER, Lindolfo. Parábolas da vida – meditações. Curitiba: Encontrão; São Leopoldo: Sinodal, 1998.

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2º Domingo na Quaresma

3º DOMINGO NA QUARESMA JOÃO 2.13-22 ÊXODO 20.1-17 CORÍNTIOS 1.18-25

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PRÉDICA: NÚMEROS 21.4-9

4º DOMINGO NA QUARESMA

JOÃO 3.14-21 EFÉSIOS 2.1-10

15 MAR 2015

Carlos A. Dreher

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Introdução

O texto de Nm 21.4-9 já foi estudado em quatro auxílios homiléticos, que se encontram em PL VII, XIII, XXII e XXXIII. Há, pois, uma boa série de abordagens a respeito. Proponho um estudo desvinculado daqueles. A relação entre os textos de leitura e o da pregação dá-se, a meu ver, a partir de uma interpretação alegórica do texto de Números. Isso é bastante claro no evangelho do domingo, Jo 3.14-21, que inicia dizendo: “E do mesmo modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado”. Para o evangelista, a passagem de Números apresenta-se como uma prefiguração do evento salvífico realizado na cruz de Cristo. O que segue no evangelho é o desdobramento da afirmação de que “quem nele crê tenha a vida eterna”. Crer no Filho unigênito do Pai é como olhar para a serpente de bronze erguida por Moisés: é garantia de vida, agora, de vida eterna. A passagem de Efésios acentua a salvação por graça mediante a fé. A nós, que estávamos mortos, Deus nos deu a vida com Cristo. Tudo isso é dom gratuito de Deus. O tema do domingo parece claro. Destaca o amor e a misericórdia de Deus, expressos na cruz de Cristo, para além da morte. A pergunta que fica é como interpretar o texto de Números sem, de imediato, fazê-lo à luz do Novo Testamento. O princípio hermenêutico luterano – o que promove a Cristo – não pode ser ponto de partida exegético em textos do Antigo Testamento. É ponto de chegada. Só poderá ser critério depois de interpretarmos o texto em seu próprio contexto.

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Exegese

A narrativa em apreço faz parte do complexo maior das tradições do deserto no Pentateuco. Essas iniciam em Êxodo 16-18, sendo interrompidas pelo grande bloco do Sinai e da lei, que se estende de Êxodo 19, passando por todo Levítico até Números 10.10. O tema do deserto é retomado em Nm 10.11, seguindo até o final do livro e, ainda em boa parte, continuando no Deuteronômio. Um dos principais temas das tradições do deserto é a murmuração do povo, seguida da intervenção salvífica de Deus (cf. Êx 15.22ss; 16.1ss; Nm 11.1ss). É esse também o tema de nosso texto.

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4º Domingo na Quaresma

Em termos literários, a passagem é coesa e está bem delimitada em relação ao que a antecede e a sucede. Compõe-se de um itinerário (v. 4a) e de uma narrativa que se desdobra em quatro partes: v. 4b-5: a murmuração do povo; v. 6: o castigo de Deus – as serpentes abrasadoras; v. 7: arrependimento e pedido de socorro por parte do povo; intercessão de Moisés; v. 8-9: a serpente de bronze e a salvação divina. O motivo da murmuração continua o mesmo: não há pão nem água. Acrescenta-se aqui o fastio em relação a “este pão vil”, seguramente uma referência ao maná. Como em outras vezes, volta a ideia de que teria sido melhor permanecer no Egito do que morrer no deserto. Diante das dificuldades da caminhada prefere-se o retorno à aparente segurança da escravidão em lugar das incertezas provocadas pela novidade da liberdade. Se nas primeiras vezes (cf. Êx 15.22ss; 16.1ss) Deus intervém de imediato, provendo ao povo o que lhe falta, agora faz valer a sua ira. Isso já ocorrera em Nm 11.1ss, quando a murmuração do povo também provocara a ira de Deus: “(...) fogo do Senhor ardeu entre eles e consumiu extremidades do arraial” (Nm 11.1b). A ira de Deus manifesta-se agora de forma aterradora. Ele manda entre o povo serpentes abrasadoras. Tais serpentes picam muitas pessoas, levando-as à morte (v. 6). Hanahash hasaraf, a serpente abrasadora, é tida como uma má e perigosa habitante do deserto (assim Dt 8,15). Nahash é em si o designativo de “serpente”. Saraf é um adjetivo, também utilizado de forma substantivada, derivado do verbo srf, cujo significado é “queimar, arder”. Na ligação com nahash, deve referir-se à cor avermelhada da serpente ou efetivamente à queimação provocada por sua picada. Hanahash hasaraf é tida como uma serpente alada. Conforme Is 30.6, o deserto é um território da serpente alada ou volante. De acordo com Is 14.29, uma serpente alada ou voadora é muito mais perigosa do que uma serpente comum. Tudo leva a crer que se trata de uma naja. Apavorado, o povo arrepende-se de sua murmuração. Dirige-se a Moisés, confessando sua culpa e pedindo pela intercessão de Moisés para que Deus afaste esse mal. Moisés atende o pedido de socorro e ora a Deus pelo povo (v. 7). Arrependimento e confissão de culpa levam à intercessão, que é atendida por Deus. Moisés recebe a tarefa de fazer uma serpente abrasadora – ainda nada é dito de que material – e a ponha sobre uma haste. Quem olhar para esse objeto após ser picado por uma serpente escapará da morte (v. 8). O relato termina com a execução da tarefa. Moisés faz uma serpente de bronze e a põe sobre uma haste. Ocorre o que foi previsto: quem olha para a serpente de bronze após ser picado sara (v. 9). A pergunta que permanece é pelo lugar vivencial dessa narrativa. Essa questão leva-nos de imediato a uma interessante nota presente em 2Rs 18.4. Na reforma do culto promovida por Ezequias em 705 a. C., num momento em que a ameaça assíria havia diminuído, o rei “removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo, e fez em pedaços a serpente de bronze que

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Moisés fizera, porque até aquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã”. O nome Neustã evoca nahash, nossa conhecida serpente, mas também nehoshet, bronze. A referência a Moisés, porém, é tanto mais significativa. Embora a narrativa de Números 21 não conclua com a fórmula “até o dia de hoje”, típica para sagas etiológicas, ela tem tudo para ser a etiologia da estranha serpente de bronze encontrada no templo de Jerusalém. Outra referência interessante é de Is 6.1ss, a conhecida passagem da vocação de Isaías. O profeta encontra-se no templo e vê o Senhor assentado sobre um trono, acima do qual voam serafins. Esses seres alados são mencionados apenas nessa passagem. Ao que tudo indica, tais serafins são serpentes voadoras, como vimos acima. Teriam, nessa visão de Isaías, alguma relação com a Neustã despedaçada um pouco mais tarde por Ezequias? Aparentemente, sim. Estamos diante de uma tradição idólatra, que via a serpente como uma espécie de divindade com alguma função salvífica. Teria alguma relação com aquela outra serpente do jardim do Éden? Em todo caso, na narrativa de Números 21, tal tradição da divindade-serpente já está subordinada a Javé, Deus de Israel. Neustã, ou seja lá qual for o seu nome, é fabricada por ordem de Deus e salva porque Deus assim o ordena. Não tem poder por si mesma. Mais uma vez, a fé em Israel incorpora antigas tradições de naturezas distintas, reinterpretando-as à luz do Deus Libertador.

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Pensando na pregação

É grande a tentação de esboçar de imediato uma pregação a partir do Evangelho de João (3.14), interpretando a passagem de Nm 21.4-9 alegoricamente. Nosso texto não seria mais do que uma espécie de prefiguração da morte de Jesus Cristo por nós na cruz. Contudo é preciso esforçar um pouco mais nossa inteligência antes de capitular diante de um texto. Como pregar sobre essa estranha história sem desprendê-la de seu contexto na Bíblia Hebraica? Como vimos, estamos diante de uma tradição possivelmente idólatra de adoração a um deus-serpente. A notícia de 2Rs 18.4 corrobora essa afirmação. Um culto monolátrico, que não admite outros deuses, tampouco qualquer tipo de imagem, precisa despedaçar a Neustã encontrada no templo de Jerusalém por ocasião da reforma de Ezequias. É interessante observar que a atitude de Ezequias em relação à serpente de bronze é a mesma tomada por Moisés em relação ao bezerro de ouro em Êxodo 32. Também o bezerro é destruído, queimado e reduzido a pó. Não obstante, em Números 21, a imagem representa exatamente o contrário. O próprio Deus ordena a Moisés que a faça. Se a Neustã de 2 Reis é a mesma serpente de bronze de Números 21, por que é destruída por Ezequias? Não seria uma bela recordação de mais uma intervenção salvífica de Deus?

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Ao que parece, estamos diante de duas interpretações teológicas distintas sobre um mesmo fato ou, melhor, de um mesmo objeto. Ezequias interpretou-o negativamente. Por isso o destruiu. O autor da passagem de Números, por sua vez, compreendeu positivamente a imagem de bronze. Entendo que João também leu positivamente a passagem de Números. Retoma, sem qualquer ressalva, a imagem da serpente alegoricamente como uma prefiguração da morte de Jesus na cruz. Penso que os textos deste domingo oferecem-nos uma ótima oportunidade para abordar questões relacionadas a intransigências religiosas e iconoclastias exacerbadas. Israel soube muito bem absorver e reinterpretar tradições diferentes da sua, ao menos em seu início. Exemplo disso é a tradição do Deus dos Pais. Os deuses de Abraão, de Isaque e de Jacó, entre outros, foram reinterpretados como manifestações do Deus de Israel em tempos antigos (cf. Êx 6.3). Provavelmente, antigas sagas, como a da luta de Jacó com Deus no Jaboque (Gn 32.22-32), sejam reflexos da crença na existência de outras divindades. Também essas foram reinterpretadas a partir da percepção monoteísta que se instalou em Israel desde os tempos de Elias. O movimento do “Javé-único” não destruiu o antigo imaginário religioso de diferentes grupos, mas os assumiu como manifestações do Deus único. Assim, o deus-serpente pode também ser reinterpretado, se não como o próprio Javé, como um sinal de salvação ordenado por ele a Moisés. Na mesma direção apontam os serafins de Isaías 6. Serpentes aladas, provavelmente originárias do mesmo culto não israelita ao deus-serpente, transformam-se em seres alados a serviço de Javé. Assim também ocorre em Jo 3.14-21. A serpente de bronze, destituída de qualquer dignidade divina já no texto de Números, pode agora tornar-se prefiguração da crucificação de Jesus Cristo. E mais: pode agora tornar-se prefiguração da salvação em Cristo. Proponho que a pregação reflita esse tema da absorção de aspectos de outras religiões na fé cristã. Tal absorção não significa mera aceitação tácita de tais aspectos. Ela precisa ser refletida. Penso aqui na atitude de Paulo no areópago de Atenas (At 17.16ss), transformando o altar ao deus desconhecido dos atenienses no altar ao Deus Pai de Jesus Cristo. Paulo incultura-se na religião grega. Não a destrói, como Ezequias reduz a pó a Neustã. Incorpora-a e a reinterpreta. Não deveríamos fazer o mesmo com aspectos das religiões afro-brasileiras e indígenas? Não seria possível uma inculturação em vez de uma simples negação? Também não tenho a fórmula de como fazê-lo. Contudo bons missionários indigenistas ligados ao COMIN já o fizeram. Em todo caso, o texto de Números diz em alto e bom som um não à iconoclastia. Não se trata de quebrar imagens. Trata-se de reinterpretá-las, às vezes até não mais do que interpretá-las. Nosso mundo evangélico é muito rápido em quebrar e destruir imagens irrefletidamente. Pensando apenas dentro do universo cristão: pode-se simples-

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mente quebrar uma imagem de São Francisco de Assis (por ser uma “idolatria católica”) sem pelo menos perguntar o que tal santo homem fez? Sua vida é certamente um exemplo de fé para muitos cristãos evangélicos que só pensam no próprio sucesso. Como se diz: antes de jogar a água da banheira pela janela, é bom verificar se a criança não está mais dentro. Antes de quebrar a imagem, convém observar a sua história. De qualquer modo, será mais evangélico reinterpretá-la do que reduzi-la a pó.

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Imagens para a prédica

Na Igreja do Relógio em São Leopoldo (RS), na qual celebro como pastor voluntário um culto por mês, há uma belíssima imagem do Cristo Ressurreto em um nicho sobre o altar. É um ícone que quer assinalar o nome daquele templo, que pouca gente recorda: Erlöserkirche, Igreja do Redentor. O Ressurreto está de braços abertos, estendidos em direção à comunidade. Uma vez por ano, aquela imagem é retirada do nicho e substituída por outra. Isso ocorre na Sexta-feira Santa, e a outra imagem é a do Cristo Crucificado, artisticamente muito bem trabalhada em metal. Ainda há outras imagens nos vitrais do templo e num belo candelabro que pende do teto, bem no centro da nave. Quatro seres alados entalhados em madeira seguram as lâmpadas fluorescentes que iluminam o interior da igreja. Lembram os serafins de Isaías 6. Todas essas imagens contribuem para o fortalecimento da fé, não por si mesmas, mas por apontar para conteúdos fundamentais da palavra de Deus. Não vejo motivo para reduzi-las a pó. Ao contrário, tenho muitos motivos para preservá-las, pois me falam dos propósitos de Deus. Certamente cada pregadora, cada pregador terá exemplos de imagens úteis no templo em que pregará. Proponho que as utilizem para demonstrar que apontam para a fé, sem ser ídolos que nos afastam de Deus. Ideal seria se a pessoa responsável pela pregação encontrasse exemplos de imagens não cristãs que pudessem ser reinterpretadas em função de nossa fé.

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Subsídios litúrgicos

Dois hinos do HPD II parecem-me importantes para o culto. Trata-se dos hinos 340 e 375, não tanto pelo seu conteúdo, mas pelo estranhamento que causam. A letra do primeiro está em língua Guarani: Oré poriaju verekó Ñandeyara; a do segundo em uma língua africana, conhecida na África do Sul: Thuma mina, Samandla. Tanto Ñandeyara quanto Samandla são nomes para Deus. Para versículo de introito sugiro Jo 3.14s: E do mesmo modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado.

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As três leituras indicadas para o domingo deveriam ser utilizadas e relacionadas na pregação. A oração de intercessão não deveria esquecer de mencionar grupos étnicos e religiosos distintos, pedindo que Deus os proteja e conceda que nós os respeitemos em sua diversidade. Penso aqui principalmente nos povos indígenas e nos grupos negros praticantes de cultos afro-brasileiros. Ideal seria que não fossem esquecidas também as religiões orientais conhecidas em nosso meio.

Bibliografia Como bibliografia sugiro os auxílios homiléticos sobre o texto de Números 21 já publicados em Proclamar Libertação, mencionados na introdução deste escrito. Como complemento para a temática da inculturação e da reinterpretação de símbolos de outras tradições religiosas sugiro: TISS, Frank; SASS, Walter. Um só Deus Criador. Diálogo intercultural e inter-religioso com povos indígenas. Cadernos do COMIN, v. 11, 2012.

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PRÉDICA: JOÃO 12.20-33

5º DOMINGO NA QUARESMA 22 MAR 2015

JEREMIAS 31.31-34 HEBREUS 5.5-10

José Manuel Kowalska Prelicz

“Tá na hora, tá na hora!”

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Introdução

Estamos no último domingo na Quaresma. Ainda que no evangelho seja descrita uma situação depois da entrada triunfal em Jerusalém, o texto deste domingo lembra visivelmente o pensamento da Quaresma. O tempo está pronto para que se escute sobre o sacrifício do Cristo. O evangelho marca o tema do domingo, e as outras leituras ajudam e apontam para a nova realidade que Cristo anuncia com o seu próprio sacrifício. O texto de Jeremias indica a promessa da chegada do tempo de uma nova aliança. Uma aliança diferente que o povo não esquecerá nem quebrará, na qual Deus trará perdão. Uma aliança com a novidade de que não será mais necessário o ensino, pois todas as pessoas, sem distinção, conhecerão a Deus. Uma aliança diferente, que as pessoas cristãs reconhecem que foi feita em Cristo. Na Carta aos Hebreus, conhecemos o papel de Cristo como sacerdote da nova aliança. A grande diferença entre o sacerdócio de Cristo e o dos sacerdotes do templo em Jerusalém é que, além de provir de Melquisedeque, aquele está marcado com o sofrimento e a novidade como fonte de salvação. O texto do evangelho já foi trabalhado em sua totalidade nos volumes 19, 31 e 33 de Proclamar Libertação e, parcialmente, nos volumes 10 e 25.

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Exegese

V. 20-21 – Quem são os gregos que conversam com Filipe? Em primeiro lugar, tem que se observar que estamos na perícope logo depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e também da ressurreição de Lázaro. A multidão ajunta-se, pois procura saber quem é esse que ressuscita os mortos. Pelo menos um homem voltou à vida. Como diz João 12.19: Todos estão indo com ele! Isso causou tamanha comoção, que as autoridades agora procuram Jesus e Lázaro para matá-los. Nesse turbilhão de acontecimentos, aproximam-se uns personagens que até agora não faziam parte da cena. Aparecem os hellēnes. Quem são esses personagens? Existem duas versões diferentes para indicar quem são os hellēnes: por um lado, seguindo a versão de Almeida Revista e Atualizada (RA), são “gregos”.

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É bem provável que os gregos sejam judeus na diáspora. Pois se usa hellēnes e não ethnē, que é usado geralmente para designar os gentios ou outras nações. Por outro lado, seguindo a versão da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), são “não judeus”, ou seja, pessoas não relacionadas com o judaísmo. Aqui é usado hēllenes e não hēllenistai (judeus helenistas). Se a segunda versão é utilizada, pode-se entender que os gregos gentios apontam a direção do futuro do cristianismo. A procura desses gregos é sinal da expansão da missão. Indo mais longe, podemos afirmar que sejam as pessoas pelas quais o evangelho foi escrito. Aquelas pessoas que não receberam uma audiência pessoal com Jesus, mas que é verdadeiramente revelado a eles. Se os que procuraram Jesus foram realmente gregos prosélitos ou simples judeus na diáspora, isso não interfere no significado da abertura ao não judeu. Pois não foram fariseus nem outros seguidores rígidos do judaísmo que procuraram Jesus. Por que os gregos chegaram primeiro a esse discípulo e por que Filipe foi consultar André? Os dois discípulos têm nome grego. Os “gregos” vão até Filipe, que, como explicado pelo texto, vem de uma região da Galileia onde existiam muitos judeus de fala grega. Por isso os gregos vão e procuram um discípulo que possivelmente fale sua língua e possa ajudá-los. Teriam maior possibilidade de comunicar-se e aceitar aproximar os curiosos de Jesus. Procurando chegar de mansinho, os gregos vão e pedem com humildade ao Senhor (kyrie) Filipe que dê um jeito para falar com a pessoa famosa. Os gregos erram em sua adulação o alvo do título: Senhor não é Filipe, mas Jesus. Mas não deve surpreender que pessoas quisessem ver Jesus, pois desde o início ele convidou as pessoas para “vir e ver”. O texto não indica o que aconteceu: se os gregos puderam ou não falar com Jesus. Mas com sua proximidade começa a última fase do ministério de Jesus na Palestina. Com a aparição dos gregos começa a mostrar-se o impacto mundial da morte e ressurreição de Jesus. V. 23 – “Tá na hora”: A hora do Filho do Homem versus a hora do governante do mundo (v. 23 x 31). A quem se dirige Jesus? Sua fala é dirigida a André e Filipe ou também os gregos estão incluídos, talvez a multidão? Quando Jesus começa a falar, a audiência parece irrelevante. O interlocutor a quem fala Jesus no v. 23, na verdade, é qualquer um que ouve ou lê o discurso de Jesus de acordo com João. A fala de Jesus prepara a pessoa que lê para a narrativa da Paixão. Segundo João, a morte e ressurreição de Jesus são um julgamento contra os poderes imperiais e, no fim, também a vitória sobre eles. A morte de Jesus deve ser interpretada como uma “glorificação” porque glorifica a Deus, traz a ressurreição e a esperança, e não somente a morte ou desesperação, e convida-nos a esse mesmo modelo. A morte de Cristo traz consequências: juízo positivo para uns e negativo para outros. A narrativa de João foca no conflito entre a vida do discipulado e archōn (o que governa, líder, comandante) deste mundo. Esse kosmos (mundo, forma de vida em oposição aos propósitos de Deus), que não é o mesmo que Deus ama e pelo qual dá seu Filho, está sob julgamento, e o governante será expulso.

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V. 24-30 – Entre a teoria e a prática. Os versículos 24 a 30 contêm três declarações, que ajudam a entender o significado e o impacto da glorificação de Jesus. A oferta de salvação é universal: Jesus mesmo afirma que atrairá todos a ele. Ao ser levantado da terra e atrair as pessoas para si, Jesus mostra-nos o foco: nem a morte deve tirar de nós a atenção sobre a mensagem de Cristo. A importância de perder a vida (v. 25): Amar a vida? Quem não ama a sua vida? A vida neste mundo não é a vida verdadeira? O mesmo pensamento também existe nos outros evangelhos (Mt 10.39;16.25; Mc 8.35; Lc 9.24;17.33). Em grego existe uma diferenciação que se perde na tradução: Quem ama a sua vida (psychē) perde-a; mas aquele que odeia a sua vida (psychē) neste mundo preservá-la-á para a vida (zōē) eterna. Temos uma diferenciação entre psychē e zoē. Psychē significa, basicamente, três coisas: 1) a base impessoal da vida ou a própria vida; 2) a parte interior do ser humano; 3) uma alma independente do corpo. Psychē abrange, portanto, a totalidade da existência e vida do ser humano, com a qual se preocupa e da qual tem cuidado constante. Por outro lado, zoē refere-se à própria vida de Deus, comunicada aos que a receberam em Cristo. Essa vida é de qualidade superior, ilimitada (pois não é confinada ao tempo histórico), porque nos levará à era futura, que possui uma vida cuja duração não tem fim. A honra está no serviço (v. 2): Como é seguir Jesus? Segui-lo para onde? Qual a honra em servir? A morte de Jesus produz uma comunidade de fé em serviço a Deus. Jesus não afirma somente seu sacrifício em favor da humanidade, mas também convida seus seguidores a estar disponíveis para um serviço similar quando ele não estiver mais entre eles. Jesus está liderando seus seguidores para a vida eterna, assim como está adentrando-se na hora de sua morte. A tribulação de Jesus e a resposta do céu (v. 27-30): O v. 27 é o equivalente ao gesto de Jesus no Getsêmani nos sinóticos, quando Jesus pede: “(...) aparta de mim esse cálice” (Mt 26.39, Mc 14.36 e Lc 22.42). Aqui Jesus pergunta: O que direi? Mas a resposta é igualmente colocada na vontade divina de realizar aquilo que o Pai pede. A voz que contesta no v. 28 ressoa como a voz dos sinóticos no momento do batismo de Jesus. Mas agora enfatiza a glorificação de Jesus. A fidelidade de Jesus à vontade divina, demonstrada com a vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus, glorifica o nome de Deus.

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Meditação

Caminhando para os dias finais da Quaresma através da Semana Santa, vemos Jesus como aquele que não se compromete com os poderes sedutores deste mundo e ao mesmo tempo somos desafiados e fortalecidos para contemplar a morte e exaltação do Cristo. Seguir Jesus é questão de vida ou morte, ou melhor, vida e morte importam aqueles que seguem Jesus. Durante o tempo de Quaresma, nós seguimos todo o caminho até o Gólgota, todo o caminho até a cruz, onde estaremos face a face com a morte em suas mais diversas facetas (pobreza, colapso econômico, fome,

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doença, guerra). Tudo isso está agora cada vez mais perto de Jesus. Diante da dura realidade do fim de sua vida é que Jesus se encontra cheio de vida. O que significa a glorificação de Jesus? Será revelar a natureza divina, como traduzido/interpretado pela NTLH? Em João, a glorificação de Jesus inclui sua morte, ressurreição e ascensão, fatos que transformam a história humana e sua relação com Deus. A glorificação de Jesus disponibilizará a salvação para toda a humanidade, seja judeu ou grego. Se a salvação é oferecida a todas as pessoas, nós podemos impedir o acesso de alguém por motivos humanos? Muitas vezes, são colocadas barreiras à participação humana. Cabe até a pergunta: Para quem é a igreja? Parece que muitas vezes é somente para alguns. Mas a presença dos gregos mostra aqui outra coisa. Na sociedade atual, de onde você vem importa, faz a diferença. Em nome de quem você vem, importa. Ter QI – quem indica – é importante não somente no mundo, onde as coisas funcionam mais facilmente se temos um amigo ou conhecido. Também na igreja vemos pessoas serem tratadas de forma diferente. Sepultamentos são tratados de forma diversa se é parente do presidente da paróquia ou um “simples membro”. Mas observemos a perícope em estudo, a começar com os gregos, aqueles que não são deste lugar, são passageiros, estrangeiros, não são daqui. Eles vão a Filipe, mas ele também não é daqui, tem nome estrangeiro. Ele também está longe do seu lar, não tanto quanto os gregos; ele ainda pertence a Israel. Por isso possibilita uma ponte com Jesus. Mas Jesus também não é de Jerusalém, nem da Grécia, Galileia ou Judeia. Jesus é de Deus. Por isso, de onde você é, importa! Mas de forma totalmente radical e diferente do conceito deste mundo e suas sociedades humanas. O texto de João traz a mensagem de um evangelho universal. Isso é um elemento-chave para entendermos a perícope. O evangelho é universal. Como podemos viver essa mensagem radical? Proclamamos um evangelho aberto e abrangente. Mas nem todos o receberão, ainda que não seja escondido nem limitemos seu acesso. A cruz de Cristo não nos deixa apáticos. Jesus atrai as pessoas para si, mas nós, seres humanos, geralmente afastamos quem está perto de nós. Sempre reagimos de um jeito ou de outro: aproximamo-nos ou nos afastamos. Neste mundo (kosmos), muitas vozes são escutadas; o problema é saber interpretá-las. Geralmente escutamos e seguimos as vozes que são importantes para nós – aquelas que seguem um padrão ao qual nós estamos acostumados. Mas nem sempre escutamos, interpretamos e seguimos a proposta que a voz do céu nos traz. Qual a nossa disponibilidade de “sofrer” por seguir a Cristo? Além de reagir ao evangelho aberto a todas as pessoas, devemos saber que a conceituação de Jesus é diferente. A proposta de perder a vida, como é enfeitada neste mundo, é radical. Mostra-nos uma parte do ser uma pessoa seguidora de Jesus. Pois transformações são necessárias na vida que está a serviço do Senhor Jesus. Aquilo em que investimos nosso tempo e esforço muda radicalmente com a proposta de Jesus. O que teria acontecido se o próprio Cristo agisse como nós naturalmente agimos? Será que ele seria morto na cruz? Deus mostra-se realmente sob o inverso. No lugar da morte e tortura por excelência estão a vida e a acolhida. É possível

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que nossas vidas sejam reflexo dessa realidade? É possível sermos comunidades de fé verdadeiramente acolhedoras, principalmente para aqueles que o mundo despreza, mas que escutaram o evangelho?

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Imagens para a prédica

Logo que foi lido o texto, veio à mente esse personagem tão popular na sociedade brasileira, mas também latino-americana do pistolão, do despachante, do QI, daquele que “facilita os processos”, que conhece o “sistema”. Esse personagem chega muitas vezes a ser considerado um mal necessário para que o sistema funcione. Quantas vezes nós o procuramos? Quantas vezes nós necessitamos dele? No mercado religioso atual, parece que também são necessários não somente na religiosidade católica, mas também nos diversos grupos que se dizem seguidores de Cristo. Também veio à mente (por isso o título deste subsídio) a música popularizada pela Xuxa: “Ilariê”. Com seus versos Tá na hora, tá na hora / Tá na hora de brincar... O Pai brinca agora, indicando que está na hora da glorificação de Cristo. Se a prédica enfatizar a atração de Jesus, a centralidade no levantar da terra e atrair, pode-se lembrar dos ímãs, aqueles materiais que têm propriedade de atrair o ferro. Os ímãs têm geralmente dois polos. Mas recentemente foi inventado um ímã que tem somente um polo. Assim é Cristo, o ímã que só atrai. O caso da esposa de um alcoolista traz-nos um exemplo de como deveria ser nossa vida a serviço de Cristo. Tempos atrás, escutei o testemunho de uma mulher que contou como foi e como está sendo sua vida junto a um alcoolista: uma vida muito complicada e com diversos dissabores; a vontade de deixar tudo para ir embora, deixando o bêbado sozinho; mas também a fortaleza que ela encontrou em Deus para ajudar o marido, em primeiro lugar, a reconhecer-se como dependente e, em segundo lugar, a perseverar junto no processo da eterna recuperação; a tristeza deixada atrás quando o marido escondia a bebida em qualquer lugar até a alegria de estar bem junto da pessoa amada; a certeza de saber que valeu a pena passar pelo tormento e hoje celebrar em família a volta do homem companheiro, amigo, esposo e pai.

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Subsídios litúrgicos

Na confissão de pecados, distribuir folhas para que as pessoas escrevam seus preconceitos em relação às outras pessoas ou aquilo que elas sabem que as impede de ouvir a voz divina. Oração do dia: Pai, tua voz clama do céu, faz-nos atentos a ela. Senhor Jesus, ao morrer na cruz, tu atraíste todas as pessoas. Deixa que sintamos tua atração e nos aproxi-

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memos da tua cruz. Santo Espírito, tu que nos dás a força para seguir o caminho divino, ajuda-nos a perceber tua presença entre nós. Amém. Hinos: HPD II: nº 407, nº 441, nº 449, nº 452. Bênção final: Que possas escutar a voz do Pai quando clama por tua atenção. Que o Senhor Jesus te atraia à sua cruz e possas sentir-te abraçado por ele. Que o Espírito divino abra teus olhos, teus ouvidos e tuas mãos para que ajudes onde for preciso. E que todo o mundo possa enxergar em ti um bom seguidor / uma boa seguidora de Deus, que partilha as bênçãos divinas. Amém.

Bibliografia COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. SALMON, Marilyn. Commentary on John 12:20-33. Disponível em: <http:// www.workingpreacher.org/preaching.aspx?commentary_id=1259>. Acesso em: 10 mai. 2014.

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DOMINGO DE RAMOS

PRÉDICA: MARCOS 11.1-11

29 MAR 2015

SALMO 118.1-2,19-29 FILIPENSES 2.5-11

Martin Volkmann

Bendito o que vem em nome do Senhor!

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Introdução

Entre o texto de prédica e os dois outros textos para este domingo há uma relação sob enfoques diferentes. Enquanto o Sl 118 convida ao louvor e à gratidão, referindo-se à ação libertadora de Deus – pedra angular rejeitada pelos construtores; o dia que o Senhor fez; bendito o que vem em nome do Senhor –, Fp 2 descreve a caminhada salvífica do Cristo que deixa sua condição divina, assume a condição humana, segue o caminho para a cruz e, ressurreto, é exaltado à condição divina. Assim, ambos os textos iluminam o relato do evangelho sob ângulos diversos: por um lado, a conclamação ao louvor, assim como o povo aclama Jesus como o Salvador que vem; por outro, a exaltação do caminho salvífico seguido por Jesus, para o qual o relato de Mc 11, a entrada triunfal em Jerusalém, aponta. Assim, além do texto-base para a pregação, os outros dois textos são uma boa complementação e deveriam ser aproveitados como leituras. O Salmo 118.12,19-29 poderia ser integrado na liturgia de entrada. O relato da entrada triunfal em Jerusalém é transmitido pelos quatro evangelistas: nos sinóticos, no final do relato (especialmente em Mateus e Marcos), como introdução aos acontecimentos finais da atuação de Jesus e sua crucificação; em João, que fala de diversas idas de Jesus a Jerusalém, isso se dá também em conexão com a última, porém antes dos grandes discursos de despedida. A perícope de Mc 11.1-11 foi analisada no PL 33; os textos paralelos de Mt 21.1-11, no PL 38 e Lc 19.28-40, no PL 34 e 37.

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Exegese

O texto está claramente estruturado. Compõe-se de duas partes: na primeira (v. 1-7), é descrito como é providenciado um animal para a entrada na cidade; a segunda parte (v. 8-11) relata essa entrada na cidade. Como moldura para o todo encontram-se, no início e no final, as indicações geográficas, com destaque para Jerusalém nos dois momentos. A menção do templo, no v. 11, serve como ponte para os relatos seguintes. Os v. 1-7 compõem-se de dois elementos que se correspondem integralmente: à ordem dada por Jesus corresponde exatamente o cumprimento da mesma, ou seja, tudo se dá assim como Jesus o previra. Na segunda parte, há os gestos de saudação (v. 8) e a saudação propriamente dita (v. 9s), que está estruturada de forma paralela e emoldurada pela aclamação “Hosana”.

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Quanto às indicações geográficas, a menos conhecida é Betfagé. Além da menção aqui (e nos textos paralelos), não aparece em outra passagem dos evangelhos. Em contrapartida, Betânia, Monte das Oliveiras, Jerusalém têm grande destaque em todos os relatos dos evangelhos. Em Betânia, Jesus encontra-se seguidamente (Mt 26.6; Lc 24.50; Jo 1.28; 12.1); é lá que moram Maria, Marta e Lázaro. É o local de recolhimento de Jesus (v. 11; veja também Mt 21.17; 26.6; Mc 14.3). O Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, já é mencionado no Antigo Testamento como sendo local de oração (2 Sm 15.32). Segundo Zc 14.4 (cf. também Ez 11.23), Deus se manifestará no dia do juízo nesse monte. Já Jerusalém, a cidade do templo, é o centro religioso e político, sede do sinédrio. Apenas uma vez (3.8), Marcos menciona Jerusalém sem qualquer observação. No mais (3.22; 7.1), vem sempre em conexão com escribas ou fariseus, de maneira que Jerusalém é o local dos adversários de Jesus que planejam e consolidam o plano de matá-lo (10.32ss; 14.43). Portanto já as simples indicações geográficas apontam para o caráter messiânico do texto. Esse caráter é destacado pelo cerne do relato – preparação para a entrada com busca do jumento; entrada e aclamação – e pela indicação no final em relação ao templo. A cena toda desemboca no templo, onde Jesus observa tudo – não como turista deslumbrado, mas como quem percebe toda a deturpação do mesmo. Essa menção é, pois, o elo para com a cena que ocorre no dia seguinte (11.15-19). No entanto, diferentemente de Mateus e Lucas, que relatam imediatamente em conexão com a entrada triunfal em Jerusalém a ida ao templo e a expulsão dos mercadores, em Marcos o cortejo triunfal acontece fora, às portas da cidade. Assim, segundo Marcos, a chegada de Jesus a Jerusalém é, de fato, a ida ao templo. E o fato de separar essa chegada e a intervenção no burburinho do tempo em dias distintos dá a esse relato da chegada à cidade um caráter de ação simbólica frente à questão da vinda do Messias. Contrariamente à expectativa zelote, que espera por um messias guerreiro, que expulsará os romanos e restaurará o reino de Davi, Jesus expressa aqui que, segundo a vontade de Deus, o Messias é o humilde príncipe da paz. Além disso, separando a chegada à cidade da intervenção no tempo em momentos distintos, é destacado no relato de Marcos que o que importa não é a conquista da cidade como um general vencedor, mas a restauração correta na relação com Deus, simbolizada no templo. Vistos aspectos do texto a partir da moldura com as indicações geográficas, vejamos as duas cenas. V.1b-7 descrevem as providências para a entrada na cidade. A instrução de Jesus aos discípulos para providenciar um jumento, que está amarrado, tem como pano de fundo Gn 49.11 e Zc 9.9 (mesmo que essa passagem não seja citada literalmente, como em Mt 21.5). A passagem de Zacarias bem como outras manifestações rabínicas evidenciam que o jumento é considerado o animal sobre o qual vem montado o Messias. E o fato de ser um animal, sobre o qual ninguém ainda montara, qualifica-o ainda mais para ser montaria do Messias. Além disso, a pureza, o fato de não ter sido usado para outra finalidade, é um pressuposto, no judaísmo, para fins religiosos e cúlticos. Novo caráter messiânico transparece na resposta que os discípulos devem dar diante do protesto das pessoas ao desamarrar o jumento: “O Senhor (Kyrios) precisa dele”. Em nenhu-

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ma outra passagem em Marcos, Jesus é chamado de Kyrios. Mas a comunidade pós-pascal destaca com esse termo que Jesus é esse Messias, que vem em nome do Kyrios (v. 9). Além disso, a expressão “logo o mandará de volta para aqui” garante que o direito à propriedade é mantido. Por outro lado, a justiça, bem como a humildade e simplicidade desse Messias evidenciam-se exatamente no fato de que ele apenas toma o jumento emprestado. Instrução de Jesus aos discípulos (v. 2-3) e execução da tarefa dada (v. 4-6) coincidem integralmente (cf. Mc 14.13-16). Nisso se evidencia, por um lado, que Jesus se atém à vontade de Deus, expressa na Escritura em relação ao Messias, e, por outro lado, que Deus mesmo conduz a história e que as pessoas agem segundo a vontade de Deus. Providenciado o animal e levado até Jesus, os discípulos colocam suas capas sobre o animal em forma de cela. Esse gesto dos discípulos motiva os demais acompanhantes a estender suas capas, respectivamente ramos pelo caminho por onde Jesus segue a partir do Monte das Oliveiras em direção à cidade. Com referência a 1Rs 1.38-40, 2Rs 9.13, a cena lembra a entronização de um rei. Isso também é destacado pela aclamação por parte do povo que o acompanha. Com base no Sl 118.25s, que contém elementos de uma liturgia de entrada no templo, Jesus é aclamado como aquele que “vem em nome do Senhor”, respectivamente que com ele vem “o reino de Davi, nosso pai”. Emoldurando essas declarações, encontra-se a aclamação Hosana, respectivamente “Hosana nas alturas”. Originalmente, Hosana é um grito por socorro: Deus, salva-nos! Mas com o tempo passou a ser uma aclamação, um grito de louvor. Grito por socorro que se transformou em exclamação de louvor, porque agora está se cumprindo a esperança messiânica. Assim como está estruturado, pode-se supor que Marcos tenha imaginado uma sequência litúrgica em que os que precedem e os que seguem aclamam em responsório com Hosana, intercalado pelas declarações messiânicas: “Bendito o que vem em nome do Senhor” e “Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai”. Portanto o povo que acompanha Jesus e que o saúda com Hosana expressa com essas aclamações a esperança de que se cumpra agora o que ele anunciara, ou seja, a vinda do reino de Deus. Esse reino é caracterizado como o “reino de Davi, nosso pai”. Essa expressão, diferentemente de Mt 21.9, que fala em “filho de Davi”, surpreende, porque, na tradição judaica, “pais” são os patriarcas, não o rei Davi. O que se espera é a restauração do reino de Davi. Portanto essa expressão é criação tipicamente cristã. Além disso, Marcos não menciona o título de rei; isso fica preservado para o relato da crucificação (15.26). Ali se revela a sua verdadeira dignidade real. Diferentemente de Mateus (21.10), a chegada à cidade é totalmente discreta. Não há menção alguma de reação do povo da cidade ou das autoridades. Isso evidencia, por um lado, a ideia de “segredo messiânico” que Marcos desenvolve ao longo de seu relato; por outro lado, a discrição nesse momento serve como preparação para o definitivo confronto em torno da dignidade real que se dá no processo de Jesus. Portanto o título que normalmente é dado a essa perícope

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(entrada triunfal em Jerusalém) vale mais para as versões de Mateus e João. Em Marcos, caberia melhor o título: A chegada a Jerusalém.

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Meditação

O relato de Marcos apresenta alguns aspectos surpreendentes: a) coincidência entre a orientação para a busca do jumento e a execução da ordem – acontece exatamente assim como Jesus ordenara; b) grande alarde por parte de quem acompanha Jesus com expectativa de acontecimento extraordinário e resultado nulo, nada acontece; c) o cortejo e a aclamação ocorrem fora da cidade, enquanto a cidade nem toma conhecimento do ocorrido. Em suma, o relato dá a impressão de que iria ser algo bem maior do que efetivamente foi. Além disso, o texto apresenta uma série de contradições: há diferentes referências messiânicas ao longo do texto – indicações geográficas (Monte das Oliveiras, Betânia); o jumento, lembrando Zc 9.9; a aclamação “bendito o que vem em nome do Senhor”, expressando a expectativa do povo em relação ao Messias que instaurará o reino de Deus. Porém a cidade não toma conhecimento do acontecimento extraordinário; as autoridades não intervêm, e aquele que é aclamado como quem traz o “reino de nosso pai Davi” é aquele que vai para a cruz. Assim, esses aspectos surpreendentes e essas contradições destacam um aspecto fundamental do texto. O que vem em nome do Senhor é um Messias às avessas. Ele traz o reino de Deus, porém de forma contrária às nossas expectativas – não com o poder das armas, com pompa e circunstância, mas na simplicidade, na doação, na entrega. E isso com toda a aparente surpresa e contradição é destacado pela descrição do relato: a opção pelo jumento e a ida direto ao templo. Porque é aquilo que o templo representa – presença de Deus, possibilidade de encontro com Deus – que, em última análise, interessa e é o que Jesus significa: a relação com Deus na e através de sua pessoa. Mesmo que os que acompanham Jesus e o saúdam como “aquele que vem em nome do Senhor” talvez não tenham entendido direito essa narrativa, o início do relato da Paixão mostra justamente, mesmo que subcontrário, a soberania de Jesus, o Messias: tudo acontece conforme ele prevê e determina; o cortejo “triunfal” às avessas; a ida ao templo e a sua retirada da cidade que não representa a presença de Deus. Portanto o caráter triunfal da chegada a Jerusalém evidencia-se às avessas: na morte que é vencida pela ressurreição. Assim, esse relato da chegada a Jerusalém é a introdução ao relato que tem seu desfecho no testemunho da ressurreição e que oferece a compreensão correta para a saudação: “Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai!” Por causa do relato paralelo em Jo 12.12-19, em que consta: “numerosa multidão que viera à festa ... tomou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro”, este domingo recebeu o nome de Domingo de Ramos. Na versão de Marcos, não se fala em tais ramos. Por isso, com base nesta narrativa que dá início ao relato da Paixão e que serve como texto-base para este domingo, a outra designação para este domingo parece ser mais apropriada: Domingo da Paixão. Ela nos ajuda

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a ver esse relato da chegada a Jerusalém com olhar para o relato da Paixão que segue, respectivamente a partir desse relato que culmina com o testemunho da ressurreição e que, assim, nos dá a compreensão correta desse Jesus bendito que vem em nome do Senhor.

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Imagens para a prédica

Com que expectativas nós vamos ao encontro de Deus? O que esperamos de Deus para a nossa vida? Um milagre que soluciona todos os nossos problemas – de relacionamento, de saúde, de emprego, de dinheiro? É possível que entre os que seguiam com Jesus rumo a Jerusalém houvesse pessoas que esperavam algo semelhante em relação a ele. Nesse sentido, o final desse relato e o desfecho da estada em Jerusalém com a crucificação foram uma decepção. Mas justamente a mensagem da Páscoa não é a promessa de que nós somos libertados milagrosamente de todas as nossas dificuldades, mas que Deus, em Jesus, desce até a nossa mais profunda dificuldade, tristeza e solidão e nos envolve com sua graça. E envoltos por sua graça, temos a força e a orientação para seguir o caminho com ele, enfrentando todos os nossos problemas com a força da sua presença. A chegada de Jesus a Jerusalém culmina na ida ao templo. Lá ele observa tudo o que acontece e em seguida se retira. No dia seguinte, ele retorna ao templo e “faz uma limpa” porque, em vez de ser casa de oração para todas as nações, se transformara em covil de salteadores (11.17). A igreja, cada comunidade local, é espaço de comunhão com Deus, desse Deus que desce para dentro de nossa realidade humana. Nossa igreja, nossa comunidade, é um espaço assim “para todas as nações”? O que será oferecido ao longo desta Semana Santa, que inicia neste domingo, para que pessoas possam perceber a presença e receber o conforto daquele “que vem em nome do Senhor”?

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Subsídios litúrgicos

Como já indicado na introdução, o Sl 118 pode ser um bom subsídio litúrgico. Sugiro que se leiam os v.1-6 e 19-29, logo após a saudação e o cântico de entrada. Como é o início da Semana Santa, ponto culminante da época da Quaresma, período de penitência, não deveria faltar nesta celebração a oração do Kyrie, implorando a piedade de Deus por quem sofre.

Bibliografia GNILKA, Joachim. Das Evangelium nach Markus. Evangelisch-Katholischer Kommentar zum Neuen Testament, vol. II.2. Zürich: Benzinger; NeukirchenVluyn: Neukirchener Verlag, 1979. GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Markus. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament, vol. II, 8. ed. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1980.

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PRÉDICA: ISAÍAS 42.1-4(5-9)

QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO 02 ABR 2015

MARCOS 14.12-26 APOCALIPSE 19.6-10

Geraldo Graf

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Introdução

Houve uma recolocação do texto. Anteriormente, a perícope era indicada para o 1º Domingo após Epifania. O foco estava centrado no batismo de Jesus e em sua revelação como enviado de Deus para a salvação do mundo. Ao indicá-la para a Quinta-Feira da Paixão, foca-se o aspecto sacrifical do Servo de Deus em favor da libertação de todos os que vivem caídos e sem perspectivas. Os textos de Mc 14.12-26 e Ap 19.6-10 relacionam Jesus Cristo diretamente com o Servo de Deus: sua vinda, sua missão, seu sofrimento e sua vitória – sempre marcados pela presença e ação misericordiosa de Deus.

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Exegese

Isaías 42.1-4(5-9) é o primeiro dos quatro hinos do Servo de Deus (os demais encontram-se em Is 49.1-6; Is. 50.4-9; Is. 52.13-53.12). Esses hinos fazem referência a um “servo de Deus” (Ebed Jahweh) que é apresentado por Deus com uma missão que transcende as fronteiras de Israel. Por sua total obediência, esse servo suporta sofrimento e morte. Também ele experimentará o “galho trincado” e o “pavio fumegante”. Porém Deus estará com ele. O galho não se quebrará, e a lamparina não se apagará. Essa mensagem vale para todos os povos e manifestará a justiça e a misericórdia de Deus. A tradução de Ebed como “servo” não contempla suficientemente o significado da palavra. A escolha por “servo” aconteceu devido à sua característica de humildade e total obediência a Deus (em Fp 2.7-8, essas características são atribuídas a Jesus). Daí a possível escolha pela tradução “servo”. Ebed também pode ser traduzido por “emissário”, “funcionário de confiança”, que se desincumbe de uma missão importante. O envio desse “servo” acontece por unção do Espírito Santo (Is 11.2; Is. 61.1). Quem é esse “Servo de Deus”? Seria o próprio povo de Israel – ideal ou real? Seria um determinado profeta ou um governante? Seria o próprio autor do texto? Em Mt 12.15-21, aponta-se para Jesus Cristo (veja também At 3.13,26; At 4.27,30). Não esqueçamos o texto de Mt 4.17 (e paralelos), em que a palavra “Servo” é substituída pela palavra “Filho” (relacionando a eleição do Servo com o batismo de Jesus Cristo). O Novo Testamento testemunha que, na presença e na ação de Jesus Cristo, cumprem-se as profecias acerca do Servo de Deus. As metáforas do “galho trincado” e do “pavio fumegante” apontam para antigos símbolos do Direito. O galho quebrado e a lamparina apagada represen-

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tam a condenação à morte. É juízo definitivo. Não há escapatória. Essa era a situação dos israelitas no exílio na Babilônia. Essa também é a realidade do pecador perante a justiça de Deus. O galho trincado remete à situação dos exilados. Por ter rompido a aliança que Deus fizera com seu povo eleito, Israel sofreu a invasão de potências vizinhas e foi subjugado. Antes pelos assírios, agora pelos babilônios. A classe dominante foi deportada e forçada a se estabelecer na Babilônia. A intenção era evitar que os remanescentes na terra de Israel alimentassem sonhos de libertação. Essa prática visava à extinção de Israel como nação. Outros povos passaram por esse processo e deixaram de existir. Porém Isaías anuncia que o Servo de Deus virá com uma mensagem surpreendente: a pena não será mais executada. Deus é misericordioso. Assim, através do anúncio do profeta, os exilados são reanimados em sua esperança e mantêm intacta a sua consciência de povo de Deus. Por isso o galho trincado não será destruído e poderá florescer novamente; o pavio fumegante não se apagará, mas sua luz voltará a brilhar – tudo isso pela justiça e misericórdia divinas. Essa misericórdia de Deus também se aplicará ao servo. Mesmo rejeitado e perseguido, sua luz não se apagará. O v. 2 mostra o jeito desse servo se apresentar: ele não vem com gritaria nem grande alarde (violência ou marketing). Ele virá com mansidão e se voltará para os que estão caídos e que são considerados imprestáveis. Ele não os lança fora. Ele não é exterminador. Ele é restaurador, salvador (maiores detalhes exegéticos veja no PL 35, p. 69ss).

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Meditação

Isaías 42.1-4 (5-9) faz parte da mensagem do Segundo Isaías (550-540 a.C.) aos exilados israelitas na Babilônia. O profeta anuncia a vinda de um Servo de Deus que vivenciará a vontade divina para as pessoas e com as pessoas. Não se sabe ao certo quem será esse servo. Trata-se de um mensageiro, eleito e ungido, que deve anunciar, em nome de Deus, a mudança da situação dos exilados: de uma situação desesperadora, sem saída, para a misericordiosa libertação oferecida por Deus. Parece que esse servo não será levado a sério, tal o desespero e o sofrimento das pessoas. Elas o rejeitam e perseguem por achar que ele as ilude com falsas promessas. Essa é a leitura que o Novo Testamento faz da profecia ao relacionar o Servo com Jesus Cristo. Se o Servo também for o próprio povo de Israel (Is 41.8), como alguns presumem, então transparece a missão comunitária do testemunho da justiça e da misericórdia de Deus. Também hoje! À luz do Novo Testamento, relacionamos a missão do Servo de Deus com a vinda de Jesus Cristo. Nele se cumpre tudo o que o profeta anunciou. Na Quinta-feira da Paixão, além de celebrar a Ceia com os seus discípulos, Jesus Cristo também lavou os pés deles numa clara demonstração de amor e serviço. “Servo”, “servir”, “serviço” não são palavras estranhas, mas são a clara descrição do agir de Deus por meio de Jesus Cristo. Deus envia o seu mensageiro – o seu Servo, o seu Filho. Através dele haverá salvação.

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Isaías não cita o nome desse servo. Já o Novo Testamento aponta para Jesus Cristo e proclama: “A luz gloriosa do Senhor brilhou...” (Lc 2.9); “Este é o meu Filho amado...” (Mt 3.17); “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo...” (Jo 1.29). Jesus revelou às pessoas e vivenciou com elas a experiência de serem amadas por Deus apesar de seus pecados. Jesus lhes possibilitou a oportunidade de se tornarem filhos e filhas de Deus – também aqueles e aquelas com uma vida atribulada, cheia de sofrimentos ou de culpa. O Servo de Deus – Jesus Cristo – não quebrará o galho trincado ao se dirigir à humanidade decaída. Ele não apagará a lamparina que fumega, uma derradeira faísca de esperança. Ele reerguerá as pessoas e restaurará sua alegria e sua esperança. No batismo de Jesus, Deus declarou: Eis o meu Filho (meu Servo, meu Enviado). Este é o meu eleito, que me dá muita alegria (Mt 3.17). Eu lhe dei o meu Espírito. Ele anunciará a minha justiça aos povos. Essa missão também cabe a nós como corpo de Cristo, como eleitos de Deus e ungidos no Batismo para ser “sacerdócio real” (1Pe 2.9). Somos chamados e enviados para ser solidários com todas as pessoas que necessitam de uma palavra e de uma ação concreta de apoio, de esperança, de restauração. A comunidade exerce hoje essa função de reerguer os galhos trincados e de reabastecer as lamparinas fumegantes com o fantástico anúncio da justiça e da misericórdia de Deus.

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Imagens para a prédica

Deus não quer a destruição, a extinção de seus eleitos. Ele oferece vida, e vida em abundância. O Servo de Deus – Jesus Cristo – veio para colocar em prática esse maravilhoso projeto de Deus. O “galho trincado” recebe o cuidado e a chance de se reerguer e voltar a florescer. O “pavio que fumega” remete às antigas residências do tempo do profeta. Quando uma lamparina começava a fumegar, era sinal de que o fogo estava se apagando. Era urgente a necessidade de reabastecimento da lamparina com óleo. O pavio que fumega aponta para o perigo de deixar a casa na mais completa escuridão. O galho precisa receber um “curativo”, ser restaurado para permanecer vivo. A luz precisa ficar acesa para que as pessoas da casa possam enxergar umas as outras. Perguntado sobre quando inicia o dia, um rabino respondeu: “O dia inicia quando eu consigo enxergar o rosto das pessoas e reconhecer nelas meus irmãos e minhas irmãs”. O pregador poderá ilustrar a realidade do povo diante do juízo de Deus apresentando um galho trincado e uma lamparina fumegante. Fazendo o curativo no galho e reabastecendo a lamparina para que sua luz volte a brilhar, apontará para a missão do Servo de Deus – Jesus Cristo. E, por sua vez, mostrará qual é a missão da comunidade. Vivemos em uma época que exige cada vez mais das pessoas. Para ser reconhecido e valorizado, o indivíduo precisa produzir muito e mostrar competência. Quem não se enquadra nesse processo está fora, é descartado. Existem muitas pessoas “galho trincado” e “pavio fumegante”, não apenas por desobediência a

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Deus, mas por ser vítimas de um sistema cruel, explorador e escravizador, que mata a identidade e descarta quem considera imprestável. O Servo de Deus – Jesus Cristo – veio com uma proposta totalmente diferente: ele veio para fortalecer a fé fragilizada, reacendendo a esperança dos caídos, veio para revelar a justiça e a misericórdia de Deus aos abatidos (seja por culpa, seja por exploração). Deus reescreve a história do mundo, incluindo os fracos. Neles ele manifesta o seu profundo amor. O galho trincado precisa receber um curativo. O óleo da fé, da esperança e do amor precisa reabastecer a vida das pessoas. Esta também é nossa missão: orar, agir e servir para que a solidariedade e o amor se manifestem. O Servo de Deus – Jesus Cristo – vem a nós e insere-se em nossa vida comunitária e social. Ele nos dá o exemplo e ensina-nos a consolidar a comunhão entre as pessoas. Ele vem para que sejamos uma bênção para os outros. Tem sofrimento e cruz? Tem! Mas Deus está conosco. Pelo seu Servo ele nos liberta e salva. Uma história pode ilustrar a missão do servo-mensageiro de Deus: Dois bons amigos frequentaram juntos a mesma escola durante sua infância e adolescência. Depois eles estudaram na mesma faculdade. Então seus caminhos separaram-se, e eles perderam o contato um com o outro. Um deles tornou-se juiz e era temido por sua dureza nos julgamentos. O outro enveredou por caminhos tortuosos. Um dia, um transgressor foi levado a julgamento perante o juiz. O juiz reconheceu logo que o réu era o seu amigo de infância. O que fazer? Como juiz, precisava fazer valer a justiça. Como amigo, gostaria de ser misericordioso com seu amigo. Finalmente, o juiz deu o veredito: O réu precisava pagar uma pesada multa. Isso foi justiça! Em seguida, o juiz levantou-se de sua cadeira e desceu até onde estava o réu. Preencheu um cheque no valor da multa e entregou-o a seu amigo de infância. Isso foi amor!

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Subsídios litúrgicos

Intercessão Um: Senhor, nós suplicamos pelas pessoas que são como galhos trincados, caídas no chão. Todos: Senhor, tem compaixão! Um: Senhor, nós suplicamos pelas pessoas que têm medo da vida, das enfermidades, da perseguição de outras pessoas. Todos: Senhor, tem compaixão! Um: Senhor, nós suplicamos pelas pessoas que vivem irresponsavelmente. Mostra-lhes novos caminhos. Todos: Senhor, tem compaixão! Um: Senhor, nós suplicamos pelas pessoas que são afetadas em sua dignidade. Todos: Senhor, tem compaixão! Um: Senhor, suplicamos pelas pessoas que exercem o poder, para que ouçam a tua palavra e se submetam à tua vontade. Todos: Senhor, tem compaixão!

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Bibliografia HAHN, Jörg. Der Gottesknecht mir der Botschaft der Begnadigung. In: Zuversicht und Stärke – Predigthilfen – 6. Reihe, Heft 1. Holzgerlingen: Hänssler Verlag, 2002. SCHÄFER, Michael. Predigt über Jesaja 42, 1-4. Spiesen-Elversberg – 2014. In: Predigtdatenbank – www.predigten.de

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PRÉDICA: JOÃO 19.16-30(31-37)

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO 03 ABR 2015

ISAÍAS 52.13-53.12 HEBREUS 10.16-25

Walter Altmann

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Introdução

O texto proposto para a pregação é a perícope do Evangelho de João. Como veremos, ele tem uma natureza narrativa que à primeira vista suscita a impressão de ter uma pretensão meramente histórica: a morte de Jesus aconteceu assim como é narrado aqui. Olhando mais a fundo, porém, o significado para a fé já se poderá depreender de algumas sutilezas da narrativa, que, inclusive, a diferenciam dos relatos paralelos nos evangelhos sinóticos. Essas diferenças não deveriam perturbar quem prega, nem esse deverá dificultar a recepção por parte dos ouvintes, detendo-se nelas. Se julgar oportuno ou necessário, quem prega poderá chamar a atenção dos ouvintes de que cada evangelista testemunhou a fé no crucificado a seu modo num determinado contexto e as comunidades diferentes entre si. E que nessa ocasião se pretende ouvir em particular o testemunho de João. O sentido de uma perícope bíblica deduz-se também do contexto da obra em que está inserida, ou seja, nesse caso, em especial do Evangelho de João. Como comunidade de fé, no entanto, temos ainda o referencial maior da Escritura como um todo. Assim, ainda que a pregação se concentre na perícope do evangelho, as leituras do Antigo Testamento (Isaías) e das epístolas (Hebreus) dão importantes referenciais aos quais quem prega poderá apontar. A identificação de Jesus com o servo sofredor de Isaías remonta já à comunidade primitiva, conforme vemos na proclamação de Filipe ao funcionário etíope (At 8.32-35). É uma mensagem consoladora para quem padece sob o próprio pecado ou está ferido no fundo do seu ser. Ele pode ser perdoado ou sarado pela inocência e misericórdia de outro alguém que sofre, no caso Jesus. Quanto à perícope de Hebreus, é bom lembrar que o autor da epístola escreve a uma comunidade cristã já estabelecida, mas atribulada por oposição à fé, até mesmo perseguição. O apóstolo quer consolá-la e fortalecê-la na fé e na prática do amor, mesmo se isso lhe acarretar sofrimento. Reportar-se ao Jesus crucificado lembra-o de que, tendo o próprio Jesus sofrido ignominiosa morte, através da qual a ela concedeu perdão e vida, pode também ela perseverar na fé e no amor, mesmo em meio a tribulações.

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Sexta-feira da Paixão

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Exegese

Enquanto os evangelhos sinóticos guardam muita semelhança entre si, o Evangelho de João, embora haja vários paralelismos, tem uma natureza muito própria, quais sejam, por exemplo, os discursos relativamente longos de Jesus. É provável que o autor tenha conhecido pelo menos uma tradição oral com parábolas e episódios narrados nos sinóticos, mas que também incluía uma história como a das bodas de Caná (Jo 2), ausente nos sinóticos. É do Evangelho de João que provém a noção do ministério de Jesus como abrangendo até três anos, pois nos sinóticos ele parece transcorrer no lapso de um ano só. De outra parte, João nada diz acerca do nascimento e da infância de Jesus. Contudo, assim como nos sinóticos, o ponto culminante da obra é a crucificação de Jesus, seguida de sua ressurreição. Sua importância é realçada ainda mais pelos longos discursos e ensinamentos de Jesus nos últimos dias anteriores à crucificação, relatados a partir do capítulo 13 e já sinalizando para o significado e a importância do que está por vir. A tradição tem atribuído a autoria do evangelho ao apóstolo João, um dos doze, o que tem sido questionado. Na época, não era incomum nem considerado antiético atribuir-se um escrito a uma autoridade incontestável. A maioria dos exegetas se tem inclinado para uma origem do evangelho em espaço geográfico siríaco, não do entorno de Jerusalém, por volta da virada do século I a II. De um modo geral, eles também concordam que a redação de João sofreu algumas revisões no âmbito de uma escola joanina, ainda que não haja consenso quanto à sua extensão e radicalidade. O capítulo 21, que é considerado um adendo ao evangelho original, autoatribui o evangelho ao “discípulo a quem Jesus amava” (21.24), discípulo que se reclinara junto ao peito de Jesus quando esse apontou para o traidor entre eles (Jo 13.25) e que, à diferença dos sinóticos, também está com as mulheres junto à cruz quando da crucificação (Jo 19.26) e igualmente entre as testemunhas privilegiadas da ressurreição (Jo 20). Não há dúvida de que a menção desse discípulo, não referido pelos sinóticos, intenciona realçar a importância dos eventos e a fidedignidade do relato. Comparado aos sinóticos, o relato da crucificação em João é menos dramático, mais sereno. Jesus carrega ele próprio sua cruz, não recebe a ajuda de ninguém (v. 17, cf. Mc 15.21 e par.). Já crucificado, método de execução tremendamente cruel e doloroso, Jesus dá recomendações de cuidado à sua mãe e ao discípulo amado, que passa a ser seu filho e a abrigá-la e dela cuidar (v. 26-27). Antes de falecer, Jesus não expressa o abandono em que se encontra (“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, Mc 15.34 e Mt 27.46) nem brada em alta voz, mas simplesmente declara: “Está consumado!”. Ou seja, João, ao reduzir aparentemente a dramaticidade do evento (não relata tampouco acerca do escárnio de quem passa ao largo), coloca claramente ênfase no fato de que o que está ocorrendo ali serve ao propósito salvífico de Deus. Seria, porém, errôneo deduzir daí que João queria negar o sofrimento de Jesus ou a crueldade dessa morte. Embora ele, ao escrever o evangelho, possa ter tido em mente o ambiente influenciado pelos gnósticos, que desvalorizavam o

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corpo e a matéria para afirmar a superioridade do espírito, ele sabe e quer deixar claro que em Jesus o Verbo eterno “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Precisamente nessa unidade do que é diferente, o eterno e o temporal, o espírito e o corpo, o divino e o humano, reside a glória de Deus (Jo 1.14), que podemos ver e dela testemunhar. Assim também na cena da crucificação. Ela é um evento perpetrado por humanos, mas esses servem ao propósito de Deus. Pilatos, por pressão dos principais dos sacerdotes e clamor da multidão (em João, genericamente designada como “os judeus” [Cf. Jo 19.12], expressão inadequada para transposição direta a nosso tempo, por geradora de preconceito), decide entregar Jesus para ser crucificado (v. 16). E é precisamente ele quem determina colocar no cimo da cruz a inscrição “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, informando assim o motivo para a condenação. Outra vez, a enorme e quase irônica tensão entre a pequena e pobre Nazaré, de onde nada de bom podia vir (Jo 1.46), e o título político maior que alguém poderia deter, o de rei. E agora Pilatos já não cede à pressão dos principais sacerdotes, sugerindo ser colocado que Jesus havia afirmado ser rei dos judeus, sem sê-lo. Ao declarar “o que escrevi escrevi”, Pilatos, sem sabê-lo, transformou-se numa “testemunha da verdade de Jesus” (THYEN, p. 736). E mais: ao colocar a inscrição em três idiomas, hebraico (língua sagrada da Terra Santa), latim (língua oficial do Império Romano) e grego (língua franca difundida em todo o Império), “a inscrição tornou-o ironicamente sem querer no primeiro missionário de Jesus para além das fronteiras linguísticas de Israel” (ibidem). Também os soldados têm participação ativa nos planos de Deus para salvação do mundo. A referência ao Salmo 22.18 em relação à repartição das vestes de Jesus e ao sorteio de sua túnica serve ao propósito de confirmar isso. (Não é necessário nem plausível especular quanto a um sentido simbólico para a túnica como uma peça só, por exemplo a unidade da igreja; trata-se simplesmente de uma justificativa para a necessidade de sorteio.) Analogamente, Is 53.12 pode estar por trás da menção ao fato de Jesus ter sido crucificado entre outros dois, embora João nada diga acerca de sua condição ou razão de sua condenação nem mencione um diálogo de Jesus com qualquer um deles. João vê simplesmente o acontecido como prefigurado na Escritura. Maria, mãe de Jesus, estivera presente lá no início do ministério de seu filho nas bodas de Caná. E dissera aos criados, referindo-se a Jesus: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2.5). Agora, na cena da crucificação, ela se encontra outra vez junto a ele (diferentemente dos sinóticos, aqui “junto” à cruz). Com ela havia mais duas ou três outras mulheres (o texto dá margem a ambas as interpretações), além do discípulo amado. Especulou-se que esse pudesse representar a cristandade gentílica, enquanto Maria representaria a cristandade judaica. Mais plausível é que o discípulo amado confira veracidade e apostolicidade ao evento acontecido, enquanto o conjunto de personagens caracteriza a comunidade de fé. Ao pé da cruz, essa pequena comunhão de pessoas configura a comunidade messiânica, em que todos “são um” (Jo 17.11 e 21) e creem em Jesus como salvador. Também a cena em que Jesus declara ter sede e os soldados lhe servem vinagre tem referência bíblica direta, a saber: o Salmo 69.21. Assim, os soldados

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tornam-se mais uma vez partícipes ativos do evento da redenção, porque não simplesmente praticam um gesto aleatório (pouco importa se com o propósito de infligir-lhe uma agrura a mais pelo gosto amargo do vinagre ou se, ao contrário, para com seu efeito amenizar sua dor), mas acabam cumprindo a Escritura, e isso é o que importa para o evangelista. Por fim, o gesto de Jesus ter inclinado a cabeça e rendido (literalmente, “dado”, “entregado”) o espírito não deve ser visto como a derrota ou o fracasso final de um ser humano esvaído das últimas forças, mas, ao contrário, é ele quem mantém até o fim a iniciativa e, ao morrer, dá seu espírito. Afinal, conforme Jo 7.39, o Espírito seria dado apenas quando Jesus tivesse sido glorificado, o que acontece exatamente na crucificação. E, uma vez dado, ele “vos guiará a toda a verdade” (Jo 16.13) [cf. THYEN, p. 744-5]. Ou seja, na crucificação, Jesus é glorificado, e os demais personagens têm seu devido lugar na história da salvação.

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Meditação

Pregar na Sexta-feira da Paixão é, ano após ano, um desafio renovado. Quem prega e quem ouve a pregação estão sempre confrontados com o âmago mais profundo e decisivo da fé cristã. Nem por isso é fácil fazer jus a ele. Ao contrário. Talvez a repetição anual nos dificulte perceber o quanto de escandaloso encontra-se precisamente nesta mensagem: de que na morte desse justo nós pecadores tenhamos vida. Como transmitir essa mensagem de modo a que não pareça uma mera repetição piegas do que sempre vem sendo dito nem um absurdo que alguém de bom juízo não tem como assimilar? Eis o desafio. Numa sociedade competitiva como a nossa, somos propensos, induzidos até, a pensar que “somos o que conquistamos”. Somos nós, através de nossos atos, que nos desenvolvemos no que somos. Valorizamos ao extremo nossas conquistas, diminuímos o valor de tudo quanto temos recebido ou até o esquecemos. Competir passa a ser mais importante do que partilhar. Pensamos que é melhor depender de nosso mérito do que experimentar a graça. Mas isso não é verdade; é apenas uma grande ilusão. Em verdade, “somos o que recebemos”. Já a vida nos é inteiramente um presente, para o qual nada pudemos contribuir. A partir daquele momento, tudo que é essencial para sobreviver e nos desenvolver passamos a receber. Já num sentido restrito, nada espetacular, mas antes “normal”, é da natureza das relações entre pai e mãe, de um lado, e filhos e filhas, de outro, que se produza uma transferência de bens de um lado a outro. As crianças aprendem não apenas com os pais, mas dos pais, isto é, algo que é deles. Conhecimento, experiência e também bens se transferem aos descendentes. Ampliando, observamos que a relação entre pessoas em geral é uma constante transferência de bens, materiais, espirituais, culturais, simbólicos. E, não por último, dependemos de toda a criação, pela qual Deus nos supre “abundante e diariamente de todo o necessário para o corpo e a vida” (Lutero, Catecismo Menor).

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No entanto, pode alguém por meio de sua morte dar vida a outra pessoa? Ou, perguntando inversamente, pode alguém ter vida pela morte de outra pessoa? Esse é o desafio maior ao pregarmos na Sexta-feira da Paixão. Ora, nossa relação com Deus segue o mesmo padrão, apenas elevado ao infinito, ao eterno. Diante dele não serve para nada o que conquistamos, mas exclusivamente o que recebemos. Foi essa a descoberta libertadora que fez Lutero em meio à desesperadora angústia de não conseguir fazer tudo quanto ele supunha que Deus lhe estivesse exigindo. Quando descobriu que podia viver “por fé” e não lhe era exigido viver “por obras”, sentiu-se como que adentrando livremente as portas abertas do paraíso. E é precisamente o evangelista João que nos deixou a lapidar afirmação: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Tudo o mais que recebemos desde o nosso nascimento pode ser limitado, e de fato é. Inclusive a vida que nos foi dada terá seu fim com a morte. Mas a entrega total do Filho de Deus é para nós também um presente total que, inclusive, desfaz todas as nossas limitações e apaga todos os nossos pecados. Todos, sem exceção, ficam sem efeito. A própria morte é derrotada e substituída pela vida eterna. Como bem diz MALSCHITZKY (p. 170) em seu auxílio homilético a esse texto: “Como fios em um tapete, o Verbo e a carne, o humano e o divino, o sofrimento e a glória vão sendo entrelaçados para trazer à luz a história da redenção”.

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Imagens para a prédica

Podemos ter vida pela morte de outro alguém? Lembro da tragédia da Boate Kiss. Conheço quem perdeu um filho que havia conseguido sair a tempo da boate, mas voltou mais de uma vez para salvar outras pessoas. Veio a falecer em consequência da intoxicação. Não é incomum casos em que alguém consegue salvar outra pessoa de afogamento, mas acaba afogando ele próprio. Em ambos casos foi dada a vida para que outras pessoas vivessem. Também podemos lembrar o exemplo de uma criança com doença grave que requer um tratamento custoso, para o qual os pais se dispõem a empregar todos os seus bens. Não chegam a ponto de dar a própria vida, mas há, ainda assim, a disposição de entrega de tudo quanto lhes pertence como meio de vida.

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Subsídios litúrgicos

Sugiro que já no início do culto, no final do introito (ou da saudação), se levante a pergunta se é possível dar a vida por outras pessoas entregando a sua própria ou se é possível ter vida pela morte de outra pessoa, mencionando que sobre isso se pretenderá meditar e refletir neste culto. O culto deverá ser desenvolvido então de forma a propiciar breves momentos de meditação silenciosa, talvez após a leitura de cada um dos textos bíblicos e também antes de começar a pregação e inclusive ao terminá-la.

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A escolha dos hinos recairá sobre aqueles que propiciam a reflexão e centrados no sentido da vida e na paixão de Cristo. A oração final deverá incluir a gratidão por todos os bens que nos são dados em nossa vida e o pedido de que eles sejam experimentados como realidade em todo o mundo. Antes da bênção de encerramento, pode ser expressa a confiança de podermos ir de regresso aos nossos lares e cotidiano em confiança pelas dádivas do perdão e da vida recebidas em Jesus.

Bibliografia ALTMANN, Walter. Lutero e libertação: Releitura de Lutero em perspectiva latino-americana. São Leopoldo e São Paulo: Sinodal e Ática, 1994. p. 61-76. BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de João. In: Proclamar Libertação VIII. São Leopoldo: Sinodal, 1982. p. 7-15. MALSCHITZKY, Harald. Sexta-feira da Paixão. João 19.16-30. In: Proclamar Libertação 25. São Leopoldo: Sinodal, IEPG, 1999. p. 170-174. THYEN, Hartwig. Das Johannesevangelium. Tübingen: Mohr (Siebeck), 2005.

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DOMINGO DA PÁSCOA

PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 15.1-11

05 ABR 2015

SALMO 118.1-2,14-24 MARCOS 16.1-8

Jilton Moraes

Cristo vive: comuniquemos sua história

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Introdução

Hoje – Domingo da Páscoa – é um dia especial no calendário litúrgico cristão. Os nossos textos enfatizam a bondade de Deus e a realidade do Cristo vivo. O Salmo 118.1-2,14-24 inicia desafiando à prática da gratidão diante da bondade e do amor do Senhor. O salmista menciona o que Deus é: a minha força e o meu cântico; ele é a minha salvação; menciona sua alegria, porque a mão direita do Senhor age com poder e é exaltada (v. 15 e 16). Diz que o sentido da vida está em anunciar os feitos do Senhor (v. 17); que até sendo castigado sentiu a bondade de Deus (v. 18). Ele quer andar pela justiça e seguir agradecido (v. 19), como devem fazer os justos (v. 20). Ele é grato a Deus, que responde e salva (v. 21); ele rejeitado pelos homens, mas exaltado pelo Eterno (v. 22-23). Termina com o desafio de vivermos alegres o dia que o Senhor nos dá (v. 24). O texto de Marcos 16.1-8 – uma das narrativas da ressurreição – começa com a preocupação de três seguidoras de Jesus com a remoção da grande pedra do sepulcro (v. 1-3). Mas elas encontram a pedra removida e um jovem com roupas brancas que lhes informa que Jesus não está mais ali (v. 4-6). Elas recebem a ordem de comunicar a mensagem aos discípulos; contudo, dominadas pelo medo, saíram caladas (v. 7-8). 1 Coríntios 15.1-11 começa com Paulo lembrando os primórdios de sua experiência em Corinto. O evangelho que ele anunciou foi a mensagem do Cristo que morreu e venceu a morte. Nesse evangelho devemos perseverar.

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Exegese

Em 1 Coríntios 15, encontramos “o mais antigo relato extenso escrito sobre a ressurreição de Jesus e o mais antigo testemunho cristão preservado, concernente à ressurreição dos crentes” (BROWN, p. 446). A perícope abre com o apóstolo Paulo repassando sua experiência inicial com os irmãos em Corinto. V. 1 – Irmãos, quero lembrar-lhes o evangelho que lhes preguei, o qual vocês receberam e no qual estão firmes. Ele apresenta essa lembrança em etapas que se completam: 1) o anúncio – Paulo anunciou-lhes o evangelho: “Quero lembrar-lhes o evangelho que lhes preguei”; 2) a aceitação – De bom grado eles firmaram um compromisso com Jesus: “O qual vocês receberam”; 3) a perseverança – Eles continuavam firmes no com-

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promisso que haviam firmado: “No qual estão firmes” (v. 1). Enquanto no verso inicial temos o desafio da perseverança, o verso seguinte apresenta a justificativa: V. 2 – Por meio deste evangelho vocês são salvos, desde que se apeguem firmemente à palavra que lhes preguei; caso contrário, vocês têm crido em vão. Somos salvos pela fé (Ef 2.8-9), e “a fé vem pelo ouvir a mensagem que é pregada mediante a Palavra de Cristo” (Rm 10.17). Os que creem firmam-se na palavra, uma vez que essa perseverança é fundamental para a salvação: “Aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mc 13.13). A mensagem do Cristo vivo tem base na experiência pessoal. V. 3 – Primeiramente lhes transmiti o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. A pregação de Paulo não resultava de seus próprios pensamentos, mas da realidade que ele havia recebido: o conteúdo de sua pregação era a história do Cristo que o comissionara a pregar. Vale lembrar que, apesar de ter iniciado o trabalho cristão em Corinto, Paulo sofrera terrível oposição de algumas pessoas que se opunham a seu trabalho, considerando-o em plano inferior. A resposta do apóstolo apresenta a filosofia de sua pregação. Sua presença entre eles objetivava unicamente anunciar o evangelho, o que ele soube fazer com simplicidade, no poder do Espírito Santo, para que a fé que eles tinham fosse firmada no poder de Deus (1Co 2.1-5). Nos versos seguintes, ele sintetiza a essência dessa história, ao mesmo tempo em que especifica as aparições do Cristo ressurreto. V. 4-7 – Foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos. A citação prepara o leitor/ouvinte para a realidade maior: Paulo não apenas ouvira a mensagem do Cristo, mas com ele se encontrara, sendo comissionado para ser um pregador em uma das experiências de conversão mais dramáticas de toda a história. Isso fica claro na continuação da narrativa. V. 8-9 – Depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo. Pois sou o menor dos apóstolos e nem sequer mereço ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. A lembrança de haver sido um forte perseguidor do ensino de Jesus conferia maior realce ao fato de haver se tornado um pregador da Palavra. A ideia de ele se tornar um pregador nasceu no coração de Deus. Foi isso que ele deixou claro a Ananias quando o enviou a discipular o perseguidor Saulo: “Vá! Esse homem é meu instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e seus reis e perante o povo de Israel. Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome” (At 9.15-16). “O importante é que o evangelho fala da atividade de Deus na morte e ressurreição de Cristo para a salvação dos homens. Esse evangelho apostólico é o que Paulo pregou” (BROWN, p. 451). Paulo completa o arrazoado baseado em sua experiência pessoal, realçando a grandiosidade da graça divina.

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V. 10 – Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi inútil; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo. O reconhecimento maior do apóstolo Paulo é que tudo é dom da graça. Sem a graça de Deus não haveria evangelho. Foi essa graça que o buscou e, tendo toda a razão para detestá-lo, elevou-o à condição de proclamador das boas-novas. Paulo unicamente fez a sua parte trabalhando arduamente, a ponto de doar-se sem reservas ao Cristo que o chamou (Gl 2.20; Fp 1.21, 3.7-11). A perícope encerra com a evidente declaração da unicidade do evangelho. V. 11 – Portanto, quer tenha sido eu, quer tenham sido eles, é isto que pregamos, e é isto que vocês creram. A autenticidade da mensagem não está na eloquência do pregador, mas na sua dependência do Senhor da pregação. Não importa quem prega, mas o que prega e o modo como vive a mensagem pregada. A verdade do evangelho é única, independente de quem a pregue. Paulo tinha tal convicção dessa realidade que chegou a declarar: “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado” (Gl 1.8).

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Meditação

O Domingo da Ressurreição é propício para refletirmos sobre a autenticidade da nossa fé e da nossa pregação. Cristo vive! Sem essa certeza, a nossa fé de nada valeria (1Co 15.17). Paulo principia afirmando: Quero lembrar-lhes o evangelho que lhes preguei, o qual vocês receberam e no qual estão firmes (v. 1). Envolve: anúncio, aceitação e perseverança. A pregação autêntica tem um conteúdo redentivo (v. 2): Por meio deste evangelho vocês são salvos, desde que se apeguem firmemente à palavra que lhes preguei; caso contrário, vocês têm crido em vão. A pregação autêntica apresenta o Cristo Vivo, capaz de salvar os que nele creem. Sem conteúdo salvífico, a prédica deixa de ser pregação evangélica. O que é evangelho? “Poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.” Tão essencial à fé cristã que Paulo completa: “Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Esse conteúdo redentivo não tem a ver com autoajuda; entretanto está firmado na ajuda do alto. Jesus deixou a sua glória e assumiu a forma humana. Como tão bem descreveu João: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós” (Jo 1.14). E Paulo completa falando da humilhação e da exaltação do Cristo (Fp 2.6-11). O que torna a nossa palavra válida é que por meio dela Deus realiza maravilhas: o evangelho que pregamos transforma vidas. Além desse conteúdo redentivo... A pregação autêntica tem fundamento bíblico (v. 3): ... o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi. Paulo não criava uma nova doutrina; sua pregação era firmada na Palavra, o Antigo Testamento, e no testemunho daqueles que haviam convivido e apren-

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dido com Jesus. Na versão de Almeida Revista e Atualizada (RA), a declaração é ainda mais incisiva: Antes de tudo vos entreguei o que também recebi. Vivemos dias difíceis: alguns pregadores, abandonando a fundamentação bíblica, baseiam sua pregação em discursos autopromocionais. A pregação alicerçada nas Escrituras é uma fiel abordagem da ação divina em nosso favor. O que Paulo havia recebido? (…) Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos (v. 3b-7). Esse foi o conteúdo recebido e transmitido. Pregação não é invento humano, mas recurso divino para alcançar e redimir as pessoas: “agradou a Deus salvar aqueles que creem por meio da loucura da pregação” (1Co 1.21). Após citar pessoas que estiveram com o Cristo Vivo e ouviram sua voz, Paulo menciona sua própria experiência: Depois desses apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo. Pois sou o menor dos apóstolos e nem sequer mereço ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus (v. 8-9). O fundamento da pregação de Paulo não era a sua vida, mas o Cristo que mudara o seu modo de viver. Seu passado perdera toda importância; a preciosidade do seu viver era Jesus: tudo o mais podia ser considerado perda (Fp 3.7-11). Além de conteúdo redentivo e fundamentação bíblica, a pregação autêntica é conhecida por seu alvo. A pregação autêntica tem propósito gracioso: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi inútil; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo (v. 10). A partir de sua experiência Paulo ressalta a atuação da graça divina: a salvação acontece pela ação graciosa de Deus; ele é rico em misericórdia; ele nos ama e nos deu vida em Cristo! Deus ressuscitou-nos com Cristo; pela graça somos salvos (Ef 2.4-9). Deus continua trabalhando em nosso favor. Somente no Cristo Vivo encontramos vida. Ainda que as piores provas aconteçam: aflição, dor, perseguição, fome, perigo, guerras. Estamos certos de que “em tudo somos mais que vencedores” (...) Nem morte nem vida, anjos ou demônios; presente ou futuro, nada será capaz de nos afastar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.35-39). Paulo conclui seu pensamento afirmando que não importa quem prega, mas o conteúdo e os resultados da pregação: “Portanto, quer tenha sido eu, quer tenham sido eles, é isto que pregamos e é isto que vocês creram”. O desafio é vivermos de tal modo que as pessoas vejam em nossas palavras e atitudes que Cristo realmente vive em nós.

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Imagens para a prédica

A historicidade do Cristo Vivo deve fazer-nos refletir o quanto esse fato é real em nosso dia a dia e o quanto estamos ou não identificados com ele: as nossas ações no dia a dia evidenciam se seguimos os passos do Mestre ou seguimos distantes dele. Para impactar com a mensagem da ressurreição, precisamos primeiramente ser impactados pelo Cristo Vivo de tal modo que o ensino dele seja visto em nossas palavras e ações. O Domingo da Ressurreição constitui uma excelente oportunidade para avaliarmos nossas relações com o Cristo ressurreto. À semelhança de Paulo, o nosso anelo deve ser: 1) desejar conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição; 2) firmar o propósito de participar de seus sofrimentos; 3) tornar-nos como ele em sua morte (Fp 3.10). A mensagem do evangelho não conclui apresentando um Jesus pregado na cruz, mas apresentando o Cristo Vivo, que nos comissiona e nos assegura a sua presença todos os dias. Pela cruz as pessoas são atraídas a ele e por ele são salvas porque, ressurreto, ele é Senhor de todos quantos creem nele. “A fé cristã tem uma qualidade permanente. A fé cristã nunca devia permanecer estática. Porque o nosso Senhor é o Cristo Vivo, há sempre novas maravilhas e novas verdades esperando ser descobertas” (William Barclay). O túmulo vazio fez a história do carpinteiro atravessar o tempo e alcançar o mundo inteiro. O nome de Jesus confessado há de ser por todos como único Senhor, sendo salvo todo aquele que nele crer.

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Subsídios litúrgicos

Litania: “Deem graças ao Senhor porque ele é bom; o seu amor dura para sempre. Que Israel diga: O seu amor dura para sempre!” “O Senhor é a minha força e o meu cântico; ele é a minha salvação. Alegres brados de vitória ressoam nas tendas dos justos: A mão direita do Senhor age com poder!” “A mão direita do Senhor é exaltada!” “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.” “A pedra preciosa que Deus predestinou sustenta pedras vivas que a graça trabalhou e, quando o monumento surgir em plena luz, a glória do edifício será do Rei Jesus!” No primeiro dia da semana, bem cedo, ao nascer do sol, elas se dirigiram ao sepulcro, perguntando umas as outras: “Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?” Mas, quando foram verificar, viram que a pedra, que era muito grande, havia sido removida. Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de roupas brancas assentado à direita e ficaram amedrontadas. “Não tenham

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medo”, disse ele. “Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou!” Senhor, nós te agradecemos porque o teu Filho venceu a morte. Ele é a pedra preciosa, e nós, quais pedras vivas, trabalhadas pela tua graça buscando viver diante de ti para que toda a glória seja dada ao Rei Jesus. Porque vivo está, o amanhã enfrento. Sim, vivo está, não temerei. Pois eu bem sei que é dele o meu futuro, e a vida vale a pena. Cristo vivo está. (Sl 118.12; 14-6, 22; 3ª est. Hino 109 HL; Mc 16.2-6; estrib. hino 137 HCC).

Bibliografia BROWN, Raymond Bryan. In: ALLEN, Clifton J. Comentário Bíblico Broadman. Rio de Janeiro: JUERP, 1983. v. 10. MORRIS, Leon. 1 Coríntios: Introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1981.

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PRÉDICA: MARCOS 16.12-18

2º DOMINGO DA PÁSCOA 12 ABR 2015

SALMO 133 1 JOÃO 1.1-2.2

Everton Ricardo Bootz

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Introdução

O texto do Salmo 133 descreve uma vida comunitária idealizada, em que não há desavenças nem dúvidas. Seria como uma vida familiar (v. 1), prazerosa (v. 2); uma vida como deveria ser (v. 3a). Se assim fora, seria sintoma de uma vida abençoada por Deus. O texto do Salmo, por conseguinte, insinua como deveria ser a vida comunitária dos discípulos, que será denunciada por Jesus como indevida no texto de Marcos. Por consequência, o texto também espelha como deve ser a nossa vida em comunidade. O texto de 1 João 1.1-2.2 exige igualmente uma relação comunitária de confiança mútua como pressuposto de uma vida satisfatória (v. 3s). A união fraterna [com Cristo] produz clareza (v. 5,7); a contrario sensu, uma vida de palavras e ações não fraternais denuncia uma comunhão em escuridão (v. 6,8,10). A possibilidade de sintonizarmos nossa vida com a luz ou com a escuridão passa pela confissão (1.9, 2.1-2). Ou seja, o pecado distancia-nos uns dos outros, formando uma vida comunitária desestruturada, de traição; por outro lado, se confessarmos esse pecado (social), purificando-nos da mentira e da traição, então há possibilidade de uma vida comunitária benfazeja. O texto de Marcos 16.12-18 descreve uma vida comunitária dos discípulos desestruturada, a ponto do próprio Jesus ter de intervir, manifestando-se em meio à comunidade reunida para fazê-los tomar tento de suas atitudes não condignas (v. 14). Jesus repreende-os por não ter fé (confiança em Deus) e por não ter fé uns nos outros (confiança mútua, v. 13). Eis as bases de uma vida comunitária adequada e suficiente.

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Exegese

Como sabido, o final de Marcos não fazia parte de seu escrito original (KÜMMEL, p. 117). A ausência de 16.9-20 em manuscritos antigos, o emprego linguístico diferenciado, entre outras características textuais (estilo) e históricas, provam que esse final não é original. A exegese está inclinada a acreditar que Marcos quis terminar seu evangelho em 16.8. De onde proveio o final, então? O texto de Marcos 16.9-20 é um mosaico de material oriundo principalmente do Evangelho de Lucas (EISELEN, p. 1020s), assim como de fontes não canônicas. Os v. 9 a 11 resumem o texto de Lucas 24.1-12 (sobre a visita de Maria Madalena ao sepulcro, domingo pela manhã),

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2º Domingo da Páscoa

enquanto que os v. 12 e 13 de Marcos resumem o texto sobre os caminhantes de Emaús, texto subsequente em Lucas (24.13-35). Logo depois, temos a aparição de Jesus em meio aos discípulos, em Mc 16.14, breve referência ao texto de Lc 24.36-49. Os v. 15 e 16 são oriundos do Evangelho de Mateus 28.19-20, onde Jesus envia seus discípulos a todo o mundo. Temos assim esta configuração: Acréscimo Maria Madalena Caminhantes de Emaús Manifestação de Jesus em meio à reunião dos discípulos Envio

Fonte provável Mc 16.9-11 Mc 16.12-13

Lc 24.1-12 Lc 24.13-35

Mc 16.14 Mc 16.15-16

Lc 24.36-49 Mt 28.19-20

O acréscimo textual é posterior ao texto do Evangelho de Marcos. Esse é considerado do ano 70, enquanto aquele, do segundo século, pois o Evangelho de Mateus é considerado posterior ao de Marcos (mais ou menos no final dos anos 70) e o Evangelho de Lucas, também posterior ao de Marcos, dos anos 80. Se quem o acrescentou conhecia o Evangelho de Mateus e o de Lucas, isso significa que a origem de nosso texto é posterior aos dos anos 90; alguns exegetas consideram-no ainda mais tardio, de meados do segundo século (150 d.C.). Esse dado cronológico pode ser relevante quando consideramos que a mensagem do texto acrescido pode ter seu sentido melhor compreendido a partir de seu contexto histórico. Pois será a partir da nona década que os judeus e cristãos serão especificamente perseguidos pelo Império Romano. A perseguição será deflagrada pelo imperador Domiciano (DURANT, p. 289ss) ao se considerar um deus e exigir adoração de seus súditos. Os judeus e os cristãos vão se recusar a adorá-lo, e, a partir de 93, Domiciano vai mandar executar aqueles que se recusarem a oferecer sacrifício diante de seus altares, onde se localizavam as imagens do imperador. Muitos cristãos pereceram, determinados por sua fé a ter somente Cristo como seu único Kyrios. Tornaram-se mártires. Não podiam adorar outro senão “o” Senhor Jesus. Mas muitos negavam a fé com medo da morte: morte de si e de toda a família. Nesse contexto, surgem textos cristãos inspirando a determinação das comunidades para posicionar-se firmes na fé, não temendo a reação do imperador. Para auxiliar esse posicionamento, recomendava-se amparo na confiança fraterna (comunhão semanal). O aconchego dos irmãos fortalecia o vínculo da fé. O Evangelho de João e o livro de Apocalipse são exemplos de textos motivadores. Lembram da fidelidade de Cristo para com eles, de seu amor por eles, amor que o levou ao sacrifício, à morte na cruz. Agora, em meio a tempos difíceis, Cristo (através de seu corpo, a reunião dos irmãos) pede o mesmo. O texto de Marcos 16.9-20, onde se situa o texto para este domingo, pertence a esse contexto social. Foi acrescido com o fito de alertar os leitores da época de Domiciano, não mais os ouvintes da década de 70. Para tempos distintos, mensagens distintas. Como o evangelho dificilmente poderia ser alterado, achou-se melhor aditá-lo.

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A partir de 96, com a morte de Domiciano, o cristianismo começa a crescer (DURANT, p. 596ss). Esse crescimento não terá reversão, culminando na necessidade de ser considerado, 200 anos depois, a religião oficial do Império Romano. Os textos que alertavam para a importância da fé em Deus e para uma vida comum-unitária foram importantes para a resistência e, consequentemente, para esse crescimento vertiginoso, a despeito das perseguições que se mantiveram aqui e ali. O elemento de comunismo penetrou nas reuniões (eklēsiai) cristãs, transformando as refeições em momento de amor fraternal e compartilhamento, normalmente aos sábados à noite. A comunhão de irmãos (eklēsia) e a partilha da Santa Ceia (corpo de Cristo) fortaleceram as pessoas em sua decisão de manter-se íntegras à fé de seus pais. Essas duas características estão presentes em nosso texto: o pedido do autor para que as pessoas mantivessem a fé em Cristo e a fé uns nos outros. Somente assim, os momentos de crise, tais como os dos discípulos após a morte de seu mestre e a perseguição iminente dos mesmos ou como os de Domiciano, poderiam ser superados. Eis o contexto de nosso acréscimo; eis a sua mensagem eclesial.

3

Meditação

Tive o privilégio de conhecer a Índia quando participei de um programa de estudo da Federação Luterana Mundial – “Vida Espiritual em Comunidade” – entre 2000-2002. O estudo envolvia a visita a diferentes igrejas luteranas dos diferentes continentes. Quando da visita à Índia, tivemos a oportunidade de conhecer as três igrejas luteranas do país, inseridas na cultura e na política indianas. A percentagem do número de adeptos das diferentes religiões era intrigante: 80,3% era hindu, religião oficial da Índia; o islamismo perfazia 11%; então vinha o cristianismo com 3,8% (católicos e protestantes); e 5%, as demais religiões (budismo, jainismo, sikhismo). Era estranho conhecer um país moderno com uma religião oficial. No Brasil, a separação entre Igreja e Estado aconteceu no nascimento da República em 1889. Mas a Índia tem no hinduísmo sua religião oficial. Isso encerra algumas implicações que até então desconhecia. Umas inusitadas, como por exemplo a entrada no país; para entrar no país, nós, os participantes do programa da Federação Luterana Mundial, tivemos que declarar o motivo da visita como turismo. Pois se disséssemos que estávamos realizando a viagem por motivo religioso, não receberíamos o visto de entrada. Outras implicações, contudo, eram mais dramáticas, como por exemplo, se um hindu quisesse renunciar à sua religião hindu (oficial), aceitando outra, teria de chegar diante de um juiz num fórum cível e assim o declarar. Nesse caso, perderia alguns privilégios que apenas um cidadão hindu tem: assistência à saúde, à escolaridade e à comida. Como o cristianismo cresce entre os dalits, povo à margem das castas sociais mais importantes, quando esses se convertem ao cristianismo, perdem tais direitos sociais. Por ser um povo de miseráveis, tais direitos são de suma importância para a sua sobrevivência.

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Daí minha surpresa ao perceber que o crescimento do cristianismo ocorre na Índia a despeito da perda de direitos inestimáveis. E qual a razão desse descompasso? A mensagem do cristianismo é tremenda para a cultura hindu, estruturada em castas. Pois nessa estrutura sociocultural os dalits não são considerados, enquanto que todas as pessoas pertencentes às outras quatro castas são tidas como senhores. A mensagem cristã transmite a ideia de que os dalits são iguais às demais pessoas, pois somente Cristo é Senhor. Essa libertação cultural é tão arrebatadora para esse povo, que eles renunciam até a seus direitos mais fundamentais para receber em troca algo mais fundamental: a dignidade de ser reconhecido como irmão num mesmo patamar do outro irmão quando se dirige à comunidade (eklēsia). É na comunidade cristã que o dalit e seus familiares encontram suporte para viver, pois a vivência comunitária partilha tudo entre todos, tal como nas comunidades primitivas. Ele pode perder direitos, de um lado, mas ganha direitos mais significativos, de outro. É como o grande contingente de salmão que logra desafiar a correnteza, nadando rio acima para a desova; ou como o barco que singra com a vela estufada de encontro ao vento. É na fé (libertadora) em Cristo, como único Senhor, e na fé (confiança) na comunidade, como meio social de apoio, que o cristianismo cresce entre os dalits. Um povo simples, humilde, mas que está redescobrindo sua importância diante de Deus a partir da mensagem redentora do cristianismo. A fé em Cristo, segundo a mensagem do texto acrescido de Marcos 16.918, é aplicável em tempo de adversidade. Nele estão presentes dois ingredientes fundamentais: a fé em Deus (fé boa) e a fé no outro (boa-fé). A fé de que a vida vale a pena a despeito da dor; e a fé de que a construção do reino de Deus aqui e agora, de que um outro mundo é possível. A fé em Cristo, como único Senhor de nossas vidas, e a fé de que o ser humano (o outro) pode transcender a si e a seus deuses pessoais. A fé que a vida comunitária pode ser mais do que simples reunião de pessoas; pode ser um espaço de apoio e de partilha; um espaço de amor fraterno; um espaço de confiança em meio a um mundo tão desconfiado. Um espaço bom e agradável como azeite perfumado (Sl 133.1); um espaço de alegria, de união uns com os outros, pois só assim teremos a chance de conhecer a luz de Deus e ser um com ele (1Jo 1.3s). A mensagem pode terminar no parágrafo anterior, mas é possível dar continuidade e complementar essa parte com outro final (a exemplo do autor do acréscimo a posteriori). Pode-se lembrar que, no texto de Marcos, Cristo critica veementemente a falta de fé dos discípulos e a falta de confiança entre os mesmos. Não poderia essa crítica ser repassada a nós e a nossas comunidades? Somos uma comunidade que confia uns nos outros? Temos a Jesus como nosso único Senhor (em confronto com as nossas prioridades)? Os dalits brasileiros encontram refúgio e apoio no interior de nossas igrejas?

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Imagens para a prédica

Conta a história que, há mais de 2.000 anos, o filósofo grego Diógenes, de Sinope, andava pelas ruas de Atenas em pleno dia com uma lanterna acesa. Quando o interrogaram acerca da razão para tal atitude, ele respondeu: “Estou à procura de uma pessoa honesta”. Essa história pode ser relacionada ao texto de 1 João e interligada com a história dos dalits na Índia. A despeito de ser difícil encontrar pessoas fraternas no mundo vigente, podemos encontrá-las na vida comunitária. Ali há luz, que é Cristo.

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Subsídios litúrgicos

Os textos fornecem versos passíveis de serem usados em diferentes partes da liturgia. Assim, sugerem-se tais subsídios litúrgicos: a) Versículo de abertura: “Como é bom e agradável que o povo de Deus viva unido como se todos fossem irmãos!” (Sl 133.1). b) Absolvição dos pecados: Querido Deus, somos uma comunidade que muitas vezes prefere viver na escuridão. Demonstramos desconfiança na convivência fraterna; outras vezes, somos traiçoeiros. É o pecado que se manifesta em nós e por meio de nós. Não queremos viver assim. Contudo não encontramos em nós força para a conversão diária. Confessamos-te essa fraqueza, pedindo pelo teu perdão, assim como tu o prometes dar em 1Jo 1.9. Amém! c) Oração do dia: Querido Deus, somos teu povo e tua comunidade. Preserva-nos da falta de fé em ti e da falta de confiança no próximo. Permanece unido a nós, para que possamos permanecer unidos a ti, como teu corpo, em puro amor fraternal (baseado no texto de 1 João 1 e 2).

Bibliografia DURANT, Will. Caesar and Christ. New York: Simon and Schuster, 1944. EISELEN, Frederic Carl; LEWIS, Edwin; DOWNEY, David G. The Abingdon Bible Commentary. New York: Abingdon Press, 1929. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 17. ed. São Paulo: Paulinas, 1982.

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PRÉDICA: ATOS 3.12-19

3º DOMINGO DA PÁSCOA 19 ABR 2015

SALMO 4 LUCAS 24.36b-48

Sílvia Beatrice Genz

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Introdução

O texto de prédica faz parte de um discurso de Pedro no pórtico de Salomão, feito após a cura de um coxo de nascença que sobrevivia pedindo esmola junto ao templo de Jerusalém na porta chamada Formosa (At 3.1-10). Em sua alocução, Pedro sugere que no plano de Deus e no projeto de Jesus existe cura para um sistema excludente, que se mantém graças ao pecado. Existe cura, sim, mas é preciso reconhecer os erros, arrepender-se, converter-se para que os pecados sejam cancelados. Além disso, é preciso viver em novidade de vida, segundo a vontade de Deus, anunciada pelos profetas e experimentada na vida comunitária. A palavra é dirigida ao povo perplexo e curioso. Pedro atribui a cura do paralítico a Jesus, para cuja morte o povo contribuiu, mas que o Deus dos patriarcas glorificou e ressuscitou. Deus não abandonou Jesus em sua morte de cruz e reabilitou-o através de sua ressurreição. Os apóstolos são testemunhas disso. A cura, diz Pedro, aconteceu pela fé, que vem justamente desse Jesus e não deve ser creditada ao poder dos apóstolos.

2

Exegese

V. 12 – As notícias da cura junto ao templo espalharam-se rapidamente. O povo viu algo que o impressionou: aquele homem, antes paralítico, agora pulava cheio de graça e alegria. Conheciam-no bem como esmoleiro aleijado, jogado junto ao templo. Pedro e João veem a multidão aproximar-se. Ela pensa, provavelmente, que o acontecido é ação milagrosa dos apóstolos. Pedro, em vista disso, dirige-se aos israelitas ali reunidos, que conheciam as promessas de salvação das Escrituras, deixando claro que quem agiu não foram os apóstolos, e sim Jesus. Juergen Roloff diz: “Os apóstolos não estão dotados de um poder sobrenatural, como tantos milagreiros ambulantes da região se arrogam, também não induziram Deus a uma ação prodigiosa. Não são eles, Pedro e João, o centro dos acontecimentos, mas Jesus, Servo de Deus. Ação de Deus em Jesus”. V. 13 – Pedro faz neste versículo uma rememorização da promessa e ação de Deus desde tempos antigos. Ele afirma: O Deus que age em Jesus é o Deus de nossos pais (Abraão, Isaque e Jacó), que libertou seu povo e glorificou seu Servo Jesus. É o Deus que se revelou na história do povo de Israel, libertando-o e prometendo-lhe o Salvador, que é o Cristo que vocês traíram e negaram perante Pilatos.

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V. 14 – Em tom duro, Pedro continua a falar contra os que estão admirados da cura do paralítico: a cura deu-se em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que foi fiel a Deus e morreu crucificado. Vocês negaram o Santo e Justo e identificaram-se com um homicida: escolheram Barrabás em vez de escolher a Cristo, o Libertador e Salvador. V. 15 – O Autor da vida foi morto, mas a morte não pode retê-lo: Deus ressuscitou-o dentre os mortos, do que os apóstolos são testemunhas. Não foi possível matar o Autor da vida, que se ofereceu à cruz para dar vida àqueles que nele creem. V. 16 – A fé que vem de Jesus curou o paralítico. O texto não fala da fé do paralítico, mas deixa claro que a cura não é ação milagrosa dos apóstolos, e sim ação de Jesus. V. 17 – Após expor como os fatos aconteceram (isso é necessário para um reconhecimento de culpa), parece que Pedro assume agora um tom conciliador, mas não é o caso, pois a pregação encaminha-se para um chamado ao arrependimento e à mudança de vida. Na ação violenta contra Jesus, Pedro diz que eles agiram como ignorantes, que não sabem o que fazem, manipulados pelo poder do sinédrio. Ao mesmo tempo, o apóstolo dá esperança a esse povo, como quem diz: Os tempos de ignorância já passaram. V. 18 – Em meio ao agir pecaminoso dos israelitas, Deus cumpriu seu plano salvífico. Com sofrimento e crueldade, Jesus seguiu o caminho até a cruz, conforme anunciado pelos profetas. Deus fala através dos profetas sobre a verdade e a justiça que não estão acontecendo, que foram e são violadas pelas lideranças que levaram Jesus a sofrer na cruz por nós. V. 19 – Arrepender-se e converter-se é consequência do reconhecimento dos pecados cometidos. Quem se arrepende recebe o perdão para uma nova vida. Roloff diz: “O que se exige é renunciar à vida depravada que se tem levado até o momento e aceitar a atuação salvífica de Deus em Jesus”. Aqui Pedro não fala do Batismo, como em Atos 2.38, mas lembramos as palavras que Jesus fala em relação ao Batismo: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado”. Pesch diz que os dois aspectos (arrepender-se e converter-se) exigem mudanças no interior do ser e no agir externo, como consequência do perdão dos pecados recebido no Batismo. Nos v. 20-21, que não fazem parte da perícope prevista, Pedro continua dizendo que Deus concede a Israel uma nova possibilidade de conversão. Para os que se convertem ele trará tempos de consolo e refrigério. O futuro é tempo de salvação. Mas esse futuro iniciou com o próprio Jesus, que assim respondeu quando João Batista mandou perguntar-lhe se seria ele o esperado: “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Lc 7.22-23). O céu recebe Jesus até a sua parusia. A restauração já iniciou, como anunciado pelos profetas. Mas, no tempo determinado por Deus, Jesus voltará. Aqui somos lembrados da ascensão de Jesus, sem esquecer

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da promessa do ressuscitado antes da ascensão: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do mundo” (Mt 28.20).

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Meditação

3.1 – Confessar-se, arrepender-se e converter-se! O convite de Deus para a mudança de vida está ligado ao reconhecimento de pecados cometidos, mesmo que por ignorância. Pedro não deixa de falar diretamente e com dureza ao povo sobre o seu agir pecaminoso contra Jesus e o próprio Deus. Deixa claro que seu agir foi por medo e ignorância. Lembramo-nos do que Jesus falou na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Pedro não justifica o feito dessas pessoas na condenação e crucificação de Jesus; pelo contrário, continua a falar aos israelitas em tom direto de acusação, fazendo-os perceber como foram frágeis e medrosos ao deixar-se manipular pelo sinédrio e pedir a crucificação de Jesus, o Servo de Deus. Por isso é preciso reconhecer os pecados, arrepender-se e converter-se agora. Por séculos, através dos profetas, Deus vinha dizendo o que aconteceria: que seu Cristo haveria de sofrer. Deus conhece seu povo. Ele mesmo vem. Poderia ter escapado do sofrimento, mas não o fez. Por isso Pedro apresenta no v. 19 o caminho de mudança para restabelecer novos tempos, tempos de refrigério para quem nele crê (v. 20). Eu não preciso mais sofrer para que nasça um novo tempo. Cristo sofreu por mim para me libertar do poder do pecado. Diante da cruz de Cristo vejo o dilema da minha vida, mas posso reconhecer e crer que Cristo morreu pelos meus pecados, arrepender-me e viver em novidade de vida. As promessas que encontramos no Antigo Testamento podem ser experimentadas na vida, assim como esse paralítico experimentou em nome de Jesus Cristo. Ele estava sempre ali na porta do templo. Foi curado por Jesus perto do templo, que representava o poder religioso que ajudou a matar Jesus. Pedro dirige-se ao público em tom acusatório e de confronto com a verdade: a morte de Cristo foi com o consentimento de vocês, pois vocês pediram a liberdade de Barrabás e permitiram que Cristo fosse crucificado. É difícil entender o Deus de nossos antepassados, que em seu poder e amor não desistiu do ser humano. Pois seria a hora de dizer: Chega! Mas Deus não abandona o seu plano de vida. A ressurreição de Cristo é a vitória sobre a morte. É esperança de vida já aqui, é derrota da rigidez que a morte produz, mesmo quando ainda pulsa a vida. Por isso Pedro convida para a mudança, a reconciliação com Deus, também a nós. Pedro, após a cura do paralítico, confrontou o povo com os erros cometidos por ignorância, fraqueza e medo por ocasião da crucificação de Cristo. Também nós, diante da cruz de Cristo, somos confrontados com nossos erros, medos, fraquezas e nos desesperamos, não confessando nossos pecados nem nos arrependendo deles. Esquecemos de olhar para a Páscoa, para a vitória de Deus sobre todos os males. Quem sabe a nossa autossuficiência não nos permita olhar para a cruz como pessoas pecadoras. Esquecemos que o caminho é reconhecer nossas

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culpas e medos e, na graça, receber o perdão, que muda o nosso jeito de viver ou deveria mudar, o que nem sempre queremos. Muitas vezes, nos dias de hoje, pessoas perdem o ânimo, entram em depressão e buscam em qualquer milagreiro ajuda momentânea para suas culpas acumuladas. Esses falam, e muitos escrevem a respeito da fé e do amor que ajudam momentaneamente. Mas a raiz do problema continua. Pessoas com suas culpas acumuladas não encontram a cura, mas continuam, como o paralítico, satisfazendo-se com as esmolas. Pedro chama para a fé nesse que pode transformar vidas, para que, ao crer em Jesus, ele viva em nós e nossa fé seja cultivada em comunidade. Sabemos que o livro de Atos dá testemunho da vida comunitária que Pedro já experimenta. É o novo, a nova proposta! O que havia até então era o que produzia aleijados, que na porta de entrada sobreviviam com restos dos que frequentavam o templo. Em nome de Jesus queremos levantar-nos e viver uma nova relação com a outra pessoa, uma nova vida em comunidade, onde a liberdade em Cristo nos permita levantar e expressar nossa gratidão. 3.2 – Jesus restaura a vida dos excluídos! Ficamos maravilhados, ainda hoje, ao ouvir uma história de cura. Muito mais o povo ali presente, após ver aquele paralítico, velho conhecido, agora andando e saltando. Curioso, ele vai a Pedro e João e precisa ouvir: é ação de Deus. A cura não é obra humana, mas testemunho da obra salvífica de Deus em Cristo e um convite à fé. Hoje as pessoas continuam correndo atrás de milagres e ofertas de curas milagrosas. Isso é bom, pois cremos que Jesus tem poder. Mas, infelizmente, em nome de Jesus, muitos fazem um bom negócio para arrecadar dinheiro e iludir pessoas, que perdem o resto de esperança que ainda tinham no Deus da vida. Jesus veio para estar do lado dos fracos, para curar e ajudar os pobres, para proclamar liberdade aos cativos. Assim ele também veio para aquele homem que na frente do templo pedia esmolas, sem possibilidade de mudanças para o futuro. Deus quer restaurar a vida dos sofridos, doentes, aleijados, sem nada. O mundo insiste em fortalecer o poder da morte, levar a massa ao erro, privilegiar os ricos e promover guerras. A cura do aleijado é um testemunho de que Jesus restaura a vida dos excluídos. O evangelho do domingo (Lc 24.36b-48) ensina-nos que Jesus nos ouve em nosso sofrimento, em nossa dor, em nossa revolta e completa desesperança. Ele caminha conosco, como caminhou com os discípulos no caminho de Emaús, lembrando os ensinamentos das Sagradas Escrituras, da lei de Moisés, dos profetas... da ação de Deus para com seu povo, como no discurso de Pedro. Jesus não se afasta quando fica escuro, nem quando pedimos: fica conosco. Jesus partilha o pão e se faz salvação se o buscamos em nossa aflição ou alegria.

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Subsídios litúrgicos

Não podemos nos conformar, como cristãos, com um poder que produz paralíticos, paralisados, deitados à margem e excluídos da vida. Somos chamados para uma vida comunitária diaconal e crítica frente ao pecado. Pedro diz: “Em nome de Jesus Cristo: Levanta-te e anda”. Percebo nessa palavra um convite para nós hoje como comunidade: – Levanta-te, irmão e irmã, para a vida, para buscar em nome de Jesus o perdão, reconhecendo e confessando teus pecados, para receber a novidade de vida. – Levanta-te e participa da comunidade, dos grupos de estudos bíblicos, para conhecer o desejo de Deus para com seus filhos e filhas. – Levanta-te, jovem, procura estudar, cursar uma faculdade, participar das decisões do presente e para o futuro. – Levanta-te, mulher, para participar das discussões políticas e exigir teu espaço e trabalho reconhecido. – Levanta-te, trabalhador e trabalhadora, para exigir, junto com teus colegas, os teus direitos e salários, para que tenhas uma vida digna. – Levanta-te e reivindica teus direitos. Pedro e João aprenderam de Jesus a olhar com outros olhos para pessoas como o paralítico, com olhos e ações diaconais, servindo e ajudando como fruto da fé em Jesus Cristo. Havia e há ainda hoje um número gritante de pessoas excluídas, cheias de culpas, sem encontrar o caminho do perdão e da mudança de vida que Deus quer. Como comunidade, como cristãos, podemos planejar, criar ações diaconais ou participar das ações que acontecem em nossa comunidade. Podemos olhar para os espaços da comunidade para ver se estão a serviço das pessoas. Podemos avaliar a acessibilidade em todos os lugares, começando por nossas igrejas, salões comunitários, para que nenhum idoso, criança, ninguém seja impedido de frequentar esses lugares. Podemos mudar: confessar-se, arrepender-se e converter-se! O culto neste domingo pode enfatizar a confissão de pecados, o perdão e a mudança de vida. Hino: nº 409 do HPD II. Versículo de absolvição: 1 João 1.9. No culto infantil aprendemos um hino: “Ouro e Prata”, que fala da cura do paralítico, que levou Pedro ao discurso, segundo o texto acima trabalhado. Sugiro envolver as crianças e ensaiá-lo. Acrescento dois versos a esse hino, composto pelo musicista Irineu Krüger. Ouro e prata Ouro e prata não tenho, mas o que tenho te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda. Foi andando e saltando e louvando a Deus; Andando e saltando e louvando a Deus. Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda!

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Pela fé no Senhor Jesus Cristo podemos montanhas mover em nós. Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda! Esta fé no amor que nos quer salvar Devemos a nosso irmão levar. Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda!

Bibliografia ROLOFF, Juergen. Hechos de los Apostoles. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1984.

4º DOMINGO DA PÁSCOA JOÃO 10.11-18 SALMO 23 1 JOÃO 3.16-24

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PRÉDICA: 1 JOÃO 4.7-21

5º DOMINGO DA PÁSCOA 03 MAI 2015

SALMO 22.25-31 JOÃO 15.1-8

Anelise Lengler Abentroth

Viver da fonte do amor é viver comunidade

1

Introdução

Os textos são indicados para o período pós-pascal. Esse período faz parte do grande ciclo da Páscoa e vai até Pentecostes. Nele celebramos a fé e o testemunho da comunidade de discípulos e discípulas de nosso Senhor Ressuscitado. Para tal, os relatos bíblicos acima querem nos ajudar. Há um aspecto que perpassa os três textos e que considero essencial para os nossos dias: não somos pessoas cristãs de forma isolada. A fé em Deus não é algo que podemos vivenciar individualmente, sem consequências éticas bem concretas. Vejamos! O Salmo 22.25-31 fala do testemunho dos que sofrem por causa dos orgulhosos que os dominam. A promessa e o louvor giram em torno do que Deus faz e que lhes sacia a fome. Esse louvor acontece na reunião do povo, na liturgia da comunidade e no ensino em suas casas até para os filhos e filhas que ainda não nasceram. No Evangelho de João 15.1-8 aparece uma sequência lógica: Jesus é a videira, a comunidade são os ramos dessa videira. Ligados, unidos à videira, os frutos serão produzidos. Ramos que são cortados, separados, secam e nada produzem. É da videira que provém a seiva, a força para que surjam os frutos. E a glória de Deus é conhecida pelos frutos que são produzidos nesse conjunto. Na vivência comunitária, os frutos da videira manifestam-se, pois o amor que vem da seiva não é algo apenas espiritual ou um sentimento genérico. Ele tem manifestações éticas bem concretas, pois o agir de Deus sempre é transformador e relacional. E isso não é tão simples assim.

2

Exegese

Do ponto de vista formal, na Primeira Carta de João faltam quase todas as características de uma carta: não há saudação nem conclusão. O escrito mais parece uma carta de exortação a comunidades que estavam com algumas dificuldades. Uma delas parece ser a influência de pessoas hereges que tinham uma cristologia docética (4.2s), não levavam a sério a corporalidade e não observavam os mandamentos (2.3s;5.2s). Por consequência, não davam importância ao amor fraterno (4.8,20).

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Conforme Lohse (p. 203), o autor da carta não é mencionado, mas deve tratar-se de alguém de grande prestígio entre as comunidades. Há uma grande proximidade entre a Primeira Carta de João e o Evangelho de João, especialmente da forma como é tratado o tema do amor fraterno em 1 João 4.20 e João 13.34s. Conzelmann afirma que 1 João “quase poderia ser denominada uma carta pastoral joanina”, na qual o viver e o agir fraterno da igreja são acentuados de forma insistente. A época de redação e o lugar poderiam indicar a Ásia Menor no começo do século II. Provavelmente não muito tempo depois do Evangelho de João, pois quem escreve afirma que viram e testemunharam o envio de Deus do salvador ao mundo (4.14). O texto possui uma clara estrutura argumentativa. V. 7-10 – De forma carinhosa, o autor propõe amor fraterno entre as pessoas que são nascidas de Deus, filhos e filhas de Deus. Pois quem conhece o amor é nascido de Deus e o conhece. O amor tornou-se visível quando Deus enviou o seu Filho ao mundo para termos vida por meio dele, para sermos pessoas perdoadas. V. 11-16 – Se Deus nos ama a tal ponto de nos perdoar, então podemos amar uns aos outros. E se amamos, Deus está conosco e seu amor realiza-se em nós (torna-se perfeito). É o Espírito de Deus que nós recebemos que nos dá a certeza de que Deus vive unido conosco. Quando alguém confessa que Jesus é Filho de Deus, Deus vive nele e ele em Deus. E nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. Porque Deus é amor. Quem vive no amor vive unido/unida com (permanece em) ele e Deus com ele/ela. V. 17-18 – E se vivemos unidos/unidas com Deus, então temos confiança (coragem) no dia do juízo. Porque a nossa vida é como a de Cristo. No amor não há medo. O amor perfeito afasta (lança fora) o medo. Pois o medo traz castigo. Quem sente medo ainda não está no perfeito amor. V. 19-20 – Amamos porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser (testemunhar) que ama a Deus que não vê, mas não ama a seu irmão ou a sua irmã que vê, é mentiroso. Porque não dá para amar a quem não vemos se não somos capazes de amar a quem vemos. Esse é o mandamento de Cristo: Quem ama a Deus, que ame a seu/sua irmão/irmã. Importante ressaltar que não é possível inverter a afirmação “Deus é amor” por “o amor é Deus”, pois assim estaríamos afirmando que, quando amamos, fazemos ou somos Deus. Gottfried Brakemeier diz: “O autor da carta não substitui a palavra ‘Deus’ pela palavra ‘amor’. Ele fala, muito antes, do amor de Deus (4.9), do amor que procede de Deus (4.7), do amor que o Pai nos deu (3.1). Deus não é produto da ação humana. Ele é a fonte do amor... os cristãos viram Jesus Cristo (1 Jo 1.1ss;4.14) e nele viram o amor de Deus” (p. 138). Sendo assim, creio que é necessário olhar mais atentamente para essa palavrinha tão usada, badalada e deturpada, o amor, na compreensão bíblica. Primeiramente, é preciso perceber que o que hoje compreendemos por amor no mundo antigo era definido por mais palavras. No mundo grego, havia três palavras com sentidos específicos, que no passar dos tempos foram traduzidas por amor. A primeira é eran, que designa o amor desejo, o amor erótico, o amor “possessivo”.

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A segunda é filein, que significa o amor desinteressado, amigo, que se preocupa com o próximo, a pátria, a natureza etc. A terceira é agapan, muito mais abrangente e rara. Pois é desse que nosso texto fala. No contexto bíblico, esse verbo contém características específicas. No AT são pelo menos três: • É o amor de Deus que se expressa em suas intervenções históricas, que sempre são em favor do seu povo. É amor ativo que tem como alvo uma comunidade, um grupo de pessoas. Esse amor não é momentâneo ou passageiro, mas duradouro, que permanece de geração em geração. • É amor eletivo, que escolhe, que elege e é criador. Deus escolheu e criou o povo que resolveu amar (Dt 7.7s; 4.37; Jr 12.7s; Is 54.5-8). • É amor misericordioso, que salva, corrige, socorre e perdoa (Dt 23.5; Is 43.25; Is 63.9). Deus ama gratuita e soberanamente seu povo e todas as pessoas. O NT retoma essas três dimensões e as desenvolve: • A revelação do amor de Deus deu-se em Jesus Cristo. Essa vinda inaugurou o reino de Deus. Esse reino inaugura um tempo de misericórdia, onde o arrependimento é possível por causa desse amor de Deus manifesto na cruz de Cristo. Nos escritos joaninos e especificamente em nosso texto, percebe-se a ênfase de que Deus não somente “deu” o seu Filho amado no sentido de que o entregou à morte (1 Jo 4.9), como se isso fosse apenas um fato do passado, mas revela o amor presente no viver em Cristo no cotidiano. • O amor de Deus continua sendo eletivo e criador. Ele elegeu Jesus, seu “único filho”, e lhe deu uma missão especial. O amor entre o Pai e o Filho é a base cristológica de João. Há uma sintonia perfeita entre aquilo que Deus quer e o que Jesus faz. • O amor manifesto por Deus em Jesus é de misericórdia e perdoador. Não são fatos e acontecimentos do passado apenas, é realidade permanente da qual vive a igreja, mesmo sem conhecê-lo plenamente. Esse conhecer ou reconhecer o amor manifesto são a raiz e o fundamento da vida cristã e, ao mesmo tempo, sua meta e cumprimento no viver ético e amoroso, sem medo e sem exigir perfeição. Assim expressa J. J. von Allmen: “Seja qual for a primeira impressão, a Primeira Epístola de João está preocupada sobretudo com vida concreta e comunitária; lembra aos cristãos que o amor, como Cristo compreendia, não é efusão da alma nem perfeição interior, mas é serviço fraternal: ‘aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão’ (1Jo 4.21)” (p. 31).

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Meditação

O amor lança fora o medo. O que isso tem a ver com o dizer de que amamos a Deus de forma abstrata e perfeita e não conseguimos amar a quem está ao nosso lado por não ser perfeito/perfeita?

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O escritor Brené Brown escreveu que o medo de errar está ligado a nossos instintos primitivos de preservação. Devemos muito a ele, pois nos defende de muitas coisas. Porém o medo em altas doses nos envenena. Muitas pessoas passam a sua vida sentindo-se indignas, imperfeitas, devedoras. Sentem uma dor maior do que a dor original. Cobram-se incansavelmente, e quanto maior a dor, menos falam. Quanto menos falam, maior a dor. Poderíamos chamá-las de perfeccionistas. Veem na perfeição o único meio seguro de proteger-se das críticas, dos constrangimentos e de serem amadas. Existem pessoas assim em seu meio, em sua comunidade, em sua família? Essas pessoas são incapazes de perceber que já afiaram o machado o suficiente e adotaram o seu limite como parâmetro para as outras pessoas. Dessa forma, é difícil para elas amarem os “imperfeitos”, pois suas metas em qualquer ação são tão elevadas, que mal conseguem deixar de estar sempre tensas e preocupadas. É difícil conviver com elas ou trabalhar a seu lado. Ao mesmo tempo em que não conseguem amar os imperfeitos, também não conseguem aceitar-se a si mesmas, pois creem que sua aceitação está baseada em algo externo, naquilo que conseguem realizar com perfeição. Dessa forma, tornam-se escravas e não conseguem sair de si mesmas, pois sua maior preocupação é: “O que as outras pessoas vão pensar?” O que nos pode libertar de tamanha tirania? O amor que vem de Deus, que conhece a Deus e que o reconhece naquilo que ele fez em Jesus e ainda faz entre nós. Deus nos ama, pois ele é amor! E não nos ama porque somos pessoas perfeitas; ao contrário, ama-nos porque nos escolheu para ser seus filhos e filhas. Tomou sobre si os nossos erros e libertou-nos da culpa e do medo. Podemos amar, porque ele nos amou primeiro. Não agimos mais “para algo”, mas “por aquilo que já recebemos”. E podemos amar quem não é perfeito: os outros e a nós mesmos. Isso é libertador! Amar a Deus é deixar-se mobilizar por seu amor manifesto, deixando de fazer de si mesmo o parâmetro em favor do serviço pessoal na comunidade, no conjunto de pessoas que estão ao nosso lado, sejam elas quem forem. É engajamento voluntário, obediente ao que Deus manifestou em Cristo e em seus mandamentos. Pois quem ama cumpre todos os mandamentos. Não é à toa que nosso texto termina com “o” mandamento de Cristo: Quem ama a Deus, que ame também a seu irmão! O amor, cuja fonte é Deus, não é sentimento ou aspiração de seres humanos sensíveis, espiritualizados ou que se julgam perfeitos. Antes é serviço concreto em favor e por causa das pessoas que sofrem. Eis o que Cristo fez durante toda a sua vida! Amar significa servir: serviço a Deus em obediência e reconhecimento a tudo o que ele nos fez e faz, servindo a quem carece de justiça, pão, dignidade, afeto.

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Imagens para a prédica

Eu começaria a pregação propondo à comunidade um pequeno exercício. Pediria que cada um olhasse ao seu redor, para cada pessoa, e fizesse mentalmente a pergunta: Eu a amo? Se a resposta for “sim”, por quê? Se a resposta sincera

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for “não”, por quê? O que nos faz “escolher” pessoas para amar? Afinidades? Cor da pele? Condição social? Aparência? Conveniências? Então falaria dos significados da palavra amor no Antigo Testamento e no Novo Testamento. E então discorreria sobre o nosso medo de viver do amor que Deus nos dá. Terminaria convidando as pessoas para que se olhassem novamente e, se não houver Santa Ceia, convidaria para o abraço da paz. (Sendo fiel à exortação de 1 João, procuraria não generalizar, mas focar nas pessoas reais que ali estiverem, já que o texto foi dirigido aos conflitos existentes na comunidade.)

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Subsídios litúrgicos

Barro potenciado? E, no entanto, Senhor, tu és o nosso Pai, nós somos o barro e tu és o nosso oleiro, todos nós somos obras das tuas mãos (Is 64.7). “Eu sou maior do que os outros, por isso sou o melhor”, disse um cântaro. “Eu sou mais bonito do que os outros, por isso sou o melhor”, disse um segundo cântaro. “Eu sou mais forte do que os outros, por isso sou o melhor”, disse um terceiro. “Eu sou mais antigo do que os outros, por isso sou o melhor”, disse um quarto. “Eu sou mais moderno do que os outros, por isso sou o melhor”, disse um quinto. “Eu tenho mais dinheiro dentro de mim do que os outros, por isso sou o melhor”, disse um sexto. Um cântaro sábio e de boa aparência disse: “Por que vocês são tão presunçosos e brigam entre si? Não fomos feitos do mesmo barro? Não temos todos o mesmo valor? Só o oleiro, ele é o maior de todos. Se nós cumprirmos as tarefas para as quais fomos feitos, Paz e alegria reinarão entre nós.” Ó Senhor, Tu és o divino oleiro. Tua sabedoria é o disco da olaria. Tentações e sofrimentos são o fogo Que endurecem o barro cru. Nós somos barro em tuas mãos. Transforma esse barro em cântaros Que sejam humildes, graciosos e úteis. Amém. (Johnson Guanabaranam, “ Senhor, Renova-me”, Editora Sinodal, 1993)

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Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Proclamar Libertação V. São Leopoldo: Sinodal, 1979. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. VON ALLMEN, J.J. Vocabulário Bíblico. São Paulo: ASTE, 1972.

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PRÉDICA: JOÃO 15.9-17

6º DOMINGO DA PÁSCOA

SALMO 98 1 JOÃO 2.1-6

(DIA DAS MÃES) 10 MAI 2015

Marcia Blasi

1

Introdução

O texto previsto para pregação no domingo de hoje é bastante conhecido. Está inserido no discurso de despedida de Jesus e já foi trabalhado em algumas edições do PL: 8, 19, 25 e 33. Cada contribuição traz aspectos exegéticos e teológicos importantes. Compartilho aqui minha contribuição. O tema que perpassa o texto é o amor: o amor de Deus e de Jesus Cristo pelos seres humanos. O novo mandamento apresentado em João 13.34-35 é aqui enfatizado e reforçado. A tarefa que nos cabe neste final de semana é conectar o texto previsto à celebração do Dia das Mães. Há quem diga que essa é uma comemoração consumista. Há pessoas que gostariam de eliminar a comemoração desse dia nos cultos. Há também pessoas que preparam cultos em que a maternidade é romantizada, e há pessoas que preparam cultos em que a maternidade é apresentada como a coisa mais difícil do mundo. Proponho aqui que haja um saudável equilíbrio. Deixar de mencionar a data nos cultos do final de semana seria entregar toda a festa ao consumismo. Celebrar em demasia o dia pode causar dor em algumas mulheres que não puderam ser mães ou que optaram em não o ser. Então celebremos esse dia com carinho, cuidado, permanecendo no amor de Cristo.

2

Exegese

A perícope encontra-se dentro do “discurso de despedida” de Jesus (Jo 13-17). Segundo Gottfried Brakemeier, “de um modo geral, as comunidades joaninas sofrem sob a sua condição de minoria hostilizada” (p.12). Nesse contexto, a insistência em permanecer no amor de Jesus, insistir na vida comunitária amando as outras pessoas, faz muito sentido. O amor de que fala o texto não é um mero sentimento, mas é um comprometimento com o bem-estar da outra pessoa. O auge desse amor seria dar a vida pela amiga ou pelo amigo. Segundo Brian P. Stoffregen, a palavra agapao/agape é encontrada nove vezes no texto. Em todo o “discurso de despedida”, capítulos 13-17, o verbo aparece 24 vezes, e o substantivo, seis vezes. O verbo no texto refere-se: 1. Ao amor de Deus por Jesus (v. 9, veja também 17, 23, 24, 26) 2. Ao amor de Jesus pelas pessoas que o seguem (v. 9, 12 e 13.34) 3. Ao amor entre os discípulos e as discípulas (v. 12, 17 e 13.34-35).

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6º Domingo da Páscoa

O substantivo refere-se: * ao amor de Jesus (v. 9, 10) * ao amor de Deus (v. 10) * ao amor humano que dá sua vida pelas pessoas que ama (v. 13). Intimamente ligado ao amor (agapao/agape) está o termo amigo/amizade – phileo/philos (v. 13, 14, 15). Gail R. O’Day afirma que João 15.12-15 é a passagem central para uma teologia da amizade em João. Segundo ele: “Essas duas dimensões de amizade no mundo antigo – o presente de doar sua vida por um amigo ou amiga e o uso de linguagem franca e aberta entre pessoas amigas – informavam a maneira com que o Evangelho de João e seus leitores e leitoras entendiam a linguagem sobre amizade”. Não há nenhuma referência no texto quanto a amar a Deus ou a Jesus. A ênfase do texto está no amor de Deus pelos seres humanos e no amor entre esses. Podemos destacar aqui o v. 16: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês”. A comunidade de Jesus não precisa fazer nada, nem pode, para conquistar o amor de Jesus. Já existe uma amizade entre essas pessoas e Jesus; ele as conhece. O pedido de Jesus é que permaneçam no seu amor e que amem uns aos outros e umas às outras. Isso sim é tarefa e possibilidade dos seres humanos.

3

Meditação

Jesus não fala com os seus de cima para baixo. Jesus fala-lhes em amizade. Lembra as coisas importantes numa amizade: a disposição de oferecer-se por outra pessoa e a franqueza. Chama atenção a radicalidade do texto: “ninguém tem mais amor pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por ele” (v. 13). Pouca gente hoje realmente precisa fazer essa escolha. Jesus a experimentou. Jesus preferiu perder a sua vida do que negar a Deus e seus amigos e amigas. Jesus fez isso de uma vez por todas. Fez também por nós. Muitas mães entendem (e assim aprenderam na sociedade patriarcal) que ser mãe é entregar a sua vida pelos filhos e pelas filhas. Aprenderam que, ao se tornarem mães, deixam de ser mulheres. É preciso tomar muito cuidado para não relacionar facilmente o amor e a amizade da qual Jesus está falando com as mães. É bem verdade que a maternidade exige sacrifícios. Quem escolheu ser mãe e preparou-se para tal assume a responsabilidade de colocar as necessidades de seu bebê acima das suas. Quando isso não acontece, há problemas e consequências sérias. Mas isso não precisa ser visto como “dar a vida”. Não precisa ser exaltado como a coisa mais difícil do mundo. Sim, é difícil, é cansativo, enche o saco, mas não é isso que é a maternidade. Ser mãe, para quem escolheu ser mãe, para quem estava preparada para ser mãe, é algo maravilhoso, uma bênção que não pode ser medida. Ser mãe é algo que muda a vida de cada mulher e de cada homem, porque sempre que há uma mãe, também há um pai.

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Precisamos também lembrar que nem todas as mulheres nasceram para ser mães, nem todas querem ser mães, nem todas conseguem ser mães e nem todas precisam ser mães. Podemos auxiliar para que esse dia seja de celebração da vida ou podemos causar que esse dia seja uma verdadeira tortura para todas aquelas mulheres que por uma ou outra razão não são mães. Escolher as palavras sabiamente nesse dia é muito importante. É preciso sabedoria para lembrar com carinho do dom de dar à luz e da importância do amor e cuidado de uma pessoa para com essa tarefa. Mas também é preciso manter um saudável equilíbrio com a ideia de que ser mãe não é profissão e que a maternidade há muito tempo deixou de ser o único sonho para muitas mulheres. É preciso sabedoria para não romantizar a maternidade e muito menos infligir um sentimento de culpa maior ainda sobre as mães no caso das coisas não darem certo com as crianças. Mães já se sentem culpadas na maioria do tempo. Não precisam que ninguém reforce isso, muito menos em nome de Deus. Podemos resgatar aqui as palavras do v. 16: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês”. Na maternidade, também não é possível escolher que “tipo” de filho ou filha vamos ter ou como vão ser quando crescerem. Não são os filhos e filhas que escolhem mães e pais, mas são mulheres e homens que escolhem, na melhor das hipóteses, ser mães e pais. Não dá para fugir das mães nesse dia. Há uma expectativa no ar. Mães também não vêm perfeitas e nem são perfeitas. Mães erram. Mães cansam. Mães precisam de tempo sozinhas. Mães têm sonhos que não incluem as crianças e, apesar de tudo isso, são mães que amam seus filhos e filhas. Usando as palavras do texto, permanecer no amor não é ficar grudada o tempo todo, o tempo todo somente dedicada aos filhos e às filhas. Permanecer no amor é voar seus próprios sonhos e deixar filhos e filhas também fazerem isso. Não me refiro aqui ao abandono que muitas crianças sofrem, nem permitir que jovens tomem decisões que ainda não estão preparados para tomar. O Dia das Mães não pode ser um dia para glorificar as mulheres nem para supervalorizar o sacrifício que fazem pelos filhos e filhas. Assim como no texto, Jesus pressupõe que já haja uma amizade entre ele e sua comunidade. Jesus pede que amem uns aos outros e umas às outras. Na família também é assim. Já há um amor entre as pessoas, elas precisam somente ser relembradas desse amor. E não aquele amor só de um dia, de dar presente caro e depois esquecer o resto do ano. Amar é permanecer no amor. É amar mesmo quando a outra pessoa ainda não sabe o que é isso. Amar é também se valorizar. Por ser mãe, não é preciso sofrer tudo calada, aguentar violência. Ser mãe e pai é encarar uma aventura. Aventura não é escalar montanhas não é atravessar desertos não é preciso bravura aventura não é saltar de avião não é descer cachoeira não é preciso tontura aventura não é comer bicho vivo

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não é beber aguardente não é preciso angustura aventura não é morar em castelo não é correr de ferrari não é preciso frescura aventura é tudo o que faz uma pessoa tornar-se capaz de abrir mão da loucura aventura é ser mãe e pai. Martha Medeiros

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Imagens para a prédica

A imagem da amizade entre Jesus e sua comunidade é algo bastante interessante, também quando acontece esse culto voltado ao Dia das Mães. Uma imagem marcante seria resgatar a necessidade de amizade entre as pessoas, também entre as mães. Não é fácil ser mãe. Há momentos de dúvida e desespero em todas as etapas. Ter a companhia de outras mulheres, mães e não mães, ajuda a manter a sanidade, a perspectiva, a esperança. Ter a companhia de amigas ajuda a não se sentir culpada o tempo todo. Gestos de amizade entre mulheres podem dar um tom diferente para esse dia. Podem dizer que ser mãe é uma escolha que não precisa acabar com outros sonhos e perspectivas de vida.

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Subsídios litúrgicos

Invocação: Em nome de Deus, que como bom pai e boa mãe nos atrai com laços de ternura; em nome de Jesus Cristo, que acolheu as pessoas rejeitadas e que também nos acolhe; em nome do Espírito Santo, que nos motiva e anima a ir ao encontro das nossas irmãs e dos nossos irmãos. Kyrie:

Entre os gritos de socorro e os gemidos de sofrimento em todo o mundo, ouvimos a voz de muitas mães. Sejamos pessoas solidárias e clamemos com elas: – Pelas mães que veem seus filhos e filhas perderem a vida em guerras, por aquelas que têm filhos e filhas desaparecidos, explorados ou que estão envolvidos no mundo das drogas e do álcool; – pelas mães que não conseguem sustentar seus filhos e filhas com os seus rendimentos e que muitas vezes ficam sozinhas na tarefa de cuidar das crianças; – pelas mães que sofrem violência dentro de casa, causada pelo marido ou companheiro e até pelos filhos e filhas. C: Pelas dores deste mundo, ó Senhor... (Rodolfo Gaede Neto)

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Bênção: A bênção do Deus de Sara, Abraão e Hagar.

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de João. Proclamar Libertação. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1982. v. 8. O’DAY, Gail R. I have called you friends. Disponível em: <http://www.baylor. edu/content/services/document.php/61118.pdf>. Acesso em 09/07/14. STOFFREGEN, Brian P. John 15.9-17. Disponível em: <http://www.crossmarks. com/brian/john15x9.htm>. Acesso 05/07/14.

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PRÉDICA: JOÃO 14.1-12

ASCENSÃO DO SENHOR

ISAÍAS 33.13-17,22 COLOSSENSES 3.1-11

14 MAI 2015

Júlio Cézar Adam

Comunidade cristã, caminho da vida

1

Introdução

Este auxílio homilético é pensado para a festa da Ascensão do Senhor. Refletir sobre a Ascensão é lembrar o período mais importante do calendário cristão: o tempo pascal. Jesus Cristo permaneceu 40 dias entre os seus, confirmando sua ressurreição e preparando sua volta para o Pai. Sua volta ao Pai, no entanto, não significa um desemparo ou um abandono. O caminho e a verdade que levam à vida digna e justa foram experimentados pelos discípulos, pela comunidade, de forma viva. A ressurreição confirma toda essa boa-nova. As promessas de Isaías 33.13-17,22 “os teus olhos verão o rei na sua formosura, verão a terra que se estende até longe” (v. 17), porque o Senhor é nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso Rei, ele nos salvará (v. 22), tornaram-se realidade. O Verbo se fez de fato gente e morou entre as pessoas (Jo 1.14). Esse caminho e essa verdade que levam à vida, manifestos na caminhada inteira de Jesus Cristo, não estão restritos a ele. São caminho e verdade que levam ao Pai, fonte de toda a vida. A comunidade, animada e orientada pelo Consolador, é desafiada a ser o espaço onde o caminho da vida, o caminho de Jesus Cristo, ganha vida novamente. Como? Através do lava-pés, do mandamento do amor, da busca pela justiça social e dignidade de todas as criaturas vivas. A carta de Paulo aos Colossenses 3.1-11 aponta para essa nova ética comunitária em meio ao mundo. Assim como Cristo é o caminho e a verdade, concretização do projeto do Pai, agora a comunidade passa a ser o caminho da vida, caminho concreto de transformação do mundo, experiência batismal da ressurreição. Cristo ascende aos céus, mas seu caminho e sua verdade permanecem na comunidade inclusiva, de muitos cômodos. Na comunidade cristã, por meio da prática do amor, Cristo é tudo em todos (Cl 3.11).

2

Exegese

Não vou utilizar este espaço para uma explanação sobre aspectos históricos e teológicos do Evangelho de João. Considero tal conteúdo importante. Sugiro que seja buscado em outros números do Proclamar Libertação. Por existir uma riqueza de informações em nossa perícope, proponho neste tópico exegético um comentário breve dessas informações, olhando cada um dos versículos do texto. Sugiro incluir na perícope os versículos 13 e 14 como texto para a pregação (Jo 14. 1-14).

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Ascensão do Senhor

J. Mateos e J. Barreto sugerem a seguinte estrutura para o texto: O ponto de partida: a admissão no lar do pai (14. 1-3) Jesus, o caminho para o pai (14. 4-6) A meta: Jesus, uno com o Pai (14. 7-11) A ajuda no caminho (14. 12-14). Comentários V. 1 – Há uma grande inquietação por parte dos discípulos. Motivos: Jesus anuncia sua partida e fala da traição de Judas. Nem internamente há coesão no grupo dos discípulos. O mandamento do amor, anunciado anteriormente, e o lava-pés, praticado, parecem algo difícil de sustentar o grupo. Por isso Jesus tenta acalmá-los: “não se turbe o vosso coração”. Jesus também os convoca para a fé: credes em Deus e credes em mim. V. 2 – Jesus concretiza seu consolo. Casa aqui não se trata da casa de Deus, o templo (2.16), nem do céu, no sentido de um lugar transcendente. A tradução mais adequada para o termo oikia seria lar, morada do Pai. Refere-se a um lugar, uma comunidade de vida, de intimidade, como uma família, onde Deus será parte. Trata-se de uma cidadania cristã, a reunião dos batizados, a comunidade. “O temor e o mistério do sagrado deixam lugar para a confiança e proximidade” (MATEOS/BARRETO, p. 598). Jesus anuncia aos discípulos que o Pai quer ter mais filhos/filhas na sua oikia. Os discípulos serão integrados na família do Pai. Jesus é que possibilita essa integração. Eu vou preparar-vos lugar, diz Jesus. V. 3 – Jesus, o herdeiro universal do Pai, acolherá os seus no seu lar, na comunidade. Uma nova relação com os discípulos e a comunidade é estabelecida. A comunicação plena entre Deus e as pessoas (1. 51) ganha forma aqui. O princípio da plenitude do amor ganha expressão máxima nessa preparação de Jesus, na morte de Jesus e em sua ressurreição. V. 4 – Jesus sinaliza o caminho para essa intimidade em torno dele e do Pai. O caminho de amor até o Pai passa pela cruz. Jesus pressupõe que os discípulos conheçam o caminho. V. 5 – Tomé dá voz à dúvida e angústia (coração turbado) dos discípulos. Não sabemos aonde vais; como podemos saber o caminho? Não entendem como a morte de Jesus pode ser um caminho. Aqui vemos, mais uma vez, o clima confuso e turbado na comunidade de discípulos. V. 6 – Então Jesus mesmo se faz caminho: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Aqui está o caminho. Ele mesmo é o caminho, e mesmo que sua morte se configure no caminho, a vida é o absoluto. A meta final é o Pai, porque ele é a fonte de toda a vida. Caminho e verdade são os meios para essa vida. Só pode ser caminho e verdade aquele que leva à vida. Jesus é a vida, pois por meio dele e na ação do Espírito Santo a ressurreição é possível. Assim a frase “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” acaba assumindo o caráter de escopo, não só do texto, mas de todo o Evangelho de João, sim, de todo o evangelho. V. 7 – O Pai e a vida, porém, não são desconectados do processo, do caminho e da verdade. Conhecemos o Pai por meio da experiência concreta com Jesus Cristo. Esse conhecimento não é um conhecimento racional, intelectual e exte-

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rior. É um conhecimento que nasce da convivência, da relação com Jesus Cristo. Por isso, retomando o versículo anterior, não há como conhecer o Pai senão por meio da vida de Jesus Cristo. A meta da vida já está sendo experimentada em Jesus Cristo. V. 8 – Ainda falta compreensão entre os discípulos. Filipe tem dificuldade de entender. A novidade da prática do amor, do evangelho não é entendida em sua grandeza. Aqui se expressa a dificuldade humana de entender a grandeza de Jesus Cristo. V. 9 – Por isso Jesus responde dessa maneira aqui, quase se queixando. Ele não é apenas o cumprimento das promessas messiânicas. Ele é o transbordamento da própria promessa. Ele é a presença do próprio Deus no mundo. O Pai está em Jesus Cristo. Mas Filipe e provavelmente os demais discípulos também estão impossibilitados de entender assim. Deus é visível em Jesus. Não há separação. Os discípulos não se davam conta dessa novidade: preferiam talvez um Jesus messiânico, um novo rei, concreto, e um Deus transcendente, no céu. V. 10 – Jesus segue na explicação da novidade. A presença do Pai em Jesus Cristo é dinâmica e acontece em meio à vida dos discípulos e das pessoas. O Pai realiza sua obra em Jesus Cristo, e Jesus, por meio de sua vida, junto com os discípulos, realiza sua obra na humanidade por meio do Espírito. É assim que Deus salva o ser humano. O Verbo que se fez carne e habitou entre a gente (1.14) está longe de ser visualizado. V. 11 – Jesus insiste e reforça a sintonia entre ele e o Pai. Suas obras testificam essa sintonia. Tudo o que foi feito, dito e vivido concretamente por Jesus aponta para Jesus-Pai, a vida em abundância: crede ao menos por causa das mesmas obras, disse Jesus. V. 12 – Novamente Jesus retoma o tom consolador e confirmador. Sua obra de amor não encerra com ele. A obra deve ser continuada. Trabalho mais intenso ainda aguarda os discípulos e a comunidade: a casa com muito espaço. Os feitos de Jesus são modelos, ensaios concretos de como seguir ofertando vida às pessoas. Seus feitos não estão presos ao passado. Estão destinados a ser sementes e sinais de algo ainda maior: a libertação plena. A continuidade não será obra humana. Jesus e o Pai fazem-se presentes, tornam-se realidade no trabalho dos discípulos e da comunidade. Os céus ficarão abertos. V. 13-14 – A comunicação entre Deus e as pessoas por meio de Jesus será uma constante, alimentada pela oração. O culto é o espaço para alimentar a fé, o entendimento, a percepção, celebrar e orar pela concretização do caminho, da verdade que leva à vida, como sonho maior do Pai.

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Meditação

A caminhada de Jesus com seus discípulos aproxima-se de um desfecho. A Páscoa aproxima-se, e com ela a cruz. Eles vivenciaram o lava-pés (13. 1-10), sinal concreto e radical da mensagem central de Jesus: o serviço do amor a todas as pessoas como revelação radical do agir de Deus. O lava-pés é aqui como um resumo simbólico, ação representativa de toda a vida e obra de Jesus. Um pouco

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adiante, Jesus sintetizará essa prática do serviço em palavras no novo mandamento: Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei (13.34). O novo mandamento constitui a herança e o testamento, a missão de Jesus, entregue aos discípulos: novo mandamento vos dou! Ou seja, o seguimento de Jesus não é apenas um ganho. O lava-pés é prelúdio da cruz. Muito mais do que uma garantia, o mandamento do amor é um compromisso com o amor. Entre os discípulos, porém, nem tudo é amor. Nem mesmo o círculo próximo (provavelmente a comunidade de seguidores de Cristo) estava coeso. Após o lava-pés, Jesus fala do traidor (13. 21-30). Após o novo mandamento, Jesus fala que será negado por Pedro (13. 36). Em meio a toda essa instabilidade, Jesus deixa claro, em mais de um momento, que está partindo: “ainda por um pouco estou convosco” (13.33). Algo acontecerá, e aqueles que deveriam estar preparados não estão. É nesse contexto que se insere nosso texto. Em João 14.1-12 (13-14), temos um discurso consolador de recomendações e de despedida como forma de preparar os discípulos, passar o bastão do serviço em amor. Esse discurso lembra a despedida de Moisés (Dt 1. 29ss) (KONINGS, p. 271). A cruz é condição para a entrada na nova Terra Prometida. Por isso Jesus começa sua despedida, consolando: “Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim” (14.1). Com a ausência iminente de Jesus, o ato de fé é o que permanecerá. A fé é a base para o consolo cristão. Muitas vezes, justamente nos momentos de coração turbado, é que a fé fica vulnerável. “A fé começa somente no instante em que houver todas as razões para desistir dela” (de BOOR, p. 81). Essa parece ser a situação, aqui, dos discípulos e da comunidade. Por isso o apelo para a fé não é feito no desamparo. Jesus promete algo: um lar, onde todos estarão juntos e junto com ele. O lar com muitas moradas é a comunidade, a igreja, local de aconchego, intimidade, com Cristo, com o Pai e com os irmãos e irmãs, sustentada pelo Consolador (14.16ss.). Os discípulos parecem não entender toda essa proposta. Talvez, por causa da aflição, não querem abrir mão do Jesus Emanuel concreto ou daquilo que eles acreditavam ser Jesus, o Messias da Lei. Por isso Jesus passa a explicar um caminho, como uma mãe acalma e explica ao filho pequeno o caminho a seguir sozinho. Na explicação, ele anuncia a frase emblemática, resumo, escopo, de tudo: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ou seja, o caminho percorrido por Jesus é o caminho a percorrer (KONINGS, p. 272). O termo “caminho”, assim como o termo “verdade” são meios para a vida. Vida é o oposto da morte. É contra ela e em favor da vida que toda a prática de Jesus se destina. É por causa da vida, todo o projeto do Pai. O caminho e a verdade são aqui mais do que meras ideias, regras e leis morais. São processo. O caminho e a verdade são o jeito de Jesus Cristo mesmo, nem mais nem menos. Não é o caminho para o céu, mas o caminho para a vida, projeto do Pai. “Ninguém vem ao Pai senão for por mim.” É como diz o refrão da canção do Pe. Zezinho: “Amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, viver como Jesus viveu”. Esse é o caminho e a verdade que levam ao Pai, à fonte da vida. É nesse caminho do “Eu sou o caminho” que nos encontramos com o Pai. Por isso toda a

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insistência de Jesus em dizer que ele e o Pai são um. Um está no outro: “Quem me vê a mim, vê o Pai” (v. 9); “As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz suas obras” (v. 10), como diz Jesus. Também nós, comunidade do Caminho em pleno século XXI, despedimo-nos do Cristo Ressurreto no dia da Ascensão. Também nós, como Tomé e Filipe, estamos tantas vezes com o coração abalado. A prática do amor, o lava-pés cotidiano, o serviço como essência do caminho e da verdade cristã são algo, às vezes, tão distante de nós. E a comunidade é, muitas vezes, tudo, menos um lar de aconchego, uma família amorosa e íntima, um lugar de proteção. Pensemos na radicalidade desse texto! Pensemos na radicalidade do evangelho! A comunidade cristã é hoje o caminho e a verdade que levam a uma vida que vale a pena. Deveria ser! Nós, povo batizado, somos esse caminho e essa verdade que leva à vida? É a nossa comunidade lugar sacramental onde vivenciamos e experimentamos Jesus Cristo como caminho que leva à vida, ao projeto do Pai? Suspeito de que Jesus transformou-se numa ideia, às vezes uma conquista pessoal, um passaporte que “eu” individualmente possuo, para acessar a Deus. Isso não é o que nosso texto está propondo. O texto traz Jesus Cristo para o meio da vida, para o coração da comunidade e, fazendo isso, traz o Pai para dentro da vida, mostra que o Pai faz morada entre nós na comunidade. Jesus, em seu discurso consolador, está nos dizendo: Ei, vocês aí do século XXI! Não esqueçam do lava-pés e do mandamento do amor, herança e testamento que entreguei a vocês. Se vocês não souberem como fazer, creiam em Deus e em mim. Eu tenho preparado um lar para vocês, a comunidade. Se a comunidade não ajuda vocês, olhem para mim. Lembrem o jeito que eu vivi, o que eu fiz, as coisas que eu disse, as histórias que contei. Esse é o caminho. Esse é o jeito. Eu sou esse caminho, e nesse caminho vocês encontrarão o Pai. Ele e eu somos um, o mesmo caminho e a mesma verdade, que leva à vida plena, digna, justa e alegre. Fácil, né? Não, não é nada fácil. Eu sei! Na cruz, eu sei que não é nada fácil. A cruz é tão pesada, que por melhor que sejam o caminho e a verdade, sozinhos e mesmo em comunidade, não será fácil. Traição, negação, incompreensão, angústia, falta de fé fazem parte desde o início. Por isso orem sem cessar e deixem-se guiar pelo Consolador!

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Imagens para a prédica

Também nós, na comunidade do século XXI, vivemos essa sensação de coração apertado. Ascensão talvez seja para muitos o fim de uma etapa e a insegurança de seguir adiante sozinhos sem Jesus Cristo. Nossa realidade diária não é nada animadora. Basta olhar um noticiário, e já nos damos conta o quanto a prática do amor tornou-se algo distante. Um sonho difícil de ser alcançado. A comunidade cristã deveria apontar sinais concretos do caminho e da verdade que levam à vida, sinais concreto do Cristo vivo. Muitas vezes, as pessoas não percebem a comunidade assim. A prédica poderia analisar criticamente a maneira como a comunidade vive: disputas por poder, acúmulo de riqueza, exclusivismo, brigas teológicas,

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tradicionalismos, divisões entre as pessoas, distanciamento das mazelas humanas, descaso e falta de amor, pouco aconchego entre os membros etc. Assim fica difícil perceber Cristo na caminhada. Por outro lado, não vale a pena ficar apenas na lei. O evangelho também é realidade na caminhada da comunidade, não por mérito da comunidade, mas por meio da ação graciosa do Consolador. Somos chamados a crer no Deus de Jesus Cristo apesar de todos os fracassos comunitários. Talvez se poderia trazer na prédica testemunhos de pessoas ou grupos comunitários falando da comunidade como o caminho da vida. No final, poderia ainda propor-se metas, caminhos e verdades que levem ao Pai, que levem à vida.

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Subsídios litúrgicos

Oração eucarística: L. O Senhor, Caminho, Verdade e Vida, esteja com vocês. C. E também com você. L. Vamos elevar os nossos corações ao Pai. C. Ao Senhor da Vida os elevamos. L. Demos graças ao Senhor, nosso Deus. C. Isso é digno e justo. L. É justo e necessário que, em todos os tempos e lugares, te rendamos graças, Deus Salvador, pois és o nosso juiz, nosso legislador, nosso rei. Jamais deixaste de cumprir uma única promessa. Deste-nos a salvação através de teu Filho Jesus Cristo. Por tudo isso nós te agradecemos, juntando nossas vozes com as vozes de toda a tua Igreja, cantando: Santo, Santo, Santo. Canto: L. Graças te damos, Deus de Amor, porque, em meio às nossas angústias, podemos nos reunir com esperança ao redor desta mesa para receber o que Cristo fez por nós. Conforme tua promessa, ele, através de sua vida, suas palavras, ensinou-nos concretamente o caminho e a verdade que levam à vida. Esse caminho e essa verdade lhe custaram a própria vida. Tu, porém, o ressuscitaste, confirmando assim o teu projeto. Nele conhecemos a ti e teu imenso amor. C. Ele veio nos salvar. L. Ele nos preparou lugar para nos acolher, pois, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim (breve pausa). Por semelhante modo, depois de haver ceado, ele tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto todas as vezes que o beberem em memória de mim.

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C. Jesus, tua morte anunciamos nós. Louvamos tua ressurreição. Até que venhas com teu poder. L. Assim seguimos nós, tua comunidade, em torno desta mesa, vivendo em nosso meio o Caminho, a Verdade e a Vida. Por isto, envia o Consolador, o Espírito da Verdade, para que, partilhando deste pão e bebendo deste cálice, possamos viver o amor entre nós e dar testemunho de ti, para que o mundo te conheça e creia. C. Envia teu Espírito, Senhor (pode ser um canto de epiclese). L. Lembra-te, Deus da Vida, de todas as pessoas, tuas testemunhas, membros do nosso corpo. Que esta ceia alimente em nós a esperança e a fé de que seremos reunidos na tua casa, casa onde há muitas moradas, o teu reino. C. Este é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por Cristo, com Cristo e em Cristo. Amém. Fração: L. O cálice, pelo qual damos graças, é a comunhão no sangue de Cristo (Elevação). L. O pão, pelo qual damos graças, é a comunhão no corpo de Cristo (Elevação). L. Recebamos o que somos, tornemo-nos o que recebemos. C. O corpo de Cristo.

Bibliografia BOOR, Werner de. Evangelho de João II. Curitiba: Ed. Ev. Esperança, 2002. BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João: caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005. MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de São João: análise linguística e comentário exegético. São Paulo: Paulina, 1989. p. 593-605.

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PRÉDICA: SALMO 1

7º DOMINGO DA PÁSCOA 17 MAI 2015

JOÃO 17.1a,6-19 ATOS 1.15-17,21-26

Ruthild Brakemeier

O melhor caminho para a vida

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Introdução

Existem pessoas más e outras boas? À primeira vista, o Salmo 1, principalmente na versão da Bíblia na Linguagem de Hoje, parece sugerir isto: de um lado estão os maus (v. 1), semelhantes a palha que o vento leva (v. 4), cujo fim é a desgraça e a morte (v. 6), e, de outro, as pessoas que não se deixam levar pelos conselhos dos maus. Tudo o que fazem dá certo, e o Senhor dirige e abençoa a sua vida (conforme os mesmos versículos). A versão de Almeida Revista e Atualizada não usa a palavra maus, e sim ímpios, que, conforme o dicionário Aurélio, significa “o que não tem fé, o incrédulo”. Essa palavra já aponta para uma outra direção, mas ainda seria possível concluir que o Salmo 1 fala de dois grupos de pessoas: aqui os justos e ali os pecadores. A fim de encontrar o foco da mensagem do texto, é necessário abandonar essa pintura em preto e branco que classifica as pessoas em “estas” e “aquelas” e olhar para a intenção do Salmo: ensinar o melhor caminho para a vida. Pois todas as pessoas estão sujeitas a escolher o caminho errado. As leituras de João 17 e Atos 1 também levantam perguntas. Quem são as pessoas de quem Jesus fala quando diz a Deus em oração: aqueles que me deste, porque são teus? Certamente são os discípulos, os quais Jesus escolheu por orientação de Deus e que o acompanharam durante seu ministério na terra. Porém são eles “especiais”, no sentido de merecedores de graças especiais por parte de Deus? Para encontrar a resposta, também devemos olhar para a intenção da oração de Jesus. Ele ora por seus discípulos, tendo em vista a missão deles no mundo após sua morte. Como testemunhas oculares da ressurreição, constituiriam a autoridade básica na igreja futura. Seriam os “apóstolos”, isto é, os enviados, com a missão específica de cuidar da unidade. Após a morte de Judas, os onze discípulos escolheram um outro homem para substituí-lo para preencher a vaga neste ministério e apostolado (At 1.25). Consideraram importante preservar o símbolo “doze” por causa de sua missão específica. Conforme Lc 21.30 e Ap 21.14, sua missão teria continuidade.

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7º Domingo da Páscoa

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Exegese

O Saltério é uma coleção de hinos do povo de Israel. O título hebraico (tehillim), colocado sobre a coleção que temos na Bíblia, concluída no tempo após o exílio, tem o significado de hinos de louvor. O termo parece não se adaptar a todos os salmos, considerando aqueles, por exemplo, que têm como conteúdo principal a lamentação. Mas talvez o termo escolhido quer expressar que, no fundo, todos os hinos, usados como orações, têm a intenção de louvar a Deus. O salmo que foi colocado no início da coleção tem como tônica o ensinamento. Ele quer ser um “indicador de caminho”. Quer levar o leitor ou ouvinte a obedecer a Deus e confiar nele. Dessa forma, o Salmo 1 é um canto que faz parte dos assim chamados escritos de sabedoria, úteis para a vida diária dos crentes, como os Provérbios. Podemos dividir o salmo em três partes: V. 1 e 2: a opção entre dois caminhos. V. 3 e 4: duas figuras que expressam a opinião do autor sobre caráter e valor dos que confiam e dos que não confiam em Deus. V. 5 e 6: o julgamento final de Deus. V. 1 e 2 – Bem-aventurados (RA = Revista e Atualizada) – felizes (NTLH = Nova Tradução na Linguagem de Hoje) é uma exclamação que promete felicidade e bem-estar. É como parabenizar a pessoa por sua escolha. A palavra aparece 26 vezes no Saltério. Os crentes são parabenizados por sua proximidade de Deus ou sua condição feliz diante dele. Exemplos: Sl 2.12; Sl 32.1; Sl 84. 4-5 etc. Ímpios, pecadores, escarnecedores (RA) – maus, os que não querem saber de Deus, os que zombam de tudo o que é sagrado (NTLH). Esses nomes são usados pelo professor da sabedoria para designar aqueles que escolhem o caminho da separação de Deus. Aqueles que escolhem o outro caminho são os que têm prazer na lei do Senhor e nela meditam dia e noite. “Lei” – Torá em hebraico – significa basicamente “direção” ou “instrução” e pode referir-se a um único mandamento ou ao conjunto das Escrituras. V. 3 e 4 – Duas figuras são usadas para mostrar as consequências das atitudes diferenciadas de buscar ou desprezar a Deus: 1. A figura da árvore plantada junto a uma corrente de água: assim como essa árvore é sustentada pela proximidade do riacho, assim a pessoa que busca a vontade divina será sustentada por Deus, podendo ser bem-sucedida. 2. A figura da palha que o vento leva quando, em grandes peneiras, o trigo debulhado é jogado para cima, deixando somente os grãos para trás. Com isso o salmo adverte: assim serão as pessoas que se separam de Deus: inúteis, condenadas a morrer. Comparação semelhante encontra-se em Jr 17.5-7. Ali, porém, o profeta usa palavras fortes como “maldito” e bendito”.

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V. 5 e 6 – O pensamento central nestes versos é a ideia de que haverá um julgamento final de Deus. Será um momento de juízo em que Deus purificará sua comunidade, separando e eliminando os elementos que se opõem a ele. Nesse momento ficará evidente quem serão os abençoados e quem serão os condenados. Deus conhece o caminho dos justos. A palavra conhecer, em hebraico, não tem apenas o significado de “notar, tomar conhecimento”, mas também de “estar próximo da pessoa, de forma amorosa”. Por isso a Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduziu dirige e abençoa. Os justos não são aqueles que podem apresentar-se diante de Deus sem erros e máculas, mas aqueles que procuraram apoiar-se em Deus e por isso são por ele apoiados.

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Meditação

“Dirigido por mim, guiado por Deus.” Essa frase lia-se muito junto aos motoristas de ônibus na parte interna do para-brisa. O motorista que se identificava com a frase expressava: “Os detalhes na condução deste carro cabem a mim. Mas o controle da viagem é com Deus”. O Salmo 1 sugere algo semelhante em relação à nossa vida. Essa exige decisões, e não é indiferente quais decisões tomamos. Temos que levar em conta as advertências do Salmo 1: não se deixem influenciar por conselhos que os afastam de Deus, não tomem decisões contrárias aos preceitos divinos e não se juntem àqueles que zombam de Deus. Pelo contrário, busquem a Deus e suas orientações, ocupando-se dia e noite com elas. São decisões importantes que cabem a nós observarmos. No mais, vale entregar o comando de nossa vida a Deus. Conclusão: a pessoa que fizer isso será bem-aventurada, feliz. Ela será como uma árvore plantada junto a um riacho. Ela terá firmeza também nos dias de tempestade, de seca e calor, porque as suas raízes tiram seu sustento do solo e da água que elas alcançam. Ela dará o seu fruto no devido tempo. E conclusão última para a pessoa: tudo quanto ela faz será bem-sucedido. Aqui gostaríamos de questionar o salmista: será que isso não é otimismo demais? Será que todas as pessoas que buscam a Deus com sinceridade de coração são bem-sucedidas em tudo o que fazem? Não encontramos em toda parte pessoas fiéis a Deus que sofrem porque as coisas não dão certo? Por vezes, essas são assoladas por doenças graves, por dificuldades no emprego, por problemas sem fim. Devemos admitir: fidelidade a Deus e seus mandamentos não é uma receita segura para o êxito nem garantia para o sucesso. E nunca podemos considerar o sucesso de alguém como sinal de sua proximidade com Deus nem o sofrimento de alguém como sinal de um eventual afastamento de Deus. Lembremo-nos das bem-aventuranças de Jesus (Mt 5.1-12). Que pessoas Jesus chama de bem-aventuradas? Os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos por causa da justiça. Não são exatamente os bem-sucedidos. Pelo contrário, eles estão geralmente entre os socialmente fracos e marginalizados. Pobreza é uma condição dolorosa e geralmente humilhante. A

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7º Domingo da Páscoa

mansidão e a misericórdia não são reconhecidas num mundo em que vale a lei do mais forte. Quem se empenha pela paz pode ser atropelado, e quem é injustiçado facilmente perde a causa. No entanto, Jesus diz a essas pessoas que elas são bem-aventuradas. Por quê? Porque Deus as “conhece”, o que significa (ver 2. Exegese): ele está perto delas de forma carinhosa e amorosa. Ele as nutre, assim como a seiva nutre a árvore, assim que possam resistir aos contratempos. A pessoa que busca as orientações de Deus tem a promessa de não ficar sem apoio nas tribulações da vida, porque seu apoio está em Deus, que não as abandona. Também a vida na fé conhece situações de desespero, derrotas, medo e angústia. Mas a presença de Deus sempre será sua força. Deus é como uma fonte de água que não se esgota. Esse é o principal ensinamento desse Salmo. De que forma buscamos as orientações de Deus? Lendo e ouvindo a Bíblia com espírito de oração. Uma palavra de Martim Lutero: “A Bíblia é uma ervinha. Quanto mais você a triturar, mais perfume vai soltar”. Será um perfume que faz bem, e você vai gostar de triturar essa ervinha. A palavra da Bíblia corrige, mas também consola e edifica. E, acima de tudo, você vai encontrar o sentido para viver. Esse sentido de vida faz feliz. Na figura da árvore, o sentido de vida é comparável ao fruto que a árvore dá a seu tempo. Quem se sabe amado e apoiado por Deus vai trazer como “fruto” o apoio aos outros, principalmente àqueles que mais necessitam dele. São as pessoas fragilizadas pelas circunstâncias da vida, as pessoas marginalizadas que precisam recuperar sua autoestima, as pessoas doentes e entristecidas, as pessoas que buscam um sentido para viver. Quem se sabe amado por Deus precisa também amar, praticar a misericórdia, a diaconia. Na história da diaconia, encontramos exemplos marcantes de pessoas que deram frutos. Madre Teresa de Calcutá é um exemplo vivo. Mas também na história da IECLB encontramos muitos exemplos animadores. O fato de existir a Casa Matriz de Diaconisas em São Leopoldo (RS), cujo aniversário é lembrado no dia 17 de maio, é sinal de que havia e há pessoas sensíveis à dor alheia. A fundação dessa casa de formação aconteceu porque comunidades e instituições e líderes da igreja viram a importância de criar oportunidades para a formação qualificada de mulheres que atuariam na área da saúde e da educação infantil. Mais tarde foi criada a Comunhão Diaconal das Diáconas e Diáconos, ampliando o leque dos profissionais diaconais. As comunidades e instituições ainda hoje precisam deles! Bem-aventuradas as pessoas que encontram em Deus a sua força. Amém.

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Imagens para a prédica

A meditação inicia com a figura do motorista que dirige o carro, mas confia na condução de Deus. Depois, o próprio Salmo 1 apresenta a figura adequada para a mensagem: a árvore plantada junto a uma corrente de água. A proximidade da água não é a garantia de sucesso, mas a força que lhe dá resistência nas turbulências da vida.

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Destaque especial ainda pode ser dada ao fruto, comparável à diaconia praticada por quem se sabe apoiado e amado por Deus, sendo, por isso, bem-aventurado, feliz. A palha do trigo, levada pelo vento na hora da separação do grão, é a figura que alerta para a futilidade de uma vida que despreza Deus e seus ensinamentos.

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Subsídios litúrgicos

O 7º Domingo da Páscoa é o domingo entre o dia da Ascensão de Jesus e Pentecostes. Por essa razão, certamente foi escolhida a leitura de Atos 1.1517,21-26. O texto mostra como os discípulos se prepararam para o dia em que, segundo a promessa de Jesus, o Espírito Santo desceria sobre eles, e eles seriam suas testemunhas em todo o mundo (At 1.8). Uma pergunta à comunidade atual: como se preparar para o dia de Pentecostes? João 17.1a, 6-19 faz parte da assim chamada “Oração sacerdotal de Jesus”. Em Rm 8.34, lemos que “Jesus intercede por nós”. Em Jo 17, temos palavras de intercessão de Jesus. R. N. Champlin coletou em seu comentário algumas opiniões sobre a passagem. Entre elas: Martim Lutero: “Realmente é uma oração profundamente fervorosa, feita de todo o coração; uma oração em que ele ‘Cristo’ desvenda, tanto para nós como ante o Pai, os abismos de seu coração, derramando seus tesouros...” João Knox, em seus dias finais de vida, durante a enfermidade que lhe trouxe a morte, orientou sua esposa e seu secretário para que “... um deles lesse todos os dias, com voz distinta, o 17º capítulo segundo João, o capítulo 53 de Isaías e um capítulo da epístola aos Efésios. E isso foi pontualmente cumprido durante todo o período de sua doença”. Para o conteúdo das orações Louvor: pela Ascensão de Jesus: Que ele está à direita de Deus, mas todos os dias conosco, como prometeu. Que ele governa o mundo. Que Deus derramou o Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, que o evangelho correu o mundo e também chegou até nós. Agradecimento: que Jesus intercede por nós junto ao Pai. Que o Espírito Santo também congrega essa comunidade e a presenteia com dons. Que podemos ser como árvores plantadas à beira do riacho, porque temos a orientação divina que é consolo e energia. Que existem frutos da diaconia. Pedido e intercessão: que sejamos sensíveis ao toque do Espírito Santo e aos seus dons. Que o testemunho da comunidade seja autêntico. Que cresçam bons frutos de amor ao próximo, principalmente aos mais carentes e necessitados.

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7º Domingo da Páscoa

Hinos de Ascensão e Pentecostes ou outros.

Bibliografia CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1982. WEISER, Artur. Das Alte Testament Deutsch – Die Psalmen I. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1963.

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PRÉDICA: ROMANOS 8.22-27

DOMINGO DE PENTECOSTES 24 MAI 2015

EZEQUIEL 37.1-14 JOÃO 15.26-27;16.4-15

Martin N. Dreher

Estamos muito bem representados diante de Deus. Melhor impossível!

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Introdução

Pentecostes é a festa do Espírito. No Brasil, o conceito “Espírito” gera muitas expectativas e está antecedido por muitas concepções. É bom que o pregador se lembre disso. A filosofia ocidental sugere que haja oposição entre realidade material e realidade espiritual. Fala-se do ser humano orientado pelas coisas da natureza e pelas coisas do espírito. Discute-se o que seja mais importante: o material ou o espiritual. Quando de fala da “festa do Espírito”, muitos podem pensar nas “forças espirituais” do ser humano, sua capacidade de raciocinar, sua vontade heroica, seu autodomínio, sua capacidade de controlar os instintos, os “bens mais altos” que a pessoa tem. Não raro, essas “capacidades” são então deduzidas do “divino” que reside no ser humano, da simbiose entre Deus e ser humano. Agora, o Brasil em particular está repleto de “espíritos”. Não foi por acaso que o kardecismo aqui se transformou em religião e que pululam espíritos em busca de reencarnação, que há espíritos de ancestrais a exigir oferendas de seus descendentes. Não é tarefa da pregação tratar da filosofia ocidental ou do mundo dos “espíritos”. O que é essencial à pregação é evidenciar que o “espírito” do ser humano ou os “espíritos”, mesmo aqueles que batem na nuca da pessoa e jogam-na ao chão não são idênticos ao Espírito de Deus nem “centelha” desse Espírito. A “imagem e semelhança de Deus” fala de uma relação do ser humano com Deus. De modo algum afirma que Deus e ser humano tenham origem ou sejam feitos da mesma matéria! Não afirma que o ser humano seja portador de matéria divina. Criador e criatura são distintos em sua totalidade. Quando e se o Espírito de Deus habita em nós ou nos é concedido, isso é um milagre. E esse milagre aconteceu em Pentecostes em e com pessoas que, sendo pecadoras, se haviam fechado a Deus, que dele se haviam separado, que confiavam em si mesmas, que se vangloriavam de suas capacidades e que pretendiam se autoafirmar contra Deus, mesmo sendo “justas” e “piedosas” e tendo o nome de Deus em cada frase que proferiam. Em Pentecostes, o próprio Deus dirige-se a pessoas que dele nada sabem ou que nada querem saber. Em Pentecostes, Deus dá-se de presente em um mundo rebelde, caído, ingrato, que se autoglorifica, orgulhoso, autodestrutivo, nada “pneumático”, muito “carnal”. Estamos indo muito longe na análise de nós mesmos? Os textos do domingo ajudam-nos a encontrar resposta.

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Os três textos do domingo querem animar a comunidade a ter esperança a partir das ações do Espírito de Deus. Ezequiel fala do Espírito de Deus que arranca vida de sepulturas. Gente injusta, povo idólatra volta a viver pelo amor de Deus. João fala do Espírito de Jesus que fará as pessoas saberem o que é direito e justo, a designar de pecado o que é pecado. Romanos 8 é todo ele dedicado ao “Espírito” e diz que quem vive no Espírito de Deus é pessoa cheia de esperança.

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O texto

Ernst Käsemann chama nossa atenção para o fato de que no capítulo 8 da Epístola aos Romanos, todo ele dedicado ao Espírito, os versos 18-30 formam uma unidade. Nesse capítulo, Paulo não se deixa envolver pelo entusiasmo característico do mundo helenista nem pelo êxtase por ele anunciado. É sóbrio. Esperança cristã parte da esperança do sofrimento, parte da cruz do crucificado. Mas o sofrimento que experimentamos nada é se comparado à glória que nos aguarda (v. 18). Mas é necessário que passemos por ele. É verdade, a criatura geme, os cristãos gemem, até o Espírito geme, mesmo que de forma diferente do que os cristãos. Cristãos gemem enquanto esperam que Deus os liberte completamente. Enquanto gemem, o Espírito auxilia-os em sua fraqueza. É ele quem intercede pelos cristãos junto a Deus. O que é essa “fraqueza” dos cristãos? É a dúvida, a incerteza dos que ainda estão do lado de cá da fronteira escatológica. Não sabemos “o que” devemos pedir. Sabemos “como” devemos pedir, pois o que Deus reservou para nós vai além de nosso pedir e de nosso compreender. Como, porém, o Espírito intercede por nós, é ele quem interpreta o que nosso coração deseja, e Deus o entende. Mais: o Espírito “pede de acordo com a vontade de Deus”, pois “sabemos” (Paulo reproduz frase do judaísmo) que tudo o que a misericórdia de Deus faz é para o bem. Quem são os cristãos, segundo o apóstolo Paulo? São aqueles que parecem não ter nada, mas, na verdade, possuem tudo (2Co 6.10). Não foi, pois, por acaso que os entusiastas de Corinto consideraram Paulo um joão-ninguém. Ele, por seu turno, aceitou essa crítica de bom grado, pois o Jesus que conheceu em Damasco considerava felizes os pobres de espírito (Mt 5.3). Paulo considera-se integrante do grupo dos pobres de espírito. Sabe-se solidário com aqueles que esperam, sofrem, gemem. Seu Senhor é o crucificado, e é esse o senhorio que deve caracterizar a existência do cristão. A glória que se evidenciará em nós cristãos (Rm 8.18) está além-fronteira. “Foi por meio da esperança que fomos salvos” (Rm 8.24). Esperança orienta-se no que ainda não vê. Não ter nada e ter tudo. Isso é paradoxal. É, quem crê contra tudo e contra todos cabeçudamente é virtuoso. Será? Não, o crucificado é o Ressurreto. Pelo Batismo tornamo-nos participantes da morte de Cristo e esperamos pela ressurreição dos mortos, que ainda há de vir porque Jesus ressuscitou. Mas por estarmos “em Cristo”, encontramo-nos “no” Cristo ressuscitado. Ainda vivemos “na carne” e, por isso, ainda temos a caminhada em direção à vida da ressurreição diante de nós. Temos que esperar e aguardar e suspiramos no aguardo do que há de vir. Também podemos observar a questão desde o outro lado, desde o lado

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escatológico e dizer: “Já não mais vivo eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Contudo, quem vive em mim não é o Cristo do passado, aquele que é recordado, mas o Ressurreto. Sou nova criatura, as coisas velhas já passaram, algo novo surgiu (2Co 5.17). Renascimento é surgimento de algo novo. “Em Cristo” essa nova criatura já existe. Eu, que ainda vivo na carne, só vejo um lado da moeda; na fé no Filho de Deus (Gl 2.20) sei que a moeda (minha vida cristã!) tem ainda um outro lado: fui conformado com a imagem do Filho de Deus e, por isso, fui glorificado. Por estarmos “em Cristo”, podemos dizer que “temos tudo”. É nessa duplicidade da vida cristã que nosso texto de Romanos deve ser lido. É ele que deve ser anunciado à comunidade reunida em culto no dia de Pentecostes. É comunidade pobre, esperançosa, ansiosa pelo Espírito, pedindo por ele. Também ela é duplicidade: é rebanho à espera, igreja a caminho, vivendo na carne, mas com o Espírito a auxiliá-la em sua fraqueza. Ela é, a um só tempo, igreja dos pecadores e igreja não pecadora. A igreja que não existiria sem o Pentecostes celebra Pentecostes. Essa perspectiva auxilia a esquematizar a pregação que teria como tema: Entre carência e riqueza. Somos comunidade representada pelo Espírito de Deus.

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Meditando

Todo o capítulo 8 de Romanos fala do Espírito. Carecemos dele ou será que o temos? O certo é que ninguém pode designar Jesus de “Senhor” sem o Espírito (1Co 12.3). Só o Espírito consegue entender Deus em sua totalidade, e nós pensamos como Cristo pensa (1Co 2.16). Andamos segundo o Espírito (Rm 8.4). O Espírito mora em nós (Rm 8.9,11), ele nos impulsiona, assim como o vento empurra a vela (Rm 8.14). Temos o Espírito como “primeiro presente que recebemos de Deus” (Rm 8.23) para experimentar como é a vida futura que Deus nos preparou. Voltemos à imagem dos dois lados da moeda: seja qual for a situação que enfrentamos em um dos lados da moeda, que nos mostra nossa vida “na carne”, é necessário não esquecer que a moeda tem uma segunda face, toda feita de ouro: vida celestial que já se faz presente em nós e junto a nós como “primeiro presente”. Importa não esquecer que já o temos. Observe-se que estamos falando de um “primeiro presente”. Esse primeiro presente é o Espírito que nos deixa experimentar o que há de vir. Ainda esperamos, ansiamos e gememos (v. 23). O Espírito dá-nos o testemunho de que somos filhos e filhas de Deus e autoriza-nos a designar Deus de Pai e, mesmo assim, gememos, pois aguardamos ser postos nessa situação, nessa filiação (v. 23). Não “vemos”, “esperamos”, e o esperado é o que ainda não vemos (v. 24ss). O lado dourado da moeda ainda não está visível para nós. Essas constatações estão a nos recomendar sobriedade quando pretendemos detectar a realidade da vida no Espírito em nós através de determinados fenômenos. O que afirmamos a respeito do reino de Deus deve também ser afirmado em relação à vida cristã. Estamos proibidos de dizer: “Vejam! Está aqui” ou “Está ali” (Lc 17.21). Não estamos afirmando que não se veem as consequências práticas do ser cristão no dia a dia. Agora, quem quiser constatar e julgar o ser

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cristão de uma pessoa, segundo determinados critérios empíricos, transformará o que a Bíblia designa de “justiça” em qualidade religiosa e moral e esquecerá que “justiça” é uma relação: uma relação que foi restaurada entre Deus e nós. Na história do cristianismo, sempre de novo foi feita a tentativa de tornar palpável aquilo que está oculto em Cristo. Sempre de novo se fizeram exigências em relação aos cristãos: “Quão certo estás de tua conversão, de teu novo nascimento?” “Quais são os dons espirituais dos quais és detentor?” “Conseguiste te apartar para sempre de determinados pecados?” “Um cristão é pessoa alegre! Já conseguiste te afastar de tuas depressões?” “Quantos atendimentos a tuas orações consegues contabilizar?” “Tens o dom de falar em línguas?” “Fizeste alguma experiência extraordinária com Deus?” É certo que essas perguntas não caem de uma única vez sobre o pobre cristão, mas se espera que, no mínimo, consiga enumerar um milagre que tenha experimentado. Cuidado, porém! Não estamos afirmando que um cristão não experimenta nada. Mas é errado querer que determinadas experiências tenham sido feitas para que se comprove o ser cristão de um cristão. O ser cristão do cristão tem qualidade escatológica, ainda não pode ser visto. Pior: quem exigir de um cristão que comprove cabalmente seu Estar-no-Espírito transforma o evangelho em Lei. Com isso se põe fim à “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Como cristãos devemos ter a liberdade de confessar nossa “fraqueza” (v. 26). Devemos ter a liberdade de confessar a fraqueza de nossa “carne”. O apóstolo Paulo não afirma que a fraqueza é substituída por fortaleza, mas que o Senhor diz que o seu “poder é mais forte quando você está fraco” (2Co 12.9). Em Rm 8, é anunciado que o Espírito nos socorre em nossa fraqueza. E a maneira do Espírito atuar em nós não é tal que nos ative para que doravante não necessitemos mais dele e que por nossa força tudo possamos fazer. Ele nos representa. Ele faz o que não somos capazes de fazer. Quando a comunidade ora “no Espírito” (1Co 14.15; Ef 6.18), ela se confia à intercessão do Espírito que fala por ela. Ela não se baseia em sua religiosidade, seja ela rica ou muito pobre. Não negamos que o Espírito produza espiritualidade, mas não é ela que importa. Os gemidos, gritos que, por vezes, ocorrem na oração da comunidade, não são importantes. Importante é o “gemido” inaudível do Espírito, que “não se expressa por palavras” (sem glossolalia) enquanto intercede por nós (Rm 8.26). Esse versículo quer ser incentivo à sobriedade para os que pensam saber orar bem demais e consolo para os que ao orar são como os “pobres de espírito” do sermão do monte. O cristão virtuoso não sabe o que deve orar “de acordo com a vontade de Deus” (Rm 8. 27). Isso somente o Espírito consegue. Mas devemos ter a certeza: o Espírito sabe orar de acordo com a vontade de Deus e intercede por nós. Por isso não devemos nos envergonhar quando não sabemos orar, quando nos dá um “branco”, quando em tempos de dificuldade extrema não nos vem palavra por sobre os lábios, quando em tempos “normais” mal conseguimos balbuciar. O Espírito de Deus intercede por nós! Não sabemos o que devemos orar. O que Deus significa para nós, o que Deus preparou para nós, nossa esperada “esperança” não pode ser formulada com palavras humanas, pois ele “pode fazer muito mais do que nós pedimos ou até pensamos” (Ef 3.20). Podemos pedir a ele, mas ele preparou algo muito melhor

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do que a ele estamos pedindo. Somente ele sabe o que realmente necessitamos. É por isso que o Espírito tira de nossas bocas nossas preces e intercede por nós diante do Pai. Assim, nossa intenção ao orar transforma-se em ato intratrinitário. Nosso gemido transforma-se em gemido de Deus diante de Deus. Aquele que “vê o que está dentro do coração” fala por nós. Pentecostes diz que estamos muito bem representados diante de Deus; melhor impossível.

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Imagem

Já falamos dela acima: a moeda, sua cara e sua coroa. Tome-se moeda, que seja mirada. Peça-se aos membros que vasculhem suas bolsas e carteiras em busca de moeda; quando a encontrarem, que a mirem. Perguntemos: quem vê cara já vê coroa? Coloquemos as moedas de lado. Leiamos o texto de Romanos 8 e perguntemos como o Espírito ajuda a nós que só vemos cara a ter certeza da coroa. É Pentecostes.

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Subsídios litúrgicos

Oração de coleta: Senhor, Santo Deus e Pai, nós te rogamos: ilumina nosso coração e nossa mente por meio de teu Santo Espírito. Deixa-nos compreender. Ilumina-nos com teu Espírito para que ele nos transforme, nos ensine e nos console. Ouve-nos por amor a Jesus Cristo que contigo e com o Espírito Santo renova a criação e a nossa vida. Todo-poderoso Deus, tu és princípio e fim de tudo, de eternidade a eternidade. Amém. Oração da igreja: Deus, nós te louvamos por causa de teu amor, que nos revelaste em Jesus Cristo. Tocas nosso coração e nos renovas pelo poder de teu Santo Espírito. Espírito Santo, outrora pairavas sobre as águas e chamaste à vida o que estava oculto nas trevas. No que antes era deserto e vazio puseste vida. Das trevas fizeste luz. Senhor, concede-nos teu Espírito. Inflama nossos frios corações, põe-nos em movimento, dá-nos força, amor e sobriedade. Espírito Santo, tiraste da noite o dia, do caos a ordem, da morte a vida. Chamas tua comunidade nesta vida e concedes-lhe dons que sirvam de testemunho às pessoas, de ensinamento e de amor ao próximo. Senhor, pedimos por teu Espírito. É Espírito da paz que vence os maus pensamentos e planos de morte que habitam no ser humano. É Espírito que se opõe e resiste a tudo o que quer destruir vida. Ele nos ensina tua vontade. Senhor, Espírito Santo, tu curas onde nossas palavras provocam ferida e dor e saras nosso coração dolorido. Tu levas a criação à plenitude e chamas o transitório à nova vida. Vem sobre nós e nos transforma.

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Senhor, Espírito Santo, confiamos em ti, sabemos que vais conosco em nossos caminhos e que contigo caminhamos em direção ao dia em que teu Filho, Jesus Cristo, há de voltar. Amém.

Bibliografia KÄSEMANN, Ernst. An die Römer. Tübingen: Mohr, 1973. SCHLATTER, Adolf. Gottes Gerechtigkeit. Ein Kommentar zum Römerbrief. 3. ed. Stuttgart: Calwer Verlag, 1959.

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PRÉDICA: JOÃO 3.1-17

1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 6.1-8 ROMANOS 8.12-17

(TRINDADE) 31 MAI 2015

Werner Wiese

Tornar-se cristão é “anormal”

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Introdução

O Domingo de Pentecostes encerrou o ciclo das grandes festas que constituem o marco central da igreja cristã: Natal como comemoração do nascimento de Jesus Cristo, que é a encarnação de Deus com o objetivo de redimir a humanidade; Páscoa como comemoração da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, após ter morrido pela humanidade; Pentecostes como comemoração do envio do Espírito Santo como cumprimento de promessas de um novo agir de Deus, já contidas no Antigo Testamento e repetidas no Novo Testamento, especialmente no Evangelho de João. Com Pentecostes começa o que podemos chamar de tempo da igreja, ou seja, do povo de Deus, composto de pessoas que creem em Jesus Cristo dentre todos os povos. Faremos bem em dar toda atenção ao que se segue após Pentecostes, pois a manifestação do Espírito Santo no primeiro Pentecostes depois da morte e ressurreição de Jesus é sinal do novo agir concreto de Deus entre as pessoas. É por meio do Espírito Santo que o Deus santo não só não aniquila o ser humano pecador, mas o ilumina e perdoa o seu pecado, livra-o da escravidão, concede-lhe confiança filial em Deus e envolve-o em sua obra para testemunhá-la no mundo. É aqui que os textos de Isaías 6.1-8 e Romanos 8.12-17 encaixam-se e podem ser vinculados ao texto da pregação de hoje e explorados. Sugerimos ler também Proclamar Libertação 36 para o 1º Domingo após Pentecostes. A partir desse pano de fundo e dessa realidade, somos conclamados a anunciar o que Deus fez, faz e quer fazer também em nossos dias, em nosso meio, justamente por meio do anúncio da palavra de Deus, que é o testemunho dos grandes feitos de Deus. É de suma importância conscientizar-se sempre de que o povo de Deus vive daquilo que somente o Deus trino concede e realiza.

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Exegese

2.1 – Notas preliminares No Evangelho de João, Jesus é caracterizado como exegeta de Deus (Jo 1.18) e como aquele que enxerga além das aparências e perscruta a natureza humana (Jo 1.47-48; 4.17-48; 6.64; 13.11), coisa que normalmente só Deus tem

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condições de fazer (Jr 17.10; Ap 2.23). Apesar disso ou justamente por isso, muitas de suas atitudes e palavras estão cercadas de enigmas que evocam a pergunta “velada”: Quem é esse e quem lhe dá autoridade para dizer e fazer o que ele diz e faz (Jo 2.18-20; 5.16-18; 6.52; 7.46)? Ademais, no Evangelho de João, deparamo-nos com discursos de Jesus inseridos em narrativas. Vários discursos decorrem de sinais (sēmeia) que ele havia realizado. Desses discursos fazem parte debates polêmicos com representantes do judaísmo, da erudição rabínica e do sinédrio judaico. Por outro lado, o evangelista preza encontros e diálogos de Jesus com pessoas individualmente. Nos capítulos 3 e 4, merecem destaque os diálogos entre Jesus e Nicodemos e entre Jesus e uma mulher na Samaria. Os dois interlocutores de Jesus são, por assim dizer, representantes de dois grupos distintos: Nicodemos representa a classe dos escribas; a mulher da Samaria é, por assim dizer, representante da heterodoxia semipagã. Para a surpresa talvez de muitos, essa heterodoxia semipagã tem menos dificuldade para reconhecer Jesus como o Cristo de Deus do que os eruditos. Vale destacar que os versículos do texto da pregação (Jo 3.1-17) não são apontamentos completos do diálogo entre Jesus e Nicodemos, mas registram apenas o cerne da conversa. E a partir do v. 11, palavras de Jesus e ponderações do evangelista parecem mesclar-se. 2.2 – Notas exegético-teológicas V. 1-2 – Nicodemos procura Jesus. Nicodemos pertencia aos fariseus – o grupo religioso mais influente do judaísmo no tempo de Jesus. O evangelista identifica-o como “um dos principais dos judeus” – archōn tōn Ioudaiōn. Archōn é também traduzido por autoridade (veja Jo 7.26, 48; 12.42). Isso o caracteriza como membro do sinédrio – o tribunal judaico. No v. 10, Nicodemos é chamado de “o mestre em Israel”, o que o destaca como alguém publicamente reconhecido. No Evangelho de João, ele aparece mais duas vezes (Jo 7.50-51; 19.39). O fato de Nicodemos procurar Jesus de noite não se deve ao medo de ser visto por alguém. A maioria dos rabinos ou eruditos judaicos não era rica. Para se manter precisavam exercer outras atividades durante o dia. Por essa razão debatiam assuntos teológicos complexos à noite. Ao reportar-se a Jesus como “mestre” (Rabbi), ele o reconhece como autoridade revestida de poder, procedente da presença de Deus em sua vida. Isso torna-se visível nos sinais (sēmeia) que Jesus realiza. As palavras “Sabemos... porque ninguém pode... se Deus não estiver com ele” (v. 2) lembram da presença de Deus com Moisés (Êx 3.12) e com Jeremias (Jr 1.19). Nicodemos fala não só por si; no mínimo, um círculo de pessoas influentes em Jerusalém deve ter tido impressões positivas de Jesus e não o rejeitado de antemão. V. 3-5 – Estes versículos constituem o cerne do diálogo propriamente dito. À primeira vista, entre o v. 2 e o v. 3 não existe nenhuma conexão direta. De maneira abrupta, o v. 3 coloca o reino de Deus no centro da conversa. Tratava-se de um assunto que palpitava nos mais diversos grupos religiosos judaicos da época. A expressão reino de Deus ou reino dos céus é frequente nos evangelhos

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sinóticos: ocorre em torno de 60 vezes. No Evangelho de João, ela ocorre apenas aqui, mas a causa como tal está muito presente, porém sob outra terminologia, por exemplo: vida eterna, a vida etc. Jesus introduz a temática e a reforça com a fórmula “Em verdade, em verdade te digo” – amēn amēn legō soi (v. 3, 5). Essa fórmula deixa claro o caráter absoluto e inegociável daquilo que segue. Tudo se resume na questão do “nascer de novo” – gennēthēnai anōthen (v. 3, 7), que no v. 5 é explicado como “nascer da água e do Espírito”. Muitos intérpretes veem aqui uma alusão ao Batismo, mas isso não é explícito nem certo, pois os v. 6 até 8, que dão continuidade ao assunto central, omitem o termo água. O que Jesus diz excede qualquer possibilidade humana e choca toda a lógica humana. Daí a reação de Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho?...” (v. 4). Ele pensa a partir do nascimento biológico, ao passo que Jesus se refere a um nascimento de outra natureza, i.e, a partir do Espírito Santo. A reação de Nicodemos ultrapassa o espanto, é “contestação e desafio”. Quando no Novo Testamento se fala dessa realidade, Deus e/ou o Espírito Santo é o sujeito ativo da renovação do ser humano (veja Jo 1.13; 3.3, 5, 6, 8; Tt 3.5; Tg 1.18; 1Pe 1.3, 23). V. 6-8 – Nestes versículos vem à tona o porquê da necessidade e a natureza do novo nascimento para poder entrar no reino de Deus: existem duas realidades opostas entre si – a natureza do ser humano, caracterizada como “carne” (sarx), e a natureza do reino de Deus, respectivamente a pessoa regenerada por Deus, caracterizada como procedente do “espírito” (pneuma). Essas duas realidades são incompatíveis entre si e por conta disso militam uma contra a outra (veja Gl 5.13ss, especialmente v. 17; 6.8; Rm 8.4-9, 12-17). O novo nascimento não só é racionalmente inexplicável, mas também não é domesticável ou manobrável, porém é uma realidade “vivenciável”. É isso que a analogia do vento (v. 8) destaca (Para vento e espírito emprega-se na língua grega a mesma palavra – pneuma). V. 9-10 – Parece que Nicodemos percebeu que Jesus não se referia ao nascimento biológico, mas o assunto ainda lhe é uma incógnita. Evidencia-se que ele tem perguntas sinceras e pessoais. Por outro lado, como representante erudito do povo de Deus, Nicodemos deveria entender o que Jesus está dizendo, pois tem amparo nas Sagradas Escrituras, que o próprio Nicodemos conhece (veja Is 44.3; Ez 11.19-20; 36.26-27; Jl 2.28). Em tese: nas questões fundamentais da realidade de Deus, a razão humana fracassa, inclusive a razão teológica racional (1Co 2.14-16). V. 11-17 – O cenário muda. Nicodemos não mais é mencionado. No v. 11, ele ainda está subentendido, mas a partir do v. 12 desaparece do cenário. O texto amplia o horizonte dos destinatários e o objetivo da mensagem: Deus enviou seu Filho ao mundo para salvá-lo. Palavras de Jesus, ponderações do evangelista e o testemunho coletivo de fé parecem mesclar-se. Existe uma troca ou mescla de sujeitos e destinatários. Inicia-se com o sujeito no singular, que se dirige a um destinatário no singular (v. 11a) – aqui Nicodemos pode estar subentendido como destinatário. E sem “aviso prévio”, continua-se com o sujeito no plural (v. 11b), que se dirige a um destinatário também no plural (v. 11c). Já no v. 12 volta o sujeito no singular, cujo destinatário está no plural. Isso não são necessariamente contradições ou falta de coesão no texto. No sujeito falante nós (v. 11bc) podem estar

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incluídos Jesus, o evangelista e ainda outros representantes do testemunho apostólico (veja 1Jo 1. 1-4). O destinatário plural “vós” (v. 11c-12) deve subentender o grupo representado por Nicodemos (v. 2) e possivelmente outros destinatários. Do v. 13 em diante, o texto claramente encaminha-se para o clímax (v. 16). O que num primeiro momento chama a atenção é que, enquanto o v. 13 parece referir-se à ascensão de Jesus como um fato já consumado, o v. 14 volta atrás e fala da necessidade (dei) de o Filho do homem (Jesus) ser levantado, o que aqui deve ser uma referência à morte de Jesus na cruz como sinal de salvação, a exemplo do que aconteceu na trajetória do povo de Deus pelo deserto no Antigo Testamento (veja Nm 21.9). O que sobressai nesses versículos são breves locuções ou “fragmentos” linguísticos inseridos num plano teológico inconfundível em torno do “Filho do homem” ou simplesmente do “Filho” – uma referência ao próprio Jesus. Verdade é que o próprio Jesus, de quem Nicodemos disse que fazia sinais porque Deus estava com ele, é o sinal (sēmeion) de salvação da parte de Deus, em quem se decide o destino de cada pessoa e da humanidade como um todo. Isso é destacado nos v. 15ss. O v. 16 define e resume tanto a mola propulsora como o objetivo do agir de Deus. Aqui se chega ao centro e objetivo do evangelho: a causa primária e última de o Verbo (logos) ter se tornado gente (veja Jo 1.14). Na pessoa de Jesus de Nazaré, o próprio Deus dirige-se a Nicodemos e à classe que ele representa – a sinagoga – e ao mundo “incrédulo” para nele despertar a fé no Filho de Deus, a fim de que ninguém se perca (veja Jo 1.10-13). É no encontro com Jesus que surge e vem à tona a fé e/ou a incredulidade. Isso é um traço que perpassa o Quarto Evangelho.

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Meditação e imagens para a prédica

O 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) é como um divisor de águas entre dois períodos distintos no calendário eclesiástico: findou o período das grandes festas da cristandade – Natal, Páscoa e Pentecostes – e inicia o “tempo comum” da igreja cristã. Enquanto o primeiro período é marcado por momentos extraordinários que destacam os grandes feitos do Deus trino e deixa marcas duradouras que sustentam a comunidade cristã, o segundo período é o mais longo no calendário litúrgico e é feito pelo ordinário do dia a dia da comunidade cristã. É provável que em vários lugares menos pessoas venham à casa de Deus. E quem tem a tarefa de pregar semanalmente ao longo desse tempo nos mesmos lugares e em boa medida para as mesmas pessoas depara-se com o desafio de como e com que motivação preparar a prédica e proclamar a palavra de Deus. 3.1 – Lembretes para imagens 1) Pregamos àquelas pessoas que estão presentes – sejam elas muitas ou poucas; por isso não nos deixamos impressionar por quem não está presente nem nos queixamos delas. Contudo quem está presente veio por algum motivo, talvez tenha no seu íntimo expectativas ou perguntas existenciais, a exemplo de Nicodemos. Foquemo-nos nisso.

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2) Na vida existem momentos especiais (extraordinários), que a “coroam” e podem deixar marcas duradouras. Isso pode ser a conclusão de um curso, o término dos estudos na faculdade, o primeiro emprego, o casamento, o nascimento de filhos/filhas etc. Porém a vida não consiste só desses momentos. Ela é feita muito mais pelos momentos ordinários ao longo dos anos em que se vive. Mas o extraordinário precisa sedimentar-se no ordinário para que a vida não se torne tediosa, com efeito letal, talvez sem que seja percebido. Aqui novamente dá para fazer o link entre a conversa de Jesus com Nicodemos e a pregação. A conversa inicia de maneira solene: “Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus...” (v. 2). Jesus não se sente lisonjeado pelas palavras humanas nem está preocupado em fazer média com “o mestre em Israel” (v. 10). Ele “quebra o protocolo” e toca no cerne da existência humana: ter acesso a Deus. Em jogo estão vida ou morte: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo... da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus...” (v. 3, 5). Essas palavras ultrapassam todo o imaginário e toda possibilidade humana. Jesus não propõe um workshop de espiritualidade – uma oficina de treinamento religioso de autoajuda para uma melhoria do ser humano, uma reforma aqui e outra ali, um remendo agora, outro depois. Isso Nicodemos teria entendido e estaria prontamente disposto a fazer. Talvez teria dito: Gostei, posso fazer mais alguma coisa? Existe ainda outra técnica para superar os limites e chegar lá? 3.2 – Lembretes para imagens O mundo vive uma revolução científico-tecnológica que supera um limite atrás do outro. Por exemplo, para quem sabe manejar bem computadores, notebooks, celulares, smartphones, tablets etc., em questão de alguns segundos um universo inimaginável lhe é acessível e está à sua disposição. O ser humano pode render-se à impressão de que o mundo está a seus pés e em suas mãos. Tudo é programável e realizável. Isso é extraordinário. Fazendo o link com o cerne da pregação: o avanço científico-tecnológico não pode disponibilizar para o ser humano o sentido último da vida, que nosso texto define como “entrar no reino de Deus” ou “ter vida eterna”. O que Jesus diz é simplesmente impossível para o ser humano. Só lhe pode ser concedido mediante uma intervenção de Deus. Essa não é programável nem manipulável ou desenvolvível. Por ela pode-se apenas rogar, tanto no preparo da prédica como no ato da proclamação. “Nascer de novo...” significa vir ao mundo novamente e bem diferente da primeira vez. Isso realmente é o extraordinário, que vai sedimentar a vida – o ordinário: “...assim é todo que nasce do Espírito” (v. 8). Essa realidade não pode nem precisa ser explicada, só pode ser vivenciada e confessada. Em outras palavras: “Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé” (M. Lutero). O impossível para os seres humanos torna-se possível na pessoa do Filho do homem – o Filho de Deus que é Jesus Cristo, com quem

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Nicodemos está dialogando. A prédica de João 3.1-17 no 1º Domingo após Pentecostes coloca o ser humano diante desse fato e dessa realidade. Pregadores/pregadoras hão de tomar cuidado para não quebrar a ponta do texto da prédica. Aqui nada é lógico nem explicável, pois só pode ser proclamado como convite de Deus que se estende a nós e nos chama a crer pelo Espírito Santo. As palavras de Lutero não devem ser entendidas como uma doutrina correta ou abstrata que funciona automaticamente, mas que no fundo não faz diferença nenhuma. Crer no Filho de Deus, sob as promessas e o objetivo contidos nos v. 14-17, não é um simples concordar com certas verdades – um conhecer cognitivo de fatos objetivos. É um evento que torna o ser humano refém do amor de Deus, que não o larga mais, mas transforma sua maneira de pensar, agir e viver: Em suma: os objetivos e o alvo da vida são transformados e renovados. Isso se decide no encontro com a pessoa de Jesus Cristo. Por isso tornar-se e ser de fato cristão (seguidor/seguidora de Jesus Cristo) é “anormal” dentro da “normalidade” da sociedade da qual fazemos parte. Concluindo, à vista daquilo que a palavra para hoje diz, é possível que pessoas saiam do culto com um ponto de interrogação no fundo do seu ser: “Como pode suceder isso?” O objetivo do texto e logo da pregação é confrontar ouvintes com dois fatos: a impossibilidade humana natural de entrar no reino de Deus e o amor indescritível do próprio Deus pelo ser humano a ponto de ter enviado seu próprio Filho com o objetivo de despertar o ser humano para a fé em Jesus Cristo e assim resgatá-lo da sua perdição. A vontade de Deus é salvar e não julgar para condenação. Por isso ele conclama o ser humano a crer em Jesus Cristo – a confiar filialmente nele. Os feitos extraordinários de Deus querem encontrar acento e marcar o dia a dia da comunidade cristã.

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Subsídios litúrgicos

Aqui recomendamos assessorar-se do material específico para a ordem do culto, disponibilizado pela IECLB.

Bibliografia DREHMER, Erni. 1º Domingo após Pentecostes (Trindade). Romanos 8.12-17. In: Proclamar Libertação 36. São Leopoldo: Editora Sinodal & Faculdades EST, 2011. p. 203-208. SCHNELLE, Udo. Das Evangelium nach Johannes. 3. edição reelaborada. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. Leipzig: Evangelische Verlagsanstalt, 2004. WIESE, Werner. Ética Fundamental. Critérios para crer e agir. São Bento do Sul: União Cristã & Faculdade Luterana de Teologia. 2008. p. 167-178.

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PRÉDICA: GÊNESIS 3.8-15

2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 07 JUN 2015

MARCOS 3.20-35 2 CORÍNTIOS 4.13-5.1

Roger Marcel Wanke

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Introdução

O ano eclesiástico é a agenda de Deus para a sua igreja. A sua primeira metade constitui o indicativo de Deus, ou seja, a história da salvação de Deus em Jesus Cristo. Já a outra metade refere-se ao imperativo dado à igreja por seu Senhor. Nesses domingos, a igreja vive a partir do agir do Espírito Santo de Deus, que a chama e santifica. Para a pregação deste Segundo Domingo após Pentecostes é indicada a perícope de Gênesis 3.8-15, que evoca um dos temas fundamentais da fé cristã: o pecado do ser humano. No tempo comum, também chamado de domingos após pentecostes, a igreja é chamada também a se confrontar com seu pecado. Conforme o evangelista João, tanto o convencimento de que somos pecadores como da salvação e do perdão por meio de Jesus Cristo é obra do Espírito Santo (cf. Jo 16.8-11). Conforme o Lecionário Comum Revisado, duas leituras bíblicas estão previstas. O texto do evangelista Marcos 3.20-35 tem como centro a controvérsia de Jesus com os escribas, os quais afirmavam que ele expulsava demônios em nome do maioral dos demônios, conhecido por Belzebu. Além desse texto ser a narrativa que aborda o tão discutido pecado contra o Espírito Santo, muitos exegetas têm destacado que a atuação de Jesus vencendo satanás seria, por assim dizer, a relação do texto com Gn 3.15, o assim chamado protoevangelho. O texto apostólico de 2 Coríntios 4.13-5.1, por sua vez, relaciona-se com as consequências que o pecado trouxe. “Tendo, porém, o mesmo espírito da fé” (v. 13) é possível viver diante da “leve e momentânea tribulação” (v. 17) com esperança. O sofrimento e a morte como consequência do pecado encontram em Jesus Cristo o seu fim. A maldição do pecado é vencida pela morte e ressurreição de Jesus Cristo.

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Exegese

A correta interpretação da perícope está condicionada a seu contexto literário. O texto, segundo a pesquisa veterotestamentária, faz parte da tradição javista, que tem como ênfase teológica central a culpa do ser humano e a graça salvadora de Deus. O capítulo 3 pode ser dividido em quatro partes principais: a) O diálogo entre a serpente e entre a mulher e o homem (v. 1-7): o texto inicia com a serpente, que entra em cena sem ser anunciada e sai de cena sem avisar. Ela promove a primeira discussão teológica, todavia sem Deus e contra a palavra de Deus. O ser como Deus torna-se o grande alvo do ser humano. Sem se dar conta, pois é enganado pela serpente, o ser humano deixa de ouvir e obedecer à pala-

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vra de Deus. O ser humano transgride o mandamento divino, ultrapassa o limite dado graciosamente por Deus. Seduzido a ser como Deus, o ser humano perde, enquanto criatura, a sua liberdade de ser submisso ao Criador e de viver diante de Deus e do mundo com responsabilidade. b) O diálogo entre Deus e o ser humano (v. 8-13): esta parte será aprofundada a seguir. Cabe aqui, no entanto, apontar para a iniciativa de Deus de vir ao encontro do ser humano. O pecado afasta o ser humano de Deus, mas não Deus do ser humano. c) As consequências do pecado (v. 14-20): o pecado provoca tragédias. Ele desencadeia todo o sofrimento humano. Aquilo que era bom e agradável, criado por Deus para o bem do ser humano, agora passa a sofrer penosas transformações. Tudo passa a ser visto de forma diferente, ou seja, sem Deus e sem a sua bênção. Deus disse que era bom, e o ser humano não se envergonhava disso. Mas agora, com olhos abertos para a realidade do mal, tudo é vergonhoso. O pecado quebra o relacionamento com Deus, consigo e com o seu semelhante (imagem e semelhança de Deus) e com a criação. Apesar das consequências do pecado, Deus mantém as dádivas da criação como bênção ao ser humano. A vida do ser humano, a sexualidade e a maternidade, o trabalho e o sustento permanecem bênção ao ser humano pecador. Não é à toa que Dietrich Bonhoeffer, em sua interpretação desses versos, intitula essa parte de maldição e promessa (Fluch und Verheissung). d) A graça de Deus em meio a seu juízo (v. 21-24): três aspectos podem ser vistos aqui. Em primeiro lugar, Deus veste o ser humano com peles e esconde a sua nudez. O ser humano sozinho não consegue esconder a sua nudez. Mesmo tentando com as folhas de figueira e as cintas, a nudez do ser humano somente pode ser coberta por Deus. É Deus quem os veste (v. 21). Deus faz aqui um sacrifício para cobrir a nudez do ser humano, causada pelo pecado. Não é o homem, mas sim Deus que sacrifica em primeiro lugar. Em segundo lugar, Deus expulsa o ser humano do jardim do Éden. O ser humano é enganado. O ser humano tornou-se como Deus – conhecedor ilimitado, conhecedor do bem e do mal, mas vive agora no âmbito do mal sem Deus. Por fim, Deus guarda o caminho da árvore da vida. Para que o ser humano não permanecesse morto eternamente por causa do pecado, Deus fecha, guarda o caminho de acesso à árvore da vida, a qual traria ao ser humano a imortalidade. Querubins (guardiões de lugares sagrados no Antigo Oriente) são colocados a oriente do jardim do Éden, a fim de impedir o acesso do ser humano à árvore da vida. Como demonstrado acima, a perícope 3.8-15 está totalmente inserida em seu contexto e marca, por assim dizer, o centro teológico e literário do capítulo 3. Vejamos agora os detalhes da perícope a partir de sua estrutura interna:

A busca do Senhor Deus pelo ser humano caído e escondido (v. 8-11) Após terem desobedecido ao mandamento do Senhor (cf. Gn 2.16-17), Adão e sua esposa percebem estar nus e sentem vergonha disso. Ao ouvirem a voz de Deus, eles têm medo e escondem-se da presença de Deus (v. 8). O Javista cita quatro vezes o fato do ser humano estar nu. Em Gn 2.25, a nudez aparece como elemento da criação de Deus e condição do ser humano enquanto sua criatura, da qual o ser humano não tinha motivos para se envergonhar. Já em Gn 3.7,10 e 11,

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a nudez aparece como realidade vergonhosa, por um lado, e como consciência de sua culpa diante de Deus, por outro. Apesar do pecado, o ser humano continua sendo capaz de ouvir a voz de Deus. O pecado faz o ser humano sentir medo por fora e vergonha por dentro. O resultado disso é o afastamento de Deus. A partir do v. 9 inicia um diálogo entre o Senhor Deus e Adão. Esse é um dos diálogos mais interessantes da Bíblia. Deus toma a iniciativa. Interessante é notar que Deus não pergunta, em primeiro lugar, o que Adão fez de errado, mas sim onde ele está. Com isso fica clara a consequência maior da desobediência e do pecado na vida do ser humano: o afastamento de Deus (cf. Is 59.2; Rm 3.23). Deus sabe onde o ser humano está, mas lhe dá a chance de reconhecer onde e como ele está: envergonhado de si mesmo e com medo de Deus. Por isso não é possível falar de um homo absconditus. O Deus revelado sempre encontra o ser humano que tenta se esconder dele. Deus interroga o ser humano, vem ao julgamento. Adão responde no v. 10 que, ao ouvir a voz de Deus, teve medo e se escondeu por estar nu. Estar nu pode significar duas coisas, que se complementam. Por um lado, Adão tem consciência de culpa. Por outro lado, ele sente vergonha. Agora no v. 11, Deus faz outra pergunta a Adão, já que esse não foi direto ao ponto. Deus sabe o que aconteceu. Diante dele nada permanece escondido. A pergunta de Deus é certeira, pois questiona exatamente o que homem e mulher fizeram. Para o ser humano estar nu e ter vergonha disso, havia apenas uma única resposta: ele comeu o fruto da árvore, o qual não deveria ser comido. O ser humano torna-se como Deus, mas ele se esconde de Deus, pois sabe a diferença entre ser culpado e não ser culpado através de sua própria culpa (reconhecimento de culpa).

A transferência e a terceirização da culpa (v. 12-13) Quando Adão não tem mais como se autojustificar, ele passa a transferir a responsabilidade à sua esposa e a culpar Deus (v. 12): a mulher que me deste. Adão dedura sua mulher. A correspondência mútua de Gn 2.18,20 cai por terra. Na sequência, Deus dirige-se à mulher e a questiona (v.13): Que é isso que fizeste?. Na verdade, a mulher tem uma boa percepção. Ela afirma com razão que a serpente a enganou. O pecado desde o seu início é sempre algo que tem a ver com o outro. O homem é questionado, mas a culpa, segundo ele, é do próprio Deus, que lhe deu a mulher (a mulher que tu me deste). A mulher é questionada, mas a culpa é da serpente, em sua opinião. A serpente, coitada, não tem quem acusar. O pecado leva o ser humano à solidão, ao isolamento: “É bom que o homem esteja só”. O ser humano esconde a verdade, empurra a responsabilidade ao outro. Culpar os outros torna-nos sozinhos e isolados. Isso é a quebra da comunhão entre o ser humano, fruto da quebra da comunhão com Deus. Gênesis não explica como o mal veio ao mundo, mas fala e esclarece de quem é a responsabilidade: o ser humano é culpado de sua própria situação. Aqui vale lembrar as palavras profundas de Paul Gerhardt em seu hino: O que tens suportado foi minha própria dor; eu mesmo sou culpado de tua cruz, Senhor. Ó vê-me, aflito e pobre: castigo mereci; com tua graça encobre o mal que cometi! (HPD I 53.3)

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As consequências do pecado (v. 14-15) A partir do v. 14, o texto narra uma série de consequências do pecado, que vai até o v. 20. Essas consequências atingem três dimensões: a) Deus amaldiçoa a serpente (v. 14-15); b) Deus aumenta à mulher as dores do parto e prenuncia o domínio do homem sobre a mulher (v. 16, 20); c) Deus amaldiçoa a terra, tornando penoso o trabalho do ser humano (v. 17-19). Importante a ser dito nesse contexto é que Deus não amaldiçoa o ser humano em si. A maldição do ser humano por causa do pecado aparece na narrativa javista apenas em Gn 4.11 quando o ser humano deixa de ser tutor de seu irmão e torna-se seu assassino. À perícope em estudo com vistas à pregação, porém, interessa apenas a primeira dimensão: a maldição à serpente. A maioria dos exegetas aponta para o caráter etiológico dessa maldição. Por um lado, o texto fala da serpente enquanto animal criado por Deus (v. 1). Mas, ao mesmo tempo, descreve o relacionamento enigmático do ser humano com a realidade do mal. O v.15 continua a maldição de Deus à serpente. Entre ela e o ser humano sempre haverá inimizade. Onde o ser humano se encontra com a serpente, isso é um encontro de vida ou morte. Ao longo da história da igreja, esse versículo tem sido interpretado como Protoevangelho, uma alusão à vitória de Jesus Cristo. Mesmo que, exegeticamente falando, essa interpretação não confere, é indiscutível que, no Novo Testamento, Jesus Cristo, o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem (descendente da mulher), é apresentado como o vitorioso sobre toda a morte, todo o pecado e sobre o diabo e todas as suas obras (cf. Jo 12.31; 14.30; 16.11; 2Co 4.4; Ef 2.1-2; Hb 2.14-15; 1Jo 5.19; Ap 12.9; 20.2, 10). Resumindo, a partir da queda, o ser humano obteve uma conquista que a serpente não havia anunciado: homem e mulher tornam-se independentes de Deus. Agora eles podem optar pelo bem e pelo mal. Todavia suas opções, sem Deus, de toda forma sempre serão más. Dessa forma veio também a morte, porque o relacionamento do ser humano com todas as instâncias criadas e dadas por Deus foi quebrado. O pecado destruiu o relacionamento entre Deus e o ser humano, entre o ser humano e si mesmo, entre o ser humano e seu semelhante e entre o ser humano e a criação. O texto deixa clara a tendência que o ser humano tem para se autojustificar diante de Deus. Ele não é humilde o suficiente para reconhecer seu pecado. Apesar disso, Deus não deixa o ser humano sozinho com seu pecado, sua culpa e suas desculpas.

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Meditação

Gênesis 3.8-15 é um dos textos mais interpretados ao longo da história da igreja. Atualizá-lo para os dias de hoje seria quase um pleonasmo, pois mais atual do que é a própria narrativa bíblica impossível. Mesmo assim, compartilham-se aqui brevemente alguns impulsos a partir de três teólogos importantes que se ocuparam com a interpretação e atualização dessa perícope. Em sua preleção sobre Gênesis (1535-45), Martim Lutero fala que nada pode ser mais horrível do que fugir de Deus e esconder-se dele. Isso seria tentar o impossível da forma mais estúpida e estulta possível. Para Lutero, Deus chama

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o ser humano ao julgamento. Sua pergunta a Adão são as palavras da Lei dirigidas contra a consciência humana. “Ele quer mostrar a Adão que aquele que se esconde não está escondido diante de Deus e que aquele que foge de Deus não escapou de Deus” (p. 194). Em relação à resposta de Adão, Lutero afirma que devemos aprender que “os pecadores sempre se acusam com suas desculpas e se traem com sua defesa, principalmente diante de Deus” (p. 195). Além disso, em vez de reconhecer o seu pecado e a sua culpa, o ser humano, segundo Lutero, acusa Deus. Em relação ao v. 15, interpretado como Protoevangelho, Lutero, num primeiro momento, critica a interpretação mariológica, que já havia desde o período da patrística (p. 208-209). Depois exorta a “preservar diligentemente o significado real da Sagrada Escritura”, que para Lutero se cristalizou como cristológica e cristocêntrica. Partindo de Isaías 7.14, Lutero aponta para a obra salvífica de Jesus Cristo por meio de sua morte e ressurreição. Ao concluir a sua interpretação, Lutero deixa claro que Gn 3.15 é uma das passagens bíblicas de maior esperança para o ser humano pecador, que foge e se esconde de Deus, que transfere a sua culpa para a mulher e insulta Deus, atribuindo-lhe a autoria do mal: “Portanto, agora encontramos Adão e Eva restaurados, certamente não para a vida que tinham perdido, mas para a esperança desta vida. Através dessa esperança, eles escaparam não das primícias da morte, mas dos dízimos da morte, ou seja, embora sua carne tenha de morrer temporalmente, eles esperam a ressurreição da carne e a vida eterna depois da morte temporal, exatamente como também nós esperamos, por causa do Filho de Deus que foi prometido, que haveria de esmagar a cabeça do diabo” (p. 214). Em seu livro Schöpfung und Fall (Criação e Queda), infelizmente ainda não traduzido para a língua portuguesa, Dietrich Bonhoeffer enfatiza o fato do ser humano querer ser sicut deus (como Deus). Para ele, a partir da desobediência, o ser humano não consegue mais estar diante de Deus, o seu Criador. Ele odeia o seu limite e, por isso, ultrapassa-o e o nega, querendo ser como Deus. Como consequência disso, o ser humano foge e se esconde de Deus. Para Bonhoeffer, esse fugir e esconder-se de Deus deve ser chamado de consciência (Gewissen). Dessa forma, ele segue aqui a interpretação de Lutero. Contudo essa consciência leva o ser humano para longe de Deus. Para Bonhoeffer, ela não é a voz de Deus dentro do ser humano pecador, mas sim aquilo que o desvia dessa voz, mas que ao mesmo tempo aponta para o saber e querer essa voz. Com a pergunta de Deus o ser humano é chamado de sua consciência. Ele deve colocar-se diante de seu Criador. Ele tem a permissão de não permanecer sozinho em seu pecado. O ser humano fujão precisa reconhecer que ele não consegue fugir de Deus. Claus Westermann, em seu comentário sobre o livro de Gênesis, interpreta a perícope a partir da estrutura de um processo judicial, no qual o infrator é confrontado e tem seu crime revelado, passa a ser interrogado (inquérito), tem a oportunidade de apresentar sua defesa e de receber a sua sentença. Em primeiro lugar, Westermann situa a perícope no contexto das narrativas de culpa e punição, desenvolvidas pelo Javista, e subdivide-a dentro da estrutura do processo judicial. Para Westermann, o fato de Deus acompanhar o ser humano fundamenta o fato de todo pecador ou criminoso poder ter a liberdade de se defender. No entanto, Wes-

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termann enxerga bem o fato de que o ser humano despreza essa liberdade dada por Deus em sua graça. “O ser humano é de tal natureza que, após o malfeito, procura escapar às consequências, escondendo-se” (p. 42). Em vez de admitir o seu pecado, o ser humano, em sua defesa, chega a ponto de voltar-se contra Deus e de acusá-lo. Pelo fato de a serpente não ser interrogada, Westermann conclui a partir disso, com razão, que o ser humano é totalmente responsabilizado por seu pecado. Para ele, a interpretação de um “protoevangelho não é possível já porque a ‘semente’ da mulher e da serpente só pode estar se referindo à descendência, mas não a um indivíduo (Maria ou Jesus)” (p. 43). Concluindo, parece que hoje falar de pecado é politicamente incorreto. De um lado, fala-se mais de escolhas erradas que pessoas fazem. De outro, fala-se de pecado apenas como uma grandeza moral. Infelizmente, dentro das próprias igrejas, o ser humano é poucas vezes confrontado com a realidade de sua total pecaminosidade e afastamento de Deus. Sendo assim, a dimensão da graça de Deus perde todo o sentido. Já Lutero falara a respeito: “Pois quanto mais se ameniza o pecado, tanto mais se desvaloriza a graça” (p. 166). Como falar da graça de Deus sem deixar claro o seu juízo por causa do pecado? Juízo e graça foram a ênfase do Javista. Juízo e graça foram a ênfase dos profetas de Israel. Juízo e graça foram o ministério de Jesus Cristo. Juízo e graça, como lei e evangelho, são a ênfase da pregação evangélica, da confessionalidade e espiritualidade luteranas. Há que se recuperar a centralidade do pecado e do perdão do pecado em nossas comunidades. Somente diante de um Deus que fez Jesus Cristo pecado por nós (2Co 5.21) e em Jesus Cristo, o qual se fez ele próprio maldição em nosso lugar (Gl 3.13), podemos responder a pergunta Adão, onde tu estás?, além de experimentar o perdão e a reconciliação. Por isso, “se hoje ouvirdes a voz de Deus, não endureçais o vosso coração” (Hb 3.7-8). O ser humano, por causa de seu pecado, não deveria esconder-se de Deus, mas se esconder em Deus, refugiar-se nele, pois o Senhor é nosso refúgio e fortaleza (Sl 46).

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Imagens para a prédica

Para a introdução da pregação sugere-se envolver o grupo dos jovens da comunidade. A perícope de Gn 3.8-14 poderia ser dramatizada pelo grupo, tendo como ênfase a cena de um julgamento, em que Deus entra em cena e pergunta: Adão, onde estás? A dramatização poderia destacar ainda as desculpas que o ser humano dá diante de Deus e o não reconhecimento de sua culpa, transferindo-a a outros e, por fim, ao próprio Deus. Não haveria necessidade de elaborar outro texto, e sim seguir o próprio texto bíblico. Outra sugestão seria mostrar diversas imagens com cenas de sofrimento humano, desigualdades sociais, injustiças, individualismo, guerras, problemas ecológicos, solidão, entre outras. A partir dessas imagens, perguntar à comunidade qual seria, conforme a Bíblia, a origem de tanto sofrimento. A resposta é clara: o afastamento de Deus. Outra sugestão leva em conta aspectos centrais da perícope, perguntando no início da pregação à comunidade: a) O que é pecado? Com isso deve-se

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caracterizar a atual problemática em torno do tema pecado, que quase não tem aparecido mais em pregações; b) Quais são as consequências do pecado? Assim, procura-se evidenciar os aspectos do dia a dia. Nossa dificuldade de ouvir a palavra de Deus (a voz de Deus), nossa maestria em esconder o pecado diante de Deus e das pessoas, nossa grande capacidade de culpar os outros: a culpa é do governo, a culpa é dos meus pais, a culpa é de Deus; c) De que forma hoje o ser humano tem se colocado no lugar de Deus?

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Subsídios litúrgicos Para este culto são sugeridos os seguintes elementos litúrgicos:

Liturgia de entrada: No início do culto pode ser cantado, convidando a comunidade a louvar e adorar ao Trino Deus, o hino nº 87 (Louvado seja Deus), do HPD I. Esse hino destaca a realidade trinitária do culto e leva em consideração o ciclo de Pentecostes. Liturgia da Palavra: Antes da pregação, sugere-se cantar com a comunidade o hino nº 147 (Das profundezas clamo a ti), do HPD I, de Lutero, baseado no Salmo 130. Após a pregação, sugere-se cantar o hino nº 148 (Cristo acolhe o pecador), HPD I. Os dois hinos apontam para a realidade do pecado e destacam a certeza do perdão dos pecados através da obra de Jesus Cristo. Assim como fica evidente na perícope de Gn 3.8-15, o ser humano não é capaz de resolver por meio de seus próprios esforços o problema do pecado. Liturgia da Ceia: A Santa Ceia é muito mais do que Eucaristia. Ela é, assim como Lutero escreve em seu Catecismo Menor, “o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo”, que nos dão a “remissão dos pecados”. O tema do culto foi o pecado do ser humano. A partir disso sugere-se fazer a leitura do breve texto de Lutero em seu Catecismo Menor como liturgia da Ceia. Além de exercitar no culto a confessionalidade e a educação cristã, enfatiza-se e experimenta-se comunitariamente a certeza do evangelho de que Deus na Ceia vem ao encontro do ser humano pecador e que esse, em Jesus Cristo, pode experimentar a remissão do pecado e ter a certeza da vida eterna. É curioso perceber que a expressão “remissão dos pecados” é citada sete vezes por Lutero em seu Catecismo. Essa é, na verdade, a centralidade do sacramento do altar. Aqui se sugere cantar os hinos de Ceia que estão no HPD I (141-146). Neles, a dimensão da remissão do pecado ainda está bem preservada e pressuposta, diferente, infelizmente, dos hinos mais novos. Liturgia de despedida: No final do culto, sugere-se cantar o hino nº 106 (Clemência dá-nos, ó Senhor), de Lutero, do HPD I. O hino destaca o envio da comunidade ao mundo a partir da realidade do perdão do pecado. Só quem experimentou o perdão do

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pecado e a reconciliação com Deus por meio de Jesus Cristo pode fazer a diferença neste mundo. Sugestão homilética: Assim como pôde ser visto, a ênfase do texto está no agir de Deus em trazer a salvação para o ser humano pecador. Deus vem ao encontro em juízo e graça. A pergunta, Adão, onde estás?, manifesta a graça de um Deus que vem para o julgamento. Em Jesus Cristo, essa pergunta encontra resposta decisiva para a salvação. Adão, onde estás? Adão está em Jesus Cristo, pendurado na cruz do Calvário. Nela, o ser humano encontra o juízo de seu pecado e a reconciliação com Deus. Para a pregação, sugere-se, portanto, a partir do texto de Gn 3.8-15, o seguinte esboço homilético: O que o pecado faz conosco? O objetivo aqui é abordar o aspecto da vergonha, do medo e do esconder-se de Deus. As consequências desse afastamento podem ser trabalhadas na pregação: o pecado afasta-nos de Deus, de nós mesmos, do ser humano e da criação. O que nós fazemos com o pecado? Aqui pode ser dada ênfase à resposta de Adão a Deus. Insistimos em dar desculpas a Deus. Não confessamos o nosso pecado, mas o transferimos a outros. Acusamos o próximo e a Deus para nos esquivar de nossa própria responsabilidade. O que Jesus Cristo fez com o pecado? Jesus carregou na cruz o nosso pecado. Deus o fez pecado por nós. Jesus se fez maldição em nosso lugar. Em Jesus Cristo, somos libertados de todo poder e opressão do pecado. Em Jesus Cristo, somos livres para viver com Deus, conosco mesmos, com o próximo e neste mundo a partir da reconciliação e da justiça de Deus.

Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Schöpfung und Fall. 3. ed. München: Chr. Kaiser Verlag, 2007. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas v.12. Interpretação do Antigo Testamento: Textos selecionados na Preleção sobre Gênesis. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2014. p. 166-214. WESTERMANN, Claus. O Livro de Gênesis: Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2013.

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PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.6-10,14-17

3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 14 JUN 2015

EZEQUIEL 17.22-24 MARCOS 4.26-34

Valdemar Gaede

A nova criação em Cristo

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Introdução

A leitura dos textos bíblicos propostos para o terceiro domingo após Pentecostes logo desperta a nossa atenção para um detalhe que é comum aos três textos. Os três falam da vida que renasce ou, por que não dizer, do novo nascimento, do nascer de novo. Lembro-me aqui do diálogo entre Jesus e Nicodemos, que teve como ponto de partida a afirmação: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3). O profeta Ezequiel anuncia o corte do renovo mais tenro da ponta de um cedro. Esse será plantado num monte alto e sublime e, depois, se fará um cedro excelente. O ramo é cortado e plantado na terra para que depois possa renascer, produzir ramos e dar frutos. O texto do evangelho fala da semente pequena que é lançada na terra para que depois possa tornar-se árvore frondosa. A semente “morre” para depois dar origem a uma nova planta. O mesmo tema é retomado por Paulo no texto proposto para a prédica: todos morreram com Cristo para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Se alguém está em Cristo, é nova criatura. A planta antiga morreu para que uma nova pudesse surgir. As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. O tema comum nos três textos propostos (novo nascimento, nascer de novo, renascer) está muito próximo ao período litúrgico de Pentecostes. Naquele dia de Pentecostes, conforme nos é narrado em At 2.37-41, muitos foram batizados. O Espírito derramado gerou nova vida no Batismo. Vida que morre e que renasce com Cristo. Semente que é enterrada e ressurge. Galho que é cortado para poder tornar-se nova árvore. No Batismo nos é dado o Espírito que faz renascer. No Batismo, morremos e ressuscitamos com Cristo. Quem está em Cristo é nova criatura.

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Exegese

Já não é mais novidade que a epístola que conhecemos como a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios é, na verdade, uma composição de várias cartas. A teoria mais aceita é que em 2 Coríntios trata-se de três cartas distintas. Após ter escrito o que hoje consideramos a Primeira Carta aos Coríntios, Paulo recebeu a

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notícia de que em Corinto estavam atuando falsos apóstolos, aliados a entusiastas também presentes naquela comunidade. Os opositores de Paulo se haviam apresentado à comunidade, portando supostas cartas de recomendação. A mensagem que anunciavam era diferente (euangelion heteron) do que o evangelho anunciado por Paulo. Os falsos apóstolos negavam autoridade ao apostolado de Paulo. Diante dessa situação, Paulo escreveu uma apologia de seu apostolado, na qual argumenta teologicamente, de maneira calma e objetiva. Essa é a primeira carta contida naquela que atualmente conhecemos como sendo a Segunda Carta aos Coríntios, abrangendo 2Co 2.14-7.4. Mas, pelo que tudo indica, os adversários de Paulo, mesmo assim, ganharam terreno entre os coríntios. A “teologia” entusiasta dos intrusos parece mesmo ter agradado aos coríntios. Depois disso, Paulo fez uma visita à comunidade, quando deve ter acontecido um sério contratempo (2Co 2.5,7). De volta a Éfeso, o apóstolo escreve a carta intermediária que também é conhecida como “a carta das lágrimas” (2Co 10-13). Dá a impressão de que, a partir daí, as coisas mudaram. Paulo recebeu notícias surpreendentemente agradáveis (2Co7.5ss), o que o motiva a escrever uma carta de reconciliação (2Co 1.1-2.13 e 7.5-16). Dessa forma, precisamos ler o texto previsto para a prédica, levando em conta esse contexto histórico: depois de ser atacado e de ser questionado em seu apostolado e em sua teologia por falsos pregadores de Corinto unidos a entusiastas, Paulo reage e argumenta teologicamente a legitimidade de sua pregação e de seu apostolado. Começo a abordar o texto em pauta, partindo da afirmação que encontramos em seu final: em Cristo somos novas criaturas. As coisas antigas já passaram, eis que se fizeram novas (v. 17). O tenro ramo da ponta do cedro já foi cortado e plantado na terra e já se transformou num cedro excelente. A semente já foi lançada na terra e já renasceu a planta. No Batismo, morremos e ressuscitamos com Cristo. Já não vivemos para nós mesmos, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou. O nascer de novo, o novo nascimento proposto por Jesus a Nicodemos, já é realidade em nossa vida. Fomos libertos do jugo da lei – que é morte – e fomos ressuscitados para uma nova vida em Cristo, em que a única medida é a graça divina. Mas qual é a dinâmica da nova vida em Cristo? Como vive a nova criatura? Como encaramos a vida, a realidade e o mundo em que vivemos? Como encaramos o porvir? Vivemos em função do agora ou do depois? As entrelinhas de nosso texto parecem nos dizer que os coríntios viviam apenas em função do depois, esquecendo ou menosprezando o aqui e o agora. Com essas perguntas em mente, vamos agora seguir o texto, versículo por versículo: V. 6 – Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor. Com essas palavras o apóstolo exorta-nos a “caminhar com os pés firmes neste chão” (Canção “Resistência”, de Rodolfo Gaede Neto). Quando é necessário ter bom ânimo? Quando as coisas não estão bem. Reconhecer e assumir que as coisas não estão bem é a primeira atitude da nova criatura em Cristo. O cristão batizado (nascido de novo) tem olhos críticos e tem consciência clara da condição humana com todas as suas contradições. Não se conforma com este século. Enquanto vivemos aqui, estamos ausentes

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do Senhor. O reino de Deus é diferente do que, no geral, é este mundo. A nossa realidade nega os valores do reino. Por isso é preciso ter bom ânimo no ser nova criatura. A nova criatura precisa achar e abrir espaços para o novo. A semente que já germinou precisa romper crostas duras neste chão e abrir espaços entre pedras e espinhos, sendo sinal da nova vida em Cristo. V. 7 – visto que andamos por fé e não pelo que vemos. Sim, se fosse para a nova planta buscar ânimo para crescer olhando a realidade em volta de si, então ela gostaria mesmo é voltar para debaixo do chão. Em outras palavras: a nova planta viveria apenas em função do depois. Mas andamos por fé. A nova criatura permanece nova não pelo que vê, mas pelo que crê. A realidade pode até nos assustar, mas não tem o poder de acabar com os nossos sonhos e com a nossa esperança, pois andamos por fé, assim como o pai Abraão e a mãe Sara fizeram. V. 8 – Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. A casa do Senhor é diferente do que a que temos aqui. Não temos aqui morada permanente, mas buscamos a que há de vir (Hb 13.14). É mais uma vez um olhar crítico para a realidade. Não nos conformamos com o estado das coisas. No reino de Deus, é melhor do que aqui. Porém isso não nos faz querer morar nas nuvens, mas viver com confiança aqui. Quem confia, confia em algo melhor e, por isso, questiona o que se passa aqui e acredita que também aqui pode ser diferente. Isso é estar em plena confiança. É assim também que devemos interpretar a letra do hino que tanto gostamos de ouvir ou de cantar: “Mais perto quero estar, Deus meu, de ti”. Não no sentido de fugir deste mundo, mas de viver em proximidade com Deus aqui, aguardando ativamente a proximidade plena com Deus em seu reino. V. 9 – É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis. Este é o desafio: ser agradáveis a Deus aqui e não apenas depois lá no céu. Somos árvore bonita, com nova vestimenta aqui, em meio às pedras, espinhos e árvores velhas. Aqui tem espaço para o reino de Deus. Passa dia e passa noite, e a semente germina e cresce, não sabendo o agricultor como isso acontece, conforme nos ensina o evangelho do dia (Mc 4.27). V. 10 – Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo. Novamente Paulo aponta para o aqui e o agora, para o concreto, para o corpo. É aqui que fazemos nossas escolhas, enquanto estamos neste corpo, nesta morada, com esta vestimenta. Ao termos consciência da corruptibilidade deste corpo e deste mundo, não podemos apelar para conceitos como “a salvação da alma”. Pois aí estaríamos isentando o ser humano de qualquer responsabilidade em relação à transformação deste mundo e desta vida. Enquanto habitamos neste corpo, temos responsabilidades diante do tribunal de Cristo, que é a sua palavra, o seu evangelho e que, mesmo incluindo perdão e reconciliação, é como uma faca de dois gumes, que separa o que é justo do que é injusto, que distingue o certo do errado, que coloca uma divisa clara entre o novo e o velho. V. 14 – Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo todos morreram. O apóstolo Paulo chama à responsabilidade, não baseado no julgamento ou juízo de Deus, mas no amor de Cristo. É o amor

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de Cristo que nos perpassa e nos movimenta a viver, com responsabilidade, neste mundo marcado por contradições. Em Cristo já passamos pelo “ser cortado”, pelo “ser lançado à terra”, isto é, já rompemos a crosta dura do terreno das pedras e dos espinhos. V. 15 – E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Não vivemos mais segundo a carne (baseados na lei e nos méritos por causa de boas obras), mas na fé em Cristo. Segundo Lutero: “(...) a carne não é capaz de nada mais do que procurar em todas as pessoas seus próprios interesses; odeia, inveja e pratica toda sorte de mal ao inimigo e procura gozo, favor, prazer e amizade com qualquer um para seu proveito etc. É dessa maneira que o mundo se conhece. Nós cristãos, porém, não conhecemos ninguém dessa forma, pois somos nova criatura em Cristo [2Co 5.17] e conhecemos uns aos outros segundo o espírito, isto é, cada qual não procura seus próprios interesses, mas o que serve para o bem do outro, como também o ensina Rm 14.19 e Fp 2.4. (Obras Selecionadas de Lutero, v. 4, p. 253). V. 16 – Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. Lutero comenta: “Todos quantos olharem e conhecerem a Cristo segundo a carne necessariamente ficam escandalizados com ele, como aconteceu aos judeus. Pois visto que carne e sangue não pensam além do que enxergam e sentem e, ao ver que Cristo é crucificado como pessoa mortal, têm que constatar: tudo está acabado, aqui não há vida nem bem-aventurança; este acabou; não pode ajudar a ninguém; ele próprio está perdido. Quem não quer escandalizar-se com ele tem que passar por cima da carne e ser fortalecido pela Palavra, para que no Espírito reconheça como Cristo se tornou bem vivo e maravilhoso exatamente através de seu sofrimento e de sua morte. Quem faz e pode fazer isso de verdade passa a ser nova criatura em Cristo, dotado de percepção nova e espiritual” (Obras Selecionadas de Lutero, v. 4, p. 253). Enquanto estamos amarrados à ideia da salvação por méritos (lei), pensamos e agimos e falamos segundo a carne. Quando acolhemos a boa-nova da salvação por graça e fé, passamos a ser nova criatura, dotada de percepção nova e espiritual. V. 17 – E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Estar em Cristo, como já vimos, significa morrer e ressuscitar com ele no Batismo, estando excluído qualquer mérito da nossa parte, vivendo em novidade de vida como broto novo, planta nova, em meio a pedras e espinhos ou árvores antigas, que são amordaçadas pela dura casca da doutrina da salvação por meio de obras e de méritos.

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Meditação

Nos tempos atuais, a comunidade cristã vive no constante perigo de deixar-se entusiasmar por falsos pregadores, que anunciam um euangelion heteron (outro evangelho): batismo como obra e por mérito, salvação apenas da alma, esperança restrita ao porvir, falta de compromisso com a transformação da realidade injusta e cruel, na qual estamos inseridos, supervalorização de experiências de êxtase, “teologia” da prosperidade, comercialização da salvação. Esse entusiasmo fecha os ouvidos e o coração das pessoas para a graça de Deus e para a responsabilidade em relação à transformação deste mundo. Na visão de Paulo, plantas novas que renasceram pela graça de Deus não vivem em função apenas do depois, mas são sinais visíveis do reino de Deus presente aqui e agora em meio às contradições deste mundo e desta vida. Como pessoas batizadas, não nos conformamos e nem nos adaptamos ao que é “planta velha” neste mundo. Temos saudade daquilo que há de vir. Mas se trata de uma saudade ativa, com os pés firmes neste chão, exercitada em plena confiança nas promessas divinas. O amor de Deus constrange-nos, impele-nos, desafia-nos a amar. Esforçamo-nos para ser agradáveis a Deus. O antigo já passou. Não mais medimos as outras pessoas com a medida da lei, segundo a “carne”, mas vivemos, todos, sob a graça divina. Somos novas criaturas em Cristo, dotadas de percepção nova. Aqui vivemos e atuamos com fé e confiança, focados naquilo que será melhor no futuro, mas que já pode e deve ser melhor agora. Para quem observa a natureza, criada por Deus, percebe como é importante morrer para, depois, renascer. É a garantia da continuidade e da renovação da vida. Se o ser humano ficasse eternamente amarrado à sua condição de ter que se salvar sozinho pelas obras da lei e, consequentemente, por seus próprios méritos, a vida humana estaria predestinada a um eterno fracasso, a uma eterna morte. Cristo morreu e ressuscitou. Unidos a Cristo pelo Batismo, morremos e ressuscitamos com ele para uma novidade de vida. As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Confiados à graça divina, somos novas criaturas.

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Imagens para a prédica

No desenvolvimento da prédica poderão ser usados símbolos como a semente, a terra, o broto tenro e novo num galho cortado ou num tronco velho e seco ou uma simples muda de alguma planta. Com essas imagens lembram-se os três textos bíblicos lidos no culto e introduz-se o tema da pregação: nascer de novo, novo nascimento, renascer em Cristo através do Batismo. Também se pode entregar uma semente para cada participante do culto, que, após ou durante a prédica, será plantada em algum recipiente contendo terra. Outra possibilidade é a distribuição de mudas de plantas no final do culto. Em algum momento da parte da Palavra poderão ser cantadas as canções “Semente de libertação”, de Edson Ponick (HPD II 316), e “Resistência”, de Rodolfo Gaede Neto (HPD II 443). Este

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culto também é apropriado para o rito de rememoração do Batismo, de preferência logo após a pregação e a confissão de fé.

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Subsídios litúrgicos

Em algum momento do culto ou da pregação poderá ser lembrado o que Martim Lutero escreve a respeito do Batismo no Catecismo Menor. A canção “Batismo – água de vida” (cancioneiro “O Povo Canta”, página 230) é bastante apropriada para o tema do culto. Mas também podem ser cantados outros hinos de Batismo ou de Confirmação, contidos no HPD.

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PRÉDICA: MARCOS 4.35-41

4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JÓ 38.1-11 2 CORÍNTIOS 6.1-13

21 JUN 2015

Fabiani Appelt

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Introdução

O texto bíblico indicado para a prédica deste domingo já foi objeto de estudos nos PL XVI, XXII, XXVIII e XXXIII. Recomendo sua leitura, pois trazem boas reflexões. Dos textos litúrgicos, o de Jó fala sobre o Deus Criador, que governa a sua criação com justiça. Fala ainda sobre fragilidade do ser humano diante do poder de Deus e da maneira especial com que Deus cuida da sua criação. Já o texto de 2 Coríntios fala do Deus que ouve o clamor de seu povo, vem a seu encontro e o socorre. A partir dessa ação de Deus, os discípulos são convidados a exercer o ministério com desprendimento e ousadia. O texto de Marcos 4.35-41, por sua vez, traz a conhecida história em que Jesus acalma uma tempestade. Esse texto faz uma ponte entre o bloco de parábolas (4.1-34) e outros milagres contados nesse evangelho (5.1-43).

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O texto

Depois de um dia cansativo de ensino, Jesus convida os discípulos para atravessar o lago em busca de descanso. No meio da travessia, uma tempestade forma-se, e os discípulos apavoram-se com sua força. Como Jesus continua dormindo tranquilamente, deitado com a cabeça numa almofada, aparentemente alheio ao que está acontecendo, os discípulos acordam-no abruptamente. Jesus levanta-se e ordena para que o vento e as ondas se calem. O vento para, e tudo fica calmo. Depois Jesus pergunta aos discípulos por que eles são tão medrosos. E mais uma vez os discípulos apavoram-se diante daquilo que Jesus fez. E perguntam-se quem ele realmente é. Acredito que a temática principal do texto de Marcos é essa discrepância entre os feitos de Jesus e a incompreensão do povo e até mesmo dos discípulos em relação a seus milagres e ensinamentos. O texto apresenta a tranquilidade e a confiança de Jesus, em contraposição ao medo dos discípulos. Jesus dorme sem se preocupar. Os discípulos ficam apavorados porque ainda não têm fé. Em sua angústia, eles pedem ajuda a Jesus. Os discípulos são profissionais da área da navegação e da pesca. Por isso não devemos imaginar que o seu medo não tivesse razão lógica. A calma do lago da Galileia é, por vezes, interrompida por tempestades violentas. O ar frio, vindo do Mar Mediterrâneo, colide com o ar quente e úmido do lago, causando ventos e ondas. Certamente os discípulos, pescadores experientes, conheciam essa arma-

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dilha. Sem contar que os barcos no lago da Galileia eram pequenas e frágeis embarcações. Diante do vendaval, eles ficam apavorados. A sua experiência acabou. A técnica parece já não resolver, e o medo apodera-se deles. Os discípulos não foram heróis na fé. E o fato de Jesus ficar dormindo nessa situação de extrema necessidade incomodava os discípulos. E eles, num misto de medo, escândalo e desespero, recorrem a Jesus. Jesus torna-se para eles o último recurso de salvação. Jesus Cristo admoesta os discípulos diante da falta de fé. Ainda assim, o milagre acontece. O mar revolto e o vento da tempestade são acalmados. A fé não é nossa! É dom de Deus, é graça concedida. Crer no milagre é confiar que ele é possível acontecer. Os milagres não acontecem para satisfazer nosso ego e suprir nossas faltas, mas são ação de Deus na história, que quer transformar-nos em instrumentos seus para manifestar o seu poder de mudança e transformação. A soberania de Deus revela-se na tranquilidade de Jesus. Mas essa calma não o leva à impassibilidade. Jesus ouve as orações dos seus amigos. E atende-as prontamente, pois, diferente do que possa parecer, Jesus importa-se com os seus.

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Meditação

Conversando com as mulheres de um grupo de OASE aqui da paróquia sobre esse texto, surgiram interpretações bem interessantes. O temporal foi comparado aos sofrimentos que surgem ao longo da vida. Os discípulos hoje somos nós, que também, às vezes, agimos como os discípulos do texto, desesperados, gritando com Jesus. O barco é a igreja que também sofre com os temporais. O temporal podem ser problemas familiares, doenças, mortes, dívidas, escolhas malfeitas. Precisamos exercitar a coragem de enfrentar as dificuldades. Sem a presença de Deus isso não é possível. Não adianta ficar parado esperando; é preciso fazer algo. Os discípulos foram a Jesus. Jesus tem poder. É possível vencer as dificuldades, mas é preciso ter fé e fazer alguma coisa. É preciso orar e agir. As dificuldades que nos sobrevêm não nos devem aterrorizar. Jesus mostra-se como alguém que domina os poderes que ameaçam a vida. Cura as doenças das pessoas: físicas, psíquicas, psicológicas e espirituais. É um clínico geral. Jesus é o Cristo enviado por Deus. A tranquilidade de Jesus indica-nos a única saída para esse impasse. Ele nos convida a participar dessa tranquilidade. Não a obteremos a partir de nossas próprias forças. É dom de Deus. A fé não é coisa pequena. Lutero diz na explicação do Primeiro Mandamento: “Devemos temer e amar a Deus sobre todas as coisas”. Jesus nunca nos prometeu que nada nos ameaçaria, mas que segui-lo significa tomar sobre nós a nossa cruz. É necessário estar preparado para morrer com ele e confiar em seu poder criador. A tempestade representa uma fonte de angústia e de descontrole. Nessa situação, é difícil o exercício de esperar em Deus. Ainda hoje continua sendo muito difícil livrar-nos de nossas angústias em meio às tempestades existenciais. Mas Jesus nos assegurou de que isso é possível e ao mesmo tempo apresentou-nos o caminho com a pergunta: vocês ainda não têm fé? Essa pergunta é um convite para abrir nosso coração a uma entrega total do controle de nossa vida a ele. Só assim poderemos, como Jesus, dormir em paz em meio às nossas tempestades.

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Isso é difícil para o ser humano, mas é parte dos mistérios de Deus, acessíveis a nós pela mediação de Jesus, que tem poder sobre o vento e as ondas. As dificuldades que enfrentamos com confiança aperfeiçoam a nossa fé. Todo barco que entra no mar está exposto a enfrentar algum temporal em um ou outro momento. Igualmente nos acontece quando entramos no barco com Jesus, quando fazemos parte da sua igreja e enfrentamos o mundo. Jesus convida, não obriga a segui-lo. Seguir a Jesus implica correr riscos. Algo que, como cristãos, devemos deixar para trás é a desesperança. Se Cristo faz parte de nossa vida, ele já acalmou a tempestade. Portanto, como discípulos de Cristo, devemos refletir ao mundo a serenidade e a confiança em Deus. Esse é o testemunho que devemos dar. Jesus é o libertador do medo. Jesus acalma todas as nossas tempestades. Só ele nos pode trazer a calma da sua paz. Só ele pode tirar os nossos temores. Onde parece não haver mais chance alguma de vitória, ele se manifesta com misericórdia e graça. Deus atua na vida e na história sempre em favor da sua criação, em favor da vida dignificada.

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Pontos para refletir na prédica

1. Identificar os temporais pelos quais as pessoas da comunidade estão passando. 2. Lembrar momentos em que milagres aconteceram. Os milagres bíblicos carregam consigo a dimensão do reino de Deus. Eles são uma demonstração do poder de Deus que aponta para a possibilidade de transformação. 3. Ter um olhar crítico sobre discursos sem gestos de fé. A fé não se pode deixar influenciar pelo que se vê (Hb 11.1). O gesto de Jesus convida-nos a deixar a timidez de lado para dar testemunho destemido de nossa confiança nele.

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Subsídios litúrgicos

Sugestões de hinos: HPD 98; 161; 174; 191; 216; 221. Oração do dia: Obrigado, meu Senhor Jesus, por me acalmares, por estar a meu lado. Fortalece a minha fé, não me deixes vacilar. Ajuda-me a viver confiando em teus cuidados, na certeza de que estás sempre a meu lado. Amém.

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5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS 3.22-33

28 JUN 2015

MARCOS 5.21-43 2 CORÍNTIOS 8.7-15

Manoel Bernardino de Santana Filho

Sofrimento e esperança para o povo de Deus

1

Introdução

O Livro de Lamentações de Jeremias é um texto anônimo. Não se sabe quem o escreveu, embora se presuma que tenha sido Jeremias. Em 2 Crônicas, afirma-se que “Jeremias compôs uma lamentação sobre Josias...” (35.25). Na Bíblia Hebraica, o livro não tem autor. O título é algo como “Ah! como!” É uma expressão de lamento e dor. Foi a Septuaginta que deu o título de “Lamentos”, e a Vulgata acrescentou: “São as Lamentações do profeta Jeremias”. O texto é uma poesia melancólica que não era incomum no Oriente Próximo em tempos antigos. Os sumerianos, ao que parece, foram os primeiros a escrever esse tipo de obra sombria para lembrar a queda de algumas de suas cidades nas mãos de povos invasores. Um dos mais famosos lamentos é o que descreve a destruição de Ur, terra dos caldeus. Aqui nesse texto, o autor de Lamentações chora a destruição de Jerusalém e a desolação de Judá após 587 a.C. Os versos descrevem o sofrimento dos judeus durante e após o cerco de Jerusalém e uma confissão representativa do pecado da nação. As Lamentações constituem-se de cinco lamentos, distribuídos nos cinco capítulos do texto. São respostas de um narrador autônomo para chorar a situação de catástrofe que se abateu sobre Jerusalém após o ano de 586 a.C., quando Nabucodonosor invadiu Jerusalém e levou grande parte de sua população cativa. Foi escrita em forma de acróstico, o que significa que são textos para leitura, mais destinada ao olho do que ao ouvido. Isso significa que não foram produzidos para ser empregados em liturgias. No entanto, estão presentes desde muito tempo nas celebrações tanto judaicas como cristãs.

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Exegese

Carecemos de indícios externos referentes à época do surgimento desse texto. Pode-se tentar situar cronologicamente esse cântico apenas no contexto da história da teologia pós-exílica. Os traumas de 586 a.C. jamais cicatrizaram completamente. A profecia bíblica do Antigo Testamento procura manter viva, por meio de seus profetas exílicos e pós-exílicos, a chama daqueles acontecimentos que, para a maioria dos historiadores modernos, não passa de uma nota de rodapé. Muitos outros acontecimentos têm precedência sobre o sofrimento daquele povo semita diante de um inimigo muitas vezes mais poderoso.

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O relato não tem a ver com lamúria e autocomiseração. É antes um apelo agudo a Deus para que veja essa miséria que ele causa com sua ausência em sua criação, a miséria do santuário, a miséria dos poderosos e das elites espirituais. Apesar de se sentirem desprezados, abandonados e humilhados, porque Deus esqueceu-se de seu povo, o livro manifesta a presença de algo espantoso no meio dessa lamentação: a culpa é confessada. Sob a pressão do sofrimento e da dor, a lamentação solidifica-se. As sentenças não soam como sabedoria de vida retirada dos ensinamentos de algum sábio. Antes, elas formam-se como os diamantes que nascem pressionados por imensos pesos. Além do mais, o autor tenta fazer uma teodiceia: “Ele seja justo!”. Ao mesmo tempo, tenta-se compreender a ação de Deus: “Pois Javé não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias” (31-32). Ainda que o terceiro cântico (3.1-66) comece com uma enxurrada de acusações extremamente amargas contra aquele que permitiu tamanha calamidade, o autor volta-se para si próprio e anuncia declarações sapienciais de confiança. O autor celebra o auxílio e a misericórdia divina. O Senhor é bom por três vezes (v. 25-27), e as palavras de negação dão lugar ao “sim” de Deus para com o seu povo (31-33). Por isso ele faz uma convocação coletiva, uma convocação para o autoexame (40-42a). Contudo suas descobertas da ação de Deus não permitem que ele tenha controle sobre suas experiências. Ele só sabe que não se pode calar diante da calamidade. Seu alfabeto ainda não chegou ao fim. Por isso, após falar das misericórdias do Senhor, ele retorna ao lamento: “Tu não perdoaste” (42s). E por isso continua interpelando Javé. As condições coletivas permanecem no primeiro plano até o v. 51, em que o olhar volta-se novamente para a situação de perseguição pessoal e em que, no estilo da lamentação individual, as afirmações de experiências de libertação, confiança, lamentos pelos inimigos e súplicas finalmente conduzem à certeza de que Deus retribuirá aos inimigos (64-66). Em nossa perícope, o autor destaca a misericórdia e a compaixão que são traduzidas também por misericórdia. Aqui o autor quer destacar o cuidado de Deus, sua fidelidade (23), bondade (25) e, como resultado disso, a salvação (26). O autor sente como Jó, que “(...) me matará, já não tenho esperança; contudo, defenderei o meu procedimento” (Jó 13.15). Apresenta uma magnífica expressão de fé na misericórdia infalível de Deus e por isso olha para o futuro com novas esperanças. A misericórdia de Deus que se evidencia no relato é expressa na lealdade do Senhor à aliança firmada com seu povo. Por isso a constância imutável de Deus forma uma base firme para as tentativas de esperança no futuro. Essas misericórdias são a causa de não sermos consumidos. O texto massorético diz “não pereceremos” como resultado do amor de Deus a seu povo. Algumas outras versões, como a Imprensa Bíblica Brasileira, traduz como “a benignidade do Senhor jamais acaba”. A Bíblia de Jerusalém diz: “Os favores de Iahweh não terminaram”. O Senhor é a porção de Judá. Portanto qualquer esperança de restauração tem de estar fundada firmemente nele (26). A referência a carregar o jugo (27) reflete o ensino de provérbios hebraicos que falam que as cargas podem ser carrega-

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das melhor na mocidade, quando ainda não falta o vigor e quando a personalidade tem de ser disciplinada mais do que nos anos de mais idade. Pôr a boca no pó era uma expressão tipicamente oriental (29), como forma de demonstrar submissão completa a Deus. Aqui é onde o reconhecimento pela culpa assume sua forma mais explícita. O autor coloca-se ao lado do povo na súplica pelas misericórdias divinas. É ato de pura contrição, de reconhecimento do erro e das suas consequências no destino do povo. Ao se colocar na disposição de oferecer a face àquele que o fere (30), o cativo está se colocando na posição de entrega completa. Um fato concreto é que o governante do povo (Joaquim) tinha sido batido no rosto pelo conquistador, cumprindo a predição de Miqueias (5.1). Jerusalém está submissa à vontade de Deus em face a seus sofrimentos (Is 50.6). Essa atitude foi exemplificada em sua forma mais elevada por Jesus Cristo antes de ser crucificado (Mt 26.76; Lc 22.64; Jo 18.22; 19.3), quando uma vítima inocente sofreu pelo pecado humano em obediência à vontade de Deus. Por causa do caráter restaurativo da misericórdia de Deus (Sl 23.3), os sofrimentos pelos quais a nação passa chegarão a seu fim, porque os sofrimentos não são o propósito definitivo de Deus para nenhum de nós. Não é de bom grado (33) que o Pai permita a disciplina rigorosa a seus filhos. A disciplina faz parte do desenvolvimento espiritual (Hb 12.6). Deus permite o sofrimento como consequência dos males causados por nós mesmos. Só se pode atribuir o sofrimento a Deus nesse sentido restaurativo e no sentido de que é a base de qualquer tipo de existência. Entretanto, a calamidade individual é fruto de uma série de causas que se encontram no próprio ser humano.

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Meditação

Lamentações, capítulo três, pertencem às cercanias dos poemas de personagens que desempenham um papel ou carregam um problema, como as chamadas confissões de Jeremias, o livro de Jó ou os textos do Servo Sofredor no livro dos Salmos. O texto sugere que, pela grande misericórdia de Deus conosco, temos a certeza de não ser consumidos. As suas misericórdias não acabam. Antes, elas renovam-se a cada manhã. O autor afirma que qualquer esperança de restauração tem que estar assentada no Senhor, que é bom para aqueles que desejam conhecê-lo. Ele é bom para o simples, para aquele que tem uma fé singela. Ele é bom em exercício de paciência. A versão de Almeida Revista e Corrigida fala das coisas que devem ser consideradas boas (28): assentar-se solitário e ficar em silêncio. O teólogo peruano Gustavo Gutierrez afirma que quem pretende fazer um discurso sobre Deus precisa primeiro silenciar diante dele. Não temos que ficar chorando pela tragédia passada por tempos sem fim. Cada tristeza tem seu tempo de desamparo e solidão. O povo hebreu viu a captura e destruição de sua cidade. Viu a desolação praticada pelos exércitos de Nabucodonosor. A cidade ficou como um monturo; seu rei Zedequias (Jeconias) viu o assassinato de seus filhos e de seus nobres. Depois teve seus olhos vazados (Jr

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52.10-11) e foi levado cativo para a Babilônia, onde viveu seus dias restantes na prisão. Nunca mais conheceu a liberdade. O que restou do cerco era apenas desolação. Podia-se dizer como na época em que a arca foi levada pelos filisteus (1Sm 4.22). O grito de dor do povo oprimido sob o jugo dos caldeus só é comparável ao dia em que Israel fugiu diante dos filisteus e a arca da aliança foi roubada. Naquele dia, o velho profeta Eli morreu de tristeza. Sua nora, esposa de Fineias, deu à luz um menino, o qual se chamou Icabode, que significa “foi-se a glória de Israel”. Naquele caso, como agora, a derrota aconteceu pelo mesmo erro: o pecado da nação. Na derrota diante dos filisteus, a arca estava sendo usada como um fetiche. Agora, a destruição vinha pela idolatria. A fé em Deus estava sendo colocada em segundo plano. A derrota foi tão grande, que Jeremias a menciona em seu livro (Jr 7.23): “Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo. Andai em todo o caminho que eu vos ordeno, para que vos vá bem”. Desde os dias do Egito, Deus enviou profetas, mensageiros da esperança, para orientação do povo, mas esse não lhe deu ouvidos. A surdez da nação era tão notória, que dentre os povos se dizia: “Esta é a nação que não atende à voz do Senhor, seu Deus...” (Jr 7.28) Quando o pecado da desobediência domina, não há perdão. É preciso extirpar o mal para que a ferida sare. Um membro gangrenado precisa ser retirado para sarar o corpo. Mas Israel preferiu ficar com sua gangrena. E Deus fala ao profeta para que não interceda pelo povo nem levante a sua oração, porque ele não ouvirá (Jr 7.16). No entanto, a nação não perdeu a esperança na ação misericordiosa de Javé. Jeremias ficou em Jerusalém entre o povo pobre da terra, ali deixado por sua inutilidade para os caldeus. Esses levaram os principais elementos da corte, os melhores profissionais de cada ofício. A elite judaica foi deportada. Nabucodonosor precisava de operários qualificados e saudáveis para construir os seus palácios. O povo iludiu-se com falsos discursos. Primeiro, julgou que a proximidade do templo era sinal de segurança para ele. Ele pensava que nada poderia acontecer ao templo porque Deus havia prometido a Davi que sua dinastia seria eterna (2Sm 7.12s) e tinha escolhido Sião para sua habitação (Sl 132.13). Portanto nada poderia acontecer ao templo por ser morada de Deus. Depois iludiram-se com o discurso de profetas que tentavam animar o povo com falsas profecias. Um deles era Hananias (Jr 28). Esse pregava um colapso rápido do poderio babilônico. Jeremias sente que precisa denunciar a falsidade dessa mensagem e escreve uma carta belíssima, que está no capítulo 29 de seu livro. A carta é de 594 a.C. O recado era simples: levem uma vida simples e normal e não se deixem levar pelo discurso dos que pregam fantasias. Façam planos para viver muitos anos. No final, a palavra de Jeremias cumpriu-se, e aquele povo, exilado, voltaria como nação, mas em sua descendência. Os que foram levados não voltariam, talvez com alguma exceção. Esperar na vontade de Deus era tão importante na antiga aliança (Sl 37.9; Os 12.6; Sf 3.8) quanto é na nova (Rm 8.25; Gl 5.5). O cristão tem uma esperança

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viva porque confia em um Deus vivo, cujas promessas são tão verdadeiras quanto seus juízos. O texto ensina que as misericórdias do Senhor estão presentes em cada instante de nossas vidas. A cada novo dia, uma chama de esperança acende, porque servimos a um Deus que se faz presente no cotidiano de seu povo. Por isso não podemos desanimar. Somos o seu povo e como tal estamos debaixo da sua eterna proteção.

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Imagens para a prédica

Várias imagens podem ser preparadas para este momento. Primeiro a imagem da seca, da terra desolada, do infortúnio, do desespero humano. Pode-se usar as imagens desenvolvidas pelos textos de Graciliano Ramos, Vidas Secas, e de Raquel de Queiroz, O Quinze. Essas obras tratam da vida desgraçada de retirantes do Nordeste, gente que se torna nômade por causa da seca que assola o sertão. Famílias pobres, como a de Fabiano e Sinhá Vitória, que, junto com seus dois filhos, a cachorra Baleia e um papagaio, caminha em busca de água e de comida, um lugar para ficar. O livro de Raquel de Queiroz retrata a seca de 1915 no Ceará. A terra estava desolada, com riachos secos, roçados sem milho e feijão, onde o que restava para dar de comer a meninos e meninas era o mingau de milho, a farinha de mandioca, o cuscuz. Só quem passou por tamanha agonia é que sabe o que significa essa desolação. Israel sentiu-se assim depois da destruição causada pelos exércitos da Babilônia. A terra ficou desolada. Os que ficaram passaram a viver sob o impacto da ruína e dos sofrimentos em decorrência da invasão. Segundo Milton Schwantes (Sofrimento e Esperança no Exílio), após 587 a. C., celebrava-se em Jerusalém, junto às ruínas, um rito de luto e arrependimento. Essas cerimônias iniciaram logo depois da destruição. Não podia haver alegria diante da tragédia. Quanto aos exilados, o clima era o mesmo. Tristeza, amargura e desespero longe da terra. Por isso o Salmo 137 é um canto de lamento. Os exilados assentaram-se às margens dos rios da Babilônia e ali choraram. As harpas foram penduradas, e o sorriso e o canto desapareceram dos lábios dos cativos. Mas agora outra imagem apresenta-se à luz de Lamentações de Jeremias, capítulo três: Deus não esquece seu povo. Então, a sequidão deve ser substituída pelo verde. Se quiser usar imagens, podem entrar na sala, no espaço da celebração, imagens da cor verde, representando o retorno à vida, a esperança, o cuidado do Deus amoroso que nos preserva e guarda.

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Subsídios litúrgicos

As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim. (Lm 3.22)

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Confissão de pecados: Enganaram-se certa vez os salmistas de Israel quando se negaram a entoar a canção do Senhor em terra estranha (Sl 137). Perderam a oportunidade de falar daquele que é o Senhor de toda a terra, absoluto, único, eterno. Reconhecemos que também nós, muitas vezes, nos negamos a testemunhar esse Deus maravilhoso que está presente em nossas vidas, todos os dias, mesmo naqueles que achamos ruins. Reconhecemos que erramos, que falhamos, que nos omitimos. Perdoa os nossos pecados e por meio do Espírito Santo ensina-nos a reconhecer a tua bondade e misericórdia. Oração: Senhor da vida, dá-nos a capacidade de crer e experimentar a ressurreição no cotidiano de nossas vidas. Dá-nos a alegria do salmista, que em sua conversão a Javé expressa toda a sua alegria por esse dom maravilhoso de uma nova vida. Dá-nos que creiamos com plena confiança na ressurreição de Jesus Cristo, que é a garantia da nossa própria ressurreição. Tu tens o poder sobre todas as coisas, inclusive o poder sobre a morte. Que a nossa confissão de fé expresse essa certeza e nos dê a confiança para acreditar em um mundo cheio da tua graça e de todo o teu amor! Amém!

Bibliografia HARRISON, R. K. Jeremias e Lamentações; introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984. ZENGER, Erich et al. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003.

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PRÉDICA: MARCOS 6.1-13

6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 05 JUL 2015

EZEQUIEL 2.1-5 2 CORÍNTIOS 12.2-10

Flávio Schmitt

De Nazaré para o mundo

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Introdução

Sobre o texto de Marcos 6.1-13 há um auxílio homilético publicado no PL XXXIII. Além disso, a perícope aparece segmentada em outras edições. A perícope de Marcos 6.1-6 está contemplada nas edições XVI, XXII e XXVIII. A perícope de Marcos 6.6b-13 consta nas edições de número XIX e XXV. Isso significa que essa passagem já mereceu a atenção de seis colaboradores do PL. A escolha do texto para o Sexto Domingo após Pentecostes está relacionada com o tema da missão. No texto de Ezequiel 2.1-5, é apresentada a visão do profeta. Ele é chamado para ser atalaia de Israel (Ez 2.1-3.21). Ezequiel ouve a voz de Deus (v. 1), que o chama de Filho do homem e pede para que fique em pé (v. 2). O profeta recebe então a missão para falar (v. 3) a um povo acomodado e indiferente à palavra do profeta (v. 4). Porém, independente da reação dos ouvintes, a missão do profeta é falar (v. 5). Essa é sua vocação. Em 2 Coríntios 12.2-10, Paulo menciona o “espinho na carne”, símbolo de sua fraqueza e condição, que não lhe permite gloriar-se por ser mensageiro de Deus. Contudo não se sente constrangido com as adversidades da missão (v.10). Pelo contrário, tem consciência de estar “carregando” a cruz.

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Exegese

O Evangelho de Marcos tem sido objeto de inúmeras investigações. As conclusões da alta crítica continuam prevalecendo na compreensão do evangelho. Marcos é o evangelho mais antigo. Segundo a teoria das fontes, serviu de fonte para os demais sinóticos. Além disso, inaugura o gênero evangelho. A estrutura do Evangelho de Marcos apresenta três partes. A atividade de Jesus começa na Galileia, passa pela Samaria e culmina em Jerusalém, na Judeia. Nessa estrutura, demarcada pelo espaço geográfico, está inserida uma estrutura literária que permite dividir o evangelho em duas partes. A primeira inclui Marcos 1.1-8.26. A segunda compreende Marcos 8.27-16.8 (Brown, p. 206). Portanto o texto de Mc 6.1-13 está inserido no primeiro bloco de textos do evangelho. O texto de Mc 6.1-13 apresenta duas partes. A primeira, Mc 6.1-6a, tem como conteúdo a volta de Jesus a Nazaré, sua terra natal. A segunda parte, Mc 6.6b-13, trata da missão dos doze, do envio dos discípulos por Jesus. Na perícope imediatamente anterior, Mc 5.35-43, Jesus chega à casa de Jairo para ressuscitar

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sua filha. Na perícope que segue o texto de Mc 6.6b-13, há um relato sobre a atividade de Herodes (Mc 6.14-29). Chama atenção que entre o envio (6.1-6) e o retorno (6.30-32) dos discípulos está esse texto sobre Herodes e relacionado com a morte de João Batista (Mc 6.14-29). Portanto Jairo e Herodes demarcam a moldura do texto. Nos dois textos está em discussão o tema da ressurreição. Marcos 6.1-6a V. 1 – Até agora, o centro da atividade pública de Jesus havia sido Cafarnaum. Dessa localidade Jesus estabelece o primeiro circuito pela Galileia (1.39) e faz uma viagem de ida (4.35) e volta (5.21) pelo lago de Tiberíades. Uma nova configuração geográfica passa ser tecida na narrativa. Jesus agora vai a Nazaré e dali inicia uma segunda rodada pela Galileia (6.6b). Vai a Betsaida (6.45), retorna (6.53) e depois segue para a região de Tiro e Sidon (7.24), retornando pela Decápolis (7.31). Depois visita Dalmanuta (8.10) e Betsaida outra vez (8.22). Em seguida, entra em Cesareia de Filipe (8.27), sobe e desce uma montanha (9.2,9) e pela Galileia volta a Cafarnaum (9.33). Na sequência, começa a jornada para Jerusalém (10.1). Em Mc 6-9, Jesus encontra-se fora da área de jurisdição de Herodes Antipas, o que pode ser entendido como uma fuga de quem havia matado João Batista. Aparentemente, a missão de Jesus na Galileia havia fracassado. Além da hostilidade política do ambiente, Jesus perde o acesso às sinagogas e, por fim, é abandonado pelo povo. O termo grego patrida geralmente é entendido como local de nascimento. Porém, como Jesus não nasceu em Nazaré, dificilmente essa palavra pode ter esse sentido aqui. Há quem diga que, para Marcos, Jesus nasceu em Nazaré, por desconhecer a história do nascimento em Belém. A verdade é que Jesus viveu em Nazaré por trinta anos. Esse tempo de vida em Nazaré faz dessa localidade sua terra natal. V. 2 – Ao que parece, o falar de Jesus é surpreendentemente revestido de autoridade. Da mesma forma, seus atos são espantosos. O texto fixa-se no que é conhecido da vida de Jesus. Isso aparentemente deixa o pessoal confuso. O ceticismo diante dos fatos é evidente. Afinal, como poderia Nazaré, uma insignificante localidade, que de tão pequena nem mesmo aparece na lista de cidades da Galileia mencionada por Flávio Josefo, estar protagonizando essa situação? Todos conheciam Jesus. Porém ignoram “os fatos maiores do admirável poder de Jesus” (CHAMPLIN, 2002, p. 703). Ao se fixarem nos traços humanos de Jesus, nada diferentes das demais pessoas da localidade, ficam impedidas de ver a verdadeira identidade de seu conterrâneo. Certamente temiam ver nele o Messias, pois isso traria consequências imprevisíveis. Como todos os que se deparam com a verdade em suas vidas, aquela gente não acredita no que testemunha. Embora não tivesse as credenciais tradicionais para fazê-lo, Jesus ensina na sinagoga. A autoridade maior na sinagoga tinha o poder de conceder a palavra a quem quisesse. Ao que parece, depois desse contato e rejeição na sinagoga em Nazaré, as portas das demais sinagogas fecharam-se para Jesus. As lideranças

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judaicas inclusive enviam espiões para verificar o que Jesus andava pregando e fazendo. Possivelmente, Jesus tenha retornado para Nazaré a fim de descansar, rever amigos e familiares. Porém sua missão não lhe permitiu o descanso que buscava. V. 3 – O carpinteiro (Marcos) e filho de carpinteiro (Mateus), função da qual zombaria Celso no século II, é apresentado como filho de Maria. A ausência de José tem duas explicações: ou José já havia falecido, ou a referência a Maria está relacionada com o nascimento virginal, que Marcos não alude em seu evangelho. O texto ainda menciona, pelo nome, os irmãos de Jesus. Tiago, José, Judas e Simão são mencionados como irmãos. O nome das irmãs não é mencionado. A palavra adelfós pode significar irmão ou parente. O fato de todos terem se escandalizado com Jesus dá a entender que são mesmo os irmãos de sangue que o fazem. V. 4 – Diante da reação de todos, Jesus cita um provérbio conhecido de sua gente: “Um profeta não é honrado em sua própria terra”. A familiaridade com Jesus torna-se um obstáculo para a audiência. Não sabemos ao certo a razão do desprezo. Além da familiaridade, a inveja pode estar em cena. Como é comum nessas situações, a cegueira fala mais alto. V. 5 – Este versículo fala das limitações impostas a Jesus em sua própria terra e em meio a sua gente. Não obstante a censura no quesito milagres, Jesus dá atenção aos enfermos, impõe-lhes as mãos. Essa obstinação do pessoal de Nazaré dá-nos uma ideia do quanto pessoas ainda hoje são privadas da manifestação do poder de Jesus por conta da censura, do descrédito e da falta de confiança. Aqui, o ministério de Jesus na Galileia fecha-se. A popularidade de Jesus declina. Doravante, apenas o grupo de discípulos, com toda a sua ambiguidade, continuará ao lado do mestre. V. 6a – Jesus admira-se da incredulidade de seus conterrâneos. O versículo confronta-nos com o “inacreditável”. A atitude da gente de Nazaré, além de estranha, é desconcertante. Jesus parece estupefato. Mas não diz mais nada. Não há nada a dizer, apenas a fazer. Por isso o versículo continua falando dos próximos passos da prática de Jesus. Marcos 6.6b-13 V. 6b – Diante da resistência de sua gente em Nazaré, Jesus segue para as aldeias circunvizinhas. Abre uma nova frente de contatos. Porém, diferente do que havia feito por ocasião do primeiro circuito na Galileia, agora Jesus manda seus discípulos na frente. V. 7 – Jesus chama e envia os doze. O projeto missionário de Jesus está em ação. Esse é o modo eficaz e determinado de fazer missão. Jesus envia seus discípulos em duplas. Dois a dois, recebem poder e autoridade sobre espíritos imundos. O número dois pressupõe a duplicação do “poder de fogo” da missão. A expressão “espíritos imundos” abre o leque de possibilidades de interpretação. Aqui cabe todo espírito que não está limpo. Toda forma de manifestação que não seja transparente, clara.

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V. 8 – Este versículo confronta-nos com a ascese necessária aos discípulos missionários. Aqui está em jogo o “bem-viver” missionário. Nada de supérfluo, nada de sobrecarga. Jesus dá “instruções práticas para uma ocasião especial, instruções temporárias para uma circunstância particular” (CHAMMPLIN, p.705). Positivamente, são orientados a levar um bordão. A proibição fica por conta do pão, do alforje e do dinheiro. Quando nossas traduções falam de dinheiro, o texto grego menciona “cobre”. Nesse caso, está se referindo à moeda de pequeno valor. Nem mesmo moeda de cobre, que dirá de prata ou ouro, devem portar os discípulos. V. 9 – Aqui são mencionadas as sandálias e túnicas. Os discípulos devem calçar sandálias. Porém, para a veste, é recomendada apenas uma túnica. Vestir-se com duas túnicas, uma por baixo e outra à vista, era costume antigo no vestuário de pessoas de distinção na sociedade daquele tempo. Esse “luxo” é desrecomendado aos missionários enviados por Jesus. O equipamento dos missionários é simples e provisório. Além disso, a viagem pela Galileia não seria demorada. Para dar conta de suas necessidades, alimento e abrigo, os discípulos são orientados a depender da hospitalidade. Aos missionários cabe viajar sem carga. V. 10 – Este versículo traz mais uma recomendação aos missionários. A hospitalidade oferecida não pode ser rejeitada. O local da hospitalidade torna-se referência para o missionário. Caso tenhamos aqui um reflexo da atividade missionária da igreja primitiva, a orientação é não se deixar levar pelas conveniências e fazer do local de hospedagem uma referência para a igreja em formação. A obra missionária não pode estar sujeita a instabilidades. As referências são fundamentais para missão. V. 11 – O v.11 aponta para uma experiência vivida por Jesus. A rejeição em Nazaré aqui vira orientação para os discípulos. Missionários devem estar preparados para conviver com adversidades e limitações, mas também com oposição e recusa. Sacudir o pó de algum lugar é uma forma simbólica de assumir a rejeição. Os judeus não apenas sacudiam o pó, mas costumavam lavar partes do corpo e até tomar banho depois de passar por regiões pagãs. V. 12 – Assim como João Batista havia feito, agora são os discípulos de Jesus que saem para anunciar a mensagem sobre o reino e conversão. Os discípulos convocam ao arrependimento. O arrependimento é o primeiro passo para conversão; a conversão, o primeiro passo para santificação. A conversão anunciada pelos missionários não consiste numa simples mudança de mentalidade ou compreensão, mas uma transformação segundo a imagem de Cristo. V. 13 – A atuação dos missionários consiste em expulsar demônios, ungir e curar enfermos. A cura com a unção de óleo parece ter sido um costume comum entre os judeus (Tg 5.14s). Acreditava-se que o óleo tinha propriedades medicinais. O fato de Mateus e Lucas não fazer menção do óleo tem levado à tese de que esse era um costume antigo na igreja e não necessariamente algum método de cura de Jesus. Independente de teoria, nada impede que Jesus e os discípulos

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tenham recorrido a uma prática conhecida dos judeus para curar pessoas. Nesse caso, o óleo era usado apenas ocasionalmente, pois a menção à cura com óleo aparece apenas nesse versículo e em Tiago 5.14. O normal na cura de Jesus é a imposição de mãos ou a simples palavra de ordem (CHAMPLIN, p.706).

A Palavra O regresso de Jesus a Nazaré depois da primeira circulada pela Galileia mostra o quanto é importante voltar às origens. Nesse regresso está contemplada toda a expectativa do reencontro, por mais frustrante que esse reencontro, por vezes, possa ser. A frustração, no entanto, não impede Jesus de dar prosseguimento à sua missão. Por mais estarrecido que tenha ficado com a reação de seus conterrâneos com suas palavras e ações, a missão continua. Nazaré não é o fim da linha, por mais final e finita que tenha sido a missão de Jesus na Galileia a partir dessa localidade. Na reação dos nazarenos importa destacar a resistência à mensagem de Jesus, embora alguns tenham percebido sabedoria e autoridade. O anúncio do reino de Deus não é algo tranquilo. Não foi para Jesus, nem haveria de ser para seus discípulos. Sempre houve e sempre haverá resistência. Mas não é da resistência que vem a ordem de comando. Pelo contrário, Jesus sabe-se comprometido com a causa do reino. Esse compromisso leva-o adiante. Depois da narrativa em torno de Nazaré, Jesus incrementa sua prática com a colaboração dos discípulos. Agora Jesus não atua mais sozinho. Também amplia seu raio de ação. Multiplica sua capacidade de atuação. Depois de devidamente preparados, orientados e instruídos, os discípulos são enviados a fazer nas regiões circunvizinhas o que Jesus havia feito na Galileia. “A missão dos discípulos de pregar a conversão, de expulsar demônios e de curar os doentes é uma extensão da missão de Jesus, e ele lhes concede o poder de realizá-la. As condições austeras (nada de alimento, dinheiro, bagagem) demonstravam claramente que os resultados, quaisquer que fossem, não seriam afetados pelos meios humanos” (Brown, p. 216).

3 A pregação Diante da possibilidade de escolha da ênfase a ser dada na pregação, convém fazer uma opção. Por um lado, a pregação poderá focar o regresso de Jesus a Nazaré e as consequências decorrentes dessa decisão. Por outro lado, a pregação também poderá focar a missão dos discípulos coordenada por Jesus nas aldeias próximas à Galileia. Em cada uma das opções, a pregação poderá explorar aspectos relacionados com os textos de leitura previstos para este domingo. Na opção pela ênfase em Mc 6.1-6a, as possibilidades de tema para pregação são várias. A ligação com pessoas e lugares pode ser abordada com o tema do regresso às origens, o tema da família, o tema dos costumes do lugar (ir à sinagoga), o tema da rejeição e o tema da ambiguidade como as coisas podem ser interpretadas (alguns enxergam sabedoria e autoridade, outros são incrédulos).

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Se a opção for pela ênfase em Mc 6b-13, a pregação poderá focar o tema da missão e seus aspectos: preparativos, comissionamento, envio. O tema da conversão, das “tarefas” recebidas (curar, expulsar demônios) e do comportamento dos discípulos também pode ser abordado. O tema da cura e expulsão de demônios parece mais adequado diante dos desafios com os quais cada comunidade local se depara com a questão. De qualquer forma, toda comunidade missionária precisa ter em seu projeto a perspectiva da libertação e cuidado das pessoas.

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Recursos litúrgicos

Saudação: Isaías 55.11: Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei. Leitura responsória: Salmo: 86.11-17 Oração: Senhor, estamos comprometidos/comprometidas com tua missão. Queremos ser teus cooperadores. Somos tua comunidade, povo teu aqui reunido. Orienta e ajuda-nos diante da resistência, indiferença e descaso com teu evangelho. Anima nossos corações desfalecidos. Envia teu Santo Espírito e aquece nossa frieza. Dá-nos teu poder para animar, curar e cuidar. Por Jesus, nosso Senhor, te pedimos. Amém. Oração final (Martim Lutero): C: Tu és um Deus maravilhoso, cheio de amor. Tu nos governas maravilhosa e amigavelmente. Tu nos levantas, quando nos rebaixas. Tu nos tornas justos, quando de nós fazes pecadores. Tu nos levas ao céu, quando nos atiras no inferno. Tu nos dás a vitória, quando permites que sejamos vencidos. Tu nos consolas, quando nos deixas enlutados. Tu nos fazes alegres, quando nos deixas gritar. Tu nos fazes cantar, quando nos deixas chorar. Tu nos fortaleces, quando sofremos. Tu nos tornas sábios, quando de nós fazes tolos. Tu nos tornas ricos, quando nos envias a pobreza. Tu de nós fazes senhores, quando nos deixas servir.

Bibliografia BROWN, Raymond Edward. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.

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CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: volume 1: Mateus, Marcos. São Paulo: Hagnos, 2002. SIEGLE, Manfredo. Auxílio Homilético Proclamar Libertação XXXIII. Disponível em: http://www.luteranos.com.br/conteudo/marcos-6-1-13. Acesso em 03.06.2014.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 1.3-14

7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

AMÓS 7.7-15 MARCOS 6.14-29

12 JUL 2015

Klaus A. Stange

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Introdução

Talvez você já tenha tido a oportunidade de visitar uma casa em construção. Enquanto você anda pelos recintos da construção, cuidando para não tropeçar sobre algum saco de cimento ou para não se machucar com o entulho no caminho, o dono da casa mostra-te, entusiasmado, os detalhes da casa: a sala de estar que terá um canto de aconchego e lazer, a cozinha, os quartos... Ainda que a construção esteja em estado bruto, ainda que falte todo o acabamento, o dono da casa em construção já vislumbra a sua moradia quando ficar pronta: tudo é apenas uma questão de tempo. De modo semelhante, Paulo está explicando o grande projeto de “construção” de Deus, o projeto de edificação de Deus com sua comunidade. Paulo não se importa com a aparência bruta de muitas comunidades de fé. Ele sabe que por trás de pequenas e frágeis comunidades está o imensurável amor de Deus Pai. Através de Jesus Cristo, Deus chamou pessoas para junto de si. E, antes mesmo de podermos reagir e responder ao amor de Deus, Deus já se comprometeu com seu plano de eleição. Sobre esse fundamento (invisível) a fé permanece inabalável. O plano de “construção” de Deus é muito maior e abrangente do que podemos imaginar. Antes mesmo de o mundo ser criado, Deus fez uma opção preferencial pelo ser humano, por nós. Agora, os olhos de Deus estão voltados para o futuro, para o término da construção: Deus deseja alcançar um propósito com os seus eleitos. Nós somos o “material” que Deus, o supremo arquiteto e consumador de todas as coisas, quer usar para alcançar seus propósitos há muito tempo já determinados.

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Observações exegéticas

A Epístola aos Efésios inicia com uma expressão de louvor e adoração. Deus abençoou-nos com todas as bênçãos espirituais! O autor da carta está profundamente impactado com o que Deus está fazendo. Com entusiasmo ele nos mostra a “construção” de Deus. Ele passa a descrever o agir de Deus como que num fôlego só; quase não tem tempo para “respirar”. No texto em estudo, há uma clara estrutura de três partes. Essa estrutura pode ser observada na maioria das traduções em português, pois elas preservaram os parágrafos que se encontram no Novo Testamento grego de Nestle & Aland. Há uma clara referência trinitária no texto: a) O Pai que elege (v. 3-6). É importante observar no texto que Deus Pai é a fonte ou a origem de todas as bênçãos. Atente ao fato de o Pai ser o sujeito de

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praticamente todos os verbos principais que aparecem no texto. É ele quem nos tem abençoado (v. 3), quem nos escolheu (v. 4) e nos predestinou... para adoção de filhos (v. 5), quem nos concedeu gratuitamente sua graça (literalmente, “nos agraciou com sua graça” – v. 6) e derramou abundantemente sua graça sobre nós (v. 8). É Deus Pai quem nos revelou o mistério de sua vontade (v. 9-10) e faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade (v. 11). Toda a perícope está repleta de referências a Deus Pai como aquele que nos deu o seu amor e derramou a sua graça sobre nós e que está desenvolvendo o seu plano eterno. b) O Filho que redime (v. 7-12). Se Deus é o sujeito, a esfera na qual as bênçãos de Deus são outorgadas e recebidas é a esfera do Filho, do Senhor Jesus Cristo. Nada menos do que quinze vezes o texto faz referência a Jesus Cristo, seja citando o nome ou o título (Cristo, Cristo Jesus, o Senhor Jesus Cristo, o Amado), ou pronomes (ele, dele). A expressão em Cristo ou nele ocorre onze vezes. Essas observações estatísticas têm consequências para a pregação: percebe-se que todas as boas dádivas de Deus condensam-se na pessoa de Jesus Cristo. Há um novo princípio de solidariedade humana aqui: se anteriormente estávamos em Adão (pertencendo à antiga humanidade caída), agora estamos em Cristo (pertencendo à nova humanidade redimida); é em Cristo que Deus nos abençoou no tempo e nos escolheu na eternidade; é no amado que nos concedeu a sua graça, de modo que nele temos e recebemos perdão; é nele que fomos selados como pertencentes a Deus; foi em Cristo que Deus desvendou o seu plano para unir todas as coisas nele! Anteriormente, nós estávamos sem Cristo e, portanto, sem esperança e sem Deus (2.12). Mas agora, em Cristo, fomos cobertos de bênçãos. c) O Espírito Santo que sela (v. 13-14). Embora o Espírito Santo seja mencionado explicitamente apenas nos v. 13-14, sua atividade é pressuposta em todo o texto. O destaque que é dado reside no fato de a bênção que Deus nos dá em Cristo é espiritual. Penso que aqui há um contraste intencional com os dias do Antigo Testamento, quando as bênçãos prometidas por Deus eram, em grande medida, materiais. Dt 28.1-14, por exemplo, fala da bênção de filhos, boas colheitas, abundância de gado e ovelhas etc. É verdade que Jesus também fala de bênçãos materiais que são dadas a seus discípulos. Por isso proibiu seus discípulos de viver ansiosos quanto ao que comer e vestir, pois assegurou que o Pai supriria todas as necessidades básicas se colocassem em primeiro lugar os interesses do reino. No entanto, as bênçãos da nova aliança traduzem-se em primeiro lugar como bênçãos espirituais, não materiais. Trata-se, por exemplo, da lei de Deus que é inscrita em nossos corações pelo agir do Espírito Santo (Jr 31.3134), da possibilidade de um relacionamento pessoal com Deus (Rm 8), da dádiva do perdão dos pecados. Também esse aspecto tem profundas implicações para a prédica, haja vista que vivemos num contexto onde se procuram (e também se oferecem) essencialmente bênçãos materiais. Toda bênção do Espírito Santo nos é dada pelo Pai, se estamos no Filho (Cl 2.9-10). A perícope em estudo menciona alguns temas complexos, como o tema da Trindade, o tema da eleição/predestinação. Penso ser fundamental para a correta interpretação desses temas que o pregador tenha clareza do gênero literário da perícope. É evidente que em seu sentido lato a perícope pertence ao gênero literário

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de uma carta. No entanto, em seu sentido mais estrito, a perícope adquire uma linguagem litúrgica, de confissão de fé em atitude de adoração. Note que o texto posterior à perícope é uma oração! Portanto o ensino a respeito da doutrina da predestinação, por exemplo, não deveria ser dissociado de uma postura de louvor e adoração. É nessa moldura que o tema é desenvolvido. Seu propósito é gerar fé, confiança e certeza para a comunidade. Para quem deseja aprofundar o tema da predestinação, remeto ao texto de Claus Schwambach, indicado na bibliografia.

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Meditação rumo à prédica

O texto inicia com uma doxologia: “Bendito seja Deus!”. Toda a perícope destaca o agir de Deus em Jesus Cristo. A partir do texto, somos convidados a desprender o nosso olhar da “realidade” que nos cerca para ver o que Deus está fazendo. Fato é que, no contexto em que vivemos, nossos sentidos são cativados e disputados por milhares de impulsos. A mídia bombardeia-nos com seus apelos para o consumo. Em meio a tanto brilho e fascinação, será que ainda conseguimos ver a vida na perspectiva divina? Penso que, quando o horizonte do agir de Deus é apagado da consciência da comunidade cristã, resta apenas alienação. No entanto, a palavra nos convida a ver o que o autor da Epístola aos Efésios vê, a ouvir o cântico de alegria e esperança. Temos que perguntar: o que o autor do texto vê e ouve para que se encha de júbilo e alegria? Resposta: Deus, em Cristo, abençoou-nos com todas as bênçãos espirituais. Nós somos uma comunidade abençoada! Portanto a razão do louvor e da adoração é que Deus, em Cristo, abençoou-nos de maneira inesperada e imerecida. Aqui reside o evangelho, a graça de Deus. Mas o texto vai além. Não encontramos apenas um convite para nos alegrarmos com as bênçãos espirituais. Encontramos também no texto respostas para o conteúdo da bênção. Em que consistem as bênçãos espirituais? Como é que essas bênçãos se tornam concretas e visíveis na vida da comunidade? Como podemos experimentar essas bênçãos? A perícope permite-nos sintetizar cinco respostas (para aqueles que desejarem ampliar o estudo sobre o significado de bênção na Bíblia, sugiro a leitura de Heinzpeter Hempelmann e Estefânia Lemke Porath, indicados na bibliografia): 1) Em Jesus Cristo, Deus nos escolheu (v. 4-6). Essa constatação conduz-nos à admiração, ao louvor e à adoração! Nossa vida não é fruto do acaso, mas está envolvida pelos planos de Deus que alcançam a eternidade. Em Cristo, Deus escolheu, fez uma opção preferencial pela humanidade. Ele opta por nós porque nos ama. Através da eleição da humanidade por Deus, abre-se para todos, sem exceção, o âmbito da graça e da salvação. Deus sempre nos amou! Na medida em que o Filho de Deus torna-se humano, a humanidade é aceita por Deus. Na medida em que o Filho de Deus vive uma vida justa e santa diante de Deus, é colocado o fundamento (por Jesus Cristo) para que nós possamos ser justos e santos diante de Deus. Na medida em que o Filho de Deus continua sendo o Filho de Deus (ressurreto), se abre para nós a perspectiva de sermos filhos de Deus. Ao confiarmos na obra de Jesus em fé, ao sermos batizados no nome de Jesus, ao nos aproximarmos da mesa da comunhão do Senhor, ao vivermos uma vida de obedi-

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ência e gratidão, participamos da filiação. Note que a nossa eleição acontece em (através de) Jesus. Por Jesus somente, não ao lado de Jesus, nem sem Jesus, nem por nós: solus Christus! 2) Em Jesus Cristo fomos reconciliados com Deus (v. 7-8). Quem se rebelou contra Deus não é capaz de interceder pela rebelião de outros. Quem está escravizado não pode libertar outros que estão escravizados. Quem é devedor não pode pagar a dívida de outros devedores. Quem é pecador não pode carregar o pecado de outros. Essa é a situação da humanidade diante de Deus. Nós estamos diante de Deus como aqueles que se rebelaram, como os escravizados pelo pecado, como devedores e pecadores. E ninguém pode ajudar-nos porque todos estamos debaixo da mesma sentença de condenação e juízo. Ninguém pode ajudar-nos. Só Deus! Aqui reside o mistério que gera espanto, alegria e esperança: Deus interveio em nosso favor. Deus abençoa-nos e concede-nos, em Cristo, o que nos falta e o que não podemos providenciar por esforço próprio. Perdão dos pecados, libertação, redenção: essas são verdadeiramente bênçãos espirituais. 3) Em Jesus Cristo Deus revela a nós seu plano de salvação (v. 9-10). Deus não deixa a humanidade na incerteza a respeito de seus propósitos. Ele deixa ressoar por toda a terra seu convite, sua intenção, seu propósito. Ele deseja que todos sejam salvos. Deus ama o mundo (kosmos). Ele concede, sem restrições, redenção da culpa e perdão dos pecados a todos os que lhe pedem. Aquele que tem a sua vida arrebentada pode experimentar restauração; o que vive na angústia encontra a paz; o que passa pela morte experimenta a vida; o que está escravizado é liberto. Isso vale tanto para o ser humano na sua individualidade como para as estruturas e conjunturas deste mundo. Tudo é conduzido à paz, à salubridade (salvação) debaixo do senhorio de Jesus Cristo. 4) Em Jesus Cristo Deus nos torna herdeiros (v.11-12). Fomos escolhidos, feitos herdeiros. Na medida em que confiamos na obra de Jesus Cristo, somos herdeiros. Em Cristo, por Cristo e com Cristo nós somos herdeiros. Nós, que éramos rebeldes, pecadores, filhos pródigos, que desperdiçamos a herança recebida do Pai: nós somos herdeiros. Essa é a bênção que Deus, em Cristo, estende àqueles que se deixam presentear. 5) Em Jesus Cristo somos selados com o Espírito Santo (v. 13-14). Certamente a vida do cristão é marcada por tentações e provações. Quantas vezes sentimo-nos inseguros ao olhar para nós mesmos e constatar a nossa infidelidade para com Deus. Perguntamo-nos se seremos capazes de perseverar até o fim. Diante das incertezas, o texto termina dando-nos uma palavra de conforto: aquele que foi escolhido, reconciliado, feito herdeiro, esse é selado com o Espírito Santo. O que significa ser selado? A imagem remete ao selo colocado pelo imperador romano sobre documentos, garantindo que aquele documento não era uma falsificação. Esse selo não podia ser violado. Em outras palavras nos é dito: nós permanecemos bem guardados e protegidos nas boas mãos de Deus. Seu selo marca a nossa vida. O Espírito Santo habita em nós. Ele nos convence da verdade do evangelho. Das mãos de Deus ninguém pode arrancar-nos (Jo 10.28).

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O texto termina com uma nova expressão de louvor: o apelo da prédica poderia ser: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais.

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Imagens para a prédica

Conta a tradição que Corrie ten Boom, a filha do relojoeiro holandês que escondeu judeus em sua residência na época do nazismo (confira o livro e filme “Refúgio Secreto”), perguntou ao pai: “Pai, como posso saber que serei corajosa o suficiente para enfrentar dias difíceis?” O pai retrucou com uma nova pergunta: “Quando você vai viajar de trem, quando o pai te dá a passagem?” “Um pouco antes de embarcar”, respondeu Corrie. Diante de incertezas que podem nos assolar, lembremos que o Pai celeste, no momento e tempo certo, nos dará a coragem de que necessitamos para atravessar vales escuros. Dietrich Bonhoeffer esteve nos Estados Unidos da América nos anos de 1930-1931 para uma temporada de estudos. Com grande expectativa havia viajado para lá. Mas, após poucas semanas vivendo em Nova Iorque, ele escreve uma carta descrevendo a vida religiosa na América com as seguintes palavras: “Em Nova Iorque é possível ouvir prédicas sobre praticamente qualquer assunto, com exceção de um – tão raro, que não tive oportunidade de ouvir uma só: uma prédica sobre o Evangelho de Jesus Cristo, sobre a cruz, sobre o pecado e o perdão, sobre vida e morte”. Quando mais tarde voltou para a Alemanha, teve que constatar que a mesma realidade se fazia presente em seu país. O missionário indiano Sadhu Sundar Singh (1889-1929) fez a seguinte comparação: O carvão continua preto, mesmo se o lavarmos. Ele se parece com madeira contorcida. Quem segura o carvão em suas mãos suja as mãos. Mas quando o carvão é colocado no fogo, ele muda a sua cor. Ele se torna vermelho, em brasa, difunde energia e calor. Assim acontece com o ser humano que se deixa envolver com Jesus Cristo.

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Subsídios litúrgicos

Hinos

HPD I – 157 – Por sua paternal bondade (preste atenção na letra do hino) HPD I – 187 – Jesus Cristo reina em glória (baseado em Ef 2.21-22)

Bibliografia HEMPELMANN, Heinzpeter. “Tu serás uma bênção”: a marca indelével da cruz que perpassa a bênção. In: Vox Scripturae. São Bento do Sul: União Cristã, 2006. v. XIV, n. 2, p. 9-24. PORATH, Estefânia Lemke. Bênção em Jó e suas implicações para a vida cristã. In: Vox Scripturae. São Bento do Sul: União Cristã, 2013. v. XXI, n. 2, p. 8-48.

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SCWAMBACH, Claus. Evangelização no horizonte da vontade cativa: desafios da antropologia da reforma protestante. In: Vox Scripturae. São Bento do Sul: União Cristã, 2008. v. XVI, n. 2, p. 38-123. Os textos podem ser solicitados em formato digital no endereço: cursos@flt.edu.br.

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PRÉDICA: MARCOS 6.30-34,53-56

8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 19 JUL 2015

JEREMIAS 23.1-6 EFÉSIOS 2.11-22

Teobaldo Witter

Aprender a cuidar: comunhão de pastor e ovelhas

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Introdução

No Brasil, em torno de 1980, um terço da população, ou seja, 40 milhões de pessoas, estava em mudança. Era aquela de mudar do campo para a cidade, do Sul para o Norte ou Centro-Oeste, do Nordeste para o Sudeste. Foram principalmente assuntos econômicos e sociais que provocaram aquela correria pelas estradas brasileiras. Apesar de me sentir motivado, não vou fazer uma análise dos impactos ambientais, incluindo as humanas, dessa correria toda. Certamente você pode sentir e refletir sobre e a partir dos significados dessas mudanças brasileiras para a vida. E é isso que encontro nas leituras bíblicas para hoje. Sim, elas falam de mudanças. E dedico o meu texto àquelas pessoas que já mudaram muito e viram que pouco mudou. Mas também àquelas que não mudaram e acham que mudar é bobagem. E àquelas que sempre mudam, mas nunca dá certo. E àquelas que já mudaram e agora deu certo e não querem mudar mais. Pois mudar é necessário, mesmo que nem sempre dê certo. Então vamos pensar sobre mudanças a partir da Palavra do Senhor. Você gosta de mudanças? Nem toda mudança é boa. Tem mudança que prejudica. Isso certamente a gente percebe em nossa vida, na família, na igreja, na sociedade.

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Exegese

Existem sintonias entre os textos das leituras e o da pregação indicados para o 8º Domingo após Pentecostes. O ensino, a prática e o compromisso são fios que os ligam. Apontam problemas de relacionamentos humanos e divinos. Articulam mudanças na vida real das multidões, do povo de Israel e dos gentios. O ensino da Palavra, a postura e a ação de Jesus são fundamentais nas mudanças que provocam nova vida, nova mentalidade, novos relacionamentos e novos cuidados mútuos, comuns e em conjunto, tal qual nos ensina Martim Lutero em suas mensagens a respeito do sacerdócio geral de todas as pessoas crentes. Penso que em relação ao tema do sacerdócio, muito falado, mas pouco vivido entre nós, são necessárias algumas mudanças.

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Mudança é uma das tônicas muito fortes que perpassa os textos. Vejamos. Jeremias denuncia que há pastores que destroem e dispersam as ovelhas. Isso deve mudar. Deus vai afugentar esses pastores e vai recolher, reunir e cuidar das ovelhas. Que mudança profunda! Marcos relata que os apóstolos vêm à presença de Jesus e relatam sobre os acontecimentos de suas viagens. Já fizeram muito, e Jesus tem compaixão deles e convida-os para o descanso, em clausura, num lugar deserto. Mas quando Jesus vê a multidão que os acompanha, “como ovelhas que não têm pastor”, ele muda a agenda e atende aquela gente amada. E que mudança Jesus faz em sua agenda! No pastoreio de Jesus, a multidão entusiasma-se e tira os doentes de casa e leva-os à praça (Mc 6.56). Que mudança de postura em relação aos doentes que ficavam escondidos nas casas! O texto de Efésios fala de mudanças. O povo rebelde, raivoso, inimigo de Deus, separado por um abismo, foi reconciliado pela cruz de Jesus Cristo. Deus fez de tijolos dispersos um edifício bem ajustado sobre a pedra angular, que é Cristo Jesus. Que mudança profunda! Em relação ao texto de Marcos 6.30-34,53-56, lembro que há um auxílio homilético no Proclamar Libertação, volume 33, p. 270-274, que foi escrito por Valdemar Lückemeyer. Em seguida, as reflexões sobre o texto de pregação. V. 30 – O texto inicia informando sobre a volta dos apóstolos. Eles haviam sido enviados por Jesus para a missão, de dois em dois, sem levar garantias materiais (v. 7), para ensinar e agir, manifestando as obras do Senhor. Neste versículo 30, não fala o que os apóstolos fizeram. Informa apenas que eles relataram a Jesus tudo quanto ensinaram e fizeram. Por certo o texto introduz o assunto que segue, ou seja, “mudar a agenda para ensinar e agir”. V. 31-33 – Jesus entende o reclame dos apóstolos. Afinal, eles atenderam bem ao chamado e envio. Importante saber que eles haviam sido enviados sem segurança humana e sem reservas de comida, roupa ou dinheiro (v. 8). E o ensino levou ao arrependimento, à diaconia e à unção com óleo (v. 12 e 13). Por certo, quando os discípulos voltam e relatam, não escondem o cansaço. Além disso, muito se falou na região sobre Jesus e seus apóstolos. E a multidão ia e vinha a seu encontro, sem rodeios. O contexto vivencial é de muita correria. E Jesus tem compaixão dos seus. Convida-os para um tempo de oração e reflexão no deserto. Esse foi o planejamento estratégico. A viagem inicia e corre tranquila para um lugar solitário. Nesse barco, por certo, os apóstolos respiraram aliviados. É momento de “enlevo espiritual”. Acontece a edificação individual na presença e no companheirismo de Jesus. O deserto é mencionado várias vezes por Marcos. Já no primeiro capítulo, o deserto é citado seis vezes (3, 4 , 12, 13, 35 e 45). A esse respeito Lückemeyer escreve: “Tudo passa pelo deserto. Também ali onde aparentemente não há nada, onde nem mesmo há um caminho, Deus alimenta os seus e os guia, indicando-lhes o caminho a seguir” (p. 271). Enquanto a comunidade dos discípulos está no barco, “muitos” de todas as cidades estão caminhando e correndo, a pé, ao encontro de Jesus e seus apóstolos. Essas pessoas “desconfiaram” que poderiam encontrá-lo no deserto. E para lá foram, chegando antes do barco dos apóstolos.

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V. 34 – Quando o barco chegou, e Jesus desembarcou com sua comunidade no deserto (v. 35), a multidão já estava lá. Jesus, que se havia preparado para a clausura dos apóstolos, viu uma grande multidão. Ele teve compaixão dela. A compaixão de Jesus é fundamental para o rumo, o caminho de seu ensino e suas ações. Movido pela dor da multidão que lhe toca nas entranhas, em suas emoções e sensibilidades, Jesus reflete, usa a prática reflexiva e toma a decisão consciente de atender a multidão. Isso inicialmente não estava no programa. Mas Jesus mudou a agenda de sua igreja em face do clamor do povo, como foi também no êxodo, quando Deus disse: “Eu ouvi a aflição do meu povo ( Êx 3.7). Lembrou-se de sua aliança [...] e atentou para a sua condição” (Êx 2.24-25). Tanto no Egito como na própria história de Israel, em vários momentos há misérias, clamores, reclames, porque as autoridades não cuidam da vida digna do povo. Ezequiel 34 e Zacarias 10 relatam os planos de Deus em destituir lideranças porque o povo está como ovelhas sem pastor. Conforme Jeremias 23.1-4, Deus condena os maus pastores. Denuncia que há pastores que destroem e dispersam as ovelhas. Isso deve mudar. Deus vai afugentar esses pastores e vai recolher, ele mesmo, reunir e cuidar das ovelhas de seu rebanho. É o que Jesus faz aqui em Marcos. Jesus resume a clausura à viagem “tranquila no barco” e desiste dela quando se encontra com a multidão. E “passou a ensinar-lhes muitas coisas”. Não fala expressamente do conteúdo do ensino de Jesus. Por certo o reino de Deus é o tema central do ensino. Observando as leituras, temos elementos importantes de ensino a respeito dos pastores, das lideranças políticas que deveriam cuidar melhor das ovelhas. Sobre como Deus faz para reconciliar a humanidade consigo, confira Efésios 2.11-22. Ali se diz o que ele faz para que todos se tornem da família de Deus, concidadãos dos santos, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular (Ef 2.19ss). Sobre Jesus, o bom pastor que dá a sua vida pelas ovelhas, veja-se João 11.11; sobre Jesus, o pão da vida, João 6. 22ss. No texto de Marcos 6, depois do ensino, Jesus realiza três gestos, enfrentando e resolvendo três problemas reais da vida da multidão: a fome (v. 35-44), o medo (v. 45-52) e a doença (v. 53-56). Nós, em nossas análises de conjuntura, já sabemos, de certa forma, identificar esses problemas. Mas ainda temos algumas dificuldades em enfrentá-los. Por quê? V. 53-54 – O texto de Marcos 6.30-56 é uma continuidade em que encontramos Jesus com uma multidão, reunindo, ensinando, alimentando famintos (v.35-44), encorajando medrosos (v.45-52) e curando doentes (v. 53-56). A opção para o 8º Domingo após Pentecostes é o texto dos v. 53-56. Jesus aportou em terra no outro lado, em Genesaré, com os seus. Eles atravessaram e foram para o outro lado. Jesus é logo reconhecido pelo povo. V. 55-56 – Em sua peregrinação pela região de Genesaré, Jesus encontra muitas pessoas doentes. Os doentes foram tirados de seus barracos, de suas casas, de suas aldeias, cidades ou campos e levados ao encontro de Jesus. O lugar dos encontros de Jesus com os enfermos não é no barco, na sinagoga ou nas casas, mas nas praças. Bastava um gesto de Jesus. A proximidade de

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Jesus muda as condições de vida da multidão. Ele transforma, tirando da ignorância e da indiferença e criando condições para que a vida e a salvação de todas as pessoas sejam possíveis. Em Jesus o reino de Deus já chegou.

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Meditação

O convite que Jesus faz aos apóstolos para ir a “um lugar deserto para repousar” é convite também para ministros e ministras de hoje, bem como para as lideranças das comunidades, como o presbitério, as diretorias, os coordenadores e as coordenadoras de diferentes ações da igreja de Jesus. Ele cuida bem “dos pastores e das pastoras” de seu próprio rebanho. O “ativismo” afobado não ajuda as lideranças nem o rebanho. Nós também somos ovelhas do rebanho de Jesus, que precisamos de cuidado e atenção. O barco é um lugar importante para edificar a vida de fé e comunhão. Ali estamos sendo alimentados para a vida e para ajudar no cuidado das ovelhas do Senhor. Quando parecia que os dias se resumiriam ao encontro dos apóstolos com Jesus em um lugar solitário, acontece mudança. No outro lado, Jesus encontra a multidão aflita, como ovelhas sem pastor. E mudam os procedimentos, envolvendo os apóstolos no ensino e na prática das boas ações que se seguem. A mudança no texto é rápida. Já me perguntei: Jesus já tem conhecimento sobre a vida das multidões? Ele já tem informações suficientes para falar ao coração dessa amada gente? Por certo, sim, pois o encontro prolonga-se até altas horas. O povo não toma a iniciativa de ir para casa (v. 35), e os discípulos já estão preocupados com o horário. Significa que há sintonia e conhecimento mútuo entre Jesus e a multidão. Essa é uma das causas da mudança radical da agenda proposta por Jesus. Aqui no Mato Grosso, entre nós, o ativismo é um problema não resolvido. As reuniões dos conselhos paroquiais resumem-se aos assuntos administrativos, resolvidos em poucas horas. Os presbitérios têm muitos assuntos da agenda comunitária para resolver. As lideranças e coordenações de grupos de ações comunitárias encontram pouco tempo para se encontrar. Quando se encontram, apenas distribuem as tarefas, e cada pessoa vai para seu viver diário. Ministros e ministras têm suas agendas cheias. Nesse aspecto, precisamos pensar em mudar as nossas agendas. Em relação às multidões que aqui se encontram, penso que podemos mudar nossas agendas. Jesus e os apóstolos não pregaram no vazio. Primeiramente ele amava as multidões. Jesus tinha compaixão por elas. Ele amava. Foi por amor que ele veio salvar o mundo (Jo 3.16). Ele tem uma relação afetiva com as multidões. Por isso ele pode falar ao coração delas. Pode mudar os projetos de vida das pessoas. Pode oferecer vida feliz às ovelhas sem pastor, sem rumo. Ele é o caminho do amor. Apesar de que as multidões, em muitos momentos, são ingratas, Jesus continua amando-as. Seu amor incondicional é cativante e converte pessoas. Nossa igreja e nossas lideranças amam as multidões da cidade e dos campos? No segundo foco, Jesus sabia do que se tratava e como viviam as multidões. Naquele momento, ele tinha o governo da situação. Sabia o que as multidões

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esperavam. Quem eram aquelas pessoas. Essa análise dele não é só de momento, mas é consequência de muitas experiências, conversas, diálogos, encontros. Marcos já o anunciou no início do livro (1.15): “O tempo está cumprido (análise de conjuntura de Jesus), o reino de Deus está próximo (o projeto de Jesus), arrependei-vos (proposta de mudança de vida de Jesus) e crede no evangelho” (proposta de compromisso de vida feliz de Jesus). Portanto Jesus conhecia muito bem as multidões e tinha compromissos com elas. Nossa igreja e nossas lideranças conhecem as cidades e os campos e têm compromissos com as multidões? O texto tem dois focos: ensinar e fazer um gesto concreto. Ensinar é preciso, como já refletimos acima. Em nossa igreja, muita gente ensina. Multidões reúnem-se semanalmente para ouvir a Palavra. Nisso estamos no caminho de Jesus. No mundo secular, também se fala que ensinar e educar são a solução para muitas questões. Além de pastor, sou professor. Vejo que o nosso ensino não provoca mudanças almejadas. Nosso ensino dificilmente muda as mentes e os corações das pessoas, também na igreja. Onde está o problema? Nós amamos e conhecemos sonhos e esperança por vida feliz das “multidões” que nos são confiadas por Deus? Quanto ao gesto concreto nesse texto da pregação prevista para hoje, Marcos informa a respeito das ações de Jesus em Genesaré no outro lado. Todos saem do barco. As multidões vêm a seu encontro para curar males do corpo. Jesus, o bom pastor, tem o cheiro das ovelhas. Ele se mistura às multidões e se deixa tocar pelas pessoas doentes e machucadas. Nossa igreja, nossas lideranças, identificam Jesus em meio às ovelhas e as atraem pelo cheiro de ovelha que elas exalam? Você tem cheiro de ovelha?

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Imagens para a prédica

4.1 – No ensino e na ação missionária da igreja (Distribuir um cartão evangelístico com endereço e programa de cultos. O gesto tem o significado do ensino na igreja.) Em 1994, o educador Paulo Freire esteve em Cuiabá (MT). Participou de alguns debates em Faculdades particulares e na Universidade Federal. O conteúdo central daquele dia era educação libertadora e transformadora. As pessoas gostaram muito do seu trabalho. Depois de um dia de trabalhos intensos, algumas pessoas acompanharam-no ao pátio para conduzi-lo ao alojamento. No caminho, ele perguntou: “Quantas pessoas vivem aqui nesse bairro e o que elas pensam da universidade?” Um longo silêncio seguiu-se. A coordenadora do Curso de Pedagogia disse: “Eu não sei responder nenhuma das duas perguntas”. Paulo comentou depois de mais um silêncio: “Isso para mim também é um grande problema. Falo que a educação muda as pessoas, mas nem sei quem são elas e o que esperam de mim. E se não as conheço, não sei amá-las”. Assim, a educação não funciona. “Ninguém ama aquilo que não conhece” (Agostinho de Hipona). E Jesus diz: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem a mim” (Jo 10.14). A nossa igreja e nossas lideranças amam e conhe-

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cem as multidões que, muitas vezes, são como ovelhas sem pastor? Nós somos conhecidos por elas? 4.2 – Gesto concreto: Relação afetiva e racional Jesus, vendo a multidão, tem compaixão. (Distribuir uma castanha do Pará ou outro alimento similar para comer. O gesto tem o significado diaconal na igreja.) O termo compaixão significa “comover-se nas entranhas”. É aquela situação extrema em que o “estômago embrulha, provoca dor nos intestinos, vem o nó na garganta, estremece nas bases”. Assim Jesus se sente quando se encontra com aquela multidão no deserto à sua procura. A relação afetiva de Jesus com a multidão vem acompanhada de uma profunda reflexão. A multidão é composta de ovelhas sem pastor. A expressão “ovelhas sem pastor” tem conotação política, ou seja, “pastor significa autoridade ou liderança política” (Gameleira). Jesus faz ali uma análise de conjuntura do que leva as pessoas àquela situação miserável de desconhecimento de Deus e da sociedade, com fome, com medo e doente. Jesus não faz papel de afobado, de emocionado e irracional, que resolve atender de qualquer jeito. Mas sua racionalidade fá-lo mudar a agenda. Movido pela dor da multidão que lhe toca nas entranhas, no coração, em suas emoções e sensibilidades, Jesus reflete, usa a prática reflexiva e toma a decisão consciente de atender a multidão. Primeiramente, ele ensina muitas coisas. Depois, percorre aldeias, cidades e campos, com discípulos, quando se encontra com famintos, medrosos, doentes, sempre realizando gestos concretos de apoio e solidariedade.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor. (Sl 122.1) Convite à confissão de pecados: Se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e purificar de toda a injustiça. (1Jo 1.9) Anúncio da graça: Deus perdoa todos os teus pecados, sara todas as tuas feridas, [...] e te coroa de graça e de misericórdia. (Sl 103.3-4b) Kyrie:

Jesus diz: No mundo passais por aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. (Jo 16.33b) Glória: Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. (Sl 118.1)

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Leituras: Felizes os que ouvem a Palavra do Senhor/ Felizes os que buscam a justiça e o amor. (cf. Mateus 5.1-17) Confissão de fé: Estejam sempre prontos para responder a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós. (1Pe 3.15b) Oferta: Felizes os que são misericordiosos. (Mt 5.7a) Oração: Jesus diz: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. (Lc 11.9) Envio: Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz: O teu Deus reina. (Is 52.7)

Bibliografia LÜCKEMEYER, Valdemar. 7º Domingo após Pentecostes. In: SOUZA, Mauro Batista de. Proclamar Libertação 33. São Leopoldo: Sinodal, 2008. p. 270-274. SOARES, Sebastião A. Gameleira. Evangelho de Marcos. Petrópolis: Vozes, 2002. v. 1.

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PRÉDICA: 2 REIS 4.42-44

9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 26 JUL 2015

JOÃO 6.1-21 EFÉSIOS 3.14-21

Eloir Enio Weber

Pão para quem tem fome

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Introdução

Transcrevo um poema de Maria Eduarda Gallo, aluna do 6º ano do Colégio Estadual Dom Pedro I, de Pitanga (PR). Esse poema foi classificado em primeiro lugar no 1º Concurso Literário “A arte de contar e poetizar o pão”, promovido em 2013 pela Secretaria Estadual de Ensino do Paraná. O pão... que delícia! O pão... que delícia! Pão francês, pão caseiro, De onde vem tanta delicadeza? É claro que vem da natureza. Quando acordo de manhã, O cheiro doce do pão amanteigado É a única coisa que me faz sair Do meu colchão sossegado. Mamãe está na cozinha. Corro para ela e lhe dou um beijo. O blaf, blaf da massa é do pão fresquinho. Oba! Hoje tem pão de queijo! O pão é sagrado mesmo, É corpo de Jesus na comunhão; Sendo assim o mais amado, Alimenta a alma e o coração. Há quem despreze o pão seco E muitas vezes é até jogado. Que pena, poderia ser moído E assim muito bem aproveitado.

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Não é fácil ter o pão de cada dia. Alguns não dão o devido valor E sem pensar jogam fora, Sem ao menos ter temor. Na casa do rico ou do pobre, Se tem pão a fome não vem. Ele é igualmente consumido, Não importa o dinheiro que se tem. A fome e a partilha do pão – esse é o tema que se apresenta para nós. Especialmente entre o texto do evangelho e o texto de pregação há uma aproximação temática. Em ambos os textos, pessoas têm sua fome saciada pela capacidade de repartir e compartilhar. O tema, assim, coloca-nos um compromisso com os mais necessitados e excluídos em nosso meio, para que, a partir da generosidade, recebam o alimento necessário.

2

Exegese

2.1 – Contexto histórico de 2 Reis O livro de 2 Reis narra, em sua maior parte, o processo de declínio e queda do reinado do norte (Israel) e do reinado do sul (Judá), começando por sua liderança política e alcançando o povo. De forma geral, o livro ilustra que os líderes não conseguem promover o bem-estar do povo porque abandonaram a causa maior de Deus em prol de interesses próprios. Registra os últimos dias do reino dividido (Israel e Judá), antes que suas populações sejam levadas para cativeiro. Trata-se de uma história de fracassos, na qual Deus encontra dificuldade para suscitar líderes de caráter, competência e compaixão pelo povo. A consequência disso é um povo que segue os líderes e espelha-se em suas atitudes. O resultado desse processo é uma sociedade com muita exploração, pobreza, fome e miséria humana. 2.2 – O profeta Eliseu Eliseu surge a partir do contexto rural. Recebeu chamado e mentoria de Elias a fim de ser seu sucessor. Soube observar e absorver a sabedoria e obediência a Deus do seu mentor. Ambos lutaram contra o culto a Baal. A tarefa que perseguiram foi resgatar o povo da idolatria e levá-lo de volta a Deus. Eliseu destaca-se pela quantidade de milagres descritos na Bíblia. Esses milagres sempre estavam alinhados com os problemas sociais e os dramas vividos por pessoas em uma época de pobreza e exploração. O seu método missionário consistia em aproximar-se das pessoas em suas reais necessidades e demonstrar o amor, a graça e a misericórdia de Deus. Denunciou falsos profetas e foi

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incansável em não receber recompensa e vantagens financeiras e materiais por seu trabalho. 2.3 – O texto O texto de 2 Reis 4.42-44 traz um personagem que faz um ato de partilha, motivado por Eliseu. O texto não destaca nenhuma informação relevante sobre esse personagem. Possivelmente é um camponês. Ele não tem nome. É chamado de ‘iysh, termo hebraico para homem, pessoa, alguém. Ele vem de uma localidade chamada Baal-salisa. Sua localização exata é difícil de definir. Há estudos que defendem tratar-se de um lugarejo próximo a Gilgal, no território da tribo de Efraim, provavelmente na “terra de Salisa”, pela qual Saul passou quando procurava as jumentas de seu pai (1Sm 9.4). Eliseu é chamado no v. 42 de “homem de Deus”. A ele foi trazida a oferta dedicada a Deus, conforme a Lei das Primícias (Êx 23.19; Lv 2.12; Nm 15.21; Dt 18.4). Os primeiros frutos da colheita eram consagrados a Deus. Conforme a prescrição da lei (Lv 23.9-14), as primícias eram entregues aos sacerdotes. Que a oferta seja trazida a Eliseu, isso mostra a desconfiança que as pessoas tinham nos sacerdotes estabelecidos pela “religiosidade oficial” numa época de corrupção religiosa e política. Quando a religiosidade oficial perde a confiabilidade, o povo resolve à sua maneira a relação com a divindade, bem como a sua espiritualidade. O povo continua ritualizando a sua espiritualidade. A sua relação com Deus dá-se apesar do templo e fora dele. Nesse contexto, Eliseu era considerado verdadeiro representante da aliança do Senhor. A oferta do homem era de 20 pães de cevada e espigas verdes. Para uma realidade de fome e colheitas muito fracas, essa oferta representava um sacrifício importante de sua parte. A oferta era fruto da devoção do homem a Deus e, também, do seu respeito e confiança em Eliseu. Se fizermos uma comparação simples e direta com o texto de João 6.1-13, vamos perceber que cinco pães de cevada serviam de merenda para um menino. Talvez ninguém teria acusado o profeta se ele guardasse para si aquela doação. Mas Eliseu acreditava na divisão, na partilha. Ele não se considerava dono de uma oferta dedicada a Deus, que veio como doação pelas primícias, fruto da fé e do trabalho humano. Entendeu que aquilo deveria ser dividido, partilhado com quem estivesse necessitado. Eliseu, então, ordenou a seu servo: Dá ao povo para que coma (v. 42). “O povo” provavelmente designava os mesmos “discípulos dos profetas” que Eliseu alimentara no texto anterior (2Rs 4.38-41). O servo (certamente de nome Geasi) estava cético e descrente diante da quantidade de alimento disponível e o número de comensais: Como hei de eu pôr isto diante de cem homens? (v. 43a). A reação dele é natural e compreensível. Ela nos remete ao que os discípulos de Jesus disseram antes que ele alimentasse milhares de pessoas com alguns pães e peixes (Mt 14.17; Mc 6.37; Jo 6.8).

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O profeta Eliseu, sem argumentar, repete a ordem: Dá-o ao povo, para que coma (v. 43b). Além de repetir a ordem, ele acrescenta: … porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará (v. 43c). A afirmação de Eliseu dá-nos a dimensão da fé no ato de repartir e compartilhar. A doação não é feita porque é um gesto bonito e socialmente aceitável, mas porque é motivada pela espiritualidade e confiança em Deus. O fato de que sobraria alguma coisa depois de todos terem se alimentado significava não só que todos comeriam, mas que todos comeriam até estar satisfeitos. A multidão comeu, satisfez-se e houve sobras – conforme a palavra do Senhor (v. 44b). O texto não nos diz como o milagre foi realizado. Independentemente da forma como ele ocorreu, uma multidão foi alimentada a partir do gesto de fé de um homem cujo nome desconhecemos e da ação do profeta Eliseu em partilhar as dádivas das primícias da terra recebidas em ofertório. Assim, Deus demonstrou seu cuidado e proteção por aqueles que confiam nele. Ele o fez por meio da generosidade de Eliseu – um homem que não hesitou em partilhar o que tinha, fosse muito ou pouco.

3

Meditação

Pelo menos três aspectos do texto merecem, a meu ver, uma reflexão da nossa parte. a) A confiabilidade da igreja: Vivemos em um país evangélico. Éramos um país católico. Essa afirmação parece ser equivocada em um primeiro momento. Mas, ao olharmos para o comportamento religioso das grandes massas, não é uma afirmação de todo esdrúxula. Essa composição religiosa quebra um paradigma importante. A religiosidade ganha uma nova dinâmica. O poder deixa de estar em catedrais e passa a estar mais capilarizado em pequenas garagens, pontos de encontro. Apesar dos impérios evangélicos construídos nas últimas décadas, a tendência de momento são os pequenos movimentos religiosos. A partir dos clérigos emana uma forma diferente de poder. Antes esse poder estava representado na ordenação sacerdotal que seguia a sucessão apostólica, no poder que tem a sua base na palavra de Jesus a Pedro. Hoje esse poder, em muitos casos, mostra-se com roupagem muito mais divina, mas com aspirações muito mais humanas. O sacerdote roga para si mesmo o poder do sagrado. E, para legitimar sua autoridade, ele argumenta com o poder do Espírito Santo. Isso traz sérios riscos. Pois deixa a igreja exposta aos mais diferentes tipos de interesse. Na medida em que alguém cria uma igreja em uma garagem, necessariamente precisa “correr atrás” para, no mínimo, pagar o aluguel da peça alugada. E, como ninguém vive “do vento”, esse sacerdote vai precisar ganhar algo a mais para o seu sustento. Com isso, quanto mais “poder” ele conseguir demonstrar a seus fiéis, mais sucesso ele terá no empreendimento. Aliás, sucesso e empreendimento são palavras fortemente ligadas ao mundo empresarial e que, na atualidade, são largamente aplicadas na igreja. A “clientela” precisa ser disputada. E as ferramentas que cada qual tem para essa forte

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disputa é a detenção do Espírito Santo. Nessa disputa por espaço, poder e dinheiro, cometem-se absurdos em nome de Deus. Vende-se algo que não há como entregar. Esse fato cria um comportamento diferente nas pessoas em relação à igreja. Vivemos um período em que a credibilidade eclesiástica está em baixa. Verdadeiras multidões na busca por resposta para a sua vida desiludiram-se com a igreja e a abandonam. Para se proteger dos abusos, as pessoas preferem viver a sua espiritualidade sem igreja. Como IECLB, estamos inseridos neste mundo. Fazemos parte dele e nele precisamos proclamar a nossa fé, nosso jeito luterano de crer e confiar em Deus, nosso jeito de ser Igreja de Jesus Cristo. A pergunta que emana do texto é: como resgatar a credibilidade eclesiástica? No texto, a pessoa que trouxe a sua oferta das primícias procurou o profeta Eliseu (não o templo) para oferecer a sua oferta a Deus. A religiosidade do templo havia perdido a confiabilidade. Os templos de hoje também são vistos como locais de exploração. Fica este desafio: Como vamos resgatar a credibilidade eclesiástica? b) A sustentabilidade da igreja: Tudo bem, precisamos resgatar a confiabilidade eclesiástica. Mas como vamos nos sustentar? Se olharmos para a nossa realidade como IECLB, percebemos que uma boa parte das paróquias tem grandes dificuldades financeiras para a sua manutenção. A relação da fé com a sustentabilidade eclesiástica precisa ser trabalhada: fé, gratidão e compromisso. A doação desprendida, como resposta de gratidão a partir da fé, é um desafio para nós. Essa relação não se estabelece pela lei, mas pelo evangelho. No texto bíblico em questão, uma pessoa trouxe as primícias como gesto de fé. Vejo muitas mãos e corações abertos para doar como parte da fé. Elas perceberam que parte daquilo que Deus já lhes deu anteriormente precisa ser dedicado ao serviço do evangelho. Pelo que percebo, essa lição foi muito bem aprendida por pessoas de mais idade. As gerações mais novas perguntam sobre as vantagens que terão ao contribuir financeiramente para a igreja. Fica mais este desafio: Como vamos trabalhar a relação entre fé e dinheiro (bens materiais)? c) Diaconia como projeto de missão: O texto bíblico no gesto de partilha promovido por Eliseu trouxe a temática da missão da igreja e sua relação com a diaconia. Para nós, como igreja que deseja ser cada vez mais urbana a fim de acompanhar o seu povo, fica um desafio a partir desse texto bíblico. A missão urbana necessita estar acompanhada da diaconia como serviço de fé, amor e acolhimento para as pessoas em sua real necessidade. É de vital importância que a missão urbana e a diaconia andem de mãos dadas. A diaconia não pode ser vista como mais um ministério, mas sim uma tarefa primordial de todos os cristãos (e da igreja), a partir da fé, de ir ao encontro daqueles que têm fome, que têm sua dignidade ameaçada, que estão à procura de pão. Nesse sentido, ainda precisamos caminhar e trilhar um bom caminho.

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Fica mais este desafio: Como vamos trabalhar a relação de missão e diaconia?

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Imagens para a prédica

Pão! Necessidade primeira do ser humano. Martim Lutero, na explicação da quarta petição do Pai-Nosso, soube dar um significado amplo e bonito ao pão. O pão leva o ser humano a cometer verdadeiras atrocidades. Ele causa disputas de espaço e poder. O pão em si é bênção. Jesus o multiplicou, ele mesmo se disse “o pão da vida”. A disputa em torno dele é que é lastimável. Muitos sofrem por sua falta, outros adoecem por ter demais e consumir demais. A distribuição desigual do pão é resultado de nosso pecado humano: pecado social e individual. A falta de pão coloca em xeque a dignidade humana conquistada por Cristo na cruz. No filme “Ensaio sobre a Cegueira”, um personagem diz: “Primeiro vamos alimentar todos, depois podemos falar de dignidade”. Por causa do pão pessoas são exploradas, corpos são vendidos, dignidade é ameaçada. O profeta do Antigo Testamento Eliseu enfrentou a situação de pobreza, fome, exploração social. Em uma situação de falta de alimento, ele recebeu de uma pessoa sem nome (só sua origem é revelada) um gesto de fé e gratidão a Deus. Essa dádiva foi partilhada e saciou a fome de muitas pessoas. O problema não é a falta de alimento. Os vilões são a má distribuição e o desperdício. Vivemos em um país que avançou muito nos últimos anos. Muitas pessoas recebem auxílios dos órgãos governamentais e têm o alimento diário. Milhares saíram da linha de pobreza absoluta. Falta ainda avançar muito para que todos tenham acesso aos meios de vida, a trabalho digno e aos meios de produção.

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Subsídios litúrgicos

a) Poder-se-ia incentivar um café da manhã antes do culto. Cada família traria da sua casa algo para compartilhar na mesa. O culto iniciaria com o café e culminaria com a celebração da Ceia do Senhor. O tema da partilha poderia ser muito bem explorado a partir disso. b) Ligada a essa primeira proposta, poder-se-ia vincular uma outra: fazer o café da manhã, conforme a ideia acima, e convidar pessoas necessitadas para tomar parte da celebração. c) As famílias poderiam ser motivadas a trazer um pão de casa, que depois seria partilhado com pessoas necessitadas ou com alguma instituição diaconal/ social. d) Hinos (HPD II): 425, 405, 407, 419, 381. e) Para as crianças, tenho a sugestão de um pequeno vídeo (duração: 24:05 minutos), disponível no Youtube sob o título “Profeta Eliseu – o homem de Deus” (http://www.youtube.com/watch?v=NUYVA1XW9sk).

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Bibliografia BOSCH, David J. Missão Transformadora. 2. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007. BRIGHT, J. História de Israel. 4. ed. São Paulo: Paulinas, 1980. FOHRER, Georg. História da Religião de Israel. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1993.

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PRÉDICA: JOÃO 6.24-35

10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 02 AGO 2015

ÊXODO 16.2-4,9-15 EFÉSIOS 4.1-16

Emílio Voigt

Jesus, o pão da vida

1

Introdução

O texto proposto já foi abordado em outras cinco edições de Proclamar Libertação (XIX, p. 217; XXV, p. 254; XXXI, p. 213; XXXVI, p. 245). Além disso, o versículo 35 de Jo 6 foi trabalhado no PL VIII, p. 151. Há, portanto, um bom número de auxílios homiléticos com diferentes ênfases e perspectivas. A leitura de Êx 16.2-4,9-15 está claramente relacionada com o texto da pregação. A história do maná é citada explicitamente no diálogo entre Jesus e o seu público. Por outro lado, a relação com Ef 4.1-16 não é direta ou evidente. Precisa ser construída. Pode-se estabelecer uma conexão entre as “obras que Deus quer” (Jo 6.28) com aquilo que se postula em Ef 4.1-3. A graça é dom de Cristo (Ef 4.7), assim como o pão da vida é dado por Jesus. No contexto do Evangelho de João, o pão da vida é interpretado sob o ponto de vista da Eucaristia, o que proporciona ligação com o corpo de Cristo, citado em Efésios. A perícope para pregação faz parte de um bloco temático que trata do pão do céu ou pão da vida: – Jo 6.1-15: alimentação da multidão com pães de cevada – Jo 6.25-34: Deus dá o pão do céu / Jesus promete dar o pão do céu – Jo 6.35-51: Jesus identifica-se com o pão do céu / pão da vida – Jo 6.52-58: o pão do céu é experimentado na Eucaristia. A apreciação desse contexto literário é importante para a interpretação e a preparação da prédica.

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Exegese

V. 24-27 – A pergunta “quando chegaste” engloba também o questionamento pelo “como” Jesus veio parar em Cafarnaum. Afinal, os discípulos haviam partido sem ele. O leitor e a leitora do evangelho sabem muito bem o que aconteceu (v. 16-21). Jesus parece não estar muito entusiasmado com a vinda das pessoas a ele. Sua resposta, que não tem ligação com a pergunta, é uma crítica à motivação para procurá-lo. Aqui, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje consegue transmitir com clareza a repreensão de Jesus. As pessoas não compreenderam o sinal que estava por trás da alimentação (6.1-15). Experimentaram somente a satisfação da necessidade material, não reconhecendo o caráter simbólico do ato.

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No Evangelho de João, a palavra “sinal” é usada como sinônimo de milagre. O uso desse termo indica que o evangelista entende os milagres como espécie de parábolas. É algo que vai além do fato. Tem um sentido que precisa ser compreendido. Nem sempre as pessoas que veem o sinal (6.14) apreendem o seu significado. Sinal é uma representação simbólica da mensagem do evangelho e alcança o seu objetivo quando desperta a fé. A repreensão pela incompreensão é seguida de uma convocação: trabalhar para alcançar a comida que subsiste para a vida eterna. O alimento material não é questionado ou desprezado, mas ele tem um limite. Consegue apenas manter a vida terrena, que também tem um “prazo de validade”. É preciso trabalhar para alcançar o alimento que perdura para a vida eterna. Antes que isso possa ser considerado conquista ou merecimento, a frase é complementada: o pão do céu será dado. O alimento para a vida eterna é um presente. O trabalho humano é somente atitude de recebimento. O selo tem significado de confirmação: Deus confirmou Jesus como aquele que dá a vida. Isso está implícito no título “filho da humanidade”, que, no Evangelho de João, está associado com a exaltação de Jesus a partir da cruz. A dádiva do pão para a vida eterna pressupõe a crucificação e a ressurreição. Esse é o selo. A interpretação eucarística nos v. 52-58 deixará mais evidente a conexão entre morte, ressurreição e pão da vida. V. 28-29 – O pão para a vida eterna é fruto da ação divina. Mas o seu recebimento não é sinônimo de inércia nem atestado de indispensabilidade do agir humano. É impossível receber e ficar de braços cruzados. É dessa forma que a pergunta “o que precisamos fazer?” ganha sentido. Como resultado da dádiva, as pessoas entenderam que são desafiadas à ação e demonstram disposição para agir. Mas querem saber exatamente o que fazer. A expressão “obras de Deus” significa aquilo que Deus espera que seja feito. Em outras palavras, a pergunta era: que coisas precisamos fazer para cumprir a vontade de Deus? A resposta de Jesus vem no singular: a obra que Deus espera é a fé. Não se trata de contrapor a fé com as obras judaicas, mas de resumir, em um único aspecto, o que Deus espera das pessoas. Também os mandamentos foram concentrados em um enfoque: o amor (Mc 12.28-31). A partir do amor a Deus e ao próximo, todos os mandamentos são cumpridos. A partir da fé, surgem todas as obras que Deus espera. Fé, no Evangelho de João, é cristocêntrica: crer naquele que foi enviado por Deus. Não se diz explicitamente quem ele é, mas a réplica dos ouvintes demonstrará que entenderam a reivindicação de Jesus como o enviado. V. 30-31 – A exigência de crer em Jesus é confrontada com a pergunta pela sua legitimidade: Que sinal fazes? Quais os teus feitos? Jesus havia indicado o que povo deveria fazer. Agora, esse povo quer saber o que ele faz. Se Jesus postula ser o enviado de Deus, as pessoas querem uma comprovação na forma de sinais. Especialmente no Evangelho de João, os sinais são determinantes para afirmar a legitimidade e motivar a fé em Jesus (Jo 2.23; 4.45-48; 6.2; 7.3,31; 20.30s). A alimentação que os antepassados receberam no deserto (Êx 16) serve como indicação de um sinal que o enviado de Deus poderia ou deveria fazer. O pedido demonstra que a alimentação com pães de cevada (Jo 6.1-15) não foi entendida como prova da messianidade de Jesus. Ela não serviu como sinal que

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conduzisse à fé nele. Justamente essa incompreensão acerca do que havia acontecido do outro lado do lago Genesaré foi o objetivo da crítica de Jesus no v. 26. V. 32-33 – Jesus não aponta para qualquer sinal que tenha efetuado nem demonstra intenção de fazer algo para satisfazer a exigência de comprovação do seu envio. Em outra ocasião, diante de pedido semelhante, foi mais enfático, negando a possibilidade de oferecer evidências (Mt 12.38s). Na pergunta não havia referência a Moisés, mas Jesus faz questão de mencioná-lo em sua resposta. Com isso, contrapõe o maná – e também os pães de cevada – com o pão que desce do céu. Maná e pães da multiplicação são alimentos para a vida temporária. O verdadeiro pão do céu é dado por Deus e dá vida ao mundo. Aqui encontramos três afirmações importantes: 1) o pão é dado por Deus – não é fruto de merecimento; 2) o pão vai além do sustento corporal – concede vida que não é aniquilada com a morte; 3) o pão é dado ao mundo – não é oferta restrita a um grupo ou povo determinado. V. 34-35 – Assim como a samaritana pediu pela água da vida (Jo 4.15), o público pede pelo pão da vida. E quer tê-lo sempre. No v. 27, Jesus identificara-se como aquele que daria o pão. Agora afirma ser o próprio pão da vida. É, ao mesmo tempo, doador e dádiva. Jesus não é como o pão: é o pão. A fórmula “eu sou” (ego eimi) é característica dos discursos jesuânicos no Evangelho de João. Ela pode estar numa forma absoluta, como em 4.26, ou vir acompanhada de um complemento: – eu sou o pão da vida (6.35;41,48,51) – eu sou a luz do mundo (8.12; 9.5) – eu sou a porta (10.7,9) – eu sou o bom pastor (10.11,14) – eu sou a ressurreição e a vida (11.25) – eu sou o caminho, e a verdade e a vida (14.6) – eu sou a videira verdadeira (15.1,5). A base para essa identificação de Jesus é a fórmula veterotestamentária da revelação divina, que tem em Êx 3.14 sua expressão central. Comendo o maná ou o pão de cevada, as pessoas ficariam fartas por um certo tempo. Depois viriam a fome e a necessidade de novamente saciá-la. Quem experimentar do pão da vida jamais terá fome e sede. A afirmação “jamais terá fome e sede” está em conexão com o clamor “dá-nos sempre”. Indica também que é pão de outra substância para satisfazer outra necessidade. Se Jesus é o pão, quem quiser saciar-se com esse pão deve vir a ele. Vir a Jesus significava, no tempo dos evangelistas, vir à comunidade. E somente virá à comunidade aquela pessoa que crê em Jesus. Esse crer e vir a Jesus são consequência da iniciativa divina.

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Meditação

Como impulsos para a pregação, apresento algumas reflexões e ideias que surgiram no confronto com o texto. Apresento-as em forma de tópicos, que não seguem necessariamente uma ordem ou lógica de pensamento:

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– O pão era alimento básico no Antigo Oriente. Comer pão era o mesmo que fazer uma refeição (Lc 14.1). Pão é a comida, o alimento necessário para a subsistência. Seria o nosso popular feijão com arroz. Em tempos bíblicos, grande parte da população conseguia satisfazer as necessidades elementares a duras penas. Enquanto nossa preocupação pode ser o tipo de pão a ser colocado na mesa, a inquietude da época era a possibilidade de sequer ter algo para comer. Nesse sentido, a oração do Pai-nosso revela o desejo legítimo de ter assegurado hoje o pão que se consumirá amanhã. Também a alimentação da multidão com pães de cevada é indicação de que o provimento das necessidades básicas do ser humano é um propósito divino. Mas a vida que Deus almeja para o ser humano vai além da dimensão material. Por ser perecível, o alimento material pode apenas alimentar uma vida transitória. Além disso, a vida baseada nesse alimento carece de plenitude. Somente acrescida do pão do céu, a vida torna-se completa e perene. Pão material e pão do céu são os elementos necessários à vida plena. – O pão material pode ser obtido de diferentes maneiras. Pode vir de forma honesta ou desleal, ser conquistado com esforço ou recebido gratuitamente. Embora esteja relacionado com sobrevivência e bem-estar pessoal, o pão não pode ser visto exclusivamente do ponto de vista individual. A visão individualista motiva a ganância, leva ao acúmulo, cria desigualdades. Gera o absurdo de pouca gente com muito pão e muita gente com pouco ou quase nada. O Pai-nosso leva-nos a compreender a obtenção do pão como questão coletiva. Pede-se em conjunto e para o conjunto. Pedir pelo pão nosso requer a solidariedade com quem não tem e o questionamento sobre as formas de conquista e divisão do pão. – Se o pão material pode ser obtido de diferentes maneiras, o pão da vida plena é alcançado somente de um modo: recebendo-o como presente. Nada se pode fazer para merecer esse pão. A única coisa que se requer é a fé. E essa também não é obra humana. A fé não é criada por razão, vontade própria, esforço ou merecimento. É dom divino. O pão da vida é oferecido a todo o mundo. É importante acentuar essa dimensão inclusiva e universal. Nem pessoa, nem grupo, nem denominação religiosa podem considerar-se detentoras exclusivas da graça de Deus. Tampouco podem definir quem deveria ou não recebê-la. – A partir do momento em que recebemos a dádiva de Deus, temos um compromisso de ação. Fé não subsiste sem obras. A fé em ação manifesta-se, por exemplo, na prática da justiça e tolerância, na busca pela paz, na atitude de humildade, na disposição de perdoar e acolher, nos gestos de partilha e solidariedade. Ela tem sua expressão maior no amor, que não é apenas sentimento, mas ação que visa ao bem das pessoas. Mesmo que alguém tivesse uma fé capaz de transportar montes, se não tivesse amor, nada seria (1Co 13.2). Cabe-nos hoje perguntar bem concretamente: o que fazer para colocar em prática o amor? – O texto para pregação é um convite para a reflexão sobre o sentido da vida e do trabalho. Para que vivemos e para que trabalhamos? Já se foi o tempo em que se trabalhava somente pela subsistência. Quer-se mais do que o básico, mais do que o essencial. Mas onde estará o limite do anseio por algo mais? Haveria uma medida máxima? Parece que não conseguimos nem ao menos definir a

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base mínima. A casa está mobiliada e o estômago cheio, mas ainda pode ocorrer um sentimento de vazio. O que preenche a vida e dá-lhe uma perspectiva? – Jesus reivindicava ser o enviado de Deus, e as pessoas requisitaram uma prova. O pedido não questiona o poder de Deus, mas a legitimidade de quem se apresenta como seu enviado. Por isso não é exigência absurda. O absurdo acontece quando se procura determinar a presença de Deus através de sinais que atendem exclusivamente a interesses individuais. A busca por “bênçãos” torna-se aspiração egocêntrica e materialista. Denominações e grupos orientados por teologia da glória e prosperidade incorrem facilmente nesse erro. O maná no deserto e os sinais de Jesus estavam relacionados com necessidades essenciais, cuidado e preservação da vida. Sinal divino não se presta a exibicionismo, nem tem ligação com privilégio, supérfluo e acúmulo. Aliás, o acúmulo de maná cheirava mal e enchia de vermes. Faria bem refletir sobre os sinais com os quais associamos a ação de Deus hoje. – O adágio popular “Não digas: desta água não beberei” relativiza a pretensão de certeza e segurança. É possível fazer planos e cercar-se de precauções, mas nem todas as coisas estão sob nosso controle. A afirmação de Jesus “jamais ter fome e sede” indica segurança absoluta porque se refere a algo que está sob o controle de Deus. A promessa de Deus não depende do esforço das pessoas, nem está sujeita ao acaso ou imprevistos. Ainda assim, a dádiva do pão da vida não é um elixir mágico que soluciona tudo e previne qualquer problema. A existência humana não estará livre de adversidades, e a fé poderá ter seus momentos de aflição e questionamento. Por isso o vir a Cristo é um movimento constante para sempre de novo receber dele o pão que proporciona vida plena.

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Imagens para a prédica

– É possível utilizar o pão (ou pães) de diferentes maneiras: distribuir pedaços à entrada do culto, colocar sob o altar ou no púlpito. Também levar água, que é citada no v. 35. Considerando que o pão, na Bíblia, é sinônimo de refeição, nada impede de utilizar feijão, arroz, verduras ou outros alimentos para essa simbologia. – Pode-se fazer cartazes com os dizeres: Você tem fome de quê? Você tem sede de quê? (Canção “Comida”, do grupo musical Titãs), para refletir sobre o pão que buscamos e o sentido que damos à vida.

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Subsídios litúrgicos

– Utilizar hinos que abordam a temática do pão, tais como: HPD I 131, 144, 201; HPD II 326, 356, 358. – Celebrar a Ceia do Senhor, ressaltando que nela a comunidade experimenta comunhão e alimenta-se do pão da vida.

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Bibliografia POKORNÝ, Petr; HECKEL, Ulrich. Einleitung in das Neue Testament. Seine Literatur und Theologie im Überblick. Tübingen: Mohr Siebeck, 2007. WENGST, Klaus. Das Johannesevangelium. 1. Teilband: Kapitel 1-10. Stuttgart, Berlin, Köln: Verlag Kohlhammer, 2000.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 4.25-5.2

11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

1 REIS 19.4-8 JOÃO 6.35,41-51

(DIA DOS PAIS) 09 AGO 2015

Cláudio Kupka

O exemplo do amor do Pai

1

Introdução

Estamos diante de um texto muito atual. O tema da relação interpessoal e solução de conflitos é agenda diária na vida familiar e comunitária. Falando em família, é oportuno dar luz a esse enfoque à medida que é lá que é estruturada a conduta ética das pessoas. Por isso é aceitável o desafio de ler esse texto à luz da comemoração do Dia dos Pais. À parte do lado comercial dessa comemoração, creio ser sempre uma oportunidade para refletir sobre a vocação paterna, um aspecto relevante tanto a pais cristãos como à sociedade, na medida em que essa é uma vocação muito negligenciada por homens, mulheres ou qualquer familiar do qual seja requerido cumprir esse papel na família e também na sociedade. O centro da mensagem são o exemplo e a postura de Deus e Cristo a ser imitada por pais e todos nós. O texto de 1Rs 19.4-8 traz a memória do profeta Elias, um profeta com postura paternal para com Israel, como Eliseu reconheceu antes de vê-lo partir (2Rs 2). Na perícope, é ressaltada a vulnerabilidade de Elias diante da ameaça de morte por Acabe e Jezabel e como Deus lhe deu forças e o guiou ao exercício profético com novas forças e consciência da sua missão. O texto oportuniza o enfoque da nossa humanidade e fragilidade no exercício de nossa vocação cristã. Jo 6.35,41-51 é o segmento do capítulo 6 do Evangelho de João que resume o discurso central sobre o debate entre Jesus e alguns judeus sobre o sentido do milagre da multiplicação dos pães. Jesus reage aos que questionavam o sentido messiânico de seu gesto, alegando inclusive terem conhecido seu pai José, anunciando na metáfora do “pão da vida” a dimensão da plenitude da vida oferecida por Deus. Nem o alimento tampouco o milagre em si tem valor se a fé não nos conduzir à entrega total a Cristo, a viver desse alimento como gesto mais fundamental da nossa existência. Esse texto, na perspectiva que somos desafiados a refletir, ajuda-nos a focar no aspecto central da fé em Cristo. Mais do que dar o pão e mostrar confiabilidade, é tarefa paterna dar conteúdo ao gesto. A tarefa paterna sempre vai apontar para o exemplo de quem dá a vida, quem ama incondicionalmente e que sustenta no sentido amplo o objeto de seu amor e cuidado.

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Exegese

a) Nossa perícope inaugura o segmento parenético, típico das cartas paulinas. Não são recomendações práticas avulsas, desvinculadas do conteúdo anterior. Pelo contrário, são desdobramentos intencionais da construção teológica da carta como um todo. Efésios é uma carta escrita a um público gentílico. Seu tema é unir tudo o que existe no céu e na terra sob a autoridade de Cristo (1.9,10). O mundo sem Cristo é um mundo dividido, pessoas dividem-se entre si e vivem alheias a Deus. Em Cristo está a única esperança de união dessas dimensões. No contexto da época, o contexto dessa união era a divisão entre gentios e judeus. Paulo sentia-se pessoalmente chamado a superar essas barreiras. Em Cristo não há judeus nem gentios, dizia ele (Gl 3.28). b) O capítulo 4 torna-se central na construção dessa teologia da unidade da igreja: Um só corpo, um só Espírito e uma só esperança. (...) Um só Senhor, uma só fé e um só batismo (v. 5,6). Apesar da diversidade desse corpo, algo muito forte sustenta sua unidade: o amor de Deus (Ef 3.17; 4.2; 4.15; 4.16 e 5.2). Por isso é fundamental que cada um de nós se empenhe na prática do amor, tendo em vista a reconciliação e a manutenção da unidade. Seguir a Cristo significa abandonar a “velha natureza” e renovar a mente, vestindo “a nova natureza de Cristo”. c) Nossa perícope enfoca alguns temas da relação interpessoal fundamentais na construção da unidade de Cristo: a verdade, a ira, o roubo, a fala e o perdão. Estão colocados num contexto de ruptura com a vida anterior, que seguia “alheia à vida de Deus” (v. 18). Os temas são colocados com uma nítida ênfase no aspecto positivo da conduta. O tema da mentira e da verdade (v. 25) é situado no contexto da unidade do corpo de Cristo. Não há sentido para alimentar a mentira – é um ato de falsidade que não faz sentido na convivência no corpo de Cristo. A ira (v. 26-27) igualmente pode comprometer a unidade. Citando o Salmo 4.4, Paulo lembra que ira pode surgir e pode até ser justa, mas não nos deve levar a pecar e, se persistir em nossa mente, dominar nosso interior, permitindo que o mal tome conta de nós. “O cristão deve estar certo de que sua ira provém de justa indignação e que não exprime apenas provocação pessoal ou orgulho ferido. Não deve possuir motivos pecaminosos nem permitir que o leve de qualquer forma ao pecado” (Foulkes, p. 110). Há uma clara advertência ao risco do ressentimento. Quando mal resolvida e quando persiste em nossos corações, a ira destrói relações e a comunhão. O furto (v. 28) é uma traição à confiança. É também a ruptura de uma busca digna de prover sustento à vida. Ao invés do furto, é o trabalho que deve ser o caminho adequado a quem deseja conduzir sua vida segundo o “novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (v. 24). Há ainda uma menção nessa virtude à ajuda aos necessitados. Esse novo caminho do trabalho digno não visa a uma perspectiva egoísta, mas solidária.

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O v. 29 traz a reflexão sobre o falar, com o que esse deve estar comprometido. Cada palavra deve ter em vista a edificação e a sintonia com o agir gracioso de Deus. O adjetivo sapros significa podre ou sem valor e está em oposição à palavra agathos pros eikodomēn, que significa útil, edificante. A versão de Almeida Revista e Atualizada “conforme a necessidade” poderia ser traduzida como: “em relação ao assunto em questão” (Foulkes, p.112). A expressão do v. 30 “entristecer o Espírito de Deus” provém de Isaías 63.10. Ela é oportuna porque há menção clara ao papel unificador do Espírito Santo (4.4) e ao selo de propriedade que significa sua doação a nós (1.13). Ao ofender um irmão ou uma irmã, ofendemos e entristecemos também o próprio Deus através do seu Espírito, que habita em nós e entre nós. Segue no v. 31 resumidamente uma lista de atitudes que comprometem a saúde relacional no corpo de Cristo: a amargura, a irrupção incontrolável de raiva, a manifestação raivosa e ofensiva, o tom descontrolado e agressivo do falar, a acusação falsa e a calúnia ao próximo. A lista inversa aparece no v. 32: bondade, compaixão (literalmente “com intestinos saudáveis”) e perdão mútuo, seguindo o exemplo de Deus em relação a nós. Os versículos finais (5.1,2) desembocam na ideia de que, como filhos e filhas, devemos ser imitadores de Deus em nossas relações. Assim como filhos têm em seus pais exemplos e os imitam, assim nós temos em Deus nossa referência maior. O que é mais importante imitar? O valor central dessa imitação é o amor que dá a vida, assim como Cristo nos demonstrou, uma que serve incondicionalmente ao próximo. Assim o texto retoma o tema do v. 15.

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Meditação

a) Nossa natureza humana leva-nos à divisão. Nossas individualidades regadas pelo egocentrismo dificultam ver em nosso semelhante alguém digno de confiança. Soma-se à nossa precariedade humana o sentimento de desamparo, caracterizado contraditoriamente pela desconfiança em relação à autoridade ordenadora e pela frustração do insucesso de iniciativas individuais. Não alcançamos sucesso sozinhos e não confiamos na autoridade que nos pretende organizar para o alcançar juntos. Temos, enfim, dificuldade de ver o potencial da vida em comunhão e o valor da solidariedade como instrumento de superação de injustiças. Deus alcança-nos em nossa precariedade e desunião. A chave que nos falta para a unidade está em Deus. Em primeiro lugar, porque a esperança não está na natureza humana, aliás, sempre suspeita e comprometedora. Em segundo, só Deus em Cristo possui a prerrogativa de unificar o que está dividido. Para nós, nenhum sistema unificador da humanidade é alcançável. São, no máximo, tentativas. Para Deus ele existe, pois foi ele que nos criou e nos resgatou para uma esperança unificadora. Contrariamente ao espírito humano, a autoridade de Deus não se impõe pela força nem por artimanhas astutas. A ordem que Deus cria e que nos serve como nova referência não é imposta – é oferecida graciosamente. Esse gesto

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desarma o espírito humano. Pela fé o ser humano pode confiar no caminho que Deus lhe oferece. Essa é uma possibilidade nova. Deus conquista-nos pelo amor e para a causa do amor. b) O nosso texto encaixa-se na reflexão prática sobre como é pautada a vida daqueles que pretendem viver a unidade de Cristo. É um ato de fé, movido pela esperança do evangelho. É um ato de renúncia às armas humanas que pretendem alcançar a paz com a força e a violência. É um ato de amor, inspirado no exemplo do Pai, manifesto em Jesus. É a reconciliação com o Pai, que conquista seus filhos e filhas com amor e dá uma referência clara e segura para conduzir nossas vidas. É possível, então, repassar vários desses temas relacionais à luz das possibilidades do amor e da graça de Deus. A mentira em si é um tema complexo. Nesse caso, penso ser relevante tratar o tema da verdade como uma busca coletiva e solidária e a mentira como uma tentação a uma saída imediatista, egocêntrica e simplificadora da realidade. Se não nos é possível compreender a verdade de determinada situação a partir de nosso ponto de vista individual (pois ele será sempre parcial), só nos é possível fazê-lo coletivamente. Na ansiedade de resolver de maneira imediata, a mentira torna-se uma saída fácil. A verdade está ligada ao julgamento das ações alheias. Novamente não só o imediatismo nos atrapalha como nossa tendência à autojustificação. A mentira nesse caso protege-nos moralmente. A solidariedade como marca das relações comunitárias movidas pelo amor de Cristo coloca-nos numa relação de clara cumplicidade, tanto na dificuldade de formular a verdade como no receio de manchar a confiança coletiva com a mentira. A ira também pode oportunizar uma maneira imediatista de resolver o julgamento moral. De posse de nossa perspectiva pessoal, arrogamo-nos o direito de ver o quadro todo da situação e fazer justiça. Quando nos deixamos envolver emocionalmente, podemos precipitar reações intensas (cólera) ou duradouras (mágoa). A ira, quando nos move na direção da denúncia e da verdade, só alcança a perspectiva da justiça quando é compartilhada coletivamente. No diálogo entre as partes, há possibilidade de esclarecimento, de confissão e de perdão. O tema do trabalho digno (em oposição ao furto) traz novamente a perspectiva solidária como horizonte. O tema do falar traz a perspectiva da comunicação como instrumento de unidade. A comunicação, que também é instrumento de construção da unidade, deve pautar-se pelos valores da unidade. Ela não é neutra. Ela é complexa e permeada de elementos emocionais. O amor como valor orientador da comunicação verbal irá conduzir-nos criativamente nesse processo tão desafiador. A compaixão, a bondade e o perdão devem pautar nossas relações. Sem elas, as exigências, os tropeços e as contradições sufocam o sucesso de nossos relacionamentos. São ações que distensionam relações em crise e reconciliam as partes. São ações que afirmam a graça, que anulam nossos julgamentos baseados em mérito, que vencem a culpa. c) Há um paralelo entre o exemplo de Deus a ser seguido por seus filhos e filhas com o desafio da vocação paterna. Exercer essa função no contexto da família requer dessa pessoa que seja um exemplo presente e dedicado na educação

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dos filhos. Essa presença deve afirmar valores, colocar limites e disciplinar. Essa autoridade deve ser permeada pelo amor dedicado e não pela frieza, omissão ou violência. Pais só são respeitados pelos filhos se permitirem que sua conduta e vocação seja inspirada e orientada por Deus. É no amor de Deus que encontrarão uma referência segura para sua conduta.

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Imagem para a prédica

Dois irmãos, que moravam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um riacho, entraram em conflito. Foi a primeira grande desavença em toda uma vida de trabalho lado a lado. Mas agora tudo havia mudado. O que começou com um pequeno mal-entendido, finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas por semanas de total silêncio. Numa manhã, o irmão mais velho ouviu bater à sua porta. – Estou procurando trabalho, disse ele. Talvez você tenha algum serviço para mim. – Sim, disse o fazendeiro. Claro! Vê aquela fazenda ali, além do riacho? É do meu vizinho. Na realidade, do meu irmão mais novo. Nós brigamos e não posso mais suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira ali no celeiro? Pois use-a para construir uma cerca bem alta. – Acho que entendo a situação, disse o carpinteiro. Mostre-me onde estão a pá e os pregos. O irmão mais velho entregou o material e foi para a cidade. O homem ficou ali cortando, medindo, trabalhando o dia inteiro. Quando o fazendeiro chegou, não acreditou no que viu: em vez de cerca, uma ponte foi construída ali, ligando as duas margens do riacho. Era um belo trabalho, mas o fazendeiro ficou enfurecido e falou: – Você foi atrevido construindo esta ponte depois de tudo o que lhe contei. Mas as surpresas não pararam aí. Ao olhar novamente para a ponte, viu seu irmão aproximando-se de braços abertos. Por um instante permaneceu imóvel do seu lado do rio. O irmão mais novo então falou: – Você realmente foi muito amigo construindo esta ponte mesmo depois do que eu lhe disse. De repente, num só impulso, o irmão mais velho correu na direção do outro e abraçaram-se, chorando no meio da ponte. O carpinteiro que fez o trabalho partiu com sua caixa de ferramentas.

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Subsídios litúrgicos

Litania de acolhida: L. Se a vida nos dá a impressão de que estamos sós e abandonados, C. o chamado do nosso Criador lembra-nos de que somos especiais para ele. L. Se a culpa nos faz crer que não há como remediar nosso futuro, C. a cruz de Cristo aponta para o perdão que renova nossa vida. L. Se a frieza das nossas relações faz-nos sentir sozinhos, C. o Espírito de Deus reúne-nos e acolhe-nos em sua comunhão.

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L. Se chegamos aqui desorientados e sem horizontes, C. a presença de Deus entre nós conforta-nos e anima na caminhada. Oração de confissão de culpa: Querido Deus, queremos te confessar nossa incapacidade de viver o amor em nossa comunidade. Somos uma família unida em ti, mas nem sempre nos reconhecemos e nos tratamos como irmãos e irmãs. Perdoa nosso egoísmo, nosso orgulho, nossa raiva e nossa falta de solidariedade. Perdoa nossa falta de empenho para melhorar nossas relações. Que não deixemos a mágoa, a mentira e o egoísmo destruírem a preciosa comunhão que entre nós constróis. Ensina-nos a viver o teu amor cada dia em nossas relações. Em Cristo, oramos. Amém. Oração do dia: Estamos reunidos aqui como povo de Cristo, resgatados de nossa fragmentação pelo amor reconciliador de Deus, manifestado no sacrifício de Cristo na cruz. Queremos, Senhor, crescer na unidade. Que a tua Palavra restauradora nos alcance e renove. Que teu Espírito nos una a todos sob tua autoridade e poder unificador. Em Cristo, oramos. Amém. Cantos: Hinos do Povo de Deus I: 109, 117, 166, 176. Hinos do Povo de Deus II: 334, 415, 432.

Bibliografia FOULKES, Francis. Efésios. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1981.

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PRÉDICA: JOÃO 6.51-58

12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PROVÉRBIOS 9.1-6 EFÉSIOS 5.15-20

16 AGO 2015

Helga Rodrigues Pfannemüller

Escolha o mais importante

1

Introdução

No tempo de Pentecostes, a igreja cristã reflete acerca dos ensinamentos do Jesus Cristo ressuscitado. A leitura de Provérbios exorta-nos à sabedoria do hospedeiro que prepara a sua casa para receber os sem juízo, na esperança de que esses escolham a vida e o caminho da inteligência em vez da ingenuidade. Na Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo também exorta os membros de sua comunidade a abandonar a insensatez em que vivem pela sabedoria daqueles e daquelas que vivem de acordo com a vontade do Senhor. Vede, pois, cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios (...), não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor (Ef 5.15,17).

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Exegese

2.1 – Delimitação e contexto O objetivo do Evangelho segundo João é desdobrar a confissão de que “Jesus é o Cristo, Filho de Deus” (20.31). Conforme está formulado em seu prólogo: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (1.14). Claus Westermann identifica três partes principais de João, que correspondem às três partes da frase em 1.11s: Cap. 3-6: Ele veio para o que era seu, 7-12: e os seus não o receberam; 13-17: Mas a todos quantos o receberam... Nossa perícope está inserida dentro da primeira parte. Os capítulos 3-6 giram em torno dos conceitos luz/verdade (3-4) e vida (5-6). Neles Jesus revela-se como o enviado de Deus. Essa primeira parte do evangelho começa e termina com alusões aos sacramentos: Batismo (3.5; 4.10; 13,14) e Ceia do Senhor (6.5158). Westermann sugere a seguinte subdivisão dessa primeira parte: 3-4: Ele vem em sua palavra (verdade); 5-6: Ele vem em seus milagres (vida). Enquanto em 3-4 Jesus dá-se a conhecer através de dois diálogos (Nicodemos e a mulher samaritana), em 5-6 ele revela sua missão através de milagres (curas, multiplicação de pães e peixes). Tanto os diálogos como as curas desembocam em longos discursos de Jesus. Através dos milagres Jesus revela que sua

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ação salvífica envolve e inclui o âmbito corporal. O capítulo 6 pode ser dividido como segue: 1-26: milagre da multiplicação, Jesus anda sobre o mar; 27-29: discurso sobre o pão da vida; 60-71: reações ao discurso (discípulos escandalizados e confissão de Pedro). Nossa perícope, cujo tema é a Ceia do Senhor, faz parte do discurso de Jesus sobre o “pão da vida”. O discurso, por sua vez, é uma resposta de Jesus à multidão que deseja aclamá-lo rei, por ter sido alimentada por ele. Ele começa advertindo: Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna (v. 27). O final do discurso é justamente a parte que fala do comer a carne e beber o sangue do Filho do Homem. A fala de Jesus provoca reações opostas. De um lado, a incompreensão e o escândalo de “muitos dos seus discípulos”, que o abandonam afirmando: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? (v. 60). De outro lado, a confissão de Pedro: Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus (v. 68ss). Diferentemente dos demais evangelhos, João não possui um relato da instituição da Ceia do Senhor. Separando a Ceia do contexto direto dos últimos dias de vida de Jesus, João projeta seu conteúdo para dentro da situação pós-pascal, ou seja, para dentro da situação das primeiras comunidades (cf. L. Goppelt). 2.2 – Conteúdo V. 51 – “Eu sou o pão vivo...”. A perícope inicia retomando a afirmação de Jesus feita nos v. 35 e 48. Jesus revela a seus ouvintes sua identidade e missão. O autotestemunho de Jesus em João está concentrado nos ditos “Eu sou...”, sempre seguidos de uma palavra figurada determinativa, tomada emprestada das necessidades elementares da subsistência humana, como água e pão (cf. Goppelt, p. 546). A figura descreve aquilo que Jesus veio trazer às pessoas – ele próprio. Nesses ditos, Jesus parte das necessidades mais básicas e evidentes do ser humano (p. ex. fome e sede), mas aponta para além delas. Ao contrário do alimento que buscamos para nos manter vivos, o alimento que ele oferece é “verdadeiro” (v. 55) e sacia a fome e a sede “para sempre”. O “Eu sou” é uma fórmula de revelação: revela ao ser humano algo até então desconhecido e inacessível. Fome e sede evidenciam a busca humana por vida. O pão e a água prolongam a vida terrena, mas não podem evitar a morte. Jesus se oferece, com exclusividade, como “vida eterna”. Apenas ele pode saciar nossa fome e sede de vida: “se alguém dele comer, viverá eternamente”. A referência ao “comer” torna explícito o que já estava subentendido em todo o capítulo: Jesus está falando da Ceia. O pão que Jesus dá é sua “carne”, ou seja, seu próprio “corpo”, sua existência encarnada, sua vida. Na “carne”, o Cristo identifica-se conosco em nossa transitoriedade. Jesus dá sua vida “pela vida do mundo”; morre para que o mundo viva. A morte de Jesus traz salvação. V. 52 – Os ouvintes de Jesus não compreendem o que ele diz: Como pode este dar-nos a comer a sua própria carne? Quem não compreende/aceita o mis-

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tério da encarnação de Deus na pessoa de “Jesus, o filho de José” (v. 42) não aceitará o mistério de sua morte e muito menos a oferta de sua presença corporal na Ceia. É algo humanamente incompreensível: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer (v. 44). V. 53 – A resposta de Jesus é clara: a comunhão com ele na Ceia é necessária para a salvação. Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. V. 54 – Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, ou seja, a Ceia concede já agora “vida eterna” e é garantia para a ressurreição futura. Vida/vida eterna é conceito central em João, substituindo os conceitos de reino/justiça de Deus. – Chama a atenção o realismo: aqui não se fala em comer, mas em mastigar, impedindo uma interpretação espiritualizante. A comunhão com Cristo e seu efeito salvífico estão diretamente ligados com a Ceia e seus elementos materiais. Cristo liga sua presença aos elementos da Ceia. V. 55 – O alimento que Jesus oferece (carne/sangue) é “verdadeiro”, ou seja, o único que pode dar vida. Reconhecer a verdadeira fonte de vida (Jesus Cristo encarnado, que se oferece na Ceia) relativiza a busca humana por vida em outros “alimentos”. Jesus Cristo revela-se como aquilo que o ser humano busca, sem saber, no “pão diário” (comida, bebida, vestes, casa, dinheiro, bens, amigos etc.). V. 56 – A Ceia proporciona comunhão com Jesus: “quem comer/beber... permanece em mim, e eu, nele”. V. 57 – A Ceia, ou seja, Jesus proporciona a vitalidade que há somente em Deus: “o pai vive – eu vivo pelo Pai – quem de mim se alimenta viverá por mim”. V. 58 – Jesus, presente na Ceia, é pão enviado por Deus, mas é diferente do maná recebido no deserto. Aqui aparece novamente a oposição ao “pão diário” que as pessoas tanto buscam. Jesus não despreza essa busca, mas mostra a nossa tendência de garantir o pão diário em primeiro lugar na vida. Se o temos, estamos seguros; se não o temos, desesperamos. Diante da oferta de Jesus, tudo o mais se torna relativo sem perder sua importância.

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Mensagem

Jesus Cristo não veio ao mundo para suprir mais uma necessidade humana (religiosa, espiritual), mas a única necessidade que temos: a sede de vida. Ele não veio completar o que faltava, mas para colocar-se no lugar do que já existe. Todo o nosso esforço – também nossas orações e nossa espiritualidade – está direcionado para a busca do “pão diário”, que nos proporciona segurança e felicidade. Também Deus deve servir a esse propósito. Em João 6, Jesus revela essa nossa tendência (instinto) natural e mostra o que realmente importa: trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna (6.27). O que importa é a salvação, é isso o que Jesus veio trazer. Salvação/vida eterna têm aquele e aquela que reconhecem em Jesus de Nazaré o Cristo, o Filho de Deus e que conseguem viver a partir dessa verdade. Esse reconhecimento da encarnação João chama de “crer” (6.35,36,40). Aqueles e aquelas entre os quais o encarnado viveu podiam vê-lo com seus olhos, ouvi-lo

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com seus ouvidos e tocá-lo com suas mãos (cf. 1Jo 1.1ss). Nós não o podemos. Mas o mesmo Cristo permite que nós o recebamos corporalmente; ele liga sua presença aos elementos da Ceia. Confiar nessa presença é condição necessária para a salvação. A presença corporal do Cristo morto e ressuscitado é alimento para a nossa fé fraca e cansada – alimento para a vida eterna. Como estímulo ao nosso pensar teológico, seja dito que Jesus Cristo vem a nós, comunica-se conosco e concede-nos salvação (perdão dos pecados, vida eterna, justificação) através da Palavra e dos sacramentos. O que diferencia essas duas formas de comunicação/comunhão? “Tudo o que a Escritura atribui aos sacramentos também seria transmitido na Palavra. Nesse caso, porém, esquece-se a outra maneira da mediação. Pode-se ouvir ou ignorar a Palavra, pode-se levá-la a sério ou deixá-la de lado. No caso dos sacramentos, porém, cada qual está colocado pessoalmente diante da decisão e tem que expor-se ao agir de Deus. A pessoa pode fingir, pode fazê-lo por tradição, mas nem por isso pode subtrair-se à ação de Deus. Por meio do agir de Deus os sacramentos sempre tornam-se palavra real, que têm as características da graça e do juízo” (G. Vicedom, p. 89). “... a Santa Ceia torna experimentável de modo especial a nova comunhão que resulta da nova aliança entre Deus e o ser humano. Como sacramento, também aqui ela (a Santa Ceia) não oferece nada além do que oferece o anúncio da palavra (de Deus), mas oferece de modo especial: ao anúncio da palavra bíblica juntam-se a visibilidade e a degustabilidade (o sacramento torna-se acessível fisicamente para determinados sentidos), uma ligação específica de individualidade e comunhão (o sacramento é distribuído individualmente às pessoas na comunhão cultual) e o caráter confessional (o sacramento deve ser solicitado expressamente pelo indivíduo)” (Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha, A Santa Ceia). Será essa forma especial de mediação e de comunhão, proporcionada pelos sacramentos, que motivou Paulo a exortar os coríntios com tanta insistência? Eis porque todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Por conseguinte, que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe a própria condenação (1Co 11.27s).

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Subsídios litúrgicos

Versículo de acolhida ou de envio: “Buscai, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6.33). A leitura do evangelho pode ser introduzida com as seguintes palavras: Cada vez mais pessoas neste mundo têm fome. Fome de pão, fome de realização, fome de vida. Jesus diz sobre si mesmo:

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12º Domingo após Pentecostes

Eu sou o pão da vida. Como isso acontece, como se pode ver e provar isso, explica João no sexto capítulo do seu evangelho. (Tradução livre do livro: “Hinführungen zu den biblischen Lesungen im Gottesdienst”) Hino:

HPD I, 197

Bibliografia CONSELHO DA IGREJA EVANGÉLICA NA ALEMANHA. A Santa Ceia – Auxílios orientadores para a compreensão e prática da Santa Ceia na Igreja Evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 2005. GOPPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1982. v. 2. VICEDOM, Georg. A missão como obra de Deus. São Leopoldo: Sinodal, 1996. WESTERMANN, Claus. Abriss der Bibelkunde. Stuttgart: Verlagsgemeinschaft Burckhardthaus und Kreuz Verlag, 1964.

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PRÉDICA: JOSUÉ 24.1-2a,14-18

13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JOÃO 6.56-69 EFÉSIOS 6.10-20

23 AGO 2015

Cristina Scherer

1

Introdução

O texto de Josué 24 é muito conhecido, especialmente a afirmação contundente do v. 15: Eu e minha casa serviremos ao Senhor. Surpreende-me o fato de que o referido texto é estudado ou analisado uma única vez no PL: no volume III. Neste estudo, abordarei o texto e sua afirmação central, refletindo sobre o que ela implica para a vida e o testemunho cristão nos dias de hoje. Servir a Deus significa abandonar outros deuses e priorizar o pacto que Deus mesmo fez conosco, vindo ao nosso encontro através do Batismo. O livro de Josué mostra-nos de forma intensa como Deus se coloca ao lado do povo desprezado e oprimido pelos mais fortes. Deus fortalece os pobres e pequeninos e rejeita o projeto de poderosos e opressores, que teimam ainda hoje em seguir outros deuses. Josué 24 é uma confissão de fé, um pacto de fidelidade que o povo faz no intuito de querer servir a Javé como Deus, pois ele conduziu os hebreus da escravidão para uma terra onde “manam leite e mel” e continua guiando-nos para uma terra onde a vida deve ser respeitada e vivida com justiça e dignidade, tal qual Jesus Cristo anunciou.

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Exegese

2.1 – Forma literária de Josué O livro de Josué compilou antigos relatos sobre a luta dos hebreus pela terra. A história narrada no livro pode caracterizar-se como uma saga, breves histórias de imaginação com uma trama simples e poucos personagens, situada num passado tradicional e carente de documentação, que reconta os atos de seus antepassados ou líderes em suas lutas contra grandes dificuldades. Também ocorrem no livro de Josué as lendas e as histórias etiológicas, que explicam a origem de algo, como um lugar, um costume, um nome, sempre associadas a um herói ou a um evento anterior. O autor de Josué faz uso de material da teologia deuteronomista e paralelos do evento do êxodo. Em tempos do exílio babilônico, o relato do livro de Josué desempenhou uma importante função política e religiosa devido à sua qualidade heroica e à sua poderosa teologia, reforçando assim o sentido de compromisso e coragem frente às grandes dificuldades, mobilizando o povo para permanecer unido e fiel a Javé. O objetivo da obra historiográfica deuteronomista é assegurar

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a unidade do povo em torno da fé em Javé. A unidade da fé do povo disperso no exílio assegura também sua unidade política. Deus deseja reunir seu povo e mostrar-lhe o caminho por onde deve seguir. No capítulo 24, os v. 19 e 20 refletem claramente a situação de exílio vivenciada pelo povo de Israel. Os capítulos 2, 12 e 24 são centrais e servem como uma chave de leitura que permite observar como foi formado o povo de Israel, formação essa que ocorreu como “um processo de luta contra reis e cidades que dominavam o campo e de integração da população cananeia marginalizada numa nova sociedade igualitária emergente” (DREHER, p. 49). O texto de Josué 24 é muito antigo, provavelmente oriundo da época tribal, porém, do ponto de vista literário, parece um pouco isolado dos demais textos do livro de Josué. O livro poderia muito bem terminar no cap. 23. O capítulo 24 assemelha-se ao texto de Dt 26.5-9, que tem uma função de credo histórico. 2.2 – Capítulo 24 V. 1-13 – Demonstram a origem pagã do povo e o fato de que a fé em Javé foi determinação do próprio Javé, pois ele foi ao encontro de Abraão e toda a sua descendência. Portanto não foi o povo que escolheu servir a Javé como Deus, mas Javé chama, convoca, faz um pacto e orienta esse povo que ele mesmo escolheu. V. 14-15 – Revelam o valor da confissão central contida no texto. O povo é chamado para vivenciar uma unidade na mesma fé em Javé e assim abandonar outros deuses, sendo que essa decisão tem conotação política no sentido de unir o povo em torno de Javé para dar continuidade ao plano de Deus na história, assim como foi no tempo dos antepassados. É preciso continuar aquilo que Deus iniciou de forma maravilhosa, avançar no projeto de vida plena vislumbrado por Javé para um povo e para toda a humanidade, abandonando os deuses que conduzem à estagnação, opressão, humilhação e morte. V. 16-18 – O povo afirma sua decisão em querer servir a Javé e confessa seu erro de servir a outros deuses e lembra a ação bondosa de Deus ao longo da história, desde o passado até o presente, comprometendo-se futuramente a servir a Deus. O povo de Israel, que se encontra na situação opressora do exílio, necessita escutar a decisão de um líder, Josué, em querer servir a Deus com toda a sua casa, de forma semelhante às pessoas do povo de Israel que vivenciaram a entrada e instalação na Terra Prometida. Caso não escolhessem servir a Javé, estariam condenadas a vivenciar eternamente a opressão do exílio. V. 19-28 – Descrevem a firme decisão do povo em seguir Javé e seguir seus mandamentos e leis. Para marcar isso, é realizado um pacto entre Javé e seu povo, tendo uma pedra e uma árvore como testemunhas, elementos vivos da criação de Deus. Carlos A. Dreher afirma que, tanto no início (Js 2 – Raabe) como no final do livro de Josué, há uma opção de Deus em favor dos que são oprimidos pelo sistema social, religioso, político da época. A fé em Javé possibilita novidade de vida num sistema social distinto em que todas as pessoas têm lugar. Deus liberta seu povo da escravidão para conduzi-lo a uma terra de liberdade e justiça, em

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contraposição ao sistema antigo, em que somente poucos têm acesso à terra e muitos são explorados e injustiçados sem acesso digno à terra, que é dom de Deus a todas as pessoas (cf. DREHER, p. 65). 2.3 – Outros deuses Nos v. 2 e 14 do capítulo 24 de Josué fica claro que o povo do qual fala Josué adorava outros deuses. Como explicar isso? Israel está localizado no entorno do Oriente Médio. Sendo assim, sofre influências de seu contexto de vida também no âmbito religioso. Assim como absorve aspectos de outras religiões de povos vizinhos, também rejeita outros aspectos e mantém-se fiel à tradição. Os pais e mães de Israel cultuavam outras divindades. A família dos patriarcas era seminômade, portanto não se fixava num único lugar. Deus acompanha-os, caracterizando-se como um Deus peregrino, pois ele não estava vinculado a um único lugar de adoração, mas acompanhava o povo em suas caminhadas. Deus preocupa-se com a sobrevivência do povo, sustenta e promete vida através da continuidade da família e de um pedaço de terra para viver. Observa-se que há uma inclusividade presente, pois aceitam-se outras expressões de fé como a cananeia e incorporam-se essas expressões à fé dos pais e mães de Israel. Os profetas bíblicos enviados por Deus combatiam com veemência o culto ao deus Baal (1 Rs 18), divindade masculina da religião cananeia ligada à fertilidade e à terra. Esse deus era adorado pelos proprietários de terras e reis e justificava os atos de opressão e exclusão contra os que não possuíam terra. O povo nômade, simples, camponês, trabalhador, era marginalizado. Javé é Deus dos hebreus, que age de forma diferente. Coloca-se ao lado dos fracos e oprimidos. 2.4 – Assembleia em Siquém O povo que foi constituindo Israel saiu da escravidão do Egito e sonhava com a terra prometida. Lá chegando, recebeu o mandamento divino, as leis, para que pudesse organizar sua vida nessa nova terra. Essas leis falam claramente da necessidade da justiça social para que o povo continue a viver em liberdade. As diversas e antigas divindades eram comuns entre os integrantes do povo de Israel. Agora tinham que abraçar a fé e viver em fidelidade diante de Javé, o Deus da libertação, que acolhe todas as pessoas e espera que possam viver com justiça e liberdade. Em meio a essa caminhada rumo à nova terra, sempre havia entre o povo momentos de incerteza, dúvidas e o risco de voltar ao culto às antigas divindades. As divindades cananeias representavam os reis e os grandes proprietários de terra. Por isso o povo necessitava fazer um pacto com Javé, o Deus da libertação, cuja fé estava constantemente ameaçada. Esse pacto é realizado na cidade de Siquém. Essa cidade era um centro religioso há 4.000 anos a.C. Antes dos israelitas, outros povos, inclusive o cananeu, haviam realizado ofertas e sacrifícios a seus deuses naquele lugar. Também em Siquém Abraão recebeu de Deus a promessa da terra, conforme Gn 12.6 (MAY Jr., p. 63). Dessa forma, a escolha de Siquém como lugar do pacto com Javé é

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simbólica. Ademais, pode-se observar que Siquém se encontra no centro do território de Israel, próximo ao monte Gerizim, o mesmo monte usado como local de adoração a Javé pelos samaritanos (Jo 4.21). 2.5 – A centralidade do SERVIR Ao longo do capítulo 24 destaca-se a raiz hebraica ‫‘( דבע‬ebed), que vem do verbo ‫‘( דבע‬abad), que significa trabalhar (Êx 5.18), cultivar a terra (Gn. 2.5, 2.15), servir ou trabalhar para outro (2Sm 16.19; Êx 21.6), prestar serviço em um culto (Nm 3.7; 8.25), celebrar um rito – lit. la-avód et avodáh (Êx 13.5), servir, render culto (2Rs 21:3; Ex 3.12). A raíz ‫‘( דבע‬ebed) – servir – aparece 17 vezes no cap. 24, sendo nove vezes na perícope do texto em estudo. Isso traz consequências para a pregação desse texto, lembrando que o centro da vida cristã são o amor e o serviço a Deus e ao próximo, assim como Jesus Cristo destaca no lava-pés antes da última ceia realizada com seus discípulos (Jo 13.1-17). Na pregação, poder-se-ia ligar o texto de Josué à ação de Jesus Cristo e à frase atribuída a Mahatma Gandhi: “Quem não vive para servir não serve para viver”.

3

Meditação

3.1 – Servir a qual Deus? Servir a Javé e ser fiel a ele significa, para as pessoas que constituíram o povo hebreu, renunciar aos deuses adorados pelos opressores, grandes proprietários de terra, que subjugavam os simples e os trabalhadores. A história de Deus com seu povo mostra, desde o evento da libertação do êxodo, que Deus toma o partido dos escravos, oprimidos, vítimas da exclusão social e política. O evento do êxodo é lembrado em Josué 24 e serve como eixo de ação para o projeto de Deus em favor de seu povo. Esse Deus, que outrora ouviu o clamor do povo oprimido e desceu para libertá-lo, deseja estar presente na vida do povo, deseja estar próximo, ser companheiro de caminhada. O pacto de fidelidade de Deus para com o povo em Siquém lembra isto: Deus aproxima-se da humanidade, e essa aproximação implica vínculo, fidelidade, seguimento, serviço e solidariedade. Servimos ao Deus ao qual pertence toda a terra (Sl 24.1). Deus não se estabelece em nenhuma terra em particular; ele é Deus de justiça para todas as pessoas e deseja agir com bondade e misericórdia para com nosso e qualquer povo que viva sobre a terra. Deus concede-nos a terra de forma gratuita para ser mordomos, bons administradores da mesma. Por isso ela não pode ser destruída por alguns, não pode ser dominada, não deveria constituir a base de nenhuma exclusividade social ou econômica. A terra é um dom, uma graça concedida para o bem-estar de todos os povos, e deve ser compartilhada e deixada intacta para as futuras gerações. Terra tem ligação com a salvação que Deus quer para todos os povos e está relacionada com a justiça social, tão ausente em nossa sociedade. Essa reflexão traz sérias im-

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plicações para a afirmação do texto de Josué 24.15: Eu e minha casa serviremos ao Senhor. O que significa servir ao Deus da libertação, que opta pelo povo simples e oprimido, que quer a justiça social instaurada já e aqui entre nós? Será que de fato podemos encher o peito e afirmar que servimos a Deus com toda a nossa casa, com toda a nossa força e capacidade, quando julgamos e menosprezamos pessoas que lutam por vida digna, como pequenos agricultores que desejam uma justa distribuição da terra e a reforma agrária, os povos indígenas e tantas outras pessoas que querem preservar seu pedaço de chão e que, muitas vezes, são retirados à força de seus lugares de moradia em prol de grandes projetos e dos grandes proprietários que ainda hoje servem a outros tantos deuses? A que Deus eu e minha casa queremos servir? A que Deus nossa igreja quer servir? Ao Deus do amor, da partilha, da justiça social; ao Deus da graça, bondade e misericórdia ou ao deus que favorece e apoia ações de uma minoria elitista, tal qual na época do sistema cananeu, que subjuga, oprime, escraviza, destrói e conduz ao individualismo, ao imediatismo, ao sensacionalismo da mídia e à frieza das novas tecnologias que impedem as relações face a face? Servir a Deus hoje compromete-nos com os sinais de vida e faz-nos lembrar nosso Batismo, início da vida de serviço e amor a Deus e ao próximo. 3.2 – Servir a Deus onde? Na terra que é um dom de Deus, no local em que Ele te colocou para ser sinal de bênção e não de maldição (Dt 30.15-20). Na tua casa: “Comece em sua casa a viver o amor, o amor que liberta, o amor do Senhor!” (OPC, p. 110). Que exemplos de serviço, amor, respeito, partilha, liberdade, fidelidade existem em meu lar? Na igreja: O que posso fazer para ajudar a minha comunidade de fé, que dons posso colocar a serviço? Onde a igreja pode aplicar mais ainda seu tempo, talento e tesouro, conforme estimula o reformador Martim Lutero? Como ser igreja a serviço dos marginalizados e oprimidos nos dias de hoje? Na sociedade: Onde posso dar testemunho da minha fé e da minha vontade de servir a Deus, usando a armadura da fé na sociedade? Como dica, cito alguns exemplos de pessoas que querem servir a Javé com toda a sua casa, como: envolvimento na escola dos filhos/filhas, boa relação com a vizinhança, na participação dos conselhos municipais, sabendo o que acontece na câmara de vereadores e participando ativamente das sessões, na visitação a lares de idosos, APAEs, na preservação da cidade limpa, na vivência fraterna e ecumênica com as diferentes denominações religiosas presentes na cidade, na denúncia de injustiças e da violência doméstica contra mulheres, crianças, idosos, homens. Sempre que houver envolvimento da família e da comunidade de fé na busca por soluções em conjunto para os problemas da cidade, participando, dialogando, incluindo, cuidando, serviremos a Deus e afirmamos seu projeto de vida plena para todas as pessoas na terra que ele nos concedeu para ser sinal de bênção.

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3.3 – Servir a Deus como? Abandonando o culto a outros deuses. Quais são eles hoje? Onde e como o culto a outros deuses oprime as pessoas e impede que tenham vida digna? Essas perguntas poderiam ser feitas à comunidade durante a pregação e respondidas de acordo com a realidade bíblica e o contexto social, político e religioso. Deuses como a vivência desenfreada do individualismo, consumismo, uso da tecnologia em detrimento das relações humanas; endeusar o ser humano; mercantilizar a religião; manipular e oprimir pessoas, subjugar e excluir expressões de fé diferentes da nossa devem ser denunciados e expostos para que se faça a cada novo dia um pacto de fidelidade exclusiva a Javé, o Deus de amor e liberdade revelado em Jesus Cristo. O texto das leituras bíblicas convida-nos a permanecer fiéis no pacto que Deus realiza conosco desde o Batismo e a dar testemunho do serviço a Deus e ao próximo. Efésios conclama-nos a usar a armadura para a luta diária contra outros “deuses”, armadura que o próprio Deus concede: verdade, justiça, fé, paz, boa-nova da salvação que Deus oferece em Jesus Cristo (Ef 6.10-20). Ali onde esses valores não estão presentes, há adoração a falsos deuses. O texto do evangelho lembra-nos que também os discípulos tiveram que optar, decidir, assim como povo hebreu faz em Josué 24. É preciso decidir seguir a Jesus Cristo ou não. Alguns desistiram no meio do caminho, frustraram-se, ficaram desiludidos com a proposta de Jesus. Pedro e os demais discípulos convocam-nos ao caminho da fidelidade ao projeto de Deus. Também nós somos chamados/chamadas a afirmar, decidir, comprometer-nos a anunciar paz, solidariedade, justiça, a denunciar opressão, maldade e “endeusamentos”. Como Pedro afirmamos: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus (Jo 6.68s).

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Imagens para prédica: O pincel mágico

Há muitos anos viveu na China um jovem artista de nome So Liang. Era puro de coração e de simples aspirações. A sua pintura era tão prodigiosa, que ia além de qualquer desejo ou imaginação. O pincel de So Liang era mágico. Cada desenho dele, flor, fruto ou animal, pegava forma e vida quando enxugava as últimas gotas de tinta. So Liang gostava muito das suas pinturas e divertia-se bastante com tudo isso. A fama dele, porém, começava a espalhar-se. De fato, ele podia desenhar um pássaro e fazê-lo voar, podia fazer correr um rio onde antes só havia terra seca. Quando o imperador soube do talento do jovem artista, mandou chamá-lo para obrigá-lo a desenhar para ele. So Liang detestava o imperador porque esse maltratava os pobres. Depois de muitos pedidos e ameaças, ele aceitou ir ao encontro do imperador, também para burlar-se um pouco do ganancioso senhor. Assim começou a desenhar o primeiro pedido do imperador: o mar. Poucas pinceladas, e o mar já estava lá com toda a sua imensidão. – Faltam os peixes! – gritou o imperador. So Liang trabalhou um bocado, mas, enfim, o mar ficou cheio de peixes de todo tamanho e cor. – Quero a praia – sentenciou o soberano. Assim

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foi desenhada e apareceu a branca areia da praia. – Quero um barco para pescar – disse, enfim, o imperador. Dito feito, em poucos minutos ele já estava navegando em alto-mar com todo o seu séquito. Era isso que So Liang estava esperando: dar um susto no imperador. Logo desenhou grandes ondas, muito vento e chuva. O mar ficou medonho. Ainda bem que a tinta acabou. Assim o barquinho do imperador e dos seus ministros conseguiu chegar à praia. Todos estavam molhados e muito zangados com o pintor. Imediatamente ele foi expulso da corte. Feliz, So Liang voltou a viajar pelo mundo novamente dono da sua mágica. Voltou a fazer o que gostava de verdade: pintar uma sopa para um faminto, uma casa para um mendigo, um bem-te-vi para um jardim triste. E a todos andava contando como um dia tinha assustado o imperador. Esse conto pode ser associado ao texto de Josué, pois lembra-nos a quem podemos servir. Há “deuses” que nos levam à escravidão, privam-nos de sonhos, oprimem e afastam do projeto de vida plena de Deus, iniciado na criação do mundo e no pacto feito com tantas pessoas que fizeram parte da história de seu povo. Deus deseja renovar o pacto feito conosco no Batismo, pacto de nova vida a partir de Jesus Cristo. Diariamente, precisamos usar as “armas” para o bom combate na luta por fidelidade e serviço ao Deus da vida: verdade, justiça, fé, paz, anúncio da boa-nova da salvação, cf. Ef.6.10-20. Também sugiro como subsídio para a pregação o acesso ao site onde consta a Carta da Terra, documento que mostra como eu e minha casa podemos servir a Deus, agindo em favor de um mundo mais justo, sustentável, pacífico e solidário: http://www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de fé: Fazemos parte do povo de Deus a partir do nosso Batismo. Pelo Batismo Deus vem ao nosso encontro e chama-nos para pertencer a ele, servindo-o com fé, alegria e compromisso. No Batismo, Deus fez um pacto, uma aliança conosco, que jamais deverá ser quebrada ou ignorada. Ao Trino Deus queremos servir sempre. Sugiro que seja lida pela comunidade essa confissão de fé, retirada do livro “Passos na Fé”, v. 02, fascículo nº 5, p. 23. Se for culto com Batismo, o mesmo poderá ser lido por padrinhos, madrinhas, familiares da criança, pela comunidade e pais, de forma intercalada: ATRAVÉS DO BATISMO EU CONFESSO: Pertenço a Deus. Ele me acompanha no meu caminho, ele me dá a sua amizade. Posso chegar até ele quando eu quiser. Isso também vale quando fiz algo errado ou quando, por muito tempo, não quis saber dele. ATRAVÉS DO BATISMO EU CONFESSO: Pertenço a Jesus Cristo. Ele me mostra o caminho para Deus. Ele me mostra como a vida pode ser feliz e como, na vida, a gente pode amar a Deus, a si mesmo e ao próximo.

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ATRAVÉS DO BATISMO EU CONFESSO: Sou filha ou filho de Deus. Portanto tenho irmãs e irmãos. Pertenço à grande família de Deus, espalhada por todos os países e povos. Pertenço à comunidade de Jesus Cristo, ao grupo de pessoas que orientam a sua vida em Jesus. ATRAVÉS DO BATISMO EU CONFESSO: O mal não pode ter poder definitivo sobre mim, pois Jesus Cristo venceu o mal por mim. Nenhuma culpa tem tanto poder, que possa impedir-me de voltar a Deus. Nenhum poder do mundo pode separar-me do amor que Deus tem por mim. ATRAVÉS DO BATISMO EU CONFESSO: A morte não vai ter a última palavra sobre minha vida. Deus ressuscitou Jesus da morte e, da mesma forma, ele vai me guiar para uma vida nova em seu reino. Cantos: Lembro alguns cantos relacionados aos temas propostos na meditação desse texto bíblico: Servir a Deus onde? Cantos: 110, 179, 264 – cancioneiro O Povo Canta (OPC). Servir a Deus como? Cantos: 50, 22, 80, 140, 58 – cancioneiro O Povo Canta (OPC).

Bibliografia DREHER, Carlos Arthur. “Josué: ¿modelo de conquistador?: In: RIBLA n. 12, v. 2, 1992, p. 49-67. MAY JR., Roy H. Josué y la Tierra Prometida. New York: Editora de Recursos Multilíngues – Iglesia Metodista Unida, 1997.

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14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MARCOS 7.1-8,14-15,21-23

30 AGO 2015

DEUTERONÔMIO 4.1-2,6-9 TIAGO 1.17-27

Hans Alfred Trein

Das tripas coração

1

Introdução

Há alguns anos, depois dos surtos da gripe H1N1, a recomendação de lavar as mãos – e não só com água e sabão, mas com soluções de álcool gel – saiu dos hospitais e popularizou-se como prática antisséptica nos espaços públicos e repartições. O bom propósito por trás dessa prática é evitar que a gripe se dissemine e evolua para uma epidemia. Mas por que Jesus reage logo com um arrazoado teológico em cima de uma simples pergunta pela higiene cotidiana dos seus discípulos? Jesus conhecia a tática de seus contendores. Em muitas controvérsias, eles “miravam na igreja, mas queriam mesmo era acertar o padre”. Atrás dessa perguntinha aparentemente inocente esconde-se todo um sistema de opressão dos pobres, o sistema de pureza e impureza que impunha rituais e também rendia algum dinheiro para o templo. E, nesse caso, cabia entrar com uma reflexão teológica sobre o que é fundamental e o que é secundário. A leitura de Deuteronômio lembra que é a palavra de Deus que faz viver e não aquilo que ao redor dela é acrescentado ou diminuído por sistemas humanos. Honrar os mandamentos de Deus e cumpri-los é a sabedoria de um povo, e isso será visto e admirado como inteligência por outros povos. A leitura de Tiago enfatiza que toda boa dádiva e palavra da verdade vêm do alto, do Pai das luzes. Recomenda que estejamos prontos para ouvir e acolher a palavra poderosa que Deus implanta em nós e tardios para falar, refrear a língua e irar-se. Ao ouvir segue o praticar da Palavra, sem o que a religião é vã e a fé é morta.

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Exegese

Jesus e seus discípulos estão em Genesaré na Galileia. Fariseus e escribas vieram de Jerusalém, a pelo menos 100 km de distância. Não se poriam na estrada por uma mera questiúncula sobre higiene. Marcos traz esse texto no contexto de várias curas, da ressurreição da filha de Jairo, de rejeições a Jesus pelos gerasenos e nazarenos e da morte de João Batista. Além disso, Jesus ainda anda sobre as águas e faz o milagre da multiplicação dos pães. Para os poderes constituídos na política e na religião, tudo isso está fugindo ao controle. Parece que tudo o que até ali era sólido para os guardiões da política e da religião está se desmanchando no ar. O clima político-religioso está em polvorosa.

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14º Domingo após Pentecostes

O verbo que representa o perguntar dos fariseus e escribas é eperōtōsin. Significa interpelar, cercar com perguntas, contra-argumentar. Esse verbo informa que de fato não foi uma perguntinha à toa pela higiene cotidiana, mas uma controvérsia mais ampla. Os verbos utilizados para lavar, limpar, purificar indicam que Jesus desnuda a sublimação religiosa de um bom costume higiênico doméstico. Parece que os fariseus lavam as mãos por causa do ritual religioso dentro do sistema de pureza e impureza e nem mais tanto por razões higiênicas. Para cumprir o rito de modo correto, havia a necessidade de certa infraestrutura, que nem sempre estava disponível para itinerantes e para a maioria do povo na Galileia. Pela observação de Jesus, a lavagem das mãos não consegue evitar a impureza fundamental que vem de dentro e não de fora. Para falar do ventre, o texto usa o termo koilia, que significa genericamente cavidade abdominal, mas refere-se primordialmente ao aparelho digestivo. Jesus argumenta de modo plástico. Tudo o que entra nele passa pelo corpo e sai do corpo, sem contaminá-lo, pois não entra no coração. O aparelho digestivo é um sistema fechado, não há ligação entre o ventre e o coração. No coração é que se processam pensamentos, tomam-se decisões, articulam-se ações que prejudicam a saúde comunitária. Os rituais de pureza e impureza não impedem a contaminação que verdadeiramente conta. Não dá para saber se Jesus também sugeria uma analogia entre o que sai do coração e o que sai do ventre: os impropérios que saem do coração são como fezes e urina. Essas, sim, são capazes de contaminar outras pessoas e todo o ambiente; por isso vão para lugar escuso, uma fossa. Em relação à saúde corporal, o argumento de Jesus não é sustentável, pelo menos dentro do paradigma da medicina convencional. Doenças são transmitidas através dos orifícios do nosso corpo: através de ingestão, respiração e contato contraímos intoxicações, hepatite, gripes, doenças venéreas... Comer maionese estragada com salmonelas dá uma intoxicação danada! Consequências semelhantes pode-se ter comendo com mãos contaminadas. Os indígenas Kulina têm alguma dificuldade em aceitar que a diarreia de suas crianças vem de beber a água contaminada do rio, pois têm outro paradigma cultural de interpretação para saúde e doença. O saber científico atual afirma existir, sim, comunicação do trato intestinal com o restante do corpo, tanto para absorver e disponibilizar elementos de nutrição como também para excretar toxinas e impurezas acumuladas no restante do corpo (função especialmente ativada em tempos de jejum). A contaminação que conta para Jesus, entretanto, não é essa da saúde corporal, mas sim a social. A centralidade do coração na afirmação de Jesus não é física ou biológica, mas é culturalmente o lugar vital. A identidade cultural do povo judeu deve estar marcada pelo cuidado com o que sai do coração e não com o que entra no corpo. Lavar as mãos, higienizar os alimentos, lavar as canecas e os pratos não vai fazer nenhuma diferença. Importa focar a vivência, a práxis das pessoas que resulta de reflexões e decisões que vêm do coração e não dos intestinos. Dessa disputa não se pode concluir que Jesus é avesso à higiene. Jesus veio para cumprir a palavra de Deus, sem alterar nenhum til, mas não para cumprir

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14º Domingo após Pentecostes

preceitos humanos. Não se precisa ler isso em oposição excludente, como faz a hermenêutica de substituição, muito comum entre cristãos que enxergam Jesus substituindo Moisés, o Novo Testamento substituindo o Antigo, o evangelho substituindo a lei... Jesus certamente não foi contra procedimentos higiênicos, mas contra a sua sublimação religiosa excludente e discriminadora dos marginalizados. A tradição é boa, mas, quando superacentua o que não é essencial, acaba virando tradicionalismo. A lista de maldades apresenta doze vícios, o que sinaliza sua abrangência. Referem-se aos mandamentos não roubar, não matar, não adulterar, não cobiçar, não dizer falso testemunho, não usar o nome de Deus em vão... (7.21-22).

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Meditação

Tomar banho regularmente, lavar as mãos, lavar a louça, canecas e vasilhas está na lógica do paradigma da medicina convencional predominante, segundo a qual as doenças provêm de minúsculos agentes externos, bactérias, bacilos e vírus, que, através das mãos, da respiração (dos fluidos) e de alimentos impuros ou estragados, penetram no corpo e o contaminam. Outras culturas desenvolveram outros paradigmas medicinais. Mas, pelo visto, não é essa a área para a qual Jesus empurra a discussão. Rituais criam segurança, geram um sentido de pertença e acolhimento ao grupo. Não os seguir gera insegurança. Jesus e seus discípulos ainda se movem dentro da segurança étnico cultural judaica? Ou com seu relaxamento desses rituais estão se colocando fora não apenas da tradição, mas também do povo judeu e de sua tarefa especial de ser luz para os povos? Ao se transformarem em regras com finalidade em si mesmas, que servem para excluir quem não as cumpre, bons costumes perdem sua razão de ser. Não servem mais para criar e fortalecer laços de comunhão e convívio, mas para separar. Vivemos em outro tempo. As culturas não se distinguem mais com tanta clareza. A informática dá acesso ao conhecimento de um mundo inimaginável de novidades e diferenças. Nas grandes cidades, há oferta de tudo que é tipo de comida. A mobilidade neste mundo globalizado intensificou-se, possibilitando conhecer o estranho e o diferente, olhar para dentro de outras culturas e religiões, até mesmo adotá-las por inteiro ou aos fragmentos, indo morar nesses países ou trazendo-as para dentro de casa através do matrimônio intercultural. Hoje se tem acesso a diferentes conceitos de medicina e saúde: a medicina tradicional chinesa, a ciência de cura naturalista alemã, o sistema de saúde ayurveda da Índia, o xamanismo de povos indígenas... A psicossomática parte do princípio de que toda doença origina-se de um mau pensamento, respectivamente, de um conflito não trabalhado. Será que Jesus pensava em termos psicossomáticos? Parece que vamos pegando um pedaço daqui e outro dali e costurando uma colcha de retalhos para organizar nossa vida. Não temos mais a segurança ritual dentro de uma cultura. Vivemos, de certa forma, a insegurança de estar sempre construindo algo novo.

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Os rasantes avanços na tecnologia de comunicação aceleram ainda mais essa colcha de retalhos. Dificilmente se encontrarão grupos culturais fechados em cima de seus rituais simbólicos. Até mesmo os mais fechados (quakers, amish) têm de se render às buscas das novas gerações. Prevalece o liberalismo. Tudo é permitido, tudo é legal. “Cada um, cada um”, como se diz por aí. Por outro lado, será que alguns grupos pentecostais com seus costumes corporais, de vestuário e de conduta moral, de recusa aos meios de comunicação não reeditam o que defendiam escribas e fariseus? No aspecto da alimentação, também há grupos que tornam exclusivos a macrobiótica ou o vegetarianismo e condenam os seguidores onívoros. É difícil encontrar quem segue uma tradição dos anciãos que pudesse merecer a crítica de se colocar na contramão da palavra de Deus. A crítica de Jesus é uma crítica a partir de dentro da cultura e não de fora. Isso lhe confere muito mais autoridade para fazê-la. Ela está concentrada nos v. 6b e 7 e tem o seu auge no v. 13: invalidar a palavra de Deus para a vida através da tradição de preceitos de homens. Cuidando dessas picuinhas cotidianas, os fariseus erram no essencial. Coam mosquitos e engolem camelos. Isso está na mesma lógica das radicalizações do sermão da montanha. Se o nosso conceito de pecado restringe-se a algumas normas morais ou rituais, acaba-se achando que Deus é tão pequeno, que se pode manipulá-lo. As pessoas podem ter um discurso religioso e até piegas, cumprir todos os rituais culturais e religiosos, mas cometer as maiores barbaridades sociais (corbã). Jesus lembra Isaías 29.13: Esse povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Ensinam doutrinas que são preceitos de homens. Jesus enfatiza o âmbito da convivência e das relações na comunidade. Isso é essencial – e não ritos que nos vêm do passado. Não tem de jogar a tradição fora. A boa tradição é passar adiante brasas vivas e não cinzas. Quando brasas vivas se tornam cinzas, a tradição vira tradicionalismo. O que sai da boca podem ser palavras de desgraça ou de construção do novo dentro da comunidade. Refletir, conversar sobre as coisas essenciais do relacionamento certamente garante uma vivência comunitária mais adequada neste mundo de rápidas transformações do que o seguimento de algumas tradições que granjearam vida própria e ninguém mais sabe ao certo por que ainda as seguem.

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Ideias para a prédica

Há usos e costumes que nos identificam como cristãos de confissão luterana? Na Amazônia, tornamo-nos conhecidos como crentes que bebem e fazem festa. Há costumes locais tão fortes, que quem não os segue está se colocando fora da comunidade. Tem alguém em nossa igreja defendendo que determinadas pessoas estão se desviando dos costumes culturais/religiosos sagrados? E o que aconteceria se alguém fosse acometido de câncer e se recusasse a entregar-se aos paradigmas da medicina convencional? O que é essencial na fé e na vida comunitária? O que exclui alguém da comunidade hoje? Apenas o não pagamento da anuidade? É esse realmente o mal

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maior que afeta as nossas comunidades e impede-as de ser luz e sal no mundo? Mosquitos e camelos! Não matei, não roubei! O senso comum em nossas comunidades reduz os Dez Mandamentos a esses dois. Talvez seja hora de acentuar com Tiago o estrago que fazem línguas desenfreadas na vida comunitária. Além disso, enfatizar a prática do ouvir e da visitação aos marginalizados sociais de hoje (Tg 1.26s). Ali onde está o teu coração, está o teu Deus. Rituais não são suficientes para cumprir a vontade de Deus. A ética comunitária é essencial para a vivência de fé. Ali onde existe amor, ali está Deus. A palavra de Deus (trata-se de ouvi-la, guardá-la e praticá-la) tem a função de pôr ordem no caos social. Sua finalidade é proteger a vida.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Sugiro elaborar uma oração com três ou quatro daqueles vícios listados em Mc 7.21s, que em sua atividade pastoral e de visitação mais lhe parecem procedentes. Enuncie a maldade e convide as pessoas a revisar sua conduta. Oração de coleta: Deus Todo-Amoroso, que conduziste o teu povo da escravidão à liberdade e implantaste em seu coração mandamentos e orientações para organizar sua convivência em justiça, paz e liberdade, olha também para a nossa vivência comunitária e auxilia-nos a distinguir o essencial do que é secundário, para que possamos participar dignamente do teu projeto aqui em (nome do lugar), para tua maior honra e glória. Isso te pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo reina de eternidade a eternidade. Intercessão: Deus Todo-Amoroso, reforça o nosso ouvir. Dispõe-nos para encontrar os mais fracos de nossa comunidade com paciência e solidariedade. Concede-nos tua reconciliação em meio às nossas confrontações, dá-nos conhecimento e aprendizagem mútua, que as diferenças possam nos enriquecer, que o estranho nos dê novas perspectivas. Concede-nos palavras boas na construção de um mundo de paz e justiça, que possamos – aqui em (nome do lugar) – contribuir para a reconciliação, a paz e o amor entre as pessoas e com a criação. Amém.

Bibliografia REIMER, Ivoni Richter. Compaixão, Cruz e Esperança – Teologia de Marcos. São Paulo: Paulinas, 2012.

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PRÉDICA: TIAGO 2.1-10(11-13)14-17

15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 06 SET 2015

ISAÍAS 35.4-7a MARCOS 7.24-37

Aline Danielle Stuewer Joel Haroldo Baade

1

Introdução

Fazer diferença entre pessoas, infelizmente, é uma prática muito comum, também na igreja. Quantas pessoas olham as outras de cima a baixo e as julgam segundo as suas vestes, o seu gênero ou cor da pele. Obviamente, somos diferentes, e a diferença não é um problema em si, mas se torna problema quando a diferença é transformada em juízo de valor; quando, segundo alguns critérios, algumas pessoas são consideradas melhores ou mais importantes do que outras. O texto de Tiago, aqui analisado e objeto de pregação, reflete justamente sobre essa prática tão corriqueira em nossos dias, mas também presente entre as primeiras comunidades cristãs. Sugere, mais do que uma aceitação interior das diferenças, que elas sejam efetivamente vivenciadas em práticas concretas, pois a fé sem obras, nos termos de Tiago, é morta. Uma relação com o texto da mensagem pode ser encontrada no texto de Marcos, que narra a história do encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia que pede pela cura de sua filha. Jesus, inicialmente, mostra-se relutante afirmando de que não é certo tirar o pão dos filhos para dá-lo aos cachorrinhos, mas, diante do testemunho de fé daquela mulher, concede-lhe a cura de sua filha. Esse texto, assim como a perícope de Tiago 2.1-10,14-17, reflete uma prática de diferenciação de pessoas, sendo que as duas mensagens sugerem a necessidade de superação dessa prática. A fim de comparar duas versões distintas do texto, fez-se uso das versões de Almeida Revista e Atualizada (RA) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), considerando que são as versões mais usadas no contexto da IECLB.

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Exegese

A Carta de Tiago é um dos escritos polêmicos do Novo Testamento. Aparentemente, ela está em contradição com os escritos de Paulo, pois enfatiza a ação dos cristãos, as obras, enquanto as cartas paulinas ressaltam a necessidade da fé. Pode-se perguntar, nesse sentido, se ela seria uma recaída no legalismo judaico ou uma tentativa de correção de uma possível interpretação equivocada dos escritos de Paulo. Lutero também não foi simpático à Carta de Tiago por essa ênfase nas obras (HÖRSTER, 1996). A Epístola de Tiago não tem uma estrutura determinada, sendo que os temas são abordados sem ligações intencionais. O capítulo 2, do qual foi recortada

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a perícope para esta reflexão (2.1-10,14-17), debate duas temáticas: sobre os pobres e os ricos na igreja (2.1-13) e sobre a fé e as obras (2.14-26) (BULL, 2009). Percebe-se, a partir disso, que o texto de pregação faz uso das duas temáticas, propondo uma correlação entre a coexistência de pessoas diferentes dentro da igreja e as obras da fé. Quanto à autoria da carta, é certo que a referência a Tiago diz respeito ao irmão de Jesus (Mc 6.3). Contudo é muito discutida a autenticidade dessa autoria, pois o texto está redigido em linguagem formal do helenismo; também se fala da “liberdade da lei” (1.25), o que aparentemente seria pouco esperado de um autor tão próximo do judaísmo como o irmão de Jesus. De qualquer forma, uma afirmação definitiva a esse respeito não é possível (BULL, 2009). A carta é endereçada “às doze tribos que se encontram na dispersão” (1.1, versão RA). Uma interpretação literal faz supor que os destinatários sejam cristãos-judeus da diáspora. Entretanto, se for levado em conta que cristãos-judeus estariam pouco predispostos a interpretar de forma equivocada a mensagem de Paulo, então se poderia interpretar de forma mais ampla o cabeçalho, de modo que as doze tribos são, na realidade, toda a igreja de Jesus Cristo em todos os lugares (HÖRSTER, 1996; BULL, 2009). Essa parece ter sido a interpretação na NTLH, na qual se fala em “todo o povo de Deus espalhado pelo mundo inteiro”. A generalidade do cabeçalho e a falta de referências específicas sobre alguma comunidade levaram alguns estudiosos a se perguntar se Tiago é de fato uma carta ou se deveria antes ser caracterizada como uma epístola, que é um ensaio literário em forma de carta. Sendo assim, “Tiago é um escrito didático com exortações para os seus leitores” (HÖRSTER, 1996, p. 98). Em 2.1-13, Tiago dirige-se enfaticamente contra qualquer comportamento que faça a diferenciação de classes na comunidade. Os pobres são os eleitos de Deus. “Os ricos, ao contrário, são opressores e blasfemadores. O mandamento do amor deve ser o princípio de comportamento na comunidade. Se o juízo é feito segundo a aparência das pessoas, a lei da liberdade é transgredida” (BULL, 2009, p. 130). A partir disso, o texto de Tiago parece sugerir que, entre os primeiros cristãos, já havia algumas pessoas que faziam diferenciação entre os membros da comunidade. Tiago, por sua vez, posiciona-se explicitamente contra essa prática. No texto 2.13 isso é ressaltado enfaticamente: “Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo”. Nesses termos, Tiago rejeita a afirmação de que unicamente a fé pode salvar. Como comprovação veterotestamentária, a carta refere os exemplos de Abraão e da prostituta Raabe (2.21-26). A afirmação central do texto está em 2.17: “Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (BULL, 2009). O comentário de Lutero ao texto 2.17 é elucidativo: “Sim”, tu dizes, “mas a fé não justifica e salva sem as obras?” Realmente, isso é verdade. Mas onde está a fé? Que acontece com ela? Como ela se manifesta? “Pois a fé não deve ser algo preguiçoso, inútil, surdo ou morto; ela deve ser como uma árvore viva e fecunda, repleta de frutos. Portanto esse é o teste e a diferença entre a fé genuína

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e a fé falsa e maquiada: onde a fé é genuína, ela se manifesta também na vida. É verdade que uma fé falsa tem o mesmo nome, emprega as mesmas palavras e jacta-se das mesmas coisas, mas dela não resulta coisa alguma” (Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero; OS 11, 292). Para a leitura, sugere-se a adoção da NTLH, considerando sua linguagem mais acessível e menos prolixa. Contudo, em sendo esse o caso, é melhor que os v.11-13 sejam omitidos, pois na NTLH o v.13 refere o “Dia do Juízo Final”, o que pode desviar a atenção da temática aqui proposta e não corresponde ao texto grego, em que se fala apenas numa prevalência da misericórdia sobre o juízo. Caso se deseje ler também esses versículos, é melhor que se use a tradução de RA.

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Meditação

No mundo em que vivemos, é comum as pessoas serem avaliadas pela forma de se vestir, de falar ou pelos bens materiais que ostentam. Somos bem avaliados se estamos vestindo uma roupa ou um sapato de marca, se temos muitas roupas para vestir, bastante influência, um emprego de destaque, uma boa casa, um bom carro etc. Se alguém for a uma concessionária, a uma festa ou a um banco e estiver bem vestido, bem “arrumado”, poderá receber um atendimento e tratamento diferenciados. Frequentemente, as pessoas costumam tratar melhor alguém bem vestido e de aparência vistosa. A sociedade é assim... o mundo é assim... Mas na igreja deveria ser diferente. Todas as pessoas, ao entrarem na igreja, deveriam sentir-se incluídas, nem menores nem maiores do que ninguém; nem mais nem menos importantes do que ninguém. Se no dia a dia experimentamos a realidade de ser avaliados pelo que temos e não pelo que somos, na igreja deveríamos experimentar algo diferente: o de ser aceitos e acolhidos. Infelizmente, nem sempre é assim. Também entre nós, pessoas cristãs, há discriminação e diferenciação. Será que todas as pessoas se sentem acolhidas em nossa igreja? Será que todas sentem que têm a mesma importância? Como igreja, muitas vezes temos selecionado quem queremos ou não que faça parte de nossas comunidades. Precisamos ser lembrados de que Jesus viveu, morreu e ressuscitou por “todas” as pessoas. Pelas ricas e pelas pobres, pelas que vestem roupas de marca e pelas que vestem roupas sem marcas, pelas que têm bolsa de couro e também pelas que nem sequer têm bolsa, pelas que são brancas e pelas que são negras. Por isso, como pessoas cristãs, somos desafiados a viver e testemunhar em palavras e ações esse amor de Jesus. A nossa acolhida e aceitação precisam transmitir o amor e a presença de Deus. Caso contrário, estaremos, na igreja e fora dela, vivendo e testemunhando aquilo que prega o mundo e não a palavra de Deus.

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Imagem para a prédica

Um homem que vivia sua vida na roça começou a participar de um grupo de oração na igreja. No grupo, em determinado momento, cada pessoa colocava-

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-se diante de Deus em oração. Cada pessoa fazia seus pedidos a Deus em voz alta. Como a igreja ficava num bairro nobre da cidade, as pessoas muito letradas elaboravam muito bem suas orações com palavras bonitas e difíceis. Até que chegava a vez do Zé. Ele olhava para o altar, onde tinha uma cruz e dizia: Jesus é o Zé! As pessoas da igreja sempre olhavam o Zé de um jeito estranho. Todos incomodavam-se com a presença do Zé e com sua oração. Todos ficavam longe dele. Afinal, ele era de fora, gente estranha. Um dia, o pastor daquela igreja perguntou àquele homem simples, analfabeto, por que ele sempre dizia isso quando era a sua vez de orar. O homem respondeu: É que eu não sei orar. Então venho aqui, olho para ele, ele olha pra mim, e eu digo: Jesus é o Zé. Certo dia, esse homem simples adoeceu e ficou internado por alguns dias. As enfermeiras do hospital perceberam que o Zé tinha grande animação. Nada o deixava triste. Um dia, perguntaram ao Zé como ele conseguia ser assim, e ele respondeu: É por causa da visita que recebo todos os dias. As enfermeiras não entenderam a resposta do Zé, pois ele não tinha família e nunca havia recebido uma visita. Então perguntaram ao Zé: Quem te visita todos os dias, sendo que nunca vimos? E o Zé respondeu: Sabe aquela cadeira que está ali? Pois é, todo dia ele vem na mesma hora, senta ali e fala: Zé é Jesus. E depois vai embora.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Querido e amado Deus, chegamos em tua presença misericordiosa e acolhedora para confessar nossos pecados. Confessamos que os nossos olhos olham para nosso próximo com olhar de julgamento. Muitas vezes, temos julgado as pessoas pelos bens que elas têm, pelas roupas que vestem e pela influência que possuem. Confessamos que, diferente de ti, temos dificuldade de olhar para as pessoas com olhar de misericórdia. Temos dificuldade de acolher em nossas comunidades pessoas que são diferentes de nós. Perdoa-nos, Senhor, apesar de nossas bocas confessarem que tu és o nosso Senhor. Perdão, pois nossas ações muitas vezes não refletem que tu és Senhor. Hinos: Seguem algumas sugestões que contemplam a temática acolhida, comunhão e amor ao próximo para serem incluídas na liturgia: HPD I nº 117 (Jesus, pastor amado); HPD II nº 325 (Aqui você tem lugar); HPD II nº 327 (Unidos no Espírito).

Bibliografia BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento: história, contexto e teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009.

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HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Esperança, 1996.

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PRÉDICA: MARCOS 8.27-38

16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 50.4-9a TIAGO 3.1-12

13 SET 2015

Uwe Wegner

Imagens que construímos de Jesus

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Introdução

Marcos 8.27-38 apresenta boa relação de conteúdo com uma das demais leituras sugeridas, ou seja, com Isaías 50.4-9a. Esses versículos fazem parte do terceiro cântico do Servo de Deus em Isaías (1º cântico: 42.1ss; 2º cântico: 49.1ss; 4º cântico: 52.13- 53.12) e, como em Marcos 8.31ss, apresentam referências diretas ao sofrimento do Servo: “Apresentei as costas aos que me queriam bater, ofereci o queixo aos que me queriam arrancar a barba e nem desviei o rosto dos insultos e dos escarros” (v. 6). A segunda das demais leituras sugeridas, Tiago 3.1-12, trata dos pecados ou perigos da língua e diretamente não apresenta relações com o texto de Marcos.

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Exegese

Marcos 8.31-38 consta de três perícopes: a confissão de Pedro (v. 27-30), Jesus prediz sua morte e ressurreição (v. 31-33) e ditos sobre o discipulado/seguimento a Jesus (v. 34-38). 2.1 – A confissão de Pedro O texto mostra que, já na época de Jesus, não havia consenso sobre sua verdadeira identidade. “Os homens” achavam que ele poderia ser João Batista ou Elias ou algum dos demais profetas. Outros já achavam que ele era do mal e identificavam-no como “possesso de Belzebu”, o maioral dos demônios (Mc 3.22). Enfim, sua identidade era um ponto de interrogação. E por isso os judeus de João 8.25 resumem o enigma: “Então lhe perguntaram: quem és tu?” A resposta de Pedro é clara: “Tu és o Cristo” (= “ungido”, no português; “Messias”, no hebraico). Resolvido o problema? Ainda não. Pois na época de Jesus o perfil do messias aguardado podia variar bastante: ele podia ser comparado a um rei, como em Salmos de Salomão 17, cujas atribuições seriam limpar a terra santa de Jerusalém dos pagãos, aniquilar os dominadores estrangeiros, pulverizar com cetro de ferro os pecadores etc. Em outros textos podia adquirir feições sacerdotais (por exemplo, no Testamento de Levi 18). Em Qumran havia, inclusive, uma expectativa de dois messias (rebento de Davi e intérprete da lei: 1QS 9.11 etc.). Isaías 11.1ss apresenta um vasto leque do que tudo poderia ser

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associado ao messias: por um lado, o “rebento de Jessé” terá espírito de sabedoria, compreensão, prudência, valentia e de conhecimento do Senhor; por outro, julgará com a verdade e justiça e ainda “castigará o opressor com a vara que é a sua boca”. O termo era, pois, suscetível de muitas interpretações. Em si, declarar Jesus como “Messias” poderia, na verdade, levar a que cada pessoa o interpretasse segundo as suas ideias messiânicas preconcebidas. Daí as palavras de Jesus: “Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal cousa a seu respeito” (v. 30). E. Schweizer tenta explicar essa advertência de Jesus da seguinte maneira: “Os homens deveriam ser preservados de adotar uma afirmação tradicional e, com isso, rotular Jesus, pois isso os impediria de um encontro autêntico com Jesus sem pré-concepções. Se alguém sabe que seu interlocutor é pastor, muitas vezes uma ideia errada sobre os pastores o impede de ouvi-lo com atenção. Por outro lado, uma pessoa pode, sem saber quem é seu interlocutor, acabar realmente impressionado por ele; nesse caso, é compreensível que, depois disso, exclame: Esse é realmente um pastor!”(p. 97s). 2.2 – Jesus prediz seu sofrimento, morte e ressurreição (v. 31-33) Estes versículos explicam por que Jesus solicitou aos discípulos não divulgarem ser ele o Cristo. É que, segundo concepção predominante da época, o Messias não era associado a sofrimento, derrota e morte, mas unicamente à vitória sobre os inimigos e à libertação do jugo político (p. ex., nos Salmos de Salomão 17). Mas aqui Jesus está dizendo que, em seu caso, são necessários o sofrimento, a rejeição, a morte e a ressurreição (cf. predições bem semelhantes ainda em Mc 9.30-32 e 10.32-34). O título com o qual Jesus autodenomina-se, nesse caso, também não é mais “Messias”, e sim Filho do Homem (ou Filho do Humano, numa tradução mais literal). “Filho do Homem”, nesse caso, parece ser formulação para designar, humildemente, “homem”, “ser humano” (à maneira de “filhos de Israel” = “israelitas”). Sofrimento, humilhação, rejeição, morte são da condição humana. Por isso Jesus emprega aqui o título “Filho do Homem”, não Messias ou outro similar; é que no sofrimento ele se assemelhou a todos nós humanos (Hb 2.10-18). “Isso ele expunha claramente” (v. 32). Os discípulos, bem como, por exemplo, a maioria dos demais judeus, pensavam assim: quem é redentor, salvador, quem tem a missão e o poder para salvar a outros não pode, ele próprio, necessitar de salvação e redenção. Por isso as pessoas da época não conseguiam conceber um crucificado como salvador: “Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se; desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e creiamos” (Mc 15.31-32). As palavras de Jesus são um teste para o imaginário sobre Deus. Pode Deus aceitar, tolerar, compactuar com a morte de um inocente? Não era fácil imaginá-lo assim. Daí a necessidade de expor isso “claramente”. Pedro reprova Jesus, reprova seu sofrimento e morte. Dessa forma, para Jesus, ele vira instrumento de Satanás (algo idêntico ocorre com os missionários fraudulentos criticados pelo apóstolo Paulo em 2Co 11.13-15). Ele não pensa mais como Deus. O sofrimento cabe no seu imaginário de Deus para os outros,

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para os inimigos, a quem Deus vai destruir e eliminar, mas não como vontade de Deus para seu próprio enviado, para suas próprias testemunhas. 2.3 – Ditos sobre o discipulado/seguimento a Jesus Os ditos dos versículos 34 + 35 + 36-37 e 38 não se encontram exatamente na mesma sequência ou contextos nos demais evangelhos. Essa é a razão por que muitos pesquisadores os interpretam como ditos que, originalmente, existiam de forma isolada, sendo que o evangelista Marcos reuniu-os aqui no capítulo 8 como exemplos para o discipulado. V. 34 – As três condições do discipulado: negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Jesus. Negar-se a si mesmo – A melhor maneira para entender esse versículo é perguntar: se nego a mim mesmo, afirmo a quem? Ou: afirmo o quê? O Novo Testamento responde: negar-se a si mesmo é necessário para que se possa afirmar ou aceitar Jesus e/ou o reino de Deus como parâmetro, bússola e fundamento da vida, do pensar e agir. Que o reino de Deus deva ter prioridade sobre desejos e vontades individuais no discipulado mostra-nos o texto de Lucas 9.59-62. Outra palavra clássica a respeito: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). A maioria dos textos sugere que o negar-se a si mesmo advém da necessidade de aceitar Cristo como fundamento de pensar e agir. Uma palavra clara a esse respeito é a de João 3.30: “Importa que ele cresça e que eu diminua”. Outra é Gálatas 2.20: “Logo, não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. Ainda outra é Filipenses 3.4-8. Aqui Paulo fala que o que antes considerava como lucro, agora considera como perda por causa de Cristo. Ele afirma que “por amor de Cristo perdi todas as coisas e as considero como refugo, para conseguir a Cristo...”. Ou seja: negar-se a si mesmo está em função de afirmar Cristo, abrir espaço na vida para Cristo poder entrar. O que se diz do reino de Deus e de Jesus pode-se, por fim, dizer no Novo Testamento também do Espírito. Já 1 Tessalonicenses 5.19 alerta: “Não apagueis o Espírito”. Em 1 Coríntios 3.16 e 6.19, Paulo afirma mais claramente que nós somos templos de Deus, pois é o seu Espírito que habita e quer habitar em nós. Gálatas 5.16-26, por fim, mostra como isso fica concreto na prática: quem tem em sua vida o Espírito de Cristo dará os frutos do Espírito e não os da carne, para que, como diz Paulo, “não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (5.18). Resumo: negar-se a si mesmo é não fazer as coisas “do nosso querer”, mas as coisas que Cristo e seu Espírito querem, as coisas que são necessárias fazer para que o reino de Deus cresça e se multiplique. “Negar-se a si mesmo” é, por amor de Cristo, “estar disposto a perder todas as cousas e a considerá-las como refugo para conseguir Cristo” (Fp 3.8). Tomar a sua cruz – A expressão “tomar a cruz” não se encontra atestada literariamente na época de Jesus. Isso não quer dizer que não era usada, já que a crucificação era amplamente conhecida como pena capital romana. Jesus provavelmente empregou a expressão em sentido literal e figurativo ao mesmo tempo. Em sentido literal, ela quer dizer: quem quiser seguir-me tem que contar que,

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como eu, também pode vir a ser crucificado (Jo 13.16: “O servo não é maior do que seu Senhor...”). Em sentido figurativo, ela é expressão para adversidades e sofrimentos implicados na obediência a Jesus (“O servo não é maior que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros”: Jo 15.20). “Tomar a cruz” seria, nesse caso, viver aquilo que preconiza Mt 5.11: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós”. Palavras do apóstolo Paulo que poderiam ilustrar esse sentido figurativo seriam Filipenses 3.10 (ter comunhão com os sofrimentos de Cristo), 2 Coríntios 4.10s (levar no corpo o morrer de Jesus; ser sempre entregue à morte por Jesus), entre outras. Ou seja, tomar a sua cruz significa: obediência no seguimento a Jesus tem seu preço para cada um. Não é igual para todos. Nem todos os discípulos de Jesus foram ou são – literalmente – crucificados. Mas todos eles e elas vão ter que experimentar na própria pele, cada qual à sua maneira, que aquilo que Jesus propõe para a solidariedade e justiça encontra resistência dentro do mundo. V. 35 – “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á”. Essa palavra encontra-se em contextos e formulações distintas nos diversos evangelhos. Só em Marcos 8.35 existe a referência “... e do evangelho”. Os paralelos sinóticos Mateus 16.25 e Lucas 9.24 só têm “por causa de mim” (assim também em Mt 10.39). Em Lucas 17.33 e em João 12.25, contudo, o dito tem um teor geral, não cristológico: “Quem quiser preservar sua vida, perdê-la-á; e quem a perder, de fato a salvará” (Lc 17.33); “Quem ama a sua vida, a perde; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25). É possível que foram essas as palavras originais de Jesus. Jesus proclamava uma verdade universal. Os discípulos, mais tarde, concretizaram essa verdade para quem era cristão: “... por amor de mim e do evangelho”. Nada mais coerente! Qual o sentido do versículo? O versículo defende uma troca de valores: a vida (cristã) só é um ganho quando, na prática, representa perda, e vice-versa. A vida só se torna verdadeira quando presenteada, quando é dádiva, entrega. O versículo, no fundo, permite entender melhor o valor “positivo” da cruz enquanto entrega: o grão, para dar fruto, precisa morrer, diz Jesus (Jo 12.24). Para poder reassumir sua vida, Jesus precisa dá-la primeiro (Jo 10.17). V. 36-37 – Os v. 36s não fazem senão reafirmar a validade do v. 35, mas agora generalizando essa tendência humana: a propensão humana natural não é só ganhar sempre, mas também ganhar tudo, “o mundo inteiro”. Quem o faz perde sua “alma”, que aqui não tem outro sentido senão simplesmente “vida”. Também no v. 37 “alma” significa simplesmente vida. V. 38 – Este versículo exemplifica o que alguém pode fazer para não seguir Jesus, ou seja, “envergonhar-se” de suas palavras. O Evangelho de João deixa claro: “palavras” de Jesus não são unicamente os seus meros discursos, mas os seus mandamentos, suas propostas concretas de convivência (Jo 15.4-10). Assim, “envergonhar-se” das palavras de Jesus leva, concretamente, a não praticar o que elas propõem e ordenam. Jesus vai envergonhar-se no futuro de quem no presente se envergonha dele – esse é o sentido da segunda parte do versículo. “Filho do

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homem” (“filho do humano”) é melhor entendido como sendo aqui referência ao próprio Jesus (Paulo usa terminologia semelhante para falar de si em 2Co 12.2 na terceira pessoa do singular).

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Meditação

As três perícopes estão intimamente relacionadas. Pedro revela a Jesus que ele é o Messias; Jesus revela a Pedro que ele é o Messias sofredor; Jesus expõe as condições para segui-lo como Messias sofredor. Pode-se construir uma prédica sobre qualquer uma das três perícopes. Como em estudo anterior (PL XXV) já apresentei sugestões para prédicas de Marcos 8.31-33 e 8.34-38, farei neste estudo uma meditação sobre o texto de Marcos 8.27-33. a) Os v. 27-28 sugerem que cada pessoa tem uma determinada imagem de Jesus. Seria muito interessante verificar que tipos de imagens existem sobre Jesus nas comunidades. A meu ver, valeria a pena fazer um apanhado de algumas imagens de Jesus em turmas de Ensino Confirmatório, OASE, talvez numa ou noutra diretoria de comunidade. O leque de concepções seria grande e plural, sem dúvida. b) Poder-se-ia perguntar: como se explica que temos tantas imagens diferentes de Jesus e tantas respostas diferentes sobre quem ele é? Aqui se poderia apontar para vários fatores, como por exemplo: a) Depende de quais pastores/ pastoras a gente teve na paróquia ou que influenciaram a gente; b) Depende das comunidades nas quais participamos e vivemos. Há comunidades mais ligadas à teologia do Encontrão, outras à teologia da Comunhão Martim Lutero, outras mais à teologia política ou de libertação, outras mais à teologia das comunidades tradicionais. Cada uma delas também cultiva um determinado Cristo e uma determinada noção de como deve ser igreja; c) Depende de como nós mesmos aceitamos Cristo. O problema aqui é que a gente costuma aceitar de Cristo aquilo que nos convém, aquilo que nele combina com a gente e aquilo que gostamos dele. O que é difícil é aceitar um Cristo que seja bem diferente de nós, que em vez de nos confirmar nos questiona, em linguagem teológica, que nos revela como pecadores e avessos ao que Deus quer. O problema é que a gente faz uma imagem de Cristo “à nossa semelhança”. A mesma coisa vale da sociedade e do mundo. A sociedade cultiva uma imagem de Cristo como ela acha que ele deveria ser. Exemplo: numa sociedade machista, dificilmente será cultivada uma imagem de um Cristo que lutou e pregou defendendo os direitos iguais da mulher; numa sociedade que discrimina pessoas negras, dificilmente Cristo será entendido como quem defende o amor de Deus por todos os povos e raças; numa comunidade de classe alta, dificilmente a imagem cultivada de Cristo é a do Messias preocupado com o bem-estar dos pobres. c) Outra questão que se poderia levantar: afinal, o problema com as diferentes imagens de Jesus é bem semelhante às imagens que construímos de outras pessoas. Às vezes, pensamos que uma pessoa é uma coisa, quando, na verdade, é bem outra. Como surgem essas imagens distorcidas de outras pessoas? A experiência diz que, quanto menos convivermos com uma pessoa, quanto mais

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dependermos do que outros acham de uma pessoa, tanto maior será o perigo de fazermos imagens falsas dela. O segredo para sabermos quem uma pessoa verdadeiramente é só é possível quando nós próprios nos aproximarmos dela, convivermos com ela, falarmos com ela. Sem essa proximidade, sem essa comunhão de vida, dificilmente a gente fará um juízo correto de alguém. Aqui está a chave para entendermos o valor do discipulado, do seguimento a Jesus. Sem discipulado corremos sempre o perigo de achar coisas sobre Jesus que ele, no fundo, nem é. d) O grande desafio que o texto apresenta para nós é o seguinte: queremos seguir Jesus, Filho de Deus, para onde nós gostaríamos que ele fosse ou para onde ele próprio vai? Nós, seguramente, estamos dispostos a seguir Jesus pelos caminhos da Galileia, acompanhá-lo e ovacioná-lo em suas curas e milagres, louvá-lo quando ele derrama suas bênçãos sobre nossas finanças, saúde e amores. Foi esse o “messias” que Pedro confessou ser seu Salvador. A pergunta que se colocava para Pedro era: mas e o caminho para Jerusalém? O caminho em que Jesus foi contestado, perseguido, criticado, difamado e morto? Pedro estava disposto a conhecer e seguir esse Jesus também? Dentro de sua imagem de salvador cabia também esse tipo de salvador? Cabia uma salvação que no mundo é contestada e perseguida porque quer o pão para todos, quer um poder que não seja de uma só pessoa ou partido, mas compartilhado, uma religião que não seja só de adoração e louvor na igreja, mas de partilha e solidariedade com os necessitados? Uma salvação que, por defender a verdade, provoca a ira e a perseguição dos que enriquecem com corrupção? Quando Pedro notou que o caminho da salvação de Jesus não era só de glórias e vitórias, mas poderia implicar também muita aspereza, luta, contestação, decepção e sofrimento, ele protestou: “Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo” (Mc 8.32). Jesus, em sua resposta (Mc 8.33), dá a entender que a imagem de salvador que Pedro tinha deduzido de sua pessoa não era a imagem inspirada por Deus, mas pelo diabo. Por isso: “Arreda de mim, Satanás!” e) Na teologia, convencionou-se vincular a imagem que Pedro fazia de Jesus a uma “teologia da glória”, enquanto a verdadeira imagem e significado de Jesus só poderiam ser descobertos por uma “teologia da cruz”. A gente poderia dizer: Jesus trilhou vários caminhos. Como Salvador, ele só pode ser conhecido em sua verdadeira natureza se estivermos dispostos a acompanhá-lo também em seu caminho para Jerusalém.

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Imagens para a prédica

Nosso texto está previsto como pregação no dia 13 de setembro, ou seja, uma semana depois das comemorações da semana da pátria. A prédica poderia explorar a justaposição de duas imagens que podem excluir-se ou complementar-se: uma imagem seria a das margens do Ipiranga com o grito: “Independência ou morte”. A outra imagem seria a do Cristo crucificado com os dizeres: “Se o grão de trigo, caindo na terra ... morrer, produz muito fruto” (Jo 12.24). Dom Pedro I entendeu que independência e morte se excluíam. O cristianismo crê que o sacri-

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fício de vida de Jesus abriu a porta para a verdadeira independência das pessoas e de um país.

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Subsídios litúrgicos

Na oração de confissão de pecados, caberia pedir perdão a Deus pelas falsas imagens que construímos de Jesus, pelos interesses próprios com os quais instrumentalizamos nossos conceitos e entendimentos de salvador e salvação. Pedir perdão por construir um Jesus “à nossa imagem”.

Bibliografia SCHNIEWIND, J. O Evangelho segundo Marcos. São Bento do Sul: União Cristã, 1989. SCHWEIZER, E. Das Evangelium nach Markus. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht,1967.

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PRÉDICA: JEREMIAS 11.18-20

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MARCOS 9.30-37 TIAGO 3.13-4.3,7-8a

20 SET 2015

Antônio Carlos Ribeiro

Do desejo de vingança à crítica penitente

1

Introdução

A violência é sempre um apelo forte, surge das pulsões mais elementares, encontra eco numa realidade mal informada e em sociedades com os valores corrompidos e nunca restabelece a justiça. Por maior que seja o impulso de supostamente “estabelecer a justiça”, essa nunca se concretizará sem uma metrificação das penas, de modo a tornar justa a punibilidade legal. Esse é o sentido da Lei de Talião ao determinar o “olho por olho, dente por dente” e não o da vingança sórdida, desmedida e baseada em massacres, comum em nossa história, incluída a recente. Jeremias é um caso paradigmático a provocar profunda reflexão, especialmente em espaços sagrados, vestidos de imagens religiosas, com vitrais visibilizando a história da salvação e movimentos marcados por ritos litúrgicos, como a pretender a absorção e cristalização do sagrado. A motivação desse ato é ainda mais perigosa, já que a devoção, a emoção e mesmo a paixão são sentimentos sem parâmetros, avassaladores, que pretendem o apoio de todas as forças, atropelam os sentidos e desprezam a razão. Por isso sempre desembocam num desejo último, desesperado, inatingível, como quem dispara o gatilho da máquina fotográfica com o objetivo – inalcançável – de evitar a morte do momento, como mostrou Susan Sontag. O Evangelho de Marcos trouxe o ensino de que “quem quiser ser o primeiro será o último e servo de todos”. Jesus foi contra a violência pressuposta nos valores da época, nadou contra essa maré, apostou numa fé autêntica que não se rende às pressões do poder. Como ensinaram os alemães: Nur tote Fische schwimmen mit dem Strom (Só os peixes mortos nadam com a correnteza). Já a Epístola de Tiago ensina que o sábio busca o caminho da mansidão, do proceder condigno e não o da inveja amargurada, da vingança ressentida e da história vivida pelos injustamente vencidos. Só em paz encontramos as soluções, nunca com inveja, mentira, guerra e morte. No esforço para ser a voz do sagrado, Jeremias não temeu olhar para a própria humanidade. Percebeu a trama, sentiu a amargura da traição, viveu a paixão de não sensibilizar os algozes, mas assim como Jean Valjean, de Os Miseráveis, recusou entregar-se à vingança, preferiu o sofrimento dos pobres, não apelou à morte dos inimigos. Pelo mesmo sofrimento, o Jesus de Christ lag in Todesbanden, de J. S. Bach, esteve nos laços da morte, mas ressuscitou.

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A crítica penitente nasce do critério, do parâmetro e da medida. E não se constrói sem dor.

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Exegese

A Assíria era uma potência econômica e militar quando o profeta Jeremias nasceu em Anatote em torno do ano 650 a.C. No entanto, ao assumir seu trabalho profético na juventude (627 a.C.), o império assírio já tinha concluído a linha de ascensão, feito a curva do apogeu e mergulhava no declínio, sucumbindo menos de um século depois (512 a.C.) à monumental força do império babilônico, que surpreendeu pela ascensão célere. Durante esse mesmo período de crise econômico-política, que determinou a decadência dos assírios e a ascendência veloz e hegemônica dos babilônios, o reino de Judá teve liberdade e avanços econômicos, chegando a estender para o norte o seu território. Nesse ambiente e período (622 a.C.), começou sua reforma religiosa sob a liderança do rei Josias. Época de crescimento econômico que produz mudanças, inclusive na vida religiosa, a reforma propôs-se erradicar os cultos que perderam a autenticidade, condenando a idolatria – como sempre associada a um sistema de interesses, acomodação e vantagens, construído a partir dos altares e santuários no interior – e centralizando o culto em Jerusalém. A entrada em cena de Jeremias deve-se a seu apoio às reformas e ao rei Josias. A atitude religiosa e política não dispensou a criticidade que, aliada ao dever profético (falar em nome de Deus ao povo) e sacerdotal (falar em nome do povo a Deus), manteve a distância necessária à criticidade e à argúcia para ler os fatos. Assim, logo percebeu que a reforma tinha limites e não seria profunda, que havia estruturas religiosas criadas, com sacerdotes e cultos ativos, o sistema de ofertas vigente e que a pouca experiência da justiça de Javé não sensibilizou os sacerdotes com as lutas dos pobres. Não basta conhecer a lei de Javé sem ouvir o clamor dos seus filhos; nem anunciar sua aliança com o povo, sem sair em defesa desse; nem anunciar a aliança divina, sem ver sua usurpação sob as bênçãos dos sacerdotes. Se esses tomassem a sério a aliança com Javé, a reforma poderia ter transformado o povo e o país, com benefícios para todos. Mas a reforma acabou se resumindo ao conflito de interesses do reinado e dos sacerdotes, pelo que o profeta a rejeitou e denunciou. A pregação do profeta Jeremias concentrou-se no caos que sucedeu ao povo, não escondeu crises como a ascensão do império e os efeitos danosos da concentração de poder e propôs ao povo uma atitude de arrependimento, confissão e retorno ao cumprimento da aliança. Em meio ao encantamento com o poder e a confiança exagerada no nacionalismo, o discurso de Jeremias teve péssima repercussão, especialmente entre a classe sacerdotal. Diante dos riscos, Jeremias mostrou-se insistente e disposto a pagar preços. Assumiu sua causa profética, reuniu as forças, enfrentou os conflitos e assumiu as consequências. Recebeu uma mensagem de que estava sendo vítima de uma trama perversa. Sentiu-se como um cordeiro, o animal inofensivo que é docilmente levado para o matadouro. Nosso texto reflete esse conflito existencial e espiritual,

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inserido no contexto das chamadas confissões de Jeremias. É a primeira parte da série de cinco confissões entre os capítulos 10 e 20 (11.18-12.6; 15.10-21; 17.1418; 18.18-23; 20.7-13). As confissões de Jeremias refletem a fala pessoal do profeta. São desabafos que expressam sua dor, angústia e revolta contra o povo e contra Javé, contrastando os sentimentos de confiança e compromisso com a missão que recebeu de Javé. Mesmo variando em forma e conteúdo, três elementos destacam-se em todas elas, caracterizando sua marca e constituindo seu centro: 1. A perseguição, hostilização e ameaça por causa da pregação (11.19; 15.10,15; 17.15,18; 18.18,22s.; 20.10s.); 2. A legitimidade: surgida entre sua pregação e a ação de seus inimigos, e as esperanças de Jeremias depositadas em Javé, de quem pedia julgamento e legitimação de sua ação (11.20; 15.11,15,16ss.; 17.16; 18.20; 20.12); e 3. A vingança: que pede que Javé realize (11.20; 15.15; 17.18; 18.21-23; 20.12). É possível e legítimo que alguém a serviço de Deus sinta dúvidas quanto à missão, sofra riscos e ameaças, podendo até desesperar-se em algum momento. Mas deve admitir sentimentos “maus” e “demasiadamente humanos”, como o desejo de vingança, e dirigir-se a ele, entregar o que o maltrata e pedir a justiça dele.

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Meditação: Jeremias ainda é um modelo de atuação para nosso tempo?

Assumir a vocação com um amor autêntico, forte e intenso provoca impactos nas instituições religiosas e nas sociedades. A determinação de perseguir objetivos, negociar avanços e alcançar mudanças sempre encontra resistência e provoca dor e sofrimento. A frase “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional”, de Carlos Drummond de Andrade, ensina-nos que a dor é uma consequência para quem faz opções, assume projetos e luta por resultados. Já o sofrimento dependerá do amor, dedicação e preços a serem pagos, mas será sempre abatido na conta da alegria profunda, da palavra latina gaudium – o sentimento de quem sempre foi fiel aos caminhos que escolheu –, daí tirando a força para lutar. Jeremias avaliou e interveio na reforma proposta pelo rei Josias, que centralizou o culto, lidou com o poder dos sacerdotes e do Templo e confrontou interesses sacerdotais locais. Isso criou desconforto com os sacerdotes de Anatote, que se fecharam num bloco para defender suas prerrogativas, assegurar os lucros e conjugar interesses de classe. Mas, no final, perderam seu ministério, tendo que se sujeitar ao clero de Jerusalém. Ao mostrar simpatia pela reforma, Jeremias foi considerado traidor por amigos e familiares. Na verdade, o motivo da perseguição foi sua pregação profética, pela qual não perdeu sua criticidade. Ele nunca defendeu integralmente a estrutura da reforma, percebendo suas falhas e denunciando a corrupção sob o manto religioso. Desenvolveu uma visão crítica e objetiva dos acontecimentos nacionais e internacionais, chegando a relativizar a confiança na eleição de Sião. Não temeu o conflito, assumiu-o e suportou. Desafiou o rei e o Templo. Denunciou. Profeta que sabe a que veio torna-se um incômodo. E se “escondeu em Deus, contra Deus”, como disse Lutero.

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Imagens para a prédica

Alguns conflitos resultam da incapacidade de enfrentá-los, pelo menos da forma como Jeremias enfrentou os do seu tempo. Nosso primeiro erro é temê-los e evitá-los. Ficamos silenciosos, enquanto ele cresce. A teologia que não corre riscos e que não desafia as comunidades deve perguntar-se a que veio e como lidar com a profecia emudecida. Perplexos, indagamos pelos teólogos, ministros e lideranças leigas. Seguimos mudos, a voz arde no peito, mas quando sairá das gargantas e chegará às ruas e praças? A leitura teológico-pastoral precisa, mãe da estratégia, não tem seu parto no medo. Só quando o enfrentamos, avançamos. Os temas da política eclesiástica e da exclusão étnica e social são paradigmáticos. Um resolvemos, e não nos incomoda mais. O outro tememos, fugimos e sublimamos como o “obstáculo que fomos incapazes de superar”. O medo desse conflito inconcluso é pior do que o conflito. O primeiro era a tensão com a ditadura militar, a ideologia da superioridade, a moral kantiana do dever, o apoio dissimulado da igreja e até um membro entre os generais presidentes. Aí veio a assembleia da Federação Luterana Mundial (1970), a construção da sede da igreja em Porto Alegre (RS), o grito tamponado diante das torturas, o mal-estar dos demais luteranos, a transferência da assembleia para Evian-les-Bains na França. A crise abriu o tema, provocou o debate, fez surgir o Manifesto de Curitiba e o conjunto de avanços dos anos 1970. O segundo é o desdobramento dessa proposta teológico-pastoral para dentro da realidade brasileira. Os novos campos de missão, as pastorais populares, a formação de lideranças para as funções públicas, a participação de luteranos em temas políticos, religiosos e educacionais que supõem debate, pedem estratégias, despertam vocações, exigem aprimoramento qualificado e continuado. Onde o compromisso da igreja com a terra brasilis que os imigrantes fizeram sua pelo trabalho? E dos membros da igreja, ordenados e leigos, ocupando funções em organismos continentais e mundiais? E a participação da igreja na década em que o país deu um salto de desenvolvimento? Que impactos proporcionou? Que efeitos sofreu? Como entender sua diminuição vertiginosa nos centros urbanos do país? Por que acabaram as parcerias frutíferas da década de 1990? Por que mudamos tanto em uma década e, aparentemente, não debatemos essas mudanças? A reforma, firmada na pessoa de Josias, não avançou após sua morte. Poderia estar comprometida desde o início? Não tinha o estofo necessário para se perpetuar? Tudo isso pode ser verdade, mas não limitou a atuação do profeta, que sabia a que veio. Seu sacerdócio não o fechou nas sacristias nem o tombou vítima dos conluios, mesmo tendo pago preços altos e vivido grande solidão. A diferença do profeta pode ter sido “não ter perdido a esperança”, ter se dado conta de que, precisamente para isso, ele estava ali naquele momento, não ter perdido o ímpeto, mesmo tendo aparecido muito e dizer que não era sua tarefa, que interferia em assuntos que não lhe cabiam, que não teria o apoio devido ou simplesmente que não conseguiria.

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Em meio à prisão, sob a destruição de Judá, comprou um campo em Anatote, sinalizando que todo mal não lhe fez turvar a visão. Sofreu pela condição humana e por ser profeta. No completo abandono e isolamento, descobriu que a legitimidade de sua função vinha do próprio Deus e da necessidade do povo. Anunciou o que não queria. Orou pedindo o que queria. Brigou com Deus pela simples convicção de que só dele viriam as respostas. Não esmoreceu na busca pelo sentido para os absurdos da vida. Assim, moveu o chão do Templo e as fronteiras do reino a partir da sua vocação. E assumiu os preços de suas dores, recusando-se a sofrer.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Amada comunidade: neste Pentecostes, aprendamos a confiar no Espírito que pôs ordem no caos inicial, levantou profetas, criou a igreja, vocacionou servidores – ordenados e leigos – para nosso tempo e lugar. Que ele nos desinstale, nos dê tarefas crescentemente mais difíceis, faça-nos ver possibilidades maiores que as dadas pelo nosso tempo. Que nos dê curiosidade, ousadia, percepção e capacidade para ler sinais dos tempos. Para que ajudemos as comunidades a auscultar estes tempos. E para que aceitemos o mandato do anúncio da salvação e ousemos fazer os que os outros insistem ser impossível. Para que possamos corresponder à tarefa que nos confias, sem planos alternativos, pedimos. Confissão e lamento pelos pecados: Deus, pedimos que dês à tua comunidade vocações legítimas e pessoas sensíveis. Ajuda-nos na perspectiva pastoral comprometida, na leitura crítica da realidade e na coragem para enfrentar os próprios dilemas. Anima-nos a aproveitar nossa comunhão na comunidade de fé como uma rara oportunidade de amar. E pelas dificuldades de assumir riscos e viver desse modo, pedimos: Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Buscamos tua presença como os que sabem ser espiritualmente pobres. Ajuda-nos a assumir tarefas e responsabilidades sem buscar nosso próprio interesse ou de nossa comunidade. Abre nossos olhos para nos tornar críticos e penitentes. Faze-nos vislumbrar os desafios frente aos quais nos colocas como comunidades de fé. E ajuda-nos a viver e testemunhar neste novo espaço de contiguidades. Na tua esperança, pedimos. Amém!

Bibliografia KILPP, Nelson. 18º Domingo após Pentecostes. HOEFELMANN, Verner; SILVA, João A. M. (coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, EST, 2005. p. 256-262. v. 31.

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17º Domingo após Pentecostes

VOIGT, Emilio. 18º Domingo após Pentecostes. STRECK, Edson Edilio; KILPP, Nelson. (coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: IEPG, Sinodal, 1993. p. 246-251. v. 19.

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PRÉDICA: MARCOS 9.38-50

18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

NÚMEROS 11.4-6; 10-16; 24-29 TIAGO 5.13-20

27 SET 2015

Roberto E. Zwetsch

Do sal e da paz mútua

1

Introdução

O evangelho para este domingo e os textos de leitura são estímulos à prática da fé e a uma convivência pacífica na comunidade de fé que deseja seguir Jesus hoje, procurando viver e praticar o perdão, a oração e a diaconia mútua. O texto de Números relata a murmuração e as queixas do povo de Israel no deserto contra o Deus que o libertara das cadeias da escravidão no Egito. Ele narra como Deus e Moisés reagem ao povo, que lembra com saudades das panelas do Egito diante da fome no deserto da liberdade. Moisés, encurralado entre Deus e o povo, sente o peso da responsabilidade e prefere morrer. Deus não o deixa desistir, orienta a escolha de setenta anciãos para seus auxiliares, que também profetizam. No meio do povo levantaram-se dois outros homens, que começaram a profetizar. Josué, colaborador de Moisés, protestou e pede que Moisés os proíba. A resposta de Moisés questiona qualquer ortodoxia centralizadora: Tens tu ciúmes por mim? Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito (v. 29). O texto de Tiago 5 é mais conhecido. Aponta para a diaconia do cuidado, que caracteriza a comunidade cristã desde os primórdios. Seja na doença ou na alegria, a comunidade está sempre atenta a seus irmãos e irmãs. Ela ora por quem sofre, unge com óleo, fortalece a fé que salva e levanta as pessoas. Essa mutualidade da fé expressa-se numa convivência cuidadora, verdadeiramente diaconal. É caminho de justiça, o que demonstra que, na concepção bíblica, a justiça ultrapassa a letra da lei. Ela se estende a cada pessoa em suas necessidades concretas. É experiência de libertação integral, de corpo e alma, da pessoa toda. Esses textos servem como moldura para a pregação deste domingo, que se baseia no Evangelho de Marcos 9.38-50. Marcos é o primeiro dos evangelhos sinóticos. Serviu de base para os dois outros: Mateus e Lucas. Tudo indica que foi redigido por uma equipe de comunidade cristã gentílica, possivelmente ao norte da Palestina, fronteira com a Síria, em torno dos anos de 60-70 d.C., finalmente atribuída a Marcos, discípulo de Pedro. Essa comunidade reuniu na narrativa de Jesus sua vivência alternativa no seio de uma sociedade patriarcal. A forma literária é inusitada no mundo antigo: não se trata apenas de um relato do que “Jesus fez, foi e disse”, mas o que “esse Jesus e sua práxis significavam para essa(s) comunidade(s), décadas depois, na sua vivência da fé, da esperança e do amor” (Richter Reimer, p. 29), num tempo muito difícil e hostil (perseguição).

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18º Domingo após Pentecostes

O Jesus de Marcos questiona a sociedade patriarcal, o exercício do poder hierárquico, a prevalência masculina. Ele se manifesta às mulheres e abre um espaço inédito para o seu protagonismo. Mas não só mulheres, também crianças e artesãos fazem parte de seu grupo e acompanham seu ministério profético. Os estudos sobre a redação do Evangelho de Marcos mostram que sua composição reúne materiais de fontes diversas. Ivoni Richter Reimer informa que havia a narrativa da Paixão, o evangelho da cruz, como a fonte mais importante. Depois temos a fonte dos sinais (milagres, curas e exorcismos praticados por Jesus), a fonte das parábolas, uma fonte de ditos e controvérsias de Jesus, uma fonte apocalíptica e outras com dados biográficos de Jesus e seu grupo. Importante é nos darmos conta de que o evangelho é construído a partir da paixão, morte, cruz e ressurreição de Jesus, para então remontar ao seu batismo no Jordão por meio de João, a descida do Espírito, a tentação, o início do ministério na Galileia dos gentios, a práxis e o anúncio da proximidade do reino de Deus e do seu evangelho, até sua rejeição pelas autoridades judaicas, sua morte de cruz em Jerusalém, fora dos muros, e a ressurreição que vai ser vivenciada novamente na Galileia, testemunhada primeiramente pelas mulheres que o seguiram desde o início até o fim (15.47). Uma pergunta é central em Marcos: Quem é Jesus? A resposta decide sobre a fé que professamos. No evangelho, Jesus recebe muitos títulos: Filho de Deus, Filho do homem, Messias, Senhor, Filho de Davi, Santo de Deus, Profeta, Mestre, Pastor, Nazareno. Cada título destaca uma perspectiva da interpretação da comunidade sobre o significado de Jesus para sua vivência de fé. O que interessa aqui é reafirmar que a resposta não pode jamais ser apenas retórica. Para a comunidade de Marcos, a resposta verdadeira implica o seguimento de Jesus e a prática de seu evangelho, da boa notícia que ele trouxe e pela qual morreu e ressuscitou: a prática do amor e da compaixão de Deus, que perdoa, salva, liberta.

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O texto, o contexto, a mensagem

O Evangelho de Marcos tem algumas características próprias. Depois da preparação ao ministério de Jesus (1.1-13), ele pode ser dividido em duas grandes partes: a) ministério na Galileia (1.14-21), local da revelação de sua messianidade; b) Jesus a caminho e em Jerusalém (8.22-16.8), local de sua rejeição e morte na cruz, embora fora das portas. O acréscimo conclusivo corresponde ao testemunho da comunidade seguidora de Jesus (16.9-20). Marcos 9.38-50 está situado na parte em que Jesus caminha para Jerusalém após o primeiro anúncio de sua paixão. Nessa parte, temos um conjunto de ditos de Jesus que têm a finalidade de abrir os olhos dos discípulos, que custam a entender sua prática e mensagem. Pouco antes dessa perícope, Jesus ensina que decisivo no seguimento é a disposição de servir (9.33-37). Nesse trecho, há uma informação importante: quando Jesus desmascara a mentalidade competitiva em seu grupo, ele acolhe uma criança em seus braços. Ivoni Richter Reimer informa que essa é uma criança escrava (paidion), sujeita a maus-tratos e abusos de toda ordem; enquanto a criança que vivia com pai e mãe é normalmente nominada pela palavra teknon. Quer dizer,

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o gesto de Jesus não apenas sugere as crianças em geral como sinal da presença do reino de Deus, mas justamente as crianças mais exploradas e empobrecidas. Na perícope 9.39-50, encontramos instruções radicais de Jesus para o discipulado de serviço. E ela começa com uma exortação à tolerância. Assim como acontecera com Moisés, também os discípulos ficam incomodados que “outros” que não “seguem conosco” realizam exorcismos em nome de Jesus e, ao que parece, com sucesso. Jesus responde de modo muito claro: “Não o proíbam” (v. 39). Revela aí uma abertura para com as pessoas que, mesmo crendo nele e fazendo o bem a outros, não o seguem estritamente ao não fazer parte do seu grupo mais restrito. Há aí uma polêmica certamente já presente na comunidade de Marcos e no seu entorno, que deve ter motivado a seleção dessa passagem do ministério de Jesus. Quem não é contra nós é por nós (v. 40), a própria formulação inclui as comunidades contemporâneas que receberam esse evangelho. Há que meditar sobre esse ensino de Jesus, pois ele parece ainda muito atual em nossa realidade religiosa brasileira. Na sequência, Jesus continua sua exortação, radicalizando ainda mais seu ensinamento. Ele insiste que no seu discipulado não se deve escandalizar ninguém, especialmente a gente mais humilde, aquela que crê em Jesus (v. 42). Escandalizar é “ser pedra de tropeço” para outra pessoa, é “fazer pecar”, “desviar”. Jesus condena qualquer forma de praticar escândalo porque significa a possibilidade de desviar da graça de Deus. E as metáforas que usa são duras: é melhor entrar no reino de Deus maneta, perneta ou com um olho só do que sofrer no inferno (geena), o lugar fora de Jerusalém onde se depositavam o lixo, corpos moribundos ou abortados (Richter Reimer, p. 157). Conclusão: é melhor perder um órgão do que arder nesse terrível lixão (cf. a imagem de um lixão no Brasil no filme Lixo extraordinário na internet). Nesse lugar tenebroso, o fogo não apaga nem o verme morre. Há imagem mais terrível do que essa? Ela foi muito explorada na história do inferno da literatura ocidental. Mas aqui se deveria recuperar a tradição de Jesus mais uma vez: é dos pequeninos que se trata, é das pessoas simples que nele creem que devemos falar. São essas pessoas que não podemos escandalizar. Por fim, a perícope traz mais uma metáfora importante: a figura do sal. A intenção em todo o trecho foi contradizer a discussão estéril entre os discípulos sobre quem é o maior entre eles. Jesus põe por terra esse debate por beleza! O que importa é o serviço, é reconhecer que o reino de Deus faz-se presente a partir de crianças pobres, as quais não podem ser escandalizadas em hipótese alguma. Quem quer seguir Jesus questiona a sociedade que despreza as pessoas simples, os pequeninos, os frágeis, os analfabetos, as pessoas com deficiência. Mãos, pés e olhos de quem segue Jesus estão prontos para outras ações, que dignificam as pessoas, que as conduzem por caminhos justos, que libertam e curam. Por isso, completa Ivoni Richter Reimer, é preciso fortalecer a comunhão: tenham sal em vós mesmos, afirma Jesus no final desse debate intenso com seus amigos (v. 50). Sal, na tradição judaica, referia-se à Torá, a palavra que dá gosto à vida no relacionamento humano que se baseia na justiça. “Ter sal” aqui é, portanto, seguir os mandamentos de Deus, é vivê-los no cuidado e no serviço ao outro, começando

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pelos mais necessitados de apoio e justiça. Esse é o caminho para viver a paz mútua, a “paz uns com os outros” (v. 50). Ivoni Richter Reimer conclui essa parte de seu comentário escrevendo: “Isto significa que [...] os escândalos podem ser vencidos: construir e preservar a paz significa superar as ameaças que se apresentam como competição, como desejo de ter privilégios e desprezar os pequeninos. Essa superação só poderá ser conseguida no poder do espírito que se dispõe a servir” (p. 158).

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Meditação

A mensagem de Jesus não está jamais pronta, acabada, como se fosse uma doutrina cuja única finalidade é ser reproduzida fielmente, sem mudar uma vírgula sequer. Essa perícope traz muitos conteúdos a serem meditados para a prática da fé no evangelho hoje. Jesus ensina a tolerância para com os de fora e com isso nos prepara para saber dialogar com quem não participa de nossa comunidade de fé ou nosso grupo de referência. Em matéria de prática da fé, é necessário aprender continuamente a discernir as situações, as ações das pessoas, as motivações, a finalidade, o benefício ou malefício que podem proporcionar. Não o proíbam, responde Jesus, ao ser informado de que havia gente que, em seu nome, expelia demônios, curava, atendia a quem padecia necessidade e sofrimento. Não é a pertença formal ao grupo de Jesus que aqui define a justeza da ação exorcista, mas antes o bem que porventura está sendo praticado em prol de outrem. Esse critério pode servir muito bem para que avaliemos as práticas religiosas de muitos pregadores e exorcistas do nosso tempo. Mas também aqui vale o critério maior do serviço que caracteriza o discipulado de Jesus. Se pessoas, em nome de Jesus, mais se servem dos outros do que servem a essas pessoas, temos um sinal claro de que algo está mal, que ocorre distorção, pois o bem do outro não foi realmente atendido ou buscado. Quanto a praticar escândalos, essa é uma advertência que não caduca jamais. A igreja deu origem, ao longo da história, a muitos escândalos de todo tipo, fazendo tropeçar muita gente crédula, abandonando-a à própria sorte em matéria de fé e de vivência cotidiana. Os exemplos estão presentes por toda parte, seja na exclusão das mulheres do ministério, seja na infantilização do conjunto dos fiéis, seja nas perseguições aos hereges ou na Inquisição, ou ainda quando (devido às divisões) fez com que muitos abandonassem a fé e se tornassem inimigos do povo de Deus. O chamamento de Jesus é muito claro: melhor é perder mão, pé ou olho e entrar com alguma deficiência no reino do que arder no lixão da história e do esquecimento, em que não há memória de mais nada. Por que tropeçar ou fazer tropeçar alguém no caminho da fé e da graça de Deus? O que pode levar alguém que conhece o amor de Deus por meio de Jesus a escandalizar uma criança pobre ou uma mulher injustamente caluniada? Melhor que se lhe pendurasse uma pedra de moinho ao pescoço para ser lançado ao mar [...] (v. 42). Palavra de Jesus guardada na memória das comunidades e na oralidade de seus seguidores e seguidoras. Palavra dura, terrível, se pensarmos em sua radicalidade. No entanto, ela revela que justamente na comunidade de fé

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tais distorções são possíveis. Tais ameaças podem fazer-se presentes e arruinar a comunhão, a koinonia da fé e do amor mútuo. Daí porque Jesus exorta: tenham sal em vocês e entre vocês. O sal da comunhão, do amor mútuo, do mandamento maior. Isso trará paz mútua, paz criadora de novas relações de amizade e de companheirismo. Essa paz, sim, prepara para o serviço adequado e libertador. O serviço que transforma situações, salva e liberta.

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Preparando a prédica

A pregadora ou o pregador tem diante de si um texto do evangelho altamente crítico e desafiador para si mesmo, para a comunidade a quem serve com seu ministério de amor e cuidado e para o povo de Deus. As relações sociais no Brasil são por demais marcadas por hierarquias, desleixo no limite, por violências de muitos tipos. O tal homem cordial aventado por Sérgio Buarque de Holanda não passa de uma visão ideológica que procurou, mesmo à revelia do seu autor, encobrir a realidade humana que nos caracteriza. Precisamos encarar essa realidade com os olhos da razão crítica, mas também a partir da fé. E essa nos ensina a olhar invertendo as prioridades, os valores dominantes. Isso pode significar conflito, pois nem sempre a mensagem da paz e do amor mútuo convence. Faz parte do caminho da cruz apostar no lado inverso da realidade que grita e clama. Isso pode significar apostar em quem não tem fama, nem posses, nem outra espécie de grandeza visível. Isso também pode desafiar a comunidade que tem fé em Jesus a olhar para além dos seus limites e aprender de outros e com eles e elas o que significa fazer o bem sem olhar a quem ou dar de beber um copo d’água em nome de Cristo a quem não nos parece merecê-lo. É fácil escandalizar as pessoas. Difícil é convencê-las de que somos fiéis ao evangelho, ao Cristo da cruz e da ressurreição e que apostamos tudo em seu nome e no seu discipulado. Ter sal para salgar a massa, o mundo, ser sal e fermento, para usar outra figura dos evangelhos, diz respeito ao seguimento de Jesus. Se o sal vier a se tornar insípido, como lhe restaurar o sabor (v. 50)? Bom é o sal, disse Jesus. Sejamos sal, para salgar com uma vida em comunhão que conduz à paz verdadeira: a paz com justiça, a paz que salva, cura, perdoa pecados e constrói um mundo novo e libertado de todas as formas de opressão, miséria e desumanidade.

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Subsídios litúrgicos

O símbolo do sal pode ser bem utilizado nesse culto ou reunião. Trabalhar com seu sabor, sua finalidade e usar a metáfora para aprofundar o desafio de ser comunidade cristã no mundo atual. No final do culto, um círculo de mãos dadas poderá servir como gesto de paz e de envio para proclamar paz ao mundo, à sociedade que necessita dessa paz criadora que se baseia na justiça, no acolhimento, no cuidado de uns pelos outros, no sal do amor e no sal da justiça, Jesus! Carlos Bravo Gallardo escreveu: “Se os discípulos têm sal que preserva da ambição, então a comunidade viverá em paz”.

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Hinos: Cancioneiro O Povo Canta: 140, 182, 264; HPD II: 350, 368, 429. 443.

Bibliografia GALLARDO, Carlos Bravo. Jesus – homem em conflito. O relato de Marcos na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1997. REIMER, Ivoni Richter. Compaixão, cruz e esperança. Teologia de Marcos. São Paulo: Paulinas, 2012.

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PRÉDICA: HEBREUS 1.1-4; 2.5-12

19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 04 OUT 2015

GÊNESIS 2.18-24 MARCOS 10.2-12

Cledes Markus

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Introdução

É tempo de Pentecostes, e o 19º domingo dessa época. Este tempo celebra a vida e o ânimo que Deus, através do Espírito Santo, tem concedido a seu povo. Se as comunidades estão firmes no testemunho evangélico, é porque Deus nos tem concedido sua graça. O Espírito que animou os discípulos é o mesmo que sopra entre nós, permitindo que sigamos como comunidade de fé. Através dele, a obra de Jesus tem continuidade. A revelação de Deus tem continuidade. A revelação de Deus em Jesus Cristo é tema central do texto de Hb 1.1-4; 2.5-12. A mensagem é dirigida a uma comunidade que sofre por causa de seu testemunho e, por isso, é tentada a renunciar à fé em Cristo. Ela precisa ser animada a continuar firme, ouvir que Deus é fiel em seu amor e que vale seguir na perspectiva de um novo céu e uma nova terra. Na exortação, é relembrado que Deus tem agido de muitas e variadas formas na história do seu povo, e no presente essa revelação concretiza-se no Filho. Afirmar a ação em Cristo torna-se fundamental. O Filho esteve com o Pai desde a criação, sendo que todas as coisas são sustentadas por ele. Deus fê-lo herdeiro de todas as coisas. Além disso, também é necessário enfatizar que seu filho encarnou-se, solidarizando-se com a humanidade a ponto de entregar sua vida na cruz em favor de todos. Em relação às leituras deste domingo, Gn 2.18-24 é o relato da criação em que aparece a inter-relação entre o Criador e a criação. O Criador está empenhado em encontrar companhia para o ser humano; esse, por sua vez, coopera com a criação, dando nome e estabelecendo relações com os animais. E o relacionamento entre homem e mulher constitui-se de forma tão íntima e próxima, que se tornam uma só carne. A descrição é de um espaço de vida digna e fraterna, de solidariedade e cooperação, de comunhão entre Deus, as pessoas e a natureza. Assim, o texto mostra-nos na história da criação a vontade de Deus: pessoas em companhia de Deus vivendo fraternas relações entre si e com a natureza. E conforme o texto da prédica, Jesus Cristo está nessa ação criadora de Deus e torna-se herdeiro de todas as coisas. Na leitura de Mc 10.2-12, diante do questionamento se é lícito homens repudiarem suas mulheres, num contexto em que a mulher repudiada ficava desamparada, Jesus responde remetendo ao princípio da criação, em que o matrimônio faz parte da boa vontade de Deus e as relações entre homens e mulheres devem ser tão íntimas, que se tornem uma só carne.

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Exegese

Caráter literário: Hebreus distingue-se das outras cartas do NT por não possuir uma introdução com saudação e endereço. Apenas na conclusão aparece uma saudação típica de carta. O seu estilo é de prédica, e o autor chama-a de palavra de exortação (13.22). A mensagem gira em torno de textos do AT. Autor: A carta não menciona o autor. Sugerem-se muitos nomes, entre os quais Paulo ou algum de seus discípulos. Conforme Lohse, talvez jamais se descubra o autor. Contudo fica evidente a sua posição teológica, que procura ajudar a segunda geração cristã contra a tentação e o desânimo ao explicitar que a fé está intimamente ligada ao ser cristão. Destinatários: A carta também não identifica os destinatários. Segundo os exegetas, o título Hebreus somente foi atestado por volta de 200 d.C. Identifica-se que os leitores conheciam o AT e o serviço sacerdotal, mas nem por isso se pode afirmar que eram judeus convertidos, pois também os gentílico-cristãos liam e estudavam o AT. A informação, segundo Hb 2.1-4, é que eram pessoas da segunda geração cristã, o que leva para os anos 80 da era cristã. As referências sobre a comunidade encontram-se na própria carta. Hb 10.32ss e 13.3 mencionam que se vivia uma experiência de sofrimento: as pessoas passavam por humilhações e insultos públicos, sofriam perseguições e prisões e tinham seus bens confiscados. No testemunho, a comunidade solidarizava-se com as pessoas que sofriam mais como escravos e escravas, pessoas prisioneiras e humilhadas. Defendia os rejeitados e apoiava quem era explorado. E não ia com a maioria para fazer o mal ou para torcer o direito. Sua opção era a solidariedade comunitária, e não os valores e as práticas de quem a perseguia. Provavelmente também havia pessoas estrangeiras na comunidade, que sofriam restrições em termos de preconceitos e perda de direitos. Pelo seu testemunho, a comunidade havia perdido o status dentro da sociedade e via-se desonrada. Diante disso, a comunidade estava cansada e enfraquecida. Perguntava pelo sentido do sofrimento de Cristo e de seu próprio. Não conseguia entender por que isso podia acontecer, acreditava-se nas promessas e na vitória de Jesus. O risco de fraquejar era grande. Algumas pessoas abandonavam a comunidade. Conteúdo: O conteúdo quer exortar a comunidade em dificuldades a olhar para seus primeiros tempos e ficar firme. Convoca a não abandonar a confiança e a fé em Jesus Cristo por conta dos riscos que enfrenta. Lembra que a comunidade participará da glória do Filho de Deus. Na exortação, reafirma-se a ação amorosa de Deus em favor de seu povo. Os seus cuidados, desvelos e providência fazem-se presentes. Deus nunca deixou de falar e se revelar. Em outros tempos foi de outras maneiras, mas no presente, nessa comunidade em que a fé em Jesus está abalada, é necessário acentuar a revelação radical em seu Filho. O texto: A perícope está dividida em duas partes: a primeira (1.1-4) apresenta uma exposição a respeito da revelação de Deus, que nos tempos atuais se concretiza em Jesus Cristo. A segunda parte (2.5-12) procura demonstrar que a revelação em Jesus Cristo é muito superior à dos anjos.

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V. 1 – O versículo ressalta a contínua revelação de Deus a seu povo. Ele desdobra o falar de Deus em “antigamente” e “nos últimos dias”. Antigamente, Deus falou aos pais, e nos últimos dias, a nós. A revelação aos pais aconteceu por intermédio dos profetas e a nós por meio de seu Filho. Essa correlação expressa uma continuidade entre a revelação aos antepassados e a revelação em Jesus Cristo. Destacam-se também os advérbios polymerōs (muitas maneiras) e polytropōs (várias maneiras). As duas expressões, em frases paralelas, são palavras com som semelhante, de modo retórico, a fim de enfatizar o mesmo sentido. As revelações não foram apenas muitas, mas também variadas. O autor, portanto, enfatiza as várias e muitas formas do falar e agir de Deus (conforme o AT através da palavra, criação, anjos, visões, falas, fatos, eventos, ocasiões, entre outras inúmeras formas). Nesse contexto da comunidade, é importante enfatizar que a revelação aos pais foi pelos profetas, pois esses eram inabaláveis em sua convicção e persistentes em sua mensagem, mesmo que perseguidos e maltratados (cf. Hb 11.33ss). V. 2 – Após afirmar que no presente Deus fala através de seu Filho, o autor faz uma reflexão sobre a importância desse fato, descrevendo quem é o Filho. Inicia situando-o em relação à criação. O conceito que o autor tem do mundo concorda com aquele que é visto em todo o NT, em que concebe Deus como criador e Jesus Cristo como estando estritamente vinculado com ele no ato da criação. Essa concepção também aparece no v. 3 (Jesus sustentando todas as coisas), v. 7 (constituído sobre todas as obras), v. 8 (todas as coisas sujeitadas a ele), v. 10 (todas as coisas existem por sua causa). Nessa ideia, tudo remonta a Deus, que, por sua vez, constitui seu Filho como herdeiro de todas as coisas. Com isso o autor remete-nos a pensamentos profundos sobre a relação com a criação. Se Deus tem cuidados e zelos para com sua criação, também seu Filho, como herdeiro, tem o mesmo interesse. V. 3 – Seguindo, o autor continua descrevendo o Filho, agora em sua relação com Deus. Ressalta que entre Pai e Filho há idoneidade e identidade. O Filho é o reflexo da glória do Pai. A unidade entre Pai e Filho é evidenciada na afirmação “e a expressa imagem da sua pessoa”; significa o mesmo que o Evangelho de João expressa com “Eu e o Pai somos um”. Como imagem de Deus, o Filho, num primeiro momento, é associado ao Criador. Na expressão “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”, o Filho é visto no centro da estabilidade do universo. Ele mantém a existência do mundo criado (Cl 1.17). Significa que Jesus não deixa o mundo cair no caos. A palavra lembra a maneira como o mundo foi criado e a ideia de João 1.1-3 de que todas as coisas foram feitas pela Palavra (logos). A palavra poderosa do Filho é a mesma palavra criadora de Deus, que sustenta a criação. Num segundo momento, o Filho como imagem de Deus é associado ao Jesus encarnado. A expressão “a purificação dos pecados” faz referência à morte expiatória de Jesus e ao ato sacerdotal que purifica pecados. O Filho derrama o próprio sangue e oferece sua vida em favor de seu povo para purificação de pecados. O caminho de Jesus no mundo

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culmina na cruz como obra de salvação do mundo. O versículo indica também a ascensão do Filho numa posição de honra e autoridade. V. 4 – A partir deste versículo, o texto trata do tema da superioridade do Filho em relação aos anjos. O tema é expressivo, e isso demonstra que anjos representam figuras importantes para o autor e para a comunidade. Anjos são seres que faziam parte do universo e do cotidiano das pessoas. No AT, Deus, em muitos momentos, revelava-se e comunicava-se com o povo através de anjos. Em algumas tradições judaicas, eles eram mediadores da antiga aliança e, em outras, eram responsáveis por realidades da criação como ventos ou labaredas. Nesse contexto, o autor afirma a superioridade de Jesus em relação aos anjos. 2.5-12 – Depois de tratar da exaltação do Filho em relação aos anjos, o autor expõe as razões pelas quais a obra de Jesus é mais importante e decisiva do que aquela realizada pelos anjos. Pode parecer contraditório, mas a glória que se reconhece em Jesus vem do fato de que “ele experimentou a morte em favor de todos” (v. 9). Jesus solidarizou-se com a humanidade até o extremo de provar a morte na cruz por todos. Essa solidariedade faz com que Jesus considere e assuma as pessoas, os filhos e filhas de Deus como irmãs e irmãos. Por termos sido feitos filhas e filhos de Deus e irmãs e irmãos de Jesus é que podemos testemunhar o seu nome e seus feitos.

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Meditação

É uma mensagem de ânimo para uma comunidade que vive uma situação de dificuldades e desânimo. Comunidades enfraquecidas, que vivem experiências de sofrimento e ameaçadas de renunciar à fé em Jesus Cristo, continuam existindo e necessitam de atenção. A elas tem que chegar a mensagem de que Deus continua revelando-se na história e no mundo; que em seus cuidados, desvelos e providência Deus se achega para dar novo ânimo; que, em Cristo, Deus revela-se integralmente como um Deus Conosco. A partir do estudo do texto são destacados três pontos de reflexão e meditação: a revelação de Deus; a solidariedade de Jesus e a criação de Deus. A revelação de Deus: A mensagem central é a revelação de Deus. Deus manifesta-se e fala a seu povo. E sua ação na história acontece de forma contínua e de muitas e variadas maneiras. O autor, ao reconhecer a diversidade, valoriza a comunicação de Deus com o povo no transcurso da história. E essa comunicação diversificada e constante demonstra o amor de Deus, que insiste em criar e estabelecer formas de se aproximar do ser humano e envolver-se com sua vida e sua história. Esse amor é persistente e contínuo e não lhe permite abandonar ou desistir do ser humano. Ele estabelece alianças e renova-as quando descumpridas. Em Jesus, Deus mesmo entrega-se nas mãos humanas e com isso está radicalmente comprometido com seu povo. Em Jesus, encontramos tudo sobre a ação de Deus neste mundo. Em Jesus, Deus mostra-se por inteiro. Todo agir de Deus neste mundo – criação, revelação e redenção – encontra sua expressão definitiva em seu Filho: Jesus Cristo.

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E, hoje, pelo Espírito Santo, que testemunha Jesus, Deus continua envolvendo-se na história humana e intensificando sua ação em direção ao novo céu e à nova terra. A solidariedade de Jesus: O texto apresenta uma importante reflexão sobre o lugar privilegiado da revelação de Deus através do Filho. Essa superioridade do Filho é devido ao fato de Jesus tornar-se solidário com a humanidade, encarnando-se e enfrentando sofrimento e morte na cruz para que tivesse a plenitude de vida. Encarnando-se, Jesus torna-se irmão solidário das pessoas e assume totalmente sua condição e suas questões. Enfrentando a cruz, torna-se solidário com as pessoas quando passam por situações de cruz e morte. Solidário, ofereceu a si mesmo para perdão de pecados. Agora os seus e as suas podem colocar-se a serviço, em favor das pessoas necessitadas. Em alegria testemunham a solidariedade com que foram agraciados. Esse foi o testemunho da comunidade da qual fala nosso texto. Por causa da solidariedade para com pessoas desvalidas, sofria humilhações e o desprestígio na sociedade. A mensagem incentiva não abandonar o testemunho e os valores do evangelho. Exorta que seguir Jesus exige romper com modos de pensar e agir muito comuns, mas que não conduzem à solidariedade. Seguir Jesus não traz necessariamente euforia, mas perseguição e dor. E, nesse sentido, o texto é atual e precisa ser reafirmado. Não se pode abrir mão da solidariedade em nome de qualquer facilidade que se ofereça, não se pode abandonar a confiança e a fé em Jesus por conta dos riscos que se possa enfrentar. Relação com a criação: Uma reflexão profunda que aparece no decorrer do texto e nas demais leituras do domingo é a vinculação de Jesus com a criação. No tempo atual, em que presenciamos os maus-tratos e a exploração em relação à criação de Deus, é propício evidenciar a concepção de que Cristo está vinculado com Deus no ato da criação; ressaltar que, pela palavra do seu poder, ele sustenta todas as coisas; ressaltar que Deus constitui seu Filho como herdeiro de todas as coisas. Isso nos remete a pensamentos profundos sobre a relação com a criação. Se Deus tem cuidados e zelos para com sua criação, também seu Filho como herdeiro tem o mesmo interesse por essa criação. É consolador saber que a causa de Jesus neste mundo também tem a ver com os cuidados e zelos para com a criação. A causa de Jesus em relação à criação necessita ser assumida, testemunhada e vivenciada. Toda a criação geme com dores, esperando por redenção (Rm 8.18ss). Dessa forma, em nosso testemunho é urgente vivenciar e anunciar uma nova forma de relacionamento com a natureza, que envolva justiça e respeito. É urgente instaurar uma convivência fraterna e solidária com toda a criação. É urgente assumir a missão de cooperar com a criação.

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Imagens para a prédica

Há várias possibilidades de encaminhar a prédica a partir do texto. Cada um dos três itens enumerados na meditação pode ser um tema. O importante é identificar quais são as dificuldades e as situações de sofrimento da comunidade.

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O que faz com que as pessoas abandonem o convívio em comunidade? Quais são as situações que clamam por solidariedade e envolvimento? A sugestão é incluir a criação de Deus que carece e clama por solidariedade.

Bibliografia LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. VASCONCELLOS, Pedro Lima. Como ler a Carta aos Hebreus: Um sacerdote fiel a um povo a caminho. São Paulo: Paulus, 2003.

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PRÉDICA: MARCOS 10.17-31

20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 11 OUT 2015

AMÓS 5.6-7,10-15 HEBREUS 4.12-16

Luiz Carlos Ramos

Um mandamento fora do lugar

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Introdução

Amós 5 evoca a justiça de Javé contra os que exploram os empobrecidos e apresenta o caminho para a vida: buscar Javé e amar o bem. E Hebreus 4 afirma que a palavra de Deus, viva e eficaz, manifesta todas as fraquezas e pecados ocultos, de modo que a única salvação para nós é confiar na graça e na misericórdia de Deus. A relação entre os textos parece ser que não adianta tentarmos enganar Deus a respeito das nossas práticas, especialmente no tocante ao modo como tratamos os empobrecidos. Tudo há de vir à tona pela força da Palavra, e, mais dia menos dia, teremos todos de prestar contas diante de Deus. Fica sugerido que, no episódio do “jovem rico”, parte do problema estava na maneira como ele se relacionava com os empobrecidos.

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Exegese

Caminho: A dinâmica do Evangelho de Marcos é marcada pelas muitas referências topográficas e cronográficas. No entanto, essas devem ser entendidas mais teológica do que cartográfica ou cronologicamente. A referência ao caminho emoldura a perícope maior, que vai do v. 17 (“... pondo-se Jesus a caminho [gr.: hodós]...”) ao v. 52 (“... e seguia Jesus estrada [grego: hodós] afora”). A teologia peripatética de Jesus é, portanto, a teologia do caminho que transcende o Templo e as sinagogas, que eram as instâncias estabelecidas e reconhecidas da instituição religiosa de então. Correu um homem: Talvez, por essa referência, tenha-se deduzido, desde data remota, que se tratava de um “jovem”, pois se sabe que na cultura semita dos tempos bíblicos era considerado vergonhoso que um homem maduro, principalmente se de alta posição social, se pusesse a correr. Na parábola do filho pródigo, em Lucas 15, o fato de que o pai teria corrido ao encontro do filho perdido é mais um dos elementos que escandalizaram os ouvintes de Jesus. No caso da corrida ao sepulcro de Jesus, na madrugada do domingo da ressurreição, quem chega primeiro é João, sabidamente o mais jovem dos discípulos, provavelmente porque teria corrido até lá, enquanto os mais velhos, como Pedro, teriam caminhado a passos largos. De todas as formas, o texto grego (eis) refere-se, simplesmente, a

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“um”, “algum”, “alguém”, de quem o redator do evangelho não julgou relevante registrar o nome. Ajoelhando-se: Há comentaristas que dizem tratar-se de uma maneira comum de reverenciar importantes e reconhecidos mestres. No entanto, há versões, como a pérsica e a etiópica, que traduzem por “e o adorou”. Bom Mestre: “Bom”, em grego agathos, também significa “perfeito”, “íntegro”. “Mestre”, em grego didaskalos, é um instrutor, professor, doutor e equivale ao aramaico rabi. O interlocutor de Jesus dá, ao que parece, dúbia conotação à sua abordagem, com um tratamento que parece oscilar entre o que se dá a uma personalidade civil importante ou o que se dá a uma divindade. A isso Jesus responde com uma pergunta: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom (perfeito) senão um, que é Deus” (v. 18), mostrando que o jovem está se traindo pelas palavras. Se ele não reconhece Jesus como Deus, ele não deveria empregar aqueles termos nem prostrar-se daquela maneira. Que farei: Acostumado às exigências legais da religião dos fariseus, parece a esse homem razoável que se possa garantir a vida eterna por meio da prática ou do cumprimento de algum preceito, talvez de um que porventura lhe tenha escapado no processo de instrução religiosa. Herdar: Este termo parece contradizer o precedente “que farei”, pois, se é herança, não há necessidade de esforço ou mérito. Muito provavelmente tenha aprendido a respeito de que a vida eterna não se adquire mediante indústria humana e que se trata de um dom gratuito do Pai celeste a seus filhos e filhas. Outra possibilidade é pensar que as riquezas que esse cidadão possuía tenham sido obtidas por herança de seus antepassados, de modo que, um tanto contraditoriamente, tenha arquitetado uma compreensão das coisas de Deus como equivalentes à sua própria experiência, de modo que a vida eterna também lhe possa ser outorgada como herança. Vida eterna: Evidentemente, não se tratava de um saduceu, pois os saduceus não criam em uma vida após a morte. Para esses, a maneira de viver para sempre seria por meio da descendência. Daí provavelmente vem a obsessão por deixar filhos e a tragédia que era para alguém ser estéril. Mandamentos: Em grego entolē = prescrição, preceito, mandamento. Conquanto a tradição rabínica tenha expandido os preceitos religiosos para além dos limites do bom senso, quando um hebreu se referia de maneira genérica aos “mandamentos”, o que vinha à mente eram aqueles conferidos a Moisés no monte Sinai, chamados os Dez Mandamentos. Esses dez eram sabidos de cor por toda criança hebreia desde tenra idade, e isso era (e ainda é) uma das exigências para a cerimônia do Bar-Mitzvá (que significa, literalmente, “filho do mandamento” ou “filho da palavra”), que marca a passagem da infância para a maioridade religiosa dos meninos judeus. Tanto o “jovem rico” como Jesus sabiam bem e de cor esses mandamentos. Não defraudarás: “Defraudar” significa apropriar-se de algo de maneira indébita. É muito estranho que Jesus, ao recitar a Lei, tenha inserido uma que não fazia parte da lista dos “Dez Mandamentos”. O mesmo relato em Mateus e Lucas, redigidos posteriormente ao de Marcos, tratam de corrigir esse suposto equívoco,

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talvez pensando que a fonte que inspirou Marcos estivesse mal informada: Jesus nunca erraria ao citar os Dez Mandamentos. No entanto, a ideia de que Jesus tivesse inserido, sutil e intencionalmente, o “não defraudarás” entre os maiores mandamentos, aplicando-os, justamente, a um jovem que tinha muitas propriedades, parece ser bastante instigante. O campo semântico remete-nos a Miqueias 2: “Ai daqueles que, no seu leito, imaginam a iniquidade e maquinam o mal! À luz da alva, o praticam, porque o poder está em suas mãos. Se cobiçam campos, os arrebatam; se casas, as tomam; assim, fazem violência [defraudam, roubam] a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (v. 1 e 2). Estaria Jesus, conforme a redação da comunidade de Marcos, insinuando que as propriedades desse “jovem rico” foram obtidas fraudulentamente? Tudo isso tenho observado: Se o que foi sugerido acima procede, o “jovem rico” fez de conta que não era com ele. Fitando-o: Em grego, emblepō = “observar fixamente” e “discernir claramente”. Literalmente, “olhar em”, “olhar para dentro”. A força dessa expressão sugere que Jesus olhou para dentro, penetrou com os olhos e perscrutou a alma daquele “jovem”, discernindo-lhe o coração. Amou-o: A primeira ideia que nos viria é que Jesus o repreenderia por saber de sua flagrante má conduta. No entanto, somos surpreendidos com o relato que nos revela a reação amorosa de Jesus. Em lugar de condenar, acusar, humilhar publicamente o seu interlocutor, Jesus amou-o incondicionalmente (agapaō). Uma coisa te falta: Vai, vende, dá: Jesus parece empenhar-se por revelar com ternura e gentileza esse jovem a ele mesmo, dando-lhe a conhecer o quão orgulhoso, vaidoso, presunçoso, mesquinho, individualista e arrogante ele era. E dá-lhe a oportunidade de olhar para além de seu próprio umbigo. Em lugar de “obter”, “herdar”, “receber”, Jesus lhe propõe “ir”, “vender”, “dar”. E o convoca a redirecionar seu olhar, habitualmente direcionado para a riqueza, para que, pela primeira vez, atente para os pobres e se ocupe de assisti-los na sua pobreza. Então, vem e segue-me: Esta expressão constituiu-se em “termo técnico” nos evangelhos, sendo representativo da vocação para o discipulado. Teria esse jovem perdido a oportunidade de ser o 13º apóstolo? Porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste: “Contrariado”, do grego stygnazō = coberto por névoa ou nuvens ou sombras, tristeza. Lá se foi o “jovem rico” assombrado pela palavra (logos). Dono de muitas propriedades: Literalmente, “porque tinha muitas possessões”. Isso é o que o “jovem” pensava de si, mas Jesus demonstrou que, na verdade, ele é quem era possuído por seus bens. Jesus, olhando ao redor: Depois de olhar para dentro do “jovem”, Jesus dirige seu olhar a todos os que estavam ao seu redor (periblepō). Dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas: Jesus não diz que é impossível, mas que é, de fato, muito difícil. Há nos evangelhos um ou dois casos de pessoas, supostamente ricas, que “deixaram tudo” para segui-lo. É o caso do coletor de impostos Levi ou Mateus (conquanto haja discussão se ele era um coletor do alto ou do baixo escalão). Também é o caso de Zaqueu, que

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depois do encontro eucarístico com Jesus decide restituir a todos os que por ele porventura tivessem sido defraudados. Os discípulos estranharam essas palavras: Literalmente, os discípulos ficaram desconcertados, desorientados, aturdidos, como se as palavras de Jesus os tivessem atingido com um golpe que os deixara tontos. É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus: Há muitas suposições sobre essa expressão, que não merecem ser detalhadas aqui. Basta-nos a intuição da comparação. É humanamente impossível um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Quem pode ser salvo? A deduzir da comparação elaborada por Jesus, ninguém pode humanamente se salvar. Jesus, porém, fitando neles o olhar: O mesmo olhar penetrante dirigido anteriormente por Jesus ao “jovem rico” é agora dirigido a seus seguidores. Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível: A vida eterna não pode ser obtida por meio de ações ou por méritos humanos. É impossível para o homem ou a mulher salvarem-se. Mas não é impossível para Deus salvá-lo e salvá-la. Eis que nós tudo deixamos e te seguimos: Essa reação da parte dos discípulos parece muito com a do “jovem” que não aceitou a revelação de si mesmo, que Jesus lhe oferecia. Também os seguidores de Jesus têm dificuldade para dar o salto da fé. É como se dissessem: “E nós? Merecemos herdar a vida eterna porque deixamos tudo?” Ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna: Jesus parece render-se à lógica dos discípulos, mas, afinal, reafirma a lógica do reino, segundo a qual para receber é preciso deixar, para ganhar é preciso doar, para encontrar é preciso perder. Muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros: A lógica invertida do reino exalta os humildes e depõe os soberbos, farta de bens os famintos e despede vazios os ricos. No reino, os mais desprezados e desprezíveis têm a primazia e constituem o alvo primeiro do amor incondicional de Deus.

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Meditação e imagens para a prédica

Sugiro à pregadora e ao pregador a leitura de todo o capítulo, que culmina com a cura do cego Bartimeu, e considere os inúmeros paralelos entre os dois episódios: o do “jovem rico” e o do cego. O primeiro é anônimo, o outro é conhecido por seu nome de família (filho de Timeu). Um é rico e tem muitas posses, o outro é mendigo e só possui uma capa. Um se encontra com Jesus no caminho, o outro jaz à beira do caminho (marginalizado). O primeiro não enfrenta qualquer barreira ou dificuldade para se aproximar, enquanto Bartimeu é repreendido e hostilizado pela multidão de seguidores de Jesus. O modo de tratamento empregado pelo primeiro é “bom (Deus) mestre (homem)”, e o utilizado por Bartimeu é “Jesus (homem), filho de

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Davi (Messias)”. O jovem pergunta a Jesus “o que farei?”, mas com Bartimeu é Jesus quem pergunta “o que queres que eu te faça?”. O jovem não abriu mão das suas posses; enquanto Bartimeu “lançando de si a capa, levantou-se e foi ter com Jesus”. O jovem queria a vida eterna (espiritual), e Jesus dá-lhe uma tarefa material: “vende tudo o que tens...” Bartimeu queria tornar a ver (material), e Jesus lhe dá a salvação, dizendo-lhe “a tua fé te salvou” (espiritual). Jesus diz ao jovem “vem e segue-me”, mas ele foi embora triste; a Bartimeu Jesus disse “vai”, mas ele “seguia a Jesus estrada fora”.

4 Auxílios litúrgicos Oração: Ó Deus eterno, rendemos-te graças porque te revelas a nós no caminho e porque, no diálogo franco, tu também revelas a nós o que nós realmente somos. Reconhecemos nosso egoísmo, orgulho, vaidade, mesquinhez e arrogância de achar, presunçosamente, que podemos fazer alguma coisa para merecer a vida eterna. Por essa razão, pedimos-te que a tua Palavra venha até nós neste dia e nos assombre, nos inquiete e nos desafie a superar a lógica materialista dos nossos dias, para que, por tua graça, abracemos a vida plena do teu reino. Nós também te suplicamos que, assim como fizeste no passado com aqueles e aquelas a quem encontraste no caminho e à margem do caminho, nos olhes com a mesma ternura e nos dirijas o mesmo olhar amoroso e manso. Dá-nos a disposição para também nós darmos o passo decisivo da fé e, tudo deixando, ir ter contigo para ser curados da nossa cegueira e libertos daquilo que nos possui. Que possamos seguir-te estrada afora e servir-te na prática da justiça e da solidariedade para com todos, especialmente com os que mais precisam. Por Jesus, Filho de Davi, amém!

Bibliografia MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Paulinas, 1992. ZAQUEU e o jovem rico. Rogate, São Paulo, v. 15, n. 144, p. 2-4, ago. 1996.

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PRÉDICA: ISAÍAS 53.4-12

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MARCOS 10.35-45 HEBREUS 5.1-10

18 OUT 2015

Atílio Hunzicker

Sofrimento que comove e converte

1

Introdução

A perícope que nos ocupa faz parte do quarto canto do Servo Sofredor (Is 52.13-53.12), denominação dada a essa passagem de Isaías. O texto, usado normalmente na Sexta-feira Santa, está designado para o 21º Domingo após Pentecostes, em conjunto com Mc 10.35-45 (O pedido de Tiago e João) e Hb 5.1-10 (Cristo, superior ao sacerdócio da antiga aliança). Os textos que serão lidos antes da prédica para dar harmonia à celebração do culto convidam-nos a transitar por um caminho que parte do pedido de Tiago e João e segue com a resposta de Jesus: “Não sabeis o que pedis” (Mc 10.38); logo a apresentação do Sumo Sacerdócio de Cristo, indo, finalmente, ao canto do Servo. Podemos pensar que nós, que estamos na celebração, aderimos ao pedido de Tiago e João, ouvimos a resposta de Jesus e somos confrontados com o testemunho relatado no canto do Servo. É extensa a bibliografia sobre esses cantos do Servo. A primeira questão gira em torno de quem é esse Servo. As interpretações e conclusões são diversas: um homem, quem sabe o próprio profeta, ou a opção coletiva: Israel ou parte de Israel. A segunda questão é identificar o relator, a testemunha dos sofrimentos e morte do Servo. Esse grupo é beneficiado pelo sofrimento do Servo; experimenta uma profunda conversão; é um grupo, um sujeito coletivo que é curado e recebe paz. Por último, e não menos importante, está o tema do tempo em que isso aconteceu. Isso acontece antes do exílio, durante o exílio ou depois do exílio? No PL, ao longo de mais de quatro décadas, o texto foi tratado exaustivamente. Está por demais provado o uso desse texto no Novo Testamento, atribuindo a Jesus a identidade do Servo tanto nos evangelhos como em muitas cartas. Não obstante, é muito frequente fazer a transferência de maneira mecânica, sem olhar mais profundamente para o mistério que encerra esse canto em seu tempo e em seu lugar de origem. É uma oportunidade importante confrontar-nos com esse quarto canto do Servo na celebração do culto, para revisar nosso lugar diante de Deus, diante das pessoas que ainda hoje continuam sofrendo “em lugar dos outros” e poder ver onde estão colocadas a nossa fidelidade e obediência.

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Exegese

O quarto canto completo vai de Is 52.13 a 53.12. A nossa perícope de pregação abarca 53.4-12. Em 52.13-15, é Deus quem fala na primeira pessoa e retoma a palavra no final do canto em 53.11-12. Já em 53.1-3, é outro sujeito que toma a palavra, ou seja, um sujeito coletivo “nós”: Quem creu em nossa pregação? (1), não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse (2b). Era desprezado, e dele não fizemos caso (3c). Aquele que dá o testemunho refere-se a um passado mais ou menos imediato, como dizendo “não o levamos em conta, fomos indiferentes, o ignoramos”. Nos versículos 4 a 6, o relator, que fala na primeira pessoa do plural, testemunha um descobrimento fundamental: ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si (4a). Aquele ante o qual haviam sido indiferentes beneficiou-os, fez algo importante para eles, ocupou o lugar deles. Eles estavam enganados considerando que o que padecia por vontade de Deus, sem que eles tivessem nada a ver com ele: e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido (4b). Tudo o que ele padeceu haveria de ser correspondido, com justiça, a eles mesmos; ele pagou por eles e deu-lhes paz e saúde. Foram os atos e ações nocivas deles que produziram o sofrimento dele (5). No v. 6, o relator amplia a confissão: Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas (6a). O que era o pecado de todos foi carregado sobre ele por vontade de Deus (6b). O relator, em nome de muitos, fala-nos de algo que aconteceu num passado mais ou menos recente e que produziu neles algo experimentável: saúde e paz. Nos v. 7-9, o mesmo relator descreve-nos a atitude do servo, a submissão, passividade, rendição total a seus “tosquiadores”, opressores (v. 7), que resulta em seu silêncio: “mas não abriu a boca”, “ovelha muda” e “ele não abriu a boca”. Ele foi julgado sem legítima defesa, condenado e executado. Nesse v. 8 não há informação sobre os que julgam e condenam. Ou podemos entender que o próprio povo foi quem o condenou? Ninguém foi socorrê-lo: quem se preocupou com sua sorte? Assinala a unanimidade de seus contemporâneos a respeito do acordo sobre sua condenação. Aos sofrimentos infringidos resta ainda a humilhação de sua sepultura (v. 9) como fechamento completo de sua condenação. Esses versículos, apresentados pelo mesmo relator, descrevem-nos o que aconteceu a outro, a quem eles conheceram e não entenderam; sofrimentos, juízo injusto, morte e sepultura daqueles que recém agora descobrem ou o veem de maneira diferente. Esse testemunho tão sintético, mas ao mesmo tempo tão claro, dificulta pensar em algo diferente de uma pessoa, um homem concreto, do comportamento de um indivíduo. Mais do que a interpretação do Servo como um coletivo, eu me inclino a pensar em um profeta a quem calaram a boca. E a verdade que ele trazia foi reconhecida após sua morte e sepultura. O v. 10 afirma que o acontecido é vontade soberana do Senhor, e esse caminho de sofrimento e morte terá sua compensação, paradoxalmente com frutos de vida. Depois da dor e da morte, Deus continua tendo poder.

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Nos v. 11-12, com os quais termina o canto, é novamente Deus quem fala e reafirma o sofrimento expiatório do Servo (v. 11b). O Servo será recompensado (v. 12a). No fim, acrescenta-se que ele não somente carregava os pecados dos outros, mas também intercedia por eles. Essa última afirmação convida-nos novamente a identificar o Servo com um profeta, com uma pessoa. Por acaso o profeta não anuncia com coragem o juízo do Senhor sobre os pecadores e ao mesmo tempo clama ao Senhor por sua misericórdia? Nossa proposta de estrutura do texto: 53.4-6: confissão pós conversão; 53.7-9: testemunho dos sofrimentos do Servo, dos quais foram testemunhas; 53.11-12: afirmação de Deus sobre o cumprimento de seu plano e a promessa de recompensa a seu Servo.

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Meditação

Os leitores e as leitoras do PL têm vários comentários sobre esse texto publicado ao longo de quase quarenta anos. Isso não facilita a tarefa de meditar agora sobre o quarto canto do Servo em nossa realidade, transcorrendo o 15º ano deste século. Somos convidados a dirigir nosso olhar para muitos séculos atrás e colocar nosso olhar sobre uma comunidade de fé que sustenta que Deus tem poder sobre o mundo, que ele atua soberanamente e dele depende a salvação de todos. Diversas são as posturas em torno da identidade do sujeito Servo Sofredor, com duas interpretações dominantes: a individual, uma pessoa, e a coletiva, o povo, parte do povo, um resto etc. Pessoalmente, o texto, com sua estrutura e seus detalhes, convida-me a pensar numa pessoa; a descrição dos padecimentos, juízo, morte e sepultura apontam mais para um indivíduo do que para um grupo ou setor particular. Não podemos identificar a primeira pessoa do plural, o nós que faz o relato, que dá o testemunho do visto e vivido, a não ser através de conjeturas. Claro está que eles reconhecem Deus e sua ação na história, reconhecem que o que aconteceu ao Servo responde à soberania de Deus, e essa ação de Deus os inclui. A hipótese do Comentário Bíblico São Jerônimo sustenta que provavelmente são os “gentios convertidos que proclamam essa revelação”, ao ver os sofrimentos do povo inocente. Se pensamos nos sofrimentos do povo no exílio, alguns que padeceram foram realmente inocentes, já outros foram responsáveis pela situação e merecedores da dor; não eram um todo homogêneo, apesar de pertencer ao mesmo povo. Podemos também pensar como possível um profeta no meio deles, cuja mensagem foi ignorada, desvalorizada ou rechaçada e sua voz calada com a morte. A partir do texto, não é possível determinar em que momento e de que maneira esse grupo troca radicalmente sua consciência sobre a figura do Servo: de ignorado e rechaçado a promotor da paz e saúde para eles. O que os leva a reconhecer que os sofrimentos do Servo são os que eles, por seus pecados, mere-

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ciam? O que os leva a considerar como injustos tanto o juízo como a humilhação de sua sepultura? O drama do sofrimento, juízo, morte e sepultura não obstante dirige-os a Deus, à sua vontade soberana e à vitória do Servo como resultado de sua obediência absoluta. O enorme valor do texto, no meu entender, reside na coragem da confissão, no reconhecimento do erro em dois planos: o primeiro é o dos próprios pecados: “todos andávamos como ovelhas seguindo seu próprio caminho”, sem projeto comum; o segundo está no pecado de haver ignorado, rechaçado e de ser cúmplice, de alguma maneira, dos padecimentos, do juízo injusto e da morte do Servo. Esse reconhecimento como confissão transforma-os, habilitando-os a participar da esperança no triunfo final do Servo. A afirmação “Ele padeceu por nós, ocupando o lugar que nos correspondia por nossos pecados” demonstra uma enorme coragem, uma autêntica sinceridade, no reconhecimento do pecado não como ato individual, mas como ação coletiva, o pecado de todos, do grupo. À luz do evangelho (Mc 10.35-45) deste domingo, o pedido dos discípulos e a afirmação de Jesus “Não sabeis o que pedis” resultam para nós a necessidade de revisar o que pedimos como comunidade e confrontar-nos com o drama do Servo de Deus na pessoa de Jesus não como feito no passado, mas como uma realidade presente. Onde está padecendo o Servo? Que lugar ocupamos como comunidade nesse drama da salvação?

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Imagens para a prédica

O texto precisa alertar-nos sobre o enorme perigo de considerar como verdadeiro que a prosperidade material, a abundância, o luxo e a ausência de sofrimento são os principais sinais do favor de Deus. Mesmo que resulte muito anacrônico em nossas sociedades falar do sofrimento expiatório, esse segue sendo um tema bíblico e corresponde à história da salvação. Em um mundo, em uma sociedade em que a polarização entre riqueza e pobreza, entre luxo e miséria, entre conforto e padecimento, entre saciedade e fome é cada vez mais escandalosa, devemos com coragem perguntar-nos onde está o Deus do Servo que sofre e qual é nosso lugar com respeito a ele. Algumas perguntas que podem nos guiar: Quem somos verdadeiramente? Somos capazes de confessar profunda e sinceramente nossos pecados? O que vemos? Para quem olhamos e a quem ignoramos? Somos suficientemente humildes para reconhecer que existem outros e outras que carregam nossas culpas e pecados ainda hoje, tal como Jesus os carregou em sua cruz? Vivemos na esperança do triunfo definitivo do poder e da vontade de Deus? Seguramente cada comunidade terá realidades particulares diferentes no aspecto social, econômico e político. Mas, mais além dos limites da comunidade, existem realidades gerais comuns a todas. Nessas realidades gerais e comuns, frequentemente está presente o pecado grupal de estruturas sociais e políticas injustas, que nós ignoramos, porque não as vemos como algo pessoal.

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Podemos, por fim, transformar-nos numa comunidade que em obediência esteja a serviço do reino de Deus?

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor, temos olhos, mas nos custa ver; temos ouvidos, mas nos custa escutar; temos voz, mas frequentemente permanecemos calados. Custa-nos ver ou não queremos ver o sofrimento injusto de teus filhos e filhas. Custa-nos ouvir-te nos mais pequenos. Ficamos mudos quando deveríamos levantar a voz diante das injustiças. Perdão, Senhor. Oração de coleta: Damos-te graças, Senhor, por teus servos que ao longo dos séculos tens chamado e que te obedeceram em teus planos de salvação. Damos-te graças hoje por todos os mártires, os conhecidos e os anônimos, os de ontem e os atuais. Tu lhes darás o triunfo mesmo que agora vejamos somente o fracasso. Que seus exemplos nos fortaleçam para servir a tua humanidade. Pedimos-te por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor. Amém.

Bibliografia BROWN, Raymond E. Comentario Bíblico San Jerónim. Tomo II. Madrid: Ed. Cristiandad, 1971. SCHÖKEL, L. Alonso: Profetas I. Madrid: Ed. Cristiandad, 1980.

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PRÉDICA: MARCOS 10.46-52

22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JEREMIAS 31.7-9 HEBREUS 7.23-28

25 OUT 2015

Daniel Costa

1

Introdução

O texto de Marcos sobre a cura do cego de Jericó permite duas abordagens, que facilmente se podem complementar. A primeira seria interpretá-lo em sentido simbólico. Na linha de João 9.35-39, poder-se-ia falar então de “cegueira espiritual”. Essa pode ser percebida, por exemplo, na maneira como são tratadas as pessoas mais carentes e na forma como o mundo vai se degradando ao nosso redor. A cegueira, nesse caso, seria uma alusão à falta de discernimento e de fé, que aparece nas mais diversas instâncias de nossa sociedade e tapa nossos olhos diante das injustiças que acontecem ao nosso redor. Em relação a essa realidade, é preciso rogar a Cristo, como fez o pai do menino tomado por um demônio: “Senhor, eu creio! Ajuda na minha incredulidade” (Mc 9.14-29), ou seja, clamar para que, a partir dos olhos da fé (Hb 11.1), Cristo nos restaure a visão. Ou ainda, como sugere Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro “O pequeno príncipe”, lembrar que “o segredo é muito simples: só se vê bem com o coração”, pois “o essencial é invisível aos olhos”. A segunda possibilidade é interpretar o texto num sentido prático, em referência à situação das pessoas com deficiência em nossas comunidades ou, até mesmo, dos indivíduos abandonados, jogados à beira das estradas nas grandes cidades, “invisíveis” aos olhos da sociedade. Para essa opção de abordagem, sugere-se a leitura do texto “Contorno de Invisíveis: Perfil e Mapeamento da População Adulta em Situação de Rua de São Leopoldo – RS” (disponível em http://www.unisinos.br/projetos_sociais/images/stories/contorno-de-invisiveissao-leopoldo.pdf). Os três textos previstos para esta data possuem focos diferentes, mas encontram um ponto de equilíbrio no evangelho. Segundo Vítor Westhelle (PL XVI), o texto de Jeremias é claramente um hino de louvor, abordando o regresso dos exilados, que hão de ser resgatados das terras babilônicas, onde, durante quase seis décadas, vivenciaram o desterro. Em meio a esses resgatados, encontram-se vários “Bartimeus”, dentre os quais Jeremias cita a mulher grávida, o cego e o aleijado. Seu regresso não é dificultado apenas pelas questões políticas que envolvem as nações, nem somente pela enorme distância geográfica que os separa do lar, mas também pelas limitações específicas do próprio corpo. Ainda hoje, alguns dos personagens lembrados por Jeremias continuam vivenciando dificuldades semelhantes, pois encontram-se jogados à margem da sociedade, tal como ocorrera entre os regressos do exílio no ano de 538 a.C./537 a.C., quando foram libertados.

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Já o texto de Hebreus, complexo e desafiador, trata do sacerdócio messiânico de Cristo. Para buscar compreendê-lo e relacioná-lo com o texto de Marcos, é interessante atentar para as palavras do cego Bartimeu, que, ao perceber a presença de Jesus, interpelou-o com o termo “Filho de Davi”. Nessa referência genealógica percebe-se que Cristo não era, de acordo com a compreensão vigente em sua época, um sacerdote, pois esses provinham de uma linhagem iniciada em Arão (o Sumo Sacerdote) e seus filhos Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar, passando por Levi. Por isso o desconhecido autor de Hebreus deriva o sacerdócio de Cristo de Melquisedeque (Hb 7.1,10,11,15,17). Segundo o autor, antes mesmo de os levitas receberem a tarefa sacerdotal, houve um Rei Sábio, da terra de Salém, chamado Melquisedeque, que era “Sacerdote do Altíssimo”. Hebreus enfatiza que Melquisedeque era sacerdote aprovado por Deus, independentemente de sua linhagem. Como rei e sacerdote, abençoara Abraão e dele recebera o dízimo após o retorno do patriarca de uma batalha contra Quedorlaomer (Gn 14.17-20). Ou seja, se ele o abençoara e dele recebera o dízimo, pode-se compreender que eles se equiparassem ou, até mesmo, que Melquisedeque se encontrasse num patamar superior ao do próprio patriarca e de seus descendentes, os sacerdotes levitas. Esse personagem, que aparece em Gênesis 14.8 e no Salmo 110.4, teria sido o fundador de uma linha celestial que passara pelo rei Davi e desembocara no próprio Cristo. Segundo Hebreus, enquanto os sacrifícios dos sacerdotes levitas, oriundos de uma linha terrena, precisavam ser repetidos, o de Cristo, grande Sumo Sacerdote, que sacrificou a si mesmo, não precisa, pois o seu sacrifício foi perfeito e definitivo. Além disso, Cristo não tinha o seu sacerdócio limitado pelo tempo. Enquanto os sacerdotes levitas precisavam passar os seus cargos adiante, Jesus, mesmo tendo morrido, vencera a morte, passando a viver e reinar por toda a eternidade. Assim o sacerdócio de Cristo é superior e incomparável, podendo salvar integralmente todos aqueles que por intermédio dele chegarem a Deus.

2

Exegese

A cura do cego de Jericó é um daqueles relatos cuja autenticidade é pouco discutida, uma vez que ele se encontra nos três evangelhos sinóticos. Ao mesmo tempo, é um daqueles textos que muitas pessoas utilizam quando buscam contradições entre os autores bíblicos. De fato, Mateus menciona dois cegos (Mt 20.30) e não um, como Marcos. Já Lucas afirma que a cura acontece na entrada da cidade (18.35) e não na saída, como informa Marcos. Como entender essas contradições? Pode-se argumentar que nenhum dos evangelistas afirma, expressamente, que havia apenas um cego. Para Rienecker, o fato de Marcos falar de um cego na saída e Lucas citar um cego na entrada pode apontar para a presença de dois cegos: um estaria na entrada e o outro, mais adiante, na saída da cidade. Por alguma razão, Marcos pode ter destacado apenas a atitude arrojada de Bartimeu, o mais conhecido. Assim também se afirma que havia duas cidades de Jericó: a velha Jericó, quase toda em ruínas, e a nova Jericó, uma cidade bonita, que fora construída por Herodes, logo ao sul da cidade ve-

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lha. Sendo assim, o milagre poderia ter ocorrido na divisa entre as duas cidades, enquanto Jesus saía de uma Jericó e dirigia-se à outra. Mas essas diferenças também podem ser explicadas por questões redacionais. Lucas, por exemplo, pode ter colocado o relato na entrada da cidade, porque tinha outro episódio a contar no interior dela (19.1-10). Ao observar o contexto, vemos que Mateus e Marcos trazem o relato da cura antes do anúncio da morte e ressurreição de Jesus (Mc 10.32-34; Mt 20.1719) e do pedido de Tiago e João (Mt 20.20-28; Mc 10.35-45), que no reino vindouro queriam sentar-se à esquerda e à direita de Jesus. Ao longo do caminho para Jerusalém, Jesus anunciara três vezes que teria de sofrer, ser crucificado e ressuscitar, mostrando que seu modelo de poder não estava alicerçado nos padrões humanos, mas no amor e no serviço ao próximo. Entretanto, Tiago e João, filhos de Zebedeu, não parecem ter compreendido integralmente o novo paradigma de poder trazido por Jesus, vindo a solicitar a autorização de Cristo para tomar um lugar de destaque no reino de Cristo. Diante desse pedido, Jesus lhes afirma: Vocês não sabem o que estão pedindo. Por acaso podem beber o cálice que eu vou beber e podem ser batizados como eu vou ser batizado? Jesus define a participação no poder como participação no serviço e no sofrimento, conforme as suas próprias palavras em Marcos 10.45: Porque até o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para salvar muita gente. Para Cristo, poder é servir, não dominar. O relato de Bartimeu parece ser um contraponto a esse contexto: ele é curado e inicia, logo em seguida, o seu discipulado, sem fazer perguntas ou exigências, seguindo Jesus, que ruma em direção à cruz. Lucas não trouxe o pedido dos discípulos e, entre a cura e a entrada de Jesus em Jerusalém, acrescentou as histórias da conversão de Zaqueu (19.1-10) e a parábola das dez moedas de ouro (19.11-27), alterando o contexto e com isso dando outra perspectiva à história. Mesmo já tendo relatado a cura de outro cego em Betsaida (8.22-26), Marcos faz questão de acrescentar ainda essa história pouco antes da entrada de Jesus em Jerusalém. Possivelmente o tenha feito porque a cura de cegos é um dos sinais claros da atuação messiânica de Cristo (cf. Mt 11.5). O relato da cura de Bartimeu pode ser dividido em três momentos distintos. No primeiro, Jesus passa e o cego está sentado à margem do caminho, pedindo esmolas. Sua vida até aquele momento apresentava-se sem grandes expectativas, restando-lhe viver da piedade das pessoas que eram incentivadas pela religiosidade judaica a dar esmolas. No segundo, tendo tido a atenção chamada pelos gritos insistentes do cego, Jesus para e pede que ele se aproxime. Bartimeu levanta-se, joga a capa para longe e vai de encontro ao mestre. No terceiro, uma vez curado, a partir de sua fé (como Jesus faz questão de mencionar), Bartimeu põe-se a caminho de Jerusalém com o restante da comitiva que acompanhava Jesus. Claramente, Bartimeu era um homem que agia movido por suas convicções: quando fora repreendido, em vez de se calar continuou gritando cada vez mais alto; e, já curado, em vez de seguir sua vida, como Jesus lhe ordenara (v. 52), passou a segui-lo ao longo do caminho. A fé transformou-o em sujeito

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de sua história, permitindo-lhe, espontânea e coerentemente, viajar até Jerusalém rumo à cruz.

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Meditação

Tanto no texto de Jeremias como no de Marcos aparece a imagem da deficiência, seja ela física ou de natureza espiritual. Como afirma Arteno Spellmeier: “Existem muitos Bartimeus e Bartimeias sentados à margem do caminho pedindo esmolas. Há os que são cegos. Há as que são surdas. Há os que têm lesões nos nervos e no cérebro. Há as paraplégicas. Há os doentes. Há as pessoas de idade. Muitos deles e delas vivem e sentem-se como o Bartimeu de nosso relato: esmoleiro, discriminado, sentado à margem do caminho, sem direito a gritar. Limitadas pela doença e deficiência, essas pessoas vivem à margem da vida familiar e social. As limitações de seus corpos fazem com que se sintam, muitas vezes, humilhadas, diferentes e diminuídas. Há o sonho de cura. As esperanças vão dando lugar à incredulidade e à desilusão após mil consultas a médicos, curandeiras, milagreiros de toda espécie, sem cura. Há a luta consigo mesmas. Há a luta com Deus em torno do porquê. Há o sentimento de estar sendo tratado injustamente por Deus. Há a dor oculta, a raiva não trabalhada” (PL XXII). À comunidade é interessante ressaltar a importância da fé para o enfrentamento das dificuldades. Dois bons exemplos podem ser a perseverança dos que regressaram do exílio babilônico e a fé de Bartimeu, que, mesmo repreendido pelos que o cercavam, não parou de gritar, clamando eloquentemente pelo auxílio de Jesus, o Salvador, descendente de Davi, mais importante aos olhos do Pai do que qualquer sacerdote levita. Jesus, como procedeu com Bartimeu, não decide em lugar dos mais frágeis pelo que eles precisam, mas lhes resgata a dignidade, perguntando: “Que queres que eu te faça” (Mc 10.51)? O Filho de Deus, mediante a fé, pode abrir os olhos do cego ou tirar as “cascas que cobrem os nossos próprios olhos”, impedindo-nos de ver, tal qual acontecera com os discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.13-35) ou com o apóstolo Paulo, quando rumava à cidade de Damasco (At 9.1-19). Além disso, a experiência de Bartimeu ainda nos permite problematizar outras questões, por exemplo: o que nos impede de enfrentar o caminho? Seria o medo de que, no fim desse, cheguemos à cruz ou, talvez, à capa que recolhe as esmolas (salário, família, amigos, propriedades, posição social) que nos acomodam à beira da estrada? Quem sabe, trata-se, até mesmo, de uma “cegueira espontânea”, provocada por nós mesmos, a partir da qual poupamos os nossos olhos de ver situações desagradáveis, escancaradas em nossa sociedade e que, ultimamente, desvelaram-se até mesmo em nossas comunidades? Certamente é oportuno perguntar: e nós, como reagimos diante dos apelos dos “Bartimeus” que encontramos pelo caminho? Será que, assim como fizeram os seus conterrâneos, também não preferimos “calá-los” para que não nos incomodem nem importunem? Segundo a história, Bartimeu saltou, jogou longe a sua capa e foi até Jesus, enfrentando o receio e a adversidade para buscar o seu grande objetivo. Em

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vista disso, quais seriam, como comunidades cristãs, as barreiras que precisamos vencer para alcançar o objetivo de promover o reino de Deus no contexto social onde estamos inseridos? Para finalizar, cabe uma última reflexão: nestes tempos em que a igreja enfatiza a questão da inclusão, não seria ela uma forma de comunhão? Ou ainda, a comunhão verdadeira e sincera não seria mais inclusiva do que qualquer campanha de inclusão poderia implantar? Caso a resposta seja positiva, creio que não deveríamos dar tanta atenção ao acolhimento de caso “a”, “b” ou “c” em nossas comunidades, mas conscientizar-nos de que a comunidade é um corpo em que, fortes ou frágeis, jovens ou experientes, bonitos ou marcados pelas dificuldades da vida, todos são igualmente importantes e que aqueles a quem costumamos dar menor importância deveriam receber uma atenção ainda mais especial (1Co 12. 24-25).

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Imagens para a prédica

Ao pensar no texto, vem-nos à cabeça a conhecida imagem dos “três macaquinhos” (o primeiro, tapando os olhos; o segundo, os ouvidos; e o terceiro, a boca), como se fossem cegos, surdos e mudos diante das injustiças sociais, da dor e do sofrimento do próximo e de toda a criação de Deus. Sugiro um exercício de conscientização: observem o que normalmente acontece quando um mendigo ou andarilho (um Bartimeu) aparece no pátio de nossas comunidades ou, pior, tem a “petulância” de entrar em um de nossos templos. Tenho certeza de que muitos de nós já presenciaram essa cena e como quase que imediatamente alguém pergunta: “O que este vagabundo está fazendo aí? Quem vai mandá-lo embora? Será que devemos chamar a polícia?” Esse tipo de atitude aponta para uma espiritualidade alienada. Muitos membros de nossas comunidades não fazem a menor questão de se aproximar do outro, do diferente, antes preferem marginalizá-lo ou, quando possível, tratá-lo como invisível, a menos que, tal como fez Bartimeu, invada a nossa vida e grite por atenção. Essa reação também se aplica à situação das pessoas com deficiência. Entrementes, muita coisa já mudou, mas até pouco tempo atrás em nossas comunidades era comum os familiares esconderem seus membros com deficiência da comunidade e da sociedade. Hoje talvez essas pessoas já não estão mais escondidas, mas também não estão tão presentes na vida comunitária como poderiam estar dentro de suas limitações. A vergonha e a insegurança ainda permeiam fortemente os relacionamentos dessas famílias com as suas comunidades. Inegavelmente, trata-se de uma situação muito delicada, para a qual a comunidade pode ser importante, animando, convidando e, constantemente, abrindo espaços para que a integração e a comunhão aconteçam. Outra sugestão que pode ser aplicada em grupos de estudo é a dinâmica chamada “abra o olho, meu irmão”. Nela, os olhos de dois participantes são cobertos, e esses recebem “porretes de jornal” com os quais devem iniciar uma

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“briga de cegos”. Em determinado momento, retira-se a venda dos olhos de um dos indivíduos, sem que o oponente (que continua vendado) saiba, iniciando uma luta desigual. Normalmente, as pessoas presentes divertem-se muito. Quando perguntadas sobre o que acharam da dinâmica, afirmam que a consideraram injusta. Mas raramente alguém toma alguma atitude para que a injustiça seja interrompida. Nela refletem-se diferentes aspectos sociais, tais como: indiferença x indignação; aplaudir o agressor x posicionar-se para defender o indefeso; lavar as mãos x envolver-se e solidarizar-se com o oprimido.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Deus justo e bom, Senhor e origem de todas as formas de vida: pedimos-te que abras os nossos olhos para a dor e o sofrimento das pessoas que são diferentes de nós por não enxergar, não ouvir bem, não poder caminhar ou por ser limitadas em sua capacidade de pensar ou agir. Perdoa-nos quando não as aceitamos como são ou achamos que somos melhores do que elas, excluindo-as de nosso convívio social ou comunitário. Ajuda-nos a superar nossa deficiência de fé e de amor ao próximo. Por Jesus Cristo, que amou e perdoou todos indistintamente. Amém! Oração inicial: Amado Pai, pedimos-te que nos envies o teu Santo Espírito para que nos abra os corações e as mentes e, assim, possamos compreender a tua Palavra. A partir dela desvela os nossos olhos, curando-nos de nossa cegueira espiritual. Permite-nos entender que o teu ministério é de serviço e de doação, não de riqueza, status ou poder. Faze com que, assim como fez Bartimeu, espontaneamente, gritemos por ti e te sigamos por toda a nossa vida. Amém! Oração de intercessão: Senhor, Pai amado e misericordioso, por meio de Jesus Cristo, teu filho, ensinaste-nos que toda doença ou privação é uma oportunidade para expressar o amor cristão e fazer o bem. Pedimos-te, primeiramente, por nossas autoridades civis para que não se esqueçam de suas atribuições e trabalhem para criar um mundo mais justo e solidário, onde todos, indiferentemente de suas dificuldades, sintam-se acolhidos e valorizados. Pedimos-te, Senhor, por tua igreja, por teus ministros, presbíteros e membros para que sua cegueira espiritual seja curada e, assim, possam acolher todas as pessoas em comunhão e amor. Pedimos-te, Senhor, por todas as pessoas que são discriminadas por sua cor de pele, cultura, religião, sexualidade ou idade, bem como por aquelas que sofrem por conta de suas deficiências, encontrando dificuldades para aceitá-las ou mesmo para aceitar a si mesmas. Dá-lhes o ânimo para prosseguir o seu caminho, assim como fez Bartimeu, depositando, integralmente, toda a sua confiança em

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Jesus. Coloca em suas vidas pessoas e comunidades que as amparem e as aceitem por saber que são importantes, imagem e semelhança do próprio Pai. Amém! Bênção: O Senhor esteja à nossa frente, para nos mostrar o caminho certo. O Senhor esteja ao nosso lado, para nos abraçar e proteger dos perigos. O Senhor esteja atrás de nós, para nos preservar das armadilhas dos maus. O Senhor esteja debaixo de nós, para nos amparar quando caímos. O Senhor esteja dentro de nós, para nos consolar quando estivermos tristes. O Senhor esteja ao nosso redor como um muro protetor, para nos defender quando outros nos atacarem. O Senhor esteja sobre nós, para nos abençoar. Assim abençoe-nos o bondoso Deus de todos os povos. Amém! (Baseado numa oração de Patrick, o apóstolo da Irlanda, falecido em 461.)

Bibliografia ANDRADE, Aíla Luzia Pinheiro de. À maneira de Melquisedeque. O messias segundo o judaísmo e os desafios da cristologia no contexto neotestamentário e hoje. Belo Horizonte: FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, 2008. RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998. RYRIE, Charles C. A Bíblia Anotada Expandida. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2006.

DIA DA REFORMA ROMANOS 3.19-28 JEREMIAS 31.31-34 JOÃO 8.31-36

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PRÉDICA: HEBREUS 9.11-14

23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 01 NOV 2015

DEUTERONÔMIO 6.1-9 MARCOS 12.28-34

Nilton Giese

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Introdução

O texto de Deuteronômio é a alma, o guia, a linha de ação que Israel não pode descuidar nem mudar por outra coisa sob o risco de se perder e perecer como nação. Em hebraico, a conotação do verbo shemá tem implícito o imperativo de obedecer, pôr em prática, e isso era o que o povo deveria ter feito: escutar obedecendo, escutar pondo em prática. A redação dessa passagem, embora pareça ser de uma época anterior à conquista e posse da terra, na realidade é de uma época na qual Israel provou e experimentou na própria carne o que significa não escutar e pôr em prática os mandatos e preceitos do Senhor. Estamos na chamada época do pós-exílio. Israel passou pelas experiências históricas mais difíceis: desaparecimento do sistema solidário tribal, aparecimento da monarquia (ponto de partida de todos os seus pecados), divisão do reino, destruição de ambos os reinos, deportação... Em todos os momentos, Israel foi instruído através dos profetas, que sempre o convidavam a reorientar seu caminho. Mas a queixa de Deus sempre foi constante: Não atende a ninguém, não aceita disciplina, não confia no Senhor, nem se aproxima do seu Deus (Sf 3.2). As experiências históricas obrigam Israel a aprender o que significa escutar seu Deus e pôr em prática a sua Palavra, sua instrução. Baseado em tudo o que lhe aconteceu, Israel descobre que os mandatos do Senhor não querem amarrá-lo, estreitar horizontes nem pôr todo um povo sob a direção de um Deus caprichoso. Não é um Deus qualquer que de livre e espontânea vontade optou por esse povo, e sim um Deus de vida que quer apenas orientar o povo por sendas de vida. Assim, depois de sobreviver às mais duras experiências no exílio, Israel volta a lembrar qual era, desde o princípio, a proposta de seu Deus: amar somente a ele, procurar somente a ele e não confiar em nenhuma outra proposta, por mais chamativa que fosse, para não voltar a cair num fracasso pior. No evangelho, Jesus depara-se com uma norma de vários séculos cumprida por seu povo. Todos os dias, três vezes por dia, todos os homens israelitas recitam o “Escuta Israel... o Senhor nosso Deus é um só, a ele amarás...”, o shemá. Mas Jesus denuncia que esse shemá ficou apenas no campo auditivo, não se vê no campo da prática, e é isso o que Jesus denuncia ao longo do seu ministério. Muitas palavras, muitas normas e preceitos, muito apelo a Deus para tudo, muitas frases da lei nas bordas dos mantos, no batente das portas, no braço, na testa, mas nada no coração ou, menos ainda, na vida ordinária, na prática cotidiana.

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Na comunidade de Marcos apresentam-se situações similares às do judaísmo. As normas e preceitos que os primeiros cristãos conhecem são necessariamente aqueles que vêm do mundo judeu. Agora serão de cumprimento obrigatório todos esses preceitos nessa nova experiência de vida supostamente animada pela presença viva do Senhor ressuscitado? A primeira coisa e mais importante que os cristãos devem levar em consideração é que não se trata de uma adesão a uma divindade diferente do judaísmo. É o mesmo Deus revelado ao povo de Israel, e na Escritura, é o mesmo Deus de Jesus; portanto, o que o cristão tem que fazer primeiro é professar sua fé, amor e adesão a esse Único Deus, “escutar” sua Palavra e obedecê-la. Esse é o projeto de vida de Jesus. Toda a sua vida e sua obra moveram-se em função disso, e é isso que tem que manter o cristianismo vivo: sua adesão a esse único e verdadeiro Deus, a quem não interessa outra coisa a não ser o amor e adesão a ele, que os fiéis vivam no amor mútuo e fraterno. Para Jesus, não tem sentido falar do amor a Deus sem levar em consideração a ÚNICA porta de acesso a ele: o próximo.

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Exegese

O tema central da Epístola aos Hebreus é o sacerdócio de Cristo, apresentado como o novo sacerdócio, isto é, o sacerdócio da nova aliança, que vai substituir e aperfeiçoar o antigo sacerdócio, ou seja, o sacerdócio da antiga aliança. 2.1 – A violência e o sagrado Historicamente, verifica-se que a estruturação do sistema de culto levítico, elaborado pela casta sacerdotal pós-exílica, assume os ritos que já eram realizados no período pré-levítico, em que cada pessoa (e não somente o sacerdote) manipulava a sua oferta e apresentava seu sacrifício. Exemplos disso pode-se ver nas ofertas de Caim, Abel, Noé, Abraão. A função do sacrifício violento é assegurar a possibilidade da vida com os outros. O ato do sacrifício violento era visto como a possibilidade de um restabelecimento da ordem. Com o sacrifício violento, o que se queria era afastar a violência da comunidade. No entanto, tratava-se de uma solução enganosa e ilusória, porque a violência recíproca voltava a imperar, a sociedade desintegrava-se e necessitava de um novo sacrifício. É um processo de repetição sem fim. Encontramos a justificação sacrifical do Antigo Testamento no livro de Levíticos (capítulos 1 a 7 e 16). Lv 1-7 trata da lei dos sacrifícios: holocausto (1.37) é o sacrifício com animais; oblação (2.1-16) é um sacrifício com primícias dos produtos agrícolas; sacrifício pacífico (3.1-17) é o sacrifício cruento, no qual apenas uma parte da vítima estava sobre o altar, enquanto outra parte servia para o característico convívio sagrado, o que “se comia e bebia diante de Deus”. O sacrifício de expiação (4.1-5,15) é o que se fazia para reparar as impurezas levíticas e os pecados cometidos inadvertidamente por parte de toda a comunidade, do seu chefe ou de um simples fiel. O sacrifício de reparação (5.14-16) era a restituição por uma culpa. O sacrifício de louvor (Lv 7.12) pode ser exemplificado

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pelo Sl 51: “minha boca anunciará teus louvores (v. 15), pois não te comprazem os sacrifícios (v. 16)”. Lv 16 fala do grande rito de expiação e do “Grande Dia” no qual anualmente esse é realizado. Trata-se do Yom Kippur, celebrado até hoje pelos judeus. 2.2 – A centralização do lugar do sacrifício O sistema levítico centraliza o lugar do sacrifício, o qual não será mais realizado em qualquer lugar – debaixo de uma árvore ou sobre uma pedra – e sim no templo. Junto com isso há uma centralização da mediação nas mãos dos sacerdotes e do sumo sacerdote. E o que era oferecido não era a carne, mas o sangue, pois esse representa a vida. O Levítico, ao propor toda essa organização do sacrifício e do sacerdócio, tem em mente a estrutura de mediação que obtenha o perdão dos pecados, a purificação ritual (de um leproso, de uma mulher depois do parto, de quem teve contato com um cadáver, por exemplo), a cura e a manifestação da glória de Javé (Lv 9.6). 2.3 – O sacerdócio de Cristo A Epístola aos Hebreus é o único escrito do Novo Testamento que constitui uma obra sistemática de teologia do sacerdócio e em que o termo sumo sacerdote é aplicado a Cristo. Igualmente o termo sacerdote (hiereus) não é aplicado nos evangelhos e em Atos a Jesus ou aos apóstolos. Só a Epístola aos Hebreus aplica a Cristo os títulos de sacerdote e sumo sacerdote, atribuindo-lhe qualidades sacerdotais e tratando o ponto fundamental das relações entre Cristo e o sacerdócio. A Epístola aos Hebreus, na verdade, não é uma carta, mas um sermão. É assim que se define o gênero literário dessa obra cuidadosamente elaborada, feita de exposições entrecortadas por exortações, numa sucessão lógica de temas e com uma estrutura concêntrica que permite evidenciar o ponto alto: Jesus é o mediador e o sumo sacerdote (8.1-9,28). O capítulo 9 trata da superioridade do culto e pode ser dividido em três partes: v. 1-10: o culto antigo; v. 11-14: a oferta de Cristo; v. 15-22. 23: a questão do sangue. O culto antigo era marcado por normas rituais e um santuário terrestre (v. 1), com sangue de bois e novilhos, e cinza espalhada sobre seres ritualmente impuros (v. 13), com o altar para o incenso (v. 4) e o propiciatório (v. 5); tudo isso era apenas cópia e sombra (8.5), figura (parabolē: 9.9) do verdadeiro e eterno santuário. Cristo, ao contrário, é sumo sacerdote através do seu próprio sangue, obtendo uma redenção eterna (v. 11-12), numa clara alusão ao sangue da aliança (haima tēs diathēkēs) de Êx 24.8 (Hb 9.20). Segundo Hb 9. 14: ... muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará (kathariei) a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!

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2.4 – A libertação da religião da violência Conhecer a estrutura religioso-cultural-sacerdotal de Israel através da Escritura ajuda a entender a importância da atribuição que a Epístola aos Hebreus faz sobre o título de sumo sacerdote a Jesus. É verdade que a religião cristã, que iniciava, tinha necessidade do sacerdócio e do sacerdote. Também é aceitável que o sacerdócio antigo é válido na linha da intuição, ou seja, entendeu e explicitou a seu modo a necessidade de mediação. O autor de Hebreus percebeu que aquilo que o sacerdócio levítico realizara em nível simbólico Cristo realizou em sentido real. Jesus desempenhou uma missão profética e não sacerdotal, e no desempenho dessa missão não economizou críticas nem evitou conflitos com os representantes de tal casta. Mesmo assim, sua morte não se deu no lugar de culto nem se tratou de uma cerimônia religioso-cultural; antes tratou-se da execução de um condenado. O derramamento do sangue será o elemento comum com o sacrifício antigo e é a consequência da fidelidade irrestrita de Jesus à missão de revelador do Pai (por isso ele é digno de fé). A instituição sacerdotal da antiga aliança encontra seu cumprimento (sua realização) no mistério da morte de Cristo. É essa, em substância, a tese central da Epístola aos Hebreus. Os sacrifícios que os cristãos oferecem não pertencem mais à antiga economia: eles são de uma natureza completamente diferente, como revela a última parte da epístola (13.1-19 e, particularmente, 13.15-16). 2.5 – Paralelismo entre os sacrifícios antigos e o sacrifício de Cristo Traçando um paralelismo entre os sacrifícios antigos e o sacrifício de Cristo, nota-se uma passagem: • de uma dimensão exclusivamente ritual para uma dimensão existencial; • da separação (não identificação) do ofertante com a oferta para a solidariedade; • da oferta de animais e produtos para a oferta pessoal, isto é, a oferta real da existência; • da pureza ritual (o termo grego para designar a purificação é katharismos) para a purificação dos pecados (Hb 1.3) e da má consciência (Hb 10.22; 9.14); • da obediência à Lei para a docilidade ao Espírito Santo (1Ts 5.19), ou seja, à liberdade; • de uma consagração (a palavra hebraica é male, e a grega, teleiōsis) que vale somente para o sacerdote para uma consagração que vale para todo o povo (Hb 10.14; 1Pe 2.4-10; Ap 5.10); • das puras práticas exteriores para um culto espiritual (Rm 12.1; Hb 9.14: Cristo é capaz de realizar o culto espiritual perfeito; Hb 13.15: beneficência e comunhão (koinōnia); • de um rito que tem uma finalidade em si e está separado da vida para o culto sacramental cristão, isto é, ao rito que é a expressão da vida e tem continuidade na mesma;

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• do culto antigo, que é um jugo pesado para o pobre, o qual deve levar ofertas para o sacrifício para poder sentir-se justificado e agraciado por Deus, para o culto da comunidade cristã, que deve ser uma realidade que liberta.

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Subsídios litúrgicos

A exigência fundamental que está na base de qualquer compromisso religioso é o amor a Deus, mas que deve estar mediatizado pelo amor aos irmãos. Essa é a base primordial da espiritualidade de Jesus, que permite aquela absoluta sintonia entre sua opção por Deus como Pai e sua consequente opção pelo reino do Pai, que na percepção é a preocupação pelos fracos e marginalizados. Neste sentido, a nossa espiritualidade não pode mudar de referente. Oração de intercessão – Pelas igrejas do mundo, para que sejam as primeiras a obedecer à Palavra, oremos. – Pelos governantes, políticos e dirigentes sociais, para que também eles sintam que seus projetos devem estar alinhados com a Palavra de Deus, oremos. – Pelos nossos grupos e nossas comunidades, para que seus programas e ações sejam a concreção obediente da Palavra que os convoca e os motiva, oremos. – Por cada um de nós, para que no viver diário sejamos capazes de manter uma atitude de escuta obediente à Palavra de Deus, oremos. Deus da vida, que cuidas de toda a criação, dá-nos a paz! Que a nossa segurança não venha das armas, mas do respeito; que a nossa força não seja a violência, mas o amor; que a nossa riqueza não seja o dinheiro, mas o compartilhar; que o nosso caminho não seja a ambição, mas a justiça; que a nossa vitória não seja a vingança, mas o perdão. Desarmados e confiantes, queremos defender a dignidade de toda a criação, compartilhando hoje e sempre o pão da solidariedade e da paz. Por Jesus Cristo, teu divino Filho, nosso irmão, que, vítima da nossa violência, do alto da cruz deu a todos seu perdão. Amém. (Campanha da Fraternidade 2005)

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PRÉDICA: MARCOS 5.21-24, 35-43

DIA DE FINADOS 02 NOV 2015

SALMO 118.5-6,15-21 1 TESSALONICENSES 4.13-18

Renato Küntzer

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Introdução

A celebração do Dia de Finados tem dupla finalidade. Em primeiro lugar, ela resgata a memória de nossos familiares falecidos. Trata-se de um dia no qual as pessoas vivenciam lembranças e saudades. Em segundo lugar, somos lembrados da fragilidade da nossa própria vida. Viver significa, por isso, saber distinguir aquilo que é essencial e prioritário na vida daquilo que é secundário e superficial. O Salmo 118 é uma oração de agradecimento de alguém que vivenciou risco de morte e passa pela experiência da proximidade de Deus, que lhe “inclina o seu ouvido”. Conforme 1Pe 1.17-23, essa experiência da proximidade de Deus por meio da vida de Jesus Cristo é a razão da fé e da esperança.

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Exegese

2.1 – Informações sobre o Evangelho de Marcos O Evangelho de Marcos é o mais antigo dos evangelhos. Seu autor caracteriza-o como o “princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Mc 1.1). O evangelho provavelmente foi escrito em Roma por volta do ano 70, quando os primeiros cristãos já haviam passado pela perseguição do imperador Nero e haviam morrido duas lideranças importantes, Pedro e Paulo. Por isso as primeiras comunidades necessitavam fixar as verdades de fé. Em Marcos, não vamos encontrar uma história da vida de Jesus, mas sim um “evangelho”, isto é, uma boa notícia. É um gênero literário criado por Marcos para dar testemunho e interpretar autenticamente Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado. Portanto o Evangelho de Marcos não pode ser lido do ponto de vista histórico, como se o texto tratasse de uma reportagem ou fosse produto de pesquisa histórica. Marcos escreveu o evangelho pensando em sua comunidade, a fim de ajudá-la a viver melhor a fé em Jesus. Marcos recolhe as histórias, os relatos, as tradições e interpretações que já haviam sido conservadas nas reuniões da comunidade, com a finalidade de preservá-las do risco de desfigurar a proposta e a imagem de Jesus. O grande perigo que ameaçava a comunidade era a interpretação distorcida da vida e da atuação pública de Jesus. Marcos apresenta Jesus e a comunidade cristã com traços críticos em relação a interpretações erradas de Jesus, o Cristo. Nesse sentido, o Evangelho de Marcos volta a ser muito atual porque acorda as consciências cristãs por demais “adormecidas”.

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Dia de Finados

2.2 – O texto dentro do contexto – Quem é esse? O texto é marcado por uma confissão pós-pascal da comunidade: Jesus salva da morte (5.23). Por isso diante dela não há necessidade de ter medo, mas fé (5.36). Esse é o evangelho a serviço do qual está esse texto. Os estudiosos classificam o texto como um relato de milagre. Ele está situado dentro de um conjunto maior de textos do mesmo gênero (4.35-5.43). Ele tem uma estrutura semelhante a outros textos de milagre, como Mc 1.29-31 ou 1.40-45: o pedido pela intervenção de Jesus, imposição de mãos, cura pelo toque das mãos, uma palavra de Jesus ordenando a cura e a aparição pública da pessoa que foi curada. O objetivo desses textos é responder a pergunta: “Quem é esse?” (4.41). Ao mesmo tempo em que Jesus age de forma milagrosa, com ações cada vez mais surpreendentes, manifestam-se, na mesma proporção, a falta de entendimento, a cegueira e a oposição a Jesus. 2.3 – O texto (Mc 5.21-24,35-43) O v. 21 serve como introdução a dois textos distintos (a cura da mulher com hemorragia e a ressurreição da filha de Jairo). Jesus estava junto ao mar. A ele afluiu uma grande multidão. É o momento em que chega a Jesus um dos principais da sinagoga, chamado Jairo (v. 22). Interessante é que na sequência o nome de Jairo não mais aparece. Quando se faz referência a ele, é chamado somente de “chefe da sinagoga” (v. 35,36,38) ou de “pai da menina” (v. 40). Jairo prostra-se aos pés de Jesus, o que nos dá uma ideia do sofrimento e da esperança que o move. Seu gesto ignora a opinião de outras lideranças judaicas e do povo, que cada vez com maior intensidade manifestam-se contra Jesus. Aos pés de Jesus, Jairo compartilha a sua dor: sua filha está por morrer. E suplica: “(...) impõe as mãos sobre ela, para que seja salva, e viverá” (v. 23). A esperança é que a menina seja salva e possa viver pela imposição de mãos de Jesus. E Jesus foi com ele. Aqui o texto é interrompido pelo relato da cura da mulher que sofre de hemorragia (v. 24b-34). Reencontramos a história no v. 35, com Jairo em extremo desespero. A menção de que Jesus “falava ainda” tem a intenção clara de ligar os textos em sequência. Alguns da casa do chefe da sinagoga informam-lhe a morte da filha. Parece que Jesus demorou demais ao atender a mulher que sofria de hemorragia. A outra cura durante o caminho fez com que chegasse tarde demais para salvar a filha do chefe da sinagoga. Junto à informação da morte, há agora quase que uma reprimenda ao chefe da sinagoga: “ (…) por que ainda incomodas o Mestre?”. A formulação tem uma intenção clara: a menina está morta, não vale mais a pena incomodar Jesus. O v. 35 mostra uma postura poimênica de Jesus. Ao mesmo tempo em que parece ignorar a notícia da morte, a atitude de Jesus introduz no texto uma questão teológica extremamente importante. No processo da tradição dos relatos de curas realizadas por Jesus, aqui se vai além do que pode ser deduzido das tradições de curas. Os judeus conheciam fatos semelhantes em narrativas veterotestamentárias a respeito de Elias e Eliseu. Mas o que vai ocorrer aqui, em

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grande parte, é algo exclusivo de Jesus. A questão a ser considerada é a presença de Deus na história. Aqui há a disposição de confrontar a realidade com a proposta de Deus que vem transformar o mundo. Por isso a resposta de Jesus ao chefe da sinagoga: “Não temas, crê somente” (v. 36). A expressão grega mē phobou, monon pisteue está em sintonia com o cerne da tradição sinótica de origem pré-pascal, quando o convite à fé refere-se à fé em Deus. Não é apenas uma referência à fé na pessoa de Jesus. Significa também agarrar-se a Deus na crise. É a fé que confia em Deus contra todas as aparências. É um apelo à aceitação da oferta de salvação, de abandonar-se à sua palavra e a confiar na graça de Deus. O que ocorre na sequência acontece em um grupo restrito. Jesus levou à casa do chefe da sinagoga somente Pedro, Tiago e João. Chegando à casa, encontra o alvoroço do cerimonial de lamentação, choro e pranto. As pessoas que lá se encontram podem estar ali voluntariamente, tratando-se de familiares, amigos ou ainda poderiam ser profissionais contratados para chorar pela pessoa falecida. A essas Jesus dirige-se perguntando: “Por que estais em alvoroço e chorais?” E se choram e lamentam, certamente é porque a menina está morta. Nesse contexto, Jesus fala e surpreende: “A criança não está morta, mas dorme” (v. 39). Mas dorme: estaria realmente morta ou em coma? Há uma extensa discussão de exegetas a respeito da condição da menina. Para o texto que quer dar uma resposta à pergunta proposta pelo autor do evangelho de “quem é Jesus”, não há muito que discutir. Em vista da intervenção de Jesus, a morte é somente um sono temporário do qual a menina desperta para a vida. Assim como em outros momentos do evangelho, também aqui há uma resposta das pessoas: riram dele. A possibilidade de que ela esteja dormindo é ridícula, motivo de riso. Considerando que a comunidade de Marcos está marcada pela experiência escatológica da Páscoa, é fundamental a afirmação de Jesus: “(...) mas dorme”. Para todos aqueles que não creem na experiência da Páscoa, há uma reação de descrédito e riso. O grupo que testemunhará o que na sequência acontecerá torna-se ainda mais restrito: “(...) mandando sair a todos, tomou o pai e a mãe da criança e os que vieram com ele e entrou onde ela estava” (v. 40). Os v. 41 e 42 atendem à pergunta programática do Evangelho de Marcos – “quem é esse?” (Mc 4.41) – a que se propõe a responder todo o contexto de Mc 4.35-5.43. A formulação do texto “eu te mando, levanta-te” é central. Jesus não necessita pedir pela restauração da vida da menina. Ele ordena ao poder de Deus por meio de sua própria fala. Jesus é mais do que um milagreiro, mais do que Elias e Eliseu e mais do que um profeta escatológico. Se num momento anterior houve riso e deboche, agora a reação é de admiração (v. 42), pois a menina levantou-se e pôs-se a andar. O final do texto traz alguns elementos tradicionais das histórias de curas e milagres. A menina mostra-se às pessoas que estão próximas. Jesus ordena que nada se fale a respeito, numa alusão ao segredo messiânico (4.10). E em relação à ressurreição, é tematizada a sua dimensão corporal quando ordena que deem de comer à menina (v. 43). Há nessa última ordem um cuidado pedagógico ao tematizar na comunidade cristã a ressurreição. A ressurreição da filha de Jairo ainda não é para a vida eterna de que fala Paulo em 1Co 15, mas ela é vivificada para esta vida, devendo também a menina morrer como todos nós

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morreremos. Podemos interpretá-la como uma antecipação daquela vida eterna que se espera no final dos tempos. Mas não sem antes ter a oportunidade de viver a vida. A menina está realmente viva. Ela tem necessidades corporais a serem atendidas. E, por fim, há testemunhas que presenciaram o fato a ponto de voltar à questão central: “quem é esse?”.

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Meditação

Estamos entre os túmulos de familiares queridos, e isso nos faz recordar daqueles dos quais nos despedimos e faz-nos lembrar de nosso próprio futuro. A morte também é nosso futuro mais certo. Ela nos dá conta de todas as vezes em que, na ânsia pela vida, passamos dos limites, querendo tirar o máximo proveito da vida como se ela fosse um jogo qualquer. Prejudicamos e menosprezamos o direito de vida de outras pessoas a fim de matar a nossa fome e sede de vida a todo custo. A sociedade oferta-nos as mais variadas esperanças e expectativas diante da morte. Prendemo-nos aos bens materiais e pagamos um alto preço na tentativa de fugir da morte. Ou então agimos como se a morte fosse a última palavra. Vivemos como se nada houvesse após a morte. Miserável é o ser humano cuja vida se restringe à vida terrena, e infeliz é aquele que enfrenta a morte sem esperança. É por causa dessa esperança antecipada da ressurreição da filha de Jairo que não precisamos nos acomodar diante dos sinais de morte presentes em nosso meio. A esperança na possibilidade da ressurreição já se manifesta na vida que prossegue, que vai se recriando e restabelecendo após as tragédias comuns a todos nós. É a solidariedade que nasce a partir do sentir a dor do outro, é o abraço, a palavra de conforto, a comoção que leva à ação, é a fé que age em amor, não se deixando contaminar pelo fatalismo. Palavras são incapazes de ressuscitar as pessoas que se foram, mas podem despertar as pessoas que permanecem para que se mobilizem, para que outras pessoas não continuem sendo vitimadas pelos sinais de morte antecipada, tão comum nos dias de hoje. Fatos não podem ser modificados, mas as consequências deles em nós sim! A fé motiva profundas e verdadeiras transformações. No Dia de Finados, lembramo-nos de nossos familiares queridos dos quais nos despedimos, sepultamos em lugar especial. Um dia marcado pela saudade! Parados diante das sepulturas, lembramos momentos de sofrimento, amor, carinho, amizade, convívio. Tanta coisa! São lembranças que a saudade toca, reanima, recupera. Este dia também tem a finalidade de lembrar-nos da fragilidade de nossa própria vida. Comunicados diários nos jornais e rádio lembram insistentemente que ninguém vive para sempre. Faz parte da nossa dignidade e sabedoria como seres humanos considerar o nosso fim. Isso determina a maneira como vamos viver a vida. Faz com que estejamos conscientes de que cada novo dia de vida é um presente maravilhoso e único que recebemos das mãos de Deus e que jamais voltará. Tantas vezes lamentamos que a vida é curta, mas nos comportamos como se tivéssemos à nossa disposição um estoque inesgotável de tempo. Dar-se conta

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da temporalidade da vida é um aprendizado que nos ensina a perceber o que é importante e prioritário para a vida. Prioritário é amar as pessoas enquanto há tempo. Acolher seu amor e presentear nosso amor a elas. Isso só é possível enquanto vivemos. Com a morte essa possibilidade acaba.

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Imagem para a prédica

Nós tínhamos um poço. De vez em quando, ele precisava ser limpo. Depois de esvaziado, alguém precisava descer até o fundo para a limpeza final. Roldanas, corda, um balde amarrado na ponta da corta, lá ia eu, dentro do balde, até o fundo do poço. À medida que o balde descia e eu olhava para cima, a boca do poço parecia ficar cada vez menor. A impressão era de que não iria mais conseguir sair. Mas era apenas o meu sentimento. A saída estava lá. Bastava eu deixar que a mão que segurava a corda lá em cima me puxasse de volta. O luto parece como a estreita boca do poço. Achamos que não vamos mais sair. Está escuro demais. São os nossos sentimentos de tristezas e perdas. Mas a mão de Deus continua firme. É questão de tempo. Ele está segurando a corda da nossa vida. Logo estaremos lá em cima. É um tempo de aprendizado que muitas vezes confronta fé com nossa interpretação do que é justo e injusto. Todos nós temos uma ideia bastante exata de como a nossa vida, na verdade, deveria transcorrer. Nós nos julgamos injustiçados quando confrontados com a dor e o sofrimento. Essa é a parte mais difícil a superar.

Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3.ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1988. p. 168-176. JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1977. p. 245-256.

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PRÉDICA: 1 REIS 17.8-16

24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 08 NOV 2015

MARCOS 12.38-44 HEBREUS 9.24-28

Humberto Maiztegui Gonçalves

Desafio para ação ecoprofética

1

Introdução

A categoria social “as viúvas e os órfãos”, apresentada no texto de prédica, geralmente designa as pessoas mais pobres (cf. Êx 22.2; Dt 10.18; Jr 22.3). Duas das três leituras indicadas para este domingo abordam o assunto, relacionado com a oferta de tudo o que tinham: as duas pequenas moedas (Mc 12.42,44) e o resto de óleo e farinha (1Rs 17,11-12). Nesse sentido, podemos relacionar esses dois textos com o que propõe a Epístola aos Hebreus no texto selecionado para este domingo, quando apresenta Cristo como aquele que se oferece “uma vez para tirar os pecados de muitos” (Hb 9.28a). Assim, tantos as viúvas como Cristo dão tudo o que têm em favor da realização da vontade salvífica de Deus. Em contraste com essas viúvas e com Cristo estão, bem explicitamente no texto do evangelho, aqueles que, usando a própria religião como pretexto, exploram e maltratam pessoas que têm muito pouco, entre elas as próprias viúvas (Mc 12.40). Denúncia implícita na Epístola aos Hebreus quando afirma que os sumos sacerdotes – diferentemente que Cristo – não ofereciam de seu próprio sangue, mas “sangue alheio”(Hb 9.25b). No caso da viúva de Sarepta, a denúncia encontra-se antes do texto citado, quando o profeta se dirige a Acabe (rei de Israel), declarando que a seca (que depois afetará a viúva e seu filho) é consequência da rejeição de Deus à política de exploração e abandono dos princípios da justiça e da verdade (1Rs 17.1).

2

Exegese

A saga do profeta Elias começa em 1Rs 17.1-7, tendo como marco uma grande seca que atinge Israel (reino do norte, durante a dinastia de Onri, com capital na Samaria). A narrativa apresenta o fenômeno natural como uma advertência de “JAVÉ, o Deus de Israel” contra a política dos governantes. Nesse momento, a questão parece girar em torno destas duas figuras: a) o(s) profeta(s) do Deus de Israel; b) o rei Acabe (com Jezabel e os profetas de Baal) a partir das bases teológico-ideológicas do seu governo e seus projetos. No entanto, a própria narrativa amplia os horizontes quando coloca Elias em Sarepta, na Fenícia. Ali ele deve encontrar uma viúva e seu filho (1Rs 17.8-16). Segundo Lucas, Jesus usou essa memória para provocar seu auditório na sinagoga de Nazaré ao enfatizar que essa viúva não era israelita (Lc 4.25-26). A escolha da Fenícia não é aleatória,

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pois a viúva e o órfão pertencem ao mesmo povo que a rainha Jezabel, esposa de Acabe e promotora da teologia e ideologia de Baal (1Rs 16.31). Essa teologia do “deus-patrão” (significado de Baal) justificava o poder absoluto do rei. Portanto essa ideologia fornecia a base necessária para um Estado monárquico absolutista, eliminando completamente os direitos assegurados ao povo a partir da revelação de Deus (Javé, SENHOR ou YHWH) como libertador da opressão do Egito. A viúva e o órfão, do ponto de vista deuteronomista (teologia retirada do Deuteronômio, que inspira essa narrativa e que dá base para a revisão histórica feita por essa Obra Historiográfica – Js; Jz; 1 e 2Sm; 1 e 2Rs), representam “os pobres dos pobres”, nesse caso vistos como símbolos de todas as vítimas de uma ideologia do poder abusivo não só em Israel, mas também na Fenícia, de onde Jezabel “importa” esse sistema. Assim fica demonstrado, pela ação divina, que a teologia e a ideologia de Baal atentam contra os direitos “divinos” ou “fundamentais” das pessoas pobres (cf. Dt 24.17; 27.19). A perícope apresenta uma estrutura bastante clara, que gira ao redor da tensão entre a vida e a morte: a) a “palavra do SENHOR” (debar-YHWH) nos v. 8 e 9; b) narrativa da viagem do profeta para Sarepta, encontro e diálogo com a viúva (v. 10-13); c) CENTRO – O anúncio do profeta (“porque assim diz o SENHOR” – ‘amar YHWH) no v. 14; b’) retomada da narrativa sobre a ação da viúva conforme a palavra anunciada (v. 15-16a); a’) conclusão conforme a “palavra do SENHOR” (qi - debar YHWH) em 16b. No centro, após proclamar a fé no “Deus de Israel”, há dois “não” contra a falta do sustento; no texto original, afirma-se duas vezes que o SENHOR “dará”, literalmente: “ele dará, dará o SENHOR”. Sendo que por trás dessa narrativa há várias duplas: a seca e a chuva; a farinha e o óleo; a viúva e seu filho; Elias e YHWH. Essas duplas são complementares sempre. A questão é o relacionamento entre elas e de umas com outras e, finalmente, o que esses relacionamentos produzem. A relação entre a viúva e seu filho é de preocupação constante, de medo, ficando bem evidente na resposta da mulher a proposta do profeta: “para (...) que comamos e morramos” (v. 12b). A relação entre Elias e YHWH é de confiança e total obediência – “levanta-te e vai a Sarepta (...) Então ele se levantou e foi a Sarepta” – nos v. 9a e 10a. A relação entre a farinha, o óleo é o pão (lehem), que depois é feito na forma de “bolo” que o profeta chama de ‘ugáh (7.13) e que antes a mulher fenícia chamou de ma’og (7.12), enfatizando o fato de estar em terra estrangeira com duas formas diferentes de falar do mesmo pão. O filho é a esperança da viúva, e a viúva – como mãe – é a vida do filho. Há também duplas implícitas nesse texto. A primeira dupla é de Acabe e Jezabel, e a segunda de Baal/Asheráh e seus profetas (apresentados como braço ideológico de Jezabel por “comer na sua mesa”, cf. 1Rs 18.19b). Acabe é muitas vezes mencionado sozinho como responsável pelo sofrimento do povo de Israel

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(1Rs17.1; 2Rs 8.27). No entanto, a narrativa faz questão de mostrar que a rainha Jezabel exercia o poder junto com ele (1Rs 19.1, 21,7.15). Baal (que era a divindade que devia garantir a chuva) e seus profetas são desmascarados no monte Carmelo (1Rs 18.19). Essas duplas implícitas são responsabilizadas pela situação de morte gerada a partir da seca. As duplas explícitas, por outro lado, da viúva e seu filho, da farinha e do óleo, de Elias e do SENHOR, mostram relações de vida. Essa intencionalidade fica ainda mais clara quando o resultado é coletivizado. No v. 15, diz-se que comeram ela (a viúva), ele (o profeta) e a casa dela (não apenas o filho, mas toda a família, que antes não foi mencionada).

3

Meditação

A viúva e seu filho, além de sua condição naturalmente vulnerável (por ela ser viúva e o filho ainda criança), encontram-se em situação de extrema miséria devido à seca prolongada e à fome decorrente dela. No entanto, o aparente desastre natural (seca) que provoca essa situação é denunciado como “não natural”, mas provocado por um sistema ideológico e político representado principalmente pelo rei Acabe e, indiretamente, pela rainha Jezabel através da propaganda dos profetas de Baal (sustentados por Jezabel). Esse quadro sensibiliza-nos em relação à situação de fome e extrema miséria em diversas partes do mundo e aqui no Brasil. Apesar de dizer que houve uma diminuição da pobreza extrema, há outras condições, inclusive a seca, que poderiam ser corrigidas, não apenas com megaprojetos, como a transposição do rio São Francisco, mas com a priorização de sistemas que não atendam apenas a chamada “agroindústria”, mas que, como o profeta Elias, vão ao encontro da agricultura de subsistência, da agricultura familiar, da reforma agrária e da preservação do meio ambiente (inclusive das fontes de água). A falta de água – água limpa e realmente potável – impede também melhores condições de vida, especialmente nos bairros periféricos, favelas e vilas. Não há nada de natural nessa realidade. Sabemos onde estão a viúva, o seu filho e a casa dessas pessoas que sofrem a seca provocada por um sistema de prevalecimento do poder econômico e destruição do meio ambiente. Mas onde estão as Elias e os Elias? De fato, algumas pessoas têm ouvido, profeticamente, esse chamado e levado projetos como as cisternas da Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE), projetos de geração de renda através da economia popular solidária, entre outros. No entanto, são vozes abafadas pelos profetas de Baal, que detêm total domínio sobre os meios de comunicação de massa – TV aberta, rádios e jornais – e que comem na mesa do poder econômico e seus aliados. Como igrejas, temos que assumir nosso papel profético! Esse ministério profético só se faz junto às viúvas, seus filhos e filhas. A seca como sinal do julgamento de Deus contra os desmandos dos governantes deve ser hoje, até urgentemente, interpretada do ponto de vista eco-político. Entre os muitos manifestos publicados pelo Conselho Mundial de Igrejas, podemos também ouvir a voz de Deus e do profeta Elias: “O modelo de desenvol-

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vimento mundial está ameaçando as vidas e os meios de subsistência de muitas pessoas, especialmente entre as pessoas mais pobres do mundo, e destruindo a biodiversidade. A visão ecumênica é de superação desse modelo baseado no excesso de consumo e na ganância” (Disponível em: http://www.oikoumene.org/en/ what-we-do/climate-change). Hoje, como na época de Elias, sob o sistema promovido por Acabe e Jezabel, através do aparato de propaganda dos “profetas de Baal”, há um grande investimento publicitário que estimula o consumo desenfreado, sem chamar a atenção sobre as nefastas consequências desse modelo do “descartável” e do “provisório”. A ação de Elias com a viúva de Sarepta e seu filho indica que pequenas ações podem dar grandes sinais e começar a reverter esse processo de morte. Para que isso aconteça, precisamos de companheiros e companheiras, em duplas, em grupos, que aceitem o desafio de multiplicar a farinha e o óleo através de relacionamentos alternativos aos propostos pelo sistema de morte, a promover a valorização do meio ambiente urbano e rural, o consumo consciente, o reaproveitamento e da reciclagem etc.

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Imagens para prédica

Tanto no meio rural como urbano há exemplos de formas de vida que valorizam o ambiente através da agricultura orgânica, reaproveitamento, reciclagem, valorização do meio ambiente. Alguns, inclusive, são projetos em que há participação das igrejas. Fotos ou relatos sobre esses projetos e até formas de apoiar essas iniciativas seriam imagens bem apropriadas. O contraste entre imagens de quilômetros e mais quilômetros quadrados de plantações de soja e fumo e, do outro lado, imagens de pessoas famintas ou mal alimentadas, imagens de inundações e de seca e outras catástrofes e tragédias provocadas pelo fenômeno do aquecimento global poderiam ilustrar aquilo a que o profeta Elias se opôs e nós devemos nos opor. Colocar no altar, de um lado, lixo e restos de computadores, pilhas, equipamentos eletrônicos, óleo de cozinha, detergentes, que jogamos na natureza por ignorância ou por não ter meio de lhes dar o devido destino; e, do outro lado, flores, adubo orgânico, produtos reciclados ou reaproveitados, colocando num lado Baal ou “deus da morte” e no outro Javé ou “SENHOR da Vida”.

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Subsídios litúrgicos

O Conselho Mundial de Igrejas promove o chamado “Tempo da Criação”. Nesse espaço, há diversas sugestões de orações. Entre elas adaptamos este rito de confissão: Peçamos perdão a Deus nosso Pai e Mãe, pelo mal que temos feito à sua criação: perdoa-nos por todos os males contra a natureza, principalmente a poluição de rios, mares, oceanos, açudes, lagos, riachos e as águas de um modo geral. Por estarmos destruindo matas, florestas, matando os animais selvagens, silvestres, poluindo o ar, a atmosfera, desequilibrando a ecologia, destruindo a camada

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de ozônio, por estarmos destruindo a natureza, motivados pela cobiça e ganância de poucas pessoas, levando fome para muitas outras e ameaçando a vida de todas as criaturas (Kyrie). Perdoa-nos, ó Senhor, Deus da Vida, e ajuda-nos, pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo, a nos conscientizar e agir no sentido de preservar o que ainda resta da natureza e procurar recuperar o que ainda pode e deve ser recuperado (Kyrie). Perdoa-nos, Deus que és Vida, que queres a plenitude da paz para todas as pessoas e abençoa-nos para que sejamos pessoas melhores e tenhamos mais consciência de nossas responsabilidades em relação a tudo o que nos cerca, em relação a nós mesmos e, em especial, com as pessoas mais vulneráveis de nossa sociedade e com todas as que buscam meios alternativos de vida e de subsistência (Kyrie). (outras em http://tempoparaacriacao.blogspot.com.br/2013/08/ciclo-deoracoes-dominicais-no-tempo.html).

Bibliografia CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS (CMI/WCC). Disponível em: http://www. oikoumene.org/es/press-centre/events/time-for-creation. Acesso em: 15/5/2014. MAIZTEGUI GONÇALVES, Humberto. Comunidades proféticas da resistência: um exercício hermenêutico. In: Cadernos da ESTEF, Nº 50, p. 41-50. Porto Alegre: ESTEF, 2013/1.

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PRÉDICA: HEBREUS 10.11-25

25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 15 NOV 2015

SALMO 16 MARCOS 13.1-8

Paulo Roberto Garcia

Chega de sacrifícios!

1

Introdução

Agradar a Deus para receber favores dele. Essa é a grande tentação humana e a grande tentação presente no discurso religioso de nossos dias. Práticas de abstenção de alimentos, de abstenção temporária de opções de lazer, estabelecimento de propósitos e intenções marcam a tentativa de receber de Deus as bênçãos desejadas. São práticas com características de sacrifício, que tornam mais atual o desafio apontado pelo livro de Hebreus. Em uma realidade em que práticas com características sacrificiais apresentam-se tão fortemente, somos desafiados a buscar caminhos que ajudem a superar o desejo sacrificial do ser humano. O escrito de Hebreus é texto fundante para essa discussão. Esse escrito surge no mundo romano, marcado pela presença de diversas religiões que permeavam o vasto território dominado. Práticas sacrificiais e uma religiosidade determinada pela correta observância de ritos eram constantes. Diante disso, a necessidade, ou não, do sacrifício era tema fundamental para o posicionamento religioso. Esse desafio foi colocado também para a fé cristã. Esse questionamento era colocado nos diversos espaços permeados pelos cristianismos originários. O cristianismo judaico perguntava pela necessidade da continuidade do sacrifício (agravado pela destruição do Templo de Jerusalém). O cristianismo gentílico perguntava pela ruptura com os diversos cultos e os sacrifícios que caracterizavam os ritos dessas religiões. Em meio a esses questionamentos, a teologia paulina ganhou corpo, em especial pela teologia da graça, que colocava os esforços humanos como insuficientes para merecer a salvação de Deus. Por isso a insuficiência do sacrifício para provocar o olhar favorável das divindades aos desafios do cotidiano é pedra de toque nessa teologia. O problema é que o imaginário sacrificialista estava presente no cotidiano dos habitantes do império. É nesse ponto que o ensino de Hebreus se soma ao ensinamento paulino. Diferentemente de Paulo, que apontou a insuficiência do sacrifício, Hebreus aponta a morte de Cristo como um sacrifício perpetuamente suficiente. Por caminhos diferentes, ambos os ensinamentos chegam ao mesmo resultado: o fim da necessidade do sacrifício. Foi por isso que, desde as primeiras coleções, compilações de cartas paulinas, Hebreus foi agregado a elas. A graça de Deus e a não mais necessidade de sacrifício somam-se às coleções e à memória dos seguidores do pensamento paulino. É nesse contexto que nossa perícope se

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encontra. Ensinos sobre a superação do Templo, do sacrifício e a exaltação do papel de Cristo nesse processo. O escrito de Hebreus é um texto surpreendente.

2

Exegese

2.1 – Pressupostos Para abordar a perícope, precisamos assumir alguns pressupostos. 1 – Sobre o gênero literário: assumimos que Hebreus é um tratado. Isso significa que não é uma carta, mas uma orientação teológica para nortear a vida de uma comunidade. Seus escritos apresentam, portanto, uma forma de discussão em torno de temas com o objetivo de apontar caminhos para a comunidade de fé. 2 – Sobre a realidade da comunidade: uma das discussões sobre a comunidade cristã para a qual Hebreus é destinada é se ela seria judaico-cristã ou gentílica. Outra discussão é se ela sofria perseguição ou passava situações de conflito. Entendemos que a comunidade é uma comunidade típica do cristianismo primitivo extrapalestinense, marcada pelo encontro entre as diversas etnias e as diversas culturas da época. Não defendemos que havia perseguição, mas que havia conflitos que provocavam o arrefecimento da fé e, inclusive, o abandono das reuniões comunitárias (2.1-4;5.11-6.12;10.23-27,32-39; 12.1-29). Em face desse arrefecimento, o tratado busca motivar e desafiar os participantes da comunidade a recuperar a confiança e a motivação na vivência da vida de fé. 3 – Sobre o lugar da perícope na estrutura de Hebreus: assumimos que a nossa perícope é parte da conclusão da discussão central de Hebreus: a superioridade de Cristo em relação ao Templo, ao sacerdócio e ao sacrifício. Essa discussão tem início no capítulo 7.1 e encerra-se em 10.39. Nesse aspecto, ela aponta desafios à fé da comunidade no chamado a Cristo, rompendo com a lógica sacrificial. 2.2 – O texto

18);

Nossa perícope pode ser entendida da seguinte forma: * Comparação entre a ação dos sacerdotes e a de Cristo (v. 11-14); * Embasamento dessa comparação através da citação de Jeremias (v. 15-

* Consequências disso para a prática da comunidade (v. 19-24). Essa estrutura mostra-nos a lógica do tratado: uma conclusão, seu embasamento bíblico (nos profetas) e a consequência disso para o cotidiano da comunidade. * Comparação entre a ação dos sacerdotes e a de Cristo (v. 11-14) Na comparação entre a ação de Cristo e a ação dos sacerdotes, a conclusão, após longo debate dos capítulos 7 a 10, é que o exercício do sacerdócio do Templo é uma repetição sem fim, que “em tempo algum podem remover pecados”. Ou seja, é uma repetição ineficaz.

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Por outro lado, o sacrifício de Jesus é único “para todos os tempos”, “perpetuamente”. Aqui há um jogo com uma formulação igual de frases entre o sacerdote que oferece de forma repetitiva sacrifícios que “em tempo algum podem remover pecados” com Cristo que oferece “único sacrifício para todos os tempos”. A partir desse sacrifício para todos os tempos, Jesus assenta-se à destra de Deus, aguardando o julgamento final, uma vez que com um único oferecimento tornou “os santificados” da comunidade perfeitos “para todos os tempos”. A estrutura é interessante: * Sacrifício único de Cristo “para todos os tempos”; * Destra de Deus aguardando o julgamento final; * Oferta única de Cristo “para todos os tempos”. Nesse ponto percebemos duas ênfases. A primeira, na eficácia do sacrifício de Cristo. A segunda, é que esse sacrifício habilita Jesus a assentar à destra de Deus para aguardar o julgamento quando todo inimigo estará “debaixo dos pés dele”. Há uma vinculação entre o sacrifício único e o julgamento final. Isso trará consequências para a vida da comunidade. Isso será tema da terceira parte da estrutura dessa perícope. * Embasamento dessa comparação através da citação de Jeremias (v. 15-18) Na segunda parte de nossa perícope, encontramos uma citação de Jeremias 31.33-34.

Hebreus 10.15-18 Jeremias 31.33-34 E a nós, dá testemunho o Espírito Santo, pois após dizer: Esta é a aliança a qual firmarei com Para esta aliança que eu farei com a eles, depois daqueles dias, diz o casa de Israel. Senhor, Depois daqueles dias, diz o Senhor, Dando minhas Leis Eu darei minha Lei sobre o coração deles em suas entranhas E na mente deles gravarei as mesmas E em seu coração escreverei

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E serei para eles Deus E eles serão meu povo E não ensinará jamais cada um ao seu vizinho, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, Eis! Todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Eis! E dos pecados e das iniquidades Eu perdoarei as suas iniquidades deles e dos seus pecados não me lembrarei De modo algum me lembrarei mais mais. Pois, onde há remissão destes Não há mais oferta pelo pecado. Percebemos algumas ênfases quando comparamos a citação com o texto completo de Jeremias. A primeira ênfase é que a citação só é usada na parte do gravar a Lei e de não se lembrar dos pecados e das iniquidades. A perspectiva em torno “daqueles dias” que Jeremias enfatiza, quando todos conhecerão a Deus, desaparece. A não lembrança dos pecados e das iniquidades é o centro da atenção. A segunda é que essa citação é atribuída ao Espírito Santo (v. 15). A autoridade do Espírito é colocada pela comunidade nos textos que compõem o cânone veterotestamentário desse tempo (a Lei e os profetas e, talvez, os escritos). A fala não é mais do profeta (como encontramos, por exemplo, em Mc 1.2-3). É a voz do Espírito que ensina a comunidade. Por fim, percebemos o acréscimo da conclusão que essa citação reforça: quando há remissão de pecados, não há mais a necessidade de ofertas. O embasamento bíblico reforça a argumentação inicial de que o sacrifício de Jesus foi suficiente para todo o tempo. Não há necessidade de repetições, como acontecia com o sacrifício dos sacerdotes. Isso é comprovado através da tradição bíblica na voz do Espírito Santo. * Consequências disso para a prática da comunidade (v. 19-24) Essa argumentação, agora embasada na autoridade das Escrituras (que já são palavras do Espírito Santo), tem consequência para a vida das comunidades. Ela aparece em uma estrutura interessante: * O acesso aos santos dos santos através de Jesus (v. 19-21);

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* O convite à aproximação e o catálogo de virtudes esperadas (v. 22-24); * Desafios à continuidade das reuniões comunitárias (v. 25). Na primeira parte dessa apresentação do efeito que o sacrifício único de Jesus tem para a comunidade, há uma releitura do acesso ao santo dos santos no Templo. Antes era restrito ao sumo sacerdote, e agora todos têm a possibilidade de adentrar. Isso pelo sangue de Jesus e pela sua carne (que é comparada com o véu). Ele, o sumo sacerdote, ao ter sua carne/véu rasgada e seu sangue derramado, convida a comunidade a entrar nesse espaço. Na segunda parte, encontramos um catálogo de atributos esperados daqueles que são convidados a entrar nos santos dos santos. O desafio é: * aproximar-se com: coração genuíno; convicção de fé; coração purificado da consciência do mal; corpo lavado com água pura; * conservar/reter: convicção da esperança firme (pois Fiel é o que promete) * observar: uns aos outros para encorajamento ao amor e às boas obras. Nesse catálogo, as experiências de fé daqueles que ingressam nos santos dos santos pedem que se conserve a esperança e culmine em uma prática comunitária de encorajamento ao amor e à prática do bem. A experiência pessoal deságua na vida comunitária. Finalmente, após essa discussão, surge a exortação à participação na comunidade. Não congregar tornava-se uma prática cotidiana. O argumento do “dia que se aproxima” é fundamental. Jesus, que pelo sacrifício único senta-se à destra de Deus aguardando o julgamento, desafia todos a adentrar nesse espaço de fé, trazendo esses atributos encontrados no catálogo visto acima.

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Meditação

O ser humano tem, em suas expressões religiosas, a tentação de querer controlar a relação com o transcendente. O sacrifício, bem como festas e ritos constituem-se nas mais diversas religiões em formas de agradar as divindades. Em comum com um grande conjunto de religiões antigas e modernas está essa tentativa de garantir, mediante esforço humano, os favores da divindade. Essa garantia é a grande tentação. Os ritos sacrificiais, por mais que forjem uma imagem e uma relação extremamente pesada com o transcendente, em que a divindade não tem possibilidade de atos de gratuidade, apenas responde aos agrados propiciados pelos seguidores. Esses ritos oferecem também uma segurança ao seguidor, baseada nas realizações dele. O oferecimento correto do sacrifício e o esforço para merecer os favores servem para dar a segurança de se ter feito todo o necessário, transferindo à divindade a responsabilidade de cumprir o esperado, oferecer a contrapartida. No cristianismo moderno, isso não é diferente. Encontramos diversas expressões, gestos e práticas utilizadas com a intenção de merecer o favor de Deus. Práticas sacrificiais do corpo, dos bens e de abstenção de coisas consideradas pelo proponente como prazerosas (um alimento, um doce, televisão, futebol, teatro), com o objetivo de receber alguma ação direta de Deus (um emprego, uma cura,

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um relacionamento etc.), abundam no discurso religioso moderno. É para esse mundo que Hebreus se torna um desafio. O texto de Hebreus utiliza uma linguagem sacrificial para encerrar o sacrifício. As práticas religiosas sacrificiais têm na repetição a sua garantia. É na continuidade incansável dessas práticas que o fiel garante os favores da divindade. Quando Hebreus anuncia que o sacrifício de Jesus é único e para todo o tempo, encerra-se o ciclo das repetições. Não se pode negociar com Deus para alcançar favores! Agora temos que viver na perspectiva da graça. Porém, a partir do caminho criado por Jesus, os seus seguidores devem adentrar em um novo espaço sagrado – um novo “santo dos santos”. Esse novo espaço é o espaço em que a vida é transformada, o coração, a fé e o corpo são purificados. Onde a esperança é firme. Onde o resultado disso é um profundo compromisso com o outro, estimulando a fé e a prática. A proposta de Hebreus rompe com o sacrificialismo egoísta, que busca agradar a Deus para obter favores pessoais, e apresenta o compromisso comunitário como aquilo que Deus espera de seus seguidores. Essa proposta alinha-se com os outros textos de nosso calendário litúrgico. O Salmo 16 apresenta a confiança do salmista em Deus, que é o protetor, e por isso ele se recusa a oferecer libações de sangue e a cultuar outros deuses. Mais do que o problema do politeísmo, a lógica é que a prática sacrificial é libação feita a um deus que não é o Deus da Bíblia. Em Marcos 13, o desafio é não confiar em edificações e na obra das mãos humanas. Tudo o que fazemos (inclusive os sacrifícios) é passageiro, sem eficácia. Por isso a necessidade de repetição sem fim e sem resultado.

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Imagens para a prédica

Para ilustrar essa tendência a atos de privação a fim de alcançar favores divinos, sugerimos pesquisar notícias de igrejas e grupos religiosos, bem como letras de canções amplamente difundidas propondo essas atitudes. Não apresentamos uma lista aqui, pois há uma constante renovação dessas ações e dessas canções nas diversas expressões religiosas de nosso país. É importante ilustrar essas práticas com exemplos tirados de espaços próximos à vida da comunidade para marcar que essa tendência está presente no cotidiano de todas as comunidades.

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Subsídios litúrgicos

O presente credo, do Prof. Dr. Luiz Carlos Ramos, pode ser inserido na liturgia como um desafio ao compromisso com Deus. Credo da solidariedade: Creio em Deus, Criador de tudo o que é bom, que me ama com amor maior que o de pai e cuida de mim com ternura maior que a de mãe.

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Creio em Jesus Cristo, amigo mais chegado que irmão, que pagou por mim a grande dívida e convidou-me para ser-lhe companheiro no cálice e no pão, na cruz e na ressurreição. Creio no Espírito Santo, terno consolador, que me enxuga as lágrimas dos olhos e me inspira nos lábios o sorriso. Creio na comunidade de fé, mutirão de fiéis, operários de um novo tempo, gestantes do novo céu e da nova terra. Creio no reino pleno da vida abundante, na ressurreição dos corpos oprimidos, na eternidade do amor e na solidariedade divino-humana. Amém! (http://www.luizcarlosramos.net/credo-da-solidariedade/)

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PRÉDICA: DANIEL 7.9-10,13-14

26º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (CRISTO REI)

JOÃO 18.33-37 APOCALIPSE 1.4b-8

22 NOV 2015

Nilo Christmann

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Introdução

Estamos no último domingo do ano eclesiástico: Domingo de Cristo Rei. Os três textos previstos têm expressiva relação entre si. No conjunto testemunham o senhorio de Deus sobre a história e apontam para o reino de Deus, cujo rei é Jesus Cristo. Jo 18.33-37 mostra Pilatos inquirindo Jesus, a fim de ter argumentos para condená-lo. A pergunta central é se Jesus se autodenomina rei dos judeus. É um diálogo meio truncado, porque o entendimento que Pilatos e Jesus têm sobre o assunto parte de princípios distintos. Jesus não nega ser rei, mas deixa claro que o seu reino não é deste mundo. Jesus é rei na perspectiva divina e não em perspectiva humana. O testemunho de João, em Apocalipse, confirma que Jesus é rei e a ele se refere como “o Soberano dos reis da terra” (v. 5). O texto traz uma preciosa qualificação desse rei: aquele que nos ama, que por seu sangue libertou-nos dos pecados e que nos constituiu reino de sacerdotes. A afirmação de que o rei “vem com as nuvens” (v. 7) estabelece uma estreita conexão com a visão de Daniel, pois “eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem” (Dn 7.13). É importante perceber de antemão que a visão de Daniel aponta para um reino que será eterno. Em Jesus, esse reino é personificado. Chegará o dia em que será definitivo; afinal, Deus é “o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que há de vir” (Ap 1.8). Assim também nós pedimos cada vez que oramos o Pai-Nosso: “Venha o teu reino!”. O pregador e a pregadora terão uma boa oportunidade de relacionar os três textos entre si e com o último domingo do ano litúrgico. Mas, para tanto, importa aprofundar o texto da pregação propriamente dito.

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Considerações exegéticas

Em Proclamar Libertação, há poucos auxílios homiléticos para textos do livro de Daniel. O texto indicado foi abordado uma única vez (PL XVI, p. 311), ainda assim com outro recorte para a perícope. Daniel retrata acontecimentos do exílio da Babilônia. O capítulo 7 faz referência ao rei Belsazar, que governou entre 552 e 551 a.C., portanto mais de 50 anos depois da deportação de Daniel, sob o reinado de Jeoaquim. No entanto, há

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certo consenso que o livro de Daniel foi escrito, da forma como o conhecemos, por volta de 167-164 a.C. É o tempo do domínio selêucida em Israel sob Antíoco IV. Um tempo de forte imposição da cultura helênica. Nesse contexto, a mensagem do livro de Daniel representava uma resistência “pacífica” como alternativa ao levante armado proposto pelos macabeus. Os capítulos 1 a 6 contêm material histórico, com Daniel interpretando sonhos e visões de outras pessoas (governantes). Entre os capítulos 7 e 12 predominam textos preditivos/proféticos. Agora, quem tem os sonhos/visões é o próprio Daniel, que conta com ajuda de “um dos que estavam perto” (v. 16) para entender o significado dos mesmos. Os pesquisadores entendem o capítulo 7, especialmente o texto previsto para a pregação, como o ponto alto do livro. Será difícil pregar sobre Dn 7.9-10,13-14 sem fazer referência aos versículos anteriores. Esses relatam um sonho de Daniel e visões que foram colocadas diante dos seus olhos. Quatro seres estranhos e assustadores, diferentes um do outro, emergem do mar. Os quatro seres representam diversos reinados (v. 17). A visão dos seres ameaçadores dá lugar, subitamente, a outro cenário. O que o profeta vê agora é totalmente diferente. O v. 9 introduz um cenário de julgamento. O tribunal é composto. Quem se assenta no trono é o Ancião de Dias, que possui barba branca e cabelos como lã. O próprio trono eram chamas de fogo. A expressão Ancião de Dias é inusitada. Aparece apenas no Livro de Enoque. Mas a sua descrição é esclarecedora. O branco é a cor da pureza e da justiça, associadas pelos profetas às ações e intenções de Deus (Is 1.16-18 e Zc 3.1-5). Cabelos e roupas brancas são as vestes de juiz do Deus de Israel. Os reinos descritos na primeira parte da visão são de animais ferozes, predadores e monstruosos. Em contraste, o Ancião de Dias, que se assenta no trono, assemelha-se a um ser humano. O v. 10 amplia a descrição do cenário. Diante do Ancião de Dias saía um rio de fogo. A presença de Deus relacionada a fogo não é incomum. Em Êx 3.3, a teofania dá-se através de uma sarça ardente. O fogo também está relacionado ao juízo de Deus, assim em Ml 4.1. Na linguagem apocalíptica de Daniel, impressionam as semelhanças com o livro de Apocalipse. As miríades de miríades – muita gente – têm grande similaridade com Ap 5.11. As semelhanças também podem ser percebidas pela presença do trono, do juiz, do tribunal e dos livros. Quem estuda o texto logo pergunta pela razão da não inclusão dos v. 11 e 12. Nesses dois versículos, é retomada a história dos animais ameaçadores do início do capítulo. Mesmo sendo uma espécie de digressão, é relevante perceber como os reinos deste mundo capitulam diante do poder de Deus. Sequer há espaço para a resistência. Simplesmente perdem o domínio e, no máximo, lhes é concedida uma sobrevida por tempo determinado. Não se pode afirmar com certeza a quem o escritor se refere no v. 13 ao dizer que com as nuvens do céu vinha “um como o Filho do Homem”. Mais uma vez, no entanto, as características humanas estão presentes. Ele se achega ao Ancião de Dias. Se do mar emergem os reinos que ameaçam a vida do povo de Deus, dos céus (indicando a transcendência) vem aquele que não esquece seu povo, que lhe fará justiça, mesmo quando a tribulação do presente parece afirmar o contrá-

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rio. No Antigo Testamento estabelece-se, com certa frequência, uma relação entre nuvens e presença de Deus. Assim, por exemplo, em Êx 16.10, a glória do Senhor apareceu na nuvem diante da congregação. Literalmente, a expressão “um como o Filho do Homem” deveria ser traduzida por “um como um ser humano”. É uma expressão que influenciou os evangelhos, em que o título “Filho do Homem” recebe um novo significado na pessoa de Jesus Cristo. O “um como um ser humano” recebe do Ancião de Dias o domínio, a glória e o reino. Ele será servido e terá domínio eterno, e seu reino jamais será destruído. Ainda em relação ao texto, um detalhe interessante: o estar face a face com Deus, a rigor, é insuportável para o ser humano. Vários personagens do Antigo Testamento o comprovam, entre eles Moisés e Elias. Semelhante também foi a experiência de Pedro, Tiago e João no Monte da Transfiguração. Daniel teve um sonho, uma visão. A experiência foi tão marcante, que o deixou perturbado (v. 15) e pálido (v. 28). Para ele foi como estar na presença do próprio Deus. Contudo o que foi levado a ver não tinha o objetivo de amedrontar, mas sim ajudar a perseverar na fé. Tanto assim que Daniel guardou todas “essas coisas no coração” (v. 28).

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Meditação

Daniel é um exemplo de vida de fé. Essa é a tônica do livro que leva o nome do profeta. Por um lado, a sua fidelidade a Deus, quando colocada à prova, mostra-se inabalável. É capaz de enfrentar os leões e a fornalha ardente. Por outro lado, não se submete simplesmente ao poder constituído, resistindo ao mesmo através da palavra. O enfrentamento não se dá pela violência ou pela resistência armada, mas através de uma postura calcada em suas convicções de fé. Daniel não tem receio de ocupar cargos no governo. Faz deles um meio de dar testemunho de seu Deus. Não abre mão de princípios. Sua ética é coerente com o que crê. O livro de Daniel escancara as mazelas dos poderes constituídos pelos seres humanos, especialmente quando se arrogam o direito de ocupar um lugar que não lhes cabe, assumindo o lugar que pertence a Deus. A divinização do ser humano é duramente criticada. O sonho e a visão de Daniel apontam para o fim dos poderes humanos e mostram, de forma inequívoca, que Deus é o Senhor da História. Um Deus que possui traços “humanos”, em contraposição aos reinos que, exemplificados nos monstros que emergem do mar, são assustadores, totalitários e devoram o que está à sua frente. O Deus que se manifesta no sonho de Daniel mostra-se infinitamente mais poderoso, e o seu reinado é caracterizado pela justiça. A visão de Daniel é sinal de esperança para o povo de Deus, que enfrenta o sofrimento decorrente do abuso do poder. A ausência de Deus em meio a perseguições e outras conjunturas adversas é apenas aparente. Não faz muito tempo, uma liderança engajada compartilhou a percepção de que os ministros e ministras têm falado pouco em suas pregações sobre vida eterna. Refletindo sobre a observação feita, concluí que ele tem razão. Houve um tempo em que fomos levados a perceber que a teologia precisava encarnar-se de

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forma mais decisiva na realidade, deixando de transferir para o futuro a libertação que Deus quer para seu povo. O pêndulo voltou-se muito mais para a imanência de Deus do que para a sua transcendência. É interessante observar que a teologia da prosperidade, que obviamente parte de outra leitura da realidade, também acentua a imanência através de um conceito de bênção imediatista. Há pouco espaço para falar do sofrimento humano, que persiste/permanece, bem como para falar da morte. A linguagem de Daniel, a partir do sonho e da visão, ainda que enigmática, aponta de forma inequívoca para o juízo de Deus e para a eternidade: “o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (v. 14). Essa também foi a dimensão que Pilatos não conseguiu entender quando queria saber se Jesus era rei e Jesus lhe disse que o seu reino não é deste mundo. O texto de Apocalipse vai na mesma direção ao referir-se a Deus como aquele que era, que é e que há de vir (v. 4 e 8). O Domingo de Cristo Rei, a partir dos textos previstos, permite sublinhar a realidade última que espera pelos filhos e pelas filhas de Deus. A vida não se resume à nossa rápida passagem por este mundo. O mundo, com todas as mazelas escancaradas diariamente – violência, injustiça, sofrimento, abuso de poder –, não foi abandonado por Deus. Antes, assim como nos tempos de Daniel, comprova a dificuldade do ser humano em deixar Deus ser Deus. Mas essa é uma realidade que tem os seus dias contados. Nós não sabemos, mas Deus sabe quantos são. Refletir, falar e testemunhar do reino de Deus definitivo, quando ele será tudo em todos, não precisa ser alienante. Ao contrário, a viva esperança de que nem tudo se resume a esta vida é combustível para fazer a diferença já no presente. Nesse aspecto, a própria vida de Daniel é um belo exemplo. Em nosso tempo, muitas vezes, os cristãos deixam de envolver-se em questões sociais e no âmbito político porque a corrupção impera. Quem ousa envolver-se sabe o quanto é difícil sustentar a ética nos meandros do poder. Não são poucos os que sucumbem. Outros, porém, conseguem fazer a diferença, assim como Daniel fez. Vivemos um tempo no qual tudo passa e envelhece rapidamente. Vários produtos são descartados com pouco tempo de uso, pois já se tornaram ultrapassados diante do lançamento de uma nova tecnologia. Também as relações humanas se fragilizam. Tornam-se superficiais e descartáveis. O sentimento de pertença à comunidade cristã está igualmente fragilizado. Falar do que é eterno nessa realidade é, num primeiro momento, fora de propósito. E, no entanto, pode ser palavra com grande poder de consolar e instigar. Afinal, não é difícil desmascarar a loucura implícita em todos os imediatismos e nas relações superficiais. O reino que Daniel viu no seu sonho será eterno, não passará e não será destruído – esperança para o presente e para o futuro.

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Imagens para a prédica

a) O profeta Daniel tornou-se conhecido e respeitado pela capacidade de interpretar sonhos. Deus o inspirava para tanto. Como são poucas as pregações

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previstas sobre o livro de Daniel, tem-se a oportunidade de contar de forma breve a história de Daniel, destacando o espaço que ocupou no reino da Babilônia. b) Uma imagem que pode ajudar na pregação é a do pesadelo. Quando o nosso sonho tem característica de pesadelo, ficamos aliviados ao acordar e perceber que era “apenas” um pesadelo. O texto de Daniel previsto para pregação representa, em seu tempo, esperança para um contexto de regimes totalitários e opressivos. c) Há várias situações na vida das pessoas caracterizadas como pesadelos: o acidente, o diagnóstico de uma doença, a perda do emprego... Há momentos em que perguntamos: Isso não vai acabar nunca? Saber que Deus é um juiz justo e amoroso e que a nossa vida está em suas mãos, em qualquer circunstância, é um grande alento. É como um belo alvorecer depois de uma noite de pesadelos. d) Outro exercício interessante pode ser pedir que a comunidade reflita por alguns instantes sobre aquilo que cada qual considera mais precioso em sua vida. Na sequência, perguntar qual dessas preciosidades ainda existirá daqui a cem anos. Trata-se de uma forma de ajudar as pessoas a refletir sobre a transitoriedade das coisas humanas e, ao mesmo tempo, permite apontar para a dimensão da eternidade – Domingo de Cristo Rei.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Reconhecer que nos deixamos seduzir por uma sociedade que tende a descartar as pessoas, assim como se descartam os objetos depois de um breve tempo de uso. Reconhecer que somos imediatistas e que temos dificuldade para colocar a eternidade em nosso horizonte. Kyrie:

Momento de lembrar todas as pessoas que sofrem por abuso de poder pelo mundo afora, especialmente crianças, mulheres e idosos. Hinos: Jesus Cristo é Rei e Senhor (HPD I, 95); Deus é Castelo Forte e Bom (HPD I, 97).

Bibliografia BALDWIN, Joyce G. Daniel – Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1897. LÜDY, José Héctor. Daniel. In: OPORTO, Santiago G. e GARCÍA, Miguel S. (Editores). Comentário ao Antigo Testamento II. São Paulo: Ave Maria, 2004.

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AUXÍLIOS ESPECIAIS

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O nosso Pai que está no céu Verner Hoefelmann PRÉDICA: MATEUS 6.9 SALMO 103 GÁLATAS 4.1-7

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Introdução geral à oração do Senhor

Nos anos 80 da era cristã, duas versões do Pai-Nosso circulavam pelas comunidades. A primeira encontra-se em Mt 6.9-13, e a segunda, em Lc 11.2-4. Elas possuem quase a mesma estrutura: a uma introdução segue a invocação, as preces pela causa de Deus (formuladas na segunda pessoa do singular) e as preces pela causa humana (formuladas na primeira pessoa do plural). Uma comparação mais cuidadosa pode encontrar outras semelhanças, mas também algumas diferenças, como se constata no quadro abaixo. Introdução Invocação

Assim, pois, orai vós: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 Preces pela venha o teu reino; causa faça-se a tua vontade, assim na de Deus terra como no céu; 11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; Preces pela 12 e perdoa-nos as nossas dícausa vidas, assim como nós temos humana perdoado aos nossos devedores; 13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal. Doxologia Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém! 9

Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu reino;

2...

o pão nosso cotidiano dános de dia em dia; 4 perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo o que nos deve; e não nos deixes cair em tentação. 3

– Em ambas, Deus é invocado como Pai, mas, em Mateus, a invocação é ampliada; – as duas primeiras preces pela causa de Deus são iguais, mas, em Mateus, há uma terceira;

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– as duas primeiras preces pela causa humana são semelhantes, mas Mateus possui duas a mais; – a versão de Mateus possui uma doxologia, ausente na versão de Lucas; – nas partes em comum, há pequenas diferenças, sobretudo nas preces sobre o pão e o perdão. Uma terceira versão circulava em fins do primeiro século num catecismo primitivo chamado Didaqué (8.2-3). Ela é muito semelhante à versão de Mateus e parece depender dela. Na introdução consta: “Também não oreis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho”. A doxologia é mais breve: “Pois teu é o poder e a glória pelos séculos”. A instrução conclui com uma exortação: “Assim orai três vezes por dia”. Como explicar que o Pai-Nosso tenha circulado com essas diferenças? O contexto dos evangelhos fornece pistas importantes. Em Mateus, a oração está inserida num bloco em que Jesus adverte contra algumas práticas piedosas dos fariseus (a esmola, a oração e o jejum), abusadas para ostentação e vaidade pessoais (6.1-18). A instrução sobre a oração (6.5-15) é dividida em quatro partes: a) Jesus recomenda que os discípulos não imitem os fariseus, que nos horários de oração encontram-se “casualmente” em locais públicos para poder ostentar sua piedade à multidão. Os discípulos, ao contrário, devem buscar na oração apenas a comunhão com Deus, razão pela qual devem estar a sós em sua presença (6.5-6). b) Assim também não se deve imitar a loquacidade dos pagãos, pois o Pai celeste conhece as necessidades de seus filhos melhor do que eles mesmos (6.7-8). c) O Pai-Nosso serve de exemplo para uma oração breve e ao mesmo tempo de guia para o conteúdo de outras orações (6.9-13). d) Uma palavra final de Jesus, baseada na quinta prece, indica a disposição necessária para uma boa oração: pode pedir o perdão divino apenas quem está disposto a perdoar (6.14-15). Como se vê, Mt 6.5-15 gira em torno da forma e do conteúdo da oração. Não é difícil imaginar que esse bloco fazia parte de um pequeno catecismo comunitário sobre a oração, composto a partir de palavras de Jesus e destinado a instruir neófitos na fé cristã. Catecismo semelhante encontramos também em Lc 11.1-13: a) No prelúdio, o texto menciona a prática da oração do próprio Jesus, o pedido dos discípulos para que ele os ensine a orar e a resposta de Jesus (11.1-4). b) Segue a parábola do amigo importuno, que exorta a perseverar na oração, mesmo que ela não seja logo atendida (11.5-8). c) Segue uma exortação semelhante na forma de um imperativo (11.9-10). d) O bloco conclui com a comparação do pai que dá coisas boas a seus filhos, que ilustra a disposição do Pai celestial de presentear seus filhos com as suas dádivas e com o Espírito Santo (11.11-13). O contexto específico de cada versão ajuda a explicar as diferenças entre elas: o catecismo de Mateus destina-se a cristãos de origem judaica, que sabem orar desde a infância, mas correm o risco de cair na rotina e fazer mau uso da oração. A versão de Lucas dirige-se a pessoas que nada sabem sobre a oração e precisam ser encorajados a praticá-la, ou seja, é uma catequese para gentios convertidos à fé cristã. Qual teria sido a versão original? Para responder essa pergunta, uma observação é decisiva: a versão curta de Lucas está integralmente contida na versão

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longa de Mateus. Conforme as regras de transmissão das tradições, é mais provável que Mateus (ou a tradição na qual se baseia) tenha ampliado a invocação e a quantidade de preces do que Lucas (ou a tradição antes dele) tê-las reduzido. Essa tendência pode ser comprovada no caso da doxologia, que foi secundariamente acrescentada à versão de Mateus. Ela não consta em importantes manuscritos e em outros aparece com diferentes formulações, como no exemplo da Didaqué. Era costume no judaísmo concluir as orações com uma doxologia, livremente escolhida por quem orava. No processo de transmissão escrita, uma delas era copiada no manuscrito de Mateus, até que a doxologia atual se impôs. Mas também em relação a outros casos há explicações razoáveis para afirmar que Mateus apresenta uma versão ampliada. A invocação curta de Lucas (pater em grego, abba em aramaico) encontra similaridade em outros contextos de oração (Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6). A invocação longa e solene de Mateus, por seu turno, corresponde ao uso corrente da piedade judaica. A sétima prece (mas livra-nos do mal) pode ser vista como a versão positiva da sexta (e não nos conduzas em tentação). O conteúdo da terceira prece já está incluído nas duas anteriores, pois a santificação do nome de Deus e a vinda de seu reino são inconcebíveis sem o cumprimento de sua vontade. A pesquisa resume da seguinte forma a questão: Lucas deve ter preservado o teor original no que concerne à invocação e ao número de petições. Mas Mateus, na parte comum, teria preservado melhor a formulação. Os acréscimos refletem a versão corrente do Pai-Nosso na igreja judaico-cristã, que por viver num ambiente mais rico de tradições litúrgicas enriqueceu a oração de Jesus com novos elementos. Essa parece ser a explicação mais convincente, embora não se possa excluir totalmente a hipótese de que Jesus tenha ensinado o Pai-Nosso em diferentes ocasiões.

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Exegese: Pai nosso que estás nos céus

Nossa tarefa aqui é interpretar a introdução e a invocação do Pai-Nosso. Vamos utilizar como base o texto de Mateus. Por ser o mais elaborado, ele logo se impôs na igreja em relação à versão de Lucas. As sete petições serão interpretadas em outros dois auxílios homiléticos neste volume de Proclamar Libertação. No Catecismo Maior de Lutero, a reflexão sobre o Pai-Nosso ocupa um espaço considerável. Sobre ele o reformador afirma: “Não se encontra na face da terra oração mais nobre, uma vez que tem o testemunho excelente de que Deus gosta muito de ouvi-la. Não dá para trocá-la por nada no mundo”. Nela “estão contidos, em sete itens ou preces sucessivas, todas as necessidades que constantemente nos atingem, cada qual tão grande que deveria motivar a pedir em função delas a nossa vida inteira”. Sobre a invocação não se encontra ali alguma reflexão especial. Mas no Catecismo Menor ele diz: “Deus quer atrair-nos com estas palavras para crermos que ele é nosso Pai de verdade e nós somos seus filhos e filhas de verdade. Portanto, podemos pedir a ele sem medo e com toda a confiança, como filhos queridos ao seu querido pai”.

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2.1 – Uma oração modelo A introdução do Pai-Nosso (Assim, pois, orai vós) mostra como essa oração quer ser interpretada: ela é uma oração modelo, que serve de parâmetro para outras orações. Isso não significa que as orações não possam ser espontâneas ou que não possam expressar-se em outras palavras, e sim que a oração do Senhor deve orientar as preces dos seus discípulos. Não é indiferente o modo como oramos e o conteúdo que expressamos em nossas orações. Por isso o Pai-Nosso ensina-nos sobre o conteúdo principal de nossas orações. Não é qualquer oração que agrada ou comove Deus. Não é qualquer oração que ele ouve e atende. Através da oração piedosa também podemos expressar nossa hipocrisia e omissão, nosso egoísmo, pecado e orgulho. Através da oração podemos profanar o nome de Deus quando tentamos submetê-lo aos nossos caprichos ou quando abusamos de seu nome para justificar o mal. Em nossa oração evidencia-se, de certo modo, o conceito que temos de Deus: quem Deus é para nós, isso se mostra no modo como oramos e naquilo que dizemos em nossas orações. Por isso nossa oração deve submeter-se ao filtro da oração que Jesus nos ensinou. Por isso é necessário pedir que Jesus nos ensine a orar, como fizeram os discípulos na versão de Lucas (11.1). Por isso é preciso pedir que Jesus nos mostre a face de Deus e nos ensine a perguntar por sua vontade, para que estejamos em sua presença de maneira condigna e peçamos a ele aquilo que lhe agrada. Na invocação do Pai-Nosso (Pai nosso que estás nos céus), Jesus informa-nos justamente sobre a natureza deste Deus a quem nos dirigimos na oração. O termo grego pater/pai reproduz, com certeza, o original aramaico abba. Mesmo que o Antigo Testamento conheça alguns textos em que Deus é visto como Pai (não mais que quinze, a exemplo de Dt 32.6; Sl 89.26; Is 63.16; 64.8; Jr 31.9; Ml 2.10), é significativo que em nenhum deles Deus seja invocado como Pai numa oração. No âmbito do judaísmo contemporâneo de Jesus, mesmo que as orações comunitárias conheçam muitas formas de invocação de Deus como Pai, surpreende que em parte alguma se utilize a palavra abba para essa finalidade. Em relação a Jesus, chama a atenção, nesse contexto, que ele sempre invoca a Deus como Pai em suas orações. A exceção fica por conta do grito da cruz (Mc 15.34), onde ele faz uso de uma oração litúrgica (Sl 22.2). Esse traço aparece em todas as camadas da tradição evangélica: Marcos (14.36), Fonte Q (Mt 6.9/Lc11.2; Mt 11.25-26/Lc 10.21), matéria exclusiva de Lucas (23.34,46), matéria exclusiva de Mateus (26.42), João (11.41; 12.27,28;17.1, 5,11,21,24,25). Mc 14.36 permite supor que em todas as orações Jesus invocava Deus com a forma aramaica abba. Eco disso ainda se percebe na oração das comunidades (Rm 8.15; Gl 4.6). Abba era a forma carinhosa e respeitosa como as crianças pequenas e os adolescentes dirigiam-se a seu pai. Também era utilizado como tratamento respeitoso e carinhoso a pessoas maiores. O judaísmo palestinense evitava interpelar Deus dessa forma, por considerar irreverente e inimaginável invocar Deus com uma palavra tão familiar. Mas Jesus escolheu justamente essa palavra para dirigir-se a Deus. Ele falou com Deus como uma criança fala com seu pai: com intimidade aconchegante, confiança irrestrita, mas também com dependência ab-

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soluta, respeito inviolável e prontidão para a obediência. E assim ensinou os discípulos a fazê-lo também. 2.2 – Uma oração solidária Na versão de Mateus, Jesus não apenas invoca Deus como Pai, mas acrescenta dois qualificativos a esse título. O primeiro é o pronome nosso. Isso significa: Jesus ensina-nos a aproximar-nos de Deus não apenas como indivíduos, mas como membros de um grupo ou de uma comunidade. Mesmo que a versão de Lucas não contenha esse acréscimo, é esse o espírito que domina toda a oração. Enquanto as preces relativas a Deus estão formuladas na segunda pessoa do singular, as preces relativas aos seres humanos estão todas formuladas na primeira pessoa do plural em ambas as versões. Isso significa: mesmo quando alguém ora na solidão de seu quarto, deve fazê-lo na consciência de que é membro de uma comunidade, constituída por outras pessoas, que são filhos e filhas do mesmo Pai. Essa paternidade comum transforma essas pessoas em irmãos e irmãs e estabelece entre elas uma relação solidária. Todas as pessoas que invocam Deus como Pai reconhecem-se como seus filhos e filhas e membros de uma grande família. Por isso ninguém tem o direito de buscar a presença de Deus para reivindicar um tratamento especial. E sobretudo ninguém pode querer de Deus uma dádiva que estabeleça privilégios e quebre a fraternidade e a solidariedade entre os irmãos e irmãs. Assim não corresponde ao espírito do Pai-Nosso quando alguém pede ou trabalha apenas pelo seu pão ou come seu pão à custa do sofrimento alheio. Também não corresponde ao espírito do Pai-Nosso quando alguém invoca o perdão de Deus, mas não está disposto a concedê-lo adiante, para restaurar a comunhão quebrada com um semelhante. 2.3 – Um Pai especial O segundo qualificativo que a versão de Mateus acrescenta ao Pai-Nosso é que ele está nos céus. A expressão mostra como a titulação deve ser entendida: ela não identifica Deus com um Pai, mas o compara a um Pai. Deus não é um Pai. Ele é como um Pai. Falar de Deus como Pai é um antropomorfismo, ou seja, uma maneira humana de falar de Deus. Trata-se, pois, de uma metáfora. Por um lado, isso é inevitável. Não temos como falar de Deus a não ser com categorias humanas. Por outro lado, toda metáfora tem seus limites e envolve o risco de ser mal-entendida. Há pessoas que fazem boas experiências com uma figura paterna. Para essas, a metáfora ajuda a entender a natureza de Deus. Mas, no caso de pessoas que fizeram experiências negativas e traumáticas com a figura paterna, a metáfora pode atrapalhar. Por isso é preciso qualificar a metáfora para que ela preserve o sentido pretendido. Jesus já havia feito isso ao escolher a palavra: o Deus que ele proclama não é um pai ausente, distante, tirano ou autoritário, mas um abba, um pai querido e afável, do qual é possível aproximar-se com naturalidade e intimidade, com plena confiança e entrega. Esse pai querido, acrescenta-se agora, está nos céus.

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A expressão não quer apontar para a transcendência de Deus, e sim assinalar a peculiaridade do Pai de Jesus em relação ao pai terreno. Ele é um Pai especial, do qual as boas qualidades do abba terreno são apenas um espelho opaco.

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Meditação

Enquanto refletia sobre a introdução e a invocação do Pai-Nosso, três cenas vieram-me à mente, que podem servir igualmente como imagens para a prédica. A primeira, uma cena cada vez mais frequente: jogadores de futebol fazendo o sinal da cruz antes de pisar no gramado; ajoelhando-se e levantando as mãos para o céu enquanto pronunciam uma oração silenciosa; apontando para o céu depois de fazer um gol em sinal de agradecimento; no vestiário, times inteiros fazendo uma roda para rezar o Pai-Nosso antes ou depois das partidas. Durante a Copa do Mundo no Brasil, a imagem correu o mundo: após a vitória suada nos pênaltis contra o Chile, vários jogadores da seleção brasileira ajoelharam-se em campo para agradecer a Deus e imputar a ele o triunfo. Um deles era o craque Neymar, que depois escreveu nas redes sociais: “Guerreiros não fogem da luta... Ninguém vai poder atrasar quem nasceu para vencer! E a caminhada continua... Obrigado, Senhor!” Na internet descobri até uma oração dos jogadores de futebol: “Meu Bom Deus, que, ao entrar no campo, eu demonstre o meu valor. E sempre quando eu for jogar, que eu jogue um bom futebol. E sempre ao driblar, que meu belo lance faça a bola passar, sem que a defesa alcance. Que na falta e no escanteio, do canto ou pelo meio, que ao gol eu possa chegar. Que em todos os jogos de competição, que a bola venha ao meu encontro, na hora certa da decisão. Que pelo amor à camisa, eu consiga fazer o gol. Que na hora decisiva de bater um pênalti, eu seja iluminado e faça a bola entrar no fundo da rede. Deus: que o meu time jogue com garra na capacidade de fazer o melhor em campo: gols. Que o nosso técnico faça alterações com sabedoria. Que a torcida se encante com o nosso futebol e ao mesmo tempo conviva em paz com as outras torcidas. Deus, meu bom pai, proteja-nos em campo. Obrigado, meu bom Deus!”. Como avaliar a explosão da “mística” nos campos de futebol? Contando que possa haver crentes fervorosos nos dois times que se enfrentam, como Deus resolveria o dilema de atender as orações dos dois lados? Fora o simpático pedido para que as torcidas se encantem com o espetáculo e convivam em paz, como avaliar o conteúdo da oração dos atletas, alguns dos quais vão tornar-se pastores depois de pendurar as chuteiras? Quais as preces que passariam pelo filtro do Pai-Nosso? Qual a finalidade da oração expressa nesse contexto e como ela se relaciona com o sentido da oração modelo de Jesus? Dos campos para as igrejas e programas religiosos na televisão: a propósito de Jo 14.13-14 (Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei), o pregador explica que a palavra pedir também significa exigir. E complementa com aparência de erudição: “Segundo os entendidos na língua grega, esta palavra pedirdes está mal traduzida. A palavra pedirdes no grego é o verbo aiteo. Então ela teria sido melhor traduzida como determinardes. Esse pedirdes não tem

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nada a ver com mendigar algo. Então aqui está a primeira lição. Não precisamos pedir a bênção e sim determinar, exigir, mandar, ou seja: tomar posse daquilo que aprendemos pela Palavra que nos pertence”. A oração que segue vai exatamente nesta direção: o pregador determina que Deus cure os doentes, expulse os demônios, restaure os relacionamentos, conceda sucesso e prosperidade nos negócios... Fora a manipulação exegética do verbo pedir, o que dizer de uma oração em que os filhos exigem e determinam o que o Pai deve fazer? Na educação familiar, crianças criadas dessa forma tomam conta dos pais e tornam-se adultos tiranos, arrogantes e manipuladores. E no campo da fé e da educação teológica, qual a consequência? Como falar de um Deus próximo e acessível sem tirar-lhe a soberania e a autonomia? Como falar de um Deus querido e afável sem que isso seja instrumentalizado para finalidades perversas? Dos campos de futebol e igrejas para o interior das casas: é cada vez mais frequente, sobretudo no ambiente urbano, a existência de famílias sem a referência paterna. Quem não conhece um exemplo à sua volta? Dados estatísticos indicam que se aproxima dos quarenta por cento o número de famílias comandadas por mulheres. Em caso de divórcio, geralmente são elas que assumem a responsabilidade pela manutenção da casa e educação dos filhos. São frequentes os casos de maridos e pais que simplesmente abandonam suas famílias. Isso sem contar aqueles que estão em casa, mas são omissos e não contribuem para a educação e formação dos filhos, não estabelecendo com eles uma relação afetiva e construtiva. Pesquisas indicam que a figura paterna (assim como a materna) é importante para a formação equilibrada das crianças. Sua ausência, caso não seja suprida de outra forma, pode gerar transtornos na formação da sua personalidade e na condução futura de sua vida. Como falar de Deus Pai a pessoas que têm ou tiveram uma experiência negativa, frustrante ou traumática com seu pai terreno? Como falar de um Deus paternal, acessível, carinhoso, que inspira confiança, proteção e segurança a pessoas que fizeram experiências negativas com o pai ausente, agressivo ou omisso? Algumas pistas sobre essas perguntas, que podem ajudar a estruturar a pregação, encontram-se na reflexão sobre o texto.

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Subsídios litúrgicos

Versículo de entrada: O Espírito de Deus vem nos ajudar em nossa fraqueza, pois não sabemos como devemos orar. Mas o Espírito de Deus, com gemidos que não sabemos explicar por palavras, pede a Deus em nosso favor. E Deus, que vê por dentro do coração, sabe qual é o pensamento do Espírito. Porque o Espírito pede em favor do povo de Deus e pede de acordo com a vontade de Deus (Rm 8.26-27). Confissão de pecados: Queremos te confessar, Senhor, que não sabemos orar como convém. Buscamos tua presença nos tempos de angústia e aflição, mas nos esquecemos de ti quando estamos no controle de nossa vida. Giramos em torno de nós mesmos em nossa oração e não procuramos a ti. Oramos para que a nossa vontade se faça e

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não a tua. Fugimos de nossa responsabilidade por meio da oração, pois queremos que tu realizes aquilo que cabe a nós realizarmos. Ensina-nos a orar como convém, assim como teu Filho ensinou seus discípulos. Ensina-nos a buscar-te como a um pai querido e afável, no qual buscamos segurança e proteção e ao qual estamos dispostos a ouvir e obedecer. Por teu Filho Jesus Cristo, que nos mostrou tua face paternal. Amém. Oração de coleta: Obrigado, Senhor, que nos convidaste a este local de culto para ouvir tua Palavra e renovar nossa comunhão contigo e com nossos irmãos e irmãs na fé. Ensina-nos a buscar-te mais do que as tuas dádivas. Fala ao nosso coração através de tua Palavra, para que possamos responder-te através de nosso louvor e de nossa oração. Por Cristo Jesus. Amém. Oração final: Pai nosso que estás nos céus: queremos agradecer-te pelo conforto e ânimo que tua Palavra nos trouxe. Obrigado que pela oração podemos vencer a solidão que nos mantém distantes de ti. Como teu Filho Jesus Cristo nos ensinou, queremos aproximar-nos de ti como filhos pequenos diante de seu pai bondoso e afável. Dá-nos aconchego, proteção e segurança. Infunde-nos teu Espírito e renova a nossa fé, para que queiramos fazer tua vontade e estejamos prontos a te obedecer. Tu és a fonte da vida e de ti provém tudo o que necessitamos para viver. Ensina-nos a receber as tuas dádivas com gratidão e a compartilhá-las com nossos irmãos e nossas irmãs. Anima a tua comunidade a acolher aquelas pessoas que não sabem o que é sentir a segurança de um pai e o aconchego de uma mãe. Lembramo-nos, em tua presença, das crianças abandonadas que perambulam sem rumo pelas ruas de nossas cidades. Lembramo-nos daqueles que não têm lar, comida e afeto. Lembramo-nos daqueles que precisam lutar além das suas forças contra adversidades e privações. Cria dentro de nós um coração sensível, para que através de nossa ação solidária tais pessoas reconheçam a ti e te glorifiquem como nosso Pai que está nos céus. Tudo o mais que temos em mente e que pesa em nosso coração queremos expressar através da oração que teu Filho nos ensinou: Pai nosso...

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Preleção sobre Mateus. São Leopoldo: Faculdades EST, s.d. JEREMIAS, Joachim. O Pai-Nosso: a oração do Senhor. São Paulo: Paulinas, 1976. LUZ, Ulrich. El evangelio segun San Mateo. Salamanca: Sigueme,1993.

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As três primeiras petições do Pai-Nosso Gottfried Brakemeier PRÉDICA: MATEUS 6.9-10 ISAÍAS 6.1-7 MATEUS 11.2-6

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Preliminares

Converter uma oração, ou parte dela, num texto para a pregação não é tão incomum como possa parecer. Basta lembrar os salmos, muitos dos quais são invocações de Deus, preces, ações de graça, confissões, lamentações ou manifestações semelhantes. Constam com regularidade nos lecionários da igreja. Pregar sobre orações tem longa história na cristandade. Também no Novo Testamento, temos textos litúrgicos previstos para esse fim. Penso entre outros na oração sacerdotal de Jesus no Evangelho de João (Jo 17). A oração a Deus pode ser perfeitamente anúncio do evangelho. Na verdade, não há como separar. A fala com Deus é e deve ser transparente para a fala sobre Deus. Assim também quando se trata do “Pai-Nosso”. Ela é a principal oração da igreja cristã e um modelo de oração universal. Jesus Cristo a introduz com as palavras: “Portanto, vós orareis assim...” (Mt 6.9) O “Pai-Nosso” estabelece um padrão. Sempre de novo se tem evidenciado como uma “oração completa”, merecendo respeito também por adeptos de outras religiões. Aqui não falta nada. Tudo de que o ser humano necessita para a sua salvação é mencionado e trazido em prece diante de Deus. Isso em palavras concisas e precisas. Essa oração por si só teria imortalizado Jesus de Nazaré. É dever de todo cristão sabê-la de cor e dirigir-se a Deus com exatamente esses termos. O “Pai-Nosso” é um dos grandes patrimônios ecumênicos. Não é propriedade de nenhuma denominação em particular. Ele une a cristandade. Devido à importância que tem, o “Pai-Nosso” integra os catecismos das igrejas. Martim Lutero acolheu-o tanto em seu Catecismo Menor como no Maior, dando-lhe magistral explicação. Voltou a referir-se a esse tesouro da fé cristã em outros escritos, tentando familiarizar o povo cristão com seu conteúdo e incentivar a prática. Seja respeitado, porém, que Jesus proíbe o palavrório repetitivo e a transformação do “Pai-Nosso” em cansativa ladainha (cf. Mt 6.7). “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis a esses.” Eis o alerta. Nosso Mestre e Senhor quer a oração consciente, não a reproduzida mecanicamente. Por isso mesmo importa refletir o texto e ouvi-lo como testemunho. Vale a pena dar atenção a Lutero e aperceber-se do auxílio que nos dá nesse tocante. Por que dirigir-se a Deus em oração? Qual o proveito disso? E como fazê-lo

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condignamente? Afinal, que é que estamos pedindo quando invocamos Deus nas palavras do “Pai-Nosso”?

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Os bens supremos

Na conceituação de Lutero, as primeiras três petições referem-se aos “bens supremos”, pelos quais podemos pedir. Pois não há bens maiores do que a santificação de Deus, a vinda de seu Reino e o cumprimento de sua vontade. Essas petições distinguem-se das quatro seguintes, nas quais “chegamos às necessidades referentes ao nosso cotidiano...” (cf. “O Pai-Nosso”, comentários a Mateus 6.515. Obras Selecionadas, v. 5, p. 124). Elas colocam em destaque os direitos de Deus para somente depois enfocar as preocupações humanas. Trata-se, pois, de dois grupos de petições, distintos um do outro. No primeiro está em jogo a causa divina, no segundo a do ser humano. Para Lutero, cabe prioridade à primeira, razão pela qual lhe atribui a qualidade de “bens supremos”. Será correto pensar assim? Porventura podemos declarar o pão de cada dia e o perdão de nossas dívidas “bens secundários”? Os anseios comuns do ser humano evidentemente são outros. Um levantamento das preferências certamente indicaria paz, saúde, prosperidade, segurança, amor, felicidade. É o que todo mundo quer. Enquanto isso, a santificação do nome de Deus, a realização de sua vontade e a vinda de seu reino são desejos distantes, abstratos, alheios às lides diárias do cidadão. Eles fazem parte de nossa religiosidade por tradição, não por convicção. Também a recitação do “Pai-Nosso”, pois, está no perigo de se tornar rotina, sem relevância imediata para as pessoas. Em muitos casos, periga reduzir-se a mero exercício piedoso, vazio, às vezes até mesmo com a conotação de uma obra meritória. Lutero enxerga nisso uma trágica perversão. Pois o “Pai-Nosso” não pede nada para Deus. Lutero é enfático ao sublinhar que Deus é santo também sem a nossa prece. Basta lembrar os termos do Catecismo Menor: “O nome de Deus é santo por si mesmo”. Assim já o lemos no texto do profeta Isaías. Lamentavelmente, não é esse o caso no uso que fazemos desse nome. Entre nós, o nome de Deus é por demais vezes profanado. Em seu Catecismo Maior, Lutero arrola vários exemplos, entre eles o de espalhar doutrina falsa. O ser humano desacredita o Senhor do universo ao perverter o evangelho e criar imagens distorcidas de Deus. Acima de tudo, porém, desonramos Deus mediante uma conduta que fere os mandamentos divinos. Tanto o nosso falar como o nosso agir devem estar em conformidade com os propósitos de Deus. É assim que vamos santificar o nome do Senhor e é isso o que pedimos ao orar o “Pai-Nosso”. O mesmo vale para a vinda de seu Reino. “O reino de Deus vem por si mesmo sem a nossa oração. Mas pedimos nessa oração que venha também a nós” (Catecismo Menor). O ser humano não tem como acelerar a vinda do reino de Deus; ele não o pode construir nem produzir. Isso é obra exclusiva de Deus. Mas nós temos a desgraçada possibilidade de nos excluir desse Reino e de impedir que se instale em nosso meio. Isso acontece quando lhe negamos a fé e desconfiamos de sua palavra; quando rejeitamos Jesus Cristo, através de quem Deus nos

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liberta de diabo, pecado e morte (Catecismo Maior); quando optamos por outros senhores e lhes prestamos culto. A despeito de nossa resistência, porém, o reino de Deus vem. Isso acontece de duas maneiras. Uma vez através da palavra e da fé, outra pela revelação definitiva no fim dos tempos, em glória e poder. Aliás, convém acrescentar os sinais mencionados por Jesus em sua resposta a João Batista, conforme lemos no Evangelho de Mateus (11.2-6). Não só a fé, também o amor, ou seja, a obra diaconal, é transparente para o reinar gracioso de Deus. O reino de Deus aguardado pelos fiéis do futuro já agora se antecipa em sinais de renovação e salvação. A mesma lógica está em evidência na terceira prece. Lutero explica: “A boa e misericordiosa vontade de Deus é feita sem a nossa oração. Mas nós pedimos nessa oração que ela seja feita também entre nós” (Catecismo Menor). Há muito neste mundo que se opõe à vontade de Deus, a começar por nós mesmos, constantemente tentados a implantar a nossa (!) vontade. “Seja feita a minha vontade, assim na terra como no céu.” É assim que se pensa e é isso o que se deseja. Então uma vontade colide com a outra, e ambas disputam a hegemonia. Nascem os conflitos. O ser humano pretende subjugar seus semelhantes, impor-lhes sua vontade e exercer poder. Ele quer fazer valer os seus interesses, não os de Deus. Dessa maneira, o reino de Deus deve ceder espaço para dar lugar a muitos reinos particulares, concorrentes um com o outro. Somente o respeito à vontade de Deus poderá disciplinar essa luta feroz e garantir a paz. Nós pedimos nessa prece do “Pai-Nosso” que a vontade de Deus seja feita por nós e por todo o mundo, “assim na terra como no céu”.

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Os direitos de Deus e o bem do ser humano

Quem tem ouvidos para ouvir terá percebido que as primeiras três petições do “Pai-Nosso” não pretendem “salvar Deus”, e sim o ser humano. A santificação do nome de Deus é a condição da paz na terra (cf. Lc 2.11), da felicidade humana e do bem-estar social. Pois, onde prevalece o desrespeito a Deus, a desgraça instala-se. Não estava tão errado aquele sujeito que quis colocar em praça pública uma placa com os Dez Mandamentos. Não matar, não furtar, não dar falso testemunho – ah, se isso fosse obedecido, o paraíso estaria próximo. Mas o ser humano não se importa com a vontade divina. Ele desonra o nome do Criador, confunde o seu reino particular com o de Deus, tiraniza seus semelhantes. Os supremos bens, pelos quais pedimos no Pai-Nosso, traduzem-se em bens humanos. Lutero enfatiza que Deus não precisa de nossa oração para ser Deus. Mas temos mil e uma razões para pedir que ele se torne Deus também para nós e tenha atendidos seus direitos. No pluralismo religioso da atualidade, faz-se necessário insistir no amor como critério da vontade de Deus. Nem tudo o que por aí se apregoa como propósito divino de fato é. O que fere o mandamento do amor seguramente não tem Deus por autor. A ação desumana é incompatível com a vontade divina e não corresponde a seu reino. Isso significa que o “Pai-Nosso” não permite ser arrancado do contexto geral da pregação de Jesus. Nós não pedimos pela chegada de

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qualquer reino de Deus, e sim por aquele que se manifesta em graça, amor, paz e perdão dos pecados, assim como Jesus o exemplificou em palavra e ação. Não preconizamos a santificação do nome de qualquer Deus, e sim daquele a quem Jesus invoca como pai e que por isso veio a ser também o “Pai Nosso”. Esse Deus ama até mesmo os seus inimigos. Jesus ensina-nos a um só tempo orar e amar. A igreja cristã demorou em acolher o reclamo dos direitos humanos. Achou que devesse priorizar os direitos divinos e esqueceu a causa humana. Ora, não é possível separar uma coisa da outra. Os direitos humanos estão embutidos nos direitos de Deus e vice-versa. O “Pai-Nosso” assim o ensina. E Lutero com sua explicação ajuda a redescobri-lo. O ser humano não pode honrar Deus e desonrar a criatura, nem pode passar ao largo do sofrimento de Lázaro. Quem julga poder conjugar religiosidade com tortura e assassinato adora um outro deus, não nosso “Pai que está nos céus”. Hoje, a maioria das igrejas é protagonista na luta pelos direitos humanos, graças a Deus. Passaram por salutar processo de aprendizagem. Os direitos humanos certamente não são “direitos cristãos”. Eles têm validade universal. E, no entanto, deitam profundas raízes na tradição bíblica. O “Pai-Nosso” é disso um comprovante.

4 A caminho da prédica Em vez de imagens para a prédica, permito-me fazer “perguntas homiléticas”, motivadoras para a pregação. * Se Deus nos prometesse cumprir três desejos, o que iríamos pedir? É esse o tema de um conto de fada. Infelizmente, a história terminou mal. O sujeito que recebeu tal privilégio não soube pedir devidamente. Desperdiçou a chance preferindo “bens perecíveis” aos de real valor. Qual a ajuda que o “Pai-Nosso” dá-nos nesse tocante? * O mundo está cheio de conflitos tanto nacionais como internacionais. A violência espalha medo e horror. Não raro é justificada com argumento religioso. O que falta para acabar com esse flagelo? Deus aprova o fraticídio? Qual é a vontade de Deus a ser feita? * Se tudo acontece mesmo sem as nossas preces, por que dirigir-se a Deus em oração? Rezar o Pai-Nosso faz sentido?

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor, veja os crimes cometidos em teu nome. Veja a desgraça de um mundo que não se importa contigo. Veja uma sociedade que zomba de tua santidade. Também nós, por demais vezes, ficamos em débito contigo, desonrando o teu nome e jogando-o na lama. Contribuímos à nossa maneira para a falta de fé no mundo. Nós te pedimos, ensina-nos a santificar o teu nome, a cada dia de novo e do jeito que é devido a pessoas que se dirigem a ti com a invocação “Pai Nosso”.

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As três primeiras petições do Pai-Nosso

Queiras perdoar o nosso pecado e conceder a chance de uma nova caminhada como filhos e filhas tuas. Tem compaixão de nós, Senhor. Oração do dia: Santo Deus! A vinda do teu reino é a nossa esperança. Pois onde tu chegas a dominar, as pessoas serão libertadas do jugo de outros poderes. Nem mais a morte poderá amedrontá-las. Vem e acaba com o nosso desânimo. Dá-nos coragem e fé. Dá ao mundo um novo espírito, pronto a se engajar em favor da paz, em favor da preservação do meio ambiente, em favor da justiça social. Queremos ver os sinais do teu reino manifestos em justiça, paz e alegria. Habilita-nos a ser cooperadores em tua obra para que o mundo volte a acreditar em dias melhores. Nós insistimos, Senhor: Venha o teu reino. Amém! Intercessão: Nosso Deus, Deus nosso! Trazemos à tua presença o sofrimento neste mundo. Não podemos senão solidarizar-nos com o clamor da criatura maltratada, seja por violência, doença, injustiça, seja por qualquer outro mal. Sê amparo e consolo em horas de dor e de aflição. Intercedemos em favor de pessoas solitárias, abatidas por perda de familiares, amigos ou outros entes queridos. E onde parecem faltar perspectivas de futuro, abre novas chances, mostrando novos caminhos. Acompanha os moribundos, não abandones quem adentra o vale da sombra da morte, renova a certeza de que nada há de nos separar do teu amor, que está em Jesus Cristo. Pedimos em favor da tua igreja. Dá que seja cumpridora da tua misericordiosa vontade e ajuda a sermos os primeiros a nos colocar a serviço da mesma. Queremos que a tua vontade seja feita assim na terra como no céu.

Bibliografia Os Catecismos de Lutero e seus comentários sobre o “Pai-Nosso” em: Martim Lutero: Obras Selecionadas, v. 5, São Leopoldo/Porto Alegre, 1994, p. 116s.

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Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade As quatro últimas petições do Pai-Nosso Leonídio Gaede PRÉDICA: MATEUS 6.11-13 1 CRÔNICAS 29.9-14 1 TIMÓTEO 6.6-10

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Introdução

Tratamos aqui de subsidiar uma pregação de quinze minutos sobre os quatro últimos pedidos do Pai-Nosso. Esse propósito, sem dúvida, ajuda a determinar a extensão e o jeito do nosso texto. Uma das primeiras afirmações que precisam ser feitas sobre a oração enfocada aqui é que ela une a fé cristã, de expressões tão diferenciadas (!) ao redor do planeta. Estima-se (cf. Wikipédia) que aproximadamente dois bilhões de pessoas pronunciam essa oração, por exemplo por ocasião de uma Páscoa. O Pai-Nosso é, pois, uma das orações mais conhecidas entre as comunidades seguidoras de Jesus Cristo. Sendo muito conhecida e difundida, é natural que tenha recebido nomes diferentes em tempos e lugares diferentes. É chamada, por exemplo, de “Oração do Senhor”, “Oração Dominical” e “Oração dos Neófitos”. Os nomes têm a ver com o seu uso nas comunidades. Ela inicia com a invocação de Deus como Pai e, em seguida, relaciona sete pedidos. Os três primeiros afirmam a glória de Deus. Essa consiste na santificação do seu nome, na aceitação da vinda de seu reino e na sujeição à sua vontade. Os quatro pedidos seguintes revelam as implicações dessa afirmação para quem abraça a fé cristã: anulação do medo da sucumbência, anulação da culpa, anulação da predisposição à corrupção e anulação da hegemonia do mal. Nos primeiros séculos das comunidades cristãs, a oração do Pai-Nosso estava mais relacionada ao ensino (didachē) e menos à pregação (kērigma). A partir desse seu uso, ela ensina que somos filhos e filhas adotivos/adotivas de Deus. Não nascemos filhos e filhas de Deus. Tornamo-nos seus filhos e suas filhas pelo Batismo. Joachim Jeremias, em seu livrinho que leva o título da oração, diz que, nas primeiras comunidades, estava apto a fazer a oração somente quem já fora batizado. A partir do Batismo, é possível chamar Deus de Pai. Por isso faz sentido o título de “Oração dos Neófitos”. Um dos “ganhos” de quem abraçava a fé cristã e “se deixava batizar” era que ganhava um pai comum a todas as pessoas que criam em Jesus Cristo. Adquiria, portanto, o direito de dizer junto com os demais crentes: “Pai nosso que estás no céu”. Por isso penso que não é oportuno relacionar o fato de Deus ser chamado de PAI com a discussão das relações de gênero. O lugar vivencial dessa expressão

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na oração em questão não está relacionado a épocas e lugares em que houve ou há domínio patriarcal ou matriarcal. O direito de pronunciar PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU vincula-se à conquista de uma família nova, a família formada pelas pessoas que renunciaram ao poder do mal (adoração ao império) e aceitaram a adoção de Deus, deixando-se batizar. Se hoje pronunciamos as mesmas palavras, lembramo-nos de fazer tudo com base em Deus e a partir daí seguir com tranquilidade, sossego e confiança juntos numa família mundial (Gl 4.1-7). Por isso faz sentido ler 1Cr 29, especialmente o v. 14, e 1Tm 6, especialmente os v. 7-8.

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Exegese e meditação

2.1 – O pão nosso de cada dia nos dá hoje O quarto pedido do Pai-Nosso tem a especificidade de ser dirigido ao suprimento material da vida. Lutero expressa isso quando fala que o pedido se refere às “questões do mundo temporal”. O quarto pedido derruba qualquer tentativa de estabelecer na teologia uma dicotomia entre os mundos espiritual e material. Segundo Lutero, essa prece abrange tudo o que pertence à vida no mundo. Por fé expressamos que Deus dá-nos o suprimento material. Sendo, porém, que ele “também aos ímpios e malvados o dá e conserva ricamente”, espera que nós, através do pedido, reconheçamos firme e publicamente que o recebemos de sua mão. Quanto àqueles que elevam os preços, lançam moedas falsas e “a seu arbítrio oprimem os pobres e os privam do pão de cada dia”, cuidem-se para que não percam a intercessão comum e que “essa partezinha do Pai-Nosso” não se volte contra eles (Catecismo Maior). Do suprimento material não apenas faz parte tudo o que supre, mas também as boas condições em que ocorre tal suprimento. Nesse sentido, o suprimento material do corpo humano necessita de políticas corretas; necessita, em outras palavras, de uma conjuntura que não provoque raiva em quem vai alimentar-se. Isso inclui que, durante as nossas refeições, não sintamos raiva por causa de desvios de verba pública; por causa do favorecimento de interesses particulares com dinheiro público; por causa de desrespeito ao meio ambiente e ao direito de acesso aos meios de produção de alimento; por causa de injustiça nas relações de trabalho que fazem parte do processo de produção do alimento; por causa de injustiça na aplicação do orçamento doméstico e na distribuição das tarefas que fazem parte do processo de preparo do alimento e do local da refeição (fogão, mesa e pia). O suprimento material do corpo humano necessita da paz interpessoal por ocasião da alimentação. Eis a importância também da oração de mesa. E a questão dos seres humanos que padecem de fome? Essa é tão séria que nem cabe aqui, onde o assunto é a relação consciente de seres humanos, pela fé, com o seu Deus. Matar a fome nem chega a ser um direito humano, é um direito animal, diz Frei Betto. Pretender abordar esse assunto em um espaço tão restrito seria minimizá-lo. Por isso a melhor maneira de abordá-lo na prédica talvez seja fazer 30 segundos de silêncio.

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2.2 – E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores Poderíamos dizer que o quinto pedido torna-se necessário por causa do quarto. O pedido do pão situa-nos tão fortemente entre tantas forças, vindas de pessoas, grupos e organizações, que chegamos ao ponto de pensar que a culpa é do contexto. Cada qual poderia supor: “Eu, por mim, conseguiria fazer uma refeição justa como idealiza o pedido do pão nosso, mas estou envolto em um mundo que não me permite isso, pois não consigo mudar a realidade”. Por isso vem o quinto pedido lembrando, como diz Lutero no Catecismo Maior, que “diante de Deus todos temos de baixar o topete”. Existe uma dívida social que cada qual contraiu por fazer parte de uma sociedade que tem uma história e nela houve, como diz Leonardo Boff em seu livro Pai Nosso (p. 108), “ruptura da fraternidade e quebra da humanidade”. Para não restringir essa afirmação à nossa própria história, no caso brasileira e latino-americana, convém lembrar que a Epístola de Tiago diz no capítulo 3, versículo 2, que todos erramos em diversas situações. Esse pedido também inclui a reparação do pedaço de madeira que temos em nosso próprio olho naquele momento em que nos chama a atenção o cisco no olho de um semelhante. Por fim, receber o perdão compara-se com a água limpa que chega a nós através de um encanamento. Se antes dela, no cano, existir uma bucha de sujeira, a água limpa não passará na qualidade de água limpa. A bucha de sujeira é, no caso, a falta de concessão do perdão a quem nos deve. Atenção! Não entender que Deus não dá o perdão porque existe uma bucha de sujeira. A água limpa vem de graça, independente da sujeira. O evangelho já foi dado! Nossa miserável sujeira não tem força para barrar água limpa, isto é, a graça de Deus. O quinto pedido só se completa, porém, se for acompanhado da segunda parte da frase: “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Sem isso não tem como a água limpa nos alcançar. 2.3 – Não nos deixes cair em tentação A tentação deve ser entendida como algo ou alguém que faz tentativas conosco. Ninguém escapa de sofrer essas tentativas. Em outras palavras, a pessoa não deixa de ser tentada por isso ou por aquilo, por ter muita fé, por exemplo. As tentativas são muitas e diversas, poderíamos dizer que são multicoloridas. Elas apontam outros caminhos e prometem supostas vantagens. Não interessa nelas a conservação de uma sã consciência de pessoa perdoada e cativada pelo dom gratuito do evangelho. A palavra correspondente em língua alemã é Versuchung. A tentação vive, portanto, propondo-nos experiências que extrapolam aquilo que aceitamos como caminhos de salvação. Ela tem, por assim dizer, três fontes. Lutero chama-as de carne, mundo e diabo. Essas três fontes fazem suas tentativas em áreas diferentes de nossa vida. As que vêm da carne são principalmente aquelas que nos querem fazer priorizar tudo o que se relaciona com exa-

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geros, por exemplo com comidas, com atividades de entretenimento e com tudo o que dá prazer. Do outro lado desses exageros, que trazem consigo a ansiedade e logo levam ao desespero, está o cultivo do ócio sem criatividade alguma, uma confusão total a respeito da compreensão do descanso. Assim tentadas, as pessoas que cederem à tentativa da carne dão-se, por exemplo, o direito de, por um lado, arriscar a vida na intenção de divertir-se e, por outro, adotar o famoso “hoje não vou”; “faltar uma vez não faz mal”; “hoje vou cuidar de mim”; “hoje quero ficar à toa” etc. Ao assim proceder, não se considera que é o ritmo da vida profissional que se leva ou o engajamento secular que se tem, que está pedindo tréguas e não a nossa prática comunitária ou a nossa vida de oração. A necessidade de ter mais tempo para atividades prazerosas ou para o descanso, o desejo de fazer extravagantes refeições com pessoas amigas, a atração por qualquer outra atividade que exceda a rotina e a vontade de ficar recostado no sofá devem ser descontados dos 90% que compõem nossas correrias diárias e não dos míseros 10% que compõem os momentos dedicados à vida comunitária ou à vida de oração como primícias ou dízimo ao Senhor. Além das tentativas de nossas próprias paixões, temos o mundo a nos propor o mau exemplo, a infidelidade, a vingança, o costume de falar mal de outras pessoas, a concorrência e a prática de erros que, pelo montante de sua sucessão, tendem a se fazer passar por acontecimentos normais. Assim vamos aceitando imbecilidades como uma parte de nossa convivência e vamos nos conformando e enformando a partir do parâmetro de uma vida bagatelizada pela facilidade com que a gente sofre acidentes, assassinatos, falcatruas... Além disso, o mundo também nos excita demasiadamente com adornos, honra, fama e poder. Em terceiro lugar, mas não com menos força e significado, sofremos as tentativas do diabo. Ele ataca em qualquer lugar, em qualquer área de nossa vida, mais onde menos esperamos, mas parece ter preferência pela deturpação de nosso espírito, manipulando nossa consciência, arrancado dela grandezas como fé, esperança e amor, jogando as pessoas no desespero, poço do qual emergem blasfêmias contra Deus. 2.4 – Mas livra-nos do mal. Amém! Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar. (1Pe 5. 8). Segundo o Catecismo Maior, em grego, a sentença do último pedido do Pai-Nosso pode ser entendido como “livra-nos do maligno”. Independente de nossa boa disposição para a prática do bem, devemos considerar a existência de um poder do mal fora de nós ou ao nosso redor, atingindo-nos com o mal. Isso, porém, não exclui o pedido de que Deus livre-nos de nós mesmos de praticar o mal, pois “sob o reino do diabo” estamos sujeitos a toda sorte de práticas. O pedido ajuda-nos, de qualquer forma, a evitar que deixemos de fora essa dimensão de um poder do mal a nos rondar como leão faminto. Nesse pedido não estamos, portanto, apenas pedindo que consigamos manter-nos distantes da prática da maldade, mas pedimos também o livramento do poder do mal. Segundo Leonardo

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Boff, “o mal, nesse sentido, possui a característica de uma estrutura; a estrutura organiza um sistema de transformações que confere unidade e coerência, totalidade e autoregulagem a todos os processos, mantendo-os dentro das fronteiras do sistema”. Segundo ele, as pessoas podem apropriar-se dessas estruturas e internalizá-las em suas existências.

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Imagens para a prédica e subsídios litúrgicos

3.1 – A conhecida música de Zeca Pagodinho Deixa a vida me levar sob o ponto de vista teológico brinca perigosamente sobre um divisor de águas entre uma atitude de “entrega os teus caminhos ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará” (Sl 37) e uma atitude laxista de licenciosidade e permissividade: “O negócio é deixar rolar e aos trancos e barrancos, lá vou eu”. Se considerarmos o que diz Dt 8.2-3, a saber, que o ser humano “vive de tudo o que procede da boca de Deus”, então não podemos simplesmente permitir “que a vida nos leve”. Os sete pedidos da oração do Pai-Nosso podem ser entendidos como um esforço consciente de colocar a vida às ordens de Deus e de não deixá-la às suas próprias ordens. Não serve o raciocínio raso de que Deus deu a vida e ela é, portanto, sinônimo da vontade dele. A vida mistura-se com as tentativas que a corrompem (sexto pedido) e com as estruturas do mal que agem sobre ela ou dentro dela quando internalizadas (sétimo pedido). 3.2 – Conta-se que um médico disse a um pastor: “O senhor tem a felicidade de lidar com a nobreza da alma e do mundo espiritual, que vinculam as pessoas a Deus e à eternidade. Eu preciso lidar com o miserável corpo que adoece e se decompõe”. Se fôssemos levar a sério a visão de tal médico, deveríamos dizer que a “prece do pão nosso” veio para sujar a nobre atividade do pastor. 3.3 – Outro médico, o sul-coreano Dr. Yun, fundador da Unibiótica, disse numa palestra que a comida com prazer é uma “comida remédio”, enquanto a comida com raiva é uma “comida veneno”. 3.4 – “Um grande mestre do espírito disse a seu discípulo: tu não podes brincar com o animal que mora dentro de ti sem te tornares totalmente animal. Tu não podes brincar com a mentira sem perderes o direito à verdade. Tu não podes brincar com a crueldade sem perverteres a ternura do espírito. Se quiseres manter limpo teu jardim, não podes deixar nenhum espaço entregue às ervas daninhas” (BOFF, p. 117). 3.5 – Um visitante estava admirando uma fazenda bem cuidada de um amigo. “Deus e você fizeram um belo trabalho neste lugar”, comentou o visitante. “Estou admirado como tudo está bonito.” O fazendeiro respondeu rispidamente: “Você deveria tê-la visto quando Deus cuidava dela sozinho” (da internet).

Bibliografia BOFF, Leonardo. O Pai-Nosso, a oração da libertação integral. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1987. JEREMIAS, J. O Pai-Nosso: a oração do Senhor. São Paulo: Paulinas, 1981.

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A Ceia do Senhor – O sacramento do altar Marcos Henrique Fries PRÉDICA: MARCOS 14.22-26 1 CORÍNTIOS 10.16-17 1 CORÍNTIOS 11.17-34

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Introdução

Até a Reforma no século XVI, a igreja considerava sete sacramentos: Batismo, Ceia do Senhor, Confirmação/Crisma, Penitência, Unção dos Enfermos, Ordenação e Matrimônio, assim como a Igreja Católica Romana ainda o faz. Todavia Martim Lutero, mesmo que durante algum tempo se tenha questionado sobre o caráter sacramental da penitência, logo chegaria à conclusão de que são apenas dois os sacramentos, considerando sua clara e inequívoca fundamentação nas palavras de Jesus: Batismo e Ceia do Senhor. Este auxílio homilético tratará do tema “Ceia do Senhor”. Mas não é possível compreender a Ceia do Senhor na ótica luterana, sem antes entender o conceito de sacramento, qual seja: sacramento é ação de Deus em favor de seu povo. É o evangelho, a declaração do amor de Deus pela humanidade pecadora, dada a nós através de elementos visíveis, como a água, o pão e o fruto da videira. Essa declaração de amor (evangelho) chega às pessoas mediante a pregação, levando-as a refletir intelectualmente sobre esse amor, mas chega às pessoas também mediante o sacramento, levando-as a sentir/ experimentar concretamente, através dos sentidos (olfato, audição, tato, paladar, visão), o amor de Deus por elas. Lutero apreciava muito a definição agostiniana de sacramento: “Quando a palavra se acrescenta ao objeto exterior, ele passa a ser um sacramento”. Logo água, pão e fruto da videira, desde que unidos à ordem de Jesus, são elementos que oferecem o evangelho da salvação, embora não verbalmente. No Catecismo Maior, ao refletir sobre o “Sacramento do Altar”, como o reformador chama a Ceia do Senhor, Lutero apresenta três pontos que considerava importantes para a compreensão e correta administração da Ceia. São eles: o que é, para que serve e quem deve/pode receber a Ceia. Essas páginas do catecismo deverão ser lidas por quem pregará sobre o tema, e logo saltará aos olhos do/da pregador/pregadora a importância que Lutero dá à palavra (ordem e promessa de Cristo ao instituir os sacramentos), sem a qual pão e fruto da videira não passam disso, e à fé de quem toma parte na celebração. Sem a fé, que receberá os benefícios ofertados por Cristo, ainda que o sacramento não perca sua validade, ele deixará de ter eficácia na vida do comungante. Aqui, neste auxílio, gostaria de olhar para uma das muitas dimensões do Sacramento do Altar abordadas pelo reformador em seu estudo: a utilidade (para que serve) da Ceia do Senhor. Destaco um trecho de seu texto: “Por isso [este sa-

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cramento] com razão se chama alimento da alma, que nutre e fortalece a nova pessoa. Pelo Batismo, em primeiro lugar, nascemos de novo, mas, além disso (como dissemos), a velha pele continua em forma de carne e sangue da pessoa; há tanto impedimento e provação por parte do diabo e do mundo que, muitas vezes, ficamos cansados e debilitados, às vezes também cambaleamos. Por isso [o sacramento da Ceia] foi dado como repasto e alimento diário, para que a fé se recupere e fortaleça e não tenha uma recaída nessa luta, mas fique cada vez mais forte” (Catecismo Maior – Sinodal/Concórdia, 2012, p. 121). Lutero faz uma importante ligação entre o Batismo e a Ceia do Senhor. No Batismo, nascemos como filhos/filhas de Deus, que têm um compromisso de viver com ele e em conformidade com os seus preceitos. Mas o velho ser humano, que ainda não pertencia a Deus, vez ou outra reaparece, desviando-nos do caminho que nos propomos trilhar pela fé. Assim, a Ceia do Senhor quer ser alimento que nos revigora e fortalece o compromisso assumido por ocasião do Batismo.

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Reflexão bíblica

São três os textos bíblicos sugeridos para este subsídio. Eu os abordo mais a partir dos comentários tecidos por Lutero acerca deles do que o entendimento clássico dos mesmos, que certamente já são conhecidos do/da pregador/pregadora. 2.1 – Marcos 14.22-26 Trata-se do relato da instituição da Ceia realizada por Jesus na Quinta-feira da Paixão, no contexto das comemorações da Páscoa judaica, quando as famílias reuniam-se para lembrar e comemorar a libertação da escravidão no Egito. Cordeiro assado, ervas amargas, pães e vinhos compunham o cardápio típico dessas ceias cerimoniais, tendo cada alimento um caráter simbólico, apontando para o evento comemorado. Jesus, entretanto, ressignificou o papel do pão e do vinho ao oferecê-los aos onze discípulos (Judas já se havia retirado) como sendo seu corpo e seu sangue. Tratava-se de uma representação dramática daquilo que, no dia seguinte, Jesus viria a fazer literalmente: dar o seu corpo e derramar o seu sangue em favor da humanidade. Marcos, como igualmente Mateus e Lucas, afirma ter Jesus chamado o cálice de vinho de “sangue da nova aliança”, numa alusão à primeira (ou antiga) aliança, que estabelecia o sacrifício de animais e o derramamento de seu sangue para obtenção do perdão de Deus. Agora, na nova aliança, é o sangue de Cristo que cobre os pecados (cf. Mt 26.28). Esse ponto chamou a atenção de Lutero quando refletiu sobre esse texto. Em seu comentário, a Santa Ceia é a nova aliança (testamento) de Deus com seu povo: “O testamento é indubitavelmente a promessa de alguém que está prestes a morrer, através da qual declara sua herança e institui herdeiros. (...) Ele nos deixa a sua morte como testamento, quando diz: ‘Este é o meu corpo que será entregue; este é meu sangue que será derramado’. Declara e designa a herança quando diz: ‘para remissão dos pecados’ (Mt 26.28). Institui, porém, herdeiros quando diz: ‘por vós e por muitos’, isto é, aqueles que

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aceitam e creem na promessa do testador, pois aqui a fé determina os herdeiros” (Obras Selecionadas v. 2, 362. In: Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero. SBB, 2012. Comentário sobre Marcos 14.24). 2.2 – 1 Coríntios 10.16-17 Estes versículos fazem parte de um apelo do apóstolo Paulo para que os cristãos de Corinto abandonem a idolatria. A adoração de vários deuses estava totalmente arraigada na cultura grega. Nas cidades, também em Corinto, havia ídolos nas esquinas das ruas e nas casas. Sociedades cívicas prestavam homenagens a seus deuses favoritos, e cidades adotavam alguns como seus protetores especiais. Os templos pagãos eram quase sempre frequentados, especialmente em Corinto, por causa de seus atos de prostituição cultual. Além disso, grande parte do alimento vendido no mercado havia sido oferecida em adorações a diferentes ídolos. Paulo chama a atenção para o fato de que muitos membros da comunidade cristã participavam desses eventos e comiam alimentos sacrificados aos ídolos. Ainda que nem o ídolo tampouco o alimento oferecido a ele tenham algum valor, o apóstolo exorta a comunidade a não participar desses rituais, e no centro de sua argumentação fala da Ceia do Senhor: “Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1Co 10.21). Participar dos cultos pagãos era ter comunhão com os ídolos ali adorados (ou os demônios que estavam por trás dos ídolos); participar da Ceia do Senhor era ter comunhão com Cristo e com os/as irmãos/irmãs da comunidade. Na refeição pascal judaica, quatro cálices eram servidos. O terceiro era o “cálice da bênção”. É provável que Jesus tenha instituído a Ceia com esse cálice. Dele bebendo e do pão comendo, a comunidade torna-se um só corpo com o Senhor e com o próximo. É o que chama a atenção de Lutero nesse texto. Segundo ele, na Santa Ceia, “Cristo forma um corpo espiritual com todos os santos, assim como o povo de uma cidade constitui uma comunidade e um corpo, sendo cada cidadão membro do outro e da cidade inteira. (...) Receber esse sacramento em pão e vinho não é outra coisa senão receber um sinal certo dessa comunhão e incorporação em Cristo e todos os santos”. (Obras Selecionadas v. 1, 429. In: Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero. SBB, 2012. Comentário sobre 1 Coríntios 10.17). 2.3 – 1 Coríntios 11.17-34 Paulo censura a comunidade de Corinto em virtude da profanação da Ceia do Senhor. A igreja era formada, em sua maioria, pela classe mais pobre, incluindo escravos; e aparentemente os membros mais ricos, que não queriam dividir sua comida, tomavam antecipadamente sua própria ceia, de tal maneira que, quando os mais pobres chegavam para a refeição, muitos que se haviam antecipado já se encontravam até mesmo embriagados. Na visão do apóstolo, essa falha da igreja

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era responsável pelo fato de muitos membros estarem sofrendo aflições ou terem até mesmo morrido (v. 30). Após diagnosticar o problema, Paulo cita as palavras de instituição proferidas por Jesus. Aliás, essa é a narrativa mais antiga da instituição, escrita antes mesmo dos evangelhos. A lembrança do gesto de Jesus culmina com o versículo 26: Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Daí a importância de celebrar dignamente a Santa Ceia, pois ela é testemunho do que Jesus fizera em favor das pessoas através de seu sacrifício. O reformador Martim Lutero em sua reflexão sobre essa perícope observa que a celebração digna da Ceia depende da situação dos comungantes: “A melhor preparação para a Santa Ceia é uma alma atribulada por pecados, morte e tentações, faminta e sedenta de ajuda e força” (Obras Selecionadas v. 7, 168. In: Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero. SBB, 2012. Comentário sobre 1 Co 11.25). E assevera para os que não sentem fome e sede por esse sacramento: “Para os que estão neste estado mental de não o sentirem, não sei conselho melhor que o de botar a mão no seu peito para sentir se você ainda tem carne e sangue” (Catecismo Maior, p. 127).

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Meditação

“Se você conseguisse enxergar quantas facas, lanças e flechas estão apontadas para você em todos os momentos, ficaria contente por poder ir ao sacramento quantas vezes pudesse” (Catecismo Maior, p. 128). Assim, Lutero insistia para que as pessoas não deixassem de ir ao Sacramento do Altar. Sua preocupação é com o fato de que muitos não estão mais atendendo ao chamado para a Santa Ceia. Ao que tudo indica, a liberdade experimentada pelo conhecimento do evangelho fez com que o povo abandonasse a mesa do Senhor: “Muitos ouvem o evangelho e, já que acabou a palhaçada do papa e agora estamos libertos da sua coação e do seu mando, ficam um, dois ou três anos, ou até mais, sem o sacramento, como se fossem cristãos tão robustos que dele não precisassem” (Catecismo Maior, p. 123). “Cristãos robustos” seriam as pessoas que, de tão firmes em sua fé, não necessitam de alimento para ela, desprezando por isso a celebração da Santa Ceia. E, como já vimos no início deste auxílio, “nascidos de novo” pelo Batismo, muitos precisam desse alimento para não esmorecer em sua fé e obediência a Deus. Se essa era a situação no século XVI, que diremos a respeito do nosso tempo? Creio que, mais do que os contemporâneos do reformador, nosso povo necessita ser despertado para a importância da vida celebrativa e, consequentemente, da Ceia do Senhor. Há um crescente esfriamento do desejo de estar em comunidade para celebrar. Talvez a IECLB ainda não tenha alcançado os assustadores índices da Europa secularizada, mas caminha nessa direção. Essa preocupação reflete-se no tema escolhido para 2013: “Ser – Participar – Testemunhar – Eu vivo comunidade”. Está sobrando cada vez mais espaço debaixo do guarda-chuva. É possível que nossos membros não vejam mais sentido no culto.

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É também possível que se considerem “cristãos tão robustos” que não sintam necessidade de viver em comunidade e celebrar o sacramento. Muitas famílias que integram a comunidade vivem conflitos de toda ordem, experimentam derrotas e frustrações constantes, amargam enfermidades físicas e emocionais. Provavelmente nunca nos sentimos tão estressados e psicologicamente cansados do que agora. Além disso, é provável que nunca antes tenhamos sido tão tentados a fazer o que não confere com a vontade de Deus. Está difícil obedecer aos preceitos de Deus com tantos convites ao pecado. Eis por que a categoria de “cristãos robustos” simplesmente não existe. “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1Co 10.12). Logo nosso povo luterano necessita urgentemente de “repasto e alimento diário, para que a fé se recupere e fortaleça e não tenha uma recaída nessa luta, mas fique cada vez mais forte” (Catecismo Maior, p. 121). Esse alimento encontra-se no culto comunitário e de maneira especial na Ceia do Senhor, um dos eixos do culto cristão ao lado da palavra pregada. Saliente-se que uma maior frequência na celebração do sacramento tem sido advogada nos últimos anos através das pesquisas litúrgicas. Apesar da necessidade de alimento que nos fortaleça para as lutas e nos ajude a permanecer fiéis no caminho da justiça de Deus, nem sempre é no culto e na celebração da Ceia que o povo tem encontrado esse tônico. Se em Corinto os cristãos participavam de outras mesas e de outras comunhões para saciar sua fome e sede, parece que é nos bailes, nos clubes, nos campeonatos esportivos, na casa de praia ou no sítio que o nosso povo tem encontrado refrigério. Para os coríntios, o apóstolo solicita que não mais participem dessas comunhões por se tratar de cultos idólatras. Nós, porém, não proibiremos nosso povo de ter sua vida social, mas alguma coisa precisamos fazer para que novamente encontre no culto e na Ceia o “remédio benéfico, confortador, que vai ajudá-lo, vai dar vida à alma e ao corpo” (Catecismo Maior, p. 126-127). Eu temo, porém, que a frieza em relação ao culto e ao sacramento sejam uma consequência da frieza em relação a Deus. Parece que estamos insistindo que as pessoas se comprometam com a vida cultual sem antes comprometer-se com Deus. E essa é uma luta sem sentido. Há quem diga que o problema da baixa participação dos membros nas celebrações possa ser resolvido com cultos avivados, novos hinos e mais espontaneidade. Pode ser. Mas eu creio que esse problema estará resolvido quando as pessoas firmarem sincero compromisso com Cristo. Então a igreja não mais será clube para realização de bênçãos matrimoniais ou sepultamentos, mas espaço de encontro com Deus e com os/as irmãos/irmãs, tendo o culto/Ceia como alimento indispensável. Se, conforme Lutero em sua análise de Marcos 14.22-26, a Ceia é o testamento de Cristo, que antes de morrer deixou-nos como herança o seu perdão, então só mesmo quem não ama o testador deixará de recebê-la.

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Pistas para a prédica

Há muitas maneiras de abordar o assunto Ceia do Senhor. Neste estudo, destacamos a questão da importância em atender o chamado de Cristo para dela

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participar, considerando que nela se encontra “remédio benéfico, confortador, que vai ajudá-lo, vai dar vida à alma e ao corpo”. Entre outras coisas, conforme Martim Lutero, a Santa Ceia é o alimento que nutre a fé, auxiliando-nos a viver como batizados/batizadas. Assim, proponho que o/a pregador/pregadora inicie a mensagem falando dos conflitos, adversidades e tribulações a que estamos expostos em nossos dias, procurando abordar situações vividas por famílias da comunidade local. Em seguida, faça a seguinte pergunta: Onde ou em que você tem buscado socorro para tais situações? Então convém apontar para as muitas opções que as pessoas têm feito na busca por alívio e força e o quão passageiras e enganosas muitas dessas alternativas são. Aí se apresenta o culto/Ceia do Senhor como espaço de cura real e perene, em que o testador Jesus Cristo distribui sua herança para os que o buscam.

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Subsídios litúrgicos

Não é preciso dizer que, no culto em que esse assunto for abordado, deveria ser realizada a celebração da Ceia do Senhor. Na anamnese da Oração Eucarística, agradecer por Cristo ter instituído o Sacramento do Altar como remédio para as almas atribuladas; na epiclese, rogar que o Espírito de Deus, através da comunhão eucarística, nos conceda o descanso e socorro de que precisamos. Um vídeo muito interessante poderia ser compartilhado durante o culto no momento em que a equipe litúrgica achar mais conveniente. Ele se chama “Um homem caiu no buraco”. Mostra a inutilidade das muitas opções feitas por um jovem que tenta libertar-se do buraco em que caiu e da solução definitiva encontrada em Jesus. (http://www.youtube.com/watch?v=2jFMWraxk4Y) Um belo hino poderia ser cantado ou ao menos lido pela comunidade reunida: HPD I, 142 – “Ó vinde, convidados”.

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Breve exortação à confissão Osmar Luiz Witt PRÉDICA: TIAGO 5.13-16 MATEUS 3.5-6 1 JOÃO 1.8-10

1 Apresentando o tema O assunto “confissão de pecados” já foi trabalhado anteriormente em Proclamar Libertação, num excelente estudo do P. Harald Malschitsky, publicado em suplemento sobre o Catecismo Menor de Martim Lutero no ano de 1982. Valho-me dessa contribuição e reproduzo aspectos relevantes, pois certamente aquele texto não está mais facilmente acessível. Encontramos uma referência clara à prática da confissão de pecados no Catecismo Menor de Lutero: “Que é confissão? Resposta: A confissão compreende duas partes: primeiro, que confessemos os pecados; segundo, que se receba a absolvição ou remissão do confessor como de Deus mesmo, sem duvidar de modo algum, mas crendo firmemente que por ela os pecados são perdoados perante Deus no céu. Que pecados devemos confessar? Perante Deus devemos confessar-nos culpados de todos os pecados, também dos que ignoramos, como fazemos no Pai-Nosso. Mas perante o confessor devemos confessar somente os pecados que conhecemos e sentimos no coração. Quais são esses? Considera aqui o teu estado à luz dos Dez Mandamentos (...)” Do mesmo teor, mas aprofundando o tema, são as afirmações contidas na “Breve exortação à confissão”. Ela não fazia parte das edições mais antigas do Catecismo Maior, contudo o próprio reformador Martim Lutero considerava o assunto de grande relevância para as pessoas cristãs. Como sabemos, a origem dos Catecismos está relacionada com a atividade de visitação que Lutero realizou entre 1528 e 1529 em várias comunidades. Ele fizera a constatação de que havia, entre a população e também entre pregadores e pastores, um grande desconhecimento a respeito de questões elementares referentes à doutrina cristã. Além disso, a renovação da igreja pela redescoberta da mensagem do evangelho fez com que muita gente, a pretexto de vivenciar a liberdade cristã, simplesmente passasse a ignorar a prática de confessar-se. Aquilo que antes, no seio da igreja medieval, se havia tornado obrigação, na nova situação passou a ser rejeitado sob o argumento de se estar fugindo do cerceamento à liberdade cristã. Em vista disso, a breve exortação de Lutero acentua que é preciso entender a confissão como uma dádiva concedida à igreja e não como uma imposição a qual estejamos obrigados. De outra parte, desperdiçar ou diminuir a confissão é julgar-se mais e melhor do que realmente somos. Lutero escreveu: “Grave, então, como já disse muitas vezes, que a confissão consiste em duas partes: a primeira é obra e atuação nossa,

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da pessoa lamentar seu pecado e desejar consolo e alívio para sua alma. A outra parte é a obra de Deus, que absolve dos pecados por meio da palavra colocada na boca da pessoa humana. Essa, aliás, é a parte mais sublime e nobre, que torna a confissão tão agradável e confortadora. O problema é que até agora se insistia somente em nossa atuação, preocupando-se apenas com que a confissão fosse bem pura, ao passo que a segunda parte, a mais necessária, não recebia atenção nem era pregada, como se [a confissão] não passasse de uma boa obra com a qual se prestaria pagamento a Deus”. Essa mesma perspectiva defendida por Lutero nos Catecismos reaparece na Confissão de Augsburgo, na qual três artigos ocupam-se com o tema. O artigo 11 afirma: “Da confissão ensinam que a absolvição particular deve ser mantida nas igrejas, ainda que na confissão não é necessária a enumeração de todos os delitos, pois tal é impossível, segundo o Salmo: ‘os delitos, quem os discerne?’” A oportunidade da confissão de pecados é concedida para que as pessoas cristãs reencontrem o caminho da paz de consciência quando essa é perturbada por pecados praticados. Conforme se lê no artigo 12: “Do arrependimento [poenitentia] ensinam que os caídos depois do batismo podem alcançar a remissão dos pecados a qualquer tempo, quando se convertem, e que a igreja deve conceder a absolvição a tais que voltam ao arrependimento. Mas o arrependimento consiste, propriamente, nas duas partes seguintes: uma é a contrição, ou os terrores metidos na consciência pelo reconhecimento do pecado; a outra é a fé, que nasce do evangelho, ou absolvição, e crê que os pecados são perdoados por causa de Cristo, consola a consciência e liberta dos terrores. Depois devem seguir as boas obras, que são os frutos do arrependimento”. Ao contrário do que se costuma ouvir em muitas comunidades evangélicas luteranas, o que nos diferencia dos irmãos e irmãs católico-romanos não é o fato de que a gente não precisa se confessar. Ou pelo menos essa nunca foi a intenção do movimento da Reforma. Na mesma Confissão de Augsburgo, no artigo 25, lê-se: “A confissão não está abolida em nossas igrejas. Pois não se costuma dar o corpo do Senhor a não ser àqueles que previamente foram examinados e absolvidos. E o povo é instruído diligentissimamente sobre a fé na absolvição, a respeito da qual antes de nossos tempos houve profundo silêncio. Ensina-se aos homens que tenham a absolvição em alto apreço, porque é a voz de Deus e é pronunciada por ordem de Deus. Louva-se o poder das chaves e lembra-se quão grande conforto leva às consciências aterrorizadas e que Deus requer a fé para que creiamos nessa absolvição como sua voz que soa do céu e que essa fé verdadeiramente alcança e recebe a remissão dos pecados.(...)” Lutero e os escritos confessionais luteranos estimulam-nos a preservar a confissão de pecados em três modalidades: primeiro, a confissão que fazemos a Deus, confiados/confiadas em sua misericórdia e na entrega de Jesus por nós. Segundo, a prática do perdão mútuo, reconciliando-nos com quem foi prejudicado por palavras, ações e omissões nossas. Isso é que aprendemos na oração do Senhor, o Pai-Nosso: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Terceiro, a confissão que fazemos diante de um confessor ou confessora, conforme também recomendam várias passagens das Sagradas

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Escrituras, entre elas a de Tiago 5. Essa prática, embora tenha quase caído em desuso entre nós, constitui-se numa excelente dádiva que Cristo concedeu à igreja (Mateus 16.19; 18.18). Não precisamos carregar nossos “fardos” sozinhos. Podemos reparti-los com uma pessoa de nossa confiança e dela receber o anúncio do perdão, o qual restitui a paz ao coração abatido e atribulado. “Essa modalidade da confissão é oferecida livremente a cada qual que dela necessite, para que possa fazer uso dela em sua necessidade.”

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Reflexão bíblica

A carta do apóstolo Tiago tem uma importância singular para os cristãos da família luterana. Seguindo a ênfase do reformador Martim Lutero, sempre enfatizaram que a salvação não depende da realização de boas obras, mas que ela é resultado da obra de Jesus em nosso favor, ela é graça. Precisamos apenas acolher essa boa notícia com fé, isto é, com confiança na vontade salvadora de Deus. Há inúmeras passagens bíblicas que podem ser lembradas para fundamentar esse ensinamento. Basta mencionar a mais citada, de Romanos 1.17: “O justo viverá por fé”. Ora, a Carta de Tiago parece dizer o contrário, que é preciso demonstrar a fé por meio de boas obras. No tempo da Reforma, aceitava-se que boas obras seriam aquelas que praticamos para receber recompensa. A gente poderia fazer jejum, orar, dar esmolas ou realizar outras obras de caridade. Assim, teríamos um saldo positivo em nossa conta junto a Deus. Mas as boas obras justamente não são aquelas que fazemos em favor de nós mesmos ou com a intenção de merecer algo. Boas obras são aquelas que fazemos em favor de nosso próximo, aquela pessoa que precisa de nossa presença e cuidado. É oportuna a recomendação de Tiago: visitem as pessoas doentes, orem uns pelos outros, arrependam-se dos maus caminhos e confessem os pecados cometidos. O apóstolo poderia dizer-nos: não pensem que a vossa fé é apenas de palavra. Ela se traduz nas opções, nos caminhos e nas ideias que definem o que é importante para vocês. Tiago não quer deixar que a fé se torne irrelevante em nossa vida e na sociedade em que vivemos. Pelo contrário, pretende que ela se traduza em ações em favor de vida abundante. A fé também saberá ser crítica e não se deixará manipular. Assim, ao contrário do que muitas vezes se disse, a boa notícia da salvação por graça mediante a fé não está em oposição à prática de boas obras. As Escrituras ensinam a observar a ordem dos elementos: obras, por mais importantes que sejam, não podem criar a fé em nós. Isso será sempre obra do Espírito Santo. Mas a fé viva e atuante que o Espírito cria em nós sempre se traduzirá em obras. Ao se propor a pregação sobre a perícope de Tiago referente ao tema da confissão de pecados, está se fazendo a opção por destacar um aspecto do texto dentre outros (“confessem os seus pecados uns aos outros” – v. 16). As passagens do Evangelho segundo Mateus (João batizava as pessoas que confessavam seus pecados) e da Primeira Carta de João (Deus perdoa os pecados de quem confessa) igualmente são referências ao tema. Na passagem de Tiago, “o traço comum aos v. 13-18 é a oração, com ênfase especial nos casos do doente e do pecador” (Bíblia de Jerusalém). A prática de comunidade que Tiago conheceu ou experi-

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mentou e descreveu nessa passagem permite uma aproximação com o modelo de vida cristã que Lutero defendeu em seus escritos. A redescoberta de textos como esse possibilitaram uma nova concepção e prática penitencial. Confessar os pecados na vida comunitária ganha, nesse modelo de igreja, uma dimensão profundamente terapêutica. Tiago menciona a cura (salus, salvação) como o resultado da oração pelo doente e pela pessoa pecadora. A intervenção dos presbíteros é recomendada, posto que esses eram pessoas com maturidade na vivência da fé. A comunidade cristã é espaço acolhedor para quem está alegre, para quem está triste, para quem está doente e para quem sente sobre os ombros o peso de sua culpa. A comunidade descrita por Tiago é espaço no qual as pessoas se sentem responsáveis umas pelas outras, militam em conjunto, apoiam-se e aliviam as cargas.

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Meditação

Chegou o tempo da salvação! Ou então: “O reinado de Deus está próximo!” Arrependei-vos e crede no evangelho! Arrepender-se de quê? Dos pecados? Quais pecados? Ainda existem pessoas que se preocupam com o que é pecado? Hoje diz-se que esse discurso da igreja sobre pecado é somente para impor culpa às pessoas. Melhor libertar-se dessa imposição. Mas isso é justo o que a mensagem do evangelho diz: vocês são libertados de pecado e culpa porque Jesus os inocentou! Depois de Jesus, o discurso não é mais, em primeiro plano, sobre pecado e culpa, mas sobre perdão e reconciliação. Somos pessoas reconciliadas com Deus porque ele nos amou primeiro. Deus acolheu-nos e segue dispensando-nos seu cuidado para que sejamos fortalecidas e fortalecidos, a fim de que possamos sinalizar sua presença entre nós. A prática da oração de uns pelos outros e da confissão uns aos outros, como recomendada pela Carta de Tiago, visa criar um espaço de cuidado e de apoio fraterno e sororal. Na comunidade de pessoas batizadas, viver o Batismo significa a oportunidade para encontrar o caminho da reconciliação, libertando-nos de pecados e de culpas que pesam sobre nós. Viver o Batismo é saber que há possibilidade de reconciliação consigo mesmo, com o próximo e com Deus. O Batismo de Jesus, assim como o nosso Batismo, coloca-nos dentro da esfera de atuação do Espírito de Deus, capacitando-nos e fortalecendo-nos para dar testemunho de seu amor e para colocá-lo em prática em nossas relações. Sejamos felizes e permitamos que as outras pessoas sejam felizes também. Livremo-nos das culpas e dos interesses egoístas e tenhamos coração para a dor do nosso próximo: Misericórdia quero e não holocaustos e cerimônias religiosas! (Isaías 58). A nova vida que nasce do perdão que recebemos de Deus nunca vem dissociada de uma prática coerente em favor da vida das outras pessoas também. O reinado de Deus traduz-se entre nós em sinais de perdão, vida nova e salvação. A prática da confissão pode ser oportunidade de libertação de culpa e de opressão. O perdão anunciado é qual remédio que restaura a alegria de viver e de poder abraçar as pessoas com quem convivemos. “O confessando é libertado de um peso que o tornava uma pessoa ensimesmada, pois o peso do pecado fecha as pessoas em si mesmas e as afasta das demais. A culpa confessada e perdoada abre o caminho à comunhão com os outros” (H. Malschitsky).

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4 A caminho da prédica A pregação pode seguir o seguinte esquema: a) Inicialmente, pode-se lembrar a prática confessional no tempo da Reforma luterana e como a ênfase na salvação por graça mediante a fé possibilitou dar novo conteúdo à confissão de pecados, enfatizando o perdão de Deus, que liberta para uma nova vida. O acento não recai mais sobre a perfeita enumeração dos pecados cometidos (a qual nunca se sabe ao certo se foi alcançada), mas sobre a perfeita obra de Cristo em nosso favor. A absolvição divina possibilita reconstruir a vida. b) Apresentar o texto bíblico e destacar a prática comunitária da oração e da confissão de pecados (através de ambos manifesta-se o poder de curar). c) A cura que o perdão divino possibilita é expressão da proximidade do reinado de Deus entre nós nos termos que foram expostos na meditação. d) Estimular e desafiar a comunidade para romper os preconceitos em relação à prática da confissão particular e da oração de uns pelos/pelas outros/outras.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: “Se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Confissão de pecados: Deus, Senhor onipotente, Pai misericordioso! Eu, pobre e mísero ser humano, confesso-te todos os meus pecados e iniquidades que cometi em pensamentos, palavras e ações e com os quais, a qualquer hora, causei a tua ira, merecendo o teu castigo temporária e eternamente. Todos eles, porém, me oprimem e deles me arrependo de todo o coração. Suplico-te pela tua infinita misericórdia e pela inocente e amarga paixão e morte de teu Filho Jesus Cristo: queiras compadecer-te de mim, pobre ser humano pecador, e perdoar-me todos os meus pecados e conceder-me benignamente, para melhorar a minha vida, a força de teu Espírito Santo. Amém. Anúncio do perdão: “Mas eu – eu mesmo – sou o seu Deus e por isso perdoo os seus pecados e os esqueço” (Is 43.25). Oração do dia: Deus, fonte de amor! Agradecemos que nos reúnes aqui para servir-nos com o teu perdão, tua Palavra [e Sacramento]. Concede que o nosso louvor a ti seja sincero. Capacita-nos com teu Espírito Santo em nossa disposição de viver reconciliados e em paz com tudo o que criaste. Acolhe nossas orações e respondenos no tempo certo, de acordo com a tua vontade. Não permite, Senhor, que a dor

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e a injustiça nos sejam indiferentes. Fortalece-nos na fé, na esperança e no amor. Oramos em nome de Jesus, que Contigo e o Espírito Santo é luz para os nossos caminhos, desde sempre e para sempre. Amém. Hinos: HPD I : 148, 150, 152; HPD II: 336, 378, 379.

Bibliografia LIVRO DE CONCÓRDIA – As Confissões da Igreja Evangélica Luterana. 2. ed. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1981. MALSCHITSKY, Harald. “A Confissão”. In: KILPP, Nelson (Coord.) Proclamar Libertação – auxílios homiléticos (Suplemento 1, Catecismo Menor de Martim Lutero). São Leopoldo: Sinodal, 1982. p. 210-215. UNSER GLAUBE – Die Bekenntnisschriften der evangelisch-lutherischen Kirche. 6. ed. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 2013.

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXIX A ceia do Senhor – O sacramento do altar ..................................................................... XXXIX, 369 Advento – Celebração .......................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio ....................................................................................................XV, 304 Ação de graças ................................................................................XII, 300; XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita ........................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370; XXXVI, 365; .......................................................................................................................................XXXVII, 348 Achados e perdidos – experiências .................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) .....................IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ........................... X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) ...........................................................IX, 83 As três primeiras petições do Pai-Nosso ........................................................................ XXXIX, 359 A velhice ...................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para ....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de .............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial .............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) .................................................................................................................. XX, 351 (Ct 8.7)...................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12) ...............................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ..............................................................................................................................XV, 77 Breve exortação à confissão ........................................................................................... XXXIX, 375 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................ XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ............................ XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular ..................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) ................................................................................................ X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)........................................................................................................ II, 187 (Dt 30.11-20) ............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69) .............................................................................................................. XII, 293 (Mt 5.14-16) ............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18) ............................................................................................................... XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ........................................................ XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ........................................................ XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1)........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) .......................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ..................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) ...............................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ........................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)...................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ............................................................................................................ XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ....................................................... XIII, 42

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Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ............................................... XII, 27 Deus na marginalidade .............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo .........................................................................................................XXVI, 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38) ................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) ......................................................................................................................VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ............................................................................................................ XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43) ............................................................................................. XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) ...................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11) .............................................................................................................. XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .....................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ..................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21) .................................................................................................................. I, 143 (1 Co 15.50-58) ......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44) ................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33) .......................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) .......................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) .......................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20) ...................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10) ..........................................................................................................XXXV, 347 (1Ts 4.13-18) ..................................................................................................... XXXVI, 335 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) .........................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4) ................................................................................................................ II, 336 (Mc 12.13-17).............................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16) ...............................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13) ....................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) .......................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) ..............................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10) ................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7) ...................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33) ...........................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12) .............................................................................................................. VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ...................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6) ............................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13) ...............................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) ..........................................................................................................XXXII, 307 (Jr 31.31-34) ...................................................................................................... XXXVI, 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...............................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..............................................................................................III, 62 (2 Ts 3.6-13) ...................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ......................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) .........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música .................................................XXXIII, 401; XXXVII, 353 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])............. XII, 307 (Ap 3.14-22) ............................................................................................................ XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16) .............................................. XX, 309; XXXVI, 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) .......................................................................... XIII, 74

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Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) .............................. XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ...............................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) ...........................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) ...........................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ............................................................................................................... XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...” .......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .............................................. X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) ...........................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ........................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25) ............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ........................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) .......................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ........................................................................... XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .............................................................. X, 74 Joga limpo, Brasil ....................................................................................................... XXXVIII, 363 Jubileu 500 anos da Reforma ...................................................................................... XXXVIII, 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ....................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay .......................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ........................................................................IX, 57 Marketing e igreja .................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...............................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) .............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..............................................XI, 65 Missão (1 Co 12).................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)...... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ................................ X, 106 Mulheres agricultoras.............................................................................................................XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) .................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ........................................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .............................................. II, 176 Lucas .......................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................................................ XII, 34 O desafio de ser autor de PL ....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças...............................................................................XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .............................................. X, 48

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O Lecionário Ecumênico .......................................................................................................XV, 315 O nosso Pai que está no céu ........................................................................................... XXXIX, 351 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15) .................................................................................................... XIII, 18 Pai-Nosso: pão, perdão e liberdade ................................................................................ XXXIX, 364 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................ XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) .................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) ..................................................... XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ........................................................... XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ............... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) .......................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ....................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15) .................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB .........XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).................................................................XI, 85 Semana do excepcional ...................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) .............................................................................................................. XX, 355 (Jo 19.25-27) ............................................................................................................ XX, 360 (Sl 39.5-7)................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) .........................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8) ........................................................................................................... XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ............................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém .........................................................................................................XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ................ XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ............................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ................................................................................ XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O)....................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, 74 Vigília pascal ........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................ XII, 61

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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXIX ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ........... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3 ................................. III, 105 2.4-15 ..................................... XXVIII, 301 2.4b-15 .........................V, 330; XXXV, 211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ...... XXX,66; XVIII, 84; ................................................. XXXV, 127 2.8-15 ............................................ XIII, 74; 2.18-24 ..................... XXII,254; XXV, 282; ............................................... XXXIII, 343 3.1-9 .............................................. XII,170; 3.1-19(20-24) ............................... XXV,214 3.1-24 ...............................................VI,133 3.8-15 ...................................... XXXIX,195 4.1-16 ..............................VII,203; XIII,246 8.1-13 ..............................................XV,135 8.15-22 .................................... I,71 (68); 78 11.1-9 ............................ XII,205; XVII,130 12.1-4 ........................................... XVIII,88 12.1-4a ...................VII,165; XXXVIII,125 15.1-6 ....................XXVI,256; XXXIV,283 17.1-13 ........................................XXVII,40 18.1-10a(10b-14) .... XX,208; XXXVII,223 18.20-21(22)23-32 ......................... XX,214 21.8-21 ............................................ XIII,60 22.1-13 .............................................VI,144 22.1-14(15-18) ...............................XXII,65 28.10-17(18-22) .............................XXII,71 32.23-31 .......................................XVII,240 32.23-33 ...................................II,207 (374) 50.15-21 ................ XXIV,272; XXVII,240; ......................... XXXV,295; XXXVIII,284 Êxodo 1.8-22 ........................................ IX,107 2.1-10 ...................................... XXVIII,181 3.1-14 ..............................................XII,154 3.1-8,13-15................................. XXVI,108 6.2-8 ..........................XVIII,218; XXX,214 12.1-14 .......................................... XXI,108 13.20-22 ......................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) .... XXVIII, 276 16.2-4,9-15.............................. XXXVI,251 16.2-3,11-18 ...................................XIV,283 19.2-8a ......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ............XXII,75 22.21-27 ........................................ XXI,280 24.1-11 ............. XXXII,123; XXXVIII,146 24.3-11 .. XVI,224; XXV,164; XXVIII,272 24.12,15-18 .................. XXI,78; XXXII,79 32.7-14 ..XV,225; XXIII,177; XXXVII,272 33.18-23 ...........................................VI,102

34.4b-10 .............................III,153; XV,273 34.29-35 ..................XXV,123; XXXVII,87 Levítico 19.1-2,9-18 ...................XXXVIII,101 Números 6.22-27 ........ XXXIII,58; XXXVI,48 11.11-12,14-17,24-25.................... VIII,205 11.24-30 ....................................XXXII,169 12.9-16 ..............................................XII,18 21.4-9 .............VII,101; XIII,159; XXII,80; ...........................XXXIII,146; XXXIX,114 24.15-19 ..........................................XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII,235; ................................................ XXXVI,274 4.32-34, 39-40 .........................XXVII, 148 5.12-15 ..................... III, 43; XXXVIII,171 6.1-9 ....................................... XXXIII, 373 6.4-9 ..............................XV, 246, XIX, 164 7.6-12 ..............................................VI, 219 8.6-10 ...............................................XII, 11 8.7-18 .....................................XXXVII,348 10.12-22 .................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28 .........XXI,164; XXXII, 184 17.14-20 ...........................................XII, 51 18.15-20 .... XIX,67; XXXI,57; XXXIII,92; .................................................. XXXIX,81 24.14-15 .............................................IX,63 26.1-11 ................................... XXXIII, 394 26.3-11 ........................................ XXVI, 91 30.9-14 ....................................XXXIV, 257 30.11-20 ......................................... VIII, 23 30.15-20 ...............XXXIV, 303; XXXV, 93 32.36-39 ....................................... XXIII,79 34.1-12 ........................XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9.............................................VII, 36 8.1-8 ..................................................XII,61 24.1-2a,13-25 ............. III,117; XXXIX,262 Juízes 4.1-7 .....................................XXXII,319 5.24-31 ................................................ X,37 9.7-15 .................................................IX,98 Rute 1.1-19a .................................... XXIX,289 1 Samuel 2.1-10.............. II,176 (343); VII,113 3.1-10(19) .....................XIX, 55; XXXI,44 3.1-10,19 ........................................ XXV,86 11.1-15 ...............................................V,337 2 Samuel 7.1-11,16 ........................ XXXVI,24 7.4-6,12,14a,16 .............................. XXV,35 11.26-12.10,13-15 ..................... XXIX,199; .................................................XXXIV,231 12.1-10,13-14...................................IX,264 12.1-10,13-15a ................................XV,261

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1 Reis 3.5-12 ................ XXIV,240; XXXII,236 3.16-28 ........................................ XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43...................XVII,141 8.22-24,26-28...................................VI,189 8.22-30 ............................................XII,191 8.41-43 ...................................... XXIX, 188 17.8-16 .XVI,292; XXXI,286; XXXVI,346; ...................................................XXXIX,332 17.17-24 .................. XVII,146; XXIX,192; ...............................................XXXVII,193 19.1-8(9-13a) ...............................XXII,226 19.1-13a ......................XIV,185; XVIII,204 19.1-18 ............................................... III,92 19.4-8 ...................................... XXXIII,285 19.9-13a ..................................... XXX,204 19.(14-18)19-21 ........XVII,159; XXIX,205 2 Reis 2.1-12 ................................ XXXVI,105 2.9-18 .....................................XXXVII,174 4.42-44 .................................... XXXIX,238 5.1-14 ........................................... XXXI,71 5.1-19a ..............................................VII,58 Neemias 5.1-5(6-12) ............................. XIII,11 5.1-12 ................................................IX,83; 8.1-2,5-6......................XX,183; XXXIV,95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36)............. ................................................... XXXI,263 Jó 7.1-7 ..............................XIX, 73; XXXI,63 19.23-27a ...............................XXXVII,329 38.1-11 ......................................... XXV,221 Salmo 1 ......................................... XXXIX,177 16 ..........................................XXXVIII,165 22.1-19 ...................................... XXXV,169 22.1-12,17-20.............................. XXX,104 22.2-12,17-20..............................XVIII,116 23 .............................................. XXXV,187 46.1-7(1-11) ..... XXVI, 313; XXXVII,311 105.1-7 ..................................XXXVIII,356 111................................................ XXVI,27 112 ....................................................XII,77 130.4 ..................................................VI,34 147.12-20 .................................. XXXIX,54 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ...................... XX, 225 3.1-8(-13) .......................VI, 48; XXXV, 51 3.9-15 ................................................. X, 16 4.1-4 ................................................... X, 84 5.18 .................................................... X, 65 9.13-18 ............................................... X, 25 Provérbios 8.22-31......................... XXIII, 109 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.7-13 ........................................ XXIII, 172 16.1-9 ............................................. VIII, 80 24.10-14 ..........................................XII, 45 30.5-9 ........................................ XXVI, 215 Isaías 1.1-9 ........................................ XIII, 116

1.10-17 ...........................................XV, 297 2.1-5 ................. VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7 .............. VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13 .............................. VI, 198; XII, 213 7.10-14 ........................................... XXI, 37 7.10-14(15-17) ..........XIII, 104; XXXII, 27 9.1-4 ........................................XXXVIII,80 9.1-6 ............................................ XVIII, 31 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.2-7 ........................... V, 294; XXXVIII,39 11.1-5 ............................................. XVI, 63 11.1-9 XVIII, 58; XXXIII, 31; XXXVII,31; .....................................................XXXIX,30 11.1-9(10-11) .................................XIV,148 11.1-10 ................. XXVII,16; XXXVIII,15 12.1-6 ......................................... XXVI,114 24.12-16a ...................................... XIII,312 25.6-8 ............................................ XIX,114 25.6-9 ... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24 ..........................................XII,233 29.18-24 .......................................... III, 130 30.(8-14),15-17 .................................VI, 97 33.13-17,22 ............................. XXXVI,187 35.1-10 .XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; ..... XXXV, 22; XXXV, 347; XXXVIII,334 35.3-7 .......................XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10 ...............................X,158; XIV,115 35.4-7a ................................... XXXIII, 315 40.1-11 . VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 ..........................................IX, 216 42.1-7(-9) ......XXI,51; XXV,80; XXXV,69; ................................................ XXXIX,131 42.14-21 ......................XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7 ......................................II, 132 (299) 44.1-5 ..................................... XXXIII, 401 44.6-8 .............. XXXV, 246; XXXVIII,242 44.9- 20 .......................................... XIII, 50 45.1-7 ......................XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25 ................................... XXVIII, 49 49.1-6 ...........................III, 85; XXXVII,58 50.4-9 .....................II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a ......................................... XXX, 94 50.4-10 .......................XIX,241; XXXI,252 51.1-6 ........................................XXXII,259 52.7-10 ....... XV,100; XXII,37; XXXIII,70; .................................................. XXXIX,58 52.13-53.12 ............... V,72; IX,196; XV,185; .................................. XII,109; XXXVI,146 53.4-12 .................................... XXXIX,310 53.10-12 ...................................... XXV, 294 54.7-10 .............................IX, 183; XV, 170 55.1-5 .......... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; ................................................... XXX, 197 55.1-9 ......................................XXXIV, 120

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55.6-7 ................................................VI, 24 55.6-11 ......................................XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a ............................ VIII, 119 55,10-11 .....................................XXIV, 223 56.1,6-8 ................ XVIII, 213; XXX, 209; ........................ XXXV, 274; XXXVIII,263 58.1-9a ...........................................XV, 147 58.1-12 ..... IX,50; XXXIII,125; XXXIX,97 58.5-9a ........................................XXIV, 88 58.7-12 ...........................................XII, 300 60.1-6 . V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; .............................. XXIX,54; XXXVIII,63 61.1-3(4-9), 11 ............................. XIII, 120 61.1-3,10-11 ............................ XXVIII, 20 61.1-3,11,10 .....................................VII, 44 61.10-62.3 . XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5 ..........................XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12 ................II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12 XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16) ........... XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3 ...................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3 ................ I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ................XXII, 9 64.1-9 ........................ XXXIII,9; XXXIX,9 65.17-25 ......................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14 .............XXIX, 213; XXXVII,217 Jeremias 1.4-10 ................ VII, 184; XIII, 228; .................................................XXXVII,82 7.1-11 .......................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5) ...............................XIV, 301 7.21-26 ......................................... XXX, 15 8.4-7 ........................... VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23 ..............................................VII,71 11.18-20 ....................XIX,246; XXXI,256; ................................................ XXXIX,287 14.7-10,19-22.........................XXXVII,305 15.15-21 ....................XVIII,222; XXX,220 17.5-8 ........................................... XXIII,55 20.7-13 . VIII,145; XXI,181; XXXVIII,219 22.13-19 .......................................... XIII,80 23.1-6 ............................................ XVI,217 23.2-6 ............................................. XX,301 23.5-8 .................................. VI,62; XII,103 23.16-29 .................II,144, (311); XIII,209; ...............................................XXXVII,251 26.8-15 ........................................ XXVI, 97 28.5-9 ........................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a .......................................... III,34 31.1-13 ......................................... XXIX,35 31.7-9(-14) ................XXV,301; XXXV, 58 31.10-13(14) ..................................XVII,34 31.31-34 ...................XXII,85; XXXVI,329 33.14-16 ........................................ XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32 .................VI,269

3.21-33 ................... XXV,226; XXXIX,212 Ezequiel 2.1-5............................... XXXVI,226 2.1-8a ........................................... XXV,231 2.3-8a; 3.17-19 .........................II, 96, (263) 17.22-24 .................................. XXXIII,239 18.1-4,21-24,30-32 .........................IX,247; 18.1-4, 25-37.............................XXVII,243 33.7-9 ........................................XXVII,230 34.1-2(3-9), 10-16......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31.......................VI,170; 34.11-16,23-24 ..... XXIV,328; XXXV,363; ............................................. XXXVIII,347 37.1-3(4-10), 11-14 ................... XVIII,103 37.1-3,11-14 .................................. XXX,89 37.1-14 ...XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ................................................ XXXIII,228 37.24-28 .......................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) .................. XVI,311; ................................................ XXXIX,344 12.1-3 ........................ XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2 ...................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ......................................... XXI,169 11.1-4,8-9 ............... XXIV,323; XXVII,284 Joel 2.1-2,12-17 .............................XXXVI,111 2.12-18 ............................................XII,166 2.21-27 ......................................XXXII,212 2.28-29 .......................................... XXI,153 Amós 3.1-8 .........................XXIV,75; XXX,54 5.6-7,10-15.............................. XXXVI,309 5.18-24 ...................................... XXXV,352 5.21-24 ..............................................VII,76 6.1-7 .................... XXIII,189; XXXVII,286 7.7-15 ...................................... XXXIII,264 7.10-15(16-17) ............................. XVI,211 8.4-7 .......................................... XXIII,181 9.7-10 ................................................ X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............XIX,61; XXXI,52; ................................................. XXXVI,81 3.10-4.11 ...................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a........................ VI,88; XII,114 5.2-4 ............................................. XXIX,21 5.2-5 .......... XVI,63; XXVII,29; XXXIV,30 6.1-8 ......... XXIV,79; XXVII,58; XXXV,87 6.6-8 ...............................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; ............................XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-20 ............... XX,20; XXXVII,20 Zacarias 7.9-10 ............................... XXVI,267 8.1-8 ...........................................XXIV,337 9.9-10 ..............X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11) ..................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5 ........................................ XXIII,9;

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NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12 .X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ............. XXVII, 46; XXXII,62; XXXV, 28 2.13-18(-23) ....................V,304; XXXV,46; ................................................XXXVIII,47 3.1-12 ....... XVIII,15; XXIV,24; XXXV, 14 3.13-17 ............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; ............. XXX,44; XXXII,66; XXXVIII,68 4.1-11 .......... IV,14; XXVII,70; XXXII,85; ..............................................XXXVIII,119 4.12-17 ............................................XII,142 4.12-23 ...................... XVIII,61; XXXV, 81 4.23-25 .................................XII,35; XII,34 5.1-10 .......................... IV,212; XXXII,307 5.1-12 .....................XVIII,64; XXXVIII,85 5.13-16 ............................................. X,390; 5.13-16(17-20) ............................. XVIII,69 5.17-20 ............................................ IV,125; 5.20-37 ...................XVIII,73; XXXVIII,96 5.38-48 ....II, 193, (360); X,460; XXXV, 99 6.1-4 ..............................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-21........ XXXIV,115; XXXVII,94; ..............................................XXXVIII,114 6.5-13 ....................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13 ................................. VI,53; VIII,192 6.16-18 ............................................. IV,133 6.24-34 ......................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 .....................X,428; XXXVIII,352 7.15-23 ............................................. IV,140 7.21-29 .. XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 ............................................VI,233; 9.1-8 ................................................. IV,198 9.9-13 ..... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 .................................... XVIII,170 10.7-15 ...................................II, 104, (271) 10.24-39 ....................................XXXII,204 10.26-33 .................. XVIII,176; XXX,168; ................................................XXXIV, 347 10.26b-33 ........................ VI,291; XII,268; 10.26-36 ......................................XXIV,203 10.34-39 ..........................................XII,274 10.34-42 ....................XVIII,181; XXX,174 10.40-42 ........... XXXV,229; XXXVIII,225 11.2-10 .............................................. X,170 11.2-11 ........ III,215;; XXI,30; XXVII, 22; ............................. XXXII,21; XXXVIII,21 11.16-19,25-30 ..........................XXXII,221 11.25-30 . XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.14-21 .................................... XXXVI,63 12.22-30 ........................................... IV,217 12.33-35(36-37) ..............................XII,307 12.38-42 .................. II, 225, (292); XII,175

13.1-9(18-23) ......... XXI,196; XXVII, 188; .......XXX,189; XXXV, 240; XXXVIII,237 13.24-30(36-43) ........ XVIII,289; XXI,203; ..................................................XXXII,229 13.31-33 ................................XXXVIII,247 13.44-46 II, 150, (317); VIII,253; XIV,295; ................................................. XXXV, 253 13.44-52 ...................XXI,207; XXVII, 194 14.13-21 XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ..................................................XXXII,241 14.22-33 ..VI,109; XXIV,249; XXVII, 202; ........................ XXXV, 267; XXXVIII,258 15.21-28 .... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ..................................................XXXII,255 16.13-19 ....................................... XXIII,40 16.13-20 ............... XXIV,260; XXVII, 216; ......................... XXXV,278; XXXVIII,268 16.13-20(23) .......................... II, 72, (239); 16.21-26 ................. XXI,223; XXVII,222; ..................................................XXXII,264 17.1-9 ............. X,216; XVIII,78; XXX,60; ................................................. XXXV, 114 18.1-5 .............. XXXVII,48; XXXVIII,310 18.15-20 .............II, 123, (290); XVIII,226; .............................. XXX, 227; XXXV, 290 18.21-35 ...... X,467; XVIII,232; XXX,234; ..................................................XXXII,269 19.16-26 ................................ II, 182, (349) 20.1-16a .IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 ..................XXIX,296; XXXV,302; ..............................................XXXVIII,290 20.17-28 .......................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 ................................... III,194; X,149 21.1-11 ..................................XXXVIII,140 21.14-17 .................... II,52, (219); XII,185; ...............................................XXXVII,353 21.23-32 ....................................XXXII,282 21.28-32 ........................ VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46) ........ XVIII,250; XXXV,315; ..............................................XXXVIII,304 22.1-10 (11-14) ........XXX,243; XVIII,254 22.1-14 ...........IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22) ........ XVIII,259; XXXV,323; ..............................................XXXVIII,314 22.23-33 ......... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 .......................................... IV,194; 22.34-40(41-46) ...... XXX,253; XXXII,298 23.1-12 .................II,158, (325); XXX,259; .................................................. XXXV,335 24.1-14 ............................ VI,68; XVIII,275 24.15-28 ........................................... IV,222 24.37-44 ........ XXI,21; XXVII,9; XXXII,9; ..................................................XXXVIII,9 25.1-13 ............ IV,243; XI,336; XXIV,312;

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.................................................... XXX,277 25.14-30 .. II, 233, (400); X,394; XVIII,272; ................................................... XXX, 286 25.31-37 .................................... XVIII, 297 25.31-46 ....... IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ........... XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; .................................................XXXII, 324 26.14-27.66 ............................... XXXV,157 26.30-56 .................................... XVIII, 109 26.36-46(-56) ..............VI, 29; XXXV, 162; ..............................................XXXVIII,154 26.57-75 .....................................XXIV,122 27.11-26 .................................... XXXII,116 27.33-50(51-54) ....VIII,162; XXXVIII,154 27.33-54 .....................XXI,111; XXVII, 99 27.33-56 .........................................XIV,201 28.1-10 ...... VI,167; XXIV,139; XXXV,176 28.16-20 ....X,374; XXX,156; XXXIV,203; .................................................. XXXV,222 Marcos 1.1-8 ..................XXII,14; XXVIII,13; .............................. XXXIII,16; XXXIX,13 1.4-11 .....XXII,48; XXVIII,64; XXXVI,69 1.9-15 ................ XXXIII,132; XXXIX,102 1.12-15 ..........XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20 .. XXII,56; XXVIII,73; XXXIII,84; .................................................. XXXIX,75 1.21-28 .... XVI,99; XXVIII,79; XXXVI,86 1.29-39 ................XXVIII,87; XXXIII,101; .................................................. XXXIX,87 1.32-39 .............................. VI,284; XII,261 1.40-45 ........ VI,258; XII,241; XXXVI,100 2.1-12 .......................... X,453; XXVIII,100 2.18-22 .......................................... VIII,105 2.23-28 ........ VIII,311; XIV,367; XXII,169; ................................................ XXVIII,228 3.1-6 .................................................. X,114 3.20-35 ................... XVI,192; XXVIII,233; ................................................ XXXVI,209 3.31-35 .............................................VI,252 4.26-29 ............................................. VI,113 4.26-34 ..................XXII,175; XXVIII,240; ................................................ XXXVI,216 4.30.32 ...........................................XII, 313 4.35-41 ..XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; .......................... XXXIII,244; XXXIX,209 5.21-24a,35-43 ..XXVIII,253; XXXIII,378; ................................................ XXXIX,327 5.24b-34 ......................................XXII, 188 5.25-34 .............................................XII, 27 6.1-6 .......XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 ................ XXXIII,256; XXXIX,218 6.6b-13 .......................XIX, 201; XXV, 236 6.14-29 .......................... X,74; XXXVI,235 6.30-34 ...XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208;

............................................... XXXIII, 270 6.30-34,53-56.......................... XXXIX,231 6.34-44 ....................................... XXX,247 7.1-8,14-15,21-23 ......XIX,233;XXXI,242; .......................... XXXIII,309; XXXIX,270 7.24-37 .................................... XXXVI,279 7.31-37 ............IV, 163; X, 408; XXII, 239; ............................................... XXVIII, 307 8.22-26 ...........................VIII,269; XIV,317 8.27-35 .................. XVI,247; XXXIII, 323; ................................................ XXXIX,280 8.31-38 ..............X,234; XIX,83; XXV,134; ............................... XXXI,91; XXXVI,121 9.2-9 ....XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29 .............................................VI,278 9.30-37 .. XVI,255; XXII,245; XXXVI,289 9.38-50 ..................XXII,250; XXVIII,322; .......................... XXXIII,334; XXXIX,293 9.43-48 ...................II, 138, (305); XVI,263 10.2-12 .............. XXVIII,326; XXXVI,303 10.13-16 .................................. XXVIII,313 10.17-27 .......XII,256; XVI,268; XXII,260; ............................................... XXXIII, 348 10.17-31 .................................. XXXIX,305 10.32-45 ............................................ X,106 10.35-45 ................. XXVIII,289; XVI,277; ...........................XXXIV,270; XXXVI,316 10.46-52 ..XVI,283; XXII,265; XXXIX,315 11.1-11 .............. XXXIII,160; XXXIX,126 12.1-12 ............................................. X,242 12.13-17 ........................................... III,138 12.28-34 .................................. XXXVI,340 12.41-44 ...VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-8 ...................................... XXXVI,353 13.1-13 ...XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 .................................. XXVIII,358 13.24-37 ...................................... XXXVI,9 13.31-37 ....................................... XIV,397; 13.33-37 .............................XXV,17; XIX,9 14.3-9 ............................... VI,149; XXII,93 14.6-9 ..............................................XII,181 14.12-26 ..................... XVI,134; XXII,104; .......................... XXVIII,144; XXXVI,140 14.17-26 ...........................................VI,156 15.1-15(16-20) ........ XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 .IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; .......................... XXVIII,159; XXXVI,152 16.9-14(15-20) ...............VIII,173; XIV,225 16.12-18 ............ XXXIII,184; XXXIX,148 16.14-20 ............................................. IV,77 Lucas 1.1-4 ...................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 .............. VI,81; XII,109; 1.26-38 ............. XVI,56; XIX,27; XXII,28; ...........XXVIII,26; XXXIII,24; XXXIX,24

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1.39-45(46-55) .......XXVI,20; XXXVII,26 1.(39-45)46-55(56) .......................... X,175 1.46-55 ..............................................V,288 1.57-66 ........................................XXIV,200 1.67-79 .................................V,270; VIII,30 2.1-7 ... XXX,24; XXXIV,38; XXXVIII,33; .................................................. XXXIX,36 2.1-7,8-14,15-20 ............................. XVI,63 2.1-14 ....... I, 161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20 ........... XXIV,41; XXXIV,69; .................................................XXXVII,54 2.1-20 ................... III,218; IV,273; XVII,28; . XXI,41; XXIII,21; XXIV,34; XXVII,34; .................................... XIX,26; XXXIII,37 2.22-40 ...................................... XXXVI,56 2.41-52 ............................................. XX,35 3.1-9 ............................. V,281; XXXVII,14 3.1-14 .................................................VI,76 3.7-18 ..........XVII,21; XXIII,15; XXIX,16; ...................................................XXXIV,24 3.15-17,21-22................. XX,40; XXVI,36; .................................................XXXVII,64 4.1-13 ...XXIII,60; XXIX,81; XXXVII,100 4.14-21 ........ VI,19; XXVI,47; XXXVII,76 4.14-21(22) ....... XX,50; XX,59; XXVI,47 4.16-21 .............................................. X,186 4.21-30 ....................XXVI,54; XXXIV,100 5.1-11 .. IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI,59 6.17-26 ............................ XX,69; XXVI,66 6.27-38 ............................ XX,73; XXVI,74 6.36-42 ..................................IV,112; X,368 7.1-10 ......................................... XXVI,206 7.11-17 ..............................IV,186; VIII,293 7.36-50 ....... VIII,262; XIV,309; XXVI,220 7.36-8.3 ..................................XXXVII,199 8.4-10 ................................................ X,228 8.26-39 .....................................XXXIV,237 9.10-17 .......................................... VIII,241 9.18-24(25-26) ........... XX,190; XXVI,226 9.28-36 .......XX,82; XXVI,85; XXXIV,109 9.51-56 ............................................XV,167 9.51-62 .................... XX,198; XXXVII,212 9.57-62 ............................................. X,251 10.1-11,16-20 ...........................XXXIV,252 10.1-12,16 ...................................... XX,204 10.17-20 ......................................XXIV,285 10.21-24 ...................................II, 82, (249) 10.25-37 ........X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ..... VI,124; XVII,170; XXIII,140; ............................XXIX, 216; XXXIV, 264 11.1-13 ................... XXIII,145; XXIX,223; ...............................................XXXVII,229 11.5-13 .............................................VI,184 11.14-23 ............................ VI,297; XII,283

12.13-21 ............... XXIII,149; XXIX, 228; ................................................XXXIV, 278 12.32-40 ............... XVII,183; XXXVII,241 12.35-40 ......................................... III, 226 12.41-48 ..........................................VI, 302 12.42-48 .........................................XII, 289 12.49-53 XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235; ................................................XXXIV, 289 13.1-9 ......... XVII,83; XXIII,72; XXIX,93; ............................................... XXXVII,111 13.10-17 .................................XXXVII,257 13.22-30 XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35 ......XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 ............... XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 ........................................XVII,196 14.15-24 ................................. IV,96; X,354 14.25-33 .... VIII,235; XX,251; XXVI, 277; ...............................................XXXVII,266 15.1-3,11b-32 .......... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32 .IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10) ...................................... X,361 15.1-10 ...... IV, 106; XX, 255; XXXIV, 309 15.8-32 ................................... XXVIII, 265 16.1-9 .............................................. IV, 147 16.1-13 .. XX, 260; XXVI, 286; XXXVII,277 16.19-31 ...... IV, 88; XX, 265; XXXIV, 321 17.1-10 ...................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6 ...........................VIII, 286; XIV, 346 17.5-10 ...................................XXXVII,291 17.7-10 ........................... VI, 117; XII, 160 17.11-19 ............ IV, 172; X, 421; XX, 275; ............................XXVI, 305; XXXIV, 371 17.20-35 ............................................V, 275 18.1-8a ..................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8 ...VIII, 343; XXVI, 325; XXXVII,301 18.9-14 .. IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23 .........................................XII, 249 18.31-43 ....................................... VIII, 124 19.1-10 ... II,112, (279); VIII,219; XIV,275; ...............................................XXXVII,324 19.28-40 ...............XXVI,121; XXXIV,138; ............................................... XXXVII,116 19.41-48 ............................. IV, 153; X, 401 20.9-19 ........................XVII,94; XXIX,105 20.27-38 ................XXIII,223; XXXIV,359 21.5-19 .................... XX,296; XXXVII,336 21.25-36 ......... III, 209; XVII, 9; XXXIV, 9 22.7-20 ....................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ........................VIII,131; XIV,172 23.33-43 ..............XXVI, 344; XXXIV, 365 23.(26-32)33-49 .......XVII,102; XXIX, 119 23.33-49 ....................VI,162; XXXVII,127 23.35-43 .......................................XVII,248 24.1-11(12) .................................... XX,127

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24.1-12 ....................... II,201; XXXVII,132 24.13-35 ....... VI,40; XXI,125; XXVII,114; ......................... XXXII,137; XXXVIII,176 24.36-49 ..XVI,164; XIX,128; XXXVI,162 24.44-53 .............. XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53 .......... XIX,148; XXII,145 24.50-53 ........................................... X,331; João 1.1-5.9-14 ....XIX,35; XXV,39; XXXI,24; .................................................XXXVII,36 1.1-18 .......................... XXIII,30; XXIX,46 1.(1-9)10-18 ........XXXIII,64; XXXVIII,59 1.6-8,19-28 ......XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) ............ VIII,49; XXXVI,19 1.29-34 .......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) ............. XVIII,57; XXI,55; .................................................... XXXV,75 1.35-42 .......................................... XII,227; 1.43-51 ............ XII,129; XVI,92; XXII,52; ........... XXVIII,68; XXXIV,80; XXXVI,76 2.1-11 ..................IX,41; XX,44; XXVI,40; ...................................................XXXIV,89 2.13-22 ...............................VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ......................................... X,347 3.1-17 XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; .......................... XXXIII,232; XXXIX,189 3.14-21 ........XIX,95; XXV,144; XXXI,96; ................................................ XXXVI,128 4.1-11 ........................................ XXXI,149 4.5-26 ..........................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 ....................................II, 89, (256) 4.46-54 ............................................XII,148 5.1-9 .......................................XXXVII,168 5.1-16 .............................................XIV,360 5.1-16(18) ..................................... VIII,304 5.19-21 ...........................................XIV,215 5.24-29 ..XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; .................................................... XXX,271 5.39-47 .............................................VI,204 6.1-15 ... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; ............................. XXXI,213; XXXVI,245 6.(22-23)24-35 ............XIX,217; XXV,254; ...... XXXI,218; XXXIII,280; XXXVI,365; ................................................ XXXIX,245 6.35 .............................................. VIII,151; 6.37-40(41-43),44 ..................II, 200, (367) 6.35,41-51 ............................... XXXVI,257 6.41-51 . XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; ................................................... XXXI,226 6.51-58 ...................... XIX,225; XXXI,232; .......................... XXXIII,292; XXXIX,257 6.56-69 .................................... XXXVI,269 6.60-69 ......XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 ............................................XII,293 7.14-18 ............................................ VIII,87

7.37-39aXVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211 7.37-39 ............VI,194; XII,199; XXII,158; .................................................. XXXV,216 8.1-11 ............................................ VIII,228 8.21-30 ...........................VIII,138; XIV,179 8.31-36 .. II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; ................................................... XXIII,209 9.1-7 ...............................VIII,248; XIV,290 9.1-11 ....................................XXXVIII,135 9.1-41 ........................................XXXII,104 9.13-17,34-39...............XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 .......................................... VIII,299 10.1-5,27-30.............................II, 40, (207) 10.1-10 . XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16 ............................................. IV,53 10.11-18 ...XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................ XXXIII,199 10.11-18,27-30 .................................. X,310 10.14-16,27-29.......................... XXXIII,50 10.22-30 ..............XXIX,141; XXXVII,149 10.22-30(31-39) ..........................XVII,117; 11.1,3,17-27 .......II, 188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45) ..................... X,434 11.1-5,17-21 ...........................XXXVII,319 11.47-53 ....... VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.12-16 .................................. XXXVI,134 12.12-19 ..............................X,269; XX,110 12.20-26 ............................................ X,258 12.20-30 ....................................... XXV,150 12.20-33 ...................XIX,102; XXXI,103; .......................... XXXIII,154; XXXIX,120 12.44-50 .......................................... VIII,65 13.1-15,34-35.................................... X,277 13.1-17,34 ................ XXX,99; XXXIV,144 13.31-35 .................. XVII,121; XXIX,149; ........................... XXXIV,144; XXXIV,191 14.1-6 ..............................................XII,134 14.1-12 .XXI,139; XXVII,124; XXXIX,170 14.1-12(14) ..........II, 63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27) .........................XXXIV,219 14.15-19 ..........................................XV,232 14.15-21 ..................XXIV,165; XXXV,200 14.23-27 ................................ IV,82; X,341 14.23-29 ...................XVII,126; XXIX,154 15.1-8 .............. X,317; XIX,139; XXV,189 ............................. XXXI,146; XXXVI,174 15.9-12(13-17) .............................XIV, 374 15.9-17 ........VIII,317; XIX,143; XXV,192; ...........................XXXIII,211; XXXIX,165 15.(18)26-16.4 .................................. X,337 15.26-27; 16.4b-11..... XX,171; XXVI,191; ................................................ XXXVI,197 16.5-15 ............................................... IV,65

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16.12-15 ..XX,177; XXVI,200; XXXVII,184 16.16-23a ............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a ......................VI,129; VI, 176 16.22-28 ............................................. IV,72 16.23b-28,33 .................................... X,323 17.1-11 ..................................XXXVIII,200 17.1a,6-19 ............................... XXXIII,221 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.1-11 ......................XXI,148; XXVII,132 17.9-19 .............................. IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 ...........XIX,153; XXXI,157 17.20-26 ..................... VIII,198; XXIX,168 18.33-37 ......................XIX,299;XXXI,296 18.33-38a ................................ XXXVI,358 19.16-30 ................ IV,38; X,284; XIX,110; ........... XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168; ................................................ XXXIX,136 20.1-18 ............ XXXIV,162; XXXVIII,159 20.1-2,11-18 ...............................XXIV,230 20.1-9(10-18) ......... XVIII,120; XXVI,136; .................................................... XXX,109 20.11-18 ........................VIII,166; XIV,207 20.19-23 ..................XXIV,173; XXX,150; ..............................................XXXVIII,206 20.(19,23)24-29 .............. X,301; XIX,119; ..................................................XXXII,134 20.19-31 ...XIX,119; XXI,121; XXVII,110; ................................ XXIX,128; XXXI,133 20.26-31 .................................XXXVII,138 21.1-14 ......................XVII,111; XXIX,136 21.1-19 .....................................XXXIV,178 21.15-19 ....................................... VIII,179 21.20-25 .....................................XXXIV,53 Atos 1.8-14 ...................................... XXIV,168 1.1-11 .......... XX,155; XX,160; XXVI,182; ...... XXIX,161; XXXII,162; XXXVIII,195 1.15-26 .................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 .................................XI,242 1.15a,21-26 ............................. XXXVI,193 2.1-13 ...............................................XI,249 2.1-21 ....................... XIX,158; XXVII,139 2.14a,22-32 ................................ XXIV,143 2.14a,36-47 .................................XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39 .......................XV,239 2.36-41 ............................................... III,59 2.41a,42-47 ......................................XI,284 3.1-10 ..............................................VII,198 3.12-19 .................................... XXXIX,153 3.13-15,17-26.......... XVI,158; XXVIII,165 4.5-12 ...................................... XXXVI,168 4.8-12 ..................................... XXVIII,172 4.32-37 .............................................. V,310 5.12,17-32 ..................................... XX,130 6.1-7 .............................. III,134; XXIV,155

7.55-60 ..................................XXXVIII,182 8.14-17 ......................................XXXIV, 85 8.26-40 ... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ............................................... XXXIII, 205 9.1-20 ............................................. XX,136 9.36-43 ....................................XXXIV, 184 10.34-38 ...XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ....................... XIX,49 10.34-43 ............. XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 .................. XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25...............................XXII,33 13.44-52 .......................... XX,140; XX,143 14.8-18 .......................................... XX,148 16.6-10 ........................................... XX,164 16.9-15 ...............................IX,171; XV,141 16.16-34 ..................................XXXIV, 211 16.23-34 ..........................VII,122; XIV,233 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.16-34 ...............................................I,34 17.22-31 .................... XV,213; XXXII,156 19.1-7 ........................................ XXXIX,63 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; ......... XXXII,36; XXXVI,30; XXXVIII,28 1.16-17; 3.21-28 ...................XXXVIII,327 3.19-28 .............. II,169; XX,278; XXI,267; ............................... XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ............................XXVII,156, 272 4.1-5,13-17............. XXIV,100; XXXV,133 4.13-25 .............. XXXIII,138; XXXIX,108 4.18-25 ................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 ... XVII,137; XXIX,180; XXXIV, 224 5.1-8 ..........................................XXXII,197 5.1-11 ..........XXVIII,122; V,51; XXXII,98; ..............................................XXXVIII,129 5.6-11 ..................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 ......................................XXVII,172 6.1b-11 ................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 .................................................XI,278 6.19-23 ................................ V,164; IX,258 7.15-25a ........... XXXV,234; XXXVIII,231 8.1-11 ..................I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 .........................V,170; XXXVI,203 8.14-17 ..................XXV,203; XXXVII,179 8.14-17,22-27............................. XXIX,174 8.18-23 ...............................................V,150 8.18-23(24-25) ........................... XVIII,192 8.22-27 .................................... XXXIX,183 8.26-27 ........................................ XXX,193 8.26-30 .............................................IX,233 8.31b-39 ...........................................XI,144 8.31-39 ......................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 .............................. XVI,110 9.1-5 ................. XXXV,261; XXXVIII,252 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235

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9.1-5; 10.1-4 ......................................V,185 9.30b-33 ........................................... III,124 10.5-13 ......................XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32 ............................XXIV,255 11.25-32 .................................... I, 95, (102) 11.32-36 ............................................V,126; 11.33-36 ..........................................XI,256 12.1-8 ............................ XI,152; XXIV,265 12.9-12 ...................................... XXXV,284 12.9-21 ..................................XXXVIII,273 12.6-16 .................................................V,19 13.1-10 .......................................... XXI,229 13.8-10(13-14) .................................XI,107 13.11-14 ...........IV,251; XXIV,19; XXXV,9 14.5-9 ............................................ XXI,234 14.7-13 .............................................. III,79 14.10-13 ..........................................XI,266 15.4-13 .........................XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ....................................... XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............ XXIV,70; XXXII,72; ................................................XXXVIII,75 1.3-9 ............................. XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 ...................................................V,228 1.10-17 ............................................ XXI,60 1.18-25 ............................................. XX,97 1.26-31 ..................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ................................ XXI,71; XXII,60 2.1-10 ................................VII,50; XIII,126 2.1-12(13-16) ..........................XXXVIII,91 2.6-13 .............................................. XXI,74 2.12-16 ............................................VII,150 3.9-15 .................................XV,266; IX,269 3.16-23 .........................................XXII,193 4.1-5 .................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................ I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20...................... I,86, (93) 6.12-20 .................. XXXIII,76; XXXIX,69 6.24-34 ...................................... XXXV,106 7.29-31 .........................................XXIV,90 7.29-32a ................................... I, 46, (213) 8.2 .................................................. XIII,42 9.16-23 ....... XIV,264, XXV,96; XXXVI,90 9.24-27 ....................... XI,165; XXXIII,112 10.1-13 ..................................V,179; XX,91 10.16-17 ..........................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ......................... XXXI,113 10.31-11.1 .................................... XXV,107 11.23-26 .................. XXIV,127; XXVII,94; ...............................................XXXVII,120 11.23-29 ...............................................V,65 12 .................................................... XIII,34 12.1,4-11 . XVII,47; XXIX,59; XXXVII,70 12.12-21,26-27............ XXIII,45; XXIX,64 12.27-13.13 ...................XVII,52; XXIX,71

12.31b-13.13 .......................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25....................................VII,158 14.12b-20 .................................... XXIII,49 15.1-11 ................ XVII,108; XXXIV,105; ................................................ XXXIX,142 15.1-20 ............................................... III,13 15.12,16-20 ............... XVII,63; XXXII,311 15.19-28 . I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ..................................................... XXV,175 15.20-28 ...................XVIII,280; XXX,293, 15.35-38 .......................................... XIII,29 15.45-49 .........................................XVII,69 15.50-58 .......... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................... I, 112, (119) 1.18-22 .............. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ........................................... XXV,118 3.3-9 .................................................IX,283 3.12-4.2 ...........................XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ............. IX,157; XIV,165; XXXIX,93 4.5-12 .........................XIX,169; XXXI,171 4.6-10 ...............................................XI,158 4.7-18 ................................................. III,53 4.13-18 ........................XIX,173;XXXI,177 4.16-18 .......................................... XIII,192 5.1-10 ............................... IX,295; XV,288; 5.6-10 ....................... XIX,178; XXXI,183 5.6-10,14-17............................ XXXIX,203 5.14-21 ....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 ...... XVI,140; XXVIII,153 5.20b-6.10 ................................. XXXV,120 6.1-10 ...............................................VII,82 6.1-13 ...................................... XXXVI,221 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15 .............................................. XIII,18 8.7-15 ...................................... XXXIII,251 8.9 ................................................. XV,112 9.6-15 ................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 .............. XIII,142 12.1-10 ................................................V,26; 12.7-10 .......................XIX,195; XXXI,199 13.11-13 .... IX,240; XXI,158; XXXII,174; ..............................................XXXVIII,214 Gálatas 1.1-12 .............................XXXVII,189 1.11-24 ....................................... XXIII,113 2.16-21 .......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 .. XXIII,119; XXXVII,206 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 ............................................... IX,144 4.4-7 ............ XV,106; XVIII,38; XXX,31; ............ XXXIII,44; XXXV,33; XXXIX,43 5.1-6 ............................................ XIII,167 5.1-11 ..................I, 118, (125), 124, (131); .................................................. XXXV,341 5.1,13-25 ..............XXIII,126; XXXIV, 243

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5.25-26; 6.1-3,7-10 .........VII,214; XIII,253 6.14-18 ....................................... XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ...................................................... XXX,37 1.3-14 ............ III,62 XXII,204; XXXIV,75; ................................................ XXXIX,225 1.3-6,15-18................................... XVIII,43 1.(16-20a)20b-23 ....... XXI,144; XXX,138 1.20b-23 .......................................... IX,227 2.1-10 .......................................... XXX,265 2.4-10 ...................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 .......................... X,48; XXXVI,239 2.13-22 .........................................XXII,209 3.1-12 ........................ XXXI,30; XXXV,64 3.2-12 ............................. XVI,83; XXII,43 3.14-21 ......................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 .................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 .................................. XXII,215 4.17-24 .........................................XXII,220 4.20-32 ...............................................V,235 4.25-5.2 ................................... XXXIX,251 4.30-5.2 ......................................... XVI,228 5.1-8a ..............................................XI,205 5.1-9 ....................................................V,46; 5.8-14 ......................XXIV,105; XXXV,145 5.9-14 .............................................. III,100 5.15-20 .................... XVI,233; XXXVI,264 5.15-21 ............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31 .......................... XVI,236 5.21-31 .................................... XXVIII,294 6.10-20 .................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ..................................................XXXIV, 16 1.12-21 ..............................................VII,95 1.20c-27 .....................................XXIV,280 2.1-4 .............................................. VII,173 2.1-5(6-11) .................................. XXI,245 2.1-13 ............... XXXV,309; XXXVIII,297 2.5-11 ....V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; ............. XXIX,111; XXXII,59; XXXIX,49 2.12-13 ............................................XV,282 3.4b-14 ....................................XXXIV, 133 3.12-21 ................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 ...............................................XI,291 3.7-14 ................................................V,261 3.8-14 ............................................. XX,102 3.12-16 ..................................... II, 20 (187) 3.12-21 ......................................XXVII,251 3.17-21 .............................................XI,330 3.17-4.1 ..................... XX,86; XXXVII,105 3.20-21 .................. I,136, (137); 129,(143) 4.4-7 ............................................. XXVI,15 4.10-20 .............................................IX,150 Colossenses 1.1-6 ........................... XXVI, 233

1.12-20 ................ XXIII,229; XXXVII,342 1.15-23 ..................................................I,47 1.21-28 ...................................... XXVI, 240 2.3-10 ............................................XIV,140 2.6-15 ........................................ XXVI, 250 2.12-15 .......................................... XIII,186 3.1-4 ............. III,48; XXI,117; XXXII,127 3.1-11 .....................................XXXVII,236 3.12-17 ......................... V,107; XXXVII,42 4.2-6 ...................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ................ XXIV,294; ..................................................XXVII,256 1.5b-10 .....................................XXVII, 263 1.2-10 ..............................................VII,210 2.1-8 ................. XXXV,329; XXXVIII,321 2.8-15 ........................................XXVII,277 3.9-13 ............................ XX,15; XXXVII,9 4.1-8 ....................................... V,38; XI,315 4.13-14(15-18) .............................. XXI,285 4.13-18 ................... XXI,292; XXXVI,335 5.1-8 .................................................IX,288 5.1-11 .......................XXI,297; XXXV,357; ..............................................XXXVIII,340 5.12-24 .............................................IX,274 5.16-24 ...XXII,19; XXXIII,20; XXXIX,18 2 Tessalonicenses 2.1-17 ....................... III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ............... XXIX, 311 3.1-5 ................................................ IX,252 3.6-13 ................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo ..1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ..................................... II, 169, (336) 2.1-6 ......................................XXXVIII,279 2.1-8 .. XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370 3.16 .............................................. XIV,132 4.4-5 ............................................ XIII,298 6.6-16 ........................XVII,215; XXIX,274 6.11b-16 ........................................... IV,255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ............ XXIII,195 2.8-13 .................. XXIII,205; XXXVII,296 2.8a(8b-13) ................................... XV,198 3.14-4.5 ....................................XXXIV,333 Tito 2.11-14 ..II,263, (430); XI,128; XXIV,34; .................................................... XXXV,40 3.4-7 ................ IV,280; XX,29; XXXIV,45 Filemom 8-21 .................................. XXIX,254 9b-17(18-21) ................................XVII,201 Hebreus 1.1-4(5-12) . XXXVI,35; XXXIX,299 1.1-9 .............................................. XVI,70 2.9-11 ..........................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ........................................... IX,188 3.1-6 ............................................. XIX,262 4.9-16 .......................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13 .............................................XI,171 4.14-16 .............................................XI,192

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4.14-16; 5.7-9 ...... XXIV,133; XXXIV, 153 5.1-6(7-10) .............. XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ......... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 7.23-28 .................................... XXXVI,322 9.11-14 .................................... XXXIX,322 9.15-17,26b-28............................... XX,122 9.15,24-28 ............................................ III,7 9.15,26b-28 .................................. XIII,179; 9.24-28 ........................................ XIX,291 10.11-25 .................................. XXXIX,337 10.19-25 .................... II,241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 ....................................IX,178 11.1-3,8-16 ..................................... XX,229 11.1-4 ........................................ XXVIII,39 11.8-10 ............................................XV,160 12.1-3 ..............................................XV,178 12.1-13 .......................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ................ XV,127 12.18-24 ..................XX, 242; XXXIV, 296 13.1-8 ............................................. XX,246 13.1-8,15-16...........................XXXVII,262 13.(7)8-9b .................................... XIV,153 13.12-16 ............................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 ........................................ XXV,268 2.1-13 .......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 .. XXV,275; XXXIX,275 2.14-24 ........................................... III,110 3.1-12 ...................................... XXXVI,283 3.13-4.3,7-8a ........................... XXXIII,327 4.13-17 ........................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ......XIII,265; XIX,252; XXXVII,160 5.7-8 ............................................... XI,114; 5.7-10 ........................................... XVIII,19 5.13-16 ............................................VII,220 5.13-20 .................................... XXXVI,295 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ..................... XIII,152; 1.17-21 .........................................XXX,118 1.17-22 ................... XVIII,129; XXXV,182 1.3-9 ..................III,22; XI,221; XVIII,125; .....................................................XXX,114 2.1-10 .......... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 .......................XXX,128; XVIII,138 2.13-17 ..................................... I, 102 (109) 2.15-17 ............................................. VI,13 2.18-25 ........................................ XXX,122 2.19-25 ..................................... XVIII,133 2.21b-25 ............................... V,91; XI,229; 3.8-17 ................................................ V,156 3.13-22 ..................................XXXVIII,188 3.15-18 ....................XVIII,146; XXIV,165 3.18-22 .................................... XXXVI,116 4.7-11 ............................................... V,120

4.13-19 ..................................... XVIII,152 5.1-5 ................................................... III,27 5.5b-11 ................................ V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ..................................... III,145 1.16-19(20-21) ............................... IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII,65; ..............................................XXXVIII,108 3.8-14 ..... XVII,237; XXIII,218; XXV,23; .................................................. XXXVI,14 1 João 1.(1-4)5-2.2 ......XXII,124; XXXVI,157 1.5-10; 2.1-6 ......... XIII,216; XXXVI,181 2.21-25 ..............................................VII,30 3.1-3 ................................................ VII,21 3.1-7 ........................................ XXXIII,191 3.13-18 .............................................. IX,57 3.18-24 ........................... III,159; XXII,130 4.1-6 ................................................. IX,72 4.1-11 ...........................................XXII,135 4.11-16 ....................................... XXXI,165 4.7-12 ............................................. XI,299 4.7-16 ............................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ... XXII,149; XXXIX,159 4.16b-21 ........................................... V,135 5.1-5 ....................................... V,84; XI,235 5.1-6 ........................................... XXII,118 5.11-13 ............................................ XI,138 Apocalipse 1.4-8................. VII,131; XIII,204; .................................................XXXIV,169 1.9-18 ...............................VII,65; XIII,133 1.9-20 ......................................... XXVI,145 2.8-11 ..............................VII,228; XIII,275 1.9-20 .......................................... XXIII,84 3.1-6 ...........IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ................. II,248 (416); XXXVI,42 3.14-22 ........................................ XIII,304 4.1-11 ....................................... I, 144(151) 5.1-14 .................................................VII,7 5.11-14 .................... XXIII,90; XXVI,150; ...............................................XXXVII,144 7.9-12 ......................................... XVII,230 7.9-17 ............ III,182; XIII,110; XXIII,94; ................................................... XXVI,159 12.1-6 ......................................... XXIII,26 12.7-12 ........................................ XXI,241 14.6-7 ............................................... V,249 15.2-4 ............................................ XV,218 19.11-16 ......................................... III,195 21.1-5 ................XXVI,170; XXXVII,155; ................................................XXXVIII,52 21.10-14,22-23........................... XXVI,176 21.10,22-22.5 ...........................XXXIV,195 22.10-16 ............................................ X,11 22.12-17,20 ................................ XXIII,99

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Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

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COLABORADORES DO VOLUME 39 ABENDROTH, Anelise L. ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor ALTMANN, Walter APPELT, Fabiani BAADE, Joel Haroldo BECKER, Nádia Cristiane Engler BLASI, Márcia BOOTZ, Éverton Ricardo BRAKEMEIER, Gottfried BRAKEMEIER, Ruthild CHRISTMANN, Nilo COSTA, Daniel Ricardo da DREHER, Carlos A. DREHER, Martin DREHER, Scheila dos Santos FRIES, Marcos H. GAEDE, Leonídio GAEDE NETO, Rodolfo GAEDE, Valdemar GARCIA, Paulo Roberto GARIN, Norberto da Cunha GAUSMANN, Samuel GENZ, Sílvia Beatrice GIESE, Nilton GONÇALVES, Humberto Maiztegui GRAF, Geraldo HOEFELMANN, Verner HUNZICKER, Atilio KLEINE, Michael KOWALSKA PRELICZ, José Manuel KUNZ, Claiton André KUNZ, Marivete KÜNTZER, Renato KUPKA, Cláudio LACERDA, Gerson MANSK, Erli MARKUS, Cledes

anelisevilmar@gmail.com juliocezar@est.edu.br albrechtastor@gmail.com walteraltmann@msn.com fabiappelt@hotmail.com baadejoel@gmail.com nanaengler@yahoo.com.br retalhos13@hotmail.com erbootz@hotmail.com brakemeier@terra.com.br‎ ruthild@diaconisas.com.br niloch@uol.com.br danielrdacosta@yahoo.com.br carlosdreher@est.edu.br martindreher@terra.com.br drehersantos@uol.com.br mhenriquefries@yahoo.com.br leonidiogaede@hotmail.com Rodolfo@est.edu.br valdemargaede@pomernet.com.br paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com samuel_gausmann@yahoo.com.br‎ silvia.genz@luteranos.com.br giese1959@gmail.com humbertox@uol.com.br g.graf@uol.com.br vernerhoe@hotmail.com ajh54@hotmail.com‎ micha.kleine@yahoo.com.br pastorkowalska@luteranos.com.br claiton@batistapioneira.edu.br marivete@terra.com.br renato.kuntzer@terra.com.br claudiokupka@yahoo.com.br gersonclacerda@gmail.com liturgia@ieclb.org.br cledes@est.edu.br

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MEURER, Evandro MORAES, Jilton MUSSKOPF, Carlos OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de PFANNEMÜLLER, Helga Rodrigues RAMOS, Luiz Carlos REIS, Ana Isa dos RIBEIRO, Antônio Carlos Silva RIECK, Kurt SANTANA FILHO, Manoel Bernardino SCHERER, Cristina SCHMITT, Flávio SEIBERT, Erni W. SIEGLE, Manfredo STANGE, Klaus A. STÜEWER, Aline Danielle TREIN, Hans Alfred VOIGT, Emilio VOLKMANN, Martin WANKE, Roger Marcel WEBER, Eloir WEGNER, Uwe WEISSHEIMER, Ramona WIESE, Werner WITT, Osmar WITTER, Teobaldo ZWETSCH, Roberto Ervino

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evandromeu@gmail.com jiltonmoraes@terra.com.br carumus@gmail.com pastorjorgeoliveira@gmail.com pastorahelga@yahoo.com.br luiz.ramos@textoetextura.com.br anaisadosreis@yahoo.com.br antoniocarlosrib@gmail.com kurtrieck@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com‎ crisitati@yahoo.com.br flavio@est.edu.br erni@sbb.org.br manfredo_siegle@hotmail.com k.stange@flt.edu.br stuewer@gmail.com comin_mob@est.edu.br emilio.voigt@terra.com.br ogaieclb@brturbo.com.br roger.wanke@flt.edu.br p.eloir@salvador.org.br uwe.wegner@terra.com.br ramonaew@gmail.com wwiese@flt.edu.br olwitt@est.edu.br twitter@terra.com.br rezwetsch@gmail.com

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Texto: Times New Roman 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.

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