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Proclamar Libertação 38 - 2013-2014

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PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 38

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO C

Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Coordenação: Verner Hoefelmann

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© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, João Artur Müller da Silva, Martin Volkmann, Michael Kleine e Júlio Cézar Adam Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos

Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963

Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br

Proclamar libertação: auxílios homiléticos / Coordenação de Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2013. 15,5x22,5 cm. ; 398p. ISBN 978-85-8194-014-4 Volume 38 1. Homilética. 2. Teologia prática. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273

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APRESENTAÇÃO

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a apresentação do Proclamar Libertação (PL) anterior, afirmamos que, “na condição de líderes, cabe a ministros e ministras cuidarem bem da nossa herança teológico-confessional. Cabe-nos cuidar bem do culto cristão, zelando pela sólida, convincente, comunicativa e séria pregação do evangelho”. Para a execução dessa tarefa é que o PL quer servir de ferramenta. E é por isso que a Presidência decidiu pela doação de um exemplar dessa ferramenta a cada ministro e ministra. Em 2014, o lema que acompanha o tema do ano convida quem prega o evangelho a inspirar-se no anúncio de Jeremias ao grupo de pessoas exiladas na Babilônia: Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque em sua paz vós tereis paz (Jr 29.7). Aparentemente, não havia motivo para as pessoas exiladas acreditarem em dias melhores. Sua cantoria emudecera. Mas eis que surge o profeta e proclama que a paz brotará. E, ao falar em paz, o profeta refere-se ao que hoje denominaríamos de civilidade, justiça, democracia, tolerância, diversidade, diaconia, fé, gratidão, respeito, esperança, diálogo, valores próprios do evangelho, reafirmados por Jesus: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo (Jo 14.27). Em meio ao exílio, há esperança sim! E ela não redunda em entusiasmo piedoso, mas se torna força que faz olhar para dentro da realidade da vida, arregaçar as mangas e tomar atitude. Para o povo de Deus, até mesmo o desterro é uma oportunidade para recomeçar. A atitude de procurar a paz ocorre lá onde não há paz, onde a paz foi destruída. Através do profeta Deus incumbe as pessoas exiladas a empenhar-se pela paz da(s) cidade(s) para onde foram desterradas. Nossos exílios hoje são outros do que o da Babilônia. Mas eles estão aí. É a aflição pela falta do pão diário, por causa da solidão, do vazio de sentido, do desejo de aceitação, da culpa que machuca, dos conflitos de toda monta etc. E nesses exílios há muita gente envolvida. Pois é especialmente ali que a igreja dispõe dos meios para ser porta-voz da mensagem de paz que leva a resistir e a transformar, jamais a resignar. Todo cativeiro é, apesar de tudo, chão oportuno para buscar a paz. Por isso pregamos, e fazemo-lo de forma sólida, convincente, criativa, libertadora. Dr. Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente

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PREFÁCIO

E

stá em suas mãos o 38º volume de Proclamar Libertação com 61 auxílios homiléticos sobre a série A do Lecionário Comum Revisado, utilizado na IECLB desde sua aprovação em concílio em

2006.

O volume contém ainda dois auxílios especiais. O primeiro propõe uma reflexão a partir de um megaevento que estará agitando o mundo do esporte em 2014 e mexendo com uma das paixões dos brasileiros. Estamos falando, é claro, da Copa do Mundo de Futebol, que nosso país estará sediando de meados de junho a meados de julho. O segundo contém uma reflexão sobre o Batismo, com base em textos bíblicos e em considerações de Lutero sobre o tema no Catecismo Maior. Essa contribuição inaugura uma série de auxílios homiléticos similares, que pretendemos publicar nos próximos volumes em comemoração aos 500 anos da Reforma, prevista para 2017. Como ocorreu no ano passado, a direção da IECLB prontificou-se a adquirir novamente a presente edição de Proclamar Libertação para presentear seus ministros e suas ministras com um exemplar. O Conselho Editorial agradece, mais uma vez, pelo empenho investido no intuito de qualificar a proclamação do evangelho em nossa pátria. Por fim, uma palavra especial de agradecimento aos autores e às autoras dos auxílios homiléticos. Sem o trabalho deles e delas, Proclamar Libertação não existiria e cada pregador e pregadora ficariam sem esse parceiro de diálogo em sua tarefa de extrair as informações dos textos bíblicos e auscultar a mensagem a ser proclamada como palavra de Deus para as comunidades. Rogamos a Deus para que a semente da palavra proclamada alcance terras férteis e renda frutos abundantes de amor, paz e justiça. Verner Hoefelmann pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação

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SUMÁRIO

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1º Domingo de Advento – Mateus 24.36-44 ------------------------------------------9 2º Domingo de Advento – Isaías 11.1-10 -------------------------------------------- 15 3º Domingo de Advento – Mateus 11.2-11 ------------------------------------------ 21 4º Domingo de Advento – Romanos 1.1-7 ------------------------------------------ 28 Noite de Natal – Lucas 2.1-7 ---------------------------------------------------------- 33 Dia de Natal – Isaías 9.2-7------------------------------------------------------------- 39 1º Domingo após Natal – Mateus 2.13-23 ------------------------------------------- 47 Véspera de Ano Novo – Apocalipse 21.1-6a ---------------------------------------- 52 2º Domingo após Natal – João 1.(1-9)10-18 ---------------------------------------- 59 Epifania de Nosso Senhor – Isaías 60.1-6 ------------------------------------------- 63 1º Domingo após Epifania – Mateus 3.13-17 --------------------------------------- 68 2º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 1.1-9 ------------------------------------- 75 3º Domingo após Epifania – Isaías 9.1-4 -------------------------------------------- 80 4º Domingo após Epifania – Mateus 5.1-12 ---------------------------------------- 85 5º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 2.1-12(13-16) --------------------------- 91 6º Domingo após Epifania – Mateus 5.21-37 --------------------------------------- 96 7º Domingo após Epifania – Levítico 19.1-2,9-18 --------------------------------101 Último Domingo após Epifania – 2 Pedro 1.16-21 -------------------------------108 Quarta-feira de Cinzas – Mateus 6.1-6,16-21 -------------------------------------- 114 1º Domingo na Quaresma – Mateus 4.1-11 ---------------------------------------- 119 2º Domingo na Quaresma – Gênesis 12.1-4a --------------------------------------125 3º Domingo na Quaresma – Romanos 5.1-11 --------------------------------------129 4º Domingo na Quaresma – João 9.1-11--------------------------------------------135 Domingo de Ramos – Mateus 21.1-11 ----------------------------------------------140 Quinta-feira da Paixão – Êxodo 24.1-11 -------------------------------------------146 Sexta-feira da Paixão – Mateus 27.33-50 ------------------------------------------154 Domingo da Páscoa – João 20.1-18 -------------------------------------------------159 2º Domingo da Páscoa – Salmo 16 --------------------------------------------------165 Dia do Trabalho – Deuteronômio 5.12-15 ------------------------------------------171 3º Domingo da Páscoa – Lucas 24.13-35 -------------------------------------------176 5º Domingo da Páscoa – Atos 7.55-60 ----------------------------------------------182 6º Domingo da Páscoa – 1 Pedro 3.13-22 ------------------------------------------188 Ascensão do Senhor – Atos 1.1-11 --------------------------------------------------195 7º Domingo da Páscoa – João 17.1-11 ----------------------------------------------200 Domingo de Pentecostes – João 20.19-23 ------------------------------------------206 1º Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 13.11-13 ----------------------------214 2º Domingo após Pentecostes – Jeremias 20.7-13 --------------------------------219 3º Domingo após Pentecostes – Mateus 10.40-42 ---------------------------------225 4º Domingo após Pentecostes – Romanos 7.15-25a ------------------------------231

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5º Domingo após Pentecostes – Mateus 13.1-9,18-23 ----------------------------237 6º Domingo após Pentecostes – Isaías 44.6-8 --------------------------------------242 7º Domingo após Pentecostes – Mateus 13.31-33 ---------------------------------247 8º Domingo após Pentecostes – Romanos 9.1-5 -----------------------------------252 9º Domingo após Pentecostes – Mateus 14.22-33 ---------------------------------258 10º Domingo após Pentecostes – Isaías 56.1,6-8 ----------------------------------263 11º Domingo após Pentecostes – Mateus 16.13-20 -------------------------------268 12º Domingo após Pentecostes – Romanos 12.9-21 ------------------------------273 13º Domingo após Pentecostes – 1 Timóteo 2.1-6 --------------------------------279 14º Domingo após Pentecostes – Gênesis 50.15-21 ------------------------------284 15º Domingo após Pentecostes – Mateus 20.1-16 ---------------------------------290 16º Domingo após Pentecostes – Filipenses 2.1-13 -------------------------------297 17º Domingo após Pentecostes – Mateus 21.33-46 -------------------------------304 18º Domingo após Pentecostes – Mateus 18.1-5 ----------------------------------310 19º Domingo após Pentecostes – Mateus 22.15-22 -------------------------------314 20º Domingo após Pentecostes – 1 Tessalonicenses 2.1-8 -----------------------321 Dia da Reforma – Romanos 1.16-17; 3.21-28 -------------------------------------327 21º Domingo após Pentecostes / Dia de Finados – Isaías 35.1-10 --------------334 23º Domingo após Pentecostes – 1 Tessalonicenses 5.1-11 ----------------------340 24º Domingo após Pentecostes / Cristo Rei – Ezequiel 34.11-16,20-24 -------347 Ação de Graças / Festa da Colheita – Mateus 6.25-33 ---------------------------352 Domingo de Louvor através da Música – Salmo 105.1-7 ------------------------356 AUXÍLIOS ESPECIAIS Joga limpo, Brasil!---------------------------------------------------------------------363 Jubileu 500 anos da Reforma---------------------------------------------------------373 ÍNDICES --------------------------------------------------------------------------------381

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

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PRÉDICA: MATEUS 24.36-44

1º DOMINGO DE ADVENTO 01 DEZ 2013

ISAÍAS 2.1-5 ROMANOS 13.11-14

Werner Wiese

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Introdução

O domingo passado foi o Domingo da Eternidade, por vezes também chamado de Domingo Cristo Rei. Hoje é o 1º Domingo de Advento. Com esse começa o novo ano eclesiástico, conhecido também como ano litúrgico. Advento deriva do latim adventus. Corresponde ao termo grego no Novo Testamento parusia e significa presença ou vinda. Ele pode referir-se a seres humanos, a Cristo e uma vez no Novo Testamento refere-se ao iníquo (anticristo [2Ts 2.9]). O texto bíblico previsto para a pregação deste domingo é Mateus 24.36-44. Nesse texto, o termo grego para adventus (parusia) ocorre duas vezes (v. 37 e 39) e refere-se ao Filho do Homem, por quem os discípulos e a comunidade de fé esperavam ansiosamente. Houve uma época na igreja em que o tempo de Advento era tempo de jejuar como preparação para o Natal, semelhantemente ao período da Quaresma, que antecede a Páscoa. Na igreja grega, até hoje isso é assim. De qualquer forma, os quatro domingos de Advento querem ser preparação para o Natal – a data de celebração do nascimento de Jesus como Salvador da humanidade. Mas seria um equívoco ver no tempo de Advento apenas uma ocasião para relembrar o longínquo passado. O texto para a pregação de hoje vem carregado de expectativas em relação ao futuro. Que expectativas são essas? Não quaisquer expectativas, mas principalmente a expectativa em torno da vinda/presença do Filho do Homem para trazer à tona o reino de Deus de forma visível e definitiva. Essa expectativa não era nova na época em que nosso texto foi redigido, mas remonta a uma longa história do povo de Deus, marcada por altos e baixos desde tempos remotos no Antigo Testamento, perpassando também os primeiros decênios da igreja cristã primitiva. Tanto no Antigo como no Novo Testamentos, o povo de Deus é carregado pela esperança no agir renovado de Deus num futuro próximo. Hoje não é diferente. Dentro dessa realidade e lógica, os textos de Isaías 2.1-5 e Romanos 13.11-14 podem ser mencionados e utilizados na pregação deste domingo.

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Exegese

2.1 – O texto no seu contexto A perícope para a pregação faz parte do assim chamado “discurso apocalíptico de Jesus”, registrado nos evangelhos sinóticos com algumas variações entre eles. No Evangelho segundo Mateus, esse discurso abrange os capítulos 24

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e 25. Dificilmente ele foi pronunciado de uma só vez. O mais provável é que a atual versão do discurso seja uma composição ulterior, cuja razão e detalhes não se podem mais decifrar satisfatoriamente. Especialmente no capítulo 24, vários lugares vivenciais originais mesclam-se de tal maneira, que nem sempre é simples distingui-los e delimitá-los claramente. Por exemplo: os v. 1-2 mencionam que Jesus se havia retirado do templo, e as palavras que seguem referem-se à destruição de Jerusalém, fato que vai ocorrer no contexto da guerra judaica contra Roma de 66 até 70 d.C. Já no v. 3, a destruição de Jerusalém, a parusia de Jesus e o desfecho final da história da humanidade são mencionados, talvez pensados juntos como acontecimentos que se sucedem imediatamente. Em todos os casos, do v. 4 em diante, esses acontecimentos são comentados não de forma cronológico-sistemática, mas de forma ascendente, que conflui para a parusia do Filho do Homem (v. 27, 30, 37, 39, 44; veja também Mt 25.31). Vendo a composição final de Mateus 24 no horizonte da parusia do Filho do Homem, é possível estruturar o capítulo de forma simplificada e elementar da seguinte maneira: v. 1-2 – palavras sobre a destruição de Jerusalém; v. 3-14 – prelúdio da parusia; v. 15-25 – tribulação especialmente na Judeia; v. 26-31 – aspectos da parusia que excedem a esperança da libertação terrena de Israel ou do povo de Deus; v. 32-44 – a natureza imprevisível da parusia; v. 45-51 – postura condizente e não condizente com a natureza da parusia, ilustrada a partir da parábola do servo fiel e do servo mau. Aliás, no capítulo 25, seguem mais duas parábolas, que têm a mesma finalidade. 2.2 – Aspectos exegético-teológicos Apesar dos indícios de vários lugares vivenciais originais que se mesclam em Mateus 24, o capítulo quer ser entendido como um todo. Por isso também aqui se deve aplicar a regra de não isolar um texto de seu contexto para entendê-lo da melhor maneira possível. Contudo o texto escolhido para a pregação de hoje tem um papel fundamental para compreender o capítulo 24 como um todo, pois textos de natureza apocalíptica, como é o caso de Mateus 24, facilmente atiçam a fantasia humana para especulações inúteis. Nosso texto destaca os limites do saber diante da realidade última da parusia e conclama à vigilância. V. 36 – “... daquele dia e hora ninguém sabe... nem o Filho, senão o Pai.” Os v. 32 a 35 poderiam dar a impressão de que a parusia é previsível e calculável. Querer saber ou prever o futuro de Deus e, se possível, antecipá-lo e apropriar-se dele era uma “tentação” que rodeava inclusive o círculo dos discípulos – as pessoas mais próximas de Jesus (veja At 1.6). Aqui se coloca uma divisa clara entre o que cabe ao ser humano saber e o que é autoridade (exusia) exclusiva de Deus para fazer irromper o seu reino de forma incontestável e definitiva. Ser algum participa da “elaboração da agenda” de Deus, nem o próprio Filho. Aliás, esse também está sob o signo do não saber. Isso desde tempos muito remotos foi motivo de tropeço, a ponto de uma série de manuscritos gregos omitirem a expressão “nem o Filho”. Fato é que “o reino de Deus não vem com visível aparência” (Lc 17.20), de modo que fosse possível prevê-lo e se “programar” sem compromisso com o reino.

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1º Domingo de Advento

V. 37-39 – Nesses versículos, duas vezes é mencionada a “vinda do Filho do Homem”. A expressão Filho do Homem ocorre tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, principalmente no livro do profeta Ezequiel e nos evangelhos sinóticos. Na maioria das vezes, a expressão simplesmente significa o “ser humano” – esse acima de tudo é o caso em Ezequiel. No Novo Testamento, Jesus é denominado e ele mesmo se autodenomina de Filho do Homem. Aqui a expressão ultrapassa o simples significado de “ser humano” e passa a ser personagem messiânico, assumido de Daniel 7.13: “... e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem...” Esse Filho do Homem é esperado para o fim dos tempos – época em que Deus instaura definitivamente seu reino (veja também Dn 7.14). É isso que está por trás da expectativa da vinda do Filho do Homem em Mateus 24. Novo em relação a Daniel 7.13 e à tradição judaico-apocalíptica é a associação do Filho do Homem com a futura parusia de Jesus Cristo. Há quem diga que Jesus não se identificava com o Filho do Homem, mas, ao se referir ao Filho do Homem, estaria falando de alguém outro. Contudo isso dificilmente era o caso, pois, se existia um título messiânico que Jesus assumiu para si, então era exatamente o de Filho do Homem (veja Lc 9.57-62, principalmente o v. 58). Dito isso, chama a atenção que se traça um paralelo entre os “dias de Noé” e a “vinda do Filho do Homem”. Como o dilúvio foi um evento marcante para as pessoas que viviam naquela época (veja especialmente os capítulos 6 e 7 de Gênesis), assim a vinda do Filho do Homem será um evento marcante para quem viver por ocasião da parusia de Jesus. Tanto um evento como o outro contêm dois traços semelhantes: graça para uns e juízo para outros. Especialmente o aspecto do juízo no dilúvio é fortemente destacado também na transmissão da tradição da vinda do Filho do Homem (veja v. 39). Apesar dos traços semelhantes, o que mais chama a atenção é que em Mateus 24 a geração do dilúvio não é caracterizada e censurada por causa de suas aberrações éticas ou maldade grotesca, como era o caso em Gênesis 6 e 7, mas ela é caracterizada como uma geração que vive sua rotina diária: comer e beber, casar e dar-se em casamento (v. 38). Nisso não há nada de errado. Pelo contrário, essa é a necessidade e ordem da vida desde o princípio. Tanto mais soa o alarme nas palavras do v. 39a: “e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos”. O termo para “os levou” é êren/airô, que aqui significa: tirar à força, arrebatar ou arrastar. Não resta dúvida: houve e haverá grave engano em meio à boa ordem da vida. Em que consiste o engano? “No sossego que não pensa num juízo vindouro” (E. Schweizer). Dito com outras palavras: a vida é programada sem levar a realidade de Deus em conta. V. 40-41 – O mais tardar aqui se percebe que a palavra de exortação de nossa perícope não se destina a pessoas que vivem “desregradamente”, mas se dirige a “cidadãos exemplares” que “esqueceram a realidade de Deus” (E. Schweizer). Mais precisamente, o texto não visa (em primeiro lugar) pessoas estranhas ao evangelho, mas os próprios ouvintes ou leitores do mesmo. O juízo não passa de largo do próprio povo de Deus, mas passa no meio dele. É isso que as figuras dos dois homens que trabalham juntos no campo e das duas mulheres no moinho ilustram. A linha divisória entre ser aceito e deixado para trás passa entre o que é o mais comum: os mesmos afazeres, as mesmas aparências. O texto não diz por

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1º Domingo de Advento

que uma pessoa é aceita e outra não. Fato é que a palavra decisória e última sobre o povo de Deus, sobre cada pessoa e sobre toda a humanidade será proferida pelo próprio Deus. Ao ser humano não compete antecipar o veredito final sobre ninguém. V. 42-44 – Do conteúdo dos versículos anteriores (36-41) com facilidade poderiam surgir duas posturas desastrosas em relação ao futuro: uma seria a indiferença ou negligência – simplesmente se deixar levar pela vida. A outra seria uma preocupação doentia – quase uma convulsão espiritual. Os v. 42-44 destacam a postura adequada ao fato da incógnita da parusia de Jesus Cristo: vigiar (veja também 1Ts 5.2-5; Rm 13.11-14). Assessoras dessa postura são outras expressões no capítulo 24, como: “Vede que ninguém vos engane” (v. 4); “Não acrediteis” (v. 23); “Ficai... apercebidos”. A ilustração concreta para o vigiar encontramos nas parábolas do servo fiel e prudente e do servo mau (24.45-51), das dez moças de um casamento (Mt 25.1-13) e dos talentos (Mt 25.14-30). Considerando, mais uma vez, o contexto maior em que o texto para a pregação está inserido, pode-se sintetizar o seguinte: Teologicamente falando, a destruição de Jerusalém e do templo foi juízo interino de Deus sobre Israel por esse ter rejeitado Jesus – o enviado de Deus a seu povo da época (veja v. 1-2 e compare-os com Mt 23.3-37). A parusia do Filho do Homem por ocasião do desfecho da história será simultaneamente juízo e graça derradeira sobre toda a humanidade. A partir da primeira parusia, a igreja cristã vive à vista da parusia final, que a conclama à vigilância sóbria e responsável.

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Meditação e imagens para a prédica

Pregar no 1º Domingo de Advento deveria ser algo especial por vários motivos. Primeiro, porque é o início do novo ano eclesiástico. Convém lembrar brevemente na pregação o último domingo, que foi o Domingo da Eternidade ou Domingo Cristo Rei. A lógica que marca o ritmo da igreja cristã não é a canção que se ouve todos os anos já dias antes da virada do último dia do calendário civil para o primeiro dia do ano seguinte: “Adeus ano velho, feliz ano novo...” ou algo do gênero. A igreja cristã não vive da despedida daquilo que ela não consegue reter e por isso se lança numa nova aventura. Segundo, Advento liga a eternidade ao tempo e ao espaço da vida humana e vice-versa. Isso é motivo que preenche pregador e pregadora com alegria e expectativa, que toma forma no anúncio da Palavra de tal modo que chegue às demais pessoas presentes no culto. Partindo dessa realidade teológica e lido o texto para a pregação, não é difícil fazer o link com a realidade concreta da comunidade cristã na qual estamos inseridos. A coroa de Advento não é mera decoração no interior do templo; fosse isso, ela bem poderia faltar. Mas esse não é o caso. Pelo contrário, ela serve como imagem ilustrativa para a própria pregação. Pregador ou pregadora deveriam explicar a razão teológica de ter a coroa no templo para as próximas semanas. As velas apontam para o auge na comunidade cristã – a vinda do Salvador ao mundo. Mas, como já foi mencionado na introdução, seria um equívoco ver tanto no tempo de Advento como no Natal somente uma ocasião para lembrar o passado.

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1º Domingo de Advento

A partir do texto da pregação, a realidade da vinda do Salvador no passado está ligada à esperança do povo de Deus – a vinda futura de Cristo como consumador da história. A pregação há de destacar isso. Surge a pergunta: Como falar dessa realidade de maneira relevante e adequada no tempo de Advento hoje? Sem dúvida, as semanas que antecedem o Natal são marcadas por um corre-corre cada vez maior. Enfeites natalinos e luzes nas vitrines do comércio, em departamentos públicos, nas ruas das cidades, compromissos cotidianos acelerados são ditames que perigam nos sequestrar e cegar para a realidade. Também no interior da comunidade cristã, as atividades aumentam significativamente no tempo de Advento, mas isso não é garantia de que o recado de Deus vinculado à pessoa de Jesus de Nazaré – o Cristo de Deus esteja claro e seja relevante na vida para o presente e para o futuro. Na própria comunidade cristã, corremos o risco de nos perder, não num ateísmo teórico, mas prático, isto é, não negamos a existência de Deus, mas vivemos como se ele não existisse. As tônicas no texto para a pregação querem e podem ajudar-nos para que a rotina diária acelerada nesses dias não nos faça cegos em relação à realidade última da vida. Em que sentido? Literalmente, o futuro a Deus pertence. Não conhecemos o dia de amanhã, muito menos o futuro mais distante, mas isso não nos libera para viver ao léu ou à toa. Pelo contrário, isso nos chama à responsabilidade, cientes de que a última palavra sobre nossa vida será proferida por Deus. A pregação precisa precaver-se contra dois extremos: um é incutir medo ou pânico na comunidade e em cada ouvinte. Quem faz isso não prega evangelho. O outro é vender ilusões e consolar superficialmente, dizendo apenas que Deus é gracioso. Repetimos: É necessário dizer que a parusia do Filho do homem por ocasião do desfecho da história será juízo e graça simultaneamente. Isso conclama a comunidade cristã e cada pessoa à vigilância sóbria e responsável.

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Subsídios litúrgicos

Não apenas na pregação se deveria aludir expressamente à época do ano litúrgico, ou seja, ao período de Advento e seu significado, mas toda ordem de culto deveria ser conscientemente elaborada visando essa época. É claro que não se precisa reinventar a roda, mas se pode recorrer a material de apoio já existente na IECLB para o tempo do Advento. A coroa de Advento com as quatro velas e uma delas acesa é uma excelente linguagem simbólica a ser “explorada” teologicamente na pregação e didaticamente utilizada para tornar o culto um momento festivo. Na verdade, cada culto é um momento festivo, mas ocasiões especiais como o tempo de Advento deveriam sobressair na maneira como o culto é preparado e vivenciado. Numa época em que a familiaridade com os valores cristãos mais óbvios está em franca decadência, há de se cuidar para que o culto de Advento não seja artificial ou mecânico, mas o mais natural e relevante para a vida das pessoas hoje. Assim como as semanas que antecedem o Natal estão marcadas por correrias excessivas, que quase não permitem mais parar para pensar sobre o sentido da vida, na oração de confissão de pecados poderia ser feito um momento de

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1º Domingo de Advento

silêncio para refletir sobre isso e orar em silêncio antes da confissão pública “representativa” dos pecados.

Bibliografia DREHER, Martin N. 1º Domingo de Advento. Mt 24.37-44. In: Proclamar Libertação 21. São Leopoldo: IEPG & Editora Sinodal, 1995. p. 21-24. SCHNELLE, Udo. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010. SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Matthäus. In: Das Neue Testament Deutsch 2. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1976.

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2o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: ISAÍAS 11.1-10

08 DEZ 2013

MATEUS 3.1-12 ROMANOS 15.4-13

Claiton e Marivete Kunz

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Introdução

Já estamos na segunda semana do Advento, o período das quatro semanas que precedem o Natal. Este é um momento de celebração, de caminhar, de preparar a comunidade para que ande em direção ao nascimento de Cristo. É hora de refletir sobre o que Cristo tem oferecido e sobre a necessidade de arrependimento de cada cristão. Os textos para esta mensagem mostram que este é o momento em que o nome de Cristo deve ser glorificado e também de olhar para o próximo com a finalidade da mútua edificação. Cristo é o exemplo de esperança que cada cristão pode e deve ter, pois por meio dele somos recebidos e aceitos. Da mesma forma, é necessário que o nosso próximo seja olhado com bondade e que assim a compaixão venha a ser estimulada por nossas ações. Cristo foi o maior exemplo de compaixão, e por meio das Escrituras todo cristão é incentivado a seguir, tendo como alvo a realidade das coisas espirituais. O texto de Romanos 15.4-13 deixa evidente a importância do cristão mostrar a seu próximo o lugar de Cristo na sociedade. Num mundo assolado por erros, não somente se faz necessário, como também deve o cristão sentir-se responsável, através de sua experiência, por apresentar a esperança que se pode ter em Cristo, pois, mesmo sendo justo, Ele sofreu em benefício do próximo. Ter unidade com o semelhante é um alvo a ser seguido, bem como a aceitação do outro, como Cristo aceitou cada um de nós. Essa ênfase também pode ser observada no texto de Isaías 11.1-10. Em Isaías, vemos que em Cristo é possível haver paz e harmonia.

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Exegese

V. 1 – O remanescente diz respeito a um rebento proveniente de um toco aparentemente morto, bem diferente daqueles que anteriormente haviam sido cortados pelo Senhor, por meio do cativeiro, devido ao orgulho e pecados (10.3334). Apesar da dinastia de Davi ter findado, de sua descendência é que viria o Messias. O termo utilizado, no original, para toco ou rebento é neser, que tem como ênfase a ideia de um título messiânico. Esse termo também faz alusão a Mateus 2.23: “Ele será chamado Nazareno”. Vemos claramente a ligação com o termo hebraico neser. O autor não fala de Davi, mas de Jessé, mostrando um momento da história em que a grandeza e o governo não estão ligados ao nome Davi. Ou seja, a casa real voltará ao momento ou à posição sem o prestígio do início, como na época de Jessé. Assim, o profeta mostra que Deus começará novamente. Como diz Kamp:

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“... ele suscitará um novo Davi, assim como fez um novo começo com o ‘primeiro’ Davi. Do humilde Jessé mais uma vez sairá um grande rei” (p. 50). V. 2 – O seu reinado será justo e reto, pois o Espírito do Senhor o estará conduzindo. Esse reinado será grandioso porque o rei apresentará vários aspectos provenientes desse Espírito: sabedoria e inteligência; conselho e fortaleza; conhecimento e temor do Senhor. Essas características indicam plenitude da obra do Espírito, algo que não faz parte das capacidades humanas, mas indica a vinda de Cristo, o rei da casa de Davi. V. 3 e 4 – O fato dele ter o Espírito Santo de Deus faz com que ele governe com justiça e não seja enganado. O seu reinado será justo e piedoso, e Ele defenderá os pobres. É também devido à plenitude, acima citada, que Ele governará de maneira justa. V. 5 – O cinto, no contexto daquela época, era algo importante para os trabalhadores e viajantes. V. 6-9 – Nesse reinado haverá restauração, inclusive da criação. Tal restauração é proveniente da harmonia, quando não mais existirá o pecado. Esse reinado será algo como a volta ao paraíso, tendo em vista que não haverá mais inimizade e perigo de animais entre si e entre os seres humanos. O segredo de tal reinado pacífico está no conhecimento do Senhor. Os versículos em destaque mostram os animais vivendo em harmonia entre si e com o ser humano, que também já é visto como reconciliado com Deus. Quando a harmonia vier a existir, é porque o mal terá sido extirpado, tudo será como um novo paraíso. A harmonia tem por fundamento o conhecimento pleno de Deus, que todos os seres humanos possuirão. V. 10 – A diferença de tal reinado fará com que todas as nações busquem o conselho desse rei. Nesse momento, o sucessor proveniente de Davi será procurado.

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Meditação

O nome Isaías significa “Iavé salvará” ou “Iavé é a salvação”. Os capítulos 1 a 39 mostram o interesse de Isaías em mostrar essa salvação. Nesses capítulos, o profeta mostra a salvação fazendo referência especial à Assíria. A salvação aponta para os aspectos pessoal e social (da cidade). Entretanto, é importante lembrar que essa salvação vem associada à estabilidade que haverá, bem como à sabedoria, ao conhecimento e ao temor do Senhor, que o Messias possuirá ao governar. Tal contexto aponta para um período futuro, pelo qual o povo tem esperado. O autor mostra que as promessas feitas dirigem-se ao tempo em que o Messias reinará. Por meio da mensagem do profeta tiramos algumas lições para nós, como cristãos. Aprendemos que precisamos lutar por um mundo diferente, independente dessa atividade ou ação a ser esperada para o futuro, quando o Messias cumprirá sua função. Por meio da mensagem do profeta vemos que o Messias é esperado no futuro, mas nós fomos chamados para trabalhar em prol de um mundo diferente no tempo presente. Esse mundo diferente só pode existir a partir de alguns aspectos que elencamos a seguir.

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3.1 – Um mundo diferente a partir da santidade Isaías 11.1 remete ao “remanescente”. Quando falamos em história bíblica, os remanescentes são aqueles que sobreviveram a algum julgamento. No texto de Isaías, o remanescente herdou as promessas. Entretanto, o recebimento dessa promessa ocorreu a partir do remanescente que foi purificado. Assim, a ênfase no remanescente tem ligação com a santidade. Embora o Senhor seja um Deus misericordioso, a falta de santidade de seu povo pode resultar em destruição, para que a mesma seja restaurada. Nesse sentido, a santidade é algo que traz benefícios a todos e pode contribuir para a chegada de um momento harmonioso entre seres humanos e criação. Quando lemos Isaías 11.1-10, percebemos que Deus espera integridade de seu povo. Para que isso ocorra, é necessário que a humanidade compreenda e assimile os atos de Deus por meio de sua santidade. O próprio Iavé pede que seu povo venha a ser um povo ou nação santa (Êx 19.6). A santidade do povo cristão somente pode existir e ser perceptível no mundo se os cristãos cumprirem os mandamentos de seu Deus na prática. Um mundo de pessoas santas é um mundo capaz de relacionar-se com um Deus igualmente santo. O autor de Hebreus exorta-nos enfaticamente: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). 3.2 – Um mundo diferente a partir da ética e da moral É necessário que haja um reconhecimento de pecados e erros para o mundo ser melhor no que diz respeito a questões éticas e morais. Sabemos que problemas éticos e morais conduzem ao caos. Entretanto, Isaías e outros textos do Antigo Testamento mostram que o Espírito do Senhor pode trazer a ordem nos diversos âmbitos existentes. Assim, aqueles que possuem o Espírito do Senhor têm condições de auxiliar, mostrando os desígnios de Deus no que se refere a questões morais e éticas. O impacto que uma vida moral e ética, conforme os padrões bíblicos, pode trazer à sociedade não pode ser mensurado. Viver moral e eticamente de maneira que agrade ao Senhor é uma forma de anunciar o nome de Cristo, tanto no meio cristão como em meio às nações gentias, a exemplo do que fez João Batista, conforme o texto de Mateus 3. O Sermão do Monte (Mt 5-7) é um exemplo muito claro do que Deus espera para a vida ética daqueles que fazem parte do reino de Deus. 3.3 – Um mundo diferente a partir da justiça Quando o texto-base fala em salvação, há ligação com a ideia de justiça e juízo. Quando nos referimos à justiça, fazemos menção a estar em concordância com o que Iavé pede, sabendo que, em algumas situações, é muito difícil, humanamente, exercer tal justiça ou atos de misericórdia para com o próximo. Entretanto, com esforço e auxílio do Senhor, isso é possível. Isaías 11.3-5 mostra que essa justiça é um atributo da figura messiânica. Por isso o ser humano precisa

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de auxílio para pô-la em prática. Quando a justiça vier a existir de forma mais intensa, ainda antes do reino esperado, toda a terra sentirá seus benefícios, não somente os cristãos. A justiça diz respeito, especialmente, a defender o fraco e não está ligada somente a questões de administração. É preciso lembrar que a justiça é algo que o Senhor espera de todos, mas especialmente de seu povo. É praticando a justiça que o povo santo pode ser luz num mundo cheio de trevas. Quando lemos alguns textos do Antigo Testamento, especialmente os profetas, compreendemos que é o Espírito do Senhor quem capacita para a realização de determinadas atividades. Por isso aqueles que conseguem praticar a justiça são aqueles que verdadeiramente possuem o Espírito do Senhor repousando sobre suas vidas (v. 2). Esses são os que possuem sabedoria e entendimento de Iavé. Apesar de ser o remanescente santo que certamente praticará a justiça em sua plenitude, todo cristão deve buscar orientação bíblica e o Espírito do Senhor para praticar a mesma, embora de forma limitada. Um mundo diferente, um mundo salvo, é um mundo no qual as pessoas seguem as orientações do Senhor, vivendo em santidade, vivendo de maneira ética e moral e praticando a justiça. Essa é uma sociedade ideal, em que é possível haver paz e reinar harmonia, inclusive entre o mundo humano e a natureza.

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Imagens para a prédica

Pode-se contar a estória de um homem que caiu em um buraco para mostrar que a salvação e um mundo melhor dependem de ações. Algumas coisas o Senhor fez por nós, outras nós precisamos fazer pelo próximo. O que cada cristão tem feito é a pergunta que precisamos fazer. Um homem caiu em um buraco, de onde não conseguia sair. Um viajante passou por perto e disse ao homem que meditasse a fim de purificar sua mente. Assim, quando ele atingisse o Nirvana, todo o seu sofrimento acabaria. O homem fez o que o viajante lhe disse, mas permaneceu no buraco. Outro homem apareceu. Esse segundo homem explicou que o buraco não existia e que o homem também não era real. Tudo era uma ilusão. Mas o homem que não existia ainda estava preso no buraco que não era real. Um terceiro visitante chegou. Esse instruiu o homem a fazer boas obras para elevar seu carma, e mesmo que ele morresse no buraco, ele poderia reencarnar em algo melhor em sua próxima vida. Veio então outro homem. Esse olhou do alto do buraco e ensinou aquele que estava no buraco a orar cinco vezes por dia, voltado para o leste, e a seguir cinco importantes mandamentos. Se ele fosse fiel, talvez algum dia o divino o libertasse. O homem orou o melhor que podia, mas estava perdendo suas forças e permaneceu no buraco. Foi então que outro homem apareceu. Havia algo diferente nele. Ele chamou o homem no buraco e perguntou se ele queria ser liberto. Aquele homem então desceu à terra, dentro do abismo. Ele pegou o homem e levou-o até a luz. E o homem que não conseguiria salvar-se sozinho foi salvo. Observação: essa estória pode ser encontrada em forma de vídeo na internet. Se desejar apresentar a ilustração em forma de vídeo, você pode procurar no YouTube o vídeo com o título “O homem que caiu no buraco”.

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O sapateiro trabalhando para Deus Horton cita um episódio de Lutero. Um sapateiro convertido perguntou-lhe o que deveria fazer para servir bem a Deus. Talvez esperasse o conselho de fechar seu negócio e tornar-se pregador do evangelho. Lutero respondeu: “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”. Ele serviria a Deus sendo um profissional competente e honesto (disponível em www.hermeneutica.com). A enfermeira trabalhando para Jesus Uma enfermeira fazia curativos em muitas feridas de um paciente. Alguém, impressionado, disse-lhe: “Nem por um milhão eu faria um trabalho desses”. Ela lhe respondeu: “Eu também não, mas faço tudo por amor a Jesus, como se estivesse cuidando dele. Ele me amou, cuidou da minha dor, das minhas feridas. Estou retribuindo esse amor” (disponível em www.hermeneutica.com).

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Subsídios litúrgicos Algumas frases de impacto para auxiliar na liturgia do culto: • Há duas coisas para as quais não há esperança: salvação sem Cristo e salvação sem santidade (C. T. Studd). • Uma vida santa não é uma vida ascética, melancólica ou solitária, mas uma vida regida pela verdade divina e fiel ao dever cristão. É viver acima do mundo, embora ainda estejamos nele (Tryon Edwards). • O que a saúde é para o coração, a santidade é para a alma (John Flavel). • A santidade é o lado visível da salvação (C. H. Spurgeon). • A santificação é gradual; se ela não aumentar, é porque não está viva (Thomas Watson). • A santidade é necessária para a paz atual e para a glória futura (William Jay). • Qualquer pessoa que pense ser cristã e que tenha aceitado Cristo para obter justificação, quando, ao mesmo tempo, não o aceitou para santificação, está miseravelmente enganada nessa experiência (A. A. Hodge). • Deus salvou-nos para nos tornar santos, não felizes. Algumas experiências podem não contribuir para a nossa felicidade, mas tudo pode contribuir para a nossa santidade (Vance Havner). • O maior milagre que Deus pode fazer atualmente é tomar um homem impuro de um mundo sem santidade, torná-lo santo e colocá-lo de volta naquele mundo impuro, conservando-o santo (Leornad Ravenhill). • A santidade não é o caminho para Cristo; Cristo é o caminho para a santidade (Adrian Rogers). • Semeie santidade e colha felicidade (George Swinnock). • Nenhum homem pode ser um verdadeiro membro da igreja de Deus se for um estranho à justiça moral (Anônimo). • Fomos redimidos não somente para ser legalmente salvos, mas também para ser moralmente sadios (J. Blanchard).

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• Nossa grande necessidade atual não é de mísseis teleguiados, mas de uma moral bem dirigida (George L. Ford). • Todas as obrigações morais resumem-se à obrigação de conformar-se à vontade de Deus (Charles Hodge). • Assim como o marinheiro estabelece sua posição no mar baseando-se pelo sol, também podemos fixar nosso ponto de apoio moral focalizando Deus (A. W. Tozer).

Bibliografia DILLARD, R. B.; LONGMAN III, T. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006. KAMP, Peter W. van de. O profeta Isaías. Sinodal: São Leopoldo, 1987. LASOR, W.; HUBBARD, D.; BUSH, F. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999. SCHÖKEL, L. Alonso; DIAZ, J. L. Sicre. Profetas I: grande comentário bíblico. São Paulo: Paulinas, 1988.

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PRÉDICA: MATEUS 11.2-11

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ISAÍAS 35.1-10 TIAGO 5.7-10

Cristina Scherer La prisión termina, la prisión malvada, pero continúa la prisión del alma, del alma. La prisión se deja, la prisión del hombre, pero continúa la prisión insomne, insomne. La prisión se aleja, la prisión amarga, pero continúa la prisión del alba, del alba. La prisión acaba, la prisión del hierro, pero continúa la prisión del sueño, del sueño. La prisión (Silvio Rodriguez)

1 Introdução Essa linda canção do cantor cubano Silvio Rodriguez destaca os sentimentos daquelas pessoas que já sofreram encarceradas numa prisão. Toda prisão é cruel, amarga, malvada, é a prisão de ferro que interrompe sonhos, utopias e ideias. Pelo menos é assim que acontece com pessoas que são presas, não para pagar por um delito cometido, mas para ser caladas, sufocadas, menosprezadas e diminuídas em sua ação e luta por liberdade, justiça e paz. Esse foi o sentimento que também experimentou João Batista, precursor de Jesus Cristo. Podemos afirmar que ele também sofreu a prisão tida como injusta por denunciar a crueldade do sistema político da época em que vivia e por defender o projeto de Deus de vida digna e em abundância para seu povo. Escrevo este auxílio homilético na primeira quinzena de junho de 2013, quando irrompem várias manifestações do povo em todo o mundo. De forma especial, recebem destaque os protestos na Turquia e no Brasil, onde milhares de pessoas questionam o sistema que explora, que domina, que oprime nas grandes e pequenas cidades. Jovens e adultos foram para as ruas para clamar por inversão de prioridades por parte dos governos. Não mais os grandes projetos, mas o povo com suas necessidades básicas como transporte, educação e saúde deve ser prioridade. Neste tempo em que deve ser um direito de cada cidadão clamar e manifestar-se publicamente, de forma pacífica, governos reagem com violência e prisões injustas. Muitas são as pessoas que não desejam a violência, mas somente querem manifestar a opinião de forma pública contra governos e instituições que, por sua vez, não estão dispostos a ouvir o clamor do povo, não querem que ocorra metanoia (transformação) em suas posturas e atitudes. Tal qual vivenciou João Batista em seu tempo por ser profeta e colocar o “dedo na ferida” do sistema, assim também em todos os momentos da história pessoas sofrem retaliação por ser contra o sistema de opressão e morte, sofrendo assim a prisão da alma, dos sonhos, do projeto de vida e dignidade plena, vislumbrado por Deus para todas as pessoas.

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2 Exegese 2.1 – Contexto de João Batista A época de João Batista é a mesma em que viveu Jesus, o Cristo. Israel tornara-se uma procuradoria do Império Romano no ano 6. Roma impunha as suas leis, explorando e subjugando o povo de todas as formas. Era um sistema de opressão, de domínio, de males e de perseguição aos que não se adequavam ao cumprimento das leis advindas de Roma. O Império Romano, sempre que possível, tentava pacificar os territórios conquistados com a Pax Romana, uma paz aparente, mantendo os privilégios da classe dominante. O Templo de Jerusalém, ao invés de denunciar as injustiças e colocar-se ao lado do povo de Israel, era completamente controlado pelos interesses econômicos. Entre os que se beneficiavam do sistema político por intermédio de favores e pactos e do sistema econômico por meio de enriquecimento indevido não havia nenhuma expectativa da vinda do Messias. Quem almejava sua vinda era o povo simples, explorado, subjugado, desprezado pelas leis injustas, pelo sistema de morte. O povo alimentava a esperança de que o Messias agiria com força, juízo e poder contra a ação e os desmandos dos poderosos. Se a religião oficial não está a favor do povo explorado, eis que surgem profetas. Foi assim no Antigo Testamento, e é assim nos dias de hoje. Quando a sociedade está imersa no sistema, quando o sistema engole e sufoca a esperança de renovação, algo precisa mudar, multidões se organizam, protestam, clamam por mudanças. No tempo de Jesus, também aconteceu assim. Eis que surge uma voz que clama no deserto. Essa voz diz: Não! Basta de maldade, de exploração, de hipocrisia; é preciso ser diferente, é preciso haver metanoia, mudança de comportamento! E a voz do profeta junta-se às milhares de vozes que não se ouvem, que não falam, que não ecoam, porque o sistema as sufoca e cala. E por falar, denunciar o sistema e anunciar o projeto de Deus, o profeta é perseguido, preso e morto. Mas sua voz e sua luta não foram em vão. O nosso Deus está presente. Não tenham medo, animem-se (Is 35.4). 2.2 – Quem era João Batista? João Batista era um homem simples, de vestimenta rude, com alimentação distinta, era um profeta de seu tempo. João, filho de Zacarias e Isabel, primo segundo de Jesus, veio para preparar o caminho daquele que seria o Salvador. Foi ele quem batizou Jesus no rio Jordão (Mt 3.13-17). E Jesus diz a seu respeito que é mais do que um profeta. Em sua pregação, João anunciava: Metanoeite, êggiken gar he basileia tôn uranôn, ou seja: “Mudem de mente (ou de ideias, ou de comportamento) porque chegou o reino dos céus”. Ou numa tradução mais livre: “Arrependam-se, porque já chegou o reino de Deus”. Foi esse o incômodo e inoportuno grito de João Batista. Ele afirmava que “o Messias já chegou para julgar o mundo... O

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tempo terminou... Já não há mais oportunidade para o arrependimento”. João faz precisamente o contrário do que faziam os religiosos de seu tempo. Ele é considerado o último dos profetas e, segundo o próprio Jesus, “mais que um profeta”, “o maior entre os que nasceram de mulher”, o mensageiro que veio diante dele a fim de lhe preparar o caminho, anunciando a sua vinda (Lc 7.26-28), pregando aos povos a conversão pelo conhecimento da salvação e do perdão dos pecados (Lc 1.76s). João denuncia, com coragem, a vaidade, o orgulho, a exploração, a hipocrisia, a soberba e o acúmulo presentes no sistema do Império Romano nas províncias dominadas. Ele mexe com os poderosos e suas tradições que não promovem vida. Por sua austeridade e fidelidade ele é confundido com o próprio Cristo, mas, imediatamente, retruca: “Eu não sou o Cristo” (Jo 3.28). Quando seus discípulos hesitavam, sem saber a quem seguir, ele apontava em direção ao único caminho: Jesus de Nazaré, um judeu simples de seu tempo, nascido de mulher, que foi a encarnação do próprio Deus. 2.3 – Preso por quê? Emílio Voigt afirma o seguinte: “Mateus 11.2-11 fala de um regime rico, autoritário e violento. João Batista é um crítico, está do outro lado do muro. Está na periferia, no deserto. Por causa do Reino do Messias, do qual é uma espécie de precursor direto, João ataca o sistema. Seus ataques culminam com sua prisão. No cap. 14, Mateus relata que o motivo da prisão seriam as aventuras amorosas de Herodes, criticadas por João. Seria apenas uma questão familiar ou sexual? É difícil acreditar que sua prisão seja consequência apenas da acusação de adultério feita ao tetrarca. Conforme Milton Schwantes, no auxílio elaborado para Proclamar Libertação X (a respeito da morte de João Batista), a cabeça de João Batista rola por causa do sistema político (PL X, p. 79). Esse sistema de dominação, de cima para baixo, é denunciado e desprezado pelo próprio Jesus em nosso texto: os que usam roupas finas estão nas casas dos reis (Mt 11.8). Os adeptos dos palácios estão longe de João Batista, em oposição a ele. Mais especificamente, estão contra o projeto do Messias, que é o motivo de toda a atuação de João Batista” (PL XXI, p. 32s). De fato, Herodes havia mandado prender João, acorrentá-lo e colocá-lo na prisão por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe (Herodes Boeto, segundo outras fontes). Pois João vivia dizendo a Herodes: “Não te é permitido tê-la”. Herodes é apresentado como um indivíduo imoral, que não teve escrúpulo em tomar como esposa a mulher de seu irmão Filipe. Herodes ficou cheio de ódio por ter sido censurado por João. Não o matou logo por temer o povo, que tinha o Batista na conta de profeta. Mas o encarcerou na fortaleza de Maquerus, próxima ao mar Morto (ROPS, p. 48). Foi um homem cruel, violento, frio e sem discernimento. Seu juramento imponderado obrigou-o a agir contra a sua própria consciência. Apesar de se ter entristecido quando a filha de sua concubina lhe pediu a cabeça de João numa bandeja, atendeu o pedido dela, mandando-o decapitar.

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João Batista é um homem livre e temente a Deus. Não suporta o abuso dos grandes, denuncia suas maldades. Homem corajoso! Nem a prisão tampouco a ameaça de morte fazem-no voltar atrás. Porém, num último instante, surge uma dúvida. 2.4 – Uma dúvida na prisão João queria saber se Jesus era de fato o Messias. Durante seu tempo na prisão, João começou a refletir sobre o ministério de Jesus, e a dúvida tomou conta de seu coração. E por que João duvida daquele sobre quem dizia que não era digno de desatar suas sandálias? Podemos imaginar o que passa na cabeça de João durante a sua prisão: sentimento de impotência, raiva, sentimento de que tudo o que anunciou e fez foi em vão, pois não via resultados palpáveis. Pois nada de mal tinha feito para estar ali naquela prisão amarga e fria. Talvez naquele momento, João age como o discípulo Tomé: quer ver para crer. Ele espera resultados mais rápidos. Quanto tempo ainda terá de esperar para saber se sua missão não foi em vão? Onde está o tal Messias? O que anda fazendo que não irrompe com força e violência sobre o sistema imposto por Roma? Onde estão suas ações? Lembremos que João tinha anunciado um Messias cujo batismo tinha caráter de juízo. O machado já está posto à raiz (Jo 3.10), afirmava ele. Ele, de fato, espera que o Messias irá agir com força e derrubará os que exercem poder. Talvez esperasse de Jesus até uma invasão na prisão para libertá-lo, cf. Is 61.1 (MATEOS, p. 126). João deseja saber, quer ver; porém preso, isso não é possível. Ele conta com a ajuda de pessoas que o foram visitar. Seus amigos, discípulos, seguidores, pessoas em quem de fato poderia confiar. De sua cela na prisão João ouvia falar dos ensinamentos e milagres de Cristo (Mt 11.2). Em resposta, ele enviou dois de seus discípulos para perguntar a Jesus se ele era de fato aquele que deveria vir (Mt 11.3; Lucas 7.19-20). João estava confuso, porque o ministério de Jesus não se encaixava em seu anúncio tão enfático do cumprimento do juízo, da ação imediata, da ação de Deus e seu reino contra o sistema e o império do mal. João queria a rápida irrupção do reino de Deus. Porém esse, conforme anunciado por Jesus, começa pequenino, de forma tímida, até tornar-se grande em obras e ações, tal qual o grão de mostarda e o fermento usado no pão. Jesus, ao saber da dúvida, da ansiedade que corroía o coração de João, não respondeu de forma áspera ou rude. Pede a João para que olhe ao seu redor e observe os sinais do reino de Deus presentes na vida do povo: doentes são curados, valorizados, reintegrados na sociedade, demônios são expulsos e o poder de Deus passa a reinar ali onde há trevas e escuridão, cegos, coxos, leprosos podem ter uma vida digna, porque são curados, mortos são ressuscitados. Tudo isso é sinal de que a vida, ainda que sem violência e de forma sutil, vai vencendo os poderes da morte e de seu sistema. Jesus não quer que João permaneça na dúvida a seu respeito e com ela surja a resignação diante da luta e da prisão. Antes de tudo, deseja animá-lo, ajudá-lo, visitá-lo com essas palavras de força e esperança. Todos os traços com que Jesus descreve suas ações são de libertação e cura. Nenhuma ação fala de juízo ou julgamento, como João esperava. Jesus afirma em Mateus

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11.6 que bem-aventurada e feliz é a pessoa que não se escandaliza com ele, quer dizer, com sua proposta de ação, que valoriza a vida acima da lei, que acolhe pequeninos e violentados da sociedade, que ouve a voz do povo que clama por justiça e melhores condições sociais e organiza-se nas ruas, que se importa com os valores do reino e com valores econômicos ou políticos acima da vida do ser humano. Quem aceitar o seu modo de agir e, assim, a sua vida e a sua missão é bem-vindo no reino de Deus e poderá participar da grande festa (cf. Mt 22.1-14). Jesus dirige-se então às multidões, referindo-se a João. E pergunta à multidão o que pensa a respeito daquele que pregou no deserto, batizou no rio Jordão e que agora, por sua coragem e fidelidade ao projeto de Deus, encontra-se, de forma injusta, na prisão. Jesus pergunta se as pessoas haviam ido ver uma cana agitada pelo vento (Mt 11.7; Lc 7.24). Jesus deixa claro que João não é um homem inconstante levado de um lado para outro (Tg 1.6). João era um homem de fé, que em um período de profundo desânimo, resultado de seu aprisionamento e de uma má compreensão do ministério de Jesus, teve um período de dúvida. Ele também pergunta sobre a aparência física de João, já que ele não era um homem vestido com roupas reais (Mt 11.8; Lc 7.25). Jesus fez essas duas perguntas para chamar a atenção das pessoas sobre quem João realmente era. Assim, Jesus confirma que João era um profeta e, de fato, mais do que um simples profeta (Mt 11.9; Lc 7.26). Jesus esclarece que João era, na verdade, o precursor que foi profetizado em Malaquias 3.1 (cf. Mt 11.10). Todos os profetas haviam falado do Messias que viria, mas apenas João teve o privilégio especial de anunciar e presenciar sua chegada. Isso fez dele o maior dos profetas. Jesus confirma que João era, de fato, a resposta de Malaquias 4.5-6 (Mt 11.13-14). João era o último dos profetas do Antigo Testamento. Ele veio na plenitude dos tempos para fazer o papel de Elias e preparar o caminho para o Senhor Jesus. Contudo, assim como ele mesmo havia dito, era chegada a hora de Jesus crescer e João, necessariamente, diminuir. Mesmo sendo elogiado por Jesus como grande profeta, que se manteve fiel ao plano de Deus, João teve seu período de dúvida. João esperava que Jesus trouxesse juízo imediato sobre os pecadores. E quando foi preso injustamente por Herodes, ele começou a questionar se Jesus era realmente o Messias. Jesus não trabalhava como João esperava. Então sua fé foi abalada. Entretanto Jesus não ficou irado ou decepcionado com ele. Ao contrário, Jesus usou a oportunidade para uma vez mais mostrar que era o Messias ao reiterar a mensagem que ele havia proclamado anteriormente em seu ministério (Lc 4.17-19). É sempre em nossos períodos de provação e luta que nossa fé acaba por ser fortalecida e animada.

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Imagem para a pregação: E as prisões de hoje?

Somos realmente livres? Essa é uma pergunta que nos faz refletir sobre nossa condição de cidadãos e cidadãs no mundo. Podemos manifestar-nos livremente contra os sistemas que hoje dominam, excluem, matam, abrem feridas, exploram e subjugam? Por vezes, somos “presas” que estão presas dentro de um sistema de poder e força, de interesses políticos e econômicos, tal qual foi no tempo de João Batista. E nós ainda temos o direito de clamar e de nos organizar?

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Nosso grito por inversão de prioridade é ouvido? Diante de inúmeras manifestações pelas ruas no mês de junho de 2013 no Brasil e no exterior, reproduzo um comentário de Antônio Celso Ferreira: “Saí para comer um lanche e ver as manifestações. O que presenciei é alucinante. Grupos de jovens que se dispersam e se reagrupam, desarmados, com a polícia no seu encalço. Polícia? Tropa de choque, cavalaria, agentes da repressão por todos os lados. Bombas de gás estouram em todas as esquinas. (...) E todos, quase todos, comentam pelas ruas que a repressão é absolutamente desproporcional ao movimento. Nada justifica. São Paulo é uma praça de guerra. E o movimento não vai parar, longe disso. (...) Nada mais podemos esperar desses governos, tanto o estadual como o federal. Vi diversas cenas de populares não envolvidos com a manifestação, indignados e gritando contra a violência policial. Os governos estão sendo desmascarados. Essa forma de poder – que já não mais existe porque os governantes são apenas técnicos e capachos do capitalismo alucinado em crise – não mais se sustenta. (...) Os jovens estão aprendendo a protestar e não temem mais a polícia nem os governos. Sabem que não são confiáveis. O mundo mudou e continuará mudando. Salve os movimentos sociais!” (O que aconteceu ontem em São Paulo não pode ser aceito. Disponível em: <http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content& task=view&id=18499&Itemid=2>). Isso nos faz refletir sobre a ação de João Batista, de Jesus Cristo e da igreja de nossos dias. Que relação ainda existe entre essas três formas de agir na atualidade? Somos igreja profética? Apoiamos gestos proféticos presentes na sociedade? A igreja ainda luta pela inversão de valores, pela luta digna dos pequenos e simples por dignidade em detrimento dos grandes projetos de poder? Ainda deixamos que a mensagem do menino nascido no cocho de animais em Belém transforme nosso agir? Essas situações e questionamentos me remetem à canção do Povo Canta, n. 142 – Tempo Presente, que poderá ser entoada no culto ou lembrada na pregação (Como calar a voz se a hora é de denunciar?). O que ainda temos que denunciar publicamente neste Advento em nossa cidade e comunidade?

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Subsídios litúrgicos

Enquanto preparo este auxílio homilético, um carro de som passa na rua, convocando os servidores públicos para uma reunião com a pauta da greve geral. E a música que toca é aquela tão cantada em anos anteriores, por vezes esquecida em nossos acervos musicais, mas que traz uma mensagem de luta, sonho, libertação. Sugiro como canto de entrada ou após a pregação a música Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. A letra dessa canção está gravada em nossas memórias e poderá ser usada como bênção final ou cantada com a comunidade: Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer (...)!

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3º Domingo de Advento

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Testemunho e ação

Proponho envolver os grupos da comunidade, OASE, jovens, casais, LELUT e outros para uma ação concreta neste tempo de Advento. Advento é tempo de solidariedade, de romper barreiras, de ir ao encontro de outras pessoas. Jesus disse: “Estive preso e me visitastes” (cf. Mt 25.36). Uma atividade de visitação com cantos e mensagens poderia ser levada aos presos da cidade, anunciando a palavra de paz, amor e justiça contida no evangelho e vivenciada no tempo de Advento, tempo de espera, de preparação. A missão da Pastoral Carcerária no Brasil tem agido para minimizar a dor e o sofrimento daqueles e daquelas que vivem enclausurados no sistema carcerário do Brasil, que é o quarto maior do mundo. Vale a pena conferir os sites abaixo mencionados que lembram a realidade carcerária do nosso país e a proposta que a igreja apresenta no sentido de inverter prioridades e de ser fiel à atuação de João Batista e Jesus Cristo na atualidade: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/05/120529_presos_onu_ lk.shtml http://carceraria.org.br/

Bibliografia MATEOS, Juan; CAMACHO, Fernando. O Evangelho de Mateus – Leitura comentada. São Paulo: Edições Paulinas, 1993. ROPS, Henri Daniel. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991.

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4o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: ROMANOS 1.1-7

22 DEZ 2013

ISAÍAS 7.10-16 MATEUS 1.18-25

Valdemar Gaede

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Introdução

Percebe-se uma bonita relação entre os três textos bíblicos previstos para o quarto domingo de Advento (Is 7.10-16; Mt 1.18-25 e Rm 1.1-7). Da mesma forma, é possível aproximar os referidos textos à época litúrgica do Advento. Veremos isso a seguir. Da leitura de Isaías 7.10-16 vem o enunciado teológico de que, em meio às afirmações veterotestamentárias de que Deus está no comando e de que ele dirige, exige e impõe, existe também o anúncio do Deus Emanuel, isto é, do Deus que vem ao encontro do ser humano, que caminha junto e que assume radicalmente a condição humana. O Deus-conosco não está ausente no Primeiro Testamento. Inúmeros textos dão a conhecer o Deus que desce e que caminha junto com seu povo. Basta lembrar o tema do livro do Êxodo. Porém, na história do nascimento de Jesus (Mt 1.18-25), o rosto do Deus Emanuel torna-se definitivamente visível aos olhos humanos, principalmente para aqueles que, por força da “teologia” dos dominadores, tinham quase se conformado em crer num Deus que somente exige, impõe e ameaça. Segundo o evangelho previsto para o dia, o humilde carpinteiro José e a humilde moça Maria acolheram em sua história de vida, embora com algum sentimento de surpresa ou de espanto, a novidade do Deus-conosco. Da epístola do dia (Rm 1.1-7) sublinho a ideia de que o Deus-conosco, descendente de Davi, surpreende com seu jeito de cativar seguidores como o apóstolo Paulo, um “nascido fora de tempo” (1Co 15.8), cujo apostolado ficou marcado pela teologia da inclusão: “Em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado de beber de um só Espírito” (1Co 12.13). A boa-nova do Deus-conosco vence as leis exclusivistas que estavam arraigadas na tradição judaica durante séculos ou milênios e faz surgir comunidades abertas e acolhedoras em que todas as pessoas são incluídas. Em seu apostolado inclusivo, Paulo fez grandes esforços no sentido de levar o evangelho do Deus Emanuel a todos os povos. Advento é vinda, chegada, Deus-conosco, Emanuel. E os três textos previstos para o dia, portanto, convergem nesse tema. O Deus encarnado, que veio a nós, conclama-nos e capacita-nos para edificar comunidades acolhedoras.

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4º Domingo de Advento

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Exegese

Existe farto material exegético sobre a Carta de Paulo aos Romanos na série “Proclamar Libertação”. Em apenas dez do total de 37 volumes não foram abordados textos dessa epístola, que, segundo Lutero, é “o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro evangelho [...]. E quanto mais se lida com ele, tanto mais agradável e gostoso o texto fica. Nele encontramos em superabundância aquilo que um cristão deve saber: o que é lei, evangelho, pecado, castigo, graça, justiça, fé, Cristo, Deus, boas obras, amor, esperança, cruz. E como devemos proceder com todo o mundo, seja justo ou pecador, forte ou fraco, amigo ou inimigo, e em relação a nós mesmos” (cf. Obras Selecionadas de Martinho Lutero, v. 8, p. 129,140-141). Por causa da abundância de material exegético disponível no “Proclamar Libertação”, atenho-me aqui a uma breve análise, versículo por versículo, do texto em pauta. V. 1 – “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo para o evangelho de Deus...” Paulo define seu apostolado como apostolado de serviço. É o Paulo-servo quem está falando. Serviço sempre resulta em cruz. Da cruz do Paulo-servo falam vários textos de suas epístolas, entre os quais 2 Coríntios 11.23ss. De acordo com o referido texto, exercitar o “ser servo” significou, no apostolado de Paulo, muito trabalho, prisões, açoites, perigos de morte, apedrejamento, naufrágios, longas jornadas, perigos de rios e de salteadores, entre patrícios e gentios, perigos de cidade e de desertos, no mar e entre falsos irmãos, trabalhos, fadigas, vigílias, fome, sede, jejuns, preocupação com todas as igrejas, fugas perigosas. O apostolado é serviço porque, de acordo com Paulo, somos “separados para o evangelho” pelo próprio Jesus-servo, que disse: “Quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos” (Mc 10.43-44), tal como o Filho do Homem, “que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28). Aquele a quem Paulo serve “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7). Não existe outra posição na igreja cristã senão a de serviço. Igreja é serviço. Ser “separado para o evangelho de Deus” é ser cativado pelo Jesus que serve. Jesus não obriga com a imposição da lei, mas cativa com o evangelho do serviço. E quem foi cativado serve no sentido do evangelho-serviço. Ser separado para o evangelho de Deus não é estar a serviço da lei. No primeiro versículo do texto em pauta, já está presente toda a teologia de Paulo, baseada no “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). Evangelho é sempre serviço à vida como fruto da fé amparada na graça divina. Nessa primeira frase de sua Carta aos Romanos, Paulo coloca-se como servo da missão de Deus, que, segundo Isaías e Jesus, é evangelizar os pobres, proclamar libertação aos cativos e restaurar a vista dos cegos, pôr em liberdade os cativos e apregoar o ano aceitável do Senhor (Is 61.1-2 e Lc 4.18-19). V. 2 – “... o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras ...” Segundo Lutero, em sua Epístola aos Ro-

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manos, o apóstolo Paulo quis “fornecer um acesso a todo o Antigo Testamento”, pois quem tiver essa epístola no coração tem consigo “a luz e a força do Antigo Testamento”. A boa-nova à qual o apóstolo Paulo serve não interrompe a história de Deus com seu povo, mas dá continuidade à mesma. Também aqui Paulo está a serviço da palavra que inclui todos, inclusive aqueles que rejeitavam Cristo porque ainda estavam agarrados à lei do Antigo Testamento. Jesus não veio acabar com a lei, mas cumpri-la. Não existe oposição entre evangelho e revelação divina veterotestamentária, mas harmonia e continuidade. O evangelho, conforme Paulo, está de acordo com todas as promessas dos profetas antigos nas Sagradas Escrituras. V. 3 – “... com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi ...” Quando estamos a serviço do servo Jesus Cristo, não nos esquecemos do rosto humano de Jesus: segundo a carne, ele é descendente de Davi. Nessa pequena afirmação está a grande novidade do evangelho: a encarnação. O Deus-conosco (Emanuel) somente é compreensível a partir do milagre da encarnação. Maria, José, Belém, pastores de Belém, sábios do Oriente compreenderam o evangelho e colocaram-se a serviço dessa boa-nova porque creram na encarnação de Deus em Jesus de Nazaré, nascido em Belém, descendente de Davi. V. 4 – “ ... e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor ...” A ação do Espírito Santo (Batismo) e a ressurreição dos mortos fazem de Jesus de Nazaré (descendente de Davi) o Filho de Deus, o Cristo, o Kyrios. Com o v. 4 completa-se o enunciado teológico da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) no texto em questão e sempre presente nas cartas de Paulo. Os temas do Batismo e da ressurreição também perpassam não somente a Carta aos Romanos, mas toda a teologia de Paulo em todos os seus escritos (cf. por exemplo: Rm 6.114; Ef 4.1-6; 1Co 15). V. 5 – “... por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios ...” O apostolado de Paulo baseia-se na graça divina e não em obras. Essa é a boa-nova do evangelho. A graça divina desperta a obediência por fé e inclui “todos os gentios”. A graça recebida capacita para o exercício de um apostolado que inclui. Por isso o apóstolo Paulo foi o “apóstolo dos gentios”. V. 6 – “... de cujo número sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.” O apostolado da graça leva o abraço inclusivo de Deus também à comunidade de Roma. A graça divina é o que, afinal, legitima um apostolado voltado especialmente aos “de fora” e descarta qualquer tipo de “teologia” que discrimina e exclui. V. 7 – “A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós outros e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.” A saudação “graça e paz” é inclusiva. Inclui gentios e judeus. A primeira é saudação grega, e a segunda é judaica. O evangelho é para todos, sem distinção.

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Meditação

Advento é tempo de celebrar por causa do Deus que vem. É o Emanuel anunciado pelos profetas, que nos incluiu e inclui todos os povos quando os coloca sob o manto da graça divina. Nos dias de hoje, mais do que nunca é importante anunciar este Deus que vem a nós. Pois muito se prega do ser humano que pretende encontrar e alcançar Deus com seus méritos próprios ou na base de uma troca de favores: “Eu faço, e Deus me recompensa”. A encarnação de Deus (o Emanuel que se tornou realidade definitiva) passou por Maria e José (descendência carnal de Davi), sendo Jesus de Nazaré reconhecido por pessoas excluídas da sociedade e da religião daquele tempo e sendo confirmado como Filho de Deus, como Kyrios e como Cristo pela ação do Espírito Santo no Batismo e pela ressurreição. Assim, o Emanuel dos profetas é o mesmo Deus Triúno que faz de nós sua igreja não somente hoje, mas de todos os tempos e lugares. O Deus-conosco em Jesus Cristo não veio interromper a história de Deus com seu povo, mas complementá-la e torná-la definitiva e inclusiva, selando-a com sua graça, à qual temos acesso não por causa de obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo. O caminho inverso de Deus (ele vem a nós e nos separa) cativa-nos para o discipulado do serviço. Foi isso o que aconteceu com o apóstolo Paulo. Fé em Jesus, que “a si mesmo se humilhou assumindo a forma de servo”, significa estar a serviço. Celebrar a vinda de Deus a nós (Emanuel) implica serviço à vida sob a graça de Deus. Incluímos pessoas no reino do Jesus-servo e do Deus-conosco, não impondo, exigindo ou condenando, mas cativando para o serviço abnegado que assume a cruz como consequência de um discipulado que serve e inclui. Nos tempos de hoje, em que as pseudoteologias da prosperidade e da salvação por méritos são incutidas por fundamentalistas que agem de má-fé na vida de muitas pessoas e de muitas comunidades, insinuando que existe um evangelho que carrega conteúdos de supostas “maldições do tempo de Noé” ou outras ideias que discriminam e excluem minorias historicamente oprimidas e subjugadas, é imprescindível que cada vez mais nos coloquemos a serviço do evangelho que inclui, do evangelho da graça e paz, do evangelho Emanuel. O tempo litúrgico do Advento conclama-nos a vigiar não apenas num clima de espera pela segunda vinda de Cristo, mas também a ficar atentos em relação ao que é falado e é feito, de forma distorcida e em nome de Jesus, nos dias de hoje. Temas como encarnação, serviço, salvação por fé e graça, inclusão, Batismo, ressurreição e Trindade não podem ficar fora de nossas reflexões neste tempo de Advento, época que nos conclama a abrir caminho para o Deus que vem.

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Ideias ou passos para a prédica

a) É comum ouvirmos a frase “Agora encontrei Jesus”. A Bíblia, ao contrário, fala de um Deus que vem a nós e encontra-nos ali onde estamos: Emanuel, Deus conosco. No Advento, celebramos a vinda de Deus a nós e não a nossa ida a ele. Lembrar o texto do Antigo Testamento (Is 7.9-16).

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b) Maria e José, mesmo surpresos com a boa-nova do Deus que se encarna e que vem a nós, foram cativados e colocaram-se a serviço dessa boa-nova surpreendente. Lembrar o evangelho do dia (Mt 1.18-25). c) Paulo foi surpreendido e cativado (separado) pela mesma boa-nova. Seu apostolado foi de serviço e de inclusão, pois a graça revelada em Jesus Cristo alcança todos – quando há fé – e impulsiona-nos para o serviço de amor a todos sem distinção. d) Leitura do texto da prédica. e) Paulo apresenta-se como servo do Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, de descendência humana, e que, pelo poder do Espírito Santo e pela ressurreição, é para nós o Filho de Deus e o Cristo. Assim Paulo está a serviço do evangelho que separa e cativa pessoas como nós para o serviço que edifica comunidades acolhedoras e inclusivas. f) Na época litúrgica do Advento, não nos ocupamos com a pergunta de como, com a nossa religiosidade piedosa, encontrar ou alcançar Deus, mas sim em como recebê-lo em nosso meio e neste mundo na condição de comunidade cativada pelo bom evangelho da salvação por graça e fé. Esse puro evangelho nos impulsiona e capacita-nos para o serviço de acolher e de incluir todos, sem distinção, rejeitando qualquer vento de doutrina que discrimina e exclui. Advento é tempo de estar vigilante em relação a falsas doutrinas, que se opõem ao evangelho do Deus conosco, do Deus encarnado na realidade humana. g) Existem exemplos suficientes, nos dias de hoje, de uma falsa religiosidade que condena e exclui quem é diferente, que quer ser servida e não servir, que pretende re-inverter o caminho que Deus inverteu ao revelar-se como Emanuel. Como vamos celebrar o Advento e o Natal em meio a tudo isso?

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PRÉDICA: LUCAS 2.1-7

NOITE DE NATAL

ISAÍAS 11.1-9 GÁLATAS 4.4-7

24 DEZ 2013

Luiz Carlos Ramos

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Introdução

Isaías 11 anuncia o messias criança, o novo Davi. Expressões como “Do tronco de Jessé” (v. 1) fomentaram a esperança de que o prometido seria descendente de Davi, “da casa e família de Davi” (Lc 2.4). “Renovo” e “rebento” sugerem o frescor e a novidade do novo tempo anunciado. Sobre o messias repousará o Espírito de YaWeH. Será diferente dos reis que o antecederam, pois “julgará com justiça os pobres e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra” (v. 4). O messias será uma criança (“um pequenino os guiará” – v. 6), capaz de trazer o Shalom e fazer habitarem em paz lobos e cordeiros, leopardos e cabritos, vacas e ursas, leões e bois, crianças e serpentes (cf. v. 6-8). O medo dará lugar à esperança; a guerra, à paz. O restante do povo de Deus será finalmente resgatado do exílio e da diáspora (v. 11). Uma criança, descendente de Davi, cheio do Espírito de YaWeH, trará justiça aos pobres, decidirá em favor dos mansos, estabelecerá o Shalom e guiará as nações no caminho da paz. O texto de Gálatas também anuncia o messias como uma criança (huios), nascida de mulher na plenitude dos tempos para resgatar a humanidade de debaixo da Lei e fazer igualmente de nós crianças (huios) de Deus, herdeiros/as aptos/ as a chamá-lo “Abba”, o Pai. O termo huios (criança, filho) aparece seis vezes em quatro versículos, denotando a força da ideia de que a criança é protagonista na economia da salvação. A relação direta entre Isaías 11, Gálatas 4 e Lucas 2 é, portanto, a referência à descendência de Davi e ao protagonismo da criança na história da salvação.

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Exegese

O nascimento de Jesus é tratado somente em Mateus e Lucas em perspectivas muito distintas. Ambos concordam quanto aos nomes José, Maria e Jesus e quanto ao local do nascimento, Belém, bem como sobre a descendência de Davi. Não obstante, parece consenso que os dois evangelistas se serviram de fontes autônomas para compor suas narrativas. Isso explica tantas diferenças quanto aos demais detalhes. Supõe-se que a tradição lucana seja mais primitiva do que a de Mateus e por isso mais “ingênua”. Lucas compila, ao que parece, duas tradições autônomas: uma conforme registrado no capítulo 1 e outra que se lê no segundo capítulo. Os relatos do primeiro capítulo, que incluem os primórdios do nascimento do predecessor João e do próprio Jesus, desde quando seus nascimentos eram apenas promessas para o

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Noite de Natal

futuro, enfatiza o aspecto sobrenatural. A segunda narrativa (cap. 2) parece desconhecer essa história, pois não a retoma nem faz alusão a ela. O capítulo 1 é dominado, conforme se supõe, pela ideia do nascimento virginal e sobrenatural de Jesus (Maria não está casada com José), ao passo que, no capítulo dois, Maria é apresentada como esposa de José e ambos sendo os pais naturais de Jesus. Tomado somente o relato do capítulo 2, não há sugestão quanto a um nascimento sobrenatural. Jesus nasce como qualquer outra criança: depois de nove meses (“cumpridos os dias”), do ventre materno (cf. Gl 4.4). Só que vem ao mundo mais pobre do que a maioria de nós (cf. nota da Bíblia do Peregrino). Diferentemente de Mateus, Lucas procura vincular didaticamente a história do nascimento de Jesus à história do Império Romano. Para Lucas, o nascimento de Jesus não se restringe à história dos judeus, mas se trata de um evento mundial. Daí a alusão a César Augusto, a Quirino, ao senso... Os planos divinos subordinam a si os planos humanos e seus governantes. A despeito da boa intenção do evangelista, com isso as dificuldades quanto à coerência histórica do texto se multiplicaram. Nos poucos versículos que compreendem Lucas 2.1-7 abundam dificuldades exegéticas. “Naqueles dias [...] de César Augusto” – César Augusto foi imperador de 29 ou 30 a.C. a 14 d.C. Quanto à ocasião específica do nascimento, que dias seriam, afinal? A narrativa em vez de esclarecer ainda obscurece mais esse dado. “Decreto (dógma) [...] para recensear-se” – Segundo Lucas, o imperador do tempo de Jesus teria ordenado um senso universal (gr. passen tén oikoumenen), levado a efeito por Quirino, que fora governador da Síria por duas ocasiões (7-2 a.C. e 6-9 d.C.). Teria havido, sim, um senso no ano 6 d.C., mas essa data não se coaduna com a proposta da narrativa. Apologetas tentam harmonizar essas discrepâncias com manobras engenhosas (teria havido um outro, ou “primeiro”, recenseamento no ano 6 a.C.). No entanto, essa parece ser uma discussão infrutífera. “Todos iam alistar-se, cada um em sua própria cidade” – Pelo que se sabe, não era necessário que o indivíduo tivesse que viajar à terra de seus antepassados para recensear-se. Os sensos romanos baseavam-se no local de residência, e não na ancestralidade. O próprio Lucas informa que José e Maria residem em Nazaré na Galileia. Ou essa não seria sua residência permanente, estando o casal em Nazaré apenas temporariamente em função de trabalho artesanal ocasional, ou devemos supor que há objetivos mais teológicos do que históricos para essa alusão. “José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré” – Trata-se da periferia do mundo de então. Expressões preconceituosas como a de Natanael – “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46) – denotam a condição secundária a que eram relegados os galileus em geral. A não omissão a essa origem humilde é uma das características de Lucas como narrador e sua preferência por destacar tais inversões: o Salvador pode ser descendente de Davi, mas vem da periferia do mundo. “Cidade de Davi, chamada Belém” – No Antigo Testamento, a cidade de Davi é sempre Jerusalém, a cidade de seu reinado, não a de seu nascimento. Essa atribuição a Belém é própria de Lucas e deve-se, provavelmente, à sua interpretação de Miqueias 5.1 (cf. nota da TEB).

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“Maria, sua esposa” – Em gr. emnesteumene, o mesmo de Lucas 1.27, que pode ser traduzido por “desposada” ou “que foi prometida em casamento”. Segundo alguns exegetas, essa expressão deve ter sido agregada quando da redação final de Lucas para harmonizar essa com a tradição reportada no capítulo 1. Assim sendo, deve-se assumir que Maria era esposa de José. Eles estão juntos na viagem sem constrangimento, e o texto faz referência a “seu primeiro filho” ou “primogênito”, retratando-a como mãe de família, o que sugere o mesmo tipo de nascimento do primeiro e dos demais filhos. Versões siríacas trazem simplesmente “Maria, sua esposa”. “Grávida” – A narrativa do capítulo 2 não retoma a tradição da concepção sobrenatural. “Completaram-se-lhe os dias” sugere uma gravidez normal. “Enfaixou-o e o deitou numa manjedoura” – Aspectos que destacam as condições humildes e precárias do nascimento. Esses detalhes conferem um tom sentimental, vívido e dramático à narrativa. As faixas e a manjedoura servirão de sinal identificador para os pastores (cf. 2.12). “Não havia lugar para eles na hospedaria” – Habitualmente traduzida por “hospedaria”, o termo grego katalumati é o mesmo empregado em 22.11 para designar a sala da última ceia, portanto o cenáculo. Em Bethlehem, a casa do pão, não há lugar para Jesus na sala de refeição. No Evangelho de Lucas, o cenáculo tornar-se-á espaço privilegiado da comunhão e do anúncio do reino de Deus e lugar da manifestação e revelação do Cristo ressuscitado (cf. 24.13ss). “Manjedoura” – Trata-se de um cocho que servia de comedouro ou bebedouro para o gado. A estrebaria ou o estábulo ficam sugeridos. A tradição da gruta apareceria somente no séc. II com Justino (cf. nota da TEB).

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Meditação

Causa admiração que um evento de tal magnitude para a fé cristã seja relatado de maneira tão sucinta. A chegada daquele que era esperado por séculos, daquele que haveria de transformar o mundo com suas ideias e salvá-lo com seu amor não merece mais do que cem palavras. No entanto, nessa breve narrativa que descarta o acessório, as informações essenciais estão lá, precisas: o que, quem, quando, onde, em que circunstâncias... O que – O ápice da narrativa é o nascimento de uma criança. Para isso concorrem todos os demais “detalhes”. Quem – O nome “Jesus” não aparece nesses sete versículos. A personagem principal da história recebe, no texto, a designação “criança” ou “filho” (em gr. huios) de Maria e José. Outros personagens são mencionados, inclusive imperadores e reis, mas esses são secundários ou subordinados à criança recém-nascida. Onde – Conquanto descendentes de Davi, está aí uma família humilde e pobre, que não tem recursos para hospedar-se com luxo ou maior conforto em Belém. Não havia lugar no cenáculo (hospedaria?) para eles. A família enfrenta com resignação ver vir à luz o primeiro filho em tão precárias condições. Ao longo do Evangelho de Lucas, Jesus tratará de transformar os cenáculos em espaço de acolhimento comunal do banquete do reino. Ressurreto, o Cristo tornará a

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apresentar-se aos discípulos e discípulas no cenáculo. Dessa vez será recebido com hospitalidade e se sentará com eles e elas à mesa (cf. Lc 24.13ss). Jesus nasce em Bethlehem, a “casa do pão”, e passará sua vida lutando para que ninguém mais fique sem pão nem seja excluído da mesa. Quando – Se isso se deu em 6 a.C. ou em 6 d.C., não dá para saber com certeza. A despeito das dificuldades quanto à historicidade, o que Lucas deixa claro é que a história humana está subordinada à história divina. Nessa perspectiva, mesmo sem ter consciência disso, os maiores e mais poderosos governantes estão a serviço de Deus e daqueles mais pequeninos, que são os seus filhos e filhas. “Completaram-se-lhe os dias” (v. 6), e é isto que importa: a “plenitude dos tempos” (Gl 4.4). Chegou o tempo em que Deus nasce criança. Circunstâncias – O recenseamento, a falta de lugar, a gravidez, as faixas que envolveram a criança, a manjedoura na qual foi colocada... tudo dá um colorido discreto à narrativa. Da periferia do mundo, sem pompa nem circunstância, na discrição que lhe é peculiar, Deus vem. Deus revela-se nas coisas pequenas que mal se veem. Para ver essas coisas pequenas, é preciso abrir os olhos da fé (cf. Hb 11.1).

4 Auxílios litúrgicos Eterna criança nascida em Belém! Nós te saudamos e acolhemos em nosso coração, ó eterna criança nascida em Belém, Deus de Deus, Luz de Luz! Celebramos aquele a quem os céus não podem conter, contudo aconchega-se no calor dos braços humildes da humanidade; aquele que, sendo o Senhor do universo, hospeda-se em uma modesta estrebaria; e, tendo a história nas mãos, dorme tranquilo numa rústica manjedoura. Que a tua estrela nos aponte o caminho; Que para toda a gente haja paz e não falte o pão. Envia o teu sol sobre nós neste Natal e no advento de cada novo dia. Luiz Carlos Ramos (Inspirado em Santo Agostinho) Eucaristia às avessas! O primeiro Natal foi uma Eucaristia às avessas. Na Santa Ceia, nós nos alimentamos do corpo de Deus. No Natal, Deus, no colo da humanidade, alimenta-se de sua carne e bebe de seu leite (aprendemos isso com Rubem Alves).

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Noite de Natal

É véspera de Natal, e tudo está preparado para a Ceia. Comamos e bebamos com a moderação e a solenidade de quem está dando de comer à criança divino-humana, de nascimento humilde e amor eterno, que se aninha em nossos braços… Santa ceia, ceia santa. Deus no colo! Pietá. Luiz Carlos Ramos Liturgia de cordel (Advento & Natal) Estou vendo nestas páginas Como tudo começou, Em silêncio e no escuro, Onde a vida se formou: Do nada se fez tudo Por um gesto de amor. Ah, que música divina! Tanta luz, quanta beleza! Quando Deus se fez ouvir, Se formou a natureza. Só que algo aconteceu… Cresceram mato, dor, tristeza. Desde então ninguém descansa: Tanta luta, dor, maldade… Mesmo assim não falta gente Que deseja com saudade Que o Éden refloresça E encha o mundo de bondade. Um clarão brilhou no céu: uma nesga de esperança… vagalumes rebrilhando: Paz na terra e em toda a estância! Já se ouve, está chegando: A salvação é uma criança! Advento inusitado: Nova aurora alvoreceu. No curral se ouve um choro… O impensável aconteceu: A promessa se fez corpo! Nosso Deus recém nasceu! Sugestões de músicas: Com frequência, por ocasião do Natal, a igreja tem a oportunidade de participar de eventos em lugares não eclesiásticos, tais como escolas e eventos públicos em praças, shoppings etc. Particularmente nessas ocasiões, mas não só, a música popular pode ser uma boa maneira de estabelecer pontes de comunicação. Seguem algumas sugestões:

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Noite de Natal

Clara e Ana: “Um coração / De mel de melão / De sim e de não / É feito um bichinho / No sol de manhã / Novelo de lã / No ventre da mãe / Bate um coração / De Clara, Ana / E quem mais chegar / Água, terra, fogo e ar” (Joyce & Maurício Maestro) Borboleta: Borboleta pequenina que vem para nos saudar. Venha ver cantar o hino que hoje é noite de Natal. Eu sou uma borboleta pequenina e feiticeira, ando no meio das flores procurando quem me queira. Borboleta pequenina, saia fora do rosal. Venha ver quanta alegria, que hoje é noite de Natal. Borboleta pequenina, venha para o meu cordão. Venha ver cantar o hino, que hoje é noite de Natal. Eu sou uma borboleta pequenina e feiticeira, ando no meio das flores, procurando quem me queira. Borboleta pequenina, saia fora do rosal, venha ver quanta alegria, que hoje é noite de Natal. (Marisa Monte). Outras sugestões são A Paz e Natal Todo Dia, ambas do grupo Roupa Nova, e ainda Mary Cristo, dos Tribalistas. Todas facilmente encontradas na internet e no YouTube. Desejemos uns aos outros um Natal divino e um Ano Novo mais humano!

Bibliografia BRUCE, A. B. I The Synoptic Gospels. In: NICOL, R. The Expositor’s Greek Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1974. BUNDY, W. E. Jesus and the first three gospels. Cambridge: Harvard University Press, 1955.

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PRÉDICA: ISAÍAS 9.2-7

DIA DE NATAL 25 DEZ 2013

LUCAS 2.1-14(15-20) TITO 2.11-14

Roger Marcel Wanke

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Introdução

O culto de Natal é um dos momentos mais especiais na vida da igreja e da família. Geralmente, é um culto muito bem frequentado. Muitos visitantes podem aparecer. Os quatro domingos de Advento bem como o culto na véspera de Natal foram gradativamente o tempo de preparo para esse culto, que é o ponto culminante de toda a esperança de salvação da igreja. Crianças e adultos esperam com alegria por esse dia. É um momento de festa na igreja, pois nesse dia é lembrado o nascimento do Messias, de Jesus Cristo, o Emanuel – Deus conosco, o Salvador. Para a pregação desse culto especial é indicada a perícope de Isaías 9.2-7, um texto profético bastante conhecido. Através dele ficamos sabendo do nascimento de um menino que trouxe paz e alegria para dentro de seu contexto. Conforme o Lecionário Comum Revisado, temos duas leituras bíblicas previstas. O texto do evangelista Lucas 2.1-20 é a narrativa do nascimento de Jesus. O texto de Tito 2.11-14 é a fundamentação teológica da exortação de Paulo ao jovem pastor Tito em relação à mudança que o evangelho da graça salvadora de Deus faz na vida do ser humano. A relação teológica e litúrgica desses três textos aponta, por um lado, para a situação de pecado, opressão e escuridão na qual vivem as pessoas. Isaías anuncia a intervenção de Deus para dentro de um contexto de guerra e ameaça ao povo de Israel. Paulo exorta Tito a anunciar em sua comunidade que quem vive a partir da graça salvadora de Deus em Jesus Cristo aprende a abandonar o pecado e a esperar pela manifestação da glória de Deus. Os textos, por outro lado, destacam o agir de Deus e sua iniciativa em salvar seu povo. Sua salvação manifesta-se na luz que brilha em meio à escuridão por meio do nascimento de Jesus Cristo (Lc 2) e na remissão de toda iniquidade em Jesus Cristo, que se deu por nós (Tt 2). Natal só é possível porque a glória de Deus resplandeceu nas trevas e nas maiores alturas, vencendo todo o poder do pecado e trazendo o seu Shalom aqui na terra aos que estavam em escuridão.

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Exegese

Imprescindível para a interpretação de textos proféticos é a análise de dois aspectos em torno de seu contexto. O primeiro refere-se ao contexto literário da perícope a ser interpretada. Isaías 9.2-7 possui um lugar bem determinado dentro do livro de Isaías. Ele faz parte da unidade dos capítulos 6-9, chamada de “Livro-Testemunho” de Isaías ou de “Memorial de Isaías” ou ainda de “Livro do Emanuel”, emoldurada por uma série de ais proféticos (cf. Is 5.8-14 e 10.1-4).

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Nesse contexto literário, dentro do que se chama Proto-Isaías (1-39), a unidade dos capítulos 6.1-9.7 contém textos que desafiam o povo à confiança em Deus. Ela inicia em Isaías 6.1-13 com o relato da vocação profética de Isaías e sua visão do trono celestial de Deus. No capítulo 7, o profeta anuncia o nascimento de um filho chamado Emanuel como sinal de juízo para o rei Acaz, que se recusa a ouvir as palavras proféticas. No capítulo 8, Isaías anuncia o juízo de Deus a seu povo através da invasão dos assírios. Ao mesmo tempo, ele espera no Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Jacó (8.17). Diante desse contexto de escuridão, de guerra e de opressão, Isaías anuncia o nascimento do menino que ocupará o trono de Davi e trará a paz (9.1-7). O segundo aspecto leva em conta o contexto histórico da perícope. O texto surgiu numa situação bem específica da atuação profética de Isaías. Os capítulos 6-9 têm como pano de fundo a chamada Guerra Siro-Efraimita, que aconteceu entre os anos 734 e 733 a.C. (cf. 2Rs 16.5ss). O contexto histórico é de intensa aflição. O Reino do Sul, e principalmente a dinastia davídica, estava correndo sérios riscos. A coligação siro-efraimita havia planejado depor o rei descendente de Davi do trono e colocar outro em seu lugar, que a ajudasse contra a invasão assíria. A ameaça à Casa de Davi também vinha dos próprios assírios. Por volta de 733 a.C., o rei Tiglate-Piliser conquistara a região das tribos de Zebulom e Naftali (2Rs 15.29). Seu exército aproxima-se também do Reino do Sul. O que estava em jogo era a continuidade da promessa de Deus a Davi (cf. 2Sm 7), que, em última análise, era a continuidade da existência do próprio povo de Deus. Nesse contexto, o profeta Isaías alerta o rei Acaz para não compactuar com os reis de Arã (Síria) e da Samaria (Efraim) e a não temer os dois reis, pois esses seriam destruídos (Is 7.4,16; 8.4). Isaías também pede ao rei Acaz para não pedir auxílio aos assírios, pois esses viriam de qualquer forma contra Judá (Is 8.5ss). Mas, infelizmente, o rei não dá ouvido a Isaías. Ele fortifica a cidade de Jerusalém e pede socorro aos assírios. Isaías acaba sendo rejeitado pelo rei Acaz. Porém o texto de Isaías 9 mostra que o anúncio de Isaías está acontecendo. Os assírios estão invadindo todas as regiões. Naftali e Zebulom já estão destruídas (9.1). Isaías, que após a rejeição de Acaz se une a um grupo de discípulos (Is 8.16), tem agora uma nova palavra. Essa palavra é dita agora a Deus e leva em conta não apenas o testemunho do próprio Isaías, mas também o de seu grupo de discípulos (Is 9.6 = nós). A perícope como um todo, mesmo estando num livro profético, apresenta estrutura e características poéticas. Sua poesia é belíssima. Contudo a leitura do texto nas versões em língua portuguesa e a análise do aparato crítico deixam claro que o texto também é de difícil reconstrução. No entanto, sua estrutura é clara: a) Anúncio de grande mudança: das trevas para a luz (v. 2); b) O efeito da mudança: a alegria e o júbilo (v. 3); c) As causas da alegria: fim da opressão, fim da guerra, nascimento do rei (v. 4-6); d) As consequências da alegria: a promessa de Deus em relação ao reino davídico (v. 7). A perícope inicia no v. 2 com uma afirmação intensificada por um paralelismo membrorum de cunho sinonímico. A expressão “povo que andava nas trevas” faz paralelo com a expressão “habitantes da terra da sombra e da morte”. A quem se refere esse povo que habita uma terra desolada, marcada pela som-

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bra da morte? Se for levado em conta o contexto anterior (8.21-23), então lá é dito que as regiões de Zebulom e Naftali, outrora desprezadas, experimentarão a glória. Essas duas regiões ficavam na parte mais ao norte do território de Israel (Reino do Norte). Mais tarde, no período neotestamentário, elas compõem a região chamada de Galileia. Já aqui ela é chamada de Galileia dos gentios pelo fato de haver muitos habitantes não judeus. Porém, se for considerado o v. 7, no qual se encontra referência ao trono de Davi, isso leva a pensar que se trata da região de Judá (Reino do Sul). A partir do contexto histórico e literário, fica evidente o que também tem sido consenso na pesquisa, que aqui se refere ao todo de Israel (Reino do Norte e Reino do Sul). Ambos estavam sob forte ameaça dos assírios. Ambos viviam dias de trevas e escuridão. Ambos aguardavam a intervenção de Deus. Essa intervenção divina acontece. O paralelismo aponta para duas ênfases de como essa intervenção chega. Uma ênfase é ativa: o povo que estava em aflição e em trevas viu grande luz. A outra é passiva: a luz resplandeceu para esse povo. De qualquer forma, o sujeito do texto é o próprio Deus. Deus faz brilhar a sua luz, que é vista e resplandece. No Antigo Testamento, a luz é o próprio Deus. Ela manifesta a presença salvífica de Deus (cf. Êx 13.21-22). O que era uma promessa até Isaías 9.1 torna-se realidade a partir de Isaías 9.2: a salvação de Deus está aí. Todos podem ver a sua luz. No v. 3, há uma mudança súbita da terceira para a segunda pessoa. Assim, o texto se torna um diálogo do profeta com Deus, ou seja, uma oração. O profeta parece compartilhar com Deus os efeitos que o resplendor da luz em meio às trevas trouxe ao povo. O profeta aponta para duas ações concretas de Deus. Em primeiro lugar, Deus aumentou a nação. Não fica claro a que se refere essa afirmação. Ela poderia significar uma expansão geográfica, mas também um aumento demográfico. Em segundo lugar, Deus aumentou a alegria. Essa alegria é vivida na presença de Deus (diante de ti). Para falar dessa alegria, o profeta faz duas comparações. Na primeira, ele usa linguagem agrícola. Assim como as pessoas se alegram com a colheita, da mesma forma o povo que andava nas trevas se alegra com a luz trazida pelo Senhor. A segunda comparação vem da linguagem militar. Assim como em uma guerra os vitoriosos podem alegrar-se ao dividir os despojos, da mesma forma o povo exulta de alegria pela intervenção de Deus em sua história. A alegria nesse texto já é evangelho. Nos v. 4-6, encontram-se três causas da alegria dada pelo Senhor ao povo, marcadas pela conjunção hebraica kî. Todas essas causas estão interligadas e apresentam um movimento crescente, tendo como clímax o nascimento do menino no v. 6. Brevemente se quer aprofundar essas três causas da alegria trazida pelo Senhor ao povo: a) Pois Deus libertou seu povo de sua opressão (v. 4): Deus continua sendo o sujeito da frase. É ele quem liberta o seu povo. O que causava aflição ao povo foi removido. Isaías fala de três instrumentos de opressão: o jugo, a trave e a vara. Isaías apela à memória do povo. Deus libertou-o como nos dias de Gideão, que venceu os midianitas através da intervenção divina e não com o uso de armamento (cf. Jz 7-8). Mesmo sem fazer menção, pode-se implicitamente pensar aqui

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também na libertação do Egito. O ponto é que a libertação acontece como obra de Deus. O domínio assírio não é mais uma ameaça. b) Pois a guerra acabou (v. 5): a segunda causa da alegria é que, com o fim da opressão assíria, a situação de guerra chega ao fim. É a destruição da própria guerra. c) Pois um menino nos nasceu (v. 6). A terceira causa da alegria trata do nascimento de um menino, sobre cujos ombros está o governo. Todo o agir de Deus, o resplendor de sua luz e a alegria que resulta de sua intervenção têm como foco principal o nascimento do menino. É interessante mencionar aqui que Isaías não fala mais por si. A terceira causa de alegria é testemunhada por um “nós”. No contexto literário de Isaías 6-9 encontram-se repetidamente referências a nascimentos de crianças (cf. Is 7.1, 14; 8.3,18). Quem é esse menino? Na exegese, há uma grande discussão se o anúncio de Isaías se refere de fato ao nascimento de uma criança ou ao ato de entronização de um rei, no qual uma pessoa já adulta era entronizada e dessa forma adotada (ato de adoção) como filho de Deus (cf. Sl 2.7 e 2Sm 7.14). Tudo leva a compreender a segunda possibilidade. Somente mais tarde, após o exílio babilônio, quando não havia mais rei da dinastia davídica no trono, essa passagem foi reinterpretada à luz de Isaías 7.14 e Miqueias 5.2-3 e relacionada ao nascimento do Messias. Nesse contexto, cabe mencionar que há fortes paralelos no texto com as cerimônias egípcias de entronização de reis, principalmente no que se refere aos nomes e aos títulos que o rei recebia ao ser entronizado. No Egito, os reis recebiam cinco nomes no dia de sua entronização, que os caracterizavam por sua grandeza e seu domínio. Possivelmente, os quatro nomes dados ao menino se refiram a cargos da corte real, que se complementam com atributos divinos. Ao ser chamado de Maravilhoso Conselheiro, evoca-se a sabedoria do rei. Diferente de Acaz, que foi fraco, o menino que nasceu é chamado de Deus Forte, um homem que reina a partir da força e do poder de Deus. Ele será chamado Pai da Eternidade. No Antigo Oriente, todos os reis eram considerados os “pais” de seu povo. Isso significa que seu governo não seria como de um déspota, mas sim em amor e cuidado por seu povo. Por fim, o seu nome será Príncipe da Paz. Essa paz é sinônimo de salvação, de integridade e de justiça em sentido amplo (Is 11). Esse nome reflete a identidade e o agir de Deus. O nascimento desse menino deixa claro que Acaz é rejeitado, mas a casa real de Judá terá no trono aquele que reinará em nome de Deus. No v. 7, Isaías anuncia a consequência dessa boa-nova de grande alegria: o reinado messiânico de paz. Poder-se-ia falar no v. 7 de um programa de governo desse Menino-Rei. As bases de seu governo não são mais a guerra e a força militar. Esses terminaram (v. 5). Agora serão a paz, a justiça e o direito, o que consolida e estabelece o reino do trono de Davi. A nova existência dos que vivem em trevas e agora viram a luz é a vida sob o domínio do Messias. Essa promessa será apenas realizada por causa do zelo e do amor de Deus – o Senhor dos Exércitos.

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Meditação

Isaías 9.2-7 é um dos textos proféticos mais pregados no contexto eclesiástico. Contudo o que mais se percebe é que, na maioria das vezes, se esquece de algo fundamental para a interpretação de textos proféticos: palavras proféticas foram sempre ditas para dentro de uma situação específica. A promessa dessa perícope é dita por Isaías, como vimos, numa situação concreta do povo de Deus. Não podemos desconsiderar esse pano de fundo histórico ao querer atualizar o texto para os nossos dias. Ao leitor fica a recomendação de abordar o contexto histórico do profeta em sua prédica, ou seja, o pregador tem diante de si um texto que narra um fato do ano 732 a.C.: a Guerra Siro-Efraimita e todos os seus desdobramentos políticos e sociais tanto para o Reino do Norte como para o Reino do Sul. Com grande probabilidade, Isaías referia-se ao Emanuel e ao menino anunciado em Isaías 9 como sendo o rei Ezequias, filho de Acaz, que assume o trono da Casa de Davi. Algumas evidências podem ser vistas no texto de 2 Reis 18.1-20.21. Contudo, também é fato que o Novo Testamento interpretou essa perícope relacionando-a com Jesus de Nazaré, nascido em Belém de Judá (cf. Mt 4.14ss; Lc 1.32). Além disso, os paralelos que Isaías 9.2-7 traz para o evento de Jesus Cristo foram desde muito cedo relacionados pela comunidade cristã liturgicamente à festa de Natal. O nascimento de Jesus trouxe uma grande mudança e é, por isso, motivo de grande alegria. Jesus Cristo é a luz do mundo, que resplandece para dentro de todas as trevas deste mundo. Jesus Cristo é o que liberta o ser humano de todos os poderes que escravizam e ameaçam a vida. Jesus Cristo é o menino que nasceu na manjedoura e, ao mesmo tempo, é o Rei dos reis. Em Jesus Cristo, os nomes Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz adquirem pleno sentido e cumprimento. A leitura e a releitura de Isaías 9.2-7 deixam claro que a situação do ser humano é de total escuridão, não importando a época nem o contexto histórico, político ou social. O mundo precisa de salvação. É por causa disso que a mensagem do Natal se atualiza sempre de novo. Ameaças, opressões, sejam elas políticas, sociais ou espirituais, roubam a alegria do povo de Deus. Esse só pode viver em esperança a partir do anúncio da palavra de Deus. Assim como a luz da salvação e da intervenção de Deus brilhou por volta do ano 732 a.C., nos dias de Isaías e Acaz, e assim como a luz resplandeceu nos céus e na escuridão do mundo nos dias em que Jesus Cristo nasceu em Belém, da mesma forma a luz da salvação de Deus continua brilhando em nossos dias e resplandecendo em nossos corações. Hoje é dia de salvação! Hoje é dia de alegria! Mas hoje também é dia de esperança, pois estamos como igreja aguardando não mais a vinda do Menino-Messias, mas a volta do Rei dos reis e do Senhor dos senhores, que vem em grande glória para dissipar toda a escuridão e reinar para sempre. Sugestão homilética – Assim como pôde ser visto, a ênfase dos textos está no agir de Deus em trazer luz aos que habitam nas trevas. Essa luz trouxe alegria. A alegria do Natal não está fundamentada no comércio e nas luzes artificiais que enfeitam todas as cidades e casas, mas é uma alegria diante do Senhor. A alegria

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do Natal é alegria da salvação. Para a pregação sugere-se, a partir do texto de Isaías 9.2-7 e sua relação, principalmente com Lucas 2.1-20, o seguinte esboço homilético: Tema da pregação: Natal – Alegria que vem de Deus! 1 – Não temais! A Luz resplandeceu em nossa escuridão! A situação do profeta Isaías A situação por ocasião do nascimento de Jesus Cristo A situação atual 2 – Eis que vos trago boa-nova de grande alegria: Podemos nos alegrar diante de Deus. 2.1 Pois Deus nos libertou de tudo o que nos oprime 2.2 Pois Deus pôs um fim em toda guerra 2.3 Pois Deus deu para nós um Filho 3 – Hoje nos nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor! O zelo do Senhor dos Exércitos fez isso. 3.1 Alegrai-vos! Jesus é maravilhoso conselheiro: seu juízo é verdadeiro 3.2 Alegrai-vos! Jesus é Deus Forte: o governo está sobre os seus ombros 3.3 Alegrai-vos! Jesus é Pai da Eternidade: sua justiça não tem fim 3.4 Alegrai-vos! Jesus é o Príncipe da Paz: sua paz é eterna

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Imagens para a prédica

O texto de Isaías 9.2-7 fala que um menino nos foi nascido, um filho nos foi dado. No Novo Testamento, somos presenteados por Deus, que manifestou de forma salvadora a sua graça, dando-nos seu único Filho. Natal lembra todos do grande presente de Deus. A imagem do presente permeia o período do Natal. Para a introdução da pregação, sugere-se, portanto, abordar o seguinte: Todos nós recebemos presentes. Agora, principalmente na época do Natal, presenteamos e somos presenteados. Quando ganhamos um presente, podemos ter pelo menos três atitudes diferentes: Em primeiro lugar, existem pessoas que, infelizmente, rejeitam o presente que recebem. Geralmente, elas dizem que não gostaram ou que não precisam. Em segundo lugar, encontramos pessoas que fingem que gostam do presente, mas depois dão um jeito de livrar-se dele, jogando-o fora ou ainda dando-o adiante. E, por último, encontramos pessoas que se alegram com cada presente que recebem, por menor que seja. Deus também nos deu um presente: é Jesus (Jo 3.16). Qual tem sido a nossa atitude para com o presente que Deus nos deu? Há quem rejeita Jesus (Jo 1.11). Em Belém, não havia lugar para Jesus nascer (Lc 2.7). Há também aqueles que fingem que recebem Jesus e acabam abandonando-o, esquecendo Jesus. Muitos se lembram dele somente quando os problemas surgem. Outros, no entanto, recebem-no com alegria (João 1.12). Deus investiu pesado na vida do ser humano, dando-lhe o presente mais valioso, para que pudesse viver em alegria, paz, justiça e salvação.

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Subsídios litúrgicos

O culto de Natal é festivo e deve expressar a certeza e a alegria da salvação, pois Jesus Cristo, o Messias esperado, já veio. Ele já é uma realidade entre nós. Essa certeza e alegria são manifestas no culto de Natal, principalmente através da música. Os hinos natalinos são considerados os mais bonitos do ano eclesiástico. Em muitas comunidades, há uma variedade de apresentações musicais, tais como concertos natalinos, cantatas de Natal, apresentações de corais e outros grupos. Esse potencial musical que há nas comunidades deve ser contemplado aqui. O destino da oferta do culto de Natal deve ser definido pelo Conselho Paroquial. De preferência, que o destino seja alguma obra diaconal ou missionária fora do contexto da paróquia. Isso pode ser um sinal visível da justiça e paz trazidas pelo Messias a nós. Liturgia de Entrada: Para o início do culto, pode ser cantado o hino 17 do HPD I (Ó vinde, fiéis), convidando todos a louvar e adorar o menino nascido em Belém. Liturgia da Palavra: Durante a leitura bíblica do Evangelho de Lucas 2.120 podem ser intercalados hinos, cuja letra se encaixa com o texto bíblico: Lucas 2.1-7: Hino 26 HPD I (Ao pé da manjedoura estou); Lucas 2.8-14: Hino 20 HPD I (Surgem anjos proclamando) e Lucas 2.15-20: Hino 21 HPD I (Pastores corramos). Cada parte do texto bíblico pode ser lida por um membro diferente da comunidade. Procure envolver na leitura uma criança, uma pessoa idosa e, se houver em sua comunidade, uma pessoa com necessidades especiais. A segunda leitura bíblica, Tito 2.11-14, pode ser feita por um presbítero ou por uma senhora da OASE. Após a pregação, sugere-se cantar o hino 235 HPD I (Seu nome é maravilhoso). Embora esse hino não seja natalino, sua letra é composta a partir do texto de Isaías 9.6. Liturgia da Ceia: Geralmente, em muitas comunidades, o culto de Natal tem a celebração da Ceia do Senhor. Dessa forma, a comunidade cristã lembra e testemunha sua fé no fato de que o menino que nasceu para salvar seu povo dos pecados dele (cf. Mt 1.21) salvou-o morrendo na cruz e ressuscitando para uma viva esperança. Nossa hinologia, infelizmente, não contempla a associação teológica entre Natal e Ceia do Senhor. Contudo os hinos 14 e 15 do HPD I são sugestivos. Eles contemplam o texto da pregação e também a dimensão da salvação dos pecados. Liturgia de Despedida: No final do culto, sugere-se cantar o hino 29 HPD I (Quero ir com os pastores). Dessa forma, destaca-se o envio da comunidade ao mundo. A proclamação do evangelho e a missão da igreja podem ser fundamentadas no ir e proclamar dos pastores de Belém.

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Bibliografia EICHRODT, Walther. Der Heilige in Israel. Jesaja 1-12 [Die Botschaft des Alten Testaments: Erläuterungen alttestamentlicher Schriften, Band 17,1]. Stuttgart: Calwer Verlag, 1960. MUELLER, Ênio Ronald. Isaías 1 a 12 [Série Em Diálogo com a Bíblia – v.19.1]. Curitiba: Encontrão Editora; Belo Horizonte: Missão Editora, 1992. SCHWANTES, Milton. Da Vocação à Provocação: Estudos e interpretações em Isaías 6-9 no contexto literário de Isaías 1-12. 2.ed. alt. e ampl. São Leopoldo: Oikos, 2008. SCHWANTES, Milton. Natal – Isaías 9.2-7. In: Proclamar Libertação. V. 5. São Leopoldo: Sinodal, 1985. p. 294-303.

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PRÉDICA: MATEUS 2.13-23

1º DOMINGO APÓS NATAL

ISAÍAS 63.7-9 HEBREUS 2.10-18

29 DEZ 2013

Marcia Blasi

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Introdução

A criança nasceu! Vivemos este tempo mágico, belo, cheio de alegria, que nos lembra que Deus nos ama e importa-se conosco de forma concreta: tornou-se uma de nós, tornou-se um de nós. Mas, no meio da festa, em meio à alegria e à celebração, fazemos uma parada para lembrar um massacre, relatado no evangelho deste domingo. Um líder invejoso e com medo de perder o poder tentou acabar com a vida do pequeno Jesus. Memória trágica que não pode e nem deve ser esquecida. Mesmo que a vida de Jesus tenha sido poupada, outras crianças foram mortas. Em calendários litúrgicos de algumas tradições cristãs, o dia 28 de dezembro é lembrado como o dia dos “santos inocentes ou pequenos mártires”. Os textos do profeta Isaías e da Carta aos Hebreus falam da bondade de Deus e como Deus salva seu povo. Salvou o povo de Israel e salva o povo que segue Jesus, que são seus irmãos e suas irmãs.

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Exegese

V. 13 – Depois que os visitantes foram embora, um anjo do Senhor apareceu num sonho a José e disse: – Levante-se, pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, pois Herodes está procurando a criança para matá-la. As pessoas visitantes, as sábias, haviam sido instruídas por Herodes para delatar o local onde a criança estava. Mas elas desobedeceram à ordem. Voltaram para casa por outro caminho. O anjo aparece e diz a José: “Pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito”. Como é típico numa sociedade patriarcal, a criança e a mãe não têm nome. “Pegue”, “carregue”... “fuja” (não é fujam; José é o único sujeito, a criança e a mãe são objetos) para o Egito. V. 14 – Então José se levantou no meio da noite, pegou a criança e a sua mãe e fugiu para o Egito. “José” fez o que havia sido ordenado/sugerido. Foi a pé? Qual a distância? Como viajaram? V. 15 – E eles ficaram lá até a morte de Herodes. Isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: “Eu chamei o meu filho, que estava na terra do Egito”.

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1º Domingo após Natal

Mateus chama as palavras de Oseias (cf. Os 11.1) para comparar Jesus a Moisés. Em Êxodo 4.22, Deus fala a Moisés para informar ao faraó que Israel é seu primogênito. Herodes morreu dentro de dois anos. O caminho está livre para voltar. V. 16 – Quando Herodes viu que os visitantes do Oriente o haviam enganado, ficou com muita raiva e mandou matar, em Belém e nas suas vizinhanças, todos os meninos de menos de dois anos. Ele fez isso de acordo com a informação que havia recebido sobre o tempo em que a estrela havia aparecido. Os visitantes do Oriente eram conhecedores das estrelas e dos astros. Os astrônomos eram os cientistas do tempo de Jesus. Possivelmente eram da Pérsia, Síria ou Arábia. A ordem de Herodes lembra a ordem do Faraó do Egito no tempo de Moisés. Belém era uma pequena cidade e não deveria ter muitos meninos com menos de dois anos, mas, se entendermos as vizinhanças como incluindo Jerusalém, que ficava a alguns quilômetros de distância, então é possível afirmar que muitos meninos correram perigo. V. 17-18 – Assim se cumpriu o que o projeta Jeremias tinha dito: “Ouviu-se um som em Ramá, o som de um choro amargo. Era Raquel chorando pelos seus filhos; ela não quis ser consolada, pois todos estavam mortos”. Ramá ficava em torno de 9 km ao norte de Jerusalém. É a cidade citada em Jeremias 31.15 e 40.1. Raquel, a mulher de Jacó, está enterrada perto de Belém. O texto recordado lembra o choro de Raquel por seus filhos. Ela representa aqui todas as mulheres israelitas que choram a perda de seus filhos. V. 19-20 – Depois que Herodes morreu, um anjo do Senhor apareceu num sonho a José no Egito e disse: – Levante-se, pegue a criança e a sua mãe e volte para a terra de Israel, pois as pessoas que queriam matar o menino já morreram. Um anjo aparece novamente. O tirano morreu. José recebe nova ordem para voltar. V. 21-23 – Então José se levantou, pegou a criança e a sua mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ficou sabendo que Arquelau, filho do rei Herodes, estava governando a Judeia no lugar de seu pai, teve medo de ir morar lá. Depois de receber num sonho mais instruções, José foi para a região da Galileia e ficou morando numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que os profetas tinham dito: “O Messias será chamado de Nazareno”. Um tirano havia morrido, mas havia outro em seu lugar. Através de sonhos José vai recebendo mensagens e vai morar com sua família em Nazaré.

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Meditação

Após as comemorações, a alegria em torno do pinheirinho, a troca de presentes, os votos de boas festas, o texto bíblico traz-nos de volta para a realidade de morte e sofrimento que nos cerca. Nós vivemos em um mundo onde crianças morrem e mães e pais choram não apenas ocasionalmente, mas todos os dias. Vivemos em um mundo onde as pessoas oprimidas sofrem e onde as opressoras conseguem escapar na impunidade.

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1º Domingo após Natal

Talvez nos lembremos de ter ouvido essa história durante a nossa infância, imaginando na época que a viagem de Maria e José com seu bebê foi um passeio heroico, de cinema. A narrativa, na verdade, conta uma história bem diferente: de sofrimento, de perigo e de refúgio em outro país. A família foge do terror, mas se torna uma família de refugiados. Talvez também pensemos que esse texto deveria fazer parte das leituras bíblicas apropriadas para o tempo de Quaresma e Semana Santa. Mas o texto está aqui no meio dos textos de júbilo da época natalina, justamente para nos lembrar que o nascimento de Jesus não erradicou milagrosamente a maldade do mundo, assim como também nossos desejos e nossas canções de paz não acabam com as guerras e morte de crianças inocentes. O texto é difícil. A realidade de morte e sofrimento é algo que procuramos não lembrar neste tempo. Nosso filho perguntou um dia por que Deus salvou Jesus e não salvou outros meninos mortos que a TV anunciava. Tanto não há resposta para essa pergunta como não há resposta para explicar por que tantas crianças inocentes morrem a cada ano por causa da tirania de alguns. O evangelho deste domingo traz sérios questionamentos a cada uma e cada um de nós. Tentar responder as palavras, fugir das tensões do texto pode ser uma saída, mas não é a melhor opção. Somos convidadas e convidados a perceber que, no meio de tanta euforia, de tanta festa, há muita dor enterrada, há muitas perguntas sem resposta. Podemos admitir essa tensão e fazer deste dia um dia para lembrar as nossas próprias dores e as nossas próprias dúvidas, não como algo que mostra a fraqueza na fé, mas que mostra o quanto buscamos entender os desígnios de Deus e quanto nos escandalizamos com a crueldade humana. Algumas pesquisas colocam em dúvida a historicidade dessa narrativa. Essa incerteza, se de fato ela aconteceu e quantas foram as crianças mortas, não deveria jamais nos fazer ver esse relato como meramente figurativo. Se, digamos, apenas uma criança foi morta, isso já é motivo para que ela seja lembrada. E com isso nos lembramos também de tantas outras crianças que são mortas por questões religiosas, étnicas e de gênero ainda hoje.

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Imagens para a prédica

Este domingo traz-nos uma grande oportunidade para silenciar, para ouvir o clamor de tantas pessoas que choram a perda de seus filhos e filhas, ouvir o clamor de meninas que são abandonadas ao nascer, pois a sociedade, a cultura e a religião patriarcal valorizam mais os meninos do que as meninas. Procurando uma imagem para oferecer, lembrei do trabalho que a Federação Luterana Mundial, através do Serviço Mundial, realiza com povos refugiados. Procurei então por dados atuais do número de pessoas refugiadas no mundo em julho de 2013. Encontrei na página da Agência de Pessoas Refugiadas da ONU (www.unhcr.org/51e9a3496.html) a história do pequeno Andrea. Andrea nasceu no dia 15 de julho de 2013, sendo o primeiro nascimento no centro de triagem de Bubukwanga, Uganda, a 25 km da fronteira com a República Democrática do Congo. Mônica, sua mãe, vivia com a família em Kamango,

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uma cidade da República Democrática do Congo. Mônica teve que abandonar tudo e fugir quando um grupo rebelde invadiu o lugarejo e matou o líder da comunidade. Ela já estava tão avançada na sua gravidez, que teve dificuldades para caminhar; precisou ser carregada por vizinhos e outras pessoas rumo à fronteira com Uganda em busca de refúgio. Na fuga, ela foi separada do marido e do filho. O nascimento do pequeno Andrea, com a ajuda humanitária prestada no Centro de Triagem, trouxe novas esperanças para a mãe e o sonho de uma vida melhor. Histórias como essas não são únicas. Elas repetem-se diariamente. No final de 2011, havia 10,4 milhões de pessoas refugiadas sob a responsabilidade da ONU. Conectar a história de Jesus com a vida das famílias refugiadas hoje deve levar-nos a agir ali onde estamos e a apoiar agências que trabalham e que vão onde nós não podemos ir.

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Subsídios litúrgicos

Oração do dia: Lembramos hoje, ó Deus, do massacre das crianças inocentes por ordem do rei Herodes. Oramos para que recebas em teus braços, ó misericordioso Deus, todas as vítimas inocentes da tirania de poderosos sem escrúpulos, aquelas vítimas do passado e as vítimas de hoje. Acaba com os planos de maldade, estabelecendo assim teu reino de justiça, paz e amor, por Jesus Cristo. Amém. Versículo de aclamação: Mateus 5.10 Oração de intercessão: Com o coração alegre pelo nascimento de Jesus e triste pela morte de tantas vidas inocentes, oremos a Deus, que nos oferece paz e esperança. [Breve silêncio] Oramos por todas as pessoas que choram a perda de seus filhos e filhas, por aquelas pessoas que têm seus pequenos e pequenas arrancados de si por causa da violência e da ganância humana. Oramos por aquelas pessoas que são perseguidas por causa da fé em Cristo. Faze com que estejamos ao lado dessas pessoas em sua dor e em sua luta por justiça. Deus de consolo, – Ouve nossa oração. Oramos pelas nações do mundo, especialmente aquelas dominadas por conflitos e maus governantes. Dá que o sangue de crianças inocentes não alimente as máquinas de guerra nem a fúria dos poderosos. Deus de esperança, – Ouve nossa oração. Oramos por todas as crianças sacrificadas pela má distribuição das riquezas do mundo e aquelas que são usadas para produzir produtos baratos que vão alimentar a economia de países ricos. Oramos especialmente pelas meninas que ainda hoje correm um risco maior de ser abandonadas ao nascer, de ser vitimadas pela violência sexual, de ser traficadas para alimentar grandes comércios de pessoas, que são rejeitadas pela sociedade que ainda considera o nascimento de meninos uma bênção maior. Deus de justiça,

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– Ouve nossa oração. Oramos por todas as pessoas que sofrem e por aquelas que estão em busca de cura. Dá que recebam força e coragem na certeza de que Jesus Cristo está conosco e faze com que sejam amparadas pelas mãos e braços de teus filhos e filhas. Deus de amor, – Ouve nossa oração. Oramos por tua igreja no mundo, para que seja sempre mensageira de boas notícias e de esperança. Oramos por esta comunidade, para que seja um lugar seguro e acolhedor para todas as pessoas, especialmente as mais pequeninas. Deus de misericórdia, – Ouve nossa oração. Recebe nossa oração e ouve o clamor de teus filhos e filhas que clamam em nome de Jesus, teu Filho, que se tornou ser humano e morou entre nós. Amém.

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VÉSPERA DE ANO NOVO

PRÉDICA: APOCALIPSE 21.1-6a

31 DEZ 2013

ECLESIASTES 3.1-13 MATEUS 25.31-46

Paulo Roberto Garcia

1

Introdução

Véspera de novo ano. Período de refletir sobre o tempo, nosso tempo. Tempo passado e tempo futuro. Se, de um lado, o texto de Eclesiastes leva-nos a refletir sobre o tempo e nossa ação nesse tempo (“tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” – Ec 3.1), o texto de Mateus lembra-nos que o juízo divino nos confronta a partir de nossa ação realizada em favor dos pequeninos. Como vivemos nosso tempo? Como nos relacionamos com os pequeninos? O texto de Apocalipse, nosso objeto de estudo, acrescenta a tudo isso o contexto de violência. Viver o tempo, planejar as ações, visitar o encarcerado, vestir o nu, alimentar o faminto, dar de beber a quem tem sede, visitar o enfermo, tudo isso em um contexto de violência. Essa é a esperança cristã, e esse é o desafio de nossa abordagem.

2

Exegese

Nossa perícope é o grande desfecho de uma jornada de dor e esperança. Para percebermos a importância de nossa perícope, precisamos entender a dinâmica do livro de Apocalipse. 2.1 – A perícope e o livro: os justos em um contexto de violência Nesse texto marcadamente litúrgico (que aponta para o culto como o lugar onde esse escrito era usado), a mesma história é contada quatro vezes. O esquema de sete cartas, sete trombetas e sete taças marca as divisões de cada vez em que a história é contada. Ao repetir a história, há um aprofundamento da crítica e um convite à fidelidade. Essa é a grande característica do livro. Herdeiro da tradição profética e da sabedoria, ele costura essas duas posturas diante das angústias que a comunidade enfrenta. A denúncia chama a comunidade à fidelidade. a) Apocalipse 6 No primeiro ciclo dessa história, que aponta o motivo do juízo de Deus, o capítulo 6 apresenta um projeto de vitória da violência – apresentada na figura dos quatro cavaleiros do Apocalipse –, projeto esse que deseja vencer, mas ainda não é vitorioso. Essa é a denúncia. A esperança surge na resistência daqueles

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que morrem pela fé e são os verdadeiros vitoriosos e por isso recebem “estolas” brancas. b) Apocalipse 9 No segundo ciclo dessa história, o capítulo 9 denuncia que a violência militar, simbolizada pelos gafanhotos, é instrumento dessa violência. A esperança, porém, é que somente os que não têm o selo de Deus na fronte são verdadeiramente atingidos, pois eles não têm o privilégio de morrer em esperança nem o compromisso: a morte foge deles, e o sofrimento continua. Para os fiéis, a morte é prêmio. Morte por compromisso. c) Apocalipse 12-13 No terceiro ciclo, os capítulos 12 e 13 fazem com que o conflito ganhe em amplitude. O conflito na terra é a vingança do dragão que foi derrotado no combate celestial. O capítulo 12 anuncia que Deus já ganhou a luta contra o dragão. O que sobrou para a terra é o desejo de vingança de um derrotado. No capítulo 13, ele faz isso a partir de uma besta. A alusão à aparência da besta como leão, urso e pantera remete-nos aos textos apocalípticos e ao livro de Provérbios, onde essas figuras representam um poder ímpio, um rei ímpio. A violência promovida pelo exército é comandada por um rei ímpio. A esperança do povo é que esse poder imenso, demoníaco, seja de saída o poder de um derrotado. Deus já venceu! d) Apocalipse 17-18 No quarto círculo, a crítica chega a seu ápice. No capítulo 17, é apresentado que a besta tem sobre si o poder da “Grande Prostituta”, que representa uma cidade que vive do luxo, seduz reis, príncipes e comerciantes. Uma cidade que se embriaga e embriaga seus seduzidos com o sangue dos santos. Esse capítulo aponta o cerne do poder devastador que se localiza sobre os cristãos e cristãs da comunidade do Apocalipse de João. O comércio é o grande mal que seduz e mata. O luxo desenfreado da cidade promove a violência para alimentá-la dos produtos pelos quais ela anseia. O desafio e a esperança estão no capítulo 18. A comunidade é desafiada a sair dessa estrutura, a fugir dessa sedução, pois o julgamento sobre a cidade é violento. No capítulo 18, introduzido pela expressão “ai da cidade”, que é a introdução de um canto de lamentação fúnebre, temos o lamento fúnebre pela morte da cidade. Porém, no final do lamento, a cidade morta não é enterrada. É atirada ao mar, lugar do caos e dos demônios. A cidade e todos os que se associam a seu esquema de luxo, comércio, poder violento, exército e desejo de vitória serão julgados com a mesma radicalidade. Esse é o contexto que cerca nossa perícope, grande fim do apocalipse e que apresenta a recompensa para aqueles e aquelas que permanecerem fiéis. 2.2 – A recompensa dos justos: os justos em um contexto de fidelidade Os capítulos 21 e 22 apresentam a utopia que move os justos. Nossa perícope é parte de um conjunto de duas perícopes que costuram duas teologias importantes do mundo bíblico. A nova Jerusalém é apresentada na perspectiva da teologia mosaica, que é nossa perícope, e na perspectiva da teologia davídica. Norte e Sul abraçam-se em esperança. O Apocalipse, ao anunciar a esperança e

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a utopia do povo de Deus, promove, simbolicamente, a superação das divisões históricas de Judá e Israel. Nossa perícope é, portanto, marcada pelos símbolos de esperança da fé do Norte – a tradição mosaica. O Êxodo é o grande celeiro de imagens que permeiam nossa perícope. a) A estrutura da perícope Nossa perícope poderia ter vida independente do livro do Apocalipse. Como um livro que reúne retalhos da fé de sua comunidade, essa tradição pode ter existido anteriormente como parte do anúncio de esperança dessa comunidade. Desse modo, podemos considerar o versículo 2 e os versículos 6b-8 como redacionais para unir as duas expectativas. São parte do arremate literário para conjugar as duas expectativas diferentes. O anúncio de esperança é marcado por símbolos que falavam ternamente aos ouvintes daquela comunidade. O grande tema é a renovação, que aparece no versículo 1 – novo céu e nova terra – e no versículo 5 – “eis que faço novas todas as coisas”. Dentro dessa moldura do novo surgem imagens de esperança. Nosso desafio agora é compreender essas imagens. b) As imagens de esperança Novo céu e nova terra. No pensamento judaico antigo, os opostos, quando colocados juntos, indicavam a totalidade. Se terra e céu são renovados, isso implica a renovação de todo o cosmo na concepção da época. O anúncio, portanto, é da fé e esperança na renovação de tudo o que existe. Porém há um acréscimo: “e o mar não existe mais”. O mar, como símbolo do caos, habitação dos demônios, ao inexistir, aponta para um céu e terra renovados em que com a inexistência do mal se constitui, torna-se lugar de vida, de paz e saúde. Essa esperança aparece no centro da perícope: “enxugará toda lágrima...” Trabalharemos nela mais abaixo. A tenda de Deus com os seres humanos. Considerando o versículo 2 uma costura realizada entre a perícope que segue (21.9-22.5) e a nossa perícope, a “Nova Jerusalém” surge como uma tenda em que Deus e os seres humanos coabitam. Voltamos ao Êxodo, mas voltamos também ao Éden. A esperança do cosmo renovado possibilita a coexistência de Deus e os seres humanos em um mesmo espaço, uma mesma tenda, um mesmo acampamento. A habitação de Deus em meio à existência humana supera todo sofrimento. Enxugará toda lágrima. Aqui está o cerne da esperança. A presença de Deus é curativa e renovadora da vida. Sem choro, sem luto (sem morte), sem pranto (sem a dor da perda). As primeiras coisas passaram, agora é o tempo das últimas, e elas são melhores. A vida triunfa em plenitude para aqueles que não perdem a esperança. O cosmo renovado é a concretização da vida que supera toda adversidade. Nesse novo tempo, a figura de Deus aparece marcada pela ternura materna: Ele enxuga toda lágrima. Há a superação da morte e da dor da perda, mas há também a companhia terna e materna de um Deus que enxuga carinhosamente as lágrimas. A esperança anunciada nessa perícope quebra barreiras e afirma a fé em um novo que vem embalado em ternura, cuidado, renovação e vida. É a esperança que não se funda no grito da vingança e da vitória, mas se firma na afirmação de fé em um Deus que maternalmente enxuga as lágrimas de seus filhos e filhas.

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Meditação

Ano novo é tempo de avaliação. Sonhamos com o novo e desejamos a superação daquilo que provocou tristeza e dor. Planejamos a novidade e assumimos projetos. Nesse período tão rico de autoavaliação, somos levados a refletir nesse texto tão importante do Apocalipse. Vivemos em um mundo onde os sinais de vitória da violência e da desesperança aparecem com tal vitalidade, que nos dão a impressão de que não há outro caminho, de que não há outra solução a não ser o triunfo da adversidade desse projeto. Como enfrentar este mundo? Como enfrentar o caos? O livro do Apocalipse é uma celebração da esperança. Uma celebração que não ignora a violência, muito pelo contrário, encara e dá nome à situação de violência que se abate sobre a comunidade. Aponta que o sistema é demoníaco, ou seja, não há aliança possível nem esperança que resista à força, ao exército, ao rei ou ao comércio e à cidade que formam o conjunto das forças da morte. Todos eles estão embebidos na força demoníaca. Não há aliança possível. No livro de Apocalipse, ao apontar toda a estrutura como demoníaca, o livro obriga a uma tomada de postura dos fiéis da comunidade. Não dá para, como Laodiceia, fazer parte da comunidade e da estrutura. Não é possível ser morno. Deve-se assumir o compromisso com um dos lados desse conflito, pagar o preço e receber a recompensa. Ao mesmo tempo em que o livro chama para o compromisso e nomeia a violência, ele a deslegitima. Ela, a violência, aparenta ser vitoriosa, mas ainda está buscando vencer. O que ela anuncia e aparenta é falso. O dragão, origem de todo o mal, é um derrotado. Seu poder é a vingança a partir da ilusão. Por isso aqueles que apostarem suas vidas nesse projeto apostam em um projeto derrotado. Por outro lado, aqueles que mantêm a fidelidade ao projeto do Reino, mesmo sucumbindo à violência, já são vitoriosos. A morte pela fidelidade é vitória. Essa certeza e esperança surgem na perspectiva da fé em um Deus que faz tudo novo. A esperança do novo é a esperança na renovação que vem de Deus. O novo céu e a nova terra apresentam como marca a ausência do mar, a vitória sobre o caos. O fim da habitação do que produz medo, provoca a violência, desestabiliza a existência. Em meio a essa esperança, a comunhão entre Deus e os seres humanos traz plenitude: sem a morte e sem a perda – sem o luto e sem o pranto. Devemos perceber que, nessa nossa perícope (em especial sem a parte redacional), a esperança não está baseada na vingança, na vitória sobre o inimigo. A esperança está baseada na transformação da existência, do cotidiano de cada participante da comunidade. Por isso o texto tem no centro a imagem terna e materna de um Deus que enxuga as lágrimas de seus filhos e filhas. Ato de proximidade, de afetividade, de cuidado e de carinho.

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A esperança firma-se em um Deus que renova o cosmo a partir do cuidado terno e materno. Em meio aos sinais de violência, a comunidade do Apocalipse anuncia a esperança que se funda na ternura de Deus. Em um momento em que sonhamos o novo, a partir de um novo ano que se anuncia, vivendo em um mundo marcado por sinais de violência, somos desafiados pelo apocalipse a forjar a esperança que nasce da ternura.

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Imagens para a prédica

Como vivemos um período de retrospectiva, quando jornais e programas de TV buscam fazer um balanço do ano, sugerimos que ou no início da prédica ou durante a liturgia do culto haja uma retrospectiva, destacando os sinais de violência que marcaram o país, a cidade e a comunidade de fé. Sugerimos elencar as notícias que apontam a violência gratuita, a corrupção e o consumo desenfreado, lamentavelmente abundantes em nossos noticiários. Ao mesmo tempo, é importante apontar também notícias que apresentam sinais e gestos que, com a marca da ternura, constituíram uma forma de superação da violência. No final da prédica, é importante a comunidade ser desafiada a construir projetos pessoais e comunitários que anunciem a esperança da mudança a partir de atos e gestos que tenham a marca da ternura, do cuidado, da presença amorosa na vida do outro, da outra.

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Subsídios litúrgicos

Como subsídio litúrgico, sugerimos que seja cantada ou lida a música de Frederico Pagura: Esperança. Essa música/poesia complementa o desafio dos projetos marcados por gestos de ternura. Temos esperança! Frederico Pagura Porque ele entrou no mundo e em nossa história; porque quebrou o silêncio e a agonia; porque mostrou na terra a sua glória; porque foi luz em nossa noite fria; porque nasceu em pobre estrebaria; porque viveu semeando amor e vida; porque partiu os corações mais duros e levantou os tristes e abatidos. Por isso é que hoje temos esperança, por isso é que lutamos destemidos, por isso olhamos hoje com confiança para o porvir dos povos oprimidos.

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Por isso é que hoje temos esperança, por isso é que lutamos destemidos, por isso olhamos hoje com confiança para o porvir. Porque atacou corruptos, mercadores E denunciou maldade e hipocrisia; Porque exaltou crianças e mulheres E condenou os que de orgulho ardiam; Porque levou a cruz de nossas penas E saboreou o fel de nossos males; Porque aceitou sofrer a nossa culpa E assim morrer por todos os humanos. Por isso é que hoje temos esperança, por isso é que lutamos destemidos, por isso olhamos hoje com confiança para o porvir dos povos oprimidos. Por isso é que hoje temos esperança, por isso é que lutamos destemidos, por isso olhamos hoje com confiança para o porvir. Porque uma aurora viu sua vitória Sobre as mentiras, sobre a morte e o medo; já nada pode interromper sua história Nem a chegada de seu Reino eterno. Por isso é que hoje temos esperança, por isso é que lutamos destemidos, por isso olhamos hoje com confiança para o porvir dos povos oprimidos. Por isso é que hoje temos esperança, por isso é que lutamos destemidos, por isso olhamos hoje com confiança para o porvir.

Bibliografia MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Apocalipse de João: esperança, coragem e alegria. São Leopoldo: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus, 2002. PRIGENT, Pierre. O Apocalipse. São Paulo: Loyola. 1993.

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ANO NOVO: NOME DE JESUS SALMO 8 NÚMEROS 6.22-27 LUCAS 2.15-21

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PRÉDICA: JOÃO 1.(1-9)10-18

2o DOMINGO APÓS NATAL

JEREMIAS 31.7-14 EFÉSIOS 1.3-14

05 JAN 2014

Flávio Schmitt

1

Introdução

O texto de João 1.1-18 já foi abordado em outros auxílios homiléticos. Nas edições de número XIX, XXV, XXXI e XXXVII, o auxílio limita-se aos v.1-14 do evangelho. As edições de PL XXIII e XXIX tomam o texto todo (Jo 1.1-18) como uma unidade. A edição XXXIII do PL, embora considere os v. 1-9, confere ênfase aos v.10-18. Além disso, as edições de número XIX, XXV e XXXI relacionam os v. 6-8 com os v. 19-28, em que é dado destaque ao testemunho do evangelista sobre João Batista. Todo esse volume de material já publicado em edições anteriores mostra o quanto a passagem bíblica indicada para pregação no segundo domingo após o Natal tem um lugar destacado na liturgia da comundiade cristã. Não há dúvida de que, nesses primeiros dezoito versículos do Evangelho de João, estão presentes algumas das verdades fundamentais da fé cristã, confirmada por meio de confissões de fé (Credo Apostólico), fundamentos teológicos (Criação, Encarnação, Trindade, Lei, Graça) e testemunhos históricos (João Batista). Cumpre à pregação resgatar e anunciar essas diferentes dimensões do texto.

2

Exegese

A presença de João 1.(1-9)10-18 nessa data litúrgica, juntamente com a passagem do profeta Jeremias (Jr 31.7-14) e a perícope da Carta aos Efésios (1.314), aponta para a chave hermenêutica a ser observada na leitura e interpretação do evangelho. Enquanto a passagem de Jeremias fala da alegria pelo retorno dos exilados e pela transformação a ser operada pela ação de Deus na vida dos que sofrem, a Carta aos Efésios aponta para a questão da preexistência e predestinação para a glória na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, em quem somos transformados em novas criaturas. As pesquisas no Evangelho de João têm girado em torno do processo de composição do evangelho e da identidade ou natureza das comunidades joaninas. No que diz respeito à primeira questão, há várias teorias acerca do processo de construção que resulta em nosso atual evangelho. Brown apresenta três etapas diferentes. Vidal distingue quatro momentos distintos. Em ambos está presente a compreensão de que o prólogo do Evangelho de João é uma introdução ao evangelho, seguida pelo “livro dos sinais“ (1.19-12.50), e a toda a literatura joanina. Sua origem está relacionada com as tensões e conflitos da comunidade joanina com outras tradições religiosas, especialmente as de matriz gnóstica. Nesse sen-

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tido, o prólogo seria resultado do encontro do momento vivido pela comunidade joanina e sua compreensão do papel desempenhado por Jesus no momento da redação final do evangelho. O que está em jogo no prólogo de João é a identidade de Jesus. No estágio em que se encontra, a comunidade joanina formula sua compreensão de Jesus recorrendo a uma terminologia, discurso e linguagem diferentes daqueles transmitidos pelos sinóticos. No discurso da comunidade, Jesus é apresentado em categorias que se tornaram normativas para a doutrina e tradição da igreja. Numa clara perspectiva pós-pascal, Jesus reúne em sua pessoa as dimensões que, na doutrina da Trindade, estão reservadas também ao Pai e ao Espírito Santo. No entanto, o que o prólogo procura destacar é a encarnação de Jesus. Encarnação é o modo de revelar-se de Deus em Jesus. Em Jesus, revelação torna-se encarnação. Da mesma forma como alguns autores identificam a imagem veterotestamentária da Sabedoria personificada (Ec 24 e Sb 9) como pano de fundo da narração, também se poderia cogitar a possibilidade do “Hino da Pérola“ ocupar esse lugar. Nesse texto gnóstico, presente no livro apócrifo “Os Atos de Tomé“, é contada a história de um príncipe que é enviado para uma missão, durante a qual ninguém o reconhece, e depois retorna ao reino do pai. V. 1-3 – O prólogo começa tratando da transcendência de Jesus. Não se trata de uma transcendência transcendental, mas de uma transcendência imanente. A linguagem empregada (no princípio, logos, e o tornar-se) logo revela os limites da linguagem para expressar o que Jesus de fato é: Filho Único de Deus encarnado. Jesus é a palavra, o discurso e a linguagem de Deus. Ele é o logos. V. 4-5 – Estes versículos inauguram uma nova linguagem. Enquanto os três primeiros versículos estão preocupados com a matriz divina de Jesus, agora entram em cena as metáforas luz e vida para contrastar com trevas e incompreensão. Jesus é a luz do mundo, luz dos homens (Jo 8.12, 9.5, 14.4). Jesus é a vida (Jo 10.11, 14.6). A palavra “luz“ aparece 74 vezes no Novo Testamento. Desse total, 34 vezes na literatura joanina, sendo 24 vezes no Evangelho de João. Nos sinóticos, aparece somente 15 vezes (Mateus: sete vezes; Lucas: sete vezes; e Marcos: uma vez). Da mesma forma, a palavra luz tem um papel de destaque no evangelho. Cabe ao logos comunicar vida e luz. V. 6-8,15 – Agora João Batista é chamado à cena. Ele é a testemunha histórica de que Jesus existiu. Ao abrir esse parêntese para inserir a figura de João Batista no hino, o prólogo quer mostrar que João é a primeira testemunha da luz (v. 6-8). No entanto, o aparecimento da luz não é garantia de sua aceitação e reconhecimento. João Batista, como enviado de Deus, desfruta no Evangelho de João do mesmo grau de dignidade que Jesus e o Paráclito desfrutam (3.17,34; 5.38; 14.26; 15.26;16.7). A finalidade do testemunho de João é para que todos creiam (v. 7). Esse é também o sentido da menção de João Batista no v.15. Ao contrário dos sinóticos, onde João Batista é o precurssor, nesse evangelho João é a testemunha. Nesse sentido, João Batista, ao testemunhar a existência de Jesus, torna-se avalista da existência do logos.

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V. 9-14 – A partir do v. 9, o logos é ambientado no mundo. O mundo e o ser humano foram criados por meio dele (v. 9-10). O v. 11 introduz uma tensão no texto, a saber: a rejeição do logos. Enquanto a tradição sinótica irá narrar uma série de situações, normalmente encenadas no Natal, que denunciam a rejeição de Jesus por parte dos seus, João simplesmente diz “e os seus não o receberam“. No entanto, é no v. 12 que reside a ênfase do texto. Aos que creem deu o poder de ser filhos de Deus. Essa inserção na família de Deus representa um dos elos fundamentais para a comunidade joanina. Não se trata da família consanguínea, como descreve o v.13, mas da família de fé. O v. 14 tem a função de amarrar os diferentes aspectos desenvolvidos no texto até aqui. A razão de ser do logos é ser Emanuel – Deus conosco. É sua presença entre nós que revela sua glória. V. 16-18 – Os v. 16-17 tematizam a questão da lei e da graça. Talvez tenhamos aqui resquícios da tensão entre judeus e cristãos na comunidade joanina. Assim como Paulo em Romanos (9-11), o prólogo faz menção do papel da Lei, dada por Moisés, e da graça, revelada por Jesus, no conhecimento do Pai. Para ver o Pai, é preciso conhecer a graça e a verdade reveladas por Jesus Cristo. De agora em diante, conhecer o Pai significa conhecer seu Filho Unigênito (v. 18).

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Pregação

A proposta de recorte do texto (Jo 1.[1-9]10-18) abre várias possibilidades para a pregação. Um ponto importante para a pregação é o momento litúrgico vivido pela comunidade. A comunidade precisa ser lembrada de que ela se encontra depois do Natal e do Ano Novo. Em geral, esse momento do calendário ocidental é marcado pela vivência de emoções mais intensas, seja pela perspectiva do novo que o ano anuncia, seja pelos resultados, positivos ou negativos, do ano que findou. Essa contextualização da pregação pode ser decisiva na ênfase a ser dada no texto de pregação. Entre as diferentes perspectivas apontadas pelo texto está sua relação com o nascimento de Jesus. Enquanto os sinóticos têm sua maneira própria de falar do nascimento de Jesus e de seu significado para a vida dos crentes, João destaca a encanação de seu modo, falando da origem divina de Jesus. Dentro desse horizonte da encarnação, alguns aspectos podem ser acentuados. Por exemplo, a questão da rejeição. De modo algum, a pregação deveria tapar o sol com a peneira das luzes e foguetes das festividades que ficaram no passado. De fato, embora estejamos inseridos numa cultura cristã, a aceitação de Jesus, tal qual proposta pela comunidade joanina, deixa muito a desejar. Os sinais estão em toda parte. Porém, assim como no próprio texto, talvez mais do que destacar a rejeição de Jesus por parte daqueles para quem foi enviado, a pregação pode destacar os aspectos que fazem a diferença para os que o recebem. O que, afinal, significa para nós hoje ser filhos de Deus? Uma frase difundida em vários formatos diz: “Não sou dono do mundo, mas filho do dono“. Embora a pregação deva precaver-se contra o perigo de entrar num discurso “autoajudista“ em relação a ser filho de Deus, a intimidade com a graça, a luz, a verdade e a vida pode e deve ser

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destacada. O que significa isso para dentro de nosso mundo em vista do ano-novo que a comunidade tem diante de si? Quais são os compromissos com os quais efetivamente a comunidade em geral e cada cristão em particular estão dispostos a nos comprometer como filhos de Deus? Outra direção à pregação poderá ser dada a partir do papel desempenhado por João Batista no prólogo de João. Nessa perspectiva, o desafio será relacionar o papel de João como testemunha com o papel que a comunidade tem de testemunhar acerca do logos. Ao mencionar o nome de João Batista, o evangelista recorda a comunidade da vida e morte dessa testemunha. Muito mais do que ceder o nome para as festividades de São João, João Batista pagou com a própria vida, como tantos mártires depois dele, por causa de seu testemunho. Embora a época litúrgica seja outra, o tema da Trindade também encontra importantes subsídios no texto de João. A tentativa de responder a pergunta “quem é Jesus?“ pela comunidade joanina deveria levar nossas comunidades a ter maior clareza sobre o evangelho que é anunciado por meio de sua vida. Se fôssemos reescrever o evangelho a partir do testemunho de muitas de nossas comunidades e das pessoas batizadas em geral, certamente ficaríamos surpresos com a boa-nova que estamos comunicando.

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Subsídios litúrgicos

Versículo de entrada: Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são Filhos de Deus (Rm 8.14). Oração do dia: Senhor, acolhe nossa presença diante de Ti como expressão de nossa vontade: Queremos ser teus filhos e filhas! Queremos receber a graça de participar da família da fé. Somos irmãos e irmãs por causa de Jesus. Permite que, reunidos em Teu nome, ouçamos a Tua palavra. Dá-nos Teu Santo Espírito para que sejamos verdadeiramente filhos de Deus hoje e por todos os dias de nossas vidas. Amém. Oração final: Agradecer pela revelação de Deus em Jesus, por Jesus ser a linguagem de Deus para nossa vida e salvação, pelo evangelho, pela encarnação, por sermos filhos e filhas de Deus. Intercessão: Pelos que “ainda não têm luz“, pelos que rejeitam Jesus, pelos que acolhem Jesus apenas nas festas (Natal) e vivem da “graça barata“, por todas as pessoas batizadas em nome de Jesus, pelas comunidades comprometidas com o evangelho, pelas igrejas que testemunham o reino de Deus. Interceder pelas testemunhas que permanecem fiéis ao chamado, não obstante as adversidades, desafios e incertezas. Interceder pelos que estão em dúvida, confusos e sem esperança.

Bibliografia BROWN, Raymond Edward. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. VIDAL, Senen. Los escritos originales de la comunidade del discípulo “amigo” de Jesus: el Evangelio y las Cartas de Juan. Salamanca: Sígueme, 1997.

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PRÉDICA: ISAÍAS 60.1-6

EPIFANIA DE NOSSO SENHOR 6 JAN 2014

MATEUS 2.1-12 EFÉSIOS 3.1-12

Carlos Artur Dreher

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Introdução

O texto proposto para a pregação já foi trabalhado cinco vezes em Proclamar Libertação, a saber, nos volumes V, VIII, XVII, XXIV e XXIX – nas duas primeiras vezes, de forma isolada; nas três últimas, na relação com os textos de Mateus 2.1-12 e Efésios 3.1-12, como ocorre também desta vez, sempre no contexto da festa de Epifania. Já há, portanto, uma série de excelentes reflexões disponíveis para a elaboração da pregação. Buscando estabelecer uma relação entre os três textos, percebe-se que todos eles se referem aos povos fora da esfera do judaísmo. O autor da Epístola aos Efésios afirma, em 3.6, que “os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho”. Mateus 2.1-12 relata a visita dos magos do Oriente. Isaías 60.1-6 anuncia que as nações se encaminham para Jerusalém (v. 3). As alusões aos “reis” (v. 3) e a “ouro e incenso”, que todos os que virão de Sabá trarão, embora certamente tenham contribuído para que cristãos estabelecessem uma relação com os magos descritos por Mateus, referem-se apenas ao anúncio de que Jerusalém se tornará o centro a partir do qual o Senhor reunirá todos os povos. A partir dessas relações, pode-se definir o tema deste culto de Epifania: a Revelação que vem do alto apresenta-se como luz para todas as nações.

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Isaías 60.1-6

Desde Bernhard Duhm (1892), os caps. 56-66 tornaram-se conhecidos como um conjunto literário distinto no Livro de Isaías. Convencionou-se chamar esse conjunto de Trito-Isaías, embora se reconheça que dificilmente tais capítulos provenham de um mesmo profeta. É bem provável que se trate de uma composição de palavras provenientes de épocas diferentes, ainda que todas sejam datáveis para os anos posteriores ao exílio babilônico. Contudo, há certo consenso de que os caps. 60-62 devem representar palavras do mesmo profeta, que teria atuado em Jerusalém nos anos imediatamente após o final do exílio, em 539 a. C., mas ainda antes da reconstrução do templo, ocorrida entre 520 e 515 a.C. Os capítulos 60-62 são considerados o núcleo de Trito-Isaías e apresentam exclusivamente palavras de salvação. Em 539 a. C., o decreto de Ciro (cf. Ed 6.3-6; compare com 2Cr 36.22-23 e Ed 1.2-4) propunha a reconstrução do templo de Jerusalém às despensas do tesouro persa, bem como a devolução dos utensílios do templo, levados como espó-

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lio por Nabucodonosor para a Babilônia. Porém é pouco provável que já naquele tempo exilados tenham voltado da Babilônia para a Palestina. É mais provável que isso tenha ocorrido por volta de 527/6 a. C., quando o rei persa Cambises empreendeu uma campanha militar contra o Egito. Mesmo assim, poucos voltaram. Cidade e templo estavam destruídos. A motivação para o retorno era mínima. A situação alterou-se com a morte de Cambises em 522 a. C. Como ele não deixara sucessores, o império entrou em convulsão, ainda que por pouco tempo, numa disputa entre os que pretendiam a coroa. Ainda em 522 a. C., Dario saiu-se vencedor. Contudo aquele breve espaço de tempo parece ter reacendido a esperança por independência em Judá em torno da figura do davidida Zorobabel. É nesse contexto que iniciam as obras de reconstrução do templo, abandonadas pouco depois, até que, em 520 a. C., sob forte influência de Ageu e Zacarias, foram retomadas. Parece-me ser esse o contexto em que Trito-Isaías pronuncia suas palavras. A situação não é das melhores. Conforme Ageu 1.6, as colheitas são fracas. Come-se pouco. A pobreza é intensa. Não obstante, a perspectiva da reconstrução do templo ligada à figura de Zorobabel representa a possibilidade de irrupção de algo novo. A glória do Senhor aparece resplendente sobre Jerusalém ainda em ruínas. O recorte proposto para a pregação não me parece adequado. A perícope deveria estender-se pelo menos até o v. 7, embora todo o cap. 60 esteja sob o mesmo enfoque da nova esperança. A relação entre os v. 6 e v. 7 estabelece-se no paralelismo entre “a multidão de camelos e dromedários de Midiã e Efá” com “todas as ovelhas de Quedar”, que virão e reunir-se-ão junto de Jerusalém. O texto estrutura-se em duas partes: v. 1-3, em que o tema é a glória do Senhor que nasce (v. 1; 3) sobre a cidade que resplandece sob a luz de Deus, a “tua luz”; e v. 4-7, em que se conclama a olhar em torno e ver o ajuntamento tanto de “teus filhos e tuas filhas” (v. 4) como das “nações”. V. 1-3 – A conclamação no início da perícope – “dispõe-te” – significa literalmente: “põe-te de pé”. A expressão pressupõe a ruína. A cidade e o templo estão no chão. A catástrofe de 587 a. C. ainda é visível nos restos deixados pelos babilônios. O profeta conclama essas ruínas a se erguer. A imagem evoca a passagem de Ezequiel 37, na qual os ossos secos que jazem no vale reassumem seus corpos e põem-se em marcha, em decorrência da ordem do Senhor. É hora de reerguer-se! É hora de brilhar, de resplandecer! Tal brilho, porém, não se origina de luz própria. A “tua luz” que vem é a luz de Deus. É sua glória que nasce sobre o montão de ruínas. Como o nascer do sol, a luz do Senhor nasce sobre a cidade caída. Por isso ela pode levantar-se. Com a luz que nasce sobre aquele montão de ruínas, a terra inteira e todos os povos são obscurecidos: jazem nas trevas (v. 2). O Senhor e sua glória resplandecem sobre Jerusalém. Tal resplendor ofusca tudo o que está à volta: terra e povos. Sobre os que jaziam nas trevas nasce a luz ofuscante de Deus, e os que pareciam estar na luz se veem agora nas trevas. A imagem evoca Isaías 9: “O povo que andava em trevas viu uma grande luz...”

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Para essa luz resplendente volta-se o mundo. Nações e reis encaminham-se para o resplendor “que te nasceu”. V. 4-7 – “Levanta em redor os olhos e vê.” De todos os lugares, de todas as partes do mundo, nações e reis ajuntam-se e vêm para a cidade. Entre os que vêm estão também “teu filhos e tuas filhas”, que estavam dispersos. Os primeiros chegam de longe; as segundas são trazidas nos braços. E agora, sim, “rejubila, filha de Sião!” Verás, teu júbilo e tua alegria serão tão intensos, que teu coração estremecerá e estará por arrebentar-se de felicidade. Todas as nações virão até ti e trarão suas riquezas: a abundância do mar, multidão de camelos e dromedários, ouro e incenso, ovelhas e carneiros, esses últimos talvez subindo espontaneamente para o altar, como sacrifícios voluntários à glória do Senhor. E a casa da glória do Senhor – o templo, que se espera já reconstruído – será tornada, por Ele mesmo, em mais gloriosa ainda. Enfim, é Epifania. Deus mesmo se manifesta a partir do alto. Sua luz nasce sobre uma Jerusalém em ruínas e atrai o mundo inteiro, reis, nações, camelos e dromedários, ovelhas e carneiros, seres humanos e animais, para junto de sua glória.

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Caminhando para a pregação

O dia 6 de janeiro era, em minha infância, o dia em que os “reis” magos do presépio de minha avó chegavam, pela manhã, ao lugar da manjedoura. Era também o dia em que se desmontava a árvore de Natal, que, se ainda estivesse verde e viçosa, passava para o vizinho de minha avó, católico ortodoxo grego, que na noite daquele dia celebraria o Natal. 6 de janeiro é Natal na tradição oriental, ortodoxa. 6 de janeiro é o dia em que a colônia açoriana aqui no Rio Grande do Sul festeja o Dia de Reis. Os ternos de reis, compostos por três músicos, visitavam as casas do lugar, cantando canções natalinas. Eram saudados pelos donos das casas, que lhes ofereciam comida e bebida. Vê-se por aí que o dia 6 de janeiro não é conhecido como Epifania. É, sim, o Dia de Reis. Tudo isso leva a recordar e recontar a narrativa de Mateus 2.1-12, embora o texto não diga que foram reis, mas magos do Oriente. Pelos presentes – ouro, incenso e mirra – deduz-se que foram três. A tradição apócrifa dá-lhes, inclusive, os nomes de Gaspar, Baltazar e Melquior, sendo um dos três negro. A passagem de Isaías 60.1-7 menciona reis do Oriente – Midiã e Efá (certamente a leste da Palestina), Sabá (talvez na Etiópia ou no atual Iêmen), Quedar (no sul da Arábia), Nebaiote (entre o Eufrates e o Mar Vermelho, talvez a região de Petra). Também fala de ouro e incenso. Esses pequenos detalhes estabelecem uma bela relação entre Trito-Isaías e Mateus. Contudo, há um detalhe a mais. Os magos do Oriente vão a Jerusalém à procura do “recém-nascido rei dos judeus”. Trata-se de uma Jerusalém reconstruída, com um novo e belo templo, ampliado por Herodes. Porém não é ali que se encontra o menino. É em outro lugar que a estrela-guia para. É numa estrebaria que o menino se encontra, deitado em uma manjedoura.

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Esse detalhe é de suma importância. Em Isaías 60.1-7, a Epifania dá-se sobre uma cidade e um templo em ruínas, onde nada lembra a glória de Deus. É ali que a luz de Deus se manifesta. Sobre as ruínas resplandece a luz do Senhor. Assim também ocorre Epifania na passagem de Mateus. Não é no palácio, nem no templo, que a glória de Deus se manifesta, mas numa estrebaria fedorenta. Numa manjedoura, cuja palha ainda permite ver a baba do boi e do burro, resplandece a luz gloriosa de Deus. Sobre as ruínas do mundo se manifesta a glória do Senhor. Isso nos leva a pensar na cruz. Também no Gólgota, a luz de Deus manifesta-se sobre a ruína humana. Não é uma luz gloriosa como a da manhã da Páscoa. É uma luz tênue, que mais parece estar em extinção. “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” Como a Jerusalém destruída, como a mísera estrebaria – aí está o Filho de Deus, ensanguentado, trespassado, ruína humana. A passagem de Efésios 3.1-12, por sua vez, leva-nos novamente ao âmbito dos povos, dos gentios, que são “co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (v. 6). Novamente, como em Isaías 60.1-7 e Mateus 2.1-12, Epifania estende-se a todos os povos do mundo. Ainda que não se atribua mais a Carta aos Efésios a Paulo, considera-se que ela deve ter origem na escola paulina na Ásia Menor. Embora a carta não a aborde de maneira tão explícita como Paulo, a teologia da cruz ainda subjaz a seu texto, como, por exemplo, em 2.16, onde se afirma que foi por intermédio da cruz que judeus e gentios foram reconciliados em um só corpo. Se considerarmos que esses gentios, primeiros cristãos em meio ao mundo greco-romano, em geral, não eram de estirpe nobre, mas “coisas loucas”, “coisas fracas”, “humildes, desprezadas e aquelas que não são”, como afirma Paulo em 1 Coríntios 1.27s, também esses são ruína do mundo sobre a qual resplandece a glória de Deus. De fato, essas pequenas comunidades não se encontram em uma Jerusalém em ruínas, tampouco na estrebaria de Belém. Encontram-se espalhadas pelo mundo. Sobre elas, ruínas do mundo, resplandece a luz de Deus. Afinal, não é em Jerusalém ou em qualquer outro monte, ou mesmo em qualquer lugar específico, que o Pai será adorado, mas em espírito e em verdade (Jo 4.21-23). Sugiro que nessa direção caminhe a pregação, atentando para o conjunto dos três textos. Epifania é a glória de Deus que resplandece sobre a) uma Jerusalém em ruínas; b) sobre uma pobre estrebaria; c) sobre pequenas comunidades esparsas pelo mundo. Ali onde não parece nem se espera, Deus se manifesta. Ali onde Jesus Cristo é o Senhor em espírito e verdade, ali acontece Epifania.

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Uma imagem para prédica

Em meus tempos de trabalho no CEBI, conheci Zé Batista, um mineiro de Mathias Barbosa, próximo a Juiz de Fora. Acompanhava muitíssimos grupos que praticavam a leitura popular da Bíblia na região. Zé dizia-se leigo, de pouca

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escola, querendo dizer dessas escolas de aprender com professor. Da escola da vida Zé sabia demais. Era até doutor. É de Zé Batista que tenho a melhor interpretação popular da Bíblia que já ouvi e que é, penso eu, a melhor interpretação de Epifania. Reconto o que ouvi do próprio Zé, esperando recontar direito. Em um de seus grupos, Zé pergunta: “Pessoal, qual é a diferença entre a galinha de granja e a galinha caipira”. E o pessoal responde: “Galinha caipira vive no terreiro, galinha de granja naqueles galinheiros grandes”. “O ovo da galinha de granja não tem tanta saúde quanto o ovo da galinha do terreiro. Tem casca mole. A gema não tem cor direito.” “É porque galinha de granja come só ração. Não tem minhoca. Não pode ciscar.” “Quando choca, a galinha caipira faz nascer tudo. A galinha de granja é muito pouco.” E o Zé: “E como é o ninho da galinha caipira?” A turma: “Ih, difícil de achar. Tá lá no fundo do terreiro, escondido debaixo de uma árvore, que é pro gavião não pegar”. E o Zé: “Do que ela faz o ninho?” E alguém: “É puro lixo, não sabe? Junta tudo quanto é traste e vai fazendo o ninho. Casca velha, papel rasgado, varredura, até sapato velho jogado no lixo. Mas dá gosto de ver os pintos!” E o Zé: “Pois é, pessoal. Deus é que nem galinha caipira. Escolheu o lixo do mundo para ali botar os ovos do evangelho. Foi numa estrebaria que nasceu o filho dele. E ele quis que os pobres fossem os primeiros a receber a boa notícia”.

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Subsídios litúrgicos

Dois hinos do HPD 1 parecem importantes para o culto: 32 (Renovo mui delgado) e 39 (Vem à luz alegremente). Talvez também, por ser mais conhecido, o hino 38 (Estrela d’alva, o teu fulgor). Como versículo de introito, proponho Mateus 11.25: “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos”. Penso que as três leituras previstas para o domingo deveriam ser lidas, relacionando-as na pregação.

Bibliografia SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, IEPG, 1994. SCHWANTES, Milton. Breve história de Israel. São Leopoldo: Oikos, 2008.

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PRÉDICA: MATEUS 3.13-17

1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)

ISAÍAS 42.1-9 ATOS 10.34-43

12 JAN 2014

Günter A. Wolff

1

Introdução

O Servo, mencionado em Isaías 42 e chamado de Filho pelo próprio Deus para mostrar que esse é o Messias, deixa-se batizar para mostrar seu projeto construído a partir do serviço: “Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28; Mc 10.45); segundo Paulo: “Antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e reconhecido em figura humana” (Fp 2.7). Consequência para as pessoas batizadas na comunidade como testemunhas: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus” (2Co 4.5). Segundo Atos 10, as pessoas batizadas serão testemunhas desse Cristo, o Servo de Deus que luta por justiça com os enfraquecidos pelo sistema (Mt 25.31-46), até os confins da terra, pregando o seu evangelho do reino de Deus, que é sua mensagem central (Lc 4.43; Lc 16.16). O Batismo é a marca da pertença ao reino de Deus no combate ao reino do mundo, hoje o capitalismo. O Batismo leva ao serviço voluntário de participar da construção do reino de Deus, que pressupõe a libertação, segundo Isaías 42.1-9, dos cegos e cativos (presos e escravos) e dos que estão fragilizados pelo sistema dominante (v. 3: “Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o direito”). “Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça”, diz Jesus, pois o Batismo leva para a luta por justiça com os enfraquecidos (nem apagará a torcida que fumega). Os céus abriram-se, e Deus novamente fala a seu povo, agora não mais através de profetas, mas por intermédio de seu próprio Filho (Hb 1.1-2). A partir do Salmo 74.9 (“já não há profeta; nem, entre nós, quem saiba até quando”), o povo dizia que o céu se fechou e Deus não fala mais com seu povo e com isso, segundo Provérbios 29.18, “não havendo profecia, o povo se corrompe”. Por isso a importância da palavra de Mateus 3.16. Os céus abriram-se, e o Espírito de Deus desceu para falar com seu povo. O povo agora não está mais sozinho e abandonado. Deus está em Jesus Cristo no meio dele. Por isso Jesus Cristo começa dizendo em sua primeira pregação em Marcos 1.15: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”. Começou um novo

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

tempo: o tempo do reino de Deus, uma nova sociedade não classista, igualitária, de irmãos e de irmãs.

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Exegese

Não dá para desvincular Mateus 3 dos dois capítulos anteriores, que são a abertura do evangelho. Borg e Crossan, em “O Primeiro Natal”, dizem que ali se apresentam os dois projetos: o projeto de Deus e o projeto do Império. São ali apresentadas as duas vias para a paz: a paz pelo amor e pela vida, que é o projeto de Deus, e a paz pela violência e pela guerra, que é o projeto do Império Romano, que tem seu semelhante de hoje na prática de combater o terrorismo leigo pelo terrorismo de Estado dos Estados Unidos, matando e destroçando povos inteiros, como fazia o Império Romano. São apresentados ali os dois deuses: Javé, em Jesus Cristo, e o autodeclarado deus César, de Roma, com práticas totalmente opostas. Jesus Cristo quer libertar da opressão em vida e da própria opressão da morte, e César quer manter a exploração e a opressão em seu império, se possível eternamente. Nessa luta de classes, presente na história, Deus opta pela classe explorada e oprimida, tornando-se integrante dela como camponês sem terra e sem teto. A insurreição de Deus começa a partir e com os explorados, pela classe explorada: a classe camponesa, para “cumprir toda a justiça”. Justiça essa que não havia nem se poderia esperar do Império Romano. É por causa dessa falta de justiça que Jesus Cristo se deixa batizar, para sinalizar que as pessoas batizadas são marcadas pela luta por justiça. Assim está inerente a todas as pessoas batizadas em nome de Jesus Cristo a luta pela justiça, que significa uma opção de classe na luta de classes que há na sociedade, também de hoje; opção pela classe explorada pelos detentores da propriedade privada dos meios de produção, que controlam os aparelhos do Estado em seu próprio benefício. Somos batizados para participar da revolução do reino de Deus, que se opõe ao reino do mundo, hoje o capitalismo e seus mecanismos de manutenção e reprodução. O texto de Mateus 3.13-17 (semelhante ao paralelo de Lucas) é antecedido pela pregação de João Batista e seguido pelo relato da tentação e prisão de João Batista (aqui em Lucas é diferente, pois na sequência não cita a prisão do Batista) e pelo início de seu ministério (Lc 3.23: “Ora, tinha Jesus cerca de trinta anos ao começar o seu ministério”). Segundo Mateus e Marcos, Jesus Cristo começa seu ministério após o batismo, a tentação e a prisão de João Batista. Jesus vai da Galileia ao rio Jordão para ser batizado por João, longe do templo de Jerusalém e em oposição a esse, numa alternativa à teologia da purificação do templo de Jerusalém. Esse requer custos para comprar no comércio do templo o animal para o sacrifício; aqui a purificação para a remissão de pecados é de graça – uma afronta às finanças do templo de Jerusalém. Afinal, as pessoas empobrecidas da periferia não tinham dinheiro. Segundo a pregação de João Batista (semelhante à pregação de Jesus em Mc 1.15): “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). João e Jesus têm o mesmo centro em sua pregação: arrependimento e reino de Deus.

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

O texto aponta a periferia como sendo o centro da atuação de João Batista: “dirigiu-se Jesus da Galileia para o Jordão”. Nessa periferia, Jesus continuará seu ministério. Os evangelhos mostram Jesus caminhando da periferia para o centro para ali ser crucificado. O centro é o problema (ali está o poder do reino do mundo, que se opõe ao reino de Deus), e a periferia é a saída (Jesus nasceu na estrebaria, fora da cidade, e morreu no Gólgota, na periferia, fora da cidade). No processo da luta de classes na Palestina, Jesus é um camponês da periferia que coloca a saída a partir da periferia (o que não é admitido pelo centro: Jo 7.41, Jo 7.52, Jo 7.49), pois ali ele exerce o seu ministério. O reino de Deus anunciado e construído por Deus através de seu Filho começa na periferia e sente oposição a partir do centro (Herodes quer prender Jesus – Lc 13.32; o templo prende Jesus como herege – Mt 26.47-68; e o Império Romano mata-o como subversivo – Lc 23.1-5). João reage ao pedido de Jesus para ser batizado por ele para mostrar que Jesus é o centro e não João: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. A mensagem de Deus através de Jesus Cristo é a continuação da mensagem dos profetas: a luta pelo direito (Is 42.4: Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito) e pela justiça (Mt 3.15: Convém cumprir toda a justiça): “para abrires os olhos aos cegos, para tirares da prisão o cativo e do cárcere os que jazem em trevas” (Is 42.7). A luta pelo direito e pela justiça em favor dos fragilizados para libertá-los do sistema deste mundo (Lc 4.18-19), hoje o capitalismo, é a pura subversão e insurgência inerente ao evangelho. Após o batismo de Jesus, “eis que se lhe abriram os céus”. Os céus abriram-se a Jesus para sobre ele descer o Espírito de Deus, como é testemunhado em Atos 10.37-38: “depois do batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder”. Os cristãos confessam hoje que, na hora do Batismo, recebem o poder do Espírito Santo, quando também são ordenados sacerdotes e sacerdotisas, pois, após o batismo, Jesus inicia seu ministério sacerdotal, pois ele não era de família sacerdotal, assim como João Batista. Ser sacerdote e sacerdotisa não é privilégio advindo de uma família sacerdotal, mas é dado democraticamente pelo batismo para todos, como diz em 1 Pedro 2.5 e 9. Martim Lutero lembra: “Cada cristão tem a palavra de Deus e foi instruído e ungido por Deus para ser sacerdote... Tendo eles a palavra de Deus e sendo por ele ungidos, também têm o dever de confessar, ensinar e difundi-la...” “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” Jesus é o Deus encarnado na classe camponesa palestina, pois “Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1Co 1.28), no dizer de Paulo. É a revolução do reino de Deus a partir dos humildes e dos que nada são diante do sistema, mas que têm todo o poder, a partir da fé em Jesus Cristo, para revolucionar este mundo (Rm 12.2) em direção ao reino de Deus.

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Meditação

Batismo é a marca da pertença ao reino de Deus e não ao reino do mundo, o capitalismo. O Batismo é de graça, fora e longe do templo, na periferia e nas margens do deserto, feito por um profeta e não por um sacerdote. Há aqui um rompimento com o templo e a sociedade classista que esse representava e legitimava. O céu fechou-se, diz o Salmo 74.9. Deus não fala mais com seu povo. Com o batismo de Jesus, os céus abriram-se, e Deus novamente fala com seu povo e está no meio dele. O batismo de Jesus Cristo é para “cumprir toda a justiça”, a qual nos lembra Paulo em Romanos 14.17 quando fala do reino de Deus, dizendo: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”. Batismo tem a ver com a luta por justiça, pois se é batizado para ser integrante de um novo projeto de vida e de sociedade: o reino de Deus, que é o projeto de uma nova sociedade de irmãos e irmãs, igualitária, não classista, em que os meios de produção pertencem ao coletivo (At 2 e 4 – esse é o testemunho que os batizados dão de Jesus Cristo – At 10.39,42-43). Assim, Batismo tem a ver com o testemunho prático de vida do projeto do evangelho do reino de Deus, a nova sociedade igualitária construída a partir da periferia. Batismo e sacerdócio andam de mãos dadas; um é consequência do outro. Jesus foi batizado e após inicia o seu ministério sacerdotal a partir da periferia contra a teologia do centro, que legitimava o status quo. Quem não exerce o seu sacerdócio nega o seu Batismo. A partir do batismo de Jesus são rompidas a tradição e a compreensão judaica de sacerdócio (somente homens de uma família sacerdotal): agora ele foi democratizado a partir do Batismo e é dado a homens e mulheres. Martim Lutero diz: “Inventou-se que o papa, os bispos, os sacerdotes e o pessoal dos conventos sejam chamados de estado clerical; príncipes, senhores, artesãos e agricultores, de estado secular. Isso é uma invenção e fraude muito refinada. Mas que ninguém se intimide por causa disso, e pela seguinte razão: todos os cristãos são verdadeiramente de estado ‘clerical’ , isto é, espiritual, e não há qualquer diferença entre eles, a não ser, exclusivamente, por força do seu ofício. Tudo isso faz com que tenhamos um batismo, um evangelho, uma fé e sejamos cristãos iguais, porque batismo, evangelho e fé é que exclusivamente tornam as pessoas espirituais e cristãs. (. . .) Assim, pois, todos nós somos ordenados sacerdotes através do Batismo (. . .). Como, pois, o poder secular é batizado como nós, tem a mesma fé e evangelho, temos que deixá-lo ser sacerdote e bispo e considerar seu ofício como ofício que pertence à comunidade cristã e lhe é útil”. “Além de tudo, somos também sacerdotes. Isso é muito mais do que ser rei, porque o sacerdote nos capacita para nos poder apresentar diante de Deus, rogando pelas demais pessoas; pois somente aos sacerdotes compete, por direito próprio, estar perante Deus e rogar” (Lutero. Da liberdade Cristã). “Por isso sustento e sei que, como não há mais de um evangelho e um só Cristo, assim também não há mais do que um batismo. E que o batismo em si

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mesmo é uma ordem divina, como também é seu evangelho” (Lutero, Confissão sobre a Santa Ceia de Cristo). Efésios 4.5-6 fala disso. Nosso Batismo também tem a ver com o falar a palavra de Deus ao povo dentro do processo revolucionário da construção do reino de Deus, como testemunho de fé no Deus tornado pessoa num camponês palestino sem terra e sem teto. O dizer de Deus de que Jesus é “meu Filho” contrapõe-se ao Império Romano, onde o imperador era filho de algum deus ou mesmo se autodeclarava deus. Se “esse” Jesus é o filho amado de Deus, então não é o imperador. Deus não se compraz com o imperador, mas com Jesus de Nazaré, o servo, segundo Isaías (Is 42.1-4) e Paulo (Fp 2.7). A pomba como símbolo do Espírito Santo quer simbolizar a paz em contraposição à prática do imperador de Roma, que se dizia filho de deus, mas com a prática da guerra, que era essencial para o funcionamento do modo de produção escravista. Aqui temos a Trindade presente no texto para encaminhar o projeto do reino de Deus via Batismo, que é a marca do compromisso com o projeto de Deus, assim como o nosso Batismo é a marca do projeto de Deus em nós. Somos marcados no Batismo para o testemunho e a execução do projeto de Deus, que Jesus Cristo chama de reino de Deus, sua mensagem central, segundo Lucas 4.43. Com o Batismo, Jesus Cristo começa o seu ministério no processo de construção do reino de Deus, segundo nos mostra o cap. 4 de Mateus. Agora Deus não tem mais intermediários. É Ele próprio encarnado na classe camponesa explorada que anuncia o seu projeto de vida, de justiça e de paz: o reino de Deus. Com o nosso Batismo nós começamos o nosso ministério sacerdotal dentro da luta por justiça pelo projeto dessa nova sociedade não classista que Jesus Cristo chama de reino de Deus. Por sua opção de classe, Javé torna-se, uma vez, camponês sem terra palestino e, por outra, deixa-se batizar por um camponês, João Batista (de família sacerdotal, mas não conspurcada pelo templo de Jerusalém), porque “convém cumprir toda a justiça”. O grito por justiça (Lc 4.18-19) a partir da opressão do Império Romano é semelhante ao grito da opressão dos camponeses escravos sem terra hebreus no Egito, e por isso Javé decide intervir pessoalmente para viabilizar seu projeto de paz, de amor e de vida. O Batismo longe do templo de Jerusalém tem seu significado insurgente contra o mesmo e a sociedade classista que defende. Aqui a purificação é de graça e não via holocausto, que viabiliza economicamente o templo e propõe o fim do sacrifício de animais como expiação pelos pecados. Agora isso passa pelo arrependimento (Mt 4.17), vinculado à luta pelo reino de Deus. Arrependimento individual dos pecados não vinculado à luta pelo reino de Deus é algo incompleto, pois estamos inseridos num sistema coletivo pecaminoso: o capitalismo. Deus, em Jesus Cristo, insurge-se contra a religião que o defende – uma religião com práticas não libertárias, mas de subordinação aos interesses do modo de produção escravista controlado pelo Império Romano. No lugar dessa religião, Jesus Cristo coloca o evangelho do reino de Deus, construído a partir das práticas libertárias da classe explorada, segundo 1 Coríntios 1.27-28.

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Imagens para a prédica

Começamos com a palavra de Martim Lutero: “Cada cristão tem a palavra de Deus e foi instruído e ungido por Deus para ser sacerdote... Tendo eles a palavra de Deus e sendo por ele ungidos, também têm o dever de confessar, ensinar e difundi-la...” Todos na comunidade foram batizados e instruídos (culto infantil, ensino confirmatório, prédicas, cursos e na família) para exercer seu sacerdócio dentro da atual sociedade capitalista classista injusta, “porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça”. Essa é a insurgência essencial do evangelho de Jesus Cristo. Então: 1 – Por que somente o pastor e a pastora, na maioria das comunidades, têm que ministrar o ensino confirmatório? 2 – Por que é tão difícil montar uma equipe de liturgia, pois o culto é o encontro de Deus com a sua comunidade e não somente com o pastor e a pastora? 3 – Por que as pessoas cristãs batizadas não entendem que seu sacerdócio, para “cumprir toda a justiça”, estende-se à participação nas lutas do movimento popular, político-partidário e sindical? 4 – De onde vem esta postura: eu pago a contribuição e quero ser servido (não quero exercer meu ministério sacerdotal, para o qual fui ungido no Batismo), quando a essência do ser cristão é servir, pois o próprio Jesus veio para servir e não para ser servido? 5 – Por que a ideologia capitalista se sobrepõe à essência revolucionária do evangelho do reino de Deus, que propõe a construção, a partir da fé em Jesus Cristo, de uma nova sociedade igualitária e não classista de irmãos e irmãs? 6 – Por que o pastor e a pastora não conseguem ser apenas orientadores teológicos, como prevê o Regimento Interno da IECLB, mas têm que ser executores exclusivos do sacerdócio geral de todos os crentes, em que os membros pagam para não precisar exercer seu ministério sacerdotal? 7 – Por que o Batismo acomoda e não nos empurra para o exercício de nosso sacerdócio dentro da luta de classes existente na sociedade, para acabar com essa sociedade capitalista classista injusta? 8 – Por que as comunidades vinculam o Batismo à contribuição financeira? Contribuição financeira não é gratidão? Por que ela se tornou obrigação e motivo de desavença na comunidade? 9 – Contribuição obrigatória com penalidades (não se batiza e não se enterra quem é inadimplente) é coisa de clube ou a IECLB tornou-se uma “Associação Cultural e Recreativa Alemã com Fins Religiosos”? 10 – Que modalidade e essência de ensino (formação teológica) precisamos para superar essas dificuldades?

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Subsídios litúrgicos

Versículo de entrada: “Te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49.6).

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Confissão de pecados: Confissão individual em silêncio e confissão dos pecados coletivos de nossa sociedade capitalista: não luta nossa pela reforma agrária, por um salário digno, pelos direitos dos atingidos por barragens e obras da Copa e Olimpíadas, nossa omissão frente à luta dos camponeses e operários no movimento popular e sindical, nossa omissão frente à luta dos sem-teto e desempregados, nosso não envolvimento como comunidade de Jesus Cristo nas lutas das minorias étnicas: povos indígenas e quilombolas, que têm suas terras invadidas pelo agronegócio, e nossa adesão incondicional ao capitalismo. Absolvição: “Ouvi-me vós, os que sois de obstinado coração, que estais longe da justiça. Faço chegar a minha justiça, e não está longe; a minha salvação não tardará” (Is 46.12-13). Kyrie eleison: Ouve, Senhor, o grito dos doentes na fila do SUS, o grito das mulheres violentadas e espancadas em casa, o grito das famílias que têm algum dependente químico, o grito dos sem-terra, indígenas e quilombolas Gloria in excelsis: Deus, todo-poderoso, exaltamos-te, pois continuas mantendo e multiplicando a tua criação. Deus, todo-poderoso, exaltamos-te, pois não desejavas ter apenas um único Filho, mas muitos filhos e filhas. Por isso fomos batizados em teu nome, e tu nos asseguraste: vós sois meus. Cantemos glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre as pessoas a quem ele quer bem. Oração do dia: Deus bondoso e compassivo, tu que em todos os tempos guiaste teu povo e lhe concedeste o perdão, recebe nosso louvor, ouve nossas orações e orienta-nos com o evangelho do reino de Deus, para que nos sintamos guardados em teus braços. Por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. Oração geral da igreja: Oremos por paciência: Concede paciência em meio a todas as aflições e sofrimentos. Oremos pelas pessoas que estão de luto: Aumenta-lhes a fé na ressurreição do corpo e na vida eterna. Oremos pelas pessoas que governam: Concede-lhes sabedoria e o temor do Senhor. Oremos pelas pessoas que em nossa comunidade têm responsabilidades específicas, como o presbitério e os orientadores do culto infantil. Oremos pelas pessoas perseguidas: Concede-lhes forças para resistir, espaços de acolhida, condições de recomeçar.

Bibliografia BORG, Marcus J.; CROSSAN, John Dominic. O primeiro Natal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. GORGULHO, Frei Gilberto S.; ANDERSON, Ana Flora. A justiça dos pobres. Mateus. São Paulo: Edições Paulinas, 1981.

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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 1.1-9

2º DOMINGO APÓS EPIFANIA 19 JAN 2014

ISAÍAS 49.1-7 JOÃO 1.29-42

José Manuel Kowalska Prelicz

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Introdução

Isaías lembra que o servo de Deus foi escolhido antes de seu nascimento para a ação e o testemunho. Foi escolhido não por suas próprias características, mas pelas ações que Deus realizará por intermédio dele, o escolhido/santificado. No Evangelho de João, vemos, por um lado, a escolha e a autenticação de Jesus pelo Pai, identificado através dos sinais que João Batista percebe nele, e, por outro lado, o início do colégio de discípulos ao redor de Jesus e a proclamação de Jesus como Messias. Com a perícope destacada para a pregação, iniciamos a leitura semicontínua da primeira Carta aos Coríntios. Casualmente, a perícope ajusta-se aos textos de leitura, pois justamente no início de sua carta Paulo traz a temática do chamado, da separação e da santificação da comunidade destinatária da epístola. Fica o grande desafio de trabalhar um texto mastigado diversas vezes, seja nessa delimitação ou com outros recortes. Interpretações dele encontram-se nos PL 5, 16, 21, 24, 28 e 32, além de ser base da prédica de Ernesto Schlieper no culto de encerramento da Assembleia Geral do Sínodo Evangélico Luterano Unido em 1963. Lembramos que todas essas contribuições estão acessíveis via Portal Luteranos. Quais as nuanças da segunda década do século 21? Qual é a prioridade agora? O que nos pede o contexto? Por que não mais em Advento e sim em Epifania? Faz diferença proclamar o texto no início do ano civil? Qual a característica a ressaltar?

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Exegese

Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo evita impor ou decretar. Pela via da argumentação Paulo procura convencer e conseguir adesão à sua visão. Não usa sua autoridade como forma de coação, mas a partir de Cristo procura mostrar o caminho a seguir. Enfatiza que é um mensageiro chamado e autorizado por Cristo e não um simples empregado da comunidade destinatária da carta. Assim, na perícope indicada, Jesus é lembrado direta ou indiretamente em cada versículo. Não é Paulo quem fala, mas Cristo que quer o bem de sua comunidade e através da perspectiva da cruz e do amor procura solucionar os conflitos. Paulo não argumenta com base em leis eclesiais ou imbuído do espírito humano de justiça. Também é interessante ressaltar que Paulo não se dirige simplesmente às lideranças, mas a todas as pessoas que integram a igreja de Deus que se reúne em Corinto. Da

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mesma forma, não é apenas à comunidade em Corinto que se dirige, mas à igreja de Deus que tem sua expressão em Corinto. Por isso, além das barreiras contextuais dos destinatários originais da epístola, sua leitura vale também para nós. Na divisão costumeira das Bíblias, nós temos o prescrito ou proêmio nos versículos 1-3 e a ação de graças nos versículos 4 a 9, ambas as partes consideradas regulares em cartas antigas. Mas Paulo não reproduz simplesmente o formulário tradicional para iniciar a carta. Ele amplia o cabeçalho, incluindo a temática a ser trabalhada. Por isso podemos considerar essa parte como a chave hermenêutica de 1 Coríntios, principalmente o v. 4. Aproveitamos a tradução própria de Brakemeier para fazer a comparação com a versão de Almeida (ARA) e da Linguagem de Hoje (NTLH). Observamos, em geral, que a versão de Almeida mostra-se mais adequada. NTLH adiciona “esta carta” (v. 1-2) e dá a entender que o deles e nosso refere-se a Senhor, enquanto Brakemeier considera que se refere a lugar. A NTLH substitui ou explica a palavra santificados como união com Cristo e a expressão chamados para ser santos como chamados para pertencer ao povo de Deus. Assim também procede no v. 5, quando o termo logos/palavra é convertido em dom de anunciar o evangelho e gnosis/conhecimento é traduzido como dom da sabedoria espiritual. Dessa forma, a NTLH faz uma leitura teológica sobre um texto de simples compreensão. Definitivamente, deve-se priorizar uma leitura bíblica que não seja a NTLH. O v. 2 diz três coisas sobre a pessoa cristã e a comunidade de fé: 1 – Elas estão santificadas em Cristo. O verbo hagiazo significa colocar à parte para Deus. 2 – Cristãos e cristãs são pessoas kletois hagios, chamadas a ser santas, a ser parte do povo dedicado a Deus. A palavra santo descreve, em geral, uma coisa ou pessoa que foi dedicada à posse e ao serviço de Deus. A ideia inicial vem de separação. Nesse sentido, uma pessoa apartada deve mostrar com sua vida e caráter essa nova realidade. 3 – Ao ser santa, a pessoa cristã é incluída num grande grupo, que vai além da pequena comunidade de fé (pensando na IECLB, podemos dizer que também vai além da paróquia ou sínodo) ou da igreja instituição. Assim, nenhuma pessoa ou igreja tem a posse exclusiva de Cristo. As palavras santificado e santo são palavras gregas relacionadas com o tema da santidade, que perpassa as Escrituras. A santidade é prática e conforma (com-forma / dá forma ou adéqua) todos os aspectos na vida dos santos. É a mesma conceituação do povo de Israel como povo pertencente a Deus de forma especial e única, fazendo-o diferente de todos os outros povos que moravam ao redor, diferente em práticas e lugares. No Novo Testamento, a igreja é chamada para ser diferente diante da cultura em que se encontra submersa. Lembramos o alerta de Brakemeier de que santos ou santificados “não designa o moralmente perfeito, e sim o que pertence a Deus”. Paulo dá atenção à graça divina em Cristo. Isso foi feito, pois talvez pensasse que seus interlocutores perderam o foco. Esqueceram que são primeiramente objetos da gratuidade divina. Pois as pessoas que creem em Cristo são as que realmente estão em Cristo, tendo suas vidas firmadas em Deus através de Cristo.

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No v. 3, é lembrada a saudação graça e paz, que Paulo utiliza como programa, desenvolvido nos v. 4 a 9. A graça e a paz trazem um novo estado de relacionamento com Deus, que renova as relações humanas a partir da relação que Deus restaurou consigo mesmo. Por isso a constante lembrança de Cristo como aquele que possibilita a permanência da graça e paz. Os seres humanos não conseguem ser donos desses bens espirituais, mas, ao recebê-los de Deus, são transformados e, ao mesmo tempo, transformam seu contexto e suas relações. No v. 4, Paulo agradece a Deus pela graça que foi dada à comunidade. Conforme Brakemeier, “a lembrança da obra de Deus bem como a gratidão por ela merecem absoluta prioridade. Toda pregação cristã seria vã se não partisse do que Deus fez”. Assim fez o apóstolo, lembrando a igreja das coisas que Deus tem feito por ela. O testemunho de Cristo em Corinto trouxe à comunidade uma grande diversidade e abundância de dons, que Paulo vê como uma riqueza. A comunidade de Corinto não é somente chamada para a santidade, mas também equipada de forma completa para a tarefa. Ela recebeu a graça (charis) de Deus (v. 4) e foi enriquecida em Cristo com palavra e conhecimento (logos e gnosis – v. 5). O testemunho de Cristo (martyrion) foi fortalecido em seu meio (v. 6), e a comunidade recebeu uma variedade de dons (charisma – v. 7).

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Meditação

Primeiramente, Paulo observa a obra de Deus, descobrindo motivos de gratidão. Depois considera necessária uma crítica, até ferrenha, quando a comunidade não atua em conformidade com Cristo. A teologia aplicada de Paulo não permite o desprezo pelo obrar divino, ainda que os resultados humanos sejam falhos ou necessitem de correção. Paulo, depois da crítica, procura lembrar que a fé implica um compromisso que leva as pessoas ao aperfeiçoamento contínuo das relações, seja na conduta ou na vivência do evangelho anteriormente anunciado. Na ação de graças (v. 4-9), Paulo lembra que a promessa divina fez-se realidade. Agora, com o dom outorgado livremente e sem merecimento, as pessoas cristãs estão equipadas para a vida. Os dons que as pessoas têm e que não merecem sequer ter ou conseguir por méritos próprios são dons de Deus. As pessoas têm os mesmos em custódia. O uso dos dons deve ser regido pelo desejo divino, pela glória divina, para ser instrumentos a serviço de Deus. Com os dons entregues por vontade divina, as pessoas podem suportar dificuldades, ser obedientes, sofrer e até morrer para o pecado. Podem também esperar o tempo necessário para o fim, o qual virá, pois o tempo é de expectativa. Ao terminar o texto da perícope, Paulo argumenta com a perspectiva escatológica e sua função pedagógica. No Dia do Senhor, veremos a provisoriedade daquilo que aos olhos humanos é importante e saberemos o que realmente persiste. Com a promessa de Deus, a comunidade de fé persiste e será preservada até o fim. Mantendo-se na comunhão com Cristo, não se esquecerá de que está num processo de transição.

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2º Domingo após Epifania

Paulo enfatiza o chamado divino e sua previsão. De certa forma, Deus mesmo sabe que somos chamados a uma vida santa em meio a uma sociedade e cultura não santas. Da mesma forma que Jesus se fez carne em meio ao mundo pecador, assim também a igreja é chamada a refletir a luz da diferença gerada em Cristo. Por isso a mensagem de Paulo tem sentido neste tempo de Epifania. A relação entre a igreja de Corinto e a igreja de nossos contextos (espacial e temporal) é estreita. Observam-se similitudes: foi chamada por Deus para sua existência; recebeu dons em grande quantidade; é desafiada para a lealdade a Deus de forma moral e intelectual; está comprometida com a verdade pregada no evangelho de Jesus; as vidas são sinais num contexto majoritariamente contrário ao evangelho. Tudo isso leva, por um lado, a manter a fidelidade a Cristo e, por outro, a reavaliar atitudes e posicionamentos a partir do presente divino. Nas diversas instâncias eclesiais, geralmente se esquece de ver o lado positivo. Por que olhar só o negativo? Ao fazer avaliações, as críticas são muito maiores do que os pontos positivos. Deve-se aprender com o apóstolo a primeiro lembrar o positivo e depois, a partir desse fundamento, olhar o que precisa ser modificado. É preciso ir além dos problemas encontrados. Lembrar que as pessoas são chamadas a ser santas (não somente os coríntios, mas nós também) pela relação de Cristo com elas. Pode-se partir de uma visão antropológica negativa, mas sem os remorsos. Justamente o contrário, reconhecendo essa realidade como dada e modificada por Jesus Cristo. Aqui Paulo aponta para o extra nos, para Deus mesmo, que nos nutre e sustenta em Cristo. Encontra-se, por outro lado, o perigo de pensar que se possui o monopólio da atenção divina. Nossos problemas e preocupações podem parecer muito importantes para nós e por isso mesmo também muito importantes para Deus. Porém não só Deus é muito maior do que os nossos problemas, mas a igreja de Cristo se estende além das fronteiras da comunidade local, paróquia, sínodo ou igreja-instituição. É preciso encontrar um equilíbrio, pois as pessoas e sua santidade são um trabalho em processo. É o velho “já, mas ainda não”. Temos que ter muito cuidado com a tendência de pensar que os cristãos, dentro das comunidades, são produtos prontos. Reconhecer que ainda não somos perfeitos ou completos, mas que já fomos chamados e encorajados a crescer a cada dia, transformando nossas palavras e expectativas, conformando-as segundo Cristo. Como comunidade em processo não está em plena forma, devemos crescer e procurar tornar-nos irrepreensíveis no Dia do Senhor. É como L. S. Thorton diz que os cristãos são saintsin-the-making (santos-em-produção).

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Imagens para a prédica

As crianças pequenas, quando viajam, não têm noção de tempo. Vivem perguntando: “Já chegamos?”. Assim como quando sabem que está por vir o seu aniversário, sempre perguntam: “Já é o dia?”. O mesmo acontece com o Natal ou outra festa importante para elas.

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2º Domingo após Epifania

Foi feito uma experiência em que crianças de diversas idades eram questionadas se preferiam um pouco de chocolate agora ou muito chocolate depois. Quanto mais nova a criança, mas fácil era prever que ela ia querer o “pouco”, pois não podia entender quando viria o “depois” para ganhar o “muito”. Assim também os cristãos aparentemente não podem esperar o processo todo completar-se, chegar o Dia do Senhor para ter o muito mais. Quais as formas com as quais nos conformamos com Cristo hoje? Como vivemos comunidade de fé? Quais são os sinais? Talvez nossas orações e agradecimentos, nossos cantos e partilhas. Pode ser o momento de parar e refletir como comunidade se não perdemos o foco. Quais são os exercícios que elaboramos como comunidade para conformar-nos com Cristo? Que ações concretas são executadas? Que dimensões do ministério de Cristo devem ser mais exercidas para adequar-nos? Ainda não alcançamos o alvo, não estamos vivendo no Dia do Senhor, por isso devemos continuar detendo e eliminando aquilo que for repreensível.

5 Subsídios litúrgicos Sugiro modificar a ordem litúrgica para ter o Glória ou outro hino de louvor a Deus antes da Confissão de pecados. Assim, a comunidade experimentará na prática aquilo que Paulo escreveu. Mostrar primeiro a graça de Deus, depois aprofundar-nos nos erros. Podem-se usar como Confissão de fé as explicações do Catecismo Menor ao Credo Apostólico. Justamente é um texto que procura relacionar o individual com o coletivo e, ao mesmo tempo, a imerecida graça de Deus às pessoas cristãs. Incluir na Oração geral da igreja grupos que são excluídos por não ser considerados santos o suficiente para participar do culto junto com a comunidade. Perguntar quais são as pessoas que colocamos à margem, de forma consciente ou inconsciente, quando oramos. É o momento de dar a visibilidade que Cristo deu. Por outro lado, pensar gestos concretos, sinais visíveis da conformidade em Cristo da comunidade. Isso até pode ser um estímulo para o Ofertório, com pessoas diferentes do habitual levando as ofertas ao altar ou até mesmo indicando um destino local da oferta diferente do costumeiro e que ajude a relacionar a comunidade com projetos que procurem conformar-se com Cristo.

Bibliografia BARCLAY, William. I y II Corintios. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1973. BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. São Leopoldo: Sinodal, 2008.

PETERSON, Dwight. Commentary on 1 Corinthians 1:1-9. Disponível em: <http://www.workingpreacher.org/preaching.aspx?commentary_id=23> Acesso em: 30 mai. 2013.

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3O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: ISAÍAS 9.1-4

26 JAN 2014

MATEUS 4.12-23 1 CORÍNTIOS 1.10-18

Michael Kleine

1 Introdução Duas questões chamam a atenção no texto sugerido para a pregação neste domingo. A primeira diz respeito à sua delimitação. A segunda é o fato de ele aparecer em duas épocas litúrgicas diferentes (no mesmo ano). Na exegese bíblica, há consenso de que o texto termina no v. 7, e não no v. 4, como sugere o Lecionário Comum. Não está claro por que nossa perícope foi cortada pela metade. Talvez o motivo seja o anúncio feito no v. 6 (“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu”), que faz de Isaías 9.1-7 um texto natalino (a série de perícopes do ano A sugere no Natal Is 9.2-7). A razão de nossa perícope aparecer novamente na época após Epifania deve ser o fato de o evangelho deste domingo citar Isaías 9.1-2 (Mt 4.15-16.). A inclusão do v. 1, que no Natal ficou de fora, faz pensar que ali está a ênfase na escolha dos textos. O versículo é uma profecia dirigida à região da Galileia, e Mateus 4.12-17 relata justamente o início da atividade de Jesus nessa região (o que seria, segundo o evangelista, o cumprimento da profecia). Mas não creio que esse possa ser um critério para a delimitação de nosso texto (ou de qualquer outro). Os critérios de delimitação precisam ser encontrados no próprio texto a partir de sua estrutura interna, tema e relação com o contexto literário no qual se encontra.

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Exegese

Temos diante de nós uma promessa de salvação, em cujo centro está o anúncio do nascimento de um rei (v. 6). No contexto dos capítulos 1-12, há quatro palavras de salvação: 2.1-5; 4.2-6; 9.1-7 e 11.1-16. É importante notar que essas palavras sempre prometem uma salvação futura para depois do cumprimento do juízo/castigo que Deus enviará contra o seu povo. O motivo do juízo é que o povo se rebelou contra Deus (1.2): “Abandonaram o SENHOR, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás [lit.: viraram as costas = desprezaram]” (1.4). O pecado de Israel: “Rejeitaram a lei do SENHOR dos Exércitos e desprezaram a palavra do Santo de Israel” (5.24). A desobediência é visível na forma de injustiças sociais, corrupção, idolatria e todo tipo de crimes. O castigo para esse desprezo virá na forma de invasão por uma potência estrangeira, que destruirá a terra e deixará apenas alguns sobreviventes (1.7-9). E é para esses sobreviventes que o profeta anuncia sua visão de futuro.

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O v. 1 destoa um pouco dos demais e é o único que tem a sua presença contestada na perícope. Alguns exegetas deixam-no fora por entender que ele se refere apenas a uma região do Reino do Norte, enquanto o v. 7 fala do trono e do reino de Davi (que abarca os Reinos do Norte e do Sul, ou seja, o povo de Deus como um todo). Enquanto o v. 1 é bem concreto e menciona uma situação específica da história, os v. 2-7 falam em forma de hino de uma forma mais genérica e poética. Mesmo assim, acho que o v. 1 funciona como uma espécie de “título” para o restante, o que ficará mais claro a partir da interpretação do texto e de cada um de seus versículos. A perícope está dividida em quatro estrofes: 2s, 4s, 6, 7. A primeira anuncia a grande virada, enquanto as demais indicam o motivo da mudança e o descrevem. Uso como base a tradução de João Ferreira de Almeida (Revista e Atualizada), indicando entre colchetes alguma tradução alternativa. V. 1 – A primeira frase não é muito clara no hebraico. Numa tradução literal, ficaria mais ou menos assim: “Porque não [permanecerá?] escuridão para quem [está] em aperto”. Com os termos “trevas” e “escuridão” se descreve a situação do país após o juízo de Deus (cf. 5.30), ou seja, após a invasão do exército assírio (5.24-30). Os versículos imediatamente anteriores ao nosso parecem referir-se a uma situação assim: “Passarão pela terra duramente oprimidos e famintos... Olharão para a terra, e eis aí angústia, escuridão e sombras de ansiedade, e serão lançados para densas trevas” (8.21s). Na continuação, o versículo faz referência à invasão assíria no norte de Israel, que transformou aquela região (Galileia, planície litorânea) em província do império assírio (cf. 2Rs 15.29). A ação de Deus é vista em tudo o que acontece com seu povo: Deus fá-lo cair em desprezo e vergonha, mas é ele também quem traz glória e honra. O profeta divide a história em dois momentos: os “primeiros tempos” referem-se ao presente, o tempo da desobediência, do castigo e da angústia do povo; os “últimos” são o tempo da salvação. E é sobre essa salvação que falam os v. 2-7. V. 2-3 – Na linguagem profética, os “primeiros tempos” já são coisa do passado. Não que a grande virada já tenha acontecido; ele ainda a está anunciando. Mas a certeza é tanta, que ele já fala dela no passado. A julgar pela referência ao “trono de Davi” (v. 7), o “povo” que anda nas trevas é todo o Israel. Deus escondeu o seu rosto dele (8.17) e entregou-o ao inimigo (7.17-25; 7s, 23a). Na “região da sombra da morte” não existem mais possibilidades de sobrevivência, não há mais esperança. Para esse povo resplandece uma “grande luz”. No v. 3, o profeta dirige-se diretamente a Deus como que em ação de graças e louvor. O povo que havia sido aniquilado, do qual sobraram apenas alguns poucos (6.11s), foi novamente “multiplicado”. O próprio Deus torna grande a sua alegria, e eles reconhecem isso voltando-se para ele (“diante de ti”, lit. “diante da tua face”). Sentem-se agraciados por Deus como depois de uma boa colheita ou de uma batalha vencida. V. 4-7 – Estes descrevem a grande virada, os motivos da grande alegria. São três frases que iniciam com “porque” (kî). V. 4: Deus derrota os inimigos e liberta seu povo “como no dia dos midianitas” (cf. Jz 7), ou seja, com pouquíssimos meios e de forma totalmente inesperada/surpreendente (essa referência histórica destaca a forma de agir de Deus: quando se trata da salvação, é ele quem

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age; a participação humana é apenas simbólica). Ele “despedaça” a “canga” que pesa sobre o povo, que deve ser a opressão e a exploração imposta pelo império assírio. V. 5: todos os sinais da opressão e da presença dos inimigos são eliminados na queima dos uniformes de guerra. V. 6: a perícope alcança o seu ponto mais alto. Não apenas terminou a opressão e o inimigo foi derrotado, mas um reino eterno de paz e justiça está para começar. Isso “porque” (kî) um novo rei será entronizado para restaurar o glorioso reino de Davi. Chama a atenção o duplo “para nós” (“nos nasceu”, “se nos deu”). O novo rei é um presente de Deus. O seu governo não é uma imposição ou um fardo pesado, como foram todos os outros (cf. 1Sm 8.10-18; 1Rs 12.4), mas é ele quem carrega o governo “sobre os seus ombros”. Que esse rei é diferente dos outros mostram os quatro nomes que ele recebe. Esses nomes são qualidades que colocam o futuro rei mais perto de Deus do que dos seres humanos. “Maravilhoso Conselheiro” lembra o próprio SENHOR dos Exércitos, que é “maravilhoso em conselho e grande em sabedoria” (Is 28.29). “Deus Forte”: ele é o legítimo representante de Deus na terra, aquele que executa o plano maravilhoso de Deus. “Pai da Eternidade” aponta para a função de proteção, provimento e cuidado (José é “pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e... governador em toda a terra do Egito” [Gn 45.8]. “Pai” era a função de administrador responsável pelo alimento, cf. Gn 41.39-49,53-57). Na qualidade de “Príncipe da Paz”, ele garante não apenas o fim das guerras, mas uma realidade de bem-estar geral, de plenitude (shalom). V. 7: o novo tempo que Deus inaugura é definitivo, de “paz sem fim”, “desde agora e para sempre”. E essa paz em sentido amplo está garantida por dois pilares: “o juízo e a justiça”. Juízo (= direito) e justiça são as normas que garantem a boa convivência social e que correspondem à vontade de Deus. Elas garantem o direito à existência de todos os membros do povo e fazem parte da boa ordem da criação. Onde “juízo e justiça” são desrespeitados, entra em vigor a lei do mais forte. O resultado é exploração, desigualdade, miséria, corrupção e abuso de poder (cf. Is 1.17, 21-31; 10.1-4; a falta de “juízo e justiça” é razão para o castigo de Deus). “O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isso.” Esse é o selo, a garantia de que as promessas acima serão cumpridas. O SENHOR é “Deus zeloso” (Êx 20.5), que cuida pessoalmente de seu povo, zela pelo cumprimento de seus mandamentos e de sua honra. É o zelo do amor por aqueles que o amam e que é transformado em ira pelos que o desprezam.

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Meditação

O profeta Isaías sabe, a partir da fé no que ele ouviu de seus antepassados, que a realidade em que se encontra o povo de Deus não pode ser definitiva. Israel virou as costas para Deus, e as consequências foram terríveis. O povo anda “em trevas”, oprimido por inimigos e sem esperança. Mas a fé no Deus de Israel e em suas promessas faz com que Isaías veja um futuro diferente. Ele vê a intervenção de Deus em favor do povo. A visão de futuro do profeta aparece com as cores que ele conhece. Ele formula sua esperança a partir das ideias de sua própria época. Sendo assim, para

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ele, a ajuda de Deus só poderia vir na pessoa de um rei. Naquele tempo, todas as expectativas de bem-estar, de justiça, de paz e prosperidade estavam voltadas para o rei (cf. Sl 72). O rei era o legítimo representante de Deus na terra. Por isso o rei sempre era descrito como tendo qualidades divinas. A promessa acontece para dentro de uma situação específica, mas vai muito além das possibilidades deste mundo. O texto promete uma intervenção de Deus em favor de seu povo. Mas não é uma ajuda para resolver um problema específico; é uma mudança radical de sua situação, da realidade como um todo. É a promessa de um novo “reino” (v. 7), de “paz sem fim”, em que a vontade de Deus (juízo e justiça) é válida sem restrições. Algo humanamente impossível. No centro está a promessa de que Deus dará a seu povo um novo “príncipe”, um novo “cabeça”, que o conduza nesse reino de paz e justiça. O Novo Testamento viu o cumprimento dessa promessa em Jesus (Mt 4.12-17). Obviamente, Jesus não é o rei nos moldes que Isaías esperava. Mas os seus seguidores/as viram nele a luz que resplandece (cf. Jo 1.4-5; 8.12) ao povo que vivia “na região da sombra da morte”. Com ele chega também o “reino dos céus” (Mt 4.17), o reino de “paz sem fim” (Is 9.7). Na própria pessoa de Jesus, esse reino está “próximo”. Jesus, que após sua ressurreição se torna “Senhor e Cristo”, inaugura um novo tempo para o povo de Deus. Ele é o divisor de águas, o início dos “últimos tempos” (Is 9.1). O reino manifestado por Jesus Cristo está muito além do que Isaías esperava. Uma das características centrais de Isaías 9.1-7 é a tensão entre realidade e “utopia” (no sentido de um lugar que ainda não existe). Por um lado, ele fala diretamente para dentro da realidade concreta do povo (cf. v. 1), especialmente sua miséria e angústia, prometendo a intervenção de Deus e a libertação dessa situação opressiva. Por outro lado, a intervenção de Deus parece ir além do que é possível nessa realidade. Ainda que Isaías formule a sua esperança dentro daquilo que se esperava de um rei, em sua visão ele nos mostra um futuro que só poderia ser uma “nova criação” de Deus. E justamente essa tensão está presente na atuação e na pregação de Jesus. Jesus é a “aparição” (epifania) de Deus em nossa realidade com todas as suas misérias e limitações. Ele já é a vitória sobre todos os poderes que nos oprimem e aprisionam: doença, morte, pecado, incredulidade (falta de fé), egoísmo, medo, injustiças, culpa etc. Mas, ao mesmo tempo, ele anuncia algo que vai muito além dessa realidade: o “reino dos céus”. Jesus traz para dentro deste mundo a realidade de um novo mundo, no qual haverá paz sem fim, onde reinará a vontade de Deus. Não é apenas promessa; já começou a ser realidade. Pois Jesus Cristo, o Crucificado-Ressurreto, já atua como “Maravilhoso Conselheiro”, “Deus Forte”, “Pai da Eternidade” e “Príncipe da Paz” entre aqueles que creem nele e o seguem. “Como no dia dos midianitas” – Jesus Cristo está quebrando as cangas e libertando pessoas de todo tipo de opressão através de seu minúsculo e fraquinho exército de seguidores e seguidoras, que têm apenas “trombetas e tochas” nas mãos (cf. Jz 7.20). Esses instrumentos que fazem irromper o “zelo” de Deus já neste mundo e que põem “os inimigos” para correr são aqueles que Jesus deixou para o grupo dos seguidores: a pregação do evangelho, que não apenas promete

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para o futuro, mas já realiza a libertação que anuncia (cf. Is 55.10-11); o Batismo, que nos une a Cristo em sua morte e ressurreição, operando durante toda a nossa vida a morte do velho ser humano e do velho mundo, sempre rebeldes contra Deus, e o nascimento da “nova criatura”, que já faz parte do novo céu e da nova terra; a confissão e absolvição particular dos pecados, através das quais é quebrado diariamente o jugo que nos mantém presos ao velho mundo e sua lógica; e a Ceia do Senhor, que nos liga ao passado (cruz), presente (ressurreição) e futuro (reino) de Jesus Cristo, na qual o reino de “paz sem fim” se incorpora em nós, concedendo “remissão dos pecados, vida e salvação” (Catecismo Menor, 6ª parte, 2). “Pois, mediante a palavra e pelos sacramentos, como por instrumentos, é dado o Espírito Santo, que opera a fé, onde e quando agrada a Deus, naqueles que ouvem o evangelho” (Confissão de Augsburgo, V). O Espírito Santo é justamente o nome que damos à presença do “reino” futuro de Deus já no presente. Apareceu o poder de Deus neste mundo na pessoa de Jesus. E o “poder de Deus” continua “aparecendo” na proclamação do evangelho de Jesus Cristo, na “palavra da cruz” (1Co 1.18, epístola do dia). A palavra do profeta começou a tornar-se realidade na vida daqueles que o ouviram, creram e que basearam suas escolhas nessa confiança no Deus de seus antepassados. Muito mais agora a palavra do evangelho é e torna-se realidade, pois o Filho que “se nos deu” já está aí atuando – “em, com e sob” as palavras e ações daqueles que creem.

Bibliografia KOCH, Klaus. Die Propheten I: die assyrische Zeit. 2. ed. rev. Stuttgart/Berlin/ Köln/Mainz: W. Kohlhammer, 1987. WILDBERGER, Hans. Königherrschaft Gottes: Jesaja 1-39. V. 1 e 2. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 1984.

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4O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 5.1-12

02 FEV 2014

MIQUEIAS 6.1-8 1 CORÍNTIOS 1.18-31

Ana Isa dos Reis

1

Introdução

A celebração de Epifania convida-nos a dar continuidade ao testemunho dos sábios do Oriente – também conhecidos, tradicionalmente, como Reis Magos – de que Jesus é o Senhor e Salvador do mundo inteiro, também meu e para dentro de minha vida. O tempo após Epifania também é conhecido como “pequeno” Tempo Comum, que perfaz os domingos depois de 6 de janeiro até a Quarta-feira de Cinzas. Nesse breve Tempo Comum encontraremos os festejos do Batismo de Jesus e de sua Transfiguração. O evangelho – e texto para a pregação – fala sobre as bem-aventuranças. “Felizes” são aqueles, segundo aponta Jesus, que seguem a lógica de Deus. O texto de 1 Coríntios 1.18-31 apresenta essa lógica como “loucura da cruz”. O Antigo Testamento ajuda-nos a enxergar o rosto de um Deus que não está preocupado com as aparências ou com o mero ritualismo ou cumprimento vazio de leis, mas o rosto de um Deus que anseia para que seu povo assuma sua lógica: da justiça, da misericórdia, da sinceridade profunda. Na lógica do mundo, as pessoas que se tornam bem-aventuradas e promovem as bem-aventuranças não são bem-vistas, podem até ser tachadas de “bobas”, “ingênuas”, “loucas”, “que atrapalham”. Mas justamente essas são escolhidas por Deus, a elas é prometida a salvação, a força de transformação. Pois essas são as que promovem e vivem a lógica de Deus.

2

Exegese

2.1 – Fonte Mateus e Lucas assumem as bem-aventuranças da fonte Q. Ainda assim, Mateus completa-as com mais cinco outras bem-aventuranças. 2.2 – Estrutura do Evangelho de Mateus – Mt 1.1-4.11: narrativas iniciais e preparação – Mt 4.12-18.35: a atuação de Jesus na Galileia – Mt 19.1-20.34: a caminho de Jerusalém – Mt 21.1-25.46: a atuação de Jesus em Jerusalém – Mt 26.1-28.20: paixão, morte e ressurreição de Jesus.

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4º Domingo após Epifania

2.3 – As bem-aventuranças Desde os primeiros séculos até hoje, não há um consenso quanto à interpretação das bem-aventuranças. Há pesquisas que afirmam que são “promessas feitas aos discípulos fiéis do reino dos céus (…), que, por sua vez, devem aprender a apegar-se a Cristo, a confiar nele e em suas palavras explicitamente. As bem-aventuranças mostram como seremos abençoados se fizermos disso a regra de nossas vidas” (Champlin). Por outro lado, há pesquisas que interpretam as bem-aventuranças não como sentimentos espiritualizantes/espiritualizados das pessoas, mas apontam para a forma das bem-aventuranças. Por que Mateus, que chega a modificar algumas bem-aventuranças em relação a Lucas, não poderia estar colocando-as em seu contexto histórico? O Evangelho de Mateus foi escrito por volta do ano 90 d.C. em Antioquia da Síria para judeu-cristãos. No ano 70 d.C., o templo de Jerusalém fora destruído. Isso pode ajudar a entender a mudança que ocorre em Mateus, que substitui, por exemplo, o “chorar”, de Lucas, pelo termo “prantear”, estar de luto. A comunidade, na época em que o Evangelho de Mateus foi escrito, passava por situações de conflito com os romanos, o povo sofria com a destruição do templo, com perseguição e discriminação. A comunidade precisava reinventar-se diante dessa nova realidade. As bem-aventuranças dispensam os verbos. São beatitudes ou interjeições. A partir das diferentes pesquisas, pode-se dizer que a palavra grega makarioi remete-nos a duas ações: a) refere-se a bem-aventuranças como felicidade, alegria e gozo; b) como palavra de ação (ordenanças) que remete às ações proativas. Ao enfatizarmos essa segunda opção, concluímos que a comunidade não está isolada ou inerte no mundo, mas age dentro dele com ações de transformação. No entanto, essas bem-aventuranças também precisam operar transformação dentro de cada pessoa e, assim, levá-la ao mundo com a lógica de Deus. 2.4 – Observações exegéticas V. 3 – Este versículo é traduzido de duas formas: “pobres de espírito” ou “humildes de espírito”. Na tradição judaica e veterotestamentária, espírito era entendido no contexto da pessoa como um todo e não como uma parte dela. As afirmações divergem quanto a quem Jesus estaria se dirigindo. Pesquisas dizem que não estaria se referindo a todos os pobres, porque nem sempre esses estão identificados com a causa do Reino. Outras pesquisas apontam para uma humildade de espírito, que não teria identificação com a situação econômico-social. Poderíamos, no entanto, entender essas duas situações não em oposição. A situação de pobreza, gerada pela má distribuição dos recursos e pelo acúmulo de alguns contra outros, traz sofrimento, privações, negação de acesso à saúde e educação dignas, por exemplo. Também a comunidade de Mateus experimentava isso em muitas situações, diante do escárnio em que viviam os cristãos e da situação de conflito com os romanos. No entanto, não é só pelo fato de ser pobre que esse grupo é considerado bem-aventurado. Isso transformaria a situação de pobreza em

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acomodação (ou, como se diz, em “carma”). A pobreza a que se refere o texto tem a ver com uma postura crítica frente ao mundo e aos pobres que são espoliados, humilhados, roubados até em sua dignidade. A humildade aqui poderia ser vista dentro desse contexto de não conformidade com a situação de desigualdade (que não foi criada por Deus; afinal, Deus deseja o shalom a todas as pessoas e projetou um mundo digno para todas) e uma postura de solidariedade que envolve a totalidade humana, também no que tange à situação econômico-social e mesmo espiritual, envolvendo a liberdade de culto, de manifestação da fé em Cristo (especialmente em um mundo onde isso era proibido). Ser humilde é também um ato de desprendimento, em que se procura viver bem com o essencial, com a simplicidade, afastando o supérfluo que nos faz prisioneiros e tem destruído nossa casa. Tanto nessa primeira como na oitava bem-aventurança se usa o presente, afirmando que o Reino já está aqui e agora. As demais usam o futuro escatológico. V. 4 – Aqui (como já foi mencionado), Mateus refere-se ao pranto do povo, que perdeu o templo, que enfrenta discriminação, que sofre. Esse pranto tem a ver com a inconformidade em relação a essa situação de sofrimento. Ele expressa dor, mexe com as entranhas, aperta a boca do estômago, faz perder o sono, arranca da inércia, traz o desejo de mudar a realidade. V. 5 – Este versículo fala de mansos, que são aquelas pessoas identificadas com a “não violência ativa” de não se entregar à ira e às suas consequências. Em um mundo onde a mansidão perdeu o sentido, esse chamado é um desafio para viver a amabilidade e resistir às formas de maldade. Essa bem-aventurança pode estar alicerçada no Salmo 37.11. V. 6 – Quem sente fome ou sede sente dor. O desejo físico pelo alimento impele o indivíduo a buscar comida, quase sem considerar o sacrifício que dele pode surgir. Esse é o sentimento que se deve ter em relação à justiça. Não dá para ficar indiferente frente às situações de injustiça. Deus espera de seu povo a prática de justiça. O profeta Miqueias fala que uma das coisas que Deus quer é a justiça (Mq 6.8). V. 7 – Misericórdia: ter o coração voltado àqueles que sofrem, colocar o coração junto deles. Deus mostra sua misericórdia, sem merecimento da parte de quem a recebe. Mas, ao recebê-la, o coração transborda e quer estar junto especialmente daqueles que sofrem. No texto antes citado, o profeta Miqueias também aponta para um Deus que quer a prática da misericórdia como fruto da ação do povo. V. 8 – Para a piedade judaico-cristã, ter coração puro ou estar limpo de coração significava estar em total obediência a Deus. O coração era entendido como o centro da vontade e das decisões humanas. Assim, esse puro/limpo abrange todos os sentidos e relações da vida tanto na dimensão cúltica como na dos relacionamentos humanos, no sentido de não agirmos com maldade, com segundas ou más intenções. Essa bem-aventurança também aparece em Miqueias 6.8 como desejo de Deus para com seu povo. V. 9 – Pacificadores são “não somente os dotados de natureza pacífica nem os que aceitam a paz sem protesto ou que preferem a paz ao desacordo, nem os que têm a paz na alma, com Deus e nem os que amam a paz, mas aqueles que

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promovem ativamente a paz e procuram estabelecer a harmonia entre inimigos” (Champlin). Pacificadoras são aquelas pessoas que fazem paz, seja ela pequena ou grande, em nível pessoal ou comunitário, local ou internacional. Em um mundo marcado pela violência, pelo “toma lá dá cá”, pela guerra, ser pessoa pacificadora é estar no revés da moda. Só a força da paz “junta todos outra vez”. Essas são os filhos e filhas de Deus. Deus é paz, é amor. Dele vem a fonte para a nossa atitude de paz, de amor. V. 10 – Segundo algumas pesquisas, essa é a última bem-aventurança, porque o v. 11 seria continuação da mesma ideia. Diante de um mundo injusto, violento e mau, a ação/práxis dos cristãos – que buscam a promoção da justiça, do amor, da paz, da misericórdia – entra em choque com o poder vigente. V. 11 e 12 – Estes versículos mudam a forma de discurso das bem-aventuranças ao usar aqui a 2ª pessoal do plural (vós). O tema central continua sendo a perseguição (assim como no v. 10), enfatizando algo que os ouvintes conheciam muito bem, porque estariam experimentando “na pele”. A perseguição aos cristãos, seja física ou psíquica, encerrou com Constantino (313 d.C.), mesmo que o imperador Galério (311 d.C.) já tivesse decretado liberdade de culto aos cristãos. Quando da redação do Evangelho de Mateus, Domiciano era imperador (81 a 96 d.C.) e perseguição, calúnia e injúria eram realidade dos cristãos. Essa perseguição, no entanto, não é só de agora. Também os profetas foram perseguidos, assim como Jesus. Mesmo perseguidos, é possível haver alegria, porque as ações são sinais de “novos céus e nova terra”, estabelecendo relações de justiça e misericórdia.

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Meditação

As bem-aventuranças precisam começar dentro de mim. Se assim não for, elas são apenas ações desprovidas de meu coração, que a mim não dizem nada. No entanto, elas não podem ficar apenas dentro de mim, porque, se assim for, elas passam a ser desprovidas de seu sentido profundo e transformador. As bem-aventuranças iniciam o discurso de Jesus conhecido como Sermão do Monte, um conjunto de ditos dirigidos aos discípulos com a finalidade de ensiná-los. Hoje também são dirigidos a nós, discípulos de Cristo. A lógica do mundo de hoje continua sendo muito diferente da lógica de Deus. Na história, Deus sempre agiu como revolucionário, subversivo – até poderíamos dizer, porque sua lógica coloca outros padrões como principais. Deus escolheu as coisas loucas deste mundo, transformou a fraqueza da cruz de morte na força da cruz que traz a ressurreição. Ao olharmos as bem-aventuranças, precisamos perguntar-nos se temos nos empenhado em ser esses “felizes” de quem Mateus fala. Estamos sendo aqueles que vivem comprometidos com as bem-aventuranças? Estamos promovendo as bem-aventuranças no dia a dia da vida? E como igreja, estamos sendo protagonistas dessas beatitudes? O Brasil é considerado um dos países mais cristãos do mundo. Se assim é, como explicar o alto índice de violência? E a corrupção? E os crimes impunes?

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4º Domingo após Epifania

Talvez alguns pretensos cristãos não entenderam que fé tem a ver com atitude, que fé cristã tem a ver com viver e promover bem-aventuranças sob a ótica da lógica de Deus. “Uma bem-aventurança não é um mero desejo piedoso, mas se localiza entre o ato da bênção e a esperança em receber bênção; é norma e evangelho, é indicativo e imperativo” (Ivoni Richter Reimer).

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Imagens para a prédica

A fim de destacar as bem-aventuranças, essas poderiam estar penduradas ou coladas em uma cruz. É a lógica de Deus, revelada na cruz de Cristo, que se choca com a lógica do mundo. A comunidade poderia sair com um desafio concreto: cada pessoa poderia esmerar-se em viver e promover de forma visível uma das bem-aventuranças.

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Subsídios litúrgicos

Recepção: uma equipe deve estar à porta recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Confissão de pecados: Misericordioso Deus, confessamos que somos pessoas pecadoras e que carecemos de tua graça e de teu perdão. Temos falhado na tarefa de ser teus discípulos fiéis. Invertemos a tua lógica, seguimos a lógica do mundo, esquecemos a loucura da cruz de Cristo, que nos trouxe nova vida. Não temos nos esmerado em ser bem-aventurados e nem temos promovido bem-aventuranças no mundo. Perdoa nossa falta de comprometimento, nosso descaso com a luta por um mundo melhor, por vida digna para todas as pessoas. Perdoa-nos quando não somos humildes nem pobres de espírito e nem mansos. Perdoa-nos quando somos injustos ou nos calamos diante das injustiças. Perdoa nossa falta de misericórdia, nossa desobediência a ti, nossa maldade. Perdoa-nos quando não nos empenhamos em fazer a paz. Que teu perdão, Senhor, nos transforme. Que teu perdão nos anime a ser e promover beatitudes. Por Jesus Cristo. Amém. Anúncio da graça: Bem-aventuradas as pessoas que confessam seus pecados, arrependem-se deles e desejam viver nova vida. Que o perdão de Deus te alcance e te transforme em bem-aventurado. Por Jesus Cristo. Amém. Oração do dia: Deus, que te manifestas nas coisas loucas e te revelas na fragilidade, envolve-nos com tua misericórdia e justiça. Ensina-nos a te servir com a totalidade de nosso ser. Ajuda-nos a ser bem-aventurados e a traduzir as bem-aventuranças na ação de cada dia. Compromete-nos, Senhor, com a causa de teu Reino. Inspiranos com o evangelho de Jesus Cristo e dá-nos coragem de testemunhar e viver.

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4º Domingo após Epifania

Por Jesus Cristo, nosso Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo hoje e sempre. Amém. Sugestão de hinos: HPD 400 (Bem-aventurados); HPD 442 (A canção do Senhor); OPC 158 (Jesus Cristo, vida do mundo); OPC 142 (Tempo Presente); OPC 146 (Baião das comunidades); OPC 248 (Convite ao compromisso); OPC 224 (Pai-nosso dos mártires).

Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986. KANITZ, Ildemar; da SILVA, Walfrido. Mt 5.1-10. In: Proclamar Libertação XXXII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007. p. 307-310. REIMER, Ivoni Richter. Mt 5.1-12. In: Proclamar Libertação XVIII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1992. p. 64-68.

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5O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 2.1-12(13-16)

09 FEV 2014

ISAÍAS 58.1-9a(9b-12) MATEUS 5.13-20

Kurt Rieck

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Introdução

O período litúrgico chamado Epifania sublinha um elemento fundamental da fé cristã: Jesus revela-se como o Cristo, o Messias, o Filho de Deus. Esse período, que pode oscilar entre dois e seis domingos, depende da data da Páscoa. Inicia em 6 de janeiro, quando é lembrado o batismo de Jesus. A Epifania testemunha o objetivo da encarnação, que é a manifestação de Deus em Jesus Cristo. O texto previsto do Antigo Testamento é Isaías 58.1-9a(9b-12), escrito na época pós-exílica. Ao profeta cabe denunciar as transgressões e os pecados do povo. Observa-se uma vida religiosa dominada pela hipocrisia. O culto a Deus, porém, está diretamente relacionado com a vida. Não existe amor a Deus se não houver amor ao próximo. O profeta chama para a conversão, para uma nova postura de vida. O Evangelho de Mateus 5.13-20 fala da força do sal, que dá sabor e conserva os alimentos, da luz, que foi feita para iluminar e não ficar escondida, e da Lei de Moisés e seu valor irrevogável. Os textos são revelação de Deus, que trazem algo novo e que produzem vida entre as pessoas. Trata-se de um poder capaz de mudar a humanidade. Paulo, na palavra indicada para a prédica, em sua capacidade de sistematizar os pensamentos, olha para os fatos ocorridos e aponta para a revelação que se confirma na morte e ressurreição de Cristo. Cristo é a revelação “da sabedoria secreta de Deus” (v. 7). Epifania é entender essas revelações. Quem nos dá esse entendimento é o Espírito Santo.

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Exegese

Corinto, cidade portuária de grande relevância comercial, foi residência do apóstolo Paulo por dezoito meses, quando fundou aquela comunidade (At 18). Após um período ausente, soube que a comunidade sofria com divisões internas. Em vez de ser um corpo em Cristo, a comunidade estava dividida em seitas e partidos, os quais se identificavam com determinados líderes e mestres. O apóstolo escreve dentro desse contexto. V. 1 – Paulo descreve a forma como chegou com o evangelho de Cristo a Corinto. A NTLH diz: “Fui anunciar a vocês a verdade secreta de Deus”. A Bíblia de Jerusalém fala do “anunciar o mistério de Deus”, e a Almeida traduz por: “anunciando-vos o testemunho de Deus”. Esse mistério se refere a 1 Coríntios 1.18, 23 e 25. O anúncio proferido por Paulo sublinha a inversão de valores trazi-

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da pelo Messias. A cruz, razão de escândalo, torna-se o caminho da salvação humana. A retórica não estará acima da cruz de Cristo. Encontramos duas formas de comunicação: através de muitas palavras (ostentação) e grande sabedoria. Paulo questiona esses expedientes. V. 2 – O conhecimento e a sabedoria de Paulo são inquestionáveis, mas ele não fez disso o centro de sua pregação. Atinha-se a falar de Jesus e de sua crucificação. Quando Cristo é deixado de lado, o ambiente torna-se propício para confusões e divisões. V. 3 – Deus é uma grandeza inquestionável. Ao que faz teologia, ao que anuncia o evangelho de Jesus Cristo, é indispensável exercer a vocação com temor e tremor. Não temos um discurso qualquer para fazer. Temos o dever de proclamar o amor de Deus. Paulo exercia o seu chamado com respeito. V. 4 – Na tarefa de anunciar o evangelho, é necessário mostrar claramente o que é divino e o que é humano. Fazer essa distinção nos capacitará a anunciar com firmeza a força do Espírito de Deus. “A fé não repousa sobre argumentos persuasivos, e sim sobre a obra de Deus nos corações dos homens. É o Espírito que torna possível a fé” (Champlin, v. IV, p. 29). V. 5 – A fé está apoiada não na sabedoria humana, mas sim no poder de Deus, que é o causador da fé. V. 6-8 – Paulo retorna a falar da diferença entre a sabedoria humana e a sabedoria de Deus. Ele insiste na revelação que procede de Deus. Jesus é a revelação do mistério de Deus. É comum encontrar pessoas que duvidam ser Jesus o Deus feito gente. Assim como o Evangelho de João no capítulo 1, o apóstolo fala sobre a existência de Jesus antes da criação do mundo. Mataram Jesus porque ele afirmava ser o Messias. V. 9 – Repetem-se aqui os versos escritos em Isaías 64.4. Na pessoa de Jesus Cristo tornou-se possível ver, ouvir, pensar a grandeza do amor incondicional de Deus. A fé nessa boa notícia tem o poder de transformar a humanidade. Jesus é o sujeito e o autor da salvação. V. 10 a 12 – Paulo tinha em sua lembrança o que Saulo foi capaz de fazer em sua ignorância. Foi-lhe revelada a verdade que procede de Deus. O Espírito Santo transformou Paulo, que foi espiritualmente iluminado. Deixou de caminhar nas trevas e recebeu um novo caminho de luz. Cabe ao Espírito Santo agir sobre o espírito humano, concedendo visão e ação divina sobre o cotidiano. O resumo do anúncio (kerigma) é: Jesus viveu, foi morto, ressuscitou e voltará. Trata-se de pura intervenção divina na humanidade.

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Meditação

Nos anos 50, Paulo esteve 18 meses em Corinto. Fundara aquela comunidade cristã e foi adiante. Em Corinto surgiram, permaneceram, passaram outros pregadores, que buscavam anunciar o evangelho. Muitos cristãos foram cativados pela eloquência de determinados pregadores, como vemos em 1 Coríntios 1.12-13. Havia os seguidores do bispo x, do

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evangelista y e do ministro z. Um mais eloquente do que o outro. Aí vem Paulo e simplesmente diz o que encontramos escrito em 1 Coríntios 2.1-12. 3.1 – De que depende a sua fé? – De uma pregação marcada pela ostentação da linguagem? – De um show de milagres? – De uma música contagiante? – De um agitador de massas? – Da erudição do pregador sábio e intelectual? – Da própria erudição? Nada disso tem o apóstolo a oferecer àquela comunidade cristã. 3.2 – A fé depende do poder de Deus Jesus nunca precisou de elevadas filosofias. A sua fala dava-se por simples exemplos do cotidiano, especialmente contando parábolas. Jesus buscava conquistar as pessoas para crer em Deus. De forma simples, letrados e iletrados depositavam a sua fé em Deus. 3.3 – É o Espírito Santo de Deus que torna possível a fé O Espírito Santo é o poder de Deus agindo na pessoa humana. Trata-se de uma ação que age de fora para dentro de nós. Lutero escreve: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé” (Catecismo Menor, Explicação do 3º artigo do Credo Apostólico). Deus envia o Espírito Santo, que interfere em nossa existência concreta e atua para consumar a obra de Jesus de levar-nos à fé. Ele não nos coage. Deixa aos humanos a sua liberdade. Ele entra em nós, a não ser que o neguemos. Portanto todos temos a liberdade de recebê-lo (Manfred Seitz, A prática da fé, p. 136). O Espírito Santo reúne aqueles que aceitaram o chamado de Deus e faz deles a cristandade, a comunidade de fé, a igreja. 3.4 – Dynamis – expressão grega para poder Dynamis tem o poder de um dinamite. É a força que muda aquilo que aos nossos olhos é imutável. É a força que transporta montes (Mt 21.21). Esse poder acha-se personificado em Cristo. A fé é uma espécie de transformação inicial, operada pelo Espírito Santo, e, por princípio, continua a transformar as pessoas.

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3.5 – O espírito humano O espírito é a dimensão mais profunda do ser humano. Está dentro do corpo e habita na matéria (v. 11). Espírito humano é a dimensão da pessoa na qual o Espírito Santo atua. Lutero entendia que a natureza se divide em três partes: espírito, alma e corpo. Acerca do espírito humano escreve: “... o espírito – é a mais elevada, mais profunda e mais nobre parte do ser humano. O espírito capacita o ser humano para entender coisas incompreensíveis, eternas. Em resumo, ele é a casa onde moram a fé e a palavra de Deus” (Martim Lutero, O louvor de Maria, p. 19). 3.6 – Espírito de Deus Somente o Espírito Santo de Deus permite o entendimento do plano de Deus. A presença do Espírito Santo produz e dá uma nova dimensão à espiritualidade humana. O espírito humano, com uma dimensão finita da vida, transcende com a presença do Espírito Santo. Esse capacita o espírito humano a reconhecer e a entender coisas que a simples razão não detecta. Ele atua de forma invisível, provocando conversões visíveis. As obras que Deus faz são os frutos do Espírito Santo, que encontramos relacionados em Gálatas 5.22-26. Viver sob a cruz é sinal da presença do Espírito Santo de Deus, que promove uma vida de gratidão e alegria. Concluindo: aquilo que depende de um argumento engenhoso carece de um argumento ainda mais engenhoso. Jesus simples e humilde, por intermédio de pura graça, anuncia e vive uma contracultura, de origem divina, que tem a força de transformar o mundo. A fé origina-se do contato da personalidade divina com a personalidade humana.

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Imagens para a prédica

a – Uma pessoa que está se afogando possui as seguintes alternativas: salvar-se a si mesma, utilizando sua mão e puxando seus próprios cabelos; desistir de ajudar-se, não fazendo nada e, consequentemente, afogando-se; aceitar a ajuda de uma mão que vem de fora, estendida em sua direção, e agarrando-a o mais depressa possível. O ser humano insiste em existir sem querer precisar de Deus. A salvação da humanidade está em perceber a mão graciosa de Jesus, estendida em seu favor. Assim, o divino interfere no que é humano e resgata-o para uma nova forma de viver. b – Oficiei os atos fúnebres de uma senhora surda e muda. Foi um dos sepultamentos mais expressivos que já fiz. Causou-me grande impacto a solidariedade exercida pelo grupo de amigos surdos/mudos. Quando convidei para a despedida final, um a um dirigiu-se na língua de sinais (Libras) ao corpo presente, dizendo o que sentia. Fiquei impressionado com o carinho expresso ao corpo

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presente. Gestos, muitos gestos. Nós que sabemos ouvir e falar pensamos que temos a sabedoria da comunicação. Mas foi entre surdos e mudos que presenciei palavras não ditas com a boca, mas expressas por muitos gestos. Aquela linguagem se fez sabedoria de Deus, solidária e confortante. Convidei os presentes a cantar o Hino 216: “Se as águas do mar da vida”. Num grande silêncio, o hino foi entoado. Esses são momentos em que vemos revelada a sabedoria de Deus. Aprendemos com eles o que é viver comunidade. Aprendemos com eles o que é dizer uma boa palavra.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nosso Salvador: o teu perdão faz uma faxina em nossa vida. Essa faxina requer sempre de novo ser feita. Tu nos perdoas e ensinas a perdoar. O perdão é como uma ponte. Quem não perdoa destrói a ponte sobre a qual precisa passar. Vem com o teu Espírito Santo dar-nos a percepção de quando as nossas ações são humanas, ignorando a força divina que deseja agir em nós. Anúncio da graça: Deus escuta a oração de todos aqueles que buscam a sua misericórdia. Deus vem a nós em Jesus Cristo, perdoa nossos pecados e caminha conosco. Amém. Oração: Oremos pela dádiva do poder para que assim anulemos o ataque do mal. Oremos pela dádiva da sabedoria para que assim, cheios de luz de teus santos ensinamentos, diferenciemos entre bem e mal. Oremos pela dádiva do amor para que assim cultivemos em nós uma misericórdia fervorosa (Bonaventura). Lembrei-me de um hino que cantávamos no grupo de jovens, que é o número 110 de Cantarei ao Senhor I: Só o poder de Deus pode mudar teu ser. A prova que eu te dou é que mudou o meu. Não vês que sou feliz, seguindo ao Senhor? Nova criatura sou, nova sou.

Bibliografia BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, I y II Corintios. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1973. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Guaratinguetá/SP: A Sociedade Religiosa A Voz Bíblica, 1982.

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6O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: MATEUS 5.21-37

16 FEV 2014

DEUTERONÔMIO 30.15-20 1 CORÍNTIOS 3.1-9

Cledes Markus

1 Introdução É tempo de Epifania. Tempo de revelação. Deus, em seu grande amor, aproxima-se da humanidade e revela sua boa e agradável vontade em relação a seu povo, qual seja, vida em abundância. Sua vontade é revelada como um grande bem da salvação, que traz implicações para a vida e as relações entre as pessoas. Ela também aponta para os sinais do reino de Deus. As leituras bíblicas indicadas promovem essa reflexão sobre a vontade de Deus, especialmente no que se refere às relações e interações nas diferentes instâncias da vida. O texto de Deuteronômio 30.15-20 pressupõe a aliança e a comunhão estabelecidas entre Deus e seu povo. Dessa forma, a sua vontade é revelada nos mandamentos do bem viver, no amor e na justiça. O fim último são a vida, o bem e a bênção de seu povo. Fora da comunhão com Deus, existem outras possibilidades que conduzem ao mal e à morte. Por isso o texto propõe que o povo dê atenção a Deus, apegando-se a ele, cumprindo seus mandamentos, optando pelo amor e pela justiça. Assim estará escolhendo a vida, o bem e a bênção. No texto de 1 Coríntios 3.1-9, o apóstolo Paulo lembra as pessoas da comunidade de Corinto de que a vontade de Deus é que sejam cooperadoras de Deus no serviço, na edificação da comunidade e no testemunho do evangelho. Por isso Paulo adverte sobre os perigos das disputas e contendas na comunidade, pois elas comprometem a vivência do evangelho da paz e da reconciliação. O texto de Mateus 5.21-37 faz parte do Sermão da Montanha, que reúne palavras de Jesus sobre o reino de Deus. No trecho indicado, ele retoma a lei de Moisés como ponto de partida para os ensinamentos sobre a vontade de Deus. De uma forma radical, ele aponta para uma nova possibilidade de relacionamentos e interações a partir da realidade do reino de Deus.

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Exegese

O texto de Mateus 5. 21-37 faz parte do Sermão da Montanha, que abrange os capítulos 5 a 7 e reúne palavras de Jesus num longo discurso com finalidade educativa. O foco do ensino é a boa-nova do reino de Deus. O sermão, porém, não quer ser um manual com preceitos abrangentes. Ao invés disso, ele oferece uma série de ilustrações da vida condizentes com o reino de Deus. Nesse sentido, o

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sermão é um indicador de direção. Os subsequentes discursos e ações de Jesus elaboram essa visão da vida no Reino. O sermão é proferido a uma sociedade inquietante, dominada pela opressão, por estruturas hierárquicas injustas, pelo acúmulo de riquezas e governada por elites que têm interesse em manter essa ordem. Além disso, circula uma prática de leitura das Escrituras que ignora suas implicações para aspectos mais amplos da vida (cf. Mt 23.23 – a justiça, a misericórdia e a fé) e que deixa intacto o status quo da dominação. O Sermão da Montanha apresenta um mundo alternativo, marcado por relacionamentos sociais e familiares reestruturados e por recursos acessíveis e redistribuídos. Ele ressocializa as pessoas num mundo de justiça e incentiva-as a práticas que sejam condignas com a presença justa do reino de Deus. Nessa perspectiva, Mateus 5.20 afirma: “Se vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”. Com isso Jesus anuncia que a justiça é pressuposto da vontade salvífica de Deus. A perícope proposta inicia no v. 21; no entanto, o versículo anterior, citado acima, é uma chave importante para a leitura e interpretação do texto. A redação do texto lembra o estilo rabínico, próprio do Evangelho de Mateus, sem, no entanto, apresentar uma rigidez. Ele se desenrola com um esquema em que, em primeiro lugar, se cita a Lei, supondo seu conhecimento e sua interpretação: “Ouvistes o que foi dito”. Segue com a proposição de Jesus sobre o assunto citado: “Porém eu vos digo” e conclui com uma ilustração do assunto. A relação entre a frase “ouvistes o que foi dito” e “porém eu vos digo” por muitos é considerada uma antítese. No entanto, ela não deveria ser entendida como uma inversão do proposto, mas como progressão dentro da mesma linha de pensamento. Jesus utiliza a Lei, as Escrituras, como ponto de partida para o ensinamento sobre a vontade de Deus. Assim, Jesus retoma a lei de Moisés e, com ousadia e autoridade, radicaliza-a. Sem desmerecer ou desrespeitar a lei do Antigo Israel, Jesus aponta para uma nova possibilidade a partir da realidade do reino de Deus. Para a nova possibilidade apontada Jesus oferece exemplos. As proibições do assassinato, do adultério, do divórcio e do juramento não estão abolidas, mas ampliadas e radicalizadas. Essa proibição naquele contexto já não é suficiente. É preciso lembrar que a vontade de Deus quer tocar o ser humano em seu mais íntimo e não somente em sua ação externa. V. 21-26 – Sobre o homicídio: O primeiro exemplo toma o seu ponto de partida no quinto mandamento do Decálogo, que proíbe matar. A introdução “ouviste o que foi dito aos antigos” supõe o conhecimento da audiência. A contribuição de Jesus começa com a expressão “Eu, porém, vos digo”. Jesus não contradiz o mandamento; pelo contrário, aprofunda-o, radicalizando-o, retomando a vontade original de Deus do amor ao próximo. Jesus reelabora o mandamento, mostrando que a ira contra o próximo é um pecado igualado ao assassinato, porque destrói relacionamentos e pessoas. Ele mostra o impacto destrutivo da ira, incluindo os insultos, as ofensas, as difamações e as discórdias, que também ofendem e rompem relacionamentos.

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Seguindo o texto, Jesus aponta para a importância da reconciliação. A boa vontade e a ação de reconciliar-se com o próximo são tão importantes, que devem preceder o culto a Deus. A oferta a Deus deve ser entregue somente após restabelecidas as boas relações com as pessoas. V. 27-32 – Sobre o adultério e o divórcio: A relação entre homem e mulher é o tema abordado na segunda e terceira ilustrações. Trata-se da proibição do adultério e do divórcio. Para entender a amplitude desse preceito, é necessário considerar o que acontecia na época com as relações entre homens e mulheres, com relações familiares e com os matrimônios. A linguagem androcêntrica reflete uma sociedade que conhecia um ilimitado poder masculino e assumia a inferioridade das mulheres. Os interesses do homem (marido, pai, senhor) dominavam, e a mulher tinha que se adaptar a seus desejos. Nessa sociedade sócio-histórico-cultural patriarcal, o matrimônio também era patriarcal. Nesse contexto, o ato de desejar a mulher do próximo é condenado por Jesus. Dessa forma, o poder masculino é restringido, e a integridade da mulher é afirmada. Protege-se a dignidade da mulher, pois ela é ofendida com o olhar adúltero. A restrição do poder masculino indica mais reciprocidade nas relações entre homem e mulher. O terceiro exemplo continua o tema das relações domésticas e do poder masculino. O foco é a prática do divórcio iniciada pelo homem. No Antigo Testamento, em Deuteronômio 24, reconhece-se que um homem poderia repudiar sua mulher se encontrasse nela “algo censurável”. Essa expressão foi interpretada de formas diferentes no decorrer da história. No primeiro século, a escola de Schammai restringia-a a algo moralmente desonroso, como o adultério. A posição dominante, no entanto, sustentada pela escola de Hillel, interpretava-a de forma mais ampla, referindo-se a qualquer coisa que desagradasse o marido. Isso incluía um prato mal cozinhado, queimar uma comida, não ser considerada bonita, entre outros motivos. Essa posição evidencia o poder ilimitado que o marido exercia sobre sua mulher e a possibilidade de repudiá-la de modo fácil por qualquer coisa, expondo-a a dificuldades econômicas e restrições pessoais. A resposta de Jesus “Eu, porém, vos digo” restringe o poder destrutivo do homem sobre a mulher. Com essa restrição Jesus afirma uma compreensão mais igualitária do matrimônio. Os compromissos mútuos dos cônjuges devem ser considerados e levados a sério por ambos. Sob esse aspecto, Jesus reafirma mais reciprocidade nas relações entre homens e mulheres como sendo da vontade de Deus. V. 33-37 – Sobre o juramento: O terceiro tema abordado trata da prática dos juramentos. Jurar era um ato público de comprometer-se em dizer a verdade ou de agir da forma anunciada. A lei do Antigo Testamento previa não jurar falsamente, conforme o segundo mandamento do Decálogo (Êx 20.7 e Dt 5.11). Aqui Jesus proíbe qualquer forma de juramento. Devem ser suficientes apenas a palavra e a sinceridade que a própria pessoa transmite. Nessa abordagem transparece a problemática das relações e instituições falidas e corrompidas da época. Elas buscavam no juramento e na invocação a

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6º Domingo após Epifania

Deus uma forma de dar credibilidade a suas palavras e ações. A começar pelas próprias autoridades, doutores da lei e fariseus, que estabeleciam que sua palavra pública e política se sustentava no poder de Deus. A prática do juramento incluía a lealdade a uma cidade, a cargos públicos, no sistema judicial, nos contratos comerciais, nas atividades religiosas e nas situações do cotidiano. Fazer juramentos era amplamente praticado para exprimir compromisso com Deus ou com outra pessoa. Ironicamente, eram minados por causa de usos ambíguos ou simulados, o que tornava a comunicação incerta, criando desconfianças. A prática de jurar geralmente envolvia a invocação de Deus como testemunha, mesmo que seu nome não fosse dito explicitamente. É o caso de jurar pelo céu, trono de Deus, e pela terra, estrado de seus pés. Essa forma de invocação tem seu fundamento no judaísmo tardio, que evitava pronunciar o nome de Deus (Êx 20.7; Dt 5.11). O parecer de Jesus sobre essa prática é proibir totalmente os juramentos. Eles são inapropriados pela presunção de que podem forçar Deus a agir de determinada forma (v. 34 e 35) e também pela presunção de que as pessoas podem forçar ações, ignorando as limitações humanas (v. 36). A prática alternativa proposta por Jesus é o discurso franco, sincero e confiável, que constrói relações honestas e fidedignas, que derivam da integridade das pessoas: “Seja, porém, a tua palavra: sim, sim; não, não”. A comunicação sincera com Deus e as pessoas faz parte da boa vontade. É uma marca do reino de Deus. Relações de confiança e integridade são necessárias para sustentar as relações entre as pessoas e na comunidade cristã.

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Meditação

O ensino de Jesus tem a ver com a boa-nova do reino de Deus. Com a vinda do Reino prevalece uma nova realidade, e proclama-se a vontade de Deus mais uma vez de modo decisivo. Nesse sentido, von Rad lembra que, no Antigo Testamento, a vontade de Deus está ligada à aliança e à comunhão estabelecidas com seu povo. O fim último da vontade de Deus são a vida, o bem e a bênção de seu povo. Essa também é a intenção de Jesus nesse texto: anunciar que a boa e agradável vontade de Deus diz respeito à vida plena e abundante. Jesus utiliza a Lei, as Escrituras, como ponto de partida para os seus ensinamentos. O texto não quer ser um manual com preceitos abrangentes. Ao invés disso, ele oferece ilustrações da vida condizente com o reino de Deus. Jesus lembra a comunidade de que as interações com Deus, de um com o outro e com a sociedade envolvente são aspectos importantes de sua existência, que abrange toda a vida presente e futura. O amor, a reciprocidade, a integridade e a justiça devem definir os relacionamentos. A justiça também é uma chave importante para ler o texto indicado. Mateus, inclusive, é conhecido como o Evangelho da Justiça. Ele plantou bem fundo

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no coração de sua comunidade que não há boa-nova que não passe pela justiça, conforme Mateus 5.20. A justiça deve passar pela motivação mais profunda das práticas e das relações humanas. Por isso é necessário pôr uma nova luz sobre todas as palavras, ações e relações. Isto é, o que Jesus fez ao retomar exemplos da lei para mostrar que o senso de justiça não se apega a algumas regras, ao contrário, a luz do evangelho identifica que todas as motivações, atos e relações precisam estar ancoradas no bem e na justiça.

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Imagem para a prédica

Ao pensar numa imagem para a pregação, vieram à memória algumas perguntas ouvidas certa vez num estudo em grupo sobre esse texto: O que nos move no mais profundo de nosso coração? Com que motivações seguimos pela vida e no dia a dia? Que valores e atitudes perpassam as relações e interações que mantemos em nosso cotidiano? Na ocasião, essas perguntas foram impactantes e desencadearam reflexões importantes sobre as motivações da vida e sobre as relações a partir da perspectiva do Reino e da justiça de Deus. Como esse texto faz parte de um discurso com intenções educativas e como hoje se considera pedagogicamente adequado ensinar a partir de perguntas, propomos lidar com esse recurso. As perguntas acima e mais outras poderiam aguçar a sensibilidade em relação à perspectiva do reino de Deus.

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Subsídios litúrgicos

Hinos: Nos cancioneiros da IECLB, encontramos diversos hinos com mensagens preciosas, que podem ser incluídas na liturgia em forma de oração ou confissão. Aqui, dois hinos podem contribuir para a temática desse culto: “Canção da Caminhada” – hino 432 do HPD 2 e “Buscai primeiro o Reino”, hino 197 do HPD 1. A oração de Martim Lutero “A serviço de Deus” pode ser adequada: Cristo, querido Senhor e Mestre, revelaste a nós o correto significado de tua palavra. Permite que a entendamos sempre melhor. Fortalece-nos através de tua palavra e ajuda para que também vivamos e atuemos de acordo. A ti louvor e gratidão com o Pai e o Espírito Santo para sempre. Amém.

Bibliografia CARTER, Warren. O Evangelho de Mateus: comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. Trad. Walter Lisboa. São Paulo: Paulus, 2002. NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO SÃO JERÔNIMO. Novo Testamento e artigos sistemáticos. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011. OESSELMANN, Dirk. 6º Domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação XVIII. São Leopoldo: Sinodal, 1992.

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7O DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: LEVÍTICO 19.1-2,9-18

23 FEV 2014

MATEUS 5.38-48 1 CORÍNTIOS 3.10-11,16-23

Gerson Correia de Lacerda

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Introdução

O livro de Levítico certamente não é um dos mais populares das Escrituras. Muito pelo contrário, é pouco lido e pouco conhecido. Para muitos, parece ser um livro ultrapassado, relacionado ao culto nos tempos do Antigo Testamento, às normas a serem observadas pelos sacerdotes nos atos litúrgicos e às leis a respeito dos sacrifícios, da pureza e da impureza. No entanto, quando nos deparamos com o Sermão do Monte, registrado em Mateus 5-7, descobrimos que o texto de Levítico foi intensamente utilizado por Jesus em seu ensino quando, por diversas vezes, empregou as expressões: “Ouvistes o que foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo...”. É claro que Jesus não veio para revogar a lei, como ele mesmo afirmou no próprio Sermão do Monte, ao dizer: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Nessa linha de raciocínio, podemos dizer que o texto de Mateus 5.38-48 apresenta não a revogação do ensino de Levítico 19, mas, ao contrário, a sua interpretação pela ótica de Jesus Cristo. Não são, pois, textos contraditórios, mas paralelos, nos quais vemos o ensino do Antigo Testamento sob a luz do Evangelho. Não é diferente o que ocorre com o texto de 1 Coríntios 3. Paulo redigiu o texto a uma comunidade de fé que passava por grandes dificuldades. Uma delas, talvez a maior, era uma equivocada compreensão a respeito da santidade. A igreja de Corinto, em seu interesse por santidade, acabou desenvolvendo uma disputa interna a respeito do significado dos dons do Espírito Santo. Chegou à conclusão de que o dom mais importante era falar em línguas estranhas. Pessoas que afirmavam ter esse dom consideravam-se mais santas e superiores em relação aos membros da comunidade que tinham outros dons. O resultado foi trágico. A igreja, que se caracterizava pelo interesse pela santidade, acabou sendo uma igreja dividida, com grupos internos que se opunham uns aos outros e que dilaceravam o corpo de Cristo. Era uma igreja que se considerava santa, mas ainda precisava aprender que o dom maior do Espírito Santo é o amor (1Co 13). É exatamente desse assunto que trata o texto de 1 Coríntios 3. Paulo, o fundador da igreja de Corinto, não se considerava superior a ninguém. Afirmava que o único fundamento da igreja é Jesus Cristo (1Co 10-11). Ensinava que ninguém deveria gloriar-se em si mesmo, considerando-se mais santo do que seus semelhantes. Ao contrário, somente Deus é santo, e tão somente por sua graça somos santificados pela presença do Espírito Santo que habita em nós (1Co 3.16). Essa

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7º Domingo após Epifania

é a temática que une os três textos. São textos a respeito da santidade. E é nessa perspectiva que serão utilizados.

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Exegese

O “terceiro livro de Moisés” entre os judeus é conhecido pela expressão que aparece em seu início (“Chamou”). Essa palavra serve para indicar a procedência divina dos ensinos de Moisés. A partir da Septuaginta foi denominado “Levítico”, sugerindo que seu conteúdo se refere ao ritual cúltico do Antigo Testamento, levando em consideração o fato de que os levitas cuidavam do culto e de seu grupo procediam os sacerdotes. No entanto, supor que o texto de Levítico contém somente instruções a respeito dos sacrifícios e da pureza ritual é um grande equívoco. Como observa Budd, “torna-se muito claro, particularmente nos capítulos 18-26, que os princípios que regulam a vida da comunidade cúltica são exatamente aqueles que determinam relacionamentos apropriados pessoais e sociais” (p. 3). É nesse contexto que está inserido o texto da prédica (Lv 19.1-2,9-18). Dessa passagem destacamos os pontos a seguir. 2.1 – Objetivo dos mandamentos (Lv 19.1-2) O texto começa com a informação de que o ensino mosaico procede de Javé. Não representa, pois, mero ensino de um líder político e religioso, mas orientação divina. Essa abertura apresenta uma determinação formulada no plural (“santos sereis”). No entanto, ao longo do texto, ocorre alternância de formas, com mandamentos tanto no plural como no singular. Segundo Gerstenberger, “quando se examinam mais atentamente as proibições mantidas no plural, descobrimos as concepções e motivações dos redatores sacerdotais, que estavam extremamente interessados na correção ritual dos membros da congregação” (p. 262). Por outro lado, as proibições formuladas no singular visavam à promoção de uma vida comunitária salutar. Em outras palavras, quer colocados no singular, quer postos no plural, o objetivo dos mandamentos é regular a vida do povo de Israel tanto no culto como na vida secular, tanto no templo como fora dele, promovendo a santificação. Os mandamentos, pois, dirigem-se a todos e a cada um estabelecendo a exigência da santificação, porque Javé é santo. Mas poderíamos perguntar: o que significa, concretamente, santificação? Qual é o comportamento de pessoas santificadas? A tais perguntas que o texto responde. 2.2 – Santificação no trabalho agrícola (Lv 19.9-10) A determinação divina estabelecia que as espigas de trigo e os cachos de uva não deveriam ser colhidos totalmente nas plantações. Espigas e cachos que caíam durante o trabalho da colheita não poderiam ser apanhados, mas deixa-

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dos no chão. Temos um exemplo da observância concreta dessa determinação na história de Rute, que “foi ao campo e andava atrás dos trabalhadores, catando as espigas que caíam” (Rt 2.3). Os proprietários agrícolas deveriam, pois, observar uma certa “displicência” na colheita. Graças a isso, os pobres não ficariam sem provisões, mas teriam recursos para se manter. Gerstenberger destaca: “O ethos do Antigo Testamento é formado por dois componentes: obrigações para com Deus e responsabilidade social entre os seres humanos. No Israel antigo, esses dois componentes eram uma unidade indissolúvel...” (p. 267). 2.3 – Santificação nas relações sociais (Lv 19.11-12,16) A santificação envolvia procedimentos transparentes nos relacionamentos com as demais pessoas do grupo. Ao não roubar, não mentir, não enganar, não difamar e não jurar falsamente em nome de Deus, certamente cada indivíduo estaria dando a sua contribuição para que “os irmãos vivessem em união” não somente durantes as celebrações litúrgicas, mas também na vida em sociedade (Sl 133.1). 2.4 – Santificação nas relações econômicas (Lv 19.13) O texto pressupõe uma realidade econômica diversificada, com ricos e pobres, patrões e empregados. Nesse contexto, santificação quer dizer recusa à exploração e ao roubo bem como pagamento diário do salário. Em outras palavras, tinha que haver justiça nas relações econômicas. 2.5 – Santificação no relacionamento com pessoas com necessidades especiais (Lv 19.14) Levítico destaca procedimentos a serem adotados em relação aos surdos e aos cegos. É claro que essas não são as únicas pessoas com necessidades especiais. No entanto, o texto deve ser interpretado de forma ampla. Respeitar pessoas com necessidades especiais equivale, de fato, a respeitar o Senhor. 2.6 – Santificação na aplicação da justiça (Lv 19.15) A santificação não se limita aos relacionamentos pessoais ou às atividades econômicas. Ao contrário, envolve também a aplicação da justiça pelas autoridades responsáveis. Ela não deve ser parcial, inclinando-se em favor dos poderosos. 2.7 – Santificação na solidariedade (Lv 19.17-18) Finalmente, o texto selecionado para a prédica conclui que a santificação envolve abandono do ódio, correção com franqueza e amor. Trata-se de uma espécie de conclusão a tudo o que foi ordenado anteriormente. A respeito do mandamento do amor, Gerstenberger comenta: “A palavra ‘amor’ não deve, certamente,

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ser mal interpretada de uma maneira romântica ou caritativa. No antigo Oriente Próximo, era um termo referente à comunidade como um todo e, por isso mesmo, também ‘político’, e não individualista. No contexto da solidariedade familiar, referia-se ao compartilhamento e à responsabilidade mútua de seres humanos que viviam numa comunidade de fé” (p. 272).

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Meditação

3.1 – A religiosidade de nossos dias Estamos tendo uma grande surpresa nos dias atuais: a explosão da religiosidade. Referimo-nos a uma grande surpresa porque, há pouco tempo, circulou a teologia da secularização ou teologia da morte de Deus. Dizia-se que o ser humano, graças aos avanços e conquistas da ciência e da tecnologia, estava se tornando adulto. Com isso passava a ser senhor de sua história, sem depender de Deus. A consequência seria o declínio da religião e o esvaziamento das igrejas. Tais profecias não se cumpriram. O que vemos nos dias atuais é que as pessoas continuam sendo profundamente religiosas. Infelizmente, porém, desenvolveu-se uma religiosidade de “mercado”, marcada pelo espírito capitalista de compra das bênçãos divinas. E, para atender a isso, começaram a surgir igrejas dispostas a vender, acima de tudo, a prosperidade e a saúde. Tal religiosidade está em alta. Ela é alimentada pelo desejo de poder, pela ganância e pela soberba. Trata-se de uma religiosidade individualista, que visa oferecer prosperidade pessoal em troca de contribuições financeiras. É uma religiosidade que não envolve transformações na vida em sociedade nem implicações ou compromissos éticos. Os templos que exploram essa religiosidade estão repletos. Seus proprietários estão ricos e conquistaram poder político. Tem ocorrido um crescimento explosivo do segmento evangélico da população brasileira, mas, ao mesmo tempo, não se manifesta nenhum impacto transformador do poder do evangelho em nosso meio. 3.2 – Jesus e a religiosidade de seu tempo Nos tempos de Jesus, acontecia algo semelhante. A religiosidade era intensa. Ela se manifestava nas celebrações cúlticas do templo de Jerusalém e nas reuniões aos sábados nas sinagogas. As autoridades políticas procuravam tirar vantagens pessoais da exploração dessa religiosidade. Herodes, o Grande, que reinou de 37 a 4 a.C., começou uma fantástica obra no templo de Jerusalém, que encantou os discípulos de Jesus (“Quando Jesus estava saindo do pátio do templo, um discípulo disse: Mestre, veja que pedras e edifícios impressionantes!” – Mc 13.1). No próprio Sermão do Monte, Jesus fez referência a essa religiosidade que visava à promoção pessoal (“Tenham o cuidado de não praticar os seus deveres religiosos em público a fim de ser vistos pelos outros... Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas

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das ruas para ser vistos pelos outros” – Mt 6.1,5). Toda essa religiosidade só se manifestava nos atos religiosos de relacionamento com Deus (cultos, orações etc.). Jesus contrapôs-se a isso, chamando a atenção para a santificação na vida em sociedade, pregando contra a vingança e em favor do amor até aos inimigos. 3.3 – Paulo e a religiosidade da igreja de Corinto Também na igreja de Corinto houve manifestações de intensa religiosidade. O caso do dom de línguas era uma dessas manifestações. No entanto, ao mesmo tempo, era uma igreja com sérios problemas internos. Havia divisões e brigas na igreja (1Co 1.11). Havia o partido de Paulo, o partido de Apolo e o partido de Pedro. Alguns, julgando-se superiores aos outros, afirmavam-se como membros do partido de Cristo (1Co 1.12). Paulo contrapôs-se a essa religiosidade repleta de egoísmo, individualismo e vaidade. Ensinou que a igreja é edifício de Deus, e os cristãos são simples companheiros de Deus na construção desse edifício (1Co 3.9). Ninguém deveria considerar-se superior aos outros (1Co 3.18) nem se orgulhar de suas próprias obras (1Co 3.21). 3.4 – Santidade ou religiosidade? Como nos tempos de Jesus e como na igreja de Corinto, vivemos tempos de intensa religiosidade. No entanto, o que está faltando em nossa época é a busca por uma santificação biblicamente orientada. Quando falamos de santidade, é por demais importante a mensagem do texto de Levítico. Deus é santo e exige santidade. Essa santidade extrapola os limites dos templos e dos atos religiosos. Trata-se de uma santidade que se manifesta em todas as esferas da vida em sociedade, na promoção do reino de Deus. Não é mera religiosidade que não produz impacto no mundo, mas é modificação dos relacionamentos na vida secular, gerando a solidariedade. Não é simples busca de ajuda divina para a prosperidade pessoal, mas é luta diária em favor da paz e da justiça. Essa é a santidade que Deus exige de seu povo.

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Imagens para a prédica

4.1 – Uma vida de santificação Martin Luther King pregou, dois meses antes de morrer, em sua igreja em Atlanta (EUA) dizendo: “Se alguém aqui estiver presente quando chegar a minha hora, não quero um enterro prolongado. Se alguém fizer o ofício fúnebre, digam-lhe que não fale demais. Quero que alguém fale do dia em que tentei ser justo. Quero que falem do dia em que tentei dar de comer aos que tinham fome. Quero que possam falar do dia de minha vida em que tentei vestir os que estavam nus. Quero que falem do dia de minha vida em que tentei visitar os que estavam na prisão. E quero que digam que procurei amar e servir à humanidade. Sim, se quiserem, digam que fui um mensageiro. Digam que fui um mensageiro da

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justiça. Digam que fui um mensageiro da paz. Digam que fui um mensageiro da retidão. Não terei dinheiro para deixar. Não terei as coisas boas e luxuosas da vida para deixar. Quero deixar apenas uma vida de serviço. Se pude ajudar alguém a meu lado, se pude alegrar alguém com uma palavra ou canção, se pude mostrar o caminho a alguém que está andando errado, não terei vivido em vão. Se pude cumprir meu dever de cristão, se pude levar a salvação ao mundo arrasado, se pude difundir a mensagem como o Mestre a ensinou, então minha vida não terá sido em vão”. 4.2 – A sinagoga repleta Uma parábola recolhida por Martin Buber descreve uma religiosidade sem santificação: “Certa vez, Baal Schem parou à porta de uma sinagoga e negou-se a entrar. ‘Não posso entrar’, disse, ‘pois está repleta, de uma parede a outra e do chão ao teto, de orações e de ensinamentos. Como ainda haveria um lugar para mim?’ Ao ver que as pessoas à sua volta fitavam-no de olhos arregalados, sem entender, pois havia muitos lugares vazios na sinagoga, acrescentou: ‘As palavras que passam pelos lábios dos que oram e ensinam, e não procedem de um coração voltado para o céu, não sobem às alturas, mas atulham a casa de uma parede à outra e do chão ao teto’”.

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Subsídios litúrgicos

Há uma canção de um compositor chamado Zé Geraldo cuja letra merece a nossa reflexão. Ela diz assim: Tá vendo aquele edifício, moço?/ Ajudei a levantar./ Foi um tempo de aflição, era quatro condução,/Duas pra ir, duas pra voltar./ Hoje, depois dele pronto,/ olho pra cima e fico tonto.../ Mas me chega um cidadão e me diz desconfiado:/ Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?/ Meu domingo tá perdido. Vou pra casa entristecido./ Dá vontade de beber. E, pra aumentar meu tédio,/ Eu nem posso olhar pro prédio que ajudei a levantar. Tá vendo aquele colégio, moço? Eu também trabalhei lá./ Lá eu quase me arrebento, fiz a massa, pus cimento,/ Ajudei a rebocar./ Minha filha inocente diz pra mim toda contente:/ – Pai, vou me matricular!/ Mas me fala um cidadão: – Criança de pé no chão/ Aqui não pode estudar./ Essa dor doeu mais forte. Por que eu deixei o norte? Eu me pus a me dizer./ Lá a seca castigava, mas o pouco que plantava/ Tinha o direito de comer. Tá vendo aquela igreja, moço, onde o padre diz amém?/ Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo./ Lá eu trabalhei também. Lá, sim, valeu a pena./ Tem quermesse, tem novena, e o padre me deixa entrar./ Foi lá que Cristo me disse: Rapaz, deixe de tolice,/ Não se deixe atormentar./ Fui eu quem criou a terra,/ Enchi o rio, fiz a serra, não deixei nada faltar./ Mas o homem criou asas,/ E na maioria das casas eu também não posso entrar!

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A sugestão é que alguém faça a leitura do poema acima no momento da confissão, denunciando a religiosidade sem santificação de nossos dias.

Bibliografia BUDD, Phillip J. Leviticus. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1988. GERSTENBERGER, Erhard S. Leviticus – a commentary. Louisville: Westminster John Knox Press, 1996. NOTH, M. Leviticus – a commentary. Philadelphia: The Westminster Press, 1977.

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ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

PRÉDICA: 2 PEDRO 1.16-21

02 MAR 2014

ÊXODO 24.12-18 MATEUS 17.1-9

Eloir Enio Weber

1 Introdução Deus se revela. Revela a sua vontade. Manifesta o seu amor. Nós o percebemos pela espiritualidade que é alimentada por meio das mais diversas passagens bíblicas que dão testemunho dele. No auge do Antigo Testamento, Ele se mostrou como um Deus que age [Eu sou o que sou], que ouve o clamor, sente a miséria [misericórdia], intervém na história e liberta o povo escravo no Egito. Durante a passagem pelo deserto, ele dá ao povo os mandamentos, que têm como papel fundamental assegurar a liberdade de todas as pessoas na nova terra. O texto do Antigo Testamento, Êxodo 24.12-18, uma das leituras de hoje, relata o encontro de Deus com Moisés no monte Sinai para efetuar a entrega das tábuas dos mandamentos. Nesse gesto, Deus revela-se como aquele que quer não só conceder a liberdade, mas assegurá-la. No auge da Bíblia, para nós cristãos, Deus revela o seu rosto amoroso em Jesus Cristo. Ele, de forma definitiva, age, liberta, perdoa e salva. Vai até as últimas consequências na cruz. Toma o nosso lugar. Faz a “troca maravilhosa” conosco. O texto do evangelho deste domingo (Mateus 17.1-9) é o texto da transfiguração. Assim como no livro do Êxodo, novamente a revelação acontece no alto de um monte para pessoas restritas (antes só para Moisés – agora para Pedro, Tiago e João). Nessa manifestação, percebe-se a revelação da glória de Deus em Cristo e de seu papel no futuro Reino. No texto de pregação (2Pe 1.16-21), o autor recorre à experiência da transfiguração de Jesus para falar da veracidade da mensagem que ele transmite. Ser testemunha ocular garante a mensagem e dá credibilidade a ela. A pregação da palavra de Deus nessa tarefa revela-se por meio do falar de “pessoas santas movidas pelo Espírito Santo” – é como uma luz que indica o caminho enquanto o dia (reino de Deus) ainda não está pleno entre nós. Assim estão postos os textos para este último domingo após Epifania. Deus revela-se para e através de personagens dos textos bíblicos. Ele quer fazê-lo também através de ti, celebrante de culto deste domingo. Deus te abençoe nessa tarefa!

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Exegese

2.1 – O livro Não há condições de datar esse escrito de forma definitiva. A segunda Carta de Pedro talvez seja o último escrito, em termos cronológicos, do Novo Testamento. Caso essa afirmação seja verdadeira, então dificilmente a autoria pode ser atribuída a Pedro, o apóstolo (mesmo que, textualmente, essa seja a afirmação no início da carta). A carta foi escrita provavelmente na época em que a igreja passava para a fase pós-apostólica. Até o final do primeiro século, os cristãos viviam da experiência com o Cristo terreno e da espera pela parusia imediata. A partir dali, as comunidades passaram a receber forte pressão de diversas doutrinas – especialmente do gnosticismo. A carta é uma resposta a essa situação. Ela quer também estimular os desencorajados e denunciar com veemência as doutrinas estranhas à fé. 2.2 – O texto O texto em questão defende com ardor a veracidade do testemunho anunciado à comunidade – a fé que unicamente aponta para o Cristo, revelado como Senhor e Salvador. O autor faz apologia de sua teologia e escreve que a fé na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo é baseada em uma experiência pessoal. Nesse contexto, a vinda da qual o autor fala no versículo 16 refere-se precisamente à segunda vinda de Cristo em glória. Esse argumento opõe-se àquilo que os gnósticos acreditavam. Pode-se afirmar que a vinda está relacionada à volta de Cristo, porque o autor faz logo em seguida a menção da experiência vivida na transfiguração. A visão está relacionada com a glória que acompanhará o Cristo na parusia. A transfiguração foi uma visão preliminar daquilo que há de vir. O autor ressalta o senhorio ao destacar o título completo: “nosso Senhor Jesus Cristo”. Na medida em que defende a sua teologia, o autor condena a forma como os gnósticos promovem o seu “fazer teológico”, usando para isso a terminologia “fábulas engenhosamente inventadas”. Pelo contrário, o autor se diz “testemunha ocular da majestade de Cristo”. Essa afirmação tem a intenção de opor-se diretamente aos “mitos” dos gnósticos, criados por sua sabedoria humana pervertida. Para o verdadeiro apóstolo, não há nenhuma necessidade de imaginar situações; basta descrever a sua experiência, vivida em companhia do Senhor Jesus Cristo. A majestade de Cristo é uma realidade vista com seus próprios olhos e sentida com seus próprios sentidos. Essa experiência é uma antecipação da majestade e da glória futuras. O esplendor visível é o fermento da esperança que surge do convívio e da intimidade com Cristo. A fé assimila essa experiência e transformaa em testemunho. Cristo recebeu honra e glória quando, pela glória excelsa, se ouviu a voz de Deus Pai. A transfiguração dentro da teologia cristã é vista tradicionalmente como prefiguração do Reino e de sua glória, tendo Cristo como rei. A ênfase aqui

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está no testemunho, na visão, na credibilidade da fé cristã diante de doutrinas estranhas infiltradas no seio da comunidade. O autor descreve, com poucas variantes, a palavra proferida pela voz de Deus na transfiguração: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. A mesma frase foi dita também no contexto do batismo de Jesus Cristo. A autenticidade da doutrina da parusia é comprovada na audição da voz de Deus, enquanto a glória era manifestada e refletida em Cristo. Para o autor, ouvir a voz de Deus é beber da própria fonte. Não há como menosprezar essa experiência. Não dá para ignorar ou diminuir esse fato. Assim como Moisés ouviu a voz de Deus, ao receber os Dez Mandamentos no monte santo, os discípulos, em outro monte santo, ouviram a voz dele quando presenciaram a prefiguração da parusia. A referência à palavra profética é uma alusão direta ao Antigo Testamento, mas é bem provável que o autor quisesse dizer que ela é confirmada e continuada no Novo Testamento. A palavra profética (e apostólica) é confirmada pela voz e pela visão que é trazida à lembrança nesse texto. É necessário que a comunidade assimile essa mensagem. Assim como a luz resplandeceu do corpo de Cristo, a fé nessas palavras é uma “candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela d’alva nasça no coração” das pessoas de fé. A comunidade precisa ouvir e assimilar (“fazeis bem em atendê-la”) essa palavra, pois é a que traz a salvação àqueles que a compreendem e acolhem. Essa sim deve ser seguida, não a mensagem dos gnósticos. O presente mundo com suas tramas e fábulas mirabolantes é visto como um lugar tenebroso, escuro. É necessário que a luz da Palavra, aquela que iluminou a partir de Cristo, se faça presente, indicando caminhos. Enquanto a noite perdura, a candeia deve iluminar. Mas o dia já vem. A luz da estrela da manhã logo há de aparecer. Avizinha-se a alvorada para a criação. É uma referência à parusia, à volta de Cristo em glória, poder e majestade. Enquanto é noite, há espaço para o pecado humano agir, que se vale das trevas em que está mergulhado o mundo. A noite é o tempo do sono (a despreocupação espiritual), de todos os tipos de excesso. O amanhecer é tido como o tempo de vigilância e retorno de Cristo, enquanto o dia é visto como tempo de ação, convívio e busca. As profecias não são frutos da imaginação humana. Nem são projeções da vontade humana. As profecias são verdadeira palavra de Deus, voz de Deus, manifesta, especialmente, em Jesus Cristo. Não palavras humanas, mas testemunho de fé a partir de uma experiência com Cristo. O Espírito Santo é o agente impulsionador. Nele está a origem dos impulsos, do desejo de escrever a respeito daquilo que é imagem viva na lembrança daquele que vivenciou uma experiência de fé na presença de Cristo no monte santo: viu a luz, ouviu a voz. O Antigo e o Novo Testamentos permanecem juntos, e ambos manifestam-se contrariamente às inovações dos falsos mestres.

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Meditação

Mundo plural. Sociedade multicor. Talvez sejam conceitos que se aplicam bem ao que vimos até aqui. O cristianismo logo começou a se deparar com essa

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realidade. Até porque ele próprio começou, a partir da espiritualidade judaica, uma forma diferente de ler a relação de Deus com seu povo e entre os seres humanos. O cristianismo por si só é um movimento multicolor. Quando começou a se expandir para o mundo “pagão”, de forma definitiva ele se defrontou com essa realidade em uma sociedade greco-romana. No segundo século, provável contexto histórico no qual está situado o nosso texto, essas expressões de pluralidade se evidenciaram. O cristianismo precisou adequar-se muitas vezes, sem, no entanto, perder a sua essência. O cristianismo desenvolveu-se num contexto urbano, portanto plural. Conviver e estabelecer-se em um mundo plural é um desafio. Na realidade atual, não muito diferente do que no tempo bíblico, é necessário traduzir a mensagem do evangelho para dentro da realidade multicolor da cidade. A cidade tem encantos. Atrai. Ela é lugar de seres humanos com seus pecados, limitações, chagas e angústias. Aliás, a cidade tende a ressaltar o que há de mais humano, ou seja, o individualismo e a busca por espaço e sobrevivência a qualquer custo. O pecado pode ser vivenciado de forma mais livre, porque a vida é menos controlada. Migrar para a cidade é viver de forma emancipada. A cidade concentra mais o pecado porque concentra pessoas. Na realidade, a cidade pode multiplicar o pecado, constituir uma imagem do mal, mas não se pode esquecer que também representa o reino de Deus. A cidade é, portanto, a síntese do pecado e a síntese da nova criação de Deus. Para dentro dessa realidade, a mensagem bíblica necessita ser clara. O Novo Testamento ressalta que, apesar da cidade ser espaço de pecadores, o reino de Deus é prefigurado de forma plena numa Nova Jerusalém, oferecida por Deus, que desce do céu. A cidade, portanto, não está alheia ao reino de Deus, pois esse se realiza nos e pelos seres humanos. Na cidade, as pessoas não aceitam o argumento da autoridade e, muito menos, a imposição. Não basta ditar as regras de uma religiosidade. As pessoas não se submetem. Elas precisam convencer-se (não ser convencidas) pessoalmente. A religiosidade não pode ser resumida a uma recitação de verdades absolutas e regras a serem seguidas. As pessoas precisam de conceitos balizadores, ferramentas e uma espiritualidade que as auxilie na busca por caminhos, processos, métodos que façam sentido para sua vida e seu dia a dia. A igreja precisa falar para adultos. Passou o tempo em que os membros deviam ser tratados como crianças na fé de forma permanente. A igreja precisa ser capaz de provocar uma verdadeira e constante conversão nos adultos. Caso contrário, ela verá seus membros afastarem-se dela sem drama e com toda a tranquilidade. A igreja que na cidade se fecha em si e vive de seu passado glorioso será eliminada da cidade. Na cidade, nada é estável. A igreja precisa estar em constante estado de missão – e a cidade é, por excelência, espaço de missão. Até os membros de famílias tradicionais deixam de participar se a sua fé não se renova sem cessar. Havia um tempo em que a igreja se preocupava em manter seus membros e famílias. Hoje, em contexto urbano, ninguém segura ninguém dentro de uma igreja. É necessário renovar sem cessar as adesões, fazer

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novos membros, cuidar da fidelidade dos membros mais antigos e convencer-se de que ninguém mais bebe de uma única fonte religiosa. Então vale tudo nesse contexto? Não! Não podemos “vender a nossa alma”. Temos uma teologia. Temos um compromisso com a ética evangélica. Temos um jeito de ser igreja de Jesus Cristo. Temos uma essência da qual não podemos abrir mão sob o risco de perder o nosso lugar, o nosso perfil e a seriedade com a qual tratamos a espiritualidade cristã. O texto de 2 Pedro já nos indica caminhos. Não podemos abrir mão da centralidade de Cristo. A teologia da cruz tem seu eco para dentro das necessidades humanas na atualidade. Ela não está esgotada. Pelo contrário, as pessoas têm sede e necessitam analisar suas cargas e chagas da vida através do prisma do sacrifício de Cristo. Elas, diferente do que nas últimas décadas, não querem mais um Deus “super-herói”. A vida já as surrou demais, e elas já aderiram a uma religiosidade da glória que não conseguiu dar respostas – até porque não enriqueceram de forma mágica, os seus familiares não foram curados da noite para o dia com um milagre mirabolante. Temos o nosso jeito de viver comunidade como sociedade de contraste. Precisamos exercitar com bastante ênfase o acolhimento, mostrar interesse em ouvir. Dizer com coragem que não temos respostas prontas para tudo, mas que queremos ser parceiros de luta e de caminhada. Exercitar a oração, a leitura bíblica, a reflexão. Traduzir a nossa riquíssima visão de ser humano, cunhada por nosso reformador: somos simultaneamente justos e pecadores. As pessoas já foram por demais acusadas de não ter fé, por não conseguir estancar o mal em sua vida. A descoberta de que somos justos e pecadores é uma libertação da necessidade e da cobrança pela perfeição que há no mundo pentecostal. A visão de que não estamos dominados pelo diabo por não conseguir nos libertar por conta própria do pecado, como prega o neopentecostalismo, é uma mensagem que precisa ser revelada ao mundo. Temos muito espaço. Não estamos sós. Sejamos nós, como igreja de Cristo, “como uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça” (2 Pedro 1.19).

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Imagens para a prédica

Compartilho uma pequena estória cujo autor desconheço: Conta-se que um rabino foi perguntado por seus discípulos: “Como se pode saber quando amanheceu o dia e acabou a noite?”. O rabino devolveu a pergunta aos discípulos. Um deles arriscou: “É quando podemos distinguir com clareza entre uma vaca e um cavalo”. Tendo ficado em silêncio o mestre, outro discípulo disse: “É quando sabemos discernir se a fruta é uma maçã ou uma pera”. Como ninguém mais falou, calmamente o rabino disse: “Terminou a noite e amanheceu um novo dia quando reconheço no outro um irmão”.

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Subsídios litúrgicos

Sugiro preparar o lugar da celebração com fotos (recortes de rostos) de diversas pessoas. Podem ser fotos de pessoas da própria comunidade ou recortes de imagens em revistas. Em algum momento adequado na celebração, convidar as pessoas para olhar com atenção as imagens. Perceber diferenças. Semelhanças. Espalhar, também, pedaços de papel com afirmações teológicas escritas*. Convidar algumas pessoas para pegar um papel e ler a frase. Fazer uma análise teológica se dá ou não dá para concordar com aquilo. O objetivo dessa dinâmica é estimular a comunidade a perceber que somos diferentes. Podemos pensar diferente em inúmeros aspectos. Mas há algumas verdades das quais não podemos abrir mão e outras com as quais não podemos concordar. Nem tudo o que ouvimos em termos de afirmações teológicas é correto. Nesse ponto, trazer o texto bíblico de 2 Pedro para dentro da reflexão. O apóstolo ensina-nos a resistir e a argumentar. Essa deveria ser a temática da celebração. * Exemplos de frases com as quais podemos concordar e outras com as quais não devemos concordar. Analisar, conversar e explicar o porquê de concordar ou não: “Somos pessoas pecadoras, mas pela graça de Deus somos perdoadas”; “A pessoa que tem fé não peca mais”; “A salvação é obra exclusiva de Deus em nós”; “Se nos esforçarmos muito, chegaremos ao céu pelas nossas capacidades”; “O sofrimento em nossa vida é castigo por causa da nossa falta de fé”; “Não há sofrimento humano com o qual Deus não se comisere ou que ele desconheça”.

Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. V. 6. 4. ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, 1983. COMBLIN, José. Viver na Cidade – Pistas para a Pastoral Urbana. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1996. SAVIANO, Brigitte. Pastoral nas Megacidades – Um Desafio para a Igreja da América Latina. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

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PRÉDICA: MATEUS 6.1-6,16-21

QUARTA-FEIRA DE CINZAS 05 MAR 2014

JOEL 2.1-2,12-17 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10

Scheila dos Santos Dreher

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Introdução Ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita. (Mt 6.3b)

A Quarta-feira de Cinzas marca o início do tempo da Quaresma. Cinzas, no contexto bíblico, são utilizadas nos rituais de arrependimento e purificação do que precisa morrer, virar pó, ser desconstruído, para renascer com vitalidade. Em nosso calendário civil, estamos saindo do carnaval, uma festa que oportuniza situações diferenciadas, conforme o desejo e a compreensão de cada um e cada uma: descanso, dias nos quais “todo mundo pode tudo” (como canta Adriana Calcanhoto), dias oportunos para retirar-se da rotina e estabelecer maior comunhão com pessoas da mesma fé. O texto do profeta Joel aponta para o Dia do Senhor, dia de juízo e castigo para os pecadores e as pecadoras. Daí a admoestação do profeta ao arrependimento e à confiança na ação de Deus, o qual pode fazer novas todas as coisas. O apóstolo Paulo, por sua vez, destaca que Cristo já carregou sobre si os nossos pecados e intercede para que não percamos a graça que ele nos concedeu, inclusive como “companheiros no serviço de Deus”. No texto de Mateus, o próprio Jesus chama ao arrependimento e à novidade de vida na perspectiva do reino de Deus.

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Exegese

A comunidade em meio à qual foi escrito o Evangelho segundo Mateus tem raízes profundas na cultura e na religião judaicas. A menção, por diversas vezes, do que foi dito pelos profetas bem como a genealogia que abre o evangelho dão provas disso. Ao longo do evangelho, é perceptível o processo que a comunidade está vivendo de atualizar a Escritura, fazer a releitura para dentro da nova realidade de fé que se inaugurou com a vinda do Messias, Jesus de Nazaré, sua morte e ressurreição. A comunidade de Mateus experimentou o cotidiano ditado pela Pax Romana por volta dos anos 70, que também resultou na destruição do templo de Jerusalém. Por isso também essa comunidade passou a reunir-se em sinagogas, como indica o nome: “lugar de reunião”, provavelmente na cidade de Antioquia, ao norte de Israel, na Síria, e redigiu o evangelho em torno do ano 85 d. C.

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Quarta-feira de Cinzas

O Evangelho segundo Mateus possui uma organização clara. Está dividido em cinco grandes discursos, que constam após narrações de ações de Jesus, indicadas pela expressão: “E aconteceu que, quando Jesus terminou estas palavras [...]”. O texto previsto para a pregação está inserido no discurso proferido por Jesus no início de seu ministério, o primeiro dos cinco mencionados anteriormente, no âmbito maior do “Sermão do Monte” ou das “Bem-aventuranças”, como também é conhecido, que abrange Mateus 5.1 até 7.28. Diante da multidão de pessoas que vinha seguindo Jesus (Mt 4.23ss), nesse momento ele subiu em um monte e, aproximando-se o grupo mais próximo de discípulos, passou a ensiná-los (Mt 5.1). O centro dos versículos mencionados está, em verdade, na oração do Pai-nosso, que é omitida na leitura. As três “obras de piedade” em questão, duas de caráter mais pessoal/interior (a oração e o jejum) e uma de caráter exterior (auxílio aos necessitados/esmolas), eram atitudes esperadas dos fiéis no judaísmo. Elas eram familiares à comunidade de Mateus. Na Bíblia, segundo a tradução de Almeida, o versículo 1 do capítulo 6 inicia citando as palavras de Jesus nos seguintes termos: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens [sic.]....” A justiça das pessoas e, em especial, dos fariseus promovia quem cumpria a Lei. Por isso era importante ser visto em sua prática religiosa. Jesus reconceituou a ideia de justiça humana, indicando o esvaziamento das “obras de piedade” quando, para engrandecimento pessoal, a necessidade de arrependimento, fruto de conversão, e de um novo comportamento. Jesus não se opôs às práticas resultantes da espiritualidade judaica (ou aos deveres religiosos, segundo a Bíblia na Linguagem de Hoje), mas lhes tirou qualquer possibilidade de ostensividade, de promoção pessoal ou de vanglória. O que pertencia necessariamente à esfera pública – espaço propício para ações visíveis – permaneceu como tal: a esmola; o que poderia tornar-se prática na esfera privada para evitar promoção pessoal foi cambiado. Importa que os frutos da vida de fé sejam autênticos, genuínos. No reino de Deus, não há espaço para a hipocrisia. Vale lembrar aqui as palavras de Jesus conforme Mateus 5.17: “Não pensem que eu vim acabar com a Lei de Moisés e os ensinamentos dos profetas. Não vim acabar com eles e sim dar o verdadeiro sentido deles” (conforme Bíblia na Linguagem de Hoje). – Dar esmolas: No Antigo Testamento, encontramos diversas vezes a recomendação de destinar a sobra das colheitas aos necessitados (Êx 23.1; Lv 19.910). Nesse sentido, o salmista profere uma palavra de bênção dizendo: “Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor livra-o no dia do mal” (Sl 41.1), e um ditado popular reza uma maldição: “Quem recusar ouvir o grito do pobre também gritará e não será ouvido” (Pv 21.13). No tempo de Jesus, era comum encontrar pessoas pedintes nos caminhos e mesmo nos portões do templo. Muitas dessas pessoas viviam em ociosidade declarada e reagiam de forma estúpida quando era negada a esmola solicitada; outras tantas eram pessoas doentes e com necessidades especiais, que engrossavam as fileiras dos famintos e desamparados. Em Atos 3.2, encontramos Pedro e João diante de uma dessas pessoas. Conforme o testemunho bíblico, Jesus não proíbe a prática da esmola para a pessoa necessitada. Aliás, na atualidade, tal prática deveria assumir outras formas que

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visem à superação do assistencialismo e à promoção da dignidade do ser humano através da reorganização familiar, de sua capacitação e da inserção da pessoa adulta no mercado de trabalho. Jesus reconduz tal prática à sua essência, qual seja: o auxílio à pessoa necessitada como ação no âmbito do reino de Deus e de sua justiça e não para a promoção pessoal. – Orar: Todos os dias e várias vezes ao dia, no lugar em que estivessem (em local de trabalho fechado, nos campos ou nos caminhos), os judeus colocavam-se em oração diante de Deus. Judeus do sexo masculino, acima de treze anos, considerados adultos, precisavam orar diariamente, pelo menos três vezes ao dia. Eles envolviam a cabeça e os ombros em uma espécie de estola (tallith) e voltavam-se na direção de Jerusalém. Caso já estivessem em Jerusalém, voltavam-se para o templo. Entre suas orações encontravam-se o Shema – uma profissão de fé decorrente de Deuteronômio 6.4-7, bem como uma longa oração de adoração a Deus e de súplica. Os evangelhos testemunham sobre a prática de oração de Jesus. Logo após exortar os discípulos e, por extensão, a multidão de ouvintes que os cercava a orar não para ser vistos, não para demonstrar piedade, mas em secreto, para Deus, Jesus ensinou a oração que chamamos de “Pai-nosso”, reconduzindo a prática da oração à sua essência. Jesus ensinou-nos, de fato, a orar: orar de maneira nova e com conteúdo. Orar reconhecendo que clamamos a Deus, como Pai (e Mãe) querido e próximo, no coletivo e pelo coletivo. – Jejuar: O hábito de abster-se de alimentos por um tempo determinado (ou não) entre os judeus acompanhou o povo de Israel em toda a sua trajetória. Há testemunhos da prática do jejum no Antigo e no Novo Testamentos. Quando nos alimentamos, muitas vezes em demasia, sentimo-nos “pesados”, cansados, preguiçosos até. O jejum trazia consigo a ideia de sentir-se mais leve para a reflexão, do autoexame de consciência com vistas ao arrependimento e até mesmo do autossacrifício para expiação de pecados. Até bem pouco tempo, muitas pessoas cristãs também se abstinham de determinados alimentos no período da Quaresma em função dos sofrimentos de Cristo no caminho que conduziu à cruz. Talvez hoje faça muito mais sentido abster-se ou renunciar a algo para que se possa ofertá-lo a pessoas ou a instituições por gratidão a Deus. “Pois onde estiverem as suas riquezas, ali estará o coração de vocês” (Mt 6.21): Auxiliar a pessoa necessitada, jejuar e orar a olhos vistos para somar pontos diante das pessoas traz recompensa imediata: muitos olhares de simpatia e exclamações de admiração. Essas “riquezas”, no entanto, não somam pontos para a salvação, porque essa não vem por esforço humano; é graça de Deus. Nesse sentido, também uma vida voltada para o acúmulo de bens materiais é engodo; nada se leva após a morte. Antes, por gratidão pelo amor com que fomos criados por Deus, pelo amor com que ele diariamente nos oferece condições para a vida, por gratidão pela salvação a nós oferecida em Jesus Cristo, somos livres para amar e servir. Se nosso coração (centro da pessoa na concepção bíblica) pertence a Deus, naturalmente nossas ações serão condizentes com a vontade de Deus, sem que a mão esquerda saiba o que fez a mão direita, sem que sintamos a necessidade de promover-nos mediante o que fazemos.

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Meditação

Algumas questões foram apontadas na exegese. Destaco, na perspectiva do reino de Deus, algumas delas: 1) A necessidade de superar a hipocrisia religiosa – A recompensa para quem faz uso da espiritualidade e da fé para a autopromoção é imediata. Muitas vezes, ainda que de forma sutil, não deixamos de mencionar nossas boas ações àqueles e àquelas que estão ao nosso redor. Assim somos vistos como pessoas religiosas e nos tornamos benquistos. Igrejas cristãs, por vezes, também se deixam cair nessa armadilha, inclusive propagando falsas notícias de curas e milagres para atrair fiéis. 2) A necessidade de arrependimento: Venha o teu Reino! – Aprendemos com Jesus a interceder na oração do Pai-nosso. O reino de Deus não é um “faz de conta”. Participar desde já do projeto de vida de Deus significa abraçar a justiça e a verdade e comprometer-se a viver o amor de Deus indistintamente, para que o mundo conheça Deus e experimente sua boa vontade. O arrependimento, por isso, é exercício diário de toda pessoa cristã. Felizmente, contamos com a bondade e o amor do Deus, que se revela como Pai e Mãe, perdoa-nos e redireciona o nosso viver. É preciso, no entanto, que reconheçamos verdadeiramente nossa culpa e nossas limitações e que busquemos em Deus condições para a mudança que todo arrependimento sincero pressupõe. 3) Um novo comportamento resultado do arrependimento – Por gratidão a Deus, a pessoa cristã disporá de seus dons, tempo e dinheiro a serviço do Reino. Seu fazer assumirá formas bem concretas a partir das necessidades percebidas, da organização e do planejamento da comunidade na qual toma parte. Poder servir, sentir-se útil, será sua recompensa nesta vida terrena. O futuro será entregue, nessa ótica, confiadamente nas mãos de Deus, porque não precisamos provar com boas ações nossa índole cristã, mas receber a salvação somente por graça e fé.

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Imagens para a prédica

Enquanto preparava este texto para o PL, utilizei-o como pregação num final de semana em duas das quatro comunidades que integram a Paróquia do Parecis/MT. Precisava refleti-lo com a comunidade. Em Mato Grosso, as comunidades evangélico-luteranas surgiram com a migração de famílias luteranas do sul do país e do estado de Mato Grosso do Sul em busca de trabalho e melhores oportunidades, repetindo a história fundante da IECLB no Brasil. Felizmente não permanecemos restritos ao universo germânico-sulista. Outras pessoas, de outras origens étnicas e de outras confissões cristãs vêm se achegando. Como comunidades evangélico-luteranas estamos aprendendo a acolher com generosidade. Nesse contexto, perguntei no início da pregação: Como reconhecemos aqui no Mato Grosso alguém que veio do sul? A conversa fluiu: Pelo sotaque, pelo convite para integrar a roda de chimarrão, pela participação em CTG’s, pela alimentação, pela maneira de exercer a hospitalidade. Compartilhei, então, como

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se reconhecia um judeu (homem) no tempo de Jesus: pela prática das três “obras de piedade”. Apresentei a crítica de Jesus. Prossegui a reflexão sob a pergunta: Como se reconhece hoje uma pessoa cristã genuína, autêntica?

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Subsídios litúrgicos

Sugiro buscar auxílio nas duas liturgias propostas para o tempo de Quaresma no Livro de Culto da IECLB. A cor cinza bem como cinzas em si poderiam ser utilizadas no decorrer do culto.

Bibliografia DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1991. VASCONCELLOS, Pedro Lima; SILVA, Rafael Rodrigues da. Feliz quem tem fome e sede de justiça: a Boa Notícia segundo a comunidade de Mateus. Série: A Palavra na Vida. São Leopoldo: CEBI, 1999.

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1º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: MATEUS 4.1-11

09 MAR 2014

GÊNESIS 2.15-17; 3.1-7 ROMANOS 5.12-19

Hans Alfred Trein Toda tentação em nós foi vencida por Cristo

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Introdução

Jesus foi sem pecado, mas não sem tentação: sem pecado, dada a sua natureza divina, mas acossado pelas tentações, dada a sua natureza humana. Nelas, Jesus confrontou-se com suas sombras. E não foi brincadeirinha! “Antes, ele foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). Normalmente, a superacentuação de sua divindade faz-nos achar que Jesus tirou aquelas tentações todas de letra, que elas não mexeram com ele. Se bagatelizarmos as tentações de Jesus, além de negar-lhe a humanidade, teremos problemas em reconhecer e lidar com nossas tentações, pois todas as tentações de Jesus também nos acometem. Se heroizarmos Jesus nesse ponto, capitulamos de antemão frente às nossas tentações. Como cristãos, somos imitadores de Cristo e até mesmo corpo de Cristo, tendo a promessa de, assim como ele, revestidos de Cristo, não sucumbir às tentações. O poder corrompe. Jesus tinha poder, mas resistiu à tentação de usá-lo para trilhar o caminho da glória; não se corrompeu, seguiu a via-crúcis, uma tolice para os gregos e um escândalo para os judeus. Teria podido transformar pedras em pão quando teve fome (poder econômico). Teria podido certificar-se e demonstrar prestigiosamente a sua filiação ao Deus Criador, atirando-se do pináculo do templo (prestígio social). Teria podido ter todos os reinos do mundo a seus pés (poder político) se adorasse satanás ou, pelo menos, teria podido restaurar o reinado davídico, como se esperava do messias. Teria podido convocar o exército dos anjos celestiais para evitar ser preso. Teria podido descer da cruz... Contudo, todo o seu poder foi amorosamente aplicado em servir. Quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o que sirva a todos e todas. O hino cristológico de Filipenses 2 expressa-o de maneira concisa e poética. Para o caminho da cruz olhamos neste primeiro domingo da Quaresma.

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Considerações exegéticas

Inicio essas considerações remetendo às excelentes contribuições de Walter Altmann no PL IV, de Augusto Kunert no PL XXVII e de Sílvia Genz e Dalcido Gaulke no PL XXXII. Resumo e complemento em pontos o que deles me pareceu mais importante destacar.

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Com que forças Jesus está lutando no deserto? Quem é o diabo? Ele é o confundidor (diabolos vem do verbo grego διαβάλλειν = lançar em várias direções, confundir; o contrário de συμβάλλειν = lançar ao mesmo ponto, a modo de se unir, que dá origem à palavra símbolo). Talvez ele seja apenas um personagem-recurso cênico, encarregado de verbalizar as expectativas messiânicas populares que apoquentam Jesus diante de seu ministério. O confundidor foi esperto: planejou pegar Jesus justamente num momento de fragilidade. Todavia, engana-se redondamente quem o pensa vulnerável. Depois do jejum, Jesus está com sua percepção muito aguçada, com seu entendimento muito preciso, com presença do Espírito e com sua língua afiada. As tentações de Jesus acontecem no deserto, onde as possibilidades estão todas em aberto, onde o caminho se faz ao caminhar. A tentação vem associada ao desamparo e à sensação de solidão e de abandono. No deserto, Jesus decidiu que seu reino não seria como os reinos deste mundo. Foi o que ele respondeu quando inquirido se era de fato o rei dos judeus. Jesus optou pela via contrária ao poder na sociedade de Estado. Será que nessa opção ainda está contida outra afirmação implícita: quem almeja o poder através da subjugação, da razão de Estado e da imposição tem que adorar satanás? Maquiavel manda lembranças. As tentações de Jesus procedem das bases de sua fé. O tentador faz propostas extraídas das Sagradas Escrituras, por exemplo do Salmo 91.11s. Jesus também responde com citações bíblicas, originárias de Deuteronômio 8.3b; 6.16. Além de ser uma batalha espiritual decisiva para toda a vida, o confronto tem dimensões de um embate bíblico, uma contenda hermenêutica. Daí se aprende que citações bíblicas estão sujeitas a uso deturpado. Podem ser utilizadas para o contrário do reino de Deus. As tentações de Jesus acontecem dentro de um contexto social e político da espera pelo messias. Espera-se um líder político na sucessão davídica (Davi tornou-se rei de Israel, egresso das camadas populares), que sacie o povo de pão, que comprove sua competência e poder com ações espetaculares e demonstrações de ser o escolhido de Deus e que restaure a soberania de Israel sobre os povos ao redor, pelo menos sobre o território original. A entrada festejada dele em Jerusalém e a grande decepção expressa pelos discípulos de Emaús confirmam essa expectativa até mesmo entre os discípulos mais próximos. A tentação do confundidor faz coro com as esperanças messiânicas populares: voz do povo, voz de Deus. As três respostas de Jesus podem ser lidas em escalonamento crescente. Cumprindo a última da adoração somente a Deus, as outras estarão automaticamente contempladas. Cumpre o primeiro mandamento e lembra o Shema Israel. Remonta à sociedade tribal sem Estado. Tem a marca da crítica profética à monarquia. O povo de Israel passa pelas mesmas tentações e recebe os dez mandamentos, a constituição da primeira aliança. Como Moisés e Elias, Jesus opta por iniciar seu ministério com um período de oração no deserto. Decide-se pelo caminho da cruz, a constituição da nova aliança. O primeiro inimigo a vencer é o tentador, o confundidor que atua sobre ele a partir dos valores do mundo ao redor e a partir das sombras do subconsciente. Não estão em jogo apenas determinadas atitudes morais ou piedosas de Jesus, mas toda a sua vida e obra. Por isso o texto

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está localizado entre o batismo de Jesus e o início de sua atividade pública. A pessoa de Jesus não tem valor próprio. Ele é a sua obra. Não quero deixar de refletir sobre um aspecto geralmente esquecido. No deserto, Jesus estava jejuando e não passando fome. Entre jejuar e passar fome há uma diferença enorme. Além de ser um ato de vontade, o jejum é uma decisão livre de não se alimentar. Exige preparo mental e corporal para alcançar os efeitos depurativos de corpo e mente. Quando alguém que começou a jejuar sentir que está passando fome, deve interromper o jejum imediatamente. Muito diferente é a situação de pessoas empobrecidas, obrigadas a passar fome, porque o pão foi transformado numa mercadoria. O alimento físico é para elas condição para a sua dignidade de imagem e semelhança a Deus. Negar-lhes essa condição é uma afronta ao Criador. Dizer-lhes a frase de Jesus “nem só de pão viverá o homem...” é de um cinismo inominável. Diferente ainda é a situação de pessoas que passam fome de barriga cheia. Passam fome, pois se alimentam de modo errado. É o caso de muitas pessoas obesas por causa do consumo de chips, enlatados, frituras, refrigerantes, doces, alimentos industrializados (desnaturalizados) e fast-food em geral. Para compreender melhor a relação entre o texto da prédica e as leituras litúrgicas, valho-me de outro texto bíblico, que, dependendo do enfoque que se queira dar à pregação, poderia substituir uma das leituras. Trata-se do texto de Tiago 1.13ss: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria concupiscência (epithimia), quando essa o atrai e seduz. Então, a concupiscência, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”. Ou seja: o pecado inerente à humanidade e a consequente morte eterna foram vencidos por Cristo. Através de um homem (Adão) o pecado entrou no mundo e através de outro homem (Jesus) ele foi tirado. Jesus, igual a nós em humanidade, sujeito à tentação, é distinto de nós na condição sem pecado. Jesus é o novo ser humano, o segundo Adão. O pecado original, o pecado como condição inevitável do ser humano, bem como seu salário, a morte, foram eliminados através da morte e ressurreição de Cristo. Não foram extintas a tentação e a concupiscência. Não fomos eximidos de fazer escolhas. O livre-arbítrio humano foi mantido. A tentação pela concupiscência ficou. Por isso vigiai e orai para não cair em tentação.

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Meditando a caminho da prédica

A doutrina do pecado original, elaborada principalmente por Agostinho, extrapola os limites, o caráter e os objetivos da pregação no culto. A maioria dos teólogos e filósofos mantém hoje uma distância crítica frente ao conceito de pecado original. Um importante filósofo chamado Paul Ricoeur afirmou: “Nunca se dirá o bastante quanto mal fez à cristandade a interpretação literal, seria necessário dizer ‘historicista’, do mito adâmico” (RICOEUR, 2008, p. 22). Aqui um desafio ao pensamento: nas sociedades indígenas brasileiras antes da invasão europeia não se conhecia a noção de pecado original, ou seja, que o ser humano já nasce em

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pecado. Imagine-se como essa “ausência” (da perspectiva europeia) se reflete na vida e na cultura indígenas, no seu bem viver livre, leve e solto e que consequência isso tem para a noção de redenção. Porém isso é assunto para outro estudo. Aqui está em foco a tentação. Ela é inevitável, mas oramos para que Deus nos dê forças e discernimento para vencer as tentações. “Não nos deixes cair em tentação” não pede para que Deus elimine a tentação de nossa vida (“nenhuma tentação é mais terrível do que a de não sermos tentados” – BONHOEFFER, 1968, p. 83), mas para que não nos deixe sucumbir diante dela. Se você cair em tentação, não apenas você individualmente, mas também o reino de Deus é prejudicado, nada menos do que isso. Jesus mostrou que as tentações são vencíveis. Essa é a boa notícia. Toda tentação em nós foi vencida por Cristo. As tentações correspondem a âmbitos da vida cotidiana, do imaginário, dos desejos tanto a nível individual como social: a) a tentação de utilizar o seu potencial para apenas resolver suas próprias necessidades e/ou tornar-se o milagreiro do povo; b) a tentação de sublinhar seu prestígio social, aparecer como protegido de Deus, protagonizar um espetáculo circense para ser aplaudido como herói das massas. Esse é o cara!; c) a tentação de aumentar seu poder sobre outros, viver bem explorando outros, ter reinos subjugados pagando tributos ou dívida externa. Em todas as respostas, Jesus remete a Deus como aquele a quem pertencem todos esses âmbitos. A espiritualidade não está dissociada da economia, da sociedade, da política. Esse é o evangelho também para nós. Enquanto no âmbito religioso a tentação tem uma conotação negativa, o comércio atribui-lhe um significado positivo: para intensificar o comércio, os marqueteiros incentivam ceder à tentação de comprar e ser feliz. A palavra tentação também assumiu um sentido de atração física pelo sexo oposto, à qual chega a ser cafona resistir. A tentação pode aparecer como oportunidade, como “o cavalo encilhado passando na frente da gente...” e que pode não passar outra vez. A tentação será tanto mais eficiente quanto menos for percebida. Da difusa subconsciência tem de ser trazida à criteriosa consciência, e então pode ser trabalhada. Caso contrário, fica ali na sombra, comandando tudo, seduzindo a agir por impulsos, sem que a pessoa se dê conta. Quem já não foi acometido por ideias megalomaníacas a seu próprio respeito? Desde pequenos, miramo-nos em alguns ídolos de sucesso. Levar vantagem, estar por cima, vencer, demonstrar poder, mostrar aos outros que grande cara a gente é, adquirir prestígio social, respeito e até o temor dos outros, ser comentado nas rodinhas de conversa e na grande mídia... A tentação adora a megalomania e está centrada em si mesma. Mais adiante, na juventude, talvez apareçam ideias messiânicas de resolver os problemas do mundo, do país ou pelo menos da família... Essa tentação também contém aquela ideia de que acidentes e tragédias só acontecem com os outros, “comigo nunca vai acontecer”, pois, afinal, sou uma pessoa de fé. As novas igrejas não hesitam em espetacularizar a fé para demonstrar através de grandes eventos o seu poder. Todas as vezes em que na história a igreja ocupou espaço de poder junto ao Estado, ela se desviou de seu ministério humilde de serva e cometeu barbaridades em nome de Deus.

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Mas essa é uma proibição no paraíso. Nós o sabemos por experiência própria: ela aguça nossa curiosidade. O que acontece se...? A voz da serpente em nós desenha cenários: vocês serão como Deus. Só uma experimentadinha não pode fazer mal. Adão e Eva comem do fruto proibido, e a serpente tinha razão. A absorção do conhecimento do bem e do mal imediatamente fá-los constatar sua nudez, expõe seu despreparo, sua incapacidade. Agora tinham lançado mão de uma propriedade divina, criadora – distinguir entre bem e mal –, embora continuassem a ser apenas criaturas. Para isso não estavam preparados. Sobrestimaram-se com o conhecimento do bem e do mal, algo fora de sua capacidade. A ordem paradisíaca foi derrubada. Em que áreas hoje a ciência humana está sendo tentada a ser igual a Deus? O conhecimento genético certamente pode ser benéfico, mas nada garante que a manipulação genética não vai gerar uma grande confusão incontrolável e que não seja submetida – como, aliás, já está sendo – a interesses lucrativos e dominação. Especialmente para os jovens: O que quero fazer da minha vida? O que o mundo me oferece de possibilidades? Poder ou serviço? Buscar garantir o pão farto, buscar prestígio, buscar poder? Servir – independente de qual profissão se escolher – dentro do projeto de Deus para a sua criação na confiança de que tudo o mais nos será acrescentado? O primeiro inimigo a vencer é o tentador, o confundidor que atua sobre nós a partir dos valores do mundo ao redor. Qual é o critério principal para sua escolha profissional? O confundidor também já lhe assoprou: “O que tem de mal em ser ambicioso?” Quando um governo aposta todas as fichas em apenas providenciar pão para o povo – e geralmente também circo –, é necessário ter uma postura de cautela. Enquanto escrevo, eclodem as manifestações de rua no contexto da copa das confederações. Que o povo todo tenha pão é o óbvio indiscutível de qualquer política. Ter alimento é um direito humano – Deus dá o pão de cada dia –, que não pode continuar sendo transformado em mercadoria. Para qualquer governo, é necessário, mas insuficiente como grande programa. O fato de que não seguiram ações estruturantes ao “bolsa família” desvelou o tiro curto e o efeito insuficiente do Fome Zero. Com intenção ou não, prevaleceu a perpetuação no poder. Em nossa sociedade de Estado, temos a instituição dos partidos para lidar com o poder. Sua finalidade é chegar ao poder de Estado. E podemos observar como uma eterna repetição que, quando chegam ao poder, até aqueles com os programas mais democráticos de base acabam cedendo à tentação e se corrompem. Em nome da governabilidade, fazem-se alianças diabólicas que confundem todos. As manifestações do povo nas ruas pedem desculpas pelos transtornos, mas querem mudar o país; estão dizendo claramente: vocês e seus partidos não nos representam. As muitas manifestações mundo afora, o movimento occupy, os indignados, as crises na Grécia, na Síria, no Egito, na Turquia... o que estão sinalizando? Será que estamos no limiar de uma nova organização social pós-Estado? As campanhas eleitorais são eivadas de mentiras, calúnias, baixarias de todo tipo. Não admira que no senso popular a política é tida como suja. Jesus propõe aos cristãos a política e a economia do amor, que vão além da sociedade de Estado.

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Não estão construídas sobre a competição e a concorrência, mas sobre a cooperação e a solidariedade.

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Subsídios litúrgicos

Recomendo a substituição da leitura da epístola por Filipenses 2.3-11 ou Tiago 1.13-15. Oração de coleta: Deus, Todo-Amoroso! Tu que acompanhaste o teu povo no deserto, assististe Moisés, Elias, Jesus diante de seu ministério, para que vencessem as tentações, olha também para as tentações que hoje nos perturbam e confundem, auxiliando-nos em nossas decisões de vida, para que sejamos teus fiéis seguidores, corpo de Cristo tentado, mas não caído neste mundo e proclamemos a tua glória. É o que te pedimos... Na oração do Pai-nosso, o ministro pode pedir à comunidade para parar por um instante depois do “e não nos deixes cair em tentação”, propondo dizer esse pedido mais duas vezes, seguido de breves pausas, e então finalizar a oração.

Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Porto Alegre: Metrópole, 1968. RICOEUR, Paul. O pecado original – Estudo de Significação. Covilhã: LusoSofiapress, 2008. Disponível em: <http://www.lusosofia.net/textos/ricoeur_paul_ pecado_original_estudo_de_significacao.pdf>. Acesso em 05 de julho de 2013.

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PRÉDICA: GÊNESIS 12.1-4a

2º DOMINGO NA QUARESMA 16 MAR 2014

JOÃO 3.1-7 ROMANOS 4.1-5,13-17

Pedro Kalmbach

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Introdução

No capítulo 4 da Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo e pai da fé dos cristãos, ou seja, como um modelo de fé. Já em João 3.1-7, encontramos a história de Jesus e Nicodemos, na qual Jesus explica a Nicodemos a necessidade de nascer de novo. Com Gênesis 12.1-4a, o chamado de Abrão, inicia o relato acerca dos patriarcas e por meio de sua resposta estabelece-se a aliança ou o pacto de Deus com a humanidade. Novo nascimento (no sentido de deixar para trás o velho para abrir-se ao novo), chamado e resposta ao chamado e pacto de Deus com a humanidade são temas que levam a refletir sobre a bênção, a fé, o porquê e o para quê da vida.

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Sobre Gênesis 12.1-4a

Essa passagem faz a transição entre a história primitiva (Gn 2-11) e a história acerca dos patriarcas de Israel. A etapa primitiva é considerada a época em que o ser humano estava sob o poder do mal. Afastando-se de Deus, o ser humano implantou no mundo o medo e o terror (Gn 4 – primeiro fratricídio; Gn 11 – torre de Babel). Com o capítulo 12, que parece ter seu fundamento histórico no movimento de tribos seminômades a partir da Mesopotâmia até o Egito, passando por Canaã, tem início uma nova etapa na história da salvação: a etapa dos patriarcas. Deus havia castigado a maldade da humanidade: a expulsão de Adão e Eva (Gn 3), o desterro de Caim (Gn 4), o dilúvio (Gn 6-7), a dispersão da humanidade (Gn 11). Entretanto, a última palavra divina nunca é o castigo, mas sim o perdão e a misericórdia. À etapa do castigo sucede a da bênção (cinco vezes aparece a palavra bênção nos versículos 2 e 3 de Gn 12). Deus ordena – chama e promete. Através de Abraão, Deus aponta para o todo da terra. Sua bênção quer abranger a terra toda. Em primeiro lugar, a promessa dirige-se a Abraão (v. 2), a seguir àquelas pessoas que entram em contato com Abraão e, por fim, estende-se a todas as famílias da terra (v. 3). Em meio à vida seminômade de Abraão e de seu clã, Deus chama e dá ao “caminhar” de Abraão orientação, sentido e uma meta. Deus procura e tira Abraão de sua vida nômade, de sua terra, de sua pátria e da casa de seu pai (v. 1). Ele o conduz para onde ele quer. Nesse sentido, o relato javista (J) vê retrospectivamente como a história do povo de Israel começou com una espécie de êxodo, ordenado por Deus: a partida em direção a uma terra distante e não conhecida. O começo dessa história desenvolve-se através da história dos patriarcas, e seu impulso está dado

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pela promessa de bênção proferida por Deus, uma promessa que se vai cumprindo e que se estende ao longo da história do povo de Israel. Sinteticamente, o relato compõe-se de um mandato divino, “sai” (v. 1), que vai unido a uma promessa de bênção (v. 2 e 3) e da resposta: “partiu” (v. 4). Abraão opta por sair e com isso precisa romper importantes laços: a casa paterna, a terra. Decide por fazê-lo movido pela confiança na promessa de bênção que engloba todas as aspirações humanas daquela época: descendência numerosa, um grande nome, “a terra que te mostrarei” – uma promessa de cumprimento incerto – há de se cumprir. Trata-se de uma caminhada em direção ao desconhecido e incerto, tendo que romper com o conhecido e seguro. A bênção, nomeada tantas vezes nesse curto trecho, tem a ver com vida, com paz, com justiça, com descendência, com o oposto de maldição e de castigo, com tudo quanto desperta agradecimento a Deus.

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Meditação

A vida cristã e, em geral, a história do cristianismo têm a ver com a bênção, pois ela – a vida cristã – é resposta à atuação de Deus, ao pacto que Deus fez com seu povo, que foi sendo renovado ao longo da história e que ele estabeleceu definitivamente com sua vinda através de seu Filho. Poder-se-ia dizer que sem bênção não haveria uma história do cristianismo. Nesse sentido, a bênção está intimamente ligada à fé. Abraão precisa sair de sua terra e da casa de seu pai para converter-se no pai de uma grande nação. A visão de uma nova nação pode tornar-se realidade somente se Abraão deixar para trás sua ascendência e seus pertences, dois elementos constitutivos para a identidade do ser humano. Abraão, obediente a Deus, assume o risco. Sua nova identidade ele vai construindo a partir de sua pergunta pelo futuro, pelo “para onde”. Que quer Deus que eu faça? Com isso Abraão se arrisca a perder sua antiga identidade e a perder aquilo que se entende ser um direito adquirido: a herança, os bens, as tradições, as seguranças. Abraão despede-se do ontem. Deixa para trás aqueles direitos que hoje em dia costumam causar tantos problemas entre irmãos e familiares. Abraão legitima seu atuar sem recorrer nem reclamar nada do passado. De forma otimista e com fé, ele obedece ao mandato de Deus e crê em sua promessa, em sua bênção: “Vai para a terra que te mostrarei”. Abraão não conhece o destino. Esse se refere a uma terra desconhecida. “De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome.” Trata-se de uma tarefa para o futuro, que leva ao incerto e que não pode ser levada a cabo com recursos de ontem. Aquilo que possuímos e que queremos seguir possuindo pode bloquear-nos o caminho ao futuro. Contudo ninguém já tem o futuro em suas mãos. A partir do chamado que Deus faz a Abraão, chamado que significa encontro e que oferece bênção, desperta em Abraão a fé, uma fé que o leva a confiar e a romper com o passado. A fé é despertada e motivada a partir do chamado de Deus, um chamado que o move para abrir-se a uma nova situação. Essa fé implica “pôr-

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-se a caminho”, implica aventura, abertura para o novo, aprendizagem, um novo horizonte, um futuro aberto. A fé tem a ver com mudança, com aprendizagem.

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Imagens para a prédica

A pergunta sobre o sentido, o porquê e o para quê da vida é uma pergunta que sempre de novo está presente. Podemos reprimir essa pergunta em nosso dia a dia, podemos fazer como se vivêssemos da esperança de que se cumpram aqueles objetivos e aquelas metas a que nos propusemos nesta vida. No entanto, cedo ou tarde, surge sempre de novo a pergunta sobre o sentido da vida. No mundo nos são oferecidas muitas respostas, algumas muito tentadoras, mas todas elas têm a particularidade de ser passageiras, ou seja, de perder a profundidade e o sentido. Ademais, muitas promessas requerem, para seu cumprimento, sacrifícios e condições difíceis de ser cumpridas. E isso leva muitas vezes a mais resignação. Contudo, nossa vida é sustentada pela esperança quando olhamos para o futuro, um futuro no qual projetamos nossas metas. Quanto mais refletimos sobre nós mesmos, tanto mais se faz presente a pergunta sobre o sentido, sobre o porquê e o para quê de nossa vida. Sugiro que, para introduzir a prédica com uma reflexão nessa direção, se empreguem frases, imagens, exemplos de matérias publicitárias, que de forma direta ou indireta oferecem respostas à pergunta e à procura pelo sentido da vida ou à procura pela felicidade e por vida plena, mas cujo custo implica importantes sacrifícios (em dinheiro, em tempo, em solidariedade, em honestidade etc.). O texto bíblico não coloca essa pergunta de forma direta, a pergunta sobre o sentido da vida, e tampouco traz uma resposta para a mesma. No entanto, o texto auxilia-nos a aprofundá-la. Abraão escuta Deus. Deixa tudo para trás, e sua vida toma um rumo diferente daquele que tivera até então. Abraão entende o chamado de Deus como um mandato que ele deve ouvir e cumprir, mas um mandato que vinha unido a uma bênção. No cumprimento do mandato recebido, a bênção prometida vai se tornando realidade. E é precisamente o conteúdo dessa bênção que dá sentido à vida de Abraão e de sua mulher Sara. No cumprimento dessa bênção – um cumprimento que se vai dando de forma gradual –, Abraão vai encontrando a resposta ao porquê e ao para quê de sua vida e vai afiançando sua fé. Nesse sentido, pode-se assinalar que a resposta ao sentido da vida não é algo que podemos fabricar nós mesmos, mas sim que ela nos vem dada a partir de fora. Mas a que se refere a bênção? Bênção ocorre quando temos motivos para estar agradecidos, quando sabemos que estamos resguardados nas mãos de Deus, quando encontramos a plenitude no amor de Deus e vemo-nos compelidos a compartilhar esse amor. Muitas são as vivências e as coisas que nos podem fazer sentir o contrário. Também Abraão teve situações e momentos escuros. Em todo caso, a bênção é um presente de Deus e, como tal, é algo que não podemos possuir nem segurar em nossas mãos. A bênção não se deixa manipular. Ela é um poder que dá sentido a nossas vidas, que provoca e alimenta a fé, pelo qual podemos tão somente estar agradecidos.

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Subsídios litúrgicos

Oração de intercessão: Deus Pai, tu nos chamas e nos convidas a deixar as ataduras que nos paralisam e nos atam. Tu nos chamas e nos convidas a amar-te acima de todas as coisas e a confiar plenamente em ti. Tu sabes muito bem quantas vezes nos deixamos tentar e cegar pelas promessas que nos são feitas neste mundo. Deus Pai, pedimos-te que nos ajudes a deixar para trás as coisas velhas, como fez Abraão. E que possamos, com confiança, animar-nos a encetar novos passos. Guia-nos àqueles lugares nos quais queres que estejamos. Impele-nos a compartilhar teu amor e tua bênção. Deus Pai, pedimos-te por aquelas pessoas que se sentem cansadas, desanimadas ou que já resignaram. Que possam sentir a presença de teu Espírito, que anima, que impele e que dá coragem para deixar para trás aquilo que nos afasta de ti. Pedimos-te por aquelas pessoas que estão passando por momentos difíceis. [Momento de silêncio – pode-se convidar quem queira pronunciar o nome de pessoas] Bom Deus, estende tuas mãos sobre elas, concedendo-lhes tua paz, tua presença. O amor e a bênção que tu nos ofereces é mais forte do que nossas dores, nossos medos, mais forte até do que a própria morte. Por isso levamos a ti nosso pedido, nossa intercessão e o fazemos humildemente em nome de teu Filho, nosso Senhor, Jesus Cristo. Amém.

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PRÉDICA: ROMANOS 5.1-11

3º DOMINGO NA QUARESMA

ÊXODO 17.1-7 JOÃO 4.5-30,39-42

23 MAR 2014

Manfredo Siegle

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Palavras...

Por isso devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos delas. (Hb 2.1) Deus nos mostrou o quanto nos ama: Cristo morreu por nós, quando ainda vivíamos no pecado. (Rm 5.8) Toda pessoa que aceita a fé e a paz com Deus tem a liberdade de ser tolerante para com a fé e a vida de outras pessoas.

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O texto

A abordagem de Romanos 5 focalizará, em especial, os versos 1-5 e o verso 11. Detalhes exegéticos relevantes à compreensão do texto poderão ser consultados em comentários anteriores. A construção do texto permite estruturar o mesmo em dois blocos: os versos 1 a 5 e 11 e os versos 6 a 10. Limito-me neste trabalho aos versos 1 a 5 e ao verso 11. No conjunto dos capítulos da Epístola aos Romanos, o verso 1 em Romanos 5 assume o papel de chave. Seu conteúdo, além de ser transparente à vida individual de Paulo, dá acesso a uma novidade. Os dizeres do texto refletem, de forma concentrada, a vida transformada do apóstolo Paulo. A fotografia do homem religioso Saulo, posteriormente transformado em Paulo (Atos 9), revela uma existência em tensão: por um lado, ele testemunha que vive em paz com Deus; por outro, a sua vida continua experimentando sofrimentos. O pano de fundo da perícope coloca leitores e ouvintes não diante de um pacote dogmático, mais ou menos indigesto, mas espelha a realidade concreta da vida exercitada por Paulo. Paulo respira o ar gracioso da fé; é a confiança que se alimenta da paz com Deus, porém não indiferente às tribulações e aos sofrimentos, que são traços de sua humanidade. O apóstolo identifica a sua vida profundamente firmada na paz de Deus, ainda que não vivenciada em sua plenitude. Para Paulo, o cristão não está livre de conflitos interiores, tampouco de sofrimentos em seu corpo. Onde existe muita luz, também há muitas sombras. O indicativo espelha vivacidade de cores, assim como determina os frutos produzidos na árvore da fé (v. 2,4,5), em especial o fruto da salvação (v. 10). Paulo recebe sua nova identidade, expressa em existência transformada, como presente: “Foi Cristo quem nos deu, por meio da nossa fé, esta vida na graça de Deus” (v. 2). Sendo a nova vida uma dádiva imerecida do Cristo crucificado, o apóstolo vive a perseverança, vislumbra o horizonte da esperança, é esperança ímpar de

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poder participar da glória de Deus. Paulo é incansável para dizer que a morte do Filho de Deus aconteceu “em nosso favor” (v. 8). 2.1 – Espelho meu, espelho meu... Quem sou eu? A afirmação a respeito de Deus é, ao mesmo tempo, afirmação sobre o ser humano e vice-versa. O texto apresenta a fotografia do ser humano, assim como identifica a visão de Deus. Verdadeira humanidade só se conhece e se vive a partir da cruz de Cristo. Quando o apóstolo fala do Cristo fonte da nova identidade, ele anuncia o Cristo da salvação. Foi o Cristo da cruz e da Páscoa que “nos tornou amigos de Deus” (v. 10). Jesus Cristo semeou a esperança da salvação aos de perto e aos de longe (v. 6). O apóstolo pecador não pode ajudar a si mesmo. Não há um ser humano sequer que possa superar a distância entre humanos e Deus. A novidade de vida é dom de Cristo (2Co 5.17). A transformação do ser humano concretiza-se em vida nova para a glória de Deus e para o bem do próximo. Paulo vive essa perspectiva a partir de sua própria história. O apóstolo espelha-se na obra de Cristo em seu favor. “Para Paulo, o ser humano é um ser provocável e constantemente provocado.” A antropologia e a teologia paulina andam de mãos dadas em via única. Tudo isso acontece dentro de um organismo vivo que o apóstolo chama de corpo, corpo de Cristo, a comunidade (1Co 12.12ss). O texto de prédica coloca uma luz de raro brilho sobre a existência de Paulo e, por tabela, sobre todas as pessoas cristãs. O desafio da fé colocada em prática emerge não de um pacote teórico e dogmático, mas da própria vida exemplar e serviçal de Jesus Cristo, a cabeça do corpo eclesial. 2.2 – Antropologia e teologia em via de mão única A nova identidade de Paulo nasce do encontro com o Cristo que “morreu em nosso favor e nos fez amigos de Deus”. A sociedade moderna clama por definições claras quando procura definir a existência humana, seu sentido e sua missão. Os seres humanos investem na compreensão de sua humanidade. Quem sou eu? Para que existo? Por que sofrer? A necessidade desse investimento traz libertação de máscaras que escondem nossa verdadeira identidade. No decorrer da história, quando da definição de humanidade, a instituição igreja passou por sérios questionamentos. Os questionamentos atingem, não só rondam a instituição igreja. A teologia determinante para os discursos eclesiais é objeto de duras críticas. O mundo religioso moderno exerce domínio e influencia as massas. Aos olhos de uma igreja histórica e tradicional, a exemplo da IECLB, a proposta de movimentos religiosos atuais é estranha; o entusiasmo vivido beira o fanatismo; a suspeita é de superficialidade. A convicção no Deus encarnado em Jesus Cristo está deturpada. Um conhecido ministro religioso definiu, num curso profissionalizante, a vivência religiosa de seu grupo de alunos e alunas. Avaliando a qualidade de fé dos jovens, observou: “Jovens, quando ainda convencidos do Deus anunciado pela igreja cristã, simpatizam com o Deus que perdoa, socorre e demonstra amor,

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porém sem impor condições”. Observou que apelos à vida de oração soam como algo estranho; o conceito de pecado e de juízo final está distante da realidade. O professor daquela classe de alunos chegou à seguinte conclusão: “Jovens, semelhantes a seus alunos e alunas, demonstram indiferença em relação à consciência pecadora; porém demonstram sensibilidade diante da frieza em relações”. O texto da prédica oferece uma visão de um Deus diferente; desenha uma nova definição de ser humano, marcada pelo Cristo da cruz e da ressurreição. A teologia paulina é iluminada pela perspectiva antropológica. A teologia deve estar a serviço do ser humano. Por isso Paulo pode declarar: “Não sou eu que vivo, pois Cristo vive em mim” (Gl 2. 2). Pela fé é devolvida a imagem do homem sendo imagem de Deus; somente Cristo tem e é a imagem de Deus.

3 A caminho da prédica Pressuposto da pregação é a frase indicativa do texto-base: “Aceitos por Deus pela fé, temos paz com Deus”. Paz com Deus leva à paz consigo mesmo. O contrário da paz seria “ter ou fazer guerra” com Deus. Especialmente quando houver pedras na estrada da vida. A oferta de paz com Deus é definitiva, mas isso não significa que nós humanos estejamos plenamente convencidos dessa oferta. A aceitação da paz é fruto do amor de Deus e da confiança no Redentor, que chama da perdição à salvação. O Deus de Jesus Cristo não decepciona. “Foi Cristo quem nos deu o presente por meio de nossa fé, esta vida (nova) na graça de Deus.” Abre-se o horizonte da esperança. A estrutura da prédica e seus conteúdos são determinados pela boa notícia em foco nos versos 1-5 e 6. Sugiro como escopo: “A qualidade da fé reflete-se na dimensão da esperança”. – Continuamos firmes e perseverantes; – alegramo-nos na esperança de poder participar da glória de Deus; – alegramo-nos também em nossos sofrimentos, pois eles produzem paciência; – porque Deus derramou o seu amor no coração; – e Cristo tornou-nos amigos de Deus. 3.1 – Impulsos para a prédica A atmosfera é de paz e serenidade Ouço a fala da mãe-mulher. Sua fé é inabalável: “Há dias estou sentada à beira do leito da criança enferma. A preocupação me perturba. Aos poucos, sinto-me mais equilibrada, serenidade me acompanha. Aprendo a ter paciência e não perco a esperança, sou carregada pelo amor de Deus. Creio que o poder do Espírito Santo traz consolo e me fortalece à beira do leito da criança doente, sofredora. O que faço? Agradeço a Jesus Cristo; sua fidelidade e parceria são fontes de consolo e de esperança”. A conexão com o Deus-amor, fonte de paz, firma a confiança e fortalece a ponte da paz. O fato narrado está muito próximo

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da realidade testemunhada pelo apóstolo Paulo. Vivencia a paz, que vem de Deus, porque se sente abraçado pela amizade de Deus. O apóstolo Paulo não era casado e não tinha filhos. Sentiu-se, no entanto, motivado em razão do amor de Deus, demonstrado na obra do Cristo crucificado, a viver a nova identidade; um presente, uma doação do Cristo, é oferta do servidor exemplar, doação da paz. 3.2 – Traduzindo para os dias de hoje Um alerta: antes que o pregador interprete o texto para a comunidade, somos nós, pregadores e pregadoras, seus primeiros ouvintes. Que tal fazer a abordagem do texto de forma diferente: lendo o mesmo de trás para frente? Na realidade, o final, que destaca a morte de Jesus Cristo (v. 6-11), representa o eixo central e inaugura a vida de fé; é a verdade que determina a história das comunidades cristãs até os dias de hoje. Cruz e ressurreição, vivenciadas em comunhão, fundamentam a nova maneira de vida e de convivência (v. 1-5). A centralidade da cruz, o sacrifício ocorrido em Gólgota, não deixa de ser realidade problemática para humanos. É o próprio apóstolo que anuncia a morte de Cristo em favor da humanidade, sendo loucura, motivo de resistência e de irritação. No mundo vidrado em sucesso, em conquistas, em crescimento do mercado, que não pode parar, a mensagem da cruz é provocação. A pregação do Cristo crucificado não dá ibope. O apóstolo Paulo dirige-se aos romanos e anuncia-lhes que, através do batismo e do renascimento diário, há novidade de vida. É Deus mesmo quem devolve ao ser humano sua qualidade de ser imagem de Deus. A vivência da paz com Deus (v. 1,5) e com o próximo irrompe no mundo. Deus intervém em favor da humanidade. Deus intervém não por causa de consciência intranquila. Ele também não carece de sacrifícios humanos, tampouco se sente ofendido em razão da culpa humana. O cuidado de Deus para com o mundo não tem preço. O Deus revelado em Jesus Cristo não pesa o comportamento humano para verificar se a humanidade merece seu amor ou sua oferta de reconciliação. O poder do amor de Deus é imensurável. Deus é amor, em sua essência. A paz que Deus oferece em comparação com aquela que “vem de cima”, dos grandes centros do poder no mundo, é muito diferente. “Amou ao mundo de tal maneira que deu o seu único Filho.” Jesus não morreu por acaso, não foi vítima de um acidente ou de grave enfermidade. Seu sacrifício na cruz aconteceu “em nosso favor”, na perspectiva da salvação. A pressão exercida pelo jogo de interesses e pelo egoísmo faz a humanidade ser presa de um atoleiro. O Cristo na cruz inaugurou um novo mundo, pautado pela humildade e pelo amor. É dessa forma que Deus firmou o seu rosto amoroso. Ele mesmo tomou lugar entre o “abismo do desastre” e a situação do ser humano que corre loucamente em direção ao abismo. Em seu comportamento cheio de contradições o ser humano revela o quanto ele é fruto de seu meio. “Grande parte da humanidade ocupa-se, no presente, em ganhar dinheiro, obter vantagens, comprar casas e carros, comer uma comida saudável e combater as

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rugas, afora se conectando às redes sociais e falar besteiras” (Luiz Felipe Pondé, em Folha de São Paulo, 15/04/2013). Deus mesmo carrega sobre seus ombros a nossa desobediência, assim como a tentação de vivermos a autossuficiência. Em Jesus Cristo, Deus vive um longo processo de reconciliação e inaugura uma relação filial. Ele é Pai/Mãe e nós, filhas e filhos. A fim de que essa boa notícia não se transforme meramente em peça de um quebra-cabeça complicado, Deus nos deu, além da Palavra, sinais visíveis, instrumentos de seu amor: Batismo e Santa Ceia. Embora permaneçam os sofrimentos, as tribulações e a fragilidade humana, a nova espinha dorsal é consistente, ela dá esperança, perseverança, coragem. “Nada nos poderá separar do amor de Deus” (Rm 8.35,38). O amor de Deus faz a diferença. É o novo rosto de homens e mulheres que contribuirá para a transformação do mundo. Por que, então, não sonhar com uma humanidade alegre, grata e mais esperançosa?

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Subsídios litúrgicos

Tanto a Confissão dos Pecados como a Oração do Dia e as Intercessões Finais levarão em consideração a dicotomia existente na vida humana entre as aparências e a situação existencial e comunitária, de fato. Não há como ignorar o quanto estamos presos e somos reféns da realidade do mundo. Vida em humildade vem de humus, chão, terra: é um dos sinais da existência cristã. Pessoas cristãs, comunidades que se congregam, sob a cabeça que é Jesus Cristo, andam com os pés no chão. Sentimo-nos carregados pelo amor de Cristo. Quando o espírito do amor é amparo e sinal de esperança, existe liberdade para servir. Filhos e filhas de Deus não se recolhem em ”ilhas paradisíacas”, também não fogem diante dos sofrimentos ou das tribulações. Não condenamos ou julgamos o mundo, mas o motivamos a aproximar-se de Deus, colocando-se sob a sua bênção. Os olhos, os ouvidos, todos os sentidos são sensíveis à graça de Deus. Para que haja harmonia no desenrolar da liturgia de culto, os hinos a serem entoados levarão em consideração a mensagem proclamada bem como o contexto que envolve a comunidade. Ação simbólica Os símbolos sempre serviram para aproximar a comunidade da mensagem proclamada. Símbolos não substituem o evangelho; tornam esse mais compreensível. No espaço onde se localiza o altar – poderia ser até sobre o altar –, proponho que o ministro ou a ministra oficiante coloquem um cesto com pães e uma jarra com água. Os símbolos precisam ser sempre bem visíveis. Tanto o apóstolo Paulo como a mulher samaritana, assim como o profeta Elias (1Rs 19.3-7) e todo o povo de Israel (Êx 17.1-7) no deserto receberam alimento e água para continuar a jornada em busca da concretização de sua missão. Para Paulo, o alimento da fé (Rm 5.1-11), seus frutos estiveram ancorados no Cristo crucificado. A cruz como símbolo já tem seu espaço no templo.

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Na saudação inicial, quando da colocação do tema/assunto do culto, o oficiante poderá destacar o significado da ação simbólica. Algo semelhante poderá ocorrer durante a pregação.

Bibliografia ABESSER, Bernd. Romanos 5.1-11. In: Werkstatt für Predigt und Liturgie. Bergmoser: Höller Verlag, 1998. p. 9-14. KÄSEMANN, Ernst. Perspectivas paulinas. São Paulo: Edições Paulinas, 1980. p. 09- 41. KUPKA, Cláudio. Romanos 5.1-5. In: Proclamar Libertação v. 34. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2009. p. 224-230.

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PRÉDICA: JOÃO 9.1-11

4º DOMINGO NA QUARESMA 30 MAR 2014

1 SAMUEL 16.1-13 EFÉSIOS 5.8-14

Ramona Weissheimer O Evangelho de João não é para meros curiosos. É para quem quer participar. J. Konings

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Introdução

O capítulo 9 de João já foi estudado seis vezes no PL, com delimitações diferentes: 9.1-7 – PL VIII e XIV; 9.1-41 – PL XXXII; 9.13-17,34-39 – PL XXI e XXVII; 9.35-41 – VIII. Boa parte desses subsídios estão disponíveis no Portal Luteranos. Quase todos os estudos propostos preocupam-se com a delimitação na tentativa de não isolar o milagre como um acontecimento em si, mas deixá-lo em sua função de sinal visível e palpável, que tem a finalidade de colocar as pessoas diante da decisão entre a fé e a descrença (Malschitzky, p. 1). É importante, então, ter em mente o todo e não desrespeitar o contexto. O texto de 1 Samuel trata da unção de Davi, escolhido por Deus para ser rei, apesar de tão jovem, apesar de seus irmãos serem maiores, mais fortes, de ter tão boa aparência. As pessoas olham a aparência, mas Deus olha o coração. E “O Espírito do Senhor dominou Davi e daquele dia em diante ficou com ele” (v. 13). Já Efésios lembra que aqueles que pertencem ao Senhor não são mais da escuridão. Qualquer coisa trazida à luz revela sua verdadeira natureza. Por isso “você que está dormindo, acorde! Levante-se da morte, e Cristo o iluminará” (v. 14). Portanto o Senhor que envia, que olha o coração, dá o seu Espírito e chama para a luz.

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Exegese

O texto proposto abrange a reação dos discípulos e de Jesus diante do cego de nascença, a cura dele, o primeiro interrogatório, feito por aqueles que o conheciam e estavam acostumados a vê-lo mendigar, e a primeira resposta sobre quem seria aquele que o curou: “o homem chamado Jesus” (v. 11). V. 1 – Jesus viu o homem. Há uma mudança de cena. Jesus estivera conversando com líderes judeus depois de impedi-los de apedrejar uma mulher acusada de adultério (8. 1-11). Jesus apresentara-se como “luz do mundo” (8.12-20), mas eles preferiram acreditar que Jesus estava dominado por um demônio, agarrando-se em sua filiação a Abraão. Quando pegaram em pedras, Jesus saiu do pátio do templo. Caminhava pelos arredores quando viu o homem “que tinha nascido cego”.

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V. 2 – A pergunta dos discípulos (quem pecou, o cego ou os seus pais?) dá, por assim dizer, início à conversa. Se foi apenas curiosidade ou se os discípulos queriam obter uma resposta definitiva para assunto tão complicado, não saberemos. A ideia corrente da época relacionava doença com pecado. Principalmente os fariseus se empenhavam para estabelecer essa relação. Na tradição judaica, não é comum falar de pecado cometido ainda no útero. Enfim, interessa menos saber a motivação da pergunta. Importante é que ela se presta a introduzir o sinal e a fala de Jesus sobre sua missão. Não há relatos de cura de cegos no Antigo Testamento, mas os profetas apontam para o tempo messiânico, quando os cegos terão seus olhos abertos. O Novo Testamento fala, mais de uma vez, na visão restituída a cegos. V. 3 – Jesus responde que nem os pais do cego pecaram tampouco ele mesmo. A doença não é vista como castigo pelo pecado de alguém. Mas Jesus diz que aquela situação servirá para que o poder de Deus se mostre. V. 4 – Jesus prossegue dizendo que é preciso aproveitar o tempo oportuno. Ele estabelece um confronto entre luz e trevas: enquanto é dia, é preciso trabalhar para fazer as obras daquele que o enviou. V. 5 – Enquanto está no mundo, Jesus é a luz do mundo. É o enviado pelo Pai. Quem rejeita essa luz vive na escuridão (confira também o texto de Efésios). V. 6 – Do diálogo Jesus passa para a ação através de um sinal bem visível: ele faz uma lama, misturando saliva e terra, e passa nos olhos do cego. Ao fazer isso, transgride a lei do sábado. Mas essa transgressão não acontece por acaso. V. 7 – Jesus manda que o cego vá lavar o rosto no tanque de Siloé, e o homem volta vendo. O tanque faz parte do sistema de suprimento de água de Jerusalém. Pelas águas de Siloé (a palavra significa o enviado ou aquele que foi enviado) o cego recupera a visão. Agora pode ver. V. 8 e 9 – A cegueira tornava aquele homem incapaz de entrar no templo. Ele não via e era visto apenas em sua limitação e falta. Quando passa a ver, os que estavam acostumados a vê-lo mendigar têm dificuldade em reconhecê-lo. V. 10 – Como é que agora pode ver? São seus vizinhos conhecidos que fazem a primeira pergunta/ inquirição. V. 11 – O cego conta em detalhes tudo o que aconteceu, desde a lama feita, o lavar do rosto até obter a visão. E sobre quem fez isso responde: “O homem chamado Jesus”.

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Meditação

J. Konings sugere algumas chaves de leitura para o Evangelho de João, que nos ajudam a meditar sobre o nosso texto. Entre elas, o olhar de João, segundo o qual o evangelista veria ao mesmo tempo o passado, isto é, o tempo de Jesus, e o presente, ou o tempo da comunidade a quem escreve. Seria uma releitura do evangelho, apresentando os gestos e as palavras de Jesus sobre um duplo pano de fundo: o tempo histórico de Jesus, nos anos 30, e o da comunidade, nos anos 90. A questão diz respeito à forma como o evangelista lida com a memória de Jesus: consoante João 20.29, João narra aquilo que Jesus fez “para os que devem crer

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sem ter visto” (p. 71). Sem a memória da práxis de Jesus (superação de barreiras, aceitação, doação), nossa fé não atingiria o chão. Na assimilação da identidade cristã, é lembrado que ser cristão é professar a fé em Jesus, proclamando o Cristo, o Messias, o Filho de Deus. E sempre de novo transparece no evangelho a ideia de que “o rosto de Deus, o Pai de Jesus, se manifesta no amor do Filho” (p. 74). O momento vivido pela comunidade de João é o embate com a tradição judaica, especialmente com algumas leis e tradições que aparecem no texto, como a correlação entre doença e pecado, a observância irrestrita da lei do sábado, que acabava marginalizando muitos. O medo de ser expulso da sinagoga também fica evidente quando os fariseus começam a fazer perguntas. João escreve para fortalecer a fé dos fiéis contra a apostasia e para que a comunidade continue vivendo o amor que Jesus lhe ensinou, enxergando nele o rosto do Pai e mostrando esse rosto ao mundo através de sua prática, amparada pelo Espírito Santo. Olhando as tantas delimitações propostas para a meditação deste capítulo, vê-se que não é possível isolar alguma parte. Ainda que nem tudo seja lido na celebração, é importante pensar no todo do texto. O texto vai crescendo a partir do milagre. Isso vale para a compreensão do ex-cego em relação àquele que o curou (“o homem chamado Jesus” [v. 11] para “ um profeta” [v. 17]); vale para o enfado de ter que repetir o que está tão patente, ou seja, que não é possível a um pecador fazer tais sinais; vale para a compreensão de que aquele que não via enxergava mais do que os que se julgavam guias. Enfim, o homem foi expulso da sinagoga (o que na época significava bem mais do que o simples ser posto para fora), mas não ficou só. Jesus foi a seu encontro. Há coisas que os olhos não veem, mas o coração sente. Ter um belo par de olhos abertos não dá garantia de ver aquilo que o coração não quer. Interessante lembrar que J. Konings, assim como a Bíblia de Jerusalém encontram alusões batismais no texto da cura do cego de nascença: “Jesus abre os olhos do cego porque ele é a luz do mundo”; “os olhos veem a aparência, o coração vê o que está escondido” (p. 75). Assim, lavar-se no tanque de Siloé, abrir os olhos e o acolhimento na comunidade seriam indicativos batismais. Mas há controvérsias sobre isso. Para H. Malschitzky, a simples ligação com a água não seria suficiente. Assim como o evangelista João, com muita propriedade, faz uma leitura atualizada, também nós podemos enxergar o agora com os olhos do texto, os olhos da fé. Tomando de empréstimo as palavras de H. Malschitzky: “Nunca é demais chamar a atenção para a relação íntima entre as questões espirituais e a vida concreta de cada dia, duas grandezas que repetidamente se tenta separar, também com a argumentação, por vezes refinada, em favor de mais espiritualidade” (p. 1). Quais as grandes questões que nos acompanham nestes dias? Se olharmos os noticiários, os boatos sobre o fim do Bolsa Família, o programa governamental de transferência de renda aos mais carentes da sociedade levaram muitos ao desespero. Cristovam Buarque disse: “Seria uma tragédia se o Brasil de hoje não tivesse o Bolsa Família. E será uma tragédia se, daqui a 20 anos, a gente continuar precisando do Bolsa Família” (IstoÉ, 15/05/2013, p. 32). Mas que pensam nossas comunidades sobre os beneficiários do Bolsa Família? Que

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outros costumes, conceitos e preconceitos, enfeitados de pretensa espiritualidade, acabam, em nossas comunidades, por marginalizar ainda mais aqueles que deveriam encontrar acolhida nelas? O ex-cego tornou-se instrumento de Deus. Com coragem enfrentou aqueles que se achavam donos da verdade. Não ficou quieto nem acovardado. Pagou o preço, pois não dava para ficar quieto e fazer de conta que nada mudara. Não foram somente os seus olhos que se abriram. Até que ponto temos coragem de dizer que da igreja não se é sócio, mas membro, chamado por Cristo à luz?

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Imagens

Imagens sobre luz e visão não faltam. Desde o belo texto “O saguão de luz” – há várias indicações com esse título na internet – a propagandas de TV e filmes. Há uma propaganda na TV que fala de perder a visão. Duas pessoas estão sentadas no banco de um jardim: um homem cego e uma criança que vai descrevendo o que há naquele jardim: árvores, pássaros, florzinhas. Ele pergunta à menina se é bonito ali, e a propaganda prossegue falando de tudo o que envolve perder a visão e das possibilidades de prevenção e cura. Interessante o juízo de valor que ele pede à menina (“você acha esse lugar bonito?”), que mostra a vontade de também enxergar, ver o mundo. Também vale a pena comentar o filme “O amor é cego”. É uma comédia romântica, mas nela o apaixonado vê sua amada apenas com os olhos do coração.

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Subsídios litúrgicos

Cânticos: Os seguintes cânticos poderiam ser cantados na celebração: O Lucernário (Livro de Culto, Cânticos Litúrgicos, p. 337); Que a luz de Cristo brilhe (Grupo Anima); Dá-nos esperança e paz (Coleção Miriã). Confissão de pecados: Bondoso Deus, nosso criador. Em amor formaste cada um e cada uma de nós e nos deste o sopro da vida. E nós pretendemos decidir quem merece viver e quem deverá apenas acumular os dias. Em amor deste a todos a luz. E nós pretendemos aprisioná-la aos nossos pequenos propósitos. Abre verdadeiramente nossos olhos, Senhor, para que o brilho do mundo não nos cegue, mas a tua luz nos indique o caminho por onde andar. Perdoa-nos, Senhor. Somos teus. Amém. Oração final: Que a palavra do Senhor, que é luz na escuridão, abra os nossos olhos e os nossos corações para ver os que estão sentados no lado de fora, sem encontrar lugar; os que sobrevivem apenas de esperança; os que já estão cansados de lutar. Que a luz de Cristo nos dê a força para testemunhar, para não calar, e a inocência para continuar insistindo, mesmo quando a escuridão teimar. Que o Espírito Santo de vida e luz nos conduza, no presente e futuro, sem jamais desanimar. Amém.

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Bibliografia KONINGS, Johan. Evangelho Segundo João: amor e fidelidade. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1985. MALSCHITZKY, Harald. Meditação sobre João 9.1-7. In: Proclamar Libertação VIII. São Leopoldo: Sinodal, 1982 (acessível no Portal Luteranos).

5º DOMINGO NA QUARESMA ROMANOS 8.6-11 EZEQUIEL 37.1-14 JOÃO 11.1,3,17-27,41-45

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DOMINGO DE RAMOS

PRÉDICA: MATEUS 21.1-11

13 ABR 2014

SALMO 118.1-2,19-29 FILIPENSES 2.5-11

Emilio Voigt

1

Introdução

É possível compreender a entrada em Jerusalém e a ação no templo como um ato único, estendendo a perícope até o v. 17. Para este auxílio, mantemos a sugestão de terminar a leitura no v. 11. No calendário litúrgico, a perícope é indicada para o período de Advento e para o Domingo de Ramos. Ambos são momentos festivos. Dentro da estrutura do Evangelho de Mateus, o relato marca o início da paixão de Jesus. A alegria da chegada do Messias pressupõe a posterior amargura da cruz. O texto de Filipenses fala do despojamento de Cristo ao assumir a condição humana e enfrentar o escândalo da morte na cruz. Esse caminho de rebaixamento conduz à exaltação. Nesse caso, o Domingo de Ramos sucede a crucificação.

2

Exegese

Entre as várias diferenças nos relatos de Mateus e Marcos destacam-se: Marcos menciona apena o jumentinho, enquanto Mateus fala em uma jumenta e um jumentinho. Marcos relata a ação dos discípulos buscando o jumentinho, ao passo que Mateus se limita a dizer que eles fizeram como Jesus ordenara. Mateus também omite a menção de devolver o animal. Enquanto Marcos fala em reino de Davi, Mateus faz questão de dizer que Jesus é o rei, incluindo citação do Antigo Testamento. Mateus acrescenta ainda o alvoroço causado pela entrada do cortejo, a pergunta dos habitantes de Jerusalém e a resposta dada pelas multidões. V. 1-3 – Betfagé pertencia aos limites territoriais de Jerusalém. Era uma espécie de bairro ou distrito e distava cerca de 1 km da cidade, que se preparava para a festa da Páscoa. Jesus incumbe dois discípulos de buscar uma jumenta e um jumentinho. Não há qualquer questionamento ou admiração em relação ao fato de Jesus saber da existência e do paradeiro dos animais. No caso de alguém questionar a ação dos discípulos, a resposta deveria ser: “O Senhor (kyrios) precisa deles”. O uso de um animal que não lhe pertence seria um sinal de sua pobreza e humildade? Ou seria uma indicação de sua soberania? Assim como um governante poderia requisitar ou confiscar a propriedade de alguém, Jesus, como kyrios, também poderia fazê-lo? Ou o termo kyrios teria aqui um sentido cristológico, assim como em Filipenses 2.11? V. 4-5 – O sentido da incumbência dada aos discípulos é o cumprimento do que foi dito pelo profeta, que Mateus não nomina. A citação do v. 5 é uma combi-

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nação de Isaías 62.11 com Zacarias 9.9. Tudo indica que Mateus não considerou ou não entendeu o texto hebraico de Zacarias. A redação hebraica contém um parallelismus membrorum, um tipo de formulação que usa palavras duplicadas ou paralelas para descrever a mesma coisa: montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, cria de jumenta. Trata-se de apenas um animal. O evangelista, todavia, entendeu ser uma referência a dois animais. Por isso o texto grego de Mateus diz que o rei vem montado sobre uma jumenta e sobre um jumentinho. O “e” (que não está na tradução de Almeida Revista e Atualizada) dá a impressão de que Jesus cavalgaria dois animais ao mesmo tempo. Essa interpretação de Zacarias 9.9 explica por que os discípulos são enviados para buscar dois animais (em Marcos e Lucas, eles devem buscar apenas um jumentinho). A filha de Sião é Jerusalém e é para lá que o rei se dirige. Mateus utiliza somente a designação humilde (grego: prais), omitindo os adjetivos justo e salvador, que são mencionados em Zacarias 9. O termo prais aparece no Novo Testamento ainda em Mateus 5.5; 11.29 e 1 Pedro 3.4, onde é traduzido por “manso” (Almeida). No hebraico, o significado da palavra está mais próximo de “pobre” e “aflito”. A partir do contexto de Zacarias, o sentido pode estar ligado à paz e à não violência. Pois o rei não vem montado em um cavalo de guerra, mas num jumento, e destruirá as armas de guerra (Zc 9.10). É importante lembrar que o conceito hebraico de paz não significa apenas ausência de confrontos verbais, físicos ou militares. A paz está ligada à prática da justiça e à vida digna. V. 6-7 – Sobre os animais foram colocadas vestes, e Jesus sentou. A tradução de Almeida Revista e Atualizada explicita que Jesus sentou sobre as vestes. Mas sobre qual dos dois animais? O texto grego é ainda mais impreciso: o verbo “sentar” pode estar relacionado às vestes ou aos animais. Há, portanto, duas possibilidades de tradução: 1) Jesus sentou sobre as vestes; 2) Jesus sentou sobre os animais. A opção de sentar sobre as vestes parece ser a mais lógica, mas a ideia de sentar sobre os animais é deduzida do fato de terem sido dois os animais trazidos. Por que trazer dois animais se Jesus montaria apenas um? Mas como Jesus poderia cavalgar dois animais ao mesmo tempo? Muitas foram as explicações para o enigma na história da interpretação: Jesus teria montado primeiro na jumenta e depois no jumentinho; Jesus teria alternado entre os dois; Jesus teria usado o jumentinho como apoio para subir na jumenta; em sentido alegórico, a jumenta representaria Israel e o jumentinho representaria os gentios. Não há como saber o que o evangelista tinha em mente. Nesse caso, Almeida Revista e Corrigida e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje acertam ao fazer uma tradução mais aberta. V. 8 – O ato de espalhar vestes pelo caminho é testemunhado no Antigo Testamento por ocasião da aclamação de Jeú como rei (2Rs 9.13). Não era um ritual específico para a entronização, mas um gesto de honraria a reis ou pessoas muito importantes. Também a ornamentação do caminho com ramos e flores era um costume conhecido. Decoração e gestos eram acompanhados de aclamações. Em alguns casos, altas personalidades eram recebidas fora dos muros e conduzidas com solenidade à cidade. Esse costume reflete-se na versão do Evangelho de João, embora não sejam moradores da cidade, mas peregrinos os que saem para receber Jesus.

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Mateus não deixa claro se todo o caminho foi ornamentado. Da mesma forma, ele não se preocupa em explicar se os peregrinos tinham uma veste sobressalente. Por veste entende-se aqui a capa. Duas eram as vestimentas básicas da época: a túnica e a capa (ou manto). A túnica era feita de algodão ou linho e tinha comprimento até os joelhos. Em casa ou no trabalho, usava-se apenas a túnica. A capa era feita de lã grossa e era a roupa que se usava em público, sobre a túnica. A capa também servia como coberta para os pobres e peregrinos (Êx 22.26s). Diferente de Marcos, que diz serem muitos os participantes do cortejo, Mateus usa um termo que pode – mas não precisa necessariamente – ser traduzido por multidão (ochlos). O termo indica um agrupamento de pessoas, sem quantificá-las. Em alguns casos, a aglomeração de 50 ou 100 pessoas podia ser considerada uma multidão. Esse é o caso de Atos 1.15, em que a multidão (Almeida traduz por “assembleia”) era de umas cento e vinte pessoas. V. 9 – O grupo que acompanha Jesus aclama-o com o Salmo 118.25s. O termo hosana expressava originalmente um pedido de socorro a Deus (queira ajudar; ajuda, por favor). No período pós-exílico, o Salmo 118 foi incorporado à liturgia de dias festivos. Por ocasião das principais festas judaicas, os peregrinos que chegavam a Jerusalém podiam ser saudados com esse Salmo: Habitantes de Jerusalém: Oh Senhor, ajuda! Peregrinos: Oh, Senhor, nós te pedimos! Habitantes de Jerusalém: Bendito aquele que vem em nome do SENHOR! Peregrinos: Nós bendizemos a vós outros da Casa do SENHOR! O Salmo 118 não estava vinculado a expectativas messiânicas. Somente a citação de Zacarias 9.9 e o título “Filho de Davi” conferem conotação messiânica ao evento. V. 10-11 – Mateus destaca que a entrada de Jesus em Jerusalém causou um impacto grandioso: toda a cidade se alvoroçou. O verbo grego é o mesmo utilizado em Mateus 27.51 (a terra tremeu) e em 28.4 (os guardas ficaram apavorados). Não é alvoroço de alegria, mas de dúvida e temor. O evangelista aponta para uma divisão: de um lado, um grupo que aclama Jesus; de outro, um grupo que se apavora com sua chegada. A pergunta da população – “quem é este?” – recebe uma resposta ambígua: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia”: seria um profeta, como Jeremias (veja Mt 16.14), ou o profeta escatológico? Seja qual for o caso, trata-se de uma designação positiva, de reverência a Jesus. É comum dizer que o povo que exclamou hosana também gritou “crucifica-o”. Essa afirmação é altamente questionável, pois não oferece explicação segura para a mudança tão drástica na opinião do povo. O relato de Mateus permite outra suposição. Quem saudou Jesus foram os peregrinos que entraram com ele em Jerusalém. O povo da cidade não o conhecia. É mais provável que os que gritaram pela crucificação não conheciam ou não reconheciam Jesus como profeta/messias. Qual o sentido da entrada em Jerusalém? Não há como saber se a aclamação de Jesus foi uma ação planejada já na Galileia ou se aconteceu espontaneamente na chegada a Jerusalém. Por que, afinal de contas, Jesus foi para lá? Foi como peregrino, para cumprir suas obrigações religiosas? Queria aproveitar a festa para anunciar sua mensagem? Ou aguardava ali uma intervenção de Deus e

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a concretização do reino que anunciava? A marcha de uma multidão aclamando Jesus como rei tem caráter político inequívoco. Por que não houve reação das autoridades romanas, tão rápidas em agir diante de ameaças que pudessem desestabilizar a ordem? Seria porque a dimensão da ação não foi tão grande como dá a entender o evangelista? Mas a crucificação de Jesus como “rei dos judeus” não poderia ser um indício de que a ação foi considerada política? A dificuldade de achar pessoas no meio da multidão e o temor de um tumulto entre o povo poderiam explicar por que a prisão e a execução de Jesus não aconteceram imediatamente após sua entrada em Jerusalém? Não há como dar respostas seguras. O historiador Flávio Josefo cita vários casos de movimentos proféticos no período de 30 d.C. a 73 d.C. Entre eles, pelo menos seis apresentam analogias com a ação narrada em nossa perícope. Os traços comuns desses movimentos eram: – Um grupo dirige-se a um determinado local; – Local e caminho têm importância simbólica; – O grupo que marcha espera a manifestação de Deus; – A ação é comandada por um profeta; – A ação é combatida pelas autoridades; – O acontecimento esperado não se realiza. Os profetas estavam convictos de que suas ações simbólicas resultariam em uma intervenção divina. Todos os movimentos foram destroçados pelas forças romanas. Seria possível dizer que a entrada de Jesus em Jerusalém foi uma ação simbólica para anunciar ou apressar a chegada do reino de Deus? Não sabemos. Também a analogia com os movimentos proféticos permanece como suposição. Em todo caso, ações simbólicas já eram conhecidas dos profetas do AT (Is 20.3; Jr 19.1-13; Os 1.2ss).

3 A caminho da prédica O texto de pregação, pelo menos em seus traços gerais, é conhecido. A tradição de procissões no Domingo de Ramos colocou a figura de Jesus montado em um jumento no imaginário coletivo. A cena é normalmente idealizada e romantizada. Ela não choca, não escandaliza, porque não se tiram as consequências de reconhecer como rei alguém que não chega com pompa, mas montado em um animal que nem mesmo é seu. A compreensão de um Jesus humilde provavelmente está bem arraigada. E ela procede do texto. Aparece como atributo do rei e é acentuada na leitura de Filipenses. A grande problemática está na compreensão do termo “humilde”. Em português, os dicionários dão várias definições. Uma pessoa humilde pode ser definida como modesta, passiva, servil, submissa, carente, pobre, simples, comedida, despretensiosa, medíocre, insignificante, que tem consciência de suas limitações. Que associações nós fazemos com essa palavra? A pergunta pode ser feita também durante a prédica. Ajudará ouvintes a refletir sobre suas concepções. Em que sentido Jesus é apresentado como “humilde”? Cavalgar um jumento, e não um cavalo, sinaliza o oposto da imponência, presunção e glória, nor-

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malmente associadas a poder. A escolha foi intencional para indicar que Deus se revela nas coisas consideradas menos gloriosas. Há uma inversão de valores, que vai se manifestando desde as condições do nascimento até as circunstâncias da morte. Em pregação sobre esse texto, Lutero diz que quem crê em Cristo precisa reconhecer riqueza sob a pobreza, honra sob o opróbrio, alegria sob a amargura, vida sob a morte. Também podemos lembrar a afirmação do apóstolo Paulo de que Deus escolhe as coisas loucas e fracas para envergonhar os sábios e os fortes (1Co 1.27). Reconhecer as coisas pelos seus opostos e também a ação de Deus nesses opostos pode ser um bom exercício para nos tirar da zona de conforto. O rei humilde é o rei pacificador. Essa possibilidade de significar a palavra humilde vem do contexto de Zacarias. O termo pacificador é mais adequado do que a palavra “manso”. Manso indica pessoa de temperamento afável, sossegado, dócil, pacato, mas também pode designar passividade ou alguém que se domesticou. Ser pacificador ou pacificadora não significa permanecer em posição passiva. Em Zacarias 9.10, o rei destruirá as armas de guerra. Ser pacificador ou pacificadora inclui exigir ou lutar por direitos e não se submeter às ordens que contrariam a vida. A única submissão do Jesus humilde foi em relação à vontade de Deus. Jesus subverteu as ordens. Mesmo assim, a imagem dócil e domesticada parece ser a que mais prevalece. A pregação poderia mencionar Mateus 5.5 – onde o mesmo termo grego de Mateus 21.5 é traduzido por manso (Almeida) – e apontar para o aspecto ativo de ser pacificadora e pacificador. O texto é conhecido como a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, mas nenhum dos evangelistas trata o ato dessa maneira. É interessante observar como uma visão triunfalista se acomodou na tradição cristã. De triunfal aparentemente a ação não teve muito. Jesus não entrou com soldados, prisioneiros e despojos, como nos cortejos de reis e grandes conquistadores. E é possível que não tenha sido um grupo muito grande que o aclamou e estendeu ramos e vestes pelo caminho. Pode ser um escândalo achar que a entrada de Jesus em Jerusalém não teve a dimensão que normalmente lhe é atribuída. Mas não é a cruz ainda mais escandalosa? Se Deus se revela numa cruz, não poderia também se manifestar num pequeno grupo que reconhece em Jesus o Messias? Moradores de Jerusalém perguntaram, e os que estavam com Jesus o apresentaram: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia”. Continua nossa tarefa apresentar Jesus Cristo às pessoas. Talvez um grande problema, hoje, resida no fato de que quase não se pergunta mais “quem é este?”. Ademais, como encontrar esse rei no meio da multidão e reconhecê-lo, já que ele não vem da maneira convencional? Na parábola de Mateus 25.31-46, tanto as pessoas que fizeram o bem como as que deixaram de fazê-lo não reconheceram Jesus no rosto do necessitado. Mas lá estava ele, onde menos se imaginava encontrá-lo. As perguntas “quem é este?” e “como reconhecê-lo?” podem ser acompanhadas por outra, talvez ainda mais importante: “quais as consequências de reconhecer que Deus se manifesta de maneira tão inesperada?”. Outras perguntas ainda podem ser acrescentadas: a atração que o poder, o luxo, a fama e a beleza exercem seria decorrência da incapacidade de reconhecer um messias que vem

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montado em um jegue? E por que Deus age nos opostos, justamente onde não imaginaríamos a sua presença?

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Imagens para a prédica

A tradição de procissões por ocasião do Domingo de Ramos é bem antiga. No século IV, é testemunhado que a comunidade cristã se reunia no Monte das Oliveiras e ali passava a tarde cantando. Às 17h, lia-se a narrativa da entrada de Jesus em Jerusalém e então iniciava o cortejo até a cidade. O bispo ia montado em um jumento, e a comunidade seguia a pé, segurando e abanando ramos. Esse costume espalhou-se também para o Ocidente, tornando-se muito popular, possivelmente porque a comunidade assumia um papel ativo. A crítica luterana à bênção dos ramos e à sua utilização como amuleto não deveria servir de empecilho para que a comunidade realize algum ato simbólico para lembrar o evento. É interessante observar também que a figura do jumentinho ganhou bastante espaço na religiosidade popular, principalmente para referir-se ao tema “servir”. Assim como o jumentinho é um animal de carga e sua função é servir, Jesus também colocou sua vida a serviço. “Senhor, sou apenas teu jumentinho. Que todas as atenções estejam voltadas a ti, e não a mim.” Essa frase, ora atribuída a Dom Helder Câmara, ora a Madre Tereza de Calcutá, é outro tipo de associação, porém ligada ao tema da humildade (ou vaidade) pessoal.

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Subsídios litúrgicos

O culto poderia iniciar no lado de fora da igreja, com a comunidade lendo, em responsório, o Salmo 118.1-2,19-29. A comunidade entra em procissão cantando um hino de aclamação. Algumas pessoas podem ir à frente, ornamentando o corredor até o altar, assim como sugere o v. 27.

Bibliografia LUZ, Ulrich. Das Evangelium nach Matthäus. In: Evangelisch-Katholischer Kommentar zum Neuen Testament. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 19852002. VOIGT, Emilio. Die Jesusbewegung. Hintergründe ihrer Entstehung und Ausbreitung – eine historisch-exegetische Untersuchung über die Motive der Jesusnachfolge. Stuttgart, 2006.

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PRÉDICA: ÊXODO 24.1-11

QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO 17 ABR 2014

MATEUS 26.36-56 1 CORÍNTIOS 10.16-17

Jorge Batista Dietrich de Oliveira

1

Introdução

Os textos indicados para a Quinta-feira da Paixão formam uma unidade em torno da aliança de Deus firmada com os hebreus e atualizada em Jesus Cristo. O texto de Êxodo 24.1-11 apresenta a aliança de Deus com o povo que foi libertado do Egito. As leis de Deus são lidas ao povo, que se compromete com elas. Sacrifícios são oferecidos ao Senhor, e todos novamente se comprometem a fazer o que Deus ordenou. Moisés então sela a aliança que Deus fez com seu povo, aspergindo o sangue do sacrifício sobre o altar de Deus e sobre toda a congregação. Depois, os anciãos podem ver Deus e realizam uma refeição em conjunto, que complementa a aliança. Já o relato do Evangelho de Mateus (26.36-56) conta o que aconteceu nos últimos dias que Jesus passou em Jerusalém. Após instituir a Ceia, Jesus ora no Getsêmani, Judas trai seu mestre, que é preso, e os discípulos fogem assustados. O evangelista mostra-nos Jesus preparando-se para enfrentar seu martírio: sua morte na cruz. Seu sangue também será derramado, e a aliança será firmada para todo o sempre. O apóstolo Paulo levanta, no texto de 1 Coríntios 10.16-17, a temática da aliança, afirmando que quem participa da Ceia do Senhor toma parte no sangue e no corpo de Cristo, torna-se um só corpo, faz parte do povo de Deus e precisa ser completamente fiel a ele. O simbolismo encontrado na Aliança do Sinai, conforme o relato de Êxodo, torna-se realidade na nova aliança. O sangue aspergido do sacrifício de animais é agora substituído pelo sangue de Cristo.

2

Exegese

Nossa perícope encontra-se no final de um bloco chamado de “Aliança do Sinai” (Êx 19.1-24.18). Trata-se de um relato cultual. Ou seja, o acontecimento originário do Sinai foi lido através do prisma das posteriores celebrações cultuais de Israel, em que passado e presente se fundem e adquirem uma dimensão unitária salvífica. Por isso esse bloco (capítulos 19 a 24) é também chamado de “Livro da Aliança”, pois é um “roteiro litúrgico” que se usava na celebração da renovação da aliança. Ele conta como foi a história (19.1-25), relata a lei dos Dez Mandamentos (20.1-17), descreve os compromissos da aliança (20.22-23.19), traz a promessa de Deus (23.20-33), diz como foi feita a primeira celebração da aliança (24.1-18). O evento do Sinai é o centro da Torá e, em particular, do Êxo-

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Quinta-feira da Paixão

do, pois contém as leis mais importantes que estão na origem da organização e da reorganização do povo de Israel. Elas são, por assim dizer, a “constituição” do povo de Deus. A Aliança do Sinai é o “sacramento” fundamental da salvação do povo eleito e uma das formas primárias do pensamento religioso hebraico. Ela se assemelha tanto na forma como no conteúdo aos tratados entre estados do segundo milênio a.C., especialmente os tratados entre os estados hititas. Percebe-se que o povo de Deus desenvolveu sua noção de aliança a partir do conceito existente entre seus vizinhos. Esses tratados incluíam: 1) um preâmbulo que mencionava os nomes das partes; 2) uma história preliminar do relacionamento daqueles que celebram a aliança; 3) uma declaração básica com condições e exigências; 4) juramentos de lealdade, acompanhados de bênçãos e maldições; 5) testemunhos e direcionamento para que se cumpra o acordo. Uma cópia do tratado era, muitas vezes, guardada nos santuários. A Aliança do Sinai não foi a primeira firmada entre Deus e o ser humano, mas foi a primeira entre Deus e Israel como nação. Esse povo foi liberto da escravidão do Egito e conduzido a um novo relacionamento com Deus (Êx 19.4). Esse relacionamento é chamado de aliança, e o futuro do relacionamento entre Deus e Israel dependia agora da disposição desse em obedecer a seu Deus e em manter o pacto com Ele (Êx 19.5). Deus prometeu tratá-lo como propriedade peculiar, reino sacerdotal e povo santo (Êx 19.5b,6). Israel recebeu de Deus os Dez Mandamentos no monte Sinai como sendo as dez condições básicas da aliança (Êx 20.1-17). A palavra hebraica para aliança é berit da raiz barah, que significa carne. Entretanto o significado mais aceito pelos estudiosos é que ela está relacionada com a palavra acadiana birtu, que significa laço, vínculo, ou seja, estabelecer uma situação legal por meio de um testemunho acompanhado de juramento. Por isso seu caráter perpétuo não pode ser quebrado. A narrativa de Êxodo 24.1-11 combina duas tradições da aliança. A primeira tradição é Javista e está nos v. 1-2, 9-11. Ela relata, em estilo antigo, uma experiência mística de contornos misteriosos no alto sobre o monte na presença de Deus. Dela participam Moisés, Arão e seus filhos e setenta anciãos. A aliança é selada com uma refeição de comunhão, através da qual se estabelece uma ligação de intimidade com o mistério de Deus. A segunda tradição é Eloísta e aparece nos v. 3 e 8. Descreve com detalhes uma cerimônia de sacrifício para a aliança, em que o essencial é o rito do sangue aspergido sobre o altar (símbolo de Deus) e sobre o povo. O sangue é sinal de vida. Portanto, entre Deus e Israel existem uma aliança sacramental, uma comunhão de vida, uma nova relação de intimidade e de amor. V. 1 – A narrativa do Sinai, que fora suspensa em 20.21, é reiniciada aqui. A menção a Arão e a seus dois filhos (Nadabe e Abiú, cf. Êx 6.23) corrobora a autenticidade da narrativa, pois os filhos foram posteriormente mortos por causa de um delito contra Deus (Lv 10.1-2). Com eles também estavam os setenta anciãos, provavelmente representando os 70 descendentes de Jacó (cf. Êx 1.5; Gn 46.27). Eram os representantes do povo para testemunhar à nação a natureza da aliança.

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Eram homens de mais idade, chefes de famílias, respeitados como líderes e que gozavam de prestígio entre os israelitas. V. 2 – Somente Moisés é admitido na presença imediata de Deus. Os outros permanecem ao pé do monte. As descrições são as mesmas que vemos em Êxodo 19.10ss. V. 3 – A cerimônia tem início com Moisés lendo ao povo todas as palavras do Senhor (o Decálogo, cf. 20.1ss) e todos os estatutos (a lei casuística, cf. 21.1ss). Toda e qualquer aliança envolvia a leitura e a aceitação pública de seus termos. Por isso o povo promete: “Tudo o que falou o Senhor faremos”. Era necessário que o povo não apenas soubesse o que o Senhor lhe impunha por meio da aliança que estava para ser estabelecida e o que Ele lhe prometia, mas também declarasse sua disposição para cumprir o que lhe era imposto. V. 4 – “Moisés escreveu todas as palavras do Senhor.” Percebe-se que é a segunda vez que Moisés estava tomando nota por escrito de tudo (17.14). Esses acontecimentos que revelam a maneira de Deus agir e reger entre os homens deviam ser ensinados e relembrados, a fim de guiar o povo (cf. 13.8-9,14s). O altar representa a presença de Javé no meio de seu povo (cf. 20.24). As doze colunas representam as doze tribos de Israel, ou seja, a congregação. As colunas são testemunhas simbólicas e também um memorial da aliança ali celebrada. São sinais para as doze tribos, que se empenharão em renovar e viver a aliança. V. 5 – Ofertas de paz eram sacrifícios em que uma parte do animal era queimada, e o resto era comido pelo sacerdote e pelas pessoas que o estavam oferecendo. Serviam para fortalecer a comunhão. É significativo que não se fale em oferta pelos pecados. Era um povo redimido, que agora, por meio desses sacrifícios de dedicação e comunhão, estava se empenhando e penetrando em uma comunhão íntima e entrelaçada com seu Redentor. Os jovens mencionados neste versículo não eram primogênitos nem sacerdotes araônicos, mas homens escolhidos por Moisés para esse ato em particular, talvez os membros mais fortes e mais ativos da comunidade. V. 6 – “Moisés tomou metade do sangue (rituais de sangue são comuns à maioria das alianças) e o pôs em bacias, e a outra metade aspergiu sobre o altar.” Essa dupla separação do sangue tinha conexão com as duas partes envolvidas na aliança (Deus-povo), levando-as a uma unidade. V. 7 – Então leu ao povo o Livro da Aliança. A leitura torna solene o acordo verbal até então existente. Mais uma vez, podemos ver que a Lei de Deus estava sendo escrita durante a viagem por Moisés. Geralmente essa expressão é aplicada ao Código da Aliança, que aparece em 20.22-23.19. Aqui essa expressão também deve incluir os Dez Mandamentos (20.2-17) e talvez outras passagens, como 19.5-6. “Tudo o que falou o Senhor faremos.” Antes de ouvir os mandamentos e agora, depois de compreender a natureza da Lei de Deus, o povo compromete-se a cumprir as exigências de Deus, codificadas no Livro da Aliança, e promete obedecer (19.8). V. 8 – “O sangue da aliança.” Moisés somente conclui o ritual da aspersão com o sangue unificador e criador de comunhão após o povo comprometer-se a obedecer a Deus. O povo aceitou sua parte no sacrifício ordenado por Deus e

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em sua vontade revelada. Jesus proclamou o cumprimento desse simbolismo por ocasião da última Ceia, quando ofereceu o cálice: “Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos” (Mc 14.24). Jesus é o sacrifício e, ao mesmo tempo, o único mediador entre Deus e o povo. V. 9-11 – Estes versículos fazem parte da tradição javista e dão sequência aos eventos descritos nos v. 1 e 2. Unindo as duas tradições da aliança, pode-se concluir que, após a purificação com o sangue, o povo está habilitado a subir ao monte, ver Deus e com Ele celebrar o banquete da aliança. “Viram o Deus de Israel.” O v. 10 não descreve Deus, mas o chão onde seus pés pisam. Portanto eles viram uma manifestação visível do Senhor, mas não a plenitude de sua glória e poder. A descrição concentra-se exclusivamente sobre a área por baixo dos pés de Deus, que é comparada a um pavimento de safira. É, por assim dizer, um reflexo do céu. Deus pôde ser imaginado entronizado sobre as águas que estavam por cima da cúpula do céu (Sl 29.10). “Não estendeu a mão.” Não lhes causou dano, Deus não os matou. Geralmente, quem visse Deus face a face morreria (Êx 20.19-21). O fato de pessoas verem o Deus de Israel sem sofrer nenhum dano é algo completamente inédito no Antigo Testamento. “Comeram e beberam juntos.” Trata-se de uma refeição sagrada. Refeições semelhantes como celebração da conclusão de uma aliança são registradas em Gênesis 31.46, Êxodo 18.12, Mateus 26.26-30 e 1 Coríntios 11.23-25. Essa refeição é especial, pois simboliza o relacionamento entre Deus e seu povo. Confirma amizade e comunhão dos participantes da refeição com seu Deus e entre eles próprios. Dessa forma, a refeição chega a ser um símbolo da identidade de um grupo ou de um povo.

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Meditação

Considerando a data de Quinta-feira Santa e seu significado na preparação da Páscoa e considerando os textos previstos, proponho que se trabalhe o tema da aliança em conexão com a celebração da Santa Ceia, pois o tema invariavelmente apontará para a aliança no sangue de Jesus Cristo. Conforme a tradição da igreja antiga, foi na Quinta-feira da Paixão que Jesus instituiu a Santa Ceia no círculo de seus discípulos, e por isso ela é celebrada em toda a cristandade nessa data. Sendo assim, o culto todo deveria estar voltado para a celebração da Eucaristia. Como introdução à pregação, poder-se-ia mostrar para a comunidade reunida a figura de uma aliança e perguntar: Quem de nós usa uma aliança? O que ela significa? Casamento, acordo, pacto, sinal de compromisso. Quando vemos uma pessoa usando aliança no dedo, sabemos que ela tem um acordo, um compromisso mútuo, um pacto de confiança, de fidelidade, de amor e de companheirismo com outra pessoa. Fazemos vários acordos em nossa vida. Por exemplo: a amizade entre duas pessoas é um acordo de confiança em que uma pode contar segredos e intimidades à outra. Outro exemplo de aliança é quando pessoas fazem negócios, compra e venda, permutas, contratos. Existem também alianças entre grupos econômicos que querem fortalecer-se, aumentar seus ganhos. Acordos acontecem no campo da política quando candidatos e partidos se unem. Acontecem na comunidade

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para realizar alguma obra, acontecem também no casamento quando duas pessoas se unem. Acordos e alianças não são novidade para nós. Surge então a pergunta: O que caracteriza um acordo? Um acordo acontece somente quando há pelo menos duas partes envolvidas. Não existe acordo de uma pessoa com ela mesma. Ninguém casa sozinho. Além disso, para acontecer um acordo, deve haver uma iniciativa, uma proposta e uma resposta. Geralmente, quando acordos são cumpridos, há satisfação entre as partes envolvidas. Há alegria. Mas o que acontece quando um acordo não é cumprido? Infelizmente, muitos acordos são rompidos. E o rompimento de um acordo pode trazer punição para a parte que causou o rompimento. Quando um cônjuge trai a confiança do outro, ele destrói o casamento. Quando um acordo comercial é quebrado, isso traz implicações legais, batalhas judiciais para cobrar indenizações. Nós sabemos o que acontece com acordos quebrados, mas o acordo anunciado por Deus é diferente daquilo que conhecemos. É uma aliança eterna. Um pacto que foi estabelecido pelo derramamento de sangue e por isso não pode ser quebrado. Conhecemos o relato de diversas alianças feitas entre homens. Mas a Aliança do Sinai foi feita entre Deus e seu povo. Esse tipo de aliança era distinta de um acordo humano, no qual as duas partes se aproximavam uma da outra em nível igual. Na aliança concluída no Sinai, Deus é o único que pode cumprir verdadeiramente a sua promessa. Ele alcança o ser humano como um ato de graça. Essa aliança, firmada com os descendentes de Abraão segundo a carne, sob o signo da circuncisão e a observância estrita da lei, foi reinterpretada e atualizada na morte sacrificial de Jesus na cruz. Foi através de sua morte e de seu sangue derramado que Jesus estabeleceu uma nova aliança, que mudaria o rumo da história da humanidade, tanto para os judeus como para os gentios. Essa nova aliança foi entendida como a soma ou totalidade de todas as alianças anteriores. Pois tanto a aliança do Sinai como a do Calvário foram firmadas com sangue. Naquela, de animais. Nessa, de Jesus Cristo, autor e consumador da salvação de todos os que nele creem. Isso constrói a noção da Ceia do Senhor para nós cristãos, pois, sempre que celebramos a Eucaristia, somos lembrados de que, naquela última ceia que Jesus celebrou com seus discípulos antes da crucificação, enquanto comiam, Jesus tomou um cálice, deu graças a Deus e disse: “Isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos”. Mais tarde, quando os discípulos testemunhavam a morte de Jesus na cruz, lembraram-se das palavras que ele dissera ao erguer o cálice. Compreenderam que esse sacrifício é que nos traz o perdão e liberta-nos da escravidão do pecado. É o sangue de Jesus Cristo que estabelece e mantém nossa aliança com Deus. A Santa Ceia lembra-nos que a aliança de Deus com a humanidade não ficou só em palavras, pois ninguém ama apenas com palavras. “Deus amou as pessoas de tal maneira, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crê não morra, mas tenha a vida eterna.” A Santa Ceia reafirma e concede o benefício inteiro do sacrifício de Jesus por nós. Nela temos a presença real de Jesus, que disse com clareza que “isto é meu corpo” e “este cálice é a nova aliança no meu sangue” (1Co 11.24-25). Jesus ordenou celebrar a Ceia “em memória de

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mim”. Por isso, sempre que, em obediência à ordem de Jesus, celebramos a Ceia, reafirmarmos que esse é o sangue da nova aliança, inaugurada por Jesus. Assim como o povo do Antigo Testamento, reafirmamos nossa fidelidade ao Senhor: “Tudo o que falou o Senhor faremos”. Como seu povo, permitimos que Deus venha até nós para que vivamos de sua comunhão plena e profunda, pois a Ceia do Senhor cria e estabelece comunhão com Cristo (1Co 10.16) e sustenta a comunhão entre os que comungam. A Santa Ceia é o momento de lembrar e atualizar nossa aliança com Deus, firmada no sangue de Jesus. É o momento de renovar o nosso compromisso na promoção e defesa da vida criada por Deus e celebrar a festa da alegria, da gratidão e do louvor. A Ceia antecipa a comunhão plena com Deus, pois fomos reconciliados com Deus mediante o sacrifício de Jesus. A partir de Jesus, nós somos feitos povo de Deus, e, assim como o povo do Sinai, celebramos a Ceia, a refeição de comunhão com Deus na nova aliança. A Santa Ceia é o símbolo de um relacionamento entre Deus e as pessoas. Ela cria e confirma a amizade e a comunhão dos participantes com seu Deus e entre eles próprios. Por isso quem participa da Eucaristia assume sua parte na aliança, torna-se membro da família de Deus, que cumpre sua parte oferecendo-nos o perdão dos pecados, a salvação e uma vida nova. Através de Jesus nós conhecemos e experimentamos a comunhão com Deus.

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Imagens para a prédica

Sugiro como imagem para a pregação esta música, que poderá ser cantada ou recitada como poesia: Como é precioso, irmão, estar bem junto a ti E juntos lado a lado andarmos com Jesus E expressarmos o amor que um dia Ele nos deu Pelo sangue que no calvário sua vida trouxe a nós A aliança do Senhor eu tenho com você Não existem mais barreiras em meu ser Eu sou livre pra te amar, pra te aceitar e pra te pedir Perdoa-me, irmão Eu sou um com você no amor do nosso Pai Somos um no amor de Jesus. (Koinonya, Como é precioso)

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Subsídios litúrgicos

Liturgia da Ceia do Senhor L: Na Ceia do Senhor, temos a oportunidade de reafirmar nossa aliança com Deus através de Jesus. Foi Ele quem instituiu a Ceia como alimento que fortalece a nossa comunhão. Por isso preparamos a mesa. Enquanto os elementos para a Ceia são trazidos, a comunidade canta. C: (♪) Nosso Pai nos põe a mesa (HPD 358)

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L: Louvado sejas, Deus da nova e eterna aliança, pelo pão e pelo fruto da videira, frutos da ampla e generosa natureza que alimenta teus filhos e tuas filhas. Dá que esse pão e esse fruto da videira sejam recebidos por nós nesta Ceia, como comida e bebida da salvação em Cristo Jesus. C: Amém. L: Que Deus esteja com vocês. C: E também com você. L: Vamos elevar os nossos corações a Deus. C: Ao Senhor os elevamos. L: Demos graças ao Senhor, nosso Deus. C: Isso é digno e justo. L: Sim, digno e justo, e nosso dever é que, em todos os tempos e lugares, te demos graças, Deus libertador, porque tiraste o teu povo da escravidão do Egito e firmaste com ele uma aliança. E mesmo que teu povo não conseguiu obedecer e cumprir a sua parte nesse novo relacionamento contigo, tu firmaste através do sangue de teu filho Jesus Cristo uma nova e eterna aliança. Tu proporcionaste um novo começo para nós através de Jesus, que foi morto na cruz e sepultado. Mas ele ressuscitou e contigo vive na glória. Por tua grande bondade, enaltecemos-te, cantando o sempiterno hino: C: (♪) Santo, santo, santo. L: Santo és tu, Senhor, pois antes de deixar seus discípulos, teu Filho instituiu a Ceia que reanima nossa fé e renova nossas forças para te servir. Por isso lembramos e celebramos o que Jesus mesmo instituiu cantando: C: (♪) Nosso Senhor, na noite em que foi traído, tomou o pão... (ou HPD 367) L: Portanto, todas as vezes que comeis deste pão e bebeis deste cálice, anunciais a morte do Senhor por nós, até que ele venha. C: Anunciamos, Senhor, a tua morte e proclamamos a tua ressurreição. Vem, Senhor Jesus. L: Pedimos-te, Deus, que nos envies o teu Santo Espírito, a fim de que nesta refeição nos tornemos um só corpo em Cristo, um corpo que vive o amor e anuncia a esperança. C: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra. L: Guia-nos, Senhor, à festa da alegria, preparada para o teu povo em tua presença, pois sabemos que estamos unidos com todas as pessoas que nos antecederam, teus servos e tuas servas, que creram e viveram pela fé a nova aliança em Cristo. Juntos aguardamos o dia da grande Ceia, que está preparada e será servida por ti. C: (♪) Por Cristo, com Cristo e em Cristo, seja a ti Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém. L: Em Cristo, Deus reconcilia-se conosco. E a reconciliação de Deus conosco é que abre o caminho para a reconciliação entre nós. Sinal desse compromisso é o gesto da paz que queremos realizar agora, dando-nos um abraço. C: (♪) Paz, paz de Cristo (HPD 368).

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L: Como filhos e filhas de Deus, dispomo-nos a manter a comunhão e a viver em comunidade, num só espírito, participando do mesmo corpo de Cristo. Oremos de mãos dadas a oração que Jesus nos ensinou: C: Pai nosso... L: O cálice da bênção pelo qual damos graças é a comunhão do sangue de Cristo. O pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo. Mesmo sendo muitos e diferentes, em Cristo formamos uma família na fé. C: (♪) Nós, embora muitos, somos um só corpo. L: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. C: (♪) Cordeiro de Deus. L: Venham à mesa do Senhor, pois tudo está preparado. Deus convida-nos a partilhar de seu amor e viver desse alimento. Hinos: HPD 141 – 144 – 146 – 404 – 405 – 406 – 407. L: Bendito sejas, Deus amado, porque a tua Ceia restaura entre nós a comunhão e renova nosso compromisso contigo e com todo o povo da Nova e Eterna Aliança. Une-nos, Senhor, e guia-nos, dia após dia, nesse amor familiar. Por Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. C: Amém.

Bibliografia COLE, Robert Alan. Êxodo: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1972. RAVASI, Gianfranco. Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1985.

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PRÉDICA: MATEUS 27.33-50

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO 18 ABR 2014

ISAÍAS 50.4-7 2 CORÍNTIOS 5.19-21

Gottfried Brakemeier

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Introdução

A Sexta-feira Santa é um dia incomum. A comunidade cristã celebra a morte do Salvador. Isso não tem paralelos na história das religiões. De acordo com a lógica humana, não pode morrer aquele de quem se esperam socorro e libertação do mal. A fé cristã não acompanha esse raciocínio. Muito pelo contrário, ela atribui à morte de Jesus o milagre da reconciliação com Deus, o perdão dos pecados, a justificação por graça. Assim o apóstolo Paulo o expressou no texto da segunda Carta aos Coríntios, uma das leituras paralelas para esta sexta-feira. O sofrimento de Jesus é transparente para o amor de Deus, que por ele se aproxima da criatura. Sob tal perspectiva, torna-se significativa a profecia de Isaías. A comunidade cristã enxerga em Jesus aquele “servo de Deus” que ofereceu as costas aos que o feriam e a face aos que lhe arrancavam os cabelos (Is 50.6). Salvação não provém de um ato de glória e poder, e sim de dor, sofrimento e morte. É esse o paradoxo da Sexta-feira Santa. Ela proclama outra “lei” do que aquela em voga no dia a dia. Não é tributária da “lei do mais forte”, de acordo com a qual se impõe quem for capaz de derrotar os concorrentes. A Sexta-feira Santa celebra a vitória que vem da fraqueza. Residem nisso tanto o escândalo como a promessa da cruz de Jesus Cristo. O texto previsto para a pregação neste dia vai testemunhá-lo a seu modo. Recomenda-se concentrar a atenção na mensagem específica do mesmo, evitando assim inevitáveis superficialidades.

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Observações exegéticas

Com o trecho de Mateus 27.33-50, a paixão de Jesus encaminha-se para seu final. Fala da crucificação de Jesus, da zombaria que teve que suportar e de sua morte. Em termos gerais, Mateus segue o relato de Marcos. As poucas particularidades de seu depoimento não afetam o sentido do todo. Os evangelistas são unânimes em atribuir à morte desse condenado um significado salvífico. Em coerência com isso, a história que contam conduz à confissão do centurião humano: “Verdadeiramente este era Filho de Deus” (v. 54). O cruel processo de crucificação (v. 33) é tão somente constatado, não descrito. A paixão de Jesus não é um filme para alimentar o prazer no horror. O testemunho permanece sóbrio. Como gesto de compaixão, costumava-se dar aos crucificados vinagre para beber. Servia como anestésico. Mas Jesus desconfia da bebida e a rejeita (v. 34). Ela está misturada com fel, no que a comunidade cristã

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viu o cumprimento da profecia constante do Salmo 69.21. O cinismo transforma um meio de alívio em mais outro de tortura. Também o sorteio das roupas de Jesus segue um prenúncio do Antigo Testamento (Sl 22.19). Os poucos pertences de Jesus são disputados pelos soldados. Na paixão de Jesus prevalece uma brutalidade quase animal. Assim também na zombaria. O letreiro colocado no topo da cruz ridiculariza tanto Jesus como os judeus (v. 37). Que povo é esse que tem um crucificado por “rei” e que rei é esse que morre numa cruz? Jesus não cumpriu os anseios do povo. Se não for capaz de salvar-se a si mesmo, como poderá salvar outros? Ele disse que destruiria o santuário e reedificá-lo-ia em três dias, portou-se como filho de Deus e como exemplo inabalável de fé, mas ficou devendo a prova de suas promessas. Mateus relembra o que tem sido a acusação a Jesus, a saber, a agressão ao templo e a blasfêmia de se ter igualado a Deus (v. 39-44). Para o sinédrio, esses “crimes” foram suficientes para condená-lo à morte. Alguns de seus representantes até mesmo se encontram entre os espectadores da crucificação (v. 41). Já para Pilatos, bastou a pretensão messiânica desse réu. Os romanos perseguiam duramente todos os que pretendessem a realeza em Israel, ainda que fosse mera denúncia. Portanto a “culpa” de Jesus é a um só tempo “religiosa” e “política”. Jesus é acusado de ter ofendido Deus e de ter ambicionado o trono real de seu povo. A crucificação, porém, demonstra o definitivo fracasso de Jesus. A zombaria é geral, associando-se a ela também os malfeitores crucificados com ele (v. 44). Reside aí uma diferença em relação a Lucas, de acordo com quem um dos dois ter-se-ia convertido na última hora (Lc 23.39s). As tradições divergem. De qualquer maneira, cumpre-se mais essa vez o prenúncio do Antigo Testamento. De acordo com Isaías 53.9, o justo recebe sua sepultura com os perversos. Jesus morre cercado de “pecadores”. Até mesmo Deus parece tê-lo abandonado. Jesus clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. É a tradução para o original hebraico Eli, eli, lama sabactâni. Alguns dos presentes, para os quais o hebraico deve ter sido uma língua estranha, entendem mal e acham que Jesus clama por Elias. Mas o profeta não vem em socorro do moribundo, que dessa vez aceita beber o vinagre para aliviar a dor. A seguir, Jesus grita mais uma vez em voz alta e entrega o espírito. Jesus morre na mais absoluta solidão. Toda sorte de maldade precipita-se sobre ele. Brutalidade, zombaria, traição, Jesus deve suportar a terrível face do cinismo humano. Nem mesmo seus discípulos se excluem. Fogem ou no mínimo guardam distância. “Morrem de medo.” Também o recurso a Deus parece estar bloqueado. Onde está Deus na hora da morte de seu Filho? Jesus não desespera. Isso não! Continua clamando “Deus meu”. Em sua agonia, ele não se transforma num “ateu” nem começa a amaldiçoar o “Pai que está no céu”. Mas ele sofre sob a flagrante ausência de Deus. Vê-se jogado no mais profundo abismo sem nenhuma luz na escuridão. Desse modo, torna-se solidário com todas as pessoas que sofrem, com os torturados, os desesperados, os moribundos. Jesus foi um deles. Ele morre “com” os miseráveis deste mundo. Dizia a antiga versão do Credo Apostólico que “desceu ao inferno”. Pois a cruz é o inferno.

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No entanto, o total eclipse de Deus é um engano. De acordo com o testemunho dos evangelistas, há indícios da presença oculta de Deus. As trevas que cobrem a terra na hora da morte de Jesus, o terremoto que a acompanha, as rochas que se fendem, os sepulcros que se abrem, além de outros acontecimentos assombrosos, são claros sinais de teofania (v. 45.51-53). Deus reage à morte de Jesus e revela que ela não coloca o ponto final. Nesse exato momento, percebe-se o vislumbre da Páscoa. Deus não salvou Jesus da perseguição de seus inimigos. Ele salva de muito mais. Ele derrota o poder da própria morte, vencendo pecado, dor e desespero. A história da paixão de Jesus não deve ser confundida com o resgate dramático de uma vítima caída nas mãos de um bando de criminosos. Ela supera as causas de sofrimento e mal neste mundo.

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Reflexões teológicas

O evento da Sexta-feira Santa contraria a racionalidade humana. Parece não fazer sentido. O próprio Pedro expressa isso ao tentar convencer Jesus a não subir para Jerusalém a fim de evitar o martírio do mestre (cf. Mc 8.31). Ele acha que a morte de Jesus aniquilaria todas as esperanças. E, com efeito, a palavra da cruz é loucura aos olhos do mundo. São esses os termos do apóstolo Paulo (1 Co 1.18s). Assim como antigamente, também hoje essa palavra provoca estranheza. Convém não contornar o escândalo mediante uma teoria especulativa da expiação, de acordo com a qual o sacrifício de Jesus serviu para aplacar a ira de Deus. Ela não tem amparo bíblico. Deus não precisa da morte de seu Filho para ser bondoso. Seria Deus capaz de tal monstruosidade? Mateus e os demais evangelistas dizem outra coisa. Afirmam que o Filho de Deus se expõe à agressão humana e é torturado até a morte. E ele não se defende. Sofre a ação do pecado e não reage. Isso é assombroso. As pessoas promotoras da crucificação descarregam sua raiva, seus ressentimentos, seu ódio em Jesus de Nazaré. Ele é feito vítima, bode expiatório para as frustrações humanas. Na sorte de Jesus espelham-se a oposição a Deus, o sadismo em relação ao próximo, em suma, o pecado do ser humano. Embora a culpa na morte de Jesus seja desigual, não há quem de fato se possa eximir. Todos contribuem com a sua parcela para o sofrimento de Jesus, uns mais, outros menos, mas todos sem exceção. A história da paixão convida todo o mundo a descobrir sua cumplicidade com esses “pecadores”. Jesus bem poderia ter mobilizado um exército em sua defesa. Mas ele renunciou ao uso da violência. Morreu “por nós” (1Co 15.3s). Assim diz um dos primeiros credos da igreja cristã (1Co 15.3s). Jesus desistiu de derramar o sangue de outros para salvar sua própria pele. Fez o contrário. Ele sacrificou sua vida para salvar outros. Preferiu tornar-se maldição (cf. Dt 21.23) a amaldiçoar seus torturadores. Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44). O crucificado exemplifica o significado dessa exigência. E é esse o jeito de Deus. Deus não mata seus inimigos, antes os perdoa. Ele salva pela fraqueza de Jesus. Também isso tem a sua lógica. Não é sem razão que Paulo apregoa a “loucura” da palavra da cruz como “sabedoria de Deus” (1Co 1.24).

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Certamente ela destoa do que é considerado normal neste mundo. Ainda assim, ela não é de modo algum absurda. Pois é assim que se constrói a paz. A história da paixão de Jesus ensina que a não violência pode ser mais poderosa do que a violência. Enquanto essa não deixa de produzir novas feridas e de atiçar a espiral da vingança, a resistência passiva tem perspectivas de conduzir ao entendimento das partes. Numerosos exemplos o confirmam. Há que se admitir que isso nem sempre funciona. A repressão pode ser tão feroz, a ponto de massacrar os inocentes. A própria paixão de Jesus o comprova. Jesus foi assassinado; ele sucumbiu à violência de seus opositores. Mesmo assim, permanece verdade que violência é incapaz de reconciliar inimigos. Violência não é solução para os problemas da humanidade. Ela tão somente os agrava. Em contrapartida, o evangelho anuncia a fraqueza de Jesus, sua humildade, seu amor como salvação do mundo. Por mais paradoxal que pareça, nessa fraqueza está a força de Deus. Mateus expressa isso de um modo particularmente interessante. Ele se abstém de comentários ou observações explicativas. Ele simplesmente conta história. Deixa falar os fatos, que são eloquentes por si. Jesus é vítima de seus agressores, sim. Acontecem coisas horripilantes. E, todavia, Jesus em parte alguma provoca a impressão de um derrotado. A fraqueza de Jesus é voluntária, conscientemente assumida, entendida como parte de sua missão. A cruz de Jesus não é um “acidente histórico”. Ela é implicação do mandato de Jesus, que consiste em libertar os cativos, em curar enfermidades e em inaugurar novidade neste mundo (Lc 4.16s). Também na paixão de Jesus está em evidência o compromisso com a vinda do reino de Deus. Esse tem no amor sua motivação última. Aliás, essa é a natureza do amor. Ele é fraco por não poder lançar mão da violência. Simultaneamente, é mais poderoso do que todos os poderes político, econômico e militar juntos. Pois somente o amor pode transformar pessoas e realidades.

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Imagens para a prédica

Qualquer pregação na Sexta-feira Santa tem na cruz a imagem central. Pois Jesus foi crucificado. Basta esclarecer se essa cruz é símbolo de derrota ou vitória. Existem bons argumentos em favor de ambas as afirmações. E é disso que a pregação deverá tratar. A cruz é obviamente um sinal de fracasso. Jesus não consegue salvar-se a si mesmo. Encontra-se indefeso frente à prepotência de seus algozes. Sua morte parece ser a ruína de sua missão. O que sobrou é vergonha, frustração, desengano. O próprio Deus parece ter iludido seu filho. Na hora decisiva, ficou-lhe devendo ajuda. Mesmo assim, os evangelistas falam de uma vitória. Eles não o fazem atribuindo à cruz um sentido mágico. Infelizmente, é possível abusar da cruz e transformá-la em fetiche. Ela acusa, isto sim, que Jesus não se dobrou aos horrores sofridos. A cruz dá testemunho de seu amor, mais poderoso do que o ódio de seus inimigos. Isso significa ser desrecomendável esvaziar a Sexta-feira Santa mediante o precipitado recurso à Páscoa. Certamente essa é de fundamental importância. Reafirma palavra e ação de Jesus e mata a própria morte. Mas a vitória prende-se

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não somente a essa. Ela está inerente à própria paixão. Jesus venceu em duplo sentido: venceu na (!) cruz e venceu a (!) cruz. Na manhã da Páscoa, a cruz está vazia. Mesmo assim, o ressuscitado permanece sendo o crucificado. O crucifixo tem lugar permanente na igreja. A pregação poderia explorar a variedade dos aspectos da cruz na dialética de fracasso e vitória, de fraqueza e poder.

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Subsídios litúrgicos

Sugiro que as partes litúrgicas do culto se inspirem no “hinário” do povo de Israel, que é o livro dos Salmos. Oferecem valioso auxílio litúrgico. Poderiam servir de “roteiro” na formulação das orações. 1 – Entre os salmos de maior relevância na Sexta-feira Santa está o Salmo 22. O assunto predominante é a terrível sensação da ausência de Deus. Por que Deus não responde às súplicas de quem a ele se dirige? Assim pergunta não somente o salmista. O grito tem incontáveis réplicas na vida das pessoas, ontem e hoje. No salmo fala uma pessoa atribulada, assim como foi Jesus na cruz. 2 – Outro salmo a lembrar é o 130. Seu tema é culpa e pecado. A tribulação é outra do que no Salmo 22. Quem fala é alguém esmagado por sua culpa. Esse salmo motivou Lutero a compor o hino “Das profundezas clamo a ti” (HPD 147). Devido à melodia nada fácil, o hino é cantado raramente nas comunidades. Mas vale a pena ser recitado, mesmo parcialmente, como confissão dos pecados. 3 – A invocação de Deus, porém, não pode permanecer presa à lamentação. Deve conduzir à glorificação de Deus. É o que está em evidência no próprio Salmo 22. O grito por socorro transforma-se em louvor e adoração (22.22s). Essa inclui gente de fora. Por isso importa interceder por pessoas que sofrem para que consigam participar da certeza de que Deus ouve o clamor de seu povo. A história da paixão de Jesus, juntamente com os recursos oriundos do Antigo Testamento, oferece abundante material para ilustrar a liturgia da comunidade cristã.

Bibliografia BETZ, Otto. Meditation über Matthäus 27.33-49 (50-54). Karfreitag. In: Neue Calwer Predigthilfen. Fünfter Jahrgang, Band A. Stuttgart: Calwer Verlag, 1982. p. 230-237. WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso. Uso e abuso da cruz. São Leopoldo: Ed. Sinodal/EST, 2008.

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PRÉDICA: JOÃO 20.1-18

DOMINGO DA PÁSCOA 20 ABR 2014

JEREMIAS 31.1-6 COLOSSENSES 3.1-4

Walter Altmann

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Introdução

Em sendo o texto previsto para a pregação João 20.1-18, será necessário decidir entre as opções de (a) enfrentar o difícil desafio de pregar sobre a perícope inteira, um texto relativamente longo e com várias facetas originalmente independentes, mas aqui concatenadas redacionalmente, (b) concentrar-se nos versículos relativos a Maria Madalena (v. 1 e 10-18) como testemunha primeira da ressurreição, embora em dois momentos, ou (c) concentrar-se nos versículos 1 a 10, que apresentam Maria Madalena, seguida de Pedro e do “outro discípulo”, como testemunhas do túmulo aberto. Recomendo escolher entre as opções (b) e (c), isso por três razões: 1) a perícope é extensa, o que dificulta sua abordagem plena no espaço relativamente limitado de um sermão apenas; 2) a perícope completa deixa transparecer o trabalho redatorial do evangelista sobre duas narrativas anteriormente independentes, o que dificulta sua exposição de forma plausível; 3) ambos os trechos da perícope têm ênfases peculiares e suscitam associações próprias para a pregação. Em todo caso, como o texto é previsto para o Domingo da Páscoa, a ênfase não deverá recair sobre Maria Madalena e os dois discípulos, mas sobre a mensagem da ressurreição de Cristo, tendo o túmulo aberto surpreendido e deixado atônitos, ainda que de formas diferentes, tanto Maria Madalena como Pedro e o “outro discípulo a quem Jesus amava” (cf. Jo 13.23), para seguir-se a fé do “outro discípulo” e de Maria Madalena, ainda que também de maneiras distintas. Neste auxílio homilético, a ênfase será dada à primeira parte da perícope (até o versículo 10), portanto ao impacto do sepulcro aberto (ou do túmulo vazio) sobre as primeiras testemunhas. Na meditação, a ênfase estará nas consequências da ressurreição de Jesus para quem se propõe a segui-lo também hoje. Para quem optar por colocar a ênfase na segunda parte e, em particular, em Maria Madalena, como primeira testemunha da ressurreição, remeto a auxílios homiléticos anteriores na coleção Proclamar Libertação, em particular a contribuição de René Krüger no PL 34, com cuidadosa consideração exegética e proveitosa reflexão homilética. A contribuição de Carlos Luiz Ulrich e Claudete Beise Ulrich no PL 24 também pode ser consultada com proveito, contudo ela é preparada para o Dia de Maria Madalena e não para o Domingo da Páscoa, razão pela qual a ênfase se encontra mais na figura de Maria Madalena do que propriamente na ressurreição de Jesus.

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Domingo da Páscoa

O texto de Jeremias é apropriado para o Domingo da Páscoa (na sucessão da Paixão) na medida em que reflete a alegria pelo livramento e pelas promessas de Deus, mesmo em meio a tribulações. Já o texto de Colossenses remete nossa atenção para a vida que temos em Jesus mediante a imagem de que “fomos ressuscitados juntamente com Cristo”. Por isso seremos partícipes da glória de Jesus.

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Exegese

Os relatos dos evangelhos acerca da ressurreição de Jesus (Mt 28, Mc 16, Lc 24, Jo 20; cf. também 1Co 15.3-8) são muito apropriados para perceber o que neles realmente importa e o que é acessório, secundário ou até sem importância. Em vários detalhes, há grande discrepância entre eles. A(s) primeira(s) testemunha(s) foram Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé (Mc), Maria Madalena e “a outra Maria” (Mateus), Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e “as demais mulheres” (Lucas) ou apenas Maria Madalena (João)? Ainda que Paulo não mencione mulheres, os relatos dos evangelhos, coincidindo em identificar uma ou mais mulheres como a(s) primeira(s) testemunha(s) da ressurreição, devem ser tomados como fidedignos, na medida em que não se pode assumir como plausível a eventual criação dessa tradição, pois na cultura patriarcal da época o testemunho de mulheres não tinha valor legal, sendo considerado não confiável. Talvez por isso mesmo, para “amenizar” o escândalo, houve uma tendência da tradição oral em aumentar o número de mulheres que teria testemunhado a ressurreição (em particular, no relato de Lucas). Mas o evangelista João talvez quisesse concentrar a referência na figura de Maria Madalena e o que ela representa. A passagem do v. 1 aos v. 2ss apresenta uma fricção. Impactada pela remoção da pedra que fechava o sepulcro, sem que o texto diga que ela o teria adentrado ou pelo menos olhado em seu interior (e ainda estava escuro!), Maria Madalena corre de volta para relatar a Simão Pedro e ao “outro discípulo”: “Tiraram do sepulcro o Senhor”. E completa o relato no plural, embora tivesse sido a única mulher a ir ao sepulcro: “Não sabemos onde o puseram”. Trata-se, possivelmente, da reminiscência dos relatos paralelos que mencionam mais de uma mulher como testemunhas primeiras da ressurreição. Também a transição do versículo 10 (a volta dos dois discípulos) para o 11 (Maria Madalena chorando à entrada do túmulo) denota uma certa artificialidade. Os dois discípulos haviam corrido ao túmulo, o “outro discípulo” mais rapidamente do que Pedro. Teria Maria Madalena conseguido acompanhá-los na corrida? O texto nada diz acerca disso, e os dois discípulos retornam surpreendentemente sem trocar palavra com Maria Madalena, embora o versículo 11 assevere que ela “permanecia junto à entrada do túmulo, chorando”. Só então Maria Madalena “olhou para dentro do túmulo” (como teria sabido antes que o corpo de Jesus já não estava mais no sepulcro?), seguindo-se a cena de diálogo com os dois anjos e, posteriormente, com o próprio Jesus, que ela a princípio não reconheceu, tomando-o pelo jardineiro.

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Fica claro que estamos diante da combinação redacional de dois relatos: um acerca de Maria Madalena e outro acerca de Pedro e do “outro discípulo, a quem Jesus amava” (o próprio apóstolo João?). O evangelista preserva a escandalosa recordação de Maria Madalena como a “primeira testemunha”, mas encaixa o relato acerca de Pedro e do “outro discípulo”, que são, então, os primeiros a olhar para dentro do sepulcro e depois adentrá-lo, o que de certo modo ameniza o escândalo e lhe confere maior credibilidade, segundo o olhar da cultura patriarcal da época. O versículo 2 faz, então, redacionalmente, a ligação entre os dois relatos. Segundo Lucas (24.12), após o relato das mulheres, Pedro correu ao sepulcro. Em João, corre com ele o “outro discípulo”, sendo esse, inclusive, mais rápido do que Pedro, chegando, portanto, à frente e tirando-lhe a primazia da chegada ao sepulcro e da visão de seu interior. Contudo, Pedro é o primeiro a adentrar o túmulo. Em Lucas, os discípulos a caminho de Emaús, no diálogo com o ressurreto que os acompanha, mencionam que “alguns discípulos” se certificaram das palavras das mulheres (24.24). Portanto há diferenças nos detalhes também ali. A descrição meticulosa da disposição dos lençóis e do lenço que estivera sobre a cabeça do Jesus morto serve para testificar que não foi uma remoção apressada do corpo de Jesus a causa do sepulcro encontrar-se aberto e sem o corpo de Jesus, mas sim sua ressurreição. Possivelmente corria a versão de que os discípulos teriam removido o corpo de Jesus para um lugar desconhecido, o que configuraria um crime. “Para a cultura da época, qualquer tipo de profanação de túmulos e cadáveres era um ato horripilante” (Krüger, p. 164). Em Mateus 28.1115, esse boato é combatido com a versão de que alguns dos principais sacerdotes teriam subornado guardas para que esses difundissem a falsa versão de que os discípulos teriam removido o cadáver de Jesus. O texto joanino faz o mesmo de maneira muito mais sutil ao observar a cuidadosa disposição dos panos. Ademais, o texto joanino dá destaque ao “outro discípulo”. É ele (e, portanto, não Pedro) quem, ao também adentrar o sepulcro e vislumbrar o cenário, maravilhosamente já chegou à fé (na ressurreição de Cristo), embora nenhum dos dois tivesse ainda compreendido as profecias escriturísticas acerca da ressurreição de Jesus. (Em Atos 2.25-28, a referência escriturística é o Salmo 16.8-11.) Assim, ”o outro discípulo”, segundo o evangelista, teve a primazia da fé, tanto em relação a Pedro como em relação a Maria Madalena, que viria a crer só posteriormente à retirada de Pedro e do outro discípulo (sem que se falassem), quando ocorreu o encontro direto com o ressurreto, que a chamou pelo nome e é então por ela reconhecido como seu mestre (v. 16). No relato de Paulo (1Co 15), Jesus apareceu primeiro a Cefas, isto é, Pedro, e depois aos doze. Mais uma vez, há diferenças de detalhes. Na história da pesquisa exegética não faltou, no rastro de interpretações a partir de pressupostos racionalistas, quem concluísse, baseado nas diferenças dos diversos relatos, que todos eles seriam meras construções tendenciosas com o fim de justificar a fé. Esse tipo de interpretação, contudo, passa de largo pelo mais essencial nesses textos. Eles não pretendem ser relatos históricos, mas testemunhos de fé, com suas ênfases peculiares. De outra parte, porém, uma fé não se consegue sustentar sobre uma deliberada inverdade. A conclusão dessas duas

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observações é que a fé é suscitada por eventos externos – identificados como ação divina – e depois se externa de maneira testemunhal acerca desses eventos, realçando o que lhe é essencial, a saber, a maravilhosa ação de Deus, a partir da qual se pode viver em fé. E é isso que importa. Um eventual interesse falsificador para justificar a fé tampouco “inventaria” mulheres (uma ou mais delas, não importa) como justificativa para a ressurreição, já por si um evento inalcançável para a mera razão. Tal invenção só dificultaria o convencimento de outras pessoas. Muito menos pessoas que deliberadamente tivessem falsificado de forma grosseira a natureza dos eventos estariam dispostas a colocar suas próprias vidas em jogo por tal invenção. Resta, pois, a alternativa de admitir a autenticidade do testemunho de que “Jesus ressuscitou”. Ele vive, e nós somos desafiados, pelo testemunho dado, a depositar fé nele, assim como aquelas testemunhas fizeram. Ou seja: os detalhes são acessórios. O essencial são o testemunho acerca da ressurreição de Jesus e o surgimento da fé. E nisso todos os relatos coincidem. O objetivo do evangelista João está claramente enunciado nos versículos 30 e 31: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Trata-se do objetivo de todo o evangelho. Com as bodas de Caná “deu Jesus princípio a seus sinais” (2.11). Que esses suscitam a fé também está claro desde o início (2.23). Ainda assim, a fé não é automática como efeito dos sinais. João 9.23 relata acerca de uma dissensão em relação a Jesus e seus sinais. Enquanto alguns fariseus chegam à conclusão de que ele “não é de Deus, porque não guarda o sábado”, outros concluem que “um homem pecador” não pode fazer “tamanhos sinais”. No final do evangelho, podemos concluir que o maior de todos os sinais é a própria ressurreição de Cristo, aquele sinal que chancela todos os demais. “Vida” também é, segundo o Evangelho de João, a dádiva por excelência que podemos receber de Deus através da fé. A vida estava no próprio Verbo (1.4), que “habitou entre nós” (1.14). Quem nele vier a crer “terá vida eterna” (3.16 e 36; 6.47). “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (10.10). Nesse capítulo 10, a vida concedida está associada ao fato de que o “bom pastor” que é Cristo dá sua vida por “suas ovelhas”. Ou seja: o Verbo eterno se fez carne, habitou entre nós, deu sua vida por suas ovelhas, foi assim glorificado na cruz (outro tema tipicamente joanino), e a ressurreição é o maior dos sinais, aquele que chancela todos os demais, para que, em crendo, tenhamos vida como maravilhosa dádiva de Deus, vida em abundância.

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Meditação

Seguindo antiga tradição litúrgica, fiel ao testemunho escriturístico, a mensagem da Páscoa é: ”Cristo ressuscitou; ele verdadeiramente ressuscitou”. Fácil de crer? Certamente não. Nenhuma “verdade de fé” é fácil de crer. Ela sempre encerra um desafio de ordem pessoal, intransponível para nossos esforços e nossa razão. A fé é, ela própria, uma dádiva divina. Quem prega num Do-

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mingo da Páscoa estará sob o desafio de enfocar o mais central da fé: aquele Jesus cuja morte na cruz foi relembrada pela comunidade dois dias antes está vivo. E dispõe-se, com certeza, a “aparecer” hoje, como fez naquele primeiro domingo após sua morte a Maria Madalena, que confessou sua fé, chamando-o de “meu mestre”. Ou então também hoje pode suceder que, atônitos com o imponderável, como aquele discípulo “a quem Jesus amava”, embora sem vê-lo, detectamos em sua ausência (!) dos espaços da morte sua presença viva entre nós e, por conseguinte, “colocamos nossas fichas” em sua ação salvífica, cremos nele e passamos a desfrutar da vida verdadeira. Quem prega no Domingo da Páscoa “apostará” nessa possibilidade da presença viva de Jesus e de seu acolhimento na fé. Mas o fará na consciência de quão implausível isso soará à razão humana. Terá, portanto, sensibilidade para com a dúvida e a descrença de muitas pessoas, dúvida que não poucas vezes assalta também quem tem crido. Talvez essa dúvida esteja assediando até mesmo quem se desloca ao púlpito para pregar... Isso dará um tom peculiar à pregação. O tom da pregação no Domingo da Páscoa será, portanto, eminentemente poimênico, pastoral. Pregações proféticas que denunciem a morte e queiram proclamar a vida contra as injustiças deste mundo terão lugar preponderante em outras ocasiões. Essa mensagem talvez possa ser sugerida como consequência de uma nova vida em Cristo ressurreto, mas a prioridade, consideradas as dúvidas e a tentação da descrença, consistirá em proclamar a alegria que nasce do acolhimento da mensagem pascal de que, a despeito de tudo, Cristo vive. Ele ressuscitou. Nesse sentido, quem prega no Domingo da Páscoa também poderá exaltar a maravilha de que essa fé se transmite de geração em geração, tendo essa corrente de transmissão ininterrupta iniciado naquele primeiro Domingo da Páscoa, em que Cristo ressuscitou, chegando até os dias de hoje e prosseguindo em direção ao futuro e novos espaços a partir desse preciso Domingo da Páscoa em que a comunidade se encontra reunida. A comunidade é um novo elo de transmissão da mensagem de vida. Assim também podemos dizer que a mensagem se transmite “de boca a boca”, e todas as pessoas são estimuladas a se inserir nessa corrente de transmissão. É nisso que consiste a missão da igreja. Em síntese, sugere-se que a pregação contenha os seguintes elementos: A. A dor com a morte de Jesus, a vontade de Maria Madalena em prestar sua homenagem de luto a quem partiu e a perplexidade e o desencanto de Pedro, do “outro discípulo” e dos demais discípulos com a perda de seu mestre. Ao mesmo tempo, traçar paralelos com o respeito que Jesus evoca também hoje, mas ao mesmo tempo a dificuldade em crer para muitas pessoas ou mesmo as dúvidas que assolam a quem crê. B. Cristo vive. Como Maria Madalena, Pedro, o “outro discípulo” e todos os demais foram surpreendidos com o inusitado, o absolutamente inesperado. A pedra que cerrava o sepulcro estava removida, e o corpo de Jesus já não pôde ser encontrado. Espanto e perplexidade, tão naturais em tal situação, são sucedidos pela alegre constatação de que Cris-

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to vive. Aceitam o desafio da fé, desafio e possibilidade que vêm “de fora”, do próprio Jesus Cristo. O mesmo dá-se também hoje. Pessoas são movidas a crer em Cristo. C. As consequências de chegar à fé em Cristo ressurreto. A alegria da fé e, junto com ela, a disposição de testemunhar, de fazer parte da corrente de fé no meio em que vivemos, no tempo em que vivemos. Contar com ele em todos os momentos, “em alegria e dor”, em bonança e tribulação. Por isso exaltar o amor de Deus e glorificar seu nome.

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Subsídios litúrgicos

Era um costume bem arraigado na igreja antiga celebrar o culto do Domingo da Páscoa bem cedo de manhã, ao nascer do sol, uma simbologia muito forte para o despontar da nova vida, para celebrar a ressurreição de Cristo (Maria Madalena foi ao sepulcro ainda de madrugada). Há um número crescente de comunidades que estão recuperando essa tradição. Havendo espaço para essa inovação em comunidades que não têm essa prática, poderá ser uma boa experiência. Ela não deve, porém, ser introduzida de supetão, por decisão unilateral do ministro ou da ministra, mas a decisão deve ser precedida de um processo de reflexão com a comunidade e suas lideranças quanto ao sentido dessa prática, colhendo a decisão como fruto amadurecido de sementes lançadas. (Como é provável que este auxílio homilético seja consultado na semana que antecede ao Domingo da Páscoa, ou seja, a própria semana da Paixão, a sugestão aqui feita provavelmente deve ser considerada apenas para o ano subsequente. Uma referência na pregação a essa prática da igreja antiga poderá talvez constituir-se na primeira semente lançada.) O texto presta-se facilmente para sua dramatização, que pode ser encenada por um (pequeno) grupo de jovens ou mesmo crianças. Ela pode ser com os diálogos de viva voz antes ou depois da leitura do texto ou apenas com gestos, nesse caso acompanhados da leitura do texto. Tanto os hinos como as orações deverão refletir a alegria pela ressurreição de Cristo e pelo caminhar na fé.

Bibliografia HAENCHEN, Ernst. Das Johannesevangelium: Ein Kommentar. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1980. KRÜGER, René. Domingo de Páscoa. In: Proclamar Libertação, v. 34. São Leopoldo: Sinodal / Faculdades EST, 2009. p.162-8. ULRICH, Carlos Luiz & ULRICH, Claudete Beise. Dia de Maria Madalena. In: Proclamar Libertação, v. 24. São Leopoldo: IEPG / Sinodal, 1998. p. 230-9.

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PRÉDICA: SALMO 16

2º DOMINGO DA PÁSCOA 27 ABR 2014

JOÃO 20.19-25 1 PEDRO 1.3-9

Manoel Bernardino de Santana Filho

1

Introdução

Quanto ao gênero literário, os salmos podem ser classificados como hino, lamentação ou ação de graças. No caso do Salmo 16, é um cântico que expressa a confissão de fé de um convertido, portanto está dentro do primeiro gênero tão antigo quanto a formação do povo de Israel. Os textos de apoio para este segundo Domingo da Páscoa assinalam a experiência dos discípulos de Jesus, que, sob o impacto da ressurreição, iniciam um processo de releitura do Antigo Testamento para buscar a confirmação do caráter messiânico da pessoa de Jesus de Nazaré. O texto de João (20.19-25) assinala uma manifestação do ressuscitado no meio da comunidade pós-pascal. A incredulidade de Tomé contrasta com a fé desse novo convertido do Salmo 16. O texto de 1 Pedro (1.3-9) é uma oração de ação de graças pela bendita salvação que nos é concedida pela intervenção de Deus, que nos alcança por meio do Senhor Jesus Cristo. Esse é, na verdade, o espírito do Salmo 16, que se apresenta como um hino de gratidão pela conversão Àquele que é inigualável.

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Exegese

Não há unanimidade entre os comentaristas da literatura sapiencial sobre a época desse salmo. Uma grande maioria situa o texto entre os escritos produzidos no tempo imediatamente posterior à volta do exílio babilônico. Outros colocam o texto entre os escritos dos hassidins (piedosos) do judaísmo tardio e pretendem explicar o salmo à luz do conflito da religião do Antigo Testamento com os cultos de mistério da época helenística (séc. IV a.C.). No entanto, as várias alusões à festa da Aliança, a presença de Deus e sua glorificação na comunidade, a renúncia aos ídolos e a separação dos adoradores de ídolos sugerem que a origem do salmo deva ser procurada no culto pré-exílico e interpretada como confissão pessoal de uma determinada pessoa, que expressa nessa melodia sua alegria pelo encontro com o Senhor no santuário. Nos salmos, há frequentes citações de hinos cananitas das cartas de El Amarna, que evidenciam a popularidade da literatura hínica na Idade do Bronze (1500-1200 a.C.) na Síria e Palestina. Em alguns textos que tratam dos mitos ugaríticos foi encontrada uma estrofe que pode fazer parte de um grande hino. O Salmo 16, a partir de informações linguísticas ugaríticas, mostra que se trata de uma obra de um convertido cananita à religião dos antigos israelitas, expressando sua profissão de fé e sua abjuração dos falsos deuses a que até então

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serviam. Aqui se encontra o princípio dominante da poesia bíblica e ugarítica, que são a simetria, o paralelismo de ideias, os pares fixos de palavras relacionadas que aparecem tanto numa forma de poesia como na outra. As ideias presentes no Salmo 16 corroboram a época mais antiga para a composição do texto. Sente-se um ambiente pré-exílico desde que a prática cúltica parece ser a da monolatria e não do exercício do monoteísmo, que caracterizaria a profecia e a literatura posterior ao exílio. A monolatria está presente na história do povo hebreu desde épocas remotas quando das lutas das tribos seminômades nos altos de Israel. É uma forma de adoração que se traduz na aceitação de um único Deus, no caso Javé, dentre tantos outros que se apresentam pelos povos com quem as tribos travaram relações. Tem-se um Deus, mas se admite a existência de outros, como Baal, Astarote e outros. O monoteísmo, a existência de um único Deus, só foi praticado por Israel nos tempos pós-exílicos, ou seja, a partir do século VI a.C. O salmo começa com uma expressão de confiança naquele que pode responder à oração. Essa confiança dá suporte a tudo o que vai ser dito nos versos seguintes. É uma confiança segura e serena. A pessoa que faz a oração é alguém que se sente tranquilo e seguro ao depositar sua confiança no Deus Todo-Poderoso. A profissão de fé está presente no v. 2. O convertido expressa sua alegria pela confiança plena depositada em Javé. Literalmente, o autor diz: “Meu Senhor, tu és minha felicidade. Não há ninguém acima de Ti”. O v. 3 é de difícil interpretação, tanto que a versão atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) afirma: “Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer”. A Bíblia de Jerusalém (BJ) afirma: “Destes demônios da terra. Eles se impõem a todos os que os amam”. Um sentido mais claro só é possível na BJ se o início do v. 3 for continuação do v. 2: “Minha felicidade não está em nenhum destes demônios da terra”. Como diz Schökel, tudo depende do sentido que dermos a Qedoshim (santo, demônio, criatura celeste, divindades, anjos ou aqueles que são consagrados a Deus). O v. 4 declara a abjuração dos antigos deuses cananitas, que agora eles têm como falsos, mas aos quais até então eles serviam. Os v. 6 e 7 continuam a expressar a gratidão pela proteção de Javé. A tradução de Almeida Revista e Atualizada (ARA) – “caem-me as divisas em lugares amenos...” – não parece refletir o sentido do texto. O verbo sãbar está relacionado com “medida”. Tem o sentido de dizer que os limites têm sido traçados por Deus e o espaço que Ele cria é delicioso. Por isso a sua herança é abençoada. O Senhor é Aquele que nos aconselha até durante a noite. O Salmo 127.2b afirma que “aos seus amados ele o dá enquanto dormem”. O louvor a Javé continua no v. 8. Está sempre presente, e com ele à sua direita a pessoa permanecerá firme. O salmista parece convencido de que lhe será concedido o mesmo privilégio que fora dado a Enoque e Elias. Crê que Deus o levará para si mesmo, sem que passe pelos sofrimentos da morte. Esse sentimento também está presente nos Salmos 49.15 e 73.24. O v. 10 expressa a confiança de que ele não ficará no sheol, lugar de separação do Senhor. Ele escolheu Javé, portanto espera que o Senhor o mantenha consigo. Mantém a esperança de que escapará da morte que o separaria de Deus. Há

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aqui uma esperança ainda que imprecisa na possibilidade da ressurreição. Algumas versões traduzem sheol por “cova” (BLH) e “corrupção” (ARA). A comunidade pós-pascal aplicou a Jesus esse verso, vendo-o como um salmo messiânico. Os v. 10 e 11 são, de fato, uma afirmação da crença poética na imortalidade, doutrina bem conhecida entre os cananitas. Por isso a confiança de que a sua união com Javé seria eterna.

3

Meditação

Como vimos, a apropriação desse salmo pela tradição cristã remonta ao próprio texto do Novo Testamento. Em sua releitura do Antigo Testamento, os apóstolos percorreram os textos proféticos e sapienciais para encontrar ali o fundamento para um messias pobre e marginalizado. No dia de Pentecostes, Pedro inicia uma pregação para a multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa (At 2.14-36). Eram 3 horas do dia (9 da manhã) quando coisas estranhas começaram a acontecer no seio da comunidade de discípulos e discípulas de Jesus. A comunidade estava reunida diante de centenas de peregrinos procedentes das mais distantes regiões do Império Romano. A relação de representantes de povos está em Atos 2.10-11. Ainda atordoados com os acontecimentos que culminaram na morte de Jesus, cerca de 120 pessoas reuniram-se para ouvir Pedro falar sobre esses estranhos acontecimentos. A primeira e maior tarefa daqueles cristãos era produzir compreensão para o “escândalo da cruz”. A expectativa messiânica ensinada pelo rabinismo não contemplava a possibilidade de um messias sofredor; portanto era necessário que os discípulos de Jesus buscassem a produção de sentido para aqueles acontecimentos. O livro “O Deus Escandaloso. O uso e abuso da cruz”, de Vitor Westhelle (Editora Sinodal, 2008), mostra que a cruz é a crise do cristianismo. Ela é apresentada como o mais radical questionamento da fé cristã, da igreja de Jesus Cristo e das pessoas que nele creem. Mostra quão incômoda é essa cruz fincada no chão deste mundo e no coração da fé da igreja. Ao longo da história, muitas foram e ainda são as visões dessa cruz. Por uns é vista sob uma interpretação gnóstica e docética (Cristo não sofreu), só o homem de Nazaré. Outros têm uma visão dolorista. Nunca saem do Calvário; outros são derrotistas (a cruz foi o fim de um projeto). Devemos sempre nos perguntar o que foi que fez Jesus Cristo ser conduzido à cruz. Seus conflitos com os religiosos de seu tempo são fortes. Foi considerado blasfemo. E por quê? Porque dizer a verdade de forma ousada pode parecer heresia. O que levou Jesus à cruz foi a acusação de blasfêmia contra Deus e o imperador. Lutero diz no Debate de Heidelberg (21) que o “teólogo da cruz diz as coisas como elas são”. A palavra grega para isso é parresia, que significa falar de modo ousado e dizer tudo sem reserva. Foi isso que Jesus fez. Disse tudo. Não temeu os poderosos de seu tempo. Lutou para dizer a verdade. Esse foi também o lema de Gandhi. Ele usava uma

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palavra sânscrita – satyagraha – como mote de seu movimento de libertação da Índia. Tem o significado de “amor pela verdade” ou “a força da verdade”. Por isso destinaram Jesus à cruz, que é sinônimo de miséria, maldição e desgraça. Mas também é sinônimo de graça. É a partir dela que tomamos consciência de que Deus se faz presente no fraco e no miserável do mundo. Ao pregar aos peregrinos, Pedro fala do cumprimento de profecias (At 2.22-23) e finalmente que Deus levantou Jesus da morte (2.24-35) quando cita o Salmo 16.8-11 como um testemunho da ressurreição do Senhor (At 2.25-28,35). Quando aqueles primeiros cristãos olharam o salmo à luz do que tinha acontecido entre eles, entenderam que se tratava de um cumprimento de profecia. O Salmo 16 também se liga ao Novo Testamento por meio de um sermão de Paulo, que se encontra em Atos 13. O apóstolo é um convidado da sinagoga de Antioquia da Pisídia. Depois de ler textos da Lei e dos Profetas, ele começa a falar dos poderosos feitos do Senhor na história de Israel desde os antigos patriarcas e dos tempos da peregrinação no deserto. Fala brevemente de Davi e dá um pulo de mil anos para falar que aquilo que Deus prometeu aos antigos pais está se cumprindo para nós, seus filhos, na ressurreição de Jesus Cristo (32). Paulo cita textos do Salmo 2, Isaías 55 e Salmo 16.10 (At 13.35). Aqueles cristãos primitivos foram convencidos de que as promessas encontradas no Antigo Testamento foram cumpridas na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Quando eles experimentaram a ressurreição, pensaram no Salmo 16. Aqui o salmista aponta para o Senhor, mostrando o caminho (11). Esses primeiros cristãos usaram a mesma imagem para o novo movimento chamado de “O Caminho” (At 9.2; 19.9). Não era uma designação original. Quando Tomé perguntou “como saber o caminho?”, Jesus respondeu: “Eu sou o caminho...” (Jo 14.5-6). O Salmo 1 fala de dois caminhos: o caminho da justiça e o caminho da insensatez. O Salmo 15.2 fala da coragem para caminhar irrepreensivelmente. O Salmo 16 mostra o caminho da vida que Deus nos revela e onde a alegria pode ser encontrada, porque, quando alguém vai por esse caminho, o Senhor põe-se a andar com ele.

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Imagens para a prédica

O coração da fé cristã é a certeza da ressurreição. Paulo afirma que, se não há ressurreição, então Cristo não ressuscitou e, se ele não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé (1Co 15.14). Portanto a fé cristã fundamenta-se sobre a ressurreição de Jesus Cristo. Mas os discípulos foram assimilando aos poucos. Apesar de terem sido preparados por Jesus para os acontecimentos que se dariam, como nós às vezes, não compreenderam as palavras de Jesus sobre a ressurreição. Como cristãos, precisamos fazer a experiência da ressurreição. Cremos em Jesus de Nazaré, mas cremos também naquele que ressuscitou. Alguns ficaram apenas com o primeiro. Mas é preciso transcender o momento inicial. Marcos não se retém, como as mulheres (16.7), na busca de recordações paralisantes em

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torno do morto, ante o qual a única tarefa eram a contemplação, a unção e o embalsamento para a história. Marcos vai exigir que haja movimento: “Sigam para a Galileia e lá o vereis”. A história de Jesus dá-se em três momentos fundamentais: primeiro, sua vida e ministério, sua história; segundo, a morte e ressurreição; terceiro, a experiência da ressurreição. Precisamos testemunhar que cremos e que temos estado com o ressuscitado. A Escritura convida-nos a abrir os olhos e ver o Senhor na experiência da história, na vida das pessoas, na gratuidade do amor de Deus. E não somente ver o Jesus que vive, mas o Jesus que vem outra vez. Aquele que nos interpela, que nos chama para o desafio de anunciar o seu Reino e de crer em suas promessas. Sugiro que se façam figuras representando a comunidade reunida. Pode ser da comunidade como um todo e que um professor/a orientador/a mostre maneiras de fazer experiências da ressurreição, como, por exemplo, mostrar que sentir Cristo na vida, no cotidiano das pessoas, no fortalecimento do ambiente comunitário. Porque Ele ressuscitou é que existe a comunidade chamada igreja, formada por pessoas que creem na ressurreição e na vida eterna. O Salmo 16 expressa a confiança inabalável de que Deus não nos deixará na morte, mas nos fará ver os caminhos de vida.

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Subsídios litúrgicos “Creio na ressurreição do corpo...” Corpo para sempre; face do Espírito. Corpo com sede, Corpo doente, Corpo migrante, Corpo com fome, Corpo na prisão... “Quando o fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes...” Corpo: santuário, altar, hóstia. Santo dos santos. O Espírito ama, O amor se faz jardim, Corpos Que se amam no jardim: Jardim do Espírito, Jesus de Nazaré, Que se fez pão e vinho, Corpo distribuído Para mais amor: Semente do universo-jardim, Corpo de Deus, Cristo,

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Nós. Eu. (ALVES, Rubem. Creio na ressurreição do corpo. Meditações. Rio de Janeiro: CEDI, 1982) Oração: Senhor da vida, dá-nos a capacidade de crer e experimentar a ressurreição no cotidiano de nossas vidas. Dá-nos a alegria do salmista, que em sua conversão a Javé expressa toda a sua alegria por esse dom maravilhoso de uma nova vida. Dá-nos que creiamos com plena confiança na ressurreição de Jesus Cristo, que é a garantia de nossa própria ressurreição. Tu tens o poder sobre todas as coisas, inclusive o poder sobre a morte. Que a nossa confissão de fé expresse essa certeza e nos dê a confiança para acreditar em um mundo cheio da Tua graça e de todo o Teu amor. Amém!

Bibliografia SCHÖKEL, Luís Alonso; CARNITI, Cecília. Salmos I (1-72). São Paulo: Paulus, 1996. WEISER, Artur. Os Salmos. São Paulo: Paulus, 1994.

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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 5.12-15

DIA DO TRABALHO

MATEUS 20.1-16 2 TESSALONICENSES 3.6-13

01 MAI 2014

Geraldo Graf

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Introdução

Deuteronômio 5.12-15 será pregado no Dia do Trabalho. Sua mensagem será anunciada no contexto da pós-modernidade, do capitalismo selvagem e devorador, que se caracteriza, por um lado, por um individualismo crescentemente intenso e um consumismo desenfreado e, por outro, por um sofrimento cada vez mais agudo e uma exploração predatória da força de trabalho das classes operárias e pelo esgotamento da força da terra. Ao pregar sobre o texto bíblico, não se pode fugir dessa análise e constatação, pois os mandamentos, em especial o terceiro, surgiram da relação entre trabalho e descanso a partir da libertação da escravidão no Egito e do contexto do trabalho e do uso da terra. Fugir disso é blindar o texto e sua consequente mensagem no moralismo e na discussão estéril sobre o dia mais apropriado para o descanso. Anteriormente, a perícope foi desenvolvida no PL III pelo Dr. Milton Schwantes. Recomendamos a leitura de sua contribuição (www.luteranos.com.br/conteudo.php?idConteudo=6892).

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Exegese

O livro de Deuteronômio (hebraico: Debarim – Palavras / Grego: Deuteronômio – a Lei pela segunda vez) marca o fim da transição entre o período de escravidão no Egito e o início da existência como uma nação independente na terra prometida. Mais do que uma repetição de leis anteriores, Deuteronômio é um testamento espiritual. Os livros anteriores relatam acontecimentos e fatos históricos, transmitindo a palavra de Deus ao povo tal como Moisés a recebeu. Em Deuteronômio, explicam-se, exemplificam-se e aplicam-se as leis, mostrando suas consequências práticas. Deuteronômio 5.12-15 reflete a situação de uma sociedade. Promovem-se maus-tratos à terra e violência às camadas mais pobres da população. O fato ocorre provavelmente nos séc. VIII-VII (antes do exílio babilônico). Por conta da destruição do Reino do Norte, Judá recebe migrantes procedentes do Norte. São fugitivos da desolação e destruição causadas pelos assírios. Esses israelitas servem de mão de obra não especializada em Judá. Devido a alguns arrendamentos, um grupo seleto dos mesmos garante maiores propriedades, desenvolvendo um sistema de sublocação para agricultores mais pobres. Com juros que chegam a 20% e até 40%, eles arrecadam muito dinheiro e, por conseguinte, acumulam mais direitos. Enriquecem principalmente pela estratégia, ora com anexações de propriedades dos devedores, ora por manipulação junto aos governantes. Em

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pouco tempo, acumulam propriedades e poder. Enquanto eles progridem e enriquecem, o resto da população sofre as dores da dominação. É nesse quadro que se situa o texto. Desenvolvimento e riqueza de poucos e pobreza e calamidade para muitos. Eles se beneficiam seja pelos produtos de suas propriedades, seja pelos acordos com os governantes e com os anciãos. No tribunal, os anciãos propõem que os proprietários de terras tenham uma atitude radical. Da forma como existe o ano sabático, eles instituem, além do ano de descanso, um dia da semana para que os animais descansem. Consequentemente, a terra também o fará. Não apenas anualmente, mas agora semanalmente. Os três verbos guardar, não fazer, lembrar apresentam entre si uma sequência. Inicialmente, destaca-se uma instrução, depois se propõe aquilo que não se faz pela instrução dada e, por fim, a lembrança do tempo de escravidão no Egito como sustentação da palavra. Isso mostra que o trabalho da confecção das leis não era tecido por simples representantes do povo, mas que tinham um refinamento jurista. Entretanto, como qualquer escrito feito por pessoas, a instrução não é isenta. Nela aparecem forças, pessoas e grupos que têm interesses. Dá-se sustentabilidade à classe dominante. Os anciãos do portão unem forças com os ocupantes da terra. Deuteronômio 5.12-15 encaixa-se nesse contexto. A questão do sábado – O judaísmo chegou ao consenso de guardar um dia em comum como dia do descanso: o shabbat – o sétimo dia no calendário judaico. Esse sempre coincidia com a mudança da fase lunar. O positivo nessa determinação de uma data fixa era que todas as pessoas – a criação inteira – descansassem no mesmo dia, juntas. Deuteronômio 5.12-15 garante isso como uma liberdade concedida por Deus na própria criação do mundo e reiterada na concessão das tábuas da Lei. No ano 321 depois de Cristo, o imperador Constantino instituiu o domingo como dia do descanso no Império Romano. O domingo – Dia do Senhor – já era celebrado pelos cristãos como dia da ressurreição do Senhor Jesus Cristo (a nova criação). Além disso, o domingo – dia de santificação – já vinha se firmando como tal entre os cristãos desde o ano 80 a.D., quando as sinagogas judaicas proibiram a presença dos mesmos em suas celebrações no sábado. Proibiu-se o pronunciamento do nome de Jesus Cristo em tais celebrações. Entendeu-se que a troca do dia não transgredia o mandamento do descanso após seis dias de trabalho contínuo. É evidente que se resguardou o direito das pessoas de poder descansar juntas em família e em comunidade e que sobretudo o salário recebido por seis dias trabalhados fosse o suficiente para garantir o sustento da família nos sete dias e pudesse garantir uma vida digna e um descanso abençoado. Essa também deve ser a nossa motivação para santificar o domingo como dia de descanso. Uma discussão sobre o sábado e o domingo (ou mesmo a sexta-feira com os muçulmanos) precisa ser conduzida a partir da relação entre trabalho e descanso justos e não apenas a partir da data em si. Insistir cegamente no sábado desgarrado dessa relação é desviar do verdadeiro significado e contexto do mandamento. O dia de descanso é a coroação de uma semana plena e justa de trabalho: “E viu Deus que tudo era muito bom... então descansou no sétimo dia” (Gn 1.31;2.3).

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Direito ao descanso – O direito ao descanso é condição essencial para o exercício do direito ao trabalho. Descansar o corpo e a mente em períodos regulares faz com que o trabalho possa ser desenvolvido de maneira saudável, rentável e evita o adoecimento. Logo, falar em descanso legal é invocar diretamente o direito à saúde, que é um dos pilares de sustentação do direito à vida. A legislação brasileira assegura diversas modalidades de descanso, abaixo citadas: – intervalo intrajornada: é o descanso assegurado durante o período em que o trabalhador está cumprindo sua jornada de trabalho e visa ao descanso e à alimentação; – intervalo interjornada: é o intervalo mínimo a ser respeitado entre duas jornadas de trabalho, para que o trabalhador se afaste do local de trabalho, retorne à residência e possa cumprir a necessidade biológica do sono. A CLT assegura no Artigo 66: Entre duas jornadas de trabalho haverá um período mínimo de onze horas consecutivas para descanso; – repouso semanal remunerado: é a garantia de um dia de descanso na semana como pausa para que o trabalhador possa cuidar dos afazeres de sua vida pessoal, religiosa e familiar. O Artigo 67 afirma: Será assegurado a todo empregado um descanso semanal de vinte e quatro horas consecutivas, o qual, salvo motivo de conveniência pública ou necessidade imperiosa do serviço, deverá coincidir com o domingo, no todo ou em parte. – férias anuais: esse direito prestigia o descanso e o lazer por razões médicas, familiares e sociais.

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Meditação

O reconhecimento de que os Dez Mandamentos são um presente de Deus deixa-se perceber no mandamento do dia do descanso, o shabbat, pois já em sua forma o mandamento difere dos outros – não há uma proibição, mas uma afirmação no meio de uma porção de mandamentos com negativas. Esse mandamento é música para os nossos ouvidos. Não é uma tarefa difícil para cumprir ou exigência pesarosa a ser atendida. O sentimento é de estarmos recebendo um presente. Quem de nós não gosta de uma folga, de um feriado, de merecidas férias? Quem não se sente bem quando, depois de uma cansativa jornada, pode jogar tudo para o alto pelo menos uma vez por semana? Aquilo que atende às nossas necessidades não pode ser entendido como um “mandamento”, mas como um presente, uma dádiva. O descanso é um direito que nos é concedido. Porém, apesar de ser um mandamento que atende as nossas necessidades físicas e mentais, que só quer o nosso bem, ele é transgredido e desrespeitado continuamente. O mandamento não limita a nossa liberdade; pelo contrário, promove e preserva a nossa liberdade. “Você trabalhará seis dias e fará todo o seu serviço. Porém, no sétimo, você descansará.” No sétimo dia, você pode interromper o seu trabalho porque seis dias devem ser suficientes para garantir o sustento de sete dias para a família. No sétimo dia, você pode descansar e desfrutar dos resultados de seu trabalho. O sétimo dia pertence a Deus – ele o concede como

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presente a você para que você possa descansar nele. Por isso você corresponde a esse presente santificando o dia de descanso (texto de Lutero). Que esse mandamento é uma dádiva nós podemos deduzir ao analisar como o trabalho consome nossa vida. Embora a nossa jornada de trabalho esteja regulamentada pelas leis trabalhistas, a necessidade de trabalhar cada vez mais se avoluma e o descanso cada vez mais perde em qualidade. Fazemos hora extra, dupla jornada, bicos e trabalhamos no final de semana... Tudo isso para juntar o suficiente para atender nossas necessidades e poder pagar as contas no final do mês ou para satisfazer nossa ganância. Sentimo-nos cada vez mais limitados em nossa liberdade. O mercado gostaria que nós trabalhássemos 18 horas por dia durante os sete dias da semana, tal como era no Egito dos tempos de Moisés. Porém Deus diz através do mandamento: Você tem direito ao descanso semanal. É seu merecimento por ter trabalhado seis dias. Eu, o Senhor, asseguro-lhe esse direito. Cada qual percebe como o trabalho pode consumir sua saúde e sua vida. Por isso o mandamento de trabalhar seis dias e descansar no sétimo é uma libertação. O dia do descanso existe para proteger nossa saúde, nossa liberdade, nossa vida. O dia do descanso remete à criação. Pois fomos criados à imagem de Deus e, por isso, destinados à liberdade. Faz parte da essência de nossa vida ser livres e conduzir a vida em liberdade responsável. O dia do descanso é a grande criação de Deus – é ele quem nos concede o direito ao descanso. Porque Deus descansou, nós também podemos descansar e renovar nossas forças. O mundo inteiro e cada obra de nossas mãos necessitam após o trabalho de uma fase de descanso para ser completada. Cada obra só se torna completa e plena após o devido repouso. Porém descanso não significa atirar-se nas cordas e fazer nada. Trata-se de garantir o espaço para poder fazer aquilo que é impedido pelo sufoco e pelos compromissos diários; poder fazer o que é prazeroso (o ser humano não vive só de pão); no dia do descanso, poder apreciar e experimentar tudo aquilo que Deus criou muito bem. Não podemos ignorar que, para nós podermos descansar, outros precisam trabalhar no dia de nosso descanso: médicos, motoristas, garçons, policiais, empregadas domésticas e todos os demais plantonistas. Precisamos defender o direito ao descanso comum para a maioria das pessoas. Para tanto, o comércio não precisa abrir no dia do descanso. Todos nós necessitamos de um dia em comum, de um tempo com nossa família, com a comunidade, com os amigos. Nós necessitamos de um ritmo, de uma dinâmica de trabalho, descanso e lazer que permitam estabelecer contatos em nosso tempo livre, para poder encontrar pessoas, libertados da necessidade de trabalhar ou de exigir o trabalho dos outros. Quando os dias de descanso não mais coincidem, quando não conseguimos mais nos encontrar com família e comunidade, então a vida se torna uma escravidão. Por isso, ao usufruirmos da nossa liberdade de descanso, cuidemos para não impedir outros do sagrado direito de descanso e de curtir família, comunidade e contatos sociais. O ritmo de seis dias de trabalho e um de descanso assegura a toda a sociedade e à criação como um todo o direito à liberdade. A liberdade

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torna-se plena se cada um respeitá-la e compartilhá-la responsavelmente com as outras pessoas, sem se sentir escravizado nem escravizar os outros. O mandamento deseja garantir e resguardar a nossa liberdade. A liberdade somente será plena se garantir o direito das outras pessoas a um trabalho dignificado e valorizado e ao descanso merecido.

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Indicações para a prédica

Retomar o aspecto da liberdade concedida por Deus como dádiva – através do mandamento, o descanso é um direito assegurado por Deus. Apontar para a necessidade de condições justas de trabalho e de descanso – a relação entre trabalho e descanso precisa ser justa. Apontar para a necessidade e o direito do descanso em conjunto – família, comunidade, incluindo o lazer. Apontar para a gratidão pela dádiva divina do descanso – Martim Lutero interpretou assim: Santificarás o dia do descanso. 4.1 – Ilustrações para a prédica Na época própria, pesquisar a relação trabalho-salário em sua região. Como estará a situação das empregadas domésticas em 2014? Ao escrever esta reflexão, acompanho a implantação da legislação que garante o descanso semanal às empregadas domésticas. Há mais de 20 anos, quando se legislou sobre os trabalhadores rurais, a consequência foi o desemprego, o êxodo para as periferias urbanas e o surgimento dos boias-frias. As empregadas domésticas terão seus direitos assegurados ou serão mais uma classe desempregada? Em 2014, o pregador terá em mãos dados mais concretos. Uma ilustração pode retratar uma situação familiar urbana: A família X trabalha na mesma fábrica. O trabalho acontece em escalas: 06 às 14 horas; 14 às 22 horas; 22 às 06 horas, com direito a uma folga semanal em dias alternados. Assim, a família nunca se encontra. Férias coletivas só entre Natal e Ano Novo. Férias individuais, somente em meses diferentes. Nos cultos dominicais, apenas um familiar presente. Tensões e conflitos afloram na vida familiar. O dono da fábrica ausenta-se por períodos longos para participar de torneios de golfe no Caribe, de cruzeiros nas ilhas gregas...

Bibliografia ALMEIDA, Fábio Py Murta de. Coisas de Criança: uma leitura do terceiro mandamento. In: Revista de Cultura Teológica n. 55. São Paulo: Paulinas, 2006. FELMBERG, Bernhard. Predigt zu Exodus 20.8-11. Goettinger Predigten im Internet. Disponível em: <www.predigten.uni-goettingen.de>. Data: 20.05.2012.

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PRÉDICA: LUCAS 24.13-35

3º DOMINGO DA PÁSCOA 04 MAI 2014

SALMO 116.1-4,12-19 1 PEDRO 1.17-23

Renato Künzer

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Introdução

O texto de Lucas 24.13-35 foi utilizado, em outros momentos, para o 3º Domingo da Páscoa, denominado em outro calendário litúrgico de Misericordias Domini. A misericórdia de Deus está presente na vida dos discípulos e da comunidade de seus seguidores. O Salmo 116.1-4 destaca essa misericórdia de Deus, que se manifesta quando Ele ouve o ser humano aflito e apavorado, clamando por socorro. A misericórdia de Deus está tão próxima, que é possível chamá-lo de Pai. Assim inicia o texto da leitura de 1 Pedro 1.17-23, que aponta a razão dessa proximidade: por meio de Cristo vocês creem em Deus, que o ressuscitou. Assim, a fé e a esperança estão firmadas na misericórdia de Deus. Os textos deste domingo chamam ao discipulado, orientando-nos a partir da misericórdia de Deus a reconhecer o crucificado como o ressuscitado e como Senhor e Messias.

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Exegese

O texto do evangelho apresenta-se como um relato imediato à ressurreição de Jesus (“nesse mesmo dia”). Faz parte do contexto maior das aparições de Jesus no terceiro evangelho (Lc 24.12-53), que contém material especial e exclusivo de Lucas. Quando se comparam as aparições pascais de Jesus, percebe-se que elas possuem traços em comum: Jesus aparece a pessoas ou grupos de pessoas; os textos localizam as aparições; as aparições têm função apologética. Após a notícia dada por Maria Madalena, desencadeia-se uma série de acontecimentos e sentimentos. “As mulheres nos espantaram”, dizem os discípulos de Emaús (Lc 24.22). Os acontecimentos prévios que desencadeiam os fatos destacam também uma narrativa breve e sóbria que envolve Pedro: ele corre até o túmulo e, vendo apenas os lençóis, volta para casa, não sabendo como explicar tudo aquilo (Lc 24.12). A isso se segue o nosso texto. O texto de Lucas 24.13-35 pode ser estruturado assim: A1 Os dois partem de Jerusalém a caminho de Emaús (v. 13-14) B1 Jesus aproxima-se e caminha com eles (v. 15) C1 Eles não reconhecem Jesus (v. 16) C2 Eles reconhecem Jesus (v. 31a) B2 Jesus desaparece (v. 31b) A2 Os dois retornam de Emaús a Jerusalém

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No centro do texto estão a conversa entre Jesus e os discípulos (v. 17-27) e a comunhão de mesa entre eles (v. 28-30). Faz parte da tradição das aparições que elas ocorram ora a um, ora a dois ou a um grupo de discípulos e seguidores. Os dois a quem Jesus aparece em nosso texto fazem parte de um grupo maior de discípulos ou seguidores, visto que, ao retornar a Jerusalém, eles vão encontrar-se com os onze discípulos. Que a aparição de Jesus se dê a caminho de Emaús e que ele seja reconhecido numa casa fora de Jerusalém, isso também faz parte da tradição. No mesmo dia da ressurreição, enquanto o grupo dos discípulos permanece em Jerusalém, os dois a caminho de Emaús recebem a companhia de Jesus. Por que o ressuscitado aparece no caminho de Emaús e não em Jerusalém e a dois de seus seguidores e não ao grupo dos onze? Desconfio que uma boa-nova necessita novamente vir de fora de Jerusalém, a partir de uma casa numa aldeia insignificante, que até hoje não se sabe onde exatamente se localizava. Os dois discípulos (talvez um discípulo e uma discípula: Cléopas e sua esposa, Maria, conforme João 19.25), conversavam (homilein) e discutiam (syzetein) no caminho para Emaús a respeito de tudo o que havia acontecido, quando o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles (syneporeueto). Jesus juntou-se aos dois e os acompanhou. Os dois estavam como que cegos e não reconheceram Jesus (v. 16). O que os impediu de reconhecer Jesus? Há uma indicação na sequência do texto, quando os discípulos afirmam que esperavam que “fosse ele o libertador de Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que tudo isso aconteceu” (v. 21). Isso talvez indique que eles discutiam no caminho sobre o modelo messiânico de Jesus, que frustrou as expectativas do povo e suas próprias expectativas. A falta de sintonia entre as expectativas do povo/dos discípulos/da comunidade lucana e o modelo messiânico de Jesus ainda continua provocando cegueira. Eles até conhecem a trajetória de Jesus. Mas estão presos a uma imagem de Cristo que não está de acordo com Jesus. Falsas expectativas em relação ao Cristo não permitem reconhecê-lo. O texto segue descrevendo uma situação um tanto irônica. Os dois repreendem Jesus por ele não saber (ginosko) o que ocorrera naqueles últimos dias. Ao relatar a Jesus o que conversavam pelo caminho, a intenção é fazer também a comunidade rememorar os acontecimentos (v. 18-24). Esses acontecimentos são o assunto da conversa. E se aqui se retorna à falta de visão ou ao fato de não terem reconhecido (epiginosko, v. 16) o Jesus ressuscitado, isso envolve também a compreensão dos fatos passados (v. 19b-34). Eles até compreendem que “Jesus de Nazaré foi profeta poderoso em ação e palavras diante de Deus e de todo o povo” (v. 19) e por isso estava sujeito a passar por rejeição, perseguição e morte, assim como ocorreu com Jesus. Mas a sequência mostra que haviam perdido toda a esperança. O uso do imperfeito (esperávamos/elpizomen) indica que a esperança era coisa do passado. O clima é de tristeza e frustração. O fato de as mulheres terem ido ao túmulo e não terem encontrado o corpo é interpretado como “susto” (v. 22). Elas disseram que Jesus estava vivo, “mas ninguém viu Jesus” (v. 24). Jesus ouve a conversa enquanto caminha com os dois discípulos. Concluídos os relatos, Jesus repreende-os por sua cegueira e sua demora em compreender

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os fatos. Em seguida, começa a interpretar as Escrituras (v. 27). Mais tarde, os discípulos vão reconhecer que isso até fez o coração arder (v. 32), mas naquele momento do ensino não provocou a mudança necessária. A esperança já tinha ido, apesar do anúncio de que Jesus havia ressuscitado e que estava vivo. O Jesus ali presente, que caminha a seu lado e ensina-lhes as Escrituras, não restaura a esperança, pois eles não sabem quem ele é. Não o reconhecem também agora, porque não o entenderam em vida. Por ocasião da refeição na casa dos discípulos, que o haviam convidado a se hospedar com eles, finalmente os olhos se abrem (v. 31), possibilitando que eles consigam reconhecer (epiginosko) o Jesus ressuscitado. Jesus, o hóspede, tornou-se protagonista da mesma ação que havia realizado duas vezes antes no Evangelho de Lucas (9.16 e 22.19). O gesto de sentar à mesa, tomar o pão, abençoá-lo e depois parti-lo para dar a eles revelou a presença do Jesus ressuscitado. Os olhos dos discípulos abriram-se, ou seja, eles reconheceram Jesus. Ele, porém, desapareceu diante deles. Aquele momento do partir do pão, gesto próprio de partilha, de comunhão, abriu os olhos dos discípulos, de modo que reconheceram o ressuscitado. Jesus estava vivo. A novidade fê-los retornar a Jerusalém para contar aos outros como eles tinham reconhecido Jesus quando ele partira o pão.

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Meditação

Temos em Lucas 24.13-35 um texto especial, que faz parte do material exclusivo de Lucas. Mesmo que não se encontre em nenhum outro evangelho, o texto é muito conhecido e utilizado nas reflexões sobre a presença de Jesus como ressurreto. Ao relatar uma das aparições de Jesus, Lucas fá-lo de maneira que possa relacioná-lo com a vida e os desafios experimentados por sua própria comunidade. Por quê? Porque o relaciona ao seguimento e ao discipulado de Jesus. O texto relata a experiência de um casal de discípulos que atende ao chamado radical e integral de seguimento (cf. Lc 9.23-27). Mais do que fiéis de uma determinada igreja ou movimento religioso cristão, é preciso que haja discípulos, seguidores de Jesus Cristo e testemunhas de sua boa-nova. O texto diz que Jesus participa da caminhada. Ele vê a situação das comunidades, assim como viu a situação dos dois discípulos. Ele também ouve a sua forma de ver as coisas que aconteceram. O texto ressalta tanto o cotidiano da comunidade (caminhada, ensino das Escrituras, o partir do pão), que a aparição acaba tendo um aspecto secundário. Importante é considerar que, mesmo em tempo de cegueira, quando a comunidade não é capaz de associar a causa de Jesus com a realidade de vida, Ele caminha junto. Jesus vê. Jesus vê bem a tristeza, a decepção e o desânimo de suas comunidades. Jesus ouve os seus lamentos, as suas falsas esperanças e a sua total perda de esperança em relação ao futuro. E infelizmente já não caminhamos. A maioria está numa correria louca. Uns para sobreviver institucionalmente e manter a sua boa tradição e costumes como prestadores de serviços religiosos. Outros para poder continuar competindo num mercado religioso cada vez mais aguçado e sedutor, vendendo o produto da

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salvação individual sem qualquer compromisso comunitário e coletivo. Nisso está visível a cegueira. O texto assegura que Jesus está presente no ensino das Escrituras e do evangelho da vida. Jesus conhece a lentidão para entender e a demora para acreditar em tudo o que as Escrituras falaram. Por isso intervém para ensinar as Escrituras. Está presente nos gestos que recuperam a memória nele e ajudam a dar um novo sentido à vida da comunidade a partir da leitura e do ensino das Escrituras. E quanta diversidade de leituras existe! Diferentes chaves de interpretação afastam e separam pessoas, fazem diferentes grupos e movimentos cristãos se odiarem. Provocam a formação de grupos fechados e chegam ao cúmulo da segregação do diferente. Quanto coração há que se esquenta por pouco ou por nada! Há corações superaquecidos por interesses pessoais. A cegueira em relação à causa de Jesus está cada vez mais evidente. Lá como aqui, há muito pesar com tudo o que aconteceu a Jesus. Mas há um problema: lá como aqui, as comunidades estão ligadas em sua mentalidade, as mesmas situações que não permitiram que os discípulos e a comunidade reconhecessem o Jesus ressuscitado. “Nós esperávamos que fosse ele...” Desse ponto de vista, não é possível perceber Jesus caminhando junto. Desse ponto de vista, não é possível crer no testemunho das Escrituras e tampouco no testemunho de irmãos e irmãs. Hoje também lemos os fatos de maneira que parece não haver mais jeito: tudo parece terminado e definido. Nessas circunstâncias, Jesus dispõe-se a caminhar junto conosco, ouvir, ler e ensinar as Escrituras para olhar a vida com outra perspectiva que não a do poder. Ele nos ajuda a reler as Escrituras, reinterpretar os fatos com outro olhar, ajuda a entender o nosso caminho, assim como o caminho de Jesus, o Cristo, sua vida, morte e ressurreição. Se no ambiente da comunidade a Escritura tem importância no ensino, na liturgia e nas celebrações, o que um texto como esses está querendo dizer a ela? Finalmente, o texto lembra-nos que Jesus partilha o pão. Não só palavras. Não só reflexões. É necessário algo mais. Mais palpável. O importante é partir o pão. A partilha é decisiva e essencial. Esse gesto de Jesus a comunidade é desafiada a repetir sempre. As outras coisas (caminhada, ensino) fazem no máximo o coração arder, mas a partilha faz ver. A partilha como gesto cheio de sentido e de exigências. Sem dúvida, a comunidade necessita da leitura das Escrituras, de sua interpretação e mensagem atual (evangelização). Com certeza, a comunidade, a partir dessa evangelização, experimenta a comunhão. E é a partir dessas duas experiências em Cristo que a comunidade vai abrir seus olhos à experiência da partilha. Vai conseguir olhar para além de si própria, de suas preocupações, para dentro do mundo e da sociedade. Ela se torna diaconal. Ela vai ao encontro de seu serviço. Se antes caminhava lentamente e sem perspectiva de futuro, agora ela volta com vigor e animada para a sua tarefa (Lc 9.23-27).

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Imagem para a prédica

A presença do Jesus ressuscitado ao redor daquela mesa com Cléopas e sua esposa Maria foi uma experiência tão forte e marcante, que não era mais possível

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negá-la, voltar atrás. Cabia a eles continuarem o que Jesus havia iniciado. O caminho que havia sido animado pela palavra concretizara-se pela experiência da partilha do pão. Essa experiência do partir do pão exercitamos em comunidade na Santa Ceia. Mas que não seja uma vivência restrita a um momento litúrgico e celebrativo do culto cristão, mas sim uma conduta da comunidade para dentro da realidade que a cerca. Agora, concretamente em termos de caminhada comunitária ou pessoal, nossas agendas estão cheias de atividades. Há uma diversidade de atividades que tomam o nosso tempo. Já não caminhamos mais. Antes corremos para dar conta daquilo que estabelecemos como prioridade. A ciência explica que o nosso campo de visão, a visão periférica, é de 165 graus. Quando uma pessoa se movimenta a uma velocidade de 40 quilômetros horários, essa visão é reduzida para 90 graus. Numa velocidade maior, entre 80 e 100 quilômetros por hora, a visão é de 40 graus. Próximo aos 200 quilômetros horários, a visão é tão somente de 7 graus. Ou seja, quanto mais se corre, menor é o alcance da visão humana. Nossa presença não depende da velocidade com que fazemos as coisas, mas da frequência com que experimentamos o partir do pão. Comunidade evangelizada convive em comunhão e exercita a partilha para dentro do mundo. De forma breve, mas clara, deixemo-nos animar por um pequeno poema: Se não houver caminho que nos leve, Nossas mãos o abrirão. E haverá lugar para as crianças, Para a vida e para a verdade. E esse lugar será de todos Na justiça e na liberdade. Se alguém se anima, avise-me: Seremos dois a começar... (Dom Pedro Casaldáliga.)

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Subsídios litúrgicos

Oração: Cristo Jesus, tu estás vivo. A morte não te manteve sob o seu poder. O anúncio desta notícia surpreendente nos emociona. Abre-se uma brecha onde tudo parecia fechado. Em teu Espírito sopras sobre nossa resignação e nossas amarguras. Tu derrubas a separação entre os seres humanos. Aos mais pobres devolves a dignidade. Tu nos envias ao mundo como portadores de uma nova vida. Amém. (Oração do Irmão Alois, da Comunidade de Taizé)

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Intercessão: Por todos nós aqui reunidos, para que permaneçamos atentos àqueles que nos são confiados, oremos ao Senhor. Para que sejamos livres de toda angústia, oremos ao Senhor. Para que aprendamos a partilhar melhor os bens da terra entre todos, oremos ao Senhor. Pelos que estão longe de suas casas, pelos emigrantes, pelos exilados, pelas vítimas da opressão, oremos ao Senhor. Pelos que passam por provações, que precisam de ajuda e de misericórdia, oremos ao Senhor. Senhor, pedimos-te que se renove em nós o espanto perante a tua criação. Para que encontremos luz e coragem no mistério de comunhão que é a igreja, oremos ao Senhor. Amém.

Bibliografia JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulinas, 1977. VASCONCELLOS, Pedro Lima. A boa notícia segundo a comunidade de Lucas. São Leopoldo: CEBI, 1998.

4º DOMINGO DA PÁSCOA MARCOS 7.5-13 LUCAS 15.8-10 2 TIMÓTEO 1.3-5

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PRÉDICA: ATOS 7.55-60

5º DOMINGO DA PÁSCOA 18 MAI 2014

SALMO 31.1-5,15-16 JOÃO 14.1-14

Antonio Carlos Ribeiro

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Introdução

O conflito entre “conservadores” e “liberais” é uma disputa básica da existência humana e uma marca agudizada em nosso tempo. Em linhas gerais, o conflito acontece por causa das divergências entre as pessoas e de sua compreensão da realidade, com as mudanças que esse processo provoca. Diante de um impasse de natureza conceitual, que exige muita reflexão e análise para que as decisões não sejam açodadas, é possível perceber quem, diante do novo, prefere agarrar-se ao que está dado e os que ousam avançar na clareza de que o que está aí não satisfaz, mesmo sem ter claros os caminhos à frente. O Salmo 31 mostra os riscos que vivemos nas relações pessoais, seja no encontro com pessoas que nos trazem grande contribuição espiritual, afetiva e profissional ou com as demais. Aqui o salmista pede que Deus o ajude a manter constante comunhão com Ele, a discernir para confiar e a ser sensível para amar. João 14 ensina-nos a buscar comunhão, redescobrir a amizade e a confiança após os grandes choques e sob o efeito das grandes perdas. Mais do que isso, a recuperar todo o sentido da comunhão a partir do amor, que identificamos com o próprio Deus. E se a formulação “Deus é amor” nos parecer impessoal, ousemos usá-la na forma verbal: Deus é amar. Esse é um tempo de confrontos e resistências, de estudos, de debates e, invariavelmente, de sofrimentos. Nesse processo, o tempo costuma ser inimigo de quem se agarra ao passado, ancora as dores atuais nas antigas e sofre com as velhas mágoas e aquelas que surgem para reforçá-las. E tende a ser aliado de quem se arrisca em direção ao futuro, vale-se do passado para travar diálogos frutíferos com o presente, isola as mágoas – sem precisar visitá-las e nem desejar sua visita –, mantendo a dor em seu invólucro diário, como ensinou Jesus de Nazaré.

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Exegese

Nos anos 80 de nossa era, quando Lucas escreve o Evangelho e os Atos dos Apóstolos, era muito forte a disputa entre judeus e judeu-cristãos e, nesse grupo, entre os judeus ligados à tradição de Jerusalém (hebreus) e os judeus gregos (helenistas). Esses eram cristãos de língua e cultura gregas, residentes em Jerusalém, mesmo sendo originários da diáspora. A disputa desses grupos acontecia em torno da herança das promessas do Antigo Testamento e da observância da

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Lei – entre a teologia e a piedade – para conseguir estabelecer o grupo que era realmente fiel e que era o herdeiro das tradições. O grupo dos judeus helenistas tinha uma atuação profética, um discurso crítico em relação à Lei e ao Templo, usado como acusação contra Estevão e seu discurso diante do sinédrio. E mesmo com esses traços Lucas apresenta Estevão como cheio do Espírito, discípulo fiel a Jesus e que morre do mesmo modo como seu mestre. São dispersos na grande perseguição contra a igreja de Jerusalém e os que anunciam a salvação em todas as partes, como Filipe aos samaritanos e ao eunuco etíope (8.5-40) e até aos gregos (11.19-21), dando nova expressão ao movimento de Jesus, como dirigido pelo Espírito e com ação missionária. É desse mesmo grupo que surge a reclamação de que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário, diferente das viúvas dos hebreus. O texto inclui o sentido de que o crescimento do número de discípulos não dá condições aos apóstolos de atender a todos, levando-os a descuidar da palavra de Deus. Nesse contexto, Pedro propõe à assembleia que sejam escolhidos sete homens para servir às mesas, para que os discípulos se dediquem totalmente à palavra de Deus. No entanto, esse relato não convence, pois não se trata de um problema que envolve todas as viúvas, mas apenas as dos helenistas. Mais do que isso, os escolhidos são homens de boa fama, cheios do Espírito e de sabedoria. Eles integrarão a dinâmica do terceiro elemento a entrar no processo para alterar o ciclo do testemunho da fé, já no primeiro século, e que darão aos helenistas uma organização de grupo, que possibilitará sua afirmação diante dos conservadores. Os apóstolos impõem as mãos sobre os novos dirigentes, simbolizando a entrega do Espírito, para que eles compartilhem a missão de conduzir a igreja. Assim, ficam os doze em Jerusalém e os sete atuando com os pobres na diaconia diária, que se estende para o atendimento profético e missionário fora de Jerusalém. O problema não eram as mesas, mas a discriminação contra os pobres – vistos como pecadores, sem pureza étnica ou que perderam terras com uma colheita arrasada – pelos conservadores. Nem a falsa polaridade entre a diaconia e a pregação da Palavra. Até porque a diaconia foi, a um só tempo, a atividade que incluiu os helenistas e a que menos esses se dedicaram, aproveitando a “inserção” do serviço às mesas. No serviço diacônico das mesas, os helenistas projetaram-se para além dessa tarefa, chegando ao testemunho profético da Palavra. Esse fato deve ter ocorrido de forma progressiva, mas logo se tornou conhecido. A teologia que parte de um teologúmeno consistente é bem informada e aproveita oportunidades, sacode até estruturas religiosas aparentemente inamovíveis. O problema de fundo da discriminação dos helenistas, que Lucas tenta minimizar com o atendimento negado às viúvas, tem um traço em comum: a presença dos que são mantidos pobres num determinado contexto – como o cruel e desumano bloqueio econômico a Cuba –, sua capacidade de articulação e a qualidade do saber teológico promovido em seu interior. O contraponto a esse fato expressivo é a defesa dos apóstolos, reforçando o caráter étnico, político e religioso, feita por Gamaliel, que por causa do reconhecimento de que gozava no sinédrio acabou por reforçar o grupo dos hebreus em Jerusalém.

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Esse fato provocou o crescimento do número dos discípulos e a conversão de grande número de sacerdotes, criando certa marginalização dos helenistas, sem arredar uma palha em relação aos pobres. No ambiente conservador, em que se agarra firmemente a uma frase de efeito até que ela se torne realidade, reforça-se o aumento dos discípulos em Jerusalém e a conversão dos sacerdotes para assegurar a continuidade de Israel e a identidade dos hebreus. Já no mundo helenista, o parâmetro que permitiu o crescimento da palavra de Deus tem relação com a identidade do grupo dos helenistas. Foi a sua atuação que tornou possível a universalidade da missão, alcançando os samaritanos e os gentios.

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Meditação: Onde estão os jovens, os intelectuais, os negros luteranos?

Os primeiros diáconos são todos judeus helenistas. Essa constatação, além de impactante, mostra o processo de alternância e os conflitos por ele gerados no cristianismo primitivo desde os primórdios. Sua diversidade é a grande marca. E os que sofreram rejeição por causa da etnia, cultura e origem geográfica acabaram sendo os que mais profundas marcas deixaram. De Estêvão a Agostinho de Hipona, de Paulo a Lutero, do discípulo amado das comunidades joaninas da diáspora ao amor preferencial pelos pobres da teologia latino-americana, há uma linha tênue que liga os que sofreram grandes discriminações e por isso deram estupendas contribuições à universalização da fé cristã. Por causa da longa convivência com os pagãos nas grandes cidades do império, por morar fora da Palestina, por ter aprendido a fazer liturgia (celebração da Palavra) sem os sacrifícios do Templo e nas sinagogas da diáspora, ressignificando o culto do Templo para a observância da Lei, os judeus helenistas que se tornaram cristãos embasaram seu testemunho na caminhada com os pobres e não apenas ao registro histórico da etnia, dos pergaminhos, do culto, da arquitetura, da cultura e do cumprimento da Lei, mas atenderam os mais simples. Eles leram a Escritura para seu tempo, dialogaram com os diferentes, fortaleceram seu testemunho e inculturaram a fé em outros povos e culturas, numa palavra: entenderam o sentido de sua universalidade. Quando os centros de poder político e teológico, especialmente os amalgamados no trinômio religião-nação-cultura, afastaram os judeus helenistas da responsabilidade do testemunho “oficial”, sem o perceber, empurraram-nos ao serviço aos pobres, à missão aos que viviam nos pagus distantes – por isso chamados pagãos – e ao anúncio da fé desvinculada do império, que chega aos humanos sem as “cicatrizes” dos centros de poder. Isso firmou e projetou seu protagonismo histórico. O problema da discriminação dos helenistas não tem nada a ver com os servidores das mesas, mas com a capacidade desse grupo de se organizar e alcançar legitimidade. Por isso a proposta feita por Pedro de servir as mesas para liberar os apóstolos não dá conta da situação, é uma solução aparente. A causa profunda, negada permanentemente pelos que preservam a tradição e sofrem ao vê-la morrer – mesmo quando apenas se renovam –, é a discriminação dos judeus helenistas e a contínua negação a seu esforço de superação da situação.

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O discurso de Estêvão analisa o conjunto da situação, lembrando os 40 anos no deserto, a Tenda do Testemunho dos Nossos Pais e a Arca da Aliança no deserto, que era o símbolo da presença libertadora de Javé no meio do povo. Em torno dela surgiu o novo culto a Deus, diferente do culto dos ídolos nos templos do Egito. Essa arca foi levada para a Terra Prometida por Josué e assim foi conservada até os dias de Davi. O bem-elaborado discurso de Estêvão oferece argumentos para os cristãos distinguirem o essencial do circunstancial e orientarem-se no debate. Mas sua capacidade interpretativa gera um confronto com os hebreus. Se Salomão acabou com a tenda e fez um grandioso templo, isso é contraposto à frase de Isaías para condenar essa iniciativa de Salomão: O céu é o meu trono e a terra, o estrado dos meus pés! Que casa vocês vão poder construir para mim? Em outras palavras, a presença do Templo não é nenhuma garantia de que Deus, ele mesmo, esteja presente no meio do povo. Numa palavra, diante do novo paradigma, Estêvão desconstrói o anterior. Deve ter desagradado profundamente os seus ouvintes. E por isso seu fim se tornou iminente. Essa compreensão teológica, quando aplicada aos setores das igrejas mais identificados com o modelo europeu dos centros de poder teológico-pastoral, provoca a discussão nas hostes da falsa síntese: matriz biológica-etnia-cultura, especialmente quando misturada à religião e afirmada como a melhor. O antídoto da própria casa surge da teologia de Brakemeier, pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, “escaldado” no aprendizado de presidente da Federação Luterana Mundial. Ao refletir sobre a profunda experiência pastoral de pontífice (construtor de pontes), haurida na difícil tarefa de contemplar e costurar as diversas pontas da ampla rede de tradições luteranas espalhadas pelo mundo, Brakemeier bradou a urgência de “romper as cercas que a comunidade evangélica ergueu em torno de si. Se é verdade que a graça de Deus fundamenta a comunidade, por que há tantos entraves para a filiação de gente que não comunga a mesma origem étnica, a mesma classe social, o mesmo nível cultural? A padronização do ‘estilo de vida’ de uma comunidade redunda em exclusão das pessoas que nela não se sentem em casa nem encontram espaço. Onde estão, por exemplo, os jovens, os intelectuais, os negros luteranos? A comunidade evangélica precisa arriscar variedade, abrir suas portas e convidar à participação. Caso contrário, seus templos acabarão vazios, e o pequeno grupo que sobrar estará ameaçado de submergir em absoluta inexpressividade” (BRAKEMEIER, G. Um novo modo de ser IECLB? Estudos Teológicos, 1994/34 [3], p. 58). Apesar dos esforços, ousou dar esse passo e estabeleceu um marco de sua passagem pela presidência da igreja luterana brasileira e da comunhão luterana mundial. Não ter dado ouvidos suficientemente a esse clamor tem custado à IECLB um alto preço.

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Imagens para a prédica

Uma experiência da atividade jornalística que provocou profundo impacto em minha confessionalidade luterana – por não ter nascido numa família luterana nem ser de ascendência alemã e ter formação teológica eclética (batista, luterana e católica) e ter insistido em amar a igreja que escolhi, até quando discordava – teve lugar numa reunião do Conselho da Federação Luterana Mundial na cidade de Wittenberg em 2002. Numa recepção na Alt Rathaus (Prefeitura Antiga) no dia 10 de setembro, fiquei impressionado com a alocução do prefeito Eckhard Naumann, falando em nome da cidade onde Lutero fixou suas 95 teses na porta da Schlosskirche (Igreja do Palácio) e onde estão enterrados seus restos mortais. Ele disse que a presença luterana ali era “como voltar para casa”, observando que aquela era a primeira reunião da Federação Luterana Mundial (FLM) realizada em Wittenberg, sem esquecer que essa estava no lado oriental da Alemanha quando a FLM foi fundada em 1947. Observou ainda que muitos dos sítios históricos e monumentos da Reforma e do próprio Lutero estão nessa cidade, muito mais acessíveis ao mundo a partir da queda do muro de Berlim. E enfatizou: “Wittenberg tem tido um trabalho duro para manter o patrimônio memorial herdado de Lutero, mas a verdadeira herança de Lutero é seu espírito. E vocês têm mantido isso”, disse aos luteranos representantes das igrejas-membro da FLM. Ao ouvir isso, perguntei-me: Temos nós mantido o espírito do Reformador como herança?

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Amada comunidade! Neste tempo comum, confiados na força do Espírito que gera a igreja – como confessamos no terceiro artigo do Credo Apostólico –, perguntamo-nos: como corresponder (cor + res + pondere = colocar coisas no coração) ao Deus que nos confiou esse mandato? Como ler o conjunto da realidade à nossa volta e entender os sinais dos tempos? Como ser comunidade que ausculta seu tempo para anunciar a salvação? E o texto da pregação de hoje desperta nossa atenção para a periferia da fé. Dos diferentes que se agregam à caminhada e desejam ser iguais em valor. Dos que propõem novidades e alternativas ao trabalho em andamento. Dos que trazem novas “leituras” do evangelho e de diálogo com o mundo. Ao saber que não temos tudo, perdemos o medo de que algo seja tirado de nós. Ao saber que os que se aproximam sempre trazem algo, dispomo-nos a ver, entender e comungar novos prazeres e intenções. Sem perder de vista o Cristo que é nosso centro, cujo amor se torna o critério último de nossas decisões.

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Confissão e lamento pelos pecados: Ajuda-nos, Deus, a viver como jovens enamorados que se cansaram de reparar apenas na própria beleza. Ajuda-nos a estabelecer contato com pessoas a quem desejamos amar e não esperar ser chamados por ter o que julgamos ser único e exclusivo. Anima-nos a viver a comunidade de fé com uma rara oportunidade de amar. E enquanto ainda tivermos dificuldades para viver desse modo, pedimos-te: Tem piedade de nós, Senhor! Oração do dia: Chegamos à tua presença como seres que se descobrem espiritualmente interdependentes. Ajuda-nos a buscar a comunhão com os demais, assim como buscamos a comunhão contigo. Aproxima-nos para que sejamos como uma rede, que só se mantém por causa das interligações, com um equilíbrio que nos exige cuidados, conosco e com todas as teias da rede. E ajuda-nos a viver e testemunhar nesse novo espaço de contiguidades. Na tua esperança, pedimos. Amém!

Bibliografia MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Atos dos Apóstolos; círculos bíblicos. São Paulo: CEBI, Paulus, 2002. RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999.

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PRÉDICA: 1 PEDRO 3.13-22

6º DOMINGO DA PÁSCOA 25 MAI 2014

SALMO 66.8-20 JOÃO 14.15-21

Teobaldo Witter

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Introdução

Escrevo este texto em maio de 2013. É Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Aqui em Cuiabá/MT, todas as noites há alguma celebração na comunidade cristã. Coisa rara, pois isso acontece só uma vez por ano. Em todas as partes do Brasil, especialmente nas sedes da copa da FIFA, há muita propaganda, muito barulho, muito movimento por causa da copa das confederações que se aproxima. Tem gente a favor e tem gente contra. E gritos e movimentos por todos os lados, inclusive com posições opostas e concorrentes caminhando lado a lado nos movimentos de praças e de ruas. Tem gente de outras regiões do Brasil que vem à procura de trabalho. Dizem que o Brasil, em especial Cuiabá, é terra de oportunidades. Vem gente da Bolívia e do Haiti, entre outros. Em cinco meses de 2013, mais de 500 pessoas do Haiti vieram à procura de trabalho. O Centro de Pastoral para Migrantes está com a lotação em dobro de sua capacidade. Tem gente dormindo em corredores, em redes, nos pátios. Todos os haitianos são refugiados de catástrofes naturais em seus países de origem. Estamos mobilizando sociedade e Estado para a prática do amor solidário. Certamente neste mês de maio de 2014, há muitas manifestações nas ruas e nos estádios de futebol no Brasil. Tem ganhadores e tem perdedores nos estádios, nas ruas e na vida cotidiana. Tem vítimas. E isso deixa os cristãos inquietos. Tem sofrimento. E agora? A pregação não pode ignorar este mundo da vida da cidade e do campo. Mas os gritos e os clamores das praças e ruas são ouvidos por alguém? O sofrimento humano e ambiental é um dos temas centrais das vozes das praças e das ruas. O que dizem os textos bíblicos neste contexto da dor, da vida e da morte? Quanto aos textos bíblicos indicados para este domingo, o salmo fala de gratidão. De cara inicia dizendo: “Bendizei o nosso Deus”. Parece tudo fácil, mas não é. Precisamos passar um rastelo no texto e verificar o que o salmista diz nas linhas e nas entrelinhas. Penetrando em suas entranhas, o texto revela “pés que resvalam, corpos que caem em armadilhas, passam por fogo e água, boca que clama, coração vaidoso, vítimas e holocaustos”. Como se pode dizer: “Bendizei o nosso Deus”? Sim, pode louvar Deus, porque ele ouve e atende súplicas. Eis a razão do louvor. Deus é fonte de vida e salvação. Deus ouve e atende. João 14.15-21 fala de órfãos, de sofredores, de separação, de morte e da promessa da manifestação de Jesus e da presença consoladora do Espírito da verdade, o Espírito Santo. Jesus criou vínculos com seus amigos e amigas. São

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vínculos fortes da Palavra e da ação de Jesus. Ou da Palavra que é ação. São vínculos afetivos (como projetos de vida) e vínculos racionais que buscam “culto racional” nas palavras do apóstolo Paulo. Não é “oba-oba” que Jesus fez e faz em favor do outro e da outra. É amizade e vida. É amor encarnado na vida de sofredores e sofredoras. E é justamente esse amor vivo e eficaz, materializado na perpetuação do vínculo afetivo e racional divino. “O outro consolador que meu pai enviar, esse ficará para sempre com vocês”, diz Jesus a seus amigos e amigas aflitas. Portanto “continuem a vida no meu amor”. Segundo 1 Pedro 3.13-22, “façam o bem, pratiquem a justiça, embora sofrimentos estejam vindo sobre vocês”. Pedro retrata em sua carta a situação de comunidades que vivem hostilidades da sociedade marcada pela maldade, pela injustiça, pela corrupção. Vivem situações conflituosas como povo forasteiro, são ameaçados. Vivem o sofrimento assumido por causa de Cristo (v. 14).

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Exegese

Os três textos trazem em seu âmago o sofrimento. Tem sofrimento porque não quis ouvir Deus e nem viver em sua graça (Salmo), tem sofrimento porque em morte, separação e despedida (João) tem sofrimento assumido pelo nome de Cristo, na prática do bem e da justiça (Pedro). Mas nenhum sofrimento está perdido: Deus ouve clamores, atende orações e faz viver na graça (Salmo), Deus penetra no sofrimento humano e consola na vida em comunhão (João) e Deus vence, em Cristo Jesus, todos os sofrimentos, inclusive a morte, na ressurreição. Portanto o sofrimento está imbricado na promessa da realização do que já recebemos gratuitamente, ou seja, vida e salvação. Por isso, bendito seja Deus, em cujo amor vivemos. 2.1 – Comentários gerais A temática apresentada na carta de 1 Pedro trata da vida de pequenas comunidades inseridas na sociedade em um contexto social amplo. O sofrimento é enfrentado pelas pessoas em seu cotidiano. Elas enfrentam o sofrimento porque se identificam com o evangelho em meio a uma sociedade em que o mal e a injustiça são considerados normais. O povo cristão, pelo contrário, aprendeu de Jesus e das comunidades cristãs que Deus ama a misericórdia e a justiça. E felizes são as pessoas que têm fome e sede de justiça, praticam e promovem a paz (Mt 5). Como são cristãos que vivem dispersos na diáspora, é fácil viver como todos vivem na sociedade em que ser injusto, corrupto, mau, levar vantagem em tudo, viver do jeitinho brasileiro é algo normal e naturalizado. Os membros das comunidades pequenas são contra e por isso sofrem em sua vida diária, no trabalho, no convívio, na grande família. É o sofrimento por causa do evangelho de Jesus Cristo. O que fazer? Desistir de ser cristão? Não. A carta convoca-os para fazer a diferença. E isso em duas direções. Primeiro, afirma que o sofrimento não é o fim. Jesus assumiu o sofrimento no contexto da realização da promessa de salvação. Esse seu sofrimento é vicário,

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isto é, em lugar do outro e da outra. Ele sofreu chicotadas no corpo todo, pregos nas mãos e nos pés, fisgadas com lança no lado do corpo e morte na cruz por nós e em nosso favor. Nesse caminho, Jesus Cristo conquistou para nós a ressurreição por graça. Nós a aceitamos por fé. Além disso, Cristo nos deixou o exemplo de amor (Jo 14). Segundo, a carta fala da boa consciência. A boa consciência é sempre uma obra da Palavra. Ninguém tem boa consciência porque quer ou porque faz um grande esforço ou porque se acha melhor do que os outros. A boa consciência é sempre na palavra de Deus, que é viva e eficaz, é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração (Hb 4.12). O sofrimento de um cristão é visto no sofrimento de Cristo (3.19). Por isso é digno o sofrimento vivido em nome da justiça, do bem, da verdade, de Deus. O batismo (v. 21) é ser banhado no sangue de Jesus Cristo, na aliança da salvação e ressurreição. Pedro não chama os cristãos para fora da sociedade maldosa, injusta e corrupta. Pelo contrário, ele os convoca ao testemunho para dentro dela na esperança de mudança e transformação. A fé em Jesus tem seu sentido e significado profundo no comportamento e na postura em relação ao ser humano, ao ambiente e ao mundo. A carta tem um propósito de confirmar a nova identidade cristã, desafiando para a vivência humana solidária e comunhão no corpo de Jesus Cristo. Concluindo, podemos afirmar que o tema central do texto é o sofrimento real e concreto dos membros, da comunidade e das vítimas do sistema social que se mantém na prática da maldade e da injustiça. A tentação da comunidade é desistir ou enclausurar-se. Mas a carta se pauta no sofrimento assumido “pelo nome de Cristo” (4.14), respectivamente por causa da prática do bem (2.15) e da justiça (3.14). O testemunho em meio ao mundo dá-se na boa consciência em Cristo, alimentada na Palavra viva. 2.2 – Comentários referentes ao texto bíblico de 1 Pedro 3.13-22 Os membros estão expostos a várias hostilidades e adversidades por causa de seu testemunho e de sua conduta fundamentada na ética do amor, por causa da fé em Deus. A grande novidade agora é que eles abraçaram a fé em Jesus Cristo e vivem em comunhão na comunidade. E têm uma compreensão diferenciada sobre o sofrimento e a boa consciência. V. 13 – O termo “maltratar” sugere agressão, dor e sofrimento físico. Certamente não sofreriam agressões por praticar o bem. Não são somente os cristãos que são zelosos na prática do bem. Em todos os povos há gente que é zelosa no bem. Por que então a pergunta do versículo? Provavelmente há por trás das palavras uma outra situação que o contexto precisa explicar, como segue nos versículos seguintes. V. 14 – Apesar de dificilmente alguém ser maltratado por ser zeloso na prática do bem, o texto conta com a possibilidade dos maus-tratos. E então fala dos sofrimentos por causa da justiça. Mas não é qualquer justiça, como, por exemplo, justiça com as próprias mãos, justiça vingativa, justiça retributiva, igual à dos escribas e fariseus (Mt 5.20). Essa é a justiça que todos os povos fazem; até os maus

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a praticam. Ela não transforma vidas. Essa não. Mas seria a bondosa justiça (Mt 20.1-16), a justiça que acolhe, cura, salva. Essa, sim, é a justiça que Deus ama. E ela transforma mentes, corações e estruturas humanas. Por isso ela provoca reação do mundo, que se mantém na maldade e na injustiça. Se forem perseguidos por causa da prática da bondosa justiça, fiquem felizes, sóbrios e sem medo, sem sustos, sem alarme. V. 15 – Caso o sofrimento vier sobre vocês, não fiquem com medo, nem fiquem alarmados. Mas santifiquem Cristo como Senhor. Além disso, preparem-se bem para explicar os motivos da esperança de vocês em provocar mudanças. É um novo elemento: estar preparado para responder. Firma-se aí o testemunho da fé e da esperança cristã. V. 16 – Falem com mansidão e temor a Deus. É o oposto do Império Romano na época. Lá, as conquistas são com guerra, violência, tremor e adoração ao rei humano. A ética do amor está fundamentada na boa consciência e no bom procedimento em Cristo. O texto exorta o povo cristão para que não seja motivo de tropeço e de vergonha. Pelo contrário, que os de fora fiquem envergonhados, caso difamem os procedimentos dos cristãos em Cristo. V. 17 – Se a condição humana for o sofrimento, esse será por dois motivos: pela prática do bem ou pela prática do mal. Então é melhor sofrer por fazer o bem. V. 18 – A sina leva-nos a sofrer por coisas que não fazemos. E quantas coisas não fazemos mal, mas sofremos as consequências. Sofremos, às vezes, mesmo inocentes. E Deus é solidário conosco no sofrimento, porque Jesus sabe o que são dores. Em meio às nossas dores, Deus nos encontra. Somente o sofrimento de Cristo nos conduz a Deus, “o Justo pelos injustos, o Santo pelos pecadores”. Jesus morreu na carne como humano. Ele era verdadeiramente humano, mas foi vivificado no Espírito. V. 19-20 – Vivificado, Jesus foi anunciar as boas-novas aos que estavam nas prisões desde os tempos de Noé até os dias de hoje. V. 21-22 – Água na vida, água no Batismo: o Batismo não é só uma lavagem na banheira. Mas é um lavar restaurador e regenerador da vida e salvação, porque onde há perdão, ali há vida e salvação no Senhor Jesus, segundo Martim Lutero. A boa consciência humana criada na palavra de Deus torna-se uma realidade na vida cristã. O Jesus ressurreto foi elevado ao céu, onde está em pé (At 7.56), à destra de Deus, pronto para a ação salvadora em qualquer situação. Pois ele tem o domínio sobre todos os poderes que afugentam seu povo. Cristo é exemplo de resistência não violenta, mas ativa e de paciência. Nele os perseguidos, as vítimas por causa da prática da justiça, encontram comunhão. Em Cristo permanecem unidos, dando testemunho de sua esperança em boa consciência.

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Meditação

Nesta breve meditação, quero tocar em alguns pontos da mensagem do texto e relacioná-los com o momento atual. E faço-o partindo da reflexão inicial na introdução. As praças das cidades são lugares importantes de encontro de pessoas. Os shoppings vieram para competir com as praças. Mas não as substituem. Praças e ruas são lugares de manifestações populares. São lugares onde os povos se encontram, reclamam, gritam e manifestam as suas insatisfações em relação aos problemas e políticas públicas. Com treze anos de idade, participei pela primeira vez de uma manifestação pública. Fui junto com minha família. O nosso clamor foi contra uma decisão da prefeitura, que queria mudar de lugar a escola que frequentávamos. A mudança de lugar da escola significaria que nós deveríamos caminhar mais 2 km diários, além dos 3 que já fazíamos. Portanto seriam 5 para ir e 5 para voltar. A nossa manifestação conseguiu sensibilizar para construir uma nova escola no mesmo local da antiga, porque aquele lugar era central para todas as crianças. Depois disso, participei de manifestações em muitas ruas e praças do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Áustria e Alemanha. Também participei de algumas que ocorreram nas ruas do Brasil em 2013. Certamente o mesmo ocorrerá em 2014. Em momentos importantes de mobilização popular, fiz questão de estar presente, dar a minha contribuição e influenciar a sociedade e o Estado para construir relações com mais justiça e paz para todos e todas. Ruas e praças são, para mim, lugares onde o ser humano amplia horizontes de vida. Nos meus 50 anos de participação efetiva, aprendi com o povo e com Saint-Exupéry: “O que é o ser humano? Ser um ser humano é, precisamente, ser responsável. É conhecer a vergonha diante de uma miséria que não parece depender de nós. É sentir-se orgulhoso de uma vitória que seus companheiros obtiveram. É sentir, ao colocar sua pedra, que contribuímos para construir o mundo melhor”. Um mundo com menos maldade, mais justiça e mais esperança. O sofrimento humano e ambiental é um dos temas centrais dos textos bíblicos e das vozes das praças e das ruas. E a fé em Jesus Cristo a gente vive na rua, no trabalho, na família, ali onde houver gente, houver vida ou morte e posição a ser assumida por nós. Nesse sentido, vejo que o texto fala de sofrimento. São sofrimentos e dores humanas por todos os lados, às vezes são dores expressas, outras vezes são silenciadas. São dores por doenças, por morte, por dívidas, por falta de trabalho, por falta de amor e carinho, por solidão, por rancor, por medo, por mágoas, por vida sem sentido, por abandono. São muitas dessas dores que ouvimos nas manifestações de praças e ruas. Jesus sofreu as dores na prisão, no palácio, na rua, no monte da crucificação. A pregação contundente, contagiante e sensibilizadora Jesus fez nas ruas e na cruz, em público, com sua morte inocente em lugar dos culpados.

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Hoje, um dos grandes problemas são as dores das torturas, feitas em segredo. Torturas nas prisões, nas casas de abrigo, nos quartos onde estão as crianças, as pessoas idosas, as mulheres, as pessoas doentes. E quantos sofrimentos têm ali! O sofrimento assumido em Cristo são as dores do amor que luta para acabar com aquele sofrimento estúpido e sem sentido, imposto pelas próprias pessoas que têm poder de decidir sobre a situação e sobre o corpo e a vida. Mas também em público há a justiça. A bondosa justiça de Deus, Mateus 20, realiza-se na praça e na vinha, na roça. Para o povo do Israel antigo, a justiça acontecia na porta. Não tem nada de tribunais fechados e cheios de segredos. É a justiça do reino de Deus, visível, palpável e perceptível por todas as pessoas. É a bondosa justiça que esvazia os espaços secretos das torturas e outras dores provocadas pela ganância, pelo egoísmo e pela indiferença humana diante das dores de outros. A bondosa justiça é a justiça que Deus quer, que Deus deseja como projeto de vida para toda a criação. Após falar sobre mal e sofrimento, muita gente poderia pensar e dizer que o povo cristão é masoquista, desmancha festas, chamador de problemas. Onde fica a esperança? Acho que é muito bonita e significativa a forma como o texto fala da esperança. Gente, estejam sempre prontos e felizes para falar aos outros da esperança que há em vocês. Veja no v. 15: “... sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. Não fala de qualquer coisa, mas diz que é para justificar, com argumentos claros e convincentes, como num tribunal público, a razão da esperança. Quem está sujeito ao sofrimento não teria motivo para esperança. Mas a esperança aqui é contra toda a esperança, como explicam o apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos, e Martim Lutero. Tem motivo para ter esperança? Tem, sim. Jesus é a nossa esperança. A comunidade de Jesus é comunidade da esperança. Vivemos na realidade em que Deus venceu o sofrimento, o mal, a morte, mediante a ressurreição de Jesus. A comunidade está sendo criada no Batismo e alimentada por Deus na Ceia do Senhor.

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Imagens para a prédica

4.1 (Antes da leitura de 1 Pedro 3.13-22) – Por que pregar na igreja e nas praças e ruas? Aliás, você já participou de manifestações populares em praças e ruas? Fez caminhadas por justiça e paz? Acompanhou grupos de solidariedade na luta por boas políticas públicas? Já pregou a palavra de Deus em espaço público? No tempo de Jesus, costumeiros lugares para o ensino da Palavra eram as ruas, estradas e praças. Muitas passagens falam desses lugares. No caminho, Jesus viu e chamou Mateus (Mt 9.9). Andou por toda a Galileia (Mt 4.23). Jesus subiu na montanha, desceu a montanha, entrou na sinagoga, atravessou lavoura de trigo, entrou no barco, foi ao outro lado do lago, encontrou gente nos caminhos, enfim “em todos os lugares onde ele ia, nos povoados, nas cidades, nos campos, traziam os doentes para as praças e pediam que Jesus os deixasse tocar em suas vestes” (Mc 6.56). Os espaços abertos, públicos, ocupam um lugar importante no ministério de Jesus. Ali é o lugar do mundo, da vida pública, onde se combate o mal

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e se promovem justiça e esperança. O texto bíblico de 1 Pedro 3.13-22 supõe o testemunho público feito de boa consciência pelo povo cristão. (Antes do escopo da mensagem no final da pregação) – Você conhece algum exemplo vivo de testemunho cristão? (Deixar um breve tempo para pensar.) O pastor Karl Friedrich Stellbrink nasceu em 28 de outubro de 1894 em Münster na Vestfália. Estudou no seminário teológico de Soest, que formava pastores para vir trabalhar no Brasil. Ele serviu durante a Primeira Guerra Mundial. Depois retomou os estudos. Em 1921, veio ao Brasil, enviado pelo Conselho Superior Eclesiástico de Berlim. No Brasil, trabalhou como pastor em Arroio do Padre (RS) de 1921 a 1926, em Monte Alverne (RS) de 1925 a 1929. Teve quatro crianças, sendo que uma delas, a Gisela, está sepultada em Arroio do Padre. Em 1929, retornou para a Alemanha, convicto de que iria participar da reconstrução justa de seu país, que fora arrasado pela Primeira Guerra Mundial. Trabalhou na cidade de Lübeck. Filiou-se ao partido nacional-socialista, mas logo notou os erros e desmandos. Opôs-se e foi expulso. Participou de um movimento ecumênico de oposição ao regime. Foi preso e executado em 10 de novembro de 1944 em Hamburgo, há 70 anos. A Igreja Católica Romana incluiu o pastor Stellbrink em sua lista de mártires não católicos de resistência e de luta contra o mal e em favor da justiça.

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Subsídios litúrgicos

Sofrimento, justiça e esperança são aspectos fundamentais das manifestações justas e pacíficas nas ruas e praças do Brasil. A comunhão profunda em assumir sofrimento em Cristo envolve-nos na prática do bem e da justiça. Com boa consciência, lapidada pela palavra do Senhor, caminhamos com aqueles e aquelas que, em suas vidas, tiveram e têm momentos de dor, porque não somos capazes de criar relações justas e fraternas. A eles e elas estendemos as nossas mãos, assim como Cristo Jesus nos estende suas mãos e carrega-nos e consola-nos em nosso sofrimento e nossa esperança. Há motivo para ter esperança? Há sim. Jesus é a nossa esperança. A comunidade de Jesus é a comunidade da esperança. Vivemos na realidade em que Deus venceu o sofrimento, o mal, a morte mediante a ressurreição de Jesus. A comunidade está sendo criada no Batismo e alimentada por Deus na Ceia do Senhor.

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. 7º Domingo da Páscoa. In: Proclamar Libertação XVIII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1992. p. 152-155. DREHER, Martin. Mártir do Nazismo. Novo Olhar, ano 5, n. 14, mar/abr 2007, p. 6. SCHMITT, Flávio. 1º Domingo na Quaresma. In: Proclamar Libertação 36. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2011. p. 116-120.

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ASCENSÃO DO SENHOR

PRÉDICA: ATOS 1.1-11

29 MAI 2014

SALMO 47 EFÉSIOS 1.15-23

Astor Albrecht

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Introdução

Em toda tarefa na qual nos dispomos a cooperar, precisamos estar motivados. A mensagem da Ascensão do Senhor quer trazer coragem, disposição e alegria para a igreja em sua missão, assim como foi com os primeiros discípulos (Lc 24.50ss). Na leitura do texto de Efésios 1.15-23, Paulo ora pela comunidade de Éfeso. Ele louva a Deus pelas ricas bênçãos que essa recebeu em Cristo Jesus. A comunidade tem testemunhado sua fé e demonstrado seu amor. Paulo pede a Deus que os efésios conheçam ainda mais a Deus e como é rico o chamado que ele lhes faz. Porque Deus tem ricas bênçãos para seu povo e age em seu meio. A comunidade deve viver unida como um corpo. Pode ter coragem e confiança em sua missão, pois Cristo é maior. O Salmo 47 é um convite para louvar a Deus com alegria, pois ele é o rei do mundo inteiro. Todo poder pertence a ele. Na Ascensão, celebramos o Senhor Jesus, que volta para junto do Pai como glorioso Filho de Deus. Em seu nome há salvação. Isso deve ser anunciado a todas as pessoas, e sua comunidade tem essa tarefa. O coração da comunidade precisa pulsar com ânimo, coragem e alegria no desempenho de sua missão.

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Exegese

Lucas dedica seu livro a Teófilo com o objetivo de ajudar a ele e outros cristãos com um relato fidedigno sobre o começo do cristianismo. O “primeiro livro” é o evangelho, que é resumido como relato de “todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” (v. 1). Atos relata o que ele continuou a fazer por meio de suas testemunhas. O período de que trata o v. 3, entre a ressurreição e a ascensão de Jesus, foi o tempo entre a conclusão do ministério terreno de Jesus e o início da obra da igreja. Esse período tem duas características importantes: forneceu provas de que Jesus estava vivo (v. 3) e foi o tempo em que Jesus deu instruções aos discípulos (v. 4-5,7-8). Quando o texto diz que Jesus “se apresentou vivo” (v. 3), não quer dizer que ele readquiriu a vida anterior, e sim vida repleta de realidade divina. Portanto a ressurreição não é apenas o desfecho glorioso da vida de Jesus, mas, ao mesmo tempo, o fundamento da igreja. O tema do ensino de Jesus durante esse período foi o reino de Deus (v. 3). Ele trata da ação salvadora e soberana de Deus

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por meio de Jesus Cristo. Esse foi o tema de seu ministério (Lc 4.43) e continuará sendo o tema de suas testemunhas (At 8.12; 19.8; 20.25; 28.23). O próprio Senhor Jesus é o conteúdo do testemunho da igreja (28.31). Há o registro de uma instrução específica de Jesus quando estava “comendo com eles” (v. 4): ordenou que os discípulos permanecessem em Jerusalém até receber “a promessa do Pai” (v. 4). Trata-se da vinda do Espírito Santo (2.33,38-39; Lc 24.49; Ef 1.13). Essa promessa do Pai está contida nas Escrituras (Is 32.15; Jl 2.28-32). Em suas palavras de despedida, Jesus falou do Espírito que o Pai enviaria (Jo 14.16,17; 15.26). Eles não deveriam ausentar-se de Jerusalém, pois essa cidade seria o cenário determinado por Deus para a outorga do Espírito. O lugar onde Jesus fora rejeitado haveria de ser o lugar onde começaria o novo testemunho dele. A promessa de Jesus é reforçada pelo testemunho de João Batista (v. 5). Enquanto esse batizara com água, Jesus batizaria com o Espírito Santo (Lc 3.16). Pedro cita essas palavras em Atos 11.16, quando os gentios recebem o dom do Espírito Santo. “Batizar” significa literalmente “imergir” uma pessoa na água ou inundá-la com ela. Diz respeito ao derramamento do Espírito, que vem das alturas da parte de Deus. Os discípulos perguntam: “Senhor, será este o tempo em que restauras o reino a Israel?” (v. 6). Agora que Jesus ressuscitou dentre os mortos, estabelecerá Deus seu domínio? Trata-se da esperança judaica de que Deus estabeleceria seu domínio de tal maneira que o povo de Israel ficasse livre de seus inimigos, especialmente os romanos, e seria estabelecido como a nação que subjugaria os demais povos. Jesus responde que o tempo de Advento permanece um segredo de Deus. Mais importante é a tarefa que os discípulos têm agora: agir como testemunhas de Jesus no poder do Espírito Santo, desde Jerusalém até os confins da terra. Manifesta-se aqui (v. 8) o objetivo de Atos: aos discípulos que se preocupavam a respeito da restauração do reino de Israel é apresentado o mundo todo como campo de ação. Eles devem cumprir sua tarefa de ser testemunhas de Jesus. Era esse o mandamento final que Jesus deu antes de deixar os discípulos. Como testemunhas, eles deveriam operar em nome e por incumbência do Senhor. Não se trata de transmitir somente a doutrina ou as instruções que receberam de Jesus. Antes, é Jesus mesmo, com suas obras, sua morte, sua ressurreição e glorificação, o conteúdo específico de seu testemunho. O Cristo que veio para anunciar torna-se o anunciado. Para isso os discípulos receberão poder “ao descer sobre vós o Espírito Santo” (v. 8). A nuvem (v. 9) é, ao mesmo tempo, o veículo que “recebe” Jesus e transporta-o para longe e o sinal da glória celeste de Deus (Lc 9.34-35; Ap 11.12). É, portanto, uma nuvem sobrenatural e simbólica. Os discípulos ficaram parados, olhando atentamente, enquanto Jesus desaparece. Surgem “dois varões vestidos de branco” (v. 10). A descrição é de anjos (Lc 24.4; At 10.30). A função deles é comentar aquilo que acontecera. A pergunta que os anjos fazem é uma repreensão implícita aos discípulos, que esperavam a continuada presença de Jesus com eles. Ora, os discípulos já receberam a ordem quanto àquilo que devem fazer. Eles recebem agora a confirmação de que a ascensão de Jesus é uma garantia de que ele voltará da mesma maneira, isto é, numa nuvem (Lc 21.27; Mc 14.26). A

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promessa da volta de Jesus forma o fundo histórico da esperança, diante da qual os discípulos devem desempenhar seus papéis como testemunhas de Jesus. A fé no retorno de Cristo faz parte incontestável da mensagem do evangelho, pois, quando ele voltar, então sim o reino de Deus será consumado. Isso corresponde à declaração de Jesus em Marcos 13.10 de que o evangelho deve primeiramente ser pregado a todas as nações antes de vir o fim.

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Meditação

Sugiro prestar atenção a duas frases do texto bíblico e, a partir delas, desenvolver a mensagem. A primeira frase é “foi elevado às alturas” (v. 2), e a segunda é “e sereis minhas testemunhas” (v. 8). A primeira frase apresenta-nos algo consumado. A segunda apresenta a tarefa que deve ser cumprida. Na primeira frase, temos o alicerce que sustenta a segunda. O relato da ascensão do Senhor deu à primeira igreja certeza de fé a respeito de quem era Jesus Cristo. Lucas escreve no início de Atos que, após o episódio da cruz e do sepultamento, Jesus ressuscitou. Ele prometeu a seus seguidores a dádiva do Espírito Santo. Ele volta para a glória e está ao lado do Pai, de onde ele em glória também voltará. Essa certeza de fé estava presente na igreja e determinou sua vida. Lucas coloca essas verdades da fé no início do livro de Atos, para que também nós hoje não esqueçamos o que de uma vez por todas se tornou o alicerce da comunidade. Aqui podemos destacar a leitura do texto da Carta de Paulo aos Efésios. Paulo louva a Deus por tudo o que tem ouvido a respeito da fé na comunidade de Éfeso. Não se trata de uma fé que se limita a concordar com um mesmo conteúdo, mas uma fé que se expressa na comunidade em ações de amor (Ef 1.15). Assim como foi o ministério de Jesus, palavras e atos, assim era a vida dessa comunidade. E Paulo lembra o alicerce que sustenta essa comunidade: a ressurreição de Jesus e sua ascensão (Ef 1.20). O v. 21 do texto de Efésios faz saber o que significa a ascensão de Jesus: “Cristo reina sobre todos os governos celestiais, autoridades, forças e poderes. Ele tem um título que está acima de todos os títulos das autoridades que existem neste mundo e no mundo que está por vir” (v. 21). Todas as forças e poderes estão submetidos a Cristo. Assim confessamos a respeito de Cristo: “está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”, quer dizer, ele ocupa a posição de Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele é o Senhor e está junto com sua comunidade (v. 22-23). Assim entendemos a motivação dos discípulos após a ascensão de Jesus: “eles o adoraram e voltaram a Jerusalém, cheios de alegria” (Lc 24.52). Essa fé e essa confiança a comunidade precisa ter. É difícil realizar nossa missão sem a alegre confiança de que o Senhor está conosco e nos ajuda. Precisamos crer que ele é maior do que todas as forças do mal. E é por isso que nós, sua comunidade (seu corpo), podemos seguir em frente; pois Jesus Cristo é aquele que era, que é e sempre será. Ele está vivo. Está presente e atua em sua comunidade e através dela. Talvez devêssemos nos perguntar: O que essa verdade significa para nós? Ela faz diferença em nosso testemunho como comunidade? Como anda o nosso ânimo? A nossa confiança? Qual é nosso sentimento diante da tarefa que

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temos de anunciar o nome de Jesus? Como comunidade, temos testemunhado de nossa fé com ações de amor (diaconia)? Convidamos a comunidade para lembrar-se da ordem de Jesus: “e sereis minhas testemunhas” (v. 8). Aqui está o que temos por fazer. Nossa tarefa. Nossa missão. Todo o livro de Atos testemunha a presença viva de Jesus em sua comunidade. Eis que a mesma graça é concedida também a nós. Eu sugiro destacar o valor da comunidade atuar em conjunto e não cada membro de forma isolada. Esse era o plano de Jesus desde o começo. Nenhum de nós pode fazer o que todos nós podemos fazer. Jesus disse que nós somos suas testemunhas. Jesus não pôs um a um numa fila e nomeou cada indivíduo: “Você, Henrique, será minha testemunha...”; “Você, Aline, será minha testemunha...”. Claro que cada membro é chamado a dar seu testemunho de fé. Mas procuro aqui destacar o valor da comunidade estar unida no testemunho. Como Jesus disse: “Vocês (a soma de todos) serão minhas testemunhas”. Jesus trabalha em comunidade. É por essa razão que não encontramos pronomes pessoais nas primeiras descrições da igreja: “E todos continuavam firmes... todos os que criam estavam juntos... Todos os dias, unidos, se reuniam...” (At 2.42ss). Não há eu, meu ou seu. Estamos nisso juntos. Somos mais do que seguidores e seguidoras de Cristo. Nós somos membros de seu corpo (Ef 1.23). Eu não sou o seu corpo; você não é seu corpo. Nós juntos somos seu corpo. Essa união deve manifestar-se na tarefa de levar a todas as pessoas a mensagem a respeito de Cristo. Não se trata tão somente de doutrina; antes é Cristo Jesus com suas obras, sua morte, sua ressurreição e glorificação o conteúdo do testemunho. O reino de Deus é anúncio de que Deus age para salvar em Jesus Cristo. Para termos força nessa missão é que Cristo deu o Espírito Santo. Ele ordenou que seus discípulos aguardassem na cidade até ser revestidos de poder (Lc 24.49). A promessa cumpriu-se no dia de Pentecostes. Ainda assim, a igreja precisa sempre de novo ser fortalecida na presença do Espírito Santo de Deus. A sua comunidade encontra força, maior confiança e paz quando aprende a esperar (Is 40.31). A comunidade recebe força no Espírito de Deus quando se reúne para o culto, ora em conjunto, louva ao Senhor, ouve a sua palavra e recebe o sacramento. A comunidade precisa cuidar para que o corre-corre não seja entendido como missão, mas que, na comunhão de uns com os outros e reunidos na presença do Salvador, receba orientação, força e paz para cumprir a sua missão.

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Imagens para a prédica

Um repórter que cobria a guerra em Sarajevo (Bósnia) viu uma garotinha ser baleada por um franco-atirador. A parte de trás da cabeça da garota fora despedaçada por uma bala. O repórter atirou longe o bloco e o lápis e deixou de ser repórter por alguns minutos. Ele correu até o homem que estava segurando a criança e ajudou-o a entrar em seu carro. Enquanto se dirigiam ao hospital, o homem que segurava a criança ensanguentada disse: – Depressa, meu amigo. Minha criança ainda está viva. Alguns instantes depois, ele implorou:

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– Depressa, meu amigo. Minha criança ainda está respirando. Em seguida: – Depressa, meu amigo. Minha criança ainda está quente. Por fim: – Depressa, meu amigo. Ai, meu Deus, minha criança está ficando fria. Quando chegaram ao hospital, a garota estava morta. Os dois homens foram ao banheiro para lavar o sangue das mãos e das roupas quando o homem disse ao repórter: – Agora tenho uma tarefa terrível pela frente: contar ao pai que sua filha morreu. Ele vai sofrer muito. O repórter ficou admirado e perguntou: – Eu pensava que ela era sua filha. O homem respondeu: – Não. Mas não são todas nossas crianças? Isso é verdade. Os que sofrem pertencem a todos nós. E se todos nós respondermos juntos e unidos, haverá esperança.

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Subsídios litúrgicos

Oração do dia: Senhor Jesus Cristo, nós louvamos teu nome por tão grande salvação que recebemos por meio de teu amor. Tu nos colocaste aqui no mundo como teu corpo para viver em comunhão. Tu nos ensinaste a amar, a interessar-nos uns pelos outros, a lutar por pão e justiça. Tua verdade deve tornar-se manifesta no mundo por intermédio de nossa vida e nossa comunidade. Senhor, derrama o teu Espírito Santo para que a tua vontade assim se faça conosco. Graças que tu ouves a nossa oração. Amém. Após o Glória, pode-se convidar a comunidade a relembrar situações em que a união dos membros se mostrou de forma viva e possibilitou que ações concretas pudessem ser realizadas. Em outras palavras, como foi que, unidos, pudemos realizar ações de amor em favor de quem sofre? Como juntos conseguimos testemunhar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo? Como na comunhão da igreja cada membro encontra força e alento para enfrentar uma situação adversa? Incentivar as pessoas a partilhar e testemunhar sobre como receberam bênçãos de Deus na reunião da comunidade. Destacar, no final, que assim se mostra a presença de nosso Senhor. Ele está presente. Podemos convidar a comunidade a louvar a Deus com cânticos que falem da presença do Senhor em sua igreja e da confiança em seu grande nome. Um hino propício é o 264 do HPD 1: Nome sobre todo nome.

Bibliografia KÜRZINGER, Josef. Atos dos Apóstolos – primeira parte. Petrópolis: Vozes, 1971. MARSHALL, I. Howard. Atos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005.

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PRÉDICA: JOÃO 17.1-11

7º DOMINGO DA PÁSCOA 01 JUN 2014

SALMO 68.1-10 1 PEDRO 4.12-14; 5.6-11

Klaus A. Stange

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Introdução

O 7º Domingo da Páscoa encontra-se entre Ascensão e Pentecostes. Os textos e as leituras bíblicas sugeridas para este domingo têm como objetivo mediar consolo e ânimo para a comunidade cristã. Nessa direção já aponta o versículo da aclamação do evangelho para este domingo: “Jesus Cristo diz: Não os deixarei órfãos, voltarei para vocês” (Jo 14.18). O texto da prédica encontra-se no mesmo contexto, ou seja, no contexto das palavras de despedida de Jesus de seus discípulos. O texto é conhecido como a “oração sacerdotal de Jesus”, ocasião em que ele ora por si, por seus discípulos e por nós. O salmo sugerido para este domingo destaca o agir soberano de Deus em favor de seu povo. Ele se levanta, traz alegria e consolo, reverte o aparente fracasso em vitória. O texto da Epístola de Pedro também aponta para o Senhor vitorioso e anima a comunidade cristã a não esmorecer na fé, a despeito de adversidades e tentações. Percebe-se, portanto, que há uma estreita relação entre os textos sugeridos para este domingo.

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Exegese

2.1 – Tradução, comparação de traduções e crítica textual Para fins de comparação, usaremos a Bíblia de Jerusalém (BJ), Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Versão Internacional (NVI) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). Não se faz necessário discutir as variantes anotadas no aparato crítico do Novum Testamentum Graece, uma vez que as variantes são testemunhadas por manuscritos de menor valor. V. 1 – A NVI traduz o verbo eipen como “orou”; porém esse verbo é o indicativo aoristo ativo de lego, que significa “falar, dizer”. A NTLH não realiza a tradução literal de doksazon, que é “glorifica”, assim como fazem as demais versões, mas interpreta o versículo e dá um possível sentido à palavra glorificar: “revela a natureza divina”. É compreensível a intenção da NTLH, pois a glorificação tem a ver com a revelação; entretanto, é preferível manter a tradução literal de doksazon. V. 2 – Ao contrário das demais versões, a BJ traduz eksousian por “poder” e não “autoridade”. As únicas versões que traduzem sarkos como “carne” são a BJ e a ARA. Percebe-se que a NVI (que traduz “humanidade”) e a NTLH (que

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traduz “seres humanos”) interpretam essa palavra e optam por explicar o que identifica sarkos. V. 3 – Neste versículo, a única diferença entre as versões analisadas é o acréscimo “enviaste ao mundo”, feito pela NTLH. V. 4 – A preposição epi possui diversos significados. Porém, neste versículo, a preposição está no genitivo, em ligação com ges, ou seja, um substantivo que identifica lugar. Assim, epi pode significar “sobre, em cima de, em”; poieso é o subjuntivo aoristo ativo de poieo, que significa “fazer, construir, praticar, efetuar”. V. 5 – Novamente a NTLH não utiliza a tradução “glorificar”, mas interpreta a palavra como “mesma grandeza divina”. A preposição para, no dativo, significa “ao lado de, pelo lado de, perto, próximo de, com”. Literalmente, “ao lado de ti mesmo”. A BJ e a NVI utilizam “junto de/a ti”, e a ARA “contigo mesmo”. No final do verso, a BJ continua a utilizar a tradução “junto de”, enquanto as demais versões traduzem “contigo”. V. 6 – Efanerosa é o indicativo aoristo ativo de φανερόω, que significa “revelar, mostrar, fazer conhecido”. O verbo tereo possui o significado de “guardar, manter vigilância sobre, manter, observar, cumprir”. Enquanto a BJ e ARA utilizam o significado de guardar, a NVI e a NTLH utilizam obedecer. V. 7 – Gnokan é o indicativo perfeito ativo de ginosko, que possui diversos significados, sendo que o mais comum é “saber, conhecer”. Entretanto, o verbo também pode significar “reconhecer”. Por se tratar de um perfeito, também poderia ser traduzido como “têm conhecido” ou “têm reconhecido”. Parece-nos que é preferível utilizar a tradução reconhecer ao invés de conhecer, pois reconhecer diz respeito a admitir/afirmar algo que já é conhecido. As versões NVI e NTLH traduzem por “saber”. V. 8 - Elabon é o indicativo aoristo ativo de lambano, que possui sentido ativo e passivo. No sentido ativo, pode significar “tomar, pegar, apossar-se, agarrar, receber, coletar” e, no sentido passivo, pode significar “receber, conseguir, obter, aceitar”. O significado “receber” é mais comum, porém aceitar (NTLH) e acolher (BJ) também podem ser usados. Ekselthon é o indicativo aoristo ativo de ekserchomai, que significa “ir embora, sair, partir, proceder, descender”. V. 9 – Eroto é o indicativo presente ativo de erotao, que significa “perguntar, questionar, pedir, solicitar, suplicar”. A preposição peri é traduzida como “por” no sentido de “em favor de”. Outra tradução poderia ser “em favor deles”. V. 10 – Panta é o nominativo neutro plural de pas e significa “todas as coisas, tudo”. 2.2 – Contexto Judas acabara de deixar o recinto onde se encontravam Jesus e os demais discípulos (Jo 13.30). Jesus começa a despedir-se de seus discípulos. O que Ele tem para lhes dizer soa como um legado: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (Jo 13.34; 15.12). “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará

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em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse” (Jo 14.26). “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16.33). No final desse discurso de despedida, encontramos uma oração que Jesus dirige a seu Pai, conhecida como a oração sacerdotal de Jesus Cristo. Jesus ora por si (v. 1-8), intercede em favor dos seus discípulos (v. 9-19,22-26) e, não por último, Jesus intercede por nós (v. 20-26). Ele pede ao Pai por proteção, por unidade, pelo permanecer na palavra e por glorificação. 2.3 – Gênero literário Na perícope em estudo, temos diante de nós palavras que Jesus dirige a seu Pai celeste: uma oração. É uma conversa íntima que Jesus tem com seu Pai. Penso que é a partir desse horizonte, dessa perspectiva que precisamos procurar entender o texto e comunicá-lo à comunidade. Nesse sentido, o texto adquire uma grandeza e um significado teológico todo especial, pois Jesus está se despedindo de seus discípulos e indo ao encontro da cruz, onde exclamará: “Está consumado!” (Jo 19.30). Quais são as palavras que Jesus dirige a seu Pai num momento tão sensível, crítico de sua vida e ministério? O que o move? Quais são seus anseios? O que está em jogo? 2.4 – Análise de detalhes e atualização Parece-me que o tema central do texto é a questão da vida eterna (Jo 17.23,8). A oração de Jesus não possui um fim em si mesmo, mas aponta para o propósito da fé, da vida eterna (cf. Jo 20.30-31). Ainda que Jesus esteja principalmente orando por si, o horizonte maior de seus pedidos são os discípulos e somos nós. Penso que, para o domingo que se encontra entre Ascensão e Pentecostes, cabe uma palavra com enfoque pastoral e evangelístico (no sentido de que o evangelho é anunciado). Nesse sentido, pontuo alguns temas (entre outros possíveis) que se destacam no texto por sua relevância teológica. a – Mudança de perspectiva: Na oração de Jesus, há uma mudança de perspectiva. Se antes Jesus olhava para seus discípulos e para o mundo (Jo 16.33), agora ele volta seus olhos para o céu, para o Pai. A partir da perspectiva da eternidade, Jesus olha para seus discípulos, aqueles que o Pai lhe concedeu. b – A hora: Se Jesus agora olha para seus discípulos na perspectiva da eternidade, ele o faz em estreita ligação com sua paixão e morte na cruz. Pois chegou a hora! – diz Jesus. No Evangelho de João, essa expressão denota um tempo ou uma etapa que está completa. É um kairos (cf. Jo 7.6-8). Em nosso texto, a chegada da hora aponta para a glorificação de Jesus (Jo 12.23), é chegada a hora de Jesus deixar este mundo e ir para o Pai (Jo 13.1). Chegou a hora de Jesus entregar sua vida e morrer numa cruz (Jo 12,27). No entanto, a hora que chegou não indica apenas sofrimento e morte, mas aponta para o momento da glorificação de Jesus. Note que a glorificação ocorre não na ressurreição de Jesus, mas precisamente em sua morte (1Co 1.18).

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c – Glorificação: Jesus pede ao Pai para que glorifique o Filho (Jo 17.1). Mas o texto também aponta para o fato de Jesus ter glorificado o Pai (Jo 17.4). Como Jesus glorificou o Pai? Primeiro, revelando o nome do Pai àqueles que lhe foram confiados pelo Pai (Jo 17.6). Segundo, dando-lhes, transmitindo as palavras do Pai (Jo 17.8). Na medida em que Jesus revela o nome do Pai e transmite as palavras do Pai, os discípulos conhecem a essência de Deus (Êx 3.14). Por isso o convite do evangelho para que as pessoas creiam (Jo 1.12) e invoquem (Jo 14.13) esse nome. d – Vida eterna como (re)conhecimento do Pai e do Filho: Na glorificação de Deus, ou seja, à medida que Jesus torna visível a glória do Pai, revelando o seu nome aos discípulos, vida eterna é mediada (Jo 17.3). Vida eterna, portanto, não é uma coisa, um objeto, mas vida eterna consiste no constante (re)conhecer do Pai e do Filho. Por outro lado, (re)conhecer a Deus também não pode ser reduzido a um simples conhecer intelectual (gnosis). (Re)conhecer a Deus tem a ver com ser abrangido, envolvido por Deus. Em outras palavras, trata-se de ser envolvido num relacionamento vivo e pessoal com o Pai e com o Filho, descrito pela palavra crer ou permanecer em Cristo (Jo 15). e – Justificação por graça: Jesus fala de pessoas que o Pai (do mundo) deu ao Filho (Jo 17.6-8). Quem são essas pessoas? Trata-se de um grupo exclusivo? Penso que não. Trata-se de pessoas que reconhecem que devem tudo a Deus. E especialmente reconhecem que a fé é dádiva de Deus. Reconhecem que foram atraídas para junto de Deus, chamadas. No Batismo, ouvimos esse chamado de forma bem pessoal. A iniciativa não é minha, mas de Deus. O fato de eu poder pertencer a Deus, o fato de poder crer é fruto da graça de Deus em minha vida. Quando Jesus ora ao Pai em favor de seus discípulos, ele me inclui em sua oração. Quando Jesus vai até a cruz, ele o faz em amor por mim. Ele me quer junto de si, a despeito de meus pontos fortes e fracos, a despeito de minha culpa e pecados. Pelo fato de ele ter dado o primeiro passo, posso confiar que ele também me sustentará e guardará até o meu dia final (Jo 17.11) . Com sua oração de intercessão Jesus objetiva que eu não seja apenas um espectador de sua paixão e morte. Seu desejo é envolver-nos no evento da paixão. Ao redor da cruz de Jesus havia muitos observadores: soldados, peregrinos, fariseus, escribas, sacerdotes e muitas outras. O que é comum a todas elas é a distância. Para elas, a paixão e a morte de Jesus foram um grande espetáculo. Ainda hoje, em nosso mundo e em nossas comunidades, há muitas pessoas que assumem a posição de espectadores: elas veem o que acontece com Jesus. Elas têm um interesse pelos detalhes históricos no evento da cruz. Outras admiram-se da firmeza e perseverança de Jesus e como comprometeu sua vida com aquilo que ensinou. Outras pessoas têm profunda pena de Jesus: pena pelo fato de Jesus morrer de forma injusta, vítima de um processo jurídico corrupto, como ainda acontece muito em nossos dias. Todas essas perspectivas são válidas e importantes, mas são insuficientes. Em todas elas, eu continuo como espectador. O que Jesus imagina em sua oração é mais abrangente. Trata-se de conhecer quem eu sou e, principalmente, conhecer quem é Deus (Jo 17.3). Conhecer é mais do que tomar ciência, é também re-conhecer. Eu re-conheço o veredito de Deus, que me

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declara culpado. Mas, acima de tudo, também re-conheço sua absolvição através da cruz de Jesus Cristo. Pela fé eu digo “sim” ao evento da cruz. Onde há esse re-conhecimento, ali acontece transformação de vida. Quem experimenta o amor de Deus é constrangido por esse amor. E ele transforma meu pensar e agir. Onde há esse re-conhecimento, ali Deus me concede sua comunhão. Comunhão que é inabalável (Rm 8.28ss), comunhão que mesmo a morte não é capaz de romper. É vida eterna na presença de Deus. Estou envolvido na comunhão da Trindade! Onde acontece re-conhecimento, ali Deus alcança seu propósito em e com a minha vida, ali a obra de Jesus, sua paixão e cruz frutificam.

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Imagens para a prédica

Como se trata de um texto que apresenta uma oração de Jesus em favor dos discípulos, em nosso favor, talvez seja uma boa ideia desenvolver a mensagem valorizando uma linguagem meditativa e reflexiva. Ajudar a comunidade a perceber que nós somos o grande tema da oração de Jesus. Talvez a prédica pudesse iniciar exemplificando a curiosidade de crianças (e adultos) quando segredos são cochichados pelos pais. Às vezes, como crianças, paramos atrás da porta tentando ouvir o que os pais estão dizendo a nosso respeito. Semelhante expectativa poderíamos ter para ouvir as palavras que Jesus diz a seu pai celeste. Jesus tem uma grande preocupação: envolver seus discípulos na comunhão com ele e com o Pai; Jesus deseja que nós re-conheçamos quem ele e o Pai são, que creiamos nele, que tenhamos a vida eterna. À luz da eternidade, Jesus intercede em nosso favor. Sua hora chegou, e ela passa pela cruz. Mas é exatamente na cruz que a glória de Deus se manifesta. O evento da cruz não quer ser apenas observado, mas nos quer envolver pessoalmente e convida-nos a crer e re-conhecer Deus em Jesus Cristo. A prédica poderia finalizar com um claro convite que o próprio evangelho, que está contido no texto, faz à comunidade. É um convite à fé, ao re-conhecer, à vida eterna.

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Subsídios litúrgicos

Hinos: HPD I nº 45 – Um desejo ardente em mim existe; HPD I nº 56 – Ó Jesus, Senhor amado; HPD II nº 414 – Quem quer falar do amor; HPD II nº 417 – Igreja que serve, serve. Oração: Senhor Jesus Cristo, tu vieste ao nosso encontro! Vieste ao nosso encontro porque nos amas. Assumiste um caminho de sofrimento e cruz. Andaste esse caminho para que nós pudéssemos encontrar o Pai. Ajuda-nos a compreender corretamente a tua paixão e morte. Ajuda-nos a perceber a tua glória revelada na cruz, a compreender o mistério de teu amor. Kyrie eleison (HPD II nº 342 ou outro Kyrie). Senhor, intercedemos por todos aqueles que têm dificuldades para compreender o teu agir. Lembramos das pessoas que passam por situações difíceis, às vezes incompreensíveis. Ajuda-os para que possam reconhecer na tua cruz o teu

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amor. Lembramos, Senhor, de todos aqueles que vivem com incertezas em seus corações. Permita que encontrem junto à cruz um firme fundamento para a sua fé, fundamento que os sustente em meio a todas as dúvidas insolúveis. Rogamos e intercedemos por todos os que sucumbem debaixo de sua culpa. Mostra-lhes, Senhor, o que tu fizeste por eles e permita que possam fazer um novo início contigo, que possam recomeçar. Kyrie eleison (HPD II nº 342 ou outro Kyrie). Senhor, deixa que a mensagem da cruz, a mensagem do evangelho ressoe em nossos corações nesta semana. E que também em nossa cidade e em nosso país possa ressoar o evangelho, para que pessoas se voltem a ti e encontrem em ti a vida (HPD II nº 342 ou outro Kyrie). Senhor, tu mesmo sofreste e por isso tu tens um coração que se compadece de todos os que sofrem. Concede a tua presença aos doentes, aos que estão enlutados, aos que vivem solitários, aos que não veem mais uma saída, aos que não sabem o que inventar com a sua vida (HPD II nº 342 ou outro Kyrie). Senhor, deixa-nos viver esta semana como pessoas que re-conhecem o evento da cruz e o convite que dela emana. Queremos permanecer contigo, Senhor! Como pessoas que te re-conhecem e que em ti encontram vida eterna. (HPD II nº 342 ou outro Kyrie) Amém!

Bibliografia BERGER, Klaus. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 1998. GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento: Grego – Português. São Paulo: Vida Nova, 2003.

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PRÉDICA: JOÃO 20.19-23

DOMINGO DE PENTECOSTES 08 JUN 2014

NÚMEROS 11.24-30 1 CORÍNTIOS 12.3b-13

Júlio Cézar Adam

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Introdução

Os textos bíblicos previstos no Lecionário Comum Revisado para o Domingo de Pentecostes tratam da manifestação do Espírito Santo ao longo da caminhada do povo de Deus. No livro de Números 11.24-30, temos um texto pouco conhecido. No arraial, Moisés, juntamente com o conselho de setenta anciãos, recebe o Espírito de Deus e profetiza enquanto o Espírito está sobre eles. Dois homens, Eldade e Medade, que não estavam entre os setenta, também recebem o Espírito e profetizam no arraial. Ou seja, a força do Espírito expande-se para além da organização e do controle humano. A ação do Espírito é livre e soberana. Na Carta de Paulo aos Coríntios, em 1 Coríntios 12.3b-13, temos o texto que fala dos dons e carismas que o Espírito Santo desperta nas pessoas e na igreja, na reunião do povo de Deus. A diversidade dos dons é resguardada aqui. Os dons e carismas são diversos, mas o Espírito é o mesmo (v. 4). Há diversidade nos serviços e nas realizações, mas o Senhor é o mesmo (v. 5 e 6). A ação do Espírito gera efeitos diversos, amplos e abrangentes. E mais: a força do único Espírito age em cada indivíduo pelo Batismo e, ao mesmo tempo, congrega todos, na diversidade, em um só corpo. O texto do evangelho, que é o texto da pregação, fala da aparição do Jesus ressuscitado aos discípulos no domingo da Páscoa. Aqui, Jesus sopra sobre os discípulos o Espírito Santo, enviando-os para a missão de perdoar pecados. A ação do Espírito aqui está diretamente relacionada ao Cristo ressuscitado. O Espírito é o novo sopro de vida (Gn 2.7), fortalecendo a comunidade dos discípulos, célula geradora da igreja, para sua missão de expandir o perdão gerado na cruz, por Cristo, ao mundo. Há, portanto, uma riqueza imensa na compreensão de Pentecostes a partir dessa constelação de textos. A ação do Espírito Santo é mais ampla e abrangente do que apenas o relato de Atos 2.1-11, que é o relato mais conhecido. A celebração de Pentecostes é um momento para entender essa diversa, ampla e generosa ação de Deus, por meio de seu Espírito, ao longo da caminhada dele com seu povo e sua criação. O texto do Evangelho de João 20.19-23 não é uma substituição do relato de Pentecostes. Quer sim narrar uma manifestação do Espírito Santo, um ingrediente fundamental para enriquecer a grande manifestação de Pentecostes, conforme relata Atos. É muito importante falar de Pentecostes e falar do Espírito Santo às nossas comunidades. Já de antemão podemos dizer que Pentecostes tem a ver com

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a própria dinâmica do Espírito. Ou seja, o próprio Espírito não se contenta com apenas uma manifestação. Pentecostes remete a uma variedade de manifestações de uma força que vai além daquilo que conseguimos prever e estabelecer (texto de Nm 11.24-30). O mesmo Espírito age em indivíduos e desperta dons e carismas individuais e diversos para serem usados em um mesmo corpo, a igreja. O que cria a unidade não é a mesmice de dons e carismas, mas a diversidade de dons provenientes das individualidades tocadas pelo Espírito (texto de 1Co 12.3b-13). A ação do Espírito está total e fundamentalmente vinculada à ressurreição de Cristo, ao evento da cruz, à Páscoa. A ação do Espírito tem a ver com Jesus Cristo. A partir dele, de seu sopro novo, uma nova realidade é criada: a igreja do perdão (texto de Jo 20.19-23).

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Exegese

Ao que tudo indica, a intenção de João aqui é revelar Jesus como sendo Cristo à comunidade dos discípulos, à sua comunidade, à igreja nascente. Os discípulos, assim como provavelmente a comunidade joanina, estão perturbados com os eventos da paixão e incrédulos diante da ressurreição. Nesse contexto, João não pretende fundamentar uma teologia da ressurreição de Cristo, mas quer, sim, através de sinais concretos, guiar a comunidade a um novo relacionamento com o ressuscitado, criando assim a passagem para um novo tempo, o tempo da igreja. O Evangelho de João, por isso, dedica seus dois últimos capítulos (20-21) a descrever os sinais da ressurreição nas aparições do ressuscitado. Vejamos como isso se mostra em nosso texto específico. O texto de João 20.19-23 pode ser dividido em duas partes: 1) a vinda do Jesus ressuscitado e a alegria que essa vinda desperta; e 2) a missão dos discípulos a partir do dom do Espírito Santo. Vejamos cada um dos versículos detalhadamente. V. 19 – Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco! Aqui está de forma clara a situação após o aparente desfecho trágico do projeto de Jesus com seus discípulos. Os discípulos, com exceção de Tomé e Judas, estão trancados em uma casa com medo das autoridades judaicas. É o domingo de Páscoa, de tardezinha, no primeiro dia da semana, que mais tarde viria a chamar-se “domingo” (Dia do Senhor). Se são apenas os dez discípulos ou o grupo maior dos seguidores e seguidoras de Jesus que estão reunidos, não sabemos. Importa mais o sentimento que os reúne. O medo é a palavra de ordem aqui. Nessa situação, Jesus ressuscitado veio e pôs-se no meio deles. Jesus atravessa a parede. Ou seja, há um sinal claro de que a identidade do crucificado-ressuscitado é outra. A aparição rompe o padrão físico que conhecemos. Jesus saúda os discípulos com uma saudação típica em Israel: Paz seja convosco. Essa saudação, por si só, é mais do que nosso bom-dia, boa-tarde e boa-noite. Ela expressa o shalom judaico, uma paz que vai além de um sentimento e de um desejo apenas. Ao usar essa saudação, o Jesus ressuscitado anuncia o teor de sua vinda. A paz, o shalom, a manifestação de algo novo, concreto, uma nova relação, um novo início manifesta-se por meio de sua ressurreição. Sua vin-

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da aqui não é para recriminar a atitude dos discípulos até ali. Está tudo resolvido entre Jesus e os discípulos. Tudo foi perdoado: a traição, o abandono, a negação de Pedro, a descrença na ressurreição e no relato de Maria Madalena (Jo 20.1-18). Algo novo está sendo gestado. V. 20 – E, dizendo isso, lhes mostrou as mãos e o lado. Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor. O Jesus ressuscitado, mesmo se manifestando de forma não física, é o crucificado. Não é um fantasma ou um espírito. Por isso ele mostra as chagas nas mãos e no lado. Elas comprovam a ressurreição que fora profetizada. A reação e o sentimento não podiam ser outros: alegria. Alegria não é aqui mero sentimentalismo. É alegria no espírito. Nasce da paz, do shalom. A alegria proveniente da paz que a ressurreição estabelece baseia-se ainda nos ferimentos, nas chagas, na cruz. Ou seja, a cruz não deve ser esquecida. Ela faz parte da ressurreição. A alegria está direcionada para a incumbência que virá: levar o perdão ao mundo, mundo cheio de culpa/cruz e graça/perdão, mundo com sinais da paixão e da ressurreição. V. 21 – Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Como vimos no v. 19, essa saudação não é uma mera saudação, uma formalidade. Ela está apontando para aquilo que a ressurreição começa a gerar na comunidade dos discípulos. Por isso Jesus repete a saudação. Essa paz é a paz que o mundo não pode dar (Jo 14.27). Lembremos também que a razão do envio de Jesus é nada mais e nada menos do que salvar o mundo (Jo 3.17). É paz alicerçada no perdão, alcançado por Jesus na cruz. Essa paz é a base de tudo. Por causa dela Jesus foi enviado ao mundo pelo Pai. Por causa dela Jesus enfrentou a cruz. Por causa dela Deus ressuscitou Jesus no domingo da Páscoa. Por causa dela Jesus está ali, no meio dos discípulos, enviando-os ao mundo. A igreja nasce dessa paz. Ela é a base para a nova relação e para a nova comunhão. Base para o envio dos discípulos. V. 22 – E, havendo dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. A alegria e a paz que os discípulos vivenciam aqui ainda não podem ser entendidas e vivenciadas completamente. Por isso Jesus sopra sobre a comunidade dos discípulos o Espírito Santo. O Espírito Santo prometido anteriormente (Jo 14. 3 e 18) é dado aqui concretamente. Há uma relação entre esse sopro e o sopro de Deus nas narinas de Adão em Gênesis 2.7. Essa ação de Jesus marca a nova criação no novo primeiro dia da semana, no domingo da Páscoa. Sem esse hálito de vida divino, o Espírito, a ressurreição teria permanecido apenas um relato, uma ideia, uma bonita história a ser compartilhada. O sopro do Espírito abre os olhos e o coração dos discípulos para a nova realidade. A ação do Espírito Santo dá certeza e convence as consciência, anima, dá coragem, arranca o medo, cria a realidade da paz, antes anunciada, cria a fé na ressurreição. Importante observar que é o Cristo crucificado-ressuscitado quem sopra. Ou seja, a ação do Espírito Santo na igreja passa pela crucificação e ressurreição de Jesus Cristo. A manifestação do Espírito não é algo isolado da Páscoa, como muito se vê em determinados grupos religiosos hoje. V. 23 – Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos. Aqui está o teor da missão dada aos discípulos. A missão

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aqui não é fazer discípulos (Mt 28.19), pregar o evangelho (Mc 16.15), converter em nome de Jesus (Lc 24.47), mas especificamente perdoar e reter pecados. Ou seja, assim como a realidade da paz convosco foi possibilitada por Jesus Cristo na cruz e faz-se presente agora através de sua ressurreição, por meio do sopro do Espírito Santo, os discípulos são incumbidos de perdoar e reter os pecados, dando às pessoas acesso a essa nova realidade. Importante lembrar que, no Evangelho de João, Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.35-40). Nosso texto confirma, portanto, a confissão de João Batista.

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Meditação

Vários aspectos da meditação já estão presentes na análise exegética dos versículos acima. Há uma grande coerência interna nesse texto aqui estudado, assim como em todo o Evangelho de João. Cada parte desse pequeno texto e cada versículo estão intimamente relacionados entre si e, ao mesmo tempo, com todo o evangelho. A ressurreição de Cristo torna-se visível na paz, no shalom, presente na comunidade. Essa paz, no entanto, existe por causa do perdão conquistado por Cristo na cruz. Apropriamo-nos ou temos parte nesse perdão, não por nosso esforço ou mérito. Ele é dado a nós pelo próprio Cristo. É graça. E mais: não é algo para o nosso benefício apenas, como muitos pensam hoje. Essa realidade de paz, alicerçada no perdão de Cristo e tornada viva em nós pela ação do Espírito, em nós é algo para ser expandido através da igreja, ou seja, através do serviço de perdoar e reter pecados de pessoas mundo afora. A ressurreição de Jesus Cristo e sua manifestação são motivo de grande alegria. Essa manifestação tira o medo daqueles que estão trancados em uma casa, libera-nos de nossas prisões. Se a grandeza dessa manifestação do Cristo crucificado e agora ressuscitado ainda não fosse suficiente para nos encorajar, então o sopro do Espírito Santo, a ação do Espírito, completaria o que nos falta. No Domingo de Pentecostes, é oportuno reforçar essa verdade. É o sopro do Espírito que permite que a ressurreição seja uma realidade entre nós. E mais: é o Espírito Santo que permite que nossas comunidades existam como realidades em que a paz acontece. Paz não como um sentimento apenas, mas como uma nova realidade, algo concreto. O mesmo Espírito que nos viabiliza viver e entender essa nova realidade de paz e perdão envia-nos e espalha perdão ao mundo. É muito importante reforçar esta ideia: o perdão não nos é dado apenas por causa de nós, indivíduos isolados. O perdão nos é dado, sim, para que, perdoados, possamos tomar como incumbência a tarefa de perdoar e reter pecados de pessoas. Essa é a missão da igreja hoje. A igreja é feita de cada um de seus membros. Ela é a presença de Cristo no mundo. A igreja, seus membros, corpo de Cristo, é o Cordeiro de Deus vivo que tira o pecado do mundo (Jo 1.35-40). Parece-me que essa incumbência deveria ser levada mais a sério como incumbência. A partir de nosso texto, podemos dizer que: – a realidade da ressurreição está diretamente relacionada ao perdão dos pecados;

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– esse perdão nos é dado por Cristo na cruz, de modo que já estamos em paz com ele; – o perdão nasce dessa paz e gera a paz que o mundo não pode dar; – pregar o evangelho é perdoar e reter pecados; – essa tarefa é o motivo pelo qual a igreja é enviada, por Cristo, ao mundo. A pregação, portanto, deveria trabalhar o aspecto do perdão. No centro de tudo está o perdão. Páscoa e Pentecostes giram em torno desse termo. Mas o perdão dos pecados não precisa ser encarado com pesar, tristeza, com julgamentos e moralismos. Em João, o perdão está rodeado pela Páscoa e pelo Pentecostes, pela alegria e pela paz. Perdão significa o fim do medo. Em que medida a comunidade e a igreja têm sido espaços desse perdão e dessa reconciliação? Em que medida a comunidade cristã é o espaço daqueles que carecem do perdão? É a comunidade um espaço de pecadores ou apenas daqueles “dignos”, “santos”? A comunidade tem ido ao mundo para perdoar e reter perdão? E, olhando do lado da comunidade, do lado das pessoas de hoje, cabe a pergunta: De que as pessoas necessitam perdão? Ou: Quais são os pecados que as pessoas cometem? Se a pregação abrisse um espaço para o diálogo sobre essas questões, seria muito bom. Arrisco dizer que falar de perdão e de pecados hoje obriga-nos a sair da dimensão apenas ontológica e dogmática. Deve ser uma dimensão teológica, ou seja, vinculada à vida vivida. Precisamos olhar o dia a dia, nossa falta de tempo, a fragilidade de nossas relações, o individualismo e o isolamento, o consumismo de coisas e de pessoas, a degradação do planeta e da vida, a falta de sentido e esperança dos jovens, nossas doenças, em grande medida causadas por nossos alimentos contaminados e nosso estilo de vida degradante, a miséria da maioria das pessoas em todas as partes, as tantas injustiças e abusos, a violência que está à espreita em todo canto. Parece que constantemente temos perdido o fio da própria vida. É um pecado contra Deus, mas também contra a vida, contra nós mesmos. Nosso pecado deixa-nos com medo de sair à rua (situação dos discípulos). Para cada uma dessas expressões há uma centena de exemplos concretos e reais. Em cada um deles está nosso pecado, que precisa ser redimido e retido. Que o Espírito Santo, que sempre pôs o mundo e a vida em movimento, nos toque neste culto de Pentecostes através da pregação, para que o perdão seja uma realidade viva. Que o Espírito faça a Páscoa do Cristo ressuscitado, paz convosco, ser uma realidade em nossa comunidade e, através dela, no mundo, até que ele volte.

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Imagens para a prédica

a – Situação de medo: Quando eu era pequeno e sentia medo à noite, quando estava dormindo no escuro, eu me tapava com a coberta. Ficava embaixo da coberta, com o coração batendo muito rapidamente, com calor, quase sem ar, com muito medo. O medo não ia embora. Até que eu chamava meus pais ou meus irmãos. Eles vinham, acendiam a luz e mostravam que não havia motivo para meu medo. Então tudo ficava bem. Eu ficava com vergonha de meu medo e por ter acordado todo mundo. Mesmo assim, podia dormir em paz. O texto bíblico

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lembrou-me dessa situação, que deve ser a situação de muitos. Os adultos e os jovens devem lembrar sua infância quando também sentiam medo. As crianças vão lembrar talvez uma situação parecida ocorrida em uma noite próxima. Assim estavam os discípulos: Mortos de medo! Incrédulos da ressurreição! Achando que tudo tinha sido em vão. Então Jesus aparece (a luz é acesa). O medo dá lugar à alegria. Tudo faz sentido. O perdão vira realidade. A ressurreição cria paz como uma nova realidade. Podemos dormir em paz, sabendo que o dia virá. b – Culto e liturgia: O culto e a prédica são ótimos momentos de catequese, de ensino. Nossas comunidades carecem de esclarecimentos básicos sobre aspectos teológicos, confessionais e litúrgicos, que às vezes julgamos ser conhecidos. Por isso, na prédica deste culto de Pentecostes, poder-se-ia falar de alguns desses aspectos. c – Pentecostes e o Espírito Santo: Por ser Domingo de Pentecostes no calendário litúrgico, é um excelente momento para falar sobre a celebração e sobre o próprio Espírito Santo. Os textos bíblicos apontam para a ação do Espírito Santo na caminhada do povo de Deus. Mesmo que o relato de Atos 2.1-11 seja o relato fundante, a ação do Espírito, por sua própria dinâmica, não se restringe apenas a esse ato. Muito importante: a ação do Espírito está relacionada com Jesus Cristo, com o evento da cruz, com a Páscoa. O sopro do Espírito passa por Jesus Cristo sempre. No calendário litúrgico, a festa de Pentecostes encerra o ciclo da Páscoa. No culto de Pentecostes, o Círio Pascal, símbolo do Cristo ressuscitado, é apagado, simbolizando a passagem para a nova chama da ressurreição, o Espírito Santo. Ou seja, Pentecostes está totalmente imbricado na Páscoa, não é algo isolado. d – Perdão e remissão de pecados: Outro aspecto importante que poderia ser aprofundado são o perdão e a remissão dos pecados. As pessoas hoje parecem não querer mais falar de pecado e da necessidade da remissão. Perdão e remissão de pecados estão relacionados ao sacramento do Batismo. Se houver Batismo e/ou Confirmação/profissão de fé (em algumas comunidades, Batismos e Confirmações ocorrem no Domingo de Pentecostes), seria uma excelente base para falar do perdão e do pecado. É aqui, em torno da fonte batismal, que a igreja assume sua tarefa, para a qual Cristo enviou: perdoar e reter pecados. Um culto de Pentecostes, tendo como texto de pregação João 20.19-23, poderia ter a rememoração do Batismo. Seria um excelente momento para refletir sobre a realidade do pecado e a necessidade do perdão diário. Do sacramento do Batismo se desdobram vários outros elementos que poderiam ser incluídos na pregação: a confissão e a remissão de pecados no início do culto; a conversa individual em que pecados são retidos e perdoados; a visita a moribundos e a unção com óleo; o gesto da paz como gesto de reconciliação na Eucaristia.

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Subsídios litúrgicos

A poesia a seguir pode ser usada na prédica, na acolhida ou como preparação para o envio.

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Vento de Deus Tu que sopras onde queres, Vento de Deus dando vida, aproxima-te, sopra fecundo! Sopra-me vida em teu sopro! Faze-me todo janelas, olhos abertos e abraço. Leva-me em Boa Notícia sobre os telhados do medo. Passa-me em torno das flores, Beijo de graça e ternura. Joga-me contra a injustiça em furacão de Verdade. Deita-me em cima dos mortos, boca-profeta a chamá-los. Amém. (Pedro Casaldáliga) Confissão de pecados: Ó Santíssimo Espírito, neste dia de Pentecostes colocamo-nos em tua presença manifestando a nossa fragilidade, reconhecendo os nossos erros e pedindo o teu perdão. Lava-nos e purifica-nos, renovando nossas vidas no teu fogo abrasador. Na certeza do teu perdão, glorificamos-te, hoje e sempre. Amém. (Vera Lúcia Chvatal) Oração eucarística (com base em Jo 20.19-23): Deus da paz, graças te damos por tua criação e por nossas vidas. Damos-te graças pela presença e ação de Teu Espírito Santo em todos os tempos e lugares. Por meio dele criaste tudo o que existe. Por meio dele sustentaste a fé do teu povo em sua caminhada. No tempo certo, tu vieste a nós em Jesus Cristo, nova manifestação do Espírito, feito gente, nosso irmão. Por isso, animados por esse sopro de vida em nós, tua comunidade, louvamos-te e adoramos-te com nossas vozes e nossa música, juntando-nos com os anjos e com toda a tua igreja, cantando... (Sanctus).

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Deus da paz, graças te damos por Jesus Cristo. Ele, encarnação humana do Espírito, viveu entre nós, tornou-se próximo da gente, ensinando com gestos concretos a paz que o mundo não pode dar. Para nos perdoar de todo o nosso pecado, assumiu a morte na cruz, para no Domingo da Páscoa voltar à vida, na ressurreição, a verdadeira paz conosco, motivo de alegria eterna. Tudo isso lembramos nesta ceia, fazendo o que Jesus Cristo mesmo fez. Ele, nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído... (Narrativa da instituição). Deus da paz, graças te damos pelo Espírito Santo. Sopra sobre nós aqui nesta refeição o teu Espírito para que este pão e este fruto da videira sejam agora para nós o corpo e o sangue de Cristo, ceia da nova aliança do perdão para a nova vida contigo, nossa salvação. Que essa refeição nos fortaleça e que teu Espírito nos impulsione a ir mundo afora, perdoando e retendo os pecados do mundo. Amém. Elementos litúrgicos que deveriam ser usados na liturgia: gesto da paz, cordeiro de Deus. Na Eucaristia, o Cristo ressuscitado vem e faz-se presente entre nós, livrando-nos do medo e dando-nos alegria e paz.

Bibliografia BARRETT, Charles K. Das Evangelium nach Johannes. Berlim: Ev. Verlagsanstalt, 1990. BOOR, Werner de. Evangelho de João II: comentário esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002. NICCACI, Alviero; BATTAGLIA, Oscar. Comentário ao Evangelho de São João. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1985. WIKENHAUSER, Alfred. El Evangelio según San Juan. Barcelona: Herder, 1978.

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PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 13.11-13

1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (TRINDADE)

SALMO 8 MATEUS 28.16-20

15 JUN 2014

Wilhelm Sell

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Introdução

O Primeiro Domingo após Pentecostes é denominado no calendário litúrgico da igreja de Domingo da Trindade. É dia reservado para atentarmos à ação do Deus Triúno na história de sua criação. O Salmo 8, previsto para este domingo, vem justamente nessa direção. Relata a magnitude do Deus que cria e está presente ativamente nos pequenos detalhes da vida. Coroando o ser humano com glória e honra, vocaciona-o para cuidar das obras que brotaram e brotam de seu amor. Esse amor tem sua expressão plena na encarnação do Filho, no qual enxergamos o rosto do próprio Deus, do Deus cheio de misericórdia. Por meio dele somos chamados e desafiados a cada novo dia a ser igreja, corpo seu, que atua na evangelização, formando discípulos que são inseridos no Reino por meio de seu nome, da obra vicária que esse nome representa. Isso não fazemos por forças próprias, mas pela ação do Espírito Santo, que nos chama, anima e encoraja ao anúncio e ensino de sua Palavra. É isso que o segundo texto da leitura nos traz (Mt 28.16-20). A ação de Deus sempre deve ser vista na perfeita comunhão entre Pai, Filho e Espírito Santo. Deus cria, salva e orienta. É a partir desse horizonte que o próprio Jesus Cristo institui o Batismo. O texto de 2 Coríntios, abaixo analisado pela indicação à pregação, traz-nos as saudações e recomendações finais da segunda carta do apóstolo Paulo à comunidade situada na cidade de Corinto. Essa termina com a bênção apostólica, a qual aponta para a Trindade: a graça de Cristo revela-nos o amor de Deus Pai, o qual nos envia o Espírito Santo, que produz comunhão fraternal entre os seus.

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Exegese

Após o extraordinário encontro com Jesus Cristo a caminho de Damasco, o apóstolo Paulo engaja-se na tarefa missionária. Corinto, cidade portuária, com estimados 500 mil habitantes, torna-se um lugar estratégico para falar do evangelho a pessoas “de fora”. Por estar localizada num excelente eixo comercial, tornou-se uma cidade aberta ao mundo, com muitos estrangeiros, que também trouxeram consigo costumes e sua religiosidade. Em Atos 18.1-18, somos informados do início da igreja. A atuação de Paulo começa na sinagoga, depois é transferida para reuniões em casas, aonde mais pessoas se achegam. Ele permanece por lá em torno de um ano e meio. É substituído por Apolo, um judeu convertido de boa

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oratória e muito empolgado com o evangelho. Característica da comunidade de Corinto são os diversos grupos, os quais são formados por pessoas que pensam diferente. Consequentemente, no seio dessa igreja há muitos conflitos, que Paulo tenta resolver por meio de suas cartas. Para lembrar, Apolo torna-se, por causa de sua capacidade teológica e argumentativa, importante na comunidade de Corinto (principalmente na discussão com judeus sobre Jesus como Cristo), a ponto de ter um grupo que se denominava “os de Apolo” (1Co 1.12; 3.4). Também havia nessa comunidade um grupo de pessoas, provavelmente oriundas de Jerusalém, que criam que a unidade da igreja estaria garantida se todos se submetessem a Pedro. Esses são chamados “os de Pedro” (1Co 1.12). Eles provavelmente desconheciam inicialmente o ministério de Paulo. Havia aqueles que defendiam o apóstolo, que provavelmente relataram a ele, por meio de cartas, o que acontecia na comunidade. Esses são denominados “os de Paulo”. Mas a principal preocupação de Paulo era em relação a um grupo que se denominava como “os de Cristo”. Assim como os outros grupos, eles argumentavam que sua maneira de viver o evangelho era a mais correta. No entanto, alguns de seus costumes poderiam estar levando a igreja de Corinto a distanciar-se do evangelho. Na primeira Carta aos Coríntios, percebemos que Paulo responde especialmente aos de Cristo em relação a algumas desconfianças que lançaram sobre seu apostolado: questionavam se Paulo tem o Espírito Santo (1Co 7.40), se ele é um verdadeiro apóstolo (1Co 9.2; 15.9) e se ele tem o dom de línguas (1Co 14.18). De 1 Coríntios 4.17 a 16.10 percebe-se que Paulo enviou Timóteo para levar a primeira carta na tentativa de que esse o ajudasse a resolver os impasses. O que não aconteceu. Por essa razão, o próprio apóstolo Paulo viaja a Corinto para colocar as coisas em ordem. A segunda carta é posterior a essa visita. É evidente que essa visita não foi de todo feliz (2Co 2.1ss). Mesmo que algumas coisas tenham sido resolvidas, outras discordâncias, já de longa data, continuavam gerando problemas a ponto de tirar a paz da comunidade. Há fortes posições contra Paulo. As dúvidas lançadas acerca de seu apostolado, que já eram perceptíveis na primeira carta, tornam-se ainda mais visíveis na segunda. Alguns opositores não recuam. Provavelmente pertencem ao grupo mais fanático da igreja: “os de Cristo”. Ao ler a carta num todo, entendemos que uma maioria apoia e respeita o ministério de Paulo. A respeito daquele que o ofendeu e estava em “disciplina”, o apóstolo pede para que sejam brandos e tratem-no de maneira que ele sinta o amor comunitário (2Co 2.5-11). Temos a informação da possibilidade de uma carta (“Carta das Lágrimas”) entre 1 e 2 Coríntios, da qual não temos mais registro e que foi levada por Tito (2Co 2.1ss). O tom áspero entre os capítulos 10-13 mostra a insistente oposição na comunidade. Interessante é notar que Paulo não esconde o fato de que o ministério é cheio de privações, sacrifícios, hostilidades e sofrimento. Particularmente, ele sofria de um problema físico e não teve sua oração de cura atendida (2Co 12.1-10). O apóstolo entende que a fé em Jesus Cristo não garante uma vida de sucesso, sem sofrimentos, mostrando antes como a fé ajuda a não se desesperar nas privações, sofrimentos e doenças. Deus faz-se

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presente por meio do Espírito Santo na vida daqueles que em fé se encontram nessas situações. A breve análise exegética feita revela que o trecho bíblico indicado para a pregação deve ser entendido no contexto geral da carta com todos os seus diversos aspectos. Ela vem como fechamento de tudo o que Paulo diz à comunidade, aliado a algumas últimas importantes recomendações. Mesmo diante de todos os conflitos, Paulo chama todos de irmãos. Com toda a linguagem áspera e suas severas exortações, o apóstolo chega no momento em que considera todos parte de uma mesma família, todos são um só corpo. Nos versos que seguem, há cinco preceitos no imperativo presente: Regozijai-vos (chairo: também em 2.3; 6.10; 7.7,9,13,16; 13.9), aperfeiçoai-vos (katartizo, significando refazer, restaurar), consolai-vos (parakaleo: também em 1.4,6; 2.7, 7.6, 7, 13), sede do mesmo parecer (lit.: pensem a mesma coisa – como em Rm 12.16; 15.5, Fp 2.2; 4.2) e vivei em paz (eireneuo, significando mantenham a paz). A meditação abaixo contempla esses cinco conceitos.

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Meditação

O Primeiro Domingo após Pentecostes, também chamado de Domingo da Trindade, convida-nos a olhar para o agir trinitário de Deus na história da humanidade. No texto para reflexão, Paulo despede-se da comunidade, desejando a bênção do Deus Triúno, que agiu em sua vida pessoal e também na vida dos irmãos. Olhar para a situação em que se encontra a comunidade cristã de Corinto faz-nos lembrar do contexto em que se encontra a maioria de nossas comunidades. É muito fácil traçar um paralelo entre as duas realidades. O contexto social, cultural e comunitário de Corinto tem muito em comum com o nosso. A diversidade de classes sociais, a mistura racial e cultural, a diversidade religiosa e teológica também nos são bem familiares. Assim, certamente os desafios não são menos intensos. Com isso também em nosso tempo enfrentamos dificuldades com as quais precisamos nos ocupar tanto no âmbito pessoal como comunitário. Essa é a realidade para a qual somos motivados a testemunhar e anunciar o evangelho de Jesus Cristo. Uma das ênfases que podemos explorar são as dificuldades e os desafios que o ministério apresenta, pensando aqui no “sacerdócio geral de todos os crentes”. Paulo deixa isso muito claro em seu escrito. Esses desafios são ainda maiores quando o ministério é desempenhado numa diversidade tão grande quanto a de Corinto ou quanto a de nossa IECLB. As crises fazem parte, e Paulo nos pode ajudar, aconselhar e motivar a crescer pessoalmente e como comunidade. Problemas e dificuldades são bem comuns onde se pretende vivenciar a fé cristã em comunidade. Cada membro da comunidade cristã traz consigo uma grande bagagem cultural e teológica que precisa ser levada em conta. A pergunta que nos cabe responder é: Como podemos anunciar o evangelho de Jesus Cristo de forma clara e relevante para dentro dessa realidade diversa? Em que Paulo nos pode ajudar? Para responder isso, queremos olhar mais de perto a perícope proposta para o estudo.

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O apóstolo Paulo pede para que, mesmo diante dos conflitos, a comunidade se regozije em Deus. É a ideia de que não devemos focar somente os problemas, o que causa desânimo, mas sim a graça, o que nos ajuda na vivência prática da fé individual e comunitária. Por isso, apesar das latentes divergências e dificuldades entre irmãos, o apóstolo convida seus leitores a buscar a perfeição, a agir corretamente. Com isso todos são desafiados a deixar de lado o pecado e as vontades pessoais e a agir em conformidade com evangelho de Cristo, que lhes foi apresentado. Assim como em Corinto, também em nosso tempo e contexto isso é um grande desafio. Facilmente só passamos a enxergar os problemas e esquecemos de focar a graça de Cristo, de pedir o auxílio do Espírito Santo para vivenciar a fé diante de todos os desafios diários. Na sequência, Paulo também convida cada um a ajudar o outro, exortando e consolando-se mutuamente. Para que isso aconteça, é necessário que saiam de seu egoísmo, envolvam-se e se preocupem com a vida do outro, cuidando e amparando-se mutuamente. Esse é um grande desafio para os cristãos de todos os tempos. Ainda mais hoje, quando cada vez mais as pessoas se fecham e nem mesmo conhecem a pessoa que mora ao lado. Também a nível de comunidade essa é uma grande dificuldade. Quantos de nossos membros se conhecem de fato, visitam-se e se preocupam com os outros? Em muitas comunidades, especialmente as maiores, grande parcela dos membros encontra-se nos cultos, mas não se envolve. Imagina então conhecer os problemas e dificuldades uns dos outros! Para que se experimente o consolo mútuo, é necessário sair do egoísmo e ir ao encontro do outro. Outro grande desafio é o pedido de Paulo aos cristãos para que tenham o mesmo modo de pensar. Se ficarmos só a nível de comunidade local, isso já é um desafio imenso; imagina então se olhamos a nível de igreja nacional ou então a nível ecumênico. No entanto, diante de toda a diversidade teológica dentro de nossas comunidades, as palavras de Paulo chamam nossa atenção para a centralidade de Cristo, o reconciliador, salvador e senhor. As teologia paulina não deixa margem para manipularmos o evangelho de acordo com nossas vontades ou necessidades. Talvez esse seja o grande perigo que corremos hoje. Vivemos na tensão de fazer do evangelho um conjunto fechado de regras a ser seguidas de forma legalista ou de fazer de sua mensagem um novo estilo de humanismo, que, por meio de alguns conceitos, tenta justificar pecados estruturais e pessoais. Nota-se assim que Paulo tem uma posição bastante madura em afirmar que é necessário um pensar central, pois a mensagem do evangelho não muda, mesmo que haja divergências em questões “marginais” da fé e que o tempo e o contexto sejam outros. Que sejam do mesmo parecer – é sua recomendação. É certo que a vida comunitária é cheia de tensões. Por essa razão, na vivência dessa, é preciso estar clara a centralidade de Cristo por meio de sua graça. Aqui encontramos a importância da vocação catequética da igreja em ensinar a guardar tudo o que Ele tem ordenado, como somos lembrados pela leitura do evangelho. É nessa direção que é possível viver na paz. Essa paz nenhum outro pode dar, somente o próprio Deus, que cria, salva e continua presente por meio

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do Espírito Santo. Nessa compreensão é que somos chamados e desafiados a ser seu corpo, atuante no mundo em que vivemos. Essa ação concretiza-se no serviço ao reino com os dons que Deus dá a cada um por meio da fé, mas também na sociedade em que vivemos e que é tão carente de luta por justiça, honestidade e integridade.

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Imagens para a prédica

Sugere-se fazer uma comparação entre os dois contextos históricos. Pode-se iniciar falando da comunidade de Corinto e das semelhanças com a comunidade local. Isso poderia ser feito por meio de uma prédica dialogada ou com perguntas reflexivas quanto à proximidade das comunidades. No entanto, a atenção não deve estar somente sobre os problemas. Esses devem ser apontados, mas é preciso remeter ao amor do Trino Deus, que nos convida a olhar para Jesus Cristo e sua graça, convidando a comunidade a viver a partir do evangelho. Nesse sentido, é preciso lembrar do sacerdócio geral de todos os crentes e da vocação catequética da igreja. Falar de arrependimento e engajamento poderiam ter seu lugar aqui.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Bondoso Deus, somos gratos a Ti porque podemos estar na tua presença. Tu nos chamas sempre de novo para perto de Ti. Tu queres nos orientar e cuidar. Sabemos que Tu conheces nosso coração, nossa maneira de ser; também daquilo que está no mais íntimo de nosso ser Tu tens conhecimento. Também sabes, Senhor, de nossas dificuldades em seguir a tua vontade. Mesmo quando não queremos, tropeçamos. Isso fazemos, Deus, como pessoas, mas também como comunidade. Queremos colocar-nos diante de ti, arrependidos dos nossos pecados e pedindo-te por misericórdia. Dá-nos restauração! E, além disso, Deus, queremos pedir-te que venhas nos dar forças, ânimo, discernimento e sabedoria para poder vivenciar o teu evangelho a cada novo dia. Que diante de dilemas, problemas e divergências a tua vontade prevaleça sobre a nossa. Tem piedade de nós, Senhor! Amém! Intercessão: Sugere-se perguntar sobre motivos de intercessão à própria comunidade reunida, pensando na reflexão que a palavra de Deus proporcionou, mas também nas angústias pessoais.

Bibliografia HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Editora Esperança, 1996. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

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PRÉDICA: JEREMIAS 20.7-13

2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MATEUS 10.24-39 ROMANOS 6.1b-11

22 JUN 2014

Jilton Moraes

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Introdução

O texto de Mateus focaliza Jesus enviando discípulos e instruindo-os no trabalho prático; eles recebem do Mestre a ordem de ir pregando a mensagem. Sendo o Mestre maior do que o discípulo, o anseio deles seria buscar ser como Cristo. Deveriam cumprir a missão sem temor, convictos da soberania e do cuidado de Deus e certos de que quem confessa a Jesus de igual modo é confessado por ele e quem o nega é negado por ele. Jesus menciona ainda as dificuldades para segui-lo e o preço do discipulado. O texto de Romanos começa com perguntas retóricas. Visando ressaltar a realidade do novo viver em Cristo, Paulo utiliza figuras contrastantes – vida e morte – para dizer que, unidos a Cristo, morremos para o pecado e ressurgimos para uma nova vida com ele. Lembrando que estamos unidos ao Mestre na semelhança de sua morte, uma vez que o velho homem foi crucificado, ele destaca: havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, do mesmo modo seremos unidos a ele; assim nos devemos considerar mortos para o pecado, mas vivos para com Deus em Jesus. O texto da prédica apresenta o desapontamento de Jeremias, que, por pregar a palavra colocada por Deus em seu coração, enfrentou oposição e escárnio de ouvintes habituados às mensagens triunfalistas dos falsos profetas. Apesar disso, quando pensa em deixar de falar, um fogo arde em seu coração, e ele não se pode omitir. E a despeito da angústia, sua experiência passa da decepção à realização: termina louvando o Senhor, que está com ele como um forte guerreiro. Por isso os perseguidores tropeçarão e não prevalecerão.

2

Exegese: Jeremias 20.7-13

O foco principal da perícope é a desilusão do profeta. A partir da Nova Versão Internacional (NVI), as traduções Interconfessional (TI), Brasileira (TJ), A Mensagem (M) e Bíblia de Jerusalém (BJ) alargam a visão do texto. V. 7 – “Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste. Sou ridicularizado o dia inteiro; todos zombam de mim”. TI: “Seduziste-me e fui apanhado”. “Tu me forçaste a isso, ó Deus; e eu te permiti que o fizesses” [M]; “Tu me seduziste, e eu me deixei seduzir” [BJ]. O contraste entre o poder de Deus e a fragilidade humana aparece claramente: “És mais forte do que eu, e teu poder

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dominou-me” [TI]. Sendo que Jeremias havia sido espancado e estava preso no tronco (20.1-2), sua insuficiência aparecia de modo ainda mais gritante. V. 8 – “Sempre que falo é para gritar que há violência e destruição. Por isso a palavra do Senhor trouxe-me insulto e censura o tempo todo.” Aqui, Jeremias menciona a causa de sua agonia: “Sou ridicularizado e escarnecido a todo momento, só porque proclamo as tuas mensagens” [TI]; “Tudo o que recebo por transmitir as advertências do Eterno é insulto e desprezo” [M]. Sua pregação contrastava com a palavra triunfalista dos demais profetas, que falavam o que as autoridades queriam ouvir e não o que Deus tinha para ser ouvido por eles. Jeremias tinha a convicção do profeta. Ele iniciou seu trabalho profético afirmando: “A palavra do Senhor veio a mim” (1.4). “A palavra de Iahweh me foi dirigida” [BJ]. Nesse primeiro capítulo, a afirmação é repetida nos versículos 11 e 13. O capítulo seguinte abre com a mesma afirmação: “A palavra do Senhor veio a mim” (2.1); e em 32.26, outra vez a encontramos, completando cinco afirmações. É significativo que a expressão palavra do Senhor ocorra num total de 48 vezes nesse livro. V. 9 – Mas se eu digo: “Não o mencionarei nem mais falarei em seu nome”, é como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim. Estou exausto tentando contê-lo; já não posso mais. A dor era tamanha, que Jeremias chega a pensar em se calar. “Mas quando digo: Não quero ser mensageiro do Senhor e não falarei mais do seu nome” [TI]. “Mas se digo: Esqueça, não vou mais falar nada que venha do Eterno! As palavras queimam como um fogo no meu coração e incendeiam meus ossos. Estou exausto, tentando segurá-las dentro de mim. Já não aguento mais” [M]. Harrison afirma que a situação de Jeremias agravava-se ainda mais “porque sua ardente vocação profética o forçava a falar da espiritualidade exigida pela aliança, enfrentando toda oposição de seus compatriotas amados”1. O quadro é o de alguém incompreendido e rejeitado por todos: V. 10 – “Ouço muitos comentando: ‘Terror por todos os lados! Denunciem-no! Vamos denunciá-lo!’ Todos os meus amigos estão esperando que eu tropece e dizem: Talvez ele se deixe enganar; então nós o venceremos e nos vingaremos dele.” Diante da incompreensão e da rejeição, o profeta apresenta a sua queixa. Ele enfrenta um conflito emocional. A opressão pela autenticidade de sua pregação, apesar de imensa, não é maior do que sua paixão pela Palavra, que vem pela certeza de estar no centro da vontade de Deus. V. 11 – “Mas o Senhor está comigo como um forte guerreiro! Portanto, aqueles que me perseguem tropeçarão e não prevalecerão. O seu fracasso lhes trará completa vergonha; a sua desonra jamais será esquecida.” “O Eterno, o guerreiro mais valente está ao meu lado” [M]. Matthew Henry comenta: “O profeta deu-se conta de que a graça de Deus era poderosa nele

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HARRISON, R.K. Jeremias e Lamentações. São Paulo: Mundo Cristão, 1980. p. 90.

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para sustentá-lo em seu trabalho, contra a tentação em que se encontrava quanto a deixá-lo completamente [...] Ele estava tão cheio do consolo, da presença de Deus, da proteção divina sob a qual se encontrava e da promessa da qual deveria depender, que animou a si mesmo e a outros a dar glória a Deus”2. V. 12 – “Ó Senhor dos Exércitos, tu que examinas o justo e vês o coração e a mente, deixa-me ver a tua vingança sobre eles, pois a ti expus a minha causa.” Temos aqui uma referência à onisciência de Deus, que examina o justo e vê o coração e a mente. Nesse ponto, a queixa cede lugar a um canto de triunfo pela certeza da comunhão com Deus. O profeta conhecia o Senhor, a quem servia desde a sua juventude: “Ninguém te engana, tu enxergas o que se esconde dentro de tudo e de todos” [M]. Deus conhecia os falsos profetas e a mensagem que pregavam, conhecia o povo que se deleitava em fazer o que agradava a seus ouvidos e conhecia seu servo, o profeta, que era afrontado por sua fidelidade ao Altíssimo. Ao todo-poderoso e onisciente Deus Jeremias recorria: “Deixa-me ver a tua vingança sobre eles” [M]; “Quero que eles recebam a paga pelo que fizeram” [também]; “Permite que eu veja a tua vingança contra eles” [BJ]; “Eu verei a tua vingança contra eles”. Vingança (5.9; 5.29; 11.20; 46.10; 51.6) e castigo (4.18; 11,15; 11.23; 14.16; 23.12; 25.29; 30.14; 48.44; 49.12) são temas presentes na pregação de Jeremias. A mensagem encerra com um convite ao louvor. V. 13 – Cantem ao Senhor! Louvem o Senhor! Porque ele salva o pobre das mãos dos ímpios. O Deus justo que livra os menos favorecidos das mãos dos ímpios é digno de louvor: “Cantem ao Eterno! Todos os louvores sejam dados ao Eterno! Ele salva os fracos das garras dos maus” [M]. “Ele livrou a vida do pobre da mão dos perversos” [BJ].

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Meditação: O dilema do pregador

Mensagens éticas são, às vezes, as mais difíceis de ser ouvidas e pregadas. É mais agradável ouvir sobre o amor do que sobre a ira; discorrer sobre a paz do que sobre a guerra; mencionar bênçãos do que enfatizar castigo; confortar do que confrontar. Mas a prédica autêntica conforta os perturbados e perturba os confortados. E é para esses dois grupos que o pregador fala. Jeremias viveu essa realidade: rejeitado e castigado, queixou-se, falou de seu dilema e reafirmou sua confiança no Senhor. O dicionário Aurélio define dilema como situação embaraçosa, com duas saídas difíceis ou penosas. Assim se encontrava o profeta: por um lado, era difícil continuar pregando; por outro, era impossível deixar de pregar. Este dilema: o que fazer? Castigados por amor à Palavra, apresentemos nossa queixa e avaliemos nossa condição, reafirmando a nossa fé em Deus.

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Disponível em: http://bibliotecabiblica.blogspot.com.br/2013/04/jeremias.

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O dilema deve motivar o pregador a queixar-se ao Senhor. Jeremias abriu o seu coração (v. 1): “Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste”. Em que sentido Jeremias se sentia enganado? Que promessa Deus fez? Ao chamá-lo para o trabalho profético, Deus falou que o conhecia e havia separado para ser profeta (1.5). Jeremias disse que não sabia falar e era jovem (1.6). Deus mostrou que ele estava enganado (1.7): “Não diga que é muito jovem. A todos a quem eu o enviar você irá e dirá tudo o que eu lhe ordenar”. Deus prometeu estar com ele (v. 8): “Não tenha medo deles, pois eu estou com você para protegê-lo, diz o Senhor”. Deus não iludiu Jeremias; mostrou as dificuldades e garantiu-lhe acompanhamento (1.19): “Eles lutarão contra você, mas não o vencerão, pois eu estou com você e o protegerei, diz o Senhor”. O profeta Elias, também em completa solidão e desânimo, levou sua queixa ao Senhor e foi animado pela palavra do Senhor a realizar as tarefas que Deus havia destinado a serem executadas por ele. Hoje, diante da complexidade do trabalho que os pastores têm para realizar, às vezes eles se sentem angustiados e apresentam sua queixa ao Senhor. O dilema deve motivar o pregador a avaliar-se diante do Senhor. A queixa não superou a palavra de Jeremias. A situação difícil serviu para ele avaliar-se diante do Senhor. A nota dominante de seu discurso foi seu relacionamento apaixonado com a palavra do Senhor. Por mais que surgissem aparentes dúvidas, incompreensão, embaraços, havia uma certeza: os problemas não calariam a voz do profeta (v. 11). Quando ele pensava em calar, algo como um fogo ardia em seu coração; ele não podia deixar de falar a palavra do Deus, que o chamara. Os maiores dissabores que surgem algumas vezes oportunizam que nos apresentemos diante do Senhor em avaliação. Por que pregamos? Qual o lugar da pregação em nossa vida? O que significa a palavra de Deus para nós? As dificuldades calariam a nossa voz? O fogo do Senhor arde em nós, e não podemos deixar de falar? O dilema deve motivar o pregador a reafirmar sua fé no Senhor. O texto termina com um brado de vitória (v. 13): “Cantem ao Senhor! Louvem o Senhor! Porque ele salva o pobre das mãos dos ímpios”. M traduz: “Cantem ao Eterno! Todos os louvores sejam dados ao Eterno! Ele salva os fracos das garras dos maus”. A nossa marcha não pode ser impedida por causa das dificuldades. Não devemos apresentar com palavras o Deus que salva os fracos das garras do mal, mas devemos vivenciar a realidade do Deus que transforma nossa fraqueza em força e salva-nos das mãos dos ímpios. Nós que pregamos sobre a fé precisamos viver pela fé; nós que falamos da presença de Deus devemos sentir a realidade dessa presença em nós; nós que apresentamos com textos bíblicos o quadro de um Deus que cuida dos seus devemos mostrar que vivemos sob o cuidado dele. A vida do pregador é sua mais eloquente pregação. Não adianta soltar a voz em aparente louvor se não somos capazes de louvar ao Senhor em todos os momentos e circunstâncias. Paulo e Silas cantaram ao Senhor na prisão em Filipos. O profeta Habacuque, em meio à mais adversa situação, firmou sua fé nele; ainda que nada desse

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certo, sua fé estaria firmada nele; ainda assim ele exultaria no Senhor e se alegraria no Deus de sua salvação (Habacuque 3.17). A vida cristã é muitas vezes um dilema entre obedecer a Deus e agradar aos homens. Jeremias, rejeitado e castigado, foi tentado a calar sua voz, mas o fogo que ardia em seu coração foi mais forte, e ele terminou afirmando que não podia deixar de falar e reafirmando sua confiança no Senhor. Este é o desafio: mesmo castigados por amor à Palavra, apresentemos nossa queixa e avaliemos nossa condição, reafirmando a nossa fé em Deus. Amém.

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Imagens para a prédica

Na certeza da presença do Senhor somos sustentados – Jeremias viveu a crise da rejeição e da opressão por sua fidelidade ao Senhor. Grandes personagens vivem grandes crises. No entanto, servindo ao Mestre, aprendemos que quem serve a Deus não se deixa esmagar pela crise. Pedro e João tiveram atitude semelhante à de Jeremias – Ameaçados pelas autoridades a não mais falar em nome de Jesus, responderam: “Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não a Deus. Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos” (Atos 4.19-20). Eles tiveram a mesma paixão de Jeremias: calar para eles era impossível. Um pregador fiel ao “Assim diz o Senhor” – Para alimentar o rebanho, devemos nos manter fiéis aos ensinamentos da Palavra, explanando-a e aplicando-a às necessidades dos ouvintes. Sem Bíblia não há relevância na pregação. Quando o pregador prega sem base na Palavra, o que ele diz tem pouca força na vida dos ouvintes. Pastores que têm tentado deixar a Bíblia de lado no púlpito não têm tido condições de alimentar o rebanho. O desafio de pregar sempre é uma das maiores exigências no ministério pastoral. A mensagem que Jeremias pregava não era a mais agradável, mas era a mensagem que Deus tinha para o povo. A libertação não seria imediata. Eles ficariam algumas décadas na Babilônia até ser libertos. O desejo do povo era agora; a ordem de Deus era: Espere. Quantas vezes parece que queremos apressar Deus!... Falsos profetas enganavam o povo pregando a mensagem que eles gostavam de ouvir, mas não pregavam a mensagem que o Senhor tinha para eles. Qual a mensagem que o povo deseja ouvir hoje? Que mensagem Deus tem para nós hoje?

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Subsídios litúrgicos

O fogo precisa arder no coração do pregador Sermões frios ou mornos não alcançam pessoas, não movem estruturas, não ensinam, não confortam, não desafiam – são incapazes de mudar vidas. A palavra só aquece o coração do ouvinte quando parte de um coração em chamas (MORAES, Homilética, do ouvinte à prática, p. 177).

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Hino 85 1. Vem, Espírito divino, grande ensinador, vem, revela as nossas almas Cristo, o Salvador. Santo Espírito, ouve com favor! Em poder e graça insigne, mostra o teu amor. 2. Vem, destrói os alicerces do viver falaz, aos errados concedendo salvação e paz! 3. Vem, reveste a tua igreja de poder e luz! Vem, atrai os pecadores ao Senhor Jesus! As bem-aventuranças do pastor O pastor convicto da chamada de Deus não precisa atender os desafios dos homens. Ele tem como motivação realizar a vontade do Senhor, prega movido pelo poder do Senhor. O pastor que fala na autoridade do Senhor, sem a preocupação de agradar aos homens, é chamado de porta-voz de Deus. O pastor que tem como propósito agradar ao Senhor e não aos homens recebe a bênção de ser chamado servo bom e fiel. O pastor que se preocupa em anunciar com fidelidade a mensagem do Senhor recebe a honra de ser chamado profeta. O pastor cujo galardão não está em aplausos, elogios ou compensações terrenas recebe do Senhor o galardão eterno. (Adaptado de: Jilton MORAES. Ilustrações e poemas para diferentes ocasiões, p. 179)

Bibliografia HARRISON, R. K. Jeremias e Lamentações. São Paulo: Mundo Cristão, 1980. HENRY, Matthew. Comentário Bíblico do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

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PRÉDICA: MATEUS 10.40-42

3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JEREMIAS 28.5-9 ROMANOS 6.12-23

29 JUN 2014

Carlos Musskopf

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Introdução

Até agora, o texto foi tratado em Proclamar Libertação por três pastoras: Ângela Lenke (PL 35), Marli Lutz (PL 18) e Claudete Beise Ulrich (PL 30). Recomendo a leitura desses estudos, que dão subsídios muito importantes e têm boas propostas para prédicas. Trata-se de uma possibilidade. Outra possibilidade abre-se quando lemos o texto à luz do conflito entre uma teologia da retribuição e uma teologia da restauração. A teologia da retribuição está muito presente no pensamento bíblico. Também em nosso nos dias de hoje. Os seres humanos recebem as orientações divinas e são chamados a obedecer; quem obedece tem como retribuição uma recompensa, um galardão; quem não obedece tem como retribuição o castigo merecido. Não são raros os textos bíblicos em que as pessoas desobedientes são ameaçadas com consequências negativas à sua desobediência, a saber, doenças, desemprego, tristeza e até a morte, se não fizerem a vontade da divindade. Mas esse não é o caso de nosso texto de prédica. Ele traz claramente a dimensão de uma teologia da restauração, ou seja, a consequência dos atos contrários à vontade de Deus não geram vingança por parte de Deus. Não está presente nenhuma ameaça a quem não fizer o que Jesus ensina a seus discípulos. A decisão de abordar esse aspecto deve-se também à ênfase presente nos outros textos previstos para o 3º Domingo após Pentecostes: os dois salmos (33 e 89) indicados no lecionário, bem como Jeremias 28 e Romanos 6. Considero, pois, sábia a decisão de limitar o texto aos três últimos versículos de Mateus 10, pois, apesar de apresentarem diferenças internas, eles compõem uma unidade temática interessante.

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Exegese

Iniciamos lembrando que o tema de Mateus 10 termina no primeiro versículo do capítulo seguinte. Trata-se de um conjunto de instruções dadas por Jesus ao grupo de pessoas que irão pelas vilas pregar e realizar sinais. Irão fazer visitas domiciliares. São instruções diretas, dadas na segunda pessoa do plural até o v. 40. No v. 41, é usada uma forma genérica e, no v. 42, Jesus fala a outros ouvintes (não mais ao grupo de pessoas a serem enviadas), apontando para os “pequeninos”. Alguns comentaristas afirmam que os “pequeninos” podem ser as pessoas do grupo, mas também podem ser outras pessoas. Aí reside uma dificuldade, pois visivelmente

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Mateus ou um redator posterior tomou esse versículo de textos paralelos que ocorrem em bem outro contexto. Em Marcos 9.38, a “pequenina” é uma criança; o mesmo pode ser dito de Lucas 9.48. Já o texto de João 13.20 está em ainda outro contexto, a saber, da traição. O que se pode dizer é que nosso texto de pregação é um acréscimo posterior à compilação de ditos organizada por Mateus e contida no capítulo 10, conhecida como “sermão missionário”. É muito provável que, inicialmente, a compilação de Mateus passasse de 10.39 para 11.1. Embora haja uma unidade temática com o texto de Mateus 10, não há uma unidade estilística e literária. V. 40 – Mateus refere-se a uma antiga tradição judaica de dar a mesma distinção a um representante que teria o representado. W. Barclay esclarece que essa distinção era dispensada, em especial, a pessoas sábias e instruídas nas verdades de Deus: “O que recebe ao estudioso é como se recebesse a Deus”. Daí vem a mentalidade de que receber uma pessoa de Deus é como receber a própria divindade. Com esse pensamento Mateus introduz o tema das consequências sem ameaças. Receber alguém que vem em nome de Deus não é algo estéril. Frutifica. Cria reações. Gera consequências. Da mesma forma, ousar fazer uma visita a alguém em nome de Deus, da igreja, da paróquia, tem que ser levado muito a sério, pois algo irá acontecer e irá definir o futuro das pessoas visitadas. V. 41 – Na redação do sermão missionário feita por Mateus, até agora Jesus não havia feito referência ao grupo a ser enviado como um grupo de profetas ou de pessoas justas. Mas, neste versículo, entram esses dois atores (profeta e pessoa justa) na história. Havia na época de Mateus uma certa hierarquia entre os dons, sendo o maior o de profeta. O v. 41 coloca os dois em um mesmo patamar de importância, rompendo com a ideia de uma hierarquia entre um profeta, “um justo” e quem quer que seja. O texto quer definir que a variedade de galardões são dádivas divinas, que dão igual dignidade e valor a quem os recebe. Atuar pelo bem comum torna todas as pessoas dignas, independente do tipo de trabalho que realizam. No mundo em que viviam, umas apareciam mais do que as outras na sociedade, umas tinham suas habilidades mais destacadas do que as outras, algumas tinham uma inteligência mais útil ao sistema do que as outras; por isso tinham uma valorização maior na sociedade e no poder econômico (ou vice-versa). Parece que, no mundo em que vivemos, não mudou muito esse aspecto. V. 42 – No mosaico literário montado por Mateus em seu relato evangélico, este versículo está dentro do tema, mas totalmente fora de contexto. Agora Jesus não está mais falando às pessoas que está por enviar, mas as ouvintes são outras. Não diz “o que foi feito a vós”, mas diz “a um desses pequeninos”, que tanto podem ser os discípulos como crianças, conforme Marcos 9.36. Agora o galardão não é mais algo a ser conferido por Deus como recompensa, mas é algo já possuído e que não será tirado (de modo algum perderá). O uso de galardão no v. 41 é diferente do v. 42. No primeiro, galardão está vinculado a um status, ao uso de um dom, enquanto que, no segundo, é algo que muitas pessoas (ou seriam todas) têm e que lhes é retido por seus atos, por menores que sejam. Isto é, também a pessoa com pouca habilidade para os negócios e, consequentemente, com poucos recursos materiais não será excluída.

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Meditação

A visitação é uma prática comum em nossas comunidades. Em alguns lugares, as visitas são realizadas exclusivamente por pessoas que representam o ministério ordenado; em outros lugares, em combinação com grupos de visitação; e ainda em outros, só por visitadoras leigas. Importante é que as pessoas que fazem a visita se saibam enviadas por Jesus Cristo e que entrem na casa e na vida de alguém em nome do Senhor. Que sejam preparadas para ser agentes da justiça restaurativa nos lares. Receber visita, receber recompensa, ficar com a recompensa – isso acontece com as pessoas que fazem o que é certo, que fazem o que Deus quer. Fica no ar o que acontece com as pessoas que não acolhem os visitadores, que não reagem à mensagem trazida na visita. Sim, vêm à mente todos os textos que falam de vingança, de justiça retributiva, ou seja, da justiça feita com punição e, de preferência, com dor. A teologia da retribuição afirma que saúde, riquezas, filhos e vida longa eram sinais de que aquela pessoa estava realmente cumprindo a vontade de Deus. O contrário também é verdade. Pobreza, doenças, ausência de filhos são concebidas como consequências da não observância das leis de Deus e, desse modo, como um castigo de Deus. A mensagem de Mateus 10.40-42 é “observar todas as coisas que acontecem debaixo do sol”. Nessa observação, pode-se perceber a fraqueza do princípio de causa e efeito. Na vida de igreja, verificamos que há justos que sofrem e injustos que recebem a sorte dos justos. Qual a consequência de ser uma pessoa seguidora de Jesus Cristo? Nos versículos precedentes de Mateus 10 (v. 13 e 14, p. ex.), o tom é ameaçador. Nos últimos três versículos, muda o foco. Não há mais ameaças, mas Jesus introduz a teologia afirmativa da restauração. Informa que a aceitação de sua pregação não está relacionada a qualquer tipo de restituição, e sim à restauração da dignidade das pessoas ouvintes. O v. 42 diz que a pessoa caridosa, solidária não perderá seu galardão. “Não perder” é uma coisa; “deixar de ganhar” é bem outra. O texto afirma o galardão de quem já o tem. Para chegar a essa conclusão, precisamos entender o uso do termo grego misthos, que é traduzido nas diversas edições brasileiras da Bíblia por galardão, recompensa, salário, recebimento. As edições de Almeida e da NTLH até mesmo colocam o título: As recompensas. Isso dá a entender que quem pratica o bem ganha alguma recompensa. Mas, a partir de uma visão de restauração, o galardão rompe com a compreensão de recompensa, tanto no sentido de vantagem adquirida como no de ameaça. Não sendo de recompensa, a mensagem do texto aponta para mudanças nos critérios de valorização. Isso deve ser valorizado. A valorização do ser humano passa pela restauração das relações rompidas, seja pela falta de respeito a profetas e pessoas de fé, seja por não dar um simples copo de água. Essa ruptura não leva ao castigo, nem a sacar o galardão, mas motiva, incentiva a pessoa a repensar e restaurar.

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Chama a atenção o título colocado na “Luther Bibel”: Aufnahme um Jesu willen (acolhimento por causa de Jesus). Nota-se que ele já vem com uma interpretação mais avançada do que os títulos das versões antes mencionadas. Mais três pensamentos sobre o texto: 1 – O texto rompe com a sabedoria clássica de Israel, que preconiza uma relação de causa-e-efeito típica da tradição teológica judaica e introduz a graça, a equiparação graciosa, livre das recompensas; 2 – O julgamento a que estaremos sujeitos no fim dos tempos antecipa-se na fé e nas atitudes que tomamos na vida diária a partir da fé; 3 – O texto rompe com o comércio, a barganha com Deus, com a mentalidade de troca: dinheiro por bênção. Visto assim, o termo galardão perde o sentido de recompensa como cura, milagre ou prosperidade, mas ganha o sentido de fé na salvação em Jesus Cristo.

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Imagens para a prédica

A prédica poderá abordar a diferença entre uma justiça retributiva e uma justiça restaurativa. A maior parte das sociedades conhecidas na história da humanidade construiu uma ideia de justiça retributiva. “Aprontou, tem que pagar.” Chega-se ao cúmulo de afirmar que “bandido bom é bandido morto”, ou seja, a retribuição pelo mal cometido tem que ser por meio de uma punição. E quanto maior a punição, melhor. A Bíblia também está cheia dessa mentalidade. Mas a Bíblia também nos dá outros caminhos. A justiça restaurativa é um deles. De acordo com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios: Este programa reúne pessoas envolvidas e afetadas por um fato delituoso para dialogar sobre o crime e suas consequências. Busca reparação de prejuízos emocionais, morais e materiais e restauração da relação entre vítima e réu. É um procedimento voluntário, “um meio para a formação da cultura de paz” (Disponível em: <http://www.tjdft.jus.br/acesso-rapido/acoes/acesso-a-justica-e-cidadania/ justica-restaurativa>). Esse jeito de encarar os seres humanos e suas características adéqua-se bem ao que Jesus propõe na composição de Mateus: uma sociedade voltada para a valorização integral das pessoas e não apenas o quanto elas valem para o sistema. Uma historinha que pode ilustrar a prédica é a do vendedor de balões: Era uma vez um velho homem que vendia balões numa quermesse. Evidentemente, o homem era um bom vendedor, pois deixou um balão vermelho soltar-se e elevar-se nos ares, atraindo, desse modo, uma multidão de jovens compradores de balões. Havia ali perto um menino negro. Estava observando o vendedor e, é claro, apreciando os balões. Depois de ter soltado o balão vermelho, o homem soltou um azul, depois um amarelo e finalmente um branco. Todos foram subindo até sumir de vista. O menino, de olhar atento, seguia cada um. Ficava imaginando mil coisas... Uma coisa o aborrecia: o homem não soltava o balão preto. Então se aproximou do vendedor e perguntou:

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– Moço, se o senhor soltasse o balão preto, ele subiria tanto quanto os outros? O vendedor de balões sorriu compreensivamente para o menino, arrebentou a linha que prendia o balão preto e, enquanto ele se elevava nos ares, disse: – Filho, não é a cor; é o que está dentro dele que o faz subir. O que está dentro de cada pessoa e fá-la subir são o galardão, o valor, a herança, a dignidade conferida por Deus – patrimônio que não pode ser retirado nem desvalorizado por nenhum sistema social, cultural ou religioso. Outra imagem que pode ser usada é a da multa de trânsito por uma transgressão. A teologia da restituição não afirma que a multa não vem. Vem, mas já com o carimbo de PAGA, pelo que Jesus fez na cruz por nós.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: P – Jesus, amigo e irmão de todas as pessoas. Aqui estou porque te busco de todo o coração. Tu viveste a liberdade maior possível. Entregaste tua vida para nosso bem e nossa salvação. Contigo aprendi o que é amar e ser livre. C – Hoje em dia, com facilidade pensamos que somos livres, porque podemos comprar muitas coisas e encher nossa vida com muitos afazeres. Mas, pensando bem, tem nisso também muita vaidade. P – Ajuda-me, Senhor, a viver a verdadeira liberdade cristã em humildade e ousadia, com paixão pelo evangelho e pela graça que me faz ser livre em ti. C – Que eu aprenda a viver o amor para com os meus semelhantes e, se for o caso, que eu aprenda a amar também os meus inimigos. Tem compaixão de mim e liberta-me para a tarefa de anunciar com coragem e fé o evangelho da paz e do perdão. P – Querido Deus, acolhe meu coração contrito e pequeno diante da tua luz e concede-me caminhos claros em novos horizontes. Absolvição (P): Jesus Cristo diz: “Eu dou a vida eterna para as minhas ovelhas. Jamais perecerão, e ninguém as vai tirar das minhas mãos” (Jo 10. 28). Oração de coleta: C – Santo e eterno Deus, nós te rendemos graças por este culto. Tu queres servir-nos, enchendo as nossas mãos e agraciando-nos abundantemente com perdão, conforto, consolação. Nós queremos servir-te, aceitando o que nos dás e transmitindo-o pela prática do amor ao próximo. Ajuda-nos a fazê-lo com humildade e na força do Espírito Santo que te pedimos nesta hora. Por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Salvador, que contigo e o Espírito Santo vive e reina eternamente. Amém.

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Bibliografia BARCLAY, William. El Nuevo Testamento Comentado, v. I. Buenos Aires: Ed. La Aurora, 1973.

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PRÉDICA: ROMANOS 7.15-25a

4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 06 JUL 2014

ZACARIAS 9.9-12 MATEUS 11.16-19,25-30

Guilherme Lieven

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Introdução

O texto de Romanos 7.15-25a, previsto para a prédica no 4º Domingo de Pentecostes, exige um cuidado exegético e uma dedicação teológica. A sua mensagem central está relacionada com conteúdos primários de nossa fé. Somos capazes, sem Deus, de encontrar a paz, a liberdade da morte e fazer o bem? Qual a nossa condição humana, existencial, na busca pela comunhão com Deus? Convido você para encontrar inspiração e auxílio nas referências exegéticas e na meditação apresentadas a seguir para a abençoada tarefa de proclamar a presença, o amor e a salvação de Deus. Antes destaco que estão agrupados a esse texto, sugeridos para leituras no culto, os textos de Zacarias 9.9-12 e do Evangelho de Mateus 11.16-19,25-30. Zacarias anuncia a chegada de um rei justo. Mesmo sendo pobre e miserável, mesmo sem aparência de rei, ele destruirá o mal, anunciará a paz e restituirá a vida. O texto do Evangelho de Mateus apresenta as dificuldades do povo da época e de suas lideranças para compreender a presença de Deus no mundo por meio de seu Filho. Racionalmente, ninguém conseguia entender que o Filho do Homem, que come e bebe, amigo de pecadores e pecadoras, pudesse ser mais poderoso do que os profetas e João. O ser humano não aceita esse rei sem os poderes de rei, esse Filho do Homem sem a aparência de Deus, para livrá-lo do mal e conceder-lhe a liberdade da morte. Essas dificuldades permanecem também em nosso tempo, transitam nas mentes de pessoas ligadas ou não às comunidades cristãs.

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Comentários exegéticos

2.1 – A Carta aos Romanos Paulo escreveu a carta em Corinto por volta do ano 56, antes de se dirigir a Roma e a Judeia. Nela sistematizou sua teologia, desenvolvida em suas viagens missionárias no oriente do Império Romano, onde se deparou com controvérsias, conflitos e ameaças ao evangelho de Jesus Cristo. Certamente elaborou suas convicções pensando em sua visita à comunidade em Roma, preparando-se para eventuais debates e oposição. Talvez esses sejam os estímulos que o apóstolo recebeu para obter uma elaboração teológica notável.

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4º Domingo após Pentecostes

2.2 – O texto de Romanos 7.15-25a Ele está inserido no bloco em que Paulo argumenta positivamente sobre as consequências do pecado humano e sobre a ação de Deus (3.21 a 8.39). Paulo comunica que a morte do ser humano é vencida por Cristo, graças à vontade absoluta de Deus (v. 25a). A questão teológica, no entanto, é apresentada nos versículos anteriores. “Faço o mal que não quero, e deixo de fazer o bem que tanto quero e almejo” (v. 15). Paulo define teologicamente a pessoa humana como um ser frágil, dependente, que não consegue fazer o que quer. Reitera essa posição (v. 16) já definida no início do capítulo 7, quando reafirma a lei como instrumento bom, que denuncia ao ser humano o seu erro, o seu desvio do bem. A lei torna-se a referência para o discernimento entre o bem e o mal. Conforme o v. 21, a lei denuncia uma força do mal que habita no ser humano e o impede de fazer o bem. Mas essa lei não resolve o conflito, antes evidencia a contradição em que o ser humano vive. Ao mesmo tempo, Paulo afirma que há no ser humano uma vontade de fazer o bem, mas que sozinho ele não consegue fazer (v. 18). Ele sentencia que há um conflito interno, forças em oposição que anulam o livre-arbítrio do ser humano. Os v. 22 a 24 reforçam a definição da situação desgraçada do ser humano, que o torna dependente de uma ação externa de Deus para salvá-lo desse conflito, da morte e prepará-lo para fazer o bem. 2.3 – O contexto maior e a teologia de Paulo As definições e posicionamentos do apóstolo, contidos em Romanos 7.1525a, exigem referências ao contexto maior para ampliar nossa aproximação às intenções e aos pressupostos teológicos de Paulo, expressos na carta. Comprometeríamos a mensagem se deslocássemos esse texto do bloco maior da carta, que apresenta a teologia da justificação pela fé e a ação salvadora de Deus em Jesus Cristo. Por exemplo, nesse bloco, Paulo refere-se à teologia do pecado original (Rm 5.14-19) para explicar a necessidade humana da ação salvadora de Deus em Jesus Cristo, conforme nosso texto (v. 25a), aquele que livra o ser humano da escravidão do pecado e da morte. O embate entre a vontade de fazer o bem e a escravidão de sempre fazer o mal que não se quer pressupõe o conceito sobre o ser humano definido pela teologia do pecado original. Ou seja, o ser humano nasce escravo do pecado, com a propensão para fazer o mal, com uma dificuldade para fazer o bem, mesmo que tenha a vontade de fazer o bem. A solução anunciada pelo apóstolo (v. 25a) exige ainda ampliar a compreensão e a dimensão da justiça de Deus, da salvação doada por Deus em Jesus Cristo. Consideramos que a ação salvadora de Cristo restaura o ser humano como criatura de Deus. Liberta do poder do mal (na oração do Pai-nosso: livra-nos do mal) e restitui ao ser humano a liberdade. Aqui podemos nos referir ao “nascer de novo”, à “nova criatura”, ao “novo ser humano”, a um ser humano reconciliado e em comunhão com Deus a partir da ação salvífica do próprio Deus, realizada em Jesus Cristo.

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Estendendo a reflexão, mesmo sem a autorização direta de nosso texto de pregação, precisamos retomar, por fim, a compreensão de que a ação salvadora de Cristo não nos retira da condição humana neste mundo. Ela restitui a nossa dignidade como criaturas humanas e concede-nos a filiação plena com Deus, antecipa a nossa liberdade diante dos poderes da morte e livra-nos da morte final. Significa que a luta interna permanece agora, porém em comunhão e reconciliados com Deus. A partir dessa novidade de vida, somos chamados para viver em comunhão com Deus em nossos contextos, na realidade de cruz. Permanece também a importância da lei para continuar denunciando e identificando o rosto do mal, presente em nós e na face da Terra. Com isso estamos nos referindo à teologia da simultaneidade da presença da justiça de Deus no ser humano, mesmo sendo pecador, vítima do pecado original, portanto atacado pelo mal. A justiça de Deus cria no ser humano a consciência do pecado e de sua verdadeira realidade humana. Ao mesmo tempo, concede o perdão, livra-o constantemente do mal. Essa ação salvadora inaugurada em Cristo é uma dádiva incondicional, instalada, por graça, no ser humano. Essa ação do amor e da misericórdia de Deus denuncia no ser humano seu desamor, sua escravidão e, ao mesmo tempo, antecipa sua participação na ressurreição de Cristo. Essa simultaneidade libertadora, que conjuga a iniciativa do ser humano sob a condução de Deus, impede o pensamento de processo e progressão moral do ser humano. Desautoriza a ideia de que entre os cristãos há uns mais santificados do que outros. O amor incondicional não permite a hierarquia de santidade. Cremos que se trata de um constante morrer e ressuscitar, uma ação salvadora viva, conduzida por Deus.

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Meditação

Onde está a salvação? E como ela acontece? Essas são as perguntas de todos os dias, não de todos, mas para um segmento da humanidade. Esse ser humano percebe a sua fragilidade, o seu vazio e, comumente, busca socorro. Almeja a paz e a liberdade, busca por sentido e felicidade, não raro confundindo-as com prazer, poder, benefícios e interesses individuais passageiros. Nessa busca, é comum fazer várias tentativas e considerar todas as propostas humanas e religiosas, subjetivas e objetivas como possíveis para atingir a meta de livrar-se do mal e de seus poderes. Nessa busca, outro segmento expressivo de pessoas deixa seduzir-se pelas múltiplas ofertas, luzes, movimento, diversidade, cores e oportunidades, tornando-se vítimas de um sofisticado mercado. Geralmente, paga caro ao relativizar seus valores e seus amores, submetendo-se ao processo de alienação da dignidade e do direito humano, distanciando-se cada vez mais da paz e da liberdade. Identificamos também aqueles e aquelas que já se convenceram dos limites dos poderes da ciência, tecnologia e automação. Descobriram que, mesmo tendo acesso ou controle sobre todo esse aparato, ainda não encontraram a paz e a libertação dos tormentos e conflitos interiores e externos.

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Não podemos ignorar ainda que impera em nosso tempo um sutil culto ao ser humano. A sociedade pós-moderna alimenta uma estrutura deslumbrante para sustentar o ser humano na condição de início, meio e fim, centro da criação, aquele que pode usufruir de tudo, de todos, da história e salvar-se a si mesmo. Assistimos à desconstrução de princípios, conceitos e sistemas. Colhemos um tempo de barbárie, de pouca solidariedade e pouco comprometimento com o coletivo e com a vida em comunidade. Instalou-se a indiferença diante das desigualdades, injustiças, poderes e meios de morte. Transitam a alta competitividade e a lógica da acumulação de bens e das aparências. Importa muito, para dar sentido à vida, o ser reconhecido, ser admirado, ter prazer e acesso a uma infinidade de produtos e serviços voltados para si mesmo. Um tempo em que as pessoas passam umas por cima das outras, sem qualquer constrangimento ou culpa. Para que servem a oferta e a ação salvífica de Deus se eu posso buscar e escolher aqui mesmo as “coisas” que me dão sentido para a vida e me salvam? Como Deus pode salvar-me se não sou escravo de nada? Sabemos, no entanto, que aquilo que estava ruim ficou pior. Ganhamos o declínio da eficácia do serviço público, o desvirtuamento da política, a crise ecológica, o aumento do fundamentalismo, a epidemia das doenças psíquicas, a fragmentação de pequenos e grandes sistemas de verdadeira ajuda e formação do ser humano. Ganhamos uma geração voltada para si mesma, presa ao presente e alienada da perspectiva de horizontes e da continuidade da história. Com ela perdemos os grandes ideais, a esperança. Para essa geração, a salvação está aí: a minha beleza e independência, o meu prazer, tudo posso hoje mesmo e com crédito tudo posso ter. Ganhamos o culto à jactância. Os dons e carismas, adulterados, receberam nova função. Sem exageros, podemos aferir que a crise humana se acirrou. Com a linguagem teológica de Paulo podemos dizer que a força do mal está ganhando a batalha, mesmo que o ser humano aspire ao bem. A mensagem de nosso texto, Romanos 7.15-25a, e da teologia de Paulo estão vivas. No contexto que identificamos acima, é notícia nova e boa, mesmo não sendo aceita. O ser humano necessita da vitória de Deus sobre a morte e a escravidão do pecado. A novidade de nosso texto está na mensagem de que a salvação vem de fora, de Deus. O Deus que em Jesus Cristo veio para essa realidade e para o ser humano vazio de salvação assumiu as consequências de seu amor e instalou nela uma nova dimensão da vida, a vida maior do que o mal, que pode ser edificada nessa história através de sinais. O Deus rei, salvador, apresentado no livro de Zacarias e no Evangelho de Mateus, despido dos ideais humanos de poder. Essa é a ação reconciliadora de Deus, que em paradoxo ao estabelecido cria no ser humano a comunhão santificadora, mudando seus planos e tornando-o mais forte do que o mal, um ser humano que não se conforma com a injustiça, a desigualdade, a brutalidade, a intolerância, a destruição da criação e da vida no mundo, um ser humano que incide na realidade disposto a servir e amar com liberdade, perseverança, esperança, com o espírito bom, dádiva, força do Espírito Santo, vocação da presença salvadora de Jesus Cristo.

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Indicações para a prédica

Não é possível pregar sobre esse texto se não confessamos a teologia do pecado original e a fé na superação da força do mal por meio da ação salvadora de Jesus Cristo. A mensagem de nosso texto exige reconhecer em Deus o poder de guiar o ser humano para a liberdade e a vida justa, criativa e criadora. Esse texto e a teologia de Paulo não autorizam uma pregação que sustente a ideia de que há pessoas mais santas do que outras ou que nosso objetivo é formar comunidades só de justos, convertidos e limpos de pecado. O texto, ao contrário, apresenta o desafio de proclamar a mensagem da salvação nas situações em que a morte e o pecado estão presentes. Sugiro inspirar-nos pela imagem da dinâmica do diálogo, do Deus que dialoga constantemente com a realidade e com o ser humano. O Deus que instalou no mundo a proposta comunitária da fé, a criação de comunidades que reúnem pessoas humanas pecadoras, simultaneamente santificadas por sua ação salvadora, prontas para interagir com a sua realidade de cruz e morte, revestidas dos poderes do bem, que desperta o ser humano para interagir com sinais da verdadeira e duradoura novidade de vida já presentes no mundo. No bojo da mensagem, pode-se ainda referir a um exemplo de simultaneidade da presença do bem e do mal, por exemplo o trânsito em médias e grandes cidades. O trânsito polui e mata devido ao pecado do ser humano, que, mesmo sabendo das regras de trânsito, insiste em não observá-las. Mas esse mesmo trânsito salva vidas ao viabilizar o transporte, o socorro de vítimas e a locomoção das pessoas com segurança e organização. Outras situações humanas hospedam a simultaneidade da presença do mal e da ação salvadora de Deus em Jesus Cristo. Referir-se a elas facilita a formulação de respostas para as perguntas que queremos responder: Onde está a salvação? Como ela transforma as pessoas humanas e incide na realidade, no cotidiano? Por que a jactância, o consumismo e o hedonismo estão em contradição à comunhão com a presença salvadora de Jesus Cristo em nós e em nossa realidade? Tomar consciência de nossa condição pecadora, de nossa incapacidade de salvar a nós mesmos, aproxima-nos da ação salvadora de Jesus Cristo e cria comunhão com Deus. O nosso protagonismo pessoal, comunitário e no contexto em que vivemos passa a ser mediado pela ação salvadora de Jesus Cristo.

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Referências litúrgicas

Apresento algumas sugestões e observações para a preparação litúrgica do culto. Por exemplo, no introito, destacar o tradicional versículo do Salmo 124.8: “O nosso socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”. Anunciar o perdão dos pecados como uma ação de Deus já “disponibilizada”. Se oportuno, neste momento, referir-se à fé, cuidada pelo Espírito Santo, que viabiliza o nosso diálogo com o amor incondicional de Deus, cria comunhão e desperta certeza no perdão, na novidade de vida.

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Preparar com antecedência os motivos do grito por piedade, a oração pelas dores do mundo. Trazer referências ou imagens da prédica para este momento. Priorizar as situações do cotidiano: sofrimentos na família, trânsito, violência na cidade, desigualdades urbanas, intolerância, ataques à dignidade e à vida comunitária. Sugiro, ainda, o hino abaixo para algum momento da celebração. Ele canta a mensagem do texto de Romanos 7.15-25a. Por fim, sugiro incluir na liturgia de despedida elementos da mensagem sobre a ação salvadora de Jesus e também sobre a simultaneidade que necessitamos admitir e, pela fé, administrar.

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PRÉDICA: MATEUS 13.1-9,18-23

5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 13 JUL 2014

ISAÍAS 55.10-13 ROMANOS 8.1-11

Aline Danielle Stüewer Joel Haroldo Baade

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Introdução

O texto de Mateus 13.1-9,18-23 já foi quatro vezes estudado em Proclamar Libertação (XXI, XXVII, XXX e XXXV); portanto procura-se esboçar neste auxílio homilético algumas reflexões que complementem e/ou contribuam para uma perspectiva nova. Os três textos indicados falam da transformação que a palavra de Deus opera na vida daquelas pessoas que a ouvem. No texto do evangelho, a parábola do semeador fala dos tipos de ouvintes que o semeador ou o pregador encontram. Nem sempre o semeador encontra pessoas realmente dispostas a viver o reino de Deus. A pessoa que vive o evangelho produz frutos. O texto de Isaías fala que a palavra de Deus é viva e eficaz. O texto de Romanos fala que a pessoa que está em Cristo vive uma vida dominada pelo Espírito Santo e não mais pela natureza pecaminosa.

2

Exegese

O evangelista Mateus, ao que tudo indica, dirige o seu discurso a uma comunidade judaico-cristã que atua na missão aos pagãos. Um problema fundamental da comunidade de Mateus reside, da perspectiva do evangelista, no fato de que “o amor dos muitos esfria” (24.12). Como motivo, ele cita o aparecimento da “iniquidade”. Em outra passagem, fica claro que ele, com essa censura, tem em vista pessoas na comunidade, que, embora confessem Jesus Cristo como Senhor, não “praticam a vontade do Pai que está nos céus” (7.21). O evangelista esforça-se, portanto, em estabelecer normas de conduta cristãs que tenham representatividade (BULL, 2009, p. 16). Mateus 13.1-9,18-23 insere-se na segunda parte principal do evangelho (11.2-16.20), onde o evangelista descreve a intensificação do conflito em torno de Jesus e o surgimento da comunidade dos discípulos (BULL, 2009). No capítulo 13, iniciam as parábolas sobre o Reino. Aparentemente, apesar de Jesus ter uma multidão que o seguia, ainda assim eram poucas as pessoas que realmente haviam compreendido a palavra de Deus. Jesus inicia contando a parábola do semeador, o joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento, o tesouro escondido, a pérola, a rede (BULL, 2009).

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Para a melhor compreensão do texto, cabe observar inicialmente a sua estrutura (LÜCKEMEYER, 2005): v. 1-3a: introdução v. 3b-8: a semente nos quatro tipos de solo v. 9: chamado de alerta/conclusão v. 18-23: interpretação V. 1-3a: Introdução – Os três primeiros versículos da perícope apresentam o cenário em que se desenrolam os acontecimentos. A situação não é nova; Jesus ensina o povo, e muitas pessoas vão a seu encontro. Também não se trata de uma narração isolada, mas em continuidade ao que foi relatado na perícope anterior (Mt 12.46-50), em que Jesus ensina algumas pessoas, aparentemente, no interior de alguma edificação, pois alguém lhe comunica que “tua mãe e teus irmãos estão lá fora” (Mt 12.47). A ligação com a situação anterior é feita através da expressão “naquele mesmo dia” (v. 1). A situação relatada expressa bem o crescimento da popularidade de Jesus, pois mais e mais pessoas vêm a seu encontro com os mais diversos anseios, tanto que Jesus é obrigado a se dirigir para um local aberto, acomodando-se sobre um barco à beira de um lago, de onde poderia ser visto e ouvido por um número maior de pessoas. Contudo o chamado de alerta no v. 9 e a explicação oferecida a partir do v. 18 podem ser indicativos de que nem sempre esses anseios são realmente uma busca autêntica do reino de Deus. Nesse sentido, a parábola contada por Jesus a partir do v. 3 pode ser um recurso linguístico para chamar a atenção das pessoas sobre esse fato. Entende-se que a discussão sobre a originalidade das parábolas ou sua elaboração posterior pelas primeiras comunidades cristãs não influenciam a interpretação sugerida. Mas por que falar em parábolas e não de uma forma direta? Conforme Blasi (2010), elas poderiam ser uma forma de facilitar o entendimento da mensagem do Reino, embora muitas pessoas as interpretassem apenas como histórias bonitas. Além disso, a comunicação indireta por meio de parábolas pode ter sido empregada por Jesus não apenas para facilitar a compreensão, pois eventualmente a mensagem também seria compreendida por meio de uma comunicação mais diretiva, mas justamente para evitar cair no que se chama em sociologia de “dinâmica da diferença”. Ou seja, quando alguém diz algo contra outrem de modo direto, esse, no intuito de preservar a sua identidade, insiste justamente nas suas antigas convicções; é o famoso “ser do contra”. O recurso a parábolas pode justamente ter sido uma forma de evitar que se caísse nessa armadilha. V. 3b-8: A semente nos quatro tipos de solo – Estes versículos apresentam a parábola propriamente dita. Fala-se de um semeador que saiu para semear, sendo que caíram sementes em quatro diferentes tipos de solo: à beira do caminho, no solo rochoso, entre os espinhos e na terra boa. Somente terra boa oferece as condições ideais para que as sementes germinem e gerem muitos frutos. Duas oposições parecem relevantes na parábola: a terra ruim e a terra boa; a situação sem frutos e o frutificar. De qualquer forma, parece claro que não há meio-termo; não se pode ser meio cristão; ou a pessoa é cristã ou não é. É interessante ainda notar que o semeador não desiste de semear. Ele continua fazendo a sua tarefa,

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mesmo que diversas tentativas de semeadura tenham sido aparentemente em vão. Ele confia que sua tarefa, de uma forma ou de outra, vai ser concretizada. V. 9: Chamado de alerta/conclusão – “Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça.” Jesus usa essa frase em diversas passagens quando quer chamar a atenção dos ouvintes. Ela aparece como um indicativo de que há pessoas ouvindo a Palavra, mas nem todas se deixam transformar por ela (Lc 14.35; Mt 11.15; Mt 13.43). V. 18-23: Interpretação – Na interpretação, deixa-se de empregar a linguagem indireta e passa-se a utilizar a linguagem direta. Os diferentes tipos de solo em que caem as sementes, ou seja, a mensagem do Reino, são os diferentes tipos de atitudes em relação à pregação da mensagem do evangelho.

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Meditação

Como é chato conversar com alguém e, de repente, perceber que o olhar e o pensamento daquela pessoa estão longe. Ela faz de conta que está prestando atenção, mas, na verdade, está preocupada com outras coisas e não com aquilo que você está falando. Jesus também percebeu que muitas pessoas apenas “faziam de conta” que se importavam com o que ele falava, pois não colocavam em prática os seus ensinamentos. Jesus percebeu que nem sempre as suas palavras chegavam ao coração das pessoas. Muitas vezes, percebemos que as pessoas, apesar de ouvirem as prédicas proferidas nos cultos, têm dificuldades para viver aquilo que ouvem. É a famosa frase: “Entra por um ouvido e sai pelo outro”. Às vezes, se tem a impressão de que, ao entrar na igreja, algumas pessoas pegam a “roupa de cristão” e vestem. Ao saírem da igreja, penduram a sua “roupa de cristão” atrás da porta. Dizem que ser cristão é fácil; viver os ensinamentos de Cristo é um desafio. Na parábola do semeador, Jesus mostra que nem sempre o semeador vai encontrar um solo que logo produza frutos. Muitas vezes, a palavra de Deus não vai encontrar espaço na vida das pessoas. Quantas vezes Deus tem falado conosco e não lhe damos ouvido! Quantas vezes escutamos a palavra de Deus? Até fazemos de conta que nos importamos, mas, na verdade, ela não encontra solo fértil em nossos corações. Nem sempre a palavra de Deus encontra solo fértil para frutificar. Quem sabe muitas pessoas pensem: “Ah, eu sou um solo muito fértil, que dá frutos. Afinal, participo das atividades da igreja, faço minhas orações e leio a Bíblia”. Precisamos lembrar que os solos que não produziram frutos também receberam a semente. A diferença é que o solo fértil não apenas recebe a semente, mas essa frutifica. As pessoas nas quais a palavra de Deus encontrou solo fértil não só ouvem a Palavra, mas a vivem; perdoam, não só falam do perdão; buscam a paz nos relacionamentos difíceis e não o ódio e a mágoa; vivem o amor ao próximo, não só falam dele. Jesus quer semear vida em nossas vidas. Não uma vida qualquer, mas uma vida com Deus. Uma vida que não só fala de paz, mas transpira paz. Uma vida

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que não só fala de amor, mas transpira amor. Uma vida que não só fala de esperança, mas transpira esperança. Apesar de nem sempre encontrar solos férteis, o trabalho do semeador é semear. O semeador semeia, pois sabe que o frutificar depende de Deus. O semeador é teimoso e persistente, pois sabe que a palavra de Deus tem o poder de transformar os solos mais pedregosos e espinhosos em solos macios e férteis.

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Imagem para a prédica

Para ilustrar o quanto as pessoas têm facilidade para esquecer o que a palavra de Deus diz, sugere-se contar a seguinte estória: “Num dos cultos, o pastor subiu ao púlpito com seu aparelho de barbear, bacia, água, espuma, caneca, espelho e toalha. Nem sequer cumprimentou a comunidade e, tranquilamente, colocou água na bacia, testou a temperatura, ajeitou o espelho, pegou uma caneca, fez espuma, passou na cara e começou a se barbear. “No final, quando todos esperavam que o pastor fosse fazer um desfecho maravilhoso, fosse apontar-lhes a ‘moral da história’, ele simplesmente enxugou o rosto com a toalha, encerrou o culto e despediu o povo de volta para as suas casas. O povo comentou o fato todos os dias, tentando adivinhar o significado de tudo aquilo: ‘Que mensagem ele nos quer passar?’ Dias depois, quando ele subiu novamente naquele púlpito, a igreja estava cheia. O pastor olhou para a comunidade e disse: – Sei que vocês querem saber o significado do que fiz aqui neste púlpito na semana passada. Bem, eu vou lhes dizer: não há significado algum. Nenhum simbolismo. Nenhuma mensagem. No entanto, se podemos tirar alguma lição disso tudo, é a seguinte: Há anos eu venho apresentando a vocês a mensagem bíblica, mas não tenho visto nenhuma mudança em suas vidas. Minhas mensagens têm caído no esquecimento tão logo vocês saem do templo. Eu gostaria que vocês comentassem meus sermões durante a semana, do mesmo modo que se dispuseram a comentar o meu barbear nesses últimos dias, ou será que a minha barba é mais importante para vocês que a palavra de Deus?” (Autor desconhecido)

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Subsídios litúrgicos

Seria interessante colocar um vaso com barro no altar e deixar algumas sementes espalhadas na igreja. No final da pregação, convidar as pessoas para pegar algumas sementes e levá-las ao vaso com barro, dizendo: “Que a palavra de Deus encontre solo fértil em minha vida”. Sugestão de hinos: HPD 2 nº 380, nº 390, nº 449, nº 490; O Povo Canta nº 57.

Bibliografia BLASI, Marcia. 4º Domingo após Pentecostes: Mateus 13.1-9,18-23. In: VOLKMANN, Martin (coord.). Proclamar Libertação, v. 35. São Leopoldo: Sinodal, 2010. p. 240-245.

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5º Domingo após Pentecostes

BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento: história, contexto e teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009. LÜCKEMEYER, Valdemar. 8º Domingo após Pentecostes: Mateus 13.1-9. In: HOEFELMANN, Verner; SILVA, João Arthur Müller da. Proclamar Libertação, v. 30. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 189-192.

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PRÉDICA: ISAÍAS 44.6-8

6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 20 JUL 2014

MATEUS 13.24-30,36-43 ROMANOS 8.12-25

Helga Rodrigues Pfannemüller

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Introdução

O texto do evangelho traz a parábola do joio e do trigo. Joio e trigo representam duas formas de pensar e de viver coexistentes entre as pessoas do mundo. Jesus identifica a boa semente com os filhos do Reino e o joio com os filhos do maligno. Ambos convivem no campo (mundo). No início, é quase impossível separá-los sem trazer grande prejuízo à plantação. Por isso Jesus compara o reino de Deus a essa plantação em que a boa semente e o joio convivem lado a lado até o dia da colheita. O dia da colheita representa o fim do mundo, o dia do juízo de Deus. Quando esse dia chegar, os anjos de Deus “colherão” aqueles que lhe pertencem, enquanto os outros serão lançados na fornalha acesa. O texto de Romanos fala que somos filhas e filhos de Deus graças a seu Espírito, que se une a nós para que possamos dar testemunho de nosso Pai. Nosso testemunho deve ser dado mesmo em tempo de sofrimento, em sinal de confiança ao Pai e na força de seu Espírito. Em comum com o texto da pregação, as leituras bíblicas têm a promessa da salvação como objeto de nossa esperança, mesmo em meio ao sofrimento e às muitas outras soluções ou no caminho que o mundo nos oferece. Apesar do exílio, mesmo tendo que conviver com o joio ou mesmo gemendo com a criação inteira, é possível confiar naquilo que não vemos e perseverar naquilo que aguardamos.

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Exegese

O texto da pregação faz parte do Dêutero-Isaías ou Segundo Isaías (Is 4055). Seu contexto é o fim do exílio babilônico vivido pelo povo de Israel (meados do século VI) bem como o período pós-exílico (a época persa, 538-330 a.C., ou até a época helenista em seguida). Os temas centrais da pregação do profeta do exílio são a releitura do Isaías histórico (reinterpretação dos oráculos de ameaça e castigo dentro de um plano maior de salvação) bem como a reunião de todo o povo de Israel, disperso por todos os países do império babilônico (cf. Croatto, p.11-13). J. Severino Croatto estabelece uma unidade entre os versículos 6 a 23. O conteúdo dessa unidade é a relação de Javé com os outros deuses. Apesar do desespero do povo exilado, Isaías busca resgatar a esperança e a confiança do povo em Javé como único salvador possível. Dentro dessa grande unidade, Croatto divide ainda o bloco em outras quatro unidades menores: v. 6-8 (disputa com os

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outros deuses), v. 9-20 (sátira sobre eles), v. 21-22 (exortação) e v. 23 (hino) (cf. Croatto, p. 106). V. 6a – O texto começa com a fórmula do mensageiro (“assim diz Javé”), indicando quem fala ao povo. Os títulos “rei de Israel”, “Javé dos exércitos” e “redentor” são citados. A quantidade e a riqueza dos títulos dados a Deus revelam sua identidade e revestem-no de uma majestade transcendental. “Javé” (Jahwe) caracteriza-o como o Deus de eternidade a eternidade. “Rei de Israel” aponta para o Senhor da comunidade, que é também aquele que salva e renova seu povo (“Redentor”). “Javé dos exércitos” representa o Deus do universo, de todos os poderes e forças tanto terrenas como celestiais. V. 6b – A redenção de Israel não é um fato isolado dentro da história, mas tem a ver com o todo universal (cf. v. 22 e 23). Javé comprova-se como Deus à medida que ele resgata o povo de Israel. E assim ele limita radicalmente todos os falsos deuses e ídolos que poderiam estar no horizonte de esperança do povo de Israel. Antes, ao lado e depois de Javé não existe nenhum poder efetivo (que possa realizar a salvação do povo exilado). Pois ele é “o primeiro e o último”, e não existe ninguém além dele. V. 7 – Segundo Croatto (cf. p. 110), o versículo 7 tem um nítido caráter de disputa judicial: “devemos visualizar uma assembleia em tribunais, nos quais Javé desafia aqueles que pretendem ser como ele – ou seja, Deus – a falar e anunciar o futuro” (idem). O interrogatório é aberto por Deus com um desafio: “Quem é como eu?”. O processo chega a seu ápice, e assim também o texto alcança sua tensão máxima. Deus apresenta-se como o único capaz de anunciar os acontecimentos da história desde os primórdios de Israel. V. 8 – Este muda radicalmente o discurso. A cena do tribunal dá lugar ao diálogo de Deus com suas testemunhas. A elas é dito: “Não vos assombreis, nem temais”. Pois elas não apenas fazem parte do plano salvífico de Deus, mas também foram informadas de seus planos que ninguém mais conhece. Assim também como Jesus informou seus discípulos sobre aquilo que estava por vir: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo. 15.15). Como pessoas escolhidas para conhecer seus planos (os planos que ninguém mais conhece), os membros da comunidade de Javé devem testemunhar que ele é a única rocha: “Vós sois as minhas testemunhas. Há outro Deus além de mim? Não, não há outra rocha que eu conheça”.

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Meditação

Nos tempos sombrios da vida, muitas vezes temos dificuldade para manter nossa confiança unicamente em Deus. Isso acontece principalmente quando parece que Deus nos abandonou com nossos problemas e nossas dificuldades. Em meio ao sofrimento e à desgraça, parece que nossas orações não estão mais sendo sequer ouvidas e muito menos serão atendidas por nosso Pai. Diante do aparente silêncio de Deus buscamos outras alternativas. São os momentos em que nos deparamos com soluções mais rápidas, mais fáceis e mais palpáveis para nossos

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problemas. Afinal, que mal fará aquela “simpatia” que alguém me indicou? Que mal há em participar daquela corrente que eu recebi pela internet? Que mal existe em buscar a cura numa cirurgia espiritual? Também o povo de Israel teve dúvidas e experimentou tais sentimentos. Também para eles foi difícil confiar que a salvação só pode vir de Deus. Tão difícil, que foi preciso que Deus mesmo argumentasse a seu favor: “Vocês são meus escolhidos. Fui eu quem os criei desde o ventre, sou eu quem vos ama e vos ajuda. Confiem! Não se iludam, pois não há ninguém além de mim! Não vos assombreis e nem temais!”. Quanto amor é possível experimentar a partir desse desabafo de nosso Pai. Mais do que vir ao nosso encontro, ele ainda nos traz uma prova definitiva de sua ligação conosco. Essa prova está no fato de que somente a nós foram revelados os seus planos de salvação – não só agora, no momento de sofrimento, mas desde os primórdios da criação. É como se Deus dissesse: Onde está a sua memória, ó Israel? O texto de Isaías é um anúncio de esperança, mas vejo principalmente nesse texto o argumento de Deus para que seus escolhidos se mantenham firmes nessa esperança. O fato de que nos foram revelados, desde a eternidade, seus bons planos para conosco (Gn 21.33) é a maior prova disso. Aqui podemos enxergar bem clara a curva cristológica: o Deus da eternidade continua revelando-nos seus planos por meio de Jesus. No Evangelho segundo João 15.15, Jesus chama-nos de amigos, porque ele compartilhou conosco tudo aquilo que ele ouviu do Pai. Assim como o povo da eterna aliança, fomos escolhidos por Jesus e fomos enviados por ele a dar frutos, a fim de que tudo o que pedirmos ao Pai em seu nome nos seja concedido. Nisso podemos confiar. Por isso devemos não só permanecer firmes, mas devemos anunciar: Israel é o povo de Deus terrestre, mas a igreja de Cristo é o povo de Deus celeste. Se os anjos são os servos de Deus (como mostra a parábola do joio e do trigo), nós somos seus filhos e filhas – herdeiros e cooperadores de sua obra. Essa confiança torna menores os sofrimentos que nos afligem na vida. Joio em meio ao trigo. Espinhos em meio às rosas. O bem e o mal estão sempre entrelaçados e inseparáveis desde a raiz. É preciso confiança em Deus para deixar crescer aquilo que a gente gostaria de arrancar logo fora. É preciso confiança em Deus para viver nossa vida do jeito que Ele quiser. Viver em meio à vaidade da criação, em meio ao cativeiro da corrupção e aos gemidos da criação (Rm 8.20-22). Mas nós podemos viver assim, porque Deus já nos revelou os seus planos. Ele já nos adotou como filhos e fez-nos seus herdeiros e coerdeiros e coerdeiras com Cristo. E “se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17).

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Imagens para a prédica

“Um pastor estava fazendo visitas de casa em casa para conhecer os membros de sua igreja. Fazia pouco tempo que começara o trabalho na cidade.

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Em uma rua, avistou uma mulher que, de repente, jogou a sombrinha para cima, deixando-a cair. A mulher levantou a sombrinha do chão e repetiu o mesmo gesto por mais duas vezes. Depois, ela se dirigiu para a esquerda do caminho, pois havia chegado a uma encruzilhada. O pastor apressou-se e alcançou-a. Apresentando-se, perguntou o nome dela. Ela, admirada, disse: – Mas, pastor, o senhor ainda não ouviu falar de mim? Sou a mulher mais religiosa de toda a comunidade. Eu faço tudo com oração. – Muito bem – disse o pastor. – Assim deve ser mesmo: orar em todas as situações. Aliás, tenho uma pergunta: por que a senhora jogou sua sombrinha para cima? – Já disse – respondeu a mulher. – Faço tudo em oração. Quando cheguei à encruzilhada, orei: “Meu Deus, devo ir para a esquerda ou para a direita? Jogarei minha sombrinha para cima e verei em que direção ela cair; então será esse o caminho pelo qual devo ir”. – Bem, já que a senhora agiu assim, não compreendo por que jogou a sombrinha três vezes para cima. – É como lhe disse, pastor. Faço tudo com oração. Mas a sombrinha não queria cair para o caminho que eu queria ir. Por isso joguei-a tantas vezes para cima até que caiu para a direção por mim desejada” (Alcides Jucksch, Amor sem Fronteiras).

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Subsídios litúrgicos

Versículo de acolhida: “Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos aquilo que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.24-25). Sugiro usar o versículo de João 15.15 como palavra da graça. Jesus Cristo diz: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”. As leituras bíblicas podem ser introduzidas da seguinte forma: Romanos 8.12-25: Somos filhos e filhas de Deus, sem que precisemos fazer algo por isso. Mesmo quando fazemos algo errado, o seu amor não nos abandona. Não somos servos que precisam fazer aquilo que os outros mandam. Com a comparação entre os filhos e os servos, o apóstolo Paulo agradece a Deus por sua dedicação e cuidado a nós. Na carta à comunidade de Roma no capítulo 8, versículos 12 a 25, ele escreve: ... Mateus 13.24-30,36-43: Joio em meio ao trigo. O evangelista Mateus usa essa imagem da natureza para responder a pergunta que ocupa pessoas de todos os tempos e lugares. A pergunta sobre como devemos lidar com o fato de que entre as pessoas cresce tanta erva daninha, tanta coisa incompreensível e repugnante acontece, que nos aterroriza e amedronta. Essa pergunta foi respondida por Jesus da seguinte forma: ...

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Se alguém quiser aprofundar-se um pouco mais em João 15.15, é possível encontrar uma bonita oração a esse respeito: Meus amigos (Jo 15.15) Senhor, tu nos chamaste de teus amigos. Tenho amigos que te amam muito. Tenho-os em alta consideração E te agradeço por me teres dado tais amigos. Senhor, tenho amigos que te odeiam. Apesar disso, eu os amo. Senhor, tu que transformaste o coração de Paulo, Que te odiava, Faze que esses meus amigos reconheçam teu amor. Senhor, tenho amigos que riem de ti. Choro por eles. Senhor, tu que choraste por Jerusalém, Não deixes esses meus amigos perecerem em sua tolice. Senhor, tenho amigos que são indiferentes diante de ti. Preocupo-me muito com eles, Que não são nem quentes nem frios. Senhor, tu que em relação a nós não és indiferente, Dá-me forças para, através de minha vivência cristã, Chamar esses meus amigos à decisão. Johnson Gnanabaranam, Uma nova dança, p. 69 Hinos: HPD 94 – Corações em fé unidos; HPD 206 – Quão bondoso amigo é Cristo; HPD 213 – Senhor, tu tens sido; HPD 214 – Quem só em Deus, o Pai, confia; HPD 412 – Amizade; HPD 456 – Deus é meu amparo.

Bibliografia CROATTO, José Severino. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. Petrópolis: Vozes, 1989. FREY, Hellmuth. Das Buch der Weltpolitik Gottes. Kapitel 40-55 des Buches Jesaja. 4. ed. Stuttgart: Calwer Verlag, 1954. (Die Botschaft des Alten Testaments, v. 18)

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PRÉDICA: MATEUS 13.31-33

7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

1 REIS 3.5-12 ROMANOS 8.26-39

27 JUL 2014

Erní Walter Seibert

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Introdução

O cenário em que Jesus estava quando contou as parábolas do evangelho deste domingo é bem especial. Ele estava à beira do lago da Galileia, não longe da cidade de Cafarnaum. A cidade de Cafarnaum era uma pequena cidade na qual Jesus passou boa parte do tempo de seu ministério público. O capítulo 13 de Mateus registra várias parábolas que Jesus contou para ensinar o povo. A parábola era uma figura de linguagem que Jesus utilizava para ensinar lições ao povo. A interpretação dessas parábolas sempre foi um exercício difícil para os leitores do evangelho e não deixou de ser difícil para os primeiros ouvintes. Muitos não as entendiam. As parábolas deste capítulo são conhecidas como as parábolas do Reino. Jesus conta essas parábolas para trazer ensinamentos sobre o Reino do Céu. Muitas delas começam da mesma maneira: “O Reino do Céu é como...”. No texto do evangelho deste domingo, a comparação é com uma semente de mostarda e com o fermento. As outras duas leituras do domingo parecem não ter relação direta com o ensinamento do evangelho. Na leitura do Antigo Testamento, 1 Reis 3.5-12, é contado o episódio em que o rei Salomão pede, em sonho, sabedoria a Deus para governar o povo. Sabedoria é necessária para andar nos caminhos de Deus e para entender sua Palavra. Talvez esse seria um ponto de contato com a leitura do Antigo Testamento. A leitura da epístola do domingo encontra-se em Romanos 8.26-39. O texto de Romanos aponta para a ação de Deus em favor do ser humano por meio do Salvador Jesus Cristo.

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Exegese

A primeira parábola – a do grão de mostarda – é entendida de forma mais ou menos unânime pelos comentaristas bíblicos. Todos falam que se trata de mostrar o espantoso e rápido crescimento do Reino do Céu. Aplica-se isso também, de forma mais restrita, ao crescimento da igreja. A semente de mostarda era a menor das sementes utilizadas na Palestina. Mesmo sendo de pequeno tamanho, ela germinava e tornava-se uma planta que atingia a altura de dois metros e meio a três metros e meio. O texto chama a

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atenção para o tamanho pequeno da semente e seu crescimento até se tornar uma planta bastante grande. Assim seria o crescimento do Reino do Céu. Isso normalmente é atribuído à igreja cristã. Ela teve um começo modesto, pequeno, cresceu e tornou-se uma árvore frondosa, espalhada pelo mundo. Alguns comentaristas procuram encontrar um significado para os passarinhos que são mencionados no texto. Eles vêm, fazem ninhos nos ramos da árvore e ali se abrigam e vivem. É levantada a hipótese de que eles sejam os não judeus que entram no Reino. A figura de uma árvore em que se abrigam pássaros e até animais é encontrada em Ezequiel 17.23 e Daniel 4.12,21. A figura, portanto, não é desconhecida do contexto bíblico. O próprio Evangelho de Mateus menciona a entrada de não judeus no Reino nos seguintes textos: Mateus 8.11; 28.19. É possível, pois, fazer essa alusão. No entanto, a quantidade de informação que o próprio texto nos dá não nos permite ser conclusivos de que essas palavras se refiram a isso. Entretanto, o ponto-chave da parábola, sem dúvida, é a referência ao crescimento do Reino. É preciso, porém, tomar algum cuidado para não utilizar o texto para um discurso triunfalista sobre o crescimento da igreja. Existem tantos outros textos, de igual forma, que falam que o rebanho de Deus na terra será pequeno. Pequeno e grande sempre é algo relativo ao que se compara. Se tomarmos a população total da Terra e o número de pessoas cristãs, mesmo tomando as estatísticas mais otimistas, o cristianismo continua sendo minoria em relação ao número de não cristãos. No Brasil, nos últimos anos, fala-se muito do grande crescimento dos evangélicos. Podemos ficar felizes com o crescimento do número de cristãos no mundo e agradecer a Deus porque sua promessa de crescimento continua se cumprindo. Mas não nos devemos permitir um discurso de superioridade, porque, se temos crescimento, não se deve a nós, mas à bondade de Deus. Sem ele nada podemos fazer, como nos lembram as leituras do Antigo Testamento e da Epístola. A segunda parábola contada por Jesus – a do fermento – tem uma dificuldade adicional para a sua compreensão. Na parábola da semente de mostarda, o ponto de comparação é a questão do crescimento. Na parábola do fermento, é dito que um pouco de fermento se espalha por toda a massa. O fermento pode ser considerado o fator de crescimento da massa. Aí então a interpretação teria a ver com o texto da parábola do grão de mostarda. No entanto, em outros textos bíblicos, o fermento é dado como o elemento que se espalha negativamente no meio da massa. Aí então seria o mal se infiltrando dentro do Reino do Céu. O que Jesus queria realmente dizer com essa parábola? Falava ele do crescimento do Reino do Céu ou da infiltração do mal nesse mesmo Reino? Na primeira hipótese, o texto estaria ligado ao texto anterior. Na segunda hipótese, o texto estaria ligado ao contexto posterior, que fala da parábola do joio. As duas hipóteses de interpretação levam-nos, no mínimo, a ter cautela com uma interpretação triunfalista de crescimento. No texto paralelo de Lucas 13, em que as duas parábolas do evangelho deste domingo também são contadas, o texto que vem depois da parábola do fermento fala das dificuldades de entrar no reino de Deus. Isso nos mostra que

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a intenção de Jesus ao contar essas parábolas era que confiássemos em Deus. A semente é dele, o crescimento vem dele, e sem ele nada podemos.

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Meditação

A questão do crescimento do Reino é chave para esse texto. Nas últimas décadas, muito se falou a esse respeito, olhando para o aspecto do crescimento da igreja. Quantas reuniões, seja de sínodos ou de lideranças de uma igreja local, já se voltaram para esse assunto? A igreja está crescendo numericamente? A igreja está diminuindo? Será que o crescimento é apenas numérico? Como analisar essa questão? Um teólogo disse que, muitas vezes, reuniões de igreja são como uma reunião de banqueiros sobre o balanço financeiro de seu empreendimento. Querem saber se o mesmo está dando lucro, se ele está se expandindo, se ele tem boa posição no mercado, e assim por diante. São pessoas nervosas e preocupadas com o crescimento. Esse teólogo mencionou que, nessas reuniões, a palavra “graça” e a confiança nessa “graça de Deus” estão praticamente ausentes. Existem igrejas que, não verificando crescimento numérico de seus membros, procuram outra característica como sendo aquela segundo a qual examinam sua situação. Dizem que sua preocupação não é o crescimento numérico, mas a preservação da doutrina. Ou então dizem que a sua tradição não é de crescimento, mas de presença e influência no meio cristão e na sociedade. Richard Niebuhr, em sua obra As Origens Sociais das Denominações Cristãs, faz uma análise de cunho social do crescimento das igrejas. Ele demonstra que muitas preocupações e ações sobre e para o crescimento têm a ver com questões mais sociológicas do que teológicas. Teólogos do movimento Church Growth, ao lado de estudos estatísticos e questões práticas em geral, têm convicção de que a questão do crescimento da igreja é uma questão teológica. No Brasil, nas últimas décadas, tivemos um grande fenômeno de mobilidade ou trânsito religioso. A igreja católica, que era amplamente majoritária no país, perdeu enorme fatia de seus membros especialmente para as igrejas pentecostais e neopentecostais. As igrejas protestantes, com poucas exceções, observaram o mesmo fenômeno da parada de crescimento ou diminuição que a igreja católica observa. No entanto, o grande crescimento numérico verificou-se entre os grupos pentecostais e neopentecostais. Afirma-se com bastante entusiasmo que até 2050 o Brasil será um país evangélico. Na Europa, a preocupação é um outro fenômeno. Com a estagnação da população autóctone do continente europeu e com a imigração de pessoas originárias de países de maioria muçulmana, fala-se da islamização da Europa. A França é apontada como um país que, em pouco tempo, terá maioria muçulmana na sua população. Philip Jenkins, um estudioso norte-americano desse fenômeno, em uma série de livros tem estudado esse fenômeno e como ele se apresenta tanto na Europa como em outras partes do mundo.

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Praticamente em quase todas, senão em todas as cidades brasileiras, o fenômeno do trânsito religioso apresentou-se nas últimas décadas. Se olharmos o quadro estatístico das igrejas três ou quatro décadas atrás e olharmos o quadro de hoje, veremos que há grandes diferenças. Essa questão, por via de regra, traz grande angústia para os membros da igreja quando sua denominação local não está crescendo e grande entusiasmo quando ela cresce. O que dizer para a igreja à luz do evangelho deste domingo? Uma primeira lição, parece evidente, é que Deus prometeu crescimento para a sua igreja. Deus quer a expansão de seu Reino. A semente de mostarda que é lançada ao solo, germina, cresce e torna-se uma árvore frondosa é uma imagem clara disso. Não nos devemos voltar contra o crescimento do Reino. Se olharmos o primeiro grupo de seguidores de Jesus e a presença da fé cristã no mundo de hoje, esse crescimento fica evidente. Outra lição que aparece é que o crescimento não depende do esforço da semente, mas vem da natureza dela e da bênção do Criador. Deus dá o crescimento à sua igreja. Não somos nós que promovemos esse crescimento. Deus o promove. Outro aspecto que o texto mostra é que a igreja deve ser acolhedora. Os passarinhos vêm e fazem ninhos em seus ramos. Daí podemos dizer que poderíamos ter dois pontos ou duas partes muito claras nessa pregação. O tema poderia ser “características da igreja que cresce”. Na primeira parte, destacar-se-ia que essa igreja confia em Deus. Na segunda parte, poder-se-ia destacar que essa igreja é acolhedora.

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Imagens para a prédica

A imagem mais forte que se pode usar para essa pregação é a semente. Trazer sementes para ajudar a enxergar com clareza essa característica da igreja. Para uma igreja no ambiente rural, isso é mais ou menos evidente e ajudará todos a ver, talvez como aconteceu com os primeiros ouvintes dessa parábola, a presença de Deus no dia a dia. Para pessoas da cidade, não deixa de ser uma experiência esclarecedora saber que de Deus depende o crescimento e que ele está presente, com sua graça, tanto na natureza como na igreja. Outra imagem que pode ser explorada é o acolhimento, expresso na árvore que acolhe em seus ramos os pássaros que ali fazem ninhos. Como a igreja, cujo crescimento Deus promove, está acolhendo as pessoas? Quais os esforços ou atividades de acolhimento que são feitos? A imagem do fermento que leveda toda a massa também está no texto. Nesse caso, fica a dificuldade de interpretação já apontada anteriormente.

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Subsídios litúrgicos

Muitas igrejas chamam bem-vindos os visitantes em todos os cultos. Fazem isso no início, durante ou no final da reunião. Como nesse culto o crescimento da igreja está em foco, seria oportuna a reflexão a respeito do que está sendo feito para que esse crescimento ocorra sem dificuldades. Como está a pregação

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da Palavra? Como está a administração dos sacramentos? Palavra e sacramentos são claras apresentações da graça de Deus? Como é o ambiente da igreja? Como as pessoas que visitam pela primeira vez são recebidas? O que é feito para que todos se sintam bem? Isso perpassa toda a liturgia da igreja.

Bibliografia JENKINS, Philip. The Next Christendom: The Rise of Global Christianity. New York: Oxford University Press, 2002. NIEBUHR, H. Richard. As Origens Sociais das Denominações Cristãs. São Paulo/São Bernardo do Campo: ASTE/Ciências da Religião, 1992.

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8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: ROMANOS 9.1-5

03 AGO 2014

ISAÍAS 55.1-5 MATEUS 14.13-21

Daniel Kreidlow

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Introdução

Por estar inseridas em um ambiente social cada vez mais individualista, creio que nossas comunidades terão dificuldades para envolver-se com o tema deste “domingo de Israel”. De modo geral, solidarizar-se e preocupar-se com o povo escolhido de Deus, que se exclui da salvação em Cristo, não é nada natural. O apóstolo Paulo estava olhando com amor seu próprio povo. Mas e nós, o que temos com esse povo que foi escolhido por Deus desde a antiguidade? Acredito, mesmo assim, que esse trecho da Carta aos Romanos possa ter um significado importante para nós comunidades da IECLB no momento em que olharmos ao nosso redor para todos aqueles que se colocam fora da graça e da fé em Cristo Jesus, ou seja, que desprezam a graça e a fé em Cristo Jesus. Além do que, se nos deixarmos espelhar pelo texto, talvez nos descubramos um pouco como os israelitas, sempre tão zelosos, mas sem querer depender exclusivamente da graça divina. Não podemos ser indiferentes àqueles que se perdem. Não podemos fechar nossos olhos tão rapidamente ao povo de Israel, povo que Deus escolheu para manifestar-se e no meio do qual Jesus nasceu como Salvador. Da mesma forma, não podemos nos esquecer do nosso povo evangélico luterano, que com muito amor tenta manter seus costumes e tradições, mas perigosamente pode esquecer o central: Jesus Cristo salva e aceita por pura graça e fé. O texto da Carta de Paulo aos Romanos conversa claramente com o texto do Antigo Testamento, quando em Isaías 55.1-5 ouvimos do convite de Deus àquelas pessoas sedentas entre nós para achegar-se a Ele, pois o que Ele tem a nos oferecer é entregue gratuitamente por amor. Já o texto de Mateus 14.13-21 relata-nos a clássica e tão conhecida história da multiplicação dos pães. Após Jesus se ter retirado e visto que o povo mesmo assim não o havia deixado, pois tinha fome e sede de cuidado e amor, ele pede a seus discípulos para que alimentem gratuitamente a multidão e não dispensem as pessoas para que elas possam comprar seu alimento. Também aqui o tema do cuidado e da graça é claro e nos ajudará a refletir sobre o que Romanos nos propõe. Pois são latentes o cuidado e o amor de Jesus para com aqueles que se sentiam perdidos e sem rumo, povo que corria atrás dele em busca de sentido de vida. E isso com certeza nos ajudará a refletir sobre o nosso olhar para aqueles que vivem ao nosso redor e se sentem sedentos e famintos.

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Considerações sobre o texto

Para quem vem lendo a Carta de Romanos de forma contínua desde o seu início, certamente os capítulos 9-11 vão soar um pouco estranhos. Desde o começo da carta, Paulo fala o que significa “o justo viverá pela fé”, tentando esmiuçar a tríade “justiça, fé e vida”. Assim, depois de extensas exposições, poder-se-ia imaginar que o apóstolo terminaria sua carta com as costumeiras exortações. Mas somos surpreendidos como que com um parêntese, que vai dos capítulos 9 a 11. Em lugar do término da carta introduz-se um novo e importante tema: a reprovação de Israel. Esse bloco de três capítulos era suspeito, por vezes, de ser um acréscimo posterior e até de ter sido um escrito à parte dessa carta. No entanto, hoje se acredita fortemente que esse bloco é parte fundamental e indispensável da mensagem total da carta paulina, tendo uma função bem definida na reflexão da justiça, fé e vida, realizada na totalidade desse escrito. V. 1-2 – Parece-nos que o problema do qual o apóstolo se dispõe a tratar é extremamente íntimo e intensamente pessoal. Para Paulo, a ideia de uma reprovação de seu próprio povo tornou-se insuportável. Essa questão ele, como um judeu-cristão, não poderia deixar de enfrentar. Mesmo se gloriando de seu ministério entre os gentios e alegrando-se com sua salvação, não conseguia esquecer e ser indiferente à sua família e à sua nação como um todo, pois, em sua maioria, eles não aceitavam a mensagem da salvação anunciada no evangelho. Uma estreita solidariedade com o povo de Israel o movia, pois a reprovação de seu povo tornara-se uma fonte de profunda tristeza e de uma angústia sem fim. V. 3 – A solidariedade do apóstolo é parecida àquela que Moisés sentiu pelas pessoas de sua época, quando rogou pelo povo de Israel ameaçado pela reprovação de Deus (Êx 32.32). Paulo vê-se ligado a seu povo segundo a carne e sente um grande carinho e preocupação por ele, chegando a chamar essas pessoas de irmãos. De forma geral, essa designação era usada pelo apóstolo somente para indicar a unidade entre os cristãos, não para referir-se aos judeus, como vemos aqui neste texto. Ante a ameaça da exclusão da salvação em Cristo, Paulo adianta-se e pede a Deus para sofrer por seu povo vicariamente. Assim ele assumiria a maldição da separação de Cristo. Esse pedido, além de torná-lo semelhante a Moisés, assemelha-o ao próprio Cristo. Assim como Jesus tomou sobre si o pecado do mundo, Paulo deseja, ele mesmo, entregando-se como anátema, salvar seus irmãos perdidos pela incredulidade. Porém ele sabe que seu pedido não pode ser atendido. Interessante é notar que, mesmo que Paulo esteja pensando nos judeus, ele evita constantemente nos capítulos 9-11 o termo ioudaioi. Ao invés disso, como mencionado, chama-os de irmãos, incluindo esses que são “segundo a carne” como ele na irmandade dos cristãos. V. 4 – Na continuação, Paulo enumera o fundamento dessa relação do povo com Deus, uma relação baseada na herança que o povo de Israel recebe daquele que os chama. É por causa da adoção, da glória, da aliança, da legislação, do culto, dos patriarcas e da promessa que permanecem o direito e o dever de Israel.

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Além disso, o próprio Cristo descende deles segundo a carne, em quem todas as promessas de Deus a Israel atingem a sua consumação. V. 5 – Com respeito a este último versículo, existem muitas opiniões diferentes. A partir do ponto de vista linguístico, é muito natural que se considerem essas palavras como uma referência a Cristo, de quem Paulo está falando no momento. Outros acreditam que a frase deve ser tomada como uma atribuição independente de louvor a Deus, já que Paulo, com rara exceção, aplica diretamente a Cristo o nome de Deus. Dependendo da solução que se adote, atrás do “segundo a carne” se colocam uma vírgula ou um ponto. A favor do referir-se a Cristo está o fato de que, nas outras passagens paulinas, as doxologias não independentes sempre se referem ao sujeito precedido. A favor do referir-se a Deus fala o fato de que em suas doxologias Paulo sempre glorifica a Deus mesmo, não a Cristo. Além disso, pode-se argumentar que temos aqui uma doxologia teológica, porque todos os sinais de Israel que foram mencionados são instituições salvíficas de Deus. Por fim, poderíamos dizer que as razões para considerar a segunda opção são um pouco melhor fundamentadas. Por fim, ainda nos cabe lembrar que o bloco dos capítulos 9-11 propõe-se a demonstrar, de certa forma, que a justiça pela fé e as promessas de Deus não são contraditórias.

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Meditação

O cristianismo esqueceu rapidamente e até parece querer manter no esquecimento através dos séculos toda a problemática da relação entre o cristianismo e o judaísmo. Pouco se tem refletido sobre isso, e diferentemente de Paulo, pouco se tem dado importância a isso. Como podemos nós não nos sentir afetados pelo problema? Como podemos, como cristianismo e igreja evangélica, considerar de forma tão simples e fria o judaísmo como maldito por Deus, por ter-se mantido preso à lei, opondo-se assim ao evangelho da graça? Aqui nos cabe perguntar: seria essa a atitude de Jesus? Talvez por algum tempo, o genocídio realizado nos campos de concentração e extermínio pela Europa nos tenha ensinado a olhar com mais amor para esse povo eleito por Deus. Mas anos já passaram desde a cruel guerra, e novamente parece que a questão judaica voltou a não nos envolver e comiserar. Dificilmente para as nossas comunidades, o destino do povo judeu é e passará a ser alguma coisa existencial. Quando muito, algumas pessoas tentam resolver o problema com a visão da conversão de indivíduos específicos e pontuais, sem gastar esforços refletindo sobre o destino do povo eleito e escolhido por Deus. Paulo sim teve um olhar mais amplo, fazendo com que os romanos participassem de sua profunda tristeza e dor, pois acreditava que o enigma da rejeição de Cristo pelo povo que tanto o aguardava deve ser motivo de amor e reflexão. De certa maneira, o tema de nosso texto leva-nos a refletir sobre a situação dos que se assemelham a essas pessoas, daqueles que fundamentam suas vidas na comunidade em coisas que não são necessariamente uma fé consciente e sólida. Será que alguns de nossos membros podem ser compreendidos de forma semelhante ao povo pelo qual o apóstolo Paulo sentia dor e tristeza no coração?

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Nós também somos escolhidos e separados por Deus desde o nosso Batismo, quando nos soou aos ouvidos a promessa: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16.16). Assim como o povo de Israel, fomos eleitos por Deus em seu amor, que não se restringe a gênero, raça ou nacionalidade. Fomos feitos seus filhos e filhas queridos, e com isso a nós também pertence a herança que Cristo conquistou com sua morte e ressurreição. Mas, além disso, também não somos parecidos com Israel pelo fato de que, depois de eleitos, temos nos acomodado a leis e tradições que, muitas vezes, carregamos conosco somente porque fazem parte de nossa cultura e de nosso jeito de ser igreja e cristãos, sem refletir sobre nossa fé e apegar-nos conscientemente à fé e à graça de Deus? Os israelitas, de forma geral, possuíam um enorme zelo por sua tradição e fé em Deus. Mas é o suficiente, é o necessário? Nós também podemos ter muito amor, carinho e zelo pelas coisas da igreja. Mas é o suficiente, é o necessário? Nós não somos convidados a apresentar nada a Deus, não devemos zelo, pois para nossa salvação tudo já nos foi dado e realizado em Cristo Jesus. Assim, da mesma maneira como Israel, quando teimosamente nos apegamos ao cumprimento e à realização de nossos costumes e tradições, estamos negando Cristo como fonte de nossa salvação. A justificação por graça e fé, um tema tão caro a nós de tradição evangélica luterana, sempre será como que uma pedra de tropeço para os modismos e costumes hodiernos de nossa sociedade. Falar de graça sempre será um tema subversivo, pois minará toda e qualquer estrutura erguida sobre a competição e o mérito. Essa graça será sempre dinâmica, porque valoriza quem sabe que não merece nada e ao mesmo tempo questiona quem pensa merecer muito. Por isso é inevitável o conflito no tempo em que vivemos. Pois a graça continuará lutando por espaços para a vida, enquanto a competição acirrada de nosso mundo continuará diminuindo esses lugares de inclusão e aceitação. Nesse sentido, a graça imerecida pela fé que Israel negou e rejeitou deve sempre ser a motivação para que nós celebremos em gratidão, sentindo fortalecida a vontade de ver nosso semelhante experimentando-a da mesma forma como nós a experimentamos. Os sinais da graça, não do zelo sem Cristo, automaticamente vão surgir em nossas vidas e inspirar outras pessoas a viver e sentir-se leves por ser amadas pela pura e simples bondade divina. Sem o intuito de valorizar-nos diante de Deus, podemos e poderemos sempre viver como uma grata resposta à valorização recebida pela graça de Deus. Em um mundo apegado às realizações e que fomenta o sucesso pessoal, corremos o risco de sempre acreditar mais em nós mesmos e em nossa força do que no Deus da graça: Cristo Jesus. Estamos sempre teimosamente querendo apresentar nossos méritos, nosso potencial, nossas conquistas, nossa “ficha limpa”, que no meio político é comumente indispensável para poder candidatar-se. O texto bíblico coloca-nos diante de um espelho em que percebemos fortemente o “israelita” que existe em cada um de nós. Por outro lado, o texto também nos convida a um olhar repleto de carinho e amor em relação àqueles que se perdem da graça de Cristo. Inseridos nessa socie-

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dade cada vez mais individualista, corremos o risco de cada vez menos conseguir ser empáticos com as outras pessoas. É cada vez mais comum, como seres humanos, conseguirmos ver pessoas perdidas ao nosso lado sem sentir dor nem solidariedade por elas. Dessa forma, basta que eu esteja bem, basta que eu tenha saúde, que eu esteja em condições melhores de vida, que eu seja salvo. Os israelitas, o vizinho, o que não tem emprego ou pão, que esse se preocupe consigo mesmo. Nós sabemos que Deus estabeleceu uma aliança conosco, baseada em graça e amor. Temos nos contentado com isso ou temos buscado outros meios de salvação? Cristo tem sido o alicerce de nossa fé, ou as tradições e os costumes? Temos tido um olhar amoroso para quem caminha conosco e perde-se no caminho?

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Subsídios litúrgicos Sugestão de Salmo: “Em quem confiar?” Em meio aos meus dias de dor pus-me a meditar: em quem porei a minha confiança? Encontrei no livro um canto que dizia: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Só dele, a minha esperança”. Arrisquei o que pude e confiei no Deus da vida. Um tempo e mais um tempo e então compreendi: “De Deus dependem a minha salvação e a minha glória”. Querem derrubar o homem justo e não cansam de lisonjeá-lo com promessas, louvores e prestígio. Mas o seu coração não aderiu. Na sua solidão confiou Naquele que vem e não se deixou abater. Feliz é o ser humano que confia na Rocha, no Deus Libertador. Esse não será confundido na hora cristalina.

(ZWETSCH, Roberto E. Vigília. Salmos para Tempos de Incerteza. São Leopoldo: Sinodal, 1994)

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Bibliografia CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. São Paulo: Paulinas, 1992. NYGREN, Anders. La epistola a los Romanos. Buenos Aires: La Aurora, 1969.

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9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 14.22-33

10 AGO 2014

1 REIS 19.9-18 ROMANOS 10.5-15

Léo Zeno Konzen

1

Introdução

Elias foi um grande profeta; Jesus, maior ainda. As comunidades cristãs também são chamadas a ser proféticas. Elias, Jesus, os discípulos e discípulas dele tiveram e terão de renovar discernimentos e refazer a própria experiência de Deus para ser capazes de continuar assumindo a missão que Deus lhes confiou e confia. Elias (1ª leitura) retira-se para o Horebe, o monte do encontro de Deus com Moisés. Ele está em crise, porque sua missão profética lhe parece inútil e difícil demais. Um novo encontro com Deus fá-lo rever sua teologia e encaminha-o para um novo jeito de exercer a profecia. Ele percebe que não está tão só quanto imaginava. A Carta aos Romanos (2ª leitura) tem diante de si a grande crise vivida pelas comunidades em torno da maneira de ser fiel a Deus: ou com base no cumprimento da Lei, ou na fé, vale dizer no seguimento de Jesus. O texto de hoje proclama solenemente, repetindo a profecia de Joel (3.2), que fala dos dias em que o Espírito de Deus será derramado sobre todos os viventes: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Os discípulos de Jesus também passam por crises. Após a partilha dos pães, Jesus manda-os embarcar para a outra margem. Na difícil travessia, em noite de ventos contrários, Jesus proporciona-lhes uma nova experiência de presença e atuação de Deus. Eles poderão e deverão continuar apostando no seguimento de Jesus, descobrindo novas implicações dessa prática. No dia dos pais, associamos a fé, as alegrias e as dificuldades dos profetas e discípulos de Jesus com as alegrias, incertezas, dificuldades, busca de luzes e de novos jeitos de ser de nossos pais.

2

Exegese

Mateus é o evangelho da nova justiça do reino de Deus. O texto deste domingo situa-se na segunda parte do evangelho, na qual Jesus, após ter proclamado o reino de Deus por ações e ensinamentos (primeira parte), organiza e lidera o novo povo de Deus (13.53-28.20). Nosso texto faz parte do “livrinho” que apresenta o nascimento de um novo povo a partir da ação de Jesus (13.53-18,34). O relato apresenta uma cena de teofania, na qual Jesus aparece aos discípulos caminhando sobre as águas do mar e transmitindo-lhes confiança (“Tende

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confiança, sou eu, não tenhais medo”). O resultado final é o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, manifestado por meio de um gesto (prostram-se diante dele) e de palavras (“verdadeiramente, tu és Filho de Deus”). O episódio também é narrado por Marcos (6.45-52) e João (6.15-21), mas é omitido por Lucas. Os três evangelhos apresentam concordâncias em pontos importantes. Todos colocam a cena logo após aquela da alimentação de multidões com a partilha de alguns pães e peixes. Os três falam de uma retirada de Jesus após a cena dos pães e antes de sua aparição sobre o mar para ficar a sós – para orar, segundo Mateus e Marcos. Os mesmos dois também dizem que Jesus forçou ou obrigou os discípulos a embarcar e que Jesus mesmo despediu a multidão. Segundo João, ninguém despediu a multidão, e Jesus fugiu do local, refugiando-se sozinho na montanha, porque queriam pegá-lo para fazê-lo rei, e os discípulos por conta própria descem ao mar e embarcam para Cafarnaum. Nos três, os discípulos ficam amedrontados com a aparição de Jesus sobre as águas e (em Mt e Mc) julgam que estão diante de um fantasma. A navegação é difícil, pois o vento lhes era contrário (Mt e Mc), sopra um vento forte e o mar vai se encrespando (Jo), o barco é agitado pelas ondas (Mt). Nos três, o barco já se encontra a uma distância de muitos estádios (vinte e cinco a trinta, segundo Jo). Em todos, Jesus manifesta-se com a mesma expressão: “Sou eu. Não temais”. Mateus e Marcos colocam antes dessa expressão as palavras: “Tende confiança”. As diferenças entre os três relatos também são facilmente visíveis. A mais evidente é que somente Mateus inclui a cena de Pedro indo ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas e começando a afundar. O fim do relato é próprio em cada um: em Mateus, os que estão no barco prostram-se diante de Jesus e proclamam-no Filho de Deus; em Marcos, eles estão cheios de espanto, e seu coração está endurecido porque não tinham entendido nada a respeito dos pães (cena anterior); em João, os discípulos querem recolher Jesus no barco, mas esse chega imediatamente à terra aonde vão. O final do relato de Mateus relaciona a cena àquela da cruz, na qual o centurião diz a mesma frase que os discípulos aqui: “Verdadeiramente, este era Filho de Deus” (27.54). Esse olhar sinótico facilita perceber a perspectiva com a qual Mateus apresenta o episódio. Ele o relaciona ao episódio anterior, aquele dos pães. O fato de Jesus forçar (ou obrigar) os discípulos a embarcar e aguardá-lo na outra margem, enquanto ele se retira a sós para orar, mostra que se estabeleceu uma crise. Jesus mesmo despede a multidão, quando antes da cena dos pães ele não permitiu que os discípulos o fizessem, e afasta-se também dos discípulos. A situação parece ser de risco, diante do qual Jesus precisa tomar medidas. Qual será a ameaça? O perigo pode estar na tentação de um messianismo milagreiro e paternalista, já anunciado na tentação de transformar pedras em pães (4.3). Esse perigo atinge a multidão – o que é explicitado melhor no Evangelho de João, pois a multidão quer pegá-lo e fazê-lo rei –, envolve os discípulos – o que parece melhor expresso em Marcos, onde eles ficam com muito medo, pois não entenderam nada a respeito dos pães – e, de certa forma, envolve o próprio Jesus, pois ele se afasta da multidão e dos discípulos para orar. Embora os evangelhos não informem o conteúdo

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dessa oração, pode-se presumir que ela tenha sido um momento de avaliação e discernimento diante de Deus a respeito dos rumos de seu projeto. O fato de Jesus obrigar os discípulos a embarcar pode evocar a violenta separação ocasionada pela morte de Jesus na cruz. Daí em diante, eles tiveram de embarcar sozinhos, seguindo o pedido de Jesus de levar adiante o projeto da justiça do Reino do Céu (“Ide por todo o mundo... Estarei convosco todos os dias...” – Mt 28.19-20). O barco evoca as comunidades, a igreja. As dificuldades dessa caminhada, que na época da redação dos evangelhos já somava algumas décadas (o barco já está a muitos estádios), estão representadas pela noite, pela agitação das ondas e pelo vento contrário. A aparição de Jesus faz lembrar aquelas do Jesus ressuscitado e evoca também características de Deus, segundo relatos do Antigo Testamento (só Deus pode caminhar sobre as águas). Nesse contexto, o relato de Mateus surpreende. Ele é o único que apresenta a proposta ousada de Pedro de querer participar da divindade de Jesus, que se manifesta na cena. E Jesus não o censura por isso; ao contrário, convida-o a vir ao encontro dele, caminhando sobre as águas. E a ousadia resulta em sucesso. Porém, mesmo que o vento não tivesse aumentado – o texto apenas diz “sentindo o vento” –, Pedro vacila e começa a afundar. Grita então por salvação e é atendido por Jesus, que prontamente lhe estende a mão e o repreende pela dúvida, que expressa fraqueza na fé. A conclusão do texto também surpreende em Mateus: os que estão no barco têm um comportamento exemplar. A comunidade pode sempre inspirar-se neles.

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Meditação

A crise por causa dos pães é o ponto de partida da narrativa sobre a qual estamos meditando neste domingo. Compreender a cena dos pães e peixes, não só teórica, mas também existencial e concretamente, não é fácil para os discípulos. Por isso é necessário que Jesus provoque uma ruptura, um distanciamento entre ele e os discípulos e despeça também as multidões. Ele mesmo precisa de um tempo para estar a sós, a fim de discernir sobre a continuidade do processo desencadeado por suas práticas e prédicas. A crise não impede que a missão continue. Jesus “obriga” os discípulos a embarcar para a outra margem, o que tem um duplo significado: eles devem aprofundar a compreensão da missão e precisam também levá-la adiante, fazendo-a chegar a outros lugares. Essa é também a experiência que fazem as comunidades após a morte violenta de Jesus. Elas precisam compreender com nova luz esse acontecimento e levar adiante a proposta de Jesus. Sem entrar em polêmicas, precisamos olhar também hoje com olhos críticos as propostas que querem limitar Jesus a ser um fazedor de milagres, que resolvam nossos problemas de saúde, emprego, vícios etc., sem compreender as implicações educacionais, sociais e políticas da cena dos pães e de toda a prática de Jesus. O seguimento de Jesus, concretizando a lição dos pães, traz consigo momentos de dificuldades e até de sensação de abandono. As propostas da sociedade

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capitalista e consumista conflitam com a proposta da partilha solidária e sóbria dos pães. Os discípulos e as discípulas de Jesus não estão isentos da tentação de resolver tudo dentro dessa lógica, propondo alguns remendos ao sistema excludente e gerador de morte. Quando pensam e agem de forma mais radical, são considerados sonhadores e fora da realidade, antiquados e ultrapassados... ou ainda coisas piores. Essa experiência produz também a sensação de estar “remando contra a correnteza”, de ficar isolado, de ser como aquele passarinho que, de bico em bico, busca um pouco de água para apagar o incêndio da floresta. E surge até a acusação (e mesmo o sentimento) de que esse modo de ser não proporciona experiências “quentes” de Deus... O seguimento de Jesus parece proporcionar abandono de Deus, não sensações de presença. E quando ele aparece, parece um fantasma que causa medo... Aí entra a contribuição principal de nosso texto. No processo de andar no barco rumo a outras margens, mesmo nas noites de ventos contrários, Jesus não abandona as comunidades. Ele se manifesta em sua dimensão mais profunda. E ressuscita seus discípulos e discípulas, dizendo-lhes palavras de matiz divino: “Tende confiança, sou eu, não tenhais medo”. Eles precisam abrir os olhos para ver na escuridão da noite a presença confortadora e encorajadora de Jesus, ele é a presença de Deus com eles. É o “Emanuel”, o “Deus conosco”, tema tão caro ao Evangelho de Mateus. No final do evangelho, ele promete permanecer sempre com seus discípulos (28.20). Mateus radicaliza a narração mostrando a ousadia de Pedro, que quer ser associado à divindade de Jesus, manifestada no caminhar sobre as águas. Não será demasiado o que Pedro pretende? Pessoas humanas podem aspirar a participar da condição divina? Não se trata de uma usurpação? Mateus acredita que não. Para ele, Pedro não erra ao pedir para que Jesus o faça caminhar também sobre as águas. O erro dele vem só depois, quando fica com medo por causa do vento que sente (vento que não o intimidara no começo). A lição que fica é que, para participar da divindade de Jesus, é necessário ser forte na fé, não um “homem fraco na fé”. Fé parece significar confiança. Confiança na pessoa e também no projeto de Jesus. Por fim, merece nossa atenção o discernimento exemplar dos discípulos. Quando Jesus e Pedro sobem no barco, o vento amaina, e todos fazem o discernimento correto e agem de modo coerente: eles se prostram diante dele e manifestam, também por palavras, sua interpretação de Jesus, que é reconhecido como “Filho de Deus”. Esse discernimento, porém, não está ainda isento de ambiguidades. Pouco depois, de novo os discípulos, por meio de Pedro, reconhecem Jesus como “o Cristo, o filho do Deus vivo” (16.16). Jesus elogia essa acolhida da revelação de Deus. Mas, em seguida, Pedro é alvo de forte repreensão de Jesus: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens” (16.23). O discernimento, portanto, precisa amadurecer constantemente.

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Imagens para a prédica

O próprio texto do evangelho oferece uma boa imagem para a prédica: somos o barco dos discípulos e discípulas de Jesus, que nos encaminha para outras margens. Precisamos ser igreja missionária. Os ventos contrários tornam difícil a navegação. E a proposta da justiça do reino de Deus pode parecer muito materialista diante de propostas “mais espirituais”. Pode também parecer muito política diante de propostas de curar por meio de milagres os males que não queremos enfrentar com políticas públicas ou organizações comunitárias. Quanto à ousadia de Pedro de querer participar da divindade de Jesus, pode-se relacioná-la ao Evangelho de João: “Quem crê em mim fará as obras que faço e fará até maiores do que elas...” (14.12); “Se alguém me ama, guardará minha palavra; e o meu Pai o amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (14.23). A reação final dos discípulos deve ser entendida para além dela mesma. Prostrar-se diante de Jesus e reconhecer sua divindade não é o objetivo maior do relato. Esse visa, com a manifestação da divindade de Jesus, à superação do medo e à acolhida corajosa da proposta de Jesus, sintetizada na cena dos pães. A missão dos pais também exige constantes deslocamentos para outras margens. Participar da divindade de Jesus, como Pedro se propôs, pode significar assumir de maneira amorosa e irrenunciável a missão da paternidade, apesar dos erros, das fraquezas e dos questionamentos que ocorrem nessa caminhada.

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Subsídios litúrgicos

Neste domingo, podem ser priorizados hinos que contenham a imagem do barco e que expressem nossa fé na presença de Deus caminhando conosco, encorajando-nos na missão que dele recebemos. Pode-se enriquecer o ambiente litúrgico com um barco que servirá de código para toda a reflexão e oração do domingo. Momentos de perdão, de louvor e de intercessão ficarão ricos se relacionarem o dia dos pais ao evangelho do domingo.

Bibliografia MATEOS, Juan; CAMACHO, Fernando. O Evangelho de Mateus: leitura comentada. São Paulo: Paulinas, 1993. STORNIOLO, Ivo. Como Ler o Evangelho de Mateus: o caminho da justiça. São Paulo: Paulinas, 1990.

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PRÉDICA: ISAÍAS 56.1,6-8

10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 17 AGO 2014

MATEUS 15.21-28 ROMANOS 11.1-2a,29-32

Norberto da Cunha Garin

1

Introdução

O texto de Mateus reflete a discriminação que existe em qualquer grupo humano em relação ao diferente. O sentimento corporativo acirra-se com facilidade em qualquer associação humana. Não era diferente no povo de Deus do primeiro século. De certa maneira, isso se reflete na resposta de Jesus (judeu) à mulher (cananeia). Na Epístola aos Romanos, o autor aponta para a misericórdia divina através da qual, em todos os tempos, Deus inclui todos. Esse mesmo tema é tratado no texto da prédica. Entretanto, quando se passa de Isaías 55.12-13 para Isaías 56.1, é complicado entender a sua dinâmica. No final do Dêutero-Isaías, a narrativa está falando sobre uma festa, a festa do retorno, mas o Trito-Isaías é inaugurado por uma séria advertência na direção do cumprimento da justiça. É possível perceber que o contexto social alterou-se substancialmente. Não se trata mais da comunidade dispersa no exílio, mas de uma comunidade que já está reassentada em sua terra, já está estabelecida, que poderia ser a comunidade judaica pós-exílica, dona de um cotidiano de regularidade, mas persistem os problemas de infidelidade para com Javé. O tempo é outro, e o texto reflete um período que antecede a reconstrução do Templo, mas após o retorno do exílio. Entretanto, é inegável que o problema da dispersão do povo de Israel persiste, mas agora os destinatários do texto são outros. Talvez seja esse repetido enfrentamento dos mesmos problemas que constitua o eixo estrutural de toda a obra.

2

Considerações sobre o texto

V. 1 – O versículo abre com uma introdução oracular: “Assim diz o Senhor [...]”; a mesma forma como encerra o conjunto (56.1-8) com a temática do Trito-Isaías: “Assim diz o Senhor Deus, aos dispersos de Israel [...]”. Trata-se aqui de uma ligação de redação; é possível perceber uma distinção significativa entre os v. 1 e 2; o v. 1 é uma espécie de introdução a toda a sequência até o v. 8; são expressões que marcam a linguagem profética; a sequência (2-5) remete a uma linguagem sapiencial de caráter poético sobre a temática do projeto de Javé. Nota-se, por essa introdução, que a comunidade pós-exílica enfrentava conflitos sérios de ordem ética: o direito (juízo) e a justiça. Não se trata aqui de uma preocupação com o cuidado em guardar leis, mas com os direitos humanos (Os

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12.7; Sl 106.3). Há dois termos que definem o projeto de Javé: minha salvação (que se aproxima) e a minha justiça (libertação/prestes a aparecer). A advertência sobre as construções humanas dos que retornaram da Babilônia reporta-se às ações imorais praticadas por seus opressores durante o desterro. Esse v. 1 trata de uma exortação à prática do projeto de Javé. A comunidade estabelecida precisa colocar-se em ordem para receber a graça do projeto de Javé. Entretanto, fica bem marcado que a salvação/libertação é dele. É possível perceber semelhanças dessa perícope inicial com a do Dêutero-Isaías (40.1-11): o da preparação para o estabelecimento do novo projeto. V. 6 – Os estrangeiros que estavam fixados em Israel, mas que não aderiam aos rituais de Javé, tinham certos direitos. Entretanto não podiam participar de todos os ritos religiosos. Havia estrangeiros que desejavam permanecer autodiscriminados para preservar suas tradições e sua cultura de origem. Mas aqueles que haviam aderido a Javé, que se submeteram à circuncisão, possuíam direitos em sua totalidade, assim como os nativos. Essa adesão não significava necessariamente conversão. Quando se reporta a filhos e filhas (56.5), possivelmente está se referindo aos filhos de judeus da diáspora, nascidos no estrangeiro, que eram tidos em menor consideração do que os que nasciam em Israel. O foco não é a salvação das nações, mas a de Israel, aliás, como de resto todo o livro do profeta. A condição de ser “servos seus” (de Javé) não se refere necessariamente ao culto, mas à condição de pertencer ao povo judeu pela guarda da aliança, aqui, a da guarda do sábado. Os critérios para essa pertença são três: aderir, amar (a Javé) e guardar o sábado. Saliente-se que o sábado é a única exigência objetiva, enquanto as demais são bastante subjetivas. V. 7 – Pode-se perceber aqui o contexto litúrgico. “Também os levarei [...]” é porque estavam alijados da sociedade e da terra. Para o povo do deserto, a inclusão significava levar à terra prometida; para os estrangeiros do Trito-Isaías, trata-se de introduzi-lo na cidade e no culto. Esse será um tema recorrente no Trito-Isaías. “E os alegrarei na minha Casa de Oração [...]” denota a inclusão de quem não podia participar do coração da vida judaica, que era o culto. Não participava porque era proibido por determinações litúrgicas, visto que se teria contaminado na andança por outros povos. Segue-se a descrição dos atos litúrgicos essenciais do culto judeu, que serão aceitos por Javé. Essa fórmula aponta para o fato de que quem qualifica a oferta não é quem oferece, mas o ofertado. “Será chamada Casa de Oração para todos os povos” aponta para a denominação atribuída por Javé. É ele quem dá o nome, pois é dele o seu domínio. É importante tomar cuidado com as leituras escatológicas, pois aqui Isaías está se reportando aos habitantes das distintas colônias judaicas da diáspora. Não se referem à abertura ecumênica para outras religiões. Quando citado no Novo Testamento (Mc 11.15-19), deve-se perceber que a ênfase se concentra na oposição “casa de oração” versus “covil de salteadores”. Aquilo que hoje pode ser considerado um problema menor, no tempo do Trito-Isaías tratava-se de um desafio a ser superado: a inclusão litúrgica de quem não havia nascido ou permanecido em terras da Judeia. V. 8 – A propósito de conclusão dessa perícope aparece a temática do Trito-Isaías: a reunião dos filhos de Israel que se dispersaram pelo mundo conhecido.

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Trata-se de uma conclusão de oráculo rebuscada, pois acrescenta um título com conotações religiosas e políticas: “senhor” Javé. Colocado assim, reporta-se ao poder de domínio do proclamador do oráculo. Observe-se que o domínio de Javé está reforçado pelo subtítulo: “que congrega os dispersos de Israel”. Cumpre, dessa maneira, a promessa “trarei a tua descendência desde o Oriente e a ajuntarei desde o Ocidente” (Is 43.5b), estabelecendo, aqui também, uma costura com o Dêutero-Isaías. Os temas “reunir” e “congregar” relacionam-se à diáspora, mas também se reportam à promessa do êxodo, como é acentuado por Jeremias em dois momentos de sua obra, enfatizando o domínio e o poder de Javé: “Portanto, eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que nunca mais se dirá: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir os filhos de Israel do Egito; mas: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir os filhos de Israel da terra do Norte e de todas as terras para onde os tinha lançado. Pois eu os farei voltar para a sua terra, que dei a seus pais” (Jr 16.14-15). Da mesma sorte: “Portanto, eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que nunca mais dirão: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito; mas: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir, que trouxe a descendência da casa de Israel da terra do Norte e de todas as terras para onde os tinha arrojado; e habitarão na sua terra” (Jr 23.7-8). Trata-se de uma atualização das promessas patriarcais (Gn 15.7). Isaías 56 inicia com um apelo à comunidade pós-exílica, chamando-a ao dever ético como forma de preparação para a graça que se aproximava sobre Israel. O retorno à pátria não garantira a guarda desses preceitos, criticada nos opressores de antanho. É necessário estar em condições para participar desse projeto, e para tanto um cuidado moral era urgente, porque tudo já estava às portas. Não apenas o projeto seria implantado em breve, mas o próprio Javé iria manifestar-se, como fizera em outras ocasiões. Às vezes, esse texto é interpretado como uma abertura de Israel às nações, mas de fato o que está em jogo é a ruptura da discriminação contra os israelitas que nasceram fora e que passaram a habitar Israel depois do retorno do exílio. O problema era a discriminação a que eram submetidos. Amar a Javé e guardar o sábado passaram a ser condições suficientes para ser tratados no ambiente cúltico da mesma forma que os nativos. Não se pode perder de vista que o culto era o coração da vida deles tanto religiosa como social e política. A perícope encerra com um oráculo de quem tem o domínio sobre todos os dispersos de Israel e a promessa de que a busca pelos filhos e filhas continuará.

3

Considerações sobre a mensagem

O sacrifício e as lutas de uma comunidade acabam por uni-la tanto na batalha como na vitória. A dinâmica e a mobilização das pessoas envolvidas com suas bandeiras fortalecem os seus laços e compactam o grupo. Disso surgem as identidades, que normalmente se transformam em institucionalizações mediante o estabelecimento de normas. A mobilização e a luta, muitas vezes construídas contra a rigidez das institucionalizações, acabam reproduzindo, com o passar do tempo, a mesma rigidez. É comum isso acontecer com mobilizações sociais, po-

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líticas e também com os movimentos religiosos. Da resistência acaba se caindo no mesmo pecado do opressor. Reproduzem-se normas, leis e costumes que por si constroem barreiras discriminatórias. O texto de Isaías reflete bastante essa tendência. Depois do retorno a Jerusalém, a memória das lutas pela libertação do povo e o sacrifício para a reconstrução foram se dissipando e cresceu a tendência da purificação social e religiosa. Nesse contexto, a vontade de Javé aparece através da palavra profética que anuncia a misericórdia infinita de quem busca e acolhe. O estrangeiro não será excluído do povo eleito. Ele também é um irmão e como tal está inserido no plano de libertação. Ao olhar para a comunidade, é possível perceber como são construídas barreiras para selecionar e afastar os desconhecidos. São “estrangeiros” que buscam, no aconchego do povo da fé, o acolhimento necessário para sua alma cansada. Com o estabelecimento de barreiras normativas institucionais, a comunidade, querendo preservar-se, afasta a graça de Deus daqueles que mais necessitam dela. Deus não rejeita seus filhos e filhas. Para Ele, não há mulher cananeia nem estrangeiro. Não se pode transformar a comunidade num gueto de “santos” e condenar à exclusão os necessitados da graça divina.

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Imagem para a prédica

É uma oportunidade para a comunidade olhar para si mesma e tentar identificar os elementos de exclusão. Caso a comunidade se reúna num local com dificuldade de acesso, com escadarias etc., coloque-se uma cadeira de rodas no ambiente do culto, bem à frente do púlpito, e construa-se um cartaz com dizeres reflexivos, como por exemplo: você conseguiria vir de sua casa até aqui numa cadeira de rodas sem o auxílio de outra pessoa? Outra possibilidade seria pedir que as pessoas coloquem uma venda em seus olhos e tentem acompanhar as orações e os cânticos da liturgia. De outra sorte, pergunte à comunidade se uma pessoa que não consegue ouvir teria condições de entender a prédica do dia? Caso esses exemplos não ajudem, quem sabe monte um cartaz com fotos de pessoas pertencentes a etnias e classes sociais diferentes daquelas que participam da comunidade e escreva uma questão bem no centro: por que essas pessoas não estão conosco? A partir de uma ou mais imagens, construa a prédica sobre a exclusão dos diferentes, provocada pela própria comunidade.

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Subsídio litúrgico: oração dialogada

L: Deus de amor, permite-nos acolher, com carinho, todas as pessoas que se achegarem à nossa comunidade. C: Que a tua misericórdia, Senhor, mude a minha forma de acolher as pessoas diferentes!

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L: Que a tua graça, Senhor, retire o véu de nossos olhos e ajude-nos a perceber, nos diferentes, a tua santa imagem. C: Que tu, Senhor, nos ajudes a preparar a nossa comunidade e os nossos corações para acolher todos os sofridos que se achegarem a nós. L: Recebe, Senhor, a nossa disponibilidade para receber e abraçar todos os que buscarem a tua graça entre nós. C: Transforma a minha vida para que eu possa ter um coração sempre hospitaleiro.

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías: a palavra profética e sua releitura hermenêutica. v. III. Petrópolis: Vozes, 2002. KALMBACH, Pedro. 9º Domingo após Pentecostes. In: Proclamar Libertação, v. 35. São Leopoldo: Sinodal, 2010.

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11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 16.13-20

24 AGO 2014

ISAÍAS 51.1-6 ROMANOS 12.1-8

Everton Ricardo Bootz

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Introdução

O texto de Isaías é do Dêutero-Isaías (capítulos 40-55), ou seja, durante a aspiração de esperança movida pelas vitórias de Ciro na Babilônia. O término do exílio está próximo. Isso trazia alento para a tarefa que estava adiante: reconstrução do templo e da cidade de Jerusalém. O templo sobre o monte de Sião (v. 3) havia sido destruído, assim como toda a cidade de Jerusalém. Terá início a reconstrução, na qual o deserto vai transformar-se em Éden (jardim). O v. 4, que introduz o tema central, pode ser interpretado assim: vocês foram exilados porque não obedeceram à lei, ao pacto davídico; eis agora uma nova oportunidade, uma nova lei, uma nova justiça. O povo bronco é como pedra bruta, que é cortada para a nova construção (v. 1). O texto de Romanos fala dessa nova vida, uma vida comunitária, não individualizada, como povo de Deus. Para tanto, é necessária uma renovação mental, ou seja, uma nova abordagem da vida e de como vivenciá-la, tal qual em Isaías. É imprescindível uma reconstrução do zero. Há uma nova lei: vive-se para o outro agora, não mais para si. Somos insuficientes enquanto agentes individuais. Enquanto coletividade, nossas diferentes potências complementam-se, tornando a vida comunitária possível, a proposta do reino de Deus viável. O todo é maior do que a soma de suas partes. O texto de Mateus retoma o tema da pedra, presente em Isaías, e o tema da importância da coletividade em Romanos. Jesus leva em conta o que as pessoas pensam dele, o que os discípulos pensam dele. Leva em conta a importância de cada discípulo para a construção do Reino, em especial, nesse texto, a importância de Pedro como pedra para a nova construção social.

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Exegese

O Evangelho de Mateus é uma versão propagandística das primeiras comunidades cristãs, a fim de que sua proposta evangélica não sucumbisse entre os escombros de Jerusalém. Em 70 d.C., a cidade de Jerusalém foi destruída pelo futuro imperador Tito. A classe sacerdotal judaica, juntamente com os saduceus e os escribas, foi desmantelada, a despeito de o grupo dos fariseus ter sobrevivido. A desesperança era grande, também entre os novos conversos (judeu-cristãos). Surge então o Evangelho de Mateus com o intuito de resgatar a esperança de que Jesus Cristo ainda era uma ideologia religiosa viável.

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A autoria do texto é desconhecida, mas a presença do pensamento das primeiras comunidades cristãs da Palestina é forte. O Evangelho de Mateus quer introduzir a imagem de Jesus Cristo como a de um judeu de linhagem histórica, como sendo o Messias profetizado no Antigo Testamento, para que os judeus ainda não conversos tivessem ânimo para converter-se. Muitos judeus tradicionais estavam desanimados com a própria fé diante da destruição e perseguição perpetrada pelos imperadores romanos. O Evangelho de Mateus surge alguns anos depois da queda de Jerusalém, por volta de 80 d.C., como uma alternativa esperançosa para essa parcela da sociedade na Palestina. Essa introdução é importante, pois a perícope em estudo é um exemplo de como o autor do evangelho introduz essa proposta evangelística. O Evangelho de Mateus pode ser dividido em três grandes ciclos: 1º ciclo: 1.1-16.20; 2º ciclo: 16.21-25.46; 3º ciclo: 26.1-28.20. O 1º ciclo é composto por textos que proclamam o reino de Deus na Galileia; o 2º ciclo, por textos que mencionam o caminho de Jesus em direção a Jerusalém e a predição da paixão; o 3º ciclo, por textos da narrativa da paixão e pelo relato da ressurreição. Nossa perícope situa-se bem no final do primeiro ciclo, como que introduzindo o segundo. É uma perícope conectiva. Essa posição estratégica é proposital à medida que introduz Pedro como um importante articulador judeu da fé cristã em Jerusalém e na Palestina, por conseguinte. Nossa perícope é uma aplicação do texto de Marcos 8.27-30 com um fim particular. Nesse texto original, os v. 17 e 19 não estão presentes; nem depois em Lucas (Lc 9.18-21). São os versos em que Pedro é escolhido por Jesus como seu grande sucessor (v. 17), comparando-o e nominando-o como uma pedra (v.18), sobre a qual sua igreja será edificada; um verdadeiro Hermes, intermediando Deus e os seres humanos (v. 19). A igreja medieval interpretou os v. 17-19 como base para a eclesiologia papal. Contudo a intenção do articulador textual era mais provinciana. Pedro havia sido o grande articulador da fé cristã na Palestina e, em especial, em Jerusalém. Paulo, por outro lado, havia sido o grande articulador da fé cristã fora da Palestina. Enquanto a fé cristã vingava extraordinariamente na diáspora, a mesma definhava na Palestina após 70 d.C. Na época em que o Evangelho de Mateus foi redigido (80 d.C.), tanto Pedro como Paulo já estavam mortos. A ideia era reforçar a imagem de Pedro entre as primeiras comunidades na Palestina, abaladas pela destruição de Jerusalém, província onde Pedro teve forte influência nas primeiras duas décadas do cristianismo. Assim, esses versos (17-19) podem ser considerados um adendo posterior, acrescido pelo autor do evangelho propositadamente, a fim de exaltar Pedro. Em Marcos, a originalidade textual é preservada, ou seja, logo depois da confissão de fé de Pedro (v.16) segue a reprimenda de Jesus (v. 20). Explicitado esse ponto, podemos verificar os outros versículos de nossa perícope. A cidade mencionada bem no início (v.13), Cesareia de Filipe, é relevante. Para concluir esse primeiro ciclo, Jesus encontra-se no extremo norte da província da Galileia, perto do monte Hermon, nascente do rio Jordão. Essa cidade foi construída pelo tetrarca Filipe em homenagem ao imperador Augusto. Perto dali, Herodes, o Grande, pai de Filipe, construiu um colossal templo também para o

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imperador Augusto. É sintomático perceber como o autor de Mateus situou nosso texto de forma a instituir não apenas Jesus como o Cristo (v.16), filho de Deus (título reservado apenas aos imperadores), como também Pedro como o possuidor das chaves do reino de Deus, exatamente num lugar que encarnava o poder político de adoração aos imperadores. O v. 14 introduz a concepção popular de Jesus, comparável a João Batista, Elias, Jeremias e outros profetas de igual categoria. Essa popularidade mostra a impressão que Jesus projeta na população da Galileia pelo fato desses três personagens bíblicos terem sido corajosos, de devoção singular, profundamente comprometidos com valores socialmente relevantes, homens de grande simplicidade e severa autodisciplina. No v. 15, Jesus procura saber qual sua imagem entre os discípulos. A resposta vem pela boca de Simão, representante dos doze discípulos: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. O que tem perturbado os estudiosos é a resposta de Jesus frente a essa confissão de fé (v. 20): advertiu os discípulos para não divulgar sua natureza cristológica, ou seja, messiânica. Messias era o “ungido” de Deus, pessoa capaz de purificar outros, a ponto de ter acesso livre a Deus Pai. O termo original grego do verbo advertir (v. 20) pode ser traduzido como falar com raiva, falar solenemente, finalizar algo ou prevenir algo de ocorrer. Pode-se até interpretar que Jesus estava com raiva de Pedro, mandando que se calasse, já que apenas três versículos depois Jesus o repreende ferozmente (v. 23: Arreda, Satanás), nominando-o novamente de pedra, mas dessa vez como de tropeço. Seja como for, o texto deste domingo não deixa de ser uma expressão de fé tanto da população como dos discípulos sobre a prática libertária de Jesus.

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Meditação

Pelo fato dos v. 17-19 serem uma intercalação textual, sugiro trabalhar apenas com os versos restantes, essencialmente com as confissões de fé da população (v. 14) e de Pedro (v. 16). Sugiro trabalhar com os personagens mencionados (João Batista, Elias e Jeremias) e sua possível interpretação simbólica para os ouvintes eclesiais. Sugiro levar em conta também a situação das comunidades primitivas de Mateus: desoladas pela destruição de seu sistema religioso e social em 70 d.C., sendo Jesus a proposta de renovação de esperança messiânica (v. 16). Destarte, poder-se-ia iniciar a meditação retratando a situação da Palestina após 70 d.C. com a destruição completa do templo (Isaías 51), da cidade de Jerusalém e do judaísmo, assim como concebido até aquela data. Trazer para os dias de hoje, comparando a realidade de outrora com fatos atuais similares, os quais também acarretam desesperança social e depressão pessoal: corrupção política (Copa do Mundo de Futebol 2014, ano eleitoral), desequilíbrio ecológico, ideologias religiosas retrógradas, crise financeira mundial etc. Também mencionar crises particulares: desemprego, separações familiares, enfermidades, limitações de diferentes ordens. Fazer um redirecionamento temático, apontando que há uma resposta para cada uma de nossas desesperanças. A resposta é a fé em Jesus Cristo como Filho

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do Deus vivo (v. 16). Esse Deus manifesta-se de diferentes maneiras, a exemplo de diversas pessoas guiando a humanidade através da história com mão forte. Então conectar a atuação de Deus em nossas vidas, social e particularmente, através dos três personagens do v. 14. Assim como o povo galileu esperava que Jesus estivesse à altura de responder a suas necessidades sociais e particulares, assim também nós podemos ter a certeza de que Cristo é a resposta para todos os nossos males. a – João Batista pode ser interpretado como aquele personagem histórico que exige conversão. O batismo era símbolo de morte (afogamento) e renovação de vida (ressurreição): morte de antigos valores (sociais, ideológicos) e renovação para outros valores de vida. Se a realidade nos confronta com a certeza de que este mundo está perdido, então a fé é aquela força que resiste e proclama: Mas um outro mundo é possível! João Batista é aquela característica em Jesus que reverte a situação, primeiro dentro de nós, depois fora de nós, mediante uma práxis evangélica. É a conversão diária. b – Elias pode ser interpretado como aquele personagem histórico que exige culto a Deus em detrimento do culto a outras forças que nos rodeiam. No século IX a.C., Elias lutou contra a política de boa vizinhança que permitia o culto a Baal, o deus das estações, do plantio e da colheita. Que forças nos seduzem hoje em dia? Somos servos do deus Mamon? Do deus da beleza – Adônis, Vênus? Somos workaholics? Podemos lembrar as palavras de Martim Lutero: “Onde está o seu coração, lá está seu deus” (Mt 6.21). c – Jeremias pode ser interpretado como aquele personagem histórico que exige um compromisso persistente. Jeremias lutou para que o povo voltasse a obedecer à aliança feita com Deus antes do desterro babilônico. Infelizmente fracassou. Mesmo diante da impossibilidade de êxito, Jeremias nunca perdeu as esperanças, mantendo-se à altura de sua tarefa como profeta: denunciar a corrupção político-social e anunciar a concretização do reino de amor e de justiça paulatinamente entre nós, a despeito dos reveses. O v. 14 também menciona que algumas pessoas comparavam Jesus a outros profetas. Sinta-se livre para aportar outro personagem profético com quem você se sinta mais conectado. Enfim, concluindo a meditação, pode-se ressignificar o v. 20, que nos diz para refrear o anúncio do evangelho, com o v. 20 do capítulo 28 de Mateus, a grande comissão (Mt 28.19-20), que nos incentiva a fazer exatamente o contrário.

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Imagens para a prédica

Símbolos: Como sugerido na meditação, há três figuras históricas importantíssimas para o cristianismo e para esta prédica: João Batista, Elias e Jeremias. Um símbolo visual para João Batista é a água de nossas pias batismais ou a própria pia (se há Batismo, atrelá-lo à imagem de João Batista). Elias pode ser sinalizado com o próprio templo no qual se está cultuando. Jeremias, por sua vez, pode ser sinalizado com um objeto de anúncio: megafone, corneta, trompete, uma

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folha de papel (resma) enrolada em forma de cone, por onde emitimos algumas palavras de anúncio. História: Uma história que pode ajudar é “Fazendo a Diferença”, encontrada na internet, onde uma pessoa devolve estrelas-do-mar espalhadas pela praia ao mar num trabalho aparentemente em vão, podendo ser relacionada com a temática de Jeremias.

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Subsídios litúrgicos

Os textos fornecem versos passíveis de serem usados em diferentes partes da liturgia. Assim, sugiro os seguintes subsídios litúrgicos. Versículo de abertura: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1s). Absolvição dos pecados: “Porque o Senhor consolará a Sião; consolará a todos os seus lugares assolados e fará o seu deserto como o Éden e a sua solidão como o jardim do Senhor; gozo e alegria se acharão nela, ação de graças e voz de cântico” (Is 51.3). Oração do dia: “Querido Deus, somos teu povo e nação santa; queremos atender, inclinando nossos ouvidos a ti; porque de ti sairá a lei, sendo luz e estabelecendo a justiça entre nós (a partir de Is 51.4). Fala Senhor, porque teu povo te escuta!” Confissão de fé: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16).

Bibliografia EISELEN, Frederic Carl; LEWIS, Edwin; DOWNEY, David G. The Abingdon Bible Commentary. New York: Abingdon Press, 1929. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 17. ed. São Paulo: Paulinas, 1982.

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PRÉDICA: ROMANOS 12.9-21

12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JEREMIAS 15.15-21 MATEUS 16.21-28

31 AGO 2014

Samuel Gaussmann

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Introdução

O texto de Jeremias retrata uma crise da vocação profética. Jeremias estava com o coração cheio de amargura e de dúvidas, enxergava diante de si somente as pesadas consequências de sua missão. Ele, que havia proclamado que Deus era a fonte de água viva (Jr 2.13), agora acusa-o de ser “ribeiro ilusório, águas que enganam” (Jr 15.18). Deus mantém o chamado e espera a resposta confiante do profeta. Deus promete agir, mais fortificando seu enviado do que operando uma vingança contra seus adversários. Deus não retira a cruz que pesa sobre os ombros do profeta, mas revela, pouco a pouco, que ela faz parte do ministério profético. A realidade da cruz está fortemente presente no texto de Mateus, que revela como é difícil para a mente humana compreender e aceitar os propósitos divinos. Até aqueles que conviviam com Jesus não compreendiam sua mensagem. A advertência de Pedro revela a gigantesca distância entre a vontade humana e a divina, entre basear-se na própria consciência e ceder a seus desejos e seguir e obedecer aos preceitos bíblicos. O cerne da mensagem de Romanos é como agir a partir da fé e como buscar forças para manter-se nessa postura. A ética cristã é, muitas vezes, “nadar contra a maré”. Esse sentimento o profeta Jeremias experimentou em seu ministério, e ele derrama seus lamentos diante de Deus. Pedro também não compreendia por que tanto sofrimento pelo qual o Messias deveria passar. Como manter conectados mente (razão), coração (fé) e mãos (ação)?

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Exegese: Entendendo para agir

Romanos 12-15 tratam de questões práticas da vida diária. Neles, Paulo formula o caráter ético da fé cristã. Seu ponto de partida é que nunca devemos fazer nada que torne mais difícil para qualquer pessoa o “ser cristão”, mesmo que isso signifique renunciar a algo que é correto e seguro para nós. No v. 9, conforme a versão Almeida (ARA), consta “sem hipocrisia”. Nos dramas gregos clássicos, o ator (hypokrites) usava uma máscara que cobria seu rosto. O comportamento amoroso dos crentes não deveria ser como quem toma parte em um papel, usando uma máscara, mas deveria ser expressão autêntica de boa vontade. Na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) consta que o amor cristão não deve ser fingido.

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A hospitalidade chegou a ser o mais importante vínculo entre os cristãos. A palavra que Paulo usou para afetuoso é filóstorgos, e storge é a palavra grega que define o amor familiar. Devemos amar-nos afetuosamente porque somos membros de uma mesma família. Dentro da igreja cristã, não formamos uma reunião de amigos, muito menos somos unidades isoladas; somos irmãos e irmãs porque, através de Cristo, temos um mesmo Pai: Deus. Não devemos ser preguiçosos em nosso zelo. A vida cristã precisa ter a marca da intensidade e não da letargia. O cristão não pode viver levianamente, porque para ele a vida é algo sagrado, e tudo tem consequências, boas ou más. O cristão pode inflamar-se, mas nunca se oxidar. Devemos ser fervorosos, literalmente “fervendo no espírito”. Devemos manter nosso espírito em ponto de ebulição. Que desafio diante dos tantos “baldes de água fria” que o mundo joga sobre nós! A única coisa que Cristo não podia suportar é a pessoa que não é fria nem quente (Ap 3.15-16). Os cristãos devem alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram, ou seja, devem exercitar a empatia. É mais fácil chorar com os que choram do que alegrar-se com os que se alegram. Sentir alegria genuína com o sucesso de outra pessoa é sinal de maturidade espiritual. “Deixar de dar as boas-vindas à felicidade de um irmão, com genuína alegria, é um sentimento de inveja; e deixar de demonstrar tristeza em seu infortúnio é sinal de desumanidade” (João Calvino). A linguagem usada por Paulo indica que os crentes compartilhavam dos mesmos pensamentos: indicação do papel estratégico da mente no processo de santificação. A forma que pensamos determina a nossa maneira de viver, e o pensar cristão não é uma reflexão em si mesma, mas a partir da palavra de Deus. “Não sejais sábios aos vossos próprios olhos” (v. 16) lembra-nos com propriedade o início da história humana. Satanás prometeu sabedoria a Adão e Eva. Ele os faria sábios como Deus, conhecendo o que são o bem e o mal. Desde então, todos os seres humanos pensam que entendem das coisas de Deus e nelas se intrometem. Basear-se em sua própria consciência é assumir-se como personalidade autônoma, é deixar Deus de fora. A maior sabedoria é reconhecer a cruz de Jesus Cristo como o insuperável amor de Deus por toda a humanidade e admitir que a consciência humana não dá conta do recado diante dos dilemas da vida. “No que depender de vocês” (v. 18) significa que nós não podemos ser a origem das brigas. Sempre há escolha, e essa deve basear-se nos valores cristãos e no amor de Deus; e quando parece que não há escolha, devemos, humilde e confiadamente, deixar tudo nas mãos de Deus. No v. 20, Paulo escreve sobre amontoar brasas vivas na cabeça dos inimigos. Outra tradução possível seria “farás com que lhe arda a cara de vergonha”. Não apenas ruborizar, mas incendiar de vergonha. A atitude cristã pretende assim conduzir à conversão ou, pelo menos, a uma vergonha tamanha, que leve a pessoa a revisar suas atitudes. O cristão deve libertar-se do desejo de “acertar as contas” com outras pessoas. Paulo dá três razões para isso: 1 – A vingança não nos pertence; pertence a Deus. Ninguém tem o direito de julgar o outro; só Deus pode fazê-lo. Paulo lembra, no v.19, a passagem de

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Deuteronômio 32.35. Na caminhada com o povo de Israel, Deus provou que liberta e julga. 2 – Tratar alguém com bondade antes do que vingativamente é a forma de tocar seu coração. A vingança pode quebrantar seu espírito; mas a bondade conquistará seu coração. 3 – Ceder diante da vingança é ser conquistado pelo mal. O mal nunca pode ser vencido pelo mal. Se ao ódio se opõe mais ódio, ele aumenta; mas se ao ódio se opõe amor, achou-se o antídoto para o veneno. A única maneira de destruir verdadeiramente um inimigo é torná-lo nosso amigo. Paulo fala do perdão, não apenas na certeza de que Cristo perdoou quem o crucificava, mas por ter visto um cristão agindo nesse espírito: Estêvão, que morreu pedindo perdão para aqueles que o estavam apedrejando (At 7.60). Entre os que o mataram havia um jovem chamado Saulo, que veio a ser Paulo, o apóstolo dos gentios. Certamente a morte de Estêvão foi uma das coisas que aproximou Paulo de Cristo. Como disse Agostinho: “A igreja deve Paulo à oração de Estêvão”. Platão já havia dito que o homem bondoso preferirá antes suportar o mal do que cometê-lo. Quando o cristão é ferido e insultado, ele tem diante de si o exemplo de seu Mestre, que sobre a cruz orou pedindo perdão para aqueles que o estavam matando. Não se vingar é deixar a fé abafar a voz ensurdecedora do desejo humano de buscar vingança a todo custo. “Quem deseja vingar-se toma a vida de seus inimigos nas próprias mãos e esquece que Deus já colocou a mão sobre essa pessoa, morrendo por ela na cruz” (Dietrich Bonhoeffer). Quem se vinga no ser humano torna sem efeito a morte de Cristo; ele se torna culpado diante do sangue da reconciliação.

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Meditação: Comovendo para mover

Questionar os ouvintes logo de início, dando espaço para a discussão ou tempo para a reflexão: Você fala mais com sua boca ou com suas atitudes? Seriam as virtudes listadas por Paulo virtudes recomendadas ou virtudes impossíveis? Se as encararmos como tarefa nossa, a obra humana é impossível, até mesmo desesperadora. Mas se forem encaradas como dádivas de Deus, sinais do comprometimento com uma nova postura de vida, inicia-se uma transformação da mente e das atitudes. Não há como nossa mente pequena compreender o amor de Deus, mas isso não O impede de vir até nós. É estranho e inacessível à nossa razão o fato de que Deus nos procurou e nos perdoou, sacrificando seu próprio Filho em nosso favor. As palavras que Paulo usa são duras. A pessoa não está a salvo quando sua vida consiste em evitar prudentemente o mal e numa calculada adesão ao que é bom. Ninguém é bom quando simplesmente é porque teme as consequências de ser mau. Nenhuma virtude está segura se não for apaixonada. Ser cristão tem a ver com convicção e não adequação. O amor só pode ser genuíno se for fundamentado em Cristo. Outras formas de amor não resistem, terminam ou até mesmo se corrompem em obsessões e paranoias. A nossa bondade não pode conquistar o amor de Deus nem a nossa

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maldade pode perdê-lo. Porém a tendência humana é resistir a esse divino amor. Por isso o apóstolo Paulo fala-nos de não apenas crer de coração e compreender as Escrituras, mas praticar o amor para que não existam brechas em nossa vida, por onde a tendência de resistir ao amor divino contamine nosso ser. Nesse sentido, amar não se pode basear apenas em sentimentos, mas em atitudes e principalmente em comprometimento. Isso se aplica à família, ao matrimônio, à vida profissional, à comunidade de fé... No início do capítulo 12, Paulo inicia escrevendo que há muitos dons e todos são dádivas de Deus àqueles que vivem em Cristo. Agora é procurar colocar isso em prática para fazer a diferença no mundo! Como o texto é extenso e repleto de orientações e cada qual relevante, uma alternativa seria dividir o texto em cinco blocos, enfatizando as “marcas” de quem ama: 1. Quem ama é sincero; 2. Quem ama honra; 3. Quem ama serve; 4. Quem ama abençoa; 5. Quem ama pacifica. O mundo é hipócrita, nós somos sinceros; o mundo não honra (apenas “puxa o saco” e bajula por interesse), nós honramos, não por conveniência, mas por compromisso; o mundo quer ser servido, nós servimos; o mundo só valoriza quem se submete a seus valores ou quem tem alto poder aquisitivo, nós acolhemos e bendizemos a partir da dignidade que Deus concede a todas as criaturas; o mundo é vingativo e violento, nós perdoamos e disseminamos a paz que vem de Deus. Outra temática abordada por Paulo, e que geralmente é o estopim para desentendimentos nas comunidades até hoje, é a questão dos privilégios e honrarias. Mais da metade dos problemas que surgem nas igrejas está relacionada, em maior ou menor medida, a direitos e privilégios, cargos e prestígio. Alguém não recebeu seu cargo; alguém se sentiu menosprezado ou não recebeu agradecimento e disso surgem vários problemas... A marca do verdadeiro cristão deve ser a humildade, que se propõe sempre antes a servir do que ser servido. Nesse sentido, o agir fundamentado na fé vai encontrar resistências no mundo, mas isso não significará abandono de Deus ou incapacidade dos chamados, mas é a realidade da cruz. Realidade que o profeta Jeremias experimentou e que o discípulo Pedro não compreendeu. “Que mal o que intenta maldade pode fazer contra você? O mal prejudica a ele e não a você. Sofrer injustiça não faz mal ao cristão. Fazer injustiça, porém, prejudica” (Dietrich Boenhoeffer). O maligno deseja que você também seja mau. Devemos quebrar a corrente do mal e apegar-nos a Deus como um elo numa corrente do bem. Unidos a Deus, Ele nos protege. É como óleo derramado numa corrente: toda ela fica lubrificada, assim todos nós estaremos na graça de Deus, se unidos a Ele. As correntes do mundo nos escravizam; somente a corrente de Deus nos liberta, pois nos leva a Ele e nos une ao próximo, sendo cada qual um elo importante. Nesse sentido, a ética a partir da fé não é tornar a vida mais simples, mas mais significativa; não é evitar sofrimentos, mas saber aprender com eles; não é uma garantia de privilégios e facilidades, mas assumir responsabilidades e encarar desafios; não é saber tudo, mas tornar-se cada vez mais dependente de Deus.

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Imagens para a prédica: Simbolizando para concretizar

Diante de um texto com tantas orientações de como proceder, veio-me à cabeça a imagem de uma lista. Antes de ir ao supermercado, é bom fazer uma lista de compras, que nos ajuda a não nos deixar seduzir por ofertas ou distrair nas prateleiras, mas a nos concentrar naquilo que é o mais necessário no momento. O apóstolo Paulo faz-nos uma lista para não esquecer as atitudes de quem vive pela fé. Essas ações são difíceis, por isso mais uma vez a importância de listar para não esquecer ou nos esquivar. Pode-se escrever essas orientações bíblicas em pequenos bilhetes como numa lista de supermercado no sentido de que agora a pessoa que leva essa lista não vai comprar esses itens, mas vai doar isso ao mundo. Afinal, a compra já foi feita e o preço já foi pago por Cristo na cruz. Deus faz a oferta, nós fazemos a escolha. Origem da palavra sincero: Os romanos fabricavam certos vasos de uma cera especial. Muitas vezes, essa cera era tão pura, que os vasos se tornavam transparentes, podendo-se distinguir os objetos que tivessem sido colocados no seu interior. Desses vasos dizia-se: “Parece até que não tem cera! É um vaso sine cera!”. Sine cera significa sem cera, a qualidade do vaso perfeito, que deixava ver através de suas paredes. Da antiga cerâmica romana, o vocábulo sincero passou a ter significado mais profundo. Sincero é aquele que é autêntico, verdadeiro, que não oculta. O sincero, à semelhança do vaso romano, deixa ver, através de suas palavras, os sentimentos de seu coração.

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Subsídios litúrgicos: Envolvendo para interagir

Cantos: Oração de São Francisco de Assis (Pe. C. Irala), Bem-aventurados (HPD 400), Veni creator spiritus (Coleção Miriã 1, nº 6), Canto da Esperança (HPD 438). Seria muito significativo realizar Batismos nesse culto como sinal de pertencimento a Deus, de comprometimento dos pais, padrinhos, madrinhas e toda a comunidade na educação cristã, começando com o exemplo pessoal, ou celebrar a Ceia do Senhor como sinal de que alimentamos nossa fé e nossa força para agir no mundo a partir do que Deus nos dá. Confissão de pecados: Salmo 51. Anúncio da graça: Jeremias 17.14 ou Lamentações 3.22-23;25. A imagem de uma corrente do bem: Ela vem de Deus e conecta-nos a Ele, e devemos alcançá-la a todos ao nosso redor, formando mais elos para a glória de Deus. É tarefa cristã aumentar essa corrente no mundo e fortalecê-la em nós mesmos a cada dia. O nosso elo com Deus fortalecemos com oração e nosso elo com o próximo com diaconia (serviço cristão). Usar correntes na decoração da igreja e durante a liturgia: ou estamos presos na escravidão do mundo e de nossos desejos ou libertos na corrente do bem de Deus. Os elos do mundo nos escravizam; os elos de Deus nos elevam, “puxam para cima”.

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12º Domingo após Pentecostes

Bibliografia BONHOEFFER, Dietrich. Prédicas e alocuções. Trad. Harald Malschitzky. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007. p.17-22. BRAATEN, Carl E.; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. V. 2. São Leopoldo: Editora Sinodal,1995. p. 412-429.

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PRÉDICA: 1 TIMÓTEO 2.1-6

13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (DIA DA PÁTRIA)

EZEQUIEL 34.1-10 MARCOS 12.13-17

07 SET 2014

Leonídio Gaede

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Introdução

A primeira Carta de Paulo a Timóteo impressiona pela quantidade de frases que poderiam ter aplicação prática direta num programa de formação de liderança em comunidades nos dias de hoje. A orientação sobre exercícios espirituais (4.7b), a maneira de tratar as pessoas (5.1ss) ou o perfil do bispo e do diácono (3.1ss) são conselhos que podem ser bebidos direto da fonte. Evidentemente, precisamos fazer os devidos discernimentos entre culturas e épocas distintas, como, por exemplo, em relação aos versículos 11 a 15 do segundo capítulo. Pensando em uma atividade de púlpito, talvez seja preferível procurar um núcleo de mensagem nessa carta. Então a questão da mediação única de Jesus Cristo entre Deus e as pessoas talvez seja o destaque (2.5). Esse tema traz a questão da doutrina correta, que pode ser um ponto de abotoamento com o texto de Ezequiel. O profeta coloca as coisas em seu devido lugar em relação aos governantes. Esses são pastores, e o que cabe a um pastor fica muito explícito em Ezequiel 34.1-10. Da mesma forma, no conhecido texto do evangelho, em que Jesus responde a uma pergunta sobre os impostos ao imperador, as coisas são colocadas em seu devido lugar quando Jesus responde: “Deem ao imperador o que é dele”.

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Exegese

Proposta de tradução: “Assim peço que, acima de tudo, sejam feitas orações, súplicas, intercessões e ações de graça por todas as pessoas, pelos reis que governam sob o domínio do imperador e por todos os que têm habilidades que lhes dão autoridade. Que seja assim para podermos viver em calma, quietude, piedade e dignidade. Isso é bom e agradável aos olhos do Salvador, que é nosso Deus, o qual quer que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque existe um Deus, e um humano que une Deus e os humanos, que é o humano Cristo Jesus, que deu a si mesmo como dinheiro de resgate por todos, para que isso seja testemunhado no seu devido tempo”. A comunidade de Éfeso, que era pequena, provavelmente foi fundada por Apolo. Paulo passou por lá e depois pediu a Timóteo que continuasse a edificação (At 19). A comunidade passava por alguma dificuldade (1Tm 1.3). O texto da prédica está nesse contexto. Ele está inserido numa unidade maior, composta pelos capítulos 2 e 3, que poderiam receber o título “O ordena-

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mento da vida em comunidade”. Paulo expressa-o assim: “Como devemos agir na família de Deus, que é a igreja do Deus vivo” (3.15). O pano de fundo histórico parece ser o perigo do desvio dos ensinamentos de Cristo. Mesmo que isso não seja dito expressamente, podemos entender que se trata da discussão com gnósticos (4.1ss). Nessa perspectiva, as regras “como devemos agir na família de Deus” podem ser reativas a teses falsas sobre o seguimento de Jesus Cristo e a vida em comunidade, que circulavam em Éfeso. Em nosso texto está presente a regra da “oração em favor de todas as pessoas” (v. 1). A regra traz um conceito que é central na oração, a saber, que ela inclui pedidos, intercessões e agradecimentos. É relevante que não se trata apenas de pedir por outras pessoas, mas de pedir por todas as pessoas. Dessa forma, a questão se amplia: a intercessão não é só por parceiros ausentes, mas por inimigos presentes e pessoas que não conhecem Deus. É essa a regra que inclui na oração dos cristãos a intercessão pelo imperador. No v. 2, a questão está formulada no plural (hyper basileon). Isso acontece porque a oração dos cristãos inclui o imperador, mencionando a forma como ele se faz presente junto a eles por meio de todos os que transmitem o poder do imperador nas unidades menores reino afora. Além disso, estão incluídas na oração as pessoas que detêm autoridade (hyperoche). Aí está mencionado um segundo público-alvo da oração de intercessão. A raiz da palavra usada no texto original carrega o sentido de “ter habilidade”. Orar pelos que têm autoridade é, pois, orar pelas pessoas caracterizadas por capacidades que fazem essas pessoas destacarem-se na comunidade. A raiz do termo grego é a mesma da palavra usada para fazer a diferença entre o ensino de Jesus e o dos escribas em Marcos 1.22. Jesus ensinava com exousia, que é algo diferente de uma autoridade artificialmente concedida. Não necessariamente esse algo diferente está presente numa pessoa que é nomeada para uma função que a distingue como autoridade. Por um lado, o tema remete a Romanos 13.1-7 e 1 Pedro 2.13-17, em que governantes pagãos são incluídos na oração dos cristãos, pois, se existem, é pela vontade de Deus que existem. Por outro lado, a segunda parte do v. 2 traz uma justificativa diferente para a oração em favor dos governantes: “para que a comunidade possa desenvolver-se em calma, quietude, piedade e dignidade”. A Bíblia Nova Tradução na Linguagem de Hoje fala em “vida calma e pacífica, com dedicação a Deus e respeito aos outros”. O Novo Testamento Grego de Nestle-Aland traz, porém, quatro palavras que podem ser traduzidas conforme sugerimos acima. Também a tradução de Lutero para a língua alemã traz quatro termos que confirmam a nossa tradução: ruhiges, stilles, Frömmigkeit e Ehrbarkeit. Nesse sentido, a razão da oração pelo imperador e seus representantes e pelas pessoas com habilidades extraordinárias é diferente de Romanos e 1 Pedro. Aqui a oração ajuda a comunidade a desenvolver-se em serenidade. O texto apresenta ainda uma segunda razão para orar pelos que representam o imperador e por quem tem habilidades especiais na comunidade: orar assim é bom e agradável aos olhos do salvador Deus, afirma o v. 3. Ser agradável aos olhos significa ser visto e consentido expressamente. Orando assim, Deus aprovará o desenvolvimento da comunidade.

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Quanto ao v. 4, parece, de início, que não há muita diferença de conteúdo entre afirmar que Deus quer salvar todos (v. 4a) e que quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade (v. 4b). A segunda parte tem, porém, decorrência prática para a comunidade, especialmente se considerarmos que existia a influência gnóstica. Basta lembrar que essa dizia que chegar ao conhecimento da verdade não era para todos. O v. 4 fundamenta, pois, a regra comunitária da oração por todas as pessoas como princípio de salvação universal. E o v. 5, que, de início, pode parecer apenas um adendo, completa esse princípio, negando o ensinamento de que existem dois deuses: um no mundo das ideias ou do espírito e outro no mundo da prática ou da matéria. Ao contrário disso, existe um Deus que criou tudo e todas as pessoas. E, confirmando a unicidade, existe um que é intermediador e que morreu por tudo e por todas as pessoas.

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Meditação

Simplesmente resgatar a incumbência comunitária da oração já seria semeadura suficiente para um culto ou seminário de liderança. Não é raro ouvir das lideranças comunitárias queixas sobre as muitas tarefas que a incumbência de levar a comunidade adiante lhes dá. Estão envolvidas com a execução de formas diferentes de arrecadação de recursos para a manutenção da comunidade. Estão envolvidas com a organização dos espaços para as diferentes programações. Estão envolvidas com o incentivo à participação das pessoas, e assim por diante. A proposta de orar, e orar muito, promover sessões estruturadas de oração, corre o risco de ser vista como uma atividade a mais. Na verdade, porém, orar é, como se diz, “botar ordem na bagunça”. Podemos dizer que a incumbência da oração deveria constar no manual de planejamento estratégico da comunidade. Mesmo que imaginar Deus lá em cima e nós aqui embaixo não seja condizente com a realidade Emanuel (Deus conosco), aqui pode representar uma ajuda criar a imagem de que na oração traçamos o sinal da cruz. O traçado vertical nos une a Deus, e o horizontal nos une ao contexto. No traçado vertical, examinamos a nossa condição pessoal diante de Deus, e, no traçado horizontal, acontece um exame geral da situação ao nosso redor em relação a Deus. É aí que não se pode deixar de incluir o imperador e seus representantes, bem como as pessoas dotadas de dons especiais ou com algumas capacidades salientes no meio da comunidade. O traçado horizontal na imagem da cruz ou a intercessão pelo contexto, incluindo os inimigos da fé cristã ou adversários da comunidade, não pode ser compreendido como uma legitimação, em princípio, da situação. Interceder não quer dizer legitimar. A oração inclui os inimigos e adversários porque percebe todos os atores que estão no jogo de forças em desenvolvimento. É bom dizer: não se trata de legitimar atores e nem de destruí-los em nível pessoal. Trata-se, muito antes, de criar condições para que a missão se desenvolva nesse seguimento do único Deus e seu único mediador, o Cristo Jesus, que é soter (salvador, derivado do verbo sozo – resgatar de perigo). Jesus é salvador porque há perigo. Qual é o perigo? A destruição do caminho rumo ao Pai, único Deus, que ele ensinou.

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Se considerarmos a universalização da intercessão como um primeiro aspecto, vamos chegar a um segundo aspecto a ser considerado: a particularidade da comunidade com o alvo de viver em calma, quietude, piedade e dignidade. À primeira vista, pode parecer bastante introspectivo para quem gosta de uma comunidade engajada na realidade circundante e com a mensagem universal da fé cristã. É necessário, porém, que voltemos nosso pensamento à pequena comunidade de Éfeso, em cuja edificação Timóteo estava. Podemos imaginar o seguinte: assim como viver em calma, quietude, piedade e dignidade é uma boa condição para que uma mãe grávida entregue ao mundo uma criança saudável, assim aquela comunidade necessitava desses quatro pilares para ser erguida. Sem dúvida, também hoje existem comunidades que necessitam de condições assim para que possam ser reedificadas sem que o contexto as absorva. E, finalmente, meditemos sobre um terceiro aspecto. Em nosso texto, Deus é Deus único não para abrir fogo contra a concorrência, mas para democratizar o acesso ao conhecimento da verdade. Penso que, em nossos dias, existem guias e líderes equivocados, pretendendo concretizar a fé no único Deus e único mediador, tentando apresentar suas comunidades como única possibilidade. Poderíamos dizer que tentam construir cercas ao redor de suas comunidades com palitos de picolé. Paulo não propõe o isolamento da comunidade para evitar seu contágio com as falsas doutrinas circundantes. A partir da revelação de Deus em Jesus Cristo (v. 5), ele propõe a busca de uma teologia sustentável diante das ameaças presentes. Essa busca é orante, porque a oração “põe ordem na bagunça” e é inclusiva.

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Imagens para a prédica

Proponho a mesa como imagem principal da prédica. Uma mesa pode representar a comunidade. Suas quatro pernas são calma, quietude, piedade e dignidade. Enquanto a pessoa pregadora discorre sobre cada um desses quatro objetivos de vida da comunidade, as quatro pernas da mesa vão sendo identificadas com placas contendo as palavras. As placas com as palavras quietude e piedade podem ser as mais escondidas (fixas nas pernas da mesa, voltadas para o lado que o público não vê). A visibilidade da comunidade ocorre por meio da demonstração da dignidade de vida e da calma neste nosso mundo nervoso. Quietude e piedade são coisas que a gente faz com a direita e a esquerda não vê. Depois que a pregação criou um sentido das quatro palavras para a comunidade, passa-se ao segundo momento: a cruz do crucificado é posta sobre a mesa, significando o Deus único e Mediador único entre Deus e os humanos. Ao redor da cruz pode ser organizado um círculo de bonecos recortados em tiras de papel, em que todos estão de mãos dadas (juntadas as pontas, ficam em pé). É a comunidade orante. Repentinamente, a pregação revela um segredo para a comunidade: os bonequinhos, simbolizando a comunidade, estão de mãos dadas ao redor da cruz, mas estão com as costas viradas para o lado interior do círculo. Estão olhando a partir da cruz para o contexto.

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Como terceiro passo da prédica, espalham-se, então, sobre a superfície da mesa alguns símbolos que representam o contexto pelo qual a comunidade ora. Se houver uma equipe de liturgia ou um grupo comunitário que auxiliou na preparação do culto, as pessoas podem trazer os referidos símbolos e apresentá-los brevemente. Quem dirige a pregação deve tomar o cuidado de não encerrar o momento sem relacionar o que está sobre a mesa com o que foi falado sobre o sentido das quatro pernas: a vida comunitária em calma, quietude, piedade e dignidade.

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Subsídios litúrgicos

Que tal trazer como versículo de acolhida Mateus 10.16? Poderia ser introduzido da seguinte forma: Neste culto em que vamos meditar sobre “como agir na família de Deus, que é a igreja”, quero saudá-los com as palavras que Jesus disse a seus discípulos quando os enviou para a missão: “Escutem! Estou enviando vocês como ovelhas para o meio de lobos. Sejam espertos como as cobras e sem maldade como as pombas” (Mt 10.16). A oração do dia pode ser inspirada em Mateus 11.25-30. Sugiro que versículos do texto de Ezequiel sejam lidos para encerrar a prédica, antes da confissão de fé, no sentido de ilustrar o sentido da intercessão pelo contexto. Para a oração de intercessão sugiro que as pessoas participantes do culto sejam incentivadas a conversar durante dois minutos entre si, por proximidade nos locais onde estão sentadas, sobre as situações pelas quais devemos interceder no lugar onde vivemos.

Bibliografia BORNHÄUSER, Hans (Ed.). Neue Calwer Predigthilfen. Ano 2, A. Advent bis Himmelfahrt. 1.ed. Stuttgart: Calwer Verlag, 1979. p. 315-322. GNOSTICISMO. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Gnosticismo>

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14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: GÊNESIS 50.15-21

14 SET 2014

MATEUS 18.21-35 ROMANOS 14.1-12

Vera Maria Immich Odair Braun

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Introdução

O tema nas passagens indicadas para este domingo é o perdão. O ato de perdoar pode ser desdobrado por meio do agir com bondade, confiança, sem temor e tremor perante Deus e a partir de Deus. Gênesis 50.15-21 é o ponto culminante da saga de José e seus irmãos. Entre caminhos e descaminhos, entre armadilhas e desconfianças, o ponto alto da história é o perdão de José a seus irmãos. Esse perdão revela a forma e o modo de Deus nos perdoar. Somos capazes de agir da mesma forma? O texto de Mateus 18.21-35 é perpassado pelo tema do perdão, tema esse amplamente abordado por Jesus na oração do Pai-nosso e na passagem de Mateus 5.44-45. Em Mateus 18.21-35, Jesus multiplica o número de vezes em que devemos perdoar. Ele o faz para demonstrar que não há limite para o perdão. Devemos perdoar sempre e assim como demonstrado na parábola, ou seja, de modo gratuito. O perdão da dívida, conforme visto na passagem, equivale à bondade de Deus para conosco. E então: como perdoamos? Como nós agimos? Aqui se apresentam o amor de Deus para conosco e sua intenção, ou seja, vida por meio do perdão. Romanos 14.1-12 encontra-se inserido em dois capítulos, 14 e 15, dedicados a falar do relacionamento dos fortes e fracos na fé. Na passagem, percebemos a atitude pastoral de Paulo com a comunidade de Roma (para com as nossas comunidades de hoje). Ele se preocupa em preservar a comunhão e a convivência entre os que pensam e agem de modo diverso. Argumenta que o senhorio de Jesus tudo supera e sobrepõe. O questionamento é: quem somos nós para dizer se o meu próximo é forte ou fraco na fé? Paulo aponta que viver em comunidade/igreja equivale a viver e respeitar quem pensa diferente. Dessas passagens se percebe que a confiança em Deus nos preserva no caminho da verdade. O afastamento desse caminho leva à falsidade, à mentira e, por fim, ao medo e à ausência de plenitude de vida. Assim, nessas passagens se revela o desejo de Deus frente à humanidade, ou seja, que saibamos viver e perdoar, que saibamos receber o perdão e deixar Deus guiar nossos passos.

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Exegese

A história de José e seus irmãos é provavelmente a mais longa que encontramos na Sagrada Escritura. Por essa razão, as diferentes passagens, abordagens

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e relatos abrem a possibilidade e perspectiva para interpretações, abordagens e entendimentos diversos. Para este estudo, vamos ater-nos a um tema específico, ou seja, o perdão. Parece-nos um tema central em vista de todos os fatos que envolveram aquela família, ou seja, José e seus irmãos. Falar de perdão em meio a esse contexto pode parecer estranho. José foi maltratado. Foi vendido como escravo. Foi privado da convivência com seu pai. Foi levado a uma terra distante. Ou seja, ele tinha todos os motivos para ser uma pessoa raivosa, amargurada e ressentida, principalmente com seus irmãos, seus algozes. Assim seria e assim é sempre que prevalecerem a nossa própria vontade e nossos sentimentos. Certamente agiríamos de modo diferente se estivéssemos no lugar de José. Basta analisar como reagimos quando estamos em situações de injustiça, que nos atingem pessoalmente. Mas José não agiu movido por seus desejos, vontades e sentimentos. Ele se entregou nas mãos e ao cuidado de Deus. Isso faz a diferença. Isso gera transformação. Abre caminho para o exercício do perdão, assim como objetivamente se percebe em Gênesis 50.15-21. Avaliamos que não são necessários maiores estudos e abordagens sobre os versículos de Gênesis 50.15-21. Abordagens bastante oportunas e ricas em informações são encontradas nas edições anteriores do Proclamar Libertação. Optamos por ater-nos mais detalhadamente na apreciação do texto e nas possibilidades para a pregação sobre o mesmo, conforme a seguir.

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Meditação

Gênesis 50.15-21 fala de relações familiares, corações que sabem perdoar e corações que têm dificuldade para entender o que é o verdadeiro perdão. Enfim, fala daquilo que vivemos em nossa vida constantemente. Jacó vivia com seus filhos na terra de Israel. Entre seus filhos, José era o mais jovem e o que despertava a inveja dos irmãos, que o viam como empecilho para a intimidade com o pai. Os irmãos reuniram-se e venderam José como escravo para o Egito. Ao retornarem para o pai, disseram-lhe que um animal selvagem devorara José. Trama e mentira. Afastamento da verdade. Distanciamento do desejo de Deus. Isso causou sofrimento a Jacó e fez com que os onze filhos passassem a representar para convencer o pai de que, de fato, uma fera selvagem o havia devorado. Quis o projeto de Deus que José, mesmo vendido como escravo, fosse reconhecido em seus dons e talentos, vindo a ocupar cargo de destaque junto ao Faraó no Egito. Sobreveio sobre Israel uma grande seca, que trouxe consigo fome e miséria. Dessa forma, Jacó e seus filhos precisaram ir ao Egito em busca de alimentos. O encarregado do Faraó para essa função era José. O encontro do velho Jacó e seus demais filhos com José foi marcado por emoção. José nem sabia que o pai ainda estava vivo, viu-se frente a frente com aqueles que o haviam vendido escravo para uma terra distante. Tentemos imaginar que sentimentos afloraram naquela situação. Anos haviam passado, e José estava sob a bênção e os cuidados de Deus. Era bem-sucedido e por isso beneficiado enquanto escravo. Nem por isso era

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soberbo ou autossuficiente. A postura humilde e repleta de bondade de José agradava a Deus. Após o encontro com os irmãos, José perdoa-os e oferece-lhes a melhor comida, bebida e inclusive leva-os a morar consigo, oferecendo-lhes o melhor do campo, de suas ovelhas. Acontece que, depois do reencontro de Jacó com José, passaram dezessete anos, e o pai veio a morrer. E então vem a grande prova: Será que era a presença do pai que fazia José ser bondoso com seus irmãos? Talvez ele tivesse guardado rancor e agora desejaria vingar-se de seus irmãos. Haviam sido perdoados ou agora viria a vingança? Observa-se uma diferença entre José e seus irmãos. Os irmãos fizeram um teatro por causa do medo de acontecer o mesmo que eles haviam feito. José foi diferente: Ele perdoou. Observa-se que os irmãos de José, num primeiro momento, não conseguem compreender o perdão de seu irmão. Por outro lado, aceitavam tudo o que vinha do irmão e lhes possibilitava uma boa vida. A passagem revela que um projeto do mal, arquitetado e executado pelos onze irmãos, foi transformado em bem. Assim se revela o misterioso agir de Deus. Os irmãos de José planejaram e executaram a maldade. Agora estavam com medo. E nesse momento José os tranquiliza e fala afetuosamente. A passagem também nos questiona: somos nós hoje capazes de agir assim? José poderia ter morrido como escravo. Esse risco ele correu. Deve ter passado por dificuldades e revolta ao ser vendido como escravo. Ele tinha motivos para estar revoltado com seus irmãos. Ele poderia ter-se vingado na primeira oportunidade possível. Mas José havia sido lapidado por Deus. Assim ele compreendeu e perdoou completamente, pois estava no caminho do Senhor. Os irmãos não podiam compreender isso, pois ainda não haviam descoberto e entendido o amor de Deus. Por isso maquinavam contra José. Por isso mentiram ao próprio pai. Por isso tiveram dificuldades em aceitar o perdão de José. Por isso temiam a vingança. A única coisa que de fato os perseguia era sua própria culpa. A consciência acusava-os, dizemos hoje. Os irmãos de José não podiam aceitar que aquilo por eles feito estivesse resolvido sem castigo. Era a lógica da época e dos dias atuais. José havia perdido tudo e pela graça de Deus alcançado muito mais. Os irmãos de José não eram filhos da graça. Eram sim filhos do medo, filhos do mérito e do esforço próprio. E o medo sufoca e destrói a vida dessas pessoas. O medo impede a vida plena para a qual fomos criados por Deus e libertos por Cristo. Conta a história que, depois da Segunda Guerra Mundial, durante quatro ou cinco anos, muitos soldados japoneses, tidos como mortos, apareceram. Estavam refugiados nas selvas. Em março de 1974, 29 anos depois do fim da guerra, o soldado Omada Okada, então com 62 anos, foi o último soldado refugiado a ser encontrado. Ao ser encontrado, dizia: Eu tenho muito medo! Eu tenho medo! Imaginem o que foi aquela vida. Os irmãos de José sentiam-se assim como esse soldado. A culpa do que haviam feito os acusava. Culpa provoca medo e insônia. Povoa a mente de pensamentos desagradáveis. A culpa, quando não assumida, faz aumentar a falsidade e a mentira, pois se inventa uma nova mentira para tapar a antiga. A culpa faz os irmãos de José oferecerem-se como escravos. Mas justamente sobre esse aspecto é que José os

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leva a experimentar um novo conceito de vida. Não temais, pois eu sustentarei a vós outros e a vossos filhos (v. 21). Nós sabemos perdoar como José? Aceitamos o perdão ou reagimos como seus irmãos? Olhando para o texto que ouvimos na leitura bíblica desta manhã, também encontramos indicativos iluminadores. Pedro pergunta quantas vezes devemos perdoar. E ouve de Jesus que se deve perdoar setenta vezes sete. Isso não era uma mera fórmula matemática. Mas significa que devemos e que somos convidados a perdoar infinitamente. Por quê? Jesus responde em Mateus 18.35: “Assim também meu pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão”. Perdoar não é simplesmente passar por cima e dizer: “Tudo bem, esqueça”. Perdoar não é cobrir com panos quentes e fazer de conta que nada aconteceu. Perdoar também não deve significar que você assuma a culpa de tudo e sempre. Nem mesmo José fez isso. Ele não se colocou diante de seus irmãos e disse: “Deixem tudo pra lá, vamos em frente”. José disse: “Eu sou José, que vocês venderam como escravo” (Gn 45.4b). Perdoar é falar a verdade e agir com amor. José, ao revelar-se a seus irmãos, não deixa tudo de lado. Ele os faz olhar no espelho, pois isso poderia oportunizar a sua transformação. José falou a verdade e atuou com amor. Como nós perdoamos? É preciso olhar nos olhos, tal como feito por José, e especificar o que aconteceu: Eu sou José, que vocês venderam! É preciso dizer o que você sentiu quando alguém o ofendeu e enganou. É preciso olhar para seu coração e o ressentimento que pode estar guardado. José agiu assim. O versículo 22 revela que ele viveu cento e dez anos. Ou seja, Deus abençoou-o com uma vida longa, plena e abundante. Façamos nós também essa opção e vivamos da graça de Deus. Contudo, depois de perdoado, isso de fato deve ser assim. Não pode ser assim que a cada pouco e a cada momento relembres e faças uso de fatos dados para acusar e melindrar teu irmão. Se assim for, não terá sido um perdão pleno.

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Imagem para a pregação

Caso a comunidade tenha um grupo de jovens, confirmandos, crianças ou outro, seria positivo montar um texto com narrador e encenar aspectos da vida de José e seus irmãos, dando ênfase especial à fala de José perdoando seus irmãos. Isso contribuirá para que a comunidade retenha a essência do texto, o perdão e o exercício do perdão com mais qualidade. Outro aspecto a ser explorado é a história do soldado japonês que saiu de seu refúgio na mata 29 anos após o final da guerra. Saiu afirmando: Tenho medo, tenho muito medo. No caso, explorar o que faz e o que gera esse medo, assim como destacar o que Jesus propõe frente ao medo, à culpa e ao perdão.

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Subsídios litúrgicos

Acolhida: Romanos 14.11. Confissão de pecados: Hinos HPD I 150 e 221 após a confissão e absolvição.

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Palavra de absolvição: Gênesis 50.21: “Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos”. Kyrie: Formular preces que perpassem os sinais de morte em nosso meio, ou seja: mentiras, tramas e jogos de poder, corrupção e desejo de levar a melhor, violência e injustiça etc. Contudo, finalizar positivamente de forma a destacar que a palavra de Deus pode mostrar o caminho da luz e da verdade, a fim de superar toda e qualquer dificuldade. Oração final: Bondoso Deus! De José e por meio da tua palavra aprendemos o exemplo do perdão, da bondade e da compaixão. Dá-nos a sabedoria de conduzir a nossa vida tal como José fez. Dá-nos a sabedoria e o discernimento para que saibamos perdoar tal como José nos ensinou. Dá-nos sabedoria e discernimento para nos livrar do medo e das angústias. Concede-nos sempre o discernimento e a sabedoria de reconhecer nossas falhas, nossos erros e clamar por perdão ante Deus e nosso próximo. Permite que não temamos as forças que se abatem sobre nós, obstruindo o caminho, gerando medo e angústia, tremor e escuridão. Concede que saibamos praticar o perdão de modo semelhante ao rei que perdoa seu servo. Amém. Bênção celta: Que o caminho venha ao teu encontro, Que o vento sempre sopre às tuas costas E a chuva caia suave sobre teus campos. E até que nos voltemos a encontrar, Que Deus Te sustente suavemente Na palma de sua mão. Que vivas todo o tempo que quiseres E que sempre possas viver plenamente. Lembra sempre de esquecer as coisas que te entristeceram, Porém nunca esqueças de lembrar aquelas que te alegraram. Lembra sempre de esquecer os amigos que se revelaram falsos, Porém nunca esqueças de lembrar aqueles que permaneceram fiéis. Lembra sempre de esquecer os problemas que já passaram, Porém nunca esqueças de lembrar as bênçãos de cada dia. Que o dia mais triste de teu futuro Não seja pior que o dia mais feliz de teu passado. Que o teto nunca caia sobre ti E que os amigos reunidos debaixo dele nunca partam. Que sempre tenhas palavras cálidas Em anoitecer de frio. Uma lua cheia em uma noite escura.

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E que o caminho sempre se abra à tua porta. Que vivas cem anos, Com um ano extra para arrepender-te. Que o Senhor te guarde em sua mão E não aperte muito os seus dedos. Que teus vizinhos te respeitem, Que os problemas te abandonem, Que os anjos te protejam e o céu te acolha. Que a boa sorte te persiga E a cada dia e cada noite tenhas Muros contra os ventos, Um teto para a chuva, Bebida junto ao fogo, Risadas que consolem aqueles a quem amas E que teu coração se preencha Com tudo o que desejas. Que Deus esteja contigo e te abençoe. Que não conheças nada além da felicidade deste dia em diante. Que Deus te conceda muitos anos de vida e assim seja A cada dia e para sempre. Amém.

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PRÉDICA: MATEUS 20.1-16

15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 21 SET 2014

JONAS 3.10-4.11 FILIPENSES 1.21-30

Anelise Lengler Abentroth

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Introdução

Ao receber os textos previstos, perguntei-me: Por que escrever novamente sobre um texto tantas vezes comentado em Proclamar Libertação e sobre o qual eu mesma já preguei várias vezes e em diversas situações? Pois foi pesquisando nas publicações mais antigas e mais recentes que encontrei leituras conflitantes, que nos instigam a continuar nossa reflexão. Como o espaço desta publicação é limitado, convém que pregadores e pregadoras leiam a bibliografia relacionada para uma melhor compreensão. J. Jeremias diz que, desde tempos imemoriais, a parábola sofreu alegorização. Entre essas alegorizações está a conclusão centrada numa visão de julgamento a partir do versículo 16: “Pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Como a parábola justifica a verdade de que muitos são escolhidos, isto é, que o número dos que alcançam a salvação é pequeno? Os que foram chamados de manhã cedo, os primeiros, são compreendidos aqui como um exemplo de advertência. Com certeza foram chamados. Mas porque murmuram, porque apelam gloriando-se de seus méritos, porque se revoltam contra a decisão de Deus, porque (assim se continua a interpretar) recusam o dom de Deus, eles próprios se excluem da salvação” (JEREMIAS, p. 29-30). É preciso tomar cuidado para não transformar a parábola e a prédica numa parábola de julgamento.

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Exegese

O contexto da parábola aponta para as dificuldades do povo de compreender a proposta do reino de Deus. Günter Wolff escreve em seu comentário sobre o texto: “Em Mateus 19.29, Jesus coloca que não é o que se ganha a mais ou a menos que decide, mas o que decide é o projeto do Reino, que traz vida para todos. As poucas coisas que deixamos são insignificantes frente à grandeza das conquistas que o Reino traz para todos... A proposta do Reino tira do plano individual para jogar no plano coletivo”. Conforme Uwe Wegner, poderíamos dividir o texto desta forma: 1) Contato e convite: 1-7; 2) Pagamento dos salários: 8-10; 3) Protesto e justificativa: 11-15. Conforme Luise Schottroff, o kyrios (o proprietário da vinha – 20.8), o oikodespotes (patriarca – 20.1,11) é apresentado de duas formas:

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1 – Ele é proprietário da terra e tem o direito irrestrito de dispor dela. Conforme o v. 15a, segundo o direito romano, o proprietário pode fazer o que quiser com suas posses. Porém essa concepção entra em conflito com a Torá, segundo a qual Deus é o senhor da terra. O v. 15 é uma blasfêmia! Também o poder de dispor do que possui na forma de pagamento, em que apenas o primeiro grupo fica sabendo antecipadamente o valor do salário, retrata o direito romano. Segundo pesquisadores, muitos pequenos agricultores haviam perdido suas terras devido às dívidas contraídas pela ordem imposta. Isso era uma ferida aberta para muitas famílias. A plantação de uvas era a base da subsistência das famílias, e com a nova ordem econômica estabelecida houve uma profunda transformação econômica. “O vinho proporciona ganhos maiores do que o cereal em termos de área cultivada” (Schottroff, p. 264). De uma sociedade escravagista, em que os escravos pertenciam ao dono da terra e seus direitos e deveres estavam bem definidos, surge uma nova classe social, cujos direitos não estavam definidos e ficavam à mercê da boa vontade do patrão: os diaristas. Provavelmente eram famílias de pequenos agricultores que perderam suas propriedades por dívidas. No texto, percebe-se que os que foram contratados depois da primeira hora estavam nas mãos do patrão, que se vale do desemprego para beneficiar-se, se quiser. Os diaristas encontram-se numa situação totalmente debilitada. Ele é uma espécie de escravo por sua própria conta e risco. 2 – O patrão é bom (Mt 20.15), pois ele vê o desemprego (20.3,6). Ele decide dar o salário integral àqueles que puderam trabalhar apenas uma parte do dia. Eis algo novo na pesquisa: a contratação de diaristas durante o dia faz com que o custo de produção fique mais baixo. Pois ele pode projetar com precisão quanta mão de obra vai precisar para atingir a meta proposta para o dia. Essa atitude permitia explorar ainda mais o desemprego, pois se poderia pagar menos de um denário pela força de trabalho conforme a hora contratada. “Sua bondade aparece de modo surpreendente após a narrativa dos v. 1-7. No entanto, sua bondade permanece nos limites do quadro conceptual dos proprietários de terra do período imperial romano” (Schottroff, p. 264). Por isso posso concordar com as palavras de G. Wolff quando diz que nessa parábola Jesus fala aos dois: aos donos dos meios de produção e aos trabalhadores. “Fala da necessidade de os dois mudarem para que se realize o projeto do Reino” (PL XVIII, p. 239). Precisamos evitar uma interpretação alegórica dessa parábola. Pois se Deus é o patrão da vinha, ele não é tão bondoso como temos afirmado. Pois ele estava agindo dentro dos parâmetros da economia liberal da época, em que tanto os césares como os ricos oficiais do Estado perdoavam dívidas e faziam outras boas ações dentro de seu perfeito e frio cálculo político. O patrão não rompe com o quadro das concepções da época. Portanto nossa parábola é antitética. Ela não quer que o reino de Deus seja equiparado, e sim comparado com o comportamento do proprietário de terras. Podemos dizer que ele não é tão generoso quanto pensávamos. É apenas caridoso! Aquele um denário que os diaristas receberam é o salário normal de um trabalhador rural diarista. Isso permitia a uma família viver no limite mais baixo

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do padrão de vida naquela época. Permitia apenas sobreviver. O ganho além, com certeza, era conseguido pelo trabalho das mulheres e crianças, que recebiam um valor bem inferior. A pergunta que não quer calar é: por que o proprietário da vinha quer que os diaristas da primeira hora vejam os últimos receberem seu salário? Essa atitude gerou uma controvérsia, que divide os ouvintes até hoje. Porém o dono responde apontando para a legalidade de sua ação: 1) ele pagou conforme o contratado; 2) ele tem o direito de fazer o que quiser com o que é seu. Ele acusa os primeiros diaristas de ser gananciosos. Parece que ele quis provocar o protesto. E aqui algumas interpretações tratam de colocar a culpa nos próprios diaristas. Assim a parábola termina de forma aberta. A situação dos trabalhadores rurais livres no Império Romano é exposta de forma clara e escancarada. Não há outra forma para os ouvintes reagirem do que continuar discutindo as atitudes e a perspectiva de todos. No v. 16, a parábola é interpretada por Jesus de maneira escatológica. Ela é uma profecia sobre o reino de Deus. Muitas vezes, ela é interpretada eclesiologicamente, dando a impressão de que os discípulos e discípulas são aqueles e aquelas que se tornarão os primeiros. Porém os últimos nos remetem ao grupo de trabalhadores contratados durante o dia. “O Evangelho de Mateus em seu conjunto pinta um quadro chocante do sofrimento do povo. A sentença de 20.16 constitui promessa para todo o povo, como são as bem-aventuranças de Mateus 5.310... Nas promessas das bem-aventuranças, o reino de Deus é prometido àqueles que sofrem com a pobreza, a enfermidade e a relação com Deus (5.3). Para eles, oferece-se já agora o caminho que leva para fora da miséria: o caminho da renúncia à violência (5.5), da fome de justiça (de Deus), da misericórdia (5.7), da pureza dos corações (5.8) e da promoção da paz... Mateus 20.16 convida todos os ouvintes para seguir esse caminho” (SCHOTROFF, p. 270). O povo (os ouvintes de Jesus) não estava mais em condições de agradecer a Deus pelo alimento e pela terra, como faziam seus antepassados naquele contexto. A parábola indica o caminho para fora dessa situação de destruição da base da vida digna. “A economia de Deus é uma economia de justiça, como foi apresentada no milagre do maná (Êx 16)”. A justiça e a bondade de Deus e seu Reino não podem ser equiparados à caridade dos donos de produção.

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Meditação

Novamente Jesus nos surpreende ao revelar o reino de Deus por intermédio de uma história que evidencia um grande conflito nas relações econômicas e políticas de sua época. O reino de Deus não nos tira da realidade, nem permite omissão. Ele é concreto e já inicia aqui e agora. Nessa parábola, Jesus levanta a questão da posse da terra e da dominação ideológica por meio das leis, que esconde uma situação injusta e que deixa o povo em extrema vulnerabilidade. Alguns grupos judaicos eram intransigentes no cumprimento das leis. Porém aquelas que mexiam nas questões centrais permaneciam despercebidas.

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A narrativa questiona todos os envolvidos: os donos dos meios de produção, os trabalhadores, os fariseus e todos os presentes. Por incrível que pareça, são os diaristas que mais questionam a atitude do patrão. Assim podemos afirmar que o texto não aponta somente para a relação de exploração dos trabalhadores na vinha, como também demonstra a falta de solidariedade entre eles, a sua visão individualista do trabalho e das necessidades e o quanto assimilam as leis e o sistema opressor e submetem-se a ele. “Os trabalhadores contentam-se com a prática econômica e de vida existente e não têm um projeto maior e mais amplo; preocupam-se apenas com as migalhas do dia a dia. Jesus coloca aqui em discussão uma proposta de vida que inclui o econômico, o social, o político e o ideológico” (WOLFF, PL XVIII, p. 237). A parábola é provocativa e não deixa os ouvintes indiferentes. Assim também vou propor um olhar sobre a realidade que estamos vivendo. No livro “Abusado”, do jornalista Caco Barcelos, narram-se as histórias de vida de jovens da grande favela de Santa Marta na cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro. Relata a vida de um jovem de 16 anos que, por estar muito perto do tráfico, fazia às vezes algum serviço de leva e traz, que lhe rendia um bom dinheirinho. Mesmo indo à escola e participando das atividades da Associação de Moradores e da igreja, a convivência com o tráfico chega a ser “normal”. Pois, certa feita, depois de um confronto violento de policiais corruptos com traficantes, o menino viu um desses ser torturado e arrastado pelas ruas, agonizando até morrer. Nesse momento, decidiu que não era essa a vida que ele queria para si. Então tratou de descer o morro e procurar um emprego para levar a vida como as pessoas “do asfalto”. Depois de muito procurar vagas de porteiro de hotel, office-boy, garçom, encontrou trabalho como auxiliar numa oficina mecânica. Esse trabalho, de oito horas diárias, rendia-lhe meio salário mínimo, pois era menor de idade. Sabia que é lei: menores de idade e estagiários não precisam receber salário integral nem os direitos trabalhistas de carteira assinada. Então se lembrou de seu avô, que fora porteiro de um dos hotéis mais luxuosos de Copacabana durante toda a sua vida. E onde estava agora? Sua vida de trabalho dedicado rendeu-lhe um casebre no morro com as paredes cheias de autógrafos de artistas e políticos famosos, para quem abria as portas e aos quais servia gentilmente. Com o passar do tempo, as oportunidades de ganhar mais do que o triplo apenas servindo de “avião” para o tráfico, o jovem não resistiu e abandonou seu emprego. Com essa história não estou fazendo a apologia do tráfico, apenas quero estabelecer alguns paralelos com nossa parábola. Muitas vezes, ouvimos que não se pode remunerar melhor a classe trabalhadora porque isso quebra os patrões, a economia. Pois o giro de dinheiro que passa pelos morros e periferias dá-nos a ideia de que dinheiro existe e muito! As leis do tráfico são leis próprias. Mas o que se vê é que o dinheiro é bem distribuído e desfrutado (talvez porque eles saibam que sua vida é curta). Isso quebra alguns paradigmas defendidos por aqueles que acreditam que fora do capitalismo não há vida. 1) Dinheiro há, mas no capitalismo ele gira pouco. Ou melhor, gira entre os mesmos.

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2) Diz-se que, para as pessoas trabalharem e produzirem, são necessários concorrência e desafios. No morro, trabalha-se motivado pela partilha, que não é migalha. 3) As leis que protegem crianças e adolescentes do trabalho e da exploração infantil têm levado muitos à criminalidade, porque vêm de famílias que não têm o seu denário para viver. Estão em situação de vulnerabilidade total. 4) Infelizmente, a forma de organização a que essas pessoas recorrem é a lei que impera no morro, por medo, por ambição, por conivência, por afetividade, por sobrevivência. 5) Esporadicamente, aparecem no morro artistas e jogadores de futebol, que criam associações ou fundações, fazem eventos televisionados para mostrar ao mundo a sua caridade às crianças da favela. Nós sabemos que isso faz parte de seu empreendimento para fugir das garras do “leão” (imposto de renda) ou autopromover-se ainda mais. Como na parábola, a realidade não nos permite deixar de refletir e questionar, pois ela diz respeito a todas as pessoas e a forma como nos organizamos e como estamos vivendo. O que não podemos deixar de frisar é o v.16: os últimos serão os primeiros. E isso não se dará por mérito, mas por graça. Pois a terra e as dádivas que Deus nos dá devem estar a serviço das pessoas, necessitam gerar vida digna e oportunidades iguais para vivê-la. O trabalho serve para gerar igualdade e bem-estar e não miséria e doença. O reino de Deus não vai reproduzir a nossa prática. O reino de Deus garante vida plena e digna. Quem olha somente para si, para suas necessidades e vontades, quem não tem amor pelos seus irmãos e irmãs, quem não se sente comprometido com a vida e o cuidado com o próximo vai reclamar e muito na hora do “pagamento”. O relacionamento entre nós necessita ser o mesmo que Deus tem para conosco. Se não conseguimos, eis o nosso pecado. Afogá-lo diariamente e alegrar-se com as conquistas de um novo mundo possível é imprescindível para quem crê.

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Imagens para a prédica

Além do exemplo acima, que pode estar distante da realidade da comunidade, podemos usar outro: Acompanhei uma família de padrinho e madrinha de um menino de 15 anos. Ele morava com sua família numa localidade às margens do lago Itaipu (divisa com o Paraguai). Por ser área de fronteira, os pequenos agricultores eram assediados pelos contrabandistas de cigarros e outras coisas para servir de mão de obra, ajudando, algumas noites por semana, a descarregar as mercadorias dos barcos e colocá-las em caminhões, que seguiam pelas estradas vicinais. Pois esse menino estava prestes a aceitar o convite. Ele receberia R$ 150,00 por noite trabalhada. Seu pai e sua mãe não sabiam mais que argumentos usar para que o menino não se envolvesse nisso. Como último recurso, enviaram o jovem para a cidade, à casa de seu padrinho e madrinha, para que lá ele encontrasse algum emprego que lhe rendesse algum dinheiro e não abandonasse os estudos. O único trabalho que ele encontrou foi de ajudante numa oficina me-

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cânica, que lhe rendia meio salário mínimo. O que podemos fazer como comunidade cristã diante dessa situação? Isso é problema somente do pai e da mãe desse adolescente?

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Salmo de um protestante Pai Nosso, somos filhos e filhas da Reforma, Mas andamos desgarrados, ausentes, descompromissados, desiludidos até. Onde ficou o espírito protestante do movimento? Perdeu-se na mesmice do tempo ou ocultou-se preventivamente? Que evangelho é esse que anunciamos? Consolo barato ou desafio permanente? Protesta contra nós, Senhor da Vida, quem sabe alguém te escute, E o espírito primeiro desate o nó que asfixia a minha veia. Perdão, Senhor, pela arrogância dos iluminados, pela certeza dos piedosos, Pela leviandade dos despreocupados, pela ciosa cautela dos fartos. Ajuda-nos a buscar o evangelho da graça e da vida solidária. Isso não é pouca coisa. E ajuda-nos a viver com os olhos postos no horizonte do reino da justiça e do amor. Tem piedade de nós, Senhor! (ZWETSCH, Roberto, Vigília, p.15) Absolvição: Povo de Deus: espere no Senhor! Porque em Deus há misericórdia e abundante redenção. É o próprio Deus quem remirá seu povo De todas as suas transgressões. (Salmo 130.7-8) Oração de intercessão: Por todas as pessoas que buscam a Deus, que elas possam encontrá-lo. Por aqueles que acham que já tem Deus, que eles possam buscá-lo. Por todas as pessoas que temem o futuro, que elas possam ter confiança. Por todos os que fracassaram, que eles possam ter novas oportunidades. Por todas as pessoas que têm dívidas, que elas não fiquem desesperadas. Por todos os que vagam sem rumo, que eles possam encontrar um teto. Pelas pessoas solitárias, que elas possam encontrar alguém. Pelos que têm fome dia e noite, que eles possam ser saciados. Por aquelas pessoas que têm o que comer, que elas possam sentir o que é ter fome. Por aqueles para os quais vai tudo bem, que eles não se tornem indiferentes. Pelos que têm poder, que eles tomem consciência de que são vulneráveis.

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Por todos os que vivem no mundo entre esperança e medo, e também por nós, oremos ao Senhor. Liberta-nos do medo de um sentimento enganoso de segurança E concede-nos todas as coisas que são para o nosso bem. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. (Em tua graça, Nona Assembleia CMI, p. 51-52) Bênção: Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo Nos proteja de causar danos uns aos outros; E que o amor de Deus encha as nossas vidas Com a paz que estende suas mãos ao próximo Num gesto de verdadeira reconciliação e amizade. (Em tua graça, Nona Assembleia CMI, p.71)

Bibliografia JEREMIAS, J. As parábolas de Jesus. 4. ed. São Paulo: Ed. Paulus, 1997. SCHOTTROFF, Luise. As Parábolas de Jesus, uma nova hermenêutica. São Leopoldo: Sinodal, 2007.

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PRÉDICA: FILIPENSES 2.1-13

16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 28 SET 2014

EZEQUIEL 18.1-4,25-32 MATEUS 21.23-32

Evandro Jair Meurer

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Introdução

Os três textos já foram abordados no PL 35. Reencontramo-los, depois de três anos, com o desafio de pregar sobre esse lindo Salmo Cristológico, seu contexto, textos de apoio e respectivos protagonistas. Ezequiel, Jesus, Paulo: três personagens distintos em seus respectivos tempos, mas com algo em comum: anunciar e apregoar uma alternativa ética distinta a ser assumida e vivida. Ezequiel (18) tem a tarefa de anunciar a Palavra do Senhor, que conclama o povo a não pecar mais e assim viver uma nova vida (v. 32). Jesus (Mt 21) conclama ao arrependimento, à fé em Deus e ao cumprimento da vontade do Pai (v. 32). Paulo, em Filipenses 2, (d)escreve a humildade e a grandeza de Cristo e desenha o caminho de humildade que cada cristão deve seguir: obedecer à vontade de Deus, tanto no pensamento como na ação (v.13). Paulo, Jesus e Ezequiel: três pregadores da mesma “boa notícia do evangelho”(Fp 1.5,7 e 4.3) de vida nova a ser buscada e vivenciada “de acordo com o evangelho de Cristo” (Fp 1.27). Muito diferente e distinta, por sinal, das veredas humanas de cada um desses tempos bíblicos... e também de nosso kairós: “... tempos de autoexaltação... egoísmo... isolamento” (WEBER, PL 35, p. 309).

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Exegese

2.1 – Sobre o Salmo Cristológico Não é possível, neste recurso homilético, discorrer sobre o desenvolvimento da cristologia no Novo Testamento. Contudo, não há como não fazer menção de seu postulado central: o evento pascal. Há um antes e um depois da cruz, há um antes e um depois da Páscoa. Houve uma nítida compreensão pelos primeiros cristãos desse caminho descendente e ascendente de Deus em Cristo. Não pode o ser humano tornar-se Deus. Mas Deus pode tornar-se ser humano e fê-lo em Jesus Cristo. Essa é a essência do querigma primitivo, já poetizado e cantado por diversas mãos, lábios e corações. João 1 co(a)nta-nos do Verbo e sua trajetória descendente: o Filho estava junto ao Pai (v. 1-5), veio ao mundo (v.10-11), “armou barraca” entre nós “cheio de graça e de verdade” (v. 14a), revelando também a sua glória (v. 14b). Atos 5 relata-nos a marcante experiência de Pedro e dos demais apóstolos. Também em situação prisional, o “Pedro-Pedra” afirma pública e poeticamente,

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com um testemunho de fé, a trajetória de Jesus “para baixo e para cima”: “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador...” (v. 30-31). Assim, aos poucos foi se formando uma cristologia neotestamentária. A boa-nova de forma nova! Desdobrando-se desse modo em duas partes complementares, marcadas por dois movimentos: um para baixo e outro para cima (um pódio às avessas). Abrangendo todo o evento salvífico de Deus sobre o mundo (Jo 3.16): da preexistência à volta à gloria do Pai, passando pelo mi(ni)stério da cruz. É assim que Filipenses 2.6-11 apresenta-se como um lindo exemplo de um hino litúrgico já presente na vida comunitária e cúltica em comunidades de então. Paulo incorpora-o em sua carta com um forte e distinto propósito: chamar seus irmãos e irmãs filipenses a um mesmo caminho descendente, na certeza de que Deus ascenderá a cada um no seu tempo. 2.2 – Sobre o texto A delimitação da perícope de pregação aponta para seu propósito e intencionalidade. Mais comum (comprovado por seis edições anteriores do PL: V, XI, XVII, XXV, XXIX e XXXII) seria a pregação sobre Filipenses 2.5-11, o Hino Cristológico. Ou seja, a intencionalidade teológica e pastoral do que vem antes e depois do hino aponta para a mensagem central: desafio a uma ética cristã diferenciada e que faça a diferença. Por isso, no plano exegético, ajuda se olharmos o texto subdivido em três partes: 1) 2.1-4 – Aponta para o que já se faz e conclama a completar: Unidos, fortes, animados, participantes, bondosos, misericordiosos (NTLH) (se isso já se vive e se pratica...); exortação, consolação, comunhão, afetos e misericórdia (ARA) (se isso já acontece...), então que satisfação seria se ainda fossem harmoniosos, amorosos, desinteressados pessoalmente, sem desejos tolos, humildes. A alegria de Paulo estaria completa se houvesse alguns outros predicados da prática cristã e comunitária, como ter o mesmo pensamento, ter o mesmo amor, ser unidos de alma, ter o mesmo sentimento, sem partidarismo, sem vanglória, com humildade, com altruísmo. Esse é o padrão ético observado, apontado, esperado por um pai espiritual a seus filhos e filhas espirituais. Essa é uma prática e vivência comunitária que já existe e que gera muita alegria em quem dedicou tempo e amor à missão e ao pastoreio. O chamado vai na direção de dar continuidade a esse caminho. Ou seja, “está bom, mas pode melhorar”. 2) 2.5-11 – Aponta para o que Jesus já fez e conclama a fazer igual: O melhor padrão e modelo para essa busca por ampliar e melhorar a qualidade de vida cristã pessoal e comunitária é o próprio Cristo. Ter o mesmo modo de pensar, o mesmo sentimento que Cristo Jesus tinha é o grande alvo. Que completude ética! Quanta alegria causaria ver a trajetória e o estilo de vida de Jesus concretizarem-se na vida de pessoas que já foram alvo de cuidado e ação apostólicas. Quanta felicidade ver a vida de Cristo espelhada na vida do irmão, da irmã, do próximo! Uma postura nova, alternativa, diferenciada e que faz a diferença.

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Uma trajetória descendente pode ser alvo de vivência, não necessariamente em sua literalidade, mas no espírito de humildade e humilhação, deixando que Deus realize a grandeza e a glorificação a seu critério e propósito e a seu tempo. Essa trajetória descendente e ascendente, na perspectiva de um “pódio às avessas”, ficaria ilustrada desta forma: v. 6 v.11b v.7a

v.11a

v.7b

v.10 v.7c

v.9b v.8a

v.9a v.8b

O hino é uma bela, criativa e inspirada composição musical. Segundo Oscar Cullmann, “um resumo magnífico da doutrina concernente à pessoa de Jesus Cristo... Esta passagem, ritmada, ... interrompe um pouco o fio da epístola e emprega um vocabulário diferente. É bem possível que estejamos aqui diante de um dos primeiros hinos litúrgicos pelos quais a comunidade cristã primitiva cantava sua fé em Cristo”. Ilustrado de outra forma, mas mantendo a ideia da ascendência e descendência, vale reproduzir o esquema publicado por Fabio R.F. em 20.05.2010:

http://escritosdepaulo.blogspot.com.br/2010/05/hino-cristologico-da-carta-aos.html

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3) 2.12-13 – Aponta para a obediência já realizada e conclama a continuar: Obediência: essa é a perspectiva de relação entre “queridos amigos”, entre “amados”. Obediência: essa é a linha de relação mestre-discípulo que transparece no texto. Obediência de filho/a, tanto na ausência como na presença do pai/da mãe: essa é a perspectiva de apostolado que está por trás da carta e da relação Paulo-Filipenses. Obediência: esse é o caminho que se deve continuar trilhando para o desenvolvimento da salvação, da obediência e da salvação, essas que são ação divina em cada pessoa, em cada comunidade. É Deus agindo e efetuando tanto o “querer” como o “realizar”. Ou seja, tanto os pensamentos como as ações de obediência que nos levam à salvação são obra e graça divinas.

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Meditação

Em minha prática pastoral (e por isso a trago como proposição de passos para a prédica), tenho utilizado o que chamo de “ABC Homilético”: “Atualmente”, tenho observado uma ascensão do que chamo de “Lei do Pódio”. Talvez porque eu vivi o tempo do nascimento e desenvolvimento da “Lei de Gerson”. Tal expressão originou-se de uma propaganda de 1976 de uma determinada marca de cigarro. O vídeo apresentava o meia armador Gerson, da Seleção Brasileira de Futebol, como protagonista. Iniciava associando sua imagem ao “cérebro do time campeão do mundo da copa do mundo de 70”. Então o entrevistador lhe pergunta o porquê de “Vila Rica”. Durante a resposta, ele recebe um cigarro de Gerson e acende, enquanto ouve a resposta, que é finalizada com a frase: “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também. Leve Vila Rica!” Conforme a Encliclopédia Livre Wikipédia, “na cultura brasileira, a Lei de Gérson é um princípio em que determinada pessoa age de forma a obter vantagem em tudo o que faz, no sentido negativo de se aproveitar de todas as situações em benefício próprio, sem se importar com questões éticas ou morais. A ‘Lei de Gérson’ acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter midiático nacional, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens pessoais”. Nada novo na sociedade e no mundo atual: “levar vantagem”... “chegar na frente” ou “estar no topo” são sinônimos de uma mesma ética humana de quem vive longe da ética proposta por Deus em Jesus. Semelhantemente, percebo que hoje a moda é “estar no topo do pódio”. Palestrantes motivacionais utilizam muito essa linguagem. Para tanto “sobem em escadas”, usam a figura de Jesus, ilustram com imagens de escaladas de montanhas e inclusive remetem a Shakespeare: “Eu aprendi que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorrem quando você a está escalando”. Estar no topo do mundo, no topo das pesquisas, no todo do pódio... Nada diferente de certas teologias evangélicas da “bênção” e da “prosperidade”, presentes em nosso contexto atual. Biblicamente, observamos e somos portadores dessa mensagem de inversão desses valores que comumente se apresentam como corretos na história da

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humanidade. Tanto Ezequiel (18) como Jesus (Mt 21) e Paulo (Fp 2) têm algo novo a propor e apresentar às pessoas de sua época. Em especial, o texto de pregação apresenta-nos como novidade uma proposta de “pódio às avessas”. Um estilo de vida alternativo, diferente e que faz a diferença. “A vida cristã inclui a necessidade de esquecermos a nós mesmos, já que o altruísmo é o coração mesmo do amor, ao passo que a arrogância é manifestação do egoísmo e do orgulho...” (Champlin). A tese do apóstolo Paulo sobre a necessidade de humildade é ilustrada com o próprio exemplo da trajetória de Cristo: primeiro a humildade, depois a exaltação. Por fim, fica explícita a chamada para o desenvolvimento permanente e constante da fé, da postura ética, da salvação. Ou seja, o reconhecimento mútuo de que “tá bom, mas pode melhorar”. Concretamente, cada pregador/a deverá perceber qual ênfase dará à concretude da palavra lida, ouvida e a ser vivida. Percebo que a pregação pode ser direcionada, pelo menos, para três áreas: – Pessoal: poderemos levantar um desafio para uma autoavaliação, no sentido de perguntar em que medida certas “leis” conseguem ditar nossa forma de vida. A pregação poderá ajudar cada pessoa a revisar em que direção está indo seu viver. Só em busca de glória e exaltação, vantagens e o topo a qualquer custo? Ou no caminho da humildade cristã? Minha filha morou, trabalhou como Au Pair e estudou por cinco anos na Alemanha. Sua intenção ao sair do Brasil para essa experiência era poder estudar numa universidade. Quando finalmente alcançou esse intento, em certo momento ela me disse em conversa virtual: “Os estudantes aqui disputam entre si para ver quem tira a nota mais alta nessa ou naquela matéria. Querem estar na frente... no topo... Não sei se quero isso pra mim”. Dois meses depois, ela nos informou que estava voltando ao Brasil e queria continuar seus estudos e vida aqui. – Comunitária: “Vida em comunhão” não é fácil. Pregar sobre (e ouvir) os desafios de uma vivência sempre renovada na comunidade eclesiástica é sempre necessário. Dizer “Eu vivo comunidade”, mas não “ser”, não “participar” nem “testemunhar” não faz sentido. O caminho do pódio cristão pode ser revisto na perspectiva da comunidade “sempre em reforma”, sempre “melhorando” em sua postura relacional, ética e de humildade. “A humildade aqui requerida dos crentes... para dizer a verdade, é apenas um outro nome dado ao altruísmo, ao amor ao próximo, ao cuidado por seus semelhantes, conforme cuidamos de nós mesmos, em que nos preocupamos com o bem-estar e os direitos alheios, e não apenas com a nossa própria exaltação e bem-estar. É dentro desse espírito de humildade que a união e a harmonia são mantidas. Pois a autoexaltação invariavelmente nos conduz a contendas e divisões” (Champlin). – Social: Estar no topo! Quantos exemplos vemos ao nosso redor que poderiam ser motivo de anúncio e denúncia quando esse “estar no topo” fere a ética da humildade e do respeito à vida da outra pessoa e machuca a natureza. A vida pública, em especial (governamental ou eclesial), sempre está mais na berlinda quanto a essa busca pelo topo. Palanque e púlpito são, muitas vezes, compreendidos como “pódio” alcançado ou almejado. Trazer à luz a proposta do pódio da

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humildade de Deus em Cristo torna-se uma tarefa profética e apostolicamente necessária e difícil.

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Imagens para a prédica

Proponho o uso do pódio como imagem e ilustração para a pregação. Refletir com a comunidade sobre a visão humana e mundana de sempre querer estar no topo de tudo. O pódio é uma plataforma onde ficam os campeões, palco destinado aos primeiros colocados em alguma disputa. Na prática esportiva, ele é bem presente e acaba sendo o objetivo que todo atleta quer alcançar. Nas competições de automobilismo e atletismo, a cerimônia de premiação coloca os três primeiros colocados, cada um em seu devido lugar. Recentemente, no mês de julho, acompanhamos e presenciamos a Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil: a luta e a disputa de cada país por colocar a sua seleção no pódio e depois erguer a taça no lugar mais alto, voltar para seu país (ou ficar) com o troféu de vencedor. Traga um pequeno pódio de madeira para junto do púlpito. Especialmente se for possível colocar esse pódio de cabeça para baixa em certo momento da pregação. Contudo, uma folha de papel cartão/cartolina, um flyier ou mesmo alguma imagem projetada podem muito bem substituir o pódio de madeira. O importante é a intenção de ilustrar a inversão de vida e ética inaugurada por Jesus, a qual os primeiros cristãos e apóstolos bem perceberam e passaram a buscar viver e conclamar a que se viva. Um verdadeiro pódio às avessas!

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Subsídios litúrgicos

A música ainda continua sendo pregação. Por isso uma escolha minuciosa dos hinos a serem cantados durante o culto favorece. Minha contribuição na direção de escolha de pelo menos um hino que ilustre o escopo da pregação vem de um resgate (evangelicamente nostálgico, é verdade), mas que talvez possa ser uma opção. Se você buscá-lo na internet sob os títulos de “Deus enviou seu filho ao mundo” ou “Porque ele vive” ou mesmo “Deus lá do céu mandou seu filho”, você encontrará recursos e versões para utilização (YouTube ou Cifras). Ou, quem sabe, conseguimos (re)despertar nossos ouvintes a cantar e viver o hino 44 do HPD. O Credo é outro momento forte do culto, que pode colaborar com o intuito central da pregação dominical. Se Deus nos inspirar e se pudermos transpirar ainda uma versão própria de um credo para a comunidade, seria o ideal. Caso contrário, a que encontramos em “Prática da Esperança” (Lindolfo Weingärtner, p. 54) pode ser uma opção. A oração focada no “preço da encarnação” pode colaborar para fortalecer a ação. Gosto muito das reflexões de Johnson Gnanabaranam (Senhor, renova-me). E a inspirada em Filipenses 2.7-8 (p. 69) pode ser resgatada.

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16º Domingo após Pentecostes

Bibliografia CHAMPLIN, Russel Norman. O NT interpretado versículo por versículo. V. 5. São Paulo: Milenium, 1982. DUPUIS, Jacques. Introdução à Cristologia. Loyola, 2004.

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PRÉDICA: MATEUS 21.33-46

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 05 OUT 2014

ISAÍAS 5.1-7 FILIPENSES 3.4b-14

Humberto Maiztegui Gonçalves

1

Introdução: Um convite para plantar e combater a violência

Em Isaías 5.1, uma pessoa canta o amor do agricultor pela vinha. Traduzindo literalmente: “Eu cantarei agora, para meu amado, sobre sua vinha, vinha que era dele, do meu amado, em uma colina muito fértil”. É claro que todos os intérpretes, pensando no profeta Isaías, imaginaram que o cantor fosse masculino, mas por que não considerar que se trata de uma cantora falando da vinha de seu amado? O texto de prédica para este domingo também fala de um homem que plantou e protegeu a vinha com uma torre. Não se fala de seu amor pela vinha, mas esse sentimento pode ser percebido no zelo que teve por ela. Ainda mais, ao enviar o próprio filho, após a violência praticada contra seus emissários anteriores, revela ainda mais o seu amor. O lecionário bíblico dominical convida-nos a ler primeiramente Isaías 5.17 (O Cântico da Vinha) e depois Mateus 21.33-46 (uma parábola carregada de violência) possivelmente para que observemos a motivação amorosa de Deus como antítese das relações violentas. O texto da Carta aos Filipenses (3.4b-14) exala desprendimento, doação. Cristo entrega-se em favor de Paulo (como símbolo de todas as pessoas pecadoras que buscam justificação), Paulo entrega-se a Cristo (como resposta amorosa à doação divina em Cristo Jesus), tudo dentro de uma profunda relação de amor. Assim, convido todas e todos a ler esses textos num exercício exegético e hermenêutico de amor, superando as relações violentas dentro e fora de nós para a transformação de nossa realidade.

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Exegese

O Evangelho de Mateus reflete a destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C. A denúncia da política genocida é bem forte em alguns textos, como o massacre das crianças em Belém (Mt 2), as advertências contra “os que matam o corpo” (Mt 21) e outros. Carlos Mesters, citando Jacques Dupont (Por que parábolas? O método parabólico de Jesus), lembra que “as parábolas não são uma narrativa neutra (...) aquele que apresenta a parábola não quer apenas comunicar uma informação aos seus ouvintes (...) quer fazer que tomem partido” (MESTERS, 1990, p. 43; apud Gilberto Gorgulho e Ana Flora Anderson – Parábolas: palavra que liberta. São Paulo, 1989).

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17º Domingo após Pentecostes

2.1 – O contexto socioliterário de Mateus 21.33-46 O bloco onde se encontra o texto de prédica deste domingo inicia claramente com a entrada “triunfal” de Jesus em Jerusalém (21.1-11). Os capítulos 21 e 22 têm um claro paralelo com Marcos 11-12 (LOHSE, 1985, p. 147), mesmo que, como indica Gallazi, em Mateus “Jerusalém é (...) aquela ‘cidade’ que será castigada mais que Sodoma e Gomorra por não ouvir a palavra (10.14s)”, sendo que “a primeira e a segunda Jerusalém não deixam de ser iguais e merecem a mesma sorte: destruição” (GALLAZI, 1990, p. 37). Essa parábola faz parte de um conjunto de três: parábola dos dois filhos (21.28-32), parábola dos vinhateiros maus (21.33-46) e parábola das bodas do rei (21.1-14). O conjunto é introduzido por uma pergunta sobre a autoridade com que Jesus agia e falava, ocasião em que “os sacerdotes e anciãos do povo” (v. 22; Bíblia Sagrada Vozes) se negam a reconhecer tanto a ação profética de Jesus como a de João Batista (21.23-27). Depois há mais quatro perguntas: sobre o imposto (22.15-22), sobre a ressurreição (22.23-33), sobre o maior mandamento (22.3440) e sobre a filiação davídica (22.41-46), encerrando assim o bloco (TRILLING, 1984, p. 10). Dessa distribuição podemos inferir que: a) o conjunto de parábolas quer didaticamente responder ao “não sabemos” das autoridades de Jerusalém (21.27a) e à negativa da resposta de Jesus (“também não vos digo com que autoridade eu faço essas coisas”; 21.27b); b) as autoridades são representadas pelo filho ciumento e egoísta (da primeira parábola), pelos agricultores maus ou homicidas (da segunda parábola) e finalmente pelos convidados que se recusam a participar do banquete do rei, repetindo a denúncia de que “apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram” (22.6, ALMEIDA). 2.2 – A apresentação da parábola como texto A compreensão da parábola presente em Mateus 21.33-46 como texto exige, em primeiro lugar, sua comparação com seu paralelo em Marcos 12.1-12. Enquanto em Marcos os discípulos aprendem passivamente, sem falar, aqui eles têm voz e respondem a perguntas. A expressão “ouvi” (akousate), ausente na versão de Marcos, remete para a palavra dos oráculos proféticos (akousate logon Kyrion, cf. Septuaginta). Quem planta a vinha, segundo a versão de Mateus, é o oikodespotes, isto é, o “dono da casa”, enquanto em Marcos fala apenas de “um homem que plantou uma vinha”. Enquanto Marcos disse que seria “o tempo certo” (kairós), Mateus disse ser “o tempo dos frutos” (21.34) e depois esclarece que os frutos pertencem ao dono da casa, denunciando assim a apropriação injusta. Tanto Marcos como Mateus descrevem diversos tipos de agressão, tortura e finalmente a chacina de “muitos outros” (Mc 12.3-5 e Mt 21.35-36). No entanto, ao apresentar o Filho, Marcos diz que “ainda tinha o Filho Amado” (huion agapeton), e Mateus, com ênfase escatológica, coloca “por fim” ou “finalmente” (hysteron) e envia “o Filho dele”. Nesse sentido, indica o “fim” de uma era (eon) e de uma “autoridade” para sinalizar o início de outro tempo, em que a autoridade volta a

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seu legítimo “dono” através do “Filho” (cf. Mc 12.6 e Mt 21.37). Em Marcos, os usurpadores dizem: “A herança será nossa” (12.7); em Mateus, afirmam “para que tenhamos a herança dele” (21.38). No final, enquanto em Marcos se deixa a pergunta em aberto: “O que fará, pois, o senhor (kyrios) da vinha, virá e destruirá os lavradores e dará a vinha a outros?” (Mc 12.9), em Mateus, além dessa pergunta, aparece a resposta dos discípulos que clamam por justiça: “os malvados (kakous) horrivelmente destruirão (até aqui idem Marcos, mas como afirmação) e arrendarão a vinha a outros lavradores, os quais entregarão os frutos dela no tempo certo (kairós)”. Aparece aqui o compromisso da fidelidade profética da comunidade de Mateus com o projeto do Reino. Ambos os textos apresentam (Mc 12.10b-11 e Mt 21.42b) a citação da Escritura (Mc 12.10-11 e Mt 21.42), retirada do Salmo 118.22 em sua primeira parte. No entanto, chama a atenção a ênfase sobre o “olhar” na expressão final: “digna de admiração aos nossos olhos” (42c, Vozes) ou “maravilhoso aos nossos olhos” (Almeida). Seria essa uma menção ao incêndio de Roma, possivelmente testemunhado por integrantes da comunidade de Marcos (64 d.C.), e à destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.), testemunhado por integrantes da comunidade de Mateus? Nos versículos 43-44, há uma advertência profética. Para a comunidade de Mateus, o evangelho (e o Reino) não poderia ser propriedade nem privilégio de nenhum povo. O versículo 44 parece ser a consolidação de diversos textos, entre eles Daniel 2.34a (cf. Jr 1.10; Is 8.14-15 e 28.16), onde a comunidade de Mateus retoma o epíteto “profeta” para Jesus no final do texto: “porquanto o tinham por profeta” (outra expressão exclusiva em 46b).

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Meditação: a profecia como expressão do amor contra a violência

O texto da parábola é claramente profético. No entanto, é difícil que fale de amor quando sua ênfase parece ser um sentimento de vingança. Certamente a parábola “dos violentos e assassinos usurpadores da vinha” (título que eu daria) está carregada de dor e de horror, que se depreendem do contexto de uma revolta violenta contra o império romano e consequente massacre. Aqui vamos nos valer do Cântico da Vinha, de Isaías (5.1-7), como chave hermenêutica para essa parábola. Se olharmos a vinha como um ato de amor, vemos, por dentro do oikodespotes de Mateus, o ser amoroso que plantou a vinha para o bem de todas as pessoas. Inclusive para o bem daqueles que assumem atitudes de usurpadores, violentos e assassinos. A gênese da violência e do assassínio das pessoas que buscam seguir a vontade divina está em apenas ver a fé, o povo, os dons de Deus, como propriedade particular e olhar para o vinhateiro amoroso (Deus) como um proprietário. A perspectiva “proprietarista” é explicitada na frase “para que tenhamos a herança dele” (21.38). Essa perspectiva afastou-os completamente de qualquer olhar amoroso e fê-los mergulhar numa espiral de violência, gerando vítimas e mortes, como muito bem descrevem as mulheres que estudam a violência de gênero.

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Então, saindo do ambiente da parábola, Jesus volta à vida real quando pergunta aos discípulos e discípulas e por extensão a todas e todos nós: “Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” (Mt 21.40). A resposta vingativa no tempo futuro: “dará horrível morte”; na verdade, refere-se ao tempo passado, isto é, à própria destruição de Jerusalém. Sendo assim, essa resposta reforça as palavras de Jesus quando um dos discípulos (segundo Mateus) corta a orelha do servo no Jardim de Getsêmani: “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão” (Mt 26.52). Como diz o ditado popular: “A violência gera violência”. Ou como diz o escritor Eduardo Galeano: “Também gera ganâncias para a indústria da violência, que a vende como espetáculo e a torna objeto de consumo”. Jesus não diz que será feito assim. O evangelho interpõe aqui a fórmula da pedra rejeitada pelos construtores. Essa pedra, o próprio Jesus Cristo, promove uma construção de amor, de generosa doação, de justiça, de paz, como anunciado pelo profeta Isaías no Canto da Vinha. A queda de Jerusalém em 70 d.C. passa a ser interpretada como o fim de um tipo de construção de violência e morte e o começo de uma nova vida de amor. Somos testemunhas de quantas destruições? O que dizer das bombas atômicas, da guerra química, da exploração desenfreada da vida natural, da fome e das epidemias que dizimam especialmente as populações mais pobres e vulneráveis? Mesmo hoje, diante da violência urbana, o que dizemos? Será que diante disso podemos afirmar que a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra fundamental? Será que podemos proclamar que devemos viver nossas relações com o mesmo amor e cuidado mostrados pelo que plantou a vinha da fé e da vida?

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Imagens para a prédica

A imagem geral, como mostram tanto a exegese como a mensagem, é uma vinha. Mas, por se tratar de uma parábola, a vinha deve ser comparada ao mundo em que vivemos. Então, junto com a vinha, podemos colocar o mundo, sua beleza, a beleza das relações que ele promove entre as criaturas, como se renova e os belos frutos que dá. Por outro lado, podemos colocar as imagens da violência neste mundo, as pessoas que foram mortas, torturadas, por lembrar o sentido vital da vinha/mundo, a dor da natureza e nossa dor, que emergem do falso sentimento de proprietarismo com imagens como indústrias que desrespeitam o meio ambiente, o lixo das grandes cidades sem a devida reciclagem etc. Além disso, mostrar a pedra angular. Aquela que sustenta o prédio, aquela que Deus colocou no começo da criação de sua vinha/mundo, mas que depois foi rejeitada por todos os poderosos, até por aqueles que diziam obedecer-lhe desde os tempos de Israel até a construção da fé cristã em suas diferentes formas e tradições. Um terceiro grupo de imagens poderiam ser pessoas plantando de forma sustentável, construindo ecologicamente, reciclando, sendo generosas e solidá-

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rias, até nas promoções e ações solidárias das igrejas, como sinais da presença viva de Jesus Cristo.

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Subsídios litúrgicos

Há diversos textos bíblicos em que Jesus usa a imagem da vinha/videira. Por isso sugerimos usar essas imagens durante toda a celebração. Espaço litúrgico: a – Colocar uvas e galhos de vinhas ou parreiras para enfeitar o ambiente litúrgico. b – Se houver Ceia, colocar uvas ao lado do suco que será usado, e pode-se colocar espigas ao lado do pão. c – Pode-se, no final da celebração, oferecer uvas para um momento de convívio comunitário, lembrando, através de alguma mensagem, que devemos cuidar da vinha do Senhor. Invocação trinitária: a – Podemos criar uma fórmula participativa de invocação como esta: Celebrante: Deus que plantou a vinha da fé e da vida, Congregação: Nosso Pai e Mãe; Celebrante: Deus que veio resgatar a vinha e ser base de um novo plantio de paz. Congregação: Jesus Cristo, nosso irmão e Senhor; Celebrante: Deus, que como o vento e a chuva dá força a toda vinha e às pessoas que cuidam dela e a cultivam com amor; Congregação: Espírito Santo/Ruah/Ventania Divina; Celebrante: Santa Trindade, um só Deus; Congregação: Permanece em nós, conosco e transforma o mundo por tua graça! b – Na confissão de pecados, que pode ser feita em silêncio, mostrar as imagens de morte, violência e destruição e depois de cada uma dizer: “Senhor, tem misericórdia de nós, permite que vivamos solidariamente e amorosamente por tua graça”. c – No ofertório, levar as imagens de vida e construção de um mundo novo e, ao ofertar, dizer: “Recebe nossa vida e o produto de nosso trabalho e permite que tudo seja colocado a serviço de teu reinado de paz, justiça e vida”. d – A bênção final também pode conter essas imagens, como: “A bênção de Deus Pai e Mãe, que plantou e cuidou, chamou-vos a viver em paz em sua vinha; a bênção de Deus Filho, que se fez como a gente para nos ajudar a partilhar generosamente seus frutos; a bênção de Deus Espírito Santo, que sopra na vinha, anima-nos e nos fortalece, seja com todas e todos vós, agora e sempre. Amém.

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Bibliografia KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982. STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus: o caminho da justiça. São Paulo: Paulinas, 1990.

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18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: MATEUS 18.1-5

(DIA DAS CRIANÇAS)

ZACARIAS 8.1-8 1 PEDRO 2.1-3

12 OUT 2014

Fernando Henn

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Introdução

No dia 12 de outubro, é lembrado o Dia das Crianças. Essa data será usada como pano de fundo para a reflexão sobre o texto de Mateus 18.1-5. Nessa conhecida passagem, os discípulos perguntam a Jesus quem é o maior no reino dos céus. Jesus responde-lhes dizendo que, se eles não se converterem e não se tornarem como crianças, de modo algum entrarão no reino de Deus. O texto de Zacarias envolve-nos na temática por meio de uma passagem que lembra o tema do ano da IECLB de 2008: “No poder do Espírito, proclamamos a Reconciliação”, cujo lema bíblico era: “Velhinhos e velhinhas sentarão nas praças de Jerusalém, e as praças ficarão cheias de meninos e meninas brincando” (Zacarias 8.4-5). Trata-se de um sonho do profeta, quando crianças e pessoas idosas terão paz para viver sua velhice e também sua infância. A passagem de 1 Pedro 2.1-3 tem uma beleza singular. Nela, a pessoa cristã é comparada a uma criança recém-nascida, que é exortada a buscar “o genuíno leite espiritual”. Em outras palavras, podemos interpretar assim: é uma exortação a cada pessoa buscar em sua caminhada de fé o genuíno evangelho de Jesus Cristo, que é o alimento para sua vida de fé, numa postura de humildade e reverência.

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Exegese

O texto de Mateus 18.1-5 é muito direto em sua mensagem. Ele inicia com a pergunta dos discípulos a Jesus: “Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?”. Está apresentada a grande pergunta geradora de intrigas e distorções nas relações humanas e que também esteve presente entre os discípulos de Jesus: Quem é mais importante? Essa pergunta, nesse trecho do evangelho, parece especialmente destinada a Pedro, Tiago e João. Em Mateus 16.13-20, é relatada a confissão de Pedro: “Tu és Pedro e sobre essa rocha edificarei minha igreja... dar-te-ei as chaves do reino dos céus”. A seguir, acompanhado por Tiago e João, Pedro testemunha a transfiguração de Jesus (Mt 17.1-8). É possível que tais acontecimentos tenham “subido” à cabeça de um deles ou dos três, a ponto de surgir uma tensão no grupo dos discípulos. Não seria difícil imaginar que, pela proximidade com Jesus, esses discípulos, especialmente Pedro, estivessem pensando em outorgar para si algum tratamento diferenciado. Não é demais lembrar

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que o evangelista Mateus escreve a cristãos de origem judaica e por isso utiliza a expressão reino dos céus e não reino de Deus. Jesus chama então uma criança, coloca-a no meio dos discípulos e afirma: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (tradução ARA). Jesus fala em conversão aos discípulos, indicando que os discípulos teriam que mudar o modo como eles percebiam seu papel. Há aqui um importante ensinamento de Jesus, que é valioso na teologia luterana. Os discípulos, seguidores de Jesus, são chamados a viver a conversão constantemente e não apenas em um momento da vida. Eles já haviam decidido seguir Jesus. E Jesus diz que eles precisam converter-se de novo, agora para tornar-se como crianças. Sobre tornar-se como uma criança cito o comentário de Champlin: “A criança, antes de ser atingida pelo orgulho, pela maldade, pela ostentação e pela ambição pessoal mundana, é dotada de um espírito humilde e de uma fé simples. Apesar de ser um ser fraco e indefeso, simboliza com propriedade o povo simples que usualmente recebe a mensagem do evangelho sem oferecer resistência, no que contrasta com os de nobre nascimento, instruídos e sábios aos próprios olhos, que geralmente buscam justificativas para não levar a sério as declarações e advertências de Jesus” (Champlin, p. 462). No versículo 4, humilhar/humildade está colocado em contraposição a ensoberbecer-se/soberba. “A soberba cria o egoísmo; a humildade desenvolve o altruísmo” (Champlin, p. 462). A maior pessoa no reino dos céus é aquela que cultiva a humildade, que sabe não ser melhor do que ninguém, mas integrante da sociedade e responsável por ela. No versículo 5, Jesus afirma que “quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe”. Sem dúvida, é uma valorização das crianças e um modo de demonstrar o amor que Deus/Jesus tem por elas. Ao receber uma criança, estamos recebendo Jesus.

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Meditação

O Dia das Crianças, que acontece num domingo, é uma grande oportunidade para refletir, com a igreja reunida, sobre o modo como a sociedade tem cuidado das crianças. Entende-se sociedade de modo amplo, abrangendo na reflexão as famílias, a igreja, a escola, o estado, o mercado e quem mais exerce alguma influência direta ou indireta sobre o modo como cuidamos e valorizamos as crianças. É conhecida a frase: “Não devemos perguntar que mundo estamos deixando para nossos filhos, mas que filhos estamos deixando para o mundo”. Certa vez, ouvi numa palestra uma afirmação um tanto quanto “forte” que causou certa polêmica entre as pessoas que estavam próximas de mim. O palestrante disse que a falta de sentido que encontramos na juventude atual reflete diretamente a falta de sentido encontrada nas famílias de onde esses jovens provêm. Como um jovem já foi bebê, criança e adolescente, não podemos ignorar que o desenvolvimento é uma soma de experiências e estímulos que cada pessoa vai recebendo ao longo de sua trajetória.

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Constantemente, ouvimos sobre a realidade de que professores e professoras dos ensinos fundamental e médio recebem salários baixos. É um reflexo do valor que a sociedade atribui a essas pessoas que têm a responsabilidade de contribuir na formação de cidadãos e cidadãs capazes de transformar positivamente a sociedade. Via de regra, observa-se nas escolas um reflexo do valor que a sociedade dá às crianças: quanto menor a criança, menos se paga ao profissional. Ironicamente, a remuneração é proporcional ao tamanho da criança. Aos olhos do mercado, a criança nada mais é do que uma consumidora. Para o sistema de previdência, a criança é a esperança de que o sistema não entrará em colapso no futuro. Caso perguntemos a pediatras, esses confirmarão que as crianças não são prioridade, salvo exceções, tanto para o sistema de saúde pública como para a particular. Quando pensamos na vida de nossas comunidades, do mesmo modo deveríamos investir aquilo que temos de melhor na educação cristã de nossas crianças e jovens. Tenho esperança de que o trabalho com crianças em nossas comunidades não esteja condicionado à sobra de tempo das lideranças ou ministros e ministras, antes seja prioridade. Inúmeras iniciativas têm se mostrado promissoras, a exemplo do projeto “Missão Criança”. Lendo esse texto, parece impossível não fazer menção à reflexão que tem acompanhado nossa igreja nos últimos anos sobre a participação das crianças na Santa Ceia. Perante Deus somos como crianças, acolhendo o seu amor pela graça, não por nossos méritos. Não somos nós que chegamos a Deus pelo uso de nossa razão ou esforço mental; é Deus que em Cristo vem a nós, oferecendo-nos o perdão e a possibilidade de caminhar com Ele. Convidar as crianças para participar da Santa Ceia é testemunhar publicamente essa nossa convicção de fé. Ao receber uma criança, estamos recebendo Jesus. Podemos dizer que, ao cuidar de uma criança, estamos cuidando do próprio Jesus. Ao amar uma criança, estamos amando o próprio Cristo. Ao respeitar uma criança, estamos respeitando o próprio Jesus.

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Imagens para a prédica

Temos dois caminhos distintos para a pregação: podemos fazê-la num culto tradicional, como estamos acostumados, ou podemos aproveitar a data para organizar um culto especial do “Missão Criança” com a comunidade. Caso a alternativa seja um culto especial com as crianças, cada contexto pode preparar a temática como melhor convir. Caso seja uma reflexão “tradicional” com a comunidade, há vários caminhos possíveis: a – A data é uma oportunidade para refletir com a comunidade sobre a participação de crianças na Santa Ceia. Em muitos lugares, essa reflexão já foi feita algumas vezes. No entanto, acredita-se que temas como esse devem estar presentes em nossa pregação com frequência, pois nosso público nos cultos é rotativo. O fato da comunidade ter ouvido uma vez sobre o tema não significa que ela já o tenha compreendido e apreendido para a sua vida de fé.

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b – A frase “Não devemos perguntar que mundo estamos deixando para os nossos filhos, mas que filhos estamos deixando para o mundo” poderia iniciar a conversa com a comunidade. c – Um texto do colunista da revista Veja Gustavo Ioschpe (“O que você faria pelos seus filhos?”) convida a refletir. Nele, ele questiona se nós brasileiros realmente estamos dispostos a fazer qualquer sacrifício em prol de nossos filhos e crianças. Cito um trecho desse artigo: “Quando você leu o título deste artigo, provavelmente respondeu a si mesmo: ‘Eu faria de tudo pelo meu filho’. Mas, se você for um brasileiro normal, a resposta real terá sido: ‘Tudo, desde que não atrapalhe o meu estilo de vida’. Você topa trabalhar duro para pagar uma boa escola e acha que por isso mesmo é que a escola não deve exigir de você que se envolva com os estudos do filho quando chegar em casa cansado à noite. Várias vezes, eu vi pais carregando filhos pequenos chorosos em restaurantes em horários em que esses deveriam estar dormindo. Há dois meses, usando a mesma lógica do ‘não tinha com quem deixar a criança’, um sujeito levou o filho de oito anos para explodir e roubar um caixa eletrônico. Já ouvi muito pai querendo colocar o filho em escola perto de casa – raramente encontro gente se mudando para deixar o filho mais próximo de uma escola boa”.

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Subsídios litúrgicos

Oração: Senhor, com gratidão em nossos corações celebramos este culto. Buscamos-te com todo o nosso ser porque queremos que a tua santa palavra e presença se façam presentes em nossa vida, em nossa família, comunidade e mundo. Hoje lembramos o Dia das Crianças. Por isso queremos orar por elas de modo especial. Oramos, ó Deus, pelas crianças que sofrem com a violência e a falta de amor, por aquelas que são privadas de educação, saúde e a possibilidade de um futuro melhor. Reconhecemos que somos culpados juntamente com toda a sociedade quando as crianças não são prioridade e deixam de ser cuidadas. Perdoa esse nosso pecado, Senhor. Perdoa também quando em nossas comunidades não cuidamos como deveríamos das crianças, adolescentes e jovens. Não permitas que fiquemos acomodados com o erro, mas que sejamos transformados por ti. Que possamos enxergar nas crianças o rosto da tua presença. Nós sabemos que diante de ti somos como crianças. Alimenta-nos com o teu amor e sacia-nos com a tua presença. Dá-nos teu perdão, a tua salvação. Em nome de Jesus é que oramos. Amém. Hino: A música “Amar como Jesus amou”, do Padre Zezinho, combina muito com o dia.

Bibliografia CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. V. 1. São Paulo: Milenium, 1982.

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PRÉDICA: MATEUS 22.15-22

19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 19 OUT 2014

ISAÍAS 45.1-7 1 TESSALONICENSES 1.1-10

Uwe Wegner

1

Introdução

O texto proposto para a prédica aborda questões políticas (imposto/César = imperador) e religiosas (Deus). A data prevista para a pregação sobre o texto é o dia 26 de outubro de 2014. As eleições estaduais e federais agendadas oficialmente para 2014 serão dia 5 (1º turno) e 26 de outubro (2º turno). A data para a pregação cai, pois, justamente entre o primeiro e segundo turnos das eleições para governador, presidente, deputados e senadores de 2014. A prédica do texto fará bem se conseguir situar a discussão do texto em meio às discussões e propostas que estarão em pauta nas eleições de 2014, sobretudo em relação a impostos. O texto do Antigo Testamento, Isaías 45.1-7, também tem cunho político. Trata do chamado de Deus ao rei persa Ciro (desde 555 a.C.) para que edifique a cidade de Deus e liberte seus exilados na Babilônia (45.13). Em 45.1-7, Deus promete a Ciro grandes conquistas e deixa transparecer que sua vocação como rei de Israel por Deus é “por amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido” (45.4). O texto do Novo Testamento, 1 Tessalonicenses 1.1-10, é uma extensa ação de graças de Paulo a Deus pela repercussão positiva da fé, do amor e da esperança que moviam a comunidade dos tessalonicenses. Os tessalonicenses haviam se tornado “modelo”, “exemplo” “para todos os crentes na Macedônia e Acaia” (1.7), tendo a sua fé “para com Deus se divulgado por toda a parte” (1.8). Esse texto não tematiza política/impostos diretamente. Perguntamo-nos, porém, se uma fé tão coerente e ativa como a dos tessalonicenses não poderia inspirar também políticos para tornar-se “modelo”, “exemplo” de como se faz política quando se tem Deus e o evangelho por diretrizes.

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Exegese

Há uma exegese detalhada do texto no Proclamar Libertação 18, p. 259266, razão pela qual não pretendo estender-me nesse item. O texto é de difícil interpretação, sobretudo por envolver uma cilada (22.15) e, no final, constatar – indiretamente – que Jesus não caiu nela. A interpretação que melhor conseguir explicar esses dois fatos parece ter a melhor probabilidade de aproximação à verdade. A pergunta que se formula para Jesus (“É lícito pagar imposto a César ou não?”) é uma cilada, pois César, como imperador romano, representava as forças militares de ocupação na Palestina (os romanos tinham conquistado a Palestina

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desde 63 a.C. e cobravam impostos dos judeus para manter o território em “paz e segurança”). A maioria dos judeus era contrária a esse domínio estrangeiro na Palestina. Se, pois, Jesus dissesse que fosse a favor do pagamento de tributos “a César”, estaria se incompatibilizando com o povo, que era o que mais sofria com a alta tributação. Mas a resposta negativa também era capciosa, pois uma negação da legitimidade do pagamento de tributos aos romanos equivalia a uma sentença de prisão ou mesmo de morte (Lc 20.20; 23.1-2). Como reage Jesus? Sua resposta contém duas partes. A primeira refere-se a César e a segunda, a Deus. a – Em relação a César, ele diz: “Daí a César as coisas de César”. Essa resposta é controversa. Jesus omite, em sua resposta, expressamente a palavra “imposto” e usa um verbo um pouco diferente do usado (= dídomi) por seus oponentes para “dar/pagar”: ele usa apodidomi. Esse verbo era empregado para o pagamento de impostos (portanto também no sentido de “pagar”), mas também no sentido de “devolver”, “dar de volta”. Estaria Jesus querendo sugerir que aquelas moedas que ele solicitou com a efígie e a inscrição de César deveriam ser devolvidas (= apodídomi) ao imperador romano por ter sido cunhadas a seu mando e, portanto, lhe pertencer? Nesse caso, Jesus poderia estar sugerindo a devolução das moedas ao imperador, mas negando – indiretamente – o pagamento de impostos, já que omite o termo “imposto” em sua resposta. Devolução de moeda ainda não representa necessariamente pagamento de imposto. Essa interpretação não pode ser provada – mas é uma possibilidade real, sobretudo considerando que o próprio Jesus, em outras ocasiões, era bastante crítico aos governantes (Mc 10.42: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as oprimem, e os seus grandes as tiranizam...”; cf. também Lc 23.2). [Nesse sentido, procurei interpretar o texto consequentemente no PL 18, p. 259-266] Ou tem o verbo composto (apodídomi: v. 21) aqui o mesmo sentido que dídomi na pergunta do v. 17 e estaria Jesus querendo dizer: “Dai/pagai para César as coisas de César”!? Nesse caso, como as moedas dos denários eram usadas – também – para o pagamento de impostos, Jesus poderia estar confirmando a pergunta dos fariseus: seria lícito pagar imposto a César, pressupondo que “as coisas de César” incluíssem, na visão de Jesus, também os impostos. Jesus, contudo, não deixa isso muito claro, pois a omissão de uma referência direta aos “impostos” em sua resposta no v. 21b não nos permite a desejável certeza. b – A segunda parte da resposta contém uma referência direta a Deus (completamente ausente na pergunta dos fariseus no v.17): “E (dai) a Deus as coisas de Deus”. Esse acréscimo, por não constar da pergunta, deve representar para Jesus o ponto alto daquilo que ele pretendia responder. Para dar a Deus as coisas de Deus, é preciso que esteja claro inicialmente o que, afinal, é de Deus. Qualquer judeu responderia com relativa facilidade essa pergunta. De Deus, segundo o Antigo Testamento, é “toda a terra” (Dt 19.5; cf. 26.8s; Sl 136.22), e portanto também a terra da Palestina, que os romanos consideravam como sendo sua após a conquista de Israel; ou, como diz mais detalhadamente o Salmo 24.1: “Ao Senhor pertencem a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam”. Os governos – César, por exemplo – não “mandam” sobre as pessoas, só

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administram sua vida pública; quem “manda” nelas ou as “governa” é, em última análise, aquele a quem elas pertencem: Deus. Além disso, pertencem a Deus os próprios reis e nações: “Por meu intermédio reinam os reis... governam os príncipes, os nobres e todos os juízes da terra” (Pv 8.15). Numa frase: há, é claro, coisas que cabe dar a César, ao imperador, a autoridades, a governos; mas também essas coisas e as próprias autoridades estão sob uma soberania ainda maior, que é o reinado de Deus. Deus é a instância última, perante a qual tudo tem que ser responsabilizado, à qual tudo deve ser dado e entregue. Por que, afinal, os fariseus se admiraram, deixando Jesus em paz e indo embora (v. 22)? Afinal, Jesus caiu ou não na cilada armada para ele? Se a resposta de Jesus tivesse se limitado à primeira parte do v. 21 (v. 21a), compreendida como aceitação do pagamento de imposto a César, ele teria caído na cilada, sim, pois isso implicaria a inimizade do povo, perda de popularidade. Mas, com o acréscimo das palavras “E dai a Deus o que é de Deus”, tudo mudou. Pois se devemos dar a César as coisas de César, mas se, em última análise, tudo é de Deus e deve ser dado ou responsabilizado perante Ele, então também os impostos não podem fugir a essa regra: eles podem ser dados e pagos, mas como coisas que pertencem a Deus e que, portanto, precisam ser submetidas a seus critérios de justiça e partilha. Jesus não caiu na cilada porque não deixou César ser uma instância última, autônoma e independente, mas requereu que também o seu uso de poder – no caso de poder tributário – se inserisse dentro de um reinado maior, que era o de Deus. Neste número de Proclamar Libertação, sugiro que a interpretação se oriente por essa última opção, ou seja: que Jesus tenha concordado com o pagamento de tributos a César, mas que ele tenha acrescentado a necessidade de orientar a tributação por quem está acima de César, i.e., por Deus, a quem tudo pertence.

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Meditação

Nos dias em que escrevo a presente reflexão (2ª quinzena de junho de 2013), o Brasil foi e está sendo varrido por uma onda de protestos e manifestações de rua. Curiosamente, na imprensa e entre os manifestantes ecoou alto o descontentamento com a grande carga tributária que se arrecadava aqui no Brasil e o pouco retorno que advinha desses tributos para os cidadãos e para o país como um todo, principalmente para os serviços de infraestrutura de transportes, educação e saúde. O assunto está, pois, na pauta e é sentido no bolso de todas as pessoas. Por isso minha sugestão é que, para a prédica, sejamos bem literais em relação ao texto, ou seja, se ele fala de imposto, que nós também falemos de imposto. Arrolamos abaixo alguns itens positivos e negativos sobre pagamento e arrecadação de tributos. Cada pregador/a poderá considerá-los total ou parcialmente para os acentos que pretende dar em sua pregação.

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3.1 – É lícito pagar impostos a César, a nossos governantes? Sim, devemos pagar! Creio que essa resposta, em princípio, todos os ouvintes poderiam dar de sã consciência. O pagamento de tributos tem, indiscutivelmente, um lado positivo. Ele é indispensável para as obras e instituições que garantem o convívio, a mobilidade e o desenvolvimento sociais – nossos sistemas viário, de segurança pública e nacional, o sistema jurídico, nossa seguridade e previdência sociais, nosso sistema educacional público com sua rede de escolas municipais, estaduais e federais, a administração pública na forma dos três poderes e tantas outras coisas indispensáveis para nosso convívio e mobilidade sociais seriam impensáveis sem cobrança e pagamento de impostos. Ou seja, nas palavras de Oliver Holmes: “Os impostos são aquilo que se paga para ter uma sociedade civilizada”. 3.2 – Devemos pagar impostos, mas com direito à restituição na forma de bons serviços públicos pelo que pagamos. Se não há boa restituição, há problemas. Vejamos agora um pouco do lado negativo do pagamento de tributos. Na época de Jesus, muita gente achava que a arrecadação de tributos não era correta, pois esses eram cobrados e arrecadados dos judeus e na Palestina, mas revertiam em benefício dos romanos e de Roma, pois a Palestina estava dominada pelos romanos. Então o povo pagava a um governo do qual pouco ou nada recebia em troca. Essa é uma crítica que muito se ouve também no Brasil e na atualidade: temos uma das mais altas taxas de impostos do mundo, mas, quando comparado com outros países, o retorno social desses impostos é ainda muito pequeno e modesto. Quando os impostos são muito altos, mas o retorno é pequeno, podem estar acontecendo várias coisas ruins, como: – A máquina pública pode estar inchada: o número de funcionários pode estar excessivo, também o número de ministérios e de cargos comissionados pode estar alto demais; para muitos, também o número de vereadores, deputados e senadores poderia ser mais reduzido; os salários e as aposentadorias pagos para certos cargos nos três poderes podem estar sendo exorbitantes; os gastos do funcionalismo com cartões de crédito e diárias pode não estar sendo controlado como deveria etc. Além disso, há aposentadorias especiais para políticos que não se justificam. Um dos cartazes das passeatas de junho/2013 dizia: “Eu terei que trabalhar 35 anos – eles: 8! Por quê? Fim das aposentadorias especiais para políticos!”. – As obras públicas podem estar superfaturadas. – Os gastos públicos podem estar se concentrando em obras extravagantes que não beneficiam diretamente a maioria da população ou então só segmentos selecionados; o exemplo recente foi a construção milionária de estádios de futebol para a copa das confederações e o mundial de futebol, alguns dos quais tendem a virar elefantes brancos.

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3.3 – O sistema tributário brasileiro precisa ser justo para corresponder à justiça do reino de Deus! No Brasil, os impostos também estão enquadrados na ordem econômica que, segundo nossa Constituição, está subordinada às “finalidades de promoção da justiça social, redução das desigualdades sociais e fomento do pleno emprego (art. 170, caput e incisos VII e VIII). Assim sendo, (...) é correto concluir que as obrigações de realizar a justiça social assumidas pelo Estado brasileiro com a Constituição de 1988 irradiam-se para a tributação, que deve ser, o quanto puder, progressiva – i.e., deve onerar mais quem mais pode contribuir para o fundo público e onerar menos os mais pobres. A própria Constituição reforça esse compromisso específico do Estado com a justiça social na tributação, ao estabelecer, ao lado de um direito geral de igualdade (art. 5º, caput), um direito específico de igualdade em matéria tributária (art. 150, II) e de vedação de tributos que não respeitem a capacidade econômica dos contribuintes (art. 145, § 1º) ou que ofendam o mínimo existencial (vedação de confisco – art. 150, IV)” (Henrique Napoleão Alves, Tributação e injustiça social no Brasil. Disponível em < http://sachacalmon.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2012/06/Alves-H.N.-Tributacao-e-injustica-social-no-Brasil-2012.pdf > Acesso em: 10/07/2013). Vários tributaristas e analistas sociais e políticos são, contudo, da opinião de que o sistema de tributação do Brasil (cobrança e pagamento de impostos) está associado a muita injustiça. Entre essas injustiças pode-se destacar: a – O Brasil ainda não definiu um imposto sobre grandes fortunas, previsto em nossa Constituição Federal, artigo 153, inciso VII; b – Em termos proporcionais, as pessoas mais ricas pagam menos impostos do que os mais pobres no Brasil. Na Bélgica, França e Tunísia, p. ex., pessoas que ganham mais de 300.000 dólares por ano pagam sobre sua renda anual, respectivamente, 55%, 53% e 43,1% de imposto; mas no Brasil, só 38,5%. Além disso, estudos revelam que de cada 100 reais recebidos os 10% mais ricos pagam aproximadamente R$ 22,00 em impostos, mas os 10% mais pobres, aproximadamente R$ 32. Que vários impostos pesam muito mais nos bolsos dos pobres do que dos ricos fica claro pelos impostos indiretos, ou seja, pela tributação aplicada sobre o consumo, como p. ex. em compras de supermercados [valores aproximados: arroz (17,24% de imposto), feijão (17,24%), carne (23,99%), pasta de dente (31,37%), caderno escolar (34,99%) etc.], tributação que é exatamente igual para quem ganha um ou dez ou cem salários mínimos por mês. Esse desnível entre menos e mais abastados também pode ilustrar outro exemplo: como o desconto máximo de imposto de renda é de 27,5% no Brasil, um cidadão que ganha entre 3 a 5 mil por mês precisa recolher a mesma percentagem do que um outro que ganha de 30 a 50 mil, ou mesmo de 300 a 500 mil. Isso, segundo artigo publicado na internet, configura “verdadeiro absurdo, pois deveria haver um escalonamento dessas alíquotas do imposto, fazendo com que o governo arrecadasse mais de quem ganha mais, procurando corrigir a desigualdade social”. Essa situação faz com que H. N. Alves, em seu já citado artigo, passe a dar a seguinte sugestão: “Para que o Estado retome o seu compromisso com a equidade tributária e torne

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mais eficazes as suas ações voltadas à justiça social e à proteção dos mais pobres, a observância das seguintes diretrizes gerais impõe-se como necessária em qualquer debate sobre a reforma da legislação tributária: (I) diminuir, ao máximo, o peso da carga tributária indireta; (II) conferir, à incidência tributária direta, a maior progressividade possível; (III) conferir, à incidência tributária indireta, a maior seletividade (em função da essencialidade dos produtos) possível”. c – Injustas são para muitos também diversos tipos de isenções generosamente concedidas às dívidas de grandes usineiros e latifundiários nos bancos públicos. Aqui também se enquadram os perdões de dívidas trabalhistas milionárias concedidos a grandes empresas. d – Um verdadeiro câncer a corroer o dinheiro arrecadado em tributos é a dívida pública do país. Segundo informações da revista IHU e do IPEA, quase a metade do orçamento federal de 2013, exatos 42%, esteve destinada ao pagamento da dívida pública brasileira. “Dos 2,14 trilhões de reais, 900 bilhões serão gastos com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, externa e interna.” Segundo o estudo “Os Ricos no Brasil”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 20 mil clãs familiares (grupos compostos por 50 membros de uma mesma família) apropriam-se de 70% dos juros que o governo paga aos detentores de títulos da dívida pública. e – Injustas são também as grandes perdas de arrecadação devidas à corrupção largamente praticada no Brasil. O “custo-corrupção” anual é estimado em torno de 100 bilhões de reais, aproximadamente 10% de toda a carga tributária brasileira (quatro vezes o que se arrecada com o imposto de renda sobre a pessoa física). Ele se deve, entre outros motivos, à impunidade reinante, aos intermináveis recursos apelativos favorecidos pela legislação, mas em grande medida também pela falta de fiscalização mais rigorosa do governo. Nesse quesito, aliás, também se insere a evasão de impostos por grandes empresas multinacionais, um problema com o qual praticamente todos os países debatem-se atualmente. f – Alguns pesquisadores também chamam a atenção para a parcela de injustiça atrelada à devolução de impostos pelo governo. Raul Haidar detalhou em artigo publicado na revista Consultor Jurídico, 1º de abril de 2013, a questão. Segundo ele, ao “fixar limites irreais, ridículos e desonestos para os abatimentos ou deduções que podemos fazer, nossos legisladores ou autoridades [...] acabam por nos [...] roubar descaradamente!”. Ele dá alguns exemplos. Cito dois: “Os valores admitidos para dedução com ‘despesas escolares’ não são suficientes para pagar a mais modesta escola da mais longínqua periferia”. Um segundo exemplo, referente à dedução por dependente: “Também a dedução dos dependentes é outra sacanagem fazendária. Com o valor atual, de menos de R$ 200 por mês, não é possível alimentar, vestir e cuidar de um dependente, qualquer que seja sua idade”. Ele conclui: “É preciso que os abatimentos e deduções sejam tratados com realidade”.

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3.4 – O que fazer? O mínimo que nós temos que fazer é “preocupar-nos em cobrar dos governantes a transparência nas contas públicas, a redução dos gastos com a máquina governamental e a urgente reforma tributária, para que possamos encarar uma tributação justa. Essas são medidas urgentes a serem tomadas, mas não podemos esquecer a necessidade de uma educação tributária da sociedade, para que o cidadão-contribuinte cumpra conscientemente o seu papel” (R. Haidar), ou seja, por exemplo, não sonegue e exija nota fiscal em suas compras.

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Imagens para a prédica

1 – Tiradentes e a revolta dos inconfidentes ou a Inconfidência Mineira: No dia 21 de abril de cada ano, comemora-se o feriado de Tiradentes. Em 21 de abril de 1792, o herói nacional Tiradentes foi enforcado. Seu crime: lutar contra altos impostos (a derrama) da coroa portuguesa. Tratou-se, no caso, do imposto denominado de “quinto”, que confiscava a quinta parte de toda a quantidade de ouro e diamante encontrada em sua colônia, o Brasil. 2 – Deuteronômio 17.17: Entre os deveres de um rei consta: “Não multiplicará muito para si prata ou ouro”. 3 – A internet apresenta uma riqueza muito grande de imagens para uma prédica com o foco em tributos. Basta clicar uma busca sob: “tributos – imagens”.

Bibliografia Há um número muito grande de bons artigos sobre tributação, impostos, justiça e injustiça tributária na internet. É só fazer busca sob esses verbetes ou sob verbetes assemelhados. Exegeticamente, recomendo a consulta a comentários bíblicos. Em anos anteriores, abordei os principais problemas de interpretação desse texto em 1989 na revista Estudos Teológicos (29 (1): p. 87-105) e em 1992 (PL XVIII, p. 259-266). Em detalhes, esses argumentos encontram-se agora em: WEGNER, U. Jesus, a dívida externa e os tributos romanos. In: REIMER, I. R. (Org.). Economia no mundo bíblico. São Leopoldo: CEBI/Sinodal, 2006. p. 111-134.

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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 2.1-8

20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 26 OUT 2014

LEVÍTICO 19.1-2,15-18 MATEUS 22.34-46

Ângela Lenke Somos felizes na proporção em que amamos...

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Introdução

A sociedade pós-moderna traz grandes desafios para nós cristãos. Enquanto igreja, temos grandes oportunidades, mas também corremos perigos, se já não estivermos perdendo muito. O individualismo e o capitalismo disputam com o mandamento do amor a Deus e ao próximo, tema que liga os três textos indicados para este final de semana, do ciclo de Pentecostes. Falando em Pentecostes, um dos frutos do Espírito é justamente o amor. Esse amor é necessário quando se assume o ministério do serviço cristão, enquanto ministros e sacerdócio geral de todos os crentes. Esse amor não apenas Paulo demonstra aos tessalonicenses (1Ts 2.1-8), mas Jesus deixou claro para os que o interrogavam (Mt 22.34-46).

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Exegese

V. 1 – Paulo inicia com uma certeza: o trabalho missionário não foi em vão. Atesta que os irmãos de Tessalônica são testemunhas das conversões. V. 2 – Não somente este versículo como os do capítulo anterior deixam claro que Paulo, Silvano e Timóteo enfrentaram a rejeição e até violência na cidade de Filipos e precisaram confiar em Deus. A motivação para estarem naquele lugar e terem enfrentado as adversidades é o fato de Deus tê-los sustentado e chamado para anunciar o evangelho. V. 3 – Aqui Paulo coloca autenticidade em seu testemunho, dando a entender que é diferente dos falsos pregadores. V. 4 – Continua o versículo anterior, pois enfatiza que o testemunho não é falso nem impuro, porque provém de Deus. Os autores da carta demonstram gratidão por ter sido chamados por Deus, mas também apontam para o Deus que examinou o coração deles para ser merecedores de anunciar a verdade. O versículo deixa claro que eles não estão querendo fazer a vontade das pessoas, mas a vontade de Deus. A honra pertence a Deus. V. 5 – O versículo deixa claro à comunidade que eles não usaram de falsidade, querendo agradá-la, para que assim tivessem lucros, mas que eles trabalharam para se manter. Para não ser confundidos e para esclarecer as dúvidas (talvez rumores), eles buscam ser transparentes, apontando para a fidelidade de Deus, que tudo sabe e é testemunha.

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V. 6 – Para eles não interessavam a honra e a bajulação das pessoas. Estavam felizes e satisfeitos com os frutos colhidos, porque Deus não os abandonara e vinha acrescentando mais bênçãos dia após dia. Diante disso, ante a aprovação e os sinais de Deus, quem poderia querer mais? A honra e os elogios de pessoas que podem mudar conforme o vento e enquanto estiverem agradando? V. 7 – Como lideranças da igreja poderiam exigir pagamento e manutenção, mas “nos tornamos carinhosos entre vós”. A evangelização aproximou-os, conheceram as dificuldades das pessoas e sabiam que nem todas poderiam ajudar. Paulo e seus colaboradores demonstram afeto por essa comunidade, comparando-se a uma mãe que ama seus filhos. V. 8 – Os versículos posteriores praticamente repetem o sentido dito até aqui. Aqui Paulo e os coautores da carta concluem que esse amor pelos tessalonicenses é tão grande e forte, que dariam a vida por eles se fosse preciso. Eles se veem no meio da comunidade como um instrumento do amor de Deus, amor que esse povo também queria sentir e saber. Lideranças e comunidade estavam muito bem integradas, e o serviço é bom quando todas as partes colaboram.

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Meditação

Ouso trazer aqui uma reflexão diferenciada do Proclamar Libertação 35, que faz um bom estudo do texto. Três anos passaram, e sinto em nossas comunidades algumas angústias e questionamentos que o texto indicado auxilia a compreender, não somente para ministros e ministras, mas também para membros de nossas comunidades. 3.1 – O chamado de Deus É interessante perceber que Paulo enfrenta os adversários com seus rumores, afirmando que sua missão veio da parte de Deus. Ouvir o chamado de Deus é hoje uma questão problemática, no meu ponto de vista. Enquanto alguns não ouvem, outros são fanáticos a ponto de querer obrigar as pessoas à fé. Esse fanatismo tem afastado as pessoas e organizações públicas e civis do mundo religioso. Cada vez mais, esse fanatismo enclausura a igreja numa realidade que se afasta do mundo. É uma atitude nítida desprezar este mundo que ainda é de Deus. É muito triste ver a humanidade oprimindo e desrespeitando o próximo. Paulo e seus companheiros também foram chamados para evangelizar dentro de uma realidade em que o evangelho não era conhecido, mas eles não oprimiam as pessoas, e sim proclamavam a liberdade. O comportamento deles revela que não vieram para ferir, mas para ajudar. Sempre teremos rivais e aqueles que duvidam de nós, mas jamais poderemos fazer mau uso do chamado, enquanto ministros e membros de uma igreja, obrigando ou ainda tendo uma conduta errada. Esse chamado tem a ver com fidelidade. Algumas pessoas ouviram esse chamado e não souberem honrar e valorizar o amor de Deus; pelo contrário, começaram a falar de seus próprios interesses. Deus deixou de falar com essas pessoas, e então o poder do chamado transformou-se em espaço para a opressão

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e interesses próprios, em que o diabo é mais mencionado do que Jesus Cristo. Se Deus tem autoridade para chamar, Ele também tem autoridade para destituir. Enquanto isso, tenhamos bem claro o que Deus espera de nós e o que nos delegou, ouvindo qual é sua vontade, porque durante toda a vida precisaremos ouvir Deus se queremos ser coerentes e amáveis. Que não estejamos entre os falsos profetas, que são verdadeiros atores e verdadeiras atrizes, que pregam e cantam e não fazem nada pelo povo, que não sabem viver de modo simples com seus semelhantes. Ser chamado significa compreender o que Madre Teresa de Calcutá ensina: “Santidade não é privilégio de poucos, é necessidade de cada um de nós”. Amar Deus e o semelhante requer santidade, requer pelo menos um pouco de paixão pela vida. “Durante esses vinte anos de trabalho no meio do povo, comecei a compreender, cada vez com maior clareza, que as piores enfermidades de nossos dias não são a lepra ou a tuberculose, mas sim a falta de afeto, a sensação de não ser querido e de não ser amado pelos outros”, disse Madre Teresa em 1979 ao receber o Prêmio Nobel da Paz. 3.2 – Remuneração x recompensa Para algumas pessoas, talvez seja difícil falar disso que o texto fala. Comunidades, em grande maioria, também não refletem sobre isso. Apenas se questiona o valor que se deve pagar aos ministros e às ministras. Paulo e seus amigos tinham outra profissão, no entanto recebiam apoio, hospedagem, alimentação e ajuda de custos nas viagens, ao menos de algumas comunidades. Hoje seria impossível imaginar uma igreja que quer crescer viver nesse modelo. Explico: o voluntariado é lindo e necessário, mas em curto prazo, e a igreja depende da boa vontade das pessoas. O que seria de nossos membros se dependessem da boa vontade ou do tempo de um ministro ou ministra com emprego secular? Quando eu era criança, meu sonho era ajudar todo mundo e vivia nessa ilusão. Acho que muitas pessoas vivem em suas comunidades com essa ilusão. Pensam em fazer o bem quando estiverem prontas e tiverem dinheiro suficiente, enquanto a necessidade está às portas onde se vive. Muitas comunidades também têm medo de ousar, de investir em missão, em frentes diaconais. Penso que esse texto nos desafia a não somente reclamar sobre nossa contribuição dentro e fora da igreja, mas a perceber que somos todos servos uns dos outros e que temos um chamado. O cumprimento requer sacrifício, como foi difícil para o próprio Jesus. Nem ministros tampouco lideranças ou pessoa alguma devem praticar seu ministério pensando na recompensa financeira ou recompensa do paraíso. Pregar sobre isso ainda é atual. Grande parte do povo brasileiro pratica o bem pensando em sua evolução, no perdão da culpa, no alívio da angústia e no sentimento do que as pessoas podem pensar. Por outro lado, grande parcela das pessoas quer viver o hoje. Não acreditam em céu e inferno. Querem ser felizes hoje. As pessoas não são mais cúmplices, não se veem como semelhantes. Tudo está se tornando um grande mercado.

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Enquanto a pessoa estiver trazendo auxílio ou vantagem, está tudo bem; caso contrário, será como um objeto que é substituído. As pessoas estão vazias e isoladas. Então a recompensa é jogada para o futuro. A ansiedade é tanta, que as pessoas querem respostas para hoje. Não esperam, não se aquietam para ouvir Deus. Não olham para o lado, porque todas estão correndo atrás dos seus planos, mas no fundo nem sabem aonde exatamente querem chegar. O mandamento de amar a Deus e ao próximo está ficando em segundo plano, para quando as pessoas tiverem tempo e estiverem resolvidos seus próprios problemas. O que as pessoas estão esquecendo é que tudo está interligado e que, quando se desprezam a criação e os semelhantes, o próprio Jesus é desprezado (Mt 25.45) 3.3 – A honra e a glória Em todos os lugares, a busca pelo privilégio fala alto no coração e no comportamento das pessoas. Facilmente também personalidades tentam ou gostariam de ocupar o lugar de Cristo. Dirigindo-se aos tessalonicenses, Paulo está orientando também a nós que pensamos em enganar Deus e as pessoas, querendo ocupar um lugar de honra quando ainda nem começamos a servir e amar direito. A teologia da cruz lembra que não precisamos estar em posição de vantagem para que Deus fale conosco. Pelo contrário, ele nos chama e encontra-se conosco em nossa miséria e conhece todos os nossos segredos. Portanto amemos e sirvamos como somos e com o que temos, porque o próprio Deus endireitará nosso caminho. Outros servos de Deus também erraram e não foram desprezados por Ele; ao contrário, compreenderam Deus ainda melhor. Outro dia, ainda ouvi que “Deus só pode ser Deus e fazer sua obra se nós o deixarmos ser Deus, e a mesma coisa vale para diabo”. Isso não é teologia da cruz. Nossos antepassados e nós confessamos que Deus está acima de tudo, que ele criou a nós e a tudo o que existe, as coisas visíveis e invisíveis. Nós ainda somos crianças na fé e temos muito a aprender na caminhada com Cristo. Audácia do ser humano achar que tem o conhecimento sobre tudo. A teologia da cruz diz-nos que é necessário morrer e ressuscitar diariamente com Cristo para que tenhamos vida e liberdade. Sem Cristo não há vida nem liberdade. Dependemos dele.

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Imagens para a prédica

a – Pode-se optar em projetar imagens do sofrimento humano, da falta de amor e solidariedade com os semelhantes e a criação, porque somos egoístas e provocamos sofrimento. Quem não tiver esse recurso pode usar fotos e imagens espalhadas na entrada da comunidade, ao longo do corredor ou noutro espaço. b – Pode-se usar esta mensagem do livro de Alcides Jucksch, Amor sem Fronteiras, p. 319: “Em uma cidade, o prefeito estava desesperado. Em todos os lugares, nas ruas, havia cascas de laranja, papéis, tocos de cigarro, latas vazias e muita sujeira. A prefeitura não dispunha de um carro moderno para a limpeza. Então anunciou pelo rádio que cada cidadão deveria pensar como poderiam

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ser conservadas limpas as ruas da cidade. Deviam mandar-lhe suas sugestões. A melhor seria premiada. Assim aconteceu. Entre as muitas propostas e sugestões, a que recebeu o prêmio dizia: ‘A nossa cidade se tornará limpa e conservada quando cada um varrer e limpar a sujeira diante de sua porta’. É fácil lamentar os defeitos que nos cercam...”. É necessário cada um varrer a sujeira, fazer sua parte para continuar fiel a Deus e conservar o amor pelas pessoas e toda a criação. A mudança começa quando me vejo parte integrante da mudança.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Misericordioso Senhor, confessamos que nos falta o amor, que deixamos de amar e de perceber teu amor e de nossos semelhantes. Confessamos que somos racionais e frios o bastante para não sentir, ver, tocar. Confessamos que somos pobres em ir ao encontro, em orar com os outros, em nos juntar à minoria lutadora por um país onde a justiça se faz necessária. Confessamos que nos faltam sensibilidade e devoção. Somente a tua cura pode tirar-nos do egoísmo extremo em que vivemos. Cura-nos desse egoísmo, dos preconceitos, das prisões e perdoa-nos para uma nova chance em Cristo. Tem piedade, Senhor! Amém. Anúncio da graça/Absolvição: Nós e este mundo erramos, mas é a nós e a este mundo que Deus criou e ama. Disso a Escritura é testemunha quando diz: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Amém. Hinos: Como hino de oferta se poderia cantar “Não se deve dizer, nada posso ofertar...”. Como gesto da paz sugere-se cantar “Um abraço dado de bom coração é como uma bênção dada pelo irmão/ã”. Bênção: O Senhor te abençoe, amando-te. O Senhor te abençoe, iluminando-te. O Senhor te abençoe com sabedoria. O Senhor te abençoe com alegria. O Senhor te abençoe com força e coragem. O Senhor derrame paz na tua vida. Assim te abençoe o Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém. Envio: Seja uma bênção amando. Seja luz no caminho do teu próximo. Seja paciente ao ensinar e cuidar. Seja motivo de alegria.

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20º Domingo após Pentecostes

Tenha propósitos e boas intenções. Faça o melhor com tua força e coragem. Seja tu uma bênção ao ser lembrado/a.

Bibliografia BÍBLIA SAGRADA com Reflexões de Lutero. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. JUCKSCH, Alcides. Amor sem Fronteiras. Gramado: Ed. Conhecer a Bíblia, 1995. KUNZ, Marivete Zanoni. Proclamar Libertação 35. São Leopoldo: Sinodal, 2010. p. 329-334.

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PRÉDICA: ROMANOS 1.16-17; 3.21-28

DIA DA REFORMA 31 OUT 2014

ISAÍAS 62.1-12 GÁLATAS 5.1-11

Mauro Alberto Schwalm É como se você estivesse em dívida para com um credor e não pudesse pagar. Há duas maneiras pelas quais você se poderia livrar: Uma, que ele nada lhe cobrasse e rasgasse sua nota promissória; a outra, que um homem bom pagasse por você e lhe desse o suficiente para pagar a promissória. Dessa maneira, Cristo nos livrou da lei, razão por que não se trata de uma liberdade carnal e selvagem, que nada precisa fazer, mas sim de uma liberdade que faz muito e toda sorte de coisas e está livre apenas da exigência e dívida da lei. (do Prefácio de Lutero à Carta aos Romanos, em: Pelo Evangelho de Cristo, p. 189).

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Introdução

Romanos 1.16-17; 3.21-28 surge pela primeira vez nesta composição como texto-base para a pregação; os versículos 1.16-17 ainda não estão alistados no índice do PL. Por outro lado, os versículos 3.19-28 (tb. 3.21-25a) estão contemplados em sete estudos do PL (volumes III, XX, XXI, XXV, XXVII, XXXIII), duas vezes no PL XXVII (Pentecostes e Dia da Reforma). A relação entre a data litúrgica e o texto da pregação é óbvia. Lutero considerava a Carta aos Romanos “o escrito mais importante do Novo Testamento” (Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero – doravante BSRL) e à luz de Romanos 1.17 passou “a compreender a justiça de Deus como sendo uma justiça pela qual o justo vive através da dádiva de Deus, ou seja, da fé” (BSRL). Em Isaías 62.1-12, encontramos palavras de encorajamento dirigidas a Jerusalém, palavras de promessa de glória diante das nações. São palavras de graça e misericórdia, voltadas para uma Jerusalém aviltada. Através do profeta, uma verdadeira declaração de amor incondicional é proferida: o status da nação será redefinido. Novos conceitos passarão a vigorar. Deus alegrar-se-á com Jerusalém. Ela será restabelecida e louvada. Não será mais explorada pelos inimigos e deixará de ser deserta. Contrapõe-se um estado de sofrimento por imposição de injustiça com a promessa de salvação, de redenção, sem referência a méritos, mas porque “jurou o Senhor” (v. 8). Há um significativo paralelo entre a salvação anunciada por Isaías para Jerusalém e a justificação descrita por Paulo para toda a humanidade. Gálatas 5.1-11 – Paulo exorta para que os gálatas, chamados que foram para a liberdade, não retornem à escravidão da lei. Paulo enfrenta a manifesta

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tendência de reafirmar a circuncisão como medida necessária para alcançar a misericórdia de Deus. De acordo com Paulo, isso de nada servirá. Submeter-se a tal exigência é ignorar a graça de Deus. O apóstolo ressalta a radicalidade da mensagem do evangelho: a justiça esperada vem através da fé. Se o texto de Isaías permite vinculação com a dimensão da graça imerecida, Gálatas permite vinculação com a radicalidade da fé em comparação às exigências da lei.

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Exegese

2.1 – Aproximação contextual Paulo apresenta-se como apóstolo, “separado para o evangelho”. Já em suas palavras iniciais na carta, ele demarca a perspectiva a partir da qual se dirige aos romanos na condição de “servo de Jesus Cristo”. Dessa forma, ele delineia sua posição. Escreve a todos os que estão em Roma, expressando o desejo de ir visitá-los para conforto mútuo e para anunciar a mensagem do evangelho, a qual ele sintetiza nos versículos 1.16-17. Esses versículos determinam o tema central da epístola. Já os versículos 3.21-28 integram um bloco em que a tese apresentada em 1.16-17 é detalhada (Ricardo Rieth, PL XXV, p. 287). Portanto ambas as unidades de texto estão interligadas pelo mesmo enfoque. Entre elas encontram-se os versículos 1.18-3.20, nos quais o apóstolo discorre detidamente sobre a maldade do ser humano e sua necessidade da graça revelada em Cristo: “Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Não se sabe muito acerca das origens da comunidade de Roma. Possivelmente nasceu da mobilidade humana relacionada com a relevância estratégica e política da cidade. A autoria da carta como sendo de Paulo não sofre questionamentos por parte de exegetas. Sobre local e época de redação há grande unanimidade que Paulo escreve a Carta aos Romanos ao findar de suas atividades no oriente, tendo em vista o ocidente do Império Romano (Espanha). O local mais provável para o qual apontam alguns indícios é Corinto por volta de 56 d.C. Paulo estaria se preparando para ir a Jerusalém e de lá seguiria para Roma (Rm 15.2229). Nesse sentido, a carta teria um caráter de apresentação para dentro de uma realidade em que não era conhecido pessoalmente, como se fosse seu “cartão de visitas”. Romanos é a última carta de Paulo. Por isso uma espécie de “testamento paulino”. Sobre isso Lutero escreveu: “Parece que nessa epístola São Paulo quis fazer um resumo de toda a doutrina cristã e evangélica” (BSRL). De acordo com Brakemeier, Paulo está no dilema entre realizar seu trabalho evangelístico e ao mesmo tempo lidar cuidadosamente com a realidade da comunidade de Roma, não abusando de sua autoridade como apóstolo (p. 32). Paulo teria escrito numa fase de sua vida que poderia ser qualificada de “retrospecto” de suas atividades até então. Da mesma forma, trata-se de uma reafirmação de suas convicções em face de possíveis tensões mais à frente com gentílico-cristãos e judaico-cristãos.

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2.2 – Aproximação textual 1.16 – O apóstolo não se envergonha do evangelho. Dois enfoques importantes podem ser destacados aqui: a) ele não se envergonha da mensagem do evangelho, daquilo que o evangelho comunica, embora possa parecer loucura para muitos outros (ênfase em sua 1ª Carta aos Coríntios); b) ele igualmente não se envergonha de ser testemunha dessa mensagem. Sua visita a Roma acontecerá nessa condição de testemunha. Ele define o evangelho como poder proveniente de Deus com vistas à salvação de todas as pessoas. Inclusive menciona duas vertentes culturais diferentes para sinalizar a amplitude da salvação oferecida: judeus e gregos. Diferentes “linhagens”, diferentes horizontes religiosos e filosóficos, todos abarcados pela graça divina. Paulo aponta, assim, para o caráter inclusivo do amor de Deus. Ao afirmar que não se envergonha, o apóstolo proclama sua vinculação incondicional com o evangelho. Assim como o recebeu, dele dá testemunho. 1.17 – Neste versículo, Paulo amplia sua afirmação anterior relativa ao poder de Deus, lembrando que o mesmo se revela no evangelho, vinculando sua convicção com uma passagem do Antigo Testamento, segundo a qual fé é o que conduz a vida do “justo”. Aqui é oferecida a razão por que o evangelho é poder de Deus para a salvação de todos: porque é a justiça de Deus. Justiça entendida aqui no horizonte de relação e não como virtude. Trata-se de justiça no sentido forense e não distributivo. A justiça distributiva concede de acordo com o direito (incluindo aí o castigo). A justiça forense declara justo na perspectiva da disposição de quem o faz. Trata-se de uma justiça que vem de fora (Brakemeier, p. 38-40). Evangelho é essa declaração de justiça (boa nova) para além da questão de direito. E isso se recebe mediante a fé, não como condição, mas como consequência. 3.21-23 – A justiça de Deus foi manifesta sem lei. Com isso o apóstolo aponta para a novidade oferecida por Deus em Cristo mediante a gratuidade de sua justiça. Não uma justiça que retribui de acordo com os atos, mas uma justiça que oferta justificação mesmo sem merecimento. A relação com essa justiça dá-se mediante a fé em Jesus Cristo, e isso vale para todas as pessoas, pois, de acordo com o apóstolo, não há quem possa apresentar-se diante de Deus afirmando não precisar de sua aceitação. Afinal, a situação de afastamento afeta todos e todas. 3.24-25 – O ato de declarar justo é um ato gratuito, proferido por Deus com base na obra redentora de Jesus Cristo. Como mencionado já anteriormente, não é decorrência de direito. É decorrência de oferta, pois Jesus Cristo se tornou, por meio de seu sacrifício, caminho (meio) oferecido por Deus para a salvação das pessoas, ignorando inclusive a história pregressa de afastamento de Deus. 3.26-28 – A fé em Jesus Cristo, em cujo sofrimento Deus revela sua justiça, torna-se o elemento central da relação com Deus e o elemento central para que Deus declare as pessoas como justas. Isso elimina toda possibilidade de que as pessoas se orgulhem ou se vangloriem de si mesmas, de suas capacidades ou qualidades. Não podem construir sua esperança sobre a eventual satisfação da lei e, por conseguinte, realização de obras. O que vale é a lei da fé, o que leva o apóstolo a concluir que a justificação não vem de obras, mas da fé. Nesse sentido,

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fé é um aspecto relacional, oposto à tendência das pessoas de desejar depender de si mesmas. Os méritos de Cristo superam eventuais méritos humanos.

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Reflexões a partir do texto

Os versículos previstos para a pregação constituem um alicerce clássico da reflexão sobre a Reforma. Para Lutero, as inúmeras leituras desse trecho geraram inicialmente pavor e medo. A “redescoberta do evangelho” por ele experimentada tem forma e jeito de “broto novo” em tronco antigo. Na verdade, a mensagem sempre esteve lá. Mas a forma “viciada” de lê-la impedia novas visões. O evento da Reforma desencadeou um processo de libertação. Ou nas palavras de Lutero: “Então me senti como renascido e entrei pelos portões abertos do próprio paraíso. Aí toda a Escritura me mostrou uma face completamente diferente” (BSRL). A mensagem de Paulo é pesada. Pelo menos creio que é assim que muitos ouvirão esses versículos. Não só porque se trata de essência doutrinária (é como texto desacompanhado de imagem – exige mais abstração), mas porque provavelmente continuamos vivendo em uma sociedade que ainda não compreendeu efetivamente o significado do conceito de graça. A Reforma gerou mudanças e trouxe significativas novidades. Mas graça parece um conceito em desuso em tempos de estímulo à acirrada competitividade. “Fez por merecer? Então está bem! Não? Então corra atrás!” E isso não somente no denominado “mercado”. Em muitas pseudoigrejas calcificou-se a noção de sucesso, de bem-estar, de prosperidade, como fruto de “obrigação divina”. Afinal, se alguém crê, ora, segue caminhos de louvor espiritual e “paga para ver”, tem direito. A Deus cabe gratificar. Recentemente, em uma pregação televisiva, alguém bradava: “Não adianta colocar só o cartão de crédito na cestinha! Tem que mandar a senha junto! Depois não sabe por que Deus não retribui”. Teologia medieval em discurso midiático do século XXI. Libertação continua sendo necessária. Enfatizar a fé, a graça e a justificação que vêm de Deus não perdeu sua imprescindível atualidade. Trata-se da essência da qual sempre novamente corremos o risco de nos afastar. Razão pela qual sempre de novo a ela devemos ser reorientados. O que Paulo finca como alicerce no chão da vida cristã sintetiza-se assim para mim: Cristo é notícia de boa-nova. Através dele Deus coloca um divisor de águas na história. Salvação é presente embrulhado com três laços: 1) “Alivia o nosso lado”: não nos precisamos desesperar por causa de nossa própria incompetência em face da lei; 2) Convida-nos a nos deixar carregar. E isso nem é tão simples. O orgulho e a vaidade lutam contra isso; 3) Mas não nos isenta de zelar pelo bem com base na gratidão. Creio que é isso que Lutero quis expressar naquela citação na abertura deste estudo homilético. Brakemeier já apontava, na introdução de seu polígrafo sobre a Carta aos Romanos, para o fato de que muitas comunidades tinham “dificuldades em assimilar o evangelho que prega justiça libertadora de Deus” e corriam o risco constante de tornar-se vítimas de “outras teologias, mais cativantes e menos escandalosas” (p. 5). Dado nada novo. Mas sempre renovado na história do povo de

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Deus. Paulo – assim Brakemeier – com sua teologia fiel à mensagem evangélica permanece como espinho na carne da igreja. O conteúdo proposto pelo texto aponta para um processo de entrega, para um processo de devoção confiante a uma realidade “fora de nós”. Mas essa devoção confiante não isenta de desdobramentos éticos orientados na lei. Aí reside um conflito humano fundamental, e quiçá a maior dificuldade da teologia paulina e, por conseguinte, da Reforma. Carregamos a tendência ao “tudo ou nada”. Temos dificuldade com o exercício da simultaneidade da entrega e do envolvimento, da dependência e da dedicação. Não: “agir para receber”. Sim: agir por ter recebido. Essa é a chave. Paulo não se envergonha. Ao afirmar isso, pressupõe-se que envergonhar-se por causa do evangelho era uma realidade presente, possível. Os motivos poderiam ser vários. Na atualidade, creio que essa vergonha pode estar relacionada aos conflitos com a ciência; pode estar relacionada a uma aparente “ingenuidade” da fé em face do rigor metodológico do mercado, da tecnologia. Pode estar relacionada às virtudes para as quais convida, que destoam de princípios hedonistas e egocêntricos. Mas também pode estar relacionada à indignação gerada por leituras e práticas desvirtuadas do evangelho. Sei de muitos que já não se sentem à vontade para apresentar-se como “evangélicos”. Não se envergonhar envolve arcar com implicações decorrentes da convicção acerca do amor de Deus revelado em Cristo, o qual quer ter efeitos transformadores na realidade humana. Justiça não é somente o que se faz como justa retribuição àquilo que uma pessoa merece. Na lógica humana, é justo conceder medalha ao vencedor, assim como é justo penalizar quem não respeita direitos resguardados por lei. O texto de Romanos calca-se em outra noção de justiça. Não na justiça do mérito, mas na justiça da graça. Deus faz justo quem não merece. Essa “justificação”, esse ato de declarar justo, implica a necessidade de uma relação mediada pela confiança, pois o ser humano “é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (3.28).

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Elementos para pregação e celebração

Penso que encontramos algumas imagens para o culto nas colocações anteriores, seja para a pregação, seja para a dinamização da experiência comunitária. Como o conteúdo tem caráter e perfil doutrinário profundo, seria conveniente contrapor algum elemento de maior interatividade. a – O texto de Isaías oferece uma imagem concreta que permite uma boa comparação para ajudar na compreensão da justiça de Deus. A promessa de restauração de Jerusalém para além de suas próprias forças e o resgate de sua dignidade como ação transformadora de Deus podem ajudar a compreender o que Deus ofereceu em Cristo para a humanidade. A descrição que Paulo faz do ser humano em 1.18-3.20 é comparável à situação da Jerusalém arrasada. b – Em Gálatas, fala-se do risco de voltar a submeter-se ao jugo da lei (circuncisão). Paulo alerta: atos exteriores nada garantem. O que vale é o que vai marcado no coração e de lá brota para a vida. Comentário de Lutero a Romanos 3.28 (BSRL): “Deus julga conforme os propósitos do coração. Por isso também

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sua lei reivindica o fundo do coração e não se dá por satisfeita com obras. Ao contrário, ela pune aquelas obras que não vêm do fundo do coração por ser hipocrisia e mentira”. c – Salvação e justificação como presentes a serem desembrulhados. Nas reflexões, mencionei três laços. Talvez se possa inclusive lançar mão de um grande pacote de presentes como recurso visual e concreto. Cada laço, ao ser removido, apontaria para uma das ênfases mencionadas. Pessoas da comunidade poderiam participar sem grande preparação prévia. d – A afirmação de Paulo “Pois não me envergonho...” certamente poderia servir de base para uma breve encenação da mensagem do texto. Caso isso seja possível, poderia fornecer um “gancho” didático para ir colocando algumas ênfases relacionadas à proclamação da justificação por graça e fé. Obviamente, é preciso cuidar para evitar que tal encenação adquira um contorno legalista/dualista. Não se trata de contrapor erros e acertos. Trata-se de fortificar na comunidade a alegria de vivenciar convictamente a sua posição no mundo a partir do amor de Deus. e – A citação de Lutero no início permite igualmente uma encenação. Com certeza, as pessoas da comunidade compreenderão muito bem a ideia da dívida perdoada como sinal de gratuidade, de graça. O cuidado reside aqui em evitar que a mensagem foque excessivamente o aspecto material, financeiro. A imagem usada por Lutero apenas quer servir como meio ilustrativo. f – Numa liturgia de alguns anos atrás no contexto da IECLB (Espírito Santo), encontrei a proposta de utilização de um tronco com um broto novo como imagem para a redescoberta do evangelho, baseada na mensagem de Paulo por ocasião dos acontecimentos da Reforma. g – Na acolhida, poderia ser usada a palavra do Salmo 46.10: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra”. Neste dia da Reforma, somos convidados e convidadas a aquietar-nos diante de Deus, lembrando que no passado pessoas cumpriram um papel fundamental na redescoberta do evangelho, redescoberta essa que apontou justamente para isto: “Sabei que eu sou Deus, diz o Senhor”. Por isso nós o exaltamos e louvamos. h – A confissão de fé poderia ser proferida com palavras de Martim Lutero: Nós cremos todos num só Deus... (HPD 88; disponível na internet). i – Oração do dia: Deus de eterna bondade, tu agiste no passado através de servos e servas que não se calaram diante dos desvios de tua palavra, de tua vontade. Pelo teu Espírito moveste pessoas no caminho da redescoberta de teu evangelho. Hoje te louvamos sobretudo por tua ação através de teu servo Martim Lutero e dos demais que seguiram o mesmo caminho. Através dele e de outros reformadores colocaste sinais de resgate da mensagem do teu amor revelado em Jesus Cristo. Permite que a convicção do apóstolo Paulo de não se envergonhar de teu evangelho habite nosso coração e de lá faça brotar em nós, por gratidão, os frutos que te agradam. Amém.

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Dia da Reforma

Bibliografia BRAKEMEIER, G. Carta aos Romanos – 1 a 6. Série Exegese, volume 3, fascículo 1. São Leopoldo: Comissão de Publicações / Faculdade de Teologia da IECLB (dist. interna), 1982. CIL (coord). Pelo Evangelho de Cristo. Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Porto Alegre / São Leopoldo: Concórdia Editora / Editora Sinodal, 1984.

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PRÉDICA: ISAÍAS 35.1-10

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (DIA DE FINADOS)

MATEUS 22.23-33 1 CORÍNTIOS 15.12-20

02 NOV 2014

Roberto E. Zwetsch

Deus vem! O sertão vai virar mar!

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Introdução

A poesia é uma das mais conhecidas características da profecia desse profeta do século 8 a.C. Provavelmente nascido em Jerusalém e membro das classes mais abastadas, revelou-se um crítico severo da monarquia e dos pecados do povo, não se conformou com a hipocrisia piedosa dos que se apoiavam no templo e na religião, tornando-se assim um profeta que incomodava muitos em Jerusalém. Apesar de tudo, essa era a cidade amada por ele como a “eleita de Javé”, para a qual caminhariam mais tarde os exilados da Babilônia (35.10). O atual livro de Isaías é certamente resultado de um longo processo de redação, coleta de oráculos ou palavras proféticas que remonta a um exaustivo e paciente trabalho de muitos estudiosos da palavra de Deus ou da escola de Isaías. Os pesquisadores normalmente diferem entre si sobre a composição do livro, mas com segurança podemos encontrar três partes bem delimitadas nesse livro: a) os capítulos 1-39 (aí está inserido o capítulo 35 desta pregação); b) 40-55, conhecido como o Segundo Isaías, pois os textos supõem a experiência do exílio babilônico; c) 56-66, possivelmente um trabalho redacional que remonta a épocas distintas da história mais recente de Israel, mas que a vincula aos tempos históricos do profeta Isaías. Um pesquisador conclui de forma bem interessante essa história da redação ao afirmar que, apesar de todas as circunstâncias complicadas, o livro atual apresenta-nos uma mensagem coerente e instigadora, que chama à conversão, que implica mudança de vida e a prática da justiça e do direito. Isaías não se conforma com as injustiças, mas anuncia um Deus justo – que julga os governantes, destrói impérios, liberta os fracos – e também um Deus salvador, que traz esperança a partir de crianças (7.3; 8.3; 9.6s) e de um resto de povo vencido, exilado, mas que permaneceu fiel no meio da aflição e do desterro. Ao reler Isaías 35, não pude deixar de lembrar a profecia de Antônio Conselheiro, o líder leigo religioso do Movimento de Canudos no final do século 19 no sertão nordestino. Criticado e perseguido pelo império brasileiro, com apoio da igreja oficial, Conselheiro foi um profeta popular que apenas queria justiça e procurou levantar o ânimo de sua gente e insuflar nela uma réstia de esperança. É dele provavelmente a famosa frase-profecia: “O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”, muito ao estilo das profecias bíblicas, aí incluídas a de Isaías.

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21º Domingo após Pentecostes

2 Sobre o texto de Isaías 35 A linguagem é poética e traz a mensagem de uma visão de futuro envolta em figuras de grande expressividade. O deserto se alegrará, os lugares abandonados florescerão como os montes do Líbano, do Carmelo e o vale de Sarom, regiões conhecidas por sua fertilidade. Esses símbolos juntam-se ao motivo das águas que rebentarão no deserto, delas saindo ribeiros que anunciam abundância e nova vida para os que retornam de longe. A terra desolada voltará a produzir, porque os mananciais de água voltarão a regar os campos e a areia queimada pelo sol abrasador. No meio coloca-se outro sinal dessa renovação da vida e da esperança. Aos desalentados se dirá uma palavra: Sejam fortes, porque Deus vem! Não é preciso ter medo. Ele vem e vingará os que sofrem injustiça. Ele virá para salvar e resgatar. E, como consequência, os olhos dos cegos abrir-se-ão, e os ouvidos dos surdos ficarão desimpedidos. Coxos não apenas voltarão a andar, mas saltarão de alegria, enquanto os mudos não só voltarão a falar, mas cantarão como sinal de uma novidade radical. E tudo isso será possível porque se abrirá um caminho santo no meio da desolação, da destruição e do deserto. Um novo êxodo se anuncia: caminho de libertação pelo qual somente os resgatados caminharão. Esse caminho, porém, será vedado aos animais ferozes (diferente de Isaías 11) e aos impuros, aos que praticam o mal e a injustiça. Por fim, nessa visão extraordinária de salvação, os que retornam do exílio voltarão a habitar Sião – destruída que foi – para, quem sabe, reconstruí-la em alegria e gozo, afugentando a tristeza e o gemido dos sofredores. A meu ver, contudo, essa visão grandiosa só poderá ser bem compreendida se considerarmos que Isaías 35 deverá ser lido em conjunto com o capítulo 34, no qual temos o outro lado da moeda. Nesse, vemos estampada de forma cruel a matança de Edom, que é apresentada como terra incendiada e arruinada, habitada por animais selvagens e sem possibilidade alguma de restauração. Os símbolos do poder político e religioso foram aniquilados. O redator ainda exaspera o leitor ao afirmar que será necessário ler o “livro do Senhor” para entender as razões de tamanha destruição (34.16). A terra voltará a ser repartida entre algumas famílias, e somente no futuro haverá possibilidade de alguma vida habitável naquele lugar. Essa profecia – que talvez aponte para a futura queda da Babilônia (“Edom” seria então um símbolo) – não deixa de trazer uma palavra de esperança de recuperação de terras perdidas, a possibilidade de no futuro experimentar libertação. A mensagem de Isaías 35 talvez fique mais evidente se fizermos a comparação entre os dois capítulos: Edom (34)

Sião (35)

Terra calcinada/destruída Feras selvagens Grande matança Muitos cadáveres

Terra florescente/verdejante Ausência de animais selvagens Volta dos exilados/libertados Cura dos mutilados/libertação física

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21º Domingo após Pentecostes

Ninguém caminha pela terra Dia de ira e vingança

Caminho santo para os que retornam Vitória e alegria, fim da tristeza

Mas mesmo a visão de esperança que o capítulo 35 anuncia e comemora tem limites. Ela não se dá na cidade de Jerusalém, mas a caminho de Sião, em meio à marcha dos libertados, o que supõe a derradeira confiança no Libertador de Israel, o salvador de “seu povo”, o povo que se voltou para seu Deus e assumiu a dura caminhada de retorno à terra, à casa, ao país destruído. Essa volta exigirá constância e disposição para sair do conforto da opressão (ainda que ela seja terrível, é segura) para a insegurança da marcha pelo caminho da salvação. O texto surpreende ao afirmar que quem arriscar esse caminho não errará, nem mesmo o louco. A caminhada de libertação, por vezes, exige a disposição para fazer certas “loucuras” (o mesmo motivo temos em Paulo, cf. 1Co 1). Croatto chama a atenção para detalhes importantes: nessa cidade destruída pelos caldeus, o templo não é mencionado. Sião é apenas um lugar de libertação, o que significa que todo o trabalho de reconstrução ainda está por ser feito. E Javé voltará a ocupá-la junto com seus adoradores. As metáforas estão ligadas à transformação da natureza, que, como as pessoas, expressa sentimentos de alegria e júbilo por sentir-se restaurada pela profusão das águas. Até parece que a natureza se antecipa à salvação que o povo-resto irá experimentar. Outro detalhe importante: os destinatários da mensagem não são os líderes do povo, mas são justamente os portadores de deficiências; os v. 5-6 mencionam cegos, surdos, coxos, mudos, pessoas que, impedidas por alguma deficiência, expressarão a salvação que Javé está para desencadear. E o que se vê nessas pessoas especiais é a alegria da libertação. Não se trata de milagres extraordinários, mas antes o fato de que justamente as pessoas mais frágeis e desqualificadas é que anunciam um novo tempo. Nos v. 6-7, os pares de figuras deserto/alegria e deserto/água apontam para uma nova era de vida, em que a terra será fértil e produzirá fruto abundante. A vinda de Javé (ele vem do futuro para o presente) acontece em meio a uma grande marcha dos resgatados, dos que confiaram nele e na força da vida, apesar de toda a realidade de opressão, miséria, abandono e destruição. Os que voltam devem preparar-se assim para uma grande festa de libertação (o mesmo motivo reaparece em 51.11). Essa visão traz consolo, ânimo, renova as forças, fortalece as mãos frouxas, firma os joelhos dos que vacilam, levanta os desalentados de coração, alma e espírito (v. 3-4). A frase final do v. 10 encontra sua sequência natural no cap. 40.1, em que um novo bloco do livro de Isaías inicia. Mas no meio foram inseridos textos históricos que remetem a outras experiências do povo de Israel (36-39).

3 A caminho da prédica Imagino que a pregação desse capítulo de Isaías trará muita alegria ao pregador ou pregadora. Pois sempre é melhor anunciar salvação do que destruição e desolação. Mas penso que o desafio está justamente aí: a mensagem de salvação

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só faz sentido se temos claro a que ela se refere, a que situação ela responde com metáforas belíssimas de uma natureza renovada e preservada e com o anúncio de um caminho novo, santo e bom no meio do deserto da injustiça e da desigualdade que humilha e faz sofrer. Proponho que se faça um exercício duplo como desafio à comunidade. Primeiro, olhar para a nossa realidade e tentar descrevê-la da forma mais crua possível. Estou escrevendo este auxílio homilético em meio às maiores manifestações populares que o Brasil já viu desde a Campanha das Diretas Já (1984) e do Fora Collor (1992). Algo novo começa a ser forjado em nosso país a partir da mobilização do povo nas ruas, de gente de muitos segmentos sociais, com predominância de jovens e estudantes, mas também com a presença de aposentados, pessoas idosas, famílias inteiras com crianças e até bebês de peito (!), engravatados e mesmo funcionários públicos. A indignação contra uma série de desmandos, injustiças, malversação de recursos públicos, privilégios inconcebíveis numa sociedade democrática é apresentada em faixas, cartazes escritos à mão (na era da informática), de modo que os governantes ficaram atônitos, sem entender o que se passa. Suas respostas até o momento são pontuais e nem de longe respondem a tudo o que as ruas começam a proclamar e a exigir, pacificamente ou, em muitos caos, destrutivamente (com depredações, incêndios e até invasão e roubos criminosos). Mas, mesmo nesses casos, é preciso interpretar a que vem esse ódio refreado e que, ao ser expresso, vem com fúria incontrolável. Então, reler o capítulo 35 de Isaías e perguntar-se: como pregar sobre uma visão que anuncia * “o deserto e a terra se alegrarão, e o ermo exultará e florescerá como o narciso”; * “fortalecei as mãos frouxas e firmai os joelhos que vacilam”; * dizendo aos desalentados: “Sede fortes, não tenham medo”? Será muito importante apontar como é que “Deus vem”. Ele não vem como um general para conquistar a cidade arrasada, nem vem como um justiceiro para vingar todo sangue inocente. Entendo que sua “vingança” e sua “retribuição” terão outra conotação. Por isso o júbilo incontido no texto, a alegria que transparece já desde a renovação do “deserto” e dos lugares destruídos, desde a natureza comprometida pela obra humana e o lugar do desconsolo dos abatidos e vencidos pela sanha dos poderosos. A força de Javé, Deus libertador, mostra-se desde “baixo”, desde os cansados e sem força, desde os cegos pelo brilho de uma sociedade desigual e corrupta, desde os ouvidos fechados dos que sofreram sob as bombas e as máquinas que matam, desde os emudecidos porque jamais foram ouvidos (Deus, porém, escuta o clamor dessas pessoas humildes e desgarradas), desde os privados do direito de caminhar, de ir e vir, reservado apenas aos que mandam, aos que governam e apropriam-se da cidade até que ela fique deserta e sem vida. É a partir dessas pessoas, desses grupos e comunidades aparentemente sem força alguma que Deus vem e salva. Ele abre um caminho no meio da apatia e do isolamento e restabelece as condições da luta histórica, da marcha para a liberdade. Esta mensagem precisa ser anunciada aos quatro ventos: Deus vem! O

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sertão vai virar mar! Nenhuma opressão é absoluta, nenhuma cidade permanece para sempre sob o domínio da injustiça e da desfaçatez. Deus vem e salvará seu povo faminto, cego, sofrido. Deus abrirá os olhos e os ouvidos de sua gente, levantará os enfraquecidos e que não podem andar. Como o próprio Isaías profetizou (25.8): “Tragará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a terra a ignomínia, a desonra do seu povo, porque o Senhor falou”. É por isso que, no dia em que lembramos a memória de nossos queridos já falecidos, podemos ter esperança. Porque Deus é Deus de vivos e não de mortos. Ele irá resgatar também da morte aqueles que já partiram na justa esperança da ressurreição. O mesmo Isaías é quem afirma: “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me dá prazer e prosperará para o que a designei” (55.11).

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Subsídios litúrgicos

Hinos: HPD 2, 441 – Um pouco além do presente; HPD 2, 310 – Da cepa brotou a rama; HPD 2, 316 – Semente de libertação; HPD 2, 336 – Quando o povo se reúne. Oração: Senhor, Deus Misericordioso, quando estamos tristes, tu nos levantas e descortinas o horizonte da liberdade e da alegria. Quando fraquejamos na fé e na solidariedade, tu vens e nos acordas do sono da tranquilidade infeliz. Quando somos lentos para agir, tu nos chegas por meio das ruas que clamam por justiça, direito e solução. Ah, ó Deus de amor e paixão, quando vamos aprender a ouvir a tua palavra, que nos vem na hora certa e na hora incerta, na celebração do culto e nas fainas da vida, nos sonhos e na desdita? Ajuda-nos a compreender o teu evangelho e a tua profecia. E não nos deixes acomodados. Por amor de teu Filho Jesus, na unidade do Espírito Santo. Amém. Símbolo: Talvez o texto sugira colocar na frente da comunidade um caminho com muitas flores e ramos verdes, caminho que leve para uma fonte de água pura, símbolo de uma nova cidade e uma nova vida. Na frente do caminho, colocar um cartaz: Deus vem e chama a gente para ir com ele no caminho santo da justiça e do direito!

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías. A palavra profética e sua releitura hermenêutica. V. I: 1-39. Trad. Jaime A. Clasen. São Paulo: Vozes, Imprensa Metodista, Sinodal, 1989. MOSCONI, Luís. Profetas da Bíblia. Gente de fé e de luta. 3. ed. São Leopoldo: CEBI, 1998.

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SICRE, José Luís. Profetismo em Israel. O profeta, os profetas, a mensagem. Trad. João Luís Baraúna. Petrópolis: Vozes, 1996.

22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES MATEUS 25.1-13 AMÓS 5.18-24 1 TESSALONICENSES 4.13-18

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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 5.1-11

23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 16 NOV 2014

JUÍZES 4.1-7 MATEUS 25.14-30

Scheila Janke

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Introdução

O texto bíblico para a pregação no 23º Domingo após Pentecostes é bastante intrigante, pois a preocupação das pessoas quanto à vinda do Senhor e ao fim do mundo está muito presente no imaginário popular, principalmente com o surgimento de um grande segmento de igrejas pentecostais e neopentecostais que dão muita ênfase a esse tema. 1 Tessalonicenses 5.1-11 fala da necessidade de permanecer sóbrio e vigilante para não ser surpreendido ao chegar o Dia do Senhor. O texto menciona as armas a serem utilizadas durante esse tempo de vigilância e sobriedade: a couraça da fé e do amor e, como capacete, a esperança da salvação. É mencionada ainda a necessidade de que os cristãos e cristãs se consolem, edificando-se e fortalecendo-se mutuamente. A perícope de Juízes 4.1-7 mostra que o povo de Deus “fez o que era mau perante o Senhor”. Pela falta de vigilância e sobriedade, o povo acabou afastando-se de Deus e, como resultado disso, acabou entregue nas mãos do rei de Canaã. Quando, porém, o povo clama humildemente ao Senhor por ajuda, demonstrando com isso sabedoria e temor ao Senhor, o inimigo acaba por ser entregue nas mãos de Baraque. A parábola dos talentos de Mateus 25.14-30 fala do senhor que, ausentando-se do país e confiando seus bens a três de seus servos, volta repentinamente para ajustar as contas com os mesmos. Tentando traçar um paralelo entre os textos, poderíamos comparar a volta repentina do senhor à vinda repentina do Dia do Senhor. Além disso, faltou sobriedade ao terceiro empregado para controlar seu medo e uma correta vigilância: para não ter que vigiar constantemente o talento que tanto temia perder, o empregado enterra-o.

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Exegese

Na comunidade de Tessalônica, surgiram certas dúvidas e inquietações ocasionadas pela morte repentina de alguns membros. As pessoas não sabiam se esses membros teriam parte na parusia. Além disso, havia muitas dúvidas sobre como seria o Dia do Senhor, ao que o apóstolo responde dizendo que importa estar preparado e vigilante, acordado e sóbrio. Isso não significava ficar esperando sinais da parusia, mas viver de modo apropriado à nova vida que Cristo inaugurou. Aqui vigilância significa estar desperto e cumprir o dever cristão, pois

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cristãos e cristãs sinceros não procuram sinais, mas continuam firmes na fé e no amor. No entanto, a igreja primitiva esperava a parusia para seus dias. Por isso as instruções eram vitais, com aplicação direta e imediata na vida das pessoas. A retirada apressada de Paulo de Tessalônica por causa da perseguição não permitiu que ele firmasse a comunidade cristã ali como desejava. Paulo havia ensinado algumas doutrinas, como a da parusia ou segunda vinda de Cristo, causando na comunidade um grande interesse. Mas não teve tempo de desviá-la completamente dos vícios pagãos. Por isso ele envia Timóteo e escreve essa carta. Como os tessalonicenses estavam sendo perseguidos, Paulo temia que as pessoas se desviassem de Cristo. V. 1 – Por trás da pergunta sobre o Dia do Senhor podemos encontrar uma preocupação acerca da participação no encontro com o Senhor: como as pessoas não sabiam quando esse dia chegaria, não tinham certeza de que estavam devidamente preparadas. Surge a ansiedade de saber quando tudo aconteceria para que pudessem preparar-se corretamente. Provavelmente, a comunidade esperava um sinal, mas não havia nada para responder-lhes quanto a isso. O termo tempos parece indicar os estágios do desenvolvimento escatológico, uma era com um desígnio de Deus. Tempo chronos indica uma medida de tempo. Épocas seriam as eras específicas durante as quais Deus leva a efeito seus propósitos, um período dentro do tempo. Época kairós é um período específico durante o qual uma obra de Deus é realizada. Há intervenções especiais de Deus em determinados momentos da história. Quando todos esses tempos tiverem exercido seus efeitos, terá início a plenitude dos tempos. V. 2 – Dia do Senhor refere-se ao momento no qual Deus agiria para estabelecer sua vontade. É considerado um dia de julgamento, de salvação, tempo do fim. Jesus falava do Dia do Filho do Homem (Mt 24.27,37,39). Paulo já havia dado instruções sobre o Dia do Senhor, pois afirma que estão inteirados sobre o assunto. Mas ele lembra que este dia virá como ladrão, de noite. O ladrão vem quando não é esperado e pega a família de surpresa. A comparação pode fazer entender que este dia não será bem acolhido. Será tão repentino e mal recebido como é um ladrão, pois é dia de julgamento. Paulo não tentou delimitar o tempo de sua chegada, mesmo que também esperasse tal dia para breve. Cristo virá inesperadamente, surpreendendo muitos. Na igreja antiga, havia uma tradição que afirmava que a vinda de Cristo aconteceria em uma noite na véspera da Páscoa, meia-noite, à semelhança do dia em que o anjo destruidor passou pelas habitações no Egito (Êx 12). Por isso organizavam vigílias nessa noite. V. 3 – Paulo refere-se ao mundo pecaminoso que acha que nada lhe vai acontecer (2Pe 3.3s). Nesse momento, quando se disser “paz e segurança”, sobrevirá a destruição. O aspecto repentino é ressaltado quando Paulo compara esse dia às dores de parto, o que expressa dor e agonia. Essas dores não vêm com aviso, e de nenhum modo se pode escapar delas. Assim o julgamento é inevitável e não há como escapar dele. Mas essas dores trarão uma nova era. A dor do parto é grande, mas a chegada de uma criança traz alegria. Assim a dor que causa tristeza e sofrimento se transforma em alegria e riso.

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V. 4 – Para os irmãos e irmãs, não será tempo de trevas, que os surpreenderá. Os que vivem na luz fazem o que agrada a Deus, não vivem nas trevas do pecado. O Dia do Senhor para eles não virá como ladrão, mas como amigo, trazendo salvação. Paulo quer assegurar aos irmãos e irmãs que eles estão prontos para este dia. Os crentes não serão apanhados de surpresa. Os que rejeitam Cristo são como os que dormem em noite perigosa e não atentam ao perigo que os rodeia, mas certamente os alcançará. Os crentes perceberão a aproximação do perigo. Como o assalto do ladrão, os iníquos serão surpreendidos no ato de suas impiedades; seu mal será revelado, pois suas obras mostrarão quem são. V. 5 – Quem crê em Cristo é filho e filha da luz e vai adquirindo a natureza de Cristo. O Dia do Senhor traz salvação aos que não estão nas trevas. Para Paulo, o Dia do Senhor não surpreenderá nem prejudicará os crentes, pois eles não estão mais nas trevas; estão na luz e vivem na luz do evangelho. Essa transformação exige que agora vivam uma vida santificada. Trevas refere-se ao mundo maligno e às condições em que viviam os gentios. A salvação divina está para vir em plenitude, mas já veio, e o povo de Deus pode desfrutar disso pela fé. V. 6 – Importa estar pronto para o Dia do Senhor, que pode vir a qualquer momento. Mesmo que Paulo assegure que os crentes são como filhos e filhas da luz, não deixa de exortá-los a continuar sendo o que são. Eles não devem recair no estado dos filhos e filhas da noite. Sono aqui se refere ao estado em que a pessoa está espiritualmente inconsciente e insensível ao chamado de Deus. Os cristãos e cristãs precisam vigiar e não recair no sono do qual já foram despertados. Precisam estar prontos para não ser pegos desprevenidos, vivendo uma vida que os desqualifique de compartilhar a salvação. É preciso estar sóbrio, não alcoolizado, bem equilibrado e autocontrolado, evitando todo tipo de excesso. Dormir é uma metáfora da vida espiritual indiferente, da preferência pelas trevas e seus feitos, de insensibilidade ou oposição à luz. Tais pessoas não conhecem Cristo, são preguiçosas diante de seus deveres, contentam-se com os aspectos externos da religião, não se preocupam com seus pecados e são indiferentes à vinda do Senhor. Os crentes são chamados a estar bem despertos e vigilantes, aguardando o retorno de Cristo com uma vida que lhe é agradável. Paulo conclama-os a abandonar os hábitos pagãos e a levar uma vida espiritual séria. O perfeito autocontrole é necessário para uma vigilância séria. V. 7 – Sono, devassidão, excessos e embriaguez estão associados com a noite. Estar alcoolizado significa desatenção, lerdeza e falta de atenção, o que encoraja os excessos. Paulo fala aqui da antítese noite e dia. A parusia é uma forte luz que nos quer despertar do sono, fazendo-nos rejeitar as obras que caracterizam a sonolência espiritual e a boemia. Somente sob a luz de Cristo essas coisas são vencidas. V. 8 – Como os cristãos e as cristãs são do dia, precisam estar sóbrios. São como soldados que precisam usar uma armadura apropriada à batalha que estão enfrentando. O verbo revestindo-nos é geralmente compreendido como referência a um ato que coincide com a adoção de uma atitude sóbria. Vigilância e sobriedade não são suficientes; é preciso armar-se para a batalha, nada cedendo ao inimigo. Fé e amor são as qualidades que os crentes devem demonstrar a Deus

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e ao próximo, e a esperança da salvação é a garantia para perseverar apesar das dificuldades. Os crentes têm a esperança da salvação para encorajá-los na vigilância. Paulo recomenda o peitoral da fé e do amor, as duas virtudes cristãs mais exaltadas, e o capacete da esperança como proteção. Ele enfatiza a necessidade de seriedade, disciplina, preparação, luta, dedicação e obediência ao Senhor. A couraça protegia os órgãos vitais (coração e pulmões) para que, apesar de golpes severos, a pessoa não sofresse dano e pudesse continuar combatendo sem preocupação. Assim, a fé e o amor são qualidades espirituais que oferecem a devida proteção, com as quais podemos combater o mal. O capacete protegia a cabeça, o cérebro, a fonte de orientação do corpo, o instrumento de pensamento e da decisão. Assim, a esperança da salvação protege a pessoa do mal, tornando-a inteligente, inspirando-a para o bem e conduzindo-a à vitória. “Com a cabeça e o coração corretos, o homem inteiro andará direito” (Edmundo). V. 9 – Deus tem um propósito para os crentes: “Deus destinou-nos a alcançar a salvação”. A salvação depende de Deus; ela acontece por meio de Cristo, do que Ele já fez por nós, não do que nós podemos fazer, mas Paulo os exorta a continuar firmes e a perseverar porque a intenção de Deus é a salvação. Essa é a base para que eles vivam na esperança. O vocábulo ira refere-se a julgamento, contrastando com salvação. Cristo livra-nos da ira de Deus. Nós fomos escolhidos para obter salvação por meio de Cristo, nosso Salvador. V. 10 – A razão por que os crentes podem aguardar a salvação é que Cristo morreu por eles. Se Ele não tivesse morrido, estariam destinados à ira. Mas sua morte livrou-os da ira divina. Jesus compartilha de nossa morte para que compartilhemos de sua vida ressurreta. O conteúdo da salvação futura é a vida com Jesus. A esperança da vida com Cristo é para todas as pessoas, quer vigiemos, quer durmamos. Neste versículo, dormir significa morte. Se vai haver vida com Cristo para os que dormem, pressupõe-se a ressurreição. Na comunidade de Tessalônica, alguns achavam que os crentes falecidos antes da volta de Cristo receberiam uma salvação inferior. Outros acreditavam que a morte era o fim da vida física e da própria esperança. Paulo tenta corrigir tais opiniões. A morte de Cristo garante que participaremos de tudo o que sua morte significa: a destruição da velha natureza e a nova vida para Deus. Os que estiverem vivos e vigiando quando Cristo voltar entrarão diretamente na vida eterna. Os crentes que faleceram antes da vinda de Cristo não perderão esses benefícios. A esperança cristã permeia todas as dimensões, tanto dos vivos como dos mortos. V. 11 – Paulo está certo de que os crentes realmente vigiarão e não serão pegos pelo improviso. Paulo exorta: Consolai-vos. É necessário fortalecer a fé para que os crentes não desanimem e nem se descuidem espiritualmente. Edificai-vos é usado em sentido metafórico de edificação espiritual, de ajuda ao próximo em sua vida espiritual, para que nele o Espírito de Deus possa habitar. Significa ainda beneficiar, fortalecer, confirmar. Os membros são edificados, e assim a igreja é edificada. O crente é edificado pelo encorajamento de outros. É bom que cada qual se fortaleça, mas a igreja existe para haver edificação e fortalecimento mútuos. A vida espiritual é uma vida em comunidade e não uma busca individual por Deus, pois toda a igreja será glorificada em Cristo. O progresso ou o fracasso

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espiritual de um membro podem contribuir para o progresso ou o fracasso do corpo todo.

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Meditação

Muitas pessoas tentaram, através dos tempos, fazer previsões e cálculos sobre o Dia do Senhor. Há muitas especulações sobre como será este dia e sobre quando chegará. E, como os crentes da comunidade de Tessalônica, muitas pessoas e comunidades cristãs esperam a chegada deste dia para breve. Alguns inclusive tentam preparar-se para este dia construindo refúgios, comunidades isoladas e protegidas do mundo, armazenando até mesmo alimentos, roupas e artigos de primeira necessidade para subsistir após este dia. O Dia do Senhor está bastante vinculado à ideia do fim do mundo. Paulo, por sua vez, fala de um preparo diferente. Apesar de provavelmente também ter aguardado o Dia do Senhor, acreditando que viria logo, ele não se preocupa em fazer predições, cálculos ou especulações. Paulo segue a tradição de Jesus (Mt 24.36-44): ninguém sabe “a respeito daquele dia e hora” e “se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria...”. O Dia do Senhor virá como ladrão. E como uma mulher, no caso de parto normal, não tem como saber quando exatamente virão as dores, mesmo sabendo que elas virão e logo serão esquecidas por causa da alegria pela chegada de uma nova vida, assim também não temos como saber quando virá este dia, mesmo que pela fé saibamos de sua chegada, trazendo-nos a alegria da salvação. Paulo então exorta sua comunidade e a nós a viver como filhos e filhas da luz. Ele nos conclama a preparar-nos para este dia com vigilância e sobriedade, pois ele pode chegar a qualquer momento. E eu acredito que aqui está a nossa maior dificuldade: nós preferiríamos saber o dia exato para poder aproveitar até o último momento. Não saber quando será implica vigilância e sobriedade constantes, o que é muito difícil no mundo cheio de ofertas, festas, excessos, permissividade e indiferença para com uma vivência de fé não apenas nominal, como membro no fichário da comunidade, mas de fato engajada, sóbria, vigilante e comprometida. É mais conveniente sabermos quando será o Dia do Senhor porque estamos acostumados a deixar tudo para a última hora. Além disso, como vivemos numa sociedade imediatista, queremos que tudo aconteça agora, porque não temos paciência para esperar. Ao mesmo tempo, vivemos num mundo extremamente individualista, no qual as pessoas querem viver sua vida e sua fé de forma isolada, individualista, de preferência na comodidade do lar. Mas Paulo nos exorta a “nos revestir da couraça da fé e do amor”, a viver unidos em comunidade, auxiliando, consolando, edificando uns aos outros. Também somos exortados a “tomar como capacete a esperança da salvação”. E conforme Romanos 8.24s: “Na esperança fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança, pois o que alguém vê, como o espera? Mas se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos”. Somos desafiados a esperar, com paciência, certos de que Deus concede salvação por meio de Cristo.

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Por mais que seja difícil pregar sobre esse texto, já que no meio de tanta indefinição, espera, para alguns surpresa, somos chamados a continuar esperando, crendo, vivendo em amor, vigiando, vivendo sem excessos e consolando e edificando uns aos outros. É consolador saber que Deus nos destinou para a salvação e que, quer vigiemos ou durmamos, “somos do Senhor” (Rm 14.8). É consolador poder ter a esperança da vida eterna, mesmo que o Dia do Senhor não venha em breve. É consolador saber que a salvação já nos foi dada por meio da morte e ressurreição de Cristo por nós. É confortador poder saber que Deus já nos tirou das trevas, trazendo-nos para a sua luz, tornando-nos filhos e filhas da luz. Que assim possamos aguardar vigilantes e sóbrios a chegada do Dia do Senhor para o momento que Ele sabiamente determinar. Que enfrentemos a dura batalha, as tentações, as trevas e este mundo cheio de excessos e descompromissos com a vida espiritual com fé, esperança e amor, consolando-nos e edificando-nos, mantendo-nos firmes no evangelho e na esperança da salvação.

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Imagens para a prédica

O texto em si oferece algumas imagens que podem ser usadas: Em comunidades com grupos de teatro, poder-se-ia encenar a ocasião em que um ladrão assalta uma casa. Assim a comunidade seria estimulada a refletir sobre o Dia do Senhor, que chega inesperadamente. A prédica também poderia iniciar com o exemplo de alguém que já foi assaltado, já que, infelizmente, essa realidade faz parte do cotidiano de muitas de nossas cidades. Outra sugestão seria enfocar o aspecto das dores do parto, imprevisíveis, das quais a mulher não pode escapar, e a alegria posterior, que faz com que as dores nem sejam mais lembradas. Assim o Dia do Senhor, com o qual terá início o julgamento, trará a alegria da salvação. Seria significativo enfatizar que a salvação nos é dada pelo que Cristo já fez por nós, ou seja, ela não depende de nós, não depende de nossas obras nem de qualquer coisa que possamos fazer. A salvação é graça de Deus. Mas nós somos chamados a viver com alegria essa certeza, não com a alegria momentânea, passageira, vazia e tantas vezes sem sentido deste mundo cheio de excessos, bebedeiras, festas. Somos chamados a viver a alegria verdadeira de saber que somos filhos e filhas de Deus, que nos escolheu e nos destinou para a salvação e para a vida eterna, uma alegria totalmente diferente, cheia de sentido, confortadora, animadora e encorajadora. Outra possibilidade seria, no final da mensagem ou também no final do culto, desafiar a comunidade a continuar andando como filhos e filhas da luz. Para isso, as pessoas poderiam receber uma vela. Essas velas seriam acendidas umas nas outras, ressaltando a necessidade do consolar-se e edificar-se mutuamente. Aqui seria importante ressaltar o aspecto comunitário da vida espiritual, pois ninguém é suficientemente forte para manter-se firme sozinho. Todos nós precisamos uns dos outros para continuar firmes na fé e perseverantes na esperança.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Querido e amado Deus, pedimos perdão por nossa falta de confiança em tuas promessas. Pedimos perdão quando tentamos predizer, calcular e especular sobre o Dia do Senhor, esquecendo-nos de preparar-nos de forma compromissada, vigilante e sóbria. Pedimos perdão quando somos imediatistas, impacientes, querendo que tudo aconteça de acordo com nossa vontade, não com a tua. Pedimos perdão quando somos individualistas e achamos que podemos viver nossa fé sem comunhão e amor entre irmãos e irmãs. Pedimos perdão quando caímos na tentação de viver nas trevas, nos excessos do mundo ou quando somos preguiçosos e deixamos de edificar nossa comunidade com nossos dons. Perdão, Senhor, perdão! Uma sugestão de hino antes da prédica: 107 do HPD 1. Como preparação para a confissão de pecados: 409 do HPD 2. Antes da oração de intercessão: 423 ou 427 do HPD 2. Outros hinos: 159, 118, 210, 229, 281 do HPD 1; 457, 463, 478 do HPD 2.

Bibliografia CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. V. 5. São Paulo: Candeia, 1995. MARSHALL, I. Howard. I e II Tessalonicenses: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1993.

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24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (CRISTO REI)

PRÉDICA: EZEQUIEL 34.11-16,20-24 MATEUS 25.31-46 EFÉSIOS 1.15-23

23 NOV 2014

Cláudio Kupka

1

Introdução

O Domingo Cristo Rei aponta para a realeza de Cristo sobre todo o universo. Nesse sentido, todos os textos são, em boa medida, harmônicos. O texto de Ezequiel 34.11-16,20-24 ressalta a postura “pastoral” de Deus e seu compromisso com o resgate e o cuidado de suas “ovelhas”. Ele também é o juiz que conhece as ovelhas que fazem parte de seu rebanho. Mateus 25.31-46, o conhecido texto sobre o Grande Julgamento, revela Jesus como pastor e juiz. O texto enfatiza não somente os critérios do julgamento de Cristo, como expressa a mesma intimidade e o cuidado com seu fiel rebanho. As ovelhas da direita compartilharão de sua companhia em seu Reino eterno quando, ao praticar misericórdia para com os sofridos, sem saber o faziam ao próprio Cristo. Mateus aprofunda justamente o conteúdo de Ezequiel 34.20-24. Efésios 1.15-23, além de definir belissimamente o papel do Espírito Santo, afirma que o poder de Deus manifestou-se em Cristo não só vencendo a morte, mas fazendo-o sentar à direita do Pai em seu Reino, dando-lhe todo o poder sobre a igreja e toda a criação restaurada. O Tempo Comum termina no Último Domingo após Pentecostes, o qual é chamado de Cristo Rei. A festa de Cristo Rei pode ser ocasião para aprofundar a verdade essencial da fé e revalorizar o conteúdo da realeza de Cristo. Cristo é rei para criar um povo real, livre de qualquer escravidão humana. A realeza de Cristo é universal e tem um poder real sobre tudo e todos. Jesus Cristo é rei, porque é o único mediador da salvação de toda a criação (Weimer).

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Exegese

Não me pretendo deter no contexto histórico de Israel nem na apresentação de Ezequiel como profeta e sua obra literária. Meus antecessores na abordagem de Ezequiel fizeram-no de forma exemplar (PL 24, p. 328-333; PL 35, p. 363369). Farei referência a esses contextos à medida que forem relevantes para a análise da perícope. O capítulo 34 de Ezequiel é inteiramente construído sobre a metáfora da relação entre o pastor e suas ovelhas. Ela é amplamente usada no Antigo Testamento (Sl 23; 2Cr 18.16), inclusive no contexto profético (Jr 23.1-6; 50.6-7; Zc 10.2). A metáfora é usada para enfatizar a relação de Deus com seu povo e a dos

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líderes com o povo de Israel. Liderar o povo é pastorear. Há, portanto, uma clara referência ao cuidado na arte de liderar, que provém da relação de cuidado e amor do próprio Deus com seu povo. Os versículos em questão são antecedidos por uma perícope que enfatiza que Deus destituirá os maus pastores de seus cargos, um claro anúncio de juízo. Os v. 11-16 voltam-se para o futuro na forma de um anúncio de salvação, cheio de poesia e esperança. Esses versículos subdividem-se em três partes. A primeira parte (v. 11-13a) descreve a ação libertadora de Deus. Ele próprio assume a tarefa do pastor que resgata suas ovelhas perdidas, dispersas e escravizadas. Há uma clara referência ao quadro resultante do exílio, nesse caso babilônico. Judá e sua capital Jerusalém são destruídas fisicamente, e toda a sua organização político-social é igualmente anulada. A liderança do povo é cruelmente levada à Babilônia num penoso e forçado exílio. Essas pessoas são obrigadas a mudar de trabalho, e muitas sofrem horrivelmente nesse processo. O pastor supremo sabe de sua dor, ouve seu clamor e anuncia através de Ezequiel o seu resgate. A ideia de intimidade e compromisso de vida desse pastor transparece no ato de procura por cada ovelha extraviada. Nenhuma é esquecida. A segunda parte (v. 13b-15) descreve as ações curadoras e restauradoras resultantes da ação inicial. O pastor restaura a condição de dignidade e saúde de suas ovelhas. Ele traz suas ovelhas para seu lugar de origem. Voltar para casa talvez seja a ação que melhor resuma a esperança salvífica de Israel. Os montes, as águas e os pastos traduzem não somente o significado do aconchego e da proteção da terra natal, como o suprimento das necessidades físicas dessas ovelhas. Tanto as necessidades simbólicas como físicas são alvo desse cuidado pastoral. O v. 15 reforça o envolvimento pessoal de Deus. Não há intermediários – o próprio Deus cuidará de cada ovelha. Nessa relação restaurada de pastor cuidador e ovelha cuidada há alimento e descanso. Destaco como terceira parte o v. 16, porque encerra em si um resumo da ação divina na forma de poesia. Nela são incluídos novos elementos na compreensão da realidade de sofrimento das ovelhas, que nos prepara inclusive para compreender melhor o conteúdo da perícope final (v. 20-24). Além de destacar a busca das ovelhas perdidas, incluem-se as desgarradas, as quebradas e as enfermas. Há uma indicação das diferentes experiências de sofrimento resultantes desse grande e complexo cenário que o exílio representou. Sofrimentos impostos às ovelhas e sofrimentos resultantes de suas escolhas erradas. O elemento novo nesse versículo é a referência à destruição das ovelhas gordas e fortes e ao ato de “apascentar/alimentar com justiça”, ou seja, há necessidade de restabelecer a justiça de Deus na relação entre elas. Esse aspecto aponta para uma dimensão diferente da explorada nos v. 11-15: fala-se agora mais do que de um pastor “disciplinador” de ovelhas em conflito; fala-se agora de um juiz. Os v. 20-22 revelam por que as ovelhas gordas e fortes são preteridas. Elas oprimem as mais fracas. Há uma clara referência aos líderes do povo de Israel. Em vez de ser solidários com os sofridos, usurpam privilégios à custa dos mais fracos.

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Os v. 23-24 revelam a culminância da ação de justiça de Deus, ou seja, o restabelecimento de um pastor, à semelhança de Davi, o único rei de Israel ao qual se aplicou o título de pastor. O v. 24 encerra a perícope afirmando essa relação de soberania e confiança sobre seu servo: Davi, o príncipe. Há um claro sonho de restauração da relação de Deus com seu povo. Há uma clara referência à necessidade histórica de líderes que nele confiassem e que cumprissem seu papel de cuidadores do povo. Ao falharem esses líderes, entregaram o povo ao sofrimento e à destruição. Nessa profecia, no contexto de total fracasso desses líderes e precariedade, Deus próprio interfere e age para salvar suas ovelhas e restaurar a sorte de Israel, sem perder a ideia de contar com mediadores de seu projeto pastoral, que agem segundo seu coração.

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Meditação

a – Por um bom tempo, creio ser relevante a discussão se este domingo deve privilegiar o tema da perda dos entes queridos, dada a recente prática de celebrar neste dia o Domingo da Eternidade. Mesmo que celebrações de Finados tenham atraído esse tema para si, ainda permanece a tradição anterior em algumas comunidades. A crescente ênfase na celebração do Domingo Cristo Rei não exclui necessariamente a vinculação desse com o tema anterior. Digo isso porque os textos da série A do Domingo Cristo Rei prestigiam claramente o tema do conforto, da restauração e da esperança. b – A primeira ênfase do texto reside justamente no tema da salvação, que Deus mesmo opera em relação a seu povo. O tema da salvação não é abordado num clima de ameaça ou condenação. Pelo contrário, Deus identifica-se de tal maneira com a causa da libertação de seu povo, que se envolve pessoalmente nessa obra. Aqui é extremamente útil a metáfora do pastor. Sua intimidade e senso de cuidado com cada ovelha reflete um profundo e comprometido amor de Deus por sua criação. Nada impede Deus de ir às últimas consequências em seu projeto de amor (Rm 8.31-39; Jo 10.10-15). A resposta a esse amor só pode ser de profunda entrega e confiança. Vê-se aqui com o que a soberania de Deus na história está comprometida. Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4). Essa mensagem deve estar clara hoje na maneira como a igreja fala de Deus ao mundo. Deus vem resgatar, acolher e sarar as pessoas. c – Fica implícito nesse texto que o sofrimento das pessoas possui diferentes enredos, diferentes desdobramentos. Essas histórias são objeto do ouvir atento de Deus. Ele se importa com nossas dores. Mas não no sentido de nos fazer simplesmente esquecer o sofrimento. Ele tem interesse em reescrever nossa biografia através da obra restauradora de seu amor. Ao revisitar cada episódio de nossa história, revelando que Ele nunca nos abandonou, é possível entender por que reagimos da maneira como fizemos. Há espaço para perdão e reconciliação. Há espaço para uma nova leitura de nossa biografia. A dor dos enlutados não é ignorada nem as circunstâncias que determinaram a morte de seus entes queridos.

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A comunhão cristã deve oportunizar a expressão dessa dor e desses relatos. Deve oportunizar esse cuidado pastoral para que haja cura de vidas. d – O olhar amoroso de Deus não é um olhar permissivo que ignora o sofrimento que impomos uns aos outros por conta de nossa ganância, egoísmo ou arrogância. Deus sabe quem compartilha com ele o mesmo amor e cuidado com os mais fracos. Ele saberá distinguir quem de fato olhou para o próximo e vai ao encontro de sua dor, como se o fizesse sem olhar a quem. O amor que Deus nos dedica deve ser expresso concretamente por nós na relação com os nossos próximos. Quem diz que ama a Deus, mas não ama seu próximo, mente e demonstra não conhecer Deus (1Jo 4.8). O juízo de Deus, portanto, é um juízo sobre nossa responsabilidade de cuidar de nosso próximo, de partilhar seu amor e sua misericórdia com o mundo.

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Imagens para a prédica

Trago um relato sobre a história de uma música popular. A história conta que, certa noite, em uma forte nevasca, na sede de uma instituição, um padre plantonista ouviu alguém bater na porta. Ao abri-la, ele se deparou com um menino coberto de neve, com poucas roupas, trazendo em suas costas um outro menino mais novo. A fome estampada no rosto, o frio e a miséria dos dois comoveram o padre. O sacerdote mandou-os entrar e exclamou: “Ele deve ser muito pesado”. Ao que o que carregava disse: “Ele não pesa, ele é meu irmão”. Não eram irmãos de sangue realmente. Eram irmãos “da rua”. O autor da música soube do caso e inspirou-se para compô-la, e da frase fez o refrão. Esses dois meninos foram adotados pela instituição. É sobre a entidade “Missão dos Órfãos”, em Washington, DC. Foi lá que ficou eternizada a música “He ain’t heavy, he is my brother” dos “The Hollies”. A estrada é comprida com muitas curvas difíceis, Que nos leva a quem sabe aonde, quem sabe aonde. Mas eu sou forte, forte o bastante para carregá-lo. Ele não é um peso para mim – ele é meu irmão. E assim continuamos. O bem-estar dele é problema meu. Ele não é nenhuma carga para mim. Nós chegaremos lá, pois eu sei – ele não seria um estorvo para mim, oh não. Ele não é um peso para mim – ele é meu irmão. Agora, se estou realmente sobrecarregado, Então estou sobrecarregado de tristeza. (De saber) que o coração de todo mundo não está cheio de gratidão Ou de amor um pelo outro. É uma estrada muito comprida da qual não há retorno. E enquanto estamos indo para lá, por que não partilhar? E a carga (dele) não vai me pesar de jeito algum. Ele não é um peso para mim – ele é meu irmão.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de culpa: Querido Deus, perdoa-nos por chegar diante de ti somente pensando em trazer nossos pedidos e nossas dores. Ignoramos que és um Deus justo e sensível. Tu sabes a origem de nossos sofrimentos, tu sabes por que pedimos tanto. Tu nos olhas como rebanho e conheces como nos relacionamos coletivamente. Conheces a maneira injusta e indelicada como tratamos nosso semelhante. Sabes quanto o espírito de competição e nosso orgulho nos levam a ferir e machucar as pessoas a quem devíamos amar e cuidar. Ouve nossa oração e estende o teu perdão a nós por tua misericórdia. Em Cristo, oramos. Amém. Oração do dia: Encontramo-nos diante de ti como teu rebanho, Senhor. Fomos resgatados da perdição por tua obra de amor, realizada em Cristo na cruz. Em tua presença temos paz, alimento e vida plena. Buscamos a ti como nosso pastor supremo neste dia, para que novamente nos alimentes com tua presença amorosa, com tua palavra renovadora e tua liderança infalível. Atue teu Espírito entre nós, conduzindo-nos por caminhos de confiança e amor solidário. Em Cristo oramos. Amém. Cantos: Hinos do Povo de Deus: 94, 102, 117, 124, 264, 336, 384, 385, 389, 393, 410, 411, 453, 456, 462, 467, 471, 474.

Bibliografia ODELL, Margaret. Ezekiel. Macon: Smyth & Helwys Publishing, 2005. WEIMER, Tânia Cristina. O último domingo do Ano Litúrgico. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, 2003.

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PRÉDICA: MATEUS 6.25-33

AÇÃO DE GRAÇAS (FESTA DA COLHEITA)

JOEL 2.21-27 1 TIMÓTEO 2.1-7

Fabiani Appelt As pessoas hoje correm atrás do tempo e do dinheiro e se esquecem de viver cada dia o dia inteiro! Veja como os passarinhos voam pelo azul celeste, veja a flor de algum canteiro que bonita ela se veste! Passarinhos cantam, voam, sempre sem preocupação, olham tudo lá de cima sem a pressa do avião! A florzinha no canteiro não tem creme nem batom, nem perfume ela usa pra manter seu cheiro bom. E se Deus cuida das plantas e pras aves dá um ninho, cuidará também da gente com amor e com carinho! Amparados dessa forma, Deus espera que a gente faça o mundo mais bonito, mais humano e mais contente. Edson Ponick

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Introdução

Os textos bíblicos indicados para este domingo, destinados para as celebrações de Ação de Graças, falam em especial do agir de Deus em nossas vidas por meio do sustento diário do pão nosso, lembrando como devemos reagir a esse maravilhoso agir de Deus em nossas vidas. Neste momento, é importante relembrar a explicação de Lutero para o quarto pedido do Pai-nosso, onde ele diz que pão é “tudo o que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como, por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes”. E que “Deus dá o pão de cada dia, também sem o nosso pedido, a todas as pessoas, inclusive às pessoas más. Mas pedimos nessa oração que ele nos faça reconhecer isso e receber com gratidão o pão nosso de cada dia”. 1.1 – Sobre os textos de leitura O texto do profeta Joel é um convite a toda a criação para alegrar-se, pois “Deus mostrou o seu grande amor para com a sua terra e teve pena do seu povo” (Jl 2.18). O texto chama ao júbilo e anuncia um novo tempo: tempo de alegria e fartura, em que haverá “comida até não querer mais” (v. 26); tempo de segurança, quando o medo não vai encontrar lugar; tempo de restauração; tempo em que Deus manifesta o seu poder, devolvendo ao povo tudo o que havia sido tirado

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dele. Deus devolve a dignidade a seu povo, e a promessa de Deus a seu povo é “o meu povo nunca mais será humilhado” (v. 27). O texto de 1 Timóteo, por sua vez, chama a comunidade para o exercício da oração. O apóstolo sublinha a importância da oração para a caminhada diária do cristão, da comunidade e da igreja. Ele coloca a oração em primeiro lugar. A oração deve acontecer “antes de tudo” (v. 1). Nem a comunidade tampouco o indivíduo possuem vida verdadeira se não fizerem uso dessa importante ferramenta que é a oração. A oração não pode ser excludente. Ela deve ser em favor de todas as pessoas. Assim como Deus quer que todos conheçam a verdade (um só Deus e um só Cristo, o Mediador – v. 5), ele também quer que nós oremos por todos, grandes e pequenos, opressores e oprimidos, ricos e pobres, homens e mulheres, jovens e idosos, governantes e governados, não para legitimar a injustiça no mundo, mas para que todos conheçam a justiça de Deus (v. 2-4). No entanto, todo sentimento contrário à vontade de Deus anula a efetividade da oração. A oração tem a função de fazer com que possamos viver uma vida calma e pacífica, com todo o respeito a Deus e agindo corretamente para com o próximo.

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Exegese

O texto de Mateus 6.25-33 faz parte do Sermão do Monte. Nesse sermão, Jesus orienta sobre a importância da humildade (5.3), sobre a disposição para sofrer perseguição por fazer a vontade de Deus (5.10), sobre a importância da atenção sincera aos mandamentos de Deus (5.19), sobre a recusa em substituir um comportamento genuinamente correto por falsa piedade (5.20), sobre a importância de uma vida de oração (6.5-13), sobre a prioridade dos valores espirituais em relação aos valores materiais (6.33) e, acima de tudo, sobre o reconhecimento da autoridade do Senhor ao obedecer à vontade revelada de Deus (7.21). Mateus 6.25-33 inicia com um pedido de Jesus: Não andeis ansiosos. O verbo merimnao vem de merizo, que significa “dividir em partes”. A palavra sugere uma distração, uma preocupação com coisas que causam ansiedade, estresse, pressão e desviam a atenção do que realmente é importante. Jesus prega contra a preocupação e a ansiedade, porque o Pai celestial cuida de nós e está sempre atento às nossas necessidades diárias (v. 26b; 30b). Jesus nos ensina que muito pouco é necessário para termos vida verdadeira ou mesmo uma coisa só, conforme Lucas 10.41-42. De nada adianta andarmos ansiosos. A nossa ansiedade não vai acrescentar um segundo sequer aos dias de nossa vida (v. 27); pelo contrário, vai inquietar-nos e nos cegar para a graça de Deus. Jesus reflete aqui sobre a devoção sincera a Deus e sobre a importância de libertar-se da ansiedade com respeito às necessidade cotidianas. Ele ilustra a inutilidade da preocupação, mostrando que é desnecessária (v. 26, 28 e 30), infrutífera (v. 27) e inadequada para um cristão (v. 31 e 32). Jesus alerta para o fato de que a vida não se resume apenas ao trabalho, em busca de comida para alimentar o corpo físico ou em busca de vestes que cubram o corpo. Tudo isso passa, estraga e não livra da morte. Jesus estimula a trabalhar para as obras de Deus e não apenas a buscar a satisfação individual e momentânea que o

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trabalho pode conquistar e dar. Trabalhar para a obra de Deus é crer no enviado de Deus: Jesus Cristo. As pessoas então são convidadas a fartar-se de fé com o “pão da vida” Jesus Cristo na lavoura, no escritório, na rua, em casa, na escola, no carro. Obedecer ao Pai era extremamente importante para Jesus. A obediência é a resposta de fé a qualquer instrução de Deus. Jesus ensinou que a verdadeira fé sempre será manifestada em obediência à vontade revelada de Deus. A vida cristã de sucesso resulta de buscar e conhecer a vontade de Deus e então praticá-la com fé.

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Meditação

No culto de Ação de Graças: somos especialmente convidados a agradecer. Não que isso não precise ser feito em todos os cultos e em todos os dias da vida. Culto de Ação de Graças é uma oportunidade toda especial para reconhecer que tudo o que temos e somos recebemos como um presente de Deus e sem a sua ajuda pouco podemos fazer. Ação de Graças: agradecer é reconhecer quão grande é o amor de Deus por nós. Deus, que criou o mundo e tudo o que nele há, libertou seu povo da escravidão no Egito, conduziu-o pelo deserto até chegar à terra prometida, terra que mana leite e mel. Ele deu os mandamentos como balizadores para a vida de seu povo, para que vivesse em liberdade. Ele é o Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de José e de Moisés. O Deus Pai, que enviou seu filho Jesus para ser Emanuel e salvar a humanidade, é o mesmo Deus que hoje nos acompanha tanto em momentos de alegria como em momentos de dificuldade, presenteando-nos com tudo aquilo que necessitamos para ter vida digna. Deus é o doador de todas as dádivas, de tudo o que temos e de tudo o que somos. Quando Deus terminou a obra da criação, ele viu que tudo era muito bom. A terra era boa, o ar era puro e a água era fresca, toda comida que a terra produzia era saudável. Deus deu-nos a terra para tirar dela o sustento, o necessário para viver de forma digna, para termos bem-estar e fartura. Deus também nos deu a tarefa de cuidar de sua criação. No entanto, o seu humano desviou-se do propósito original de Deus e hoje vive correndo atrás de coisas sem valor, que causam preocupação, ansiedade e sofrimento. Jesus prega contra a preocupação e a ansiedade devido ao cuidado de Deus para conosco. Deus, nosso Pai celestial, que está sempre atento às nossas necessidades diárias, dá-nos dia após dia o que precisamos, respondendo ao nosso pedido pelo pão nosso de cada dia. Para ilustrar esse cuidado de Deus, Jesus usa como exemplos os passarinhos e as flores do campo, que são belos e frágeis. Mesmo assim, Deus cuida deles com carinho. Por acaso o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, um pouco inferior a Ele (Sl 8.5), não é mais importante do que as flores e os passarinhos? Ao invés de se preocupar com bens materiais, roupas, comida, bebida, coisas que estragam e desaparecem, a nossa ambição deve ser buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e aquilo que Deus quer, ou seja, a sua justiça, e Ele dará todas as outras coisas (v. 33).

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A aquisição de bens necessários para viver torna-se ansiedade contínua e pesada, se não for precedida pela busca da justiça do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade. O necessário para a vida virá junto com essa justiça como fruto natural de árvore boa. A vida, maravilhoso presente de Deus, é mais importante do que o alimento que sustenta nosso corpo. E ainda mais importante do que a roupa que o veste, pois o corpo é templo do Espírito Santo, conforme 1 Coríntios 6.19. Não adianta andar inquieto, correndo atrás de muitas coisas, quando só uma é necessária. Coisas que satisfazem as vontades da carne não nos dão liberdade; pelo contrário, escravizam-nos. O essencial é buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça. Deus sabe o que precisamos, e Ele nos dará no tempo certo. Deus fez e faz grandes coisas por nós. Infelizmente, muitas vezes, na correria do dia a dia, não percebemos isso. E assim acabamos esquecendo de agradecer, e isso é motivo para pedir perdão. Atualmente, muitas pessoas sofrem antecipadamente por coisas que muitas vezes nem se tornam realidade. O amanhã ainda não nos pertence. O dia de amanhã trará as suas próprias preocupações. Para cada dia bastam as suas próprias dificuldades (v. 34b). Hoje é o dia de viver segundo os ensinamentos de Cristo, com o coração cheio de gratidão por tudo o que Deus fez e faz por nós. “Agradecer pelo pão de cada dia, por saúde e alegria, por tristeza e por prazer, por trabalho e por lazer” (HPD 286). Ontem é passado, página virada. Hoje é a presente página, que deve ser escrita com sabedoria, evitando os erros de ontem e colocando em prática os ensinamentos de Jesus. Amanhã é futuro. Somente o Deus eterno nos dá a liberdade e a verdadeira paz. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. A cada dia somos convidados a fortalecer a nossa relação com Deus por meio de súplicas, orações, intercessões e, principalmente, ações de graças por seu imenso amor revelado em Jesus Cristo, nosso único Senhor e Salvador. Ele é o único Caminho, Verdade e Vida. E que a base para o nosso testemunho diário como cristãos e cristãs seja: “Amar o Senhor Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente e amar os outros como a nós mesmos” (Mt 22.37,39). Que Deus nos abençoe e ajude. Amém.

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Subsídios litúrgicos

Oração: Benigno Deus, Pai misericordioso! Tu nos abençoaste ricamente com tuas dádivas. Deste-nos os frutos da terra, deste-nos saúde para trabalhar, para criar nossos filhos, para organizar a nossa vida. Queremos agradecer-te de coração por todo amor e cuidado que tens demonstrado para conosco. Perdoa-nos o nosso esquecimento, perdoa as nossas lamentações. Faze-nos servir em gratidão e amor. Por Jesus Cristo, teu amado filho. Amém. Sugestão de hinos: HPD 233; 237; 455; 460; 466.

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PRÉDICA: SALMO 105.1-7

DOMINGO DE LOUVOR ATRAVÉS DA MÚSICA

MATEUS 11.25-30 APOCALIPSE 15.2-4

Günter Karl Fritz Wehrmann

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Introdução

Os três textos abarcam toda a história da salvação. Nessa reside a razão para o louvor a Deus. Salmo 105.1-7 convida o povo para render graças a Deus, cantando-lhe salmos, invocando (melhor “proclamando”) seu nome e tornando públicos os seus grandes feitos. Os v. 8-45 relembram as manifestações de Deus como Libertador no passado. Conforme Mateus 11.25-30, Jesus glorifica o Pai como Senhor do céu e da terra, pois ele revelou aos pequenos o mistério da comunhão mística de Deus Pai com Deus Filho. Esse convida os cansados e sobrecarregados para vir a ele e aprender com ele a carregar os fardos. Revela-lhes o mistério do discipulado sob a cruz. Essa não terá a última palavra. Pois, conforme Apocalipse 15.2-4, nos é permitido enxergar para o além. Os remidos já entoam, acompanhados por harpas (instrumento musical seleto e nobre), os cânticos de Moisés e do Cordeiro. Alude-se à libertação do Egito bem como à libertação universal operada por Jesus Cristo, nosso Cordeiro Pascal, sacrificado uma vez por todas. Ele ressuscitou, subiu ao céu e prepara-nos um lugar junto ao Pai. Os três textos falam da glorificação de Deus no tempo do Antigo Testamento, no tempo de Jesus e no “tempo” da eternidade (coloco aspas porque a eternidade é a superação do tempo). O nosso louvor a Deus tem caráter universal. Une-nos a todo o povo de Deus: do passado, do presente e do futuro. O nosso louvor, por mais modesto que seja, ou mesmo o “louvor sob lágrimas”, tem sua origem e seu alvo em Deus. Por ele é originado, para ele aponta e a ele quer levar!

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Exegese

Nas questões exegéticas, consultei Arthur Weiser e Hans Joachim Kraus, sendo que o último mais me convenceu. A forma do Salmo 105 é no estilo de salmos históricos, que recitam a história da salvação em forma de canto comunitário. A ideia principal é a fidelidade de Javé em relação a suas promessas. Ela é introduzida nos v. 1-6. Relembra as caminhadas dos patriarcas (v. 12-15), o destino de José (v. 16-23), o êxodo do Egito (v. 24-38), milagres na caminhada pelo deserto (v. 39-41); finalmente, o tema principal é relembrado e acrescentado pelo convite para a observância dos mandamentos de Javé (v. 42-45). Já que o Salmo 105 é um hino de louvor comunitário, seu lugar vivencial (Sitz im Leben) é o culto da comunidade que glorifica, com gratidão, o Deus libertador.

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2.1 – Detalhes de tradução e de exegese No v. 1b, muitos exegetas traduzem: “invocai o seu nome”. Kraus, contudo, pondera, no meu entender convincentemente, que o termo invocar tem seu lugar vivencial nos salmos de lamentação. Conforme outros salmos de louvor a Deus pela salvação, porém, é mais contundente ler “proclamai o seu nome”, porque isso corresponde aos aspectos seguintes, tais como: “anunciai seus feitos maravilhosos entre todos os povos” e “narrai todas as suas maravilhas”. O hino de louvor, em que são glorificados os grandes feitos de Javé, é simultaneamente anúncio e proclamação para os povos. Por isso os imperativos (v. 2ss) para que cantem e toquem (subentendam-se “os instrumentos) e que relembrem (“re-presentem” – i. e., “tornem novamente presente”) e interiorizem os grandes feitos que Javé operou na história de seu povo. A fidelidade de Javé em relação às suas promessas, dadas aos patriarcas, é realçada pela alusão a “seus juízos que permeiam toda a terra” (v.7b). No v. 2a, convém resgatar o significado do segundo imperativo, que não é apenas cantar, mas tocar um instrumento: desse modo, poderíamos ler “cantai a Ele e tocai instrumentos para Ele”. Isso pode ser ligado à leitura de Apocalipse 15.2-4, em que os remidos cantam, acompanhados por harpas, o hino da libertação. Essa ligação será importante para a meditação. “Buscai o Senhor, seu poder e sua presença” é o convite aos descendentes de Abraão e aos filhos de Jacó (i. e., o povo escolhido de Deus) para que venham participar do culto em que é comemorada a aliança que o Senhor fez com os seus. Ele é fiel e nunca se esquecerá de sua aliança. Relembrando a história da salvação – por meio da narração, do canto de salmos e da música –, a fé do povo é revigorada, o Senhor é glorificado e proclamado como Deus libertador. Desse modo, seus grandes feitos e preceitos são anunciados ao mundo. Eis as dimensões teocêntrica, terapêutica e missionária do culto no Antigo Testamento. Assim podemos estabelecer uma ligação com nosso culto cristão por meio de seus eixos litúrgicos: Entrada, Palavra, Credo (destaca-se a dimensão trinitária) e Ofertório, Sacramento, Envio. O Espírito Santo motiva-nos a nos congregar como comunidade em culto. Pelo perdão dos pecados ele nos dignifica para o encontro consigo, uns com os outros e conosco mesmos. Pela Palavra pregada Ele desperta e revigora nossa fé. Ele nos motiva a louvar pela proclamação de seus grandes feitos. Pelo Batismo Ele nos torna filhas e filhos seus, certifica-nos de sua aliança conosco, incorpora-nos à grande família de Deus. Na Ceia, ele se doa a nós de maneira singela, oferece-nos a comunhão mais íntima possível consigo, uns com os outros e conosco mesmos; torna-se novamente presente como aquele que libertou seu povo no passado, como aquele que vai libertar definitivamente seu povo – naquele dia, quando Ele voltar e erguer o seu Reino em definitivo e celebrar com os seus o banquete eterno; em, com e sob os elementos do pão e do vinho (ou suco de uva) ele nos faz experimentar, da maneira mais palpável possível, todas as dádivas celestes (perdão, alegria, comunhão, fé, esperança e amor). Assim agraciados e fortalecidos, Ele nos envia para colocar no mundo em que vivemos (família, escola, comunidade e sociedade) sinais concretos da nova vida em justiça, paz e amor que Ele criou, cria e vai criar.

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Assim podemos “gloriar-nos no seu santo nome”; assim pode “alegrar-se o coração dos que buscam o Senhor” (cf. v. 3) – pois foi seu amor que nos “buscou” primeiro (cf. 1Jo 4.19).

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Meditação

Louvar a Deus através da música foi uma grande paixão de Lutero. Para quem quiser aprofundar-se nesse aspecto recomendo a leitura de: DREHER, Martin Norberto. Hinos – Introduções, em Martinho Lutero Obras Selecionadas, v. 7, Coeditoras Editora Sinodal São Leopoldo e Concórdia Editora Porto Alegre, 2000, p. 471-573. As seguintes citações talvez criem curiosidade e interesse para aprofundar-se: “Lutero também valorizava a música contemporânea. Em muitas oportunidades, faz referência a músicos contemporâneos seus. O mais estimado, porém, parece ter sido Ludovico Senfl. Em carta a Senfl, datada de 4 de outubro de 1530, Lutero designa-o de ornatum et donatum a Deo meo (ornado e agraciado pelo meu Deus). Ao apreciar a música contemporânea, lamenta que a música secular tenha cantos e poemas muito bonitos enquanto a música sacra contenha muito faul, kalt Ding (muita coisa podre, fria)” (op. cit., p. 474). “Mui admirado Prof. Dr. Martim Lutero, o senhor me desculpe se ouso puxar conversa com o senhor. Concordo no aspecto de que a música secular pode ter cantos e poemas muito bonitos. Pois lembro-me de ter assistido à ópera ‘Aída’, de G. Verdi. No ato final, os dois namorados, condenados à morte por causa do ciúme da rainha, cantam um dueto de amor, intercalados pela rainha vencida que canta ‘seja-lhes paz!’. Confesso que para mim a cena transcendeu, me fez vislumbrar, como por uma fresta, o eterno poder do amor e da paz celestial que, certamente, caracterizará a eternidade.” “Por outro lado, estimado Professor Dr. Martinus, permita-me compartilhar uma experiência com música sacra: Nos anos 60, na Marktkirche de nossa cidade Hameln, seria apresentada a Missa em Si-Menor, de J. S. Bach. Helmut, um amigo meu, estudante de teologia, me escreveu: Günter, desejo-lhe que você possa vislumbrar um pedacinho de céu aberto. Compartilhei isso com meu amigo da Juventude Evangélica, Gerhard, com o qual assistiria à grande obra, que Bach considerou a sua maior e mais importante de todas as suas obras. Bach teria dito: ‘Se posso escrever obra tão maravilhosa e importante aqui na terra, que obra ainda maior poderei escrever no céu!’ Assim motivados assistimos ao grande oratório. Quando, no decorrer do Credo, o coro cantou o ‘ressurrexit!’ (= Ele ressuscitou), acompanhado pela orquestra com as trombetas brilhando como sol nascente, eu simplesmente ‘decolei’. Fui tomado de fortíssima comoção diante daquilo que Deus já fez, faz e ainda vai fazer para os seus e as suas! Quando Gerhard e eu saímos da igreja para dentro do movimento noturno da cidade, ficamos calados por pelo menos dez minutos. Então interrompi o silêncio dizendo: ‘Gerhard, agora consigo imaginar um pouco da alegria que haverá no dia da ressurreição dos mortos para a vida eterna’.”

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“Assim, Dr. Martinus, o senhor está com razão, em parte; pois Deus continua a tentar revelar e comunicar-se tanto pela música sacra como pela profana. Johann Georg Ebeling (1666), baseado em Sl 146, com razão canta: ‘De mil maneiras pode da morte nos salvar’ (cf. HPD, Nº 257,3). Essa paixão divina o amigo conhecia! E eu cheguei a conhecê-la de outras maneiras depois de seu tempo. Realmente, Deus não cansa de revelar-se através de mais de mil e uma maneiras! Nisso somos irmanados! Não é! E quem sabe, até um G. Verdi teve que servir a esse propósito divino! Penso que o amigo-irmão, Dr. Martinus, consegue concordar comigo!” “Por isso, caríssimo Prof. Dr. Martinus, parabenizo o senhor quando afirma: ‘No meu entender, nenhum cristão ignora que o canto de hinos sacros seja bom e agradável a Deus, uma vez que todo mundo tem não apenas o exemplo dos profetas e reis no Antigo Testamento (que louvaram a Deus cantando e tocando, com versos e toda espécie de música de corda), (...). Também não sou da opinião de que, pelo evangelho, todas as artes devam ser massacradas e desaparecer, como pretendem alguns pseudoespirituais. Na verdade, eu gostaria que todas as artes, particularmente a música, estivessem a serviço daquele que as concedeu e criou. Por isso eu peço que todo cristão de valor receba isso de bom grado e ajude a promovê-lo, caso Deus lhe tenha concedido igualmente ou até mais’ (op. cit., p. 480s).” Por essas razões explica-se o fato de se ter usado, ao longo da história, ritmos, melodias e instrumentos populares da respectiva época para criar e embelezar cantos e músicas sacras. Cito apenas alguns exemplos: “Com alegria e com fervor”, hino pascal de Cyriakus Spangenberg, 1568, em ritmo de walzer (cf. Hinos do Povo de Deus HPD, Nº 60); “Ó alegria, vem, alumia” – hino de Giovani Gastoldi, 1591, em melodia do folclore alemão “An hellen Tagen” (HPD, Nº 262); “Os que confiam no Senhor” – hino de Oziel Campos de Oliveira, pastor da IECLB, em ritmo de baião (HPD, Nº 229), igualmente o hino “Arde a voz em meu peito”, também de P. Oziel, em ritmo de marcha-rancho (HPD, Nº 446); “Oração da Igreja” – hino de Cláudio Kupka, pastor da IECLB, em ritmo de bossa nova (HPD, Nº 459); “Igreja que serve” – hino de Cláudio Kupka, pastor da IECLB, em ritmo de axé (HPD, Nº 417); “Aqui você tem lugar” – hino de Nelson Kirst, pastor e professor da IECLB, em ritmo de baião (HPD, Nº 324).

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Imagens para a prédica

Conforme a leitura de Mateus 11.25, Jesus glorifica Deus Pai por Ele ter revelado o mistério do amor e da graça divinos aos pequeninos (pequeninos – não só os de altura ou idade). Eles recebem atenção e importância especiais por parte de Deus. Sobre isso meditam Milton Schwantes e Rosileny Alves dos Santos Schwantes em seu livro “Figuras e Coisas – Meditações e ensaios para viver”, p. 11-12. Sob o título “Da boca dos pequeninos”, o casal reflete sobre as celebrações de louvor a Deus. Cito: “A todo passo, nossa Bíblia nos anima para tais festanças a nosso Deus. Pois ele merece! Desde as distâncias e profundezas, desde sua amizade pessoal e do senhorio universal – louvor a Deus. Ele nos abriga e liberta. Arranca-nos dos infernos da pobreza e das angústias da solidão. Louvor a Deus!

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Aleluia! (...) Contudo, há algo de muito particular e inovador na louvação desse nosso oitavo salmo. E isso está em incluir as crianças. Elas chegam a tornar-se exemplos prediletos para o louvor. E isso me parece inusitado. Corajoso. É qual raio iluminador. É fulgor de inspiração”. Que tal envolver, de maneira destacada, as crianças nesse culto? Poderia ser com a comemoração do dia de Batismo de crianças de 0 a 10 anos ou através de uma participação do culto infantil, em que o grupo dramatiza uma cena da história da libertação no Egito; ou com um canto, com instrumentalização ou acompanhamento de um gaiteiro, apresentado pelas crianças.

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Subsídios litúrgicos

A seguinte oração do casal Schwantes poderá inspirar: “Ó Deus da vida, ó Deus dos bebezinhos, dá-nos coragem a louvar de jeito pequeno, de boca pequena. Perdoa, Deus vivo, quando vivemos no esquecimento de teus filhinhos prediletos. Dá fortaleza à boca das criancinhas! Em nome de Jesus. Amém!” (op. cit., p. 17). Hino: “Louvor rendamos” (HPD, Nº 274) – hino da manhã, que poderá ser cantado no início do culto. Hino: “Louvai a Deus em alta voz” (HPD, Nº 59). Pode ser cantado, em forma de responsório, em dois grupos, sendo que um canta o texto enquanto o outro responde com a parte do “aleluia”. Hino: “Com alegria e com fervor” (HPD, Nº 60). Pode ser cantado em forma de responsório, sendo que o grupo 1 canta o texto, o grupo 2 canta o “aleluia” e os dois grupos em conjunto cantam o “Louvado sejas, Salvador!”. Hino: “Cantai ao Senhor” (HPD Nº 260). Pode ser cantado em dois grupos, em forma de responsório. Um grupo canta a primeira parte da linha 1, e o outro grupa canta como resposta a segunda parte – repetindo o texto três vezes; a segunda linha seria cantada pelos dois grupos em conjunto. Cânone: “Alegrai-vos sempre no Senhor!/ Alegrai-vos no Senhor!/ 2x Alegrai/ alegrai// alegrai-vos no Senhor!” 2x Esse cânone poderá ser cantado em dois grupos, sendo que uma vez em conjunto e depois o grupo 1 canta duas vezes o texto da linha 1; ao começar a linha 2, o grupo 2 começa a cantar a linha 1 duas vezes e, ao começar a linha 2, o grupo 1 inicia novamente com a linha 1. Encerra-se em conjunto, quando o grupo 1 tiver cantado pela segunda vez a parte inicial e o grupo 2 tiver concluído sua segunda parte.

Bibliografia KRAUS, Hans Joachim. Psalmen 2. In: Biblischer Kommentar Altes Testament, v. XV. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag des Erziehungsvereins, 1966. p. 716-723. SCHWANTES, Milton; SCHWANTES, Rosileny Alves dos Santos. Figuras e Coisas – Meditações e ensaios para viver. São Leopoldo: Oikos, 2011. p. 11-12.

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AUXÍLIOS ESPECIAIS

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Joga limpo, Brasil! João Artur Müller da Silva Textos de apoio: 1 Coríntios 9.24-27; Filipenses 3.12-14; 2 Timóteo 4.7-8

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Introdução

2014 é o ano da Copa do Mundo no Brasil. Os jogos obedecerão ao calendário – 12 de junho a 13 de julho – estabelecido pela FIFA (sigla em francês da Federação Internacional de Futebol), organização que dirige as associações desportivas de futebol ao redor do mundo. A FIFA foi fundada em Paris em 21 de maio de 1904 e tem sua sede em Zurique, Suíça. O presidente da FIFA, Joseph Blatter, anunciou em 30 de outubro de 2007 que o Brasil seria o país-sede da vigésima edição desse evento futebolístico. É a segunda vez que o nosso país acolhe essa competição esportiva. A primeira vez foi em 1950, portanto 64 anos atrás; o Brasil já recebia milhares de jogadores, dirigentes, torcedores desse esporte tão popular em nosso país. De 2007 para cá, o Brasil vem se preparando para sediar esse megaevento esportivo, entre tensões, discussões inflamadas pelo patriotismo, busca de recursos para a construção de novos estádios e reformas em outros e melhorias em aeroportos, hotelaria e mobilidade urbana nas cidades que receberão jogos da Copa do Mundo. Ao longo desses anos, esse assunto esteve presente nas páginas dos jornais, das revistas e dos noticiários em rádios e TVs. Nesta altura do campeonato, dificilmente um brasileiro ou uma brasileira dirão que não sabem nada sobre a Copa do Mundo. Tão logo o Brasil foi anunciado como país-sede, a FIFA lançou o lema da Copa do Mundo de 2014: “Juntos num só ritmo”. A partir daí começaram a surgir interpretações na mídia sobre a motivação que esse lema desperta no povo brasileiro. Entre as muitas delas, destaco um trecho de uma notícia veiculada pela internet: “A Copa é a maior celebração do planeta, não apenas do esporte, não apenas do futebol. É a festa mais aguardada do esporte mais querido por toda a humanidade. E o Brasil é o país que participou de todas essas Copas, é o país que ganhou cinco vezes, é o país que tem o maior artilheiro dessas Copas e é o país que tem o jogador mais importante dessas Copas. E o ritmo é o ritmo do Brasil, o ritmo da Copa, o ritmo do futebol, o ritmo da unidade, o ritmo da diversidade, o ritmo da fantasia, o ritmo de um país que recebe de braços abertos a grande celebração do futebol do mundo”. Esse pequeno trecho, inspirado no lema da Copa do Mundo de 2014, já aponta para o contágio, a paixão, a preferência e o sentimento nacionalista entre nós. Na carona da Copa do Mundo também estão os comerciais e anúncios de diversos produtos. E na mesma carona também embarcam os críticos, as pessoas que não estavam a favor da realização da Copa do Mundo no Brasil, as pessoas

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que não se aliaram ao movimento para fazer desse evento um momento de festa e esbanjamento de recursos públicos... Enfim, havia e, quem sabe, ainda há pessoas que se opõem à realização desse torneio em nosso país. Mas ele é uma realidade, e dela não devemos fugir ou fazer de conta que não existe. Cabe ainda mencionar que o mascote oficial da Copa do Mundo de 2014 é o tatu-bola, batizado com o nome de Fuleco. Para a FIFA, Fuleco significa a mistura das palavras futebol e ecologia, “dois componentes fundamentais da Copa”. A entidade também explica que o nome “mostra como essas duas palavras combinam perfeitamente e ainda incentivam as pessoas a ter mais cuidado com o meio ambiente”. E como não poderia deixar de ser, também a bola, personagem principal do futebol, recebeu um nome nesta Copa: Brazuca. Então, quando a Brazuca estiver no fundo das redes, locutores ensandecidos soltarão o grito mais esperado no planeta: Goooooooooool! Proclamar Libertação também pega carona na Copa do Mundo de 2014 e oferece este subsídio homilético para incentivar e animar ministros e ministras a preparar uma prédica, uma homilia, num dos domingos entre os dias 12 de junho e 13 de julho de 2014. Nesse período há quatro domingos, e caberá ao ministro ou à ministra definirem junto com seu presbitério em qual deles o culto poderá proporcionar uma reflexão sobre o tema da Copa do Mundo. O subsídio para elaborar a prédica está à disposição de quem dele quiser fazer uso na preparação desse culto temático.

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Tema

A realização da Copa do Mundo em nosso país suscita muitos assuntos e temas que podem ser abordados na reflexão da prédica dominical. Essa competição esportiva se oferece como oportunidade para pensar sobre diferentes questões, que estão, direta ou indiretamente, conectadas com o futebol, com o esporte, com esse agito todo desde que a FIFA anunciou que o Brasil seria a sede da Copa do Mundo de 2014, neste ano portanto. Também vejo que, nos dias em que a Brazuca (bola) estiver rolando nos gramados dos estádios (Maracanã – RJ, Itaquerão – SP, Beira-Rio – RS, Mineirão – MG, Arena da Baixada – PR, Mané Garrincha – Brasília, Arena do Pantanal – MS, Arena Amazônia – AM, Castelão – CE, Arena das Dunas – RN, Arena Nova Fonte – BA e Arena Pernambuco – PE), é um tempo propício para reunir a comunidade e, à luz da palavra de Deus, refletir sobre o testemunho das comunidades na atualidade, a missão que a igreja recebe de Deus, o Senhor, o exemplo e as atitudes de vida que as pessoas cristãs devem como resposta ao amor de Deus no ambiente em que vivem e atuam. Na introdução, mencionei que a FIFA escolheu um lema para a Copa do Mundo de 2014, a saber: “Juntos num só ritmo”. Certamente ele poderá servir de inspiração e motivação para conduzir a reflexão com os membros em nossas comunidades. No entanto, para este auxílio homilético, escolhi outro lema para refletir nestes dias em que acontecem os jogos de futebol nos 12 estádios espalhados pelo Brasil. O lema escolhido não foi criado por mim, mas o tomo emprestado da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), com sede em Barueri (SP), que já em 2012

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lançou um movimento que chamou minha atenção pelo conteúdo, pela atualidade, pela criatividade e por suas propostas missionárias para as diferentes igrejas cristãs em nosso país. O lema desse movimento é muito sugestivo: Joga Limpo Brasil (JLB). Isso não diz nada? Isso não aguça a reflexão? Isso não desperta pensamentos conectados entre o futebol e a realidade sociopolítica? Pois bem, compartilho neste auxílio homilético alguns pensamentos, informações e propostas, extraídas do material de divulgação do JLB. Quem quiser buscar maiores informações sobre o JLB pode acessar o site: www.jogalimpobrasil.org.br 2.1 – JLB: o que é e o que significa O movimento – Joga Limpo Brasil (JLB) – foi desencadeado pela SBB em 2012 com o “objetivo de criar uma gigantesca mobilização de atletas, igrejas e organizações cristãs para difundir a mensagem bíblica e seus princípios durante a Copa do Mundo de 2014 e também nos Jogos Olímpicos de 2016”. Para esse movimento, a SBB inspirou-se na expressão inglesa fair play, que traduzida significa “jogo limpo”. Essa expressão é usada no meio esportivo para referir-se à ética, ao cumprimento das regras e à importância do respeito entre os jogadores. Em muitas narrações de futebol, a gente escuta o locutor falar em fair play quando ocorre uma situação em que se evidencia uma atitude de respeito e consideração pelo adversário, principalmente numa partida. No entanto, conforme a SBB, a “criação do movimento foi inspirada na visão que levou o apóstolo Paulo a ir de Atenas para Corinto (Livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 18), uma das maiores e mais movimentadas cidades do Império Romano e sede de um dos maiores eventos esportivos periódicos: os Jogos Ístmicos. Ali Paulo encontrou a oportunidade para anunciar o evangelho com liberdade e alcançar pessoas de todas as partes do mundo”. O que eram os Jogos Ístmicos? Eles eram realizados em honra a Posseidon, deus do mar, a cada dois anos na Grécia Antiga. Os jogos eram realizados no Istmo de Corinto, ponto de ligação entre a Grécia continental e o Peloponeso. Os torneios recebiam um grande número de participantes e espectadores, pois a cidade de Corinto era um dos mais importantes centros comerciais e de diversões daquele tempo. Os historiadores, baseados em desenhos da época, indicam que provas hípicas, atléticas, musicais, literárias e náuticas faziam parte desses jogos. Há indícios de que, a partir de 580 a.C., os concursos de poesia e música passaram a ser acessíveis também às mulheres. Sabe-se que, em um desses jogos, Píndaro, grande poeta lírico, foi derrotado cinco vezes pela poetisa Corina. Os vencedores dos Jogos Ístmicos recebiam como prêmio uma palma e uma coroa de folhas de pinheiro (Informações compiladas a partir do site Wikipédia – a enciclopédia livre). O JLB tem como objetivo “inspirar as igrejas e organizações cristãs a seguir o exemplo de Paulo e aproveitar a oportunidade para disseminar a mensagem bíblica entre a população brasileira e os visitantes”.

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2.2 – JLB: metas Esse movimento desencadeado pela SBB pretende motivar atletas, igrejas, denominações e líderes cristãos num assim chamado Comitê de Referência, cujas metas são as seguintes: • mobilizar as organizações e igrejas cristãs em todo o país, nas mais variadas áreas de atuação, para orar e atuar criativamente em suas cidades e nas cidades-sede da Copa do Mundo; • apoiar o desenvolvimento de atividades de impacto em torno da palavra de Deus em todos os estados brasileiros durante os 30 dias da Copa do Mundo; • estimular a participação de jovens cristãos nas múltiplas atividades oficiais da Copa do Mundo e Olimpíadas, aproveitando as oportunidades de trabalho que serão criadas; • motivar os voluntários que atuarão na Copa do Mundo e na Olimpíada a manter um contato diário com a palavra de Deus. Como vemos, tal movimento pode ser algo diferente para uma comunidade cristã nestes tempos de Copa do Mundo. Pode também motivar ações e reflexões sobre a missão da comunidade nestas semanas de intensa movimentação em torno do futebol.

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Reflexão bíblica

A indicação de textos apoiadores serve para embasar e conectar a reflexão a ser apresentada na prédica dominical ou então na meditação a ser proferida em algum momento da vida comunitária. Entre os textos de apoio (1Co 9.24-27; Fp 3.12-14; 2Tm 4.7-8) vou me concentrar em 1 Coríntios. Sabemos que a comunidade cristã em Corinto surgiu do trabalho missionário do apóstolo Paulo. E já no primeiro capítulo de sua carta, ele deixa transparecer tensões e conflitos que se instalaram na comunidade. Em razão disso, ele escreve essa carta para orientar e ajudar as pessoas cristãs em Corinto a viver conforme o evangelho, buscando ajudá-los a lidar com a liberdade conquistada por Cristo na cruz. Algumas pessoas, chamadas de entusiastas, estavam provocando situações de conflito na comunidade, pois cultivavam uma interpretação diferente daquela que Paulo lhes havia anunciado e ensinado quando andara por Corinto. Uma leitura atenta dos capítulos anteriores ao capítulo 9 vai nos revelar os temas sobre os quais ele procura elucidar os coríntios. Por exemplo, no capítulo 8, ele se refere à comida sacrificada aos ídolos, reforça a fé no único Deus, reafirma que o amor é que edifica e que as pessoas cristãs precisam cuidar para não escandalizar os fracos com suas atitudes exageradas na vivência da liberdade. Paulo faz um chamamento à reflexão sobre como as pessoas cristãs em Corinto estão vivendo a partir de sua fé, a partir dos valores do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Na perícope escolhida para servir de apoio à reflexão sobre o tema conectado com a Copa do Mundo de 2014 (9.24-27), o apóstolo busca na vida esportiva figuras para refletir sobre a fé e sua vivência no cotidiano. Nesse aspecto, o após-

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tolo demonstra que conhece bem a vida em Corinto e a predileção de seus habitantes pelos esportes. Mais do que isso, Paulo demonstra aqui que sua mensagem será melhor compreendida se vier revestida com exemplos da vida cotidiana dos coríntios. E por isso ele se vale de figuras do mundo esportivo. Esse mesmo estilo pode ser percebido quando ele se dirige aos filipenses (Fp 3.12-14) e também quando ele escreve a seu discípulo Timóteo (2Tm 4.7-8). Observe as imagens e os conceitos que ele usa para falar sobre a vida cristã: correm, estádio, prêmio, alcanceis, atleta, se domina, coroa corruptível, meta, luto, golpes, desqualificado. Na Carta aos Filipenses 3.12-14, as palavras são: perfeição, conquistar, para trás, alvo, prêmio. Já em 2 Timóteo 4.7-8 aparecem outras palavras: combati, combate, completei, carreira, coroa, juiz. Em resumo, a vida da pessoa cristã neste mundo assemelha-se a uma grande ou pequena competição esportiva. A vida é um jogo. E hoje podemos enfatizar que viver neste mundo é fazer parte de uma partida de futebol. E a partir dessa assertiva, vamos refletir sobre os versículos que lemos em 1 Coríntios 9.24-27. V. 24 – Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Ninguém está fora da corrida. Não tem como ficar fora. Para os cristãos, não há lugar na arquibancada, nas poltronas. Uma vez batizado, uma vez confirmado, uma vez crente em Cristo, não tem como não participar dessa corrida motivada, sim, pelos mandamentos de Deus. Mesmo com a promessa da salvação por graça e fé, não dá para o cristão assumir uma posição neutra na partida, na corrida. Sabemos que, numa partida de futebol, só um time pode ganhar o campeonato e levantar a taça. Mas na vida cristã o importante é participar da missão de Deus e correr, ou seja, dar exemplos de amor, de perdão, de reconciliação, de justiça, que são esperados por Deus, que nos confia a missão de testemunhar a seu favor neste mundo. Também recebemos o anúncio do juízo de Deus em Mateus 25 e 2 Coríntios 5.10. Em razão disso, não podemos ficar fora da corrida, do jogo, da partida de futebol na vida cotidiana. V. 25 – Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. O verbo grego que expressa “se domina” também quer dizer controlar-se, exercer o autocontrole. O atleta, quando pratica o autodomínio, vale-se de disciplina, rotina, regras, dedicação, esforço, estudo. Se não for por esse caminho, ele não conseguirá alcançar os objetivos a que se propõe. O mesmo vale para a vida cristã: a vontade de Deus, manifestada não somente em seus mandamentos, mas no evangelho, requer reflexão, dedicação, compromisso, estudo e prática. Os atletas dos Jogos Ístmicos recebiam uma coroa de folhas de pinheiro, que certamente meses depois era jogada fora porque estava seca. Os jogadores da equipe de futebol vencedores da Copa do Mundo receberão uma medalha de ouro, e o time, uma taça. Algum tempo depois, esses troféus estarão em estantes e até esquecidos. No entanto, a promessa de Deus é uma outra coroa, uma coroa que nem traça nem ferrugem podem consumir. Esse deveria ser o alento para a vivência cristã hoje. Porque a recompensa que Deus promete é muito superior a uma coroa de folhas de pinheiro. Então, a comunidade

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cristã deveria seguir o exemplo do atleta e ser zelosa e atenciosa no cumprimento da vontade de Deus neste mundo. V. 26 – Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Numa corrida, o objetivo é a linha de chegada. E o apóstolo Paulo parece também se referir ao esporte da luta, em que muitas vezes o lutador acaba errando o corpo do adversário e desfere golpes no ar. Assim não deve ser conosco. Assim também não é com o apóstolo Paulo. Ele se sente aceito pela graça de Deus e, por isso, empreende uma corrida com objetivo e uma luta certeira. O exemplo de Paulo aos coríntios é significativo porque ele mostra que a vida cristã tem sentido, tem alvo, tem metas, tem objetivos que estão embutidos no evangelho. E tanto ele, o apóstolo, como nós somos instrumentos de Deus neste mundo para a missão, a evangelização. Nestes tempos de Copa do Mundo, a figura de um time de futebol é muito apropriada para a reflexão do ser comunidade. Assim como num time existem diversas funções, como goleiro, zagueiro, lateral, atacante, centroavante, assim também na comunidade, na igreja, temos funções diferentes a ser exercidas, mas todas comprometidas num conjunto que chamamos de comunidade, igreja, família de Deus. Também na comunidade não há lugar para o individualismo. V. 27 – Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. Na sequência de sua reflexão, o apóstolo Paulo segue valendo-se da metáfora do esporte e usa com veemência o castigo contra seu corpo. Dá a entender que o problema está nele próprio. Sabemos que, para muitas pessoas do seu tempo, o corpo era lugar de concupiscências, tentações, do querer para si somente, e por isso muitos se mortificavam. Paulo, por sua vez, quer que todo o seu esforço seja para os outros. Que sua corrida não seja só para ele alcançar um mérito, mas para alcançar com sua pregação as outras pessoas. Sua missão é fazer o bem aos outros e assim glorificar o Senhor. Nesse sentido, Paulo convida os cristãos de Corinto a deixar de lado seus próprios interesses na busca de um alvo comum a todos, à comunidade. Paulo também confessava que nada o podia separar do amor de Deus (Rm 8.38-39), e mesmo assim ele não queria ser desqualificado. Em outras palavras, o apóstolo está insistindo para que as pessoas cristãs não se acomodem na fé, no testemunho, na prática do amor. O medo do apóstolo Paulo era perder a coroa incorruptível por não ter prestado neste mundo o serviço que agradava ao Senhor. Afinal, ele tinha recebido uma missão de Deus e queria cumpri-la com o zelo e a dedicação de um atleta. Esse era seu recado aos cristãos em Corinto.

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Meditação

Do tempo dos Jogos Ístmicos aos jogos da Copa do Mundo, muitos aspectos do mundo esportivo sofreram modificações. Como tudo ou quase tudo muda e se aperfeiçoa no decorrer dos anos, também muitas questões relativas aos esportes são bastante diferentes na comparação ao longo da história. Sem querer entrar em detalhes nesse aspecto, basta lembrar apenas quantos novos esportes surgiram no decorrer da história da humanidade. E também lembrar que a música

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e a poesia, por exemplo, foram excluídas dos jogos modernos. No entanto, outros fatores permanecem válidos e praticados até hoje para quem decide ingressar no mundo esportivo. E alguns desses fatores são o treinamento, o preparo físico, a disciplina, o esforço e a dedicação ao esporte escolhido. E isso não só vale para atletas profissionais, mas também para os atletas de fim de semana ou de esporádicos momentos esportivos na vida de quem quer que seja. No futebol, temos a figura dos treinos fechados, treinos com bola, concentração e tantos outros meios para preparar os jogadores para as partidas que irão enfrentar. Certamente todas as seleções de futebol dos países classificados para a Copa do Mundo no Brasil passaram por intenso treinamento e preparação para os jogos a ser disputados. Atenção e concentração no alvo: ganhar o título de campeão do mundo! Esse é o objetivo das seleções que jogam a Copa do Mundo no Brasil. E o apóstolo Paulo em Filipenses 3.13-14 vale-se dessa figura da atenção para dar o seu testemunho: “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Mais uma vez, o apóstolo recorre ao mundo esportivo para fazer a ponte com a vivência cristã e sua relação com a vocação de Deus. Quando ele fala em “avançando para as que diante de mim estão”, ele se quer referir à missão, ao serviço, ao testemunho, que são inerentes à vocação do cristão neste mundo. Por isso as regras esportivas valem para a vida da comunidade no mundo, na cidade, no país. Elas valem para a vida da pessoa cristã em sua relação com seus familiares, amigos, cidadãos. Enfim, a vida cristã é regida por muitas regras, baseadas no evangelho. E a primeira regra a ser observada é o amor. Quando a Sociedade Bíblica do Brasil promove o movimento Joga Limpo Brasil (JLB), podemos entrever toda uma situação em nosso país em que não jogamos limpo. Não é de hoje que a corrupção perpassa todos os órgãos públicos em nossos governos municipais, estaduais e federal. Não é de hoje que empresários praticam o superfaturamento em serviços e produtos negociados com órgãos de governo. Não é de hoje que profissionais liberais, como médicos, enganam e roubam de clínicas particulares e do Sistema Único de Saúde (SUS); advogados que se prestam a passar celulares para seus clientes nas prisões; motoristas de empresas que trabalham para o narcotráfico; fiscais de órgãos públicos que cobram taxas para seu próprio benefício; policiais que cobram uma gorjeta para não extrair uma multa, e por aí se desenrola a vida de corrupção em nosso país. E quando assistimos a partidas de futebol, vemos muitas vezes que o fair play ficou no vestiário dos jogadores e joga-se sujo e com violência contra o adversário. E todas essas situações estão embutidas neste movimento que nós podemos adotar: Joga limpo, Brasil! Ou seja, vamos nos empenhar por uma partida limpa, por um país onde as relações sociais sejam pautadas pela honestidade e transparência, pela justiça e pela retidão nas atitudes, pela disciplina no cuidado das regras sociais, no aperfeiçoamento dos processos na busca pelo bem-estar das pessoas, na superação dos preconceitos e na eliminação das intolerâncias sociais,

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no estabelecimento de relações justas e fraternas em todos os âmbitos da vida social, econômica, política e religiosa. Nesse jogo da vida, muitas pessoas cristãs e muitas comunidades estão alheias a essa corrida em busca de melhores padrões de vida para as pessoas necessitadas, estão vivendo em seu reduto como se o mundo a seu redor não lhes dissesse respeito, não participam da corrida em defesa da natureza, por exemplo, e acham que não tem nada a ver com as crianças que são vítimas de violência e exploração sexual. A vivência do evangelho diz respeito não só à pessoa como indivíduo, mas também como pessoa integrada na grande família de Deus, a comunidade, a igreja, que recebe uma missão de Deus para ser realizada neste mundo. A comunidade cristã existe no mundo para servir a Deus através do serviço ao próximo. E muitas comunidades cristãs nem de perto se assemelham a uma ONG atuante porque vivem apenas para si próprias, acomodadas e alheias aos desafios que estão presentes na realidade da cidade em que estão localizadas. O colega pastor Jorge Batista Dietrich de Oliveira disse: “Como igreja, precisamos de ações mais concretas para fora e de menos programas para nós mesmos. E os programas para nós mesmos deveriam servir de capacitação para atuarmos aonde Deus quer chegar. Estamos acumulando energias e ‘engordando’ em vez de exercitar nossos dons na missão, levando o amor de Deus revelado em Jesus às pessoas que ainda não o receberam”. O movimento Joga Limpo Brasil oferece em seu programa algumas propostas bem concretas para ações que a comunidade cristã pode realizar por ocasião da Copa do Mundo. Entre as 11 estratégias sugeridas para ações concretas destaco três delas para a reflexão na comunidade. Maiores detalhes e informações poderão ser obtidas no site indicado no item 2 Tema. 1 – Mutirões sociais nas comunidades: Uma grande oportunidade para a igreja servir durante os jogos é organizando mutirões em suas comunidades locais, com atendimento médico-odontológico, jurídico, corte de cabelo, oficinas de artesanato e culinária e muitas outras atividades. Assim, você e sua igreja podem levar ajuda àqueles que não terão acesso aos jogos da Copa do Mundo. 2 – Distribuição gratuita de copos de água: Essa é uma estratégia muito usada por organizações cristãs em todo o mundo, principalmente ao redor dos estádios, pois é uma oportunidade para a igreja servir aos turistas, aos torcedores e às muitas pessoas que estarão trabalhando nas ruas durante os jogos, como policiais, bombeiros e outros prestadores de serviço. 3 – Visitas a asilos, orfanatos e hospitais: Durante grandes eventos esportivos, há uma grande movimentação nas ruas, no comércio e nos estádios, pois as cidades que recebem os jogos passam a viver seus dias em clima de festa. É nesse momento que a igreja de Cristo tem mais uma oportunidade de servir: visitando asilos, orfanatos e hospitais. Você pode organizar em sua igreja uma caravana para visitar esses lugares e compartilhar o amor de Deus. Voltemos ao ensinamento do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 9.24-27, a saber, não podemos abrir mão dos propósitos formulados nos mandamentos divinos, no evangelho. Nossa atitude deve ser como a do atleta: lutar, dedicar-se

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com disciplina, com esforço, com amor, com a certeza de que Deus está presente conosco na missão na vida cotidiana. A comunidade cristã está irremediavelmente comprometida com o testemunho da esperança, do amor, da paz e do cuidado, que tanto são esperados por Deus. E se, por fim, queremos participar da corrida com os olhos voltados para Cristo, é ele quem nos indica o caminho e o alvo. Não desperdicemos tempo ficando de braços cruzados. Ao jogo da vida!

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Pistas para a prédica

Sugestão para o ambiente na igreja: Cartazes da Copa do Mundo de 2014, uma bola de futebol, camiseta da Seleção Brasileira e, se possível, de outra seleção, cartazes dos estádios onde os jogos serão realizados, tiras de papel verde e amarelo. O objetivo é trazer para o âmbito do culto o clima da Copa do Mundo. Momento 1 – Trazer um pouco da história das Copas do Mundo e informações gerais sobre a realização do evento em nosso país. Assuntos que preocupam o país no momento da Copa. Momento 2 – Destacar a vida dos atletas, seu preparo e sua dedicação ao esporte, o futebol, as posições dos jogadores... Preparar a ponte para a leitura de 1 Coríntios 9.24-27. Momento 3 – Refletir sobre a missão da comunidade no local, a missão de cada cristão na sociedade, as conexões entre a vida do atleta e a vida da pessoa cristã, da comunidade. Momento 4 – Compartilhar a reflexão sobre o movimento Joga Limpo Brasil (JLB), da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Propor uma ação concreta para a comunidade realizar naqueles dias da Copa do Mundo (pode ser uma daquelas mencionadas no item Meditação ou outra ação).

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Subsídios litúrgicos

Cantos/hinos: Escolher aqueles cujo conteúdo tem a ver com missão, discipulado ou serviço no mundo. Leituras bíblicas: Colossenses 4.3-6 e 2 Timóteo 4.7-8 Leitura de Salmo: Salmo 139.1-14 Oração do dia: Senhor, torna-nos capazes de viver com amor nossa vocação como verdadeiros enamorados da tua beleza espiritual, extasiados pelo perfume de Cristo, que exala de uma vida de conversão ao bem, não como escravos subjugados por uma lei, mas como pessoas livres guiadas pela graça. Amém (Agostinho de Hipona).

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Oração de intercessão: Incluir pedidos por paz nas cidades em que acontecerão jogos da Copa do Mundo; por hospitalidade e respeito no trato com os turistas; por espírito esportivo aos jogadores, técnicos e dirigentes das seleções de cada país; por entendimento, fraternidade e respeito entre as torcidas de diferentes seleções; por imparcialidade e retidão dos juízes de futebol; por um clima de alegria e congraçamento por causa do esporte; por paciência e tolerância no trânsito, nas filas de espera, nos aeroportos; por acolhimento e disposição em ajudar pessoas que não falam a nossa língua; por honestidade e transparência nas pessoas que ocupam cargos públicos; por retidão nas atitudes de empresários; por salários justos aos trabalhadores; por uma justiça voltada aos menos favorecidos em nossa sociedade. Bênção: Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo nos fortaleça e nos proteja em todos os caminhos de nossa jornada. Que o amor de Deus Pai encha nossas vidas e nos anime na solidariedade e no serviço ao próximo. E que a comunhão do Espírito Santo nos mova à reconciliação e amizade para que em todos os nossos relacionamentos seja celebrada a paz. Assim abençoa-nos, ó Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito santo. Amém.

Bibliografia BRUNKEN, Werner. 1 Coríntios 9.24-27. In: Proclamar Libertação XI. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1985. p. 165-170. DOCUMENTO DA SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL (SBB). Joga Limpo Brasil – Sumário Executivo DOCUMENTO DA SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL (SBB). Joga Limpo Brasil – Manual de Ações Evangelísticas para a Copa das Confederações 2013 e Copa do Mundo 2014. OLIVEIRA, João Batista Dietrich de. 1 Coríntios 9.24-27. In: Proclamar Libertação 33. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2008. p. 112-118.

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Jubileu 500 anos da Reforma Batismo: Um ensaio sobre Mateus 28.18-20, passando pela compreensão do Batismo no Catecismo Maior Hermann Wille

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Introdução

Tendo em vista o ano de 2017, a melhor forma de celebrar o jubileu dos 500 anos da Reforma é tentar rastrear o que não tem data. Quais são as conquistas que permanecem? Da mesma forma como as palavras de Mateus 28 após 2.000 anos reverberam em nós e em nosso meio, os achados e as descobertas teológicas de Lutero nos inquietam e desafiam: um legado, um patrimônio imaterial, um bem comum para toda a humanidade em todos os tempos. A abordagem teológica que se aproxima do Ressurreto e busca assumir a incumbência recebida acaba olhando nos olhos, vê a fragilidade e a insignificância dos envolvidos. O interesse está todo voltado àquilo que transformou o vestígio pascal, lenta ou repentinamente, no começo de um “movimento”.

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O texto: “Ide...”

Por águas nunca antes navegadas... É fundamental considerar que a obra de Jesus de Nazaré não fora realizada apenas nos contornos do que agora era percebido e lembrado pelos mais próximos, mas, sim, na circulação social que já havia acontecido e que iria continuar acontecendo. Os seguidores de Jesus encontravam-se entre o instinto de autopreservação ou transformação. Encontram-se entre o Ressurreto, diante do qual tateavam inseguros, de um lado, e o consolo de sua volta, que se postergava mais e mais. “Não queira ir o sapateiro além das sandálias”, ensina o velho ditado. No momento em que os discípulos descalçavam as sandálias, há que se considerar como a espécie humana se relaciona com suas fronteiras, sejam elas físicas, psíquicas, políticas, éticas ou religiosas. Eis os aspectos implícitos em Mateus 28. A abrangência universal de Cristo já não está mais em questão, visto que o Evangelho de Mateus não poderia retroceder em relação a conquistas anunciadas no passado, por exemplo em Isaías 51.4. A questão que se colocava agora para seus seguidores era basear a missão no anúncio do Cristo ressurreto ou na perspectiva do Cristo que voltaria em breve. Sabemos que a radicalidade foi estabelecida no presente. Quanto mais profundos os esforços preparatórios de um movimento missionário, tanto maior o seu foco no aqui e agora. A missão passou a abordar e a acolher no barco pessoas de contextos sociais e culturais diferentes. Começaram a surgir comunidades. Cabia agora buscar o jeito e a forma adequada para viabilizar a convivência e a comunhão entre pessoas com origens e costumes diferentes. Eis o desafio que se colocava.

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Uma cartilha para navegar em águas turbulentas

A abordagem do Batismo no Catecismo Maior também tem como pano de fundo um momento crucial entre a necessidade de transformação que se impõe e o instinto reativo de autopreservação diante de um cenário ameaçador. O mundo feudal desmoronava, e o mundo moderno, inquieto, queria nascer. Seus traços não eram conhecidos. A reflexão de Lutero, ao aprofundar a compreensão do Batismo, foi marcada por esse momento de ruptura, transição e renascimento. Procurou o jeito e a forma de navegar entre o existente, conhecido, e aquilo que estava à espreita, o desconhecido. O Evangelho de Mateus anuncia coisas importantes na montanha entre o céu e a terra. Lutero, por sua vez, arrisca um mergulho e assim aponta para algo que acontece entre o céu e as profundezas das águas. A imagem de “afogar o velho Adão para renascer o novo homem” (CATECISMO MAIOR, p. 116) é a representação clássica dessa tentativa. A necessidade de mergulhar nas águas (morrer) e emergir (renascer) desdobra a reflexão do “velho” e habitual, de um lado, e o necessário mergulho no diferente e estranho, de outro. O “antigo” precisa ser tirado das águas – resgatado. Da mesma forma, o que há de vir também precisa passar pelas águas e ser resgatado. Ambos renascem, então, para uma nova realidade, que desperta de uma curiosidade aguçada. Surge assim a possibilidade de um hoje e um amanhã que os seres humanos mergulhados nos velhos hábitos não sabiam ser viáveis. Antes do Cristo ressurreto, os discípulos também não sabiam ser viáveis. Eis a relação entre Mateus 28 e a compreensão do Batismo em Lutero. “Deixar a pessoa antiga correr solta faz com que a desvirtude vá crescendo” (CM., p. 116), pois a pessoa antiga não para de desenvolver aquilo que se desenvolve a partir dos limites e das falhas que são próprias da natureza humana. O reconhecimento das limitações, assim como o reconhecimento do erro (arrependimento) são artigos raros e caros em nossa espécie. Assim, o respeito às limitações ou às fronteiras convive com o desejo de ignorá-las.

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Um divisor de águas na teologia

“O Batismo é mais do que um ato uma vez praticado.” São Jerônimo fala da penitência como “a outra tábua que precisamos para escapar nadando depois de ter rachado o navio no qual embarcamos”... “Essa não é uma formulação correta, uma vez que o navio não racha, uma vez que é ordenamento de Deus e não coisa nossa. O que acontece, sim, é que deslizamos e caímos fora. Mas, se alguém cair fora, deve procurar voltar novamente e esforçar-se até conseguir entrar de novo. Depois deve seguir em frente, como iniciado anteriormente” (CM, p. 117). Todos apenas conheciam o abraço dos afogados, experiência de se salvar agarrado aos destroços dos recorrentes naufrágios. Hierarquias, privilégios, segregação, culpa, julgamentos, estigmas, não aceitação por inteiro são os sintomas que decorrem do abraço dos afogados. O moralismo e o fundamentalismo resultam de teologias que olham para os destroços e perdem de vista o barco que é acessível a todos. Que se mantém íntegro, viabilizando sustentabilidade para

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todos. Desconsiderar a integridade do barco que segue induz ao imediatismo. Esse é refém do olhar apavorado que considera e alimenta-se apenas da sorte de ter encontrado uma tábua de salvação. A teologia do Batismo não se desenvolve entre os que encontraram tábuas de salvação mais ou menos adequadas. A mensagem do Batismo lembra-nos que, na travessia, todos acabam escorregando e caindo ao mar e, mesmo que isso ocorra, ressurgem. Ao vir à tona, não precisam apenas se apegar aos fragmentos. Devem olhar em volta, reconhecer o barco que estará lá, que segue calmamente. Bastam algumas braçadas em sua direção. Importa chegar junto, deixar-se içar e pisar novamente no convés com os dois pés. Devolvido à comunhão do convés, é possível seguir em frente. Resgatado sim, e mais, nascido novamente das águas, com uma vida integralmente nova. O reconhecimento das limitações assim como o reconhecimento do erro são artigos raros e caros (querido, precioso, custoso) em nossa espécie. Assim, o respeito às limitações ou às fronteiras convive com o desejo de ignorá-las. As limitações podem ser também um ativo a ser explorado. “Sintam culpa e paguem por ela”, dizem aqueles que se colocam acima dos outros. O domínio pela culpa é poderoso, propaga-se de forma sutil, não precisa de golpes para acabar com a liberdade das pessoas e com a saúde da comunidade. Nesse contexto, a importância do conceito de arrependimento em Lutero, o motivo de ter dado tanta ênfase a ele no Catecismo Maior, diante da prática difundida na época pela igreja de Roma, em que se “pagava” para livrar-se dos erros. A instituição receptora devolvia com a absolvição. O beneficiário atribuiu a ela uma função divina, enquanto esse não advogava o direito de ser e sentir-se qualificado diante de Deus e dos homens. Resta passar pela vida como um ser desqualificado, ao qual cabiam o “pedágio”, os “juros” por estar eternamente no vermelho. Na outra ponta, o protestantismo calvinista difundia uma pretensa eleição. Os eleitos podiam considerar-se pessoas com vantagens preestabelecidas por Deus. Entre as opções romana e calvinista encontra-se o caminho igualitário e universal proposto por Lutero. Contempla a condição do ser humano. A graça viabiliza um processo contínuo de libertação. Essa compreensão desmistifica os erros, tira-lhes o “caráter absoluto” – esse “menos” (opção romana) ou “a mais” já conquistado (opção calvinista). A teologia desenvolvida por Lutero leva a um caminho saudável e livre. Recoloca o ser humano, continuamente, numa posição que lhe devolve dignidade e liberdade para ser aquilo para o qual foi criado e vocacionado por Deus. A prática religiosa que induz a um “pagamento” tem suas raízes na relativização da radicalidade salvífica e gratuita de Deus. Oferece, mediante pagamento, as conhecidas “tábuas de salvação”, omitindo a integridade do barco, ao qual todos podem ter acesso. A opção católica romana sugere uma apropriação do barco pela instituição. A opção calvinista fala que os eleitos, que, por serem eleitos já se encontram no barco, devem apenas trabalhar com afinco para fazer reluzir o fato de se encontrar lá. A compreensão luterana, defendida no Catecismo Maior, fala-nos do barco que, em função da vontade e promessa de Deus, mantém sua integridade através dos tempos. Afirma a capacidade do timoneiro, Jesus Cristo, cuja presença conduz o barco e o resgate dos náufragos, garantindo, assim, indis-

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tintamente, o acesso a todos. Não se trata de uma questão de interpretação. Fato é que todo ser humano, em algum momento, acaba fora do barco, mergulha e perde o chão sob os pés. Ao ser resgatado, voltar ao barco, segue em frente restituído em sua integridade e dignidade. Dessa compreensão e vivência resulta uma visão de conjunto que não existia antes. Todos no mesmo barco sob as mesmas condições! A forma de ir, interagir, ensinar e conviver, conforme o mandato de Mateus 28, defendida no Catecismo Maior, viabiliza uma visão de conjunto não considerada pela sociedade de consumo, suas ideologias, crenças e suas relações destrutivas com o meio ambiente. A teologia no Evangelho de Mateus, reiterada no Catecismo Maior, leva as comunidades a redefinir-se continuamente sem abrir mão da sustentabilidade e da acolhida universal.

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Desafio teológico na atualidade

Lutero transformou o consumo mundano da religião em uma religião para os seres humanos no mundo. Em outras palavras, ao lidar com os limites da condição humana, pessoal e coletiva, redescobriu a forma leal de Deus lidar com essa realidade, sem desqualificá-la e destruí-la. Aprofundar e atualizar o jeito e a forma de falar e ensinar a respeito da religião para os seres humanos no mundo fará com que a reflexão teológica atual possa estar à altura dos desafios impostos pelas tendências ideológicas e religiosas consumidas atualmente. A lógica da globalização desempenha um papel em todo o mundo, afeta a dimensão subjetiva dos indivíduos e comunidades, acorda processos que atingem a subjetividade por meio dos quais se constrói, se fragmenta e se reconstrói o vínculo social e comunitário. Neles é que são inventadas formas de ação, individual e coletiva, declinam ou são transformadas as instituições, são desafiadas, destruídas ou modificadas as normas sociais e culturais. Com a longa noite de predomínio das teses neoliberais difundiu-se a crença de que as comunidades são irrelevantes; o que importa é o indivíduo. As recentes manifestações nas grandes cidades parecem indicar o despertar de uma consciência de que o individualismo não é o caminho. Parece indicar ainda que é chegada a hora das comunidades empreenderem ações coletivas globais, reorganizando-se em organismos capazes de defender seus interesses diante da lógica apátrida que tolhe a vida e o bem comum. Com a volta dos atores coletivos, a missão que promove a comunidade precisa reinventar-se, pensar seu papel e testemunho num mundo globalizado. A mobilidade em escala mundial, as modernas tecnologias de comunicação que conectam as pessoas em fração de segundos. As subjetividades sendo construídas rapidamente em espaços supranacionais em que a diversidade assume um caráter global. As construções culturais e religiosas dos fluxos migratórios vêm se conjugando com as transformações internas das comunidades receptoras para produzir novas identidades em escala planetária. Horizonte já contemplado em Mateus 28. Por outro lado, com o nacionalismo que a atual crise favorece renasce o desejo de fechamento das comunidades sobre elas mesmas em sua suposta ho-

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mogeneidade cultural ou racial. Brotam atitudes racistas e de discriminação cultural e religiosa, tendem ao fechamento de grupos e comunidades em si mesmos, estreitando seus laços por intermédio da religião. Urge abrir mão do complexo de cristandade, pretenso poder para penetrar os demais setores da vida social e organizá-los de acordo com a lógica de seus princípios, sem ser por eles penetrado em igual medida. Confiar no Ressurreto e assumir a sua presença em nossa história significa ir além do comportamento que “metaboliza” as mudanças inevitáveis, adotando-as como a nova forma dos velhos padrões e subvertendo seu impacto transformador pelo preenchimento de seu conteúdo com as mesmas pautas até então vigentes, garantindo, por esse processo, sobrevida ao “Velho Adão”, sua reprodução e continuidade nos novos tempos. A mudança da forma não produz mudanças no jeito de ser. Pode-se dizer que a nossa história tem sido a história de diferentes formas, geradas pelo mesmo jeito de ser. Em outras palavras: a permanência no tempo que não confia na ressurreição mergulha, mas, ao ressurgir, agarra-se aos fragmentos que repetem as soluções falsas do velho jeito de ser. “Afogar e ressuscitar” fala de uma mudança radical dos paradigmas, que desestabilizam ou destroem as bases da configuração estrutural, vigentes na sociedade e no sistema de valores das pessoas. Seguir o Ressurreto e ensinar leva a uma mudança no jeito e na forma de encarar a vida e as coisas.

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Desafio pastoral e missionário

Muita coisa do que se falou e praticou no ambiente religioso tem um tom “nós somos diferentes desses ou daqueles”. O mandato no Evangelho de Mateus não se interessa por isso. A ênfase deve ser colocada nos conteúdos e na possibilidades que ainda não existem. Passam a existir quando confiamos no significado da Páscoa, no poder do Ressurreto: “Ensinem, demonstrem que é possível morrer e renascer”. Ao sermos confrontados verdadeiramente com todas as coisas nas quais nos apegamos ao longo da vida, ocorre uma ruptura para a qual nunca estaremos preparados. Se pleitearmos ininterruptamente por segurança, como nos iremos comportar num contexto que causa estranheza e insegurança? Se pleitearmos todo o tempo por reconhecimento e garantias, como reagiremos no momento em que perdemos o chão sob os pés? A forma como lidamos agora com as nossas experiências determinará a forma de lidarmos com os desafios no amanhã. Será apenas mais do mesmo? Quando não ocorre a imersão na água, conforme Lutero, “e se deixa a pessoa antiga correr solta... a desvirtude vai crescendo... a pessoa antiga não para de desenvolver sua índole natural” (CM, p. 116). Como lidar então com situações em que perdemos as nossas referências e ficamos desorientados? Abrimo-nos para o que é incomum e assustador ou nos retraímos para o primeiro reduto que se nos apresenta? Diante do perigo, conseguimos permanecer serenos e receptivos? Encaramos os acontecimentos que se avizinham? Valemo-nos dos recursos que temos e então mergulhamos de cabeça na situação? Fazemos de tudo um estado de calamidade e emergência? Enrijecemos o nosso corpo e ficamos à espreita de um momento oportuno para safar-nos

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do perigo? Optamos pelo “efeito boiada”? Somos pessoas que admitem medos e dúvidas? Concedemos a eles um espaço? Procuramos desmistificar os problemas, recolocando-os na esfera do real, para então lidar com eles de forma sóbria e objetiva? O que fazemos quando, em meio a uma realidade que nos é estranha, percebemos nosso despreparo? Ao sermos confrontados, verdadeiramente, com todas as coisas às quais nos apegamos ao longo da vida, ocorrem inevitavelmente uma ruptura e uma transformação. Mergulhar e ressurgir deixa para trás a compulsiva necessidade de autopreservação e liberta para a missão. Graças ao Batismo, podemos seguir em frente, transcender tudo o que nos trouxe até aqui. “Não desviemos os nossos olhos! Não fechemos os nossos ouvidos e a nossa boca! Vamos seguir em meio a este mundo que se esfacela, olhando para a rocha eterna, da restauração que não tem fim” (TILLICH, Paul. “Die Erde bebt”, Religiöse Reden, 1. Folge “In der Tiefe ist Wahrheit”.)

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Caminhos para a prédica

No Evangelho de Mateus, as coisas importantes ocorrem no alto de uma montanha, entre o céu e a terra. É lá que o Ressurreto aparece mais uma vez a seus amigos e colaboradores. Um grupo que experimentou perda, decepção e desânimo. Muitos não conseguiam acreditar em sua ressurreição. Não queriam, mais uma vez, criar expectativas para, em seguida, colher nova decepção. Mateus descreve essas reações de forma sóbria. Os céticos e os menos céticos acabam subindo o morro. “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado...” (Mt 28.18s. Almeida, Edição Revista e Atualizada, 1960). A vida prevalece. Tudo volta a ter sentido. Compreenderam que Deus não é indiferente em relação ao que ocorre neste mundo. A ressurreição rompeu a barreira maior. Existem alternativas e possibilidades para além de toda e qualquer barreira que possa surgir. Suas palavras repercutiram e desafiam o percurso desses 2.000 anos. Uma história com luzes e sombras. O mandato também foi usado para encobrir interesses outros, para a expansão econômica e o domínio político. Toda vez que esses interesses prevaleceram foi ferida a dignidade das pessoas, transformando-as em objetos depreciados. Ações missionárias colecionaram momentos de abnegação. Houve sofrimento para os envolvidos. No contexto das Américas, os povos indígenas e africanos foram vítimas dessas ações. Esse “Ide” impediu que a fé cristã se limitasse a experiências subjetivas, expôs o cristianismo ao tempo e à história. Nessa dinâmica, cabe a tarefa de reencontrar, a cada momento, a qualidade e as possibilidades apontadas pelo Ressurreto. E assim buscar, de forma mais intensa, mais do que foi feito tantas vezes, o contato com o dia a dia do mundo. A forma das pessoas refletirem a respeito da vida. Reconhecer suas necessidades reais. Entender seus costumes, desejos e preocupações. Perceber as tendências do momento. Com sensibilidade e discernimento, encontrar as palavras pertinentes de forma clara, concreta e compreensível.

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As falas religiosas, mesmo com todo o esforço e elaboração, tantas vezes reagem a perguntas defasadas. São abstratas, distantes e alheias ao mundo real. Falas que repetem e reproduzem velhas fórmulas, que oscilam entre a incapacidade de reação, algumas tentativas isoladas, ignorância e recuo para salvar o que resta. “Ide...” – Não recuem. Não se retraiam. Não se recolham às fórmulas conhecidas. Cuidado com as construções mentais que condicionam o jeito de falar e de agir. Interajam com o mundo sem preconceitos. Evitem as respostas e julgamentos pré-concebidos. Ensinem e aprendam. Usem intensamente, sem reservas, o coração e a mente de vocês. Façam um esforço para perceber e acolher as coisas como são. Confiem no vestígio pascal que se move para agir no comportamento e na envergadura dos seres humanos e suas comunidades. Sem pressão por resultados. Sem tensão desnecessária, num clima de confiança, contemplação, acolhimento, aprendizado e crescimento.

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Subsídios litúrgicos

Hinos: HPD 04 / HPD 98 / HPD 132 / HPD 2 . Leituras: Jonas 2.1-10 / Salmo 138.7-10 / Mateus 8.23-26 / Mateus 14.22-32. Oração: Dirigimo-nos a Ti, Deus Pai, para que em teu compassivo coração, toda a criação encontre vida e salvação. Para que o universo e cada um de nós, mergulhado no amor divino, sejamos testemunhas da ressurreição, da graça e restauração que não tem fim. Amém!

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXVIII Advento – Celebração .......................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio ....................................................................................................XV, 304 Ação de graças ................................................................................XII, 300; XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita ........................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370; XXXVI, 365; .......................................................................................................................................XXXVII, 348 Achados e perdidos – experiências .................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17) .....................IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10) ........................... X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12) ...........................................................IX, 83 A velhice ...................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para ....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de .............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial .............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13) .................................................................................................................. XX, 351 (Ct 8.7)...................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12) ...............................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3) ............................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ..............................................................................................................................XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ....................................................................................................... X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) ....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ..................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................ XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) ............................ XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular ..................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) ................................................................................................ X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)........................................................................................................ II, 187 (Dt 30.11-20) ............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69) .............................................................................................................. XII, 293 (Mt 5.14-16) ............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18) ............................................................................................................... XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ........................................................ XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ........................................................ XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1)........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) .......................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ..................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) ...............................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ........................................................................................... XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)...................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15) ............................................................................................................ XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ............................................................................... XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ....................................................... XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ............................................... XII, 27 Deus na marginalidade .............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo .........................................................................................................XXVI, 361

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Dia das Crianças (Zc 8.1-8) .............................................................................................. XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) .........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38) ................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8) ......................................................................................................................VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ............................................................................................................ XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43) ............................................................................................. XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) ...................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11) .............................................................................................................. XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) .....................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ..................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21) .................................................................................................................. I, 143 (1 Co 15.50-58) ......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44) ................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33) .......................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) .......................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) .......................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20) ...................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10) ..........................................................................................................XXXV, 347 (1Ts 4.13-18) ..................................................................................................... XXXVI, 335 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) .........................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4) ................................................................................................................ II, 336 (Mc 12.13-17).............................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16) ...............................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13) ....................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)...................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) .......................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36) ................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28) ..............................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10) ................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7) ...................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33) ...........................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12) .............................................................................................................. VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ...................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6) ............................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13) ...............................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36) .......................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10) ..........................................................................................................XXXII, 307 (Jr 31.31-34) ...................................................................................................... XXXVI, 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...............................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) ..............................................................................................III, 62 (2 Ts 3.6-13) ...................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ......................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) .........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música .................................................XXXIII, 401; XXXVII, 353 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)])............. XII, 307 (Ap 3.14-22) ............................................................................................................ XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16) .............................................. XX, 309; XXXVI, 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15) .......................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) .............................. XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ................................................................................... XIII, 60

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Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) ..................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ...............................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7) ....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46).............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ..................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) ...........................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) ...........................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) ........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético ............................................................................................................... XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...” .......................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15) .............................................. X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ..................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) ...........................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ........................................................... XIII, 80 (Is 65.17-25) ............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ........................................................................... XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .............................................................................................. XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) .......................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) ........................................................................... XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías ................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .............................................................. X, 74 Joga limpo, Brasil ....................................................................................................... XXXVIII, 363 Jubileu 500 anos da Reforma ...................................................................................... XXXVIII, 373 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ....................................... XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay .......................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) ........................................................................IX, 57 Marketing e igreja .................................................................................................................. XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) ...............................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) .............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos..............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..............................................XI, 65 Missão (1 Co 12).................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)...... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ................................ X, 106 Mulheres agricultoras.............................................................................................................XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) .................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ........................................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .............................................. II, 176 Lucas .......................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ................................................................ XII, 34 O desafio de ser autor de PL ....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças...............................................................................XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) .............................................. X, 48 O Lecionário Ecumênico .......................................................................................................XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo ..............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ................................................................................. XII, 11

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Pago para ter (2 Co 8.1-15) .................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia ............................................................................................ XIV, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) .................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) ..................................................... XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) ........................................................... XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens .................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ............... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) ......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) .......................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21)......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ....................................................................... XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12)....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15) .................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ...................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB .........XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16).................................................................XI, 85 Semana do excepcional ...................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ............................................................................................ XXIV, 347 Sepultamento............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) .............................................................................................................. XX, 355 (Jo 19.25-27) ............................................................................................................ XX, 360 (Sl 39.5-7)................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) .........................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8) ........................................................................................................... XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ............................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém .........................................................................................................XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro ................ XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ............................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ...................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra ................................................................................ XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) ...................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O)....................................................... XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15) ...................................................................... XIII, 74 Vigília pascal ........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ................................................................................................ XII, 61

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PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXVIII ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a ........... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3 ................................. III, 105 2.4-15 ..................................... XXVIII, 301 2.4b-15 .........................V, 330; XXXV, 211 2.7-9,15-17; 3.1-7 ...... XXX,66; XVIII, 84; ................................................. XXXV, 127 2.8-15 ............................................ XIII, 74; 2.18-24 ..................... XXII,254; XXV, 282; ............................................... XXXIII, 343 3.1-9 .............................................. XII,170; 3.1-19(20-24) ............................... XXV,214 3.1-24 ...............................................VI,133 4.1-16 ..............................VII,203; XIII,246 8.1-13 ..............................................XV,135 8.15-22 .................................... I,71 (68); 78 11.1-9 ............................ XII,205; XVII,130 12.1-4 ........................................... XVIII,88 12.1-4a ...................VII,165; XXXVIII,125 15.1-6 ....................XXVI,256; XXXIV,283 17.1-13 ........................................XXVII,40 18.1-10a(10b-14) .... XX,208; XXXVII,223 18.20-21(22)23-32 ......................... XX,214 21.8-21 ............................................ XIII,60 22.1-13 .............................................VI,144 22.1-14(15-18) ...............................XXII,65 28.10-17(18-22) .............................XXII,71 32.23-31 .......................................XVII,240 32.23-33 ...................................II,207 (374) 50.15-21 ................ XXIV,272; XXVII,240; ......................... XXXV,295; XXXVIII,284 Êxodo 1.8-22 ........................................ IX,107 2.1-10 ...................................... XXVIII,181 3.1-14 ..............................................XII,154 3.1-8,13-15................................. XXVI,108 6.2-8 ..........................XVIII,218; XXX,214 12.1-14 .......................................... XXI,108 13.20-22 ......................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) .... XXVIII, 276 16.2-4,9-15.............................. XXXVI,251 16.2-3,11-18 ...................................XIV,283 19.2-8a ......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 ............XXII,75 22.21-27 ........................................ XXI,280 24.1-11 ............. XXXII,123; XXXVIII,146 24.3-11 .. XVI,224; XXV,164; XXVIII,272 24.12,15-18 .................. XXI,78; XXXII,79 32.7-14 ..XV,225; XXIII,177; XXXVII,272 33.18-23 ...........................................VI,102 34.4b-10 .............................III,153; XV,273

34.29-35 ..................XXV,123; XXXVII,87 Levítico 19.1-2,9-18 ...................XXXVIII,101 Números 6.22-27 ........ XXXIII,58; XXXVI,48 11.11-12,14-17,24-25.................... VIII,205 11.24-30 ....................................XXXII,169 12.9-16 ..............................................XII,18 21.4-9 .............VII,101; XIII,159; XXII,80; ................................................ XXXIII,146 24.15-19 ..........................................XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII,235; ................................................ XXXVI,274 4.32-34, 39-40 .........................XXVII, 148 5.12-15 ..................... III, 43; XXXVIII,171 6.1-9 ....................................... XXXIII, 373 6.4-9 ..............................XV, 246, XIX, 164 7.6-12 ..............................................VI, 219 8.6-10 ...............................................XII, 11 8.7-18 .....................................XXXVII,348 10.12-22 .................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28 ........XXI, 164; XXXII, 184 17.14-20 ...........................................XII, 51 18.15-20 .. XIX, 67, XXXI, 57; XXXIII, 92 24.14-15 ............................................IX, 63 26.1-11 ................................... XXXIII, 394 26.3-11 ........................................ XXVI, 91 30.9-14 ....................................XXXIV, 257 30.11-20 ......................................... VIII, 23 30.15-20 ...............XXXIV, 303; XXXV, 93 32.36-39 ....................................... XXIII,79 34.1-12 ........................XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9.............................................VII, 36 8.1-8 ..................................................XII,61 24.1-2a,13-25 ................................... III,117 Juízes 4.1-7 .....................................XXXII,319 5.24-31 ................................................ X,37 9.7-15 .................................................IX,98 Rute 1.1-19a .................................... XXIX,289 1 Samuel 2.1-10.............. II,176 (343); VII,113 3.1-10(19) .....................XIX, 55; XXXI,44 3.1-10,19 ........................................ XXV,86 11.1-15 ...............................................V,337 2 Samuel 7.1-11,16 ........................ XXXVI,24 7.4-6,12,14a,16 .............................. XXV,35 11.26-12.10,13-15 ..................... XXIX,199; .................................................XXXIV,231 12.1-10,13-14...................................IX,264 12.1-10,13-15a ................................XV,261 1 Reis 3.5-12 ................ XXIV,240; XXXII,236 3.16-28 ........................................ XXX,143

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8.(21-23,27-30)41-43...................XVII,141 8.22-24,26-28...................................VI,189 8.22-30 ............................................XII,191 8.41-43 ...................................... XXIX, 188 17.8-16 .. XVI,292; XXXI,286; XXXVI,346 17.17-24 .................. XVII,146; XXIX,192; ...............................................XXXVII,193 19.1-8(9-13a) ...............................XXII,226 19.1-13a ......................XIV,185; XVIII,204 19.1-18 ............................................... III,92 19.4-8 ...................................... XXXIII,285 19.9-13a ..................................... XXX,204 19.(14-18)19-21 ........XVII,159; XXIX,205 2 Reis 2.1-12 ................................ XXXVI,105 2.9-18 .....................................XXXVII,174 5.1-14 ........................................... XXXI,71 5.1-19a ..............................................VII,58 Neemias 5.1-5(6-12) ............................. XIII,11 5.1-12 ................................................IX,83; 8.1-2,5-6......................XX,183; XXXIV,95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36)............. ................................................... XXXI,263 Jó 7.1-7 .............................XIX, 73; XXXI, 63 19.23-27a ...............................XXXVII,329 38.1-11 ........................................ XXV, 221 Salmo 16 .....................................XXXVIII,165 22.1-19 ..................................... XXXV, 169 22.1-12,17-20............................. XXX, 104 22.2-12,17-20.............................XVIII, 116 23 ............................................. XXXV, 187 46.1-7(1-11) ..... XXVI, 313; XXXVII,311 105.1-7 ..................................XXXVIII,356 111............................................... XXVI, 27 112 ...................................................XII, 77 130.4 .................................................VI, 34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ...................... XX, 225 3.1-8(-13) .......................VI, 48; XXXV, 51 3.9-15 ................................................. X, 16 4.1-4 ................................................... X, 84 5.18 .................................................... X, 65 9.13-18 ............................................... X, 25 Provérbios 8.22-31......................... XXIII, 109 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.7-13 ........................................ XXIII, 172 16.1-9 ............................................. VIII, 80 24.10-14 ..........................................XII, 45 30.5-9 ........................................ XXVI, 215 Isaías 1.1-9 ........................................ XIII, 116 1.10-17 ...........................................XV, 297 2.1-5 ................. VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7 .............. VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13 .............................. VI, 198; XII, 213 7.10-14 ........................................... XXI, 37 7.10-14(15-17) ..........XIII, 104; XXXII, 27

9.1-4 ........................................XXXVIII,80 9.1-6 ............................................ XVIII, 31 9.1-6,10 .......................................XXII, 230 9.2-7 ........................... V, 294; XXXVIII,39 11.1-5 ............................................. XVI, 63 11.1-9 ..XVIII, 58; XXXIII, 31; XXXVII,31 11.1-9(10-11) .................................XIV,148 11.1-10 ................. XXVII,16; XXXVIII,15 12.1-6 ......................................... XXVI,114 24.12-16a ...................................... XIII,312 25.6-8 ............................................ XIX,114 25.6-9 ... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24 ..........................................XII,233 29.18-24 .......................................... III, 130 30.(8-14),15-17 .................................VI, 97 33.13-17,22 ............................. XXXVI,187 35.1-10 .XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; ..... XXXV, 22; XXXV, 347; XXXVIII,334 35.3-7 .......................XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10 ...............................X,158; XIV,115 35.4-7a ................................... XXXIII, 315 40.1-11 . VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31 ..........................................IX, 216 42.1-7(-9) ....XXI, 51; XXV, 80; XXXV, 69 42.14-21 ......................XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7 ......................................II, 132 (299) 44.1-5 ..................................... XXXIII, 401 44.6-8 .............. XXXV, 246; XXXVIII,242 44.9- 20 .......................................... XIII, 50 45.1-7 ......................XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25 ................................... XXVIII, 49 49.1-6 ...........................III, 85; XXXVII,58 50.4-9 .....................II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a ......................................... XXX, 94 50.4-10 .....................XIX, 241; XXXI, 252 51.1-6 .......................................XXXII, 259 52.7-10 ......XV, 100; XXII, 37; XXXIII, 70 52.13-53.12 ............... V,72; IX,196; XV,185; .................................. XII,109; XXXVI,146 53.10-12 ...................................... XXV, 294 54.7-10 .............................IX, 183; XV, 170 55.1-5 .......... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; ................................................... XXX, 197 55.1-9 ......................................XXXIV, 120 55.6-7 ................................................VI, 24 55.6-11 ......................................XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a ............................ VIII, 119 55,10-11 .....................................XXIV, 223 56.1,6-8 ................ XVIII, 213; XXX, 209; ........................ XXXV, 274; XXXVIII,263 58.1-9a ...........................................XV, 147 58.1-12 ....................... IX, 50; XXXIII, 125 58.5-9a ........................................XXIV, 88 58.7-12 ...........................................XII, 300

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60.1-6 . V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; .............................. XXIX,54; XXXVIII,63 61.1-3(4-9), 11 ............................. XIII, 120 61.1-3,10-11 ............................ XXVIII, 20 61.1-3,11,10 .....................................VII, 44 61.10-62.3 . XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5 ..........................XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12 ................II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12 XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16) ........... XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3 ...................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3 ................ I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 ................XXII, 9 64.1-9 ......................................... XXXIII, 9 65.17-25 ......................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14 .............XXIX, 213; XXXVII,217 Jeremias 1.4-10 ................ VII, 184; XIII, 228; .................................................XXXVII,82 7.1-11 .......................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5) ...............................XIV, 301 7.21-26 ......................................... XXX, 15 8.4-7 ........................... VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23 ..............................................VII,71 11.18-20 .....................XIX,246; XXXI,256 14.7-10,19-22.........................XXXVII,305 15.15-21 ....................XVIII,222; XXX,220 17.5-8 ........................................... XXIII,55 20.7-13 . VIII,145; XXI,181; XXXVIII,219 22.13-19 .......................................... XIII,80 23.1-6 ............................................ XVI,217 23.2-6 ............................................. XX,301 23.5-8 .................................. VI,62; XII,103 23.16-29 .................II,144, (311); XIII,209; ...............................................XXXVII,251 26.8-15 ........................................ XXVI, 97 28.5-9 ........................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a .......................................... III,34 31.1-13 ......................................... XXIX,35 31.7-9(-14) ................XXV,301; XXXV, 58 31.10-13(14) ..................................XVII,34 31.31-34 ...................XXII,85; XXXVI,329 33.14-16 ........................................ XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32 .................VI,269 3.21-33 ......................................... XXV,226 Ezequiel 2.1-5............................... XXXVI,226 2.1-8a ........................................... XXV,231 2.3-8a; 3.17-19 .........................II, 96, (263) 17.22-24 .................................. XXXIII,239 18.1-4,21-24,30-32 .........................IX,247; 18.1-4, 25-37.............................XXVII,243 33.7-9 ........................................XXVII,230 34.1-2(3-9), 10-16......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31.......................VI,170; 34.11-16,23-24 ..... XXIV,328; XXXV,363;

............................................. XXXVIII,347 37.1-3(4-10), 11-14 ................... XVIII,103 37.1-3,11-14 .................................. XXX,89 37.1-14 ...XV,193; XXIV,117; XXXII,108; ................................................ XXXIII,228 37.24-28 .......................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) ................... XVI,311 12.1-3 ........................ XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2 ...................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ......................................... XXI,169 11.1-4,8-9 ............... XXIV,323; XXVII,284 Joel 2.1-2,12-17 .............................XXXVI,111 2.12-18 ............................................XII,166 2.21-27 ......................................XXXII,212 2.28-29 .......................................... XXI,153 Amós 3.1-8 .........................XXIV,75; XXX,54 5.6-7,10-15.............................. XXXVI,309 5.18-24 ...................................... XXXV,352 5.21-24 ..............................................VII,76 6.1-7 .................... XXIII,189; XXXVII,286 7.7-15 ...................................... XXXIII,264 7.10-15(16-17) ............................. XVI,211 8.4-7 .......................................... XXIII,181 9.7-10 ................................................ X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............XIX,61; XXXI,52; ................................................. XXXVI,81 3.10-4.11 ...................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a........................ VI,88; XII,114 5.2-4 ............................................. XXIX,21 5.2-5 .......... XVI,63; XXVII,29; XXXIV,30 6.1-8 ......... XXIV,79; XXVII,58; XXXV,87 6.6-8 ...............................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; ............................XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-20 ............... XX,20; XXXVII,20 Zacarias 7.9-10 ............................... XXVI,267 8.1-8 ...........................................XXIV,337 9.9-10 ..............X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11) ..................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5 ........................................ XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12 .X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; ............. XXVII, 46; XXXII,62; XXXV, 28 2.13-18(-23) ....................V,304; XXXV,46; ................................................XXXVIII,47 3.1-12 ....... XVIII,15; XXIV,24; XXXV, 14 3.13-17 ............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; ............. XXX,44; XXXII,66; XXXVIII,68 4.1-11 .......... IV,14; XXVII,70; XXXII,85;

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..............................................XXXVIII,119 4.12-17 ............................................XII,142 4.12-23 ...................... XVIII,61; XXXV, 81 4.23-25 .................................XII,35; XII,34 5.1-10 .......................... IV,212; XXXII,307 5.1-12 .....................XVIII,64; XXXVIII,85 5.13-16 ............................................. X,390; 5.13-16(17-20) ............................. XVIII,69 5.17-20 ............................................ IV,125; 5.20-37 ...................XVIII,73; XXXVIII,96 5.38-48 ....II, 193, (360); X,460; XXXV, 99 6.1-4 ..............................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-21........ XXXIV,115; XXXVII,94; ..............................................XXXVIII,114 6.5-13 ....................... II, 57, (224); XIV,247 6.9-13 ................................. VI,53; VIII,192 6.16-18 ............................................. IV,133 6.24-34 ......................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 .....................X,428; XXXVIII,352 7.15-23 ............................................. IV,140 7.21-29 .. XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27 ............................................VI,233; 9.1-8 ................................................. IV,198 9.9-13 ..... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8 .................................... XVIII,170 10.7-15 ...................................II, 104, (271) 10.24-39 ....................................XXXII,204 10.26-33 .................. XVIII,176; XXX,168; ................................................XXXIV, 347 10.26b-33 ........................ VI,291; XII,268; 10.26-36 ......................................XXIV,203 10.34-39 ..........................................XII,274 10.34-42 ....................XVIII,181; XXX,174 10.40-42 ........... XXXV,229; XXXVIII,225 11.2-10 .............................................. X,170 11.2-11 ........ III,215;; XXI,30; XXVII, 22; ............................. XXXII,21; XXXVIII,21 11.16-19,25-30 ..........................XXXII,221 11.25-30 . XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.14-21 .................................... XXXVI,63 12.22-30 ........................................... IV,217 12.33-35(36-37) ..............................XII,307 12.38-42 .................. II, 225, (292); XII,175 13.1-9(18-23) ......... XXI,196; XXVII, 188; .......XXX,189; XXXV, 240; XXXVIII,237 13.24-30(36-43) ........ XVIII,289; XXI,203; ..................................................XXXII,229 13.31-33 ................................XXXVIII,247 13.44-46 II, 150, (317); VIII,253; XIV,295; ................................................. XXXV, 253 13.44-52 ...................XXI,207; XXVII, 194 14.13-21 XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ..................................................XXXII,241 14.22-33 ..VI,109; XXIV,249; XXVII, 202;

........................ XXXV, 267; XXXVIII,258 15.21-28 .... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ..................................................XXXII,255 16.13-19 ....................................... XXIII,40 16.13-20 ............... XXIV,260; XXVII, 216; ......................... XXXV,278; XXXVIII,268 16.13-20(23) .......................... II, 72, (239); 16.21-26 ................. XXI,223; XXVII,222; ..................................................XXXII,264 17.1-9 ............. X,216; XVIII,78; XXX,60; ................................................. XXXV, 114 18.1-5 .............. XXXVII,48; XXXVIII,310 18.15-20 .............II, 123, (290); XVIII,226; .............................. XXX, 227; XXXV, 290 18.21-35 ...... X,467; XVIII,232; XXX,234; ..................................................XXXII,269 19.16-26 ................................ II, 182, (349) 20.1-16a .IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16 ..................XXIX,296; XXXV,302; ..............................................XXXVIII,290 20.17-28 .......................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 ................................... III,194; X,149 21.1-11 ..................................XXXVIII,140 21.14-17 .................... II,52, (219); XII,185; ...............................................XXXVII,353 21.23-32 ....................................XXXII,282 21.28-32 ........................ VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46) ........ XVIII,250; XXXV,315; ..............................................XXXVIII,304 22.1-10 (11-14) ........XXX,243; XVIII,254 22.1-14 ...........IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22) ........ XVIII,259; XXXV,323; ..............................................XXXVIII,314 22.23-33 ......... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 .......................................... IV,194; 22.34-40(41-46) ...... XXX,253; XXXII,298 23.1-12 .................II,158, (325); XXX,259; .................................................. XXXV,335 24.1-14 ............................ VI,68; XVIII,275 24.15-28 ........................................... IV,222 24.37-44 ........ XXI,21; XXVII,9; XXXII,9; ..................................................XXXVIII,9 25.1-13 ............ IV,243; XI,336; XXIV,312; .................................................... XXX,277 25.14-30 .. II, 233, (400); X,394; XVIII,272; ................................................... XXX, 286 25.31-37 .................................... XVIII, 297 25.31-46 ....... IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ........... XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; .................................................XXXII, 324 26.14-27.66 ............................... XXXV,157 26.30-56 .................................... XVIII, 109 26.36-46(-56) ..............VI, 29; XXXV, 162; ..............................................XXXVIII,154

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26.57-75 .....................................XXIV,122 27.11-26 .................................... XXXII,116 27.33-50(51-54) ....VIII,162; XXXVIII,154 27.33-54 .....................XXI,111; XXVII, 99 27.33-56 .........................................XIV,201 28.1-10 ...... VI,167; XXIV,139; XXXV,176 28.16-20 ....X,374; XXX,156; XXXIV,203; .................................................. XXXV,222 Marcos 1.1-8 ..................XXII,14; XXVIII,13; .................................................. XXXIII,16 1.4-11 .....XXII,48; XXVIII,64; XXXVI,69 1.9-15 ...................................... XXXIII,132 1.12-15 ..........XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20 .. XXII,56; XXVIII,73; XXXIII, 84 1.21-28 .... XVI,99; XXVIII,79; XXXVI,86 1.29-39 .................XXVIII,87; XXXIII,101 1.32-39 .............................. VI,284; XII,261 1.40-45 ........ VI,258; XII,241; XXXVI,100 2.1-12 .......................... X,453; XXVIII,100 2.18-22 .......................................... VIII,105 2.23-28 ........ VIII,311; XIV,367; XXII,169; ................................................ XXVIII,228 3.1-6 .................................................. X,114 3.20-35 ................... XVI,192; XXVIII,233; ................................................ XXXVI,209 3.31-35 .............................................VI,252 4.26-29 ............................................. VI,113 4.26-34 ..................XXII,175; XXVIII,240; ................................................ XXXVI,216 4.30.32 ...........................................XII, 313 4.35-41 ..XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ............................................... XXXIII, 244 5.21-24a,35-43 ...XXVIII,253; XXXIII,378 5.24b-34 ......................................XXII, 188 5.25-34 .............................................XII, 27 6.1-6 .......XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13 ..................................... XXXIII, 256 6.6b-13 .......................XIX, 201; XXV, 236 6.14-29 .......................... X,74; XXXVI,235 6.30-34 ...XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208; ............................................... XXXIII, 270 6.34-44 ...................................... XXX, 247 7.1-8,14-15,21-23 ....XIX, 233;XXXI, 242; ............................................... XXXIII, 309 7.24-37 .................................... XXXVI,279 7.31-37 ............IV, 163; X, 408; XXII, 239; ............................................... XXVIII, 307 8.22-26 ...........................VIII,269; XIV,317 8.27-35 ................... XVI,247; XXXIII, 323 8.31-38 ..............X,234; XIX,83; XXV,134; ............................... XXXI,91; XXXVI,121 9.2-9 ....XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29 .............................................VI,278 9.30-37 .. XVI,255; XXII,245; XXXVI,289

9.38-50 ..................XXII,250; XXVIII,322; ............................................... XXXIII, 334 9.43-48 ...................II, 138, (305); XVI,263 10.2-12 .............. XXVIII,326; XXXVI,303 10.13-16 .................................. XXVIII,313 10.17-27 .......XII,256; XVI,268; XXII,260; ............................................... XXXIII, 348 10.32-45 ............................................ X,106 10.35-45 ................. XXVIII,289; XVI,277; ...........................XXXIV,270; XXXVI,316 10.46-52 ...................... XVI,283; XXII,265 11.1-11 ................................... XXXIII, 160 12.1-12 ............................................. X,242 12.13-17 ........................................... III,138 12.28-34 .................................. XXXVI,340 12.41-44 ...VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-8 ...................................... XXXVI,353 13.1-13 ...XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 .................................. XXVIII,358 13.24-37 ...................................... XXXVI,9 13.31-37 ....................................... XIV,397; 13.33-37 .............................XXV,17; XIX,9 14.3-9 ............................... VI,149; XXII,93 14.6-9 ..............................................XII,181 14.12-26 ..................... XVI,134; XXII,104; .......................... XXVIII,144; XXXVI,140 14.17-26 ...........................................VI,156 15.1-15(16-20) ........ XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 .IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; .......................... XXVIII,159; XXXVI,152 16.9-14(15-20) ...............VIII,173; XIV,225 16.12-18 .................................. XXXIII,184 16.14-20 ............................................. IV,77 Lucas 1.1-4 ...................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38 .............. VI,81; XII,109; 1.26-38 ............. XVI,56; XIX,27; XXII,28; ...............................XXVIII,26; XXXIII,24 1.39-45(46-55) .......XXVI,20; XXXVII,26 1.(39-45)46-55(56) .......................... X,175 1.46-55 ..............................................V,288 1.57-66 ........................................XXIV,200 1.67-79 .................................V,270; VIII,30 2.1-7 .... XXX,24; XXXIV,38; XXXVIII,33 2.1-7,8-14,15-20 ............................. XVI,63 2.1-14 ....... I, 161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20 ........... XXIV,41; XXXIV,69; .................................................XXXVII,54 2.1-20 ................... III,218; IV,273; XVII,28; . XXI,41; XXIII,21; XXIV,34; XXVII,34; .................................... XIX,26; XXXIII,37 2.22-40 ...................................... XXXVI,56 2.41-52 ............................................. XX,35 3.1-9 ............................. V,281; XXXVII,14 3.1-14 .................................................VI,76

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3.7-18 ..........XVII,21; XXIII,15; XXIX,16; ...................................................XXXIV,24 3.15-17,21-22................. XX,40; XXVI,36; .................................................XXXVII,64 4.1-13 ...XXIII,60; XXIX,81; XXXVII,100 4.14-21 ........ VI,19; XXVI,47; XXXVII,76 4.14-21(22) ....... XX,50; XX,59; XXVI,47 4.16-21 .............................................. X,186 4.21-30 ....................XXVI,54; XXXIV,100 5.1-11 .. IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI,59 6.17-26 ............................ XX,69; XXVI,66 6.27-38 ............................ XX,73; XXVI,74 6.36-42 ..................................IV,112; X,368 7.1-10 ......................................... XXVI,206 7.11-17 ..............................IV,186; VIII,293 7.36-50 ....... VIII,262; XIV,309; XXVI,220 7.36-8.3 ..................................XXXVII,199 8.4-10 ................................................ X,228 8.26-39 .....................................XXXIV,237 9.10-17 .......................................... VIII,241 9.18-24(25-26) ........... XX,190; XXVI,226 9.28-36 .......XX,82; XXVI,85; XXXIV,109 9.51-56 ............................................XV,167 9.51-62 .................... XX,198; XXXVII,212 9.57-62 ............................................. X,251 10.1-11,16-20 ...........................XXXIV,252 10.1-12,16 ...................................... XX,204 10.17-20 ......................................XXIV,285 10.21-24 ...................................II, 82, (249) 10.25-37 ........X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ..... VI,124; XVII,170; XXIII,140; ............................XXIX, 216; XXXIV, 264 11.1-13 ................... XXIII,145; XXIX,223; ...............................................XXXVII,229 11.5-13 .............................................VI,184 11.14-23 ............................ VI,297; XII,283 12.13-21 ............... XXIII,149; XXIX, 228; ................................................XXXIV, 278 12.32-40 ............... XVII,183; XXXVII,241 12.35-40 ......................................... III, 226 12.41-48 ..........................................VI, 302 12.42-48 .........................................XII, 289 12.49-53 XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235; ................................................XXXIV, 289 13.1-9 ......... XVII,83; XXIII,72; XXIX,93; ............................................... XXXVII,111 13.10-17 .................................XXXVII,257 13.22-30 XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35 ......XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 ............... XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 ........................................XVII,196 14.15-24 ................................. IV,96; X,354 14.25-33 .... VIII,235; XX,251; XXVI, 277; ...............................................XXXVII,266

15.1-3,11b-32 .......... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32 .IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10) ...................................... X,361 15.1-10 ...... IV, 106; XX, 255; XXXIV, 309 15.8-32 ................................... XXVIII, 265 16.1-9 .............................................. IV, 147 16.1-13 .. XX, 260; XXVI, 286; XXXVII,277 16.19-31 ...... IV, 88; XX, 265; XXXIV, 321 17.1-10 ...................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6 ...........................VIII, 286; XIV, 346 17.5-10 ...................................XXXVII,291 17.7-10 ........................... VI, 117; XII, 160 17.11-19 ............ IV, 172; X, 421; XX, 275; ............................XXVI, 305; XXXIV, 371 17.20-35 ............................................V, 275 18.1-8a ..................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8 ...VIII, 343; XXVI, 325; XXXVII,301 18.9-14 .. IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23 .........................................XII, 249 18.31-43 ....................................... VIII, 124 19.1-10 ... II,112, (279); VIII,219; XIV,275; ...............................................XXXVII,324 19.28-40 ...............XXVI,121; XXXIV,138; ............................................... XXXVII,116 19.41-48 ............................. IV, 153; X, 401 20.9-19 ........................XVII,94; XXIX,105 20.27-38 ................XXIII,223; XXXIV,359 21.5-19 .................... XX,296; XXXVII,336 21.25-36 ......... III, 209; XVII, 9; XXXIV, 9 22.7-20 ....................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ........................VIII,131; XIV,172 23.33-43 ..............XXVI, 344; XXXIV, 365 23.(26-32)33-49 .......XVII,102; XXIX, 119 23.33-49 ....................VI,162; XXXVII,127 23.35-43 .......................................XVII,248 24.1-11(12) .................................... XX,127 24.1-12 ....................... II,201; XXXVII,132 24.13-35 ....... VI,40; XXI,125; XXVII,114; ......................... XXXII,137; XXXVIII,176 24.36-49 ..XVI,164; XIX,128; XXXVI,162 24.44-53 .............. XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53 .......... XIX,148; XXII,145 24.50-53 ........................................... X,331; João 1.1-5.9-14 ....XIX,35; XXV,39; XXXI,24; .................................................XXXVII,36 1.1-18 .......................... XXIII,30; XXIX,46 1.(1-9)10-18 ........XXXIII,64; XXXVIII,59 1.6-8,19-28 ......XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28) ............ VIII,49; XXXVI,19 1.29-34 .......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) ............. XVIII,57; XXI,55; .................................................... XXXV,75 1.35-42 .......................................... XII,227; 1.43-51 ............ XII,129; XVI,92; XXII,52;

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........... XXVIII,68; XXXIV,80; XXXVI,76 2.1-11 ..................IX,41; XX,44; XXVI,40; ...................................................XXXIV,89 2.13-22 ...............................VI,237; XIX,87 3.1-11(15) ......................................... X,347 3.1-17 XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ............................................... XXXIII, 232 3.14-21 ........XIX,95; XXV,144; XXXI,96; ................................................ XXXVI,128 4.1-11 ........................................ XXXI,149 4.5-26 ..........................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 ....................................II, 89, (256) 4.46-54 ............................................XII,148 5.1-9 .......................................XXXVII,168 5.1-16 .............................................XIV,360 5.1-16(18) ..................................... VIII,304 5.19-21 ...........................................XIV,215 5.24-29 ..XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; .................................................... XXX,271 5.39-47 .............................................VI,204 6.1-15 ... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; ............................. XXXI,213; XXXVI,245 6.(22-23)24-35 ............XIX,217; XXV,254; ...... XXXI,218; XXXIII, 280; XXXVI,365 6.35 .............................................. VIII,151; 6.37-40(41-43),44 ..................II, 200, (367) 6.35,41-51 ............................... XXXVI,257 6.41-51 . XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; ................................................... XXXI,226 6.51-58 ...................... XIX,225; XXXI,232; ................................................ XXXIII,292 6.56-69 .................................... XXXVI,269 6.60-69 ......XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69 ............................................XII,293 7.14-18 ............................................ VIII,87 7.37-39aXVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211 7.37-39 ............VI,194; XII,199; XXII,158; .................................................. XXXV,216 8.1-11 ............................................ VIII,228 8.21-30 ...........................VIII,138; XIV,179 8.31-36 .. II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; ................................................... XXIII,209 9.1-7 ...............................VIII,248; XIV,290 9.1-11 ....................................XXXVIII,135 9.1-41 ........................................XXXII,104 9.13-17,34-39...............XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 .......................................... VIII,299 10.1-5,27-30.............................II, 40, (207) 10.1-10 . XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16 ............................................. IV,53 10.11-18 ...XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................ XXXIII,199 10.11-18,27-30 .................................. X,310 10.14-16,27-29.......................... XXXIII,50

10.22-30 ..............XXIX,141; XXXVII,149 10.22-30(31-39) ..........................XVII,117; 11.1,3,17-27 .......II, 188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45) ..................... X,434 11.1-5,17-21 ...........................XXXVII,319 11.47-53 ....... VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.12-16 .................................. XXXVI,134 12.12-19 ..............................X,269; XX,110 12.20-26 ............................................ X,258 12.20-30 ....................................... XXV,150 12.20-33 ...................XIX,102; XXXI,103; ................................................ XXXIII,154 12.44-50 .......................................... VIII,65 13.1-15,34-35.................................... X,277 13.1-17,34 ................ XXX,99; XXXIV,144 13.31-35 ................. XVII,121; XXIX, 149; ......................... XXXIV, 144; XXXIV, 191 14.1-6 ..............................................XII,134 14.1-12 .....................XXI,139; XXVII, 124 14.1-12(14) ..........II, 63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27) ........................XXXIV, 219 14.15-19 .........................................XV, 232 14.15-21 ..................XXIV,165; XXXV,200 14.23-27 ............................... IV,82; X, 341 14.23-29 ..................XVII,126; XXIX, 154 15.1-8 ............. X,317; XIX,139; XXV, 189 ............................. XXXI,146; XXXVI,174 15.9-12(13-17) .............................XIV, 374 15.9-17 ........VIII,317; XIX,143; XXV,192; ................................................XXXIII, 211 15.(18)26-16.4 ................................. X, 337 15.26-27; 16.4b-11..... XX,171; XXVI,191; ................................................ XXXVI,197 16.5-15 ............................................... IV,65 16.12-15 ..XX,177; XXVI,200; XXXVII,184 16.16-23a ............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a ......................VI,129; VI, 176 16.22-28 ............................................. IV,72 16.23b-28,33 .................................... X,323 17.1-11 ..................................XXXVIII,200 17.1a,6-19 ............................... XXXIII,221 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.1-11 ......................XXI,148; XXVII,132 17.9-19 .............................. IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19 ...........XIX,153; XXXI,157 17.20-26 ..................... VIII,198; XXIX,168 18.33-37 ......................XIX,299;XXXI,296 18.33-38a ................................ XXXVI,358 19.16-30 ................ IV,38; X,284; XIX,110; ............ XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168 20.1-18 ............ XXXIV,162; XXXVIII,159 20.1-2,11-18 ...............................XXIV,230 20.1-9(10-18) ......... XVIII,120; XXVI,136;

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.................................................... XXX,109 20.11-18 ........................VIII,166; XIV,207 20.19-23 ..................XXIV,173; XXX,150; ..............................................XXXVIII,206 20.(19,23)24-29 .............. X,301; XIX,119; ..................................................XXXII,134 20.19-31 ...XIX,119; XXI,121; XXVII,110; ................................ XXIX,128; XXXI,133 20.26-31 .................................XXXVII,138 21.1-14 ......................XVII,111; XXIX,136 21.1-19 .....................................XXXIV,178 21.15-19 ....................................... VIII,179 21.20-25 .....................................XXXIV,53 Atos 1.8-14 ...................................... XXIV,168 1.1-11 .......... XX,155; XX,160; XXVI,182; ...... XXIX,161; XXXII,162; XXXVIII,195 1.15-26 .................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 .................................XI,242 1.15a,21-26 ............................. XXXVI,193 2.1-13 ...............................................XI,249 2.1-21 ....................... XIX,158; XXVII,139 2.14a,22-32 ................................ XXIV,143 2.14a,36-47 .................................XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39 .......................XV,239 2.36-41 ............................................... III,59 2.41a,42-47 ......................................XI,284 3.1-10 ..............................................VII,198 3.13-15,17-26.......... XVI,158; XXVIII,165 4.5-12 ...................................... XXXVI,168 4.8-12 ..................................... XXVIII,172 4.32-37 .............................................. V,310 5.12,17-32 ..................................... XX,130 6.1-7 .............................. III,134; XXIV,155 7.55-60 ..................................XXXVIII,182 8.14-17 ......................................XXXIV, 85 8.26-40 ... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ............................................... XXXIII, 205 9.1-20 ............................................. XX,136 9.36-43 ....................................XXXIV, 184 10.34-38 ...XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18 ....................... XIX,49 10.34-43 ............. XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30 .................. XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25...............................XXII,33 13.44-52 .......................... XX,140; XX,143 14.8-18 .......................................... XX,148 16.6-10 ........................................... XX,164 16.9-15 ...............................IX,171; XV,141 16.16-34 ..................................XXXIV, 211 16.23-34 ..........................VII,122; XIV,233 17.1-15 ........................................XXIV,159 17.16-34 ...............................................I,34 17.22-31 .................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54;

......... XXXII,36; XXXVI,30; XXXVIII,28 1.16-17; 3.21-28 ...................XXXVIII,327 3.19-28 .............. II,169; XX,278; XXI,267; ............................... XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a ............................XXVII,156, 272 4.1-5,13-17............. XXIV,100; XXXV,133 4.13-25 .................................... XXXIII,138 4.18-25 ................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5 ... XVII,137; XXIX,180; XXXIV, 224 5.1-8 ..........................................XXXII,197 5.1-11 ..........XXVIII,122; V,51; XXXII,98; ..............................................XXXVIII,129 5.6-11 ..................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15 ......................................XXVII,172 6.1b-11 ................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8 .................................................XI,278 6.19-23 ................................ V,164; IX,258 7.15-25a ........... XXXV,234; XXXVIII,231 8.1-11 ..................I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 .........................V,170; XXXVI,203 8.14-17 ..................XXV,203; XXXVII,179 8.14-17,22-27............................. XXIX,174 8.18-23 ...............................................V,150 8.18-23(24-25) ........................... XVIII,192 8.26-27 ........................................ XXX,193 8.26-30 .............................................IX,233 8.31b-39 ...........................................XI,144 8.31-39 ......................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39 .............................. XVI,110 9.1-5 ................. XXXV,261; XXXVIII,252 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4 ......................................V,185 9.30b-33 ........................................... III,124 10.5-13 ......................XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32 ............................XXIV,255 11.25-32 .................................... I, 95, (102) 11.32-36 ............................................V,126; 11.33-36 ..........................................XI,256 12.1-8 ............................ XI,152; XXIV,265 12.9-12 ...................................... XXXV,284 12.9-21 ..................................XXXVIII,273 12.6-16 .................................................V,19 13.1-10 .......................................... XXI,229 13.8-10(13-14) .................................XI,107 13.11-14 ...........IV,251; XXIV,19; XXXV,9 14.5-9 ............................................ XXI,234 14.7-13 .............................................. III,79 14.10-13 ..........................................XI,266 15.4-13 .........................XXI,25; XXXII,16 16.25-27 ....................................... XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ............ XXIV,70; XXXII,72; ................................................XXXVIII,75 1.3-9 ............................. XVI,51; XXVIII,9 1.4-9 ...................................................V,228

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1.10-17 ............................................ XXI,60 1.18-25 ............................................. XX,97 1.26-31 ..................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ................................ XXI,71; XXII,60 2.1-10 ................................VII,50; XIII,126 2.1-12(13-16) ..........................XXXVIII,91 2.6-13 .............................................. XXI,74 2.12-16 ............................................VII,150 3.9-15 .................................XV,266; IX,269 3.16-23 .........................................XXII,193 4.1-5 .................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................ I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20...................... I,86, (93) 6.12-20 ...................................... XXXIII,76 6.24-34 ...................................... XXXV,106 7.29-31 .........................................XXIV,90 7.29-32a ................................... I, 46, (213) 8.2 .................................................. XIII,42 9.16-23 ....... XIV,264, XXV,96; XXXVI,90 9.24-27 ....................... XI,165; XXXIII,112 10.1-13 ..................................V,179; XX,91 10.16-17 ..........................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ......................... XXXI,113 10.31-11.1 .................................... XXV,107 11.23-26 .................. XXIV,127; XXVII,94; ...............................................XXXVII,120 11.23-29 ...............................................V,65 12 .................................................... XIII,34 12.1,4-11 . XVII,47; XXIX,59; XXXVII,70 12.12-21,26-27............ XXIII,45; XXIX,64 12.27-13.13 ...................XVII,52; XXIX,71 12.31b-13.13 .......................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25....................................VII,158 14.12b-20 .................................... XXIII,49 15.1-11 ................. XVII,108; XXXIV,105 15.1-20 ............................................... III,13 15.12,16-20 ............... XVII,63; XXXII,311 15.19-28 . I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ..................................................... XXV,175 15.20-28 ...................XVIII,280; XXX,293, 15.35-38 .......................................... XIII,29 15.45-49 .........................................XVII,69 15.50-58 .......... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7 ......................... I, 112, (119) 1.18-22 .............. VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ........................................... XXV,118 3.3-9 .................................................IX,283 3.12-4.2 ...........................XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ................................. IX,157; XIV,165 4.5-12 .........................XIX,169; XXXI,171 4.6-10 ...............................................XI,158 4.7-18 ................................................. III,53 4.13-18 ........................XIX,173;XXXI,177 4.16-18 .......................................... XIII,192

5.1-10 ............................... IX,295; XV,288; 5.6-10 ....................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21 ....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21 ...... XVI,140; XXVIII,153 5.20b-6.10 ................................. XXXV,120 6.1-10 ...............................................VII,82 6.1-13 ...................................... XXXVI,221 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15 .............................................. XIII,18 8.7-15 ...................................... XXXIII,251 8.9 ................................................. XV,112 9.6-15 ................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 .............. XIII,142 12.1-10 ................................................V,26; 12.7-10 .......................XIX,195; XXXI,199 13.11-13 .... IX,240; XXI,158; XXXII,174; ..............................................XXXVIII,214 Gálatas 1.1-12 .............................XXXVII,189 1.11-24 ....................................... XXIII,113 2.16-21 .......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 .. XXIII,119; XXXVII,206 3.28 ................................................. XII,70 4.1-7 ............................................... IX,144 4.4-7 ............ XV,106; XVIII,38; XXX,31; ................................ XXXIII,44; XXXV,33 5.1-6 ............................................ XIII,167 5.1-11 ..................I, 118, (125), 124, (131); .................................................. XXXV,341 5.1,13-25 ..............XXIII,126; XXXIV, 243 5.25-26; 6.1-3,7-10 .........VII,214; XIII,253 6.14-18 ....................................... XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ...................................................... XXX,37 1.3-14 .......... III, 62 XXII, 204; XXXIV, 75 1.3-6,15-18................................... XVIII,43 1.(16-20a)20b-23 ....... XXI,144; XXX,138 1.20b-23 .......................................... IX,227 2.1-10 .......................................... XXX,265 2.4-10 ...................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 .......................... X,48; XXXVI,239 2.13-22 .........................................XXII,209 3.1-12 ........................ XXXI,30; XXXV,64 3.2-12 ............................. XVI,83; XXII,43 3.14-21 ......................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 .................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 .................................. XXII,215 4.17-24 .........................................XXII,220 4.20-32 ...............................................V,235 4.30-5.2 ......................................... XVI,228 5.1-8a ..............................................XI,205 5.1-9 ....................................................V,46; 5.8-14 ......................XXIV,105; XXXV,145 5.9-14 .............................................. III,100 5.15-20 .................... XVI,233; XXXVI,264

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5.15-21 ............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31 .......................... XVI,236 5.21-31 .................................... XXVIII,294 6.10-20 .................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11 ... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ..................................................XXXIV, 16 1.12-21 ..............................................VII,95 1.20c-27 .....................................XXIV,280 2.1-4 .............................................. VII,173 2.1-5(6-11) .................................. XXI,245 2.1-13 ............... XXXV,309; XXXVIII,297 2.5-11 ....V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; ................................. XXIX,111; XXXII,59 2.12-13 ............................................XV,282 3.4b-14 ....................................XXXIV, 133 3.12-21 ................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11 ...............................................XI,291 3.7-14 ................................................V,261 3.8-14 ............................................. XX,102 3.12-16 ..................................... II, 20 (187) 3.12-21 ......................................XXVII,251 3.17-21 .............................................XI,330 3.17-4.1 ..................... XX,86; XXXVII,105 3.20-21 .................. I,136, (137); 129,(143) 4.4-7 ............................................. XXVI,15 4.10-20 .............................................IX,150 Colossenses 1.1-6 ........................... XXVI, 233 1.12-20 ................ XXIII,229; XXXVII,342 1.15-23 ..................................................I,47 1.21-28 ...................................... XXVI, 240 2.3-10 ............................................XIV,140 2.6-15 ........................................ XXVI, 250 2.12-15 .......................................... XIII,186 3.1-4 ............. III,48; XXI,117; XXXII,127 3.1-11 .....................................XXXVII,236 3.12-17 ......................... V,107; XXXVII,42 4.2-6 ...................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a ................ XXIV,294; ..................................................XXVII,256 1.5b-10 .....................................XXVII, 263 1.2-10 ..............................................VII,210 2.1-8 ................. XXXV,329; XXXVIII,321 2.8-15 ........................................XXVII,277 3.9-13 ............................ XX,15; XXXVII,9 4.1-8 ....................................... V,38; XI,315 4.13-14(15-18) .............................. XXI,285 4.13-18 ................... XXI,292; XXXVI,335 5.1-8 .................................................IX,288 5.1-11 .......................XXI,297; XXXV,357; ..............................................XXXVIII,340 5.12-24 .............................................IX,274 5.16-24 .......................XXII,19; XXXIII,20 2 Tessalonicenses 2.1-17 ....................... III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ............... XXIX, 311

3.1-5 ................................................ IX,252 3.6-13 ................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo ..1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 ..................................... II, 169, (336) 2.1-6 ......................................XXXVIII,279 2.1-8 .. XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370 3.16 .............................................. XIV,132 4.4-5 ............................................ XIII,298 6.6-16 ........................XVII,215; XXIX,274 6.11b-16 ........................................... IV,255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ............ XXIII,195 2.8-13 .................. XXIII,205; XXXVII,296 2.8a(8b-13) ................................... XV,198 3.14-4.5 ....................................XXXIV,333 Tito 2.11-14 ..II,263, (430); XI,128; XXIV,34; .................................................... XXXV,40 3.4-7 ................ IV,280; XX,29; XXXIV,45 Filemom 8-21 .................................. XXIX,254 9b-17(18-21) ................................XVII,201 Hebreus 1.1-4(5-12) ....................... XXXVI,35 1.1-9 .............................................. XVI,70 2.9-11 ..........................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ........................................... IX,188 3.1-6 ............................................. XIX,262 4.9-16 .......................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13 .............................................XI,171 4.14-16 .............................................XI,192 4.14-16; 5.7-9 ...... XXIV,133; XXXIV, 153 5.1-6(7-10) .............. XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 ......... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 7.23-28 .................................... XXXVI,322 9.15-17,26b-28............................... XX,122 9.15,24-28 ............................................ III,7 9.15,26b-28 .................................. XIII,179; 9.24-28 ........................................ XIX,291 10.19-25 ................... II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10 ....................................IX,178 11.1-3,8-16 ..................................... XX,229 11.1-4 ........................................ XXVIII,39 11.8-10 ............................................XV,160 12.1-3 ..............................................XV,178 12.1-13 .......................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ................ XV,127 12.18-24 ..................XX, 242; XXXIV, 296 13.1-8 ............................................. XX,246 13.1-8,15-16...........................XXXVII,262 13.(7)8-9b .................................... XIV,153 13.12-16 ............................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 ........................................ XXV,268 2.1-13 .......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ........................ XXV,275 2.14-24 ........................................... III,110 3.1-12 ...................................... XXXVI,283

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3.13-4.3,7-8a ........................... XXXIII,327 4.13-17 ........................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ......XIII,265; XIX,252; XXXVII,160 5.7-8 ............................................... XI,114; 5.7-10 ........................................... XVIII,19 5.13-16 ............................................VII,220 5.13-20 .................................... XXXVI,295 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ..................... XIII,152; 1.17-21 .........................................XXX,118 1.17-22 ................... XVIII,129; XXXV,182 1.3-9 ..................III,22; XI,221; XVIII,125; .....................................................XXX,114 2.1-10 .......... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 .......................XXX,128; XVIII,138 2.13-17 ..................................... I, 102 (109) 2.15-17 ............................................. VI,13 2.18-25 ........................................ XXX,122 2.19-25 ..................................... XVIII,133 2.21b-25 ............................... V,91; XI,229; 3.8-17 ................................................ V,156 3.13-22 ..................................XXXVIII,188 3.15-18 ....................XVIII,146; XXIV,165 3.18-22 .................................... XXXVI,116 4.7-11 ............................................... V,120 4.13-19 ..................................... XVIII,152 5.1-5 ................................................... III,27 5.5b-11 ................................ V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ..................................... III,145 1.16-19(20-21) ............................... IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII,65; ..............................................XXXVIII,108 3.8-14 ..... XVII,237; XXIII,218; XXV,23; .................................................. XXXVI,14 1 João 1.(1-4)5-2.2 ......XXII,124; XXXVI,157 1.5-10; 2.1-6 ......... XIII,216; XXXVI,181 2.21-25 ..............................................VII,30 3.1-3 ................................................ VII,21 3.1-7 ........................................ XXXIII,191 3.13-18 .............................................. IX,57

3.18-24 ........................... III,159; XXII,130 4.1-6 ................................................. IX,72 4.1-11 ...........................................XXII,135 4.11-16 ....................................... XXXI,165 4.7-12 ............................................. XI,299 4.7-16 ............................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 ......................... XXII,149 4.16b-21 ........................................... V,135 5.1-5 ....................................... V,84; XI,235 5.1-6 ........................................... XXII,118 5.11-13 ............................................ XI,138 Apocalipse 1.4-8................. VII,131; XIII,204; .................................................XXXIV,169 1.9-18 ...............................VII,65; XIII,133 1.9-20 ......................................... XXVI,145 2.8-11 ..............................VII,228; XIII,275 1.9-20 .......................................... XXIII,84 3.1-6 ...........IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 ................. II,248 (416); XXXVI,42 3.14-22 ........................................ XIII,304 4.1-11 ....................................... I, 144(151) 5.1-14 .................................................VII,7 5.11-14 .................... XXIII,90; XXVI,150; ...............................................XXXVII,144 7.9-12 ......................................... XVII,230 7.9-17 ............ III,182; XIII,110; XXIII,94; ................................................... XXVI,159 12.1-6 ......................................... XXIII,26 12.7-12 ........................................ XXI,241 14.6-7 ............................................... V,249 15.2-4 ............................................ XV,218 19.11-16 ......................................... III,195 21.1-5 ................XXVI,170; XXXVII,155; ................................................XXXVIII,52 21.10-14,22-23........................... XXVI,176 21.10,22-22.5 ...........................XXXIV,195 22.10-16 ............................................ X,11 22.12-17,20 ................................ XXIII,99

Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

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COLABORADORES DO VOLUME 37 ABENTROTH, Anelise L. ADAM, Júlio Cézar ALBRECHT, Astor ALTMANN, Walter APPELT, Fabiani BLASI, Márcia BOOTZ, Éverton Ricardo BRAKEMEIER, Gottfried BRAUN, Odair A.; IMMICH, Vera M. DREHER, Carlos A. DREHER, Scheila dos Santos GAEDE, Leonídio GAEDE, Valdemar GARCIA, Paulo Roberto GARIN, Norberto da Cunha GAUSSMANN, Samuel GONÇALVES, Humberto Maiztegui GRAF, Geraldo HENN, Fernando JANKE, Scheila KALMBACH, Pedro KLEINE, Michael KONZEN, Léo Zeno KOWALSKA, José KREIDLOW, Daniel KUNZ, Claiton; KUNZ, Marivete KÜNZER, Renato KUPKA, Cláudio LACERDA, Gerson LENKE, Ângela LIEVEN, Guilherme MARKUS, Cledes MEURER, Evandro MORAIS, Jilton MÜLLER DA SILVA, João Artur MUSSKOPF, Carlos OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de

anelisevilmar@gmail.com juliocezar@est.edu.br astor.alb@ibest.com.br waltmann@sinos.net fabiappelt@hotmail.com retalhos13@hotmail.com erbootz@hotmail.com brakemeier@terra.com.br veraodair@gmail.com carlosdreher@est.edu.br drehersantos@uol.com.br casasinodal@sinodotaquari.org.br valdemargaede@pomernet.com.br paulo.garcia@metodista.br norberto-garin@hotmail.com Samuel_gausmann@yahoo.com.br humbertox@uol.com.br g.graf@uol.com.br fernandohenn@hotmail.com scheilajanke@gmail.com pedro_kalmbach@yahoo.com.ar micha.kleine@yahoo.com.br leokonzen@urisan.tche.br pastorkowalska@luteranos.com.br danielkreidlow@gmail.com claiton@batistapioneira.edu.br renato.kuntzer@terra.com.br claudiokupka@yahoo.com.br gersonclacerda@gmail.com angelalenke@yahoo.com.br 1lavio1me.lieven@luteranos.com.br cledes@est.edu.br evandromeu@gmail.com jiltonmoraes@terra.com.br editor@editorasinodal.com.br carumus@gmail.com pastorjorge@terra.com.br

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PFANNEMÜLLER, Helga Rodrigues RAMOS, Luiz Carlos REIS, Ana Isa dos RIBEIRO, Antônio C. RIECK, Kurt SANTANA FILHO, Manoel B. SCHERER, Cristina SCHMITT, Flávio SCHWALM, Mauro A. SEIBERT, Erní W. SELL, Wilhelm SIEGLE, Manfredo STANGE, Klaus A. STÜEWER, Aline Danielle; BAADE, Joel Haroldo TREIN, Hans Alfred VOIGT, Emilio WANKE, Roger Marcel WEBER, Eloir WEGNER, Uwe WEHRMANN, Günter K.F. WEISSHEIMER, Ramona WIESE, Werner Wille, Hermann WITTER, Teobaldo WOLFF, Günter A. ZWETSCH, Roberto Ervino

pastorahelga@yahoo.com.br valdemargaede@pomernet.com.br anaisadosreis@yahoo.com.br antoniocarlosrib@gmail.com kurtrieck@gmail.com m.bernardinofilho@gmail.com‎ crisitati@yahoo.com.br flavio@est.edu.br secretariamissao@ieclb.org.br erni@sbb.org.br wilhelm.sell@luteranos.com.br manfredo_siegle@hotmail.com k.stange@flt.edu.br stuewer@gmail.com baadejoel@gmail.com comin_mob@est.edu.br emilio.voigt@terra.com.br roger.wanke@flt.edu.br p.eloir@salvador.org.br uwe.wegner@terra.com.br ge.wehrmann@hotmail.com ramonaew@gmail.com wwiese@flt.edu.br hermannwille@gmail.com twitter@terra.com.br gunterwolff@gmail.com rezwetsch@gmail.com

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Texto: Times New Roman 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.

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