PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 37 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO C Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann
2012
© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, João Artur Müller da Silva, Martin Volkmann, Michael Kleine e Júlio Cézar Adam Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos
Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963
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Proclamar libertação, v. 37: Auxílios homiléticos / [Coordenado por] Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2012.
15,5x22,5 cm. ; 376p. Série: Proclamar libertação ISBN 978-85-62865-86-2
1. Teologia prática – Homilética. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1º Domingo de Advento – 1 Tessalonicenses 3.9-15----------------------------------9 2º Domingo de Advento – Lucas 3.1-6----------------------------------------------- 14 3º Domingo de Advento – Sofonias 3.14-20----------------------------------------- 20 4º Domingo de Advento – Lucas 1.39-45 (46-55) ---------------------------------- 26 Noite de Natal – Isaías 11.1-9 --------------------------------------------------------- 31 Dia de Natal – João 1.1-14 ------------------------------------------------------------- 36 1º Domingo após Natal – Colossenses 3.12-17 ------------------------------------- 42 Véspera de Ano Novo – Mateus 18.1-5 ---------------------------------------------- 48 Ano Novo: Nome de Jesus – Lucas 2.(15-20)21 ----------------------------------- 54 Epifania de Nosso Senhor – Isaías 49.1-7 ------------------------------------------- 58 1º Domingo após Epifania (Batismo de Jesus) – Lucas 3.15-17,21-22 ---------- 64 2º Domingo após Epifania – 1 Coríntios 12.1-11 ----------------------------------- 70 3º Domingo após Epifania – Lucas 4.14-21 ----------------------------------------- 76 4º Domingo após Epifania – Jeremias 1.4-10 --------------------------------------- 82 Último Domingo após Epifania – Êxodo 34.29-35 --------------------------------- 87 Quarta-feira de Cinzas – Mateus 6.1-6,16-21 --------------------------------------- 94 1º Domingo na Quaresma – Lucas 4.1-13 ------------------------------------------100 2º Domingo na Quaresma – Filipenses 3.17-4.1 -----------------------------------105 3º Domingo na Quaresma – Lucas 13.1-9 ------------------------------------------ 111 Domingo de Ramos – Lucas 19.28-40 ---------------------------------------------- 116 Quinta-feira da Paixão – 1 Coríntios 11.23-26 -------------------------------------120 Sexta-feira da Paixão – Lucas 23.33-49 --------------------------------------------127 Domingo da Páscoa – Lucas 24.1-12 - ----------------------------------------------132 2º Domingo da Páscoa – João 20.26-31 - -------------------------------------------138 3º Domingo da Páscoa – Apocalipse 5.11-14 --------------------------------------144 4º Domingo da Páscoa – João 10.22-30 - -------------------------------------------149 5º Domingo da Páscoa – Apocalipse 21.1-6 ----------------------------------------155 Dia do Trabalho – Tiago 5.1-6 -------------------------------------------------------160 6º Domingo da Páscoa – João 5.1-9 -------------------------------------------------168 Ascensão do Senhor – 2 Reis 2.9-18 ------------------------------------------------174 Domingo de Pentecostes – Romanos 8.14-17 --------------------------------------179 1º Domingo após Pentecostes (Trindade) – João 16.12-15 -----------------------184 2º Domingo após Pentecostes – Gálatas 1.1-12 ------------------------------------189 3º Domingo após Pentecostes – 1 Reis 17.17-24 ----------------------------------193 4º Domingo após Pentecostes – Lucas 7.36-8.3 -----------------------------------199 5º Domingo após Pentecostes – Gálatas 3.23-29 ----------------------------------206 6º Domingo após Pentecostes – Lucas 9.51-62 ------------------------------------212 7º Domingo após Pentecostes – Isaías 66.10-14 -----------------------------------217 9º Domingo após Pentecostes – Gênesis 18.1-10 ----------------------------------223
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10º Domingo após Pentecostes – Lucas 11.1-12 -----------------------------------229 11º Domingo após Pentecostes – Colossenses 3.1-11 -----------------------------236 12º Domingo após Pentecostes – Lucas 12.32-40 -------------------------------- 241 13º Domingo após Pentecostes – Jeremias 23.(16-22)23-29 ---------------------251 14º Domingo após Pentecostes – Lucas 13.10-17 ---------------------------------257 15º Domingo após Pentecostes – Hebreus 13.1-8,15-16 -------------------------262 16º Domingo após Pentecostes – Lucas 14.25-33 ---------------------------------266 17º Domingo após Pentecostes – Êxodo 32.7-14 ----------------------------------272 18º Domingo após Pentecostes – Lucas 16.1-13 - ---------------------------------277 19º Domingo após Pentecostes – Amós 6.1a,4-7 ----------------------------------286 20º Domingo após Pentecostes – Lucas 17.5-10 - ---------------------------------291 21º Domingo após Pentecostes – 2 Timóteo 2.8-15 -------------------------------296 22º Domingo após Pentecostes – Lucas 18.1-8 ------------------------------------301 23º Domingo após Pentecostes – Jeremias 14.7-10,19-22 -----------------------305 Dia da Reforma – Salmo 46.1-7 ----------------------------------------------------- 311 Dia de Finados – João 11.1-5,17-21 -------------------------------------------------319 24º Domingo após Pentecostes – Lucas 19.1-10 - ---------------------------------324 25º Domingo após Pentecostes – Jó 19.23-27a ------------------------------------329 26º Domingo após Pentecostes – Lucas 21.5-19 - ---------------------------------336 Domingo Cristo Rei – Colossenses 1.11-20 ----------------------------------------342 Ação de Graças (Festa da Colheita) – Deuteronômio 8.7-18 --------------------348 Domingo de Louvor através da Música – Mateus 21.14-17 ---------------------353 ÍNDICES --------------------------------------------------------------------------------359
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PREFÁCIO
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stá em suas mãos o volume 37 de Proclamar Libertação com sua tarefa de auxiliar pregadores e pregadoras a proclamar a palavra de Deus em cultos dominicais e celebrações festivas da comunidade. Os textos contemplados pertencem à série C do Lecionário Comum Revisado em uso na IECLB. Como sempre temos feito, escolhemos um dos textos de leitura como texto de pregação, com base num critério estabelecido pelo Conselho Editorial. Os demais textos são contemplados na introdução do auxílio homilético na medida em que possuem uma relação temática clara com o texto de pregação, o que nem sempre é o caso. Os auxílios, além disso, ocupam-se com o conjunto da celebração. Por isso solicitamos que autores e autoras ofereçam também subsídios litúrgicos que visam estimular a resposta da comunidade à proclamação da palavra na forma da oração, da confissão de pecados, da adoração e do louvor. Proclamar Libertação vem se sustentando ao longo desses anos graças ao trabalho voluntário de colaboradores e colaboradoras que investem parte de seu precioso tempo na pesquisa, na reflexão e na meditação sobre os textos bíblicos propostos. Sabemos o que significa dedicar-se a uma tarefa como essa em meio a tantos outros compromissos. Por isso é sempre uma agradável e grata surpresa quando as contribuições começam a chegar. Entendemos isso como um sinal de amor à palavra de Deus e de apreço pela causa do evangelho em nosso meio. Muito obrigado aos colegas e às colegas por seu trabalho abnegado, que resultou nas 61 contribuições que compõem o presente volume. Temos, neste volume, um outro motivo para expressar alegria e gratidão. A direção da IECLB decidiu presentear seus ministros e suas ministras com um exemplar do Proclamar Libertação 37. O Conselho Editorial agradece imensamente pelo empenho da direção, que possibilitou a concretização dessa iniciativa. Além das razões óbvias que a justificam, ela não deixa de ser um sinal de apoio e incentivo à formação continuada de ministros e ministras em sua tarefa de proclamar o evangelho em meio aos desafios do mundo em que vivemos. Caso você seja um novo leitor ou uma nova leitora de Proclamar Libertação, damos-lhe as boas-vindas na esperança de continuar contando com seu apoio, seja como usuário ou usuária desta série de auxílios homiléticos, seja, quem sabe, como futuro colaborador ou colaboradora dessa causa. Verner Hoefelmann pelo Conselho Editorial de Proclamar Libertação
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PALAVRA DO PASTOR PRESIDENTE
aulo escreveu: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? (...) Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.13-15). Olhemos o texto de Paulo de trás para frente. “Coisas boas” resumem-se, neste caso, ao evangelho. Numa frase: Nasceu uma criança num cocho de animais. Ela é o Salvador! Quem falar dessas “coisas boas” fará algo muito, mas muito especial: estará a serviço de Deus; ocupar-se-á com a diaconia da Palavra e conduzirá filhos e filhas de Deus para olhar a criança na manjedoura e para crer que ela é o Salvador do mundo. Quão formosa tarefa! Nas palavras de um poeta, a tarefa da pregação é assim cantada: Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, as boas-novas! A paz, as boas-novas! Proclamar Libertação (PL) foi criado para ser ferramenta-chave diante da tarefa da pregação da Palavra em seu sentido mais profundo, correto, denso, visando alcançar a comunidade. Portanto falar de PL é tratar de quase quatro décadas de história, material que fornece elementos exegéticos, retóricos e homiléticos para a pregação da palavra de Deus. Cuidar, com tudo o que esse verbo implica, é um imperativo evangélico e, portanto, uma das mais importantes tarefas da igreja cristã. E a atual gestão da IECLB, eleita no Concílio de Foz do Iguaçu em 2010, tem procurado ir à raiz dessa incumbência. Para isso propõe o cuidado com a fé, com as pessoas e com a ação missionária como plataforma básica de atuação. Na condição de líderes, em se tratando especificamente de ministros e ministras, cabe-nos cuidar bem das pessoas, dos espaços, das ações missionárias e da herança teológico-confessional que herdamos. Nas palavras do apóstolo Paulo, cabe-nos cuidar bem do culto cristão, zelando pela sólida, convincente, comunicativa e séria pregação do evangelho. Seja o PL um instrumento que também fortaleça a unidade de púlpito e a clareza confessional em nossa igreja. Martim Lutero já dizia que o evangelho se prega com a boca e com a mão. Que Deus continue utilizando cada gesto, cada olhar, cada palavra de pregadoras e pregadores para mostrar cada vez mais sinais de Seu Reino entre nós! Quão formosos são os pés dos e das que anunciam a paz, as boas-novas! A paz, as boas-novas! Nestor Paulo Friedrich Pastor Presidente
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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 3.9-13
1o DOMINGO DE ADVENTO
JEREMIAS 33.14-16 LUCAS 21.25-36
02 DEZ 2012
Ervino Schmidt
1 Fundação da igreja em Tessalônica Temos indicações bastante precisas sobre o surgimento dessa comunidade na Macedônia. Conforme o livro de Atos dos Apóstolos, o evangelho chegou à Europa em 49 d.C. durante a segunda viagem missionária de Paulo. Temos a bela narrativa em Atos, de acordo com a qual o apóstolo e seus acompanhantes responderam à visão que numa noite tiveram de um homem macedônio que fazia este pedido: “Passa à Macedônia, vem socorrer-nos”. Entendendo que Deus estava a chamá-los para anunciar ali a boa-nova, puseram-se a caminho. Chegaram, não sem contratempos durante a viagem, a Tessalônica, que era a capital da província romana da Macedônia. Era uma cidade florescente, onde viviam numerosos estrangeiros e onde também havia uma forte colônia judaica. Como tinha por costume, Paulo foi à sinagoga local e pregou durante várias semanas, em todo caso por um período maior. Chegou a exercer um ofício. “Vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus” (1Ts 2.9). Recebeu várias doações dos filipenses, com os quais estivera anteriormente. Quis ser independente para exercer a missão da qual fora encarregado. O apóstolo anunciou Jesus de Nazaré como o Messias esperado. Muitos foram tocados por sua mensagem. Os líderes judeus, evidentemente, não se conformaram com a mudança de orientação dos seguidores da sinagoga. Furiosos, amotinaram a multidão contra Paulo e Silas. Uma acusação falsa foi lançada contra eles: “Todos estes procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei” (At 17.7b). Isso era uma acusação muito séria, de cunho político. Paulo e Silas tiveram que partir para Bereia de noite, às escondidas. Também ali não havia condições de permanência. Assim, Paulo segue para Atenas. Seus pensamentos, porém, estão voltados para Tessalônica. Ele manifesta sua intenção de logo voltar para lá. Isso mostra a intensidade de sentimentos que o unem à jovem comunidade, fundada por ele. Ele está inquieto, pois sabia da pesada perseguição a que estavam expostos os irmãos e irmãs. Mas seu desejo de fazer uma visita pessoal não pôde ser realizado. Por isso ele enviou Timóteo e encarregou-o de animar e fortalecer os crentes na situação difícil pela qual passavam. Ele próprio ficou ansiosamente aguardando informações. Timóteo retornou com notícias muito boas, realmente animadoras. Isso motivou Paulo a escrever a Primeira Epístola aos Tessalonicenses. É uma carta bastante pessoal e transbordante de gratidão. Aliás, é a carta mais antiga do após-
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1º Domingo de Advento
tolo de que temos conhecimento, talvez seja mesmo a parte mais antiga de todo o Novo Testamento. A data provável de sua redação é 50 ou 51 d.C.
2 Interpretação A Primeira Epístola aos Tessalonicenses distingue-se das demais cartas paulinas. O tom, como dissemos acima, é de alívio e de agradecimento pela perseverança na fé que a comunidade demonstrou durante a ausência forçada do apóstolo. A carta não apresenta uma teologia elaborada, como a Epístola aos Romanos, nem extensos conselhos pastorais, tampouco advertência contra heresias ameaçadoras. Mas a maneira como Paulo se dirige aos tessalonicenses e sua forma de agradecer pelas grandes cousas que Deus tem operado no meio deles mostram a mais pura teologia paulina, a teologia da graça, manifesta na cruz de Cristo. Paulo dá graças a Deus pelas irmãs e irmãos da comunidade, mas, ao mesmo tempo, lembra: “Reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição, porque o nosso evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas sobretudo em poder...” (1Ts 1.4-5). Alegra-se que os tessalonicenses acolheram a Palavra em meio a muitas tribulações com a alegria do Espírito Santo. Eles receberam a Palavra divina em palavras humanas. O apóstolo Paulo expressa isso de maneira contundente quando escreve mais adiante: “Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens e sim como em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós os que credes” (1Ts 2.13). A palavra proclamada por meio de um homem frágil igual a nós foi aceita como palavra de Deus! Também aqui vale “o Verbo se fez carne”. A linguagem apostólica é, portanto, linguagem do mundo. Os conceitos são todos tirados dele. Temos o tesouro unicamente em vasos de barro. A eleição, a escolha dos tessalonicenses é única e exclusivamente obra de Deus. Não é nenhum merecimento deles. É ação divina. O apóstolo, por isso, enaltece a ação de Deus na comunidade e não as pessoas crentes. Fica excluída, dessa maneira, toda tentação de vanglória, de jactância. Fé não é filosofia humana, não é um vago sentimento, não é persuasão produzida pela habilidade retórica de alguém. Fé é criação da Palavra, creatura Verbi. Claro, os tessalonicenses acolheram a palavra de Deus, disseram seu sim em uma participação ativa, mas isso porque ali estava acontecendo concretamente, em sua história, o grande sim de Deus a eles. Assim surge comunidade, somente assim. No poder do Espírito! Fora disso não surgiria comunidade cristã, pois a mensagem do evangelho é tão oposta a tudo o que o ser humano pensa e faz que por si próprio jamais a aceitaria. A mensagem que nos atinge é a palavra que o ser humano não aguenta ouvir, mas persegue e tenta eliminar. Ela é palavra da cruz, loucura para os gentios, escândalo para os judeus, ou seja, para todos.
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1º Domingo de Advento
Bruno Gottwald destaca em um estudo sobre um trecho da carta: “Somente a ação criadora de Deus faz surgir e edifica a comunidade de Jesus Cristo. É a ação soberana do Espírito Santo que, através da pregação da palavra e dos sacramentos, ‘opera a fé onde e quando agrada a Deus’. E para Paulo está claro: agradou a Deus escolher, eleger a comunidade de Tessalônica para nela revelar sua glória e através dela fazer conhecer sua missão por toda parte”.
3 Vivência na fé A consequência da eleição por Deus é uma presença qualificada no mundo, uma nova obediência, é fé ativa no amor. Por intermédio de Timóteo, Paulo recebe boas notícias “da fé e do amor” dos tessalonicenses. Eles sabem que fé e amor andam juntos. Mesmo em situação difícil, mantêm-se firmes. Também as privações e tribulações dos próprios missionários não os levam à resignação. O sofrimento faz parte do ser cristão, como Paulo mesmo ensinava: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). É esse o caminho do discipulado, um caminho que exige renúncia e disposição para o sofrimento. Isso acontece sem resignação. Pelo contrário! Acontece com alegria, porque somos considerados dignos de compartilhar os sofrimentos daquele que foi pregado à cruz e ressuscitado pelo Pai. A comunidade de Tessalônica caminha bem e é motivo para alegria e agradecimento. Mesmo assim, o apóstolo Paulo ora a Deus que ele a faça crescer. Está preocupado com o desenvolvimento espiritual da mesma. Significa que é necessário um constante aprimoramento na vivência da fé. Que “o Senhor vos faça crescer e aumentar no amor uns para com os outros e para com todos, como também nós para convosco, a fim de que seja o vosso coração confirmado em santidade, isento de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos”. Nessa oração aparece também a expectativa do iminente retorno do Senhor. É necessário estar atento e vigilante!
4 Dicas para a pregação Vejo como viável expor demoradamente, no sentido da reflexão que fizemos, o maravilhoso agir de Deus entre os tessalonicenses. Mostrar como o surgimento de comunidade, naquele tempo como também hoje, é exclusiva obra sua. É o 1º Domingo de Advento. Deve ocupar um bom espaço na prédica a constatação de que Deus vai ao encontro das pessoas. Ele vem e realiza salvação. Outra possibilidade seria destacar a relação mais pessoal entre missionário/fundador e a comunidade. Situações de comunidades nossas em novas áreas de colonização poderiam ser descritas. Com certeza, lembramos de algum colega que reuniu em comunidade membros dispersos por ocasião de alguma visita missionária, ficando, depois, no aguardo ansioso por notícias. Deus vem através de sua Palavra, mesmo semeada por um pregador itinerante. Ele se encarna na história do povo.
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1º Domingo de Advento
Li uma prédica em que o pregador concentrou-se inteiramente nos versículos finais de nossa perícope, ou seja, sobre a oração da qual Paulo fala, no sentido de pedir a Deus que faça aumentar na comunidade o amor de uns aos outros e a todos. É a preocupação com o crescimento na fé. É preciso estar preparado. Vigilância permanente é necessária, pois o retorno (segundo advento) do Senhor é certo. E não se sabe a hora! “O Dia do Senhor vem como ladrão de noite” (1Ts 5.2). Há, portanto, diversas possibilidades.
5 Auxílios litúrgicos Hino:
O hino número 8 de “Hinos do Povo de Deus” espelha a situação dos fiéis tessalonicenses. Conclama à vigilância em meio a fadiga e tormentos. “Já vem chegando o Rei.” Litania: Celebrante: Advento significa que o Senhor vem a nós e permanece conosco. Em todas as experiências de nossa vida, ele nos guia com seu cajado. Ele é nosso Bom Pastor. Por isso dizemos: Todos/as: Nós te damos graças, Senhor! Celebrante: Pela vida e por todos os dons com que nos fortaleces. Todos/as: Nós te damos graças, Senhor! Celebrante: Pelo dom da tua palavra. Todos/as: Nós te damos graças, Senhor! Celebrante: Pela perseverança na fé. Todos/as: Nós te damos graças, Senhor! Celebrante: Pelas testemunhas confiáveis do teu evangelho. Todos/as: Nós te damos graças, Senhor! Celebrante: Senhor que vives e reinas para sempre, nós te agradecemos. Todos: Amém. Confissão de fé: Sugiro recorrer a Lutero. Ele confessa que o próprio Espírito Santo nos convence ser a Bíblia palavra de Deus. O Espírito “sela” a palavra nos corações humanos, ele “testemunha” a veracidade da promissão através da iluminação interna da fé. Lutero acentua que “não existe uma pessoa sequer que – sem ter o Espírito de Deus – possa compreender ainda que só um título da Escritura Sagrada” (em: De servo arbitrio). Mais conhecidas são as palavras com que o reformador introduz a explicação do terceiro artigo do Credo Apostólico no Catecismo Menor: “Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica toda a igreja na terra e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé”.
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1º Domingo de Advento
Oração: Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, por tua ressurreição triunfaste sobre a morte e te tornaste o Senhor da vida. Por causa de teu amor por nós nos escolheste como amigos. Que o Espírito Santo nos una a ti e uns aos outros em laços de amizade, para que possamos fielmente te servir neste mundo como testemunhas de teu amor fiel. Amém.
Bibliografia GOTTWALD, B. Meditação sobre 1Ts 1.2-10. In: Proclamar Libertação VII. São Leopoldo: Sinodal, 1981. p. 210-213. OEPKE, A. Die Briefe an die Thessalonicher. In: Das Neue Testament Deutsch. Goettingen, 1962.
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PRÉDICA: LUCAS 3.1-6
2o DOMINGO DE ADVENTO
MALAQUIAS 3.1-4 FILIPENSES 1.3-11
09 DEZ 2012
Paulo Roberto Garcia
1 Introdução No tempo do Advento, a esperança é o fio condutor de nossas celebrações. Nele celebramos os textos que nos lembram a expectativa da encarnação e, ao mesmo tempo, nos inserimos nessa história, colocando nela a nossa esperança: o Dia do Senhor. Ao mesmo tempo, também somos chamados ao compromisso. Não podemos celebrar a esperança sem uma ação que coloque nossas vidas a serviço desse Reino. Os textos litúrgicos lembram-nos da responsabilidade de preparar os caminhos do Senhor e de nos apresentar “sinceros e sem ofensa para o Dia do Senhor”. Nossa perícope dá a esse desafio o tom de um anúncio profético. Palavra que desafia a uma mudança de vida, compromisso com o anúncio de Deus, que transforma a existência humana. É esse o tom que marcará nossa reflexão em torno do texto de Lucas.
2 Exegese 2.1 – O evangelho Para abordarmos nossa perícope, necessitamos registrar alguns pressupostos. O primeiro pressuposto, que é um consenso, é que o Evangelho de Lucas forma um conjunto com o livro de Atos dos Apóstolos. Embora haja divisões sobre o período de escrita de cada um, assumimos que, ao abordar esses dois escritos em conjunto, temos um retrato dos conflitos que cercavam essa comunidade. O segundo pressuposto, que foge ao consenso dos estudiosos, é que esse conjunto de escritos reproduz a situação de uma comunidade de fronteira. É um lugar onde judeu-cristãos e gentílico-cristãos têm que conviver em uma mesma comunidade. Considerando a importância que Antioquia tem no livro de Atos, entendemos que essa cidade tem um grande potencial para ser o local onde essa comunidade vivia. Desse modo, o evangelho reproduz os conflitos e as dificuldades de convivência entre cristãos judeus e gentílicos em uma região fronteiriça ao mundo judaico siro-palestinense e a porta para o mundo romano mediterrânico. Essas diferenças ganham corpo em torno da mesa de refeições. Devido a códigos religiosos de pureza, um judeu teria uma grande dificuldade em sentar-se à mesa com um gentio. Uma vez que a celebração dominical do cristianismo primitivo tinha como ponto central a refeição comum – memória e celebração da presença de Cristo,
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2º Domingo de Advento
que ganha importância sacramental –, o conflito se estabelece. Por isso os relatos do evangelho e do livro de Atos apontam a superação da diferença à mesa (como, por exemplo, o reconhecimento do Cristo estrangeiro na partilha do pão pelos caminhantes de Emaús ou o conflito entre Pedro e Paulo sobre a participação à mesa de Antioquia) e no encontro com o estrangeiro (como, por exemplo, no longo relato da viagem de Jesus a Jerusalém ou na conversão de Cornélio). É nesse quadro que nossa perícope se localiza. 2.2 – A perícope O texto de Lucas inicia com uma característica que o distingue dos demais evangelhos. Os versículos 1 e 2, ao apresentarem a datação da vocação de João Batista, reproduzem os textos de vocação profética (veja, por exemplo, Is 1.1; Jr 1.1-2; Ez 1.1-3; Ag 1.1; Zc 1.1; Os 1.1; Am 1.1; Mq 1.1; Sf 1.1). Mesmo o livro de Daniel, que é parte dos quetubim (escritos) e se localiza no período grego, apresenta em sua introdução a mesma fórmula da vocação profética (Dn 1.1-2). Ou seja, percebemos que o Evangelho de Lucas insere a apresentação do ministério de João Batista como um ministério profético. João Batista cumpre no evangelho o papel que os profetas cumpriram no período veterotestamentário, apresentando as palavras de julgamento e exortação ao povo. A expressão que descreve que a palavra do Senhor veio sobre ele é a mesma encontrada em alguns dos textos apresentados acima na tradução da Bíblia Hebraica para o grego, a Septuaginta. A citação de Isaías usada nessa perícope também foi baseada na Septuaginta. Isso tudo aponta para um objetivo redacional: registrar um anúncio profético que tem por objetivo desafiar a comunidade a um posicionamento diante da mensagem divina e a uma mudança de atitude. Em Lucas 1.5ss, temos a anunciação do nascimento de João Batista. Novamente temos uma datação, muito breve (“nos dias de Herodes, rei da Judeia”), mas que mantém a mesma dinâmica. João Batista tem seu nascimento anunciado ao pai – Zacarias, na tradição dos anúncios veterotestamentários. Percebemos que essa proposta teológica de Lucas de localizar a concepção e o ministério de João Batista na esteira das vocações proféticas é uma marca do evangelho. Necessitamos ler o anúncio dessa nossa perícope na perspectiva da mensagem profética, ou seja, um anúncio programático de exortação e direcionamento para a vida do povo, dado pelo profeta em nome de Deus. Essa proposta estabelece uma comunicação direta com o imaginário dos cristãos judaicos. A mensagem apresenta para esse grupo um desafio de mudança de vida e atitude. A salvação de Deus é apresentada pela voz profética de João Batista: “Voz do que clama no deserto”. O deserto é um lugar paradigmático da fé judaica. É lugar de provação, travessia, tentação e, ao mesmo tempo, lugar de providência, de socorro divino, caminho para libertação. O anúncio inscreve-se no desafio da vida no deserto. Esse anúncio propõe a preparação do caminho do Senhor a partir da superação das diferenças. A estrutura aparece da seguinte forma: A: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. B: Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros;
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2º Domingo de Advento
A’: os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplanados; Clímax: toda a carne verá a salvação de Deus. Percebemos que a preparação do caminho forma uma moldura (o caminho é endireitado, retificado e aplanado). No centro, há um nivelamento de tudo, aterrando vales e nivelando os montes. O centro é a proposta de não haver diferenças e, quando isso acontece, toda a carne vê a salvação de Deus. O texto de Isaías 40.3-5 foi usado como base do anúncio. Como afirmamos acima, a versão utilizada por Lucas foi a da Septuaginta. É interessante notar que uma parte desse texto foi omitida. Comparemos: “E se manifestará a glória do Senhor, e verá toda a carne a salvação de Deus, pois a boca do SENHOR o disse” (Is 40.5, texto da LXX, tradução minha); “... e verá toda a carne a salvação de Deus” (Lc 3.6, tradução minha). A frase E se manifestará a glória do Senhor foi omitida por Lucas. A ênfase lucana está na afirmação de que “toda a carne” verá a salvação de Deus. Isso só será possível, na perspectiva lucana, mediante a eliminação das diferenças. Nesse ponto, temos a ligação entre a realidade da comunidade e o discurso de abertura do evangelho, preparando o ministério de Jesus. A salvação de Deus só pode ser contemplada mediante a superação das diferenças, e isso é papel de todos os que preparam os caminhos do Senhor.
3 Meditação Celebramos no período do Advento a expectativa pela vinda do Messias. A cada domingo, cercamo-nos de símbolos de esperança frente ao nascimento do Verbo que se fez carne. Porém, muitas vezes, não perguntamos sobre a relevância disso para nosso cotidiano. Vivemos em um mundo onde as divisões são cada vez mais aparentes. A violência decorrida da intolerância frente às diferenças étnicas, sexuais ou sociais é apresentada na mídia com uma naturalidade assustadora. Diante disso, somos desafiados a repensar a fé a partir da esperança no Messias que nasce entre nós. Nossa perícope faz parte da memória de uma comunidade que vive o desafio da fé em uma situação de fronteira. Diferentes têm de conviver em um único espaço, celebrando uma mesma fé e partilhando uma mesma mesa. Porém as diferenças étnicas, religiosas e sociais tornam-se empecilhos para a comunhão. O evangelho e o livro de Atos, em um conjunto, constituem memória de Jesus e dos primórdios da comunidade cristã. Exortam os participantes dessa comunidade a uma mudança de postura. Os diferentes têm de conviver. Essa é a marca do movimento cristão. Para tanto, o Evangelho de Lucas tem uma estrutura em que o ministério de Jesus é apontado como um superador de barreiras. O Espírito está sobre Ele para trazer a boa-nova a todos (Lc 4.16-21); o deficiente é convidado a ocupar o lugar central na sinagoga (Lc 6.8), e grande parte do evangelho apresenta Jesus no caminho para Jerusalém (Lc 9.51-19.41) entre estrangeiros e impuros. O clímax do evangelho ocorre no reconhecimento de Jesus pelos caminhantes de Emaús,
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quando, ao sentarem-se à mesa com o “estrangeiro”, reconhecem o ressurreto no partir do pão. A mensagem é direta: se à mesa as diferenças não forem superadas, o Cristo ressurreto perde-se e a mensagem da ressurreição não é compartilhada. No encontro com o diferente, descobre-se o Cristo. Nessa perspectiva, nossa perícope inscreve-se cumprindo um importante papel de anunciar o tema que será desenvolvido no evangelho. A memória é apresentada a partir da pregação de João Batista, que anuncia a vinda do Senhor. Esse anúncio acontece na esteira das vocações proféticas do Antigo Testamento. Os cristãos oriundos do judaísmo, ao ouvir esse texto, reconhecem o estilo do anúncio profético. Essa forma de comunicação soa aos ouvidos desse grupo como um anúncio de Deus que pede uma resposta que propicie uma mudança de postura. O anúncio profético é apresentado em uma estrutura concêntrica, típica daquele tempo, na qual se aponta um clímax: a superação das barreiras. A: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas; B: Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; A’: os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplanados; Clímax: toda a carne verá a salvação de Deus. A preparação dos caminhos pressupõe a retificação dos caminhos tortuosos e o aplanar dos caminhos pedregosos. Porém o maior impacto é que os vales serão aterrados e os montes nivelados. Isso significa que, no final da preparação do caminho, o resultado é um caminho reto, liso e uma geografia plana. Em jogo está a metáfora das barreiras que dividem os grupos da comunidade. A missão do Messias será eliminar as barreiras; por isso seu caminho é preparado nessa dimensão. Quando as barreiras são quebradas – e isso é tarefa do profeta e de cada um e cada uma da comunidade –, a salvação do Senhor é manifesta para “toda a carne”, para todo o ser humano, sem distinção de raça, gênero, condição social etc. A mensagem à comunidade lucana é clara. Enquanto não forem superadas as divisões baseadas na diferença religiosa, estabelecida por cristãos judeus que não se acercam de seus irmãos e irmãs do cristianismo gentílico, a salvação do Messias não se realiza. Essa mensagem é apresentada na estrutura de um anúncio profético, ou seja, é a advertência de Deus para que o povo que insiste em manter as barreiras religiosas converta-se, aplaine os caminhos do Senhor e possibilite que a salvação de Deus se manifeste para “toda a carne”. De igual modo, em nossa realidade hoje, na qual a intolerância, a violência e os conflitos se agigantam, somos chamados a assumir nosso papel de “voz que clama no deserto” – lugar de provação e de oportunidade. Esse papel deve ser desenvolvido na perspectiva da derrubada das barreiras que segregam pessoas e grupos, possibilitando, assim, que a mensagem do Reino possa atingir igualmente todos os seres humanos, congregando todos em torno da mesa de comunhão e vida, os quais se achegam de diferentes lugares, vindos por caminhos aplainados, retificados, nivelados pela ação restauradora do povo de Deus.
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2º Domingo de Advento
4 Imagens para a prédica Uma sugestão de imagens para a prédica é encontrar, nos periódicos, notícias locais, nacionais e internacionais sobre situações de violência geradas pela intolerância. Se possível, citar algumas em que a violência foi praticada por motivações religiosas. O objetivo é apresentar um mundo marcado por vales e caminhos tortuosos de violência e dor. Essas imagens apontarão o desafio da comunidade de ser “voz que clama no deserto”.
5 Subsídios litúrgicos Para um momento de confissão, preparando para a mensagem, sugerimos a leitura da oração de Walter Rauschenbusch: Pela participação no trabalho de redenção. A ênfase maior deve ser dada à busca pela fome e sede de justiça em meio a um mundo marcado pela dor e pelo pecado. O compromisso com o Cristo encarnado pode fazer a ligação com a prédica do desafio de aplainar os caminhos do Senhor. Pela participação no trabalho de redenção – Walter Rauschenbusch Ó Deus, grande Redentor da humanidade, nossos corações se enternecem ao pensar em ti, porque tu foste afligido com todas as aflições de nossa raça e, nos sofrimentos do teu povo, o teu corpo é que foi crucificado. Foste ferido por nossas transgressões e esmagado por nossas iniquidades, e todos os nossos pecados foram finalmente postos sobre ti. Dentre o gemido da criação percebemos teu espírito em angústia, até que os filhos de Deus nasçam em liberdade e santidade. Rogamos-te, ó Senhor, a graça de uma vida pura e santa, para que não mais aumentemos o peso dos pecados do mundo que é posto sobre ti, mas possamos compartilhar a tua obra de redenção. Assim como as más paixões nos fizeram sequiosos pela destruição dos homens, dá-nos agora fome e sede de justiça, para que levemos boas-novas aos pobres e ponhamos em liberdade todos aqueles que estão nas prisões da penúria e do pecado. Derrama teu espírito sobre nós e inspira-nos um intenso amor, como o de Cristo, para que unamos nossas vidas às do pobre e oprimido e fortaleçamos sua causa carregando suas tristezas. E se o mal que nos ameaça se volta para nos golpear e se experimentamos a malignidade do poder do pecado, conforta-nos com o pensamento de que assim trazemos em nosso corpo os estigmas de Jesus e que somente aqueles que participam de seu livre sacrifício sentirão a plenitude de tua vida. Ajuda-nos a carregar com paciência a eterna cruz do teu Cristo, considerando-nos felizes se também formos semeados como grãos de trigo nos sulcos do mundo, porque somente pela agonia do justo vem redenção. (Adaptado de Walter Rauschenbusch. Preces Fraternais. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade, 1936. p. 97-98)
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Bibliografia FITZMYER, Joseph A. El Evangelio según Lucas. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1986. MOXNES, Halvor. A Economia do Reino – Conflito Social e Relações Econômicas no Evangelho de Lucas. São Paulo: Editora Paulus, 1995.
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PRÉDICA: SOFONIAS 3.14-20
3o DOMINGO DE ADVENTO
LUCAS 3.7-18 FILIPENSES 4.4-7
16 DEZ 2012
Carlos A. Dreher
1 Introdução Esses três textos previstos para o 3º Domingo de Advento já foram abordados diversas vezes em Proclamar Libertação. A passagem de Lucas foi abordada mais frequentemente como texto de pregação, ao passo que as de Filipenses e Sofonias foram abordadas apenas uma vez cada uma. A abordagem de Sofonias, feita por Haroldo Reimer, encontra-se no volume 20. Há uma relação evidente entre Sofonias 3.14-20 e Filipenses 4.4-7. Trata-se do tema da alegria. Essa alegria que, em Sofonias, conclama ao cântico e ao júbilo (v. 14) tem uma razão muito clara: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti!” (v. 17). Em Filipenses, o repetido convite à alegria (v. 4) tem como motivo a afirmação: “Perto está o Senhor!” (v. 5). A alegria é resultado da proximidade de Deus. Na passagem de Lucas 3.7-18, embora a proximidade de Deus seja pressuposta na exortação para preparar o caminho do Senhor (v. 4b-6), o tema da alegria desaparece. Aqui o tema é o juízo. A “raça de víboras” não pode fugir da “ira vindoura” (v. 7). O machado já está posto à raiz (v. 9). Há que produzir frutos dignos de arrependimento (v. 8). Assim ainda haverá possibilidade de escapar ao juízo (v. 9-14), pois, depois de João, virá aquele que é mais poderoso e que batizará com o Espírito Santo e com fogo (v. 16), limpando a eira, recolhendo o trigo em seu celeiro e queimando a palha em fogo inextinguível (v. 17). É esse o evangelho de João Batista (v. 18). Estamos, pois, entre o juízo e a presença de Deus em meio a seu povo.
2 Exegese Sofonias atua em 630 a. C., pouco antes da reforma de Josias, iniciada em 622 a. C. Josias fora entronizado em 639 a. C., com apenas oito anos de idade, numa reação do povo da terra ao golpe palaciano que assassinara o rei Amom (2Rs 21.23s). Amom sucedera a Manassés, que enchera Jerusalém de sangue inocente “de um a outro extremo” (2Rs 21.16) e sob cujo governo (696-642) os profetas desapareceram. Sob Manassés, a Assíria submetera Judá novamente à vassalagem. Costumes assírios e idolatria haviam se arraigado no país. Conforme o primeiro capítulo de seu livro, essa era a situação quando Sofonias atuou (1.4-6,8,9). A injustiça grassava (1.11s). Em decorrência, Sofonias anuncia o terrível “Dia do Senhor”, o dia da indignação do Senhor, no qual ocor-
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3º Domingo de Advento
rerá a destruição total e repentina de todos os governantes (Almeida = moradores) da terra (1.14-18; cf. v. 18). Após voltar-se, no cap. 2, contra outros povos, o profeta retoma, no cap. 3, o anúncio de juízo contra Jerusalém (3.1-7). Em 3.8-13, anuncia finalmente a salvação, a ocorrer quando o Senhor tirar de Jerusalém os soberbos, deixando em seu meio um povo humilhado e fraco (Almeida = modesto e humilde), que confia em seu nome (3.12). O anúncio de Sofonias parece terminar aqui. Os versículos seguintes, 1420, não parecem mais corresponder à mensagem do profeta. Pouco sabemos sobre Sofonias. O cabeçalho do livro (1.1) informa-nos, além da época de sua atuação, sobre uma ampla genealogia. Alguns autores julgam-no de linhagem real pela menção a Ezequias, que pode ser simplesmente um homônimo do rei de Judá. Outros veem-no como um cuxita, por isso talvez negro, entendendo a expressão ben cushi com “filho de Cuxe”, portanto etíope. Não há como ter certeza. Quando da reforma de Josias, Sofonias parece já ter desaparecido. Josias consulta a profetisa Hulda sobre o Livro da Lei. Por que não Sofonias? Teria morrido? Diante disso, é preciso perguntar se as palavras de salvação de 3.14-20 ainda provêm de Sofonias. Após o anúncio de juízo e da esperança de que um povo humilhado e fraco permaneceria em Jerusalém, que sentido teria conclamar a filha de Sião a cantar e Israel a rejubilar? Duas possibilidades se apresentam. Na primeira, Sofonias teria presenciado a reforma de Josias. Esse seria o sentido da afirmação: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te”. Na segunda, tais versículos seriam pós-exílicos e, portanto, não mais palavras do próprio profeta. Os v. 18-20 dão nitidamente a impressão de que se referem ao retorno dos exilados (“afastados das festas solenes”, v. 18; “os que foram expulsos”, v. 19; “farei voltar”, v. 20). Essa segunda possibilidade parece ser a mais provável. Observando o texto proposto para a pregação, percebem-se nitidamente quatro unidades distintas ou, no mínimo, subunidades: v. 14-15; v. 16-18; v. 19; v. 20. Após o convite ao canto e ao júbilo (v. 14-15), o v. 16 abre um novo assunto ao apresentar o adjunto adverbial “naquele dia”. Assim também no início do v. 19: “Eis que, naquele tempo”. O versículo 20 faz o mesmo ao indicar novamente “aquele tempo”. “Tempo” e “dia” já não são aqui tempo e dia da “ira do Senhor”. Aquele dia é passado. Estamos em um novo tempo. E é tempo de graça. Analisando essas unidades, percebemos as razões desse novo tempo de graça. Na primeira, v. 14-15, tal razão encontra-se no v. 15: Deus afastou o castigo, lançou fora o inimigo, o que parece referir-se ao fim do exílio babilônico em 529 a. C. e ao retorno de boa parte dos exilados. Um pouco mais adiante, leva-nos a razão seguinte para o júbilo: “O Rei de Israel, o Senhor, está no meio de ti; tu já não verás mal algum”. Se o Senhor está no meio de Jerusalém/Sião, é bem provável que o texto se refira ao templo reinaugurado em 515 a. C. Seja como for,
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o anúncio fundamental da salvação é: “O Rei de Israel, o Senhor, está no meio de ti”. Motivo de canto e júbilo é a presença de Deus em meio a seu povo. Essa afirmação é também o aspecto central da unidade seguinte: v. 16-18. Jerusalém/Sião não tem mais o que temer nem por que tremer. A presença do Senhor em seu meio é presença poderosa de salvação. Deus alegra-se ao renovar seu amor a seu povo. É Ele mesmo quem agora se regozija e jubila. Salvação e renovação do amor têm desdobramento no v. 18. Deus mesmo fala: “Congregarei os que estão entristecidos por se achar afastados das festas solenes, esses que são de ti e sobre os quais pesam opróbrios”. Embora sua alegria seja imensa, ela não está completa. Nem todas as pessoas que fazem parte de seu povo já se congregaram na terra da promessa. Muitas ainda estão afastadas. Ainda não retornaram do exílio. A diáspora terá um fim. O mesmo conteúdo se reflete no v. 19. Ali são mencionados “os que coxeiam” e “os que foram expulsos”. Se os últimos são clara referência aos exilados, os primeiros podem referir-se efetivamente a deficientes físicos, os quais sempre foram alijados do Templo desde o princípio (cf. 2Sm 5.8). Não se deveria pensar que a mensagem de Sofonias pretende também a reintegração das pessoas deficientes no ambiente religioso? Ambos, exilados e deficientes, serão feitos “um louvor e um nome”, mesmo na terra distante, onde sofrem ignomínia. Sua fraqueza revela a face de Deus, o que os torna “louvor e nome”. O v. 20 praticamente repete o que foi dito no v. 19. Também aqui Deus mesmo fala, anunciando “o nome e o louvor” de seu povo entre todos os povos da terra, quando Ele mudar a sua sorte. O castigo passou. Agora há a alegria por Deus estar no meio de seu povo.
3 Meditação Os textos previstos para o domingo colocam-nos entre o anúncio de juízo e a certeza da salvação. O juízo é evidente no evangelho (Lc 3.7-18). A “raça de víboras” não pode fugir à “ira vindoura” (v. 7). Embora João também anuncie a possibilidade de produzir “frutos dignos de arrependimento” (v. 8), o “machado já está posto à raiz das árvores”. Aquela que “não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo” (v. 9). Isso nos coloca nas proximidades do livro de Sofonias: o dia da “ira do Senhor” está próximo. Não há mais possibilidade de salvação (Sf 1.18). Contudo, o texto para a pregação, pós-exílico, posterior ao castigo, afirma que “o Senhor está no meio de ti” e conclama ao canto e ao júbilo. O tema do júbilo aproxima-nos de Filipenses 4.4-7. O apóstolo convida repetidamente à alegria (v. 4), pois o Senhor está perto (v. 5b). Este é o tema deste domingo: Advento coloca-nos entre o juízo e a certeza da presença de Deus em nosso meio. Chega a soar estranha a afirmação de Paulo em Filipenses 4.5 – “O Senhor está perto” – diante da certeza absoluta de Sofonias: “O Senhor está no meio de ti”. A palavra de Paulo só é compreensível na dialética do “já e ainda não”. A
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proximidade a que se refere, sem dúvida, é a segunda vinda de Cristo. Também para Paulo, Ele já está no meio de nós. A partir dessa visão paulina, o texto menos evangélico dos três propostos para este domingo é, curiosamente, o do Evangelho de Lucas. João ainda anuncia o juízo, embora saiba da vinda daquele do qual não é digno de desatar-lhe as correias das sandálias, embora saiba que Ele batizará com o Espírito Santo e com fogo (Lc 3.16). Contudo, a proximidade desse que vem ainda assusta, pois Ele “queimará a palha em fogo inextinguível” (Lc 3.16). Não por último, para o Batista, “frutos dignos do arrependimento” (Lc 3.8), portanto obras, são necessários para escapar à “ira vindoura”. João ainda não sabia que Jesus de Nazaré era aquele que estava para vir e que não havia mais que esperar por outro (Lc 7.10). Não sabia que esse Jesus era o Cristo, não sabia que o Senhor já estava no meio de nós. Em vista disso, os “frutos dignos de arrependimento” devem ser entendidos numa visão paulina que sabe que Ele já veio como obras decorrentes da salvação, não como condição para elas. Cristãos devem mostrar, por meio de seu agir diante dos homens e de sua oração, que sabem que o Senhor está perto, que Ele já veio, já está no meio de nós e virá para completar sua obra redentora. Assim, proponho que a pregação sobre o texto de Sofonias 3.14-20 insista no aspecto da alegria e do júbilo pelo fato de que o Senhor já está no meio de nós. O juízo é passado. Já aconteceu. Na cruz e na ressurreição de Cristo, o amor de Deus revela-se de forma absoluta. A abordagem do texto de Sofonias deve começar com uma visão histórica. O pecado dos governantes de Judá leva ao anúncio do juízo implacável. Não há possibilidade de arrependimento e perdão. O castigo vem e está expresso na destruição de Jerusalém em 587 a. C. e no consequente exílio dos pecadores para a Babilônia. Contudo, também para Sofonias, há um “resto santo”, um povo humilhado e fraco que confia no nome do Senhor. Há, pois, uma salvação restrita aos sofridos. Para os demais, há apenas o juízo. É evidente aqui a comparação com a pregação de João Batista: será cortada fora a árvore que não produz bom fruto, o fruto da solidariedade e da justiça (repartir túnicas e comida, não cobrar mais do que o estipulado, não maltratar ninguém, não fazer denúncia falsa, contentar-se com o que é seu). Para João, portanto, também há uma salvação restrita a algumas pessoas que produzem bom fruto. De volta a Sofonias, e agora ao texto de pregação, é fundamental sublinhar que o juízo já passou. Após 60 anos de exílio, o povo de Deus pode começar a congregar-se na terra da promessa. Agora, após o juízo, “o Senhor está no meio de ti”. Por isso a alegria, o canto, o júbilo. Por isso: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos” (Fp 4.4). Sim, a alegria ainda não é completa, pois ainda não voltaram todos. Há muitos ainda por congregar. Há muitos que ainda não foram feitos “um nome e um louvor” (Sf 3.19-20), mas o novo tempo já começou.
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3º Domingo de Advento
O Senhor já está no meio de ti. A comunidade reunida precisa ser lembrada constantemente disso. Ela, porém, precisa saber que “o Senhor está perto”. Sua presença em nosso meio ainda não está completa. Advento assegura-nos essa presença de Deus em nosso meio, presente e futura – parcial, agora; completa, no futuro.
4 Imagens para a prédica Sugiro que todo o culto seja marcado por imagens plásticas. Isso não exclui o uso de imagens narrativas sobre o tema da alegria. Proponho que cada pregador ou pregadora escolha algumas histórias de alegria em sua própria comunidade ou paróquia, contando-as em sua pregação ou ao longo do culto. Certamente, a igreja já contará com uma coroa de Advento. Além dela, proponho que se enfeitem os bancos do templo com ramos de cipreste envoltos em fitas vermelhas. Se possível, distribuam-se pelo interior do templo inúmeras velas a serem acesas logo no início da celebração. Parece-me fundamental colocar uma pequena mesa no centro da igreja em meio à comunidade. Sobre a mesa coloquem-se um crucifixo, uma manjedoura e um ramo de flores. Aos pés dessas imagens ponha-se uma faixa de papel com os dizeres: “O Senhor está no meio de ti!”.
5 Subsídios litúrgicos Dois hinos são importantes para este culto: HPD I 124 (Deus está presente, todos o adoremos...) e HPD I 262 (Ó alegria, vem alumia...). Esse último também poderia ser utilizado como oração de coleta, preferencialmente cantado por toda a comunidade. Como versículo de introito, sugiro a leitura de toda a passagem de Filipenses 4.1-7. Utilizando Lucas 3.7-18 como leitura do evangelho, teríamos, com o texto de Sofonias 3.14-20 para a pregação, os três textos do domingo bem presentes na celebração. Após a confissão de pecados e da absolvição, proponho que se utilize a fórmula: Celebrante: O Senhor seja convosco! – Comunidade: Ele está no meio de nós. Essa fórmula poderia ser repetida antes da pregação e, mais uma vez, no final do culto. A oração de intercessão deveria expressar, ao lado das dores e dos sofrimentos da comunidade, da igreja e do país, também motivos de alegria. De fundamental importância é pedir, nessa oração, pela alegria completa e pela congregação de todas as pessoas na comunhão daquelas que foram santificadas por Deus em Jesus Cristo.
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3º Domingo de Advento
Bibliografia REIMER, Haroldo. 3º Domingo de Advento. ��������������������������� In: STRECK, Edson e SCHNEIDER, Nélio (coords.). Proclamar Libertação 20. São Leopoldo: IEPG, Sinodal, 1994. p. 20-22. SICRE, José L. A justiça social nos profetas. São Paulo: Paulinas, 1990.
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PRÉDICA: LUCAS 1.39-45(46-55)
4o DOMINGO DE ADVENTO
MIQUEIAS 5.2-5a HEBREUS 10.5-10
23 DEZ 2012
Daniel Kreidlow
1 Introdução Advento, tempo de encontros! Advento, tempo de preparação! Advento, tempo de visitas! Deus vem nos visitar! Pois um menino-Deus nos nascerá! O Natal ainda se mostra como uma das festas mais esperadas do ano, principalmente para as crianças. Isso faz com que quase todo o tempo que antecede essa data seja visto como algo que deve terminar logo, da maneira mais rápida possível, para que cheguemos ao que realmente interessa: a noite de Natal. Esse tempo de espera, chamado Advento, é carregado de significado e beleza. E isso desde as primeiras comunidades cristãs, de onde ressoa o “Maranatha”. O Advento apresenta-se como um tempo especial de espera, cheio de ansiedade, expectativas, abertura para acolher quem está chegando. Na espera desse menino-Deus, como comunidade de fé, estamos caminhando juntos durante estas primeiras semanas do ano litúrgico, últimas semanas do ano civil. Não fazemos esse caminho sozinhos, mas com muitos irmãos e irmãs na fé e muitas crianças ansiosas, além de figuras bíblicas que nos apontam o caminho para Jesus: Isaías, o profeta, João Batista, o que precede, e Maria, a mãe do Filho de Deus. Para nós, neste 4º Domingo de Advento, ergue-se de forma especial a figura da mãe Maria. Ela nos lembra que, sem gravidez e gestação, simplesmente não há nascimento e que Natal é a festa do Deus que visita quem não merece essa graça. Trata-se de uma festa celebrada em torno da esperança de uma gravidez, a alegria da concretização do nascimento; festa por causa do menino-Deus, que, ao nascer, dissipa toda angústia, incerteza e dor que Maria possa ter sentido; festa da esperança, pois Deus se revela como Emanuel justamente aos enfraquecidos e carentes de esperança.
2 Considerações sobre o texto O texto de prédica, proposto para o quarto domingo de Advento, é a visita de Maria a Isabel, mais o cântico de louvor a Deus, que vem ao humilde e esquecido. O texto, que faz parte dos relatos de infância de Jesus segundo o evangelista Lucas (Lc 1-2), mostra como a ação de Deus é reconhecida em meio ao povo
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4º Domingo de Advento
humilde e excluído, porém cheio de esperança, representado por Zacarias, Isabel e Maria. A narrativa pode ser dividida em três momentos: 1 – a ida de Maria, com um espírito solidário, à casa de Isabel e Zacarias (Lc 1.39-41). Colocando-se a caminho por mais de 100 km, Maria vai ao encontro de outra mulher, também grávida. 2 – a saudação que Isabel faz a Maria, reconhecendo-a como mãe de seu Senhor, abençoada e bem-aventurada (Lc 1.42-45). 3 – a reação de Maria à saudação de Isabel, cântico que comumente denominamos, a partir do latim, de “Magnificat” (Lc 1.46-55). A primeira parte da divisão mostra-nos que Maria foi sem demora fazer uma visita à sua parente, que estava no sexto mês de gravidez (Lc 1.36). Logo após a visita do anjo, Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa da Judeia e lá ficou por três meses. O encontro é marcante. Pois no momento em que Maria saúda seus parentes, a criança de Isabel estremeceu em seu ventre. Estando cheia do Espírito Santo, ela interpreta o movimento de seu filho como expressão de alegria de uma criança que ainda estava por nascer. A segunda parte de nosso texto mostra-nos a reação de Isabel à visita que Maria lhe faz. Chamada de abençoada, Maria é vista por Isabel como a mais bendita de todas as mulheres, pois reconhece que no seu ventre está, em suas próprias palavras, “o meu Senhor”. Isabel não sabia quão grande seria seu próprio filho, mas reconhece a grandeza daquele que vem através de Maria. O termo “meu Senhor”, aqui utilizado por Lucas, tem clara implicação messiânica ao provavelmente fazer uso do Salmo 110.1. A terceira parte é composta pelo cântico de Maria, que se apresenta como um irrompimento de louvor bem ao estilo veterotestamentário. Quando o colocamos ao lado do cântico de Ana (1Sm 2.1-10), conseguimos perceber uma forte similitude. No entanto, em contraposição ao cântico de Ana, que exalta seu triunfo frente a suas inimigas, o cântico de Maria alegra-se com a misericórdia de Deus, que exalta os humildes e destrona os poderosos.
3 Meditação A figura bíblica que nos quer auxiliar nessa caminhada que está quase chegando ao final é Maria. Por isso poderíamos dizer, neste final de semana, que para nós Advento é também acompanhar a gravidez de Maria. E assim esperar a vinda de nosso Senhor, o Deus que se encarna nessa criança que está sendo gestada no ventre dessa pobre e humilde serva do Senhor. Deus surpreende-nos com sua visita. Talvez poderia ser esta a nossa ênfase: a visita surpreendente. No Antigo Testamento, Deus ouve, anuncia, sussurra, caminha junto, vai à frente, orienta e protege. Mas agora Ele encontra uma maneira bela e suave de achegar-se à sua criação por intermédio de seu Filho Jesus Cristo, que se achega até nós e visita-nos como um ser humano pleno. Podemos afirmar, com toda a certeza, que Deus quis estar mais próximo daquilo que ele tanto amou e ama. E para isso escolheu uma forma simples, mas perfeita.
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Maria, uma jovem pobre e humilde, que mora em uma pequena cidade no interior da Galileia, recebe a notícia de que será mãe de um menino chamado Jesus. No momento em que o anjo a visitou para anunciar a boa-nova, toda a região de Israel estava sob o domínio do Império Romano, com o centro político e econômico centralizado na cidade de Roma. Mas Deus tinha sonhos e ideais diferentes dos seres humanos. Pois o que para os olhos humanos é desprezível, para Deus é o lugar do agir do Espírito divino. Por isso Maria canta e encanta com o conhecido “Magnificat”. Ela se entende como uma imerecida mulher que recebe uma graça maravilhosa de Deus. Na casa pobre e humilde em Nazaré, onde Maria morava, longe dos palácios e imponentes cidades romanas, Deus fala, e o mundo poderoso e imponente naquele momento nem ficou sabendo. E Maria colocou-se a caminho de sua casa para a casa de sua prima chamada Isabel. Mesmo se sabendo grávida de Jesus, mesmo que tivesse que cumprir um grande percurso até chegar a seu destino, ela corre para colocar-se a serviço de sua prima mais velha. E nessa mistura de alegria e solidariedade, Maria vai visitar Isabel. Pois essa, sendo já idosa, talvez estivesse passando por uma gravidez mais arriscada devido à sua idade. Deixando a Galileia, Maria desloca-se à região montanhosa da Judeia e ali fica com Isabel até o nascimento de seu filho, que recebeu o nome de João. Nessa visita solidária à sua prima Isabel, Maria ensina-nos que é através do serviço solidário que Deus se faz mais próximo das pessoas fragilizadas. O quanto nós temos sido igreja que se coloca a caminho do outro, igreja que se movimenta e visita? O quanto nós temos motivado e incentivado a visita fraterna àqueles que sofrem e necessitam de apoio? O mesmo Espírito Santo que concebe a Jesus cria reunião e comunhão de pessoas em nossas comunidades para ouvir e aprender do evangelho de Jesus Cristo, incumbindo-as do ministério de testemunhar o evangelho de maneira prática e oral, dando continuidade à obra que Deus iniciou ao nos visitar. Impulsionados por seu amor, concretizado em nosso meio na Palavra e nos sacramentos pelo agir desse mesmo Espírito, como comunidade de fé, como cristãos e cristãs que não somente ouvem a Palavra, não podemos fugir do mundo como se nada tivéssemos para realizar nele. No mínimo, também precisamos visitar. Quando olhamos para a ação de Jesus durante os cerca de três anos e meio de seu ministério, vemos que ele “percorria todas as cidades e povoados ensinando, pregando e curando” (Mt 9.35). Jesus não poupou esforços em visitar as pessoas. Ele procurava identificar-se com as pessoas e não se distanciava delas, como faziam os sacerdotes de seu tempo. Foi durante as visitações que Jesus curou, como fica claro no relato da sogra de Pedro. Ele visitou publicanos e fariseus, ricos e pobres, sem distinção alguma (Mt 8.14). Por isso acredito poder dizer que o ministério de Cristo foi desenvolvido primariamente pela visitação, pelo encontro, pela comunhão. Suas visitas eram comuns, como à casa de Maria, Marta e Lázaro. Elas não eram apenas visitas sociais, mas visavam estar junto das pessoas, ensinando-as e curando as mais necessitadas. Os resultados eram grandiosos, pois famílias inteiras eram beneficiadas, como no caso de Zaqueu, o publicano: “Hoje, houve salvação nesta casa” (Lc
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4º Domingo de Advento
19.9). Quando enviou os setenta, Jesus deixou claro que eles deveriam entrar nos lares e, antes de tudo, desejar paz àquela casa (Lc 10.5). Jesus ordenou a seus discípulos: “Procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.6). Para isso, eles deveriam entrar nos lares de cada uma delas (Mt 10.12). Assim Jesus criou novos paradigmas, tanto por seus ensinos como por sua forma de viver. Cristo relacionava-se pessoalmente com todos os que encontrava, seja no caminho, na casa, na praia, no lugar do emprego de alguns que vieram a ser seus discípulos. Onde encontrava alguém necessitado, Jesus estava disposto à comunhão e ao encontro. O Advento é um tempo de esperarmos ansiosos pela visita sempre renovada de nosso Senhor, que se faz um como nós. O Natal é uma festa em que celebramos a presença de Deus numa criança que chora, que é frágil e indefesa. E é, sim, Festa (com letra maiúscula), porque Deus se faz um de nós ali nesse menino chamado também de Emanuel. Em Cristo Jesus, o próprio Deus vem nos visitar. Como comunidade de fé, acredito termos a oportunidade de, neste final de semana, olhar com carinho para nossa forma de nos relacionar com as outras pessoas. Não podemos fingir que não vemos os fragilizados e abandonar as pessoas que estão necessitando de auxílio e passando por dificuldades. A partir do Deus que vem até nós, somos chamados a também nos movimentar e deslocar ao outro que necessita de cuidado. E a visitação pode ser um bom exercício nesse sentido.
4 Imagens para a prédica Transcrevo abaixo um depoimento de uma mulher que se curou de um câncer de mama, intitulado “Visita de Deus”. “Não sei onde andam as borboletas da minha infância. Não aquelas borboletas. Falo das suas descendentes. Nas tardes de janeiro, avizinhando as trovoadas, ficavam as paredes de todas as casas repletas de asas multicores. Eram pequeninas e gigantescas. Com a meninada da rua, com uma caixinha de fósforos vazia, íamos aprisionando as mais belas. Lembro bem de asas marrons com pequeninas manchas amarelas e de aterrorizadoras asas ‘peludas’ capazes, conforme vociferavam os adultos, de cegar quem as tocasse e em seguida esfregasse os olhos (confesso: fiz o teste) – eram as mariposas. Talvez porque a cidade avançou sobre as serras, as borboletas, e também as mariposas, tenham se embrenhado na caatinga. Nada de passeios nas ruas e praças. Sinto falta de sua beleza e então, por isso, quando vou à fazenda, gosto de caminhar no mato, procurando-as. Quando extirpei de mim um câncer de mama, fiquei quase um ano afastada do trabalho. Recebi a visita de algumas pessoas em minha casa. Meus amigos. No meu jardim, plantado em caqueiras, quase todos os dias havia borboletas. Gosto de pensar que era a visita visível de Deus” (http://www.poesiaebiscoito. com/2012/05/visita-de-deus.html). Quando visitamos pessoas e oramos com elas, levando uma palavra de fé e esperança, talvez também elas possam perceber essa simples visita como sendo
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4º Domingo de Advento
a visita de Deus. Pois Deus se faz mãos e pés através dos que nós temos. Ele se faz presente, dentre outras formas, também através de nossa visitação, de nosso estar junto.
5 Subsídios litúrgicos Bênção: Ó vem, Senhor Jesus, não demores mais! Vem como água que mata a sede e pão que sacia a fome. Ó vem, Senhor Jesus, não demores mais! Vem como o sol nos aquecer o coração e como a chuva apaziguar nosso pensar. Ó vem, Senhor Jesus, não demores mais! Vem como o vento que nos traz ares novos e como o canto dos pássaros que nos alegra a vida. Ó vem, Senhor Jesus, não demores mais! Vem nos visitar como o amanhecer nos faz de dia e as estrelas nos fazem pela noite. Ó vem, Salvador Jesus, não demores mais! E que assim nos abençoem o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.
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PRÉDICA: ISAÍAS 11.1-9
NOITE DE NATAL
LUCAS 2.1-7 ROMANOS 1.1-7
24 DEZ 2012
Leonídio Gaede
1 Introdução Quero iniciar fazendo uma apreciação subjetiva e dizer que o texto em foco tem, a meu ver, uma construção literária bonita. As imagens são riquíssimas: um toco, um broto e uma raiz falam por si. E o que dizer de uma vara que concretiza o sentido das palavras que saem da boca? Ou do sopro de lábios que mata perversos? E o que dizer da imagem do cinto bem afivelado, comparado à justiça? Certamente é bem diferente da comparação da justiça com pura conversa. Lobos e ovelhas, leopardos e cabritinhos, bezerros e leões, vacas e ursas, filhotes de vacas e ursas juntos, leões e bois, criancinhas e cobras, crianças guiando, filhotes pastando, criança enfiando a mão em toca, águas enchendo o mar. São muitas tentativas de encontrar um recurso para mostrar um futuro não perceptível a “olho nu”, isto é, a partir do que se costuma enxergar no dia a dia. Num primeiro instante, aparecem imagens isoladas. Depois vêm as imagens relacionadas entre si, que, pelo que se costuma experimentar, não combinam: leopardos e cabritinhos? Bezerros e leões?... A “olho nu”, sem chance!
2 Exegese e meditação Se o jeito de dizer as coisas, aliás, as mesmas coisas, aqui no capítulo 11 (v. 1 a 9) assemelha-se a 9.1-6, o tempo do verbo aqui muda. No capítulo 9, o tempo é presente. Agora é futuro. Agora é promessa. Lá em 9.2: “O povo que andava nas trevas viu uma luz”. Além disso, lá dá-se “nome aos bois”. São citadas as tribos de Zebulom e Naftali e a região entre o Mediterrâneo e a Galileia. Aqui, no capítulo 11, não se é tão específico. Aqui o “rodo passa geral”. Isaías 11.1-9 não trata de um caso específico, mas aplica uma simbologia geral. Ela serve para casos de diversas épocas. Então nossa experiência nos dias de hoje ajuda a suspeitar do seguinte: quando a gente acabou de passar por um caso, a gente cita esse caso quando fala. Quando, porém, a gente já colecionou uma série de casos, então a gente generaliza. Por exemplo, se você visitar alguém que acabou de sofrer uma perda significativa, é provável que o centro da conversa seja a referida perda. Se, porém, você visitar fora do contexto de uma perda significativa, o assunto também poderá girar ao redor de perda, mas o enfoque será mais geral. É o que acontece em nosso texto. Por isso é possível ver nele uma experiência acumulada. Em outras palavras, se ele acumula a vivência de mais casos, ele precisou de mais tempo para acumular essa experiência. Trata-se, pois, de um
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Noite de Natal
texto mais tardio na história do povo de Deus. Resumindo, Isaías 11.1-9 condensa um período em que as experiências sucederam-se e ensinaram a mesma lição. Qual é essa lição? Vamos resumi-la assim: está difícil perceber continuidade no desenvolvimento da relação de Deus com seu povo. Está questionada a ideia de que a história é feita de uma linha ascendente rumo à felicidade geral. A figura usada no texto para fazer esse questionamento é o toco que brota. O fenomenal é isto: há uma interrupção. Mas que interrupção é essa? É uma interrupção que não representa o fim. É uma forma dialética de garantir o que está em 2 Samuel 7.16: “Você sempre terá descendentes, e eu farei com que o seu reino dure para sempre. E a sua descendência real nunca terminará”. Proponho uma divisão do texto em cinco partes: 1 – “E sairá um rompante do cepo de Jessé; um ramo desabrochará de suas raízes. Sobre ele repousará o espírito de Javé: espírito de sabedoria e entendimento, espírito de aconselhamento e empoderamento, espírito de reconhecimento e temor de Deus” (v. 1-2): Esse trecho compõe uma espécie de introdução na qual é apresentado o “x” da questão: o cepo (tronco, caule, ...) e seu conteúdo, isto é, o cepo com uma dinâmica, que é o broto, a ramagem. É importante notar que também aí tem uma simbologia riquíssima, pois algo em si estático ganha uma dinâmica num fenômeno que inclui um rompante. Algumas traduções falam em “rebento”, o que pode criar associação com “arrebentar”, isto é, estourar. Em seguida, vem a tradução da figura para um sentido teológico, que é a qualificação do sujeito da promessa pelo Espírito de Javé que sobre ele atua: sabedoria e entendimento, aconselhamento e empoderamento, reconhecimento e temor de Deus. De minha parte, ainda estou muito acostumado com a linguagem da Bíblia traduzida por Almeida: “O Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor”. Considero essa forma de dizê-lo melhor do que a versão da Bíblia na Linguagem de Hoje, que, a meu ver, tentando formar frases mais arredondadas, camufla a tipologia do Espírito: “sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. Ele temerá o Senhor, conhecerá a sua vontade e terá prazer em obedecer-lhe”. Proponho permanecer com o tripé: 1) sabedoria e entendimento; 2) aconselhamento e empoderamento; 3) reconhecimento e temor de Deus. Parece-me que a palavra empoderamento (ainda não devidamente incorporada pelos dicionários) alcançou nosso discurso teológico por meio da reflexão sobre diaconia em âmbito global. A concepção de diaconia em contexto precisa de uma palavra para traduzir na área da educação aquilo que, na área da assistência, é chamado de transferência de renda. Ao lado da transformação e da reconciliação, o empoderamento forma o tripé da ação diaconal e refere-se à transferência de poder a sujeitos-alvo de processos de inclusão. 2 – “Terá prazer no temor de Javé. Não julgará segundo a aparência. Não dará a sentença pelo ouvir dizer. Julgará com justiça os enfraquecidos e pronunciará sentença, concedendo direito aos pobres da terra” (v. 3-4a): Essa parte nomeia as consequências práticas do empoderamento a partir da atuação do Espírito de Javé: ter prazer em seguir o Senhor; julgar sem se basear em
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aparências; decidir sem se basear em conversa de terceiros; fazer justiça no julgamento das causas das pessoas que foram enfraquecidas e defender com justiça o direito dos necessitados da terra. No mínimo, vejo neste segundo bloco uma tendência à parcialidade. 3 – “Como se fossem uma vara, suas palavras vão ferir as pessoas violentas e, com o fôlego que sairá de seus lábios, matará as perversas. A justiça será o seu suspensório e a fidelidade o seu cinto” (v. 4b-5): Aqui temos a caracterização de sua ação: palavra e espírito empoderados e governo com base em justiça e honestidade. Essa preparação para a missão pode ser aprovada por todos os movimentos de justiça e não violência, pois não há armas – há o poder das palavras e o espírito, o fôlego de Deus. No lado oposto, aquelas pessoas que defendem a pena de morte para as pessoas violentas e perversas provavelmente vão considerar uma “santa ingenuidade” querer ir para o enfrentamento com palavras e fôlego. A indumentária, porém, não nos deixa dúvida: quem entra nesse embate com palavras e fôlego está seguro duas vezes, pelos ombros e pela cintura, com justiça e fidelidade. 4 – “Então o lobo habitará com o cordeiro. O leopardo deitará ao lado do bode. Um menino vai guiar o bezerro, o leãozinho e o novilho gordo. A vaca e a ursa pastarão juntas, de forma que seus filhotes deitarão um perto do outro; e o leão comerá palha assim como faz o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da cobra venenosa e a criança desmamada meterá a mão na cova da serpente” (v. 6-8): O trecho apresenta-nos figuras utópicas que dão uma ideia da profundidade das mudanças anunciadas. O conteúdo da promessa já foi apresentado nos versículos anteriores. Aqui as imagens são como um reforço. As imagens acentuam o que precisa ser destacado: a promessa é para quem crê; e crer inclui a aposta no improvável. 5 – “Não se praticará o mal, e ninguém promoverá destruições em todo o meu santo monte, pois o reconhecimento de Javé será pleno em toda a terra” (v. 9): Este último trecho conclusivo descreve um cenário de paz. Não se trata de qualquer paz, mas daquela que vem em consequência da prática de justiça e do reconhecimento de Deus, isto é, do ser humano colocar-se no seu devido lugar. É possível fazer uma interpretação diferente do ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Via de regra, ele é usado para falar em sentido positivo do fenômeno da persistência como algo que faz vencer nos processos difíceis. Podemos, no entanto, usá-lo também para dizer que, de tanto ver a mesma coisa, começa-se a acreditar que é assim mesmo. A mentira muito repetida torna-se verdade. Provavelmente, a mentira estava se tornando verdade no contexto de atuação do profeta. Tanta experiência de derrota e destruição fazia crer que Deus tinha mesmo abandonado seu povo. Digamos que o profeta ouvia coisas assim: “Se tu achas que não é assim, mostra-me pelo menos um sinal de supremacia de nosso povo nos últimos tempos”. Diante disso, ele não se pôs a recolher migalhas de pequenas vitórias aqui e acolá, como seria de se esperar de alguém que quisesse provar a atuação de Deus: “É, mas também tem coisa boa acontecendo...”. “Não esqueça que Deus também tem te abençoado e tu nem te dás conta disso...”. “Quem sabe Deus está te apli-
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cando um corretivo...”. Frases assim, que nos são conhecidas e têm claramente a intenção de convencer em contexto desfavorável, não estavam na linha de argumentação do profeta. A gente vai procurando uma justificativa plausível. O profeta, porém, não faz isso. Ele não procura resquícios de imagens que possam provar que Deus está, sim, fazendo coisas boas, “só que tu não enxergas”. Ao contrário disso, o profeta recorre a imagens de cenas totalmente improváveis, como se estivesse dizendo: “Olha, meu filho, se tua forma de pensar não inclui espaço para o impossível, para o desconhecido e para a novidade, não iremos adiante”. Não é também isso que nos diz o Novo Testamento? “Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem” (Hb 11.1).
3 Imagens para a prédica Hoje precisamos do dom do Espírito, que, segundo o profeta Isaías, pousará sobre o rebento do cepo de Jessé. Qual é esse dom? 3.1 – Sabedoria e entendimento Tem gente que sabe muitas coisas e não consegue lidar bem com elas. Tem o dom de fazer e criar, mas não o de lidar com sua capacidade de fazer e criar. Algumas pessoas, por exemplo, são artistas, e esse dom não as ajuda na construção de uma vida estável. Por isso o dom do Espírito inclui sabedoria e entendimento, entendimento e sabedoria. O sentido completo desse dom espiritual é tê-lo e saber lidar com ele. 3.2 – Aconselhamento e empoderamento O dom do Espírito que pousará sobre o rebento de Jessé não só inclui o dom espiritual que ajuda a pessoa a organizar seu próprio mundo interior e a lidar com o que sabe. Ele também tem essa segunda dimensão do aconselhamento e empoderamento. Essa dimensão está dirigida à relação com a outra pessoa. Jesus sempre empoderava as pessoas pobres e sofridas que ajudava. Dava o conselho de tal forma que o poder da outra pessoa aumentava. “A tua fé te salvou”, dizia ele. Aquilo que a tradução de Almeida chama de “conselho e fortaleza” é isto: a capacidade que um testemunho tem de servir de conselho e a capacidade que ele tem de transferir poder ao público-alvo de uma ação diaconal. 3.3 – Reconhecimento e temor de Deus A terceira dimensão do dom do Espírito, apontada por Isaías 11.1-2, não é nem só para quem recebe e nem só para as pessoas que se relacionam com quem o recebe. A terceira dimensão aponta a relação da pessoa que recebeu o dom com Deus. Assim se completam os três níveis de relacionamento que vêm do dom do Espírito: relacionar suas capacidades consigo mesmo (com suas emoções, com seu mundo interior), relacionar sua capacidade com o aconselhamento e empode-
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ramento de outras pessoas (as beneficiárias, o público-alvo) e, em terceiro lugar, reconhecer Deus e andar no seu temor. Nessa terceira relação, não se trata de ter medo do castigo de Deus. Andar no “temor de Deus” é andar sabendo que Deus está vendo o que é feito. Quem crê nunca está só. A “vantagem” de quem tem fé sobre quem não tem é que o primeiro está de mãos dadas com Deus e o segundo não o vê. Diz-se que a ética ou falta dela prova-se no que a pessoa faz quando ninguém está vendo. Isso é reconhecimento e temor de Deus. Quem crê não corre, pois, o risco da falta de ética.
4 Subsídios litúrgicos O hino “Da cepa brotou a rama”, de Reginaldo Veloso, que consta no nº 310 do hinário Hinos do Povo de Deus da IECLB, não pode, evidentemente, faltar nesta celebração. O texto do Evangelho de Lucas 2.1-7 inclui o relato da viagem de José e Maria a Belém, o que trata de colocar Jesus na linhagem de Davi, “abotoando” a profecia de Isaías ao evangelho. O texto do evangelho tem “plasticidade”. É de fácil dramatização, o que pode ser aproveitado como recurso litúrgico. O narrador da cena pode ser o apóstolo Paulo de Romanos 1.1-7. A palavra “Roma” pode ser substituída pelo nome da cidade ou localidade onde está ocorrendo a celebração. O espaço litúrgico pode receber, excepcionalmente, mais uma referência. Essa é um centro de cenário que representa Belém. Pode ser representado por um caule brotado colocado perto do púlpito. É para lá que José e Maria se dirigem. E é lá que está o narrador, que tem como recurso as partes de um banquinho (mocho) de três pernas. À medida que a pregação vai descrevendo o dom do Espírito, conforme Isaías 11.1-2 (vide Imagens para a Prédica acima), o banco vai sendo montado. No final, Maria senta no banco.
Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías. A palavra profética e sua releitura hermenêutica, V. I: 1-39, o profeta da justiça e da fidelidade. Vozes, Metodista, Sinodal, 1989. 243p. Diversos volumes do Proclamar Libertação abordam o texto de Isaías 11. Existe uma prédica sobre Isaías 11.1-9 em: http://www.luteranos.com.br/portal/ site/conteudo.php?idConteudo=8824. Autor: P. Elton Pothin, CEJ – Paróquia Martin Luther, Joinville – SC. Data da pregação: 02/12/2007 - Data Litúrgica: 1º Domingo de Advento.
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PRÉDICA: JOÃO 1.1-14
DIA DE NATAL
ISAÍAS 62.6-12 TITO 3.4-7
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Osmar Luiz Witt
1 Introdução O Evangelho de João começa apresentando Jesus Cristo como a Palavra (o Verbo), cuja existência antecede a criação do mundo e que desde sempre estava com Deus e que é Deus. A festa do Natal celebra a encarnação dessa Palavra. Aliás, celebra um milagre que anuncia a vontade salvadora de um Deus que é amor e que, por amor, entra na história humana para ficar próximo de suas criaturas. O evangelista João tem um jeito próprio de falar a respeito do conteúdo dessa festa cristã. Ele não descreve o nascimento nem apresenta a criança na manjedoura, imagem que está sempre associada ao nascimento de Jesus, mas se detém naquilo que é central para a fé: em Jesus, Deus vem ao nosso encontro. Acolher essa dádiva é caminho de vida e salvação. O nascimento de Jesus, a encarnação da Palavra, dá cumprimento ao anúncio dos profetas. João Batista atualizou para o seus dias o anúncio de Isaías: “Preparai o caminho”. Ele preparou o caminho para aquele que veio, aquele que é a luz que vence a escuridão humana. O anúncio da encarnação da Palavra não encontrou acolhida em toda a parte; também houve resistência e indiferença a ele. Somente a fé percebe que algo decisivo é apresentado através desse anúncio: a encarnação da Palavra resulta da misericórdia e do amor de Deus. Esse amor divino nos envolve e nos introduz no ambiente em que “fomos lavados por sua misericórdia”, fazendo-nos nascer de novo para ser filhos e filhas de Deus. Somos “herdeiras e herdeiros da esperança e da vida eterna por graça”. A comunidade que celebra o Natal de Jesus Cristo é testemunha de um acontecimento extraordinário: “A Palavra tornou-se um ser humano e morou entre nós, cheia de amor e de verdade”.
2 Exegese V. 1 – O primeiro versículo do prólogo de João apresenta-nos três termos importantes para a perícope por seu conteúdo teológico. No princípio é uma expressão que faz referência ao relato da criação no livro de Gênesis, o qual “começa justamente com essas palavras (em hebraico bereshît, traduzido pela Septuaginta com en arche, expressão retomada por João). Essa evocação verbal traz consigo todo um contexto de conceitos e motivos teológicos. De fato, os versículos que seguem retomam temas característicos da primeira página da Bíblia, como a “mediação” da palavra criadora e a “separação” entre luz e trevas,
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referindo-os a Cristo. Dessa forma, a obra de Deus, que criou o mundo com sua Palavra, encontra-se relacionada com a obra definitiva do mesmo Deus que inaugura a história da salvação através da Palavra encarnada” (Alviero NICCACCI e Oscar BATTAGLIA, p. 34-35). O segundo termo destacado é Logos, a Palavra que era/existia em Deus antes da criação do mundo. O Antigo Testamento também conhece a Sabedoria de Deus, que estava com Deus na criação (Pv 8.22-31). “Jesus é chamado ‘a Palavra’, isto é, a força criadora que a tudo dá vida. De fato, de acordo com Gn 1, à medida que Deus fala, as coisas vão acontecendo. Por exemplo: Deus diz: ‘Que exista a luz’ (Gn 1.3), e a luz começou a existir. A Palavra de Deus é, portanto, comunicadora de vida. Jesus é essa Palavra capaz de comunicar vida, pois ele próprio possui a vida em plenitude e a transmite à humanidade” (BORTOLINI, p. 19). O terceiro termo é o verbo ser. “No texto grego faz-se distinção clara entre einai, ‘ser’, que compete só a Deus, e genesthai, ‘tornar-se’, que é a categoria das criaturas (v. 3). Nesse versículo, era é empregado por três vezes, mas com matizes diversos: de existência (era o Verbo), de relação (estava junto de Deus) e de predicação (era Deus). O Verbo era evoca a fórmula ‘Eu sou’, presente especialmente nas secções 5.1-10,21 e 13.19, que contêm a grande revelação de Jesus” (NICCACCI e BATTAGLIA, p. 35). De forma sintética e densa, João apresenta uma discussão que, no século IV, será retomada em Niceia no confronto com o ensinamento ariano. “No princípio era a Palavra” é expressão cujo conteúdo também se encontra no ensinamento do apóstolo Paulo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas e nele tudo subsiste” (Cl 1.15-17). V. 2 – Este versículo retoma e reforça o que já fora dito anteriormente. Ao insistir que a Palavra estava com Deus desde o princípio, João deixa claro que nunca houve um tempo em que ela não era. V. 3 – A Palavra de Deus é sempre viva, dinâmica e criadora. Quando Deus pronuncia a sua Palavra, ela transforma a realidade de modo criativo. Tudo o que existe resulta do poder criador da Palavra. O relato de Gênesis 1.3,6 (veja também Sl 33.6) mostra-nos a Palavra de Deus em sua ação criadora, e o Evangelho de João apresenta essa Palavra em seu agir salvífico (veja também 1Co 8.6; Cl 1.16-17 e Hb 1.2). V. 4-5 – Os termos vida, luz e escuridão fundamentam a reflexão sobre a missão da Palavra encarnada: derrotar a escuridão que afasta os seres humanos da fonte da vida. Como podemos ver noutras passagens, João acentua que a encarnação da Palavra tem como objetivo promover a vida: “A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens” (Jo 14.4); “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10); “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10.11); “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6); “Eu sou o pão da vida” (Jo
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6.35). O Evangelho de João foi escrito “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Viver na escuridão é permanecer sob a esfera de influência do pecado, que ofusca nossa visão de Deus e afasta-nos dele e de seu plano de vida. Justamente a realidade do pecado na vida humana impede que seja acolhido o anúncio de que Deus se fez ser humano para estar próximo de nós. Jesus Cristo liberta o ser humano do pecado e dá luz/proximidade de Deus, que vence a escuridão/afastamento de Deus. A diferença entre a luz e a escuridão é de tal ordem, que somente aquela pode suplantar essa e jamais o inverso. V. 6-9 – Estes versículos fazem referência à atuação de João Batista, aquele que preparou o caminho para a vinda da luz verdadeira. Ele mesmo não era a luz, mas sua missão era dar testemunho da luz. Ele não era o Cristo/Ungido, mas seu precursor. O evangelista João realiza aqui uma interessante construção literária. Enquanto os sinóticos oferecem uma retrospectiva cronológica e apresentam o ministério do Batista antes de Jesus, o Evangelho de João inicia pela encarnação/ nascimento humano da Palavra eterna e faz referência ao Batista e seu ministério, apontando para aquilo que é central na fé cristã: Deus está próximo dos seres humanos. V. 10-12 – Assim como no v. 1 a relação entre Deus e sua Palavra é retratada de forma harmoniosa (não há contradição entre Deus e sua Palavra), nestes versículos a presença da Palavra no mundo produz distintas reações. Primeiro, diz-se que o mundo não conheceu aquele que é a Palavra, nem mesmo os seus o receberam. Depois se diz que alguns creram nele e o receberam. “Há em João uma dualidade, não entre os fiéis e o mundo como realidade cósmica, mas (1) entre ‘este mundo’ (precário) e o mundo vindouro (o âmbito de Deus no mundo); (2) entre ‘o mundo’ como parcela incrédula e os que pertencem a Jesus. O ‘mundo’ em João não é um poder cósmico, mas criatura de Deus, embora ingrata” (KONINGS, p. 21). V. 13 – A filiação divina, concedida aos que recebem a Palavra encarnada, não é conquista humana, mas dádiva imerecida, um presente de Deus, que resulta de um nascimento espiritual (veja também Jo 3.3,5; Tg 1.18; 1Pe 1.23; 1Jo 3.1-2). Nascer de novo é ingressar na esfera de senhorio do Espírito de Deus. E o Espírito Santo é livre para agir a seu modo. Seu agir, contudo, é sempre expressão da graça divina. V. 14 – Este versículo sintetiza a motivação da comunidade cristã para estar reunida na festa natalina. Porque a Palavra se fez carne na criança da manjedoura, o mundo foi abraçado e desafiado para um novo projeto de Deus em favor da vida. “Jesus é, a partir desse momento e para sempre, o lugar do encontro com Deus. Deus não se esconde no além, nem se fecha num templo. Ele está presente no meio de nós numa pessoa: o ser humano Jesus” (BORTOLINI, p. 20). Assim como, no v. 1, o evangelista acentuou a natureza divina da Palavra, agora ele acentua a sua perfeita natureza humana (veja também Rm 1.3; Gl 4.4; Fp 2.7; 1Tm 3.16; Hb 2.14; 1Jo 4.2). Deus “armou sua tenda” entre nós: “Assim, no Antigo Testamento, se fala de Deus e da Sabedoria que estabeleceu morada permanente entre os homens. O tema da presença de Deus em meio ao povo é
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típico do Êxodo; nesse livro se conta que os israelitas armaram uma ‘tenda’ para que Javé pudesse habitar em meio ao seu povo (Êx 25.8-9). Mas também os profetas anunciam um tempo no qual Javé armará sua tenda em Sião. As palavras de João proclamam que esse tempo chegou e que por isso o Verbo Encarnado toma o lugar da antiga tenda como local da presença de Deus entre os homens” (NICCACCI e BATTAGLIA, p. 41).
3 Meditação A pregação sobre essa passagem do Evangelho de João pode partir de diferentes perspectivas. É quase impossível ignorar os aspectos dogmáticos que nela se oferecem. João escreveu seu evangelho para que seus leitores e leitoras creiam que Jesus é o Filho de Deus e não somente mais um profeta ou um sábio com ensinamentos relevantes para a conduta humana (o que ele também foi). Nesse Jesus, cujo nascimento a cristandade celebra, Deus mesmo assumiu a natureza humana. Pode-se reagir com fé ou com incredulidade a esse anúncio, mas não se pode ficar indiferente. “Para João, falar de Cristo (cristologia) é falar de Deus (teologia): o assunto é Deus.” Não podemos deixar de falar “de Deus em sua transcendência e em sua imanência. Ora, sem essas dimensões não se entende o Quarto Evangelho: ‘Eu não vim (falei/agi) por mim mesmo’ soa o refrão de Jesus. Ele veio, falou e agiu porque o Pai, Deus, estava nele e assim lhe ordenou” (KONINGS, p. 54). O modo, porém, como João trata dessa questão, que também entrou para a ordem dogmática da fé cristã, é absolutamente evangélico, isto é, ele oferece uma alegre notícia para a festa natalina. Não estaríamos, pois, correspondendo plenamente ao texto se nos detivéssemos na discussão dogmática que ele pode suscitar. João, mais do que qualquer outra coisa, quer anunciar a salvação que está próxima dos seres humanos. Sob essa perspectiva, a comunidade que celebra é, também ela, como um Batista que anuncia a vinda de alguém que é maior. “Convém que Cristo cresça e que eu diminua” é a constatação da comunidade/igreja cristã. A comunidade é portadora de uma boa notícia, a qual aponta na direção da Palavra que veio morar entre nós. Jesus é Deus conosco (Emanuel). O mundo, entendido não como esfera de oposição a Deus, mas como o lugar onde a salvação se torna concreta, ganha uma nova valorização. O Natal parece destoar com sua mensagem de paz na terra inteiramente da realidade cotidiana. Nessa vigora muito mais a experiência do afastamento de Deus, que em linguagem bíblica significa pecado. O mundo não o recebeu, continua não havendo lugar para ele nas hospedarias, posto que a sua presença é também incômoda para quem prefere a escuridão do egoísmo à luz da solidariedade. Mas, por isso mesmo ou tanto mais, é preciso anunciar que a Palavra, pela qual tudo o que existe foi feito, veio construir sua tenda entre nós. O mundo não está irremediavelmente perdido e sem rumo, pois o Natal nos recorda que Deus mesmo veio habitar conosco. A construção do caminho em direção a Deus, o qual somos incapazes de realizar, dá lugar à construção de um caminho que vem de
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Deus em nossa direção. De seu esvaziamento (Fp 2) resulta que as nossas vidas recebem salvação. Ele abandona sua glória para fazer-se nosso irmão: “No Antigo Testamento, a glória de Deus se revelava e se escondia, ao mesmo tempo, numa nuvem, no fogo. Às vezes, a ‘glória de Deus’ mais assustava do que atraía. Mas agora a glória de Deus está presente no ser humano Jesus. Ele é a manifestação da glória de Deus. Não há mais espaço para mediações, pois Jesus recebe a glória diretamente do Pai e a comunica como Filho único. Se no passado a glória de Deus podia assustar o povo, agora o atrai, porque Jesus manifesta o Pai com amor fiel. Onde foi que Jesus manifestou a sua glória e a glória do Pai? Na cruz, dando a vida por amor. É nesse momento que ele revelará plenamente o amor fiel de Deus pela humanidade” (BORTOLINI, p. 21). O Evangelho de João tem um foco na espiritualidade encarnada. Ele não é espiritual “no sentido ‘espiritualista’. Não apregoa um cristianismo alheio ao mundo histórico e material em que vivemos. ‘Espiritual’, no caso do Quarto Evangelho, significa que a vida e a mensagem de Jesus são interpretadas à luz do Espírito de Deus, que nos faz descobrir sentidos sempre novos e atuais (cf. 16,13). Nesse sentido, é um evangelho aberto. (…) João não fornece receitas para o agir histórico nem regras concretas de conduta pessoal. Nada sobre a legislação social nem sobre a vida conjugal e familiar... Só o mandamento do amor fraterno. Não nos dá o peixe nem a linha de pescar, só nos mostra o rio... Não alista preceitos e receitas concretas, mas situa os conflitos imediatamente num nível mais profundo, no nível do conflito entre ‘luz e trevas’, ‘verdade e mentira’, ‘vida e morte’. À luz de Jesus, Palavra de Deus ‘na carne’, João mostra no mundo duas posições intrinsecamente incompatíveis entre as quais é preciso escolher. O resto é consequência dessa opção” (KONINGS, p. 54). O evangelho natalino é convite para acolhermos a Palavra que se tornou um ser humano e que veio construir sua tenda em nosso meio.
4 A caminho da prédica Uma possibilidade de abordagem do texto na prédica é esta: a) Destacar que o sentido da celebração do Natal vincula-se ao desejo divino de estar próximo de suas criaturas. b) Natal é, pois, o caminho de Deus, que se esvazia e se doa, em direção a nós, que somos preenchidos e recebemos nova vida, imerecidamente. Disso resultam alegria e louvor a Deus. c) Muito rapidamente esquecemos ou omitimos o valor e a importância do milagre natalino e nos deixamos vencer pelas forças da escuridão, que resultam do pecado que habita em nós e nas estruturas deste mundo que não atenta para o que diz a Palavra encarnada. d) Somos vocacionados e vocacionadas para agir como João Batista, apontando para aquele que vem e que dá sentido às esperanças e às utopias (aquilo que ainda não é), que não nos deixam sucumbir nem desanimar. O “mundo” não o reconhece, nem o recebe, mas o Natal não nos deixa esquecer que Deus se importa conosco.
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5 Subsídios litúrgicos Versículo de entrada: “A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós, cheia de amor e de verdade. E nós vimos a revelação da sua natureza divina, natureza que ele recebeu como Filho único do Pai.” (1.14) Oração do dia: Querido Deus, que habitas em nosso meio! Graças te damos, pois o Natal nos recorda que te importas conosco e que nos ofereces nova vida. Que nesta hora de comunhão sob a tua Palavra possamos ser fortalecidos e fortalecidas em nossa fé. Permite que aprendamos de teu Filho, a criança na manjedoura, a viver em amor e em verdade. Que não fiquemos devendo o testemunho do amor que recebemos de ti. Oramos em nome de Jesus, Deus conosco, que está em ti e que contigo e com o Espírito Santo é adorado, para sempre, como a fonte do amor e de todo o bem. Amém. Bênção: O Senhor te conduza em segurança, como conduziu Maria e José até que encontrassem abrigo. O Senhor te preserve e te restitua a saúde, como preservou o menino Jesus, nascido sem nenhum conforto. O Senhor te presenteie com uma vida plena de sentido e alegria, pois isso é mais do que as riquezas materiais te podem dar. O Senhor te conceda a sua bênção, pois ela é o melhor presente que podemos receber e partilhar. Segue em seus caminhos e anda na sua paz. Amém.
Bibliografia BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João – o caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994. (Série “Como ler a Bíblia”) KONINGS, Johan. O Evangelho segundo João – amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005. NICCACCI, Alviero e BATTAGLIA, Oscar. Comentário ao Evangelho de São João. Petrópolis: Vozes, 1981.
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PRÉDICA: COLOSSENSES 3.12-17
1º DOMINGO APÓS NATAL
1 SAMUEL 2.18-20,26 LUCAS 2.41-52
30 DEZ 2012
Mauri Tarcísio Perkowski
1 Olhar para a vida “Pouco a pouco, cresce a descoberta de que a palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia” (Carlos Mesters e Francisco Orofino). “Conhecer a Bíblia leva a conviver em comunidade; conviver em comunidade leva a servir ao povo [conhecendo sua realidade]; servir ao povo, por sua vez, leva a desejar um conhecimento mais aprofundado do contexto de origem da Bíblia, e assim por diante” (Tea Frigerio). Peço licença às leitoras e aos leitores do PL para abordar o texto previsto utilizando alguns elementos da Metodologia da Leitura Popular da Bíblia, promovida pelo Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), uma associação ecumênica que há 33 anos promove a Leitura Popular e Comunitária da Bíblia no Brasil. Proponho, a mim e a vocês, essa “aventura”, não como conhecedor experiente, mas humildemente como aprendiz iniciante. Poderíamos dizer, de forma geral, que os três textos previstos para este domingo falam de crescimento. Samuel crescia diante de Javé e era estimado por Javé e pelo povo. Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e das pessoas. A comunidade cristã de Colossos, da mesma forma, é estimulada a crescer diante de Deus e das pessoas, cultivando aquilo que recebeu de Cristo: perdão, graça, sabedoria, amor, paz. Este domingo situa-se entre Natal e Ano Novo. Nesse contexto, o tema comum dos três textos, especialmente o da prédica, pode contemplar votos, desejos, esperanças e compromissos para o futuro – em nosso caso, o novo ano. Vemos nesta época as pessoas desejando-se mutuamente paz, saúde, prosperidade, felicidades... “Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.” No entanto, muitas vezes, quando falta o aspecto comunitário, os desejos acabam se tornando lutas pessoais e não comunitárias. – Até que ponto existe na comunidade um convívio que promove a ajuda mútua ou a mobilização focada em causas comunitárias? – Ninguém se reveste da nova humanidade sozinho. Vestir-se de “sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência”, suportar-se e perdoar-se mutuamente “do mesmo modo que o Senhor nos perdoou”, vestir-se com o amor, a paz de Cristo reinar no coração... permanecer na palavra de Cristo... nada disso se vive sozinho. Somente permanecemos assim em Cristo se vivermos como “membros de um mesmo corpo”, ou seja, auxiliando-nos e
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encorajando-nos mutuamente. Nossas comunidades têm sido espaço de auxílio e encorajamento mútuo para essa vivência em Cristo?
2 Buscar a luz da palavra de Deus 2.1 – Situando As comunidades da chamada “segunda geração cristã” – como Colossos – viviam um período de crise. Os discípulos e as discípulas da primeira geração já haviam morrido. Intensificou-se a perseguição por parte dos líderes das sinagogas, que, após terem passado por grande crise com a destruição do templo de Jerusalém (ano 70), reorganizaram-se a partir do Sínodo de Jâmnia (anos 85-90). Houve repressão por parte do Império Romano na época dos imperadores Vespasiano (69-79), Tito (79-81) e sobretudo Domiciano (81-96). Foi para ajudar as comunidades a sobreviver a essa crise que nasceram esses escritos: para ser apoio e luz num período de incerteza e insegurança quanto à continuidade da caminhada. Assim, diferentes das cartas autênticas de Paulo, mais voltadas para a superação de crises internas, as cartas da segunda geração demonstram o interesse de fortalecer a estrutura das comunidades para sua sobrevivência em um novo momento histórico. A pesquisa recente indica que o autor da Carta aos Colossenses é um discípulo de Paulo, talvez Timóteo (1.1). Assim como outras cartas daquela época, é atribuída ao patrono da comunidade, nesse caso, o apóstolo Paulo. É situada em torno do ano 95, escrita em Éfeso, antes da Carta aos Efésios, pois essa depende daquela. Sua eclesiologia é mais institucionalizada, refletindo anos posteriores a Paulo. Embora seja chamada de carta, Colossenses, assim como Efésios, é um tratado teológico-pastoral. Mais do que se referir apenas a questões bem específicas de uma determinada comunidade, é uma carta circular escrita para as igrejas da Ásia Menor. Pelos temas tratados, como o Cristo cósmico (Cl 1.15-20), Cristo como primícia e Senhor da criação (2.9-15), podemos captar o alto grau de inculturação na mentalidade grega. As comunidades de Colossos e Laodiceia (Cl 4.16) estavam ameaçadas por doutrinas que misturavam elementos de várias religiões e filosofias com o cristianismo (Cl 2.4,8,16-23). Davam importância às forças cósmicas, aos seres angélicos e a certas leis que garantiam a bênção. Contra essas filosofias, a carta faz uma apologia a Cristo como única ligação entre Deus e o mundo. O objetivo principal desse escrito é levar as comunidades a reconstruir sua esperança em Cristo. A Frígia, onde está localizada Colossos, é uma região vulcânica, com frequentes terremotos. Em 61 d.C., a cidade foi quase completamente destruída por um terremoto, juntamente com as cidades vizinhas de Laodiceia e Hierápolis. Esses fenômenos faziam o povo crer que a região seria um campo de batalha entre os espíritos dos céus e os espíritos dos infernos. Para alcançar a compreensão gnóstica considerada iluminada (de que o Cristo, e não Jesus, é um espírito superior que veio para libertar as almas das trevas), exigiam-se rigorosas práticas
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ascéticas, como a observância de festas anuais, mensais ou de sábados (2.16), dando culto aos anjos (2.18), abstinência de vinho e de carne etc. Além disso, a população sofria a exploração econômica imposta pelo Império Romano. Havia amos e escravos (3.22 e 4.1). Ela sofria igualmente com o patriarcalismo, em que o homem era visto como superior à mulher (3.18-19) – desigualdades apoiadas pelo sistema greco-romano. 2.2 – Comentando Nossa perícope situa-se na divisão 3.1-4.6, que traz conselhos práticos para a vivência nas comunidades, ou seja, o autor fala de como devem viver as pessoas cristãs. Indiretamente, o escritor pode estar dizendo à comunidade de Colossos que é a isso que devem dar atenção, mais do que aos capciosos argumentos dos falsos mestres. Contrastando com a ênfase individualista, típica das exortações helenísticas, as listas de vícios e virtudes que oferece o autor tendem a centrar-se em questões sociais como a inveja, calúnia etc. V. 12-15 – As virtudes que se mencionam estão primordialmente orientadas à vida social, e não simplesmente ao crescimento pessoal. É impossível crescer em “compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência... perdão... amor... paz... gratidão”... sozinho. Essas virtudes só podem ser cultivadas num convívio comunitário. Por outro lado, é impossível viver em comunidade sem compaixão pelas limitações das pessoas, sem perdão e amor. V. 15-17 – O autor mostra algumas ferramentas para que a comunidade cumpra esse objetivo. A mais importante delas é a Eucaristia. A expressão “sejam agradecidos” não é genérica, mas lembra especificamente a gratidão comunitária manifestada na celebração da Eucaristia, da maneira como a celebravam as primeiras comunidades cristãs: a escuta da palavra de Cristo, o compartilhar da Palavra e a ação de graças, composta por salmos, hinos e cânticos espirituais.
3 Iluminar a nossa vida com a luz da palavra de Deus As virtudes recomendadas em nossa perícope aplicam-se às circunstâncias concretas da comunidade. Todo o conteúdo da carta trata não de questões doutrinais abstratas, desligadas da práxis de cada dia, senão o contrário. A carta é, em primeiro lugar, uma explanação da salvação que Cristo nos trouxe, salvação essa que nos liberta dos temores e das angústias de um universo falsamente sacralizado e misterioso que escapa à nossa compreensão. Ao mesmo tempo, a carta traz uma palavra de alento e de esperança para não se deixar enganar e poder assim fazer frente, com nosso testemunho cristão, a todas as hegemonias políticas, econômicas ou religiosas que procuram impor seu senhorio sobre o mundo com falsos messianismos. Em contraste com uma espiritualidade individualista, que busca a realização do eu num salto em direção ao divino, o crescimento cristão é aquele que se realiza em uma vida compartilhada na comunidade. Lidas na sequência de 3.11, que diz: “E aí [revestidos da nova humanidade – v.10] já não há grego nem judeu, circunciso ou incircunciso, estrangeiro
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ou bárbaro, escravo ou livre, mas apenas Cristo, que é tudo em tudo”, podemos entender que os vícios é que geram as diferenças sociais – mormente “a cobiça de possuir, que é uma idolatria” (v. 5), enquanto as virtudes cristãs promovem soror-fraternidade. A nova humanidade tem como referência Jesus de Nazaré, que viveu de maneira nunca igualada a compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Revestir-se da nova condição, que é o mesmo que revestir-se de Cristo (cf. Rm 13.12,14; Gl 3.27), significa, em primeiro lugar, entrar no dinamismo de uma nova criação em que homens e mulheres vão se renovando “à imagem de seu Criador” (10). E ser “imagem de Deus” é o que dá verdadeira dignidade a todos e a cada um dos seres humanos. Consequentemente, todas as barreiras que dividem e discriminam devem desaparecer. Somente a renovação em Cristo pode quebrar barreiras entre as pessoas, dando origem a novas relações humanas, radicalmente diferentes daquelas que costumam existir na sociedade (3.11). Dentro do contexto maior do capítulo 3, os conselhos práticos procuram fortalecer a nova humanidade conquistada por Cristo. Por meio do Batismo, as pessoas cristãs passam por uma transformação radical: deixam de pertencer à velha humanidade corrompida e começam a pertencer à nova humanidade. Na comunidade cristã, semente da nova humanidade, a transformação é coisa prática: deixar as ações que visam egoisticamente aos próprios interesses em troca de ações a serviço da reconciliação mútua e do bem comum. O que torna uma comunidade perfeita não é a ausência de falhas e limites em seus membros, mas sim a capacidade de amar sem medida, apesar dos limites e falhas de cada pessoa. 1 Pedro 4.8: “Antes de tudo, tenham entre vocês intenso amor, pois o amor cobre multidão de pecados”. O amor é laço/vínculo que mantém as pessoas unidas no mesmo corpo (3.15a). Essa “verdadeira revolução da mensagem evangélica” não é para o apóstolo (e seus discípulos) um mero sonho utópico, senão que já está acontecendo graças a uma força infinitamente mais poderosa do que todo o poder desencadeado por todas as revoluções políticas, sociais ou ideológicas que têm agitado nosso mundo. Essa força é o amor: “E acima de tudo, vistam-se com o amor, que é o laço da perfeição” (v. 14), que penetra no coração da pessoa crente por meio da “Palavra de Cristo... com toda a sua riqueza” (v.16), que o autor descreve como compaixão profunda, mansidão, paciência (v. 12), que dão como resultado uma comunidade unida na ação de graças, na responsabilidade, no perdão e na ajuda mútua. Portanto, mesmo que o autor dê margem para enxergarmos nas recomendações dos v. 15-17 a celebração eucarística, ele tenta alargar os espaços, fazendo-a incidir em qualquer atividade, palavra ou ação, para que tudo seja realizado em nome do Senhor Jesus, de maneira que a vida inteira se transforme em ação de graças a Deus Pai. A pessoa cristã não se identifica por uma lei, uma série de observâncias, e sim por determinado modo de agir. Não é o conteúdo dos atos que a caracteriza e sim determinada maneira de abordar a vida, o mundo, os outros. Não age, nem pensa ou reflete sozinha, mas sempre com uma perspectiva comunitária.
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4 Caminhos para a prédica Somos nós hoje o “povo da Aliança” (“escolhidos de Deus, santos e amados”). Nós temos esta vocação: ser testemunhas do amor de Jesus, que se traduz em “compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência”, suportar, perdoar... Ou seja: de nenhum outro povo da Terra se espera que represente e defenda esses atributos de Deus mais do que nós. Temos um chamado: ser pessoas que perseveram em manter em seus corações a paz de Cristo, a palavra de Cristo e toda a sabedoria que dela/s provém. E por isso, por sermos esses representantes de Cristo, nós podemos louvar e agradecer a Deus. Louvamos agradecidos a Deus por poder ser sinais de esperança onde vivemos. É um privilégio poder ser esses espelhos que refletem o amor de Deus, esses “canais do amor de Deus” (“canos/ tubos”, como dizia Lutero), por onde o amor de Deus entra, é recebido e é passado adiante, compartilhado. O autor da Carta aos Colossenses fala da importância da palavra de Cristo permanecer em nós “com toda a sua riqueza”. E logo em seguida, o autor diz como é que ela pode “permanecer”: “de modo que possam instruir-se e aconselhar-se mutuamente com toda a sabedoria” (v. 16). Ou seja, essa palavra cheia da sabedoria de Cristo somente permanece em nós quando é partilhada, instruindo-nos e aconselhando-nos mutuamente. “O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem” (Antoine de Saint-Exupéry). Duas imagens vêm à minha mente: lago ou caixa d’água. Na Palestina, existem dois grandes lagos, conhecidos por “mares”, irrigados pelo rio Jordão. Há uma grande diferença entre os dois. O primeiro deles tem uma entrada e uma saída: é o “Mar da Galileia”, onde há muitos peixes, muita vida dentro e ao redor. O outro só tem uma entrada e “não tem saída” (externa): é conhecido como “Mar Morto”! Da mesma forma uma caixa d’água: se tiver a sua saída trancada, não receberá mais água, devido ao sistema de fechamento através da “boia”. Essa água parada irá apodrecer, ou seja, morrerá dentro dela. Assim também nós: as virtudes permanecem vivas dentro de nós quando são compartilhadas. Tudo isso, no entanto, só permanece vivo em comunidade. Somos “membros de um mesmo corpo” (v. 15). Precisamos da comunidade para exercitar essas virtudes, mantê-las vivas, renovadas. Mas principalmente precisamos da comunidade para aprender juntos a viver essas virtudes.
5 Subsídios litúrgicos Cantos do HPD 2, enfatizando a importância da caminhada como comunidade: – Vento – 321 (invocação: O Espírito Santo nos reuniu aqui para nos encher “de paz, de amor e de alegria”); – Somos a família de Deus – 322 (como glória, louvor e gratidão pela graça de sermos irmãos); – Senhor, se tu me chamas – 413 (preparação para as leituras: “... eu quero te ouvir”, pois, “nos passos de teu filho, toda a igreja também vai, seguindo o
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teu chamado de ser santa qual Jesus”. Vamos ouvir a palavra de Deus que nos santifica); – Se caminhar é preciso – 432 (após a prédica: a igreja só caminha, só avança, se caminharmos unidos); – Momento novo – 434 (no final, Deus envia-nos a caminhar com seu povo, convidando, incluindo, chamando: “Vem, entra na roda com a gente também. Você é muito importante”).
Bibliografia COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filêmon. Série: Comentário Bíblico NT. Petrópolis: Vozes; São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista; São Leopoldo: Sinodal,1986. GASS, Ildo Bohn. As comunidades cristãs a partir da segunda geração. Série: Uma Introdução à Bíblia. São Leopoldo: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus, 2005.
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PRÉDICA: MATEUS 18.1-5
VÉSPERA DE ANO NOVO
ISAÍAS 55.6-11 HEBREUS 13.8-9b
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Antonio Carlos Ribeiro Para meus curumins Pedro Gabriel e Vitória Luiza
1 Introdução Aprendi com meu filho de 10 anos Que a poesia é a descoberta Das coisas que eu nunca vi. (Oswald de Andrade) O menino pergunta ao eco onde é que ele se esconde. Mas o eco só responde: “Onde? Onde?” O menino também lhe pede: “Eco, vem passear comigo!” Mas não sabe se o eco é amigo ou inimigo. Pois só o ouve dizer “Migo”. (Cecília Meireles) As crianças são parâmetro da salvação. Especialmente os “criadinhos”, os pequenos serviçais, que trabalham na casa dos patrões. Elas são as que melhor encarnam o espírito desses despossuídos de tudo, que possuem somente a esperança de esperar o reino de Deus. Por isso mesmo são seu alvo preferencial – não único, nem privilegiado –, já que privilégio é sempre a negação do coletivo. Sobretudo e especialmente quando os privilegiados somos nós. Ou nos arrogamos a isso. Ou ainda pior: tomamos de assalto essa condição. O ensino tornado parábola na fala de Jesus provoca a reflexão dos discípulos – homens e adultos –, e a própria forma de instrumentalizá-la é quase um desacato. Mas essa ação – tornar central o periférico – não é inusitada e nem nova em Jesus. Suas andanças e curas pela Galileia, que lhe valeram os epítetos de “galileu” e “nazareno” e que por si já deslocam o centro da reflexão para a periferia, que os olhos da época se recusavam a focar, como se o treinamento ideológico e o condicionamento cotidiano lhes atraíssem o olhar, que traem a lógica divina. A seu modo.
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É essa lógica divina dos primeiros cinco versículos do capítulo 18 do Evangelho de Mateus que coloca a exigência para compreender o sentido da pregação do reino de Deus e seu significado na prática pastoral proposta. Ela encontra sua gênese no Dêutero-Isaías (55.6-11), quando o profeta pregava no exílio, chamando o povo a vir ao encontro de Iahweh, a deixar caminhos maus, buscando dele a compaixão e o perdão, a dar-se conta de que sua lógica circunstancial é diferente da dele, determinando caminhos igualmente distintos. Por isso são chamados aos caminhos que estão acima dos próprios numa economia divina abrangente e que já se realiza enquanto é anunciada, que tem assegurado o fim pelo próprio Iahweh, que a si chama todos os fatos e que retorna ao mesmo Senhor em nome do qual o profeta falou, efetivada, realizada, com a palavra proferida cumprida e a vontade tornada realidade. E chega à piedade e à observância pessoal como a fé que se deve guardar, a memória que evoca convicções, provê os critérios para distinguir o verdadeiro do falso e que se desdobra num modus vivendi que agrega trabalho, prática de piedade e autêntica espiritualidade. Assim, a mensagem bíblica baseia-se na experiência do povo no exílio babilônico, costurando dores, vivências, incertezas, que, para quem soube esperar, foram aos poucos se tornando certezas. É essa experiência vivida que é retomada na pregação e prática de Jesus, cuja presença é ela mesma a base do amálgama que reúne a memória da dor, da invocação e do resgate e que séculos depois se torna apelo e resposta às dores dos contemporâneos, na qual toda essa saga da experiência do povo encontra a metáfora da criança tornada símbolo da experiência livre, da humanidade comum e da fragilidade assumida.
2 Exegese Essa perícope (Mt 18.1-5) compõe o quarto discurso do Reino e dá normas referentes ao conjunto da igreja a partir da comunidade local, ao que parece sem guardar muitas relações com os textos que a antecedem e sucedem. A imagem que surge é a de uma criança colocada no centro da roda. Surpreendentemente, não é a imagem de um homem adulto, astuto, com seus vícios de personalidade (egoísmo, orgulho, desespero, violência e ódio), mas a de uma criança. O texto começa com a pergunta surgida dos discípulos reunidos em torno de Jesus: “Quem é o maior no reino dos céus?” (v. 1). A pergunta não era nova, já que surgiu em outras ocasiões e sempre provocando debates, disputas e até gestos audaciosos, marcados pelas articulações, acercamentos do poder ou esforços de corrupção, com vistas à obtenção de resultados. A circunstância acontece na mesma casa em que estavam Jesus, Pedro e outros discípulos. Ele chamou a criança, colocou-a no meio da roda (v. 2) e disse a palavra que é o centro da perícope: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (v. 3). Aqui indica o caminho da conversão de vida a partir do parâmetro que são as condições da criança.
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Em seguida, ele destacou mais um elemento na condição da criança “ser pequenino” e estabeleceu uma relação com a condição de valor e importância no reino dos céus: “ser o maior”, medida usada na pergunta que provocou o debate. Chegando a dizer que quem se tornar pequenino como a criança será o maior no reino dos céus. E, por fim, colocou um critério ainda mais definitivo para entender a importância da presença da criança, por ela (significante) e pela mensagem que anuncia (significado), referindo-se à aceitação do evangelho. Receber aquela pessoa que pela sua simplicidade porta o evangelho é receber o próprio Jesus. Essa imagem de humanidade frágil é a portadora da mensagem e de seu sentido, chegando mesmo a quase se confundirem.
3 Meditação: Por que a simplicidade não excita? A sofisticação atrai mais do que a simplicidade. Pelo menos as pessoas que preferem utilizar o saber adquirido para defender os próprios interesses, alcançar posições de influência, força e mando e assegurar aparentes vantagens. Como a sociedade se baseia num modelo extremamente competitivo, que desenvolve vícios como arrebatar, acumular e assegurar vantagens, isso é tornado um princípio de vida, assim como o lucro, para as pessoas que julgam o enriquecimento um parâmetro absoluto. Nesse contexto sociocultural em que se encontram as igrejas, os apelos às vantagens e aos lucros são tão evidentes, perpassam de tal modo as diferenças entre grupos humanos e marcam tão claramente as sociedades, que, no mais das vezes, a busca pela vantagem influencia mais fortemente os que julgam defender os valores do evangelho do que o contrário. A criança mencionada no texto, tornada medida para explicitar a condição dos que são chamados a testemunhar o reino de Deus, não tem boa condição social, não é de família abastada e nem tem o futuro assegurado. Ao contrário, é alguém da família dos servidores da casa, “um ‘criadinho’ [que ele] colocou no meio da roda de conversa. E disse: se não mudardes e vos tornardes como esse pequenino, não entrareis no reino de Deus. Quem quer que se torne tão pouca coisa como esse pequenino, esse é o maior no reino de Deus e quem o acolhe por causa de mim acolhe a mim” (MATEOS; CAMACHO, p. 205). Aqui o texto faz um afunilamento para a figura da criança de até 12 anos, trabalhadora e já integrada ao mundo do trabalho por meio da família. Esse paidion (diminutivo de pais), o moço, o menino é um servidor da casa. Trata-se da mesma palavra para designar o moço do serviço, o moço do bar, a moça do caixa. Aristófanes descreve socialmente a função dessa criança, chamando-a de um escravinho, um criadinho, pequeno, menino de uma classe social de servidores, um jovem servente. É esse que Jesus põe no meio da roda, faz o centro das atenções e transforma em modelo para seus discípulos. Com isso ele estabelece um choque e provoca um momento de reflexão (MATEOS; CAMACHO, p. 205). Essa intervenção toma o ar de exortação, que possibilita reavaliar a expectativa que cada um tem em relação à sua pertença ao grupo, ao sentido da existência do
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grupo para Jesus, às tarefas que o grupo assume diante da pregação sobre o reino dos céus, sua posição diante do anúncio da salvação que é confiada à igreja. Pedagógico, o método de Jesus para provocar a reflexão sobre a condição de cada um e seu papel no grupo não é limitador, nem despotencializa os discípulos e nem tem o efeito moral de incapacitá-los para a tarefa que lhes foi confiada. Mas relaciona as condições reais das pessoas com os objetivos a serem alcançados, gerando a reflexão que estabelece o princípio Realidade. E como tudo no evangelho, não pressiona, não força e nem violenta. Mas deixa o tema aberto. O escritor e arte-educador Bartolomeu Campos de Queiroz explicitou a mesma contradição através de uma personagem na obra Onde tem bruxa tem fada, na boca de quem pôs a ipsissima verba abaixo, ao narrar: Maria foi levada para a sala de interrogatório. Assentou-se diante do delegado e ouviu a seguinte sentença: – Fada não é nome nem sobrenome. Entrou na cidade sem passaporte, sem carteira de identidade, sem carteira profissional, sem título de eleitor, sem cartão de crédito e CPF. Não tem endereço de residência nem CEP e diz ter como profissão realizar desejos. Não é filiada a nenhum sindicato e ensinou menino a ler e escrever sem técnica de professor. Construiu casa sem empréstimo, avalista e projeto em lugar proibido. Falou mal da esperança. Contou segredo no coração dos meninos. Sorriu no momento da prisão, desrespeitando as autoridades. Com certeza, não foi informada de que vivemos em uma democracia. Por tudo Maria do Céu é culpada e permanecerá presa até que se prove o contrário. (74. ed. São Paulo: Moderna, 1995, p. 34) A ideia do menino servidor é especialmente difícil de ser aceita por extratos da sociedade sempre associados ao poder, dos que se julgam membros de uma casta especial – que Lutero chamou de Geystlich Stand (estamento espiritual) em À nobreza cristã da nação alemã – e que toma quase como um desacato a sugestão de despossuir-se do que julga ter. Para muitos, fazer-se menino, novo e servidor significa renunciar a todas as ambições pessoais. Para muitos, muito! Mesmo sabendo que essa é a condição para entrar no reino dos céus. Diriam até que, se fosse uma condição afetiva, psicológica, seria possível pensar. Ao menos em algumas circunstâncias. Mas como “opção pela bem-aventurança”? Tornar-se tão pouca coisa – “humildade sociológica, nem psicológica”. Entender que ser “o que serve, não o que manda, é o maior!” (MATEOS; CAMACHO, p. 206).
4 Imagens para a prédica Por se tratar de uma criança, evoco memórias infantis. Neste momento em que a comunidade de fé também busca justiça ecológica, lembremos as palavras de Bartolomeu Campos de Queiroz em Por parte de pai (Belo Horizonte: RHJ, 1995, p. 71-2): Meu avô me convidou, naquela tarde, para me assentar ao seu lado nesse banco cansado. Pegou minha mão e, sem tirar os olhos do horizonte, me contou:
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O tempo tem uma boca imensa. Com sua boca do tamanho da eternidade ele vai devorando tudo, sem piedade. O tempo não tem pena. Mastiga rios, árvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é o dono de tudo. Pacientemente, ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as histórias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. As madrugadas, os sonhos, as decisões duram pouco na boca do tempo. Sua garganta traga as estações, os milênios, o ocidente, tudo sem retorno. E nós, meu neto, marchamos em direção à boca do tempo. Meu avô foi abaixando a cabeça, e seus olhos tocaram em nossas mãos entrelaçadas. Eu achei serem pingos de chuva as gotas rolando sobre meus dedos, mas a noite estava clara, como tudo o mais.
5 Subsídios litúrgicos Saudação: Querida comunidade: nesta véspera de ano novo, queremos celebrar pensando na comunidade que desejamos ser no ano que vem. Uma comunidade mais jovem, mais alegre, mais confiada na graça. Se possível, uma comunidade com alma de criança! E a pregação de hoje vem a calhar. Ela se baseia no momento em que Jesus provoca uma reflexão a partir do testemunho de uma criança. Esse texto nos chama a também pensar em colocar as crianças no centro de nossa vida comunitária. Que diriam nossos filhos, filhas, netos e netas e as demais crianças a respeito de nosso trabalho? Que tal perguntar-lhes se eles se sentem bem nesse espaço que construímos para a celebração? Se são felizes aqui, se guardam boas memórias, se sentem alegria em encontrar os amigos, se sentem liberdade para sentir, alegrar-se, cantar, conviver. Se eles experimentam como o melhor aquilo que nos esforçamos por oferecer. Perguntar também se se sentem bem, se os demais os tratam com respeito e carinho, se entendem que são parte da comunidade que se reúne aqui. Digamos a eles: a presença de vocês é fundamental para experimentarmos a comunhão com Deus. Queríamos viver a fé com esse deslumbramento que vocês têm. E mais: queremos aprender a confiar em Deus com a mesma segurança e esperança de vocês. Confissão e lamento pelos pecados: Ajuda-nos a viver como crianças cujas vidas estão confiadas às tuas mãos e cuidado. Ajuda-nos a crer que a igreja é um lugar seguro, diferente de todos os demais da sociedade. E que aqui podemos experimentar e testemunhar nossa fé em ti. Enquanto tivermos dificuldade para viver desse modo, pedimos-te: Tem piedade de nós, Senhor!
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Véspera de Ano Novo
Oração do dia: Ajuda a confiar sempre em tua graça, a ser graciosos conosco mesmos e com as pessoas à nossa volta. E também com os outros filhos e filhas, que aqui vêm buscar consolo, esperança, graça, perdão e amor. Ajuda a ser uma comunidade que acolhe, abre os braços, cria espaços para os diferentes, estimula a partilha e dá as mãos para orar e trabalhar. Na tua esperança, pedimos. Amém!
Bibliografia DANIELI, Giuseppe. Mateus. Trad. Luiz João Gaio. São Paulo: Paulinas, 1983. MATEOS, Juan; CAMACHO, Fernando. O Evangelho de Mateus. Trad. João Resende Costa. São Paulo: Paulinas, 1993. RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus. Trad. Werner Fuchs. Curitiba: Evangélica Esperança, 1998.
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PRÉDICA: LUCAS 2. (15-20)21
ANO NOVO: NOME DE JESUS
NÚMEROS 6.22-27 FILIPENSES 2.5-11
01 JAN 2013
Geraldo Graf
1 Introdução Durante uma entrevista para emprego, uma jovem informou conhecer diversas pessoas importantes. O entrevistador respondeu laconicamente: “Não faz diferença se você conhece tantas celebridades. Importa saber se elas conhecem você”. No culto de Ano Novo, somos apresentados ao nome de Jesus. Precisamos refletir sobre o uso que faremos do nome de Jesus no transcorrer do novo ano: Não podemos nem pretendemos usar seu nome para “engrossar o nosso currículo”, para engrandecer o nosso nome. Queremos, isto sim, que o nome de Jesus nos envolva e determine o nosso jeito de ser e de agir durante o ano de 2013. Regidos pelo nome de Jesus, queremos manifestar ao mundo o amor e o cuidado de Deus, que se tornou gente, que nos serviu até a morte de cruz, mas que ressuscitou e é Senhor e Salvador. “Para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos na terra” (Fp 2.11); para que esse nome seja uma bênção para todas as nações (Nm 6.22-27).
2 Exegese Para a exegese desse texto, recomendamos a leitura do auxílio homilético de Werner Wiese em Proclamar Libertação 34, p. 69-72. O versículo 21, escolhido para a pregação, não apresenta maiores dificuldades de compreensão. O centro do texto é o nome JESUS, constante em todas as traduções. A NTLH traduz: “... puseram nele o nome de Jesus. Pois o anjo tinha dado esse nome ao menino antes de ele nascer”. Opto pela tradução de Almeida: “... deram-lhe o nome de JESUS, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido”. A NTLH generaliza a informação, enquanto Almeida, em concordância com o texto original, informa que o nome de Jesus já fora escolhido antes de sua concepção. O nome JESUS somente foi pronunciado oito dias após o nascimento do menino, quando foi circuncidado. Lucas 2.7 faz referência a Jesus como o filho primogênito de Maria. Lucas 2.11 usa a expressão “Salvador, que é Cristo o Senhor”. Lucas 2.12,16 usa o termo “criança” (criança recém-nascida); e, finalmente, em Lucas 2.21, os tradutores usam o termo “menino”. O original grego usa o pronome auton (ele), referindo-se ao “menino”(paidion), citado em Lucas 2.17. Deduz-se que só se declarou o nome JESUS no momento em que ele foi colocado sob o senhorio de Deus, quando de sua circuncisão. Sabe-se de tradições antigas, inclusive no Brasil, de dar o nome da criança somente na pia batis-
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Ano Novo: Nome de Jesus
mal, com a crença de que “apoderar-se do nome de alguém é ter domínio sobre o mesmo”. Evitava-se dizer o nome da criança não batizada para que não caísse no domínio de Satanás. A liturgia de Batismo mantém essa tradição. O sacerdote pergunta o nome da criança no ato do Batismo. E, assim, a pessoa é colocada sob o senhorio de Deus. No início de meu ministério em 1977, eu estranhava porque muitos pais resistiam em registrar seus filhos em cartório antes do Batismo dos mesmos. A Igreja Ortodoxa mantém a tradição de somente dar o nome da criança, em ato litúrgico, no oitavo dia. Um procedimento semelhante nós encontramos em Lucas 1.57-64 na história de João Batista. O que fica evidente e precisa ser ressaltado: a escolha do nome, tanto de João Batista como de Jesus (Lucas 1.13,31), não é decisão humana. É escolha e revelação divina (o nome indica a missão – o nome diz a que veio) e é guardado em segredo pelos pais até o oitavo dia após o nascimento.
3 Refletindo sobre o texto Por meio do Segundo Mandamento, o povo de Israel aprendeu que o nome de Deus é santo e que não se pode “usá-lo em vão”. Para não abusar do nome de Deus, evitava-se usá-lo. Ao se nomear JESUS, a palavra de Deus tornou-se gente e habitou entre nós, cheia de amor e de verdade (Jo 1.14). Algo extraordinário e maravilhoso aconteceu. Não se trata apenas do significado do nome JESUS = Yeshua – “Deus é salvação”. Trata-se de algo muito maior: Deus, cujo nome era impronunciável, escolhe tornar-se humano, vulnerável, alcançável, um de nós através de Jesus (Fp 2.5-11). Por meio de Jesus, Deus permite que seu nome seja pronunciado. Ele revela que não é um Deus distante, inalcançável, nem que é um Deus terrível, vingador e castigador. Em Cristo, Deus revela-se um Pai amoroso. Deus escolhe um nome que pode ser invocado porque deseja revelar o seu amor à humanidade; Deus escolhe ser vulnerável para que possamos chegar a ele com nossas fraquezas, dores e culpas. Em nome de Jesus, podemos invocar a misericórdia, o amor e a graça de Deus. Em Filipenses 2.5-11, o nome de Jesus é conectado com o esvaziamento de si mesmo, com a doação de si mesmo, chegando ao extremo da cruz. Quando invocamos o nome de Jesus, ele está sempre conectado à cruz. Justamente ali onde Deus se torna mais humano e mais vulnerável, é onde o seu nome se torna mais poderoso e onde se manifesta de forma absoluta e plena o seu profundo amor por nós. É onde o nome de Deus se torna mais acessível. Somos batizados em nome de Jesus. Assim, todos os outros nomes, todos os outros poderes, todas as demais dominações, que tentam escravizar nossas vidas, tornam-se penúltimas. Ao nos apegarmos ao nome de Jesus, a nossa existência transforma-se e se enche de esperança. Ao nos apegarmos ao nome de Jesus, rejeitamos os nomes e as esperanças que só nos levam a becos sem saída. Esse é o propósito de invocarmos o nome de Jesus no princípio de um novo ano. O que tem por trás de um nome? Há alguns anos, batizei o HAWLYNK�������� STONE. Não! Ele não é filho de americanos. Seus pais, brasileiros, não souberam explicar o significado do nome. Acharam bonito e pronto. É importante saber o
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significado do nome. Um jovem árabe de nome AWADALLAH quase recebeu um apelido na faculdade onde fazia intercâmbio. Os colegas desistiram do apelido quando descobriram o significado do nome. AWADALLAH = A PRESENÇA DE DEUS. Em Lucas 2.21, o “menino” recebeu o nome de JESUS (grego). Em hebraico, seria JOSUÉ (Jeshua – Jehoshua): Javé é a salvação! O primeiro Jeshua (Josué) era um homem poderoso na batalha, e seu nome simboliza a vitória e a conquista. Josué lutou com os amalequitas sob Moisés (Êx 17.8-16), viu Canaã com Calebe (Nm 13), conquistou Jericó (Js 6), derrotou muitos reis (Js 10-12) e dividiu a Terra Prometida entre as doze tribos (Js 13-22). São muitos os que até hoje veem em Josué um modelo de liderança a ser imitado. O segundo Jeshua é o outro Josué, que o texto grego chama de Jesus. Em Mateus 1.21, José recebe a orientação em sonho de dar o nome Jesus à criança que iria nascer. Em Lucas 2.21, oito dias após o nascimento, o menino foi levado ao Templo de Jerusalém para ser circuncidado conforme o rito judaico. Então recebeu o seu nome. Deixa de ser criança (Lc 2.12), menino (Lc 2.21) e passa a ser Jeshua: “Deus salvará”. Esse segundo Josué, Jesus, não traz a espada e o arco assim como o Josué do Antigo Testamento, mas convida o povo de Deus a unir-se em torno de uma proposta de paz. Jesus chamou pessoas para o amor e o serviço, para viver sob o perdão de Deus e vivenciá-lo em uma nova comunhão com o próximo. E Jesus defendeu essa proposta até as últimas consequências: a sua morte na cruz. Conforme Filipenses 2.5-11, na verdade, a sua aparente derrota tornou-se a sua vitória sobre pecado, morte e mal. Os acontecimentos da manhã da Páscoa comprovam sua vitória. Jesus não conquistou nenhum poder político a exemplo de Josué, como esperavam Judas, Tiago, João e Pedro. Ao ser ressuscitado, Jesus deixou sepultado no túmulo aquele poder que se conquista com a espada e estabeleceu uma nova regra de justiça, paz e salvação. Jesus (Josué II) governa nossa vida com amor e vivencia aquilo que seu nome significa: O Senhor é a salvação! A sua conquista não foi no campo de batalha, mas no coração humano.
4 Atualizando Como queremos viver, falar, agir e conviver em 2013 sob o nome de JESUS? Essa pergunta pode orientar a pregação. EM NOME DE JESUS! Precisamos estar conscientes do significado de seu nome – indicativo de sua missão – para condicionar o nosso jeito de viver a seu propósito, e não vice-versa. Em nome de Jesus. Em seu nome e sob o sinal da cruz, muitas guerras sangrentas foram realizadas, em especial as cruzadas durante a Idade Média, que tiraram a vida de milhares de pessoas. Não menos agressiva é a voracidade do capitalismo moderno, que estampa símbolos cristãos nas moedas nacionais (“Deus seja louvado”). Viver em nome de Jesus traz em si um jeito de ser e de agir, resgatado do desejo natural de querer ser igual a Deus ou de emancipar-se dele (pecado). Em nosso Batismo, o nome de Jesus foi pronunciado sobre nós e o sinal da cruz foi
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Ano Novo: Nome de Jesus
feito sobre as nossas cabeças. Como pessoas batizadas, somos chamados a viver em união com o Jesus crucificado e ressuscitado (Rm 6.3ss). Ele nos acompanha em nossa jornada diária por meio do Consolador, o Espírito Santo, que nos encoraja e orienta a viver a proposta de Jesus. Esse nome vem da eternidade, mergulha em nossa realidade humana, ensina-nos a viver e a agir sob a bênção de Deus, na prática de seu amor, e nos conduz para a eternidade. Viver e agir “em nome de Jesus” em 2013 leva tudo isso em consideração.
5 Sugestões para a prédica Sugerimos iniciar a pregação com uma dinâmica sobre o nome dos participantes. Em culto com grande número de pessoas, solicitar que algumas pessoas falem sobre o seu nome, como surgiu, se gostam dele, se conhecem o seu significado etc. Esse diálogo pode ser a introdução à pregação. Serve para despertar o interesse para o assunto e ajuda a fixar a mensagem. Em grupos pequenos (pontos de pregação e ou estudos bíblicos), a dinâmica pode ser realizada com atividade: pedir que dobrem uma folha sulfite ao meio, escrevam o nome com caneta hidrocor (usar letras maiores), rasguem o papel em torno dos contornos do nome, respeitando a dobra da folha. Depois, abram a folha (em forma de borboleta) e conversem sobre o formato que surgiu a partir do nome. O diálogo pode continuar com as perguntas em torno do nome. Colocar o acento no viver o ano de 2013 sob o nome e a serviço de Jesus. Leituras complementares: Números 6.22-27 (Bênção Sacerdotal); Filipenses 2.5-11 (Humildade e grandeza de Cristo); Salmo 8.
Bibliografia BOUMAN, Luke. ��������������������������������������������������������� New Year’s Day – The Name of Jesus, 1. January 2005. Sermon on Luke 2:21. In: Göttinger Predigten im Internet. Disponível em: www. predigten.uni-goettingen.de, 2005. WIESE, Werner. Proclamar Libertação 34. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2009. p. 69-74.
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PRÉDICA: ISAÍAS 49.1-7
EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
JOÃO 1.43-51 2 CORÍNTIOS 4.3-6
06 JAN 2013
Claiton e Marivete Kunz
1 Introdução A Epifania é a celebração que recorda a manifestação de Cristo aos gentios. Os textos mostram que cada pessoa cristã precisa colaborar para que outras não tenham que fazer aquilo que cabe a mim: falar dessa manifestação e levar as boas-novas a toda a Terra, levando adiante a obra que glorifica Cristo. Nesse sentido, podemos fazer uso da chamada a Filipe e Natanael: “Segue-me” (Jo 1.43-51). O texto de Isaías 49.1-7 mostra o servo de Javé e seu relacionamento com as nações gentias, bem como mostra que por meio desse relacionamento com o Senhor o povo de Deus é chamado a refletir a luz e a glória de Deus aos gentios. Também o texto de João 1.43-51 mostra a oportunidade que todos têm para ajudar nessa tarefa. Por meio desse texto é importante mostrar que Cristo chama cada pessoa a envolver-se nessa obra e segui-lo. O texto de 2 Coríntios 4.3-6 também contribui, apresentando os servos da igreja de Cristo como bons mordomos do serviço que a pessoa cristã deve fazer. Por isso é importante, nessa celebração, trabalhar esse momento, enfatizando tudo aquilo que podemos fazer para apresentar àqueles que vivem ao nosso lado a manifestação de Cristo. A grande questão é orientar como cada filho e filha de Deus podem ser fiéis à obra que lhes foi incumbida, independentemente de qual seja. Assim, os textos lidos complementam-se, revelando que, diante de Deus, todo aquele que cumpre sua tarefa está oferecendo vida a outros, pois dessa maneira a fé de muitos será edificada, tendo em vista que Cristo começa a preenchê-los.
2 Exegese V. 1 – O texto de Isaías inicia com o uso de uma fórmula que visa chamar a atenção: “ouvi-me” e “escutai-me”. Tais fórmulas são próprias do DêuteroIsaías e são de gênero sapiencial, parecido ao livro de Provérbios, que tem por objetivo levar a reflexão sobre Deus e sobre o passado de Israel. Aqui o servo é identificado como aquele que fala ao mundo, inclusive ao mundo gentio. Termos utilizados como “ilhas” exaltam a onipotência de Javé sobre o mundo, sendo que esse mundo significa não somente o cosmos, mas a história humana. Termos deste versículo como “povos de longe” também indicam que Javé, por meio de seu servo, dirige-se às nações mais longínquas. Esse servo recebe a missão de pregar e apresenta-se como aquele que é chamado e conhecido pelo Senhor antes mesmo de nascer, ou seja, fala de seu chamado a partir do início de sua existência, com a
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Epifania de Nosso Senhor
convicção de que nasceu por determinação divina para desempenhar uma missão que seria destinada a todas as nações da Terra. Independente da dificuldade de identificar esse servo, cabe a ele cumprir uma tarefa a favor de um grupo chamado, nos v. 5 e 6, de Jacó, e também nos v. 5 e 6, bem como no v. 3a, de um indivíduo identificado como Israel. Há possibilidade de que esse servo também tenha o nome de Israel como o grupo para o qual falará ou que possa fazer referência a Jacó, pai das doze tribos. V. 2 – Neste versículo, temos o motivo de sua vocação e a descrição por que ele pode ser considerado capaz de cumpri-la. A razão dele ser capaz é porque ele foi preparado pelo Senhor. Nesse preparo, a ênfase está nas palavras que ele pode pronunciar, que se comparam a uma espada, ou seja, são penetrantes e atingem as pessoas. A imagem da espada cortante é algo bem original e tem um sentido forte, pois mostra que o profeta tornou-se hostil aos seus devido à sua mensagem, e essa é a razão que fez com que ele tivesse que ser escondido. O versículo também apresenta o servo como uma flecha usada pelo Senhor para atingir as pessoas, flecha essa que fica coberta ou protegida pelo Senhor, bem como escondida em uma aljava até o momento em que começará a desenvolver sua tarefa. Essa simbologia indica que, assim como a flecha, o servo será usado no momento propício e de forma eficaz. Esse tipo de linguagem é típico do Dêutero-Isaías; ele faz uso de belas imagens para tornar sua mensagem inesquecível. V. 3 – Em Isaías, o servo é identificado como um grupo e como um indivíduo. Neste versículo, o servo é chamado de Israel. Esse título no Antigo Testamento é concedido a Moisés, a reis e ao Messias, o que traz dificuldades para saber quem é o servo. Muitos entendem que o servo é tanto Israel como o povo ou a comunidade exílica. Neste versículo, o Senhor ser glorificado pelo servo significa que ele será instrumento do Senhor. Lembramos que muitos críticos suprimem o nome Israel deste versículo, mas alguns mostram a necessidade dessa permanência, ligando tal nome a seu profeta ou a seu servo, que merece ser chamado de tal forma. V. 4 – Este versículo expressa uma queixa do servo em relação a seu trabalho, mas, por outro lado, à confiança desse servo, pois sabe que está seguro e que sua causa está diante do Senhor, de onde virá a recompensa esperada. Em meio às dificuldades, essa é a certeza que ele tem e o que lhe serve de incentivo para continuar sua jornada. Autores como Steinmann compreendem que este versículo faz menção à missão do servo de levar o povo tanto a Javé como novamente à terra da Palestina. V. 5 – O servo apresentado neste versículo aponta para alguém que não é a nação de Israel, tendo em vista que esse nasceria do ventre de uma mulher e traria Israel de volta. Assim, diferentemente do v. 3, este mostra que o servo não pode ser Israel, pois recebeu uma missão referente a Israel, a qual seria conduzir o povo novamente à sua terra. Esse servo tem certeza de que receberá a glorificação diante do Senhor, embora tenha passado por lutas para trazer Israel de volta, provavelmente sem sucesso naquele momento. O Senhor foi a motivação e a força para esse servo cumprir sua missão.
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V. 6 – A tarefa do servo apresentado neste versículo vai além de trazer Israel/Jacó de volta; ele também precisa ser luz às nações gentias por toda a Terra. Por isso o alcance de sua mensagem é universal. Assim essa tarefa é grandiosa em ambas as questões, lembrando que trazer Israel de volta também diz respeito a levá-lo novamente a estar na terra natal diante do Senhor, e quem sabe até abandonando coisas conquistadas. O versículo mostra como a missão com Israel e a missão com as nações gentílicas estão relacionadas, bem como exalta Javé, que dispensa de seu poder e graça o mundo inteiro. V. 7 – Vemos aqui Javé sendo chamado de Santo de Israel. Essa expressão é usada com frequência no livro. Aqui também vemos uma palavra dirigida àquele que é desprezado, que muitos dizem ser Israel, especialmente na primeira parte do versículo. Há a promessa de que as nações exaltarão o servo, que, para muitos autores, como Steinmann, é Israel, a uma posição de honra por respeito a Ele. Essa é mais uma das novas imagens trazidas pelo Dêutero-Isaías. As nações darão adoração final ao Senhor, pois Ele é fiel e cumpre as suas promessas, como expresso no próprio texto, exaltando aquele que escolheu e lhe foi fiel.
3 Meditação O Dêutero-Isaías foi um profeta que mostrou em sua mensagem que Javé agiu em favor do povo de Israel. A fala do profeta gira em torno de Sião, termo utilizado para referir-se ao povo. Ele é ousado, pois mostra que as promessas feitas a Davi dirigem-se ao povo, ou seja, ao profeta; as promessas feitas a Davi se realizarão no povo de Israel, e esse se tornará líder das nações. Mas a mensagem do profeta vai além, pois dela tiramos algumas lições para nós como pessoas cristãs: por meio dessa mensagem aprendemos sobre a missão do servo, independente de ele ser visto como o povo de Israel, o Messias ou as pessoas cristãs em geral. Assim como o servo do Senhor, nós fomos: 3.1 – Escolhidos para testemunhar Aqueles que recebem uma missão de Javé exercem elevada função. Tal missão pode ser desenvolvida num ministério repleto de alegria ou sofrimento. O povo cristão, como servo de Javé, foi escolhido para cumprir uma missão especial, que é testemunhar. Tal testemunho consiste em anunciar as boas-novas. O anúncio das boas-novas envolve muitos desafios e, em alguns casos, até rejeição. Quando anunciamos, independente da mensagem que trazemos, certamente não teremos a aprovação de todos; entretanto, cumprindo a missão, seremos chamados de “meu servo...”, a exemplo do texto lido. Essa identificação é uma amostra da honra que recebe o servo que cumpre sua missão. E mesmo que rejeições aconteçam, não dá para calar diante da mensagem de salvação oferecida. Anunciar boas-novas é falar de salvação. Os servos de Javé são anunciadores às nações de que Ele traz salvação e socorro diante das dificuldades. A exemplo do servo que fala às “ilhas” ou ao mundo, o servo de Javé deve anunciá-lo, dando a conhecer ao mundo que sua salvação alcança as extremidades da
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Terra. Nesse sentido, a missão daquele que anuncia é semelhante à do profeta: consiste em falar da salvação e por meio dessa trazer consolo e conforto aos cansados. Nesse grande universo, a voz de Javé, que é o Deus dos povos distantes e longínquos, que chama o servo para anunciar o consolo e o perdão, não pode ser negligenciada. Testemunhar é anunciar que Cristo é o resgatador, e assim como resgatou o povo do cativeiro babilônico, as suas realizações ultrapassam histórias de sofrimento e dor, que podem ter ocorrido com o ser humano. 3.2 – Escolhidos para aproximar-nos de Javé O servo precisa conhecer aquele a quem serve. Antes do servo ser usado para ministrar a outros, precisa ser ministrado por aquele que o convocou. É a experiência com Javé que dá as diretrizes para que o trabalho possa andar e a certeza de que, enquanto estiver cumprindo a tarefa, o Senhor será fiel, pois é Santo. É nos momentos de intensa comunhão com Ele que o servo consegue enxergar a graça divina que alcança todos e faz brotar coisas novas e íntegras onde só poderia e deveria haver a destruição. Tais momentos e situações com Ele fazem o servo tornar-se forte e ser alguém de fé intensa. Por isso, mesmo nos momentos em que o trabalho parece ser em vão, tudo é feito com determinação e fé. Toda essa confiança provém da certeza de que Javé é soberano e tudo fez, a começar pelo milagre da criação. Essas experiências com Ele também lhe dão a certeza de que, mesmo diante de todas as dificuldades apresentadas na história, Javé é poderoso para modificá-las em favor de seus queridos. 3.3 – Escolhidos para servir e ser fiéis Como pode o servo servir e ser fiel em meio a tantas lutas e provações? O servo não teme as dificuldades, opressões e desprezo, porque está convicto de que a palavra de Javé permanece para sempre. Vários são os motivos que fazem com que o servo seja fiel: inicialmente, vemos que, ao receber a chamada, o servo é levado à reflexão sobre os feitos de Javé no passado e sua atuação sobre o mundo; ele possui a visão de que com Javé a seu lado há segurança; por estar em constante diálogo com Ele, ainda que sua missão o leve a sofrer, ele jamais tem dúvida de que será protegido e assim é paciente e age prudentemente; ele sabe que a fidelidade de Javé atinge não somente o povo de Israel, mas outras nações têm o privilégio de receber seu amor e cuidado. Tudo isso dá forças e faz com que o servo seja ousado no anúncio das palavras que lhe foram incumbidas, além de ser incentivo para que ele se mantenha fiel e siga com sua tarefa. O servo ainda considera a fidelidade do próprio Javé, que é tão especial e é percebida no cuidado a ele dispensado. Ele se sente como uma criatura que é carregada pelo Senhor em uma aljava coberta por sua mão. Toda essa responsabilidade do servo diz respeito a ele ser para o mundo aquilo que Israel deveria ter sido para as nações gentias: luz. Isso somente acontecerá se o servo se mantiver fiel. Vale a pena, pois no final o servo será exaltado.
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4 Imagens para a prédica 4.1 – Fidelidade e testemunho Um escultor famoso passou vários anos esculpindo o rosto de Jesus num bloco de mármore. Quando havia terminado a obra, a face combinava as emoções de amor e tristeza com tanta perfeição, que os visitantes choravam ao contemplá-la. Mais tarde, pediram ao escultor que fizesse uma estátua da deusa Vênus. Ele recusou: “Depois de por tanto tempo olhar a face de Jesus”, disse ele, “pensais que eu possa agora volver minha atenção para uma deusa pagã?” 4.2 – Serviço e fidelidade A história de Dietrich Bonhoeffer é muito trágica e, apesar de tudo, inspiradora. Esse jovem teólogo cristão opôs-se ativamente ao movimento nacionalsocialista na Alemanha no tempo de Hitler. Foi enviado a um campo de concentração, onde sofreu as mais terríveis torturas. Contudo, com sua fé e esperança, inspiradas por uma profunda devoção a Deus, encorajou seus companheiros de prisão e, por fim, chegou mesmo a ganhar o respeito de seus guardas. Em seu livro “O Preço do Apostolado”, Bonhoeffer diz que muitos de nós não queremos pagar o preço total como servos de Cristo. Temos a tendência de nos acomodar, pela metade, num trabalho espiritual. Esse cristão dedicado foi um exemplo vivo do preço que um discípulo de Cristo tem de pagar. Bonhoeffer, fuzilado, pagou o preço com sua própria vida, pois não deixara de pregar o evangelho nem mesmo num campo de concentração. Precisamos ser fortes na fé todas as horas. Podemos agora mesmo sondar os nossos corações e mentes em atitude de prece e dedicar-nos completamente ao serviço de Deus (James M. Buchman).
5 Subsídios litúrgicos Frases de impacto: • Deus não pergunta sobre nossa capacidade ou incapacidade, mas se estamos à disposição (Anônimo). • Deus não se torna maior se você o reverencia, mas você se torna maior se o serve (Agostinho). • Nunca seremos aptos para o serviço de Deus se não olharmos para além desta vida passageira (João Calvino). • Deus tem uma obra a realizar neste mundo; fugir dessa obra por causa das dificuldades e obstáculos é rejeitar sua autoridade (John Owen). • Todos os gigantes de Deus foram homens fracos que fizeram grandes coisas para Deus porque se basearam na presença divina com eles (J. Hudson Taylor). • Sua salvação compete a Deus; o serviço dele compete a você (Thomas Fuller). • Uma verdade relevante de notável distinção nas páginas do Novo Testamento é que Deus não tem filhos que não sejam servos (H. D. Ward).
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• Testemunhar é todo o trabalho de toda a igreja durante todo o tempo (A. T. Pierson). • Deus não quer nada mais do que fidelidade de nossa parte (William Gurnall). • A fidelidade a Deus é nossa primeira obrigação em tudo o que somos chamados a fazer a serviço do evangelho (Iain H. Murray). • Tenha prontas as suas ferramentas; Deus apresentará o serviço oportunamente (Charles Kingsley).
Bibliografia RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. Trad. Francisco Catão. São Paulo: ASTE, 1986. V. II. 466 p. STEINMANN, J. O livro da consolação de Israel e os profetas da volta do exílio. São Paulo: Paulinas, 1976. 331 p.
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PRÉDICA L UCAS 3.15-17,21-22
1º DOMINGO APÓS EPIFANIA (BATISMO DO SENHOR)
ISAÍAS 43.1-7 ATOS 18.14-17
13 JAN 2013
Cledes Markus
1 Introdução É época de Epifania. Neste domingo, lembramos o batismo de Jesus. Epifania é revelação de Deus. Cristo, aquele que vem, é revelado em meio aos povos e nações. Deus aproxima-se da humanidade e fala no batismo de Jesus. Isso é graça revelada. Deus manifesta-se como aquele que está presente e intervém na história humana, que ama e cuida, que perdoa e capacita para a esperança da salvação. Isso é maravilhoso e comprometedor. É oportuno permitir que a Epifania e o batismo de Jesus nos comuniquem sobre o amor e o cuidado de Deus. É importante refletir sobre nosso cuidado com a vida e a salvação. As leituras bíblicas indicadas para este dia inserem-se nessa manifestação graciosa de Deus. No texto de Isaías 43.1-7, a crise de fé entre os exilados era evidente diante de uma situação difícil. Nesse contexto, o dito “não temas” adquire caráter extraordinário. É mensagem de esperança. É certeza da intervenção de Deus. A mudança, o novo que agora vem, é anunciado pelo próprio Deus, que intervém de forma renovada na história humana e na criação. O “não temas” revela a presença e os cuidados de Deus. Em Atos 18.14-17, é Paulo quem recebe a revelação de Deus. Ele está diante do tribunal romano, sendo acusado por judeus de Corinto. Antes disso, tem uma visão em que Deus lhe anuncia: “Não temas; ao contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade”. Lucas escreve sobre João Batista, profeta que recebeu a fala de Deus e prega arrependimento e perdão de pecados. João anuncia Jesus, que, ao contrário dele, batiza com o Espírito Santo. Jesus pede a João que o batize no rio Jordão. Durante o batismo, o céu rasga, e Deus revela-se dizendo: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo”. No Primeiro Domingo após Epifania, ensaiamos os primeiros passos de um novo ano. É o início de uma caminhada. É tempo favorável de preparo, avaliação, arrependimento e mudança de vida. Tempo de percebermos que há esperança e que Deus está conosco.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
2 Exegese O texto de Lucas 3.15-17,21-22, previsto para a prédica deste domingo, manifesta e torna concretos a missão e o ministério público de Jesus Cristo. O texto inicia fazendo referência a João Batista. O povo discorre se, por acaso, não seria ele o próprio Cristo. Quem é João Batista? Encontramos referências históricas a respeito de João Batista nos evangelhos e no relato de Josefo, historiador judaico da época. Segundo esses escritos, sua atuação teria iniciado no 15º ano do reinado de Tibério (Lc 3.1), anos 28/29 de nossa era. Lucas insere-o na tradição profética. Apresenta-o, em Lucas 3.1, num típico cabeçalho de livro profético (Jr 1.1ss; Am 1.1; Os 1.1). O solene refrão “veio a palavra de Deus a João” identifica-o com os grandes profetas do passado. Lucas dá notícias de que o silêncio dos séculos foi quebrado, e mais uma vez há uma pessoa em Israel que desafia o povo com a mensagem de Deus. A missão de João é referida por meio da citação de Isaías 40 (Lc 3.1-6). Sua origem é o deserto, mas sem precisão exata de localização. O que é relevante são as ideias e as associações históricas evocadas pela menção do deserto. Ali Deus se manifestou como o salvador de seu povo. A atuação de João acontece na circunvizinhança do rio Jordão, onde anuncia e pratica o batismo com água (Lc 3.3). Os relatos tornam evidente a intenção de indicá-lo como precursor de Jesus, como aquele que prepara o caminho do Senhor. O centro da pregação de João Batista é um chamado radical ao arrependimento. O batismo com água que ele pratica é “batismo de arrependimento para a remissão de pecados” (Lc 3.3). A palavra grega neotestamentária metanoia, utilizada para designar esse arrependimento, tem o significado literal de “mudança de mente”. Assim, João exigia de seus ouvintes uma nova qualidade de vida, expressa por meio de atos apropriados, que são descritos como frutos dignos de arrependimento. Esses frutos devem ser demonstrados em ações concretas, como a justiça social e a partilha dos bens com os pobres. Sua mensagem é consistente com a doutrina dos profetas precedentes. Lucas dirige-se às multidões, não somente a fariseus e saduceus, como em Mateus 3.7. Ao falar a todo o povo, aponta sua compreensão universal da mensagem da salvação. Todos necessitam de arrependimento, e a salvação é destinada a todos. V. 15-17 – O batismo com água e o batismo com o Espírito No contexto da mensagem e atividade de João Batista, surgem as especulações se ele não seria o Messias anunciado. João mostra rejeição total a essa ideia. Sua resposta é categórica: “Vem aquele que é mais poderoso do que eu”. A negação de João quanto a ser o Messias é expressa de maneira ainda mais enfática. Ele está tão longe de ser o Messias, que não é digno de desatar a correia de suas sandálias. Um dos deveres dos escravos era tirar as sandálias de seu senhor, e João considera que não é digno nem mesmo de ser escravo do Messias.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
João também esclarece que seu batismo é com água. Isso significa que seu ministério era de preparação, de chamar o povo ao arrependimento, de forma que se preparasse para a vinda de um novo tempo. Em contraste, Jesus, aquele que há de vir, batizará com o Espírito Santo e com fogo. João Batista, portanto, anuncia o arrependimento e o juízo, preparando o caminho para aquele que há de vir. O batismo de João é um sinal que expressa arrependimento, mas que precisa traduzir-se em frutos. Esse batismo com água é sinal da misericórdia e da graça de Deus, que perdoa. As pessoas que buscam esse batismo mostram sua disposição para transformar suas vidas, converter-se e produzir frutos. O batismo de Jesus é definitivo. Somente esse batismo, mais poderoso, capacita os batizados a produzir frutos dignos de arrependimento. Torna as pessoas capazes para a transformação radical e para vivenciar a novidade de vida proposta pelo arrependimento. João, portanto, pode convocar para a mudança, mas a concretização da novidade de vida somente é possível com o batismo do Espírito, tarefa inerente a Jesus. Mesmo assim, é necessário preparar-lhe o caminho, pois, ao mesmo tempo em que ele vem para trazer o batismo do Espírito, o Messias vem trazer o fogo, o juízo. Ele vem limpar a eira, separando o trigo da palha. Queimará a palha e juntará o trigo. João declara que o juízo de Deus será como o processo de debulha realizado pelo agricultor. Diante do juízo, é oferecida a possibilidade de dar meia-volta para produzir frutos. O critério do juízo continua sendo o fruto. Àqueles dispostos a seguir esse caminho, o que vem lhes dará o Espírito e o fogo para que produzam frutos dignos, frutos de justiça, de misericórdia e de partilha. Enquanto João prepara e propõe o arrependimento, em Jesus dá-se o cumprimento do anúncio da boa-nova: o reino de Deus está por irromper. V. 21-22 – O batismo de Jesus Jesus junta-se à peregrinação ao Jordão para ser batizado por João. O batismo acontece de modo coletivo: “ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus”. Ao participar de um evento batismal coletivo, com água, Jesus reconhece e dá validade a essa forma de batismo. O batismo de Jesus dá-se com o povo, de uma forma comunitária, como alguém que não se distingue das outras pessoas. Ele se faz igual às outras pessoas. Participa de suas experiências de vida. O Espírito Santo mostra, contudo, que a proposta de Jesus vai além: indica o escolhido de Deus. Somente Lucas menciona que Jesus orou por ocasião de seu batismo. A oração pode indicar o momento de reflexão diante da importância do ato. Jesus ora num momento de decisão para elucidar sua missão. Assim, Jesus também orou no Getsêmani, num momento de extrema reflexão em sua vida. O v. 22 relata o fato extraordinário que acontece durante a oração de Jesus. O céu rompe-se, e o Espírito Santo desce sobre ele em forma corpórea como uma pomba, indicando o Filho amado: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo”. É assim que Deus se manifesta e revela nesse ato em que Jesus é batizado.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
Essa comunicação de Jesus com o Espírito Santo indica que Jesus é agora o mensageiro de Deus. Com esse ato se realiza a missão profética do Filho de Deus. O Espírito define o caráter da missão de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos” (Lc 4.18). Com o batismo, Jesus também se revela a nós seres humanos. Faz-se gente como a gente. Vem até nós. E nesse gesto é o próprio Deus que se revela a nós mediante seu filho. Cristo assume a sua missão com o batismo e capacita o ser humano para transformar sua vida. Com o batismo de Jesus, Deus honra o nosso batismo.
3 Meditação O batismo é tema central nesse texto. Nele também se realiza a Epifania, a revelação de Deus. Um ponto importante sobre o qual podemos meditar é que o batismo que João anuncia mostra a necessidade do arrependimento. Prepara o caminho. É sinal da graça e misericórdia de Deus, que perdoa. Arrependimento não é somente um sentimento de culpa, pesar ou remorso por alguma falha ou erro cometido ou por alguma lei transgredida e que nos leva a pedir perdão. Arrependimento é algo muito mais profundo e radical. Segundo o vocábulo grego metanoia, significa mudar de mentalidade. Nesse sentido, arrependimento está ligado a outro jeito de pensar e de viver, a outra forma de conceber e estabelecer relações. É o que o apóstolo Paulo escreve em Romanos 12.1-2. Ali ele nos alerta de que não podemos nos enquadrar nos moldes deste século, no jeito deste mundo. Mas podemos ser transformados em nossa mentalidade e capacitados para experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. O arrependimento nos desinstala. Tira-nos dos moldes deste mundo e coloca-nos nos moldes de Deus. João trouxe exemplos concretos desse arrepender-se: deixar de lado o acúmulo e a ganância; partilhar os bens, a roupa e a comida; não explorar o povo com a cobrança abusiva de impostos, extorsão e difamação; buscar o sustento de forma honesta. Esses exemplos são bem atuais, mas existem outras dimensões da vida individual e coletiva em que se tornam necessários arrependimento e mudança de mentalidade. Uma dessas dimensões tem a ver com a forma de nos relacionar com a criação. Deus orienta-nos a cuidar dela, mas muitas sociedades e indivíduos têm tido uma relação de domínio e exploração. A terra sofre com isso. Paulo já nos alerta em Romanos de que toda a criação sofre e espera a salvação. Nesse sentido, torna-se urgente a mudança radical na forma de agir. Que Deus nos revele e capacite para cumprir sua boa vontade! Outro aspecto importante na meditação é o fato de que, por ocasião do batismo, Jesus é revelado filho amado de Deus. Portanto o nosso batismo é expressão da revelação e do amor de Deus. Nele, Deus nos anuncia que somos suas filhas e seus filhos amados. Isso é maravilhoso e comprometedor.
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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)
Jesus assume um compromisso no batismo. Assume o ministério de libertação e salvação e dá o cumprimento da boa-nova do reino de Deus. Assim, Jesus impulsiona e capacita as pessoas batizadas para uma transformação radical de suas vidas. Coloca-as na dimensão do reino de Deus, aptas a assumir a missão solidária com as pessoas e as situações que sofrem dores e injustiças. A atualização do batismo como compromisso de conversão e na dimensão de uma nova vida precisa ser vivenciada diariamente. É um viver diário em que a velha pessoa é afogada e uma nova pessoa ressurge e vive em justiça diante de Deus para sempre (LUTERO, Catecismo Menor). O batismo, então, torna-se um jeito de viver cotidianamente junto à família, à comunidade, à sociedade e junto à criação de Deus.
4 Imagens para a prédica No batismo, somos lembrados diariamente de nossa vocação para o reino de Deus. Somos lembrados de nossa condição de filhas e filhos de Deus. Somos chamados a viver a realidade da boa-nova. Essa realidade, afirmada em Lutero, foi possível refletir e compreender de forma mais intensa a partir da convivência com os povos indígenas. Entre muitos povos indígenas do Brasil existe a prática do batismo. Nesse evento, as crianças recebem um nome. Esse nome não é escolhido aleatoriamente, mas surge a partir da orientação divina e sempre ligado à identidade e à missão/vocação dessa pessoa na comunidade e no mundo. A história do nome é relatada de forma oral em diversos momentos da vida da pessoa. É uma maneira de lembrar que seu nome e sua vocação são dádivas de Deus e que sua missão neste mundo precisa ser cumprida. Prática semelhante é encontrada em alguns povos da África. Tolba Phanem conta o que sucede em um desses povos. As mulheres grávidas, juntamente com as outras mulheres da aldeia, vão para a floresta orar e meditar até encontrar a canção da criança. Quando a criança nasce, a comunidade junta-se e canta-lhe a sua canção. Essa canção é cantada em diversos outros momentos de sua vida: quando se torna adulta, quando se casa e quando morre. A canção também é cantada quando a pessoa comete algum erro grave ou algum desvio social. Ela é levada para o centro da aldeia, e as pessoas formam um círculo ao seu redor. Então lhe cantam a sua canção para lembrar a sua identidade e a sua vocação. A canção proporciona arrependimento e retorno para sua verdadeira missão. Essas imagens indicam a necessidade de continuamente sermos lembrados da nossa identidade de filhas e filhos de Deus e da missão/vocação que assumimos no batismo. Pude perceber isso quando alguns dias atrás, num culto de batismo, minha filha de 11 anos comentou: “Hoje, durante o batismo das crianças, fiquei muito emocionada, pois eu pude perceber que no dia de meu batismo Deus também me chamou e me aceitou como filha amada”.
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5 Subsídios litúrgicos Nos cancioneiros da IECLB, encontramos diversos hinos com mensagens preciosas que podem ser incluídas na liturgia em forma de oração ou confissão. Aqui são sugeridos dois hinos que podem contribuir para com a temática deste culto: “Quando o Espírito de Deus soprou” – Hino nº 437 e “Senhor, se tu me chamas” – Hino nº 413; ambos são do hinário Hinos do Povo de Deus 2. Outra sugestão é a “Oração do cuidado”, do P. Dr. Rodolfo Gaede Neto. Esse subsídio pode ser encontrado no Proclamar Libertação 32. São Leopoldo, 1994. p. 70-71.
Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2002. NEUENFELDT, Elaine. 1º Domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação 20. São Leopoldo, 1994. p. 40-43.
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 12.1-11
2º DOMINGO APÓS EPIFANIA
ISAÍAS 62.1-5 JOÃO 2.1-11
20 JAN 2013
Wilhelm Sell
1 Introdução Estamos no segundo domingo da Epifania. É revelação de Deus, graça revelada. É tempo oportuno para analisarmos o que é ser cristão e, consequentemente, igreja na perspectiva do Deus que se revela por meio de sua Palavra às nossas vidas. No texto indicado do Antigo Testamento (Is 62.1-5), lemos sobre a promessa de Deus em revelar-se de maneira admirável. Já o texto do evangelho (Jo 2.1-11), indicado como leitura por parte do Novo Testamento, mostra-nos Jesus de Nazaré revelando-se em seu primeiro milagre: é o início da admirável revelação do Deus encarnado num mundo carente de sentido, amor e esperança. O texto de 1 Coríntios 12.1-11, abaixo analisado e indicado para pregação, fala sobre os dons. Temos o apóstolo Paulo orientando uma comunidade famosa por seus problemas. O desafio é que, em conjunto com essa comunidade, olhemos essa temática em sua relação com o que é ser igreja. Deus revela sua intenção com os diversos dons existentes e a função desses no corpo de Cristo. O intento é que este estudo exegético seja um auxílio para que a palavra de Deus possa ser anunciada de maneira relevante para a vida das pessoas, motivando-as a viver em união, a servir com seus dons, sendo desafiadas a testemunhar e a viver a partir da fé e do amor de Deus.
2 Exegese A antiga cidade de Corinto foi destruída em meados de 146 a.C. César refundou a cidade em 44 a.C. como colônia romana. Em meados de 29 a.C., a cidade torna-se a capital da província romana de Acaia e moradia de um procônsul. Servida por dois portos (um ao ocidente e outro ao oriente) e localizada num excelente eixo de comércio, tornou-se uma cidade aberta ao mundo e numerosa em habitantes (algo em torno de 500 mil). Em 49 d.C., o apóstolo Paulo chega a Corinto para anunciar as boas-novas do evangelho de Jesus Cristo. Em Atos 18.1-18, somos informados sobre o início da igreja. Paulo encontra na cidade o casal Áquila e Priscila, fazedores de tendas por profissão. Primeiramente, Paulo trabalha com eles para seu sustento. Em seu tempo livre, ele visita a sinagoga judaica e participa da exposição da Torá. Posteriormente, ele dedica-se ao ministério da Palavra, sustentando-se com ofertas trazidas por seus colaboradores Timóteo e Silas. Paulo professa Jesus como o Messias de Israel, e isso leva-o à ruptura com a sinagoga. Começam então as reuniões em casas,
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com famílias judaicas ou simpatizantes do judaísmo, que passam a crer em Jesus Cristo. Muitas outras pessoas são evangelizadas, resultando na conversão de judeus, gregos, gentios e escravos. Com essas pessoas é formada inicialmente a comunidade de Corinto. Depois de um ano e meio de ministério em Corinto, Paulo viaja para Antioquia, na Síria, passando pela Ásia Menor. Em Éfeso, ele deixa o casal Áquila e Priscila, que encontra posteriormente um judeu de Alexandria chamado Apolo, que se destaca pela oratória e empolgação com o evangelho (At 18.23-28). Após algumas instruções acerca da fé, ele é enviado a Corinto. A comunidade havia crescido. Aparentemente, Apolo torna-se, por causa de sua capacidade teológica e argumentativa, importante na comunidade, a ponto de posteriormente haver aqueles que se chamavam “os de Apolo” (1Co 1.12; 3.4). Ele apoiou os membros nas discussões com judeus, demonstrando pelas Escrituras Sagradas que Jesus Cristo é o Messias esperado. Chegaram também a Corinto alguns cristãos do Oriente, talvez de Jerusalém. Eram cristãos judeus que criam que a unidade da igreja estaria garantida se todos se submetessem a Pedro. Eles são os de Pedro (1Co 1.12). Esses, aparentemente, desconheciam Paulo e seu ministério. Um outro grupo denominava-se os de Cristo, aparentemente se considerando melhores do que os outros, garantindo, assim como os de Apolo e os de Pedro, que sua maneira de viver o evangelho era a mais correta. É a esse grupo, os de Cristo, que Paulo dá atenção especial, movido pela preocupação de que poderia estar levando a igreja de Corinto a desviar-se da verdadeira essência do evangelho. Os de Cristo questionam se Paulo tem o Espírito Santo (1Co 7.40), se ele é um verdadeiro apóstolo (1Co 9.2; 15.9), se ele tem o dom de línguas (1Co 14.18), se ele recebeu revelações de Jesus (2Co 12.1) e se Cristo de fato falou por meio dele (2Co 13.3). Mas seus questionamentos vão além de uma controvérsia pessoal. Eles proclamam uma nova doutrina. Pelas respostas de Paulo a esse grupo, podemos perceber algumas características: eles não veem problema algum no fato de que os homens da igreja estavam se envolvendo sexualmente com moças de Corinto (1Co 6.12); exigem abstinência sexual dentro do casamento (1Co 7.17); validam o divórcio por motivos espirituais (1Co 7.10-12); querem liberdade para participar de festas a ídolos (1Co 10.23); falam muito do Espírito Santo, enfatizando demasiadamente o falar em línguas como marca do verdadeiro cristão (1Co 12-14). O conteúdo das cartas à comunidade revela uma igreja complexa e cheia de problemas. Paulo escreve na tentativa de orientar a comunidade em relação a perguntas que lhe são feitas por membros da comunidade e a partir de informações que recebe acerca da vivência diária das pessoas em relação à fé recebida. E ele faz isso de maneira incisiva e direta. A comunidade está inserida numa das principais cidades comerciárias da época e, concomitantemente, num contexto muito eclético quanto a credos, costumes e orientações. O fato de ser cidade portuária propiciava a vinda de muitos estrangeiros e, com eles, certa ênfase no desejo de diversão, evoluindo para conduta desregrada. Paulo, na carta em questão, dá a
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entender que o contexto no qual os membros da igreja estão inseridos influencia negativamente a relação entre a vida pessoal e a fé recebida. Paulo fala acerca de algumas irregularidades morais na comunidade: caso de incesto (1Co 5), procura de tribunais pagãos (1Co 6.1-11), envolvimento com prostitutas (1Co 6.12-20). Responde a algumas perguntas éticas feitas (1Co 7.111.1): matrimônio e celibato, sacrifícios e carne sacrificada, idolatria. O texto em estudo pertence ao contexto de 1 Coríntios 11.2-14.40, em que o apóstolo dá instruções para as reuniões da comunidade: uso de véu pelas mulheres nos cultos (1Co 11.2-16), correta celebração da Eucaristia (1Co 11.17-34), necessidade dos dons serem medidos segundo sua contribuição para a edificação da igreja e em sua função missionária (1Co 12.1-14.40). As orientações que Paulo dá revelam uma situação complicada na vivência dos membros da igreja. Há partidarismos, briga de egos. A maioria dos membros da comunidade de Corinto era formada por pessoas pobres e escravas (1Co 1.26-28; 7.21; 12.13). Havia também uma minoria rica que participava da comunidade (1Co 11.21s). Tratava-se, portanto, de uma comunidade com múltipla composição, assim como seu contexto. Pessoas com diferentes modos de vida, cosmovisões, são alcançadas pelo evangelho. Querem ser igreja, mas falham pela falta de maturidade espiritual. Os coríntios não entendiam a importância da unidade. Facilmente se tornam partidaristas. Não estavam conseguindo entender o que é ser corpo de Cristo. E, consequentemente, não compreendiam a finalidade dos dons espirituais.
3 Meditação É interessante notar, primeiramente, que Paulo emprega poucas vezes, neste bloco, o termo pneumatika (traduzido como dons espirituais em 1Co 12.1 e 14.1 e, aparentemente, utilizado pelos interlocutores da comunidade). Paulo prefere falar em carismas (charismata). Como dito no tópico anterior, há um grupo em relação ao qual Paulo se mostra seriamente preocupado. Esse grupo, os de Cristo, orgulhava-se muito da posse dos dons do Espírito Santo. Acreditava que o Espírito Santo revelava-se exclusivamente em eventos miraculosos, como cura de enfermos e falar em línguas. O problema visível e perturbador é que isso estava dissociado da conduta moral e da vivência real do evangelho na vida prática. Há uma separação muito forte entre carnal e espiritual. Deus manifestar-se-ia exclusivamente no extraordinário. No ordinário, tudo é permitido (1Co 6.12). Alguns exegetas observam aqui a influência de uma espécie primitiva de gnosticismo. Havia um especial orgulho sobre alguns dons, pois seus portadores podiam ganhar atenção, respeito e influência, destacando-se dentre os demais como aqueles particularmente mais próximos de Deus. Se na igreja de Corinto havia partidarismos e vários grupos, surge esse grupo que se destaca justamente por afirmar que os dons miraculosos revelam que eles são os verdadeiros cristãos. Diante disso, Paulo, falando de carismas, passa a ensinar que todos os dons aplicados na igreja são dádivas de Deus. Não devem ser motivo de orgulho ou distinção de importân-
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cia (1Co 12.12-31), pois eles têm a sua eficácia e razão de ser quando usados para a edificação da igreja, como manifestação de amor ao próximo (1Co 13). Paulo enfatiza a necessidade de manter a unidade dentro da diversidade de dons existente (v. 4). Esse enfoque é percebido quando ele fala que é o mesmo Senhor que concede todos os dons. Ele não defende a uniformidade, mas a unidade na diversidade. Os dons têm uma razão para coexistir. Eles estão aí para o serviço no reino de Deus. Por esse motivo, é ilógico e um absurdo haver divisão justamente por essa razão. Quando uma parte do corpo não desenvolve o seu papel, todo o corpo sofre com isso. Nesse sentido, nenhum dom é mais importante do que outro, mas codependente. Nenhum dom é distintivo de um verdadeiro cristão, mas a possibilidade dada por Deus de servir tendo em vista as outras pessoas. No texto, Paulo coloca essa questão de maneira tal que fica claro que o Espírito Santo não despacha ninguém de mãos vazias, mas todos têm a sua função dentro do corpo de Cristo. Também esse corpo, com todos os dons que nele existem, não tem finalidade em si. O objetivo do corpo, da igreja, é o agir missionário. Somente é possível entender o apóstolo Paulo quando se o percebe como missionário, preocupado para que o evangelho seja levado adiante. Em nossa perícope e em seu contexto, isso se torna claro quando se afirma que também os dons têm essa finalidade: a edificação da igreja em vista do outro. Dietrich Bonhoeffer disse, certa vez, uma frase que se encaixa perfeitamente aqui: “Igreja só é igreja quando é para os de fora”. Esse também é o desafio nos tempos atuais. A igreja/corpo de Cristo tem como finalidade ser missionária e relevante para a vida das pessoas, tanto as que fazem parte desse corpo como as de fora. Para que isso aconteça, dons e talentos são dados pelo Espírito Santo para engrandecer a obra de Cristo neste mundo.
4 Imagens para prédica Lemos o texto para a pregação deste final de semana procurando entendê-lo em seu contexto, mas também já visualizando o contexto vivencial de nossas comunidades. Não falo nenhum absurdo ao dizer que também em nosso meio facilmente surgem brigas de egos e partidarismos. A pergunta essencial que nos deve nortear é: o que é ser igreja? Essa pergunta deve ser respondida olhando para nossa realidade. A impressão, muitas vezes, é que a igreja é uma estrutura física nas quais pessoas fazem parte ao estar arroladas num cadastro de membros. Estando em dia com as mensalidades ou anuidades, tem-se o direito a certos atendimentos religiosos. Com isso, a igreja corre o risco de flagrar-se como “associação prestadora de serviços religiosos”, o que certamente não é a intenção do ser igreja de Cristo. Nesse sentido, o texto traz à reflexão a pergunta sobre quem é a igreja. A igreja são os membros! Igreja não é o templo, as estruturas, mas sim as pessoas que vivem a fé que receberam de Deus. Essas pessoas são chamadas a servir através do sacerdócio geral em prol da Missio Dei, a partir dos dons que cada uma recebeu. E, como Paulo afirma, não há nenhum dom que é dispensável ou mais importante, mas todos são igualmente essenciais para o ser igreja na perspectiva de sua vocação.
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2º Domingo após Epifania
É perceptível que vivemos numa cultura de consumo. A ideia é que tudo pode ser comprado. A igreja não está livre ou isenta dessa realidade. As pessoas que fazem parte da igreja também trazem consigo essa referência do consumismo e querem transferi-la para dentro de sua vivência de fé. Algumas “igrejas” encaram bem esse papel de prestadoras de serviços religiosos, em que o produto principal é Jesus e em que se ofertam o sucesso profissional, a felicidade e o fim de todo e qualquer problema. Com isso não há compromisso ou envolvimento com dons e serviços, é apenas uma negociata. Existem também igrejas que se negam a esse papel, mas que tem um público que somente quer participar da vivência comunitária como quem está num teatro ou cinema. São pessoas que não querem envolver-se, nem servir, somente receber. E aqui somos desafiados a mudar essa realidade por meio do ministério da palavra e do ensino. O texto a seguir pode servir como ilustração: “Qual será o lugar mais rico deste mundo? Seriam os campos de petróleo do Kuwait, do Iraque ou da Arábia Saudita? Seriam as minas de ouro e diamante da África do Sul? Seriam os poços de urânio da Alemanha? Ou seriam as fontes de prata da África? “De acordo com um sábio, os depósitos mais ricos de nosso planeta podem estar há alguns quarteirões de nossas casas. Estão no cemitério local, enterrados embaixo da terra. Dentro das paredes daqueles túmulos estão sonhos que nunca se realizaram, canções que nunca foram escritas, pinturas que nunca encheram uma tela, ideias que nunca foram compartilhadas, visões que nunca se tornaram realidade, invenções que nunca foram criadas, planos que nunca passaram da prancheta e propósitos que nunca foram realizados. Os cemitérios estão repletos de um potencial que permaneceu inerte. Não enterremos nossos talentos” (Jaziel Guerreiro Martins).
5 Subsídios litúrgicos Oração de confissão: Senhor Deus e Pai! Diante de ti estamos neste culto para confessar que somos pecadores e precisamos de teu perdão. Perdoa-nos, Senhor, pelas vezes em que não vivemos de acordo com a tua Palavra, que nos motiva a viver como irmãos e irmãs. Perdoa-nos quando ignoramos o sofrimento das pessoas que nos cercam. Perdoa-nos quando usamos palavras duras para falar com os nossos familiares. Perdoa-nos quando enterramos nossos dons e talentos e negligenciamos a nossa tarefa de ser instrumentos para engrandecer o teu Reino. Enfim, Senhor, perdoa-nos por todos os nossos pecados e faltas, por tudo o que pesa em nosso coração. Isso te pedimos por Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador, que vive e reina hoje e sempre. Amém.
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2º Domingo após Epifania
Oração do dia: Bondoso Deus! Nós te somos gratos por ter o privilégio de estar na tua casa e por ser servidos pela tua santa Palavra. Pedimos: Abre nossos corações e mentes para que a tua Palavra seja transformadora de vidas. Faze de nós terra fértil para que a tua Palavra produza frutos em nós e através de nós. Dá-nos disposição para colocar nossos dons a serviço do teu Reino. Fala conosco, Senhor. É o que te pedimos, por Jesus Cristo, teu amado Filho, nosso Senhor e Salvador. Amém! Sugestão de hinos: 85 (HPD) – Vem Espírito Divino; 320 (HPD) – Espírito Santo de Deus.
Bibliografia HÖRSTER, Gerhard. Teologia do Novo Testamento. Curitiba: Editora Esperança, 2009. MARTINS, Jaziel Guerreiro. Cento e uma belas ilustrações. Curitiba: AD Santos Editora, 2010.
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PRÉDICA: LUCAS 4.14-21
3O DOMINGO APÓS EPIFANIA
NEEMIAS 8.1-3,5-6,8-10 1 CORÍNTIOS 12.12-31a
27 JAN 2013
Oscar Elias Jans
1 Introdução Os domingos após a Epifania servem para lembrar que Deus já se fez presente entre nós na pessoa de seu Filho e que por isso a comunidade pode viver uma relação bem próxima a Ele. Isso se reflete na forma como Deus se comunica conosco, ou seja, por meio do Verbo encarnado, que torna a Palavra clara e perceptível, de modo que possa ser compreendida e obedecida. Neemias 8.1-3,5-6,810 possui relação com o texto de prédica, pois ali se descreve que Esdras leu e explicou as Escrituras (o livro da lei de Moisés) diante do povo reunido, do mesmo modo que Jesus leu o profeta Isaías diante de seus conterrâneos na sinagoga de Nazaré. A exposição das Escrituras causa impacto nas pessoas, como também no caso de Jesus. 1 Coríntios 12.12-31a relaciona-se com a perícope do evangelho, sobretudo pela menção que ambos os textos fazem à ação do Espírito Santo.
2 Exegese Inicialmente, algumas observações sobre a tradução do texto: no v. 17, a versão inglesa da NVI diz que Jesus recebeu o rolo do profeta Isaías, desenrolou-o e enrolou-o novamente após a leitura. Almeida traduz que Jesus abriu e fechou o livro. No v. 18, o verbo euangelisasthai (que poderia ser traduzido como compartilhar uma boa notícia) é traduzido por Almeida como evangelizar. A NVI traduz pregar boas-novas, e Lutero, proclamar o evangelho. No v. 19, eniauton kiriou dekton significa, literalmente, o ano bem-vindo do Senhor. Em Lutero e na NVI, lemos o ano da graça do Senhor. Almeida traduz com uma expressão que não é tão fácil de entender: ano aceitável do Senhor. Ao indicar que um novo tempo está iniciando, Jesus não faz referência ao ano civil, mas à época da plenitude da graça de Deus, de sua ação misericordiosa em nosso favor. É a era messiânica. A Bíblia na Linguagem de Hoje traduz: e anunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará o seu povo. No v. 20, a expressão ter os olhos fixos/fitos é típica de Lucas, como vemos em numerosos textos (Lc 4.20; 22.56; At 1.10; 3.4,12; 6.15; 7.55; 10.4; 11.6; 13.9; 14.9; 23.1). O texto pode ser estruturado em duas partes: v. 14-15 – início da missão de Jesus na Galileia e começo da fama; v. 16-21 – anúncio do projeto do Reino na sinagoga de Nazaré: Chegou o tempo da salvação! Participam da narrativa apenas Jesus e os presentes na sinagoga. Os discípulos não são mencionados no texto.
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Uma análise do contexto maior evidencia que Lucas é o evangelho que apresenta Jesus como Salvador do mundo. Desde o anúncio feito pelos anjos (2.11) até as últimas aparições na terra (24.46,47), Jesus é visto como aquele que pode perdoar os pecados e dar uma nova vida (cf. At 4.12). O tema de seu ministério define-se em 4.18,19: Jesus irá pregar a boa-nova e a aceitação de Deus, o que irá concretizar-se com sua morte e ressurreição. Mais: Lucas retrata um Jesus que proclama o amor de Deus, que busca, protege e se recusa a abandonar quem quer que esteja perdido (Lc 5.1s; 7.36s; 19.1s). O evangelho pode ser estruturado da seguinte maneira: 1.1-4 – Prólogo; 1.5-4.13 – Nascimento e preparação; 4.14-9.50 – Ministério na Galileia; 9.51-19.27 – A viagem a Jerusalém; 19.28-24.53 – Jesus em Jerusalém. Em seu prólogo, evidencia-se que Lucas faz o trabalho de um historiador. Ele tem como base “aqueles que, desde o início, foram testemunhas oculares e servos da palavra” (1.2). Mas ele não se contenta com a versão desses; antes relata que fez uma investigação cuidadosa para oferecer uma nova versão dos fatos ocorridos (1.3). Mas também ele não escreveu como um observador objetivo, mas sim como um cristão comprometido com seu ponto de vista. Quando atentamos para organização do evangelho, observa-se que o centro está na mudança de rota do ministério de Jesus, que acontece a partir de 9.51. Ali se descreve a sua intenção de tomar a direção de Jerusalém, pois se abreviam os seus dias na terra e é necessário que ele retorne para junto do Pai. Nessa jornada se caracteriza o discipulado em Lucas. Se, em Marcos, o discipulado poderia ser definido “estar com Jesus”, em Lucas, discipulado é “estar em viagem com Jesus”, em contínuo movimento. No centro do relato da viagem a Jerusalém (e do evangelho), ele coloca um trecho com três parábolas sobre os perdidos; a última delas é a parábola do filho pródigo (15.11-32), que contém o ponto central de sua teologia: o carinho de Deus para com as pessoas que necessitam de conversão. Todos, assim como o filho pródigo, são restaurados em sua posição primitiva. Em contrapartida, aqueles que se consideram modelos são questionados, como o irmão mais velho, caso não aceitem essa imerecida bondade de Deus para com os que não são tão exemplares. Espera-se e exige-se o arrependimento, a mudança de comportamento. Elencamos a seguir algumas ênfases de Lucas na perspectiva de nossa perícope: 1 – Jesus é o Salvador do mundo (At 4.12; Lc 4.18-19). Chave da teologia de Lucas é esse enfoque na salvação. Em alguns aspectos, a descrição que Lucas faz de Jesus assemelha-se a Mateus e Marcos. Ele é, para Lucas, o Messias profetizado pelo Antigo Testamento, como também destaca Mateus. Como no primeiro evangelho, Jesus é o Filho de Deus, gerado de modo miraculoso, portador do Espírito Santo (1.35; 3.22; 4.1; 10.21). Em especial, Jesus é chamado de Senhor (kyrios). O que diferencia Lucas de Mateus e Marcos é que ele destaca de modo especial a humanidade de Jesus e seus traços de brandura. Ele o descreve
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como Salvador misericordioso, o qual, dotado de Espírito e poder, “andou por toda parte e fazendo o bem... e curando todos que eram tiranizados pelo diabo” (At 10.38). Enfatiza o amor de Jesus aos pecadores, aos pobres, aos doentes, aos desprezados, dos quais também fazem parte as mulheres. 2 – O Espírito Santo: em Lucas, há mais referências a Ele do que em Mateus e Marcos juntos. Ele está presente desde a concepção de Jesus (1.35; cf. 1.15: João Batista). No batismo de Jesus, esse é descrito como estando cheio do Espírito Santo (3.22). Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto (4.1) e volta cheio desse Espírito para iniciar seu ministério (4.14,18). Adiante, Jesus exulta no Espírito Santo (10.21), promete-o aos discípulos (11.13) e fala sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo (12.10). Atos destaca a obra do Espírito Santo na vida das comunidades. 3 – Preocupação com os menos favorecidos e marginalizados: isso se mostra no caso das mulheres (7.11-15; 8.2-3;10.38-42;15.8-10: mulher na parábola), dos doentes (13.10-17;17.11-19; 22.50,51 e tantas curas em Atos), das crianças (18.15-17 e histórias do nascimento e infância de Jesus). 4 – Riqueza e pobreza: Lucas demonstra a preocupação de Jesus com os pobres (4.18; 2.7-8; 2.24; 6.20). O outro lado dessa moeda é o alerta quanto ao perigo das riquezas (6.24; 12.16; 18.18-27). Em Atos, é interessante observar que a riqueza acaba sendo socializada, ou seja, usada em benefício da comunidade. Em relação ao contexto imediato, nossa perícope abre o primeiro grande bloco do evangelho (4.14-9.50), que descreve o ministério de Jesus na Galileia. Qual a relação da perícope com esse bloco? Ao que parece, Lucas desloca para o início da atividade pública de Jesus esse incidente, que em Marcos (6.1-6) e Mateus (13.53-58) acontece em meio a seu ministério. Com isso Lucas expõe desde o início o propósito da missão de Jesus, que já resulta em crise e ruptura com sua terra natal, o que Marcos e Lucas situam mais tarde. Ademais, na narrativa de Lucas, Jesus está sozinho, pois o contato com os discípulos vem mais adiante e gradativamente. Contudo, Lucas sabia que o ministério de Jesus já estava em andamento (4.14,15), mas quer ressaltar que Jesus, em seu ministério, cumpre essa palavra do profeta Isaías aqui citada (v. 18,19; cf. Is 58.6; 61.1,2). Estudiosos observam que aqui estão expressos temas que serão desenvolvidos por Lucas, como a capacitação do Espírito, a atenção aos menos favorecidos e a cura holística do corpo e da alma. Observemos que esse enfoque também é ressaltado quando da chegada dos discípulos de João para saber se Jesus era de fato o messias esperado (Lc 7.18-23). Aliás, a citação de Isaías 61.1,2 não é completa, visto que falta a última frase que lá consta, ou seja: “o dia da vingança de nosso Deus”. Por quê? Provavelmente porque primeiro Jesus viria com a intenção de salvar (como enfatiza o evangelho) e somente depois, na segunda vinda, para julgar. Quer dizer, o episódio na sinagoga de Nazaré serve para Lucas como um programa para o ministério de Jesus.
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3 Meditação Após destacar que Jesus voltou à Galileia cheio do Espírito Santo, Lucas diz que Jesus chegou à Nazaré, o lugar onde fora criado. Como era seu costume, procura, num sábado, a sinagoga do lugar. Lucas dá-nos uma ideia de como se organizava um culto sinagogal naquela época. As pessoas eram acolhidas, e o culto iniciava com uma oração. Fazia-se então a leitura de uma parte da lei (Gênesis a Deuteronômio); em seguida, assim como Jesus fez, de um texto dos profetas. Depois da leitura, feita em hebraico, o texto era imediatamente traduzido para o aramaico. Não havia ministros para o ofício, mas uma autoridade da sinagoga concedia a pessoas o direito de ler e ensinar. A sinagoga era local de adoração e ensino, utilizada depois também pelos apóstolos para anunciar o evangelho e destacar que Jesus era o Messias (At 13.14s.). Em respeito à Escritura, Jesus fica em pé durante a leitura, sentando-se na hora de fazer a sua exposição (v. 20; Mt 26.55; cf. também At 13.16). O primeiro tema de reflexão sobre o texto tem a ver com a menção ao Espírito Santo. Ele é citado no v. 14 para descrever que a atividade de Jesus se fazia por meio desse poder. Depois o próprio Jesus destaca que seu ministério se efetiva sob a direção e unção do Espírito. Foi esse Espírito que guiou Jesus ao deserto e o amparou na tentação. O ministério de Jesus não poderia ser cumprido sem a ajuda divina, sem a unção do Espírito Santo sobre sua vida. Os apóstolos reconheceram que todo o ministério de Jesus só foi possível graças à ação do Espírito (At 10.38). Durante seu ministério, Jesus era o portador pleno do Espírito Santo. Mas a sequência da história mostra que Ele fez questão de compartilhar esse poder com seu povo (At 1.8; 2.1-36) para que a igreja cumprisse sua missão. O Espírito Santo unge a pessoa, e então ela é enviada e capacitada para a missão. Ação sem unção é presunção. Unção sem ação é desleixo, é enterrar os dons e tornar-se passível do juízo divino pelo desrespeito ao que Ele concede e pela falta de amor ao próximo, pois a unção leva à ação que beneficia outros, bem antes do que a si mesmo. Jesus deixa isso claro nesse seu discurso e em todo o seu ministério. O segundo tema é o enfoque que Jesus dá a seu ministério, ao tomar o rolo e ler o texto do profeta Isaías. Jesus não perde tempo com rodeios ao expor-se a uma plateia atenta e, de alguma forma, atônita. A delimitação da perícope não permite abordar a reação negativa da multidão à declaração de Jesus, mas, com certeza, a sequência do texto demonstra que ela não estava preparada para ouvir o que Jesus acabara de pronunciar. Ao ler as Escrituras e definir através delas o sentido de sua missão, percebe-se que a atuação misericordiosa de Jesus envolve a restauração da integralidade da pessoa, ou seja, seu corpo, sua alma e sua mente. Em outras palavras, Jesus assume um projeto libertador que se insere no âmbito das necessidades históricas e humanas. Quem ele prioriza nessa sua missão? O Espírito Santo ungiu-o para:
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– Evangelizar os pobres: a Bíblia emprega alguns termos para designar os pobres. Ela ressalta que a pobreza tem diversas causas, muitas delas fora da vontade da pessoa, como condições climáticas adversas, doenças e opressão de poderosos. Lucas acentua esse ministério de cuidado de Jesus em relação aos mais carentes, que se volta para os necessitados e atende-os em suas necessidades (Lc 4.40-41). Em que consistia esse evangelizar de Jesus? Anunciar o amor de Deus e sua misericórdia às pessoas, restaurando a sua dignidade. – Proclamar libertação aos cativos e pôr em liberdade os oprimidos: primordialmente, Jesus vem para libertar as pessoas do poder do pecado e da morte. Ninguém mais poderia fazer isso! Mas a obra salvífica de Cristo envolve também a libertação de todo tipo de opressão, seja ela expressa como dominação dos espíritos malignos, quando as pessoas não têm paz (Lc 8.2; 8.26-39; 9.37-43), seja como discriminação ou exclusão social, a exemplo do acolhimento das mulheres (Lc 8.2-3) e das crianças (Lc 7.12; 8.42; 9.38). – Restauração da vista aos cegos: os evangelhos descrevem Jesus restaurando a vista de pessoas, inclusive pessoas cegas de nascimento (Mc 8.22-26; Lc 18.35-43). Mas Ele também cura a cegueira espiritual, que se nota quando as pessoas se fixam demais em suas tradições ou quando se julgam superiores, vivendo uma fé fingida (Lc 6.1-11; 18.9-14). O Espírito Santo unge a Jesus e baliza sua missão em um foco bem claro: voltar-se para os que estão fragilizados, marginalizados, desamparados, carentes, para restaurar-lhes a dignidade e a vida como filhos de Deus. Interessante que Jesus aponta nesse mesmo sentido quando os discípulos de João Batista vêm perguntar se Ele verdadeiramente era o Messias esperado. Confira a resposta em Lucas 7.22-23. O enfoque de Jesus, ao tomar para si esse texto de Isaías, obriga-nos a uma reflexão muito séria. Ele surpreende os ouvintes, a liderança religiosa de então. A meu ver, Jesus está nos mostrando que a igreja tem uma missão “específica”, que vai além da prática dos demais. A igreja focada em seu mestre, assim como Ele, assume a missão que surpreende o mundo a seu redor. Em que sentido nossa forma de ser igreja tem levado esse propósito em conta? Se observarmos como nos estruturamos, como promovemos nossos encontros e reuniões, como montamos nossas construções, podemos dizer que seguimos esse enfoque? A pregação pode orientar-se pelos aspectos que seguem. 1 – A ação do Espírito Santo na vida e obra de Jesus: o Espírito Santo não está aí para satisfazer o ego e o desejo dos que querem alardear dons espetaculares. Antes de tudo, o Espírito Santo nos impulsiona a viver na dimensão do reino de Deus. Assim foi com Jesus. O Evangelho de Lucas destaca que Jesus, ungido pelo Espírito Santo, resistiu à tentação e andou por toda parte fazendo o bem às pessoas e vivendo uma vida íntegra, de plena obediência e comunhão com o Pai. 2 – O programa de Jesus: em que sentido é o programa da igreja hoje? Não se trata apenas de que os menos favorecidos têm o privilégio de ouvir as boas-novas, mas que essas boas-novas são diretamente dirigidas a eles. Nossa mensagem e ação missionária também devem surpreender o mundo no sentido de ser efetivas, de trazer boas-novas de restauração de vidas, de superação do
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sofrimento, de renovar esperança e de apontar para a esperança que só podemos ter na pessoa e obra de Jesus. 3 – Em que sentido, então, a igreja vive e proclama, em nossos dias, o “ano aceitável do Senhor”? A nova era inaugurada por Jesus continua em nossos dias. Cabe à sua igreja encarnar e viver, por meio de palavras e atos, esse tempo de boas-novas por meio do evangelho vivido e pregado.
4 Imagens para a pregação Três estudantes de Teologia, com aptidões para as artes cênicas, foram desafiados a se fantasiar – um de skinhead, outro de mendigo e outra de prostituta – e “participar” de um congresso sobre missão em uma grande igreja histórica, situada no centro de uma metrópole brasileira. Eles testemunharam depois o quanto sofreram com rejeição, olhares desconfiados, distanciamento, expressão de medo e reprovação, e isso em meio a pessoas que discutiam sobre a missão da igreja. Esse fato ilustra o quanto nós, cristãos das metrópoles, bem instalados em nossos templos confortáveis, estamos distorcendo ou ignorando o programa ou a agenda de Jesus, o enviado do Pai.
5 Subsídios litúrgicos Introito: Leitura do Salmo 113 (todo ele ou parte dele). Confissão de pecados: Senhor Deus, misericordioso. Na pessoa de Jesus, tu te voltaste para os desamparados e necessitados. Nós, como tua igreja, nem sempre temos seguido esse teu propósito. Fechamos nossos olhos, tapamos nossos ouvidos, voltamos nossas costas para os que estão aflitos e precisando de socorro. Confessamos-te nosso pecado e clamamos por tua misericórdia e perdão. Que o teu Santo Espírito renove em nós a disposição do serviço e o amor a ti e aos nossos semelhantes! Amém. Intercessão: Motivar as pessoas a pensar em sua localidade. Que o Espírito Santo faça cada um lembrar situações de sofrimento presentes na comunidade e ao redor dela, levando as pessoas a uma intercessão comunitária em favor da situação lembrada.
Bibliografia BLOMBERG, Craig L. Jesus e os Evangelhos. Uma introdução ao estudo dos quatro evangelhos. São Paulo: Vida Nova, 2009. HOFFMANN, A. O Evangelho de Lucas. In: FISCHER, G. J. (Ed.). Em Tempo de Discipulado. Curitiba: Encontrão Editora, 1994. V. 2: Introdução ao Novo Testamento. p. 57-89.
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PRÉDICA: JEREMIAS 1.4-10
4O DOMINGO APÓS EPIFANIA
LUCAS 4.21-30 1 CORÍNTIOS 13.1-13
03 FEV 2013
Michael Kleine
1 Introdução O texto de prédica é um relato de vocação profética, no qual se destaca a resistência do profeta a aceitar o chamado de Deus. A resistência é motivada pelo sentimento de incapacidade e pelo temor diante da oposição que irá enfrentar. O texto do evangelho segue essa linha, relatando o episódio da rejeição de Jesus em sua terra natal. Só não entendi a razão dos v. 16-20 terem sido suprimidos da leitura. Sugiro que eles sejam lidos, pois justamente neles Jesus cita uma passagem do Antigo Testamento para dizer que ele se encontra na continuidade da tradição profética daqueles que foram ungidos para ser mensageiros de Deus. O texto sugerido de 1 Coríntios 13 não me parece ter relação com a temática. Sugiro como alternativa a leitura de 2 Coríntios 4.7-15 ou de outro trecho em que o apóstolo Paulo destaca a fraqueza e a incapacidade dos mensageiros de Deus, escolhidos justamente por causa disso, para que a glória seja dada unicamente a Deus.
2 Exegese De todos os livros proféticos do Antigo Testamento, o livro de Jeremias é o que mais dá destaque à pessoa do profeta: seu local e sua família de origem, o sofrimento pessoal ligado a seu ministério, momentos-chave de sua vida. O capítulo 1 é um relato da vocação do profeta. Nele já estão presentes os elementos fundamentais de sua mensagem e de seu ministério. O traço marcante do relato fica por conta da resistência e da oposição que Jeremias irá enfrentar, de seu medo diante da perspectiva de perseguição e da promessa de proteção e ajuda da parte de Deus. São elementos que voltarão a aparecer no transcorrer do livro. V. 4 – “A mim me veio a palavra do Senhor” – literalmente: “e a palavra do Senhor aconteceu a mim”. Expressão frequente no livro de Jeremias (e Ezequiel), mas que aparece só uma vez em Isaías (38.4) e nenhuma nos profetas “menores” que atuaram antes de Jeremias. – Em nenhum outro profeta, a tarefa de transmitir a palavra de Deus é refletida com tanta intensidade como em Jeremias (cf. R. Rendtorff, p. 190). Em nenhum outro livro do Antigo Testamento, a expressão dābār “palavra” aparece com tanta frequência (mais de 200 vezes, na maioria referindo-se à palavra de Deus). V. 5 – A palavra dirigida a Jeremias lembra-o de que ele é obra das mãos de Deus. Ele foi modelado/formado (jāṣar) no ventre materno, assim como Deus modelou/formou o primeiro ser humano (cf. Gn 2.7s) e todos os demais. A ima-
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gem de que Deus forma individualmente cada ser humano evoca várias ideias: de que somos propriedade de Deus, do valor de nossa existência a seus olhos, de nossas características individuais/particularidades, do conhecimento profundo que Deus tem de cada um/a em seus mínimos detalhes (cf. Sl 139.13ss, com outra terminologia). O “formar” expressa também a ideia de intencionalidade e de propósito: Deus forma o ser humano para que ele cultive o jardim; ele forma um povo para a sua glória (Is 43.1,21; 44.2,21), um servo para reunir o seu povo (Is 49.5). – Mesmo antes de ter formado Jeremias no ventre materno, Deus já o conhecia (jādaʿ) e já o havia escolhido (o termo também é usado com esse último sentido, cf. Gn 18.19s; Am 3.2); antes de seu nascimento, Deus já o havia “consagrado” (lit. “santificado”) profeta. O âmbito de atuação de Jeremias não se restringe ao povo de Deus; ele é constituído “profeta para as nações” (cf. v. 10: “te constituo sobre as nações e sobre os reinos”). V. 6 – “Ah! Senhor Deus!” A reação de Jeremias é de temor e lamento. Ele expressa seu sentimento de inaptidão, sua dificuldade de falar por causa da pouca idade. Provavelmente, Jeremias refere-se à sua falta de autoridade numa sociedade em que somente os “anciãos” são cidadãos plenos com direito a emitir opiniões públicas (cf. Is 3.5; Jó 32.6ss). Jeremias também teme que fará inimigos (cf. v. 8: “Não temas diante deles”), seja por sua presunção em falar sem ser chamado pelos mais velhos, seja pelo teor da mensagem que irá transmitir. V. 7s – Deus leva a sério o temor de Jeremias. Ele não diz: “Tu não és uma criança”, mas: “Não digas: Não passo de uma criança”. Deus supre a autoridade que falta a Jeremias, enviando-o em seu nome. E ele não falará suas próprias palavras, nem emitirá sua própria opinião, mas falará aquilo que Deus ordenar. “Não temas diante deles” – aqueles a quem Deus “formou” e escolheu para uma tarefa podem contar com sua presença e ajuda (“eu sou contigo para te livrar”) e não precisam temer os perigos que advêm de sua missão (cf. Is 43.1; 44.1s). V. 9 – O envio é confirmado e reforçado através de um sinal visível: um toque da mão de Deus na boca de Jeremias: “Eis que ponho na tua boca as minhas palavras”. Aquele que se sente incapaz de falar, seja por temor ou por outros motivos, recebe em sua boca as palavras que devem ser ditas. V. 10 – Os temores de Jeremias não eram infundados. As palavras que ele anunciará a “nações” e “reinos” primeiramente produzirão destruição, para somente depois edificar. Não são boas as notícias que ele traz (cf. 1.13-16). Elas produzirão resistência e oposição dos reis, príncipes, sacerdotes e do povo, que se voltarão contra o profeta (v. 18s). São palavras de juízo contra um povo que abandonou seu Deus, palavras que chamam ao arrependimento e à conversão. Israel é como o vaso que precisa corresponder aos propósitos do oleiro que o formou, para não ser “arrancado, derrubado e destruído” (cf. Jr 18.1-10). Aos que não aceitam a pregação do profeta, as palavras que Deus profere através dele podem ser destruidoras: “Converterei em fogo as minhas palavras na tua boca e a esse povo, em lenha, e eles serão consumidos” (5.14) – “Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha?” (23.29). O relato da vocação de Jeremias possui os seguintes elementos: incumbência (v. 5: “te constituí profeta”), objeção (v. 6: “Ah, Senhor”), recusa da ob-
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jeção (v. 7s: “Não digas/não temas”), sinal (v. 9: a mão de Deus toca a boca de Jeremias), retomada e desdobramento da incumbência (v. 10: “Hoje te constituo, para...”). A maior parte do relato (v. 6-9) é dominada pela objeção de Jeremias, pois as palavras de Deus nos v. 7-9 visam superar a resistência e os temores do profeta. Minha impressão é que mesmo o v. 5 já antecipa a objeção de Jeremias, pois ali Deus fornece o fundamento para a palavra de encorajamento que vem depois: “Não temas – eu sou contigo para te livrar” (v. 8). O fundamento do “não temas” é a afirmação “eu te formei”. No livro de Isaías, temos essa ligação típica: Assim diz o Senhor, que te criou/formou: Não temas! (cf. Is 43.1s,4s,7,10; 44.18). A mensagem de Deus para Jeremias é clara: Não tenha medo daqueles que te ameaçam por causa da mensagem, que não te levam a sério por causa da tua pouca idade, pois eu mesmo te modelei nos mínimos detalhes (tanto os pontos fortes como os fracos), eu te conheço como ninguém, e por isso eu te escolhi; tu és extremamente precioso aos meus olhos.
3 Meditação Desde que Deus escolheu e formou para si um povo especial, ele tem também destacado pessoas para falar em seu nome ao povo ou mesmo a representantes de outros povos. Segundo o testemunho do Antigo Testamento, isso é assim por causa do medo do povo de ouvir diretamente a voz do Senhor: “Não fale Deus conosco, para que não morramos” (Êx 20.19; cf. Dt 18.15-18). O mensageiro que fala em nome de Deus é chamado de “profeta” (nābîʾ). Moisés foi o primeiro e maior de todos os profetas (cf. Dt 34.10). Todo profeta que vem depois de Moisés será como ele: em sua “boca porei as minhas palavras, e ele falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18). Jeremias 1.4-10 reflete uma realidade que sempre se repete com aquelas pessoas a quem Deus chama no Antigo Testamento para falar em seu nome: antes de se sentirem honradas com a escolha, elas sentem medo e se conscientizam do peso excessivo dessa responsabilidade, das consequências negativas para sua vida e de sua completa incapacidade para realizar a incumbência. A objeção faz parte dos relatos de vocação profética. Independente dos motivos pessoais de cada um para recusar o chamado, o sentimento é o mesmo: “Senhor, eu não presto para esse serviço”. Com Moisés já foi assim: “Quem sou eu...?” (Êx 3.11) e: “Ah! Senhor! Eu nunca fui eloquente” (Êx 4.10). Mas não se trata de modéstia ou humildade, e sim da consciência da própria inaptidão diante da missão e do medo por suas consequências. Não foi apenas Jonas que tentou fugir do chamado. Falar em nome de Deus num mundo marcado pela rebeldia e pela inimizade contra seu Criador é uma tarefa que deveria deixar qualquer um apavorado. Aos olhos de Deus, a realidade da humanidade criada à sua imagem e semelhança só pode ser esta: “Me deixaram a mim... e adoraram as obras das suas próprias mãos” (1.16). Por isso a palavra que Deus coloca na boca de seus mensageiros sempre terá, ao lado do evangelho, a lei que questiona nosso modo de pensar e viver e que chama ao arrependimento: “O reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). A palavra que arranca e derruba aquilo
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a que nos apegamos, para depois edificar e plantar aquilo que realmente precisamos, não produz muitos aplausos nem amigos. A resistência de Jeremias (e de vários outros profetas) testemunha que ele tem plena consciência dos sofrimentos a que ele será exposto. Sua objeção e seu medo mostram que ele conhece bem a mensagem que vai transmitir bem como a realidade para a qual ele vai falar. Ele sabe que ficará bem no meio da contradição entre ambas. Jeremias sabe também que tem muito mais a perder do que a ganhar em termos de paz, reconhecimento social, status e bem-estar. A resistência ao chamado e a consciência da própria incapacidade fazem parte do ministério profético de comunicar a palavra de Deus. Algo não está em ordem quando o mensageiro desempenha a sua tarefa sem “temor e tremor” pelos motivos arrolados acima. Entre aqueles que Deus escolheu não se encontram os que se sentem muito à vontade no púlpito e seguros de si. Deus não desqualifica a objeção de Jeremias. Ele sabe que Jeremias está falando a verdade, pois ele o conhece melhor do que ninguém. Deus sabe muito bem que pessoa alguma reúne as aptidões necessárias para a função de mensageiro. Por mais contraditório que pareça, ele escolheu Jeremias justamente por sua incapacidade. Esse parece ser o jeito de Deus de fazer chegar a sua palavra a seu povo. Ele escolhe pessoas que, aos olhos do senso comum, são consideradas despreparadas, sem autoridade, sem aptidões especiais. São os “vasos de barro” (2Co 4.7), que fazem o evangelho brilhar mais, são as “coisas fracas do mundo” que Deus escolheu “para envergonhar as fortes” – “a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1Co 1.27-29). Deus não procura os “bons”, os “capazes” nem os “super-seguros-de-si”, nem tampouco concede superpoderes a seus escolhidos. Eles permanecem em sua fraqueza e em insignificância. Seu único consolo é a confiança na promessa de Deus: Não temas, eu sou contigo, eu te formei, te conheci e te consagrei. Promessa que se tornou “visível” no Batismo, na ordenação, na imposição de mãos. A certeza do “eu sou contigo” é renovada na Ceia do Senhor, onde o “Verbo” que “se fez carne” nos é colocado na boca. Aqui, na comunhão do corpo e sangue de Cristo, estamos em melhor situação do que Jeremias. Deus já se adianta ao nosso protesto ao nos escolher antes mesmo de nosso nascimento (v. 5), assim como nós somos por ser justamente assim como ele nos fez. Ele nos “modelou” para essa tarefa, que cada um executará de uma forma bem única e particular. Toda pessoa cristã participa do chamado e da ordenação que recebeu Jeremias de levar aos povos a palavra de Deus. Essa nós recebemos via testemunho bíblico. O chamado e a ordenação nós recebemos no Batismo, em que o próprio Deus nos toca e nos concede o seu Espírito. Do Batismo também faz parte o envio para “ensinar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.20). Em maior ou menor grau, todas as pessoas batizadas têm parte no envio e no sofrimento do profeta. Por isso Jeremias 1.4-10 fala a todos nós, discípulos/as de Jesus Cristo.
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Bibliografia LAMPARTER, Helmut. Prophet wider Willen – der Prophet Jeremia. Stuttgart: Calwer, 1964. (BAT 20) RENDTORFF, Rolf. Theologie des Alten Testaments: ein kanonischer Entwurf. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 1999. (Band 1: Kanonische Grundlegung)
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PRÉDICA: ÊXODO 34.29-35
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
LUCAS 9.28-36(37-43) 2 CORÍNTIOS 3.12-4.2
10 FEV 2013
Gerson Correia de Lacerda
1 Introdução Para o último domingo após a Epifania, temos três textos muito ligados entre si: no texto do Antigo Testamento, o rosto de Moisés brilhava ao descer do monte Sinai; no texto do evangelho, além de Moisés, Jesus e Elias estavam cercados por um brilho celestial; na epístola, a história de Moisés é recordada para destacar que os membros do corpo de Cristo, com o rosto descoberto, refletem o brilho da glória de Deus. São textos diferentes, de diferentes épocas e situações. Mas, nos três textos, aparecem a figura de Moisés e a menção ao brilho. Os textos do Antigo Testamento e da epístola já foram objeto de estudo feito por Norberto da Cunha Garin em Proclamar Libertação 25, também para um último domingo após a Epifania. No estudo que fazemos aqui, destacamos a letra de uma das mais conhecidas canções de Raul Seixas. Seu título é: “Metamorfose Ambulante”. Diz assim: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou. Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor. Eu quero viver nessa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. A letra chega a ser chocante. Como é que alguém pode preferir ser uma metamorfose ambulante? Nós prezamos a coerência. Valorizamos a firmeza de opiniões. Desprezamos as pessoas que mudam de opinião. No entanto, Raul Seixas disse exatamente o contrário. Proclamou que preferia ser uma metamorfose ambulante. Por que estamos dizendo tudo isso? O que têm a ver os textos bíblicos do último domingo após a Epifania com a tal metamorfose ambulante? Existe uma explicação. Não está nos textos indicados para o dia de hoje, mas num dos textos paralelos. O Evangelho de Mateus apresenta a mesma narrativa de Lucas (e de Marcos 9.2-13). E, ao dizer que Jesus “foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mt 17.2), a palavra grega utilizada para falar da transfiguração foi exatamente “metamorfose”. Com base nisso, poderíamos dizer que Moisés passou por uma metamorfose. Apresentou-se metamorfoseado ao descer do monte Sinai. Esteve metamorfoseado ao lado de Jesus no monte da Transfiguração. E os membros do corpo de Cristo são descritos como aqueles que, metamorfoseados pelo Espírito Santo,
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refletem a glória de Deus. Vamos seguir esse caminho para analisar os textos bíblicos deste domingo.
2 Exegese 2.1 – A cena final de uma história de presença-ausência-presença (Êx 32.1-34.28) O texto de Êxodo 34.29-35 é, de fato, a conclusão de uma narrativa iniciada em Êxodo 32.1. John Durham observa que o texto de Êxodo 34.29-35 tem como propósito “concluir a narrativa da presença-ausência-presença” de Moisés como líder do povo de Israel. De fato, o capítulo 32 abre com a afirmação de que o povo “viu que Moisés estava demorando muito para descer do monte”. Ora, Moisés estivera presente com o povo de Israel desde a sua libertação no Egito, conduzindo-o até aquele momento. A ausência começou quando Moisés subiu ao Sinai a fim de receber os mandamentos da lei do Senhor. Então há uma rebelião do povo, causada pela insatisfação com aquela ausência: “Não sabemos o que aconteceu com Moisés, aquele homem que nos tirou do Egito. Portanto, faça para nós deuses que vão à nossa frente” (Êx 32.1). A rebelião era contra Moisés, o líder ausente. Era, porém, uma rebelião contra Deus, de quem o líder ausente era o representante: “O Senhor disse a Moisés: O povo que você tirou do Egito pecou e me rejeitou” (Êx 32.7). Moisés, porém, intercedeu por seu povo, e Deus o perdoou (Êx 32.14). Todavia, ao descer do monte para estar novamente presente com seu povo, o próprio Moisés ficou furioso e arrebentou as tábuas da lei (Êx 32.19). Seguiu-se nova ausência, pois Moisés voltou a subir o monte Sinai para receber novas placas da lei. E aí entra o texto da volta de Moisés. Nesse contexto, percebe-se que a autoridade de Moisés como líder de Israel estava abalada. Parece que ele não podia deixar de estar presente à frente, o tempo todo, de seu povo. Sua ausência causava afastamento da lei do Senhor. Ele mesmo corria o risco de ser rejeitado. 2.2 – A metamorfose de Moisés (Êx 34.29) O texto refere-se à segunda descida de Moisés do monte Sinai. Deve-se comparar a primeira (Êx 32.7-35) com a segunda. Na primeira, Moisés deparou-se com a rebelião do povo à sua liderança e a Javé. Um bezerro de metal fundido fora feito, o qual estava sendo adorado e ao qual se prestavam sacrifícios. Moisés ficou tão irado, que chegou a arrebentar as tábuas da lei que o Senhor lhe dera. Depois, “pegou o bezerro que haviam feito, queimou-o no fogo e o moeu até virar pó e espalhou o pó na água. Em seguida, mandou que o povo de Israel bebesse aquela água” (Êx 32.18-20). Na segunda descida, a história foi totalmente diferente. Moisés não sabia, mas seu rosto não se apresentava da mesma maneira. Tinha sofrido uma metamorfose. Resplandecia por causa de sua proximidade com Javé. Pixley comenta: “O verbo hebraico para dizer do brilho do rosto de Moisés tem também o significado de ‘chifre’ e, na Vulgata, se traduziu no sentido de que saíram chifres em Moisés quando falou com Javé. Daí o costume de pintar na arte
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medieval a Moisés ostentando chifres” (p. 183). Durham acrescenta: “O brilho era uma dádiva de Javé a Moisés, um sinal preciso de uma autoridade que possuía em virtude de seu relacionamento especial com Javé”. 2.3 – Reações à metamorfose de Moisés (Êx 34.30-32) A metamorfose de Moisés, cujo rosto brilhava, provocou reações. A primeira reação, tanto de Arão como de Israel, foi medo. A transformação do rosto de Moisés era uma manifestação de Deus. Por isso evitaram aproximar-se dele. Porém Moisés chamou-os para junto de si. A segunda reação foi aproximação. O medo foi vencido pelo convite de Moisés. Arão e o povo sentiram confiança para ficar perto de seu grande líder. Finalmente, a terceira reação foi ouvir tudo o que Javé havia dito a Moisés no monte Sinai. Durham observa que, dessa maneira, Moisés “os fez responsáveis pelos mandamentos do Senhor, deixando a seus cuidados a sua observação”. 2.4 – O véu (Êx 34.33) Após a transmissão dos mandamentos do Senhor, Moisés colocou um véu sobre seu rosto. Esse véu era retirado quando Moisés falava com Javé e quando transmitia ao povo a sua palavra. Pergunta-se: Por que Moisés cobria o rosto depois de falar em nome de Javé? Ao que tudo indica, não seria para evitar o medo, pois, quando o povo dele se aproximava para ouvir suas instruções, Moisés tirava o véu. Em outras palavras, ele somente o colocava quando não estava mais transmitindo a palavra do Senhor. A retirada do véu servia, portanto, para indicar que, em tais ocasiões, Moisés estava revestido de uma autoridade sacerdotal como representante de Javé. Durham comenta: “A ocultação do brilho era o símbolo de que as outras palavras de Moisés eram dele mesmo, as quais não deveriam ser confundidas com aquilo que Javé havia falado”.
3 Meditação 3.1 – A metamorfose de Jesus O texto de Lucas apresenta a “metamorfose” de Jesus (para utilizar o termo que aparece no Evangelho de Mateus). Essa metamorfose ocorreu quando Jesus estava se preparando para concluir seu ministério, dirigindo-se a Jerusalém para ser crucificado. Não dispomos de nenhuma narrativa a respeito de como era Jesus. Criou-se, na verdade, uma mentalidade a respeito de seu aspecto físico. Acostumamo-nos a pensar na figura de Jesus como muito bem apessoada, rosto formoso, cabelos até os ombros, barba bonita. Os evangelhos, porém, nada dizem sobre Jesus. Na verdade, o único texto que fala sobre sua aparência é exatamente o que descreve sua transfiguração. Diz que sua aparência mudou. Seu rosto ficou brilhante como o sol. Suas roupas tornaram-se brancas como a luz. Tudo isso tem
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a ver com o que a Bíblia diz a respeito de Deus. A descrição da criação diz que, antes da atuação divina, havia trevas. A escuridão imperava. Então Deus entrou em cena e disse: Haja luz. E houve luz. João, um dos discípulos que contemplou o rosto e as roupas de Jesus resplandecerem, escreveu na sua primeira carta: “A mensagem que Cristo nos deu e que anunciamos é esta: Deus é luz, e não há nele nenhuma escuridão” (1Jo 1.5). E Pedro, que também contemplou o rosto e as roupas de Jesus brilharem, escreveu em sua segunda carta: “Nós vimos com nossos próprios olhos a grandeza de Jesus Cristo. Pois ele é como uma luz que brilha em lugar escuro, até que o dia amanheça e a luz da estrela da manhã brilhe no coração de vocês” (2Pe 1.19). Mas o texto bíblico que narra a metamorfose de Jesus não o coloca solitariamente. Ao contrário, apresenta-o ao lado de Moisés. Exatamente aquele Moisés que também passara por uma metamorfose semelhante na sua função como líder de Israel. 3.2 – A metamorfose de Moisés Diz a Bíblia que Moisés subiu o monte Sinai. A glória de Deus desceu sobre o monte. Para os israelitas, a luz parecia um fogo que queimava lá no alto. E Moisés ficou lá durante quarenta dias e quarenta noites. Depois disso, quando Moisés desceu, seu rosto brilhava, pois ele havia falado com Deus. O povo de Israel sabia que Moisés estivera com Deus porque ele passara por uma metamorfose. O seu rosto estava diferente. Não era o mesmo de antes. Era um rosto que resplandecia. A partir daí, sempre que atuava como porta-voz de Javé, Moisés tirava o véu e expunha seu rosto brilhante. Quando agia como um homem comum, colocava o véu sobre a sua face. Com isso ficava muito claro que Deus escolhera um simples ser humano para ser um instrumento de comunicação com o povo de Israel. Javé não enviara seres angelicais para transmitir suas instruções e leis. Ao contrário, seu mensageiro era um simples mortal, semelhante a todas as pessoas de seu povo, com limitações e falhas, que já cometera um assassinato e que ficava furioso a ponto de quebrar tábuas da lei que Javé mesmo lhe entregara. 3.3 – A metamorfose do cristão Na Segunda Carta aos Coríntios, é lembrada a metamorfose de Moisés. No texto, duas diferentes aplicações são feitas a respeito do véu que Moisés usava. A primeira refere-se aos judeus, que liam a lei mosaica, mas recusavam a mensagem do evangelho de Jesus de Nazaré. Era como se houvesse um véu que os impedia de compreender aquilo que liam. Mas a segunda aplicação pode ser entendida como a metamorfose do cristão: “Todos nós, com o rosto descoberto, refletimos a glória que vem do Senhor. Essa glória vai ficando cada vez mais brilhante e vai nos tornando cada vez mais parecidos com o Senhor, que é Espírito” (2Co 3.18). Todos os seres humanos passam por metamorfoses ao longo da existência. Nossas ideias e conceitos se alteram. Nosso corpo fica diferente a cada dia. Será
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que temos passado por uma metamorfose espiritual como resultado de nossa vida de comunhão com Deus?
4 Imagens para a prédica Apresentamos duas metamorfoses. A primeira procede do texto bíblico que narra a transformação do rosto de Estêvão diante dos que ouviam seu testemunho do evangelho. A segunda é uma fábula que pode ser utilizada para indicar que não podemos transmitir o evangelho sem ser metamorfoseados pelo poder de Deus. 4.1 – A metamorfose de Estêvão Sem dúvida alguma, Estêvão é uma figura impressionante na história da igreja. Pouco se sabe a seu respeito. Ele aparece num curto relato do livro de Atos. Escolhido para ser um dos primeiros diáconos, ele é apresentado, diversas vezes, como uma pessoa cheia do Espírito Santo. Estêvão sofreu oposição das autoridades religiosas do judaísmo de seu tempo. Mas enfrentava todas as disputas com a sabedoria que Deus lhe concedia. Em tal contexto, é interessante o que diz o texto bíblico a seu respeito: “Todos os que estavam sentados na sala do Conselho Superior olhavam firmemente para Estêvão e viram que o rosto dele parecia com o rosto de um anjo” (At 6.15). 4.2 – Uma fábula Martin Buber, filósofo judeu, que viveu entre 1878 e 1965, tem uma fábula cujo título é: “Como se conta uma história”. Diz assim: “Certa vez, um rabino foi solicitado a contar uma história. Todavia, antes de contá-la, ele explicou: ‘Existem muitas maneiras de se contar uma história. Mas, para se contar bem uma história, não basta dizê-la. Uma história, para ser bem contada, tem de ser vivida’. Depois de proferir essa explicação, o rabino apresentou a história que tinha para seus ouvintes, dizendo: ‘Há muito tempo, eu tinha um avô. Ele era coxo. Isso dificultava muito seus movimentos. Meu avô era um homem incapaz de andar direito. Certo dia, meu avô foi convidado a falar sobre o seu mestre. E ele contou que o seu mestre tinha um costume muito curioso. O seu mestre costumava saltar e dançar enquanto fazia as suas orações de louvor a Deus. E foi aí que aconteceu um verdadeiro milagre. À medida que ia falando a respeito de seu mestre, meu avô foi ficando cada vez mais empolgado com sua própria história. Ele, que era completamente coxo, levantou-se. E começou a pular e a dançar para mostrar como seu mestre fazia. Foi assim que, desde aquele momento, meu avô ficou completamente curado de seu grave defeito físico’. Após haver contado esse curto episódio da vida de seu avô, o rabino acrescentou para concluir: ‘É assim que se conta uma história’”.
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5 Subsídios litúrgicos Confissão coletiva (baseada em Isaías 59): Os nossos pecados separam-nos de Deus. Procuramos a luz, mas só encontramos a escuridão. Buscamos lugares claros, mas continuamos nas trevas. Andamos apalpando as paredes como se fôssemos cegos, como se não tivéssemos olhos. Ao meio-dia, tropeçamos como se fosse de noite. Temos pecado muito contra Deus. Os nossos pecados nos acusam. Não podemos esquecer as nossas maldades. Temos nos revoltado contra o Senhor. Temos nos afastado de seus caminhos. Temos feito planos para enganar os outros. A justiça está sendo posta de lado. O direito está sendo afastado. A verdade anda tropeçando nos tribunais, e a honestidade não consegue chegar até lá. Reconhecemos que somos culpados. Não temos sido fiéis ao nosso bondoso Deus e Senhor. Amém. Afirmação de fé – Credo da Epifania (baseado em vários textos bíblicos): Muitas vezes, ficamos aflitos, mas não somos derrotados. Algumas vezes, ficamos em dúvida, mas nunca ficamos desesperados. Temos muitos inimigos, mas nunca nos falta um amigo. Às vezes, somos gravemente feridos, mas não somos destruídos. Estamos unidos com Cristo. E quem está unido com Cristo é uma nova pessoa. Acabou-se o que era velho, e o novo já chegou. Cremos que Deus é luz, e não há nele treva alguma. Cremos que Deus fez a luz brilhar em nosso coração. Cremos que a luz da glória de Deus brilha no rosto de Jesus Cristo e de todos os que o seguem. Amém. Leitura alternada: – No princípio, o Espírito pairava sobre o caos e Deus disse: Haja luz! – E a luz se fez! – Muito depois, Deus enviou Jesus, a fonte da luz para todas as pessoas. – Aquele que é a luz veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. – Entra, Senhor, com tua luz em todos os planos de nossa existência. – Ilumina nossas angústias e tristezas. – Ilumina nossos pecados e falta de amor a ti. – Ilumina nossas desavenças e falta de fé. – Ilumina nosso egoísmo e nossa falsidade. – Ilumina todas as trevas nas quais caminhamos contra a tua vontade. – Nem sempre aceitamos tua luz. – Criamos outras luzes como o poder, a fama, a riqueza. – Diante das falsas luzes que não iluminam, recorremos a ti. – Querido Deus, acolhe nosso coração contrito e ilumina-nos com tua luz. Afirmação de fé: Credo segundo Pedro (baseado em 1 Pedro 2): Cremos que nós somos a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a Ele. Nós fomos escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que nos chamou da escuridão para
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a sua maravilhosa luz. Antes, nós não éramos povo de Deus, mas agora somos o seu povo. Antes, não conhecíamos a misericórdia de Deus, mas agora já recebemos a sua misericórdia. Amém.
Bibliografia DURHAM, J. I. Word Biblical Commentary – Exodus. Waco, Texas: Word Books, Publisher, 1987. LÓPEZ, F. G. Éxodo. Bilbao, Espanha: Desclée De Brouwer, 2007. PIXLEY, G. V. Êxodo – Grande Comentário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1987.
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PRÉDICA: MATEUS 6.1-6,16-21
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
JOEL 2.1-2,12-17 ou ISAÍAS 58.1-12 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10
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José Manuel Kowalska Prelicz
1 Introdução Estamos entrando hoje num novo ciclo do ano eclesiástico. Depois da folia do carnaval (e tudo o que esse nome pressupõe aqui no Brasil), iniciamos o caminho da cruz que Cristo vai usar como trono. A Quarta-feira de Cinzas traz um desafio extra na cultura litúrgica da IECLB. Pois, mesmo que em muitos lugares do mundo pessoas que se confessam luteranas recebam a marca da cruz de cinzas nesse dia, na IECLB, geralmente, isso nem é possível pensar. O tabu do anticatólico ainda existe de forma tão grande, que o simples fato de ser celebrado o rito da colocação das cinzas rotineiramente na igreja católico-romana limita qualquer tentativa de celebrar com a ênfase necessária. Os textos indicados pelo lecionário são fixos para todos os anos. Isso traz a problemática da variedade, mas, como o dia tem características próprias, isso não deveria ser difícil. Sendo o texto da prédica o evangelho, a temática está relacionada aos “atos de piedade”. Assim, pessoalmente escolheria como primeira leitura o texto de Isaías, que desenvolve o que seria um jejum correto diante dos olhos de Deus. Em comparação, Joel tem, nos primeiros versículos, um alerta e, nos outros versículos, chama à conversão e a uma postura humilde diante do Senhor. O texto de 2 Coríntios pode ser considerado uma aplicação prática à vida de cristãos e cristãs do ensino do texto evangélico. Paulo contrasta a apreciação humana da realidade com a apreciação das pessoas que vivem em Cristo. Esse texto já foi trabalho no PL 34 e, com delimitação diferente, nos PLs 4, 8 e 14.
2 Exegese Dentro do Evangelho de Mateus, estamos no Sermão do Monte. O Pai-Nosso está no centro do Sermão do Monte, ao redor do qual estão outros temas. Imediatamente antes e depois, somos advertidos para não nos vangloriar com as obras de piedade realizadas. O lecionário teve o cuidado para deixar fora da leitura de hoje o Pai-Nosso, o que permite observar mais de perto três formas de piedade comuns na época de Jesus. Ainda que muitos autores indiquem que se poderia parar a leitura dessa perícope no v. 18, a recompensa está relacionada com o tesouro dos v. 19-21, diferenciando os tesouros humanos do tesouro celestial. O final do texto traz-nos uma nova escala de valores que apontam para o Reino. Nesse sentido, o uso de
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nossas forças indicará onde está nosso coração. Onde colocamos o dinheiro mostra o que é importante para nós. O nosso coração seguirá nosso tesouro. As diferenças entre as traduções de Almeida Revista e Atualizada (ARA) e da Bíblia na Linguagem de Hoje (NTLH) baseiam-se no estilo da segunda de interpretar, mais do que traduzir literalmente. Assim, por exemplo, “justiça” vira “praticar os seus deveres religiosos”, e “deres esmola” fica em “der alguma coisa a uma pessoa necessitada”. De forma geral, a NTLH interpreta tanto o texto, que o deixa “infantilizado”. Existem diversas passagens que poderiam ter ficado no estilo da ARA e nem por isso teriam perdido entendimento simples. Por isso, se for possível optar por uma versão, usem a ARA. Esmolas (v. 2-4) Oração (v. 5-6) Jejum (v. 16-18) Introdução Quando, pois, deres E, quando orardes, Quando jejuardes, esmola, ao tema não toques trombeta não sereis como os não vos mostreis diante de ti, como hipócritas; porque contristados como Exemplo negativo dos fazem os hipócritas, gostam de orar em pé os hipócritas; porque hipócritas nas sinagogas e nas nas sinagogas e nos desfiguram o rosto ruas, cantos das praças, para serem para serem vistos dos com o fim de parecer Motivação glorificados pelos homens. aos homens que negativa homens. jejuam. Em verdade vos digo Em verdade vos digo Em verdade vos digo Recompensa que eles já receberam que eles já receberam que eles já receberam presente a recompensa. a recompensa. a recompensa. Instrução positiva Motivação positiva
Tu, porém, ao dares a Tu, porém, quando esmola, ignore a tua orares, entra no teu mão esquerda o que quarto e, fechada a faz a tua mão direita; porta, para que a tua esmola orarás a teu Pai, que fique em secreto; está em secreto;
e teu Pai, que vê Recompensa em secreto, te futura recompensará.
e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
O quadro anterior, adaptado de O. Wesley Allen Jr., mostra-nos que esmola, oração e jejum não são o centro da mensagem que Mateus quer passar. Jesus utiliza três aplicações da justiça farisaica, muito recomendadas no judaísmo de sua época e que depois continuaram sendo parte do repertório do cristianismo dos primeiros tempos. Vemos o v. 1 como escopo e as temáticas como lentes para reforçar que os atos realizados não são para promoção pessoal ou admiração das outras pessoas, mas estão relacionadas com Deus e seu Reino.
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Um dos termos-chave para compreender o texto é “hipócrita”, uma palavra antiga para ator, aquele que personifica outro. O ator pretende, desenvolve, encena num palco. Na antiguidade, o ator usava uma máscara atrás da qual ocultava seu verdadeiro “eu”. Assim, literalmente escondia suas verdadeiras intenções sob uma falsa identidade. Inicialmente, a palavra não carregava conotação negativa, mas já na época de Jesus era relacionada com certas divindades. “Hipócrita” é a palavra mais forte que Jesus usa contra qualquer tipo de gente que mostra sua piedade como perfeita. Mateus geralmente chama de hipócritas a líderes judeus que faziam atos de piedade, mas com a motivação errada. No v. 16, em relação ao jejum, o ator hipócrita até desfigura sua face. Falsa prática unida à falsa identidade são temas frequentes em Mateus. Isso reflete como os membros daquela comunidade lutavam para tentar compreender quais eram os cristãos e quais estavam aproveitando a oportunidade. É marcante a diferenciação que Jesus faz entre “hipócrita” e “não hipócrita”. São duas formas de agir que se diferenciam enormemente. A hipocrisia não é pelo fato efetuado, pois Jesus mesmo indica aos discípulos que façam. A motivação é a chave hermenêutica. Essa chave indicará os resultados, já ter recompensa ou receber a recompensa que o Pai dará. A comunidade cristã vai ao encontro do Reino, que traz a vontade de Deus na terra como no céu. A recompensa de Deus é escatológica. As pessoas não fazem as coisas certas para poder obter a recompensa divina. Simplesmente se faz o certo porque está certo. Sabine Meister, refletindo sobre a parábola do julgamento final, indica que “uma característica dos misericordiosos é sua reação... ficam surpresos... A seus olhos fizeram [apenas] o que precisava ser feito, não porque queriam comprar o reino dos céus com isso”. No Sermão do Monte, Jesus descreve essa “misericórdia inocente” em nossa perícope com as esmolas. Interessante lembrar que, em grego, a palavra “esmola” tem a mesma raiz que “misericórdia”.
3 Meditação A primeira abordagem da perícope deixou-me pensativo. As indicações de Jesus quase nunca são seguidas em nossas comunidades. Nossos cultos são públicos e geralmente têm muita gente; a diaconia que é feita ganha fotos publicadas; neste mundo de fartura, o jejum é feito por pessoas sem opção, é fome de miséria. Até como comunidades de fé não conseguimos esperar uma recompensa futura; a igreja tem que estar lotada hoje. Então como entender esse texto? Qual é o objetivo de Jesus ao trazer essas indicações aos discípulos? Qual a recompensa pelos atos de fé? O texto está justificando a teologia da prosperidade? Se nós considerarmos somente alguns versículos ou uma parte deles, com certeza encontraremos uma boa justificativa para a teologia da prosperidade, pois tudo fala em recompensa. Mas, assim, estaríamos limitando o conceito mostrado por Jesus. Ele mostra outra realidade, em que as pessoas devem agir não porque podem receber uma recompensa (“eles já receberam a recompensa”). A perícope, uma e outra vez, assegura que Deus vê e abençoa nosso atuar, se for genuíno. Nosso agir deveria ser tal que atuássemos do mesmo jeito coerente com o Reino, ainda que ninguém estivesse olhando.
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Por que é tão importante ser visto? É que não é simplesmente ser notado o que conta, mas poder ter valor e autoestima a partir das outras pessoas. Nosso ego precisa ser massageado, os cumprimentos têm que ser em público. Nisso, critica Jesus, Deus nos vê e nos dá valor. Em secreto, a aprovação de Deus é a única disponível. Deveríamos perguntar-nos para que são as boas obras. Para mostrar-nos? Qual a motivação por trás das ações realizadas? Com os textos indicados e com a Quarta-feira de Cinzas temos a necessidade da exortação sobre observâncias cristãs deste tempo tão especial e ao mesmo tempo o alerta que o próprio Jesus aponta de que piedade feita para ganhar a atenção das pessoas não é realmente piedade. Dar esmola não é caridade se a motivação é ganhar influência. A oração está perdida se a motivação é chamar a atenção para a eloquência. O jejum deixa de ser humanitário e sinal de nossa dependência de Deus se o que se procura é que outros vejam nossa profunda devoção. Jesus não indica às pessoas que devem dar esmola, orar ou jejuar. Ele sobre-entende que pessoas religiosas estarão motivadas a esses atos por questão de princípio. Isso faz com que a temática da Quarta-feira de Cinzas e da Quaresma como um todo seja, mais do que uma indicação, um alerta sobre os interesses de realizar certos atos (incluídos os três do texto em questão). O Sermão do Monte enfoca a justiça, que é uma característica do Reino. Nele, justiça é vista mais em termos éticos. Mas não é uma simples lista de coisas a fazer. Deve existir um equilíbrio entre o fazer e o mostrar. Qual é a motivação última para realizar tal ato? Isso inclui também o que significa mostrar publicamente que temos na testa uma cruz de cinza por nossa participação na celebração em nossa comunidade. Essa cruz não é um diploma por ser bom cristão. As cinzas lembram nossa natureza mortal (do pó viemos e ao pó voltaremos) e também a nossa absoluta e total dependência da graça divina. Não querem ser marcas visíveis de nossa piedade. Mas, ao mesmo tempo, a simples rejeição desse ato de piedade pode também nos levar à vanglória criticada por Jesus. Esse texto convida a igreja de hoje a repensar sua prática religiosa. Temos o alerta da religião-supermercado, da organização eclesiástica que funciona como buffet livre aonde as pessoas vão e consomem o que querem segundo seu gosto e trocam quando enjoam pela falta de variedade. Tudo isso regado com a mentalidade da sociedade atual do consumo e da troca de bens. Quantas de nossas atividades não são feitas porque queremos ter retorno principalmente econômico, mas também porque queremos ter uma igreja lotada ou sair bonito na foto da doação às pessoas marginalizadas. Deixamos de lado aquilo que Jesus pediu e optamos de forma aberta e até descarada pela lógica do mercado, porque é o que mais rende.
4 Imagens para a prédica Logicamente, a primeira imagem a ser utilizada neste culto podem ser as cinzas, que nos lembram que somos seres finitos e totalmente dependentes de Deus. Como poderíamos ajudar a comunidade a entender isso? Quais são os si-
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nais que mostram que somos limitados? Problemas de saúde, falta de emprego, depressão etc. Por outro lado, podemos perguntar-nos: Quais são os toques de trombeta de hoje? Para que servem os testemunhos realizados nos cultos? Para gabar-se? Para algumas pessoas, é importante que todos vejam como ela “se entregou a Jesus” e não podemos esquecer aqueles que respondem à pergunta “quem oferta mais?”. Mas não devemos olhar somente para outras confissões. Na própria IECLB, também se toca trombeta com placas de “doado por tal família” e a eterna lembrança de alguns membros “eu doei os tijolos”. Ao mesmo tempo, também fica o alerta para pastores e pastoras que querem “deixar sua marca” na paróquia por onde passam: têm que construir alguma coisa para que as próximas gerações vejam como eles trabalharam tão bem. Quais atos devem ser feitos para mostrar a vontade de Deus hoje em nossa situação? Jesus utilizou dar esmola, orar e jejuar (práticas comuns de sua época). O que os cristãos e as cristãs em seu contexto deveriam fazer para ser sinais do Reino? Qual seria a ênfase diaconal em seu contexto? Qual a prática a ser lembrada e refletida de acordo com o texto? O grupo de louvor está ali para louvar a Deus ou fazer um show musical? A OASE reúne-se para cumprir seus objetivos ou simplesmente é um grupo para partilhar fofocas?
5 Subsídios litúrgicos O culto deste dia não segue a ordem regular de um culto dominical. O culto tem um início diferente, pois a ênfase recai na Confissão de Pecados e na Imposição das Cinzas. Assim, teríamos como Liturgia de Entrada: Saudação, Oração do Dia e Confissão. Oração do dia: Misericordioso Deus, acompanha nossa jornada através dos quarenta dias. Renova-nos em nosso Batismo, para que possamos ajudar os que são pobres. Suplicamos pelas pessoas que estão em necessidade. Afasta-nos da salvação que nós mesmos criamos, para que possamos encontrar nosso tesouro na vida de teu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém. A Confissão, acompanhada do rito da Imposição das Cinzas, iniciaria com uma exortação, lembrando o início do novo tempo litúrgico. Depois teria uma confissão em que as pessoas também podem dizer uma resposta às preces como: “confessamos, Senhor” ou “tem misericórdia de nós, ó Deus”. Segue a imposição das cinzas, a certeza da absolvição. O culto continua com as leituras bíblicas. Para criar as cinzas, usam-se tradicionalmente as palmas do Domingo de Ramos anterior, mas também podem ser usadas outras folhas secas. Têm que ser queimadas em recipiente adequado para, depois de frias, ser peneiradas. Levando em conta que muitas peles ficam marcadas pelas cinzas, o ideal é misturá-las com um creme hidrante para o corpo, mas que não tenha aroma forte.
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Para ajudar a comunidade a aproximar-se do rito das cinzas, seria bom possibilitar a colocação das cinzas na testa ou na face externa da mão. Quem faz o sinal da cruz diz: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” (Gn 3.19).
Bibliografia ALLEN Jr., Wesley. Matthew 6:1-6, 16-21 Commentary on Gospel. Disponível em: <http://www.workingpreacher.org/preaching.aspx?lect_date= 2/22/2012&tab=4>. Acesso em: 05/06/2012. MEISTER, Sabine. O sermão do monte e as bem-aventuranças. São Leopoldo: Sinodal, 2006.
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PRÉDICA: LUCAS 4.1-13
1º DOMINGO NA QUARESMA
DEUTERONÔMIO 26.1-11 ROMANOS 10.8b-13
17 FEV 2013
Léo Zeno Konzen
1 Introdução O cotidiano precisa ser interrompido por datas e tempos especiais. Assim é a vida, assim também é a liturgia de nossas igrejas. Estamos no início de um desses tempos especiais: a Quaresma. O foco da Quaresma é a preparação da Páscoa. No horizonte, portanto, está a luz que já brilha e intensificará seu fulgor nos dias da Páscoa, que celebraremos depois dos quarenta dias de subida com Jesus a Jerusalém. O texto do evangelho, sobre as tentações de Jesus, é uma espécie de resumo de sua vida dedicada ao projeto libertador do Pai. Ele lembra que foi o Espírito quem conduziu Jesus pelo deserto e que a caminhada foi cheia de armadilhas e dificuldades. Mas Jesus, com a luz e a força das Escrituras, venceu toda a tentação daqueles que tentavam afastá-lo de seus compromissos e seus sonhos. Já nos tempos idos do povo de Israel, a tentação de esquecer-se do Deus libertador e de suas exigências era bem real. Por isso, no livro do Deuteronômio, prescreve-se uma celebração de memória histórica, cuja finalidade era prevenir contra as tentações da injustiça social. A Quaresma também é uma celebração de memória, a memória dos acontecimentos que culminaram na morte/ressurreição de Jesus. E, na espiritualidade de Paulo, é justamente essa memória de Jesus, assumida em palavras e assimilada na profundidade do coração, que nos salva de todas as seduções que possam conduzir-nos ao fracasso de nossas vidas.
2 Exegese O relato da tentação de Jesus encontra-se firmemente estabelecido nos evangelhos sinóticos (Mc 1.12-13; Mt 4.1-11; Lc 4.1-13), mas não se encontra em João. O lugar do relato é após a teofania relacionada ao batismo de Jesus por João e antes do início de seu ministério. Todos mencionam o Espírito, que conduz ou impele Jesus, e o deserto, lugar onde Jesus é tentado. Obviamente, afirmam a vitória de Jesus sobre o tentador, embora Marcos apenas a subentenda. Em Mateus e Lucas, nas três tentativas do tentador, Jesus recorre às Escrituras para enfrentá-lo; o tentador faz o mesmo numa das tentações. Detalhes importantes diferenciam as narrações sinóticas. Marcos fala que Jesus foi tentado por Satanás ao longo dos quarenta dias em que permaneceu no deserto, mas não apresenta tentações específicas; não menciona o jejum referido em Mateus e Lucas; ao contrário, diz que os anjos serviam Jesus e que Ele vivia
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entre as feras. Mateus destaca o jejum de quarenta dias e quarenta noites, jejum que resulta em fome, e essa, por sua vez, apresenta-se como ocasião favorável ao tentador. Lucas radicaliza o jejum (embora não use a palavra, diz que Jesus nada comeu nesses dias), mas dá destaque ao fato de Jesus ser conduzido pelo deserto durante quarenta dias e ser tentado pelo diabo durante esse tempo. A fome que resultou do jejum é ocasião para o diabo iniciar as tentações especificadas no texto, mas essas não seriam as únicas, pois já durante os quarenta dias Jesus foi sendo tentado pelo diabo. Há diferença entre Mateus e Lucas quanto à sequência das tentações: a segunda e a terceira encontram-se em sequência invertida, sendo que Lucas faz culminar as tentações em Jerusalém, o que combina com sua visão da história da salvação e a lógica de sua obra em dois livros: Lucas e Atos. Lucas acentua que Jesus era conduzido “através do (pelo) deserto”, “pleno (cheio) do Espírito”, enquanto nos outros sinóticos Ele é simplesmente levado ou impelido para o deserto pelo Espírito. O fato de ser conduzido através ou pelo deserto dá um dinamismo a seu relato. Ele também ressalta a relação de Jesus com o Espírito, característica de sua obra (Lucas e Atos). O final do relato também diferencia Lucas: ele conta que o diabo esgotou, por ora, suas possibilidades de tentar Jesus, mas isso não será definitivo, pois viria ainda um tempo oportuno. Qual será esse tempo? Trata-se do tempo da paixão e morte de Jesus, momento alto no qual Jesus será conduzido pelo Espírito e superará toda a tentação. Constatados esses dados, convém fazer uma leitura dos mesmos. O primeiro dado é a relação do Espírito (Santo) com o acontecimento. Nos três sinóticos, não é o diabo que leva Jesus para o (ou pelo) deserto, mas o Espírito. Mateus diz que o Espírito conduziu-o ao deserto para ser tentado pelo diabo. Já Lucas dá a entender que o fato de Jesus ser conduzido pelo deserto foi apenas a ocasião para ser tentado pelo diabo. Portanto foi o Espírito que conduzia Jesus pelo deserto, e o diabo entrou na história. Lucas afirma que Jesus “voltou do Jordão” (4.1) e que “era conduzido pelo Espírito através (pelo) deserto”. Não diz, portanto, que o Espírito o levou para o deserto. Tem-se a impressão de que Ele já estava no deserto antes de ir ao Jordão e que para o deserto voltou. O deserto pode estar expressando, então, o ministério de Jesus, visto na ótica bíblica do Êxodo. De fato, é opinião muito aceita que, no relato da tentação (ou das tentações) de Jesus, o deserto é uma evocação da caminhada dos hebreus pelo deserto durante quarenta anos. Esses quarenta anos pelo deserto foram um tempo sagrado, durante o qual Deus esteve muito próximo de seu povo e o conduziu, mas foi também um período em que o povo foi tentado e não resistiu à tentação de infidelidade ao Deus libertador e a suas promessas de terra e vida. A caminhada que Jesus inicia é apresentada por Lucas como uma nova edição do Êxodo bíblico. Só que, agora, o diabo não tem sucesso em suas tentativas de desviar Jesus do caminho que se propôs percorrer. Os quarenta dias de tentação e as tentações específicas referem-se, portanto, mais a todo o ministério de Jesus do que a um período determinado de sua vida. O jejum é o conjunto de exigências do compromisso assumido. As tentações são as propostas ditadas pela
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ideologia da sociedade excludente, propostas essas arraigadas nas pessoas em geral e também nos próprios discípulos de Jesus. No relato de Lucas, percebe-se também uma relação entre Jesus e Adão. Entre a teofania do batismo e as tentações Lucas interpõe a genealogia de Jesus, que termina em Adão, filho de Deus. Vencedor sobre as tentações, Jesus é apresentado como novo Adão e, ao mesmo tempo, novo Israel. A primeira tentação (4.3-4) representa as soluções individuais, imediatistas e milagreiras dos problemas do povo, como o da fome. Embora Jesus tenha se mostrado sempre muito atencioso para as situações individuais de doenças ou outras dificuldades das pessoas, Ele não se deixou limitar por essas ações. Para Ele, era claro que “não se vive somente de pão” (4.4), que o horizonte tem de ser maior e que o pão virá como consequência da fidelidade ao projeto de Deus. A segunda tentação (4.5-8) expressa a sedução dos pactos com os poderosos. Esses podem encurtar, aparentemente, os caminhos para resolver tantos problemas. Mas cobram muito caro por isso. O preço parece ser apenas simbólico, mas, na verdade, representaria “rabo preso” que silencia qualquer profeta. Jesus novamente faz seu discernimento com base na Escritura: “Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto”. A terceira tentação (4.9-12) pode representar uma religiosidade irresponsável: jogar-se do pináculo do templo, na ingênua confiança de que Deus vai colocar a mão por baixo. O diabo agora usa a Bíblia para tentar convencer Jesus. Ele se faz de piedoso, faz de conta que se identifica com a fé bíblica. Jesus rebate firmemente com outra parte da Escritura: “Não porás à prova o Senhor, teu Deus!” Ao contrário da leviandade proposta pelo diabo, Jesus enfrentará em Jerusalém sua morte na cruz, expressão maior de sua fidelidade ao projeto libertador para o qual se sentiu chamado.
3 Meditação A caminhada para a Páscoa que fazemos na Quaresma é um tempo de graça, um tempo de experiências que nos podem fazer crescer. Nele, somos preparados para confrontar-nos com os momentos mais dramáticos e mais reveladores da vida de Jesus, os dias de sua Páscoa. Talvez até tenhamos medo do brilho desses dias. A Quaresma é também um tempo em que somos mais confrontados com os desafios de nossa caminhada de seguidores e seguidoras de Jesus. Quando a vida se explicita em maior profundidade, temos diante de nós a possibilidade de compreendê-la melhor, de admirá-la mais e de nos comprometer com suas ricas perspectivas; mas também percebemos melhor os desafios que ela representa e fazemos a experiência da tentação de fugir ou de desviar-nos por atalhos. O tempo de caminhada para a Páscoa faz-nos experimentar tanto essa possibilidade como esse risco. O ministério de Jesus foi uma grande Quaresma. Nela foi aparecendo, aos poucos, a dimensão dos desafios enfrentados por causa da missão de realizar o sonho de Deus, isto é, de “evangelizar os pobres... proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista...” (Lc 4.16-21). Nessa missão, ou nesse deserto,
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Jesus entrou “pleno (cheio) do Espírito Santo” e foi conduzido por esse mesmo Espírito. Os frutos dessa missão não demoraram a aparecer, de modo que as pessoas ficavam admiradas e diziam que Deus tinha vindo visitar o seu povo (Lc 7.16). Mas essa Quaresma de Jesus também teve seus percalços. Desde a aurora de sua missão, Ele experimentou a rejeição por parte de autoridades de sua religião e de pessoas às quais queria bem. O sucesso no meio do povo simples exigia muito discernimento para evitar o populismo e o apelo às saídas simplesmente individuais e milagreiras. A “pedagogia da cruz”, praticada pelos romanos, intimidava muita gente, e Jesus deve ter se questionado muito sobre os riscos que corria com suas práticas ousadas. Portanto, nessa Quaresma da vida de Jesus, manifestaram-se as coisas mais bonitas e profundas, mas apareceu também o risco de pôr tudo a perder. O culto do primeiro domingo na Quaresma coloca-nos diante dessa dupla perspectiva: estamos por experimentar as coisas mais bonitas e radicais, mas estamos também rodeados dos perigos de achar tudo muito difícil, complicado e impossível. Nesse caso, estaremos tentados a ceder à lógica do “salve-se quem puder”, do “guerra é guerra”, do “cada um por si e Deus por todos”. Somos convidados a deixar-nos conduzir pelo Espírito Santo através do deserto de nossa vida e da caminhada de nossa comunidade durante os quarenta dias da Quaresma e também durante os simbólicos “quarenta dias” de nossa vida. Não comer nada nesses dias pode significar que estamos focados inteiramente em nossa missão, que tem suas exigências. E isso pode provocar fome, ou seja, pode causar-nos uma sensação de que tudo é muito difícil e exigente. Então podem aparecer tentações de todo tipo: tentação de desanimar, de ser exigente ou intolerante com os outros, de exigir que a comunidade esteja apenas a nosso serviço, de construir nossa própria imagem de Deus ou de nos deixar corromper pelo poder para resolver tudo ou ainda de fugir para uma religiosidade milagreira e sem compromisso. As tentações na travessia do deserto, portanto, podem ser muitas, e elas aparecem mais fortemente quando se jejua ou, na linguagem de Lucas, quando nada se come, o que pode significar quando se vai fundo nas opções assumidas. Quem poderá nos socorrer na hora dessas tentações? Entre as diversas possibilidades, as leituras bíblicas deste domingo apontam o recurso à palavra de Deus. Jesus indica a pista por onde podemos andar para encontrar as luzes e forças de que necessitamos. Nas três tentações do relato de Lucas, Jesus recorre às Escrituras para defender-se do diabo e firmar-se no rumo que se propôs seguir. A Carta aos Romanos lembra que “a palavra está perto de ti” e que, se a fé for concreta e sincera, “serás salvo” (Rm 10.8-10). Também o texto de Deuteronômio para o culto de hoje (Dt 26.1-11) é um apelo para que a memória das ações libertadoras do Senhor Deus se perpetue ao longo das gerações. Mas há um detalhe que intriga no relato do evangelho: o diabo também recorre às Escrituras e reúne argumentos que parecem razoáveis para Jesus aderir à sua proposta mirabolante. E, mais uma vez, Jesus indica o caminho a seguir no emaranhado da interpretação da Bíblia: não se pode isolar uma parte da Escritura, de modo que contradiga o seu cerne. Jesus contrapõe ao diabo um critério maior: “não porás à prova o Senhor, teu Deus”.
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4 Imagens para a prédica Para animar estudantes que estão iniciando um curso, podem ser trazidas pessoas que já concluíram esse curso para contar aos ingressantes o que vivenciaram durante os anos de estudo, como superaram as dificuldades e o que estão fazendo hoje. O depoimento de quem já passou por esse deserto anima quem está começando. Os ingressantes tomam coragem para fazer o jejum necessário. Quando, porém, as dificuldades aparecerem com fisionomias concretas, a memória do testemunho daqueles que já passaram por situações semelhantes poderá dar força e será capaz de iluminar o momento crítico. Outra imagem põe em evidência a força da palavra de Deus, que desafia qualquer lógica: num velório de um jovem que morreu sem que se tivesse descoberto a causa, diante dos familiares e de pessoas amigas consternadas, começou-se a cantar “O Senhor é meu pastor e nada, nada me faltará...” A morte de familiares ou pessoas amigas, ainda mais quando parece incompreensível e absurda, não deixa de ser um momento de sérias tentações. A palavra de Deus pode ser uma luz e uma força muito grande no meio da crise. Mas é preciso cuidar para não usá-la com cinismo, como o diabo fez com Jesus.
5 Subsídios litúrgicos Durante o culto, em momento oportuno, poderá ser feita a seguinte oração: Ó Deus, por meio de teu Filho Jesus nos ensinaste a orar: “não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”. Olha, agora, teus filhos e filhas aqui presentes e escuta sua prece confiante: P.: Quando o seguimento de Jesus se tornar exigente, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Quando a lógica do poder e da riqueza nos seduzir ou oprimir, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Quando quisermos exigir tudo de ti e lavarmos as mãos diante dos males do mundo, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Nos momentos decisivos de nossa vida, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Nos períodos de maior sucesso, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Na infância e na juventude, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Na idade adulta e avançada, R.: Não nos deixes cair em tentação. P.: Em toda a nossa vida e na hora de nossa morte, R.: Não nos deixes cair em tentação. Pai Nosso que estás no céu...
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PRÉDICA: FILIPENSES 3.17-4.1
2º DOMINGO NA QUARESMA
GÊNESIS 15.1-12,17-18 LUCAS 13.31-35
24 FEV 2013
Jorge Batista Dietrich de Oliveira
1 Relação entre os textos O texto indicado para a pregação neste segundo domingo na Quaresma já foi refletido em Proclamar Libertação 20 por Marli Lutz. Recomendo a leitura para quem tiver acesso. Já as leituras que o acompanham apresentam certa dificuldade de correlação. Em Gênesis 15.1-12,17-18, Deus renova a aliança com Abrão, prometendo a ele muitos descendentes e uma terra onde eles vão morar. Abrão crê na promessa de Deus. No Evangelho de Lucas 13.31-35, Jesus demonstra seu amor e chora por Jerusalém e seus habitantes, que rejeitaram sua oferta de paz e salvação e caminham para a destruição. Na Epístola aos Filipenses 3.17-4.1, encontramos o apelo do apóstolo Paulo para que os membros da comunidade de Filipos sejam seus imitadores e daqueles que andam segundo o modelo da cruz de Cristo. Paulo segue o exemplo de Jesus e chora por aqueles que têm deus por estômago e tem sua glória na indecência. Assim como Jesus, Paulo anuncia o juízo: o que espera os inimigos da cruz de Cristo são a destruição, a morte sem esperança, a perdição. Quanto aos filipenses, devem permanecer firmes no Senhor, resistindo às influências daqueles que poderiam minar-lhes a estabilidade cristã.
2 Exegese Conforme Atos 16.12, Filipos era “uma das principais cidades da Macedônia”, e o surgimento da comunidade cristã nessa cidade aconteceu durante a segunda viagem missionária de Paulo, que chegou por volta do ano 50, acompanhado de Silas e Timóteo. Essa foi a primeira comunidade fundada pelo apóstolo Paulo no continente europeu. Não havia sinagoga na cidade, e a comunidade dos filipenses nasceu a partir de um grupo de mulheres que se reunia aos sábados na beira do rio Angites. Por meio dessa comunidade, o apóstolo recebeu grande ajuda material enquanto esteve preso na cidade de Roma. A Carta de Paulo aos Filipenses é conhecida como a carta da alegria. Vários autores afirmam que ela é, na realidade, uma compilação de três cartas escritas em tempos e lugares diferentes, que a tradição exegética costumou chamar de Carta “A”, “B” e “C”. As diferenças de estilo e de conteúdo, assim como os bruscos hiatos entre 3.1 e 3.2 e entre 4.9 e 4.10 não se explicam de outro modo. É possível que os filipenses juntassem as cartas do apóstolo para serem lidas em conjunto em suas reuniões. E, mais tarde, tornaram-se uma só carta.
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A primeira, Carta “A”, é a mais antiga e trata-se de um bilhete de agradecimento “pela ajuda que a comunidade lhe enviou através de Epafrodito” (Fp 4. 10-20). A Carta “B” é a mais longa: traz uma exortação à unidade “e contém notícias pessoais de Paulo” (Fp 1.1-3.1 + 4.2-9,21-23). Por fim, a Carta “C”, que bem poderia ser chamada de carta de advertência (Fp 3.2-4.1). A primeira e a segunda cartas foram escritas na prisão, sendo difícil estabelecer com exatidão o local e a data das mesmas. A chamada Carta “C” possui exatos 21 versículos. Certamente trata-se de uma carta escrita pós-prisão. Ela sucintamente quer alertar a comunidade de Filipos, entre outras coisas, para os perigos doutrinais difundidos ou por judaizantes ou por judeu-cristãos antipaulinos (cf. Fp 3.2ss). Podemos dividi-la em quatro focos: 1º foco: advertir contra os judaizantes (Fp 3.1-3); 2º foco: ilustrar os perigos que esse grupo pode gerar a partir de traços autobiográficos de Paulo (Fp 3.4-16); 3º foco: um convite à imitação do apóstolo, que segue somente a Cristo (Fp 3.17-21); 4º foco: um chamado à fidelidade (Fp 4.1). Nossa perícope (Fp 3.17-4.1) compreende o 3º e o 4º focos da Carta C e bem poderia ser resumida assim: Paulo exorta a comunidade a ser seguidora dele, que segue a Cristo. Ao mesmo tempo, ele a convida a desacreditar naquilo que anunciam os seus adversários, pois eles se fazem passar por irmãos, mas são “inimigos da cruz de Cristo”. Certamente rejeitam “a participação nos sofrimentos de Cristo” (3.10). Seu deus é o ventre. Por fim, Paulo encerra a carta exortando sua comunidade amada a permanecer firme no Senhor. V. 17 – “Sede imitadores meus”: esse é um tema frequente nas epístolas paulinas. O apóstolo Paulo coloca o seu próprio modo de ser e daqueles que “andam segundo esse modelo” como exemplo para os filipenses. Ele não coloca a si mesmo como um ideal a ser seguido, mas aponta para Cristo. Em 1 Coríntios 11.1, ele esclarece: “como também eu sou de Cristo”. Paulo pode ser modelo pelo caminho da cruz que escolheu, pois optou pelo caminho da humilhação, do sofrimento e do esvaziamento de si próprio. Sua dedicação à causa do Reino era conhecida e estava em contraste com o procedimento de seus adversários, que pensam somente nas coisas que são deste mundo. Paulo é fiel à cruz (Gl 6.14). Cristo é a sua glória (v. 21), e sua preocupação são as coisas celestiais. V. 18 – Paulo passa agora a falar de outras pessoas, que não devem absolutamente ser imitadas. O pior é que elas andavam no meio cristão: entre nós. Elas são “inimigos da cruz de Cristo”. Paulo já havia advertido contra os falsos missionários, que eram judeus convertidos ao cristianismo, ainda ligados a uma religiosidade legalista que buscava a salvação através da observância da lei, da busca da perfeição e da prática das obras. Parece que a situação se agravou, e tais mestres representam agora um grupo poderoso, tanto em tamanho como em influência. Por isso o apelo veemente do apóstolo e a condenação de seus adversários, pois a cruz é a melhor representação do evangelho cristão. Ser inimigo da cruz é ser inimigo frontal do cristianismo.
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V. 19 – A frase “o deus deles é o ventre” pode ser uma alusão às observâncias alimentares que ocupavam um lugar importante na religião judaica ou um sinônimo de carne, isto é, o eu na sua fraqueza e incapacidade de salvar. Tomar o ventre como deus seria tomar a si mesmo como referência suprema. “A glória deles está na sua infâmia”: o termo traduzido por “infâmia” frequentemente caracteriza a ruína vergonhosa e definitiva no juízo de Deus. Assim como seu fim será a perdição, também a infâmia tomará o lugar de sua glória. “Só se preocupam com as coisas terrenas”: os pensamentos e perspectivas deles são limitados pela confiança naquilo que é transitório. Falta-lhes o principal: as coisas que vêm do alto, que não são transitórias, mas eternas porque vêm de Deus. V. 20-21 – Diversos pesquisadores supõem que estes versículos faziam parte de um antigo hino ou de uma tradição consolidada. Paulo os teria “retrabalhado” para falar do caráter escatológico da salvação, que não é produto humano, mas vem de Deus, e para afirmar a verdadeira esperança cristã. Paulo estabelece aqui um contraste entre os seus adversários e os verdadeiros cristãos; enquanto aqueles só se preocupam com coisas terrenas, nós somos diferentes. “Nossa pátria está nos céus”: a palavra traduzida por pátria é politeuma e designa tanto o direito à cidadania como o Estado, a associação civil, que confere o direito do cidadão. O termo também é usado de preferência para designar uma colônia de estrangeiros. Talvez Paulo escolhesse essa formulação peculiar justamente porque essa cidade era uma colônia militar romana, que do ponto de vista administrativo estava diretamente ligada a Roma, sem responder às autoridades provinciais da Macedônia, sendo detentora do direito romano. Por isso a metáfora podia ser particularmente compreensível para os filipenses. Nós cristãos certamente vivemos nesta terra, dependendo dela para suprir nossas necessidades, somos atribulados pelos poderosos, mas pertencemos ao reino de Deus. Quem “busca as coisas terrenas” transforma a terra estranha em pátria e renega sua cidadania real e verdadeira, distanciando-se da comunidade cujo membro tem o privilégio de ser e separando-se daquele que é seu verdadeiro Senhor para se perder com outros senhores e transformar o ventre em deus! Por isso Paulo afirma enfaticamente: “Nossa cidadania existe nos céus, de onde aguardamos o Salvador”. Não somos cidadãos natos do reino celestial, mas simplesmente porque Cristo está nos céus. Só ele é a garantia de nossa cidadania. Pertencemos a um reino eterno que ainda não se manifestou na sua plenitude, mas virá com toda a força de Deus. Daquilo que transcende nossas possibilidades é que esperamos o Salvador. Por isso aguardamo-lo com confiança. V. 21 – Paulo deixa claro que a salvação vem “de fora”, melhor: de cima. Um salvador que vem dos céus choca o orgulho dos que querem salvar ao menos um pouco de sua própria justiça e santidade. Por isso o apóstolo afirma que o Salvador vindouro transformará nosso corpo de humilhação (de pecado) e o conformará a seu corpo glorificado. Ele ressuscitou corporalmente da sepultura. Seu reino atinge o ponto culminante na ressurreição dos corpos. Esperamos por essa gloriosa redenção, pois pertencemos ao mundo dos ressuscitados (cf. Rm 8.23; 1Co 15.43-53). É a partir daí que a vida cristã passa a ser “correr rumo ao alvo para o prêmio da vitória da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus”.
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4.1 – O trecho conclui de forma muita carinhosa com a exortação de permanecer firmes no Senhor, sem vacilar. Paulo procede assim com amor afetuoso, chamando os destinatários duas vezes de “amados” nessa breve frase, afirmando que eles são sua alegria e coroa (a coroa, feita de folhas de louro, era troféu de vitória concedido aos vencedores em competições esportivas). Esse apelo aos irmãos de permanecer firmes no Senhor liga-se ao chamado anterior (3.17) para que se unam e imitem o apóstolo e seus companheiros e assim sejam fortificados contra os sectários. Permanecer firmes é resistir às tentações dos falsos missionários. A comunidade inteira deve formar uma defesa inabalável para não se deixar confundir pelas heresias. Deve permanecer naquele estado em que foi colocada através da graça de Deus por intermédio de Cristo.
3 Meditação Assim como a comunidade de Filipos, nossas comunidades sofrem a influência de falsos pregadores, que anunciam um evangelho desconectado da cruz de Cristo. Eles pregam o que a maioria das pessoas gosta de ouvir. Costumam fazer uso de frases de efeito e promessas de vitórias e “profecias” que resolvem todos os problemas. Usam esses artifícios para obter lucro fácil e riquezas, comercializando a palavra e Deus e enganando os desavisados. Seja pela mídia ou até mesmo dentro de nossos grupos, pessoas pregam e ensinam falsas doutrinas. Assim como os irmãos de Filipos, também nossas comunidades precisam ser advertidas quanto a esse perigo. Por amor e para proteger as pessoas do engano, precisamos com coragem afirmar que, no meio evangélico, há falsos cristãos, que são inimigos da cruz de Cristo pelos ensinamentos que espalhavam e pelo comportamento incoerente com o evangelho de nosso Senhor Jesus. Vale para nossos dias a advertência de Paulo. Devemos ter muito cuidado com aqueles que causam desordens na congregação, ensinando doutrinas falsas, buscando os prazeres pecaminosos, orgulhando-se daquilo de que deveriam sentir vergonha, pensando somente nas coisas deste mundo. Aqui valeria uma reflexão para as nossas comunidades gastronômicas, que são conhecidas muito mais pelos almoços regados a cerveja que realizam do que pelo testemunho do evangelho, pela diaconia ou pelo amor ao próximo. Algumas dessas são conhecidas como “igreja das cucas”, “igreja do churrasco”, “igreja do kerb”. Seguem o próprio ventre em vez de seguir Jesus no caminho do amor, da doação em favor da vida. Querem Deus para si e não têm visão para o anúncio do evangelho e para a missão. Assim como em Filipos, muitas de nossas comunidades têm orgulho naquilo que é vergonhoso, pois vendem caixas e mais caixas de cerveja, promovendo a embriaguez e o desrespeito à lei. Não é difícil constatar que pessoas saem de nossos almoços alcoolizadas e dirigem seus automóveis para casa servindo de escândalo, pois dirigir sob a influência do álcool é crime que pode gerar multa, suspensão do direito de dirigir por doze meses e até mesmo prisão. Por vezes, falta-nos a coragem para fazer como Paulo. Ele conclama os cristãos de Filipos para que sejam seus imitadores e dos que vivem de acordo com o exemplo que ele deu. Não precisamos ter medo de ser modelo. Ser modelo
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é uma opção de vida. Crianças seguem o modelo dos pais ou daqueles que estão próximos. Professores são modelos para os alunos e alunas. Líderes, ministros e ministras são chamados a ser modelos em nossas comunidades. O modelo não precisa ser perfeito; também tem o direito de errar. Paulo tinha consciência de que não era perfeito, não negou que era o pior dos pecadores e que esteve junto na morte de Estêvão. Paulo reconhecia que era fraco e que Deus o tornava forte em sua fraqueza. Nós somos motivados a servir a Cristo imitando o exemplo de Paulo e de tantos outros irmãos e irmãs na fé que se dedicaram ao serviço fiel ao Senhor. Ao mesmo tempo, precisamos ser exemplos que motivam e ajudam outros a seguir nesse caminho de amor, renúncia e doação em favor da vida. Colocar-se como modelo que aponta para Cristo não significa, necessariamente, apenas sofrimento. Existe a dimensão da alegria no caminho da cruz. Paulo afirma que, por causa de Jesus, nós temos uma pátria nos céus e, de lá, nós esperamos a vinda do Salvador, que, com seu poder, vai transformar o nosso corpo de humilhação, ou seja, o nosso corpo pecador, fraco, imperfeito, mortal, em um corpo glorioso. Somos cidadãos dos céus, pois a partir do Batismo recebemos uma nova vida, que nos foi conquistada por Jesus Cristo em seu sofrimento, morte e ressurreição. Agora, nós temos a responsabilidade de viver essa nova vida, não para nós mesmos, mas para Deus, como cidadãos de um reino já presente, mas ainda não em toda a sua plenitude. Por isso, todas as vezes que vivermos o amor ao próximo, a solidariedade e a justiça ensinados por Jesus, estaremos experimentando um pouquinho desse reino e exercendo nossa cidadania celeste. Nesse período da Quaresma, somos lembrados o quanto Deus investiu para nos tornar cidadãos dos céus: Jesus sofreu, morreu pregado na cruz e ressuscitou ao terceiro dia e, assim, nos resgatou das trevas para a luz e nos concedeu a cidadania celeste, perdoando os nossos pecados e dando-nos a certeza da vida eterna. Em resposta ao grande amor de Deus revelado na cruz, nós somos motivados pelo evangelho (palavra e sacramentos) a buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça. Somos motivados a servir a Cristo e, por isso, fortalecidos no evangelho, imitamos o exemplo de Jesus no caminho da cruz, como também o exemplo de Paulo e de tantos outros irmãos e irmãs na fé. E assim permanecemos firmes, vivendo unidos com o Senhor.
4 Imagens para a prédica Pensando na exortação de Paulo que diz: “sede meus imitadores...”, lembrei-me desta estória: Na estrada de minha casa, há um pasto. Dois cavalos vivem lá. De longe, parecem cavalos normais, mas, quando se olha bem, percebese que um deles é cego. Contudo, o dono não se desfez dele e arrumou-lhe um amigo: um cavalo mais jovem. Se você observar, ouvirá um sino. Procurando de onde vem o som, você verá que há um pequeno sino no pescoço do cavalo novo. Assim, o cavalo cego sabe onde está seu companheiro e vai até ele. Ambos passam os dias comendo e, no final do dia, o cavalo cego segue o companheiro até o estábulo. E você percebe
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que o cavalo com o sino está sempre olhando se o outro o acompanha e às vezes para, dando um tempo para que o outro possa alcançá-lo. E o cavalo cego guia-se pelo som do sino, confiante de que o outro o está levando para o caminho certo. Assim como o dono desses dois cavalos, Deus não se desfaz de nós só porque não somos perfeitos ou porque temos problemas ou desafios. Ele cuida de nós e faz com que outras pessoas venham em nosso auxílio quando precisamos. Algumas vezes, somos o cavalo cego, guiado pelo som do sino daqueles que Deus coloca em nossas vidas. Outras vezes, somos o cavalo que guia, ajudando outros a encontrar o seu caminho.
5 Subsídios litúrgicos Oração: Senhor nosso Deus, neste mundo de tantos ensinos e filosofias, precisamos de tua orientação. Há muitas vozes querendo nos confundir, anunciando um evangelho diferente daquele que Jesus ensinou. Ajuda-nos a não cair no engano e a não nos conformar com o pecado. Concede-nos discernimento, pois queremos ser tão somente teus discípulos. Em nome de Jesus Cristo. Amém. Bênção: Deus te dê para cada tempestade um arco-íris, para cada lágrima um sorriso, para cada preocupação uma perspectiva, uma ajuda em cada dificuldade. E uma resposta para cada oração (da Irlanda).
Bibliografia BORTOLINI, José. A Carta aos Filipenses. São Paulo: Paulinas, 1991. COMBLIN, José. Epístola aos Filipenses. Petrópolis: Vozes, 1985. MARTIN, Ralph. Filipenses. Introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1985.
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PRÉDICA: LUCAS 13.1-9
3º DOMINGO NA QUARESMA
ISAÍAS 55.1-9 1 CORÍNTIOS 10.1-13
03 MAR 2013
Fernando Henn
1 Introdução O terceiro domingo na Quaresma convida a refletir sobre o tema arrependimento (metanoia) de um jeito muito particular. A mudança que o evangelho quer provocar em nossa vida inclui uma mudança no modo como interpretamos os acontecimentos em nossa vida e à nossa volta. Como base da reflexão, temos o texto de Lucas 13.1-9, o qual apresenta o relato de duas tragédias em que pessoas morreram. Na tentativa de encontrar respostas, havia quem acreditasse que aquelas que sofreram morte violenta eram mais pecadoras do que as outras que permaneciam vivas. Jesus, porém, afirma que isso não é verdade. E diz: “Se vocês não se arrependerem, vocês vão perecer também” (v. 5). O texto de Isaías 55.1-9 parece complementar o texto de Lucas ao afirmar que nós, pessoas humanas, devemos nos colocar em nosso devido lugar na relação com Deus. Ser humano pensa e julga como ser humano. Só o próprio Deus julga como Deus: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o SENHOR” (v. 8). O texto de 1 Coríntios é um alerta àquelas pessoas muito seguras de si e que se autojustificam perante Deus e perante outras pessoas. Cito o versículo: “Aquele, pois, que pensa estar de pé, veja que não caia”.
2 Exegese V. 1-3 – “Os galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam.” Trata-se da citação de um episódio em que Pilatos, conhecido por sua violência, teria assassinado galileus no momento em que estavam abatendo animais que seriam oferecidos como sacrifício no Templo de Jerusalém. Não há certeza se a morte deles teria acontecido na parte interna ou externa do templo. Os interlocutores de Jesus, possivelmente fariseus, desejam ouvir sua opinião sobre esse episódio. Os galileus mortos poderiam ser parte do grupo dos zelotes, um movimento revolucionário surgido no ano 6 na Galileia, que defendia a luta armada contra a ocupação romana. Jesus afirma que aqueles que foram mortos por Pilatos não eram mais pecadores do que qualquer outro galileu (v. 3). Ele faz isso para “repudiar a teoria popular, generalizada em Israel, de que o sofrimento sempre era consequência do pecado” (Champlin, p.135). Anula-se o argumento de que, quanto mais trágica a morte, maior o pecado que a pessoa
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carregava (v. 2-3). No entanto, Jesus afirma que, se não houver arrependimento, todos vão perecer do mesmo modo. Quer dizer, não se trata de julgar quem tem mais ou menos pecados, mas interpretar tal acontecimento como um chamado à conversão. Esse episódio é exclusivo de Lucas. Não há outro relato histórico, nem mesmo do historiador Josefo, que registre esse acontecimento. V. 4-5 – Relata um episódio envolvendo a torre de Siloé, que desabou matando dezoito pessoas. Esse relato é também citado exclusivamente em Lucas. Conforme Champlin, “a torre de Siloé fazia parte das fortificações de Jerusalém, próximo da importante fonte e reservatório do mesmo nome”. Exegetas supõem que essa torre teria vindo abaixo na época em que Pilatos construía um aqueduto. Nessa citação, Jesus estende a reflexão já iniciada anteriormente a um grupo maior de pessoas, não apenas aos galileus. Agora ele fala sobre os habitantes de Jerusalém. Ele afirma que as pessoas que morreram nessa tragédia não eram mais pecadoras do que o restante da população de Jerusalém. E, assim como no versículo 5, alerta para o fato de que, se não houver arrependimento (metanoia), todos vão perecer do mesmo jeito. V. 6-9 – Relata a parábola de uma figueira, que por três anos foi visitada sem que nela fossem encontrados frutos. Esses três anos fazem referência ao tempo de ministério de Jesus desde o seu batismo. A metáfora faz referência ao fato de que, desde o início da pregação de Jesus, Israel não havia produzido frutos dignos de arrependimento. Aparece uma perspectiva de juízo muito forte no versículo 7 ao sugerir que essa figueira, que não produz frutos, poderia ser cortada por estar ocupando inutilmente a terra. Já nos v. 8-9, surge a perspectiva da graça de Deus. É oferecida mais uma chance à figueira, mais uma oportunidade para Israel arrepender-se e produzir bons frutos. Para isso é necessário que haja arrependimento, conversão. Nesse ponto, unem-se as temáticas dos versículos 1-5 e 6-9.
3 Meditação Quando assistimos a um ato de violência na distante periferia de uma grande cidade, é muito comum o seguinte pensamento: “Provavelmente essa pessoa deve ter se envolvido com drogas”, numa nítida interpretação a partir do critério “colheu o que plantou” ou ainda “isso não acontece comigo porque sou uma pessoa boa”. Já quando o ato de violência acontece com uma pessoa de nosso convívio ou num ambiente que nos é familiar ou comum, entendemos que nada pode justificar tal ato de violência. Surge a pergunta: “Por que essa pessoa?” Isso não é justo! Chega-se a questionar a justiça de Deus. Vivemos um tempo em que muitas pessoas falam com muita “autoridade” sobre as outras. “Cada um colhe o que planta” é uma afirmação recorrente em rodas de conversa. Numa outra formulação, no facebook, não é incomum haver o compartilhamento da seguinte frase: “Porque Deus é bom, deixa-nos plantar o que quisermos; porque Deus é justo, nós colhemos o que plantamos”. São afirmações aparentemente cheias de razão, mas devemos ter muito cuidado ao pronunciá-las. Não apenas refletir a quem dizemos isso, mas principalmente o que estamos querendo dizer quando as falamos.
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O absurdo dessas afirmações, do ponto de vista de sua mensagem, é perceptível se imaginarmos essa frase sendo ouvida por um pai ou uma mãe que perderam seu filho morto por um motorista embriagado. Quando individualizamos tal afirmação, somos obrigados a reconhecer que não colhemos apenas o que plantamos; colhemos também aquilo que as outras pessoas plantam. Ou seja, não basta eu cuidar do meu jardim; é necessário que a minha vizinhança também o faça. Fazendo um gancho com o texto de Lucas, podemos afirmar que o filho morto por um motorista embriagado ou sua família não seriam mais pecadores do que qualquer outro filho ou família. Por outro lado, o alerta de Jesus “Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” pode ser entendido como um alerta: se não houver uma conscientização e mudança de comportamento no trânsito, mais vidas serão ceifadas. E a próxima pode ser a sua ou de um familiar seu. Lembro de um trecho do texto de 1 Coríntios, que é uma das leituras, quando afirma: “Aquele que pensa estar de pé, cuidado para que não caia”. Voltando à imagem do “cada um colhe o que planta”, não pense que teu jardim está a salvo das ervas daninhas que povoam o jardim do vizinho. Cuida para que as ervas daninhas que estão no teu jardim não contaminem o jardim do teu vizinho. A partir dessa reflexão, acredito que o texto é uma grande oportunidade para refletirmos sobre o conceito de karma, que, de forma crescente, influencia um número cada vez maior de pessoas. É conhecida a afirmação: se alguém sofre, está pagando suas dívidas desta ou de outra vida; se alguém está bem, está usufruindo de suas boas ações nesta ou em outra vida. Não encontramos em Jesus Cristo embasamento para tal pensamento. Jesus, quando afirma que os outros galileus e habitantes de Jerusalém que morreram não eram mais pecadores do que os outros, deixa claro que não aceita a ideia de recompensa do modo como é pregado pelo espiritismo e outras tradições religiosas. Consigo imaginar Jesus afirmando também o contrário: vocês acham que são melhores do que os outros porque conseguiram vencer dentro do sistema? Vocês simplesmente conseguiram adaptar-se a ele e tiveram boas oportunidades. O perigo, quando nos deixamos levar pelo senso comum, é acreditar na falácia de que de fato cada um colhe o que planta e que se estou bem é porque plantei coisas boas e se estou mal é porque plantei coisas más. Ignora-se que a sociedade tem um desenvolvimento histórico, que as injustiças e a manipulação dos meios econômicos e de comunicação ainda estão presentes e que a liberdade de escolha que temos é muito relativa e ilusória. Por outro lado, não seria correto afirmar que as pessoas não têm responsabilidade por seus atos. Isso também seria errado. O evangelho chama-nos a produzir bons frutos. E para isso Deus sempre está disposto a nos dar uma segunda chance. Quantas pessoas afirmam que uma doença ou a proximidade da morte fizeram-nas rever seu modo de viver e fizeram uma avaliação sobre os frutos que estão produzindo com sua vida? Seria interessante se todos nós pudéssemos nos perguntar sobre os frutos que estamos produzindo a partir da fé. Que frutos a comunidade, a igreja está produzindo? O que Jesus fala sobre a figueira vale também para a igreja. Se a igreja
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não produzir em seu meio frutos de uma vivência do evangelho, quem sabe vai chegar o dia em que deixará de existir.
4 Imagens para a prédica Podemos trabalhar o texto de diferentes formas, com diferentes ênfases. Tenho a impressão de que poderíamos inclusive dividir o texto em dois e aproveitá-lo para duas pregações. a) Meditando os v. 1-5: Pode-se trabalhar o texto a partir de ditos populares: “Cada um colhe o que planta”, “Porque Deus é bom, deixa-nos plantar o que quisermos; porque Deus é justo, nós colhemos o que plantamos”, refletindo com a comunidade sobre o que estamos de fato dizendo quando afirmamos isso, reforçando que Jesus afirma que não podemos classificar as pessoas em mais ou menos pecadoras de acordo com o que acontece em sua vida. b) Conversar com a comunidade sobre o conceito de karma a partir da reflexão acima (na meditação). Talvez essas palavras não sejam conhecidas de todas as pessoas, mas os conceitos já estão bastante inseridos no dia a dia da comunidade. c) Ler o texto como um todo, enfatizando a afirmação de Jesus quando ele diz: “Se vocês todos não se arrependerem, todos perecereis”. Não adianta apenas um ramo da figueira produzir frutos. Esse cumpre sua parte, mas, se não houver a participação de todos os ramos, certamente faltarão os frutos que são tão necessários para que o mundo tenha vida. d) Uma quarta alternativa seria contar o exemplo de pessoas que viveram situações limítrofes da vida, chegando quase à morte, e sobreviveram. Passaram a interpretar o acontecido como uma segunda chance de Deus a elas e passaram a viver de modo totalmente diferente do que viviam.
5 Subsídios litúrgicos O Salmo 51 poderia ser lido com a comunidade como forma de confissão de pecados. Quem tem a possibilidade de projetar imagens no culto poderia cantar o Kyrie “Pelas dores deste mundo”, enquanto imagens de dor e sofrimento (acidentes, terremotos, deslizamentos, enchentes) são projetadas. No anúncio da graça, poderiam ser projetadas imagens que retratam o amor concretizando-se em gestos de solidariedade e cura.
Bibliografia CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo – Volume 2. São Paulo: Editora Hagnos, 2002. STÖGER, Alois. O Evangelho Segundo Lucas – Primeira Parte. Petrópolis: Editora Vozes, 1973.
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4º DOMINGO NA QUARESMA JOSUÉ 5.10-12 LUCAS 15.1-3,11b-32 2 CORÍNTIOS 5.16-21
5º DOMINGO NA QUARESMA JOÃO 12.1-8 ISAÍAS 43.16-21 FILIPENSES 3.4b-14
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DOMINGO DE RAMOS
PRÉDICA: LUCAS 19.28-40
24 MAR 2013
SALMO 118.1-2,19-29
Júlio Cézar Adam
1 Introdução Antes de entrar no texto bíblico da pregação, consideramos dois pontos importantes relacionados à celebração do Domingo de Ramos. a) A centralidade da Páscoa para a teologia e para a vida da igreja. A vida e a obra de Jesus só fazem sentido a partir de sua ressurreição, da Páscoa. Podemos dizer que todos os escritos sobre a vida de Jesus direcionam-se para a Páscoa. Todos os escritos anteriores à paixão, morte e ressurreição de Jesus são uma introdução desse evento, conduzem-nos para o evento da Páscoa, para o evento da cruz. Nosso texto, portanto, e o Domingo de Ramos, como data do calendário litúrgico, abrem a porta de entrada do grande evento cristão, pilar básico da teologia cristã. Jesus não está apenas entrando em Jerusalém. Ele está entrando no evento culminante de toda a sua obra: a Páscoa. b) Nesse sentido, também os primeiros cristãos celebravam o Domingo da Paixão, que dava início à Semana Santa. Segundo o diário de Etéria, do séc. IV, um dos lugares onde o povo se reunia nesse domingo era o monte das Oliveiras, local onde Cristo foi preso. De lá o povo rumava para Jerusalém, relembrando, assim, o início do grande evento da paixão, morte e ressurreição de Jesus, a Páscoa. A celebração era muito envolvente e dramática. Inclusive as crianças, até mesmo aquelas que ainda não andavam, iam junto com os adultos, levando ramos nas mãos e cantando “Bendito seja o que vem em nome do Senhor”. O nome Domingo de Ramos é dos séculos VII e VIII, alusivo ao uso dos ramos por parte da multidão, conforme os evangelhos de Mateus e de Marcos. Antes desse período, chamava-se Domingo da Paixão. Quanto à relação entre os textos previstos no Lecionário Comum Revisado, temos no Salmo 118.1-2 e 19-29 uma relação muito clara. Jesus é reconhecido como Filho de Deus por sua misericórdia, paz e bondade. Ele é o enviado, o messias. O versículo 38 – “Bendito é o que vem...” – de Lucas é uma clara referência ao versículo 26 do Salmo 118.
2 Exegese A localização geográfica do relato não é um acaso. Betfagé e Betânia, em direção ao monte das Oliveiras, são lugares-chave, lugares de salvação. Nessa região, Jesus é preso e ali ele ascende ao céu (Lc 24.50). Fecha-se, assim, um
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Domingo de Ramos
círculo: ali se iniciam os eventos da Páscoa e ali eles se encerram com a ascensão de Jesus aos céus. Os versículos iniciais do relato (v. 29-35), também nos textos paralelos, tematizam a busca e o uso do jumentinho. Há aqui uma clara intenção de confirmar a profecia de Zacarias. O uso do jumento novo como montaria por parte de Jesus representa a paz (v. 38), mais do que a humildade. Os reis voltavam a cavalo (Jr 8.6) após vencer a guerra. A realeza de Jesus é outra: a paz é sua marca. Segundo a profecia de Zacarias (Zc 9.9), animais ainda não montados, novos, têm relação com os animais que levaram a Arca da Aliança (cf. 1Sm 6.7; Nm 19.2). O jumento novo que leva Jesus está levando o autor, o protagonista da Nova Aliança. Em relação aos textos paralelos (Mt 21.1-11; Mc 11.1-11; Jo 12.12-19), o relato de Lucas sobre a entrada de Jesus em Jerusalém apresenta omissões e acréscimos. Lucas não menciona o gesto de cortar e usar ramos como saudação a Jesus (justamente aquilo que dá nome ao Domingo de Ramos a partir do século VII). Tampouco fala da aclamação hebraica hosana nem traz uma referência explícita a Zacarias (9.9) para justificar a escolha do jumentinho. Por outro lado, Jesus é saudado como rei em Lucas. Os que escoltam Jesus são seus discípulos, seus seguidores, testemunhos de sua prática libertadora. Não é a multidão que ainda não o conhece que o aclama somente. Seus seguidores querem vê-lo tomando o poder. Puseram-se jubilosos a louvar a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto (v. 37). Aclamam Jesus com o canto dos anjos na noite de seu nascimento (2.14): “Paz no céu e glória nas maiores alturas” (v. 38), confirmando o seu nascimento como sendo, sim, o do Salvador. A ação dos discípulos é fundamental no relato. Eles não só buscam o jumentinho, mas também colocam suas vestes sobre ele, ajudam Jesus a montar, louvam a Deus pelos milagres que viram Jesus fazendo, chamam Jesus de rei. Realmente, se eles se calassem, as pedras clamariam. Há nesse protagonismo não só um reconhecimento da autoridade messiânica de Jesus, mas também um tomar parte no projeto de Jesus. Há um protagonismo messiânico por parte dessa multidão de discípulos, essa comunidade que com ele andou e que se apresenta nessa última marcha para dentro da Páscoa em Jerusalém. Também o final da perícope (v. 39 e 40) é mais precisamente de Lucas e reforça esse protagonismo decisivo dos discípulos e das discípulas de Jesus. Os fariseus pedem que Jesus repreenda seus discípulos, o que ele contesta com a resposta: Se eles se calarem, as próprias pedras clamarão. E, de fato, clamarão, porque eles já não podem segurar a voz.
3 Meditação Como já falamos na introdução deste auxílio, estamos às portas do grande acontecimento cristão: a Páscoa de Jesus Cristo, a nova aliança de Deus conosco. A comunidade dos quatro primeiros séculos celebrava a entrada de Jesus em Jerusalém, indo até o monte das Oliveiras e caminhando de lá até Jerusalém, encenando esse relato (talvez seguindo mais a versão de Mateus do que a de Lucas). A comunidade remontava assim a geografia daquilo que Deus fez por nós em Jesus
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Domingo de Ramos
Cristo: no monte das Oliveiras, Jesus vai ser preso, em Betânia ele irá subir ao céu, segundo o evangelista Lucas. O Domingo de Ramos celebra o início dos eventos da Páscoa. É a celebração da entrada na Páscoa. O Domingo de Ramos é o portão da Páscoa. Jesus não está apenas entrando em Jerusalém, está entrando no evento da Páscoa, está assumindo a Páscoa. O relato de Lucas sobre esse evento é também a confirmação da obra de Jesus por parte de seus discípulos, a multidão de seus seguidores, daqueles que viram, ouviram, sentiram e experimentaram na caminhada e na vida de Jesus os sinais messiânicos da libertação. Quem saúda Jesus não são os moradores da cidade, mas a comunidade de discípulos e discípulas, aqueles que andam com ele. A exaltação ocorre antes mesmo dos portões da cidade, pois o reconhecimento de Jesus como Messias já havia se dado ao longo da jornada. Os discípulos e as discípulas já haviam reconhecido através de sua ação e suas palavras que ele era o Cristo, o Rei, o Filho de Deus, o Bendito Rei que vem trazer paz e glória nas alturas. A cruz dos próximos dias confirmará tudo o que eles já haviam vivenciado na longa jornada de libertação. Não há como calar a voz diante desses feitos. Se os discípulos se calassem, até mesmo as pedras falariam, diz Jesus. O Evangelho segundo Lucas quer lembrar isso nesse relato. Parece-me que esse aspecto poderia ser aprofundado na pregação. A entrada de Jesus em Jerusalém é uma forma de noticiar quem foi Jesus, não a partir de atos isolados, mas a partir de toda a sua vida. A Páscoa será a culminância de toda uma jornada, iniciada já em Belém e desenvolvida na caminhada da Galileia a Jerusalém. É como se essa breve descida do monte das Oliveiras até Jerusalém representasse a grande caminhada de Jesus com seus discípulos. A paixão, morte e ressurreição nos dias que seguem serão novamente a exaltação, a culminância da grande trajetória, trajetória que nós, como igreja, como comunidade, continuamos protagonizando hoje. O evento da cruz confirmará de forma intensa e dramática toda a caminhada anterior. Nós somos os discípulos de hoje. Somos a comunidade, os protagonistas da caminhada, movidos pelo Espírito Santo. Somos os que ajeitam o jumento da montaria, colocando vestes sobre ele, ajudando Jesus a montar, aclamando-o como rei da paz. Se nos calarmos diante do que temos visto e ouvido, as pedras irão falar. Se nos calarmos diante da trajetória de Jesus, que se confirma em sua Páscoa, as pedras irão falar, tamanhas a novidade, a radicalidade e a potencialidade do acontecido. Pois em Jesus Cristo está tudo o que Deus tem a nos dizer (N. Kirst). As pedras falam se nos calarmos. E, talvez, é exatamente isso o que tem acontecido: cada vez que não anunciamos a Cristo, toda vez que não profetizamos contra a injustiça, a exclusão, a destruição da natureza, estamos calando. E as pedras falam! São obrigadas a falar do que a gente, os discípulos dele, já não conseguem ou não querem falar. Às vezes, tenho a impressão de que outros projetos, como projetos ecológicos, organização de defesa da dignidade humana, centros de formação, atividades culturais, como a música e o cinema, a arte, têm falado mais às pessoas da boa-nova da vida do que a própria igreja. Não que outros pro-
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jetos não devam e não possam falar. A cultura como um todo é também espaço da ação generosa e surpreendente do Espírito Santo. O que me assusta é que a igreja se cala. Tornamo-nos, talvez, assim como os fariseus do relato de Lucas, aqueles que querem que os que reconhecem, promulgam e proclamam a Jesus, os discípulos e discípulas, os coprotagonistas da Páscoa, se calem.
4 Imagens para a prédica O Domingo de Ramos ou o Domingo da Paixão é uma forma de lembrar a trajetória de Jesus com seus discípulos até ali como conteúdo da Páscoa. A Páscoa é a culminância de toda uma caminhada de libertação. O Domingo de Ramos é a confirmação de uma longa trajetória. O Domingo de Ramos é um estar entre a caminhada anterior e a caminhada dos últimos dias, culminando na Páscoa. A pregação poderia ser um momento oportuno para refletir sobre a caminhada da própria comunidade. De onde está vindo e para onde está indo? Como a comunidade está indo para a Páscoa, mas também vindo da Páscoa? Para onde a Páscoa levará a comunidade? Ficamos no mesmo lugar? Os primeiros cristãos, que caminhavam o mesmo trecho dos relatos, testemunham de forma intensa e dramática esse movimento com Jesus. Eles se faziam protagonistas com Jesus Cristo. E a nossa comunidade? Para onde vai? O uso de pedras no templo, no chão e nos assentos talvez seja uma bela forma de lembrar as organizações, espaços, iniciativas, projetos e pessoas que falam mais da novidade de Cristo, da vida em abundância, da paz do que a própria comunidade. Poder-se-ia refletir onde e quando a comunidade, assim como os discípulos, tem proclamado a Cristo e o quanto tem se calado. Uma frase de Martin Luther King pode ser um bom recurso nesse sentido: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.
5 Subsídios litúrgicos A antífona para o ano C é o Salmo 71.14: “Quanto a mim, esperarei sempre e te louvarei mais e mais”. Poderia ser usado o próprio Salmo 118.26: “Bendito o que vem em nome do Senhor. A vós outros da casa do Senhor, nós vos abençoamos”. Uma bela litania e antífona do Salmo 118 encontra-se no CD “Ao fim do dia”, produzido pelo catequista Louis Marcelo Illenseer, e poderia ser um bom recurso litúrgico para o culto.
Bibliografia KODELL, Jerome. El Evangelio de San Lucas. Collegeville: The Liturgical Press, 1995. L´EPLATTENIER, Charles. Leitura do Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulinas, 1993.
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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 11.23-26
QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
ÊXODO 12.1-4(5-10) JOÃO 13.1-17,31b-35
28 MAR 2013
Werner Wiese
1 Introdução O texto proposto para a pregação na Quinta-feira da Paixão é 1 Coríntios 11.23-26. O texto todo trata da Santa Ceia. Quinta-feira da Paixão e Santa Ceia são factualmente inseparáveis. Conforme antiga tradição da igreja cristã, foi nesse dia que Jesus instituiu a Santa Ceia no círculo de seus discípulos, e de lá para cá ela é celebrada em toda a cristandade até o dia de hoje e seguramente será celebrada até a consumação da história derradeira de Deus com seu povo. Se com o Domingo de Ramos inicia a Semana da Páscoa, então a Quinta-feira da Paixão é um marco dentro dessa semana. De acordo com a tradição da igreja antiga, na Quinta-feira da Paixão termina o período da Quaresma (40 dias de jejum, que vão da Quarta-feira de Cinzas até o Domingo da Páscoa). A Quinta-feira da Paixão é o último dia antes do “grande luto” por causa da paixão e morte de Jesus – o “Cordeiro Pascal” de Deus (o noivo não estará mais presente como antes; cf. Mc 2.20). Aqui é possível fazer o link com o texto do Antigo Testamento indicado para leitura no culto. Êxodo 12.1ss é o pano de fundo primeiro da Páscoa cristã. Páscoa para Israel significava a libertação da escravidão no Egito; para os cristãos, significa a libertação da escravidão do pecado e da morte por meio de Jesus Cristo. Dificilmente, haverá um culto na Quinta-feira da Paixão que não seja culto de Santa Ceia, ao menos nas comunidades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. E quem vem para o culto nesse dia vem por ser culto de Santa Ceia. Sendo assim, convém lembrar os acontecimentos centrais desse dia (14° de Nissan): Jesus institui a Santa Ceia; Jesus ora no Getsêmani; Judas trai a Jesus; os discípulos são dispersos como ovelhas que não têm pastor; Pedro nega a Jesus. Olhando sob esse prisma, pode-se fazer facilmente a ligação com o segundo texto indicado como leitura bíblica para o dia: João 13.1ss – o lava-pés. Aliás, em muitos lugares, também é celebrada o lava-pés na Quinta-feira da Paixão.
2 Exegese 2.1 – Olhando para o contexto Em nenhuma outra carta do Novo Testamento, a instituição da Ceia do Senhor é mencionada ou retratada “literalmente”. Por esse motivo, é importante
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Quinta-feira da Paixão
perguntar pela razão da inclusão da instituição da Ceia do Senhor na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios. 1 – A situação na comunidade cristã. A comunidade cristã de Corinto era fruto do trabalho missionário-evangelístico de Paulo por volta do ano 51 d.C. Ela passava por uma série de problemas de ordem interna, que, se não ameaçavam sua existência, colocavam em xeque o testemunho do evangelho. Por esse motivo, Paulo escreveu cartas à comunidade cristã de Corinto. 1 Coríntios foi escrita por volta dos anos 54-55 d.C. Um dos problemas de ordem interna estava ligado à celebração da Santa Ceia. Aliás, se não houvesse problemas com a Ceia do Senhor, não haveria necessidade de Paulo escrever a respeito. Isso se deduz claramente dos versículos precedentes (v. 17-22) e subsequentes ao nosso texto (v. 27ss). Desde os primórdios, parece não ter havido dúvida não só quanto à importância da Ceia do Senhor para a igreja cristã, mas também quanto à maneira de celebrá-la de forma condigna. Em Corinto, ao menos a partir de um dado momento, isso não estava mais claro para todos, não porque não tivessem recebido orientações a respeito. O v. 23 não deixa dúvidas sobre isso: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei”. Em 1 Coríntios 11.2-16, Paulo manifestou-se a respeito de uma questão individual da ordem do culto – era uma questão que não dizia respeito, em primeiro lugar, ao conteúdo ou à essência do culto, mas que, na verdade, era mais uma questão cultural do que cultual. Paulo iniciou com louvor à igreja (v. 2). A partir de 1 Coríntios 11.17ss, o apóstolo pronuncia-se sobre a celebração da Santa Ceia na comunidade cristã em Corinto. Dessa vez, contudo, ele não inicia com louvor (v. 17a, 22b), mas censura duramente o comportamento da comunidade (v. 17b). No parecer de Paulo, o que se celebrava na comunidade cristã em Corinto não era mais a Ceia do Senhor (v. 20). A Ceia do Senhor, literalmente, não pode ser celebrada de “qualquer jeito” ou ao bel-prazer das pessoas presentes. O que vinha acontecendo? Não é mais possível definir com última clareza o detalhe do problema. De qualquer maneira, Paulo constata que os coríntios se encontram “não para melhor e sim para pior” (17b). A palavra traduzida como se encontrar ou se reunir é synerchomai (v. 17b, 20a) e é um termo técnico para realizar assembleia, i.e, para reunir-se como igreja. O v. 21 destaca: “... cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia...” A palavra grega para antecipadamente é prolambanein e, a princípio, pode ser entendida de duas maneiras: – Primeiramente, pode destacar o tempo em que algo acontece. No período neotestamentário inicial, casas de pessoas economicamente melhor situadas serviam como espaço de culto. Ademais, naquela época, era comum celebrar refeições comunitárias no contexto do culto e da Ceia do Senhor. Provavelmente, iniciava-se com a refeição comum e, ao término dessa, celebrava-se a Santa Ceia. Nesse caso, membros ricos, em cujas casas a comunidade se reunia e que eram responsáveis pela comida (refeição), não esperavam pela vinda dos mais pobres, que eram escravos/assalariados e dependiam da boa vontade de seus patrões para ser liberados e poder participar do culto. E, quando os membros mais pobres chegavam à comunidade, os ricos com seus amigos já haviam comido. Os menos
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favorecidos tinham que comer os restos. Na verdade, isso podia ser muito constrangedor. – Por outro lado, prolambanein pode referir-se à maneira de proceder, ou seja, tomar a Ceia para si. O v. 21, então, destacaria que cada um tomava (comia) o que tinha trazido. Nesse caso, os ricos comiam muito, e os pobres pouco ou nada. Seja como for, em ambos os casos, era uma desconsideração de uns para com os outros (U. Wilckens). Isso estava em frontal contradição com o que o próprio Jesus demonstrou na instituição da Santa Ceia e demonstrou ao dar sua vida por muitos. Com o passar do tempo, a ceia comunitária e a Ceia do Senhor foram completamente desvinculadas, e a ceia comunitária era chamada de ágape. Por fim, abdicou-se inteiramente da ceia comunitária regular. 2 – Consequências da celebração da Ceia do Senhor (1Co 11.27ss). Como outros dons da salvação ou meios da graça, como se costuma dizer às vezes, também a Ceia do Senhor foi dada para a edificação da comunidade cristã – para o bem de todos os que dela fazem parte. Contudo, por se tratar da Ceia do Senhor, como expressão do fato de Jesus ter dado corpo e sangue para a comunidade cristã, participar de forma indigna dela significa tornar-se culpado em relação ao próprio Cristo. Mas o que significa comer e beber indigna ou dignamente? A resposta está nos versículos 27-29: Não se trata, como muitas vezes se tem pensado e dito, de alguém merecer participar da Santa Ceia ou de não participar dela por ter cometido algum pecado, por causa do qual se tornou indigno. Trata-se, sim, de pecar, ou seja, de não considerar a Ceia do Senhor como comunhão dos crentes. Em jogo está uma conduta que desconsidera e humilha o irmão e a irmã no interior do culto e da comunidade. Resguardadas as devidas proporções, nesse contexto convém remeter a palavras como Mateus 5.21-26. 2.2 – Aspectos linguísticos e teológicos 1 – Os elementos estruturais do texto são: Introdução (v. 23a); núcleo (v. 23b-25); conclusão ou elemento explicativo (v. 26). Essa estrutura tem conotações teológicas claramente configuradas, que podemos sintetizar da seguinte forma: ao se pronunciar sobre a Santa Ceia, Paulo não traz ideias próprias, quem sabe para dizer ou sugerir uma vez algo diferente, como é muito comum ouvir em nossos dias. Pelo contrário, o que o apóstolo tem a dizer, ele também recebeu (v. 23a). Disso se deduz que, já por ocasião da evangelização e fundação da comunidade em Corinto, Paulo havia falado claramente sobre a Ceia do Senhor, o que ela é e significa para a comunidade toda. Portanto, o que ele escreve aqui serve para ratificar o que, desde o início, fez parte do fundamento da doutrina e vida cristãs. Isso não deve ser negligenciado nem deformado sob pena de perdas sérias. 2 – A natureza da Ceia do Senhor: Já na introdução, Paulo sinaliza que a Ceia do Senhor só pode ser recebida. Ele mesmo, como apóstolo, recebeu-a do Senhor (= parelabon apo tou kyriou). Isso vale para outros elementos centrais da proclamação apostólica também (cf. 1Co 15.1-3). Surge a pergunta: Como ou onde a recebeu? Não se deve pensar que foi no evento Damasco (At 9.1ss) nem
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que em algum outro momento Jesus Cristo tenha aparecido outra vez a Paulo para lhe falar a respeito da Ceia, mas o apóstolo a recebeu do Senhor mediado pela comunidade cristã, provavelmente da comunidade cristã da Antioquia, onde Paulo passou algum tempo antes de suas viagens missionárias. O termo “eu recebi” (parelabon) é um termo técnico para indicar tradição recebida. Tão certo como os bens salvíficos não advêm de pessoas, tão certo igualmente é que o Senhor não no-los dá sem pessoas, ou seja, desvinculados de sua história com seu povo. 3 – O núcleo traditivo da Ceia do Senhor (v. 23b-25): O conteúdo formal do texto é muito conhecido. Por esse motivo não se entra aqui em detalhes do texto. Limitamo-nos a destacar alguns elementos centrais. Quanto ao conteúdo, a Santa Ceia remonta ao próprio Jesus. Foi ele quem a instituiu na última ceia que celebrou com seus doze discípulos na Quinta-feira da Paixão. Seu conteúdo é transmitido em quatro ou cinco textos no Novo Testamento. Trata-se de textos que podemos chamar de paralelos de primeiro grau, ou seja, têm o mesmo núcleo. Seguindo a sequência dos livros do Novo Testamenbto, são os seguintes textos: Mateus 26.26-30; Marcos 14.22-25; Lucas 22.16-20; 1 Coríntios 11.2326,30. Uma versão bem diferente de texto que alude, de forma indireta, à mesma realidade é João 6, principalmente os v. 51c,53-56; ao menos essa é a opinião de muitos intérpretes. Ademais, em 1 Coríntios 10, Paulo também alude à Santa Ceia (cf. v. 16-17,21). Uma leitura comparativa dos quatro primeiros textos mencionados acima (Mt 26; Mc 14; Lc 22; 1Co 11) constata pequenas diferenças. Isso pode ser um indício de que existiam meios de transmissão (recepção, preservação, interpretação [?]) diferentes. Na versão grega dos textos, as chamadas ao aparato crítico o reforçam. Parece que Mateus e Marcos seguiam uma versão, Lucas e Paulo, outra. Em tese, é possível dizer o seguinte: Mateus e Marcos são praticamente iguais entre si; a única diferença “significativa” é que Mateus acrescenta a frase “para remissão de pecados” (Mt 26.28c). Por outro lado, Lucas e Paulo divergem um pouco de Mateus e Marcos e são praticamente iguais entre si; a única diferença “significativa” é que Paulo omite a frase ou expressão “derramado em favor de vós”; mas isso está subentendido a partir da palavra explicativa sobre o pão “dado por vós” (1Co 11.24). Ambos – Lucas e Paulo – usam a expressão “fazei isto em memória de mim”. Lucas limita-se a dizer isso em relação ao pão (Lc 22.19), enquanto Paulo usa o “fazei isto em memória de mim” tanto na palavra referente ao pão como ao vinho ou cálice (1Co 11.24,25). Diferenças que caem em vista são: Mateus e Marcos omitem a expressão “fazei isto em memória de mim”; Lucas e Paulo omitem a expressão “para remissão de pecados”, que encontramos em Mateus 26.28c; Paulo omite a expressão “jamais beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei, novo, no reino de Deus” (Mc 14.25 e levemente modificado em Mt 26.2). Mas essa “omissão” parece estar subentendida no v. 26 de 1 Coríntios 11: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”; ademais, a expressão “em favor de muitos” em Mateus 16.28b e Marcos 14.24b é substituída em 1 Coríntios 11.24b pelas palavras “dado por vós”.
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Conclusão: As diferenças constatadas não afetam a substância ou o núcleo da questão – a Ceia do Senhor. Pelo contrário, elas a trazem bem à tona. E o núcleo remonta ao próprio Jesus. Ressalte-se, ainda, que expressões como “Isto é meu corpo dado por vós... Isto é meu sangue da nova aliança derramado por vós” adquirem peso quando ouvidas a partir de textos como Jeremias 31.31-34 e Isaías 53 e como cumprimento maior desses na pessoa de Jesus. O “por vós” certamente deve ser entendido como sacrifício propiciatório e substituto (cf. Rm 3.24ss; 2Co 5.14ss, especialmente o v. 21). 4 – Palavras explicativas (v. 26): Elas devem ser ouvidas a partir das palavras de Jesus que constituem o núcleo do texto da pregação. Nesse versículo, Paulo ressalta inequivocamente o caráter proclamatório da celebração da Ceia do Senhor de acordo com a vontade do próprio Senhor e da mais profunda convicção apostólica primitiva. Dessa forma, o culto adquire características escatológicas: quer apontar para além de si mesmo – para o reino de Deus, que virá no futuro em sua plenitude.
3 Meditação e imagens para a prédica Conscientizemo-nos de que a maioria das pessoas vem para o culto de hoje por causa da celebração da Santa Ceia; entre elas há provavelmente um bom número de pessoas que nem sempre vem ao culto. A combinação de Quinta-feira da Paixão com o texto escolhido para a prédica é uma oportunidade ímpar para a proclamação do evangelho em seus elementos mais preciosos. Mencionar brevemente o contexto originário da Santa Ceia, ou seja, em que situação primária Jesus a instituiu, e o que tudo aconteceu nesse mesmo dia é importante. Além disso, tanto o contexto vivencial do texto da prédica (comunidade cristã de Corinto) como as consequências emergentes da celebração da Ceia do Senhor deveriam ser levados em consideração na pregação e ser ditos com clareza, convicção e graciosamente. O pregador e a pregadora hão de ser realistas e não querer dizer tudo o que pode ser dito sobre a Ceia da Senhor; não faltará oportunidade para dizê-lo – talvez dentro de uma sequência planejada de pregações no contexto de cultos com Santa Ceia. Para a interpretação e a pregação por ocasião da celebração da Ceia do Senhor, pregadores e pregadoras farão bem se considerarem as diferenças entre os textos bíblicos da tradição da Ceia, não para optar por uma em detrimento de outra, mas para ter uma compreensão o quanto mais equilibrada possível e para evitar unilateralidades excludentes. Nem sempre na história da igreja levou-se isso em consideração; razão de unilateralidades, anatematizações e divisões que depuseram contra o testemunho claro da Santa Ceia como expressão da presença do Senhor e da comunhão entre os crentes ou comungantes. Sem dúvida alguma, o núcleo da Santa Ceia não são o pão e o vinho ou o cálice como tais nem o que Paulo vai dizer como explicação (v. 26), mas as palavras explicativas do próprio Jesus. Ao partir o pão e proferir a bênção e tomar um cálice e dar graças, Jesus repetiu um gesto comum do judaísmo de sua época. Assim o pai ou chefe de família piedosa procedia no judaísmo. O novo e singular
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da ceia que Jesus celebrou na Quinta-feira da Paixão com seus doze discípulos está nas palavras interpretativas dele: “Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue... dado... derramado...” Ao dizer isso, Jesus fez duas coisas: reinterpretou a ceia pascal dos judeus; ao fazer isso, o próprio Jesus interpretou sua morte que aconteceria em breve a partir do agir de Deus no passado e como novo agir de Deus no presente. Aqui o Senhor mesmo se dá para “muitos” ou para “nós” – nada menos e nada diferente. Esse dar-se é irrestrito e incondicional, mas não é mágica nem tem ar de leviandade. Dito com outras palavras: a Ceia do Senhor não deve ser celebrada de qualquer jeito. O Senhor se deu e dá por muitos, por nós. É ele quem convida não só a mim pessoal e individualmente, mas nos convida. Isso significa que ele nos convida para a comunhão consigo mesmo e de uns para com os outros. Por isso ela requer ambiente condigno de mesa do Senhor. Há de se dizer na prédica, sim, que existe um comer e beber a Santa Ceia de forma digna e indigna. Contudo, digno e indigno não significa dizer se alguém merece ou não merece participar da mesa do Senhor. Merecer ninguém merece. Fato é que cada um e todos necessitam profundamente da mesa do Senhor – dádivas do Senhor. Condignamente, a Ceia é celebrada se o amor fraternal determina o comportamento na comunhão, especialmente a comunhão da mesa comum. Amor fraternal não é sinônimo de sentimentos simpáticos nem se esgota em palavras e abraços. Ele se externa acima de tudo no comportamento concreto que prestigia o irmão, a irmã e não os humilha. Um texto como o de hoje pode, sim, levar à confissão concreta de pecados cometidos contra o próximo. Onde houver confissão de pecados, também de pecados concretos, não hesitaremos no anúncio do perdão concreto. O exposto acima pode guardar-nos de extremos como legalismo, individualismo e graça barata, como disse Dietrich Bonhoeffer.
4 Subsídios litúrgicos Toda a ordem do culto (liturgia) deve ser bem pensada e não pode ficar por conta de improvisos e inspirações momentâneas. A celebração não deve dar a impressão de que a Santa Ceia é um culto à parte do culto, mas está indissociavelmente ligada a esse como parte integrante. O que deveria caracterizá-la não é que ela demore mais do que um culto normal. Ligado à saudação trinitária, seria desejável deixar bem claro o específico do dia e do culto. Obviamente, hinos não faltam e devem ser bem escolhidos. Um hino que ajudaria a focalizar o momento específico da Quinta-feira da Paixão (ou Sexta-feira Santa) é do pastor F. von Bodelschwingh: 1. Nossos corações pertencem ao varão de Gólgota, Que, por ter sofrido a morte, vida e salvação nos dá, Que o mistério do juízo ao Seu povo revelou, Que em angústias e tormentos Vida e paz nos conquistou.
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As orações, especialmente a confissão de pecados, deveriam levar em conta os aspectos concretos da celebração condigna da Ceia do Senhor, como foi mencionado na meditação. Ademais, obviamente, recomenda-se fazer uso de material específico, elaborado para dias celebrativos como o de hoje.
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Editora Sinodal & Faculdades EST, 2008. JEREMIAS, Joachim. Isto é o meu corpo. São Paulo: Edições Paulinas, 1978.
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PRÉDICA: LUCAS 23.33-49
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
OSEIAS 5.15b-6.6 HEBREUS 4.14-16; 5.7-9
29 MAR 2013
Martin Norberto Dreher
1 Introdução Sexta-feira da Paixão é dia de confissão de fé. Somos perguntados sobre onde depositamos nossa fé e nossa esperança. Somos perguntados se cremos em um Deus real ou em um Deus feito à nossa imagem e semelhança. Somos perguntados por nossa relação com o primeiro mandamento do Decálogo. Quem e como é nosso Deus? Temos outros deuses ou temos o Deus que se revelou em vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo? Tememos e amamos a Deus assim como Ele é? Deixamos que Deus seja Deus? Aguentamos o anúncio de que Deus tem o rosto do crucificado e que é reconhecido em suas chagas? Somente quando fazemos essa última confissão é que estamos falando do Deus cristão. Só assim poderemos dizer as coisas como elas são: Que Deus é Deus, que eu sou criatura; que Ele é Deus, eu um pecador; que Ele salva o pecador, não o justo; que a cruz condena e julga o mundo que só nele pode encontrar salvação; que seu amor é juízo e salvação.
2 Exegese V. 33 – Ao valer-se da expressão kranion (caveira) em vez da expressão hebraica Golgotha, Lucas lembra-nos que em Jerusalém havia sítios para os quais eram utilizadas duas designações. Não é possível afirmar com segurança o sentido da designação. Com a formulação “bem como aos malfeitores”, Lucas pressupõe que seus leitores, ou leitor (Teófilo), conheçam essa tradição. Ao ser colocado entre os malfeitores, Jesus é considerado o pior deles. V. 34 – As palavras de Jesus estão ausentes em uma série de manuscritos importantes. Será que eles as eliminaram porque, aparentemente, estavam em contradição com as palavras de juízo (v. 28-31)? Não creio. Deve tratar-se de esquecimento do copista, repetido por todos aqueles que o copiaram. Repartir as vestes e sorteá-las é uma tradição romana. V. 35 – Diferentemente dos outros evangelhos, o “povo” não participa da zombaria. Observo a utilização do verbo “salvar” neste e nos próximos versículos. Observe-o também o pregador! V. 36 – “Vinagre” de vinho era utilizado como refrigerante entre os soldados. Para o leitor fica a pergunta: O refrigério busca mitigar a sede do condenado ou quer revitalizá-lo para que seja mais violentamente atingido pelo escárnio?
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V. 38 – A inscrição acima da cabeça de Jesus é uma formulação romana que expressa desprezo em relação aos judeus. Certamente é autêntica. A referência que deve ter sido escrita em três idiomas só aparece em pergaminhos de menor importância. V. 42 – Em Marcos e Mateus, os dois malfeitores debocham de Jesus; em Lucas, apenas um. Os manuscritos apresentam diversas variantes. Como interpretar as palavras do malfeitor? Talvez: “Quando vieres para instalar teu Reino”? V. 44 – A sexta hora corresponde ao meio-dia. Os sinais no céu e as palavras do v. 45 apontam para a importância dessa morte para o mundo e para a igreja. V. 46 – A tradição na qual Lucas se baseia sabe que o brado final de Jesus é uma oração. A oração noturna era feita por volta da hora nona. Ela é proferida acrescida do vocativo pater (pai), sempre de novo utilizado por Jesus (cf. Sl 31.5 e 6). V. 47 – Primeiro Pilatos (v. 4,14,22), agora o oficial apresenta-se como testemunha da inocência de Jesus. Jesus convence malfeitor e executor.
3 Meditação Lucas conhece a história da paixão segundo Marcos, mas lhe acrescenta algo mais. Desse algo mais fazem parte os versículos 46, 48 e 49 em nossa perícope. Esses versículos nos permitem dizer como Lucas entendeu a paixão de Jesus. A comunidade conhece a história da paixão como harmonia das tradições dos diversos evangelistas. Como a cena da crucificação é conhecida da comunidade, cabe ao pregador destacar a leitura de Lucas. Lucas menciona três ditos do crucificado. Neles encontramos o cerne de nossa perícope. Podemos perguntar se Lucas tomou a liberdade de divagar. Podemos perguntar se ele inclui elementos da tradição da qual os demais evangelistas não dispunham. Podemos constatar que Lucas depende, em muitos aspectos, de Marcos. No entanto, omite o brado de Jesus, que sente abandono de Deus (Sl 22.2). Além disso, reformula o último brado de Jesus (cf. Mc 15.37). Qual a intenção de Lucas? Há autores que pensam que Lucas quer apresentar Jesus como o protomártir. Outros afirmam que Lucas tem uma intenção apologética. Pode ser. Penso, contudo, que Lucas pretende acentuar o caráter salvífico da crucificação, seu caráter evangélico. Lembro as muitas vezes em que o verbo sozein (salvar) aparece nas formulações de Lucas. De “salvar” fala o restante do texto, mesmo quando o verbo não aparece. “Salvar” parece-me ser um verbo-chave no restante do Evangelho de Lucas. O relato de Lucas na presente perícope é anúncio/pregação. O exegeta também não consegue mais distinguir entre fato e pregação. Os dois atos estão intimamente ligados. Penso que a intenção de Lucas pode ser resumida em três substantivos: perdão, esperança e conversão. 3.1 – No texto de Lucas, mesmo que ele omita radicalidades contidas em Marcos e em Mateus, ainda se evidencia o terrível do que foi feito com Jesus. Os evangelhos não são detalhistas no tocante à crucificação. Por isso a pregação deveria evitar ser detalhista. Nós seres humanos somos mestres em descrever o so-
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frimento de pessoas que detestamos: quanto maior nosso ódio, tanto mais intensas as cores com as quais descrevemos seu fim miserável, seu sofrimento intenso. Os séculos 20 e 21 têm sido mestres na descrição de sofrimentos. Quando Jesus se submete à tortura, sem opor resistência, solidariza-se com todos aqueles que, ao longo da história, se submeteram ao mesmo processo de ser torturados por outros. Os companheiros de Jesus não são ladrões (Marcos), mas “criminosos”. Ao acentuar que Jesus é crucificado entre os que “com razão” sofrem a tortura, Lucas destaca que “ele não fez nada de mau” (v. 41). Mesmo assim, Jesus encontra-se entre “criminosos” (22,37). Ao longo do evangelho, Lucas disse quem era esse Jesus que agora é crucificado. Não faz sentido, é injusto, loucura aquilo pelo que está passando: escárnio e opressão têm que ser suportados pelo santo. Toda a baixeza de que o ser humano é capaz volta-se contra o santíssimo. Jesus não foi torturado apenas pelos romanos. É grande o coro dos escarnecedores, e o povo fica olhando. Os soldados não são os únicos escarnecedores. O sozein (salvar) repete-se diversas vezes para ridicularizar o “salvador” da comunidade. Os “líderes” que deram início ao processo atingem o nervo da questão, pois ele é o Messias, é o eleito, é o Filho de Deus: que faça uso de suas prerrogativas e transforme-se de réu que é em juiz! Que evidencie o erro do judiciário! É verdade que eles não sabem quem é Jesus. Mas, mesmo que seja simplesmente ser humano, Deus não quer que se toque no ser humano, que ele seja torturado. Desde que Deus se irmanou com o ser humano, o que atinge o ser humano também atinge Deus. A Sexta-feira Santa desvenda o pecado do mundo. Esse é o centro de rotação desse acontecimento que decide sobre bondade ou maldade na história da humanidade. Jesus não está a serviço de si mesmo, como lhe é sugerido. Ele nos ajuda, nos serve. Não desce da cruz para assumir a função de juiz. Sofre e torna-se intercessor. Ali onde acontecem a confissão de culpa do criminoso e a absolvição por parte do sumo sacerdote, Ele implora pelos que são culpados por sua morte, pedindo que o Pai perdoe o pecado no qual culminam todos os pecados da humanidade. Só Ele está autorizado a fazer tal pedido (veja a Epístola aos Hebreus). O texto não nos diz nada acerca do alcance de sua intercessão. Quem são “eles” (v. 34) que não sabem o que fazem? Os legionários romanos sabem o que fazem. Os que “não sabem” são todos aqueles que são seres humanos. O “não saber” faz parte de nossa essência humana: somos desesperadamente monstruosos. Jesus não morreu contra o mundo pecador, mas por ele. A pregação da Sexta-feira Santa não pode se contentar em acusar o “mundo” que crucificou Jesus; devemos oferecer-lhe o perdão por Ele oferecido. Lucas sublinha essa situação magistralmente: no mesmo instante em que o mundo executa Jesus, no mesmo instante em que o mundo deveria terminar sob o juízo divino, nesse mesmo instante Jesus lhe oferece perdão. Essa é a grande transformação. Por isso o véu do templo se parte (v. 45); por isso há acesso a Deus. 3.2 – Só Lucas sabe do diálogo de Jesus com os criminosos. Mateus e Marcos nada sabem do fato de um deles haver confessado culpa e se dirigido a Jesus. Só afirmam que ambos teriam debochado de Jesus. Deixemos de lado essas observações. Centremo-nos em Lucas. O primeiro dos criminosos pensa como as elites que debocham de Jesus. Ataca, como elas, a messianidade de Jesus; disso
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se pode concluir que ambos são zelotes. Estão desapontados, pois, ao sugerir que Jesus faça uso de sua messianidade, talvez tenham a esperança de com ele sair da situação em que se encontram. Já vimos que Jesus não entendeu dessa forma sua messianidade. O criminoso escandaliza-se com a cruz, assim como os discípulos de Emaús: “Nossa esperança era que fosse ele quem iria libertar o povo de Israel” (Lc 24.21). Ele se escandaliza do mesmo modo que se escandaliza o membro tentado da comunidade: “Se Jesus é meu Salvador, deveria ...”. Desilusão e deboche estão muito próximos um do outro. Veja-se, contudo, o outro criminoso: “Estamos debaixo da mesma condenação. Deveríamos temer a Deus”. Vale-se da confissão que cabia ao criminoso fazer ao sumo sacerdote antes de ser por esse absolvido. Só que o criminoso faz a confissão voltado para Jesus. Reconhece a messianidade de Jesus e expressa esperança: para além da morte, espera que, quando Jesus voltar, lembre-se dele. Assume culpa e espera perdão no final dos tempos. E ... Jesus abre-lhe os portões do Reino. Promete-lhe “ainda hoje” lugar no paraíso, sem impor condições. Não deveríamos violentar/forçar o “ainda hoje” (cuide-se que a forma verbal é ése e não ei). A justificação por graça e fé não elimina dor, calor, sede, angústia, convulsões, cruz, mas anuncia, com certeza, que após a morte Deus preparou vida eterna em comunhão com Ele. Quem morre em Deus pode saber que o instante que segue seu último suspiro é despertar no “hoje” eterno. Essa é a esperança que se destina ao criminoso e a toda pessoa que se dirige a Jesus, como ele fez. 3.3 – Às 15h, os trombones do templo ressoam através de Jerusalém. O moribundo da cruz de Gólgota ouve-os e ora a oração que todo o povo de Israel profere nessa hora: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. O contexto não nos permite afirmar se foi proferida com tranquilidade ou se ainda é procura veemente por ajuda de Deus. Lucas é parcimonioso. Não busca por detalhes. Relata o acontecido: morre o justo (palavras do centurião). Os que haviam gritado “crucifica-o” e vieram para “olhar” (theorein) são convertidos enquanto olham. Lucas evangeliza. O que Jesus padece, faz e diz só pode ser percebido e apreendido quando meros espectadores descobrem que o que aconteceu no outeiro da Caveira aconteceu pro me, pro nobis – por mim, por nós.
4 Imagens para a prédica No Rio Grande do Sul do ano de 2012, o Poder Judiciário determinou que fossem eliminados os crucifixos das salas desse mesmo poder sob a alegação de que se tratava de símbolo religioso cuja permanência nas salas era inadmissível, pois o Brasil é um Estado laico, onde impera separação de Igreja e Estado. Os crucifixos foram retirados. O Poder Judiciário não ordenou, no entanto, a eliminação de outro símbolo religioso: a imagem da deusa Justiça, herdada da religião grega. A iniciativa da solicitação encaminhada ao Poder Judiciário coube à organização formada por pessoas que se sentem vítimas da homofobia. A decisão do Judiciário peca por parcialidade e elimina dos tribunais a advertência da possibilidade de erro jurídico, como aconteceu com Jesus, optando pela cegueira da Justiça, que tanto pode significar imparcialidade como impunidade e condenação
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do justo. O encaminhamento feito pela organização permitiu a eliminação da única advertência existente para que não se repitam erros jurídicos. Menciono o fato com o pedido de que o/a pregador/a não caia na tentação de mencioná-lo como motivação para seu sermão de Sexta-feira da Paixão, pois as pessoas que frequentarem igrejas nesse dia não o fazem para tomar conhecimento de erros do Judiciário nem de interpretações equivocadas que ali acontecem. Atenha-se ao proposto por Lucas: Perdão, esperança, conversão.
Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Lukas. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. 8. ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1978. VOIGT. Gottfried. Der rechte Weinstock. 2. ed. Berlim: Evangelische Verlagsan���������� stalt, 1974.
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PRÉDICA: LUCAS 24.1-12
DOMINGO DA PÁSCOA
ISAÍAS 65.17-25 1 CORÍNTIOS 15.19-26
31 MAR 2013
Alfredo Jorge Hagsma Vera Regina Waskow
1 Introdução Esta é a terceira vez que o texto de Lucas 24.1-12 é estudado como texto-base para a prédica na série Proclamar Libertação. Em 1978, no volume II, sob a responsabilidade de Gottfried Brakemeier (p. 34ss), e em 1994, no volume XX, sob a responsabilidade de Carlos Musskopf (p. 127ss). Vale a pena conferir. Mais uma vez é Páscoa, e mais uma vez os olhos da grande família cristã estão voltados para o túmulo vazio, para a pedra removida. Parece óbvio, não tem como ser diferente. Na Páscoa repousa a origem da igreja cristã. Pois como afirmou o apóstolo Paulo: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.20). A prova material da ressurreição de Cristo repousa nos lençóis de linho sem o corpo. Isso é muito para quem crê, mas nada representa para quem duvida. Ou seja, mais uma vez a comunidade cristã é confrontada com o óbvio da fé: “por que buscais entre os mortos ao que vive?”. Entre a tênue linha que separa a certeza da dúvida está a fé, que sustenta a caminhada da comunidade cristã em todo o mundo. Os dois textos de leitura (Is 65.17-25 e 1Co 15.19-26) também apontam para o elemento fundante da fé cristã. Na Primeira Epístola aos Coríntios, o apóstolo deixa claro que sem a ressurreição nada teríamos para anunciar: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1Co 15.17). Já o profeta Isaías aponta para a nova realidade que brota do poder de Deus: “Nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor”. Pois Deus tem o poder de criar novos céus e nova terra. Da morte Deus pode criar vida. Ou seja, os três textos apontam para o mesmo foco: a vitória da vida é definitiva.
2 Considerações exegéticas A passagem em estudo encontra paralelos em Marcos 16.1-8, Mateus 28.1ss e João 20.11ss. Cada evangelista relata do seu jeito a ressurreição de Jesus. O evangelista Lucas diz que, depois de haverem respeitado a lei do sábado no primeiro dia da semana, as mulheres vão ao túmulo. O evangelista Lucas não menciona a preocupação das mulheres com o túmulo fechado, como fazem os outros evangelistas. A pedra aqui não é motivo de preocupação. As mulheres, sem obstáculos, entram no túmulo de Jesus e são confrontadas com a ausência do corpo. Ou seja, o objetivo pelo qual tinham ido até o túmulo havia sido frustrado.
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Não havia mais corpo para embalsamar. Foram surpreendidas por dois homens que disseram: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive?” Aqui o processo natural é questionado. Como não ir ao túmulo após a morte de um ente querido? Como não prestar uma última homenagem ou um último cuidado? A lógica de Deus é outra. A morte foi vencida, e não há mais motivo para ocupar-se com ela. Por isso a notícia é dada às mulheres: Ele não está mais aqui. Ele vive. No entanto, essa passagem não é automática: o ser humano vive a dialética entre o passado e o futuro, entre a dúvida e a fé. As citações a seguir apontam para essa dialética natural. Cada dia inicia com o movimento do sol, que, rompendo a densa madrugada, se levanta, “trazendo vida nos seus raios”, conforme profetizou Malaquias (4.2). O luto mobiliza as reservas emocionais da pessoa. O chorar é extremamente benéfico; por isso se diz que é como lavar a alma. Já cantara o salmista: “O choro pode durar a noite inteira, mas de manhã vem a alegria” (Sl 30.5). Ou seja, existe um tempo que podemos denominar – como S. João da Cruz – de noite escura da alma. É o tempo em que cessaram as possibilidades e o caos se impõe. Muitas vezes, é assim que sentem os que estão passando por um luto. Confusão e sentimentos como angústia, raiva, medo e desamparo vão se alternando e tomam de assalto os pensamentos. A certeza se vai, e fica a insegurança. As mulheres, fiéis discípulas, rompem a madrugada e aparentemente buscam elaborar a perda do amigo e mestre através de rituais fúnebres. Com perfumes, unguentos e especiarias, elas se movimentam em direção à sepultura. Jesus, o Sol da justiça, havia se levantado das trevas da morte. Lucas enfatiza que o corpo não estava lá. Contudo, ressuscitar não faz parte do repertório vivencial do ser humano. Portanto é mais fácil sugerir outras hipóteses. Ressurreição estava fora de cogitação. O conhecimento teórico é diferente da experiência de vida; assim elas não se lembram do que Jesus havia predito sobre sua morte e ressurreição. – A função dos dois homens de branco (anjos) é relembrá-las do que Jesus havia anunciado (Bíblia de Estudo Conselheira, NT, p. 183). A cada ano, somos tomados pela falta de esperança, pelo comodismo, pela descrença, que são acentuados pelos fatos que acontecem ao nosso redor. Mas vem sempre a Páscoa e reafirma que tudo pode ser diferente, não por nossas forças, mas porque Deus continua agindo entre nós.
3 Meditação No PL II, de 1978, encontramos uma valiosa reflexão sobre o texto em estudo, realizada pelo P. Dr. Gottfried Brakemeier. Faremos aqui uso de algumas ideias ali desenvolvidas e sugeridas. Por que tanta incredulidade dos discípulos e seguidores de Jesus diante do milagre da ressurreição? As mulheres foram ao túmulo de Jesus com a intenção de embalsamá-lo. Três delas sabemos quem são (v. 10): Maria Madalena, Joana e Maria. Chegando lá, a pedra estava removida. Elas ficaram perplexas, assustadas. Dois homens de roupas brilhantes questionaram: “Por que buscam entre os mortos aquele que
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vive?” E por eles são lembradas daquilo que Jesus mesmo havia falado sobre sua morte e ressurreição. As mulheres compreenderam, lembraram-se de suas palavras (v. 8) e voltaram anunciando aos onze discípulos o que viram e ouviram. Infelizmente, o testemunho dessas mulheres soou como tolice, e os onze não deram crédito a elas. Pedro foi certificar-se, mas isso tampouco mudou a situação. Ele vê os lençóis e o sepulcro vazio e retira-se, voltando para casa. Temos algumas diferenças entre os paralelos, mas todos os evangelistas concordam que foram as mulheres que descobriram o túmulo vazio na madrugada. Os discípulos não acreditaram no testemunho das mulheres. Por que tanta incredulidade? A morte, o sofrimento, a dor cegam-nos e levam ao limite a nossa fé, fazem-nos pessoas incrédulas diante dos milagres da vida. A nossa realidade denuncia diariamente o sofrimento, o desespero, o medo das pessoas (violência em todas as suas formas, drogas, preconceito, ódio, abuso de poder, traição...). Estamos em meio a uma realidade em que a morte mostra constantemente seus sinais e seu poder. Essa realidade de morte já é uma constante e parece tão forte e tão óbvia, que também duvidamos da Páscoa. Diante de tudo isso cabe perguntar pelo fundamento de nossa fé: Em qual realidade cremos? Cremos na “onipotência” da morte ou na onipotência de Deus? Nós ficamos incrédulos como os discípulos ou testemunhamos a vitória da vida, como fizeram as mulheres? Cabe também desafiar a comunidade a olhar para o seu entorno e perceber os testemunhos de vida que encontramos. Em meio a essa realidade de morte, dor e sofrimento, existe vida, há sinais de vida abundante com a qual Deus nos quer saciar. Onde ela está? Nós a vemos? Nós a percebemos? Será que também não estamos procurando aquele que vive em meio à morte? Quando voltarmos nosso olhar para essa realidade em que a vida insiste em prevalecer, em que a esperança não morre e a vida ganha um novo sentido, descobriremos então que a Páscoa acontece todos os dias. Ela é simultaneamente um acontecimento do passado e uma realidade dinâmica do presente. Pelo poder do Espírito Santo, o Cristo vivo vem a nós e a nós se revela. A Páscoa revela todo o amor de Deus por nós na entrega de Jesus Cristo. A Páscoa revela o desejo de Deus a cada um, cada uma de nós, libertação dos pecados, libertação de toda a maldade humana, libertação do sofrimento e da morte. Páscoa é vida. Somos destinados a viver, a proclamar a vida, a defender a vida, pois foi para tal que fomos libertados da morte. A ressurreição de Jesus é a base da esperança e da fé de toda pessoa cristã. É necessário a cada nova manhã colocar nossa confiança nessa gloriosa verdade. A cada Páscoa cabe perguntar o que temos proclamado: Onde temos depositado nossa esperança? O que temos testemunhado? O que nossas mãos têm feito?
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Domingo da Páscoa
4 Recursos litúrgicos Poema de acolhida: Servir (Gabriela Mistral, 1889-1957) Toda a natureza é uma aspiração de servir. Nessa vontade: serve a nuvem, serve o vento, servem os sulcos do arado. Onde houver uma árvore a plantar, deves plantá-la tu; ... onde houver um erro a emendar, deves emendá-lo tu; onde houver um esforço a que todos se neguem, deves aceitá-lo tu. Sê aquele que retirou a pedra do caminho, o ódio entre os corações e as dificuldades do problema. Há a alegria de ser sadio e a de ser justo; mas há, sobretudo, a formosa, a imensa alegria de servir. Que triste seria o mundo se nele tudo estivesse feito. Se não se pudesse nele plantar uma flor ou iniciar uma conquista! Não. Não gostes apenas dos trabalhos fáceis. É belo fazer-se o que os outros evitam porque é difícil! Não caias no erro de acreditar que só há grandeza nos grandes trabalhos, que são imensos trabalhos: adornar a mesa, pentear uma criança, plantar uma flor... Há uns que criticam, há outros que destroem – sê tu aquele que serve. Servir não é tarefa dos inferiores. Deus, que dá o fruto e a luz, serve.
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Domingo da Páscoa
Podemos chamá-Lo: “O que serve!” Quando o crepúsculo chegar, fixa teus olhos em tuas mãos e pergunta cada dia: Serviste hoje? A quem? À árvore, a teu amigo, a tua mãe, a Deus? Invocação: Invocamos-te, Deus da vida, que és luz do mundo, que és consolador: conduze-nos por teus caminhos, conduze-nos pela tua graça nesta manhã de grande esplendor. Confissão pascal: Deus de amor, Deus da bondade, amigo de todas as pessoas que sofrem: confessamos neste dia de alegria e de vida que temos sido indiferentes às mortes que acontecem ao nosso redor. Temos sido covardes diante das injustiças e nada solidários com as pessoas injustiçadas e sofridas. Temos escutado prantos de dor, gritos de socorro, mas nossos ouvidos e corações permanecem fechados e intocados. Alimenta-nos, Deus da vida, com tua luz, que brota da cruz vazia e concede aos nossos corações arrependidos paz e coragem para anunciar teu poder e proclamar o teu Reino. Amém. Oração de intercessão: Envolver jovens, mulheres e pedir que tragam situações de dor e sofrimento que fazem parte da realidade da comunidade. Da mesma forma, destacar pessoas que possam apontar sinais de vida, milagres que aconteceram em meio à realidade, motivos de gratidão. Bênção pascal: Que a bênção do Deus da vida, a coragem e a confiança de Jesus Cristo e o conforto do Espírito Santo estejam conosco quando fraquejarmos, transformando-nos, alegrando-nos e concedendo-nos a paz. Amém. Poema pascal de envio (Vera Regina Waskow): Páscoa lembra vida, lembra a cruz, lembra a entrega de Jesus. Lembra o sofrimento, a dor e a solidão. Morte? Sim, mas não o fim! Páscoa lembra a ressurreição. Vida plena em grande luz, que resplandece da cruz. E hoje recebemos o calor dos raios desse amor, por isso vida também queremos levar e com mesmo amor abraçar. Que tua luz de vida, Senhor, possa nos guiar, para na fé sempre andar e o teu amor e a tua entrega na cruz sempre compartilhar.
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Domingo da Páscoa
Bibliografia BÍBLIA DE ESTUDO CONSELHEIRA – Novo Testamento: Acolhimento, reflexão, graça. Sociedade Bíblica do Brasil, 2011. BRAKEMEIER, Gottfried. Auxílio homilético para o Domingo da Páscoa: Lc 24.1-12. In: Proclamar Libertação II. São Leopoldo: Editora Sinodal,1978. p. 34-39. CELEBRAR PÁSCOA em família e comunidade. Editora Sinodal, 2008.
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PRÉDICA: JOÃO 20.26-31
2º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 118.14-29 APOCALIPSE 1.4-8
07 ABR 2013
Erli Mansk Rodolfo Gaede Neto
1 Introdução Conforme o calendário litúrgico, estamos no tempo pascal. Esse inicia no Domingo da Páscoa e encerra no Domingo de Pentecostes. Trata-se de um tempo importante para a comunidade aprofundar a fé no Cristo ressuscitado. O texto de pregação previsto para este dia tem esse objetivo. Ao lado de João 20.26-31, temos o Salmo 118.14-29 e Apocalipse 1.4-8 como leituras bíblicas. Sugerimos que o Salmo 118.14-29 seja utilizado como salmo intermediário entre a leitura de Apocalipse 1.4-8 e João 20.26-31. Também é possível utilizar os v. 28 e 29 do Salmo 118 como versículos de aclamação do evangelho, pois, assim como em João 20.28, ali também temos uma confissão de fé: “Tu és o meu Deus, render-te-ei graças; tu és o meu Deus, quero exaltar-te”. Apocalipse 1.4-5 traz uma saudação de João às igrejas a quem ele se dirige (“graça e paz a vós outros...”). Essa pode ser utilizada na liturgia de entrada no lugar da saudação apostólica ou voto inicial.
2 Pistas exegéticas 2.1 – Situando a perícope Para uma melhor compreensão de nossa perícope, é necessário levar em conta os dois textos anteriores (v. 19-25). Duas cenas antecedem o texto em destaque: Primeira cena: os discípulos estão reunidos no primeiro dia da semana com as portas da casa trancadas por medo dos judeus. Jesus põe-se no meio deles e mostra-lhes suas mãos e o lado em que foi ferido. Jesus sopra sobre eles o Espírito Santo e os envia. Nesse dia, o discípulo Tomé não se encontra no meio deles (v. 19-23). Segunda cena: os discípulos encontram-se com Tomé e dizem que viram Jesus. Tomé duvida, dizendo que, se ele próprio não ver os sinais dos cravos nas mãos de Jesus e não pôr a mão em seu lado, não acreditará (v. 24-25). Os v. 26-31 compõem o terceiro cenário do capítulo 20 de João: Depois de oito dias desde a aparição de Jesus a seus discípulos, o grupo encontra-se novamente reunido e, dessa vez, Tomé está entre eles; as portas estão trancadas, e Jesus vem e põe-se no meio deles; logo depois de saudá-los, Jesus dirige-se a
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Tomé dizendo: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; chega também a tua mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente” (v. 27). 2.2 – João tematiza a superação da dúvida sobre a ressurreição A saudação “paz seja convosco” parece ser uma fórmula litúrgica. Nesse encontro de Jesus com a comunidade dos discípulos, após a saudação, imediatamente se dirige a Tomé, expondo no meio de todos os questionamentos que Tomé havia levantado diante de seus companheiros. Jesus responde ponto por ponto o que o discípulo havia exigido: mostra-lhe as mãos com os sinais dos cravos e pede que Tomé ponha sua mão no seu lado. Provavelmente Tomé sentiu-se envergonhado de sua incredulidade e suas exigências. A exortação “não sejas incrédulo, mas crente” é uma resposta de Jesus ao posicionamento de Tomé “... não acreditarei” (v. 25). O pano de fundo dessas narrativas é o fato de Tomé ter rejeitado o testemunho dos “onze” acerca da ressurreição de Jesus. Tomé representa todas as pessoas que, naquele momento histórico, tinham dificuldades para acreditar na notícia da ressurreição. A história de Tomé não tem paralelo nos sinóticos, mas a tradição mais antiga (Lc 24.11; 25.38.41; Mc 16.2; Mt 28.17) tem relatos no sentido de que a mensagem da Páscoa provocou inicialmente dúvidas e incredulidade entre os discípulos. Por isso o evangelista João ocupa-se com o tema da superação dessa dúvida. A perícope está a serviço dessa tarefa, nada fácil, de suscitar a fé na ressurreição de Jesus. A perícope procura desconstruir a dúvida sobre a ressurreição de Jesus através do milagre da aparição do próprio ressuscitado. Esse milagre é concedido ao incrédulo Tomé. Todavia essa forma de resolver a dúvida sobre a ressurreição é uma última exceção. É uma exceção concedida aos fracos e incrédulos. Doravante, a verdadeira fé pascal não mais carecerá desses milagres, pois ela terá seu fundamento no anúncio da Palavra sobre a ressurreição. Por isso é importante atentar para a indicação “passados oito dias”, que aparece logo no início do texto. Em João 20.19, a presença de Jesus no meio dos discípulos, sem Tomé, acontece no “primeiro dia da semana”. “Passados oito dias”, diz o texto, “estavam outra vez reunidos ali os seus discípulos e Tomé com eles” (Jo 20.26). Conforme o costume antigo, contava-se a partir do primeiro dia até o último, numa série, de modo que oito dias correspondia a uma semana. Com isso o autor situa a aparição de Jesus no domingo seguinte após o dia da Páscoa (cf. v. 19; também o manuscrito da versão siríaca sinaítica não deixa dúvidas quanto a isso). Lembremos que domingo é o dia em que a comunidade cristã se reunia para celebrar a fé no Cristo ressurreto, partilhando a Ceia do Senhor (cf. At 20.7). Provavelmente, para a comunidade joanina, o domingo já é uma instituição, e o texto reflete o costume da comunidade cristã de se reunir no domingo. É possível que nessas celebrações, nos tempos posteriores, a comunidade joanina recordasse o relato da aparição de Jesus a Tomé. No episódio da primeira aparição aos discípulos, Jesus fundou sua comunidade, infundindo-lhes o Espírito e enviando-os à missão. Dessa vez, não se trata
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mais de formar a comunidade, mas de se fazer presente entre os seus na reunião comunitária de domingo. Nessa reunião, Tomé está presente. Agora ele está integrado à comunidade, diferentemente da primeira vez (cf. v.24). Ao mesmo tempo em que João ainda apela para o milagre da aparição do ressurreto para ajudar Tomé em sua dúvida, já aponta para o lugar onde doravante a fé na ressurreição será alimentada: a comunidade. No futuro, não mais haverá, para a igreja, aparições do ressurreto com o objetivo de apresentar provas para a fé. As provas são supérfluas e estão definitivamente encerradas, porque a verdadeira fé se funda no anúncio da Palavra. No seio da comunidade, na Palavra anunciada, o Cristo crucificado está presente. Assim, o evangelista João, ao trazer essa palavra crítica de Jesus em relação aos que exigem provas de sua ressurreição, está colocando a história da Páscoa no seu devido lugar: não no espaço das comprovações, mas no espaço da fé, que nasce da pregação e é fortalecida na comunhão da Ceia do Senhor. 2.3 – A confissão de fé na divindade de Jesus O convite de Jesus para “o tocar” é recebido por Tomé com uma imediata reação de confissão de fé. O texto não diz se Tomé tocou as feridas das mãos de Jesus com os dedos ou se colocou as mãos no seu lado. No v. 29, observa-se que Jesus fala dos que querem “ver para crer”, mas não faz nenhuma referência aos que exigem “tocar para crer”. Ao que tudo indica, quem narra o texto não tem interesse em provar se houve ou não contato físico com o ressuscitado. Interessa, isto sim, mostrar a atitude de Tomé diante do Senhor. A força da presença de Jesus é tamanha que, diante dele, a dúvida é transformada em confissão de fé. Chama atenção que, em sua confissão, Tomé dirige-se a Jesus com o título de Senhor – Kyrios – e Deus – Theos – (“Senhor meu e Deus meu”, v. 28) ao invés de Mestre, como os discípulos estavam acostumados antes da morte de Jesus. Quer dizer, Tomé reconheceu Jesus como o exaltado. Confessar a Jesus como Kyrios significa reconhecê-lo como Deus, como o Cristo ressuscitado. Com isso Tomé afirma crer na ressurreição de Jesus; e mais: ele crê na divindade de Jesus. A confissão de Tomé é a única confissão da divindade de Jesus que sai da boca de um discípulo no Evangelho de João. Tomé confessa representativamente para a comunidade joanina a sua fé pascal na divindade de Jesus. O que o hino do logos já cantou no início do evangelho (“Deus era a palavra” – Jo 1.1), isso é confessado no fim do evangelho justamente pelo incrédulo Tomé: aquele que havia se tornado pessoa humana retorna, agora, através de sua ressurreição para a glória, onde estava no início. Com a confissão de Tomé, João alcança o ponto mais alto de seus relatos sobre a história da Páscoa. Maria Madalena e os “onze” testemunharam que viram Jesus, mas Tomé vai além e confessa a sua divindade. A confissão de Tomé é seguida por uma palavra de bem-aventurança de Jesus. Porém essa não é dirigida aos discípulos reunidos em sua presença. Provavelmente com essa bem-aventurança o evangelista tinha em mente as pessoas de seu tempo, aqueles e aquelas que criam no Senhor ressuscitado sem ter co-
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nhecido o Jesus terreno, sem jamais tê-lo visto. Certamente está pensando nas pessoas (plural, cf. v. 29) que vivem no tempo em que não mais há aparições do ressurreto. Essas creem sem ver, com base no anúncio que tem a ressurreição de Jesus como conteúdo. A confissão de Tomé constitui um chamado aos crentes do futuro para que, sem o “ver”, possam crer e confessar Jesus como Tomé: “Senhor meu e meu Deus”.
3 Meditação Aspectos que chamam nossa atenção 1 – O Jesus ressurreto encontra-se com seus discípulos no tempo e no espaço da comunidade. O texto fornece indícios de que os discípulos estão reunidos num domingo, isto é, trata-se de um encontro litúrgico semanal. No primeiro encontro, sem Tomé, Jesus, ao mostrar as mãos e o lado, com os sinais de sua morte, apresenta-se como o Jesus da cruz e o Senhor ressurreto. O evangelista João dá testemunho, nesse texto, de Jesus, o Cristo. É esse o que se apresenta aos discípulos e os envia à missão, soprando sobre eles o Espírito Santo (v. 19-23). 2 – O segundo encontro de Jesus com seus discípulos acontece novamente no tempo e no espaço da comunidade, num domingo, estando Tomé entre eles. Dessa vez, o motivo do encontro parece ser outro. Tomé havia duvidado do testemunho de seus colegas de que esses tivessem visto Jesus. Parece que a primeira tentativa dos discípulos de dar testemunho de Jesus fracassou. Eles não conseguiram convencer nem mesmo alguém de seu próprio grupo. Como iriam convencer os outros, os de fora? Foi necessário um novo encontro com Jesus. Esse novo encontro tinha, pois, um motivo muito forte: aprofundar a fé no Cristo ressurreto. Para seguir dando testemunho de Jesus Cristo, os discípulos necessitavam, eles próprios, estar firmes na fé no Cristo ressurreto; eles necessitavam encontrar-se de novo com Jesus, o Cristo, para fortalecer-se na fé e desconstruir a dúvida. 3 – O encontro de Jesus com Tomé não ocorreu em separado, entre os dois apenas, mas na reunião com os discípulos, na celebração de domingo. Nesse encontro, Jesus dirige-se imediatamente a Tomé e responde, ponto por ponto, às suas dúvidas. Nem foi necessário Tomé tocar nas mãos e no lado de Jesus. Tão profundas foram suas palavras, tão forte foi sua presença, que foram suficientes para Tomé. E sua resposta foi a confissão de fé: “Senhor meu, meu Deus”. 4 – A reunião comunitária no culto é o evento primordial da comunidade cristã. Culto é lugar da revelação de Jesus Cristo, de sua presença na Palavra e nos sacramentos, da recepção do dom do Espírito, do envio ao mundo (para a diaconia), do aprofundamento e fortalecimento na fé. 5 – Fora da comunidade somos o Tomé incrédulo, que exige provas, sinais, milagres. Somos também os discípulos que, no testemunho de Cristo, enfrentamos a incredulidade dos outros, sentimo-nos fracos, inseguros, impotentes. Dentro da comunidade, somos o Tomé que é tocado por Jesus (note-se: não somos nós que o tocamos, mas ele nos toca com sua presença na Palavra e nos sacramentos). E somos os discípulos fortalecidos na fé e no testemunho do próprio Cristo.
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4 Imagens para a prédica – A ressurreição de Cristo é o fundamento da igreja (“E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a vossa fé” – 1Co 15.14). – Todavia, a ressurreição não é um evento que se coloca no nível da comprovação científica (provas científicas são necessidades dos humanos, que têm limitações na compreensão dos fatos). A ressurreição coloca-se em outro nível: o da fé. – Portanto, a igreja cristã não é edificada sobre fundamento humano (físico, passageiro, duvidoso, carente de comprovação), mas sobre o fundamento do eterno (divino, escatológico). – A fé na ressurreição é cultivada e fortalece-se no espaço da comunidade (na reunião da comunidade, no culto), onde é anunciada a mensagem da Páscoa. Deus usa o espaço físico/humano/passageiro/duvidoso da igreja para manifestar o que vai além do físico/humano: os valores eternos. – Páscoa (tempo pascal) é tempo de valorizar a comunidade, suas reuniões e seus espaços. A comunidade pode ser pequena, simples, humana, com problemas humanos (medos, insegurança, dúvidas e tudo o mais), mas é nesse espaço que Deus (através do Espírito Santo) trabalha os fundamentos e valores mais sublimes, as coisas eternas, a vida que supera os limites da morte. No espaço da comunidade (com suas limitações) é que os valores eternos são sempre colocados como horizonte para a igreja. A igreja seria muito pobre se ela tivesse apenas os seus próprios horizontes humanos e físicos, limitados, passageiros, duvidosos. Páscoa nos permite, através da fé, olhar além, ir além. – O relato de João sobre Tomé fundamenta a existência de programas na comunidade que trabalham a questão da integração de todos e todas no corpo comunitário, pois é ali, na reunião, que a comunidade se fortalece diante das dúvidas e inseguranças. Desgarrados/as da comunidade, os indivíduos tornam-se alvos da incredulidade. – A reunião da comunidade nos seus diversos espaços é o lugar para aprofundar as questões teológicas, para trabalhar as dúvidas e inseguranças que atormentam as pessoas. A perícope fundamenta um programa de formação continuada na fé. – Aprofundar a fé na ressurreição de Jesus como programa comunitário faz a diferença para a presença da comunidade cristã no atual mundo pós-moderno, mundo esse que se contenta com experiências religiosas superficiais. Observação: é possível usar uma imagem (projetada ou colocada em cartaz na entrada do templo) que represente a comunidade reunida, lugar onde Cristo se faz presente. Para essa imagem sugerimos fazer uma montagem com fotos de diversos grupos da comunidade: crianças, confirmandos, jovens, mulheres, presbitério e do próprio culto, demonstrando, assim, as formas diversas de reunião comunitária, onde a fé no Cristo ressuscitado é fortalecida e alimentada.
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5 Subsídios litúrgicos Salmo de confiança em Deus: Senhor meu e Deus meu. Creio em ti. Na insegurança e no medo, a ti me asseguro: Senhor meu e Deus meu! Na doença, questiono: tu me esqueceste? A ti clamo: fortalece-me! Na morte, diante do fim, na incerteza do que vem, rogo-te: não me abandones! Na vida, quando me perco na busca por sentido, tu me chamas: volta-te a mim! No desespero, quando me falta a esperança, tu vens como luz no fim do túnel! Em minha mais profunda dor, quando somente tu a conheces, só me resta dizer: Senhor meu e Deus meu! Obs.: Esse Salmo de confiança em Deus pode ser usado como parte da Oração Geral da Igreja. Se, acaso, houver nesse culto uma oração memorial, ela poderá ser encaixada. Oração do dia: Senhor Jesus, tu que venceste o nosso pior inimigo, a morte! Vem, põe-te no meio de nossa comunidade e, pelo poder do Espírito Santo, ajuda-nos a destrancar as portas do medo e da insegurança. Dá-nos a tua Palavra que liberta e, assim, sejamos tuas testemunhas no mundo, amparando as pessoas que sofrem, orientando as que buscam sentido para a vida. Por ti, na unidade do Espírito Santo. Amém. Outros subsídios litúrgicos, confira em Proclamar Libertação 29, p. 135.
Bibliografia BARRETO, Juan; MATEOS, Juan. El evangelio de Juan: analisis linguístico e comentário exegético. 2. ed. Madrid: Cristiandad, 1982. SCHNACKENBURG, Rudolf. El evangelio según san Juan: versión y comentário: capítulos 13-21, tomo terceiro. Barcelona: Herder, 1980. SCHNEIDER, Johannes. Das Evangelium nach Johannes. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. 2. ed. Berlim: Evangelische Verlagsan���������� stalt, 1978. SCHULZ, Siegfried von. Das Evangelium nach Johannes. Göttingen: Vanden������� hoeck & Ruprecht, 1975. (NTD 4).
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PRÉDICA: APOCALIPSE 5.11-14
3º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 30 JOÃO 21.1-19
14 ABR 2013
Scheila Janke
1 Introdução Facilmente nós celebramos a Páscoa como um acontecimento passado, como algo que aconteceu, mas que não transforma mais a vida das pessoas hoje. Esquecemo-nos de que a Páscoa é vida, é ressurreição, é vitória sobre a morte. Sempre onde a morte é vencida, reina a Páscoa. Onde há vida transformada, é Páscoa. Nada mais será como antes depois da manhã da ressurreição. O texto de Apocalipse 5.11-14 afirma que uma multidão de anjos, seres viventes e anciãos continua rendendo louvor ao Cordeiro, que foi morto. Toda criatura que há no céu, na terra, debaixo da terra e no mar continua atribuindo glória, louvor, honra e domínio ao Cordeiro e Àquele que está sentado no trono. Interessante observar que os v. 12-14 nos dão uma ideia de ação continuada: os verbos (proclamando e dizendo) estão no tempo verbal presente, que indica que a ação ainda está acontecendo. Ou seja, o louvor da Páscoa, o louvor ao Cordeiro que entregou sua vida na cruz para a nossa salvação e ressuscitou no terceiro dia, não é apenas um evento passado; ele é presente, vivo e atuante para dentro de nossa realidade. O Salmo 30 é um convite para louvar o Senhor que nos livrou, sarou e preservou nossa vida. O salmista termina afirmando que renderá para sempre graças a Deus, o Senhor. O texto do Evangelho de João mostra os discípulos de Jesus voltando à sua rotina depois da Páscoa. Mesmo que alguns dentre eles tivessem ouvido a boa-nova da ressurreição, eles pareciam não entender que tudo havia mudado: Jesus havia ressuscitado. Os discípulos precisam da ajuda de Jesus, precisam mais uma vez ser enviados a apascentar as ovelhas no mundo. Os discípulos precisavam que Jesus se manifestasse outra vez. Conforme o v. 14, já era a terceira vez que Ele se manifestava, depois de ressuscitado, a seus discípulos. Ele está presente, Ele vive!
2 Exegese A tradição afirma que o livro de Apocalipse foi escrito por volta do ano de 95 d.C., quando Domiciano era imperador de Roma (81-96 d.C.). Muitos acreditam que havia uma ameaça de perseguição muito próxima por parte de Roma, e o autor do livro o teria escrito para fortalecer o povo de Deus, para exortar os cristãos e cristãs a permanecer fiéis, apesar de todas as tribulações e perseguições
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por causa da fé. Apesar de todo o sofrimento, a vinda do Senhor estava próxima. Domiciano decretou o culto ao imperador de uma forma que nunca havia sido feita antes. Cultuar o imperador era uma questão de lealdade ao império. Os cristãos e cristãs recusaram-se a adorar o imperador como deus e sofreram amargas consequências por causa disso. A literatura apocalíptica tem a característica de tentar dirigir a mente das pessoas para um futuro triunfo sobre os inimigos e os poderes do mal, para o futuro estabelecimento do reino de Deus. Em meio à morte e à destruição, os cristãos e cristãs esperavam o breve cumprimento das promessas e da parousia, a volta gloriosa de Jesus. Esse livro procura trazer esperança às pessoas que estavam sofrendo, lembrando que esse mundo, marcado por injustiças, maldade, cobiça e poder, será reduzido a nada e em seu lugar virá o reino eterno. O livro de Apocalipse mostra que Jesus é o verdadeiro governante que virá para aniquilar os poderes malignos e instaurar o seu reino. O livro atribui ao Cordeiro duas características marcantes: a humildade, que se mostra na entrega de sua vida na cruz, e a dignidade de Senhor do mundo, com poder sobre todos os poderes que existem. Todo o capítulo 5 fala da visão do livro e do Cordeiro. Esse texto é antecedido pela visão do trono de Deus no capítulo 4. Logo em seguida, seguem-se as visões dos selos. V. 11 – João, autor de Apocalipse, viu multidões de anjos louvando o Cordeiro, juntamente com os seres viventes e os anciãos. Provavelmente, o texto quer dizer que o número de anjos é ilimitado. V. 12 – Os anjos exaltam a dignidade do Cordeiro de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor. Tudo o que pertence a Deus Pai pertence ao Cordeiro por causa de sua obra redentora de morrer por nós. Ele possui todas as coisas. O louvor é completo e perfeito, como se deduz pelas sete qualificações (poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor). O Filho de Deus mostra-se perfeito em seus atributos e missão divina. Essa perfeição é louvada por meio dos sete elogios. V. 13 – Toda a criação acompanha os anjos no louvor e na adoração. Isso descreve a universalidade da redenção obtida por Cristo. O culto e a adoração prestados por toda a criação representam a certeza de que Deus restaurará a ordem e a paz no mundo por meio de Cristo. O cântico de toda a criação é entoado ao Deus Pai e ao Cordeiro (“àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro”). O Cristo exaltado sentou-se com o Pai no trono. O Filho participa das prerrogativas divinas, recebendo o louvor e a adoração que cabem somente ao Pai. Ouve-se agora uma terceira doxologia. (A primeira doxologia encontra-se nos v. 9-10, a segunda, nos v. 11-12, e a terceira, no v. 13.) Três é um número divino, o que mostra que essa tríplice doxologia tem inspiração divina. Todos os seres inteligentes, angelicais e humanos, estão louvando o Cordeiro. Todas as criaturas estão envolvidas, não há nada fora do alcance de Cristo, nenhuma coisa criada pode estar fora do louvor prestado a Deus. Todas as criaturas estão incluídas: a) as que estão no céu, como os seres celestiais, anjos, seres viventes, anciãos, pessoas remidas; b) as que estão sobre a terra, ou seja, todos os povos,
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tribos, línguas e nações, toda a população terrena; c) as que estão debaixo da terra, pois nem os perdidos e os anjos caídos estão excluídos. Cristo continua sendo o salvador de todos, mesmo dos que estão no hades; d) os que estão sobre o mar, ou seja, o autor acrescenta essa quarta divisão, talvez indicando que o louvor venha dos quatro cantos e extremidades da terra. Percebe-se, assim, que o louvor será universal. Toda a criação, com todos os seres, até os inanimados, haverá de expressar seu louvor a Deus. V. 14 – O cântico retornou ao trono no amém final, proferido pelos quatro seres viventes. O louvor tornou-se universal. Os anciãos prostraram-se diante do trono do Pai e do Filho. Todo o louvor representa a sujeição do ser e do serviço de todas as criaturas. Sua inteireza é ilustrada na postura dos vinte e quatro anciãos prostrados, representantes dos seres humanos.
3 Meditação Há poucas semanas, celebramos o evento mais importante da fé cristã: a Páscoa, a ressurreição do Filho de Deus, o Cordeiro que entregou sua vida na cruz para nos salvar. Ou seja, o Cordeiro cumpriu sua missão: Ele ofereceu a si mesmo como sacrifício, ele morreu para trazer perdão e salvação. Mas Ele não permaneceu morto. Ele ressuscitou no terceiro dia, como havia anunciado. Agora o Cordeiro está ao lado do Pai e com Ele tem o domínio pelos séculos dos séculos. Ele venceu a morte e por meio dele, com seu sangue, “os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (v. 9) foram resgatados. Nós somos comunidade pós-pascal. Vivemos da certeza de que Cristo ressuscitou, conforme o testemunho de tantos e tantas antes de nós. Não será isso motivo forte o bastante para vivermos louvando a Deus? Não seria essa certeza de salvação que nos é dada pelo Cordeiro uma razão forte o bastante para continuar rendendo graças a Deus? Conforme o relato do Evangelho de João 21.1-19, os discípulos, após receberem a boa-nova da ressurreição, voltaram, mesmo assim, à sua rotina. Nós, após termos ouvido a boa-nova da salvação e da ressurreição no Domingo da Páscoa, parece também que não nos damos conta da grandeza desse testemunho: Cristo vive! Voltamos à mesma rotina de antes, como se nada tivesse acontecido. E, no entanto, tudo é diferente: o Cordeiro vive, Ele ressuscitou, Ele está ao lado do Pai. E por meio dele nós também temos esperança de salvação, de ressurreição e de vida eterna. Mas parece que essa boa-nova, que ouvimos sendo anunciada todos os anos, não toca mais os nossos corações. Estamos tão acostumados, que não nos deixamos mais transformar. Tudo virou rotina, já sabemos o que aconteceu, já deixamos tudo preparado, não há mais espaço para a novidade, para a surpresa, para a verdadeira alegria que explode em louvor e adoração. Nós não sofremos mais com perseguições por causa de nossa fé. Temos liberdade de religião. Mas parece que vivemos acomodados. Já não nos importa o sofrimento das pessoas ao nosso redor. Estamos tão acostumados com nossa rotina, nossos afazeres, nossas prioridades, que não sobra tempo para olhar para o
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próximo. Também falta tempo para o testemunho e a vivência de fé. Não dá para deixar tantas coisas para trás para anunciar que Cristo vive. Muito menos sobra espaço para ajudar, para engajar-se na promoção de vida, vida digna, abundante (Jo 10.10), para tantas pessoas sofridas, desempregadas, desassistidas, injustiçadas, exploradas e adoentadas. Não há tempo e nem espaço para o louvor a Deus. Por isso precisamos que Cristo se manifeste a nós também. Precisamos deixar a mensagem da vida e da ressurreição tocar nossos corações. Através dos séculos tantas pessoas ouviram essa mensagem e experimentaram a presença do Cristo vivo em suas vidas e louvaram a Deus, como os milhares e milhares, milhões e milhões de anjos, como os seres viventes, anciãos e toda a criatura que há no céu, na terra, debaixo da terra e sobre o mar. Cristo está vivo e manifesta-se a nós em tantos sinais de vida que insistem em prevalecer mesmo num mundo tão cheio de injustiças, maldade, crueldade, desrespeito e desamor. A vida prevalece sobre a morte. Isso é motivo para louvar, para bendizer, pois “digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória e louvor” (v. 12) Ele vive e, por meio dele, nós também vivemos. A comunidade cristã, para quem o autor de Apocalipse escreveu, vivia numa situação de tanto sofrimento, que acreditava que a parousia estava muito próxima, que Cristo estava prestes a voltar, que o segundo advento estava se aproximando. Nós hoje, como comunidades cristãs, muitas vezes vivemos numa “zona de conforto”. Muitas vezes, questiono se nós hoje ainda aguardamos com fé a chegada do Filho de Deus. Muitas vezes, pergunto se estamos tão acomodados que até preferiríamos que essa volta fosse protelada para sempre. Rapidamente saímos de nossos cultos e celebrações sem que nos tenhamos deixado transformar pela Palavra. E, por vezes, fica evidente a diferença que existe em nossa vivência de fé dentro e fora da igreja, ou seja, dentro da igreja nós ouvimos a Palavra, mas, assim que saímos para fora de nossos templos, já nem nos lembramos mais do que confessamos no Credo Apostólico, nem do que oramos no Pai-Nosso, nem das pessoas lembradas nas intercessões, nem do sofrimento do mundo. Não nos lembramos mais do “glória a Deus nas alturas”, e muitas pessoas até parecem sentir dificuldade para glorificar Deus com o glória e calam. O texto de Apocalipse 5.11-14 ensina-nos que o Cordeiro é, sim, digno de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor. Nós somos chamados, sim, a reconhecer que a Ele pertencem todo o louvor, a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos. No primeiro mandamento, nós aprendemos que não devemos ter outros deuses além do único Deus verdadeiro. Mas as pessoas têm tantos deuses! A tantos deuses elas concedem honra, louvor e glória! O que as pessoas não fazem por dinheiro! O que não fazem para conseguir tudo o que querem ou comprar todos os bens que desejam! O que não fazem para obter reconhecimento e fama! O que não fazem para obter poder! Quantos sacrifícios fazem para cultuar a beleza e a estética! Mas o dinheiro, os bens, a fama, o poder e a beleza não nos podem salvar. Eles nada podem fazer por nós. Somente o Cordeiro que foi morto na cruz, que morreu por nós para nos salvar, pode ser digno de nosso louvor, honra e glória.
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Que bom podermos saber da promessa de viver no reino de Deus, onde as coisas deste mundo, aparentemente tão indispensáveis, perderão seu valor. Que bom sabermos que lá, juntamente com todos os seres celestiais, angelicais e com todas as criaturas criadas por Deus, poderemos entoar louvor e glória ao único Deus, ao Cordeiro que entregou sua vida na cruz para nos salvar, mas que ressuscitou e vive, amém.
4 Imagens para a prédica Quando recebemos um presente, nós nos alegramos, principalmente quando ele supera as nossas expectativas. Costumamos ser muito gratos com quem nos presenteia. A salvação dada a nós por meio do sangue do Cordeiro é o maior presente e merece todo o nosso louvor e gratidão. Sugiro explorar a alegria resultante da boa-nova da salvação. Muitas vezes, nós somos tímidos quando se trata de expressar nossa fé em louvor. Mas louvar a Deus de coração, não com a intenção de mostrar mais piedade a outrem, resulta da alegria pela certeza da salvação que nos é dada por Cristo quando nele cremos. A alegria da vitória do Cordeiro sobre todo o pecado e morte inspira-nos a louvar a Deus juntamente com os anjos, seres viventes e toda criatura.
5 Subsídios litúrgicos Sugiro que, para ressaltar a dimensão do louvor, cantem-se muitos hinos durante o culto. Sugiro que os hinos sejam cantados e não reproduzidos por aparelhos, pois nada substitui o louvor cantado. Sugestões de hinos (nem todos poderiam ser cantados numa celebração, mas se alguns não são conhecidos, os outros podem ser opção alternativa): HPD 1: 60, 67, 72, 95, 110, 124, 125, 200, 234, 241, 246, 248, 263, 264; HPD 2: 315, 348, 469. Também seria significativo convidar o coral, o grupo de canto, as crianças, jovens ou qualquer outro grupo para expressar seu louvor a Deus. Na oração de intercessão, seria interessante mencionar que o louvor a Deus não nos deixa esquecer o próximo ao nosso redor. Assim, incluir na oração todas as pessoas que sofrem com injustiças, discriminação, desrespeito, maldade, violência, hostilidade e desamor. Que nós não nos esqueçamos de levar sinais de vida ali onde há sofrimento e morte.
Bibliografia CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Editora Candeia, 1995. LADD, George Eldon. Apocalipse – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1996.
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PRÉDICA: JOÃO 10.22-30
4º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 23 APOCALIPSE 7.9-17
21 ABR 2013
Norberto Berger
1 Introdução A ligação com o Salmo 23 é fácil, pois até a linguagem apresenta semelhanças (pastor, ovelha). É necessário que tenhamos bem presente o específico do texto da homilia. As analogias não nos devem seduzir. Conhecemos a realidade das comunidades do Apocalipse: perseguição e morte; testemunho vivo da fé em Jesus Cristo. Essa situação traz riscos à fé. Um deles é o fechamento das comunidades sobre si mesmas. A consequência é o autoisolamento, que poderá promover o egoísmo da salvação. A confissão de fé que não buscar transformações na sociedade torna-se irrelevante para a missão de Deus. O Apocalipse revela uma vivência comunitária aberta e de acolhimento. As comunidades sabem que não são as únicas a resistir contra o Império. Há muitas comunidades que resistem aos poderes ameaçadores da fé em Jesus Cristo. As testemunhas de Jesus Cristo não são proprietárias do agir de Deus no mundo. A marca na testa revela uma opção de vida numa realidade histórica determinada. O bom pastor conhece suas comunidades. Elas caminham na certeza de que Deus as aceitou como sua propriedade: marca na fronte e a certeza de que nada será capaz de arrancá-las da mão do Bom Pastor. Vejo que as duas comunidades (a do Apocalipse e a do Evangelho de João) são abertas e acolhedoras. Não são monopolizadoras do agir de Deus.
2 Exegese V. 22 e 23 – Em João 8.59, lemos que Jesus deixou o templo depois da festa dos tabernáculos. Em 10.22-23, encontramos Jesus novamente na região do templo. Veio para participar da festa da reconsagração do templo. Essa festa chama-se egkainia (renovação), em hebraico chanukka = consagração, dedicação. Desde os macabeus, é a festa da purificação e reinauguração do templo em Jerusalém por Judas, o Macabeu, em 164 a.C. Após três anos de profanação por Antíoco IV – Epífanes – (175-164 a.C.), o templo foi rededicado, e a comunidade judaica celebra a festa anualmente no inverno. V. 24 – Os opositores não permitem nenhuma trégua a Jesus. Exigiam seu posicionamento transparente quanto à sua messianidade. Jesus respondeu com uma descrição de seu relacionamento com o Pai, apontando para o pastor e as ovelhas. A discussão gira em torno da expressão “Filho do Homem”. Levanta-se
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uma pesada acusação contra Jesus: sua fuga diante da autorrevelação cristológica. Jesus é responsabilizado pelo aumento da tensão entre ele e seus interlocutores. V. 25 – A comunidade do discípulo amado apresenta-nos o rosto de Jesus com nuanças peculiares. Os redatores de João empregam o verbo apokrinomai (responder) para falar de revelação (3.5; 4.13; 5.17,19) e dos debates com opositores (6.26,29; 10.25). Jesus afirma que já declarou a sua identidade. Havia, entre o povo, muitas opiniões divergentes a respeito do Messias. Relembremos algumas: alguns esperavam um erudito, profundo conhecedor da lei (Torá); outros esperavam um sumo sacerdote; para outros ainda, um rei, um juiz severo ou um general guerreiro para combater e expulsar os romanos do país. Com a vinda de Jesus nenhuma expectativa se confirmou. Um messias humilde e servidor não fazia parte das expectativas. A palavra grega Cristo é tradução da palavra hebraica Messias (ungido). Na Bíblia Hebraica e no judaísmo, o Messias é esperado como rei, que trará libertação. Quando isso acontecer, está se corroborando a sua messianidade. A compreensão de Jesus como rei é problemática. Não consigo enxergar em Jesus nenhum vestígio de rei. Reavaliemos esse e outros conceitos que adotamos em nossa caminhada eclesial e pastoral quando nos referimos a Jesus. A ideologia que alimenta as caracterizações das funções de governantes choca-se, frontalmente, com a opção de Deus, concretizada em Jesus Cristo. Conheço os argumentos que defendem títulos para Jesus, que caracterizam a sociedade hierárquica com sua estrutura piramidal. Ressalta-se que Jesus é um rei diferente, inigualável aos reis deste mundo. Introduz-se um jeitinho, não plenamente convincente, para salvar os títulos honoríficos para Jesus. Nossas liturgias e hinos estão carregados com aclamações, derivadas de um contexto sociopolítico, econômico e cultural imperial. Jesus é o que veio de Deus (v. 28). O Jesus joanino sempre fala do Pai como aquele que o enviara. Ele é o enviado do Pai. Desde 5.19, Jesus declara, diante dos observadores atentos, que é o Filho (6.40; 8.36) ou o Filho do Homem (6.27,53,62; 8.28). Fala de si mesmo aos judeus com as palavras “Eu sou” (6.28). O Jesus da comunidade joanina aborda, diante dos opositores, quem ele é: o Messias. Esse testemunho não convenceu seus interlocutores. Não acreditaram que fosse o enviado, o Cristo. A palavra “obras” abarca todas as facetas do agir de Jesus. O testemunho de Jesus é confrontado com a falta de fé. Essa fé não aceita, não assume e muito menos o reconhece como “Cristo”, o prometido e enviado de Deus. A identificação das obras de Jesus com as de Deus está alicerçada num único fundamento: na unidade do Pai com o Filho (v. 30). Jesus tem consciência de que sua maneira de ser e agir é uma interpretação de suas obras. Seu trabalho responde por ele: “As obras que faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim” (10.25; 10.32; 10.37-38). O evangelho ressalta duas facetas inseparáveis: os sinais e as palavras. Os sinais promovem a abertura de um caminho para a fé. Aqueles que estagnarem sobre os sinais transformam-nos em obstáculos à fé. O procedimento dos fariseus transformou as Escrituras
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em obstáculos. Da mesma forma, os sinais podem impedir a formação da fé autêntica, confessante no cotidiano da vida. A segunda faceta do trabalho de Jesus são as palavras. As falas de Jesus são argumentos que querem persuadir os interlocutores. Nas atividades de Jesus, o discurso admoestador e consolador teve um espaço preponderante (17.8; 17.14). Jesus faz uma retrospectiva avaliadora e conclusiva (17.8,14). V. 26 – Levanta-se aqui a problemática da predestinação. Há ovelhas que não são de Jesus. Elas não podem crer, como também a sua fé não se desenvolve. Estamos diante de uma genuína constatação joanina: o não crente é responsável por sua falta de fé. Ele, no entanto, não consegue fazer sua fé se desenvolver (8.43b; 12.39). Alega-se que essa constatação esteja arraigada em 8.23. Quem é “de baixo” corrobora o poder de baixo. Seu pensar e fazer são inspirados pelo “embaixo”. Aqueles que assim vivem optaram em organizar sua vida em conformidade com a ideologia que prioriza o individualismo, o carreirismo, o egoísmo, a formação piramidal da sociedade... Essa linguagem dualista está a serviço dos defensores da predestinação (17.6-13). V. 27-29 – Somos incentivados a pensar nas pessoas que irradiam sinais visíveis e identificáveis de uma clara opção de fé. As ovelhas escutam a voz de seu pastor (v. 27) e seguem-no (v. 4). O pastor conhece as ovelhas (v. 14 e 29). Ninguém as arrebatará de sua mão (v. 28). A certeza de que ninguém poderá arrebatar as ovelhas da mão do pastor faz-nos enxergar que os v. 28-29 transcendem o conteúdo dos v. 1-18. V. 28-29 – O v. 28 encerra a mais dinâmica e solidária manifestação de confiança do Evangelho de João. O v. 29 coloca diante de nós um problema de crítica textual. Não vamos resolvê-lo nesta reflexão. A decisão a ser tomada deverá considerar o contexto da comunidade joanina. Aconselho a tradução conhecida. Variantes: “Meu Pai, o que (aquilo que) ele me deu é maior que tudo” ou “Meu Pai, que as deu a mim é maior que tudo”. Esse versículo fundamenta a ilimitada promessa protetora do v. 28. Vejamos facetas específicas quanto ao emprego do verbo didomi (dar). No evangelho e nas cartas, esse verbo revela um conteúdo teológico central. O dar é uma faceta do agir de Deus. A iniciativa é exclusiva de Deus. O Pai doa “tudo” ao Filho. O Filho exemplifica essa opção divina ao mundo (pessoas, humanidade), sobretudo no que tange à “vida” (João 4 e 6). O acento recai sobre a doação do Filho (Jo 3.16). O ser humano é totalmente dependente do doar de Deus (3.27). O verbo didomi é um conceito da comunidade joanina que destaca o “somente a graça”. V. 30 – Este versículo pode finalizar os v. 26-29 como também os v. 22-25. O v. 30 não é uma formulação isolada. Encontramo-la em todo o Evangelho de João. No Evangelho, aparecem outras formulações, que expressam essa unidade (12.45; 14.9).
3 Meditação a – Na comunidade do discípulo amado, havia vários conflitos: com o mundo, os judeus, a sinagoga, os discípulos de João (Batista) e outros. Na tradição
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joanina, o mundo gera conflitos com a comunidade. Concentra-se em si mesmo e, por isso, busca a sua salvação. Às vezes, é identificado com os judeus. É a incompatibilidade entre o enviado do Pai e o mundo. As discussões de Jesus com os judeus revelam um conflito da comunidade joanina depois do ano 70 d.C. O judaísmo aparece no quarto evangelho como um bloco homogêneo. Os sinóticos mostram que antes de 70 o judaísmo era formado por vários grupos: fariseus, saduceus, herodianos, escribas, sacerdotes e outros. A uniformidade caracteriza o judaísmo rabínico. Nas comunidades de hoje, não há, muitas vezes, clareza quanto ao significado de “mundo” em João. Muitas discussões infrutíferas acontecem por falta de conhecimento. Considero importante clarear esse conceito na comunidade. b – Caracterizar e destacar algumas facetas do agir de Jesus. A abordagem das obras tem de deixar muito claro que sinais e palavras são inseparáveis. A atuação de Jesus abrange sinais (diaconia) e palavras (pregação, missão). Na atividade de Jesus, o discurso admoestador/questionador, consolador/motivador teve um espaço preponderante. c – Os sinais promovem a abertura de um caminho para a fé. Podem também ser um obstáculo à fé se ficarmos marcando passo sobre os sinais. Confessamos que a fé é uma dádiva de Deus mediante a ação do Espírito Santo. Dádiva quer ser transformada em ação. O objetivo da fé é sua vivência, sua prática. Confissões de fé que não transformam o status quo servem para o contentamento pessoal. A fé sem prática torna-se irrelevante para o crescimento do reino de Deus. d – Proponho refletir agora sobre a figura do pastor e das ovelhas. As ovelhas escutam a voz de seu pastor (v. 27). Seguem-no (v. 4). Sugiro fazer uma referência ao shemá – “Ouve, Israel” (Dt 6.4). A LXX emprega o mesmo verbo akouein (ouvir), que também os redatores de João adotaram. Arrisco afirmar que estamos diante da teologia do êxodo. O ouvir de Deus, um convite desafiador para também ouvi-lo. O ouvir significa crer, aceitar e comprometer-se com o projeto de libertação e salvação da humanidade. O pastor conhece suas ovelhas. Ninguém as arrebatará de sua mão. Sinto-me motivado a sugerir uma avaliação da imagem da comunidade/rebanho de ovelhas. Essa imagem motiva o engajamento da comunidade de Jesus Cristo na realidade em que estamos inseridos? Fazer uma acareação entre as comunidades do Apocalipse e a que é identificada como um rebanho de ovelhas. O povo de Deus, liberto de todas as escravizações, é transformado num rebanho dócil e submisso, sem iniciativa e sem decisão. Não precisa ser assim, mas vejo que a figura do bom pastor e das ovelhas gira em torno de uma concepção idílica de comunidade. e – O versículo 29 fundamenta a ilimitada promessa protetora do v. 28. Com que direito Jesus tem esse poder abrangente de preservação/proteção? A resposta engloba quatro passos: – As ovelhas são do Pai. Ele as doou a Jesus. Às ovelhas é facultado, outorgado o direito de vivenciar essa opção do Pai.
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– O Pai é maior do que “tudo”. É evidente que se pensa no relacionamento do Pai com o Filho. As ovelhas (comunidade) jamais serão arrancadas da mão protetora do Pai (exemplificar e concretizar). – A mão do Pai torna-se concreta e perceptível mediante o agir de Jesus. Percebe-se essa mão protetora no cotidiano da vida (exemplificar e concretizar). – Ser bom pastor conforme o Bom Pastor é “dar a vida” pelo rebanho. Que significa essa atitude na prática da fé no dia a dia? Engajar-se para que o povo tenha condições dignas de viver. Deus não deseja colher sacrifícios. Portanto sejamos sóbrios quando pregarmos sobre a atitude do bom pastor para não defender, de peito inflado, que o bom pastor entrega sua vida em favor do rebanho/povo. Deus não quer vidas sacrificadas por ser o Deus apaixonado pela vida. A partir dessa perspectiva, vejo que o pastoreio evangélico é um desafio ao engajamento: – estímulo à dignidade humana; – engajamento pela saúde integral; – convite à vivência da liberdade; – desafio à participação; – assumir a própria identidade; – participar da alegria de um povo.
4 Caminhando em direção à prédica A comunidade joanina reflete a realidade no fim do 1º século de nossa era. Para situar os ouvintes, comentar um aspecto da meditação. 1 – Destacar a pedagogia de Jesus. A atuação de Jesus abrange sinais (diaconia) e palavras (pregação, missão). Exemplos da atuação de Jesus: – Jesus deseja a participação das pessoas (trabalho em equipe); – Jesus pergunta; – Jesus ouve; – Jesus partilha; – Jesus visita; – Jesus devolve a dignidade às pessoas; – Jesus encontra-se com as pessoas excluídas. 2 – Confissão: fé é dádiva de Deus. Impulsiona-nos à diaconia mediante o agir do Espírito Santo. Confissões de fé que não transformam o status quo servem apenas para o contentamento pessoal. Ela é irrelevante para o crescimento do reino de Deus. 3 – A fé, portanto, necessita de um contínuo fortalecimento: ouvir o que Deus nos tem a dizer. Esse ouvir recebe seu impulso do próprio Deus. Deus sempre ouve seu povo: do êxodo até os dias de hoje. Esse ouvir é assumido e vivenciado pela própria comunidade. Sugiro abordar agora a imagem do Bom Pastor e do rebanho de ovelhas. O Bom Pastor, Jesus Cristo, sempre está presente e acompanha o rebanho/comunidade. É um acompanhamento dinâmico. Pertencer a essa comunidade significa ouvir a voz do Bom Pastor/Jesus Cristo. Esse ouvir
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significa assumir a pedagogia de Jesus na caminhada da fé, no cotidiano. Agir como Jesus agia em sua prática diária. Ele, o enviado do Pai, age como o próprio Deus age. Ser testemunha de Jesus nessa comunidade é estar compromissado com a prática: – acolhedora, solidária e questionadora do status quo; – não monopolizadora do agir de Deus (ecumênica); – engajada na conquista da saúde integral (comunidade terapêutica); – comprometida com a vivência da dignidade humana. 4 – Essa prática é possibilitada à comunidade mediante o agir de Jesus Cristo, o Bom Pastor. Finalizar com os v. 28b e 29. Estamos diante da mais dinâmica e solidária manifestação de confiança na presença e no agir de Jesus no Evangelho de João. O v. 29 fundamenta a ilimitada promessa de proteção do v. 28b. A comunidade do Bom Pastor jamais será arrebatada da mão protetora de Deus. Não há como cair para fora da esfera de ação de Deus. Isso não é privilégio. É consequência do dar de Deus, é graça.
Bibliografia DIETZFELBINGER, Christian. Das Evangelium nach Johannes. Zürich: Theologischer Verlag Zürich, 2004. RIBLA 17. Quarto Evangelho e cartas de João. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes e Editora Sinodal, 1994.
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PRÉDICA: APOCALIPSE 21.1-6
5º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 148 JOÃO 13.31-35
28 ABR 2013
Samuel Gausmann
1 Introdução No quinto domingo após a Páscoa, somos “sacudidos” por um impressionante texto de Apocalipse, revelando a glória do poder de Deus. O quanto temos ainda o nosso “coração ardente” pela novidade da Páscoa? Cabe lembrar os discípulos de Emaús (“não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava?” – Lc 24.32) e outro trecho de Apocalipse (“assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” – 3.16). No trecho do Evangelho de João, é retratada a quádrupla glória de Deus, enfatizando que a glória suprema de Deus se manifesta em Cristo por meio da encarnação (amor) e da cruz (obediência). O mandamento do amor que Cristo transmite aos discípulos sinaliza que o amor não é somente sentimento, mas atitude, e é uma dádiva de Deus e não conquista humana, tampouco merecimento. Essas palavras de Cristo foram ditas à luz de sua iminente partida para o Pai. O amor deve permanecer como um sinal entre os seguidores de Cristo, e isso até o fim dos tempos, aconteça o que acontecer. O Salmo 148 é a convocação de um coro universal de louvor (tudo o que há nos céus e na terra) por toda a criação. A glória de Deus é algo tão maravilhoso, que diante dela só cabe às criaturas o louvor. Deus, como criador, é autônomo e independente, inclusive do tempo e do espaço, que são dimensões criadas por Ele também. Em seu poder e autonomia, Ele escolheu habitar entre nós por intermédio de Cristo, e toda a força de seu poder Ele nos revela por meio do amor.
2 Exegese – perscrutando a glória de Deus revelada É fundamental que não se perca de vista o contexto histórico do Apocalipse de João: uma mensagem de esperança para uma época de cruéis perseguições aos cristãos, com o objetivo de manter no povo oprimido a perseverança na fé e a resistência aos opressores. O mar é símbolo do caos primitivo (Gn 1.1-2) e dos poderes que se opõem a Deus. A afirmação do v. 1 – “E o mar já não existe” – possui um pano de fundo mitológico. Na história babilônica das origens, é narrada a luta entre Marduk, o Deus da ordem e da criação, e Tiamat, o dragão do caos. O mar é sempre inimigo de Marduk. Na maior parte das mitologias antigas, o mar é apresentado como lugar das forças do caos e da destruição. Há ainda outra explicação interessante,
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5º Domingo da Páscoa
que identifica o mar com o mar de vidro (4.6; 15.2), que representa a separação entre Deus e suas criaturas. A restauração de Jerusalém, citada no v. 2, retrata um antigo anseio do povo judeu, que possui um duplo pano de fundo: por um lado, o sentimento nacionalista e, por outro, a influência do modo de pensar grego, baseado na doutrina platônica das formas. Platão sustentava que, num mundo invisível, existiam as formas perfeitas de tudo o que existe na Terra. A partir dessa doutrina, existiria uma Jerusalém celestial, da qual a Jerusalém terrestre não é mais do que uma cópia imperfeita. É nisso que pensa Paulo quando fala da “Jerusalém lá de cima” (Gl 4.26), e é isso o que tem em mente o autor de Hebreus quando fala da Jerusalém celestial (Hb 12.22). Essa concepção de ideias preexistentes ou de formas perfeitas e celestiais pode apresentar-se complicada ao ouvinte moderno. No entanto, devemos reconhecer o impacto dessa concepção: o ideal é real e está nas mãos de Deus, a fonte de todos os ideais. Afirmar que todas as coisas serão novas aponta para a profundidade da transformação. O resultado, porém, é a redenção e não simplesmente a abolição das coisas antigas. O auge dessa transformação manifesta-se em Jesus Cristo: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). Céu é o termo bíblico para designar o lugar da habitação de Deus (Sl 33.1314; Mt 6.9). Enquanto estamos em nosso corpo atual, as realidades do céu são invisíveis para nós e somente as conhecemos pela fé (2Co 4.18; 5.7). Assim como a noiva se enfeita para seu marido, Deus vai embelezar a Jerusalém celestial para seus amados. A palavra ataviada tem o sentido de enfeitada exageradamente, com gosto duvidoso. A noiva tem permissão para enfeitar-se conforme deseja e até mesmo para cometer alguns exageros em nome do sonho de casar-se e sentir-se linda para o noivo. A paixão desperta o desejo intenso de agradar e tornar tudo mais belo. Transpondo isso ao versículo 2, deduz-se que Deus cuidará com extremo zelo da beleza da cidade vinda do céu. Diante de todas as coisas maravilhosas que Deus tem criado neste mundo, podemos aguardar com grande expectativa a beleza extraordinária que terá a cidade construída pelo Criador Divino. Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povo de Deus, e Deus mesmo estará com eles: As Escrituras estão repletas de frases como essas, descrevendo a comunhão divina com a humanidade salva. Deus queria uma relação dessa qualidade no Antigo Testamento (Êx 29.45). Jerusalém, o lugar escolhido por Deus para a edificação do templo, passou a representar a habitação de Deus no meio do povo (2Cr 6.2). Mas o povo rompeu esses laços de comunhão, repetidamente, pelo pecado (Is 59.2). Jesus veio para “fazer o seu tabernáculo” entre as pessoas (Jo 1.14), e a comunhão tornou-se possível pelo sangue dele (Ef 2.11-18). A palavra tabernáculo (em grego skene) significa originalmente tenda, moradia provisória, “desmontável”. Há duas ideias principais que merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, trata-se do Tabernáculo que os judeus levantavam no deserto enquanto viajavam à Terra Prometida. Esse Tabernáculo era uma tenda,
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o lugar da presença de Deus no meio de seu povo. Em segundo lugar, há duas palavras que não têm nada a ver uma com a outra quanto à sua origem, mas que soam de maneira semelhante segundo suas respectivas pronúncias. Uma dessas palavras era skene, que remete ao Tabernáculo. A outra era o termo hebraico shequiná, que significa “glória”. Pela semelhança nos sons, afirmar que Deus fará o seu tabernáculo com as pessoas equivalia, portanto, a dizer que a glória de Deus habitará entre os humanos. No tempo vindouro, a glória de Deus não será uma nuvem transitória e misteriosa, mas sim uma presença real e visível. Deus é o único capaz de fazer novas todas as coisas. Por isso afirma de si mesmo: “Eu sou o Alfa e o Ômega”, “o princípio e o fim”. Alfa é a primeira letra do alfabeto grego, e ômega, a última. Mas João amplia o significado dessa expressão: Deus é “o princípio e o fim”. A palavra traduzida por “princípio” é arche e não significa simplesmente primeiro no tempo, algo que ocupa o primeiro lugar em uma série. Significa primeiro no sentido de origem de todas as coisas. Significa que todas as coisas têm sua criação em Deus e por Deus. A palavra traduzida por “fim” é telos e não significa simplesmente fim no tempo, a última das coisas que se enumeram em uma série. Telos significa consumação, aquilo no qual todas as coisas chegam a realizar plenamente seu propósito.
3 Meditação – da glória de Deus ao coração humano O texto bíblico é rico em explorar contrastes: novo/velho, princípio/fim, promessa/cumprimento, dor/alívio, choro/consolo, morte/vida eterna, tristeza/ alegria. Esses contrastes podem ser analisados na perspectiva daquilo que vemos e daquilo que desejamos ver, daquilo que os olhos do corpo veem e nos entristece e daquilo pelo que os olhos da fé esperam e nos alegra. A imagem da cidade é algo muito sugestivo, é símbolo de convivência. Na colônia, no interior, as pessoas vivem mais isoladas e “desprotegidas”. No entanto, o quanto nossas cidades proporcionam convivência e proteção? Muitas pessoas migram para as cidades em busca de dias melhores, na esperança de realizar sonhos, e lá esses sonhos, muitas vezes, se tornam pesadelos. Os grandes centros urbanos de hoje oferecem possibilidades para todos realizarem seus sonhos ou somente proporcionam dias melhores para quem puder pagar por eles? O nome Jerusalém significa cidade da paz. Ao olharmos para a Jerusalém de hoje, vemos poucos sinais de paz. A promessa da “nova Jerusalém” é, por um lado, motivo de consolo, pois o caos urbano que desgraça a vida de muita gente vai ser “sarado” por Deus, e, por outro lado, é motivo de entusiasmado engajamento, pois a promessa de Deus é digna de confiança, e Ele mesmo nos capacitará no esforço por humanizar nossos centros urbanos. Vale destacar que a vida urbana por si só já é cheia de contrastes, que poderão enriquecer a atualização da prédica. A alegria da convivência plena com Deus tem destaque no texto bíblico. Por meio de Cristo todos têm o privilégio de viver na presença de Deus. Estar com Deus não é mais uma busca inatingível do ser humano, mas uma dádiva para aqueles que creem nas promessas divinas concretizadas em Cristo. A glória de Deus encarna-se na história da humanidade e leva-a a um fim bem-aventurado
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para quem permanece na fé, na esperança e no amor. Assim como Deus é comunhão (Trindade), a salvação também apresenta aspectos de comunhão. É preciso resgatar a dimensão coletiva da salvação cristã, que contrasta com as propostas individualistas de salvação na atualidade. A comunhão de fé é um teste e um encaminhamento para a eternidade: testa, porque quem não ama o seu próximo a quem vê não conseguirá amar a Deus que não vê (1Jo 4.20); encaminha, porque o bem que se faz a qualquer um dos “pequeninos” é como um serviço ao próprio Cristo (Mt 25.40). A salvação apresentada pelo Apocalipse ajuda a vislumbrar que o ser humano não é salvo para fora da história como protagonista ou vitorioso solitário no pódio, mas é salvo para dentro da história criada, mantida e restaurada por Deus como coadjuvante ao lado de tantos outros coadjuvantes, que, entre si, não são menos ou mais importantes, mas todos igualmente participantes. Afinal, coadjuvante também ganha Oscar, e a coroa da vida eterna é para aqueles que investiram na comunhão com Cristo e com o próximo. É importante explorar a dimensão poimênica de Apocalipse. “Deus enxugará dos olhos toda lágrima” significa que ninguém terá mais uma lembrança triste de seu passado. Nenhuma culpa acusará ninguém. A citação “o mar não existe mais” pode ser enriquecida com a expressão “mar de lágrimas”, que Deus faz ser coisa do passado. Deus é próximo e é consolador. Por meio de seu poder Deus age na história da humanidade e por intermédio de seu amor Ele quer fazer morada entre os humanos. Deus não é um ser distante e inatingível, mas quer ser alguém tão próximo, a ponto de não apenas conhecer nossas dores como também enxugar nossas lágrimas. Deus é capaz de enxugar lágrimas, pois em Cristo experimentou toda sorte de sofrimento e também chorou (Lc 19.41; Jo 11.35).
4 Imagens para a prédica – manter o coração ardendo Apocalipse é um registro do que foi revelado em visões ao autor. Nem sempre é fácil registrar o que se vê. Como descrever adequadamente um pôr do sol glorioso ou a majestade das montanhas? Os diferentes verbos gregos significando “ver”, “observar” e “perceber” aparecem 140 vezes nesse livro. Diante da importância do “ver” em todo o Apocalipse, não se pode deixar de usar algum meio visual para transmitir a mensagem bíblica. Se a pregação for num domingo, que tal levar um jornal de domingo (“novidades fresquinhas”), ou se for num sábado à noite, levar o jornal de domingo (“notícias do amanhã”)? Comece questionando: O que é novidade para você? Novidade tornou-se, hoje em dia, exigência do mercado: é preciso até “criar” novidades para vender mais. Enfatize a novidade cristã e seu diferencial: Deus vai recriar tudo o que existe. E isso já começou desde a Páscoa, quando Cristo foi ressuscitado dentre os mortos. Outro recurso visual pode ser o bordado (de um quadro ou tapete). Conforme relata o P. Jucksch: “Quando estivermos com Deus, também compreenderemos todos os nossos caminhos aqui na terra. Compreenderemos porque a nossa vida teve que ser assim. No avesso de um bordado avistamos fios emaranhados e cortados, mas, olhando por cima, veem-se o lindo desenho, os pensamentos da bordadeira. Assim será também conosco. Em nossa vida terrena, tantas coisas são
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incompreensíveis, mas depois saberemos que tudo tinha relação com o maravilhoso plano de Deus” (p. 194).
5 Subsídios litúrgicos – a glória divina no cotidiano humano Sugiro fazer uma celebração que contemple a dimensão visual. Se possível, usar recursos de projeção (data-show ou retroprojetor). Hinos e leituras bíblicas devem estar disponíveis para que todos acompanhem a leitura. Preparar com a equipe litúrgica alguns voluntários para permanecer no altar com os olhos vendados, que deverão ser desvendados no momento do Anúncio da Graça. As leituras bíblicas serão feitas por esses voluntários. No abraço da paz, na Ceia, enfatizar que, ao dizer “A paz de Cristo seja contigo”, as pessoas olhem-se nos olhos. Confissão de pecados: Inspirando-se na palavra do v. 5, que pede a João para escrever as palavras de Deus, a confissão de pecados pode ser realizada de forma escrita. Para escrever a confissão, devem-se providenciar pequenos bilhetes, que deverão ser incinerados logo após o culto. Anúncio da graça: Diante da culpa do pecado que pesa em nós e nos condena está escrito: “Das coisas antigas, nada sobrou. Tudo se foi” (Ap 21.1). E Deus mesmo nos proclama: “Sim, faço novas todas as coisas” (Ap 21.5) e “Enxugarei dos olhos toda lágrima” (Ap 21.4). Deus ouve a confissão sincera e concede o perdão que liberta. Andemos, pois, em novidade de vida pelo que Deus fez por nós em Cristo Jesus. Amém. Devido à ênfase do trecho bíblico na glória de Deus, não deveriam faltar na liturgia o Gloria in excelsis (como introdução: Sl 148) e o Kyrie.
Bibliografia GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2003. p. 415-431. JUCKSCH, Alcides. Em breve deve acontecer. Gramado: Editora Conhecer a Bíblia, 2000.
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DIA DO TRABALHO
PRÉDICA: TIAGO 5.1-6
01 MAI 2013
PROVÉRBIOS 6.6-11 MATEUS 20.1-16
Günter Adolf Wolff
1 Introdução A relação entre os textos de leitura – Provérbios 6.6-11 e Mateus 20.1-16 – é um tanto contraditória, mas a relação entre Mateus 20.1-16 e o texto de pregação de Tiago 5.1-6 é de complementação. Para Provérbios 6.6-11, a preguiça leva à bandidagem e à pobreza. Devemos alertar que a pobreza não advém apenas da preguiça, mas principalmente da exploração à qual a classe trabalhadora está sujeita. A origem da pobreza está na riqueza. No entanto, os desempregados de Mateus 20.1-16 não são preguiçosos, mas desempregados em busca de trabalho. Assim como Jesus em Mateus 20 mostra a sociedade de classes e suas contradições, também Tiago o faz. Mateus 20 propõe o fim da exploração, sugerindo um salário justo, que é o que cada um precisa para viver. No conceito popular, preguiçoso é o pobre, mas o rico que não trabalha, por viver do trabalho da classe trabalhadora, não é tido como preguiçoso, mas como investidor e empreendedor. O pobre que rouba, rouba por ser preguiçoso; rico que rouba parte do trabalho da peonada por não pagá-la (o trabalho excedente gera o lucro), é gente de bem, abençoada por Deus. Nas palavras de Marx: “O dinheiro é o bem supremo, e por isso seu possuidor é bom”. No capitalismo, há duas formas de roubo: o roubo legal e o roubo ilegal. O roubo legal é o pagamento no salário apenas do trabalho necessário, retendo o trabalho excedente, que é o lucro. O roubo ilegal são as corrupções, falcatruas, crimes do colarinho branco, desvios, assaltos, contrabando, sonegação fiscal etc. Crime é apenas o roubo ilegal. Quem rouba legalmente, não pagando todo o trabalho produzido pelo peão, é um herói, uma pessoa de bem e um exemplo a ser seguido. A compreensão do salário contém o mecanismo para ocultar esse roubo “legal“.
2 Exegese Nosso texto insere-se no contexto da carta que fala das advertências que vão de Tiago 3.1 a 5.6: aos que querem ser mestres (3.1-12); contra as rivalidades (3.13-18); contra a cobiça (4.1-10); contra a maledicência (4.11-12); contra a ganância (4.13-17); contra a injustiça dos ricos (5.1-6). Tiago carrega na coerência da fé em Jesus Cristo: a fé tem quer ser coerente com a prática. Afinal, o que está em jogo é o novo projeto do reino de Deus, que é o oposto do reino do mundo. No entanto, a prática do reino do mundo anda mui-
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to presente no meio da comunidade, como relata Tiago 5.1-6. Construir o novo, o reino de Deus, não é fácil, pois estamos rodeados pela prática geral do reino do mundo. Fé não é um mero sentimento, mas é uma nova prática do reino de Deus. Tiago 1.27 lembra essa nova prática de fé: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. Não vamos mais reproduzir o jeito de pensar e de viver do mundo, não vamos nos deixar contaminar; agora vale a dinâmica do reino de Deus, em que somos irmãos/ãs. Tiago 5.1-6 bate forte nessa incoerência. Cristão não pode explorar e oprimir, mas deve acolher os mais fracos e vulneráveis, pois o próprio Cristo está nesses (Mt 25.44-45). Acolher os fracos e explorados é acolher o próprio Cristo. Portanto explorar os fracos é explorar o próprio Cristo. No capítulo 5, Tiago começa sem meias palavras, dizendo que os ricos estão sob o julgamento de Deus, vão pagar pelo que fizeram com os trabalhadores empobrecidos. Tiago deixa claro que riqueza e corrupção são a mesma coisa. Tiago mostra como funciona a sociedade de classes e a luta de classes. Tiago exagera dizendo que o ouro conseguido pela exploração do trabalho dos empobrecidos vai enferrujar de tão podre que é. Não só podre, mas perecível, contra todas as leis da natureza. O material mais precioso e valioso, considerado o mais seguro investimento, é perecível, é fajuta, enferruja. Tiago denuncia o acúmulo de tesouros à custa do não pagamento do salário dos trabalhadores e com isso diz como se acumulam tesouros. Esses tesouros não provêm de Deus; riqueza não é bênção de Deus, por isso vai trazer a perdição. Lá se foi a teologia da prosperidade! Exploração da classe trabalhadora clama a Deus. Deus não é cego e nem surdo, como já diz em Êxodo 3.9: “Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo”. Tiago retoma a dinâmica da denúncia profética do Antigo Testamento: Queremos construir um novo projeto, e por isso não dá para se deixar engambelar pelo velho projeto do mundo. Não é à toa que Tiago retoma o termo Senhor dos Exércitos. Esse termo Israel usava no período da luta pela terra e contra o Estado nas montanhas da Palestina, no intuito de construir um novo projeto de sociedade igualitária, sem classes, com poder popular e onde os meios de produção pertencem ao coletivo. Nesse projeto, não cabem a exploração e nem a riqueza, que sempre é de origem do trabalho não pago. Nessa nova sociedade, não pode haver exploração econômica. É a luta do Senhor dos Exércitos, que se antepõe à sociedade classista desigual existente, que não pode ser reproduzida pela comunidade de Jesus Cristo. Pois a comunidade de Jesus Cristo quer construir o reino de Deus e não fortalecer os laços opressivos da sociedade classista envolvente, hoje a capitalista. Reproduzindo o sistema vigente, anula-se o projeto do reino de Deus. Portanto fé em Jesus Cristo não é qualquer coisa; é insurreição e insubordinação ao reino do mundo. Deuteronômio 24.14-15 põe a regra: “Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou estrangeiro que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia, lhe darás o seu salário, antes do pôr do sol, porquanto é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado”.
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O v. 4 fala da exploração, e os v. 5 e 6 falam da opressão inerente à exploração. Esse texto lembra Miqueias 3.1-12, em que o profeta denuncia que o povo está sendo esfolado e quebrado para ser jogado no panelão, para fazer sopa dele. Lembra também Jeremias 12.1-4. Tudo isso não são obras da fé (Tg 2.26); é reprodução do velho projeto do mundo, que continua contaminando a comunidade e dando as diretrizes da vivência, e não o evangelho do reino de Deus, que propõe uma nova sociedade não classista, mas igualitária. Aqui a comunidade está dentro do sistema de classes existente: patrões e trabalhadores sem terra. O sistema econômico era escravista, mas havia senhores de terra que usavam a mão de obra livre sazonal no período das colheitas. Era a mão de obra dos diaristas que não tinham a cidadania romana; eram estrangeiros (paroikoi) sem terra. Cristão rico é uma contradição e não condiz com as exigências do evangelho. O final do capítulo 4 encaminha o assunto a seguir, apontando para a arrogância e a autossuficiência. Tiago 4.17 lembra: “Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando”. Agora Tiago descreve o que é pecado e como é o pecado. Pecado tem nome, e Tiago dá o nome ao pecado. Quer dizer: nós cristãos sabemos qual é o projeto de Deus, mas não o reproduzimos, e isso é pecado. A grande pergunta de hoje é se a comunidade sabe qual é o projeto de Deus. Acontece que a comunidade de hoje também não sabe qual é o projeto de Deus (o reino de Deus). Por isso reproduz o capitalismo e defende-o com unhas e dentes. Cristão não defende o capitalismo; cristão defende o reino de Deus. Só Deus salva; o capitalismo não salva. Tiago denuncia a existência da luta de classes na comunidade e na sociedade como não condizente com o projeto do reino de Deus. A luta de classes agride a vontade de Deus (o texto mostra isso). Por isso ela precisa ser eliminada. Ela será eliminada na medida em que não haja mais classes sociais. Não havendo mais classes sociais, não haverá mais exploração e opressão econômica; finalmente, seremos irmãos e irmãs em Cristo, portanto iguais e fraternos. Fé cristã e riqueza se autoexcluem, são opostos. Riqueza não é bênção de Deus; é pecado, pois surge do roubo do salário retido. O texto alerta para a ânsia pela riqueza presente na comunidade cristã como algo diabólico e condenado por Deus, pois vai na contramão do projeto do reino de Deus, em que somos irmãos. Riqueza é a característica da velha sociedade; igualdade, fraternidade, acolhida das vítimas do sistema, justiça e comunhão são as características da nova sociedade: o reino de Deus. Não há lugar para a luta de classes na comunidade de Jesus Cristo. Não há lugar para uma sociedade construída em cima de classes sociais antagônicas na comunidade de Jesus Cristo, pois essa sociedade classista é essencialmente injusta, opressora e diabólica. O capitalismo é diabólico, pois funciona como Tiago nos relata a partir de sua época: pelo não pagamento de todo trabalho realizado.
3 Meditação Aqui dever-se-ia dar uma aula de capitalismo para desmascarar o seu funcionamento, já que o texto se destina à pregação no dia 1° de Maio, que surgiu
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a partir da opressão capitalista sobre a classe trabalhadora. A simples leitura do texto de Tiago 5.1-6 já arrepia. Sugiro lê-lo duas vezes em voz alta para a comunidade, pois denuncia a teologia da prosperidade, muito difundida no meio cristão atual. Tiago acentua que a riqueza é gerada pela retenção do salário dos trabalhadores. Riqueza é roubo. Tiago põe acento na situação dos trabalhadores explorados, injustiçados e massacrados. O que é o salário? É a quantidade de dinheiro que o trabalhador recebe em troca de seu trabalho. Mas esse não é o equivalente ao valor de produtos (mercadorias) que ele produziu. Seu valor é calculado com base no que ele necessita para sobreviver e manter, com sua família e seus filhos, a mão de obra futura da empresa. O capital transforma tudo em mercadoria; também as pessoas que se vendem no mercado de trabalho. Como se calcula o preço de uma mercadoria? Calcula-se o Capital Constante (Matéria prima + máquinas e seu desgaste + prédio + água + energia + impostos) mais o Capital Variável (Trabalho necessário + Trabalho excedente) mais a Renda diferencial, que é o Preço da mercadoria + um lucro médio. Trabalho necessário é o salário que se recebe e que é necessário para a sobrevivência do/a trabalhador/a. Trabalho excedente são os dias que se trabalha e não se recebe por isso, o que gera a mais-valia – o lucro, o capital. Esse trabalho excedente o salário consegue esconder, pois o peão e o patrão combinaram um salário no final do mês, e assim o peão acha que está tudo normal. No entanto, o peão não calcula em quantos dias ele pagou o seu salário e quantos dias ele trabalhou de graça para o patrão. Assim, a exploração do trabalhador acontece durante o processo de produção da mercadoria. Por isso o objetivo do capitalismo é produzir mercadorias, pois é nesse processo de produção das mercadorias que surge o lucro, o capital, pela realização do trabalho excedente que não é pago. Dou aqui um exemplo para compreender o trabalho excedente, que é o gerador do lucro do capital. Cálculo do salário de um mecânico de uma agência de carros em valores de maio de 2008: 220 horas trabalhadas ao mês x 50 reais a hora (custo da hora trabalhada) = 11.000 reais – valor gerado ao mês pelo mecânico. O mecânico recebe 4 SM = R$ 1.660,00 (SM em maio de 2008 era R$ 415,00) + encargos de 100% = R$ 3.320,00, que é o “custo” do mecânico. R$ 11.000,00 (valor gerado ao mês) – R$ 3.320,00 (“custo do mecânico”) = R$ 7.680,00, que é o lucro do patrão. Assim surge o capital, assim avaliado por Tiago: “Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude”. R$ 50,00 a hora x 8 horas de trabalho ao dia = R$ 400,00 é o valor gerado por dia. 3.320,00 (salário mais encargos) ÷ 400,00 (valor gerado ao dia) = 8,3 dias de trabalho foi o tempo que o mecânico levou para gerar o seu salário mais os en-
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cargos sociais. Não é o patrão que paga o salário; é o próprio mecânico que gera com seu trabalho o valor de seu salário e dos encargos sociais. O mecânico gerou o seu salário em 8,3 dias e trabalhou 19,2 dias de graça para o patrão, que é o trabalho excedente, o mais-valor, o lucro, o capital. 19,2 dias de trabalho não foram pagos, e isso o conceito de salário esconde. Assim, a origem do capital está no roubo dos dias trabalhados e não pagos. 220 horas ÷ por 8 horas diárias dá 27,5 dias de trabalho ao mês; diminuídos os 8,3 dias em que o mecânico gera o seu salário e encargos, sobram 19,2 dias trabalhados de graça. Essa é a fraude embutida no salário, esse é o roubo que gera a riqueza. Isso decididamente não pode ser bênção de Deus. Escutei, muitas vezes, de muitos empresários cristãos convertidos falando da vida boa de seus peões, dizendo: “Os empregados é que têm uma vida boa. Não precisam se preocupar depois de sair do serviço, têm um fim de semana de folga, além das férias. Os empresários, por sua vez, têm vida atribulada e sofrida e por isso não conseguem dormir descansados à noite, pensando como irão arranjar dinheiro para pagar os peões no fim do mês”. Ouvi essa conversa de empresários muitas vezes e, por fim, comecei a lhes sugerir que trocassem de papéis e de funções: que entregassem toda a empresa para os peões administrarem e eles, os empresários, virariam tranquilos, afortunados e descansados peões, com os salários e o ritmo de trabalho correspondentes a esses, é claro. Adivinha a resposta! O capital reduz toda atividade humana a trabalho e toda realização do ser humano a mercadoria. O ser humano é constrangido a aceitar a mais desigual das trocas: a da vida pela sobrevivência, sendo forçado pela necessidade a fazer de suas aptidões um objeto de consumo e vendê-las no mercado de trabalho. Tendo conseguido vender sua força de trabalho, a realização do proletário torna-se sua desrealização; a afirmação do proletário torna-se a negação de si como pessoa, pois o trabalhador não age como ser humano, mas como força de trabalho, como mercadoria, subordinado à vontade do capitalista, em troca de um salário. A burguesia busca controlar o Estado, a principal fonte de acúmulo de riquezas, a partir da chamada mais-valia social, que o Estado concentra anonimamente por meio de impostos. Com esses impostos o Estado realiza obras que são executadas pelas empresas capitalistas e dessa forma se apropria desses impostos.
4 Imagens para a prédica As imagens para a prédica apontam para Tiago 5.5-6: “Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência”. É a denúncia da realidade dos trabalhadores. O objetivo do capitalismo é produzir mercadorias, pois é no processo da produção da mercadoria que surge o lucro. Uma palavra de Maurício Botelho, ex-presidente da Embraer, mostra o objetivo do capitalismo: “Não temos nenhum interesse especial pela aviação; nosso objetivo é o lucro”. O que cria riqueza, o que gera valor é o trabalho humano, empregado na produção de mercadorias. Sem trabalho humano não há riqueza. No processo de
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produção da riqueza capitalista, há o Trabalho Necessário e o Trabalho Excedente. Trabalho necessário é o salário que se recebe para sua automanutenção. O salário esconde o processo de exploração, pois o trabalhador combinou com o patrão um valor x, e assim ele não faz a conta quanto ele produz por mês a mais do que ele recebe como salário. Esse valor a mais é o Trabalho excedente, que são os dias que se trabalha e não se recebe por isso, o que gera o mais-valor – o lucro –, que é produzido, segundo os relatos dos noticiários, como segue. 1 – Os operários encarregados da montagem dos iPhones, iPads e outros aparelhos da Apple trabalham com frequência em condições terríveis, de acordo com empregados das fábricas, grupos de defesa dos trabalhadores e relatórios publicados pelas próprias companhias. Os operários fazem horas extras excessivas; em alguns casos, trabalham sete dias por semana e vivem em dormitórios superlotados. Alguns trabalham em pé por tanto tempo, que suas pernas incham a ponto de quase não conseguirem andar. 2 – Sugiro ver o filme “Carne e Osso”, que mostra o processo produtivo nos frigoríficos de abate de aves e bovinos. Vilma Fátima Favero,“encostada” aos 42 anos, trabalhava na Seara de Sidrolândia, no interior do Mato Grosso do Sul, como “ajudante agropecuária”. “A gente separa os pintos, põe na caixa, vacina, forma o lote e põe no caminhão.” Cada trabalhador coloca milhares de pintos por hora nas caixas. Cada caixa tem cem aves. “Tinha gente que não aguentava e desmaiava, pois muitas vezes se varava a noite. Começava às duas da tarde e largava por volta da meia-noite. Muitas vezes, passava do horário, pois eram 130 mil pintos e apenas quatro pessoas para sexar. Se alguém faltava, era pior; o trabalho acumulava para ser dividido entre quem se encontrava. O ritmo aumentava ainda mais, insuportável”. Hoje está incapacitada para o trabalho e tem tendinite e cinco hérnias de disco por causa do trabalho repetitivo e extenuante. 3 – A propriedade de seu Sebastião Pereira em Altamira, um dos vários produtores de cacau da Volta Grande do Xingu na região de Altamira, PA, foi desapropriada em 2011 pela Norte Energia, construtora da Barragem de Belo Monte, e incorporada à área do canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, conhecida como Sítio Pimental. Apesar de terem destruído sua casa assim que foi decretada a desapropriação, a empresa ainda não pagou o valor da indenização à família. Em função do não pagamento da terra e das lavouras, Sebastião resolveu continuar trabalhando na área e, quando voltou à propriedade, ele foi impedido de entrar e ameaçado de morte se voltasse por seguranças da empresa. As barragens são construídas para gerar lucro para os consórcios que as controlam e que vendem energia barata para que as outras empresas capitalistas possam produzir mercadorias baratas para poder competir no mercado mundial à custa da expropriação dos atingidos. 4 – O trabalho escravo nas fazendas do agronegócio (2.321 escravos libertos em 2011) e nas oficinas de confecção na cidade de São Paulo faz parte da dinâmica do capitalismo. Entre 2005 e 2011, foram libertados cerca de 30 mil trabalhadores em condições de escravidão no país. 45.595 pessoas viveram em
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2011 sob a pressão de pistoleiros a serviço da ação dos grileiros do agronegócio em todo o país. Esses exemplos nos mostram como se produz a riqueza, o lucro. À mesma medida que se produz a riqueza, produzem-se a miséria, a doença, a opressão e o sofrimento indizível da classe trabalhadora. A miséria é o outro lado da moeda da riqueza. Por isso o bispo João Crisóstomo, de Antioquia, que morreu em 407 d.C., disse: “Todo rico é ladrão ou filho de ladrão”. Tiago, como Jesus, coloca os trabalhadores e sua realidade no centro da discussão: são vítimas do sistema. Para uma sociedade de classes, a realidade é essa; esse é o preço do progresso. Mas para quem luta pelo reino de Deus, essa realidade precisa ser denunciada e mudada.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Salário baixo é pecado. Trabalho escravo é pecado. Reproduzir e legitimar a sociedade de classes é pecado. Legitimar o capitalismo através do evangelho é pecado. Absolvição: Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça. Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido (Fp 4.6, Sl 34.18). Kyrie Eleison: Socorre, Senhor, todas as pessoas que, neste vasto mundo, são forçadas a viver de forma indigna: As que vivem diariamente com fome, as que vivem em barracos, sob tetos improvisados ou mesmo a céu aberto, as que passam sede, as que estão fracas, doentes e a ponto de desistir de viver. As que trabalham em condições subumanas, em ritmo tão acelerado que ficam com lesões permanentes e incapazes para qualquer trabalho. As que trabalham diariamente com agrotóxicos que as deixam doentes. Gloria in Excelsis: Deus, Todo-Poderoso, exaltamos-te, pois nos anunciaste através de teu Filho o projeto da felicidade eterna: o reino de Deus. Exaltamos-te, Senhor, porque a função da tua igreja hoje é participar do processo de libertação iniciado por Jesus Cristo. Oração Geral da Igreja: Interceder pelos trabalhadores/as desempregados, pelos malremunerados, pelos que trabalham em lugares insalubres, pelos que estão sendo ameaçados de morte porque lutam por justiça, pelos que lutam pela reforma agrária e contra as
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barragens, pelos trabalhadores escravizados pelo agronegócio e pelas oficinas têxteis das grandes cidades, pelos camponeses iludidos pelo projeto do agronegócio baseado no químico, no veneno e nas sementes transgênicas.
Bibliografia CEBI. Cartas Pastorais e Cartas Gerais. Roteiros para reflexão XI. 2011. 2005. São Leopoldo: CEBI & Paulus. GASS, Ildo Bohn. Uma Introdução à Bíblia. As comunidades cristãs a partir da segunda geração. São Leopoldo: CEBI & Paulus. TAMEZ, Elsa. A Carta de Tiago. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1985.
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PRÉDICA: JOÃO 5.1-9
6º DOMINGO DA PÁSCOA
SALMO 67 APOCALIPSE 21.10,22-22.5
05 MAI 2013
Everton Ricardo Bootz
1 Introdução O Salmo 67 é um salmo curto de bênção (v. 1 e 6s) e, ao mesmo tempo, um salmo com traços apocalípticos, porque amarra as nações (v. 3 e 5) diante do Deus gracioso, que julga e guia com equidade todos os povos (v. 4) que o temem (v. 7). Ressalto o aspecto da revelação no v. 2, pois o rosto resplandecente sobre todos os povos desvela duas coisas: o caminho a seguir (guia – v. 4) e a salvação. A luz de sua face revela o caminho para a salvação. Apocalipse, como mormente sabido, vem do grego e significa re-velação, ou seja, desvelar, tirar o véu. Ao tirar o véu que recobre os acontecimentos, o Apocalipse clareia o caminho para a salvação: a nova cidade de Jerusalém (Ap. 21.10). Os temas de Apocalipse 21.22-22.5 são os mesmos do Salmo 67: através da luz de Deus e de Jesus Cristo os povos saberão como caminhar, e não haverá escuridão em parte alguma. Outra correlação entre os dois textos é o fruto (Sl 67.6; Ap 22.2): Jesus é a Árvore da Vida, que dá fruto mensal (dúzia) e folhas que curam. João 5.1-9 trata exatamente disto: o Jesus que cura! A cura física de um paralítico a partir de um desvelo da tradição religiosa, que mantinha a pessoa presa (paralítica) a um método de cura. Assim, nesse texto, confluem os outros dois: Jesus Cristo mostra o caminho àquele que não pode andar; na época de Jesus, cura era sinônimo de salvação. Cura mediante uma re-velação ideológica, que faz a pessoa sair (caminho) da escuridão à luz do dia da cidade de Jerusalém.
2 Exegese V. 1 – Jesus dirige-se a Jerusalém para participar de uma festa. Essa não é definida, mas a exegese tende pela Festa dos Tabernáculos, o que coloca o texto no início do mês de outubro. Muita coisa tem ocorrido desde o surgimento do movimento de Jesus; por isso a designação “passadas estas coisas”. A exegese entende por “estas coisas” os vários acontecimentos que fomentaram o crescimento do movimento de Jesus. Daí o desejo de Jesus de subir a Jerusalém com o objetivo de tornar mais visível sua proposta evangélica. O verbo “subir” provém da geografia: Jerusalém está localizada sobre um dos morros mais altos, e de qualquer lado que alguém viesse teria que “subir” até a cidade. V. 2 – Jesus vem do norte, da Galileia; portanto sua entrada é feita pelo portão norte da cidade, onde a arqueologia tem descoberto um pavilhão segundo a
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descrição do evangelista, confirmando a existência de uma piscina nesse local. O fato de João expressar o nome da piscina é um indicativo da importância que queria dar a esse evento. Betesda (termo aramaico) significa “casa da misericórdia”, situada num espaço de cinco pavilhões, numeral que alguns apontam como paralelismo usado intencionalmente por João para designar os cinco livros do Pentateuco, ineficazes para a salvação; a proposta de João, ao escrever o evangelho, é apontar Jesus como a nova forma de salvação em detrimento da tradição judaica. V. 3 e 4 – Nesse local, há uma multidão de enfermos: cegos e coxos. O termo paralítico não é encontrado nos manuscritos mais antigos, assim como todo o versículo 4. A exegese tem esclarecido que este versículo foi acrescentado a posteriori em função da declaração do paralítico no versículo 7, onde é mencionada a existência da tradição das águas que se movem. João, ao descrever esse evento, pressupôs o conhecimento do leitor dessa tradição das águas, sem ver necessidade de explicitá-la. Contudo, com o passar do tempo, depois da destruição do templo e da cidade de Jerusalém em 70 d.C., essa tradição local se perdeu. O acréscimo foi necessário também porque o texto desse evangelho percorreu a diáspora, onde tampouco era conhecida tal tradição, própria da cidade de Jerusalém. O adendo, dessa feita, veio como forma de dar maior esclarecimento sobre o versículo 7. V. 5 – O numeral trinta e oito não é indicativo de um uso simbólico. Quer expressar apenas a condição de miséria dessa pessoa, levando-se em conta a situação dos doentes numa cultura que desprezava quem estivesse preso a esse estado de existência, ou seja, tido como impuro pelo próprio Deus. Também não significa que o enfermo permanecesse todos esses anos deitado ali. V. 6 – A miséria humana e a presença de Jesus se atraem, segundo análise dos textos sinóticos. Onde há miséria humana, ali se encontra Jesus. Essa ideia está presente também no escrito joanino, aqui expresso pela escolha específica de uma pessoa dentre tantas enfermas. A escolha não é aleatória; Jesus o vê. Não apenas isso, mas conhece sua história. A exegese indica um pressuposto joanino de um conhecimento sobrenatural por parte de Jesus. Jesus, ao ver, enxerga a alma da pessoa, reconhecendo suas reais necessidades. Daí a pergunta: “Queres ser curado?” Esse paralítico é diferente daquele em Marcos 2.3-5, onde há amigos que o levam e intercedem pelo enfermo. Aqui a pessoa não vem a Jesus, nem é trazida por amigos. Ela está só e desamparada. É Jesus quem vai a seu encontro. V. 7 – A exegese não sabe dizer com que frequência as águas eram supostamente agitadas, mas confirma a existência da crença de que a cura se processava uma única vez depois de agitadas as mesmas. A arqueologia tem descoberto a estrutura da piscina situada perto do Portão das Ovelhas: havia degraus que desciam até as águas. Por isso a presença do verbo “descer” neste versículo. O paralítico não está totalmente imóvel, mas sim tolhido em seus movimentos, a ponto de necessitar ajuda para descer os degraus até as águas. A expressão “não tenho ninguém” revela a intenção joanina de enfatizar que a misericórdia de Deus (Betesda) vai primordialmente àqueles que não têm ninguém para ampará-los. V. 8 – Os verbos “levantar, tomar e andar” estão na forma do imperativo. Jesus interpela novamente, não mais com uma pergunta (v. 6), mas com uma
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ordem. Este versículo não menciona se o enfermo usou da fé, como nos outros casos de cura. V. 9 – A fé é pressuposta, pois a cura dá-se instantaneamente. A pessoa pode aceitar a ordem e, por fé, dar o primeiro passo ou negá-la, retirando-se triste como o jovem rico (Lc 18.18-23). Por fim, ao mencionar que a cura ocorreu num sábado, João revela a intenção última dessa história: tratar da crítica de Jesus diante das tradições vazias das autoridades religiosas. O texto que segue essa perícope trata sobre a controvérsia entre Jesus e os fariseus legalistas (v. 10-18).
3 Meditação João quer transmitir a temática de que Jesus Cristo é o Senhor. Esse é o sentido do evangelho: anúncio de boa-nova de que Jesus é Senhor sobre as enfermidades (v. 5-8) e sobre as leis (v. 9b). Essa temática cai bem neste período do ano eclesiástico, momento no qual Jesus anda entre seus discípulos incrédulos durante quarenta dias, anunciando sua ressurreição, de que é Senhor também sobre a morte. Nesta sexta semana após a Páscoa, podemos anunciar o senhorio de Jesus mediante essa história de cura do paralítico, ressaltando seu poderio sobre doenças e tradições humanas. 1 – Subir/descer: Existe uma oposição de direções que pode ser explorada. Jesus sobe para Jerusalém (v. 1), enquanto o paralítico quer descer os degraus da piscina (v. 7). Esses dois verbos retratam duas direções que podem ser tomadas pelas pessoas. Há aquelas que desejam subir, alcançando novos patamares de vida. Há outras que desejam sucumbir na autopiedade ou mortificar-se em acontecimentos do passado, mesmo já passados 38 anos, ou dar tudo de si, competindo por um lugar ao sol. A paralisia das pernas do enfermo do texto pode ser interpretada como uma paralisia da alma. A pessoa acomoda-se a uma situação, por mais podre e fétida que seja. O pavilhão não seria diferente, com vários doentes, com suas chagas abertas. Isso sem mencionar a água da piscina, infectada pelo constante banho das feridas e chagas dos enfermos desejosos de cura. 2 – O Tanque de Betesda: Na Índia, existem piscinas como o tanque de Betesda. Os indianos banham-se nessas piscinas sagradas ao lado de seus templos hindus, buscando a purificação de suas chagas. As águas são sujas e malcheirosas. Mesmo assim, as pessoas banham suas pernas ou braços em suas águas. Até o rio Ganges, que passa pela cidade mais sagrada dos hindus, Varanasi, sofre com a imundície. Milhões banham-se anualmente em suas águas, despejando nele também as cinzas de seus mortos. Até animais mortos podem ser encontrados boiando em suas águas. Mas a religião hindu afirma que banhar-se ao amanhecer nas águas do rio Ganges é um rito de purificação. A religiosidade judaica defendia o mesmo quanto ao tanque de Betesda. A cura só se processava mediante um rito. 3 – A ideologia que paralisa: Assim rezava a tradição de que somente seria curada por milagre aquela pessoa que por primeiro entrasse no tanque logo após suas águas serem agitadas por um anjo. Não há outro meio, a não ser confiar no sistema. Dessa forma, as autoridades religiosas mantinham seu poder: difundindo a crença religiosa de que a cura só seria processada por intermédio do sistema,
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da tradição. As pessoas precisam confiar no sistema, fortalecendo-o consequentemente. Os cinco pavilhões eram a maior propaganda, difundindo que somente mediante a tradição e o rito a cura podia ser alcançada. 4 – O evangelho: A boa-nova que João traz é que não precisamos nos manter paralisados segundo a estrutura de um rito e/ou de um pensamento religioso. Jesus faz a pessoa andar por suas próprias pernas. Seu método para libertar a pessoa do sistema é através da pergunta (v. 6): “Queres ser curado?” A pergunta faz a pessoa pensar e repensar de maneira crítica, situação que pode despertá-la de seu torpor ideológico. É a maiêutica socrática. Jesus faz uso dela com os caminhantes de Emaús (Lc 24.17 e 19) e com Maria Madalena no amanhecer do Domingo da Páscoa (Jo 20.13 e 15). A pergunta faz nascer, mesmo que de maneira incipiente, a necessidade de encontrar outra saída para a sua situação sem esperança. O sistema diz: “Não há outra saída”. Jesus insinua: “Será?” A pessoa está tão presa ao sistema do ritual da piscina, que interpreta a pergunta de Jesus primeiramente segundo o contexto da única cura possível, ou seja, mediante as águas agitadas do tanque de Betesda. Por isso cogita que a cura poderia ocorrer se Jesus o ajudasse a descer as escadas por primeiro. 5 – Libertação: Mas Jesus propõe outra forma de cura. Uma que independe de rito ou do sistema vigente no pavilhão. Uma que denuncia esse sistema de competição injusta. Uma forma de cura que se processa mediante a fé, sem o intermédio das autoridades religiosas. A pergunta de Jesus “Queres ser curado?” (v. 6) implicava não apenas cura física, mas cura da dependência ideológica. Por isso Jesus ordena simplesmente que o paralítico abandone suas crenças, levante-se, tome seu leito e ande para fora do pavilhão. Lá fora há festa; no pavilhão, dor e gemido. Lá fora há o calor da luz do sol; lá dentro, só sombras, e o frio da escuridão. Lá fora há vida; lá dentro, morte e paralisia. Lá fora há ar puro, revigorante; lá dentro, água fétida e contagiosa. Lá fora há liberdade; lá dentro, leis inflexíveis (sábado) e tradição que enrijecem a alma das pessoas. Lá fora há autonomia da graça; lá dentro, dependência exclusiva a um sistema intolerante. 6 – Betesda: Jesus restitui ao lugar (Betesda) seu sentido original, “casa da misericórdia”; a tradição havia tolhido a essência da misericórdia, transformando a casa do Pai em casa da senzala, onde ficavam confinados os sem direito algum, os impuros. Assim como no evento dos vendilhões do templo, Jesus mostra, mediante essa ação de cura, o caminho da salvação (Sl 67). Ele desvela (Ap 21.10, 22-22.5) a hipocrisia da tradição farisaica, mostrando em pleno sábado que Deus atende e cura a despeito das leis humanas, retirando-as da escuridão (dos pavilhões onde nos encontramos) para a luz da cidade de Jerusalém, que vem lá de cima, para onde precisamos subir, alçando novos patamares de vida.
4 Imagens para a prédica 7 – História: Para a finalização da mensagem, pode-se contar uma história: “Decidindo como agir”. Um colunista conta uma história em que acompanhava um amigo a uma banca de jornais: “O amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas como retorno recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando
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o jornal que foi atirado em sua direção, o amigo do colunista sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro. Quando os dois amigos desciam pela rua, o colunista perguntou: – Ele sempre trata você com tanta grosseria? – Sim, infelizmente foi sempre assim… – E você é sempre tão polido e amigável com ele? – Sim, procuro ser. – Por que você é tão educado, já que ele é tão grosseiro com você? – Porque não quero que ele decida como devo agir”. Essa história nos ensina que não precisamos ser determinados por ideias alheias. Quando uma ideia (tradição legalista) se instala dentro de nós, então passa a determinar nossas palavras e ações. Não somos mais nós, mas falamos e agimos como se fôramos alguém outro. Ao sermos autocríticos, podemos discernir pensamentos alheios antes que sejamos paralisados por eles, expurgando-os. Jesus liberta-nos e presenteia-nos com a autonomia da graça pela fé, sem pedir nada em troca. Não há pendências na relação com Deus, apenas misericórdia, uma vez conscientes de nossas paralisias e fraquezas.
5 Subsídios litúrgicos Os textos auxiliares fornecem versos passíveis de serem usados em diferentes partes da liturgia. Assim, sugiro tais subsídios litúrgicos: Versículo de abertura: E me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus (Ap 21.10). Voto trinitário: Em nome de Deus, o Pai, criador da luz e da escuridão; em nome de Jesus Cristo, nosso Guia e Salvador; e em nome do Espírito Santo, que nos anima no caminho para a salvação. Amém! Confissão de pecados: Senhor, tem misericórdia de nós, pois temos nos deixado determinar por outras pessoas, por ideias alheias ao teu evangelho, que guiam nossa fala e nossas ações, difundindo sofrimento e paralisia às pessoas que Tu nos envias a cada momento. Vem e livra-nos deste mal: da dependência de pensamentos e ações que não vêm de Ti! Amém. Absolvição: “Alegrem-se e exultem todos, pois [Deus] julga os povos com equidade e guia na terra as nações! Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. A terra deu o seu fruto, e Deus, o nosso Deus, nos abençoa” (Salmo 67.4ss). Oração do dia: Tu, Senhor, prometeste a nova cidade de Jerusalém e sua luz (Ap 21.1022.5); prometeste a nós o fruto da terra (Sl 67.6), que cura e dá vida. Tu curavas
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somente pela palavra; e a uma ordem tua, os paralíticos se erguiam em suas próprias pernas. Portanto, fala, Senhor, porque teu servo, tua serva, ouvimos somente a ti (João 5.8). Bênção: Seja Deus gracioso para conosco e nos abençoe; que ele faça resplandecer sobre nós o seu rosto, para que se conheça na terra o seu caminho e, em todas as nações, a sua salvação! Amém! (Sl 67.1s)
Bibliografia BARRET, C. K. The Gospel according to St. John – An introduction with commentary and notes on the Greek text. London: S.P.C.K., 1962. BOOR, Werner de. Evangelho de João I: comentário esperança. Curitiba: Evangélica Esperança, 2002.
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PRÉDICA: 2 REIS 2.9-18
ASCENSÃO DO SENHOR
MATEUS 28.16-20 APOCALIPSE 1.4-8
09 MAI 2013
Pedro Kalmbach
1 Introdução Conforme 2 Reis 2.13, Eliseu pegou a capa que Elias deixou cair e foi para as bandas do rio Jordão. Com essa capa Eliseu podia separar as águas do Jordão, e com ela os filhos dos profetas sabiam que o espírito de Elias repousava sobre Eliseu. A capa de Elias, recolhida por Eliseu, era o sinal da presença de Javé em meio a seu povo por intermédio do profeta, o sinal de que Javé não abandona o seu povo com a partida do profeta Elias. Os outros textos – Mateus 28.16-20 e Apocalipse 1.4-8 – também falam da presença de Deus em meio aos seus. Segundo Mateus 28, antes de Jesus partir, ele promete sua presença até o fim do mundo na tarefa de fazer discípulos em todas as nações. No Apocalipse, João assinala que em meio às dificuldades da vida, no confronto com as potências totalitárias, os cristãos de todos os tempos sabem que podem fundamentar sua fé e certeza em Deus, que é o único Senhor, em seu Filho que nos ama e que nos salvou, e em seu Espírito.
2 Exegese 2.1 – Sobre Elias e Eliseu Em primeiro lugar, os profetas surgem no norte como autênticos defensores do Javismo. Dessa maneira aparece Elias (o ciclo de Elias encontra-se em 1 Reis 17 até 2 Reis 2) como o grande defensor do Javismo diante da infiltração cananeia, que aconteceu por intermédio de Jezabel, esposa do rei Acabe, e da mesma presença cananeia que data desde a época de Salomão. Por causa da idolatria, Elias anunciou uma grande seca (1Rs 17); enfrentou os profetas de Baal, o deus cananeu (1Rs 18.20-46); fugiu perseguido por Jezabel (1Rs 19). Elias opôs-se aos reis e à monarquia em geral por sua tendência a ser sacralizada e por substituir Javé. O ciclo de Eliseu pode ser encontrado em 2 Reis 2-13. Sua atuação profética coincidiu com os últimos anos do reinado de Acabe e prolongou-se até os primeiros anos do governo de Joás. Eliseu viveu no século IX a.C. (850-800 a.C.) e era oriundo do território de Issacar ou de Rúben (Transjordânia). Seu ministério começou quando foi ungido por Elias, que lhe jogou a sua capa em cima, o que simboliza a transmissão de poderes (de uma dupla dose de espírito). Aparentemente, Eliseu atuou como profeta no vale do rio Jordão, Samaria, Damas-
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co e Transjordânia. A narrativa fala de diversos milagres feitos por Eliseu, que mostravam o poder de Javé: o azeite da viúva (4.1-7), a ressurreição do filho da sunamita (4.8-37), a sopa envenenada (4.38-41) etc. Esses relatos querem mostrar que Deus é quem guia a história e que seus profetas são seus porta-vozes e assinalam o caminho, o rumo espiritual, social e político que deve seguir o povo. À diferença de Elias, Eliseu contou com o favor da casa real e da simpatia do rei quando Joás estava no trono. 2.2 – Sobre 2 Reis 2.9-18 O texto narra a transição do ministério profético de Elias ao ministério de Eliseu. V. 9-15 – Antes de partir, Elias oferece a Eliseu a possibilidade de realizar um pedido, e Eliseu pede que lhe deixe uma dupla porção de seu espírito. Esse pedido corresponde à tradição judaica segundo a qual o filho mais velho tinha o direito de ter uma dupla porção da herança paterna. Com esse pedido Eliseu mostra que deseja ser o sucessor de Elias. Havendo partido Elias, Eliseu tomou sua capa e utilizou-a para dividir as águas do rio Jordão. Ao ver isso, os filhos dos profetas souberam que o espírito de Elias repousava sobre Eliseu. Eliseu permaneceu com essa capa. O fogo (2.11) é um elemento que também está presente em outras manifestações de Deus: Êxodo 3.1-6 (a sarça ardente, o chamamento de Moisés); Êxodo 19.16-18 – na ocasião do pacto do Sinai. Ao ver Elias partir num carro de fogo, Eliseu exclamou: “Pai meu! Pai meu! Carro de Israel e sua cavalaria!” (2.12). Ao usar essa expressão, referindo-se a Elias, Eliseu assinala que o homem decisivo para o povo de Israel era Elias, cujo poder dado por Deus era maior do que o poder do rei e sua cavalaria. Eliseu dirige-se a Elias, chamando-o de “pai”, que indica que se sente ligado e dependente de Elias. V. 16-18 – Os filhos dos profetas insistem em buscar Elias, mas não o encontram, pois ele já não é mais deste mundo. Seu destino é um mistério. Malaquias (3.22s) anuncia seu regresso. Jesus explica que, na pessoa de João Batista, Elias já veio (Mt 11.7-13; Mt 17.1-13; Mc 9.2-13). Existe uma continuidade histórica entre esse relato da transição do ministério profético (2 Rs 2.1-18) com a recordação dos líderes anteriores Moisés e Josué. Jericó é a cidade a que chegam os hebreus guiados por Josué depois de passar o rio Jordão e depois de haver celebrado a Páscoa em Gilgal (Js 2.6). Elias, assim como Josué (Js 3), divide em dois o rio Jordão para cruzá-lo em seco com Eliseu, mas o faz em sentido inverso: da Cisjordânia até a Transjordânia. Também Eliseu o faz no seu regresso.
3 Meditação O texto narra a transição do ministério profético de Elias ao ministério de Eliseu, recordando que já nos tempos do antigo povo de Deus eram necessárias trocas de geração nos líderes. Josué sucede a Moisés, Davi sucede a Saul, Salomão a seu pai Davi, Eliseu – como vimos – a Elias; logo seguem outros profetas como Amós, Oseias, Isaías, Jeremias etc. Assim o próprio Jesus previu desde
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cedo que não iria estar para sempre e buscou no início de seu ministério colaboradores a seu lado. Diversas passagens do Novo Testamento assinalam que ele recomendou aos seus seguirem com sua missão de anunciar e fazer presente o reino de Deus (Mt 28.16-20 e paralelos; At 1.6-11). Para o desempenho da tarefa encomendada, Eliseu recebe uma dupla porção do Espírito de Elias, os discípulos recebem a promessa de que o Senhor estará com eles até o fim do mundo (Mt 28.20). Creio que é importante levar em conta que o texto de Isaías 56.1,6-8 trata diretamente do problema da exclusão/discriminação do eunuco e do estrangeiro. Se falássemos hoje sobre grupos e pessoas excluídas das celebrações e demais atividades em nossas comunidades, suspeito que a lista seria extensa. Cada um e cada comunidade poderia fazer um exercício de sinceridade. Quais são as pessoas e os grupos excluídos hoje em nossa sociedade? Eles estão integrados na vida da comunidade cristã? Vale, por exemplo, tão somente analisar a situação das pessoas com deficiência. Seguramente haveria pessoas excluídas por sua condição social, por sua origem étnica e cultural, por sua orientação sexual, por sofrer alguma deficiência (deficiência física, psíquica etc.), por sua idade, por sua ideologia etc. É interessante assinalar que o v. 1, que fala sobre a necessidade de praticar a justiça e guardar o direito, introduz a nova legislação, que rompe com as tradicionais, de exclusão. A salvação do Senhor está perto, e a comunidade deve preparar-se para isso em seu aspecto ético e social. Dessa preparação faz parte a prática inclusiva/integradora. O profeta assinala que a palavra de Deus exorta todas as pessoas que querem participar de seu povo a praticar a justiça (v. 1), para impedir a mão de fazer o mal (v. 2). Esses preceitos valem para todos igualmente. Para nosso contexto social e econômico, no qual o consumismo passou a ser o que rege as relações humanas e determina as decisões e a atuação de milhões de pessoas e de muitos governos, no qual segue aumentando a miséria econômico-social-cultural-educativa, as palavras do profeta são um lúcido chamado de atenção de que Deus espera de seu povo uma vida que se empenha pela justiça, pelo direito. Os critérios de inclusão, que deveriam ser característicos das pessoas que desejam ser seu povo (as pessoas cristãs), não têm que ver com a condição social, cultural, étnica, de gênero, pelo poder do consumo, mas exclusivamente com buscar o direito, praticar a justiça e evitar fazer o mal. Aqui valem as perguntas: Quais são as situações em que estão ausentes a justiça e a prática do bem hoje no contexto em que se encontra nossa comunidade? Em que medida nossa comunidade empenha-se em trabalhar pela justiça e pela prática do bem – justamente ali onde faltam? Em que medida nossas comunidades são espaços nos quais se estimulam as pessoas que se dizem cristãs a buscar a justiça e o bem?
4 Imagens para a prédica Dois temas ou assuntos podem resultar a partir do texto: a inclusão /integração e a prática da justiça e do bem. Proponho trabalhar o primeiro deles. Poderia resultar interessante trabalhar o tema nos diferentes grupos da comuni-
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dade (jovens, mulheres, catequese, confirmandos) uma ou duas semanas antes do culto. Quais pessoas são excluídas, sofrem discriminação na sociedade e especificamente na comunidade? Os resultados, as observações, as produções dos grupos seguramente serão uma importante contribuição para o culto e para a pregação (por exemplo: quadros, fotos e cartazes de pessoas excluídas da sociedade, da comunidade, dos cultos; uma situação de exclusão dramatizada por jovens/mulheres/crianças ou outro grupo). A pergunta é como se posiciona a comunidade diante da realidade de exclusão na sociedade e diante da exclusão existente no seio da própria comunidade, por exemplo no culto (a exclusão “indireta” do culto comunitário – existente em muitos lugares – das crianças, dos jovens; exclusão direta de pessoas com deficiência). Quais são os desafios que a palavra de Deus traz e que ações e mudanças concretas podem ser feitas?
5 Subsídios litúrgicos Creio em ti Creio em ti porque tu me criaste, porque apesar de minhas imperfeições me queres tal como fui, tal como sou. Creio em ti porque te encarnaste, vieste até nós para mostrar que cada pessoa, sem importar sua condição, sem importar sua cor, sem importar seu idioma, sem importar suas limitações, sem importar suas imperfeições, é importante para ti. Creio em ti porque me queres, porque queres aquele que está ao meu lado, ao que está abandonado, porque queres aquele que outros rechaçam, e sempre de novo nos animas a seguir-te, me animas a seguir-te. Creio em ti porque esse é o milagre, incrível, mas certo; porque somente Deus pode amar-nos e amar-me assim, porque somente ele pode perdoar-nos e perdoar-me, como somos, como sou; como fomos, como fui. Creio em ti porque por teu amor cheguei ao amor de outras pessoas, porque por teu amor cheguei a amar a quem eu não queria, a quem eu rechaçava. Creio em ti. Amém.
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7º DOMINGO DA PÁSCOA JOÃO 17.1a,20-26 SALMO 97 APOCALIPSE 22.12-14, 16-17,20-21
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PRÉDICA: ROMANOS 8.14-17
DOMINGO DE PENTECOSTES
GÊNESIS 11.1-9 ATOS 2.1-21
19 MAI 2013
Martin Volkmann
1 Introdução Depois de Natal e Páscoa, Pentecostes é a terceira grande festa cristã. Ela é tão importante quanto as outras duas, porque lembra a terceira pessoa da Trindade: Deus Espírito Santo. No entanto, totalmente diferente de Natal e Páscoa, em torno de Pentecostes não há alarde nenhum. Não há propaganda alguma nos meios de comunicação; as lojas não oferecem objetos específicos, em diversas formatações, como sugestão para presentes. Talvez a tradição cristã, assim como fez com o Papai Noel e seus presentes ou com o coelho e os ovos de chocolate, não conseguiu criar um produto de fácil colocação no mercado. Afinal, línguas de fogo, pomba ou vento impetuoso dificilmente conseguem ser transformados em objetos a ser comercializados nessa época pentecostal. É de lamentar? Pelo contrário! Não lamentamos muitas vezes o fato de que o espírito do Natal é deturpado pela total comercialização da data? Não sentimos como prejudicial para a mensagem pascal o fato de tudo girar em torno do coelho e dos ovos de chocolate? Por isso… que bom que Pentecostes ainda não foi descoberto pelo comércio! Isso nos possibilita fazer dessa data uma verdadeira e exclusiva festa da comunidade de fé. Aproveitemos isso, fazendo do culto de Pentecostes e das demais atividades comunitárias nesses dias um motivo de reflexão e de alegria pela dádiva do Espírito Santo.
2 Exegese Uma olhada rápida sobre esse texto de Romanos 8.14-17 já leva a perceber um dado interessante: cinco vezes aparece o termo pneuma. E se considerarmos todos os versículos iniciais do capítulo 8, isso já é assunto em todo o capítulo. Nos versículos iniciais, Paulo argumenta com a contraposição entre pneum’ – a realidade divina e sarks – a realidade humana, marcada por pecado e morte, respectivamente o “viver segundo a carne/segundo o Espírito”. Assim, os v. 11 e 12, que poderiam fazer parte da perícope para a pregação, trazem a conclusão da unidade e fazem a ponte para o que segue: Não somos comprometidos com a carne para viver segundo a carne, porque isso significa morte. Ao contrário, rejeitando, no poder do Espírito, as forças da carne, temos vida. Por isso a conclusão no v. 14: “Pois aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus, estes são filhos de
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Domingo de Pentecostes
Deus”. Portanto receber o Espírito Santo, ser guiado por esse Espírito significa estar sob a esfera divina; é estar sob a área de influência divina. Mais ainda – e este é o enfoque novo –, essas pessoas são galgadas à posição de filhos e filhas de Deus. Logo, ser filho e filha de Deus não é fruto de decisão da pessoa nem mérito dela, mas é ação exclusiva de Deus. Porque – invertendo a afirmação do versículo – quem é filho/filha de Deus é guiado, dirigido, conduzido pelo Espírito de Deus. Nova fundamentação – gar/pois – explica essa situação diante de Deus com outra contraposição (v.15): espírito de servidão versus espírito de filiação. Porque o “viver segundo a carne”, como Paulo desenvolvera nos versículos iniciais do capítulo 8, é escravidão, é dominação sob a lei do pecado e da morte, da qual nós fomos libertados por Cristo Jesus (v. 2). Assim, em lugar de espírito de servidão, “vós recebestes espírito de filiação”. O que caracteriza os filhos e as filhas não são mais escravidão e dominação por um poder do mal, mas é a liberdade dada com a filiação divina. Essa liberdade, essa nova situação dada por Deus mesmo, evidencia-se na atitude de se dirigir a Deus como pai. A palavra aramaica abba, aqui transliterada para o grego, expressa uma relação muito íntima entre um filho e seu pai, assim como uma criança pequena chama seu pai de “paizinho”. Essa relação íntima Jesus teve com seu Pai e dirige-se a ele como abba (Mc 14.36). Essa mesma relação íntima de poder chamar Deus de “paizinho” têm aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus. Esse dirigir-se a Deus nessa intimidade reporta à oração, de maneira que o recebimento do dom do Espírito e a possibilidade de se dirigir a Deus em oração complementam-se mutuamente. Dom do Espírito e liberdade de dirigir-se a Deus em oração caracterizam filhos e filhas de Deus. E novamente é trazida a fundamentação para tal afirmação: é o próprio Espírito divino que testemunha, juntamente com o nosso espírito, que somos filhos e filhas de Deus (v. 16). Vale observar que agora Paulo troca o termo para a filiação divina. Nos v.14 e 15, ele usa huioi, respectivamente huiothesia; agora passa a usar o termo tekna = crianças. Assim, cada crente, pela dádiva do próprio Espírito Santo, conscientiza-se de que é filho/filha de Deus. O plural “somos filhos de Deus” destaca, ao mesmo tempo, a dimensão comunitária: nós não o somos apenas sozinhos, individualmente, mas na comunhão dos santos. Isso, ligado ao verbo composto em grego – symartyrein, possibilita ainda outra interpretação: o Espírito de Deus testemunha junto com o Espírito dado à comunidade de fé que nós/a comunidade de fé somos filhos e filhas de Deus. Portanto o Espírito de Deus não é algo abstrato, totalmente irracional, mas é um espírito compreensível. Ele nos possibilita o acesso a Deus em oração e, ao mesmo tempo, certifica a comunidade de sua filiação divina. O v. 17 apresenta as consequências da filiação divina: como filhos e filhas somos também herdeiros. E essa herança não tem outro fundamento a não ser o fato de sermos coerdeiros com Cristo, como diz o termo grego (synkleronomoi). Portanto a nossa filiação divina está baseada na ação salvífica do Filho Unigênito. Mesmo já sendo realidade agora, o que é destacado nos versículos anteriores (“somos filhos de Deus” – v. 14; “recebestes o espírito de filiação” – v. 15), simultaneamente a herança é objeto de esperança, ainda não é realidade plena. O ser possuído pelo Espírito Santo certifica-nos da pertença, da filiação a Deus.
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Ao mesmo tempo, ele nos remete para a esperança da consumação: “seremos juntamente glorificados”. E o fato de sermos coerdeiros com Cristo torna-nos também participantes de seu sofrimento. Portanto ter recebido o Espírito Santo, ser movido pelo Espírito de Deus não exclui participação na cruz. Ter recebido o Espírito Santo, ser integrado à filiação divina, é também carregar a cruz para participar da glória eterna. Chama a atenção que, nesse versículo, Paulo usa três vezes a preposição syn = junto com. Somos herdeiros junto com Cristo; sofremos junto com Cristo; junto com ele seremos glorificados. Isso destaca a vinculação íntima da realidade presente e da esperança futura com o evento de Cristo. Outro aspecto interessante é que Paulo alterna a conjugação verbal entre “nós” (v. 12, 16, 17), “eles” (v. 14) e “vós” (v. 13,15). Com isso, especialmente no v. 15, ele consegue dar destaque ao fato de que o que é dito aqui é alocução direta para os ouvintes: isso vale para vocês! Conclusão: O dom do Espírito Santo assegura-nos a filiação divina. Ela é dádiva, não conquista nossa. Ela nos une com o Filho Unigênito e torna-nos herdeiros junto com ele. Com ele seguimos os passos da cruz na esperança do reino eterno.
3 Meditação Na introdução, apontamos para o fato de que a festa de Pentecostes, diferentemente de Natal e Páscoa, corre o risco de passar despercebida pela comunidade. Por outro lado, sem vinculação com a data em si, diariamente somos confrontados em programas de rádio e de televisão com mensagens e depoimentos de pessoas que dizem possuir o Espírito Santo e ser movidas pelo Espírito Santo. E demonstram-no de formas variadas por glossolalia, expulsão de demônios, curas milagrosas. Se, por um lado, corremos o risco de nos esquecer do dia de Pentecostes, por outro lado, o mundo ao nosso redor, a cada dia, está cheio de manifestações do espírito. E aí, para muitas pessoas, surge uma dúvida crucial: Será que eu tenho o Espírito Santo? Será que o Espírito Santo também age através de mim? O culto de Pentecostes e todas as atividades comunitárias nesse período pentecostal são uma ótima oportunidade para ajudar os membros tradicionais de nossas comunidades a ver a importância do Espírito Santo, o Deus-conosco hoje, e como ele, por sua livre iniciativa, age em nós e onde ele quer. Um primeiro aspecto fundamental que está presente também no texto de prédica é que o Espírito Santo nunca é conquista ou posse nossa. No texto, isso transparece no v. 14 na expressão passiva “aquelas pessoas que são movidas pelo Espírito de Deus” ou no v. 15 na expressão “recebestes espírito de filiação”. Portanto o Espírito Santo é sempre dádiva de Deus. Ter o Espírito Santo é sempre presente por iniciativa de Deus. Assim como Lutero expressa na explicação do terceiro artigo do Credo: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho...” E para fazer novamente a relação com Natal e Páscoa, que aparentemente são tão evidentes para as pessoas, também essas datas no seu significado só são acessíveis para nós por dádiva do Espírito Santo. Portanto quem crê
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em Deus e sabe-se participante da salvação em Jesus Cristo, porque foi batizado em seu nome, essa pessoa está sendo guiada pelo Espírito Santo. Mas por ele nunca ser posse nossa e sempre permanecer Espírito de Deus, importa orarmos pela dádiva do Espírito. E por falar em oração, como diz no próprio texto (v. 15), é o próprio Espírito que nos ensina e nos dá a liberdade de nos dirigir a Deus. Poder falar com Deus, assim como uma criancinha diz a seu pai: “paizinho querido”, isso só é possível porque é o próprio Espírito Santo que nos move para tal. Mais ainda: é o Espírito Santo que nos dá esse sentimento, essa sensação de aconchego: eu sou o filhinho amado de meu paizinho. E nessa certeza, toda oração ao Deus Pai será uma oração no Espírito Santo. Não só aquela oração espetacular, cheia de fervor e de entusiasmo, que só alguns poucos parecem poder fazer, é uma oração sob o domínio do Espírito. Não, também aquela breve oração decorada, aprendida da mãe na infância, aquele velha oração de mesa, aquela breve oração ao acordar ou antes de adormecer – também essas orações podem ser cheias do Espírito. Anunciar isso para a comunidade certamente será confortador e animador. Servidão – filiação – herança: três termos ao redor dos quais o apóstolo constrói uma parte da argumentação. Na estrutura social da época, o servo ou escravo fazia parte da família e prestava serviço a ela. Sua obrigação era servir, desempenhar suas tarefas para fazer jus à recompensa: o seu simples sustento. Não tinha direito à herança, exclusividade do filho. E agora o texto destaca que as pessoas guiadas pelo Espírito não se encontram em nenhuma forma de servidão, mas foram colocadas na situação de filhos. E como filhos são também herdeiros. Servo trabalha para receber a recompensa. Filho tem parte na herança por ser filho. Nós somos filhos e filhas por ter sido agraciados com a dádiva do Espírito Santo no Batismo. Por isso participamos da herança na salvação eterna. Que significa isso para a vivência cristã? Nosso serviço será sempre resposta, a segunda palavra. Em primeiro lugar, vem o dom do Espírito, que nos habilita e nos orienta em nosso serviço. Nós não somos escravos que devem produzir uma multidão de boas obras para então fazer por merecer a dádiva do Espírito Santo, a participação na salvação. Mas por termos sido agraciados com a salvação, que nos assegura a dádiva do Espírito Santo, servimos e fazemos boas obras sob a orientação do Espírito Santo. Outro elemento que faz parte da argumentação de Paulo e que para muitos é motivo de incerteza é a questão do sofrimento, da cruz. Ter o Espírito Santo não é sinônimo de ausência de dúvida, de alegria completa, de perfeição? Não se diz seguidamente que quem crê – e logicamente tem o Espírito Santo – não pode ter dúvida? E por que pessoas crentes sofrem, têm que carregar sua cruz? Enquanto vivemos na esperança da salvação eterna, continuamos inseridos neste mundo que, como o apóstolo Paulo desenvolve nos versículos iniciais do capítulo 8, está marcado pelas forças da sarks. Forças do mal, poderes de morte continuam presentes e dominando nossa realidade terrena. E assim como o Cristo foi morto por essas forças que se opunham ao espírito de vida que ele demonstrava em palavra e ação, da mesma forma nós continuamos expostos às forças do mal. Por isso ser guiado pelo Espírito de Deus não significa estar livre de qualquer sofrimento, de
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ter que carregar sua cruz. Pelo contrário, ser movido pelo Espírito de Deus é ter a orientação e a força para enfrentar as forças do mal e carregar a sua cruz.
4 Encaminhando a pregação Ao longo da análise do texto e da meditação a partir do mesmo, quatro aspectos foram se destacando: a) o Espírito Santo como dádiva, não conquista ou posse nossa; b) o Espírito que nos ensina e nos incentiva a orar; c) o Espírito que nos dá a filiação divina e a herança eterna e nos orienta para o serviço sob sua condução; d) essa filiação e serviço não excluem a cruz. Em torno desses tópicos poderá girar a pregação. Será, assim, anúncio, resposta positiva a dúvidas e incertezas das pessoas, respectivamente instrução na fé sobre essa data tão importante, como Natal e Páscoa. Por isso a prédica poderá iniciar com a referência ao risco de a festa de Pentecostes passar totalmente despercebida, respectivamente às dúvidas se eu “tenho” o Espírito Santo, considerando que não percebo manifestações especiais do Espírito em mim.
5 Subsídios litúrgicos – Cada culto dá-se sob a orientação do Espírito Santo, e seguidamente se inicia o culto com a invocação do Espírito. Já para marcar esse dia especial de Pentecostes, não deveria faltar um hino de invocação do Espírito Santo no início da celebração. Sugestão: “Vem, Espírito de Deus” (HPD, 318). – Nas três séries de textos para Pentecostes, o Salmo do dia é sempre o Salmo 104.24-34,35b. Como é um dia festivo especial, sugiro fazer a leitura do Salmo, convidando a comunidade a responder, após cada unidade, com o v. 35b: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia!” As unidades podem ser: v. 24-26; v. 27-28; v. 29-30; v. 31-32; v. 33-34. – Na oração do dia, dois aspectos deveriam ser considerados: o pedido para que o Espírito Santo guie e oriente a cada um/uma em sua vida pessoal; por ser Pentecostes o “aniversário” da igreja, pedir pela condução do Espírito para que a igreja em todo o mundo possa ser testemunha da salvação e que possa, em seu agir, colocar sinais da presença do Reino no seu ambiente de vida.
Bibliografia KÄSEMANN, Ernst. An die Römer. In: Handbuch zum Neuen Testament. 3. ed. Tübingen: J.C.B.Mohr, 1974. WILCKENS, Ulrich. La carta a los Romanos. V. II. Rm 6-16. In: Biblioteca de Estudios Biblicos. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1992. O texto também já foi analisado em PL 25, 29 e 36.
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PRÉDICA: JOÃO 16.12-15
1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES (TRINDADE)
PROVÉRBIOS 8.1-4,22-31 ROMANOS 5.1-5
26 MAI 2013
Gottfried Brakemeier
1 Introdução
Não é por acaso que o 1º Domingo após Pentecostes esteja dedicado à celebração do mistério da Trindade. Encerra-se o período das grandes festas cristãs, confluindo numa visão conjunta da revelação de Deus. A encarnação de Deus no Natal, a morte e ressurreição do Filho na Sexta-feira Santa e na Páscoa, bem como a manifestação do Espírito Santo no dia de Pentecostes identificam o Deus ao qual o ser humano deve a salvação. O cristianismo fala no trino Deus, que a um só tempo é Pai, Filho e Espírito Santo. É isso o que neste domingo deve ser lembrado e justificado. Por que falamos de Deus desse jeito? Para não poucos, esse discurso é escandaloso. O cristianismo estaria transformando o monoteísmo em “triteísmo”, adorando três divindades diferentes. É essa a acusação que vem do islamismo. Também outros têm dificuldades com esse credo. Seja admitido não ser fácil falar do trino Deus. E, no entanto, há boas razões para fazê-lo. Isso porque, como cristãos, não ficamos presos à pergunta quem Deus é. A nós interessa o que Deus fez, faz e fará. Nós proclamamos um Deus atuante, ou seja, um Deus que cria o universo e cada um dos seres viventes; que se compadece da criatura; que chega perto das pessoas; que perdoa suas dívidas; que as arranca das garras da morte; que envia o seu Espírito para orientar o seu povo. Por isso temos que falar três vezes do mesmo Deus, a saber, de sua atuação como criador, como redentor e como guia. Está aí a Trindade. E ela de modo algum fere o monoteísmo. Mostra-nos, isto sim, o rosto misericordioso de Deus, que ama a criatura indigna e que pretende a sua vida. Onde é que temos um discurso igual a esse? É bem verdade que o Novo Testamento ainda não formula um “dogma” a esse respeito. Isso acontece somente mais tarde. Mesmo assim, o evangelho tem natureza essencialmente trinitária. Confirma-o o texto proposto para a prédica neste dia. Ele não fala diretamente da “Trindade”. E, no entanto, ninguém vai entendê-lo fora desse horizonte.
2 Noções exegéticas O trecho de João 16.12-15 insere-se no bloco em que o evangelista reúne os assim chamados discursos de despedida de Jesus. Ele abrange os capítulos 13 a 17. Jesus está a caminho da cruz e vai deixar os discípulos sozinhos num mundo
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hostil. Mesmo assim, não há motivos para resignação e desespero. Pois Jesus lhes promete o envio do Espírito da Verdade, o Auxiliador, o Consolador. Por ele Jesus mesmo vai fazer-se presente e assistir seus seguidores. Assim já o lemos em passagens anteriores (cf. 14.16s; 15.26s). O presente texto, ao qual a rigor pertencem também os versículos 5 a 14, trata do mesmo assunto, ou seja, da vinda do Espírito Santo. Ele vai amparar os discípulos e dar-lhes instrução. Vejamos o conteúdo do texto mais de perto, no que podemos ser breves. Remetemos às meditações anteriores nessa série de auxílios para complementação e comparação (PL 4, p. 65s; 20, p. 177s; 26, p. 200s). Dentro em breve, os discípulos não mais poderão contar com a presença física de seu mestre. Devem “virar-se” sozinhos no mundo. Jesus ainda teria muito a lhes dizer (v. 12). Mas, nesse exato momento, eles ainda não o podem suportar. Há coisas que eles irão entender somente após a crucificação e a ressurreição. Será essa uma das grandes obras do Espírito Santo, a saber, conduzir os discípulos a toda a verdade. Ele vai revelar-lhes o segredo da missão de Jesus. Simultaneamente, vai anunciar-lhes as coisas que hão de vir. Portanto o Espírito dirige os olhares não só para trás, lembrando de tudo o que Jesus disse e fez (14.26). Ele aponta também para as obras previstas por Deus no futuro. Isso significa que o Espírito Santo não é saudosista. Lembra a história de Jesus, sim, mas não fica preso a ela. Dá olhos para as promessas de Deus, assim como Jesus já o fizera. O Espírito Santo dá motivos para a esperança. Em tudo isso ele “glorifica” Jesus, ou seja, dá-lhe razão, faz valer a sua palavra, confirma a sua obra. Essa obra, aliás, é a do próprio Deus. Pois assim como Jesus nada fez por si, e sim por mandato de Deus, assim também o Espírito Santo. Ele não vai falar por si (v. 13), em autoridade própria como se fosse outra pessoa. Ele vai falar em nome de Jesus, assim como Jesus falou em nome de Deus. Pois tudo o que o Pai tem é de Jesus, e tudo o que o Espírito Santo anuncia ele o recebe de Jesus (v. 15). Portanto é inseparável a unidade entre o Pai, Jesus e o Espírito da Verdade. Vale anotar que, de acordo com o evangelista João, o Espírito Santo não se manifesta em prodígios e sinais extraordinários. Nada ouvimos de glossolalia e de fenômenos extáticos. Sua obra consiste antes no ensino (14.26), no testemunho (15.26), na revelação de pecado, justiça e juízo (16.8s). Em outros termos, o Espírito Santo atua como intérprete de Jesus, assim como Jesus tem sido o intérprete de Deus. Ele manifesta a palavra de Deus em graça e juízo, conduzindo exatamente assim a toda a verdade. É essa a ajuda de que a comunidade cristã precisa para enfrentar o mundo e os desafios que coloca. O Espírito Santo, enviado por Deus em nome de Jesus Cristo (14.26), é poder que sustenta e indica o rumo a seguir. Ele consola na tristeza, fortalece na fraqueza, dá orientação na escuridão. Sua vinda é promessa que Jesus tem para quem segue o seu caminho. Assim sendo, já não há motivos para o temor. Evidentemente, os discípulos serão privados da presença de seu mestre. Ele será morto na cruz e há de ressurgir para nova vida. Mas no Espírito Santo ele voltará para estar junto com os seus. O Espírito é a presença de Jesus e do próprio Deus. O texto em apreço fala de Pentecostes, assim como também lembra a obra de Jesus e de Deus Pai.
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3 Meditação Para que serve a fé? De acordo com estatísticas recentes, cresce o número de pessoas que se declaram “sem religião”. Ainda não se sabe exatamente o que isso de fato significa. O fenômeno exige estudos mais minuciosos. Mesmo assim, é óbvio que para não poucos contemporâneos a igreja já não faz falta. “Não acredito em Deus e sou feliz” – é o que propagam os novos ateus. Religião passou a ser considerada um supérfluo. Já não serve para mais nada. Talvez não seja esse o espírito predominante na sociedade brasileira. Mas ele existe e preocupa também a comunidade evangélica. Como reagir a pessoas que se mostram desinteressadas em assuntos religiosos? Para que existe igreja? Que é que ela acrescenta? Certamente, não há como duvidar da honestidade subjetiva das pessoas que se dizem felizes sem Deus. Felicidade não se prende à filiação a uma comunidade de fé. Ateísmo pode ser até mais fácil por desincumbir do respeito à autoridade divina. Libertaria o ser humano de uma incômoda tutela religiosa. Assim pensam alguns. Assim, porém, não pensaram os discípulos de Jesus. Uma vida sem a presença de seu mestre causa-lhes pavor. É como uma vida sem Deus que condena o ser humano à condição de órfão no universo. Já não terá em quem se orientar e segurar. Você pode ser feliz sem Deus, claro. Por algum tempo isso é possível. Mas, nas tempestades da vida, em quem você vai buscar socorro? Diante de quem será responsável? A eliminação de Deus levanta sérios problemas. Acaba em terrível empobrecimento espiritual. É o que o texto para este domingo denuncia. Ele assegura proteção contra o perigo da orfandade cósmica. Jamais estará desamparado quem crê em Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo. Ao mesmo tempo, o texto oferece ajuda contra o mal da desorientação. É grande a confusão religiosa em nossos dias. Ao lado da descrença pulula o fervor religioso. Não se trata de novidade. Já nos tempos do Novo Testamento competiam os mais variados credos no mercado religioso. Disputavam freguesia e adeptos, na maioria das vezes com nítidos interesses econômicos. Hoje a situação se agravou. Isso em razão dos meios eletrônicos de comunicação e da informação global. Qual é a religião que devemos seguir? Serão todas equivalentes? A afirmação de valores normativos tornou-se difícil. Tudo parece reduzir-se a uma opção particular. Sinais de relativismo existem também nas comunidades da IECLB. Então qual deve ser o discurso de uma comunidade luterana? Seu dever consiste na pregação da palavra de Deus, sendo um dos grandes objetivos a orientação em assuntos de fé e de conduta. Jesus promete a vinda do Espírito Santo, que vai guiar seus seguidores a toda a verdade. Que significa isso em tempos de pluralismo religioso? A resposta é a afirmação da Trindade. Quem fala apenas de Deus, sem nenhuma referência a Jesus Cristo e ao Espírito Santo, está no perigo de transformá-lo num tirano, num abstrato princípio filosófico, numa energia positiva ou qualquer coisa assim. O ser humano cria Deus à sua imagem. Daí a confusão “teológica”. Ora, Deus é assim como Jesus falou, agiu e viveu. É Jesus Cristo quem cria a nossa imagem de Deus. E ele o define como misericórdia, compai-
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xão, amor. Jesus coloca os parâmetros para nosso discurso sobre Deus. Também o Espírito Santo é importante. Esse impede que seja Deus entendido como distante ou mesmo ausente. O Espírito Santo é a presença de Deus em pessoa. Da mesma forma, erra quem fala de Jesus de Nazaré sem falar de Deus. O nazareno, nesse caso, será apregoado como respeitável benfeitor da humanidade, como “personalidade-padrão”, merecedor de aplausos e admiração. Mas ele permanece sendo mero exemplo a ser seguido; nada mais. Ele já não será o enviado de Deus. Enfim, é perigoso também falar do Espírito Santo sem o simultâneo recurso a Deus e a Jesus Cristo. Nesse caso, o Espírito poderá resumir-se a uma simples força sensacional, que tira o juízo das pessoas e que poderá ser abusado para satisfazer dúbios interesses humanos. Será esse o nosso Deus? Nós deveríamos detalhar essa reflexão. Falta espaço. De qualquer forma, vale a pena fazer o teste: Se isolarmos as pessoas da Trindade e falarmos de cada uma delas em separado, onde vamos acabar? A fé cristã não pode deixar de correlacionar Deus, Jesus e o Espírito Santo. Ela afirma que todo discurso sobre Deus, para ser autêntico, exige o lado a lado dessas perspectivas. Somente desse modo perderá a ambiguidade e terá critérios que lhe permitem orientação na confusão religiosa. O texto para a pregação neste domingo, ao anunciar a vinda do Espírito Santo, promete amparo aos fiéis nas agruras, nas tentações, nas vicissitudes da vida. A comunidade cristã pode estar certa de não enfrentar o mundo sozinha. Ela o faz no poder do Espírito, que lhe relembra as palavras e os gestos de Jesus, bem como a obra de Deus Pai. É esse Espírito que a conduz, que lhe mostra o caminho e que lhe revela a verdade sobre Deus e o ser humano.
4 Imagens para a prédica Entre os produtos à venda num supermercado existem os de primeira necessidade, os necessários e os supérfluos. Sobre esses, considerados dispensáveis ou de luxo, incidem pesados impostos. Vale a pena explorar essa imagem, perguntando como se enquadra o Espírito Santo nessas categorias. Trata-se igualmente de um “supérfluo” que no fundo não faz falta? O texto para a prédica dá uma resposta muito precisa. Ele anima a dar continuidade à celebração de Pentecostes? Quais as razões? Detalhando o assunto, a prédica poderá utilizar reflexões expostas na meditação acima. Trata-se de prestar contas do credo cristão frente a pessoas que já não acreditam em mais nada, cansadas e até decepcionadas com a religião. Para muita gente, Pentecostes, assim como também Natal e Páscoa, reduzem-se a nada mais do que a um simples “dia feriado”, bonito por causa dos símbolos tradicionais, mas de resto sem maior importância. A igreja tem a tarefa de resgatar a “novidade” do evento de Pentecostes e de proclamar a “revolução” que a vinda do Espírito de Deus significa. Ele é a âncora que segura nas incertezas e tempestades da vida. Simultaneamente, ele impede a tirania do “velho espírito” que produz desgraça e destruição.
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Da mesma forma, trata-se de fazer frente ao politeísmo, ou seja, à confusão em assuntos de fé. Nós não adoramos um espírito qualquer, mas o Espírito do Deus Criador e de Jesus Cristo. É o momento de falar da “Trindade”. A imagem que pode ilustrá-la é a tridimensionalidade do espaço. Assim como todos os corpos têm largura, comprimento e profundidade, assim o discurso sobre Deus requer três abordagens para afirmar justamente a unidade. A omissão de uma delas perverte o discurso. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Em seu nome somos chamados a celebrar o culto, os sacramentos e a conduzir nossa vida.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor! Não há nada mais difícil do que confessar a própria culpa. Nós costumamos empurrá-la a outros, a coisas ou circunstâncias. É raro ouvir dizer: “Eu errei!”. De culpa costumamos fugir. Mas perante ti não podemos mentir. Tu nos conheces melhor do que nós. Perdoa a nossa hipocrisia. Derruba em nós aquela maldita vaidade que julga sempre ter razão e tiraniza o ambiente. Dá-nos a coragem para ser humildes e honestos. Perdoa o nosso pecado e faze-nos capazes de também perdoar o pecado dos outros. Para tanto pedimos a força de teu santo Espírito. Amém! Oração do dia: Senhor, nosso Deus! Crimes humanos, estupidez e cinismo estão na raiz da maioria das dores neste mundo. Tem compaixão! Converte os corações para que os povos e as pessoas aprendam a se opor à violência e à destruição. Nós te agradecemos pelo envio do teu Espírito. Ele introduz novidade nas relações sociais. Faze com que as pessoas o acolham e o traduzam em bem-estar, justiça e paz. Queremos que Pentecostes se repita diariamente para o bem da criatura e para a glória de teu nome. Amém! Intercessão: Senhor! Trazemos diante de ti o que nos preocupa... Casos de doença na comunidade, desastres naturais, estragos ambientais, ocorrências assustadores. Intercedemos em favor... da Igreja de Jesus Cristo em todo o mundo; das comunidades da IECLB e sua direção; de iniciativas sinodais; das famílias e da educação; de todo o trabalho honesto; do governo em nosso país. Pedimos por... paz em nosso país, sustentabilidade; justiça e bem-estar. Senhor, ouve as nossas preces. Amém!
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PRÉDICA: GÁLATAS 1.1-12
2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
1 REIS 8.22-23,41-43 LUCAS 7.1-10
02 JUN 2013
Erní Walter Seibert
1 Introdução A carta do apóstolo Paulo aos Gálatas é um dos mais importantes textos bíblicos. Ele é denso. Trata de assuntos fundamentais da fé cristã. É um dos textos fundamentais para a doutrina da justificação pela fé. Trata também da liberdade cristã. O que motivou Paulo a escrever, no entanto, não foi o desejo de fazer uma exposição sistemática desses assuntos. Havia problemas sérios ocorrendo nas igrejas da Galácia. Com a passagem da fé cristã do mundo judaico para o mundo gentio, havia quem defendesse que os cristãos deveriam continuar seguindo as tradições e costumes vindos do Antigo Testamento. O ponto-chave era a prática da circuncisão. Alguns atacavam o apóstolo dizendo que ele não tinha autoridade para ensinar o que estava ensinando. Diziam que Paulo, na verdade, nem era um apóstolo. Escrever uma carta nessas condições não era fácil. Mas Paulo não foge da responsabilidade. Ele trata os temas com sinceridade e, por vezes, até com palavras duras. Ele via que a questão era de vida ou morte. Não poderiam ser feitas concessões. Escrever uma carta com elogios pode ser fácil. Mas essa não era uma carta fácil. E o conteúdo mostra isso. Nos primeiros versículos da carta, que são a perícope deste domingo, o apóstolo Paulo vai direto ao assunto. Depois da introdução (v. 1 a 5), ele já fala do problema que está ocorrendo. As pessoas estão oferecendo (e membros das igrejas da Galácia estão aceitando) um outro evangelho. E outro evangelho não existe além daquele que o apóstolo tinha anunciado. Os textos das demais perícopes deste domingo apontam para isso também. O texto do evangelho, Lucas 7.1-10, conta a história da cura do empregado de um oficial romano. Esse oficial é apontado por Jesus como exemplo de fé. Ele creu em Jesus. O oficial não julgava que tinha algum mérito ou que precisava fazer algo para receber a benevolência de Jesus. Ele apenas creu. O texto está relacionado com a epístola exatamente nesse ponto. A fé é o meio pelo qual se recebe a justificação. Não há exigências para receber a graça de Deus. O texto do Antigo Testamento, 1 Reis 8.22-23,41-43, mostra como Deus cumpre a aliança que fez e que não devem ser feitas exigências adicionais aos não judeus. Esses dois textos mostram, de forma clara, o assunto que o apóstolo Paulo está tratando na Carta aos Gálatas: a justificação do pecador, tanto de judeus como de não judeus, dá-se sempre da mesma forma: apenas em Cristo.
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2 Exegese A perícope que estamos examinando divide-se em duas unidades literárias. Os versículos 1 a 5 são a introdução geral da Carta aos Gálatas. Nessa introdução, Paulo usa o mesmo estilo de suas outras cartas. Ele saúda seus leitores e faz uma oração. No entanto, essa saudação e oração têm um tom diferente de outras cartas. Na saudação, ele introduz uma rápida defesa de seu apostolado: “Fui chamado para ser apóstolo, não por pessoas ou por meio de uma pessoa, mas por Jesus Cristo e por Deus, o Pai, que ressuscitou Jesus da morte”. A defesa de seu apostolado é tema importante ao longo da carta. A oração que o apóstolo escreve na introdução também mostra um pouco do tom da carta. Ele não faz, como na maioria das cartas, uma oração de ação de graças a favor de seus leitores. Apenas pede que a graça e a paz de Deus, o Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com todos. Isso já não é pouca coisa, mas é diferente do que ocorre em outras epístolas. O versículo 4 da introdução apresenta a obra redentora de Cristo de forma bem resumida. Ao longo da epístola, o apóstolo mostra que, se o evangelho verdadeiro for abandonado, a obra redentora de Cristo é desprezada. Ou seja, a introdução da carta tem elementos que mostram que a carta terá um tom difícil e que o assunto a ser tratado é crucial. A segunda unidade literária de nossa perícope tem a apresentação do assunto principal da epístola. Para espanto do apóstolo, os cristãos de Corinto estavam passando para “outro evangelho”. Esse “outro evangelho”, na verdade, não era um evangelho, mas o abandono do evangelho verdadeiro. As consequências do abandono do evangelho eram graves. Elas traziam maldição para quem o fizesse. Ou seja, a pessoa saía da bênção para a maldição. Quem anuncia esse evangelho falso também deve ser amaldiçoado. Mais tarde, fica claro na epístola porque ele usa palavras tão duras. Abandonar o evangelho verdadeiro significa desonrar a Deus e perder a salvação eterna. A salvação é oferecida por Cristo de graça e recebida mediante a fé. E nisso não é possível fazer concessões. O tom duro do início da carta do apóstolo é percebido por ele próprio. Ele sabe que não é agradável. E ele não se preocupa em “agradar pessoas”. Na verdade, o apóstolo prefere agradar a Deus. Ou seja, nessa introdução, o tema da centralidade da obra redentora de Jesus é colocado e fica claro que, na questão da justificação, não é possível fazer concessões.
3 Meditação A argumentação do apóstolo Paulo nos dias de hoje poderia parecer tão fora de sintonia com nosso tempo como foi no primeiro século depois de Cristo. Falar que há apenas um evangelho, uma maneira de ser aceito por Deus, e que isso passa por Jesus Cristo e sua obra redentora, em nossos tempos é um discurso tremendamente antipático. Mais simpático seria dizer que há muitos caminhos que conduzem para o céu, que todas as religiões são boas, que, no fundo, todas querem a mesma coisa e que tanto faz qual a opção que cada um toma em sua
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vida. Se queremos agradar as pessoas, não deveríamos falar que apenas Jesus Cristo salva e que são amaldiçoados todos os que ensinam um evangelho diferente. Diante disso, devemos tomar posição se queremos ficar com o evangelho ensinado por Paulo ou se queremos modificar algo. Mas, se olharmos para o quadro dentro do cristianismo, será que vamos ver algo diferente? Será que nas igrejas o que está sendo oferecido para as pessoas é apenas o evangelho de Jesus Cristo em contraste com as exigências da lei? Para a pessoa receber o favor de Deus é suficiente a fé em Jesus Cristo ou ela deve cumprir também alguns preceitos ou fazer obras que a preparem para receber as bênçãos do Pai celestial? Infelizmente, a justificação por graça somente nem sempre reluz no panorama eclesiástico. Paulo também tem o que dizer para o panorama eclesiástico de nossos dias. As exigências feitas para quem pretende se tornar membro de uma igreja, por vezes, estão em nível semelhante às exigências que queriam fazer para que um gentio entrasse na comunidade cristã. Se alguém levanta a questão da graça somente, pode ser acusado de estar tornando o evangelho muito barato, que Jesus Cristo fez uma parte, mas que cada pessoa deve fazer a sua parte na obra da salvação.
4 Imagens para a prédica Como as demais leituras do domingo são pertinentes ao assunto da epístola, que é a perícope sobre a qual será feita a pregação, elas poderão ser usadas em cada uma das partes da pregação. Os ouvintes gostam de aprender o texto bíblico e precisam desse conhecimento para alimentar sua vida espiritual. A leitura do Antigo Testamento poderá ser usada para levar a congregação a meditar sobre sua prática na aceitação de novos membros. Será que não são feitas exigências descabidas para receber pessoas como membros da igreja? A leitura do evangelho do domingo poderá ser utilizada para levar a congregação a confiar apenas em Cristo na hora da angústia. Jesus está disposto a nos ajudar não porque nós somos importantes ou fazemos coisas notáveis. Jesus está disposto a nos ajudar porque ele é bom e nos ama. Isso podemos ver na obra redentora de Jesus. Ele morreu e ressuscitou para nos salvar porque ele é gracioso, porque ele é bom. Por isso podemos confiar nele em todas as situações da vida. O próprio contexto histórico da Carta aos Gálatas oferece rico material para ilustrar a mensagem central dessa perícope. Os que queriam fazer exigências descabidas aos novos membros da igreja estavam se desviando para “outro evangelho” e, por isso, estavam se colocando debaixo da maldição. Lei e liberdade são o contraste que essa epístola mostra.
5 Subsídios litúrgicos A liturgia do culto é uma demonstração daquilo que o apóstolo Paulo expõe nessa perícope. O fundamental é o que recebemos de Deus. No culto, recebemos sua Palavra, recebemos o Batismo, recebemos a Santa Ceia. A nossa resposta, as orações, o louvor, as ofertas não fazem Deus ficar compadecido por nós. São
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apenas fruto da fé. As nossas obras não são a causa da bondade de Deus. Por isso é que a justificação é por graça mediante a fé. Estamos livres da escravidão da lei quando temos Cristo. Não estamos mais dependendo daquilo que fazemos ou podemos fazer. Dependemos apenas de Cristo. E isso é maravilhoso.
Bibliografia ARTIGOS DE ESMALCALDE, in: Livro de Concórdia. Porto Alegre e São Leopoldo: Editora Concórdia e Editora Sinodal, 1980. FRANZMANN, Martin. The Word of the Lord Grows. St. Louis: Concordia Publishing House, 1961.
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PRÉDICA: 1 REIS 17.17-24
3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 7.11-17 GÁLATAS 1.11-24
09 JUN 2013
Kurt Rieck
1 Introdução No evangelho previsto, Lucas 7.11-17, encontramos o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim. Que força é essa que permite a ressurreição dos mortos? Aqui o protagonista é Jesus. A cura tem o propósito de chamar as pessoas para honrar a Deus. Nem todos os que são curados voltam-se a Ele. O texto indicado da Epístola de Paulo aos Gálatas – 1.11-24 – aponta para a força missionária do apóstolo, que vai além das fronteiras para anunciar Jesus e seus feitos. O agir de Paulo acontece em decorrência do chamado de Deus. A revelação do Filho de Deus é transcendente, e é essa experiência que move o apóstolo Paulo. Toda a conversão que Cristo operou na vida de Paulo permitiu a glorificação do nome de Deus. O que Elias experimentou corre nesse mesmo trilho. Esse profeta presenciou a força de Deus capaz de ressuscitar um jovem que havia falecido. Por que Deus permite que ocorram fatos dessa ordem? O texto de prédica faz-nos olhar para o personagem Elias, que se encontra vivo na lembrança dos judeus, embora passados 900 anos de história. Seu ministério profético é registrado em 1 Reis 17, 18, 19, 21 e 2 Reis 1 e 2. No pensamento hagádico judaico (hagadá = narrativas que revelam o espírito da lei), Elias é visto como paralelo de Moisés. Nas andanças de Jesus, pensaram que ele era o profeta Elias, fato relatado em Mateus 16.14, 11.14, Marcos 8.28, 6.15 e Lucas 9.19. Que homem é esse que tantas vezes foi resgatado na história da cristandade, conforme Lucas 4.25 e 26, Romanos 11.2 a 4 e Tiago 5.17 e 18. Elias é um personagem enigmático, um homem de ação, um milagreiro carismático, que se situa na tradição da profecia do êxtase.
2 Exegese Elias prediz uma grande seca e, orientado pelo Senhor, vai para a fronteira com o Jordão, sendo alimentado pelos corvos. Segue para Sarepta, onde ganhou de comer da viúva que partilha o resto que tinha. Desse ato de fé brotam farinha e azeite, que saciam a fome dela e de todos os de sua casa. O profeta foi assistido em sua fome pela misericórdia da viúva. Um milagre aconteceu. Depois de um momento glorioso, vem uma catástrofe: o filho da viúva falece. É indescritível a dor de uma mãe que vê seu filho falecer. Surgem duas per-
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guntas, que relacionam culpa e morte. A primeira busca uma autoanálise: “Que fiz eu, ó homem de Deus?”. Onde está a minha culpa, indaga a mãe. A segunda pergunta dirige o olhar ao profeta: “Vieste a mim para trazer à memória a minha iniquidade e matar o meu filho?”. Pelo que Elias já havia feito, estava claro para a viúva de Sarepta que ele era um homem de Deus, mas ela não conseguia aceitar que Deus pudesse permitir tal tragédia. Seria Elias esse profeta que mexeu com seu passado, o culpado pela morte de seu filho? De pronto, Elias tomou uma atitude. Levou o menino para o quarto onde estava hospedado, deitando-o em sua cama. Então se pôs a orar. Elias julga ser Deus o culpado por essa morte. Joga o seu corpo sobre o corpo do menino e roga pedindo a Deus: “Ó Senhor, meu Deus, faze com que esta criança viva de novo” (v. 21). Deus atende a oração. Elias leva o filho até a mãe e diz: “Veja! O seu filho está vivo!”. A palavra aqui utilizada é nefesh, que pode significar alma, respiração, alento, força vital. O fato extraordinário fez a viúva reconhecer que Elias era um homem de Deus. O texto faz-nos detectar três ênfases: 1 – A relação culpa e doença (v. 18). Não se trata de uma colocação abstrata. A viúva dirige-se a Elias de forma direta. Seu filho havia morrido. Ela joga sobre Elias a causa de tamanha desgraça: “Que fiz eu, ó homem de Deus?” (ARA). “Homem de Deus, o que o senhor tem contra mim?” (NTLH). “Que há entre mim e ti, homem de Deus?” (BJ). Num primeiro momento, a pergunta brota de uma necessidade existencial, relacionada ao comportamento da viúva em relação a seu passado. Num segundo momento, ela aponta para Elias e diz: “Tu vieste” (ARA). Trata-se de um encontro de Deus com a viúva, que se deu por intermédio de Elias, que promove o reconhecimento de culpa e transporta a causa da doença para pecados cometidos no passado. Num terceiro momento, interagem as palavras culpa-castigo-relacionamento. A mãe tem a culpa, o filho recebe o castigo e o profeta está relacionado aos fatos. 2 – O poder da oração. A oração é proferida, não pela viúva, mas sim pelo profeta, envolvido numa cena ousada. Elias reivindica uma atitude de fé: “Elias clamou ao Senhor” (v. 21). Somente Deus poderá devolver a vida. 3 – A elaboração de um credo. Ela não disse: “Tu, Elias, és um homem com poderosa força de Deus”. Disse (v. 24) sim: “... que a palavra do Senhor na tua boca é verdade” (ARA). “Deus realmente fala por meio do senhor!” (NTLH). Faz parte da oração uma ação. A mulher reconhece que o Deus anunciado pelo profeta é confiável. Há um fato gerador. Ocorre uma experiência transcendente. A história anuncia o senhorio de Deus sobre a morte. Brota uma sincera fé. Ressurreição é tema em outras passagens da Bíblia. Episódios semelhantes encontramos em 2 Reis 4, quando o profeta Eliseu faz viver o filho da sunamita. Nos evangelhos, encontramos relatos em que Jesus é o agente da ressurreição: Lázaro em João 11, a filha de Jairo em Mateus 9.23-26 e o filho da viúva de Naim em Lucas 7.11-17. Os apóstolos seguiram esse legado. Pedro faz Tabita reviver,
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conforme Atos 9.36-43. Paulo restabeleceu a vida do jovem chamado Êutico, relato que encontramos em Atos 20.7-12. As pessoas mencionadas não ressuscitaram no mesmo sentido que Cristo. Não há qualquer indicação de que tais pessoas tivessem recebido de volta alguma vida diferente daquela que antes já possuíam. Recomendo a leitura da exegese feita por Elaine Gleci Neuenfeldt, que se encontra no PL 29, p. 192. Veja a semelhança dessa história com a de Eliseu, descrita em 2 Reis 4.
3 Meditação 3.1 – A morte Que grande choque é para uma mãe saber que seu filho faleceu. É fundamental colocar-se no lugar das pessoas que experimentam o luto, a perda, a morte. Com palavras a seguir, Lutero participa a seu amigo Justo Jonas (1493-1555), em 23 de setembro de 1542, a morte de sua filha Madalena de 13 anos: “Creio que ficaste sabendo que minha filha Madalena renasceu para o reino eterno de Cristo. ... Pois os olhares, palavras e gestos da filha obediente e respeitosa ao extremo, quando viveu e quando morreu, se prendem ao fundo de nossos corações, de maneira que nem mesmo a morte de Cristo pode tirar esse pesar como deveria. E o que é a morte de todos em comparação com a de Cristo? Por isso agradeça a Deus em nosso lugar. Pois ele realmente fez uma grande obra em nós e glorificou sobremaneira nosso corpo. Ela tinha – como sabes – um caráter suave e amável, sendo querida para com todos. Louvado seja o Senhor Jesus Cristo que a chamou, escolheu e glorificou. Tomara que eu, todos os meus e todos os nossos tenhamos por sorte uma morte assim. É o único que peço a Deus, ao Pai de todo consolo e de toda misericórdia.” (WA Br 10, 149, 20-34, apud JUNGHANS, p. 92 e 93). 3.2 – A indignação Sempre haverá uma reação frente a algo indesejado. A indignação provoca uma reação. Busca-se por explicações. A crise é sempre uma grande chance. Deus revela-se por meio da dor, colocando-se de forma misericordiosa ao lado dos que sofrem, expressando seu amor incondicional. O sentido maior não está em procurar um culpado. Na dor, o ser humano reconhece sua pequenez e volta-se ao Pai, ao Criador, àquele que é Senhor sobre tudo e todos. 3.3 – A oração A oração cava um canal ao reservatório de recursos ilimitados de Deus para os pequenos tanques de nossa vida. A cumbuca vazia foi preenchida. Deus responde aos que clamam. Elias orou, clamou e com fé buscou que Deus revertesse a indignação daquela mãe que lhe deu de comer, permitindo que ele próprio pudesse estar vivo.
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3.4 – O milagre Qual é o espaço que se tem para discutir um milagre num mundo técnica e cientificamente desenvolvido? Muito oportuno é o lançamento do livro “O segredo do milagre”, de Gottfried Brakemeier, do qual cito: “Na sociedade secularizada do século XXI, a fé defronta-se com crescente descrença. O despertar da razão crítica ‘desencantou’ o mundo, descartando qualquer interferência sobrenatural nos processos naturais. ... Consequentemente, a crença em milagres passa a ser considerada incompatível com a racionalidade moderna. Pessoa esclarecida não acreditaria em milagres” (p. 11). Transita numa outra frequência um segmento social em busca de milagres e prosperidade. A massa populacional procura isso nas religiões. Não faltam denominações dispostas a vender modernas indulgências. Inventam-se objetos de todas as ordens para instrumentar uma pseudofé. À luz do evangelho de Jesus Cristo, seguimos a escola da comunidade terapêutica, que entende a igreja de Cristo como ponto elementar do agir de Deus. Buscamos cultivar vínculos, valorizar os laços oriundos da fé no Trino Deus. Nesse ambiente, não no “circo”, acontecem inúmeros milagres. A fé mantém pessoas de pé em meio a inúmeras enfermidades. O agarrar-se nas mãos de Deus faz muitos voltarem a caminhar. Sim, milagres existem e acontecem diariamente. Mas não fazemos deles um fenômeno milagreiro. Nos milagres, revela-se a soberania divina, a autoridade do Deus criador de que Jesus é portador (cf. Mc 1.27; 4.41 etc.). Logo eles excedem as possibilidades humanas. Enquanto o ser humano esbarra nos limites de sua finitude, “para Deus tudo é possível (Mc 10.27)” (Brakemeier, p. 20). “Milagre evangélico é somente aquele que for percebido como apelo de Deus, como um chamado, como uma palavra. Enquanto um fenômeno extraordinário não sensibilizar a pessoa, ainda não foi reconhecido como sinal” (Brakemeier, p. 21). 3.5 – A confissão de fé Confessar significa entrar em conciliação, concordar sobre uma base comum. Da boca da viúva brotou esta confissão: “Agora eu sei que o senhor é um homem de Deus e que Deus realmente fala por meio do senhor” (1Rs 17.24, NTLH). Confissão é a resposta da igreja decorrente da reflexão que faz a partir da Palavra. Confissão de fé é ponto de partida onde nós nos introduzimos na comunidade cristã. Eu creio... Naquilo que creio está o meu coração. “Pois onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês” (Mt 6.21 NTLH).
4 Imagens para a prédica Fiquem atentos às informações armazenadas de seus estudos e prática ministerial. Sempre há um exemplo colhido da vivência ou dos livros que se encontram à disposição.
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4.1 – A morte No caminho, a sós, compartilhado por ninguém, quando, ao orar, nos fogem os pensamentos, quando trevas como sopro frio me envolvem, queiras tu achar-me em meus tormentos. Quando a alma qual luz desnorteada entre o gerar e o perceber bruxulear, queiras tu ao meu lado estar. Quando tua mão não conseguir pegar, toma, Senhor, as minhas em tua mão, vem da minha alma te apiedar, a bom termo conduzir-me então. (Oração do Campo de Concentração, in: BRAUN, Joachim. Entre o consolo e as lágrimas, Editora Sinodal, 1986). 4.2 – Indignação Conheça o motivo do choro. Lembro do livro “Eu vi as tuas lágrimas – Amparo e consolo no sofrimento”, de Vera Cristina Weissheimer (Sinodal). 4.3 – A oração Na oração, expressamos sentimentos de esperança e amor. Na oração, entregamos a Deus nossas preocupações. A comunidade que ora está atenta ao clamor do outro. 4.4 – O milagre Grandes milagres acontecem diariamente bem perto de nós. Perceba-os. Cite-os. 4.5 – A confissão de fé A razão, o sentido, o propósito para o qual existimos aponta, a partir da fé, numa só direção: que o nome do Trino Deus seja glorificado.
5 Subsídios litúrgicos Uma oração: Entre as orações de entrega incondicional que mais impressionam cito a de Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês, inventor da máquina de calcular: “Eu não peço nem por saúde nem por doença, nem por vida nem por morte, mas peço que tu uses tanto a minha saúde como a minha doença, tanto a minha vida como a minha morte para o teu louvor e a minha salvação. Só tu sabes o que é bom para mim; tu és Senhor soberano, faze o
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que quiseres. Dá-me e tira de mim! Senhor, eu sei que só sei uma coisa: que para mim é bom seguir-te e que me faz mal ofender-te. Não sei o que me é mais útil: a saúde ou a doença, a riqueza ou a pobreza, ou todas as coisas do mundo. Essa é uma questão que está acima das forças de pessoas e de anjos e que está escondida no mistério de teus planos, que eu quero adorar e não sempre entender. Amém”. Uma palavra que remete à bênção: “... podemos esforçar-nos para abrir nosso pensar, alargar os nossos horizontes, de modo que estejamos abertos para algo mais: quem crê pensa mais longe” (Helmut Thielicke, Crer – Informações sobre a fé, p. 91). Cantos: HPD 478 – Logo de manhã HPD 206 – Quão bondoso amigo é Cristo HPD 166 – Dá-nos olhos claros HPD 248 – Ontem, hoje e para sempre
Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. O segredo do milagre. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2012. BREIT, Herbert; WESTERMANN, Claus. Calwer Predigthilfen, Band 6. Stuttgart: Calwer Verlag, 1971. JUNGHANS, Helmar. Temas da Teologia de Lutero. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1981.
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PRÉDICA: LUCAS 7.36-8.3
4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
2 SAMUEL 11.26-12.10,13-15 GÁLATAS 2.15-21
16 JUN 2013
Verner Hoefelmann
1 Introdução As três perícopes deste domingo têm um tema em comum: podemos ter comunhão com Deus não por causa de nossas próprias virtudes, e sim porque Deus mesmo, em sua misericórdia, vem ao nosso encontro e remove as barreiras que nos separam dele. Isso se mostra na história do grande rei Davi. Ao pronunciar o veredito de morte sobre o homem rico, que matou a ovelhinha do homem pobre para dar de comer a um hóspede, Davi caiu na armadilha do profeta Natã: pronunciou um juízo contra si mesmo e viu-se entregue aos desígnios de Deus (2Sm). Em outras palavras, o apóstolo Paulo diz a mesma coisa na Carta aos Gálatas: ninguém é justificado diante de Deus com base em justiça própria, adquirida pela observância da lei, e sim com base na graça de Deus, mediada em Cristo e recebida pela fé. O texto de prédica concretiza essa temática com dois exemplos. Simão serve como exemplo negativo: ele recebeu Jesus em sua casa para um jantar. Mas se distanciou de seu hóspede, deixando de usufruir uma relação de amizade, comunhão e amor com ele. A mulher anônima é o exemplo positivo: a despeito de sua má fama, ela encontrou acolhimento, perdão e amor junto a Jesus, experiência essa que lhe abriu as portas para uma nova vida.
2 Exegese A história da pecadora perdoada faz parte de um pequeno bloco de textos que Lucas inseriu na sequência de Marcos. Alguns deles são exclusivos, outros, com paralelo em Mateus, derivados da fonte Q. O bloco inicia em Lucas 6.17, com o sermão da planície, e termina em 8.3. A partir daí, Lucas retoma o fio narrativo de Marcos. Apesar de ser tradição exclusiva, Lucas 7.36-50 assemelha-se a outro relato, que os demais evangelhos situam em Betânia, às portas da paixão (Mc 14.3-9; Mt 26.6-13; Jo 12.1-8). É difícil definir a relação entre as duas tradições. O esquema narrativo é o mesmo: ambas falam de um banquete em que Jesus foi ungido por uma mulher. O gesto provoca uma reação negativa, mas Jesus a defende e elogia. Há outros detalhes em comum, mas também diferenças significativas. A comparação entre os textos mostra, de modo exemplar, como as tradições “viveram” nas primeiras comunidades. Mas uma diferença é decisiva: os outros evangelhos vinculam a unção com o rito fúnebre que aguarda Jesus, ou seja, eles colocam a unção a serviço da teologia da cruz. Lucas, convém lembrar, omite o episódio da unção em Betânia.
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Por quê? Certamente porque o vê representado no presente relato. Caso seja uma tradição independente, Lucas parece tê-la enriquecido com detalhes extraídos da unção em Betânia. De qualquer forma, ao deslocar a tradição do contexto de Marcos, ele imprime a ela um novo acento: agora ela aponta para o perdão dos pecados, que tem sua raiz no ministério de Jesus, um tema, aliás, recorrente no evangelho (Lc 1.77; 3.3; 5.8; 11.4; 13.1-5;17.3-4; 18.3; 23.34 etc.). No final das contas, as temáticas têm algo em comum, pois o perdão dos pecados que Jesus concede ao longo de sua vida (a unção da pecadora) estabelece-se definitivamente por meio de sua morte (a unção em Betânia). A relação do texto com o contexto parece evidente: ele ilustra a fama de Jesus como “amigo de publicanos e pecadores” (7.34); mais do que isso: evidencia que, no tempo de João Batista, assim como no tempo de Jesus, alguns pecadores acolhem de forma inesperada a mensagem libertadora (7.29), enquanto outros, que se têm por justos, rejeitam-na, atraindo sobre si o juízo (7.30). A pecadora perdoada e o fariseu autossuficiente são exemplos disso. A perícope pode ser estruturada em três sequências: a) a cena inusitada à mesa (v. 36-39): o gesto da mulher constitui o centro (v. 37-38) e está emoldurado pelo convite (v. 36) e pela decepção do hospedeiro (v. 39); b) a resposta de Jesus à crítica implícita do hospedeiro (v. 40-47): ela é mediada por uma parábola (v. 41-43), que logo é aplicada à situação (v. 44-47); c) a reação de Jesus ao gesto da mulher (v. 48-50): ele confirma-lhe o perdão (v. 48-49) e despede-a em paz (v. 50). Lucas 8.1-3 é um sumário e constitui, a rigor, uma nova perícope, como mostra a mudança de cenário. Mas se ajusta bem ao contexto, ao indicar que a acolhida da mulher por Jesus e o amor que ela demonstrou não foram eventos isolados, e sim representativos para muitos outros. V. 36-39 – O convite dirigido a Jesus introduz o texto e qualifica-o como uma cena de banquete. O hospedeiro é um fariseu, chamado mais tarde de Simão (v. 40,43,44; cf. Mc 14.3). Outros fariseus hospedam Jesus no evangelho (11.37; 14.1) ou estão presentes em cenas de banquete (5.30; 15.1-2). Seu zelo para com a lei e sua conduta autossuficiente e excludente são ilustradas em 19.9-14 com uma parábola cortante. Simão considera Jesus um profeta (v. 39) e quer fazer-lhe um obséquio. O verbo kataklino (reclinar-se à mesa – v. 36) mostra que se trata de um banquete solene, pois o costume é atestado em Israel apenas para situações especiais; ao mesmo tempo, explica a cena seguinte, em que a mulher chega por trás e alcança os pés de Jesus. Tais banquetes honoríficos eram abertos a espectadores. Por isso a mulher pode entrar. A mulher é uma pecadora, ou seja, alguém que notória e publicamente vive à margem da lei. Assim a descreve o narrador (v. 37), assim a considera o fariseu (v. 39), assim a reconhece Jesus (v. 47). Poderia ser uma prostituta ou esposa de um homem que exerce profissão desprezível, mas o texto não indica a natureza específica de seu pecado. Também não é possível vinculá-la a alguma pessoa conhecida, como Maria Madalena. De qualquer forma, mesmo que o texto não o explicite, seu gesto pressupõe um conhecimento prévio da pregação de Jesus ou alguma vivência junto a ele. Por isso ela vem procurá-lo para expressar sua devoção a ele (compare com 8.2-3). Ela traz um frasco de alabastro, fabricado com uma pedra calcária fina,
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considerado o mais apropriado para conservar o unguento (um perfume líquido, dissolvido em azeite). Seu gesto é descrito com minúcias: a) ela chora intensamente; b) rega os pés de Jesus com as lágrimas; c) enxuga-os com os próprios cabelos; d) beija-os; e) unge-os com o unguento. O texto não menciona o motivo das lágrimas. Mas elas podem indicar arrependimento de seus pecados ou alegria pela experiência do perdão de Deus. Jesus interpreta o gesto como demonstração de carinho, gratidão e amor, que ele não encontrou no anfitrião (cf. v. 44-46). Esse, ao contrário, desaprova intimamente o fato de Jesus não impedir a ação da mulher, expressando assim sua decepção com o hóspede: se fosse mesmo um profeta (cf. 4.24; 7.16; 13.33), saberia reconhecer a condição das pessoas com as quais lida (v. 39). V. 40-47 – Em sua resposta, Jesus mostra que conhece a situação pública da mulher tanto quanto o íntimo de Simão. Esse agora o chama de mestre (v. 40), um título geralmente utilizado por discípulos (5.5; 8.24,45; 9.33; 19.39), mas também por pessoas de fora desse círculo, como expressão de reverência (10.25; 11.45; 12.13; 18.18). A cena expõe o método de Jesus, que ensina através de imagens e engaja o interlocutor na reflexão. A parábola fala de um prestamista que, surpreendentemente, perdoa a dívida de dois devedores: 500 denários de um, dez vezes menos de outro (v. 41-42). O denário equivale a um dia de trabalho (Mt 20.2). A diferença entre as dívidas é enorme, mas o motivo que leva o credor a esse gesto é o mesmo: nenhum deles tem condições de saldá-la (v. 42). Ao confirmar que o primeiro devedor haverá de devotar mais amor e gratidão ao prestamista (v. 42-43), o fariseu começa a enredar-se, como Davi diante do profeta Natã. A aplicação da parábola identifica os seus personagens (v. 44-46): o grande devedor representa a mulher, que tem muito a agradecer e demonstrar diante de Jesus. O pequeno devedor representa Simão, que provavelmente jamais se consideraria um insolvente, como Jesus igualmente o caracteriza: acha que está em dia com Deus, assim como o fariseu da outra parábola (18.9-14). O v. 47 resume o saldo da conversa. Jesus diz a Simão: perdoados estão os muitos pecados dela. O verbo na voz passiva indica que Deus é sujeito lógico da ação descrita. Mas a sequência da frase (porque ela muito amou) parece estranha ao texto. Se entendermos a conjunção hoti em sentido causal (porque), o amor da mulher torna-se o motivo do perdão. Mas isso iria contrapor-se ao sentido da parábola e da frase que segue (aquele a quem pouco se perdoa pouco ama). Por isso a conjunção deve possuir aqui um sentido explicativo, não para enunciar o motivo do perdão, e sim para expressar sua realidade já existente. O verbo afeontai, no perfeito, aponta na mesma direção: indica que a mulher usufrui, no presente, uma condição que lhe foi dada num passado recente. V. 48-50 – A mulher, o tempo todo, está no centro da perícope: na primeira cena, ela domina a ação; na segunda, é o foco do debate; agora ela se torna a interlocutora de Jesus, que finalmente reage a seu gesto. Jesus repete, agora diretamente a ela, a fórmula do perdão. O mesmo verbo no perfeito indica, uma vez mais, que Jesus não está transmitindo o perdão, e sim apenas confirmando (v. 48). Foi a experiência prévia do perdão que provocou o gesto amoroso da mulher. Sabemos agora que havia outras pessoas presentes no banquete (v. 49),
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que perguntam, perplexos, pela identidade desse homem que perdoa pecados em nome de Deus. Jesus despede a mulher com um voto de paz e com uma fórmula que mais parece um desfecho de cura: a tua fé te salvou (v. 50; cf. 8.58; 17.19; 18.42). A palavra final de Jesus mostra o que levou a mulher a buscar o perdão de Deus: a fé. Trata-se de um ato de confiança num Deus que, por mais pecaminoso e deteriorado que tenha sido o passado de quem o procura, não hesita em restabelecer uma relação de amizade. Essa fé levou a pecadora a manifestar sua gratidão e seu amor a Jesus, o mediador da salvação que ela havia experimentado. Lucas 8.1-3, como já dito, não faz parte da perícope, mas mostra o percurso de outras mulheres, que encontraram cura e libertação em Jesus, levando-as a tomar parte em seu ministério.
3 Meditação O texto alude a três personagens (o fariseu, a mulher e Jesus) e à forma como eles procuram relacionar-se com Deus e, por consequência, com outros seres humanos. De Jesus vamos falar enquanto falamos dos outros dois. Comecemos com o fariseu Simão. Não é correta, historicamente, a caricatura que às vezes se faz desse grupo, consagrada até mesmo em nosso vocabulário. Fariseu virou sinônimo de hipócrita, fingido, orgulhoso. Sua interpretação casuística da lei, aferrada a detalhes e preciosismos, podia favorecer, sim, uma piedade inautêntica e hipócrita. Mas sua hipocrisia não é um comportamento subjetivo, como se tentassem aparentar uma coisa que eles sabem que não são. O problema deles não é falta de zelo, sinceridade, devoção ou piedade. Eles estão convictos de suas posições e cheios de boas intenções. É o que vemos em Simão. Talvez nos surpreenda o fato de que um fariseu convide Jesus para um jantar, pois os conhecemos como seus principais adversários. Mas Simão está bem-intencionado ao convidar Jesus. Considerava-o um profeta, um homem de Deus e queria homenageá-lo, conhecer seu ponto de vista e aprender com suas palavras. O problema de Simão é que, em sua devoção religiosa, ele parte de premissas equivocadas. Uma delas é que a vontade de Deus está definida em detalhes e codificada em leis e regras, que podem ser naturalmente obedecidas. Uma delas diz que uma pessoa de bem deve evitar o contato com pessoas moralmente suspeitas, ainda mais quando elas são transgressoras públicas da lei. Essas pessoas transmitem sua impureza por mero contato, como se fosse um vírus perigoso. E a impureza afasta o ser humano de Deus. Por isso o fariseu franze a testa quando aquela mulher se aproxima de Jesus e ele se deixa tocar, como se nada de errado estivesse acontecendo. Todos sabem que aquela criatura, além de mulher, é uma pecadora! Como pode Jesus permitir uma coisa dessas? A sensibilidade religiosa de Simão entra em alerta máximo. Ele jamais ousaria questionar seu sistema religioso. Aqui nada se cria, nada se perde, nada se transforma. Por isso ele começa a matutar em seu íntimo: o errado só pode ser Jesus. Equivoquei-me ao convidá-lo para a minha casa: ele não é nenhum profeta. Se fosse, saberia quem é essa mulher e evitaria o contato com ela.
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E, de repente, quando olhamos ao redor ou contemplamos o espelho, Simão parece muito familiar. Ele é uma pessoa piedosa, confiável, assídua, correta, bem-intencionada, autoconfiante, convicta de suas ideias, mas extremamente inflexível, dura, incompassiva, incapaz de compreender os dramas humanos, pronta para julgar a incompetência dos outros e colocar-se num patamar especial. Jesus tem uma palavra a dizer aos Simões: apesar da tua entrega, do teu zelo, do teu esforço, tu também estás em dívida diante de Deus. Talvez não sejas um ladrão, um adúltero, um assassino, um corrupto, um explorador. Mas ofendes a santidade de Deus quando pensas que estás à sua altura. “O que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias como se não o tiveras recebido?” A segunda personagem é a mulher. Não sabemos seu nome, seu passado, seu estado civil, suas condições de vida. Sabemos que já nasceu em desvantagem pelo fato de ser mulher. Sabemos que, em seu nascimento, sua mãe foi tida como impura durante 80 dias (se fosse um menino, seria a metade do tempo). Sabemos algo de seu presente: ela está na boca do povo, pelo qual é conhecida na cidade como pecadora. As pessoas de bem devem afastar-se dela, sim, o próprio Deus está longe dela e nega-lhe o seu favor. Podemos imaginar como a mulher se sente: inferiorizada, desprezada, discriminada, desamparada, autoestima em baixa, sem força e perspectiva para lutar por uma vida com mais sentido e qualidade. Essa mulher ouve falar de Jesus, que declara bem-aventurados os pobres, que se ocupa com leprosos, que convive com gente desprezada, que aceita mulheres em seu círculo de amigos, que trata os desprezados com dignidade, que perdoa pecados em nome de um Deus que se compadece dos miseráveis, que fortalece as pessoas para um novo começo. Não sabemos se já o havia encontrado antes. De qualquer forma, o eco da mensagem de Jesus ressoa forte em seu coração. É disso, exatamente disso, que ela está precisando. Quando ela sabe que Jesus está na casa de Simão, talvez tenha hesitado. Se Simão a conhece, ela também conhece Simão: sabe quantas vezes ele desviou o olhar dela e passou de largo, como se não a tivesse visto. Mas ela decide que não pode perder a oportunidade de mostrar gratidão a Jesus e demonstrar o amor que possui por ele. Mune-se de coragem, supera as barreiras e entra na casa de Simão. Quando enxerga Jesus, não pode conter as lágrimas e começa a retribuir a hospitalidade que sentiu primeiro em Jesus. Os detalhes da cena nós já conhecemos. Jesus também tem uma palavra para a mulher. Toma-a como exemplo positivo para Simão. Transforma-a na verdadeira anfitriã daquele banquete. Elogia a gratidão e o amor que ela demonstrou. Sim, ele, que veio para servir, deixa-se servir por ela e aceita seu gesto de gratidão e amor. Não ignora os muitos pecados dela, mas não a condena por isso. Confirma-lhe o perdão de Deus, proclama o valor de sua fé, despede-a em paz. O Deus que ele representa alegra-se mais com um pecador que se arrepende, que pretende recomeçar a partir de Deus, do que com noventa e nove justos que permanecem impenitentes, porque acham que não têm que mudar nada. Procuremos o rosto dessa mulher em nosso meio. Se não estou enganado, poucos deles estão em nossas igrejas. Estranhamente, pessoas de igreja parecem mais com Simão. Mas a mensagem do texto exorta-nos a contemplar a mulher.
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Diante de Deus, temos que aprender a reconhecer-nos em seu rosto. Deus só pode presentear-nos com seu perdão e com a força que dele brota se nos reconhecermos como devedores. Muitas pessoas se perguntam por que essa mulher permaneceu anônima no evangelho. Talvez a resposta seja mais simples do que se pensa: é para que cada um de nós coloque ali o seu nome.
4 Imagem para a prédica A imagem da ponte nunca aparece na Bíblia. Mas caracteriza muito bem o que Jesus veio fazer: criar condições para que as pessoas se aproximem de Deus e, por consequência, entre si. A palavra fariseus significa separados e caracteriza uma atitude oposta: construir cercas em torno de si para manter-se distante de quem não pertence ao seleto grupo. A esse propósito pode-se utilizar a história que segue. Dois irmãos que moravam em fazendas vizinhas, separadas por um riacho, entraram em conflito. Foi a primeira grande desavença em toda uma vida de trabalho lado a lado. Mas agora tudo havia mudado. O que começou como um pequeno mal-entendido explodiu agora numa troca ríspida de palavras, seguidas por semanas de total silêncio. Numa manhã, o irmão mais velho ouviu alguém bater à sua porta: “Estou procurando trabalho”, disse um homem. “Talvez você tenha algum serviço para mim.” “Sim”, disse o fazendeiro. “Claro! Vê aquela fazenda ali, além do riacho? É do meu vizinho; na verdade, do meu irmão. Nós brigamos e não posso mais suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira ali no celeiro? Use-a para construir uma cerca bem alta.” “Acho que entendo a situação”, disse o carpinteiro. “Mostre-me onde estão a pá e os pregos.” O irmão mais velho entregou o material e foi para a cidade. O homem ficou ali medindo, cortando, trabalhando o dia inteiro. Quando o fazendeiro chegou, não acreditou no que viu: em vez da cerca, uma ponte, ligando as duas margens do riacho. Era um belo trabalho, mas o fazendeiro ficou enfurecido e falou: “Que ousadia de sua parte construir essa ponte depois de tudo o que lhe contei!”. Mas as surpresas não pararam por aí. Ao olhar novamente para a ponte, viu seu irmão se aproximando. Por um instante permaneceu imóvel. O irmão mais novo tomou a palavra: “Você realmente foi muito generoso construindo esta ponte mesmo depois do que eu lhe disse”. De repente, num impulso, o irmão mais velho correu na direção do outro, e ambos abraçaram-se fortemente. O carpinteiro que fez o trabalho partiu com sua caixa de ferramentas. “Espere, fique conosco! Temos outros trabalhos para você”, disseram os irmãos. O carpinteiro respondeu: “Eu adoraria, mas tenho outras pontes para construir”.
5 Subsídios litúrgicos
Versículo de entrada: “Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes concede a sua graça” (1Pe 5.5).
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Confissão de pecados: Temos a confessar-te, Senhor, que não conhecemos a dimensão de nosso pecado e da dívida que temos junto a ti. Não temos coragem de olhar para dentro de nós mesmos para reconhecer as motivações escusas e mesquinhas que movem as nossas decisões e ações. Temos procurado impressionar as pessoas com o que somos e temos, sem reconhecer que temos recebido todas as boas coisas de ti. Temos nos distanciado de pessoas e julgado suas atitudes, como se fôssemos melhores do que elas ou superiores a elas. Temos permitido que o orgulho e a autossuficiência nos mantenham afastados de pessoas. E sobretudo, Senhor, não sabemos viver a partir da tua misericórdia e das tuas dádivas, preferindo confiar em nossas próprias forças. Conscientiza-nos sobre os nossos pecados, concede-nos teu perdão e ensina-nos a viver a partir de tua graça. Amém. Oração de coleta: Obrigado, Senhor, que nos conduziste a este momento de louvor e adoração a ti e de comunhão com irmãos e irmãs na fé. Aquieta o nosso coração e ajuda-nos a concentrar-nos em tua palavra, para que ela se torne lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. Amém. Oração final: Deus de bondade e misericórdia: depois de ouvir o evangelho de hoje, damo-nos conta, em tua presença, de quantas barreiras costumamos erguer: barreiras em tua direção, quando não damos ouvidos à tua palavra e preferimos andar em nossos próprios caminhos, que nos conduzem para longe de ti; barreiras em direção ao nosso próximo, quando nos julgamos superiores a ele, melhores ou mais competentes do que ele, quebrando assim a solidariedade que nos caracteriza como teus filhos e filhas, dependentes de tua graça e misericórdia. Obrigado, Senhor, que como um carpinteiro o teu filho Jesus Cristo construiu pontes: pontes que nos conduzem de volta a ti e aproximam o céu e a terra; pontes que nos libertam de nossa solidão; pontes que nos ajudam a superar preconceitos; pontes que nos reaproximam de raças e classes sociais distintas; pontes que reaproximam gerações distintas; pontes que reaproximam pessoas separadas por ódio e inimizade; pontes que nos reaproximam da dor e do sofrimento alheio; pontes que nos levam a prestar e a receber solidariedade. Ajuda-nos a desconstruir as cercas que erguemos e ensina-nos a construir pontes. Amém.
Bibliografia
BOVON, François. El evangelio según Lucas. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2005. FITZMYER, Joseph. El evangelio según Lucas. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1987.
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PRÉDICA: GÁLATAS 3.23-29
5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ISAÍAS 65.1-9 LUCAS 8.26-39
23 JUN 2013
Nilo Orlando Christmann
1 Introdução Isaías 65.1-9 descreve a ira de Deus com aqueles que vivem a vida de seu próprio jeito. O profeta denuncia a rebeldia e a hipocrisia: não buscam a Deus e ainda se consideram mais santos do que as outras pessoas. Por isso pagarão por seu pecado. Ainda assim, há espaço para a misericórdia de Deus. A figura é emblemática: mesmo o suco de algumas poucas uvas é sinal de bênção. A ira de Deus não promete destruição total. O propósito de Deus de ter um povo fiel e que experimente suas bênçãos continua inalterado. Em Lucas, a cura do endemoninhado geraseno é uma das passagens mais extraordinárias dos evangelhos. Os demônios são de tal ordem, que são uma “multidão”. Se em Isaías há clemência para parte do povo de Deus, aqui há misericórdia com um estrangeiro, que recobra sua integridade e seu juízo. Já o destino dos demônios são o abismo e a morte. Que relação pode ser feita entre esses textos e Gálatas 3.23-29? a – O relato de Isaías testemunha a dificuldade do ser humano em cumprir a lei. O texto de Gálatas é retrato da nova aliança a partir da fé em Jesus Cristo. b – O Deus misericordioso que se manifesta em Isaías 65.8-9 é o mesmo que envia o próprio Filho. Na cura do endemoninhado de Gerasa está caracterizado um novo tempo: o mal, a morte e o diabo estão com os dias contados. “Exorcismo é sempre sinal de libertação” (Brakemeier). c – A cura de um estrangeiro anuncia que a vinda do Filho de Deus rompe com as diferenças de raça, gênero e condição social. É justamente dessa nova realidade que trata o texto da pregação.
2 Considerações exegéticas Paulo escreve aos gálatas entre os anos 53 e 55 d.C. Os gálatas são fruto de uma das viagens missionárias de Paulo à Ásia Menor. A origem dos destinatários da carta é pagã (4.8-9). O que leva Paulo a escrever é a informação de que chegaram pessoas – judeu-cristãos – à comunidade para perturbar e perverter o evangelho de Cristo (1.6-7), questionando a legitimidade do apóstolo Paulo e tentando convencer a comunidade da necessidade da circuncisão e do apego às obras da lei. A carta é escrita com uma boa dose de decepção e indignação, tanto assim que Paulo se afasta de sua característica ao iniciar a epístola. Deixa de lado
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maiores saudações e agradecimentos para ir direto ao ponto. Em sua indignação chama os gálatas de insensatos (3.1) e recomenda a mutilação (castração) aos perturbadores (5.12). O assunto que perpassa os seis capítulos é a relação entre a lei, a fé em Jesus Cristo, as obras e a liberdade. O apóstolo escreve na convicção de que seus argumentos demoverão a jovem comunidade de dar ouvidos aos que não pregam o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo (5.10), o que a colocava sob risco de nova escravidão (5.1). Uma das partes mais densas da argumentação de Paulo está em 3.23-29. Nas versões bíblicas consultadas, não há grandes variações de tradução, incluindo a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). A tarefa maior consiste em entender o conteúdo do texto. O v. 23 está em estreita relação com os v. 21 e 22. Para que a promessa de Deus pudesse se cumprir em Jesus Cristo, era necessário que todos estivessem encerrados sob o pecado. A lei escancara essa condição, deixando o ser humano prisioneiro por não conseguir cumpri-la. A lei, por um lado, mostra a vontade de Deus e, por outro, não tem em si mesma a força necessária para dar vida, para justificar. O que faltava foi resolvido em Jesus Cristo. É a fé nele que coloca os que creem em uma nova relação com Deus (e também com a lei). Os gálatas, como não judeus, não são conhecedores de tudo o que diz respeito à tradição veterotestamentária da lei de Deus. O pressuposto é o conhecimento natural de todo ser humano a respeito do certo e do errado, aquilo que Deus inscreveu no coração das pessoas. V. 24 – A lei (nomos) serviu de paidagogos para conduzir as pessoas a Cristo. A tradução de paidagogos é diferente nas diversas traduções: “aio” (Almeida), “pedagogo” (Bíblia de Jerusalém) e “tomar conta” (NTLH). Cada tradução tenta aproximar o sentido do texto ao grego. Importa entender quem era um paidagogos naquele tempo: o escravo que tinha a tarefa de levar a criança/jovem ao mestre; essa tarefa incluía a vigilância e a correção. Assim, a lei serviu apenas de meio – ficou tomando conta – para conduzir à fé em Jesus Cristo (o mestre). Se fosse cumpridor da lei, o ser humano teria mérito diante de Deus. A sua obra seria a credencial. Mas esse não é o caso. Foi a ação de Deus que fez com que fôssemos justificados (passivo). A parte “ativa” do ser humano é a fé, é o crer. Em última análise, no entanto, também o crer é dádiva, para que ninguém tenha do que se orgulhar (Ef 2.8). V. 25 – O novo tempo, o tempo da fé em Jesus Cristo, coloca os cristãos sob novo senhorio. O senhorio não é mais do paidagogos, da lei. Já não é ela que toma conta da comunidade cristã. O senhorio é do próprio Jesus, porque nele se cumpre toda a lei. A mediação, via cumprimento da lei, foi substituída pela mediação da cruz. Agora a relação com a lei já não é de quem toma conta, e sim de liberdade em cumpri-la. V. 26-27 – O caminho que Deus percorre em favor do ser humano na cruz retira-o da condição de escravo e prisioneiro da lei para colocá-lo na condição de filho de Deus. Esse é o evangelho verdadeiro. Essa é a pérola preciosa que Paulo não quer que os gálatas percam após havê-la encontrado. Aqui se entende a indignação do apóstolo: como podem os gálatas querer abrir mão das prerrogativas
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de filhos de Deus (4.6-7) para retornar à condição de escravos? O sinal visível da filiação é o Batismo. Ser batizado em Cristo equivale a ser revestido por ele. No linguajar paulino, “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (2.20). V. 28 – De escravos para a condição de filhos de Deus! Disso resulta a igualdade. No passado, todos estavam encerrados no pecado. Agora, pela fé, são feitos filhos e filhas do Pai. Como a graça de Deus não faz distinção, a igualdade está declarada. Caem por terra todas as razões que se possam arquitetar para que alguém se entenda mais merecedor daquilo que Deus tem a oferecer. A unidade na comunidade dos cristãos está assegurada, pois ali se reúnem pessoas igualmente agraciadas com a salvação que não mereciam. V. 29 – O sacrifício de Cristo na cruz tem abrangência universal, inclui todos. Portanto pertencer a Cristo é também ser herdeiro das promessas feitas a Abraão, assim como fora dito em Gênesis 22.18. Ser da família de Deus deixa de ser uma questão de linhagem. A filiação, o pertencimento, dá-se pela fé em Jesus Cristo.
3 Meditação Há uma diferença considerável entre os cristãos da pós-modernidade e os gálatas da Ásia Menor no início do primeiro século. A distância não é apenas cronológica. Aquelas comunidades estavam recentemente constituídas. Como o cânone bíblico ainda não estava formatado, as informações que tinham sobre a nova fé não iam muito além do que conseguiram apreender com a passagem do apóstolo Paulo. O Espírito Santo agiu, e muito, para que essas comunidades sobrevivessem. A ruptura com as crenças anteriores havia acontecido. No entanto, o entorno não era cristão. Podem-se deduzir tentações de toda ordem. Como se não bastasse essa fragilidade conjuntural, os gálatas recebem a visita de outros cristãos, de ênfase judaizante, que começam a semear dúvidas sobre as bases de sua fé. É o tal do “fogo amigo”. A carta do apóstolo Paulo é sinal de seu amor e comprometimento com os gálatas. As explicações, os argumentos e os apelos têm a intenção de evitar que os gálatas percam a liberdade conquistada a partir da fé em Jesus Cristo. Para dentro dessa situação vivencial, o texto da pregação sublinha alguns pontos fundamentais. O primeiro deles é deixar claro que a função pedagógica da lei é ajudar o ser humano a perceber toda a sua miséria para, então, com o advento da fé em Jesus Cristo, poder experimentar a grandeza da obra que Deus faz em seu favor. Lutero diz, em seu comentário a Gálatas, que a lei humilha e faz gemer e que, na humilhação, a pessoa busca “a mão do Mediador, cuja graça e misericórdia tornam tudo muito agradável”. Em seguida, o reformador afirma que “não se lembrará do doce aquele que jamais experimentou o amargo”. As crianças/meninos não gostavam do paidagogos. Em suas mãos, as crianças tinham vida equivalente à de escravos, mesmo que o pai soubesse que esse era um caminho necessário para que o menino fosse um adulto digno de receber a herança. Por isso, em segundo lugar, deixar de ser prisioneiro da lei, para experimentar a filiação divina oferecida em Jesus Cristo, constitui uma dádiva
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sem igual. Eis o verdadeiro evangelho a ser proclamado. De fato, não é compreensível que, tendo experimentado esse presente e a liberdade que dele decorre, alguém possa querer voltar atrás. Em terceiro lugar, lembremos que os judeus – assim também Paulo antes de sua conversão – oravam pela manhã agradecendo a Deus por não ser gentios/ pagãos, escravos e mulheres. Essa oração dá a dimensão da afirmação de que, a partir da fé e do batismo, já não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e livres, entre homens e mulheres. Essa lista poderia continuar e afirmar que já não há diferença entre crianças e adultos, entre agricultores e desembargadores, entre patrões e empregados... Não obstante, a enorme diferença entre os gálatas e as pessoas de nosso tempo; há, sim, pontos em comum. O ser humano carrega consigo a condição de por si próprio não fazer o que agrada a Deus. Somos todos “farinha do mesmo saco”. Ao mesmo tempo, carregamos conosco a contínua tentação de achar que podemos fazer alguma coisa para resolver o problema do nosso pecado. Por mais ilógico que seja, o ser humano adere e inventa deuses de toda ordem, prostrando-se em seguida diante deles. Isso lembra a frase escrita com giz em uma calçada: “Liberdade é pouco; o que queremos ainda não tem nome”. Declarar a ausência de diferenças entre as pessoas é tão extraordinário, que parece ser coisa de ficção. A igualdade decorre da fé em Cristo. Não se trata de uma igualdade que torna todos os cristãos cópia um do outro. Em outras cartas (Rm, 1Co e Ef), o mesmo Paulo usa a figura do corpo para descrever a diversidade presente na comunidade cristã. Tampouco a intenção é anular a diferença entre homem e mulher, pois se complementam mutuamente. Ao mesmo tempo, porém, a igualdade em Cristo não quer induzir à mera espiritualização. Onde as pessoas experimentam a fé libertadora e salvadora em Jesus Cristo, as diferenças contrárias à vontade de Deus perdem espaço, vão encolhendo. Isso vale para os machismos e os feminismos, vale para as injustiças de toda ordem, vale para as discrepâncias sociais, vale para as discriminações sejam quais forem. A fé em Jesus Cristo é fermento de unidade, pois as outras pessoas são alvos do mesmo amor com o qual fui agraciado. A comunidade cristã e seu testemunho, de algum modo, hão de apontar para a realidade do reino de Deus. Gálatas 3.23-29 toca em pontos centrais da teologia paulina e luterana. Por isso mesmo, ajuda a olhar-nos no espelho e ver a absoluta dependência da misericórdia e da graça de Deus. Ao mesmo tempo, nesse texto, o evangelho pulsa com toda a sua força, sublinhando a ação de Deus em Cristo a nosso favor. Os desafios, por sua vez, estão implícitos. É palavra a ser lembrada a cada dia e por toda a vida, pois a vida de fé não se resume a um antes e um depois, mas pede a conversão diária.
4 Imagens para a prédica a – Os gálatas estavam se deixando seduzir. O risco era voltar à escravidão: primeiro dos deuses pagãos, agora no apego à lei. O que seduz as pessoas na pós-
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-modernidade? A função do paidagogos era tomar conta. É interessante refletir sobre quem e o que toma conta de nós. O que liberta e o que aprisiona? b – Lutero diz que a gente somente consegue apreciar a doçura do doce se antes experimentamos o amargor do amargo. O amargo, para Lutero, é o desespero que decorre do pecado. Foi sua luta pessoal. Em nosso tempo, tornou-se pecado sentir qualquer tipo de culpa/pecado; baixa a autoestima. Quem gosta de usar algo mais concreto na pregação pode usar algum elemento amargo – losna, pau-amargo, bálsamo alemão – e um pote de mel. c – A imagem da filiação é muito especial nesse texto. Naturalmente, várias pessoas têm experiência negativa com os pais. Mas isso não deveria impedir de sublinharmos essa grande dádiva de ser feitos filhos de Deus a partir de Jesus Cristo. Sem contribuir para tanto e sem mérito algum, Deus nos faz herdeiros de sua promessa. Eis a boa-nova, o evangelho, o mel a ser saboreado. O Batismo (mencionado no texto) e também a Ceia são a expressão viva desse amor. d – Nos dias em que escrevo este auxílio homilético, noticia-se que o passageiro de um avião ficou contrariado e deixou de viajar quando percebeu que o avião seria pilotado por uma mulher. O apóstolo Paulo usa diversas vezes a figura do corpo para falar da diversidade do corpo de Cristo. Ou seja, há uma diversidade que soma e agrega, que aponta para o Reino. Por outro lado, existem também preconceitos que discriminam e excluem. Essa ponderação ajuda as pessoas individualmente e a comunidade no desafio da unidade.
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Considerando o texto da pregação, a confissão de pecados deveria incluir a nossa tendência a querer barganhar com Deus para dele merecer alguma recompensa. Assim também pedir perdão quando deixamos de agradecer pelo presente da filiação que Deus nos concede em Jesus Cristo. Incluir ainda a dificuldade que temos para tirar os preconceitos dos nossos olhos, da nossa mente, do nosso coração. Hinos: O Salmo 119 está em forma de hino no HPD 2, nº 383. Nesse hino cantamos: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma...”. Uma sugestão seria cantar esse hino antes da pregação. Ele poderia servir de ponte para falar sobre o texto. A lei é perfeita? Em que sentido? A sua perfeição está em ser o caminho escolhido por Deus para conduzir à fé em Jesus Cristo. Um hino que expressa a nova realidade em Cristo é o 328 do HPD 2: “Um só rebanho, um só pastor”. Poderia ser cantado depois da pregação.
Bibliografia BARCLAY, William. Comentario al NuevoTestamento. Tomo 10 – Galatas y Efesios. Buenos Aires: Editorial Aurora, 1973.
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LUTERO, Martim. Commentarius in Epistolam ad Galatas. – WA 40/I,33-688. Tradução: Paulo F. Flor. O texto original dos capítulos 5 e 6 encontra-se em WA 40/II,1-184.
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PRÉDICA: LUCAS 9.51-62
6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
1 REIS 19.15-16,19-21 GÁLATAS 5.1,13-25
30 JUN 2013
Ramona Weissheimer
1 Introdução Nosso texto está previsto para o 6º Domingo após Pentecostes, dentro do chamado “tempo comum”, que também pode ser muito especialmente lembrado e celebrado como tempo da igreja, pois “só os milagres corriqueiros acontecem todos os dias”. O texto já foi tratado, inteira ou parcialmente, nos PL 10, p. 251; 15, p. 167; e 20, p. 198. As leituras que acompanham o texto são 1 Reis 19.15-16,19-21, que, em parte, já pertence ao início do ciclo de Eliseu. Depois de encontrar com o Senhor no monte Horebe, Elias é mandado a ungir reis para Aram e Israel e um substituto para si mesmo: Eliseu. Elias lança sua capa sobre Eliseu, quando esse arava os campos com 12 juntas de bois, mas permite que ele vá se despedir de seus pais antes de segui-lo. Eliseu imola os bois, cozinha a carne com a madeira do arado e oferece-a ao pessoal. Renuncia à sua condição anterior e segue Elias como seu servo. A segunda leitura, Gálatas 5.1,13-25, inicia com a afirmação de que “para a liberdade foi que Cristo nos libertou”, portanto chama a não cair de novo no jugo da escravidão – da lei. Traz o embate entre lei e graça, obras do espírito e da carne. Os gálatas são chamados à liberdade, lembrando do grande mandamento: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O texto de prédica fala-nos da má acolhida recebida por Jesus e seus discípulos entre os samaritanos quando se dirigiam a Jerusalém e a vontade de seus discípulos de castigá-los por isso. E ainda das exigências da vocação apostólica: é preciso renunciar à condição anterior, seguir como servo, amar o próximo, renunciar às certezas cotidianas, compromisso assumido em toda a extensão de sua radicalidade e consequências. Um novo olhar, misericordioso, perpassa os três textos.
2 Exegese Eduard Lohse divide o Evangelho de Lucas em três partes principais: a atuação de Jesus na Galileia, a viagem e Jesus em Jerusalém. Nosso texto estaria inserido na segunda parte do evangelho, que trata do início do relato da viagem (9.51-19.27). Desse relato, o trecho de 9.51 até 18.14 seria uma grande intercalação ao material vindo de Marcos, só retomado em 18.15. Nessa intercalação estão textos bem importantes, como a missão dos 72 (70) e seu retorno (72 era o número tradicional das nações pagãs; 9.1-6 traz a missão dos 12 discípulos); parábolas, como a do bom samaritano, a semente de mostarda, a porta estreita;
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vários ditos, como a verdadeira felicidade, de quem devemos ter medo, riquezas no céu, curas etc. Em sua apresentação, Lucas indica que será relatada “a história das coisas que aconteceram entre nós” (v. 1.1). Isto é, serão abordados os acontecimentos que se sucederam como “cumprimento da história da salvação” (LOHSE, p. 160). Assim, essa grande intercalação é introduzida com as palavras: “como estava chegando o tempo de Jesus ir para o céu, ele resolveu ir a Jerusalém” (9.51). Conforme Lohse, o subir de Jesus nessa passagem refere-se, simultaneamente, à sua caminhada a Jerusalém e à sua exaltação por ocasião da ascensão ao céu. Por isso todo o relato da viagem está sob o título do cumprimento da história da salvação que está se realizando. V. 51 – O que na NTLH lê-se “chegando o tempo de ir para o céu”, a Bíblia de Jerusalém e a Almeida Revista e Corrigida traduzem como “assunção”. A expressão “resolveu ir” é traduzida como “decidiu resolutamente” e “manifestou o firme propósito”, o que dá mais força ao texto. V. 52-53 – Em 722 a.C., quando da queda do Reino do Norte, a política assíria fez com que populações locais fossem expatriadas e, em seu lugar, colocados colonos vindos de outras partes do império. Formou-se, assim, uma população mista, que não era aceita pelos judeus. Além disso, os samaritanos construíram seu próprio templo no monte Garizim no séc. III a.C., que rivalizava com o templo de Jerusalém. Em 129 a.C., João Hircano destruiu esse templo. A inimizade tornou-se recíproca. E, se já não se davam com os judeus, deveriam mostrar-se particularmente hostis para com os peregrinos que se dirigiam a Jerusalém. Por isso se evitava geralmente passar por ali. Lucas e João são os únicos a mencionar a passagem de Jesus pelo território samaritano. V. 54 – Tiago e João, “filhos do trovão” (cf. Mc 3.17), pretendem fazer “descer fogo do céu para os consumir”, como fez Elias em 2 Reis 1.10-12 – contra os oficiais mandados pelo rei Acazias, da Samaria. Como se viu também nos v. 49-50, a fé dos discípulos permanece presa a certos conceitos: quem não se enquadra tem que ser punido. V. 55-56 – Jesus critica os discípulos, mas não fala nada contra os samaritanos. Vai embora, sem bater o pó das sandálias contra os que não o receberam (9.5). V. 57-58 – Jesus segue seu caminho quando é abordado por um homem que se diz pronto para segui-lo. Mas Jesus não oferece nenhuma segurança. Seguir Jesus não pode ser emoção de momento; é preciso estar com os pés no chão, pesar e medir as consequências dessa decisão. Seguir Jesus exige desprendimento. Aqui, desprendimento material. V. 59-60 – Agora é Jesus quem chama. Conforme Voigt, “o sepultamento era considerado um dever, que tem precedência sobre o estudo da Lei, o serviço no templo, o sacrifício da Páscoa”. Mas a exigência do Reino está acima da Lei, e Jesus é ainda mais radical do que Elias. O seguimento a Jesus exige desprendimento também em relação à Lei.
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6º Domingo após Pentecostes
V. 61-62 – Não se pode desviar do essencial. O manejo do arado naquela região é tarefa difícil, que não permite distrações. Assim também o Reino exige atitude firme e corajosa e desprendimento da estrutura familiar.
3 Meditação É interessante dar uma olhada nos textos que vêm antes do nosso. Depois da transfiguração (9.28-36), nos v. 37-43a, os discípulos não conseguem curar um menino epilético, filho único do pai que vem pedir ajuda. Jesus enfada-se com a falta de fé deles e cura a criança; nos v. 43b-45, Jesus faz o segundo anúncio da paixão: os discípulos não compreendem, mas têm medo de perguntar; nos v. 46-48, à pergunta sobre “quem é o maior?” Jesus responde colocando no meio dos discípulos uma frágil criança; e, enfim, nos v. 49-50, os discípulos zangam-se com alguém que ousa curar em nome de Jesus, sem pertencer ao grupo. Quanta incompreensão! E agora os “filhos do trovão” desejam chamar o fogo do céu sobre os que não recebem Jesus. Nosso texto, início da caminhada para Jerusalém, começa com o incidente na Samaria, e o que chama mais a atenção nem é a rejeição dos samaritanos – que tinham lá suas razões para agir assim –, mas a incompreensão dos discípulos. Agem com padrões bem humanos. Mas o reino de Deus exige mudança, rompimento com o lugar-comum. O apóstolo Paulo diz na Carta aos Gálatas: “Deixem que o Espírito de Deus dirija a vida de vocês e não obedeçam aos desejos da natureza humana” (5.16). O reino de Deus exige misericórdia. O texto vai num crescendo. Uns buscam Jesus, outros são chamados. De nenhum deles, afinal, se diz se aceitou o desafio ou não. Fica para os leitores pensarem. Misericórdia, pensar diferente, agir diferente. E também desprendimento: aquilo que parece tão normal e necessário precisa ser relativizado. Além do que, desprendimento não é uma ação única, mas um processo. É preciso romper com as seguranças, ainda que relativas, se elas impedem o ir além – como Abrão. Romper até com os deveres da Lei – deixar que os mortos sepultem os seus mortos –, pois nem sempre ela promove a vida, por vezes amarra. Fiquei me perguntando sobre o “não olhar para trás”. Mas, realmente, quando as coisas complicam, vem a tentação “de olhar para trás”, para as seguranças antigas, vêm as saudades de uma felicidade ou facilidade inexistente. E, olhando para trás, perde-se o rumo, perde-se a coragem, fica a dor da perda, quem sabe até raiva pelo que poderia ter sido e não foi. Talvez por isso não se deva tomar o arado e olhar para trás. Jesus nunca escondeu nada do que poderia acontecer por causa do Reino, mas não se permitiu cair em tentação. Olhando para as exigências de Jesus, vê-se que elas podem ser até duras, mas não são impossíveis de ser postas em prática. Misericórdia e desprendimento: tudo avisado e documentado. A decisão de seguir Jesus não pode ser fruto de uma emoção de momento. É preciso assumir sua opção conscientemente, com todos os riscos que ela envolve. Lucas mostra Jesus como o messias dos pobres e dos oprimidos. Segui-lo é optar pelo caminho da cruz.
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6º Domingo após Pentecostes
4 Imagens para a prédica Pensando no desafio aceito, apesar de todas as consequências, veio-me a história de Dietrich Bonhoeffer, que é para nós um belo exemplo: abrir mão das certezas, voltando para uma Alemanha em guerra; aceitar os riscos do discipulado, tomando o arado, sem olhar para trás, apesar da dor. O poema “Quem sou eu?” fala da dor e angústia que vêm, sim, mas também da certeza maior: “sou teu”. Quem sou eu? Quem sou eu? Seguidamente me dizem Que deixo a minha cela Sereno, alegre e firme Qual dono que sai do seu castelo. Quem sou eu? Seguidamente me dizem Que falo com os que me guardam Livre, amável e com clareza Como se fosse eu a mandar. Quem sou eu? Também me dizem Que suporto os dias do infortúnio Impassível, sorridente e altivo Como alguém acostumado a vencer. Sou mesmo o que os outros dizem a meu respeito? Ou sou apenas o que sei a respeito de mim mesmo? Inquieto, saudoso, doente, como um pássaro na gaiola, Respirando com dificuldade, como se me apertassem a garganta, Faminto de cores, de flores, do canto dos pássaros, Sedento de palavras boas, de proximidade humana, Tremendo de ira por causa da arbitrariedade e ofensa mesquinha, Irrequieto à espera de grandes coisas, Em angústia impotente pela sorte de amigos distantes, cansado e vazio até para orar, para pensar, para criar, desanimado e pronto para me despedir de tudo? Quem sou eu? Este ou aquele? Sou hoje este e amanhã um outro? Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita? E diante de mim mesmo um covarde queixoso e desprezível? Ou aquilo que ainda há em mim será como um exército derrotado, Que foge desordenado à vista da vitória já obtida? Quem sou eu? O solitário perguntar zomba de mim. Quem quer que eu seja, ó Deus, tu me conheces, Sou teu.
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6º Domingo após Pentecostes
5 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor, meu Deus, Tu vens com paz no meu mundo em guerra; Tu vens com força na minha fraqueza imensa; mãos abertas a tocar meus punhos cerrados. Perdoa meu medo de abrir os olhos e aceitar o diferente; perdoa minha mágoa pelo que não foi e minha inveja pelo que os outros receberam. Deus de misericórdia, ouve minha súplica, perdoa os pecados, ensina-me a amar. Amém.
Bibliografia LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1985. VOIGT, Emilio. Auxílio homilético sobre Lucas 9.51-62. In: Proclamar Libertação 20. São Leopoldo: Sinodal, 1994.
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PRÉDICA: ISAÍAS 66.10-14
7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 10.1-11,16-20; GÁLATAS 6.(1-6)7-16
07 JUL 2013
Hans Alfred Trein As imagens de Deus que animam e sustentam a esperança
1 Introdução Quem não cuida de sua casa e deixa o cupim entrar nas vigas do telhado não pode queixar-se do carpinteiro quando o teto cair. Na época do cativeiro babilônico (597-540 a.C.), o cupim tinha entrado na viga de fé de Israel. A casa desabou, e se queria jogar a culpa em Deus. O pessoal imaginava Deus como quebra-galho, a quem se recorre só na necessidade, um Deus funcional. E, se Ele não resolver, perde-se a fé. Esse é o cupim. Agora, retornando do exílio, há grande esperança. Jerusalém pode ser restaurada, o templo pode ser reconstruído. Alguns têm saudades do que era antes. Outros esperam que Jerusalém possa ser uma grande mãe que nutre e afaga seus filhos. Será que se pode ter uma esperança assim? A história posterior autoriza perguntar. Não vi relação explícita entre os três textos indicados na série de perícopes. Lucas lembra o envio missionário dos 70 e seu empoderamento para operar milagres. Gálatas contém aquele versículo sobre fazer o bem principalmente aos da família de fé (v. 10) e discute o valor da circuncisão, respectivamente incircuncisão, diante da cruz de Cristo. Diante disso, há duas alternativas: 1) mantém-se a leitura dos textos, pois assim estão previstos na série; 2) o pregador toma a liberdade de escolher outros textos do evangelho e da epístola que estejam tematicamente relacionados. Como leitura do evangelho, sugiro aquele texto em que Jesus, à vista de Jerusalém – que continua opressora –, expressa seu desejo de ter reunido seus filhos como uma choca dá guarida a seus pintinhos (Lc 13.34-35). Outro texto poderia ser aquele sobre a nova Jerusalém de Apocalipse 21.9-11,22-27 ou até 22.5. Ambos os textos desacreditam a esperança profética: no de Lucas, Jesus constata 500 anos depois que a profecia não se cumpriu; no de Apocalipse, a nova Jerusalém é projetada para o fim dos tempos e desce do céu. A sociedade de Estado não é capaz de realizar a profecia de Isaías.
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7º Domingo após Pentecostes
2 Exegese Situar o texto no tempo e no espaço ajudou-me muito na compreensão. Em 597 a.C., o rei Joaquim de Judá recusa-se a pagar tributo à Babilônia. Em resposta, o imperador Nabucodonosor invade a cidade de Jerusalém e deporta o rei e sua corte. Dez anos depois, nova recusa a pagar tributos é castigada com a destruição do templo e de Jerusalém. Agora, o exército babilônio deporta uma população considerável da classe média de Jerusalém e arredores como despojo de guerra. O interior de Judá não é tão atingido, mas perde definitivamente sua autonomia, torna-se uma colônia do império. O primeiro grupo deportado usufrui de melhores condições junto à corte babilônica. O segundo grupo é penalizado com trabalhos forçados pela desobediência. Ambos os grupos sonham com o fim do exílio. A elite quer a libertação para reaver seu poder e seus bens em Jerusalém (Ez 37), quer restaurar o passado, restabelecendo a monarquia e criando independência política. Os empobrecidos e escravizados não suportam mais o sofrimento e desejam reconstruir sua cidade de maneira nova, com base na justiça, na partilha e na solidariedade (Is 55). Suas esperanças têm marcas tribais, pois o exílio é reputado como consequência da monarquia e do templo da Jerusalém anterior, que desencaminharam o povo à opressão e à idolatria – assim a profecia pré-exílica. Para o povo camponês remanescente, na verdade é um alívio que essa Jerusalém esteja em escombros. Miqueias (3.12) já expressava o desejo camponês de passar um arado por cima da colina de Sião. A nova Jerusalém tem de ser diferente, aberta, não exploradora tributária, uma espécie de grande vila agrícola. Os profetas, embora muito diferentes, são concordes na análise do passado; entretanto, diferem muito quanto à sua visão de futuro. Em 539 a.C., o sonho começa a tornar-se realidade. Ciro, rei da Pérsia, conquista a Babilônia e permite a volta dos exilados (Ed 1), a reconstrução do templo e de Jerusalém, inclusive financiando suas obras (Ed 6). O templo é inaugurado em 515 a.C. e representa uma espécie de símbolo de identidade para o povo que agora divide a terra com outros grupos. Não podendo ter rei, o controle da colônia passa para as mãos dos sacerdotes. Em troca da aparente liberdade religiosa e cultural, Judá torna-se um importante aliado contra o Egito e uma fonte de tributos para o império. O livro do Trito-Isaías (56-66) situa-nos em Jerusalém, para onde os exilados tinham retornado cheios de novas esperanças. Mas a população está dividida em dois setores social e religiosamente diferenciados. À medida que se consolida a teocracia judaica com sacerdotes-reis, grande parte do povo vai caindo na marginalidade. Isaías 58.6-7 relata sobre prisões, fome, falta de roupa e de teto. As leis de purificação exigem custosos sacrifícios (lembra indulgências e teologia da prosperidade), e o templo encarrega-se de cobrar e repassar pesados impostos ao “benfeitor” Ciro, do novo império persa. Algum tempo depois (445 a.C.), o rei Artaxerxes envia Neemias para consolidar as finanças de Jerusalém, o sistema de funcionamento do templo. Mas, nos subterrâneos da humanidade, naquelas e
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naqueles que as elites consideram o lixo do mundo, o sagrado se manifesta... O povo cultiva uma imagem materna de Deus. A comunidade de Isaías começa a acreditar que é possível construir “novos céus e nova terra”, onde habita a justiça (65. 7ss). O status quo manifesta seu ceticismo frente à irmandade de Isaías (66.5). Nosso texto de Trito-Isaías é um poema. Os exilados ressurgem como povo através de um nascimento maravilhoso, sem dores de parto (v. 7-8) – sem guerras ou outras catástrofes sociais e políticas. Poeticamente faz insinuações, recolhe e condensa figuras e metáforas de outras passagens: Deus abre o útero e faz nascer o povo (v. 9). Até aquele momento, eles tinham vivido luto pelas tantas mortes do cativeiro (v. 10), mas agora, como recém-nascidos, devem alegrar-se, pois Deus vai dar colo e amamentar seu povo (v.11). Mamar nos ziz (onomatopaico para mamilos – Zitze ou Titze no dialeto alemão do Hunsrück) inverte a experiência de espoliação pela cidade de Jerusalém. Vão ser acalentados e consolados como a mãe consola seus filhos (v. 12-13). Essa experiência de Deus será fonte de alegria e de crescimento para todos (v. 14). Esse processo de parto foi iniciado pelo próprio Deus, que não está para brincadeiras (romper a bolsa para depois fechá-la, v. 9), mas que levará esse (re)nascimento inédito do povo de Sião até o fim. Trito-Isaías enfatiza: a salvação alcançará a sua meta, pois ela é obra de Deus. É a esperança por uma restauração de nova qualidade e não apenas uma reprodução da estratificação social do passado. Assim como no caso do Servo Sofredor (Is 49-53), nós cristãos também aqui podemos inferir que esse nascimento se completa com Jesus Cristo, o que não deixa de ser apoiado pela aplicação de Isaías 61 a si mesmo, que Jesus faz em sua pregação em Nazaré (Lc 4). Nos v. 12-14, pode-se ver claramente a estrutura da unidade v. 7-14, que os redatores inseriram entre os v. 5-6 e 14b-17 (juízo contra os inimigos e mais precisamente contra o grupo oposto, os desviados da comunidade salvífica). Inicia com a mensagem de salvação (7-9), convoca para a alegria sobre essa mensagem (10-11) e interpreta o significado dessa virada para a salvação de Sião (12-14). O v. 13, em que a palavra de salvação chega a seu ápice, tem um significado especial para o falar de Deus no primeiro testamento: pela primeira vez, o testemunho sobre Javé rompe com o acanhamento generalizado de adjetivá-lo com predicados femininos. Isso qualifica a intimidade no relacionamento entre Deus, Sião e seu povo. Portanto o texto é expressão de uma esperança pela qual aquele pequeno grupo de seguidores de Isaías estava se empenhando. É uma visão que se alimenta da memória da fidelidade de Deus e da convicção de que, diferente do que experimentam por parte da teocracia sacerdotal, uma outra Jerusalém é possível. Uma forma de contrapor-se ao sistema de pureza é afirmar a imagem maternal de Deus.
3 Meditação Chama a atenção a dimensão pessoal e familiar nas imagens utilizadas para expressar o novo relacionamento do povo com Deus: pai (63.16; 64.7), mãe
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(46.3; 49.15s; 66.12s), marido (54.4s; 62.5), irmão mais velho ou parente que resgata (41.4; 43.1). Por trás dessas imagens familiares de Deus está a experiência da família como espaço de uma certa autonomia e liberdade que ainda sobrava no cativeiro. Lembra a oposição das parteiras a Faraó, que também emergiu de dentro desse espaço caseiro em contraposição ao espaço público e do mundo do trabalho, totalmente ocupado, controlado, submetido. Foi nesse espaço reduzido e enfraquecido que eles encontraram a presença de Deus. O Deus, antes ligado ao templo, ao sacerdócio, ao culto oficial, à monarquia, agora está “em casa”. Lembra o tempo em que Deus acompanhava o seu povo em tendas. Lembra a organização tribal em contraposição à sociedade de Estado, que fixou Deus no templo de Jerusalém. Deus não precisa de um templo para “olhar” de lá (66.1-4). Como outrora no Êxodo, Deus “desceu” novamente do alto para estar junto do povo oprimido e exilado. É o Deus que vê a miséria, ouve o clamor, conhece os sofrimentos, desce para libertar. Com o olhar renovado por esse reencontro com Deus em casa, esse grupo passou a reler a política, a natureza, a história, a criação inteira, o passado, o futuro, o presente, tudo. Não é acaso que a manifestação do sagrado em meio à miséria e à fome tenha um viés feminino. As mulheres são muito sensíveis a essa realidade, pois são as mais atingidas pela opressão do templo. Em casa, elas são as mães que vivem o drama de tomar no colo bebês desfalecidos e de preparar uma mesa em que não há refeição, de se virar sem os maridos sugados em sua força de trabalho. Mas são elas também que, na experiência única de carregar outras vidas e alimentá-las em seu próprio corpo, possuem uma extraordinária energia para lutar pela vida. Elas ajudam o povo a refazer o sonho e a confiança de que Javé não abandona, mas consola seu povo, qual mãe consola sua filhinha. Há pouco mais de 10 anos, sem maiores “dores de parto”, Lula foi eleito como grande esperança de mudança. Ansiava-se por esse acontecimento, assim como provavelmente os exilados anelavam pelo fim do exílio. Com o passar dos anos, consolidou-se um projeto de crescimento econômico que, por um lado, oportunizou a milhões a ascensão à classe média e reposicionou o país no concerto internacional, demonstrando inclusive capacidade de administrar crises globais, mas, por outro lado, negligenciou os direitos sociais a saúde e educação da maioria e muito mais ainda os direitos especiais das minorias indígenas e afrodescendentes. Além disso, catástrofes climáticas (enchentes, secas) estão indicando que esse modelo não é sustentável. Entretanto, crescer economicamente tornou-se um dogma absoluto do Estado brasileiro. Quem o questiona recebe a pecha de ser contra o Brasil. Há muitas analogias com o desenvolvimentismo da ditadura militar. Hoje não vivemos num mundo tributário e não podemos mais ter o tribalismo como modelo utópico, embora ele ainda sirva como memória inspiradora de uma sociedade coletiva, sem um estamento apossado de poder. O nosso futuro reside, por ora, na democratização do Estado, dos conhecimentos, dos alimentos, dos meios de produção e dos frutos do trabalho, na superação da corrupção. Talvez até possamos sonhar com a construção de uma sociedade civil tão bem organizada, que ela seja uma sociedade pós-Estado.
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No espaço público, o embate é grande, renascem vários movimentos e redes para enfrentar a globalização de um sistema que exclui grandes contingentes de pessoas e que ameaça a sobrevivência do planeta através de uma economia consumista e, a médio prazo, autodestrutiva. Em meio à divisão entre aqueles que defendem esse sistema e os que se empenham por sua superação, a pergunta que se nos coloca é sobre os espaços de relativa autonomia e liberdade que temos hoje para ensaiar oposição e alternativas a essa predominância. Seria a informática com suas redes sociais jovens que consegue mobilizar “os indignados” e que alguns Estados já procuram controlar? Seria o ressurgimento de movimentos sociais pelo direito a terra e reforma agrária, reparação de injustiças históricas com indígenas e descendentes de escravos quilombolas, condições de vida para a pequena agroecologia familiar? E como Deus está participando dessas buscas por um projeto de vida, quais seriam as imagens de Deus que poderiam animar e dar sustento a essas lutas? O espaço familiar continua sendo o espaço do amor, da gratuidade, da solidariedade. Na família, há proximidade, dedicação mútua, compartilhamento de futuro, reprodução da esperança. Nela se realizam muitos anseios profundos que o propagandeado consumo de bens não cumpre. Poder-se-ia esperar também no mundo de hoje que no espaço familiar pudesse estar sendo articulada a alternativa salvadora? É comum falar da família de uma forma depreciativa, via de regra como uma instituição retrógrada e ultrapassada, coisa da direita burguesa. Muitos previram sua extinção. Além disso, a mídia gosta de noticiar a família como espaço de violências e horrores emparedados e escondidos. Há uma tendência crescente de individualização, que se manifesta entre outros no grande número de pessoas que vivem sozinhas... Será que tudo isso faz parte de uma estratégia sistêmica de desfazer esse espaço de relativa autonomia e liberdade? Provavelmente, estamos vivendo num tempo em que nada é absolutamente conservador e nada absolutamente progressista. A família reciclou-se, os papéis sociais de homem e mulher mudaram, os filhos não precisam mais sair de casa para experimentar liberdade... O casamento homoafetivo, ao contrário do que propagam alguns, pode ser lido como uma afirmação da família.
4 Imagens para a prédica Uma prédica mais afirmativa e evangélica pode valer-se das imagens contidas nos textos bíblicos selecionados: Deus é como uma mãe que amamenta e acalenta, uma galinha choca que reúne seus pintinhos debaixo de suas asas, fará com que as estruturas sociais e políticas ajam de acordo a proporcionar essa sensação de acolhimento e segurança. Onde há sinais de que isso está acontecendo? Seria o espaço familiar um espaço de liberdade e de articulação do outro mundo possível? Quanto isso depende de nosso fazer e quanto depende do fazer de Deus? Necessário é tanto confiar no reino de Deus, que cresce e vem vindo nos encontrar, como também refletir sobre o que corrói a nossa fé: o cupim moderno do consumismo.
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7º Domingo após Pentecostes
Outra proposta de prédica, mais reflexiva e confrontativa (tanto antigamente como hoje há expectativas evangélicas diferenciadas), poderia partir da imagem de Deus como condicionadora do modo como enxergamos a realidade ao nosso redor e como sonhamos o nosso pós-exílio. Portanto caberia refletir sobre: Qual é a imagem de Deus que você recebeu desde pequeno em sua família? Qual é a imagem de Deus que você tem agora? O que mudou? Quem mudou? Deus ou você? Por que mudou? Como pode Deus permitir? Qual é a imagem de Deus que nos mantém na luta por um mundo mais justo e reconciliado? Em contraposição a isso: Qual é a imagem de Deus que está sendo veiculada pelos modernos mercadores da fé? É um Deus comerciante, você dá dinheiro aos mercadores da fé, e Deus lhe retribui com bênçãos e bens. Esse é um Deus que legitima o mercado. Você consegue ouvir aqui uma sinetinha histórica tilintando? Deus deve estar cansado de ver esse filme.
5 Subsídios litúrgicos Recomendo que se cante o hino “Há sinais de paz e de graça” (HPD 1, 165). Nessa celebração, não deveria faltar o Kyrie, que traz a Deus muitas das esperanças frustradas e que pede por animação e sustento para continuar lutando. O Glória pode enfatizar o cuidado materno de Deus. A oração de coleta pode lembrar do Deus que ouve o clamor de seu povo escravo no Egito e exilado na Babilônia, desce para libertá-lo e dar-lhe novas perspectivas de futuro. Na oração de intercessão incluir todos aqueles grupos de indignados que lutam por um outro mundo possível.
Bibliografia MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco; VAONA, Dario. Revelar a ternura de Deus. In: Palavra da Vida, v. 198/199. São Leopoldo: CEBI, 2004. p. 16-21. NAKANOSE, Shigeyuki; PEDRO, Enilda de Paula; TOSELI, Cecília. Como ler o terceiro Isaías (56-66). São Paulo: Editora Paulus, 2004.
8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LUCAS 10.25-37 DEUTERONÔMIO 30.9-14 COLOSSENSES 1.1-14
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PRÉDICA: GÊNESIS 18.1-10
9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 10.38-42 COLOSSENSES 1.15-28
21 JUL 2013
Manoel Bernardino de Santana Filho
1 Introdução O livro de Gênesis narra as origens de Israel. Isso ele faz de duas formas. Os capítulos 1 a 9 relatam, como proto-história, a criação do mundo em dois atos: criação e dilúvio. O pacto celebrado no capítulo 9 pelo Deus Criador com “tudo o que vive” integra simultaneamente os assim chamados mandamentos de Noé enquanto Torá fundamental para todos os povos. Os capítulos 10-50 desdobram em três círculos narrativos (Gn 10.1-25,11; 25.12-36; 37-50) a história de três gerações de famílias dos patriarcas de Israel: Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Jacó e Lia/Raquel. No texto de hoje, o destaque é para Abraão e Sara. Aqui se oferecem visitação e promessa. O encontro ao meio-dia nesse capítulo contrasta significativamente com a cena noturna do capítulo 19 em Sodoma. Sob os carvalhais de Manre se dá uma cena íntima e impregnada de promessa. O contexto sugere a manifestação divina (teofania). O autor da Carta aos Hebreus afirma: “Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos” (13.2). Aqui se dá a ligação com os textos de Lucas e Colossenses. Em Lucas (10.38-42), a cena é também de hospitalidade. As irmãs Marta e Maria recebem em sua casa Jesus de Nazaré. Como Abraão e Sara, as duas irmãs não sabiam bem a identidade daquele homem e, no entanto, receberam-no como amigo. O texto de Paulo (Cl 1.15-28) oferece a resposta: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (15). Essa carta foi escrita justamente para combater certas doutrinas que estavam sendo apresentadas em Colossos, contrárias ao que Paulo havia ensinado. Alguns comentaristas afirmam que aqui se denuncia um ensino que pode ser chamado de protognóstico. Daí o caráter cristológico da carta. O Deus absconditus (incognoscível) do Antigo Testamento torna-se plenamente conhecido na pessoa de Jesus Cristo. A Carta aos Colossenses marca essa apresentação definitiva de Jesus Cristo como o Deus que se fez Homem. Por isso os três textos se inter-relacionam de forma crescente na apresentação do Deus Trino.
2 Exegese A promessa do capítulo anterior (17.15s) é renovada no capítulo 18. O que há de novo é o ambiente em que a promessa se renova e o desafio à fé pessoal de Sara. O texto, de tradição javista (Fonte J), apresenta Abraão na hora do descanso
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e da sesta por causa da intensidade do calor. Milton Schwantes descreve a cena como “exuberante”. O primeiro verso afirma que o Senhor aparece a Abraão. Outro comentarista (Frederico Sattler) afirma que o anonimato da visita é puramente literário, já que Abraão não hesita em nenhum momento quanto a se tratar do próprio Senhor. O autor caracteriza o local do encontro. Ali estão Abraão e Sara sob os carvalhos de Manre, nas proximidades de Hebrom. Aqui ele também ergueu um altar ao Senhor (Gn 13.18), assim como fizera no anúncio da promessa da terra (Gn 12.7-8). O que sucede aqui, ou seja, a ação é mais importante do que o local. Os carvalhos de Manre tornar-se-iam lugares sagrados, competindo com outros espaços como Hebrom e Jerusalém. No entanto, a presença de Deus sublinha a solidariedade com o ser humano. “Javé é o Deus da companhia nos passos da vida, aqui na presença de árvores magníficas” (Schwantes). Duas questões, como já mencionado, estão presentes nesse texto. Primeiro, a hospitalidade de Abraão. A partir do momento da chegada do(s) visitante(s), seu comportamento altera-se visivelmente. O homem sentado à entrada da tenda agora se coloca em pé para servir a seu hóspede. No v. 3, Abraão é quem se coloca como alguém que busca acolhida diante de Deus. Sua fala “meu Senhor (Adonai), se achei mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo” mostra a consciência que ele tinha da especificidade divina do encontro. O visitante é convidado de forma enfática a permanecer com ele e Sara. Seus gestos são grandiosos. São expressões de plena acolhida. O pai da parábola do filho pródigo foi descrito sobre o modelo de Abraão desse episódio. A partir do momento em que o visitante aceita o convite (v. 5), ele e Sara apressam-se a atender da melhor forma possível. A consciência do divino despertada em Abraão fá-lo “correr”, a fim de que Deus não passe de sua presença. Ele tem muito pouco a oferecer. Ele pensa logo no que é mais prático. Primeiro a água, para lavar os pés e descansar na proteção das árvores. O sertanejo de nosso país sabe bem o que significa a água para o retirante, o homem e a mulher fugitivos das grandes secas que assolam o sertão do Nordeste brasileiro. Para conhecer melhor essa situação, basta ler o romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “O Quinze”, de Raquel de Queiroz. Após uma longa caminhada por terras poeirentas, a água na bacia era um bálsamo para o viajante. Segundo, a oferta de um pouco de comida. Quem não tem em casa um pouco de trigo, um bocado de pão ainda que velho? Por isso ele propõe: “Trarei um bocado de pão” (5a) para refazer as forças. A Bíblia de Jerusalém assim traduz esse verso 5b: “e vos reconfortareis o coração antes de irdes...” Portanto a afirmação de que aquele pão reporia as forças não passa de um exagero de Abraão em sua afobação. Não daria para isso. No máximo, daria para animar o coração desfalecido. Servia também para segurar os visitantes enquanto se podia servir coisa melhor e mais apropriada. Era a porção de entrada de alimentos mais nutritivos, porque aquilo não era nem mesmo um “lanche”.
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As coisas melhoram nos versículos 6-8. Aquele bocado de pão inicial agora se transforma em três medidas de pão. Não precisamos nos preocupar com a quantidade real do que estava sendo oferecido. Josefo afirma que três medidas de farinha era uma expressão tradicional entre os hebreus. O que importa é que o alimento antes contado agora se torna transbordante. É pão suficiente para uma festa. Manifesta-se a abundância. Aqui surge a superação do impossível. O alimento em preparação é banquete para muita gente. Agora a mesa é posta: após o preparo (v. 6-7), vem a apresentação dos alimentos (v. 8). É uma refeição com dois pratos: pão e carne. Ao se servir a mesa, são mencionados mais dois alimentos: coalhada e leite. Esses já estavam prontos à diferença dos outros dois pratos. Tudo isso feito com pressa, correndo mesmo para evitar a saída do visitante. Abraão divide a pressa com sua esposa Sara e com o ajudante (v. 7). A pressa é epifânica, porque Abraão tem consciência de estar diante de Deus. Não são as experiências culinárias que exigem a pressa, mas a certeza da experiência com Deus. Afinal de contas, a pressa é inimiga da perfeição. Uma comida feita às pressas tende a não ficar boa. Afinal, a comida é servida no assoalho do chão. Abraão adiciona ao pão e à carne a coalhada e o leite. Ele permaneceu de pé enquanto eles comiam sob as árvores. Em segundo lugar, transparece no texto a promessa. Nos v. 9-10, é prometido um filho a Sara. O v. 9 fala no plural, mas a promessa feita a Abraão e Sara é no singular. É um deles que fala e promete um filho no prazo de um ano. Sara, antes no interior da tenda (v. 9), já se encontra à porta da mesma (v. 10). Depois ela se chega atrás dele. A cena desloca-se de Abraão para Sara. Aos poucos, ela vai se incluindo. Ela agora é alvo direto da promessa de um filho. A expressão retornar ou certamente retornarei expressa certeza, veracidade. Ou seja, não deve haver dúvida de que a promessa se cumprirá. Sara inclui-se no relato como fazedora de bolo e termina diante de Javé.
3 Meditação Abraão não é apenas o pai espiritual de Israel. É pai de todos os que creem. Coube a ele nos ensinar o que significa ter fé. Não é por acaso que o pensador dinamarquês Sören Kierkegaard dedicou a ele o texto “Temor e Tremor”. Em um dos capítulos – Elogio de Abraão – afirma: houve grandes homens por sua energia, sabedoria, esperança ou amor. Abraão, porém, foi o maior de todos. Grande pela energia cuja força é a fraqueza; grande pelo saber cujo significado é loucura. Abraão não nos deixou lamentos. Mesmo quando a esperança se tornou absurda, ele acreditou. Por ele se viu no mundo o que é ter esperança. Ele era o eleito de Deus e herdeiro da promessa de que todas as nações seriam abençoadas em sua posteridade. Que significa ser o eleito de Deus? É ver recusado o desejo de juventude na primavera da vida, para só obter tal favor na velhice, depois de grande dificuldade. Abraão acreditou e por isso se manteve jovem, porque aquele que espera sem-
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pre o melhor envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior mais depressa se gasta; mas o que crê conserva a eterna juventude. Nosso texto fala desse homem de fé chamado Abraão e sua mulher Sara. Ele é o homem que alcançou graça diante de Deus, sendo justificado por sua fé. Paul Tillich sugere que não se deve dizer justificação pela fé, mas justificação por meio da fé. Tillich escreveu um pequeno livro – “Dinâmica da Fé” – em parte para corrigir as terríveis deformações do conceito de fé. Segundo esse autor, a fé é distorcida quando passa a ser concebida antropologicamente como conhecimento (intelectualismo), como ato (moralismo) ou como sentimento (emocionalismo). Para ele, a fé é um estado a ser tomado pela preocupação suprema, ou seja, a fé envolve tanto as profundezas como a totalidade do ser. Deus quer tratar direto com o ser humano. Esse Deus vem ao nosso encontro e se apresenta. E a teofania dos olhos transmuda-se numa teofania da palavra, pois é aqui que Deus revela o seu ser. É Ele, o Senhor que chama, desafia, tira do anonimato, da solidão, da alienação degradante, da tristeza e conduz o ser humano para enfrentar os desafios da vida. E o Nome é um só, ainda que três pessoas: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. Não são três nomes. São três pessoas e um só nome. O texto realça a hospitalidade crescente, que irá culminar na abundância de alimentos, na oferta do pão e da carne. Abraão oferece uma maravilhosa acolhida a seus hóspedes inesperados. E, no entanto, ele se sai magnificamente bem. Quanto aos “homens”, o texto diz apenas que eles “comeram”, o que expressa a aceitação dos mesmos da oferta apresentada. A hospitalidade gera a promessa. Este é o presente dos visitantes: o anúncio do nascimento de Isaque. O filho está vinculado a alegria. Sara riu em seu íntimo, mas não foi castigada por isso. Seu riso é fruto de sua incredulidade diante do peso inexorável dos anos. Abraão também achou graça (Gn 17.17) da promessa de um filho a um homem de cem anos. Somos assim: crentes/incrédulos. Somos chamados a crer que o poder é de Deus (Sl 61.11). O dito expresso em Gênesis 18.14 ecoa por toda a Bíblia: “Acaso para Deus há cousa demasiadamente difícil?”. Não devemos ver o nome de Isaque ligado a um castigo por causa da incredulidade. Antes, está vinculado à alegria do cumprimento da promessa. Isaque significa “alegra-se”. Mas não parece que haja referência a culpa ou castigo. É antes a animação por receber um filho. Antes do que uma crítica a Sara, é a promessa do filho que vai fazer rir.
4 Imagens para a prédica Vem à mente a história de Baucis e Filemon, contada por Ovídio em suas Metamorfoses (Livro VIII). Um dia, o deus Júpiter chegou às colinas da Frígia, acompanhado de seu filho Mercúrio, disfarçados de homens mortais. Eles bateram em milhares de portas em busca de um lugar para descansar e encontraram milhares de casas fechadas. Mas uma, afinal, se abriu. Era uma cabana humilde, coberta de palha e juncos. Uma velha bondosa, Baucis, e seu esposo igualmente
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bondoso, Filemon, viviam ali. Eles haviam se casado muito jovens e envelheceram juntos na mesma cabana. Eram pessoas muito pobres, mas enfrentaram tudo com espírito elevado. Quando aqueles dois homens chegaram, Filemon montou um banco rústico para que eles sentassem, enquanto Baucis estendia um tecido grosso para cobri-lo. Depois ela foi cutucar as cinzas, ainda quentes do fogo da noite anterior. Refeito o fogo, colocou sobre ele uma panela de cobre e nela pôs o repolho que seu marido havia trazido da horta bem cuidada. Filemon cortou um pedaço de toucinho e pôs na panela. Enquanto esperavam, providenciaram um colchão de capim para que os dois homens descansassem. Quando eles acordaram, encontraram sobre a mesa hortelã verde, azeitonas, verdes e pretas, cerejas conservadas em borra de vinho, endívia, rabanetes, queijo e ovos cozidos. O vinho foi servido em taças de madeira. Após terem saboreado essa comida, logo o casal de velhos preparou a mesa para uma segunda rodada: nozes e figos, tâmaras e pêssegos, uvas roxas fresquinhas e um favo de mel. Em volta da mesa, rostos bondosos, nada egoístas. Continuaram servindo os visitantes e perceberam que o vinho nunca acabava e deram-se conta do que estava acontecendo. Então, com voz trêmula, disseram: “Perdoem-nos, por favor, pela nossa falta de preparo, nossa comida escassa!” Júpiter e Mercúrio revelaram-se e disseram para que fossem para o alto da montanha, de onde eles poderiam contemplar a destruição de toda aquela região onde não se sabia praticar a hospitalidade. Sua casa acabou se transformando em um templo, e os deuses lhes perguntaram qual o desejo que eles tinham. Eles responderam que queriam morrer juntos, que um não visse a morte do outro. E eles foram atendidos. Os camponeses daquela região passaram a mostrar aos visitantes um carvalho e uma tília cujos troncos se juntaram formando uma só árvore.
5 Subsídios litúrgicos A liturgia do domingo pode celebrar a comunhão e a hospitalidade. Podem-se partilhar o pão, sustentação da vida, e a água, elemento vital para o bem-estar de todas as pessoas. Ainda estamos engatinhando quanto a uma teologia ecológica. Não fomos treinados para isso porque, no passado, falaram-nos do céu e nada da terra. O pão, representado pelo trigo, pelas uvas, pelos frutos da terra, deve ser compartilhado, porque Deus oferece os bens da terra a todos os seus. Se isso não está sendo distribuído com justiça, é porque o ser humano tem promovido a injustiça. A celebração é para nos fazer lembrar nossos deveres. Lembrar que, como povo de Deus, devemos ser os primeiros a viver a experiência da partilha e da solidariedade. Nossa oração hoje é: Ajuda-nos, Senhor, a fugir do pecado de Sodoma, que não praticava a hospitalidade, antes preferia humilhar e demonstrar menosprezo para com os de fora. Deus em sua graça nos livre dessa injustiça. Dá-nos forças,
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Senhor, para superar o desinteresse com o próximo. Dá-nos a confiança e a fé de Abraão.
Bibliografia DATTLER, Frederico. Gênesis. São Paulo: Paulinas, 1984. SCHWANTES, Milton. Deus Vê, Deus Ouve! (Gênesis 12-25). São Leopoldo: Oikos, 2009.
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PRÉDICA: LUCAS 11.1-12
10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
GÊNESIS 18.20-32 COLOSSENSES 2.6-15(16-19)
28 JUL 2013
Evandro Jair Meurer
1 Introdução O texto de Lucas 11.1-13 já foi contemplado nos PL 23, p. 145, e 29, p. 223; o de Lucas 11.5-13, no PL 6, p. 184. As distintas delimitações do texto em anos anteriores apontam para um mesmo enfoque: não tanto o aspecto do aprender/ensinar a orar (v. 1-4), mas sim a questão da insistência na oração e o aspecto dela ser ouvida e atendida por Deus (o bom Amigo, o bom Pai). Para comparar, a versão do Pai-Nosso em Mateus (6.9-13) é antecedida pelo tema da oração hipócrita de quem ora só para aparecer (6. 5-6) e da questão das vãs repetições (6.7-8) e sucedida pelo tema do perdão (6.14-15). A questão da insistência e da garantia de atendimento pelo Pai aparece só no capítulo seguinte (Mt 7.7-11). Cito isso tanto para indicar que em outros volumes também se podem encontrar subsídios sobre a versão de Mateus (PL 2, p. 57; 14, p. 247; 6, p. 53; e 8, p. 192) como para apontar que tais subdivisões textuais são indicativos de enfoques temáticos possíveis. Nesse sentido, os textos de leitura auxiliarão (ou não) de acordo com o enfoque que dermos à pregação. Caso se opte por abordar mais detalhadamente os temas presentes nos v. 5-13, o texto de Gênesis 18.20-32, que trata do insistente pedido de Abraão por Sodoma, contribui como unidade temática. Já o texto de Colossenses 2.6-15 será mais adequado como leitura bíblica complementar para o enfoque que estou propondo, qual seja, os v. 1-4. A união com Cristo propagada por Paulo tem tudo a ver com o discípulo que pede a seu mestre que o ensine a orar (v. 1).
2 Exegese A estrutura do texto é simples: v. 1 – O pedido do discípulo; v. 2-4 – O padrão de oração ensinado por Jesus; v. 5-12 – A motivação para a oração. Surpreendeu-me e inquietou-me o detalhe exclusivo registrado pelo evangelista Lucas de que, em certa ocasião, quando os discípulos observavam que Jesus estava orando num certo lugar, um (anônimo) de seus discípulos lhe pediu: “Senhor, nos ensina (!) a orar, como (!) João ensinou (!) os discípulos dele” (v. 1). Um aspecto fascinante dessa passagem é que esse é o único momento relatado
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nos evangelhos em que Jesus foi convidado a ensinar sobre o tema específico da oração. De forma semelhante, chama atenção que as Escrituras não registram nenhuma indicação de como João ensinou seus discípulos a orar. Contudo, o interessante sobre o pedido é que se confirma que os discípulos já sabiam orar. O povo judeu era um povo de oração. Muitos tinham sido ensinados a orar desde a infância. Talvez até pela prática observada dos pais, como por exemplo nas orações diárias em diferentes momentos do dia (de manhã, de noite, nas refeições): orações que expressavam a grandeza de Deus, especialmente nas manifestações da natureza (tempestades, mares, montanhas, rios e desertos); orações para quando as coisas corriam bem e orações para tempos de dificuldade e dor. Isso tudo especialmente a partir do livro dos Salmos. Assim, à luz do testemunho de que João e Jesus ensinaram seus discípulos a orar, torna-se relevante a constatação de que a oração faz parte do processo de ensino-aprendizagem, faz parte do discipulado, faz parte do processo de educação cristã contínua. Defendemos que esse processo é condição para a edificação de uma igreja viva. Por isso minha proposta é não entrar na questão específica da oração, e sim na questão do discipulado. Havia nos tempos bíblicos um movimento de discipulado e uma relação intensa entre mestre e discípulo. Evidencia-se no v. 1 que João Batista tinha discípulos (cf. Jo 1.35-42) e que ele os havia ensinado a orar. Jesus, por sua vez, também tinha discípulos, e um deles pediu que ele os ensinasse a orar. Além disso, sabe-se que até os fariseus tinham discípulos que oravam e jejuavam (Lc 5.33). Ou seja, o v. 1 constata que os discípulos de Jesus sabem sobre o ensino que João passou a seus discípulos sobre oração, mesmo que não tenhamos nenhuma informação ou registro sobre esse orar de João. Fica evidente que os discípulos de Jesus gostaram da ideia e da prática dos discípulos de João e por isso pediram que Jesus, como seu Mestre, os ensinasse a orar. Ou seja, a educação contínua andava às soltas nos tempos anteriores ao cristianismo. O processo de ensino-aprendizagem da fé andava a galope. Com certeza, os discípulos que procuravam seguir seu mestre levavam a sério o que haviam herdado da prática dos antigos (Dt 6.7), dos sábios (Pv 22.6) e agora de João Batista e de Jesus (Lc 11.1). Confirma-se assim que o evangelista Lucas foi o que melhor reconheceu em Jesus o ministério do ensinar ao lado do ministério do fazer (At 1.1). O discipulado implicava ouvir e viver o que o mestre falava e praticava (Lc 3.3;7.22). E isso incluía o batismo (Lc 3.7), ações concretas (Lc 3.10-11), além de orações e jejuns (Lc 5.33; 7.33). A fidelidade dos discípulos de João Batista a seu mestre, por exemplo, iniciou no rio Jordão (Lc 3.3) e estendeu-se até Éfeso (At 19.1-7). Sobre a forma como João ensinou seus discípulos a orar não há registros nas Escrituras. Mas como Jesus ensinou – em palavras e na prática – há diversos exemplos. Jesus inaugura uma nova prática de discipulado, que inicia com a inversão da forma de adesão. Era comum que o discípulo escolhesse o seu mestre. Jesus, ao contrário, é quem chama e vocaciona os seus discípulos (Lc 5.1-11). Esse discipulado culmina com a radicalidade do seguimento: a cruz (Lc 9.23; 14.27).
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Em um nível mais profundo, o desejo dos discípulos de aprender a orar veio quando eles viram Jesus em oração. Eles perceberam desde o início que Jesus era diferente dos outros rabinos. Eles estavam observando e aprendendo que sua vida de oração era o coração de seu ministério e sua fonte de poder. Sua conexão com Deus era real e íntima, e eles queriam saber o segredo desse tipo de oração. Se Jesus passasse apenas um pouco do que ele sabia, eles sabiam que suas vidas seriam transformadas. Eles já conheciam algumas orações. Agora eles queriam amadurecer no discipulado. Eles queriam saber o caminho realmente certo não só para a oração, mas para o seguimento do mestre, para a missão. Comparado a outros evangelhos, o Evangelho de Lucas dá forte ênfase à oração. Há até quem o chame de “o evangelho da oração” (Plummer). A vida de oração que caracteriza Jesus caracteriza também os discípulos nos relatos de Atos dos Apóstolos (4.31; 6.6; 8.15; 9.11,40; 10.2; 10.9; 12.12; 13.3; 14.23; 16.25; 20.36; 21.5; 22.17; 28.8). Lucas está lançando as bases para que a comunhão constante com Deus em oração seja uma marca do discipulado de Cristo.
3 Meditação: O discipulado inclui aprender e ensinar a orar Jesus estava orando num certo lugar. Nosso Senhor estava tomando um tempo para a oração, como sempre fazia. Os discípulos puderam observar essa “temporada de oração”. Aparentemente, eles perceberam que, assim como a oração teve um papel vital na vida de João Batista, também tem na vida de Jesus e, por isso, deve ser algo importante para a sua própria vida. Algumas coisas chamam atenção nesse contexto: 1 – Jesus conhecia o poder de um bom exemplo e que o exemplo é mais forte do que um discurso: Não é por acaso que o discípulo pediu a Jesus para ensiná-los a orar logo após Jesus ter reservado um tempo para sua própria oração. A vida de oração de nosso Senhor levou o discípulo a pedir-lhe para ensiná-los a fazer o mesmo. Como é fácil pedir a quem tenha demonstrado algo na prática poder compartilhar com os outros essa experiência. 2 – A questão da oração não é levantada por Jesus, mas o sujeito do pedido é um dos discípulos: Por quê? Creio que foi porque o Senhor queria que os discípulos buscassem por eles mesmos descobrir o quanto a oração é importante. Creio que Jesus estava pronto e disposto a ensinar sobre a oração, mas somente quando os discípulos estivessem prontos e desejosos de aprender. A motivação para o aprendizado é maior quando o aluno pede ao professor para ensinar. 3 – O discípulo pede a Jesus para ensiná-los a orar porque reconhece suas áreas de limite, ignorância e inexperiência: Os evangelhos não nos informam sobre a vida de oração dos discípulos ou que eles tenham sido caracterizados como pessoas de oração. Pelo contrário, até mesmo em seu último momento com o Mestre, no jardim do Getsêmani, os discípulos cochilaram durante a vigília de oração (Mt 26.40). O pedido desse discípulo era uma admissão aberta de que a oração não era apenas necessária, mas também uma deficiência em sua vida e nas vidas de seus companheiros. A capacidade de aprender começa com a capacidade de admitir a ignorância no assunto e expressar o desejo de aprender.
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Constatamos que João Batista ensinou seus discípulos a orar, e, como resultado, os discípulos de Jesus também tiveram interesse em aprender a orar, ou pelo menos um deles teve. Mas o mais importante foi o desejo de um discipulado permanente com o Mestre. Nesse sentido, talvez ali estava apenas iniciando um processo em que, na sequência, os discípulos aprenderiam que: Jesus orou pelos outros (Mt 19.13; Jo 17.9): Isso ressalta a necessidade da oração de intercessão. Jesus orou sozinho (Lc 5.16): Às vezes, é importante para nós estarmos diante de Deus, e a única maneira de fazer isso, especialmente em nossa cultura agitada, é fazê-lo a sós com Deus. Jesus orou com os outros (Lc 9.28): Jesus também sabia o valor da oração com os outros, como foi experimentado pelos primeiros cristãos (At 1.14). Jesus orou na natureza (Lc 6.12): Qual o melhor lugar para comungar com o nosso Criador do que entre as maravilhas da natureza? Ele poderia ter ido a uma casa, uma sinagoga ou, se Ele estivesse em Jerusalém, ele poderia ter ido ao templo para orar. Mas houve momentos em que Jesus tomou a decisão de orar onde Ele estava, o que muitas vezes aconteceu junto à natureza. Jesus teve breves, mas também longos períodos de oração (Lc 6.12): Nós também precisamos ser capazes de oferecer orações curtas, bem como dedicar longos períodos de nossas vidas à oração. Jesus orava com regularidade (Lc 5.16): Ao longo dos evangelhos, lemos seguidamente sobre Jesus e a oração. Ela era parte de sua visão de mundo, integrada em todos os aspectos de sua vida. Podemos dizer o mesmo sobre a oração em nossa vida? As orações de Jesus eram sinceras (Jo 17): Jesus não orou de uma maneira fria e distante, mas de maneira sincera, demonstrando empatia e genuíno amor a Deus. Ele orava por si mesmo, por seus discípulos imediatos e por todos os crentes. Jesus orou com base em seu conhecimento de Deus e suas verdades (Jo 4.24; 8.32): As orações de Jesus eram baseadas em verdades reveladas por Deus e, como tais, estavam alinhadas com uma visão bíblica das coisas. Oração própria exige que tenhamos uma compreensão verdadeira de Deus e do que Ele nos revelou através da sua Palavra. Jesus ensinou persistência na oração (Lc 18.1): A parábola partilhada aqui por Jesus pretende ensinar sobre a persistência na oração e sobre o esperar em Deus e pelo seu tempo. Jesus sabia que nem todas as suas orações seriam respondidas como esperado (Mt 26.36-44): Essa é uma lição difícil de aprender, mas o fato é que nem todas as nossas orações são respondidas da maneira como esperamos. Oração sem resposta é um desafio para a vida cristã e mereceria uma abordagem especial em outra pregação.
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4 Imagens para a prédica 1 – Nesta reflexão bíblica sobre Lucas 11.1, fiquei me perguntando: “O que me foi ensinado e o que tenho aprendido sobre oração? O que estou ensinando e o que as pessoas estão aprendendo de mim sobre o ora et labora? E mais: o que tenho eu a aprender ainda mais sobre orar? Num desses raros finais de tarde curitibanos, com “céu de brigadeiro” (como aprendi a chamar aqui em Curitiba quando o céu está azul e sem nuvens), recebemos a visita de nossa vizinha e sua filha. Estávamos tomando aquele tradicional chimarrão com pipoca. “Eu não tenho o hábito de tomar chimarrão, mas a filha está aprendendo a tomar chimarrão com a avó”, desculpou-se nossa vizinha, quando ensaiei encher-lhe uma cuia. E diante da frase da mãe, não hesitei em dizer: “Então espera aí que eu vou buscar uma coisa”. Voltei trazendo meu miniconjunto de chaleira, cuia e bomba, que guardo de lembrança de minha infância. “Nesta cuia, o tio já bebeu e a nossa filha e o nosso filho também, quando nós éramos pequenos como você”, disse de peito estufado e, como é do meu perfil, emocionado. Essa vivência me fez refletir e avaliar meus processos de ensino/aprendizado/discipulado que exerço em casa, na vizinhança, no ministério pastoral. Será que estou conseguindo também ensinar a orar? Queira Deus, da mesma forma, que eu tenha lhe passado um pouco sobre oração e ação como parte da vida. E assim estejamos nós acrescentando algo na vida de nossos vizinhos/as, amigos/as (e inimigos/as) e membros de comunidades sobre como orar e sobre tantos outros temas importantes do processo contínuo de educação cristã, que Deus realiza em cada pessoa. 2 – Ultimamente, tenho me automonitorado como pai e perguntado o que tenho ensinado e deixado a meus dois filhos. Em cada um observei uma coisa diferente nas duas últimas semanas: a filha, que reside no estado de São Paulo, visitou-nos e encomendou um presente: uma cuia e uma bomba de chimarrão. Como pai, fiquei todo orgulhoso de que a filha estava preservando e cultivando as tradições de nossa terra natal. O filho, nas duas últimas semanas, vestiu sua camiseta do time de futebol pelo qual meu pai torcia quando vivo, pelo qual eu torço e agora meu filho torce, sem perder um jogo, mesmo morando a 750 km do estádio. Como pai, fiquei todo orgulhoso de que o filho estava preservando a tradição esportiva da família. Mas então comecei a me perguntar se minha filha e meu filho estavam seguindo, com a mesma intensidade, meus ensinamentos de fé e de vida cristã e tendo a mim como referência no discipulado e na oração.
5 Subsídios litúrgicos Quem sabe, antes ou depois da pregação, com um fundo musical do tipo “Luar do Sertão”, alguém possa entrar na igreja caracterizado de caipira e declamar o poema abaixo. Caso não seja possível, o/a pastor/a poderia, do púlpito, vestir um chapéu de palha e do seu jeito declamar os versos. Se tiver os recursos de multimídia, você encontrará diversas formatações no Youtube para baixar e
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projetar. A que mais gostei foi uma com a interpretação de Sílvio Matos (http:// www.youtube.com/watch?v=UWBNXzOGTys). Oração do Matuto Ói Deus, Nóis tá sempre pedindo as coisas pro Sinhô. Nóis pede dinhero, nóis pede trabaio, nóis pede pra chovê, e se chove demais, nóis pede pra pará mode a coiêta num afetá. Nóis pede amo, nóis pede pra casá, pede casa pra morá, nóis pede saúde, nóis pede proteção, nóis pede paiz, nóis pede pra dislindá os nó quando as coisa se comprica mode a vida corrê mió. Quando as coisa aperta, nós reza, pedindo tudo que nos farta. É uma pedição sem fim e se as coisa dá certo, nóis vai na igreja mais perto e no pé de argum santo que seja de devoção nóis dexa sempre uns merréis e lá nos cofre da frente nóis coloca mais uns tostão. Mais hoje, Meu Sinhô, me bateu uma coisa isquisita e eu me puis a matutá. Nóis pede, pede e pede, mas nóis nunca pergunta comé que o Sinhô está, se tá triste ou contente, se precisa darguma coisa que a gente possa ajudá e por esse esquecimento o Sinhô há de nos descurpá. Ói Deus, nóis sempre pensa que o Sinhô não precisa de nada. Mais tarvêz não seja assim, tarvêz o Sinhô precisa de mim sim ... o Sinhô precisa, sim
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Fátima Irene Pinto
10º Domingo após Pentecostes
precisa da minha bondade, precisa da minha alegria, precisa da minha caridade no trato com meus irmão. Nóis semo o seu espêio, nóis semo a sua Criação, nóis num pode fazê feio nem ficá fazendo rodeio, nem desapontá o Sinhô nem amargá o seu sonho, que foi um sonho de amo quando essa terra todinha criô. Ói Deus, eu prometo: Vou rezá de outro jeito, vou pará com a pedição e trocá milagre por tostão; tarvez eu inté peça uma graça, mas antes eu vô vê direitinho o que é que andei fazendo de bão, e se nada de bão eu encontrá, muito vou me envergonhá e ainda vô te pedi perdão.
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PRÉDICA: COLOSSENSES 3.1-11
11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ECLESIASTES 1.2,12-14; 2.18-23 LUCAS 12.13-21
04 AGO 2013
Jilton Moraes
1 Introdução Os textos caminham na mesma direção: a vida sem Deus perde o sentido; é só frustração diante da ambição pelo inatingível. Tentar viver sem Deus é correr atrás do vento (Ec 1.2;12-14); e o trabalho, mesmo realizado com sabedoria, conhecimento e habilidade, resulta em frustração: o prazer no trabalho vem de Deus (Ec 2.18-25). Em Lucas 12.13-21, Jesus mostra que é inútil, mesmo que com afinco, planejar e realizar, sem considerar a presença do Deus Soberano, que frustra os planos de quem procura viver como se fosse senhor do universo. Assim como em Eclesiastes, a lição é que viver só vale a pena diante do Criador, rogando-lhe sabedoria para ajustar-nos a seu querer. Esses textos convergem para o texto da meditação (Cl 3.1-11), em que Paulo afirma que os cristãos, ressurretos com Cristo, morrem para as práticas do passado e renovam-se à imagem do Criador. O desafio é claro: sabendo que todo o esforço sem Deus resulta em frustração, devemos buscar realização em Cristo Jesus, procurando as coisas que são do alto e mantendo nelas o nosso pensamento (v. 1-2), sabendo que morremos e a nossa vida está escondida nele (v. 3), lembrando que, quando o Salvador se manifestar, seremos semelhantes a ele (v. 4), abandonando as velhas práticas antes realizadas (5-9). A lição principal desse ensino é: Ressurretos com Cristo, mortos para práticas do passado, devemos renovar-nos à imagem de nosso Criador.
2 Exegese Utilizaremos leitura comparativa a partir da Nova Versão Internacional com as traduções: Almeida Revista e Atualizada, ARA; Melhores Textos, MT; Bíblia de Jerusalém, BJ; Tradução Interconfessional, TI; e A Mensagem, M, visando ampliar nossa visão do texto. V. 1-2 – Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas; Se vocês estão falando sério sobre viver a nova vida da ressurreição com Cristo, ajam de acordo com ela [M]. Procurem, busquem as coisas do alto, de cima; coisas norteadas por Cristo [M]. O sentido original é: tendo em vista que vocês ressuscitaram com Cristo. A identificação com Cristo tira o foco do mundo
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material para coisas celestiais. Mais do que procurar, é preciso pensar nas coisas do alto. Olhem para cima e observem o que acontece ao redor de Cristo. É por aí que devem seguir. Vejam as coisas da perspectiva dele [M]. Cf.: Rm 12.2; 2Co 5.17b; Rm 8.8. O pensamento muda quando ressuscitamos com Cristo (Fl 4.8). V. 3-4 – Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória. Vocês morreram: A velha vida de vocês está morta [M]. Cf.: Gl 2.19; Rm 8.10; Ef 2.1; Rm 6.14. Ter a vida escondida com Cristo em Deus tem a ver com o fato do mundo não compreender o modo como ele age em nós e tem a ver também com a nossa segurança: estamos guardados nele, ele cuida de nós, aguardamos a sua vinda; ele é a nossa vida. A nova vida é a vida real ainda que invisível aos espectadores – com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês [M]. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também [M]. “Na segunda vinda de Jesus, aguardamos pela perfeição da nossa felicidade. Se vivemos uma vida de pureza e devoção cristã agora, quando Cristo que é a nossa vida se manifestar, também nos manifestaremos com ele em glória” (Henry, 2008, p. 642). V. 5-7 – Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Fazer morrer = exterminar [MT]; mortificar [BJ]; eliminar [M]. Cf.: Rm 6.11. Os membros do corpo deixam de ser usados para a realização dos desejos pessoais. Façam morrer: Natureza terrena [ARA]; inclinações carnais [MT]; membros terrenos [BJ]; desejos deste mundo [TI]; Tudo que esteja ligado ao antigo caminho de morte [M]; o que pertence à natureza humana. Cf.: Rm 5.24. Imoralidade sexual = prostituição [ARA e MT]; fornicação [BJ]; promiscuidade sexual [M]. “Impulso ou força que não descansa até ser satisfeito” (Rienecker e Rogers, 1985, p. 429). Impureza [ARA, MT, BJ e M]; devassidão [TI]; abrange todos os maus desejos. Paixão: paixão lasciva [ARA]; paixões desordenadas [TI]; imoralidade [M]; Cf. Rm 1.26. Desejos maus = BJ; desejos malignos [ARA]; vil concupiscência [MT]; desejo de ter o que não é lícito; desejo incontrolável de possuir o que é proibido. Ganância, que é idolatria: avareza [ARA e MT]; Cupidez [BJ]; cobiça [TI]: Desejo de apoderar-se dos bens que pertencem aos outros. Cf.: Ef 5.3, Gl 5.19-20. Devemos fazer morrer tudo quanto não está em sintonia com o propósito divino. Vocês praticaram no passado: noutro tempo quando vivíeis nelas [ARA]; em outro tempo andastes [MT]; assim também andastes, [BJ]; era dessa maneira que vocês procediam antigamente [TI]. A ética do cristão é diferente do comportamento do mundo (Rm 12.1-2). Quem pertence a Cristo mortifica o pecado e vive uma vida de obediência. Vem a ira de Deus = ARA e MT; provocam a ira de Deus [BJ]; o castigo de Deus [TI]; Deus está prestes a explodir em ira [M]. Filhos da desobediência = ARA e MT; desobedientes
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[BJ]; os que lhe desobedecem [TI]. Castigo para quem, alheio ao plano de Deus, afasta-se da graça. O pensamento paulino caminha nessa direção: Cf. Rm 1.18; 2.5; Ef 5.6. V. 8-11 – Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador. Nessa nova vida já não há diferença entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro e cita, escravo e livre, mas Cristo é tudo e está em todos. Abandonem = BJ, M; despojar [ARA, MT]; libertar-se [TI]; O que temos que deixar para seguir a Cristo? Indignação, maldade, maledicência, linguagem indecente. A recomendação final é: Não mintam uns aos outros – Cf.: Ef 4,25; a autenticidade deve ser a marca do cristão: vocês já se despiram do velho homem; vocês são diferentes do que eram [TI]; os velhos costumes já eram [M]. E se revestiram do novo. Cf Ef 4.24. Nesse processo contínuo, somos renovados em conhecimento à imagem do Criador. E nessa renovação as barreiras que separam as pessoas desaparecem: Cristo é tudo em todos. Tudo é definido por Cristo, tudo está incluído em Cristo [M]. Em suma, Cristo é o nosso único referencial.
3 Meditação: Privilégios e compromissos na vida cristã Que avaliação podemos fazer da igreja, corpo de Cristo, na atualidade? As estatísticas propagam o visível crescimento do número de evangélicos no Brasil, causando euforia a muitas pessoas. Pregando a um grupo de universitários de tradição mais carismática, mencionei esse fato. Fui surpreendido por um fervoroso amém. Após a pausa, reiniciei cuidadosamente a prédica, uma vez que a minha ênfase não era a quantidade, mas a qualidade: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18.8). A igreja cresce em número, mas sem qualidade, quando propaga privilégios e apaga compromissos. Paulo lembrou os cristãos colossenses de que, ressurretos com Cristo, mortos ao passado, deviam renovar-se à imagem divina. São privilégios e compromissos que devem estar sempre diante de nós: Ressurretos com Cristo, mortos ao passado, devemos nos renovar à imagem do Criador. Ressuscitamos com Cristo. As coisas de baixo são trocadas pelas coisas do alto (v. 1): “Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus”. Pode haver privilégio maior do que a convicção de que o Senhor Jesus não apenas ressurgiu dos mortos, mas nos ressuscitou com Ele? Ressurretos com Cristo, assumimos o compromisso de procurar as coisas que são do alto, de mudar o centro de nosso interesse, sabendo que ele está sentado à direita de Deus. Essa tem sido uma característica do nosso viver? O modo como vivemos diz que ressuscitamos com Cristo? Temos assumido esse compromisso? E nossa responsabilidade vai mais longe (v. 2): “Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas”. Não só as nossas ações, mas o nosso pensamento deve ser diferente. E é o mesmo Paulo quem desafia (Fl 4.8): “Tudo o que for verdadeiro, tudo o que for
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nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas”. Outro privilégio que traz compromisso é que morremos para o passado (v. 3): “Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus”. O mundo não compreende o agir de Deus em nós. Jesus é a razão do nosso viver! Diante dessa realidade, Paulo afirma também o que devemos afirmar: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Qual espaço Cristo ocupa em nosso viver? Nosso pensamento, decisões e atitudes são dirigidos por ele? No dia a dia, somos desafiados a extinguir todo o passado que não agradava a Deus: “Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e ganância, que é idolatria” (v. 5). A fórmula para fazer morrer o passado é viver para agradar a Deus. Infelizmente, há pessoas que querem os privilégios dos cristãos, mas não os compromissos; e Paulo diz: “É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas” (v. 6-7). Entre os privilégios e compromissos está, ainda, a realidade em que vivenciamos a transformação. “Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória” (v. 4). Ele nos “chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9), transformou-nos completamente e prossegue nos transformando: “pelo poder que o capacita a colocar todas as coisas debaixo do seu domínio, ele transformará os nossos corpos humilhados, tornando-os semelhantes ao seu corpo glorioso” (Fl 3.21). Não apenas fomos transformados quando, pela fé, entregamos a vida a Jesus, mas estamos sendo transformados a todo instante. Essa transformação é vista pelo modo como passamos a pensar e agir, mantendo o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. A realidade da transformação desafia-nos a buscar as coisas do alto, a pensar nas coisas do alto, a viver na convicção de que já morremos com Cristo e que a nossa vida está escondida em Deus, a fazer morrer tudo o que não agrada a Deus e a viver para agradar em tudo aquele que morreu para dar vida. Propagar privilégios e apagar compromissos ameaça a qualidade da igreja. Não podemos esquecer que a glória vem pelo sofrimento; a certeza da ressurreição, pela morte; e o trono é conquistado na cruz. É irresponsável falar em privilégios sem compromissos. Ressuscitamos com Cristo, morremos para o passado e vivenciamos a transformação. Amém.
4 Imagens para a prédica Quando Cristo é tudo: Will Thompson tornou-se um músico milionário. Mas nunca se esqueceu do lugar de Jesus em sua vida. Sentindo-se devedor de Cristo, passou a compor somente músicas sacras. Comprou um cavalo e uma carroça, onde colocou seu piano, e viajou por todo o estado de Ohio, pregando por meio de seus hinos. Cinco anos antes de falecer, escreveu o hino “Cristo é tudo
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para mim, ...vou sempre confiar no grande amor do Salvador, até o fim chegar. Então no céu eu cantarei, santo louvor entoarei, santo louvor ao meu Senhor, a Jesus” (J. MORAES, Homilética, do púlpito ao ouvinte, p. 279). Cristã mista? Há alguns anos, uma jovem problemática, carente de referências, falava sobre seus familiares. Referia-se em especial a uma tia que ora agia bem e, outras vezes, tinha péssimas ações. Perguntei-lhe: Sua tia é cristã? A resposta foi inusitada: “Pastor, ela é mista”. Admirado, indaguei: O que significa cristão misto? “É que às vezes ela é cristã e outras vezes não.” (J. MORAES, Ilustrações e poemas para diferentes ocasiões, p. 69). Em meio à podridão deste mundo corrompido e perverso, devemos viver de tal modo que as pessoas constatem que morremos para os interesses materiais e, ressuscitados com Cristo, buscamos as coisas do alto. Usufruímos dos privilégios da vida cristã quando nos dispomos a aceitar os seus compromissos: morrendo com Cristo, ressuscitamos com Ele; tomando a cruz, seguimo-lo; desprezando o mundo, somos aceitos por Jesus.
5 Subsídios litúrgicos O culto pode ser programado com ênfase no fato de que o cristão morre para o mundo e ressuscita para uma nova vida com Deus. “Fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6.4). No texto da prédica, há uma riqueza de detalhes e figuras que pode ser usada na liturgia; alguns verbos usados podem ser explorados tanto na prédica como no culto: ressuscitar, morrer, esconder, manifestar, despir, revestir etc. Uma sugestão seria a inclusão de testemunhos pessoais: duas ou mais pessoas narram brevemente suas experiências com Cristo e a diferença que ele faz em nosso viver diário, uma vez que, ressuscitados com ele, temos o compromisso de buscar e pensar nas coisas do alto. Ou uma entrevista com uma ou mais pessoas que compartilhem o significado de algumas figuras do texto em sua experiência: (1) O que significa estar ressuscitado com Cristo e de que modo isso afeta o seu agir? (2) Como devemos viver para que as pessoas que convivem conosco constatem que a nossa vida está escondida em Deus? (3) De que modo o vestir e o revestir acontecem em sua experiência cristã? (4) Como explicar a afirmação de Paulo de que “não há mais diferença” quando a Bíblia mostra a diferença que ele faz? Quanto à escolha dos hinos, leituras e litanias, pode-se trabalhar a partir da realidade do texto e sua aplicabilidade para o momento atual.
Bibliografia HENRY, Matthew. Comentário Bíblico: Novo Testamento – Atos a Apocalipse. Rio de Janeiro: Cpad, 2008. RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 1985.
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PRÉDICA: LUCAS 12.32-40
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GÊNESIS 15.1-6 HEBREUS 11.1-3,8-16
11 AGO 2013
Teobaldo Witter
1 Introdução O dia 11 de agosto de 2013 é dia dos pais. A mensagem, em qualquer época do ano, sempre é mais importante do que tempo, períodos e datas comemorativas. A mensagem é fundamental para a vida e a salvação. Sem ela, não haveria o que comemorar. Segundo o entendimento cristão, sem a palavra de Deus não há vida com sentido. Apesar da reflexão acima, Deus permite comemorar datas importantes. Por intermédio delas Deus também fala a nós. Veja como Deus é real, concreto, simples e fácil de entender. Ao comemorarmos o dia dos pais, refletimos a partir da figura paterna do próprio Deus. Segundo Gênesis 15.1-6, Abraão, um candidato a pai, fala de sua ansiedade e preocupação em relação ao fato de já estar avançado em idade e de Deus já lhe ter prometido descendência, mas ele e Sara continuam sem filho. Em sua decepção, Abraão reclama. Ele se queixa, porque Deus estaria lhe negando descendência. A herança passaria a um servo da casa, ao damasceno Eliézer. Deus, no entanto, reafirma a promessa da descendência. E manda que Abraão levante a cabeça e conte as inumeráveis estrelas. Assim será sua descendência. Abraão creu. A promessa se cumpriu. Na questão da justiça da fé, Abraão é o pai de muitos povos, inclusive do povo cristão. Neste dia dos pais, lembramos de Abraão como um dos pais da fé. Hebreus 11.1-3,8-16 procura, inicialmente, conceituar a fé: “Fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. O testemunho é a chave para entender e perceber, desde antigamente aos dias de hoje, fatos que não se veem. Na fé, compreendemos a palavra criadora de Deus que a tudo formou. E o invisível veio a existir, sendo certamente Jesus Cristo a Palavra viva, visível, tocável, real, encarnada na realidade humana. O texto relata momentos significativos na vida de Abraão, Sara e herdeiros da promessa de Deus. Eles e elas peregrinam na terra, na esperança da concretização da promessa de Deus. Sendo fiéis, testemunham e caminham na busca pela realização de uma pátria superior, uma cidade preparada por Deus para seu povo. Lucas 12.32-40 não fala de Abraão e Sara. Mas fala da pequena comunidade. Sugiro fazer a ligação entre a família de Abraão e Sara com o pequeno rebanho de Lucas. Lucas fortalece a comunidade, lembrando da presença e da promessa do Reino de Deus. O Reino está sendo preparado por Deus. O Pai agrada-se em entregá-lo a seu pequeno rebanho. “O Pai de vocês se agradou em
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lhes dar o seu Reino” (v. 32b). Deus cuida de seu rebanho, assim como cuidou de Sara, Abraão e dos demais herdeiros da promessa. O pequeno rebanho recebe lugar à mesa e é servido. O Reino do Pai vem como cumprimento da promessa de Deus. Por isso sejam vigilantes. Creiam. Confiem em Deus. Coloquem nele a sua confiança. Creiam, a exemplo de Abraão. O Reino virá, embora ainda não seja plenamente visível. Está tudo pronto e preparado, assim testemunha a Carta aos Hebreus. Os cuidados do Pai em cumprir sua promessa e a fé nele são o fio que liga os três textos.
2 Lucas 12.32-40 2.1 – Comentários gerais O texto de Lucas está inserido num contexto maior. Há uma crítica de Jesus em relação à postura de lideranças e pessoas influentes, especificamente em Lucas 11.37-12.36. Ele pontua assuntos de sua crítica em relação ao ensino e postura de fariseus e escribas. Mas, para o entendimento do texto da pregação, importa verificar o tema de Lucas 12.13ss. Jesus é solicitado por um homem, no meio da multidão, para ser juiz numa questão de herança. A partir desse fato, a crítica de Jesus centra-se no tema da confiança nos bens materiais e da ansiedade pela posse dos mesmos. O tema é aprofundado até o versículo 34. Jesus chama a atenção para não se entregar completamente aos cuidados da avareza (v. 15-21). Disse que é louco quem confia na abundância de seus bens, a exemplo do agricultor insensato. Depois adverte para não viver ansiosamente na busca pelos bens. Menciona, positivamente, os lírios do campo e as aves que não estão ansiosos. Entregues aos cuidados do Pai, eles vivem abundantemente, felizes e com boniteza. E Jesus ensina para buscar o Reino do Pai e sua justiça (v. 22-31). Depois, Jesus volta-se ao pequeno rebanho. Ensina a não temer. E prega sobre a promessa do Reino do Pai. Ele se agradou em lhes dar o seu Reino. O pequeno rebanho é desafiado a não confiar nos bens, repartindo-os, e a fundamentar sua vida no tesouro eterno, preparado pelo Pai e que não será corroído. E concluiu dizendo que “onde está o tesouro, aí estará o coração” (v. 32-34). A seguir, é mencionada a postura do pequeno rebanho. Deve viver em postura de preparo e vigilância diante da iminente e surpreendente vinda do Filho do Homem (v. 34-40). O tema continua nos versículos seguintes (v. 41-48), cada vez mais “em sentido da surpresa e do pavor para o servo que não assume a postura de vigilância e preparo correto, tornando-se novamente semelhante ao agricultor avarento”, conforme v. 15-21 (VOLKMANN, 1991, p.184). Ele errou, porque seu coração avarento estava preso ao tesouro errado. Os versículos 32 e 34 são fundamentais ao conjunto, porque enfocam a temática da confiança (da fé) no bojo do coração e do tesouro. Estamos sendo perguntados: onde está nosso coração – no Pai e seu Reino eterno ou nos bens temporários? O preparo correto e a vigilância (v. 35-40) são lidos no contexto da vida cotidiana de confiança e de cuidado. O agricultor avarento teve cuidado e confiança, mas ele errou o alvo, isto é, colocou a confiança, a vigilância e o cui-
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dado nos bens materiais. Esses são temporários e transitórios. Na hora do Reino Eterno, não podem ajudar e para nada servem. Segundo Volkmann, Lucas 12.32-40 tem a seguinte estrutura: 1. Tese – O Reino do Pai é do pequeno rebanho (v. 32); 2. Consequência 1 – desprendimento dos bens materiais (v. 33-34); 2.1. Tesouro está nos céus – vender os bens e dar esmolas (v. 33); 2.2. O tesouro está onde está o coração (v. 34); 3. Consequência 2 – preparo e vigilância (v. 35-40); 3.1. Quadris cingidos e lâmpadas acesas (v. 35); 3.2. Servos vigilantes à espera do Senhor (v. 36-38); 3.3. O Senhor vem à hora incerta como ladrão (v. 39-40). Concordo com essa dica. O foco no pequeno rebanho introduz-nos no tema das minorias das quais fala e vive Abraão em sua peregrinação pela terra da promessa e nos falam profetas, entre os quais está Isaías. O tema do tesouro e do coração, muitas vezes dito como tema central, está na mesma dimensão. O pequeno rebanho constitui-se como rebanho, porque seu coração está no tesouro eterno, em comunhão. Por isso está sendo rebanho e é chamado para assumir as consequências dessa posição. 2.2 – Comentários referentes ao texto bíblico de Lucas 12.32-40 V. 32 – “Não temais, pequeno rebanho, porque o vosso Pai se agradou em dar-vos o seu Reino.” Essa afirmação é central no texto em seu contexto. O prelúdio para o anúncio da boa-nova é imperativo: não temais, como parte integrante da mesma, pois “[...] vos salvarei, e sereis bênção. Não temais, e sejam fortes as vossas mãos” (Zc 8.13b). O quem vem é radicalmente novo (aqui, radical vem de raiz). Os imperativos que vêm depois destacam as consequências da nova situação que está sendo colocada por Jesus. O pequeno rebanho é parte das minorias abraâmicas sobre as quais nos escreveu Dom Helder Câmara. Esse pequeno rebanho crê contra toda a esperança (Rm 4.18), no caminho da fé, na trilha de Abraão. No bojo desse caminho podem ser compreendidos os imperativos “vendei, dai esmolas, fazei bolsas que não desgastam, tesouro inextinguível nos céus, estejam cingidos, candeias acesas, estai preparados, cuidai”. Entre esses e aquele imperativo introdutório no v. 32 (não temais!) há uma diferença fundamental, mas estão na mesma dimensão: enquanto aquele é o prelúdio para o anúncio do que segue, fazendo, assim, parte da própria boa-nova (cf. Is 41.10; Jr 30.10; 46.27; Zc 8.13), esses imperativos destacam as consequências dessa situação nova em que o pequeno rebanho é colocado pela graça do Pai. Rebanho é expressão corrente para o povo de Deus nas Escrituras (Sl 77.20; 100.3; Is 40.11; Ez 36.38; At 20.28; 1Pe 5.2s) e na história da igreja, na liturgia, nos hinos (Um só rebanho, um só pastor) e outros. Lucas escreve a respeito do pequeno rebanho. Isaías 41.14 escreve sobre resto, onde o povo é chamado de vermezinho, de bichinho. Lucas 6.20-21 escreve sobre os sedentos, os empobrecidos, os que choram, os pequeninos (Lc 18.16), os famintos (Lc 16.20),
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os coxos, os cegos (Lc 14.21b), os fiéis (Gn 15.6). Essas pessoas são felizes, porque o Reino de Deus lhes é dado gratuitamente pelo Pai. E assim o recebem. O pequeno rebanho não é apenas pequeno em tamanho, mas é formado por pequenos. Segundo Volkmann, “não dá para deixar de considerar que Lucas colocou esse versículo – sem paralelo nos demais sinóticos – nesse ponto como elemento de ligação entre os dois exemplos contrastantes de confiança (nas riquezas ou no Senhor) e os desafios de vivência dessa confiança (preparo e vigilância)”. As pessoas que se desprendem de toda e qualquer autoconfiança, as que não têm outra coisa em que se agarrar – essas ousam atirar-se nos braços de Deus, sem medo, com toda a confiança. A elas pertence o Reino do Pai (Lc 18.17). Jesus coloca a esse pequeno rebanho o desafio de constituir a sua vida com desprendimento dos bens materiais e de viver sem a ansiedade consumista (Lc 12. 30-31), ao contrário do agricultor avarento (Lc 12.20-21). O segundo desafio é cuidar e vigiar, viver com cuidado e atenção (Lc 12.35-40) diante da iminência da vinda do Reino do Pai em plenitude, em preparo e vigilância permanentes. Nesse sentido, o pequeno rebanho encontra sua situação vivencial na confiança em seu pastor e pratica a vivência comunitária e escatológica no Reino do Pai. V. 33 – “Vendei os bens e dai esmolas”: são expressões que chocam. Neste mundo capitalista, egoísta e consumista, quem ainda quer vender seus bens e distribuí-los aos famintos como esmola? Mas há uma dimensão real, cotidiana e pedagógica radicalmente evangélica nesses imperativos de Jesus. Na parábola do agricultor avarento, Jesus ensina que os bens ocuparam o coração dele. Consequentemente, ele preparou sua vida para viver eternamente na confiança de que seus bens o poderiam salvar. Com isso ele não pode nem vendê-los, nem dar esmolas, porque é pobre para Deus. E ser pobre para Deus significa ser pobre com a vida ao seu redor. A postura diante de Deus, dos bens e do próximo está ligada à razão e ao coração humano. Vender os seus bens para dar esmolas é desvendar e desvelar concretamente a que se prende o coração. “O coração é símbolo e sede do desejo” (cf. RENGSTORF, p. 163). Por outro lado, a confiança total no Senhor liberta as pessoas do apego às riquezas e coloca os bens materiais a serviço do Reino. “Dar esmolas é sinônimo de ajudar a cuidar de pessoas necessitadas” (VOLKMANN, 1991, p.185). V. 34 – “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” O tesouro gruda no coração das pessoas, conforme expressam os povos indígenas da Amazônia. O tesouro é o grande amor da vida das pessoas. Sem ele, a vida não tem graça. Se os bens materiais estiverem grudados no coração, então os bens são ídolos que não podem salvar. Pelo contrário, eles imprimem no coração a ansiedade, a inquietude e sufocam a alegria de viver. Mas se Deus e seu Reino de vida e justiça estiverem grudados no coração, então estamos sendo capacitados pelo Pai para viver sem avareza, sem ansiedade, sem inquietude. Ele sabe do que precisamos (v. 30). Seremos, então, capacitados por Deus para buscar seu Reino e a sua justiça (v. 31a). As demais coisas da vida humana nos serão acrescentadas (v. 31b). Viver para ele é viver no presente e no futuro. É buscar a sua justiça no presente e viver aberto para o futuro de Deus, que já está dado, embrionariamente, na fé daqueles que vivem confiantes nas promessas de Deus. Desse viver do
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futuro trata a segunda consequência, que é desdobrada em duas partes: preparo (v. 35) e vigilância (v. 36,40). V. 35 – “Cingidos estejam os vossos corpos e acesas as vossas candeias.” A palavra lembra acampamento e êxodo. Quem acampa e faz caminhada sempre deve estar preparado para partir. O preparo é descrito com as figuras da cintura cingida (Êx 12.11) e das lâmpadas acesas (cf. Mt 25.1ss). Pronto para partir (1Ts 5.2) ou como um garçom no restaurante ou a enfermeira no plantão no setor de enfermagem de um hospital: sempre preparado para servir. O que importa é que a pessoa esteja desimpedida de qualquer amarra. Nada deve impedi-la, sejam os bens materiais, a avareza, a ansiedade ou a inquietude. O servir está presente na segunda parte, o que demonstra a proximidade entre preparo e vigilância. V. 36-37 – “Sede semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor...”. Aqueles que vivem do futuro, isto é, vivem na confiança da promessa do Pai, são fortalecidos pelo Senhor que vem, assim como os discípulos foram e experimentaram no convívio terreno com Jesus (Mc 10.45; Lc 22.24-30; Jo 13.1-11): ele mesmo se aproxima e põe-se a servi-los (v. 37b). V. 37a e 38b – O “serviço” de Jesus aos que permanecem vigilantes, isto é, aos que não rompem a comunhão, é emoldurado, no texto, com o anúncio da bem-aventurança. Ali, completa-se aquilo que eles já vivem agora, ou seja, a felicidade do Reino do Pai em plenitude. Por outro lado, infelizes são os avarentos, ou seja, os loucos, conforme Lucas 12.20, porque os bens grudaram em seu coração, entesouram para si mesmo e são pobres para Deus e o próximo. V. 39 – Vem como um ladrão. A necessidade do compromisso e do desafio constantes é destacada nessa parábola do ladrão. O que resta? Confiar sempre. Confiar ajuda a viver agora. Mas também, ao se entregar aos cuidados permanentes de Deus, ao viver na confiança nele, é que nos tornamos livres para o serviço cristão no mundo e despreocupados com qualquer calculismo sobre o fim. Segundo Volkmann: “Em outras palavras, preparados e vigilantes, vivendo daquele que é o futuro”, já agora, na vida real e no sonho do Reino do Pai. Nesse contexto da vida da comunidade, Jesus anima a comunidade: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque o vosso Pai se agradou em dar-vos o seu Reino” (v. 32)
3 Meditação: Pequeno rebanho, o deserto é fértil Nossa época está marcada pelas tecnologias, especialmente de informação, comunicação, medicina e turismo. Notícias correm rapidamente de uma extremidade da Terra à outra. O que estava longe veio para perto de nós. Notícias animam. Criam novas possibilidades. Quem for mais rápido, mais hábil, mais articulado e mais sagaz tem muitas chances de se dar bem na vida. De uma hora para outra, pessoas ficam ricas e usufruem dos bens e benefícios produzidos pela humanidade, no que se refere à medicina, ao turismo e ao conforto pessoal no uso de bens e serviços. Nossa época é de preocupações. Nesse trem não há lugar para todas as pessoas. Muitas estão fora e vão ficar fora. É possível que o dinheiro voe de um
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país a outro. Durante uma noite, os especuladores financeiros são capazes de falir um país. Diante da decisão de especuladores, os governos e o povo pouco podem fazer. Podem oferecer mais vantagens para que deixem seu dinheiro aumentar mediante juros e outros meios. Na mesma velocidade das notícias, correm as decisões sobre a vida e a morte de pessoas e povos. Nossa época é marcada pela insegurança. No dia em que estou concluindo o presente texto, o parlamento do Paraguai demitiu seu presidente legitimamente eleito pelo povo. O processo completo durou menos de 24 horas. No mesmo dia, um vizinho de minha rua foi assaltado duas vezes. Um professor universitário foi hospitalizado e internado na UTI, porque uma bactéria não identificada debilitou sua saúde. No caminho de 4 km entre meu trabalho e minha casa nesta manhã, presenciei dois acidentes de carros, motos e ônibus, com morte de um motoqueiro. O prefeito disse que não vai cumprir a ordem judicial de instalar radares para controlar melhor o trânsito, porque ele tem outras prioridades e outros interesses. Um empreiteiro de obras da prefeitura desviou dinheiro com notas de obras que não fez, mentiu no tribunal e não foi condenado. O seu advogado, de forma convincente, disse que não vê problemas, porque ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Portanto “é legítimo mentir no tribunal”, disse. Nossa época é marcada pelo medo. A insegurança provoca medo. A insegurança é pessoal, institucional e jurídica. As pessoas têm medo de assaltos, medo de ser traídas, medo de perder espaços. Dados do Departamento de Justiça dos EUA mostram que quase 40% dos estudantes do país não se sentem seguros na escola. Entre estudantes de 14 a 18 anos, essa estatística sobe para aproximadamente 60%. Nossas instituições são incapazes de garantir justiça e solidariedade para os povos. As instituições jurídicas, muitas vezes, decidem de forma tendenciosa. Algumas de suas decisões e o cumprimento das mesmas dependem dos interesses de pessoas que têm o poder de “esculhambar”. Tem gente que faz dinheiro com o medo geral. Estão nesse ramo empresas de segurança privada, tecnologia de monitoramento, planos de saúde caros, medicina altamente sofisticada e tecnológica. A exemplo do agricultor avarento, as pessoas querem se prevenir e se garantir nessa loucura humana da cultura das mil e uma preocupações, da ansiedade, da insegurança e do medo. A nossa época está marcada pela ausência. A tecnologia que trouxe o mundo, até certo ponto o universo para dentro de nossas casas, bem perto, levou coisas importantes para longe. Pessoas da mesma casa não convivem. A ausência de comunhão é um estilo de ser. Rodas de conversa ao redor da mesa na casa, na lanchonete, na sorveteria, no bar, na igreja têm pouco valor e são pouco utilizadas. São descartáveis e dispensáveis. O amor é passageiro. O diálogo é considerado perda de tempo. A racionalidade é pouco valorizada. A afetividade perdeu o foco. Sem racionalidade e sem afetividade, não há projetos de vida felizes e consistentes. Na ausência de projetos de vida feliz, as pessoas perambulam entre drogas, dívidas, mortes, dores, medos, insegurança, ameaças e barganhas. Nossa época está marcada pelo deserto. O deserto é real nas vidas quebradas, nos diferentes tipos de inseguranças, nos medos, nas preocupações, nas mentes sem sonhos, nos corações grudados ao dinheiro. Sem comunhão consistente,
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a vida é deserta. O agricultor avarento teve muito, mas sua vida estava deserta. Jesus chamou-o de louco, porque sozinho se afundou na areia movediça de sua insensatez, preparou-se bem para uma vida sem futuro, sem segurança eterna. Sonhar é inteligente e maravilhoso. O deserto dá desânimo. Eu não tenho muitas ilusões. É deserto mesmo. Se você leu até aqui, então parabéns. É sinal de que a Palavra caiu em terra boa. E continuemos juntos o nosso sonho. Nesse deserto, Jesus reconstrói a vida. Ele disse que não é para se deixar vencer pela ideia do agricultor avarento, do insensato, do louco. Depois, ensina que não é para ser ansioso. É para olhar a boniteza dos lírios e das aves. Eles e elas nos ensinam a viver com desprendimento. Mas não é para viver desleixado, desocupado. É para buscar o Reino de Deus e a sua justiça. A vida humana e digna vem por esse caminho, não pela ansiedade e avareza. Depois Jesus fala do pequeno rebanho que ganha gratuitamente o Reino do Pai. Esse pequeno rebanho tem seu coração grudado ao Reino Eterno. Já vive partes significativas desse Reino agora. Mas ele será realizado em plenitude quando a vinda de seu Senhor se concretizar. “O deserto é fértil” é título de tese defendida por D. Helder Câmara. Ele não inventou a roda. Mas, assim como Martim Lutero, chamou a atenção para a fé: “Esperando contra toda a esperança, como Abraão” (Rm 4.18). Irradiava confiança e sedimentava o compromisso evangélico de vida e fé. Dele vem a expressão “minorias abraâmicas”. Disse que as minorais abraâmicas hoje são formadas por pequenos grupos que esperam, em vigilância constante, apesar dos pesares, com firmeza permanente, na confiança da promessa do seu Senhor. Por isso elas estavam livres, sem medo e com segurança suficiente, no compromisso, também, pela construção de uma sociedade justa e fraterna, superando todas as formas de medo e violência. Com projeto de vida fundamentado no tesouro eterno, o pequeno rebanho está feliz. A sua felicidade é contagiante. Por ser fundamental para a vida, o rebanho encontra-se em preparo constante, em vigilância e cuidado. Ninguém sabe quando nem como o Reino do Pai vem em plenitude. Por isso o pequeno rebanho está atento sempre. Como assim? Penso em algumas ideias. A vigilância e o preparo constante poderiam ter alguns jeitos humanos: trabalhar normalmente em trabalhos honestos. Dedicar-se diariamente ao diálogo com a Palavra do Senhor. Valorizar e respeitar as pessoas que conosco convivem. Deus colocou-as junto de nós, aos nossos cuidados. Nós cuidamos delas, e elas cuidam de nós. Devemos incluir as pessoas em nossos sonhos. Observar os ciclos da vida e perceber neles os cuidados de Deus. Defender e promover a justiça e a solidariedade nos âmbitos da vida humana. Buscar nosso projeto de vida com fundamento no tesouro eterno. A gente não pode ter muitas ilusões nem ser ingênuo. Por isso é necessário refletir, pensar nosso projeto e apaixonar-se por ele, assumi-lo com cuidado e atenção. E nele ser perseverante. Penso que assim a igreja e seus membros estão livres para semear minorias abraâmicas, pequenos rebanhos, onde estiverem. Não podemos nos deixar vencer pelo deserto, mas vencer o deserto pela vida do Reino de Deus, também na
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edificação de minorias abraâmicas como sementes para transformarmos juntos o mundo, as instituições, as pessoas e a justiça.
4 Imagens para a prédica 4. 1 – Flores no deserto No Mato Grosso, durante os meses de maio a novembro, é época de seca. Como no inverno, as plantações murcham e secam. Especialmente no cerrado, as árvores tortas e o capim seco tomam conta da paisagem. Muitas vezes, o fogo queima partes dessa vegetação. O mês de agosto é o mais crítico em termos de secura. Restam, então, poeira, cinza e fumaça. Parece o abominável da desolação, da qual nos fala o profeta Isaías. Surpreendentemente, em meio às cinzas nascem brotos e flores. Geralmente, são as mais lindas flores do cerrado que brotam nessa época. É o ciclo da vida sob os cuidados de Deus. Ele continua semeando minorias abraâmicas, em resiliência contínua, apesar da mão e das ideias devastadoras do ser humano. E Jesus ensina seu pequeno rebanho: “Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e as demais coisas vos serão acrescentadas” (Lc 12.31). 4. 2 – O coração grudado nas coisas O pastor Frank Tiss trabalhou junto com grupos do povo Kulina no sul do estado do Amazonas. Ele escreveu dizendo que fez uma reflexão junto com o povo indígena: “Tudo nesta terra é de durabilidade limitada e é uma experiência diária para quem vive na selva. Que vale a pena dedicar-se ao que é eterno, os Kulina concordam imediatamente. E que o nosso coração fica sempre perto daquilo que para nós tem mais valor, já está até na língua deles: para dizer que amam alguém, dizem que o seu coração ‘está grudado’ no outro. Ou, como ensina Jesus: ‘Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. [..] Eles comentaram: “É verdade, quando alguém de nós começa a pensar igual ao branco, querendo cada vez mais e só para si mesmo, o coração dele ‘fica grudado’ em suas coisas. Mas com a nossa comunidade ele se preocupa cada vez menos. Eles gostaram muito dessas frases bíblicas, pois elas valorizam uma parte de seu tradicional modo de ser Kulina: para eles, viver bem significa viver em paz e harmonia com os familiares e os demais membros da comunidade. Para isso preferem viver em solidariedade, repartindo quase tudo o que têm”.
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5 Subsídios litúrgicos 5.1 – A fonte do brilho (Sugestão de leitura após a apresentação de visitantes e membros) Tudo e todos querem brilhar. As crianças querem brilhar nos braços da mãe e do pai com seu sorriso sedutor. O menino quer brilhar para conquistar. A noiva quer brilhar no grande dia de sua vida, no casamento. A cantora quer brilhar no palco. O palhaço quer brilhar no circo. O atleta quer brilhar em sua luta pelo prêmio. Quer brilhar o rei e quer brilhar súdito. Os lírios do campo e do jardim brilham. Os mares, as montanhas, os peixes, as aves, os animais domésticos e silvícolas brilham. O sol, a lua e as estrelas brilham. Bem ornamentados, cativam com o seu brilho. Têm brilhos que são passageiros e têm brilhos eternos. A Palavra brilha eternamente. No culto, está a Palavra que brilha. Por isso tudo brilha. Brilha o altar. Brilham as pessoas. Brilham as vozes. Brilha o pequeno rebanho. Brilham os olhos. Brilham as mentes. Brilha o coração humano. É o brilho aconchegante e eterno de Deus misericordioso. No culto, há brilho. Mas o brilho tem um fundamento bem forte e firme. O fundamento é Deus, a fonte de todo brilho verdadeiro. Nele, o amor brilha. O reconhecimento brilha. O arrependimento brilha. O perdão brilha. A reconciliação brilha. A comunhão brilha. O compromisso brilha. O amor brilha. A esperança brilha. Abraão estava diante da fonte do brilho eterno: Deus. E olhou para o brilho de sua promessa e creu. Então a promessa se cumpriu. Aqui, no culto, Deus vai falar de sua promessa de vida e salvação. A comunidade vai brilhar, porque ela pode falar para Deus o que está em seu coração e em sua mente. Deus vai ouvir, vai servir e vai fazer sua igreja brilhar. Sintam-se acolhidos nesse lugar comum, irmãos e irmãs. 5.2 – Falta de esperança (Introdução para criar clima de confissão de pecados) Saiu no jornal Zero Hora faz tempo. Um pai levou seu filho à faculdade, de manhã, que ficava no caminho de seu trabalho. Durante o percurso, avistam lixeiras limpas e pintadas para a coleta seletiva. O pai conclui: “Veja que bom. Agora podemos jogar o lixo diretamente na lixeira”. O filho comenta: “Vamos ver por quanto tempo essas lixeiras vão ficar aqui. O povo não vai jogar o lixo nas lixeiras, mas vai destruir as lixeiras”. No segundo dia, saiu manchete no jornal. A manchete dizia: “Ontem, os vândalos queimaram duas lixeiras novas”. O pai ficou preocupado com a queima das lixeiras. Mas a maior preocupação dele foi com a falta de esperança do filho dele. Falta de esperança causa
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indiferença. Vamos confessar nossa falta de esperança e nossa indiferença em viver o discipulado e de promover justiça e paz (contado pelo P. Nestor Friedrich, texto adaptado pelo autor). 5.3 – A esperança vem de Deus (Introdução para o clima do anúncio da graça) Jesus ensina: “Não temais, pequeno rebanho, porque o vosso Pai se agradou em dar-vos o seu Reino”. As minorias abraâmicas “esperam contra toda a esperança”. Irradiam confiança pelo Reino do Pai e pela construção de sociedade justa e fraterna, superando todas as formas de medo, indiferença, insensatez, falta de compromisso e violência. Aos e às penitentes anunciamos reconciliação
Bibliografia CÂMARA, Dom Helder. O deserto é fértil: roteiro para as minorias abraâmicas. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. 105p. VOLKMANN, Martin. 12º Domingo após Pentecostes. In: Proclamar Libertação 17. São Leopoldo: Editora Sinodal e EST, 1991. p. 183-188.
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PRÉDICA: JEREMIAS 23.(16-22)23-29
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LUCAS 12.49-56 HEBREUS 11.29-12.2
18 AGO 2013
Manfredo Siegle
1 Introdução A comunidade reunida em culto neste 13º Domingo após Pentecostes situa-se num tempo distante das grandes festas do ano litúrgico. A título de lembrança, o domingo que antecedeu este domingo é conhecido, em nosso país, como dia dos pais. Embora um domingo comum, o texto chama atenção pela mensagem forte e desafiadora anunciada pelo profeta Jeremias. Nascido perto de Jerusalém, seu ministério profético vai de 626 a 586 a.C. O pressuposto é que também neste domingo a palavra de Deus seja anunciada por pessoas retamente vocacionadas e dignas de todo crédito. Importa que a Palavra seja testemunhada por ministros e ministras focadas no anúncio da vontade de Deus (profetas verdadeiros); que não seja um palavreado medíocre, próximo a sonhos pessoais ou manifestação de ideias ou de ideais contraditórios e estranhos ao evangelho de Jesus Cristo (falsas profecias). Grande é, na paisagem religiosa brasileira, o número de falsos profetas que atraem as massas por meio da prática do curandeirismo e de falsas promessas. O desafio colocado às pessoas cristãs são o testemunho e a vivência da vontade do Deus da graça e da liberdade; o que dele se distancia leva ao anúncio medíocre e não convincente.
2 Exegese Dispomos, em vários volumes anteriores do Proclamar Libertação, de considerações exegéticas de boa qualidade e de profundidade adequada. Vale destacar alguns textos contendo análises exegéticas relevantes, por exemplo em PL 2, p. 144ss, de autoria do P. Dr. Klaus van der Grijp; em PL 13, p. 209ss, de autoria da Pa. Edna M. Ramminger e do P. Oto H. Ramminger. Sublinho, tão somente, que o texto faz parte de uma coletânea de perícopes em que o profeta Jeremias denuncia a irresponsabilidade social, religiosa e política dos líderes israelitas (cap. 1-25). Zedequias era rei de Judá (597-587 a.C.). O profeta previne, insiste, admoesta e ameaça, em nome de Deus, um povo alienado e irresponsável. Ele tem em vista a preservação da integridade da fé; por isso prega com força a volta do espírito do Êxodo e a fidelidade à Aliança estabelecida por Deus/Javé com os israelitas (capítulos 21-24) no evento do Sinai. Denuncia os representantes infiéis das instituições, questiona o culto como farsa quando a vivência do cotidiano não corresponde à prática da religiosidade exigida. O profeta opõe-se vigorosamente ao estabelecimento da aliança política de Israel com o Egito contra a Babilônia,
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na época um poder emergente. Quando o tempo estiver maduro, haverá uma nova aliança do povo com Deus/Javé; surgirá uma nova comunidade fiel ao Deus/Javé (31.31-34). Nesse particular, Jeremias torna-se profeta da esperança. Enquanto homem de Deus indignado e decepcionado, Jeremias desenvolve sua mensagem mediante referenciais de peso: identifica a autoridade da palavra de Deus, descobre a liberdade para Deus agir de perto, como de longe. Deus sempre é diferente da nossa maneira de identificá-lo. Ele sempre vem de longe, “do alto”; ele é diferente. O biblista Gerhard von Rad, em “Teologia do Antigo Testamento”, tem toda a razão quando afirma que a luta do profeta Jeremias contra seus colegas, que ele denuncia como falsos profetas, foi uma de suas tarefas mais difíceis. É constante a sua procura por critérios, referenciais verdadeiros, capazes de discernir a verdadeira da falsa profecia.
3 Meditação 3.1 – A conversa na BR-101 Encontro-me no automóvel em viagem na BR-101, em Santa Catarina. Na ocasião, o meu interesse está voltado a um dos textos mais marcantes do livro do profeta Jeremias. Seguindo de carona, acompanha-me na viagem uma líder comunitária. Acabara de participar de um curso de capacitação. Para facilitar o diálogo, entrego à companheira de viagem uma Bíblia. Informo sobre o texto em foco. Indico a passagem do profeta (Jr 23.16 a 29) à leitura e à apreciação. Um tanto perplexa, a parceira, na rodovia lotada de veículos, observou: “O que vão pensar as pessoas vendo-me, assim, de Bíblia aberta?” Respondi prontamente: “Eu também não sei!” Em seguida, abriu a Bíblia e começou a folhar até localizar o livro de Jeremias. Achado o trecho bíblico, ela priorizou a leitura silenciosa. Concluído o exercício, a carona perguntou: “Sim, e agora?” Retruquei: “O que você acha?” Respondeu: “Pensando bem, não vejo nenhuma novidade extraordinária”; e foi logo complementando: “De longa data, quando se tratava de definir a qualidade de pessoas públicas, suas falas e atitudes, descobriram-se falsos profetas e os profetas verdadeiros”. Em seguida, indagou: “Será que isso vai mudar algum dia?” Disse ainda: “Certamente não faltarão pessoas cheias de si e que se acham no direito de somar no seleto grupo de homens de Deus que se identificam com os profetas autênticos”. Depois de um breve silêncio, voltei-me à companheira de viagem: “Que tal? Será possível distinguir os falsos dos verdadeiros profetas?” A interlocutora sorriu. “Você sabe, essa também é a minha dúvida. Aliás, é complicado distinguir o falso do verdadeiro profeta”. Reagi complementando: “Não deixa de ser um problema de difícil equação”. Continuei: “Verdade é que existem impressões enganosas e impressões confundem. Às vezes, parece que estamos lidando com falsos profetas, mas, depois de algum tempo de conhecer melhor a pessoa, mudamos de opinião. Existem outras oportunidades, nas quais pensamos tratar-se de gente séria, profetas verdadeiros, mas, com o passar do tempo, descobre-se que suas profecias são enganosas”.
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Seguimos viagem, e a conversa foi evoluindo. Lembrei, então, da avaliação feita por Jeremias. Ele desmascara o falso profeta dizendo: “Quem só faz projeções humanas, sem o aval de Deus e sem corresponder à sua vontade, aquele que quer satisfazer somente as expectativas dos ouvintes, adaptando-se à realidade, demonstra ser um falso profeta”. Acrescentei: “São muitas as oportunidades vividas pelo profeta Jeremias, esse homem chamado por Deus, repleto de altos e baixos, lamentando as atitudes irresponsáveis de seu povo; silenciar era impossível, as farsas careciam de denúncia, porque o povo de Israel, vivendo dopado, é levado facilmente à falsa segurança”. A companheira de viagem retomou o texto, releu outras partes e disse: “Eu simpatizo com a linguagem figurativa do profeta. Dá para compreender melhor quando anuncia: ‘A minha mensagem é como fogo, é semelhante à marreta que quebra grandes pedras’ (v. 29)”. Complementei dizendo: “Jesus, em outro tempo, aplica uma linguagem semelhante: Lucas 12.49ss. A mensagem é forte, não é fácil viver com as sobras do fogo, tudo é destruído e o que permanece são as cinzas. A vida individual ou a vida em grupo, em comunidade, a convivência social despedaçada como se fosse lascada por martelo, traz sofrimento, causa dor, além de gerar vida angustiante”. “Você sabe” – continuei –, “às vezes, os efeitos de palavras fortes, desafiadoras chegam a causar fissuras; acontece, simultaneamente, que efeitos aparentemente negativos, fissuras e lascas também servem à edificação e à transformação. Há situações em que da crise nascem brotos de esperança, de conversão e vida nova. E esperança é como alimento, é porta aberta que indica um novo horizonte”. A viagem na BR-101 estava quase chegando ao fim. Antes de sair da rodovia, observei: “Eu preciso reforçar um aspecto do texto. Jeremias, esse profeta tão humano e autêntico chamado por Deus (1.4-10), denuncia vigorosamente os pregadores dispostos a nivelar tudo, líderes que, em público, se acostumaram a passar massa e tinta, sem se preocupar com as causas negativas, com as raízes dos males. Penso que a luta contra os falsos profetas continua sendo uma tarefa bem atual e difícil”. Perguntei adiante: “Quem é o dono da verdade hoje no mercado livre de ideias? Fazer a experiência da proximidade de Deus ou viver à distância dele permanece um problema de difícil equação. O Deus da família cristã não vem para confirmar as nossas esperanças e os nossos ideais. O juízo de Deus faz parte do evangelho”. Foi na cruz de Gólgota que se manifestou a ira de Deus e, simultaneamente, se evidenciou o seu grande amor. Acentuei: “No mundo religioso brasileiro, a fé está sendo mercantilizada e as pessoas consomem o que acham necessário às suas necessidades momentâneas. A palavra de Deus, no entanto, não serve ao consumo, tampouco é produto de sonhos ou objeto a serviço da domesticação de Deus ao gosto humano. Muitas são as lideranças sociais, religiosas e políticas em nosso país que se encontram mergulhadas no mar da sujeira e no lamaçal da corrupção e da falsidade”. Nesse contexto, olhando para a missão de quem exerce o ministério da Palavra na IECLB, é necessário que se tenha clareza sobre o nosso papel na sociedade e o que de nós se espera na vida comunitária. Nós, ministros e ministras, líderes comunitários, não somos o profeta Jeremias. Não é responsável projetarmos falsas pretensões proféticas para o desempenho de nossa missão. Ninguém pode se arrogar o direito de assumir exclusivamente
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o papel de “profeta verdadeiro”. Graças a Deus! Ele se revela e vem a nós “de longe”, sob forma estranha. Terminei a reflexão, partilhando ainda o seguinte: O Cristo da Cruz e da Páscoa desmascara a falsa pregação e as esperanças que nada são! Também a nossa! A palavra de Deus não se dilui em sentimentos humanos para satisfazer “sonhos e emoções do coração”. O profeta Jeremias está consciente de sua vocação por Deus. A Palavra (Deus dixit) tem autoridade e poder. O evangelho constitui comunidade e edifica a igreja. “Quando Deus fala, tudo em nós se cale!” (HPD I, nº 124). A palavra de Deus demonstra clareza, é luz que orienta. A falsa profecia é enganosa, confunde, é como a névoa. O homem de Deus, Jeremias, identifica os falsos profetas como “sopro, vapor, ilusão, sendo nada” (no hebraico: hébél). Jeremias denuncia as perigosas ilusões, “pois, dopado por falsas seguranças, o povo caminha alegremente para o abismo”. Na paisagem da religiosidade brasileira, as múltiplas ofertas de sucesso, prosperidade, curas, bem-estar, riqueza não deixam por menos: enganam, confundem os incautos, são como a névoa. Em seguida, deixamos a BR-101. A companheira de viagem agradeceu a conversa e me devolveu a Bíblia. Por fim, perguntou: “Como o senhor consegue conviver com esse Deus? Às vezes, Ele parece tão perto, outras vezes tão distante”. Respondi com palavras do profeta Jeremias: “Vocês vão me procurar e me achar, pois vão me procurar com todo o vosso coração” (Jr. 29.13). Deus busca o ser humano perdido. 3.2 – A palavra verdadeira O que caracteriza a Palavra Viva e Verdadeira? É Jesus Cristo, Verbum Dei = a palavra de Deus encarnada! Jesus Cristo é o referencial. Ele é palavra de Deus verdadeira, é evangelho (boa notícia). É Deus que merece confiança, a quem seguimos, ele é fonte de esperança e de vida nova! Na qualidade de igreja de Jesus Cristo, não há por que se alimentar de ilusões enganosas, profecias falsas, confusas. Por que se deixar envolver pela neblina que confunde, por que buscar sentido de vida no nada, nas aparências? Nos dias de hoje, há tantos profetas e profetisas que vendem caro as suas palavras, mas não falam a verdade. Em Jesus Cristo chegou “de longe” o verdadeiro profeta de Deus. O profeta Jeremias admoesta a desconfiar da enxurrada de mensagens positivas, um sonho de consumo, marca dos falsos profetas. A partir de Jesus Cristo, a palavra da Verdade encarnada, enxergamos a identidade de Deus, que é digna de crédito e de confiança. Desconfiado da perseverança de seus discípulos, Jesus perguntou: “Será que vocês também querem ir embora?” Simão Pedro respondeu: “Quem é que nós vamos seguir? O senhor tem palavras da vida eterna! E nós cremos que o senhor é o Santo que Deus enviou” (Jo 6. 67b a 69).
4 Recado para a prédica Os passos rumo à prédica poderão observar o roteiro do diálogo, suas ênfases, assim como aconteceu durante a conversa na BR-101. O roteiro da conver-
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sa poderá servir de fio vermelho. Quando adequado e contextualizado, o roteiro proposto poderá resultar em pregação interessante e atual. Fica evidente a costura efetuada entre o texto principal, Jeremias 23, e os textos previstos para as leituras, ambos do Novo Testamento.
5 Subsídios litúrgicos Prelúdio: Deus está presente, todos o adoremos, com respeito nos prostremos! Deus está conosco, tudo em nós se cale, Deus a nossas almas fale! Quem o ouvir ou sentir, baixe os olhos, crente! Vinde ao Pai clemente! (HPD 1, 124.1) Lema:
Quem ouve vocês está me ouvindo; quem rejeita vocês está me rejeitando, e quem me rejeita está rejeitando aquele que me enviou (Lc 10.16). Confissão de pecados: Ó Deus, quanta autossatisfação se faz presente em nosso dia a dia! Ouvimos o que gostamos de ouvir; enxergamos aquilo que queremos enxergar; falamos o que nossos ouvidos gostam de ouvir e o que não nos causa transtornos. Confessamos, ó Deus, que nossa autossatisfação não é o bastante. Carecemos de palavras verdadeiras que nos exortam, corrigem, consolam; necessitamos de palavras que vêm “de fora”, as quais nós mesmos não podemos dizer. Ajuda-nos, ó Deus, a nos libertar de aparências enganosas. Junto de ti, ó Deus, descobrimos a fonte que nos recarrega com novas forças, com um novo olhar e vida nova. Perdoa-nos quando vivemos a ilusão de construir vida sem a tua orientação e bênção! Anúncio da graça: Ó Deus, tu tens a última palavra sobre as nossas vidas – a tua palavra é de paz, mensagem de reconciliação, é oferta por causa de Jesus Cristo. No dia de hoje, a tua boa notícia está sendo, de novo, proclamada; por isso te agradecemos, te louvamos e cantamos alegres: Glória... glória... Oração do dia: Ó Deus, embora vindo “de longe”, do “alto”, vens ao nosso encontro na pessoa de Jesus Cristo. Ele é Palavra Verdadeira, Palavra da Vida para revelar a tua vontade. Concede à tua comunidade a presença do teu santo e bom Espírito; é assim que somos animados a viver vida nova e verdadeira. Em nome de Jesus Cristo. Amém. Intercessões: Ó Deus da Verdade, Tu nos presenteaste, no dia de hoje, com a boa notícia, mensagem consistente e verdadeira. Concede, ó Deus, que a tua Palavra venha a nós de forma clara e convincente. Chama e capacita pessoas, ministros e ministras, líderes para que semeiem credibilidade. Intercedemos pelas pessoas
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que vivem a ilusão dos sonhos do coração, pessoas dopadas por falsa segurança e esperanças ilusórias. Orienta e revela, através da vida exemplar de Jesus Cristo, o quanto tu és o caminho, a verdade e a vida. Rogamos pelas pessoas que são enganadas tanto no mundo religioso como na realidade social e política. Mostra o bom e verdadeiro caminho a quem vive desorientado, desesperado, entristecido. Intercedemos por nossas comunidades, pelos sínodos e por toda a tua igreja; recebemos o dom da vida e a qualificação para uma boa convivência. Dá-nos clareza para que possamos discernir as palavras, as promessas e as atitudes. Que tenhamos a sabedoria para resistir diante das falsas promessas, do curandeirismo e do consumo motivado por sonhos e que nascem das vontades próprias. Ó Deus, vem a nós e permanece com o teu bom Espírito entre nós. Em nome de Jesus Cristo, irmão, profeta e salvador. Amém.
Bibliografia GRIJP, Klaus van der. Meditação sobre Jeremias 23.16-2. In: Proclamar Libertação 4. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 1977. SCHUPP, Dieter. Meditação sobre Jeremias 23.16-29. In: Gottesdienst-Praxis. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 2000. JUST-DEUS, Tilman. Werkstatt für Predigt und Liturgie, caderno 4. BergmoserHöller Verlag, 2006.
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PRÉDICA: LUCAS 13.10-17
14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ISAÍAS 58.9b-14 HEBREUS 12.18-29
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Marcia Blasi
1 Introdução Os textos previstos para este final de semana convidam-nos a refletir sobre as diversas causas da opressão que sofremos e relembrar que Jesus veio para libertar as pessoas que estão cativas e ajudar aquelas que já não veem a enxergar novamente. Estamos vivendo, no ano litúrgico, o Tempo Comum: 14° Domingo após Pentecostes. É importante relembrar a comunidade e também todas e todos nós, pregadoras e pregadores, que Deus age em nosso dia a dia, nas coisas comuns, e não somente em grandes eventos. Jesus vem e nos liberta. Em Isaías 58.9b-14, Deus promete ao povo que onde justiça e misericórdia prevalecerem, ruínas vão ser reconstruídas e a luz vai brilhar na escuridão. Se o povo respeitar o sábado como um dia de descanso, Deus será sua alegria e haverá possibilidade de novos recomeços. O autor de Hebreus 12.18-29 contrasta o medo que as pessoas sentiram ao aproximar-se do monte Sião com a alegria daquelas pessoas que se encontram com Deus no seu Reino; apresenta uma imagem da Jerusalém celestial e da alegria com que as pessoas são recebidas lá. Não é preciso ter medo, diz o autor, pois lá há perdão em Cristo, e isso nos chama para a gratidão. O Evangelho de Lucas 13.10-17 relata a libertação de uma mulher de seu sofrimento, que acontece num sábado. Enquanto está ensinando na sinagoga, na casa de oração, Jesus vê uma mulher que sofre há dezoito anos por estar encurvada e não poder endireitar-se. Jesus a chama e liberta do mal que a aflige. Isso causa revolta entre as pessoas que se julgam protetoras da lei divina, especialmente da lei referente ao sábado. O tema que perpassa as leituras é o projeto de libertação de Deus. A libertação acontece em diferentes tempos e lugares, onde as pessoas clamam por ajuda e onde já não têm mais forças para lutar. O respeito ao sábado como um presente de Deus reservado para o descanso perpassa os textos.
2 Exegese O texto encontra-se cercado por parábolas. Na perícope anterior, encontramos a parábola da figueira, e, nos versículos seguintes, Jesus faz várias comparações para explicar como o reino de Deus é e como ele cresce. O texto de Lucas 13.10-17 também tem a ver com o reino de Deus e com as pessoas que participam dele.
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V. 10 – Certo sábado, Jesus estava ensinando na sinagoga. Sábado é dia de descanso e também de aprender na sinagoga. Sábado é dia de ouvir a palavra de Deus e dedicar-se somente a Deus. No sábado, não é permitido criar nada nem trabalhar. O sábado deve ser dedicado ao estudo da Torá e ao convívio familiar. V. 11 – Chegou uma mulher: o que a trouxe ali? Por estar com uma doença ou deformidade no corpo, a mulher certamente era vista como impura. Mesmo assim, ela foi até a reunião na sinagoga. Ela anda encurvada, não consegue se endireitar. Será que consegue olhar nos olhos das pessoas ou somente para seus pés? Não sabemos qual a doença, somente que é um “espírito mau”. A palavra astheneia é usada tanto neste versículo como no seguinte e, literalmente, significa um “espírito de fraqueza”. Muitas vezes, significa a incapacidade de fazer algo devido a alguma doença. V. 12 – Jesus anuncia para a mulher: “Você foi liberta” (apolyo) de sua doença. Apolyo não é uma palavra usualmente associada com cura. Seu significado mais comum é “libertar” ou “mandar embora”. Essa palavra está intimamente ligada à palavra lyo, usada duas vezes nesse texto por Jesus: “desamarrar” um boi ou jumento (v. 15) e “ ficar livre” da doença (v. 16). V. 13 – A consequência da palavras de Jesus é anorthoo (v. 13) – que quer dizer “ser endireitada novamente”, mas também significa “restaurar” ou “fazer correto novamente”. Em sentido figurado, Jesus restaura/liberta a mulher do poder de Satanás e garante sua pertença ao povo da aliança. V. 14 – É o líder da sinagoga que dá o nome de “cura” (therapeuo no v. 14 duas vezes) ao que Jesus está fazendo e, sendo assim, define a atividade dele como “trabalho”. Ele não consegue ver nisso o cumprimento daquilo que Isaías profetizara: a libertação da pessoa cativa e oprimida. V. 16 – A descrição da mulher como sendo “filha de Abraão” não é comum. Ela recebe uma posição de destaque. A mesma expressão também é usada em Lucas 19.9, quando Jesus insiste que Zaqueu é um “filho de Abraão” em contraposição à multidão que o considera pecador. Provavelmente, Jesus insiste nesse termo por entender que a mulher foi roubada de sua posição como participante do povo da aliança por causa de seu “espírito mau”, que habita seu corpo. Sua condição física, encurvada, dobrada, pode simbolizar sua posição social da mesma maneira que o tamanho de Zaqueu pode simbolizar sua vulnerabilidade diante da multidão. Além disso, a palavra para “presa ou prendeu” (deo) só pode ser usada para uma doença no sentido figurado, estando presa a alguma força externa. V. 17 – Enquanto os inimigos de Jesus sentem vergonha pela resposta que ele lhes deu, a multidão fica maravilhada com o que ele faz e agradece a Deus.
3 Meditação Sugiro enfocar na prédica a questão da libertação da mulher. Geralmente, há muito enfoque na questão do sábado. É preciso tomar bastante cuidado e entender bem a situação para não tornar a prédica um discurso antissemita. A questão do sábado é importante, mas mais importante é que Jesus veio para libertar as pessoas cativas de qualquer cativeiro em que estiverem sendo mantidas.
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Quem é essa mulher a quem Jesus liberta de seus males? Não sabemos seu nome, estado civil, idade. Sabemos que é mulher, e isso parece bastar para Lucas descrever o evento. É mulher, e mulher doente, mulher sofrendo com um “espírito mau”, um espírito que a deixa encurvada. Além de uma doença física, esse estar encurvada também pode ser entendido simbolicamente, chamando atenção para os poderes que oprimem as mulheres: violência psicológica, sexual, física, econômica, teológica, emocional. Não foi a mulher que procurou Jesus. Ela somente foi até a sinagoga. Ele a procurou e desejou libertá-la de seu sofrimento. Por que ela não tinha vindo até ele? Será que não tinha coragem? Não é assim também em nossas comunidades? Mulheres que sofrem com a violência doméstica têm muita dificuldade para pedir ajuda. Elas participam silenciosamente do culto, tentando a todo custo mostrar que estão bem, mesmo que isso as deixe encurvadas diante de Deus e da comunidade, incapazes de assumir alguma tarefa ou contribuir com seus dons. Será que nós vemos essas mulheres? Será que, assim como o chefe da sinagoga, nós desviamos nosso olhar para “coisas mais importantes”? Por que no sábado? Ela não estava correndo perigo de morte; ela vivia com essa doença há 18 anos. Por que Jesus não pôde esperar até o fim do sábado para curar a mulher? Uma das possíveis respostas é que, se Jesus esperasse, aconteceria somente uma libertação. Seria uma cura individual, e não parte de um processo coletivo de mudança de pensamento e fé. Jesus poderia ter esperado, mas ele optou por arriscar-se e com isso abrir os olhos de outras pessoas para que também elas vissem, assim como ele viu a mulher; vissem os sofrimentos ao seu redor e encontrassem na Lei de Deus elementos para incluir, para justiça e misericórdia, como diz Isaías. O chefe da casa de oração de uma maneira ou outra também está encurvado. Ele está encurvado diante da interpretação da Lei. Se, por um lado, isso é uma discussão teológica, por outro, o chefe da sinagoga tem o dever de zelar para que a Lei seja cumprida. É preciso um pouco de ordem e organização, é preciso seguir algumas regras. Em nossas comunidades, também temos essas discussões. Quem assume o papel de fazer cumprir as regras e manter a ordem em nossas comunidades? O foco de Jesus estava em libertar a mulher daquilo que a tinha encurvado e não em discutir o sábado. Jesus estava ensinando na sinagoga e viu aquela mulher, toda encurvada, que provavelmente só enxergava seus próprios pés, e seu coração encheu-se de compaixão. Ele se compadeceu do sofrimento dela e libertou-a do mal que a afligia. Sim, isso aconteceu no sábado. As pessoas pensavam que não deveria haver curas no sábado. A mulher sofria com a dor de seu próprio corpo e também com a opressão religiosa que a tornava “impura”. Considerando as diferentes camadas de opressão, é realmente algo fantástico que Jesus a viu. Ele a viu, chamou e tocou, e ela se endireitou e louvou a Deus. Reconhecer o sofrimento de uma pessoa, chamá-la pelo nome, tocá-la faz parte do processo de cura. Temos que ter clareza de que a cura não foi algo mágico e que de uma hora para outra tudo mudou na vida da mulher. Ela ainda tinha muito por lutar e para manter-se ereta, mas agora ela podia ver tudo por um outro
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ângulo, não mais o dos pés, mas olhando seu problema nos olhos e encarando de frente. De que maneira podemos tornar a comunidade um espaço onde as pessoas são vistas e seus sofrimentos considerados, impulsionando-as para buscar a libertação? Nesse encontro, Jesus demonstra a importância de cada pessoa no reino de Deus. É extraordinário que Jesus se refira à mulher como uma “filha de Abraão” (v. 16), uma cidadã da sociedade judaica. Com isso Jesus revela que o Reino está aberto a todas as pessoas, inclusive mulheres e pessoas com alguma doença. No tempo de Jesus, doenças físicas e mentais eram entendidas como possessões de Satanás. Ao ser curada, a mulher louva a Deus. Outro aspecto interessante é que o chefe da sinagoga não se dirige a Jesus. Ele não tem dúvida do poder de Jesus. Ele repreende o povo por buscar a cura no sábado, e Jesus envergonha-o com sua resposta, deixando claro o objetivo de sua vinda.
4 Imagens para a prédica Sugiro olhar ao redor na comunidade e perceber quantas mulheres estão “encurvadas” por poderes demoníacos, poderes que tolhem seus direitos de ir e vir, seu direito à dignidade ou a uma vida sem violência. Os números sobre a violência doméstica no Brasil são alarmantes. Quebrar o silêncio sobre essa questão no púlpito, visibilizando o sofrimento e deixando bem claro que ele não é vontade de Deus, é um passo muito importante para encorajar as mulheres na busca pela libertação oferecida por Jesus. Uma imagem muito significativa e que já foi experimentada é a imagem do vaso. Um vaso, assim como uma pessoa, pode não aguentar a pressão do que carrega e pode quebrar. Esse quebrar parece ser o fim, mas não é. Quebrar-se é uma fase na libertação. Um vaso quebrado pode ser colado. Não vai ficar igual e será preciso a ajuda de muitas mãos e uma boa cola: o amor. Mas o vaso pode ficar ainda mais lindo, pode guardar coisas novas, pode irradiar esperança. Esse texto e dinâmica foi utilizado no Primeiro Dia Sinodal da Mulher no Sínodo Noroeste Riograndense em 1999. O vaso foi quebrado durante a meditação da manhã e, durante todo aquele dia, dezenas de mulheres auxiliaram na sua reconstrução. Foi um processo lindo, e o vaso continua a fazer parte das celebrações na Comunidade em Santo Ângelo/RS. Essa dinâmica poderia ser realizada em algum grupo da comunidade, e o resultado apresentado no culto, bem como as conversas em torno do tema podem servir de alimento para a pregação.
5 Subsídios litúrgicos Kyrie: “Pelas dores deste mundo” (Rodolfo Gaede Neto) Oração de intercessão: Como pessoas libertas por Cristo e guiadas pelo Espírito Santo, entregamos nossa oração a Deus na certeza de que Deus nos ouve. Oramos pelas pessoas encurvadas por opressão, fome, doença, violência e desrespeito. Oramos para
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que em todos os lugares ergam-se líderes que se empenhem em restaurar vidas e libertar pessoas daquilo que as oprime. Oramos por líderes mundiais para que não se curvem diante do poder econômico que destrói vidas, rouba infâncias e entrega à miséria milhões de seres humanos. Oramos por líderes religiosos e religiosas do mundo para que, através de interpretações bíblicas libertadoras, restaurem a saúde teológica nas religiões. Oramos por todas as mulheres que diariamente são oprimidas e sofrem violência no trabalho, na rua e principalmente dentro de casa, para que encontrem nas atitudes de Jesus forças para lutar contra a opressão. Oramos por esta comunidade para que se empenhe cada vez mais na construção de um mundo justo e digno para crianças, mulheres, homens e toda a criação. Oramos pelas pessoas encurvadas pela doença, luto e dor, especialmente por... Oramos por todas e todos nós, liberta-nos de nossa mania de autossuficiência e de nossa dependência daquilo que nos oprime.
Bibliografia STOFFREGEN, Brian P. Exegetical Notes at Crossmarks Christian resources. http://www.crossmarks.com/brian/luke13x10.htm. Acessado em: 25 de maio de 2012.
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PRÉDICA: HEBREUS 13.1-8,15-16
15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
PROVÉRBIOS 25.6-7 LUCAS 14.1,7-14
01 SET 2013
Aline Danielle Stüewer Joel Haroldo Baade
1 Introdução Todos os textos bíblicos indicados para este dia falam do comportamento que uma pessoa cristã deve ter. No texto do evangelho, Jesus chama a atenção das pessoas que buscam sempre ser exaltadas e recompensadas. Ao invés de esperarmos ocupar lugares de honra e destaque, é mais prudente e sábio agirmos com humildade. Também o texto de Provérbios ensina que não devemos nos gloriar e nos fazer de importantes. Já o texto de Hebreus destaca atitudes mais concretas que uma pessoa cristã deve ter, como amor fraternal, hospitalidade, empatia, fidelidade. Todas essas seriam atitudes que agradam a Deus e o verdadeiro sacrifício de um cristão.
2 Exegese O gênero literário do livro de Hebreus assemelha-se mais a uma “prédica” do que a uma carta. Apesar de o livro ser chamado de “Carta aos Hebreus”, não há nenhuma indicação específica de destinatário. Pelo conteúdo da carta, o povo para o qual se destina a “prédica” pode ser tanto judaico-cristão como gentílico-cristão. De qualquer forma, é importante saber que a “prédica” destina-se a cristãos tentados e desanimados. A segunda geração de cristãos parece estranhar o fato de que o caminho para a glória prometida é tão cheio de tribulações. Muitos cristãos cansaram-se de viver uma vida de fé e estavam voltando a viver uma vida mundana (13.13s). Hebreus, portanto, têm um objetivo bem pastoral: procura responder a questões bem concretas da comunidade (FRIEDRICH, 1994, p. 246). O v. 1 fala da importância do amor fraternal. Ou seja, aquela forma de amar que o próprio Cristo ensinou. Um amor que se doa, que não busca os próprios interesses, mas vai em busca do próximo. Cristão não se é somente em alguns momentos da vida, mas a cada dia. O amor fraternal não é instável, mas sereno e constante. A maior diferença entre as diferentes versões do texto é apresentada pela Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH): “Continuem a amar uns aos outros como irmãos em Cristo”. O substantivo feminino philadelphia aparece mais duas vezes no Novo Testamento (Rm 12.10 e 2Pe 1.7) e é empregado para expressar a relação entre os cristãos. 2 Pedro 1.7 ressalta que o relacionamento fraterno conduz ao amor verdadeiramente cristão. Não há caminho que conduz a Cristo à parte de um relacionamento fraterno entre os irmãos na fé. Portanto o
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v. 1 é a chave interpretativa para toda a perícope. Os demais versículos abordam desdobramentos desse amor fraternal que deve reinar entre os cristãos. O v. 2 fala da hospitalidade como uma prática do amor. A hospitalidade é mais do que apenas receber as pessoas em casa (NTLH), oferecendo comida e abrigo. Ela é uma característica do amor de irmãos e irmãs na fé. Trata-se de acolhimento e serviço desinteressado ao próximo. A prática da hospitalidade e do cuidado das pessoas que vêm ao nosso encontro não é simples lei, no sentido de uma exigência feita à pessoa cristã, mas dela depende o próprio aprofundamento da vida cristã. A mensagem do evangelho não chega às pessoas como algo que cai do céu, e sim através do próximo. Pelo acolhimento recebem-se muitas pessoas, também aquelas que são enviadas em nome de Cristo. O texto refere o recebimento de anjos sem que haja consciência disso. Etimologicamente, a palavra anjo significa “mensageiro” ou “aquele que foi enviado”. Hospitalidade é a abertura necessária para que o ser cristão possa frutificar. O v. 3 faz referência aos sofrimentos de muitos cristãos. Muitas pessoas que confessavam sua fé em Jesus Cristo eram perseguidas, presas, maltratadas e até mesmo martirizadas. Os cristãos são convidados a lembrar dessas pessoas como se o sofrimento delas fosse o seu próprio sofrimento. Não se trata apenas de trazer à lembrança, mas de provocar identificação (FRIEDRICH, 1994, p. 248). O v. 4 fala que o matrimônio deve ser vivido com respeito e fidelidade. Uma pessoa cristã deve respeitar seu cônjuge e viver com ele uma vida sem mácula. O v. 5 fala da preocupação exagerada com o dinheiro. A Bíblia na edição Pastoral emprega a expressão: “que a conduta de vocês não seja inspirada pelo amor ao dinheiro”. A NTLH utiliza “não se deixem dominar pelo amor ao dinheiro”. Já Almeida traduz “Seja a vossa vida sem avareza”. No grego, é empregada a palavra aphilargyros, que significa: livre de avareza, não cobiçoso, livre do amor ao dinheiro. Uma pessoa avarenta é aquela que tem um apego excessivo ao dinheiro, cheia de cobiça. Esse versículo sustenta a ideia passada pelos outros dois textos previstos para o final de semana de que a pessoa deve ser humilde e estar satisfeita com o que tem. A exortação é acompanhada da promessa de que Cristo sempre estará ao lado do cristão e não o abandonará. O amor ao dinheiro parece estar associado a um sentimento de vazio e incerteza. Muitas pessoas buscam preencher esse vazio por meio da aquisição de bens materiais. O v. 6 exorta para a confissão de fé. A vida cristã não é apenas obediência exterior e aparente a algumas leis, mas é confissão e testemunho para o mundo. A confissão é uma referência ao texto veterotestamentário do Salmo 56.3-4,9-11 e 118.6. A confissão de fé é contraposta ao medo e ao sentimento de abandono, característico de muitos cristãos da segunda geração. O v. 7 exorta à lembrança das pessoas de quem receberam o testemunho do evangelho. Daquelas que viveram a sua fé conforme a proposta de Jesus e que, muitas vezes, morreram por causa dessa fé. Essas pessoas devem ser tomadas como exemplos de cristãos, que, apesar das dificuldades, foram fiéis ao propósito de Cristo.
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O v. 8 lembra a fidelidade de Cristo. As pessoas são lembradas de que, apesar das adversidades, Deus permanecerá com elas hoje e eternamente, como tem sido desde o princípio. Os v. 15-16 enfatizam que a pessoa que confessa Jesus como seu salvador vive na prática aquilo que ele ensinou. O verdadeiro sacrifício a Deus é viver a prática da justiça, do amor, da comunhão. Enfim, o texto termina enfatizando que a pessoa cristã confessa sua fé por meio de sua maneira de ser. O amor fraternal, para o qual se chamou a atenção no primeiro versículo, compõe a moldura da perícope. Não há amor e fidelidade a Deus sem que os relacionamentos das pessoas reflitam esse mesmo amor e fidelidade em todas as esferas de suas vidas.
3 Meditação Jesus havia ensinado a seus primeiros seguidores uma nova maneira de viver. Ele mostrou às pessoas que a nossa vida deve estar baseada no amor ao próximo. Jesus propõe um estilo de vida simples, que não busca os próprios interesses. Numa sociedade onde predomina o individualismo, onde é considerado esperto aquele que pensa somente em si mesmo e não mede esforços para conseguir o que quer; numa sociedade onde a vida da maioria das pessoas está inspirada unicamente pelo dinheiro, levar a sério os ensinamentos e a proposta de Jesus tem se tornado cada vez mais difícil. Na época em que o texto de Hebreus foi escrito, as pessoas cristãs estavam questionando se a maneira como elas viviam realmente teria sentido. Essas pessoas estavam caindo na tentação de deixar de viver uma vida cristã baseada no amor e viver uma vida a partir daquilo que a sociedade ou o mundo prega. Nesse sentido, o texto é uma exortação para que as pessoas cristãs não deixem de viver conforme os ensinamentos de Cristo, pois Ele é e sempre será nosso único Senhor. Os primeiros cristãos viviam uma vida em comunidade, preocupados uns com os outros e ajudando uns aos outros. A sua maneira de viver contrastava com o modo de viver da sociedade em geral. Eles viviam o amor fraterno, a doação, o respeito, o altruísmo. Vivendo dessa forma e assim testemunhando sua fé em Jesus Cristo, muitos passaram por perseguições e até mesmo viravam motivo de escárnio. Esses cristãos foram desanimando e chegaram a se perguntar se valeria a pena continuar vivendo daquela forma. O texto é uma exortação para que não esqueçamos de viver conforme a proposta e o ensinamento de Jesus. Temos vivido conforme os ensinamentos de Jesus ou temos cedido ao estilo de vida proposto pelo mundo? Como comunidade cristã, temos vivido a proposta de Jesus? A sociedade tem pregado o amor ao dinheiro, a avareza, a prostituição, a vaidade e o individualismo. Como resultado, temos visto uma sociedade consumista, preocupada com marcas e aparência; pessoas que não respeitam o seu cônjuge e vivem um casamento de mentiras e traição; pessoas que prejudicam a saúde com cirurgias e esteroides em busca de um corpo desejado; pessoas que colocam como senhor de suas vidas o dinheiro e por ele são capazes de tudo. Como
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pessoas cristãs, somos convidadas a viver na contramão do mundo, em direção a Jesus. Mesmo que o mundo diga que é besteira ser honesto, mesmo que o mundo diga que ajudar o outro é ser burro, mesmo que o mundo diga que ser fiel é ser careta, Jesus nos diz: “Isso é ser meu seguidor”.
4 Imagens para a prédica Como ilustração, sugere-se a estória a seguir, que mostra que uma pessoa cristã precisa, através de sua maneira de ser, testemunhar sua fé em Jesus Cristo. Certa manhã, um homem estava parado com seu carro diante de um semáforo. A senhora à sua frente vasculhava alguns papéis no assento de seu carro. Quando o sinal mudou para verde, ela não percebeu e não obedeceu a seu comando – um sinal verde era um mandamento, e não uma sugestão. Quando o sinal mudou para vermelho, e ela ainda não havia partido, o homem (com as janelas fechadas) começou a gritar vários palavrões e a bater no volante de seu carro. Um policial, de arma em punho, bateu no vidro da janela e interrompeu suas expressões, dando-lhe voz de prisão. O motorista então começou a protestar, dizendo: – Você não pode me prender por eu gritar dentro do meu próprio carro. Você vai se ver comigo. O policial respondeu: – Não o prendi por gritar em seu carro. Eu estava imediatamente atrás de você no semáforo e o vi gritando e batendo no volante. Então disse a mim mesmo: Que imbecil! Mas não há nada que eu possa fazer a ele por ter tido um acesso de raiva em seu próprio carro. Então notei uma cruz pendurada no espelho retrovisor, a etiqueta amarela com as palavras “Escolha a Vida”, o adesivo no para-choque com a frase “Jesus em breve voltará” e o símbolo do peixe. Por isso pensei que você havia roubado o carro.
5 Subsídios litúrgicos Sugere-se que, na elaboração da liturgia, se destaque a frase: “Somos chamados a ir na contramão do mundo, em direção a Jesus”. Algumas sugestões de hinos para serem cantados no culto: HPD 178 e 411.
Bibliografia FRIEDRICH, Nestor Paulo. 15º Domingo após Pentecostes. ��������������� In: STRECK, Edson; SCHNEIDER, Nélio. Proclamar Libertação 20. São Leopoldo: Sinodal. p. 246-250. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1985.
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PRÉDICA: LUCAS 14.25-33
16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
DEUTERONÔMIO 30.15-20 FILEMOM 1-21
08 SET 2013
Guilherme Lieven
1 Introdução Ter a coragem de deixar o abrigo. Despir-se de tudo o que se tem. Relativizar todos os meios de segurança. Abdicar de privilégios e prêmios. Eis o desafio singular neste tempo em que nos convencem a salvar a nós mesmos. Essas atitudes e desafios estão relacionados às exigências para o seguimento a Jesus, presentes no texto de Lucas, indicado para a pregação, e nos textos bíblicos de leitura no culto do 16º Domingo após Pentecostes. O texto de Deuteronômio (30.25-20) apresenta a necessidade de opção. Amar a Deus, seguir os seus mandamentos e permanecer em comunhão com Ele resultarão em bênção, longevidade e prosperidade. Já a idolatria e o abandono a Deus causarão a destruição. Permanecer com Deus significa obediência e seguimento aos mandamentos. A carta de Paulo a Filemom menciona a prisão como consequência do seguimento a Cristo. E ainda destaca a transformação que o seguimento a Jesus causa, representada pelo novo nascimento de Filemom e espelhada no seu cuidado à comunidade e amor ao povo de Deus. A fé e o amor de Filemom despertam em Paulo alegria e coragem. Com essas observações proponho a busca pela mensagem do evangelho presente no texto de Lucas, a ser proclamada no culto e na pregação a serem preparados.
2 Exegese Para encontrar a mensagem central de Lucas 14.25-33, consideramos importante a parábola anterior, que ilumina o descaso de alguns ao convite de Jesus para participar do banquete do reino de Deus. Mas outro segmento de pessoas, socialmente identificado, aceita o convite para a festa da vida com facilidade e alegria. Da mesma forma, a parábola do sal, após nosso texto, censura a comunhão sem gosto, sem comprometimento visível ou real. A primeira leitura dos versículos 25 a 33 cria a impressão de que o seguimento a Jesus não é coisa para multidões (v. 25). Porém, no texto anterior, o dono da festa almeja a casa cheia (v. 23). Jesus afirma que as “portas do reino” estão abertas para as pessoas que o amam mais do que a si mesmas e a sua família – abrigo, proteção, sociabilidade, segurança alimentar, identidade, sabedoria e valores do clã (v. 26). O seguimento inclui a coragem de morrer, de perder e
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assim mesmo o seguir (v. 26), numa comunhão de vida e destino. A participação no reino de Deus, conforme os evangelhos sinóticos, é sempre mediada pelo seguimento a Jesus. Também os textos de Marcos (1.18; 2.14; 6.1 e outros) indicam que os seguidores de Jesus compunham um círculo mais restrito. O chamado e o comprometimento envolviam a submissão à autoridade de Jesus, tendo em vista a opção por uma adesão pessoal e duradoura. O verbo seguir descrevia a cumplicidade e fidelidade especial dos seguidores com Jesus. Certamente, na época, abandonar a família significava abandonar o clã, o projeto econômico e social de vida, também de subsistência. O seguimento a Jesus não incluía os privilégios dos sacerdotes e dos poderes da ordem do templo. Implicava submeter-se às privações da vida peregrina, exposta às ameaças e aos conflitos com os adversários e poderes estabelecidos. Mesmo sem grau de importância, vale observar aqui que João Batista foi um peregrino do deserto, e Jesus o peregrino das vilas e cidades. Lucas destacou esse perfil peregrino de Jesus (4.30; 5.12; 6.1,12,17; 7.1,11). Verificamos que Jesus, conforme Lucas, destaca a necessidade de conhecer as consequências da opção em juntar-se a ele. As parábolas da construção da torre (v. 28-30) e da preparação para a guerra (v. 31-32) enfatizam que a opção pelo seguimento a Jesus precisa ser refletida, medida e calculada. A conclusão do texto (v. 33) não deixa dúvida de que as exigências estão relacionadas ao “deixar tudo para trás”. O texto não nos autoriza uma amenização. O seguimento a Jesus pressupõe a coragem de romper com os compromissos e meios de vida anteriores à vocação. O tempo e o caminho são novos e determinados por Jesus. As comunidades cristãs pós-pascais encontravam-se fragilizadas pela transitoriedade de seus membros e por ameaças constantes como seguidores de Jesus. Em determinadas épocas, a perseguição inviabilizava a comunhão e esvaziava a fidelidade. As comunidades pós-pascais, em especial aquelas que foram berço para o Evangelho de Lucas, por volta dos anos 80, foram formadas numa estrutura social mais ampla, composta por pessoas ligadas às suas famílias, com profissão ou outro meio de sustento. O comprometimento com a comunidade cristã era desafiador, exigia muito. Exegetas informam-nos que Lucas buscou fazer frente também à crise de identidade das comunidades cristãs, instalada pelos contrastes entre as comunidades gentílicas e as judaicas. O retorno e o resgate da situação vivida pelo Jesus de Nazaré e seus discípulos foram escolhidos por Lucas como fundamento para destacar referências comuns para a construção da identidade nas diferentes situações. Assim pressupomos que os relatos dos evangelistas sobre as advertências de Jesus a respeito dos perigos que envolviam o seu seguimento, ao serem proclamados nas comunidades pós-pascais, integravam, com destaque, o conteúdo das parêneses. As palavras de Jesus, proclamadas nas comunidades, fortaleciam a opção, a fidelidade e a resistência às ameaças, à exclusão e ao enfraquecimento e, ao mesmo tempo, asseguravam identidade. A imagem do círculo dos discípulos de Jesus antes da cruz e ressurreição é apresentada com naturalidade, tendo a for-
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ma de modelo para a vida cristã, a única que conheciam, remetendo à equiparação da comunhão dos discípulos de Jesus com a comunhão com o Cristo ressurreto. Percebe-se nas comunidades pós-pascais a busca pela reprodução da obediência incondicional e contundente dos discípulos. Dessa forma, compreendemos a importância e o destaque à necessidade de os seguidores de Jesus, antes e depois da Páscoa, conhecerem as implicações e privações relacionadas ao seguimento ou à participação na comunidade. O conteúdo de fé das comunidades estava fundamentado no entendimento de que a participação na salvação acontecia por meio da comunhão com o Cristo crucificado e ressurreto, o Jesus histórico de Nazaré.
3 Meditação As comunidades de nossa IECLB, também as de outras denominações cristãs parceiras e ecumênicas nas pequenas e grandes cidades, estão expostas a diversos desafios. Em nosso tempo, a herança dos valores, metas, tradições e identidades do passado não são suficientes para legitimar a participação e o comprometimento de pessoas em comunidades que interagem com a realidade e seu contexto. A evangelização, a diaconia, a comunhão e a liturgia passam pelo desafio da atualização do discipulado, da fidelidade ao seguimento do Senhor da Igreja, Jesus Cristo. Tarefa nova e externa à dinâmica de exercício de poder instalado e institucionalizado, que devido aos contrastes e às oposições exige compromisso, fidelidade e amor, planejamento e reconhecimento dos perigos e das consequências envolvidas. A comunidade cristã é chamada para anunciar a dignidade e a plenitude da vida, responder à pergunta pelo sentido da existência humana, conjugando a ação profética de denunciar a destruição, a injustiça e a idolatria com o anúncio da presença do reino de Deus através dos espaços e sinais da gratuidade, comunhão e construção de igualdade e paz. Essa vocação está exposta a ambientes urbanos enormes, compostos por grandes aglomerações de pessoas, com suas múltiplas culturas, objetivos e projetos de vida, quase sempre confusos, enraizados em situações sociais diversas e conflitantes. Esse “mundo”, apesar da fragilidade e dos perigos, abriga o carisma da graça e do amor de Deus, que se instalam como espaço para o exercício comunitário e profético de revelar a vida nova em meio à dor, perdas, violência, injustiça, exploração. Deus está presente no mundo com sua missão. O texto de Lucas proclama que todos são chamados para dela participar, conscientes das demandas, compromissos e consequências relacionadas às exigências do seguimento a Jesus. Compõe o chamado de Jesus a arte de conjugar a parábola do banquete, encher a casa com aqueles que aceitam o convite e, ao mesmo tempo, a vigilância para constantemente desprender-se da sedução de tornar-se comunidade com as características de um “clã”, voltada para si mesma e autossuficiente, tal como um condomínio urbano que, ao criar uma infraestrutura para os seus moradores, isola da cidade, da comunidade maior, dos compromissos da cidadania e da construção do reino em meio à realidade de morte.
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Por graça e misericórdia de Deus é possível, ainda, nos colocarmos em diferentes contextos como aprendizes da revelação e do testemunho bíblico que nos comprometem com os sinais de nova vida, projetando-nos para além de nossos próprios limites. A nossa realidade está marcada pelas injustiças, violência, pobreza, fome, doenças, desestruturação familiar e pelo descaso aos valores da paz e às dádivas do evangelho. Nossa realidade caracteriza-se por uma situação em que a pobreza e a riqueza convivem e brigam no palco da indiferença, da omissão, do medo, da angústia e da fatalidade. Esse ambiente promove o distanciamento entre as pessoas, o esvaziamento dos valores de vida, da dignidade e da história. A palavra de Lucas 14.25-33 anima-nos a inspirar-nos na comunidade do Jesus histórico e nas dificuldades das comunidades pós-pascais. Indica a definição da vocação, lugar e missão da igreja ou da comunidade cristã nos diferentes contextos, como tarefa que assegura a identidade e comunhão com o salvador Jesus Cristo. Exige a apropriação das consequências do seguimento a Jesus e do aprendizado das comunidades pós-pascais, que não se conformavam com a fragilidade do engajamento de seus membros e dedicavam-se para não comprometer a dimensão diaconal de convidar, acolher e dar “colo” aos cansados e sobrecarregados, aos aflitos e excluídos.
4 Imagens para a prédica Certo de que a palavra de Lucas desafia-nos a proclamar as exigências do discipulado incorporadas ao carisma, dádiva, graça e tarefa da comunidade cristã, apresento indicações para a elaboração da prédica. Sugiro escolher e preparar quatro imagens: uma que visualiza situações de injustiça, perda e sofrimento; outra que comunica situações de conflito e criminalização da comunidade cristã devido ao teor e ao conteúdo de seu testemunho; a terceira, que enfoca a comunidade como espaço para o acolhimento, cuidado e diaconia; e a última, que aborda ações de testemunho, evangelização e missão. Elas poderão ser impressas e distribuídas no início do culto ou da celebração. Certamente, as imagens despertarão curiosidade e motivarão interpretações. Poderão também, caso a comunidade tenha esse recurso técnico, ser projetadas em uma tela. O objetivo é promover a aproximação e a identificação das comunidades de hoje com a comunidade pós-pascal dos discípulos de Jesus. Apontar para a fidelidade e o comprometimento com o discipulado a ser vivido em comunidades de fé contextualizada, compostas por pessoas, filhas e filhos de Deus, santas e pecadoras, cidadãs do mundo e já participantes dos sinais do reino de Deus. Ajudar os ouvintes a libertar-se de posturas fundamentalistas e incorporar a simultaneidade, o já e o ainda não, que desautorizam o juízo humano e o afastamento da realidade e do contexto, mas que despertam para o discipulado ao Deus presente com sua missão transformadora. Na elaboração dessa mensagem para um público-alvo, marcado pela realidade das cidades, torna-se fundamental considerar que o “mundo urbano”, o
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cotidiano e o movimento pela sobrevivência dificultam comprometimentos, fidelidade comunitária e a apropriação de valores da partilha e da gratidão, do serviço e do amor. Nessa realidade, não é comum fazer cálculos e planejar opções e compromissos. As pessoas estão envolvidas e “afetadas” pela dinâmica do improviso, do provisório, simples e prático. O comum é usufruir de tudo o que está em volta, uma espécie de cultura do aproveitamento e da instrumentalização de tudo para meu próprio benefício. A tendência é aproximar-se de Jesus com os vícios e as atitudes de consumo. O texto de Lucas, no entanto, não autoriza julgamentos e condenações. Inspira a mensagem que ajuda o fortalecimento do discipulado e da comunidade cristã com seus carismas, desafios e tarefas curadoras e transformadoras.
5 Subsídios litúrgicos Na Invocação, facilitar a identificação do trino Deus com o contexto das pessoas que participam do culto. Exemplo: “Esse é o Deus presente nas ruas, becos e estradas, o Deus salvador que nos chama para denunciar as ações e poderes multiplicadores da morte, o Deus Espírito Santo que coloca em nossas bocas palavras de ânimo e consolo nos momentos difíceis”. No Kyrie, dar nomes às situações de sofrimento, injustiça, engano, omissão e perseguição, também às vítimas dessas situações rompidas com a vida e com a dignidade. Preparar com antecedência um grupo da comunidade para expressar, em um grande cartaz, palavras, escritas em cores diferentes, que apontam para perdas e sofrimentos. Na mensagem, na prédica, mencionar essas mesmas situações (fazer a ligação, não deixar desconectado com a mensagem). Confissão de fé: Não acreditamos nas leis que legitimam a violência; não acreditamos na linguagem das armas e do poder. Acreditamos no direito dos humanos de ser humanos, no poder da não violência, na educação pela paz. Não acreditamos em raça ou riqueza, em privilégios; não acreditamos na impunidade, na indiferença; não acreditamos que a fome, o abandono e a guerra sejam inevitáveis, que a paz não possa ser alcançada. Acreditamos que o mundo inteiro é o nosso lar, que a justiça é a mesma aqui e acolá, que não estou em liberdade enquanto um único ser humano é escravo. Não acreditamos que todos os esforços para testemunhar e viver o amor, a graça e a eternidade sejam em vão; não acreditamos que a morte seja o fim. Acreditamos nas pequenas ações, no amor que parece ser fraco. Acreditamos no Deus vivo, no novo céu e na nova terra, onde a paz e a justiça formarão a plenitude. Amém. Bênção: Paz para todos os povos, do Oriente e do Ocidente; Paz para as cidades, vilas, campos e montes; Paz para todas as mulheres e homens; Paz para todos os enfraquecidos;
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16º Domingo após Pentecostes
Paz para adolescentes, jovens e crianças de todas as idades e em todos os lugares; Paz para todos nós aqui reunidos; Que a paz suprema de Deus Pai e do Filho e do Espírito Santo irrompa para além dos horizontes.
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PRÉDICA: ÊXODO 32.7-14
17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 15.1-10 1 TIMÓTEO 1.12-17
15 SET 2013
Astor Albrecht
1 Introdução O texto-base para a prédica trata da narrativa do bezerro de ouro. O povo pede a Arão que faça um deus que o leve à terra prometida. Com isso o povo quebra a aliança com o Senhor. Essa desobediência traz duras consequências: Deus não mais quer ir com o povo. Deus só não destrói o povo (v. 10) porque Moisés ora em seu favor (v. 11-13) e faz com que Deus mude de ideia. Há graça e misericórdia para o povo, que tem um coração duro. As duas parábolas de Lucas 15 – a ovelha perdida e a dracma perdida – também revelam compaixão quando se encontra o perdido. Na leitura da epístola, Paulo apresenta seu testemunho da graça e misericórdia de Deus, que o encontrou. Apesar de todo mal que fizera, inclusive ter perseguido a igreja de Cristo, a graça foi maior (transbordou). Essa graça e misericórdia são oferecidas, em Jesus Cristo, a todas as pessoas.
2 Exegese O capítulo 32 retoma a narração interrompida em Êxodo 24.18. Ali, por ordem do Senhor, Moisés sobe o monte, onde recebe as tábuas de pedra com as leis e os mandamentos que devem ser ensinados ao povo. Moisés subiu e permaneceu no monte pelo período de 40 dias. Assim a narrativa é interrompida e, nos capítulos 25.1-31.17, temos as prescrições para a construção do tabernáculo. O capítulo 32 inicia um novo bloco, que trata da ruptura e da renovação da aliança do Senhor com Israel. Para a compreensão do texto da prédica e a preparação da mensagem, inicio com algumas considerações sobre o contexto anterior ao texto da prédica. Ali é narrado o fato de Moisés tardar em descer do monte. O povo já não sabe o que lhe aconteceu e não mais espera pelo “homem que nos tirou do Egito” (v. 1). O povo pede a Arão que lhe faça deuses que possam ir à sua frente. Arão derrete o ouro que o povo lhe traz e derrama dentro de um molde, fazendo um bezerro de ouro. Devido à sua força e vitalidade, o touro era, no Antigo Oriente, o símbolo por excelência da fecundidade masculina, e vários deuses tinham-no como símbolo. Um exemplo típico é Baal, o deus cananeu das tormentas, que costumava ser representado como estando de pé sobre um touro jovem, simbolizando seu poder de fecundidade. É interessante observar que a fala de Arão no v. 4 – “São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” – é praticamente a mesma de Jeroboão I, quando esse apresenta ao povo os bezerros de ouro que
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havia mandado colocar nos santuários de Betel e Dã (1Rs 12.28). Arão constrói um altar diante do bezerro e conclama o povo para uma festa em honra ao Senhor (v. 5). Essa expressão pode indicar que os israelitas queriam continuar prestando culto ao Senhor e não a um deus diferente daquele que os havia libertado da escravidão no Egito. Ao menos para Arão, parece que o bezerro de ouro não era um deus pagão, mas uma representação do Deus de Israel. Mas o fato de associar o Deus de Israel à imagem do bezerro, símbolo característico das religiões pagãs, era incompatível com o culto que o Senhor esperava de seu povo. O v. 6 descreve a festa. Em Gênesis 26.8 e 39.17, o verbo hebraico aqui traduzido por “divertir-se” refere-se a práticas de caráter sexual. Esse versículo é citado em 1 Coríntios 10.7 como um caso representativo da infidelidade e idolatria dos israelitas no deserto. Levando em conta esse contexto, chegamos ao texto indicado como base para a prédica. No v. 7, o Senhor diz a Moisés para descer do monte. As palavras parecem soar duras: já não é mais o meu povo, mas sim “o teu povo”. Não o povo que o Senhor fez sair da escravidão, mas que Moisés fez “sair do Egito”. São palavras que revelam afastamento, distanciamento. A comunhão está quebrada. A desobediência afastou o povo de seu Deus (Dt 28.20). É como o profeta Isaías anuncia: “As vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (59.2). No v. 9, parece que é feito uma espécie de exame para descobrir a razão do povo para abandonar tão rapidamente a Deus: “é povo de dura cerviz”. Na tradução de Lutero lemos: ein halsstarriges Volk ist. Quer dizer, é povo teimoso, obstinado, inflexível, cabeçudo. Parece que essa é a “marca”, se é que podemos assim dizer, do povo na caminhada da libertação para a terra prometida. Ela está muito presente nos textos bíblicos. Exemplos: Êx 33.3,5; Dt 9.6; Is 48.4; Jr 11.8; Ez 2.4. No Novo Testamento, essa expressão é usada por Estêvão em sua defesa e aplicada aos líderes judeus que resistiam ao Espírito Santo ao não aceitar a boa-nova de Cristo (At 7.51). No v. 10, Deus pretende recomeçar a história toda de novo, dessa vez com Moisés. Foi assim após o dilúvio, com Noé e sua família. Deus pretende destruir o povo e fazer de Moisés uma nova e grande nação. Temos então um momento importante e decisivo: Moisés intercede pelo povo. No v. 11, ele ora com grande súplica ao Senhor. Lembra que esse povo que pecou e que tem um coração obstinado é, na verdade, o “teu povo”. Um povo que não estava ali porque Moisés o tinha tirado do Egito, mas sim porque o Senhor o libertara “com grande fortaleza e poderosa mão”. No v. 12, Moisés declara que a destruição do povo serviria como um mau testemunho da própria obra de Deus, ou seja, esse tiraria o povo da escravidão não para conduzir à liberdade e vida nova na terra prometida, mas sim para destruí-lo no caminho. As palavras de Moisés na oração soam fortes e intensas. Entendo essas palavras de sua oração como feitas por quem tem proximidade com Deus, comunhão, intimidade, que vê e crê em Deus não como um juiz severo, mas como um Pai que por amor também repreende e castiga.
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No v. 13, Moisés lembra que tudo o que Deus fez até ali por esse povo foi em fidelidade às suas promessas a Abraão, Isaque e Israel/Jacó (Gn 17.8; Êx 2.24). Não é que esse povo seja melhor do que outros povos; ao contrário, já foi constatado que é povo de “dura cerviz”, mas é porque Deus é misericordioso e fiel em sua palavra e promessa que ele o resgatou e manteve até ali. Moisés intercede e pede a Deus que ele assim continue e, naquela ocasião específica, conceda o perdão e a oportunidade ao povo para recomeçar. O v. 14 finda com a afirmação de que Deus ouviu a oração de Moisés pelo povo.
3 Meditação Compartilho a meditação considerando quatro temas que o texto bíblico nos apresenta. Eles podem ser trabalhados em sequencia, podendo receber maior ou menor destaque de acordo com a realidade e a necessidade da comunidade. O primeiro tema é como percebo a presença de Deus na caminhada de minha vida pessoal, familiar e comunitária. O v. 8 diz que o povo “depressa se desviou do caminho”. Na parábola de Lucas 15, poderíamos perguntar: por que a ovelha se perdeu? Como a moeda foi perdida? Se nós confessamos que é junto a Deus que nos é oferecido um caminho de vida e salvação, então por que afastar-se dele? Se ele conduz a pastos verdejantes, por que vou procurar outro lugar, talvez distante dele? Se a comunidade é lugar para ser fortalecido na fé, lugar de comunhão entre irmãos e irmãs, por que alguns se afastam? Nesse primeiro tema para reflexão, destaco a importância de não esquecer aquele que me sustentou até aqui e que esse é o mesmo que vai à minha frente. Isso em si não tem nada a ver como está a minha/nossa situação, mas sim como estão o coração e a fé que descansa e espera no Senhor. Não foi uma situação adversa que afastou o povo de Deus, mas sim seu coração duro. Em sequencia, podemos refletir sobre o símbolo do poder. O povo que tinha uma longa jornada pela frente precisava algo de concreto em que acreditar de que tudo daria certo e chegaria ao destino. Para isso fizeram o bezerro de ouro. O que dá confiança para as pessoas de que no caminho que têm pela frente podem ter segurança? O que buscam para se sentir felizes, satisfeitas em sua vida? Muitas ofertas são feitas diariamente. Há muitas vozes anunciando o que as pessoas precisam para estar de bem com a vida. Dinheiro, status, fama, bens e poder sempre foram e são os mais anunciados e buscados. No coração do ser humano, há lugar para o “bezerrinho de ouro”. E, para mantê-lo, muitos se afastam de Deus, da comunhão na igreja, da própria família e de si mesmos. Em terceiro lugar, o texto deixa clara a dura realidade do que significa afastar-se de Deus. Aprendemos que o maior de todos os mandamentos (amar a Deus) não deve ser esquecido. Todo pecado separa e afasta de Deus, afasta as pessoas umas das outras. E quando não é confessado, traz consequências (Sl 32.3-4). O coração duro e teimoso do povo deu origem a muitas situações difíceis e de sofrimento para todo o povo. Não é diferente hoje. Há sofrimento na família quando alguém da casa é insensível e ríspido com os demais; a comunidade sofre prejuízo quando pessoas só criticam ou determinam que seu jeito de viver a fé em
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comunidade é o certo. Mas é aqui que também o texto bíblico abre uma grande oportunidade: é justamente em nossa pequenez, nosso erro e fragilidade que o Senhor revela sua misericórdia e seu amor. Nenhuma situação de dificuldade e sofrimento pode decretar a ausência de Deus ou que não se possa mais esperar nele. Pelo contrário! Esse povo que caiu pode recomeçar. Isso passou por disciplina da parte de Deus. Mas, no final, Deus continuou com seu povo (Êx 34). No conjunto do relato, o Senhor revela-se como Deus que faz prevalecer a misericórdia e o perdão sobre o juízo e o castigo. Isso nós também vemos no testemunho de Paulo no texto de leitura, onde ele confessa que foi “blasfemo, perseguidor e insolente”, mas a graça do Senhor foi maior e ele foi feito testemunha para todas as pessoas da salvação de Deus. Ele achega-se humildemente a Deus. Sem arrogância, sem vanglória, sem afirmar “consegui sozinho”. Também não fazemos pose de campeão e não reivindicamos vitórias. Antes colocamos corações maculados na palma das mãos e oferecemo-los a Deus como uma flor pisada e sem perfume: “você pode dar vida a isso?”. E ele dá. Ele dá! Não nós. Ele realiza o milagre da salvação. Mergulha-nos em sua misericórdia. Costura a nossa alma esfarrapada. Deposita seu Espírito e implanta dons divinos. O nosso grande Deus abençoa a nossa pequena fé e redime para dar vida nova. Por fim, temos o tema da intercessão. Moisés intercedeu pelo povo para que Deus perdoasse o pecado. Sua oração muda o desígnio de Deus, e a graça alcança o povo. Quantas situações e pessoas foram transformadas porque havia alguém que intercedia. Um grande exemplo é a mãe de Agostinho. Aqui vale lembrar a comunidade sobre o poder da intercessão (Tg 5.16). Devemos ser constantes nisto: orar uns pelos outros, lembrar-nos de quem enfrenta conflitos e não está sabendo como sair, interceder por quem está afastado. Como Deus se agradou da oração de Moisés, agrada-se também de nossa oração. As parábolas em Lucas 15 têm em comum as palavras “perder, achar e alegrar-se”. Elas devem animar a nossa intercessão, sabendo que por meio dela Deus opera, pois é fiel.
4 Imagens para a prédica Para ilustrar que a pessoa pode esquecer Deus como aquele que a sustenta e guia: Quando tinha três anos, o sobrinho pediu ao tio para jogar basquete. A bola era maior do que a caixa torácica do garoto. A cesta tinha o triplo de sua altura. Seus melhores arremessos não chegavam nem perto do objetivo. Então o tio resolveu ajudar: baixou a cesta de três metros para dois metros e levou-o para mais perto do alvo. Mostrou-lhe como flexionar os joelhos para dar impulso à bola. Nada ajudava. A bola nem passava perto da rede. Então o tio levantou o sobrinho. Com uma mão em suas costas e a outra debaixo do bumbum, ergueu-o até que os olhos dele ficassem na mesma altura do arco. O tio gritou: Vamos, faça uma cesta, garoto! E ele fez. Rolou a bola sobre a argola de ferro, e ela caiu. Como a criança respondeu? Ainda amparada pelas mãos do tio, ela ergueu os punhos para o alto e declarou: Consegui sozinho! Consegui sozinho!
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Um pouco de exagero desse garotinho, não acham? Afinal, quem o segurou? Quem o manteve firme? Quem lhe mostrou o caminho? Será que ele não está esquecendo alguém? Para ilustrar o coração duro do ser humano diante da palavra de Deus, compartilho um texto do P. Lindolfo Weingärtner: “Pedra deitada no leito do rio, banhada de água há muitos anos, em realidade só está molhada no lado de fora. A água não penetra nela. Uma esponja seca, mergulhada no rio, logo se enche de água. “Uma coisa que pode nos inquietar é ver como certas pessoas conseguem viver a vida inteira no âmbito e sob a influência do evangelho de Jesus e, no entanto, permanecer secas por dentro, sem deixar penetrar uma gota sequer no seu coração. A qualidade seca do coração não é problema para Deus. Ele dispõe de água abundante e ilimitada. A dureza do coração é coisa diferente. Aí a vontade íntima do nosso ser impede a entrada da água da vida, mesmo que Deus nos mergulhe no rio anos seguidos. “Semblante duro e coração obstinado – assim o profeta Jeremias descreve os filhos de Israel de seu tempo. Ele teria palavras muito diferentes para descrever a cristandade de nossos dias? Temos nós sede de Deus, do Deus vivo e fonte de toda a vida?”
5 Subsídios litúrgicos Hinos: Até aqui me trouxe Deus (HPD 1 – 233); Como tu queres, Senhor, sou teu (HPD 1 – 194); Ao orarmos, Senhor (HPD 2 – 423); Um só rebanho, um só pastor (HPD 2 – 328). Glória: Como convite para adorar e glorificar a Deus que está presente, pode-se ler 1 Timóteo 1.17: “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém”. Pode-se cantar com a comunidade um ou mais hinos de louvor a Deus por sua misericórdia, que se renova a cada dia. Oração de intercessão: Dar um momento para as pessoas intercederem pela vida de outras que enfrentam dificuldades ou que estão afastadas da comunhão na igreja.
Bibliografia BIBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri/SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. WEINGÄRTNER, Lindolfo. Parábolas da vida – meditações. Curitiba/São Leopoldo: Encontrão Editora/Editora Sinodal, 1998. p. 106-107.
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PRÉDICA: LUCAS 16.1-13
18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
AMÓS 8.4-7 1 TIMÓTEO 2.1-7
22 SET 2013
Roberto E. Zwetsch O elogio da esperteza e da precaução
1 Introdução A presença da parábola do administrador precavido no Evangelho de Lucas é uma importante razão para compreendermos que a vivência da fé cristã não se compara a qualquer falso moralismo. É muito interessante observar nas diferentes traduções e comentários do Evangelho de Lucas a maneira como se apresenta essa parábola do administrador. Vejamos: Bíblia de Almeida: A parábola do administrador infiel; Bíblia do Peregrino: Parábola do administrador; Bíblia de Jerusalém: O administrador prudente; Comentário Bíblico Africano: Faça amigos com sua riqueza. Essa breve consulta já dá alguma indicação como o texto tem sido interpretado nas igrejas cristãs e como é prudente evitar seguir os subtítulos dos comentaristas sem uma leitura crítica e própria dos textos para este domingo. Nada contra que se coloquem subtítulos nas perícopes. Mas cabem à pregadora ou ao pregador, vigilantes em sua tarefa de anúncio do evangelho, a liberdade e a responsabilidade pela interpretação da mensagem, sem se deixar determinar por leituras preconcebidas. Dito isso, é muito bom que tenhamos no evangelho um texto como esse que nos exige mais do que outros para bem interpretá-lo. O Comentário Bíblico Africano começa suas observações afirmando que muitos comentaristas consideram esse relato uma das parábolas mais difíceis, pois à primeira vista ela elogia a incompetência, a desonestidade e a corrupção. No entanto, um estudo mais apurado adverte-nos de que se trata antes de uma narrativa que elogia a prudência e a esperteza. É o que vou tentar expor no que segue em preparação para a prédica deste domingo. Em três volumes anteriores de Proclamar Libertação, essa perícope foi estudada: nos volumes 4 (Martin N. Dreher), 20 (Christoph Schneider-Harpprecht) e 26 (Carlos Luiz Ulrich). Quem puder, sugiro que dê uma olhada naqueles auxílios. Traduzem eficazmente as várias possibilidades de interpretação dessa parábola e sua aplicação já na comunidade de Lucas e, na atualidade, nas comunidades cristãs contemporâneas. Schneider-Harpprecht escreve que essa parábola, no fundo, ensina o que significa viver da graça. O texto é exclusivo de Lucas, dirige-se aos discípulos, sinal de que se trata de um ensaio para a práxis da comunidade, prin-
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cipalmente diante de perguntas que dizem respeito à ética das relações humanas, ao uso do dinheiro, mas também para além dele, ao questionar a visão moralista que age apenas em função de culpa e perdão.
2 Exegese O texto de Lucas 16.1-13 encontra-se na segunda parte do evangelho, no complexo que vai de 9.51 a 19.28, cujo tema é a resolução de Jesus de ir a Jerusalém. Storniolo aponta que essa decisão de Jesus significa ir da periferia para o centro, isto é, da Galileia dos gentios para a capital Jerusalém, onde se encontram o templo, a elite de Israel e o poder romano. Ali acontecerão o confronto definitivo, a morte na cruz e a surpreendente mensagem da ressurreição, que mudará a história do mundo. Podemos dividir o texto em duas partes: a) V. 1-7 – Jesus narra aos discípulos uma parábola sobre um homem rico que tinha um administrador. Esse foi denunciado (não se diz por quem) ao patrão por estar defraudando seus bens. O patrão exige prestação de contas, anunciando que vai despedi-lo. O administrador, então, dá-se conta da enrascada em que se meteu e pensa como pode prevenir o pior para o futuro. E age, pois pensa que não conseguiria trabalhar como agricultor nem admite mendigar para sobreviver. Então chama os devedores do patrão e faz um acordo com eles. Nesse momento da parábola, uma explicação ajuda a entendê-la melhor. Segundo as regras vigentes na época, o administrador tinha o direito de cobrar juros pelo que adiantava aos outros da fortuna do patrão. Uma parte desses juros ele entregava, e a outra, possivelmente a maior, ficava com ele. O que ocorreu nesse caso é que, diante da fatalidade do desemprego motivado por sua ganância em relação ao que ganhava, ele decidiu perder os anéis para não perder os dedos. Chamando os credores do patrão, diminuiu a dívida deles, assumindo perder o seu ganho com vistas a um apoio deles no futuro. Aí está sua esperteza: uma atitude precavida. Com a riqueza do outro ele procurou fazer amigos. b) V. 8-13 – Aqui temos a parte parenética da parábola e várias conclusões exortativas. Primeiro encontramos o elogio do patrão para com a atitude do seu administrador, porque agira com presteza e inteligência, demonstrando assim que sabia defender-se numa situação adversa. O comentário de Jesus é cortante: os filhos do mundo são mais hábeis do que os filhos da luz. Aqui se pode lembrar outro dito de Jesus em Mateus 10.16: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas”. O que segue é ainda mais intrigante, pois Jesus exorta a fazer amigos das riquezas de origem iníqua, de tal forma que, quando essas faltarem, os amigos recebam-nos de bom grado. Do v. 10 ao v. 13, o tema gira em torno de como se procede com a riqueza e o dinheiro. Há uma inflexão no tema proposto, pois o ensino encaminha-se para a fidelidade a Deus ou ao dinheiro, esse representando aqui o conjunto da riqueza. Quem é fiel no pouco é fiel no muito. Quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Fidelidade mostra-se desde a vivência cotidiana até os compromissos maiores e públicos. O que significa verdadeira fi-
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delidade no sistema econômico atual, que cobra juros escorchantes de todos nós, mas principalmente dos mais pobres? Um bom tema para debate seria verificar os juros que cada pessoa paga para usar cartões de crédito. Outro seria os impostos que todas as pessoas, independente da classe social a que pertençam, pagam cotidianamente no Brasil. A exortação chama a atenção para a maneira como agimos com aquilo que nos foi dado: Se não somos capazes de ser fiéis na aplicação da riqueza de origem injusta, quem nos confiará a verdadeira riqueza, a vida? Se não somos fiéis na aplicação da riqueza alheia, a graça – dom de Deus –, como Deus nos confiará o que é nosso e que recebemos de graça: a salvação? Por fim, o dito que conclui a perícope não deixa dúvidas: não podemos servir a dois senhores. Há que escolher a quem amar e servir: a Deus ou às riquezas. O pesquisador norueguês H. Moxnes fez um estudo sobre o conflito social e a economia na Palestina no tempo descrito pelo Evangelho de Lucas. Ele traz informações importantes para entender esse texto e outros desse evangelho. É sabido que Lucas dá um destaque especial aos pobres e enfatiza a crítica de Jesus aos ricos e poderosos (Lc 1.46ss; 6.20-26; 16.19-31). Mas é importante saber que os contrastes entre riqueza e pobreza no evangelho têm como pano de fundo uma sociedade camponesa em que havia pouco dinheiro e na qual as trocas davam-se normalmente de acordo com um sistema camponês de retribuição e reciprocidade. Claro que, mesmo nessa sociedade, já havia a aplicação de normas econômicas mais sofisticadas, como a cobrança de juros, por exemplo. Nessa parábola, temos um bom exemplo dessa prática, que também encontramos em outros textos. A riqueza, nas aldeias mencionadas nas parábolas de Lucas, contudo, vem da terra, e os ricos são proprietários de terras, pomares e rebanhos. Esses são poucos e, por vezes, vivem distantes de suas propriedades. Por isso podem arrendar terras, pomares e vinhedos, que ficam sob as ordens de administradores que empregam outros camponeses nesses trabalhos, geralmente sem terra. Quanto ao relacionamento entre as pessoas, Moxnes informa que esse normalmente ocorre entre parceiros desiguais. Por isso, seguidamente nos relatos do evangelho, encontramos personagens como “credor”, “devedor”, “senhor”, “senhorio”, “jornaleiro”. Trata-se de uma sociedade de gente muito pobre, em que havia muitos escravos nas lides da lavoura ou da casa. Era comum observar um relacionamento distante entre senhorio e servos; nesses casos, aparece como figura importante o administrador (oikonomos, ecônomo também em português). Ele é uma pessoa intermediária e responde perante o senhor por seus negócios com outros servos. O administrador dessa parábola era provavelmente um agente livre, que agia independentemente em nome do proprietário. Esse era uma pessoa ausente, mas rica e poderosa e que tinha obrigações com seus trabalhadores-clientes, entre as quais conceder empréstimos em anos ruins. O administrador podia negociar com os arrendatários os valores, de modo a ganhar sua gratidão e alguma compensação sob a forma de retribuição (16.4-8). Especificamente sobre essa parábola, a explicação mais razoável que se tem é que o administrador reduziu as dívidas, abrindo mão de sua comissão ou dos juros sobre o principal da dívida, que o arrendatário havia contraído com o senhor da terra. Os juros cobrados, por vezes, poderiam ser exorbitantes, de tal
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modo que não era impossível chegar até cem por cento (16.6). O administrador possivelmente foi pego numa prática iníqua, que o senhor julgou abusiva. Por isso foi denunciado e perdeu o emprego. Mas a história ganhou outros contornos pela forma como o administrador agiu após a má notícia que recebeu. A sociedade camponesa tem como característica as relações de clientela. O administrador sabia disso e agiu segundo esse padrão de relacionamento. Para se proteger do pior, ele fez uma aliança de favores com os arrendatários devedores de seu senhor, reduzindo suas dívidas, fazendo com que esses ficassem em dívida para com ele. Podia assim esperar por retribuição da parte deles quando fosse demitido do cargo. Valeu aqui a relação de reciprocidade com esperança de retribuições futuras, típicas de uma economia camponesa antiga. Moxnes explica ainda que, ao agir dessa maneira, o administrador transferiu a sua solidariedade do rico senhor para o grupo de devedores, ainda que por motivos egoístas (16.4; 16.8). Essa sua prudência, no entanto, tornou-se exemplo para os filhos da luz. E isso foi elogiado pelo patrão e por Jesus. Em sua recomendação, Jesus é enfático: “Eu vos recomendo: Das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando essas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos”. A comparação aqui dá um salto, pois o verbo receber (dexontai) é empregado na forma passiva e refere-se a um ato de Deus. Em Lucas 6.32-36, Jesus chama a atenção de que pecadores também são capazes de fazer o bem, dar e emprestar a seus amigos. Os seguidores de Jesus, porém, são desafiados a ir mais longe: a amar os inimigos, a fazer o bem e emprestar sem esperar recompensa. Essas atitudes, sim, terão grande recompensa por parte de Deus, e por isso essas pessoas serão chamadas filhos e filhas do Altíssimo. Usar o dinheiro da iniquidade nesses textos significa dar a quem necessita, é solidarizar-se com quem não pode retribuir, é agir sem esperar retorno. É andar a segunda milha, é realizar o extraordinário, é superar a regra e a rotina. É na base dessas ações extraordinárias que surge o que Lucas entende ser o “fazer amigos”. A amizade aqui é a superação da relação de clientela ou da reciprocidade equilibrada ou generalizada. Amizade aqui se baseia na igualdade entre as pessoas (14.10,12s; 15.6, 9, 29). Essa relação de amizade aponta para a solidariedade, a partilha, algo totalmente diferente das relações de exploração e desigualdade do sistema senhor/escravo ou senhor/arrendatários, meeiros, trabalhadores. Fazer amigos com o “dinheiro da iniquidade” aqui é o oposto da escravidão e diz respeito a uma relação libertadora. Uma última anotação quando ao conceito dinheiro, como aparece no v. 13. Por que Lucas pressupõe um relacionamento absolutamente hostil entre Deus e o dinheiro? Moxnes informa que esse versículo apresenta maior semelhança com o dualismo apocalíptico do que com o dualismo ético dos mestres gregos, o que também se aplica a Paulo, quando esse diz que não é escravo nem de Deus nem do pecado (Rm 6.19-22). Em Paulo, a liberdade do pecado que se dá pela fé mostra-se na prática da justiça para a santificação. Mas onde Paulo fala do pecado que escraviza, Lucas fala em “dinheiro”, e esse conceito exprime outra forma de relação social, por meio da qual o poder envolvido na posse de “bens” é personificado como uma força suficientemente poderosa para disputar com Deus o do-
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mínio do mundo. Importa aqui perceber que, para Lucas, que se fundamenta aqui no judaísmo e na profecia do Antigo Testamento, o dinheiro não era moralmente neutro. Ele é “dinheiro da iniquidade”. As duas parábolas do capítulo 16 mencionam estes aspectos: riqueza iníqua, gastos excessivos ou consumo ostensivo, desprezo pelo semelhante. Ricos, riqueza, ostentação e desprezo ou indiferença pelo semelhante são inseparáveis do “dinheiro da iniquidade”. Ora, se vivemos num mundo movido pelo dinheiro, todos nós vivemos implicados em relações de iniquidade. O que nos pode salvar dessa determinação? Somente relações de justiça e redistribuição livre e gratuita sem expectativa de retorno. Deus ou as riquezas colocam em oposição dois sistemas econômicos antagônicos e, talvez se possa dizer, excludentes: são modos diferentes de estruturar os relacionamentos interpessoais e sociais. No texto, bem ao estilo da visão apocalíptica, são alternativas absolutas. Nesse sentido, é bem interessante notar que diante das crises recorrentes do sistema capitalista mundial, sobretudo pelas distorções da economia monetária financeira promovida pelos grandes bancos e corporações (de 2008 até os dias atuais), economistas de renome vêm afirmando que somente um retorno da lei, da ética e da justiça poderá trazer uma “correção de fundo” ao capitalismo desenfreado e corrupto que vigora no mundo atual e que vem comprometendo a vida de milhões de pessoas em muitos países (Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Irlanda) (cf. entrevista com Eduardo Aninat, economista chileno, Zero Hora – Dinheiro, 03/06/2012, p. 6).
3 Caminhando para a prédica Christoph Schneider-Harpprecht resume a sua apreciação do texto de Lucas com os seguintes pontos: a – A verdadeira vida (vida eterna) não depende do dinheiro e das coisas que acumulamos com nosso trabalho e esforço. b – O dinheiro é um dono que escraviza a pessoa. A relação com as riquezas é uma relação de coração e de amor. c – Para a pessoa que segue a Cristo, servir ao dinheiro é idolatria. Ser discípulo ou discípula de Jesus e buscar riquezas são coisas excludentes. d – Para demonstrar fidelidade a Jesus, seus seguidores são desafiados a dar todos os seus bens aos pobres (Lc 18.18ss). e – Dar aos pobres ou solidarizar-se com eles serve para ganhar amigos para a eternidade (Lc 16.9). Vejo duas possibilidades para uma prédica a partir dessa perícope. Ambas são importantes e válidas, não obstante o grau de dificuldade que apresentam ao pregador ou pregadora. Essa parábola e sua aplicação exigem de quem prega aquilo que define um teólogo ou teóloga como luterano, isto é, a capacidade para discernir claramente entre lei e evangelho. Um caminho fácil seria fazer uma prédica moralista, condenando moralmente quem vive, trabalha e constrói seu futuro segundo as regras do sistema que atualmente domina o mundo: o sistema capitalista, o sistema baseado no dinheiro e no lucro. Uma vez que não existe
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outro sistema atualmente, a pergunta é como viver nele sem tornar-se servo dele, isto é, escravo do dinheiro e da corrida do lucro acima de tudo. Como servir a Deus hoje sem sucumbir ao canto de sereia do dinheiro, da fama e da ostentação? Descartado o caminho fácil (a interpretação moralista), proponho que meditemos sobre a atitude do administrador, elogiada por Jesus, e que de alguma forma lhe deu a chance de fazer amigos “das riquezas de origem iníqua”. No cabeçalho, coloquei um título provocativo: o elogio da esperteza e da precaução. Vejam que Lucas não tem qualquer ilusão a respeito do sistema em que vigora a lei do dinheiro. Dinheiro e relações de troca, baseadas no lucro, sempre implicam iniquidade, um certo nível de exploração. Disso ninguém escapa, até o mais piedoso dos cristãos. No Brasil, existe aquilo que ficou conhecido como lei de Gerson, aquela que ensina as pessoas a tirar vantagem em tudo. Trata-se de uma visão de vida profundamente egocêntrica e avessa a gestos de solidariedade, como propugnados pelo evangelho de Jesus. Não é o sentido que gostaria de dar aqui ao termo esperteza. Penso mais naquele sentido do dito de Jesus em Mateus 16: trata-se de ser espertos como as serpentes e simples como as pombas. Esperteza aqui teria o sentido de não ser ingênuo. Neste mundo de Deus, a ingenuidade pode comprometer vidas, e isso não é admissível para ninguém, ainda mais para quem se diz seguidor do Deus vivo, do evangelho da vida eterna. A mudança de atitude do administrador também pode ser compreendida como um gesto de arrependimento pela forma como se valeu do poder a ele conferido sobre os arrendatários. Arrependimento aqui significa reconhecimento e mudança de atitude. Não basta a mera confissão do mal feito. É preciso chegar ao gesto que transforma a vida. É nisso que se revela a metanoia ou conversão de que fala Jesus diante da aproximação do reino de Deus (Mc 1.15; Lc 4.18s). A esperteza, de acordo com essa perícope, parece que tem duas dimensões: a primeira remete a como preservar a vida em períodos maus, de desgraça e falência. Fazer amigos com o que se ganha nos períodos bons pode significar a salvação lá adiante, quando tudo pode ir de mal a pior. Mas uma segunda dimensão pode ser percebida nas entrelinhas: quem é fiel no pouco aprende a ser fiel no muito; ao contrário, quem é injusto no pouco será injusto no muito. O que isso quer dizer no contexto dessa perícope? Modestamente, vejo o seguinte: se não cabe ingenuidade na maneira de viver no mundo capitalista que hoje domina e controla nossas vidas, há, porém, brechas nele que nos possibilitam viver relações novas de justiça e solidariedade. Nenhum sistema é absoluto, muito menos o capitalista. Entretanto, o novo mundo com o qual sonhamos e que é possível, conforme o lema do Fórum Social Mundial, não nascerá por decreto nem numa revolução messiânica caindo do céu. Ele virá – mais dia menos dia, e talvez nós não o venhamos a conhecer – a partir de dentro do ventre da baleia, das contradições que abundam no sistema atual e que vão preparando sua derrota. É nesse sentido que imagino viver com astúcia e precaução a vida que nos cabe neste momento histórico. De acordo com o evangelho de Jesus, ações de justiça e solidariedade fazem, sim, diferença numa sociedade injusta e opressora. Ações de fidelidade ao que é bom para o outro e, no limite, para o inimigo são como janelas abertas para um mundo onde o sol – de fato – nascerá para todas as pessoas, sem distinção. Se
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ninguém pode servir a dois senhores porque amará mais a um do que a outro, ou seja, se não podemos servir a Deus e as riquezas ou, contemporaneamente, servir a Deus e seu evangelho ou ao sistema do dinheiro, é necessário refletir sobre o que isso significa numa sociedade cuja mola mestra é “ganhar dinheiro” e viver com o que ele proporciona ou permite. O economista Amartya Sen, indiano radicado na Inglaterra, Nobel de Economia em 1998, recentemente esteve no Brasil e afirmou com todas as letras que sem justiça nas relações internacionais o sistema capitalista não tem saída. O liberalismo já mostrou que não resolve os problemas humanos; ao contrário, só agrava ainda mais o beco sem saída em que nos encontramos na crise mundial. Ele afirma que vivemos num mundo injusto, marcado por fome, violência, guerra, morte prematura de milhões de pessoas, crise ambiental. Crítico do conceito liberal de justiça (John Rawls, 1971), o professor Sen mostra em seu livro (Uma ideia de justiça, 2009) que na vida real as pessoas lutam contra as injustiças e as circunstâncias de cada um fazem parte desse desafio cotidiano. A justiça pela qual vale a pena lutar é a justiça prática. Por isso a justiça tem a ver com a maneira como vivemos, ela é uma construção diária. Importa menos o aparato formal das instituições do que aquilo que sentimos (e fazemos, digo eu) no cotidiano, pois é nesse poder de discernimento e cuidado com o ‘outro’ que se encontra a chave para sociedades menos injustas (Zero Hora¸25/04/2012). Assim o pensamento de Amartya Sen. Ora, aí entra a meu ver o evangelho, justamente porque ele nos dá o poder de discernimento de que fala o professor Sen. Reparemos que discernir é a tarefa primeira do Espírito Santo na vida cristã. É o mesmo Espírito que nos faz crer em Jesus como o Cristo de Deus e que nos constrange ao cuidado com o outro ou ao amor sem medida (Rm 13.8; 1Pe 4.8). Aprender a fidelidade nas relações cotidianas é o melhor caminho para ser fiéis nas relações complexas e normalmente injustas do mundo atual. A justiça que buscamos e pela qual nos batemos como pessoas de fé e como comunidades cristãs não pode ser uma justiça ideal ou idealizada. Ela precisa passar pelo cotidiano, ali onde nos relacionamos com familiares, vizinhos, colegas de trabalho, cidadãos da cidade e até com os governantes. É interessante a convergência entre essa visão de justiça que passa pelo cuidado com o outro e a ideia de fazer amigos com o “dinheiro da iniquidade”. Vale aprofundar essa linha de pensamento para colocá-la em prática desde a vida pessoal, passando pelas relações comunitárias até chegar a uma proposta de sociedade que seja “menos injusta” ou “menos iníqua”. Nesse sentido, esperteza e precaução andam juntas com a busca pela justiça. Servir a Deus num mundo injusto pode levar a crises e conflitos, mas de Jesus aprendemos que quem é fiel no pouco será fiel no muito. Quem souber fazer amigos com o dinheiro de origem iníqua ou aprender a aplicar bem a riqueza alheia será recebido nos tabernáculos eternos e contará com a confiança divina para administrar a verdadeira riqueza, aquela pela qual vale a pena empenhar a vida.
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4 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: No início do culto, a pessoa celebrante poderia incluir na confissão de pecados a dificuldade que temos em nos abrir para o outro, para exercer o cuidado com o outro, independente de sua situação particular. Também é recomendável trazer a situação da comunidade e confessar que nem sempre ela segue o ensino do evangelho e por isso precisa se arrepender, mudar de vida, deixando-se inspirar pelo espírito de Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos. Hinos: A escolha dos hinos sempre é um bom exercício para ampliar o ensino e a mensagem do evangelho do dia. Sugiro o hino 336 (HPD 2) para entrada. Esse hino, com letra do nosso colega Claudio Kupka e música de João W. Dürr, é muito feliz ao vincular a comunidade reunida em culto com as pessoas que sofrem nas ruas, com os pequenos de quem poucos se lembram, com a criação que vem sendo sistematicamente destruída pelo sistema capitalista (lembrar a Conferência da ONU Rio + 20 sobre a crise ecológica internacional, na qual um significativo grupo de jovens e lideranças da IECLB se fez presente, como sinal de que a igreja está consciente do seu papel na transformação deste mundo, começando pelo cuidado com a criação). O hino 336 termina com um desafio: se ouvimos o evangelho com atenção, não nos deixaremos iludir pela propaganda. Pelo contrário, a palavra de Deus desafia-nos a desacomodar da vida tranquila para chegar até os aflitos deste mundo conturbado. Outros hinos possíveis: o Kyrie do colega Rodolfo Gaede: Pelas dores deste mundo (buscar na internet); o hino de Lutero (HPD 1, 97); por fim, o hino 350 (HPD 2) para o término do culto, de tal modo que saiamos para a missão de lutar por justiça restauradora na sociedade, fortalecidos pela graça do Senhor Jesus e pelo amor do Pai. Pensamento: “Quero ir com aquele/a a quem amo. Não quero calcular o que custa. Não quero refletir se é bom. Não quero saber se ele/a me ama. Quero ir com aquele/a a quem amo” (Bertolt Brecht). Bênção: “A bênção do Deus de Sara, Abraão e Agar, a bênção do filho nascido de Maria, a bênção do Espírito Santo de amor, que cuida com carinho qual mãe cuida da gente, esteja sobre todos nós. Amém!”
Bibliografia ADEYEMO, Tokunboh (Ed.). Comentário Bíblico Africano. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
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MOSCONI, Luis. Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas. Para cristãos e cristãs rumo ao novo milênio. São Paulo: Loyola, 1997. MOXNES, Halvor. A economia do reino. Conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. Trad. Thereza Cristina Stummer. São Paulo: Paulus, 1995. STORNIOLO, Ivo. Como ler o evangelho de Lucas. Os pobres constroem a nova história. São Paulo: Paulinas, 1992.
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PRÉDICA: AMÓS 6.1a, 4-7
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LUCAS 16.19-31 1 TIMÓTEO 6.6-19
29 SET 2013
Sigolf Greuel
1 Introdução Amós é contemporâneo de cada geração que está diante de seu próprio fim. Hans Walter Wolff A palavra de Amós 6.1a,4-7, como de resto todo o seu escrito, é dirigida às elites do povo de Deus em Jerusalém e Samaria. Nesse período, verifica-se um estado de paz e de bem-estar econômico e de prosperidade para boa parte da população. Essa situação gerou uma postura de autoconfiança, orgulho e autossuficiência nas elites, que viviam uma vida luxuosa, enquanto grande parte da população vivia à margem dos benefícios da prosperidade. A leitura bíblica prevista de Lucas 16.29-31 é uma palavra de Jesus endereçada aos fariseus, que consideravam a riqueza e o bem-estar como prova da justiça de uma pessoa e como sinal do favor de Deus. O homem rico vivia uma vida esplendorosa, ignorando, no entanto, a Deus e, por consequência, também o próximo necessitado que jazia à sua porta. Ao morrer, ele vai para o inferno, evidentemente não por ser rico, mas por viver longe de Deus. Ali ele clama por ajuda, mas recebe um não. O que aqui ele ignorou lá não pode mais ser corrigido. Já o homem pobre, apesar de todas as suas privações, coloca sua confiança no Senhor. Seu nome, Lázaro, significa: Deus ajuda. Ao morrer, ele vai para o céu, não por causa de sua pobreza, mas por causa de sua fé em Deus. A leitura bíblica de 1 Timóteo 6.6-19 é dirigida por Paulo ao jovem discípulo Timóteo, que muito provavelmente se encontra em Éfeso. Éfeso era uma cidade com uma boa situação econômica, e a igreja possivelmente tinha membros abastados. Assim, Paulo aconselha Timóteo a ensinar que a posse da riqueza acarreta uma grande responsabilidade e até risco. Os irmãos precisam cuidar para não depositar sua confiança no dinheiro. É preciso exercitar o contentamento seja qual for a situação econômica na qual se encontram. Assim, ela aponta para o vazio de uma vida que se concentra naquilo que é de natureza temporal, acentua que o contentamento precisa do mínimo para o sustento e adverte que cobiça egoísta tem resultados trágicos.
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2 Exegese 2.1 – Quem é Amós? Amós era natural de Tecoa (1.1), uma pequena cidade no topo de um monte a cerca de 20 km de Jerusalém e 10 km ao sul de Belém. Quando Deus o chamou para o ministério profético, ele estava cuidando do gado e colhendo figos silvestres (7.14), o que aponta com boa probabilidade para sua ocupação profissional. Importante ressaltar que ele não é sacerdote nem filho ou descendente de sacerdotes, mas é chamado ao ministério na condição de “leigo”. 2.2 – Contexto do texto Amós atuou durante o reinado de Jeroboão II, filho de Jeoás, que reinou sobre Israel (Reino do Norte) de 786 a 746 a.C. Essa foi a época em que o Reino do Norte atingiu sua época de maior prosperidade e paz. Havia paz com Judá, o Reino do Sul. Uzias era rei em Judá. A expansão crescente e o comércio em desenvolvimento trouxeram riqueza para o país, mas, simultaneamente às riquezas crescentes, houve um crescimento de males sociais: os ricos ficaram mais ricos, e os pobres ainda mais pobres. Amós pinta um retrato da época: destaca as muitas belas construções da capital Samaria (3.10), mas também aponta para o fato de que os proprietários dessas construções, os ricos mercadores e outros, eram homens que não se intimidavam com nada para aumentar os seus lucros. Eles ansiavam pelo fim do sábado para que pudessem voltar a fazer negócios (8.5). Os ricos apreciavam sua vida luxuosa e toleravam a voracidade de suas mulheres, que exigiam mais e mais luxo (4.1-2). Suas casas estavam repletas de tudo o que pudesse significar uma vida opulenta e confortável (6.4), enquanto os pobres eram sujeitados a uma ímpia exploração econômica (2.6-8; 4.1; 5.10-12; 8.4-6). O negociante pequeno era forçado a abandonar os negócios pelos grandes monopólios e não conseguia obter nos tribunais reparação alguma pelas injustiças sofridas. Testemunhas eram subornadas e juízes comprados (2.6; 8.5-6; 5.10). Ao lado disso, havia a perversão da religião. Ela era uma religião divorciada da vida. Havia demonstrações religiosas exteriores com as multidões, enchendo os santuários em épocas de grandes festas (4.4-5; 5.5), sem que, a partir daí, se verificasse qualquer mudança no cotidiano. Os rituais eram bem elaborados (5.21-24), mas os necessitados continuavam sendo oprimidos, a prostituição e a imoralidade continuavam presentes na vida diária (2.7-8). O livro de Amós como um todo é uma resposta de Deus à injustiça e à iniquidade reinante entre o povo de Deus. A revelação profética de Deus por intermédio de Amós foi dirigida contras três áreas da vida da nação: a administração da justiça nos tribunais, a afluência e a fartura dos abastados em contraposição à miséria de muitos e o culto sem frutos celebrado nos santuários. Amós denuncia
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uma justiça injusta; uma riqueza obtida com a opressão dos pobres; uma religião repleta de rituais sem quaisquer frutos de misericórdia, justiça social e igualdade. Amazias, o sacerdote, tentou impedir a pregação de Amós (7.10-13). Destemidamente, no entanto, o profeta continua a denunciar a situação na qual o povo se encontra e a anunciar o futuro julgamento de Deus. O livro de Amós termina com o anúncio de uma mensagem de esperança (9.8-15). 2.3 – O texto A expressão ai (6.1) introduz uma mensagem de ameaça e de juízo de Deus dirigida a seu povo. Embora Amós falasse ao Reino do Norte (Israel/Samaria), sua repreensão era dirigida também ao Reino do Sul (Judá/Jerusalém), denominado aqui de Sião (2.4-6). A partir de sua denominação como primeira entre as nações, as elites do povo de Deus são tomadas por um estado de orgulho e arrogância nesse momento no qual a nação se encontra em um momento de prosperidade. Há uma segurança no ar, mas ela é uma segurança falsa. A expressão homens notáveis, ao mesmo tempo em que define os destinatários primeiros da mensagem, representa uma ironia retórica. Verifica-se um orgulho que surgiu na magnificência do reinado de Jeroboão, em associação com a crença dos israelitas de que, visto que eram o povo de Deus, nenhum mal lhes poderia acontecer. Os v. 4-6 retratam um quadro de decadência afluente que caracterizava a vida dos abastados em Israel. Era uma vida de luxo egocêntrico, marcada por glutonaria, bebedeiras e extravagâncias. Aqui são mencionadas camas de marfim (v. 4). O marfim importado era considerado uma raridade e extremamente caro; até uma pequena peça desse material simbolizava luxúria e riqueza. Algo tão extravagante quanto um leito entalhado em marfim mostrava um grande desperdício de recursos, que, se bem administrados, ajudariam muitos pobres. Elas são prova de uma opulência que não beneficiaria seus donos no dia do juízo. Comem os melhores cordeiros (v. 4). Os banquetes eram comidos numa posição reclinada (sofás). Essa é a primeira menção na Bíblia da posição reclinada durante as refeições, que passa a ser mais comumente utilizada nos tempos do Novo Testamento. O verbo traduzido por dedilham (v. 5) ocorre somente aqui no Antigo Testamento. A palavra provavelmente significa improvisar, e a impressão é que era um canto de improviso com melodias e letras inventadas na hora, como refletem as palavras improvisam em instrumentos musicais. Amós está zombando daqueles que imaginam que suas tentativas embriagadas de cantar façam-nos parecer um novo Davi. A tragédia está no fato de que eles não se entristecem com a ruína de José (v. 6). Trata-se aqui de uma expressão que se refere aos descendentes de José: o Reino do Norte, em que predominava a tribo de Efraim, dos descendentes de José. Enquanto continuam em sua vida extravagante e egocêntrica, estão totalmente indiferentes à ruína que está se abatendo sobre toda a nação. Em vez de serem guardiões da vida e da moral do país, eles mesmos são exemplos de egoísmo incomparável e em sua vida egocêntrica não se importam com o fato de que o país todo à sua volta está caminhando rapidamente para a ruína. Por isso,
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diz o profeta (v. 7), os líderes de hoje serão amanhã os líderes das filas miseráveis de exilados indo para o cativeiro. 2.4 – Escopo Por intermédio da mensagem de Amós, Deus exige justiça social e retidão de vida como manifestação indispensável da fé. Afinal, a fé sem obras é morta.
3 Meditação A palavra de Amós não é palavra de Amós. O que sai da boca de Amós é palavra de Deus. Por essa razão, Amós entrega-a com coragem e sem qualquer desconto (2Co 2.17). Essa palavra é uma denúncia social que escancara a estrutura social injusta que havia se instalado entre o povo de Deus e que acaba por resultar numa grande desigualdade entre pessoas que são do mesmo povo de Deus. Nesse sentido, ela é uma palavra dura e forte. Mais do que uma denúncia contra os males da sociedade de então, a palavra de Deus transmitida por Amós questiona o âmago da fé em Deus que esse povo diz ter e cultivar. Amós lembra que a retidão de vida e a justiça social são uma manifestação indispensável da fé em Deus. Implicitamente, Amós estava dizendo o que Tiago viria a dizer cerca de 700 anos mais tarde: A fé sem obras é morta (Tg 2.14-17). Israel sentia-se politicamente seguro e espiritualmente satisfeito consigo mesmo. O povo achava que Deus nada exigia além do cumprimento de rituais cúlticos e que, uma vez realizados, sentia-se livre para fazer o que bem entendesse. O povo de Deus vivia uma vida sem compromisso de obediência à palavra de Deus. Também em nossas comunidades há hoje pessoas abastadas. Não há nenhum pecado em adquirir riquezas e bens, desde que de modo ético e com honestidade. O problema é quando permitimos que nossa segurança existencial seja construída sobre os bens. Eles tendem a gerar em nós uma egoísta sensação de segurança. A partir da mensagem de Amós, somos exortados a viver com nossos bens (caso os tenhamos) a partir da fé em Cristo. Nenhum cristão deveria ser rico para si mesmo sem ao mesmo tempo ser rico para o Senhor e para o próximo.
4 Imagens para a prédica a – Frases inspiradoras: a) “Para evitar o erro da salvação pelas obras, nós caímos no erro oposto: salvação sem obediência” (A.W. Tozer). b) “Um evangelho diluído não é evangelho de maneira alguma” (David Wilkerson). c) “Poucas coisas testam mais profundamente a espiritualidade de uma pessoa do que a maneira como ela usa o dinheiro” (John Blanchard).
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b – Ilustração para a pregação: Nisto conhecerão que sois meus discípulos No corre-corre de um terminal rodoviário, algumas pessoas derrubaram um tabuleiro de maçãs-do-amor, esparramando-as pelo chão. Somente um homem parou para ajudar a pequena vendedora. Ao começar a recolher as frutas, ele percebeu que ela era cega. Gentilmente, ajudou-a a levantar o tabuleiro e a ajuntar as maçãs. Ao verificar que várias de suas frutas se estragaram na queda, a menina ficou visivelmente apreensiva: – Minha mãe vai ficar muito triste. – Não se preocupe, minha querida, disse-lhe o homem, eu pago as maçãs que estragaram. Pagou e despediu-se dela, mas ela o chamou e perguntou: – Moço, é você que é Jesus? – Não, minha querida, mas sou um dos amigos dele.
5 Subsídios litúrgicos Quando cuidamos da organização e da condução litúrgica de nossos cultos, há algo de fundamental importância que precisamos lembrar. O culto não é do ministro. Ele não é uma celebração preparada e dirigida pelo ministro à comunidade, como se um servisse para que os demais presentes apenas usufruíssem. Entendemos que, em nossos cultos, Deus serve à sua comunidade com sua presença, com sua palavra, com sua bênção. Em resposta, a comunidade serve a Deus orando, louvando, confessando, ouvindo. Por isso o culto não pode ser uma celebração de “uma pessoa só”, a que os demais presentes assistem passivamente. Assim, a liturgia do culto deveria privilegiar e permitir a participação da comunidade, e essa poderá ser planejada, mas também espontânea. Até para evitar que o culto caia na monotonia. Considero ainda importante salientar que a resposta da comunidade ao Deus que nos serve, ainda que aconteça no culto propriamente dito, não deveria se restringir ao momento da celebração no templo. Espera-se que o culto continue no dia a dia através de uma vida de obediência ao Senhor e à sua Palavra e através de um testemunho em palavra e ação.
Bibliografia REIMER, Haroldo. Richtet auf das Recht!: Studien zur Botschaft des Amos. Stuttgart: Katholisches Bibelwerk, 1992. WEISER, Artur. Das Buch der zwölf kleinen Propheten 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1967. WOLFF, Hans Walter. Dodekapropheton 2: Joel und Amos. 2. ed. Neukirchen: Neukirchener, 1975. WOLFF, Hans Walter. Die Stunde des Amos. München: Chr. Kaiser, 1969. 215 p. (em espanhol: La hora de Amos. Salamanca: Cristiandad, 1984).
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PRÉDICA: LUCAS 17.5-10
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HABACUQUE 1.1-4; 2.1-4 SALMO 95
06 OUT 2013
Odair Braun
1 Introdução O período do ano eclesiástico e, de modo especial, os textos deste domingo fazem voltar os olhos para a fé e a persistência nos tempos árduos e complexos da caminhada, tempos esses que, muitas vezes, se colocam diante de nós com relativa intensidade, ao passo que, em outros momentos, parecem estar distantes, pois tudo está bem e as alegrias e realizações são abundantes. Contudo, as passagens deste domingo querem evidenciar que o cristão não tem como fugir do sofrimento. Querem fazer perceber que, quando tais tempos se colocarem no horizonte, é necessário ter os olhos fixos no Senhor, que venceu a morte: Cristo Jesus. O profeta Habacuque atuou em 605 e 597 a.C., período de domínio dos assírios, os quais haviam destruído o Estado de Israel em 722 a.C. Habacuque passou a atuar em tempos de dificuldades, perseguição e incertezas, ou seja, quando o povo não sabia como seria o dia de amanhã. Em meio a esse quadro, ele se voltou a Deus, interpelando-o, assim como podemos ver na passagem de Habacuque 2.13. Na verdade, parece que Habacuque estava questionando Deus sobre seu suposto silêncio frente à violência que o povo estava sofrendo, fato que contradizia o projeto de vida de Deus. N. Kilpp, no PL 17, expressa bem o questionamento que parece ser o pano de fundo desse profeta: a realidade não prova que a nossa fé é ilusão? Diante desse questionamento, podemos ver que é justamente nesses termos que muitos hoje se expressam em diferentes meios. Por sua vez, a passagem do evangelho evidencia que cristãos podem e certamente se depararão com crises e dificuldades, com escândalos, falta de humildade, desejo de não proporcionar o perdão. Esses e diversos outros aspectos que poderíamos citar confundem a fé em Cristo e mesmo a questionam e interrogam. Assim surge o clamor: aumenta-nos a fé, em torno da qual deve perpassar a mensagem deste domingo.
2 Exegese Na passagem de Lucas 17.5-10, fica evidente que Jesus se contrapõe a toda e qualquer forma de opressão que possa ser imposta ao povo de qualquer tempo e lugar. Da mesma forma, evidencia-se que Jesus quer e requer seguimento e fé incondicional a seus ensinamentos. Deixa também transparecer que a decisão de seguir a Jesus e aos ensinamentos de Deus requer decisão, quando não disposição
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para contrariar regras postas. O prêmio desse caminho a ser empreendido será a salvação. Portanto a passagem evidencia que, por meio da fé e da plena entrega ao seguimento de Jesus, alcança-se vencer aquilo que parece impossível aos nossos olhos. Assim, revela a passagem, a nossa força provém de Deus, força e sustento da caminhada, alvo de todo o nosso agir. Para alcançar esse fim, para chegar a esse alvo, torna-se essencial aquilo que é manifesto e expresso no versículo 5 do texto em apreciação, ou seja: aumenta-nos a fé.
3 Meditação Vocês conseguem imaginar uma fé capaz de arrancar uma árvore? Parece já ser bastante ter uma fé sólida e que enfrenta as consequências do dia a dia e as tantas agruras. Já é muito uma fé que gera entrega e confiança, uma fé que leva a superar o medo do que há de vir, uma fé que sustenta o amor em meio às dificuldades. Tal fé de fato já é muita coisa. Talvez o suficiente. Mas eu pergunto: Conseguimos imaginar uma fé que é capaz de transportar árvores, assim como a passagem deste dia indica? Quem sabe, vocês se recordam das pessoas nas quais puderam observar uma fé inabalável. Muitos poderiam testemunhar a esse respeito e dar exemplos. Quem sabe, perante essas pessoas vocês tenham pensado: “Tão firme na fé eu também gostaria de ser”. Quem sabe, até mesmo se apresente uma sensação de inveja ao ver no outro uma fé tão forte e firme. Quem sabe, ao ouvir o texto você também tenha se perguntado: como reagirá a minha fé em um momento crítico? Como ela se portará se, porventura, eu me encontrar com uma enfermidade grave? Como ficará a minha fé diante da morte de alguém amado? Quando olhamos para nós mesmos e para a nossa fé, então, muitas vezes, certamente ficamos um tanto receosos. Afinal, não somos tão fortes e firmes como o texto descreve. Será então que há algo de errado com a nossa fé? Por isso faz bem ouvir que também os discípulos que conviviam com Jesus não tinham tamanha fé. Mas, mesmo assim, são hoje apresentados como discípulos, responsáveis pela propagação da boa-nova em meio às primeiras comunidades cristãs, quando certamente as dificuldades eram maiores do que nos dias atuais. E com isso somos recordados: esses, mesmo fracos na fé, são os pilares sob os quais se erigiu a igreja cristã. E isso deve ser desafio e exemplo para cada um de nós ainda hoje. O texto em questão relata uma das colocações dos referidos discípulos. Ali ouvimos “aumenta-nos a fé”. Isso mostra que também os discípulos tinham medo e dúvidas em seu coração. Jesus havia lhes falado coisas que os questionavam profundamente. Nos v. 1 e 2 do texto lemos: “Disse Jesus a seus discípulos: É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vêm! Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos”. Vejam que estamos diante de uma advertência severa. E cada advertência traz consigo o compromisso de atuar e agir, a fim de evitar que tal coisa, fato ou situação se torne realidade. Quem sabe, os discípulos entreolharam-se assustados; assim como certamente se entreolharam assustados por ocasião da última ceia, quando Jesus afir-
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mou que um deles iria traí-lo. Quem será capaz de afirmar como sua fé irá reagir em situações de dificuldade? Certamente há muitas situações perante as quais não é fácil e simples persistir na fé. Os discípulos sabiam disso. Por isso levam muito a sério as advertências de Jesus. Também por isso olham com medo para a sua fé. Estão preocupados se, de fato, ela suportará situações mais difíceis. E é justamente por isso que clamam a Jesus: Aumenta a nossa fé. Mas, no texto em questão, Jesus não falou somente da tentação. Podemos perceber que ele incentiva os discípulos a praticar a entrega e o perdão. Podemos perceber que Jesus incentiva os discípulos para que perdoem. Assim ele diz no v. 4: “Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe”. Quem pode fazer isso? É provável que essa passagem tenha deixado os discípulos ainda mais assustados. Afinal, será possível dispor de uma fé que perdoa e perdoa sempre de novo? Senhor, aumenta a nossa fé! Assim pedem os discípulos de Jesus, assustados. Isto é, os discípulos disseram: Dá-nos essa força para que, quando formos questionados, possamos ter força e capacidade para resistir! Não é justamente isso o que também nós muitas vezes pensamos? E como Jesus reage diante do pedido dos discípulos? Ele não responde assim como nós esperamos. Ele não diz: Não tenham medo, a vossa fé lhes basta, ou: Não tenham medo, eu aumentarei a vossa fé. A nosso ver, isso seria muito mais consolador. Na verdade, a resposta de Jesus até mesmo traz mais incerteza. No v. 6 observamos: “Respondeu-lhes o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá.” A resposta de Jesus leva em consideração o pedido dos discípulos, mas dá a ela bem outra direção. Nada depende do tamanho da fé. Jesus não coloca regras a serem seguidas pelos discípulos e que levarão a uma fé inabalável. Ele quer tão somente pessoas com fé que confiem nele e no Pai. Isso é a segunda dimensão da qual devemos falar hoje. O pedido por fé maior foi a primeira. A outra diz respeito ao fato de Jesus querer pessoas que confiam nele e no Pai. Por isso responde de modo tão surpreso e diz: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá”. Não se trata das nossas capacidades e da força de nossa fé. Não se trata de mudar à força aquilo de que não gostamos. Trata-se, sim, de deixar Deus agir. Isto é fé que confia em Deus verdadeiramente. Quem crê não está livre de problemas e dificuldades. Crer não é garantia de que o medo não tome conta de nosso coração e que incertezas porventura não venham a se abater sobre nós. A fé não nos torna imunes à fraqueza e à falta de amor. A fé não é um artigo técnico, tal como um programa de computador, que é instalado e usado no dia a dia, podendo ser trocado por outro a qualquer momento. Nos dias de hoje, facilmente pensamos que tudo pode ser transformado em propriedade particular. Há cursos e métodos que supostamente nos ajudam a fazer isso melhor. Não nego que ajude. Contudo, há o perigo de com isso confundirmos a fé com um aparato técnico, esquecendo-nos da dimensão espiritual. Abre-se então o perigo de comparar a fé entre as pessoas. Fazemos então julga-
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mentos: Aquele não tem fé! Aquele tem fé fraca! Este precisa de mais fé! Facilmente também se passa a afirmar que aquele que tem medo tem uma fé fraca e que a mesma precisa ser mais desenvolvida. Isso se torna um grande perigo, uma falácia e armadilha. Jesus sabe desse perigo e por isso trata de desviar nosso olhar da força de nossa fé. Ele não quer que confiemos somente em nossa própria força. Jesus presenteia a fé que ultrapassa as nossas possibilidades. Ele presenteia a fé que deseja nos fazer partícipes da ação misericordiosa de Deus. Aquele que crê não pergunta sobre si, mas por Deus e sua Palavra. Pergunta sobre o caminho de Deus e sobre os seus desejos em todas as situações da vida. Muitas vezes sozinhos, não temos forças para tal. Então pode ajudar o confiar numa pessoa que conosco senta e ora. Também isto, esse confiar na outra pessoa, faz parte da fé da qual Jesus nos fala. Então a fé pode tornar-se como um grão de mostarda, que gera uma grande árvore. Essa fé não se volta a si mesma e não confia somente em sua própria força, mas se entrega e confia na força de Deus. O tamanho da fé não faz a diferença. Se ela for pequena como um grão de mostarda, não importa. A fé não pode ser medida ou quantificada. Não é a fé que é ou que precisa ser grande. Deus é grande, e nele a fé se sustenta. E por isso, somente por isso, que a fé atua e tem força. Certamente desejaríamos ter em nosso bolso nossa própria força e fé. Esse é o desejo de nós humanos. Gostamos de fazer tudo sozinhos, com nossas próprias forças, com nossas próprias mãos. Perante Deus não é assim. Ele, na hora certa e oportuna, concede a palavra certa e a fé necessária. Não é em nós que devemos confiar, mas em Deus. Aumenta-nos a fé! Podemos entender esse pedido dos apóstolos. Também nós clamamos assim às vezes. Deus não nos dá a força de antemão para que tão somente confiemos em nossas próprias capacidades. Ele nos dá a sua palavra e o testemunho de sua vida.
4 Imagens para a prédica Muitos são os exemplos de pessoas que superam e vencem situações complexas em sua vida. A causa certamente é uma conjugação de fatores. Contudo, a nosso ver, são fundamentais a determinação e o olhar com o qual resolvemos enfrentar as questões. Para nós cristãos (assim podemos dizer), fundamental é a fé com a qual encaramos a situação que se coloca diante de nós. Martin Gray, um sobrevivente do gueto de Varsóvia e dos campos de concentração, reconstruiu sua vida, teve sucesso, casou e teve filhos. Morava no sul da França quando um incêndio florestal matou toda a sua família. A dor da perda e o sofrimento que isso causou eram imensos, como bem podemos imaginar. Em meio à sua dor, ele criou um movimento de proteção à natureza de incêndios futuros. A vida, concluiu ele, tem de ser vivida por alguma coisa e não contra alguma coisa.
5 Subsídios litúrgicos “Não podemos, ó Deus, Pedir-te simplesmente que acabes com a guerra. Pois sabemos que fizeste o mundo
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De maneira que o homem pode encontrar Seu próprio caminho para a paz. Dentro de si e com seu vizinho. Não podemos simplesmente pedir-te que acabes com a inanição; Pois já nos deste recursos Suficientes para alimentar o mundo todo Se os utilizarmos com sabedoria. Não podemos, ó Deus, pedir-te simplesmente Para acabar com o preconceito, Pois já nos deste olhos Para vermos o bem nos olhos de todos os homens, Bastando usá-los corretamente. Não podemos, ó Deus, pedir-te simplesmente que acabes com o desespero, Pois já nos deste o poder De eliminar as favelas e distribuir esperança, Se formos capazes de usar o nosso poder com justiça. Não podemos, ó Deus, pedir-te simplesmente Que acabes com a doença, Pois já nos deste grandes inteligências Para pesquisar e descobrir as curas, Só nos faltando usá-las construtivamente. Assim, em vez disso tudo, nós te pedimos, ó Deus, Fortaleza, determinação e vontade, Para fazermos e não apenas orarmos, Para sermos e não simplesmente desejarmos”. Jack Riemer
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PRÉDICA: 2 TIMÓTEO 2.8-15
21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
2 REIS 5.1-3,7-15c LUCAS 17.11-19
13 OUT 2013
Norberto da Cunha Garin
1 Introdução O texto da prédica deste domingo invoca a proximidade entre o apóstolo Paulo e Timóteo, um de seus principais auxiliares na obra evangélica. Ele já o havia advertido de que não deveria envergonhar-se pelo fato de seu amigo e companheiro estar preso em Roma, como também não deveria se envergonhar do evangelho que pregava. Mais do que não se envergonhar, o apóstolo reivindica sua solidariedade nos sofrimentos que vem enfrentando na capital do Império. Certamente, a notícia do constrangimento de Timóteo já havia chegado a seus ouvidos (1.7), pois o termo que ele utiliza nessa advertência é muito forte e tem o sentido de inibir uma ação que já estava em andamento (1.8). O objetivo da epístola é animar o filho na fé a ir a seu encontro, para que o apóstolo lhe passe as últimas orientações pessoalmente. Ele está sentindo que seus dias estão se abreviando e confia em Timóteo para continuar a tarefa. É provável que a epístola tenha sido escrita em 67, pouco antes de sua execução. O texto contempla palavras de advertência e de estímulo, além de elencar conteúdo teológico que deveria ser recordado/recomendado por Timóteo na liderança da igreja. Entretanto, essas orientações parecem referir-se a um período no qual a igreja já havia se desenvolvido bem além da execução de Paulo. Podemos encontrar fragmentos de credos (2.8) que denotam uma sistematização teológica posterior. É difícil sustentar que Paulo tenha sido o autor direto dessa epístola. Há diversas contradições de linguagem e cronológicas que dificultam a sustentação da autoria paulina. É possível que partes de escritos paulinos tenham sido editados tardiamente por algum de seus discípulos e enviados à igreja como sendo de Paulo. Entretanto, para efeito deste auxílio, vamos tratar o autor da epístola pela alcunha de apóstolo, pois há fortes indícios de que porções desse escrito tenham sido do apóstolo Paulo antes do martírio.
2 Exegese V. 8 – Lembra-te de Jesus: o apóstolo estimula seu filho a recordar Jesus Cristo, e o acento está sobre o verbo com o significado de trazer à memória; ressuscitado de entre os mortos: não se refere a um evento do passado, mas a uma ação contínua, ou seja, ele não apenas ressuscitou, mas continua vivo e com a capacidade de atribuir vida; da linhagem de Davi: a intencionalidade do texto faz
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frente às heresias que se faziam presentes no interior da igreja nessa época, especialmente o gnosticismo, que negava a humanidade de Cristo; segundo o meu evangelho: retoma a pregação do apóstolo, mencionada em diferentes momentos (Rm 2.16; Gl 1.11; 2Co 4.3). V. 9 – Pelo qual estou sofrendo: identifica as inúmeras dificuldades e privações que o apóstolo está passando, muito distintas daquelas da primeira prisão domiciliar (At 28.16); como malfeitor: apesar de ter sido preso pela prática da pregação do evangelho, estava sendo julgado como um criminoso; o termo é legalmente empregado para indiciar traidores e assassinos, equivalentes aos crucificados ao lado de Jesus; contudo, a palavra de Deus não está algemada: indica que as algemas postas em seus pulsos não se aplicam ao evangelho, e para essa liberdade o apóstolo convoca Timóteo. Essa é a porta pela qual a palavra deverá ganhar o mundo; essas algemas não devem inibir a pregação (2Co 1.5-7). As algemas são uma maneira diferente de se referir à prisão, mas também apontam para as heresias que tentavam afastar as pessoas simples do acesso ao evangelho. Embora em outra circunstância, o apóstolo faz uma analogia entre as algemas que prendem seus pulsos e a porta que se abre para o evangelho (Gl 4.3). Esse versículo e o seguinte remetem a sofrimentos que poderiam se referir a uma segunda prisão em Roma, não registrada por Atos, em que também não aparece a sua execução; permanece a dúvida: Paulo teria saído ileso de um primeiro encarceramento e preso novamente por acusação de Nero? Não se sabe, mas há essa possibilidade quando solicita a Filemom que prepare uma pousada para ele (Fm 22). V. 10 – Tudo suporto por causa dos eleitos: o apóstolo está disposto a sofrer pacientemente, porque tem um motivo sublime, por aqueles que foram escolhidos por Cristo; para que também eles obtenham a salvação: a conjugação do verbo denota uma propositura, algo a ser alcançado, obtido; que está em Cristo Jesus com eterna glória: imergir nos sofrimentos de Cristo equivale a ter parte com ele e participar já da sua glória eterna; supõe-se que a parte final deste versículo integrava cânticos da igreja que o apóstolo retoma para memória do filho. É necessário que Timóteo entenda que o sacrifício pelo qual o apóstolo está passando faz parte de seu sofrimento vicário: ele se oferece para que os cristãos tenham a vida. Dessa mesma forma desafia Timóteo a sofrer pelo evangelho, utilizando, inclusive, a mesma palavra em 4.5. V. 11-12 – Fiel é a palavra: reafirmação da confiança da igreja sobre o evangelho do apóstolo; se já morremos com ele: trata-se de uma condicional que já pressupõe como realidade; de fato, ao abraçar o evangelho, a pessoa já morreu com Cristo; também viveremos com ele: a condicional é a mesma e, portanto, repete-se a certeza da participação na vida dele; é possível supor que esse versículo seja a continuidade do canto eclesiástico, embora prenhe de doutrina paulina (Rm 6.3-11); as condicionais repetem-se até o final da perícope: se perseverarmos, também com ele reinaremos; se o negarmos, ele, por sua vez, nos negará: essa terminologia tratando de negação é característica da redação de Lucas (Lc 9.23; 12.9), seu secretário particular durante a prisão (4.11). V. 13 – Se somos infiéis, ele permanece fiel: aqui acontece a antítese entre a infidelidade humana e a fidelidade divina manifesta em Jesus Cristo; o tema
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21º Domingo após Pentecostes
da fidelidade remete à confiança/impossibilidade de confiança; pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo: o tema da negação é retomado como argumento para sustentar a fidelidade de Cristo. É visível que esses três versículos não fazem parte da peça inicial, que admoestava Timóteo no sentido de ir ao encontro do apóstolo; cresce a suspeita de que se trata de um cântico da igreja nascente, mas que contém teologia paulina; isso já aparece em outras partes do texto paulino (1Tm 1.17; 3.16; 6.15b-16). V. 14 – Recomenda estas cousas: traduzir o verbo hypomimnesko por “recomendar” não parece corresponder ao sentido original do texto; melhor seria recordar com o significado de relembrar; dá testemunho solene: corresponde a confiar solenemente alguma coisa a alguém; para que evitem contenda de palavras: o sentido é para que se evite guerra de palavras, que se interrompa algo que vem acontecendo e até se proíba esse tipo de ação; refere-se a um tipo de heresia que consistia em fazer longos debates sobre temas do evangelho, sem, contudo, qualquer proveito para a obra de Jesus Cristo; que para nada aproveitam, exceto para a subversão dos ouvintes: tem o sentido de perverter, desmoralizar. A recordação, no sentido de lembrar-se mesmo, estar ciente, é o tema principal da epístola; as coisas que ele deveria recordar (ou recomendar) seriam as expressões do canto eclesiástico acima citado; essas contendas não serviam para nada e prestavam um desserviço ao evangelho enquanto ele estava prestes a se tornar mais um mártir da causa; a intencionalidade do texto é para que Timóteo tenha não apenas o sacrifício de Cristo Jesus, mas também a teologia expressa no cântico da igreja, presente diante de si. V. 15 – Procura apresentar-te: tem a noção de persistente, de zelo e carrega a intencionalidade de se colocar à disposição; a Deus aprovado: alguém que alcança uma aprovação depois de prestar uma prova, de ser examinado; como obreiro: alguém que trabalha; que não tem de que se envergonhar: onde não se encontram motivos para constrangimento; que maneja bem a palavra da verdade: como quem traça um caminho reto, sem torturas, sem curvas. Essa ideia de apresentar-se ou oferecer-se (na versão Almeida Revista e Atualizada) é característica do apóstolo e faz um contraponto entre o oferecimento de si para o pecado e o apresentar-se a si para Deus. Tem o sentido da transformação operada por Cristo Jesus (Rm 6.13; 16; 19; 12.1; Cl 1.22); o manejar bem significa ter pleno zelo pela palavra, sem desviar-se, a fim de que o caminho seja reto, sem curvas.
3 Meditação Em todos os tempos, a vaidade tende a empanar o objeto da narrativa, no caso, da pregação. Com facilidade nos empolgamos com as técnicas homiléticas e esquecemos o centro de nossa fala: Jesus Cristo e esse ressuscitado/ressuscitando. Entretanto, a advertência do apóstolo é oportuna. Não se trata de pregar um Cristo ressuscitado no passado, preso à história. Muito mais importante do que isso é fazê-lo ressuscitado em nossa realidade concreta. Seu voltar à vida não
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pode ficar sepultado numa construção concretada pela narrativa evangélica, mas aparecer libertado/libertando no cotidiano das pessoas e das comunidades. O preço dessa nova vida custou não apenas o sacrifício do Cordeiro de Deus, mas também de uma plêiade de mártires cujos corpos mutilados e destruídos escreveram os fundamentos dessa nova vida. O apóstolo fazia parte dessa plêiade que, além de amargar as algemas da prisão, podia antever seu fim violento. Agora mesmo, quantos estão entregando suas vidas para que a libertação construída pelo sangue de Cristo continue a ser um sinal de novos horizontes onde a exclusão e a miséria são realidades para homens e mulheres. Libertar essa Palavra, na forma de denúncia e anúncio, é um ato de solidariedade, assim como o apóstolo esperava de seu jovem discípulo. Suportar as perseguições e agruras de nosso tempo é testemunho de fé para que outras pessoas, percebendo a nossa entrega, creiam naquele que a todos liberta por sua obra e pela mensagem que desacomoda e incomoda. Perceber que alguém continua no caminho reto, quando quase todos ao redor se curvam diante da corrupção, é um inferno para quem já entregou sua alma à perdição. Suportar o tempo presente é uma demonstração do poder de Cristo em meio à podridão dos conchavos alcoviteiros. A fidelidade de Cristo sempre se manifestou e manifestará toda vez que um de seus discípulos disser não à tentação das facilidades do mundo contemporâneo. Mesmo não pensando em recompensas quando cumpre o seu papel, ao fiel está garantida a certeza do reino de Deus, que se estabelece no novo mundo, na comunidade que partilha e no coração do cristão. Finalmente, a persistência de quem permanece vinculado a Cristo permite manejar, com competência, a mensagem dele que, traçando um caminho reto e seguro, vai rasgando a trajetória de imoralidade que se estende diante dos que abraçaram a fé. Enquanto as corjas safadas escondem a face diante das câmeras de TV, o fiel ergue sua fronte porque faz parte da glória de ter permanecido em Cristo, a despeito de todas as vicissitudes.
4 Imagens para a prédica Montar um painel com imagens e notícias de movimentos sociais nos quais a comunidade se encontra envolvida. Caso ainda não seja essa a realidade, que seja um painel-denúncia que possa mexer com a consciência da comunidade, desafiando-a ao envolvimento nas lutas sociais. O tom da homilia poderiam ser o envolvimento e a repercussão social do evangelho. Outra possibilidade seria um painel com fotos e notícias de pessoas comprovadamente envolvidas em escândalos de corrupção como alerta à consciência da comunidade sobre a necessidade de manter um caminho reto (aprovado), a despeito do lamaçal de falcatruas que se multiplicam na atualidade. A homilia poderia contrapor a facilidade com que as pessoas aderem a práticas prejudiciais à sociedade e a postura do cristão(ã), que assume e se mantém fiel à ética evangélica.
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Uma terceira opção seria montar um pequeno “tapete” com fotos e textos sobre os mártires da fé, iniciando com Jesus Cristo. Não necessitaria se ater apenas aos mártires, mas incluir também os reformadores até chegar às lideranças da comunidade que foram responsáveis pelo estabelecimento do evangelho naquele local, tantas vezes com sacrifício e até com perseguições. A homilia poderia enfocar o preço do evangelho, que custou a vida e o sacrifício de tantos irmãos e irmãs, santos de Deus.
5 Subsídios litúrgicos Oração de adoração: Ó Senhor, nosso Deus, nós te bendizemos pelo que tu és e por todas as tuas obras. O universo fala do poder e da sabedoria das tuas mãos; a nossa vida fala da tua misericórdia, da tua graça, do teu amor. Nós te agradecemos por nos teres chamado para ser o teu povo; nós te agradecemos por tua igreja. Graças te rendemos por todas as tuas obras. Aceita a nossa adoração, que te fazemos em espírito e em verdade. Oramos em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém (RAMOS, 2006, p. 79). Invocação: Do fundo de nossos desencontros, nós te buscamos, ó Deus. Em ti encontramos paz, porque tu és a nossa paz; em ti encontramos amor, porque tu és o Deus de amor; em ti encontramos a vida, porque tu és a nossa vida. Nós te adoramos e suplicamos: liberta-nos das distâncias de nós mesmos, das distâncias do nosso irmão, das distâncias da nossa irmã, da distância do nosso Salvador. Tem misericórdia de nós. Perdoa-nos. Permite-nos o reencontro da tua face na face do nosso irmão, da tua face na face da nossa irmã. Permite-nos, finalmente, o reencontro de nós mesmos com a tua missão. E, assim, anunciaremos ao mundo o teu reino, o teu poder e a tua glória para sempre. Amém! (RAMOS, 2006, p. 115).
Bibliografia RAMOS, L. C. Anuário litúrgico 2006. São Bernardo do Campo: Editeo, 2006. RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon L. Chave linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1997. SPAIN, Carl. Epístolas de Paulo a Timóteo e Tito. São Paulo: Vida Cristã, 1970.
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PRÉDICA: LUCAS 18.1-8
22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
GÊNESIS 32.22-31 2 TIMÓTEO 3.14-4.5
20 OUT 2013
Vera Maria Immich
1 Introdução Os três textos propostos versam sobre um tema comum: fidelidade e perseverança. Em Gênesis, é Jacó quem nos ensina que podemos ser transformados pelo amor de Deus se permanecermos fiéis e enfrentarmos as dificuldades e o desconhecido com perseverança. Jacó luta toda a noite com um homem incomum; ao amanhecer, esse homem quer ir embora, mas Jacó lhe pede a bênção, que lhe é concedida junto com a mudança de nome, que sugere transformação pessoal, de caráter e de conduta. Lembremo-nos de que esse Jacó que agora luta por uma bênção é aquele que enganou seu irmão e roubou uma bênção. Agora, ele a merece, e Deus o recompensa. Chamar-se-á Israel, que quer dizer: Deus luta. Em 2 Timóteo, também encontramos palavras que recomendam a perseverança e a fidelidade na reta doutrina. O autor da carta afirma que eles devem pregar “quer seja oportuno quer não”, ou seja, aproveitar todas as oportunidades. Ele alude à Escritura como palavra útil e sempre disponível, que deve ser pregada e seguida, pois ela testemunha a salvação pela fé em Jesus Cristo. No v. 16, lemos que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça”. Perseverar é pregar sempre e seguir sempre fielmente a doutrina, mesmo que o mundo ofereça outras oportunidades, mais atrativas e mais convincentes. Isso não importa. Segue adiante com perseverança e sobriedade, suportando as aflições. Enfim, o texto de nossa pregação mostra-nos uma mulher perseverantemente chata e inoportuna. Desagradável com pessoas (o juiz), com tantas coisas maiores e mais importantes para julgar. Com possibilidades reais ínfimas, ela se agarra à força que a põe em movimento e impede-a de desistir. Ela prossegue em sua caminhada.
2 Exegese A grande questão oculta do texto é sobre o final dos tempos, a vinda do reino de Deus. E Jesus inicia já no versículo 1 dizendo que deveremos ser perseverantes e orar sem cessar. Nós cristãos devemos seguir o exemplo da viúva e confiar. Aguardar sem ansiedade e sem a tentação de marcar datas e horários, sem se atrever a ver as desgraças de nosso tempo como sinais do fim. Viver na história e aprender dela sem olhar com saudosismo irreal para o passado e com ranço ma-
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nipulador para o futuro. Ser fiel e perseverante até a morte, sem se deixar desviar do foco da oração. Mas como não esmorecer ante os juízes de nosso tempo? Este texto, ao contrário do todo das Sagradas Escrituras, não aponta para a vida comunitária, mas é ali precisamente que esperamos sem esmorecer. Exatamente no contexto comunitário em que a vida humana se concretiza nas contradições e imperfeições, nas dificuldades comunitárias e na necessidade de olhar para o outro, para além de mim. O desenrolar deste texto dá-se do menor para o maior, ou seja, do insignificante para o significativo, da desconsideração para a persistência. Um juiz, passível de suborno, é convencido pela persistência impertinente, porque ele sabe que é sua função julgar todos os casos que são trazidos, os casos de toda a população e não somente daqueles que podem recompensá-lo indevida e duplamente. Ele o sabe e, enfim, resolve julgá-lo para não se aborrecer mais tarde. Se até um juiz que não se importa deixa-se convencer, imagine um Deus que ama. O Deus descrito em Lucas é o Deus que ouve a oração e que atende os seus quando esses pedem sem parar, porque é um Deus que nos busca em sua palavra de perdão. A parábola é contada pelo próprio Jesus, que coloca na pessoa de uma mulher pobre e desesperada um exemplo a ser seguido. Jesus admoesta seus seguidores a orar sempre e não esmorecer nunca. No contraponto está um juiz considerado por Jesus como alguém não temente a Deus nem a ninguém. Logo ele, que deveria zelar pelo cumprimento da lei para todos os cidadãos, demonstra ser insensível e indiferente ao clamor da mulher. Simplesmente a ignora e não a atende por algum tempo, diz o texto.
3 Meditação Quantas vezes também o cidadão brasileiro e a cidadã brasileira veem seus anseios engavetados em alguma sala escura, veem seus direitos sendo negados e inviabilizados devido ao péssimo atendimento dos serviços públicos, tanto na saúde como na educação, nas longas filas de vários meses para realizar uma perícia médica. Nesse contexto, muitas vezes, as pessoas são tomadas pelo desânimo, pela desmotivação e são vencidas pela demora, pela espera e pelo desrespeito geral. Conheci uma pessoa com obesidade mórbida que reclamava da espera de mais de um ano para realizar uma cirurgia bariátrica e que três anos mais tarde faleceu de um problema renal acentuado pelo excesso de peso, sem nunca haver se inscrito para a referida cirurgia. Essa pessoa não conseguiu cansar o “juiz iníquo” de nosso tempo. Ela desistiu de perseverar e não conseguiu se alimentar na oração constante que renova, alimenta e fortalece na adversidade. Não por acaso, Jesus usa como exemplo uma pessoa que não tem com quem contar e tem um caminho a seguir: ser ouvida pelo juiz. Ela não tem com quem contar. Ela é uma viúva desamparada e desprotegida, porque ninguém a defende como deveria ser. Depende dela e somente dela o julgamento de sua causa. Mas, em contrapartida, como enfrentar alguém de nível superior e que sequer a atende? Desistir ante a negativa seria aceitar a derrota. Ela, então, põe-se em movimento de resistência pacífica e luta ininterrupta. Ela torna-se inoportuna na vida profissional
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22º Domingo após Pentecostes
daquele juiz. Então esse resolve, para ver-se livre dela, julgar sua causa para não ser mais incomodado. Jesus usa essa parábola para falar da justiça de Deus. Se até um juiz iníquo atende uma insignificante viúva para ver-se livre dela, não por convicção ou senso profissional, mas para não ser mais molestado e para não vir a ter problemas no futuro, imagine Deus, que atende os seus por amor e por ser seus escolhidos. O texto afirma que seremos ouvidos quando clamarmos dia e noite, embora nos pareça demorado ser atendidos. Na ilustração a seguir, o terceiro rapaz não compreende a resposta a suas orações. E o que ele faz? Continua orando e buscando até compreender a resposta a seu pedido. Portanto orar e nunca esmorecer, principalmente contra as circunstâncias difíceis que a vida muitas vezes impõe e que, somente muito lentamente, compreendemos.
4 Imagens para a prédica Três rapazes suspiravam por encontrar o Senhor, a fim de fazer-lhe pedidos. Depois de muitas orações, eis que, certa vez, no campo em que trabalhavam, apareceu-lhes o carro do Senhor, guiado pelos anjos. Radiante de luz, o Divino Amigo desceu da carruagem e pôs-se a ouvi-los. Os três ajoelharamse em lágrimas de júbilo, e o primeiro implorou a Jesus o favor da riqueza. O Mestre, bondoso, determinou que um dos anjos lhe entregasse um enorme tesouro em moedas. O segundo suplicou a beleza perfeita, e o Celeste Benfeitor mandou que um dos servidores lhe desse um milagroso unguento, a fim de que a formosura lhe brilhasse no rosto. O terceiro exclamou com fé: “Senhor, eu não sei escolher... Dá-me o que for justo, segundo a tua vontade”. O Mestre sorriu e recomendou a um de seus anjos que lhe entregasse uma grande bolsa. Em seguida, abençoou-os e partiu. O moço que recebera a bolsa abriu-a, ansioso, mas: oh! desencanto! Ela continha simplesmente uma enorme pedra. Os companheiros riram dele, supondo-o ludibriado, mas o jovem afirmou a sua fé no Senhor, levou consigo a pedra e começou a desbastá-la, procurando, procurando... Depois de algum tempo, chegou ao coração do bloco endurecido e encontrou ali um soberbo diamante. Com ele adquiriu grande fortuna e com a fortuna construiu uma casa onde os doentes pudessem encontrar refúgio e alívio em nome do Senhor. Vivia feliz, cuidando de seu trabalho, quando, um dia, dois enfermos bateram à porta. Não teve dificuldade em reconhecê-los. Eram os dois antigos colegas de oração, que se haviam enganado com o ouro e com a beleza, adquirindo apenas doença e cansaço, miséria e desilusão. Abraçaram-se, chorando de alegria, e, nesse instante, o Divino Mestre apareceu entre eles e falou: “Bem-aventurados todos aqueles que sabem aproveitar as pedras da vida, porque a fé e a perseverança no bem são os dois grandes alicerces do reino de Deus”.
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22º Domingo após Pentecostes
5 Subsídios litúrgicos Encenação: Esse texto presta-se para uma encenação que o aproxima das pessoas e envolve um grupo na própria pregação. Senhoras ou jovens poderiam encarnar um juiz acomodado que se deixa convencer. Uma viúva, humilde e perseverante, senhora da situação, demonstra claramente que sabe o que quer. Oração do dia: Bondoso Deus! A tua igreja reúne-se pela força de teu Santo Espírito, alimenta-se da tua palavra e do testemunho de vida e fé dos pais e mães da fé que encontramos nas Sagradas Escrituras, mas também daqueles que vivem hoje e sentam ao nosso lado no culto. Permite que aprendamos com a força da perseverança, com o poder da insistência e com a avassaladora capacidade de transformação que o amor carrega em nós. Fortalece-nos para servir em comunidade e para procurar-te com coragem e determinação. Amém! Poesia: Pode ser usada na acolhida ou para encerrar a pregação. A cruz nossa de cada dia... Não precisa ser pedida, não precisa ser buscada. Ela vem. Ela se instala. Faz sofrer. Faz morrer. Inadiável. Inexorável. A cruz nossa de cada dia... Faz pensar. Buscar sentido. Expande a consciência, Convoca a esperança, Conduz ao crescimento. Faz viver. A cruz nossa de cada dia... Fonte de vida e ressurreição. (Leonardo Boff)
Bibliografia BOFF, Leonardo. O Senhor é meu Pastor. Consolo divino para o desamparo humano. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. PERIN, Norman. O que Jesus ensinou realmente? São Leopoldo: Editora Sinodal, 1977.
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PRÉDICA: JEREMIAS 14.7-10,19-22
23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 18.9-14 2 TIMÓTEO 4.6-8,16-18
27 OUT 2013
Carlos Musskopf Humildade ativa
1 Introdução Os três textos bíblicos previstos para este domingo falam da humildade ativa. Talvez não seja acaso que estejam a quatro dias da festa da Reforma luterana. O evangelho relata a história do fariseu e do publicano, exemplos de humildade ativa (publicano) e de humildade interior, arrogante, excludente (fariseu). Na segunda Carta a Timóteo, o apóstolo Paulo enfatiza a humildade de quem “vive uma vida correta” (v. 8), humildade ativa de quem não usa as dificuldades conjunturais como desculpa para não pregar o evangelho com coragem e destemor. Quanto ao texto de Jeremias, ainda não foi trabalhado na série PL, e não é fácil encontrar exegese do texto. Para o conteúdo do livro de Jeremias, remeto a outros estudos de textos do profeta no PL. São 33 estudos nas 36 edições do PL publicadas até agora. Guarde-se que, de uma maneira geral, esses estudos apontam positivamente para a reforma josiânica e o desastre de seus sucessores imediatos. Jeremias nasceu num ambiente religioso, posto que pertencia a uma família de sacerdotes em Anatote. Iniciou sua pregação profética em 620 a.C. e morreu em 560 a.C. O local provável de sua morte foi o Egito, para onde teria sido levado juntamente com seu auxiliar Baruque depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios. Durante seu tempo de atuação profética também viveram Naum, Sofonias, Daniel, Ezequiel e provavelmente Habacuque. Jeremias viveu durante e após a reforma josiânica. A Josias seguiram no trono de Judá: Joacaz (609 a.C.), Jeoaquim (609-598 a.C.), Joaquim (598 a.C.) e Zedequias (598 a.C. até o cativeiro babilônico). O contraponto à humildade ativa está na atitude do povo e das autoridades que provocaram a ira da divindade. Essa ira certamente não se produziu no curto espaço de tempo entre Josias e o cativeiro. A arrogância provocada pela reforma josiânica no povo e nas autoridades já deve ter sido o início da ruptura com a divindade. Jeremias usa diversas figuras para descrever a situação pré-cativeiro: “casamento desfeito”, “beber água do Eufrates”, “parreira que foi colhida duas vezes”. Com essas figuras descreve as vertentes da crise que viviam naqueles dias (possivelmente na época de Joaquim). A crise é descrita com a figura da seca.
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Uma seca que atinge toda a criação: pessoas pobres e ricas, animais, vegetação; uma seca que não pode ser sanada por qualquer garoa. Tomo a liberdade de finalizar esta introdução com algumas informações gerais tiradas da internet: Jeremias é o 24º livro da Bíblia, tem 52 capítulos, 1.364 versículos e aproximadamente 43 mil palavras. O livro contém 779 predições. Há 194 perguntas, 303 mandamentos e 16 promessas. Em Jeremias, podemos descortinar 62 mensagens divinas. A tradição cristã identificou o “Senhor dos Exércitos” como sendo Jesus.
2 Exegese No contexto de uma grande seca, acontece a explicação da divindade sobre sua origem e sua razão de ser. Jeremias contra-argumenta, colocando o ponto de vista do povo. A divindade mostra-se inflexível, enquanto o povo conta com sua mudança interior para livrar-se da seca e suas consequências. Mas a justiça divina não se conquista com santidade interior, e sim com humildade (sentimento) ativa (ação). Como essa se estabelece não aparece em nosso texto. Fica como proposta a ser definida. V. 7 – Não é necessário que alguém aponte os erros cometidos. Os atos falam por si e acusam. Mas se solicita que Deus aja de acordo com Sua vontade. Aqui transparece o desejo de que a vontade de Deus não seja fazer justiça pela vingança, como era comum acreditar na época (e ainda hoje), mas que reinvente a justiça como um novo começo para as pessoas em particular e para o povo em geral. Também retoma a concepção de uma divindade que precisa ser lembrada de seus acordos e alianças. Num outro contexto, a divindade estende o arco-íris no céu para que ela própria não esqueça da aliança que estava fazendo com o povo (Gn 9. 15). V. 8 – Agora o povo lembra de um aspecto que havia esquecido: a fé na divindade está ligada à esperança (sentimento) e ao resgate (ação). Nesse caso, a uma atitude comprometida com a produção de alimentos, com a paz entre os povos e com a estabilidade política. Ao contrário das pessoas sem raízes e das pessoas passageiras que não plantam, nem colhem, nem se dedicam aos longos processos de educação para a humildade e para a paz. V. 9 – Voltam as expressões de confiança; agora, através de comparações da divindade com um homem de personalidade forte que não se pode mostrar desanimado; como um herói que se preocupa com seus simpatizantes; no v. 9b, há duas possibilidades de tradução: “somos chamados por teu nome” (Almeida); “teu nome é invocado sobre nós” (Bíblia de Jerusalém). Em todos os casos, a identidade e a personalidade das pessoas são definidas pela pertença à divindade. V. 10 – O primeiro bloco de versículos do texto da prédica termina com palavras da divindade. Ela aponta para o problema principal: o andar errante das pessoas que confiam em sua própria piedade e santidade. Essa é a causa da trágica seca que estão enfrentando. O andar errante não pressupõe preguiça nem acomodação (não poupam seus pés), mas pressupõe falta de foco, de consciência e, sobretudo, falta de uma humildade ativa. No v. 10b, as versões brasileiras tradu-
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zem a formulação hebraica pqd por “punir” e “castigar”. Mas a edição alemã em linguagem justa (gerechte Sprache) traduz por “trazer à responsabilidade” (zur Verantwortung ziehen), e Martim Lutero usou “afligir” (heimsuchen). O segundo bloco (v. 19-22) termina com palavras do povo, que repete a vontade de negociar com a divindade, oferecendo como moeda de troca sua própria santidade. Faz a divindade lembrar de seus atos no passado e pergunta se se esqueceu deles e se não está disposta a repeti-los. V. 19 – Essa experiência de cruz leva somente a uma transformação interior. Mas, sem dúvida, o sofrimento é grande. Não se pode mais olhar para baixo. A dor provocada pela situação de seca está no limite máximo. Se não é ali que a esperança não acaba, é ali que ela se mostra em sua dramaticidade maior. V. 20 – Não dá mais para esconder; não dá mais para fazer de conta. Não é de agora. Quando se chega ao fundo do poço, é porque se desperdiçou muita água, andou-se errante por muitos quilômetros. V. 21 – O povo tenta mexer com os brios da divindade. Afinal, os seres humanos, as cidades, a terra fértil são suas criaturas. Destruí-las teria que ser para a divindade como destruir uma parte de si mesma. Isso seria contraditório com as promessas e as alianças que sempre estabeleceu desde a criação. V. 22 – Em contrapartida, o povo assume o compromisso de cuidar melhor da criação, das cisternas que acolhem a chuva (v. 3) e certamente aonde colocam suas energias.
3 Meditação Quatro são os personagens principais de nosso texto: num lado, estão Jeremias, o povo e as autoridades de Judá; no outro, a divindade. O pano de fundo está na chamada “reforma josiânica”. Como se sabe, Josias provocou uma aliança indissolúvel entre Estado e “Igreja”. Podemos ver aí uma subordinação da fé aos interesses do Estado. Por outro lado, a radicalidade da reforma josiânica não provocou união, mas submissão. Josias via os “deuses” estrangeiros como ídolos, mas não tratou da mesma forma o “deus” poder com o qual ele se armou. Com isso desprezou as convicções religiosas genuínas e sinceras de muitas pessoas. Certamente, sua atitude intolerante em relação a outras expressões de fé criou ressentimentos e represou descontentamentos que afloraram de forma desordenada após sua morte. O profeta Jeremias tem um amor muito grande pelo povo. Percebe que a seca provocou mudanças no interior das pessoas. Acredita nessas mudanças, mas enxerga que elas não levam à solução dos problemas. Por isso sua vocação é dizer palavras duríssimas de denúncia contra o povo e contra as autoridades de Judá. Como as referidas mudanças interiores não resolveram os problemas, eles recrudesceram. Criaram como que um “direito próprio”, centrado na mudança pessoal e na conduta particular e não no direito da divindade. O resultado desse tipo de mudança não podia ser outro: o povo tornou-se arrogante em sua autocrítica e em seus propósitos. Tornou-se “orgulhoso de sua humildade”. Sabe-se
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que pessoas arrogantes são exatamente assim por causa da insegurança que não querem e não podem admitir. A divindade anuncia sua intervenção terrível, que já se prenuncia na seca. Jeremias está na difícil situação de querer impedir a justiça pela destruição e de ser ao mesmo tempo o porta-voz dela. Insistentemente, ele tenta negociar com a divindade, lembrando-a de suas intervenções na história, quando se deixava convencer e mudava o veredito. Mas, dessa vez, a divindade mostra uma inflexibilidade como em poucas oportunidades. Não está aberta a negociações. Não está disposta a dar-se por satisfeita com a mudança interior que o povo tinha efetuado. É chegado o momento em que a mudança interior por si só não basta. Tem que haver uma transformação maior. Tem que partir do zero para que aconteça verdadeira reconciliação entre a divindade e o povo/autoridades. O que chamo de “partir do zero” foi dramático para o povo da época. A seca era real com todas as suas consequências. O cativeiro babilônico foi experimentado com toda a sua dor. Para nós, fica a lição de que a justiça própria, a arrogância, o desprezo ao direito divino têm que ser combatidos com sua destruição total. Não pode ficar pedra sobre pedra. Não pode ser construída uma humildade ativa sobre essas bases. A humildade é aquela que sai do âmbito do interior para alcançar o exterior. Tanto nas questões estruturais (que conhecemos graças ao programa da Teologia da Libertação) como nas questões de relações interpessoais. A verdadeira mudança, baseada na humildade ativa, muda todos os atores do processo. Nos dias em que escrevo este estudo, foi aprovada pela presidenta da República a constituição da Comissão da Verdade. Importa para nossa meditação que essa comissão não é baseada em ódio ou revanchismo, nem tem o objetivo de vingar e de punir, mas de restabelecer a verdade. A presidenta afirmou que a verdade não deixa de existir por ter sido escondida. Busca o equilíbrio entre as pessoas envolvidas. De acordo com o portal UOL, Dilma “diz que não haverá ressentimento, ódio, nem perdão. Ela só é o contrário do esquecimento”. Exatamente esses elementos estão dentro do nosso texto: não há perdão, mas também não há vingança nem punição ou castigo (v. 10). Há um novo começo, não baseado na justiça própria, mas numa renovação das relações pessoais e estruturais. Existem bons exemplos de técnicas de resolução de conflitos sem o uso da violência e sem inverter a ordem de vencidos e vencedores. Esses podem ser usados na prédica.
4 Imagens para a prédica A chave de interpretação do texto de Jeremias é a oração do fariseu no evangelho. O fariseu é uma pessoa de fé, que tem sua piedade pessoal e procura viver de acordo com ela. Uma piedade baseada na justiça própria e na mudança pessoal. Nem percebe que fere e exclui.
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A pregação pode começar expondo a fé do fariseu e perguntando quantas pessoas no culto não têm uma fé parecida. Um segundo passo seria apresentar as crenças e convicções de torturadores e torturados durante a ditadura brasileira; também essas pessoas agiam de acordo com suas convicções e sinceramente achavam que estavam fazendo o melhor para o país. O v. 10 de Jeremias dá a pista para uma solução pacífica dos conflitos que surgem a partir de convicções particulares e excludentes: a humildade ativa. A pregação deve interpretar o verbo pqd no sentido de “trazer à responsabilidade”, sem perdão e sem vingança; reconhecer a culpa pessoal e estrutural que não propõe a punição e o castigo, mas que pretende reestabelecer um equilíbrio e uma relação aceitáveis e justos.
5 Subsídios litúrgicos Oração inicial: (Momento de silêncio para concentração e autoanálise): P – Senhor, tu me chamaste e convidaste para ouvir tua Palavra. Mas sinto que interiormente ainda estou bem distante de ti, distante nos meus pensamentos, nas minhas atividades e preocupações. C – A vida no cotidiano me deixa distante de ti, mas também das outras pessoas. Também de pessoas que fisicamente estão ao meu lado. P – Reconheço que não são forças externas que geram esse distanciamento, mas são impulsos e decisões que eu tomo e pelas quais eu sou responsável. C – Essa consciência gera culpa dentro de mim e pesa sobre mim. Impede-me de encurtar as distâncias e de estabelecer a proximidade que desejo e que me faria tão bem. P – Permite, ó Deus, que esta oração seja o início de um novo tempo em minha vida. C – Que a mudança que provocas em mim seja o início de uma mudança em tudo o que penso e faço. P – Tem piedade de mim, escuta meus sentimentos mais íntimos e concede-me coragem para mudar. P – Absolvição: Ouçam a resposta que Deus dá à nossa oração: “Saberás que eu sou o Senhor, e que os que esperam em mim não serão envergonhados” (Is 49.23). Oração de coleta: P – Ó Deus de amor e justiça, na semana que passou, tivemos momentos de alegria e de dor, de grandes preocupações e também de descontração e lazer. Em tudo se mistura a nossa fé, a consciência de que necessitamos de ti e, ao mesmo tempo, de que vivemos sem ti, sem contar com a tua presença. C – Neste culto, aproximamo-nos de ti e nos colocamos diante da tua presença. Pedimos: vem também a nós, a cada pessoa em particular. Dá-nos teu bom Espírito Santo para que compreendamos melhor a ti nesta hora e compreendamos melhor a nós mesmos e também uns aos outros.
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P – Deixa-nos voltar para casa com tua bênção, com a proteção e o alimento da tua Palavra. C – Permite que te sintamos como nosso misericordioso e bondoso Deus e Pai. Por Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém.
Bibliografia BIBELARBEIT – Es ströme aber das Recht wie Wasser und die Gerechtigkeit wie ein nie Versiegender Bach (Amos 5,24) – Dr. Walter Altmann – 3. November 2008 (7. Tagung der 10. Synode der EKD, Bremen, 02.- 05. November 2008) http://pt.scribd.com/doc/64815188/14/Jeremias-14
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PRÉDICA: SALMO 46.1-7 (Hino CASTELO FORTE)
DIA DA REFORMA 31 OUT 2013
ISAÍAS 45.19-25 MATEUS 10.26b-33
Walter Altmann
1 Introdução: Dia da Reforma x “dia das bruxas” No mundo protestante, e mesmo no mundo ecumênico mais amplo, o 31 de outubro é conhecido como Dia da Reforma, referência ao dia do ano em 1517 em que o monge Martim Lutero teria afixado à porta da igreja do Castelo de Wittenberg suas famosas 95 Teses, convidando para um debate acadêmico sobre as indulgências e o comércio de indulgências então em curso, com o objetivo de arrecadar recursos para a construção da Basílica de São Pedro em Roma. Mesmo que o fato seja hoje um tanto controvertido, havendo quem defenda que Lutero tão somente teria enviado as 95 Teses a seu arcebispo (o que, em verdade, realçaria o fato de que Lutero não nutria a intenção de uma cisão na cristandade ocidental), o texto tornou-se amplamente difundido de imediato, e a data passou à história como o Dia da Reforma. Assim tem sido celebrada até os dias de hoje. Mesmo que o protestantismo tenha depois se desdobrado em muitas variantes, a data permanece na consciência das igrejas protestantes, significativamente designadas como “igrejas da Reforma”, como marco fundante comum. Até mesmo a maioria das igrejas pentecostais reconhece o Dia da Reforma como um evento significativo de sua própria história. Ainda assim, o pregador ou pregadora terão presente o fato de que, num ambiente cada vez mais dominado por meios de comunicação seculares, o dia 31 de outubro tem sido associado a uma origem pagã, hoje, porém, secularizada a comemorações quase que folclóricas, em que crianças se fantasiam e se divertem, pregam peças a outras pessoas e delas solicitam alguns obséquios, como a entrega de doces. Até alguns anos atrás, essa data e sua correspondente prática não eram muito observadas em nosso meio, mas vêm sendo crescentemente graças, como aludido, à sua difusão pelos meios de comunicação. O pregador estará, portanto, de certo modo, nadando contra a correnteza quando quiser chamar a atenção para um evento que transformou o transcurso da história da igreja, e mesmo do mundo ocidental, e não para uma brincadeira folclórica. Obviamente, porém, do ponto de vista material, o Dia da Reforma é incomparavelmente mais substancioso, razão pela qual é indispensável que o pregador e a pregadora lhe deem muito mais atenção. O texto selecionado para a pregação é o Salmo 46, que serviu de base para o reformador Martim Lutero compor seu mais famoso hino, a saber: Castelo Forte. Como se mostrará tanto um como o outro é manifestação da confiança incondicional na ação misericordiosa e salvífica de Deus.
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O texto de Isaías é adequadamente relacionado na medida em que expressa cabalmente a exclusividade da ação de Deus em contraposição a qualquer ídolo que será sempre uma fabricação humana e, portanto, não pode pretender ter a eficácia do Deus verdadeiro, embora as pessoas possam ajoelhar-se diante dele e servi-lo. Haverá de se ter cuidado, porém, no contexto da Reforma, para não identificar pura e simplesmente os ídolos com a Igreja Católica, na qual Lutero exerceu sua crítica. Em tempos de diálogo e compreensão ecumênica, em que não se lhe poderá negar a natureza de igreja cristã, haverá muitos outros ídolos a ser identificados, dentre os quais o próprio Lutero mencionou, na exposição do Primeiro Mandamento no Catecismo Maior, Mâmon, ou seja, as riquezas, como o maior deles. Já o texto de Mateus realça, em absoluta consonância material com o Salmo 46, a proteção divina a quem proclama o evangelho. Sabê-lo e aceitá-lo gera destemor e intrepidez na proclamação, ainda que ela venha a suscitar antagonismos e resistências, acarretando inclusive sofrimento e perseguição. Como Lutero assevera no hino Castelo Forte: apesar de tudo, o reino de Deus é a herança de quem segue a palavra de Deus e nele confia. A seguir, é aqui reproduzido, por pertinente, um ensaio sobre o Salmo 46 e o hino Castelo Forte, já publicados anteriormente em meu livro “Palavra a seu tempo”.
2 Observações exegéticas e interpretativas ao Salmo 46 e ao hino Castelo Forte
Deus é castelo forte – esse é, sem dúvida, o mais conhecido dos hinos de Lutero. Cantado em todo o mundo, sua influência vai muito além do luteranismo. Ele se tornou uma espécie de “hino nacional”, identificador do próprio protestantismo como um todo. Também é entoado em celebrações ecumênicas, e lembro de tê-lo ouvido ser cantado com entusiasmo e até orgulho em uma grande igreja pentecostal do Chile. Aquela comunidade identificava-se com esse hino como expressão de sua própria experiência (de vitória sobre os demônios, dos quais nós já secularizados nada mais queremos saber?!). Bem impressionante e até comovedor, mas com quanta razão o hino exerce esses papéis? Não sabemos quando Lutero compôs o hino. Com toda a certeza, não foi para expressar qualquer orgulho denominacional ou confessional, tampouco como hino de vitória em qualquer competição religiosa a testar a eficácia da fé. Ele já estava incluído em um hinário de 1529, tendo sido, portanto, composto antes dessa data, mas certamente não nos primórdios da Reforma em 1517, quando da afixação das igualmente famosas 95 Teses ou quando Lutero em 1521 teve de enfrentar a Dieta de Worms e o imperador, como por vezes se supôs. Uma hipótese é que tenha sido composto quando Wittenberg, em 1527, enfrentava a terrível ameaça da peste. Como seja, desconhecemos sua origem. Ele é, contudo, em essência – isso seu texto revela sem margem a dúvidas –, um hino de confiança em Deus e de consolo em toda e qualquer tentação e tribulação, enfermidade, flagelo natural, catástrofes, guerras, angústias mil.
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O que nos sustenta nos momentos difíceis de nossa vida? E quando chegarmos ao fim de nossa vida, o que nos sustentará? Essas são as questões de fundo do hino, assim como são no Salmo 46, em que ele está baseado. Trata-se esse de um salmo de confiança e conforto, com uma destemida confissão de confiança em Deus em face de toda e qualquer adversidade. Também o salmo é um hino, possivelmente para uso no culto, com três estrofes, cada qual culminando com a confissão de confiança em Deus, porventura a ser cantada pela comunidade: “O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio” (v. 7, 11 e, conforme sugerido por comentaristas, também após o v. 4). É uma afirmação de confiança em face de eventos que nos ameaçam e atingem a partir da natureza – catástrofes naturais, como deslizamentos e terremotos, são mencionadas (v. 2-3) – e na história dos povos – referidas são as guerras (v. 6 e 9). Em face dessas terríveis ameaças de destruição e morte, sustenta-se a afirmação inicial do salmista: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (v. 1). Em meio à realidade de sofrimento, Deus protege Jerusalém, a cidade santa, de cujas áridas terras brotarão águas vivas a alegrar o coração. A terceira estrofe relata-nos o maravilhoso livramento que vem de Deus: ele porá fim às guerras despedaçando todas as suas armas e erigindo seu reino de paz e justiça, do qual podemos fazer parte. Por isso não precisamos temer (v. 2) e nele podemos confiar. Em sua explanação do Salmo 46, Lutero afirma confiante: Cantamos o salmo para louvor de Deus, por estar conosco e por preservar maravilhosamente sua palavra e a cristandade contra as portas do inferno, contra o furor de todos os demônios, dos entusiastas, do mundo, da carne, dos pecados, da morte etc. Nosso pequenino poço também há de permanecer fonte viva, enquanto seus pântanos, banhados e águas paradas apodrecerão, exalarão mau cheiro e hão de secar. Uma esperança ingênua e irreal, à qual Lutero com seu hino deu ampla difusão? Podemos nós assumir como nosso quando na quarta estrofe cantamos: “Se a morte eu sofrer, se os bens eu perder: que tudo se vá”? (O original alemão é ainda mais chocante ao mencionar “corpo, bens, honra, filhos e mulher”.) Como no salmo, o hino de Lutero começa com a afirmação contundente: Deus é castelo forte e bom, defesa e armamento. E acrescenta: Assiste-nos com sua mão, na dor e no tormento. Lutero não ignora a dura realidade das tentações, do sofrimento, do mal e da morte. Ela será descrita com toda a crueza ao longo das estrofes do hino. Mas ele conhece uma realidade ainda maior: a graça de Deus, que sempre prevalecerá. Logo após a confissão de fé em Deus, o texto esclarece, ainda na primeira estrofe, contra quem Deus haverá de triunfar, a saber, o próprio Satanás, a quem na terra ninguém poderá resistir, a não ser se refugiando em Deus. O rei infernal, das trevas, do mal,
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com todo poder e astúcia quer vencer, igual não há na terra. A segunda estrofe leva-nos ao âmago da redescoberta do evangelho por Lutero: A minha força nada faz, sozinho estou perdido. Por nossos critérios e medidas, é uma causa perdida. Aqui se reflete a experiência que o próprio Lutero fez: por mais que se esforçasse em alcançar a salvação, nem sua consciência tampouco seu coração obtinham descanso. Não a obtemos por boas obras, sejam elas de benemerência, ações de autodisciplina, ainda nossa espiritualidade e suas orações. O inimigo é por demais poderoso. Será essa de fato uma causa perdida? Um homem a vitória traz, por Deus foi escolhido. Para que não paire dúvida alguma: Quem trouxe essa luz? Foi Cristo Jesus, o eterno Senhor, outro não tem vigor; triunfará na luta. A salvação nos vem tão somente de Deus. Com essa certeza, podemos encarar a realidade em toda a sua aterradora dimensão, o que ocorre na terceira estrofe. Se todo o mundo estivesse tomado por “mil demônios”, querendo devorar-nos, já nada poderia nos atemorizar. Satanás não tem mais nenhum poder, uma única palavra de Deus há de destruí-lo. Conforme o original, basta para Jesus Cristo uma “palavrinha” só. Se inúmeros demônios vêm, querendo exterminar-nos, Sem medo estamos, pois não têm poder de superar-nos. Pois o rei do mal, de força infernal, não dominará; já condenado está por uma só palavra. A supremacia de Deus não pode ser expressa de maneira mais contundente. Todos os nossos esforços são em vão, mas para Deus uma “palavrinha” basta. Se uma única palavrinha lhe é suficiente, por que haveríamos nós de temer em dor e aflição quando dele recebemos tão abundantes promessas de salvação? Essa conclusão é tirada na quarta estrofe: O Verbo eterno vencerá as hostes da maldade. As armas, o Senhor nos dá: Espírito, Verdade.
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O original alemão é mais claramente centrado na ação de Deus: “Ele age entre nós com seu Espírito e dons”. Isto é: Deus abre-nos novas perspectivas e nos permite prosseguir nossa via, agora com seu espírito e com suas dádivas a nós. No horizonte final, não importa o que nos acontecer; mesmo se perdermos tudo quanto, depois de Deus, nos é mais importante, estaremos em seu reino de esperança, justiça e paz. Se a morte eu sofrer, se os bens eu perder: que tudo se vá! Jesus conosco está, seu Reino é nossa herança. “Que tudo se vá!”. “Corpo, bens, honra, filhos e mulher”, como consta no original? Não se trata aqui de desprezo por esses valores tão substanciais para nossa vida e tão íntimos em nossas relações, com os quais Lutero, em vida, também se alegrou? Mas nos demos conta: nada disso, por mais precioso que seja, nos dá segurança para a vida. Mais cedo ou mais tarde, seja em forma dramática, seja tranquila e natural, nos defrontaremos com o “último inimigo” (1Co 15.20), a saber, a morte. E todas as pessoas, sem exceção, sucumbirão diante dela. Será o fim de tudo? Definitivamente não. “O último inimigo a ser destruído é a morte” (v. 26). Também esse inimigo terá sido derrotado por Jesus. “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? [...] Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 55 e 57). No início do hino, “Deus é castelo forte e bom”; no final: “Seu Reino é nossa herança”. Fica claro: nada de humano pode, em última instância, nos assegurar diante das ameaças que nos rodeiam. Podemos admirar portentosos castelos, mas os fabricados por mãos humanas não nos darão a segurança última que procuramos. Só Deus, por intermédio de Jesus Cristo, pode no-la dar. “Deus é castelo forte e bom”, e não há sobre a face da Terra nenhum outro castelo que seja, em última instância, firme e bom. Apenas nosso Deus é. “Isso é certissimamente verdade”, diz Lutero repetidamente no Catecismo. Por isso “Deus [e somente Deus] é castelo forte”. Ainda uma palavra: nos dias em que preparei este texto originalmente – janeiro de 2010 –, corriam na tela de televisão, quase incessantemente, imagens dramáticas dos catastróficos efeitos do terremoto no Haiti. Destruição por toda a parte, de residências até a catedral, o palácio presidencial e a sede da missão da ONU. Um terço da população do país fora atingido. As estimativas de mortes cresciam a cada momento, também entre agentes de paz e desenvolvimento que estavam atuando no país. Faltavam moradia, água e comida. A multidão corria pelas ruas a esmo, sem saber para onde ir ou onde buscar alívio. Mais de meio milhão de migrantes internos, forçados pelas circunstâncias. Órfãos sem conta. Mas, em meio à tragédia, vinham também imagens de solidariedade no resgate a sobreviventes soterrados, no cuidado médico em condições precaríssimas, na distribuição dos parcos alimentos disponíveis, no nascimento saudável de novas crianças dadas à luz por mães feridas – um raio de futuro em meio à tragédia presente. E também nos chegaram imagens de um grupo de pessoas na rua, entre
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escombros, em oração e entoando hinos. Deus é castelo forte teria estado entre eles? Bem poderia ter estado. Resumindo: com boa razão, o hino Deus é castelo forte recebeu o lugar de destaque na espiritualidade das igrejas da Reforma, com alcance ecumênico até. Mas não porque devesse ser celebrado como um hino de vitória do protestantismo, mas por expressar bem a centralidade da obra de salvação de Deus em Cristo em nosso favor. Por nos consolar na tribulação. Quando nos reconhecemos impotentes, Deus está ao nosso lado. Nele podemos confiar, sempre, em todas as circunstâncias, as mais dramáticas que sejam e, por fim, em face da morte. “Seu Reino é nossa herança.” Até aqui o texto já anteriormente publicado e aqui levemente editado. Demos o passo seguinte.
3 Meditação: rumo à pregação O pregador haverá de escolher a que quer dar maior ênfase: ao texto do Salmo ou ao hino Castelo Forte, tendo o outro em conta e como referência. Se a escolha recair sobre o Salmo, sugiro referir-se a todo ele, observando sua estrutura em três estrofes, tendo como refrão de cada uma delas os versículos 7 e 11 (“O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio”), ou seja, incluindo-o também após o versículo 4, como conclusão da primeira estrofe. O tema geral (que seria então desdobrado nas três estrofes) estaria dado pelo versículo 1: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”. A confiança expressa nele vence o temor: “Portanto não temeremos” (v. 2a). A seguir, dando forma à primeira estrofe, vem o relato de terríveis eventos diante dos quais a fé deve se sustentar. O ser humano está exposto às calamidades da natureza. “Ainda que a terra seja abalada, e as montanhas caiam nas profundezas do oceano...” Na segunda estrofe (v. 4-6) são relatadas as ameaças, a dor e o sofrimento que nos vêm da história, da ação humana. Em meio à destruição, Deus preserva a cidade de Deus. Jerusalém era a figura da proteção de Deus. E em relação a ela, situada em região árida, é feita a promessa de que dela fluirá um rio a proporcionar alegria e redenção para todos os povos. A inclusão da terceira estrofe é também pertinente por voltar-se ao futuro e acentuar o livramento que vem de Deus. Ele terminará com as guerras, despedaçando todas as suas armas e trazendo um reino de paz, que, como sempre é na Bíblia, vem entrelaçada com a justiça e a preservação da boa criação de Deus. Pondo Deus fim às guerras e suas armas mortíferas, fica o radical contraste com o empenho de tantos governos e grupos através da história e hoje em impor a outros pelas armas a sua própria ordem e vontade. A pregação desdobrar-se-ia, então, em três partes, podendo retoricamente cada uma iniciar com a afirmação do tema dado com o versículo 1 e culminando cada vez com o refrão mencionado (v. 7 e 11). Já a outra alternativa, tomando o hino Castelo Forte como possível fio condutor da pregação, propicia transmitir no dia comemorativo a percepção fun-
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dante da Reforma, a saber, a doutrina da justificação por graça mediante a fé (sola gratia, sola fide), todavia fora do jargão teológico, no contexto de uma profunda espiritualidade pessoal do Reformador. O tema geral poderia ser dado pela pergunta sobre o que importa na vida, em última instância, também em dor e sofrimento, até mesmo em face da morte. As diferentes estrofes podem ser desdobradas a partir daí, e a exposição acima pode servir de subsídio. A pergunta motivadora pelo que importa na vida pode, então, ser respondida de maneira incisiva. Em qualquer dos casos, deve-se ter em conta que não convém adotar um tom triunfalista ao expor a Reforma ou ao descrever a vida do Reformador. Isso seria o contrário do que Lutero propôs. Somente seremos fiéis ao legado teológico do Reformador se toda a ênfase estiver voltada a exaltar a ação e a misericórdia de Deus em qualquer situação. O Salmo 46 e o hino Castelo Forte não são um cântico a incitar-nos para uma batalha, quiçá rotulada de santa, mas um cântico de consolação em toda e qualquer adversidade que nos acometa. Assim, eles também encaram com grande realismo as catástrofes naturais e a violência humana na história e o sofrimento por elas causado, mas afirma que sempre há algo maior e mais decisivo, e esse algo maior pode ser encontrado em Deus. Confiantes em Deus e por ele consolados, podemos também, em resposta de fé e gratidão, assumir o papel de servidores de nosso próximo, isto é, tornar-nos instrumentos de solidariedade a quem sofre, bem como de paz e justiça em meio às violências da história.
4 Subsídios litúrgicos
É apropriado, parece óbvio, que a comunidade cante o Castelo Forte após a pregação. O convite ao canto pode ser incisivo: “Em gratidão por Deus estar sempre ao nosso lado, cantemos com alegria esse hino de confiança em Deus: o Castelo Forte”. Nas orações, o tema propicia motivos de gratidão e louvor, bem como de intercessão. Entre os motivos de gratidão mencionem-se a boa e bela criação, a dádiva da salvação e do amparo divino nas tribulações, bem como o testemunho fiel do evangelho através dos séculos, em especial a redescoberta do evangelho da graça na Reforma. Tudo pode ser emoldurado pelo louvor a Deus por sua imensa misericórdia, não levando em consideração os pecados humanos, mas enviando seu Filho para a salvação de todas as pessoas. Pode-se empregar, em alusão ao tema do Salmo 46 (v. 1), repetidamente, uma evocação como: “Ó Deus, te exaltamos porque sempre estás conosco” ou “Ó Deus, te louvamos porque és nosso refúgio em todas as tribulações”. Na confissão de pecados, sugere-se incluir o pedido de perdão pela divisão da igreja, pelos momentos de infidelidade ontem e hoje. Na intercessão, há que se lembrar tanto de situações de sofrimento pessoal (nas enfermidades, por exemplo, mas também causado por catástrofes naturais) como das vítimas de guerras, de fome e de injustiças, causadas pela ação humana. Cada petição pode ser introduzida, em alusão ao Salmo 46.1, por uma evocação como: “Ó Deus, tu
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que és o nosso refúgio e fortaleza” ou “Ó Deus, tu que és socorro bem presente nas tribulações”.
Bibliografia ALTMANN, Walter. Salmo 46 – Deus é castelo forte. In: ALTMANN, Walter. Palavra a seu tempo. Prédicas, alocuções e estudos bíblicos. Org. por SOUZA, Mauro Batista de. São Leopoldo: Oikos; São Bento do Sul: União Cristã, 2010. p. 325-330. LUTERO, Martinho. Catecismo Maior. In: LIVRO DE CONCÓRDIA: as Confissões da Igreja Evangélica Luterana. Trad. e notas Arnaldo Schüler. 5. ed. São Leopoldo-Porto Alegre: Sinodal-Concórdia, 1997. p. 385-496.
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PRÉDICA: JOÃO 11.1-5,17-21
DIA DE FINADOS 02 NOV 2013
ISAÍAS 25.1,8-9 ROMANOS 8.31-39
Flávio Schmitt
1 Introdução O Dia de Finados está associado à morte. É o dia em que nos lembramos em especial das pessoas mortas. No Dia de Finados, pessoas e comunidades lembram de seus mortos. Mais: dão-se conta da transitoriedade da vida. Têm oportunidade de aprofundar a consciência de que pessoas são mortais. A morte mexe com todos os seres. Ela sempre é o fim da vida, seja de que vida for. A morte de um ser humano sempre impacta, até mesmo entre aqueles e aquelas que estão acostumados a lidar com a morte no dia a dia. Mas o que mais mexe conosco é a morte de uma pessoa que nos é querida. Ali a morte mostra toda a sua força, seu poder entre nós. Por isso é tão profunda a promessa da tradição judaico-cristã, alimentada pelas palavras do profeta: “Tragará a morte para sempre” (Is 25.8). O Dia de Finados existe no calendário eclesiástico para lembrar as pessoas que já nos antecederam na morte. Ao mesmo tempo, quer preparar-nos para esse momento tão derradeiro da existência humana. Porém, acima de tudo, esse dia é uma oportunidade para testemunhar que, na ressurreição de Jesus, a morte foi vencida pela vitória (1Co 15.54ss) e que nada nos pode separar do amor de Deus, revelado em Cristo Jesus (Rm 8.31-39).
2 Exegese O Evangelho de João, em sua forma atual, representa um grande desafio para a interpretação cristã. Além do estilo e da linguagem, diferente dos sinóticos, João apresenta-nos uma reflexão sobre acontecimentos da vida de Jesus, testemunhados pela igreja primitiva. O autor considera-se herdeiro da tradição do discípulo amado de Jesus. Apresenta o conteúdo do evangelho em duas partes (1.19-12.50 e 13.1-20.31), precedidas por um prólogo (1.1-18) e seguidas por um epílogo (21.1-25). Na primeira parte, o evangelista revela o Verbo ao mundo, que não O aceita. No “livro da glória”, que sucede o “livro dos sinais”, o Verbo mostra sua glória aos que O aceitam e retornam para o Pai depois da morte, ressurreição e ascensão de Jesus (BROWN, 2002, p. 445). A perícope indicada para este Dia de Finados está inserida no “livro dos sinais”. Em geral, o capítulo 11 é denominado de “ressurreição de Lázaro”. O capítulo 11 fala da doença, morte e reavivamento de Lázaro. O que Jesus faz com
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Dia de Finados
Lázaro é seu último sinal público. A “ressurreição de Lázaro” está entre o texto que fala de Jesus como bom pastor (10) e a unção de Jesus por Maria em Betânia (12). Nesse capítulo, enquanto Lázaro é reanimado para a vida, Jesus é condenado à morte pelo Sinédrio (v. 53). O cenário apresentado pelo texto é claro. Betânia é o palco dos acontecimentos. O texto faz questão de informar que essa Maria é a mesma que ungiu os pés de Jesus (v. 2). Lázaro, o irmão de Marta e Maria, está doente. Muito doente. Diante da gravidade da situação, as irmãs decidem comunicar o fato a Jesus. Enviam o recado a Jesus: “Aquele a quem amas está doente”. Lázaro está em necessidade. A informação provoca uma reação em Jesus. Ele declara que a enfermidade de Lázaro (astheneia) não é mortal. Mais uma vez, o texto faz questão de dizer que aqueles irmãos eram muito queridos para Jesus. Na sequência, o texto de João mostra Jesus dando-se conta de que aquela situação desconfortável e angustiante para a família é oportunidade para a manifestação da glória de Deus. Lucas também nos fala do encontro de Jesus com as irmãs Marta e Maria (Lc10.38-42). Nessa passagem, o diálogo de Jesus com as irmãs gira em torno da atitude de cada uma das irmãs em relação a Jesus. Enquanto Marta está agitada com os afazeres (Lc 10.40), Maria está sentada aos pés de Jesus (Lc 10.39). Tanto em Lucas, com Maria, como em João, com Marta, o encontro de Jesus com as mulheres envolve a questão central da fé cristã: a ressurreição. O nome Lázaro também aparece no Evangelho de Lucas. Em Lucas 16.2021, é apresentado um Lázaro coberto de chagas e vivendo de migalhas. Certamente não se trata do mesmo Lázaro. Com certeza, não foram essas chagas a causa da morte do irmão de Marta e Maria. Ao receber o recado, Jesus decide dirigir-se a Betânia. Porém Jesus demora demais. Quando chega, é informado de que Lázaro já está morto. Pior, já está sepultado há quatro dias. Jesus já sabia: Lázaro morreu – apethanen (11.14). A morte da qual fala Jesus é a morte física. Clinicamente, já se cogitou da possibilidade de Lázaro ter sido vítima da Síndrome de Lázaro ou “catalepsia patológica”. Nesse caso, a pessoa permanece em estado tanatológico, mas não tem o sangue coagulado, nem pulmões ressequidos ou neurônios danificados. No caso de Lázaro, fica difícil acolher a explicação científica, uma vez que já estava morto há dias. Além disso, era praxe entre os judeus velar o corpo antes do sepultamento. Aparentemente, o texto tenta explicar o atraso de Jesus apelando para a distância: três quilômetros de Jerusalém. João 11.6 nos diz que Jesus ainda demorou dois dias após receber a notícia para decidir voltar a Betânia. Além disso, Jesus encontrava-se “para além do Jordão”, lugar onde João iniciara seu ministério batismal (Jo 10.40). Como agravante do quadro, era um risco voltar a Jerusalém, pois o judeus queriam apedrejá-lo (v. 8). De qualquer forma, Jesus se atrasou. Jesus precisou primeiro voltar a Jerusalém e depois dirigir-se a Betânia. Nesse tempo, Lázaro “adormeceu” (kekoimetai, v.11). O sepultamento de Lázaro acontece sem a presença de Jesus. Como de costume, o corpo é preparado. Lázaro é enfaixado com ataduras e unguentado. Seu rosto é coberto com um lençol e depois conduzido para ser sepultado numa gruta,
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Dia de Finados
num túmulo fechado para sempre com uma pedra. As analogias com os relatos da morte e sepultamento de Jesus são evidentes. De alguma maneira, no retorno de Lázaro à vida, Jesus prefigura sua própria ressurreição. Pela indicação do texto, os familiares de Lázaro ainda estão sendo confortados (paramythesontai – Jo 11.19) por amigos e vizinhos. Nesse momento, as irmãs tomam conhecimento da chegada de Jesus. Dessa vez, é Marta quem toma a iniciativa. Ela vai ao encontro de Jesus. Maria fica sentada em casa. Ela não se mexe. Assim que encontra Jesus, Marta logo vai desabafando: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Esse mesmo argumento é utilizado por Maria (v. 32). O que, afinal, Marta e depois Maria quiseram dizer com isso? A sequência do texto mostra-nos que o evangelista coloca uma convicção nas palavras de Marta: Jesus tem poder para ressuscitar. Em seguida, Jesus mesmo declara: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v. 25). Para consolar as irmãs diante da morte do irmão, lá estão os judeus (v. 19). Marta e Maria não estão sozinhas. Tem apoio nesse momento de dor pela morte do irmão. Ainda assim, o texto insinua que o verdadeiro consolo não está presente. De fato, o verdadeiro consolo é experimentado por Maria apenas na sequência do relato, quando Jesus, vendo-a chorar (v. 32: klaiousin), chorou (v. 33: edakrysen). A palavra utilizada para falar do choro de Jesus significa “derramar lágrimas”. Esse “derramar lágrimas” revela que a comoção de Jesus pela morte do amigo era profunda. Essa solidariedade nas lágrimas revela a pertinência do comentário dos judeus: “Vede quanto o amava” (v. 36).
3 Meditação O que nos é apresentado neste texto poderia ser muito bem enriquecido com situações de doença e morte que acontecem junto a familiares em diferentes comunidades cristãs. A experiência de ter alguém doente na família em algum momento da vida alcança todos nós. Essa é a situação vivida por Marta e Maria com o irmão Lázaro. Diante da gravidade da situação, as irmãs resolvem avisar Jesus. Também hoje é assim que as pessoas buscam meios e recursos para tratar e curar seus entes queridos. Uma das maneiras de compartilhar a angústia e apreensão causadas pela doença de algum familiar querido é avisar os parentes, vizinhos e amigos. No envio do recado, por vezes, também está o pedido de socorro. Foi o que também Marta e Maria fizeram ao enviar o recado para Jesus. Como acontece também hoje no seio de muitas famílias que perdem seus entes queridos, Lázaro não resistiu. O texto não nos informa qual era, afinal, a doença de Lázaro. Tampouco somos informados sobre quanto tempo o irmão de Marta e Maria estava doente. Ao ser informado sobre a situação de Lázaro, Jesus mostra-se meio “cético” (v. 4), dando a entender que o caso não é tão grave. No entanto, a situação em Betânia revela algo diferente. É lá que Jesus se confronta com toda essa situação de doença, de perda, de morte, de luto. Jesus encontra-se diante da morte de Lázaro, diante do poder da morte de seu amigo. Diferente das irmãs, Jesus nem ao menos teve oportunidade de parti-
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Dia de Finados
cipar do sepultamento do amigo. Precisa conformar-se com os relatos e lamentos da irmã. Por fim, precisa ouvir de Marta que sua presença teria evitado o pior. Nessa hora, Jesus constata a dimensão da dor de Marta e Maria e do quanto teria sido oportuna a sua presença. Não são poucas as vezes em que familiares se acusam mutuamente pela não presença e pela providência não tomada antes da morte de algum ente querido. Aparentemente, a morte de Lázaro revela-nos o lado humano da relação de Jesus com Lázaro e suas irmãs, inclusive diante da morte. Mesmo diante da morte do irmão e da ausência de Jesus, as irmãs não estão sozinhas. Essa solidariedade dos “judeus” (v. 19) no momento da dor certamente foi significativa para as irmãs enlutadas. Tiveram o apoio e o conforto de pessoas na hora de preparar o irmão para o sepultamento e conduzi-lo à sepultura. No entanto, o verdadeiro socorro e consolo é sentido na presença e ação de Jesus. O sinal de Jesus, que segue na sequência da perícope, resgata Lázaro da morte para a vida.
4 Pistas para a prédica O texto indicado para este Dia de Finados trata da morte de Lázaro e do retorno de Jesus a Betânia depois de seu sepultamento. Nada no texto alude ao reavivamento de Lázaro. Nesse sentido, a pregação pode explorar aspectos do texto em que é possível fazer pontes com a experiência de morte de entes queridos dos ouvintes. Chamar atenção para a angústia das irmãs diante da doença de Lázaro, a agonia pela ausência de Jesus, a preocupação em avisar Jesus do estado do amigo, a necessidade de se ter de encarar a morte de familiares, o velório e o sepultamento sem a presença de pessoas que poderiam fazer a diferença. Outro aspecto do texto diz respeito à dignidade do tratamento dispensado aos mortos. As irmãs trataram de fazer com o corpo do irmão falecido o melhor que se pode fazer pelo corpo de uma pessoa querida nessa hora. Nesse sentido, há dignidade na morte de Lázaro na medida em que seu corpo é sepultado. Um terceiro ponto diz respeito à importância da solidariedade nos momentos de dor. Especialmente diante da doença ou da morte de uma pessoa querida, a presença e o conforto de pessoas, sejam vizinhos, amigos ou a comunidade em geral, fazem a diferença. Não podemos curar muitas doenças, também não podemos evitar a morte, mas podemos estar com as pessoas que sofrem por causa da morte de seus familiares queridos. Embora Lázaro tenha morrido mais tarde, o texto diz que o amor tem poder para ressuscitar, para trazer das garras da morte aqueles e aquelas que nos são queridos.
5 Subsídios litúrgicos O salmista disse no Salmo 30.5b: “O choro pode durar a noite inteira, mas a alegria vem ao romper da alva”.
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Dia de Finados
Oração: Senhor Jesus, reunidos neste dia, queremos trazer à memória aqueles e aquelas pessoas queridas que já não estão e não podem estar conosco. Sentimos sua falta. Sentimos saudades delas. Em nossas lembranças, percebemos o quanto nos eram, são e serão queridas. Queremos agradecer pela vida desses entes queridos: pelo avô, pela avó, pelo pai, pela mãe, pelo filho, pela filha, pelo irmão, pela irmã, pelo amigo, pelo vizinho, enfim, por todos aqueles que trazemos em nossos corações. Em meio à dor, às lágrimas e a todo sofrimento, fortalece a cada um e cada uma. Permite, ó Pai, que possamos nos consolar e fortalecer mutuamente. Renova em nós a fé na ressurreição. Ajuda-nos, Senhor, a caminhar na promessa da ressurreição dos mortos e na esperança de fazer morada junto ao Pai na presença daqueles que já não estão mais entre nós. Por Jesus, nosso Senhor. Amém. Oração final: Na oração final, lembrar de situações de angústia diante da morte; agradecer pela presença e auxílio prestados pelas pessoas; agradecer pela solidariedade e pelo consolo dados e recebidos; agradecer pela vida das pessoas falecidas por toda boa obra por elas manifestada; pedir que estejam em paz, no descanso na presença de Deus; dizer que estão bem cuidadas junto ao Pai; lembrar da transitoriedade da vida, do poder da morte e da nossa própria morte; renovar a confiança e fé no caminho de morte e ressurreição trilhado por Jesus; rogar a Deus que nos receba em sua morada quando também a nossa hora chegar.
Bibliografia BROWN, Raymond . Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1974. MOLZ, Cláudio. Auxílio homilético sobre João 11.1(2)3,17-27(41-45). In: Proclamar Libertação X. São Leopoldo: Sinodal, 1984. p. 434-444.
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PRÉDICA: LUCAS 19.1-10
24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
ISAÍAS 1.10-18 2 TESSALONICENSES 1.1-4,11-12
03 NOV 2013
Ana Isa dos Reis
1 Introdução O presente conjunto de textos está dentro do chamado Tempo Comum, que se estende do fim do ciclo pascal (que encerra no Domingo de Pentecostes) até o início do Advento, somando 28 a 30 semanas. Esse tempo após Pentecostes, diz James White, “sinaliza o longo ínterim da igreja da nova aliança até a vinda de Cristo em glória”. Os textos bíblicos lembram a continuação das obras salvíficas de Deus e chamam as pessoas a ser seguidoras de Jesus Cristo por meio de suas palavras e ações.
2 Exegese 2.1 – O autor A autoria do Evangelho de Lucas e do livro de Atos dos Apóstolos é atribuída, pela tradição da igreja, ao médico chamado Lucas, companheiro de Paulo em suas viagens missionárias (Fm 24; Cl 4.14; 2Tm 4.11). Lucas não é uma testemunha ocular dos acontecimentos que narra, mas um cristão grego culto que dá seu testemunho de fé a uma comunidade cristã não judaica. Seu evangelho está baseado em Marcos e na fonte Q, porém apresenta material próprio, sendo que quase a metade do evangelho apresenta material exclusivo dele, como o texto em questão. O Evangelho de Lucas foi escrito por volta dos anos 80. 2.2 – Estrutura do Evangelho de Lucas Como mostra a estrutura abaixo, a perícope está inserida na terceira parte do evangelho, que narra o deslocamento de Jesus da Galileia para Jerusalém. I – Narrativas iniciais e preparação: 1.1-4.13 II – A atuação de Jesus na Galileia: 4.14-9.50 III – Relato de viagem: 9.51-19.27 – envio dos setenta e ditos contra as cidades: 9.51-10.24 – relato da atuação em viagens: ditos, curas, parábolas, ações diversas: 10.25-18.14 – a caminho de Jerusalém: 18.15-19.27 IV – A atuação de Jesus em Jerusalém: 19.28-21.38 V – Paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus: 22.1-24.53
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24º Domingo após Pentecostes
2.3 – Observações exegéticas sobre perícope V. 1 – Jesus passou por Jericó para ir a Jerusalém. Nos tempos de Herodes Magno, Jericó era usada como sua capital de inverno. A arquitetura da cidade era romana, ornamentada de árvores, incluindo sicômoros. Jericó era uma próspera cidade comercial, dispondo, inclusive, de um centro de coleta de impostos. V. 2 – O nome Zaqueu pode ser visto como uma forma abreviada de Zacarias, que significa “Deus lembra”. Ele era o responsável pela cobrança de impostos. Certamente, como chefe, ele tinha subordinados, que cobravam impostos nos diferentes lugares. Em sua posição, era fácil enriquecer às custa dos outros. Ele deveria entregar ao poder romano uma determinada soma de impostos. Mas arrecadava muito além do contratado, enriquecendo assim rapidamente. Zaqueu, como publicano, era desprezado pelo povo, odiado por sua fama, marginalizado, sozinho. V. 3 e 4 – Não é dito o motivo que levou Zaqueu a querer ver Jesus. Certamente também já ouvira falar de Jesus e de sua amizade com pecadores. Pode ser que seus motivos foram movidos pela curiosidade. Zaqueu era rico, dotado de autoridade, mas vivia longe de Deus, descontente, quem sabe até com ele mesmo. Por ser de pequena estatura e uma multidão acompanhar Jesus, dificultando sua visão, Zaqueu sobe em um sicômoro, uma árvore frutífera que produz um fruto semelhante ao figo. O sicômoro produz diversas safras ao ano, mas, como seu fruto era de qualidade inferior, era consumido geralmente pelas classes mais pobres da Palestina. Os galhos dessa árvore são bem grossos e começam em um nível bem próximo do chão, o que facilitou subi-la. Zaqueu arriscou ser considerado um tolo ao subir naquele sicômoro. V. 5 – Jesus vê Zaqueu e chama-o pelo nome. É provável que isso tenha desconcertado Zaqueu e feito estremecer. Jesus convida-se para ficar em sua casa. Desafia Zaqueu a abrir as portas de sua casa, local em que ninguém queria estar. Jesus vai ao encontro de Zaqueu. V. 6 – Zaqueu responde à ação primeira de Jesus. Desce rapidamente e hospeda Jesus em sua casa com alegria. Alguém o havia visto e desejava ter comunhão com ele. Zaqueu não podia perder a chance de sua vida. V. 7 – Simultaneamente, iniciam os murmúrios. Como podia Jesus querer ficar na casa de um homem desses? Será que não conhece sua fama? Não sabe quem ele é? Muitos, certamente, achavam-se no direito de hospedar Jesus. Afinal, tinham uma conduta irrepreensível. E como pode Jesus ter quebrado essa expectativa? V. 8 – Ao sentir-se acolhido por Jesus, Zaqueu tem seus olhos “descascados”. Podia, agora, enxergar sua vida, suas ações injustas, sua péssima conduta. Dispõe-se a distribuir seus bens àqueles que estão à margem. E quer restituir de forma quadruplicada a quem tiver defraudado. Defraudar significa exorbitar, cobrar uma taxa exorbitante à base de evidências falsas. A restituição quadruplicada era uma medida requerida dos ladrões, de acordo com as leis judaicas (cf. Êx 22.1). Ordinariamente, a lei judaica exigia a mera restituição, além de um quinto do valor do objeto roubado (Nm 5.7).
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24º Domingo após Pentecostes
V. 9 – Jesus reconhece a sinceridade de Zaqueu. Estende-lhe seu perdão. Embora fosse pecador notório, Zaqueu ainda era uma pessoa especial, um filho de Abraão. Jesus enfatiza a natureza especial do ser humano. V. 10 – Jesus lembra sua missão: buscar e salvar a pessoa perdida. A ideia de Jesus sobre sua própria missão é a de que Ele é o Salvador. Ele vai ao encontro e convida a pessoa a deixar-se envolver por sua graça, seu amor, seu perdão.
3 Meditação É Jesus quem dá o primeiro passo. Ele é quem vem ao nosso encontro de forma espontânea e surpreendente. É Ele quem olha para nós e oferece-se para ir conosco, ficar em nossa casa. Por meio de sua palavra, ainda hoje Jesus está a caminho por este mundo. Precisamos estar atentos às passagens de Jesus. Zaqueu ouvira falar que Jesus passaria por Jericó. Ele era rico, mas não tinha ninguém; estava sozinho, isolado; era odiado. O dinheiro não é tudo. Ele pode comprar uma porção de coisas, mas não garante felicidade, nem cumplicidade, nem amizade, nem saúde, nem satisfação própria. Era preciso algo de verdade, perene, que fizesse a vida pulsar e valer a pena. A oportunidade estava aí. E Zaqueu não a deixou passar. Teríamos aproveitado a oportunidade? Teríamos nos desinstalado? Teríamos sido motivo até de chacota porque não queríamos perder a chance de ver Jesus? Jesus não passa ao largo. Ele tem olhos e vê verdadeiramente. A iniciativa é de Jesus; não pergunta por nossa disposição ou preparação para recebê-lo. Jesus “tem que ficar em nossa casa hoje”. Qual nossa reação? Alguns fogem, outros estão ocupados demais, outros preocupados demais com o supérfluo, outros estão desanimados demais, cegos demais, outros são exigentes demais, querem um Jesus de seu jeito. Outros, no entanto, assim como Zaqueu, descem depressa e recebem Jesus com alegria, mesmo que tenham a “casa da sua vida” bagunçada. Jesus quer entrar hoje em nossa casa. Sejamos quem formos, estejamos como estivermos, Ele se convida para ficar conosco. Jesus ama todos, restitui-nos nosso valor, reconcilia-nos com Deus. Ele quer encontrar-se com as pessoas em situação de vulnerabilidade: pobres, homens e mulheres, crianças, jovens e idosos, doentes, injustiçados, desempregados, desenganados. Mas também quer encontrar-se com os que praticam injustiça, com os desonestos, com os que pensam só em si mesmos, com os que só reclamam, com aqueles que não conseguem encontrar sentido na vida, com as pessoas que participam ativamente na igreja e com aquelas que nem igreja têm. Enfim, Jesus quer chegar a todo o povo, a todos nós. Também aos Zaqueus. Algumas vezes, essa postura de amor, misericórdia (e justiça) de Jesus nos incomoda. Por vezes, tornamo-nos como aqueles “murmuradores”. Apoderamo-nos de Jesus, colocamo-nos como modelo para os outros e não aceitamos que Jesus acolha nos mesmos braços que nós os Zaqueus da vida. Também aos murmuradores Jesus quer chegar, quer abrir-lhes os olhos e ensinar que, assim como Ele, precisam ir ao encontro dos Zaqueus que estão por aí. Ao invés de nos colo-
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24º Domingo após Pentecostes
carmos no pedestal, precisamos fazer caminho, ir ao encontro, levar a palavra de Jesus aos que estão pelo caminho, aos Zaqueus de hoje. É Jesus quem dá o passo em nossa direção. A ação primeira é dele. E qual nossa resposta? Ao hospedar-se na casa de Zaqueu, Jesus rompe o seu isolamento. Resgata Zaqueu. E Zaqueu deixa-se resgatar. Em gratidão e amor, porque é amado primeiro, porque é recordado, porque é visto, porque é procurado, Zaqueu experimenta uma transformação. Ele não só reconhece seu passado, como resolve encará-lo e fazer justiça. Ele chega à conclusão de que sua grande propriedade é fruto de roubo. Quer consertar essa situação. Dispõe-se a vivenciar o perdão e a exercitar a justiça, restituindo com o quádruplo do que havia defraudado. Por meio da ação primeira de Jesus, Zaqueu consegue enxergar a outra pessoa como sendo seu próximo. Ele rompe com o incurvatus in se, como dizia Lutero. Consegue tirar os olhos de seu próprio umbigo e alcançar os olhos dos outros. Entende que o “ser humano não é ilha, mas partilha” (L. Bell). Compreende que é possível viver vida nova e transformada, que a vida tem sentido, que é possível ser feliz. Assim como fez com Zaqueu, Jesus ainda faz hoje. Importa aceitarmos seu convite, seu amor. Importa nos deixarmos resgatar. Ao experimentarmos verdadeiramente a presença do Senhor em nossa vida, também experimentaremos transformação, rompimento com o incurvatus in se, rompimento com o capital que brutaliza e marginaliza. Porque nos sentimos amados, recordados e somos vistos, porque Jesus vem a nós, é que podemos responder alegremente a seu chamado, e ali haverá sinais do reino de Deus. Como igreja, fomos encontrados por Cristo, reconciliados, amados, recordados, chamados pelo nome, resgatados. Essa ação amorosa de Cristo encontra eco em nossa postura? Conseguimos enxergar o Zaqueu transformado – a partir da ação primeira de Cristo – em nossas igrejas? Como igreja, temos a tarefa de ser Cristo para o outro. Precisamos ser igreja a caminho, igreja que vê, que vai ao encontro, que convida a fazer parte e que não fica murmurando. Teremos sido um “pedaço” desse Jesus que vai ao encontro dos Zaqueus da vida? Ao termos comunhão com Jesus, nossa comunhão com o próximo ganha um novo sentido. O encontro com Jesus necessariamente me transforma. Ser cristão verdadeiramente me exige um rompimento do incurvatus in se. Leva-me a olhar para os olhos de Cristo, porque Ele está olhando para mim primeiro, e levame a olhar nos olhos de meu irmão e de minha irmã.
4 Subsídios litúrgicos Recepção: uma equipe pode estar à porta, recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Confissão de pecados: (Um momento de silêncio para a confissão individual, e depois o liturgo ou liturga dirige a confissão comunitária):
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Bondoso Deus, confessamos que somos pessoas pecadoras e que carecemos de teu perdão. A teu convite nem sempre respondemos com alegria. Perdoa quando não queremos te receber em nossa casa. Tua presença quer transformar-nos. Perdoa quando não nos deixamos transformar. Tu abres nossos olhos para nos enxergarmos como somos. Perdoa quando não queremos ter nossos olhos abertos. Teu amor ensina-nos a romper com nosso egoísmo. Perdoa quando não nos dispomos a romper o círculo em torno de nós mesmos e continuamos olhando apenas para nosso próprio umbigo. Tu vens a todas as pessoas. Perdoa nosso murmúrio e quando não queremos que tu sejas para todos. Tu nos conheces, Senhor, e sabes tudo o que pesa em nós. Livra-nos de nossos pecados e guia nossa vida. Por Jesus Cristo, o Salvador. Amém. Anúncio da graça: Antes de tudo e de todos está o amor de Deus. Em Jesus Cristo, Deus vem ao nosso encontro, nos reconcilia, ouve nossa confissão sincera, perdoa nossos pecados e nos chama a andar em vida nova e transformada. Anuncio o perdão dos pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Oração do dia: Misericordioso Deus, agradecemos porque vens ao nosso encontro em Jesus Cristo. Obrigado porque tu nos amas, te recordas de nós e nos vês. Ajuda-nos a responder à ação primeira que parte de ti, em Jesus. Desejamos ouvir teu convite e te receber em nossa casa. Transforma a nossa vida! Que a história de Zaqueu nos lembre de que tu vens a nós e nos resgatas e que, em gratidão a ti, podemos viver vida nova. Por Jesus Cristo, nosso Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo hoje e sempre. Amém. Sugestão: A história de Zaqueu é bastante conhecida. A mesma poderia ser encenada pelas crianças do Culto Infantil ou por um grupo da comunidade. A música “Como Zaqueu” (de Regis Danese) – que ainda faz sucesso – poderia fazer parte da celebração.
Bibliografia BAESKE, Albérico. Auxílio homilético sobre Lucas 19.1-10. In: Proclamar Libertação I e II. São Leopoldo: Sinodal, 1983. BRUNKEN, Werner. Auxílio homilético sobre Lucas 19.1-10. In: Proclamar Libertação. Volume 14. São Leopoldo: Sinodal, 1988. CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986. EST/Departamento Bíblico. Roteiro para a Leitura da Bíblia. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1996. p. 92-93.
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PRÉDICA: JÓ 19.23-27a
25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
LUCAS 20.27-38 2 TESSALONICENSES 2.1-5,13-17
10 NOV 2013
Roger Marcel Wanke
1 Introdução O final do ano eclesiástico é marcado por esperança. Por um lado, esperança diante da realidade da morte, pois ela não tem a última palavra. O cristão é aquele que vive a partir de uma viva esperança, cujo fundamento está na obra redentora de Jesus na cruz e em sua ressurreição (1Pe 1.3) e da qual ele é chamado a estar sempre preparado para dar razão (1Pe 3.15). Sem a esperança da ressurreição, sua fé é vã (1Co 15). Por outro lado, o “apagar das luzes” do ano eclesiástico aponta também para a expectativa da vinda do Messias, que é reatualizada e celebrada a partir do primeiro domingo de Advento. O Messias é aquele que vem redimir seu povo. Ele é a intervenção do agir salvífico de Deus para dentro de uma situação de desespero e sofrimento. Essa intervenção de Deus acontece na pessoa de Jesus Cristo, o autor e consumador da fé (Hb 12.2), o princípio e o fim (Ap 1.8), aquele com quem terminamos e iniciamos o ano eclesiástico. Para a pregação deste domingo, é indicada a perícope de Jó 19.23-27a, um texto veterotestamentário sapiencial que aponta para a esperança e para a certeza da intervenção de Deus em meio ao sofrimento. Já as leituras bíblicas previstas, conforme o Lecionário Comum Revisado, apontam para duas direções, que se complementam mutuamente. Em primeiro lugar, o texto do evangelho, Lucas 20.27-38, narra um encontro inusitado entre os saduceus e Jesus, cujo tema gira em torno da ressurreição. Os saduceus eram um partido religioso do judaísmo que, acima de tudo, não acreditava na ressurreição dos mortos. A esperança cristã é destacada nesse texto por meio das palavras de Jesus: “Deus não é um Deus de mortos, e sim de vivos, porque para ele todos vivem” (v. 38). Já o texto escatológico de 2 Tessalonicenses 2.1-5,13-17 é uma palavra de exortação à comunidade a permanecer firme diante da volta de Jesus e a não se deixar enganar por falsas doutrinas, principalmente relacionadas à escatologia. Além disso, o apóstolo exorta-a a permanecer firme diante do sofrimento e a guardar a tradição, que aqui se refere fundamentalmente ao evangelho, vivendo a partir da consolação e da boa esperança que vem de Deus. O centro deste culto, o 25º Domingo após Pentecostes, está na esperança cristã, que, mesmo em meio ao sofrimento do presente, pode olhar firme para o futuro de Deus, cuja intervenção definitiva acontecerá na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, pois tem seu fundamento claro no passado, na obra redentora de Jesus Cristo na cruz e na ressurreição dentre os mortos.
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2 Exegese Antes de abordar exegeticamente a perícope prevista para a pregação, faz-se necessária uma breve abordagem sobre o livro de Jó como um todo, principalmente pelo fato de Jó 19.23-27 ser usado, muitas vezes, fora do contexto. O livro de Jó é um exemplar da literatura sapiencial do Antigo Testamento e, junto com o livro de Eclesiastes, é conhecido por apresentar uma postura crítica à sabedoria. O livro questiona, acima de tudo, as relações de causa e efeito, base para se falar no período veterotestamentário e no judaísmo tardio de uma “doutrina da retribuição” (casuística judaica). Essa doutrina, partindo da Sabedoria Tradicional (grande parte do livro de Provérbios e da tradição deuteronomística – cf. Dt 28-30), postulava que o justo seria abençoado por Deus e o ímpio, por sua vez, castigado. O livro de Jó mostra exatamente o contrário; por isso é conhecido na pesquisa como um exemplar da Sabedoria Crítica, pois tem como referencial a Crise da Sabedoria, ou seja, o justo sofre e o ímpio parece ser abençoado. Nessa inversão, o agir de Deus fica incompreensível e imprevisível. Deus parece agir diferente do que costumeiramente, e suas promessas parecem não se cumprir mais. Com isso surge a pergunta pela presença de Deus em meio ao sofrimento do justo. O livro de Jó é formado por uma parte em prosa, o prólogo (1.1-2.13) e o epílogo (42.7-17), e outra em diálogo poético (3.1-42.6). A parte poética é formada por três momentos de diálogo entre Jó e seus três amigos (Elifaz, Bildade e Zofar), por três momentos de monólogos: Jó (29-31), Eliú (32-37) e do próprio Deus (38-41). Entre a parte em prosa e a poética encontra-se um lamento veemente de Jó, abrindo o diálogo com seus amigos, que não tinham palavras para dizer a Jó diante de seu grande sofrimento (3.1-26), e, no final do livro, uma confissão de Jó (42.1-6), logo após ele ter ouvido as palavras que Deus tinha a lhe dizer. No centro do livro encontra-se um belíssimo poema sobre a sabedoria oculta de Deus (28.1-28), que, embora seja o centro literário do livro, não corresponde a seu centro teológico. O poema apenas dá pistas para o que, no final do livro, no encontro e no confronto com Deus, seja a resposta a todo o problema de Jó. O tema central do livro é de cunho inteiramente teológico. Ele não é apenas um livro teológico por ser parte integrante da Bíblia e por falar de Deus, mas principalmente pelo fato de refletir o conceito de Deus. O sofrimento de Jó é, na verdade, apenas um tema transversal que auxilia na reflexão sobre a discussão de quem é Deus. Mesmo que Jó seja o personagem central do livro, Deus é seu protagonista principal. É sobre Deus e seu agir que todo o drama de Jó e toda a trama do livro giram. Tendo visto esses aspectos mais gerais do livro de Jó, pode-se agora aprofundar a perícope 19.23-27a com vistas à pregação. O texto faz parte do sexto discurso de Jó (19.1-29) no final da segunda rodada de diálogo com seus três amigos (15.1-21.34). Nesse segundo bloco de diálogo, Elifaz inicia, com base no temor ao Senhor, acusando Jó e explicando seu sofrimento a partir do pecado, isto é, Jó sofre porque pecou (15.1-35). Em resposta a Elifaz, Jó fala que seu sofrimento é uma experiência da ira de Deus sobre ele em decorrência da fragilidade humana (16.1-17.16). Diante de tal resposta, Bildade não se contém e inclui na discussão
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o tema da sorte do perverso. Para Bildade, o justo não sofre como Jó. Somente alguém perverso, que não confessa o seu pecado, experimenta a ira de Deus (18.121). Jó questiona a forma como tem sido tratado por seus amigos e fá-los saber que o perverso na história, a partir de sua experiência, é o próprio Deus. Diante da perversidade de Deus, Jó clama por compaixão de seus amigos (19.1-29). É nesse contexto que se encontra a perícope em questão. O texto seguinte, agora nas palavras de Zofar, volta à temática do castigo e do fim dos perversos (20.1-29). Para concluir essa segunda rodada de diálogo, que não encontra eco e consenso, Jó inverte a doutrina da retribuição, afirmando a prosperidade dos perversos e acentuando assim o sofrimento e o castigo do justo, confirmando, dessa maneira, sua tese de que Deus é perverso e, ao mesmo tempo, injusto para com o justo. Os v. 25-27 apresentam vários problemas linguísticos, que dificultam sua tradução e, por conseguinte, sua compreensão. Basta comparar com as diferentes versões em português para ter uma ideia da real problemática (sugere-se aqui, a título de aprofundamento, que se faça uma comparação com as versões). Contudo, opta-se aqui pelo texto da versão de Almeida Revista e Atualizada por apresentar uma reconstrução plausível do texto. O capítulo 19 pode ser estruturado da seguinte forma: a) Resposta de Jó a seus amigos (v. 1-6); b) Jó lamenta o abandono que experimenta de Deus, o qual é visto como inimigo de Jó (v. 7-11); c) Jó lamenta o abandono e a exclusão social que experimenta por causa de seu sofrimento (v. 12-20); d) Clamor por compaixão (v. 21-22); e) A certeza de Jó acerca de sua redenção (v. 23-27); f) Há um juiz para aqueles que não têm compaixão dos que sofrem (v. 28-29). Dessa forma, fica claro que o contexto imediato da perícope 19.23-27 leva em conta três situações de abandono. Em primeiro lugar, Jó queixa-se do tratamento de seus amigos. Suas palavras o afligem. Jó não sabe se seus amigos querem injuriá-lo ou se engrandecer contra ele. De qualquer forma, o que se evidencia é o abandono. E por isso, em segundo lugar, Jó queixa-se de que Deus mesmo o oprime e o persegue sem sentido. Deus não ouve mais sua oração, trata-o injustamente, pôs trevas em seu caminho, tirou-lhe a dignidade, arrancou-lhe a esperança, age contra ele com sua ira e considera-o seu inimigo. E, por último, Jó queixa-se de ser abandonado pelos seus. Uma lista de pessoas, do relacionamento pessoal de Jó, é apresentada mostrando quem o abandona em seu sofrimento e de que forma esse abandono acontece: irmãos, conhecidos, parentes, servas, criados, sua esposa, crianças, amigos íntimos. Jó está sozinho. O que sobrou é ele mesmo, em pele e osso. Diante dessa descrição de abandono, Jó clama duas vezes a seus amigos por compaixão, mostrando, assim, seu desespero e sua indignação. Depois dessas palavras, Jó parece mudar um pouco o discurso. Em meio a seu abandono e sofrimento, ele consegue olhar para outra direção. É para esse aspecto que o texto da prédica quer apontar. Vejamos a perícope 19.23-27a em seus principais detalhes: V. 23-24 – Quem me dera...: O julgamento dos amigos, bem como toda a situação de sofrimento e abandono que Jó experimenta, não pode ser a última palavra sobre Jó, nem a última palavra de Jó. Ele apela a uma instância ainda superior. A partir da linguagem jurídica, que também está no pano de fundo do livro de Jó, ele está convicto de que o tempo de revisão de seu processo vai che-
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gar. Por isso ele precisa protocolar o seu testemunho, a sua defesa (cf. Jó 31.3537). Jó espera por uma audiência diante de Deus (cf. Jó 9.32-35; 13.3; 16.19). O problema é que ele não encontra quem o escute. Ele deseja que suas palavras sejam escritas e gravadas, ou seja, algo que ficasse registrado para sempre (cf. Is 30.8; Hb 2.2). Provavelmente, ele está se referindo a todas as suas palavras ditas anteriormente, a todos os seus lamentos diante dos amigos e diante de Deus. Em meio às pessoas, Jó não encontra quem o ouça. Também Deus o abandonou e lhe trouxe todo o sofrimento e tribulação. Mas Jó não desiste da luta. Ele permanece firme e diante de Deus. V. 25 – Eu sei que o meu redentor vive: Essas poucas palavras expressam convicção e certeza. Nelas, o drama vivido por Jó chega a um ponto alto. Em meio ao pior sofrimento, Jó consegue afirmar a mais sublime expressão de confiança. Contudo, a priori, essas palavras parecem contradizer tudo o que Jó havia dito desde o capítulo 3, quando deseja para si a morte. Quem lê o livro de Jó adiante vai se deparar também com passagens como 21.22-26 e 30.16-23, em que toda a esperança afirmada no v. 25 parece já não existir mais. Jó não tem mais motivos para crer em Deus, pois esse o abandonou. Mas Jó também não tem outro em quem confiar e esperar. Com convicção afirma que seu redentor vive. Mas quem é o redentor de Jó? A palavra redentor, literalmente resgatador, é o termo hebraico go’èl. Esse é um termo técnico da jurisdição judaica, principalmente no que se refere ao direito familiar (cf. o livro de Hansjörg Bräumer, indicado na bibliografia para aprofundar os aspectos bíblicos e teológicos do termo go’èl, que aqui, por causa do espaço, ficam limitados). O go’èl é o parente mais próximo de uma pessoa, destinado a libertar, a resgatar, a auxiliar aquele que passa por necessidades (cf. Lv 25.25; Rt 2.20; 3.12; 4.3). No Antigo Testamento, o próprio Deus também é chamado de go’èl (cf. Is 43.1; 63.16; Sl 19.14; 78.35). No entanto, nem todos os exegetas interpretam o go’èl de Jó 19.25 como sendo o próprio Deus. Alguns falam de outro resgatador anônimo; outros ainda apontam para o amigo Eliú. Fato é que Jó expressa a sua esperança de ter um resgatador, mesmo sendo abandonado por todos aqueles que poderiam, pela legislação, ocupar essa função, sejam eles amigos, parentes, seja o próprio Deus. Mas se Jó espera por um outro resgatador, que não seja o próprio Deus, como comumente é dito na pesquisa, então se corre o grande risco de pôr a perder toda a teologia da abscondicidade de Deus, que é um dos temas principais em Salmos, Jó e no Dêutero-Isaías. Nesses casos, o sofredor clama contra Deus a Deus. Por conseguinte, compromete-se, dessa forma, a própria Teologia da Cruz, tão crucial na teologia luterana. Jó chama Deus de go’èl, pois só tem a Deus como seu intercessor contra Deus que se revela como seu juiz. O Deus que com sua ira julga é aquele Deus que para Jó também vive e vai redimi-lo por sua graça. V. 26-27 – Ver a Deus: A esperança e a certeza de Jó não se referem apenas ao fato de saber que seu redentor vive, mas que o mesmo será visto por Jó. Ver a Deus é seu anseio, que se concretiza em 42.5, após seu encontro com Deus. Palavras como pele, carne, corpo, coração e pó apontam para a conditio humana, para aquilo que se manifesta na fragilidade e transitoriedade humana. A esperança que se torna certeza em Jó deixa essa fragilidade e transitoriedade do ser humano con-
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tinuar existindo, mas sua esperança se fundamenta, como toda a esperança de Israel e da igreja, no próprio Deus (cf. Is 8.17; Jo 6.68). Jó está certo de que o Deus que o criou do pó da terra pode criá-lo novamente após sua morte, pois é um Deus de vivos e não de mortos. Esta é a última consequência daquele que crê e espera em Deus: Ele verá a Deus (cf. Ap 22.4). A partir de tudo isso, não é em vão que desde João Crisóstomo, um dos Pais da Igreja (344/54-407), a cristandade tem interpretado Jó 19.25 como um texto que aponta para a esperança da ressurreição e como texto messiânico, falando do Redentor Jesus Cristo, que vive e será visto.
3 Meditação Como lidamos com o sofrimento? Que espaços nós temos em nossos cultos e em nossas comunidades para o lamento? Como reagimos ao sofrimento das pessoas que vêm para o culto, que nos procuram para o aconselhamento pastoral? Como continuar crendo em Deus se ele não ouve mais orações? Como continuar crendo em Deus e ter esperança se a experiência de um Deus abscôndito é tão cruel? Essas e outras perguntas surgem quando nos ocupamos com o livro de Jó e com a perícope de Jó 19.23-27. Mesmo que não tenhamos todas essas respostas, e muitas delas, inclusive, ultrapassam o tempo disponível para a prédica, temos que levar em consideração que as pessoas que estão em nossos cultos nem sempre vêm com o coração cheio de júbilo e alegria. Nem sempre há nos participantes do culto uma disposição para o louvor e a gratidão a Deus. O culto tem a função de levar as pessoas ao louvor e à gratidão a Deus, mas muitas delas chegam à igreja com o coração partido e pesado. Muitas delas nem vêm ao culto por estar decepcionadas com Deus e com as pessoas. O que fazemos nessa situação? Vamos tentar resolver o problema como os amigos de Jó? O abandono que Jó experimenta é dramático e total. Jó não consegue mais experimentar a presença de Deus, nem a presença do ser humano. Ele está sozinho, assim como muitas pessoas em nossas comunidades. Jó não fugiu de seus problemas, nem de seu sofrimento. O texto mostra-nos que ele, apesar de tanta dor e decepção, principalmente com Deus, não abre mão de estar diante de Deus. A pregação deveria apontar para essa realidade. A atitude de Jó de saber, pela fé, que seu redentor vive é o que lhe dá esperança e é o que o mantém firme na fé. Contudo, Jó crê contra a fé e espera contra a esperança. O sofrimento é bíblico e atinge também o crente. O crente, contudo, é chamado a perseverar e a olhar para seu redentor, que vive. Não há pregação cristã sem apontar para Cristo. Por isso também a estrutura da prédica precisa ser um anúncio claro e lógico dessa centralidade do evangelho, da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Para a pregação, sugere-se a partir do texto o seguinte esboço homilético: Tema da pregação: Esperança e redenção em meio ao sofrimento 1. O desespero em meio ao sofrimento 1.1 Abandonado por Deus 1.2 Abandonado pelas pessoas 2. A esperança em meio ao sofrimento 2.1 Eu sei que o meu Redentor vive
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2.2 Eu sei que os meus olhos o verão 3. Jesus Cristo em meio ao sofrimento 3.1 Jesus Cristo sofreu o meu abandono – Só nele me refugio 3.2 Jesus Cristo vive e é o meu Redentor – Só nele tenho esperança 3.3 Jesus Cristo voltará – Só nele há consolo
4 Imagens para a prédica Para ilustrar a pregação, sugere-se um testemunho vivo de alguém da comunidade que passou por muito sofrimento e que pôde permanecer firme diante da situação de desespero, pois colocou sua esperança e confiança em Jesus Cristo. Um exemplo de alguém da comunidade fala muito mais alto do que as estórias ou ilustrações de pessoas e lugares distantes, contadas muitas vezes por pregadores. Essa ideia pode servir de introdução à própria pregação. Além disso, temos na história da igreja uma famosa frase de Agostinho de Hipona, que, ao interpretar o livro de Jó, afirma: “Jó foge de Deus para o colo de Deus”. Com essa frase se quer ilustrar o fato de não termos outro que nos console diante do sofrimento. A verdadeira esperança está no Redentor Jesus Cristo, que vive e voltará. Essa frase de Agostinho exemplifica o que tanto se fala em nosso meio como teologia da cruz.
5 Subsídios litúrgicos O culto deve expressar a esperança em meio ao sofrimento e o consolo diante da vinda do Redentor. Nesse sentido, o culto todo deve estar voltado à temática da prédica. a) Hinos: Aqui se sugerem os seguintes hinos para antes e depois da prédica: 298 e 301 do HPD I (o conteúdo desses hinos aponta para Jesus Cristo como Redentor, que vive e que por isso nos dá a esperança); além desses, podem ser cantados os seguintes hinos: 69, 184, 217, 221, 229. Do HPD II podem ser cantados os seguintes hinos: 438, 440, 441, 454, 456 e 458. Todos eles expressam a esperança cristã da intervenção de Deus no sofrimento individual e coletivo. b) Liturgia de entrada: No momento da confissão de pecados, sugere-se confessar diante de Deus o pecado da comunidade local em relação aos que sofrem. O contexto de Jó 19 aponta para a exclusão e o abandono do sofredor. Muitas vezes, como comunidade cristã, somos como os amigos de Jó, que não ouvem mais o lamento do sofredor, sem antes se colocar numa posição de juiz. Outras vezes, também somos, como comunidade, ausentes em meio ao sofrimento. Nossos enfermos e enlutados experimentam o abandono da comunidade. c) Liturgia da Palavra: No momento da oração de intercessão, sugere-se fazê-la com mais pessoas da comunidade, que intercedem especificamente pelos que sofrem e precisam de esperança e consolo: enfermos, enlutados, desempregados, desanimados, enfim todos os que enfrentam o desespero e o sofrimento. d) Liturgia de despedida: Antes da bênção, deveria ser dito que receber a bênção de Deus no final do culto não significa que estamos isentos do sofrimento, mas que podemos contar com a presença de Deus em meio a ele. No envio, seria
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interessante lançar um desafio mais concreto do que apenas as palavras litúrgicas: “Ide em paz e servi ao Senhor”. De que forma nossa comunidade pode ir em paz e servir ao Senhor? Esse aspecto já pode fazer parte da aplicação da prédica, mas deve também ser ressaltado aqui no envio. Desafie a comunidade a servir ao Senhor indo ao encontro dos que sofrem e dos desesperados. Desafie concretamente a comunidade a fazer visitas aos enfermos e aos enlutados que em 2013 perderam algum ente querido.
Bibliografia BRÄUMER, Hansjörg. Sombras no meu caminho. O enfermo diante da enfermidade e do Deus inescrutável. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1999. FOHRER, Georg. Das Buch Hiob (Kommentar zum Alten Testament 16). 2. ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1988. WANKE, Roger Marcel. Praesentia Dei – Die Vorstellungen von der Gegenwart Gottes im Hiobbuch. Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche ������� Wissenschaft, Band 241. Berlim; Nova York: Walter de Gruyter, 2012.
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PRÉDICA: LUCAS 21.5-19
26º DOMINGO APÓS PENTECOSTES
MALAQUIAS 4.1-2a 2 TESSALONICENSES 3.6-13
17 NOV 2013
Eloir Enio Weber
1 Introdução Penúltimo domingo do ano litúrgico. Este tempo de “fim de ano” traz textos bíblicos que desafiam o pregador. Basicamente, três tipos de pregadores destacam-se diante de um conjunto de textos como o que se apresenta para este domingo: aqueles que leem e “fogem do texto”; os fundamentalistas, que apontam para as catástrofes atuais e dizem que a “Bíblia já previa tudo” (para esses, o texto é ótimo – não dá trabalho); e os que encaram o texto e o respeitam em seu contexto histórico. Esse último grupo tem um desafio, mas também tem a oportunidade de trazer uma mensagem de esperança para a comunidade reunida. Pode-se perceber nos três textos uma unidade temática. O estilo apocalíptico, a referência ao fim dos tempos, a parusia, de uma forma ou de outra, perpassam os três textos. O texto de Malaquias anuncia a vinda de um tempo de “fornalha ardente” para os “perversos” e “soberbos” (v. 1), enquanto o “sol da justiça” nascerá trazendo salvação aos que “temem o meu [de Deus] nome” (v. 2). No texto de leitura neotestamentária, a comunidade de Tessalônica defronta-se com a situação de algumas pessoas que esperavam a parusia imediatamente (como, aliás, é bem corrente no Novo Testamento – inclusive Paulo tinha essa esperança) e por isso se acomodaram: não trabalhavam porque logo o Reino viria. Como não trabalhavam, estavam desocupadas e “se intrometiam na vida alheia” (v. 11). Essa linha de pensamento é combatida por Paulo, que escreve de forma dura: “Se alguém não quer trabalhar, que não coma (v. 10)” e admoesta a comunidade: “Não vos canseis de fazer o bem” (v. 13). No texto do evangelho, que é também o texto de pregação, Jesus fala da destruição do templo e, em estilo apocalíptico, fala dos sinais e das perseguições e sofrimentos que seus seguidores deverão ainda enfrentar. O desafio, portanto, é encarar o conjunto de textos e tirar uma mensagem de esperança para este penúltimo domingo do ano eclesiástico.
2 Exegese O Evangelho de Lucas, conforme defendido amplamente por estudiosos, é a primeira parte de uma obra maior que se completa no livro de Atos dos Apóstolos. No evangelho, o autor (seria Lucas, o companheiro do apóstolo Paulo em suas viagens?) apresenta o “caminho de Jesus”, e em Atos os Apóstolos, o “caminho da igreja”. Juntos, os dois livros apontam para o “caminho da salvação”.
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A característica do Evangelho de Lucas é apresentar o caminho de Jesus como o caminho que acontece dentro da história, valorizando, de forma especial, os pobres e oprimidos. O autor visa auxiliar as pessoas a fazer história de uma forma mais justa e humana. Nesse caminho, Jesus é companheiro de caminhada. O texto do capítulo 21 faz parte de um bloco maior dentro da narrativa de Lucas. Esse bloco compreende os capítulos 19 a 24 e descreve os acontecimentos na cidade de Jerusalém nos últimos dias antes da morte e ressurreição de Jesus. Nesse bloco, Jesus envolve-se em uma série de controvérsias com líderes religiosos ligados ao templo. Esses eventos, em boa medida, explicam os motivos que levaram Jesus a ser crucificado. O lugar do episódio refletido no capítulo 21 é o templo de Jerusalém, como mostra o texto anterior, em que Jesus faz uma observação a respeito das ofertas depositadas no gazofilácio, especialmente a oferta de uma viúva pobre. A perícope é conhecida como o “pequeno apocalipse”. Tem como ponto de partida a predição de Jesus em relação à destruição do templo. Em vista da admiração das pessoas frente à beleza e ao tamanho do mesmo, Jesus diz que “dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” (v. 6). O templo causava admiração nas pessoas pela beleza, mas Jesus via o que as pessoas não enxergavam. Por trás da edificação aparentemente indestrutível estava uma religiosidade decadente, opressora e falsa. O povo, inclusive os discípulos, esperava ardentemente uma era áurea, que seria instituída em seus próprios dias. O templo tinha um lugar privilegiado nessa era de poder e de glória para o povo. Essa espera tinha a ver com a vinda do Messias poderoso e líder guerreiro. Diante dessa espera, a afirmação de Jesus é chocante, pois mexe com a religiosidade e a esperança imediata do povo. O templo era símbolo da relação de Deus com o povo escolhido. É preciso perceber que o fim da instituição/edificação não significa o fim da relação de Deus com os seres humanos. A perplexidade tomou conta dos discípulos que relacionaram a destruição do templo ao fim do mundo e quiseram saber os sinais de aviso que deveriam esperar. A primeira parte da resposta de Jesus diante do assombro dos interlocutores é uma advertência contra os falsos messias e todas as suposições sobre a iminência do fim. Ele conclama os discípulos para se tranquilizar diante de possíveis sinais apocalípticos e a proclamação da iminência dos acontecimentos. O fanatismo deve ser combatido, e diante das catástrofes é necessário estar sóbrio, não se deixar influenciar e não seguir os ensinamentos de falsos profetas. A literatura apocalíptica dá-nos a percepção de que situações de crise são propícias para o surgimento de “messias de plantão” para apontar as catástrofes e dizer que o fim se aproxima. Jesus conclama os discípulos para uma análise corajosa e livre da tentação de tirar proveito da situação. O que dá segurança ao ser humano neste mundo será afetado. A religiosidade ligada ao templo na época de Jesus trazia segurança para as pessoas, mas essa segurança era ilusória, pois, ao invés de libertar, escravizava. As bases sobre as quais o ser humano constrói sua vida precisam ser estremecidas para que surjam a verdadeira confiança e fé em Deus. As predições descritas por Jesus sempre têm caracterizado a história da humanidade. Sempre existiram e sempre
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existirão. A queda do ser humano, o pecado, trouxe consigo as paixões egoístas e as desavenças, sejam elas entre seres humanos ou povos. As catástrofes naturais varreram vidas ao longo de toda a história humana. Quatro perturbações da natureza são descritas por Jesus: terremotos, fomes, epidemias e terríveis fenômenos no firmamento. São símbolos apocalípticos comuns. “Tempos de terror levam pessoas a Deus: A vida nunca é tão insegura como quando nos apegamos a ela; e nunca é tão segura quando a deixamos nas mãos de Deus. Esse momento é um momento de criação. Não o ponto onde desistimos, é o ponto onde realmente começamos” (CHAMPLIN, p. 202). As calamidades não pouparão os crentes. Haverá perseguições e traições generalizadas (até mesmo dentro do núcleo familiar). As perseguições aos crentes têm um motivo claro: “por causa do meu [de Jesus] nome” (v. 12). Diante dessa real situação, Jesus trata de tranquilizar o seu grupo de discípulos: “Assentai em vosso coração de não vos preocupardes” (v. 14). A vivência da fé dá-se na caminhada. Não antevendo e prevendo situações, mas agindo onde estiverem as necessidades e onde estiver um coração aberto para acolher a mensagem do evangelho. A verdadeira rejeição não se dirige às pessoas portadoras do evangelho, mas ao evangelho em si, pois esse estremece o poder estabelecido (simbolizado, nesse texto, pelo templo). Nada acontece sem que Deus tenha o controle da situação: “Não se perderá um fio de cabelo da vossa cabeça” (v. 18). Tudo o que é criado por Deus permanece em sua memória. Por isso Jesus ressalta que é na “perseverança” (v. 19) que a salvação é recebida de forma graciosa, total e irrestrita. Viver a fé é um desafio diário. Ninguém é colocado dentro de uma redoma, protegido do mundo e do poder estabelecido, mas é amado por Deus, salvo em Cristo e santificado pelo Espírito Santo.
3 Meditação O ponto de partida para todas as outras questões levantadas nesse texto do evangelho é a frase de Jesus: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” (v. 6). Fiquei meditando longamente sobre essa frase. Não é uma frase irrefletida. Não é algo que alguém diz só porque está com raiva de uma construção. Ela reflete sobre a relação do ser humano com Deus, cujas bases o Criador estabeleceu, mas que a criatura transformou para cultivar sua própria religiosidade. Concordamos facilmente com Jesus quando esse fala da destruição do templo de Jerusalém. Dizemos que aquele tipo de religiosidade já não servia mais, porque tinha se desviado totalmente do propósito inicial de Deus: “Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para o seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles aliança eterna” (Jr 32.38-40a). Mas... e a igreja? (Refiro-me à instituição, à igreja visível). Hoje nos defrontamos com um problema sério. As pessoas estão cada vez mais espiritualizadas, mas cada vez mais longe da igreja. As pessoas estão cada
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vez mais cientes de que a religiosidade é intrínseca à vida, à condição humana, e que o ser humano, entre outras coisas, é um ser espiritual. As pessoas têm saudade de Deus, mas da igreja, como instituição, não raras vezes elas não querem saber. Será que não estaríamos nós, como igreja, pagando o preço pelos descaminhos históricos pelos quais andamos e insistimos em caminhar? O nosso modelo é cristão, ou seja, ele agrada a Cristo? Fazendo uma análise, grosso modo, temos uma instituição igreja, a maior delas, que é regida por um regime de principado (papado). A palavra dele é lei, em alguns momentos maior do que a Bíblia. Temos um outro modelo mais recente, que está em plena expansão, que são as igrejas/empresa, em que se vendem e compram a esperança e tudo o mais que Deus pode oferecer. Nós luteranos (IECLB) temos um outro modelo. Defendemos que é um modelo mais próximo e baseado em nossa compreensão eclesiológica. Acreditamos que a igreja são as pessoas. A comunidade, onde as pessoas congregam, é onde acontece a igreja. Temos a ideia de “caminhar juntos na mesma direção” (sínodo), mas muitas questões ainda precisam ser revistas e ensaiadas ao longo da viagem. Eu não tenho a intenção de “azedar” o discurso de ninguém. Até porque também sou desafiado a buscar uma eclesiologia saudável. Somos agentes que têm a tarefa e a pretensão de semear sinais do Reino, que inclusive se fazem presentes em nossa igreja, nossa visão eclesiológica. Diferente do que o templo de Jerusalém, a igreja (visível) não é só um prédio ou uma instituição. Ela é feita de pessoas. É feita por uma caminhada de fé, que busca vivenciar a mensagem do evangelho para dentro do contexto histórico. Esse evangelho faz diferença neste mundo. Tenho a convicção de que a igreja cristã não será destruída porque, enquanto duas ou três pessoas com fé estiverem reunidas, ali é a igreja de Cristo. O tema do ano da IECLB, que será encerrado em breve, mostra a preocupação da igreja com os vínculos das pessoas em sua comunidade de fé. Refletir sobre formas de vínculos saudáveis, onde seja possível compartilhar a vida, é colocar-se sob o poder de Cristo e buscar respostas para uma eclesiologia cristã, baseada no evangelho. Quando o ser humano sente-se acolhido, integrado, cria vínculos afetivos. É respeitado em suas limitações, suas necessidades e convicções. Então ele fica mais fortalecido para enfrentar a vida. Nenhum ser humano está imune aos “terremotos, fomes, epidemias e terríveis fenômenos no firmamento” (v. 11) da vida. Passamos por muitas situações nas quais nos perguntamos sobre o sentido da fé. Nesse ponto, não raras vezes, manifesta-se o amor de Deus. E ele se manifesta pelos vínculos saudáveis que criamos. Isso é igreja. Isso significa pertencer a Cristo. Bendito é o ser humano que tem uma mão estendida, em nome de seu Deus, no momento de tragédia e abalo pessoal, familiar ou social. Podemos ter a certeza de que “não se perderá um fio de cabelo da vossa cabeça” (v. 18). Essa igreja feita de pessoas chamadas pelo Batismo, congregadas pelo poder do Espírito Santo, unidas na mesma fé em Cristo, essa não será destruída. Ela pode ser abalada, sacudida, mas sobreviverá porque não é estática. Mesmo não
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sendo estática, é balizadora da vida de fé. O mundo precisa dela. Caso contrário, tudo é válido em termos de fé.
4 Imagens para a prédica Talvez seja bem mais fácil dizer o que o pregador não deve fazer nesse texto. Um grande erro seria descrever as últimas tragédias humanas e apontar para a comunidade com o dedo em riste e dizer que tudo já estava previsto. A literatura apocalíptica não foi escrita com o propósito único de facilitar a vida do pregador, ou seja, deixar a prédica pronta ao transformar em espetáculo as tragédias humanas. Não temos esse direito. Os propósitos de Deus são maiores do que as nossas vontades. Vivemos em um mundo difícil. Não tenho dúvida! Mas as pessoas precisam ter a sua inteligência respeitada. Precisam, acima de tudo, que as suas chagas, suas necessidades, suas sedes e fomes sejam levadas a sério. Os abalos que elas sofrem na vida precisam ser vistos à luz do evangelho da graça e do amor de Deus. Sugiro que essa seja a tônica da pregação. Para dentro dessas situações da vida, a pregação poderia apontar para a eclesiologia. Para a necessidade humana de estabelecer vínculos saudáveis. A comunidade de fé é o lugar, por excelência, para a criação de vínculos saudáveis. A comunidade de fé, diferente do templo, não será destruída porque é feita de pessoas chamadas pelo Batismo e congregadas pelo Espírito Santo. A comunidade é um lugar onde a vida flui pelas relações de confiança, estabelecidas a partir da fé em Cristo.
5 Subsídios litúrgicos O local da celebração poderia ser preparado com tijolos* espalhados pelo ambiente, simulando uma demolição. Nos tijolos, podem-se colar palavras (na parte que fica virada para baixo) que digam algo da importância de fazer parte de uma comunidade. Exemplos: vínculo, partilha, comunhão, consolo, fé, oração, intercessão, aceitação, amparo,..... Durante a celebração, algumas pessoas podem ser desafiadas a pegar um tijolo. Quando as pessoas pegam o tijolo, descobrirão a palavra e poderão ser desafiadas a lê-la em voz alta. No fim, juntam-se os tijolos e, com as palavras voltadas para fora, constrói-se uma igreja. A reflexão vai ser direcionada para a eclesiologia, relacionando com a predição de Jesus sobre a destruição do templo de Jerusalém. Fazer o olhar de que não estamos livres dos abalos e relacionar com a importância da comunidade de fé para nos fortalecer e nos recolocar em pé depois dos abalos sofridos na vida (resiliência). * Pode-se usar a criatividade. Não precisam ser tijolos; podem ser caixinhas de leite revestidas ou mesmo tacos de madeira. Cada qual pode usar o material disponível em sua realidade.
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26º Domingo após Pentecostes
Hinos do HPD: 336 (Quando o povo se reúne); 393 (Para os montes olharei); 221 (Senhor, porque me guarda a tua mão); 432 (Se caminhar é preciso).
Bibliografia CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. V. 5, 4. ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, 1983. GEORGE, A. Leitura do Evangelho Segundo Lucas. 3. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.
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PRÉDICA: COLOSSENSES 1.11-20
DOMINGO CRISTO REI
JEREMIAS 23.1-6 LUCAS 23.33-43
24 NOV 2013
Uwe Wegner
1 Introdução O Domingo Cristo Rei é o último do ano eclesiástico, antes dos quatro domingos de Advento. A origem da festa do Cristo Rei remonta a 1925. Ela foi instituída pelo papa Pio XI. A alusão ao Cristo “Rei” tem dado margem a críticas: Seria esse um título adequado para expressar o domínio universal de Deus e Cristo? Pessoalmente, Jesus falou de reinado de Deus, mas não chegou a exaltar Deus como “rei” nem a empregar os termos “reinar” ou “régio” para Deus. Aparentemente, os “reis” eram uma metáfora inadequada para Deus, pois sua prática era contrária ao que Deus fazia (Mc 10.42; Dt 17.14ss; 1Sm 8). Os reis não serviam ao povo, mas se serviam do povo. Nada melhor do que uma Palestina rural e endividada para poder sentir essa realidade em toda a sua nudez e crueza. E foi em meio a ela que Jesus passava a maioria de seus dias. Haverá outras metáforas mais “neutras” e condizentes com a verdadeira natureza serviçal e democrática da soberania universal exercida por Cristo? Paulo Suess sugere como alternativa “democracia participativa do reino de Deus”, outros simplesmente “soberania” (e não “soberania real”), já que os poucos reinados monárquicos ainda existentes estão em franca extinção e pouco dizem a pessoas latino-americanas, que vivem em repúblicas mais ou menos democráticas. Some-se a isso o fato de o próprio Cristo ter enfatizado não ser o seu reino deste mundo (Jo 18.36) e que também a sua paz não é dada como o mundo a dá (Jo 14.27). Ou seja: se alguém quiser falar de Cristo Rei, do reinado de Cristo, precisa estar ciente de que se trata de um reinado e rei diferentes dos que o mundo tem a oferecer. É para esse detalhe que também sinalizam os textos adicionais previstos para leitura neste domingo: Jeremias 23.1-6 e Lucas 23.33-43. Jeremias compara a função dos governantes (“reis”) à de pastores e constata: os que pastoreavam Israel não cuidaram de suas ovelhas, mas as afugentaram e, em vez de conservá-las unidas, as dispersaram. Ao contrário disso, o “rei que reinará” da parte de Deus “agirá com sabedoria, executará o juízo e a justiça na terra”, trazendo a Judá a salvação e uma habitação segura e sem medo em sua terra. Isso evoca de imediato a insegurança gerada por nossas autoridades estatais (os atuais “reis” governantes), ante cuja prática a população, em vez de se sentir segura, sente-se refém da ameaça e do perigo de bandidos e assaltantes. Além disso, muitos de nossos dirigentes, em vez de governar com justiça, apresentam currículos manchados por toda sorte de corrupções, favorecendo uma prática de impunidade e desrespeito às leis. Também Lucas 23.33-43 mostra a alteridade do reinado de Jesus quando
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Domingo Cristo Rei
comparada aos reinados deste mundo. Pois Jesus se apresenta, antes de sua ressurreição, como “rei” impotente, condenado e crucificado. Salvou outros, mas não conseguiu salvar a si próprio (Lc 23.35ss).
2 Exegese O texto pode ser subdividido em três partes: V. 11-12 – Oração para o fortalecimento dos colossenses na perseverança e paciência, com alegria. V. 13-14 – Cristo como libertador do império das trevas, trazendo a redenção em forma de perdão de pecados a todas as criaturas. V. 15-20 – Hino cristológico: Cristo como mediador da criação e redenção. V. 11-12 – Oração de intercessão: Paulo ora pela perseverança/constância dos fiéis e por sua paciência (Almeida: longanimidade), em alegria. É dessa força que eles necessitam se pretendem dar frutos de boas obras e crescer no conhecimento de Deus (v. 10). A oração por constância/perseverança dos cristãos sinaliza que sua tentação reside num possível enfraquecimento e desânimo nessa jornada de crescimento no amor ao próximo e conhecimento do divino. Esse é um fato conhecido. É muito fácil perder a alegria na prática do amor: pode acontecer quando ele não é correspondido ou quando é mal-agradecido ou quando procura aproveitar-se de nossa bondade. Também uma progressão no conhecimento de Deus precisa de constância e paciência. Às vezes, é difícil entender Deus e encontrar explicação para muitas coisas; em outras ocasiões, deparamo-nos com tantas religiões e tantas confissões cristãs, que ficamos em dúvida ou céticos quanto à verdade de nosso próprio conhecimento. V. 13-14 – Cristo como libertador do império das trevas: Estes versículos dão testemunho da libertação efetuada por Cristo. A libertação é interpretada com a metáfora de um transporte ou, caso se queira, de uma transferência ou passagem. O verbo usado é metistemi, que significa remover de um lugar para outro, transferir. O reinado ou império para o qual os cristãos foram transferidos é o do amor. Onde eles se encontravam escravizados é denominado de “império da escuridão ou das trevas”, que, por dedução, representa a existência de um governo de desamor, com todas as suas sequelas por nós conhecidas e que Paulo enumera em diversos textos, a começar pela própria carta (Cl 3.5,8; cf. também Rm 1.2931; 13.13; 1Co 5.10s; 6.9s; 2Co 12.20s etc.): calúnia, maus desejos, avareza, prostituição, corrupção, brigas, falta de compaixão. O v. 14 atribui essa situação catastrófica, que representa o “poder das trevas”, ao pecado humano. Os cristãos são chamados à responsabilidade por Deus. O pecado não é simplesmente esquecido ou desconsiderado, mas perdoado. Há outras maneiras de lidar com a culpa: há religiões que defendem que a culpa não pode ser “perdoada”, mas deve ser “paga” ou “expiada” ou “compensada” por quem a cometeu. Outras acham que ela não é de responsabilidade direta das pessoas que cometem os pecados, mas de poderes ou espíritos malignos, aos quais se encontram escravizadas. Diante das tendências mencionadas, a fé cristã proclama que o perdão divino representa uma
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condição de leveza e alívio para a vida do cristão e para um reinício de vida sem o ônus de dívidas passadas, em que regem o amor e a solidariedade. A considerar cabe, por último, ainda o emprego da própria metáfora: transferência. Salvação é transferência, é deslocar-se ou ser deslocado de um lugar para outro, de uma condição para outra, de uma prática para outra. Em Colossenses 3.9s, é empregada outra metáfora: a do despojamento, do revestir-se – tirar uma roupa velha e suja e colocar indumentária nova, diferente. Metáforas assim querem lembrar: salvação nunca deixa a pessoa como era e no lugar em que se encontrava; a salvação só começa a tornar-se realmente prática em pessoas que se deixam transformar e modificar, que se despojam da maldade, para revestir-se de bondade, que saem da ganância e da soberbia para ser transferidas à esfera da solidariedade e simplicidade. É o que frisa por mais de uma vez a própria carta: Colossenses 1.21-23; 2.8-23; 3.5-17. V. 15-20 – “Hino” cristológico: Neste trecho, o autor da carta exemplifica 1.13-14 com o recurso a uma tradição poética provavelmente já existente antes dele e que ele repassa à comunidade dos colossenses. Que em Colossenses 1.15-20 se trate de uma exaltação cristológica em forma de poesia usada pelo autor depreende-se por certa métrica e pelo fato de a linguagem fazer amplo uso de conceitos não mais usados em Colossenses ou então empregados unicamente nesses versículos em todo o Novo Testamento. O texto é concebido por alguns como “hino” da cristandade primitiva, por outros como “salmo cristológico” e por terceiros ainda como “louvor a Cristo”. Geralmente, o trecho é subdividido em duas partes: Primeira parte: v. 15-18a Cristo: mediador da criação Ele é a imagem do Deus invisível [...] Porque nele foram criadas todas as coisas […] sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele todas as coisas têm consistência. Ele é o cabeça do corpo da igreja.
Segunda parte: v. 15b-20 Cristo: mediador da redenção Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude […] e que, havendo feito a paz [pelo sangue da sua cruz], por meio dele reconciliasse todas as coisas [...]
a) Cristo como mediador da criação: Na primeira parte, o destaque é dado a Cristo como mediador e sentido último da criação. Todas as coisas foram criadas nele, por ele e para ele (cf. também Rm 11.36; 1Co 8.6). Cristo assume aqui o papel que, no judaísmo, assumia uma grandeza, como, por exemplo, a sabedoria, cuja existência desde a eternidade e participação ativa na criação do mundo são afirmadas em textos como Provérbios 8.22ss. A pressuposição do texto é que Cristo, como participante da divindade, é preexistente (Jo 1.1-3,14; 17.5; 1Jo 1.1).
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Dentro da Carta aos Colossenses é acentuada a criação por e para Cristo dos poderes que regem o mundo: “tronos, soberanias, principados, potestades” (v. 16). Em Colossenses 2.8,20 (cf. Gl 4.3,9), Paulo inclui também os stoicheia tou kosmou (elementos/rudimentos do mundo: em regra, eram interpretados como os elementos da terra, fogo, água e ar, que regiam e condicionavam a vida das pessoas) e, em 2.18, os angeloi (“anjos”), que na comunidade eram objeto de adoração. Paulo não define mais exatamente esses poderes que podem escravizar negativamente as pessoas, como se depreende de Colossenses 2.8ss,16ss,20ss. Mas a afirmação do hino é categórica: legitimidade qualquer poder só tem na medida em que atende e corresponde a seu propósito criacional, que é contribuir para o poder e o engrandecimento daquele que tudo rege e sustém – Cristo, o amor encarnado de Deus. É seu amor mostrado na cruz que revela a verdadeira natureza de qualquer poder: um poder, quando regido por interesses egoístas e fraudulentos, não subsiste ao critério da cruz – é ela que consegue re-velar, expor publicamente e manifestar a verdadeira natureza de autoridades, governos e instituições: Colossenses 2.15. Em segundo lugar, a afirmação de que “tudo” foi criado por Cristo e para Cristo representa também – pelo menos indiretamente – um atestado de validação para a materialidade e corporalidade de coisas e pessoas. O cristianismo, ao contrário de várias religiões, não anela por uma libertação do corpo físico e material, mas por sua redenção e vivência plena. Transparece a importância ecológica do hino. No v. 17, afirma-se: em Cristo “todas as coisas têm consistência” (assim a tradução da Bíblia CNBB; outra tradução: “subsistem” [Bíblia de Jerusalém; Almeida]). O verbo grego é synistamai (do que se deriva o substantivo systema = “sistema”). A ideia é que em Cristo toda a criação forme um “sistema” integrado, em que as partes são interdependentes. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traz para o v. 17: “Antes de tudo ele já existia, e, por estarem unidas com ele, todas as coisas são conservadas em ordem e harmonia”. Essa é uma tradução interpretada que, assim nos parece, atinge em cheio o sentido cristológico da criação: se a criação foi por Cristo e para Cristo, estará cunhada por respeito e cuidado recíprocos entre as criaturas e a criação; do contrário, haverá desrespeito, opressão e devastação. b) Cristo como mediador da redenção: Pressuposição para a mediação da redenção por Cristo é que nele reside “toda a plenitude”. Por Colossenses 2.3,9 ficamos sabendo que essa plenitude se refere à plenitude divina. Pode-se, pois, interpretar: em Cristo tudo o que Deus representa e é adquiriu sua expressão máxima; ele é a transparência máxima do que Deus é e significa. Em palavras joaninas: Cristo e Deus são um (Jo 17.11,21s). A salvação é descrita no v. 20 com a metáfora da reconciliação: a reconciliação proporcionada por Cristo – agora ressuscitado – devolveu a paz às pessoas. A mediação para a reconciliação foi o “sangue da sua cruz” – esse sangue, segundo Colossenses 2.13s, gerou perdão para todos os nossos pecados, ou seja, para nossa dívida com Deus.
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3 Meditação O texto aborda três temáticas principais. Elas poderiam ser exploradas separada ou conjuntamente para uma prédica. 1 – Há uma afirmação básica: toda a criação não é mera casualidade, mas tem uma origem e um propósito cristológico, e isso não significa outra coisa senão salvífico. Ora, pela revelação histórica de Cristo sabemos que ele veio para que haja vida em abundância e para que o amor a Deus e a todas as pessoas indistintamente seja o que oriente e inspire nossos corações. Daí podemos dizer que todas as coisas e poderes estão destinados exatamente para esses dois propósitos cristológicos básicos: fomento à vida e vivência da solidariedade. Quando poderes os difundem, fomentam e defendem, têm legitimidade cristã. Mas, quando eles agem contrários a essa “marca” de Cristo, são devidamente desmascarados pela cruz e pelo que representou o sangue de Jesus ali derramado (2.14s). Para a cristandade, essa confissão cristológica traz duas consequências: a) Comunidade cristã terá sempre uma relação de proteção e cuidado com a totalidade do mundo criatural de Deus/Cristo, tanto humano como vegetal, animal ou mineral. A preservação da vida é um marco inconfundível de Jesus (Jo 10.10); b) Comunidade cristã terá sempre uma relação de abertura crítica diante dos poderes constituídos na forma de autoridades, leis, constituições, sistemas sociais e políticos etc. O amor e a cruz de Cristo são os critérios pelos quais poderes vigentes podem ser afirmados e apoiados ou devem ser denunciados e combatidos. Os poderes, segundo Colossenses 1.16ss, não são ruins por natureza, mas podem sê-lo por abuso e perversão de autoridade. Sua razão legítima e última é servir à vida e à solidariedade. Quando não o fazem, são expostos publicamente como maléficos pela cruz de Cristo. 2 – A salvação como afastamento do reino das trevas para uma prática de amor e solidariedade (1.13-14): a salvação pode ser presentificada. Para viabilizála, é necessário que a gente se deixe “transportar” de um lugar antigo (“reino das trevas”) para um lugar novo e uma práxis nova (“reino do Filho do seu amor”). Jesus diria: É preciso se converter (Mc 1.14s). Não é possível sair de trevas sem se deslocar. Não é possível viver salvação sem dar adeus a uma vida egoísta de desamor e desrespeito. Isso vale também e em especial em relação aos poderes constituídos. 3 – São necessárias constância e paciência, com alegria, para viver a nova vida com sobriedade e sem ilusões. Em sua oração pelos colossenses, Paulo pede a Deus que lhes dê perseverança/constância e paciência em sua nova vida como crentes e salvos por Cristo. Paulo é suficientemente realista para saber que mudanças de vida pressupõem, na maioria das vezes, processos difíceis, cunhados por fortes resistências interiores e exteriores. Pensemos nas muitas mudanças necessárias na esfera da política. Como é difícil o processo de minar um sistema clientelista e favorável a corrupções de todo tipo! E quantas vezes processos alvissareiros em andamento sofrem revezes por mínimas razões, e toda a luta
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sociopolítica necessita começar da estaca zero. Em casos como esse, é muito fácil perder a paciência e simplesmente desistir da luta por mudanças. A prédica poderia tematizar um ou dois desses pontos, mas também todos eles. Nesse último caso, talvez seria bom ter em mente sempre uma e a mesma temática, como, por exemplo, a condição dos “principados, potestades e poderes”, considerando-se sua criação por e para Cristo. Exemplificando, uma prédica com referida temática poderia desenvolver: (1) O sentido e a razão da existência de principados e poderes (governos, governantes, leis, instituições, sistemas políticos e socioeconômicos etc.), considerando-os como criação de Cristo e para Cristo (lembrar Jo 10.10; Mc 12.30s; também textos como Mc 10.41-45; Jo 18.36 etc.). (2) A necessidade de mudança de conduta e valores para adequar governos, instituições e governantes ao exercício evangélico de autoridade. Aqui caberia apresentar algumas barreiras ou impedimentos concretos que necessitariam ser removidos para que uma nova prática de solidariedade e justiça possa ocorrer. O que está a impedir que passemos de um “reinado das trevas” para um governo que traz as marcas do Filho amado de Deus? Qualquer conversa despretensiosa com políticos a esse respeito poderia fornecer à pregação uma riqueza de exemplos. (3) A exigência de paciência e perseverança diante do ritmo geralmente lento das mudanças.
4 Imagens para a prédica Pensamentos ou provérbios relacionados com Perseverança: Fracassar não é cair, é recusar-se a levantar (provérbio chinês). Uma prova de que Deus está conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda (Santa Teresa de Ávila). Tudo o que é nobre é difícil de ser alcançado (Benedictus de Spinoza). Paciência: O homem que remove montanhas começa carregando pedras pequenas (provérbio chinês). Corrupção (uma verdadeira chaga na política): Enquanto houver impunidade, nunca teremos sucesso no combate à corrupção (Itacarambi, Ethos). A corrupção cresce à medida que a população se cala (Ronaldo Marcelo Kravicz). A corrupção é como o câncer: quanto maior a demora em estabelecer o diagnóstico e iniciar o tratamento, menores são as chances de cura (Alcione Alvez).
5 Subsídios litúrgicos Para os subsídios litúrgicos, remetemos aos Manuais de Culto.
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PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 8.7-18
AÇÃO DE GRAÇAS (FESTA DA COLHEITA)
LUCAS 17.11-19 2 CORÍNTIOS 9.6-15
Fabiani Appelt
1 Introdução O texto de pregação que temos pela frente é Deuteronômio 8.7-18. Parte dele já foi contemplado em Proclamar Libertação 12 por Otto Porzel Filho, que em sua contribuição procurou conscientizar-nos sobre o uso indiscriminado de venenos nas plantações, que contaminam terra, água, ar, plantas, animais e pessoas e prejudicam a maravilhosa criação de Deus. A motivação para a presente mensagem é o Dia de Ação de Graças (Festa da Colheita). Mas continua pertinente a preocupação com o cuidado que devemos ter para com a maravilhosa criação de Deus, que nos foi dada de presente e merece o nosso cuidado como forma de gratidão pela fartura que nos concede dia após dia. Os textos de leitura são Lucas 17.11-19 e 2 Coríntios 9.6-15. O texto do evangelho relata a cura dos dez leprosos e tematiza a importância da gratidão. Os leprosos eram os mais marginalizados dentre os marginalizados. Além do sofrimento físico, sofriam também exclusão social por causa do medo que essa doença gerava (Lv 13.45-46). Junta-se a isso o sofrimento espiritual, pois, conforme a tradição judaica, a lepra era considerada um castigo de Deus (Dt 28.27). Observamos que os leprosos, em vez de clamar “impuro, impuro!”, como a lei os obrigava a gritar como alerta às pessoas que se aproximavam, logo clamam por misericórdia. Evidentemente, já tinham ouvido falar de Jesus, vendo no encontro com ele um grande momento de esperança. Chamam Jesus de “mestre”, expressão usada principalmente por discípulos. Ela expressa a esperança que a fama de Jesus havia criado. Jesus limita-se a pedir para irem se apresentar aos sacerdotes, como exigia a lei, para constatar a cura da lepra (Lv14). O texto indica que eles foram imediatamente. Quando notaram que haviam sido curados, apenas um voltou a Jesus para dar glória a Deus. “Dar glória a Deus” é a expressão mais elementar da fé. Essa fé sabe que só Deus pode restabelecer a vida esmagada por doença, vergonha e exclusão. O texto de 2 Coríntios 9.6-15, por sua vez, é parte da exortação de Paulo para que os cristãos de Corinto participem da coleta destinada aos pobres de Jerusalém, que enfrentam sérias dificuldades financeiras. Os textos apontam para o amor que Deus tem pelos seus, para o cuidado que devemos ter uns para com os outros e também para com a totalidade da criação de Deus. O Dia de Ação de Graças serve para nos lembrar que tudo o que temos e somos não é nosso, meu e teu, como muitos teimam em pensar, mas é uma maravilhosa dádiva que recebemos das mãos de Deus a cada novo dia. Serve
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para lembrar-nos da responsabilidade que temos para que toda a criação usufrua das bênçãos presenteadas por Deus e assim tenhamos vida em abundância.
2 Exegese O texto de Deuteronômio 8.7-18 faz parte de uma prédica de exortação. Tais prédicas foram pronunciadas na “terra de Moabe”, na forma de um discurso de despedida de Moisés aos israelitas (Dt1.5), pouco antes da chegada à terra de Canaã. Na história da salvação, elas se situam, portanto, entre o tempo da eleição do povo como povo de Deus e o tempo da realização da promessa da terra. Tais pregações de Deuteronômio espelham fundamentalmente a ideia de que os céus e a terra pertencem a Deus. Ele escolheu o povo de Israel dentre todos os povos como sendo o seu eleito. A esse povo Deus prometeu a salvação. Dessa salvação, de que também falam as exortações, fazem parte a dádiva da terra, a tranquilidade, a riqueza. É um paraíso terrestre. Mas esse é apenas um dos elementos da salvação. O outro elemento é que a fidelidade de Deus deve ser correspondida com o amor a Ele, com a obediência à lei e aos mandamentos. Por isso tais prédicas são também um apelo à obediência à vontade de Deus. Os ouvintes do pregador deuteronomista viviam em época de crise. Os jovens não haviam passado por aquilo que os antepassados passaram. A atuação direta de Deus não é mais vista de forma tão palpável assim como fora no passado. E por isso a fé em Deus corre perigo. Assim, a pregação deuteronomista tem a finalidade de lembrar que a cada geração a fé tem que se tornar palpável e tão pessoal quanto possível. Esse é um processo dinâmico que não pode parar. Olha-se para o passado para que esse seja atualizado para o momento em que se vive. O contexto menor de Deuteronômio 8.7-20 aponta para a vida sedentária do povo na terra prometida. É uma prédica que tem o objetivo claro de apontar para a vida do povo. E no ápice dessa prédica encontra-se a exaltação das riquezas dessa terra dada por Deus ao povo eleito. Essa descrição revela traços de perfeccionismo, dando a entender que o povo recebe de Deus quase que um paraíso. O texto de Deuteronômio 8.6-10 exorta o povo para que, em meio a tanta fartura e bênçãos, ele não esqueça o Doador. Afinal, o povo tem tudo apenas como empréstimo, que poderá usufruir em obediência à vontade do Doador, já expressa em Deuteronômio 5. Israel é um povo que surge da fusão de tradições de diversas tribos. Essas se organizam a partir da aliança feita com Deus no monte Sinai. E essa história é passada de pai para filho através de muitas gerações. Ao passar diante de tais histórias, tinha-se justamente o objetivo de resguardar a igualdade comunitária e a justiça que garantisse a liberdade, enfim a vida de todos, em obediência à vontade de Deus. Deuteronômio relembra o povo que vive numa época de crise do que Deus já realizou em seu benefício no passado. Ele reconta a história do povo para dentro de uma situação nova. É a atualização do passado. Para um povo que era nômade, a terra representava o bem maior, insubstituível. É ela que lhe garantia a vida, o sustento, a segurança. Outro fator im-
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portante para esse povo é que a terra não é conquista, mas sim dádiva para ser usufruída. E por ser dádiva do próprio Deus, ela é perfeita, tem de tudo para todos. Deus não deixa faltar nada. É Ele quem garante a continuidade da vida. A fidelidade a Deus, por seu turno, expressa-se na observância dos mandamentos. Deus dá a terra aos seres humanos para que dela tirem o sustento. A terra é de Deus, ele é o Senhor. Os seres humanos estão ligados a essa dádiva de Deus de maneira vital, é dela que vem todo o sustento. E, mais ainda, a sua própria origem está ligada à terra, pois do pó foram formados (Gn 2.17). A terra é de Deus. Essa é uma das confissões básicas do povo de Israel. Dela se deduz que a terra não é propriedade de alguns privilegiados, mas que todos têm o direito a seu usufruto. E o domínio da criação deixada por Deus aos seres humanos inclui toda a natureza. Mas esse domínio também inclui zelo. A terra de Deus tem de tudo, não falta nada. E para que assim possa continuar, o ser humano tem que ser um responsável colaborador da obra criadora de Deus. A riqueza oferecida por Deus existe para todos.
3 Meditação O culto de Ação de Graças quer estimular o sentido da gratidão. A palavra gratidão deriva de graça. Quem experimentou a graça em momentos de desespero, quando a própria fé perigava balançar, que não sabia como os problemas seriam resolvidos, esse pode nutrir gratidão. A festa de Ação de Graças pela colheita é exatamente isto: quem plantou na esperança da colheita toma agora uma porção (uma parte representativa do todo) do seu trabalho e a oferece como forma de gratidão pelas bênçãos recebidas. O que temos a agradecer? Temos a agradecer pela vida, dom de Deus que se renova a cada novo dia; agradecer pela família, presente de Deus que nos completa e fortalece; agradecer pelos amigos, companheiros na caminhada da vida; agradecer pelo trabalho, que nos dignifica; agradecer pela natureza, que nos dá uma maravilhosa lição através de suas estações; agradecer pela colheita, fruto do nosso trabalho, do nosso suor e das condições propícias que nos foram dadas; agradecer pelo pão de cada dia, que não tem faltado em nossas mesas, enquanto muitos passam fome; agradecer pela saúde e pelos avanços na medicina; agradecer pelas novas tecnologias que facilitam o nosso dia a dia. Agradecer. Temos tanto a agradecer. Agradecer é reconhecer quão grande é o amor de Deus por nós. Esse Deus que criou o mundo e tudo o que nele há, que libertou seu povo da escravidão do Egito; que o conduziu pelo deserto até chegar à terra prometida, terra que mana leite e mel; que deu os mandamentos como balizador para a vida de seu povo. Esse Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de José e de Moisés é o mesmo Deus que hoje nos acompanha, tanto em momentos de alegria como de dificuldades. Ele quer manter comunhão conosco. Ele é o doador de todas as dádivas, de tudo o que temos e de tudo o que somos. Quando Deus terminou a obra da criação, ele viu que tudo era muito bom. A terra era boa, o ar era puro e a água era fresca, a comida que a terra produzia era
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saudável. Deus nos deu a terra para tirar dela o sustento, o necessário para viver de forma digna, para haver bem-estar e fartura. A terra é uma das dádivas que Deus nos dá, por que não dizer: um presentão. Assim sendo, somos convidados a cuidar dela, preservá-la, respeitá-la. De que maneira estamos agradecendo a tudo aquilo que Deus generosamente nos tem dado? Estamos nos colocando inteiramente em suas mãos, como dependentes que somos? Ou só nos lembramos dele nos momentos de dificuldades e ainda por cima culpando-o pelo que está nos acontecendo, dizendo “Deus quis assim... É vontade de Deus...”, quando, na verdade, boa parcela da culpa é nossa. Ou estamos colhendo o que plantamos ou vivendo as consequências das nossas escolhas? Deus não quer o mal para seus filhos e suas filhas; muito pelo contrário, ele tem pensamentos de paz e de bem para cada um dos seus. Ele quer que todos tenham vida e vida em abundância. Assim sendo, nós somos convidados para o compromisso para com os irmãos e as irmãs necessitados/as, que não possuem o mínimo necessário para ter uma vida digna. Quando recebemos muito, temos a tendência de nos tornar arrogantes e autossuficientes, afastando-nos dos caminhos de Deus, caminhando rumo ao nada, ao vazio, desviando-nos da vida verdadeira. E quando o vazio nos assusta, somos chamados a cantar como o salmista no Salmo 121. O dia de Ação de Graças quer lembrar-nos a manifestar nossa gratidão pelo que colhemos com o suor do nosso trabalho. Assim, trazemos diante de Deus toda a nossa realidade e confessamos que, apesar de todas as nossas falhas, fomos abençoados por Deus. Ação de Graças, além de gratidão pelo passado, também quer renovar o pedido de bênção para o futuro. O sacrifício que Deus espera de nós são o louvor e o serviço. É confessar em palavras e ações a nossa fé no único Senhor e Salvador, que é Jesus Cristo. É crer que tudo o que o Senhor diz é verdade e que suas promessas duram para sempre. Ele é um escudo para todos os que procuram a sua proteção e seguem por seus caminhos. Deus quer manter conosco uma amorosa relação de Pai e filhos. Ele quer fazer parte do nosso dia a dia. Ele quer nos ajudar em nossas decisões, em nosso planejamento para a nova safra, no plantio, no cuidado e na colheita, em nossa vida familiar, em nossas relações de amizade. Assim como um pai e uma mãe querem estar presentes na vida de seus filhos, assim Deus quer nos acompanhar. Ação de Graças é: Agradecer pelo “pão nosso de cada dia”. Agradecer por Deus nos guiar, fortalecer nas dificuldades pessoais e comunitárias e por dar assistência básica para que a comunidade possa edificar o reino de Deus. Agradecer porque Deus foi ao nosso encontro e por isso nós vamos ao encontro do próximo, valorizando-o. Agradecer por podermos, como comunidade, ser luz nas trevas e mudar trevas em claridade.
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Agradecer que nós, como comunidade, podemos e devemos participar da transformação política e econômica do nosso país, para que ele se torne cada vez mais a pátria em que nos sentimos acolhidos. Agradecer é assumir o compromisso pela construção de uma nova sociedade, mais justa e fraterna. Agradecer é investir na missão. O que Ação de Graças não é: Agradecer não é a glorificação do que é meu (minha colheita, minha vida, minha casa, minha família, minha...). Deus doa aos seres humanos o melhor e em fartura, e essa dádiva nos compromete com o doador e com ela própria, pois ela é a garantia da continuidade da vida. Façamos a nossa parte.
4 Subsídios litúrgicos Oração de gratidão: Benigno Deus, Pai misericordioso. Tu nos abençoaste ricamente com as tuas dádivas. Deste-nos os frutos da terra, deste-nos saúde para trabalhar, para criar nossos filhos, para organizar a nossa vida. Queremos agradecer-te de coração por todo o teu amor. Perdoa-nos o nosso esquecimento, perdoa as nossas lamentações. Faze-nos servir em gratidão e amor. Por Jesus Cristo, teu amado filho. Amém.
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PRÉDICA: MATEUS 21.14-17
DOMINGO DE LOUVOR ATRAVÉS DA MÚSICA
ISAÍAS 12 ATOS 16.20-25
Cláudio Kupka No princípio era a música, e a música estava com Deus, e a música era Deus… Carlos A. R. Alves
1 Introdução Muito cedo, a música tornou-se expressão singular de sentimentos interiores de alegria e angústia. A voz, nosso instrumento natural, passou de veículo da comunicação pessoal imediata para veículo de valores e sentimentos que ocupavam a mente e o coração humanos. Como forma de expressão artística, tornou-se uma das mais apreciadas expressões da subjetividade humana, sendo, com canto ou somente com instrumentos, uma linguagem de alcance universal. Na Bíblia, a música é frequentemente citada e muito cedo foi incorporada às celebrações da religião judaica e dos primeiros cristãos. A música foi veículo de diferentes expressões de fé: louvor a Deus, confissão de fé, oração, confiança etc. Carlos Alberto Rodrigues Alves afirma: “Poemas, salmos e canções sempre chegam primeiro à nossa existência. São os responsáveis pelo nosso ‘abalo metafísico’. Pertencem às categorias que despertam em nós o espanto primordial e o encanto, sempre essencial, frente à esfera do sagrado. Teses teológicas, confissões doutrinárias e dogmas são explicações e construções intelectuais. Posteriores tentativas de explicar o amor e a dor”. Os textos que temos diante de nós harmonizam-se muito bem entre si. O texto de Isaías coloca o canto como expressão de louvor a Deus, como fruto do reconhecimento dos milagres e manifestações divinas na história do povo de Israel. O canto tanto é expressão da vida pessoal em relação diária com Deus como reconhecimento do senhorio de Deus sobre a natureza e a história. O texto de Atos coloca o canto como expressão da fé, que, mesmo diante das provações, tem na presença e cuidado de Deus o seu horizonte. Paulo e Silas experimentam a prisão como se estivessem longe daquele ambiente hostil e ameaçador. O texto de Mateus 21 coloca o canto como a mais genuína expressão de fé. Essa não é comprometida com a inveja e a criticidade dos oponentes de Jesus. É espontânea e alegre, e por isso ninguém poderá calá-la.
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2 Exegese O texto de Mateus 21.14-17 está colocado imediatamente após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e o relato conhecido como purificação do templo. É um momento de reconhecimento de sua messianidade por parte do povo, em clima de euforia. É momento também de evidência de sua oposição ao sistema político-econômico que se instalou no templo e que distorceu a espiritualidade do judaísmo. Textos posteriores tratam do confronto de Jesus com a liderança do templo em torno do tema da autoridade. Tratam da rejeição de Israel ao Messias. Em meio à intensidade de emoções desses dois momentos, Jesus continua a experimentar o assédio do povo. O v. 14 diz que “vieram a ele, no templo, cegos e coxos, e ele os curou”. Trata-se de um gesto constante e crescente em seu ministério. O povo simples e necessitado, que povoava as cercanias do templo, procurava-o cada vez mais, trazendo suas dores e carências. Como quem desconsidera os interesses políticos que rondavam sua aproximação a Jerusalém, Jesus continua cercado pelo povo. Tudo o que Jesus fazia (milagres, pregações, gestos) era interpretado para além do simples gesto. Tudo adquiria um sentido simbólico maior. Tudo era interpretado à luz das hipóteses formuladas em torno de sua missão e identidade. A sensibilidade de Jesus, entretanto, estava voltada às pessoas, nesse caso às crianças. Era como ter um ouvido seletivo – em vez de ouvir quem tramava sua morte, preferia ouvir expressões autênticas de fé e confiança. Os sacerdotes e escribas, representantes do judaísmo e do Sinédrio, aproximavam-se observando, inquirindo e interpretando o que acontecia ao redor de Jesus. Nos v. 15-16, as autoridades indignavam-se vendo “os meninos clamando: Hosana ao Filho de Davi!” e perguntavam “Ouves o que esses estão dizendo?”, como se achassem natural julgar que estavam fazendo afirmações perigosas. Para eles, mexer com o tema da messianidade de Jesus é algo altamente perigoso. Jesus valia-se da singeleza da expressão infantil para referendar a autoridade dessas: “Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?”, citando palavras do Salmo 8. Fica claro aqui a referência que Jesus fazia ao louvor, que é próprio de quem reconhece e admira o agir de Deus na história. Ele é fruto de uma confiança de que o poder de Deus se manifesta na fraqueza humana. Jesus, ao jogar luz sobre uma expressão humilde e espontânea, condenou o olhar humano que julga Deus segundo interesses humanos. Quem se aproxima dele com ideias preconcebidas e com interesse de “enquadrar” Deus em esquemas religiosos com certeza ficará sozinho. O texto lança as bases para a legítima expressão da música e do louvor: se não for fruto de encantamento, entrega e gratidão, não será legítima. O texto encerra no v. 17 afirmando a localidade onde Jesus e seus seguidores passaram a noite: Betânia (distante uns 3 km).
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3 Meditação A reflexão do louvor e da música tem dois pontos de partida. Um deles trata das condições para o surgimento do louvor a Deus, e outro, da percepção das expressões genuínas de louvor a Deus em nosso mundo. A música, como veículo primordial desse louvor, é um segundo tema. O nosso texto fala da gênese do louvor ao reverso através da postura dos representantes do Sinédrio e dos fariseus que cercavam Jesus no contexto de sua chegada a Jerusalém. Destaca-se nessa postura uma atitude de suspeição em relação aos propósitos de Jesus. A popularidade desse homem de Nazaré era motivo de preocupação. Se alguns reconheciam a origem divina dele, outros, esbarrando na possibilidade do Messias ser de origem divina, viam em Jesus um usurpador indigno de um status e, consequentemente, um blasfemador. Reconheciam a riqueza e profundidade de sua pregação, mas o desautorizavam a falar em nome de Deus. O resultado dessas posturas era uma relutância extrema em reconhecer em Jesus um mensageiro que lhes poderia apontar novos caminhos para sua visão de Deus e sua religiosidade. Além disso, sua mentalidade calculista e comprometida com um sistema de méritos não lhes permitia compartilhar da postura de Jesus permeada pela graça. Jesus, além de usurpador, era visto como leviano e até libertino em sua conduta. O louvor a Deus não brota de um coração que impõe condições de credibilidade e restringe o agir de Deus às condições humanas de sua compreensão. O louvor a Deus é primeiramente cheio de gratidão. Louva quem exercita diariamente a gratidão. Deus dá-nos muito mais do que percebemos e pedimos. Quem louva também confia no agir soberano de Deus. O louvor parte do reconhecimento de nossas limitações. Somos cegos e coxos, que são retirados da escuridão e da mendicância para um viver restaurado e cheio de dignidade. As crianças personificam um louvor sincero e espontâneo. Elas provavelmente compartilham da expectativa libertadora que a vinda de Jesus representa. Não estão preocupadas com a possibilidade de aceitação política de Jesus por parte do Sinédrio. Estão gratas pelos sinais de cura e libertação que Jesus promove. Num mundo em que o caminho a Deus está repleto de condições, regras e recriminações, Jesus aparece como alguém que se importa com os pequenos e anuncia um caminho marcado pela graça, pelo perdão e pela restauração. Poderíamos dizer que o louvor nasce de um processo de descomplicação de nossa relação com Deus. O exercício da gratidão a Deus tira-nos de uma postura reivindicadora e resignada. Dá leveza e alimenta a esperança na vida cristã Um segundo aspecto tem a ver com a percepção dos sinais de louvor a Deus que existem ao nosso redor. É preciso reconhecer que as expressões de louvor podem brotar em lugares e situações improváveis. Assim como o agir de Deus, pelo vento do Espírito, é livre e soberano, assim também não podemos prever onde e quando a natureza e as pessoas irão espontaneamente expressar gratidão e louvor ao Criador. Se o pecado bloqueia o reconhecimento do agir de
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Deus, a graça reconecta a criação com o Criador e reconhece sua grandeza e agir no mundo. O Espírito lembra-nos do agir de Deus testemunhado na palavra de Deus. “Nunca lestes?”, questiona Jesus. Nesse sentido, ter contato com a palavra de Deus e estar aberto a seu testemunho ajuda-nos a louvar. Quem tem o Espírito de Deus percebe e alegra-se com o agir do Espírito. Claro que convivem dentro de nós o espírito do medo e da autossuficiência e o espírito que clama e confia em Deus. O louvor brota quando permitimos ao Espírito de Deus conectar-nos a Jesus e ao Pai. Só então percebemos que não estamos sozinhos e desamparados, mas ricamente abençoados. O tema do perfeito louvor agora tem uma base segura para ser compreendido. O canto e a música instrumental perdem boa parte de seu valor se não tiverem a experiência do genuíno e espontâneo louvor como ponto de partida. Lembro muito bem de nossa professora de música na Faculdade de Teologia comentando como soava bonito o canto de nossos grupos de canto da época, formado por pessoas pouco técnicas. Ela afirmava que se devia à atitude de fé dos componentes. Não precisamos radicalizar no sentido de pretender fiscalizar com que atitude a música é executada. A música, mesmo executada sem muita convicção e atitude, contagia, pois é instrumento do Espírito para reconectar as pessoas a Deus. Claro que, se for executada com convicção, pode ser melhor usada. Também não devemos sobrevalorizar a atitude em detrimento da técnica. Uma música mal executada não só desanima como pode ser sinal de desleixo e ingratidão a Deus. Deve haver um empenho pelo aprendizado da música, pela valorização do canto, pelo acompanhamento instrumental do canto nos cultos. Aliás, é bom lembrar que o espaço do canto comunitário é primordialmente o do culto cristão, compreendido como encontro da comunidade com Deus. A música mais qualificada, seja de corais ou grupos instrumentais, tem seu lugar na comunidade. Ela tem o papel de incentivar o canto da comunidade e o louvor a Deus.
4 Imagens para a prédica 1 – Em Linden, Alemanha, cerca de 300 jovens que ensaiavam a parte coral do “Die Zehn Gebote – ein Pop-Oratorium” (Os Dez Mandamentos – um Oratório Pop) reuniram-se discretamente num shopping de sua cidade e começaram a cantar o tema final da obra. Os consumidores não puderam evitar de parar com sua rotina, admirar a apresentação e deixar-se encantar pela mensagem da música (Liebe ist das Gebot. Liebe allein schließt alles ein, Liebe weiß und vergibt. Liebe ist das Gebot. Was ihr auch tut, alles ist gut, wenn der eine den andern liebt! / O mandamento é o amor. O amor sozinho resume tudo. O amor sabe e perdoa. O mandamento é o amor. Faça o que fizer, tudo é bom quando se faz a alguém por amor). Ver em: www.youtube.com/watch?v=OcFOZEwiNb8. 2 – Conta-se que um amigo levou um índio para passear no centro de São Paulo. Seus olhos não conseguiam acreditar na altura dos edifícios, e ele mal conseguia acompanhar o ritmo frenético das pessoas indo e vindo. Espantava-se com o barulho ensurdecedor das sirenes, dos automóveis, as pessoas falando em
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voz alta. De repente, o índio falou: Ouço um grilo... O amigo, espantado, retrucou: Impossível ouvir um inseto tão pequeno nesta confusão! O índio insistiu que ouvia o cantar de um grilo. Tomando o seu cicerone pela mão, levou-o até um canteiro de plantas. Afastando as folhas, apontou para o pequeno inseto: Como?, perguntou o amigo, ainda sem crer. O índio pediu-lhe algumas moedas e então jogou-as na calçada. Quando elas caíram e ouviu-se o tilintar do metal, muita gente se voltou: Escutei o grilo porque o meu ouvido está acostumado com esse tipo de barulho. As pessoas aqui ouvem o dinheiro caindo no chão porque foram condicionados a reagir a esse tipo de estímulo. Depois arrematou: A gente ouve o que está acostumado ou treinado a ouvir. 3 – Tudo começou com a foto de pássaros pousados nos fios de luz de uma rua no interior do Rio Grande do Sul, feita pelo repórter fotográfico Paulo Pinto, de 49 anos. Uma cena normal, dependendo do olhar. Para o publicitário paulistano Jarbas Agnelli, de 46 anos, a imagem “soou” como música. Notas numa partitura foram o que lhe pareceram as aves nos fios de alta tensão. Publicitário e músico, Agnelli recortou a foto publicada no Estadão na quinta-feira passada e, naquela noite, no estúdio de sua casa, começou a compor com base nas notas que enxergou na imagem. “A inspiração pode vir de qualquer lugar, mas é preciso estar atento”, diz ele. Pássaros pousados em fios de energia existem em todo lugar, mas perceber música a partir de seu posicionamento requer um olhar especial. A natureza sempre canta louvores ao Criador, porém poucas pessoas percebem essa música.
5 Subsídios litúrgicos Oração de confissão de culpa: Querido e amado Deus, pedimos perdão por nossos lábios calarem-se diante de tantos sinais de teu cuidado e amor. Perdão pelo canto que não brota de um coração grato e cheio de louvor. Perdão pela insensibilidade em reconhecer o teu agir fora dos limites de nossa percepção. Perdão pela falta de esperança, perdão pelo silêncio resignado diante da dor. Permita que percebamos sinais de louvor ao nosso redor. Crianças, pobres, doentes que te louvam enquanto sofrem. Ponha também em nosso coração a mesma fé e esperança que saúda o dia, mesmo antes do amanhecer. Amém. Costura para a Liturgia da Palavra (Livro de Culto, VII. 305) Oração do dia: Tua igreja canta a Ti, Senhor, pois não cabe a ela outra atitude senão o louvor. O sopro de vida da criação ainda é sentido em nosso corpo. Tudo em nós nos move a te louvar. Em nosso coração, teu amor revelado em Jesus sara nossas chagas. Em nosso coração vibra a paz do Ressuscitado, e o fogo do Espírito arde em nosso meio. Se não te louvarmos, as pedras, os mares e os céus clamarão. Sejas tu engrandecido eternamente por nosso humilde cantar. Na eternidade, nos-
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so louvor será perfeito, digno de tua grandeza e santidade. Em nome de Jesus, oramos. Amém. Oração pós-comunhão (Livro de Culto, VII.324, nº 2) Litania de adoração (Livro de Culto, VII.333, nº 16)
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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXVII Advento – Celebração........................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio.....................................................................................................XV, 304 Ação de graças.................................................................................XII, 300; XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita.........................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370; XXXVI, 365; .......................................................................................................................................XXXVII, 348 Achados e perdidos – experiências..................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17)......................IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10)............................ X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12)............................................................IX, 83 A velhice....................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para .....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de..............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial..............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13)................................................................................................................... XX, 351 (Ct 8.7)...................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12)................................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3)................................................................................................ XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte...............................................................................................................................XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31)........................................................................................................ X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11).....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35)...................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................. XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28)............................. XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4).......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular...................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16)................................................................................................. X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)......................................................................................................... II, 187 (Dt 30.11-20).............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69)............................................................................................................... XII, 293 (Mt 5.14-16).............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18)................................................................................................................ XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20)......................................................... XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5)......................................................... XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22).....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1).........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O)........................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13)...................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15)................................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42)............................................................................................ XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)....................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15)............................................................................................................. XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas................................................................................ XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2)........................................................ XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34)................................................ XII, 27 Deus na marginalidade..............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo..........................................................................................................XXVI, 361
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Dia das Crianças (Zc 8.1-8)............................................................................................... XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22)..........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38).................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8).......................................................................................................................VI, 48 (1 Tm 4.4-5)............................................................................................................. XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43).............................................................................................. XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15)....................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11)............................................................................................................... XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15)......................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ...................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21)................................................................................................................... I, 143 (1 Co 15.50-58).......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44).................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33)........................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14)........................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29)........................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20)....................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10)...........................................................................................................XXXV, 347 (1Ts 4.13-18)...................................................................................................... XXXVI, 335 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17)..........................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4)................................................................................................................. II, 336 (Mc 12.13-17)..............................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16)................................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13).....................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)....................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11)........................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36).................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28)...............................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10).................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7)....................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33)............................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12)............................................................................................................... VIII, 331 (Mt 10.26b-33)....................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6).............................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13)................................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36)........................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10)...........................................................................................................XXXII, 307 (Jr 31.31-34)....................................................................................................... XXXVI, 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17)................................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15)...............................................................................................III, 62 (2 Ts 3.6-13)....................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a).............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31).......................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19).....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct)..........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música..................................................XXXIII, 401; XXXVII, 353 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)]).............. XII, 307 (Ap 3.14-22)............................................................................................................. XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16)............................................... XX, 309; XXXVI, 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15)........................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18).................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25)............................... XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21).................................................................................... XIII, 60
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Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25)...................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de................................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7).....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46)..............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4)...................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30)............................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15)............................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18).........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores.......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético................................................................................................................ XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...”........................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15)............................................... X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo...................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4)............................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19)............................................................ XIII, 80 (Is 65.17-25).............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana............................................................................ XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20)............................................................................................... XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19)........................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a)............................................................................ XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías.................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29)............................................................... X, 74 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer........................................ XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida...................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay........................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas..............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16)..................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18).........................................................................IX, 57 Marketing e igreja................................................................................................................... XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28)................................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37)..............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos...............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43)...............................................XI, 65 Missão (1 Co 12)..................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)....... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45)................................. X, 106 Mulheres agricultoras..............................................................................................................XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31)..................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18)............................................................ X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus............................................... II, 176 Lucas ........................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25)................................................................. XII, 34 O desafio de ser autor de PL.....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças................................................................................XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas..................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22)............................................... X, 48 O Lecionário Ecumênico........................................................................................................XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo...............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10).................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15)..................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia............................................................................................. XIV, 91
361
Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6)..................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37)...................................................... XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112)............................................................ XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens..................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia)................ XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6).......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21)..............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17)........................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21).......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12])........................................................................ XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12).....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15)..................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia....................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38).................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB ..........XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16)..................................................................XI, 85 Semana do excepcional....................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas............................................................................................. XXIV, 347 Sepultamento.............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40)............................................................................................................... XX, 355 (Jo 19.25-27)............................................................................................................. XX, 360 (Sl 39.5-7).................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a)..........................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8)............................................................................................................ XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26).............................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39).......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém..........................................................................................................XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro................. XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14)................................................................ XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35)....................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra................................................................................. XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados.................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos.......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10)....................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O)........................................................ XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8).....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15)....................................................................... XIII, 74 Vigília pascal.........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8)................................................................................................. XII, 61
362
PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXVII ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a . .......... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3.................................. III, 105 2.4-15...................................... XXVIII, 301 2.4b-15..........................V, 330; XXXV, 211 2.7-9,15-17; 3.1-7....... XXX,66; XVIII, 84; .................................................. XXXV, 127 2.8-15............................................. XIII, 74; 2.18-24...................... XXII,254; XXV, 282; ................................................ XXXIII, 343 3.1-9............................................... XII,170; 3.1-19(20-24)................................ XXV,214 3.1-24................................................VI,133 4.1-16...............................VII,203; XIII,246 8.1-13...............................................XV,135 8.15-22..................................... I,71 (68); 78 11.1-9............................. XII,205; XVII,130 12.1-4............................................ XVIII,88 12.1-4a.......................................... VII, 165; 15.1-6.....................XXVI,256; XXXIV,283 17.1-13.........................................XXVII,40 18.1-10a(10b-14)..... XX,208; XXXVII,223 18.20-21(22)23-32.......................... XX,214 21.8-21............................................. XIII,60 22.1-13..............................................VI,144 22.1-14(15-18)................................XXII,65 28.10-17(18-22)..............................XXII,71 32.23-31........................................XVII,240 32.23-33....................................II,207 (374) 50.15-21................. XXIV,272; XXVII,240; ................................................... XXXV,295 Êxodo 1.8-22......................................... IX,107 2.1-10....................................... XXVIII,181 3.1-14...............................................XII,154 3.1-8,13-15.................................. XXVI,108 6.2-8...........................XVIII,218; XXX,214 12.1-14........................................... XXI,108 13.20-22.......................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30)..... XXVIII, 276 16.2-4,9-15............................... XXXVI,251 16.2-3,11-18....................................XIV,283 19.2-8a .......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17.............XXII,75 22.21-27......................................... XXI,280 24.1-11.......................................XXXII,123 24.3-11 ... XVI,224; XXV,164; XXVIII,272 24.12,15-18................... XXI,78; XXXII,79 32.7-14 . .XV,225; XXIII,177; XXXVII,272 33.18-23............................................VI,102 34.4b-10..............................III,153; XV,273
34.29-35...................XXV,123; XXXVII,87 Números 6.22-27......... XXXIII,58; XXXVI,48 11.11-12,14-17,24-25..................... VIII,205 11.24-30.....................................XXXII,169 12.9-16...............................................XII,18 21.4-9..............VII,101; XIII,159; XXII,80; ................................................. XXXIII,146 24.15-19...........................................XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII,235; ................................................. XXXVI,274 4.32-34, 39-40 .........................XXVII, 148 5.12-15............................................... III, 43 6.1-9........................................ XXXIII, 373 6.4-9...............................XV, 246, XIX, 164 7.6-12...............................................VI, 219 8.6-10................................................XII, 11 8.7-18......................................XXXVII,348 10.12-22..................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28.........XXI, 164; XXXII, 184 17.14-20............................................XII, 51 18.15-20... XIX, 67, XXXI, 57; XXXIII, 92 24.14-15.............................................IX, 63 26.1-11.................................... XXXIII, 394 26.3-11......................................... XXVI, 91 30.9-14.....................................XXXIV, 257 30.11-20.......................................... VIII, 23 30.15-20................XXXIV, 303; XXXV, 93 32.36-39........................................ XXIII,79 34.1-12.........................XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9..............................................VII, 36 8.1-8...................................................XII,61 24.1-2a,13-25.................................... III,117 Juízes 4.1-7......................................XXXII,319 5.24-31................................................. X,37 9.7-15..................................................IX,98 Rute 1.1-19a..................................... XXIX,289 1 Samuel 2.1-10.............. II,176 (343); VII,113 3.1-10(19)......................XIX, 55; XXXI,44 3.1-10,19......................................... XXV,86 11.1-15................................................V,337 2 Samuel 7.1-11,16 . ....................... XXXVI,24 7.4-6,12,14a,16............................... XXV,35 11.26-12.10,13-15...................... XXIX,199; ..................................................XXXIV,231 12.1-10,13-14....................................IX,264 12.1-10,13-15a.................................XV,261 1 Reis 3.5-12................. XXIV,240; XXXII,236 3.16-28......................................... XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43....................XVII,141
363
8.22-24,26-28....................................VI,189 8.22-30.............................................XII,191 8.41-43....................................... XXIX, 188 17.8-16... XVI,292; XXXI,286; XXXVI,346 17.17-24................... XVII,146; XXIX,192; ................................................XXXVII,193 19.1-8(9-13a)................................XXII,226 19.1-13a.......................XIV,185; XVIII,204 19.1-18................................................ III,92 19.4-8....................................... XXXIII,285 19.9-13a ...................................... XXX,204 19.(14-18)19-21.........XVII,159; XXIX,205 2 Reis 2.1-12 . ............................... XXXVI,105 2.9-18......................................XXXVII,174 5.1-14............................................ XXXI,71 5.1-19a...............................................VII,58 Neemias 5.1-5(6-12).............................. XIII,11 5.1-12.................................................IX,83; 8.1-2,5-6.......................XX,183; XXXIV,95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36).............. .................................................... XXXI,263 Jó 7.1-7 ..............................XIX, 73; XXXI, 63 19.23-27a................................XXXVII,329 38.1-11......................................... XXV, 221 Salmo 22.1-19................................ XXXV, 169 22.1-12,17-20.............................. XXX, 104 22.2-12,17-20..............................XVIII, 116 23.............................................. XXXV, 187 46.1-7(1-11)...... XXVI, 313; XXXVII,311 111................................................ XXVI, 27 112....................................................XII, 77 130.4..................................................VI, 34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26....................... XX, 225 3.1-8(-13)........................VI, 48; XXXV, 51 3.9-15.................................................. X, 16 4.1-4.................................................... X, 84 5.18..................................................... X, 65 9.13-18................................................ X, 25 Provérbios 8.22-31.......................... XXIII, 109 9.1-6,10........................................XXII, 230 9.7-13......................................... XXIII, 172 16.1-9.............................................. VIII, 80 24.10-14 . .........................................XII, 45 30.5-9......................................... XXVI, 215 Isaías 1.1-9......................................... XIII, 116 1.10-17............................................XV, 297 2.1-5.................. VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7............... VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13............................... VI, 198; XII, 213 7.10-14............................................ XXI, 37 7.10-14(15-17)...........XIII, 104; XXXII, 27 9.1-6............................................. XVIII, 31 9.1-6,10........................................XXII, 230 9.2-7...................................................V, 294
364
11.1-5.............................................. XVI, 63 11.1-9...XVIII, 58; XXXIII, 31; XXXVII,31 11.1-9(10-11)............................... XIV, 148; 11.1-10........................................XXVII, 16 12.1-6......................................... XXVI, 114 24.12-16a...................................... XIII, 312 25.6-8............................................ XIX, 114 25.6-9.... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24..........................................XII, 233 29.18-24........................................... III, 130 30.(8-14),15-17..................................VI, 97 33.13-17,22.............................. XXXVI,187 35.1-10..XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; ............................... XXXV, 22; XXXV, 347 35.3-7........................XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10................................X,158; XIV,115 35.4-7a.................................... XXXIII, 315 40.1-11.. VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31...........................................IX, 216 42.1-7(-9).....XXI, 51; XXV, 80; XXXV, 69 42.14-21.......................XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7.......................................II, 132 (299) 44.1-5...................................... XXXIII, 401 44.6-8........................................ XXXV, 246 44.9- 20........................................... XIII, 50 45.1-7.......................XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25.................................... XXVIII, 49 49.1-6............................III, 85; XXXVII,58 50.4-9......................II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a.......................................... XXX, 94 50.4-10......................XIX, 241; XXXI, 252 51.1-6........................................XXXII, 259 52.7-10.......XV, 100; XXII, 37; XXXIII, 70 52.13-53.12................ V,72; IX,196; XV,185; ................................... XII,109; XXXVI,146 53.10-12....................................... XXV, 294 54.7-10..............................IX, 183; XV, 170 55.1-5........... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; .................................................... XXX, 197 55.1-9.......................................XXXIV, 120 55.6-7.................................................VI, 24 55.6-11.......................................XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a............................. VIII, 119 55,10-11......................................XXIV, 223 56.1,6-8 . ............... XVIII, 213; XXX, 209; .................................................. XXXV, 274 58.1-9a............................................XV, 147 58.1-12........................ IX, 50; XXXIII, 125 58.5-9a .........................................XXIV, 88 58.7-12............................................XII, 300 60.1-6.. V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; . ..................................................... XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11.............................. XIII, 120 61.1-3,10-11............................. XXVIII, 20
61.1-3,11,10......................................VII, 44 61.10-62.3.. XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5...........................XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12.................II, 256, (423 ); VIII, 331; 62.6-7,10-12. XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16)............ XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3....................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3................. I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7.................XXII, 9 64.1-9.......................................... XXXIII, 9 65.17-25.......................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14..............XXIX, 213; XXXVII,217 Jeremias 1.4-10................. VII, 184; XIII, 228; ..................................................XXXVII,82 7.1-11........................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5)................................XIV, 301 7.21-26.......................................... XXX, 15 8.4-7............................ VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23...............................................VII,71 11.18-20......................XIX,246; XXXI,256 14.7-10,19-22..........................XXXVII,305 15.15-21.....................XVIII,222; XXX,220 17.5-8............................................ XXIII,55 20.7-13........................... VIII,145; XXI,181 22.13-19........................................... XIII,80 23.1-6............................................. XVI,217 23.2-6.............................................. XX,301 23.5-8................................... VI,62; XII,103 23.16-29..................II,144, (311); XIII,209; ................................................XXXVII,251 26.8-15......................................... XXVI, 97 28.5-9.........................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a........................................... III,34 31.1-13.......................................... XXIX,35 31.7-9(-14).................XXV,301; XXXV, 58 31.10-13(14)...................................XVII,34 31.31-34....................XXII,85; XXXVI,329 33.14-16......................................... XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32..................VI,269 3.21-33.......................................... XXV,226 Ezequiel 2.1-5................................ XXXVI,226 2.1-8a............................................ XXV,231 2.3-8a; 3.17-19..........................II, 96, (263) 17.22-24................................... XXXIII,239 18.1-4,21-24,30-32..........................IX,247; 18.1-4, 25-37..............................XXVII,243 33.7-9.........................................XXVII,230 34.1-2(3-9), 10-16.......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31........................VI,170; 34.11-16,23-24 . ......XXIV,328; XXXV,363 37.1-3(4-10), 11-14 . .................. XVIII,103 37.1-3,11-14................................... XXX,89 37.1-14 . ..XV,193; XXIV,117; XXXII,108; . ................................................. XXXIII,228
37.24-28........................................... VIII,55 Daniel 5.1-30.......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) . .................. XVI,311 12.1-3......................... XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2....................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6.......................................... XXI,169 11.1-4,8-9................ XXIV,323; XXVII,284 Joel 2.1-2,12-17..............................XXXVI,111 2.12-18.............................................XII,166 2.21-27.......................................XXXII,212 2.28-29........................................... XXI,153 Amós 3.1-8..........................XXIV,75; XXX,54 5.6-7,10-15............................... XXXVI,309 5.18-24....................................... XXXV,352 5.21-24...............................................VII,76 6.1-7..................... XXIII,189; XXXVII,286 7.7-15....................................... XXXIII,264 7.10-15(16-17) . ............................ XVI,211 8.4-7........................................... XXIII,181 9.7-10................................................. X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10.............XIX,61; XXXI,52; .................................................. XXXVI,81 3.10-4.11....................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a......................... VI,88; XII,114 5.2-4.............................................. XXIX,21 5.2-5........... XVI,63; XXVII,29; XXXIV,30 6.1-8.......... XXIV,79; XXVII,58; XXXV,87 6.6-8................................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; .............................XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-20................ XX,20; XXXVII,20 Zacarias 7.9-10................................ XXVI,267 8.1-8 . ..........................................XXIV,337 9.9-10 . .............X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11)...................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5......................................... XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12.. X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; . .............. XXVII, 46; XXXII,62; XXXV, 28 2.13-18(-23).....................V,304; XXXV, 46 3.1-12........ XVIII,15; XXIV,24; XXXV, 14 3.13-17.............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; ..................................... XXX,44; XXXII,66 4.1-11............. IV,14; XXVII,70; XXXII,85 4.12-17.............................................XII,142 4.12-23....................... XVIII,61; XXXV, 81 4.23-25..................................XII,35; XII,34 5.1-10........................... IV,212; XXXII,307 5.1-12............................................ XVIII,64 5.13-16.............................................. X,390;
365
5.13-16(17-20).............................. XVIII,69 5.17-20............................................. IV,125; 5.20-37.......................................... XVIII,73 5.38-48.....II, 193, (360); X,460; XXXV, 99 6.1-4 . .............................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-21...........XXXIV,115; XXXVII,94 6.5-13........................ II, 57, (224); XIV,247 6.9-13.................................. VI,53; VIII,192 6.16-18.............................................. IV,133 6.24-34.......................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 . ............................................ X,428 7.15-23.............................................. IV,140 7.21-29... XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27.............................................VI,233; 9.1-8.................................................. IV,198 9.9-13...... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8..................................... XVIII,170 10.7-15....................................II, 104, (271) 10.24-39.....................................XXXII,204 10.26-33................... XVIII,176; XXX,168; .................................................XXXIV, 347 10.26b-33 . ....................... VI,291; XII,268; 10.26-36.......................................XXIV,203 10.34-39...........................................XII,274 10.34-42.....................XVIII,181; XXX,174 10.40-42.................................... XXXV, 229 11.2-10............................................... X,170 11.2-11......... III,215;; XXI,30; XXVII, 22; .....................................................XXXII,21 11.16-19,25-30...........................XXXII,221 11.25-30.. XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.14-21..................................... XXXVI,63 12.22-30............................................ IV,217 12.33-35(36-37)...............................XII,307 12.38-42................... II, 225, (292); XII,175 13.1-9(18-23).......... XXI,196; XXVII, 188; ................................ XXX,189; XXXV, 240 13.24-30(36-43)......... XVIII,289; XXI,203; ...................................................XXXII,229 13.44-46.II, 150, (317); VIII,253; XIV,295; .................................................. XXXV, 253 13.44-52....................XXI,207; XXVII, 194 14.13-21.XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ...................................................XXXII,241 14.22-33...VI,109; XXIV,249; XXVII, 202; .................................................. XXXV, 267 15.21-28..... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ...................................................XXXII,255 16.13-19........................................ XXIII,40 16.13-20................ XXIV,260; XXVII, 216; .................................................. XXXV, 278 16.13-20(23)........................... II, 72, (239); 16.21-26.................. XXI,223; XXVII,222; ...................................................XXXII,264
17.1-9.............. X,216; XVIII,78; XXX,60; .................................................. XXXV, 114 18.1-5........................................XXXVII,48 18.15-20..............II, 123, (290); XVIII,226; ............................... XXX, 227; XXXV, 290 18.21-35....... X,467; XVIII,232; XXX,234; ...................................................XXXII,269 19.16-26................................. II, 182, (349) 20.1-16a..IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16.................. XXIX, 296; XXXV, 302 20.17-28........................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9.................................... III,194; X,149 21.14-17..................... II,52, (219); XII,185; ................................................XXXVII,353 21.23-32.....................................XXXII,282 21.28-32......................... VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46).......... XVIII,250; XXXV,315 22.1-10 (11-14) .........XXX,243; XVIII,254 22.1-14 . ..........IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22).......... XVIII,259; XXXV,323 22.23-33.......... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40........................................... IV,194; 22.34-40(41-46)....... XXX,253; XXXII,298 23.1-12..................II,158, (325); XXX,259; ................................................... XXXV,335 24.1-14............................. VI,68; XVIII,275 24.15-28............................................ IV,222 24.37-44.......... XXI,21; XXVII,9; XXXII,9 25.1-13............. IV,243; XI,336; XXIV,312; ..................................................... XXX,277 25.14-30... II, 233, (400); X,394; XVIII,272; .................................................... XXX, 286 25.31-37..................................... XVIII, 297 25.31-46........ IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ............ XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; ..................................................XXXII, 324 26.14-27.66................................ XXXV,157 26.30-56..................................... XVIII, 109 26.36-46(-56)................VI, 29; XXXV, 162 26.57-75 . ....................................XXIV,122 27.11-26..................................... XXXII,116 27.33-50(51-54)............................ VIII,162; 27.33-54......................XXI,111; XXVII, 99 27.33-56..........................................XIV,201 28.1-10....... VI,167; XXIV,139; XXXV,176 28.16-20.....X,374; XXX,156; XXXIV,203; ................................................... XXXV,222 Marcos 1.1-8...................XXII,14; XXVIII,13; ................................................... XXXIII,16 1.4-11......XXII,48; XXVIII,64; XXXVI,69 1.9-15....................................... XXXIII,132 1.12-15...........XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20... XXII,56; XXVIII,73; XXXIII, 84 1.21-28..... XVI,99; XXVIII,79; XXXVI,86
366
1.29-39..................XXVIII,87; XXXIII,101 1.32-39............................... VI,284; XII,261 1.40-45......... VI,258; XII,241; XXXVI,100 2.1-12........................... X,453; XXVIII,100 2.18-22........................................... VIII,105 2.23-28......... VIII,311; XIV,367; XXII,169; ................................................. XXVIII,228 3.1-6................................................... X,114 3.20-35.................... XVI,192; XXVIII,233; ................................................. XXXVI,209 3.31-35..............................................VI,252 4.26-29.............................................. VI,113 4.26-34...................XXII,175; XXVIII,240; ................................................. XXXVI,216 4.30.32............................................XII, 313 4.35-41...XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ................................................ XXXIII, 244 5.21-24a,35-43....XXVIII,253; XXXIII,378 5.24b-34.......................................XXII, 188 5.25-34..............................................XII, 27 6.1-6........XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13...................................... XXXIII, 256 6.6b-13........................XIX, 201; XXV, 236 6.14-29........................... X,74; XXXVI,235 6.30-34....XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208; ................................................ XXXIII, 270 6.34-44 . ..................................... XXX, 247 7.1-8,14-15,21-23.....XIX, 233;XXXI, 242; ................................................ XXXIII, 309 7.24-37..................................... XXXVI,279 7.31-37.............IV, 163; X, 408; XXII, 239; ................................................ XXVIII, 307 8.22-26............................VIII,269; XIV,317 8.27-35.................... XVI,247; XXXIII, 323 8.31-38...............X,234; XIX,83; XXV,134; ................................ XXXI,91; XXXVI,121 9.2-9.....XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29..............................................VI,278 9.30-37... XVI,255; XXII,245; XXXVI,289 9.38-50...................XXII,250; XXVIII,322; ................................................ XXXIII, 334 9.43-48....................II, 138, (305); XVI,263 10.2-12............... XXVIII,326; XXXVI,303 10.13-16................................... XXVIII,313 10.17-27........XII,256; XVI,268; XXII,260; ................................................ XXXIII, 348 10.32-45............................................. X,106 10.35-45.................. XXVIII,289; XVI,277; ............................XXXIV,270; XXXVI,316 10.46-52....................... XVI,283; XXII,265 11.1-11.................................... XXXIII, 160 12.1-12 . ............................................ X,242 12.13-17............................................ III,138 12.28-34................................... XXXVI,340
12.41-44....VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-8....................................... XXXVI,353 13.1-13....XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31................................... XXVIII,358 13.24-37....................................... XXXVI,9 13.31-37........................................ XIV,397; 13.33-37..............................XXV,17; XIX,9 14.3-9................................ VI,149; XXII,93 14.6-9...............................................XII,181 14.12-26...................... XVI,134; XXII,104; ........................... XXVIII,144; XXXVI,140 14.17-26............................................VI,156 15.1-15(16-20)......... XVI,129; XXVIII,139 16.1-8.. IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; ........................... XXVIII,159; XXXVI,152 16.9-14(15-20)................VIII,173; XIV,225 16.12-18................................... XXXIII,184 16.14-20.............................................. IV,77 Lucas 1.1-4....................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38............... VI,81; XII,109; 1.26-38.............. XVI,56; XIX,27; XXII,28; ................................XXVIII,26; XXXIII,24 1.39-45(46-55) . ......XXVI,20; XXXVII,26 1.(39-45)46-55(56) ........................... X,175 1.46-55 . .............................................V,288 1.57-66.........................................XXIV,200 1.67-79..................................V,270; VIII,30 2.1-7............................ XXX,24; XXXIV,38 2.1-7,8-14,15-20.............................. XVI,63 2.1-14........ I, 161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20............ XXIV,41; XXXIV,69; ..................................................XXXVII,54 2.1-20.................... III,218; IV,273; XVII,28; .. XXI,41; XXIII,21; XXIV,34; XXVII,34; ..................................... XIX,26; XXXIII,37 2.22-40....................................... XXXVI,56 2.41-52.............................................. XX,35 3.1-9.............................. V,281; XXXVII,14 3.1-14..................................................VI,76 3.7-18...........XVII,21; XXIII,15; XXIX,16; ....................................................XXXIV,24 3.15-17,21-22.................. XX,40; XXVI,36; ..................................................XXXVII,64 4.1-13....XXIII,60; XXIX,81; XXXVII,100 4.14-21......... VI,19; XXVI,47; XXXVII,76 4.14-21(22) ........ XX,50; XX,59; XXVI,47 4.16-21............................................... X,186 4.21-30.....................XXVI,54; XXXIV,100 5.1-11... IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI,59 6.17-26............................. XX,69; XXVI,66 6.27-38............................. XX,73; XXVI,74 6.36-42...................................IV,112; X,368 7.1-10.......................................... XXVI,206 7.11-17...............................IV,186; VIII,293
367
7.36-50........ VIII,262; XIV,309; XXVI,220 7.36-8.3...................................XXXVII,199 8.4-10................................................. X,228 8.26-39......................................XXXIV,237 9.10-17........................................... VIII,241 9.18-24(25-26)............ XX,190; XXVI,226 9.28-36........XX,82; XXVI,85; XXXIV,109 9.51-56.............................................XV,167 9.51-62..................... XX,198; XXXVII,212 9.57-62 . ............................................ X,251 10.1-11,16-20............................XXXIV,252 10.1-12,16....................................... XX,204 10.17-20.......................................XXIV,285 10.21-24....................................II, 82, (249) 10.25-37.........X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42...... VI,124; XVII,170; XXIII,140; .............................XXIX, 216; XXXIV, 264 11.1-13.................... XXIII,145; XXIX,223; ................................................XXXVII,229 11.5-13..............................................VI,184 11.14-23............................. VI,297; XII,283 12.13-21 . .............. XXIII,149; XXIX, 228; .................................................XXXIV, 278 12.32-40................ XVII,183; XXXVII,241 12.35-40.......................................... III, 226 12.41-48...........................................VI, 302 12.42-48..........................................XII, 289 12.49-53.XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235; .................................................XXXIV, 289 13.1-9.......... XVII,83; XXIII,72; XXIX,93; ................................................ XXXVII,111 13.10-17..................................XXXVII,257 13.22-30.XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35.......XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 . .............. XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 . .......................................XVII,196 14.15-24.................................. IV,96; X,354 14.25-33..... VIII,235; XX,251; XXVI, 277; ................................................XXXVII,266 15.1-3,11b-32........... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32.. IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10)....................................... X,361 15.1-10....... IV, 106; XX, 255; XXXIV, 309 15.8-32.................................... XXVIII, 265 16.1-9............................................... IV, 147 16.1-13... XX, 260; XXVI, 286; XXXVII,277 16.19-31....... IV, 88; XX, 265; XXXIV, 321 17.1-10....................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6............................VIII, 286; XIV, 346 17.5-10....................................XXXVII,291 17.7-10 . .......................... VI, 117; XII, 160 17.11-19............. IV, 172; X, 421; XX, 275; .............................XXVI, 305; XXXIV, 371 17.20-35.............................................V, 275
18.1-8a ...................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8....VIII, 343; XXVI, 325; XXXVII,301 18.9-14... IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23..........................................XII, 249 18.31-43........................................ VIII, 124 19.1-10.... II,112, (279); VIII,219; XIV,275; ................................................XXXVII,324 19.28-40................XXVI,121; XXXIV,138; ................................................ XXXVII,116 19.41-48.............................. IV, 153; X, 401 20.9-19.........................XVII,94; XXIX,105 20.27-38.................XXIII,223; XXXIV,359 21.5-19..................... XX,296; XXXVII,336 21.25-36.......... III, 209; XVII, 9; XXXIV, 9 22.7-20........................ XX,116; XXVI, 126 22.31-34 . .......................VIII,131; XIV,172 23.33-43...............XXVI, 344; XXXIV, 365 23.(26-32)33-49........XVII,102; XXIX, 119 23.33-49.....................VI,162; XXXVII,127 23.35-43........................................XVII,248 24.1-11(12)..................................... XX,127 24.1-12........................ II,201; XXXVII,132 24.13-35........ VI,40; XXI,125; XXVII,114; ...................................................XXXII,137 24.36-49...XVI,164; XIX,128; XXXVI,162 24.44-53............... XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53........... XIX,148; XXII,145 24.50-53............................................ X,331; João 1.1-5.9-14.....XIX,35; XXV,39; XXXI,24; ..................................................XXXVII,36 1.1-18........................... XXIII,30; XXIX,46 1.(1-9)10-18............................... XXXIII,64 1.6-8,19-28 ......XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28)............. VIII,49; XXXVI,19 1.29-34 . ......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) . ............ XVIII,57; XXI,55; ..................................................... XXXV,75 1.35-42........................................... XII,227; 1.43-51............. XII,129; XVI,92; XXII,52; ............ XXVIII,68; XXXIV,80; XXXVI,76 2.1-11...................IX,41; XX,44; XXVI,40; ....................................................XXXIV,89 2.13-22................................VI,237; XIX,87 3.1-11(15).......................................... X,347 3.1-17. XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ................................................ XXXIII, 232 3.14-21 . .......XIX,95; XXV,144; XXXI,96; ................................................. XXXVI,128 4.1-11 ......................................... XXXI,149 4.5-26...........................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 . ...................................II, 89, (256) 4.46-54.............................................XII,148 5.1-9........................................XXXVII,168 5.1-16..............................................XIV,360
368
5.1-16(18)...................................... VIII,304 5.19-21............................................XIV,215 5.24-29...XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; ..................................................... XXX,271 5.39-47..............................................VI,204 6.1-15.... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; .............................. XXXI,213; XXXVI,245 6.(22-23)24-35.............XIX,217; XXV,254; ....... XXXI,218; XXXIII, 280; XXXVI,365 6.35............................................... VIII,151; 6.37-40(41-43),44...................II, 200, (367) 6.35,41-51................................ XXXVI,257 6.41-51.. XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; .................................................... XXXI,226 6.51-58....................... XIX,225; XXXI,232; ................................................. XXXIII,292 6.56-69..................................... XXXVI,269 6.60-69.......XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69.............................................XII,293 7.14-18............................................. VIII,87 7.37-39a.XVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211 7.37-39.............VI,194; XII,199; XXII,158; ................................................... XXXV,216 8.1-11............................................. VIII,228 8.21-30............................VIII,138; XIV,179 8.31-36... II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; .................................................... XXIII,209 9.1-7................................VIII,248; XIV,290 9.1-41.........................................XXXII,104 9.13-17,34-39................XXI,91; XXVII, 81 9.35-41........................................... VIII,299 10.1-5,27-30..............................II, 40, (207) 10.1-10.. XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16.............................................. IV,53 10.11-18....XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................. XXXIII,199 10.11-18,27-30................................... X,310 10.14-16,27-29........................... XXXIII,50 10.22-30...............XXIX,141; XXXVII,149 10.22-30(31-39)...........................XVII,117; 11.1,3,17-27........II, 188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45)...................... X,434 11.1-5,17-21............................XXXVII,319 11.47-53........ VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................. XXXIII,154 12.12-16................................... XXXVI,134 12.12-19...............................X,269; XX,110 12.20-26............................................. X,258 12.20-30........................................ XXV,150 12.20-33 . ..................XIX,102; XXXI,103; ................................................. XXXIII,154 12.44-50........................................... VIII,65 13.1-15,34-35..................................... X,277 13.1-17,34................. XXX,99; XXXIV,144
13.31-35.................. XVII,121; XXIX, 149; .......................... XXXIV, 144; XXXIV, 191 14.1-6...............................................XII,134 14.1-12......................XXI,139; XXVII, 124 14.1-12(14)...........II, 63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27).........................XXXIV, 219 14.15-19..........................................XV, 232 14.15-21...................XXIV,165; XXXV,200 14.23-27................................ IV,82; X, 341 14.23-29 . .................XVII,126; XXIX, 154 15.1-8.............. X,317; XIX,139; XXV, 189 .............................. XXXI,146; XXXVI,174 15.9-12(13-17) . ............................XIV, 374 15.9-17.........VIII,317; XIX,143; XXV,192; .................................................XXXIII, 211 15.(18)26-16.4.................................. X, 337 15.26-27; 16.4b-11...... XX,171; XXVI,191; ................................................. XXXVI,197 16.5-15................................................ IV,65 16.12-15...XX,177; XXVI,200; XXXVII,184 16.16-23a .............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a.......................VI,129; VI, 176 16.22-28.............................................. IV,72 16.23b-28,33 . ................................... X,323 17.1a,6-19................................ XXXIII,221 17.1-15.........................................XXIV,159 17.1-11.......................XXI,148; XXVII,132 17.9-19............................... IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19............XIX,153; XXXI,157 17.20-26...................... VIII,198; XXIX,168 18.33-37.......................XIX,299;XXXI,296 18.33-38a................................. XXXVI,358 19.16-30................. IV,38; X,284; XIX,110; ............. XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168 20.1-18......................................XXXIV,162 20.1-2,11-18 . ..............................XXIV,230 20.1-9(10-18).......... XVIII,120; XXVI,136; ..................................................... XXX,109 20.11-18 .........................VIII,166; XIV,207 20.19-23 . ..................XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 ............... X,301; XIX,119; ...................................................XXXII,134 20.19-31....XIX,119; XXI,121; XXVII,110; ................................. XXIX,128; XXXI,133 20.26-31..................................XXXVII,138 21.1-14.......................XVII,111; XXIX,136 21.1-19......................................XXXIV,178 21.15-19 . ...................................... VIII,179 21.20-25......................................XXXIV,53 Atos 1.8-14....................................... XXIV,168 1.1-11........... XX,155; XX,160; XXVI,182; ................................XXIX,161; XXXII,162 1.15-26..................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11..................................XI,242
369
1.15a,21-26.............................. XXXVI,193 2.1-13................................................XI,249 2.1-21........................ XIX,158; XXVII,139 2.14a,22-32................................. XXIV,143 2.14a,36-47..................................XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39........................XV,239 2.36-41................................................ III,59 2.41a,42-47.......................................XI,284 3.1-10...............................................VII,198 3.13-15,17-26........... XVI,158; XXVIII,165 4.5-12....................................... XXXVI,168 4.8-12 . .................................... XXVIII,172 4.32-37............................................... V,310 5.12,17-32...................................... XX,130 6.1-7............................... III,134; XXIV,155 8.14-17.......................................XXXIV, 85 8.26-40.... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ................................................ XXXIII, 205 9.1-20.............................................. XX,136 9.36-43.....................................XXXIV, 184 10.34-38....XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18........................ XIX,49 10.34-43.............. XXVII, 105; XXXIII,177 11.19-30................... XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25................................XXII,33 13.44-52........................... XX,140; XX,143 14.8-18........................................... XX,148 16.6-10............................................ XX,164 16.9-15................................IX,171; XV,141 16.16-34...................................XXXIV, 211 16.23-34...........................VII,122; XIV,233 17.1-15.........................................XXIV,159 17.16-34 . ..............................................I,34 17.22-31..................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 .XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; .................................XXXII,36; XXXVI,30 3.19-28............... II,169; XX,278; XXI,267; ................................ XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a.............................XXVII,156, 272 4.1-5,13-17.............. XXIV,100; XXXV,133 4.13-25..................................... XXXIII,138 4.18-25.................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5.... XVII,137; XXIX,180; XXXIV, 224 5.1-8...........................................XXXII,197 5.1-11............XXVIII,122; V,51; XXXII,98 5.6-11...................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15.......................................XXVII,172 6.1b-11.................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8..................................................XI,278 6.19-23 . ............................... V,164; IX,258 7.15-25a..................................... XXXV,234 8.1-11...................I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17..........................V,170; XXXVI,203 8.14-17...................XXV,203; XXXVII,179
8.14-17,22-27.............................. XXIX,174 8.18-23................................................V,150 8.18-23(24-25)............................ XVIII,192 8.26-27......................................... XXX,193 8.26-30..............................................IX,233 8.31b-39............................................XI,144 8.31-39.......................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39............................... XVI,110 9.1-5........................................... XXXV,261 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4.......................................V,185 9.30b-33............................................ III,124 10.5-13.......................XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32.............................XXIV,255 11.25-32..................................... I, 95, (102) 11.32-36.............................................V,126; 11.33-36 ...........................................XI,256 12.1-8............................. XI,152; XXIV,265 12.9-12....................................... XXXV,284 12.6-16..................................................V,19 13.1-10........................................... XXI,229 13.8-10(13-14)..................................XI,107 13.11-14............IV,251; XXIV,19; XXXV,9 14.5-9............................................. XXI,234 14.7-13 . ............................................. III,79 14.10-13 . .........................................XI,266 15.4-13 . ........................XXI,25; XXXII,16 16.25-27........................................ XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9.............. XXIV,70; XXXII,72 1.3-9 . ............................ XVI,51; XXVIII,9 1.4-9....................................................V,228 1.10-17............................................. XXI,60 1.18-25.............................................. XX,97 1.26-31...................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5................................. XXI,71; XXII,60 2.1-10.................................VII,50; XIII,126 2.6-13............................................... XXI,74 2.12-16.............................................VII,150 3.9-15..................................XV,266; IX,269 3.16-23..........................................XXII,193 4.1-5..................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................. I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20....................... I,86, (93) 6.12-20....................................... XXXIII,76 6.24-34....................................... XXXV,106 7.29-31 . ........................................XXIV,90 7.29-32a .................................... I, 46, (213) 8.2 ................................................... XIII,42 9.16-23........ XIV,264, XXV,96; XXXVI,90 9.24-27........................ XI,165; XXXIII,112 10.1-13...................................V,179; XX,91 10.16-17...........................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21).......................... XXXI,113 10.31-11.1..................................... XXV,107
370
11.23-26................... XXIV,127; XXVII,94; ................................................XXXVII,120 11.23-29................................................V,65 12..................................................... XIII,34 12.1,4-11.. XVII,47; XXIX,59; XXXVII,70 12.12-21,26-27............. XXIII,45; XXIX,64 12.27-13.13....................XVII,52; XXIX,71 12.31b-13.13........................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25.....................................VII,158 14.12b-20 . ................................... XXIII,49 15.1-11 .................. XVII,108; XXXIV,105 15.1-20................................................ III,13 15.12,16-20................ XVII,63; XXXII,311 15.19-28 . I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ...................................................... XXV,175 15.20-28....................XVIII,280; XXX,293, 15.35-38........................................... XIII,29 15.45-49..........................................XVII,69 15.50-58........... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7.......................... I, 112, (119) 1.18-22............... VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6............................................ XXV,118 3.3-9..................................................IX,283 3.12-4.2............................XIX,76;XXXI,78 4.3-6.................................. IX,157; XIV,165 4.5-12..........................XIX,169; XXXI,171 4.6-10................................................XI,158 4.7-18.................................................. III,53 4.13-18.........................XIX,173;XXXI,177 4.16-18........................................... XIII,192 5.1-10................................ IX,295; XV,288; 5.6-10 . ...................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21.....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21....... XVI,140; XXVIII,153 5.20b-6.10.................................. XXXV,120 6.1-10 . ..............................................VII,82 6.1-13....................................... XXXVI,221 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15............................................... XIII,18 8.7-15....................................... XXXIII,251 8.9 .................................................. XV,112 9.6-15.................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ............... XIII,142 12.1-10.................................................V,26; 12.7-10........................XIX,195; XXXI,199 13.11-13 ...... IX,240; XXI,158; XXXII,174 Gálatas 1.1-12..............................XXXVII,189 1.11-24........................................ XXIII,113 2.16-21 . ......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 . . XXIII,119; XXXVII,206 3.28 .................................................. XII,70 4.1-7 . .............................................. IX,144 4.4-7 . ........... XV,106; XVIII,38; XXX,31; ................................. XXXIII,44; XXXV,33
5.1-6 . ........................................... XIII,167 5.1-11 ...................I, 118, (125), 124, (131); ................................................... XXXV,341 5.1,13-25...............XXIII,126; XXXIV, 243 5.25-26; 6.1-3,7-10..........VII,214; XIII,253 6.14-18........................................ XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ....................................................... XXX,37 1.3-14........... III, 62 XXII, 204; XXXIV, 75 1.3-6,15-18.................................... XVIII,43 1.(16-20a)20b-23........ XXI,144; XXX,138 1.20b-23........................................... IX,227 2.1-10........................................... XXX,265 2.4-10....................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22........................... X,48; XXXVI,239 2.13-22..........................................XXII,209 3.1-12......................... XXXI,30; XXXV,64 3.2-12 . ............................ XVI,83; XXII,43 3.14-21.......................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 . ................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16................................... XXII,215 4.17-24..........................................XXII,220 4.20-32................................................V,235 4.30-5.2.......................................... XVI,228 5.1-8a ...............................................XI,205 5.1-9.....................................................V,46; 5.8-14.......................XXIV,105; XXXV,145 5.9-14 . ............................................. III,100 5.15-20..................... XVI,233; XXXVI,264 5.15-21.............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31........................... XVI,236 5.21-31..................................... XXVIII,294 6.10-20..................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11.... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ...................................................XXXIV, 16 1.12-21...............................................VII,95 1.20c-27 ......................................XXIV,280 2.1-4 . ............................................. VII,173 2.1-5(6-11) ................................... XXI,245 2.1-13......................................... XXXV,309 2.5-11.....V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; .................................. XXIX,111; XXXII,59 2.12-13.............................................XV,282 3.4b-14.....................................XXXIV, 133 3.12-21.................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11................................................XI,291 3.7-14 . ...............................................V,261 3.8-14.............................................. XX,102 3.12-16...................................... II, 20 (187) 3.12-21.......................................XXVII,251 3.17-21..............................................XI,330 3.17-4.1...................... XX,86; XXXVII,105 3.20-21................... I,136, (137); 129,(143) 4.4-7.............................................. XXVI,15
371
4.10-20..............................................IX,150 Colossenses 1.1-6............................ XXVI, 233 1.12-20................. XXIII,229; XXXVII,342 1.15-23...................................................I,47 1.21-28....................................... XXVI, 240 2.3-10 . ...........................................XIV,140 2.6-15......................................... XXVI, 250 2.12-15........................................... XIII,186 3.1-4 . ............ III,48; XXI,117; XXXII,127 3.1-11......................................XXXVII,236 3.12-17.......................... V,107; XXXVII,42 4.2-6....................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a................. XXIV,294; ...................................................XXVII,256 1.5b-10......................................XXVII, 263 1.2-10...............................................VII,210 2.1-8........................................... XXXV,329 2.8-15.........................................XXVII,277 3.9-13............................. XX,15; XXXVII,9 4.1-8........................................ V,38; XI,315 4.13-14(15-18)............................... XXI,285 4.13-18 . .................. XXI,292; XXXVI,335 5.1-8..................................................IX,288 5.1-11.........................XXI,297; XXXV,357 5.12-24..............................................IX,274 5.16-24........................XXII,19; XXXIII,20 2 Tessalonicenses 2.1-17........................ III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5................ XXIX, 311 3.1-5................................................. IX,252 3.6-13.................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo . .1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 . .................................... II, 169, (336) 2.1-8 . . XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370 3.16 ............................................... XIV,132 4.4-5 . ........................................... XIII,298 6.6-16.........................XVII,215; XXIX,274 6.11b-16............................................ IV,255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14............. XXIII,195 2.8-13................... XXIII,205; XXXVII,296 2.8a(8b-13) .................................... XV,198 3.14-4.5.....................................XXXIV,333 Tito 2.11-14 ...II,263, (430); XI,128; XXIV,34; ..................................................... XXXV,40 3.4-7................. IV,280; XX,29; XXXIV,45 Filemom 8-21................................... XXIX,254 9b-17(18-21).................................XVII,201 Hebreus 1.1-4(5-12)........................ XXXVI,35 1.1-9 . ............................................. XVI,70 2.9-11...........................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 . .......................................... IX,188 3.1-6 . ............................................ XIX,262 4.9-16........................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13..............................................XI,171
4.14-16..............................................XI,192 4.14-16; 5.7-9....... XXIV,133; XXXIV, 153 5.1-6(7-10)............... XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 . ........ XI,211; XVI,125; XXVIII,134 7.23-28..................................... XXXVI,322 9.15-17,26b-28................................ XX,122 9.15,24-28............................................. III,7 9.15,26b-28................................... XIII,179; 9.24-28 . ....................................... XIX,291 10.19-25 . .................. II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10.....................................IX,178 11.1-3,8-16...................................... XX,229 11.1-4......................................... XXVIII,39 11.8-10.............................................XV,160 12.1-3...............................................XV,178 12.1-13........................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a . ............... XV,127 12.18-24...................XX, 242; XXXIV, 296 13.1-8.............................................. XX,246 13.1-8,15-16............................XXXVII,262 13.(7)8-9b ..................................... XIV,153 13.12-16 . ...........................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 . ....................................... XXV,268 2.1-13 . ......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ......................... XXV,275 2.14-24 . .......................................... III,110 3.1-12....................................... XXXVI,283 3.13-4.3,7-8a............................ XXXIII,327 4.13-17 . .......................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 . .....XIII,265; XIX,252; XXXVII,160 5.7-8 . .............................................. XI,114; 5.7-10............................................ XVIII,19 5.13-16.............................................VII,220 5.13-20..................................... XXXVI,295 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ...................... XIII,152; 1.17-21..........................................XXX,118 1.17-22.................... XVIII,129; XXXV,182 1.3-9...................III,22; XI,221; XVIII,125; ......................................................XXX,114 2.1-10........... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 . ......................XXX,128; XVIII,138 2.13-17...................................... I, 102 (109) 2.15-17 . ............................................ VI,13 2.18-25......................................... XXX,122 2.19-25 . .................................... XVIII,133 2.21b-25................................ V,91; XI,229; 3.8-17................................................ V,156; 3.15-18 . ...................XVIII,146; XXIV,165 3.18-22..................................... XXXVI,116 4.7-11 ................................................ V,120 4.13-19 . .................................... XVIII,152 5.1-5.................................................... III,27 5.5b-11 ................................. V,144; XI,307
372
2 Pedro 1.3-11 ...................................... III,145 1.16-19(20-21)................................ IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII, 65 3.8-14 . .... XVII,237; XXIII,218; XXV,23; ................................................... XXXVI,14 1 João 1.(1-4)5-2.2.......XXII,124; XXXVI,157 1.5-10; 2.1-6 .......... XIII,216; XXXVI,181 2.21-25...............................................VII,30 3.1-3 . ............................................... VII,21 3.1-7......................................... XXXIII,191 3.13-18............................................... IX,57 3.18-24............................ III,159; XXII,130 4.1-6 . ................................................ IX,72 4.1-11............................................XXII,135 4.11-16........................................ XXXI,165 4.7-12 . ............................................ XI,299 4.7-16 . .............................................. V,196 4.(7-16a)16b-21 .......................... XXII,149 4.16b-21 . .......................................... V,135 5.1-5........................................ V,84; XI,235 5.1-6 . .......................................... XXII,118 5.11-13............................................. XI,138 Apocalipse 1.4-8................. VII,131; XIII,204; ..................................................XXXIV,169
1.9-18 . ..............................VII,65; XIII,133 1.9-20.......................................... XXVI,145 2.8-11...............................VII,228; XIII,275 1.9-20 . ......................................... XXIII,84 3.1-6............IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 . ................ II,248 (416); XXXVI,42 3.14-22 . ....................................... XIII,304 4.1-11 ........................................ I, 144(151) 5.1-14 . ................................................VII,7 5.11-14..................... XXIII,90; XXVI,150; ................................................XXXVII,144 7.9-12 . ........................................ XVII,230 7.9-17............. III,182; XIII,110; XXIII,94; .................................................... XXVI,159 12.1-6 . ........................................ XXIII,26 12.7-12 . ....................................... XXI,241 14.6-7 . .............................................. V,249 15.2-4 . ........................................... XV,218 19.11-16 .......................................... III,195 21.1-5 . ................XXVI,170; XXXVII,155 21.10-14,22-23............................ XXVI,176 21.10,22-22.5............................XXXIV,195 22.10-16 . ........................................... X,11 22.12-17,20 . ............................... XXIII,99
Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.
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COLABORADORES DO VOLUME 37 ADAM, Júlio Cézar: juliocezar@est.edu.br ALBRECHT, Astor: astor.alb@ibest.com.br ALTMANN, Walter: waltmann@sinos.net APPELT, Fabiani: fabiappelt@hotmail.com BERGER, Norberto: norbertoberger@oi.com.br BLASI, Márcia: retalhos13@hotmail.com BOOTZ, Éverton Ricardo: erbootz@hotmail.com BRAKEMEIER, Gottfried: brakemeier@terra.com.br RAUN, Odair Airton: veraodair@gmail.com CHRISTMANN, Nilo: niloch@uol.com.br DREHER, Carlos A.: carlosdreher@est.edu.br DREHER, Martin Norberto: martindreher@terra com.br GAEDE, Leonídio: casasinodal@sinodotaquari.org.br GAEDE NETO, Rodolfo; MANSK, Erli: rodolfo@est.edu.br / erli@est.edu.br GARCIA, Paulo Roberto: paulo.garcia@metodista.br GARIN, Norberto da Cunha: norberto-garin@hotmail.com GAUSMANN, Samuel: samuel_gausmann@yahoo.com.br GRAF, Geraldo: g.graf@uol.com.br GREUEL, Sigolf: sinodo@iaccess.com.br HAGSMA, Alfredo; WASKOW, Vera R.: hagsma@terra.com.br / vrw@terra.com.br HENN, Fernando: fernandohenn@hotmail.com HOEFELMANN, Verner: vernerhoe@hotmail.com IMMICH, Vera Maria: veraodair@gmail.com JANKE, Scheila: scheilajanke@gmail.com JANS, Oscar Elias: oejans@hotmail.com KALMBACH, Pedro: pedro_kalmbach@yahoo.com.ar KLEINE, Michael: micha.kleine@yahoo.com.br KONZEN, Léo Z.: leokonzen@urisan.tche.br KOWALSKA, José: pastorkowalska@luteranos.com.br KREIDLOW, Daniel: danielkreidlow@gmail.com KUNZ, Claiton; KUNZ, Marivete: claiton@batistapioneira.edu.br KUPKA, Cláudio: claudiokupka@yahoo.com.br LACERDA, Gerson: gersonclacerda@gmail.com LIEVEN, Guilherme: guilherme.lieven@luteranos.com.br MARKUS, Cledes: cledes@est.edu.br MEURER, Evandro: evandromeu@gmail.com MORAIS, Jilton: jiltonmoraes@terra.com.br MUSSKOPF, Carlos: carumus@gmail.com OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de: pastorjorge@terra.com.br
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PERKOWSKI, Mauri: mauriidlopp@gmail.com REIS, Ana Isa dos: anaisadosreis@yahoo.com.br RIBEIRO, Antônio C.: antoniocarlosrib@gmail.com RIECK, Kurt: kurtrieck@gmail.com SANTANA FILHO, Manoel B.: m.bernardinofilho@gmail.com SCHMIDT, Ervino: ervinus@ig.com.br SCHMITT, Flávio: flavio@est.edu.br SEIBERT, Erni W.: erni@sbb.org.br SELL, Wilhelm: wilhelm.sell@luteranos.com.br SIEGLE, Manfredo: manfredo_siegle@hotmail.com STÜEWER, Aline; Joel Haroldo Baade: stuewer@gmail.com / baadejoel@gmail. com TREIN, Hans Alfred: comin_mob@est.edu.br VOLKMANN, Martin: ogaieclb@brturbo.com.br WANKE, Roger: roger.wanke@flt.edu.br WEBER, Eloir: p.eloir@salvador.org.br WEGNER, Uwe: uwe.wegner@terra.com.br WEISSHEIMER, Ramona: ramonaew@gmail.com WIESE, Werner: wwiese@flt.edu.br WITT, Osmar L.: olwitt@est.edu.br WITTER, Teobaldo: twitter@terra.com.br WOLFF, Günter A.: gunterwolff@gmail.com ZWETSCH, Roberto E.: rezwetsch@gmail.com
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