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Proclamar Libertação 36 - 2011-2012

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PROCLAMAR LIBERTAÇÃO Volume 36 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS LECIONÁRIO COMUM REVISADO DA IECLB – ANO B Editado por FACULDADES EST da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Coordenação: Verner Hoefelmann

2011


© Editora Sinodal Caixa postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Fone/fax: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Gisela Beulke, João Artur Müller da Silva, Martin Volkmann, Michael Kleine e Júlio Cezar Adam Coordenação editorial: Verner Hoefelmann Produção gráfica: Editora Sinodal Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos

Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111-1400 est@est.edu.br P963

Fax: (51) 2111-1411 www.est.edu.br

Proclamar libertação, v. 36: Auxílios homiléticos / [Coordenado por] Verner Hoefelmann. – São Leopoldo : Sinodal/EST, 2011.

15,5x22,5 cm. ; 387p. Série: Proclamar libertação ISBN 978-85-62865-64-0

1. Teologia prática – Homilética. I. Hoefelmann, Verner. CDU 251 Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273


SUMÁRIO AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 1° Domingo de Advento – Marcos 13.24-37-------------------------------------------9 2° Domingo de Advento – 2 Pedro 3.8-15a ----------------------------------------- 14 3° Domingo de Advento – João 1.19-28 --------------------------------------------- 19 4° Domingo de Advento – 2 Samuel 7.1-11,16 ------------------------------------- 24 Noite de Natal – Romanos 1.1-7 ------------------------------------------------------ 30 Dia de Natal – Hebreus 1.1-4(5-12) -------------------------------------------------- 35 Véspera de Ano Novo – Apocalipse 3.7b-8,10-13 - -------------------------------- 42 Ano Novo – Números 6.22-27 -------------------------------------------------------- 48 1° Domingo após Natal – Lucas 2.22-40 -------------------------------------------- 56 Epifania de Nosso Senhor – Mateus 12.14-21 -------------------------------------- 63 1° Domingo após Epifania – Marcos 1.4-11 ---------------------------------------- 69 2° Domingo após Epifania – João 1.43-51 ------------------------------------------ 76 3° Domingo após Epifania – Jonas 3.1-5,10 ---------------------------------------- 81 4° Domingo após Epifania – Marcos 1.21-28 --------------------------------------- 86 5° Domingo após Epifania – 1 Coríntios 9.16-23 ---------------------------------- 90 6° Domingo após Epifania – Marcos 1.40-45 --------------------------------------100 Último Domingo após Epifania – 2 Reis 2.1-12 -----------------------------------105 Quarta-Feira de Cinzas – Joel 2.1-2,12-17 ----------------------------------------- 111 1° Domingo na Quaresma – 1 Pedro 3.18-22 -------------------------------------- 116 2° Domingo na Quaresma – Marcos 8.31-38 --------------------------------------121 4° Domingo na Quaresma – João 3.14-21 ------------------------------------------128 Domingo de Ramos – João 12.12-16 ------------------------------------------------134 Quinta-Feira da Paixão – Marcos 14.12-26 ----------------------------------------140 Sexta-Feira da Paixão – Isaías 52.13-53.12 ----------------------------------------146 Domingo da Páscoa – Marcos 16.1-8 -----------------------------------------------152 2° Domingo da Páscoa – 1 João 1.1-2.2 --------------------------------------------157 3° Domingo da Páscoa – Lucas 24.36b-48 -----------------------------------------162 4° Domingo da Páscoa – Atos 4.5-12 -----------------------------------------------168 5° Domingo da Páscoa – João 15.1-8 -----------------------------------------------174 6° Domingo da Páscoa – 1 João 2.1-6 - ---------------------------------------------181 Ascensão do Senhor – Isaías 33.13-17,22 ------------------------------------------187 7° Domingo da Páscoa – Atos 1.15a,21-26 -----------------------------------------193 Domingo de Pentecostes – João 15.26-27; 16.4-15 -------------------------------197 1° Domingo após Pentecostes – Romanos 8.12-17 --------------------------------203 2° Domingo após Pentecostes – Marcos 3.20-30 ----------------------------------209 3° Domingo após Pentecostes – Marcos 4.26-34 ----------------------------------216 4° Domingo após Pentecostes – 2 Coríntios 6.1-13 -------------------------------221 6° Domingo após Pentecostes – Ezequiel 2.1-5 -----------------------------------226 7° Domingo após Pentecostes – Marcos 6.14-29 ----------------------------------235

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8° Domingo após Pentecostes – Efésios 2.11-22 ----------------------------------239 9° Domingo após Pentecostes – João 6.1-15 ---------------------------------------245 10° Domingo após Pentecostes – Êxodo 16.2-4,9-15 -----------------------------251 11° Domingo após Pentecostes – João 6.35,41-51 --------------------------------257 12° Domingo após Pentecostes – Efésios 5.15-20 ---------------------------------264 13° Domingo após Pentecostes – João 6.56-69 ------------------------------------269 14° Domingo após Pentecostes – Deuteronômio 4.1-2, 6-9 ----------------------274 15° Domingo após Pentecostes – Marcos 7.24-37 --------------------------------279 16° Domingo após Pentecostes – Tiago 3.1-12 ------------------------------------283 17° Domingo após Pentecostes – Marcos 9.30-37 --------------------------------289 18° Domingo após Pentecostes – Tiago 5.13-20 -----------------------------------295 19° Domingo após Pentecostes – Marcos 10.2-12 --------------------------------303 20° Domingo após Pentecostes – Amós 5.6-7,10-15 ------------------------------309 21° Domingo após Pentecostes – Marcos 10.35-45 -------------------------------316 22° Domingo após Pentecostes – Hebreus 7.23-28 -------------------------------322 Dia da Reforma – Jeremias 31.31-34 ------------------------------------------------329 Dia de Finados – 1 Tessalonicenses 4.13-18 ---------------------------------------335 23° Domingo após Pentecostes – Marcos 12.28-34 -------------------------------340 24° Domingo após Pentecostes – 1 Reis 17.8-16 ----------------------------------346 25° Domingo após Pentecostes – Marcos 13.1-8 ----------------------------------353 Domingo Cristo Rei – João 18.33-38a ----------------------------------------------358 Ação de Graças – João 6.25-35 ------------------------------------------------------365 ÍNDICES --------------------------------------------------------------------------------371

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PREFÁCIO

P

roclamar Libertação é iniciativa de um grupo de pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Foi gestado em 1975, em tempos de regime ditatorial, censura, repressão e violação dos direitos humanos, mas também de busca por autoafirmação e autodeterminação eclesiológica. Propunha-se a municiar os pregadores da palavra de Deus com informações exegéticas e reflexões contextualizadas para estimular seu trabalho de proclamar a libertação, que decorre do anúncio do evangelho naquele contexto. O primeiro volume foi publicado em 1976 com 22 auxílios homiléticos, sob a coordenação de Baldur van Kaick, então professor de homilética na Faculdade de Teologia. Com o passar dos anos, outras tantas pessoas foram se agregando a esse projeto, inclusive de outras denominações e países de nosso continente, dando a esse empreendimento o colorido que hoje possui. Parte dessa história está contada no volume 35, que comemorou o jubileu de prata desta publicação. Com o presente volume, o Conselho Editorial quer prestar uma homenagem a um desses pioneiros, pastor e professor emérito Nelson Kirst, pela passagem de seus 70 anos. A trajetória do professor Kirst tem muito a ver com a causa de Proclamar Libertação. Juntamente com Walter Altmann, ele integrou o Conselho Editorial dos primeiros quatro volumes. Durante os seis anos seguintes, assumiu a coordenação da publicação. Além disso, contribuiu regularmente como autor nos primeiros dez volumes, com exceção do nono. Como professor, em diferentes períodos, deu contribuições importantes no campo da exegese, da homilética e da liturgia, deixando publicações preciosas em cada área e estimulando outras pessoas a aprofundar suas pesquisas nessas áreas. Por seu serviço abnegado e comprometido com o evangelho, pela profundidade de suas pesquisas e reflexões, por seu empreendedorismo, a presente geração tem muito a agradecer ao professor Kirst. Agradecemos a Deus, de quem provém todas as boas dádivas, pelos 70 anos de nosso professor. Ao mesmo tempo, rogamos a Ele que ainda lhe conceda muito vigor e muitas bênçãos para a sua vida e para o trabalho que ora desenvolve. O volume 36 de Proclamar Libertação, que você tem em mãos, é o mais recente elo da corrente iniciada em 1976. Reúne 61 auxílios homiléticos e subsídios litúrgicos do Lecionário Comum Revisado, em uso na IECLB, que desta vez contempla os textos previstos na série B. Como sempre, destacamos um texto como base para a pregação. Os demais textos também são considerados, vez por outra, à medida que possuem alguma proximidade temática com o texto de pregação. Agradecemos aos autores e às autoras deste volume pelo esforço investido na produção de seu auxílio homilético. É com base nesse trabalho voluntário e abnegado que Proclamar Libertação tem sobrevivido ao longo desses anos.

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Com base no critério exposto por Gamaliel (At 5.38-39), quem sabe possamos vislumbrar por trás desta obra a mão condutora de Deus. Queira Deus abençoar os pregadores e as pregadoras que farão uso desses subsídios, para que o evangelho libertador continue a ser proclamado em nosso contexto. Verner Hoefelmann pela Coordenação do PL

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS


PRÉDICA: MARCOS 13.24-37

1o DOMINGO DE ADVENTO

ISAÍAS 64.1-9 1 CORÍNTIOS 1.3-9

27 NOV 2011

Marcia Blasi

1  Introdução Este é o primeiro domingo do ano litúrgico. É o ano-novo na igreja. Para esse tempo tão especial, o templo da comunidade também precisa receber um carinho especial. Depois de tantos meses com os paramentos verdes e após o Domingo da Eternidade, agora celebramos um novo começo. A cor litúrgica para o Advento é o roxo/violeta/lilás. O importante é não confundir esse tempo com o Natal. A época do Natal tem suas próprias celebrações, artes e símbolos, como a árvore de Natal e o presépio. Transformar a igreja em Natal já agora impede que vivamos esse tempo de preparação, quando acompanhamos, domingo após domingo, as velas da coroa de Advento sendo acesas. Se já agora cantarmos “Noite Feliz” e tivermos o pinheiro na igreja, para que celebrar o Natal e por que celebrar o Natal? Cada coisa tem seu tempo. Celebrar Advento com calma, lembrando o preparo em todos os sentidos, dando sentido ao preparo, conduz a uma celebração natalina com mais sentido. O espaço litúrgico merece atenção. Não é preciso muita coisa. A simplicidade de uma coroa de Advento, feita com ramos naturais e num tamanho adequado ao espaço na igreja, ajuda a comunidade a viver esse tempo de espera. Paramentos adequados também são importantes. Esperar é difícil para muita gente. Vivemos num tempo de satisfação rápida aos desejos, um tempo de impaciência, queremos tudo para ontem. Nesse contexto é maior o nosso desafio na pregação, na liturgia e no espaço litúrgico. Enquanto preparamos a celebração do nascimento de Jesus, esperamos por sua vinda novamente. Estamos num tempo entre os tempos. Um tempo de reavivar a esperança e a vontade de viver e trabalhar por um mundo justo e pacífico para todas as pessoas.

2  Os textos bíblicos O evangelho, em Marcos 13, exorta a um viver comprometido e conclama a comunidade a estar alerta e vigilante quanto à chegada do Reino. No texto de Isaías 64.1-9, o profeta proclama que Deus “escondeu-se” de seu povo por causa do pecado desse e implora que Deus não lembre os pecados para sempre, mostrando novamente a sua grandiosidade. Não se trata aqui de um texto apocalíptico, mas de um reconhecimento de pecados e de um clamor por ajuda. Em 1 Coríntios 1.3-9, Paulo saúda a comunidade de Corinto, agradecendo pela graça de Deus na vida dessa comunidade. O apóstolo lembra que a comunidade já foi

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1º Domingo de Advento

enriquecida com muitos dons e que o pedido feito por Isaías já se concretizou. Deus ouviu o clamor de seu povo e enviou seu Filho. Não é preciso clamar por mais dons. A comunidade já recebeu todos os dons que precisa, e as pessoas devem agora continuar firmes até o dia final.

3  Exegese Acredita-se que o Evangelho de Marcos seja o evangelho mais antigo e que foi usado como base nas redações de Mateus e Lucas. Por causa da referência à destruição do templo no capítulo 13, provavelmente o evangelho foi escrito antes ou durante a revolta popular judaica, desencadeada em 66 d.C. e que culminou com a reconquista romana e a destruição do templo em 70 d.C. A linguagem utilizada na escrita do evangelho é um grego popular, e o autor baseou-se numa variedade de tradições orais das ações e dos ensinamentos de Jesus. O capítulo 13 apresenta um sermão apocalíptico de Jesus, o que J. Jeremias chamou de “a profecia da desgraça” (p. 196). Jesus está em Jerusalém. O fim de sua vida está próximo. Ele aproveita cada instante para ensinar algo mais aos seguidores e seguidoras. Ao chegar ao templo, Ele se indigna com os abusos e perde a calma. Jesus expulsa os comerciantes daquele lugar e começa a ensinar, anunciando a destruição do templo e o seu retorno. A raiva dos sacerdotes e dos professores da lei só aumenta. Para livrarem-se dele, planejam sua morte. O texto previsto para a pregação deste domingo, Marcos 13.24-37, é uma resposta à pergunta de Pedro, Tiago, João e André no versículo 4: “Quando é que isso vai acontecer? Que sinal haverá para mostrar quando todas essas coisas vão começar?”. V. 24-25 – Depois daqueles dias de sofrimento: entre esses sofrimentos encontram-se a destruição do tempo, as perseguições, os falsos profetas, a fome, as catástrofes naturais; o sol.. a lua... poderes do espaço: todo o universo vai mostrar sinais. Há interpretações diferentes sobre essas imagens. Para algumas pessoas, é a criação que mostrará esses sinais; para outras, essa é uma linguagem simbólica que se refere aos opressores do povo. O importante é que esses sofrimentos não são castigo de Deus, não são causados por Deus. Eles são causados pela própria humanidade. Os sofrimentos descritos são uma realidade presente na vida da comunidade de fé. V. 26-27 – O Filho do Homem aparecerá... mandará os anjos... reunirá os escolhidos...: baseado numa imagem de Daniel 7.13, onde uma figura simbólica desce sobre as nuvens, aqui é o próprio Cristo que vem e envia anjos para reunir os seus e as suas. V. 28-32 – A figueira já foi exemplo de ensino no capítulo 11, em que se diz que ela foi destruída por não produzir frutos. Aqui a figueira e sua folhas verdes são sinais de esperança para quem crê e também um chamado a produzir bons frutos. Os sinais têm a finalidade de anunciar o fim dos tempos, mas ninguém sabe quando isso vai acontecer... nem os anjos, nem o Filho, mas somente o Pai. Por isso é necessário continuar produzindo bons frutos.

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V. 33-37 – Essa parábola de exortação é um chamado para que as pessoas fiquem vigilantes e estejam preparadas. Como ninguém sabe a hora, é preciso vigiar sempre. O interessante aqui é que somente o porteiro recebe a incumbência de permanecer acordado. Talvez essa parábola tenha sido dirigida aos dirigentes do povo ou até mesmo aos discípulos. Vigiem, fiquem alertas, fiquem acordados e acordadas foram as mesmas palavras que Jesus disse aos discípulos no Getsêmani. Mesmo assim, eles adormeceram. Os discípulos não conseguiram ficar vigilantes por algumas horas, mesmo assim não foram expulsos da presença de Jesus, nem amaldiçoados por seu cochilo. Podemos acreditar que há esperança também para nós. Jesus continua nos acordando de nossa letargia e envia-nos a nos embrenhar neste mundo, espalhando sinais de seu reino.

4  Meditação Para pregadoras e pregadores, a época de Advento traz dificuldades especiais. A comercialização do Natal e a popularização das canções natalinas tornam difícil a tarefa de viver um tempo de calma e de preparação. Pregar sobre esse texto, então, duplica a dificuldade. As pessoas vêm para o culto esperando ouvir mensagens de anjos, de Maria grávida louvando o nome de Deus. Não esperam ouvir relatos de catástrofes, sinais do fim dos tempos, chamados para vigiar. As pessoas desejam o anúncio e não a profecia. O resgate do que realmente significa Advento é urgente em nossas comunidades e celebrações de fé. Precisamos encontrar o equilíbrio entre a preparação, a rememoração do nascimento de Jesus e a tarefa de estar preparados para quando ele voltar novamente “para julgar os vivos e os mortos”. Muito importante é que a mensagem da pregação desse domingo não seja transformada em algo ameaçador, que leve as pessoas ao medo e ao desespero. Afinal, aquele que virá é Jesus, a quem conhecemos por seu amor, pelo carinho com que tratou as pessoas excluídas de seu tempo, aquele que curou e devolveu as pessoas para uma vida digna. Quem vem não é um tirano, mas o príncipe da paz. Quem vem é o mesmo que foi morto na cruz e com sua ressurreição abriu as portas para nos acolher na vida eterna. Não é preciso ter medo. O medo impede as pessoas de agir. O medo impede as pessoas de pensar com clareza. O medo prende as pessoas dentro de si mesmas. O medo não deixa as pessoas reagirem em situações de opressão. A mensagem do texto não quer ser isso. A mensagem do texto quer animar as pessoas a preparar-se, sem se esconder ou sair do mundo. O texto quer animar as pessoas a preparar-se, agindo neste mundo como transformadoras da realidade cruel que encontram ao seu redor. Uma pessoa fiel não precisa ter medo de Cristo, nem precisa usar o nome dele para causar medo em outras pessoas. Uma pessoa fiel reconhece seus pecados, mas não se deixa dominar por eles; ela sempre procura recomeçar. Uma pessoa fiel semeia esperança, mesmo que haja a possibilidade de que o mundo que conhecemos deixe de existir amanhã. Viver alerta, viver preparada tem tanto a ver com estar preparada para a vida quanto estar preparada para o fim dos tempos. Aquela pressa pela iminente

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volta de Cristo já é algo distante de nossa realidade. Passaram 2.000 anos de anúncios frustrados, e isso apagou um pouco o fogo do povo crente. Por um lado, há um grupo somente preocupado com sua moralidade, com sua salvação, que deixou de ouvir as dores do mundo. Por outro lado, há um grupo de pessoas que não se importa se o fim chegar ou não, pois a dor e as tristezas do mundo apagaram sua esperança. O texto deste domingo é uma boa oportunidade de “acordar” esses dois grupos, chamando-os para uma vida de engajamento e vivência comprometida na vida.

5  Imagens para a prédica Enquanto trabalhava neste auxílio, acompanhava a propaganda do arrebatamento de fiéis para o dia 21 de maio, anunciado e previsto por Harold Camping, dos Estados Unidos. Segundo ele, cálculos matemáticos precisos teriam levado a chegar até essa data. Muitas pessoas venderam propriedades e bens para financiar uma campanha de cartazes e outdoors. Li até o caso de uma mulher de 27 anos, grávida de sete meses, que abandonou o curso de medicina e doou suas economias para a campanha. Segundo Camping, no dia 21 de maio, seria arrebatado um grupo de pessoas escolhidas e depois haveria cinco meses de muito sofrimento, enviado por Deus sobre a terra. Bem, o dia 21 de maio chegou e nada de anormal aconteceu. Nenhuma pessoa foi arrebatada. Camping explicou depois que o que aconteceu foi uma experiência espiritual, um arrebatamento espiritual e que o dia do juízo final será no dia 21 de outubro. Se você está lendo esse material, e já passamos da segunda data prevista por Camping, devemos ainda estar vivendo neste mundo, preparando-nos para celebrar mais um Natal. A pregação poderia usar ilustrações como essa e compará-las ao evangelho. Ninguém sabe a hora, nem mesmo Jesus. Como poderia alguém calculá-la? Por outro lado, a pregação também pode lembrar a comunidade de que Cristo já viveu no meio de nós e deixou-nos muitos ensinamentos. Mesmo assim, o mundo está cheio de sofrimento: há crianças morrendo de fome enquanto comida é jogada fora; há mulheres sendo estupradas como tática de guerra em pleno ano de 2011; há homens enviados para lutar em guerras por causa de sua fé; há gente morrendo sem auxílio médico, sem casa, sem carinho. Isso com certeza são sinais dos tempos, sinais da nossa omissão, da nossa covardia, do nosso medo, da nossa acomodação frente a um sistema econômico que exclui a grande maioria das pessoas e destrói as riquezas naturais. Trabalhar pela “paz na criação de Deus” com esperança e compromisso é uma boa maneira de preparar-nos neste tempo de Advento. A prédica poderia ser construída entre estes dois polos: esperar esperançosamente x vigiar comprometidamente.

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1º Domingo de Advento

6  Subsídios litúrgicos Antes do culto, ou mesmo durante o culto, preparar uma coroa de Advento, explicando sua simbologia. Durante a acolhida, introduzir o tempo de Advento, a cor litúrgica, os símbolos dos paramentos, o novo ano eclesiástico.

Bibliografia COOGAN, Michael D. (Ed). The New Oxford Annotated Bible. New Revised Standard Version with the Apocrypha. New York: Oxford, 2001. JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica/ Paulus, 2004.

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PRÉDICA: 2 PEDRO 3.8-15a

2o DOMINGO DE ADVENTO

ISAÍAS 40.1-11 MARCOS 1.1-8

04 DEZ 2011

Fabiani Appelt

1  Considerações iniciais O texto de 2 Pedro 3.8-14 já foi refletido em outros três volumes de Proclamar Libertação (17, por Aline Steuer; 23, por Baldur van Kaick; e 25, por Claudete Beise Ulrich). A motivação das duas primeiras reflexões foi o Dia de Finados. A terceira foi para o 2° Domingo de Advento, que também é a motivação para esta reflexão. As leituras que acompanham 2 Pedro 3.8-15 nesta reflexão (Is 40.1-11 e Mc 1.1-8) são textos que chamam a atenção para a necessidade de preparar o caminho do Senhor. O profeta Isaías fala do poder de Deus. O que acontece quando o sopro de Deus passa sobre a erva? Ela seca, caem as flores. Toda carne é como a erva. O povo é como a erva. Tudo passa, porém a palavra e o poder de Deus permanecem para sempre. O Deus que castiga o pecado também é poderoso para erguer e consolar o pecador. É como o pastor que cuida de suas ovelhas e, quando preciso, carrega-as no colo. O Evangelho de Marcos, por sua vez, traz o anúncio de João. João Batista anuncia aquele que é vida e traz a vida. Quer que nós o acolhamos. Ele prega o arrependimento, a mudança de atitude, enfim, a conversão. Não quer que ninguém perca a oportunidade. Somos chamados para uma esperança ativa que coloca sinais do reino de Deus por onde passa. Assim nos surgem as perguntas: Como estamos nos preparando? Estamos preparando o caminho para o Senhor? Partindo dessas perguntas, queremos meditar sobre o texto de 2 Pedro 3.8-14.

2  Exegese O assunto principal da carta de 2 Pedro é a questão escatológica. Os hereges gnósticos, para os quais aponta o capítulo dois, abandonaram a esperança escatológica. Questionam a veracidade da promessa da vinda de Cristo. Querem saber o que aconteceu com a promessa, visto que os pais já dormiram e tudo continua como sempre foi. O capítulo três aborda a questão colocada no capítulo dois, mostrando que o dia do juízo final não tardará: mesmo que para os seres humanos pareçam mil anos, para Deus é como um dia (v. 8). O texto descreve o que acontecerá no dia do juízo final, quando tudo será consumido pelo fogo. Profetiza também que, na mesma época, as pessoas serão muito irônicas, não darão a mínima para a fé. Em resposta a esse questionamento, o autor defende a escatologia da cristandade primitiva com as palavras de 2 Pedro 3.8-14.

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2º Domingo de Advento

O contexto mostra as circunstâncias da carta: os falsos mestres, quando falam do final dos tempos (2.1), ridicularizam a promessa profética da vinda do Senhor (1.19-21), levando em consideração o aparente atraso. Os apóstolos já haviam morrido, as primeiras gerações cristãs também, e Jesus não havia cumprido a sua promessa de voltar. Por isso, dentro da comunidade cristã, alguns falsos “doutores” andavam zombando da fé dos membros da comunidade (3.4), não só debochando da demora, como também negando a vinda de Cristo. Esses falsos “doutores” atacam a convicção cristã de que Deus tem um projeto para o mundo: realizar o seu reino. Esses doutores negam a convicção de que Deus caminha com seu povo, levando-o a realizar uma sociedade de paz, justiça e fraternidade. Esses doutores dizem que tudo será como sempre foi e está, que nada muda (v. 3.4), que as nossas vidas e mortes não têm sentido. Então, por que se esforçar para ser justo, para lutar pela dignidade e pela paz? Bobagem! Aproveitem-se da vida e dos outros! A perspectiva divina sobre a passagem do tempo encontra-se a partir do versículo 5 e responde à crítica dos céticos nos versículos 3 e 4. O “atraso” da vinda do Senhor é uma reação humana à forma como Deus concebe o tempo. Uma explicação para o atraso é atribuída ao caráter de um Deus misericordioso. Embora a crueldade da humanidade exigisse ação imediata, Deus detém sua ira justa e adia o julgamento. Deus não é lento para voltar (3.9), mas lento para a cólera e cheio de amor (Êx 34.6). Essa paciência de Deus para com o seu povo visa à sua conversão. O tempo que assim temos permite-nos testemunhar a todas as pessoas que o nosso Deus, o Deus da vida, ama todos e todas, quer vida para todas as pessoas e chama-nos à transformação pessoal e comunitária, essencial à vinda de seu reino. A volta do Senhor será repentina e inesperada, como a chegada de um ladrão (Lc 12.39). Os crentes ainda confiam na promessa de Deus, apesar dos escarnecedores dizerem que é tempo perdido. Pedro, por sua vez, dá garantia de que uma nova terra habitável surgirá, seguindo a destruição da terra atual. “O Senhor construirá novos céus e nova terra onde habita a justiça” (2Pe 3.13). A justiça ainda não habita aqui, mas ela está sendo preparada pelo perdão dos pecados e pela restauração da vida das pessoas. Esperava-se a destruição do mundo pelo fogo ou pela água (v. 5-7). Os céus, que são o firmamento, serão desfeitos, se dissolverão e se despedaçarão. Os elementos (possivelmente as estrelas) derreterão nas chamas, e o mundo será posto à prova. Esse é o jeito que o autor usa para caracterizar a profundidade da transformação que Deus propõe. Esses versos não são profecias exatas daquilo que virá no futuro. Se nós fôssemos descrever o Dia do Senhor hoje, provavelmente usaríamos imagens diferentes. O tempo, concebido no mundo grego e na cabeça dos falsos “doutores” como chronos, como um ritmo repetido periodicamente, faz do mundo e da vida humana um circulo vicioso sem finalidade. Contra esse pensamento, o Dia do Senhor está colocado como kairós, como plenitude do tempo, como um tempo oportuno, nada menos do que “novos céus e nova terra onde habitará a justiça” (3.13). A figura do ladrão que vem na hora inesperada (Mt 24.43) é usada para

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animar a participação ativa dos cristãos na antecipação da vinda do Dia do Senhor. Os tempos de Deus são imprevisíveis, mas não o seu projeto. Portanto os cristãos não devem ficar paralisados, esperando que o Dia do Senhor caia dos céus. Confiantes na presença de Deus em sua luta, são chamados a ser testemunhas dessa verdade a partir da coerência de suas vidas. A lógica por si só não pode nos levar à efetiva vida cristã; é necessário ter fé. A vida cristã é resultado de escutar a palavra de Deus, de confiar nela e de aplicá-la no dia a dia por meio da obediência fiel. A fé pode não render dividendos imediatamente. Seu retorno definitivo será realizado na eternidade. O comportamento cristão adequado apressa a vinda do Dia do Senhor. De maneira não definida claramente pelo Novo Testamento, o momento da volta do Senhor está diretamente relacionado com a condição e a atividade da igreja. Nesse tempo de espera ativa, a tarefa é viver de tal forma que ninguém tenha motivo para queixa contra o povo de Deus, que trabalha pela paz, que se baseia na justiça e no amor.

3  Meditação Advento é espera. Advento é tempo de preparação, é sem dúvida tempo de agir pela vinda do Príncipe da Paz. Não apenas esperamos e nos preparamos para a festa do Natal, mas agimos para que esse tempo traga o Príncipe da Paz ao mundo. Advento é tempo de abrir o coração. É tempo de mudança. É estar disposto a ajudar um irmão e uma irmã a encher-se de esperança. Advento é tempo de avaliação, de unir caminhos e acertar o passo. É tempo certo para pedir perdão e perdoar. É tempo de espera. Esperar alguém requer preparação. Quem espera confia. Esperar envolve expectativa e alegria. O melhor da festa é esperar por ela. Deus nos ensina a esperar por Ele, por sua vinda, diariamente na Palavra e no sacramento. Esperar é demonstração de firmeza, determinação e confiança. Na visão do mundo, de nosso dia a dia, quem espera é fraco, dependente. O forte não espera. Quem tem poder deve demonstrar poder. No reino de Deus, quem espera é que é forte. O cumprimento da esperança está em Deus. Na aparente demonstração de fraqueza é que está a fortaleza. Cristo veio ao mundo para demonstrar que quem serve é que se torna forte por meio dele: Cristo Jesus. O primeiro advento já aconteceu, e Cristo nos ensinou com sua vida o sentido profundo da vida verdadeira. Nós estamos vivendo entre o primeiro e o segundo adventos de Cristo. Existem aqueles que duvidam do segundo advento, e outros tantos que fazem especulações e cálculos a esse respeito. Aqueles que fazem especulações e apontam para sinais dos fins dos tempos querem, na verdade, igualar-se a Deus. Deus, no entanto, mostra que para Ele os critérios são outros. Ele entende o tempo de maneira diferente que nós. O passar de anos, décadas, séculos e milênios é apenas uma compreensão humana do tempo. Para Deus, um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia. Não são os anos que contam, mas a maneira como são vividos. Cada momento é especial e único e precisa ser vivido com sabedoria, na esperança ativa da

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paz, da justiça e do amor. Deus é fiel em sua promessa. Ele veio a nós em Jesus Cristo. Assim não quer que ninguém se perca, mas que todos cheguem ao pleno conhecimento da verdade. O tempo que Deus nos dá para viver é tempo de avaliação, vigilância, arrependimento e conversão. Esperamos o Dia do Senhor, que virá como um ladrão, de surpresa. Haverá mudanças no céu e na terra, pois todo o universo pertence a Deus. As coisas antigas passarão; nós, porém, segundo a promessa de Deus, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça. Esperar e apressar o Dia do Senhor é buscar, já agora, um mundo com mais justiça para toda a criação de Deus. É voltar-se para Deus, mudar de vida, de pensamento e de atitude. Somos convidados a buscar e lutar por vida digna e paz para todas as pessoas. Esperar o Senhor hoje é intensificar nossa vocação de testemunhas da esperança. “Esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2Pe 3.13) – esperar com engajamento na edificação do reino de Deus, aguardando a segunda vinda de Cristo numa esperança ativa em amor. É hora de dar meia-volta e caminhar na contramão da história de injustiças e violências que estamos vivendo. É hora de voltar-se contra as falsas ideologias, pois o reino de Deus está próximo, e precisamos vivenciar isso em nosso dia a dia. “Portanto, sempre que pudermos, devemos fazer o bem a todos, especialmente aos que fazem parte da nossa família na fé” (Gl 6.10). É hora de olhar para o lado e reconhecer no outro um irmão, uma irmã que muitas vezes está precisando de ajuda, enquanto nós, em nossa correria, não temos tempo para parar e ajudar. Assim tão atarefados, com coisas que nem sempre são tão importantes, perdemos maravilhosas oportunidades de fazer a nossa parte na edificação do reino de Deus. Desperdiçamos chances verdadeiras de ajuda, como esta que nos conta a história a seguir. Em algum lugar existe um túmulo. O homem que nele jaz participou uma vez de um estudo bíblico. Era o homem mais rico da vila. A mensagem tocou-o visivelmente, pois, quando se despediu, seus olhos e seu aperto de mãos me diziam: necessito de socorro urgentemente! Imediatamente, segurei-lhe a mão e disse: – Nos próximos dias, pretendo visitá-lo e tomar um café. Ouvi um suspiro de alívio. – Sim, senhor pastor, isso seria muito bom. No dia seguinte, eu queria fazer essa visita. Mas em minha escrivaninha continuavam aqueles documentos importantes referentes à igreja, e as estatísticas teriam que ser terminadas. Assim adiei a visita para o outro dia. No dia seguinte, vieram parentes nos visitar. Um motivo forte para me justificar. No terceiro dia, comecei a me inquietar e decidi fazer a visita na parte da tarde. Poucos minutos antes de o sino da igreja tocar meio-dia, chega o vizinho dizendo: – Senhor pastor, não dá para acreditar, mas o senhor Kramm acabou de se suicidar. Tive a impressão de que o chão se abria sob meus pés e me engolia. Depois ouvi que esse homem, antes de se suicidar, esteve muito tempo parado na frente de minha porta. Por muito tempo ele estava com o trinco da porta na mão. Por que não

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abriu a porta? O que o impedia de me procurar? Chance desperdiçada. Chances desperdiçadas tornam-se acusações mudas. O maior pecado do povo de Deus é justamente desperdiçar, com pressão exagerada ou com sonolenta indecisão, as chances que tem para servir a Deus no mundo (P. Heinrich Kemmer, extraído de Wandsbeker Hefte 5/73).

4  Subsídios litúrgicos Acolhida: A cor dos paramentos indica que estamos no tempo de Advento. Lilás é a cor que convida para a reflexão e análise da vida, especialmente para a penitência, o arrependimento, a transformação. Neste Domingo de Advento, a palavra do Senhor alerta: “Preparem o caminho para o Senhor passar! Abram estradas retas para ele” (Mc 1.3b). Com o Advento inicia um novo ano da igreja. O tempo de Advento é o período de quatro semanas antes do Natal. É um tempo que nos fala do passado, do presente e do futuro. Advento lembra-nos o menino Jesus que veio. Advento lembra-nos o Cristo que vem e está em nosso meio. Advento lembra-nos que o Cristo virá para julgar. Oração do dia: Todo-poderoso Deus, estamos no 2° Domingo de Advento, tempo especial que tu nos dás para viver. Tempo no qual somos perguntados pela razão de nossa esperança. Será que realmente esperamos, segundo a tua promessa, um novo céu e uma nova terra, onde habita a justiça? Muitas vezes, estamos tão preocupados e inquietos, que nos deixamos levar por previsões e esquecemos que o tempo pertence a ti. O tempo que nós estabelecemos passa depressa. Pedimos-te que fortaleças em nós a certeza de que tu já vieste em Jesus Cristo e queres estar presente a cada novo dia através do Espírito Santo, fortalecendo-nos para uma vida de justiça, paz, fraternidade e amor. Dá-nos coragem e fé para estar sempre preparados e vigilantes, colocando em prática em nossas vidas o que a tua Santa Palavra nos ensina. Dá-nos um coração humilde que reconhece o pecado e busca sempre o teu perdão e a tua companhia. Sê tu conosco, Senhor, e fortalece a nossa fé. Amém.

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PRÉDICA: JOÃO 1.19-28

3o DOMINGO DE ADVENTO

ISAÍAS 61.1-4, 8-11 1 TESSALONICENSES 5.16-24

11 DEZ 2011

Angela Lenke

1  Introdução Quem de nós já não se perguntou: Quem sou eu? Nossas ações e nossas palavras respondem o que somos. E como é difícil quando precisamos falar de nós mesmos para outros. Está na moda falar bem de si, dos títulos que se têm, dos lugares que se conhecem. O importante é estar no alto, no ponto mais alto. Difícil é ver gente identificando-se, em primeiro lugar, como cristão, filho de Deus e servo de Jesus Cristo. João Batista colocou-se como o servo que veio para pregar o arrependimento, a fim de preparar os corações para receber o Messias. Ele também foi interrogado sobre a sua identidade, assim como nós hoje somos.

2  Exegese Pode-se dividir o texto em duas partes: V. 19-23 – Sacerdotes e levitas interrogam João a respeito de seu ministério, sua identidade e sua pretensão. João responde: “Eu não sou o Cristo” (v. 20). V. 24-28 – Os mesmos sacerdotes e levitas, nesse trecho identificados como fariseus, querem saber de João por que ele batiza. João responde: “Eu batizo com água; mas, no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias” (v. 26s). Algumas observações sobre o texto: Os sacerdotes e levitas foram enviados da parte dos “judeus” (v. 19). Essa referência aos judeus é usada também em outras passagens bíblicas quando se trata das autoridades religiosas de Jerusalém. As autoridades religiosas querem entender o que está acontecendo com aquele que está atraindo a atenção de numerosa população nas margens orientais do rio Jordão, em Betânia (v. 28). João responde todas as vezes em que é perguntado. Identifica-se como aquele que veio para endireitar o caminho para “aquele que é mais importante”. Se João não é o Messias, logo não é a luz esperada. João sabe colocar-se em seu lugar (“Ele confessou e não negou” – v. 20). Ele rejeita não só o título messiânico, como também qualquer vinculação a outro importante profeta do passado ou futuro escatológico. João aponta para o Cordeiro de Deus e, quanto a si mesmo, identifica-se apenas como aquele que veio para preparar o caminho do Messias e realizar o batismo preparatório para essa vinda.

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“... não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias” (v. 27). O serviço que João menciona aqui era humilde, mais precisamente de escravos. É assim que ele entende seu ministério em relação a Jesus. Também Paulo, apesar da importância de seu apostolado, considerava-se o menor dos apóstolos, indigno de ser chamado por esse nome (1Co 15.9).

3  Meditação Há uma palavra de Dietrich Bonhoeffer que nos ajudará a compreender o texto de hoje. Ele pergunta: “Sou aquela pessoa calma, com a aparência de um vendedor, que se apresenta cada dia aos guardas, ou sou aquele fraco, inquieto, doente, que está cansado e disposto a despedir-se de tudo?” E responde: “Quem sempre for, tu me conheces, Deus, pertenço a ti” (D. Bonhoeffer, Widerstand und Ergebung, p.179). O tempo de Advento é tempo do novo e do velho, de trevas e de luz. João Batista é aquele que faz esse caminho, apontando para Cristo como a luz e a nova vida. João Batista encarou sua missão desde o começo. Sabia quem era e para que tinha vindo. Ele não se lamentou da difícil tarefa de preparar o caminho para o Senhor, de viver no deserto, comendo mel e gafanhotos. Ele não se intimidou por saber que, antes de tudo, fazia parte dos planos de Deus e que os olhos de Deus estavam sobre ele. João Batista, em seu ministério, também sofreu a tentação. E é essa história de hoje. Uma tentação que nós também muitas vezes sofremos: das chances que temos para nos engrandecer. Nossa tendência, às vezes, é colocar o Batismo como “posse e autoridade nossa”, quando o recebemos por graça e a nós foi confiada a tarefa de batizar não em nosso nome, mas em nome do trino Deus. Enquanto circula nas religiões a tentação de “quanto mais vezes batizar melhor é”, nós somos incumbidos de pregar reta e puramente o evangelho e administrar corretamente os sacramentos. Segundo a teologia dos sacramentos, o Batismo é um nós; não o merecemos pelo que somos, pois somos aceitos pela graça de Deus. João Batista venceu a tentação, identificando-se como o mais simples, indigno de desatar as correias das sandálias de Jesus. Nós somos chamados por Jesus de irmãos e, ainda assim, ele é desprezado e ridicularizado por tantos. Somos chamados de cooperadores e servos, mas muitos querem competir pelo lugar da glória junto a Jesus. Hoje, em todas as profissões, nós vemos pessoas que estão fracas, inquietas, cansadas, mas que, ao contrário da palavra de Dietrich Bonhoeffer, sentem-se exatamente como fracas e cansadas, sem a perspectiva de que pertencem a Deus. Há uma caminhada cada vez maior de vitimização, segundo a qual eu mesmo terei que resolver os problemas, porque Deus está muito distante, na verdade não se conhece Deus. As pessoas não conhecem a si mesmas, por isso andam confusas. Por outro lado, as pessoas não podem demonstrar fraqueza, porque são encaradas quase como máquinas e o mercado capitalista não permite sentir dores nem permite tirar tempo para a fé. Afinal, para tudo há uma invenção nova. Até a celebração do nascimento de Jesus é substituída.

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Hoje poucos assumem sua condição de servos de Deus, assim como João Batista, porque muitos talvez gostassem de ser até mais do que Jesus Cristo. Não há arrependimento, porque para tudo há uma desculpa, uma causa. Falta humildade, como a do João Batista. Humildade essa que nos coloca na condição de filhos da luz e não das trevas, de perceber a ação de Deus em nossa vida, a salvação em Jesus Cristo. Temos hoje mais do que mel e abelhas para nos alimentar, e, ainda assim, há muita ganância e falta de amor pela causa do reino. Há falta de humildade e gratidão dentro do próprio templo de Deus, onde muitos colocam os reais que sobram. O mercado capitalista não vai pregar o reino de Deus. A igreja verdadeiramente cristã é aquela que veste a camisa. Mas também nela todos os líderes e membros precisam ser lembrados de que são servos e não senhores, de que arrependimento e humildade agradam a Deus e nos lançam em seus braços. Aprendemos com João Batista a responder com verdade e humildade toda vez que somos interrogados sobre quem somos e o que queremos. Aprendemos com ele a falar o necessário. Falar demais pode gerar dúvidas. João não quer honras para si. Ele quer que Jesus seja exaltado, não ele: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). Aqui também se pode citar, como exemplos de atitudes cristãs, os conselhos de Paulo no texto de 1 Tessalonicenses 5.16-24.

A tentação de João é também a nossa. Lutero diagnosticou bem ao dizer que todos nós gostaríamos de ser um pequeno Cristo por nós mesmos. Nada melhor do que a sensação de que nós salvamos outra gente. Nosso mundo está cheio de tais salvadores da pátria, de gurus, donos da verdade, médiuns, de supostas encarnações de divindades, de pessoas que se consideram um “canal especial do Espírito Santo”, gente que está acima do nível dos demais. Claro, poucos têm o atrevimento de se autointitular de Cristo. Mas muitos se comportam como se fossem. No mercado religioso, a procura excede a oferta. Eis aí a chance para os gênios religiosos, os “cristos autopromovidos”, os vendedores e cambistas do sagrado. (Gottfried Brakemeier, Proclamar Libertação 25, 1999, p. 32).

Neste tempo de Advento, somos lembrados de que nem tudo são trevas e escuridão, porque Cristo, o Messias, é a luz. Nós somos iluminados por Cristo. Ele espantou as trevas do nosso coração. Ele, como luz, revelou-nos que pode transformar tudo. Nem todos se entregaram às trevas, ao pecado, à luxúria e à vaidade, porque seguem esse Jesus Cristo. Tempo de Advento é tempo de firmar nossa espera pelo bem mais precioso do mundo. Espera pelo mais importante, pela salvação de nossa vida. Nós continuamos esperando por esse Cristo que é luz, porque ainda há muita gente que precisa ser curada da cegueira espiritual, do egoísmo, do apego a si mesmo; muita gente quer ouvir a verdade do evangelho porque está sofrendo as consequências de um mundo desumano, incrédulo, injusto e capitalista; gente que trabalha o dia inteiro, que ocupa sua mente e tem agenda cheia, mas tem coração de pedra. A esses nós, como igreja cristã, anunciamos a glória de Jesus Cristo, anunciamos a luz que vence as trevas, a humildade do menino pobre nascido em Belém.

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O que precisamos perguntar é: quem é o verdadeiro servo de Deus que anuncia Jesus Cristo? Quem exerce em verdade o seu ministério? E por que não perguntar: fugimos da tarefa de ser testemunhas e servos de Deus?

4  Imagens para a prédica 1 – Sugerimos usar elementos que lembrem falas do próprio texto. Podese colocar no chão do altar ou exibir em PowerPoint tais imagens. Alguns itens seriam: uma sandália simples, que seja parecida com a dos tempos antigos, a passagem de Isaías que fala do João Batista, imagens de fariseus, imagem de um batismo de João Batista ou mesmo elementos do Batismo (como água e pia batismal). 2 – Quem tiver um grupo de teatro na comunidade poderia ensaiar esse texto. Com certeza, daria um resultado muito bom. 3 – Pode-se ainda usar a comparação entre luz e trevas por meio de uma vela acesa e outra apagada. Ou acender as velas da coroa de Advento somente após a pregação, dando o enfoque de que Cristo é a luz do mundo. 4 – Outro símbolo é comparar frutas. Uma macieira não pode dizer que é laranjeira, assim como nós não podemos almejar querer o lugar de honra de Jesus Cristo, porque a criação não pode ocupar o lugar do Criador.

5  Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor, estamos aqui para confessar nosso pecado quando almejamos o poder, quando queremos te abafar, quando não damos o testemunho da fé, quando negligenciamos o ensino cristão, quando fechamos os ouvidos para os irmãos que sofrem com o sistema do mundo, quando fechamos os olhos para a tua luz, quando passamos por momentos difíceis de nossa vida e perdemos a esperança, quando as tentações nos assolam. Tem piedade de nós, Senhor, ilumina-nos e transforma nossa casa para te receber como nosso único Salvador. Amém. Anúncio da graça (absolvição): Jesus Cristo diz: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8.12). Bênção e envio: O Senhor te abençoe para admoestar os fracos na fé, consolar os desanimados, amparar os fracos e ter ânimo longo. O Senhor te torne sensível para não retribuir o mal com mal; pelo contrário, use-te como instrumento de paz. O Senhor fortaleça a tua fé, para que possas regozijar-te, orar sem cessar, sempre dando graças a Deus por ser essa a sua vontade em Cristo Jesus. O Senhor te abençoe com humildade para que não apagues a chama do Espírito de Deus nem desprezes a palavra de Deus. O Senhor te dê sabedoria para julgar e interpretar corretamente

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as coisas, guardando o que é bom e afastando-te do mal. Assim te abençoe o Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém (baseado no texto de 1Ts 5.14-26).

Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo, v. 2: Lucas e João. São Paulo: Ed. Hagnos, 2002. BRAKEMEIER, Gottfried. In: Proclamar Libertação, v. 25. São Leopoldo: Sinodal, 1999. p. 29-34. SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. In: Proclamar Libertação, v. 19. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 22-26.

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4o DOMINGO DE ADVENTO

PRÉDICA: 2 SAMUEL 7.1-11,16

18 DEZ 2011

LUCAS 1.26-38 ROMANOS 16.25-27

Michael Kleine

1  Introdução Os três textos bíblicos previstos para o 4º Domingo de Advento sugerem a seguinte temática: o Deus vivo do testemunho bíblico vem em direção ao ser humano sempre de uma forma inusitada e inesperada. Ele oculta seu poder, entrando em nossa realidade de uma forma aparentemente frágil e humilde. Esse jeito de Deus agir conosco, sua condescendência, é para nós um mistério (Rm 16.25), que só é entendido por meio da fé (Rm 16.26) e que opera em nós uma completa transformação de nossas mentes e vidas.

2  Exegese 2 Samuel 7 relata o ponto alto e central da história de Davi. O capítulo faz parte do bloco maior de 2 Samuel 5-8. Esse bloco narra os fatos que marcam a consolidação do reinado de Davi sobre Judá e Israel: a conquista de Jerusalém, vitórias militares, expansão do reino, a Arca da Aliança trazida para Jerusalém. O bloco é precedido pelos capítulos 2-4, que tratam da ascensão de Davi ao trono de Judá (após a morte do rei Saul). Nos capítulos 9-20, temos o relato da luta pela sucessão de Davi. O tema central de 2 Samuel 7 é a promessa de Deus ao rei Davi de que sua dinastia ocupará o trono “para sempre” (v. 16). Ligado a esse tema está um segundo: a proibição a Davi de construir um templo em Jerusalém para a arca de Deus. O capítulo está dividido em duas partes: v. 1-17 (a promessa) e v. 18-29 (a oração de Davi). Os v. 12-15 – que não foram incluídos na perícope – tratam de Salomão, filho e sucessor de Davi, da legitimação de seu reinado, da relação especial de Deus com ele (Pai e filho) e do anúncio de que ele construirá uma “casa” (templo) ao nome de Deus. 2 Samuel 7 possui importância teológica central dentro do Antigo Testamento, pois é na promessa feita a Davi que se baseia a esperança messiânica do povo de Israel. O Novo Testamento vê em Jesus Cristo o cumprimento dessa promessa. V. 1 – Indica para o início de uma nova temática. Davi finalmente habita em “sua (própria) casa” (palácio), construída em Jerusalém, a cidade-fortaleza que ele conquistou para ser a capital de seu reino – a “cidade de Davi” (2Sm 5.6-12). Após um tempo vivendo em cavernas e depois entre os filisteus, enquanto fugia do rei Saul, agora Davi possui sua própria fortaleza, de onde governa o povo de Deus. O fato de habitar na própria casa é visto como legitimação do reinado por

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Deus (5.11s). A isso se junta o fato de que o Senhor garante a superioridade militar de Davi sobre os povos vizinhos, iniciando um tempo de paz. V. 2 – Davi vê uma contradição no fato de ele viver num palácio luxuoso (“de cedros”), que simboliza seu poder atual, enquanto a “arca de Deus” (representação da presença de Deus) encontra-se numa habitação provisória e frágil (uma tenda). Davi percebe que começou uma nova época em sua história pessoal e na história do povo de Deus, um tempo de estabilidade (“descanso”). Essa nova fase reflete-se também na arquitetura. Isso não deveria valer também para Deus? O povo não vive mais no deserto, peregrinando de um lugar para outro. O rei expõe a questão ao profeta da corte, talvez esperando ouvir por intermédio dele a palavra do próprio Deus. V. 3 – Sem consultar Deus, o profeta Natã logo aprova a ideia do rei de construir um templo ao Deus de Israel. Natã acredita que os planos de Davi serão abençoados por Deus, pois “o Senhor é contigo”, ou seja, tudo o que Davi fez até agora “deu certo”. “Faze tudo quanto está no teu coração”: o coração era visto como a sede das decisões, dos planos e da vontade. O profeta presume que o “coração” de Davi está em perfeita sintonia com o “coração” de Deus. Mais tarde, Davi vai reconhecer que o coração de Deus tem planos muito diferentes dos dele (v. 18). V. 4 – Mas parece que o profeta falou em seu próprio nome, pois “a palavra do Senhor veio a Natã” naquela mesma noite, revelando que os planos do Senhor são diferentes. V. 5 – O dito de Deus começa com uma pergunta retórica que expressa o espanto em relação ao plano de Davi: Tu queres construir uma casa para mim? É como se Deus dissesse: Tu achas que podes fazer algo por mim? Quem és tu para decidir onde Eu vou morar? Tu queres saber o que é melhor e mais adequado para mim? Será que eu preciso de tua ajuda? V. 6-7 – Na sequência, o rei é lembrado de que Deus nunca habitou em templo (“casa”), que nunca precisou de construções feitas de material nobre para demonstrar o seu poder e majestade. Ele libertou Israel das mãos da maior potência militar da época (o Egito) e andou com Israel tendo uma barraca como moradia. A arca de Deus era protegida apenas por cortinas, por uma habitação extremamente provisória. Davi também é lembrado de que Deus nunca deu uma ordem aos líderes do povo para que construíssem para ele “uma casa de cedro”, um templo luxuoso comparável ao palácio de um rei. Davi também não recebeu essa ordem. Deus deixa claro que não precisa de uma “habitação” para exercer ou representar externamente seu poder, nem mesmo precisa da tenda. A tenda tinha a função de um local de encontro entre Deus e seus mensageiros. Era lá que ele dava a conhecer sua vontade e instruções (Êx 33.7-11: a “Tenda da Reunião”). Mas ele não precisava da tenda; podia revelar sua vontade assim como fez com Natã e, mais tarde, com outros profetas. Com essas palavras Deus revela sua soberania e liberdade de agir onde e quando lhe convém. Essas palavras apontam para a tendência do ser humano de tentar limitar a ação de Deus ao culto no templo, para o perigo de querer controlar Deus (Jr 7.1-15; Is 66.1; Sl 50).

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V. 8-11a – O dito seguinte enfatiza que a iniciativa sempre esteve nas mãos de Deus. Foi ele quem escolheu Davi e transformou o menino pastor de ovelhas no rei de Israel. Foi Deus quem eliminou os inimigos de Davi e deu a ele a fama e o poder dos grandes reis. Davi não tem mérito nenhum nessa história de sucesso. Além do mais, Deus fez tudo isso não por Davi, mas por seu povo, para que ele vivesse em segurança. O rei é apenas um instrumento de Deus para cuidar de seu povo. V. 11b e 16 – Nosso trecho termina com uma promessa a Davi: Deus fará para o rei “uma casa”. Essa afirmação retoma e responde a pergunta do v. 5: Tu queres construir uma casa para mim? – Eu é que farei uma casa para ti! Davi queria construir um templo para a habitação de Deus. Mas Deus mostrou ao rei que não é ele quem precisa de uma “casa”, mas Davi. O fato de morar em seu próprio palácio deixou Davi seguro de si. Agora tudo está feito! O objetivo foi alcançado. Mas ele se engana. Tempos difíceis estão pela frente. Uma luta feroz pelo trono pode colocar tudo a perder. Assim como Davi só se tornou rei por causa da ação de Deus, assim ele só vai se manter no trono com a ajuda de Deus. O poder que Davi recebeu não é garantia de continuidade. Pelo contrário, será objeto de cobiça entre os filhos de Davi, que quase põem tudo a perder. O homem mais poderoso de Israel e de toda a região ainda é completamente dependente de Deus. A “casa” que Deus vai construir para Davi é a continuidade de sua dinastia no trono. Deus vai conceder firmeza e estabilidade ao governo de seu servo Davi e de seus descendentes. O reinado da família de Davi vai durar “para sempre”, quer dizer, Deus não vai retirar seu apoio e sua ajuda, assim como fez com Saul (v. 15).

3  Meditação Davi passou por tempos difíceis antes de se tornar rei. Viveu como um foragido, escondendo-se em cavernas, enquanto fugia do rei Saul e suas tropas. Ganhou a vida como líder de bando (cangaceiro?), prestando serviços de segurança particular aos grandes fazendeiros (1Sm 25). Buscou asilo entre os arquiinimigos de Israel, os filisteus. Lutou pelo trono de Israel. Lutou contra os jebuseus pela conquista de Jerusalém. Lutou e derrotou os filisteus. Agora, ele finalmente chegou ao topo. Foi coroado rei de Judá e de Israel e derrotou os inimigos internos e externos. Conquistou para si uma cidade, de onde governa inconteste seu país e as regiões vizinhas. Como sinal de reconhecimento do poder de Davi na região, o rei de Tiro constrói para seu vizinho uma “casa”, o palácio real de Jerusalém. Essa “casa” é a representação visível do poder militar, da riqueza (“casa de cedros”) e da estabilidade (“descanso”). Em todas as épocas e lugares, governantes erguem palácios e outras grandes obras arquitetônicas para lembrar os seus súditos onde estão a autoridade e o poder. Tendo chegado ao topo do poder, Davi sente que algo não está certo. Ele sabe muito bem que deve seu sucesso ao Senhor dos Exércitos. O Deus de Israel está muito acima dele. Como pode ser que o rei habite sua própria “casa”, e todos podem ver o seu poder, enquanto a arca de Deus continua sendo abrigada numa tenda? Se o Deus de Israel está acima de Davi, então isso precisa ficar visível por meio de uma “casa de cedros”, um templo que representa toda a grandeza desse

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Deus. A tenda não reflete a nova situação e, segundo a lógica do rei, não reflete condignamente a glória e a majestade de Deus. Na melhor das intenções, Davi pretende construir um templo digno da glória do Senhor. Natã, o profeta da corte, é da mesma opinião. Prontamente dá seu aval ao projeto do rei de construir um templo para a arca de Deus. Ele presume que haja uma sintonia muito grande entre o rei e Deus. Deus tem aprovado tudo o que Davi faz. Prova disso é o sucesso do rei em todos os seus empreendimentos: “o Senhor é contigo” (v. 3). Os planos do rei (“tudo quanto está no teu coração”, v. 3) são também os planos de Deus, deduz o profeta. Mas não é bem assim. “A palavra do Senhor veio a Natã” (v. 4) e corrigiu a opinião do rei e do profeta, que pensavam conhecer a Deus muito bem e saber que tipo de “habitação” seria mais condizente com a sua posição. As palavras de Deus, transmitidas por meio do profeta (v. 5-11,16), revelam os seguintes aspectos: a) No relacionamento entre Deus e o ser humano, a iniciativa é sempre de Deus. Não é Davi quem constrói uma casa para Deus, mas é Deus quem constrói uma casa para Davi. Deus sempre revela sua vontade e passa as instruções por intermédio dos seus profetas. O rei tem a sua importância apenas como servo (instrumento) obediente. Ele não pode tomar decisões sem consultar a Deus. A iniciativa de construir um templo partiu do rei, com apoio do profeta, mas sem a ordem de Deus (v. 7). Por melhor que seja a intenção, é preciso perguntar pela vontade de Deus. b) A importância do templo como habitação de Deus é relativizada. Essa ressalva em relação ao templo deixa transparecer uma crítica ao culto (= sacrifícios), como a vamos encontrar nos profetas e em outras partes do Antigo Testamento. O motivo da crítica é justamente a tendência humana de tentar restringir a liberdade e a ação de Deus. Em outras palavras, a tentativa humana de manipular Deus, nesse caso por meio de rituais. A partir do exílio, o judaísmo percebeu que não podia limitar a presença e a ação de Deus ao templo. 2 Samuel 7 afirma que a ligação Deus – “casa de Davi” é mais importante do que a ligação Deus – “casa de cedro” (templo). O Deus de Israel prefere agir e conduzir seu povo por intermédio de seus servos, sejam eles reis ou profetas. c) A ação de Deus é sempre inusitada, inesperada, não corresponde ao que esperamos. Deus sempre nos surpreende, cria algo novo, totalmente inesperado (v. 18). O próprio Davi é um exemplo disso: o pequeno pastor de ovelhas é transformado em pastor do povo de Deus. Deus escolhe as coisas fracas e pequenas para manifestar o seu poder. Ele não quer nem precisa dos símbolos humanos de poder para demonstrar sua glória. Pelo contrário, Deus cria a partir do nada (Rm 4.17). d) A condescendência de Deus: Deus revela-se como Deus ao fazer o contrário do que esperamos dele. Ao invés de se deixar apresentar na pompa de um templo, ele se rebaixa voluntariamente ao se comprometer com uma família humana. Nessa sua condescendência, o Senhor de todo o mundo realiza seu compromisso insolúvel com Israel e com a humanidade. Ele é um Deus que se curva à procura do ser humano. Ao invés da “casa” sólida de pedra (templo), ele escolhe a “casa” frágil e vã de “carne e osso” (a casa de Abraão, a casa de Israel, a casa de

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Davi). Deus age por intermédio de pessoas em favor das pessoas – especialmente por meio e em favor das mais fracas. e) A promessa de Deus aponta para o futuro. Ao comprometer-se com a casa de Davi “para sempre”, Deus mostra que o caminho dele com o povo ainda não chegou ao fim. A estabilidade e a segurança no presente (v. 1) ainda não são o objetivo final. O caminho é longo. Todos esses aspectos se concretizam e se realizam na encarnação de Deus em Jesus Cristo. Aqui Deus mostra sua fidelidade em relação ao povo no cumprimento da promessa (Lc 1.32s). Mas também mostra que ele permanece o mesmo desde os tempos mais remotos em que selou seu compromisso com o povo de Israel. Sua opção e seu jeito de agir continuam os mesmos, ainda que os tempos tenham mudado. A iniciativa é sempre de Deus, que envia o Salvador. Ele continua surpreendendo ao fazer com que sua Palavra (seu Verbo) assuma forma humana. Ele continua escolhendo as coisas fracas e sem aparência. Ele descarta a “casa de cedros” (templo) e prefere a casa de “carne”, por meio da qual ele arma sua tenda/habitação neste mundo (Jo 1.14). Enquanto nós procuramos demonstrar nosso poder, Deus faz o contrário: “Tornou-se em tudo meu irmão, e, pobre e desprezado, ele ocultou o seu poder e um simples homem veio a ser: Lutou por minha causa” (Lutero, HPD 155,6). No tempo presente, continua sendo Deus quem constrói a “casa” – a sua comunidade. E ele continua usando instrumentos que não combinam com aquilo que esperamos dele: pessoas fracas para proclamar a sua palavra poderosa (pregação), água para demonstrar seu compromisso de amor (batismo), pecadores para anunciar o perdão em seu nome (confissão dos pecados em particular e absolvição), “um pedaço de pão e um pouco de vinho” para conceder “perdão dos pecados, vida e salvação” (Lutero).

4  Imagem para a prédica O próprio texto fornece uma boa imagem para falar do jeito de agir de Deus: a casa. A casa como moradia serve para proteger seus habitantes do clima (calor, frio, chuvas). Ela nos protege das outras pessoas ao possibilitar privacidade. Serve para guardar os bens de uma família. Serve para dar algum conforto. Nas classes mais abastadas, serve para ostentar riqueza. No âmbito político, serve para ostentar poder. Deus também usa “casas”, mas com finalidades bem diferentes. Se pensarmos nos prédios (templos), ele os usa não para se isolar das pessoas (privacidade), mas para se encontrar com elas. Mas essa nem é a casa principal de Deus. Deus habita em pessoas que guardam a sua palavra (Jo 14.23). Essas casas de “carne e osso” são bem frágeis e duram pouco. São como tendas, moradias provisórias. Numa dessas tendas, Deus veio de forma definitiva ao mundo e “habitou entre nós” (Jo 1.14). Jesus Cristo mora lá onde dois ou três se reúnem em seu nome. Essa casa frágil e sem uma bela aparência, a comunidade, é o meio pelo qual Jesus Cristo anda por esse mundo, é seu corpo. E as “ferramentas” (palavra e sacramentos – os meios da salvação) que edificam e reformam essa casa são

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igualmente de aparência frágil e mais ocultam do que revelam o poder de Deus. Com esse seu jeito de agir, Deus nos surpreende e não se deixa manipular, atuando “onde e quando lhe apraz” (CA 5).

5  Subsídios litúrgicos Seguem algumas sugestões de hinos que reforçam e desdobram o tema da pregação: HPD 2; 3; 4; 14; 155. Como introito, poderia ser lido pela comunidade o “Cântico de Maria” (Lc 1.46-55), um hino de louvor ao jeito surpreendente de Deus agir em favor das pessoas.

Bibliografia GUTBROD, Karl. Das Buch vom Reich. Das zweite Buch Samuel. Stuttgart: Calwer, 1958. (BAT 11,2). STOLZ, Fritz. Das erste und zweite Buch Samuel. Zürich: Theologischer Verlag, 1981.

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NOITE DE NATAL

PRÉDICA: ROMANOS 1.1-7

24 DEZ 2011

ISAÍAS 11.1-9 LUCAS 2.1-7

Martin Norberto Dreher

1  Introdução A Epístola aos Romanos é circular, dirigida à comunidade cristã residente em Roma. Seu autor é o apóstolo Paulo. Deve ter sido ditada no ano 58 de nossa era a Tércio e levada por Febe a Roma. Não sabemos quando ou por quem foi fundada a comunidade de Roma. O capítulo 1.6 dá-nos conta de que seus membros originalmente foram pagãos. No capítulo 16, os nomes mencionados indicam que não poucos deles eram naturais do leste do Império Romano. Da epístola podemos depreender que a comunidade lia bastante o Antigo Testamento e que sua correta interpretação causava muitas discussões. Isso pode ser consequência da proximidade da sinagoga de Roma, mas também de questões que eram levantadas por judeus que se tornaram seguidores de Jesus. Por que Paulo escreve a epístola? Paulo considera sua atividade no oriente do império concluída e quer agora seguir para a Espanha, passando por Roma. Paulo era, então, uma pessoa bastante conhecida nas comunidades cristãs, “elogiado e caluniado” (2Co 6.8). Tinha muitos inimigos, também entre os cristãos. Muitos se sentiam atacados pelo que dizia e ensinava. Alguns se escandalizavam. O quanto Paulo teve que enfrentar adversários lemos especialmente na Epístola aos Gálatas. As críticas a ele dirigidas podemos encontrar também em 2 Pedro 3.15-16. Como está querendo passar por Roma, busca apresentar-se bem como a seu ministério e sua mensagem. Quer que o conheçam a partir de sua interpretação do evangelho e também a partir da questão que na época comovia a comunidade de Roma: Qual a correta interpretação do Antigo Testamento? Essa questão, aliás, também movia o próprio Paulo, rabino judeu que se tornara cristão. Paulo está convicto de que a exposição dessa temática é talvez a melhor forma de ele se apresentar à comunidade de Roma. Mais tarde, Lutero dirá: “Por isso também parece que, nessa epístola, S. Paulo quis fazer um resumo de toda a doutrina cristã e evangélica, bem como fornecer um acesso a todo o Antigo Testamento. Pois, sem dúvida, quem tiver essa carta no coração tem consigo a luz e a força do Antigo Testamento. Por isso familiarize-se cada cristão com ela e se exercite com ela constantemente”. Segundo Paulo, o evangelho já está anunciado no Antigo Testamento e, por isso, diz respeito primeiro aos judeus. Nele se fala do descendente de Davi, filho de Deus, ressuscitado dentre os mortos. Foi ele quem enviou Paulo como seu mensageiro a todos os gentios. É por isso que os outrora gentios residentes em Roma também estão envolvidos pela comissão que lhe foi dada por Cristo.

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Noite de Natal

No evangelho, revela-se o juízo de Deus sobre todo o mundo, mas na fé que aceita esse juízo também se fazem presentes salvação e vida para cada pessoa. Nos capítulos 1.18-3.20, Paulo evidencia que no evangelho, na mensagem acerca de Jesus Cristo, acontece juízo divino negativo sobre todos os seres humanos, sobre judeus e gentios. Mas esse aspecto se transforma em 3.21-8.39, se observarmos que esse juízo de Deus, pelo qual todos estão condenados, pois foi proferido em Jesus Cristo, aconteceu em sua morte, liberta, torna justos todos aqueles que nele creem. Assim, o evangelho é revelação desse juízo de Deus, é realmente evangelho, quando ouvido em fé e nela aceito, é notícia a respeito da reconciliação entre Deus e o ser humano e de nova vida do ser humano na justiça, na liberdade, sob o domínio do Espírito. O significado desse evangelho para aqueles entre os quais por primeiro deveria ter encontrado aceitação e onde não foi crido, entre os judeus que têm o Antigo Testamento em suas mãos, é exposto nos capítulos 9-11. Nos capítulos 12.1-15.13, em uma série de admoestações, é apontado o significado prático do evangelho, quando encontrou aceitação em fé na comunidade. Por fim, seguem comunicados pessoais, saudações, advertência contra pessoas que nos enganam e louvor a Deus, que se revelou no evangelho. Essa exposição da intenção de Paulo com sua epístola se faz necessária para que compreendamos a composição dos três textos previstos para esta Noite de Natal. Nesta noite santa acontece o evangelho anunciado por Isaías, descrito por Lucas e proclamado por anjos e pastores, razão de ser de Paulo e de seu apostolado e também do apostolado da comunidade.

2  Exegese Romanos 1.1-7 é saudação de Paulo a leitores em Roma. Segue o esquema então usual: menciona seu nome e o dos destinatários, deseja-lhes o melhor que pode desejar. Mas, nessa formalidade, Paulo já diz o que o move a escrever. O que o move é uma pessoa (v. 1). Essa pessoa não é ele, Paulo, nem o leitor ou ouvinte da epístola, mas uma pessoa que está acima dele e das pessoas reunidas em comunidade em Roma. Paulo é seu servo (literalmente: seu escravo). Pertence a ele e, por isso, quer falar baseado nele e não em sua pessoa ou em diretos que porventura detenha. Passou a pertencer a esse senhor quando foi chamado por ele, tirado de seu meio, mas também de sua atividade, separado para ser apóstolo. (Os “separados” eram os perishim, os fariseus: o fariseu Paulo tornou-se fariseu de Cristo.) Desse senhor Paulo recebeu a graça do apostolado (v. 5). O apóstolo é o enviado plenipotenciário daquele que envia. Sua incumbência é anunciar o evangelho, a boa notícia. Paulo está, pois, separado de tudo o que há no mundo, totalmente preso ao evangelho por Jesus Cristo, o qual também é o conteúdo do evangelho (v. 3-4). Paulo constata (v. 2) que essa boa-nova é idêntica ao que já foi anunciado pelos profetas nas Sagradas Escrituras. Anunciaram-no antes que estivesse aí para que agora através da boca do apóstolo chegue a todo o mundo. O evangelho, porém, só tem um conteúdo: o filho de Deus que, segundo a carne, como ser humano, descende de Davi, o filho prometido a Davi, herdeiro de

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seu trono. Pelo Espírito Santo, por causa de sua ressurreição dentre os mortos, foi demonstrado, revelado filho de Deus, isto é: distinguido de outros seres humanos e deles distinto. Esse Jesus Cristo é o senhor de Paulo e foi dele que recebeu a graça da incumbência de chamar todos os gentios à obediência ao rei de Israel, obediência essa que consiste na fé. Assim, por meio de sua obediência, de sua fé, seu nome será honrado, receberá a honra que lhe cabe. Desses gentios também fazem parte “todos vocês que estão em Roma, todos vocês a quem Deus ama e a quem tem chamado para ser o seu próprio povo” (v. 7). Essa expressão não confere qualidade moral aos assim designados, mas se refere à obra de Jesus Cristo, acontecida por eles e neles operada: por meio de Jesus Cristo são pessoas amadas por Deus, são pessoas chamadas por seu intermédio, por ele santificadas, assim como Paulo foi. Assim, a pessoa de Jesus Cristo é a unidade na qual se encontram comunidade e Paulo, mesmo sem se conhecer. Mesmo distantes, estão próximos. É a partir dessa unidade que o apóstolo saúda a comunidade com a palavra de bênção. Ele lhe deseja “graça” e “paz”. Essas palavras expressam o que faz da igreja igreja, dos cristãos cristãos: a dedicação amorosa de Deus ao ser humano. Em Jesus Cristo, experimentamos “graça” e “paz”; nele podemos experimentá-las sempre de novo e por elas implorar daquele, do qual ambas provêm: Deus, nosso pai. Podemos designá-lo de “pai” a partir da experiência feita em Jesus Cristo, que é o caminho que leva ao pai. Quanto menos separarmos os dois membros dessa fórmula e reconhecermos que um só pode ser explicado a partir do outro, melhor os entenderemos.

3  Meditação Noite de Natal. É noite de anunciar evangelho a pessoas que vivem na noite, “povo que anda em trevas”. Foram lidos o evangelho de Isaías e o evangelho de Lucas. Paulo, pregador(a) e comunidade querem e devem anunciá-lo. Evangelhos são “histórias da paixão com introdução minuciosa” (Martin Kähler), spirant resurrectionem (respiram ressurreição – Johann Albrecht Bengel). Assim também as histórias do nascimento de Jesus surgiram, foram transmitidas e fixadas por escrito a partir de sua ressurreição, por causa de sua execução. Olham o início a partir de seu resultado: a morte e a vida nova. No resultado veem a salvação do início. Veem luz além do massacre da esperança do início. Por isso querem transmitir esperança para todas as esperanças expressas quando surge vida, contra a destruição dessas esperanças. Elas não querem ser apenas símbolo, querem ser fundamento, base para esperança. Não conhecem qualquer outro fundamento para a esperança do que aquele único: a encarnação de Deus. Noite santa? Santa noite? Talvez em poucas noites o pregador e a comunidade sintam tanto a contradição entre o poder da noite e a importância da mensagem. Entre o poder que mata e a incredibilidade da promessa que nos chama à resistência. Ernst Bloch, o filósofo da esperança, judeu e agnóstico, observa: “O que é não é verdadeiro”. Daquilo que está expresso nessa sentença nos falam o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus. A história de Jesus não torna

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a noite humana santa, mas a agride, nega, ataca, convicta de que a vitória não pertence à noite. Nascimento, morte e ressurreição de Jesus são revoltas contra a noite. Assim, já o nascimento de Jesus é revolta contra a noite. Não celebramos a santidade da noite, mas a santidade que põe fim à noite. Todos os votos que nos desejamos – felicidade, amor, luz – só se tornam realidade caso tiverem por trás essa vida com sua missão. A ofensiva contra a noite nada tem a impulsioná-la a não ser essa uma vida desse único ser humano: Jesus, que tem por trás de si Deus. Enquanto a noite afirma: “nada mudou com a vida perdida por Jesus na cruz”, a fé afirma: “Tudo mudou”. Atacamos a contradição contida na morte de Jesus com a contradição da ressurreição. Enfrentamos a noite a partir da vida, baseados nos primeiros raios de vida que chegam até nós com a notícia do evangelho: Há graça e paz! A contradição, cujo anúncio foi confiado a Paulo e a nós, sua comunidade, e que deve ser proclamado na rememoração do nascimento de Jesus, tem início quando ouvimos e transmitimos o que ouvimos. Somos chamados a obras de contradição e de esperança, obras de seres humanos que enfrentam a noite poderosa. Nesse enfrentamento, somos pessoas tentadas pelo poder do lado oposto, pessoas paralisadas pela falta de perspectiva, em busca de consolo da certeza. A vida de Jesus é a promessa para a ação na noite contra a noite. Nessa noite não pode haver prioridade na discussão teórica entre graça e boas obras. A graça clama por obras, e as obras clamam por graça. As obras carecem do consolo, e o consolo quer se tornar real em obras. Ação consolada: é essa a mudança que a realidade do nascimento de Jesus, aquele que foi morto e ressuscitado, que a tudo põe em movimento, provoca em nós.

4  Imagens para a prédica Não sei quais serão as imagens presentes na retina dos pregadores e das pessoas na noite de 24 de dezembro. Nos dias em que medito sobre ela, ouço muita notícia de morte provocada por guerras, por miséria que leva mães a descartar recém-nascidos, por novos tipos de drogas. Ouço muita notícia de “noite”. No templo em que comunidades estiverem reunidas, diviso árvores de natal, das quais vêm luzes, e junto à manjedoura brilha uma luz. Vejo pessoas alegres, vejo pessoas tristes. Vejo pessoas às quais devo dizer: Há graça e paz! Essa graça e paz nos permitem caminhar como comunidade que ouve e recebe evangelho e que quer transmitir evangelho que diz que a noite não tem a última palavra. A última palavra vem da criança, na qual Deus se fez presente e por meio da qual anunciou sua vontade: vida que considera pecado tudo o que leva à morte.

5  Subsídios litúrgicos Inicie-se com Hinos do Povo de Deus (HPD) 19,1-6 (“Vinde a Cristo, ó vinde unidos”). Após a invocação da Trindade, profira-se o versículo de entrada: “Vinde, cantemos ao Senhor, cantemos com júbilo a rocha da nossa salvação. Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, pois visitou e redimiu o seu povo”, se-

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guido do Glória. Seguem uma oração e a leitura de Isaías 11.1-9. Após, canta-se HPD 32,1-3 (“Renovo mui delgado”). Siga-se com a leitura de Lucas 2.1-20, intercalada por hinos, na seguinte sequência: Lucas 2.1-7; HPD 13,1-3 (“Noite feliz”); Lucas 2,8-14; HPD 15,1-6 (“Eu venho a vós dos altos céus”); Lucas 2.1516; HPD 27,1-3 (“Ergue-te, minha alma, e canta”); Lucas 2.17-20; HPD 26,1-3 (“Ao pé da manjedoura estou”). Alocução: Romanos 1.1-7. HPD 14,1-4 (“Cantai, cristãos, a Deus louvai”). Oração. HPD 29,1-3 (“Jubiloso, venturoso”).

Bibliografia BARTH, Karl. Der Römerbrief. Zürich: Evangelischer Verlag A. G. Zollikon, 1947. GOLLWITZER, Helmut. Erfahrungen mit Weihnachten. 2. ed. München: Chr. Kaiser Verlag, 1973.

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PRÉDICA: HEBREUS 1.1-4(5-12)

DIA DE NATAL

ISAÍAS 52.7-10 LUCAS 2.(1-7)8-20

25 DEZ 2011

Jorge Batista Dietrich de Oliveira

1  Relação entre os textos Os textos indicados para o dia de Natal perfazem uma unidade em torno da boa-nova de salvação. O que fora anunciado pelos profetas cumpriu-se no nascimento de Jesus e foi reconhecido pelo autor de Hebreus como a revelação definitiva de Deus por intermédio de seu filho Jesus Cristo. O profeta anuncia a boa-nova, o estabelecimento do reino soberano de Javé em Sião, acompanhado de paz e júbilo. O texto pertence ao Segundo Isaías, no período do exílio na Babilônia, entre 550-540 a.C. (cf. caps. 41 e 44). Fala de um mensageiro que corre pelas montanhas, trazendo notícias de paz, boas notícias de salvação. Trata-se de um hino de louvor que celebra de forma antecipada a libertação. O Evangelho de Lucas narra o nascimento de Jesus (2.1-7). Também narra como o anjo anunciou, aos desprezados pastores de ovelhas, a boa-nova do nascimento do Messias, que é Jesus, o Salvador (2.8-20). Uma multidão de anjos canta: “Glória a Deus nas maiores alturas do céu! E paz na terra para as pessoas a quem Deus quer bem”. O texto de Hebreus ressalta Jesus como a perfeita revelação de Deus. Desdobra o falar de Deus em “antigamente” e “nos últimos tempos”. Antigamente, Deus falou aos pais por intermédio dos profetas. Nos últimos tempos, Deus falou a nós por meio de seu Filho Jesus. Existe uma continuidade entre a revelação do Antigo Testamento (AT) e a revelação dada em Jesus. Entretanto, o Filho é superior e ultrapassa todos os outros mediadores entre Deus e os homens, tais quais os profetas (v. 1) e os anjos (v. 4). Jesus expurgou nossos pecados e consumou a obra de reconciliação. Agora Ele está entronizado à direita de Deus. Ele obteve assim uma posição muito acima de todos os outros.

2  Exegese Usando um estilo elevado e solene, que se aproxima do estilo clássico da literatura grega, o autor dessa carta não se identifica e faltam todas as indicações mais diretas sobre a autoria e os destinatários. O autor de Hebreus desenvolve uma cristologia própria, mostra-se um profundo conhecedor do AT e sua maneira de se expressar é tipicamente judaica e semítica. Possivelmente é alguém da segunda geração cristã (2.1-4). A maioria dos exegetas coloca a data em que a epístola foi escrita em torno do ano 70 d. C., antes da destruição do templo.

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A Epístola aos Hebreus distingue-se de outras cartas do Novo Testamento, pois apresenta características de tratado teológico, visando não a uma comunidade específica, mas aos cristãos em geral, que estavam em risco de abandonar a fé em Jesus (6.4-8). Alguns já haviam desistido de congregar-se (10.23-25), e muitos estavam desanimados (12.12ss). O objetivo é fortalecer a fé dos cristãos em meio aos desalentos, temores e sofrimentos pelos quais estão passando e mostrar que o povo peregrino e perseguido tem em quem se apoiar: Jesus Cristo, o único e definitivo sacerdote. Da mesma forma que Jesus solidarizou-se com seus irmãos e irmãs até a morte, os cristãos saberão enfrentar os desafios do momento presente, tendo os olhos voltados para o autor e consumador da fé: Jesus Cristo. O gênero literário da epístola é a homilia com caráter de exortação (2.14; 3.7-4.11; 5.11-6.20; 10.19-39; 12.1-13.17), que ao longo do escrito entrelaça ensinamentos teóricos com conselhos e recomendações. Num discurso teológico e catequético, o autor de Hebreus procura mostrar que os grandes símbolos da fé judaica (a Torá, o templo, o sacerdócio levítico, os sacrifícios e rituais) são prefiguração cristológica e cederam lugar a algo mais consistente e definitivo: Jesus Cristo, o único e sumo sacerdote (8.1ss). Só no final aparecem elementos típicos de uma carta (13.22-25). As muitas citações do AT e o conteúdo de Hebreus indicam que os destinatários eram pessoas familiarizadas com o culto e o sacerdócio de Israel, provavelmente judeus que se tornaram cristãos e, devido à perseguição, estavam tentados a voltar ao judaísmo. Nossa perícope está dividida em duas partes: a primeira (v. 1-4) apresenta uma exposição teológica a respeito da pessoa e obra de Jesus, o Filho de Deus; a segunda parte (v. 5-12) procura demonstrar que Jesus está numa posição muito superior aos anjos. Para isso, o autor cita sete passagens do AT segundo a tradição grega, a Septuaginta. Após cuidadosa análise, optamos por usar apenas a primeira parte do texto indicado para a pregação, pois essa declaração inicial (v. 1-4) é o tema principal que perpassa todo o escrito aos Hebreus. V. 1 – Que Deus tenha falado aos nossos antepassados, isso é uma referência ao povo de Israel dos tempos do AT. Destacam-se os advérbios polymerōs (muitas vezes, muitas maneiras) e polytropōs (de várias maneiras, vários modos). As duas expressões, em frases paralelas, são palavras com som semelhante, usadas de modo retórico, a fim de enfatizar o mesmo sentido. As revelações não foram apenas muitas, como também variadas em sua manifestação. Note-se a continuidade entre a revelação do AT e a revelada em Jesus. A primeira revelação prepara o terreno para a segunda; a segunda consuma a primeira, conforme esquema a seguir: Deus falou outrora, antigamente aos pais pelos profetas = mensageiros muitas vezes e de diferentes maneiras

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Deus falou nesses últimos dias, últimos tempos a nós, nos falou pelo Filho = Palavra encarnada de forma definitiva


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V. 2 – “Nesses últimos dias” significa “no período final em que estamos”, literalmente: “no fim desses dias”, indicando os dias anteriores em que variadas formas de revelação foram dadas. É o período de tempo ou de aliança que marca a vinda do Filho e refere-se à obra redentora de Cristo. “Falou”: o uso do aoristo no grego indica finalidade. “Pelo Filho”: após os profetas, que eram mensageiros, Deus enviou o “Filho”, que é a própria palavra de Deus encarnada (Jo1.1;14) e a mensagem definitiva. Essa revelação é superior àquela dada pelos profetas. “Herdeiro de todas as coisas”: a herança é um direito do Filho, entretanto a tomada de posse de todas as coisas é atribuída a uma iniciativa de Deus, pois se trata de um bem messiânico e escatológico. “Pelo qual também fez o universo”, literalmente: “épocas” (aiones). A supremacia do Filho foi manifestada nos primórdios da história (cf. Pv 8.27-31), pois “nele foram criadas todas as coisas” e “tudo foi criado para ele” (Cl 1.16). V. 3 – Hos, “que”, “quem”, “o qual”: o emprego de hos nas epístolas costuma introduzir perícopes hínicas que expressavam a fé apostólica da igreja primitiva (Rm 4.25; 2Co 4.4; Fp 2.6; Cl 1.15; 1Pe 2.22). “Resplendor da glória”: o sentido é o de radiância, que irrompe de uma luz brilhante. Tem a ideia de emitir brilho. O Filho é o reflexo da glória luminosa do Pai. A glória de Deus, antes experimentada pelos pais e profetas, agora é elevada à máxima potência no Filho. “A expressão exata do seu ser” significa “impressão, estampa, gravação”, indicando uma reprodução exata. Expressa a identidade de natureza entre o Pai e o Filho e também a distinção das pessoas divinas. “Sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”: o verbo usado tem um sentido dinâmico, pois envolve sustentação e movimento, preservação e governo. O Filho é visto no centro da estabilidade constante do universo. Ele mantém a existência do mundo criado (Cl 1.17). A palavra lembra a maneira como o mundo foi criado e a ideia de João 1.13 de que todas as coisas foram feitas pela Palavra (logos), que se refere ao próprio Jesus. A palavra poderosa do “Filho” é a mesma palavra criadora de Deus, que sustenta o universo. “A purificação dos pecados”: esse é um tema predominante nesse escrito. Faz referência à morte expiatória de Jesus e ao ato sacerdotal que purifica o pecado. O Filho derrama o próprio sangue e oferece sua vida a Deus em nosso favor (9.14), pois o sangue de bodes e touros não pode remover pecados (10.4). “Assentou-se”: possui sentido de realização. Demonstra que a obra sacrificial de Cristo, diferentemente daquelas realizadas pelos sacerdotes levíticos, foi consumada de uma vez por todas (10.11-12). “À direita da Majestade, nas alturas”: posição de honra e autoridade. Essa ideia provém do Salmo 110.1, que, por diversas vezes, é citado ao longo desse escrito e recebe apoio por outras evidências neotestamentárias (Mt 22.44; At 2.34-35; 1Co 15.25; Ef 1.20; 1Pe 3.22; Hb 8.1; 10.12;12.2). V. 4 – “Superior aos anjos”: os judeus tinham grande interesse pelos anjos. Em algumas tradições judaicas, anjos eram mediadores da antiga aliança. Por isso o autor de Hebreus deixa claro que Deus falou por meio de seu Filho de uma maneira muito mais eficaz do que por meio deles. Isso é demonstrado por uma série de citações do AT, que se seguem (4-14). “Herdou mais excelente nome”: o nome era um meio de dizer algo acerca da pessoa, pois descrevia sua natureza.

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Fica claro que o nome mais excelente é Filho (v. 5), que subentende o relacionamento mais estreito e mais íntimo. A excelência do nome dado a Jesus Cristo é encontrada também em Filipenses 2.9ss, onde se afirma que Jesus é exaltado acima de todas as ordens de seres criados.

3  Meditação Desta vez, o Dia de Natal cai num domingo. Na noite anterior, houve muita festa, ceias natalinas reunindo as famílias, muita alegria, presentes e comemorações. Na manhã seguinte, segue-se a natural ressaca. Muitos dormem, outros tantos se reúnem para celebrar o nascimento de Jesus. Deus, que falou na noite de Natal, continua falando. Por isso a pregação deveria levar em conta os três textos bíblicos indicados para este Domingo de Natal, priorizando o texto de Hebreus. A promessa de paz e salvação, anunciada por Isaías, cumpriu-se em Jesus. Os gritos de alegria dos vigias ao ver a volta do Senhor para Sião ressoaram quase seis séculos depois com os hinos de louvor entoados pelos anjos e pelos pastores de Belém. O evangelho nos anuncia que Deus não ficou acenando de longe para a miséria humana, mas veio pessoalmente. Veio ser gente como a gente. Veio olhar em nossos olhos, ouvir a nossa voz, veio ter conosco. Veio nos trazer a salvação. Aquilo que tinha sido anunciado pelos profetas tornou-se realidade. Um menino nasceu. A Palavra tornou-se ser humano e veio morar entre nós. Deus veio ser gente para melhor colocar-se ao alcance dos nossos sentidos, para que pudéssemos tocá-lo. Deus se fez humano, assumiu a temporalidade e as limitações dos homens, para revelar o grande amor que tem para conosco. É Natal. Tempo de fé. Tempo de estar aberto e perceber o Deus Conosco, que está sempre ao nosso lado. O mesmo Deus que falou aos nossos antepassados de muitas e variadas formas por meio dos profetas fala também a nós de uma forma definitiva por intermédio de seu Filho. Esse é o motivo que nos reúne na fé para celebrar o Natal, a revelação de Deus em Jesus Cristo. Deus não ficou em silêncio. Deus falou a nossos pais no passado e continua falando a nós por meio de seu Filho. Ele quer manter contato conosco. Ele não é uma ideia a ser pensada, mas uma pessoa a ser ouvida, compreendida e obedecida. Jesus Cristo e a obra que ele realizou são a palavra de Deus para nós. Isso é o que Deus disse e o que devemos ouvir. Pois existe um Deus que se comunica e se revela a nós em Jesus. Podemos conhecê-lo, amá-lo e viver em alegre comunhão com ele. O autor de Hebreus afirma que Deus falou em dois períodos históricos: um antes e outro depois da vinda do Filho de Deus ao mundo. Entretanto, Deus falou a nós por meio de seu Filho de maneira definitiva, pois a comunicação de Deus “nestes últimos dias” é melhor e maior do que todas as partes e formas de outrora. Nesses últimos dias, Deus fez algo muito diferente: para se comunicar, Ele enviou seu Filho. Na pessoa de Jesus, em seu nascimento, em sua vida e em seus ensinamentos, Deus revelou-se a nós. Essa revelação é completa e decisiva. Não vai ser seguida por outra, pois em Jesus Cristo Deus falou e revelou definitiva-

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mente seu amor por todos nós. Essa é a grande notícia (boa-nova) do Natal. Quem descobre Jesus e a prova do amor de Deus experimenta salvação. Alguns achavam que Jesus era apenas um profeta (Jo 9.17), mas ele não era um mero profeta. Ele é o Filho de Deus. Isso significa que ele é Deus, pois Jesus é a imagem única da glória de Deus e traz a marca de sua própria natureza divina (v. 3). Ele é o Filho eternamente gerado, sem começo e sem fim (7.3), e foi nomeado herdeiro de todas as coisas. Cristo tomou o seu lugar como herdeiro de todas as coisas em virtude de sua morte e ressurreição. A ideia que está por trás desse texto é que o Filho resgatou um povo perdido no pecado e na morte por meio de seu sacrifício expiatório e, no final, ele terá à sua disposição todas as coisas. Ele vai ter em sujeição a ele tudo o que existe. Um dia, toda a criação se curvará e reconhecerá que ela é governada e propriedade de Jesus Cristo. A exaltação e a coroação do Filho à direita de Deus são uma declaração e celebração de sua obra perfeita de perdoar os pecados. Isso significa que sentarse nesse lugar de honra e de autoridade foi uma declaração de quão perfeita foi sua obra de purificação dos pecados. Jesus é o sacerdote e o sacrifício ao mesmo tempo. Ele resolveu o problema do pecado conquistando o perdão e a salvação. O fato de Cristo ter tomado o seu lugar à direita de Deus significa que seu trabalho está totalmente concluído. Ele é o rei do universo. Ele está à direita de Deus Pai e reina sobre todo o governo. A mensagem de Hebreus é uma palavra de exortação dirigida a cristãos desanimados e ameaçados de renunciar à fé em Jesus Cristo, o Salvador. Essa palavra se torna atual à medida que cresce em nossa realidade o número de cansados e desanimados. O autor de Hebreus quer animar-nos em nossa caminhada de fé, convidando-nos para manter nossos olhos fixos em Jesus, pois ele é a revelação definitiva de Deus. “O autor e consumador de nossa fé... Ele suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (12.2). O Natal fala-nos da boa notícia: Glória a Deus e paz na terra! Com o nascimento daquele menino, anunciado pelos anjos, Deus veio a nós e, com isso, trouxe paz às pessoas a quem ele quer bem. Por isso, a partir do Natal, tudo pode ser mudado. A bondade, o amor, a justiça, a paz e a salvação são possibilidades concretas. A verdadeira luz de Cristo já brilha. Não nos deixemos vencer pelas trevas, pelo pecado, pelo desamor e pela desesperança. Somos desafiados, isto sim, a viver o Natal com intensidade. Vamos compartilhar abraços solidários, vamos celebrar o Natal com luzes, com alegria, com louvor ao nosso Deus. Pois lá, no primeiro Natal, recebemos a boanova de paz na criação de Deus. Ela se cumpriu na vida e obra de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Por isso podemos hoje ter esperança e compromisso.

4  Imagens para a prédica Certo homem tinha um formigueiro em seu jardim. Ele amava as formigas e todo dia ficava ali sentado, observando-as. Certo dia, ele notou que um grande incêndio nas terras do vizinho, empurrado pelo vento, aproximava-se do formigueiro. Não havia como conter o fogo que se aproximava cada vez mais.

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Foi então que ele correu até o formigueiro e com muitos gestos e gritos tentou avisar as formigas, mas foi tudo em vão. Ele tentou alertá-las, colocando a mão em seu caminho, para que assim elas mudassem de direção e escapassem do perigo iminente. Porém as formigas passavam por cima da mão do homem e continuavam seu caminho em direção ao fogo. O homem então criou uma barreira de terra para que dali elas não passassem, procurando assim salvá-las. Mais uma vez, as formigas ultrapassaram essa barreira e continuaram rumo ao perigo. O homem então pegou algumas formigas que continuavam no formigueiro e as levou até onde estavam as formigas que caminhavam em direção ao fogo, na esperança de que essas formigas trouxessem as outras de volta em segurança. Porém as formigas que estavam em perigo ignoraram as outras e continuaram seus caminhos. Então o homem começou a gritar: “Hei, vocês, voltem! Se vocês forem por aí, vão morrer. Não façam isso. Esse é um caminho da morte”. Mas as formigas não o ouviam. Então o homem fez o seguinte: Tornou-se uma formiga e foi até onde elas estavam caminhando, contou-lhes o que elas deveriam fazer para que assim voltassem em segurança para o formigueiro. E muitas delas voltaram, e de geração em geração foram ensinando as outras formigas a evitar o perigo do fogo. Deus não se transformou em formiga, mas se fez ser humano para avisar todos que o caminho que estavam tomando era um caminho de morte. No Natal, lembramos o grande amor de Deus revelado em Jesus, que nos trouxe a salvação. (História adaptada de http://www.jesushoje.com/e-deus-se-fez-homem/)

5 Subsídios litúrgicos Oração: Amado Deus, tu que falaste aos nossos antepassados de muitas e variadas formas por intermédio dos profetas, tens falado também a nós de uma maneira definitiva por meio de teu Filho Jesus Cristo. Obrigado por mais essa oportunidade de vivenciarmos o Natal, quando somos lembrados de que tu vieste olhar em nossos olhos, ouvir a nossa voz, vieste ter conosco e nos trazer a salvação. Obrigado pela obra que Jesus realizou, perdoando os nossos pecados, e por mais uma vez podermos revisar nossa vida e dar a ela um rumo orientado pela boanova da salvação. Ajuda-nos, Senhor, a ouvir e obedecer a tua palavra revelada em Jesus, para que o nosso falar e agir reflitam o verdadeiro sentido do Natal. É o que te pedimos em nome do autor e consumador de nossa fé: Jesus Cristo. Amém. Oração de intercessão: Deus Eterno! Neste Natal te pedimos: – que a boa-nova revelada em Jesus Cristo seja proclamada a todos os povos; – que as nações que vivem em guerra encontrem o caminho da paz; – que a tua justiça se realize em cada pessoa deste planeta;

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– que as tristezas e mágoas sejam banidas de cada coração, dando lugar à alegria e ao amor; – que a dor seja amenizada e que o sofrimento encontre consolo na força da fé; – que a solidão seja superada pela amizade verdadeira e pelo companheirismo; – que as coisas pequenas, como a inveja ou o desamor, sejam retiradas de nossas vidas; – que o perdão e a compreensão superem as amarguras e as desavenças; – que o necessitado encontre em nós a solidariedade e a ajuda de que tanto precisa; – que o amor pelo próximo seja nossa meta de vida; – que a esperança seja um sentimento constante em todos os corações; – que nossa jornada de hoje e de sempre esteja repleta de tua graça e de tua paz, Senhor. Amém. Bênção: Neste Natal, celebramos a revelação de Deus em seu Filho Jesus, que veio morar entre nós. Ele conquistou para nós o perdão dos pecados e trouxe-nos a salvação. Isso nos é afirmado por meio da bênção. Recebam, pois, a bênção de Deus: Que o amor de Deus Pai, revelado no Salvador, se faça presente em teu coração neste Natal e no advento de cada novo dia. Que a graça do Senhor Jesus seja derramada sobre ti e te acompanhe em todos os teus caminhos. Que a comunhão do Espírito Santo te fortaleça no caminho da esperança, do amor e da paz. Assim te abençoe o Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Bibliografia GUTHRIE, Donald. Hebreus. Introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1983. HOEFELMANN, Verner. Alento para os cansados e atemorizados. Estudos Bíblicos, nº 34. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1992. p. 9-14. KONINGS, J. Hebreus. São Paulo: Edições Loyola, 1995. VASCONCELLOS, Pedro Lima. Como ler a carta aos Hebreus. Um sacerdote fiel para um povo a caminho. São Paulo: Paulus, 2003.

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PRÉDICA: APOCALIPSE 3.7b-8,10-13

VÉSPERA DE ANO NOVO

ÊXODO 13.20-22 JOÃO 10.14-16,27-29

31 DEZ 2011

Eloir Enio Weber

1

Introdução: É o fim do mundo?

Transcrevo abaixo uma mensagem que produzi para um devocionário com base em Mateus 24.30b: “Todos os povos da terra chorarão e verão o Filho do Homem descendo nas nuvens, com poder e grande glória”. “Rosa, com o que você está preocupada?” – perguntou o esposo Mário. “Estou tensa e nervosa, sim. A vizinha disse que agora está confirmado: o mundo vai mesmo acabar em 2012”. Mário, com muita paciência, abraçou a esposa e disse: “Eu penso que não cabe ao ser humano fazer previsões a respeito da data da volta de Cristo. Pessoas de fé não precisam se preocupar com isso, mas aguardar com alegria. Cristãos não precisam ter medo do fim do mundo, mas aguardar com alegria a volta de Cristo, cujo dia e hora ninguém sabe. Neste dia, todos os povos chorarão ao ver Jesus voltar. Acho que muitos chorarão de alegria, mas haverá muitos chorando porque não deram ouvidos e não se prepararam. Rosa, você precisa aprender a confiar mais na Bíblia e em Jesus e desconfiar das coisas que a vizinha lhe fala”. Poucos são os assuntos que mexem mais com a imaginação humana do que o tema do fim dos tempos. É muito comum depararmo-nos com previsões baseadas em cálculos e sinais supostamente descritos na Bíblia. O tema também é destaque na indústria cinematográfica. Pessoas espertas sabem o que aflige o ser humano e com isso exploram o tema, provocando pavor. Nós cristãos não aguardamos o fim do mundo como um caos total. Deus criou o mundo a partir do caos. Se ele o devolvesse ao mesmo, seria decretada a sua derrota. Em Jesus Cristo, ele veio para vencer as forças do caos, instaladas pelo pecado. Jesus morreu, foi ressuscitado, subiu ao céu e voltará em glória para levar as pessoas de fé ao reino de Deus, que é a ausência da morte, da doença, do sofrimento e do pecado. Este evento eu quero aguardar com alegria, não com preocupação. Neste dia, eu quero chorar, mas de alegria, por sentir Cristo pleno em mim (Castelo Forte, 19/11/2011).

2  Exegese 2.1 – O Apocalipse de João O Apocalipse de João foi escrito no final do primeiro século (94-95 d. C), numa época de perseguição aos cristãos em todo o Império Romano. O principal

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motivo da perseguição era a negativa dos cristãos em adorar o imperador como Senhor e prestar culto a ele. O imperador naquele contexto era Domiciano. O livro foi escrito para as pequenas comunidades espalhadas pelo Império Romano, especialmente na província da Ásia. Os receptores desse escrito eram cristãos perseguidos. Para esses, o livro trouxe uma dupla mensagem: por um lado, de uma maneira tipicamente apocalíptica, trouxe estímulo aos cristãos que estavam sob grande pressão, assegurando-lhes que o inimigo seria destruído e que no final Deus triunfaria; por outro lado, em estilo profético, o Apocalipse desafiou os cristãos a combater as sutis forças do mal. As sete cartas para as sete igrejas da Ásia formam o primeiro grande bloco do Apocalipse. Todas as cartas têm uma estrutura semelhante: cita-se o destinatário, segue a apresentação de quem fala e, na sequência, fala-se da situação da comunidade. Por fim, há uma palavra específica para cada uma delas, conforme a necessidade (convite ao arrependimento, alerta, promessas, recompensa etc.). Todas terminam com: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Entre as sete cartas encontramos duas que não contêm nenhuma crítica. Uma das que não contém críticas é a carta destinada à igreja em Filadélfia, uma comunidade fraca e limitada, mas que permanece fiel à sua fé. Essa é a carta em apreço neste estudo. (A outra é a igreja em Esmirna, uma comunidade pobre que enfrentava perseguição.) É na fraqueza do ser humano que se manifesta o amor incondicional de Deus, dando força e coragem. 2.2 – O texto V. 7b – Depois de indicar o destinatário (v. 7a), aquele que fala se apresenta. Trata-se do próprio Cristo, que se apresenta com diversos predicados: o “santo”, o “verdadeiro”, “aquele que tem a chave de Davi”. Ele tem o poder de fechar e abrir, o que significa que possui o poder de conceder ou não acesso ao reino. V. 8 – Jesus conhece as obras (missão?) da igreja. Ele não está desatento às dificuldades que a comunidade tem para manter acesa a chama da fé e para perceber a porta aberta (porta que o próprio Cristo abriu e mantém aberta – aberta para acolher outras pessoas, para o reino?). Neste versículo, é falado de forma clara que se trata de uma comunidade com “pouca força”, mas que guarda a palavra de Cristo e não nega o nome dele. Uma comunidade frágil, mas que persiste na fé e resiste, pela fé, à pressão que sofre. A fragilidade não serve de desculpa para cruzar os braços e aceitar a pressão do mundo. É na fragilidade que o poder de Deus se manifesta mais forte. V. 10 – Guardar a Palavra recebida e persistir nela é descrito como um requisito básico para ser guardado na “hora da provação” (= juízo final?). A fé vem pelo ouvir a pregação da Palavra, diz Paulo em Romanos 10.17. Sabemos que somente pela fé somos acolhidos na graça e que unicamente pela ação de Cristo somos salvos. A comunidade de Filadélfia recebe, neste versículo, um elogio (“guardaste a Palavra”) e, como consequência, recebe também uma promessa (“te guardarei na hora da provação”). A parte final do versículo fala do juízo final – dia no qual serão “experimentados os que habitam a terra”. Esse é um tema central

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da carta à comunidade de Filadélfia. Fica evidente que aqueles que têm fé não serão poupados da provação, mas serão sustentados naquela hora. Seremos todos julgados: os salvos e os condenados. V. 11 – Este versículo continua com o tema iniciado no anterior. Conclama a comunidade a conservar a fé, prometendo, assim, a coroa (vitória no reino). A promessa da salvação é renovada: “venho sem demora”. A parusia (vinda de Jesus em glória e para o juízo) era esperada como algo imediato. A promessa da parusia para um curto espaço de tempo é bastante comum na literatura apocalíptica. V. 12 – Este versículo é fortemente marcado pelo estilo apocalíptico: a vitória será concedida (futuro) àquelas pessoas – comunidades – que se mantiverem fiéis a Deus no presente. A fidelidade presente não cairá no esquecimento. Deus vence no fim. O reino (futuro) é a promessa que sustenta a fidelidade no presente. A fé é a única forma de resistir. Assim os fiéis vivem a realidade do “já e ainda não” do reino em nosso meio. A “nova Jerusalém que desce do céu” será a morada dos fiéis que resistirem às perseguições, pressões e até às ameaças de morte. Aliás, a terminologia do reino de Deus como a “nova Jerusalém” é outro tema muito presente na literatura apocalíptica. Esse tema é amplamente desdobrado por João no final do livro (Ap 21-22).

3  Meditação 31 de dezembro de 2011 – Neste dia, estamos todos em clima de festa. Na maioria das vezes e na maioria dos lugares, a celebração do culto tem como pano de fundo o som dos foguetes que estouram, pessoas alegres que se cumprimentam e se desejam felicidades no novo ano que inicia. Muitas delas certamente já têm festa marcada na casa de algum familiar e, ao sair da celebração, já têm um rumo a seguir. As famílias recebem a visita de parentes de longe; não raras vezes, esses vêm junto para o culto. Para quem mora em Porto Alegre (imagino que seja assim em qualquer outra grande cidade), é a semana mais tranquila do ano. Não há congestionamento e caos no trânsito, não há filas nos supermercados, não é necessário se preocupar com vaga no estacionamento, enfim, para quem fica na cidade é a melhor semana do ano. Em geral, é uma semana na qual se consegue “respirar” depois de todos os eventos e preparativos antes do Natal. Não é diferente para nós – pastores e pastoras –, que tivemos uma interminável lista de eventos desde o início do Advento. É para dentro desse clima que é necessário fazer a reflexão desse texto bíblico. Todos os anos, a festa de réveillon segue seu ritmo. No entanto, imagino que há um elemento diferente nesta virada do ano de 2011 para 2012. A maior parte das pessoas talvez leve o assunto mais em tom de brincadeira, mas não podemos deixá-lo passar em branco. Trata-se do tema do fim do mundo, que, conforme se fala, deve acontecer no dia 21 de dezembro de 2012. Conforme os defensores da ideia, nesta data acontecerá o fim de um ciclo, segundo o antigo calendário maia. Essa suposição gerou um sem-número de teorias, programas nos meios de comunicação, livros, sites na internet e filmes como “2012”. É um

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assunto que merece uma reflexão teológica madura, pois as pessoas “consomem” leituras teológicas suspeitas e tendenciosas a respeito do fim do mundo. Aliado a isso, sabemos que as pessoas são bombardeadas com notícias de catástrofes de toda ordem. Não faltam os “teólogos de plantão” para dizer que tudo isso são “sinais dos tempos”. As pessoas que participam de nossos cultos não raras vezes “bebem de outras fontes”. Isso traz confusão de ideias no aspecto da compreensão teológica. Aqueles que fazem a leitura fundamentalista da Bíblia têm servido um prato cheio. É só olhar em nossa volta e perceber o que já houve neste ano (isso que estou escrevendo esta meditação na última semana de maio – até o dia 31 de dezembro falta ainda mais meio ano). Em seguida, enumero alguns fatos que, não raras vezes, são interpretados como “sinais dos tempos”. Começamos o ano com o maior desastre natural no Brasil, ocorrido nas cidades serranas do Rio de Janeiro. E isso se repetiu em inúmeras cidades brasileiras, que sofreram as consequências das cheias – cito como exemplo São Lourenço do Sul/RS. Em muitos lugares do mundo, esses fenômenos naturais se repetiram, trazendo perdas de vidas humanas, de bens materiais, trazendo sofrimento para muitas pessoas. Uma parte do Japão foi varrida por um tsunami que se espalhou por diversos países. Além das vidas e dos bens materiais perdidos, a tragédia expôs a vulnerabilidade da energia atômica e os riscos que ela representa para o mundo. Esse fato trouxe insegurança em muitos lugares do mundo, especialmente na Europa, onde essa forma de geração de energia é amplamente usada. Todos nós ficamos chocados e revoltados com o episódio do jovem que invadiu uma escola no Realengo/RJ, atirando contra os alunos, ferindo e matando muitos deles. Uma tragédia sem precedentes no Brasil. Episódios como esses mostram como a nossa sociedade doente produz pessoas cada vez mais doentes. A violência está instalada nas escolas, deixando inseguros profissionais da educação, pais e alunos. A guerra contra o terrorismo (ou seria entre terroristas?) teve um evento importante neste ano: a morte de Osama Bin Laden, procurado nos últimos dez anos. Muitos foram os casos de mães que abandonaram filhos em lixeiras e na rua. Ocorreram acidentes de trânsito de toda ordem. Nesta semana (final de maio), o noticiário dá conta de que ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, é investigado por enriquecimento ilícito (como estará o caso até dezembro?). Enfim, dá um peso no coração só de lembrar esses casos todos. Mas todos esses episódios retornam à mente na “retrospectiva do ano”, são relembrados e revividos, trazendo consigo o tema: “sinais dos tempos”. Temos diante de nós a oportunidade de olhar para todos esses eventos e colocá-los à luz da palavra bíblica numa reflexão teológica madura, enfocando as promessas bíblicas de uma “nova Jerusalém”. O mundo não está entregue ao poder do caos. Deus continua no comando da história. A comunidade de Filadélfia recebeu um elogio por manter-se firme na verdadeira fé, apesar de ser pequena e fraca. Nós também podemos e devemos espalhar sinais da “nova Jerusalém”, do reino entre nós. “Venho sem demora” (Ap 3.11). A parusia pertence a Deus. A ele pertence o kairós, o tempo oportuno. Especulações sobre o fim do mundo não cabem a nós.

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A Bíblia não quer ser um livro de cálculos matemáticos para especularmos sobre a parusia. O fundamental é que permaneçamos na fé em Cristo. Ninguém sabe o dia e a hora. Deus continua querendo nos guiar, assim como guiou o povo de Israel pelo deserto: de dia com uma coluna de nuvem e de noite com uma coluna de fogo (Êx 13.20-22, um dos textos de leitura). Apesar do clima de festa de fim de ano, as pessoas que vêm ao culto nesse dia querem ouvir uma mensagem de esperança para o novo ano que inicia. A igreja precisa, à luz do evangelho, despedi-las com esperança. Elas precisam sair do culto na certeza do amor de Deus, que em Cristo veio para ser o “Bom Pastor” (Jo 10.14-16, 27-29, o evangelho do dia). Cristo veio com o objetivo de unir todas as pessoas para tornar-se “um só rebanho com um só pastor” (Jo 10.16). As pessoas necessitam iniciar o ano de 2012 com a certeza de que “o poder que o meu Pai me deu é maior do que tudo, e ninguém pode arrancá-las [as ovelhas] da mão dele” (Jo 10.29).

4  Imagens para a prédica Diante do exposto, acredito que temos uma linha de reflexão definida. Temos a mensagem e a data na qual esse tema será tratado. Em seguida, sugiro alguns tópicos que podem auxiliar: – Considero importante fazer uma retrospectiva dos acontecimentos do ano (da forma como fiz até o mês de maio). Acontecimentos locais são necessários. – Fazer menção ao tema do fim do mundo em 21/12/2012. – A partir disso, entrar no texto do Apocalipse, fazendo a leitura e a interpretação do mesmo. – A Palavra precisa passar pelo centro da Bíblia – Jesus Cristo. Falar do evangelho do dia. A relação de cuidado que Deus assume com a humanidade em Jesus Cristo. – Falar do cuidado que Deus teve com o povo na saída do Egito. Deus caminha com o povo. Deus não se descuida de nós. – Todos os cuidados e eventos bons e importantes que tivemos ao longo do ano que termina (citar exemplos locais). – A história está nas mãos de Deus, e nessa certeza podemos iniciar e viver mais um ano na graça e na esperança. Levar a comunidade a olhar com esperança para o futuro. – Terminar com a mensagem descrita na “introdução” do presente estudo.

5  Subsídios litúrgicos O clima da celebração deve ser festivo. O início da pregação talvez seja um pouco pesado, mas o final da pregação deve dar o tom da esperança, da alegria em aguardar e viver em Cristo, no reino. As pessoas devem sair da celebração com a cabeça erguida, sabendo que se fala muito por aí sobre o fim do mundo, mas que em Cristo temos motivos para aguardar com alegria, colocando sinais do reino já aqui, agora e ao longo do novo ano. Esse deve ser o clima da liturgia.

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Na confissão de pecados e no Kyrie, poder-se-iam preparar imagens de acontecimentos do ano, momentos dos quais precisamos nos arrepender e pedir perdão. Igualmente se poderiam colocar nas mãos de Deus, em clamor, os eventos que provocaram dores. O Gloria in excelsis deve ser festivo. Também ali se podem usar imagens com as quais louvamos e glorificamos o nome de Deus “nas maiores alturas”. A Ceia deve ressaltar o sentimento de sair do culto renovado, perdoado dos pecados dos quais nos arrependemos e animados para viver mais um ano cheio de esperança. Temos um Deus que é Senhor da história. No fim, seremos recebidos para um banquete na presença do próprio Cristo no reino. Sugerimos distribuir um balão vazio para cada pessoa. Colocar dentro um bilhetinho contendo uma mensagem de esperança para o ano novo. Na parte final do culto, todos podem encher o seu balão e jogá-lo para o ar, de forma que cada qual pegue um balão que não seja o seu. Pedir para levá-lo para casa, ainda cheio. Antes de dormir (aos que vão dormir cedo) ou à meia-noite (para quem participar de alguma festa), estourar o balão e ler a mensagem em voz alta.

Bibliografia ELLUL, Jacques. Apocalipse – Arquitetura em Movimento. São Paulo: Edições Paulinas, 1980. MESTERS, Carlos. Esperança de um Povo que Luta: O Apocalipse de João, uma Chave de Leitura. São Paulo: Edições Paulus, 1983. WILCOCK, Michael. A Mensagem do Apocalipse. São Paulo: ABU Editora, 1986.

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PRÉDICA: NÚMEROS 6.22-27

ANO NOVO: NOME DE JESUS

LUCAS 2.15-21 FILIPENSES 2.5-11

01 JAN 2012

Haroldo Reimer

1  Introdução O ‘espírito’ da celebração neste domingo é o início de um novo ano. Há a coincidência do primeiro dia do novo ano cair justamente no domingo. As expectativas na celebração dominical haverão de ser diferenciadas. Muitas pessoas certamente vêm ainda ‘enlevadas’ com as comemorações da virada de ano. Como todo início de ciclo, o ano-novo gera nas pessoas a expectativa de um novo começo. Não raramente, as pessoas até fazem, ainda secretamente, juras e promessas referentes a atitudes e práticas no decorrer do ano que inicia. Certamente, a religiosidade popular, com suas várias facetas, tem suas influências no imaginário das pessoas. Como se trata de um momento de passagem, a invocação de uma bênção pode ser significativa. Por isso o culto deste dia, cuja celebração, em suas várias partes, estará permeada pelo tema da bênção, é (pode ser) um momento todo especial. Há nas pessoas uma receptividade maior para o tema e a realidade ou realização da bênção. Cabe lembrar que, em várias igrejas do universo neopentecostal, há ou havia a prática de oferecer uma bênção especial, muitas vezes em troca de donativos numericamente escalonados. Em tais igrejas, pode-se conseguir bênçãos até de ouro; para quem não tiver o devido recurso financeiro, uma bênção de lata também pode ser o suficiente. Trata-se claramente de uma teologia da prosperidade. Isso obviamente não seria de modo algum uma proposta para uma igreja cuja teologia está assentada na gratuidade da salvação por Deus mediante a fé em Cristo Jesus. Os textos de leitura de Lucas 2.15-21 e Filipenses 2.5-11 ajudam a prevenir ou corrigir qualquer ou uma eventual tentação no sentido de uma teologia da prosperidade. A bênção de Deus mantém-se também e especialmente no caminho do sofrimento, embora mais facilmente o bem-estar e a alegria sejam reconhecidos como sinais de bênção. As elaborações de Lutero sobre a bênção a partir do sub contrario são elucidativas.

2 Aspectos do texto O texto previsto para a pregação é por demais conhecido. Trata-se da bênção aarônica, pronunciada, salvo exceções, no final de cada culto evangélicoluterano. Isso é uma prática na tradição luterana desde os tempos da Reforma. Já

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em 1523, em sua Formula Missae, Lutero indicou o texto de Números 6.24-26 ao lado do Salmo 67.7s como texto de bênção final do culto. No texto “A missa alemã e a ordem do culto”, de 1526, consta, então, somente a indicação do texto da bênção aarônica para esse momento litúrgico no final da celebração dominical. A interpretação de Lutero a esse texto de bênção é trinitária. Ele viu a ação criadora do Pai no v. 24, entendendo que todas as dádivas recebidas são dádivas da criação ordenada e sustentada pelo Criador. Nesse sentido, haveria sintonia com a petição pelo pão de cada dia expressa no Pai-nosso. No v. 25, Lutero vê expressa a ação redentora como ação do Filho, estando aí presente a dimensão da graça da obra reconciliadora de Deus em Cristo. O perdão dos pecados constitui a base de vida quando a pessoa volta a viver com alegria, bem-estar e paz. Em último caso, esse versículo estaria indicando para a bênção por meio do evangelho. A luz graciosa de Deus é a Palavra, o evangelho encarnado em Cristo. O v. 26, segundo Lutero, teria implícita uma perspectiva escatológica e também pneumatológica, na medida em que a paz estaria indicando para o descanso definitivo da pessoa em Deus por meio da ação do Espírito. Essa bênção que invoca a paz dirige-se para dentro de situações no mundo e no dia a dia em que as pessoas efetivamente não vivem em paz, mas são atribuladas por guerras, conflitos e tensões de todo tipo. Em meio a tais situações, a força vivificadora da bênção refaz as energias e capacita as pessoas para a resistência, tendo a paz definitiva como elemento norteador e significador da caminhada. Nessa interpretação de Lutero, a bênção somente pode ser recebida como elemento de graça e dom; ninguém pode construir por si só as bases da bênção. Contudo, a recepção da bênção não isenta da responsabilidade por sua manutenção e por sua ação continuada na história. Nesse sentido, a receptividade por parte das pessoas está vinculada à ulterior atividade humana na força empoderadora da bênção e dos dons do Espírito. Em Lutero, pois, o texto de Números 6.21-27 recebe uma interpretação trinitária. Isso, sem dúvida alguma, constitui algo legítimo a partir de uma perspectiva cristã, mas não faz jus ao texto em sua base hebraica monoteísta. Na arquitetura da Torá ou Pentateuco, o texto de Números 6.21-27 está inserido na parte final da permanência do povo hebreu junto ao Sinai. Após a saída ou libertação do Egito (Êx 1.1-15.21), o povo inicia sua primeira peregrinação pelo deserto (Êx 15.22-18.27), chegando ao monte Sinai. Nesse lugar mítico de localização geográfica, discutido até o século IV da era cristã, quando foi localizado na atual Península do Sinai, no Egito, Deus realiza a dádiva da Torá. Em termos literários, em perspectiva sincrônica, nesse lugar ermo do deserto é alocada a recepção de todas as leis fundamentais do povo de Israel. Em termos históricos, as mais diversas leis e códigos de leis surgidas ao longo da trajetória do povo hebreu recebem um lugar mítico autoritário de origem. O próprio Deus é afirmado como o autor e doador das leis, das quais se sabe terem surgido historicamente. Um dos blocos da “perícope do Sinai” (Êx 19-Nm 10) é o conjunto de normas relativas à tenda da congregação, nome mítico do templo, bem como ao sacerdócio levita ou aarônico escolhido para oficiar nele os cultos (Êx 25-Nm 10). Há todo um conjunto de tais normas, incluindo regras práticas sobre procedimentos dos sacerdotes. O texto de Números 6.21-27 insere-se no conjunto, ou-

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torgando aos sacerdotes da linhagem aarônica a primazia da invocação da bênção como um ato litúrgico relevante na vida religiosa. Por isso o texto faz jus ao título de “bênção sacerdotal”. “Bênção é a afirmação da plenitude das forças divinas por meio de palavras, abarcando também um empoderamento abrangente rumo à plenitude de vida” (Häusl; Ostmeyer, p. 515). Com tal afirmação se está diante de uma ação em geral litúrgica, que faz circular um bem simbólico: a presença benéfica do próprio Deus. Bênção evidencia proximidade com seu contrário, a maldição, que biblicamente consiste na diminuição da qualidade de vida. A bênção está inserida numa lógica de circulação, não sendo ato ou ação unilateral. Abraão é abençoado e deve ser uma bênção (Gn 12.2s; Gl 3.8s). Os termos derivados do hebraico barak ou do grego eulogeo expressam essa circularidade da bênção. Embora o termo grego seja comumente traduzido por “bendizer”, semanticamente os dois termos são similares. Tanto Deus como as pessoas podem ser sujeitos ou objetos da ação de abençoar. As pessoas podem abençoarse mutuamente (Lc 1.42; Rm 12.14). Deus pode abençoar as pessoas (Gl 3.9; Ef 1.3; Hb 6.14). Mas as pessoas também podem abençoar a Deus (Sl 18.47; 145.1,2,10,21; Lc 1.64; 2.28; Ef 1.3). A bênção ou o ser abençoado não se restringem somente a Deus ou às pessoas. Também animais podem ser abençoados (Gn 1.22). Em Gênesis 2.3, Deus abençoa o tempo especial do descanso sabático. Em Deuteronômio 28.4-5, a própria terra e a fertilidade do solo e dos ventres são abençoados, bem como também instrumentos de trabalho utilizados para os afazeres no dia a dia. Em 1 Coríntios 10.16, são abençoados o cálice da bênção bem como o pão da partilha. Algo similar ocorre em Mateus 14.19par, onde se relata que os pães oferecidos são abençoados, sendo os mesmos uma grande bênção para a multidão faminta. Assim se manifesta uma vez a dimensão da circularidade, da reciprocidade e da relacionalidade da bênção. Bênção é um ato locucional; é performativo. É fala, mas em geral se conecta com gestualidades. A imposição das mãos ou o levantar dos braços podem fazer parte da ação performativa (Gn 27; 48.14; Lv 9.22). Em Marcos 10.16, Jesus coloca a mão sobre as crianças e as abençoa; também o olhar para o alto (céu) faz parte dessa ritualidade (Mc 6.41par.). Também em sua despedida, Jesus abençoa os discípulos, erguendo as suas mãos sobre eles (Lc 24.50). Na ação performativa, articula-se o poder relacional. A fala põe em movimento a energia cósmica, divina, humana, produzindo seus resultados. Ou: a fala da bênção interfere no psiquismo, produzindo deslocamentos na percepção e colocando em movimento forças presentes somente em estado potencial. Bênção é em si um ato mágico. O teor das palavras deve ser claramente inteligível (cf. 1Co 14.16). Os participantes da bênção devem poder participar conscientemente da relacionalidade da bênção.

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3  Meditação Na Bíblia, existem diversas concepções de bênção. A concepção mais arraigada é a bênção como decorrência de retribuição. No esquema retributivo, a ação da pessoa é fundamental para a decorrente reação ou resposta. O Salmo 1 é um dos textos mais emblemáticos nesse sentido. Lá não se utiliza a raiz verbal barak, mas a raiz asher = bem-aventurado. As diferenças semânticas não são grandes, prevalecendo a sinonímia quanto ao sentido básico. A pessoa que segue determinadas prescrições (não andar nos conselhos do ímpios, não se deter no caminho dos pecadores, não se assentar na roda dos escarnecedores) fundamentalmente pautadas na Torá, a vontade de Deus expressa em texto, tem a promessa da bem-aventurança, o que significa bem-estar em seu viver e futuridade. Os ímpios, que não têm essa práxis, serão espalhados ao vento. Tanto uma como a outra resposta advêm da ação do sujeito. Esse modo de pensamento atravessa praticamente toda a Bíblia, sendo rompido em alguns momentos. A concepção mais elaborada encontra-se no livro de Deuteronômio, marcando, por assim dizer, o núcleo da teologia deuteronômica. Em sua “Teologia do Antigo Testamento”, o exegeta alemão Gerhard von Rad afirma que o Deuteronômio tem a concepção de bênção mais trabalhada em todo o Antigo Testamento. Haveria aí algo como um “materialismo da salvação” (= Heilsmaterialismus), que dificilmente pode ser suplantado, pois ele se estende “até as vasilhas dentro de cada unidade doméstica”. Com essa afirmação G. von Rad referia-se à inter-relação entre bênção e prática das leis sociais e também ao texto de Deuteronômio 28.3-6, que, de certa forma, resume a ideia principal de bênção no pensamento deuteronômico. 3 Abençoado serás tu na cidade e abençoado serás no campo. 4 Abençoado será o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas. 5 Abençoado será o teu cesto e a tua amassadeira. 6 Abençoado serás ao entrares e abençoado serás ao saíres. Essa concepção de bênção, que desce ao nível das coisas do cotidiano, é afirmada como consequência da opção (correta) pela prática das “leis” propostas no código deuteronômico. O texto acima faz uma espécie de fechamento adicional ou posterior daquilo que é a ideia principal no código central (Dt 12-26 ou 5-26). De qualquer forma, logo fica evidente que, para os autores deuteronômicos, a bênção divina é algo que se concretiza no dia a dia. Bênção é algo palpável e capaz de dar sentido ao cotidiano da vida e das relações. Em termos concretos, é a posse tranquila da terra, a possibilidade de usufruir dos frutos da roça e dos animais, bem como do trabalho. Bênção é ter em casa as vasilhas e os instrumentos para preparar a comida. Tudo isso é pensado como algo que provém da mão provedora de Deus. No bojo do pensamento deuteronômico, esses benefícios cotidianos são vistos como consequência da relação de aliança entre Deus e seu povo

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escolhido. A base para esse viver, contudo, é a doação ou o amor incondicional de Deus por aqueles que ele escolhe. Esse é o ponto primeiro. É o fundamento da relação. Com isso, os autores deuteronômicos compartilham uma ideia mais antiga, presente na tradição sapiencial antiga de Israel, de que o bem-estar não pode ser construído por mão humana nem adquirido numa relação de troca, mas depende da boa vontade de Deus (Pr 10.22; Sl 127). A manutenção da bênção doada por Deus, porém, depende do agir humano, ou melhor, da resposta que as pessoas dão às propostas de vida oferecidas por Deus. Assim, no pensamento deuteronômico, há um entrelaçamento entre doação incondicional, por parte de Deus, que é a base ou o fundamento da relação, e manutenção condicionada, que é a consequência, cuja realização cabe aos destinatários, isto é, às pessoas. Assim, na concepção deuteronomista, receber a bênção de Deus é algo incondicional, depende do agir soberano de Deus; manter a bênção está condicionado pelo agir humano, sobretudo por meio da prática da solidariedade ou da inclusão das pessoas (ainda) desfavorecidas na rede social. No livro de Deuteronômio, há uma fórmula muito interessante que, com pequenas variantes, repete-se sete vezes ao longo dos capítulos. Pela primeira vez, essa fórmula encontra-se em Deuteronômio 14.29, justamente no final das disposições deuteronômicas sobre os dízimos. Ali se pode ler: “para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em todas as obras das tuas mãos”. De uma forma um pouco diferente, essa fórmula encontra-se também nos seguintes textos: Deuteronômio 15.6; 15.10; 15.18; 16.15; 23.20 e 24.19. Olhando essas passagens no seu conjunto, percebe-se de imediato que a referida fórmula invariavelmente aparece no final de alguma disposição legal que propõe a partilha e a solidariedade com as personae miserae, isto é, com os pobres, no conjunto ou com alguma dessas categorias em particular. A manutenção da bênção divina, já dada e já recebida com a dádiva da terra e com a colheita dos frutos da terra e dos animais, é condicionada pelo compartilhar dos frutos concretos da bênção divina. Em todos esses textos acima referidos aparece sempre a vinculação entre a bênção incondicional de Deus e a bênção condicionada para Israel ou para as pessoas. A bênção incondicional foi e é conferida por Deus a Israel no êxodo, na posse da terra, na colheita dos frutos e no viver digno na liberdade. A bênção recebida como dom e dádiva deverá ser mantida por meio da prática da solidariedade. As duas coisas estão teológica e socialmente vinculadas. Elas não podem e não devem ser dissociadas. Poderíamos tentar resumir esses textos e essas propostas dizendo que a solidariedade é condição para manter a bênção incondicional dada por Deus. O Deuteronômio insiste na leitura e na observância das leis propostas nesse código ou livro. O meditar na Torá de dia e de noite expressa essa intenção (Dt 4; 11; Sl 1). Solidariedade como condicionalidade da bênção de Deus, porém, não deve ser confundida com mera observância da lei nem com legalismo. Solidariedade, no fundo, é impulso do coração. Vem das entranhas. Solidariedade tem sua origem no âmago do ser. É expressão profunda do Espírito do amor de Deus em nós. Mas a prática da solidariedade também precisa ser aprendida socialmente. Nesse sentido, um dos grandes méritos do Deuteronômio é haver

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incluído a prática da solidariedade em seu projeto pedagógico, isto é, essa prática é recomendada cada vez que o livro ou partes dele são lidas publicamente. Mesmo com as reservas que se possa ter à concepção teológica deuteronômica, temos nessa parte da Bíblia um modelo de resistência em face de processos de exclusão. A hesed ou fidelidade de Deus convoca para práticas de inclusão dentro da rede de solidariedade. Essa proposta da teologia deuteronômica é interessante. Ela procura inserir a pessoa dentro de uma economia de trocas. A bênção, enquanto dimensão simbólica que se torna palpável no bem-estar, deve ser passada adiante na forma de ações, práticas ou obras que visam à integração ou à reintegração das pessoas na rede social. O cuidado de Deus é afirmado como vigilância e zelo pelos mais empobrecidos na sociedade. De certa forma, essa concepção deuteronômica da bênção tem continuidade no Novo Testamento. Há, porém, ressignificações profundas. A libertação da escravidão e a posse mansa e tranquila da terra com usufruto de seus frutos é superada pelo evento de Cristo na cruz e na ressurreição. Aí está o fundamento da gratuidade. Em Cristo, Deus concede a sua graça de forma abundante, promovendo a justificação (Rm 3.9s.). Por fé, as pessoas podem aderir a essa oferta da graça, a essa proposta de vida em gratuidade. Isso se converte em possibilidade de recepção e usufruto da bênção. Contudo, a adesão a essa oferta da graça, por fé, não isenta e não pode isentar a pessoa (crente) de sua responsabilidade social. Receber a bênção em Cristo abre caminho para a continuidade, para a entrega, enfim, para a missão. E missão, nesse sentido neotestamentário, significa a proclamação de nova possibilidade de vida, implicando a inclusão de pessoas marginalizadas e oprimidas para dentro da lógica da graça, da gratuidade e da bênção. Nesse sentido, a resposta à gratuidade primeira de Deus assume traços de uma mística de ações, de feitos, de obras, de missão, superando as assimetrias em termos de raça, de classe e gênero (Gl 3.28).

4  Imagens para a prédica Para a pregação, sugiro a apresentação do esquema teológico deuteronômico e seu desdobramento neotestamentário. Pretende-se que o novo ano seja repleto de bênçãos, levando a vida a um bem-estar em todos os sentidos, também material. Essa bem-aventurança, contudo, deve ser ampliada por meio das pessoas atingidas pela graça. A fé e a graça não podem se satisfazer em si mesmas, sem a relacionalidade com as pessoas desassistidas e marginalizadas. Participar da bênção não leva somente ao caminho da prosperidade, mas passa pelo caminho da cruz. Deus, elegendo o caminho sub contrario, busca subverter a lógica excludente. A comunidade das pessoas de fé e de boa vontade é instrumento importante para tal propósito. A bem-aventurança passa pelo caminho da tribulação e também do sofrimento (Mt 5).

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Subsídios litúrgicos

Frases: “O bom da busca da bênção é a bênção da busca.” (Israel Belo de Azevedo) “… a bênção inclui a cruz, e a cruz inclui a bênção.” (Dietrich Bonhoeffer, Cartas da Prisão) “Nossas verdadeiras bênçãos aparecem para nós em forma de dores, perdas e decepções; mas tenhamos paciência, e logo devemos vê-las em suas próprias figuras.” (Joseph Addison) Bênção de Tomás de Aquino: Que o Deus de toda graça vos conceda Uma inteligência que o conheça; Uma angústia que o procure; Uma sabedoria que o encontre; Uma vida que o agrade; Uma perseverança que, enfim, o possua. E a bênção do Deus Pai, Filho e Espírito Santo Permaneça sobre vós agora e sempre. Amém. Bênção Irlandesa: ... que o caminho seja brando a teus pés, o vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre a tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que eu de novo te veja, que Deus te guarde na palma de sua mão. Bênção alternada: Ministro: Deus Pai, vivemos nesta terra aqui e agora. Bendize-nos. Todos: Tu nos enviaste a este mundo. Guarda-nos. Ministro: Tu nos dás tarefas. Que o teu rosto resplandeça sobre nós. Todos: Muitas vezes falhamos. Sê misericordioso. Ministro: Muitas vezes nos sentimos sós. Volta teu rosto para nós. Todos: Concede-nos paz e faz-nos capaz de viver a paz no mundo. Amém.

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Bibliografia FRETTLÖH, Magdalene L. Theologie des Segens. Biblische und dogmatische Wahrnehmungen. 2. ed. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 1998. HÄUSL, Maria; OSTMEYER, Karl-Heinrich. Segen / Fluch. In: CRÜSEMANN, Frank et al. Sozialgeschichtliches Wörterbuch zur Bibel. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 2009. p. 515-518.

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PRÉDICA: LUCAS 2.22-40

1o DOMINGO APÓS NATAL

ISAÍAS 61.10-62.3 GÁLATAS 4.4-7

01 JAN 2012

Ana Isa dos Reis

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Introdução

Com o Advento, inicia-se o tempo do Natal. Durante essa época, acompanhamos textos que nos falam da promessa do Messias, de seu nascimento, da infância de Jesus e de sua vocação messiânica, descrita desde o Antigo Testamento. Neste ano, o 1º Domingo após Natal coincide com o Ano Novo, data da chamada Confraternização Universal.

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Exegese

2.1 – Autor e estrutura do evangelho As autorias do Evangelho de Lucas e do livro de Atos dos Apóstolos são atribuídas pela tradição da igreja ao médico chamado Lucas, companheiro de Paulo em suas viagens missionárias (Fm 24; Cl 4.14; 2Tm 4.11). Lucas não é uma testemunha ocular dos acontecimentos que narra, mas um cristão grego culto que dá o seu testemunho de fé a uma comunidade cristã não judaica. Seu evangelho está baseado em Marcos e na fonte Q, porém apresenta material próprio, sendo que quase a metade do evangelho é material exclusivo dele. Na estrutura do evangelho, destacam-se os seguintes blocos: narrativas iniciais e preparação (1.1-4.13), atuação de Jesus na Galileia (4.14-9.50), relato de viagem a Jerusalém (9.51-19.27), atuação de Jesus em Jerusalém (19.28-21.38), paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus (22.1-24.53). 2.2 – Observações exegéticas acerca dos versículos da perícope Antes de auscultarmos os versículos da perícope, julgo importante partilhar uma observação feita pelo autor José Antonio Pagola, que, apoiado em especialistas e pesquisadores sobre Jesus, lembra que, quanto aos relatos do nascimento e da infância de Jesus, “a análise dos procedimentos literários utilizados mostra que, mais do que relatos de caráter biográfico, são composições cristãs elaboradas à luz da fé em Cristo ressuscitado. Aproximam-se muito de um gênero literário chamado midrash hagádico, que descreve o nascimento de Jesus à luz de fatos, personagens ou textos do Antigo Testamento. Não foram redigidos para informar sobre os fatos ocorridos (provavelmente pouco se sabia), e sim para proclamar a Boa Notícia de que Jesus é o Messias davídico esperado em Israel e

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o Filho de Deus nascido para salvar a humanidade” (p. 61). Os relatos contidos na perícope em questão têm a intenção de lembrar que Jesus, assim como todo judeu, cumpriu a lei e, mais tarde, ressignificou-a a partir do amor. V. 22a – A purificação dizia respeito à mãe, apesar do versículo trazer o pronome plural deles. Após o parto, a mulher ficava cerimonialmente impura durante 40 dias, se fosse um filho, ou 80 dias, se fosse uma filha. O texto de Levítico 12.1-5 servia de orientação para a prática de purificação após o parto. V. 22b e 23 – Descrevem a apresentação de Jesus no templo em conformidade com Êxodo 13.2, que fala da consagração dos primogênitos (masculinos). V. 24 – Após o tempo de purificação, a mãe deveria oferecer um sacrifício para o perdão dos pecados, para que ficasse cerimonialmente pura. Levítico 12.6-8 traz a orientação para essas ofertas. A situação financeira da família de Jesus transparece neste versículo. As famílias ricas deveriam oferecer um cordeiro. Contudo, se a condição financeira não o permitisse, poderia ser oferecido um par de rolas ou dois pombinhos. Era a oferta dos pobres, oferta feita por Maria. Existia ainda uma outra categoria: a dos miseráveis, se é que poderíamos chamá-la assim. Para esses pobres dos pobres, Levítico 5.11 previa a oferta de uma porção de farinha de trigo. V. 25 – Simeão era um nome bem comum naquele tempo. Não temos muitas informações sobre ele. Algumas lendas surgiram em torno de Simeão; no entanto, não há informações sólidas que esclareçam sua identidade. Lucas apenas se preocupou em descrevê-lo como sendo um homem justo e piedoso e que esperava pela consolação, pela salvação de Israel. Os v. 27b e 28a, segundo alguns, poderiam indicar que Simeão fosse um sacerdote ou que tivesse agido como substituto do sacerdote. Contudo, são apenas especulações. V. 26 e 27 – Apesar de não termos informações detalhadas de quem era Simeão, Lucas faz questão de dizer que o Espírito Santo estava com ele e que ele teria a felicidade de ver o Messias antes de morrer. Isso não significa que Simeão tivera revelações quanto ao nascimento de Jesus, e sim que se deixava orientar pela ação de Deus em sua vida por meio do Espírito Santo. Certamente a ação de Deus também o ajudou a perceber que aquela criança era o Messias esperado. Lange diz que Simeão, no sentido mais nobre do termo, é o eterno judeu do Antigo Pacto, que não pode morrer antes de ter visto o Messias prometido. O termo usado aqui é Cristo do Senhor, um título judaico, anterior ao cristianismo, que significa Messias de Deus, isto é, o ungido de Deus. V. 28 a 32 – Simeão toma Jesus nos braços e, movido por uma alegria efusiva, louva a Deus. O que e como Simeão fez para tomar Jesus nos braços não nos é dito no evangelho. Se Simeão fosse sacerdote, como algumas lendas dizem, isso seria explicado por meio do rito de apresentação de Jesus no templo. Contudo, sem informações precisas sobre sua profissão, poderíamos pensar que Simeão, ao cruzar com Maria e José, guiado pelo Espírito Santo, fora levado a reconhecer o Cristo do Senhor e, assim, envolvido por aquele momento tão esperado, toma o bebê no colo. O cântico de Simeão, na expressão latina, inicia com Nunc dimittis, isto é, agora despede. Esse cântico era usado na liturgia cristã no princípio do séc. V d.C. O objetivo desse cântico é expressar a universalidade da mensagem

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do evangelho. Interessante é que Simeão, ao falar despede – dimittis – não usa a palavra kyrios para Senhor, e sim despota, como um senhor de escravos que dá a liberdade a um escravo. A expressão os olhos viram a salvação não indica uma salvação abstrata, mas se refere ao menino como sendo a salvação. Isso fica evidente a partir do vocábulo soterion, um substantivo neutro, que provavelmente indica aquilo que traz a salvação, o agente ou instrumento da salvação, em referência, certamente, à criança. Em seu cântico, Simeão mostra o que o Messias significaria: aos gentios, a luz, e aos judeus, a glória. Apesar dessa divisão, a salvação que o Messias trará é para todos os povos. V. 33 – Alguns autores mencionam discrepâncias em alguns manuscritos, visto que falam em José ao invés de pai. No entanto, é certo que o original menciona pai, referindo-se a José. V. 34 e 35 – Simeão, citando certamente fontes conhecidas do Antigo Testamento que falavam sobre o Messias e seu destino, lembra que, para alguns, essa criança será realidade de salvação e, para outros, de perdição e ódio. Afinal, para os que creem será a revelação de Deus e a salvação do povo, mas para os que não creem será apenas um embaraço, um impostor que deve morrer. No v. 35, Simeão fala diretamente a Maria, dizendo que ela sofrerá muito ao ver o que acontecerá com esta criança: o Messias Jesus. Alguns exegetas dizem que a referência apenas a Maria dá-se pelo fato de que somente ela seria testemunha ocular dos sofrimentos de seu filho. Muitos suspeitam de que José tivesse falecido antes do início do ministério público de Jesus. V. 36 e 37 – Além de Simeão, o bebê Jesus também fora reconhecido por Ana como o Messias. Se sobre Simeão se sabe pouco, sobre Ana temos mais informações. Lucas registra dados biográficos sobre ela: a) filha de Fanuel: esse é o mesmo nome do fundador da Escola dos Profetas; o que não quer dizer que esse Fanuel, pai de Ana, seja a mesma pessoa, mas existem suspeitas; b) da tribo de Aser: uma das doze tribos de Israel e que tinha a Galileia como território-sede; c) era viúva: o nome de seu esposo não é mencionado, apenas o nome de seu pai; ela estivera casada apenas sete anos quando seu marido morreu; Ana não voltou a casar-se mais; d) dedicava-se inteiramente à oração e às atividades no templo em adoração ao Senhor; e) tinha 84 anos: alguns intérpretes dizem que essa seria sua idade na época em que conhecera Jesus e outros dizem que seria o tempo de viuvez e não sua idade cronológica; f) era profetisa: não se trazem mais informações sobre sua atuação, mas fica um tanto evidente que ela fazia declarações eloquentes ou possuía o dom profético. Existem especulações de que essa mulher teria criado Maria, que ela teria vivido até 105 anos e poderia ser uma funcionária que residia no templo de Jerusalém. V. 38 – O texto diz que Ana chegou no momento em que Jesus fora apresentado ou em que estava nos braços de Simeão. Certamente Ana conhecia Simeão e, pela expressão de seu rosto, reconheceu que algo muito especial estava acontecendo. Ao perceber que se tratava do Messias, imediatamente Ana louva a Deus e testemunha, falando aos outros sobre aquele menino, o Cristo, que tantos aguardavam.

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V. 39 e 40 – Lucas registra a piedade dos pais de Jesus, relatando que José e Maria cumpriram tudo o que a lei prescrevia no tocante ao nascimento de uma criança, especialmente do primogênito. Depois de cumprida a lei, os pais e o bebê Jesus retornam para casa em Nazaré. Lucas traz uma espécie de sumário do nascimento e da infância de Jesus. Menciona a humanidade de Jesus ao dizer que ele crescia, tornava-se forte e sábio e era abençoado por Deus. O Jesus divino e o Jesus humano mesclam-se na descrição de Lucas, lembrando-nos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro ser humano.

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Meditação

Depois de recontarmos o nascimento de Jesus e nos emocionarmos na noite da véspera do Natal e no dia do Natal, temos a oportunidade de recontar um pouco a infância de Jesus. Quem de nós não se lembra de sua infância e da infância dos filhos? Ao seguir a lei, José e Maria também expressaram sua fé. Rigorosamente trouxeram Jesus, mesmo bebê, ao templo e cumpriram os rituais prescritos. Quantas vezes não deixamos de trazer nossos filhos à casa de Deus, justificando que são bebês, que incomodam, que o culto é muito cedo ou muito tarde? Mesmo simples, humildes e pobres, os pais de Jesus não deixaram de ofertar, claro que em cumprimento à lei. Sabemos, no entanto, que Jesus questionou muitas vezes os abusos cometidos pelo templo. Mas gostaria de olhar em um outro sentido: a oferta não como obrigação ou cumprimento de leis, mas como gratidão. Somos convidados a exercitar nossa gratidão e essa se transformar do sentimento à ação de ofertar. Maria e José certamente também agradeciam pelo filho que, apesar do nascimento inusitado e em condições tão diferentes e carentes, está bem, e eles desejam que esse menino cresça também na fé. Na sociedade em que vivemos, somos desafiados a nos recordar de que “tudo o que temos vem do Senhor” (1Cr 14) e, justamente por isso, ser agradecidos, doando um pouco do muito que temos recebido em prol da vida. A infância de Jesus lembra-nos de sua condição: verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Na história da cristandade, alguns, especialmente os docetistas, procuraram arrancar a humanidade de Jesus, afirmando que Jesus era homem somente na aparência. Retirar a humanidade de Jesus significa trair o evangelho. Justamente Lucas aponta a humanidade e a divindade de Jesus lado a lado, inspirando-nos a crescer não só em força, mas também em sabedoria, deixandonos orientar por Deus. Essa orientação Lucas transcreve também por intermédio de Simeão e Ana. Pessoas simples, com seus problemas e dificuldades, mas que se sabiam criaturas, vasos nas mãos do oleiro, deixando que esse os conduzisse. Pensando em nossa vida: quantas vezes não quero eu mesma dirigir a minha vida? Quantas vezes não afogo a voz que ecoa dentro de mim justamente por ela me levar para lá onde eu não espero? Quantas vezes minha incredulidade abafa a voz do Espírito Santo por achar que Deus não fala mais hoje, muito menos comigo? Ou espero apenas uma revelação cheia de show, de cor e imagem? A revelação do Espírito de Deus

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acontece de forma simples. Foi assim com Simeão e Ana. E veio da forma como eles, quem sabe, nem esperavam. Quem esperaria um Messias bebê? Poderia existir um Messias tão frágil quanto esse revelado na criança Jesus? E, mesmo assim, contra todas as aparências, Simeão e Ana, que se deixavam orientar pelo Espírito de Deus, reconhecem no inesperado o Messias, o Salvador. Somos capazes de perceber a revelação de Deus em nossa vida ainda hoje? E reconhecemos o Messias? O templo foi lugar de revelação da graça e salvação de Deus a Simeão e Ana. A igreja ainda hoje continua a ser esse lugar de revelação de Cristo. Desse Jesus que se revela na pregação da palavra, na administração dos sacramentos, nos empobrecidos e necessitados de hoje (continua valendo a palavra de Jesus relatada em Mateus 25.31ss). Às vezes, meus olhos parecem fechados. Não enxergam mais a graça de Deus, que vem embrulhada de forma tão inesperada como foi com Jesus de Nazaré. Diante dos olhos, temos uma agenda cheia, um jornal cheio de notícias, um mundo carregado de possibilidades, família, comunidade e nós mesmos. E um ano cheio, com 366 dias pela frente. Quantos enchem o primeiro dia do ano com promessas e mais promessas e esperam o milagre sem nenhum esforço próprio? Quantos não conseguem mais enxergar a graça de Deus a cada novo dia? E pensando em projetos e promessas: quem sabe poderíamos nos inspirar em Simeão? Desejou ver o Messias antes de morrer. O que nós sonhamos? O sonho de Simeão ainda pode ser o nosso sonho, se entendemos que Cristo permanece entre nós da mesma forma inesperada e inusitada como foi no tempo de Simeão e Ana. E ainda hoje poderemos ter a graça de ter nossos olhos abertos e de reconhecê-lo na vivência da fé comunitária. E também hoje somos desafiados a confiar que Ele voltará, alertas em vigília e cheios de trabalho, servindo na seara do Senhor. E o que temos feito ao reconhecer Jesus? Nós o tomamos no colo e louvamos a Deus? Testemunhamos seu evangelho? Deixamo-nos transformar pela mensagem do Natal? Ou já apagamos tudo, abrimos todos os presentes, viramos a página e entramos no mesmo mundo duro que, por momentos, estava cheio da luz do menino Jesus?

4  Imagem para a prédica Uma caixa de presente poderia ser usada como recurso para a pregação. Ainda estamos envoltos com os presentes dados e recebidos no Natal. O maior presente, no entanto, recebemos de Deus: Jesus. Esse presente muda nossa vida. Diariamente, Deus nos presenteia. E sempre de novo nos quer guiar, por meio de seu Espírito Santo, conduzindo-nos à vivência comunitária, a encontrar Jesus e levar-nos ao testemunho do evangelho. Simeão e Ana ganharam esse presente num dia em que, talvez, nem esperavam que algo tão diferente acontecesse. E o presente mudou suas vidas. Que neste novo ano o Espírito de Deus também guie a nossa vida, levenos ao convívio em nossas comunidades de fé e ao testemunho do evangelho de Cristo!

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5  Subsídios litúrgicos Recepção: uma equipe pode estar à porta recebendo as pessoas que chegam para a celebração. Confissão de pecados (que se tenha um momento de silêncio para a confissão individual, e depois o/a liturgo/a dirige a confissão comunitária): L: Bondoso Deus, confessamos que somos pessoas pecadoras e que carecemos de teu perdão. Confessamos que nem sempre participamos ativamente da vida comunitária. Tantas vezes colocamos outras coisas como prioridade em nossas vidas e acabamos até por nos afastar de ti, Senhor. Perdoa-nos quando não nos deixamos guiar pelo Espírito Santo, querendo traçar nossos próprios caminhos. Confessamos, Senhor, que nem sempre acolhemos Jesus como o presente que nos tens dado. Tantas vezes ele está entre nós e não o reconhecemos ou não o queremos reconhecer. Perdoa-nos quando não aceitamos tua forma inusitada e inesperada de nos revelar teu amor. Perdoa-nos quando somos tão tímidos no testemunho do evangelho de Jesus. Perdoa-nos quando somos tão pouco agradecidos, esquecendo de te agradecer por tudo o que temos e somos. Perdoa quando nossa gratidão não se torna concreta e visível e nem nos dispomos a doar com gratidão e alegria um pouco do mundo que temos recebido de tuas graciosas mãos. Tu nos conheces, Senhor, e sabes tudo o que pesa em nós. Livra-nos de nossos pecados e guia nossa vida. Por Jesus Cristo, o Messias, nosso Salvador. Amém. Anúncio da graça: L: Antes de tudo e de todos está o amor de Deus. Em sua misericórdia, Deus ouve nossa confissão sincera, perdoa nossos pecados e chama-nos a andar em novidade de vida. Por Jesus Cristo. Amém. Oração do dia: Misericordioso Deus, agradecemos-te pelo presente que partilhas conosco: Jesus. Rogamos que teu Espírito Santo guie nossos passos, levando-nos à vivência comunitária da fé e a reconhecer Jesus. Dá que a alegria pelo encontro com o Messias nos desperte ao testemunho, ao louvor a ti, Senhor, e a ofertemos com gratidão e alegria. Abre nossos ouvidos, mente e coração, a fim de compreendermos tua Palavra e nos deixarmos transformar por tua ação misericordiosa. Por Jesus Cristo, o Deus Menino, o Messias esperado, nosso Salvador. Amém. Cântico de Simeão: Esse cântico está previsto para a celebração da noite. Contudo, como o Cântico de Simeão faz parte da pregação, sugiro que o mesmo não seja omitido. Caso não se saiba cantá-lo, é possível recitá-lo. Se a celebração for à noite, o Cântico de Simeão poderia abrir a oração geral da igreja. Se a celebração for de manhã, o Cântico de Simeão poderia ser cantado ou recitado na proclamação do evangelho. Ao invés da leitura do trecho do Cântico de Simeão, o mesmo poderia

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contar com a participação da comunidade, cantando-o ou recitando-o. Depois, o/a liturgo/a segue a leitura do evangelho. O Cântico de Simeão pode ser encontrado com partitura no CPD – Celebrações do Povo de Deus, p. 48-49. A sugestão é que seja cantado ou recitado, dividindo a comunidade em dois grupos. Antífona: Salva-nos, Senhor, quando velamos, e guarda-nos quando dormimos, para estar vigilantes com Cristo e descansar em paz. Aleluia. 1. Agora, Senhor, segundo a tua palavra, deixarás ir em paz o teu servo, 2. porque meus olhos viram a salvação que ofereceste a todos os povos, 1. luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo. 2. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo; como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1986. COMISSÃO de Liturgia da IECLB. Celebrações do Povo de Deus (CPD). São Leopoldo: Sinodal, 1991. EST/Depto. Bíblico. Roteiro para a Leitura da Bíblia. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1996. p. 92-93. PAGOLA, José Antonio. Jesus – aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010.

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PRÉDICA: MATEUS 12.14-21

EPIFANIA DE NOSSO SENHOR

ISAÍAS 52.7-10 COLOSSENSES 1.24-27

06 JAN 2012

Emilio Voigt

1  Introdução No tempo da Epifania, a igreja celebra a manifestação de Deus no mundo por intermédio de Jesus Cristo. A narrativa da visita dos magos do Oriente (Mt 2.1-12) é a perícope mais conhecida e utilizada nessa época. A referência aos magos indica que a revelação em Cristo alcança toda a humanidade. Também Mateus 12.14-21 testemunha a universalidade da ação salvífica de Deus ao mencionar o anúncio do direito aos gentios. A perícope está em estreita ligação com o evento do batismo de Jesus (Mt 3.17). Nos dois casos, a revelação do filho/servo é obra de Deus. O texto de leitura do Antigo Testamento traz uma boa notícia ao povo no exílio: Deus reina e está retornando a Sião (Jerusalém). O profeta anuncia que Deus redime seu povo e mostra seu poder às nações. Todos os confins da terra verão a sua salvação. O aspecto do consolo e a abertura para os outros povos constituem pontos de ligação entre a leitura do Antigo Testamento e o texto de prédica. Da mesma forma, Colossenses 1.24-27 tematiza a revelação de Cristo aos gentios. A delimitação proposta para o texto da prédica é incomum. A maioria das traduções e dos comentários sugere como unidade temática os v. 15-21. O v. 14 é enquadrado habitualmente no contexto da cura do homem da mão ressequida. Na delimitação proposta pela série litúrgica, o v. 14 poderia servir como explicação para o fato de Jesus se retirar (v. 15). Entretanto, sua leitura também pode desviar a atenção. O conflito com os fariseus não é relevante. O foco está na apresentação do servo de Deus e sua missão. Sugiro seguir a divisão mais comum e não considerar o v. 14 como parte dessa perícope.

2  Exegese O cerne da perícope é a citação de Isaías 42.1-4. O texto de Isaías 42.1-7 já foi abordado em Proclamar Libertação XXI, XXV e XXXV. Embora o Evangelho de Mateus associe a citação de Isaías à atuação de Jesus Cristo, o estudo do contexto do profeta é importante. Os volumes do PL mencionados contêm valiosas informações exegéticas e indicações para a prédica. Mateus 12.18-21 é a mais longa citação no Evangelho de Mateus. Mas ela não corresponde ao texto hebraico tampouco ao texto grego da Septuaginta (LXX). Vocabulário, formulações e omissões (ex: Is 42.4a – não desanimará nem

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se quebrará) não permitem determinar exatamente o texto-base da citação. É possível que tenhamos aqui uma tradução ou citação livre do texto massorético, com influências da LXX ou do Targum. V. 15 – A situação descrita nos v. 15-16, que pode ter influência de Marcos 3.7-12, serve de moldura para a citação. Jesus percebe o plano dos adversários e retira-se dali. O afastamento não indica medo ou fuga, mas aponta para o poder de atração de Jesus: muitos o seguem. Como em Mateus 8.16, todos os doentes são curados. O tempo messiânico, que Mateus liga com a figura do servo de Deus, também é caracterizado por consolo e cura. V. 16 – O repúdio à publicidade possivelmente não tem ligação com o segredo messiânico de Marcos, mas com a indicação dos traços que caracterizam o servo de Deus no v. 19. V. 17 – O evangelista explicita que a profecia de Isaías é cumprida em Jesus. Mas o que significa exatamente o cumprimento? O fato de Jesus não querer a publicidade de ter curado todos, de que muitos o seguiram? Possivelmente, a afirmação “para que se cumprisse” não se refere somente aos v. 15-16, mas a toda a atividade do servo, descrita a seguir. V. 18 – A correspondência grega mais direta do hebraico ebed (servo) seria doulos. Seguindo a LXX, Mateus utiliza o termo pais, cujo primeiro significado é “criança” e, depois, “servo”. A expressão pais reforça a ligação com Mateus 3.17, mesmo que ali seja utilizado o termo hyios (filho). O recebimento do Espírito já foi relatado pelo evangelista em 3.16 e será tematizado logo mais em 12.22-32. Ali os exorcismos são apresentados como comprovação da presença do Espírito. No judaísmo, o derramamento do Espírito era aguardado para os tempos finais. O profeta Joel fala do derramamento do Espírito sobre toda a carne (= todos os povos: Jl 2.28). A palavra grega krisis pode significar “direito/justiça” (ordem jurídica) ou “juízo/julgamento” (sentença judicial). Com exceção de Mateus 23.33, as ocorrências de krisis no Evangelho de Mateus tendem para o sentido de juízo (cf. Mt 5.21s; 10.15; 11.22; 12.36, 41s; 23.33). Mesmo que esse seja o caso em nossa perícope, o caráter não seria de condenação, mas de salvação. É o que pode ser inferido do v. 21. A partir de Mateus 23.23 e do contexto em Isaías, a tradução “direito/justiça” parece ser mais adequada. Aqui se trata do direito de Deus, respectivamente da justiça de seu reino, que será anunciada e estabelecida em toda a terra. V. 19 – O caráter de humildade e mansidão do servo de Deus já está prenunciado em Mateus 11.29 (“porque sou manso e humilde de coração”) e será retomado em Mateus 21.5 (“Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento”). Não contender e não gritar aponta para renúncia à violência. Não se trata de uma característica passiva, mas de atitude ativa que visa à promoção da paz. “Nem alguém ouvirá nas praças a sua voz” pode estar ligado à questão da publicidade no v. 16. Mas poderia também ser um indício de que as pessoas não prestam atenção à pregação de Jesus? A queixa de que o povo não ouve a palavra de Deus não é incomum na Bíblia.

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V. 20 – Um caniço quebrado não tem serventia. Um pavio que está soltando fumaça precisa ser apagado e substituído. São lixo sem valor. Mesmo assim, o texto afirma que ambos serão preservados. A que se referem essas imagens? Imagens deixam liberdade para interpretações. Um Targum (Targuns são traduções aramaicas da Bíblia Hebraica) reproduz Isaías 42.3 da seguinte maneira: “humildes como uma cana dobrada não serão quebrados; necessitados como um pavio apagando não serão extintos”. Vemos aqui a ligação da imagem do caniço e do pavio com os humildes e pobres. A formulação presume que o caniço e o pavio seriam esmagados e apagados. Além de fragilizados, pobres e necessitados sofrem ações que os debilitam ainda mais. O servo de Deus preserva aquilo que é considerado descarte pela sociedade. Preservar tem sentido ativo, de compromisso e cuidado. Pois somente com atitude ativa o direito será conduzido à vitória. Deus fará triunfar seu direito não apenas em Israel, mas sobre toda a terra. A identificação do servo com os necessitados ficará ainda mais explícita em Mateus 25.31-46. V. 21 – Esperar significa aqui “esperança”. Mateus acentua que a esperança de salvação para todos os povos está no nome do servo, ou seja, em Jesus, o Messias. A partir desse texto, é comum apontar para um afastamento de Jesus em relação a Israel. Na verdade, o que percebemos é uma acentuação do caráter universal da missão. A missão dada a Israel para transmitir o direito e a salvação de Deus é assumida por Jesus. É fato que Jesus teve sua atividade pública especialmente dirigida ao povo de Israel. Em alguns casos, até há certa relutância em relação aos gentios. Todavia, esses não são excluídos, assim como Israel não é enjeitado.

3  Meditação A revelação de Deus traz bênção e promessa. Por isso a Epifania é caracterizada por alegria e júbilo. Mas a Epifania também é chamada ao compromisso. O primeiro ato revelador é a criação. Deus revela sua vontade com palavras criadoras: “E disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Gn 1.3). E tudo o que Deus fez era bom! A revelação criadora de Deus concede ao ser humano um papel de destaque e a possibilidade de participar de sua obra. Ao ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, foi confiada a tarefa de cuidar da criação divina. Deus revela-se a Abraão com a promessa de grande descendência e de uma terra que produz com fartura. A partir desse povo eleito, Deus será revelado a todas as nações. Eleição tem o envio como consequência: “de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! (...) em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.2-3). Deus revela seu nome a Moisés com a perspectiva de libertação do povo da escravidão no Egito. Deus faz uma aliança com Israel para, em seu meio, revelar sua justiça. Revelação é ato de misericórdia! Em resposta, o povo de Israel compromete-se a cumprir a vontade divina. Revelação traz responsabilidade e compromisso! Com a encarnação de Deus em Jesus Cristo, a concepção de eleição se amplia. Não há somente um povo eleito. Todos os povos podem fazer parte da

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nova aliança. O mistério, que estivera oculto dos séculos e das gerações, agora se manifestou sem restrições (cf. Cl 1.26). Faria bem, na época de Epifania, acentuar o caráter universal da graça de Deus. Assim como não está restrita a um só povo, a revelação de Deus não está restrita a uma igreja ou a um grupo determinado. O texto para a prédica fala da revelação do servo de Deus. No contexto de Isaías, a identidade do servo não estava tão determinada, o que abriu várias possibilidades de interpretação. Para Mateus, a identificação de Jesus como servo é inequívoca. Mesmo assim, o acento do texto não é tão cristológico como muitas vezes assumido. A perspectiva do texto ainda é teocêntrica. Trata-se do servo de Deus. E esse servo recebeu o Espírito de Deus e promulgará o direito de Deus. Essas observações não querem diminuir o papel de Jesus como servo, mas lembrar que sua atividade não pode ser desvinculada da ação de Deus, testemunhada na Bíblia Hebraica. Em Jesus, a manifestação de Deus assume uma forma concreta de ser humano. A concretude da manifestação não está apenas na forma humana. Ela está no objetivo e no modo de agir. O servo veio promulgar e fazer vitorioso o direito de Deus. Não é um direito que quebra e destrói, mas que levanta e resgata dignidade. É o direito que se coloca ao lado do fragilizado. Diante de uma situação de sofrimento, a atuação de Deus representa amparo e cuidado. A atividade de Jesus Cristo demonstra que a graça e a misericórdia são elementos centrais da revelação divina. Poderíamos transferir o chamado do servo para a tarefa missionária da comunidade cristã? Com o devido cuidado, sim. A ação salvífica de Deus em Jesus Cristo é única, pois justificação acontece somente por meio de Cristo. Mas a comunidade que segue Cristo também segue seu exemplo. Quatro elementos da perícope de Mateus 12.15-21 podem ajudar a refletir sobre nosso papel nesse seguimento: A revelação – “Eis aqui o meu servo, que escolhi” (v. 18). É o próprio Deus que escolhe e apresenta (revela) o seu servo. No sacramento do Batismo acontece, de certa maneira, uma repetição desse ato. O Batismo marca o início da vida cristã. Nesse momento em que a pessoa é apresentada e integrada à comunidade, também lhe é reconhecida sua filiação divina. Por intermédio do Batismo Deus nos requisita como sua propriedade. A capacitação – “Farei repousar sobre ele o meu Espírito” (v. 18). A filiação divina vem acompanhada de compromisso. Mas isso não acontece sem capacitação. O Batismo coloca-nos na esfera de atuação do Espírito. Pelo Batismo recebemos o Espírito e somos capacitados para a tarefa. A tarefa – “Anunciará o direito aos gentios” (18); “fará o direito triunfar” (v. 20). O direito de Deus será vencedor à medida que se estabelecer na terra, ou seja, quando as pessoas praticarem a justiça e a misericórdia, a exemplo do servo de Deus. Os termos “vitória” e “vencedor” estão na moda em círculos cristãos. Não raro, vencer é entendido como assunto meramente pessoal, limitado à segurança da salvação, ao sentir-se plenamente satisfeito, ao êxito nos objetivos, à prosperidade. A vitória pela qual somos chamados a trabalhar tem uma dimensão comunitária e ética.

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A forma de atuação – “Não contenderá, nem gritará, nem alguém ouvirá nas praças a sua voz” (v. 19); “não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que fumega” (v. 20). Humildade, paciência e mansidão são valores necessários. Mas não são sinônimos de passividade e não podem ser dissociados da busca pela justiça e promoção da paz.

4  Imagens para a prédica Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que fumega – Essa citação de Isaías permite trabalhar com elementos bem concretos. Esses elementos podem ser trazidos para a prédica ou incorporados na liturgia. Um pedaço quebrado de taquara, junco ou cana reproduz a imagem da cana quebrada. Pavio de lamparina é pouco conhecido em nosso mundo moderno. Talvez um palito de fósforo queimado seja mais familiar. A partir dessas imagens, pode-se trabalhar a questão: quem são e onde estão, em nossa sociedade e comunidade, as canas quebradas e os pavios que ainda fumegam? Não se ouvirá sua voz nas praças – Por um lado, essa afirmação aponta para uma característica do servo, que não busca publicidade, não usa estratégias de marketing para chegar a seu objetivo. Por outro lado, é possível que a plateia não o queira ouvir ou que os outros sons e vozes sejam mais altos. Mesmo no ambiente de uma igreja, nem sempre se ouve a voz de Deus. Às vezes, em meio à pregação, ouvimos mais as vozes interiores de nossos problemas, afazeres, planos e sonhos. Caso essa questão quiser ser tematizada, pode-se fazer um “minuto de silêncio” em meio à prédica para levar a comunidade a refletir sobre os sons e vozes que ouve.

5  Subsídios litúrgicos Acolhida: A saudação com a leitura de Mateus 3.16-17 é uma possibilidade de apontar para o tema do culto. Confissão de pecados: Lembrar a dificuldade que temos com a preservação da criação, com o anúncio do direito e o cuidado com o necessitado. Como comunidade cristã, recebemos e somos chamados a transmitir adiante a mensagem de Deus. Às vezes, temos receio de aceitar essa tarefa, outras vezes fugimos dela. Muitas vezes, também não sabemos reconhecer os pequenos e silenciosos sinais de concretização do direito de Deus no mundo. Oração de intercessão: Ressaltar o aspecto do cuidado como característica do servo de Deus e da comunidade cristã. Em algum momento da oração, pode-se parafrasear a canção “Cuida bem, Senhor”, de Rodolfo Gaede Neto: Senhor: cuida bem das pessoas que estão à minha frente, das pessoas que me seguem no caminho, das pessoas

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que se encontram ao meu lado. E caso for também de teu agrado, cuida bem de mim, Senhor. Incluir também o nosso compromisso de cuidar dos outros.

Bibliografia FIEDLER, Peter. Das Matthäusevangelium. Stuttgart: Kohlhammer, 2006. (Theologischer Kommentar zum Neuen Testament). LUZ, Ulrich. Das Evangelium nach Matthäus. V. 2: Mt 8-17. Zürich: Benziger; Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 2007. (Evangelisch-Katholischer Kommentar zum Neuen Testament).

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PRÉDICA: MARCOS 1.4-11

1º DOMINGO APÓS EPIFANIA

GÊNESIS 1.1-5 ATOS 19.1-7

(BATISMO DO SENHOR) 08 JAN 2012

Teobaldo Witter

1  Introdução Epifania é uma fase importante do calendário cristão. Advento e Natal enchem a vida das pessoas de esperança, de promessas humanas e de compromissos para organizar encontros e fazer visitas mútuas. Depois de tanto agitação, o que sobra? Advento, Natal e fim de ano são como um terremoto na vida das pessoas. Muitos afazeres para deixar as coisas em paz com as convenções sociais. Mas passou. Agora parece que vem um vazio. Em muitos locais, reduzem-se, inclusive, as atividades da igreja. Os grupos entram em recesso. Os cultos são somente os estritamente necessários. Mas vejam como é lindo o tempo da Epifania! Epifania é revelação de Deus. É graça revelada. É a luz que surge na escuridão. Jesus, a luz do mundo, é revelada em meio aos povos e nações. Deus quebra o silêncio e fala no batismo de Jesus. Isso é maravilhoso e comprometedor. Livres de mil e uma preocupações, nós podemos ouvi-lo com cuidado e atenção. Temos a oportunidade de permitir que a Epifania e o batismo de Jesus nos encantem, envolvam em seu mundo de paz, da fala de Deus, do cuidado de Jesus e nosso cuidado com a vida e a salvação. As leituras bíblicas entrelaçam-se no falar de Deus e na reação diante da quebra do silêncio. Gênesis 1.1-5 escreve a respeito do vazio, da ausência da forma, das trevas, enquanto o espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus quebra o silêncio. Falou e houve luz. A luz era boa. Deus separou trevas e luz. A fala de Deus, a palavra de Deus, é criadora. Atos 19.1-7 fala do encontro de Paulo com a comunidade de Éfeso. A conversa é sobre o batismo de João Batista e o batismo de Jesus. Os membros foram batizados em nome de Jesus. E o Espírito Santo de Deus veio sobre eles. Marcos 1.4-11 escreve sobre João Batista, homem que vem do deserto, do vazio e prega arrependimento e perdão dos pecados. Ele anuncia Jesus, que, ao contrário dele, batiza com o Espírito Santo. Jesus pede a João que o batize no rio Jordão. Durante o batismo de Jesus, o céu se rasga. Deus quebra o silêncio e diz: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo”. Água, caos, ensino, arrependimento, batismo, Espírito Santo, a Palavra criadora e restauradora são elementos que ligam as três leituras bíblicas.

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

2  Exegese Certamente, Marcos é o livro mais antigo dos sinóticos. Tem sua forma própria e direta de dizer as coisas. Ele vai direto ao assunto. Apresenta Jesus como Filho de Deus, mas que só pode ser compreendido como tal na cruz, no martírio, na dor e no silêncio da morte (Mc 15.19). Fora disso, seria triunfalismo, o que o evangelho não aceita. Não menciona o nascimento de Jesus, assim como os sinóticos e, de certa forma, como João. Se dependêssemos de Marcos, não haveria Natal. Em vez disso, ele menciona, logo de início, dois textos do Primeiro Testamento (Ml 3.1; Is 40.3), que também se encontram nos sinóticos. Vem um mensageiro preparando o caminho. É voz que vem do deserto e endireita as veredas do Senhor. O nosso texto testemunha como acontece isso. V. 4 – Aparece João Batista. Ele não tem títulos, não tem penduricalhos que o qualifiquem. João parece ser um nada, alguém que vem do nada. Vem do deserto. E logo anuncia a mensagem, sem flores e sem rodeios. É um “imperativo categórico”, segundo Emanuel Kant, pois o batismo deve ser de arrependimento para que possa haver remissão dos pecados. V. 5 – Pelo que se menciona, multidões vinham da Judeia e de Jerusalém ao encontro de João Batista. O surpreendente é que confessavam seus pecados e, então, eram batizadas no rio Jordão. V. 6 – Um versículo inteiro faz referência ao estilo de vida de João: vestes de pelos de camelo, um cinto de couro. Ele vem como um profeta, vestido como Elias. Ele cuida de sua alimentação. Alimenta-se de gafanhotos e de mel silvestre. São detalhes importantes que informam sobre a vida sóbria, também na comida. O gafanhoto é considerado um animal limpo e comestível (cf. Lv 11.22). O estilo de vestir-se e de alimentar-se de João não é imposição por algum problema de escassez de alimento. Sim, se os povos vinham a seu encontro para ouvir a pregação, arrepender-se e ser batizados, então João Batista poderia beneficiar-se de bens e de comida farta. No entanto, seu estilo de vida é outro. Ele tem outra opção de vida. V. 7 – É a pregação propriamente dita de João Batista. É ele quem fala. Explica que está por chegar alguém que é infinitamente grandioso, digno de toda a honra e toda a glória. Diante dele, João não é digno nem de tocar suas sandálias, isto é, nem de fazer o serviço mais humilde. Ou seja, não é digno de servi-lo como escravo. V. 8 – Continua a explicação de João. Faz a diferenciação fundamental e inconfundível entre o seu batismo e o daquele que vem. O mensageiro faz o batismo com água, mas o que vem faz o batismo com o Espírito Santo. V. 9 – Na continuação do texto, a vinda de alguém recebe destaque. É a primeira vez que Marcos, após o título do livro, menciona Jesus de Nazaré da Galileia. Observa que o texto faz menção clara ao local de onde Jesus veio. Em Marcos, de uma forma normal, sem resistência, Jesus é batizado por João no rio Jordão. Jesus opta pelo batismo de arrependimento, pelo batismo de João. Ele vem de livre e espontânea vontade, sem pressão de ninguém, para receber o batismo.

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

V. 10 – Fato extraordinário acontece quando Jesus, após seu batismo feito por João, sai da água. O céu se rompe. Os céus se rasgam. O Espírito desce em forma visível como uma pomba. Os dois fatos estão interligados: os céus se rasgam e a pomba desce. V. 11 – Após o rompimento dos céus, Deus fala. Deus quebra o silêncio: “Tu és meu filho amado, em ti me comprazo”. Deus fala clara e exclusivamente: esse é meu filho amado. É importante observar o conjunto: batismo de Jesus nazareno, o céu se abre, o Espírito de Deus desce sobre Jesus e Deus se revela/fala. “O céu aberto assinala o caráter escatológico do batismo de Jesus de Nazaré. O próprio Deus se autorrevela, fato ansiosamente esperado e ardentemente implorado por seu povo” (cf., p. ex., Is 63.19). E quando Deus se autorrevela, vem junto “o Espírito de Deus”. Jesus de Nazaré, Batismo e Espírito de Deus “estão interligados” (����� BAESKE, 2004, p. 50). Também é importante identificar no texto bíblico o aspecto do batismo de arrependimento. Jesus chega em meio às multidões que confessam seus pecados e recebem o batismo do arrependimento. “Arrependam-se de seus pecados e sejam batizados, que Deus perdoará vocês” (v. 4). No texto de Marcos, o povo entendeu e fez conforme a pregação de João Batista. Mas, nos textos paralelos, há uma discussão sobre o tema do arrependimento. Há gente que vem para ser batizada, sem o devido preparo do arrependimento e do perdão (escribas e fariseus, Mt 3.1ss). João classifica-os como ninho de cobras, víboras que querem fugir da ira vindoura. Ele reprova tais atitudes. Mediante a iminência do reino de Deus, o texto anuncia separação entre árvores que produzem bons frutos e árvores que produzem frutos maus, uma alusão à salvação e condenação no juízo de Deus (cf. Mt 3.10). No contexto do batismo de João, é importante perguntar pela presença da água. A água é entendida pela maioria das religiões mundiais no sentido sagrado, contendo poder para curar, para fertilizar, fonte de vida, alívio para os dores, refrescante, pureza e outros. A água lava, limpa e regenera. Essa compreensão sobre a água não é exclusividade do cristianismo. Mas, no cristianismo, água é também um elemento de evangelização, um elemento para compreender e viver a palavra de Deus. Jesus identifica-se como “água viva”. E diz: “Rios de água viva vão jorrar do interior de quem crê em mim” (Jo 7.39). A água continua simples água, mas ela é um elemento fundamental, cultural, pedagógico para perceber e entrar na dimensão vivencial atual e escatológica da fé cristã. Conforme a confissão evangélica luterana, “o Batismo não é só água, mas é água contida no mandamento de Deus e ligada à palavra de Deus” (LUTERO, O sacramento do Santo Batismo). Podemos observar um aspecto essencial que influencia o Batismo cristão, ou seja, a relação do batismo do Batista com o tempo messiânico e o caráter provisório. O “batismo realizado por João Batista, no qual encontramos características muito próprias, não exigidas em outros rituais de purificação ou iniciação de sua época, como, por exemplo, a conversão absoluta e penitencial como preparação para os tempos messiânicos e o caráter provisório, já que aquele que vem

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depois de mim é mais poderoso do que eu [...] Ele vos batizará com o Espírito Santo...” ( KLEN, 1998, p. 67).

3  Meditação Sempre na linha da reflexão até aqui elencada, podemos dizer que o Batismo é tema central. Nele também se realiza a Epifania. Perguntamos: Por que batizamos? Há alguma razão, algum motivo para o Batismo em nossa igreja? Eu fui batizado. Sei a data. Tenho Certidão de Batismo. Mas isso significa alguma coisa para minha vida? Afinal, fui batizado. O que significa isso? O que significa o Batismo para a minha vida? O que significa a fala de Deus para a nossa igreja? E para a nossa sociedade? O texto do Evangelho de Marcos introduz com todo o cuidado e radicalidade (vem de raiz) o tema do Batismo. Primeiramente, ele fala do arrependimento e do perdão. Batismo não é mero enfeite ou ritual vazio. Mas ele é fundamental no seguimento da reflexão de Marcos. Como minha comunidade se posiciona diante do arrependimento e do perdão? Não é um tema de fácil aceitação para a pregação. As pessoas vêm para a igreja não para ser confrontadas com seus pecados, mas para buscar “afirmação de seu estilo de vida e, ao mesmo tempo, alívio para as suas angústias. A boa notícia de Jesus, porém, inclui uma profunda transformação na forma de pensar” (SOBRINHO, 2011, p. 1). Esse é um dos desafios que enfrento como ministro ordenado na IECLB. O que significam arrependimento e perdão? Arrependimento não é apenas um sentimento de pesar por alguma falha cometida, por uma lei transgredida ou por encontrar uma cara feia que não gostou de alguma atitude nossa. Não é apenas remorso, consciência de culpa ou sentimento emocional negativo que nos leva a pedir perdão. Isso também faz parte do arrependimento. Mas arrependimento é algo mais profundo. É algo mais radical (de raiz). Ele não se resume a um sentimento. A palavra grega traduzida por arrependimento em Marcos é metanoia. Ela significa: “mudar de mentalidade” ou “mudança de mente”. Nesse sentido, arrependimento está ligado com um outro jeito de pensar. É o que o apóstolo Paulo escreve em Romanos 12.1-2. Ali ele ensina que não podemos nos enquadrar nos moldes deste século, no jeito deste mundo. Mas podemos ser transformados em nossa mentalidade. Assim, seremos capacitados por Deus para experimentar a sua boa, agradável e perfeita vontade. O arrependimento nos desinstala, à semelhança do deserto. Tempo de aprendizado. Deserto é tempo oportuno de ser deparado com a confiança em Deus. Ele nos coloca numa nova dimensão. Conecta-nos numa outra direção. É como dar nova direção para a vida. “Arrependimento significa mudar de ideia, implodir as velhas estruturas que sustentam minha vida para começar uma nova história. Vai além de alguns sentimentos ruins que se instalam em mim por causa de coisas erradas que fiz. Esses ‘arrependimentos’, quase sempre, são um remorso devido às consequências dos nossos próprios atos, que se voltam contra nós. Na maior parte das vezes, desejamos perdão apenas para voltar a nos sentir melhor, não para mudar de comportamento” (SOBRINHO, 2010, p. 1-2). Metanoia,

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“mudança de cabeça”, mudança de nosso jeito, tira-nos dos moldes deste mundo e coloca-nos no molde de Deus. Foi essa a bronca de João Batista com os escribas e fariseus. Eles eram pessoas corretas, gente de bem. Impecáveis em seus comportamentos legais. Zelosos no cumprimento da lei. Exatamente por estarem bem sedimentados em suas estruturas religiosas, econômicas e políticas de seu tempo, achavam que a pregação sobre arrependimento e mudança de mentalidade não era com eles. Queriam o batismo de João como direito adquirido (Mt 3.1ss). Certamente estavam com um olho no reino de Deus e outro no reino deste século. O Batismo é o ingresso no reino de Deus. Ele é o nascer de novo, após implosão do velho. Ele gruda nosso “coração no reino de Deus”, usando uma expressão do povo indígena Kulina. No Batismo, os céus se rasgam e Deus fala. “O Batismo está profundamente ligado ao desejo de Deus em relação ao ser humano: salvação e vida” (KLEN, 1998, p. 69). E aí vem o nosso compromisso com ele. O Batismo tira-nos da escuridão e coloca-nos na periferia do céu. Consequentemente, Deus gruda em nós. Dele não podemos fugir para nenhum lugar (Sl 139), porque aonde formos lá estará ele. O batismo de Jesus no início de sua vida pública marca o seu ministério de libertação e salvação, que culminará na cruz (KLEN, 1998, p. 69). O nosso Batismo, na dimensão de Jesus, coloca-nos na missão solidária com as pessoas que lutam em suas diferentes cruzes: sofredores, famintos, pecadores, perseguidos, amargurados, aflitos, doentes. São pessoas para as quais muitas coisas saem erradas na vida, mas Deus está ali no meio delas: apoiando, perguntando, resgatando, reconciliando, alimentando, por amor. O batismo de Jesus desarticula as artimanhas de “nossa carne, do diabo, do mundo, da morte e do pecado” (LUTERO, Catecismo Menor). “O nosso Batismo nos inclui na família de Deus, fazendo contraste dentro deste mundo que exclui, segrega e discrimina. A ação de Deus em nosso favor nos capacita para a vida comunitária” (KLEN, 1998, p. 69), familiar, social e cidadã. O Batismo, na dimensão do nascer de novo, é vivido diariamente. Não é um ato apenas do passado, nem somente um ato pontual, isolado. Mas é um viver diário em que a velha pessoa é afogada e uma nova pessoa ressurge e vive em justiça diante de Deus, para sempre (LUTERO, Catecismo Menor). Ele nos torna aptos a colocar sinais do reino de Deus em meio a este mundo. O Batismo, uma vez realizado, torna-se um jeito de viver cotidiano no perdão pessoal, familiar, comunitário e social, no compromisso com os pequenos irmãos de Jesus Cristo (Mt 25.40).

4  Imagens para a prédica Faça uma reflexão, ligando o Batismo ao que é importante e fundamental na vida cristã. Nosso Deus é misericordioso. Por isso ele vem, os céus se rasgam, ele fala e realiza vida e salvação. A nossa vida e salvação são o desejo de seu coração, nisso ele está grudado. No Batismo, Deus revela seu coração grudado em sua criatura.

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

Frank Tiss, pastor e professor, trabalhou junto com grupos do povo Kulina no sul do estado do Amazonas. Ele escreveu dizendo que fez uma reflexão junto com o povo indígena. Frank escreve que tudo nesta terra é de durabilidade limitada e é uma experiência diária para quem vive na selva. Que vale a pena dedicar-se ao que é eterno, os Kulina concordam imediatamente. E que o nosso coração fica sempre perto daquilo que para nós tem mais valor, já está até na língua deles: para dizer que amam alguém, dizem que o seu coração “está grudado” no outro. [..] Eles comentaram: “É verdade, quando alguém de nós começa a pensar igual ao branco, querendo cada vez mais e só para si mesmo, o coração dele ‘fica grudado’ em suas coisas. Mas com a nossa comunidade, ele se preocupa cada vez menos”. Eles gostaram muito dessas frases bíblicas, pois elas valorizam uma parte de seu tradicional modo de ser Kulina: “para eles, viver bem significa viver em paz e harmonia com os familiares e os demais membros da comunidade. Para isso preferem viver em solidariedade, repartindo quase tudo o que têm”. Em nosso Batismo, Deus gruda nosso coração no reino de Deus. Conquista-nos para ele. Nele somos chamados a viver. Não somos perfeitos, mas vivemos na esperança, apesar de que, muitas vezes, as coisas saiam erradas em nossa vida, porque Deus grudou seu coração em nós.

5  Subsídios litúrgicos “O Batismo atrai a tentação. O caráter do Batismo revela-se em meio a atribulações. Seu valor está sendo comprovado nas aflições que assolam a fé e a vida de gente batizada. A tentação qualifica e cerca a existência dos batizados e das batizadas” (BAESKE, 2004, p. 53). Confissão de pecados: “Jesus diz: Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas. E elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o meu Pai. E dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.14-15). Vamos nos confessar diante de nosso pastor: Ouve, Senhor, a nossa oração. Escuta-nos, quando gritamos por socorro. Não te cales à vista de nosso sofrimento, dores, clamores, rancores, ódio e sentimento de vingança. Assim nós somos. Miseráveis, perdidos e condenados. Confessamos que pecamos contra ti e nosso próximo. Pecamos em pensamentos, quando planejamos o mal contra o nosso próximo, e alimentamos sentimentos de agressão ou indiferença contra ti e nosso próximo. Pecamos em palavras, quando espalhamos ideias e notícias maldosas que envenenam a vida das pessoas. Pecamos em ações, quando colocamos em prática a maldade contra as pessoas. Pecamos por omissão, quando não fazemos o que devíamos fazer para evitar o mal, o engano, a mentira e a destruição de relacionamentos. Às vezes, notamos o mal, mas não o evitamos. Outras vezes, nem notamos o mal que estamos fazendo, porque enxergamos, mas não vemos, escutamos, mas não ouvimos. Todos esses pecados te ofendem, negam o nosso desejo de fidelidade, destroem a confiança, sendo que merecemos teu castigo agora e para sempre.

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1º Domingo após Epifania (Batismo do Senhor)

Mas chegamos diante de ti de mãos vazias, na confiança de tua promessa de fidelidade, de amor e de misericórdia. No Batismo, tu grudaste teu coração em nós. Por isso confiamos no teu perdão. Renova-nos, cria em nós um coração novo, uma mente comprometida com tua Palavra e com a vida do mundo que nos cerca. Tudo isso te pedimos, porque o nosso amigo Jesus Cristo pagou a nossa conta. Somos agradecidos e nos dispomos ao compromisso de fé e confiança em ti, por tua graça. Amém. Kyrie eleison: Igualmente suplicamos pelas dores do mundo. Perdoados por Deus, aceitos em seu governo de Pai querido junto com seus filhos e suas filhas amadas, podemos suplicar em favor de outras pessoas aflitas e apoiá-las em sua luta pela superação do mal e em favor do bem, do amor, da esperança e da confiança em ti. Suplicamos: Pedimos que o Senhor olhe e construa pontes de seu amor junto às pessoas que padecem as dores deste mundo, aqui em nossa comunidade, na região e em todas as partes. Pelos doentes, suplicamos cuidado e tratamento. Pelas pessoas que estão magoadas, que encontrem reconciliação e paz. Pelas pessoas rancorosas, que encontrem cuidados necessários para as suas feridas do corpo e da alma. Pelas pessoas famintas, que encontrem pão. Pelas pessoas sem rumo na vida, que encontrem em ti o melhor caminho a seguir. Pelas pessoas sem sonhos, sem projetos de vida, sem esperança, que encontrem em ti, junto a teu povo, perspectivas reais de sonhos e vida. Pelas pessoas enlutadas, que encontrem na ressurreição de Jesus Cristo a esperança da ressurreição dos mortos e reencontro na vida eterna. Tem piedade, Senhor, pois “tu és a nossa rocha e nossa fortaleza. Guia-nos e orienta-nos como prometeste. Não nos deixes cair em armadilhas, pois tu és nosso refúgio. Nas tuas mãos entregamos a nossa vida. Tu nos salvarás, porque tu és Deus fiel” (Sl 31.3-5). Amém.

Bibliografia BAESKE, Albérico. 1º Domingo após Epifania (Batismo de Nosso Senhor). In: Proclamar Libertação, v. 30. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004. p.44-53. GOBERT, Valter M. Teologia do Batismo. São Paulo: Paulinas, 1988. KLEN, Vânia Moreira. 1º Domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação, v. 24. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 67-69. SOBRINHO, Ari S. O que é arrependimento? Cuiabá: pregação no culto comunitário, polígrafo, 2010, p.1-4.

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PRÉDICA: JOÃO 1.43-51

2º DOMINGO APÓS EPIFANIA

1 SAMUEL 3.1-10 (11-20) 1 CORÍNTIOS 6.12-20

15 JAN 2012

Gottfried Brakemeier

1  Introdução A igreja cristã celebra a “epifania” de Deus em Jesus Cristo. Apregoa que, em sua pessoa, Deus mesmo se encarnou. Portanto quem quiser conhecer Deus deve contemplar Jesus. Esse credo jamais tem sido uma evidência. Também hoje se defronta com incompreensão, desconfiança, oposição. Isso não só da parte do islamismo, que o denuncia como incompatível com o monoteísmo e enxerga nele uma blasfêmia, como também da parte de outras religiões e até mesmo da secularidade ocidental. Que Jesus seja portador de revelação divina é considerado escandaloso. É o que já sustentava o gnosticismo da antiguidade. Rejeitava a ideia de o salvador “ter vindo na carne” (1Jo 4.2s). O divino não poderia revestir-se do humano. É uma tese que, em muitas variantes, goza de simpatias até hoje. Jesus de Nazaré teria sido um simples ser humano, notável sim, mas nada mais. O texto previsto para a pregação neste domingo diz outra coisa. Fala de Jesus como quem veio da parte de Deus. Insere-se num “evangelho epifânico” por excelência. De acordo com o testemunho do evangelista João, Jesus revela sua glória a cada passo e a cada gesto até sua morte na cruz. Perguntamos: Como fundamentar tal discurso hoje e qual a sua relevância? Vamos auscultar o texto e refleti-lo à luz de nossas perguntas. Considerando que ele já foi trabalhado cinco vezes nesta série de Auxílios Homiléticos, será breve nossa exegese. Remetemos às demais contribuições e concentraremos a atenção na parte meditativa.

2  O texto O trecho de João 1.43-51 faz parte do bloco maior que compreende também os v. 35-42. Ele tem por conteúdo a vocação dos primeiros discípulos. Trata-se de André e de seu irmão Simão, mais tarde cognominado Cefas/Pedro, bem como de mais outro, cujo nome não é mencionado. A partir do v. 43, segue o relato da vocação de Filipe e de Natanael. Enquanto Filipe passa a integrar o grupo dos doze (Mc 3.18), Natanael permanece no anonimato. Somente em João 21.2, há mais outra referência a ele. Mesmo assim, parece ter pertencido ao círculo achegado a Jesus, que se compunha parcialmente de ex-seguidores de João Batista (v. 37). Nasce assim o primeiro núcleo dos que descobrem em Jesus o cumprimento das promessas de salvação dadas por Deus por meio dos profetas. Chama atenção, nesse trecho, o acúmulo de títulos cristológicos. João Batista qualifica Jesus como sendo o Cordeiro de Deus (v. 36). André diz ter iden-

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2º Domingo após Epifania

tificado nele o Messias, ou seja, o Cristo (v. 41). Natanael, por sua vez, ao ter encontrado Jesus, exclama: “Tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (v. 49), sendo que o ápice da titulação cristológica se encontra no v. 51, onde Jesus mesmo assevera que seus discípulos verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. A imagem reporta-se à escada que o patriarca Jacó viu em sonho e aos anjos que nela subiam e desciam (Gn 28.12). O Filho do Homem, pois, conecta o céu e a terra, fenômeno esse que na pessoa de Jesus se concretiza. Ele traz o céu à terra e, por sua vez, leva as pessoas a Deus. A concentração dos títulos, entre os quais, aliás, falta o termo kyrios (4.11; 6.34; 20.28 etc.), resume a essência do testemunho da comunidade cristã com respeito a seu Senhor. Ela exibe algo como uma primeira dogmática cristológica. Quem é Jesus de Nazaré? Ora, “aquele de quem Moisés escreveu na lei e a quem se referiram os profetas”. É essa a confissão de Filipe. E quando Natanael duvida, ele simplesmente diz: “Vem, e vê!”. Portanto, para crer importa conhecer Jesus de Nazaré, contemplar sua pessoa, ouvir sua palavra, observar seus feitos. E quem o fizer devidamente vai perceber que em Jesus se cumprem antigas promessas. Vale anotar que Filipe não se constrange em chamar Jesus de “filho de José”. A afirmação da encarnação de Deus em Jesus não necessita da tese do nascimento virginal. O “filho de Deus” pode perfeitamente ser “filho de José”, sem que isso fosse entendido como contradição. Pelo contrário, o lado a lado é sinal de “encarnação radical”. Deus veio ao mundo em alguém totalmente humano. O posterior dogma cristológico (451 d.C.), que atribui a Jesus natureza verdadeiramente humana e verdadeiramente divina, aqui se prenuncia. No processo que dá origem à fé, a figura de Natanael desperta particular interesse. Ele não pode acreditar que de Nazaré possa sair alguma coisa boa. A Escritura não dá respaldo a tal suposição. Portanto, Jesus não pode ser o Messias esperado. Mas, no encontro com Jesus, ele deve abandonar sua resistência. Jesus atesta ser ele um autêntico israelita, sem falsidade. Com isso Natanael se surpreende. De onde Jesus o conhece? Jesus viu-o sentado debaixo de uma figueira, certamente meditando as tradições sagradas de Israel. Assim faziam muitos estudiosos na época. Mas isso não explica o conhecimento de Jesus. Natanael flagra-se como alguém “detectado”, “descoberto”, como quem sofreu um raio-x. Somente Deus conhece as pessoas de tal modo. Então, esse Deus que a todos conhece aparece em Jesus. Por isso Natanael exclama: “Tu és o Filho de Deus, o Rei de Israel”. O encontro com Deus implica o conhecimento do ser humano acerca de si mesmo. Perante Deus é impossível esconder-se. Ele traz à luz os segredos do coração, a identidade da pessoa, a natureza humana. Deus nos conhece melhor do que nós a nós mesmos. É isso o que Natanael experimenta no encontro com Jesus, que por isso só pode vir da parte de Deus – apesar de ser natural de Nazaré. Assim inicia sua jornada de fé. O texto em pauta oferece a chave para a compreensão da atuação de Jesus, tal como o evangelista a descreve. Os milagres de Jesus, seu discurso, sua paixão e ressurreição, tudo deve ser visto a partir de sua messianidade. “Vem, e vê!” Nesses termos, a comunidade do Nazareno convida as pessoas para compartilhar a experiência e sintonizar com a confissão que diz: “E vimos a sua glória” (1.14).

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2º Domingo após Epifania

3  Meditação Na confusão religiosa característica da sociedade atual, o credo cristão necessita de reafirmação. O mero recurso à tradição será insuficiente para fundamentar a fé. A maioria dos membros das igrejas evidentemente se recruta de gente batizada e educada num lar e ambiente cristão. Sua filiação à comunidade deu-se em processo quase “automático”. Isso é nada desprezível. Tradição é fator de continuidade e estabilidade. Mas ela, por si só, é incapaz de resistir ao impacto de questionamentos. Não basta repetir a tradicional terminologia cristológica. É preciso reinterpretá-la. Ela não será assimilada enquanto não forem percebidas sua plausibilidade e relevância. Em outras palavras, a igreja deve tratar de intensificar a consciência cristã de seus membros, convertendo cristãos por tradição em cristãos por convicção. Essa já sempre era a sua tarefa. Mas ela adquiriu particular urgência hoje. Na aprendizagem da fé em Jesus, é fundamental aquele “Vem, e vê”. Missão cristã começa com um convite. Ele pode partir do próprio Jesus, como no caso de Filipe, a quem ele diz: “Segue-me”. Mas pode vir também de terceiros, como no caso de Natanael, a quem Filipe diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei...” A igreja precisa de gente que não se envergonha do evangelho e motiva as pessoas a se interessar por Jesus. Da mesma forma, porém, ela não pode dispensá-las de verificar, elas mesmas, a razão de sua adesão à fé. Qual é a diferença entre ser cristão ou não? Ninguém poderá dar resposta enquanto desconhece Jesus. Missão diz: “Vem, abre os olhos e os ouvidos, presta atenção, veja o que Jesus disse e fez”. Assim o observamos nesse texto, com o qual João introduz seu evangelho. O testemunho de Filipe leva Natanael ao encontro com Jesus. É o evento decisivo em sua vida. Com ele tudo muda. Natanael é o exemplo da pessoa que duvida. Porventura pode vir coisa boa de Nazaré? Hoje as objeções são outras. Por que justamente Jesus? Ele é apenas um “salvador” entre outros. Além disso, vejamos os cristãos. Eles não são melhores do que os outros. Cometeram horríveis crimes em sua história. Então, por que abraçar a fé? Enfim, a doutrina cristã fala de muitas coisas sobrenaturais, simplesmente inacreditáveis. Elas dificultam o acesso à fé. As dúvidas são muitas. E até certo ponto é natural que assim seja. Pois Jesus de Nazaré traz novidade. Ele não se enquadra simplesmente no que estamos acostumados a enxergar. Ele rompe os padrões da normalidade, traz à tona as dimensões profundas do ser humano, faz ver a realidade em nova luz. O conhecimento obtido por Natanael no encontro com Jesus não se limita a algumas noções objetivas, biográficas, históricas. Ele é de ordem existencial. Jesus toca nas pessoas e dá-lhes outros olhos para enxergar a si mesmas, as demais pessoas e o mundo. Com isso as dúvidas caem por terra. Então, o que descobrimos em Jesus? Qual é a nova visão com que nos brinda? Em busca de uma resposta, não podemos prender-nos ao texto, com o qual nos ocupamos. Devemos olhar para além dele, ou seja, à história de Jesus em sua integralidade, ao evangelho em seu todo. De igual modo, não podemos

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2º Domingo após Epifania

esgotar o tema numa única meditação. Cada um dos títulos cristológicos necessita de abordagem à parte. Limito-me à confissão de Natanael, que apregoa Jesus como “Filho de Deus”. Tentarei fazê-lo sob um duplo enfoque, a saber: a linha de pensamento do quarto evangelista, de um lado, e o contexto religioso da atualidade, de outro. Que Jesus Cristo seja o filho unigênito de Deus passou a ser parte integrante do Credo Apostólico. Qual o sentido? Ora, o evangelista João afasta de vez a compreensão biológica. Jesus não é um ser sobrenatural, disfarçado de ser humano, com um corpo apenas aparente. Jesus veio de fato da insignificante cidade de Nazaré, onde moram seus pais. Também a história do nascimento virginal não permite ser interpretada no sentido de Jesus ter sido um semideus e um semihomem. A cristandade jamais se conformou com a diminuição da humanidade de Jesus. Ela afirmou, isto sim, que nesse Jesus de Nazaré Deus veio visitar a terra. A fé cristã é a única religião que fala da “humanização de Deus”. Deus chega perto da criatura, ouve seus clamores, estende-lhe a mão. Ele não se recolhe em lugar inacessível nem se mostra insensível à dor. Pelo contrário, ele vem para compartilhar o sofrimento, do que a paixão de Jesus Cristo é a mais enfática demonstração. Mas, por ser filho de Deus, ele não sucumbe na cruz. Por ele e com ele a vida celebra o triunfo até mesmo sobre a morte. A humanização de Deus implica uma nova “cosmovisão” em termos acima expostos. O mundo já não se encontra abandonado, entregue à sua própria sorte, sem sentido e sem rumo. Da mesma forma, não permite ser visto sob o regime de implacável “carma”, que paga ao ser humano conforme merece. A cristologia bíblica exclui a imagem de um deus inclemente, tirano, vingativo, sedento pelo sangue dos “incrédulos”. Reprova a conformidade com um mundo brutal, regido por violência e ganância. Jesus de Nazaré define Deus como sendo amor que acolhe a criatura culpada, que sara as suas enfermidades e que lhe dá a promessa de vida eterna. Não há salvação sem amor. Ódio, indiferentismo e desesperança produzem a ruína da humanidade. Em Jesus de Nazaré, porém, torna-se visível a imagem de um Deus que ama até mesmo seus inimigos. Todo discurso sobre Deus é transparente para a visão que se tem da realidade. Quem somos nós e quem é Deus é assunto inseparável. Para a fé cristã, é Jesus de Nazaré quem coloca os critérios. Ele mostra um Deus misericordioso, com o que, sem dúvida alguma, vai ao encontro dos mais profundos anseios humanos.

4  Imagens para a prédica Sugiro agrupar o conteúdo da prédica em torno de três imagens: 1 – A primeira poderia ser a figura de Natanael. Ele é convidado para crer em Jesus, mas ele duvida. E com justas razões. Pois é nada lógico que em Jesus nos deparamos com o próprio Deus. São muitas as objeções, tanto antigamente como hoje. Todo mundo as tem. Não se trata de pecado. Mas é preciso discuti-las. Jesus quer cristãos conscientes.

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2 – Por isso somos animados a fazer um teste de qualidade. Poderia ser essa a segunda imagem da prédica. Ninguém compra coisas sem conhecê-las. Assim também deverá acontecer quando se trata da fé. Convém examinar as ofertas religiosas antes de se envolver com elas. Recomenda-se seguir o conselho que diz: “Vem, e vê!”. Vejamos o fundamento de nossa fé, que está em Jesus Cristo. Por que enxergamos nele o Filho, o representante, o plenipotenciário de Deus? 3 – Ora, porque esse Jesus nos toca no fundo de nossa alma. Em Jesus de Nazaré, Deus se aproxima de sua criatura e o faz com amor e bondade. Ele vem para ser solidário conosco, até mesmo na dor e no sofrimento. Em Jesus, nós descobrimos um Deus humano, diferente de tantos outros deuses que escravizam as pessoas ou que nada lhes têm a dizer. A imagem para explorar essa proximidade poderia ser a da escada de Jacó, na qual os anjos sobem e descem. Assim é Jesus: Ele traz Deus ao mundo e leva o mundo a Deus. Resta perguntar: Se Deus não está em Jesus Cristo, onde estaria então? E que Deus seria esse? Nós cremos no Deus a quem invocamos “Pai nosso”, bem assim como Cristo o ensinou.

5  Subsídios litúrgicos Confissão dos pecados: Senhor! Confessamos-te humildemente as nossas dívidas em relação a ti e às pessoas ao nosso lado. Por demais vezes, temos ignorado o convite que nos diriges por meio de teu Filho Jesus Cristo para viver e testemunhar o teu amor. As pessoas necessitam dessa mensagem para não afundar em apatia e desesperança. Perdoa nossa fraqueza e fortalece em nós a fé para cumprir o que esperas de nós. Perdão, Senhor, perdão! Oração do dia: Senhor, nós te agradecemos pelo privilégio de poder celebrar a tua epifania. Tu não ficas escondido na vastidão do espaço nem no escuro do universo. Tu vens e te dás a conhecer. Já não somos obrigados a adorar um deus desconhecido. Em Jesus Cristo enxergamos o teu rosto e identificamos a tua ação. Por ele tu falas e por ele tu salvas. Dá-nos a sabedoria para perceber o teu recado e agarrar a tua mão. Queremos ser agentes de tua missão para que a paz e a alegria reinem entre as pessoas. Amém! Oração geral da igreja em favor: – das vítimas de catástrofes naturais. Os efeitos dos estragos demoram a ser superados. Desperta a solidariedade que não elimina a dor, mas a ameniza; – das vítimas de violência, seja em guerras externas, seja na criminalidade interna nas cidades e no campo. Faze crescer a inconformidade com a agressão principalmente contra a mulher, as crianças, os idosos, grupos minoritários; – das vítimas de doença, abandono, golpes, enfim de todo tipo de sofrimento que ameaça a vida. Dá-lhes coragem para resistir e intensifica em nós o espírito diaconal empenhado na cura do mal.

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PRÉDICA: JONAS 3.1-5,10

3O DOMINGO APÓS EPIFANIA

MARCOS 1.14-20 1 CORÍNTIOS 7.29-31

22 JAN 2012

Wilhelm Sell

1  Introdução Todos sabem que há muitas controvérsias sobre o livro de Jonas. Há diversas tentativas de classificação. Alguns defendem ser um relato histórico, outros uma novela ou parábola judaica. No entanto, acredito que o valor didático de uma narrativa não depende necessariamente de sua historicidade, e por isso é certo aceitá-la a partir de sua mensagem intencional: defender a liberdade de Deus em ser Deus e que seu amor transpõe os limites de um povo e sua nação. A história de Jonas parece uma historinha infantil de um homem que é engolido por um grande peixe, mas sua mensagem é a oportunidade de expandir a compreensão de Deus e de sua salvação para além dos limites teológicos conhecidos. Em foco está a segunda chamada de Deus a Jonas para ir pregar aos ninivitas, para que o povo se arrependa de seus pecados. Mas não é possível entender o que está em jogo sem olhar o relato do livro por completo. Por isso seria muito interessante que, antes de pregar sobre o referido texto, o pregador se disponha a lê-lo por inteiro, podendo, dessa forma, contar resumidamente a história de Jonas à comunidade. Os textos paralelos auxiliam e ampliam a mensagem. Em Marcos 1.14-20, lemos que também Jesus Cristo prega uma mensagem de arrependimento, dizendo: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho!”. E para tal tarefa, para a Missio Dei, ele convoca algumas pessoas que se tornam seus discípulos para ser pescadores de gente. Esse relato é riquíssimo em sua imagem e mensagem. Todo cristão é chamado a se tornar um discípulo de Cristo, apaixonado pela missão de Deus. Colocar em prática essa paixão é buscar e anunciar o arrependimento e experimentar as práticas de libertação que acontecem a partir do crer no evangelho. No texto de 1 Coríntios 7.2931, o apóstolo Paulo traz algumas recomendações práticas diante de perguntas que provavelmente os membros fizeram ao apóstolo em relação ao matrimônio. Paulo percebe não poder recorrer a alguma ordem do Senhor em relação a esses assuntos e dá algumas opiniões pessoais para tentar ajudá-los. E sua opinião é fortemente influenciada pela crença de que o mundo está à beira da catástrofe final. Mas aqui, já que temos essa passagem, poderíamos nos perguntar sobre como andam os relacionamentos nas famílias em nosso “tempo de tribulação”, quando muitas famílias são destruídas pelo egoísmo, falta de diálogo, ignorância, vícios, onde também são necessários arrependimento e confissão de pecados, deixando espaço para que Deus seja Deus e aja conforme o seu querer e liberdade.

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3º Domingo após Epifania

2  Exegese Diferente de outros livros proféticos, Jonas não é uma coletânea de ditos, mas uma narrativa com objetivo didático em forma de história. Algumas opiniões literais datam o livro em torno de 760 a.C., mas historiadores, em sua maioria, defendem que o livro foi redigido (resultado da tradição oral?) numa época nitidamente mais tardia. As razões são de ordem linguística (o texto faz uso de formas aramaicas) e de conteúdo, as quais apontam para o século IV ou III a.C. O livro é lido costumeiramente na sinagoga como leitura profética por ocasião do grande dia do perdão. Jonas está entre os profetas menores. Curiosamente, ele não é nem chamado de profeta no próprio livro. Mas todo o relato caracteriza muito bem seus personagens, o que revela a intenção do autor com o escrito. Nínive é um terror; Deus é misericordioso; os marinheiros são ativos e piedosos, clamam e oram para o Deus de Jonas. À sua maneira, os marinheiros pagãos convertem-se à obediência, enquanto o “profeta” do Deus vivo diz várias palavras piedosas (1.9; 4.2) e na prática se mostra desobediente. Jonas até mesmo se baseia nas antigas confissões de Israel (Êx. 34.6; Sl 86.15, 103.8ss) e clama pela misericórdia e paciência do Senhor. Mesmo enquanto agia em desobediência, encobria-se com palavras piedosas frente à missão com a qual Deus o havia incumbido. Assim, o livro caracteriza os pagãos, outros povos, como simpáticos, como aqueles que por meio do arrependimento passam a respeitar a vontade de Deus, enquanto que, por alusão, todo o Israel é criticado na figura “piedosa”, antipática e teimosa de Jonas. Nesse sentido, a experiência de Jonas é uma acusação profética diante de todo o Israel, que é experiente em lançar palavras cheias de piedade enquanto agia em desobediência e não deixava Deus ser Deus. Por fim, a contragosto, Jonas faz a vontade de Deus (texto em questão). A ameaça na mensagem sem rodeios de Jonas desperta o arrependimento. Até mesmo o próprio rei se submete ao ritual de penitência, conclamando todos a participar mediante jejum e a se afastar do mal. Deus revoga a desgraça diante do arrependimento e da submissão dos ninivitas. Esse resultado positivo que Jonas obtém por meio de sua pregação deixa-o amargurado. O profeta deseja morrer e exclama: “Peço-te, Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver”. A vontade de Jonas é frustrada a tal ponto com a vontade divina, que ele passa a desejar a própria morte. A história termina com uma “lição de moral” que Deus dá em Jonas: Deus envia um verme que mata a planta que fazia sombra para Jonas em seu descanso. Jonas fica muito irritado com o destino da planta, e então Deus pergunta: “Tens compaixão da planta que não te custou trabalho, a qual não fizeste crescer, que numa noite nasceu e numa noite pereceu; e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos animais?”. A narrativa encerra com uma pergunta não respondida, mas que quer nitidamente convidar o leitor à reflexão. O conteúdo do livro pode ser dividido da seguinte forma:

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3º Domingo após Epifania

1 – Jonas foge do Senhor (1.1-17) 2 – Oração de Jonas (2.1-10) 3 – Nínive se arrepende (3.1-10) 4 – O descontentamento de Jonas e a misericórdia de Deus (4.1-11)

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Meditação

A história de Jonas tem a intenção de ensinar a seu público algo sobre si mesmo, também a nós hoje. A instrução de Deus (1.1; 3.1) é que Jonas vá a Nínive, a grande cidade, para pregar uma mensagem de arrependimento àquele povo. Para um israelita, isso era uma tarefa mais do que desagradável e indesejável, mesmo que Deus estivesse pedindo. Nínive era a capital da Assíria (2Rs 19.36), a nação que destruiu o reino do norte de Israel e cercou o reino do sul por muitos anos. Assíria era mais do que um inimigo; era uma força que mudou dramaticamente a história do povo de Deus. E é para esse lugar que Jonas é enviado. Sua teimosia não era simples má vontade, mas uma questão pessoal com marcas profundas. Por isso precisamos “olhar” a história também na perspectiva do próprio Jonas. Nesse sentido, não podemos rapidamente julgar essa figura tão antipática que é Jonas, mas pensar em como nos sentiríamos numa situação parecida. Num primeiro momento, poderíamos entender que a fuga de Jonas nasce do medo de ser morto pelos assírios ante a mensagem de destruição pregada por um simples israelita. Mas depois entendemos que seu receio está em que Deus seja misericordioso para com os inimigos. Por isso Jonas aparece em um barco indo na direção contrária de Nínive. E durante essa viagem surge uma grande tempestade, e o mestre do navio acorda-o para que também Jonas invoque o seu Deus. Jonas explica que aquela situação surgiu por sua causa. A seu pedido, os marinheiros lançam-no ao mar. Jonas termina num grande peixe e só aqui ele fala com Deus, usa as palavras de Salmos que não estão de acordo com a situação vivida (Sl 86.15, 103.8ss). E aqui o interessante é que ele não usa suas próprias palavras para falar com Deus, o que soa como ironia diante do fato de que ele precisa falar em nome de Deus para uma nação totalmente desviada e malvada, que também tem o seu próprio deus: Assur. Então aparece o texto em questão, sugerido pelo lecionário (Jn 3.1-5,10). Jonas se dispôs, vai a Nínive, mas anuncia de forma simples e rasteira, como não ligando para mais nada: “ainda quarenta dias e Nínive será subvertida”. Não há motivação nenhuma em suas palavras, mas, mesmo assim, todo o povo se converteu de seus maus caminhos, “e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez”. O resultado é impressionante, semelhante aos marinheiros pagãos. Imaginem a imagem que o autor quer passar: rei, homens, mulheres, bois, ovelhas e todos os outros animais, de jejum, de saco amarrado, com cinzas até a cabeça, arrependendo-se, convertendo-se de seus maus caminhos e clamando por misericórdia: os ferozes inimigos são transformados em suplicantes; os animais são colocados ironicamente como mais suscetíveis à vontade de Deus do que o próprio Israel. Trocam seu deus pelo Deus Adonai. Como resultado, temos Deus satisfeito e Jonas extremamente aborrecido. O sentimento de Jonas é percebido

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em 4.1: “Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado”. Uma possível tradução mais literal do hebraico seria: “Foi mal a Jonas, um grande mal, e a sua raiva estava queimando”. Isso demonstra um profundo sentimento de revolta, e ele reclama (4.1): “Ah, Senhor! Não foi isso que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal”. E o livro termina com a reflexão se é razoável ou não o sentimento de Jonas contra a bondade de Deus. Como dito anteriormente, o livro de Jonas é lido no calendário judaico no dia da expiação (Yom Kipur), quando os judeus confessam seus pecados contra Deus e o próximo. É uma história que, em forma de lei e evangelho, acusa que também nós muitas vezes queremos colocar limites ao amor e ao agir de Deus, que nos revela um Deus de amor, de benignidade, que vai ao encontro do pecador, do que pratica a iniquidade, oferecendo-lhe a sua salvação. A lei causa constrangimento e arrependimento diante de sua situação. Arrependimento e salvação estão em muitas passagens bíblicas estreitamente ligadas (ex. Mc 1.14ss). Arrependimento significa mudança de coração e de vida e é resultado da fé salvífica em Deus. Ninguém é dono da graça de Deus, e facilmente se pode cair no erro de querer delimitar o seu agir. Poderíamos exemplificar isso no ato do Batismo: Deus não depende da razão e do entendimento para abraçar uma simples e indefesa criança. Portanto a narrativa do livro de Jonas é mais do que a história de um homem engolido por uma “baleia”. É uma mensagem que revela a liberdade do amor de Deus. Essa liberdade ultrapassa alguns outros limites imaginados até a vinda de Jesus Cristo, o verbo encarnado. No texto de Marcos, que nos quer auxiliar na mensagem, percebemos isso claramente. O anúncio de Jesus Cristo (“o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”) é claramente uma mensagem profética para o arrependimento, mudança de vida e anúncio da boa-nova. Deus transpõe barreiras e vai novamente ao encontro das pessoas, de todos os povos. Essa é a “nova” missão da qual os discípulos chamados são incumbidos: a Missio Dei, missão para a qual todos os cristãos são igualmente chamados, cada um conforme o dom que recebeu, missão no sentido abrangente: anunciar, compartilhar, viver, lutar contra injustiças, fazer diaconia, promover vida, defender a sacralidade da vida e a dignidade humana.

4  Imagens para prédica * É tempo de Epifania. O texto de prédica revela um Deus que ultrapassa limites imagináveis para ir ao encontro das pessoas, proporcionando vida, perdão e salvação. O ápice dessa revelação encontramos em Jesus Cristo. * Interessante seria explorar os conflitos internos que nossas vontades geram quando nos deparamos existencialmente com a vontade de Deus. Nem sempre o que desejamos é bom para nós. Pode-se destacar que a vontade de Deus está voltada para o amor e a misericórdia.

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* Nenhuma pessoa está condenada e perdida de antemão. Todos são amados por Deus: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus Cristo” (Rm 3.23s). * O texto desafia-nos como igreja a olhar para além de nossos “muros”. Não é difícil perceber que ainda somos, em alguns contextos, uma igreja pouco acolhedora e contextualizada para os outros e, em grande medida, para nossos próprios jovens. * Como igreja, paróquia, comunidade, cristãos, quais são as nossas semelhanças em relação a Israel, pensando na intenção do autor do livro de Jonas ao fazer sua narrativa? Também somos teimosos? Quantas vezes queremos limitar o agir de Deus? Em quais momentos somos tentados como igreja e como cristãos a não fazer a vontade de Deus em sua missão? Mas também não poderíamos deixar de apontar para os exemplos positivos que temos em nossa igreja, paróquia, comunidade, que demonstram sinais do amor e da misericórdia de Deus. A nível de IECLB, temos a Campanha Vai e Vem: poder-se-ia falar de alguns dos projetos de missão a partir da Campanha Vai e Vem.

5  Subsídios litúrgicos Oração do dia: Deus de graça e misericórdia! Nós te louvamos pelo privilégio que temos de estar em tua casa, desfrutando de tua infinita misericórdia. Louvamos-te porque os teus planos não dependem de nossa vontade, a qual muitas vezes se mostra egoísta. Queremos te pedir que venhas neste momento falar aos nossos corações, para que possamos conhecer cada dia mais o tamanho do teu amor por cada um de nós. Tira de nós o que atrapalha e envia o teu Santo Espírito para que sejamos convencidos pelo poder de tua Palavra. Por Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém! Confissão de pecados: Gracioso Deus. Estamos diante de tua presença para reconhecer que somos fracos, teimosos, falhos. Somos pecadores carentes de tua graça e de teu perdão. Perdoa-nos, Senhor, pelas vezes em que somos egoístas e não queremos partilhar com os outros aquilo que recebemos de ti. Perdoa-nos pelas vezes que agimos mal, que magoamos aquelas pessoas que tu colocaste ao nosso lado para ser o nosso próximo. Se olhamos com sinceridade para o nosso coração, o que vamos ver é corrupção, pecado, maldade. Por isso, na tua presença, clamamos por perdão. Tira de nós esse coração que é corrupto e coloca em nós um coração moldado por tua graça e por teu amor. Por Jesus Cristo é que te pedimos. Amém.

Bibliografia HOMBURG, Klaus. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1981.

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PRÉDICA: MARCOS 1.21-28

4O DOMINGO APÓS EPIFANIA

DEUTERONÔMIO 18.15-20 1 CORÍNTIOS 8.1-13

29 JAN 2012

Aline Danielle Stüewer Joel Haroldo Baade

1  Introdução A temática sugerida pelo texto da prédica para este domingo é controversa e, em certa medida, até polêmica, qual seja: a possessão demoníaca. Justamente por isso, cabe um cuidado todo especial na interpretação e preparação da mensagem, para que não se chegue a um beco sem saída. Para auxiliar, poderíamos fazer a seguinte relação entre os três textos de leitura. O profeta do qual fala o texto de Deuteronômio 18.15-20 possui todas as características com as quais se descreve Jesus no texto de Marcos 1.21-28: alguém a quem as pessoas ouvirão; que provém do meio do povo, Jesus é de Nazaré, ele é judeu; e em sua boca está a palavra de Deus. A relação com o texto de 1 Coríntios 8.1-13 é mais subjetiva, de modo que proponho tomá-lo como chave de leitura para o texto da pregação, visto que a temática sugerida pelo evangelista Marcos é controvertida. Nesse sentido, poderíamos relacionar a possessão demoníaca, mencionada por Marcos, com a prática de comer carne sacrificada aos ídolos, referida pelo apóstolo Paulo. Assim como a prática de não comer carne sacrificada aos ídolos é comum entre os pequeninos na fé, ocorre também com a crença na possessão demoníaca. Além disso, não se pode ignorar as consequências de uma eventual interpretação literalista do texto de Marcos, no sentido de ver no “espírito mau” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje) ou “espírito imundo” (Almeida, Revista e Atualizada) uma entidade divina ou semidivina antagônica ao Deus cristão, pai de Jesus Cristo. Novamente Paulo nos ajuda ao dizer que, como cristãos, cremos num único e verdadeiro Deus, pois “sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus” (1Co 8.4).

2  Exegese O texto de Marcos 1.21-28 possui apenas um paralelo em Lucas 4.31-37, sendo que Marcos serviu de fonte para a composição de Lucas. Os acréscimos e omissões de Lucas em relação a Marcos devem-se, possivelmente, ao contexto distinto de composição dos respectivos evangelhos e ao estilo de cada autor e não incidem sobre a mensagem central do texto. Essa, a nosso ver, está em Marcos 1.24 e Lucas 4.34, sendo que aí não há qualquer diferença entre os dois evangelistas.

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4º Domingo após Epifania

Vejamos agora uma análise mais detalhada do texto de Marcos 1.21-28. Foram comparadas as traduções de quatro versões portuguesas (NTLH, Almeida RA, Jerusalém e Pastoral). V. 21 – Dá conta do local onde se desenrola a cena. Não há uma diferença substancial entre as diferentes versões do texto. Nas versões de NTLH e Pastoral, há uma explicitação dos sujeitos da ação. NTLH menciona Jesus e os discípulos, e a versão Pastoral cita Jesus. Nas demais versões, bem como no texto grego, os sujeitos permanecem ocultos. A referência ao sábado e à sinagoga é importante, pois são centros em torno dos quais se articula a religiosidade judaica da época. V. 22 – As pessoas ficaram impressionadas com a maneira de Jesus ensinar. Seu jeito era diferente daquele praticado pelos escribas e fariseus. O que marcava as pessoas não era tanto o conteúdo do ensino de Jesus, mas o seu jeito de falar. Ele conhecia o que falava, falava com autoridade. Do ponto de vista antropológico, a autoridade é fundamental para que o ser humano aceite uma nova ideia ou ensino. Falar com autoridade significa expressar-se não apenas com palavras, mas também com gestos e ações. V. 23 – A tradução correta para pneuma akatharton é “espírito impuro” e não “espírito mau”, como as versões Pastoral e NTLH traduzem. A impureza, nesse caso, era em sentido ritual e cultual. Uma pessoa era considerada impura quando, por exemplo, entrava em contato com coisas, seres ou lugares impuros. Um “espírito impuro” impedia que a pessoa atingisse santidade plena e abrangente. No tempo de Jesus, uma pessoa era considerada impura por tocar em leprosos, comer com publicanos, comer sem lavar as mãos etc. Qualquer pessoa que a tocasse era contaminada. Uma pessoa que era declarada impura não podia mais estar diante de Deus no Templo nem receber a bênção. Ela deveria antes se purificar. V. 24, 25 e 26 – Também o homem dominado pelo “espírito impuro” reconhece em Jesus alguém diferente. Jesus não fala como qualquer um e não é qualquer um, mas é o “Santo de Deus”. Apesar da visão dualista da época, o evangelista Marcos parece usar as crenças em demônios e, no caso, espíritos impuros e as contrapõe a Jesus. Jesus, ao mesmo tempo em que respeita a crença das pessoas, também mostra a elas que esses espíritos não têm poder nenhum. V. 27 e 28 – Essa atitude de Jesus teve grande impacto sobre o povo, pois as pessoas perceberam que, em Jesus, aquele “espírito impuro” não tinha poder; ao contrário, até mesmo ele o temia. Jesus passou a ser conhecido em todos os lugares por sua maneira diferente de ser e por seu poder.

3  Meditação Acredito que é importante explicar para a comunidade o significado da palavra “espírito impuro”, para que fique mais claro o significado do ato de Jesus. Ou seja, Jesus não está lutando contra uma divindade, mas está se opondo a atitudes e ações que nos afastam de Deus. É interessante destacar que, para Marcos, o primeiro milagre de Jesus foi justamente a expulsão de um “espírito impuro”. Para Marcos e para as pessoas da

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época, um “espírito impuro” era um poder do mal, algo hostil a Deus. As pessoas viviam com medo, sempre ameaçadas por coisas e pessoas que colocavam as suas vidas em perigo. A pessoa possuída pelo “espírito impuro” não poderia estar em comunhão com Deus, nem mesmo com as outras pessoas. Por isso elas eram afastadas e excluídas do convívio social. Nesse sentido, cabe perguntar hoje pelos poderes que nos afastam do convívio com as pessoas e com Deus. O poder que nos tem afastado do convívio com Deus e com as pessoas é o pecado. O pecado, além de nos afastar de Deus, amarra-nos e nos torna dependentes. Assim, podemos destacar diversos poderes que nos tiram do convívio com Deus. Na sociedade em que vivemos, há vários poderes que prejudicam nosso relacionamento com Deus e com o próximo. Numa sociedade em que crescemos ouvindo que o importante é ter e não ser, é comum vermos pessoas se perderem de si mesmas para conseguir ter o que querem. Dentro desse contexto, a ganância acaba levando as pessoas a mentir e a pisar em outras para adquirir o que desejam. Nessa sociedade capitalista, as pessoas acabam se tornando escravas do dinheiro e também do trabalho. Como é comum ouvirmos pessoas reclamarem que não têm mais tempo para nada! Quando o ser humano se torna escravo do trabalho, então a família acaba sofrendo a ausência e a falta de atenção do pai, da mãe, da esposa, do esposo. A instrução e a educação dos filhos e filhas diante disso são relegadas a terceiros, preponderantemente à escola, levando ao estranhamento dos membros da família e à sua desintegração. Além disso, a dificuldade de perdoar tem levado muitas pessoas a se afastar de seus amigos e até familiares. Quantas histórias de famílias que ficam anos sem se falar, porque ninguém quer dar o braço a torcer. O orgulho é mais forte do que o amor. Assim, essas pessoas são dominadas pela raiva, pelo rancor e pelo ódio. Na sociedade em que vivemos, muitas pessoas se perdem em si mesmas e, num ato desesperado, procuram algo que as afaste do “poder do mal”. Cada vez mais percebemos o quanto as pessoas estão se apegando a crenças e fazendo delas o seu deus. Acreditam que, fazendo simpatias, podem reconquistar um amor perdido ou até mesmo resolver os conflitos em casa. Acreditam que os horóscopos podem mostrar o seu futuro e oferecer-lhes orientação. Fazem de amuletos e fitinhas o seu deus protetor. Sempre que o ser humano coloca a sua confiança em algo além de Deus, está se afastando do Deus verdadeiro e passa a viver possuído de “outros espíritos”. Somente Jesus tem o poder de combater o poder do pecado. Perto de Jesus, nenhum mal tem poder. Somente Jesus tem o poder de afastar-nos do mal e aproximar-nos de Deus. Jesus veio exatamente para restabelecer a nossa comunhão com Deus. Quando ouvimos os ensinamentos de Jesus, então reaprendemos o verdadeiro sentido da vida e somos libertos daquilo que nos domina. A palavra de Jesus tem o poder de transformar as nossas vidas e libertar-nos dos poderes que ameaçam a nossa liberdade.

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4  Imagens para a prédica A estória a seguir pode ajudar a ilustrar o domínio que o vício pode ter sobre uma pessoa e o poder de transformação da palavra de Deus: “Um soldado lutava desesperadamente contra a bebida. Ele havia chegado até tenente-coronel. Mas, por causa da bebida, ele foi rebaixado e rebaixado. No final, ele voltou a ser apenas um soldado. Ele sabia que, se fosse achado de novo bêbado, iria para a cadeia. Um dia, ele estava deitado no quartel quando um monge entrou. O velho frade passou entre os soldados distribuindo literatura. Quando ele chegou ao soldado, ele percebeu sua aflição. O soldado mandou-o embora, dizendo que não acreditava em Deus. Mas o frade continuou a falar. Ele disse que ele também havia lutado contra a bebida. Ele falou que conhecia um poder que poderia libertá-lo. Ele deu um pequeno Novo Testamento para o soldado com as seguintes instruções: ‘Cada vez que você sentir vontade de beber, tome seu Novo Testamento e leia o evangelho. Antes de você terminar, o desejo passará’. O soldado agradeceu, mas, quando o frade foi embora, ele jogou o Novo Testamento na cabeceira e foi dormir. Mais tarde, ele acordou com um desejo infernal de beber. Ele sentiu aquela força incontrolável, aquele desejo de mergulhar na bebida. Quando ele estava se arrumando para ir ao bar, lembrou das palavras do frade. Ele viu a Bíblia, pegou-a e começou a ler. Em menos de meia hora, ele havia lido vários capítulos. E – o mais incrível – ele não queria mais beber. Daquele dia em diante, cada vez que ele sentia desejo de beber, ele pegava a Bíblia e começava a ler o evangelho. Em pouco tempo, ele deixou de vez de beber e ficou curado.” (Autor desconhecido)

5  Subsídios litúrgicos Como a temática do culto fala de libertação dos poderes que nos dominam e nos escravizam, poderia haver um momento em que as pessoas vão até a frente e pedem que o poder de Jesus as liberte de tudo aquilo que as afasta de Deus e das pessoas. Esse momento poderia acontecer com a unção com óleo, e o ministro ou a ministra podem dizer as seguintes palavras: “O poder de Jesus te liberta e te reaproxima de Deus”.

Bibliografia MESTERS, Carlos; LOPES; Mercedes. Caminhando com Jesus: Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos. 2. ed. São Leopoldo: CEBI, 2008. WEGNER, Uwe. Demônios, maus espíritos e a prática exorcista de Jesus segundo os evangelhos. Estudos Teológicos, São Leopoldo, ano 43, n. 2, p. 82-103, 2003.

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PRÉDICA: 1 CORÍNTIOS 9.16-23

5O DOMINGO APÓS EPIFANIA

ISAÍAS 40.21-31 MARCOS 1.29-39

05 FEV 2012

Roberto E. Zwetsch Ai de mim se não pregar o evangelho!

1  Situando o texto As cartas de Paulo têm sido muito estudadas no corpo dos textos do Novo Testamento. A primeira Carta aos Coríntios é uma delas. Como temos muitos registros acerca da atividade apostólica de Paulo, isso nos permite um bom conhecimento de sua teologia, principalmente porque ele a desenvolveu no contexto da ação missionária, respondendo a perguntas concretas das comunidades nas quais atuou como ministro do evangelho. Sobre este texto de 1 Coríntios 9.16-23 já foram escritos dois outros auxílios homiléticos no PL XIV, por Hans Trein, e no PL XXV, por Verner Hoefelmann. Para quem tiver esses volumes, sugiro sua leitura em complementação ao que escrevo aqui. O texto da prédica para este domingo encontra-se no meio da carta, num contexto em que Paulo discute o problema do consumo de carne consagrada aos ídolos e a incompatibilidade da convivência entre idolatria e comunhão com Cristo. Nesse contexto maior, o capítulo 9 parece deslocado às vezes, pois coloca em foco o ministério da pregação, a obrigação que pesa sobre o apóstolo de anunciar o evangelho e a liberdade de fazê-lo de graça para, pelo menos, ganhar alguns para Cristo. Quando fundou a comunidade de Corinto, Paulo permaneceu lá por um ano e meio (At 18.11). Ele conhecia bem a cidade, que tinha uma população que passava de cem mil habitantes. Corinto foi reconstruída pelos romanos em 46 a.C., tendo assumido as características marcantes de uma cidade romana, com a administração pública ligada à província da Acaia e políticos eleitos anualmente, além da famosa ágora grega. Era a maior cidade ao sul da Grécia, centro de comércio na proximidade de dois portos, que faziam a ligação do estreito: Cencreia, no mar Egeu, e Laqueu, no mar Adriático, ligados por uma estrada de cerca de 6 km, por onde transitavam o pujante comércio e até barcos puxados por escravos, de modo que os viajantes pudessem evitar os perigos da circumnavegação da península. Havia também uma atividade industrial famosa naquele tempo (olaria, metalúrgica e tecelagem). A população era muito diversificada tanto cultural como religiosamente. Corinto destacava-se pelas muitas expressões religiosas e numerosos templos, como o popular culto à deusa Ártemis, em cujo templo – segundo alguns pesquisadores – serviam mais de mil mulheres nos cul-

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tos de fertilidade. Não por acaso, dois temas importantes dessa carta são a carne sacrificada aos ídolos e a prostituição sagrada. Importa destacar ainda a questão do trabalho que Paulo assume como forma de sustentar-se autonomamente. Segundo Atos 18.1ss e 20.34s, ele trabalhou como fazedor de tendas, tendo sido acolhido em Corinto por Priscila e Áquila em sua casa, compartilhando com eles o mesmo ofício, para assim anunciar o evangelho sem ocasionar ônus para a comunidade recém-fundada. Casa (em grego, oikos) na época significava uma unidade básica da organização social e da produção econômica. O conceito abrangia um grupo social com várias gerações da mesma família convivendo no mesmo espaço, além de escravos e libertos que trabalhavam na produção doméstica. Nela havia uma hierarquia: senhores – escravos; marido – mulher; pais – filhos. Até a religião dos escravos era determinada pelo chefe de família. Nessa estrutura, a nova valorização da pessoa, especialmente das pessoas mais pobres, que o evangelho e a fé cristã trouxeram, mexeu não só com a vida religiosa das pessoas, mas também com a estrutura socioeconômica em vigor, fato logo percebido pelas autoridades. Sobre essa questão do trabalho de Paulo, vale registrar a interpretação de José Comblin, pois ajuda a compreender o texto em estudo. Paulo fez uma opção ao chegar a Corinto. Ele se encontrava diante de duas possibilidades: 1) a primeira alternativa era entrar como filósofo, aparecer em praça pública, como Lucas o descreve em Atos 17 no discurso de Atenas. Como filósofo ou especialista da palavra, ele poderia agradar a alguém de posses, que então o convidaria para sua casa, onde permaneceria como hóspede, sendo sustentado por essa pessoa, retribuindo como professor de seus filhos. Ao que parece, Paulo feriu os brios de algumas poucas famílias abastadas que vieram juntar-se à comunidade cristã de Corinto ao não aceitar sua hospitalidade. Paulo rejeitou todas as ofertas, para garantir a independência na pregação do evangelho. Essa talvez seja a explicação para a liberdade com que ele pôde criticar os ricos da comunidade, que não sabem esperar pelos mais pobres quando da reunião para o culto e a celebração da Santa Ceia (1Co 11). Em todo caso, é esse grupo que fomentou difamações contra Paulo por causa dessa opção pelo trabalho (que, na época, era semelhante a fazer-se escravo), acabando por colocá-lo até mesmo em oposição ao próprio Jesus (9.14). A questão é tão melindrosa, que Paulo, na segunda Carta aos Coríntios, retorna ao assunto e com palavras ainda mais duras (2Co 10-11). 2) A outra alternativa era trabalhar com as próprias mãos, com todos os riscos e possíveis más interpretações que essa opção significava. Foi essa que Paulo escolheu. Por quê? Ora, trabalhar na época era meter-se no meio dos pobres, de escravos e artesãos. Paulo procurou o bairro em que moram os trabalhadores que exerciam o mesmo ofício que ele. E lá encontrou os judeus Priscila e Áquila, que o convidaram para trabalhar com eles em sua casa. Dessa maneira, Paulo se situou diretamente no bairro dos trabalhadores e relacionou-se com o mundo deles. Na comunidade que se forma a partir do anúncio da cruz e da ressurreição de Jesus, ele acompanhará e representará sempre o ponto de vista deles com naturalidade e não de forma forçada ou ideológica (1.26ss; 4.12). Para os mais ricos, isso significou um problema. Quando irrompe o conflito, passam a acusá-lo de ser

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fraco, sem discursos grandiloquentes de sabedoria humana, nem de apresentar as credenciais que outros apóstolos tinham como manifestações visíveis do Espírito, ser sustentado pela comunidade e ser acompanhado por uma mulher, entre outras. Ao escolher esse caminho, ele tece uma parábola da própria opção de Deus pelos mais fracos. Deus escolheu os fracos, rejeitando assim o poder da riqueza e da cultura gregas. O argumento de 1 Coríntios 1.27s é de uma clareza estonteante e ainda hoje causa escândalo nas comunidades cristãs: “Deus escolheu as cousas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar os fortes; e Deus escolheu as cousas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus”. Essa opção de Deus, que se materializou na encarnação de Jesus, também ele nascido de uma jovem desconhecida mulher e numa cidadezinha da periferia de Israel (Nazaré da Galileia), levou Paulo a afastar-se da praça pública, do mundo das pessoas “livres”, das famílias importantes e a dirigir-se ao bairro dos trabalhadores e trabalhadoras, onde assume sua cultura e sua forma de se comunicar. Essa opção pode explicar por que o evangelho se espalhou tão rapidamente por todo o império, levado por pessoas simples, trabalhadores, mulheres, escravos, comerciantes, militares, além de alguns sábios que se converteram de coração ao evangelho de Cristo. Paulo atuou na polis, na cidade. Ele é um missionário tipicamente urbano, que divulgou uma mensagem que veio da zona rural da Palestina. Sua opção pelas cidades foi estratégica. Basta conferir acompanhando suas viagens missionárias. Isso fez com que ele fizesse um trabalho de tradução do evangelho de Jesus e de inculturação de sua mensagem para o mundo urbano, algo inédito até aquele momento, mantendo a radicalidade da cruz e da ressurreição como mensagem da liberdade. Isso é importante para nós hoje, quando nos vemos às voltas com o desafio das cidades e do mundo urbano. Paulo dirigiu-se a cidadãos e cidadãs urbanos, e a pregação do evangelho precisava fazer sentido nesse contexto. Em segundo lugar, o evangelho não se tornou unanimidade, gerou conflitos que implicavam perseguição e inimizades. Terceiro: a mensagem do evangelho é um convite ao exercício da fé como esforço comunitário e organizado e não como uma mensagem intimista e alheia ao meio em que está inserida. Dessa forma, a comunidade cristã qualificou-se bem cedo como um segmento participativo da polis, e isso se pode notar tanto nas cartas de Paulo como nas cartas pastorais (p. ex.: 1Pe), que anotam vários conselhos de como ser cristão no mundo urbano. Uma informação ainda é digna de registro: Paulo escreve aos coríntios junto com o irmão Sóstenes, o que indica uma postura de equipe e responsabilidade compartilhada pelo trabalho de evangelização. Ele escreve a Carta de Éfeso como resposta a uma carta enviada pela comunidade (5.9). Não só aqui, mas em vários outros textos, Paulo indica nomes de suas colaboradoras e colaboradores, o que também é sinal de uma maneira de trabalhar em grupo e de forma planejada. Nesse sentido, concordo com Nélio Schneider, que escreveu que é hora de nos despedirmos definitivamente da abordagem romântica muito difundida sobre Paulo como figura excepcional, que teria sido responsável, quase sozinho, pela missão aos gentios. Nada mais distante da verdade histórica. A grandeza desse

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apóstolo, além de seu compromisso radical com o evangelho da cruz, está em sua capacidade de trabalhar com outras pessoas, na autonomia que atribuía às comunidades por ele evangelizadas e na confiança que depositava nas pessoas que o acompanhavam e até o ajudavam em situações de penúria, perseguição e encarceramento. Só para ter uma ideia, nas cartas de Paulo são mencionadas nominalmente quarenta pessoas como suas colaboradoras, nos Atos dos Apóstolos mais doze nomes e nas cartas pastorais outras dez. Quer dizer, embora Paulo tenha exercido notável liderança e energia na missão e no esforço teológico, ele soube trabalhar junto com pessoas dispostas a colaborar, sem criar tutelas ou discípulos. Esse método, como indica Schneider, “mais do que uma estratégia bem bolada, era exigência do meio urbano, com sua diversidade étnica, cultural e de condição social”. Possivelmente foram essas pessoas que, conhecedoras de seu contexto, foram as responsáveis por boa parte do sucesso na divulgação da mensagem evangélica e na solidificação das comunidades formadas a partir da pregação de Paulo. Faríamos bem hoje em dia se considerássemos em nossa ação pastoral essa maneira de exercer o ministério, principalmente numa igreja que, desde 1994, adotou o conceito do ministério compartilhado.

2  Considerações exegéticas O capítulo 9 de 1 Coríntios é um retrato de quem assume o ministério. Paulo poderia ser sustentado pela comunidade. Ele conhece os seus direitos e inclusive pode citar uma palavra de Jesus que legitima essa relação entre quem trabalha pelo evangelho e o dever que a comunidade assume em sustentar aquele ou aquela (v. 1-14). A questão que Paulo coloca é outra. Ele assumiu trabalhar de graça, e isso até poderia ser atribuído como sua glória particular. Mas ele reconhece: até mesmo o anúncio do evangelho que o identifica não pode ser motivo de glória. Antes, é uma necessidade imposta, uma verdadeira obrigação: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho! Se o faço de livre vontade, tenho galardão; mas, se constrangido, é a responsabilidade de despenseiro que me está confiada” (v. 16-17). Paulo exercita aqui algo que é fundamental em sua compreensão do evangelho de Cristo: a liberdade. E liberdade, no seu entendimento, tem como característica a capacidade de renúncia, de entrega e de exercício da gratuidade. Qual a recompensa que se pode esperar desse gesto unilateral? “É que, evangelizando, proponha, de graça, o evangelho, para não me valer do direito que ele me dá” (v. 18). No argumento de Paulo, há um termo próprio de sua teologia do ministério que pode assustar: anagkê, traduzido ao português por coação ou obrigação. Se exercer o ministério se resume a esse sentimento imperioso, como explicar que Paulo o entenda como livre expressão de sua liberdade em Cristo? Aqui temos um paradoxo, pois, mesmo sendo uma obrigação que pesa sobre ele, Paulo aprendeu a exercer o ministério com alegria (cf. Filipenses, carta escrita na prisão), desprendimento, ousadia, paixão e liberdade insuperáveis. Paulo, o apóstolo nascido fora do tempo (Gl 1.15; 1Co 15.8), aprendeu a viver em qualquer situação,

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pois a graça de Deus lhe basta (2Co 12.9). É impressionante considerar o seu testemunho como apóstolo. Parece que Deus colocou os apóstolos em último lugar, como condenados à morte. Eles são um verdadeiro espetáculo ao mundo, tanto a anjos como a homens. De certa forma, ele pode dizer por experiência própria: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos, e vós fortes; vós nobres, e nós desprezíveis. Até a presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos” (1Co 4.12-13). Se assumir o ministério significa tal desqualificação e sofrimento, quem se habilitará? Esse retrato do ministério da pregação, da evangelização ou da profecia, como quer que o venhamos a definir, definitivamente não se coaduna com a experiência contemporânea em que, muito seguidamente, ele está associado a status e boa vida. Se ficássemos com esse modelo de ministério, provavelmente nossas escolas de teologia e preparação para o ministério, e isso vale para todas as igrejas, tornar-se-iam vazias e entregues às moscas. Na experiência de Paulo, a marca do verdadeiro ministério são o sofrimento e a entrega total, se necessário da própria vida. É, portanto, uma experiência radical. Por isso renovo a pergunta: Quem se habilita? Quem está disposto a ir tão longe em sua decisão de dispor-se ao caminho do evangelho, assumindo suas consequências? Ocorre que somente assim podemos compreender o que está dito nos versículos 20-23. Paulo escreve que foi um judeu para com os judeus, vivendo como se também para ele a lei judaica fosse o critério da fé verdadeira. Quanto às pessoas que desconheciam a lei, viveu com elas como se também ele não estivesse mais sob o regime da lei judaica, antes exclusivamente sob a lei de Cristo, e essa é a lei do amor. O intuito em todos os casos era um só: “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns” (v. 22-23). Vemos aqui mais uma vez Paulo argumentando em defesa de sua posição e atitude. Ele não quer impor a ninguém sua atitude e seu pensamento, mas deseja que compreendam em profundidade as suas razões. E essas se prendem inextricavelmente ao evangelho da graça e do poder de Deus, o evangelho da cruz de Cristo, loucura para os gregos e escândalo para os judeus, mas, para a comunidade cristã, poder de Deus e sabedoria de Deus (1Co 1.21-24). É importante que se esclareça, contudo, que o tornar-se “tudo para com todos”, a fim de ganhar o maior número possível de pessoas para o evangelho de Cristo, não equivale a uma atitude impensada, oportunista e interesseira no afã de angariar adeptos ou membros para a comunidade. Pois, para Paulo, está claro que na ação missionária o ministro não se pode valer de meios que contradigam a proposta do evangelho e da liberdade cristã, cujo critério maior é o amor (1Co 13). É nesse sentido que toda ação cristã, seja de quem assume o ministério especial, seja da pessoa membro de uma comunidade de fé, equivale à ação do próprio

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evangelho. Nesse sentido, Paulo poderá afirmar noutro lugar: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Disso tudo se pode concluir que o terreno onde brota e germina o evangelho é o serviço gratuito e desinteressado, generoso, amoroso, sem ostentação de direitos ou privilégios, solidário, esperançoso, mesmo quando ministros ou ministras até se possam valer de uma ordem de Cristo ou da lei de Moisés (9.14; Mt 10.10; Dt 18.1s) para seu sustento e sobrevivência condigna. A conclusão de Paulo é uma só: “Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar participante dele”, numa tradução que diz melhor o que está expresso no original grego. Participante do ou comungante com o evangelho – também se poderia dizer, como forma de traduzir o grego sigkoinonos. Tudo o que foi dito diz respeito à dignidade do ministério de Cristo, de suas exigências (anagke) e de seu galardão (misthos). Tal compreensão e radicalidade no serviço do evangelho só se realizam no espaço e na vivência de uma profunda liberdade, pois, do contrário, será sempre peso, enfado e rotina que desqualificam o ministério, como o próprio Paulo anteviu (9.27). Por isso Paulo pode afirmar mais uma vez: “Porque sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível” (v. 19).

3  Rumo à prédica O texto para a pregação refere-se explicitamente ao exercício do ministério da igreja. Refere-se, portanto, justamente a quem nestes dias estará falando no púlpito ou na estante de leitura. É um texto de autorreferência, e por isso não é fácil de pregar sobre ele. Esse é um dos problemas com essa pregação. Mas há outros. E o mais duro é confrontar-se com as altas exigências que Paulo coloca para anunciar, de graça, o evangelho, sem que isso implique qualquer direito humano ou recompensa espiritual. Como então anunciar o evangelho contido nessa passagem de 1 Coríntios, focando no exercício do ministério e, ao mesmo tempo, apontando para Cristo, para o evangelho, como ensinou Lutero? Eis aí como entendo o desafio desse texto para nós hoje, pastoras, pastores, missionárias, diáconos, diaconisas, educadores e educadoras cristãs, seja quem for que estiver na vez de pregar neste domingo. Assisti, há poucos dias, a um filme francês que me causou profundo impacto e que recomendo a quem puder assisti-lo como preparação para essa prédica. Trata-se de Homens e deuses, recentemente divulgado no Brasil (direção de Xavier Beauvois, França, 2010, veja detalhes na internet). Baseado em fatos reais, acontecidos em 1996, o filme narra a vida e o serviço prestado por monges cistercienses numa remota região do Mahgreb, na Argélia, norte da África, de tradição muçulmana, bem como o martírio de vários deles por fundamentalistas islâmicos, após violenta repressão das forças do exército do país. Os monges vivem de seu trabalho e exercem um ministério diaconal e testemunhal para com os vizinhos muçulmanos, em sua maioria mulheres, crianças e pessoas idosas, muito pobres e sem qualquer ajuda do governo. Vivem entregues à própria sorte,

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desempregados, lutando por um pedaço de pão, além de estar situados entre as forças do governo e os grupos guerrilheiros que se opõem ao regime político dominante. Nessa situação, viver é muito perigoso, como escreveu Guimarães Rosa no Grande sertão: veredas. Não cabe aqui reproduzir o filme, belíssimo sob diversos aspectos: fotografia, argumento, qualidade da interpretação dos personagens, música, mensagem. Desejo apenas destacar alguns momentos marcantes que talvez nos ajudem na busca por caminhos para a prédica deste domingo. Um deles acontece quando, certa noite, o mosteiro é invadido por um comando guerrilheiro. O chefe do grupo manda chamar o abade, e esse acorre ao pátio para ver o que está acontecendo. Ao deparar-se com a força militar, ele se apresenta e afirma que aquele é um lugar de paz e que ele não aceita discutir qualquer assunto mediante a força das armas. Ele pede então que o grupo se retire. Há um momento de silêncio e grande tensão até que o chefe do grupo faz um sinal e todos se retiram. Fora dos muros, em frente ao portão, o abade aceita conversar e o chefe do grupo faz suas exigências. Precisa com urgência que o monge-médico vá com ele para atender um guerrilheiro gravemente ferido. O abade contesta novamente, dizendo que o monge é pessoa idosa, padece de asma e não pode deixar o mosteiro. O guerrilheiro solicita remédios, mas outra vez o abade nega, afirmando que são poucos e que o mosteiro atende prioritariamente a população local, que é muito pobre e numerosa, de tal modo que os remédios mal bastam para as suas necessidades. Há outro silêncio constrangedor, e os guerrilheiros finalmente se afastam. O abade ainda faz uma pergunta ao chefe da milícia, que se volta para escutá-lo: Você sabe que dia é hoje? Ele responde: Não. O abade: Hoje é o dia do príncipe da paz, e nós vamos celebrar o seu dia logo mais na capela. O guerrilheiro pensa e responde: Eu não sabia disso. Calmamente, volta até o abade, põe-se à sua frente, olha para aquele homem desarmado e firme e, finalmente, estende-lhe a mão. O abade vive um momento de dúvida atroz, mas finalmente também lhe estende a mão, trêmulo. O homem armado e seu grupo vão embora. É uma cena antológica, a meu ver, do cinema contemporâneo, sobretudo se pensarmos nos conflitos do Oriente Médio, dos grupos islâmicos radicais, normalmente acusados de terrorismo, das revoluções populares que estão ocorrendo no mundo árabe e assim por diante. Mas o que desejo destacar aqui é outro aspecto. Para mim, aquele mosteiro, a situação em que ele está inserido, a discussão interna que se deu na comunidade, se devia ou não permanecer naquele lugar tão cheio de perigos e sem perspectivas de sucesso evangelizador, colocam um ponto de interrogação radical para a compreensão do que seja o ministério cristão na atualidade. Longe das benesses de uma vida tranquila e em paz, aquele mosteiro estava no front da missão e levou o seu compromisso com o evangelho até as últimas consequências. Os monges fizeram longas conversas na comunidade se deviam permanecer ou sair para proteger suas vidas. Um a um foi instado pelo abade, em total liberdade, a decidir se permanecia ou se voltava para a França. Depois de muitos dias, de muita conversação, angústia e noites maldormidas, a pequena comunidade viu chegar o dia da decisão. A maioria resolveu ficar; apenas um decidiu voltar e nem por isso foi criticado pelos irmãos. Assim se cumpriu a lei da liberdade cristã naquela ocasião. Mais tarde, esse monge retorna, traz no-

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tícias do país e das famílias e, num jantar de confraternização, os irmãos podem saborear algumas comidas do país e um pequeno cálice do melhor vinho francês, iguarias que há muito não tinham mais podido saborear – um pouco de prazer em meio a sofrimento, dor e perigos. No que diz respeito às relações políticas, os monges foram instados pelas autoridades a retirar-se para preservar a vida. Eles não aceitaram. Certo dia, o abade é convocado ao quartel militar para reconhecer um dos guerrilheiros mortos num encontro com os militares do exército do país. E, para sua tristeza, o homem morto era aquele líder que o havia procurado e a quem pudera estender a mão num gesto de paz e reconhecimento mútuo. Ele então fica sabendo que o homem não só havia sido morto, como também arrastado por vários lugares por um carro militar para demonstrar o ódio e o desprezo dos governistas ao grupo opositor. O que desejo trazer à reflexão é o que significa exercer o ministério num contexto controverso e tão desfavorável como o que vivemos hoje em dia. Não me refiro às rotinas do ministério e ao serviço oficial que se espera de cada pessoa que é chamada, prepara-se e finalmente assume a tarefa de pregar o evangelho, administrar os sacramentos e cuidar com atenção e responsabilidade da comunidade que lhe foi confiada. Quero crer que a maior parte das pessoas em nossas igrejas assumiu o ministério com seriedade e tenta exercê-lo com sensibilidade, responsabilidade e visão missionária. Mas o texto de Paulo nos coloca, entendo eu, diante de outra perspectiva de análise e de comprometimento com o evangelho. Ainda que sejamos sustentados pelo serviço que prestamos na igreja e nas comunidades, como exercer o nosso ministério de graça¸ livres, sendo fraco para com os fracos, tudo para com todos, para assim ganhar alguns? Como viver para e servir ao evangelho, como se fôssemos os últimos, o lixo do mundo? Para ser honestos, deveríamos pelo menos responder que não é fácil. Há muitos argumentos a nosso favor para que possamos nos defender com justiça perante nossos semelhantes e mesmo perante Deus. Mas não é disso que Paulo fala. Ele aponta para uma dimensão completamente louca do ministério, e é isso que nos incomoda nesse texto. Por isso penso que não é fácil pregar sobre ele ou a partir dele. Creio que será um exercício duro e sofrido enfrentar esse texto e anunciálo neste domingo. Mas acredito que, se conseguirmos encontrar nele o tesouro escondido, sairemos fortalecidos da noite escura em que ele nos coloca, e certamente também a comunidade que nos ouve e que, com suas contribuições não apenas nos sustenta, mas contribui generosamente para com todo o trabalho da comunidade e ainda da missão global da igreja (escrevo nos meses em que participamos como IECLB da Campanha Missionária Nacional Vai e Vem). Anunciar o evangelho de graça, como de graça o recebemos e por graça fomos salvos, é algo que ultrapassa a rotina da igreja, a luta por direitos legítimos, mas não últimos, que o ministério confere. Compreender isso e viver de acordo com essa premissa paulina é algo, ao mesmo tempo, radical e profundamente libertador. Creio que Lutero entendeu isso ao formular a sua compreensão paradoxal da fé cristã em seu panfleto Da liberdade cristã: “um cristão é um senhor libérrimo sobre todas as coisas, pela fé; mas um cristão é escravo de todas as pessoas, pelo

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amor”. Compreender esse paradoxo e vivê-lo no dia a dia, assumindo-o em toda a sua radicalidade, é a marca da vida cristã tanto para Paulo e Lutero como para nós hoje no século 21. Saber atualizar tal compreensão da liberdade cristã e exercê-la com criatividade, coragem e desprendimento hoje na sociedade do dinheiro e do sucesso a qualquer custo não será fácil, sem qualquer sombra de dúvida. Mas me parece que é por aí que começa a pertinência da fé cristã num mundo em que só valem a fama, o lucro e a vantagem em tudo.

4  Subsídios litúrgicos

Leituras: Isaías 40.21-31 – O texto do Segundo Isaías recorda o Deus Criador, aquele que criou a terra e tudo o que nela existe: animais, plantas, rios, céus, estrelas e tudo o que se possa imaginar. Ele é tão poderoso, que nenhum ser humano é capaz de esquadrinhar o seu pensamento. Ele é simplesmente Santo. Mas justamente esse Deus santo e criador é quem faz forte ao cansado, é ele quem multiplica a força dos que perderam o vigor, é quem levanta jovens cansados e moços exaustos. É na experiência da esperança que as forças dos cansados se renovam. Os que esperam no Senhor, isto é, os que se entregam a ele de corpo e alma, voam como águias, correm e não se cansam, caminham e não se sentem fatigados. Belo texto para auxiliar na compreensão da carta de Paulo e de sua compreensão do ministério do evangelho. Marcos 1.29-39 – O evangelho de hoje coloca-nos diante de experiências práticas do exercício do ministério de Jesus. Na visita à casa de Pedro, Jesus é chamado pelos discípulos e, atendendo ao apelo, cura a sogra de Pedro. As pessoas da cidade logo sabem da notícia, e muita gente acorre a Jesus, porque também padecem de muitas enfermidades. Aliás, quem entre o povo não sofre de algum mal ou doença? Se naquele tempo foi assim, hoje não é muito diferente. Houve progressos na medicina, mas normalmente ele é reservado a poucos; enquanto os hospitais públicos estão cheios, o seu pessoal muitas vezes luta bravamente para atender a população, mas é despreparado, o que acaba por causar conflitos e enorme insatisfação. Resultado: o povo enche as igrejas pentecostais ou outros lugares de religião em busca de cura, de dignidade, de escuta, de cuidado. Quem se habilita a acolher e a cuidar do povo como fizeram Jesus e seu grupo? Mas como aguentar tamanha responsabilidade e tanta demanda reprimida? Creio que é essa a razão da retirada estratégica de Jesus. Ele se levanta alta madrugada e vai a um lugar deserto para orar. Quem no ministério aguenta tanta carência e tanta necessidade? Não é fácil responder, mais uma vez. Mas a prática de Jesus pode nos ajudar. Retirar-se para orar e colocar-se nu diante de Deus é muito importante no ministério, eu até diria que é essencial. E quem o faz saberá viver de graça e, por graça e na graça, anunciar livremente o evangelho que liberta e salva. Tal experiência o ajudará a não permanecer acomodado, mas antes ir a outros lugares em que também pessoas esperam pela boa notícia que cura, salva e liberta para o amor sem fim.

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Poema: Há um poema de Dietrich Bonhoeffer (Resistência e Submissão, p. 469s) que pode servir como inspiração para este culto em algum momento. Diz assim: Cristãos e pagãos Pessoas buscam a Deus na sua necessidade. Imploram auxílio, pedem felicidade e pão, libertação de doença, culpa e morte. Assim fazem todas, todas, cristãs e pagãs. Pessoas buscam a Deus em sua necessidade, acham-no pobre, insultado, sem abrigo e sem pão. Veem-no envolto em pecado, fraqueza e morte. Cristãos ficam com Deus na Sua paixão. Deus busca todas as pessoas na sua necessidade, satisfaz o corpo e a alma com o Seu pão, sofre por cristãos e pagãos a morte na cruz e a ambos concede perdão. Oração: Jesus, amigo e irmão de todas as pessoas que te buscam sinceramente: Tu viveste a liberdade maior entregando tua vida para o nosso bem e a nossa salvação. Contigo aprendemos o que é amar e ser livre. Hoje em dia, com facilidade pensamos que somos livres porque podemos comprar muitas coisas e encher nossa vida com uma agenda lotada. Mas, pensando bem, isso é pura vaidade, como escreveu o sábio de teu povo. Ajuda-nos, Senhor, a viver a liberdade cristã em humildade e ousadia, apaixonados pelo evangelho e pela graça que nos faz ser livres em ti. Que aprendamos a viver o amor para com os nossos semelhantes e, se for o caso, ensina-nos a amar até mesmo os nossos inimigos. Tem compaixão de teus ministros e ministras e dá-lhes coragem e fé para anunciar com liberdade e por graça o evangelho que nos deste. Amém.

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. A primeira Carta do apóstolo Paulo à comunidade de Corinto. Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal, EST, 2008. COMBLIN, José. Paulo, apóstolo de Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 1993. SCHNEIDER, Nélio. A primeira Carta de Paulo aos Coríntios. São Leopoldo: CEBI, 2008.

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PRÉDICA: MARCOS 1.40-45

6O DOMINGO APÓS EPIFANIA

2 REIS 5.1-4 1 CORÍNTIOS 9.24-27

12 FEV 2012

Dari Jair Appelt

1  Introdução A confiança em Deus permite-nos experimentar o seu poder: esse bem que poderia ser o tema do culto. A ousadia de um leproso marginalizado, que rompe as barreiras do isolamento e arrisca achegar-se a Jesus em seu sofrimento, é sinal de fé e confiança. Jesus, que conhece a condição do doente e a situação em que ele vive, sem perspectivas de comunhão e cura, acolhe a confiança expressa, compadece-se do leproso e responde à sua necessidade. Estranha é a recomendação de Jesus ao homem que, momentos antes, de joelhos, num gesto de humildade, havia revelado sua total confiança nele: “Olhe! Não conte isso a ninguém, mas vá pedir ao sacerdote que examine você...” Considerando que também Mateus e Lucas relatam esse episódio, podemos entender que ele é de extrema importância para entender que “os milagres são para a fé sinais que apontam para o reino de Deus, que já agora irrompe no velho mundo: na pregação e atuação de Jesus é vencido o reino das trevas, e Deus liberta e redime a sua criação de doença, pecado e morte...”(Bertholdo Weber, p. 258). Perguntamos: o que os três textos previstos têm em comum? No texto de 2 Reis 5.1-14, temos o relato da cura de Naamã, herói de guerra e comandante do exército do rei da Síria, também ele um leproso. O doente chega até Eliseu, “homem de Deus”, porque outras pessoas se envolvem com ele e querem ajudálo e por iniciativa do próprio profeta. A cura acontece porque Naamã, depois de resistir por um momento, dá ouvidos a seus oficiais e acolhe a ordem de Eliseu de “banhar-se sete vezes no rio Jordão”. Diante dos argumentos e das ponderações, ele confia nas palavras do profeta e experimenta cura. 1 Coríntios 9.24-27 trata da perseverança na busca pela vitória da causa do evangelho. O apóstolo Paulo usa os jogos olímpicos como comparação para a carreira da fé. Assim como nas provas de atletismo, o treinamento perseverante é recompensado com a vitória e com uma coroa de louros, assim os cristãos correm e dedicam-se a uma causa maior (a causa do evangelho), mesmo que para isso precisem sujeitar-se a determinados “sacrifícios”. A busca pela solução de problemas, entre eles a doença, é comparada a uma corrida por mais vida, na qual a graça de Deus e o reconhecimento de seu poder exercem papel fundamental. Em resumo, é comum aos textos o estímulo à perseverança e à confiança para superar as sombras da morte e promover a vida.

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2  Exegese Comparando o texto de Marcos com o texto paralelo de Mateus 8.1-4, observamos que os v. 43 e 45 foram omitidos. Também em Lucas 5.12-16, o v. 45 de Marcos foi reformulado. Isso indica que o texto passou por mudanças durante as fases da tradição. Weber também lembra que “a maioria dos manuscritos diz que Jesus atendeu ao pedido do leproso por compaixão, enquanto outros leem: tendo-se irado... Sua ira, nesse caso, não se dirige contra o leproso, mas contra o espírito imundo, a causa da enfermidade”. E nós entendemos bem isso, porque também nos indignamos com tudo o que gera sofrimento, exclusão e morte. Se Jesus diz ter vindo para que todos tenham vida, e vida em abundância (Jo 10.10), então está evidente que ele quer eliminar aquilo que gera sofrimento, libertar para a vida, reintegrar na comunhão. Segundo a compreensão judaica, a lepra era considerada “o primogênito da morte” (Jó 18.13). Quem estivesse acometido por essa enfermidade via-se excluído da comunidade e proibido de aproximar-se de outras pessoas. Expostos à miséria sem fim, os leprosos iam morrendo aos poucos, incriminados como pecadores, visto que a lepra era considerada um castigo de graves culpas. Se ocorria alguma cura, a ser ratificada por um sacerdote (v. 44), é de supor que se tratasse de qualquer outra doença similar. A ordem de Jesus para que o curado se mostre ao sacerdote e faça a oferta de purificação (Lv 14.1ss) mostra que Ele respeita a lei que rege seu povo. O “atestado de saúde” da parte do sacerdote seria a permissão para voltar ao convívio familiar e social. Mas essa ordem conflita com a outra: “Olha, não diga nada a ninguém!”. Isso tem a ver com o segredo messiânico. Muito se tem meditado sobre isso: por que manter segredo sobre as curas de Jesus e seu poder? É evidente que Ele não pretende tornar-se conhecido como taumaturgo (milagreiro, curandeiro). Jesus pretende ocultar sua dignidade divina e cumprir sua missão de pregar o evangelho como Servo de Deus obediente. Porém a virtude, o dom que dele irradia, é tão poderoso que as pessoas correm atrás dele em busca de solução para os seus problemas. Para Marcos, o desvendar do segredo messiânico só se dará na cruz. Lá, na cruz, ficará clara a sua identidade e que o reino de Deus realmente começou em sua pessoa e obra. E sob as luzes da ressurreição se evidenciam, mais ainda, o projeto de Deus e seu sonho para com a humanidade. Quem não estiver disposto a aceitar e suportar o mistério da cruz, a enfrentar o sofrimento com esperança de superação, a buscar por Ele com humildade, perseverança e fé não será verdadeiro seguidor. Quem não o reconhecer como o Messias que alcança a glória pelo caminho da cruz verá em Jesus apenas um “quebra-galho” para resolver algum problema. E isso, conforme Marcos, Jesus quer evitar. O leproso que se aproxima de Jesus, rompendo com a tradição e com as normas de segurança, provavelmente faz isso por desespero e por não concordar com sua condição imposta pela lei. A confiança no Senhor torna-o audacioso, apesar de sua humildade. Quando deveria ter alertado sobre a sua condição, clamando “imundo! imundo!”, para afastar as pessoas e evitar o contágio, ele se aproxima com esperança e fé. Reconhece que Jesus tem poder para mudar sua

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condição. E a resposta de Jesus não poderia ser diferente. A postura ousada e os sentimentos do leproso são acolhidos. Indignado com a causa da enfermidade, com a sua interpretação e suas consequências, Jesus reage de imediato e revela sua vontade. Mesmo querendo preservar sua identidade, Ele não resiste diante do sofrimento imposto ao leproso, considerado um vivo-morto, um “caso perdido”. Jesus quer a vida, a libertação de todos os males. Num misto de ira e compaixão, Jesus também se arrisca e destrói tabus: estendendo a mão, toca-o sem temer o contágio. Uma palavra basta para mudar tudo: Quero, fica limpo! “Com isso, Jesus não apenas liberta o homem de sua terrível doença física, mas da maldição da Lei e do reino das trevas... Cura, nos evangelhos, é sinal do advento e da presença do reino de Deus em Jesus, sua palavra e ação... A confirmação da cura pela autoridade sanitária competente, no caso, o sacerdote, é pré-requisito para a integração do curado na vida normal da sociedade” (Weber). Outro detalhe interessante no relato é que o curado não faz o que Jesus ordenou. Sua alegria é tamanha, que ele não consegue se conter; precisa partilhar o que aconteceu, afinal está livre e limpo. Imagino que ele nem se deu conta de que poderia estar complicando a vida de seu benfeitor. O homem “bota a boca no trombone”, espalha aos quatro ventos o que lhe aconteceu ao ser tocado pelo poder do Messias. Em consequência, provoca a afluência de muita gente, que vem buscar cura e milagres junto a Jesus. Jesus, por sua vez, retira-se para outros lugares para meditar sobre sua missão, para orar, para resistir à tentação de simplesmente atender expectativas, sem com isso promover mudanças em todo o sistema. Sua missão é bem maior: é salvar a humanidade, é proclamar a proximidade do reino de Deus, é mostrar que os sinais desse reino já estão presentes no que ele vem fazendo.

3  Meditação Quando criança, fiquei sabendo que, em minha cidade, havia uma família acometida de uma doença chamada “lepra”. Essa vivia isolada, sem poder trabalhar ou ir à escola. Dependia de doações de alimentos e roupas de pessoas da comunidade. Esses donativos eram deixados próximos à casinha de madeira, muito modesta, para ser apanhados assim que o entregador se afastasse. Foi a curiosidade que me levou, depois de um tempo, agora já adolescente, a conhecer melhor essa gente. Confesso que senti o estômago “embrulhar” diante do mau cheiro que exalava da casa e das pessoas. Senti também indignação pelo descaso das autoridades e da própria comunidade, que nada faziam para ajudar essas pessoas e encaminhá-las para tratamento. Abandonados à sua própria sorte, elas pareciam conformadas no aguardo da morte. Isso num tempo em que já se conhecia tratamento para essa doença. É sabido que a hanseníase (mal de Hansen) é hoje, graças à medicina, perfeitamente curável quando diagnosticada em tempo e submetida a um tratamento especializado. Como saí de casa ainda jovem, soube, bem mais tarde, que alguns daquela família haviam conseguido sobreviver graças à solidariedade e atitude de pessoas de boa vontade, que enfrentaram medos e tabus e encaminharam os doentes para tratamento.

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Entrementes, no exercício do ministério pastoral, acompanhei o tratamento de várias pessoas com hanseníase e, sempre que sentava ao lado delas e lhes estendia a mão, de imediato me perguntavam se eu não tinha medo de contágio. Percebia que ainda eram vítimas de um preconceito e de uma discriminação secular. Hoje existem outras doenças que provocam sentimentos de rejeição e acabam marginalizando pessoas; existe descaso com a saúde pública, negligência e conformismo com a condição em que se encontra o povo. O saudoso pastor Bertholdo Weber escreveu: “... existem ‘leprosos’ em toda a parte, homens e mulheres, crianças e velhos que vivem excluídos da vida social e comunitária, marginalizados do ‘centro’ da vida e cuja comunhão se evita como a própria doença contagiosa. A grande maioria do nosso povo está doente, passa fome e miséria e vive à margem da sociedade consumista que cultiva o ideal dos sãos e fortes, dos belos e ricos que aparecem na tela do cinema e na TV. O fraco, o pequeno, o que não pode produzir e nada tem é o joão-ninguém, o ‘leproso’ do nosso tempo”. E ele tem razão. Mas, diante da realidade de sofrimento, em que muitos clamam por mais vida e anseiam por soluções, perseverando teimosamente em busca de cura ou ajuda para sobreviver, qual é nossa missão? Deus quer que todos tenham uma vida digna, que a verdade prevaleça, que o amor seja prioridade, que haja paz com justiça... Jesus nos ensina como podemos contribuir e cooperar para que os sinais do reino de Deus se multipliquem e possam gestar um novo tempo, transformar a realidade. A missão da comunidade é dar testemunho da misericórdia e do amor de Deus, do poder de sua graça, mobilizando pessoas para denunciar todas as sombras da morte e enfrentar o sofrimento imposto. A comunidade cristã é capacitada pelo poder do Espírito Santo e vocacionada para servir, seguindo o programa diaconal de Jesus. E, para saber qual é esse programa, recomendamos o contato com a sua palavra, a comunhão com o Senhor, para que ele nos toque, liberte e envie a pregar, ensinar e servir. A missão da comunidade é romper com preconceitos, questionando a discriminação, os privilégios de alguns em prejuízo da saúde e do bem-estar de muitos, testemunhando com palavras e ação o amor que liberta de toda a miséria, reconcilia, integra e promove comunhão, esperança e nova vida em Cristo. É impossível ficar indiferente diante dos desafios missionários que estão por todos os lados. Diante do clamor dos injustiçados não podemos calar; é preciso fazer acontecer, mobilizar-se em busca de soluções e prevenir-nos diante do que ainda pode vir pela frente. “Quem tem medo de se comprometer e de sujar as mãos não pode ser seu discípulo” (Weber). A nossa atitude, quando em sintonia com a vontade de Deus, promove mais vida, maiores cuidados com toda a criação de Deus. A nossa fé em Cristo nos compromete, alimenta a esperança e produz frutos quando se torna ativa no amor. Penso que temos que ser mais ousados tanto na busca por soluções como no enfrentamento dos problemas e nas proposições para a causa do Reino.

4  Imagens para a prédica 1 – O texto pode ser encenado por um grupo da comunidade, para que os presentes consigam visualizar os diferentes momentos desse encontro entre o

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leproso e Jesus. Considerando que temos experiência com doenças, perdas e toda sorte de dificuldades, o pregador poderia solicitar manifestações de fatos e momentos em que os membros sentiram na pele a discriminação e também em que se indignaram diante do sofrimento de outras pessoas. Quem sabe, poder-se-ia perguntar ainda como a gente se sente quando se depara com a cura de uma doença grave (tipo câncer) ou então quando se sente cuidado e recupera a esperança. 2 – Fazendo um diagnóstico da realidade, no contexto em que a comunidade está inserida, pode-se perceber que há campo fértil para a semeadura e o mutirão pela vida. O trabalho que é feito, as atividades desenvolvidas, contemplam o projeto do Reino? O que estou fazendo se sou cristão? Essa poderia ser uma pergunta para lembrar o compromisso de colocar sinais de paz e de graça, de agir para transformar a realidade. 3 – Um outro ponto de partida pode ser a indignação diante de notícias que nos chegam sobre desrespeito à vida, violência, indiferença de “homens da lei” diante da situação do povo, decisões que comprometem o futuro da humanidade, impunidade. A atitude de Jesus é um indicativo interessante, e sua ação quer chamar a atenção para uma causa maior, na qual somos convidados a nos integrar. A comunidade tem o privilégio de se encontrar com o Senhor em sua palavra e sacramentos, conversar com ele, clamar por ajuda, falar das graças recebidas, pois a cruz e a ressurreição revelaram o sentido da vinda de Jesus.

5  Subsídios litúrgicos Sugiro que o oficiante trabalhe a liturgia de forma a possibilitar uma maior participação dos membros, tanto nas leituras como nas orações. A escolha dos hinos é fundamental para ajudar no louvor, no reconhecimento do poder de Deus, na gratidão pelos dons e pelas dádivas. Na oração geral da igreja, podem ser recolhidos motivos de gratidão por curas, superação de problemas, consolo e mudanças, assim como motivos de intercessão, para que os presentes tenham oportunidade de manifestar seu clamor, fazer suas súplicas e crescer na confiança de que Deus nos ouve, acolhe nossos sentimentos e não nos deixa sem resposta. Pode-se intercalar os diferentes motivos com refrões que se encontram nos cânticos litúrgicos (Em Tua Casa). Seria significativo convidar para esse culto as pessoas enfermas que ainda podem vir, também as que já superaram seus problemas, para um momento de unção com óleo e uma palavra de bênção. No envio da comunidade, deveria transparecer o compromisso que temos com a vida e com a vontade salvífica de Deus.

Bibliografia NESTLE-ANGERMANN, Inge; NESTLE, Dieter. Mk 1,40-45. Neue Calwer Predigthilfen. Band 3 B, 1981, p. 162-169. WEBER, Bertholdo. Marcos 1.40-45. Proclamar Libertação VI, 1980, p. 258264.

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PRÉDICA: 2 REIS 2.1-12

ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

MARCOS 9.2-9 2 CORÍNTIOS 4.3-6

19 FEV 2012

Gerson Correia de Lacerda

1  Introdução “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” Essa expressão é repetida diversas vezes no Apocalipse. Aparece no final das cartas dirigidas às igrejas da Ásia. Ouvidos servem para ouvir. No entanto, há ouvidos moucos. Não ouvem. Por isso o texto de Deuteronômio 6.4, o Shemá Israel (Ouve, Israel), passou a ser um dos mais preciosos princípios da religião dos judeus: “Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Senhor”. Tudo isso se aplica também à visão. Os olhos servem para ver. Contudo, há olhos que não veem. São olhos cegos. Sua cegueira impede as pessoas de ver as manifestações de Deus. Isso é realidade principalmente em tempos em que ocorrem grandes tragédias. Frente às desgraças que assolam o nosso mundo, a pergunta mais frequente que as pessoas formulam é esta: “E Deus? Onde está Deus?”. O questionamento indica que seus olhos estão impedidos de enxergar onde Deus está e o que Deus está fazendo. Os três textos bíblicos de hoje abordam exatamente essa questão. Ao escrever aos cristãos de Corinto, Paulo faz referência a indivíduos que não creem porque o evangelho lhes está escondido devido ao fato de que “o deus deste mundo conservou a mente deles na escuridão”. Nas trevas, eles são incapazes de “ver a luz que brilha sobre eles, a luz que vem da boa notícia a respeito da glória de Cristo, o qual nos mostra como Deus realmente é”. Por outro lado, o texto de Marcos apresenta a transfiguração de Jesus. Pedro, Tiago e João tiveram o privilégio de ser testemunhas dela. Foi uma epifania. Manifestou a glória de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Os três discípulos que a contemplaram ficaram apavorados, sem saber o que dizer. Jesus proibiu que contassem o que tinham visto, “até que o Filho do Homem ressuscitasse”. Sem nada entender, os discípulos passaram a discutir entre si o que queria dizer essa ressurreição. Finalmente, o texto de 2 Reis apresenta o arrebatamento de Elias. Eliseu desejou ter “dupla porção do seu espírito”. Diante desse pedido, Elias respondeu que tal lhe seria concedido com uma condição: “Se me vires ao ser arrebatado da tua presença, isso te será concedido”. Para obter dupla porção do espírito de Elias, Eliseu teria de “ter olhos para ver” a manifestação do poder de Deus.

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Último Domingo após Epifania

2  Exegese 1) Ciclo de Eliseu – A Bíblia de Jerusalém coloca a narrativa do arrebatamento de Elias no ciclo de Eliseu. De fato, ela serve para marcar a transição do ministério profético de Elias ao de Eliseu. Fohrer lembra que “a profecia não constitui um fenômeno unicamente israelita ou do javismo. Profetas apareceram em muitas religiões e culturas, incluindo aquelas do antigo Oriente Médio”. Todavia, os israelitas não se limitaram a reproduzir o tipo de profecia de sua época. Ao contrário, como afirma Fohrer, a profecia do Antigo Testamento “transformou aquilo que tomou por empréstimo e preservou em si algo de único e diferente”. Ora, tal transformação não ocorreu de uma hora para outra. Houve uma transição. Elias e Eliseu representam exatamente esse período de transição do profetismo no Antigo Testamento. Elias atuou no Reino do Norte entre 874 e 852 a.C., sem vinculação a qualquer santuário e solitariamente. Era um profeta errante e não ligado a qualquer guilda profética. Enfrentou as pretensões do rei Acabe de se tornar um monarca absoluto. Defendeu, intransigentemente, a autoridade única de Iahweh tanto contra o rei como contra as divindades siro-palestinenses (genericamente designadas pelo termo “Baal”). Diferentemente de Elias, Eliseu estava vinculado às guildas proféticas estabelecidas em localidades consideradas sagradas como Gilgal e Betel. A narrativa em que aparece acompanhando Elias até seu arrebatamento serve de introdução a seu ministério, bem como para legitimar a sua autoridade profética. 2) Gilgal, Betel, Jericó (2Rs 2.1, 2 e 4) – A narrativa do arrebatamento de Elias é precedida por uma peregrinação envolvendo essas três localidades. Gilgal não é aquela situada entre Jericó e o rio Jordão, mas a que estava cerca de oito milhas ao norte de Betel. Gilgal e Betel eram locais tradicionais de peregrinação, adoração e sacrifícios (Am 4.4). Nelas e em Jericó estavam estabelecidas guildas proféticas. 3) Não te deixarei (2Rs 2.2, 4, 6) – Tanto em Gilgal como em Betel e Jericó, Elias ordenou que Eliseu o deixasse sozinho. Em nenhuma dessas oportunidades, Eliseu foi obediente. Insistiu, com perseverança, em permanecer até o fim ao lado de Elias. Sua persistência serve para indicar sua profunda ligação com o profeta de Tisbé, com a finalidade de apontar para o fato de que era o verdadeiro continuador de seu ministério profético. 4) Irmãos profetas (2Rs 2.3, 5) – A Bíblia de Jerusalém refere-se aos “irmãos profetas” (2Rs 2.3, 5 e 7). A Tradução de Almeida (Revista e Atualizada) emprega “discípulos dos profetas”, e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje usa “grupo de profetas”. Trata-se de comunidades de profetas existentes em determinadas localidades. Formavam confrarias ou guildas. Compartilhavam a mesma habitação (1Sm 19.23). Entravam em êxtase (1Sm 19.20-24). Enquanto Elias desenvolveu um ministério solitário, Eliseu cultivava relacionamentos com os “irmãos profetas”.

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Último Domingo após Epifania

5) Manto sagrado (2Rs 2.8, 13) – Elias utilizou seu manto para dividir as águas do rio Jordão, reeditando o milagre realizado por Josué na entrada na Terra Prometida. Eliseu ficou com esse manto após o arrebatamento de Elias. Segundo crenças religiosas da época, vestes de pessoas revestidas de poder divino também ficavam embebidas de tal poder. Assim, a posse do manto por Eliseu atestava ser ele o sucessor do profeta de Tisbé. 6) Porção dobrada do espírito (2Rs 2.9) – O pedido de Eliseu de ter uma porção dobrada do espírito de Elias, longe de ser uma manifestação de ambição do discípulo que pretende superar seu mestre, deve ser entendido no contexto da lei hebraica, segundo a qual o filho mais velho tinha direito a uma porção dupla da herança paterna (Dt 21.17). A solicitação de Eliseu, pois, indica seu desejo de ser o sucessor do grande profeta Elias. 7) Carro e cavalos de fogo (2Rs 2.11) – O fogo aparece com frequência nas manifestações de Deus. É um elemento presente nas teofanias. Foi assim quando Deus se manifestou a Moisés na sarça que ardia sem se consumir, vocacionando-o a ser o libertador do povo escravo no Egito (Êx 3.1-6). Assim também no estabelecimento da aliança no Sinai (Êx 19.16-18) e em outros textos do Antigo Testamento 8) Carro e cavalaria de Israel (2Rs 2.12) – Essa designação foi atribuída a Eliseu pelo rei Joás (2Rs 13.12). O fato de aqui Eliseu utilizá-la dirigindo-se a Elias indica o poder divino de que dispunha o profeta, superior ao das tropas militares dos reis de Israel. Para Eliseu, Elias era o verdadeiro defensor de Israel, e não o aparato militar sob a chefia da autoridade política. Ao mesmo tempo, Eliseu aponta para sua dependência e filiação a Elias, chamando-o de “meu pai”.

3  Meditação 1) Deus se revela – De acordo com o conhecido texto de Hebreus, “antigamente, por meio dos profetas, Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras aos nossos antepassados, mas nesses últimos tempos ele nos falou por meio do seu Filho” (Hb 1.1-2). Isso significa que Deus não se esconde nem se distancia do ser humano. Ao contrário, apesar de o ser humano afastar-se dele, Ele toma a iniciativa de vir a seu encontro e se revelar. Revela-se por meio das obras da criação (Sl 19), de atos históricos (Êx 20.1), dos profetas e de seu Filho Jesus Cristo. Assim foi com Elias, profeta que chegou sem aviso prévio e sem maiores explicações (1Rs 17). Ele foi instrumento da revelação divina, contrariando as pretensões absolutistas de Acabe e defendendo a adoração somente a Iahweh. 2) O deus deste mundo não deixa ver a luz que brilha – Essa expressão aparece no texto de 2 Coríntios 4.3-6. O “deus deste mundo” é uma referência a Satanás (Ef 2.2; Jo 12.31). Sua atuação consiste em conservar a “mente das pessoas na escuridão”, a fim de que não vejam a “luz que brilha sobre elas, a luz que vem da boa notícia a respeito da glória de Cristo, o qual nos mostra como Deus realmente é” (2Co 4.3). Foi assim no tempo de Elias. Seus atos poderosos serviam para revelar a vontade de Deus. Todavia, o profeta enfrentou tremenda oposição. Ele mesmo lamentou: “De todos os profetas de Deus, o Senhor, eu fui o único

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que sobrou, mas os profetas de Baal são quatrocentos e cinquenta” (1Rs 18.22). Chegou a sentir-se um fracassado, a fugir e a pedir a morte a Deus, dizendo-lhe: “O povo de Israel quebrou a sua aliança contigo, derrubou os teus altares e matou todos os teus profetas. Eu sou o único que sobrou, e eles estão querendo me matar” (1Rs 19.14). Elias, assim como Paulo ao proclamar o evangelho, anunciava a luz de Deus. Enfrentou, porém, oposição de toda sorte. O “deus deste mundo” sempre atuou e atua ainda hoje para impedir que vejam a “luz que brilha”. 3) Eliseu acompanhou aquele que anunciava a luz até o fim – A narrativa do arrebatamento de Elias serve de introdução ao ministério de Eliseu. Nela, destaca-se o apego de Eliseu a Elias. Em três oportunidades, Elias ordenou que Eliseu o deixasse. Nas três ocasiões, Eliseu permaneceu resoluto na sua decisão de não abandonar Elias. Tinha chegado o tempo de Elias sair de cena. Seu ministério de “revelação da luz que brilha” estava terminando. Era a hora da separação. Todavia, Eliseu demonstrou profundo apego a Elias. Não o abandonou até o final. Com isso demonstrou sua lealdade e apego ao profeta de Deus que o antecedeu. Demonstrou, também, o desejo de ser o seu sucessor, na continuidade do ministério que desenvolvera. 4) Olhos para ver – Elias foi obrigado a curvar-se diante da obstinação de Eliseu. No momento final, antes de ser arrebatado, autorizou-o a pedir o que quisesse. Eliseu respondeu dizendo que queria tão somente ser o seu sucessor direto com uma porção dupla de seu espírito. Foi nesse momento que Elias afirmou: “Pedes uma coisa difícil; todavia, se me vires ao ser arrebatado da tua presença, isso te será concedido; caso contrário, isso não te será dado” (2Rs 2.10). É muito interessante essa resposta. Alguém escreveu: “Se você tiver olhos para ver a carruagem do Senhor, então a sua prece será respondida”. Era isso o que tinha de ocorrer com Eliseu, se realmente desejasse ver o seu difícil pedido ser atendido: ele tinha de ter olhos para ver. Esse episódio que encerra o ministério de Elias pode ser comparado a uma narrativa do ministério de Eliseu. Tudo aconteceu quando o rei da Síria estava em guerra contra Israel. Irado contra Eliseu, enviou uma grande tropa de soldados com cavalos e carros de guerra para prendê-lo. Um empregado de Eliseu viu-os e sentiu-se perdido. O profeta, porém, afirmou que as tropas que o defendiam eram mais numerosas do que as do rei da Síria. Parecia um absurdo. O empregado não via tropa alguma em defesa do profeta. Nesse momento, Eliseu orou dizendo: “Ó Senhor Deus, abre os olhos do meu empregado e deixa que ele veja!” (2Rs 6.17). Deus respondeu à oração de seu profeta. Os olhos do empregado abriram-se, e ele viu que, ao redor de Eliseu, o morro estava coberto de cavalos e carros de fogo. Eliseu teve olhos para ver. Contemplou a luz do Senhor no arrebatamento de Elias. Teve a mesma ventura de Pedro, Tiago e João, que também a viram no monte da transfiguração. 5) A luz do Senhor continua a brilhar – Nosso mundo está em trevas. Contudo, a luz do Senhor continua a brilhar. Temos de ter olhos para ver. Como povo do Senhor, em meio às vicissitudes da vida terrena, necessitamos de discernimento para ver onde Deus está atuando e o que Ele está realizando. O Senhor

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atua na história. Seu projeto de estabelecimento de seu reino está em andamento. Precisamos enxergar sua atuação e ser companheiros de Deus em sua obra.

4  Imagens para a prédica 1) Vou ficar contigo até o fim do jogo – “Elias tentava separar-se de Eliseu desde Gilgal... Mas Eliseu foi inflexível. Ele permaneceu ao lado do velho profeta. Num jogo de futebol, vemos os jogadores fazendo o que os técnicos chamam de ‘marcação homem a homem’. Consiste em que cada jogador da defesa fica ‘grudado’ a um jogador do time adversário, não dando espaço para o adversário deslocar-se livremente ou fazer alguma outra jogada. E isso do começo ao fim do jogo. Esse era Eliseu! Ele disse a Elias: ‘Estou na tua cola, meu amigo. Você não vai livrar-se de mim. Vou ficar aqui até o fim do jogo’... Precisamos de alguns Eliseus em nossa vida, não é? Eles nos dão força. Eles são figuras raras. São nossos amigos íntimos. São aqueles que estão conosco, em nosso favor, disponíveis...” (SWINDOLL, C. R. Elias – um homem de heroísmo e humildade. São Paulo: Mundo Cristão, 2001. p. 189). 2) Ver é muito complicado – “Do ponto de vista anatômico e fisiológico, a visão é o mais simples dos sentidos. Na sala de espera dos oftalmologistas, há aqueles pôsteres com cortes transversais do olho, em que a anatomia e a fisiologia são explicadas. Tudo se passa como numa câmara fotográfica. A luz vem de fora, atravessa uma lente e projeta a imagem no fundo do olho. Tendo olhos bons, todos veem igual. Veem igual? Veem nada. Ver é muito complicado. Não basta ter bons olhos para ver. ‘Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores’, dizia Alberto Caieiro. Édipo tinha olhos perfeitos e não via nada. Tirésias era cego e era o único que via com clareza. William Blake, num curto aforismo, afirma: ‘A árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê’... Quem explica é Bernardo Soares: ‘Não vemos o que vemos; vemos o que somos’. Naquilo que vemos estão escondidas as linhas do nosso próprio rosto. ‘Os olhos são as lâmpadas do corpo’, disse Jesus” (ALVES, R. CultoArte – Celebrando a Vida – Tempo Comum. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 57).

5  Subsídios litúrgicos 1) Tu és, Senhor “Ó Jesus, tu és a luz, mas nós não te vemos. Tu és o caminho, mas nós não te seguimos. Tu és a verdade, mas nós não te buscamos. Tu és o nosso guia, mas nós não te obedecemos. Tu és o nosso Senhor, mas nós não te escutamos. Tu és o nosso Deus, mas nós não louvamos. Não nos repulses por causa de nosso pecado. Tem piedade e perdoa-nos, Senhor” (Oração medieval anônima). 2) Abre-nos os olhos “Senhor, abre-nos os olhos, para que vejamos o que há para ver. Senhor, abre-nos os ouvidos, para que escutemos o que há para escutar. Senhor, abre-nos os lábios, para que digamos aquilo que há para ser dito. Senhor, abre-nos as mãos,

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Último Domingo após Epifania

para que mudemos aquilo que deve ser mudado. Senhor, abre-nos ao futuro e faz aparecer no mundo o teu reino!” (Lothar Zanetti). 3) Adoração e contrição Introductio Dirigente: (com o templo às escuras) No princípio, o Espírito pairava sobre o caos e Deus disse: ‘Haja luz!’ (acendem-se todas as luzes). Congregação: E a luz se fez! Dirigente: Entra, Senhor, nosso Deus, com tua luz, em todos os planos de nossa existência; entra em todas as nossas angústias e alegrias, em nossa esperança e paz; entra em nossa razão de viver; entra e, se quiseres, faze em nós tua morada. Congregação: São teus a verdadeira luz, a alegria, o poder, a honra, a vitória; porque teu é tudo o que existe nos céus e na terra. Contritio Dirigente: Nem sempre compreendemos tua luz. Congregação: Criamos outras luzes, que brilham e ofuscam na busca de poder, fama e riqueza. Dirigente: Diante de tantas luzes que não iluminam, recorremos a ti. Congregação: Querido Deus, acolhe nossos corações contritos e pequenos diante de tua luz!” (Inês de França Bento).

Bibliografia FOHRER, G. História da Religião de Israel. São Paulo: Academia Cristã e Paulus, 2008. GRAY, J. I and II Kings – A Commentary. Filadélfia: The Westminster Press, 1970.

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PRÉDICA: JOEL 2.1-2, 12-17

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

MATEUS 6.1-6, 16-21 2 CORÍNTIOS 5.20b-6.10

22 FEV 2012

Joe Marçal G. dos Santos

1  Introdução Joel é conhecido como o profeta que anuncia o Pentecostes (At 2.16-21). No texto previsto para este domingo, ele anuncia o dia de Javé e conclama o povo à conversão com jejuns, choro e pranto. No texto de Mateus, Jesus corrige a piedade farisaica sobre a esmola, a oração e o jejum, deslocando seu foco da pessoa que as pratica para Deus e sua justiça. O texto de Paulo conclama à reconciliação com Deus e a não receber em vão a graça de Deus, o que é exemplificado no ministério do apóstolo.

2  Exegese A exegese tem associado Joel à tradição profética tardia. Há certo consenso em situar autor e obra no que restou de Israel após a destruição do templo em 586 a.C, a Judá do século IV a.C. Estamos lidando com os humores do contexto pós-exílico babilônico, os mesmos que darão o tônus do judaísmo do primeiro século. Havia então uma tradição profética bem consolidada, que fornece as lentes para Joel interpretar seu tempo e geração, profundamente afetada pela memória do exílio, que, em seu reverso, o contagia com os esforços de afirmação de uma identidade (2.17). O texto indicado para a prédica representa um fechamento para a primeira das duas partes que estruturam o livro. O motivo que perpassa o livro é a calamidade que assolava então o país: uma invasão de gafanhotos durante uma estiagem. É preciso considerar o grau de gravidade de tal situação para um contexto geograficamente desfavorável à atividade agrícola e ao mesmo tempo dependente dela. São condições bem propícias para o espírito apocalíptico com o qual Joel interpreta o desespero e os efeitos da situação como consumação do juízo divino – sinalizado pelo toque imperativo de uma trombeta (2.1). O tema do “dia do Senhor” é recorrente. Joel toma de empréstimo essa imagem escatológica em sua interpretação dos eventos que abalam Judá, relatados nos versos anteriores. Os versículos que seguem caracterizarão a invasão de gafanhotos como o exército que executa o juízo de Deus, “um povo grande e poderoso” (2.2), aludindo à memória de invasão e vassalagem do exílio. O ápice dessa leitura de realidade, embora não integre a leitura para a prédica, encontramos no v.11: “O SENHOR levanta a voz diante do seu exército (...) é poderoso quem executa as suas ordens”.

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Quarta-Feira de Cinzas

Os v. 1-2, portanto, recriam o cenário de terrível assolação no qual Joel elabora sua interpretação e faz seu anúncio. Nesse contexto, dará início ao chamamento do povo ao arrependimento e à penitência, tomando especialmente imagens da liturgia de penitência como elemento central de seu chamamento profético nos v. 12-17: “Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto” (2.12). O chamado ao arrependimento expressa-se pela liturgia e, ao mesmo tempo, transcende-a por meio do apelo ao “coração”, que, na antropologia bíblica, é a sede da racionalidade e da vontade humana. Assim, a exigência “de todo o vosso coração” soma-se à imagem de não apenas rasgar as vestes (liturgia), mas “rasgar o coração”. Aquilo que expressa o gesto ritual de rasgar as vestes deveria atingir e expor o “coração”, isto é, atingir a pessoa em sua forma de pensar e agir. Por sua vez, a culpa do povo é sem precedentes (no texto). Está naturalizada na estiagem e na invasão de gafanhotos. Nessas condições, a esperança depende de um retorno a Deus “de todo o coração”. A resposta a esse apelo, contudo, pode ser bastante ambígua. Por exemplo, tal como no zelo religioso da tradição judaica posterior, que também a seu modo naturaliza a lei divina. Frente a essa atitude, João Batista e Jesus de Nazaré exercerão sua vocação crítica e profética. No v. 14, o profeta estiliza um discurso sobre o coração humano: “Quem sabe ele (o coração) não se voltará e se arrependerá?”. O efeito dessa conversão é traduzido em imagens do culto. O coração arrependido poderá deixar atrás de si uma bênção, uma oferta de manjares e libação. O modo da pergunta sugere a liberdade e gratuidade de resposta do coração. A exigência de arrependimento é uma possibilidade, cujo efeito imediato são ações de graça. Nos v. 15-17, o profeta retoma o chamamento do povo para um ato litúrgico solene. O escopo está na imagem de sacerdotes chorando e orando em clamor pela misericórdia de Deus. A mediação sacerdotal protagoniza a própria penitência, colocando sobre esses personagens todo o drama da situação. A oração em destaque levanta um motivo significativo: o prestígio do povo eleito diante do olhar dos outros povos, ecoando na pergunta desses “onde está o seu Deus?”. A escatologia de Joel vale-se de duas imagens importantes a serem consideradas hoje. Sua visão de um futuro de salvação é caracterizada, primeiro, pela abundância e prosperidade (2.18-27) e, no final do livro, pela restauração de Israel (4.18s). Deus renovará sua aliança “derramando seu Espírito sobre toda a carne” (3.1), introduzindo uma interpretação surpreendente da unção (ato litúrgico) em sua mensagem. A expectativa messiânica em Joel já tem traços de uma plenitude universal (3.1,3), porém exclui os povos estrangeiros (4.1s). A situação pós-exílica talvez seja ainda uma ferida aberta, instaurando a violência como mediação de justiça compensatória (p. ex., a guerra em 4.9) e reinterpretando o “dia do Senhor” a partir da vingança (4.4,21). Isso tem consequências para o culto e a espiritualidade e coloca a pregação de Joel sob uma ambiguidade significativa, que não podemos ignorar em nossos dias: ao acentuar a exigência radical “de todo o coração” no arrependimento e penitência, Joel promove uma sensibilidade religiosa da culpa

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e reitera o sacrifício como exigência de relação com Deus – “rasgai vossos corações e não as vossas vestes” (2.13). Essas considerações motivam a tomar como chave de interpretação pastoral do texto o evangelho indicado para o dia: Mateus 6.1-6, 16-21. Nesse texto, vamos encontrar recomendações de Jesus (Sermão do Monte) que emolduram o ensino da oração (Pai-Nosso) aos discípulos, vinculando a relação com o sagrado ao segredo e à discrição. Para Jesus, a exigência do coração concretiza-se na prática da justiça e torna-se ainda mais radical, porque não se trata de assegurar recompensa e prestígio diante dos outros, mas sim de manter-se na comunhão com o Pai que está no céu. Para uma interpretação evangélica do texto do profeta, que se desloca do esquema sacrificial e afirma a radicalidade do juízo e da graça para a liberdade humana, essa chave de leitura é imprescindível.

3  Meditação O toque da trombeta emoldura esse texto profético. É uma imagem, porém, que se perde entre os tantos ruídos que fazem nosso cotidiano. Que paralelo poderíamos fazer? Que fatos apelam hoje ao interesse público de forma massiva e maciça? E que pertinência esses fatos e alarmes têm com nossa realidade mais imediata? Que diferença fazem para o exercício do amor próximo? Nossa cultura é excepcionalmente comunicacional e plural. Estamos envolvidos em um constante sentimento e ilusão de “assembleia reunida” por meio das tantas redes de informação. Receber uma notícia ou outra difere à medida de nossa relação com a realidade envolvida nos fatos. Além de muitas trombetas e toques diferentes, vivemos sob ameaças que, se bem pensadas, pouco nos dizem respeito. Quantos de nossos medos são secundários? Quantos de nossos sentimentos de culpa são obsoletos? A mensagem profética é sempre economicamente eficaz, porque é uma mensagem que visa nos desfragmentar. Os profetas criticavam as idolatrias não porque Deus precisava que o defendessem. A crítica profética dirige-se, antes de tudo, ao coração humano fragmentado e dividido conforme seus deuses e desejos mais primários. O monoteísmo é um artefato teológico profético por excelência. Por ser “mono”, opera efetivamente como uma “redução” de custo religioso. Orações, penitências, jejuns têm de ser feitos comedida e eficientemente. Eficiente em relação a uma forma justa de pensar e agir humanamente, focada em um Deus zeloso e misericordioso. Nessas condições, na espiritualidade da Quaresma, para a qual o texto do profeta Joel é sempre novamente lembrado, e para permanecer no espírito profético, temos que recorrer ao silêncio. Esse talvez seja o alarme mais contundente para nossos dias. Silenciar por um momento, para então perceber onde exatamente ecoa a voz de Deus dizendo: “Convertei-vos a mim de todo o coração”. Possivelmente, vamos nos dar conta de que essa voz murmura e nos interpela desde outros lugares que aqueles em que mais as trombetas da economia, da religião, da política oficiais fazem seus concertos.

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Por sua vez, o apelo ao arrependimento tem de ser reinterpretado, tal como faz o profeta. Ele usa da imagem do culto para transcender o culto. Para os profetas, o princípio é o mesmo sempre: se o culto, a religião, a espiritualidade não estão conectados com a justiça, não só de nada valem como põem tudo a perder. Por isso arrependimento é a porta estreita para o reino de Deus, e sua prática tem a ver com o coração mais do que com as vestes. Contudo, há uma mediação, porque tudo se torna linguagem e resposta de ação de graças. O profeta fala ao coração; “quem sabe deixará uma oferta”. A revitalização de uma espiritualidade passa pelo coração das pessoas. Mais e mais, a religiosidade cresce entre as pessoas, ainda que o senso do IBGE indique aumento de pessoas que se identificam como “não religiosas”. Que trombeta será essa? Que voz sussurra por trás desse dado? Jesus, quando dá lições de práticas e disciplinas espirituais – a oração, o dízimo e o jejum –, enfatiza o aspecto de segredo na relação com o sagrado. Essa conexão foi perdida pelo cristianismo desde o século III quando se tornou oficial e oficioso. O que fora segredado correu o risco de ser considerado herético ou foi esquecido pelo roldão de cânones. Quantos sopros do Espírito deixamos de perceber? Ora, atentar para uma necessária relação entre algo de segredo quando na relação íntima com o sagrado é um exercício de zelo e cuidado. Fui visitar uma capela nos arredores da cidade onde vivia. Era uma capela bizantina. Luterano que sou, estava curioso para ver os ícones que a capela trazia. Pois eu sabia que, na Igreja Bizantina, os ícones são elementos do sacramento, tal como, para nós, o pão e o vinho. Imagens que são oradas – nunca consegui entender tal relação com a arte plástica. No portão da capela, encontrei-me com um velho jardineiro. Perguntei, por educação, se podia entrar, já que a porta estava entreaberta. O jardineiro levantou-se e, cumprimentando-me com autoridade e respeito, perguntou o que exatamente eu estava procurando. Contei-lhe de minha curiosidade, e ele disse que não valeria a pena eu entrar, convidando-me para estar na próxima missa que rezariam ali. Passaram-se anos, e eu ainda não voltei lá. Apenas soube, entrementes, que o jardineiro era o pároco. Qual a recompensa disso? Se nos perguntam “onde está o seu Deus?” , o que temos respondido? Ainda há lugar para a cruz em nossa religião? Ainda há lugar em nossas comunidades para aqueles segredos compartilhados no silêncio, em torno do que comungamos e nos fortalecemos espiritualmente? Ainda somos “monoteístas de todo o coração” ou o temos dividido por tantos deuses quanto os desejos despertados cotidianamente? Apenas diante dessas questões é que “todo o coração” pode ser exposto ao arrependimento. Uma conversão movida não pela culpa e pelo mérito de tê-la sanado, mas tão somente como ação de graças por uma vida divinamente justa e ajustada ao zelo e à misericórdia.

4  Subsídios litúrgicos A ideia de um silêncio litúrgico, associada ao segredo, permanece sugestiva. O texto de Joel, mais do que apenas incitar a uma determinada “palavra”, é

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Quarta-Feira de Cinzas

também motivação para a liturgia. Quer dizer, quando Joel diz: “rasgai o coração e não as vestes”, o que isso poderia motivar em nossa liturgia de penitência? Sabemos que carecemos muito de formas expressivas na liturgia. Somos, em geral, luteranamente comedidos em termos de estética e arquitetura religiosa. Mas se tudo é colocado sobre a “palavra”, o que garante a escuta, que é, antes de tudo, um exercício de sensibilidade? Por isso o silêncio talvez possa ser algo mais apropriado pela comunidade. O vazio solene pode, sim, ser significado, mas não didaticamente “explicado”. De forma prática, esse silêncio poderia percorrer diferentes momentos do culto: ante a confissão de pecado, antes ou após a leitura do texto, no decorrer da pregação, no final ante a bênção. Para sinalizar o fim desse momento de silêncio, uma palavra ao estilo de aforismo, provérbio ou versículo. Conforme é construído, esses silêncios litúrgicos podem funcionar como lacunas que a comunidade e cada indivíduo tomam para si e preenchem com sua própria oração mental e pensamento. Evidentemente, uma orientação a esse respeito pode ser dada incentivando a comunidade a valorizar e ofertar a Deus os pensamentos e orações que, mesmo involuntariamente, traz consigo para o culto.

Bibliografia SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1992. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: EST/ Sinodal, 1994.

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1º DOMINGO NA QUARESMA

PRÉDICA: 1 PEDRO 3.18-22

26 FEV 2012

GÊNESIS 9.8-17 MARCOS 1.9-15

Flávio Schmitt

1  Introdução A caminhada da igreja mais uma vez recomeça com a Quaresma. Depois das férias, depois das festas, inclusive do carnaval, agora é hora de recomeçar também no calendário eclesiástico. Tema do ano, campanha da fraternidade, reuniões e estudos bíblicos fazem parte deste tempo de preparação que antecede a Páscoa, o grande dia. Para este novo tempo, o texto escolhido para pregação é da Primeira Carta de Pedro. Quando o assunto é 1 Pedro, a primeira lembrança que vem à mente remete à ideia do “sacerdócio geral de todos os crentes”. Porém, neste início da Quaresma, esse assunto é coadjuvante. A carta de Pedro confronta-nos com uma questão da mais alta relevância para a igreja primitiva, com a qual as futuras gerações certamente haverão de se defrontar: como viver como cristão numa sociedade não cristã? Os textos de leitura para este primeiro domingo da Quaresma têm afinidade temática com o tema da aliança. Em Gênesis (Gn 9.8-17), a aliança é com Noé, cujo sinal é o arco-íris. O Evangelho de Marcos destaca o batismo de Jesus e o início de sua atividade pública com o anúncio do reino de Deus (Mc 1.9-15).

2  A Carta de Pedro A Primeira Carta de Pedro foi redigida possivelmente na comunidade judaico-cristã de Roma (5.13), onde a tradição petrina era guardada de modo especial. Quando a carta foi escrita, lá pelo final do primeiro século da era cristã, Pedro já havia se tornado uma figura de grande prestígio em toda a igreja. Como um dos primeiros apóstolos e como mártir de Roma, a palavra de Pedro tem credenciais. Entre os destinatários da carta estão cristãos da Ásia Menor, mais precisamente os eleitos na dispersão (1.1). De certa forma, a carta atualiza a autoridade de Pedro para consolar, exortar e animar os cristãos que vinham sofrendo hostilidades, provocações e perseguições. Esses seguidores do Cristo há pouco evangelizados são desafiados a viver segundo o batismo numa sociedade avessa ao evangelho. Como ainda não estão suficientemente firmes para conviver com os conflitos e as adversidades, a carta tem o propósito de confirmar a identidade cristã e sensibilizar para a solidariedade e unidade da igreja.

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1º Domingo na Quaresma

O conteúdo da carta pode ser percebido em duas partes. A primeira trata da vocação cristã (1.3-2.10). A segunda trata das consequências concretas para a vida dessa vocação (2.11-5.11). Para o ser e o fazer cristão vale o princípio “assim como Cristo”. Assim como Cristo é a “pedra viva” (2.4), escolhida (2.5), dedicada, santa (2.9), os cristãos também são os escolhidos de Deus, ainda que sua dignidade diante de Deus esteja em oposição à rejeição que experimentam na sociedade. Assim como Cristo foi rejeitado e sofreu, também os seus seguidores passam por sofrimentos. Para ajudar nesse discernimento, Pedro alude diversas vezes à experiência dos antepassados na fé, o povo de Israel. Tanto o êxodo como o exílio, relidos na carta (2.1-10), têm o objetivo de fortalecer a conduta e autocompreensão dos cristãos. Na estrutura da carta, podemos identificar a saudação inicial, seguida da ação de graças (1.1-12), o estilo de vida cristão (1.13-2.10), a condição do cristão no mundo (2.11-4.12), o viver em conflito (4.13-5.11) e, por fim, a saudação final (5.12-14). Na teologia da carta, alguns temas se sobressaem: estrangeiros no mundo, o “verdadeiro” povo de Deus, a ética cristã e os sofrimentos do mundo. Ao chamar seus destinatários de estrangeiros residentes (“estrangeiros na própria casa”), Pedro emprega a expressão “nascer de novo” (1.3-4) para falar da vida fraterna que são chamados a viver. Não obstante as provações e provocações, a esperança fundamentada na ressurreição de Jesus não decepciona. Qual era, afinal, o sofrimento dessa gente? Primeiramente, eram uma minoria como cristãos. Com a conversão, essa gente muda de comportamento (1.14; 4.3-4), o que não é bem visto pelos pagãos. Por conta disso, passam a ser vítimas, caem em descrédito “perante a opinião pública” (2.1-12; 3.14; 4.4). Além da discriminação de que são vítimas, sofrem marginalização social e política, são os não cidadãos. Toda essa conjuntura desfavorável é agravada ainda mais com a separação do movimento cristão de suas raízes judaicas. Essa tensão com o ambiente externo tem reflexo na comunidade, provocando tensões e comprometendo a coesão interna.

3  Exegese A perícope de 1 Pedro 3.18-22 está inserida no conjunto maior da carta que trata do comportamento em relação ao mundo. Começa com uma exortação geral, que inicia essa parte da carta (2.11-12). Na sequência, os leitores são exortados a colaborar com as autoridade civis (2.13-17). Segue uma orientação para os escravos cristãos (2.18-25). Em seguida, trata do testemunho cristão de esposas e maridos na vida matrimonial (3.1-7), da importância de fazer o bem sem olhar a quem (3.8-17), da paciência segundo Cristo (3.13-22) e da ruptura com o pecado (4.1-11). A doxologia de 4.11 indica que no versículo 12 temos um novo começo. Na sequência, a carta fala do sofrer por ser cristão (4.12-19) e dirige-se aos líderes, anciãos e jovens, e membros da comunidade (5.1-11). Portanto a parte da

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carta que interessa está inserida num conjunto em que é tematizada a paciência/ sofrimento (do latim patere = sofrer), inspirada no exemplo de Jesus. Algumas das verdades fundamentais da fé cristã, consignadas inclusive na formulação do Credo Apostólico, estão presentes nesse texto: Jesus morreu, desceu à “mansão dos mortos”, ressuscitou, subiu ao céu, está sentado à direita e tem poder sobre anjos, dominações e potestades. O v. 18 fala do sofrimento vicário de Cristo. Sofreu uma vez por todas (aludindo à expiação do cordeiro) e pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. O sofrimento vicário de Cristo quer conduzir a Deus. “Tendo sido morto segundo a carne, foi vivificado pelo espírito.” Ao falar da morte segundo a carne (sarks), argumenta que Jesus morreu como morrem os humanos. Jesus era verdadeiramente humano, mas foi vivificado pelo Espírito (pneuma). No Espírito (v. 19), foi anunciar aos espíritos na prisão e aos que haviam sido desobedientes outrora (v. 20), quando Deus usava de paciência, como nos dias em que Noé construiu a arca. Na arca, poucas pessoas – oito almas – foram salvas por meio da água. A água (v. 21) corresponde ao batismo que agora nos salva. Esse batismo não consiste em lavar a sujeira do corpo (sarks), mas um compromisso de boa consciência feito para com Deus por meio da ressurreição de Jesus Cristo, que foi para o céu e está sentado à direita de Deus (v. 22), a quem estão submissos os anjos, as autoridades e os poderes. A perícope de 1 Pedro 3.18-22 tem a função de dar uma fundamentação cristológica para a argumentação da unidade anterior (3.13-17), em que o apóstolo exorta os perseguidos, as vítimas, a sofrer por causa da justiça. Cristo, em quem se tem parte pelo Batismo, é exemplo de paciência no sofrimento.

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Meditação

A perícope aponta para duas direções. Por um lado, fala do sofrimento de Cristo. Descreve todo o caminho percorrido por Jesus até alcançar a destra de Deus. Em 1 Pedro 2.21, a carta já havia mencionado o sofrimento de Cristo: “o próprio Cristo sofreu por vocês e deixou o exemplo, para que sigam os seus passos”. As palavras da carta tratam de reforçar dois aspectos relacionados com o sofrimento de Cristo. Uma vez, que Jesus não resistiu ao sofrimento. A exemplo do servo, Jesus cumpriu sua sina por conta do compromisso assumido. Por outro lado, não há realidade que Jesus não tenha alcançado com sua trajetória, nem na vida tampouco na morte. Toda a realidade agora está sob seu governo. Em outra direção, essa passagem de Pedro também fala do testemunho cristão. Inspirado no exemplo de Jesus, é preciso resistir e manter a consciência limpa. Aliás, a “consciência limpa” aparece duas vezes (3.16 e 3.21) nesse contexto. Se há alguma justificativa para o sofrimento de um cristão, esse consiste no sofrimento de Cristo (3.19). O único sofrimento digno de ser sofrido é aquele que se sofre em nome da justiça, da verdade e de Deus. Batismo é banhar-se no sangue de Jesus. Esse é o compromisso selado pela ressurreição.

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1º Domingo na Quaresma

Entre as muitas possibilidade de abordagem para as quais o texto aponta, destaco duas. Primeiro, a questão do testemunho em meio ao “mundo pagão”. De fato, não é essa a realidade em que vivemos. Pelo contrário, vivemos numa cultura cristianizada. Tudo ao nosso redor lembra as raízes judaico-cristãs da tradição ocidental. Ainda assim, há espaço para o assunto proposto. Afinal, é cada vez maior o número de pessoas que, mesmo vivendo nesta sociedade cristã, declaram-se praticantes de outras religiões. A pergunta fundamental diz respeito à diferença que nós, enquanto cristãos, podemos fazer nesta sociedade. Ainda é assim que não temos sido impedidos, muito menos cerceados, em nosso testemunho seja pela lei ou por outra razão? Diferente do passado, hoje podemos nos reunir, celebrar etc. Porém como tem sido o comportamento ético dos cristãos? Nesse quesito, talvez devamos assumir nossa culpa no cartório. Pois é justamente nesse aspecto que o testemunho das comunidades da Ásia quer inspirar nosso próprio testemunho. Assumir o evangelho, testemunhar Cristo tem implicações concretas para a vida pessoal, familiar, comunitária e social. Exige rupturas. Tem um preço a ser pago. Estamos dispostos? Em outra direção, a abordagem do texto permite tematizar o sofrimento. Não é de hoje que se afirma que nossa sociedade tem dificuldade para lidar com a realidade do sofrimento em suas múltiplas e infinitas formas de manifestação. De fato, nós mesmos temos dificuldades para lidar com essa realidade em nossas vidas, a começar pela dificuldade em discernir o que efetivamente é sofrimento. Embora o sofrimento no mundo não pare de crescer e constantemente novas formas de sofrimento estejam sendo criadas e inventadas, o sofrimento de Jesus continua sendo um paradigma, tanto para dizer o que é sofrimento como para dizer o que vale a pena sofrer. De modo geral, vivemos uma situação contraditória em relação ao sofrimento. Por um lado, ouvimos o discurso, especialmente do mundo religioso, que simplesmente nega o sofrimento (Seicho-no-iê), ou vemos o sofrimento transformado em espetáculo. Do outro lado, deparamo-nos a cada dia com um número maior de pessoas que “sofrem” em vão, à toa. São sofrimentos inúteis, sem sentido nenhum. Alguém, por exemplo, que entra em “deprê” por não conseguir a sonhada BMW. Ou então aquela pessoa que sofre por não alcançar o ideal estético exigido pela sociedade. Trata-se, nos dois casos, de um sofrimento inútil, absurdo. Em meio a esses dois extremos, a fé cristã tem muito a dizer. A partir de Jesus há, sim, um sofrimento que deve e pode ser assumido. Em nome de Deus, pela justiça, por amor ao irmão ou em nome de Jesus, o sofrimento torna-se vicário, tem poder salvífico, é escalado para tornar-se eterno. Não se trata de correr contra o punhal, mas assumir as consequências e desdobramentos do compromisso com o reino de Deus. A partir do momento em que pessoas e comunidades puderem assumir o sofrimento por causa do evangelho com outra consciência, certamente o testemunho cristão será mais confiável e mais pessoas haverão de lamentar os sofrimentos inúteis que alimentaram em suas próprias vidas.

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Subsídios litúrgicos

No kyrie e na confissão de pecados, destacar os sofrimentos, dores e lamentos deste mundo. Dar nome e endereço aos sofredores. Colocar sua causa no altar. Lembrar a fragilidade de nosso testemunho, que não convence. Agradecer pelo exemplo de Jesus e lamentar pelos sofrimentos inúteis. Na oração geral da igreja, interceder pelos sofredores, lembrar quem sofre na comunidade, motivar para a resistência em meio às dores deste mundo. Pedir pelo comprometimento das igrejas com os que sofrem. Atividade prática: Nesta Quaresma, envolver pessoas e comunidades na identificação e solução das situações de sofrimento mais próximas.

Bibliografia BROWN, Raymond . Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1974. 269 p.

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PRÉDICA: MARCOS 8.31-38

2º DOMINGO NA QUARESMA

GÊNESIS 17.1-7, 15-16 ROMANOS 4.13-25

04 MAR 2012

Scheila dos Santos Dreher O cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito. O cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito. (Martim Lutero, Obras Selecionadas v. 2, p. 437)

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Introdução

Neste segundo domingo da Quaresma, o texto indicado para a pregação dá testemunho da primeira vez que Jesus anunciou sua paixão e da reação que isso causou. Por trás do testemunho bíblico estão Pedro e os outros discípulos com suas expectativas em relação ao Messias e os sentimentos diante do anúncio dos acontecimentos que virão; está também Jesus, dizendo “claramente” a seus seguidores mais próximos e à multidão que, sempre sedenta, se reúne em torno dele que segui-lo implica uma decisão e um comprometimento total e definitivo. Segui-lo implica assumir um “novo eu”; implica uma nova vida por causa do impacto do evangelho, a saber: “vos nasceu um Salvador” (Lc 2.11), “porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.16,17). Os textos indicados como leitura dos livros de Gênesis e Romanos tratam dos benefícios concedidos por Deus aos que creem; pela fé, não por mérito do cumprimento da Lei. “É da fé que a promessa de Deus depende” (Rm 4.16). Pela fé cremos que “Jesus foi entregue para morrer por causa dos nossos pecados e foi ressuscitado para que [nós] sejamos aceitos por Deus”. A fé me faz confessar: Foi por mim! Foi por nós! Pela fé temos comunhão com Deus e com o próximo. A fé nos faz herdeiros das promessas e da obra de Cristo, e o Espírito Santo nos conduz ao discipulado (At 1.8). Lembro também da possibilidade de fazer a leitura de outros auxílios homiléticos sobre o texto em questão em edições anteriores (PL X, XIX, XXV e XXXI).

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Exegese

Jesus estava a caminho de Jerusalém. Curas, ensinamentos, [des]encontro com fariseus antecedem o testemunho de Marcos 8.31-38. A confissão de Pedro (tu és o Messias/o Cristo) e a transfiguração de Jesus emolduram o nosso texto.

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De maneira franca, pela primeira vez Jesus fala ao grupo mais próximo de discípulos a respeito dos acontecimentos que estão pela frente: seu sofrimento, rejeição (por parte da liderança judaica), morte e ressurreição. Pedro repreende Jesus em particular. Entre os seus motivos (cada qual sempre os tem) poderiam estar: 1) a insegurança por seu futuro e o de outros/as que seguiam Jesus frente aos acontecimentos anunciados; 2) a compreensão de sofrimento como castigo de Deus (“Mestre, por que este homem nasceu cego? Foi porque ele pecou ou porque os pais dele pecaram?” Jo 9.2); um Messias não estaria sujeito ao castigo de Deus; 3) a compreensão de Messias reinante na época: vitorioso, triunfalista e glorioso. Afinal, quem quer seguir um perdedor, um rejeitado, um fracassado? A rejeição pela liderança judaica e a morte (de cruz) seriam a evidência do fracasso. Diante da reação de Pedro, Jesus repreende-o na frente dos demais discípulos. Para transformar a realidade de morte, é preciso que ele tome sobre si toda a maldade humana. Por isso Jesus anuncia que, se alguém quer segui-lo, precisa aderir totalmente à sua proposta. Ele vê o momento atual (incredulidade e maldade); ele viu a tentação de Pedro de negar um tal Messias. Ele pode oferecer vida porque ele é o próprio evangelho. Não é um líder populista ou autoritário. O preço da oferta de vida será a sua vida na cruz. Jesus assume a “conta” sozinho. A salvação é dada, é presente, não é adquirida por mérito. Mas é preciso abraçá-la com fé. Confessar com a boca e com toda a vida que Jesus é o Senhor: eu sou o que sou por sua graça, minha vida só tem sentido nos passos de meu Salvador. A respeito de Marcos 8.31-38, Julius Strathmann escreve o seguinte: É importante considerar que o anúncio do sofrimento sempre esteve presente na história do povo de Israel, desde Isaías 53 [...]. O período dos macabeus promoveu essas ideias. Sofrer e morrer fazem parte da vida dos profetas (Lc 13.13; Mt 23.34s; Lc 6.23 [...]). João Batista seguiu esse caminho. A certeza de que o messias haveria de sofrer está presente nos apocalipses judaicos, pois eles identificam o messias com o servo sofredor de Isaías 53. [;...] Pode-se imaginar martírio glorioso, ressurreição do rei, mas não dá para pensar em um messias rejeitado pelo povo de Israel, julgado por sua suprema corte. É disso que falam as palavras de Jesus. [...]. Pedro, que antes confessava, agora nega. [...] Será que Pedro aguarda um Messias glorioso, o juiz que vem dos céus? Ou será que ele espera por sofrimento, diferente do anunciado por Jesus? O texto nada diz. A resposta de Jesus se afasta de todos esses ideais messiânicos. Jesus se afasta de Pedro, volta-lhe as costas, põe os olhos nos discípulos: quem quiser impedir a caminhada de Jesus em direção ao sofrimento é um Satã; é tentador, o próprio adversário de Deus. Isso é assim, porque pensa conforme pensam seres humanos. Quer o que todos os seres humanos pensam e querem. [...] As palavras que falam do sofrimento tem o AT como pressuposto. A palavra grega para “rejeitar” é utilizada em 12.10, citando o Salmo 118.22: Cristo é a pedra rejeitada pelos construtores; em Isaías 53.3 é descrito como o servo de Deus que é rejeitado por todos. [...] A confissão a Jesus como o Messias e o anúncio do sofrimento são um primeiro ponto alto do evangelho. Não é por acaso que a parte do evangelho que segue ao

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primeiro ponto alto é mais extensa do que tudo o que precedeu. Aqui o evangelho é mencionado pela primeira vez no evangelho. Jesus, o crucificado e o ressurreto, é o Messias. Foi essa a confissão das comunidades palestinenses e helenistas. Paulo e Pedro têm a mesma confissão. Tudo o que o evangelista narrar a seguir é desdobramento desse evangelho. Tudo o que descreveu anteriormente quer ser entendido a partir de nosso texto. O texto, a partir de 8.34, tem dois destinatários: os discípulos e o povo. [...] A maioria das palavras também aparece em Q. Temos, pois, ditos independentes que, originalmente, foram transmitidos isoladamente como ditos. “Seguimento/discipulado” já tinha sido tematizado em 3.13s. Seguimento não tem o significado de “imitação de Cristo”. À época, “seguir” significava “estar com ele”, “andar atrás dele como aluno”. Da mesma maneira, ao longo da história da igreja, expressões como “negar-se a si mesmo” e “levar a cruz” foram esvaziadas de seu sentido. O significado de “negar” podemos ler em v. 14.71: “não conheço o homem”. Por semelhança, aqui: não se conhecer, desconhecer seu próprio Eu. Palavras como Mc 9.43ss; Mc 6.3 e Mt 18.3, também Mt 11.11; Lc 9.60; 15.24,32 e os paralelos ao v. 35 e 36 significam: novo nascimento, um Eu totalmente novo; o mesmo, portanto, que encontramos em João 3.3. O mesmo é afirmado pelo dito do carregar a cruz. Seu sentido não diz de um carregar a cruz apenas após a crucificação de Jesus, mas no sentido usado pelo judaísmo: “Abraão tomou a lenha do sacrifício e depositou-a sobre seu filho Isaque; como alguém que carrega a cruz sobre seu ombro”. Nosso dito significa, pois: saber-se condenado à morte, à morte de um criminoso. [...] O v. 35 refere-se, indiscutivelmente, ao martírio. Os discípulos de Jesus perdem sua vida por ser perseguidos por causa dele e por causa do evangelho que anunciam. Nossa palavra foi transmitida 6 vezes. “Por causa do evangelho” só encontramos em Marcos; quem nega no martírio, para salvar sua “vida”, na verdade PERDE sua vida. [...] É verdade que no original grego encontramos a palavra alma. Mas ela significa o mesmo que “vida”; é esse o sentido de “alma” em todo o NT. [...] Nesse caso, nosso dito significa: que adianta conseguir todo o mundo se acabares morrendo? Com todas as tuas posses podes reiniciar tua vida? É possível que o dito tenha sido, originalmente, dito popular profano: de que vale toda a tua posse se vieres a morrer? Na boca de Jesus transforma-se em uma espécie de parábola: de que adianta possuir o mundo inteiro se aquele que o possuísse viesse a morrer? É nesse sentido que vão as palavras do Senhor a respeito de viver e morrer mencionadas no v. 34 [...]. Se for esse o sentido de nossa palavra, então está dirigida a todos os seguidores de Jesus, sem exceção. Eles perderam sua vida – sua vida própria –; o que permanece como recompensa para que se reconquiste vida? Aqui entram as palavras do Salmo 49.8s e Mc 10.45. [...] “Envergonhar-se” de Jesus e de suas palavras é expressão muito forte; não encontramos equivalente em nenhum dos livros proféticos. Nenhum profeta as dirige a seus ouvintes: não te envergonhes de minhas palavras. O dito, portanto, pressupõe que a expressão pressupõe valor especial; no entanto, vergonha e deboche aguardam o mensageiro dessas palavras. É o pensamento do “Evangelho” do

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v. 38 e de Rm 1.16. Ainda mais forte é o “envergonhar-se de mim”; ele se encontra além de qualquer palavra dos profetas. Os profetas desaparecem por trás de sua mensagem; Jesus, contudo, é sua própria mensagem porque ele é a presença da mensagem do reino de Deus que há de vir e isso se expressa em sua palavra. Por isso, negar suas palavras e negar a ele é o mesmo. Negá-lo ou envergonhar-se dele no discipulado é escandaloso. As palavras de nosso versículo confirmam e esclarecem esse aspecto na ameaça do juízo constante no v. 36s e destinada ao discípulo que quer “salvar sua vida” ao invés de perdê-la por causa de Jesus e do evangelho. A distinção que é feita em nosso dito entre Jesus e o filho do homem que vem vindo perfaz o mistério messiânico. Quem observar o significado que é conferido às palavras de Jesus e a ele próprio há de compreender o mistério messiânico: em Jesus e em sua palavra se decide a eterna sorte de seus ouvintes, ele é o juiz do universo. Observe-se que em nossa perícope é mencionado pela primeira vez no Evangelho de Marcos a segunda vinda de Cristo (tradução de Martin N. Dreher).

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Meditação

1 – Jesus é o próprio evangelho. Aos que o seguem (sedentos, críticos ou curiosos) ele ensina, esclarece e orienta; ele se revela como evangelho. Ele mesmo prepara o terreno para a fé. Não temos mais Jesus conosco caminhando, ensinando, tendo comunhão de mesa, curando. O apóstolo Paulo, no entanto, diz que “a fé vem pela pregação e pregação pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Martim Lutero entendeu que cada pessoa deveria poder ler a Bíblia e não somente ouvila (seguida de interpretação) da boca dos religiosos. Nesse sentido, há preciosa contribuição luterana a ser lembrada: “Junto aos mosteiros surgem as primeiras universidades e a partir da vontade de colocar a Bíblia nas mãos das pessoas simples se prefiguram a alfabetização e a escolarização universal, tarefa mais tarde assumida pelos estados nacionais” (Danilo Streck, “Uma pedagogia da vida plena” in: Jesus de Nazaré. Profeta da liberdade e da esperança. São Leopoldo: Editora UNISINOS, p. 238). Para poder seguir a Jesus – “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34b) – é preciso ouvir falar desse Jesus. Esse evangelho – que Jesus morreu e ressuscitou por nós, que ele é o Messias/Cristo – precisa ser anunciado claramente no culto. Para além do momento do culto, reafirma-se a necessidade de educação cristã contínua. Não se pode deixar de falar o que parece óbvio nos cultos e encontros em nossas comunidades, pressupondo que, no encontro das pessoas batizadas, o evangelho de Jesus, a vida a partir do evangelho e mesmo os princípios da confessionalidade luterana (somente por graça, somente por fé, somente pela Escritura, somente por Cristo) estejam assimilados por todos. Às vezes, o que nos parece óbvio pode ser a chave para entender muitas questões e pode levar pessoas à fé. “A Escritura é como uma ervinha; quanto mais a trituras, mais perfume ela solta” – disse Martim Lutero. Nenhum texto envelhece! Cada pessoa cristã precisa ouvir, sempre de novo, o que Deus lhe oferece para que o impacto dessa graça a transforme em um “novo eu”.

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2 – “Siga-me”, disse Jesus (Mc 8.34). Seguir a Jesus não se restringia à imitação; antes era, de fato, seguir seus passos, estar com ele, andar com ele, aprender com ele. Consigo isso? Consigo confessar esse Cristo que foi rejeitado até por gente de seu povo? Consigo colocar em primeiro lugar o Cristo com sua radicalidade pela vida, o Cristo que andou com pecadores/as, com doentes, com gente desprezada pela sociedade, cuja lembrança mais visível hoje, em todo lugar, é a cruz, pena capital no Império Romano, em seu tempo? Consigo estar com Cristo junto aos doentes, aos excluídos, na prática da justiça e da misericórdia? Só por Deus mesmo! Foi o meu pecado que ele tomou sobre si. É a minha salvação e de todo o que crê, a minha vida (Mc 8.35) que ele me oferece, gratuitamente, por fé. Martim Lutero diz que as obras de Cristo contidas nos evangelhos não são exemplos ou “onde aprenderíamos o que devemos fazer” (Martim Lutero, Obras Selecionadas v. 8, p. 171). O ponto principal do evangelho, seu fundamento, é que antes de tomares Cristo como exemplo o acolhas e o reconheças como dádiva e presente que foi dado a ti, pessoalmente, por Deus, ou seja, que ao vê-lo ou ouvi-lo fazer ou sofrer alguma coisa, que não duvides que ele, Cristo, com esse fazer e sofrer, seja teu, e nisto não te fies menos do que se tu o tivesses feito, sim, como se tu fosses o próprio Cristo. Isto sim significa reconhecer corretamente o evangelho, ou seja, a bondade exuberante de Deus, a qual nenhum profeta, nenhum apóstolo, nenhum anjo jamais pôde esgotar em palavras, nenhum coração jamais pôde assombrar-se e compreender o suficiente. Este é o grande ardor do amor de Deus para conosco. Disso o coração e a consciência se alegram, ficam seguros e tranquilos. Isso é pregar a fé cristã. Por isso tal pregação se chama de evangelho, ou seja, [...] uma mensagem alegre, benfazeja e confortadora, mensagem pela qual os apóstolos são chamados de os doze mensageiros. [...] quando tens a Cristo como fundamento e bem maior da tua felicidade, segue um outro ponto: que o tomes como exemplo e também te ofereças para servir ao teu próximo, assim como vês que ele se ofereceu a ti (p.173). Cristo é teu e te foi dado como presente. [...] Importa que tomes isso como exemplo e também ajudes o teu próximo e procedas do mesmo modo com ele, isto é, que sejas também para ele um presente e um exemplo (p. 174).

Caso no culto aconteça o sacramento do Batismo, é importante lembrar do valor da vivência cristã diária das pessoas adultas da família como passos a serem seguidos pelas crianças. Já no Antigo Testamento, encontramos exemplos de como os pais educavam na fé seus filhos por meio do resgate, da memória da ação de Deus (Dt 6.4-9). Criança aprende pelo exemplo. Faz mais o que vê do que o que ouve. Nós podemos ser um meio de o evangelho tornar-se conhecido e ser sentido por nossas crianças e, por intermédio de nossa ação, podemos ajudá-las a seguir a Jesus (ou não). 3 – As ofertas são muitas. Não só hoje. A pergunta é: vale a pena a vida sem Jesus? Se tivermos tudo o mais e o nosso limite for apenas esta vida, valeu a

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pena? Sem Jesus não há vida em comunhão com Deus e com o próximo. Do que nos vale então o viver? Aqui Jesus nos conduz ao que dá sentido à nossa vida: “Negar a si mesmo”, desconhecer o nosso próprio eu e, vivendo com ele, experimentar uma nova vida, não sem sofrimento. Nosso melhor “investimento” é viver COM Jesus. Tudo o mais decorre disso. Nessa vida com Cristo, os benefícios não são individuais como possa parecer, talvez, num primeiro momento, pela linguagem econômica utilizada por Jesus: ganhar x perder. Porque a vida com Cristo é vida com o próximo sempre! “Quando fizeste isso [...] a um dos meus pequeninos, a mim o fizeste” (Mt 25). Numa vida com Cristo, o próximo passa a ser mais importante do que o acúmulo de bens. Entendo toda a minha vida como um presente de Deus e uma oportunidade para servir. Trabalho para viver; trabalho porque com meu trabalho tenho a oportunidade de fazer o bem. Disponho do que tenho e do que sei para o bem de quem está comigo, porque importa o bem-estar coletivo e não o acúmulo de capital, visto que minha vida é finita e não vou levar nada comigo. Assim como a vida me foi concedida por Deus, ficarei sob os seus cuidados também na morte. Se minha vida foi movida por meus interesses, no final dessa vida ficarei sem nada porque nada posso levar comigo. Se a fé me alcançou, seguirei tranquilo porque quem me concedeu a vida também cuidará de mim até o dia da ressurreição. Ao encontrar Cristo, eu encontro o irmão, a irmã, em sua angústia, dor ou alegria. Eu me solidarizo, multiplicam-se as relações de cuidado, de afeto e de cooperação. Aceito o Cristo que morreu e ressuscitou por mim e, em seu seguimento, experimento uma vida de doação.

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Imagens para a prédica

Assim que li o texto, cenas de minha infância vieram à minha mente. Lembrei-me de como o pai e a mãe nos tomavam pelas mãos, firmavam nossos pés sobre seus pés e caminhavam conosco. Brincávamos sustentadas por seus pés e seguras por suas mãos. Lembrei-me também de nossas “aventuras” nos morros no interior de Teófilo Otoni/MG. O pai tomava um facão velho, enferrujado, convidava suas “meninas” para uma caminhada pelos morros e ia à frente, abrindo o caminho com seu facão. Ele ia anunciando: cuidado com isso, segurem aqui ou ali, dá a mão para não cair! Nós seguíamos seus passos e experimentávamos seu cuidado. E todos nos divertíamos muito! Pés/passos poderiam ser afixados no corredor da igreja, não da porta até o altar, mas, ao contrário: para fora, para “o mundo”.

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Subsídios litúrgicos

Hinos de Quaresma: HPD 54 (Cristo quero meditar em teu sofrimento); HPD 46 (Agradecemos-te, Jesus). Outros hinos: HPD 463 (Caminhamos pela luz de Deus); OPC 211 (Vem, ó tu, que fazes novos os sistemas de pensar); HPD 413 (Senhor, se tu me chamas, eu quero te seguir).

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2º Domingo na Quaresma

Bibliografia STRATHMANN, Julius. Das Evangelium nach Markus. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1940. (Das Neue Testament Deutsch 1).

3º DOMINGO NA QUARESMA 1 CORÍNTIOS 1.18-25 ÊXODO 20.1-17 JOÃO 2.13-22

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PRÉDICA: JOÃO 3.14-21

4º DOMINGO NA QUARESMA

NÚMEROS 21.4-9 EFÉSIOS 2.1-10

18 MAR 2012

Claiton André Kunz

1

Introdução

Muitas vezes, encontramo-nos em situações muito difíceis e não sabemos como sair delas. Frequentemente, as circunstâncias são tão complicadas, que sequer imaginamos que possa haver uma saída. Um dos maiores problemas nessas horas é que achamos que estamos sozinhos para lutar nessas situações e agimos como se ninguém se importasse conosco. Mas não estamos aqui falando de um simples problema, como uma situação de saúde, a falta de um emprego, a perda de um ente querido ou outra coisa qualquer, por mais importante que nos seja. Há uma questão que é muito mais séria e crucial em nossas vidas e que diz respeito não apenas aos próximos dias ou meses, mas à nossa eternidade. A pergunta que todos nós precisamos fazer é: como podemos achar uma saída para o problema da nossa posição diante de Deus, tendo em vista que estamos afastados dele devido ao nosso pecado? É possível fazer alguma coisa? Preciso lutar sozinho para resolver essa situação?

2

Exegese

O texto de hoje encontra-se dentro de uma perícope maior, que relata o encontro de Jesus com Nicodemos, um “dos principais dos judeus”. Nicodemos aproximou-se de Jesus e, ao iniciar seu diálogo e elogiar o Mestre como vindo da parte de Deus, Jesus lhe responde quase à “queima-roupa”: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (v. 3). O diálogo prossegue com a incompreensão de Nicodemos à abordagem de Jesus sobre o novo nascimento. Parece que Jesus pretende dar uma resposta definitiva a ele. Qual a forma concreta pela qual alguém pode nascer de novo, ser gerado novamente, podendo assim entrar no reino de Deus? Sabemos pelo restante das Escrituras que a única forma disso acontecer é por intermédio da cruz de Cristo. Jesus quer chegar justamente a esse ponto com Nicodemos. Mas como explicar a um escriba judaico sobre a cruz que seria erigida no Calvário somente anos mais tarde? Jesus lança mão, então, da história da serpente de bronze (Nm 21.8-9), com certeza bem conhecida de Nicodemos. Provavelmente, a imagem surge diante dos olhos de Nicodemos: uma grande multidão sendo mordida por serpentes abrasadoras por causa de sua culpa, morrendo sem

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4º Domingo na Quaresma

salvação. “Desse modo” é também hoje a situação do ser humano com sua culpa diante de Deus. Naquela situação, a salvação para Israel veio por meio de uma serpente de bronze. A mordida fatal das serpentes era curada pela imagem da serpente, que precisou ser levantada, pendurada no alto de um poste, para que todo aquele que estivesse morrendo pudesse vê-la. Disso resultava a salvação: um ato que podia ser feito até pela pessoa mais frágil – “olhar” para a serpente. Então vem a afirmação categórica de Jesus, baseada na relação tipo/antitipo: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado” (v. 14). Assim como aqueles israelitas mordidos pelas serpentes necessitavam olhar para a serpente de bronze para ser curados, assim seria necessário que todo ser humano escravo do pecado olhasse para Aquele que foi feito pecado em seu lugar (2Co 5.21), a fim de ser salvo desse pecado. A imagem da serpente sendo levantada remete a Cristo, que algum tempo depois seria levantado numa cruz. O verbo hypsoō, usado para “ser levantado”, é cuidadosamente escolhido. O verbo denota tanto ser levantado no espaço como ser exaltado na glória. É interessante notar que, em João, Jesus é glorificado ao ser crucificado (Jo 8.28; 12.23,32,34). Não havia valor terapêutico na serpente de bronze no deserto. Em si, ela era um mero pedaço de bronze. Quando posteriormente as pessoas lhe prestaram adoração, como se tivesse alguma santidade ou poder em si, o rei Ezequias sabiamente a quebrou em pedaços (2Rs 18.4). Foi a graça salvadora de Deus que curou os israelitas mordidos, quando creram em sua palavra e obedeceram à sua ordem. Esses foram curados de uma doença física e receberam, portanto, mais tempo de vida terrena, mas o Filho do Homem garante vida eterna àqueles que olham para ele. Esta é a resposta para a pergunta de Nicodemos: “Como pode suceder isso?” (Jo 3.9). Experimenta-se o novo nascimento e entra-se no reino de Deus por meio da obra salvífica de Cristo, recebida pela fé. Olhar para Aquele que carrega os pecados e é alçado à cruz traz consigo a vida, um novo tipo de vida – a vida eterna (v. 15). Essa é a primeira vez em que ocorre nesse evangelho a expressão frequente “vida eterna” (zōē aiōnios). Somente Aquele que é o Verbo Eterno (Jo 1.1) e cuja vida está nele (Jo 1.4) é que pode conceder a vida eterna. A palavra eterna aqui não significa uma “eternidade” em termos filosóficos, contraposta ao tempo, nem tampouco significa mera “infinitude”. Na verdade, vida eterna significa que a vida da “era futura, do mundo vindouro” invade a era presente e pode ser experimentada por todos aqueles que “olham” para a cruz. Devido à importância dessa afirmação, Jesus repete-a no versículo 16, aprofundando-a e cristalizando-a no verso que talvez seja o mais conhecido de toda a Bíblia e que com razão tem sido chamado de “evangelho no evangelho”. Sua intenção é expor, em termos de aplicação universal, a lição ensinada a Nicodemos. Deus ama o mundo tão intensamente, tão incompreensivelmente, tão profunda e poderosamente, a ponto de entregar o seu próprio e único Filho. O “mun-

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do” aqui significa toda criatura alienada de Deus, hostil a Deus, pervertida (cf. Jo 1.5,10,11). Nesse sentido, o amor de Deus não tem limites e engloba toda a humanidade. O seu amor não foi apenas para um grupo ou para um povo, mas foi dado para que todos, sem exceção ou distinção, ao colocar sua fé nele, pudessem ser resgatados da destruição e abençoados com a vida eterna. O versículo 16 ainda deixa claro que “perecer” (apolesthai) é a única outra alternativa além de ter vida eterna ou ser salvo. Por mais que a graciosa mensagem desse versículo seja a possibilidade da salvação em Jesus Cristo, ainda assim diz que toda pessoa está perdida sem o amor salvador de Jesus. Tanto no versículo 15 como no 16, deixa-se clara a única ação agora exigida da pessoa: “crer nele”. Esse crer já estava no “olhar” para a serpente de bronze. Não é nenhuma realização, como se pudéssemos fazer qualquer coisa meritória para a nossa salvação. É um ato executável pelo mais humilde e fraco. Quem realmente crê e olha com fé para a cruz dá-se a si mesmo como perdido e reconhece sua libertação unicamente no Filho de Deus, que foi levantado numa cruz.

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Meditação

Quando Nicodemos dirigiu-se a Jesus naquela noite (Jo 3.2), o Mestre advertiu-o afirmando que lhe era necessário nascer de novo para que pudesse ver e entrar no reino de Deus. Embora Nicodemos fosse mestre em Israel (v. 10), parece que ele não compreendeu exatamente a dinâmica da salvação. Sua pergunta bem objetiva é: “Como pode suceder isso?”. Esta é a pergunta que também nós precisamos fazer: Como pode alguém nascer de novo? Como pode alguém entrar no reino de Deus? Como pode alguém ter a vida eterna? Podemos aqui dar algumas respostas: 3.1 – Não por esforço ou mérito próprio Ninguém consegue nascer de novo ou entrar no reino por seu esforço próprio. Nossa natureza, conforme descrita por Jesus, é que nós amamos mais as trevas do que a luz; praticamos o mal e por isso aborrecemos a luz e não nos achegamos a ela (Jo 3.19-20). Essa é a nossa natureza. Já o salmista havia descrito isso (Sl 14.1-3; 53.1-3), e Paulo o reafirmou: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.1012). Depois Paulo é ainda mais categórico: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Devido ao nosso pecado, estamos separados de Deus, pois nossas iniquidades nos separam dele (Is 59.2). Dessa forma, não há nada em nós que possa ajudar para a salvação, a não ser o pecado do qual precisamos ser perdoados.

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3.2 – Pelo amor gracioso de Deus Se não há nada em nós que possa contribuir para a salvação, é necessário que alguém outro a proporcione para nós. Por isso Deus tomou a iniciativa de amar o mundo e dar seu Filho. O Filho precisa ser “dado”, entregue e de certa forma abandonado por Deus na cruz, porque de “tal maneira Deus amou o mundo” (Jo 3.16). Paulo afirma que dificilmente alguém morreria por um justo, embora, nesse caso, talvez ainda valesse a pena. Mas Deus provou seu amor para conosco dando seu Filho para morrer na cruz, quando nós ainda éramos pecadores (Rm 5.7-8). Que grande amor! Até nessa questão a pergunta de Nicodemos parece ressoar: “Como pode suceder isso?”, “Como pode alguém amar assim?”. Amar dessa forma somente é possível para Deus, pois faz parte de sua essência: Ele não apenas tem amor, Ele é amor (1Jo 4.8). 3.3 – Pela obra de Cristo na cruz Embora o amor de Deus seja imensurável, ele não anula a justiça de Deus. Dessa forma, alguma coisa precisava ser feita para que o preço pelo pecado fosse pago. Ezequiel já afirmara: “Toda alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4). Parece que não há saída para o pecado, pois também Paulo declarou que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Mas Deus, assim como proveu uma saída para o povo no deserto, que estava morrendo devido às serpentes, proveu uma saída para o ser humano condenado à morte devido ao pecado. Essa saída implicava que Cristo fosse levantado numa cruz: sempre que alguém “olhar” para ele por meio da fé será salvo de sua condição pecaminosa e consequente condenação. Assim, crendo na obra de Cristo na cruz, não apenas somos salvos do pecado, mas recebemos juntamente a bênção da vida eterna. Como está sua vida em relação a tudo isso? Como Nicodemos, você também não compreende “como pode suceder isso”? Entregue sua vida a Jesus e creia que ele pode livrar você do pecado e da condenação que o mesmo traz.

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Imagens para prédica

* Olhar para Cristo tornou-se concreto na vida do jovem Charles Spurgeon. Sem paz, infeliz na vida, ele chega, num certo dia de janeiro, a uma pequena capela e, na palavra de Isaías, ele capta o chamado pessoal do pregador: “Meu jovem, você está aflito. Você jamais sairá da tristeza até que olhe para Cristo. Olhe! Olhe! Olhe! Basta olhar!”. No final de sua vida, Spurgeon testemunha: “Olhei para ele até quase gastar meus olhos, e ainda no céu pretendo continuar olhando com alegria inefável”. Por uma vida inteira, esse fundamento permaneceu sólido. * Numa das galerias de Paris, há uma estátua notável. O escultor, como em geral todos os artistas famosos, era muito pobre e viveu e trabalhou num sótão. Ao terminar a estátua, olhou-a cheio de orgulho e afeição: quantas noites perdidas, quanto sacrifício e quanta paciência representavam aquela estátua! Bastante

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cansado, deitou-se. Naquela noite, caiu sobre Paris uma geada fortíssima. O escultor, acordando no seu quarto frio e desconfortável, lembrou-se da estátua tão recentemente terminada e teve receio de que a geada fosse estragar o trabalho que fizera com tanto esmero. Correndo os olhos pelo quarto, nada via com que pudesse proteger sua tão sonhada estátua. Sem hesitar um momento sequer, levantou-se e, tirando a roupa de cama com que se cobria, agasalhou com o máximo cuidado a bela escultura. Pela manhã, o escultor foi encontrado morto, mas sua estátua ainda hoje existe. Morreu para perpetuar a obra de suas mãos. Irmãos, somos a obra das mãos do Grande Artista. E Ele, semelhante a esse escultor, morreu também para nos dar vida eterna. Há, porém, uma diferença: o escultor que morreu preservou apenas sua estátua do mau tempo daquela noite; o Divino Escultor, porém, ressuscitou e vive para todo o sempre, podendo proteger-nos de todos os perigos.

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Subsídios litúrgicos Para uso na liturgia, seguem algumas sugestões:

Leitura bíblica: Efésios 2.1-10 João 1.1-14 Atos 16.27-34 Frases de impacto: * O plano e o propósito de Deus em salvar são tão eternos quanto ele próprio (Eric Alexander). * Cristo não é apenas o Salvador, mas também a própria salvação (Matthew Henry). * Nossa salvação é tão bem projetada, tão bem harmonizada, que Deus pode ter misericórdia dos pobres pecadores e estar em paz com eles, sem nenhum prejuízo em sua verdade e justiça (Matthew Henry). * O plano de Deus para a salvação não é uma decisão para remediar uma situação; ele antecede a obra da criação (J. A. Motyer). * Nenhum pecador jamais foi salvo por ter dado o coração a Jesus. Não somos salvos por ter dado, mas sim pelo que Deus deu (A. W. Pink). * Nossa salvação é uma dádiva inteiramente gratuita de Deus (Benjamin B. Warfield). * A graça de Deus não encontra homens aptos para a salvação, mas os torna aptos a recebê-la (Agostinho). * A vida eterna é uma joia de valor muito alto para ser comprada com a riqueza deste mundo (Matthew Henry). * A vida eterna não tem início com a morte; ela começa com a fé (Samuel Shoemaker).

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Testemunhos: Se houver na comunidade alguma pessoa que tenha tido alguma experiência marcante em termos de uma decisão de seguir a Cristo, pode ser-lhe solicitado que compartilhe a sua experiência.

Bibliografia BOOR, Werner de. Evangelho de João I: comentário esperança. Trad. Werner Fuchs. Curitiba: Esperança, 2002. 262 p. BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. Trad. Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 1987. 355 p.

5º DOMINGO NA QUARESMA HEBREUS 5.5-10 JEREMIAS 31.31-34 JOÃO 12.20-33

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PRÉDICA: JOÃO 12.12-16

DOMINGO DE RAMOS

SALMO 118.1-2, 19-29

01 ABR 2012

Werner Wiese

1

Introdução

O texto indicado para a pregação deste domingo é João 12.12-16. Não são muitos os textos do Evangelho segundo João que têm paralelos nos evangelhos sinóticos. O texto para este domingo tem: Mateus 21.1-9; Marcos 11.1-10; Lucas 21.28-39. Eles narram a entrada de Jesus em Jerusalém. É interessante observar os títulos colocados sobre os textos que narram esse episódio nas versões modernas da Bíblia. Por exemplo, na tradução de Almeida Revista e Atualizada no Brasil (2ª edição), lê-se nas quatro narrativas: “A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”. Já na Bíblia de Jerusalém, o título colocado sobre a narrativa é: “Entrada messiânica em Jerusalém”. O episódio da entrada de Jesus em Jerusalém também é indicado, às vezes, como texto de pregação para um dos domingos de Advento. Não seria isso arbitrário na escolha e indicação dos textos para pregação? De forma alguma. Antes pelo contrário, o mesmo episódio pode e deve ser visto sob a dupla ótica: aquele que entra sob aplausos em Jerusalém é o servo sofredor, e o servo sofredor é o messias. Aqui dá para fazer o link entre o texto da prédica e os outros textos indicados para leitura. O Domingo de Ramos abre, por assim dizer, a Semana da Páscoa. Às vezes, esse domingo é chamado também de Domingo da Paixão, para sinalizar o início do sofrimento de Jesus. Em todos os casos, para a igreja cristã, que lembra sua trajetória ao longo da história, a partir desse domingo iniciam conscientemente celebrações que culminam na Páscoa. No centro delas, sem dúvida, estará o que Deus fez em e por meio de Jesus para resgatar a humanidade. Mais do que em outra época do ano, o que se destaca nos cultos dessa semana é a celebração da Santa Ceia como expressão ilustrativa da presença do Deus Triúno no meio de seu povo.

2

Exegese

2.1 – O texto e o episódio no seu contexto Aqui convém fazer algumas considerações: 1 – O evento da entrada “triunfal” ou “messiânica” de Jesus em Jerusalém, narrado pelos quatro evangelhos, não é o único ponto de convergência entre João e os sinóticos no que diz respeito ao episódio destacado. Comum entre eles é também que essa entrada em Jerusalém é emoldurada pela ótica do sofrimento

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Domingo de Ramos

iminente de Jesus. Em João, isso é notório o mais tardar a partir da ressurreição de Lázaro (Jo 11.47ss; cf. também 12.7, 24-25, 27). Nos sinóticos, a realidade do sofrimento de Jesus não está inserida no contexto literário tão próximo à entrada em Jerusalém, mas está presente no ministério de Jesus, que aponta para Jerusalém ou move-se em direção a Jerusalém. Por exemplo, em Lucas 9.51, já se registra a resolução de Jesus para ir a Jerusalém, o que implicará sofrimento. Ademais, também nas referências diretas ao sofrimento do “Filho do Homem” Jerusalém está no horizonte (Mt 16.21 e Mc 8.31-32 etc.). Finalmente, a unção de Jesus em Betânia é um gesto simbólico em João, Marcos e Mateus, que sintetiza a ótica comum que eles têm da paixão de Cristo (Jo 12-1-8; Mc 14.3-9; Mt 26.613). Lucas omite a unção em Betânia, porém narra que uma pecadora ungiu os pés de Jesus (Lc 7.36ss). 2 – Apesar dos pontos convergentes destacados entre João e os sinóticos relativos à entrada de Jesus em Jerusalém, existem diferenças que devem ser consideradas: uma diferença é que, de acordo com os sinóticos, a iniciativa da “entrada triunfal” ou “messiânica” de Jesus em Jerusalém parte do próprio Jesus (Mc 11.1ss e paralelos), ao passo que, de acordo com João, a iniciativa parte do povo que tinha conhecimento da ressurreição de Lázaro, realizada por Jesus (Jo 12.9, 12-13; cf. também Jo 11.56). Uma outra diferença é que os sinóticos mencionam uma intervenção de Jesus no templo no contexto de sua “entrada triunfal” ou “messiânica” em Jerusalém, enquanto João não a menciona. Aliás, ele a traz no início do ministério de Jesus (Jo 2.13ss [Ou teríamos duas intervenções de Jesus no templo?]). Por outro lado, os sinóticos não mencionam a ressurreição de Lázaro e a reação causada por ela. (Será que eles a desconheciam?) Em todos os casos, por trás tanto daquilo que é comum aos quatro evangelhos no contexto da entrada de Jesus em Jerusalém como daquilo que não lhes é comum, há interesses e enfoques teológicos a serem observados. Por fim, somente João registra que os próprios discípulos de Jesus só compreenderam o episódio em Jerusalém depois da glorificação de Jesus (v. 16; cf. também Jo 2.22). É visível que o evangelista quer diferenciar entre a “expectativa popular” do messianismo ou da realeza da época e a “realidade messiânica” encarnada por Jesus. Esse é um enfoque fundamental para entender o texto para a pregação. 2.2 – Aspectos exegético-teológicos A delimitação do texto para a pregação do domingo de hoje não é óbvia, pois os v. 12-16 estão, na verdade, ligados no mínimo também com os v. 9-11 e com os v. 17-19(ss). Contudo, nada substancial depõe contra a delimitação proposta, desde que o contexto seja considerado. Para fins didáticos, o texto para a pregação pode ser dividido em três partes: a) v. 12-13: aqui o evangelista destaca a recepção e aclamação popular de Jesus como rei ao chegar em Jerusalém; b) v. 14-15: esses narram a atitude de Jesus ao entrar na cidade; c) v. 16: esse vincula a compreensão teológica do episódio à glorificação de Jesus. V. 12-13 – A construção adverbial de tempo “no dia seguinte” (te epaurion) refere-se ao sexto dia “antes da Páscoa” (Jo 12.1), ocasião em que Jesus

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Domingo de Ramos

foi para Betânia, onde foi ungido por Maria (Jo 12.3) – irmã de Lázaro (Jo 11.2), que Jesus havia ressuscitado (Jo 11.11ss). Portanto, “no dia seguinte” significa que Jesus entrou em Jerusalém cinco dias antes da Páscoa. Não é mais possível determinar com exatidão se esse dia era um domingo ou uma segunda-feira. De qualquer forma, para entender o que é narrado nos v. 12-13, dois momentos devem ser considerados e destacados: um é o reflexo do milagre da ressurreição de Lázaro, realizada por Jesus. Essa notícia chegou antes a Jerusalém do que o próprio Jesus e tornou-o popular e criou uma expectativa em torno de sua pessoa. O outro momento é o clima de festa da Páscoa dos judeus. Páscoa era a primeira das três festas principais no calendário litúrgico judaico. Diferente de nossa Páscoa hoje, ela durava do dia 14 até 21 de Nisan (antes do exílio babilônico, Nisan era chamado de Abib, considerado o primeiro mês do ano). De acordo com a tradição que se preservou no Antigo Testamento, essa festa remonta ao principal evento da história primitiva de Israel – a libertação e saída do Egito (Êx 12). A festa iniciava com o sacrifício do cordeiro pascal no dia 14 de Nisan. A partir do segundo dia, ela também era chamada de festa dos pães ázimos (asmos) e estendia-se por sete dias. Durante esses dias, era “alta temporada” em Jerusalém. A cidade, que tinha uma população fixa estimada entre 35.000 e 50.000 habitantes, recebia durante a festa em torno de 180.000 pessoas ou mais. O cerne teológico da festa era a rememoração (o reviver) da libertação da escravidão egípcia e do domínio estrangeiro. Ao longo da história, essa rememoração despertava sempre de novo a esperança messiânica: a vinda do ungido de Jahwe para libertar Israel do domínio estrangeiro, exercido no período do Novo Testamento pelos romanos. Na comunidade em Qumrã, perto do mar Morto, esperava-se por dois messias: um sacerdotal e outro real. Por causa do medo da repressão por parte da força estrangeira dominadora, não se falava abertamente sobre um messias. Contudo, tinha-se para ele um “nome secreto: o que vem”. No tempo de Jesus e depois dele, inclusive, havia movimentos messiânicos, inclusive pretendentes reais ou messiânicos (At 5.36-37; Lc 13.1[?]). Alguns deles impulsionaram à revolta armada contra Roma nos anos 66-70 d.C., lançando a nação judaica, especialmente Jerusalém, num banho de sangue sem precedentes na história desse povo. O último “movimento messiânico da antiguidade judaica” de luta armada contra Roma foi liderado por Bar Kochba nos anos 132-135 d.C., que resultou na extinção da nação judaica até 1948. Sob esse pano de fundo maior, os v. 12-13 devem ser ouvidos e tornamse mais claros. O povo que sai ao encontro de Jesus deposita nele toda a sua esperança messiânica, o que inclui a superação do poder estrangeiro. Esse certamente só poderá ser superado pela força. Na antiguidade, de um modo geral, ramos de palmeiras simbolizavam a vitória e eram usados em procissões para receber soberanos vencedores. O mais tardar a partir da revolta dos macabeus, o mesmo símbolo era usado também no interior do judaísmo (veja 1 Macabeus 13.51; 2 Macabeus 10.7; 14.4). A expressão “(ir) a seu encontro” – na língua grega hypantesis (v.13) – reforça a mesma ideia ou realidade, pois originalmente era um termo técnico para caracterizar a recepção do rei e da proeminência política. Além de nosso texto, no Novo Testamento, o termo ocorre apenas ainda em

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Mateus 8.34 e 25.1, sinalizando que se trata de um encontro com uma finalidade bem específica. De fato, a multidão vai ao encontro de Jesus para recebê-lo como messias. Nele deposita tal expectativa e a verbaliza: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e que é Rei de Israel” (v. 13b). Com exceção das palavras “Rei de Israel”, trata-se de uma citação do Salmo 118.25-26. Hosana é súplica por socorro, que significa: ajuda ou salva, por favor, que pode dirigir-se ao rei (2Sm 14.4; 2Rs 6.26) ou a Deus (Sl 20.10). Hosana torna-se a um só tempo júbilo e súplica: júbilo pela presença do messias e súplica porque espera dele o socorro na hora da angústia. V. 14-15 – Jesus responde à expectativa messiânica do povo também com um gesto simbólico: monta num jumentinho. Nisso se cumprem as Escrituras (Zc 9.9). Desse gesto convém destacar dois aspectos: 1 – Jesus aceita a aclamação do povo. Ele, que entra em Jerusalém de fato, é o “Rei de Israel” esperado de longa data em Sião. Nesses termos, poderíamos dizer que ele corresponde à expectativa do povo. 2 – Ao mesmo tempo, Jesus corrige falsas expectativas messiânicas. Ele não vem com tanques de guerra e espada na mão, não é déspota arbitrário que deve ser temido por ser imprevisível, mas é o príncipe da paz (veja Is 2.2-4; 9.1ss, especialmente o v. 6; 11.1ss; 65.17ss; Jr 23.5-6). De fato, seu reino não é deste mundo (Jo 18.36); por isso sua forma de governar seu povo em nada é semelhante aos regimes dos poderosos deste mundo: não vem com visível aparência (veja Lc 17.20-21). V. 16 – Seu reino é tão discreto, que os próprios discípulos que haviam vivido de forma intensa com Jesus durante alguns anos não compreenderam a dimensão última de seu agir. Só o puderam entender depois da “glorificação” de Jesus (veja também Jo 2.22). Literalmente, seu reino é de natureza escatológica, de modo que “até a parusia de Jesus... estará presente neste mundo apenas de maneira velada” (G. Voigt). Esse fato sempre de novo representou prova dura a ser suportada pela igreja cristã de todos os tempos. Não raras vezes, ela cedeu à tentação de querer trazer por meio da força evidências incontestáveis da presença do reino de Deus no mundo – e não se deu bem. Pelo contrário, também sob as mãos da igreja, o poder e a influência nem sempre foram depurados, mas se corromperam.

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Meditação e imagens para a prédica

É fácil fazer o link do texto da prédica com o assim chamado Domingo de Ramos, pois o próprio texto bíblico menciona “ramos de palmeiras”. Em algumas comunidades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, nesse domingo é Dia de Confirmação, inclusive em vários lugares há quem leve ramos de palmeiras para o culto. E mesmo onde isso não acontece, pode-se providenciar ramos de palmeiras ou similares para colocá-los em um lugar adequado na casa de Deus e usá-los como ilustração na pregação. Essa seria uma imagem muito boa para a prédica no culto. É um momento em que se pode e deve destacar aspectos daquela época, que são inerentes ao ser humano de todos os tempos, de modo especial para a comunidade cristã. Destacam-se:

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Domingo de Ramos

a – A celebração como rememoração da própria história. Ou: a rememoração da história como celebração atualizada. Vale lembrar que, para o povo de Deus daquela época, os sete dias de celebração da Páscoa eram como rever o filme da história de Deus com seu povo. Nesse rememorar e rever o filme vinham à mente não apenas os momentos de visível êxito que causavam alegria, como a libertação da escravidão egípcia rumo à terra prometida, onde se podia viver a própria identidade com liberdade e responsabilidade, mas também momentos de derrota e crise. E, não por último, a celebração pascal nos dias de Jesus acontecia sob as “sombras” do domínio romano, como força que excedia a vontade e capacidades pessoais para mudar a própria sorte. Aqui há como fazer conexões sensatas com a comunidade de fé hoje, tanto com a igreja como um todo quanto com a comunidade local, inclusive com a história pessoal: muitos certamente olham para trás e sentem um misto de alegria e tristeza, talvez por causa de uma situação presente que não conseguem mudar porque excede a própria força e vontade. Pregadores e pregadoras hão de cuidar para não falar de forma tão genérica dessas questões a ponto de ouvintes terem a impressão de que “todos estão no mesmo barco”, mas que a mensagem de fato não diz respeito a ninguém e, consequentemente, não é relevante para a vida. b – O elemento da esperança. Novamente não é difícil fazer o link entre o ontem do texto e o hoje da pregação sem cair em uma linguagem religiosa desgastada ou barata. Perspectiva de futuro ou esperança e sentido da vida estão intrinsecamente ligados entre si: queremos e precisamos de um “futuro melhor”, novo. À medida que almejamos isso, constatamos que o “novo porvir” sempre escapa de nossas mãos por uma série de razões. Quantas esperanças depositadas nas capacidades humanas, próprias e alheias, frustraram na época de Jesus e frustram hoje, também no interior das comunidades cristãs. Sai governo entra governo, termina uma legislatura começa outra, sai uma liderança entra outra, e o novo porvir tarda. Surge a pergunta: O que nos resta? Vamos apostar todas as fichas na assim chamada geração y, que “promete” inovar? Inovar é possível, até muitas coisas. Mas não precisamos necessariamente de muitas coisas novas. “Pouco é necessário ou mesmo uma só coisa” – a boa parte que não mais será tirada de nós (Lc 10.41-42). E por essa só podemos e devemos pedir: “Hosana!” – Ajuda, salva, por favor! O equivalente grego de Hosana é Kyrie eleison. Com ele fazemos coro na comunidade cristã reunida. Não se trata de mero hábito abstrato, mas de súplica consciente pela vinda do reino de Deus. Esse é nossa esperança. c – O reino de Deus não é como os reinos deste mundo. O fato de Jesus ter reagido “positivamente” à aclamação das pessoas que saíam a seu encontro montado num jumentinho (Jo 12.14) confirma ser ele mesmo o “Rei de Israel” com ouvidos abertos para o clamor do povo de Deus. Mas isso sob hipótese alguma quer dizer que ele era um rei que traria um reino conforme as imaginações nacionalistas em Israel. Jesus frustrou as expectativas do povo, inclusive de seus discípulos. Disso se tiram algumas conclusões para a pregação: 1) Por mais que Jesus tivesse e tenha ouvidos abertos para o clamor das pessoas, ele não se torna refém das imaginações e das agendas políticas e/ou religiosas da época, nem dos judeus tampouco dos romanos e nem de partido político algum. Também hoje

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Domingo de Ramos

não. O evangelho não se presta para a autorrealização humana. É perigosa a frase isolada que diz: seres humanos podem nos decepcionar, Jesus nunca. Dependendo das “esperanças” depositadas nele, ele não só pode, mas precisa nos decepcionar ou desiludir, para que não vivamos nem morramos na ilusão (veja também Mc 10.35ss, especialmente os v. 38-40). 2) O fato de Jesus não ter usado a força para instaurar o reino de Deus não quer dizer que com isso ele propõe um novo estilo de governo. Abrir mão da força e do próprio direito (Mt 5.38-42) é uma possibilidade de viver a partir do evangelho, mas não é uma nova lei para governar o mundo. Seria ingenuidade que ignora a realidade da queda do ser humano para o mal. Aqui, a assim chamada “doutrina dos dois reinos” tem o seu direito. Mas, enquanto e como cristãos, não nos cabe fazer uso da espada para “implantar e garantir” o reino de Deus. Vale a palavra que diz: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6).

4

Subsídios litúrgicos

Retomamos o início da meditação. Por ser hoje um domingo especial, dependendo da comunidade, a casa de Deus poderia ser ornamentada com ramos de palmeiras ou similares. Assim, logo após a saudação trinitária, é possível aludir diretamente ao Domingo de Ramos e ao que ele representa, fazendo uma menção breve especialmente dos feitos de Deus na história de seu povo, do qual fazemos parte. No momento da confissão dos pecados, pregador ou pregadora poderiam lembrar com breves palavras que, na história de Deus conosco, tropeçamos inúmeras vezes e tornamo-nos culpados concretamente diante de Deus e de nosso semelhante. Antes da confissão pública, pode-se dar alguns momentos para que cada pessoa silencie e confesse diante de Deus sua própria culpa para então acompanhar a confissão “representativa”. É possível destacar bem o Hosana, que aparece no texto para a prédica, e vinculá-lo com o Kyrie eleison. O que é comum pode tornar-se novamente “incomum”, ou seja: Kyrie eleison é muito mais do que meras palavras repetitivas. Nele se expressa a mais profunda necessidade do ser humano na presença de Deus à vista da realidade comunitária e pessoal.

Bibliografia

HORSLEY, Richard; HANSON, John. Bandidos, Profetas e Messias. Movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995. WENGST, Klaus. Pax Romana. Pretensão e realidade: experiências e percepções da paz em Jesus e no cristianismo primitivo. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

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PRÉDICA: MARCOS 14.12-26

QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

ISAÍAS 42.1-4 (5-9) APOCALIPSE 19.6-10

05 ABR 2012

Sigolf Greuel Oziel Campos de Oliveira Júnior

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Introdução

O texto indicado para a pregação na Quinta-feira da Paixão é Marcos 14.12-16. Os textos previstos para leitura são Isaías 42.1-4(5-9) e Apocalipse 19.6-10. Ainda que tenham sido escritos em épocas e contextos diferentes, percebem-se neles uma unidade e um fio vermelho. A mensagem que se coloca como “guarda-chuva” sobre as três passagens é que a história humana tem um rumo e um sentido. Em Cristo, Deus escreve a sua história. Ele foi anunciado por Deus por intermédio dos profetas do Antigo Testamento (Is 42.1-4 (5-9); viveu nesta terra e morreu morte de cruz, dando-se a si mesmo em resgate pela humanidade pecadora (Mc 14.12-26); ressuscitou, subiu aos céus e foi glorificado como vencedor à direita de Deus (Ap 19.6-10). A história humana tem um rumo, e Deus dá-lhe um sentido e uma direção. Jesus assume o plano de salvação de Deus, anunciado antes de seu nascimento, abraça a história de Deus com a humanidade, e ele o faz como servo escolhido por Deus, consciente de que está agindo de acordo com as profecias (Is 42.1-4 [5-9]). Jesus entrega-se para a humanidade. Assim o fez em sua encarnação, assim o fez por ocasião da Ceia, assim o faz de modo radical e definitivo quando se deixa levar à cruz. Ali ele se entrega à morte conscientemente, tendo em mente a sua ressurreição e o reino de Deus (Ap 19.9). Dessa história temos o privilégio de fazer parte como convidados do Senhor.

2

Exegese

2.1 – Contexto A Páscoa do povo de Israel remete-nos ao Egito, por ocasião da libertação de um período de escravidão que havia durado 430 anos. Ela está relacionada à décima praga, à morte dos primogênitos dos egípcios e de seus animais (Êx 12). Naquele dia, cada família fora instruída a imolar um cordeiro sem defeitos e a aplicar o seu sangue nas ombreiras e na verga da porta de suas casas. Essa atitude de obediência impediria a ação do anjo da morte em suas famílias (Êx 12.7,13; Hb 11.28). Essa história está no centro da história do povo de Deus, a história de um povo resgatado da escravidão por seu Deus. A partir daí, os judeus passaram a comemorar a Páscoa anualmente, celebrando a libertação da escravidão. Também

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Quinta-feira da Paixão

os discípulos de Jesus querem comemorar a Páscoa com Jesus (Mc 14.12). Eles tomam a iniciativa no sentido de fazer os preparativos. Mas é Jesus que se torna o protagonista da festa e a “transforma”. 2.2 – Leitura exegética V. 12 – Estamos no dia dos pães asmos. Enquanto imolavam o cordeiro pascal, os discípulos perguntam pelo lugar no qual a Páscoa deveria ser celebrada (a pergunta pressupõe que eles já sabiam que a festa aconteceria e que havia a expectativa da comemoração da Páscoa: “comer a Páscoa”). Que preparativos seriam esses, mencionados também no v. 14? Na realidade, os preparativos aqui mencionados referem-se à comemoração da Páscoa ordenada em Deuteronômio 16.1-3: “Guarda o mês de abibe e celebra a Páscoa do Senhor, teu Deus; porque, no mês de abibe, de noite, o Senhor, teu Deus, tirou-te do Egito. Então, das ovelhas e das vacas sacrificarás a Páscoa ao Senhor, teu Deus, no lugar que o Senhor escolher para ali fazer habitar o seu nome. Nela não comerás pão levedado; por sete dias comerás pães ázimos, pão de aflição (porquanto apressadamente saíste da terra do Egito), para que te lembres do dia da tua saída da terra do Egito todos os dias da tua vida”. V. 13 – Jesus enviou dois de seus discípulos (mathetai): Jesus dá a direção. O mestre (didaskalos) manda perguntar (v. 14). Algo já havia sido planejado (ver também o v. 15). Pressupõe o controle de Jesus. V. 14 – O Mestre manda perguntar: (Pelo visto, já havia um local apropriado, determinado) Onde está o meu aposento (katalyma)? O propósito de tudo isso é que Jesus quer comer a Páscoa com seus discípulos. V. 15 – Preparativos haviam sido feitos cuidadosamente. Nada parece ter acontecido por acaso. Parece que a passagem quer afirmar que a ceia de Jesus “substitui”, coloca-se “em lugar” da Páscoa judaica. Além disso, o que aconteceu naqueles dias não veio ao encontro de Jesus como uma catástrofe inesperada, mas ele contava com esses acontecimentos e recebeu-os conscientemente. V. 16 – O que será que significa esse “tudo”? Ali a Páscoa foi preparada. Em que consistiria essa preparação? V. 17 – Ao anoitecer, chegou Jesus com os doze (inclusive com o traidor, que Jesus já sabia quem era). V. 18 – Jesus permite que aquele que vai traí-lo coma com ele e com os onze. Jesus comunica que entre eles há um traidor. As palavras “um que comigo come” indicam intimidade. V. 19 – Ao ouvir essa notícia, os discípulos começaram a entristecer-se. A palavra grega lypeisthai pode significar confusão, dúvida. De qualquer modo, parece claro que mostra como os discípulos até o fim não entenderam o propósito de Jesus (Mc 8.17-21). V. 20 – Indica para a intimidade que existia. V. 21 – “Conforme está escrito” pode ser uma referência ao Salmo 41.9. O v. 21 descreve um momento triste, de dor e traição no convívio entre Jesus e seus discípulos, porém sob o controle de Deus e com um propósito claro.

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V. 22 – Jesus reparte a ceia, a Páscoa; abençoa; reparte o seu corpo. V. 23 – O mesmo faz com o cálice; reparte o seu sangue. V. 24 – Jesus dá significado ao que está acontecendo; seu sangue “por muitos é derramado” (Mc 10.45). Ele tem em mente sua morte expiatória, seu sacrifício em lugar da humanidade. Essas palavras foram liturgicamente apropriadas pela comunidade cristã ao comemorar a Ceia do Senhor (1Co 11.23-25). V. 25 – Jesus, ao comemorar a Ceia, aponta para o futuro. “Até aquele dia” aponta para o reino de Deus. A comemoração da Ceia do Senhor aponta para o alvo futuro; sem isso, não é a Ceia no Corpo de Cristo. Na Ceia, no Corpo de Cristo, Cristo está presente (At 2.46). V. 26 – Eles cantaram um hino (o canto de louvor fazia parte da comemoração da Páscoa e da Ceia do Senhor [1Co 14.26; Cl 3.16; Ef 5.19]). Dali saíram para o monte das Oliveiras. Havia passado o tempo de preparação. Agora era preciso ir adiante com o plano de Deus; era preciso enfrentar todo o sofrimento que estava pela frente referente a esse plano. Parece claro que Cristo, ao comer a Ceia Pascoal com seus discípulos na noite antes de morrer, tinha consciência do que estava pela frente, isto é, sua própria morte. É impressionante como Jesus demonstra ser Senhor de tudo. Sua atitude demonstra clareza quanto ao propósito de Deus e a certeza de sua presença no acontecimento da cruz.

3

Meditação

Os discípulos de Jesus não contam com a morte iminente do Senhor Jesus nem a esperam. Como amigos fiéis, eles querem preparar a festa da Páscoa, assim como os judeus o faziam desde a saída do Egito. Mas, então, o próprio Senhor Jesus toma a preparação em suas mãos, e o que acaba por acontecer é uma “outra festa”. Parece que nela nem houve um cordeiro pascal. A planejada festa da Páscoa passa por uma transformação; ela adquire um caráter especial, e acontece a primeira Ceia do Senhor de toda a história. A Páscoa judaica encontra seu cumprimento e seu fim na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. A Páscoa no Antigo Testamento e a Ceia do Senhor Jesus no Novo Testamento apontam para uma mesma coisa: o sacrifício de Jesus Cristo. A primeira, que estava distante da outra por quase quinze séculos, apontava para a cruz de Jesus Cristo; a segunda, a Ceia do Senhor Jesus, apontava para a morte de Jesus e para chegada do reino de Deus. Nessa festa transformada, o sacrifício do cordeiro praticado pelos judeus até então é deixado de lado, e o sacrifício de Jesus que está por acontecer é colocado no centro. A Páscoa do Senhor com seus discípulos concentra-se no pão e no vinho, corpo e sangue de Jesus. A Palavra do Senhor transmitida por Marcos parece “misturar” o relato da traição de Judas com o preparo e a realização da primeira Ceia do Senhor. E ela o faz de propósito. Também por Judas, Jesus quer morrer. Tanto é que ele não é excluído da Ceia. Mas aqui a grandeza do abismo do pecado humano é revelada. O ser humano não é bom por natureza; ele necessita ser resgatado, salvo e reconciliado.

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Por que o sangue de Jesus é derramado “em favor de muitos” (v. 24)? É que a redenção pessoal não é algo automático, da qual todos podem usufruir, mas somente aqueles que recebem essa salvação pela fé (Jo 3.16). Sentar à mesa com Jesus é um convite à intimidade com ele, um convite que continua soando e que espera por nossa resposta. Todo o problema da culpa e do pecado da humanidade foi resolvido por Jesus na cruz (Hb 10. 11-12). Mas ainda aguardamos a instalação plena do reino de Deus entre nós, para o qual a palavra de Deus aponta no v. 25. A Ceia do Senhor é para os seguidores de Jesus uma antecipação da Ceia na eternidade (1Co 11.26). Comemoramos a Ceia do Senhor na certeza de que seu sacrifício na cruz não foi em vão e que o reino de Deus há de chegar. Em suma, o relato de Marcos 14.12-26 aponta para três verdades: 1 – A centralidade da morte de Jesus. Eles deveriam comer e beber “em memória”. Ambos os elementos apontam para a sua morte. O que aconteceu por ocasião da morte de Jesus é digno de ser lembrado. 2 – A morte de Jesus aconteceu com um propósito. Mais do que motivações ideológicas e/ou políticas, a sua morte teve um propósito divino: “em resgate por muitos” (Mc 14.22). Mateus 26.28 complementa: “para remissão dos pecados”. 3 – A terceira verdade é que precisamos nos apropriar dos benefícios da morte de Jesus. O cenáculo no qual Jesus celebrou a Ceia com seus discípulos não teve apenas espectadores, mas participantes. Ele não somente partiu o pão, mas lhes deu para que comessem. E ele lhes deu o vinho para que bebessem. Da mesma forma, não bastou que Cristo morresse; é preciso receber as bênçãos de sua morte: perdão, salvação e vida eterna.

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Imagens para a prédica

1ª imagem Por que Jesus Cristo morreu? Em primeiro lugar, ele não morreu. Ele foi morto. Meus pecados enviaram-no à cruz. Por outro lado, ele não foi morto; ele morreu entregando-se voluntariamente para fazer a vontade do Pai (John Stott). 2ª imagem Cristo toma o nosso lugar, e nós tomamos o seu (Emil Brunner). 3ª imagem Que proveito há nesse comer e beber? As palavras “dado e derramado por vós para remissão dos pecados” mostram-nos que, no sacramento, nos são dadas por essas palavras remissão dos pecados, vida e salvação (Lutero). 4ª imagem De Ciro, o rei da Pérsia, conta-se que em uma de suas batalhas ele aprisionou determinado príncipe com sua mulher e filhos. Esses foram conduzidos à presença de Ciro, que perguntou ao príncipe: – O que você me daria em troca de sua liberdade?

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– A metade de meu reino, foi a resposta do príncipe. – E caso eu liberte seus filhos?, perguntou Ciro. – Todo o meu reino. – E o que darias pela liberdade de tua mulher?, continuou Ciro. Ao que o príncipe respondeu: – Eu daria a mim mesmo. Essa resposta agradou a Ciro, que libertou toda a família. Em sua viagem de volta para sua terra, o príncipe perguntou à sua mulher se ela havia reparado na nobreza e no grande caráter do rei Ciro. A isso ela respondeu: – Eu só tive olhos para ver aquele que estava pronto a dar a si mesmo em troca de minha liberdade. Não poderiam todos os cristãos ter essa mesma reverência para Jesus, que não apenas mostrou disposição para dar a si pela humanidade pecadora, mas efetivamente o fez? 5ª imagem A uma pessoa com 90 anos foi perguntado em certa ocasião: – O senhor ama Jesus? O homem respondeu com o rosto sorridente: – Sim, eu o amo. Mas eu posso lhe dizer algo ainda melhor. – O que seria melhor? – Ele me ama. 6ª imagem Ao pastor Schlatter foi perguntado, certa vez, o que o cristianismo teria trazido de novo em relação a tantas religiões, filosofias e ideologias que já existem no mundo e são mais antigas do que o cristianismo. Schlatter então respondeu: – Cristo. Boas e nobres ideias e iniciativas as pessoas sempre tiveram. Em todos os povos e raças, as pessoas têm noção em relação a um ser superior. E elas procuram contato com ele, estendendo as mãos para o alto. Somente em um lugar, no entanto, Deus estende sua própria mão em nossa direção para que a agarremos. Essa mão estendida de Deus se chama Jesus.

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Subsídios litúrgicos

Lembramos que confissões, orações, credos e bênçãos podem ser encontrados no material litúrgico que está à nossa disposição. Eles podem servir como impulso e inspiração. Sugerimos que a liturgia do culto possa privilegiar a participação e a espontaneidade. Propomos que as diferentes orações do culto possam ser partilhadas por membros e lideranças da comunidade, jovens, mulheres, homens. Do mesmo modo, as leituras bíblicas poderiam ser assumidas por diferentes pessoas.

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Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Markus. Theologischer ����� Handkommentar zum Neuen Testament. Berlin: Evangelische Verlaganstalt, 1977. SCHWEIZER, EDUARD. Das Evangelium nach Markus. Das Neue Testament Deutsch – NTD Band 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1973.

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PRÉDICA: ISAÍAS 52.13-53.12

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

JOÃO 19.16-30 (31-37) HEBREUS 10.16-25

06 ABR 2012

Roger Marcel Wanke

1

Introdução

O centro da fé cristã é a cruz de Jesus Cristo. Essa cruz é, por um lado, o escândalo e a loucura (1Co 1.18-25). Ela é a denúncia de toda a pecaminosidade humana. Por outro lado, ela é a expressão máxima do amor de Deus ao ser humano pecador. Quem vem ao culto na Sexta-feira da Paixão sabe que vai ser confrontado com a cruz de Jesus Cristo. Sendo assim, será confrontado com a sua pecaminosidade e, ao mesmo tempo, com o grande amor de Deus. Na cruz de Cristo esbarram-se a santidade de Deus e o pecado do ser humano. A cruz é, portanto, confronto e encontro com o Cristo, o servo de Deus, que foi moído e castigado por nossas iniquidades, para que pudéssemos andar no novo e vivo caminho com Deus. O culto de Sexta-feira da Paixão é, dentro do calendário litúrgico da igreja, um contraste em relação ao Domingo da Páscoa. Embora o seu centro seja a obra redentora de Jesus Cristo na cruz do Calvário, a dimensão da esperança da ressurreição, do túmulo vazio, deve fazer parte do culto da Paixão. Exatamente essa dimensão entre morte e vida, humilhação e exaltação se percebe ao ler os textos previstos para a leitura bíblica e para a pregação deste dia. Para a pregação deste dia nos é indicada a perícope de Isaías 52.13-53.12, que aponta para o sofrimento do servo do Senhor. As duas leituras bíblicas previstas, conforme o Lecionário Comum Revisado, destacam, acima de tudo, a obra redentora de Jesus Cristo. Em primeiro lugar, o relato da crucificação descrito no Evangelho de João 19.16-30 (31-37) deve ser entendido, a partir do contexto do evangelho, como a intenção de apresentar Jesus como o “cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Ao mesmo tempo, a crucificação de Jesus é a glorificação do Filho do Homem (cf. Jo 2.4; 7.39; 12.23; 13.31). Interessante é perceber que o v. 16 relata o fato de Pilatos entregar Jesus para ser crucificado. O verbo entregar aqui é o mesmo usado em João 3.16, onde se lê que Deus amou o mundo e entregou seu filho unigênito para a sua salvação. O evangelista é o único a citar que a morte de Cristo é a consumação da salvação (19.30). Já o texto de Hebreus 10.16-25, em segundo lugar, é ao mesmo tempo uma confissão da comunidade cristã e uma exortação a ela, que vive sua fé a partir da remissão dos pecados e da salvação conquistada pelo sangue de Cristo na cruz. O centro desse culto de Sexta-feira da Paixão, portanto, é apresentar Jesus Cristo como o servo sofredor, cuja morte na cruz é a consumação da salvação e a remissão de todo o pecado em favor de todo ser humano (por nós).

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Exegese

A perícope prevista para a pregação, Isaías 52.13-53.12 (o texto veterotestamentário que mais corresponde à mensagem da igreja cristã, segundo Hans Walter Wolff, p.13), pertence ao grupo de textos assim chamados “Cânticos do Servo Sofredor” (Is 42.1-9; 49.1-13; 50.4-10). Como parte do Dêutero-Isaías, os cânticos do servo formam uma unidade que é acrescentada ao texto profético como processo redacional. A perícope é um dos textos mais complicados e problemáticos do Dêutero-Isaías. O texto apresenta várias dificuldades lexicais e gramaticais, e partes do texto, como, por exemplo, os v. 9-11, são de difícil reconstrução. Além disso, verifica-se ainda, de forma geral, a dificuldade de compreensão tanto do conteúdo como do contexto da perícope. De qualquer forma, faz-se necessário tentar entender a perícope e considerá-la dentro do contexto dos três outros cânticos do servo, anteriores à perícope em questão, os quais abordam a legitimação e a tarefa do servo de Javé, temas que são pressupostos do quarto cântico: a) o Senhor tem chamado o seu servo desde o ventre materno (42.1; 49.1,5); b) sua tarefa será trazer os exilados de volta a Jerusalém e reunir todo o povo de Israel (49.5) e, além disso, será o anúncio da boa notícia do novo relacionamento entre Deus e a humanidade a todos os povos da terra (42.5; 49.1); c) o segundo e o terceiro cânticos deixam reconhecer que o servo de Javé, no desempenho de sua tarefa dada por Deus, permanece sem sucesso. Ele se empenha para encontrar eco em seu anúncio, mas sua tentativa permanece em vão (49.4); d) finalmente, o servo cai em perseguição e precisa suportar maus-tratos (50.6-7). É nessa situação que o quarto cântico se encaixa. Quem é esse servo ninguém sabe. As opiniões partem de informações do próprio livro, mas se dividem. De forma geral, a pesquisa apresenta a distinção de um significado individual e outro coletivo: muitos o identificam com o próprio profeta “Dêutero-Isaías” (cf. 43.10; 44.26; 50.10; 59.21). Outros o identificam com o rei persa Ciro, que é chamado por Deus de bom pastor e messias, pois liberta o povo do exílio e constrói o Templo (cf. 42.5-7; 44.28; 45.1-7, 12-13). Ainda outros o identificam com uma parte de Israel, que auxilia a outra parte para a salvação (cf. 41.8; 42.19; 43.10; 44.1ss; 45.4; 48.20, 49.3). Nesse sentido, uma identificação clara não é visível, nem possível. Mesmo contendo essas dificuldades linguísticas, literárias e teológicas, a perícope é coesa e apresenta de forma poética uma estrutura quiástica (concêntrica). Os v. 13-15 e os v. 11-12 formam uma espécie de moldura. O uso da expressão “meu servo” (52.13 e 53.11) deixa claro que o sujeito da moldura é o próprio Javé. O conteúdo é a exaltação do servo. No centro (v. 1-10) encontra-se o sofrimento do servo, que é narrado em forma de confissão por um grupo (nós) que não é identificado. Vejamos alguns detalhes do conteúdo de cada uma das partes da perícope, que se fazem relevantes para a pregação: a – 52.13-15: Mesmo sem identificação ou sem a fórmula profética oracular (“assim diz o Senhor”), sabe-se que aqui quem está falando é o próprio Javé. O que Javé diz a respeito de seu servo parece ir contra a expectativa do próprio servo. Javé afirma e anuncia o êxito e a exaltação de seu servo. Javé descreve-o como

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prudente, exaltado e sublime. Esses mesmos adjetivos são usados para descrever o próprio Senhor no livro de Isaías (Is 2.10-19; 6.1). A glorificação do servo passa por sua humilhação e sua desfiguração. Aqui se percebe um paralelo com a teologia joanina, que enfatiza a glorificação de Jesus na humilhação da cruz. Tanto o sofrimento como a exaltação levam nações à admiração. O silêncio diante daquilo que Deus faz com seu servo será a resposta do mundo. b – 53.1-10: Esse trecho interrompe o oráculo de Javé e apresenta uma confissão de um grupo também anônimo, identificado como a comunidade exilada. O tema do centro da perícope é o sentido do sofrimento do servo. Esse tema já pode ser visto também na moldura, embora de forma mais condensada (52.14 e 53.12). Esse núcleo do quarto cântico do servo pode ser dividido em três estrofes (Croatto, p. 273). Primeira estrofe (v. 1-3): O v. 1 pode ser considerado uma introdução do que segue. Duas perguntas são feitas pelo anônimo ”nós”. A primeira delas refere-se a uma pregação que não encontrou eco em quem viesse à fé por meio dela. A segunda faz menção ao braço de Javé. No v. 2, o servo é descrito a partir de sua aparência: nada nele é atraente; sem figura humana, sem formosura, sem beleza, completamente desfigurado. Já o v. 3 descreve o servo como alguém completamente desprezível entre os seres humanos (Sl 31.11s; 38.8,9,12; Lm 3.1,14), inclusive pela própria comunidade exilada, que está por trás do “nós” neste cântico: “... e dele não fizemos caso”. Segunda estrofe (v. 4-6): Diante dessa descrição, que é, na verdade, uma triste constatação, a reação da comunidade exilada é a confissão de sua culpa. No relato acerca do sofrimento do servo, surge no v. 4 uma clara mudança de perspectiva: “Certamente o servo toma sobre si as (nossas) enfermidades”. Isso é (nossa) culpa; é por causa de nós que ele é ferido por Deus, ou seja, esse sofrimento do servo é vicário. A comunidade confessa que o servo sofre e morre por ela. Aqui se percebe claramente a temática do sofrimento do justo. O sofrimento, portanto, “não é visto como um castigo individual, mas como proveitoso para outros” (Croatto, p. 274). No v. 5, é falado do efeito salvífico que o sofrimento do servo traz à comunidade: o castigo que o servo experimenta traz paz, e o seu sofrimento (cicatrizes) traz cura às enfermidades. No v. 6, a confissão de pecados é articulada com o motivo da ovelha perdida (Jr 10.21; 13.20; 23.1-3; Ez 34.1ss; 50.6-7,17; Mq 2.12; 4.6-7; 7.14). Essa figura contrasta com a do cordeiro no v. 7, que descreve o servo. Enquanto o rebanho inteiro (figura da comunidade exilada/ dispersa) se desviava e, por isso, se tornou merecedor do castigo, quem sofre, na verdade, é o servo. Enfaticamente, a comunidade afirma, no final da segunda estrofe, que o sujeito desse castigo e de todo o sofrimento do servo é o próprio Senhor, que fez cair sobre ele sua iniquidade. Terceira estrofe (v. 7-10): O tema aqui continua sendo o mesmo: o servo do Senhor sofre vicariamente em favor da comunidade exilada. No v. 7, o servo é descrito como o cordeiro que enfrenta os tosquiadores e o matadouro, ou seja, o juízo, sem abrir a boca. Ele é oprimido e humilhado [linguagem que remete às condições no Egito – cf. Êx 3.7; 5.10,13-14]. Mais uma vez, no v. 8, a transgressão da comunidade exilada, chamada aqui de “meu povo”, é apresentada como

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a causa do juízo opressor que o servo experimenta e que atesta o seu desaparecimento. Ser cortado da terra dos viventes é forma poética para descrever a morte do servo. No v. 9, a humilhação do servo tem continuidade. Ele não apenas é morto injustamente, mas é sepultado entre os malfeitores e perversos. Ao mesmo tempo, o v. 9 afirma, mais uma vez, a inocência do servo por intermédio de duas expressões: a primeira aponta para a violência dos atos, e a segunda para a fraude das palavras. O servo é justo em palavras e ações e, mesmo assim, sofreu a morte destinada aos perversos e mentirosos. A terceira estrofe termina no v. 10 da mesma forma como terminou a segunda, afirmando que o sujeito do sofrimento do servo é o próprio Senhor. No v. 6, o Senhor fez cair sobre o servo a iniquidade da comunidade exilada. Agora, o Senhor tem prazer em moer o seu servo, fazendoo enfermar. Isso tem a finalidade de ser oferta pelo pecado, ou seja, expiação de toda culpa e pecado (Lv 4-5; 7; 14; 19). c – 53.11-12: Por fim, temos mais uma vez a intervenção de Javé, que assume novamente a palavra para afirmar o triunfo de seu servo. Esse já inicia no final do v. 10 e é descrito como bênção de prosperidade à descendência do servo. O êxito do servo é descrito no v. 11 como fruto de justiça: o justo que sofre injustamente para trazer a justiça a injustos. A razão é clara: “porque as iniquidades deles levará sobre si”. Esse verso pode ser considerado um tipo de resumo dos v. 4-6, enfatizando que sobre o servo está toda a iniquidade da comunidade. Sobre ele pesa a ira de Deus. Já o v. 12 conclui o cântico com a afirmação de que o servo entrega sua vida para a remissão dos pecados. Como síntese dos v.7-10, o v. 12 enfatiza o caráter expiatório do sofrimento do servo uma vez como cordeiro, pelo fato de derramar a sua vida em favor de muitos, e ao mesmo tempo como sacerdote, por ter intercedido pelos transgressores. Sobre ele está a oferta pelo pecado para a salvação. Como pode ser percebido na análise, tanto o discurso de Deus sobre o servo como a confissão de culpa da comunidade exilada se encontram e são confrontados com o sofrimento vicário do servo.

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Meditação

Pregações de textos veterotestamentários são infelizmente raras. Aqui se têm, ao mesmo tempo, a oportunidade de aprofundar um dos textos mais conhecidos do Antigo Testamento e o desafio de pregá-lo à luz de seu contexto histórico, literário e teológico. O texto de Isaías 52.13-53.12 é pregado ainda hoje, pois no Novo Testamento sua recepção é relativamente grande (Mt 8.17; 26.63; 27.26,57; Lc 22.37; At 8.32-34; Rm 4.25; 10.16; 15.21; 2Co 5.21; Hb 2.10; 1Pd 2.1; 2.2224, entre outros). Contudo, a pregação de Sexta-feira da Paixão é pregação da paixão de Jesus Cristo. Ao se pregar nesse dia sobre um texto veterotestamentário, devese, acima de tudo, estar consciente das distinções históricas e teológicas. Uma identificação automática do servo sofredor do Dêutero-Isaías com Jesus Cristo é problemática. Isaías 53 fala de uma personalidade histórica; bem provável que seja o profeta mesmo, em uma situação histórica específica. Isso exclui a priori

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Sextta-feira da Paixão

a possibilidade de identificar o servo sofredor de Isaías 53 com Jesus de Nazaré. O evento narrado sobre o servo sofredor não é nenhum acontecimento esperado para um futuro distante, mas já é história. Todavia, o evento é mais do que história. Como a análise do texto mostrou, o texto fala, acima de tudo, do sofrimento vicário do justo pelo injusto, que transcende a história. Nesse sentido, a igreja primitiva interpretou, respondendo a pergunta do eunuco da rainha Candace da Etiópia – “Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?” – com a pessoa de Jesus Cristo. A vida e a obra de Jesus são modeladas a partir da vida e da obra do servo sofredor. Em Jesus Cristo se realiza o sofrimento vicário do servo sofredor. Mesmo que o tema deste culto é a morte de Cristo na cruz, não se deveria pregar um Cristo morto. A realidade da Páscoa é parte fundamental de todo culto cristão. Para a comunidade cristã, a promessa contida em Isaías 53.10 de que os dias do servo serão prolongados cumpre-se no anúncio da ressurreição de Jesus, o crucificado. Deus disse o seu sim para a obra e o sofrimento de seu servo desprezado. Assim foi a sua vontade: que ele trilhasse esse caminho. Por isso a sua morte não é o fim, mas o novo começo (novo e vivo caminho – Hb 10.20) de Deus não apenas com o seu servo, mas com toda a humanidade. O cristão, assim como a comunidade exilada, não é apenas espectador do sofrimento do servo. Somos chamados a confessar o nosso pecado e a reconhecer que Jesus, o servo, carregou sobre si os nossos pecados. Somos chamados a crer na morte vicária de Jesus por nós. A pregação cristã deve apontar para Cristo. Como tema da pregação, sugere-se, a partir do texto, o seguinte esboço homilético: Tema da pregação: Jesus, o servo justo que sofreu por nós 1. Jesus Cristo tomou por nós sobre si as nossas iniquidades. 2. Jesus Cristo entregou por nós sua vida como oferta por nossos pecados. 3. Jesus Cristo intercedeu por nós transgressores.

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Imagens para a prédica

Para ilustrar a pregação, pode-se contar a famosa história do “boi de piranha”, fato que acontece com os boiadeiros no norte do Brasil. Esse fato ilustra o sacrifício de Jesus Cristo, servo de Deus que foi ferido, castigado e morto por nós. A ênfase da ilustração está na questão vicária da morte de Jesus. “A boiada tinha que ser levada para o outro lado do rio. Lá estavam os pastos verdejantes. Aquém do rio, os animais não podiam ficar, pois morreriam de fome. Corria, entretanto, em perigo de vida quem atravessasse o rio. Porque as águas estavam infestadas de piranhas, esses terríveis peixes no norte do Brasil. Milhares desses salteadores com seus dentes pontudos estavam esperando nas águas escuras. Qualquer ser vivente que ousasse pisar na água seria dilacerado em poucos momentos. Como então atravessar o rio? Os homens da tropa pegaram um touro, amarrando-o, cortaram profundamente a carne do animal que devia ser sacrificado. Depois ele foi jogado para dentro da água [...] As piranhas atacaramno; a água tornou-se cor de sangue. Veem-se partes de seu corpo completamente

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Sextta-feira da Paixão

rasgadas. O fim desse terrível sacrifício é o esqueleto sem carne alguma. A boiada, entretanto, estava salva. Pouco acima, passou tranquilamente pelo rio da morte. Pois os cardumes de piranhas tinham se lançado sobre o touro sacrificado, e assim os animais não sofreram danos. Chegaram são e salvos aos pastos verdejantes.” [JUCKSCH, Alcides. Amor sem Fronteira – Devocionário Diário, p. 189].

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Subsídios litúrgicos

O culto de Sexta-feira da Paixão possui dois momentos litúrgicos: a liturgia da Palavra e a liturgia da Eucaristia. Liturgia da Palavra: Aqui se sugere fazer a leitura bíblica de João 19.16-31-37, intercalando o hino 53 do HPD I (Ó fronte ensanguentada, Paul Gerhardt). A perícope pode ser dividida em quatro pequenos blocos, que poderão ser lidos por representantes de quatro grupos de trabalho da comunidade (culto infantil, juventude, OASE, presbitério ou outros). A sugestão de sequência é a seguinte: 1 – Canta-se a primeira estrofe do hino 53 – Leitura: João 19.16-22 (criança do culto infantil). 2 – Cantase a segunda estrofe do hino 53 – Leitura: João 19.23-27 (jovem). 3 – Canta-se a terceira estrofe do hino 53 – Leitura: João 19.28-30 [senhora da OASE]. 4 – Canta-se a quarta estrofe do hino 53 – Leitura: João 19.31-37 (membro do presbitério). 5 – Canta-se a quinta e última estrofe do hino 53. Liturgia da Eucaristia: Aqui se sugere apenas uma forma diferente de distribuição dos elementos da Ceia, que dependerá, obviamente, da disposição dos bancos no espaço litúrgico. A ideia é formar pequenos grupos com as pessoas de cada banco, ou dois bancos (cerca de no máximo 10 pessoas). Após a oração eucarística, uma pessoa de cada grupo vai até a mesa do altar e pega um cálice e um prato com o pão e volta a seu grupo. Esse, então, distribui os elementos. No final da Ceia, a comunidade faz a leitura em conjunto do texto previsto para a leitura bíblica de Hebreus 10.16-25 como expressão de gratidão e compromisso diante da obra redentora de Jesus Cristo em nosso favor. Além desses subsídios, sugere-se ler o texto de João 3.16 como palavra de acolhida. Sugestões de hinos: a) Hino inicial: 473 (HPD II); b) Hino após a pregação: 43 (HPD I); c) Hino final: 45 (HPD I).

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías: A palavra profética e sua releitura hermenêutica. V. II: 40-55 A libertação é possível. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1998. SCHÖKEL, Luiz Alonso; DIAZ, J. L. Sicre. Profetas I: Isaías e Jeremias. São Paulo: Paulus, 1988. (Grande Comentário Bíblico). WOLFF, Hans Walter. Jesaja 53 im Urchristentum. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1953.

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PRÉDICA: MARCOS 16.1-8

DOMINGO DA PÁSCOA

ISAÍAS 25.6-9 1 CORÍNTIOS 15.1-11

08 ABR 2012

Hans Alfred Trein Só a ressurreição inesperada entusiasma

1  Introdução Páscoa é ressurreição. A sua repetição litúrgica carrega ambiguidades. De um lado, garante a memória cíclica da vitória da vida sobre a morte; de outro lado, banaliza seu caráter extraordinário, além de induzir à falsa ideia de que já nos apossamos desse milagre de Deus ou de que temos direito a ele. É bem verdade que fomos batizados na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Entretanto, o que salva é a fé. Também ela não nos dá direitos. Apenas por intermédio dela Deus nos concede suas graças humanamente indisponíveis. Ressurreição é graça pura e precisa ser celebrada como grande festa. Em sua visão escatológica e com seus símbolos culturais, Isaías imagina-a como um banquete, farto de carnes suculentas e vinhos finos, destinado a todos os povos do mundo. “Deus mesmo arrancará o véu que cobre todos os povos, a cortina que esconde todas as nações; ele destruirá para sempre a morte.” Com esse ato enxugará as lágrimas de todas as faces e eliminará da terra inteira a vergonha de seu povo, continuamente ridicularizado pela salvação anunciada, que agora finalmente se realiza. No texto de 1 Coríntios, o apóstolo Paulo lembra-nos a cadeia de testemunhas que veiculou a boa notícia da salvação. Será que esqueceu das mulheres por causa dessa tradição de Marcos? Entre eles, menciona a si próprio como um nascido fora do tempo, não merecedor de ser chamado apóstolo, mas trabalhado pela graça de Deus e enviado a pregar a boa-nova a todos os que creram. Cabe-nos deparar com o extraordinário e inusitado da ressurreição, superar o medo de testemunhar a respeito e pedir pela fé e pelo entusiasmo que encontra o Cristo ressurreto no cotidiano.

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Exegese

O colega Martin N. Dreher traz considerações textuais valiosas em seu auxílio homilético (PL 28, p. 159s). Dentre as tensões constatadas no texto quero ressaltar apenas a forma verbal passiva “foi ressuscitado” no v. 6, que todas as traduções consultadas e a quase totalidade dos hinos lamentavelmente traduzem por “ressuscitou”, como se sair da morte para a vida tivesse sido uma ação do próprio Jesus morto.

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Domingo da Páscoa

A sepultura como local de peregrinação seria um problema para o poder, pois poderia despertar resistências. Por isso os americanos jogaram o corpo de Bin Laden no mar. Por isso até hoje ninguém sabe ao certo onde estão enterrados Che Guevara e Sepé Tiarajú. Por outro lado, os mesmos poderes que pretenderam dar um basta às atividades evangélicas de Jesus prenunciaram a sepultura vazia, inferindo a hipótese de roubo do corpo. Anteciparam-se para sufocar qualquer germe de reação. A sepultura vazia não prova nada, mas funciona como a eliminação de uma suposição. Aqui onde o puseram ele não está! Aqui não adianta procurar! Mas, então, onde ele está? Sobre o que aconteceu por Jesus não estar mais ali o mensageiro de branco é minimalista: ele apenas informa que ele foi ressuscitado. Nada mais! Nenhum detalhe, nenhuma evidência ou qualquer outro elemento que pudesse auxiliar na probabilidade dessa informação, além da ausência. É crer ou não crer! Desde o iluminismo, sobretudo os intelectuais, temos sérios problemas com isso. Parece que a outra informação sobre onde ele pode ser encontrado é mais importante: ele já foi na frente para a região onde havia começado sua atividade: a Galileia. Essa informação não é apenas para as mulheres, mas também deve ser repassada aos discípulos. No cotidiano da Galileia, entre pescadores, agricultores e aldeões se poderá encontrá-lo, não no túmulo nem em algum palácio ou templo. O maior poder revelado – o ressuscitado – vai adiante para o cotidiano da vida simples do interior. Lá se poderá encontrá-lo. Lá seguirá o projeto de vida de Deus. Jesus ressuscitado não é apenas um corpo redivivo, mas uma presença contínua entre aqueles que continuam o seu caminho. Jesus foi crucificado e morto na cidade e, ressuscitado, retorna à aldeia. Aqui se contrapõem duas propostas de vida: a cidade que representa o poder de Estado e a aldeia que representa a vida pré-estatal. Na melhor tradição da terceira geração profética, Jesus sabe-se comprometido com a organização social e política pré-estatal, com a “aldeania” e não com a “cidadania”. Nem ele tampouco o cristianismo primitivo tiveram qualquer concessão a fazer à organização social e política estatal. Pelo contrário, foram por ela perseguidos e assassinados, até que Constantino, num lance de extrema esperteza política, cooptou as lideranças cristãs para dentro da sociedade de Estado, o que até os dias de hoje cria insolúveis dilemas ao evangelho. A ressurreição aporta o inesperado, o extraordinário. Assusta e assombra. As mulheres que vão ao túmulo logo cedo, mesmo sem saber direito como chegar, querem fazer algum bem ao corpo morto e dar vazão a seu luto. Deparam-se com uma sucessão de visões arrepiantes: a pedra está revolvida, em lugar do corpo morto um jovem em vestes brancas, dizendo coisas assombrosas. Põem-se a correr fora de si e, tremendo de medo, nada dizem a ninguém. O texto constitui o final primitivo do Evangelho de Marcos. Repentinamente, no v. 8, o Evangelho de Marcos é interrompido. Esperava-se o anunciado encontro de Jesus com seus discípulos na Galileia... Mas não! O que segue é uma breve resenha das principais aparições do Jesus ressuscitado e a repetida constatação de que ninguém quer acreditar nos testemunhos. Nem o testemunho de Maria Madalena tampouco o dos discípulos de Emaús recebem crédito. Só mes-

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Domingo da Páscoa

mo a aparição direta do Jesus ressuscitado aos onze, sua comissão e capacitação encoraja-os a crer e levar a boa-nova adiante.

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Meditação

A ressurreição teve um princípio muito frágil e débil, que precisou passar pela prova de séculos de fé para estabelecer-se como admissível. Com o atual instrumentário científico fortemente marcado pelo cartesianismo, não se consegue uma aproximação mais verificável da ressurreição. O mensageiro de branco não dialoga, não detalha evidências, apenas transmite a mensagem da ressurreição. O desafio posto continua sendo crer e depois ver na Galileia, no cotidiano. Entretanto, parece que o tremendo da ressurreição está de alguma forma domesticado. A ressurreição passou por diversas fases da história do pensamento, recebeu as respectivas interpretações. Será que ficou incólume? Do iluminismo ao modernismo quase foi extinta na esteira de Deus sendo declarado morto. De qualquer forma, ela está empurrada para o fim dos tempos, e até mesmo os que defendem a reencarnação estimam-na como último evento antes da identificação completa com Deus. O seu caráter extraordinário, que irrompe inesperadamente, que dá uma virada na história pretensamente sob controle dos poderes, o seu caráter tremendo... onde está? A ressurreição parece ser uma ideia como a ideia do grande julgamento final. Não estaria aí uma razão para a dificuldade de celebrá-la como uma tremenda novidade? Enquanto escrevo, quatro lideranças ambientalistas foram assassinadas no Pará e na divisa de Rondônia com Acre. A aprovação do novo Código Florestal pela Câmara Federal contra todas as opiniões de cientistas e pesquisadores, que nem mesmo foram consultados para as reformulações, indicam para a vitória da morte. A construção autoritária de Belo Monte e o desrespeito ao regramento elementar de estudos de impacto ambiental fazem antever tragédias em futuro próximo. A Grécia está falida, Espanha, Portugal e Irlanda estão na fila da inadimplência. Estamos chegando nos limites de postergação da crise de 2008? O sonho de um mundo equilibrado e regenerável acabou? Passamos do ponto de não retorno da catástrofe climática? A esperança está sepultada, só nos resta embalsamá-la? Ressurreição aqui também seria esperar por uma intervenção milagrosa de Deus para reverter o que por critérios racionais parece perdido? Enquanto escrevo, em vários países árabes e europeus, a população, sobretudo jovem, está indo para as ruas, manifestando seu desacordo, buscando o novo. Um outro mundo possível está na barriga de nosso mundo atual, cheio de perversões. Como será o novo? Não sabemos! O que sabemos é o que experimentamos: um mundo ao revés que recompensa os seus arruinadores. Mas esse mundo ao contrário está prenhe de outro, de esperanças e de possibilidades. A ressurreição de Jesus Cristo anima-nos na fé e na esperança. Nas manifestações populares galileanas, pode-se encontrar fé e entusiasmo; lamentavelmente, nas igrejas nem tanto. Eduardo Galeano chama o entusiasmo de vitamina E, enquanto lembra que a palavra é de origem grega e significa tener a los dioses adentro. O medo cede à fé e ao entusiasmo, desemboca na

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Domingo da Páscoa

coragem de enfrentar os poderes constituídos, que querem manter a paz tumular. Mas não é lá que Cristo está. Ele está nas ruas, dentro das pessoas entusiasmadas. A ressurreição diz respeito a todos os povos e mais: diz respeito a toda a criação. Com sua vitória sobre a morte, a vida tornou-se eterna, mesmo que todas as criaturas viventes ainda não sejam.

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Imagem para a prédica

Numa prisão política durante a ditadura militar, ao nascer do sol, todos levantaram. Ninguém havia pregado os olhos naquele imenso barracão. Os presos haviam estado de plantão até a madrugada depois de um dia de ameaças de fuzilamento e corriam rumores de extermínio. Um preso, recém chegado de Montevidéu, que ainda não havia perdido o controle do calendário, informou: Hoje é domingo de Páscoa. Os cristãos passaram uns para os outros a palavra de que deveriam celebrar. Estava proibido juntar-se, não se permitia nenhum tipo de reunião, seja para o que fosse, e na própria carne os presos haviam aprendido que a proibição não era nenhuma piada. Mas tinha que se fazê-lo. Os demais presos que não eram cristãos ajudaram. Alguns sentados nos beliches ficavam cuidando as soleiras das portas, e outros faziam um anel de gente que ia e vinha como quem não quer nada ao redor dos celebrantes. No centro, aconteceu a celebração. Miguel Brum sussurrou algumas palavras. Evocou a ressurreição de Jesus, que anunciava a redenção de todos os cativos. Jesus havia sido perseguido, encarcerado, atormentado e assassinado. Mas, num domingo como esse, havia feito crepitar os muros e os havia virado, para que toda a prisão tivesse liberdade e para que toda a solidão tivesse encontro. No barracão não havia nada. Nem pão, nem vinho, nem sequer copos. Foi a comunhão das mãos vazias. Miguel ofereceu aquele que havia se oferecido: “Comamos”, sussurrou, “comamos, isto é seu corpo”. E os cristãos levaram a mão à boca e comeram o pão invisível. “Bebamos, isto é o seu sangue” e alçaram copo nenhum e beberam o vinho invisível. E depois se abraçaram. O Cristo ressurreto vai à frente de sua comunidade para as Galileias deste mundo, convidando-as para que venham também, continuem o seu projeto evangélico de justiça e paz. Ele estará conosco até a consumação dos séculos.

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Subsídios litúrgicos

A Páscoa é, por certo, o momento mais apropriado para a celebração da Eucaristia. Além disso, toda a abordagem neste auxílio, o banquete referido por Isaías, empurra para a festa da gratidão e do reforço ao entusiasmo e à disposição para o serviço. Hinos: HPD I 59, 60, 62 65.

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Domingo da Páscoa

Anúncio da graça: “Vejam o nosso Deus! É nele que esperávamos para que nos salvasse: celebremos e festejemos a sua salvação!” (Is 25.9). Oração de coleta: Deus Todo-Amoroso! Que ressuscitaste a Jesus Cristo, vencendo a morte, afasta de nós todo o medo e a tristeza e dá-nos a certeza de que todos os que Te seguem nunca se acham sozinhos; pelo contrário, inserem-se numa nuvem de testemunhas. Enche-nos com o entusiasmo da ressurreição e com espírito de gratidão e festa, para que Te sirvamos com alegria nas Galileias deste mundo. Isso Te pedimos em nome de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém. Encaminhamento da Eucaristia: Cristo vai à nossa frente para as Galileias. Na Galileia que escolhermos como espaço para a missão de nossa comunidade, lá o Cristo ressurreto já estará. Para que nos reforcemos, animemos na fé e nos entusiasmemos pela causa do reino de Deus, celebremos agora a Eucaristia com pão visível e vinho visível. Desse modo, colocamos o Cristo para dentro de nós e nos certificamos ainda mais de sua presença e acompanhamento. Nessa Eucaristia está prefigurado o grande banquete de Deus para todos os povos.

Bibliografia DREHER, Martin. Auxílio Homilético sobre Marcos 16.1-8. In: Proclamar Libertação 28, p. 159-164. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2002. GALEANO, Eduardo. Entrevista durante as manifestações jovens na Espanha em maio de 2011. http://www.youtube.com/watch?v=mdY64TdriJk. Cf. também a imagem da prédica: http://www.youtube.com/watch?v=y7Rqa0lRyBs&feature =related. RIENECKER, Fritz. Sprachlicher Schlüssel zum Griechischen Neuen Testament. 9. ed. Giessen-Basel: Brunnen-Verlag GmbH, 1956.

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PRÉDICA: 1 JOÃO 1.1-2.2

2º DOMINGO DA PÁSCOA

MARCOS 16.12-18 ATOS 4.32-35

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15 ABR 2012

Arteno Ilson Spellmeier

Introdução

A Primeira Carta de João dirige-se a comunidades em conflito, em que parte dos membros considerava-se dona de um conhecimento superior e de um saber mais profundo dos mistérios divinos, mas negava a encarnação de Deus no mundo na pessoa de Jesus Cristo. O autor da carta contesta esse conhecimento, apelando para a legitimidade do testemunho (martyria) dado pelos que o antecederam na fé e a superioridade da coerência entre a martyria da encarnação de Deus na vida em Jesus Cristo e a vida diária. Deus não se encarnou em Jesus Cristo para dentro da sabedoria e das ideias, mas para dentro da vida. Os textos de Marcos 16.12-18 e Atos 4.32-35 corroboram o quanto Deus se tornou ser humano, ressuscitando em Jesus Cristo para dentro da vida (Mc 16.14) e transformando a vida das pessoas que nele creem (At 4.32). Quanto à relação da Primeira Carta de João com o Evangelho de João, presume-se que não foram escritos pela mesma pessoa, mas que, devido à semelhança de estilo e conteúdo, o autor da carta tenha tido à sua frente o evangelho. Evangelho e Primeira Carta de João dirigem-se contra dois grupos diferentes: o evangelho contra o “mundo”, contra não cristãos, contra representantes do judaísmo, e a carta contra membros dissidentes das comunidades em foco, contra representantes do gnosticismo, que negavam a encarnação, a vinda de Deus em Jesus Cristo como ser humano e, simultaneamente, como Messias.

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Exegese

V. 1a – “Estamos escrevendo a vocês a respeito da Palavra da vida, que existiu desde a criação do mundo.” Não há dúvidas de que o início do Evangelho de João (“Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus” – Jo 1.1) serviu de modelo ao versículo 1 da Carta de João, com algumas significativas diferenças: no evangelho consta “no princípio” e na carta, “desde o princípio”. Enquanto que no evangelho a encarnação de Deus em Jesus Cristo é interpretada como acontecimento concluído, na carta ela é interpretada como acontecimento escatológico que continua a acontecer na pregação do evangelho e no testemunho dos crentes. Jesus continua a nascer, a viver, a morrer e a ressuscitar. Deus continua a se “encarnar” no mundo por meio do testemunho e da vida dos que seguem Jesus Cristo.

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2º Domingo da Páscoa

V. 2 – “Quando essa vida apareceu, nós a vimos. É por isso que agora falamos dela e anunciamos a vocês a vida eterna que estava com o Pai e que nos foi revelada.” Quem são os nós (que vimos e falamos da Palavra da vida) e os vocês (a quem anunciamos a vida eterna)? Os termos usados – vimos, ouvimos e tocamos – denotam, num primeiro momento, que nós e vocês referem-se aos membros fiéis das comunidades e, num segundo momento, pensa-se neles como testemunhas oculares do Jesus histórico, que, porque tiveram contato e creram em Jesus Cristo, nele reconheceram a Palavra da vida. Deve-se, no entanto, considerar: 1) que em vista da época tardia em que a carta foi escrita, é quase impossível que os membros das comunidades em foco tenham sido testemunhas oculares do Jesus histórico; 2) que muitos judeus conterrâneos de Jesus o viram, ouviram e tocaram e, assim mesmo, só uma minoria reconheceu nele a Palavra da vida. O ver, ouvir e tocar do texto são mais do que sentidos inerentes ao ser humano. Neles é expresso outro tipo de percepção: uma realidade além da limitação do tato, dos olhos e ouvidos humanos. O ver, ouvir e tocar também não querem provar a existência da Palavra da vida, mas querem expressar que a Palavra da vida está intrinsecamente ligada a Deus, ao Pai, e à vida dos seres humanos e que a sua encarnação aconteceu de fato no mundo concreto e não apenas no mundo das ideias e do conhecimento. A fé no Jesus nascido humano e crucificado e no Cristo ressuscitado é a base da fé e do testemunho cristão. O ver, ouvir e tocar a vida encarnada, crucificada e ressurreta dão testemunho de que ela ainda está em nosso meio, mesmo estando junto ao pai. A Palavra da vida é também a Palavra da vida eterna. Nisso também não muda nada o fato de que nem os membros das comunidades de João foram e nem nós somos testemunhas oculares do Jesus histórico. A pregação a respeito da Palavra da vida vem sendo feita através da história pelo testemunho das pessoas que em Jesus Cristo viram a encarnação de Deus na vida. Encontramo-nos numa longa tradição e cadeia de pessoas que creram e viveram a sua fé, dando testemunho em palavras e ações da encarnação de Deus em Jesus Cristo, de sua vida ligada ao Pai e ao que há de mais fraco no mundo, de sua morte na cruz, de sua ressurreição e volta ao Pai. Sem esse testemunho oral e escrito, falado e vivido, nós nada saberíamos do Deus a favor de nós. Se Deus tivesse nascido exclusivamente para dentro de nossas ideias e nossos ideais, ele seria extremamente manipulável, porque estaria desvinculado da vida e nenhuma coerência entre o pensar e o viver seria necessária. Isso por um lado. Por outro, bastaria a nossa própria lógica e seríamos prisioneiros de nossos pensamentos; considerar-nos-íamos donos da verdade e sem pecados; o nosso pensar e agir não exigiriam coerência mútua. Seríamos como os membros dissidentes da comunidade, adeptos do pensamento gnóstico, que: 1) consideravam-se possuidores de verdades mais profundas e menos contraditórias do que a mensagem anunciada de um Deus que se torna humano, é crucificado e ressuscita para a vida a favor da humanidade; 2) consideravam-se iluminados, pertencentes ao “mundo da luz” e não ao “mundo das trevas” e, por isso, não tinham pecado e nem necessitavam de perdão; 3) consideravam-se de um conhecimento e de uma espiritualidade superiores aos demais membros; 4) consideravam-se pertencentes ao mundo da luz e,

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2º Domingo da Páscoa

como tais, liberados de praticar o amor ao próximo e dispensados da comunhão com Deus e os irmãos de fé. V. 3 – “Contamos o que temos visto e ouvido para que vocês estejam unidos conosco, assim como nós estamos unidos com o Pai e com Jesus Cristo, o seu filho.” As palavras-chave são martyria (testemunho) e koinonia (comunhão). A partir delas são definidos os conteúdos da pregação referentes à Palavra da vida. Sem a martyria, o testemunho de nossos pais na fé, o que saberíamos dos profetas e evangelistas, dos apóstolos e reformadores? Sem o testemunho deles nada saberíamos do amor de Deus por sua criação, de sua encarnação, de sua vida em nosso meio, de sua morte na cruz, de sua ressurreição na Páscoa, de sua volta ao Pai, da vinda do Espírito Santo. Nada saberíamos do Deus ao nosso lado, da luta pela verdade através dos séculos. Quando pessoas e igrejas passaram a difundir e viver uma espiritualidade desencarnada (como os gnósticos), governos e poderosos apropriaram-se do evangelho e instrumentalizaram Deus para os seus fins. Também nós, os membros e as comunidades de hoje, somos portadores dessa tradição, quando testemunhamos a nossa fé no Cristo que continua vivo dentro de sua palavra e de seus sacramentos, quando denunciamos práticas de exploração, discriminação e exclusão em nossa sociedade. Também nós somos portadores dessa tradição quando testemunhamos por meio de nosso modo de vida o Jesus que esteve em nosso meio como ser humano, viveu a vontade do Pai, colocando-se ao lado do que havia de mais fraco na criação e deixando-se crucificar, que ressuscitou dos mortos. Também nós somos testemunhas para as gerações futuras se houver alguma coerência entre o que cremos e o que vivemos, inclusive no reconhecimento de nossas fraquezas e de nossos erros. Não há plena coerência entre nossa fé e vida. Ela necessita e vive do perdão, pois a vida da pessoa cristã não é estática e acabada, mas dinâmica e em vias de ser (2.1-2). V. 4 – “Escrevemos isso para que a nossa alegria seja completa.” Objetivos e consequências do testemunho da Palavra da vida são: a comunhão com Deus e com os irmãos. Só ela permite que a nossa alegria seja plena. “A alegria é fruto da salvação, que tem sua origem na comunhão com o Pai e o Filho, a salvação escatológica” (Rudolf Bultmann). V. 5 – “A mensagem que Cristo nos deu e que anunciamos a vocês é esta: Deus é luz, e não há nele nenhuma escuridão.” Quem achar que automaticamente tem comunhão com Deus porque se considera possuidor da luz e, portanto, identificado com Deus que é luz está enganado. A identificação com Deus não acontece pela pretendida pertença ao mundo da luz, mas pela opção em fazer a vontade dele, em procurar a comunhão com o próximo, em reconhecer os pecados e em viver do perdão dado por Cristo. A comunhão com Deus não consiste de um ato místico ou de esforço intelectual, mas de postura diante da vida. A comunhão dos crentes tem sua origem no evangelho anunciado e vivido. V. 9 – “Mas, se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é justo: perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda a maldade.” Para o autor da carta, está claro que os dissidentes estão peregrinando na escuridão por não ter comunhão uns com os outros (v. 7), por odiar seus irmãos (2.9,11), por desconsiderar os mandamentos, em especial o mandamento do amor

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2º Domingo da Páscoa

(2.3-4), por considerar-se sem pecado (v. 8) e por negar a encarnação de Jesus e a sua condição de Messias (2.22 e 4.2).

3

Meditação e pistas para a prédica

3.1 – Para o autor da carta, os elementos a seguir são critérios de salvação e de diferenciação dos membros dissidentes: – Cremos que Deus veio a nós em Jesus Cristo como “Palavra da vida, que existiu desde a criação do mundo”; cremos que ele continua a vir a nós por intermédio da Palavra e do testemunho; sabemos isso pelo testemunho dado pelos que nos antecederam na fé, que a viram, ouviram e tocaram; fazemos parte dessa cadeia de testemunhas. Não estamos sós. – A fé no Deus que entrou em nossa história tem como frutos a comunhão com o Pai, o Filho e os irmãos e as irmãs e a alegria plena da salvação escatológica de saber-se nas mãos de Deus em meio a um mundo de contradições e pecados. – A verdade está com aqueles que em Jesus reconhecem a Palavra da vida e o Cristo ressuscitado. – Só teremos comunhão com Deus e viveremos em sua luz se fizermos sua vontade e tivermos comunhão com as outras pessoas. – Estamos a caminho e, se dissermos que não temos pecados, enganamonos a nós mesmos, “mas, se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é justo: perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade” (v. 9), por Jesus Cristo. “... Ele nos defende diante do Pai” ( 2.1). – A nossa fé é frágil. O nosso testemunho é contraditório. A nossa comunhão com Deus e as demais pessoas é incompleta. O nosso amor deixa a desejar. A nossa caminhada a partir e rumo ao Reino anunciado e vivido por Jesus Cristo é constantemente interrompida por nossos pecados, por incoerências e vaidades mil. Assim mesmo, somos testemunhas desse Reino, porque nós vimos, ouvimos e tocamos a Palavra da vida e nela reconhecemos o Deus a favor de sua criação. 3.2 – O texto é longo e denso. Não é possível abordar todos os conteúdos e possíveis enfoques que vão da encarnação à necessidade do testemunho (martyria), da comunhão (koinonia) à alegria como fruto da fé, do reconhecimento de que Deus é luz à impossibilidade de viver nela pelas próprias forças, da necessidade de reconhecer os pecados ao perdão dos pecados por Jesus Cristo. Em vista disso, sugiro que concentremos a pregação: 1) na importância do testemunho desde as primeiras comunidades cristãs, que falemos desse Jesus que se tornou pessoa humana, viveu a sua vida a favor do que havia de mais frágil dentro da criação de Deus, que morreu na cruz, que ressuscitou para dentro da vida, que subiu junto ao Pai e enviou o Espírito Santo; 2) na importância de nosso testemunho de vida, em palavras e ações, para dentro de nossa sociedade e de nosso tempo e em que esse testemunho se deve orientar (cf. os critérios de salvação da carta acima); 3) na importância da comunhão como fruto e como testemunho vivo da fé na encarnação de Deus em Jesus Cristo.

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2º Domingo da Páscoa

3.3 – Refletir sobre a importância do testemunho de vida como martyria, em que palavras e ações se abraçam. Sem o testemunho de fé e de vida de nossos antepassados, não saberíamos nada sobre Deus. Sem o nosso testemunho de fé e vida, por mais contraditórios que sejam, os cristãos que virão depois de nós não saberão como damos testemunho para dentro da realidade de nosso tempo. – Dar breves históricos de vida de testemunhas ao longo da história: da época das comunidades primitivas (por exemplo, de Paulo ou de outra pessoa), da época da Reforma (por exemplo, de Lutero ou de outra pessoa) e de tempos mais recentes (por exemplo, de Dietrich Bonhoeffer ou Martin Luther King ou de alguém do povão que teve uma vida humilde, mas coerente). Quando disponíveis, incluir na liturgia orações feitas por eles, cantar hinos compostos por eles, citar exemplos de vida deixados por eles. – Refletir com os membros sobre o testemunho de sua comunidade através de sua história: 1) Se o testemunho da fé na encarnação de Jesus Cristo se manifesta de forma exemplar na koinonia, na comunhão, como ela se manifestou através da história e ainda se manifesta hoje na comunidade? 2) Em que o testemunho dos membros em geral foi fiel ao que o autor da carta escreveu? 3) Em que eles foram um exemplo para as gerações posteriores? 4) Quando o testemunho se pareceu mais com o dos dissidentes que viveram como se Jesus não tivesse nascido ser humano, morrido e ressuscitado? 5) Em que podemos aperfeiçoar o nosso testemunho? 6) Quando a nossa espiritualidade se torna vazia e desencarnada e se torna arrogante como a dos dissidentes das comunidades de João? A empreitada certamente será dura, porque não será fácil falar (nem para o pregador nem para os membros) dos momentos em que a comunidade fracassou e em que ela estava mais para os dissidentes do que para os membros fiéis pressupostos na carta. Empreendê-la só será possível se tivermos clareza que vivemos na tensão entre a Palavra da vida, que já é o prenúncio da nova vida, e a nossa condição de seres humanos pecadores, que necessitam do perdão e da nova vida. – A Palavra da vida, que veio a nós em Jesus Cristo, que morreu crucificado na Sexta-feira Santa e que ressuscitou na Páscoa para dentro da vida (a nossa atual e a eterna), transforma a vida das pessoas que creem, a tal ponto que elas começam a modificar o mundo ao seu redor e a compartilhar (At 4.32-35). Estamos a caminho e, se dissermos que não temos pecados, enganamo-nos a nós mesmos, “mas, se confessarmos os nossos pecado a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é justo: perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade” (v. 9) por Jesus Cristo. “... Ele nos defende diante do Pai” ( 2.1).

Bibliografia BULTMANN, Rudolf. Die Johannesbriefe. 2. ed. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1969. SIMON, Odemir. Auxílio Homilético sobre 1 João 1.1-2.2. Proclamar Libertação 22. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1996.

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PRÉDICA: LUCAS 24.36b-48

3º DOMINGO DA PÁSCOA

ATOS 3.12-19 1 JOÃO 3.1-7

22 ABR 2012

José Manuel Kowalska Prelicz

1

Introdução

Neste terceiro domingo da Páscoa, somos lembrados da terceira e definitiva aparição do ressuscitado no Evangelho de Lucas. Ainda estamos no meio da admiração e da incredulidade dos discípulos diante do prodígio divino da ressurreição de Cristo. Assim como os discípulos, nós hoje também temos dificuldade para assimilar a realidade da ressurreição. O Cristo ressuscitado entra em nossas vidas de forma totalmente diferente e confirma sua presença entre nós. Essa presença vai além do racional e físico, segundo o que entendemos normalmente. O Cristo crucificado não está mais morto, agora se faz presente e indica o novo caminho, seja no entendimento das Escrituras, agora com o crivo cristológico, seja no programa de ação dos discípulos, testemunhas dessa nova realidade. O texto de Atos é uma aplicação prática daquilo que Jesus indica aos discípulos no evangelho. Pedro lembra que os discípulos são testemunhas da ressurreição de Jesus e exorta as pessoas admiradas pela cura do coxo ao arrependimento. Imediatamente, essa atitude ousada de testemunho do Cristo ressuscitado faz com que Pedro e João sejam presos. O texto de 1 João faz parte da leitura contínua nesta época de Páscoa, mas podemos indicar a relação com a temática da união com Cristo e com a vida no discipulado, que inclui a purificação do pecado. Vale lembrar que o texto já foi trabalhado em outras edições de Proclamar Libertação (16, 19, 28 e 35), às vezes com outra delimitação.

2

Exegese

Encontramo-nos no final do Evangelho de Lucas, dentro do capítulo 24, que trata da ressurreição e das aparições do ressurreto. Esse capítulo é o resultado final do conflito entre Jesus e as pessoas que não acreditavam nele como o Cristo profetizado e esperado. Cada perícope do capítulo 24 tem um centro formado pela afirmação da necessidade da paixão e ressurreição do Cristo. Num crescendo, o evangelho relata a boa-nova da ressurreição dada às mulheres, passa pelos dois discípulos no caminho de Emaús e culmina com a reunião dos apóstolos e outros discípulos que conversam sobre o que aconteceu. Os três momentos estão organizados da mesma forma: da dúvida sobre a ressurreição de Cristo à certeza e ao entendimento, sempre passando pela lembrança das palavras de Jesus e/ou pela explicação das Escrituras; da falta de um cadáver no túmulo, passando pela

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3º Domingo da Páscoa

presença “oculta” de Jesus no caminho de Emaús, à presença inequívoca e certeira do ressuscitado. Temos uma progressão qualitativa das pessoas que recebem a mensagem e vivem a realidade do Cristo ressurreto. Elas são transformadas em testemunhas que levam adiante a mensagem. Os apóstolos e as outras pessoas que lá estavam são instituídas de forma explícita para ser testemunhas. A nossa perícope é relacionada com a anterior (v. 13-35) de forma espacial e temporal. O retorno dos discípulos, que compartilham o reconhecimento de Jesus e a aparição a Simão, faz com que o grupo se reúna para comentar e tentar entender o acontecido, que vai além da ordem natural. Após a perícope, Jesus relembra os discípulos sobre a promessa do Pai (o envio do Espírito Santo). Segue uma versão resumida da ascensão do Senhor (v. 50-53), que constitui o fecho do Evangelho de Lucas, para dar assim início à narração de Atos. Esse recorte faz sentido, pois nossa perícope está dentro do tempo de Páscoa, ainda longe das festas da Ascensão e de Pentecostes. No geral, as versões de Almeida e da Nova Tradução na Linguagem de Hoje não trazem diferenças maiores. Destaca-se apenas a seleção de sinônimos definidos no estilo de cada tradução. A exceção acontece no v. 38, com kardia, coração, entendido como o centro e o lugar da mente, como fonte de desejos, vontades, propósitos e pensamentos. No contexto bíblico judaico, o coração tem as funções da “cabeça”; no conceito popular de nossos dias, pelo que a NTLH traz “cabeça” e não “coração”, seguindo sua linha de tradução. Indicamos também que alguns manuscritos não contêm, no v. 42, a expressão “favo de mel”, não incluída na NTLH. Por outro lado, também vale advertir que os v. 37 e 39 são os únicos lugares no Novo Testamento em que pneuma é traduzido por “espírito” no sentido de “fantasma”, assim como hoje é entendido esse conceito de forma geral: aquele ser que não é natural e que traz medo e receio. Pode-se dividir a perícope em duas partes: a) v. 36b-43: Apresentação do Cristo ressuscitado e confirmação da veracidade do fato v. 36b-37: Aparecimento de Jesus – reação dos discípulos v. 38-43: Tentativas de fazer com que os discípulos entendam a nova realidade v. 39-40: As marcas da cruz como sinal de realidade v. 41-43: A comida como sinal de realidade b) v. 44-48: Explicação e entendimento da paixão e ressurreição de Cristo v. 44: Lembrança das explicações pré-crucificação v. 45: Entendimento pleno da nova realidade v. 46-48: Explicação detalhada e programa de trabalho O texto traz a dinâmica do Jesus pedagogo: ainda que o ressuscitado não esteja no túmulo e tenha aparecido aos discípulos no caminho de Emaús, a turma dos céticos teima em não acreditar. Aquilo que Jesus tinha pregado e ensinado em diversas oportunidades, e que realmente se confirmou, não foi assimilado pelos discípulos. Em nossa perícope, Jesus volta novamente a aparecer. Mas a reação dos discípulos é de medo e incredulidade. O ressuscitado precisa mostrar as marcas da cruz em seu corpo e comer diante deles. Somente assim é que eles

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3º Domingo da Páscoa

finalmente compreendem e acreditam. Na perícope se estabelece a verdade da ressurreição com a realidade incontestável do ressuscitado. Com a presença do Cristo ressuscitado, continua o ensinamento aos discípulos, agora com uma nova compreensão, que os transforma de pessoas atemorizadas em testemunhas corajosas. Se, no primeiro momento da perícope, Cristo precisa de tempo para demonstrar que ele é realmente ele e que ressuscitou, no segundo momento, o entendimento é imediato: ao falar de sua trajetória à luz das Escrituras, os discípulos entenderam. O suposto fracasso com a morte do Messias é substituído pela certeza da vitória pela ressurreição. Tudo isso fez com que fosse validada toda a atuação do Jesus de Nazaré como o verdadeiro Cristo. A morte e ressurreição de Cristo viraram a chave hermenêutica para a leitura e interpretação das Escrituras. Segundo Lucas, o próprio Cristo estabelece isso nos v. 44-47. Agora as Escrituras do povo hebreu passam pelo crivo de Cristo, e a leitura cristocêntrica está estabelecida. A aparição do ressuscitado não é somente para que seus discípulos possam ter um conhecimento arcano da verdade. O compreender e acreditar leva além: a explicação viva da paixão e ressurreição é motivada pela necessidade de fazer dos discípulos testemunhas que possam levar a mensagem de arrependimento e perdão às pessoas. É importante lembrar que, em Lucas, o arrependimento inclui renúncia e partilha, o que leva a uma nova forma de relacionamento. Mas agora, com o cumprimento das Escrituras, o beneficio não é só do povo de Israel, mas de todas as nações. Os discípulos estão a um passo de virar atores da propagação do evangelho, num discipulado comprometido com o testemunho da paixão e ressurreição de Cristo.

3

Meditação

Cristo ressuscitou! Realmente ressuscitou! Assim os ortodoxos russos saúdam o evento que faz a diferença no cristianismo. Já estamos no terceiro domingo da Páscoa e ainda não conseguimos absorver todo o mistério que nos traz o evento pascal. A ressurreição aconteceu, é verdade! Tantas pessoas já acreditaram nisso e justamente por ter acreditado viraram testemunhas do milagre divino. Mas, ainda assim, muitas vezes a dúvida se aproxima. Será verdade? Jesus ressuscitou? Jesus era o Cristo esperado? Essas dúvidas também surgiram na cabeça dos discípulos. Como é possível que eles não entendessem? Muitas vezes, Jesus havia dito que ele era o Cristo prometido, atuava como tal, indicou que tinha que padecer, também morrer para daí ressuscitar. Cristo ressuscitou, e isso é uma realidade que vai além do entendimento dos discípulos, que estavam reunidos comentando a aparição no caminho de Emaús. Como é possível se a gente o viu morto? A morte é uma realidade que não dá para transpor. A pessoa morta, morta fica (até parece que esqueceram o que aconteceu com Lázaro, com a filha do chefe da sinagoga). Não é possível entender aquilo que as mulheres disseram. Não dá para acreditar no coração ardente dos que voltaram de Emaús. Ou será verdade?

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3º Domingo da Páscoa

Por tudo isso, nosso texto passa a fazer parte do Evangelho de Lucas. O ressuscitado apresenta-se no meio deles. Deus nos surpreende: quando achamos que não tem mais nada, Ele aparece no meio de nós. Não tem como duvidar. Mas, ainda assim, instalam-se a dúvida e o medo. Aparece mais uma vez o medo da teofania, aquela que assustou Moisés e tantos outros. O que é isso? Quem é isso? Um fantasma? Como são teimosos os discípulos em compreender e acreditar. Jesus mostra suas feridas, suas mãos, seus pés e seu costado. Mas, ainda assim, não é possível acreditar. Jesus está morto. Não acreditamos quando olhamos a solução. Não pode ser tão fácil (indica a nossa mente), que nesse instante manda sobre o coração. Cristo, paciente, pede comida, pois “fantasmas não comem”. Ele tem que demonstrar que é aquele um que já conheciam. E assim, depois do susto, a coisa muda. Por que os discípulos ficaram assustados em relação ao encontro com o Senhor? Por que não era possível acreditar naquilo que se falava e vivia? O ser humano, limitado e pecador, não consegue ir além de suas barreiras. Deus mesmo precisa evidenciar, dentro das limitações humanas, que existe alternativa para a morte. Depois de vencer a morte, Cristo precisa fazer com que seus discípulos possam entender e acreditar. Muitas vezes, nós temos consciência, até ciência daquilo que vemos e vivemos, mas não conseguimos entender. É como aquelas vezes em que Jesus dizia: Quem tem olhos, que veja; quem tem ouvidos, que ouça. Por que as estórias de fantasma nos assustam? Será que é porque falam de coisas que vão além de nossa compreensão ou de nosso poder? As crianças ficam assustadas com o bicho-papão de sua cultura. O desconhecido, aquilo que não sabemos bem o que é, sempre nos assusta. Por isso é que Jesus tenta aproximar os discípulos do que está acontecendo, ajuda-os para que possam ver, tocar, assimilar. Mais uma vez, Jesus ajuda as pessoas a ir além de suas limitações. Se o ser humano fecha, Deus abre. Se o ser humano tampa, Deus destampa. As regras do jogo trocam quando Deus está no meio. O amor divino permite que o ser humano possa estar perto dele, ainda que seja imperfeito e não acredite no que está diante de seus olhos. É interessante como Deus sai dos limites humanos justamente para ajudar suas criaturas. Depois de comprovada a veracidade do fato da ressurreição, Cristo está prestes a concluir seu labor com os discípulos. Para isso, ele dá o entendimento, “abre a mente deles”. Aquilo que ele já havia ensinado e explicado agora tem sentido. Se antes as Escrituras eram vistas por judeus com olhos judeus, agora são vistas por discípulos por intermédio dos olhos de Jesus. É como Brakemeier indica: “O centro da Bíblia, critério do evangelho e autoridade última, porém, é o próprio Cristo”. Agora o critério é “aquilo que promove Cristo”, como disse Lutero. Isso é justamente o que Jesus apresenta e o que depois os discípulos continuam: a leitura das Escrituras Sagradas tem que passar pelo Cristo. Diante do entendimento que traz o Cristo, não dá para ficar quieto. E é justamente por isso que Jesus envia seus discípulos para ser mensageiros, levar em seu nome a mensagem do amor e da proximidade que Deus traz com o arrependimento e o perdão dos pecados. Não é um conhecimento secreto que mais ninguém pode saber. É preciso ir a todas as nações. A autoridade do Messias faz

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com que as barreiras israelitas sejam quebradas. Os discípulos viram testemunhas, pessoas ativas, que com a certeza da ressurreição de Jesus podem levar sua mensagem a todas as criaturas. Cristo quebra o paradigma e abre as possibilidades do amor de Deus.

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Imagens para a prédica

Além da imagem óbvia do fantasma e as reações que estórias de fantasmas trazem às pessoas, também podemos lembrar aqueles seres imaginários que o folclore nos lembra. Cada cultura tem seres míticos que não são entendidos, como o Saci, Pé Grande etc. Pode-se recorrer à mitologia local, que nem sempre é tão formal, mas que, no fim de contas, provoca o mesmo sentimento da aparição de Cristo aos discípulos. Uma imagem que está sempre na mente das pessoas é a do OVNI (objeto voador não identificado): se surgisse diante de nós, também traria uma situação semelhante à dos discípulos com Cristo. No início, teríamos medo, depois começaríamos a entender a realidade diante de nós. Quando o OVNI fosse embora, ficaríamos como testemunhas, não poderíamos ficar quietos e calados. Teríamos a necessidade de contar a alguém aquilo que vimos e sentimos. Pode-se explorar a forma como as crianças aprendem a linguagem: escutam, assimilam/acreditam e repetem. Nem sempre entendem totalmente aquilo que dizem. Muitas vezes, falam até palavrões, como se fosse qualquer outra palavra. Depois que são xingadas e entendem que aquela palavra é “feia”, não a usam mais. Outros exemplos pedagógicos em situação difícil também podem ser utilizados. Pode-se usar o papel das testemunhas, seja de batismo ou bênção matrimonial. São pessoas que deveriam fazer mais do que “aparecer na foto”. Talvez se pudesse convidar testemunhas para lembrar um fato, levando a certidão e mostrando-a.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Perdão por não acreditar que Jesus está em nosso meio, ainda que tenhamos sinais concretos de sua presença. Perdão por acreditar somente dentro de nossas limitações, esquecendo que tu estás além de qualquer limitação humana. Perdão porque não somos fiéis testemunhas de tua ressurreição e não levamos tua mensagem de arrependimento e perdão a todas as pessoas. Amém. [Seria bom poder também testemunhar aquilo que se crê. Enfatizar que os diversos credos foram feitos para dizer às outras pessoas aquilo que se acredita. Nesse sentido, seria recomendado confessar a fé olhando para as pessoas ou até olhando para fora do lugar de culto.]

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Oração pós-comunhão: Obrigado, bondoso Deus, tu que te fazes presente em nosso meio, assim como Jesus Cristo ficou no meio de seus discípulos para mostrar a verdade da ressurreição. Ajuda-nos a ter a certeza da tua presença na Palavra e no Sacramento que acabamos de celebrar. Amém. Envio: Vocês também são testemunhas enviadas por nosso Senhor. Contem a todas as pessoas o que vocês experimentaram aqui. Vão na paz de Cristo. Amém.

Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. A autoridade da Bíblia. São Leopoldo: Sinodal, Centro de Estudos Bíblicos, 2003. KRÜGER, Rene. Estudio Exegético-Homilético 096: Sábado 22 de março de 2008. Buenos Aires: Instituto Universitário ISEDET. Acesso: 30/06/2011 http:// www.isedet.edu.ar/publicaciones/oldeeh/EEH2008.zip

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PRÉDICA: ATOS 4.5-12

4º DOMINGO DA PÁSCOA

JOÃO 10.11-18 1 JOÃO 3.16-24

29 ABR 2012

Helga R. Pfannemüller

1

Introdução

Em João 10.11-18, Jesus diz: “Eu sou o bom pastor”. No Antigo Testamento, o próprio Deus é o pastor, aquele que guia, protege e alimenta o seu povo. Em certos períodos da história, ele delega essa função aos reis (Ez 34). Quando Jesus se declara o bom pastor, ele reivindica para si esse papel, como aquele que foi enviado e autorizado pelo próprio Deus. Jesus polemiza com as lideranças do povo, que agem como mercenários que não têm cuidado com as ovelhas, mas apenas consigo mesmas. Em nome desse pastor falam também os apóstolos, entrando igualmente em conflito com as lideranças que se sentem ameaçadas. Em 1 João 3.16-24, diz-se que crer “em nome do seu Filho, Jesus Cristo” (v. 23) é o mandamento que recebemos de Deus. Essa fé em Jesus Cristo, juntamente com a disposição de “dar nossa vida pelos irmãos” (v. 16), são os sinais de comunhão e obediência a Deus.

2

Exegese

2.1 – Contexto (Atos 3.1-4.4) O trecho da pregação está inserido num bloco maior, que começa com a cura de um coxo no capítulo 3. Pedro e João encontram o coxo pedindo esmolas no portão do templo de Jerusalém e o curam em nome de Jesus Cristo. Depois de curado, o homem entrou no pátio pulando e louvando a Deus, o que causou admiração e espanto nas pessoas que estavam ali. Pedro então discursa ao povo, testemunhando Jesus e atribuindo à fé do coxo a real autoria do milagre. O capítulo 4 mostra, em seguida, a prisão dos apóstolos pelo chefe da guarda do templo, juntamente com alguns sacerdotes e saduceus. O motivo era simples: os dois apóstolos estavam ensinando ao povo que Jesus havia ressuscitado dos mortos (4.2). Ora, os saduceus (partido da aristocracia sacerdotal e leiga, ao qual o chefe da guarda do templo também pertencia) lutavam contra a crença na ressurreição, pois acreditavam que ela levaria as pessoas a uma fé entusiasta, que as deixaria incapazes para a vida. Por isso eles não podiam permitir que ela se espalhasse entre os crentes. A prisão aconteceu à noite. Como já não havia tempo suficiente para um interrogatório, os apóstolos foram colocados na prisão até o dia seguinte. Nesse ponto, o autor mostra como as coisas de Deus acontecem com força surpreendente. A prisão dos apóstolos não consegue evitar o surgimento dos fru-

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4º Domingo da Páscoa

tos do discurso e da pregação de Pedro, apesar de toda a hostilidade. Lucas fala de 5.000 homens que se converteram. O Espírito estava sobre os apóstolos, e os sinais serviam de prova para as suas palavras. 2.2 – O testemunho de Pedro O texto de Atos 4.5-12 começa com uma boa-nova: o Senhor crucificado faz resplandecer sua vitória divina sobre as trevas que se abateram sobre seus enviados. Esse é um consolo poderoso para todos os que passam por uma situação parecida. Na manhã seguinte, Pedro e João são colocados diante do Sinédrio de Jerusalém, o tribunal supremo de Israel (v. 5). Os três grupos que compõem o Sinédrio são nominados: as autoridades dos judeus (sumo sacerdote), os líderes do povo (anciãos) e os mestres da lei (escribas). No v. 6, alguns integrantes do primeiro grupo são mencionados pelos seus nomes. Podemos perceber aqui que os apóstolos ficam diante dos mesmos homens perante os quais Jesus ficou quando foi preso: Anás e Caifás (Jo 18.13). A investigação não está voltada para o anúncio da ressurreição, porque o próprio Sinédrio não era unânime sobre esse tema (At 23.6-9), mas para a cura do coxo: “Com que poder ou em nome de quem vocês fizeram isso?” (v. 7). Teria sido usado um poder demoníaco, e dessa maneira teria sido profanado o templo de Deus? Nós conhecemos Pedro como o discípulo que, na hora da maior necessidade, negou seu Senhor três vezes. Agora nós podemos ouvir como esse mesmo homem, que antes se esquivara de medo até de uma empregada, faz uma corajosa e ousada confissão de Jesus diante das maiores autoridades do povo. E o motivo para isso é evidente: “Ele estava cheio do Espírito Santo” (v. 8). O Espírito Santo apoderou-se do apóstolo e venceu todo o seu temor, dando-lhe coragem para a confissão. Ele o faz falar o que tem que ser dito nesse momento, em conformidade com a promessa do Senhor: “Quando levarem vocês para ser julgados nas sinagogas ou diante dos governadores e autoridades, não fiquem preocupados, pensando como vão se defender ou o que vão dizer. Pois, naquela hora, o Espírito Santo lhes ensinará o que devem dizer” (Lc 12.11-12). Na hora da verdade, o Deus vivo não deixa os seus servos entregues a si próprios. A causa do Senhor é de sua própria responsabilidade, e ele faz isso por intermédio de seu Espírito. Por isso ninguém tenha vergonha quando estiver na situação de abrir sua boca para o seu Senhor, seja diante de tribunais ou em qualquer outra situação! “Estejam sempre prontos para responder a qualquer pessoa que pedir que expliquem a esperança que vocês têm” (1Pe 3.15). 2.3 – O conteúdo da confissão A palavra de Pedro responde diretamente a pergunta feita pelos juízes e com isso acentua o incomum desse processo judicial: “Os senhores estão nos perguntando hoje sobre o bem que foi feito a este homem...” (v. 9). Assim como seu Mestre, que outrora causou escândalo devido a seus atos de ajuda ao próximo, os apóstolos agora vivenciam algo parecido. A prova para o bem que foi feito estava

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visível para todos na sala do julgamento: “o homem que havia sido curado” e “estava ali de pé” é a testemunha presente (v. 14). Mas o apóstolo não demora muito na crítica a esse ato singular. Em vez disso, vai direto ao essencial. Ele responde a pergunta feita e proclama o nome de Jesus, cujo poder (en touto, no v. 10, se refere ao “nome”) possibilitou que o coxo fosse completamente curado. O apóstolo não deixa dúvidas quanto a quem ele está se referindo: a Jesus de Nazaré, aquele que foi levado à cruz pelas autoridades ali reunidas, mas que foi ressuscitado pelo Deus dos mortos. E então Pedro acrescenta uma prova escriturística às autoridades que conheciam as Escrituras (Sl 118.22), uma palavra que as comprometia gravemente: “A pedra que os construtores rejeitaram veio a ser a mais importante de todas”. A palavra bíblica que, conforme Mateus 21.42, Jesus mesmo já aplicara a si torna-se, na boca do apóstolo, uma pesada acusação contra os senhores juízes ali reunidos. Afinal, eles eram os construtores de Deus. Sua tarefa era edificar o povo, o templo de Deus. O que mais teria uma liderança para fazer? Mas eles rejeitaram a pedra mais importante e com isso fracassaram em sua tarefa. Apesar disso, Deus tornou essa pedra Jesus de Nazaré a pedra mais importante na construção de sua comunidade. Deus não deixou que seu plano fosse arruinado por seus servos desobedientes. Mais do que isso, ele interferiu e fundou sua comunidade sobre o desprezado Jesus de Nazaré. A obra do Senhor aperfeiçoa-se não mais nos altos e presunçosos senhores daquele tempo (e nos senhores de sempre), mas no humilde e excluído servo de Deus. Com isso, o apóstolo acusado amplia o conteúdo de sua confissão. Agora ele desvia a atenção do caso especial da cura do coxo para aquilo que, pura e simplesmente, vale depois da intervenção de Deus: “A salvação só pode ser conseguida por meio dele” (v. 12). A obra feita no coxo clareia a relação primordial na qual Jesus se coloca diante de toda a humanidade. Nele está a salvação, e em nenhum outro! É Ele que reconcilia e perdoa, dá o Espírito Santo e a vida eterna. E ninguém pode fazer isso senão ele próprio. Na cura do coxo, fica claro que o fim dos tempos profetizado é a vinda plena da salvação messiânica descrita em Isaías 35.6: “Os aleijados pularão e dançarão, e os mudos cantarão de alegria ...”. Em Jesus, como Cristo, isso se torna realidade humana. Ele não traz apenas alívio para a miséria humana, como o que aconteceu com o coxo, mas Ele é a nossa ajuda total. Isso que é ressaltado no v. 12b, quando ali aparece: “Pois não há no mundo inteiro nenhum outro nome que Deus tenha dado aos seres humanos, por meio do qual possamos ser salvos”. Aqui ressoa o “somente” da mensagem da Reforma. Que Jesus é o único caminho e o único meio de salvação fica claro quando não existe nenhum outro nome o qual podemos invocar para a nossa salvação. Certamente existem entre os seres humanos homens e mulheres respeitáveis, personagens extraordinários. Nós podemos agradecer a Deus pelas pessoas piedosas que ele nos deu, pois podemos aprender bastante com elas. Mas nenhuma delas pode nos salvar nem contribuir minimamente para a nossa salvação.

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Meditação

O texto proposto levanta vários temas para a pregação. Se tomarmos a narrativa em si (cura, pregação, prisão, testemunho no tribunal, confronto com as lideranças religiosas), então poderemos refletir sobre a continuidade da obra de Jesus por intermédio daqueles que ele enviou. Os apóstolos foram enviados por Jesus para ser testemunhas de defesa no processo contra ele. Esse processo não foi encerrado com a execução de Jesus, mas ele continua pelo fato de Jesus ter sido ressuscitado por Deus. Ele está vivo e atuando por meio de seus seguidores e enviados. Ele reivindica para si uma autoridade e um poder que somente o próprio Deus tem. E isso os líderes judeus não querem aceitar. A história de Jesus continua em seus enviados. O poder que se manifesta em seus atos (curas) e em sua pregação (v. 4) questiona o poder da liderança que condenou Jesus. Duas formas de poder estão em disputa. Num lado, temos o poder baseado na tradição e nos meios de coerção física, representado pelo Sinédrio e seus guardas. No outro lado, está o poder do Espírito Santo, que usa pessoas “iletradas e incultas” (v. 13) para tocar o coração (At 2.37) e transformar a vida de pessoas. Esse poder manifesta-se justamente por intermédio dos mais fracos e medrosos, ou seja, Deus não precisa de “recursos humanos” (força, honra, poder político) para realizar seus propósitos. Assim como Jesus foi rejeitado e perseguido, assim também serão seus mensageiros. Sua mensagem e sua própria existência questionam os poderes instituídos, em primeiro lugar o poder religioso. Quando os que estão nas margens, na periferia (da sociedade e da comunidade), abrem a boca para anunciar e viver a boa-nova da salvação em Jesus Cristo, aqueles que estão no “centro” (e no comando) sentem-se ameaçados. A história da igreja é rica em exemplos. Por causa disso, o caminho dos discípulos de Jesus sempre será um caminho de sofrimento. Analisando as leituras propostas para o 4º Domingo da Páscoa, podemos perceber que, no caminho de sofrimento de Jesus, são oferecidas a nós novas perspectivas para nosso próprio caminho de sofrimento. Pois esse Jesus se empenha com sua própria vida por todos os que nele confiam. A partir do conteúdo do testemunho de Pedro, uma outra ênfase da pregação poderia ser: Em que nos agarramos quando o nosso próprio testemunho de Jesus Cristo nos causa dificuldades? A partir da leitura de João 10.11-18, podemos afirmar que Jesus não deixa nenhuma dúvida em quem nós podemos confiar na vida: nele, o bom pastor. Ele faz a nossa ligação com o Pai e assim nos deixa participar da força de vida que vem de Deus. Num mundo que se torna cada vez mais complexo, muitos buscam segurança e orientação ao mesmo tempo em que são forçados a ser independentes de modelos e papéis pré-fabricados. Não é à toa que os consultórios psiquiátricos estão cada vez mais cheios e que ouvimos a palavra depressão com cada vez maior frequência também entre nossos membros. A miséria de muitas pessoas de nosso tempo consiste, em grande parte, no fato de que as pessoas não têm mais um lugar onde elas podem sentir-se seguras, aliviadas. Continuamente são forçadas e afligidas pela pressão do trabalho e dos resultados do mesmo. O ser humano

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precisa de um equilíbrio, de palavras que o fortaleçam e encorajem. Também nas comunidades da IECLB existe essa necessidade. Se, como pregadores e pregadoras, levamos essa necessidade a sério, tomamos como tarefa da prédica o fortalecimento da esperança. E a esperança cristã é fortalecida quando as pessoas são lembradas de que existe apenas um caminho: “não há salvação em nenhum outro” (v. 12). Numa época em que todos os caminhos são válidos, em que tudo é relativo, as pessoas ficam inseguras diante de tantas possibilidades. O evangelho é claro: apenas um caminho. Isso não é uma imposição, mas uma oferta graciosa de Deus. Por isso é importante acentuar a figura de Jesus não só como um modelo entre tantos outros a ser seguido em nossas vidas, mas como o único capaz de fazer alguma diferença nelas. Normalmente, as pessoas trilham um caminho para chegar a algum objetivo. Na fé é diferente. Pois, se estamos com Jesus, já estamos ao mesmo tempo no objetivo. Quem, ao caminhar, fixa seus olhos num ponto de chegada pode até se sentir mais seguro, mas tem um campo de visão limitado. Quem está a caminho não consegue estar seguro de si mesmo, pois precisa contar com algumas surpresas. No entanto, as surpresas não precisam causar medo, pois saber que Cristo é nosso caminho nesta terra é saber que ele se espalha embaixo dos nossos pés e nos carrega no caminhar. Nesse sentido, o texto de Atos encoraja-nos e nos fortalece ao anunciar o episódio vivido por João e Pedro, que, em meio a toda hostilidade, são tomados pelo Espírito de Deus e testemunham com coragem e ousadia o seu Senhor. Assim como os apóstolos, podemos ter a certeza de que não são envergonhados nem desonrados aqueles que se confiam ao cuidado e ao socorro do bom Pastor.

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Imagens para a prédica

Certa vez, o famoso equilibrista francês Blondin exibia a sua arte nos Estados Unidos. Ele atava uma corda em pontos altos e equilibrava-se sobre ela com a segurança de quem estivesse andando numa rua asfaltada. O seu maior espetáculo foi quando amarrou as pontas da corda sobre as margens do conhecido salto Niágara, preparando-se para atravessá-lo. Todos pensaram que, dessa vez, o artista seria certamente tragado pelo abismo. Porém Blondin mostrou-se à altura de sua arte. Por último, levou um carro de mão e equilibrou-se com ele sobre a corda, transpondo todo o Niágara. O aplauso foi estrondoso. Sorrindo, Blondin aproximou-se de um menino que pulava de entusiasmo e gritava com os outros: – Muito bem! Viva! – Menino, você crê que sou capaz de voltar com o carrinho pelo mesmo caminho e transpor novamente o salto? – Naturalmente, creio! – disse o garoto. – Muito bem – respondeu Blondin. – Já que você crê em minha habilidade, então senta no carrinho e eu o levarei para o outro lado. – Não! Isso não! – gritou o garoto, escondendo-se atrás de sua mãe.

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– Se você acredita na minha habilidade, por que então não quer confiar em mim? – perguntou Blondin. (Alcides Jucksch, Amor sem Fronteiras) A fé verdadeira é mais do que uma afirmação. É um entregar-se a Cristo e confiar em sua promessa. Nas situações adversas de nossa vida, não precisamos temer, pois Deus enviou Jesus Cristo para cuidar de nós. Em seus braços podemos encontrar descanso, alívio e a força necessária para o anúncio do seu nome.

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Subsídios litúrgicos

Sugiro que, na hora da prédica, o pregador ou a pregadora comecem contando o contexto a partir do capítulo 3 do livro de Atos. O texto-base da prédica poderia ser lido após essa explicação. Hinos (HPD 1): 264 – Nome sobre todo nome 221 – Senhor, porque me guarda a tua mão confio em ti 76 – Espírito Verdade

Bibliografia NIESEL, Wilhelm. Meditação sobre Atos 4.1-12. In: EICHHOLZ, Georg. Herr, tue meine Lippen auf. 5. ed. Wuppertal-Barmen, 1965 (Vol. 4). p. 369-374. ROLOFF, Jürgen. Die Apostelgeschichte. Göttingen/Zürich, 1988 (NTD 5). p.7983.

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PRÉDICA: JOÃO 15.1-8

5º DOMINGO DA PÁSCOA

ATOS DOS APÓSTOLOS 8.26-40 1 JOÃO 4.7-21

06 MAI 2012

Mara Sandra Parlow

1

Introdução

A entrada no santuário de um texto bíblico – ou de um conjunto de textos, como aqui se propõe – assemelha-se a entrar numa cave destinada à produção e ao envelhecimento controlado de bons vinhos. Do mesmo modo que, no preparo qualificado do sumo do fruto da videira, a apreciação proveitosa da Escritura requer procedimentos especiais, como sensibilidade aguçada e algum isolamento “termoacústico” (tempos de silêncio e de reflexão...). Ou seja: assim como para constituir e conservar vinho são necessários alguns cuidados básicos, fundamentais não só para manter, mas para melhorar suas características e fazer valer o ditado “vinho, quanto mais velho melhor”, também para a composição de um estudo bíblico é necessário um adequado processo de maturação para, enfim, esse estudo tornar-se um guia homilético “encorpado”. Nada se compara a provar um grande vinho em seu auge. Melhor ainda se a garrafa tiver sido “ninada” por seu olhar, em sua adega, por razoável temporada, guardada para uma ocasião especial, exercitando-se uma qualidade comum entre pessoas apreciadoras de vinho: a paciência. O vinho bem conservado amadurece com dignidade e cresce com o tempo. Se mal acondicionado, envelhece precocemente, chegando à decrepitude em pouco tempo. Analogamente, tanto quanto saber contemplar vinhos, o estudo da Palavra também é uma arte: crucial arte da paciência no olhar atento, no manejo cuidadoso, na aplicação dos/de sentidos e, finalmente, no bendito ato da degustação dos escritos sagrados. Envolvida pelo contexto e no contexto da Serra Gaúcha, onde se inserem meus fazeres pastorais atualmente, “cultivei” esse subsídio para o período litúrgico pós-Páscoa. Esse período faz parte do ciclo pascal (Quaresma, as festas pascais e o tempo até Pentecostes, inclusive), que celebra o despertar da fé e o testemunho que as discípulas e os discípulos deram do Ressuscitado. Na experiência saborosa de imersão em uma realidade decisivamente influenciada pelo cultivo de uvas para a produção de vinhos, o estudo acentua o Evangelho de João, no qual a metáfora da parreira aponta para o amor de Deus (o Viticultor), expresso no pacto salvífico de Jesus Cristo (a Videira Verdadeira) com a pessoa crente (o ramo que produz frutos).

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2

Exegese

O exercício exegético, nessa ocasião, encontra em João 15.1-8 (A videira e os ramos) o escrito que, somado aos demais (Atos 8.26-40 e 1 João 4.7-21), é texto-farol para a pregação no evento cúltico do 5º Domingo da Páscoa. Cercado por percepções e interpretações controvertidas quanto à autenticidade da autoria, às fontes e ao formato, o Evangelho de João diferencia-se substancialmente dos sinóticos. Muito embora sejam mormente apontadas questões formais de distinção, o fundamental contraste com os sinóticos é que João não possui tradição historicamente importante sobre Jesus. Quer dizer: não pretendendo ser um relato histórico, ocupa-se com a exposição de um ideário, qual seja o ensinamento escatológico (futurístico) em Jesus, com narrativas de oposição entre luz e trevas, verdade e mentira, do alto e de baixo etc. e com várias expressões de salvação do próprio Jesus (água da vida, pão da vida, luz do mundo, videira verdadeira). O universo conceitual joanino caracteriza Jesus como “aquele que o Pai enviou” e que, depois, subiu ao céu. Nessas formas se diferencia, portanto, do mundo conceitual palestino-judaico de Jesus nos sinóticos. Em João, há uma concepção da existência marcadamente dual, segundo a qual este mundo é mau e aprisiona o ser humano. Tendo perdido sua imagem divina (algo que o ser humano guarda em sua essência), o “Eu” não pode libertarse por suas próprias forças da prisão do mundo em que se encontra. É necessário um redentor, da esfera da luz, que lhe abra o conhecimento para a compreensão de sua verdadeira natureza, possibilitando-lhe experiências de luz no presente e definitivamente, no fim, permita a volta à centelha divina da luz e à pátria celeste. Reconheçamos, assim, em João, uma espécie de “religiosidade gnóstica”. Contudo, é imprescindível o cuidado, na pregação, para não “azedar o sumo” reflexivo, calcando a mensagem numa perspectiva moralista de autogestão da fé. Isso porque tanto a passagem do Evangelho de João como o trecho indicado de 1 João possuem como finalidade a instrução dos membros da comunidade, iluminados na fé em Cristo. Tanto que Jesus mesmo, no texto-farol à prédica, designa a si como a verdadeira vide, separando-se de figuras de salvação que falsamente reivindicam esse título. João, portanto, foi escrito primordialmente para confirmar e fortalecer a fé dos cristãos no verdadeiro Revelador da Graça de Deus: Jesus – a vinha, o bom pastor, o enviado. Essas representações originais de Jesus procuram dar perfeita expressão à fé no Messias e Deus Encarnado (Verbo Encarnado), procedendo consequentemente da imagem de fé da comunidade cristã (ou da experiência de fé cristã). João representa de modo mais sistemático, mais original e mais grandioso que os demais evangelhos, não o que Jesus foi, mas o que seguidores e seguidoras têm nele. Por essa razão, na metáfora da videira e dos ramos, a expressão “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor” (Jo 15.1) é um dito de Jesus sobre si mesmo, pois realmente era, é e sempre será o único Justo. E, por conseguinte, é

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possível a assertiva “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda” (Jo 15.2). Ou seja: Quem está em Cristo frutifica. “Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo se não permanecer na videira; assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim” (Jo 15.4). Isso é natural da pessoa que crê. Se Jesus é a videira e nós, seus ramos, então não podemos, de forma alguma, sobreviver sem Cristo. “Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Se algo de bom nós conseguimos fazer, é porque Cristo é bom (porque “Deus é amor”, cf. 1Jo 4.16) e sem ele nada, realmente, podemos fazer. A pessoa cristã pode considerar-se ramo – parte da videira – por causa da salvação concedida pela graça de Deus, manifesta em Jesus Cristo. O Viticultor Maior nos “limpa”, tira as folhas velhas, poda os galhos secos, para continuarmos dando frutos. E como é que somos “limpos e cultivados”? Deus faz isso conosco pelo logos – Jesus Cristo, a Palavra encarnada –, que concede e fortalece a fé. “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3).

3

Meditação Perto demais de Deus (Chico César) Tem gente perto demais de Deus, tem gente que não deixa Deus sozinho e diz: Deus ilumine seu caminho, e guarda Deus na cristaleira (...) Tem gente que não deixa Deus em paz, tem gente incapaz de viver sem Deus e o trata como um funcionário seu. Deus me livre, Deus me guarde, Deus me faça a feira. Cristo dentro da carteira dez por cento rei dos reis Cristo um conto de réis o garçom, não a videira.

A imagem da videira e dos ramos, utilizada por Jesus, apresenta uma tensão entre aquilo que se refere à minha vontade como ramo e aquilo que é da vontade amorosa do Agricultor. Pela imagem, o ramo mesmo não poderia se desligar da Videira, mas teria de ser cortado. Então a exortação “permanecei em mim” não faz muito sentido. Na verdade, quem permanece dá fruto, e isso parece ser da natureza da relação com a Videira Verdadeira. É algo que está além de nossa possibilidade de determinação. Não há como responsabilizar o ramo por não produzir fruto... e, portanto, nem por ser cortado.

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Importante sublimar a tendência de dizer “vocês têm de permanecer para dar bons frutos e têm de dar bons frutos para não ser cortados”, substituindo-a pela ênfase de que o que torna os ramos capazes de produzir frutos é a união estreita com Jesus Cristo. Essa ligação orgânica é a chave para atingir resultados desejados. Essa ênfase coloca a possível moralina (que, diga-se de passagem, está quase explícita no próprio texto de João) num segundo plano. A partícula se (... se não permanecer na videira; se não permanecerdes em mim, ... se guardardes os meus mandamentos etc.), no sentido do que a pessoa crente e a comunidade crente (o conjunto dos ramos) têm em Jesus Cristo, deixa de ser partícula condicional, tratando-se de partícula de coesão. (Coesão é a conexão, ligação, harmonia entre os elementos de um texto. Percebemos tal definição quando lemos um texto e verificamos que as palavras, as frases e os parágrafos estão entrelaçados, um dando continuidade ao outro. Os elementos de coesão determinam a transição de ideias entre as frases e os parágrafos.) Por isso o sumo homilético – ou seja: a mensagem – está justamente em afirmar a ligação orgânica com a videira como chave para produzir frutos bons e abundantes. Além disso, sirvamo-nos de uma “bela taça” de circularidade hermenêutica, proveniente da mistura do texto de João com a narrativa educativo-cristã de Atos (a educação na fé a fortalece) e com o fundamento do amor de Deus como a seiva que alimenta os ramos em 1 João 4.7s.

4

Imagens para a prédica

No rico exercício de contextualização dos pensares em torno dos textos sugeridos, visitei e interagi com quem planta uvas na região serrana. Historicamente, nesse contexto, o plantio de videiras surge para a produção de vinho artesanal e obviamente porque o terreno e o clima se mostravam propícios. Essa produção artesanal, voltada ao consumo doméstico, logo se expandiu e começou a ter mercado fora da colônia, tornando-se a principal fonte de receita e dando origem às primeiras cantinas. Foram os vinhedos que garantiram capital a ser investido em pequenas oficinas familiares, mais tarde transformadas em indústrias. Percebe-se, pois, que cultivar vinhas é um projeto complexo, que, não raro, consome muito tempo e tem várias etapas. Para começo de conversa, a fim de prosperar, videiras exigem um local com boa drenagem, motivo para plantá-las em terras inclinadas e rochosas. Mas, apesar de terrenos bem drenados, elas ainda precisam de muita água durante o primeiro tempo depois do plantio. Também necessitam de cuidados bem específicos para o crescimento saudável e para a boa produção de frutos: solo rico em nutrientes, “treinamento” para subir na direção certa, proteção contra elementos nocivos e podas atentas. Um agricultor comentou: “Às vezes, é difícil convencer as jovens vinhas a apontar na direção certa. Tenho que movê-las muitas vezes na primeira estação

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para fazer com que sigam na melhor direção para crescer. Depois de ter trabalhado com elas, fica tranquilo crescer na direção certa; elas ficam mais fáceis de manter”. O uso dessa figura da “videira e dos ramos” por Jesus e de modo recorrente na Bíblia como um todo ocorre porque, numa terra com poucas condições de agricultura, a videira – por ser um pé perene e possuir raízes longas – vive centenas de anos. Assim também é com a oliveira, que se tornou uma fonte de comércio e de alimento diferenciado; ela vive muitíssimo tempo, produz um fruto que não pode ser consumido cru, mas é bastante apreciado após sofrer fermentação ou ser espremido. Ambos os produtos sobejam nas regiões citadas pelos escritos bíblicos. Apesar de grande parte ser região desértica, à noite, em muitos locais, o frio é terrível. Inclusive no inverno, em muitos locais, somente a videira e a oliveira conseguem crescer naqueles solos pedregosos e arenosos. Percebe-se, a partir dos registros bíblicos, que os frutos desses cultivos podiam ser produzidos em locais distantes, porque seus produtos eram comercializados em todo o mundo antigo e, bem ou mal, em grande ou pequena quantidade, eram consumidos por todas as pessoas. Muitas vezes, era só o que os povos tinham para usar como medicamento para todas as moléstias. Vê-se, com isso, que a videira é um soberbo símbolo cultural. Componente natural de sobrevivência e de agregação entre as pessoas e povos, não sem razão foi valorizado e mencionado por Jesus, de si mesmo ou em relação à vida de fé, em mais de uma oportunidade. Quanto à nossa reflexão, pois, pode-se utilizar toda essa potente carga metafórica para trabalhar a importância de estarmos ligados à Videira Verdadeira como conjunto de ramos que produzem bons frutos para o mundo. Sempre lembrando o absoluto vigor da própria Videira em conceder VIDA aos ramos. A Vide Verdadeira – e não o garçom – é Jesus Cristo. E, a partir de experiências de “poda”, de experiências vivenciais quem sabe de dor, contudo de crescimento, e de experiências dadivosas de superação, com nova “brotação”, onde nos colocamos mais “para que(s)” do que “por que(s)”, o Viticultor nos destina seu amor maior (“E nós conhecemos e cremos o amor que Deus nos tem” – 1Jo 4. 16).

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Subsídios litúrgicos

Vozes e canções: No contraponto à canção de Chico César, mencionada acima, a qual critica a idolatria e a fé autocentrada, pode-se utilizar, na Liturgia da Palavra, como ilustração de reverência plena ao amor de Deus, a obra musical de Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus”, lida ou ouvida na sua forma cantada: Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil) Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós

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Tenho que apagar a luz Tenho que calar a voz Tenho que encontrar a paz Tenho que folgar os nós Dos sapatos, da gravata Dos desejos, dos receios Tenho que esquecer a data Tenho que perder a conta Tenho que ter mãos vazias Ter a alma e o corpo nus Se eu quiser falar com Deus Tenho que aceitar a dor Tenho que comer o pão Que o diabo amassou Tenho que virar um cão Tenho que lamber o chão Dos palácios, dos castelos Suntuosos do meu sonho Tenho que me ver tristonho Tenho que me achar medonho E apesar de um mal tamanho Alegrar meu coração Se eu quiser falar com Deus Tenho que me aventurar Tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar Tenho que dizer adeus Dar as costas, caminhar Decidido, pela estrada Que ao findar vai dar em nada Nada, nada, nada, nada Nada, nada, nada, nada Nada, nada, nada, nada Do que eu pensava encontrar. RAMOS: Outra significativa imagem que pode ser utilizada para ornamentar o altar são ramos de uma planta que, ao serem cortados, murcham com facilidade (cf. Proclamar Libertação 33, p. 209). Ou, também, um belo vaso com galhos de videira (com e sem folhas). Prece (como oração do dia): Tua graça é maravilhosa, ó Senhor, como a semente que foi plantada um dia! O broto da videira, a terra, a água, o sol, um dia, foram esperança e hoje se destinam a fartar e a distribuir alegria e vida.

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Frutos de teu amor, que compartilhamos como um presente da tua presença; como um presente de paz e de unidade entre nós. Bendize-nos, ó Senhor! Com um pedaço de pão e um pouco de vinho, ensina-nos a repartir, a viver em comunidade e a servir, com fé e com esperança sempre renovada. Amém.

Bibliografia KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. BITTENCOURT, B. P. A forma dos Evangelhos e a problemática dos Sinóticos. São Paulo: Imprensa Metodista, 1969. SOUZA, Mauro Batista (coord.). Proclamar Libertação 33: Auxílios Homiléticos. São Leopoldo: Sinodal / EST, 2008. p. 205-210.

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PRÉDICA: 1 JOÃO 2.1-6

6º DOMINGO DA PÁSCOA

JOÃO 15.9-17 ATOS DOS APÓSTOLOS 10.44-48

13 MAI 2012

Anelise Lengler Abentroth

1

Introdução

Eis um tempo muito especial para nós. O segundo domingo de maio é, no calendário civil, o Dia das Mães. A IECLB tem adotado esse domingo como o Dia Nacional da Diaconia. São duas datas significativas, para as quais os textos previstos podem ser de grande auxílio. O conteúdo dos textos gira em torno dos mandamentos e da obediência a eles, do pecado, da fé, do amor e do dom do Espírito Santo. Há muitas tradições envolvidas, há muitos conflitos presentes, há rupturas e mágoas, há doutrinas conflitantes, há o pentecostes dos pagãos. Tudo isso permeado por um tema: o amor incondicional de Deus, revelado em Cristo, que nos faz agir como seus amigos e amigas, numa ética que leva a sério o amor de uns pelos outros. Penso que o tema está intimamente ligado à figura materna e ao serviço cristão de amor.

2

Exegese

1 João 2.1-6 faz parte da carta cuja autoria foi atribuída ao autor do quarto evangelho: João. O nome do autor não é mencionado. Ela também não possui os elementos formais de uma carta, pois faltam o prefácio e um pós-escrito. Autores afirmam que há conceitos semelhantes entre a epístola e o evangelho, porém com algumas diferenças. Enquanto o quarto evangelho reflete sobre a revelação histórica de Cristo, a epístola mostra-nos como ela foi recebida e vivida pela comunidade e pelos cristãos. Provavelmente, ela foi enviada a um círculo de comunidades na região da Ásia Menor, perto de Éfeso, entre os anos 85 e 90, que precisavam ser advertidas do perigo de heresias instaladas por pensamentos gnósticos, especialmente quanto à questão do pecado e da fidelidade aos mandamentos. A realidade presente é de tensão e conflito. Conforme Houtart, o contexto é de produção escravagista, que dividia a sociedade em duas classes: homens livres e escravos. Os homens livres constituíam o Estado, com direitos e deveres. Eles organizavam o processo de trabalho, dividiam o produto e o excedente produzido pela mão de obra escrava. O monopólio da religião e da política estava em suas mãos. Consideravam-se superiores, enquanto os escravos eram seus objetos, sua posse. Esse sistema era aceito e considerado normal naquela região. Além disso, Éfeso era um grande centro de comércio de escravos. A carta não nos revela a situação das pessoas pertencentes às comunidades. Apenas faz menção da realidade na qual estão, que é de luz e

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de trevas e que muito facilmente os faz pecar. O autor pede aos cristãos para não amar este mundo (2.15s), mas sim buscar a comunhão uns com os outros (1.6-7), a partilha (3.16-17) e o amor (4.7-21). Na perícope indicada, o tema gira, especificamente, em torno do pecado. O autor admoesta a comunidade para não pecar (levar a sério essa luta). O pensamento gnóstico desconhece o termo pecado. Para os gnósticos, Jesus foi um homem bom, no qual o Cristo celestial viera habitar desde o seu batismo até pouco antes de sua crucificação. Deus não poderia ter se tornado homem, pois Ele é espiritual, e não poderia ter se tornado matéria. Há outra versão dessa heresia: o docetismo (de dokein, parecer), que afirmava que a encarnação foi aparente e não uma realidade concreta. Uma vez que eles não levam a sério a corporalidade, também não observam os mandamentos e nem o amor fraterno. Conforme Lúcio Schwingel (PL XIII, p. 219), para os gnósticos, “pecado era apenas uma questão ligada ao corpo (carne) e não tocava o espiritual. Pelo conhecimento o espírito era liberado do pecado. Os ‘iluminados’, portanto, viviam sem pecado. Com isso, autojustificavam-se e promoviam a sua própria glorificação”. Ele continua: “Concretamente, o pecado consiste nisto: de, em nome de Deus, viver em conformidade com o mundo e sustentar ideologicamente um sistema em que ‘homens livres’ vivem às custas de escravos”. João dirige-se aos destinatários da carta como “meus filhinhos”, como seus filhos e filhas na fé. Ele faz uma admoestação bem clara: “Não pequeis”. Não vivam mais sob o jugo da lei, que separa as pessoas entre merecedoras do amor de Deus e as impuras. Também não vivam procurando autojustificar-se por meio do conhecimento, como se aquilo que o corpo experimenta não dissesse respeito à fé. Mas, se porventura alguém pecar, tem um advogado junto a Deus: Jesus Cristo, o justo. O que os que não creem não podem ver é a certeza de fé de que a morte de Cristo na cruz é o triunfo da glória celeste, visto e interpretado por meio de sua ressurreição. Borkmann afirma que “na entrega de seu filho, o amor salvador de Deus para com o mundo tornou-se um acontecimento, atingindo o seu clímax no serviço que Jesus realizou por seus discípulos (o lava-pés). Esse acontecimento, por sua vez, torna-se fundamento do amor dos discípulos uns para com os outros (p.132)”. O amor de Deus trouxe Cristo como propiciação pelos pecados não somente individuais, mas também coletivos, ou seja, do mundo (v. 2). Pois, embora o mundo seja criação de Deus e dele necessita vida e luz, sempre fechou os olhos para essa verdade e optou pelo engano e pela falsidade. O conhecer a Cristo está intimamente ligado com o guardar os mandamentos. E guardar os mandamentos não se relaciona apenas a questões morais, comportamentais. Mas se deixar transformar em sua forma de crer e de ser, abandonando o próprio egoísmo e individualismo, que geram dor e morte, para viver novas relações fraternas, que geram e cuidam da vida. É mentiroso quem diz que conhece Cristo, mas não vive de maneira diferente daquela que o mundo propõe. Porém quem vive essa nova relação com Cristo e com o seu servir em amor tem sido aperfeiçoado. Permanecer em Cristo não é uma opção de comportamento moral. Antes, é consequência de uma aceitação de fé, em que o Espírito da Verdade habita e promove profundas mudanças éticas e de relações sociais.

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Enquanto, nas cartas pastorais, aparece uma compreensão mais hierárquica das comunidades, com instituição de presbíteros (mais velhos), epíscopos e diáconos, no Evangelho de João e na epístola não existem esses ofícios. O Espírito é dado a toda a comunidade e, em Atos (no texto complementar), ele é dado por Deus também aos não judeus por intermédio da Palavra. João afirma que pecado não é somente fazer ou deixar de fazer algo. É condição do ser humano que se engana se não reconhece a si mesmo como pecador. Importa conhecer a Cristo e manter comunhão com Ele. Cristo é o Filho de Deus, que se tornou carne, morreu a morte da propiciação, que reconcilia os seres humanos com Deus. Ele é o próprio salvador do mundo (4.14). Se andarmos nessa luz, obedeceremos aos mandamentos e manteremos comunhão uns com os outros. O que quer o autor é acentuar a unidade de fé e ação, a fim de fortalecer a comunidade para uma vivência ética de fé, contra as influências dos hereges.

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Meditação

A pós-modernidade tem levado ao chão uma boa parte dos valores e dos parâmetros vividos em nossas comunidades cristãs. A chegada maciça dos meios de comunicação e a internet têm trazido sua dose diária de doutrinação estranha ao testemunho bíblico. Percebemos que, mesmo entre as pessoas cristãs, o evangelho tem deixado de ser lido e estudado, pois há uma gama enorme de produções audiovisuais bem elaboradas que massageiam o ego e que podem ser enviadas e reenviadas ao simples toque da mão. A fé é confundida com pensamento positivo, com filosofias orientais e um espiritualismo crescente. Caminhamos para um Brasil com maioria de evangélicos em poucos anos. Então perguntamos: Como estão vivendo as pessoas? Estão mais felizes do que anos atrás? Elas encontram sentido em sua vida e em seu trabalho? Há dignidade, respeito e cuidado de uns pelos outros? E o serviço diaconal das comunidades, há um número necessário de pessoas engajadas? Como está o envolvimento comunitário nos conselhos municipais e nas organizações populares? O amor ao dinheiro e a obediência servil às regras por ele impostas têm tornado a vida da grande maioria um fardo e sacrifício. Sacrifício da saúde, das relações familiares, do lazer, do serviço voluntário, da alegria de viver. Ao mesmo tempo, a felicidade é buscada por meio do consumo exagerado, da busca pelo prazer, da adrenalina, da embriaguez dos sentimentos e sensações. Se esse êxtase não é conseguido por meio das possibilidades reais (materiais) individuais, então se recorre ao plano espiritual. Encontramos cada vez mais pessoas “espirituais” que não se envolvem com ninguém, a não ser consigo mesmas e com o “seu” deus, buscando preencher o vazio que há dentro de si. Nas igrejas, o pecado continua sendo situado no campo moral, comportamental, e a obediência aos mandamentos tem servido como parâmetro para apontar o bom ou mau cristão, como julgamento crítico. Tornou-se difícil falar do Cristo que se entregou como sacrifício único para a expiação dos pecados e dá-nos uma nova vida, que não está “condenada” a viver conforme a sociedade impõe, por causa da graça e do amor de Deus que

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quer salvar o mundo. Aqui tudo se vende e tudo se compra. O erro se paga, o amor se conquista, o cuidado se obtém mediante pagamento. Portanto, a salvação e o perdão também devem ser negociados. Ainda continua bem atual a expressão: “Eu conheço a Cristo, Ele me salva, me cura na medida em que demonstro minha fé para Ele (não para o próximo)”. Grande parte do povo que entra nas igrejas sai delas sem conhecer quem estava a seu lado. E como vivem e se relacionam lá fora no dia a dia? Eis a importância do anúncio: aquela ou aquele que guarda a Palavra tem sido verdadeiramente aperfeiçoado no amor de Deus. Aquela ou aquele que diz que permanece nele necessita viver de forma coerente com o testemunho de Cristo. O que as pessoas mais necessitam neste mundo é saber-se amadas e aceitas incondicionalmente, também cuidadas e necessárias para alguém. Eis o que o dinheiro não consegue dar. Nele há outra lógica. O amor vem de Deus e nos foi dado por Ele. Cristo mostrou-nos como viver desse amor e como deixar que nossas ações sejam guiadas por ele. O amor de Deus cria laços, importa-se, sofre, busca, cura e salva. Não importa onde estamos, se em trabalho, lazer ou em família. Somos os mesmos, as mesmas. Bom é quando vivemos assim, mas se não conseguirmos, temos um advogado que nos acolhe e nos justifica. É difícil manter nossas relações amorosas e verdadeiras quando tudo à nossa volta nos coloca outros parâmetros bem sedutores, onde os laços são tão tênues ou voláteis, que não há por que se arrepender dos erros cometidos, pedir ou dar perdão. Basta partir para outro! Mandamentos são necessários. São balizas que nos ajudam a conduzir nossas atitudes. Não são leis apenas. Eles necessitam ser consequência do amor que nos foi dado. O amor faz-nos cumprir os mandamentos não em nosso favor, mas em favor de outra pessoa. Se somos fiéis e não traímos, é por opção e respeito a quem está ao nosso lado. Se não lesamos e partilhamos, não é porque somos bonzinhos, mas porque nosso próximo necessita tanto (ou mais) do que nós. Se procuramos não dar falso testemunho, é porque nada se constrói sobre o fundamento da mentira ou da inveja. Importa lembrar que nossa sociedade se construiu sobre hierarquias de valores e separou as pessoas entre aquelas que mais valem e aquelas que menos valem: homens e mulheres, patrões e empregados, ricos e pobres, adultos e crianças, brancos e negros, hetero e homossexuais etc. Amar uns aos outros é considerar o amor de Deus por cada uma de suas criaturas. Eis o grande mandamento, o amor que Deus quer aperfeiçoar em nós.

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Imagens para a prédica

Num plantão semanal, surge um homem visivelmente angustiado. Ele não era membro daquela igreja, mas veio buscar uma orientação espiritual. Tudo estava se quebrando em sua vida. De certa forma, tinha rompido relações com todas as pessoas de sua família (pai, mãe, filho, filha, ex-esposa). Estava trabalhando como vendedor com um sócio e viajava muito. Depois de uma desavença, foi deixado num posto de combustível pelo sócio, enquanto lavava suas roupas. Ques-

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tionou se tudo isso estaria acontecendo a ele por estar muito distante de Deus e o que deveria fazer. Depois de muita conversa, ele confidenciou: eu não queria ouvir que preciso ir ao encontro de minha família, muito menos perdoá-la. Ainda não estou pronto para isso. Pensei que nessa igreja me diriam que bastaria eu me converter, tornar-me membro, e Deus me ajudaria. Há um texto do psiquiatra Carlos Hecktheuer intitulado “Mães más”, que me inspirou a paráfrase abaixo: Um dia, quando os homens e mulheres forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva Deus, a fonte do amor lhes dirá: Eu os amei o suficiente para não ter ficado calado, distante e fazer com que vocês soubessem que aquela nova maneira de viver, copiada do novo amigo ou amiga, não era o que eu queria para vocês. Eu os amei o suficiente para fazê-los devolver tudo aquilo que tinham conseguido com sua esperteza, mas que criaria problemas entre vocês e os demais. Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês tantas horas, enquanto consertavam os estragos que a sua forma de mexer na minha criação causou a vocês. Eu os amei o suficiente para deixá-los ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas de meus olhos por sua teimosia. Eu os amei o suficiente para deixá-los assumir as responsabilidades de suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras, que me partiam o coração. Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dar-lhes leis e limites, quando eu sabia que podiam me odiar por isso. Essas eram as mais difíceis batalhas de todas. Eu hoje estou contente, pois venci... Porque, afinal, vocês venceram também! E em qualquer dia, quando meus netos, netas, bisnetos, bisnetas, forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva seus pais e mães, quando eles perguntarem se Deus era mau, vocês responderão: Não! Nosso Deus é puro amor. Amor exigente. Amor que gera, que cuida, que salva! Amor que ensina a amar.

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Subsídios litúrgicos

Oração: L: Ó Deus, fonte do amor eterno! Suplicamos-te pelo coração que pulsa em nossos corpos e pela liberdade de sentir o teu amor por nós. Nós te pedimos: C: Aperfeiçoa-nos no teu amor. L: Perdoa-nos quando nos deixamos dominar por princípios individualistas e pelos valores alheios ao teu evangelho. Nós te pedimos: C: Aperfeiçoa-nos no teu amor. L: Que possamos crescer como seres humanos num todo, refletindo sinais da tua nova criação. Nós te pedimos: C: Aperfeiçoa-nos no teu amor.

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L: Que o agir orientados por teus mandamentos seja a nossa maneira de cuidarmos uns dos outros neste mundo. Nós te pedimos: C: Aperfeiçoa-nos no teu amor. L: Torna-nos pessoas aptas para servir uns aos outros, tirando o teu evangelho das quatro paredes. Faze de nós tuas testemunhas. Nós te pedimos: C: Aperfeiçoa-nos no teu amor. L: Ajuda-nos a anunciar a boa-nova, os sinais do teu reino de amor, justiça e de paz verdadeira, com ações de misericórdia, de cuidado e de solidariedade. Nós te pedimos: C: Aperfeiçoa-nos no teu amor. Kyrie:

A Palavra nos diz: Digam a verdade a seu próximo. Porém nós mentimos diariamente, alteramos a verdade, escondemo-nos das situações que nos rodeiam ou nos deixamos vencer pela impunidade. Perdoa-nos, ó Deus: C: Kyrie. A Palavra nos diz: Não roubem. Nós nos deixamos levar pela corrupção, desde as mais pequenas até as que causam grandes privações. Enriquecemos nossas casas, consumindo a criação e tirando a saúde de irmãos e irmãs. Perdoa-nos, ó Deus: C: Kyrie... A Palavra nos diz: Sigam o caminho do Senhor a exemplo de Cristo. Porém nós nos deixamos levar pelos modelos que nos são ofertados diariamente, aqueles cujos deuses são outros. Perdoa-nos, ó Deus: C: Kyrie...

Bibliografia LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1974. HOUTART, F. Religião e modos de produção pré-capitalistas. São Paulo, 1982. BORNKAMM, G. Bíblia Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulinas, 1981. WIKIPEDIA. 1 Epístola de João. Autoria, Data, Primeiros leitores, Objetivo, Esboço.

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PRÉDICA: ISAÍAS 33.13-17, 22

ASCENSÃO DO SENHOR

JOÃO 14.1-12 COLOSSENSES 3.1-11

17 MAI 2012

Everton Ricardo Bootz

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Introdução

João 14 é um texto de Ascensão por excelência. Jesus Cristo está se despedindo de seus discípulos, pois sua hora está próxima (morte, ressurreição e ascensão). Jesus procura consolar seus discípulos (v. 1), pedindo que, a despeito de sua ausência, eles poderão continuar a confiar e a fazer as mesmas coisas (ações) que ele fez e até maiores (v. 12). Tudo isso se houver sintonia (unicidade) com Deus Pai (v. 9ss). Entre essas ações podemos considerar aquelas do texto de Colossenses. A Carta aos Colossenses pode ser dividida em dois grandes blocos: teológico (1.3-3.4) e ético (3.5-4.6). Nosso texto encontra-se exatamente no meio desses dois blocos, exprimindo-os resumidamente. Os v. 1-4 transmitem a ideia da sintonia (como em João) que os novos conversos devem ter com o Jesus ressuscitado, para que fiquem a salvo das más influências gnósticas (aspecto teológico); por sua vez, os v. 5-11 discriminam quais atitudes refletem uma sintonia com Cristo e quais com o velho Adão. Essas ações são de cunho subjetivo, ou seja, referentes basicamente ao indivíduo. Isaías 33 oferece outro tipo de ação promovida por quem está em sintonia com a aliança feita entre Deus e seu povo. Essas ações são de cunho mais social, como demonstraremos mais abaixo. Portanto os três textos podem ser utilizados nesta linha de raciocínio: o texto mais recente (João) introduz a temática da Ascensão e a importância da sintonia com Jesus para as possibilidades de ações evangélicas; os outros dois textos apresentam mais especificamente quais podem ser essas ações.

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Exegese

Isaías 33 está localizado no primeiro bloco do livro (1-39) conhecido como Primeiro Isaías, referente à época anterior ao exílio babilônico (746-700 a.C.). Contudo, o capítulo 33 em si pertence à época posterior ao exílio, ou seja, 500 a.C. É um enxerto, com a finalidade de fechar o bloco até 32. Nele há duas liturgias proféticas (v. 1-6 e 7-24). A primeira é uma oração que procura evocar a esperança a despeito da força do inimigo. O Senhor tem misericórdia de Jerusalém (v. 2) e destruirá o destruidor (v. 1). A Assíria é a grande opressora e será queimada, pois rompe alianças (v. 7, 8b), assola o território ao redor da capital (v. 8a) e destrói cidades (v. 9). A segunda liturgia é uma lamentação (onde se situa

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Ascensão do Senhor

o nosso texto), lembrando que o Deus de fogo pode fazer perecer não somente o inimigo, mas também os habitantes de Jerusalém. O v. 13 expressa que tanto o agressor (longe) como o próprio povo (perto) devem reconhecer o poder devorador de Deus. Pois (v.14) em Jerusalém há pecadores e ímpios que se perguntam: “quem dentre nós habitará com o fogo devorador?” (parte da liturgia de entrada). São pessoas que não seguem a vontade de Deus ao oprimir o justo. O v. 15 descreve quais são elas: a) aquele que não pratica a justiça, e sim a prática de pureza ritual vazia; b) o que não fala/ decide com retidão, lembrando a posição de um juiz; c) aquele que ocupa cargo de poder e faz uso para extorquir, lucrando com isso; d) aquele que ocupa cargo de poder, aceitando suborno em detrimento do necessitado; e) aquele que é parcial no julgamento de homicídios, dando ouvidos a falsidades; e f) enxergando o mal onde não há. Essas ações pressupõem questões de ordem social e de justiça. Pressupõem atitudes de pessoas com poder e que fazem mau uso do mesmo, beneficiando a si em detrimento do resto. Esses serão destruídos juntamente com o inimigo pelo fogo eterno. Mas aqueles que agirem com justiça e forem obedientes a Deus, beneficiando o necessitado, ou seja, usando de misericórdia, subsistirão ao fogo e serão abençoados com uma fortaleza e sustento (v. 16 e 17). Não apenas isso, como também serão agraciados a ponto de ver o messias (Jesus?) chegar para reinar na terra prometida restaurada. O v. 22 traduz a concepção de Deus como um rei assumindo os três poderes nele mesmo. O v. 22 (segundo o Almeida) usa três substantivos para descrever o poder de Deus: juiz (v. 22a), legislador (v. 22b) e rei (v. 22c). Conclui afirmando que, com esses três poderes, Ele nos salvará (v. 22d) dos poderes inimigos (pecado estrutural internacional – v. 7-13a) e de nós mesmos (pecado social – v. 13b-17). No antigo Israel, fé e ação política encontravam-se estreitamente relacionados. Desde os primórdios, os israelitas guerreavam por terra, e depois, para defendê-la de seus inimigos, pactuavam com Deus (por meio de alianças) para ajudá-los nessa empreitada no tabuleiro político do primeiro milênio antes de Cristo. Às vezes, a fé era subordinada à política e, outras vezes, vice-versa. Os profetas, contudo, sempre lembravam que a fé deveria ser o referencial último para a política, e não o contrário. Nesse texto, os exemplos de atos justos são mormente reflexos de ações políticas (juiz, pessoas em cargos de poder econômico e político). Pois é por intermédio de ações justas que a salvação surge, ou seja, por meio de políticas públicas devidas e justas. Os dirigentes de um povo são os responsáveis diretos pela direção do povo de Deus – isso, pelo menos, no antigo Israel. O inverso também é verdadeiro: mediante as ações enunciadas no v. 15, um povo é devorado pelo fogo de Deus, ou seja, pelos inimigos enviados por Deus. Essa ideia (v. 1,6) presente no texto remonta ao período posterior ao exílio, quando o povo havia desenvolvido o entendimento de que Deus havia permitido à Babilônia destruir Jerusalém e seu templo como sinal de que a aliança firmada com Davi havia sido rompida pelo povo ao não respeitar mais suas leis. O Deus de Israel é um Deus que governa com justiça. Isso pode ser percebido segundo

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Ascensão do Senhor

a interpretação política do v. 22, que expressa o que hoje conhecemos como os poderes do Judiciário (juiz), Legislativo (legislador) e Executivo (rei). Pode-se dizer que o v. 15 implica, assim, que Deus age por meio de pessoas para governar seu povo, esperando desses ações devidas ao mandato delegado. O texto expressa que Deus sempre de novo delega na esperança de que seu povo aprenda a viver em harmonia (paraíso) com Deus, ou seja, aplicando as regras sociais de justiça e solidariedade (amor). Com o tempo, esse aprendizado gerou constituições, tais como as que temos hoje em nosso mundo. Constituições que estruturam o Estado a partir de três poderes: o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. Poderes estruturados com autonomia um do outro para poder agir com imparcialidade, mantendo assim, dentro das possibilidades, um Estado Democrático de Direito, com função social, onde leis e normas regulam a vida dos cidadãos, permitindo-lhes viver em liberdade e direitos como nunca antes. Ao relacionar o v. 22 com o atual Estado político brasileiro, trazemos para hoje o que no antigo Israel todo profeta concebia como natural: a ação política deve estar pronta a reconhecer a sua impotência, a não se basear na própria força e sabedoria e a renunciar à autossuficiência, e a ação política só é possível para quem sabe ter sido chamado por Deus, para quem passa pela experiência de estar na presença de Deus, que sempre que necessário sai da obscuridade, mostra a borda de seu manto, dá a sua ajuda e concede as suas promessas.

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Meditação

A temática desenvolvida na parte anterior é específica para momentos políticos ou eventos de cunho político (ex.: Dia do Trabalho, Dia da Independência, Proclamação da República, celebrações a partir de ações conjuntas entre a comunidade e o poder público etc.). Mas o texto de Isaías está previsto para o Dia da Ascensão de Nosso Senhor. Muitos de nossos membros não aceitam uma abordagem bíblica com tamanha clareza política. Portanto sugiro uma abordagem não tão direta, mas igualmente política, pois esse é o teor teológico básico do texto. 3.1 – Contexto a) Inicialmente, sugiro trabalhar o momento histórico do texto, apresentando a época anterior ao exílio, a invasão da Assíria, a destruição de Israel (norte) e a subjugação de Judá (sul), onde vivem o nosso profeta Isaías e o povo desobediente. b) Importante mencionar o aspecto teológico da aliança rompida, que levou Deus a levantar sua proteção prometida e a permitir a destruição de seu povo pelos assírios. c) Mostrar a diferença entre castigo e descumprimento da aliança, ou seja, que Deus não castiga o povo, apenas retira sua proteção, deixando que vivam segundo sua arrogante independência. d) Recordar que Deus é um Deus do povo e não tanto de indivíduos; a individualidade só tem sentido quando relacionada com o todo social.

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Ascensão do Senhor

3.2 – Contextualização a) Então, trazer para os dias de hoje, mencionando inicialmente que Deus não age de maneira invisível, mas assim como em Salomão e Isaías, sempre envia pessoas para guiar o povo, segundo os preceitos do Senhor. No caso de Salomão e seus descendentes, Deus envia governantes que guiam o povo segundo seus preceitos, ou seja, segundo uma maneira harmoniosa e justa de convivência humana. Mas, quando esses reis usurpam o poder e fazem o que não é justo diante dos olhos do Senhor, então ele também envia pessoas (profetas) que procuram corrigir esses governantes, pessoas como Isaías. Podem-se usar os atos do v. 15, por exemplo, como um referencial para a comunidade ouvinte. b) Mencionar que, se hoje vivemos numa sociedade em que podemos ir e vir em liberdade e segurança, é porque Deus, por intermédio de governantes e profetas, ou seja, através da história, tem desenvolvido seu reino de justiça entre nós, na forma de sociedades como as que conhecemos e nas quais vivemos. Que há governantes bons e não tão bons e que por isso há também pessoas que lutam contra as injustiças e que todas elas, governantes e profetas, são enviadas por Deus com um propósito: possibilitar vida abundante para todos (função social do Estado). c) Então trazer nesse ponto a pessoa de Jesus, segundo João 14, lembrando que também foi enviado como um profeta para guiar a nós todos, apontando as injustiças contra pobres, viúvas, doentes e criancinhas e prenunciando um reino com mais justiça a partir de nossas ações. Sua ascensão, nesse escopo, pode ser interpretada como a vitória sobre todo tipo de força que promove a morte ou pode ser interpretada como o sinal de que Deus continua ainda hoje a promover seu reino de amor e justiça, ao não permitir que seu enviado terminasse morto na cruz, mas lhe permitindo viver até os dias de hoje. 3.3 – Compromisso Mencionar, em seguida, o texto de Colossenses, onde o apóstolo Paulo, outro profeta, exorta para que vivamos em sintonia com as normas desse Deus de amor e de justiça, e não em sintonia com as leis que escravizam as pessoas nelas mesmas. Mencionar os v. 5 e 8s como exemplos negativos, culminando na exortação para sermos iguais a Cristo (v.10), ou seja, ações (sociais) que partem do conhecimento de que não há diferença entre pessoas, mas onde Cristo é um em todos, assim como, em João, Cristo é um com o Pai (Jo 14.9-11). Concluir, mencionando que Deus (do povo) chama a todos para ser bons cidadãos, segundo os preceitos de seu reino de justiça, exemplificados em Isaías, João e Colossenses, pois se assim o formos, então estaremos nos despindo (morrendo) da antiga roupa e revestindo-nos de nova roupagem (Cl 3.10), tricotada com atitudes de amor e de justiça, uma ação social que exemplifica nossa ascensão para patamares mais elevados de vida. Um patamar onde o outro conta mais do que eu mesmo; onde a outra é tão importante quanto a pessoa mais querida em minha família; onde

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Ascensão do Senhor

passo a entrar em sintonia com Cristo, ascendido juntamente com Ele, juntamente com todos, vivendo em pleno reino de amor e de justiça. Amém.

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Imagens para a prédica

História: Para a finalização da mensagem, pode-se contar uma história. Sugiro a história “O vestido azul”. Procurar em “As mais belas parábolas de todos os tempos”, v. I, p. 87, ou digitar o título no Google. Essa história dá subsídios para conectá-la com a mensagem recém-desenvolvida: uma simples ação de solidariedade pode desenvolver um efeito dominó, a ponto de transformar um bairro. Tais ações evangélicas são testemunhos concretos da Ascensão de Nosso Senhor e de seu reino de amor e de justiça. Reforçar a ideia de que estamos todos envoltos por uma teia, uma rede de relações sociais, na qual uma ação afeta todos inevitavelmente. Se essa for nociva, todos sofreremos as consequências, até quem deu início ao efeito dominó. Se for evangélica, igualmente todos sairemos beneficiados. Pode-se, contudo, apenas contar a história e deixar que produza seu efeito dominó por si mesma, sem maiores explicações.

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Subsídios litúrgicos

Pelo fato de Isaías 33 conter duas liturgias com diferentes teores, podemos fazer uso disso, aplicando-as em nossa liturgia. Assim, sugiro os seguintes subsídios litúrgicos: a) Versículo de abertura: “Haverá, ó Sião, estabilidade nos teus tempos, abundância de salvação, sabedoria e conhecimento; o temor do Senhor será o teu tesouro” (Is 33.6). b) Voto Trinitário: “Em nome de Deus o Pai, sempre em sintonia com Seu Filho; em nome de Jesus Cristo, nosso Salvador Ascendido; e em nome do Espírito Santo, que nos anima a viver em harmonia comunitária. Amém!”. c) Confissão de pecados: “Senhor, tem misericórdia de nós; em ti temos esperado; sê Tu o nosso braço manhã após manhã e a nossa salvação no tempo da angústia!” (Is 33.2). d) Absolvição: É nosso Senhor quem nos garante que, se nossa confissão (fala) for reta (v. 15a), somos elevados (ascendidos) às alturas, onde encontraremos morada de proteção e descanso, como um castelo; onde teremos fartura de pão e água, que saciam nossa sede por paz e nossa fome por justiça (v. 16). e) Oração do dia: “Tu, Senhor, prometeste tempos de abundância de vida e salvação; prometeste nos ensinar tua sabedoria e nos compartilhar teus conhecimentos; prometeste a nós um tesouro, mediante nosso temor diante de ti (v. 6). Pois estamos aqui, prontos para ouvir teus ensinamentos. Fala, Senhor, porque teu servo ouve somente a ti” (v. 15c).

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Ascensão do Senhor

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías – O profeta da justiça e da fidelidade. V. I: 1-39. São Paulo: Vozes/Sinodal, 1989. EISELEN, Frederick Carl & et alii. The Abingdon Bible Commentary. New York: Abingdon Press, 1929. FOHRER, Georg & SELLIN, E. Introdução ao Antigo Testamento. V. II. São Paulo: Paulinas, 1977. FOHRER, Georg. Estruturas Teológicas Fundamentais do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.

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PRÉDICA: ATOS 1.15a, 21-26

7º DOMINGO DA PÁSCOA

JOÃO 17.1a, 6-19 1 JOÃO 5.9-13

20 MAI 2012

Jeferson Andre Samuelsson

1

Introdução

O livro de Atos (assim como o Evangelho de Lucas) destina-se a Teófilo, provavelmente um romano que pertencia a uma classe rica e influente. O escrito possui um grego fluente e bem elaborado e destina-se, principalmente, a gentiocristãos. O alvo de Lucas aparece em cada capítulo. Ele queria relatar, em primeiro lugar, como o dom do Espírito Santo foi concedido no dia de Pentecostes e mostrar que o trabalho dos apóstolos que se seguiu deve-se ao auxílio e ao ministério do Espírito Santo. Esse e sua obra são mencionados umas setenta vezes no decorrer do relato de Atos. Por isso o livro é chamado por um estudioso de “evangelho do Espírito Santo”. Em segundo lugar, Lucas quis relatar a difusão do cristianismo não apenas entre os judeus, mas também entre os gentios, como um progresso do evangelho. Ainda um terceiro propósito: Lucas ensina que somos justificados somente mediante a fé cm Cristo Jesus, sem as obras da lei. Daí o uso frequente da palavra “graça” e a contínua referência às boas-novas da misericórdia de Deus em Jesus. O livro de Atos, além de demonstrar as decorrências da ressurreição, procura relatar a difusão do cristianismo e os feitos pessoais ou a história dos apóstolos. Observamos em suas páginas como a igreja cristã se formou e estabeleceu. Os apóstolos proclamaram a verdade de Deus sobre paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus. Mas Deus acompanhou o testemunho deles com a manifestação do Espírito Santo. Foram abraçados pelo amor de Deus e, publicamente, professaram sua fé, mesmo sabendo dos riscos que corriam.

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Exegese e meditação

Considerando a mesma autoria de Lucas e Atos, percebemos que o evangelista enfatiza a espera do cumprimento da promessa do envio do Espírito Santo. A ordem de Jesus em Atos, de não ausentar-se de Jerusalém até que se cumprisse a promessa do Pai (At 1.4), é a mesma de Lucas: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais investidos de poder” (Lc 24.49). Respondendo sobre a restauração do reino de Israel, Jesus ressalta que não competia a eles conhecer tempos ou épocas que o Pai reservara para sua exclusiva autoridade. Mesmo com essa restrição, Jesus enfatiza que eles receberiam poder

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7º Domingo da Páscoa

ao descer sobre eles o Espírito Santo e que seriam testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria até aos confins da terra (At 1.8). Como deviam esperar em Jerusalém para receber o Espírito Santo, voltaram ao lugar usual onde se reuniam: no cenáculo, que provavelmente fora a casa de um discípulo. Os discípulos celebravam reuniões públicas no templo (Lc 24.53), especialmente interessados na obra missionária. No entanto, a consolação e o encorajamento mútuo realizavam nas casas dos membros da congregação. Como indicam as páginas de Atos, muitos deles são citados nominalmente. Foram preservados, apesar do temporal de adversidades que os atingira com muita violência, ocasionado pela paixão e morte de Jesus Cristo. Agora, no entanto, queriam iniciar o trabalho que lhes fora designado, esperando apenas pelo prometido poder do alto: o envio do Espírito Santo. Entre a ascensão e o pentecostes, perseveraram em oração, no mesmo sentimento. Por certo que sentiam sua fraqueza e pobreza espiritual e estavam ansiosos para receber o dom que Jesus lhes prometera. O modo como agiram serve de exemplo para nós e para os cristãos de todos os tempos, pois se reuniam tanto em público como em particular, perseverando na oração sincera. A perícope de Atos, proposta para esse dia, não tem muitos contornos e relevos, nem tantas possibilidades de leituras diferentes. Trata-se da escolha de um apóstolo para ocupar o lugar deixado por Judas. A respeito disso trata a própria sequência do texto a partir do v. 15. Há, no entanto, alguns pontos a serem pensados: a assembleia com mais de 120 pessoas, as qualificações específicas do candidato, a eleição e o conteúdo da oração. Deixando de lado o “lançar sortes” (v. 26), temos uma espécie de procedimento a ser seguido quando uma comunidade precisa tomar decisões ou escolher dentre as pessoas um representante, um líder ou alguém para ocupar um determinado cargo. Havia uma lacuna a ser preenchida. O autor não nos informa por que o grupo deveria ser completado por um 12º apóstolo em lugar de Judas. Também os evangelhos nada informam sobre essa iniciativa. Mas o número doze provavelmente é uma alusão aos patriarcas do povo de Deus da antiga aliança, que agora será restaurado a partir da atividade dos doze discípulos de Jesus. Mais tarde, esse grupo foi aumentado por outras lideranças, como o apóstolo Paulo. “Naqueles dias” (At 1.15), ou seja, num dos dez dias entre a ascensão de Cristo e o derramamento do Espírito Santo, numa das reuniões realizadas, Pedro assumiu a iniciativa, ergueu-se e, em pé diante de todos, falou-lhes sobre um assunto muito importante. Na ocasião, o grupo compunha-se de aproximadamente 120 pessoas. Pedro chama-os de irmãos, pois estão unidos pela mesma fé. Ele próprio também é um irmão; mesmo que atue como porta-voz, é um deles, que atua com o consentimento deles. De modo solene, dirige-se à assembleia como irmãos, destacando que, antes de tudo, foi necessário que a Escritura se cumprisse. A traição de Judas fora predita mais de mil anos antes (Sl 41.9). Depois de referir-se à vacância no número dos apóstolos, Pedro fez a proposta para a eleição de um homem para suceder Judas no sublime ofício da proclamação da mensagem de Deus e para fazer parte do grupo dos doze. Era neces-

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7º Domingo da Páscoa

sário escolher, dentre os discípulos, alguém que desde o começo estivesse junto deles e de Jesus, alguém que fosse testemunha de todo o curso da vida de Cristo, desde o batismo por João até o dia da ascensão. Notemos que são apresentadas certas qualificações ao futuro integrante. Mesmo sem dar detalhes, Lucas revela a preocupação daquelas pessoas quanto à qualificação dos candidatos. No preâmbulo de seu discurso, Pedro fala “dos homens que nos acompanharam todo o tempo”. Outra tradução possível seria “dos homens que conviveram conosco”. Não se trata, portanto, de uma pessoa qualquer, mas de alguém conhecido, amigo, companheiro e digno de confiança. A qualificação pressupõe uma convivência de cerca de três anos, ou seja, “todo o tempo em que Jesus esteve conosco, desde seu batismo até que ascendeu”. Logo não poderia ser um neófito, com a empolgação dos recém-convertidos. Precisava ser uma testemunha do ministério terreno de Jesus e da ressurreição de Cristo. É necessário frisar que, sem a certeza da ressurreição de Jesus, o cristianismo torna-se uma ilusão, uma farsa. A experiência de participar de todos esses acontecimentos é pré-requisito para o novo apóstolo. Os apóstolos foram chamados para testificar a respeito daquilo que eles próprios viram e ouviram. A igreja recebeu o evangelho de Cristo por meio de testemunhas oculares e auriculares. Aceita a proposta de Pedro, propuseram-se dois homens para ocupar a vaga: José Barsabás e Matias. Esses dois homens eram talvez os únicos que possuíam as qualificações apresentadas por Pedro. Depois os presentes dirigiram-se a Deus, conhecedor dos corações (Jr 17.10), em oração. Ele conhece o coração das pessoas, não precisa refletir, e sim simplesmente designar o homem escolhido para ocupar o ministério e apostolado deixado vago por Judas. Saliente-se, ainda, que a oração dos discípulos serve como modelo para nós. Eles se limitam a apresentar seu pedido. Não repetem qualquer pensamento, nem elaboram nenhum ponto fora do necessário. Uma oração breve numa ocasião importante dificilmente seria considerada uma verdadeira oração em nossa época. Provavelmente, seria considerada uma oração volúvel. Tendo santificado o momento com a palavra de Deus, por meio da oração, lançaram sortes. Como fizeram isso, o texto não diz. Mas, provavelmente, seguiram práticas utilizadas no Antigo Testamento. Talvez utilizaram tabuletas com os nomes de José e Matias, sacudiram-nas num vaso ou noutro vasilhame. A primeira a cair forneceu a decisão (1Cr 24.5; 25.8; Lv 16.8; Nm 34.13). Foi incomum, é claro, a maneira de selecionar o novo apóstolo. O método, no entanto, não deve ser considerado um exemplo a ser seguido. Todavia, o uso da palavra de Deus e o sincero apelo para dirigir a escolha dos dirigentes da igreja nunca deveriam faltar em qualquer assembleia de uma congregação cristã.

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Subsídios litúrgicos

Oração (Coleta): Ó Rei da Glória, Senhor dos Exércitos, conhecedor dos corações humanos, que subiste com triunfo para além de todos os céus, nós te rogamos que não nos deixes sem consolo, mas que nos envies o Espírito da Verdade, prometido pelo

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Pai; ó tu, que vives e reinas com o Pai e o Espírito Santo, ouve a nossa oração. Amém. Oração geral ou responsiva: Como oração geral ou responsiva, pode-se utilizar o Salmo 139, um hino de confiança em Deus, que cuida de todas as pessoas e conhece-as desde o ventre materno.

Bibliografia BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento.Volumes 1 e 2. São Paulo: Vida Nova, 2000. KRETZMANN, Paul E. Popular Commentary of the Bible. St. Louis: Concordia Publishing House, 1921.

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PRÉDICA: JOÃO 15.26-27; 16.4-15

DOMINGO DE PENTECOSTES

EZEQUIEL 37.1-14 ROMANOS 8.22-27

27 MAI 2012

Daniel Kreidlow

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Introdução

O Domingo de Pentecostes celebra a vida e o ânimo que Deus tem concedido à sua igreja em todos os tempos e lugares. Pois, se nossas comunidades ainda estão em pé, testemunhando, ouvindo e vivendo o evangelho, é porque Deus nos tem concedido a sua graça por intermédio do Espírito Santo. O Espírito, que encheu os primeiros discípulos de coragem após um tempo de temor e abatimento, é o mesmo que sopra entre nós, permitindo que sigamos em frente como cristãos e comunidades de fé. Mais uma vez, o texto de João 15.26-27; 16.4-15 é previsto para o Domingo de Pentecostes, a festa que comemora o aniversário da igreja cristã. Nosso texto faz parte dos chamados discursos de despedida de Jesus (Jo 14-17). Entre outras coisas, esses discursos retratam a relação entre Jesus, o Pai, o Espírito Santo e os discípulos. No evangelho e na primeira carta de João, o Espírito Santo é denominado de parakletos. Etimologicamente, trata-se de uma palavra composta pela preposição para (junto a) e pelo adjetivo kletos (chamado), portanto chamado para estar junto a, correspondente a ad vocatu (advogado, em latim). A palavra sugere que o Espírito Santo é aquele que acompanha a comunidade ou está ao lado dela em seu testemunho ao mundo. Utilizaremos aqui a forma Paracleto, como consta no Dicionário Aurélio. Juntamente com o texto joanino, temos previsto para esse domingo outros dois textos muito significativos. Do livro de Ezequiel temos o conhecido texto do vale dos ossos secos (37.1-14). Ali se diz que Deus vivifica, pela palavra do profeta, um vale cheio de ossos sem vida por meio da respiração, do espírito. É o Espírito de Deus que conduz o profeta Ezequiel, e é o Espírito soprado por Deus que vivifica o que já estava morto. Da Carta aos Romanos, a comunidade reunida ouvirá o capítulo 8, versículos 22-27, que retratam o Espírito como o auxiliador, que assiste e intercede por todo o universo angustiado e sofrido. Os três textos previstos possuem muitos pontos de ligação, o que ajudará a comunidade na reflexão sobre o tema.

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Exegese

João 15.26-27 – No Evangelho de João, a narrativa das últimas horas de vida de Jesus é interrompida pelo assim chamado discurso de despedida. Jesus encontra-se junto ao grupo de pessoas que o seguiam. Despede-se delas e dedica

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a elas algumas palavras de ensino e instrução, entre as quais se encontra o anúncio do Paracleto, que virá da parte do Pai, enviado por Jesus. A palavra parakletos é traduzida de diferentes formas: advogado, auxiliador, intercessor, consolador, conselheiro. Já o significado do verbo parakaleo, no grego clássico, variava entre convocar, mandar chamar, intimar, exortar, encorajar, confortar e consolar, sugerindo um emprego na forma passiva, como o de alguém chamado para ajudar. Interessante é perceber que, diferentemente das fórmulas trinitárias encontradas no Novo Testamento, no Evangelho de João já percebemos indícios de uma reflexão sobre a relação que hoje definimos como trinitária. Aqui, o Paracleto é enviado por Jesus da parte do Pai para estar junto aos discípulos entristecidos e aflitos pelo fim próximo de seu mestre. O Espírito, como o Consolador, Auxiliador ou Advogado anunciado por Jesus, estaria ao lado dos discípulos, dando testemunho dele ao mesmo tempo em que auxiliaria no testemunho que se esperava dos seguidores de Jesus. Esse Paracleto, que como um advogado se colocará ao lado deles em um momento de perseguição (16.2; 16.33), terá a tarefa de apontar para Cristo, dando testemunho e falando de Jesus, e não de coisas estrondosas no futuro. Esse testemunho estará intimamente ligado ao dos discípulos (v. 27), pois ambos se relacionam e estão fortemente vinculados, como nos demonstra a sequência formulada no texto. João 16.4 – A parte final de nosso versículo estabelece uma conexão entre João 14.26-27 e o restante de nosso texto. A partir de agora, Jesus sabia que seria diferente do tempo em que estava ao lado dos discípulos. Como Ele tinha agido como um protetor, que direcionava para si os ataques destinados também a seus seguidores, Jesus não havia visto necessidade de adverti-los da perseguição que estava prestes a surgir. Mas agora havia chegado o tempo deles se conscientizarem e se prepararem, porque as investidas que até agora haviam sido direcionadas contra Jesus, de agora em diante se voltariam com toda a intensidade contra seus seguidores. V. 6 – Aqui está descrita a reação dos discípulos frente às palavras de Jesus. Parece que os seguidores de Jesus não estavam preparados até o momento para enfrentar as crises profundas que a ausência do Mestre causaria em suas vidas. Isso fica fortemente demonstrado na negação e fuga dos discípulos mais próximos de Jesus na hora da crucificação. A partida de Jesus desestrutura a esperança messiânica que os discípulos tinham até agora. Por conseguinte, seus rostos enchem-se de tristeza quando o Mestre lhes anuncia a sua separação e morte. V. 7 – Aqui Jesus parece querer comunicar a seus seguidores uma palavra de esperança e alegria. Ao anunciar que sua partida seria compensada pelo envio do Paracleto, Jesus demonstra que esse envio há de suprir a perda de sua presença e que, além disso, irá auxiliá-los no testemunho sobre ele. Em meio à aflição dos discípulos, Jesus explica que é melhor que ele vá, mesmo que a sua ida para o Pai signifique maiores perseguições aos seus. Nesse ponto, o Paracleto apresenta-se como o advogado e auxiliador, que somente virá se Jesus retornar ao Pai.

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V. 8-11 – Esse grupo de versículos relaciona o Paracleto com o mundo e com aqueles que não creem. Enquanto frente aos discípulos o Paracleto se apresenta como um advogado e auxiliador, pois os defende, frente ao mundo ele se apresenta como um acusador, que expõe, refuta, convence e condena. O Advogado terá como uma de suas obras mais importantes a tarefa de revelar o pecado, a justiça e o juízo. Nesse sentido, também aqui há similaridade com a obra de Jesus, pois assim como Jesus foi um auxiliador de seus discípulos enquanto esteve com eles, ao mesmo tempo sua vida, presença e testemunho tinham como consequência a condenação daqueles que se fechavam à sua mensagem. V. 12-14 – O ministério de Jesus continua por intermédio do ministério do Paracleto. A revelação e os ensinamentos haveriam de ter continuidade a partir dele, depois da partida de Jesus. E da mesma forma que Jesus não falava e agia por iniciativa própria (5.19,30; 8.28;12.49), também aqui fica claro que o Paracleto não falará e agirá por si mesmo, mas falará do que ouviu. Assim, o Espírito da Verdade apontará para aquele que é a verdade (14.6), pois sua revelação nada acrescenta à verdade que é Jesus e está nele (Ef 4.21). Não por último, o Paracleto que dá testemunho de Cristo, que ensinará os discípulos e exporá o erro do mundo também glorificará Jesus. Assim como o Filho glorificou o Pai com seu agir neste mundo (7.18; 17.14), o Espírito agora glorificará o Filho com sua vinda. Essa glorificação por intermédio do Espírito acontece porque ele não traz ao mundo nada à parte de Jesus, o Filho, e nem confere qualquer coisa que já não tenha sido oferecida por Deus em Jesus de Nazaré.

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Meditação

As diferentes compreensões e reflexões surgidas sobre a terceira pessoa da Trindade têm causado muita confusão no seio da igreja cristã. Comunidades centenárias têm se dividido, cristãos têm circulado de igreja em igreja em busca da ação do Espírito Santo, muitos de nossos membros têm buscado experiências e explicações sobre o Espírito que façam mais sentido para suas vidas. Parece-me que, enquanto zanzamos tontos em busca do agir do Espírito, ele em sua liberdade efetua sua obra apontando enfaticamente para Cristo. Em nosso texto, é esta a sua tarefa mais nobre: “falar a respeito de mim”, diz Jesus. O Espírito da Verdade dá testemunho daquele que é a Verdade, não o querendo subjugar, suplantar ou substituir. Ao contrário, Ele falará daquilo que já ouviu, rememorando nos seguidores de Jesus seus atos e ensinamentos, o que indica sua atividade por meio dos verbos ensinar, instruir, lembrar, recordar, rememorar. Acredito que, a partir da dinâmica e relação trinitária que encontramos no Evangelho de João, antes de nos perdermos falando sobre Trindade, deveríamos nos limitar a falar de relações e dinâmicas em torno de nosso Senhor Jesus Cristo. Se atentarmos um pouco para as comunidades cristãs que nos cercam, perceberemos que um falar sobre Trindade é um falar descontextualizado e até sem sentido e vazio. Falar sobre cristologia apontando para Cristo, assim como faz o Espírito, e a partir daí falar sobre relações em torno de Jesus Cristo pode levar-nos a ficar mais próximos da reflexão cristã cotidiana das pessoas. Falar de

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relações e dinâmicas obriga-nos a falar de um Deus que age, não uma Trindade filosófica, dogmática, do mundo das ideias. Pois Trindade é ação amorosa de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. É ação de Deus em amor, agir divino dinâmico, sempre realizado a partir de sua incomensurável compaixão, a fim de resgatar e possibilitar nova comunhão com ele. Em relação ao atual mundo evangélico brasileiro, sob esse prisma, o texto auxilia-nos a visualizar a obra do Espírito intrinsecamente ligada a Cristo, tendo o seu verdadeiro sentido somente nele e em sua obra salvífica em favor do ser humano. O Espírito Santo age como, onde e como quer, mas cumprindo sua função de revelar a Cristo Jesus, o Salvador, e não operando maravilhas por si só, como se fosse a principal pessoa da Trindade. Sua ação no texto em apreço só faz reforçar aquilo que Cristo já revelou e fez em prol do ser humano, que precisa de salvação. Consequentemente, toda essa íntima relação soteriológica só faz sentido em vista do ser humano. Acredito que os discípulos não estavam mais assustados e aflitos do que muitos de nós. Diante de catástrofes climáticas, como a ocorrida na serra fluminense, como o acontecido no Japão por meio de terremotos e tsunamis, como o ocorrido no sul do Brasil no município de São Lourenço do Sul, também muitos de nós, cristãos, podemos nos sentir abandonados, assim como os discípulos no tempo de Jesus se sentiram ante a iminência de sua morte. Também diante disso, esse texto quer nos confortar com a sempre renovada palavra sobre o Consolador e Auxiliador, que não nos deixa órfãos e renova a nossa fé ao novamente abrir nossos olhos para o Cristo que venceu a morte. Em sua tarefa de testemunhar a Cristo, o Espírito, diante de todas as dificuldades, auxilia-nos a testemunhar e a não permanecer na angústia e no desespero. Individual ou comunitariamente, somos amparados e auxiliados pelo Espírito enviado por Cristo. Jesus prometeu a presença e a permanência de outro Paracleto para sempre ao nosso lado. Esse estar junto se refere, sobretudo, à ajuda, defesa e proteção, o que se depreende da preposição meta com genitivo no texto original. Além do estar conosco, é também prometido um estar em. Essa expressão indica uma interiorização, imanência do Paracleto em nossas atividades e em nossas vidas, tornando possível a assimilação da Palavra da verdade e da revelação de Jesus na fé. Nossas comunidades, muitas vezes pequenas e tão criticadas por nós mesmos, possuem a história que possuem e estão abertas acolhendo nossos membros, porque o Espírito de Deus é parte fundante dessa caminhada de fé comunitária. Essa relação entre fé, testemunho, Cristo e o Paracleto diz respeito a todos os cristãos, porque é o Espírito quem nos auxilia a dar nosso testemunho concreto de fé em Cristo Jesus, manifestando-se por intermédio de palavras e ações em meio à sociedade.

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Imagens para a prédica

É aniversário da igreja cristã: Pentecostes. Para mim, sempre parece muito significativo retomar um pouco da história mais próxima de nossa comunidade, que nos revela também o agir do Espírito de Deus em meio a tantos sentimentos

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de aflição, angústia e abandono. Por isso acredito que uma imagem/ilustração para a prédica e o culto poderiam ser fotos de acontecimentos na comunidade. Alguns membros poderiam ser desafiados a trazê-las para a elaboração de um painel. Assim como os discípulos não ficaram desamparados, também nós, comunidades, no transcorrer da história, pudemos experimentar a ação do Auxiliador, que aponta para o Cristo e nos quer ajudar com nosso testemunho de fé durante nossa caminhada. As fotos podem representar um sinal daquilo que o Espírito está causando em nosso meio. Batismos, construção de templos, encontros, cultos festivos mostram-nos o amparo de Deus e nos querem motivar a olhar em frente para a nossa futura história com mais esperança e ânimo por meio da promessa do amparo de Deus, que está conosco em todos os tempos. Em meio aos nossos desesperos atuais (e aqui poderão ser lembrados muitos deles), também o Espírito quer auxiliar-nos, como fez com os discípulos e como fez com nossos antepassados. Ser comunidade de fé em nosso tempo, assim como foi na comunidade primitiva, também para nós implica um desafio. E esse só será superado a partir do Espírito, que nos capacitará a dar nosso testemunho de fé. Ele também nos auxiliará e renovará nossa fé em Cristo sempre de novo, possibilitando nosso testemunho prático ali onde estivermos.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor amado, nós queremos te agradecer porque cumpriste a tua promessa de enviar-nos o teu Santo Espírito. Por isso não ficamos abandonados e podemos crescer na fé em ti. Ele nos encoraja a chegar a ti com inteira confiança para confessar-te que não somos dignos de ser chamados teus filhos e tuas filhas. A nossa fé tem sido fraca muitas vezes. Amamos a nós mesmos, mas temos muita dificuldade para amar outras pessoas, principalmente aquelas que nos magoam. A nossa vida cristã e o nosso testemunho muitas vezes não têm vigor, e a nossa vida pouco reflete do infinito amor que tens demonstrado para conosco. Também damos atenção a tantas palavras de pessoas, que são contrárias às tuas palavras. Perdemo-nos em meio a tantos saberes e falas e, muitas vezes, nos encontramos sem rumo. Perdoa-nos se como comunidade de fé temos nos desesperado, não confiando em ti acima de todas as coisas, não permitindo que tua Palavra seja lâmpada para nossos pés e luz para os nossos caminhos. Por todos os nossos pecados: Perdão, Senhor, concede-nos a graça de um novo começo. Amém. Bênção: Que o Espírito Divino, vento suave da vida que revela a Cristo, nos encha com sua presença. Que o Espírito Divino, fogo que arde sem consumir, nos anime e alegre para o serviço ao próximo. Que rememore em nós os ensinamentos de Jesus Cristo. Que nos ilumine diante da escuridão deste mundo. Que, ao nos encontrarmos perdidos, aponte-nos novamente nosso Senhor, o Caminho, a Verdade

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e a Vida. Que assim nos abençoe o dinâmico Deus Triúno, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Bibliografia BULTMANN, Rudolf. Teología del Nuevo Testamento. Salamanca: Sigueme, 1981. MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O evangelho de São João. São Paulo: Paulinas, 1989.

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PRÉDICA: ROMANOS 8.12-17

1º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 6.1-8 JOÃO 3.1-17

(TRINDADE) 03 JUN 2012

Erni Drehmer

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Introdução

Relação com os demais textos: – Todos falam de transformação: em Isaías, o processo dá-se pelo gesto simbólico da brasa, que purifica os lábios do profeta e prepara-o para a missão; em João, a transformação dá-se por intermédio do ensino a respeito da ação do Espírito Santo na vida de Nicodemos; em Romanos, a transformação dá-se pela ação do Espírito; – Os três falam de ação, não de passividade. Em Isaías, a resposta do profeta é a disposição à ação (“eis-me aqui, envia-me a mim”); em João, a ação vem antes, já que Nicodemos se coloca a caminho e busca Jesus para dirimir suas dúvidas; em Romanos, há o imperativo que leva a atitudes que são consequência da ação do Espírito Santo, que transforma vidas de pessoas que deixam de orientar suas ações pelos desejos humanos e permitem ser orientados pela vontade de Deus. O texto atualiza-se por excelência quando chama à ação no mundo, movida pela fé, e somente por ela, não por desejos e inspirações humanas, marcadas pelo egoísmo, pela necessidade do aplauso e do holofote.

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O texto

O apóstolo Paulo fala da dualidade da vida. Em Romanos 6, ele aborda a questão de morrermos para o pecado com a morte de Cristo; assim também vivermos com ele a sua ressurreição. Aqui a dualidade se dá entre o viver a partir da natureza humana, a carne, e o viver a partir da espiritualidade, a partir do Espírito. O cristão é colocado na luta pela decisão entre a carne e o Espírito pelo fato de ter sido transformado em pessoa do Espírito pela ação redentora de Deus. Pela ação de Deus, tornou-se praticamente impossível viver a partir da carne. Mas, na prática, isso ainda é possível. Assim, na prática, pela ação, é necessário reconhecer-se ao impossível. A carne, o pecado, foram aniquilados pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Agora, portanto, trata-se de lidar com eles como realmente destronados e não mais reconhecer e admitir sua ação sobre nós. Paulo lembra novamente que se trata de morte ou vida. A negação das obras da carne e o andar no espírito significam vida. Disso dá conta o v. 14.

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1º Domingo após Pentecostes

Por Cristo, o cristão foi realmente “libertado da morte”. Isso não significa que a morte não tenha mais poder de ameaçá-lo. Ainda não se alcançou a realidade de que fala o texto de Apocalipse 21.4: “... não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. As coisas antigas já passaram”. Portanto, há duas formas de viver: podemos viver “conforme a carne” ou “conforme o Espírito”. Quanto à primeira forma, podemos, entrementes, afirmar: não é vida verdadeira, mas o contrário disso. Por isso o apóstolo Paulo diz: “Se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte ...” Ao falarmos de uma vida que, na verdade, é morta, lembramos a conhecida palavra de Agostinho: “Assim era minha vida – era uma vida?”. Vive-se de verdade quando se vive a partir do Espírito. Mas isso significa ao mesmo tempo “mortificar os feitos do corpo”, isto é, as ações que têm sua origem e inspiração na natureza humana, na carne. O corpo (a carne) está em oposição ao espírito. O corpo está submisso à morte por causa do pecado, mesmo sendo o espírito significado de vida por causa da justiça. Com o corpo mortal, o cristão encontra-se num contexto onde a morte domina. E é nesse mundo – o do corpo mortal – que ele precisa travar a batalha contra a carne e a morte. A partir dessa passagem vem uma nova luz sobre Romanos 7.23, onde Paulo aponta para uma lei que está em seu corpo, em conflito com a lei que está em sua mente, seu espírito. E talvez essa interpretação ajude a entender melhor as palavras de Paulo em 7.24: “Quem me livrará desse corpo que me leva para a morte?”. Não se trata de uma tendência suicida ou uma atitude depressiva, mas um desejo de ver finalmente vencida pela vida a batalha contra a morte. O cristão recebeu o Espírito. Portanto, anima o apóstolo, ele deve andar no Espírito. Deixar que sua vida seja totalmente permeada pelo Espírito. É verdade que corpo e Espírito vivem em luta na vida do cristão, mas não precisa ser mais assim que a carne ainda tenha por muito tempo domínio sobre sua vida. O cristão está sob o domínio do Espírito, portanto vive o processo de “matar as obras da carne”. Aqui há um pensamento semelhante ao expresso em Gálatas 5.16: “Deixem que o Espírito de Deus dirija a vida de vocês e não obedeçam aos desejos da natureza humana”. O cristão pode travar essa luta, pois não a trava com suas mãos e com forças próprias. Quando a morte é destituída do trono, esse não fica vazio. Ele passa a ser ocupado pelo Espírito de Deus, o “Senhor e doador da vida” (Credo Niceno), pois “ o espírito é o que vivifica” (Jo 6.63). Com isso o cristão chegou à verdadeira vida. Assim fica bem claro o que o apóstolo quer dizer com 8.13: “... se, pelo espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis”. Quem crê em Cristo foi resgatado da velha era (da carne) para dentro da nova era, do Espírito. Não vive mais sob o domínio da morte, mas sob o domínio do Espírito, onde domina a vida. Ele luta a favor do Espírito contra a carne. Ele “vive no Espírito”, “anda no Espírito” e “mata as obras da carne”– e tem durante esse tempo a promessa da vida eterna, a “vida no tempo futuro”.

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1º Domingo após Pentecostes

Cristo recebeu a herança como o primeiro e entrou para o tempo da ressurreição. Mas isso significa também um ganho para nós. Tudo o que vale para Cristo vale também para nós. Somos herdeiros de Deus e coerdeiros em Cristo. Somos filhos – somos herdeiros e herdeiras, presente e futuro. A herança nos está assegurada, mesmo que ainda não tenhamos tomado conta dela. No versículo 17, aparece três vezes a partícula syn. Primeiro, somos “coerdeiros” (syn kleronomoi), somos “cossofredores” (synpaschomen) e seremos “glorificados com ele” (syndoksasthomen). Aqui se destacam tanto o presente como o futuro na relação com Cristo. Nessa vida, trata-se de termos parte em seu sofrimento, mas na vida futura nos será presenteada a participação em sua glória; somente então tomaremos posse da herança que já agora nos é garantida. A meta é a glória, não o sofrimento. Mas para o cristão, assim como para Cristo, o caminho para a glorificação passa pelo sofrimento. Pelo fato de o sofrimento ser um sofrimento com Cristo, ele está inserido na vida cristã. Na filiação estão expressas toda a dignidade e toda a redenção da pessoa que crê. Essa filiação não se expressa apenas em atitudes éticas, mas também na vida em oração. Dirigir-se a Deus com a expressão aramaica Abba é expressar a profundidade e a intimidade da relação de crentes para com o seu pai. Os judeus usavam a expressão para referir-se ao pai terreno, mas muito raramente para referir-se a Deus. Isso era uma novidade em Jesus. Ao usar o termo (Mc 14.6), ele mostra que fala com seu Pai, exatamente como um filho fala com seu pai terreno. A comunidade de Jesus sabia que por intermédio de Cristo ela se tornara filha de Deus; por isso também se apropriou do termo. A palavra aramaica manteve-se no culto da comunidade grega, assim como o termo Maranata (1Co 16.22). Cristãos “chamam” Abba. Talvez Paulo esteja querendo contrapor a oração de cristãos ao jeito judeu de orar – movido pelo murmurar –, o que também é um sinal do espírito de servidão. Os cristãos oram alto, confiantes, alegremente, libertos. Movidos pelo Espírito, têm coragem de expressar sua fé em alto e bom tom. A paixão de Cristo não é somente o fundamento, mas também o formato da vida cristã. Todo o sofrimento trazido com a condição de ser cristão, a dor por pecados próprios e de outros, a angústia na tentação e na luta, sob a oposição do mundo, na perseguição e no martírio: tudo isso é um sofrer com Cristo. Isso lhe confere o caráter de seriedade, mas ao mesmo tempo, em meio a toda a dor, também a profunda alegria e grande esperança que a comunhão com Cristo traz consigo.

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Meditação

O texto, bem como as demais leituras previstas, oferecem um embarque interessante no desafio da ação no mundo a partir da fé. No mercado religioso, múltiplo e confuso, até mesmo as boas ações despertam desconfiança: “O que ele ou ela estão querendo com essa ajuda?”. A moderna linguagem da rede mundial parece incompatibilizar-nos com o que o apóstolo Paulo destaca quando desafia a vivermos com os pensamentos e as ações guiadas pelo Espírito de Deus. A sociedade que estabelece redes mundiais de comunicação escancara ao mesmo tempo

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1º Domingo após Pentecostes

as portas para o hedonismo. Ou seja, acesso à internet em primeiro lugar para tirar o proveito que ela pode trazer para mim. Com um clique descarto o que pode me trazer qualquer tipo de sofrimento ou dor. Cria-se, assim, a falsa impressão de que temos nosso destino nas mãos, ao alcance de uma tecla. A vida guiada pelo Espírito de Deus tem outros critérios. Entende que o sofrimento com Cristo é a caminhada em direção à glorificação. A vida em Cristo, assim entende o cristão, é uma constante batalha entre aquilo que me proporciona apenas as coisas boas ou agradáveis da vida e aquilo que me leva a uma nova postura, a um jeito diferente de viver. Sabendo que essa nova postura me leva pelo caminho do sofrimento, não por masoquismo ou desvio de conduta, mas por sermos em Cristo coerdeiros do reino de Deus. Deixar-se guiar pelo Espírito de Deus é viver defendendo a vida contra os sinais de morte. Os sinais de morte precisam ser denunciados e tipificados. Eles estão presentes na sociedade mundial e brasileira. Escrevo numa época em que aumenta a crítica das vozes assim chamadas formadoras de opinião contra os gastos astronômicos previstos para obras para a Copa do Mundo de 2014, enquanto que ainda sobram pacientes morrendo em filas de atendimento à saúde. Ainda repercute mundialmente a exagerada comemoração da morte de Osama Bin Laden, promovida pelo país que se atribui a função de paladino da democracia e da justiça no mundo, mas que não consegue revelar atrocidades cometidas em guerras espalhadas pelo mundo. Ou que acaba de revelar que conseguiu informações por meio de tortura. Deixar-se guiar pelo Espírito é combater a própria omissão, como indivíduos e igreja, como obra da carne. A omissão que nos convida a silenciar, ser conivente, para “não trazer inquietação à nossa tranquilidade”. Deixar que o Espírito de Deus guie nossas ações e pensamentos é escancarar ao mundo que nos rodeia o que cremos, por que cremos e como a fé marca nossas atitudes na vida diária. A fé que marca nosso jeito de ser igreja desde a convivência interna – entre os grupos e setores da comunidade, entre lideranças, entre ministros e ministras – até o testemunho que damos diante das políticas públicas, especialmente quando elas não cumprem sua tarefa: lutar pelo bem comum.

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Imagens para a prédica

Isso nem sempre é viável diante do tempo de que dispomos para preparar o culto e a pregação (sempre menos tempo do que gostaríamos de investir). Mesmo assim, sugiro que, durante a semana, nos contatos com setores de atividade ou até mesmo individualmente, busquemos opiniões a respeito das seguintes perguntas: – O que você acha que está desafiando mais nosso testemunho de fé em nosso lugar? – Como podemos reagir ao desafio? As respostas podem alimentar o início da pregação, trazendo a realidade o mais perto possível da comunidade (ou a comunidade da realidade). Identificar o que nos pode impedir de viver segundo o Espírito, segundo a novidade de vida (nossas limitações, nossa insegurança, nossa falta de entusiasmo).

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1º Domingo após Pentecostes

Viver segundo o Espírito não é nenhum mérito, fruto de conquistas pessoais, mas ação de Deus em minha direção por meio de Cristo. Assim como Isaías foi purificado pela brasa, e a partir daí seu falar e agir passaram a ter outra dimensão/compromisso, Nicodemos foi procurar Jesus na necessidade de mudança, e o ensino, o novo nascer pela fé, trouxe-lhe essa novidade de vida. Essa novidade já aconteceu em nossa vida. Não precisamos ficar olhando para o céu, de boca aberta, esperando o grande momento transformador. Em Cristo, a mudança ocorreu: somos filhos e filhas de Deus, nosso Batismo é a maior garantia de mudança. Temos possibilidades de viver conforme novos parâmetros; ainda vivemos na tensão entre os “desejos humanos” e a “condução pelo Espírito”, mas já temos os elementos para lutar contra o que nos quer aprisionar. – A luta é diária, difícil, as possibilidades são diversas e variadas, além de tentadoras. O apelo ao egoísmo, à satisfação dos desejos pessoais em detrimento da luta pela paz e justiça estão presentes em nossa vida (pode-se exemplificar com exemplos da propaganda, que é um apelo ao consumo individual ou coletivo, mas consumo). – Vencer essa luta não está em nossas limitadas forças, mas na graça e na misericórdia de Deus. – Buscar a resposta na prática da fé individual e, principalmente, na vida comunitária: eis o princípio para entender a dimensão da graça e da misericórdia de Deus e permitir que o Espírito passe a direcionar nossas palavras e ações.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Deus gracioso. Por ação do Espírito Santo, por meio da vida, paixão e morte de Jesus Cristo nos tornas pessoas novas. Perdoa quando repelimos essa novidade de vida. Confessamo-nos teus filhos e tuas filhas, mas nossas ações nem de longe refletem nossa confissão. Ainda preferimos viver de acordo com nossos interesses pessoais, conforme aquilo que nos traz prazer e vantagens. Perdoanos, misericordioso Pai, e não te canses de insistir para que um dia, finalmente, digamos sim à novidade de vida, em palavras e ações. Por Jesus Cristo, tem misericórdia de nós! Canto: Tem misericórdia de mim (HPD 2 ) Oração geral da igreja: – agradecer pela ação do Espírito Santo em nós, que nos permite ter esperança de que atitudes e pensamentos podem ser diferentes; – agradecer pelas incontáveis ações de pessoas no mundo, que se deixam desacomodar para fazer valer a vontade de Deus e que infelizmente pouco são divulgadas; – agradecer pela existência da igreja, onde nos reunimos para permitir que nossas vidas sejam tocadas e transformadas pela ação do Espírito.

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1º Domingo após Pentecostes

Canto: Graças, Senhor, graças, Senhor, por tua bondade, teu poder, teu amor. Graças, Senhor. – interceder pelo mundo ao alcance de nossos pés e mãos, onde muita dor poderia ser aliviada por nossa ação transformadora a partir da compreensão da ação de Cristo em nosso favor; – interceder pela igreja cristã no mundo, para que seu testemunho aponte sempre para o Cristo, jamais para sua própria honra e glória; – interceder por pessoas doentes, enlutadas, solitárias, deprimidas, para que saibam que sua dor não é apenas sua dor, mas a dor que o próprio Cristo, por intermédio de nós, quer compartilhar e ajudar a carregar. Canto: Inclina, Senhor, teu ouvido. Escuta o nosso clamor.

Bibliografia ALTHAUS, Paul. Der Brief an die Römer. Das Neue Testament Deutsch. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1953. p. 79-81. NYGREN, Anders. Der Roemerbrief. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1951. VICEDOM, Georg; KLESSMANN, Ernst; BECKER, Horst (Ed). 8. Sonntag nach Trinitatis: Römer 8,12-17. Gepredigt den Völkern. Breklum: Christian �������������� Jensen, 1967. p. 147-148. WINGREN, Gustaf. Die Predigt. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1959.

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PRÉDICA: MARCOS 3.20-30

2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

GÊNESIS 3.8-15 2 CORÍNTIOS 4.13-5.1

10 JUN 2012

Paulo Roberto Garcia

1

Introdução

A passagem de Marcos 3.20-30 apresenta-nos duas pequenas histórias, amalgamadas em um mesmo texto: a primeira sobre o conflito de Jesus com seus familiares, que pensam que ele está louco; a outra sobre os escribas de Jerusalém, que afirmam que ele expulsa demônios por Belzebu. Somos colocados diante de desafios, tais como repensar a religião, a família e também, de modo mais amplo, as estruturas de nosso tempo a partir da promoção da vida. No enfrentamento dos conflitos, somos desafiados por esse texto a recriar espaços, a transformar a realidade e a anunciar a vida. Essa mesma expectativa é expressa na profissão de fé de 2 Coríntios 4.13-5.1, que diante das aflições do presente anuncia uma nova casa, a casa “não feita por mãos, eterna, nos céus”. A contrapartida do conflito é apresentada em Gênesis 3.8-15, onde temos o relato da queda: uma família dividida, em que as acusações de uns contra os outros não só apontam as suas dificuldades como prenunciam o sofrimento advindo dele. O fio condutor desses textos e que atravessa nossa perícope são o discernimento e a opção pela vida em meio a estruturas conflitivas que geram a desagregação e a morte.

2

Exegese

2.1 – Contexto do Evangelho de Marcos Um desafio da pesquisa bíblica moderna é localizar temporal e geograficamente os evangelhos. É importante destacar que essa tarefa não pode ser vista como um detalhe do escrito. Ela é determinante. O texto é resultado de um momento histórico de uma comunidade e interage com essa realidade. Para esta reflexão, vamos assumir que o Evangelho de Marcos seja fruto da Galileia e que tenha sido escrito durante a guerra judaica, por volta do ano 68 (Myers). Diante do evangelho de César (gênero literário greco-romano, criado para narrar as vitórias imperiais), que noticiava a vitória romana marcada pela violência e pela destruição imposta pelas legiões, que provocava recuo e medo nas pequenas comunidades cristãs, encontramos o evangelho de Jesus Cristo. Esse é caracterizado pelo convite ao seguimento, pela construção de novos espaços de vida e anunciador da entrega de Jesus em favor de todos como a verdadeira

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2º Domingo após Pentecostes

mensagem de vitória. O evangelho, portanto, busca orientar e fortalecer a comunidade em meio a essa situação de medo e sofrimento. 2.2 – Contexto da perícope Determinar o contexto maior e o contexto menor ajuda-nos a entender a perícope no conjunto de perícopes que a cerca. Isso pode ser realizado a partir das propostas encontradas nas introduções ao Novo Testamento e nos comentários de cada livro. Ou, para fugir desse caminho, outra possibilidade é buscar no próprio texto indícios que nos ajudem a delimitar os contextos. Temos de nos lembrar de que, embora os evangelhos apresentem o contorno de literatura, ou seja, um texto escrito, eles têm em sua origem a tradição oral. Por isso palavras-chave ou temas que aglutinem perícopes são comuns de encontrar. Assim, propomos que a nossa perícope seja entendida como parte de um bloco temático que é determinado pela palavra “mar”. Mar (thalassa) aparece no Evangelho de Marcos em: Mc 1.16; 2.13; 3.7; 4.1 (três vezes); 4.39,41; 5.1,13,21; 6.47,48,49; 7.31; 9.42; 11.23. De todas as ocorrências, destacamos que, nas duas últimas (9.42 e 11.23), ela aparece em frases de julgamento (jogar algo ou alguém ao mar, como castigo pelos pecados). Todas as demais aparecem no sentido físico de seu significado, ou seja, o mar da Galileia. Não podemos ignorar que a geografia em Marcos é teológica, além de ideológica. Por isso chama a atenção o fato de que todas as ocorrências do vocábulo “mar” estão ligadas ao mar da Galileia. São não apenas a quase totalidade das ocorrências, como estão todas no primeiro bloco do evangelho (capítulos 1 a 8). Desse modo, podemos destacar que o mar determina o que poderíamos chamar de contexto maior, iniciando com as vocações (à beira-mar – Mc 1.16ss) e terminando com a cura do surdo e gago e com as multidões maravilhadas, pois Jesus fazia o bem (Mc 7.31ss). Dentro desse bloco, percebemos uma grande concentração de citações entre os capítulos 3 e 6. Esse é o cerne do bloco sobre o mar. Podemos apontar como uma delimitação desse cerne a abertura para a ida de Jesus com seus discípulos “para o mar” (pros ten thalassan – 3.7) e a finalização ou fechamento; quando Jesus sai dessa região, volta para sua terra (eis ten patrida autou – 6.1) e os discípulos o seguem. O mar simbolizava o caos, designava confusão, o lugar do medo, a habitação dos demônios. A primeira parte do Evangelho de Marcos tem como contexto Jesus e seu enfrentamento do mar. Não é à toa que a última perícope (antes do encerramento em 7.31) descreve Jesus caminhando sobre ele. Em nosso bloco, a tônica é o enfrentamento do mar. Nas cercanias do mar, há conflitos com a família, com as lideranças religiosas e com os demônios. Além disso, em meio à guerra judaica, também a milícia romana afligia essa comunidade. Por isso, quando o evangelho apresenta Jesus enfrentando o endemoninhado geraseno, ao ser perguntado por seu nome, o demônio responde em latim: legion (legião), que é uma palavra latina. O demônio, para a comunidade de Marcos, é apresentado, ironicamente, falando latim e com o nome de força militar romana.

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2º Domingo após Pentecostes

Ao mesmo tempo, devemos destacar que, em torno do mar, acontecem as vocações, os chamados, as curas, de modo especial daqueles e daquelas que a sociedade desprezava. Acontece também a vitória de Jesus sobre o mar. Ele acalma (exorciza) a tempestade no mar. No centro desse bloco, o ensino na forma de parábolas é que é proferido em uma situação estranha. Jesus ensina sentado sobre o mar (a tradução literal de 4.1 é: “ao ponto dele, entrando em um barco, assentar-se no mar”). A ênfase desse bloco onde se localiza nossa perícope é o enfrentamento do mar. Em torno do mar há conflitos, mas também vocações e curas. O mar é lugar de confronto e de discipulado, de medo e de ensino. É nesse pano de fundo que nossa perícope se localiza. 2.3 – A perícope Nossa perícope apresenta a estrutura típica do estilo literário de Marcos, que é embutir uma história no meio de outra. Ele fez isso, por exemplo, na ressurreição da filha de Jairo, colocando no meio da narrativa a cura da mulher que sofria de hemorragia. A perícope da purificação do templo interrompe a história da figueira sem figos. Em nosso texto, encontramos duas histórias: a do conflito com a família de Jesus e a do conflito com os escribas de Jerusalém. Não é de estranhar que Bultmann e, posteriormente, outros pesquisadores tenham apontado que o v. 21 se ligaria a 31-35 e que juntos formariam uma história autônoma (Taylor). De fato, temos duas histórias e dois conflitos distintos. Porém, percebendo que Marcos tende a inserir perícopes dentro de perícopes e que elas devem ser vistas em seu conjunto, a pergunta que se faz é: qual é a ligação entre o conflito com a família e o conflito com os escribas de Jerusalém? Um primeiro ponto que chama a atenção e que une essas duas histórias são as acusações dirigidas a Jesus. Para a família de Jesus, ele estava “fora de si”. Para os escribas de Jerusalém, ele “tinha Belzebu”. Tanto a acusação de ter demônio como a acusação de ser louco são entendidas como processo ideológico para desacreditar o outro (Myers). Assim, uma primeira ligação que percebemos é que tanto a família como a liderança de Jerusalém aparecem na perícope como um discurso de desautorização da liderança de Jesus. Um segundo ponto que chama a atenção é que a família e os escribas apontam para duas importantes estruturas de poder do mundo de Jesus. A família e as estruturas da religião formal (templo, sinédrio, sinagoga) desempenhavam um papel de organização da vida e constituíam um espaço de controle e de manutenção da situação de discriminação e de violência. A perícope enquadra-se no enfrentamento de Jesus às estruturas de morte de sua época. E essas estruturas são tão caras a seu mundo: a organização da família e a organização da fé. O conflito com os escribas – que são acusados de blasfemar contra o Espírito – e com a família – que entende que Jesus está louco – colocam-no diante de uma forte controvérsia. No conflito com a família, Jesus não atende à solicitação da mãe, irmãos e irmãs. O texto relata que a família espera a presença dele fora da casa: “e tendo

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2º Domingo após Pentecostes

ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo” (v. 31). Jesus é alertado pelos discípulos: “Vê tua mãe e teus irmãos e irmãs, que lá fora procuram a ti” (v. 32b). Ao invés de ir a seu encontro, ele responde aos discípulos: “Quem são minha mãe e meus irmãos?”(v. 33). A seguir, o texto acrescenta duas informações importantes. A primeira obriga-nos a uma tradução curiosa para mostrar a ênfase do texto: “e circulando o olhar para os que ao redor dele estavam em círculo assentados”. Não podemos esquecer que já havia no v. 32 a informação de que “estava assentada ao redor dele uma multidão”. A repetição de uma informação na língua grega, a qual foi usada nos escritos do Novo Testamento, tem o objetivo de enfatizar. Nesse caso, a informação “ao redor” ou “em círculo” é fundamental. Sentar-se ao redor de ou aos pés de indicava uma clássica descrição da relação rabi e discípulo. Temos descrito de forma enfática e redundante que Jesus tem uma comunidade de seguidores ao seu redor. Frente ao conflito com os representantes da religião oficial, Jesus inaugura na relação com seus discípulos um novo espaço de vivência religiosa. A segunda é a resposta dada a esse círculo de pessoas: “Vejam, minha mãe e meus irmãos. O que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e mãe” (3.34s). A perícope estabelece não só a descrição do conflito como também a superação dele. Num belíssimo trabalho redacional, o texto de Marcos apresenta o enfrentamento das duas instituições fundamentais para a vida das comunidades do primeiro século: a família e a religião. As mesmas buscam desacreditar e desautorizar Jesus – é louco e possuído por Belzebu – e, no mesmo conjunto de textos, apresentam a superação desse conflito. O discipulado, sentar ao redor do mestre e segui-lo, estabelece um novo espaço de vivência da fé e uma nova família. Temos aí novas estruturas baseadas na vontade de Deus.

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Meditação

O nosso mundo está repleto de estruturas que geram exclusão e morte. Estruturas políticas e sociais e até estruturas religiosas. Esses espaços, que deveriam ser promotores da vida, da oportunidade de convivência fraterna e solidária, acabam, muitas vezes, por tornar-se lugares de exploração, de exclusão e geradores das forças da morte. Diante disso, somos convidados a refletir sobre a mensagem de Marcos 3, onde encontramos o desafio de enxergar os espaços de poder e de discipulado, de vida e de morte. A família, que na tradição veterotestamentária se constituía em espaço de bênção para todos os povos e lugar de defesa da vida e dos direitos, tornou-se um espaço de poder. O poder do pai sobre todos da casa, da mãe sobre as filhas e do irmão mais velho sobre os demais irmãos gerou uma estrutura de opressão e violência. A religião com seus espaços de vivência da fé – o templo e a sinagoga –, que deveriam ser “a casa do Pai” e “lugar de oração”, tornou-se um espaço que não atendia às necessidades do povo. Em uma crítica ao templo (que, na época do Evangelho de Marcos, estava sitiado pelos romanos e na iminência de ser destruído), ele é apresentado como covil de salteadores e ladrões (e não como lugar

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de oração). Já no início do Evangelho de Marcos, encontramos dois textos paradigmáticos. Em uma ida à sinagoga de Cafarnaum, Jesus é confrontado por um “homem com espírito imundo”, o qual Jesus exorciza. O resultado do exorcismo é que Jesus é expulso da sinagoga (cf. Mc 1.21-28). Imediatamente, ele entra na casa de Pedro e exorciza a febre de sua sogra, e ela passa a servi-los. O uso do verbo diakoneo, que é traduzido como servir, é controverso, mas optamos por ler esse servir como discipulado e não como exercício de serviços domésticos (cf. Mc 1.29-34). Por isso a sogra de Pedro, curada, torna-se discípula. Nessa perspectiva, podemos perceber nesse texto programático da abertura do evangelho uma crítica à sinagoga. Na sinagoga, a ação de Jesus gera a exclusão. Na casa, a ação de Jesus gera o discipulado. Por isso a sinagoga passa a ser designada como sinagoga deles (Mc 1.39). À nossa perícope soma-se a perspectiva das perícopes apontadas acima. A superação da exclusão da religião e das famílias tradicionais acontecerá na casa. Porém, não na casa tradicional, mas em uma casa que é lugar agregador dos que praticam a vontade de Deus. O espaço da religião e o espaço da família são ressignificados a partir do “fazer a vontade de Deus”. Surgem uma nova família e um novo espaço de fé, onde seguir a Jesus – o discipulado – torna-se um caminho regenerador das vidas e das relações. Nesse novo espaço de fé e de convivência, não faltam conflitos. Nossa perícope localiza-se em um grande bloco, marcado pela repetição enfática da localização geográfica em torno do mar. Lembremo-nos de que, na concepção da época, o mar era o lugar do caos, lugar do medo. Mas, para esse novo movimento – o movimento de Jesus –, o mar é também lugar de oportunidade. Em meio a tudo isso, encontramos o desafio de assumir uma posição: quem é minha família (3.33)? Ou então: como pode “Satanás expulsar Satanás” (3.23)? As duas perguntas colocam o discernimento entre as estruturas religiosa e familiar, marcadas pela violência e pela exclusão, ou a nova família, lugar dos que fazem a vontade de Deus, onde acontecem o chamado, o discipulado, a cura, enfim, a renovação da vida. Em meio a um mundo marcado por estruturas que produzem morte, a perícope convida-nos ao discernimento e ao compromisso de construir espaços de discipulado e de promoção e resgate da vida.

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Imagens para a prédica

As imagens a seguir, retiradas de notícias de jornais, podem ajudar-nos a refletir sobre a perda do papel protetor e promotor da vida que a família deveria ter. Elas podem estimular, no início do sermão, uma reflexão sobre a violência presente hoje em nossa sociedade e na estrutura mais próxima a nós: a família. Notícias de nossos periódicos: 23 de abril: Mãe abandona criança recém-nascida na caçamba de lixo na cidade de Praia Grande, São Paulo. A mulher, presa, afirmou que ganha pouco e não tinha como sustentar o filho.

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18 de maio: Na cidade de Registro, em São Paulo, pai agride filhos de sete e de oito anos e é filmado por filho de 14. No vídeo, o pai é visto gritando e agredindo com chutes o filho menor, que, encolhido no chão, gritava de dor e de medo. O filho de oito anos, ao tentar conter o pai, sofre a mesma agressão. O filho mais velho afirmou que decidiu registrar as imagens porque estava cansado de sofrer tantas agressões: “Resolvi gravar o vídeo porque já tinha muito tempo que ele batia nos meus irmãos, batia em mim. Aí chegou uma hora que eu cansei. Aí peguei e tive que gravar esse vídeo”, disse o adolescente. O pai, após ficar foragido por quase um mês, foi preso. Essas imagens nos colocam a pergunta que a perícope apresenta: “Quem são minha mãe e meus irmãos?” (3.33). A resposta deve ser encontrada na reflexão em torno dessa perícope.

5  Subsídios litúrgicos Apresentamos abaixo dois subsídios litúrgicos preparados pelo Rev. Prof. Dr. Luiz Carlos Ramos: o primeiro é um credo que professa a fé no espaço construtor de vida; o segundo é a releitura orante do Salmo 131. Nele, o desejo do repouso como uma criança no colo de Deus anuncia o desejo de espaços da fé onde a segurança e o aconchego sejam marcantes. Credo: Creio em Deus, criador de tudo o que é bom, Que me ama com amor maior que o de pai E cuida de mim com ternura maior que a de mãe. Creio em Jesus Cristo, amigo mais chegado que irmão, Que pagou por mim a grande dívida E convidou-me para ser-lhe Companheiro no cálice e no pão, Na cruz e na ressurreição. Creio no Espírito Santo, terno consolador, Que me enxuga as lágrimas dos olhos E me inspira nos lábios o sorriso. Creio na comunidade de fé, mutirão de fiéis, Operários de um novo tempo, Gestantes do novo céu e da nova terra. Creio no Reino pleno da vida abundante, Na ressurreição dos corpos oprimidos, Na eternidade do amor E na solidariedade divino-humana. Amém!

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Luiz Carlos Ramos Fonte: http://www.luizcarlosramos.net/?p=3565#respond Salmo 131, com minhas palavras: Como eu gostaria, Senhor, de ser como aquela criança amamentada [desmamada] que se aninha no colo da mãe; sem ter necessidade de mais nada a não ser do calor terno do teu abraço; sentir teu afago carinhoso me confortando; e, ao embalo da tua voz paciente, adormecer sereno e descansar pertinho do teu coração; e, ao ritmo da tua respiração suave, sonhar com coisas boas que façam meus lábios sorrirem, e, mesmo de olhos fechados, façam-me contemplar as estrelas do teu céu e os frutos do meu chão. Luiz Carlos Ramos Fonte: http://www.luizcarlosramos.net/?p=1658#comments

Bibliografia MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. TAYLOR, Vincent. Evangelio Segun San Marcos. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1979.

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PRÉDICA: MARCOS 4.26-34

3º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

EZEQUIEL 17.22-24 2 CORÍNTIOS 5.6-10

17 JUN 2012

Nilton Giese

1

História do Equador

O bispo Gonzalo López Marañón é um espanhol que foi enviado nos anos 1970 a Sucumbíos, no norte do Equador. Ele pertence à Ordem dos Carmelitas Descalços. Seu ministério desenvolveu-se por mais de 40 anos num contexto altamente violento e de extrema pobreza. A região de Sucumbíos faz fronteira com o sul da Colômbia, uma região de guerrilheiros, paramilitares, narcotraficantes e um grande número de pessoas que foram expulsas de suas terras por esses grupos armados. Nesse contexto, o trabalho do bispo Gonzalo enfatizou a organização das comunidades, o trabalho social, os mutirões, a solidariedade ecumênica. Aos 75 anos, um bispo católico romano deve aposentar-se. De repente, quarenta anos de pastorado acabaram em quatro dias. Esse foi o prazo que o Vaticano deu ao bispo Gonzalo para deixar a diocese, juntamente com os Carmelitas Descalços. No lugar deles, o Vaticano anunciou a chegada dos Heraldos do Evangelho, um grupo carismático que usa botas militares e apresenta-se com uma vestimenta do tempo das Cruzadas. A notícia comoveu as organizações civis de Sucumbíos. As vozes de protesto dos moradores não tiveram eco no Vaticano. A única resposta era: Roma locuta, causa finita. Monsenhor Gonzalo e os Carmelitas tiveram que deixar a Diocese de Sucumbíos e foram para Quito, onde todas as tardes eles começaram a celebrar um momento de oração e eucaristia numa praça pública, para que as comunidades superassem o momento de frustração pela possibilidade de viver e preservar sua fé nesse contexto totalmente diferente. Esse gesto concreto de não violência fortaleceu os grupos populares em Sucumbíos, que se afirmaram cada vez mais no seu compromisso com os mais pobres. Mesmo sem o apoio oficial da diocese, as comunidades continuam fortalecendo suas associações e projetos comunitários, afirmando que as sementes lançadas pelos Carmelitas Descalços não foram em vão.

2

Introdução

Quem trabalha nos ministérios da igreja sente frustração algumas vezes. Muitas vezes, somos questionados pelo impacto e pelos resultados concretos de nossa presença e ação. Nem sempre podemos medir esses impactos e resultados concretos, porque eles não são imediatos. Muitas vezes, o que semeamos em termos de formação pessoal, organização social, solidariedade etc. só se torna

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realmente visível alguns anos depois, quando essa pessoa assume alguma liderança na sociedade. Os textos bíblicos aqui referidos querem demonstrar que a vida sempre vai abrindo caminho, mudando a sorte dos que sofem sob qualquer forma de opressão, pois Deus é reconhecido como tal por seus atos libertadores (primeira leitura). O apelo de Jesus é para que as pessoas de boa vontade se unam a ele, confiantes, para sentir a força que o Reino possui. A união com Jesus – passando de fora para dentro do Reino – traz consequências que marcam para sempre a conduta cristã (segunda leitura). Num exercício de leitura bíblica ecumênica para os textos propostos neste estudo, vou usar algumas reflexões do padre biblista José Bortolini e dos Irmãos Claretianos, que estão em nosso site do Conselho Latino-Americano de Igrejas (www.claiweb.org).

3

Exegese

3.1 – Primeira leitura (Ez 17.22-24) O profeta Ezequiel foi levado para o exílio na Babilônia durante a primeira deportação (597 a.C.). É no exílio, vivendo com seu povo o peso da opressão babilônica, que exerce sua atividade profética. Sendo ao mesmo tempo sacerdote, procura animar seu povo, projetando a futura reconstrução de Jerusalém e do templo, símbolos da identidade nacional perdida. O livro de Ezequiel é uma proposta nova de sociedade, pois a que provocou a ruína do povo nada mais contém de bom. Os versículos de hoje têm sabor messiânico. Empregando uma imagem agrícola, o profeta apresenta Deus como aquele que tira um galho da copa do cedro (o povo eleito), transplantando-o para o alto monte de Israel (isto é, em Jerusalém, v. 22-23a). O cedro transplantado é apresentado como majestoso e cheio de frutos; debaixo de sua sombra, todos os pássaros do céu farão seus ninhos (v. 23b). É a descrição da sociedade ideal, que serve de abrigo e proteção internacional (os pássaros do céu representam as nações). O fim do exílio é visto como mudança de sorte, porque Deus é o Deus dos fracos. A imagem agrícola continua, agora expressa em termos de poda e crescimento: ele abaixa a árvore alta (o império babilônico opressor) e eleva a árvore baixa (isto é, liberta o povo oprimido; cf. Lc 1.52). O simbolismo torna-se ainda mais eloquente: agora se trata de secar a árvore verde (e isso está ao alcance de qualquer um) e de fazer brotar a árvore seca (o que ninguém poderá fazer, a não ser o que tem o poder sobre a vida). 3.2 – Segunda leitura (2Co 5.6-10) Alguns coríntios, levados pelas filosofias do tempo, achavam que os sofrimentos e as perseguições enfrentados por Paulo não tinham sentido nem valor. Melhor seria deixar a morada do corpo (morrer) para ir habitar junto do Senhor (v. 8). Paulo concorda, em parte, com eles. Ele também achava preferível morrer e estar com o Senhor (cf. Fl 1.23), mas continuar vivendo acarreta, tanto para ele

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como para os cristãos de Corinto, sérias responsabilidades das quais não podiam subtrair-se. No trecho de hoje, Paulo é movido pela confiança (v. 6-8) e pela fé. De fato, o centro do texto é o v. 7: “Caminhamos pela fé, e não pela visão”. Ora, a fé tem consequências concretas. Para Paulo, crer é comprometer-se, em comunidade, com o projeto de Deus, vivendo o amor, enfrentando e superando todos os obstáculos que aparecem, sobretudo sofrimentos e perseguições, esforçando-se para agradar a Deus (v. 9). 3.3 – Evangelho (Mc 4.26-34) Duas boas análises desse texto já foram publicadas em edições anteriores (PL 22, p. 175-181, por Julio C. Schweickardt, e PL 28, p. 240-246, por Teobaldo Witter). Nosso ponto de partida para a reflexão do evangelho é: Qual é o elemento libertador dessas parábolas? Como podemos encontrar a chave hermenêutica libertadora nessas parábolas? Originalmente, as parábolas faziam parte da tradição oral das histórias sobre Jesus. E como toda tradição oral, a possibilidade de retoques para o uso na pregação, no ensino e no compartilhar doméstico influi na proposta original. Tratar de procurar o sentido original da parábola dentro do contexto histórico de Jesus é uma das tarefas da exegese bíblica. Julio Schweickardt lembra que a comunidade de Marcos estava em Roma em torno do ano 70 d.C., quando já tinha sofrido as perseguições do imperador Nero. As bases dessa cidade estavam na escravidão e na repressão. É nesse contexto conflitivo de perseguição e sofrimento que a comunidade de Marcos ansiosamente reflete sobre parusia para o seu tempo. A parábola quer mostrar que a semente já foi lançada, mas não há nada que se possa fazer para adiantar o tempo da colheita. O que importa saber é que o reino de Deus está em marcha. As forças contrárias, que agora são as dominantes, estão com os seus dias contados. O reino de Deus começa com uma expressão religiosa pequena, com um trabalho que parece não ter muito impacto e visibilidade, mas que por sua visão universal e ecumênica vai se estendendo por sua mensagem de inclusão, onde todos e todas terão lugar debaixo da árvore. Teobaldo Witter lembra que esse discurso não é muito fascinante, porque o ser humano quer show. O ser humano quer um Reino que seduz e deixa todos de boca aberta pelos milagres, triunfos e revelação de privilégios. Por isso o discurso da cruz, de deixar-se constranger pelo grito dos sofredores, da com-paixão com os excluídos é algo contraditório com o que o ser humano espera ouvir. Conforme Marcos, para entender o reino de Deus, é necessária a fé. Com a imagem cotidiana dos agricultores (semeador) e das mulheres (grão de mostarda), as parábolas querem explicar que o reino de Deus é um proceso, não um show. Para instaurar o reino de Deus, são necessários mais do que milagres e shows. É preciso transformar as pessoas e criar uma nova humanidade. Isso não acontece de um momento para outro. Isso é um proceso para o qual é necessário ter muita paciência e esperança.

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4

Meditação

O padre José Bortolini nos diz que, para entender as parábolas de Marcos 4, é oportuno nos perguntarmos a qual etapa da atividade de Jesus elas correspondem; em outras palavras, por que Marcos as inseriu nesse lugar? No Evangelho de Marcos, Jesus inicia sua atividade com um estrondoso sucesso. Rapidamente, porém, o sucesso é substituído pela hostilidade da família e dos adversários de Jesus, a ponto de ele formar, com os que lhe são fiéis, uma nova família. As parábolas de Marcos 4, portanto, estão no centro do conflito entre Jesus e seus adversários. São parábolas que visam superar a crise. Mas não se trata só da crise de Jesus. O Evangelho de Marcos foi, talvez, o primeiro catecismo para os catecúmenos. Com eles também acontecia algo semelhante em relação à atividade de Jesus: no início, estavam bem dispostos, prontos para tudo, assíduos. Aos poucos, porém, o esmorecimento, dúvidas, crises e abandonos se avolumam. As parábolas, portanto, visam superar as crises da caminhada (dos catecúmenos e dos cristãos de todos os tempos). Marcos afirma que é preciso começar de novo (cf. 4.1, onde Jesus começa de novo. O Evangelho de Marcos tem diversos começos: cf. 1.1; 4.1; 8.31. É preciso começar sempre). Os catecúmenos e os cristãos de todos os tempos tendem ao desânimo ao ver o projeto de Deus sofrendo rejeições fortes, como aquelas que Jesus enfrentou. E se perguntam: se Jesus é de fato o Messias, o Filho de Deus (cf. 1.1), por que não é aceito? Por que ele não reage de forma mais convincente? Que atitude tomar diante da indiferença ou hostilidade em relação ao projeto de Deus? 4.1 – O reino de Deus tem força irresistível (v. 26-29) A parábola da semente que cresce por si só é uma das respostas à crise na atividade de Jesus e na caminhada das comunidades cristãs. Em meio aos conflitos, crises e resistências, o importante é ir semeando. É o que fez Jesus e o que devem fazer os cristãos. A parábola faz ver como trabalhavam os agricultores no tempo de Jesus: depois de semear, só voltavam a se ocupar com a lavoura na hora da colheita (o que não acontece mais hoje em dia, onde se faz necessário cuidar continuamente da plantação). O centro da parábola está no fato de que a semente, por si mesma (em grego, automate automaticamente), cresce e produz fruto. Isso porque possui dentro de si uma força irresistível. Basta semear, e vocês verão! Seu processo é lento, mas progressivo: folhas, espigas e, por fim, grãos que enchem a espiga (v. 28). É um alerta para os que querem tudo pronto; e também um aviso às comunidades sufocadas pela burocracia, estruturas e organismos. Cuidado: a semente do Reino cresce por si só. O importante é semear. 4.2 – Pequenez e grandeza do Reino (v. 30-32) A parábola do grão de mostarda, tida popularmente como a menor de todas as sementes, ilustra o contraste entre o início e o resultado da ação de Jesus

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3º Domingo após Pentecostes

e dos cristãos. O centro da parábola está no contraste entre a menor de todas as sementes da terra e a maior de todas as hortaliças. De fato, nas colinas do mar da Galileia, a mostardeira atingia três metros de altura ou mais. E as aves do céu construíam ninhos em seus ramos. Assim é a proposta do Reino: pequena em seu início, insignificante por causa dos conflitos e resistências, mas grandiosa em seu resultado, tornando-se proposta universal: as aves do céu representam nações e povos que vão aderindo ao projeto de Deus, semeado por Jesus, beneficiando-se dele. O reino de Deus será o ponto de encontro de todos os povos. 4.3 – Entrar na lógica do Reino para sentir-lhe a força (v. 33-34) A lógica do Reino é diferente daquela dos adversários de Jesus. Mesmo que o matem, ele é a semente jogada na terra, destinada a produzir fruto (cf. Jo 12.24: “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto”). Para sentir a força do Reino, é preciso ter a lógica de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça!” (4.9). Em outras palavras, é preciso entrar para fazer parte do Reino, porque, estando fora (cf. 4.11), não será possível superar crises, hostilidades e escândalos.

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Imagens para a prédica

– Deus é reconhecido como tal por seus atos de libertação. O texto de Ezequiel pode ajudar-nos a perceber Deus libertando para a vida mediante a organização da comunidade em torno de lutas específicas: terra, moradia, salários justos, saneamento, transporte etc. Quais são os sinais de esperança? – A força do reino de Deus. O evangelho de hoje pode ser atualizado, tomando-se uma conquista da comunidade: as dificuldades do início, resistências, conflitos e alegria pelas vitórias obtidas. – Consequências da fé (segunda leitura). A fé tem consequências diretas na carne das pessoas. Paulo ajuda a superar a divisão corpo-espírito. Quais são as consequências disso?

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Subsídios litúrgicos O bambu japonês http://www.youtube.com/watch?v=DjE-LEuV0Ig

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PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 6.1-13

4º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JÓ 38.1-11 MARCOS 4.35-41

24 JUN 2012

Humberto Maiztegui Gonçalves

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Introdução

Os textos indicados para este domingo mostram diversos contrastes. Há contrastes entre as dúvidas de Jó e as perguntas de Deus (Jó 38.1-11). Há contrastes entre a angústia dos discípulos no meio do temporal e a calma de Jesus (Mc 4.35-41). Finalmente, no texto da prédica, há contrastes entre a indignidade com a qual eram tratados os apóstolos e os frutos do evangelho (2Co 6.1-13). Contraste não é necessariamente uma incompatibilidade; pelo contrário, segundo o dicionário, trata-se da “oposição entre coisas ou pessoas, uma das quais faz sobressair a outra”1. Portanto as imagens ou atitudes contrastantes nesses textos têm por finalidade deixar mais evidentes as diferentes facetas e personagens que compõem o quadro. As perguntas de Deus para Jó não desvalorizam o sofrimento e a angústia da personagem. Pelo contrário, Deus “compreende” Jó, no sentido de que o abraça, convidando-o a aprofundar sua visão e a estendê-la, olhando para as bases e para os limites da criação. No Evangelho segundo Marcos, Jesus não ignora o perigo – depois de tudo ele está no mesmo barco. No entanto, sua atitude contrastante mostra o significado de sua presença redentora e libertadora em meio às dificuldades da vida humana. O mesmo acontece quando o apóstolo Paulo mostra o caráter vital, pacificador e transformador do evangelho em meio a uma realidade carregada de preconceito, exclusão e desprezo.

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Exegese

A Segunda Carta aos Coríntios apresenta-se como uma compilação de fragmentos ou pequenas cartas, algo semelhante ao que acontece com a Carta aos Filipenses. José Comblin – in memoriam – aponta quatro partes: a) 1.1-2.13+7.5-16: chamada de Carta da Reconciliação; b) 2.14-7.4: chamada de Carta da Apologia; c) 8-9: chamada de Carta de Serviço aos Pobres; d) 10-13: chamada de Carta de Loucura.2

Disponível em: http://www.dicio.com.br. COMBLIN, José. A Segunda Epístola aos Coríntios, p. 9.

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4º Domingo após Pentecostes

Diversos autores apontam para a particularidade do conjunto 6.14-7.1, que é indicado como uma primeira carta do apóstolo, que foi perdida (cf. 1Co 5.9)3, ou como o centro da primeira parte da epístola, rodeado por dois invólucros: um interno (2.14-6.13+7.2-4) e outro externo (1.8-2,13+7.5-16)4. Alguns questionamentos podem ser feitos à delimitação do texto proposto para a prédica: 6.1-13. Os comentários apontam para problemas em ambos os extremos da perícope. Segundo Comblin, 6.1-2 apresenta-se como uma conclusão da epístola anterior, e os versículos 6.11-13 parecem ser uma nova conclusão5. Em 6.1-2, pelo menos um termo em grego parece remeter à perícope anterior: parakaloumen. Esse termo, que pode ser traduzido como “exortamos” ou “rogamos”, aparece tanto em 5.20 (parakalountos) como nesse versículo. Sendo assim, 6.1 seria o final da exortação à reconciliação da perícope anterior. O versículo 6.2, por outro lado, inicia com a palavra grega legei, isto é, ele/a disse, referindo-se claramente às Escrituras (Is 49.8). O assunto da salvação, presente na citação final, remete-nos novamente à questão da reconciliação, e não ao discurso apologético que segue nesse capítulo. Por outro lado, o caráter apologético do texto, a partir de 6.3, também o vincula a outros textos dessa carta. Segundo explica Comblin, 6.3-10 praticamente repete 4.7-12. Além disso, dos seis termos usados em 6.5 (açoites, prisões, tumultos, trabalhos, vigílias e jejuns) cinco (trabalhos, açoites, prisões, vigílias, jejuns) encontram-se em 11.23-27.6 Será que devemos ler esse texto como mais uma apologia paulina na qual, como diz esse mesmo autor, “Paulo universaliza seu problema particular”, sentindo que “no seu caso (...) está implicada a própria concepção do evangelho”?7 Certamente essa é uma possibilidade hermenêutica bem segura; no entanto, parece-me que o texto e a vida nele contida oferecem-nos muito mais. Se olharmos a partir dos contrastes, chama a atenção, por exemplo, a alternância entre “vós” e “nós”. Esse “jogo” é diferente nesse texto do que em 4.12 e 5.13, onde, segundo Quesnel, “a oposição é tão claramente marcada que o segundo não pode, em caso algum, ser incluído no primeiro”8. No caso de 6.3-10, há uma transição “nós-vós-nós”, de maneira que o contraste acaba gerando a inclusão final de “vós” em “nós” (seguindo o esquema do ministério da reconciliação, que se apresenta a partir de 5.14)9. A unidade observada por Quesnel é o que nos permite, nesse caso, incluir 6.1-2 dentro de uma hermenêutica que poderíamos chamar de “apologética da reconciliação” ou, como apontamos desde o começo, um contraste cuja função é destacar a unidade do conjunto e não apenas separar as partes. Outra característica importante no conjunto do texto é o uso das ex-

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Idem, p. 13. QUESNEL, Michel. As Epístolas aos Coríntios, p. 39. COMBLIN, José. A Segunda Epístola aos Coríntios, p. 95. Idem, p. 95-97. Idem, p. 19. QUESNEL, Michel. As Epístolas aos Coríntios, p. 44. Idem, p. 42.

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4º Domingo após Pentecostes

pressões “ministério” (diakonia) e “ministros” (diákonos) em 3.6; 8.9; 4.1; 5.18 e 6.3-4.

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Meditação

Vamos primeiramente olhar para os contrastes e nuances que oferece o texto de prédica, partindo de 1Co 6.3-10 para alcançar sua conclusão (6.11-13) e entender sua ligação com a “Carta da Reconciliação” a partir de 6.1-2. O primeiro contraste, em 6.3, é dado pela tensão com a “ofensa” (proskopen). Duas negações precedem a ofensa (“de modo algum” e “ninguém”), gerando o contraste entre ofensa e não ofensa. Essa expressão não é a mesma que “escândalo”, mas se aproxima do sentido de “tropeçar”, presente em Jo 11.9s. O verdadeiro ministério apostólico contrasta com ofensa ou tropeço, para quem esse ministério serve como “diaconia”. Portanto, é por meio desse contraste que os “ministros” são vistos como participantes do “ministério”, mesmo diante de tribulações e sofrimentos (6.4-7). Em 6.6-7, há a introdução dos contrastes. Se, por um lado, essas pessoas que exercem o ministério “antiofensa” sofrem todo tipo de ataque e ofensa à sua dignidade, são capazes, pela ação do Espírito Santo, de transmitir o oposto, contrastando por meio da pureza ou sinceridade (cf. 11.3), do conhecimento, da paciência/longanimidade/perseverança/firmeza, da bondade/retidão/generosidade, do amor não hipócrita (literalmente), da palavra de verdade, no poder de Deus por intermédio dos instrumentos/ferramentas da justiça. Logo, em 6.8-10, há uma dinâmica maior de contraste, colocando lado a lado a glória oferecida e a desonra recebida; diante das calúnias recebidas, as palavras de reconhecimento; tratados como enganadores e sempre sendo verdadeiros; tratados como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos. Os contrastes já estão presentes no contexto da comunidade de Corinto: notoriamente dividida por classes sociais, com preconceitos diversos e sendo receptora das mensagens de diversos “apóstolos”, que atacaram o ministério do apóstolo Paulo.10 No entanto, esses contrastes não revelavam o sentido do evangelho; pelo contrário, às vezes escondiam a ação do Espírito Santo, deturpavam a verdade solidária de Cristo e igualavam a fé transformadora ao contexto opressivo e excludente da sociedade. A oposição dos açoites, prisões, tumultos, trabalhos, vigílias e jejuns contra pureza, conhecimento, paciência, generosidade, amor sincero, palavra de verdade e justiça; é o verdadeiro contraste que revela o poder de Deus e o sentido último da proclamação e da prática evangélica. A passagem de “nós” (apóstolos que se entregam totalmente à missão do evangelho de Cristo) para “vós” (pessoas que vivem nesse tipo de organização social antievangélica, sendo vítimas e multiplicadoras de seus males) e para um novo “nós” (onde todas as pessoas descobrem o poder do evangelho e participam

COMBLIN, José. A Segunda Epístola aos Coríntios, p. 9-13.

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4º Domingo após Pentecostes

como comunidade de fé da tarefa apostólica da transformação da morte em vida) mostra o verdadeiro contraste promovido pelo evangelho. Fica para nós fazermos uma análise semelhante entre os contrastes que promovem a morte e os verdadeiros contrastes que somos chamados a proclamar e a viver em nossas comunidades de fé.

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Imagens para a prédica

Podemos falar/mostrar os contrastes contrários ao evangelho: açoites – estatísticas e/ou notícias sobre tortura; prisões – desumanização, drogas e outras dependências; tumultos – violência no futebol, manifestações socioculturais, repressão a mobilizações populares etc.; trabalhos – o trabalho escravo, o trabalho infantil, o trabalho em condições inadequadas, a informalidade e o subemprego; vigílias – saúde pública, pessoas que moram nas ruas, incêndios e desastres; e jejuns – fome, subnutrição, exclusão da terra etc. Por outro lado, temos os contrastes do evangelho: pureza – nas crianças, na oração, no testemunho de pessoas idosas, nas pessoas discriminadas por qualquer razão; conhecimento – nos estudos bíblicos, nas escolas, na catequese, na teologia, no diálogo entre igrejas e religiões; paciência – no acolhimento e aconselhamento cristão, na esperança diante de adversidades; generosidade – em todas as práticas solidárias e diaconais da igreja, na contribuição com trabalho, tempo, talentos e tesouros para o desenvolvimento da missão; amor sincero – no perdão que recebemos de Deus e que partilhamos superando ódios e quebrando barreiras; palavra de verdade – na prédica e em todas as formas de proclamação do evangelho; e na justiça – na participação nas lutas por justiça, paz e integridade da criação, na caminhada junto aos movimentos e organizações populares, na defesa dos direitos humanos e do direito dos povos.

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Subsídios litúrgicos

Um contraste que pode funcionar bem, principalmente em celebrações noturnas, é conseguido apagando as luzes da igreja e usando velas. Para aproveitar isso, poder-se-ia iniciar o culto com as luzes apagadas e entrar em procissão com velas, não apenas pelo centro da nave da igreja, mas de diferentes direções, encontrando-se no altar (tudo acompanhado de um canto apropriado). Outro bom momento para trabalhar contrastes é o da confissão/absolvição. A confissão poderia ser feita da seguinte forma: Confessamos a tortura e toda forma de violência de que participamos ou diante das quais nos omitimos; queremos nos reconciliar e encontrar com Jesus a generosidade e o amor sincero... Na absolvição, poder-se-ia seguir a seguinte forma:

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4º Domingo após Pentecostes

O Senhor nos perdoe e liberte de todos os nossos pecados, falhas e omissões e que “a união vença a divisão, o perdão sare a culpa e a alegria conquiste o desespero”11. Finalmente, no ofertório, poderiam vir (de um lado da nave do templo) pessoas com pratos vazios, símbolos de violência, morte, discriminação e (do outro lado) pessoas com pão, bandeiras ou símbolos da paz, símbolos de vida e inclusão e encontrar-se e abraçar-se na frente da mesa eucarística.

Bibliografia COMBLIN, José. Segunda Epístola aos Coríntios. Comentário Bíblico NT. São Leopoldo/São Bernardo do Campo/Petrópolis: Sinodal/Imprensa Metodista/Vozes, 1991. QUESNEL, Michel. As Epístolas aos Coríntios. São Paulo: Paulinas, 1983.

5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES MARCOS 5.21-23, 35-43 LAMENTAÇÕES 3.22-33 2 CORÍNTIOS 8.7-15

LIVRO DE ORAÇÃO COMUM IEAB. Santo Matrimônio, p. 188.

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PRÉDICA: EZEQUIEL 2.1-5

6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MARCOS 6.1-13 2 CORÍNTIOS 12.2-10

08 JUL 2012

Olmiro Ribeiro Junior Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda, deve estar dentro do peito ou caminha pelo ar. Pode estar aqui do lado, bem mais perto que pensamos... Há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo, tomar conta da amizade. Alegria e muito sonho, espalhados no caminho. Verdes, planta e sentimento, folhas, coração, juventude e fé. (Milton Nascimento – Coração de Estudante)

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Introdução

A igreja e a comunidade cristã mantêm-se por meio de uma palavra, uma fala diferenciada. Pentecostes foi um grande evento em que as pessoas foram tocadas para falar a mensagem de Deus. Jesus percorreu aldeias, curou, sofreu, morreu e ressuscitou, para que a mensagem de Deus não se perdesse, não fosse silenciada. Após Pentecostes, somos convidados a não esquecer essa mensagem que transforma, liberta e significa vida. Somos convidados a continuar falando, como nos fala a canção de Milton Nascimento. Os textos bíblicos revelam o compromisso que temos com a mensagem de Deus, as dificuldades de falar essa mensagem, que é a mensagem da cruz. Em 2 Coríntios 12.2-10, Paulo revela o espinho na carne, sinônimo de sua fraqueza, posto para que ele não se glorie por ser mensageiro de Deus. Marcos 6.1-13 destaca a incompreensão dos conterrâneos de Jesus, que se maravilham com suas palavras, mas ficam descrentes por conhecê-lo bem. Consecutivamente, aparecem o envio e a exortação para os discípulos saírem pregando a mensagem de Deus. A mensagem de Deus é maior do que o mensageiro, e é o Espírito Santo que nos chama e capacita para falar tal mensagem mediante a graça de Deus. Mensagem que é palavra, pensamento, vivência e compromisso com a cruz.

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Exegese

2.1 – O livro de Ezequiel O livro de Ezequiel surgiu entre os anos de 593-571 a.C. durante os mais terríveis dias da história de Judá: os setenta anos de cativeiro na Babilônia. Ezequiel, que no hebraico significa “Deus fortalece”, era de família sacerdotal. Em Judá, ele estava se preparando para o trabalho sacerdotal do templo quando foi

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6º Domingo após Pentecostes

levado prisioneiro à Babilônia em 597 a.C. Ezequiel é o primeiro a profetizar fora da terra de Israel. Isso significa uma ruptura decisiva na história da profecia bíblica: alguém apresentar-se como profeta longe da terra santa. Ezequiel é o único livro profético inteiramente autobiográfico. Ele foi escrito na primeira pessoa a partir da perspectiva do próprio profeta, com vasto número de ações simbólicas (3.22-26; 4.1-14; 12.10-20; 21.6,18-24; 24.15-24; 37.15-28). Ezequiel atuou como profeta dos exilados, dos que estão afastados da terra santa, ou seja, sem Deus. Mediante profecias, parábolas, sinais e símbolos, o profeta procura dramatizar a mensagem de Deus ao povo exilado, centrando a mensagem na restauração futura de Israel. Ezequiel tem como propósito principal lembrar à geração nascida durante o exílio babilônico a causa da destruição sofrida por Israel, o julgamento das nações gentias e a chegada da restauração nacional de Israel. O profeta reacende no povo o desejo de retornar à terra prometida. 2.2 – Contexto narrativo A perícope prevista para o 6° Domingo após Pentecostes encontra-se no início do livro de Ezequiel, no bloco que contém mensagens de condenação (Ez 1.1-24.27). A vocação do profeta encontra-se em Ezequiel 1.1-3.21, trecho que pode ser estruturado da seguinte forma: a) introdução (Ez 1.1-3); b) visão da glória de Deus (Ez 1.3-28); b) o atalaia de Israel (Ez 2.1-3.21). A perícope destaca o chamado de Ezequiel: após ter tido as visões, ele ouve a voz do Todo-Poderoso, que o ordena a falar ao povo o que viu e ouviu. 2.3 – Análise do texto de Ezequiel 2.1-5 É importante considerar o contexto anterior das visões para a análise do texto: após ter visões de Deus, o profeta ouve a voz do Altíssimo. V. 1 – Ezequiel ouve a voz do Senhor, que o chama de Filho do homem e pede para colocar-se em pé. Ouvir a voz: a marca do profeta é ouvir a voz de Deus. No caso de Ezequiel, o povo estava se acostumando na Babilônia a uma certa liberdade. O profeta é aquele que aproxima o povo rebelde de Deus. Filho do homem: terminologia característica em Ezequiel para diferenciar a criatura do criador. O Filho do homem é o ser errante, mas que não perdeu o vínculo com a majestade do criador. Põe-te em pé: o chamado de Deus tira as pessoas de sua área de conforto. Por isso ficar em pé é muito mais do que uma simples posição de respeito, mas revela uma ruptura da posição cômoda em que a pessoa estava. Ficar em pé é o compromisso de estar pronto também para andar, é fazer a vontade de Deus, que está acima da vontade humana. V. 2 – Toda a disposição de ouvir e de servir a Deus, ou seja, ficar em pé, não é fruto da vontade humana, mas do próprio Deus, por intermédio de seu Santo Espírito. Espírito: ruach, no hebraico, é a força vital, o sopro divino que dá vida, alento e poder às suas criaturas. Ele não é uma subdivisão humana, mas a força, a presença, a ação misteriosa de Deus na humanidade.

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6º Domingo após Pentecostes

V. 3 – Aqui se encontra a descrição da missão do profeta: ele é chamado para falar aos filhos rebeldes de Israel, aqueles que se afastaram e continuam afastados do amor e da presença de Deus, mas também às nações que atacaram Israel, destruíram a terra, exilaram o povo e, assim, afrontaram o poder de Deus. A mensagem, portanto, não é destinada apenas ao povo de Deus, mas também aos inimigos do povo. Envio: o profeta só pode cumprir sua missão se for enviado por Deus. O envio demonstra que ele não está agindo por sua vontade e interesse, mas pela vontade do Senhor. A função de Ezequiel é falar ao povo que o Senhor não o esqueceu. V. 4 – Este versículo descreve as características dos ouvintes que o profeta encontrará: um povo indiferente, acomodado com a suposta liberdade e facilidade do exílio. No entanto, com todas as dificuldades e certa rejeição dos ouvintes, o profeta necessita falar a mensagem do Senhor. Duro semblante: Pessoas indiferentes, que não acolherão o profeta e suas palavras. Obstinados de coração: o exílio aparentemente deu uma vida boa e agradável para o povo; assim, ele não tem desejo e necessidade de voltar. Ele está convencido de que está bem ali onde está. V. 5 – Independente da disponibilidade e da aceitação do povo, o profeta tem que cumprir sua missão e vocação de falar. O povo necessita ter consciência de que a presença de Deus esteve entre eles na pessoa do profeta. Quer ouçam, quer deixem de ouvir: o profeta não tem responsabilidade com a aceitação da mensagem. Ele tem responsabilidade de falar essa mensagem, de torná-la conhecida, mas não aceita. O êxito da mensagem não depende do profeta, apenas da divulgação. Profeta: a voz de Deus entre o povo, a voz de juízo e consolo, o convite ao arrependimento, à conversão e à bênção.

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Meditação

Após a festa de Pentecostes, a igreja segue sua missão de anunciar a mensagem da cruz, mensagem de juízo, de perdão e de graça. Mensagem que cativa e encanta as pessoas a tornar-se mensageiras de tal palavra. A igreja é convidada a seguir fazendo o que os profetas do Antigo Testamento, como Ezequiel, fizeram: ouvir, seguir o chamado e o envio e falar. Dessa maneira, a mensagem precisa incentivar as pessoas a cumprir o chamado e o envio que receberam no Batismo: anunciar a mensagem de Deus em palavras e ações. 3.1 – Libertar do quê? – Libertar da autoglorificação, da necessidade de reconhecimento e bajulação das pessoas envolvidas em anunciar a mensagem de Deus, que não conseguem perceber que importante é a mensagem e não o mensageiro. – Libertar da falta de compromisso, da preparação e do engajamento com a mensagem de Deus, que é a mensagem da cruz. Libertar da deturpação de anunciar uma mensagem agradável, baseada em conivência relacional e amigável, mas sem o fundamento do perdão, do juízo e da graça.

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6º Domingo após Pentecostes

– Libertar da acomodação e da inércia, da falta de envolvimento com a mensagem que vem como chamado e envio. Deus fala para chamar e enviar as pessoas a viver a sua vontade. – Libertar da falta da pregação da mensagem da cruz, da falta de ouvir a voz e a fala de Deus. 3.2 – Libertar com base em quê? – Libertar com base na ação de Deus por intermédio do Espírito Santo, que chama pessoas para anunciar a sua mensagem. Esse chamado nos cativa e compromete a falar da vontade de Deus. – Libertar com base no fundamento da igreja cristã e da Reforma Protestante, a pregação da Boa-Nova, sem a qual não existe comunidade. 3.3 – Libertar para quê? – Para motivar as pessoas a viver o seu chamado no Batismo de forma comprometida, tornando-se mensageiras de Deus, e não apenas sócias de uma entidade religiosa. – Para enviar as pessoas a anunciar a mensagem da cruz, sem autoglorificação e imposição, mas com graça e paz. Anunciar com o compromisso de anunciar, sem impor. – Para motivar as comunidades a viver baseadas na palavra de Deus e não em tratos e conchavos pessoais. Motivar para que a palavra de Deus seja a base e o alvo da convivência. – Para incentivar as pessoas a sair da acomodação, do círculo de estabilidade e propagar a mensagem em outros locais e para outras pessoas, fora dos muros, dos guetos, das comunidades. 3.4 – Tópicos para a prédica – Ezequiel foi chamado para falar a mensagem de Deus a seus conterrâneos que viviam confortavelmente no cativeiro. O profeta tem a tarefa de anunciar que não existe vida plena sem Deus. Também Jesus fala aos discípulos sobre o compromisso de anunciar a Boa-Nova e adverte-os a não se frustrar com a ingratidão das pessoas. – Os textos bíblicos convidam-nos a refletir sobre o lugar e a importância da mensagem de Deus na comunidade. Destacam a importância do chamado e do envio para a vivência da fé, ou seja, o Espírito Santo nos chama e capacita a testemunhar a mensagem, que não é função de um especialista da fé, mas é tarefa de cada membro da comunidade a partir de sua fé. – Analisar qual mensagem tem sido vivida em nossa comunidade: a mensagem da cruz ou as mensagens de conivência relacional? Analisar se o evangelho dispõe as pessoas a servir com seus dons ou se elas vivem como se estivessem num clube social, exigindo benefícios e fazendo favores.

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6º Domingo após Pentecostes

Comprometer a comunidade a anunciar a mensagem, sem impor ou obrigar as pessoas a aceitar tal mensagem. A comunidade está comprometida com o testemunho e não para impor um compêndio de regras a serem cumpridas.

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Recursos

4.1 – Dinâmica da cruz 1º Passo: Trabalhar a folha em branco. A pessoa que vive sem o Batismo, sem o chamado de Deus, não descobre seu valor e sua identidade. Nós, distantes de Deus e da comunidade, igualmente não sabemos quem somos, por que vivemos e para que vivemos. 2º Passo: Formar uma dobra na folha, semelhante a uma “meia-água”. No convívio com Deus e com a comunidade, vamos reconhecendo a mensagem, o chamado e o envio de Deus, e assim vamos nos dispondo a servir, descobrindo quem somos. 3º Passo: Fazer mais uma dobra e formar a casa. Destacar que essa é a nossa vocação perante Deus: ser templo do Espírito Santo. O chamado de Deus nos envolve e modela a viver como filhos e filhas amadas. 4º Passo: Fazer uma dobra, dobrando a folha no meio. Destacar que, diante de nossa condição existencial de pecadores, nos isolamos em nossa existência, procurando unicamente o nosso bem. Ao não viver o chamado e o envio de Deus, vamos diminuindo como pessoas e esquecendo que somos filhos e filhas amadas. 5º Passo: Fazer outra dobra de 1/3 da folha que foi dobrada ao meio. Dizer que o egoísmo, a ganância, o individualismo e o afastamento de Deus são algo vicioso. Dessa maneira, cada vez mais vamos diminuindo e nos esquecendo de nossa missão e de nosso valor. 6º Passo: Fazer mais uma de dobra 2/3. Após a dobra, destacar que a pessoa chega ao limite, no ponto em que a vida não é mais suportável. Que estamos reduzidos a quase nada. Refletir sobre o que fazer. 7º Passo: Rasgar um pedaço de 1/3. Trabalhar a necessidade de romper com algumas coisas que nos escravizam, de mudar e voltar ao chamado de Deus, de viver o Batismo. Convidar para refletir sobre o que impossibilita a vivência do chamado, da mensagem de Deus. O que nos afasta de Deus e da convivência com as outras pessoas? Rasgar então um pedaço, pensando no que se está disposto a mudar.

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6º Domingo após Pentecostes

8º Passo: Rasgar mais um pedaço de 2/3. Convidar a pessoa a pensar em algo mais de que ela gostaria ou necessitaria mudar. Que compromisso ela está disposta a assumir para viver a mensagem de Deus? Depois rasgar o papel.

9º Passo: Guardar o miolo do papel embaixo da perna. Advertir para não abrir. Depois trabalhar com o que sobrou dos cortes no papel. Pedir às pessoas para que formem a palavra “lixo” com o que sobrou, convidando a refletir que a mensagem de Deus nos recicla: para Deus, nada é lixo ou descartável. 10º Passo: Montar a palavra “lixo”. Montar a palavra “luz”, destacando que quem possibilita e nos convida a mudar, a transformar nossa vida é Deus, é Cristo, a Luz do mundo, que ilumina a nossa escuridão. Igualmente fazer com que as pessoas possam adivinhar a palavra “luz”. 11º Passo: Após montar a palavra “luz”, montar duas pessoas, destacando que o processo de mudança acontece na comunhão, partilha e solidariedade entre

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as pessoas. Enfatizar que onde duas ou três pessoas se reúnem, Deus está no meio delas. Igualmente possibilitar que as pessoas possam adivinhar. 12º Passo: Após montar as duas pessoas, destacar que isso só acontece a partir do centro da nossa existência. Convidar as pessoas a abrir o central de sua vida (que antes foi colocado de lado). Destacar a centralidade da cruz para a vida com Cristo. 13º Passo: Após abrir a cruz, montar o altar, destacando que todo o processo de autodescobrimento, de mudança, aproximação de Deus e convivência comunitária tem um lugar fundante para acontecer, que é o culto. O culto é o local primordial em que Deus vem até nós para nos alimentar, curar e sarar, mediante sua palavra, os sacramentos e a comunhão.

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4.2 – Música: “Coração de Estudante” como meditação. 4.3 – Poema: “Profeta moderno” (Olmiro Ribeiro Junior) Um profeta moderno, entristecido com a maldade e a perversão da humanidade, pede demissão a Deus. Ele não quer mais falar sobre o seu Senhor às pessoas. Consequentemente, Deus interroga o profeta sobre as razões que redundaram em tal convicção. O profeta, indignado, responde: – Senhor, como vou falar de um Deus que age como um pai e uma mãe, que cuida e protege, enquanto existem tanta fome, guerras, violência e morte? As pessoas se matam por matar, criminosos atormentam e executam as suas indefesas vítimas friamente. A polícia pouco protege, e quando o faz, assassina os delinquentes para puni-los. As pessoas brigam, se ofendem, fazem inimizades por motivos banais. Pouca gente protege e respeita a vida que tu nos deste. – Senhor, como eu vou falar do teu amor, enquanto o sexo, a prostituição, a promiscuidade e o egoísmo são mais importantes do que o teu amor? Como falar de amor a uma família que perde sua única filha atropelada por uma pessoa embriagada, à namorada que vê seu amor ser assassinado por uma bala perdida, à mãe que presencia o suicídio do filho por overdose? – Senhor, como eu posso falar de misericórdia e perdão se os países ricos oprimem, lançam bombas, devastam com guerras os países mais fracos para explorá-los e empobrecê-los ainda mais? Como falar de justiça e misericórdia para uma mulher que viu seu marido ser preso por ter roubado comida, enquanto políticos, empresários e parte das elites enriquecem desviando verbas, sonegando impostos, praticando o estelionato, e tudo fica por isso mesmo? Como acreditar na justiça se ela pune a pobreza, a cor da pele e não o delito? Deus escuta pacienciosamente e responde-lhe com os olhos cheios de lágrimas: – Meu filho amado, isso tudo que você me contou não são motivos para desistir. Justamente por essas coisas que você necessita seguir falando do meu amor às pessoas, para ver se o meu amor, a minha misericórdia, possa estar na vida das pessoas. Para que elas possam viver do e no meu amor, libertas do egoísmo, da indiferença, que infundem todo mal, atrocidades e sofrimentos no mundo. Não desista, meu filho! Muitas pessoas não entendem e nem querem entender o meu amor, que criou o mundo e o mantém. Eu nunca desisto da humanidade, pois a cada novo dia mais e mais pessoas reconhecem o meu amor e passam a viver dele. E elas só chegam a conhecê-lo por causa de profetas como você, que propagam minhas palavras, minha esperança e meu juízo para estruturas e sistemas que infundem a morte.

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6º Domingo após Pentecostes

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: 1. Não olhes para os pobres com os olhos dos soberbos, mas olha para os pobres com os olhos de Jesus, que lhes deu alimento e se fez um com eles. 2. Não olhes para os ricos com os olhos dos que carregam ódio e inveja, mas olha para os ricos com os olhos de Jesus, que os ensinou a repartir e que, ao fazer isso, se tornam o olhar de Deus na terra. 1. Não olhes para os pecadores com os olhos dos que se acham perfeitos, mas olha para os pecadores com os olhos de Jesus, que lhes pediu arrependimento e concedeu o perdão. 2. Não olhes para os desesperados com os olhos dos indiferentes, mas olha para os desesperados com os olhos de Jesus, que morreu para que a vida tivesse esperança, e deseja que a nossa vida cristã seja esperança e cuidado entre as pessoas. 1. Não olhes para o mundo com os olhos do mal, do diabo, mas olha para o mundo com os olhos de Jesus, que amou este mundo e deseja criar por intermédio de nós um novo céu e uma nova terra. 2. Ajuda-nos, Amado Deus, a enxergar as pessoas e as situações com os teus olhos. Oração final (Martim Lutero): C: Tu és um Deus maravilhoso, cheio de amor. Tu nos governas maravilhosa e amigavelmente. Tu nos levantas, quando nos rebaixas. Tu nos tornas justos, quando de nós fazes pecadores. Tu nos levas ao céu, quando nos atiras no inferno. Tu nos dás a vitória, quando permites que sejamos vencidos. Tu nos consolas, quando nos deixas enlutados. Tu nos fazes alegres, quando nos deixas gritar. Tu nos fazes cantar, quando nos deixas chorar. Tu nos fortaleces, quando sofremos. Tu nos tornas sábios, quando de nós fazes tolos. Tu nos tornas ricos, quando nos envias a pobreza. Tu de nós fazes senhores, quando nos deixas servir. Cantos

Bibliografia BÍBLIA de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004.

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PRÉDICA: MARCOS 6.14-29

7º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

AMÓS 7.7-15 EFÉSIOS 1.3-14

15 JUL 2012

Erní Walter Seibert

1

Introdução

A história que o texto apresenta é a morte de João Batista. Mas o contexto em que essa história é contada não é o contexto cronológico da morte de João Batista. Não se sabe exatamente quanto tempo antes da narrativa dessa história ocorreu a morte de João Batista. Os discípulos de Jesus haviam saído a pregar. Eles haviam feito muitos sinais e milagres. Todos esses acontecimentos, mais os milagres que Jesus havia feito, chegaram aos ouvidos de Herodes. Então Herodes se lembrou de que ele havia mandado matar João Batista. Herodes liga os acontecimentos da morte de João Batista àquilo que ele agora estava ouvindo de Jesus e seus discípulos. Ele pensa que, talvez, Jesus fosse João Batista ressuscitado. Herodes quer conhecer Jesus. Na verdade, o texto começa a preparar a transição do ministério de Jesus da Galileia para Jerusalém. Ele se encaminha para a fase final de seu ministério, quando ele enfrentaria sofrimento e morte. Vendo as perícopes deste domingo (Am 7.7-15 e Ef 1.3-14), elas nos lembram, por um lado, as dificuldades pertinentes ao anúncio da mensagem de Deus. Por outro lado, especialmente a epístola mostra-nos como o anúncio dessa mensagem é para louvor da glória de nosso Deus. Foi para que a boa notícia existisse que Jesus morreu e ressuscitou. Anunciar a vontade de Deus e a boa-nova da salvação leva, muitas vezes, a sofrimento e morte.

2

Exegese

O texto propriamente conta-nos como a morte de João Batista causou uma profunda impressão na mente de Herodes. Herodes havia cometido uma grande injustiça, e isso não lhe saía da mente. O texto conta-nos, em detalhes, vários aspectos da vida do rei, da corte e do povo. Primeiramente, ele nos fala de detalhes da vida familiar do rei. Herodes, que no caso é Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, havia casado com a mulher de seu meio-irmão Filipe. Pela lei dos judeus, isso era proibido. Mesmo assim, o rei casou. Por que as pessoas erram, mesmo sabendo que estão cometendo um erro? Por vezes, as pessoas sentem-se acima da lei. Outras vezes, elas são envolvidas por situações da vida das quais não conseguem sair. Governantes que se sentem acima da lei e acham que não a precisam cumprir existem até os nossos dias. O texto não diz por que Herodes casou com a mulher de seu irmão. Mas tan-

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7º Domingo após Pentecostes

to ele como sua mulher Herodias sabiam que isso estava errado. Mesmo assim, eles se casaram. Outro aspecto que o texto nos mostra são a vida e a pregação de João Batista. Um aspecto da vida de João Batista que o texto apresenta era seu comportamento. João era reconhecido como homem bom e temente a Deus. O rei, inclusive, gostava de ouvi-lo, mesmo sabendo que João apontava seus erros. A pregação dura da lei não precisa ser feita de maneira que o pecador denunciado se sinta rejeitado ou repelido. É certo que Herodias nutria um ódio mortal por João, mas isso dizia mais da personalidade dela do que da conduta e pregação de João Batista. O precursor de Jesus também era corajoso. Não teve medo de denunciar o erro do governante, do poderoso. A pregação de João não colocava panos quentes sobre uma situação errada. O erro era denunciado. A ferida tinha de ser limpa, e isso implicava dor. Tratar do pecado não é coisa simples e fácil. A história bíblica também nos mostra que a ocasião propícia para a prática do mal facilita a execução de um crime. A ocasião para Herodias executar seus planos de eliminação de João Batista é descrita com riqueza de detalhes. O rei estava de aniversário. Foi celebrado um banquete. No banquete estavam presentes convidados ilustres. O orgulho do rei estava em jogo. Ele estava diante de pessoas poderosas, ante as quais demonstrar poder podia ser algo desejável. A filha de Herodias faz uma dança especial diante do rei e dos convidados. O rei quer mostrar que gostou da dança e que tem poder. Herodias pede a cabeça de João Batista. O rei fica constrangido em não atender o pedido. Deixar de atender o pedido da dançarina podia parecer fraqueza. Como resultado da situação criada, João Batista é executado. Pois essa história da morte de João Batista é contada no evangelho, quando lembra que os discípulos de Jesus voltaram de uma jornada de pregação que causou grande impressão na opinião pública. Herodes lembra da morte de João Batista. Jesus estava indo para o auge de seu ministério, para o tempo mais difícil que iria enfrentar. A morte de João Batista antecipa o que aconteceria a Jesus. Sofrimento e até a morte acompanham a tarefa da pregação ao longo da história do cristianismo. São muitos os exemplos de pessoas que sofreram perseguição e morte porque denunciaram poderosos e anunciaram o reino de Deus. O que o texto pode dizer aos cristãos de hoje? Que situações semelhantes o cristão enfrenta hoje em sua tarefa de testemunhar?

3

Meditação

Sem dúvida, o tema para o qual o texto bíblico aponta é a pregação da Palavra. Pregar a Palavra significa anunciar os desígnios de Deus. Significa falar sobre o problema humano, que pode ser designado como transgressão da lei ou pecado, e também significa falar da vida e da obra de Jesus Cristo, aquele que venceu o pecado e oferece nova oportunidade de vida ao ser humano. O primeiro aspecto disso aparece no versículo 14: “O rei Herodes ouviu falar de tudo isso...” Os versículos anteriores apontam para o que significa “tudo

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7º Domingo após Pentecostes

isso”. Jesus ensinava nos povoados (Mc 6.5). Jesus envia seus discípulos. Os discípulos anunciam a mensagem de Deus. Sua mensagem era uma mensagem que convidava ao arrependimento (Mc 6.6-12). Fatos extraordinários acompanham a pregação. Discípulos de Jesus são até hoje aqueles que o Senhor convida para anunciar sua mensagem. Faz parte da missão de um discípulo de Jesus participar dessa missão. Deus não abandona seus discípulos nessa missão. O segundo aspecto que o texto deixa claro é que a pregação da Palavra produz efeitos. Herodes ouviu falar desses efeitos. Ele, que conheceu a pregação de João e inclusive ordenou que ele fosse morto, ficou impressionado com a notícia que lhe chegava do anúncio da Palavra e dos efeitos dessa pregação. Sua consciência não o deixava sossegado. A pregação da Palavra não é algo sem sabor e sem consequências. Ela sempre produz resultados. Ela não volta vazia. E o que dizer, então, de tantas pregações que são feitas e que, aparentemente, não têm efeito? Igrejas, em várias partes do mundo, estão vazias. Em muitos lugares, o cristianismo parece que perdeu o vigor. O que estará acontecendo? Sem dúvida, é importante considerar o conteúdo da pregação. Não é qualquer pregação que é a pregação da mensagem de Deus. É preciso ser fiel a Deus. A promessa que Deus dá é que sua Palavra não volta vazia. Ser fiel a Deus, à sua Palavra, é essencial. Por outro lado, não devemos ficar com medo das consequências da pregação. Se ela trouxer sofrimento, e até mesmo a morte, seremos coparticipantes dos sofrimentos de Cristo. E isso, em vez de desonra, é honroso para um discípulo de Cristo. Muitas vezes, a pregação da Palavra põe em risco o pregador. O texto também nos mostra que a pregação da Palavra denuncia pecados. Deus é santo. Sua vontade é santa. Os pecados precisam ser denunciados. Devem ser denunciados com amor, mas devem ser denunciados. Essa pregação da lei de Deus como juízo de Deus é algo que precisa acontecer na pregação. Muitas vezes, a pregação da lei parece apenas a pregação de orientações gerais, sem consequências eternas. Estar fora dos caminhos do Senhor é estar no caminho da morte. Essa pregação da lei provoca a ira. Foi o que aconteceu com Herodias. Mas ela visa ao arrependimento e à salvação das pessoas. Foi essa a intenção de João Batista ao denunciar a situação de pecado que o rei vivia. Coragem e amor devem acompanhar a pregação da lei. Coragem para não ficar constrangido e sem ação. Coragem também é necessária para andar nos caminhos do Senhor. Se Herodes e Herodias tivessem a coragem de andar nos caminhos do Senhor, não teriam andado em muitos dos caminhos que eles percorreram. Amor é necessário para, mesmo em situação de risco, buscar o pecador. A pregação da Palavra visa ao arrependimento. Essa ênfase é muito forte no texto. O que João Batista pretendia não era apenas mostrar o erro. Ele pretendia a salvação do rei e de sua família. Foi a mesma ênfase que Jesus deu ao ensinar os discípulos. Eles deveriam pregar o arrependimento. Arrependimento significa meia-volta. Significa mudar de direção. Significa começar a andar no caminho certo.

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7º Domingo após Pentecostes

Por isso a pregação da Palavra visa à novidade de vida. Nova vida é o resultado do arrependimento e da fé em Jesus. Deus dá a todos uma nova oportunidade. Esse é o objetivo principal. Não é destruir, mas levantar, construir, edificar. Novidade de vida é o resultado da pregação da palavra de Deus. Finalmente, o texto nos indica que a pregação da Palavra aponta para o sofrimento, a morte e a ressurreição de Cristo. João Batista foi morto. Jesus estava se dirigindo para o final de seu ministério. Ele também seria morto. Mas ele não foi vencido pela morte. Ele ressuscitou. Ele trouxe vida eterna para todos.

4

Imagens para a prédica

Uma imagem que pode ser explorada na pregação encontra-se no mundo da comunicação. Comerciais veiculados pelos meios de comunicação (rádio, TV, jornais/revistas etc.) visam gerar um comportamento no público-alvo. Comerciais de carros esperam que as pessoas comprem o carro anunciado. Há também mensagens dúbias. Em carteiras de cigarros, vê-se um design muito bonito e, concorrendo com a mensagem de prazer, está um anúncio de que fumar faz mal à saúde. Qual das duas mensagens é compreendida e seguida pela pessoa que vê a carteira de cigarros? Por outro lado, devemos pensar a respeito do que Deus espera que seus discípulos comuniquem. Qual o objetivo da pregação? O que as pessoas captam da pregação em nossos dias?

5

Subsídios litúrgicos

No culto, uma parte importante da liturgia é chamada “da palavra”. Ali a Bíblia é lida e o sermão anunciado. Será que as pessoas que participam do culto percebem essa dinâmica? O que poderia ser melhorado ou enfatizado na estrutura do culto, para que o anúncio da Palavra ficasse mais marcante? Poderiam ser usados mais recursos técnicos, como data-show, vídeos, internet? Ou deveria haver mais ênfase no conteúdo da mensagem, para que o anúncio do juízo de graça ficasse mais evidente? De qualquer forma, a pregação da Palavra vai acompanhar a igreja até o final dos tempos. Que Deus abençoe sempre essa pregação.

Bibliografia BÍBLIA de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil. BÍBLIA de Estudo Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010. GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Markus. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1977.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 2.11-22 JEREMIAS 23.1-6 MARCOS 6.30-34, 53-56

8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES 22 JUL 2012

Sílvia Beatrice Genz

1

Introdução

A Epístola aos Efésios, assim como o texto de prédica, fala da igreja e das relações de Cristo com ela. Cada peça-pessoa dessa igreja está fundamentada sobre o Cristo. A carta em seu conteúdo diz que Cristo não pertence a um povo, mas une os povos sob o mesmo alicerce. Lutero diz: “Nessa epístola, S. Paulo ensina, em primeiro lugar, o que seja o evangelho, como foi provido em eternidade exclusivamente por Deus, merecido por Cristo, tendo partido do mesmo; e que todos os que nele creem se tornam justos, probos, vivos, salvos e livres da lei, do pecado e da morte. Isso nos três primeiros capítulos”. É preciso lembrar que o trabalho do apóstolo Paulo e suas companheiras e seus companheiros de missão levaram a boa-nova do evangelho de Jesus Cristo para além dos limites da Palestina. Após a ressurreição de Cristo, o “IDE” foi praticado. Assim, em Éfeso, na província da Ásia, a mensagem evangélica encontra adeptos, mas que se sentem e são excluídos. No texto em análise, lemos que se abrem as portas amplamente para os não judeus, o que é a proposta do evangelho de Jesus Cristo. A carta dirige-se a uma comunidade que vive sob essa dificuldade e alegria de ser constituída por pessoas oriundas de fora do judaísmo. Quem é o autor da epístola? Sempre a classificamos como de autoria do apóstolo Paulo. Mas há indícios de que o autor possa ser de um tempo posterior a Paulo, escrita por um discípulo seu ou por uma discípula sua. Não pretendo discutir isso aqui. Seja quem for o autor, não muda a nossa reflexão. Nessa carta, temos orientação para a comunidade e firmeza teológica de que a boa-nova de Cristo não ficou restrita a um ou outro povo. Streck diz: “A igreja não é, portanto, um amontoado de indivíduos, mas família de Deus (v. 19): pertencer a ela é dádiva e compromisso. Judeu ou pagão passam a pertencer à família de Deus não por mérito próprio, mas pela graça de Deus”. Outro fato interessante é que, conforme 3.1, há indícios de que a carta foi escrita na prisão. E, mesmo assim, ela chegou aos novos cristãos, o que deixa claro que a comunidade não foi abandonada por nenhuma ação de forças contrárias ao evangelho. As notícias de que o apóstolo Paulo esteve em Éfeso estão relatadas no livro de Atos (18.19-20.1). A Epístola aos Efésios apresenta-nos uma nova visão eclesiológica: igreja não é mais somente a comunidade local. Ela vai além, pois é formada por um

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8º Domingo após Pentecostes

conjunto de comunidades, de pessoas diferentes, etnias diferentes e de diversos lugares. Os cristãos não pertencem mais ao antigo Israel nem ao mundo decadente. Por isso o destino da mensagem é a igreja como realidade global. Essa igreja santa e grande é encarada pelo autor de Efésios como força que compensa as fraquezas das comunidades particulares. É apresentada como positiva a possibilidade de integrar um corpo, a igreja, cujo cabeça é Cristo. Essa será a maneira de resistir, exercer a sua cidadania e amparar-se mutuamente dentro do império.

2

Exegese

Efésios 2.11-22 apresenta o centro teológico de toda a carta: gentios e cristãos são unidos pela cruz de Cristo. A barreira de hostilidade e de inimizade entre as pessoas está destruída. Antes elas estavam distantes, agora estão próximas da promessa de salvação. Sabemos que essa aproximação não se deu rapidamente. Podemos afirmar isso a partir de nosso pensar, pois ainda hoje temos dificuldades para aceitar os diferentes, estranhos e novos membros nas comunidades. O texto apresenta esclarecimentos a pessoas que estão se tornando cristãs. V. 11-13 – O autor faz aqui a contraposição entre o passado e o presente: antes, distantes; agora, próximos. Martini diz: “Aliás, essa antítese perpassa a perícope e o capítulo todo (agora x antes; um x ambos; paz x lei; concidadãos x estrangeiros e peregrinos). O que determinou a vida dos ouvintes ‘outrora’ e ‘naquele tempo’ (v. 12) pode ser resumido na expressão ‘estando nós mortos em nossos delitos’ (v. 5)”. Estavam longe, foram trazidos para perto pelo sangue de Cristo. As palavras do texto nos dão a descrição da total falta de esperança de pessoas excluídas, marginalizadas: “Outrora vocês estavam sem Cristo, excluídos da comunidade de Israel, estranhos às alianças da promessa; vocês viviam sem esperança e sem Deus neste mundo”. Essa era a situação em que antigamente os gentios se encontravam quando comparados aos judeus. Estavam longe, distantes, afastados, à margem, sem futuro. Israel era o povo da velha aliança, o povo eleito por Deus. Mas o sangue de Cristo aproximou aqueles que antes eram mantidos à distância. Judeus e gentios, em Cristo, agora estão irmanados na igreja pela graça de Deus. Em Cristo, que perde toda a sua vida dando-a ao mundo, Deus cria a possibilidade de uma nova existência entre as pessoas (G. Casalis, conforme Streck). V. 14 – Para ninguém está negado o acesso à boa notícia de paz. A paz é um presente de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Em Jesus, Deus termina com a barreira entre ele e as pessoas. Ao encarnar-se em Cristo, derruba o “muro de separação que havia”. O muro da lei e das ordens casuísticas não conseguia levar as pessoas a Deus; antes, separava judeus de não judeus. V. 15 – Acabam-se as contraposições entre aceitos e rejeitados por Deus, salvos e perdidos. Surge uma nova pessoa, “um só homem novo”, isto é, o modelo da nova humanidade que Deus recriou na pessoa do Cristo ressuscitado. A velha humanidade morreu na cruz.

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8º Domingo após Pentecostes

V. 16 – A reconciliação vem pela cruz. Deus torna-a possível por amor. O acesso a Deus torna-se livre para todas as pessoas que aceitam a cruz de Cristo e a salvação que ela traz. V. 17 – O anúncio da boa notícia de paz, trazida por Cristo, dá aos gentios a possibilidade de pertencer à família de Deus sem antes se tornar judeus. O v. 17 retoma Isaías 57.19 e fala da paz que toma corpo na igreja de forma visível, histórica. V. 18 – Pelo poder de um só Espírito, o mesmo que ressuscitou Cristo, que foi soprado sobre os discípulos, temos acesso a Deus. Com fé podemos ir à presença do Pai como irmãos e irmãs com direitos iguais, sem limitação ou divisão étnica. O amor de Deus não faz diferença entre filhos e filhas. V. 19 – Na comunhão dos santos, o cristão encontra paz e pertença à família de Deus: “Agora vocês são cidadãos que pertencem ao povo de Deus”. Streck diz: “A igreja não é, portanto, um amontoado de indivíduos, mas família de Deus; pertencer a ela é dádiva e compromisso. Judeu ou pagão passam a pertencer à família de Deus não por mérito próprio, mas pela graça de Deus”. A pessoa cristã é animada a assumir a sua cidadania sob o critério do evangelho de Jesus Cristo. Sabe-se que isso gera conflitos, pois, para os adversários do evangelho, ele não é sinal de salvação, mas de destruição do seu plano de dominação. V. 20 – Aqui as receptoras e os receptores da epístola são chamados de pedras, que formam um edifício construído sobre o alicerce que os apóstolos (testemunhas da ressurreição de Cristo) e os profetas (pessoas que edificaram as comunidades iniciais) colocaram. A pedra fundamental (angular) é Jesus Cristo. Essa expressão também é citada em 1 Coríntios 3.10ss e 1 Pedro 2.6ss, onde se fala do sacerdócio de todas as pessoas que creem em Jesus Cristo. A definição de pedra angular no dicionário diz que ela é uma pedra que faz fundamento e ângulo de um edifício. Definição do pedreiro Irineu: ela é fundamental para toda a obra, do começo ao fim. Cristo é o começo da igreja e o fim (em Mt 28, ele diz após enviar os discípulos: “estarei com vocês até o fim”). Não há nada a temer como igreja: quem a iniciou estará sempre presente. V. 21 – Cristo mantém e faz crescer a obra dedicada ao Senhor. A igreja de Jesus Cristo tem estabilidade e firmeza. Ela é dinâmica e inclusiva. Nela, Cristo é o caminho, a verdade e a vida. A construção é de Deus, e nós somos usados como pedras vivas. O fim é o seu Reino, já iniciado com o próprio Cristo. Nós vamos em direção a ele com sua força e condução. V. 22 – Todas as pessoas que vivem unidas com Cristo creem nele, tornamse parte desse edifício, estão sendo construídas lado a lado com as outras pessoas para tornar-se uma casa onde Deus vive por meio de seu Espírito. Vejam o verbo no passivo (são construídas): não é a nossa ação, mas a graça de Deus que nos torna pedras vivas em sua construção. Em 1 Coríntios 3.16 e 2 Coríntios 6.16, Paulo também afirma: as pessoas que creem são templo vivo. Quem crê nesse Deus vai estar lado a lado com pessoas diferentes, formando um corpo. Essa igreja, em processo de construção (semper reformanda), é local de morada do próprio Deus.

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8º Domingo após Pentecostes

3

Meditação

A partir do estudo do texto de Efésios 2, quero deixar algumas ideias para a pregação. Podem certamente surgir muitas outras, e tomara que seja assim. A situação de desesperança em que viviam os receptores dessa carta é evidente. A grande transformação, a mudança de vida que Cristo traz, é promessa de nova vida. “O sangue de Cristo aproximou os que antes eram mantidos a distância. Judeus e gentios, em Cristo, agora estão irmanados na igreja. Pela graça de Deus. Em Cristo, que perde toda a sua vida, dando-a ao mundo, Deus cria a possibilidade de uma nova existência entre as pessoas” (Streck). Nesse sentido, é fundamental ter claro que o acesso a Deus dá-se unicamente pela sua graça. Em Cristo Jesus, não há outra força, como lei ou tradição, que nos possibilita isso. Também é importante saber que quem nos une a Deus é o próprio Deus, e não os escolhidos por nós ou pela instituição igreja. 3.1 – A ausência de paz no mundo: o sentimento de conflito, violência ronda-nos diariamente. As notícias em rádio, jornal e televisão apresentam-nos a realidade da ausência de paz. O evangelho fala de pessoas que vieram ao encontro de Jesus como ovelhas sem pastor, com fome e doentes em busca de cura. O profeta Jeremias (23.1-6) alerta, mais do que isso, ameaça, dizendo: “Ai daqueles que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho”. Também hoje sofremos com falsos anunciadores de paz e salvação. O mundo, regido pelo poder do capital, produz cada vez mais pessoas com fome de pão e outras com fome de consumir, para preencher o vazio em suas vidas. Por outro lado, as ofertas de consumo aumentam, causando um vazio cada vez maior de não ter as novidades do momento. Pessoas com vazios profundos tratam a depressão e a tristeza com a medicina que avança e promete vida longa com qualidade. Que vida? Jesus diz: “Eu vim para que tenham vida em abundância”. 3.2 – Saudades de paz! Cristo traz a paz! Cristo traz e é a paz para dentro deste mundo, para a vida das pessoas que o buscam. Cristo é a vida! É o pão da vida e ensina que o pão (tudo o que necessitamos para viver) está entre nós, é dado por ele, mas precisa ser partilhado. Ele dá pão a quem tem fome, dá pão a todas as suas criaturas, não somente às escolhidas. Ele cura tocando as pessoas que já estão distantes, abandonadas, carentes de carinho e atenção. Ele derruba os muros da lei que separam, dividem, criam inimizade e exclusão. Ele derruba os muros que matam. Ele abre os caminhos que separam Deus e as pessoas. Ele dá cidadania. Ele reconcilia com Deus, inclui e acolhe como família de irmãos e irmãs. Streck diz: “Essa reconciliação vem pela cruz: é obra que Deus torna possível, por amor. O acesso a Deus, dessa forma, torna-se possível para todos os que aceitam a cruz de Cristo e a salvação que ela traz. Abre-se, assim, a possibilidade aos gentios de pertencer à família de Deus, sem necessidade de transformar-se antes em judeus. O acesso a Deus não está mais limitado e condicionado a divisões étnicas” (p. 58). É possível isso?

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8º Domingo após Pentecostes

3.3 – A igreja, comunidade, como canteiro de obras! Na comunidade, na igreja, preparamo-nos para viver a fé, a paz. A igreja integra cada peça da construção e liga uns aos outros para tomar parte em tudo o que Deus oferece, na vida nova, na paz que Cristo traz. A igreja, a comunidade, é instrumento para que a paz de Cristo seja vivenciada já agora na comunhão. Ela prepara e encoraja para ir anunciar, viver e testemunhar no palco do mundo, no dia a dia da vida. A comunidade prepara cada pedra viva para tornar visível o servir e o cuidar do próximo, para com os distantes e diferentes. É um canteiro de obras em andamento, inacabado, “sempre em reforma”. E essa igreja em processo de construção é local de morada do próprio Deus (v. 22). A vivência de comunidade é o ensaio e a preparação para poder exercitar no mundo, na vida do dia a dia, na sociedade. Aprendemos que fé e vida não podem ser separadas. Deus fez e faz tudo para que tenhamos condições de permanecer firmes mesmo em meio às dificuldades que se apresentam. Fomos trazidos para perto de Cristo por sua morte de cruz e ressurreição. Ele nos trouxe a paz; é graça, dádiva e nos é dado antes de dizermos sim. “Fazer parte de uma comunidade é ter uma família de fé onde Cristo é a pedra angular” (Streck). A igreja é graça, doação, ação, é presente, mas também responsabilidade e compromisso. O que aprendemos no texto é que as pessoas são valorizadas, dignificadas como filhos e filhas da família de Deus. O/a pregador/a pode buscar exemplos positivos que acontecem na comunidade. “A igreja passa a ser descrita como a figura da construção, muitas vezes usada no NT para retratar com clareza o lugar e a tarefa de Cristo e para lembrar da necessidade de ajuda mútua entre as partes integrantes da construção. O fundamento da igreja são os apóstolos e os profetas. Cristo é comparado à pedra angular. Apóstolos são as testemunhas da ressurreição de Cristo, as pessoas autorizadas e fortalecidas por ele para a edificação das primeiras etapas da igreja. Eles são lembrados aqui, numa época pós-apostólica, pela credibilidade de sua pregação. Cristo torna-se acessível através da pregação desses e dos profetas. O texto certamente não se refere aos profetas do AT, mas aos pregadores da palavra de Deus nas comunidades primitivas. Jesus Cristo permanece sendo início e fim da igreja” (Streck, p. 59). É necessário também se conscientizar de que essa construção, como descrita no texto de Efésios, é a casa de Deus que almejamos. Os exemplos da construção e do corpo fundem-se (v. 21): a construção ergue-se, cresce. A partir de Cristo e na direção dele cresce a igreja. Ela não está pronta. É dinâmica. Todos os que se encontram “em casa” junto a Deus tornamse finalmente parte dessa casa: como pedras vivas são “construídos juntos para a morada de Deus no Espírito” (v. 22). São integrados à construção. Uma pedra isolada da obra não contribui para o conjunto. Torna-se inútil. Na parede, entretanto, uma pedra segura a outra, dando consistência e segurança à construção. Os ouvintes e leitores dessa carta são convidados a deixar-se integrar nessa construção viva, para que ela cresça em direção à sua realização plena no reino de Deus (Streck, p. 60). As imagens do texto de Efésios mostram a total dependência da igreja em relação a Jesus Cristo: ele é seu ponto de partida, sua meta, ele é a única fonte que

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8º Domingo após Pentecostes

alimenta, ele é o único plano que a reorienta constantemente em direção a um futuro de paz e justiça, ele é quem a mantém unida, ele é o único acesso a Deus. Não acharemos essa casa pronta, pois ela não é de construção feita por gentes, mas por Deus. Mas nós podemos ter acesso a ela e fazer parte dela. Felizes as pessoas que têm saudades dessa casa. Elas farão de tudo para encontrar o caminho até lá, farão o possível para chegar em casa, mas sabem que isso só é possível com fé naquele que é o caminho, pois ela é graça de Deus. Comunidade que experimenta vai além da comunidade local, aos de longe; não constrói mais muros nem leis que excluem; convida o próximo para fazer parte da família de fé; inclui os que estão à margem. Há muito a fazer. O pregador pode citar projetos locais ou de outros lugares onde se pode colaborar, a exemplo da campanha Vai e Vem, da IECLB. Concluo com uma frase de G. Brakemeier no VAI E VEM de 2011: “Enquanto o reino de Deus ainda não chegou em plenitude, a tarefa da missão está inacabada. Por isso mesmo necessitamos de periódicas motivações para não ceder ao cansaço. Importa impedir que a chama da ‘nossa paixão’ se apague”.

Bibliografia STRECK, Edson. Proclamar Libertação 10. São Leopoldo: Sinodal, 1984. p. 48-64. SMOLDT, Hans. Neue Calwer Predigthilfen. Zweiter Jahrgang-B. Stuttgart: Calwer Verlag, 1980. p. 55-63.

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PRÉDICA: JOÃO 6.1-15

9º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

2 REIS 4.42-44 EFÉSIOS 3.14-21

29 JUL 2012

Alfredo Jorge Hagsma Vera Regina Waskow

1

Introdução

Esta é a sexta vez que esse texto é tratado na série Proclamar Libertação. Na edição de 2006, Nilton Giese fez um resumo das edições anteriores em que o texto foi tratado. Tomamos a liberdade de recuperar esse resumo, tendo em vista que nem todos têm acesso às edições anteriores: Ulrico Sperb fez a primeira abordagem desse texto no PL 4. Ele acentua que o amor de Deus não é teórico, de discurso. Mas se trata de um amor concreto, de sinais visíveis. Mas apenas consegue ver esses sinais quem segue Jesus, quem é movido pela esperança. A partir daí, ele faz algumas sugestões, como: numa realidade de fome, é justo investir mais em pedras (construções) do que em pão (alimentos)? Fome provoca retardamento mental. O desafio de Jesus é motivar o repartir. Como as igrejas podem fazer uma campanha de alimentação a partir desse desafio de Jesus? Friedrich Genthner escreve sobre esse texto no PL 10, em busca de consolo para o luto, de confronto com a doença, de solidariedade com os pobres em meio à fraqueza. Diante dessas questões, o autor destaca Jesus como o pão da vida. “Onde Jesus está no centro, ali há colaboração, casas abertas para reuniões, recursos, crescimento espiritual, compartilhar de dádivas, preocupações, conflitos, muita oração e comunhão.” Dulce Engster traz sua colaboração sobre esse texto no PL 19. Ela contribui em forma de meditação, a partir de uma análise exegética em que destaca aspectos particulares de João em relação aos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas. Por exemplo: somente João menciona que estava próxima a Páscoa dos judeus; os pães e os peixes estão nas mãos de uma criança (menino); somente em João é dito que o pão é de cevada e que Jesus dá ordem aos discípulos para recolher as sobras, para que nada se perca; o povo queria tornar Jesus seu rei, mas Jesus foge para a montanha. A partir dessas particularidades, ela desenvolve sua reflexão trazendo também uma sugestão muito interessante para recontar o texto a jovens e crianças. Marga Stroeher e Valdemar Schulz desenvolvem sua reflexão no PL 25. Fazem um recorrido exegético muito bom sobre o Evangelho de João e depois sobre o texto, acentuando que em Jesus se decide a fé. A escassez gera abundância. Mas Jesus não quer que a igreja pense em fazer isso por meio do poder. Ele rejeita o uso do poder para resolver a falta de pão. A presença da criança e do repartir

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quer que sua igreja seja reconhecida pela partilha. Por fim, fazem uma sugestão de celebração para o uso do Salmo e de motivações para as leituras bíblicas, terminando com o hino “Repartir”, que pode ser articulado em gestos. Em 2006, Nilton Giese diz, no PL 31, que “Jesus ensina que a dinâmica do reino é a arte de repartir. Talvez todo o dinheiro do mundo não seja suficiente para comprar alimento necessário para os que estão passando fome... O problema não se soluciona comprando, mas repartindo! No mundo capitalista, se tem a ideia de que tudo se resolve com dinheiro, mas Jesus aponta para outros valores capazes de fazer muito mais do que qualquer moeda. A fome não é fruto da pobreza, mas do egoísmo e do conformismo”.

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Exegese

Faremos uso da pesquisa exegética feita pela colega Regene Lamb para sua Dissertação de Mestrado: Criança é presente, Pistas para uma hermenêutica bíblica na perspectiva de crianças. As informações exegéticas abaixo são citações literais dessa pesquisa. 2.1 – As referências ao tempo O v. 1 inicia mencionando o tempo no qual o fato descrito se passa. É um tempo “depois”, que vem marcado e definido por aquilo que aconteceu anteriormente, ou seja, pelos sinais que Jesus fazia com os doentes: João 4.46-54 – a cura do filho de um funcionário real, um menino (v. 49), cujo pai intercede por ele; e João 5.1-15 – a cura de um homem que estivera doente por trinta e oito anos e está sozinho, sem ninguém que o ajude (v. 7). O v. 4 traz outra referência ao tempo da Festa da Páscoa. Uma informação solta, que precisa ser analisada no contexto maior do Evangelho de João. A Páscoa é a festa comemorada para lembrar o Êxodo, a saída da terra da escravidão, o acontecimento mais importante da história do povo, que narra suas experiências nos textos bíblicos. O exegeta Schackenburg relaciona também a observação do v. 10: “Pois havia naquele lugar muita grama”, com a localização temporal na primavera, pois só nessa estação do ano a grama seria perceptível. Porém, além do aspecto temporal, consideramos essa informação importante do ponto de vista do cenário, do lugar onde os acontecimentos são vivenciados. Também o v. 12 inicia com uma conjunção temporal: “quando ficaram satisfeitos”, dando destaque para o tempo transcorrido entre a partilha e a saciedade das pessoas participantes. Não foi preciso comer com pressa, e ninguém saiu com fome. 2.2 – O lugar Jesus atravessou o mar da Galileia, que é o de Tiberíades (v. 1b). Jesus passara por Jerusalém (capítulo 5) e agora está de volta ao lugar onde a realidade de doença e carência mobiliza a multidão, pois essa o segue. Jesus retira-se para o

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monte e senta-se com seus discípulos (v. 3). O monte aponta sempre para a busca de um distanciamento, mas aqui não se torna possível, porque a multidão segue Jesus e não recua diante do monte. Naquele lugar, havia muita relva (v. 10), que é indicada como possibilidade para que o povo pudesse tomar lugar (em grego: anapipto). Na linguagem dos evangelhos, o verbo anapipto ocorre em Mateus 15.35; Marcos 6.40; Marcos 8.6 (narrativas paralelas a João 6.1-5) e em Lucas 11.37; 17.7; 22.14; João 6.10; 13.12. Refere-se sempre ao ocupar lugar em uma mesa, reclinar-se à mesa; em Lucas 14.10, refere-se ao lugar ocupado por alguém em uma festa e, em João 13.25 e 21.20, ao reclinar-se sobre o peito de Jesus. Predominam os usos desse verbo para indicar mais do que um simples sentar, pois indica explicitamente o ato de tomar um lugar para participar de uma refeição. Um povo cansado celebra um banquete. Cada qual ocupa um lugar. Ninguém é excluído, mesmo que nem todos sejam contados, como indica o v. 10. O que possibilita a acomodação de uma grande multidão é um espaço em meio à natureza, sem cercas e paredes, sem lugares definidos para os que se consideravam mais importantes. Sem distinguir entre crianças, adultos, mulheres, homens, judeus, gregos, romanos, escravos, libertos. O lugar é definido pela relva. Ela é acolhedora. Pode pinicar um pouco, mas deixa sentar livremente todos e todas indistintamente. Assim ocorre uma partilha em meio a um povo comum e livre. Talvez em outro lugar, a criança não teria sido percebida ou os discípulos teriam tentado barrar o seu acesso a Jesus. As narrativas da partilha dos pães e dos peixes nos sinóticos apontam para uma certa distância entre o local que a multidão se encontrava e um lugar onde se poderia comprar alimentos. Esse lugar onde Jesus, os discípulos e a multidão estão reunidos deve ter sido amplo para permitir que tanta gente se agrupasse de forma ordenada. Nesse local, não há lugares pré-definidos, pré-fixados. Faz-se presente, sim, a ordem social; pelo fato da situação ser inusitada, há mais possibilidade para estabelecer outros tipos de relações. O sinal de Jesus não é direcionado para um grupo específico, com regras pré-definidas. Assim há possibilidade para o protagonismo de mulheres, escravos e crianças. Estar em campo aberto oportuniza fugir da rigidez estabelecida entre as pessoas e os papéis que elas representam. O lugar informal permite uma interação diferente entre as pessoas; elas podem olhar umas para as outras, perceber os detalhes, os cheiros, as roupas, as doenças, o sofrimento e as marcas dos semblantes que cada uma carrega. Podem também conversar, brincar, festejar. Comer é um momento de comunhão e partilha, constitutivo da identidade das primeiras comunidades cristãs. O comer faz parte dos encontros das comunidades. E esse acontece de forma que todos possam ficar satisfeitos. É preciso ter possibilidade para sentar como numa festa. As informações sobre as condições do lugar são mínimas, mas estão presentes e apontam para uma possibilidade de comunhão de mesa também entre uma multidão, normalmente excluída da participação dos grandes banquetes sociais e religiosos. Hoje temos pouquíssimos lugares para a reunião de pessoas de forma totalmente igualitária. Predominam os espaços e as acomodações definidas a partir das pessoas adultas com suas mesas e cadeiras ordenadas de tal maneira que

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apenas os grupos que já se conhecem ficam próximos uns dos outros. Precisamos reconhecer que toda a organização espacial é pensada e executada por pessoas; logo expressa poder. Aí, nesse lugar (v. 9), está uma criança que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos (6.9). Do meio da multidão emerge uma criança que oferece o que tem. 2.3 – As pessoas que interagem na narrativa Jesus é claramente aquele em torno do qual tudo gravita. Há uma multidão que o seguia. No v. 5, fica claro que Jesus está acompanhado de seus discípulos, a quem ele se dirige. São mencionados nominalmente: Filipe e André, irmãos de Simão Pedro. No v. 9, uma criança é mencionada, e logo depois, no v. 10, é dito que os homens eram cinco mil. No caso, não é dito que mulheres e crianças não são contadas, como se diz explicitamente no Evangelho de Mateus em 14.21 e 15.38. Porém fica claro que elas deixam de ser contabilizadas por usar o termo andres (varões) ao falar dos cinco mil que tomaram lugar. Anteriormente, foi falado sobre a criança. Portanto ela estava lá e interage com os discípulos e certamente também com Jesus.

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Meditação

O que faz ter o suficiente é a ação de graças, o reconhecimento de que o que se tem é de todos e aí há mais do que o necessário. E não há determinação da quantidade que cabe a cada um. Todos podem se satisfazer. A generosidade de Deus é celebrada em continuidade com a dádiva de seu próprio Filho. Por isso, nada pode se perder das dádivas; a comunidade deverá dar continuidade a novas partilhas (v. 12). Jesus é reconhecido como profeta por alguns; por outros, entendido como rei. Mas Jesus foge dessa concepção: “Para saciar a multidão, não partiu de posição de superioridade e força, e sim de debilidade e escassez de recursos da própria comunidade, figurada por um menino. A fonte de abundância que abriu é a generosidade mesma de Deus, capaz de multiplicar o que parece desproporcionado ao objetivo”. A sua ação e proposta ainda não são entendidas. A expectativa das pessoas é de um poder de chefe, que faz por e não de poder que serve partilhando. O que Jesus quis ensinar à multidão, mas também aos discípulos, é que sua dinâmica é diferente: é a dinâmica do repartir. Jesus quis mostrar a Filipe e aos demais que o problema não se soluciona ao comprar pães e distribuí-los. A saciedade não é somente uma questão de ter pouco ou muito dinheiro, mas uma questão de organização. Um fato importante nesse episódio é que Jesus sacia o povo a partir do povo. O alimento que alguém carregava e que foi apresentado se tornou alimento para todos. Quando não omitimos, quando apresentamos nossos dons a Deus, ele pode transformar algo pequeno em grande, e assim muitas pessoas são saciadas a partir da partilha. A solução nem sempre vem de fora; muitas vezes, pode estar mais perto do que se imagina.

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Penso que não há como fugir. O próprio texto nos questiona: O que nós estamos oferecendo a Deus para que ele use em favor de seu povo? Onde estamos estendendo nossas mãos para ajudar, para saciar a fome, o frio, o medo, a angústia, a dor?

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Imagens para a prédica

Conta a história que uma pequena comunidade estava se organizando para a construção de um templo. O pastor sabia que aquela obra levaria anos para ser concluída. A comunidade era humilde, mas também de um pensamento pouco solidário. Então o pastor pensou que cabia uma atitude de impacto, que fizesse cada pessoa refletir. Certo dia, em uma grande celebração, o pastor anunciou emocionadamente: “Já temos o dinheiro para a construção do templo”. Todos os que ali estavam ficaram boquiabertos e também emocionados. Ao que o pastor completou: “Porém esse dinheiro ainda está em seus bolsos”.

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Recursos litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor, chegamos em tua presença e te confessamos: temos pecado contra ti e contra pessoas próximas. Temos pecado em pensamentos, em palavras e em ações. Nossas mãos gananciosas têm guardado, enquanto ao nosso lado a fome grita e mata. Nossas prateleiras estão cheias de alimentos, enquanto ao nosso redor migalhas são ajuntadas pelos que têm fome. Senhor, somos egoístas, temos medo da partilha, não temos coragem de dar daquilo que temos, e isso nos faz admitir que não confiamos em ti, que não cremos que tu mesmo nos alimentas e seguirás alimentando. Não cremos que o pão partilhado se multiplicará. Senhor, quanta falta de fé, quanta ganância, quanta pobreza de teu amor, de teu evangelho, quanta pobreza do que Jesus ensinou: amar e servir. Olha para nós, Senhor, com misericórdia e com bondade. Acolhe-nos assim como somos: falhos, pecadores, e por tua graça e teu amor nos transforma. Por isso pedimos, dizendo juntos: “Oh Deus, tem compaixão de nós e perdoa-nos”. Amém. A poesia abaixo pode ser usada como um poema introdutório: O pão do povo A justiça é o pão do povo. Às vezes bastante, às vezes pouca. Às vezes de bom gosto, às vezes de gosto ruim. Quando o pão é pouco, há fome. Quando o pão é ruim, há descontentamento. Fora com a justiça ruim! Cozida sem sabor, amassada sem sabor!

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A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta! A justiça de ontem, que chega tarde demais! Quando o pão é bom e bastante, o resto da refeição pode ser perdoado. Não pode haver tudo logo em abundância. Como é necessário o pão diário, é necessária a justiça diária. Sim, mesmo várias vezes ao dia. De manhã, à noite, no trabalho, no prazer. No trabalho que é prazer. Nos tempos duros e felizes. O povo necessita do pão diário da justiça, bastante e saudável. Sendo o pão da justiça tão importante, quem, amigos, deve prepará-lo? Quem prepara o outro pão? Assim como o pão, deve o pão da justiça ser preparado pelo povo. Bastante, saudável, diário.

Bertolt Brecht

Bibliografia LAMB, Regene. Criança é presente. Pistas para uma hermenêutica bíblica na perspectiva de crianças. Dissertação de Mestrado Profissionalizante. São Leopoldo, 2007. BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 309. Tomado do Livro de Culto da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, 2003.

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PRÉDICA: ÊXODO 16.2-4, 9-15

10º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JOÃO 6.24-35 EFÉSIOS 4.1-16

05 AGO 2012

Carlos A. Dreher

1

Introdução

O capítulo 16 do livro de Êxodo já foi duas vezes tema de pregação em Proclamar Libertação. A primeira ocorreu no volume 14 (p. 283-289), a segunda, no volume 28 (p. 276-283). Nessas ocasiões, porém, os recortes propostos foram diferentes: no primeiro, tratava-se de Êxodo 16.2-3,11-18; no segundo, de Êxodo 16.1-5(6-11),12-21(22-30). Nessa última ocasião, Martin Volkmann propôs assumir o recorte Êxodo 18.1-3,11-21. Agora, temos Êxodo 16.2-4,9-15. Chama a atenção o fato de que tais recortes são comuns na série de perícopes adotada e apresentam-se sempre de forma um tanto aleatória. É como se se pretendesse determinar o texto ideal para a pregação, que já se tem em mente. Seja como for, para fins de exegese e meditação, assumo o recorte proposto. O tema de Êxodo 16 é retomado no evangelho do domingo: João 6.24-35. Após a multiplicação de pães e peixes (Jo 6.1-13), a multidão pretende proclamar Jesus como rei (v. 14). Jesus retira-se para a outra margem do lago. A multidão, no entanto, encontra-o. Nesse contexto, o tema da alimentação com o maná no deserto é retomado, primeiro pela multidão (v. 28-31), depois por Jesus (v. 32), que o relaciona com o verdadeiro “pão do céu”, que o Pai dá ao mundo: Jesus, o pão da vida (v. 35). Mais difícil é encontrar uma relação com a segunda leitura prevista para este domingo: Efésios 4.1-16, na qual se faz um apelo à unidade do corpo de Cristo. Uma eventual, mas muito leve relação poderia ser encontrada no v. 10, ao referir-se “àquele que desceu”.

2

Exegese

Os versículos omitidos no recorte do texto de Êxodo 16.1-21 referem-se ao itinerário no deserto (v. 1), à recomendação de colher uma porção dobrada de maná no sexto dia (v. 5), à fala de Moisés e Arão ao povo (v. 6-8), basicamente repetida nos v. 9-10. Por último, no final, omite-se a referência à quantia de maná a ser colhida e à deterioração do acúmulo para o dia seguinte (v. 16-21). Tomado como proposto, o recorte apresenta a seguinte estrutura: v. 2-3: a murmuração da congregação devido à fome; v. 4: a promessa de Deus a Moisés – “farei chover pão do céu”; v. 9-10: a congregação se reúne, a glória de Deus se manifesta;

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v. 11-12: a promessa de Deus ao povo: carne e pão; v. 13-15: codornizes e maná – o pão que o Senhor vos dá por alimento. V. 2-3 – O tema da murmuração é recorrente na tradição do deserto. Já antes, em Êxodo 15.24, o tema aparece. Retorna em 17.3, depois em Números 11.1ss; 14.1ss; 16.41ss; 20.1ss. A cada dificuldade – falta de água, falta de comida, ameaça de inimigos –, o povo murmura contra Moisés e deseja voltar ao Egito. Em nosso texto, a causa da murmuração é a fome. Teria sido melhor morrer no Egito ao lado das panelas de carne. Morrer de fome no deserto não faz sentido para os escravos libertos. O caminho da liberdade é penoso. Ela causa insegurança. E a segurança da escravidão com comida chega a ser vista como melhor. Chama a atenção o fato de que o texto não fala em “povo”, mas em “congregação dos filhos de Israel” (v. 2). Sinônimo de qahal, a edá refere-se à reunião, à assembleia do povo de Deus. Em outras palavras, é a comunidade reunida. V. 4 – É a essa congregação, a essa comunidade reunida, que Deus, por meio de Moisés, promete a solução da causa da murmuração. Deus novamente ouve o clamor e dispõe-se a atender o povo. Diz a Moisés que fará chover pão do céu, do qual o povo deverá colher diariamente a porção suficiente para o dia. A parte final do versículo – “para que eu ponha à prova se anda na minha lei ou não” – não faz sentido, a não ser que se considere já aqui a desobediência à ordem de recolher apenas o necessário para cada dia, expressa nos v. 19s, que já não fazem mais parte de nosso recorte. Sugiro omitir tais palavras. O versículo não faz referência às codornizes, que serão assunto no v. 13. Subentendem-se sob a expressão “pão do céu” duas coisas: pão e carne; em suma, alimento. V. 9-10 – A palavra dita a Moisés é agora transmitida a toda a congregação. Deus ouviu as murmurações da congregação. Essa agora é chamada a reunir-se diante de Moisés e Arão. Arão fala à congregação. Assume a função sacerdotal que lhe cabe. Enquanto o sacerdote fala, a glória de Deus aparece na nuvem em meio ao deserto. É como se a liturgia se fizesse: após a murmuração, o profeta Moisés anuncia a graça de que Deus ouviu o lamento. Agora o sacerdote Arão fala, e a glória de Deus se manifesta. A congregação vê e pode dizer: “Ele está no meio de nós”. V. 11-12 – Deus, presente diante da congregação, agora fala a Moisés. Reafirma que ouviu as murmurações e diz a Moisés as palavras que esse deve transmitir à congregação. Então, é o profeta quem fala em lugar de Deus; Moisés é quem proclama a palavra de salvação: “Ao crepúsculo comereis carne, e, pela manhã, vos fartareis de pão, e sabereis que o Senhor é vosso Deus”. Agora, sim, o alimento é indicado sob duas espécies: carne e pão, codornizes e maná. V. 13-15 – A Palavra acontece! Codornizes cobrem o acampamento pela tarde; pela manhã, quando o orvalho se evapora, eis o maná! Tais “milagres”, na verdade, são fenômenos naturais, comuns na região do Sinai até hoje. As codornizes são aves que, por volta de setembro, ao voltarem de sua migração para a Europa, já cansadas pelo longo voo e impulsionadas pelo vento

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sobre o mar, pousam no deserto, semimortas de cansaço. Então fica bem fácil capturá-las. O maná é o resultado do trabalho de pequenos insetos que sorvem a seiva de algumas tamareiras para alimentar suas larvas. Deixam o resto cair no chão, em forma de pequenas gotas endurecidas e com sabor de mel. Tais gotas ficam parecendo pequenas sementes espalhadas pelo solo. E são comestíveis. Esse fenômeno ocorre principalmente entre os meses de maio e junho na região. As pequenas gotas são conhecidas como man. Em nosso texto, o nome pretende ser derivado de uma pergunta em hebraico: man-hu, “que é isso?” (v. 15), querendo, certamente, afirmar que o povo não conhecia o fenômeno. Portanto, o milagre não está em tais fenômenos. Está, sim, no fato de Deus haver providenciado, mais uma vez, o pão de cada dia para o seu povo, permitindo que sobreviva no deserto. A forma de nosso recorte parece apontar claramente para o lugar do texto: estamos no culto. Como já apontava acima, o texto assume a forma de uma liturgia. 1 Em seu início está o clamor, a murmuração da congregação, que manifesta suas dores, suas angústias, sua fome, seu medo diante da liberdade. 2 Em seguida, Deus se manifesta a seu porta-voz, a seu profeta (Moisés). É curioso que Deus não se irrita com a murmuração. Não desvia rosto e ouvido dos queixumes da congregação. Deus ouve e dispõe-se a atender, a salvar o seu povo. Essa salvação se configura de maneira bem concreta: pão do céu, mas pão de fato. 3 A graça é anunciada pelo profeta à congregação. Deus ouviu sua murmuração. Por isso a congregação é chamada a reunir-se para ouvir a palavra de Deus. 4 O sacerdote (Arão) fala à congregação. Em sua fala, Deus se faz presente em meio à congregação. Sua glória manifesta-se sobre a nuvem, em meio ao deserto. A congregação vê, experimenta Deus em seu meio. 5 Agora o profeta proclama a palavra da salvação: haverá, concretamente, carne e pão! 6 E a salvação se faz pão!

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Meditação

O evangelho do domingo, João 6.24-35, encontra-se no contexto da multiplicação de pães e peixes (Jo 6.1-15). Essa última narrativa termina relatando que as pessoas que haviam presenciado o sinal feito por Jesus querem arrebatá-lo para proclamá-lo rei. Jesus retira-se. A passagem é interrompida pela perícope de João 6.16-21, cujo tema é “Jesus anda sobre o mar”. O v. 22 retoma a primeira narrativa. A multidão segue Jesus até a outra margem do lago. Aparentemente, a intenção de fazê-lo rei continua. Tema de João 6.24-35 é o pão. Um rei milagreiro, capaz de multiplicar o pão, é a melhor solução para o povo. A lembrança do maná no deserto, da salvação feita pão, é imediata. Jesus é capaz de resolver os problemas materiais do povo. Embora o texto não fale de uma multidão faminta, é perfeitamente imaginável que as pessoas que procuram Jesus por causa de inúmeras necessidades

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materiais também sintam duramente a ausência de pão. Não me parece que se possa criticá-las por isso. Fome é assunto sério! A afirmação de Jesus “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna” (v. 27a) não exclui a necessidade concreta de comida, de pão. “Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4) também não afirma que o pão não é necessário. Diz, isto sim, que apenas o pão não basta. É preciso pão e o Pão da Vida. Ambos descem do céu, porém é o segundo, o próprio Jesus, que dá vida ao mundo e é por isso o mais importante. Seria um equívoco contrapor as duas coisas. Tampouco me parece ser essa a intenção do tema do domingo, ao apresentar os dois textos. E, ao definir a passagem de Êxodo 16 como texto de pregação, está dando ênfase à materialidade da vida. O cenário de Êxodo 16 é o deserto. Ali a vida está constantemente em risco. Sede e fome são ameaças constantes. Não é à toa que o povo sente saudades das panelas de carne no Egito. É por isso que reclama, murmura. O desespero pela fome fá-lo clamar, como clamara sob a escravidão. Curiosamente, não há no texto nenhuma reprovação a essa murmuração. Ao contrário, há uma benévola e graciosa disposição de Deus em fazer chover pão do céu. Isso significa que Deus ouve a murmuração do povo da mesma maneira que ouviu o seu clamor no Egito. Desde criança, aprendi – e suponho que isso tenha sido o caso de muita outra gente de tradição luterana – que o murmurar, o reclamar em relação a Deus seria rebeldia, incapacidade de aceitar a cruz a mim imposta, enfim, pecado. Fui percebendo que o povo no deserto não é o único a murmurar e a clamar na Bíblia. Jeremias (20.7ss) reclama, murmura, protesta. O próprio Jesus clama na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46; Mc 15.34). Em ambos os casos – e em tantos outros também –, Deus também ouve, salvando o necessitado, embora isso nem sempre ocorra de imediato. Contudo, é preciso tomar cuidado. Não é assim que Deus se deixa mover por nossas reclamações e murmurações. Não é assim que se deve e se pode exigir a graça de Deus. Mas é possível confiar nela, viver dela, da infinita e misericordiosa graça de Deus, presente até em meio à cruz. Jesus não escapou da cruz, apesar de seu grito. Graça não é garantia de sucesso imediato. Tampouco é assim que se possa exigir qualquer coisa de Deus. Tomada essa precaução, penso que a pregação deveria levar em conta as murmurações de ontem e de hoje. Na vida, há muitas coisas que nos faltam e nos fazem sofrer. Para além da fome, da sede e de outras privações, há ainda doença e dor, luto e morte. Cada pregadora ou pregador deveria estar atento a dores e sofrimentos de sua comunidade, que certamente serão muitos. É importante enumerar dores e sofrimentos, diante dos quais murmuramos. Êxodo 16 legitima-nos a murmurar diante de Deus. Por isso é legítimo oportunizar, no culto, um espaço para expressar murmurações.

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10º Domingo após Pentecostes

Contudo, Êxodo 16 também nos motiva à confiança na providência divina. Em meio ao deserto, Ele dá o pão. Em meio às agruras da vida, Ele nos dá a certeza da vida eterna por meio de Jesus Cristo, o Pão da Vida. Ele está no meio de nós! É importante não apenas falar sobre as murmurações e a certeza da salvação, a material e a futura, mas também celebrar nesse culto a Ceia do Senhor, de maneira tal que a confissão de pecados não se resuma a falar de culpa, mas que dê espaço às murmurações concretas da comunidade. O anúncio da graça acentuaria que a salvação se fez pão, no maná do deserto e no Pão da Vida, Jesus Cristo.

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Imagens para a prédica

Considerando que, no texto, as murmurações têm como tema o pão, é bom lembrar a explicação da quarta petição do Pai-Nosso no Catecismo Menor de Lutero: “Que significa o pão de cada dia? – Resposta: Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades da vida, como: comida, bebida, vestes, calçado, casa, lar, campos, gado, dinheiro, bens, consorte piedosa, filhos piedosos, empregados bons, superiores piedosos e fiéis, bom governo, paz, saúde, disciplina, honra, leais amigos, vizinhos fiéis e coisas semelhantes”. O leque se amplia. Pão representa bem mais do que alimento. Pão representa, enfim, vida plena. E mais, observando o texto do evangelho, que nos fala do Pão da Vida, haveria que acrescentar à explicação de Lutero, logo após o termo “saúde”, também o conceito de “vida eterna”. Para tornar o tema do culto bem concreto, sugiro colocar no espaço em frente ao altar um ou dois cestos grandes, desses de padaria, cheios de pequenos pães. Os custos serão compensados pela experiência. Além de servirem para ilustrar a pregação sobre o maná e apontarem para o Pão da Vida, os pães poderiam ser partilhados na eventual celebração da Ceia. Além disso, seria muito significativo convidar a comunidade a levar pães que sobrassem – e deveriam sobrar – a pedintes de rua, concretizando a graça do maná em meio ao deserto, bem como a dimensão diaconal da comunidade. Tal proposta continua válida, caso se resolva não celebrar a Ceia.

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Subsídios litúrgicos

Um hino que não deveria faltar nesse culto é HPD 2, 326 (“O povo de Deus”), que tem como tema a caminhada pelo deserto. A terceira estrofe fala explicitamente do assunto de Êxodo 16. Esse hino pode ser cantado no início do culto, acompanhado pela entrada dos cestos com pães, ou antes da pregação. Como versículo de introito: Apocalipse 21.1-5a. Leitura bíblica fundamental: João 6.24-35.

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10º Domingo após Pentecostes

Confissão de pecados: Deveria ser substituída por uma oração de murmuração, na qual fossem apresentados dores e sofrimentos da comunidade. As pessoas deverão ser convidadas a expressar essas murmurações. Para introduzi-las, sugiro a leitura do Salmo 22.1-5. Anúncio da graça: João 6.35 ou João 6.48-51. Mantenho a proposta de celebrar nesse culto a Santa Ceia, utilizando os pães contidos nos cestos.

Bibliografia VOLKMANN, Martin. 11º Domingo após Pentecostes. In: HOEFELMANN, Verner; MÜLLER DA SILVA, João A. (Coords.) Proclamar Libertação, V. 28. São Leopoldo: Sinodal, EST, 2002. p. 276-283. LINDNER, Clóvis. 7º Domingo após Trindade. In: KILPP, N.; TREIN, H.A. (Coords.) Proclamar Libertação,V. XIX. São Leopoldo: Sinodal, EST, 1988. p. 283-289.

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PRÉDICA: JOÃO 6.35, 41-51

11º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

1 REIS 19.4-8 EFÉSIOS 4.25-5.2

12 AGO 2012

Felipe Gustavo Koch Buttelli

1

Introdução

O texto de João 6.35, 41-51 é um texto bastante desafiador. Ele compõe um bloco de textos que se prestam para elucidar alguns aspectos acerca da identidade de Cristo para os diversos contextos com os quais João dialogava. O evangelho é reconhecido por uma linguagem diferente dos sinóticos, pois faz uso de uma terminologia gnóstica, ainda que seu conteúdo não seja gnóstico. Em nosso texto específico, João apresenta Jesus desvelando sua identidade a judeus que não conseguem crer que ele é o filho enviado por Deus. Jesus faz uso da ideia de pão para colocar-se dentro da narrativa judaica, ao comparar-se com o maná. O chamado e o desafio que Cristo coloca é a fé. O texto apresenta-se como uma crítica poderosa à nossa percepção atual de que fé e aquisição material sejam temas separados. O “pão” pelo qual trabalhamos leva, por si só, à morte. O pão em uma percepção espiritualista não alimenta o corpo. Jesus supera essa dicotomia e se oferece como pão da vida, que sacia a fome do mundo agora e para todo o sempre.

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Exegese

Não há univocidade a respeito da origem do Evangelho de João. Segundo especialistas no Evangelho de João, como Rudolf Bultmann e Rudolf Schnackenburg, o evangelho foi escrito levando em consideração a tradição oral, ainda marcantemente presente na época, e a presença dos evangelhos sinóticos, já que, segundo datação aproximada, o evangelho teria sido o último a ser redigido: entre os anos 100 d.C. e 120 d.C. O Evangelho de João complementa, portanto, os evangelhos sinóticos e oferece alguns elementos teológicos particulares para os contextos em que foi formulado. Isso é uma constatação importante, pois nos ajuda a perceber que havia um contexto de discussão teológica das comunidades para as quais o Evangelho de João foi escrito. Rudolf Bultmann atribui a autoria do evangelho, como nós conhecemos, ao que ele chamou de “redator eclesiástico”. Esse eventual redator teria trabalhado com três diferentes conjuntos de textos, relacionados a três diferentes tradições teológicas. A tese atualmente mais aceita é que o Evangelho de João não foi concebido somente em um contexto, mas partes do evangelho foram formuladas em tempos diferentes e em locais diferentes. Murray apresenta com mais detalhes a discussão que aponta para a tripla origem do evangelho na Palestina, Síria e, posteriormente, em Éfeso.

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11º Domingo após Pentecostes

Por ter sido escrito em grego, o evangelho adota o linguajar da tradição helenística. O uso do termo logos, único ao Evangelho de João, para descrever Jesus parece colocar João em diálogo com o escritor Filo, um judeu que apresentava a fé judaica ao mundo helenista. Mais controverso é o tipo de relação que João tem com o mundo gnóstico e, por consequência, com o docetismo. O gnosticismo e o docetismo compreendem o mundo em termos dicotômicos e foram responsáveis por uma longa discussão posterior sobre a dupla natureza de Cristo. O argumento mais aceito no momento, apresentado por Bultmann, compreende que João faz uso de toda a terminologia gnóstica com o intuito de desconstruir a percepção do gnosticismo ou docetismo de que o Jesus Cristo crucificado não poderia ser a própria pessoa de Deus. Käsemann, no mesmo sentido, afirma que é difícil conceber que a mensagem de justificação para o justo e pecador tenha se baseado no gnosticismo. Outra tradição com a qual o evangelho discute é o judaísmo. Corrobora, inclusive, a hipótese de que parte do evangelho foi concebida na Palestina, em resposta aos conflitos que cristãos enfrentavam com comunidades judaicas. Algumas partes do evangelho são claramente endereçadas a judeus e cristãos que dialogam com judeus. O nosso texto está incluído no bloco de João 6, que é uma discussão com judeus. Aparentemente, João coleta várias histórias a respeito de Jesus, interagindo com diferentes públicos, em diferentes partes da Palestina, e coloca-as juntas para constituir um diálogo com temas candentes da realidade judaico-cristã. (Só em nossa perícope, Jesus interage com fariseus na sinagoga, duas diferentes multidões, um grupo de discípulos mais amplo e o grupo dos doze discípulos.) O texto de João 6 encontra-se, dentro de uma moldura mais ampla, no chamado Livro dos Sinais (1-12), onde há um padrão em que se segue, a um sinal, uma explicação. Murray cogita a hipótese de que esse livro era utilizado nas comunidades para pregações no contexto da Eucaristia. Nesse sentido, podemos arguir que o texto previsto para essa pregação em seu contexto maior de João 6 pode ter sido usado frequentemente como uma pregação antes da Eucaristia. Assim parece, já que a perícope encerra com um texto que faz clara referência à Ceia. A estrutura da perícope em que se encontra o texto para pregação pode ser definida da seguinte maneira: a) 6.32-35 – O verdadeiro significado das Escrituras (Jesus, o verdadeiro pão da vida); b) 6.36-40 – Demanda por fé; c) 6.41-47 – Murmuração dos judeus e ênfase de Jesus na fé; e d) 48-51 – Jesus: o pão da vida dos céus. Schnackenburg e outros comentaristas argumentam que o texto foi concebido no formato de um midraxe, que é um estilo de escrita judaico, o que reforça a tese de que os destinatários da mensagem do texto eram judeus ou cristãos vivendo na Palestina. Nesse formato, primeiramente se apresenta o texto da Torá para, posteriormente, haver uma explicação. O objetivo maior do Evangelho de João é apresentar a identidade de Jesus para os diferentes contextos em que havia compreensões “equivocadas” sobre a sua pessoa e propósito (Jo 20.31s). Sendo Cristo o tema do evangelho, todas as temáticas decorrentes são apresentadas em perspectiva cristológica. Os contextos para os quais a “identidade de Jesus” era afirmada por João exerciam um impac-

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to na linguagem adotada pelo evangelista. Assim, as dicotomias recorrentes no evangelho, características da linguagem gnóstica, sempre se estabelecem em relação a Cristo. No texto previsto para a pregação, a linguagem e o formato claramente pretendem apresentar a identidade de Jesus a pessoas de tradição judaica. Por isso faz-se uso de um texto em forma de midraxe, e Jesus é apresentado como pão, fazendo clara menção ao maná que os judeus receberam de Deus no deserto. O texto apresenta o primeiro de uma série de ego eimi (eu sou – Jo 6.35), em que Jesus oferece uma compreensão do que seria a sua identidade. Uma das ênfases aparentemente mais candentes no Evangelho de João é uma abordagem soteriológica a respeito de Jesus Cristo. Jesus Cristo é o caminho para a salvação. Só é possível chegar ao Pai por Cristo, e Cristo é aquilo que Deus quer dizer às pessoas. Quem quiser conhecer o Pai e sua mensagem deve conhecer e ter fé em Jesus Cristo. O tema de nossa perícope maior, o capítulo 6, que compõe uma unidade temática, é soteriológico. Jesus Cristo revela-se como o “pão da vida”, o alimento que sacia eternamente. Quem come desse “pão da vida” e quem bebe da “água da vida” jamais terá fome e sede novamente. Para demonstrar essa ênfase clara de Jesus, inclusive mencionando a ressurreição, podemos perceber que esse tema aparece em João 6.39, 40, 44 e 54.

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Meditação

A escolha do texto para pregação faz um recorte, à primeira vista, estranho dentro de uma perícope um pouco maior. Isso, evidentemente, é um fator a ser considerado quando tentamos entender o porquê da escolha desse texto. O versículo 35 certamente é um dos versículos mais importantes do Evangelho de João. Apresenta a primeira das sete sentenças “eu sou”, das quais Jesus faz uso para mostrar sua verdadeira identidade. No próprio texto, a ideia de que Jesus é o pão da vida repete-se nos versículos 48, 50 e 51. Porém, como vimos na delimitação sugerida acima, o versículo 35 encontra-se como resposta à interpelação de uma multidão que havia testemunhado o sinal da partilha dos pães e veio atrás de Jesus, pedindo por mais alimento. Assim, Jesus diz no versículo 26: “Vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes”. Posteriormente, essa multidão questiona Jesus e sua pretensão de apresentar-se como o Filho do homem, afirmando que foi Deus quem deu o maná a seu povo no deserto. Isso nos apresenta o contexto temático no qual Jesus se revela como o “pão da vida”. O pão da vida está em comparação com o maná. O versículo 35 oferece a orientação da interpretação do texto: em contraposição ao maná do deserto e à água tirada de pedras, Jesus é o pão e a água que saciam fome e sede de uma vez por todas. No versículo 49, Jesus deixa essa contraposição clara: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram”. No entanto, a assimilação desse versículo à perícope de 41-51 coloca Jesus em diálogo com os judeus, fariseus, que ouviam seus ensinamentos, provavelmente no templo. Nessa perícope, os judeus questionam a identidade de Jesus. Aqui João aparentemente reforça uma de suas compreensões mais claras, que responde ao questionamento teológico da época da composição do evangelho so-

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bre a natureza de Cristo. Assim como os gnósticos em seu padrão de pensamento dual, os judeus questionam a possibilidade de alguém, de quem eles conhecem a origem, afirmar que procede dos céus (v. 38). Essa ênfase de João na dupla natureza de Cristo e no fato de que Deus mesmo se tornou ser humano podemos constatar desde o princípio do evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Dessa maneira, como Jesus Cristo é completamente Deus e ser humano simultaneamente, a ideia de “pão da vida” não pode ser compreendida somente como “alimento espiritual” nem tão só como “alimento físico, material”. Interessante perceber que é justamente essa percepção que leva Lutero a estabelecer a doutrina da consubstanciação. Isto é, no pão, Deus faz-se presente de modo que não compreendemos. O pão da vida é alimento físico e alimento espiritual, que dá salvação, ao mesmo tempo em que sacia a fome. Não se trata de linguagem simbólica. O milagre da multiplicação dos pães no início da perícope demonstra claramente que Jesus é o pão que sacia a fome do corpo também. Essa é a compreensão de Schnackenburg de que o versículo 35 não pode ser separado da multiplicação dos pães, da discussão sobre o maná, da menção sobre a chegada da festa da Páscoa judaica (Jo 6.4), sobre Moisés e a autocompreensão sacrificial de Jesus. Jesus demonstra ser integralmente o alimento que dá vida ao corpo e salvação. Isto é, a salvação que Cristo oferece não é somente espiritual, mas acolhe todas as dimensões da vida humana. A grande discussão a respeito da apresentação de Jesus como o “pão da vida” leva inevitavelmente à pergunta: como podemos nos apropriar desse pão da vida? Assim, o versículo 34 manifesta o pedido da multidão: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. E Jesus responde a eles no versículo 36: “Porém eu já vos disse que, embora me tenhais visto, não credes”. Essa incredulidade por parte da multidão na parte anterior da perícope é reproduzida pelos judeus que murmuravam sobre a identidade de Jesus. Por isso Jesus afirma no versículo 47: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna”. O desafio que é colocado aos diversos públicos com os quais Jesus interage nessa perícope, a saber, multidão, círculo amplo de discípulos, os doze discípulos e fariseus no templo, é a fé, a dádiva de crer em Jesus e de aceitá-lo como único caminho, único mediador entre Deus e o mundo. Essa é a única obra que o ser humano pode realizar para conhecer Deus e por Ele ser salvo, conforme Jesus afirma no v. 29: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado”. Um aspecto interessante apresentado por Schnackenburg é que a palavra grega utilizada para “murmurar” no versículo 41 é a mesma utilizada na Septuaginta em Êxodo 16. Jesus faz uma comparação entre o murmúrio dos judeus e o de seus pais no deserto, o que reforça a comparação entre o pão e o maná. Schnackenburg menciona que a palavra diagoggydsein pode ser compreendida como desobediência ou descrença. Isto é, os judeus murmuravam porque não conseguiam acreditar e desobedeciam a Deus desse modo. No entanto, o ponto mais intrigante dessa perícope é como fazê-los crer. Como pode alguém chegar a crer no que Jesus diz, ou seja, crer nele. E é sobre isso que Jesus fala em uma linguagem quase mística nos v. 44 a 45.

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O v. 44 diz que ninguém pode ir a Jesus se o Pai não o trouxer. Ou seja, ir a Jesus, aceitá-lo como pão da vida e como água da fonte que saciam a fome e a sede eternamente não é uma ação de total domínio humano. No próprio crer em Cristo, trata-se de uma ação de Deus. E dessa maneira Lutero e Bonhoeffer já haviam refletido. A fé é criação de Deus. O v. 45 complementa e estabelece, segundo Schnackenburg, um paradoxo. Ele diz que todo aquele que sobre o Pai tem ouvido e aprendido, esse vai a Jesus. Ou seja, é a palavra de Deus e o conhecimento a respeito de Deus que movem a pessoa a crer em Cristo. No entanto, Cristo mesmo é a palavra de Deus, o logos de Deus para o mundo. Somente Jesus é capaz de dizer algo a respeito de Deus (v. 47). O paradoxo é que precisamos ouvir Cristo para poder ser levados a ele. E, como afirma Schnackenburg, “ser trazido” por Deus para Cristo é a atração interna forte, gerada pelo próprio Deus, como que num movimento de Deus para Deus. Não vejo que seja necessário entrar em qualquer doutrina mística, como a do próprio gnosticismo, para compreender essas palavras, pois que, no final do evangelho (Jo 17), o próprio Cristo ora pelo envio do Paracleto. É o Espírito que nos leva a Deus, e Cristo é a palavra e o caminho que trilhamos. O Evangelho de João, ainda que enfatize a Cristo, é um evangelho essencialmente trinitário.

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Imagens para prédica

Resumidamente, podemos sugerir que a mensagem do texto, como delimitado para a pregação de domingo, afirme o seguinte: Jesus revela-se como aquele único que oferece salvação integral, de todo o ser, não somente espiritual, mas física também. Para aceitar essa salvação, a única coisa a fazer é crer em Jesus. No entanto, sabida é a descrença do povo, desde os discípulos às multidões. Nesse texto, a reflexão é feita para os judeus, que murmuram, pois não creem. Não conseguem conceber que um homem como eles, nascido na humildade, possa chamar-se Deus. É a percepção integral, holística da obra de Cristo que está em xeque nesse texto. Cristo é ser humano e Deus; por isso ele é pão que alimenta corpo e alma. E crer em Cristo é um ato de aparente irracionalidade, mas ele tem que ser guiado pelo próprio Deus. Cristo é o caminho e a verdade a escutar, e o Espírito é o motor que nos impulsiona a trilhar esse caminho. Esse é o único modo de chegar e conhecer Deus. Interpretada conjuntamente com os textos de 1 Reis 19.4-8 e Efésios 4.255.2, essa mensagem nos leva a um caminho de reflexão: a imagem da “fome”. No texto de 1 Reis, Elias é alimentado pelo anjo do Senhor fartamente para percorrer 40 dias e noites sem precisar se alimentar até encontrar o monte Horebe. É nesse monte que ele tem o encontro com Deus. Interessante é ver a clara comparação com o maná, que alimentou o povo de Deus no deserto. No entanto, como Jesus demonstra, ele é a superação dessa percepção de alimento. Ainda que tenha sido dado o alimento pelo próprio Deus, esse pão é alimento físico e precede o encontro com Deus. Jesus unifica a percepção de alimento. Demonstra a transitoriedade do pão material. Podemos dizer que essa “fome” oferece benefícios transitórios. De certo

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modo, podemos afirmar que aquilo que procuramos em nossas vidas como modo de sustento material não pode ser considerado algo perene. É transitório, não nos completará, sempre sentiremos fome, nunca seremos saciados. Eu chamaria a “fome”, em nosso contexto, de “desejo de consumo”. Nosso padrão de vida baseada e qualificada pelo consumo é diferente do caminho sugerido por Cristo. A utilização da Ceia como imagem ideal para abordar a percepção sugerida por Cristo é excelente. Sendo ele o pão da vida, seu sangue e corpo (v. 53) são o modo de unificar indivíduo-comunidade-Cristo-Deus. Essa percepção de alimento compartilhado e celebrado em comunidade (basta lembrar o milagre da partilha dos pães no início do capítulo 6) é que nos alimenta para a vida em abundância. Quem vive e se sustenta desse alimento não perecerá. O texto de Efésios complementa essa percepção de comunidade que vive em santidade uns com os outros. Penso que o v. 28 é interessante para dar uma orientação para a pregação: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com o que acudir o necessitado”. Podemos deduzir daí diversas críticas a uma vida em sociedade, tomada por relações baseadas em corrupção. É importante dar-nos conta de que a corrupção não se encontra somente no universo político, mas é um mal que assola diversas dimensões da vida social brasileira, inclusive a vida de nossas comunidades. Estamos vivendo em um ambiente que privilegia e incita a corrupção como modo de adquirir o padrão de vida desejado. Isso não deixa de ser parte de uma promessa de satisfação da sociedade de consumo. A corrupção é sempre o caminho mais fácil. Nossa pregação deve ser forte contra essa mazela social, incutida em nossas percepções de mundo. Outra ênfase do verso está no objetivo do trabalho. O objetivo da busca pelo benefício material não é a satisfação pessoal, mas é a obtenção de meios para acudir os necessitados. A Eucaristia é um bom modo de integrar essa percepção de comunidade em que vivemos uns para os outros e do pão que comemos, do qual também oferecemos.

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Recursos litúrgicos

Oração: “Perturba-nos, ó Senhor, Quando estivermos muito satisfeitos conosco mesmos, Quando nossos sonhos tornarem-se realidade porque sonhamos muito pouco, Porque navegamos muito próximos à costa. Perturba-nos, ó Senhor, Quando, com a abundância das coisas que possuímos, Nós perdemos a nossa sede pela água da vida, Quando, tendo nos apaixonado por este tempo, Nós paramos de sonhar com a eternidade E, em nossos esforços por construir uma nova terra, Nós tenhamos permitido que a nossa visão de céu tenha crescido tão fraca. Sacode-nos, ó Senhor,

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Para ousarmos mais corajosamente, a nos aventurarmos em oceanos mais amplos, onde as tempestades mostram o Teu domínio, Onde, ao perdermos de vista a terra, nós possamos encontrar as estrelas. Em nome d’Ele, que ampliou os horizontes das nossas esperanças e convidou os bravos e bravas a segui-lo. Amém.” (Disturb us, o Lord – de Desmond Tutu, com tradução de Felipe Buttelli)

Bibliografia SCHNACKENBURG, Rudolf. The Gospel According to St. John. V. II. London: Burns and Oats, 1971. BEASLEY-MURRAY, George. John. Word Biblical Commentary - V. 36. Waco: Word Books, 1987.

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PRÉDICA: EFÉSIOS 5.15-20

12º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PROVÉRBIOS 9.1-6 JOÃO 6.51-58

19 AGO 2012

Vera Maria Immich

1

Introdução

O texto de Provérbios propõe-nos o caminho da sabedoria, que se constitui a partir da experiência concreta da vida e da história. Em Efésios, a ênfase está nas recomendações e conselhos para que os cristãos vivam e experimentem a fé verdadeira, renovando-se a partir de dentro e da mudança incondicional das relações. Essa renovação deve vir a partir do princípio de imitar Deus e viver como Jesus viveu: viver o amor plenamente e sem reservas. Novamente um caminho está à nossa frente, e somos convidados a participar dele. No evangelho, Jesus escandaliza não somente por dar de sua carne e de seu sangue, mas por afirmar ser Ele o único que pode dar a verdadeira vida, que se encontra em sua condição humana (carne e sangue). Jesus encarnou-se como ser humano para viver em favor de todos e dar sua própria vida por todos os seres humanos. A verdadeira vida já começa aqui e agora na celebração da Santa Ceia, quando experimentamos a presença real de Jesus em nosso meio e quando o participante da Ceia aceita a sua própria condição humana e compromete-se a viver em prol dos outros.

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O texto

Costuma-se pensar que a carta se destina aos membros da comunidade de Éfeso. A referência a essa cidade no início da carta (1.1) falta, porém, em importantes manuscritos. Também a crítica interna não aponta nessa direção. Paulo esteve três anos em Éfeso, era íntimo da comunidade, amava-a e era amado por ela, como lemos em Atos 20.37. Passados alguns anos, ele não poderia ter escrito o que se encontra nessa carta, caso conhecesse a comunidade. A impressão que se tem na leitura é que a comunidade não conhece o apóstolo (cf. 3.2). Colossenses 4.16 refere-se a uma carta à comunidade de Laodiceia, que não conhecemos. É plausível que se trate da presente carta. A importância da carta reside em sua temática de fundo, que é a própria igreja. Outro tema que domina a carta é a união com Cristo, sendo a igreja, como corpo de Cristo, o caminho que conduz a essa realidade. O texto dá ênfase à sabedoria como manifestação da entrega a Cristo, permitindo que esse ilumine toda a sua vida. Paulo fala a um contexto com forte influência pagã, onde ainda impera a conduta da vida livre e dos excessos considerados inadequados para a vida cristã. A autenticidade da fé e sua radical expressão residem na aceitação de sermos e de vivermos como filhos de Deus, estando

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sempre atentos a como vivemos e sendo orientados pela sensatez e não pela tolice do mundo (v. 15-16). O v. 17 fala da radicalidade de vivermos conforme a vontade de Deus. Sem dúvida, um mote, mas também uma dificuldade. Qual era a vontade de Deus para a comunidade destinatária da carta? Qual é a vontade de Deus para a nossa vida hoje? O que Ele espera de nós hoje e que conduta é adequada ao tempo presente? Onde encontrar a “sabedoria” de Provérbios, a “sensatez” de Efésios e o “ensino” de Jesus na sinagoga? Quanto à recomendação de não se embriagar com vinho (v.18), não nos parece que o autor esteja proibindo o seu uso, e sim o abuso, quando se fazem coisas sob o domínio do álcool e da liberdade falsa que ele dá ao liberar os limites morais e de conduta, fazendo-nos perder a noção do certo e do errado. Há registros que mostram que também nas ágapes havia excesso de comida, de bebida e de comportamento inadequado, levando as pessoas a afastar-se da sabedoria que vem de Deus, como vemos em 1 Coríntios 11.17-34. Ao contrário da embriaguez, o cristão deve preferir recitar salmos, cantar hinos inspirados e louvar a Deus de todo o coração. O v. 20, por fim, exorta os fiéis a reunir-se, em primeiro lugar, para dar graças a Deus pelos dons recebidos em nome de Cristo, cultivando assim a fé que vem de Deus e afastando-se da má conduta e do mau exemplo.

3

Meditação

O texto chama nossa atenção para estar atentos à maneira como vivemos, não como tolos, mas como pessoas sensatas (v. 15), não nos embriagando com vinho (v. 18). Trago esses versículos para nossos dias e pergunto com que “vinho” estamos nos embriagando enquanto sociedade, indivíduos e famílias modernas. Bebemos do avanço tecnológico e da medicina e queremos transpor todos os impossíveis e manipular o que não pode ser manipulado. Em Curitiba, no ano de 2011, foi amplamente divulgada na imprensa a “tolice” de um casal de classe média, universitários, que se submeteu à inseminação artificial, resultando em gravidez de trigêmeos, bem-sucedida, tendo a mãe dado à luz três crianças saudáveis, viáveis, uma menor e mais fraca. O casal havia “aprendido” com seu médico que se pode “desprezar” o óvulo já fecundado menor e menos viável antes de implantá-lo. Ao constatar a gravidez múltipla, o casal também se preparou para entregar para adoção a criança menor e mais fraca, ficando apenas com gêmeos, já que não cabem três cadeirinhas no assento traseiro do carro. Quis Deus que, após alguns dias, a menorzinha, já destinada à adoção, ganhasse peso, deixando para trás o outro bebê, levando o casal a uma nova decisão. A essa altura, uma enfermeira chamou o Conselho Tutelar e o escândalo foi noticiado pela imprensa. Os pais foram “apedrejados” e perderam o poder familiar sobre as crianças; uma tia solicitou a guarda antes que fosse encaminhada para adoção anônima. O caso segue na justiça. O que significa, nesse contexto, viver segundo a vontade de Deus? O que significa compreender a sua vontade? Escandalizamo-nos e com razão com a ati-

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12º Domingo após Pentecostes

tude dos pais, que se submetem a um tratamento, cientes do que pode acontecer, mas na alcova, a sós, planejam deixar um filho para trás, devido ao inconveniente de ter três filhos pequenos ao mesmo tempo. Não são critérios econômicos, pois, se fosse, nem teriam feito a inseminação. Não foi o desespero de uma mãe ao se ver sozinha com filhos dos quais ela acha que não vai dar conta e resolve abandoná-los em condições inadequadas ao invés de entregá-las para adoção. Não somente os pais, mas também muitos médicos não veem a vida como um sagrado dom do Criador. Com o avanço da medicina, rompe-se a barreira da sensatez e criam-se dias maus e tenebrosos. Eles não vêm de Deus, mas são obras de nossas mãos e de nossa ânsia em ignorar a “sabedoria” e sucumbir ao conhecimento sem critério. De forma alguma, sou contrária ao avanço da medicina, que, entre outras coisas, tem promovido longevidade e qualidade de vida, e até mesmo proporcionado filhos a casais com dificuldades para tê-los naturalmente. Tem tornado viável o que outrora era inviável. O que a Carta aos Efésios nos ensina é que tudo precisa estar sob o crivo de Deus e do exemplo de Jesus. O vinho, quando consumido em demasia, leva à libertinagem, como diz o texto, afastando os irmãos da verdadeira comunhão e da vida na igreja de Jesus Cristo. A submissão do ser humano a qualquer tipo de conhecimento, ciência ou mesmo fanatismo religioso impede-o de beber da graça de Deus e de sua misericórdia. Impede o ser humano de experimentar seus limites e sua necessidade de ser cuidado e amado por Deus. Paulo exorta-nos ainda hoje a nos manter unidos como igreja e corpo de Cristo, entoando hinos e recitando salmos com todo o nosso coração, no mais íntimo de nosso ser, em intimidade com Cristo e em seu nome, para que nosso louvor e nossas orações cheguem ao Pai, que as aceitará.

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Imagens para a prédica

A comunidade cristã pode ser vista como a reunião daqueles que estão a caminho de um objetivo ou destino, que professam a mesma fé e defendem os seus fundamentos, vivendo de maneira coerente com ela. Caminho é uma ilustração possível. Caminho pode ser sinônimo de estrada. Podemos trazer para o contexto da pregação os vários tipos de estradas que conhecemos e preferimos: a estrada de chão, às vezes cheia de buracos e imperfeições, obriga-nos a andar devagar e com cuidado. Permite-nos apreciar a natureza ao redor, às vezes campos cheios de alimentos, às vezes matas imponentes. Lá está a velha estrada que nos faz comer poeira, às vezes nos faz perder nosso precioso tempo com a demora que ela nos impõe para chegar ao destino. Há também a estrada asfaltada: lisinha, perfeita e que permite altas velocidades, sem poeira entrando pela janela, que nos conduz tão rapidamente ao nosso destino, que muitas vezes nem vemos por onde passamos. Toda a técnica empregada permite encurtar distâncias, mas nem sempre nos leva em segurança. Os riscos são enormes, as derrapadas podem ser fatais. As curvas podem ocultar perigos, e o convívio com os enormes e pesados caminhões já tirou muitas vidas. Assim como o vinho, também a estrada, quando não se respeitam suas condições

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12º Domingo após Pentecostes

ou as regras de trânsito, pode transformar-se em um pesadelo sem tamanho. Vidas são ceifadas desnecessariamente e precocemente. Destinos são interrompidos, e chegadas não acontecem. Nossa vida pode ser comparada a uma estrada com um destino, que, muitas vezes, muda e que vai sendo construída no decorrer da existência. A vida em comunidade apresenta um sem-número de desafios e possibilidades. O versículo inicial do texto de pregação ressalta o andar prudente, como sábios e não como néscios. A pregadora pode explorar o andar nas estradas com trevos, encruzilhadas, trechos que necessitam de manutenção (pecados e omissões na vida comunitária), trechos escorregadios e perigosos (tentações que nos afastam dos irmãos), estradas diversas, de terra, asfaltadas, de ferro, com paralelepípedos, usadas em cidades e adequadas para escoar a água. Assim também nossa vida tem que ter fendas e brechas para a palavra do Senhor poder “escorregar” e fazer morada.

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Subsídios litúrgicos

Acolhida: Quem me dera que eu fosse o pó da estrada E que os pés dos pobres me estivessem pisando... Quem me dera que eu fosse os rios que correm E que as lavadeiras estivessem à minha beira... Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . . Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro E que ele me batesse e me estimasse... Antes isso do que ser o que atravessa a vida Olhando para trás de si e tendo pena ... Alberto Caeiro Oração: Querido Deus e Pai: na tua presença colocamo-nos como seres incompletos e carentes de teus cuidados e de tua proteção. Ó Deus: clamamos por caminhos justos e bons; por venturas e plenitude de vida, por alegrias e crescimento, enfim, por tua mão a nos indicar o caminho certo a trilhar. Por estradas desérticas conduziste teu povo à terra prometida. Conduze-nos aos caminhos plenos que tens reservado aos teus. Amém! Bênção: Que Deus te ama – isso você acredita. Que Deus te abençoa – isso você sente. Que Deus te presenteia – isso você sabe.

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12º Domingo após Pentecostes

Que Deus te protege – isso você espera. Que Deus te carrega – isso você experimenta. Que Deus te acompanha – isto você precisa. Que Deus te compreende – isso você pressente. Que Deus te perdoa – isso você reconhece. Abençoe-vos, Deus Pai, Filho e Espírito Santo! Amém! (trad. livre: Vera Maria Immich)

Bibliografia AGENTUR. Gottes Segen: begleitet uns jeden Tag. Hamburg: Agentur, 2002. BROX, N.; STAAB, K. Carta a los tesalonicenses, cartas de la cautividad e cartas pastorales. Barcelona: Editorial Herder, 1974.

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PRÉDICA: JOÃO 6.56-69

13º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JOSUÉ 24.1-2a, 14-18 EFÉSIOS 6.10-20

26 AGO 2012

Guilherme Lieven

1

Introdução

“Ao dar-nos sua vida, Deus não apenas se sacrifica por nós, se faz vulnerável à nossa sorte e à nossa história, mas antes nos dá de verdade sua vida divina” (Juan Luiz Segundo). O texto está indicado para fundamentar a prédica no 13º Domingo após Pentecostes. Este estudo propõe o tema da confissão de fé. João apresenta Jesus, o pão que desceu do céu, o Santo de Deus, como o alimento para a vida plena. Trata-se de um tema atualíssimo. A pluralidade religiosa e a tendência de encontrar o que há de vir no presente induzem a relativização da opção e da definição histórica do sagrado. A confissão de fé permanece como um desafio. Muitos preferem a generalização e resistem ao convite para fazer a opção e declarar a sua fidelidade ao Deus que tirou o povo da escravidão e que, em Jesus, tornou-se alimento, o Filho do Homem, o Santo de Deus. Os textos de leitura colaboram diretamente com o tema. O texto de Josué (24.1-2a,14-18) relata uma proposta de opção que também pode ser interpretada como uma confissão de fé. Josué exige uma escolha e anuncia o seu Deus e o de sua família. O povo responde com uma definição de quem é seu Deus e confessa a sua fé (“Nós também serviremos o Senhor, pois ele é o nosso Deus” – v. 18). E a perícope da Carta aos Efésios (6.10-20) aponta para a fé e a comunhão com Deus, inclui a oração, a confiança e a fidelidade do apóstolo, mesmo na prisão. Além do estudo do texto e da meditação, no final partilhamos dicas para a pregação e subsídios litúrgicos para a celebração.

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Exegese

O texto de João 6.56-69 compõe o bloco que relata a atuação pública de Jesus na Galileia. A partir do capítulo 5, João relata conflitos de Jesus com as lideranças do Templo devido à visível rejeição deles ao Filho de Deus. Jesus insiste em defender a unidade entre ele, o Filho, e o Pai. Alerta que a negação do Filho é a rejeição ao Deus Pai. Assim como o Pai, também o Filho é a fonte da vida. Os relatos das ações de Jesus dão testemunho de sua unidade com o Pai. No início do capítulo 6, Jesus alimenta a multidão, multiplica e distribui o pão. Essa ação maravilhosa antecede o seu discurso sobre o pão da vida, que veio do Pai. Ele se apresenta como alimento singular, comida e bebida verdadeira, que dão a vida eterna. A proposta de Jesus apresenta-se como dura, de difícil aceitação.

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13º Domingo após Pentecostes

V. 56-57 – A comunhão plena com Jesus por intermédio de sua carne e de seu sangue apresenta-se como uma proposta nova, qual seja: em Jesus está a vida. Propõe viver por meio dele, em permanente comunhão com o mediador da vida plena. João refere-se à Ceia do Senhor. Mas essas palavras, ao mesmo tempo, estão relacionadas ao discurso sobre o pão. Referem-se ao agir salvífico de Deus em Jesus, que se torna realidade por meio do seguimento e da fé. V. 58 – Apresenta Jesus como o pão que veio de fora, do céu, da parte do Pai, alimento que transcende os limites da vida no mundo, que sustenta a salvação para sempre. V. 59 – João situa o discurso de Jesus, define o contexto, uma de suas características. Nesse caso, Jesus estava na sinagoga de Cafarnaum, ensinando e dialogando com os judeus. V. 60 – O discurso de Jesus é estranho, difícil de aceitar. O público rejeita a revelação de Deus na pessoa de Jesus. Aqui pressupomos que a proposta da centralidade da salvação em Jesus conflita com os conteúdos e rituais até então fundamentados somente nos testemunhos sobre as obras salvíficas do Deus Pai por intermédio de Moisés, dos pais da fé e dos profetas. É dura a opção por Jesus como a revelação plena do Deus Pai. Como crer que Jesus veio do Pai e depois retornou a ele? V. 61 – Para João, Jesus tem consciência da rejeição. Há uma crise, e transparecem dúvidas sobre a sua natureza divina. O discurso de Jesus é proclamado num ambiente em que não há consenso sobre a ação salvadora de Deus, encarnada por meio de Jesus. Para muitos, a proposta é escandalosa. V. 62 – O diálogo é tenso. Jesus acirra a crise ao mencionar: Se é difícil aceitar a minha procedência da parte do Pai, pior será testemunhar a volta do Filho do Homem para onde veio. Está exposta a dúvida sobre a comunhão do Filho, Jesus, com o Pai. Se os seguidores não reconhecem a presença salvadora de Deus em Jesus, está interrompida a comunhão com Deus e a participação na nova aliança. V. 63 – Onde está a verdade? As afirmações de Jesus tem sentido? “As palavras que tenho dito são espírito e vida.” V. 64-65 – Mesmo com a referência ao Espírito da verdade, a incredulidade permanece. Jesus demonstra conhecer a situação e quem pode traí-lo. Observo que a incredulidade na dimensão divina de Jesus como mediador proporcionou consequências graves e violentas na dimensão histórica e real. A negação ou a opção com a confissão implicam consequências. V. 66 – O resultado é o rompimento. A mensagem de Jesus é rejeitada. Muitos voltam as costas para ele. V. 67 – Aos que permaneceram a seu lado, Jesus lança um desafio, que desperta clareza e exige opção, certamente uma confissão de fé: Vocês também querem partir? V. 68 – Pedro responde em nome do grupo de seguidores que optaram por continuar no seguimento a Jesus: Não temos outra opção; a quem vamos seguir? Para os discípulos, a questão era de vida ou morte. Os fiéis seguidores optaram

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13º Domingo após Pentecostes

pela mensagem de Jesus. Eles aceitaram Jesus, o Filho do Homem que veio da parte do Pai, como alimento que dá a vida eterna. V. 69 – Finalmente, a confissão de fé: Tu és o Santo de Deus. Os discípulos aceitam e compreendem a dimensão divina, salvadora e sacerdotal de Jesus. Fica claro o paralelo com a confissão de Pedro, conforme Mateus 16.16, onde encontramos a definição de Jesus como o Cristo de Deus. O título “Santo de Deus” é mencionado por Marcos em 1.24 e por Lucas em 1.35. O Evangelho de João anuncia Jesus como Filho enviado ao mundo pelo Pai, a presença perfeita de Deus no mundo. Nele estão a salvação, a fonte e o alimento da vida, dádiva da vida eterna, pão do céu. João escreveu para que todos creiam que Jesus é o Santo, o Filho de Deus, a fonte da vida plena (20.31). Apresenta a comunhão plena com Deus, a salvação, que passa pela opção e confissão de que Jesus é o Filho do Pai presente no mundo, o alimento e a vida eterna. Nosso texto, João 6.56-69, integra a mensagem central de João. Além de dizer onde está a salvação, não omite o conflito, a dificuldade, a dureza da proposta. Cria um diálogo em que o seguimento a Jesus desafia e exige clareza, coragem e a confissão de fé.

3

Meditação

Vivemos num tempo em que as pessoas têm acesso a várias propostas de salvação. Geralmente, a escolha de uma delas se restringe a uma tentativa, ao provisório. Perdeu-se o controle social, moral, que fomenta opção por uma identidade permanente. Dissolveu-se a necessidade de clareza religiosa. No âmbito cristão, esvaziam-se as comunidades com heranças carregadas de história, ritos e símbolos, que pressupõem identidade e definição da salvação e do Deus salvador. A procura dessas comunidades por uma maior mobilidade abre espaço para a relativização, acompanhada por murmúrios e conflitos. A pluralidade religiosa gera dúvidas, descarta a confissão de fé. É comum as pessoas escolherem valores e objetos para dar sentido às suas vidas e criarem experiências de salvação. A atual mobilidade social, econômica e religiosa oferece ilimitados bens materiais e símbolos para suprir todas as necessidades humanas – um messianismo ilimitado. Esse fenômeno instala o provisório, a negação do passado e do futuro, o endeusamento do presente. Não há mais nada a esperar do céu. As esperanças estão contextualizadas e são oferecidas na realidade humana, onde o sagrado recebe a dimensão material e natural. O anúncio de que o verdadeiro alimento procede de fora, da parte do Pai, é duro e conflituoso. Esse é o berço de uma intensa pluralidade religiosa que interage, sem prejuízo, com a messiânica mobilidade social, cultural e econômica. A mensagem de João 6.56-69 não nos permite fugir do desafio de anunciar o Santo de Deus nesse contexto. A proposta de Jesus é dura e de difícil aceitação. O seguimento a Jesus, em comunhão plena com Deus, conflita com a tentação de moldar-se a propostas em que a salvação se restringe aos limites da realidade humana e o sagrado se confunde com objetos materiais e símbolos de consumo.

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13º Domingo após Pentecostes

A opção pelo seguimento a Jesus e pela confissão de fé permanece como desafio e contrasta com a situação descrita, que aponta para um diagnóstico em que a preferência é o provisório, ou seja, não fechar as portas e janelas para as diferentes possibilidades de salvação. E essa se restringe a um limitado sentido para a vida e atendimento a necessidades pessoais e a sedutoras fantasias para garantir um nível de felicidade. A mensagem de João foi conflituosa em seu tempo e contexto e permanece polêmica em nossos dias. O texto indicado para o 13º Domingo após Pentecostes atinge o miolo da busca humana por salvação, ou seja, por liberdade, esperança viva, sustentabilidade à dignidade, participação na missão de Deus em doar a vida ao mundo. O seguimento a Jesus e a confissão de que ele é o Santo de Deus exigem uma opção, o envolvimento numa proposta contextualizada, comunitária de vida e de fé que garante duas imprescindíveis dimensões. Primeiramente, a participação na construção e vivência da comunhão uns com os outros e com Deus, deixando-se apaixonar pela vocação de proclamar o evangelho – a mensagem do amor incondicional de Deus de servir com alegria e gratidão. Essa dimensão denuncia a indiferença, a relativização dos princípios e valores do evangelho, o foco das pessoas em interesses egoístas e excludentes. A segunda dimensão está firmada na confissão de fé que legitima as promessas do Deus que veio ao mundo para doar a verdadeira vida divina. A fé no Deus que em Jesus, o Filho, o Santo, é alimento, caminho, cuidado, luz na escuridão, verdade e vida eterna. Inclui também a visão escatológica, qual seja: a plenitude que ainda virá, conforme a vontade e a ação de Deus, o Pai. Por fim, aponto ainda para outro lado da mesma questão. A proposta de João e o anúncio que apresenta Jesus como o Santo de Deus, por intermédio do qual se encontra a salvação, em nossa realidade ganha uma característica preciosa, oferta libertadora. Muitas pessoas já duvidam de sua capacidade de ser sujeitas da própria salvação. Outras milhares sentem-se excluídas desse processo, estão doentes, envelhecidas, preferem a simplicidade, uma dinâmica de vida mais substancial, incorporada à dimensão sagrada que escapa de sua tutela e controle. Portanto o nosso texto tem espaço em meio à pluralidade e à mobilidade social. Podemos desafiar pessoas para optar pelo seguimento a Jesus, que trouxe ao mundo a vida em sua plenitude. Podemos apresentar às pessoas uma opção que inclui a confissão de fé e o seguimento, que passa pela vivência do amor, de unidade, comunhão, doação, partilha, gratidão, compromisso, movimento e envolvimento.

4

Imagens para a prédica

Para o envolvimento da comunidade com o tema da prédica, proponho um diagnóstico sobre dúvidas dos participantes na celebração. Distribuir, no início do culto, um bilhete com o pedido: escreva aqui uma dúvida sobre a ação salvadora de Deus. Logo no primeiro hino, motivar as pessoas para levar ao altar suas respostas. Mesmo que difícil, nos intervalos litúrgicos ou durante os hinos, pro-

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13º Domingo após Pentecostes

curar, entre as manifestações, dúvidas que podem ser cuidadosamente incluídas na contextualização do texto bíblico. Outra possibilidade para destacar Jesus como alimento, sustentabilidade para a existência, é promover em um momento do culto uma partilha de alimentos: distribuir um tipo de fruta ou grãos, amêndoas, de fácil distribuição e alimentação. Iniciar a prédica associando esse movimento e interação às características do alimento Jesus. Assegurar que a mensagem seja fiel à proposta de João e do nosso texto, resgatando assim a importância da opção, da confissão de fé. É inquestionável a necessidade de identidade para interagir propositivamente com o outro, com o diferente, e participar da missão de Deus por meio do seguimento e da confissão de fé em Jesus, o Santo de Deus.

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Subsídios litúrgicos

Sugiro recitar com a comunidade o texto abaixo após a confissão de pecados e antes do anúncio da graça: Eu quero um caminho para viver. Preciso definir o que eu espero e em quem confio para esperar. Deus Santo, eu estou certo de que és o caminho, contigo encontro salvação. O difícil é melhor do que o nada. Não quero viver sozinho. Aprendi que é melhor servir e ajudar. Preciso de paz e comunhão. Quero viver sem medo e livre. Viver hoje certo de que virá o amanhã. Elaborar uma confissão de fé: O foco central do texto de João (o seguimento a Jesus e a confissão de que ele é o Santo de Deus) motiva a elaboração de uma confissão de fé. É possível prepará-la com um grupo da comunidade. Por exemplo, elaborar com os adolescentes do Ensino Confirmatório uma confissão de fé que contemple a sua linguagem e responda às suas dúvidas ou a seus medos. Oração geral: Caso a dinâmica dos bilhetes com as dúvidas seja usada na celebração, referir-se a elas na oração geral. Envio: Incluir no envio, no final da celebração, uma palavra da prédica.

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14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 4.1-2, 6-9

02 SET 2012

MARCOS 7.1-8, 14-15, 21-23 TIAGO 1.17-27

Léo Z. Konzen

1

Introdução

As três leituras do culto deste domingo apresentam um foco comum: ouvir e colocar em prática a palavra de Deus, o que produz um povo sábio. O texto do livro de Deuteronômio proposto para a prédica abre o tema com o solene “ouve” ou “escuta, Israel”, e o conteúdo a ser ouvido e colocado em prática são as leis e os costumes que brotam da experiência da caminhada de Deus com seu povo e desse com seu Deus. O texto de Tiago também exorta para uma escuta amorosa e consequente da palavra de Deus, fonte de sabedoria. E o evangelho faz um contraponto, denunciando uma fidelidade apenas formal aos mandamentos divinos. Em tempos de absolutização do presente, a perícope de Deuteronômio e os demais textos propostos para este domingo convidam para uma profunda reflexão sobre a importância do cultivo da memória das experiências dos pais e mães na fé e sobre a fidelidade criativa aos ensinamentos emanados dessa rica história. A convicção de fundo é que essas atitudes produzem uma profunda sabedoria. Disso está convicto o livro de Deuteronômio, e assim o cremos também nós.

2

Exegese

Deuteronômio 4.1-9 constitui uma unidade, embora diversas traduções associem o v. 9 à perícope seguinte. O início é bem caracterizado com o solene imperativo: “E agora, Israel, ouve (escuta)...” E o fim da perícope é uma exortação para não esquecer as sábias leis ouvidas e para dá-las a conhecer aos descendentes. A supressão dos v. 3-5 no texto litúrgico deixa-o mais objetivo naquilo que quer destacar. O texto selecionado faz parte de um livro muito estimado, tanto no judaísmo como no cristianismo. A razão do apreço pode estar no fato de que ele contém não somente os mandamentos que constituem a “sabedoria” de Israel diante dos povos, mas também a mística que dá fundamento a essas leis divinas: de um lado, o amor de Javé para com seu povo; do outro, o temor e amor de Israel para com seu Deus. Em outras palavras, a espiritualidade da aliança. A parte central do livro é composta pelos capítulos 12 a 26, que apresentam a chamada Lei Deuteronômica ou o Deuteronômio primitivo. Antes dessa parte, o livro apresenta um retrospecto histórico com uma exortação e uma introdução a essa lei (1-11); depois dela, instruções para a promulgação da lei, exortações

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14º Domingo após Pentecostes

à fidelidade e a despedida de Moisés (27 a 34). A perícope que nos interessa encontra-se, portanto, na parte introdutória. Deuteronômio 4.1-9 não apresenta nenhuma das leis contidas no livro, mas expressa bem as atitudes fundamentais diante delas: “ouvir” as leis e costumes, preservar sua integridade, “guardar” e zelar para que nada seja esquecido de tudo o que os olhos viram, tratando de educar as novas gerações no mesmo espírito. De onde vêm essas orientações? Lido ao pé da letra, o texto dá a impressão de que tudo vem diretamente de Moisés, que, no fim de sua vida e antes que o povo entre na terra, está lhe entregando seu “testamento espiritual”. Sabe-se, no entanto, que a formação do Deuteronômio ocorreu ao longo de muitos anos. Certamente, há elementos muito antigos que podem remontar aos tempos mosaicos. Mas o texto foi enriquecido ao longo dos anos e somente foi concluído após o exílio. Por trás dessa história de formação do livro está o esforço para retomar e atualizar o Decálogo, esforço que pode ser atribuído a círculos proféticos e levíticos, grupos de lideranças populares que tratavam de manter e renovar sempre de novo a consciência das implicações da aliança do Deus de Israel com seu povo. Essa intenção explica a insistência de que os acontecimentos do passado incluam os ouvintes ou leitores que viveram séculos depois: esses também viram e ouviram tudo isso; foi também a eles que Deus entregou e entrega “hoje” a terra; são agora eles que devem cuidar para não esquecer nada disso e tratar de transmitir essas experiências, leis e costumes aos descendentes. Na perícope em questão, merecem destaque alguns elementos: “Escuta, Israel” é a tradução do famoso “Shemá Israel”, que marca a atitude central da religião do povo da Primeira Aliança. Corresponde ao seguimento a Jesus no Segundo Testamento. A Bíblia constituiu-se em base ao ouvir os relatos, os ensinamentos e os testemunhos dos que experimentaram a presença de Deus em sua história. É preciso ter uma atitude de escuta e um desejo de aprender. O que Moisés diz estar ensinando, nesse momento, não são simplesmente leis e costumes; ele está ensinando a cumprir essas leis e esses costumes. Numa mesma frase, portanto, estão a atitude fundamental da escuta e a preocupação de ensinar a colocar em prática o conteúdo transmitido. A finalidade de ouvir e de pôr em prática esses mandamentos é viver e entrar na posse da terra que Deus dará. Está aí a teologia deuteronomista, que perpassa toda uma literatura: o cumprimento dos mandamentos de Deus rende vida ao povo; seu descumprimento lhe é desastroso até a morte. A ordem de nada acrescentar ou suprimir ao que, na perspectiva do texto, Moisés transmite ao povo contradiz a dinâmica histórica da formação do texto de Deuteronômio, que passou por um longo processo de construção. No Evangelho de Mateus, Jesus também diz algo semelhante: nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, mas tudo se cumprirá (Mt 5.17-19); mas ele mesmo foi acusado muitas vezes de não estar cumprindo a lei, inclusive no relato do evangelho deste domingo. Isso leva à constatação de que o texto está preocupado com a fidelidade à lei num sentido profundo, muito além de uma fidelidade formal. É assim, pelo menos, que Jesus viveu e propôs.

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14º Domingo após Pentecostes

A consequência da postura correta frente aos ensinamentos propostos é a sabedoria de Israel diante dos outros povos. Ouvindo e praticando a lei, Israel brilhará diante de seus vizinhos, que se admirarão de sua sabedoria. O texto evoca, portanto, as vantagens da atitude proposta, sugerindo que Israel se sinta orgulhoso do que tem e é. O texto finaliza com um solene alerta: “Tomai cuidado”. Os ouvintes e leitores devem zelar para não esquecer as coisas que seus olhos viram. Agora o acento recai sobre aquilo que os olhos viram, não sobre aquilo que apenas os ouvidos ouviram. Não há contradição nisso, porque aquilo que os ouvidos ouvem ou devem ouvir está fundamentado numa experiência vivida, em acontecimentos que os olhos puderam ver. Tudo isso, experiência e conteúdo ouvido, não pode sair do coração, mas deve estar nele em todos os dias da vida. E deve ser transmitido aos descendentes.

3

Meditação

“Eu só queria que meus alunos quisessem aprender” – disse uma professora preocupada com os frutos de seu trabalho profissional. O desabafo da professora tem muito sentido, pois onde não há vontade de aprender, pouco se alcança, mesmo com muito esforço dos docentes. Sem disposição para aprender, não se escuta, não se busca e não se aprende. Será que algo semelhante não ocorria nos tempos bíblicos? A tentação ao longo de sua história não terá sido fazer de conta que já se conhece Deus ou de querer agradá-lo com alguns ritos ou mesmo de achar que as “maçãs” dos vizinhos eram mais saborosas? Diante dessas tentações, sempre de novo surgiram grupos de pessoas que insistiam na necessidade de retomar e atualizar as profundas experiências vividas pelos antepassados do povo. “Ouve, Israel...” era a ordem repetida com insistência por esses grupos. Não se entra e não se permanece sem mais nem menos na “terra que o Senhor Deus dará”... Não se comove nem se convence a Deus com ritos e celebrações bonitas, mas vazias. Não se conquistam nem se mantêm a liberdade e a justiça social, iludindo-se com falsas promessas de grandeza. Ao contrário, o povo precisava cultivar uma saudável autoestima, valorizando suas próprias experiências de caminhada, nas quais, afinal, tinha alcançado a superação de muitas escravidões e a conquista de vida e liberdade. Era preciso “ouvir” sempre de novo essas experiências, meditar sobre elas, tirar consequências para as novas situações vividas e educar as novas gerações no mesmo espírito. Não se podia, outrossim, falsificar ou distorcer essas experiências originárias, mas era necessário manter íntegros seu significado e sua importância. Nesse sentido, não se podia tirar nem acrescentar nada ao legado atribuído a Moisés, como diz o texto. Ao que tudo indica, porém, nem sempre todo o povo da Bíblia entendeu essa fidelidade em seu sentido mais profundo. No evangelho deste domingo, por exemplo, aparecem críticas de Jesus a um cumprimento exterior e formal dos preceitos da lei. Muito antes dele, diversos profetas haviam feito críticas semelhantes. O que importava para esses profetas e para Jesus era justamente a

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14º Domingo após Pentecostes

fidelidade radical aos mandamentos de Deus, isto é, uma fidelidade que brota das raízes históricas desses preceitos e que traduz essas raízes em práticas coerentes. “Beber no próprio poço” é o título de um livro de Gustavo Gutiérrez. O autor mostra na obra a importância e o sentido do povo pobre latino-americano valorizar a própria história como fonte de espiritualidade em vez de sempre beber nas fontes de outros, com falsas aparências de maior importância e valor. A tentação é sempre confiar nos poderosos e desprezar a contribuição dos humildes e humilhados da história. O texto de Deuteronômio sobre o qual hoje meditamos mostra essa preocupação de que o povo de Israel não se esqueça de como Deus se manifestou em sua humilde história de povo periférico e aparentemente insignificante. Por isso Israel devia cultivar um saudável orgulho de suas leis e tradições, pois a prática dessas orientações produzia uma sabedoria invejável – o que nem sempre era percebido ou aceito por todos. Nós somos herdeiros do povo bíblico, tanto do Primeiro como do Segundo Testamentos. O texto de Deuteronômio, proclamado no culto deste domingo, interpela-nos hoje do mesmo modo que desafiava as diversas gerações do povo de Israel. Ele nos convoca a “ouvir”, a “escutar” as experiências de nossos pais e nossas mães de um passado já longínquo. Ele nos convida a refletir sobre o valor das orientações que brotam dessas experiências. E nos desafia a educar os filhos e netos no mesmo espírito. Tarefa difícil? Certamente, pois em nossos dias pouco se valorizam as experiências do passado e vigora o mito da superioridade do presente e do futuro. Fala-se de uma absolutização do presente. No entanto, a sabedoria parece estar na valorização das experiências qualificadas de nosso passado, na compreensão do presente à luz delas e na releitura dessas experiências à luz das novas situações vividas hoje. O relato dos discípulos de Emaús sugere precisamente isso. “Ouve, Israel...” – ouvimos na leitura de hoje. Como no livro de Deuteronômio, esse apelo não é só uma recordação de um evento do passado, mas igualmente uma palavra de ordem para hoje. Também nós somos convidados e desafiados a sempre de novo escutar atentamente o que nossos pais e mães nos contaram e a aprender dessas experiências originárias uma sabedoria para nossos tempos, tão arrogantes e carentes da valorização das experiências do passado.

4

Imagens para a prédica

Uma imagem interessante para a prédica pode ser a do ouvido, que pode ser visualizada por meio de um cartaz ou de uma projeção. Ela pode ser impressa também em tamanho pequeno e distribuída a todos os participantes do culto na entrada. Essa imagem permite fazer questionamentos interessantes, que podem encaminhar a reflexão sobre o tema do texto que embasa a prédica. Pode-se perguntar, por exemplo, o que é ouvir, que experiências temos de ouvir e ser ouvidos ou não, qual a importância de ouvir, qual a diferença entre ter ouvidos e de fato ouvir ou escutar, o que acontece quando não se escuta ou quando não se quer ouvir etc. A partir dessas questões, pode-se explicitar o texto, que começa com o pedido ou a ordem de ouvir/escutar.

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14º Domingo após Pentecostes

Interessante pode ser também a imagem do poço, sugerida pelo título do livro de Gutiérrez: “Beber no próprio poço”. Talvez a imagem seja muito rural e distante de pessoas de cultura urbana, mas ela parece estar nos arquétipos de nossa cultura e pode ser evocada com proveito. O poço lembra as ricas experiências vividas pelas pessoas de hoje, lembra as histórias e experiências vividas por nossos antepassados bíblicos, traz presente a água viva que expressa sabedoria, sugere a necessidade de ir até onde ele está etc. Não é por nada que, no Evangelho de João, Jesus é comparado a uma fonte da qual brota água viva. Também é sugestiva a representação de um grupo de pessoas reunidas numa espécie de círculo bíblico. Essa imagem lembra bem o cultivo da memória das experiências dos pais e mães dos tempos bíblicos. Ela evoca também a convicção de que a escuta dessas vivências é fonte de sabedoria.

5

Subsídios litúrgicos

Apresentamos apenas algumas sugestões: Hinos que tenham como tema a atitude da escuta ou o sentido da palavra de Deus em nossa vida são bem-vindos no culto deste domingo. Igualmente as orações, súplicas, pedidos de perdão e outras expressões orantes podem ocupar-se com o tema. Quanto mais se falar a mesma mensagem, em suas diversas expressões proporcionadas pelo culto, tanto mais a comunidade terá condições de vivenciar e assimilar essa mensagem. Na internet, encontram-se materiais sobre o “Shemá Israel”. A reprodução de uma gravação musical pode auxiliar na criação de um clima antes do início do culto ou mesmo no contexto da prédica.

Bibliografia

STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro do Deuteronômio: escolher a vida ou a morte. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1992. LOPEZ, Félix Garcia. O Deuteronômio: uma lei pregada. São Paulo: Paulinas, 1992.

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PRÉDICA: MARCOS 7.24-37

15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 35.4-7a TIAGO 2.1-10 (11-13), 14-17

09 SET 2012

Pedro Kalmbach

1

Introdução

Em geral, todo o capítulo 35 de Isaías é um canto de esperança e um convite para celebrar antecipadamente a alegria da libertação (J. S. Croatto). O cumprimento do anúncio e da promessa de um tempo diferente, no qual os cegos poderão ver e os surdos poderão ouvir (Isaías), irrompe finalmente de uma maneira radical por meio da atuação salvífica e curadora de Jesus. Esse cumprimento não se restringe tão somente a um povo, mas abarca todas as nações, todas as pessoas sem acepção e, de maneira especial, os pobres e os oprimidos, aquelas pessoas que são marginalizadas na sociedade. A presença e a proximidade de Deus convidam a confiar, a não desanimar, a crer em sua promessa e, por sua vez, chamam a atenção para a necessidade de não discriminar, de não fazer diferenças entre as pessoas (Tiago).

2

Marcos 7.24-37

O texto apresenta dois relatos: a) sobre a mulher siro-fenícia (7.24-30); b) a cura de um surdo-mudo (7.31-37). A respeito do primeiro relato, diversos autores (entre eles V. Taylor) concordam que a principal intenção do texto tem a ver com a atitude de Jesus frente aos gentios. O relato da mulher siro-fenícia teria, segundo esses autores, como objetivo mostrar aos judeu-cristãos que também para os pagãos a fé abre caminho a Jesus. Na cena relatada, mostra-se uma mulher estrangeira muito preocupada com sua filha, que está possuída de um espírito imundo (não se especifica qual espírito). Sua preocupação leva-a a ultrapassar barreiras e a rogar aberta e publicamente a Jesus que retire o demônio de sua filha. Jesus, que estava buscando um lugar tranquilo porque queria e necessitava estar a sós (V. Taylor), responde da seguinte maneira: “Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 27). Frente a essa resposta, a mulher não se dá por vencida. Ela insiste e mostra-se firme em seu pedido: “Sim, Senhor; mas os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas das crianças” (v. 28). A mulher mostra estar de acordo com a expressão de Jesus, a saber, ela não nega a veracidade de suas palavras, mas as completa. E Jesus ordena à mulher para voltar à sua casa, assegurando-lhe que sua filha está livre do demônio. Na segunda narração (v. 31-37), apresenta-se o relato de um milagre. Segundo V. Taylor, é incontestável que, quando o mesmo foi contado pela primeira

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15º Domingo após Pentecostes

vez, o narrador tinha em vista o texto de Isaías 35.5s, entendendo que, no agir curador de Jesus, estavam se completando as promessas anunciadas pelo profeta. A ação curadora de Jesus refere-se basicamente a dois aspectos, se for considerada a enfermidade que o homem tinha. Pessoas que sofrem de surdez e gagueira são pessoas que, muitas vezes, se encontram com dificuldades para a comunicação com outras pessoas, dificuldades que podem levar à exclusão da comunidade. O fato de encontrar-se diante de sérias dificuldades de comunicação leva que a surdez e a gagueira adquirem uma dimensão social. A cura não se reduz, então, simplesmente à restituição das funções corporais e orgânicas, mas também diz respeito à abertura para novas possibilidades e capacidades de comunicação e de convivência. Chama a atenção o fato de que Marcos transporta a cura do surdo-mudo para a região de Decápolis, a leste do Jordão, e que localiza seu relato logo após a narração sobre a mulher siro-fenícia. É provável que o autor tenha a intenção de mostrar que a mensagem da salvação trazida por Jesus também está aberta ao mundo pagão. Assim como a mulher estrangeira (siro-fenícia) se mostra aberta à proclamação de Jesus, assim o surdo-mudo é libertado de seu “recolhimento” e está “aberto” à salvação de Deus trazida por Jesus. Com isso o surdo-mudo estaria representando o mundo pagão, que se abre à fé em Deus.

3

Meditação

Os dois relatos apresentam pessoas que sofrem de algum mal: a filha da mulher siro-fenícia está possuída por um demônio e o surdo-mudo. Ambas as pessoas são libertadas de sua dor pela ação curadora de Jesus, que atua a partir do pedido e da intercessão de outras pessoas. No caso da filha da mulher sirofenícia, é a mãe quem roga a Jesus por sua filha e que, frente à primeira negativa de Jesus, não desiste. No caso do surdo-mudo, não está especificado quem são as pessoas que o trouxeram a Jesus, rogando que impusesse sua mão sobre ele. Creio que esse aspecto é interessante para levar em conta na prédica: duas pessoas são curadas, libertadas do mal que as afligia a partir da intercessão de outras pessoas perante Jesus, que age curando-as. A mulher siro-fenícia foi buscar Jesus, jogou-se a seus pés (sinal de respeito e de profunda dor) e começou a rogar-lhe que tirasse o demônio de sua filha (no texto paralelo de Marcos, a mulher grita pedindo misericórdia a Jesus, diante do qual reagem os discípulos de Jesus pedindo que ele, Jesus, mande-a embora). Diante disso, Jesus responde com uma réplica (v. 27). Sem dúvida, a mulher não desiste; ela não nega as palavras de Jesus – que não é bom pegar o pão das crianças e jogá-lo aos cachorros – e completa-as afirmando que mesmo os cachorros debaixo da mesa comem as migalhas que as crianças deixam cair. Marcos (e também Mateus) apresenta uma mãe profundamente preocupada e desesperada por sua filha e um Jesus que se compadece no final. Na história do surdo-mudo, observamos que alguém é levado/apresentado a Jesus. As pessoas que levam o surdo-mudo pedem a Jesus que coloque sua mão sobre ele (a saber, que o cure). E Jesus colocou-a ao lado e, estando a sós com ele,

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15º Domingo após Pentecostes

colocou seus dedos em seus ouvidos e tocou sua língua com saliva. Jesus age a partir do pedido, da intercessão das pessoas que trouxeram o surdo-mudo. O fato de tê-lo colocado ao lado para estar a sós com ele possibilita a abertura (é muito difícil que alguém se abra estando em meio a uma multidão; para isso, muitas vezes, é necessário estar a dois para conversar, para escutar e estar em silêncio). Jesus procede de uma maneira bastante corporal: colocar os dedos nos ouvidos e tocar sua língua com saliva. O pedido que fazem a mulher siro-fenícia e as pessoas que apresentam o surdo-mudo a Jesus é um pedido que inclui movimento, traslado, petição e que não desanima diante da primeira negativa. As pessoas que intercedem comprometem-se com o corpo frente às demais pessoas que estão com Jesus e de alguma maneira se expõem ao engano.

4

Imagens para a prédica

Compartilho algumas reflexões de Madre Teresa de Calcutá, que, seguramente, podem ajudar e inspirar a elaboração da mensagem para este domingo: “Penso que hoje o mundo está de cabeça para baixo e está sofrendo tanto porque há tão pouco amor no lar e na vida da família. Não temos tempo para nossas crianças, não temos tempo para nosso próximo, não há tempo para poder desfrutar da companhia”; “O amor começa no lar, o amor vive nos lares, e essa é a razão pela qual há tanto sofrimento e tanta infelicidade no mundo de hoje... Todo o mundo parece estar sob essa terrível pressa, ansioso por desenvolvimentos e riquezas grandiosas, de tal forma que as crianças têm muito pouco tempo para seus pais. Os pais têm muito pouco tempo para elas, e no lar começa a destruição da paz no mundo”; “A mais terrível pobreza são a solidão e o sentimento de não ser amado”; “A maior enfermidade hoje em dia não são a lepra nem a tuberculose, mas o sentimento de não ser reconhecido”; “Existe mais fome no mundo por amor e por ser estimado do que por pão”; “Algumas vezes, pensamos que a pobreza é somente ter fome, frio e não ter um lugar onde dormir. Mas a pobreza de não ser reconhecido, amado e protegido é a maior das pobrezas. Devemos começar em nossos próprios lares a remediar essa classe de pobreza”; “Se tu julgas as pessoas, não tens tempo para amá-las”; “Sentir-se não reconhecido, não amado, não protegido, esquecido por todos, penso que é uma fome muito maior, uma pobreza muito maior, que a da pessoa que não tem nada para comer”.

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Subsídios litúrgicos

Interessante e importante é assegurar a participação no culto daquelas pessoas que querem participar, mas que por alguma deficiência não podem chegar por seus próprios meios (pessoas em cadeiras de roda, pessoas cegas etc.). Essencial é buscar formas de inclusão e participação para todas as pessoas. Para isso, é

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15º Domingo após Pentecostes

necessário que pessoas da comunidade estejam dispostas a colaborar ativamente. Também é necessário pensar e, se necessário, ambientar o espaço litúrgico. Parece-me importante assegurar que o espaço permita às pessoas todas sentirem-se cômodas e que permita o encontro entre irmãs e irmãos na fé. Como sinal e gesto de inclusão e de comunhão, pode-se convidar à saudação/abraço da paz no momento da liturgia que se achar apropriado. Ideias para a oração de intercessão: Deus de amor e de entrega, oramos pelas vítimas de toda forma de violência, pelas pessoas que sofrem; pelas vítimas da guerra, pela fome e pelas enfermidades. Oramos pelas vítimas da injustiça de tão variadas formas, pelas pessoas sem teto e sem esperança, pelas pessoas que caminham pelas ruas e dormem sob elevadas ou na sujeira. Oramos pelas vítimas desse sistema e modelo econômico que mata e destrói; pelas pessoas sem trabalho e sem recurso e pelas pessoas que perderam a autoestima. Oramos pelas vítimas de nossos preconceitos e pelas pessoas indefesas que sofrem enganos e dor. Deus de amor e de entrega, cada um e cada uma te falam em voz alta ou em voz baixa o nome de pessoas por quem pedem: … Estende tuas mãos sobre elas, dá-lhes a tua presença, tua paz e teu amor. Deus de amor e de entrega, teu amor é mais forte do que nossas dores, mais forte ainda do que a morte, por isso trazemos para ti nosso pedido, nossa intercessão e o fazemos humildemente em nome de teu Filho, nosso Senhor. Amém.

Bibliografia CROATTO, J. Severino. Isaías 1-39. Comentario bíblico ecuménico AT. Buenos Aires: La Aurora, 1989. TAYLOR, Vincent. Evangelio según San Marcos. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1979.

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PRÉDICA: TIAGO 3.1-12

16º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 50.4-9a MARCOS 8.27-38

16 SET 2012

Günter Adolf Wolff

1

Introdução

O que o texto de prédica (Tg 3.1-12) e os dois textos de leitura (Is 50.4-9a e Mc 8.27-38) têm em comum? Eles têm em comum a questão da palavra, da fala, do discurso. A fala revela a nossa prática de fé. O que eu digo é o que eu penso, e o que eu penso eu faço. Isaías diz uma boa palavra ao cansado. Como o profeta não se retraiu em dizer uma boa palavra ao cansado, colocou-se ao lado do oprimido e por isso foi perseguido e torturado. Ser fiel à proclamação da palavra de Deus traz a perseguição por parte dos opressores. Marcos fala da confissão de Pedro, quando esse confessa que Jesus é o Cristo. Marcos desafia-nos com a pergunta de Jesus: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?”. Jesus lembra que, por causa do anúncio e da prática da palavra de Deus, ele vai ser preso e morto. Significa que falar de Jesus e de seu Reino é algo perigoso. Se você fizer uma opção clara como Jesus fez, ao colocar-se ao lado dos cansados, fracos e oprimidos, você estará ameaçando o poder estabelecido, como Jesus o ameaçou, conforme diz em Lucas 23.1-5. Por isso ele foi morto na cruz. Tiago faz lembrar uma palavra de ������������������������������������� Jesus em Mateus 12.34: “Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração”. Por isso Tiago levanta a questão do falar. O cristão deve falar do que está cheio o coração: a mensagem esperançosa do evangelho do reino de Deus, que aponta para uma nova sociedade não capitalista hoje. Não reproduzir a fala da classe dominante, que legitima a opressão sobre a classe trabalhadora. Isso evidentemente trará a cruz, como também nos apontam Isaías e Marcos.

2

Exegese

Podemos fazer uma divisão do texto de Tiago 3.1-12 com base em assuntos interligados à questão da língua: v. 1-2 – só quem é um verdadeiro mestre não tropeça no falar; v. 3-5 – exemplificações sobre pequenas coisas que se tornam grandes catástrofes ou grandes bens; v. 6-8 – a língua é fogo; v. 9-10 – com a língua bendizemos e amaldiçoamos; v. 11-12 – a língua como contradição entre fé e vida.

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16º Domingo após Pentecostes

Tiago já havia levantado a questão do falar e do controle da língua em 1.19 e 26, e isso tem a ver com a prática da fé, ou seja, com a coerência entre ensinar, falar e agir. O falar deve ajudar na construção do reino de Deus. Tiago 1.22-25 faz a relação entre palavra e prática: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. O nosso falar deve materializar-se em nossa vida prática. Para Tiago, a palavra tem a ver com a lei perfeita da liberdade. A palavra dita deve trazer e apontar para a liberdade. Paulo diz em Gálatas 5.1: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. A fala deve sempre preservar a liberdade que Cristo conquistou para nós na cruz. Tiago 3.13 lembra: “Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras”. Na comunidade de Tiago, muitos querem ser mestres. Tiago adverte que, para os mestres, o julgamento será mais rígido. Isso lembra a palavra de Jesus em Lucas 12.48: “Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”. Tiago exige daqueles que querem ser mestres que mostrem sua sabedoria por meio das boas obras e da coerência entre fé e prática de vida. Ser mestre e sábio não condiz com palavrório indigno, que só destrói o trabalho da comunidade. Tiago lembra no v. 3: “Ora, se pomos freio na boca dos cavalos, para nos obedecerem, também lhes dirigimos o corpo inteiro”. O falar tem a ver com o fazer e a direção a tomar. Jesus lembra disso em Lucas 6.45: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração”. Como mestres, nossa tarefa é bendizer, e por isso não podemos, como diz no v. 10, bendizer e maldizer ao mesmo tempo: “De uma só boca procedem bênção e maldição”. Coerência no falar e no fazer é exigida para que haja credibilidade no projeto do qual a comunidade fala: o reino de Deus. Tiago dá vários exemplos de como coisas pequenas conduzem a catástrofes, como no v. 6 e no exemplo do navio, no qual um pequeno leme mantém a sua rota (v. 4). O v. 3 fala da prática de guiar o cavalo, colocando um freio na boca, para dirigi-lo ao lugar certo. Tiago exorta a comunidade para que dentro dela não se fale mal de um irmão, pois isso é incoerência em relação à fé (v. 9-10). Deve haver uma coerência entre fé e prática. Coerência entre o falar e o fazer significa o viver dentro da comunidade e fora dela. O nosso testemunho a respeito de Jesus Cristo e de seu Reino dá-se pelo falar e pelo fazer, e ali deve haver coerência. Elza Tamez diz em seu livro sobre Tiago: “Se as comunidades às quais Tiago se dirige são discriminadas e oprimidas por fora, devem, pois, fortalecer-se interiormente e não se deixar minar por divisões internas e mal-entendidos entre si. O melhor é serem transparentes e sinceras entre si. ... Como se pode perceber, para Tiago, a integridade no sentido de ser consistente com ele próprio, com os demais e com Deus é fator vital na práxis”. Tiago 2.21-23 acentua a questão da coerência entre fé e obras: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. O falar

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comunica nossa fé pelas palavras, e o fazer comunica nossa fé pela prática. As duas devem interligar-se e ser coerentes. Conversa fútil, conversa mole, intrigas, fofocas e luta pelo poder na comunidade não ajudam na construção dessa nova sociedade que Jesus chama de reino de Deus, que aponta para uma nova sociedade, fraterna e justa. Quem controla as suas palavras, sua fala, controla também toda a sua vida e a mantém na direção que o evangelho propõe e não se deixa desviar do objetivo, que é o reino de Deus. No exemplo do freio na boca do cavalo e do leme do navio, Tiago coloca de forma positiva o assunto da fala na vida comunitária e fora dela (v. 3-4). A fofoca na vida comunitária não constrói nada, mas reforça o projeto do mundo. Tiago finaliza com o exemplo da própria natureza nos v. 11-12, onde não há contradições, mas coerência: a figueira não produz azeitonas. Aponta-se para a coerência entre o falar e o fazer. Conversa fiada e fofoca não ajudam em nada na proclamação do evangelho do reino de Deus. Em nossa fala, não podemos perder o foco: Jesus Cristo proclama o reino de Deus; o resto é conversa fiada. Só que o evangelho do reino de Deus sempre entra em confronto com as propostas do reino deste mundo. Daí vem a cruz, como nos apontam os textos de Isaías e Marcos.

3

Meditação

O tema da língua como motor de uma nova sociedade já nos é levantado em Gênesis 11.1-9. Deus usa a língua com o sentido de linguagem (ideologia e teologia) para propor uma nova forma do povo organizar-se, a partir da fé em Deus, numa sociedade livre, descentralizada e pluricultural, não dominada pelo Estado (cidade com uma torre onde mora o rei que quer ser deus). Na sociedade romana em que Tiago vive, onde o imperador quer ser deus, a comunidade continua lutando por uma nova sociedade, que Jesus Cristo chama de reino de Deus. Esse reino se opõe à sociedade vigente por uma nova prática de fé e de fala. Por isso é preciso cuidar da língua para não se ter a mesma linguagem e prática dos opressores. A prática dos opressores é falar uma coisa e fazer outra. Tiago luta pela coerência na fé. Fé e prática (obras) têm que combinar, como ele diz em Tiago 2.14-26. Cuidado para não entrar no moralismo dos costumes, pois o capítulo 3 continua o tema do capítulo 2, que fala sobre a fé e a prática: coerência entre fé e prática; falar e viver o que se fala. Todo o livro de Tiago é um desafio frente à realidade opressiva, que não deve ser reproduzida pela comunidade. A fé em Jesus Cristo não legitima uma sociedade corrupta e amoral como a romana e como a nossa hoje, que usa a fé para oprimir e reproduzir a opressão vigente. A fé das religiões romanas era usada para legitimar as ações do Estado, nas quais o Estado era endeusado, divinizado na pessoa do imperador. O Estado é a instituição que está a serviço de uma classe social ontem e hoje. O Estado usa a língua e a linguagem (ideologia) como mecanismo de repressão e persuasão para perpetuar essa sociedade desigual, em que uma classe vive à custa de outra, tanto a romana como a de hoje. Em Tiago 4 e 5, continua-se o tema do mundo, nosso inimigo, que usa a linguagem para nos afastar do projeto do reino de Deus, iniciado por

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16º Domingo após Pentecostes

Jesus Cristo, que propõe uma nova sociedade, hoje não capitalista, pois no reino de Deus não existem exploração nem opressão. Na sociedade de hoje, a fé em Jesus Cristo é usada para legitimar o capital, que tem sua teoria, sua fala, na teologia da prosperidade, que usa a fé em Deus para viabilizar a ganância de evocar a riqueza como bênção de Deus. Jesus deixa claro em Mateus 19.16-30 e Lucas 6.24-25 que riqueza não é bênção de Deus. Sabemos que ninguém fica rico apenas com seu próprio trabalho. Só se fica rico explorando o trabalho alheio. É disso que Tiago fala no capítulo 5.1-6, que mostra como se fica rico, e no capítulo 2, que fala que deferência frente aos ricos é um insulto a Deus, visto que esse escolheu os pobres para ser ricos em fé e herdeiros do reino (Tg 2.5-7). Sabemos hoje que a exploração ocorre no pagamento do salário, que compreende apenas o trabalho necessário (que serve apenas para alimentar o trabalhador e sua família), e não o trabalho excedente, que é o tempo em que se trabalha de graça para o patrão, que gera a mais-valia, o lucro. O capital surge dessa parte que não se paga ao trabalhador. Portanto a origem do capital está no roubo de parte do trabalho feito, mas não pago. É disso que Tiago 5 fala. O nosso falar deve pautar-se pela proposta do reino de Deus, que se contrapõe ao mundo. A comunidade não pode entrar no jogo do mundo (Tg 4.4), que usa a fé em Jesus Cristo para manter o sistema de opressão montado em nossa sociedade, que tem o Estado como aparelho legítimo da classe dominante, que o usa para seus próprios fins e contra a classe oprimida. Conversa fiada e fofocas na comunidade desviam o foco da existência da própria comunidade, que é a participação na construção do reino de Deus, que hoje aponta sempre para uma nova sociedade. Para nossa credibilidade como comunidade, é fundamental a coerência entre o falar e o viver em direção a essa proposta do reino de Deus, que inevitavelmente entrará em choque com o projeto capitalista, que usa a fé em Jesus Cristo para se legitimar, dizendo que riqueza é bênção de Deus. Por isso, cuidado com a língua. Se queres ser mestre, deves ter clareza teológica, e para ter clareza teológica, precisas estudar a palavra de Deus com as demais pessoas da comunidade; para isso nosso povo não se dispõe por comodismo.

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Imagens para a prédica

Para falar da língua (do falar) como linguagem, sugiro usar Gênesis 11.19. Esse texto serve de exemplo para mostrar o que a linguagem é capaz de fazer para brecar um projeto opressor do Estado e viabilizar o projeto de Deus de uma sociedade descentralizada, livre e pluricultural, sem o Estado como instrumento de opressão de uma classe sobre a outra. Para recontar a história da cidade e da torre de Gênesis 11, tem que se usar a tradução do Almeida, que usa o termo “linguagem” e não língua, o que muda o sentido. O conflito central desse texto é a construção da cidade (significa: Estado), que tinha uma torre (quartel onde moram o rei e seu exército), que foi brecado por Deus ao mudar a linguagem dos camponeses palestinos, que haviam assumido a linguagem do Estado controlado pela classe dominante. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje usa o termo lín-

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gua. O termo linguagem é mais amplo, pois pressupõe a ideologia, a cultura, os costumes, o jeito de pensar e compreender o mundo e a sociedade como um todo. Sugiro recontar o texto de Gênesis 11.1-9 no início da pregação, como exemplo para falar da língua (linguagem) que os mestres usam, segundo Tiago, para propagar o evangelho do reino de Deus, que propõe uma nova sociedade hoje, e para não propagar a linguagem teológica falsa que separa a fé em Jesus Cristo, que anunciou o reino de Deus, da prática da vida. A linguagem do evangelho do reino de Deus é revolucionária e não divisionária, como era a prática da comunidade de Tiago.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Confessamos que falamos muito na comunidade sobre muitos assuntos, sem conhecimento de causa. Confessamos que gostamos de fazer fofocas na comunidade para chamar a atenção sobre nós mesmos. Confessamos que não estamos dispostos a nos reunir para estudar em conjunto o evangelho do reino de Deus por preguiça e comodismo. Confessamos que procuramos viabilizar dentro da comunidade as propostas de nosso mundo. Confessamos que temos medo para falar sobre o evangelho do reino de Deus, que propõe uma nova sociedade para as outras pessoas e para os nossos familiares. Absolvição: Eu os livrarei de todas as suas maneiras de pecar e de me trair. Eu os purificarei, e eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus (Ez 37.23). Kyrie eleison: Pelos trabalhadores/as que são explorados e não recebem um salário digno; pelos trabalhadores/as que ficam doentes por causa do ambiente insalubre em que trabalham; pelos agricultores/as que ficam doentes por causa do veneno que aplicam nas lavouras. Gloria in excelsis: Glorificamos a Deus por sua Palavra, que proclama o reino de Deus como proposta de uma nova sociedade, fraterna e justa. Pelas pessoas que, a partir da fé, vivem e lutam pelo reino de Deus, que pressupõe uma nova sociedade. Oração geral da igreja: Interceder pelos doentes e pelos que cuidam de doentes; pelas autoridades do município, estado e país, para que se empenhem conosco na construção do reino de Deus, que aponta para uma nova sociedade; interceder pelas pessoas de nossa comunidade para que falem do evangelho do reino de Deus aos outros e vivam essa proposta em coerência no dia a dia de suas vidas.

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16º Domingo após Pentecostes

Bibliografia SCHRAGE, Wolfgang. Die Katolischen Briefe, in: Das Neue Testament Deutsch, v. 4. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1976. TAMEZ, Elsa. A Carta de Tiago. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1985.

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PRÉDICA: MARCOS 9.30-37

17º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JEREMIAS 11.18-20 TIAGO 3.13-4.3, 7-8a

23 SET 2012

Renato Küntzer

1

Introdução

O texto de Marcos 9.30-37 está indicado como perícope de pregação para o 17º Domingo após Pentecostes. Os textos de leitura previstos são Jeremias 11.1820 e Tiago 3.13-4.3, 7-8a. Jeremias compara sua vida profética a um cordeiro manso levado ao matadouro, pois estão conspirando contra a sua vida. Significativo é que Jeremias coloca a sua causa nas mãos de Deus, por quem foi chamado para ser profeta. Tiago retrata sua comunidade como uma comunidade dividida, em conflitos e propensa a realizar os desejos deste mundo e da natureza humana para os seus próprios prazeres. A isso ele contrapõe a prática da humildade e da sabedoria que vem do céu, que é pura, cheia de misericórdia, bondosa e amigável, que é o evangelho de Jesus Cristo.

2

Exegese

O texto em questão é o segundo anúncio da paixão no Evangelho de Marcos. O primeiro está em Marcos 8.31-9.1, e o terceiro, em Marcos 10.32-45. Todos os três anúncios têm o mesmo padrão: I – Anúncio da paixão: 9.30-31; II – Situação de mal-entendido: 9.32-34; III – Instruções de Jesus: 9.35-37. Esses anúncios fazem parte do bloco do evangelho dedicado aos discípulos (Mc 8.27-10.52). Como momento central vamos encontrar o relato da transfiguração de Jesus (9.2-10), que proclama a Jesus como o Filho de Deus, confirma o caminho e convida os discípulos a escutá-lo e segui-lo. A reação imediata de Pedro é manifestar o desejo de ficar ali (“bom é estarmos aqui”), pois isso evitaria a caminhada para Jerusalém, que será marcada pela paixão na cruz. A cena expressa o medo dos discípulos, que presenciam a transfiguração. Enquanto isso (9.1429), os outros discípulos não haviam conseguido expulsar um espírito maligno de um menino trazido pelo pai. Jesus está chocado com a sua falta de fé: “gente sem fé”. O que melhor descreve a situação é expresso pelo grito do pai do menino: “Eu tenho fé, mas ajuda a minha falta de fé” (v. 24). O fato é usado por Jesus para a instrução dos discípulos. E aqui é que se dá o segundo anúncio da paixão. A moldura do anúncio da paixão é formada pela tentativa de Jesus de preparar os discípulos para a paixão, enquanto eles não estão sintonizados na mensagem. Jesus “estava ensinando os discípulos e dizia a eles...”, mas os discípulos

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17º Domingo após Pentecostes

“não entendiam... e tinham medo de perguntar” (v. 31 e 32). Esse é o único versículo em que Marcos emprega o termo agnoeo (“não sei”, “sou ignorante”). E a situação dos discípulos completa-se com uma emoção frequente deles: a de “ter medo” (fobeomai). O que se percebe é que Jesus continua tentando ensiná-los acerca de sua paixão e ressurreição, e os discípulos simplesmente não entendem e reagem com medo de perguntar e esclarecer suas dúvidas. 2.1 – O segundo anúncio da paixão “O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas três dias depois ele ressuscitará” (v. 31a). É a mais antiga versão dos anúncios da paixão. Há grande probabilidade de essa versão ser autêntica, vinda da boca de Jesus. Atestam isso a brevidade e a indeterminação dessa variante e a linguagem. “O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens” é uma formulação independente, que remonta à tradição do cristianismo judeu-helenístico. Esse é o núcleo que está por trás dos anúncios da paixão. A junção desse dito independente com o anúncio da paixão e ressurreição é feita por Marcos e assim harmoniza com 8.31. Diferente de Marcos 8.31, onde a morte de Jesus é tida como necessária (dei), aqui a morte é consequência da entrega (paradídotai). Jesus compreendia a si mesmo e a sua missão a partir da expressão ho hyios tou anthropou, o Filho do homem, visto que Marcos então recebe e desenvolve uma concepção precisa a respeito do Filho do homem, que irá sofrer e ressuscitar, uma imagem relacionada com o anúncio da paixão. “E eles o matarão”: Jesus previu e conscientemente enveredou pelas vias da paixão, pois o andamento de suas atividades fazia-o contar com uma morte violenta. Marcos usa o termo vago e indeterminado “o matarão” (apoteknousin), quando outras tradições utilizam o verbo “crucificar” (staurosai), mais preciso e possivelmente atualizado pelo evento histórico. Jesus esperou e anunciou a sua paixão e morte, pois, continuamente ameaçado, contou com a sorte dos profetas. “Mas três dias depois ressuscitará”: a expressão “três dias” (treis hemeras) acusa sinais de considerável antiguidade. Aparece com frequência, além dos textos do anúncio da paixão, e em nenhuma vez a sentença faz referência aos três dias da Sexta-feira à Páscoa. A expressão, saindo da boca de Jesus, é um costume semita que dá a ideia de “vários” e “alguns”, de um tempo de intervalo indeterminado não muito longo, um “em breve”. Morto, em breve ressuscitará. Já a mesma expressão e o dito formulado em retrospectiva a partir dos acontecimentos históricos da paixão podem expressar exatamente o período de três dias entre a Sexta-feira da Paixão e o Domingo de Páscoa. “Não entendiam... tinham medo de perguntar.” Essa composição do evangelista demonstra a postura típica da falta de entendimento e medo dos discípulos a respeito da paixão. Repete-se em Marcos 10.32, em uma situação similar. Essa formulação, própria de Marcos, traz à tona a situação dos discípulos que não entendem e têm medo de perguntar.

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2.2 – A situação de mal-entendido Depois do segundo anúncio da paixão, segue um acontecimento que reflete a falta de entendimento dos discípulos. O tema da discussão pelo caminho é importante para o evangelista, o que delata sua atividade redacional. A discussão dos discípulos dá-se sobre qual deles era o mais importante (meidson), discussão essa que tem um paralelo em Marcos 10.35ss. A discussão dos discípulos no caminho mostra o quanto o tema afeta a relação entre eles e reflete, provavelmente, um problema maior presente na vida da comunidade para a qual Marcos dirige o seu evangelho. O dito de Jesus acerca da verdadeira grandeza introduz as instruções. Quanto às instruções de Jesus, há aqui uma perícope formada por duas pequenas cenas (v. 35 e v. 36-37), cada qual culminando com uma frase instrutiva de Jesus. Ambas as cenas, individualmente, são caracterizadas por sua brevidade. Abre a sessão de instruções aos discípulos. “Se alguém quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos” (v. 35). O dito é um paralelismo sintético e, visto que tal dito foi transmitido em diversas versões, deve-se considerá-lo anterior à redação de Marcos. O tema gerador da controvérsia (quem era o mais importante) não é muito distinto do problema encontrado em Marcos 10.35ss e da própria frase de Jesus, orientando que o discipulado aconteça no serviço a todos (10.43-44). A cena com a criança (v. 36, 37) é novamente encontrada em Marcos 10.13-16. Há inclusive gestos idênticos no versículo 36 e 10.16 (segurar e abraçar). O gesto de Jesus em segurar, pôr no meio e abraçar uma criança motiva a orientação aos discípulos, que segue no v. 37. O gesto de “receber uma criança” dá a entender que não é um gesto corriqueiro, ou seja, supõe uma prática de marginalização e uma situação de inferioridade das crianças. O mesmo se repete em Marcos 10.14, quando o gesto de receber as crianças é comparado ao acesso ao reino de Deus. Já em nosso texto, o seguidor que receber uma criança em situação de inferioridade na sociedade estará recebendo o próprio Jesus e o próprio Deus.

3

Meditação

Marcos expõe o contraste entre a revelação crescente de Jesus, associada aos anúncios da paixão, e a crescente incompreensão que isso provoca dentro da ótica humana. Marcos tem muito interesse em sublinhar isso. Essa fase da revelação de Jesus torna-se francamente escandalosa, pois está associada à cruz. No contexto maior da moldura que cerca os três anúncios da paixão, as curas dos cegos (Mc 8.22ss e 10.46ss) têm um significado claramente simbólico. Se Deus não nos abrir os olhos, se não transformar a maneira dos discípulos de ver as coisas, eles não serão capazes de entender a cruz do Filho do homem e muito menos o que significa seguir Jesus no caminho da cruz. Cada anúncio é sempre seguido de um acontecimento que revela o quanto os discípulos são incapazes de assimilar o que Jesus revela sobre si mesmo e sobre seu futuro. Jesus deixa claro o escândalo da paixão, que consiste na entrega

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17º Domingo após Pentecostes

do Filho do homem ao poder brutal dos homens. Há uma consciência clara da oposição e da perseguição que Jesus vinha sofrendo por parte das autoridades políticas e religiosas desde o início das atividades de anúncio público do evangelho. A reação dos discípulos de não entender e ter medo em perguntar caracteriza também o medo em relação ao sofrimento prestes a ocorrer. Dá a entender que preferiam não ter escutado a revelação de Jesus e tampouco entender as consequências para o seguimento a Jesus. Marcos levanta a crítica a uma cristologia triunfalista, como a que encontramos nas esperanças messiânicas da época de Jesus. Viam no Messias o triunfador que destruiria os inimigos do povo com grande poder. Não basta somente que Jesus lhes abra os olhos para poder entendê-lo quando se revela como o crucificado, mas é necessário, quando começa o caminho da paixão, que os discípulos estejam dispostos a segui-lo pelo mesmo caminho da cruz. É necessário abalar toda e qualquer segurança ou autossuficiência presente nos discípulos e na comunidade para a qual Marcos escreve o evangelho. A cruz do crucificado é o centro de toda a fé cristã, e a sua sombra há de projetar-se sobre todo o seguimento a Jesus, que deve ser também depois da Páscoa um seguimento no caminho da cruz. Não é o caminho de uma comunidade triunfalista que identifica o serviço e o acolhimento de uma comunidade. Só o caminho da cruz se identifica pelo serviço e acolhimento a todos. Há determinadas concepções sobre Jesus, práticas que geram conflitos entre os discípulos e nas comunidades, que merecem uma censura ou um puxão de orelhas. Isso está tematizado nas duas pequenas cenas que envolvem conflitos. Marcos não pretende desacreditar os discípulos, mas afirmar que o mesmo pode ocorrer a qualquer pessoa que ocupe o lugar que tem dentro da comunidade. Exatamente no caminho da paixão discutiam entre si quem era o maior. Não faz referência ao que tinham em mente na discussão sobre o que significa ser o maior. Mas é uma discussão que se encerra com uma frase de Jesus (v. 35b). O ser maior é interpretado como ser o primeiro. E quem quiser ser o primeiro deve ficar em último lugar e servir a todos. Chama a atenção que deve ser o servidor de todos. O ato de segurar uma criança, colocá-la no meio, abraçando-a, são gestos contundentes de amor que se deve adotar em comunidade frente aos pequenos e pouco considerados. Necessita ser uma prática da comunidade em nome de Jesus (“em meu nome”), voltando os interesses àqueles e àquelas em situação de risco social. Porque Jesus se identifica com os pequenos, a comunidade também necessita se identificar com os mesmos.

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Imagens para a prédica

Seguir Jesus, vivenciar o discipulado e assim permanecer em Jesus (seguir os seus passos, a sua prática, deixar-se orientar, deixar-se fazer a cabeça) é uma decisão pessoal, mas que implica uma prática comunitária. Quem não conhece a expressão “uma mão lava a outra”? Isso funciona em nossa sociedade. E funciona mal. Pois assimilamos a ideia das segundas intenções, e a lei da troca de favores mata a gratuidade e o amor ao próximo. Todo o pensar, desejar e agir torna-se cal-

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culista. Inclusive em relação a Deus. De tudo esperamos uma recompensa; enfim, a gente merece. Deus derruba esse sistema de recompensa e de troca de favores. Deus desce livremente. Por amor se antecipa e demonstra seu amor por nós. Deus não retribui. É doador que se antecipa. Deus critica severamente esse modelo de sociedade e não compartilha do uso de seu nome para justificar o sucesso de uns e o azar e a desgraça de grande parcela de filhos e filhas seus. Antes nos chama à responsabilidade pela prática da justiça. Se, porém, hoje não se ensina outra coisa por meio da opinião de pessoas senão méritos, recompensas, vantagens pessoais, não tenham medo de repetir à luz do dia e de anunciar abertamente a boa-nova do evangelho de Jesus Cristo, que Deus tornou conhecida. Contribuem para o assunto essas duas citações de Lutero, retiradas do livro da “Liberdade Cristã”: “Por isso a pessoa deve, em todas as suas obras, estar orientada e visar somente isto: servir a outros e ser-lhe útil em tudo o que faz, nada tendo em vista senão a necessidade e a vantagem do próximo. Essa é a verdadeira vida cristã, aqui de fato a fé atua pelo amor, com a qual serve ao outro gratuita e espontaneamente, de modo que não calcula com gratidão e ingratidão, lucro ou dano”. “Eis que em Cristo meu Deus deu a mim, pessoa indigna e condenada, sem nenhum mérito, por mera e gratuita misericórdia, todas as riquezas da justiça e da salvação, de sorte que, além disso, não necessito absolutamente de mais nada a não ser a fé que crê que as coisas são de fato assim. Assim me porei à disposição de meu próximo como um Cristo, do mesmo modo como Cristo se ofereceu a mim, nada me propondo a fazer nesta vida a não ser o que vejo ser necessário, vantajoso e salutar a meu próximo, visto que pela fé tenho abundância de todos os bens em Cristo.” Necessitamos disciplina e boa vontade para deixar Deus fazer a nossa cabeça, a fim de realizar o seu serviço, pois por nossa própria iniciativa e desejo a gente gostaria de exercer poder, influência e conseguir vantagens em relação ao próximo. No entanto, somos orientados a fazer as coisas levando em conta, primeiramente, a vantagem do outro.

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Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: – Senhor, pedimos perdão por todas as vezes que negligenciamos a tua justiça, quando na condição de teus filhos e filhas acabamos reproduzindo gestos e atitudes de egoísmo e exclusão, que se enraizaram em nossa sociedade de consumo e competição. Por isso pedimos: Perdão, Senhor, perdão. – Pedimos perdão por todas as vezes em que em nossas relações pessoais temos dificultado um relacionamento saudável e transparente com as pessoas que nos cercam na família, em nosso ambiente de trabalho, em nosso lazer. Ali temos sido demasiadamente egoístas, vaidosos, orgulhosos, irritados. Por isso pedimos: Perdão, Senhor, perdão.

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17º Domingo após Pentecostes

– Pedimos perdão pelas vezes que fazemos uso de repetidas e fúteis práticas construídas sobre o poder e o domínio de uns sobre os outros na imposição de vontades pessoais, negligenciando o testemunho, a missão e o serviço comunitário. Por isso pedimos: Perdão, Senhor, perdão. Oração do dia: Senhor Deus, misericordioso e doador da vida! Anima-nos a revisar com profundidade a nossa vida, nossas atitudes, nossas comodidades. Permita superar o que nos afasta das pessoas, da comunidade, de Deus. Permite descobrirmos novos rumos que nos aproximem das pessoas e de suas necessidades. Permite que sejamos constantemente corajosos conosco mesmos, quando nos dermos conta de nossa fragilidade e quando a tua palavra nos impregnar com a responsabilidade pela vida. Amém. Oração de intercessão: Intercedemos: – Por tua igreja, diante da tarefa do testemunho público da causa de Jesus, que o leva a enfrentar todas as crises e adversidades a caminho de Jerusalém, onde haverá de sofrer o peso da cruz. Quantas não são as cruzes colocadas no caminho da igreja! Não permita que desviemos delas, mas saibamos carregá-las em proximidade e comunhão na causa de todos os irmãos e irmãs solitários, sofridos e excluídos. – Pelas autoridades públicas, para que exerçam o seu serviço em favor do bem comum e das necessidades urgentes de crianças, adolescentes e jovens em situação de risco social. Que saibam dar prioridade à destinação dos recursos públicos em favor da educação, da saúde preventiva e de programas de geração de renda. – Por todas as pessoas cujas vidas estão fragilizadas por enfermidades, fome, violência, falta de esperança. Na superação dessas fragilidades, façam-se presentes os sinais do reino de Deus, que se concretizam pelo apoio e proximidade de pessoas comprometidas com a mesma causa.

Bibliografia JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1977. p. 425-447. GNILKA, Joachim. El Evangelio según San Marcos. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2001.

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PRÉDICA: TIAGO 5.13-20

18º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

NÚMEROS 11.4-6, 10-16, 24-29 MARCOS 9.38-50

30 SET 2012

Antonio Carlos Ribeiro

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Introdução Se esta carta fosse enviada, em nossos dias, para comunidades cristãs da América Latina, possivelmente seria interceptada pela Segurança Nacional de alguns países. Seria taxada de documento subversivo ao lerem-se os parágrafos que denunciam com veemência a exploração dos fazendeiros e a vida regalada (farta) dos homens de negócios. Elsa Tamez

Os pobres alegram-se na esperança. É o que nos ensina a Carta de Tiago, especialmente quando lida a partir do olhar latino-americano. Para compreendêla, é necessário mais do que amor pelo evangelho, do que um desejo sincero de anunciar a salvação ou ainda do que uma disposição catequética frente à comunidade. Para ler a Carta de Tiago com certa contextualidade e, sobretudo, para envolver a comunidade de fé numa pastoral que alcance os grupos mais desprotegidos da sociedade, é necessário vê-la como um tratado religioso e moral, tendo a forma, mas somente a forma, de uma carta. Ela traz conselhos e reflexões sobre diversos tópicos, articulando aspectos da vida comunitária que dão a dimensão prática de sua vivência. Se fizermos o percurso práxis – teoria – práxis, relacionando o caráter pessoal e a conduta correta, proposto pela teologia latino-americana, não teremos muita dificuldade para estabelecer contato com a realidade e ajudar a comunidade a interagir com os outros grupos que a integram. A Carta de Tiago, ao invés de mostrar o evangelho a partir de suas grandes afirmações (fatos e compreensões fundamentais à salvação), desenvolve uma linguagem pastoral como resposta às dores das pessoas e da comunidade, ensinando a integridade espiritual, o trato com sinceridade e uma verdadeira piedade, visível em todos os parágrafos. Mais do que isso, ela reflete as condições de vida dos judeus na Palestina, apresenta ideias com raízes e assume fortes influências helenísticas. Seu autor tem em mente as necessidades gerais dos cristãos. Seus conselhos partem da compreensão de seu modus vivendi e por isso falam à sua existência consciente. Não trata das preocupações de uma igreja particular, não pensa a fé a partir de uma instituição, como um intelectual orgânico, mas a partir de situações reais e comuns, provavelmente fruto de um impulso da expressão que surgiu da consciência dos conflitos da vida de fé e de ter algo a dizer frente a elas.

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18º Domingo após Pentecostes

É uma prática de fé vivida num processo de opressão que suscita perguntas: Como crer dentro de um contexto que pede libertação? Como a correta fé cristã (ortodoxia) desenvolve seu potencial libertador a partir de uma prática correta (ortopráxis), frente às quais forjou a compreensão de que a “função libertadora não consiste nas respostas analíticas, nem em dar sentido a uma realidade existente e nem a uma fé ameaçada por ela, mas sim em transformar uma realidade para que chegue a ter sentido para a fé”, como ensinou Jon Sobrino? O texto de Números 11.4-6, 10-16, 24-29 mostra Moisés sofrendo os conflitos da liderança de um povo que sofre a falta de alimentos no deserto, que assume seus sofrimentos e intercede. A resposta é a partilha do compromisso de liderar o povo – com sentimento, clareza de objetivo e liderança – e a divisão correspondente de responsabilidade na execução da tarefa. O Evangelho de Marcos (9.38-50) mostra os conselhos de Jesus em relação aos que expulsam demônios em seu nome, passando a mostrar que, mais do que não estar apegado ao poder, partilha a responsabilidade, cobrando apenas dedicação à tarefa e fidelidade ao povo a quem vai ministrar.

2

Exegese

Conquanto muito conhecida, não posso deixar de mencionar a forma como Lutero se posicionou frente a essa epístola. Em seu prefácio à primeira edição do Novo Testamento, o reformador afirmou: O evangelho de São João e sua primeira epístola, as epístolas de São Paulo, especialmente Romanos, Gálatas e Efésios, e a primeira epístola de São Pedro são livros que mostram a Cristo e ensinam a vocês tudo o que é necessário e próprio para a salvação que devem conhecer, embora nunca vejam ou escutem outro livro ou doutrina. Por isso, a epístola de Tiago é realmente uma epístola de palha comparada com esses outros, já que não tem nada da natureza do evangelho nela (Wittenberg, 1522).

No prefácio à segunda edição, Lutero omitiu a expressão “epístola de palha”, mas não mudou em nada sua opinião sobre a carta, a partir da qual colocou, no final de sua tradução do Novo Testamento para o alemão, os livros de Tiago, Hebreus, Judas e Apocalipse, sem sequer enumerá-los na tabela de conteúdo. A maneira como Lutero lidou com essa epístola não foi o primeiro descaso, que pela ausência de grandes afirmações dogmáticas, pela adoção de linguagem pastoral na carta e mesmo pelo público-alvo – as comunidades judaicas pobres do fim do primeiro século, que sequer igrejas particulares eram – relegaram-na à categoria de menor valor. Assim me ative à exegese e à análise hermenêutica de Elsa Tamez – mulher, latino-americana e biblista com olhar treinado para o pequeno, o fraco e o pobre entre nós. O texto foi escrito entre o final do primeiro século e o início do segundo, mas isso não bastou para que fosse admitido no cânone. A discussão sobre a canonicidade durou até fins do séc. IV, sendo questionada em algumas igrejas até

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nos séculos seguintes. É importante observar que a patrística passou ao largo de seu reconhecimento. “Nenhum dos pais apostólicos do século II menciona Tiago como autor canônico. Nem Clemente de Roma, nem o Pastor de Hermas – embora ambos apresentem passagens bastante parecidas (...) Tampouco o mencionam Irineu, Tertuliano ou Clemente de Alexandria” (p. 14). A exceção é Alexandria, no Egito, onde Orígenes citou a carta como parte do Novo Testamento e colocou Tiago entre os autores bíblicos já no fim do século II. Foi o primeiro passo. Depois a igreja siríaca incluiu a epístola na versão Peshitta, que surge no século II, porém, ainda assim, “várias pessoas das igrejas sírias de língua grega não reconheceram a Carta de Tiago como parte do NT, entre eles o antioqueno Theodoro de Mopsuestia, Lito de Bostra” e, mais tarde, no século VI (545), nessa mesma igreja, Pablo de Nisbis, professor de Constantinopla. “Esse aceitou a canonicidade de 1 Pedro e 1 João (outros livros em disputa), porém a Tiago classificou de antilegómena”, por serem contestados, contraditos ou disputados, mesmo tendo sido geralmente reconhecidos (p. 15). Isso não impediu que nessa igreja, entre os séculos VIII e XIII, também tivesse havido objeções a essa e às demais epístolas pastorais. A igreja ocidental também demorou para aceitá-la: “Somente aparece em 350 A.D., no ocidente latino, no pseudo-augustiniam Speculum, na Vulgata e nos textos do Codex Corbeiensis, porém nesses últimos a tradução de Tiago é incluída numa coleção de tratados patrísticos”. A postura dogmática chega à literatura. “O primeiro escritor latino (356358) a citar a epístola, Hilario de Poitiers, refere-se à mesma uma só vez para alegar como suas passagens tinham sido mal entendidas pelos arianos para apoiar sua heresia.” Tamez indaga por que essa carta apresentou tantos “poréns” para ser reconhecida como parte da mensagem do evangelho. As respostas são várias e de índoles muito distintas. “A paternidade apostólica era um dos critérios mais fortes que tinha a igreja dos primeiros séculos para incluir um documento no cânone” (p. 17). Apesar das muitas explicações do processo canônico, as limitações na comprobabilidade das origens interfere como seu pano de fundo. “Há uma comunidade de crentes que sofre. Há ricos que os oprimem e arrastam aos tribunais. Há camponeses que são explorados, cristãos e não cristãos.” A carta é resposta a essa comunidade de crentes que necessita de uma palavra de esperança, de ânimo, de segurança, quanto ao fim da injustiça, às quais a carta de Tiago responde desde o início. O cuidado pastoral aparece na perícope desde a saudação, na insistência de declará-los felizes, de mostrar um Deus que cuida dos pobres, que emite o juízo contra o opressor e pelo fim da opressão. Mas o “ângulo mais denso dessa carta é a práxis”. Para Tiago, a denúncia de hoje e o anúncio da esperança não são suficientes. Da comunidade de fé se requer mais: uma práxis, segundo a qual os cristãos devem demonstrar uma paciência militante, integridade no falar, crer e fazer, ter oração com poder, sabedoria eficaz e amor incondicional. “Assim o evangelho é lido com os olhos do oprimido e crente” (p. 26).

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18º Domingo após Pentecostes

As afirmações da carta mostram sua ênfase pastoral: estar rodeado de todo tipo de provas; irmão de origem humilde gloria-se na exaltação e o rico em sua humilhação; feliz quem suporta a prova; órfãos e viúvas na opressão; os ricos levam os pobres aos tribunais; alguém carece de alimento e roupa; inveja, espírito de contenda, mentira, guerra, paixões, soberba; aquele que sabe fazer o bem e não faz peca; o grito dos salários e dos trabalhadores chega aos ouvidos do Senhor; condenastes e matastes o justo; fortalecei os corações porque a vinda do Senhor está próxima. O anúncio da salvação está no cotidiano. A boa-nova da promessa de libertação é ouvida pelos pobres e humildes. A esperança é o miolo dessa experiência, a tal ponto que a alegria se antecipa ao cumprimento (p. 47). A teologia pastoral surgida do sofrimento não teme afirmar: isso é ter fé, isso é crer de verdade. Opressão, sofrimento, perseguição não são definitivas para as pessoas e as comunidades que leem a Carta de Tiago. Só é possível se mover na esperança. Ela ajuda diante da opressão e fortalece em seu enfrentamento (p. 48). A carta dirige-se a gente oprimida. As comunidades de Tiago sofrem marginalização e desprezo na sociedade. A maioria de seus membros é pobre ou muito pobre; por isso o autor se solidariza (p. 49). As provas pelas quais passam referem-se à variedade de opressões que produzem sofrimento. Mas Tiago insiste em injetar ânimo em seus destinatários, fazendo-os refletir sobre sua própria experiência amarga. A alegria não é escatológica, e nem ele sugere gozo no sofrimento, mas, ao usar a expressão “sabendo que”, propõe que se tome consciência do processo e do resultado dessa experiência. Essa atitude fortalece o espírito, produz uma paciência militante, e é dessa que resultam obras perfeitas, porque essa reflexão existencial-espiritual-intelectual concede integridade à pessoa e à comunidade. “Ao contrário, o que considera atentamente a lei perfeita da liberdade e se mantém firme, não como ouvinte que facilmente se esquece, mas sim como cumpridor e praticante da mesma, esse será feliz” (1.25). A anamnesis, o trazer à memória, com a comunidade reunida em torno da Palavra, aponta para uma práxis orante e militante. “Tomai, irmãos, como modelo de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor. Vede como proclamamos felizes os que sofreram com paciência” (5.10). Ao afirmar que Deus é compassivo e misericordioso, o texto introduz mais um elemento na alegria que se experimenta na práxis: a participação de “Deus como doador da alegria! A alegria no sofrimento é também, paradoxalmente, produto da prática e da graça de Deus. Quanto mais se afirma que Deus é compassivo e misericordioso, nutre-se bastante a esperança” (p. 52).

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Meditação

“A prova não tem a ver com uma certeza escatológica, mas com a pobrezaopressão” (p. 53), ensinou a teóloga metodista. A certeza de que Deus nos espera no futuro e sua relação com os vínculos pessoais e comunitárias tocam em nossas

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utopias assumidas no cotidiano. Esse é o teste limítrofe de nossa espiritualidade e o ponto em que se encontram nossa pregação e nosso caminhar ético. Sempre temos a impressão de que o sofrimento abala e determina o fim de nossos sonhos. Depois de muito ver o sofrimento alheio, de lidar com nosso próprio sofrimento, de sentir a sensação de impotência no cotidiano, de chorar nossa fragilidade e perdas, construímos um novo fundamento, o que chamamos de sabedoria. Seus ingredientes são os saberes adquiridos, a experiência comunitária e o amálgama produzido pelo sofrimento. As palavras do texto deste domingo resumem magnificamente a pregação de Tiago num diálogo curto, construído de perguntas e respostas. É a síntese feita por nossas comunidades. O texto revela uma mística que indaga a dor sofrida e apresenta a fé construída na história. A militância e a mística são duas faces de uma mesma moeda, também vista como pessoal e comunitária, presente e futuro em construção, não negar a dor e ancorar as certezas num Deus que tem que ser bom, para lembrar Lutero. Diante do sofrimento da doença, manda orar. Em meio à alegria, manda entoar cânticos (v. 13). Se alguém permanece doente, orienta a comunhão dos anciãos e a unção com óleo (v. 14). E, lex orandi, lex credendi, enuncia a fé orada e crida pela comunidade: a oração da fé salva; o Senhor restabelece e perdoa pecados (v. 15). A comunhão da grei supõe confissão de pecados e intercessão, com o componente moral: a integridade do justo (v. 16). E apontou para a mística histórica: Elias era ser humano, mas tinha fervor religioso para pedir a estiagem – e ser atendido – e para pedir chuva – e ser ouvido de novo – para mostrar a mística e a autoridade do profeta. A comunidade de Tiago não é apenas mística. A memória da mística e dos feitos de poder supõe uma teologia que o texto também articula muito bem. Tamez enfatiza que “o Deus de Jesus Cristo é o mesmo que se conhecia através dos atos libertadores em favor de Israel e dos pobres de Israel e continua sendo o mesmo porque ‘nele não há mudança nem sombra de variação’” (p. 56). Defende a espiritualidade comunitária na expressão cúltica da comunhão. “Se a comunidade está padecendo, Deus não é causador; ‘pois Deus não prova a ninguém’ (1.13).” E enfatiza que “dEle vêm ‘toda boa dádiva e todo dom perfeito’. São os próprios homens que provocam essa situação de injustiça, sua concupiscência leva-os a pecar e se tornam assassinos (1.15), daí que uns matam e outros morrem, uns sofrem a pobreza e outros vivem regaladamente às custas de suas vítimas” (p. 57). Não mistifica – no sentido de usar o sentimento para encobrir e tergiversar –, mas mostra como espiritualidade autêntica e crítica clara não se excluem. Nesse ponto, a mística consolida o “paralelo entre ‘a coroa da vida prometida aos que o amam’ e o ‘reino prometido aos que o amam’. Ter esperança de conquistar a coroa da vida não significa entrar em competição e ser ganhador, excluindo o outro. Antes significa conquistar a vida em si, boa, duradoura, eterna, diferente da que tem vivido; por isso estão lutando pela vida, resistindo, suportando a opressão. Nisso consiste seu heroísmo e por isso recebem a coroa ‘da vida’, ou seja, a própria vida. Precisamente o fato de ter esperança nessa nova

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vida produz alegria, uma vez que a certeza é tal, e a opressão é tão real que, ao sentir que está se suportando com valentia, consideram-se proprietários dessa coroa (...) assim: ‘Feliz o que ama ao Senhor, pois receberá a coroa da vida que ele prometeu àqueles que o amam’, que seria melhor lido: ‘Feliz o que suporta a prova e ama ao Senhor, porque receberá a coroa da vida’” (p. 54). Práxis significa assumir três interpelações: a paciência militante, a integridade e a oração eficaz, tendo como pano de fundo o amor incondicional e sincero entre os membros da comunidade: 1 – Paciência militante – É a paciência heroica, que sabe aguardar os momentos propícios. As palavras em grego são termos militares usados como metáforas em conexão com as batalhas da vida e significam perseverar, resistir, ser constante, inquebrantável, imutável. Ela surge na opressão, por isso é ativa, trabalhadora, corajosa e heroica. Como Jó, que resistiu à morte, e Deus o restabeleceu. 2 – Integridade – As igrejas devem ser sinais do Reino, modelo diferente dos valores do mundo. Se a igreja se guardar a si mesma diante dessa ordem, corre o risco de repetir seus valores. Se tiver inveja, ciúme e disputa entre eles, sucumbiram à lógica do mundo. Se o cristão for íntegro, sincero, transparente, coerente e consequente no que faz, ficará seguro, resoluto, decidido. E sua prática espiritual também será pura, irrepreensível, justa. Ela resulta da experiência dolorosa, baseia-se no próprio Deus, e seu contrário é a ambiguidade. 3 – Oração poderosa – Está no interior da práxis, e essa não se esgota na prática da justiça, mas vem seguida de vida espiritual. Não é dualista. Faz justiça e ora, integrando as duas dimensões. Na justiça e na verdade, vê a presença de Deus e o mistério de sua graça aos pequeninos. A oração que restaura o enfermo é, dentro da práxis, uma experiência transcendental e de sentido, que distingue o cristão. Na vida comunitária, é um desnudar-se diante do outro no chamado à libertação mútua. Por isso é poderosa como a de Elias (p. 86).

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Imagens para a prédica

Essa construção comunitária ganha uma dimensão de mística. Antes de ser designado para meu primeiro pastorado, acompanhei o pastor Werner Fuchs ao acampamento dos sem-terra em Capela, na área pastoral da Paróquia de Portão, onde atuava. Enquanto pedíamos informações e datilografávamos um projeto para uma agência financiadora, pedindo alimentos e sementes para agricultores acampados e à espera de assentamento, gravei uma entrevista com Demenciano (Reforma Agrária é mais do que repartir terra. Jornal Evangélico, São Leopoldo, v. 18, p. 16, 01 dez. 1991). Ali, na porta da barraca, aquele agricultor – com a mulher e os filhos à volta, sob a lona preta – falava com uma certeza mística do lado equilibrista de sua esperança, para lembrar a música de Elis Regina. A escatologia que estudamos personificava-se naquele trabalhador. As muitas faltas, as desilusões das promessas e o desencantamento das privações eram enfrentados com a identidade clara (o saber quem é), a justeza da luta pelo espaço para trabalhar (a consciência do direito) e a necessidade de ocupar, plantar e distribuir alimentos (a convicção da luta). Não era individual, mas “fruto

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do trabalho de homens, mulheres e crianças que trabalham, sonham e pensam para construir o reino de Deus neste continente subdesenvolvido e maravilhoso”, escreveu Gutiérrez. Eram necessários alimento, sementes, máquinas para preparar o solo e sustentar os trabalhadores no plantio, mas o mais necessário era a mística escatológica para acompanhar os que se integravam ao grupo, especialmente nos problemas de doença. Na mística dos cristãos, no compromisso com os princípios e na comunidade reunida na luta pela vida, não bastavam objetivos e princípios; era preciso integridade.

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Subsídios litúrgicos

Saudação: Amada comunidade: na tradição cristã, estamos celebrando o tempo de Pentecostes, em que ela descobre que não vive apenas de sua força, mas da que vem do Espírito, que a todos congrega em torno de Cristo. É o Espírito que nos faz conhecer a verdade e nos envolver nos diversos movimentos que Ele provoca à nossa volta. É o Espírito que fortalece em nós a paciência militante, a oração poderosa e a integridade, necessárias ao nosso testemunho. Na alegria desse compromisso, saudemo-nos uns aos outros. Amém. Confissão e lamento pelos pecados: Neste momento em que a comunidade de fé também busca justiça ecológica, lembremos as palavras da Missa da Terra Sem Males: Eu era a Terra livre, eu era a Água limpa, eu era o Vento puro, fecundos de abundância, repletos de cantigas. E nós te dividimos em regras e em fronteiras. A golpes de ganância retalhamos a Terra, invadimos as roças, invadimos as tabas, invadimos o homem. Eu fazia um caminho a cada vez que passava. Era a Terra o caminho, o caminho era o homem. Ajuda-nos a, confiados em teu amor e graça, viver na esperança e sob teus cuidados. Tem piedade de nós, Senhor!

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18º Domingo após Pentecostes

Oração do dia: Deus, que na força do Espírito nos chamas a ser remanescente que não trai a aliança, não nega a comunhão e vive da leitura orante da Palavra, nós te pedimos: ajuda-nos a aprender da mística da comunidade de Tiago e a vivê-la neste mundo. Amém!

Bibliografia DIBELIUS, Martin. James – a commentary on the Epistle of James. Philadelphia: Fortress Press, 1975. ROPES, James Hardy. A critical and exegetical commentary on the Epistle of St. James. Edinburgh: T. & T. Clarck, 1991. TAMEZ, Elsa. A carta de Tiago – numa leitura latino-americana. São Bernardo do Campo: Metodista, 1985.

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PRÉDICA: MARCOS 10.2-12

19º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

GÊNESIS 2.18-24 HEBREUS 1.1-4; 2.5-12

07 OUT 2012

Kurt Rieck

1

Introdução

Façamos uma viagem no tempo. Quando foi escrito Gênesis 2? Alguns teólogos afirmam que o texto pertence à tradição javista, ou seja, que teria sido escrito na época davídico-salomônica (1.000 antes de Cristo). No Evangelho de Marcos, Jesus faz referência ao texto de Deuteronômio 24, escrito por volta de 650 anos antes de Cristo. Esse diálogo de Jesus a respeito do divórcio aconteceu pelos anos 30 depois de Cristo, que, por sua vez, foi registrado por volta do ano 70 d.C. O livro de Hebreus pertence aos anos 80 d.C. E nós lemos esses textos no ano de 2012. Quanto conhecimento e quanta cultura se acumularam ao longo desses anos! O livro de Hebreus aponta para a autoridade e o senhorio de Jesus: “... aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem...” (Hb 2.10). O evangelho previsto para este domingo fala do casamento e do divórcio. Jesus aponta em seu argumento para o texto de Gênesis. Com autoridade, Ele discutiu com os fariseus, apontando para a origem de todas as coisas. Essas palavras que orientam o matrimônio deixaram de ser relevantes com o passar dos anos? O tempo passa, mas a lógica da natureza é a mesma. Jesus quer o bem e tem em vista a felicidade da humanidade, que se dá na estabilidade do casamento. Somos criação de Deus. Fazemos parte do pensamento de Deus.

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Exegese

Esse evangelho é gerado por uma pergunta formulada pelos fariseus, que, na versão de Almeida (Revista e Atualizada), assim se apresenta: “É lícito ao marido repudiar sua mulher?”. Na versão da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, a pergunta está assim formulada: “De acordo com a nossa lei, um homem pode mandar a sua esposa embora?”. Os fariseus eram distinguidos por seu fervor religioso. “Observavam as leis de Moisés com a maior meticulosidade, bem como as regras acrescentadas pela tradição, isto é, pelos rabinos, cuja maioria pertencia a seu partido” (J.J. von Allmen, Vocabulário Bíblico). Indagavam Jesus para observar se Ele iria contradizer a lei mosaica. Está em jogo a lei escrita em Deuteronômio 24.1: “Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por

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ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio ...”. Como interpretá-la? Durante os séculos I antes e depois de Cristo, havia duas escolas rivais que se destacavam na interpretação do Antigo Testamento: a de Hilel e a de Shamai. A escola de Shamai entendia que o termo “indecente” referia-se a uma mulher que havia cometido o adultério. A escola de Hilel interpretava a palavra “indecente” de forma liberal, podendo ser qualquer motivo fútil relacionado à mulher, como falar muito alto ou não saber cozinhar. Ter encontrado outra mulher mais bonita também poderia ser razão para o divórcio. Afirma-se que, no tempo de Jesus, as relações matrimoniais eram instáveis. A resposta dos fariseus confirmava a possibilidade do divórcio. A resposta de Jesus dá-se em dois argumentos. Primeiro, ele alega que o motivo de Moisés ter permitido o divórcio estava na “dureza do coração”. A insensibilidade provoca a separação. O pecado humano é que proporciona o divórcio, cria as desavenças, gera a falta de amor, incapacitando a pessoa a se doar uma para a outra. O relacionamento conjugal está em risco sempre que uma das partes age de forma egoísta. Num segundo argumento, Jesus aponta para a criação. Refere-se aos textos de Gênesis 1.27 e 2.24. A vontade de Deus dá-se na criação do homem e da mulher, que se atraem. O casamento é uma aliança, um pacto de vida a dois, o qual gera compromisso e promove vida para ambos. “Deixar” pai e mãe é tornar público o desejo do casal, constituindo uma nova família. Presente de Deus para o casamento é o ato sexual, fonte de prazer e de alegria, que torna o casal uma só carne. Dois tornam-se um. A relação sexual age profundamente na psique de ambos. O ato sexual aproxima o casal. Assim sempre foi e assim continuará sendo. Fica claro que, para Jesus, a união matrimonial é muito maior do que o simples cumprimento de leis e normas. Nada mais íntimo do que tornar-se uma só carne física, psíquica e espiritualmente. A santidade do casamento faz parte da intenção divina na criação. O divórcio ocorre quando se dá a ausência do amor incondicional. A presença do amor de Deus no matrimônio sempre fortalecerá o laço conjugal. Para o evangelista Marcos, o divórcio e o novo casamento são algo impossível. No entanto, no texto paralelo que encontramos em Mateus 19.3-9, o divórcio torna-se possível em caso de adultério. O assunto é palpitante, e os discípulos queriam, em seu círculo privado, continuar falando com Jesus a respeito. Ele finaliza qualificando ser adultério mandar seu cônjuge embora e casar com outro. Isso vale tanto para o marido como para a esposa. O sexto mandamento é fundamental para o equilíbrio pessoal, familiar e social. Sugiro que leiam o texto de Ivoni Richter Reimer, escrito no Proclamar Libertação 28, página 326. Trata-se de uma referência importante.

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Meditação

Jesus caminhava, pensava, falava e era questionado. Pensamentos movem o mundo. As boas-novas de Jesus movem o cristianismo. O evangelho lido trata de perguntas que dizem respeito ao cotidiano, entre eles o relacionamento matrimonial. O título que se dá para esse texto na versão de Almeida (Revista e Atualizada) é: “A questão do divórcio”. Na Nova Tradução na Linguagem de Hoje, é: “Jesus fala sobre o divórcio”. Embora a reflexão se origine em questões negativas, entendo que podemos inverter a chamada e apontar para a santidade do casamento. Assim daria um novo título: “A felicidade do casamento”. A realidade na qual Jesus viveu não era tão diferente da nossa. Relativizar a lei para legitimar atitudes egoístas sempre foi uma prática comum. Assim é o exemplo das escolas de Hilel e de Shamai. Aliás, em nossos dias, os Dez Mandamentos nem mais são considerados pela grande maioria da população. Falar de casamento até que a morte vos separe parece até uma piada. Troca-se de parceiros assim como se troca de camisa. O “eu” está cada vez maior, e o “nós” está diminuindo. Somos pessoas influenciáveis. Contou-me um amigo nascido em Portugal que ele ficou muito impressionado com as mudanças que aconteceram nas vilas e aldeias de seu país de origem. No ano de 1975, aconteceu o ingresso das novelas da televisão brasileira. A vida familiar pacata e singela foi influenciada, entre outros, pelos padrões impostos pela “telinha”. Estrutura familiar estável toma formas caóticas, alterando padrões éticos e morais, bem assim como demonstrado nas novelas. As pessoas tomam por verdade aquilo que lhes é dito e imposto. As massas são manipuláveis tanto pela propaganda como pelos programas. As pessoas ingenuamente se deixam levar, com baixa capacidade crítica. E isso as afeta na relação conjugal. Não faz muito, surgiu entre os jovens o conceito do ficar. Essa brincadeira não é inócua. Num dia se fica com um, noutro dia se fica com outro, ou ainda se fica com muitos em uma mesma noite, e sempre sem compromisso. Vive-se uma geração egoísta. Fidelidade, nem pensar. Os estragos já estão sendo colhidos. Assim se cria uma geração que não quer compromisso. Jesus não ignora o divórcio. O divórcio nunca é fruto do bem. Por amor ninguém se separa. Ele só acontece por ter havido um acúmulo de erros não resolvidos. Há situações insustentáveis, e nesse caso o divórcio é o menor entre dois males. Não que Jesus concordasse com o divórcio, mas, sim, ele diz que o divórcio acontece “por causa da dureza do coração” das pessoas. O desentendimento, a falta de atenção, as relações egoístas também sempre estarão em jogo no relacionamento conjugal. Isso faz parte da natureza humana. Essa natureza é transformada e inspirada no amor incondicional revelado em última instância na cruz de Cristo.

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A nossa igreja realiza a bênção matrimonial de divorciados, porque acredita que também os divorciados têm a chance de refazer a sua história. Ninguém está condenado para a infelicidade matrimonial pelo resto da vida. Aliança gera comprometimento, que saberá lidar com as dificuldades. Ao olhar para a aliança recebida na bênção matrimonial, lembrará que ela está acima das circunstâncias. O ato público da bênção matrimonial torna-se um momento de consagração. De joelhos, no altar de Deus, há uma entrega da vida pessoal de cada um dos nubentes. Consagrada a vida para Deus, há a consagração da vida de um para o outro. Com reverência e humildade, recebe-se a bênção que procede do Trino Deus. Isso torna o matrimônio cristão um ato santo. Nunca esquecendo que é o amor incondicional, provindo de Deus por intermédio de Jesus Cristo, que torna o amor matrimonial um ato divino. O exercício da espiritualidade é fundamental para o crescimento matrimonial. O amor humano é limitado. O amor divino é incondicional. Ao alimentar-se do amor divino, o casal terá a inspiração necessária para manter a santa união matrimonial. Há um fundamento lançado desde a criação que promove a célula mater da sociedade. Inicia com uma profunda amizade, desenvolve-se para um relacionamento de amor incondicional e torna-se uma entrega de corpo e alma. Nessa dimensão, encontramos a estabilidade de um relacionamento sadio. De uma relação amorosa, respeitosa e carinhosa brota a segurança do casamento. Assim é possível descrever um quadro ideal, que sabemos ser raro, mas possível. Mas o adultério continua sendo praticado. Quem não respeita aquele que lhe é mais caro, com quem se tornou uma só carne, perde a credibilidade em demais segmentos de sua existência. Aquele que trai seu cônjuge antes de qualquer coisa traiu a si mesmo, corrompendo o seu caráter. O perdão que Cristo propõe na cruz é também para os erros cometidos no matrimônio. O arrependimento e o perdão são elementos da cura divina para os relacionamentos rompidos. Acolher essa graça pode converter o caos em harmonia. E não esqueçam: ninguém se separa por amor. É nesse ponto que Jesus insiste, valorizando o matrimônio, tornar-se uma só carne, não permitindo que o enlace se torne vulgar.

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Imagens para a prédica

É tempo de anunciar o belo, o rico, o extraordinário que está na constituição de uma família equilibrada e estável. Valorize a obra do Criador, que fez o homem e a mulher para tornar-se uma só carne. Fale do casamento. Sublinhe a importância da bênção matrimonial e do significado da consagração que se dá nesse ato. A construção do bom entendimento está na sutileza dos pequenos detalhes. Ter sempre uma atitude positiva, uma palavra de amor, um gesto de carinho fará com que o matrimônio seja fortalecido.

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19º Domingo após Pentecostes

Causa um grande impacto fazer à comunidade as duas seguintes perguntas: Vocês sabem qual é o local mais próximo do céu? O lar. Você sabe qual é o lugar mais perto do inferno? O lar. Tudo depende do que fazemos nele. Partilho uma lenda que se conta na Índia sobre a criação do homem e da mulher, apresentada por Walter Trobisch em seu livro “Amor, sentimento a ser aprendido”. Quando acabou de criar o homem, o Criador reparou que tinha usado todos os elementos concretos. Nada mais havia de sólido, maciço ou duro para criar a mulher. Depois de pensar muito tempo, o Criador tomou a redondeza da lua, a flexibilidade da trepadeira e o farfalhar da grama, a finura da cana e o desabrochar das flores, a leveza das folhas e a serenidade dos raios do sol, as lágrimas das nuvens e a instabilidade do vento, a timidez dum coelho e a vaidade dum pavão, a maciez da penugem dum pássaro e a dureza dum diamante, a doçura do mel e a crueldade dum tigre, o crepitar do fogo e o frio da neve, a tagarelice dum papagaio e o cantar dum rouxinol, a astúcia duma raposa e a fidelidade duma leoa. Misturando todos esses elementos não sólidos, o Criador fez a mulher e a deu ao homem. Depois de uma semana, o homem voltou e disse: “Senhor, a criatura que me deste faz a minha vida infeliz. Ela fala sem cessar e atormenta-me de tal maneira que não tenho descanso. Ela insiste em que eu lhe dê atenção o dia inteiro, e assim as minhas horas são desperdiçadas. Chora por qualquer motivo e leva uma vida ociosa. Vim devolvê-la porque não posso viver com ela”. O Criador disse: “Está bem”. E tomou-a de volta. Depois de uma semana, o homem voltou ao Criador e disse: “Senhor, minha vida é tão vazia desde que eu trouxe aquela criatura de volta! Eu sempre penso nela, em como dançava e cantava, como me olhava, como conversava comigo e depois se achegava a mim. Ela era agradável de se ver e de acariciar! Eu gostava de ouvi-la rir. Por favor, dá-me de volta!” O Criador disse: “Está bem”. E a devolveu. Mas três dias depois, o homem voltou e disse: “Senhor, eu não sei – não posso explicar, mas depois de toda a minha experiência com essa criatura, cheguei à conclusão de que ela me causa mais problema do que prazer. Peço-te, toma-a de novo! Não posso viver com ela!” O Criador respondeu: “Mas também não pode viver sem ela!” E virou as costas ao homem e continuou o seu trabalho. O homem, desesperado, disse: “Como é que eu vou fazer? Não consigo viver com ela e não consigo viver sem ela!”.

Precisamos levar em consideração que esse exemplo é um escrito feito sob a ótica do homem. Bem se pode fazer uma lenda semelhante escrita sob a ótica da mulher. A vivência conjugal carece ser aprendida.

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19º Domingo após Pentecostes

5 Subsídios litúrgicos Oração do dia: Neste momento te buscamos, Senhor. Tu vens ao nosso encontro e nos ofereces comunhão. Queremos reconhecer a tua presença entre nós e expressar a nossa gratidão por nos dares a possibilidade de constituir um lar e repartir a vida. Senhor, de ti precisamos aprender a amar. Rogamos que o teu Espírito Santo nos faça compreender a grandeza do amor incondicional. Amém. Confissão de pecados: Queremos ter um momento de silêncio e pensar: Há algum motivo que prejudica a minha relação conjugal? Como está o meu relacionamento com os filhos? Tem algum motivo que prejudica a minha paz com Deus? Senhor, não te canses de me moldar, a fim de que eu prossiga no aprendizado do amor. Santa Ceia: Na Ceia, alimentamo-nos de Jesus. Ele se torna materialmente parte de nós. Ele nos limpa por dentro e por fora. Queremos que o nosso matrimônio seja movido por Cristo, sendo Ele a fonte que nos alimenta. No altar de Deus, repartindo a Ceia instituída pelo nosso Senhor Jesus, reiteramos o desejo de nos aceitar e nos perdoar, movidos por Cristo. Cálice é a marca de um acordo, de um pacto. Esse pacto nos faz lembrar o matrimônio e a consagração realizada na presença do Trino Deus. A Ceia é a festa do corpo de Cristo, na qual inúmeros casais e famílias celebram a unidade que provém da fé.

Bibliografia BARCLAY, William. Marcos – El Nuevo Testamento Comentado. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1974. TROBISCH, Walter. Amor, sentimento a ser aprendido. São Paulo: ABU Editora, 1970.

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PRÉDICA: AMÓS 5.6-7, 10-15

20º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MARCOS 10.17-31 HEBREUS 4.12-16

14 OUT 2012

Evandro Jair Meurer

1

Introdução

O livro de Amós, do qual vem o texto previsto para pregação, está cotado entre os “Doze Pequenos Profetas”, compilados no final do Antigo Testamento. Desses, nove já receberam alguma atenção nas edições anteriores de Proclamar Libertação. Amós teve, inclusive, oito perícopes comentadas. Mas a de 5.6-7,1015 aparece agora pela primeira vez. Tematicamente, ela recebe apoio das demais passagens bíblicas previstas para o domingo. O Evangelho de Marcos colabora quando nos traz a lembrança da escolha que o moço rico teve que fazer diante do imperativo ao discipulado. O texto da Epístola aos Hebreus é um verdadeiro ícone da argumentação sobre o poder da palavra de Deus – imperativo de anúncio e de denúncia – e sobre o “Grande Sacerdote” Jesus Cristo – exemplo para nosso sacerdócio cristão. Podemos concordar que o período litúrgico (20º Domingo após Pentecostes) não nos oferece um grande desafio concreto para a pregação. Contudo, o calendário civil brasileiro, esse sim, é desafiante: estamos em meio a um período eleitoral (do 1º para o 2º turno) de escolha de novos (ou velhos?) governantes e legisladores municipais. Nesse sentido, a profecia de Amós, anunciada por volta de 760 a.C. no norte de Israel, pode renovar-se neste outubro de 2012 em nosso contexto.

2

Exegese

Em âmbito maior, o texto está inserido nos ditos proféticos de Amós de Tecoa (cap. 3-6), com palavras de juízo contra Israel. No contexto mais imediato, poderíamos dar uma atenção aos ditos presentes em 5.1-20. A delimitação proposta (5.6-15, excluindo os v. 8-9) coloca-nos diante de ditos proféticos de admoestação (5.6 e 5.14-15), mediados por acusações, denúncias (5.7-13). Os versículos 8-9 estão fora da indicação, presume-se, pelo motivo de ser considerados parte de tradições da era de Josias, também presentes em outras partes do livro de Amós. Na Nova Tradução na Linguagem de Hoje, a leitura bíblica fica facilitada visualmente se optarmos pela não leitura dos v. 8-9, pois esses versículos estão em parágrafo destacado como um hino doxológico. Contudo, não vejo problemas em incluí-los na leitura bíblica comunitária, especialmente porque apresentam, com novos detalhes, esse “SENHOR, o Deus Todo-Poderoso”, citado nos v. 14 e 15.

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20º Domingo após Pentecostes

Numa estruturação simplificada, o texto de pregação ficaria assim: v. 6 – Admoestação v. 7 + 10-13 – Acusações v. 14-15 – Admoestações De saída, nas admoestações sobressaem-se os imperativos. No total são cinco, que assim se apresentam (conforme as duas traduções mais em uso em nossas comunidades): ALMEIDA: buscai (v. 6 e 14), aborrecei, amai e estabelecei na porta (v. 15). NTLH: voltem (v. 6), procurem fazer (v. 14), odeiem, “amem” e façam (v. 15). Todos eles estão ligados a um substantivo e são como que especificações desse imperativo. ALMEIDA: ao Senhor (v. 6), o bem (v. 14), o mal, o bem e o juízo (v. 15). NTLH: para o SENHOR (v. 6), o que é certo (v. 14), aquilo que é mau, o que é bom e os direitos de todos (v.15). Logo em seguida, seguem complementações que expressam a finalidade da ordem anteriormente dada, uma espécie de informação. ALMEIDA: – e vivei, para que não irrompa na casa de José como um fogo que a consuma, e não não haja em Betel quem o apague (v. 6); – e não o mal, para que vivais; e, assim, o SENHOR, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis (v. 14); – talvez o SENHOR, o Deus dos Exércitos, se compadeça do restante de José (v. 15). NTLH: – e vocês viverão. Se não voltarem, ele descerá como fogo para destruir o país de Israel, e em Betel ninguém poderá apagar este fogo (v. 6); – e não o que é errado, para que vocês vivam. Assim será verdade o que vocês dizem, isto é, que o SENHOR, Todo-Poderoso, está com vocês (v. 14); – sejam respeitados nos tribunais. Talvez o SENHOR, o Deus Todo-Poderoso, tenha compaixão das pessoas do seu povo que escaparam da destruição (v. 15). Belas poesias, em perfeito paralelismo! Um gênero marcante, que raramente aparece em Amós (4.4-5; 5.4-5 e 24) e que tem sido denominado de “sermão de advertência”. Na parte das acusações, destacam-se palavras contra a deturpação da prática da jurisprudência (v. 10) e de questões sociais e econômicas fundamentais (v. 11a, 12 e 13), não ficando fora palavras de anúncio da desgraça (v. 11b). A mensagem divina que Amós deveria trazer a Israel está bem clara: “chegou o fim” (confira as visões proféticas em 7.1-8, 8.1-2 e 9.1-4). Javé tinha, com certeza, motivos muito fortes por trás: as transgressões do povo (cf. 2.6-8, 3.912a, 12b-15, 4.1-3, 5.7-11, 8.4-7), as de ordem social (2.8, 3.14, 4.4-12, 21-25, 5.10-12) e as de deturpação do culto (5.18-20, 6.1-7, 8-13,13-14), fruto de uma falsa segurança proporcionada por uma má compreensão da eleição. Ou seja, o profeta Amós atua num tempo em que Israel vinha de um período de paz, o que possibilita, naturalmente, grandes avanços no plano interno, não sendo necessário preocupar-se com inimigos ao derredor. Sobra assim muito

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20º Domingo após Pentecostes

tempo para avanços territoriais por forças militares, comércio, intercâmbio e ganhos ilícitos, os maus-tratos dos que podem e têm menos, o mau uso do culto. Os ouvintes de Amós pareciam mostrar-se seguros frente ao anúncio de juízo contra eles. Porém estavam agarrados a uma falsa ideia. Tinham já experimentado toda a proteção de Javé, que proporcionou vida a eles. Já tinham feito a experiência de que a prática do bem, o seguir os mandamentos, o buscar a Javé haviam trazido vida a eles. Mas agora era visível que uma parte deles estava se lembrando somente da promessa de vida e esquecendo de preocupar-se em fazer o bem. E isso estava muito visível: – praticavam o comércio, tendo muitos lucros, porém ilícitos e exploradores; – luxuosidade, grandes casas de marfim e soberba estavam presentes; – viviam em grandes festas de muita comida e bebida; – eticamente, a imoralidade não estava ausente; – relações sexuais ilícitas, maus-tratos de um para com o outro estavam à vista; – não faltavam os que eram falsos em sua religiosidade e que, ao lado de oferendas, dízimos e sacrifícios, visitavam templos pagãos; – injustiças no tratamento dos pobres; – alguns acumulavam tesouros para si, fartavam-se, não se lembrando do necessitado; – tratavam injustamente os pobres nos tribunais, levando à culpa pessoas inocentes. Para os endereçados da profecia, não restou senão uma remota esperança: uma radical conversão ética talvez levasse a que a compaixão de Javé se revelasse ao menos para uma parte desse povo.

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Meditação

Em meus últimos anos de pastorado, criei um “ABC Homilético” próprio, que tenho utilizado na estruturação, organização e redação de minhas prédicas, que nada mais é do que um “plágio” do nosso velho parceiro teológico: o “verjulgar-agir”. A = Atualmente Imperativos do mundo pós-moderno Por definição, na língua portuguesa, o imperativo é o modo verbal que expressa uma ordem, um pedido, uma recomendação ou, ainda, um convite. No imperativo, não existe a primeira pessoa do singular (eu). Pois, afinal, não tem sentido darmos ordens a nós mesmos... Ou seja, os imperativos nos são apresentados ou, de outra forma, impostos sobre nós. O mundo pós-moderno, em especial, acaba colocando sobre todos nós os seus imperativos. (No caso de se desejar uma prédica dialogada com a comunidade, pode-se abrir a palavra.) Se os anotarmos, registraremos com certeza palavras como: “compre isso... use isso... beba isso... tenha isso... faça isso... jogue

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20º Domingo após Pentecostes

isso... vista isso... fale isso... viva isso...”. São alguns dos imperativos éticos que o mundo quer apresentar-nos como ordem... pedido... recomendação... convite ou mesmo imposição... Para cada um deles, seguem-se “belos” substantivos, que não são necessários citar aqui, pois os conhecemos muito bem – a maioria deles supérfluos objetos de prazer e autossatisfação pessoal. Logo na sequência aparecem complementações que expressam a finalidade e uma espécie de informação sobre o que a “obediência” a esses imperativos anteriormente apresentados conduz: u��������������������������������������� m perfeito paralelismo poético que convence e deslumbra muitos/as. E elas acabam conduzindo o mundo, a sociedade como um todo, mas também individualmente cada um de nós a práticas distantes do “imperativo do evangelho”. B = Biblicamente Imperativos pela voz dos profetas O imperativo de Jesus ao moço rico (Mc 10.17ss), que (achava que) já cumpria os mandamentos, foi preciso e conciso: “Vá, venda tudo o que tem e dê o dinheiro aos pobres, e assim você terá riquezas no céu. Depois venha e me siga” (v. 21). Os três imperativos presentes em Hebreus (4.10-16) são convidativos e desafiadores: “Fiquemos firmes na fé que anunciamos, pois temos um Grande Sacerdote poderoso, Jesus...” (v. 14) e “tenhamos confiança e cheguemos perto do trono divino, onde está a graça de Deus” (v. 16). Os cinco imperativos que Amós 4.6-15 proferiu nos são anúncio e denúncia ainda hoje: “Voltem para o SENHOR...” (v. 6), “Procurem fazer o que é certo...” (v. 14), “Odeiem aquilo que é mau, amem o que é bom e façam com que os direitos de todos sejam respeitados...” (v. 15). C = Concretamente Imperativos à ética cristã Em ética, um imperativo é uma regra que deve ser seguida por todo ente racional. E o imperativo categórico é um dos principais elementos da filosofia de Immanuel Kant. Sua ética e moral tem como base esse preceito. Para o filósofo alemão, imperativo categórico é o dever de toda pessoa de agir conforme os princípios que ela quer que todos os seres humanos sigam, que ela quer que seja uma lei da natureza humana. Kant anuncia-o com três diferentes fórmulas: • O imperativo categórico: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza”. • O imperativo universal: “A máxima do meu agir deve ser por mim entendida como uma lei universal, para que todos a sigam”. • O imperativo prático: “Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio”.

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20º Domingo após Pentecostes

Imperativos que devemos conclamar à vivência nos diferentes âmbitos de nosso viver: pessoal, eclesiástico e social; a cidadãos urbanos e rurais, a cristãos igrejeiros ou virtuais e a homens e mulheres públicas eleitas ou voluntárias em suas ações. Isso a fim de que os imperativos políticos e econômicos de nosso tempo não se sobreponham aos imperativos bíblicos, que, desejamos, sejam implantados em nós, entre nós, por meio de nós e apesar de nós. Tudo isso antes que “desça o fogo”... ou, quiçá, “talvez o SENHOR, o Deus Todo-Poderoso, tenha compaixão...” de nós.

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Imagens para a prédica

É bem possível que algum leitor se escandalize com a fonte da indicação de imagem para a prédica abaixo, contudo talvez outro tenha abertura para fazer uso desse subsídio. Aquilo que nos separa nos fundamentos nem sempre nos separa na prática e no diálogo inter-religioso. Imperativos cristãos XAVIER, Francisco Cândido. Da obra: Agenda Cristã. Edição de Bolso. Rio de Janeiro: FEB, 1999. Aprende – humildemente. Ensina – praticando. Administra – educando. Obedece – prestativo. Ama – edificando. Teme – a ti mesmo. Sofre – aproveitando. Fala – construindo. Ouve – sem malícia. Ajuda – elevando. Ampara – levantando. Passa – servindo. Ora – serenamente. Pede – com juízo. Espera – trabalhando. Crê – agindo. Confia – vigiando. Recebe – distribuindo. Atende – com gentileza. Coopera – sem apego. Socorre – melhorando. Examina – salvando. Esclarece – respeitosamente. Semeia – sem aflição.

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20º Domingo após Pentecostes

Estuda – aperfeiçoando. Caminha – com todos. Avança – auxiliando. Age – no bem geral. Corrige – com bondade. Perdoa – sempre. Reproduzo ainda texto de um daqueles PowerPoint que tão comumente recebemos – e reenviamos (muitos deles sem conter autoria ou fonte como esse), alguns deletáveis, outros até aproveitáveis... ATITUDE Um rico resolveu presentear um pobre por seu aniversário... e ironicamente mandou preparar uma bandeja cheia de lixo e sujeira. Na presença de todos, mandou entregar o presente, que é recebido com alegria pelo aniversariante, que gentilmente agradeceu e pede que aguarde um instante, pois gostaria de poder retribuir a gentileza. Joga fora o lixo, lava e desinfeta a bandeja, enche-a de flores e devolve-a com um cartão, onde está a frase: “A gente dá o que tem de melhor...” E os slides seguiam com alguns “imperativos”: Não perca a serenidade. A raiva faz mal à saúde, o rancor estraga o fígado, a mágoa envenena o coração. Domine suas reações emotivas. Seja dono de si mesmo. Não jogue lenha no fogo de seu aborrecimento. Esqueça e passe adiante, para não perder sua serenidade. Não perca sua calma, pense antes de falar, e não ceda à sua impulsividade. “Guardar ressentimentos é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra.” (William Shakespeare)

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Subsídios litúrgicos

Imperativos musicais: Amós 5.4, 14 Ivete Müller – HPD 199 “Buscai-me e vivei, Buscai o bem e não o mal, Para viver em meu amor: assim diz o Senhor.” E muitos outros no HPD que pincei para você selecionar: 63, 94, 107, 159, 164, 177, 182, 197, 285, 422, 430, 434, 435, 436, 438, 448, 458, 460, 468, 476, 480, 484, 487 e 488.

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20º Domingo após Pentecostes

Bênção, vida e pão

Sinos

Letra e música: Evandro Jair Meurer Interpretação: Canto em canto Arranjo: Lislie Moraes de Carvalho Koester 2º lugar no 3º Festival Luterano de Música – 25.9.10 – Sínodo Rio dos

Acesse o Youtube watch?v=1Ua6W1hPj9s

para

cantar

junto:

http://www.youtube.com/

E F#m 1. Que a bênção do bom Deus B7 E Permaneça sobre nós C#m F#m Como nuvem de amor e paz B7 E Protegendo no caminhar. 2. Que a bênção do bom Jesus Seja um toque de vida e paz E a presença de um(a) irmão(ã) Seja amparo em nosso andar. 3. Que a bênção do bom Espírito Nos conduza com força e paz Pra servir, o pão repartir Ontem, hoje e sempre. Amém! Observação: A canção pode ser cantada em um círculo de pessoas, onde cada uma coloca sua mão esquerda à sua frente com a palma da mão para cima e sua mão direita à sua frente com a palma da mão para baixo. Sobrepondo suas mãos nas mãos da pessoa ao lado, canta-se a primeira estrofe. Tocando a palma da mão da pessoa ao lado, canta-se a segunda estrofe e, entrelaçando os dedos da mão da pessoa ao lado, canta-se a terceira estrofe. Caso não tiver acesso à música, você pode também fazê-la de forma falada.

Bibliografia KIRST, Nelson. Amós – Textos selecionados. Série Exegese, Volume 1, fascículos 1 e 2, Comissões de Publicações Faculdade de Teologia-IECLB, São Leopoldo, RS, 1981. SELLIN-FOHRER. Introdução ao AT. V. 2. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 648660.

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PRÉDICA: MARCOS 10.35-45

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

ISAÍAS 53.4-12 HEBREUS 5.1-10

21 OUT 2012

Manoel Bernardino de Santana Filho

1

Introdução

O Evangelho de Marcos é, provavelmente, o mais antigo dos chamados evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). É um relato simples e objetivo. Seus ensinamentos concentram-se na pessoa de Jesus em seus ditos e feitos, na procura por sua identidade. O autor de Marcos tem a finalidade de responder a pergunta: Quem é Jesus? A tradição cristã atribui a autoria do evangelho a João Marcos, primo de Barnabé (Cl 4.10), o mesmo que causou estremecimento nas relações entre Paulo e Barnabé por ocasião da segunda viagem missionária do apóstolo. Nesse caso, o autor não é uma testemunha ocular dos eventos por ele apresentados. Desde o século 2 A.D. que a autoria de João Marcos é confirmada pelo testemunho de Papias, Clemente de Alexandria, Irineu, Orígenes e outros. No entanto, esses autores sempre ligam o nome de Marcos ao apóstolo Pedro. Durante muito tempo, Marcos foi desprezado pelos estudiosos do Novo Testamento por sua estrutura sucinta sem o detalhamento encontrado em Mateus e Lucas. Um dos motivos principais para essa atitude deve-se ao fato do evangelho não apresentar as narrativas de infância de Jesus. Ao contrário dos outros textos sinóticos, Marcos começa com a vida pública de Jesus sem nenhum preâmbulo. Essa tendência mudou a partir dos últimos dois séculos, que elevou o segundo evangelho ao status de mais antigo dos sinóticos. Coube a Marcos estabelecer uma nova forma de contar a história de Jesus, deixando de lado as narrativas orais e inaugurando o evangelho escrito. A teologia de Marcos gira em torno do assim chamado “segredo messiânico”, que se caracteriza pela tensão entre o segredo e a manifestação do Senhor. É o próprio Jesus quem impõe o “segredo” por meio de certa precaução e pedagogia tanto com o povo em geral como em relação aos discípulos em particular. Há em Marcos a necessidade de perguntar pela identidade de Jesus (Mc 8.27). Os discípulos foram atraídos por sua personalidade, mas a compreensão que eles têm é suspeita. Por isso Jesus precisa fazer um segundo convite com uma base nova: no primeiro convite, quem chamava era aquele que é maior do que João Batista (1.7); no segundo convite, Ele é cossofredor (9.12). O que Ele vai inaugurar é um messianismo de serviço (Mc 8.29-33). Isso aproxima-o da figura do Servo Sofredor do Segundo Isaías (53.4-12).

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21º Domingo após Pentecostes

O texto de Hebreus (5.1-10) mostra o ofício sacerdotal do Messias-Servo. Para oferecer sacrifício, o sacerdote precisava ser misericordioso. Tinha que se condoer com aqueles que vinham até ele em busca de mediação. O autor da Carta aos Hebreus diz-nos que Jesus, como o sumo sacerdote do Antigo Testamento, enquanto Sumo Sacerdote do novo povo de Deus, ofereceu o sacrifício de si mesmo. Toda a sua trajetória de vida foi um caminho de sofrimento e sacrifício (Fl 2.5-6). No Getsêmani, lutou pelos seus em oração e sacrificou sua própria vontade. Em Hebreus, sua humanidade é destacada. Como ser humano, foi aperfeiçoado pelo sofrimento. Foi obediente ao Pai até o fim. Mas essa obediência não foi ganha sem esforço. Ele a aprendeu exercitando-a no sofrimento.

2

O texto

Marcos apresenta Jesus e seus discípulos avançando para Jerusalém. Fica clara a determinação para o início e o prosseguimento da viagem. Ched Myers, em seu comentário sobre Marcos, apresenta a estrutura do evangelho com dois prólogos: o primeiro inicia com o texto de 1.1-20; o segundo prólogo é apresentado em 8.27-9.13. É como se fossem dois livros, cada um com sua estrutura e iniciando com um convite para o discipulado. O primeiro prólogo inicia logo após Ele herdar o ministério de João Batista e chamar alguns a quem Ele elegeu para segui-lo. São pessoas das mais distintas classes. Mas Ele não chegou se apresentando, não entregou um cartão de visitas, não declarou seus projetos, não disse aonde iria. Só disse que começaria algo novo com eles. Desafiou-os a mudar o rumo de suas vidas. Em Israel, havia duas tendências sobre o Messias. Na primeira, o Messias é visto como o vitorioso Leão de Judá, a raiz de Davi. Seu messianismo político o levará à vitória final contra todos os reinos. Segundo a visão apocalíptica de Daniel, “seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (7.14b). No entanto, havia outra compreensão na linha do Servo de Javé. Segundo Gerhard von Rad, desde o século 7 a.C. já se aliava a figura do Servo com o profeta, cuja imagem havia evoluído na direção do mediador que sofre. No entanto, a interpretação judaica deixa por resolver a questão se o Servo representa um indivíduo, cuja manifestação se daria num determinado tempo ou antes é símbolo de todo o povo de Israel em sua história. O Segundo Isaías faz essa interpretação coletiva (49.3), que se contrapõe a uma interpretação individual (42.1). No primeiro caso, sua função principal é governar; no segundo, é profética. Nesse caso, sua pregação denuncia sofrimento e humilhação.

3

Exegese

O pedido que fazem Tiago e João mostra que os discípulos ainda estão surdos diante das predições de Jesus. O Senhor havia predito a perseguição e a morte em Jerusalém (Mc 8.30-32). Mas eles estavam convencidos de que seu líder haveria de vencer; portanto já pensam na administração do novo regime. Sentar-se

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21º Domingo após Pentecostes

à direita e à esquerda pode ser uma alusão ao Salmo 110.1 ou a lugares de vitória no banquete messiânico. De qualquer forma, é uma reivindicação política. O pedido é ambicioso. Sem dúvida, Tiago e João eram muito jovens quando vieram a Jesus com esse pedido. Para Mateus, que possui uma recordação própria, não são os discípulos que pedem a Jesus para receber lugares de honra ao lado de Jesus, e sim sua mãe, que, segundo Marcos (15.40) e Mateus (27.56), é Salomé e, conforme João (19.25), é irmã da mãe de Jesus. Nesse caso, o pedido apoia-se no parentesco próximo. Na comunidade apostólica, os parentes de Jesus obtiveram uma posição destacada. Segundo Fritz Rienecker, Mateus tenta resguardar os discípulos que, no seu tempo, eram as colunas da comunidade. Parece que Mateus não acredita que eles próprios fizeram um pedido tão ambicioso. Estava mais para o orgulho materno. Mas, aqui em Marcos, são eles mesmos que fazem o pedido. Tiago tornouse o primeiro mártir entre os apóstolos (At 12.1-2). Ao lado de Judas, é o único apóstolo cuja morte é relatada no Novo Testamento. Mas o fato de ter sido escolhido para a morte pode ser evidência de que era um líder destacado na comunidade primitiva. A natureza de sua morte mostra o significado de sua vida. Tiago foi executado a partir de um plano premeditado, cujo objetivo era minar a resistência do movimento cristão. Quando Estêvão foi executado, pensaram que o ato seria suficiente para desencorajar os cristãos. Mas a igreja continuou a crescer. Saulo de Tarso, o perseguidor da igreja, converteu-se, e os judeus que se levantaram contra os cristãos incitaram as autoridades. Finalmente, por volta do ano 42 A.D., Herodes Agripa I tentou cair nas graças dos judeus por meio dessa execução. Pode-se pensar que Tiago era líder por conta de sua prisão e martírio. Pedro foi preso pela mesma razão. Tiago não operou nenhum milagre, não pregou nenhum sermão, não escreveu nenhum livro ou carta, jamais falou qualquer palavra a não ser em conexão com os ditos de João. Todavia, podemos perceber que ele era figura central para o crescimento da igreja. Isso se comprova pelo fato dos auxiliares de Herodes tê-lo arrolado como líder do jovem movimento cristão. Mas tanto Tiago como João eram jovens impulsivos. Daí a possibilidade deles mesmos terem feito o pedido a Jesus. Ele os chamou de Boanerges (Mc 3.17), que significa “filhos do trovão”. Quanto a João, a tradição lhe daria um lugar proeminente. Nos dias do ministério de Jesus, ao lado de Pedro e Tiago, ele fez parte do círculo íntimo de Jesus. Esteve com ele nas horas mais difíceis. Estava no monte da transfiguração, na agonia do Getsêmani. Mas dele a igreja falaria abundantemente. É reconhecido como “o discípulo amado”, autor ou coautor do quarto evangelho. Teria escrito o Apocalipse. Sem entrar no mérito das questões relativas à autenticidade dessas tradições, João é aquele discípulo que foi preservado para levar adiante os ensinamentos de Jesus. Tiago e João eram dois homens ambiciosos. Ambição em si não é bom nem ruim. É um poder neutro. É um sentimento natural, não uma fraqueza. O que acontece é que uma ambição pode não ser boa. Por exemplo, desejar os primeiros lugares sem fazer jus a eles.

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Jesus disse a Tiago e João: Vocês não sabem o que estão pedindo. Estão enganados, não por ser ambiciosos, mas por estar ambicionando a coisa errada, por desconhecer a natureza do reino de Deus. Jesus afirma que em seu reino as leis sobre os primeiros e os últimos lugares seguem outra lógica do que aquelas do mundo. Jesus pergunta-lhes se estavam prontos a beber o seu cálice ou receber o batismo com que ele mesmo seria batizado. A resposta deles é imediata: podemos. Jesus então confirma que eles beberiam o cálice e receberiam o batismo. No entanto, os lugares não seriam designados. Esses são para aqueles que estão preparados. Jesus afirma que “quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á, e quem a perder de fato a salvará” (Lc 17.33). Não há outro caminho para sentar nos primeiros lugares no reino de Deus.

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Meditação

Tiago e João receberam o chamado de Jesus para o serviço. Eram pescadores, mas naquela hora não estavam pescando. Estavam na companhia de seu pai, consertando o instrumento de trabalho. Consertavam as redes. Era um trabalho demorado. Aquelas redes partiam-se com frequência, e esse trabalho à beira-mar era constante e necessário para a continuidade da pesca. Jesus chamou-os, e Mateus diz que “no mesmo instante” largaram o barco e seu pai e o seguiram. É um chamado radical. Fico pensando no pai de Tiago e João. Já devia ser velho. A expectativa de vida do brasileiro hoje é de 73 anos. Há 50 anos, era de menos de 50 anos. Na época de Jesus, a média era de 35-40 anos. Portanto o pai de Tiago e João era um homem considerado velho e precisava dos filhos. Como deixá-lo? Sabe como começam esses chamados? Jesus andando na praia... Ele não ficou no templo esperando. Ele foi encontrar-se com as pessoas. Ele estava andando. E viu as pessoas nos seus afazeres. Um pescava, outro consertava as redes, outro recebia impostos. Jesus estava andando na praia. Aquela era a praia de Tiago e João. Era a praia de Zebedeu. Qual é sua praia? Tem gente que gosta de dizer assim: eu estou na minha praia. Isso aqui é o meu elemento. Disso aqui eu entendo. É minha vida. Saiba que Jesus anda na sua praia também. Não importa qual seja ela. Ele vai até você e encontra você lá. E aí Ele chama. Ele vê e chama. Ele viu Tiago e João e os chamou. Cada um na sua praia. Eles foram vistos e sentiram-se vistos. Ele anda, vê e chama. Pedro e André, Tiago e João, Mateus, todos ouviram o chamado e o seguiram. Mas Ele não vê apenas aqueles que Ele chama para o discipulado, para o apostolado. Ele vê e chama todos para construir a sua igreja. Viu a sogra de Pedro, na casa desse, ardendo em febre. Lucas, o médico, diz que ela estava com febre muito alta (Mt 8.14-15). Ele vê o enfermo onde ele estiver. O que quero dizer é que Jesus vê todo mundo. Ele vê o homem e a mulher no trabalho, vê o enfermo no leito de morte, vê a criança na escola, o adolescente fissurado no computador, o jovem buscando diversão na noite. Pare um pouco e você poderá ouvi-lo.

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Você está cansado? Sabe o que Ele diz sobre isso: “Vinde a mim todos os que estais cansados...” (Mt 11.28-29). A semente do evangelho entra nas famílias por meio de pessoas que atendem esse chamado. Em Jesus, a vida renova-se como fonte de amor, gratidão e admiração. Ele chama homens e mulheres ao arrependimento. Chama para novos desafios. Não busque lugares de honra. A lógica do reino é outra. O maior será o menor. Os últimos serão os primeiros. No Talmude, Jesus está assentado à direita de Deus e Abraão à esquerda. O pedido provém de uma fé sem maturidade, seja de Tiago e João ou de Salomé. Não importa. Os três serviram a Jesus. Sobre Tiago e João já falamos. Quanto a Salomé, vamos encontrá-la entre as mulheres que ficaram ao pé da cruz (Mt 27.56: “a mulher de Zebedeu”; Mc 15.40: “Salomé”; Jo 19.25: “Maria, mãe de Jesus, (e) a irmã dela”). Ela continuou sendo mulher de Zebedeu. Só que ele ficou em casa com sua pesca, e ela seguiu Jesus com seus filhos. Precisamos estar prontos para responder pela opção que fizermos pelo reino de Deus. O texto de Marcos alerta-nos em suas entrelinhas dos perigos que ameaçam a pregação do reino de Deus. Jesus iniciou sua pregação mesmo sabendo o que isso lhe poderia custar. Estava ali bem próximo o exemplo do Batista. João era o primeiro mártir de uma geração de profetas que se colocava entre a Antiga e a Nova Dispensações. E qual é a lógica do martírio? É uma sucessão de testemunhos que nem mesmo a morte pode calar. Aliás, o verdadeiro mártir é aquele que fala mais na morte do que na vida. O compromisso com Cristo, quando vivido em sua intensidade profunda, significa opção de vida. Significa fazer opção pela justiça do Reino, em oposição aos poderes da morte. Ernst Bloch, autor de “O Princípio Esperança”, afirma que há duas categorias de afetos: 1) os da sociedade são gerais: inveja, cobiça...; 2) os da expectação: angústia, temor, esperança. Essa segunda categoria são aqueles que antecipam o futuro. E o mais importante é a esperança. Esperança é um sonho diurno que se projeta ao futuro, é uma representação psíquica daquilo que ainda não é. Porém essa esperança procura ser clara e consciente, ou seja, é uma esperança sábia (docta spes). A esperança é para ele a chave da existência humana orientada para o futuro. Esse autor nos ensinou a compreender de maneira nova o poder avassalador do futuro e da esperança que antecipa esse futuro para a vida.

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Imagens para a prédica

Pode-se imaginar uma representação em que se colocam três cadeiras no centro da sala onde estiver acontecendo a reunião. Na cadeira central, senta-se uma pessoa que representa Jesus. A seguir, as pessoas são convidadas a dizer quais as qualidades das pessoas que deveriam ocupar aqueles assentos, tanto os da direita como os da esquerda. É importante deixar que a pessoa exponha ao máximo as qualidades dos ocupantes das duas cadeiras tão cobiçadas. Após esse exercício, deve-se perguntar quem dentro das qualificações apresentadas se apresenta para ocupar um daqueles lugares. Certamente virá um

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momento de silêncio, de reflexão e de negação de si mesmo como autoqualificado para a cadeira. Provavelmente, se soubessem que após o primeiro exercício viria o convite para sentar-se numa das cadeiras, certamente cada um seria menos exigente quanto às prerrogativas do convidado. No reino de Deus, não há promoção ou privilégio por mérito. A liderança só pode ser exercida pelos que aprendem e seguem o caminho da paz e da entrega de si mesmo, para os que estão preparados não para dominar, mas para servir e sofrer ao lado de Jesus Cristo.

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Subsídios litúrgicos

1 – A liturgia deve promover a consciência de nossa dependência de Deus. Devem ser escolhidos cânticos que exaltem o sentido de nossa necessidade de humilhação. Sugiro o cântico Lava-pés e o Kyrie (O Novo Canto da Terra, 60 e 192). 2 – As leituras e orações devem frisar o ministério de serviço que devemos exercer. Jesus convida-nos para o serviço. Ele concedeu dons com vistas ao aperfeiçoamento dos santos (ler Ef 4.7-12). 3 – A mensagem deve conscientizar da necessidade que temos de aprender a ser solidários. Mostrar que os discípulos erraram quando buscaram benefícios para si mesmos. É preciso olhar para o outro como alvo do amor de Deus. 4 – A celebração deve terminar com uma oração de contrição. Essa oração deve ser uma entrega pessoal, a negação de si mesmo e a abertura para olhar o outro como irmão e irmã.

Bibliografia MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. Tradução de I. F. L. Ferreira. São Paulo: Paulinas, 1992. NODARI, Paulo César; CESCON, Everaldo. Aprendendo com o Evangelho de Marcos. São Paulo: Paulus, 2009.

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PRÉDICA: HEBREUS 7.23-28

22º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

JEREMIAS 31.7-9 MARCOS 10.46-52

28 OUT 2012

Verner Hoefelmann

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Introdução

Onde o ser humano encontra um auxílio real para as suas necessidades? Com quem ele pode contar realmente? Onde ele experimenta salvação frente às forças hostis que ameaçam sua vida? Em torno dessas perguntas se poderia aglutinar a mensagem dos textos previstos para este domingo. O texto de Jeremias provém do período em que Josias, rei de Judá, havia expandido seus domínios sobre o território de Israel. Reacendeu-se nesse tempo o interesse pelos exilados do Reino do Norte. Seus descendentes estavam espalhados entre as nações, prestes a perder sua identidade. Com o auxílio de uma palavra divina, o profeta transmite a essa gente uma palavra de consolo e esperança. Eles são chamados a apresentar sua súplica a Deus e a alegrar-se, pois esse haverá de salvá-los, libertálos, congregá-los e guiá-los para fontes perenes de água, assim como o pastor que cuida de suas ovelhas. O texto de Marcos fala do cego Bartimeu. Sentado à beira da estrada, na saída de Jericó, ele pede esmolas aos peregrinos que sobem a Jerusalém para a festa da Páscoa. Ao saber que Jesus está passando por ali, ele suplica por misericórdia ao Filho de Davi. Enquanto os circunstantes o repreendem e ordenam que ele se cale, Jesus chama-o, acolhe e restaura sua visão. Em seguida, ressalta sua fé, mediante a qual ele recebe cura e salvação e em decorrência da qual ele passa a segui-lo no caminho de sua paixão e morte. O texto de Hebreus descreve o sacerdócio superior e incomparável de Cristo, que pode salvar integralmente aqueles que por ele chegam a Deus e que vive para interceder por aqueles que confiam em sua mediação. As respostas, como se vê, fluem na mesma direção: ajuda real o ser humano encontra junto a Deus e junto àquele que Ele constituiu como filho, messias e sacerdote eterno e eficaz: Jesus Cristo.

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Exegese

2.1 – O contexto da epístola A epístola é anônima e provavelmente jamais se chegará a saber quem a escreveu. Vários nomes já foram sugeridos e descartados: Paulo, Lucas, Clemente de Roma, Barnabé, Apolo. Orígenes resumiu a questão ao dizer que só Deus sabe quem realmente a escreveu. Também é difícil definir a época de sua redação

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e seus destinatários. Estou entre os que pensam que ela foi destinada a judeu-cristãos situados em ambiente helenista, familiarizados com o culto judaico e suas instituições. O serviço que se presta no templo ainda vigora ou ao menos ainda está presente na memória dos leitores. Não estamos muito longe, portanto, do ano 70, quando o templo foi destruído. Doutro modo não faria muito sentido a cristologia da epístola centralizada em seu sacerdócio, que é comparado ao sacerdócio e ao culto judaico. Os leitores, eventualmente, poderiam formar um pequeno grupo dentro de uma comunidade maior (5.12), motivo pelo qual são exortados a não deixar de congregar-se com os demais (10.25). A epístola é entendida como uma palavra de exortação (13.22), que quer fortalecer os fiéis para que eles possam enfrentar ameaças internas em vista de um certo cansaço e esmorecimento na fé (5.11; 6.11-12; 10.23-25; 12.3) e ameaças externas, com a iminência de novas dificuldades e sofrimentos (10.32-36; 12.4). Apesar das incógnitas, estamos diante de um documento extraordinário, que expõe de forma abrangente e profunda a natureza da pessoa e obra de Jesus Cristo. Lutero, como se sabe, tinha restrições a alguns de seus textos, que negam a possibilidade de arrependimento aos que, depois de experimentar a salvação, tornam a cair (6.4-6; 10.26-31; 12.17). Apesar disso, o reformador escreve: “Ela seguramente constitui uma epístola de qualidade exemplar, que fala do sacerdócio de Cristo de forma magistral e exaustiva com base na Escritura. Ela igualmente interpreta bela e sobejamente o Antigo Testamento”. É isso, realmente, o que se pode ler em cada uma de suas páginas: o autor procura entender e explicar a relevância da pessoa e obra de Jesus Cristo a partir do Antigo Testamento, que nele encontra seu verdadeiro sentido. O conteúdo da epístola é exposto em três blocos: a) 1.1-5.10 descreve a majestade da pessoa de Jesus, o Filho de Deus, que é superior aos anjos e aos grandes personagens da antiga aliança (Moisés, Josué, Arão); b) 7.1-10.18 descreve a obra de Cristo, o sumo sacerdote eterno e misericordioso, superior ao sacerdócio levítico, ao santuário e aos sacrifícios da antiga aliança; c) 11.1-12.29 fala sobre a santificação e a eficácia da fé, que brota do encontro vivo com a pessoa de Jesus Cristo e da experiência pessoal de sua obra salvífica. Cada trecho conclui com uma exortação, que conclama contra a apostasia (5.11-6.20), convoca para a fidelidade na fé (10.19-39) e para o discipulado no cotidiano (13.1-21). 2.2 – O contexto da perícope O texto de pregação está inserido, portanto, no segundo bloco da epístola, que descreve a obra sacerdotal de Cristo, mostrando como ela supera o culto, o sacerdócio e os sacrifícios do Antigo Testamento. Antes de nos debruçar sobre a perícope, porém, convém informar-nos brevemente sobre o seu contexto literário. O autor sabe que, em Israel, o sacerdócio é transmitido por herança paterna e que Jesus, como descendente da tribo de Judá e do rei Davi, não possuía linhagem levítica e sacerdotal (Hb 7.14). Como falar, então, de sua obra sacerdotal? O texto diz que Jesus participa de uma ordem sacerdotal superior, de origem divina, prefigurada em Melquisedeque. Trata-se de um misterioso personagem vinculado à

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história de Abraão, que concentrava as funções de rei e sacerdote. Como rei e sacerdote, Melquisedeque abençoou Abraão e recebeu o dízimo dele após o retorno de uma batalha (Gn 14.17-20). Ora, pondera o autor, se ele abençoou Abraão e recebeu dele o dízimo, é porque é superior ao patriarca e aos seus descendentes, os sacerdotes levitas (Hb 7.1-2). Além disso, chama a atenção que as Escrituras silenciam sobre os antepassados e descendentes de Melquisedeque. Desse silêncio o autor deduz que o sacerdócio que ele representa é eterno (Hb 7.3). O único texto do Antigo Testamento que se refere novamente a Melquisedeque é o Salmo 110 (v. 4). Trata-se de um salmo atribuído a Davi, no qual Deus, sob juramento, atribui um sacerdócio eterno ao rei-sacerdote messiânico, segundo a ordem de Melquisedeque. O próprio Davi, portanto, teria reiterado a superioridade e a eternidade desse sacerdócio. Esse versículo do Salmo é repetido amiúde na epístola, como referência a Jesus (Hb 5.6,10; 6.20; 7.1-3,11,17,21). Existem assim, na compreensão do autor, duas linhas histórico-salvíficas de sacerdócio no Antigo Testamento: a) a linha terrena, que vai de Abraão até Arão, passando por Levi e os sacerdotes dessa linhagem; b) a linha celestial, que inicia com Melquisedeque, passa por Davi (a quem foi confiada a palavra do Sl 104) e desemboca em Cristo. 2.3 – A perícope O texto de prédica, portanto, é parte de um bloco que quer mostrar a superioridade do sacerdócio de Cristo, o fiador de superior aliança (Hb 7.22), em relação ao sacerdócio levítico. Os v. 23-25 falam sobre os efeitos do sacerdócio permanente de Cristo, sobretudo de sua obra redentora e intercessora. Os v. 2628 falam sobre a natureza de Jesus como sumo sacerdote, que com seus atributos inigualáveis está plenamente habilitado a exercer suas funções. Os v. 23-24 dizem que o sacerdócio de Cristo é único, contínuo e imutável. Não era o caso do sacerdócio levítico: Quando Arão e seus filhos foram convocados no Sinai, tinha-se em mente, desde o início, uma pluralidade de sacerdotes (Êx 28.43). A pluralidade era inevitável, pois eles eram seres mortais e seu sacerdócio encerrava-se com a morte. Por isso o sacerdócio tinha que ser transmitido adiante de pai para filho. Não assim com Cristo: embora ele também tenha morrido, o seu sacerdócio não cessou nem foi transferido para outras pessoas, porque sua morte foi vencida pela ressurreição. Aquele a quem Deus falou em juramento “Tu és o meu sacerdote para sempre” (v. 21) não passa o seu sacerdócio a nenhum sucessor. Como a morte não tem mais poder sobre ele, ele detém um sacerdócio único e intransferível. O v. 25 traz a afirmação central do texto. Ele fala sobre o efeito do sacerdócio de Cristo, que consiste em salvar e interceder. Antes, o autor já havia dito que em decorrência de seu sacerdócio Cristo pode socorrer-nos (2.18) e compadecerse de nossas fraquezas (4.15). Agora, ele acrescenta que Cristo pode salvar eis to panteles. A expressão grega tem um significado qualitativo (integralmente, totalmente, plenamente), mas também temporal (definitivamente, para sempre). Essa redenção é oferta válida para todos, mas se torna eficaz naqueles que por

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meio de Cristo chegam a Deus. Além disso, a obra sacerdotal de Cristo é descrita ainda com o verbo interceder, a mesma palavra utilizada por Paulo para designar a intercessão do Espírito e de Cristo (Rm 8.27,34). Como pessoa que unifica em si mesmo a divindade e a humanidade (4.15; 5.1; 8.1), ele é o fiador e mediador da nova aliança (7.22; 9.15): nele Deus se aproxima dos seres humanos; por intermédio dele os seres humanos se aproximam de Deus. Ele é o nosso representante diante de Deus: por isso podemos confiar plenamente em sua intercessão. Ele é o representante de Deus diante de nós: por isso devemos olhar para ele a fim de enxergar os propósitos de Deus em relação à humanidade. Os v. 26-28 transferem o foco da reflexão para outro aspecto: aqui não se fala mais da ação redentora de Cristo, e sim da natureza divina de sua pessoa. Jesus é o sumo sacerdote incomparável, que com seus atributos está plenamente habilitado a exercer suas funções. Dezessete vezes Cristo recebe esse título na epístola ou é comparado ao ofício deles na antiga aliança. O v. 26 elenca algumas qualidades ideais de um sumo sacerdote, perfeitamente vislumbradas em Cristo: ele é hosios (devoto, piedoso, santo, que agrada a Deus); akakos (sem maldade, inocente, sem culpa); amiantos (puro, sem mácula); kechorismenos apo ton hamartolon (separado dos pecadores), mesmo sendo um ser humano como nós (2.4) e tendo sido tentado como nós (4.15); hypseloteros ton ouranon genomenos (elevado mais alto do que os céus), onde se encontra à destra do trono de Deus para interceder pelos seus (8.1). Os v. 27-28, por seu turno, comparam os sumos sacerdotes da antiga aliança com o sumo sacerdote Jesus. Eles se distinguem em quatro aspectos: a) os sacrifícios daqueles eram diários, enquanto o sacrifício de Jesus é único; b) aqueles deviam oferecer primeiramente um sacrifício por si mesmos para expiar seus próprios pecados, enquanto Jesus, por não ter pecados, não necessitava disso; c) aqueles ofereciam sacrifícios de dádivas, enquanto Jesus ofereceu-se a si mesmo em sacrifício; e) aqueles foram constituídos pelas leis do Sinai e eram pessoas sujeitas à fraqueza, enquanto Jesus foi constituído como Filho perfeito por meio de um juramento divino.

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Meditação

O conteúdo do texto pode ser resumido em poucas palavras. Seu pano de fundo é o culto judaico, conforme o ritual descrito no Pentateuco. Sacerdotes e sacrifícios desempenhavam ali um papel fundamental. Os sacerdotes eram pessoas separadas e consagradas para o serviço a Deus em nome do povo. Faziam o papel de mediadores: representavam o povo diante de Deus e Deus diante do povo. Cabia-lhes presidir os rituais de sacrifício, mediante os quais se restabelecia a santidade das pessoas, necessária para a comunhão com Deus. O texto compara o sacerdócio e os sacrifícios da antiga aliança ao sacerdócio e ao sacrifício de Cristo. Exalta a magnitude e a superioridade de Cristo, quer como sacerdote, quer como sacrifício. O que o distingue e torna superior é sua condição humana, mas sem pecado, seu sacrifício único e definitivo em benefício do ser humano, sua exaltação ao céu e seu serviço perpétuo de intercessão e salvação. Ele ofe-

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receu a si mesmo de uma vez por todas, de modo que nenhum sacrifício é mais necessário. Em dado momento da epístola, o autor havia revelado sua preocupação com o estado espiritual dos fiéis para os quais escreve. Diz ele que ainda teria muitas coisas a acrescentar e aprofundar, mas entende que seus interlocutores não estão maduros para acolher e elaborar a mensagem. Parecem estagnados no estágio da infância espiritual, necessitando sempre de novo dos princípios elementares da palavra de Deus (5.11-14). O problema não está na mensagem, difícil de ser entendida e vivenciada, mas nos ouvidos embotados e endurecidos, que não se abrem para aprofundar a grande experiência da fé. Para ficar na imagem utilizada em 5.12, o texto de pregação deste domingo certamente não é leite que se dá a crianças na fé, mas alimento sólido para pessoas adultas e experimentadas. No culto, porém, estarão pessoas que vivenciam sua fé em diferentes níveis. Como se fazer entender, de modo que todos possam levar para casa uma mensagem relevante para suas vidas? Eis aí o desafio da pregação sobre esse texto. Não se pode pressupor que a comunidade conheça o pano de fundo do culto sacrificial judaico, nem é preciso reconstituí-lo em detalhes na pregação. Mas se pode falar sobre um dos aspectos centrais do texto, ou seja, a função mediadora e representativa de Jesus, para fortalecer a confiança dos ouvintes em sua pessoa e em sua obra de salvação. Experiências com mediação e representação as pessoas fazem todos os dias, mesmo que nunca tenham refletido sobre isso. De várias formas, confiamos nossas necessidades e demandas a outros, para que representem nossa causa junto a instâncias às quais não teríamos acesso nem influência. Elegemos pessoas para exercer cargos públicos no âmbito municipal, estadual e federal, na expectativa de que representem nossos interesses e promovam o bem-estar da sociedade da qual fazemos parte. Contratamos advogados para defender nossas demandas, na esperança de que a justiça seja estabelecida. Confiamos nossos filhos nas mãos de professores, para que nos ajudem a educá-los e transformá-los em cidadãos honrados e úteis para a sociedade. Entregamos nossas doenças nas mãos dos médicos, para que eles restabeleçam nossa saúde e qualidade de vida. Transferimos para o motorista de ônibus a responsabilidade de nos conduzir para o local desejado, porque não temos condições de fazê-lo por conta própria. Fazemos isso naturalmente, porque sabemos de nossas limitações e de nosso poder limitado de encontrar soluções ou de exercer influência. Da mesma forma, temos decepções amargas com pessoas que nos representam. O político que ajudamos a eleger distancia-se de seu belo discurso de campanha e defende apenas causas corporativistas. O advogado que contratamos mostra-se incapaz de defender nossa demanda. O médico em quem confiamos erra o diagnóstico, e nossa saúde piora. Em contraposição a essas experiências, o texto proclama que nossa causa junto a Deus está muito bem representada. Na pessoa de Jesus, a humanidade está plenamente representada diante dele. Ele se tornou em tudo semelhante a nós, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel que perdoa os nossos pecados (2.17). Não há dor, sofrimento ou angústia que ele não tivesse experimentado, para crescer em obediência e ser autor de nossa salvação (5.7-8). Não há tenta-

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ção que ele não tivesse enfrentado, para compadecer-se de nossas fraquezas e socorrer-nos em nossas necessidades (4.15-16). Por conhecer a alma humana, sem ter caído em pecado e sem ter quebrado a comunhão com Deus (4.15), ele está plenamente credenciado a representar-nos diante de Deus, a interceder por nós e a proporcionar-nos salvação. Isso não significa, porém, que Jesus Cristo seja nosso moço de recados ou nosso pistolão, que está obrigado a resolver nossos problemas, como frequentemente se ouve de alguns “mercadores” da palavra. Ele próprio, diante da iminência de sua paixão, ensinou-nos a expressar a nossa vontade, mas também a submetê-la à vontade de Deus (Mc 14.35-36). Deus, assim como Jesus, conhecenos melhor do que nós mesmos: conhece nossos segredos ocultos, nossas motivações secretas, nossos objetivos dissimulados, até mesmo aqueles que brotam de nosso subconsciente ou inconsciente. Por isso ele nos concede não aquilo que queremos, mas aquilo de que precisamos para refletir novamente a imagem de Deus. Jesus, como nosso intercessor e advogado junto ao Pai (1Jo 2.1), está plenamente qualificado para representar nossa causa diante de Deus. Não precisamos de outros mediadores, pois “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Nele podemos confiar plenamente. Por intermédio dele podemos apresentar-nos diante de Deus com a dignidade de reis e sacerdotes (Ap 5.10; 1Pe 2.9), porque ele, nosso sumo sacerdote à destra de Deus, intercede por nós e opera a nossa salvação.

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Imagem para a prédica

Cristo é o sumo sacerdote inigualável, porque representa a natureza humana diante de Deus e a natureza divina diante dos seres humanos. Ele intercede por nós para reconstituir em nós a imagem de Deus, desfigurada pelo pecado, e conduzir-nos de volta a Deus e a seus propósitos para conosco. A esse propósito se pode refletir sobre a história do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard acerca de um bando de gansos de curral. Todos os domingos, os gansos reuniam-se perto do cocho de comida. Um deles, um ganso pregador, subia com dificuldades numa cerca e falava a seus congêneres sobre as glórias do reino dos gansos. Recordava-lhes quão maravilhoso era ser ganso e não galinha ou pavão. Fazia-os ver que possuíam uma grande herança e falava-lhes das maravilhosas oportunidades que lhes deparava o futuro. Às vezes, enquanto lhes pregava, sobrevoava o curral um bando de gansos selvagens, que se dirigiam para o sul, sobre o mar Báltico, a mais de mil metros de altura, formando um V, rumo à França ensolarada. Sempre que isso acontecia, todos os gansos levantavam a vista, emocionados, e comentavam: “Assim é como somos realmente. Nosso destino não é passar toda a nossa vida neste curral malcheiroso. Nosso destino é voar”. Mas logo desapareciam de sua vista os gansos selvagens e só se ouvia ainda o ressonar de seus grasnidos no horizonte. Então os gansos voltavam a contemplar as comodidades à sua volta, suspiravam e voltavam à lama e à sujeira do curral. Jamais voaram.

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Fomos criados não para ficar no curral, mas para estender as asas e aprender a voar. Deus tem altos propósitos para nós. A salvação, em seu sentido mais elevado, é o processo de converter-nos na pessoa que realmente somos na mente de Deus. É nesse sentido que nosso sumo sacerdote intercede por nós, até que sejamos plenamente transformados à sua imagem (adaptado do livro Fuerza para Vivir).

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Subsídios litúrgicos

Oração da confiança: Senhor, porque tua mão forte me sustenta, confio serenamente em ti. Porque te acercaste de mim com amor, confio serenamente em ti. Tu me fortaleces, tu me animas, eu te louvo porque tua vontade é boa. Senhor, porque sei que tu és meu Salvador, confio em ti. Porque tu foste o Cordeiro de Deus que me substituiu na morte, confio em ti. Porque tu intercedes por mim diante do Pai, confio em ti. Porque tu estás à minha direita e me ajudas, confio em ti. Se me ameaça o inimigo, olho com firmeza para ti, porque tu és o meu refúgio. Ainda que o futuro esteja velado aos meus olhos, confio em ti. Aconteça o que acontecer, que se cumpram os teus planos, pois confio em ti. Se não vejo mais que o próximo passo, também isso me basta, pois tu mesmo me acompanhas. Amém. (traduzido de: http://www.clailiturgia.org/confianza-1475.html)

Bibliografia GUTHRIE, Donald. Hebreus. Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova/ Mundo Cristão, 1984. LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2000.

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PRÉDICA: JEREMIAS 31.31-34

DIA DA REFORMA 31 OUT 2012

JOÃO 8.31-36 ROMANOS 3.19-28

Werner Fuchs Quando nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo diz: Arrependei-vos (Mt 4.17), ele queria que a vida inteira dos crentes fosse arrependimento. Martim Lutero – 1ª das 95 Teses

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Introdução

Os textos trazem temas centrais da Reforma protestante, verdades que nos são caras: nova aliança entre Deus e seu povo, Deus justo e justificador, justificação por graça mediante a fé em Jesus, escravização pelo pecado, libertação pela verdade, condição de filho diferente de escravo. Entretanto, o nexo entre os textos reside na novidade dessa aliança, no recomeço que transcende tudo o que havia antes, a experiência dos patriarcas, do êxodo e do Sinai. É desnecessário ensiná-la, pois já estará gravada na mente e no coração em decorrência da experiência do perdão (Jeremias). Ela é libertadora e emancipa (João), é superior à lei (Romanos). Assim, será eterna, definitiva (cf. Jr 32.40). Ademais, não se pode ignorar o aspecto conflitante comum: os antigos anularam a aliança pela infidelidade e iniquidade, mas Jeremias anuncia esperança contra todas as consequências políticas e sociais negativas dessa infidelidade. Em João 8, os judeus que haviam crido em Jesus (!) julgam-no (v. 15) e querem matá-lo (v. 37). A chave para a frase “Minha palavra não está em vocês” encontra-se no ponto culminante do trecho, a saber, no trocadilho entre logia e logos do v. 43: não entendem “as palavras” por não aceitar a “palavra”, i. e., a interpelação de fora, o verbo externo, o questionamento por Jesus, que fala a verdade e é a verdade (cf. Jo 14.6). Em Romanos 3, a polêmica é entre o orgulho pela realização de obras da lei e o reconhecimento de que todos estão privados da glória de Deus por ser pecadores, reconhecimento esse que leva à fé e às obras da fé.

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Exegese

O contexto mostra Jeremias como profeta combativo e combatido. Jeremias 31.31ss pode ser considerado o ponto culminante dos capítulos 30s, chamados de “livreto da consolação”. Esses capítulos fazem parte do bloco de Jeremias 26-45, que traz relatos de acontecimentos dramáticos na vida pessoal de Jeremias, com uma palavra final de consolo a Baruque (cap. 45). O livreto da consolação é precedido dos capítulos 26-29 (discurso no templo e conflito com falsos profetas)

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Dia da Reforma

e seguido dos capítulos 32s (aquisição do campo em Anatote como ato simbólico de restauração em meio à derrocada e palavras de salvação). Os capítulos 34-38 trazem conflitos com o último rei de Judá: Sedecias. A situação histórica é que já houve um grupo de Judá deportado em 597 a. C., aos quais Jeremias escreve a carta de incentivo do capítulo 29. Em Jeremias 39, Jerusalém sucumbe ao assédio babilônico sob Nabucodonosor em 587 a. C., e Jeremias é liberto da prisão pelos babilônios (v. 11ss). Atualmente, Jeremias e seu livro de sofrimento, esperança e profecia sobre as nações estão mais presentes na consciência judaica do que na cristã (Ivo Meyer, in: ZENGER, E. Introdução ao AT, p. 418). Isso é compreensível não apenas pela história judaica de diáspora, mas evidentemente porque o que Jeremias anuncia é uma nova aliança com “Israel e Judá” (v. 31), com a “casa de Israel” (v. 33). Um dos poucos temas de Jeremias acolhidos no Novo Testamento é precisamente o novo berit, a kainé diatheke [latim: testamentum], a nova aliança, primordialmente nas passagens referentes à Santa Ceia (Mc 14.24; 1Co 11.25; 2Co 3.6). Jeremias 31.31-34 é citado por completo em Hebreus 8.8-12 e parcialmente em Romanos 11.27����������������������������������������������������������� . O v. ���������������������������������������������������� 33 é������������������������������������������������ ������������������������������������������������� citado em Hebreus 10.16, especificando a autêntica novidade da aliança prometida para o futuro: a lei do Senhor já não estará escrita em tábuas de pedra (cf. Êx 24.12; 31.18; 34.1; Dt 4.13), mas em mentes e corações humanos (cf. 2Co 3.3). Contudo, no Novo Testamento prevalece uma interpretação não etnocêntrica de quem seja o “povo de Deus”. Talvez essa leitura já se anuncie em Jeremias 31.34: a frase “Todos me conhecerão, tanto as pessoas mais importantes como as mais humildes” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje/NTLH) refere-se, sem dúvida, ao povo de Israel. Mas a menção das diferenças sociais denota a visão crítica do profeta, indicando um aspecto importante do Deus a ser conhecido, bem como um conceito de povo que traz implícita a abertura universal. Em decorrência, cabe também questionar se são adequados, para a tradução de berit, os termos “aliança” (Almeida Revista e Atualizada/ARA, NTLH), “acordo” (Voigt) ou “pacto” (Homburg, apud Voigt). Já a antiga aliança foi um ato unilateral de outorga por Deus, não um convênio ou contrato de consenso entre parceiros iguais ou até mesmo desiguais. Talvez por isso o Novo Testamento se sirva do termo diatheke, que não significa “aliança” ou “acordo”, mas “fundação, instauração, determinação, testamento”. A diferença reside em que no Novo Testamento o referencial da diatheke não é mais a Torá, mas o “sangue da (nova) aliança”, o sangue da expiação para o perdão de muitos (Mc 14.24). Ou seja, no Novo Testamento, “com auxílio de alguns conceitos retirados do Antigo Testamento... se afirma o contrário de seu sentido original!... Conceitos correntes e importantes no contexto do Antigo Testamento... são preenchidos com conteúdo completamente novo, que rompe e deve romper com pleno propósito os ‘odres velhos’. Supera-se a exclusividade da aliança de Deus com Israel... e surge a inclusividade dos muitos...” (Gunneweg, p. 109). Também para Paulo, a nova aliança supera a promessa de Jeremias 31, “outorgando” algo completamente novo, na linha da promessa dada a Abraão, que foi muito anterior à Torá (Gl 3.12-17; cf. Gunneweg, p. 111s). A comunidade da nova diatheke não é um

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“povo” particular, mas a congregação dos santos (cf. Confissão de Augsburgo, art. 7º; Gunneweg, p. 112s). A escopo de Jeremias 31.31ss é o anúncio consolador da nova aliança em meio à desolação geral. No entanto, dada a especificidade do Dia da Reforma, o foco mais apropriado da pregação talvez seja o tema do v. 34: “Conhecer” (intimamente) a Deus. Como? Pela escrita nos corações (v. 33b). Pela experiência do perdão que ele concede ao remover a causa do rompimento unilateral (pela parte oposta) da aliança anterior, a saber, as “iniquidades”. (A LXX traduz para adikias, “injustiças”. O termo “maldades” da NTLH é inexpressivo.) Ao���������������� apagar os pecados de sua memória, Deus faz com que a nova aliança seja de reconciliação (cf. Is 43.25; 44.22; Jr 50.20; Ez 36.26-9: novo coração, novo espírito, “meu Espírito” nos corações = nova existência; Zc 13.1s). O profeta já havia sido lembrado de que é conhecido por Deus desde antes de nascer (Jr 1.5; cf. 1Co 13.12). Ou seja, o “conhecer” por parte humana não é fruto de “ensino”, mas de uma profunda experiência existencial e relacional. Verdades e valores não se ensinam, mas se cultivam.

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Meditação

3.1 – Arrependimento É fácil cair no superficialismo em relação ao pecado e ao perdão. Exemplo: No domingo, a avó crente que está de cama pergunta ao neto que voltou do culto: “Sobre o que o pastor falou hoje?” Como sempre, o rapaz não prestou atenção, mas diz: “Sobre o pecado”. A avó insiste: “Sim, mas o que foi que ele disse?” – “Que ele é contra...” A avó insiste: “Ele não falou de Jesus?” –“Ah sim, falou que Jesus é o Salvador...”. Existe uma dificuldade humana em reconhecer e confessar culpa. Políticos e governantes jamais admitem erros em público. Pelo contrário, negam tudo, ainda que comprovado. O “animal político” cuida da sobrevivência como tal. Entretanto, no contexto eclesial, deveria ser diferente. Igreja é o espaço em que a verdade liberta. É a reunião de pecadores perdoados, acolhedores de outros pecadores, apoiadores uns dos outros. Infelizmente, porém, nela também não acontece livremente a confissão. Nem sequer se fala de arrependimento. A súplica por perdão a Deus e ao próximo acontece somente em orações gerais, coletivas, inespecíficas. Igualmente genérico e inexpressivo é o anúncio do perdão de Deus, deixando de ser experiência real de libertação. Pedidos públicos de perdão pelas igrejas ocorrem apenas excepcionalmente quando há escândalos por demais vergonhosos (p. ex., o papa diante dos casos de pedofilia). A primeira das 95 Teses de Lutero fala do arrependimento diário. As demais são explicações da primeira. Há décadas, a IECLB não publica um reconhecimento público de nossa omissão em termos de responsabilidade sociopolítica e ambiental, nem de nossas mazelas internas. Mas, ao deixar de lado a primeira tese, todo o conjunto das 95 Teses torna-se letra morta, e cabe duvidar da sinceridade confessional luterana.

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No tempo de Lutero, predominavam o sentimento de culpa e a ignorância; daí o comércio das indulgências e a manutenção delas para facilitar a exploração do povo. Lutero foi contundente: Arrependimento é atitude fundamental de cada dia, e perdão não pode ser comprado com dinheiro. Hoje, no entanto, somos uma geração sem sentimento de culpa. Raramente, e a duras penas, aprendemos que atos têm consequências (p. ex., na relação entre pais e filhos ou na atual crise ambiental). Cada um tem o direito de fazer e deixar de fazer o que lhe agrada ou convém, ou usufruir o que o dinheiro puder comprar. Conquistamos o direito de ser coniventes com nossas próprias falhas e incoerências. Talvez isso se deva a uma psicologia que desconstrói a culpa, ao liberalismo, à pós-modernidade etc. Independentemente das explicações, o fato é que nos aproximamos do problema do pecado e do perdão a partir do lado oposto de Lutero. Sem dúvida, porém, podemos convergir com ele em uma ruptura crítica com o estado vigente, que ele expressou nas 95 Teses. É marcante que os teólogos mais destacados do século passado (Paul Tillich, Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, Jürgen Moltmann e outros) foram relevantes porque em determinado momento de suas biografias realizaram uma ruptura com a teologia liberal, ruptura essa acompanhada de profunda crítica ao pensamento da época, de autocrítica e de crítica à realidade da guerra, da degradação social etc. 3.2 – Perdão Humanamente, é mais fácil reconhecer e confessar o pecado uns aos outros quando se sabe que o outro lado está disposto a perdoar: “O pecado é reconhecido à luz de Deus, mas igualmente é movido na direção dele. O primeiro passo para isso é a confissão que irrompe do pecador, justamente confiante no Deus que perdoa (cf. Sl 32.3-5). A admissão do pecado já se situa na Sagrada Escritura no horizonte da fé no Deus, junto do qual há perdão (cf. Sl 130.4), sim, que é um ‘Deus dos perdões’ (cf. Ne 9.17). Ao mesmo tempo, ele é aquele que já abre o caminho para o arrependimento e convida para andá-lo” (FABER, Eva-Maria. Doutrina Católica dos Sacramentos. S. Paulo: Loyola, 2008. p. 175). Entretanto, anunciar e apropriar-se da reconciliação com Deus, o próximo e a natureza maltratada, sem que tenha havido arrependimento (“meia-volta”), é uma atitude que se situa em algum ponto entre a falta de lógica e a desonestidade teológica, mas que infelizmente é recorrente em textos eclesiásticos e em liturgias atuais. A experiência existencial do perdão liberta não somente da culpa ou da ausência de sentimento de culpa, mas também do esforço de “conhecer a Deus” e de “ensiná-lo”, tentando enquadrá-lo racionalmente, algo impossível: Não é lógico um Deus que, ao mesmo tempo, defende o injustiçado e está disposto a perdoar o injusto.

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Dia da Reforma

3.3 – Que Deus conhecer? Ou: Qual é a razão dessa esperança “místicoaudaciosa” (Ivo Meyer) de Jeremias contra todas as evidências? Os povos tinham suas divindades domésticas, deusas da fertilidade, deuses para abençoar os negócios e justificativas religiosas para o poder opressor. Desde os tempos dos faraós, toda vez que a religião, também a cristã, se associou ao poder econômico e político, ela tentou aprisionar “Deus” em seu discurso e sua prática religiosa, inclusive beneficente. Mas graças a Deus, o Deus de Israel e de Jesus não se deixa aprisionar. Javé, “socorro bem presente nas tribulações” (Sl 46.1), age nas cruzes e encruzilhadas da vida, defendendo a justiça e posicionando-se ao lado do pobre e necessitado. Foi esse caminho que o moço rico não conseguiu tomar (Mc 10.21s). O povo de Israel aprendeu tropeçando e recomeçando que seu Deus Javé não é como as demais divindades, mas que age na história em prol dos que sofrem. Conhecer a Deus é conhecê-lo como Deus da história, que age em e por meio dos fatos históricos em defesa dos atribulados. Apesar de controles e rearranjos democráticos, as sociedades humanas trazem em seu bojo injustiças, desenvolvem assimetrias de poder e institucionalizam a violência. É evidente que a “nova aliança” tinha de ser outorgada unilateralmente pelo Deus que não esmaga a cana quebrada (Is 42.3), porque não existe ninguém isento de iniquidades. Todos são reprovados no vestibular. Deus precisa criar um acesso novo, não dependente de esforço, ensino, disciplina, mas da aceitação por fé. É esse um aspecto em Jeremias que aponta e “impulsiona” (Lutero) para a obra de Cristo.

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Imagens para a prédica

Manoel, descendente de escravos, é um dos líderes quilombolas que lutam para recuperar sua terra ancestral, ocupada por colonos de origem alemã (talvez alguns luteranos). Após vários anos, os quilombolas ganharam na justiça o direito à terra, mas não podem ocupá-la porque não têm dinheiro para indenizar as benfeitorias dos brancos. Há oito anos, Manoel perdeu um olho e não pôde continuar trabalhando na construção civil. Mas havia conseguido comprar uma terra de posse. Ali, a agricultura mecanizada havia acabado com todas as nascentes. “De joelho no chão” todas as manhãs, ele pediu a Deus por uma fonte de água para poder sobreviver na terra. Na área em que deixou crescer capoeira como mata ciliar, em breve apareceu uma nascente. Hoje tem água boa e cede parte da terra para outros plantarem. Vontade de Deus inscrita no coração. Jeremias vive em conflito com religiosos, de um lado, e governantes, do outro. Onde encontramos pessoas assim hoje? A dramaticidade da biografia de Jeremias e sua esperança audaciosa podem ser comparadas à espiritualidade inabalável de Lutero: durante toda a vida, ele esteve diante da possibilidade real da chegada do exército de Carlos V, em luta contra os mouros na Península Ibérica, para acabar com a Reforma protestante.

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Dia da Reforma

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Subsídios litúrgicos

Penitência: “Não, a mão do Senhor não é curta demais para salvar, seu ouvido não é mouco demais para ouvir! Mas são as vossas iniquidades que levantaram uma separação entre vós e vosso Deus; são as vossas faltas que mantiveram seu rosto escondido longe de vós, longe demais para que ele vos ouça” (Is 59.1s – Tradução Ecumênica da Bíblia/TEB). Perdão: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Intercessão: – Pelas poucas pessoas combativas e combatidas que vivem um testemunho profético diante de chefes da religião e donos do poder. – Por nós, para que não caiamos no reducionismo de transformar o Deus vivo em divindade doméstica abençoadora de relacionamentos e negócios. – Pelo país, para que as lutas por transformação social e por políticas públicas justas sejam eficazes no combate à miséria e não nos façam esquecer que o sistema vigente produz um novo bilionário por mês (de janeiro de 2010 a janeiro de 2011, os bilionários no Brasil passaram de 18 para 30 – enquanto 16,2 milhões de brasileiros/as vivem com menos de R$ 70,00 por mês). – Pelas pessoas aflitas, vítimas do descaso de autoridades e da indiferença do semelhante, para que não se conformem com a ideologia que transforma vítimas em culpados de sua própria desgraça. – Por todos os que se professam cristãos, para que saibam contrapor-se serenamente ao espírito da época, tendo “em Cristo”, fora de si, seu ponto de equilíbrio.

Bibliografia GUNNEWEG, Antonius H. J. Teologia Bíblica do Antigo Testamento. São Paulo: Teológica/Loyola, 2005. VOIGT, Emílio. Auxílio Homilético para o 5º Domingo da Quaresma, in: Proclamar Libertação XXII. São Leopoldo: Sinodal, 1997. p. 85-92.

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PRÉDICA: 1 TESSALONICENSES 4.13-18

DIA DE FINADOS 02 NOV 2012

DANIEL 12.1-3 MARCOS 5.21-24, 35-43

Odair Braun

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Introdução

No Dia de Finados, somos lembrados de que nós também vamos morrer, assim como nossos entes queridos. Por isso é um dia de reflexão, perguntas, dúvidas, saudade. Nessa ocasião, muitas perguntas vêm à mente: Será que há continuidade? O que será de nós? Como nos preparar para a eternidade? Para quem experimentou a perda de um ente querido no transcorrer do ano, essas perguntas podem estar mais presentes nesse dia. E, para essa realidade, é importante olhar para a palavra de Deus e perceber o que ela ensina. 1 Tessalonicenses 4.13-18 tem como objetivo preencher vazios, dar sentido e verdade para a vida, orientar. Por isso fala objetivamente sobre a morte e a vinda de Jesus, visando levar-nos a refletir sobre a vida e os caminhos pelos quais a conduzimos e com o que a preenchemos. Em determinado momento de sua vida de pregador, Paulo fala sobre esse tema, visando corrigir a falsidade, a mentira, o ilegal e a perversão, tal como podemos observar no texto que antecede nossa passagem, ou seja, 1 Tessalonicenses 4.1-8. Paulo fala para corrigir a vida que se desviou do caminho, que se tornou vazia, sem sentido, cheia de mentira. Fala desse tema para incentivar o seguimento a Jesus e, principalmente, para que estejamos preparados para o momento em que formos chamados por Deus. Daniel 12.1-3 pode ser visto como o ponto alto da visão que passamos a observar no capítulo 10 desse livro. Nessa passagem, a perseguição gera sofrimento e leva à morte. Os justos são perseguidos. E, nesse contexto, deseja-se animar aqueles que resistem, bem como incentivar a fidelidade ante Deus. O texto do Evangelho de Marcos dá a entender que Jesus é a esperança frente às dificuldades que enfrentamos na vida, principalmente quando diante da morte. Se ele tiver a chance de ser nosso guia e mestre, as pedras que se colocam no caminho serão contornadas com maior facilidade. Isso pode ser observado em vista do relato de três curas que antecedem o texto em questão. Portanto, os textos deste dia são palavras de ânimo e encorajamento para o dia a dia de dificuldades que a comunidade cristã enfrenta. Logo, são apropriados para o Dia de Finados.

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Exegese

Em 1 Tessalonicenses 1.6, 2.14 e 3.3 observamos referências a tribulações. Isso parece ser uma grande moldura para o texto em questão. A tribulação era uma consequência da vivência do evangelho. O texto pode ser estruturado assim:

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1 – v. 13: a questão, ou seja, os que dormem (morrem). Paulo parece ocupar-se em responder e clarear a comunidade sobre a morte que se abate sobre os humanos. 2 – v. 14: a resposta, ou seja, a fé. Parece-nos que Paulo procura mostrar e reforçar a certeza de que Jesus ressuscitou e que da mesma forma Deus poderá trazer à vida os mortos. 3 – v. 15-17: a proposta de Deus. Reforça-se a compreensão de que os mortos ressuscitarão e, em seguida, juntamente com os mortos, os vivos serão arrebatados para encontrar-se com o Senhor. 4 – v. 18: a certeza do consolo por estar com o Senhor. Portanto, Paulo fala à comunidade de Tessalônica acerca dos cristãos que antecederam na morte a vinda do Senhor. Faz isso para esclarecer e fortalecer. Dessa forma, deduzimos que o texto visa consolar, reanimar e reavivar a comunidade cristã de Tessalônica, que, naquele momento, se encontrava angustiada em relação à morte e aos conflitos que ela fazia emergir em seu meio. O que angustiava aquela comunidade? O que nos angustia hoje? Esses são pontos importantes a serem abordados no transcorrer da pregação.

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Meditação

O que Daniel quer anunciar neste Dia de Finados? Que o livro da vida continua aberto e que Deus quer inscrever todos nós nele. Mas não deseja fazê-lo se nós amarrarmos suas mãos. Quando não aceitamos que o único que nos leva à vida eterna é Jesus Cristo, que nos criou e ressuscitará no dia do juízo final, estamos engessando a ação de nosso Senhor. Aceitar o Filho de Deus significa não desistir de nossas famílias, mesmo que estejam divididas; significa optar por viver em comunidade para juntos pedir que Deus nos inscreva em seu livro que será eterno. Podemos viver ignorando isso ou não. Talvez, em momentos de perda, em que entregamos nossos queridos à sepultura, isso volte com muita força para os nossos pensamentos. E talvez nos perguntemos: Qual é o sentido da vida e da morte? Isso de fato faz parte do ser humano, e podemos perguntar. No entanto, devemos entregar as respostas a Deus e ter certeza de que a nossa vida ultrapassa a morte. Pois ele prometeu e cumprirá: “Muitos que dormem no pó despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a infâmia eternas”. O texto de Daniel, escrito em estilo apocalíptico, quer orientar. Deus mostrou, por meio de visões, o que as forças do mundo podem causar e qual a força que isso pode ter sobre o povo de Israel e sobre nós. Não nos restará mais nada além do caos, da guerra e da violência? Tragédias e catástrofes são vistas, muitas vezes, como “final dos tempos”. No entanto, talvez devêssemos falar em “sinal dos tempos”, que não vivemos responsavelmente. No entanto, nem tudo está perdido. Deus age e salva; ele dá a vida, que se sobrepõe à morte. A última visão de Daniel não é de ameaças nem de condenações; é uma revelação de conforto e de esperança para a comunidade. Deus permite que a gente olhe para dentro daquela realidade que produzimos com as nossas mãos e com o nosso estilo de vida. Creio que muitos se lembram da vinhe-

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Dia de Finados

ta da TV Globo nos intervalos dos filmes em que as pessoas jogavam lixo pela janela, diretamente no riacho. A chuva vinha, enchia o riacho e devolvia todo o lixo. É mais ou menos assim com tudo. O texto de Daniel não é só desesperança. Ela também permite ver a vontade de Deus, que é a salvação. A grande angústia descrita por Daniel inaugura o tempo da salvação. Deus não quer condenar, ele quer arrancar do caminho da perdição; ele quer escrever o nosso nome no livro da vida, e estando no livro da vida, pertenceremos à vida eterna. Estar no livro da vida significa estar guardado para Deus. Mas quem, afinal, terá o seu nome escrito no livro da vida? Conforme Daniel 12.3: “Os sábios brilharão como brilha o firmamento, e os que ensinam a muitos a justiça brilharão para sempre como estrelas”. Para Daniel, estarão inscritos no livro da vida os sábios e aqueles que ensinam a justiça. Mas quem são os sábios? Quem ensina a justiça? Sábios são aqueles que se comprometem com o criador e salvador da vida. Justos são aqueles que não permanecem pacíficos diante do sofrimento do próximo, aqueles que se solidarizam com a angústia e o sofrimento de seu semelhante. Quem pratica a justiça? Quem não se omite, mas luta para ser ajudante do Deus criador e não aquele que, qual a vinheta da Globo, joga o lixo no riacho e não aceita o que o riacho (a vida) devolve e, muitas vezes, devolve para outros que moram nas barrancas do rio. Sábio é aquele que se liga a uma comunidade e vive nela até mesmo as contradições e os erros, para reconstruir toda a sua vida. Sendo assim, fome, catástrofes, guerras, enchentes não são o final dos tempos. Mas é sinal de um tempo vivido em função do lucro, da ganância, da guerra provocada por intolerância; sinal dos tempos vividos com a falta de diálogo, de bondade e misericórdia. Por isso, no Dia de Finados, somos desafiados a pensar e analisar a vida que levamos e as prioridades que definimos, o modo como nos portamos diante dos desafios que o dia a dia impõe. Nesse sentido, os textos deste dia indicam aspectos importantes. Vejamos: a) Abandonar a mentira, o roubo, a desconfiança; b) Optar incondicionalmente pela honestidade em todas as situações; c) Abandonar o individualismo e optar pela vida em comunidade; d) Viver para estar preparado para o dia em que o Senhor chamar para junto de si. Em 1 Tessalonicenses 4.1-8, Paulo expõe aquilo que agrada a Deus: a nossa santificação. Ele chama e exorta para o amor fraternal. Ele não deixa de falar sobre a morte, tida por nós como a única certeza que temos. É importante observar que a palavra santificação inclui a palavra ação, ou seja, aponta para um processo e não somente um estado fixo. E tudo decorre disso. Santificação é um constante acontecer, um processo que se vive todos os dias. Santificar-se é deixar Deus atuar em nós e por nós. Deus não nos quer como uma fotografia. Essa já não pode mais ser transformada. Mas Deus nos quer transformar por meio de seu amor e pela ação do Espírito Santo. Deus aceita-nos assim como somos, mas não nos deixa como a ele chegamos. Ele quer que nos entreguemos e andemos em sua companhia e proteção. Ser santo não é uma categoria para chegar ao ponto mais alto do ser cristão. Mas é pertencer a Deus, entregar-se a ele, é viver sob

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Dia de Finados

seus ensinamentos e deixar-se moldar por Ele, como barro na mão do oleiro. Agir para estar preparado para o dia em que o Senhor no chamar é deixar-se conduzir por esse caminho. A nossa santificação provém da santidade de Deus. Tornar-se santo é um presente que Deus nos oferece por meio do Batismo e da Santa Ceia. Um presente é aceito ou é rejeitado. Quando aceito, é aberto, desembrulhado e então passa a fazer parte de nosso dia a dia, passa a ser utilizado. Aceitar o pressente da santificação é viver de acordo com a vontade de Deus. Afinal, Deus nos quer cada vez mais próximos dele. Não sejamos nós pessoas vazias, ocas, santificadas apenas na aparência. Sejamos santos que não sucumbem às armadilhas que o mundo coloca. Sejamos santos que não ofendem nosso corpo nem o de nosso próximo. Sejamos santos santificados pelo Espírito do Senhor, que nos deu a vida plena, digna e abundante. Frente a tudo isso, Jesus é a nossa maior esperança. Assim como ele acompanhou Jairo (Mc 5.24), ele também nos acompanha.

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Imagens para a prédica

Uma significativa ilustração para a mensagem do dia pode ser a explicação da origem do termo muito comumente empregado em nosso meio, ou seja, o que significa e de onde vem a afirmação “santo do pau oco”. Em determinadas situações, é comum ouvir a expressão “santo do pau oco”. Geralmente, ouvimos essa expressão quando se quer apontar para uma pessoa que age de uma forma, mas na aparência se apresenta de outra. Essa expressão surgiu em Minas Gerais nos tempos em que lá se produzia muito ouro. Houve uma época em que cada dono de mina levava o ouro para Portugal sem nenhum controle por parte do governo imperial. Em determinado momento, foi baixada uma lei que proibia isso. Tal como se faz hoje, encontrou-se uma forma de fazer o contrabando do ouro. A saída encontrada foi esculpir estátuas de santos em madeira, as quais eram vazias por dentro. Esse vazio era então preenchido com certa quantidade de ouro. Ou seja, utilizava-se a imagem de um santo para uma mentira, para algo falso e ilegal. Em torno dessa imagem pode ser construída a pregação, desenvolvendo o seu conteúdo em torno do significado de ser santo/santificado. Essa construção deve ser desenvolvida na perspectiva do que iremos alcançar por meio do seguimento aos ensinamentos de Jesus, finalizando que a santificação, o andar na verdade e na justiça, irá coroar-nos com a vida eterna, tema maior a ser lembrado no Dia de Finados. Para tanto, é importante perpassar a pregação com o versículo que diz: “Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem” (v. 14).

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Subsídios litúrgicos

Acolhida: Chegamos da vida, do cotidiano. Nesse cotidiano, festejamos, trabalhamos, temos alegrias e tristezas. Nesse cotidiano, sofremos e perdemos pessoas queridas. Com as alegrias e as dores da vida diária, reunimo-nos para o culto

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Dia de Finados

deste Dia de Finados. Por isso saúdo-vos com as palavras do profeta Isaías, que nos diz: “Fortalecei as mãos frouxas e firmai os joelhos vacilantes. Dizei aos desalentados de coração: Sede fortes, não temais. Eis o vosso Deus... ele vem e vos salvará” (Is 35.3-4). Confissão de pecados: Nosso Deus e Pai, em tua presença confessamos nossos pecados. Perdão, Senhor, pelas vezes em que duvidamos de teu amor por nós e pelas vezes em que não damos a devida atenção aos teus ensinamentos. Na tua presença, Senhor, confessamos que, às vezes, nos omitimos diante de situações que exigem nossa ação e intervenção. Perdoa-nos pelas vezes em que nos afastamos de ti e insistimos em caminhar conforme os nossos desejos. Deus Eterno, perdoa-nos pelas vezes em que nos tornamos vazios e distantes dos desejos que tens para conosco. Concedenos o teu perdão por todas as vezes que pecamos por meio de gestos, palavras e omissões. Renova-nos por meio de teu Santo Espírito, para que possamos caminhar na direção de teu Reino, renovados e confiantes. Por isso cantamos... Absolvição: Jesus Cristo nos diz: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”. Com essas palavras anuncio-vos o perdão de vossos pecados, a renovação de vossas vidas. Amém! Oração do dia: Misericordioso Deus! Somos-te gratos e te louvamos por mais um dia de vida. Obrigado pela noite de descanso com a tua bênção. Obrigado por este dia em que podemos nos congregar aqui nesta comunidade como tua comunidade, para lembrar nossos irmãos e irmãs que nos antecederam na morte. Embora estejamos tristes, agradecemos porque, ao longo de mais um ano, o teu consolo preencheu o vazio deixado por nossos entes queridos aqui sepultados. Inspira-nos, Senhor, por meio do Espírito Santo Consolador, para viver na prática aquilo que cremos em palavras e que assim este momento seja uma oportunidade de testemunhar publicamente a nossa fé na ressurreição e reforçar a esperança para além dessa vida marcada pela morte. Nossas palavras não são suficientes para tal finalidade. Por isso, permite agora que silenciemos para ouvir a tua palavra, pois somente de ti e de tua palavra vem o único e verdadeiro consolo. Que ela encontre solo fértil para frutificar. Que por intermédio de nós essa tua palavra espalhe a fé de que todas as formas de morte não conseguem subsistir diante de teu poder que consola e gera vida nova. Por Jesus Cristo, que vive e reina de eternidade a eternidade. Amém.

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PRÉDICA: MARCOS 12.28-34

23º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

DEUTERONÔMIO 6.1-9 HEBREUS 9.11-14

04 NOV 2012

Scheila Roberta Janke

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Introdução

As leituras previstas para este final de semana têm como tema principal o duplo mandamento do amor. Em Deuteronômio 6.1-9, a expressão “ouve, ó Israel...” faz parte da oração judaica Shemá (ouve). O amor ao Deus único, único Senhor do mundo e de seu povo, não é uma escolha; é um mandamento. Esse amor, que corresponde ao amor de Deus por seu povo, inclui temor a Deus, obrigação de servi-lo e observar seus preceitos. O amor ao Deus único deve estar acima de todas as coisas. Marcos 12.28-34, texto para a prédica, lembra que o amor ao Deus único e o amor ao próximo são mais importantes do que todos os holocaustos e sacrifícios. Essa é a verdadeira adoração a Deus. Esses dois mandamentos, originalmente encontrados no Antigo Testamento de forma separada, são reunidos por Jesus nesse duplo mandamento do amor. Somente quando amamos nosso próximo, também estaremos amando a Deus. O amor a Deus é concretizado no amor ao próximo. Hebreus 9.11-14 refere-se ao sacrifício único oferecido de uma vez por todas por Cristo, quando Ele derramou seu próprio sangue para a nossa redenção. Somente por meio de Cristo nós podemos prestar culto ao Deus vivo, pois por meio dele nós somos purificados de nossos pecados. Em Jesus, Deus demonstra seu grande amor por nós, seu povo, pois Deus entrega seu Filho Unigênito para morrer na cruz e nos salvar. Deus não apenas exige amor de seu povo, mas demonstra seu amor de forma concreta ao enviar seu Filho a nós.

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Exegese

Marcos 12.28-34 localiza-se no bloco de controvérsias em torno de Jesus. Em Marcos 11, são relatados a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, o episódio da figueira estéril e a purificação do templo, marcando o início da caminhada de Jesus em Jerusalém. Em seguida, são tratadas as controvérsias: a questão sobre a autoridade de Jesus, o tributo a César e a ressurreição. Logo depois, aparece o nosso texto, que trata do grande mandamento do amor, seguido da pergunta sobre quem seria o Filho de Davi, da advertência contra os escribas e da oferta da viúva pobre. Sendo assim, nosso texto faz parte da seção que descreve os conflitos de Jesus em Jerusalém (Mc 11.1-12.44), antes do assim chamado “pequeno Apocalipse”, que trata de suas profecias sobre a destruição do templo, a perseguição aos

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cristãos e a vinda do Cristo glorificado e trata da narrativa da paixão e ressurreição de Jesus. V. 28 – Provavelmente, o escriba está perguntando sobre o sentido mais profundo de toda a lei de Deus. Jesus combina os dois grandes mandamentos de Deuteronômio 6.4 e Levíticos 19.18b para formar um resumo da lei. Para um sistema legalista, responder a essa pergunta do escriba não era tarefa fácil, e mais respostas com certeza já haviam sido dadas pelas escolas rabínicas da época. V. 29 – O Deus único deve ser objeto supremo da adoração e do amor, amor que é visto como desenvolvimento espiritual. O que amamos é o nosso Deus, o que nos aproxima bastante da definição de Lutero: “aquilo a que prendes o teu coração é propriamente o teu Deus”. Só existe obediência aos mandamentos de Deus quando há entrega em amor a Deus. Tudo o que não provém do amor a Deus e da entrega em amor ao próximo jamais poderá ser considerado cumprimento de qualquer mandamento de Deus. Na verdade, qualquer mandamento cumprido sem amor é pecado, mesmo que tenha a aparência de ser algo santo, puro e bom. V. 30 – Aquele que nos ama, Deus, exige nosso amor. Amar a Deus é ter interesse pelos outros e servi-los. É fazer o bem, de coração, a quem precisa, é dar a alguém algo que eu poderia reter para mim mesmo, aprendendo a ser menos egoísta e tornando-me mais amoroso. Amar a Deus é contemplá-lo, é dar-lhe a alma inteiramente, obedecer a seus mandamentos, realizar seu serviço, pensar os seus pensamentos e buscar o bem que Ele busca. Na obediência e dedicação, na renúncia ao mal e aos bens secundários, posso retornar àquele que é a fonte de todo o bem que me sucede. Amar a Deus é entrar em contato com o divino por meio do treinamento do intelecto, do estudo da Escritura, da oração, da meditação, da busca pelos dons espirituais para servir ao próximo e crescer na fé e na santificação, renunciando ao mundo e a seus encantos. O mandamento do amor a Deus e ao próximo é o resumo de todos os demais mandamentos. Esses dois mandamentos formam uma unidade. Só amamos verdadeiramente o próximo por meio do nosso amor e nossa entrega a Deus, e só amamos a Deus quando amamos o próximo e nos entregamos a ele, servindo em amor. V. 31 – Jesus vincula as duas leis do amor. Ele eleva o significado do mandamento do amor ao próximo ao colocá-lo ao lado do mandamento do amor a Deus. A ágape consiste de boa vontade, benevolência ilimitada em favor do próximo, inspirada pela fonte do amor, Deus, por meio da ação do Espírito, que nos transforma à imagem de Cristo. O amor deve governar todos os nossos atos. V. 32 – Somente em Marcos se obtém a impressão de que o escriba indagou com sinceridade e não astuciosamente para apanhar Jesus e que ele aprovou a resposta de Jesus, repetindo e comentando-a brevemente. V. 33 – A realidade da experiência espiritual, expressa no dia a dia, ultrapassa em importância as exigências sacramentalistas e legalistas da lei. O amor é o maior dom que podemos ter. Sem ele, até mesmo manifestações carismáticas são vazias, assim como as formalidades dos sacrifícios. O ser humano, em tudo o que ele é, deve envolver-se na obediência ao mandamento do amor. Não adianta querermos servir a Deus por meio de cerimônias, cultos, celebrações ou sacrifícios, por mais especiais, bonitos e significativos que eles possam ser, se no dia a

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dia nos esquecemos de demonstrar amor uns pelos outros, se no dia a dia somos maldosos, traiçoeiros, egoístas e invejosos. Nossos cultos serão vazios se o dia a dia não for preenchido com amor. O que não for feito com amor a Deus e ao próximo não corresponde à vontade de Deus. V. 34 – Para aquele que ama, o reino está perto. O reino pode estar perto inclusive para um escriba, estudioso da lei e fiel seguidor dela, mas que conseguia compreender a necessidade de colocar o amor a Deus e ao próximo em primeiro plano. O reino pode estar perto até mesmo para um malfeitor crucificado ao lado de Jesus, que reconheceu ser ele o Filho de Deus, que amou e serviu as pessoas e, por fim, entregou sua vida por nos amar e para nos salvar. Jesus espantou os mais experientes teólogos e os silenciou, pois a verdade estava com ele. Mas nem por isso eles mudaram sua forma de pensar e terminaram por usar a violência contra Jesus, entregando-o à morte de cruz. Mas “estar perto” do reino não significa “já estar” no reino de Deus. Não é assim que Deus exige de nós todas as coisas para então nos dar algo. É justamente por Deus já nos ter concedido e presenteado com seu amor, revelado em Cristo, que Ele exige amor. Ele primeiramente nos presenteia, enviando seu Filho para revelar seu amor por nós, para entregar-se por nós na cruz e nos salvar. Só podemos entender o duplo mandamento do amor olhando para a cruz. Somente quando reconhecemos que Jesus, o Filho de Deus, morreu na cruz por nos amar e para nos salvar é que podemos amar a Deus e ao próximo.

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Meditação

Neste texto de Marcos 12.28-34, um doutor da lei quer saber de Jesus qual é o maior mandamento. Hoje, também muitas pessoas querem saber o que é mais importante na religião. Uns acham que o mais importante é ser batizado. Outros acham que é rezar. Outros ainda afirmam ser importante participar dos cultos e celebrações. Muitas pessoas estão mais preocupadas com as aparências ou com os cargos na igreja, com aquilo que já fizeram pela comunidade. Outros também acham que o mais importante é ajudar a quem precisa. É bastante cômodo buscar diante de Deus uma posição de segurança, ou seja, é mais fácil querer agradar a Deus observando leis e costumes do que confiar na bondade de Deus. Jesus mostra que o amor é a verdadeira vontade de Deus. Quem ama o próximo corresponde ao amor de Deus, pois, sendo Deus nosso Pai, somos todos irmãos e irmãs, chamados a viver isso na prática. “À medida que o povo de Deus foi aprofundando o significado e o alcance do amor de Deus, foi percebendo que o amor de Deus só será real e verdadeiro se ele se concretizar no amor ao próximo.”1 Sendo assim, o mandamento do amor ao próximo é semelhante ao mandamento do amor a Deus. “Se alguém disser ‘amo a Deus’, mas odeia a seu irmão, é um mentiroso” (1Jo 4.20).

MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes. A Palavra na Vida – Caminhando com Jesus: Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos. 2ª parte: Mc 8.22 – 16.20, p. 75.

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No entanto, nem para o povo de Deus tampouco para nós hoje o alcance das exigências do amor ao próximo é tão claro quanto parece. 1 – O Antigo Testamento já ensinava a “amar o próximo como a si mesmo” (Lv 19.18). Mas é mais fácil entender ‘próximo’ como sendo um parente, ou seja, amor aos que fazem parte da mesma família ou do mesmo povo. 2 – No tempo de Jesus, havia a discussão sobre quem seria o “próximo”. Alguns doutores achavam que o conceito de próximo deveria abranger outros povos e raças. Outros não concordavam com isso. Jesus mostrou com a parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37) que o próximo é todo aquele que se aproxima de você e precisa de ajuda, independentemente de religião, cor, raça, sexo ou língua. Próximo é quem precisa de você, e você é chamado a amá-lo. 3 – Amar o próximo é amar como Jesus amou. Jesus disse ao doutor da lei: “Você não está longe do Reino” (Mc 12.34), pois o Reino consiste em unir amor a Deus e amor ao próximo. Jesus amplia o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo quando diz: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado! Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15.12s). Nós facilmente caímos na tentação de escolher quem será nosso próximo e a quem devemos amar ou não. Facilmente afirmamos que amamos a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com toda a força. Nesse sentido, parecemos muito com os doutores da lei. É claro que amamos a Deus! Mas amar a Deus significa amar também o próximo, não apenas os familiares ou amigos, mas também quem não se conhece ou quem facilmente se desprezaria pela forma como ele se apresenta; amar aquele que precisa de nós, independentemente de sua classe social, sua cor, sua raça ou seu gênero; e mais ainda, amar como Jesus amou, mesmo que essa pessoa possa ser um inimigo. Isso é muito mais difícil do que inicialmente aparenta ser. Amar o próximo significa amar sem escolher quem será meu próximo. Significa compreender que Deus nos amou primeiro, apesar de não merecermos seu amor. Significa ser grato a Deus por ter enviado seu Filho para nos salvar, não apenas para salvar alguns que acreditam poder merecer a salvação por suas obras ou por obedecer a lei. Como podemos dizer que amamos a Deus se não queremos amar nosso próximo, por quem Ele também derramou seu sangue na cruz? Essa pergunta precisa ser feita a nós mesmos pessoalmente antes de pregarmos sobre esse tema. Com certeza, é mais fácil obedecer a Deus por meio da observância de leis e mandamentos. É mais fácil dizer que amamos a Deus, pois fazemos questão de frequentar os cultos todos os domingos, ocupar cargos de liderança e orar como é devido. É claro que tudo isso é importante, mas amar a Deus é mais do que isso. Amar a Deus significa amar o próximo, que é um filho tão amado ou uma filha tão amada por Ele quanto eu. Amar a Deus de todo o coração é amar uns aos outros, como Jesus nos amou. É para isso que esse texto nos desafia.

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Imagens para a prédica

a – Para falar do amor ao próximo, sugiro usar o exemplo de doadores de sangue, que doam sem saber para quem, desinteressadamente, mas ajudando a salvar ou recuperar vidas. b – Também se poderia iniciar a mensagem fazendo a mesma pergunta feita a Jesus. Em seguida, a comunidade poderia ser incentivada a refletir sobre as perguntas: Amo a Deus acima de todas as coisas? Amo o meu próximo? Quem é meu próximo? Meu próximo é apenas quem vive comigo ou quem frequenta e faz parte da mesma comunidade?

5  Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Confesso, amado Deus, o meu pecado por não te amar e confiar em ti acima de todas as coisas. Confesso que falhei ao não te amar de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as forças, amando mais os prazeres, os bens, o poder e as facilidades do mundo. Confesso que falhei também ao não amar o meu próximo como a mim mesmo e como Tu nos amas. Confesso que facilmente caí na tentação de querer escolher meu próximo de acordo com minhas preferências, deixando de perceber tantas pessoas que precisavam de minha ajuda e de meu amor. Perdão, Senhor, por minha arrogância, por meu egoísmo e por minha falta de amor. Amém. Canto: Perdão, Senhor, perdão (ou Tem misericórdia, HPD 2, hino 408). Poema: Tua mão – uma parábola, conforme Livro de Culto – Recursos Litúrgicos diversos (seção VII), p. 284, n. 12. Seria significativo se, no momento da comunhão, durante a Ceia, se for o caso, se formasse um grande círculo, incluindo todas as pessoas. No gesto da paz, a comunidade poderia ser incentivada a abraçar pessoas que ainda não se conhecem. Sugestão de hinos: antes da prédica – HPD 2, 397; oferta – HPD 2, 166; como bênção – HPD 1, 118.

Bibliografia CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo, v. 1. São Paulo: Candeia, 1995. SCHABERT, Arnold. Das Markusevangelium – Eine Auslegung für die Gemeinde. München: Claudius Verlag, 1964.

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MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes. A Palavra na Vida – Caminhando com Jesus: Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos, 2ª parte: Mc 8.22 – 16.20. São Leopoldo: CEBI, 2003.

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PRÉDICA: 1 REIS 17.8-16

24º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

MARCOS 12.41-44 HEBREUS 9.24-28

11 NOV 2012

Matthias Tolsdorf

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Introdução

O texto indicado para a pregação deste domingo já foi trabalhado duas vezes em Proclamar Libertação (XVI, p. 292-301; XXXI, p. 286-292). Recomendo o estudo desses dois auxílios homiléticos. Friedrich E. Dobberahn (PL XVI) dá três sugestões de abordagem do texto: a) atualização da situação da viúva de Sarepta por intermédio da leitura e discussão de uma história de uma viúva da seca contemporânea, que, apesar de sua pobreza, consegue alimentar seus filhos e dar esmola a outras pessoas em situação de risco (esse relato é verídico e muito impressionante); b) tematizando o “confronto político entre a fé em Javé dos pobres e a religião estatal na capital da Samaria”, aliado à defesa dos interesses da classe dominadora; c) enfatizando o aspecto histórico-salvífico do texto: as palavras “a vasilha de farinha não se esvaziará, e a jarra de azeite não acabará, até o dia em que Javé enviar a chuva sobre a face da terra” devem ter sua origem numa canção popular antiga que o povo de Israel havia cantado por ocasião da entrada na terra prometida. Valdemar Witter dá uma introdução mais ampla ao primeiro livro dos Reis e sugere abordar na pregação o desprendimento da viúva, a sua solidariedade ou a partilha na pregação. Mencionando o “pão como símbolo concreto das necessidades básicas das pessoas” (tanto materiais como espirituais), ele acaba sugerindo a utilização do pão como símbolo na pregação e aponta para as explicações de Lutero sobre a petição pelo pão na oração do Pai-Nosso.

2  O texto Depois da primeira leitura do texto de 1 Reis 17.8-16, fiquei impressionado. A história da provisão de Deus que manda Elias para Sarepta e promete que ele será alimentado (mantido) justamente por uma viúva, pobre, desesperada, que já precisa cuidar de um filho e que está prestes a morrer de fome, é inacreditável. Como uma viúva pobre e desesperada daria primeiro um pão a um estranho antes de se alimentar, mesmo sendo pela última vez? Será que a promessa muito improvável “não acabará a farinha da sua tigela, nem faltará azeite no seu jarro” convenceu a viúva a dividir o pouco que tinha com Elias? Esse relato é tão incrível (literalmente falando), que penso: Só por Deus mesmo! Será?

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Exegese

No contexto do trecho indicado para a pregação (enfatizando a “Composição da Seca – 1 Reis 17.1-18.46), encontramos – além do anúncio da seca “não vai cair orvalho nem chuva durante os próximos anos” por Elias frente ao rei Acabe (v. 1) – mais relatos de milagres “operados” por Deus: a alimentação de Elias no seu esconderijo perto do riacho de Querite (a leste do rio Jordão), onde Elias toma água do riacho e recebe pão e carne trazidos por corvos de manhã e de tarde – todos os dias (v. 3-6); a ressurreição do filho da viúva, em que Elias ora com muita insistência a Deus pedindo pela ressurreição do filho da viúva até que Deus atende (v. 17-24); o milagre do sacrifício, em que Elias desafia 450 profetas de Baal a uma prova do seu deus e acaba convencendo o povo de Israel de que Javé é vivo, poderoso e o Deus de Israel (1Rs 18.19-39); o relato do fim da seca com a volta de chuvas pesadas (1Rs 18.41-48). Todos esses relatos reforçam a primeira impressão sobre o texto indicado para a pregação: o poder de Deus é ilimitado, ele consegue fazer o que está fora do nosso alcance. Uma possível conclusão da crítica redacional do texto é que a ênfase no poder de Deus se deve a mudanças mais recentes. A composição atual dos capítulos 17 e 18 de 1 Reis apresenta algumas incoerências e descontinuidades. Simplificando os resultados: a) Em 17.1, a relação entre Elias e Acabe parece hostil e de inimizade, enquanto a relação dos dois parece amigável em 18.41ss. Essa divergência evidencia que houve uma redação/manipulação da função de Elias: nos textos mais antigos (antes da primeira redação pela tradição deuteronomista), Elias não era revelado como profeta de Javé, mas como homem carismático com poderes/habilidades extraordinários e como conselheiro e assessor do próprio rei Acabe. Ele não agia em nome e nem por ordem de Deus. b) A composição da seca é interrompida por três relatos (que não fazem alusão à situação da seca ou tratam a seca apenas na margem): a ressurreição do filho da viúva, em que Elias aparece como “homem de Deus”; a cena com Obadias, que é enfaticamente apresentado como uma pessoa temente a Deus (1Rs 18.2-16); a prova do poder de Javé por meio do sacrifício no monte Carmelo, em que a autoridade de Javé é revelada, em que o povo de Israel se converte novamente a ele e em que a morte de 450 profetas de Baal é justificada. Todos esses relatos enfatizam poder, soberania e autoridade de Javé e usam o personagem de Elias apenas como seu instrumento. c) Estilo e conteúdo de vários versículos evidenciam ainda mais a redação deuteronomista na composição da seca: a ordem direta de Deus a Elias nos versículos 17.2,8 e 18.1b são “marca registrada” dessa tradição e ajudam na estruturação do capítulo 17; a introdução da promessa de Elias no v. 14 com a fórmula que dá autoridade a Javé: “Pois o SENHOR, o Deus de Israel diz isso” e o anexo no final do mesmo versículo: “até o dia em que eu, o SENHOR, fizer cair chuva” também retratam Javé como aquele que age e controla tudo nesse texto. Análise do relato sobre Elias e a viúva de Sarepta:

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O v. 7 informa que, depois de algum tempo, o riacho secou e, por isso, a permanência de Elias é impossível. Esse versículo liga o relato de Elias perto do riacho de Querite à narrativa sobre Elias em Sarepta. V. 8-9 – Javé dirige-se a Elias e manda que vá a Sarepta e procure uma viúva que – por ordem de Javé – alimentará (e provavelmente abrigará) Elias. Estes dois versículos, inseridos pela redação deuteronomista, apontam para a provisão de Deus, que se preocupa com seu profeta Elias e continua a cuidar de sua sobrevida. V. 10 – Elias chega a Sarepta. Antes das alterações pela tradição deuteronomista, a chegada de Elias a Sarepta deu-se porque ele era compreendido como profeta itinerante (como Eliseu), que – em função da seca do riacho de Querite – seguiu viagem e chegou a Sarepta, longe de sua terra de origem (Tisbé fica na região de Gileade – veja v. 1, e Sarepta faz parte de Sidom – v. 9). Na entrada de Sarepta, ele encontra uma viúva (Elias provavelmente a reconhece por causa de sua roupa – veja Gn 38.14), que está catando lenha. Elias dirige-se à viúva e pede um pouco de água para beber. Na hierarquia social da época, viúvas ocupavam uma das classes mais baixas – pouco acima de criminosos e fugitivos. V. 11 – Quando a viúva está prestes a buscar a água, Elias também pede um pedaço de pão. Esse pão era preparado apenas com farinha e água ou óleo. V. 12 – Reagindo a esse pedido, a viúva fala de sua situação de pobreza e desespero: ela não tem mais quase nada para comer, a não ser um restinho de trigo e de óleo. Já que não tem esperança de conseguir mais comida, ela estava prestes a preparar uma última refeição para seus filhos e para si, antes de todos morrerem de fome. O texto na Septuaginta fala de filhos; somente o texto massorético utiliza o singular, igualando o número de filhos entre o relato do milagre da multiplicação da farinha e do óleo e a narrativa da ressurreição do filho da viúva. V. 13 – Ciente da situação fatal da viúva e de seus filhos, Elias insiste em pedir o pão e exige que a viúva prepare primeiro o pão de Elias e, somente depois, a comida para si e para seus filhos. V. 14 – Como argumento e motivação da viúva para obedecer ao pedido de Elias, ele faz uma promessa em nome de Deus: “não acabará a farinha da sua tigela, nem faltará azeite no seu jarro”. Essa promessa, originalmente, era palavra de Elias – do homem carismático; a sua palavra garantia a sobrevida da viúva e não a palavra de Deus. V. 15 – A viúva confia na palavra/promessa desse homem estranho e atende seu pedido. Em seguida, ela experimenta que a palavra de Elias não era uma promessa falsa: a comida era suficiente para todos durante muitos dias. V. 16 – A confirmação da promessa de Deus, o registro de sua concretização – “não faltou farinha na tigela nem azeite no jarro” – é típico para a redação deuteronomista. Resumo: O contexto da narrativa é a cidade de Sarepta (longe da terra de origem de Elias), num período de seca que ameaça a vida de muitas pessoas. Três “personagens” dominam o nosso relato: Deus, Elias e a viúva. Todos os três assumem posições e funções de ajuda/apoio nessa história. Dependendo do ponto de

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vista, da matriz de interpretação, um dos personagens se sobressai na capacidade de ajudar: a) A tradição deuteronomista e a nossa leitura teologizadora desse texto enfatizam a ação de Deus, seu poder, sua autoridade. Além de enfatizar Elias como o profeta de Deus que enfrenta o culto a Baal e Asherah, a redação deuteronomista visou, provavelmente, aumentar a esperança daqueles israelitas que se encontravam longe de sua terra por causa do exílio babilônico: o profeta Elias, mesmo estando longe de sua terra, é acompanhado, amparado e sustentado por Deus. b) Na composição da seca – antes da redação deuteronomista –, o homem Elias foi ao encontro da viúva para anunciar nova esperança e garantir sua sobrevida por meio de sua palavra. E a partir de uma leitura crítica e desmistificadora, poderíamos interpretar que Elias pediu alimento e abrigo para a viúva de Sarepta, porque, em comunhão, era mais fácil encontrar alguma saída nessa situação de ameaça. Nesse caso, a promessa de Elias deveria soar mais ou menos assim: “Eu coloco os meus dons à disposição. Quando juntarmos o que temos – forças, capacidades, mas também os nossos bens materiais –, teremos mais chances de sobreviver”. c) Olhando para a situação desesperadora da viúva e a partir de uma leitura existencial do texto, podemos (junto com a leitura do evangelho) afirmar que a maior ajuda de todas foi a disposição da viúva de partilhar o pouco que tinha até com um homem estranho, viabilizando também a sobrevida dele por mais um período. A motivação da viúva para essa partilha não é mencionada no texto e, consequentemente, não será possível afirmar com certeza o que a moveu – plena confiança na promessa milagrosa de um estranho, solidariedade de uma viúva com um fugitivo (que tinha menos status ainda), apoio “político” a um revolucionário que enfrentava o sistema injusto ou uma atitude profundamente enraizada em favor da vida – que persiste mesmo quando a própria morte é evidente.

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Meditação

Enfatizar o poder de Deus (em exagero) pode levar ao comodismo – “Deus vai cuidar disso; não preciso me preocupar e nem tomar alguma atitude” – e manter esse relato de um milagre surpreendente e encantador distante da situação de vida dos ouvintes da pregação. O relato é tão fantástico quanto inacreditável... Focar a pessoa de Elias (antes e depois das alterações redacionais pela tradição deuteronomista) pode aproximar nossa realidade de cristãos batizados, ou seja, pessoas justas e pecadoras ao mesmo tempo, com a realidade do profeta: ele é tanto homem com limitações e problemas (fugitivo do rei, ameaçado pela fome, dependente de outras pessoas) como homem de Deus (enviado, fortalecido, protegido e acompanhado por Javé). O exemplo da viúva representa o maior dos desafios para nós: não se preocupar, em primeiro lugar, com o próprio sustento e o da família em situação evidente de ameaça de vida contraria nossa lógica. Em muitas situações, avaliamos e julgamos: se as pessoas em situação de risco fizessem um planejamento melhor de seus recursos e controlassem os gastos, elas teriam mais condições de “cres-

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cer na vida”. Não entrando no mérito da questão, até que ponto esse julgamento tem razão, a atitude da viúva representa, em todo caso, um descuido (ou até uma imprudência, uma burrice). Nesse sentido, a história da viúva da seca contemporânea sugerida por Dobberahn em PL XVI pode ajudar na descoberta de que existem outros raciocínios (até mais nobres), em que todos os bens alimentícios e materiais são colocados à disposição da vida e não na conta bancária com o intuito de garantir uma segurança no futuro que permanece incerta. A meu ver, é importante não julgar a nossa tendência de nos preocupar com o futuro de forma moralista, mas nos conscientizar de que bens acumulados em excesso representam um capital morto, ou seja, capital que não promove a vida. Julgo importante identificar que o milagre da multiplicação do óleo e da farinha – de certa forma – é um resultado de uma conjuntura: nessa história, Deus envia e promete (tem que se confiar em Deus como criador, mantenedor e promotor da vida); Elias obedece, desloca-se e procura a viúva para prometer ajuda e aceitar comida e abrigo (confiando em Deus e reconhecendo as próprias habilidades e limitações como pessoa humana em situação de risco, Elias torna-se capaz de doar e receber); justamente a viúva que enfrenta risco de vida dá a maior importância à vida, não só à sua própria e à de sua família, mas também à vida de Elias (com essa atitude, a viúva – mesmo pertencente a outro povo – torna-se instrumento e colaboradora do Deus da vida: Javé). A meu ver, a concretização fragmentada do reino de Deus em nosso meio e em nossos dias também se dá, muitas vezes, como resultado de uma conjuntura “divina”: quando confio em Deus e inspiro minhas escolhas e atitudes em sua vontade, torno-me capaz de reconhecer minhas limitações e enxergar o próximo como irmão/irmã, que também recebeu muitos dons de Deus, mas sofre igualmente com as necessidades da vida e a condição humana. Uma concreção possível para atitudes que contribuem para a conjuntura que promove o reino de Deus seria a reflexão sobre a importância do ouvir e do falar: Quando precisamos ouvir mais? Quando devemos falar mais? Quais as palavras que edificam? Elias teve coragem de falar e anunciar a seca ao rei Acabe (v. 1 – antes de nossa perícope). Mas Elias também soube ouvir quando Deus o enviou à Sarepta. Na frente da viúva, Elias falou e utilizou palavras conhecidas que lembravam a história da salvação entre Deus e seu povo, quando prometeu que a farinha e o óleo não acabariam. A viúva ouviu e aceitou a promessa de Elias e convidou-o para a refeição e hospedou-o em sua casa. Mas a viúva também soube falar quando cobrou uma resposta de Elias pela morte de seu Filho. Elias pede a Deus pela ressurreição desse filho, e Deus escuta. Ao refletir sobre o equilíbrio entre ouvir (aprender, estudar, refletir) e falar (testemunhar, consolar, alertar) para promover o reino de Deus, não se pode deixar de alertar que as palavras podem ser como armas que causam feridas: cura-se a ferida de uma espada, mas é incurável a ferida de uma língua (anônimo).

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24º Domingo após Pentecostes

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Subsídios litúrgicos

Hinos: HPD I – 170: Nem só palavra é amor HPD I – 184: Vamos nós trabalhar, somos servos de Deus HPD II – 336: Quando o povo se reúne para a Deus juntos louvar HPD II – 359: Te ofertamos nossos dons ao serviço do teu Reino HPD II – 437: Quando o Espírito de Deus soprou HPD II – 438: Quando se abate a esperança HPD II – 432: Se caminhar é preciso EG 268 (hinário das igrejas luteranas na Alemanha): Strahlen brechen viele Tradução de algumas estrofes do hino alemão: (Nas comunidades em que não se celebram mais cultos em alemão, talvez seja interessante ler uma das seguintes estrofes em algum momento do culto; segue a tradução de três das cinco estrofes desse hino: 1. Muitos raios partem da mesma luz; nossa luz é Cristo. Muitos raios partem da mesma luz, e essa luz nos une. 2. Existem muitos dons a serviço do amor, amor de Jesus Cristo. Existem muitos dons a serviço do amor que une todos nós. 5. Formamos muitas partes do mesmo corpo; nosso corpo é Cristo. Formamos muitas partes do mesmo corpo, que une a todos nós.) Oração/Bênção: Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor, Onde houver ofensa, que eu leve o perdão, Onde houver discórdia, que eu leve a união, Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade, Onde houver desespero, que eu leve a esperança, Onde houver tristeza, que eu leve a alegria, Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei que eu procure mais Consolar do que ser consolado, Compreender do que ser compreendido, Amar do que ser amado, Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado E é morrendo que se vive Para a vida eterna. Amém. Francisco de Assis

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Bibliografia LOPES, Mercedes. Narrativas do ciclo de Elias. Uma leitura da narração em 1Rs 17.1-24, in: Dimensões sociais da fé do Antigo Israel. Uma homenagem a Milton Schwantes. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 69-79. WÜRTHWEIN, Ernst. Die Bücher der Könige. 1. Kön. 17 – 2. Kön. 25. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1984. BUIS, Pierre. O Livro dos Reis. São Paulo: Paulus, 1997.

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PRÉDICA: MARCOS 13.1-8

25º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

DANIEL 12.1-3 HEBREUS 10.11-14 (15-18), 19-25

18 NOV 2012

Ramona Weissheimer

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Introdução

Nosso texto está previsto para o 25º Domingo após Pentecostes – e esse já é o penúltimo domingo do ano eclesiástico. O ano civil também já se aproxima de seu final, e já começam as preocupações com despedidas e recomeços. Como veremos adiante, o texto em apreço forma uma parte da seção do conflito em Jerusalém e o início do discurso de Jesus, que responde à pergunta dos discípulos sobre os sinais que vão indicar a realização daquilo que Jesus havia dito: destruição do Templo, centro da vida política, econômica e social judaica. O texto já foi tratado noutras ocasiões (PL XVI, p. 302; XXII, p. 286; XXVIII, p. 351), mas abrangendo mais alguns versículos (1-13). O texto do Antigo Testamento – Daniel 12.1-3 – é apocalíptico, servindo, inclusive, de base para Marcos 13. Trata da batalha escatológica em que o anjo Miguel vem salvar o povo de Deus – na época, vítima da opressão de Antíoco IV Epífanes. Inevitabilidade do sofrimento sem precedentes é lembrada, assim como o chamado a permanecer fiel. Juízo sim, mas também salvação. Também a Carta aos Hebreus é escrita para uma comunidade que sofre e abate-se diante de perseguição. É lembrado que Jesus é o sumo sacerdote que oferece o sacrifício de uma vez por todas, que abriu o caminho ao Pai por meio de seu próprio corpo. E aguarda, junto ao Pai, até que todos os inimigos estejam colocados sob seus pés. Também o Espírito Santo dá testemunho disso. Quando o tempo chegar, uma nova aliança será celebrada, a lei estará nos corações, haverá perdão, sem necessidade de mais ofertas. Por isso permaneçam na fé, confiem nas promessas, não abandonem as reuniões, ainda mais agora que o dia vem chegando. A tônica em todos os textos é, pois, perseverar apesar dos sofrimentos, não se deixar abater, nem enganar, tampouco se precipitar. Promessa da salvação.

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Exegese

“A longa viagem desde as periferias sociais e simbólicas da Palestina (...) até o seu centro agora se completa” (MYERS, p. 349). C. Myers coloca o texto de nosso estudo dentro de um contexto bem amplo, que vai de Marcos 11.1 a 13.37. Assim, o texto leva-nos num crescendo, desde a chegada de Jesus a Jerusalém e sua primeira visita ao templo, para “mero reconhecimento”, passando por conflitos diretos até um angustiante sermão. O encadeamento das cenas, construído por Marcos, é envolvente. A última, antes da saída do templo, apresenta o ápice

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da tirania daquele sistema baseado no Templo-Estado: os ricos dão o que sobra, a viúva, que deveria ser protegida, dá todo o seu sustento. Ainda assim, depois de presenciar tantos embates, discussões e críticas de Jesus contra o sistema explorador do templo e dos que controlam a interpretação da Torá, um de seus discípulos – que não é nomeado –, olhando a magnificência do prédio, expressa sua grande admiração. A fé de Bartimeu (10.46-52) contrasta com a parcialidade “cega” dos outros seguidores de Jesus. Os discípulos, aliás, aparecem bem pouco nesses capítulos, entrando em cena apenas quando Jesus procura explicar seu repúdio ao Templo-Estado. Mas, assim como eles resistiram ao ensinamento de Jesus sobre a cruz, também aqui parecem não compreender a possibilidade da existência de uma ordem separada do templo. V. 1 – “Quando Jesus estava saindo do pátio do templo, um discípulo disse: Mestre, veja que pedras e edifícios impressionantes!” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje/NTLH) . Na verdade, o templo era uma estrutura impressionante. A admiração dos discípulos diante dos edifícios do templo traduz, sem dúvida, a sensação de opressão suscitada em qualquer peregrino rural que visitasse Jerusalém. Até mesmo um autor mais refinado como Flávio Josefo se impressiona em sua descrição do exterior do templo. “(...) estava todo recoberto com placas de ouro de grande peso e, assim que o sol despontava, refletia sobre ele um brilho magnífico e obrigava os que teimavam em olhar para ele a afastar os olhos para outro lado, exatamente como teriam que fazer com os raios do sol. No entanto, esse templo parecia aos estrangeiros, quando esses se achavam a distância, uma montanha coberta de neve; pois as partes dele que não eram douradas se apresentavam excessivamente brancas, (...) Quanto às suas pedras, algumas tinham 45 côvados de comprimento, cinco de altura, seis de largura” (MYERS, p. 385). Sendo assim, um mundo sem o templo não seria tão fácil de imaginar. V. 2 – “Jesus respondeu: Você está vendo estes enormes edifícios? Pois aqui não ficará uma pedra em cima da outra; tudo será destruído!” Quando da invasão e destruição de Jerusalém, o templo foi queimado. Mas Marcos escreve ainda antes desses acontecimentos. Mas essa palavra sobre a destruição do templo será usada contra Jesus tanto no processo no Sinédrio como nos escárnios dirigidos contra ele na cruz. V. 3 – “Jesus estava sentado no monte das Oliveiras, olhando para o templo, quando Pedro, Tiago, João e André lhe perguntam em particular.” Mais uma vez estão presentes Pedro, Tiago e João, o círculo mais íntimo de discípulos. O ambiente para o sermão é o monte das Oliveiras – monte oposto ao monte do Templo –, que, na tradição de Ezequiel, era o local da intervenção messiânica na hora crucial de necessidade. Porém Jesus anuncia não a salvação, mas a destruição do templo. Os discípulos, perplexos, aproximam-se de Jesus em particular – como quando Jesus explica uma parábola. V. 4 – “Conte para nós quando é que isso vai acontecer. Que sinal haverá para mostrar quando é que todas essas coisas vão começar?” Os discípulos, como antes escribas e fariseus, pedem por sinais.

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V. 5 – “Então Jesus começou a ensiná-los. Ele disse: Tomem cuidado para que ninguém engane vocês.” Jesus não lhes dá uma resposta direta, mas passa a instruir seus discípulos sobre o modo de discernir e suportar esse “fim”. V. 6 – “Porque muitos vão aparecer fingindo ser eu e dizendo: ‘Eu sou o Messias’. E enganarão muitas pessoas.” A Bíblia de Jerusalém traduz: “muitos virão em meu nome, dizendo ‘Sou eu’”. Myers interpreta aqui o texto a partir do envolvimento da comunidade cristã com os rebeldes na Guerra Judaica e os supostos messias e aliciadores que buscam atrair os cristãos para a resistência armada. V. 7 – “Não tenham medo quando ouvirem o barulho de batalhas ou notícias de guerra. Tudo isso vai acontecer, mas ainda não será o fim” – cf. BJ: “é preciso que aconteçam”. V. 8 – “Uma nação vai guerrear contra outra, e um país atacará outro. Em vários lugares, haverá tremores de terra e falta de alimentos. Essas coisas serão como as primeiras dores de parto.” Guerra, fome e terremotos são imagens genéricas na literatura apocalíptica. Nessa época, a fome atordoava a Palestina de forma especialmente dura. Em 67 d.C., Roma estava envolvida em uma guerra civil e com a ameaça dos partos. Terremotos e erupções vulcânicas destruíram Laodiceia e Pompeia em 61-62 d.C. Conforme Myers, Marcos instrui o ouvinte no sentido de não se alarmar, evitar uma ação precipitada. Lembra a inevitabilidade de ser perseguido. A importância da missão do Messias não o impede de ser entregue; a missão dos discípulos também não impedirá. A clássica promessa apocalíptica é: “quem perseverar até o fim será salvo”. Também é preciso passar pelas dores do parto para receber o novo.

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Meditação

O capítulo 13 de Marcos já foi chamado de “pequeno apocalipse”. Jesus encerra o seu sermão com uma meditação apocalíptica, recordando a vigilância histórica. “O poder da tradição apocalíptica constitui o dado de que ela era ao mesmo tempo profundamente contextual e transferível. Seus mitos centrais podiam ser reinterpretados em novas circunstâncias” (MYERS, p. 390). O discurso de Marcos destina-se não a estimular, mas a desestimular uma especulação sobre o fim dos tempos. Creio que isso é importante também para nós, que a cada momento somos bombardeados com novas especulações e cálculos, tirados inclusive de civilizações antigas, que arrastam multidões. As imagens que Marcos usa para falar desse final são as correntes na literatura apocalíptica de sua época, assim, por exemplo, o Apocalipse de João, o IV Esdras, a Assunção de Moisés ou os rolos de Guerra de Qumrã. E mesmo esses eventos podiam estar associados à história contemporânea, ao que acontecia a seu redor no momento em que escrevia e que importava dizer para os seus ouvintes. Daí que o problema real não é o “fim dos tempos”, mas o imperativo de discernir, não se deixar enganar. Pensando no texto, “é conveniente que o seu rompimento radical com o Templo-Estado seja seguido de considerações sobre o ‘fim do mundo’, pois é

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exatamente assim que qualquer judeu teria interpretado a rejeição de Jesus em face do centro simbólico” (MYERS, p. 387). Basta pensarmos nos sentimentos que se seguiram ao 11 de setembro – data que virou título – para tentar avaliar a dimensão da crise de valores gerada pela destruição do templo de Jerusalém. Em 11 de setembro de 2001 – novo século, novo milênio –, um inédito ataque a conhecidos centros de poder econômico, político e militar da grande potência do Ocidente também dão origem a uma série de especulações. Como esquecer as represálias que se seguiram? Como esquecer a forma como as notícias eram trazidas aos ouvidos atentos e ávidos por espetáculo, ainda que doloroso? Quanto a mim, não poderia esquecer o “aniversário” do 11 de setembro, pois no ano seguinte, justamente nesse dia, partes do Rio de Janeiro estiveram praticamente em convulsão – apenas como exemplo, ficamos eu, minha filha pequena, então com 9 meses, e o menino de 2 anos trancados no banheiro de um posto de gasolina, esperando um tiroteio passar para poder atravessar a rua e chegar em casa. E, seguindo a linha especulatória, a essa crise armada seguiu-se uma crise econômica de proporções mundiais, desastres ambientais, naturais e agora também nucleares. Que pensar? Cuidado para que ninguém os engane! O “tempo”, como metáfora nessa literatura, funciona para subverter a noção de tempo linear, evitando “calendários escatológicos”. Os conflitos sociais e políticos e as catástrofes naturais não são o fim do mundo e não devem ser causa de susto ou espanto. Tais conflitos sempre ocorreram, fazem parte da história e, em geral, são o começo de algo novo: as dores do parto. Até a destruição do templo, terrível para os judeus, não deve ser vista como o fim de tudo, pois a história segue sua marcha. Dentro das angústias, decepções e temores, algo novo está sendo gestado, uma nova etapa da história surgirá.

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Imagens para a prédica

No séc. XIV, entre 1346 e 1352, a peste negra grassou pela Europa. Ratos levados dentro das embarcações que faziam o comércio com o Oriente aportaram em uma Europa com precaríssimas condições de higiene. Suas hospedeiras, as pulgas, muitas vezes contaminadas pela bactéria Pasteurella Pestis, morto o rato, buscavam outro lugar para viver e alimentar-se: os seres humanos. E, assim, um terço da população da Europa pereceu. A peste bubônica não respeitou nobres e reis, mas tratou todos de igual modo. Bom lembrar que a Inquisição e a caça às bruxas estavam em alta. Porém ainda não foi o fim. Em 1755, um terremoto arrasou Lisboa, uma das cidades mais religiosas da época. Em 2010, mais um terremoto arrasou Porto Príncipe, a capital do Haiti, o país mais pobre das Américas. Mais de 200 mil mortos. Mas ainda não foi o fim. O século XX inaugurou a Guerra Total. Tão traumática foi a Primeira Guerra, que alguns historiadores falam que a Segunda ainda é parte daquela, apenas com alguns anos de lapso. Quantas vidas, quanta destruição! Mas ainda não foi o fim. A fome no Sudão, na segunda metade desse mesmo século, e em outras partes da África, ocasionada por secas, mas também por guerras que levaram mi-

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lhares a migrar sem destino, continuam sendo lembradas como cenas de horror. Mas ainda não foi o fim. O ataque aos centros de poder, a represália terrível que se seguiu, a crise na economia mundial, as últimas grandes catástrofes naturais (terremotos, tsunamis, tornados, enchentes) são outros eventos que se poderia lembrar, assim como a última data apocalíptica, 21 de dezembro de 2012, término de um dos ciclos do calendário maia. Até mesmo os sites de busca lembram que outras datas para o fim do mundo já foram fixadas. Outras ainda virão. Não vos deixeis enganar!

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Subsídios litúrgicos

Não poderia deixar de sugerir o Kyrie “Pelas dores deste mundo”, cuja letra traduz em muito aquilo que se procurou lembrar nesta meditação. Sugiro, ainda, um poema de Marilene Loss Bobsin: Os sinos dobram Por quem dobram os sinos? Pelo fim do dia, Que ao morrer Outra vida reinicia. Ou pela inocência perdida De meninos e meninas Que ganham a rua E perdem a vida? Será pela violência das guerras, Arrogante estupidez, Suprema covardia? Pelos jovens solitários Sem norte Que pedem socorro À sua maneira Ou para os vencedores Estrelas egoístas Acúmulo de poder? Ou pelos milhões que se movem Sem luzes, brilho ou bens, Sequer esperança? Será pelo silêncio de Deus Que os sinos dobram por aqueles Que não são indiferentes?

Bibliografia MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. São Paulo: Paulinas, 1992. BALANCIN, Euclides Martins. O Evangelho de Marcos: Quem é Jesus? 8. ed. São Paulo: Paulus, 2007.

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PRÉDICA: JOÃO 18.33-38a

DOMINGO CRISTO REI

DANIEL 7.9-10, 13-14 APOCALIPSE 1.4b-8

25 NOV 2012

Cristina Scherer

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Introdução

O Domingo Cristo Rei é celebrado por decisão do papa Pio XI em 1925, por ocasião do aniversário dos 1.600 anos da realização do Concílio de Niceia em 325. O objetivo era festejar o reinado de Cristo. O nome completo dessa festa era: Festa-mor ao nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei do Universo. A necessidade de celebrar o Cristo Rei ocorreu em decorrência do avanço do ateísmo e da secularização da sociedade. Era necessário afirmar a soberana autoridade de Cristo sobre as pessoas e instituições. Assim, o Domingo Cristo Rei foi instituído como arma contra as “forças destruidoras” da época, que eram uma consequência do clima político e socioeconômico daqueles anos. Posteriormente, deu-se um destaque ao caráter cósmico e escatológico da realeza de Cristo. O papa Paulo VI transferiu a festa do Cristo Rei para o último domingo do ano litúrgico, reinterpretando o seu significado e colocando-o no contexto escatológico, que é próprio desse domingo. Um estudo mais aprofundado sobre a origem dessa celebração no calendário litúrgico e sobre o sentido da mesma, do domingo da Eternidade e do dia de Finados encontra-se na tese de mestrado de Tânia Cristina Weimer, mencionada na bibliografia. As leituras do último domingo do ano eclesiástico apresentam a realeza de Cristo com imagens bíblicas que expressam o caráter espiritual de Cristo. As leituras destacadas para esse domingo são as de Daniel 7.13-14 (a vinda do Filho do Homem) e de Apocalipse 1.5-8 (Cristo – o Senhor dos senhores, sobre todos os reis terrenos). O colega Odair Braun, que fez um comentário mais extenso sobre as leituras bíblicas do dia, afirmou: “Anunciar Jesus Cristo como Rei não deve levar-nos ao triunfalismo. Pelo contrário, deve levar-nos a crer no resgate da verdade e da dignidade, na renovação da vida e da sociedade a partir da boa-nova trazida e anunciada por Jesus Cristo” (PL 31, p. 296). O texto de pregação destaca o diálogo entre Jesus e Pilatos (Jo 18.33-37), que quer ajudar a comunidade cristã a acolher o reinado que se expressa na verdade. O critério da existência do reinado de Cristo é a verdade, pois somente ela é capaz de libertar o povo e conduzi-lo ao reino de paz e justiça. Cristo é rei para trazer vida plena a seu reinado, para criar um povo real, livre de qualquer escravidão humana. A realeza de Cristo é universal e tem um poder real sobre tudo e todos.

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Domingo Cristo Rei

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Exegese

Os diálogos entre Pilatos e Jesus giram em torno dos títulos concedidos a Jesus. As autoridades judaicas levam Jesus perante a autoridade romana (18.2819.16a) para que essa julgue “corretamente” o fato de um homem do povo judeu ser chamado de “rei dos judeus” ou “Messias” e “Filho de Deus”. Esses dois títulos conferidos a Jesus são apresentados nos quatro evangelhos. Chama a atenção que esse interrogatório acontece dentro e fora do Pretório (local dos processos judiciais). Conforme João 18.28, a conversa de Jesus com Pilatos acontece dentro do palácio do governador romano. Mais tarde, numa segunda conversa (Jo 19.8-12), o tema gira em torno da origem de Jesus e de seu poder. Interessante é observar que os judeus que acusam Jesus não entram no palácio: todas as acusações são feitas do lado de fora do mesmo. Isso se deve ao fato de que naquela noite os judeus iriam celebrar a Páscoa e assim não deveriam estar contaminados, impuros, por entrar num ambiente “pagão”. É o governador que sai e vai ao encontro deles. Entregam Jesus sob a alegação: “Se não fosse esse homem um malfeitor, não o entregaríamos”. Ao invés de uma acusação concreta sobre a pessoa de Jesus, surge uma afirmação imprecisa: ele é um malfeitor. Dessa forma, o julgamento do “mundo” sobre Jesus já está feito. No Evangelho de João, o processo de Jesus torna-se objeto de interesse público. Pilatos não deseja se envolver na questão que lhe é trazida. Pede às autoridades judaicas que julguem, elas mesmas, o caso, conforme “a vossa lei”. Mas essas não aceitam e afirmam ser esse um caso de blasfêmia e subversão, o que também diz respeito ao Estado romano; por isso exigem uma posição. Os judeus não querem aplicar a sua lei, pois anteriormente é expresso “não nos é permitido matar ninguém” (Jo 18.31b). João deixa claro que a jurisdição dos judeus era limitada, sendo que podiam instituir processos segundo a lei judaica, emitir sentenças, porém não podiam executar a pena capital. Pilatos não deseja se envolver diretamente no caso e tenta dar uma solução que lhe trará menos problemas, devolvendo a questão para os judeus e, no fim, lava suas mãos como expressão de indiferença e fuga da verdade. Pôncio Pilatos executa um interrogatório para saber qual é a culpa de Jesus. Esse alto funcionário do Estado romano passa a fazer parte da história do cristianismo, sendo até mencionado na confissão de fé (Credo Apostólico). Ele foi enviado como procurador para a Judeia durante o governo de Tibério e exerceu o poder durante dez anos (26-36 d.C.). Era conhecido por agir em seu governo com tirania, corrupção, crueldade, sendo citado por Filon como “de natureza inflexível, obstinado e duro” (BLANK, 1991, p. 68). A iniciativa da prisão e morte de Jesus partiu dos sumos sacerdotes e saduceus. Porém a autoridade romana, na pessoa de Pôncio Pilatos, tinha em suas mãos a responsabilidade do supremo poder de decisão. Ele proferiu a sentença de morte contra Jesus. Nos evangelhos de Lucas e João, há a tendência de culpar mais as autoridades judaicas do que Pilatos na sentença de morte de Jesus.

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Sabe-se, porém, que Pilatos não ajudou Jesus em seus direitos, mas decretou uma sentença de morte injusta ou pelo menos consentiu com ela. Eis que começa o diálogo. Pilatos pergunta: “Tu és o rei dos judeus?”. Essa pergunta é a mesma nos quatro evangelhos, bem como a resposta de Jesus: “Tu o dizes”. A diferença do Evangelho de João para os outros é a interseção (v. 34-36) que há entre a pergunta de Pilatos (v. 33) e a resposta de Jesus (v. 37b). Também há uma diferenciação no que diz respeito à interpretação da resposta, texto próprio do discurso joanino (v. 37b). Pilatos acolheu a acusação dos judeus (v. 34 e 35), pois acusaram Jesus de ser pretendente a Messias, sendo acusado de “rei dos judeus”. Pilatos não o chama de rei de Israel, mas rei dos judeus, demonstrando assim desprezo e desrespeito para com o povo que esperava ardentemente a vinda do rei libertador, o Messias (Jo 1.49; 12.13; 6.14). A autoridade romana sabe que a pretensão de querer ser o “rei dos judeus” não é motivo para condenar Jesus e pergunta: O que fizeste? (v. 35b). Sabe que precisa de um fato jurídico palpável. Talvez Pilatos esteja inclinado, a partir dessa pergunta, a considerar Jesus realmente inocente. Agora Jesus pode expor seu próprio conceito de “rei” e “realeza”. Jesus passa a dar seu testemunho e afirma: “Meu reino não é deste mundo”, ou seja, sua origem não se baseia numa constelação de poder humano-política, mas está totalmente radicada na esfera divina. Jesus não responde se é rei ou não, ele não entra no jogo de Pilatos, pois sabe que Pilatos e as autoridades judaicas entendem o reinado como extensão da política humana, sedenta pelo poder opressor e dominador. Jesus não é esse tipo de rei. Por isso diz que seu reinado não é deste mundo, fazendo alusão ao mundo de cima (reino de Deus) e ao mundo terrenal (reino humano), conforme João 8.23. O reinado de Cristo sobre a humanidade é o tema central de nossa perícope. Esse texto possui paralelo com os sinóticos: Marcos 15.1-5, Mateus 27.11-14 e Lucas 23.2-5. Porém o diálogo a respeito da verdade é exclusivo do Evangelho de João. Interessante é observar que algumas palavras se repetem no texto e dão uma entonação sobre o sentido do mesmo. Aparecem três vezes as seguintes palavras: basileia (reino), basileus (rei), kosmos (mundo), aleteia (verdade). No Evangelho de João, não aparece a expressão “reino de Deus” assim como nos outros evangelhos, mas aparece com frequência a afirmação de Jesus: “meu reino não é deste mundo”, afirmando assim que sua realeza não depende do poder mundano, mas de Deus somente. Pilatos não entende esse reinado que Jesus veio inaugurar, que transcende o poder político corrupto. Pilatos deseja que Jesus se confesse como messias político meramente. Jesus nunca designou a si mesmo como “messias”, em grego, christos, palavra derivada do verbo chrio (ungir) e tradução do hebraico mashiach (ungido). Pilatos só pensa em defender o seu território e poder opressor e afirma: “Então tu és o rei?”. E Jesus responde, sem desmentir a formulação de Pilatos, pois essa contém parte da verdade: “Tu o dizes”. E segue falando sobre sua missão: “Eu vim para dar testemunho (martireso) da verdade, e quem está do lado

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da verdade, aquele que é da verdade, escuta a minha voz” (confira Jo 10.16: as ovelhas conhecem a voz do bom pastor). Sua realeza demonstra-se no serviço ao próximo, a fim de promover vida, abrindo mão do poder que escraviza e oprime. A realeza de Jesus quer ser reconhecida neste mundo, mas não segue as regras do jogo dos poderosos. Sua opção é ser rei para servir e doar-se em favor do mundo. Aderir ao reino que Jesus propõe é aderir à verdade, não significa fugir deste mundo, de seus conflitos e opressões, mas lutar baseado na verdade para que haja justiça, libertação, solidariedade, responsabilidade e compromisso, vida plena. E a verdade liberta aqueles que aderem ao projeto do reino de Deus, que não vai ser inaugurado neste mundo, mas no eon vindouro, no novo céu e na nova terra (Ap 21). Pilatos está preso à forma de pensar o mundo como ele mesmo conhece, fundado na mentira, opressão, desrespeito, falsidade. Não está apto a abrir-se à verdade que liberta e promove vida, assim como as autoridades judaicas também não estão. Pilatos termina o interrogatório de Jesus com uma pergunta lançada no ar: “A verdade, o que é a verdade?”. E, ao deixá-la no ar, dá a entender que é a sua verdade, a sua forma de pensar que vai imperar, pois ele não está interessado em saber a versão de Jesus e aprender dele. Está fechado para a verdade que liberta. Prefere aderir à “verdade” cômoda que lhe confere status, poder e domínio. Ao finalizar o interrogatório, Pilatos vai para fora e dá uma satisfação às autoridades judaicas, afirmando não ver nenhum motivo para condenar Jesus.

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Meditação

Esses dois temas devem estar bem presentes na pregação do último domingo do ano eclesiástico. Jesus pretende instaurar seu reino neste mundo, mas não da forma como este mundo pensa e vê a realidade. Jesus quer instaurar sua realeza de Rei servidor com o testemunho da verdade e com a prática da não violência, da justiça, da lei do amor ao próximo, inclusive aos inimigos. É um reino que não é deste mundo, mas está neste mundo e nele deseja proclamar suas exigências. Ao proclamar sua realeza (v. 36), Jesus o faz em forma de testemunho (martiria). Não se trata de um “conhecimento” somente, mas de uma “confissão de fé” que perpassa toda a sua vida e forma de ser. Isso nos conduz ao segundo tema da pregação: a verdade. Quem de fato vive e testemunha a realeza de Cristo neste mundo dá testemunho da verdade. E ela é parâmetro para a ação de “reinados mundanos”. A pergunta que Pilatos faz: “O que é a verdade?” leva a crer que ele mesmo não tem conhecimento nenhum da verdade e adia sua decisão final, demonstrando ter se tornado um mero instrumento nas mãos de autoridades locais. Pilatos somente poderia conduzir bem o processo contra Jesus se estivesse pautado na justiça, sendo neutro e tolerante, assumindo a posição que se coloca à disposição da exigência da verdade, sendo que Jesus mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Somente essa verdade é capaz de libertar todos os seres humanos. Jesus, em todo o seu ministério, deu testemunho da verdade e opôs-se à mentira que gera a incredulidade e a não aceitação do amor e da graça de Deus neste mun-

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do. Estar aberto à verdade, dar testemunho somente dela e não de meias-verdades ou de “nossas verdades” é o desafio enquanto ainda estamos neste mundo. A celebração deste domingo deverá conduzir a comunidade para o testemunho da verdade que liberta de cegueiras e miopias espirituais e abrir as vistas e os corações para o reinado daquele que veio nos servir e ensinar o caminho do amor que produz vida plena.

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Subsídios litúrgicos

Versículo de aclamação do evangelho ou de saudação: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim” (Ap 22.13). A poesia abaixo sobre a verdade poderá ser usada para finalizar a prédica. Após, cantar o hino 70 do cancioneiro O Povo Canta: A verdade vos libertará! A verdade A porta da verdade estava aberta, Mas só deixava passar Meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, Porque a meia pessoa que entrava Só trazia o perfil de meia verdade, E a sua segunda metade Voltava igualmente com meios perfis, E os meios perfis não coincidiam com a verdade... Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta, Chegaram ao lugar luminoso Onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades Diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. (Carlos Drummond de Andrade)

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Domingo Cristo Rei

Confissão de fé: O Senhor da minha fé Não creio no deus dos magistrados, nem no deus dos generais ou das orações patrióticas. Não creio no deus dos hinos fúnebres, nem no deus das salas de audiências, ou dos prólogos das constituições ou dos epílogos dos discursos eloquentes. Não creio no deus da sorte dos ricos, nem no deus do medo dos opulentos ou da alegria dos que roubam do povo. Não creio no deus da paz mentirosa, nem no deus da justiça impopular ou das venerandas tradições nacionais. Não creio no deus dos sermões vazios, nem no deus das saudações protocolares ou dos matrimônios sem amor. Não creio no deus construído à imagem e semelhança dos poderosos, nem no deus inventado para sedativo das misérias e sofrimentos dos pobres. Não creio no deus que dorme nas paredes ou se esconde no cofre das igrejas. Não creio no deus dos natais comerciais nem no deus das propagandas coloridas. Não creio no deus feito de mentiras, tão frágil como o barro, nem no deus da ordem estabelecida sobre a desordem consentida. O DEUS da minha fé nasceu numa gruta. Era judeu, foi perseguido por um rei estrangeiro e caminhava errante pela Palestina. Fazia-se acompanhar por gente do povo; dava pão aos que tinham fome; luz aos que viviam nas trevas; liberdade aos que jaziam acorrentados; paz aos que suplicavam por justiça. O DEUS da minha fé punha o homem acima da lei e o amor no lugar das velhas tradições. Ele não tinha uma pedra onde recostar a cabeça e confundia-se entre os pobres... O DEUS da minha fé não é outro senão o Filho de Maria, Jesus de Nazaré. Todos os dias ele morre crucificado pelo nosso egoísmo. Todos os dias ele ressuscita pela força do nosso amor. (Frei Betto – Extraído do livro Salmos Latino-Americanos) Cantos: HPD 2, 317: Rei dos reis, Senhor dos senhores. HPD 1, 95: Jesus Cristo é Rei e Senhor, seu é o reino e o louvor, é Senhor potente, hoje e eternamente. HPD 2, 387: Eis a procissão do rei, nosso Deus. HPD 2, 384: Exaltar-te-ei, ó Deus meu e Rei, e bendirei o teu nome. O Povo Canta (OPC), 200: Eles queriam um grande rei. A letra desta canção pode ser usada na oração de confissão de pecados ou cantada pela comunidade: /: ELES QUERIAM UM GRANDE REI QUE FOSSE FORTE E DOMINADOR E POR ISSO NÃO CRERAM NELE E MATARAM O SALVADOR! :/

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Domingo Cristo Rei

1. Quantos surdos que escutaram, quantos cegos que enxergaram, quantos coxos que andaram, só eles não enxergaram. 2. Quantas pessoas de má vida se converteram e aceitaram no que viram e que ouviram, só eles o rejeitaram. 3. Quantos vinham lhe escutar e escreviam pra não esquecer, que falava brilhantemente com a luz do amanhecer. 4. Jesus Cristo aceita o homem que se entrega inteiramente, não aquele apegado ao mundo, que hora é frio, outra hora é quente. 5. Os homens seguiam a lei de Moisés e de Abraão. Só não creram que Jesus Cristo veio nos trazer a salvação. 6. Jesus Cristo é o Rei dos reis, seu mistério é muito profundo. O seu Reino é lá do céu, não é reino aqui do mundo.

Bibliografia BLANK, Josef. O Evangelho segundo João – 3ª Parte. Petrópolis: Vozes, 1991. BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João – o caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994. KONINGS, Johan. O Evangelho segundo João – amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005. WEIMER, Tânia Cristina. O último domingo do ano litúrgico – as celebrações desse domingo. Dissertação de Mestrado Profissionalizante em Liturgia. São Leopoldo: IEPG, 2003.

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PRÉDICA: JOÃO 6.25-35

AÇÃO DE GRAÇAS (FESTA DA COLHEITA)

DEUTERONÔMIO 26.1-11 FILIPENSES 4.4-9

Fernanda Pagung Reinke Erni Reinke Com gratidão ao nosso Deus dai glórias e louvor. O povo santo em terra e céu exalte-o com fervor. (HPD 241.1)

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Introdução

Quantos sinais! Seja na zona rural ou urbana, a cada novo dia, eles estão por toda parte. A graça de inspirar e expirar o fôlego da vida, de acordar e ver o raiar de um novo dia, de poder sentar à mesa para se alimentar, de descansar no aconchego do lar, de ser amparado e socorrido pelas mãos divinas, de poder sorrir, chorar, gritar, de se solidarizar, de poder orar, suplicar e interceder faz-nos crer na maravilhosa dádiva que recebemos das mãos de Deus: a nossa vida e do quanto necessitamos dele para viver. Diante desses e tantos outros sinais, outra coisa não podemos fazer senão nos apresentar diante de Deus com ações de graças e nos alegrar, senão agradecer a Deus pela dádiva do “pão da vida”. Somos inteiramente dependentes do Criador, Doador e Mantenedor da vida. Os textos bíblicos lembram justamente isso. No texto de João, Jesus diz: “Eu sou o pão da vida”. Não aquele pão que somente alimenta o nosso corpo, sustenta a vida física. Pois esse perece, não dá segurança contra a morte. Ele é o pão que subsiste para a vida eterna, que alimenta a nossa fé e nos faz crer, que nutre e sacia toda a fome e sede de vida digna, de fato. A vida é mantida por alimento material e alimento espiritual. A vida inteira, em todos os seus âmbitos, depende de Deus. No texto de Deuteronômio, o povo israelita não deixou cair no esquecimento os grandes feitos do Senhor, que o libertou da escravidão no Egito e levouo para uma terra com fartura. Como expressão de fé e gratidão, a cada ano tirava os primeiros frutos da colheita e dedicava-os ao Senhor. O povo israelita reconhecia a sua inteira dependência do Senhor e alegrava-se por todo bem recebido. Essa prática fazia parte da vida do israelita, que a celebrava junto ao levita e ao estrangeiro, que nada tinham. O texto de Filipenses conclama-nos à alegria, a não nos preocupar em demasia com alguma coisa. É um convite para colocar-nos constantemente em oração diante de Deus, com ações de graças por tudo aquilo que aprendemos, recebemos e ouvimos de bom. Os textos de João, Deuteronômio e Filipenses abordam a temática do alimento material e do alimento espiritual. Ambos os alimentos são essenciais ao ser humano, provenientes da bondade divina, razão para a alegria e para a gratidão.

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Exegese

Muitas pessoas haviam visto a cura de doentes, sinais feitos por Jesus (4.46-54; 5.1-18). Por isso elas o seguiram. E, às margens do mar da Galileia, em Tiberíades, mais um sinal, milagre: uma multidão inteira é saciada com pães e peixes (6.1-15). Vendo tudo o que tinha acontecido, concluem que Ele “é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo” (v. 14b). Sabendo da intenção do povo, Jesus vai sozinho para o monte. Os discípulos vão para Cafarnaum. Jesus fica para trás. No meio da travessia de barco, as ondas agitam-se com o forte vento. Aí mais um sinal: Jesus caminha sobre as águas e vai ao encontro dos discípulos (v. 19ss) e, juntos, seguem para Cafarnaum. Mais uma vez, a multidão procura Jesus devido aos sinais vistos. E quando descobre que Ele não está mais em Tiberíades, sai à sua procura, rumo à cidade de Cafarnaum. V. 25-27 – A multidão encontra Jesus já na cidade de Cafarnaum, cidade localizada a noroeste, às margens do mar da Galileia. Então se entende “do outro lado do mar”. Ao estar diante de Jesus, parece que, num tom de cobrança, a multidão quer saber como Ele chegou até ali. A resposta de Jesus foi praticamente uma crítica àquelas pessoas. Ele afirma, assegura e enfatiza: “Em verdade, em verdade vos digo” – que a razão e a motivação da multidão ter vindo atrás dele não foram os sinais que viu, mas o fato de ter comido e se fartado, de estar com o corpo físico saciado. Jesus esperava que a multidão o seguisse por ter enxergado os seus sinais, milagres, por crer nele, e não apenas o buscasse para se fartar de alimento material. Esse é necessário, sim. No entanto, ele estraga, não livra da morte. “Por isso trabalhai – diz Jesus – pela comida que sustenta para todo o sempre, ou seja, pela comida que alimenta para a vida eterna. Ela será dada pelo Filho do Homem”, pois o próprio Deus lhe confiou e lhe deu autoridade para isso. Jesus estimula a multidão a trabalhar para as obras de Deus e não apenas para buscar a satisfação individual e momentânea que o trabalho pode conquistar. A vida vai muito além do mero prazer de comer e trabalhar para ter. Jesus convida a viver em prol dele. Esse alimento deve ser buscado. V. 28-34 – A multidão demonstra interesse, perguntando o que Deus quer que ela faça. Com um pensamento totalmente centrado nas coisas materiais, certamente estava pensando que Jesus iria enumerar uma série de atividades que se deveria fazer. No entanto, as obras de Deus não se sustentam pelo que perece. Mas elas são nutridas e sustentadas pela fé naquele que ele mesmo enviou ao mundo – em Jesus. Como se já não bastassem tantos sinais, milagres feitos por Jesus, a multidão ainda pede outro sinal, milagre para ver e crer nele. Faz alusão a um sinal muito marcante na história do povo israelita: o maná que desceu do céu e saciou os seus antepassados no deserto. Esperava-se de Jesus também um grande sinal diante dos seus olhos. Em outras palavras, a multidão só iria crer vendo. Imediatamente, Jesus desmonta a multidão e é enfático ao afirmar que o maná não foi obra humana, obra de Moisés, mas quem deu a eles o maná foi seu Pai, Deus, pois somente ele é quem envia o verdadeiro “pão do céu”. Está difícil para a multidão compreender que a vida dada por Deus não se resume à comida.

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Acaba, mais uma vez, pedindo apenas pelo alimento que perece e não se deixa fartar pelo verdadeiro “pão”. V. 35 – De fato, a mentalidade da multidão não consegue ir além das necessidades do corpo físico. Jesus não vê outra maneira senão declarar com todas as letras: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede”. Jesus identifica-se com uma necessidade básica de toda e qualquer pessoa: o pão/alimento. O trigo morre e é moído. É transformado em pão, que sustenta a vida. Da mesma maneira, Jesus morre e é moído, dá o alimento da fé, que sustenta na e para a vida eterna. O ser humano depende da bondade divina para conseguir o alimento diário e a vida eterna. Tanto o pão material como o pão espiritual são provenientes de Deus. Quem se alimenta com e por esses pães tem a vida nutrida e fortalecida para realizar as obras de Deus. Trabalha com e pelo “pão da vida”. Leva consigo os nutrientes da fé produzidos por esse pão e, em gratidão e alegria por ter sido saciado, sacia a fome e a sede de tantas e tantas pessoas que estão por aí desnutridas de fé, solidariedade, partilha, comunhão, esperança, gratidão e alegria.

3  Meditação Quantos sinais! Quantos milagres divinos estão acontecendo diariamente em nossa vida e nós nem nos damos conta disso! Ao contrário, queremos sempre ver mais e mais sinais. A criação e os evangelhos estão recheados de sinais e milagres de Jesus. Pensemos no maravilhoso milagre que ocorre com as sementes lançadas na terra. Lembremos da multidão que foi alimentada por Jesus e ainda sobrou comida. Não fossem a generosidade e a bondade de Deus, nem no campo, tampouco na cidade, nem agora, tampouco outrora haveria alimentos, nem mesmo colheitas. No dia em que celebramos a Ação de Graças pela Colheita, o milagre da vida está diante dos olhos, ouvidos, de todo ser. Em meio a isso, o coração alegrase e agradece a Deus por todo o bem e boas dádivas. Ou se pedem ainda mais sinais, milagres para então crer no Filho do Homem? A multidão do texto do Evangelho de João vê e experimenta um milagre de Jesus: é alimentada pela multiplicação dos pães e peixes. Depois de comer, segue Jesus. Quer mais pão. No tempo de Jesus e hoje em dia, ter pão é primordial. Naquela época, o povo era explorado, principalmente pelos romanos. A vida na Galileia não era fácil. Muitas pessoas passavam por necessidades, falta de alimento. Quando se olha para aquela realidade de miséria e pobreza e se pensa nas muitas pessoas que nessa hora estão com o estômago doendo por não ter comida, parece até irônico imaginar que Jesus pediu para que não se trabalhasse pela comida. No entanto, Jesus não despreza o alimento. Sabia e sabe de sua necessidade. Caso contrário, não teria alimentado aquela multidão, não teria ensinado a pedir pelo pão nosso de cada dia. Jesus esperava que a multidão o seguisse por ter enxergado os seus sinais, milagres, por crer nele, e não apenas o buscasse para se fartar de alimento material. Quantas pessoas, à semelhança da multidão, buscam Jesus só para pedir

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por chuva, por sol, por saúde para trabalhar, visando somente ao pão material, e vivem em sua mesquinhez, ganância, querendo sempre mais e mais fartura. Jesus alerta para o fato de que a vida não se resume apenas ao trabalho, a fim de se obter a comida que alimenta o corpo físico. Tudo isso passa, estraga e não livra da morte. Jesus estimula a multidão a trabalhar também para as obras de Deus, e não apenas a buscar a satisfação individual e momentânea que o trabalho pode conquistar e dar. Trabalhar para a obra de Deus é crer no enviado de Deus – Jesus Cristo. As pessoas assim são convidadas a fartar-se de fé com esse “pão da vida”, seja na lavoura, no escritório, na rua, em casa, na escola, no carro, com o alimento do “pão da vida”. O trabalho nas obras de Deus alimenta a fé, fortalece a vida e nutre a esperança da vida eterna. O “pão da vida” fortalece a fé, sustenta a solidariedade, a esperança, a partilha e leva à gratidão e à alegria. Esse pão sustenta para todo o sempre. Oxalá, o ser humano soubesse sempre se alimentar também com o “pão da vida” em tudo o que viesse a fazer. Não haveria mais fome e nem sede de vida – vida digna. Os sinais, milagres da presença de Deus no mundo não passariam despercebidos, e muitas realidades seriam transformadas, como bem ilustra a história a seguir. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, um médico que vivia na Alemanha faleceu com a idade de 89 anos. Após uma semana de seu falecimento, os seus filhos encaminharam o inventário. Certo dia, olhando um pequeno armário que era do pai, os filhos encontraram nele algumas preciosidades guardadas. Naquele pequeno armário, havia um colar de pérolas da mãe, uma plaquinha de prata que o médico havia recebido na universidade, um objeto de marfim que trouxera da África e um pedaço de pão duro e seco. Os filhos procuraram entender a razão para que um pedaço de pão duro e seco estivesse junto às preciosidades guardadas pelo pai. No entanto, mesmo depois de muito pensar, não conseguiram encontrar explicação. Quando foram almoçar, compartilharam com uma antiga cozinheira da casa o que haviam encontrado. E foi então que ela contou aos filhos daquele médico: Depois da guerra, havia pouca comida na Alemanha. O pai de vocês estava doente, e um senhor bem idoso veio visitá-lo e deu-lhe aquele pedaço de pão que vocês encontraram. Porém o pai de vocês se recusou a comê-lo e o mandou para a vizinha, que estava com a sua filha também bastante doente. Eu me lembro até hoje das palavras ditas pelo pai de vocês naquele dia: “Eu já estou bastante velho, mas aquela criança está no começo de sua vida. Vá e leve este pão para ela e sua filha”. A vizinha, então, agradeceu ao ter recebido o pão, mas o enviou a um senhor idoso que ela conhecia há anos. Esse também não ficou com o pão e mandou-o à sua filha, que morava com duas crianças num porão perto dali. Essa mulher, disse a cozinheira, era uma paciente de seu pai. Quando ela soube que o pai de vocês estava doente, trouxe o pedaço de pão para ele. Quando ele olhou para aquele pão em suas mãos, percebeu que se tratava do mesmo pedaço de pão que havia recebido e mandado à vizinha. Ele, emocionado, com lágrimas nos olhos, disse: “Enquanto permanecer vivo entre nós o amor que reparte seu último pão, não temo pelo nosso futuro. Este pão saciou a fome de muitas pessoas, sem que ninguém tivesse comido dele um pedaço sequer. Vamos guardá-lo bem,

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e quando o desânimo se abater sobre nós, olhemos para ele”. Quando a antiga cozinheira encerrou suas palavras, os filhos daquele médico compreenderam a ação do pai e decidiram deixar entrar em seus corações o amor que reparte e anima. Os sinais, milagres de Jesus estão aí, como bem vimos na história. O “pão da vida” é para todos, e podemos sempre reparti-lo com as pessoas à nossa volta, de modo que ninguém fique com fome e sede de vida. Quantas pessoas foram alimentadas com o “pão da vida”! Quantas pessoas estão morrendo nesta hora, embora tenham pão em abundância, porque lhes falta ou se negam a comer do “pão da vida”. Celebrar Culto de Ação de Graças (Festa da Colheita) é ser grato a Deus pelo pão diário e pelo “pão da vida”. É colocar-se em oração diante de Deus não para pedir mais, mas para agradecer. É estar com o coração repleto de alegria pelo sustento do corpo físico, pelo sustento da fé que perdura para todo o sempre. É saber agradecer a Deus e trabalhar para a partilha do pão que Ele mesmo nos dá agora e que subsiste para todo o sempre. Não espere por mais sinais, milagres para alimentar-se com o “pão da vida”.

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Imagens para a prédica

Simbologia – Pedir a um ou mais grupos da comunidade para preparar com antecedência uma quantidade suficiente de pãezinhos, de modo que cada pessoa que esteja no culto receba um. Envolver cada pãozinho num papel celofane e amarrar com fitilho. Se possível, ainda colocar um pequeno cartão em cada um com o versículo bíblico de João 6.35. Recepção – Combinar com uma pessoa para que fique à porta, sentada, tendo em suas mãos uma Bíblia aberta. A seu lado colocar uma cesta com os pãezinhos. À medida que cada pessoa for chegando para o culto, entregar a ela um pãozinho. Enfatiza-se, assim, a dependência humana de Deus e ressalta-se a necessidade de alimentar-se material e espiritualmente.

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Subsídios litúrgicos

Versículo de acolhida: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para vocês” (2Ts 5.18). Entrada com símbolos/objetos: Ao som de uma música instrumental, pessoas idosas, homens e mulheres, jovens, adolescentes e crianças entram levando até o altar os símbolos/objetos sugeridos. À medida que cada pessoa vai entrando com o símbolo/objeto, anunciase: Enxada – ferramenta de trabalho para revolver o solo; Sementes – esperança lançada na terra; Planta – transformação – milagre da vida doada por Deus; Flores – prenúncio dos frutos que hão de ser colhidos; Frutos – cesta com pãezinhos e Bíblia – bondade de Deus que propicia a colheita e nos alimenta. Obs.: Cada comunidade deve adequar esses símbolos/objetos de acordo com a realidade de trabalho local.

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Confissão de pecados: Querido Deus, de joelhos eu chego a ti! Vou te falar; por favor, queiras me ouvir. Quantas vezes deixei de orar, quantas vezes deixei de lutar. Quantas vezes não quis perdoar. Quantas vezes deixei de amar. Quantas vezes neguei o perdão. Quantas vezes briguei com os irmãos. Quantas vezes eu disse “eu não”. Quantas vezes passei por ladrão. Senhor, perdão, Senhor! Quantas vezes falaram de ti. Quantas vezes matei e fugi. Quantas vezes falei e menti. Quantas vezes deixei de te ouvir. Nessa hora, eu peço perdão. Nessa hora, eu quero te ouvir. Nessa hora, ensina-me a amar. Nessa hora, recorro a ti. Perdão, perdão, Senhor! Querido Deus, de joelhos falei minha dor! Perdão, Senhor! Perdoe-me, pois sou pecador! Obs.: Essa confissão de pecados foi escrita (letra e arranjo) por Tales Plantikow, membro da IECLB em Alta Floresta do Oeste/RO. É uma confissão de pecados cantada e possui partitura. Onde não for possível cantá-la com a comunidade, pode-se providenciar e distribuir cópias com a letra e fazê-la de forma lida, em conjunto com toda a comunidade. Bênção: Convidar as pessoas para envolver com os braços quem estiver ao lado. Em seguida, canta-se ou profere-se a letra da canção “Bênçãos virão”. A partitura da mesma encontra-se no anexo 2 do “Manual de Bênção Matrimonial”, da IECLB.

Bibliografia NOVO TESTAMENTO INTERLINEAR GREGO – PORTUGUÊS. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004. ALLMEN, Jean-Jacques von. Vocabulário Bíblico. São Paulo: ASTE, 2001.

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS NOS VOLUMES I – XXXV Advento – Celebração........................................................................................................XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio.....................................................................................................XV, 304 Ação de graças....................................................................................................................... XII, 300 ........................................................................................................................ XX, 322; XXXIII, 394 Ação de graças pela colheita..........................XXXII, 212; XXXIV, 371; XXXV, 370; XXXVI, 365 Achados e perdidos – experiências..................................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.13-17)......................IX, 34 Armas da morte: “Quem brinca com fogo acaba se queimando” (Zc 9.9-10)............................ X, 91 Associação popular: “A união faz a força” (Ne 5.1-12)............................................................IX, 83 A velhice....................................................................................................................................VI, 43 Batismo, alocução para .....................................................................................................XXVI, 357 Batismo, culto de..............................................................................................................XXVII, 299 Bênção matrimonial..............................................................................................XIX, 310, 317, 319 (Jr 29.13)................................................................................................................... XX, 351 (Ct 8.7)...................................................................................................................... XX, 353 (Ec 4.9-12)................................................................................................................XXI, 329 (Ct 1.2-3)................................................................................................ XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte...............................................................................................................................XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31)........................................................................................................ X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11).....................................................................................IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35)...................................................................................VI, 40 (Sl 133.1-3)............................................................................................................. XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28)............................. XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4).......................... X, 84 Componentes éticos da organização popular...................................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16)................................................................................................. X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16)......................................................................................................... II, 187 (Dt 30.11-20).............................................................................................................. VIII, 23 (Jo 6.66-69)............................................................................................................... XII, 293 (Mt 5.14-16).............................................................................................................. XX, 339 (Ap 1.9-18)................................................................................................................ XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20)......................................................... XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5)......................................................... XIII, 18 “Criança, não verás país nenhum como este!” (Êx 1.8-22).....................................................IX, 107 Culto batismal (Is 43.1).........................................................................................................XXI, 326 Culto de Batismo............................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O)........................................................................................... XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13)...................................................XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15)................................................................................V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42)............................................................................................ XX, 346 Culto eucarístico (alocução para)....................................................................................... XXIII, 237 (Lc 22.14-15)............................................................................................................. XX, 349 Culto para o Dia dos Povos Indígenas................................................................................ XXII, 295 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2)........................................................ XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34)................................................ XII, 27 Deus na marginalidade..............................................................................................................XVI, 9 Dedicação de templo..........................................................................................................XXVI, 361

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Dia das Crianças (Zc 8.1-8)............................................................................................... XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22)..........................................................................................I, 68 (Jo 4.31-38).................................................................................................................. II, 256 (Ec 3.1-8).......................................................................................................................VI, 48 (1 Tm 4.4-5)............................................................................................................. XIII, 298 (Mt 13.24-30,36-43).............................................................................................. XVIII, 289 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15)....................................................................................................V, 323 (Dt 26.1-11)............................................................................................................... XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15)......................................................................................................V, 330 Dia de Finados (Is 25.1,(6-7)8-9) ...................................................................................XXXIV, 353 (Fp 3.20-21)................................................................................................................... I, 143 (1 Co 15.50-58).......................................................................................................... III, 176 (1 Co 15.35-39,42b-44).................................................................................................V, 256 (Mt 22.23-33)........................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14)........................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29)........................................................................................................... XVIII, 267 (1 Co 15.12-20)....................................................................................................XXXII, 311 (Is 35.1-10)...........................................................................................................XXXV, 347 (1Ts 4.13-18)...................................................................................................... XXXVI, 335 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17)..........................................................................................I, 109 (1 Tm 2.1-4)................................................................................................................. II, 336 (Mc 12.13-17)..............................................................................................................III, 138 (Hb 13.12-16)................................................................................................................V, 205 (Mt 6.9-13).....................................................................................................VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10)....................................................................................................XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11)........................................................................................................I, 125 (Jo 8.31-36).................................................................................................................. II, 383 (Rm 3.19-28)...............................................................................................................III, 169 (Mt 5.1-10).................................................................................................................. IV, 212 (Ap 14.6-7)....................................................................................................................V, 249 (Mt 10.26b-33)............................................................................................................VI, 291 (Is 62.1-12)............................................................................................................... VIII, 331 (Mt 10.26b-33)....................................................................................XII, 268; XXXIV, 347 (Gl 5.1-6).............................................................................................XIII, 267; XXXV, 341 (Fp 2.12-13)................................................................................................................XV, 282 (Jo 8.31-36)........................................................................................................... XVII, 225 (Mt 5.1-10)...........................................................................................................XXXII, 307 (Jr 31.31-34)....................................................................................................... XXXVI, 329 Dia de Penitência (Is 1.10-17)................................................................................................XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15)...............................................................................................III, 62 (2 Ts 3.6-13)....................................................................................................................V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a).............................................................................................. II, 213 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31).......................................................................................VI, 170 (Tg 5.1-6)................................................................................................................. XIII, 285 Dia dos Pais (Pv 4.10-19).....................................................................................................XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct)..........................................................................................XXI, 316 Domingo de Louvor através da Música.......................................................................... XXXIII, 401 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)]).............. XII, 307 (Ap 3.14-22)............................................................................................................. XIII, 304 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9; Jo 12.12-16)............................................... XX, 309; XXXVI, 134 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-15)........................................................................... XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18).................................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25)............................... XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21).................................................................................... XIII, 60

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Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25)...................................IX, 15 Epifania, reflexões para o período de................................................................................XXVII, 303 Época da Paixão I (Is 55.6-7).....................................................................................................VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46)..............................................................................................VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4)...................................................................................................VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30)............................................................................................VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15)............................................................................................IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18).........................................................................XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores.......................................................................... XIV, 60 Exercício homilético................................................................................................................ XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...”........................................................................................... XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do reino de Deus? (Ec 3.9-15)............................................... X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo...................................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4)............................................................................XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19)............................................................ XIII, 80 (Is 65.17-25).............................................................................................................. XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação? (Jz 2.11-15).........................................................XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana............................................................................ XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20)............................................................................................... XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19)........................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a)............................................................................ XIII, 312 Introdução a Dêutero-Isaías.................................................................................................... VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29)............................................................... X, 74 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer........................................ XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida...................................................XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay........................................................................................XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas..............................................................................................XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16)..................................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18).........................................................................IX, 57 Marketing e igreja................................................................................................................... XXIV,7 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28)................................................................XI, 77 Meditação sobre a oração ..................................................................................................XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37)..............................V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos...............................................................V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43)...............................................XI, 65 Missão (1 Co 12)..................................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “Alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10)....... X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45)................................. X, 106 Mulheres agricultoras..............................................................................................................XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31)..................................................IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18)............................................................ X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus............................................... II, 176 Lucas ........................................................................................................................... X,139 João ............................................................................................................................ VIII, 7 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25)................................................................. XII, 34 O desafio de ser autor de PL.....................................................................................................XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças................................................................................XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas..................................XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22)............................................... X, 48 O Lecionário Ecumênico........................................................................................................XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo...............XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10).................................................................................. XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15)..................................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia............................................................................................. XIV, 91

373


Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6)..................................IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37)...................................................... XXII, 304 Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112)............................................................ XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens..................................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia)................ XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6).......................................................................... X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21)..............................................................VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17)........................................................VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21).......................................................VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12])........................................................................ XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12).....................................................................IX, 50 Quem não faz política sofre política (1 Rs 12.1-15)..................................................................XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia....................................................................XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38).................................................................. XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB ..........XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16)..................................................................XI, 85 Semana do excepcional....................................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas............................................................................................. XXIV, 347 Sepultamento.............................................................................XIX, 321; 323; 325; 327; XXIII, 240 (Jo 6.28-40)............................................................................................................... XX, 355 (Jo 19.25-27)............................................................................................................. XX, 360 (Sl 39.5-7).................................................................................................................. XX, 362 (Sl 142.1-2,5a)..........................................................................................................XXI, 336 (Ec 3.1-8)............................................................................................................ XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26).............................................................................................................XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39).......................................................................IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém..........................................................................................................XVI,37 Tendências atuais de valorização das nações de indivíduos, individualidade na sociedade e influências dos novos movimentos religiosos nesse quadro................. XX, 7 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14)................................................................ XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35)....................................................IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra................................................................................. XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados.................................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos.......................................................................................................... XVIII, 297 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10)....................................................................................XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O)........................................................ XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8).....................................................XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-15)....................................................................... XIII, 74 Vigília pascal.........................................................................................................................XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8)................................................................................................. XII, 61

374


PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXVI ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a, 26-31; 2.1-4a . .......... VIII, 185 1.26-31; 2.1-3.................................. III, 105 2.4-15...................................... XXVIII, 301 2.4b-15..........................V, 330; XXXV, 211 2.7-9,15-17; 3.1-7....... XXX,66; XVIII, 84; .................................................. XXXV, 127 2.8-15............................................. XIII, 74; 2.18-24...................... XXII,254; XXV, 282; ................................................ XXXIII, 343 3.1-9............................................... XII,170; 3.1-19(20-24)................................ XXV,214 3.1-24................................................VI,133 4.1-16...............................VII,203; XIII,246 8.1-13...............................................XV,135 8.15-22..................................... I,71 (68); 78 11.1-9............................. XII,205; XVII,130 12.1-4............................................ XVIII,88 12.1-4a.......................................... VII, 165; 15.1-6.....................XXVI,256; XXXIV,283 17.1-13.........................................XXVII,40 18.1-10a(10b-14)............................ XX,208 18.20-21(22)23-32.......................... XX,214 21.8-21............................................. XIII,60 22.1-13..............................................VI,144 22.1-14(15-18)................................XXII,65 28.10-17(18-22)..............................XXII,71 32.23-31........................................XVII,240 32.23-33....................................II,207 (374) 50.15-21................. XXIV,272; XXVII,240; ................................................... XXXV,295 Êxodo 1.8-22......................................... IX,107 2.1-10....................................... XXVIII,181 3.1-14...............................................XII,154 3.1-8,13-15.................................. XXVI,108 6.2-8...........................XVIII,218; XXX,214 12.1-14........................................... XXI,108 13.20-22.......................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30)..... XXVIII, 276 16.2-4,9-15............................... XXXVI,251 16.2-3,11-18....................................XIV,283 19.2-8a .......................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17.............XXII,75 22.21-27......................................... XXI,280 24.1-11.......................................XXXII,123 24.3-11 ... XVI,224; XXV,164; XXVIII,272 24.12,15-18................... XXI,78; XXXII,79 32.7-14 . ....................... XV,225; XXIII,177 33.18-23............................................VI,102 34.4b-10..............................III,153; XV,273

34.29-35........................................ XXV,123 Números 6.22-27......... XXXIII,58; XXXVI,48 11.11-12,14-17,24-25..................... VIII,205 11.24-30.....................................XXXII,169 12.9-16...............................................XII,18 21.4-9..............VII,101; XIII,159; XXII,80; ................................................. XXXIII,146 24.15-19...........................................XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8...................XXII,235; ................................................. XXXVI,274 4.32-34, 39-40 .........................XXVII, 148 5.12-15............................................... III, 43 6.1-9........................................ XXXIII, 373 6.4-9...............................XV, 246, XIX, 164 7.6-12...............................................VI, 219 8.6-10................................................XII, 11 10.12-22..................................... XXVI, 336 11.18-21,26-28.........XXI, 164; XXXII, 184 17.14-20............................................XII, 51 18.15-20... XIX, 67, XXXI, 57; XXXIII, 92 24.14-15.............................................IX, 63 26.1-11.................................... XXXIII, 394 26.3-11......................................... XXVI, 91 30.9-14.....................................XXXIV, 257 30.11-20.......................................... VIII, 23 30.15-20................XXXIV, 303; XXXV, 93 32.36-39........................................ XXIII,79 34.1-12.........................XVII, 74; XXIX, 77 Josué 1.1-9..............................................VII, 36 8.1-8...................................................XII,61 24.1-2a,13-25.................................... III,117 Juízes 4.1-7......................................XXXII,319 5.24-31................................................. X,37 9.7-15..................................................IX,98 Rute 1.1-19a..................................... XXIX,289 1 Samuel 2.1-10.............. II,176 (343); VII,113 3.1-10(19)......................XIX, 55; XXXI,44 3.1-10,19......................................... XXV,86 11.1-15................................................V,337 2 Samuel 7.1-11,16 . ....................... XXXVI,24 7.4-6,12,14a,16............................... XXV,35 11.26-12.10,13-15...................... XXIX,199; ..................................................XXXIV,231 12.1-10,13-14....................................IX,264 12.1-10,13-15a.................................XV,261 1 Reis 3.5-12................. XXIV,240; XXXII,236 3.16-28......................................... XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43....................XVII,141 8.22-24,26-28....................................VI,189

375


8.22-30.............................................XII,191 8.41-43....................................... XXIX, 188 17.8-16... XVI,292; XXXI,286; XXXVI,346 17.17-24.....................XVII,146; XXIX,192 19.1-8(9-13a)................................XXII,226 19.1-13a.......................XIV,185; XVIII,204 19.1-18................................................ III,92 19.4-8....................................... XXXIII,285 19.9-13a ...................................... XXX,204 19.(14-18)19-21.........XVII,159; XXIX,205 2 Reis 2.1-12 . ............................... XXXVI,105 5.1-14............................................ XXXI,71 5.1-19a...............................................VII,58 Neemias 5.1-5(6-12).............................. XIII,11 5.1-12.................................................IX,83; 8.1-2,5-6.......................XX,183; XXXIV,95 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36).............. .................................................... XXXI,263 Jó 7.1-7 ..............................XIX, 73; XXXI, 63 38.1-11......................................... XXV, 221 Salmo 22.1-19................................ XXXV, 169 22.1-12,17-20.............................. XXX, 104 22.2-12,17-20..............................XVIII, 116 23.............................................. XXXV, 187 46.1-7(1-11)............................. XXVI, 313 111................................................ XXVI, 27 112....................................................XII, 77 130.4..................................................VI, 34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26....................... XX, 225 3.1-8(-13)........................VI, 48; XXXV, 51 3.9-15.................................................. X, 16 4.1-4.................................................... X, 84 5.18..................................................... X, 65 9.13-18................................................ X, 25 Provérbios 8.22-31.......................... XXIII, 109 9.1-6,10........................................XXII, 230 9.7-13......................................... XXIII, 172 16.1-9.............................................. VIII, 80 24.10-14 . .........................................XII, 45 30.5-9......................................... XXVI, 215 Isaías 1.1-9......................................... XIII, 116 1.10-17............................................XV, 297 2.1-5.................. VI, 225; XVIII, 9; XXX, 9 5.1-7............... VII, 87; XIII, 147; XXI, 252 6.1-13............................... VI, 198; XII, 213 7.10-14............................................ XXI, 37 7.10-14(15-17)...........XIII, 104; XXXII, 27 9.1-6............................................. XVIII, 31 9.1-6,10........................................XXII, 230 9.2-7...................................................V, 294 11.1-5.............................................. XVI, 63 11.1-9.......................XVIII, 58; XXXIII, 31 11.1-9(10-11)............................... XIV, 148; 11.1-10........................................XXVII, 16

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12.1-6......................................... XXVI, 114 24.12-16a...................................... XIII, 312 25.6-8............................................ XIX, 114 25.6-9.... XXI,258; XXXI,128; XXXIV,353 29.17-24..........................................XII, 233 29.18-24........................................... III, 130 30.(8-14),15-17..................................VI, 97 33.13-17,22.............................. XXXVI,187 35.1-10..XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346; ............................... XXXV, 22; XXXV, 347 35.3-7........................XXXI, 248; XIX, 237 35.3-10................................X,158; XIV,115 35.4-7a.................................... XXXIII, 315 40.1-11.. VIII,40; XIV,124; XIX,15; XXXI,9 40.25-31...........................................IX, 216 42.1-7(-9).....XXI, 51; XXV, 80; XXXV, 69 42.14-21.......................XVIII, 92; XXX, 72 43.1-7.......................................II, 132 (299) 44.1-5...................................... XXXIII, 401 44.6-8........................................ XXXV, 246 44.9- 20........................................... XIII, 50 45.1-7.......................XXI, 264; XXXII, 293 45.22-25.................................... XXVIII, 49 49.1-6................................................. III, 85 50.4-9......................II, 28, (195); XIII, 166; 50.4-9a.......................................... XXX, 94 50.4-10......................XIX, 241; XXXI, 252 51.1-6........................................XXXII, 259 52.7-10.......XV, 100; XXII, 37; XXXIII, 70 52.13-53.12................ V,72; IX,196; XV,185; ................................... XII,109; XXXVI,146 53.10-12....................................... XXV, 294 54.7-10..............................IX, 183; XV, 170 55.1-5........... III, 68; VIII, 213; XVIII, 198; .................................................... XXX, 197 55.1-9.......................................XXXIV, 120 55.6-7.................................................VI, 24 55.6-11.......................................XXXIV, 63 55.(6-9),10-12a............................. VIII, 119 55,10-11......................................XXIV, 223 56.1,6-8 . ............... XVIII, 213; XXX, 209; .................................................. XXXV, 274 58.1-9a............................................XV, 147 58.1-12........................ IX, 50; XXXIII, 125 58.5-9a .........................................XXIV, 88 58.7-12............................................XII, 300 60.1-6.. V, 11; VIII, 92; XVII, 39; XXIV, 63; . ..................................................... XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11.............................. XIII, 120 61.1-3,10-11............................. XXVIII, 20 61.1-3,11,10......................................VII, 44 61.10-62.3.. XIX, 42; XXV, 68; XXVIII, 59 62.1-5...........................XX, 23; XXVIII, 31 62.1-12.................II, 256, (423 ); VIII, 331;


62.6-7,10-12. XIX, 279; XXII, 272; XXIV, 297 63.7-9(10-16)............ XXIV, 44; XXXII, 46 63.15-64.3....................................... XIII, 91 63.15-16; 19b-64. 3................. I, 152, (159) 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7.................XXII, 9 64.1-9.......................................... XXXIII, 9 65.17-25.......................... IX, 15; XXX, 133 66.10-14..................................... XXIX, 213 Jeremias 1.4-10...................VII, 184; XIII, 228 7.1-11........................................... VIII, 257 7.1-11(12-1 5)................................XIV, 301 7.21-26.......................................... XXX, 15 8.4-7............................ VIII, 349; XIV, 390; 9.22-23...............................................VII,71 11.18-20......................XIX,246; XXXI,256 15.15-21.....................XVIII,222; XXX,220 17.5-8............................................ XXIII,55 20.7-13........................... VIII,145; XXI,181 22.13-19........................................... XIII,80 23.1-6............................................. XVI,217 23.2-6.............................................. XX,301 23.5-8................................... VI,62; XII,103 23.16-29................... II,144, (311); XIII,209 26.8-15......................................... XXVI, 97 28.5-9.........................XXI,186; XXXII,208 29.1,4-14a........................................... III,34 31.1-13.......................................... XXIX,35 31.7-9(-14).................XXV,301; XXXV, 58 31.10-13(14)...................................XVII,34 31.31-34....................XXII,85; XXXVI,329 33.14-16......................................... XXVI, 9 Lamentações 3.21-26,31-32..................VI,269 3.21-33.......................................... XXV,226 Ezequiel 2.1-5................................ XXXVI,226 2.1-8a............................................ XXV,231 2.3-8a; 3.17-19..........................II, 96, (263) 17.22-24................................... XXXIII,239 18.1-4,21-24,30-32..........................IX,247; 18.1-4, 25-37..............................XXVII,243 33.7-9.........................................XXVII,230 34.1-2(3-9), 10-16.......................... XXI,192 34.1-2(3-9),10-16,31........................VI,170; 34.11-16,23-24 . ......XXIV,328; XXXV,363 37.1-3(4-10), 11-14 . .................. XVIII,103 37.1-3,11-14................................... XXX,89 37.1-14 . ..XV,193; XXIV,117; XXXII,108; . ................................................. XXXIII,228 37.24-28........................................... VIII,55 Daniel 5.1-30.......................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) . .................. XVI,311 12.1-3......................... XIX,296; XXXI,293 Oseias 5.15-6.2....................XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6.......................................... XXI,169 11.1-4,8-9................ XXIV,323; XXVII,284

Joel 2.1-2,12-17..............................XXXVI,111 2.12-18.............................................XII,166 2.21-27.......................................XXXII,212 2.28-29........................................... XXI,153 Amós 3.1-8..........................XXIV,75; XXX,54 5.6-7,10-15............................... XXXVI,309 5.18-24....................................... XXXV,352 5.21-24...............................................VII,76 6.1-7............................................ XXIII,189 7.7-15....................................... XXXIII,264 7.10-15(16-17) . ............................ XVI,211 8.4-7........................................... XXIII,181 9.7-10................................................. X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10.............XIX,61; XXXI,52; .................................................. XXXVI,81 3.10-4.11....................................XXXII,274 Miqueias 5.1-4a......................... VI,88; XII,114 5.2-4.............................................. XXIX,21 5.2-5........... XVI,63; XXVII,29; XXXIV,30 6.1-8.......... XXIV,79; XXVII,58; XXXV,87 6.6-8................................VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4.............. XVII,219; .............................XXIX, 281; XXXIV, 327 Sofonias 3.14-18a................................... XX,20 Zacarias 7.9-10................................ XXVI,267 8.1-8 . ..........................................XXIV,337 9.9-10 . .............X,91; XIX,106; XXXI,107 12.7-10(11)...................................XVII,153 Malaquias (2.17) 3.1-5...................... XXV,207 2.17-3.5......................................... XXIII,9; NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 . XVIII,25; XXIV,29; XXX,19 2.1-12.. X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; . .............. XXVII, 46; XXXII,62; XXXV, 28 2.13-18(-23).....................V,304; XXXV, 46 3.1-12........ XVIII,15; XXIV,24; XXXV, 14 3.13-17.............. X,206; XVIII,53; XXIV,67; ..................................... XXX,44; XXXII,66 4.1-11............. IV,14; XXVII,70; XXXII,85 4.12-17.............................................XII,142 4.12-23....................... XVIII,61; XXXV, 81 4.23-25..................................XII,35; XII,34 5.1-10........................... IV,212; XXXII,307 5.1-12............................................ XVIII,64 5.13-16.............................................. X,390; 5.13-16(17-20).............................. XVIII,69 5.17-20............................................. IV,125; 5.20-37.......................................... XVIII,73 5.38-48.....II, 193, (360); X,460; XXXV, 99 6.1-4 . .............................VIII,279; XIV,332 6.1-6,16-18...............................XXXIV, 115 6.5-13........................ II, 57, (224); XIV,247

377


6.9-13.................................. VI,53; VIII,192 6.16-18.............................................. IV,133 6.24-34.......................... IV,180; XXXII,179 6.25-34 . ............................................ X,428 7.15-23.............................................. IV,140 7.21-29... XVIII,157; XXIV,178; XXX,163 7.24-27.............................................VI,233; 9.1-8.................................................. IV,198 9.9-13...... VIII,110; XVIII,161; XXXII,188 9.35-10.8..................................... XVIII,170 10.7-15....................................II, 104, (271) 10.24-39.....................................XXXII,204 10.26-33................... XVIII,176; XXX,168; .................................................XXXIV, 347 10.26b-33 . ....................... VI,291; XII,268; 10.26-36.......................................XXIV,203 10.34-39...........................................XII,274 10.34-42.....................XVIII,181; XXX,174 10.40-42.................................... XXXV, 229 11.2-10............................................... X,170 11.2-11......... III,215;; XXI,30; XXVII, 22; .....................................................XXXII,21 11.16-19,25-30...........................XXXII,221 11.25-30.. XVIII,186; XXIV,216; XXX,184 12.14-21..................................... XXXVI,63 12.22-30............................................ IV,217 12.33-35(36-37)...............................XII,307 12.38-42................... II, 225, (292); XII,175 13.1-9(18-23).......... XXI,196; XXVII, 188; ................................ XXX,189; XXXV, 240 13.24-30(36-43)......... XVIII,289; XXI,203; ...................................................XXXII,229 13.44-46.II, 150, (317); VIII,253; XIV,295; .................................................. XXXV, 253 13.44-52....................XXI,207; XXVII, 194 14.13-21.XXI,213; XXIV,245; XXVII,198; ...................................................XXXII,241 14.22-33...VI,109; XXIV,249; XXVII, 202; .................................................. XXXV, 267 15.21-28..... X,445; XXI, 218; XXVII, 208; ...................................................XXXII,255 16.13-19........................................ XXIII,40 16.13-20................ XXIV,260; XXVII, 216; .................................................. XXXV, 278 16.13-20(23)........................... II, 72, (239); 16.21-26.................. XXI,223; XXVII,222; ...................................................XXXII,264 17.1-9.............. X,216; XVIII,78; XXX,60; .................................................. XXXV, 114 18.15-20..............II, 123, (290); XVIII,226; ............................... XXX, 227; XXXV, 290 18.21-35....... X,467; XVIII,232; XXX,234; ...................................................XXXII,269 19.16-26................................. II, 182, (349)

20.1-16a..IV,7; X,221; XVIII,236; XXX,239 20.1-16.................. XXIX, 296; XXXV, 302 20.17-28........................XXI,96; XXVII, 87 21.1-9.................................... III,194; X,149 21.14-17...................... II,52, (219); XII,185 21.23-32.....................................XXXII,282 21.28-32......................... VI,247; XVIII,243 21.33-43(-46).......... XVIII,250; XXXV,315 22.1-10 (11-14) .........XXX,243; XVIII,254 22.1-14 . ..........IV,205; VI,207; XXXII,289 22.15-21(-22).......... XVIII,259; XXXV,323 22.23-33.......... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40........................................... IV,194; 22.34-40(41-46)....... XXX,253; XXXII,298 23.1-12..................II,158, (325); XXX,259; ................................................... XXXV,335 24.1-14............................. VI,68; XVIII,275 24.15-28............................................ IV,222 24.37-44.......... XXI,21; XXVII,9; XXXII,9 25.1-13............. IV,243; XI,336; XXIV,312; ..................................................... XXX,277 25.14-30... II, 233, (400); X,394; XVIII,272; .................................................... XXX, 286 25.31-37..................................... XVIII, 297 25.31-46........ IV, 231; X, 472; XVIII, 298; ............ XXI, 302; XXVII, 291; XXXII, 51; ..................................................XXXII, 324 26.14-27.66................................ XXXV,157 26.30-56..................................... XVIII, 109 26.36-46(-56)................VI, 29; XXXV, 162 26.57-75 . ....................................XXIV,122 27.11-26..................................... XXXII,116 27.33-50(51-54)............................ VIII,162; 27.33-54......................XXI,111; XXVII, 99 27.33-56..........................................XIV,201 28.1-10....... VI,167; XXIV,139; XXXV,176 28.16-20.....X,374; XXX,156; XXXIV,203; ................................................... XXXV,222 Marcos 1.1-8...................XXII,14; XXVIII,13; ................................................... XXXIII,16 1.4-11......XXII,48; XXVIII,64; XXXVI,69 1.9-15....................................... XXXIII,132 1.12-15...........XIX,79; XXV,129; XXXI,84 1.14-20... XXII,56; XXVIII,73; XXXIII, 84 1.21-28..... XVI,99; XXVIII,79; XXXVI,86 1.29-39..................XXVIII,87; XXXIII,101 1.32-39............................... VI,284; XII,261 1.40-45......... VI,258; XII,241; XXXVI,100 2.1-12........................... X,453; XXVIII,100 2.18-22........................................... VIII,105 2.23-28......... VIII,311; XIV,367; XXII,169; ................................................. XXVIII,228 3.1-6................................................... X,114 3.20-35.................... XVI,192; XXVIII,233;

378


................................................. XXXVI,209 3.31-35..............................................VI,252 4.26-29.............................................. VI,113 4.26-34...................XXII,175; XXVIII,240; ................................................. XXXVI,216 4.30.32............................................XII, 313 4.35-41...XVI,200; XXII,182; XXVIII,247; ................................................ XXXIII, 244 5.21-24a,35-43....XXVIII,253; XXXIII,378 5.24b-34.......................................XXII, 188 5.25-34..............................................XII, 27 6.1-6........XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.1-13...................................... XXXIII, 256 6.6b-13........................XIX, 201; XXV, 236 6.14-29........................... X,74; XXXVI,235 6.30-34....XIX, 206; XXV, 241;XXXI, 208; ................................................ XXXIII, 270 6.34-44 . ..................................... XXX, 247 7.1-8,14-15,21-23.....XIX, 233;XXXI, 242; ................................................ XXXIII, 309 7.24-37..................................... XXXVI,279 7.31-37.............IV, 163; X, 408; XXII, 239; ................................................ XXVIII, 307 8.22-26............................VIII,269; XIV,317 8.27-35.................... XVI,247; XXXIII, 323 8.31-38...............X,234; XIX,83; XXV,134; ................................ XXXI,91; XXXVI,121 9.2-9.....XVI,105; XXVIII,108;XXXIII, 119 9.17-29..............................................VI,278 9.30-37... XVI,255; XXII,245; XXXVI,289 9.38-50...................XXII,250; XXVIII,322; ................................................ XXXIII, 334 9.43-48....................II, 138, (305); XVI,263 10.2-12............... XXVIII,326; XXXVI,303 10.13-16................................... XXVIII,313 10.17-27........XII,256; XVI,268; XXII,260; ................................................ XXXIII, 348 10.32-45............................................. X,106 10.35-45.................. XXVIII,289; XVI,277; ............................XXXIV,270; XXXVI,316 10.46-52....................... XVI,283; XXII,265 11.1-11.................................... XXXIII, 160 12.1-12 . ............................................ X,242 12.13-17............................................ III,138 12.28-34................................... XXXVI,340 12.41-44....VI,138; XXII,281; XXXIII, 387 13.1-8....................................... XXXVI,353 13.1-13....XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31................................... XXVIII,358 13.24-37....................................... XXXVI,9 13.31-37........................................ XIV,397; 13.33-37..............................XXV,17; XIX,9 14.3-9................................ VI,149; XXII,93 14.6-9...............................................XII,181

14.12-26...................... XVI,134; XXII,104; ........................... XXVIII,144; XXXVI,140 14.17-26............................................VI,156 15.1-15(16-20)......... XVI,129; XXVIII,139 16.1-8.. IV,144; X,294; XVI,153; XXII,112; ........................... XXVIII,159; XXXVI,152 16.9-14(15-20)................VIII,173; XIV,225 16.12-18................................... XXXIII,184 16.14-20.............................................. IV,77 Lucas 1.1-4....................................... XXIII,200 1.26-33(34-37) 38............... VI,81; XII,109; 1.26-38.............. XVI,56; XIX,27; XXII,28; ................................XXVIII,26; XXXIII,24 1.39-45(46-55) . ........................... XXVI,20 1.(39-45)46-55(56) ........................... X,175 1.46-55 . .............................................V,288 1.57-66.........................................XXIV,200 1.67-79..................................V,270; VIII,30 2.1-7............................ XXX,24; XXXIV,38 2.1-7,8-14,15-20.............................. XVI,63 2.1-14........ I, 161, (168); X,181; XXXII,41 2.(1-14)15-20............. XXIV,41; XXXIV,69 2.1-20.................... III,218; IV,273; XVII,28; .. XXI,41; XXIII,21; XXIV,34; XXVII,34; ..................................... XIX,26; XXXIII,37 2.22-40....................................... XXXVI,56 2.41-52.............................................. XX,35 3.1-9....................................................V,281 3.1-14..................................................VI,76 3.7-18...........XVII,21; XXIII,15; XXIX,16; ....................................................XXXIV,24 3.15-17,21-22................... XX,40; XXVI,36 4.1-13........................... XXIII,60; XXIX,81 4.14-21...............................VI,19; XXVI,47 4.14-21(22) ........ XX,50; XX,59; XXVI,47 4.16-21............................................... X,186 4.21-30.....................XXVI,54; XXXIV,100 5.1-11... IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI,59 6.17-26............................. XX,69; XXVI,66 6.27-38............................. XX,73; XXVI,74 6.36-42...................................IV,112; X,368 7.1-10.......................................... XXVI,206 7.11-17...............................IV,186; VIII,293 7.36-50........ VIII,262; XIV,309; XXVI,220 8.4-10................................................. X,228 8.26-39......................................XXXIV,237 9.10-17........................................... VIII,241 9.18-24(25-26)............ XX,190; XXVI,226 9.28-36........XX,82; XXVI,85; XXXIV,109 9.51-56.............................................XV,167 9.51-62............................................ XX,198 9.57-62 . ............................................ X,251 10.1-11,16-20............................XXXIV,252 10.1-12,16....................................... XX,204

379


10.17-20.......................................XXIV,285 10.21-24....................................II, 82, (249) 10.25-37.........X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42...... VI,124; XVII,170; XXIII,140; .............................XXIX, 216; XXXIV, 264 11.1-13.................... XXIII,145; XXIX, 223 11.5-13..............................................VI,184 11.14-23............................. VI,297; XII,283 12.13-21 . .............. XXIII,149; XXIX, 228; .................................................XXXIV, 278 12.32-40........................................XVII,183 12.35-40.......................................... III, 226 12.41-48...........................................VI, 302 12.42-48..........................................XII, 289 12.49-53.XVII,189; XXIII,154; XXIX, 235; .................................................XXXIV, 289 13.1-9.......... XVII,83; XXIII,72; XXIX, 93 13.22-30.XVII,193; XXIII,159; XXIX, 241 13.31-35.......XVII,78; XXIII,65; XXIX, 88 14.1,7-14 . .............. XXIII,167; XXIX, 247 14.7-14 . .......................................XVII,196 14.15-24.................................. IV,96; X,354 14.25-33...... VIII,235; XX,251; XXVI, 277 15.1-3,11b-32........... XII, 220; XXXIV, 125 15.1-3,11-32.. IV, 209; XVII,88; XXIX, 100 15.1-7(8-10)....................................... X,361 15.1-10....... IV, 106; XX, 255; XXXIV, 309 15.8-32.................................... XXVIII, 265 16.1-9............................................... IV, 147 16.1-13....................... XX, 260; XXVI, 286 16.19-31....... IV, 88; XX, 265; XXXIV, 321 17.1-10....................... XX, 270; XXVI, 298 17.5-6............................VIII, 286; XIV, 346 17.7-10 . .......................... VI, 117; XII, 160 17.11-19............. IV, 172; X, 421; XX, 275; .............................XXVI, 305; XXXIV, 371 17.20-35.............................................V, 275 18.1-8a ...................... XX, 291; XXIII, 213 18.1-8........................ VIII, 343; XXVI, 325 18.9-14... IV,158; XXVIII,333; XXXIV,340 18.18-23..........................................XII, 249 18.31-43........................................ VIII, 124 19.1-10.... II, 112, (279); VIII,219; XIV,275 19.28-40...............XXVI, 121; XXXIV, 138 19.41-48.............................. IV, 153; X, 401 20.9-19.......................XVII, 94; XXIX, 105 20.27-38...............XXIII, 223; XXXIV, 359 21.5-19........................................... XX, 296 21.25-36.......... III, 209; XVII, 9; XXXIV, 9 22.7-20........................ XX,116; XXVI, 126 22.31-34 . .......................VIII,131; XIV,172 23.33-43...............XXVI, 344; XXXIV, 365 23.(26-32)33-49........XVII,102; XXIX, 119 23.33-49............................................VI,162

23.35-43........................................XVII,248 24.1-11(12)..................................... XX,127 24.1-12............................................... II,201 24.13-35........ VI,40; XXI,125; XXVII,114; ...................................................XXXII,137 24.36-49...XVI,164; XIX,128; XXXVI,162 24.44-53............... XXVIII,201; XXXV,206 24.(44-49)50-53........... XIX,148; XXII,145 24.50-53............................................ X,331; João 1.1-5.9-14......XIX,35; XXV,39; XXXI,24 1.1-18........................... XXIII,30; XXIX,46 1.(1-9)10-18............................... XXXIII,64 1.6-8,19-28 ......XXV,29;XXXI,14; XIX,22 1.19-23(24-28)............. VIII,49; XXXVI,19 1.29-34 . ......................................... VIII,98; 1.29-34(35-41) . ............ XVIII,57; XXI,55; ..................................................... XXXV,75 1.35-42........................................... XII,227; 1.43-51............. XII,129; XVI,92; XXII,52; ............ XXVIII,68; XXXIV,80; XXXVI,76 2.1-11...................IX,41; XX,44; XXVI,40; ....................................................XXXIV,89 2.13-22................................VI,237; XIX,87 3.1-11(15).......................................... X,347 3.1-17. XXII,165; XXVIII,220; XXXII,91; ................................................ XXXIII, 232 3.14-21 . .......XIX,95; XXV,144; XXXI,96; ................................................. XXXVI,128 4.1-11 ......................................... XXXI,149 4.5-26...........................XXI,82; XXXV,139 4.31-38 . ...................................II, 89, (256) 4.46-54.............................................XII,148 5.1-16..............................................XIV,360 5.1-16(18)...................................... VIII,304 5.19-21............................................XIV,215 5.24-29...XVIII,267; XXII,277; XXIX, 302; ..................................................... XXX,271 5.39-47..............................................VI,204 6.1-15.... IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247; .............................. XXXI,213; XXXVI,245 6.(22-23)24-35.............XIX,217; XXV,254; ....... XXXI,218; XXXIII, 280; XXXVI,365 6.35............................................... VIII,151; 6.37-40(41-43),44...................II, 200, (367) 6.35,41-51................................ XXXVI,257 6.41-51.. XIX,220; XXV,259; XXVIII,284; .................................................... XXXI,226 6.51-58....................... XIX,225; XXXI,232; ................................................. XXXIII,292 6.56-69..................................... XXXVI,269 6.60-69.......XIX,229; XXV,264; XXXI,237 6.66-69.............................................XII,293 7.14-18............................................. VIII,87 7.37-39a.XVI,187; XXII, 158; XXVIII, 211

380


7.37-39.............VI,194; XII,199; XXII,158; ................................................... XXXV,216 8.1-11............................................. VIII,228 8.21-30............................VIII,138; XIV,179 8.31-36... II, 216, (383); VIII,73; XVII,225; .................................................... XXIII,209 9.1-7................................VIII,248; XIV,290 9.1-41.........................................XXXII,104 9.13-17,34-39................XXI,91; XXVII, 81 9.35-41........................................... VIII,299 10.1-5,27-30..............................II, 40, (207) 10.1-10.. XXI,133; XXVII,119; XXXII,144 10.11-16.............................................. IV,53 10.11-18....XIX,135, XXV,181; XXXI,139; ................................................. XXXIII,199 10.11-18,27-30................................... X,310 10.14-16,27-29........................... XXXIII,50 10.22-30..................................... XXIX, 141 10.22-30(31-39)...........................XVII,117; 11.1,3,17-27........II, 188, (355); XXXV,151 11.1(2),3,17-27(41-45)...................... X,434 11.47-53........ VIII,157; XIV,192; XXI,103; ................................................. XXXIII,154 12.12-16................................... XXXVI,134 12.12-19...............................X,269; XX,110 12.20-26............................................. X,258 12.20-30........................................ XXV,150 12.20-33 . ..................XIX,102; XXXI,103; ................................................. XXXIII,154 12.44-50........................................... VIII,65 13.1-15,34-35..................................... X,277 13.1-17,34................. XXX,99; XXXIV,144 13.31-35.................. XVII,121; XXIX, 149; .......................... XXXIV, 144; XXXIV, 191 14.1-6...............................................XII,134 14.1-12......................XXI,139; XXVII, 124 14.1-12(14)...........II, 63, (230); XXXV,192 14.8-17(25-27).........................XXXIV, 219 14.15-19..........................................XV, 232 14.15-21...................XXIV,165; XXXV,200 14.23-27................................ IV,82; X, 341 14.23-29 . .................XVII,126; XXIX, 154 15.1-8.............. X,317; XIX,139; XXV, 189 .............................. XXXI,146; XXXVI,174 15.9-12(13-17) . ............................XIV, 374 15.9-17.........VIII,317; XIX,143; XXV,192; .................................................XXXIII, 211 15.(18)26-16.4.................................. X, 337 15.26-27; 16.4b-11...... XX,171; XXVI,191; ................................................. XXXVI,197 16.5-15................................................ IV,65 16.12-15....................... XX,177; XXVI,200 16.16-23a .............................. IV,57; VI,179 16.16,20-23a.......................VI,129; VI, 176

16.22-28.............................................. IV,72 16.23b-28,33 . ................................... X,323 17.1a,6-19................................ XXXIII,221 17.1-15.........................................XXIV,159 17.1-11.......................XXI,148; XXVII,132 17.9-19............................... IV,31; XXV,197 17.(9-10)11-19............XIX,153; XXXI,157 17.20-26...................... VIII,198; XXIX,168 18.33-37.......................XIX,299;XXXI,296 18.33-38a................................. XXXVI,358 19.16-30................. IV,38; X,284; XIX,110; ............. XXV,170; XXXI,123; XXXIII,168 20.1-18......................................XXXIV,162 20.1-2,11-18 . ..............................XXIV,230 20.1-9(10-18).......... XVIII,120; XXVI,136; ..................................................... XXX,109 20.11-18 .........................VIII,166; XIV,207 20.19-23 . ..................XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 ............... X,301; XIX,119; ...................................................XXXII,134 20.19-31....XIX,119; XXI,121; XXVII,110; .................................. XXIX,128;XXXI,133 21.1-14.......................XVII,111; XXIX,136 21.1-19......................................XXXIV,178 21.15-19 . ...................................... VIII,179 21.20-25......................................XXXIV,53 Atos 1.8-14....................................... XXIV,168 1.1-11........... XX,155; XX,160; XXVI,182; ................................XXIX,161; XXXII,162 1.15-26..................... XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11..................................XI,242 1.15a,21-26.............................. XXXVI,193 2.1-13................................................XI,249 2.1-21........................ XIX,158; XXVII,139 2.14a,22-32................................. XXIV,143 2.14a,36-47..................................XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39........................XV,239 2.36-41................................................ III,59 2.41a,42-47.......................................XI,284 3.1-10...............................................VII,198 3.13-15,17-26........... XVI,158; XXVIII,165 4.5-12....................................... XXXVI,168 4.8-12 . .................................... XXVIII,172 4.32-37............................................... V,310 5.12,17-32...................................... XX,130 6.1-7............................... III,134; XXIV,155 8.14-17.......................................XXXIV, 85 8.26-40.... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188; ................................................ XXXIII, 205 9.1-20.............................................. XX,136 9.36-43.....................................XXXIV, 184 10.34-38....XXIII,35; XXVII, 52;;XXXI,38 10.34-48(10.1-11)18........................ XIX,49 10.34-43.............. XXVII, 105; XXXIII,177

381


11.19-30................... XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25................................XXII,33 13.44-52........................... XX,140; XX,143 14.8-18........................................... XX,148 16.6-10............................................ XX,164 16.9-15................................IX,171; XV,141 16.16-34...................................XXXIV, 211 16.23-34...........................VII,122; XIV,233 17.1-15.........................................XXIV,159 17.16-34 . ..............................................I,34 17.22-31..................... XV,213; XXXII,156 Romanos 1.1-7 .XVI,77; XXV,55; XXVIII,54; .................................XXXII,36; XXXVI,30 3.19-28............... II,169; XX,278; XXI,267; ................................ XXV,287; XXXIII,364 3.21-25a.............................XXVII,156, 272 4.1-5,13-17.............. XXIV,100; XXXV,133 4.13-25..................................... XXXIII,138 4.18-25.................... XXIV,184; XXVII,161 5.1-5.... XVII,137; XXIX,180; XXXIV, 224 5.1-8...........................................XXXII,197 5.1-11............XXVIII,122; V,51; XXXII,98 5.6-11...................... XXIV,190; XXVII,166 5.12-15.......................................XXVII,172 6.1b-11.................... XXIV,211; XXVII,183 6.3-8..................................................XI,278 6.19-23 . ............................... V,164; IX,258 7.15-25a..................................... XXXV,234 8.1-11...................I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17..........................V,170; XXXVI,203 8.14-17.......................................... XXV,203 8.14-17,22-27.............................. XXIX,174 8.18-23................................................V,150 8.18-23(24-25)............................ XVIII,192 8.26-27......................................... XXX,193 8.26-30..............................................IX,233 8.31b-39............................................XI,144 8.31-39.......................... IX,91; XXVIII,115 8.(31-34)35-39............................... XVI,110 9.1-5........................................... XXXV,261 9.1-5,31-10.4 ................................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4.......................................V,185 9.30b-33............................................ III,124 10.5-13.......................XVI,115; XXXII,248 11.13-15,29-32.............................XXIV,255 11.25-32..................................... I, 95, (102) 11.32-36.............................................V,126; 11.33-36 ...........................................XI,256 12.1-8............................. XI,152; XXIV,265 12.9-12....................................... XXXV,284 12.6-16..................................................V,19 13.1-10........................................... XXI,229 13.8-10(13-14)..................................XI,107 13.11-14............IV,251; XXIV,19; XXXV,9

14.5-9............................................. XXI,234 14.7-13 . ............................................. III,79 14.10-13 . .........................................XI,266 15.4-13 . ........................XXI,25; XXXII,16 16.25-27........................................ XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9.............. XXIV,70; XXXII,72 1.3-9 . ............................ XVI,51; XXVIII,9 1.4-9....................................................V,228 1.10-17............................................. XXI,60 1.18-25.............................................. XX,97 1.26-31...................... V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5................................. XXI,71; XXII,60 2.1-10.................................VII,50; XIII,126 2.6-13............................................... XXI,74 2.12-16.............................................VII,150 3.9-15..................................XV,266; IX,269 3.16-23..........................................XXII,193 4.1-5..................................... IV,261; XI,119 6.9-14,18-20................................. I, 78, (85) 6.9-14(15-17)18-20....................... I,86, (93) 6.12-20....................................... XXXIII,76 6.24-34....................................... XXXV,106 7.29-31 . ........................................XXIV,90 7.29-32a .................................... I, 46, (213) 8.2 ................................................... XIII,42 9.16-23........ XIV,264, XXV,96; XXXVI,90 9.24-27........................ XI,165; XXXIII,112 10.1-13...................................V,179; XX,91 10.16-17...........................VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21).......................... XXXI,113 10.31-11.1..................................... XXV,107 11.23-26................... XXIV,127; XXVII, 94 11.23-29................................................V,65 12..................................................... XIII,34 12.1,4-11........................XVII,47; XXIX,59 12.12-21,26-27............. XXIII,45; XXIX,64 12.27-13.13....................XVII,52; XXIX,71 12.31b-13.13........................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25.....................................VII,158 14.12b-20 . ................................... XXIII,49 15.1-11 .................. XVII,108; XXXIV,105 15.1-20................................................ III,13 15.12,16-20................ XVII,63; XXXII,311 15.19-28 . I,16; IX,207; XV,207; XVIII,280; ...................................................... XXV,175 15.20-28....................XVIII,280; XXX,293, 15.35-38........................................... XIII,29 15.45-49..........................................XVII,69 15.50-58........... V,78; XIX,286; XXVI, 320 2 Coríntios 1.3-7.......................... I, 112, (119) 1.18-22............... VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6............................................ XXV,118 3.3-9..................................................IX,283 3.12-4.2............................XIX,76;XXXI,78

382


4.3-6.................................. IX,157; XIV,165 4.5-12..........................XIX,169; XXXI,171 4.6-10................................................XI,158 4.7-18.................................................. III,53 4.13-18.........................XIX,173;XXXI,177 4.16-18........................................... XIII,192 5.1-10................................ IX,295; XV,288; 5.6-10 . ...................... XIX,178; XXXI,183 5.14-21.....................................I,7; XIX,181 5.(14b-18)19-21....... XVI,140; XXVIII,153 5.20b-6.10.................................. XXXV,120 6.1-10 . ..............................................VII,82 6.1-13....................................... XXXVI,221 8.1-9,13-14 .................................. XIX,188 8.1-15............................................... XIII,18 8.7-15....................................... XXXIII,251 8.9 .................................................. XV,112 9.6-15.................................... V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ............... XIII,142 12.1-10.................................................V,26; 12.7-10........................XIX,195; XXXI,199 13.11-13 ...... IX,240; XXI,158; XXXII,174 Gálatas 1.11-24 ............................... XXIII,113 2.16-21 . ......................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 . ......................... XXIII,119 3.28 .................................................. XII,70 4.1-7 . .............................................. IX,144 4.4-7 . ........... XV,106; XVIII,38; XXX,31; ................................. XXXIII,44; XXXV,33 5.1-6 . ........................................... XIII,167 5.1-11 ...................I, 118, (125), 124, (131); ................................................... XXXV,341 5.1,13-25...............XXIII,126; XXXIV, 243 5.25-26; 6.1-3,7-10..........VII,214; XIII,253 6.14-18........................................ XXIII,131 Efésios .......... 1.3-6,15-18 XVIII,43; XXIV,58; ....................................................... XXX,37 1.3-14........... III, 62 XXII, 204; XXXIV, 75 1.3-6,15-18.................................... XVIII,43 1.(16-20a)20b-23........ XXI,144; XXX,138 1.20b-23........................................... IX,227 2.1-10........................................... XXX,265 2.4-10....................... XVI,120; XXVIII,128 2.11-22........................... X,48; XXXVI,239 2.13-22..........................................XXII,209 3.1-12......................... XXXI,30; XXXV,64 3.2-12 . ............................ XVI,83; XXII,43 3.14-21.......................... V,212; XXXIII,275 4.1-6 . ................................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16................................... XXII,215 4.17-24..........................................XXII,220 4.20-32................................................V,235 4.30-5.2.......................................... XVI,228 5.1-8a ...............................................XI,205

5.1-9.....................................................V,46; 5.8-14.......................XXIV,105; XXXV,145 5.9-14 . ............................................. III,100 5.15-20..................... XVI,233; XXXVI,264 5.15-21.............................................. V,241; 5.21(22-25)26-31........................... XVI,236 5.21-31..................................... XXVIII,294 6.10-20..................... XVI,242; XXXIII,300 Filipenses 1.3-11.... XI,324; XVII,14; XXIX,9; ...................................................XXXIV, 16 1.12-21...............................................VII,95 1.20c-27 ......................................XXIV,280 2.1-4 . ............................................. VII,173 2.1-5(6-11) ................................... XXI,245 2.1-13......................................... XXXV,309 2.5-11.....V,57; XI,216; XVII,97; XXV,158; .................................. XXIX,111; XXXII,59 2.12-13.............................................XV,282 3.4b-14.....................................XXXIV, 133 3.12-21.................... XXIV,290; XXVII,251 3.7-11................................................XI,291 3.7-14 . ...............................................V,261 3.8-14.............................................. XX,102 3.12-16...................................... II, 20 (187) 3.12-21.......................................XXVII,251 3.17-21..............................................XI,330 3.17-4.1............................................. XX,86 3.20-21................... I,136, (137); 129,(143) 4.4-7.............................................. XXVI,15 4.10-20..............................................IX,150 Colossenses 1.1-6............................ XXVI, 233 1.12-20........................................ XXIII,229 1.15-23...................................................I,47 1.21-28....................................... XXVI, 240 2.3-10 . ...........................................XIV,140 2.6-15......................................... XXVI, 250 2.12-15........................................... XIII,186 3.1-4 . ............ III,48; XXI,117; XXXII,127 3.12-17................................................V,107 4.2-6....................................V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a................. XXIV,294; ...................................................XXVII,256 1.5b-10......................................XXVII, 263 1.2-10...............................................VII,210 2.1-8........................................... XXXV,329 2.8-15.........................................XXVII,277 3.9-13................................................ XX,15 4.1-8........................................ V,38; XI,315 4.13-14(15-18)............................... XXI,285 4.13-18 . .................. XXI,292; XXXVI,335 5.1-8..................................................IX,288 5.1-11.........................XXI,297; XXXV,357 5.12-24..............................................IX,274 5.16-24........................XXII,19; XXXIII,20

383


2 Tessalonicenses 2.1-17........................ III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5................ XXIX, 311 3.1-5................................................. IX,252 3.6-13.................................V,97; XXIX,317 1 Timóteo . .1.12-17III,74; XVII,206; XXIX,265 2.1-4 . .................................... II, 169, (336) 2.1-8 . . XVII,211; XXXIV,314; XXXV,370 3.16 ............................................... XIV,132 4.4-5 . ........................................... XIII,298 6.6-16.......................XVII, 215; XXIX, 274 6.11b-16........................................... IV, 255 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14............ XXIII, 195 2.8-13......................................... XXIII, 205 2.8a(8b-13) ................................... XV, 198 3.14-4.5....................................XXXIV, 333 Tito 2.11-14 ...II,263, (430); XI,128; XXIV,34; ..................................................... XXXV,40 3.4-7................ IV,280; XX,29; XXXIV, 45 Filemom 8-21.................................. XXIX, 254 9b-17(18-21).................................XVII,201 Hebreus 1.1-4(5-12)........................ XXXVI,35 1.1-9 . ............................................. XVI,70 2.9-11...........................XIX,257;XXXI,274 2.10-18 . .......................................... IX,188 3.1-6 . ............................................ XIX,262 4.9-16........................... XIX,268 XXXI,281 4.12-13..............................................XI,171 4.14-16..............................................XI,192 4.14-16; 5.7-9....... XXIV,133; XXXIV, 153 5.1-6(7-10)............... XIX,273; XXXIII,356 5.7-9 . ........ XI,211; XVI,125; XXVIII,134 7.23-28..................................... XXXVI,322 9.15-17,26b-28................................ XX,122 9.15,24-28............................................. III,7 9.15,26b-28................................... XIII,179; 9.24-28 . ....................................... XIX,291 10.19-25 . .................. II, 241 (408); IX,119 11.1-2,6,8-10.....................................IX,178 11.1-3,8-16...................................... XX,229 11.1-4......................................... XXVIII,39 11.8-10.............................................XV,160 12.1-3...............................................XV,178 12.1-13........................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a . ............... XV,127 12.18-24...................XX, 242; XXXIV, 296 13.1-8.............................................. XX,246 13.(7)8-9b ..................................... XIV,153 13.12-16 . ...........................................V,205 Tiago 1.12-18 ...................................... XV,154 1.17-27 . ....................................... XXV,268 2.1-13 . ......................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ......................... XXV,275 2.14-24 . .......................................... III,110 3.1-12....................................... XXXVI,283

3.13-4.3,7-8a............................ XXXIII,327 4.13-17 . .......................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 . ............................ XIII,265; XIX,252 5.7-8 . .............................................. XI,114; 5.7-10............................................ XVIII,19 5.13-16.............................................VII,220 5.13-20..................................... XXXVI,295 1 Pedro 1.(1-17)18-21 ...................... XIII,152; 1.17-21..........................................XXX,118 1.17-22.................... XVIII,129; XXXV,182 1.3-9...................III,22; XI,221; XVIII,125; ......................................................XXX,114 2.1-10........... I,55, 61; XV,254; XXXII,149 2.4-10 . ......................XXX,128; XVIII,138 2.13-17...................................... I, 102 (109) 2.15-17 . ............................................ VI,13 2.18-25......................................... XXX,122 2.19-25 . .................................... XVIII,133 2.21b-25................................ V,91; XI,229; 3.8-17................................................ V,156; 3.15-18 . ...................XVIII,146; XXIV,165 3.18-22..................................... XXXVI,116 4.7-11 ................................................ V,120 4.13-19 . .................................... XVIII,152 5.1-5.................................................... III,27 5.5b-11 ................................. V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ...................................... III,145 1.16-19(20-21)................................ IX,165; 1-16-21 .................... XXIV,95; XXVII, 65 3.8-14 . .... XVII,237; XXIII,218; XXV,23; ................................................... XXXVI,14 1 João 1.(1-4)5-2.2.......XXII,124; XXXVI,157 1.5-10; 2.1-6 .......... XIII,216; XXXVI,181 2.21-25...............................................VII,30 3.1-3 . ............................................... VII,21 3.1-7......................................... XXXIII,191 3.13-18............................................... IX,57 3.18-24............................ III,159; XXII,130 4.1-6 . ................................................ IX,72 4.1-11............................................XXII,135 4.11-16........................................ XXXI,165 4.7-12 . ............................................ XI,299 4.7-16 . .............................................. V,196 4.(7-16a)16b-21 .......................... XXII,149 4.16b-21 . .......................................... V,135 5.1-5........................................ V,84; XI,235 5.1-6 . .......................................... XXII,118 5.11-13............................................. XI,138 Apocalipse 1.4-8............... VII, 131; XIII, 204; .................................................XXXIV, 169 1.9-18 . ..............................VII,65; XIII,133 1.9-20......................................... XXVI, 145 2.8-11...............................VII,228; XIII,275 1.9-20 . ......................................... XXIII,84

384


3.1-6............IX,127; IX,135; XV,89; XV,95 3.7-13 . ................ II,248 (416); XXXVI,42 3.14-22 . ....................................... XIII,304 4.1-11 ........................................ I, 144(151) 5.1-14 . ...............................................VII, 7 5.11-14.................... XXIII, 90; XXVI, 150 7.9-12 . ....................................... XVII, 230 7.9-17.......... III, 182; XIII, 110; XXIII, 94; ................................................... XXVI, 159 12.1-6 . ....................................... XXIII, 26

12.7-12 . ...................................... XXI, 241 14.6-7 . ............................................. V, 249 15.2-4 . .......................................... XV, 218 19.11-16 ......................................... III, 195 21.1-5 . ...................................... XXVI, 170 21.10-14,22-23........................... XXVI, 176 21.10,22-22.5...........................XXXIV, 195 22.10-16 . ........................................... X,11 22.12-17,20 . ............................... XXIII,99

Observação: Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição desses dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

385


COLABORADORES DO VOLUME 36 ABENTROTH, Anelise Lengler: anelisevilmar@gmail.com APPELT, Dari Jair: darijair@yahoo.com.br APPELT, Fabiani: fabiappelt@hotmail.com BLASI, Márcia: retalhos13@hotmail.com] BOOTZ, Everton Ricardo: erbootz@hotmail.com BRAKEMEIER, Gottfried: brakemeier@terra.com.br BRAUN, Odair Airton: veraodair@gmail.com BUTTELI, Felipe Gustavo Koch: felipebuttelli@yahoo.com.br DREHER, Carlos Arthur: carlosdreher@est.edu.br DREHER, Martin Norberto: martindreher@terra.com.br DREHER, Sheila dos Santos: drehersantos@uol.com.br DREHMER, Erni: secretariaordenacao@ieclb.org.br FUCHS, Werner: w.fuchs@uol.com.br GARCIA, Paulo Roberto: paulo.garcia@metodista.br GENZ, Silvia Beatrice: silvia@ieclbchapeco.com.br GIESE, Nilton: nilton@claiweb.or GONÇALVES, Humberto: humbertox@uol.com.br GREUEL, Sigolf; OLIVEIRA JÚNIOR, Oziel Campos de: pastor.sigolf@gmail.com HAGSMA, Alfredo: hagsma@terra.com.br HOEFELMANN, Verner: vernerhoe@hotmail.com IMMICH, Vera Maria: veraodair@gmail.com JANKE, Sheila Roberta: scheilajanke@gmail.com KALMBACH, Pedro: pedro_kalmbach@yahoo.com.ar KLEINE , Michael: micha.kleine@yahoo.com.br KONZEN, Leo: leokonzen@urisan.tche.br KOWALSKA PRELICZ, José Manuel: kowalskaknaul@gmail.com KREIDLOW, Daniel: danielkreidlow@gmail.com KUNZ, Claiton: claiton@batistapioneira.edu.br KÜNZER, Renato: ‎renato.kuntzer@terra.com.br LACERDA, Gerson Correia de: gersonclacerda@gmail.com LENKE, Ângela: angelalenke@yahoo.com.br LIEVEN, Guilherme: guilherme.lieven@luteranos.com.br MEURER, Evandro Jair: evandromeu@gmail.com OLIVEIRA, Jorge Batista Dietrich de: pastorjorge@terra.com.br PARLOW, Mara Sandra: maraparlow@terra.com.br PFANNEMÜLLER, Helga Rodrigues: pastorahelga@yahoo.com.br REIMER, Haroldo: haroldo.reimer@gmail.com REINKE, Fernanda Pagung; REINKE, Erni: ‎nandapagung@yahoo.com.br REIS, Ana Isa dos: anaisadosreis@hotmail.com

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RIBEIRO JÚNIOR, Olmiro: orjr_che@yahoo.com.br RIBEIRO, Antônio Carlos: antoniocarlosrib@gmail.com RIECK, Kurt: kurtrieck@gmail.com SAMUELSSON, Jeferson Andre: jasamuelsson@gmail.com SANTANA FILHO, Manoel Bernardino: m.bernardinofilho@gmail.com SANTOS, Joe Marçal G. dos: jmgsantos@yahoo.com.br SCHERER, Cristina: crisitati@yahoo.com.br SCHMITT, Flávio: flavio@est.edu.br SEIBERT, Erni W.: erni@sbb.org.br SELL, Wilhelm: wilhelm.sell@luteranos.com.br SPELLMEIER, Arteno Ilson: arteno.nho@terra.com.br STÜEWER, Aline Daniele; BAADE, Joel: stuewer@gmail.com TOLSDORF, Matthias: p.matthias.ieclb@hotmail.com TREIN, Hans Alfred: hans@est.edu.br VOIGT, Emilio: emilio.voigt@terra.com.br WANKE, Roger Marcel: roger.wanke@flt.edu.br WASKOW, Vera Regina: vrw@terra.com.br] WEBER, Eloir Enio: p.eloir@salvador.org.br WEISSHEIMER, Ramona Elisabeth: ramonaew@gmail.com WIESE, Werner: ‎wwiese@flt.edu.br WITTER, Teobaldo: twitter@terra.com.br WOLFF, Günter Adolf: lobo@mksnet.com.br ZWETSCH, Roberto Ervino: rezwetsch@gmail.com

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Texto: Times New Roman 11 Títulos: DawnCastle 15 Datas: Baskerton 10 Subtítulos: Times New Roman 18/12 É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão prévia.


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