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Proclamar Libertação 31 - 2005-2006

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© Editora Sinodal, 2005 Caixa Postal 11 93001-970 – São Leopoldo, RS Fone/fax: (51) 590-2366 E-mail: editora@editorasinodal.com.br Home-page: www.editorasinodal.com.br Conselho Editorial de Proclamar Libertação: Norberto da Cunha Garin, Valdemar Witter, Margarete E. Engelbrecht, Mauro Schwalm e Carlos L. Ulrich Coordenação editorial: João Artur M. da Silva Série: Teologia Prática – Auxílios Homiléticos

Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia da Escola Superior de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Impressão: Gráfica Pallotti (Santa Maria/RS)

P963

Proclamar libertação, v.31: Auxílios homiléticos sobre a série ecumênica trienal – ano B / [Coordenado por] Verner Hoefelmann e João Artur Müller da Silva. – São Leopoldo : Sinodal, 2005.

15,5x22,5 cm. ; 336p. Série: Proclamar libertação ISBN 85-233-0803-2 1. Teologia prática – Auxílios homiléticos. I. Hoefelmann, Verner. II. Silva, João Artur Müller da. III. Título. CDU 251

Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273


Sumário Prefácio – Verner Hoefelmann e João Artur Muller da Silva ...................... 5 AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 2º Domingo de Advento (04-12-05) – Is 40.1-11 – Sílvia Beatrice Genz ....... 9 3º Domingo de Advento (11-12-05) – Jo 1.6-8,19-28 – Pedro Kalmbach .... 14 4º Domingo de Advento (18-12-05) – Rm 16.25-27 – Ivoni Richter Reimer ............................................................................. 19 Natal de nosso Senhor (25-12-05) – Jo 1.1-5;9-14 – Ari Knebelkamp ......... 24 Epifania de nosso Senhor (06-01-06) – Ef. 3.1-12 – Gerd Uwe Kliewer .... 30 1º Domingo após Epifania (08-01-06) – At 10. 34-38 – Margarete Emma Engelbrecht ............................................................ 38 2º Domingo após Epifania (15-01-06) – 1 Sm 3.1-10(19) – Baldur van Kaick ................................................................................... 44 3º Domingo após Epifania (22-01-06) – Jn 3. 1-5(6-9)10 – Vera Maria Immich ............................................................................... 52 4º Domingo após Epifania ( 29-01-06) – Dt 18.15-20 – Haroldo Reimer ..................................................................................... 57 5º Domingo após Epifania (05-02-06) – Jó 7.1-7 – Günter Adolf Wolff ............................................................................... 63 6º Domingo após Epifania (12-02-06) – 2 Rs 5.1-14 – Norberto da Cunha Garin .................................................................... 71 Último Domingo após Epifania (26-02-06) – 2 Co 3.12-4.2 – René Krüger .......................................................................................... 78 1º Domingo da Quaresma – (05-03-06) – Mc 1.12-15 – Werner Fuchs ....... 84 2º Domingo da Quaresma – (12-03-06) – Mc 8.31-38 – Guilherme Lieven .................................................................................. 91 4º Domingo da Quaresma – (26-03-06) – Jo 3.14-21 – Anete Roese ........... 96 5º Domingo da Quaresma – (02-04-06) – Jo 12.20-33 – Acir Raymann ..... 103 Domingo da Paixão – (09-04-06) Zc 9.9-10 – Valdemar Lückemeyer ...... 107 Quinta-Feira da Paixão – (13-04-06) – 1 Co 10.16-17(18-21) – Valério Guilherme Schaper .............................................................. 113 Sexta-Feira da Paixão – (14-04-06) – Jo 19.16-30 – Werner Wiese ........... 123 Domingo da Páscoa – (15-04-06) Is 25.6-9 – Marga Janete Ströher ........ 128 2º Domingo da Páscoa – (23-04-06) – Jo 20.19-31 – Ulrico Sperb ............ 133 4º Domingo da Páscoa – (07-05-06) – Jo 10.11-18 – Leandro Dentee ....... 139 5º Domingo da Páscoa – (14-05-06) – Jo 15.1-8 – Sisi Blind ..................... 146 6º Domingo da Páscoa – (21-05-06) – Jo 4.1-11 – Arteno Ilson Spellmeier ...................................................................... 149 7º Domingo da Páscoa – (28-05-06) – Jo 17.(9-10)11-19 – Hans Alfred Trein ............................................................................... 157 1º Domingo após Pentecostes – (11-06-06) – 1Jo 4.11-16 – Wilhelm Wachholz .............................................................................. 165

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2º Domingo após Pentecostes – (18-06-06) – 2 Co 4.5-12 – Uwe Wegner .... 171 3º Domingo após Pentecostes – (25-06-06) – 2 Co 4.13-18 – Teobaldo Witter .................................................................................. 177 4º Domingo após Pentecostes – (02-07-06) – 2 Co 5.6-10 – Albérico Baeske .................................................................................. 183 7º Domingo após Pentecostes – (23-07-06) – 2 Co 12.7-10 – Roberto Ervino Zwetsch ..................................................................... 199 9º Domingo após Pentecostes – (06-08-06) – Mc 6.30-34 – Erni Drehmer ...................................................................................... 208 10º Domingo após Pentecostes – (13-08-06) – Jo 6.1-15 – Nilton Giese ....... 213 11º Domingo após Pentecostes – (20-08-06) – Jo 6.(22-23)24-35 – Antonio Carlos Ribeiro ....................................................................... 218 12º Domingo após Pentecostes – (27-08-06) – Jo 6.41-51 – Sidnei Vilmar Noé .............................................................................. 226 13º Domingo após Pentecostes – (03-09-06) – Jo 6.51-58 – Vera Cristina Weissheimer ................................................................. 232 14º Domingo após Pentecostes – (10-09-06) – Jo 6.60-69 – Heinz Ehlert ........................................................................................ 237 15º Domingo após Pentecostes – (11-09-06) – Mc 7.1-8,14-15,21-23 – Elaine Gleci Neuenfeldt ...................................................................... 242 16º Domingo após Pentecostes – (24-09-06) – Is 35.3-7 – Enio Müller .......................................................................................... 248 17º Domingo após Pentecostes – (01-10-06) – Is 50.4-10 – Martin Norberto Dreher .................................................................... 252 18º Domingo após Pentecostes – (08-10-06) – Jr 11.18-20 – Nelson Kilpp ........................................................................................ 256 19º Domingo após Pentecostes – (15-10-06) – Ne 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) – Renatus Porath .................... 263 20º Domingo após Pentecostes – (22-10-06) – Hb 2.9-11 – Louraini Christmann ........................................................................... 274 22º Domingo após Pentecostes – (05-11-06) – Hb 4.9-16 – Gottfried Brakemeier ......................................................................... 281 Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico – (12-11-06) – 1 Rs 17.8-16 – Valdemar Witter .......................................................... 286 Penúltimo Domingo do Ano Eclesiástico – (19-11-06) – Dn 12.1-3 – Erni Seibert ......................................................................................... 293 Último Domingo do Ano Eclesiástico – (26-11-06) – Jo 18.33-37 – Odair Airton Braun ............................................................................. 296 AUXÍLIOS PARA OCASIÕES ESPECIAIS Meditação sobre a oração – Roberto Ervino Zwetsch .............................. 303 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB – Albérico Baeske ........................................ 307 ÍNDICES ..................................................................................................... 320

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Prefácio •

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om esta edição, Proclamar Libertação chega ao 31º volume de uma série iniciada em 1976. Ao longo deste período, muitos pastores e pastoras da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e de outras Igrejas cristãs no Brasil e na América Latina integraram esse projeto como autores e autoras. Conforme o modelo adotado, esse grupo era o responsável pelo projeto, reunindo-se em encontros anuais para avaliar e planejar a publicação, escolher novos autores, o Conselho Editorial e a Coordenação. Nos últimos tempos, no entanto, esses encontros tiveram uma participação cada vez mais reduzida. O 23º Encontro de Autores e Autoras, em 2002, o último da série, reuniu apenas 17 participantes de um grupo de mais de cem autores. Por fim, dois encontros tiveram que ser suspensos por falta de participação. Com o esgotamento do modelo, os Coordenadores de PL e membros remanescentes do Conselho Editorial resolveram repassar a publicação à Escola Superior de Teologia (EST), que nos idos de 1976 havia sido o centro gerador deste projeto de auxílios homiléticos. De nossos contatos com o pessoal da EST resultou que sua área de homilética assumirá a coordenação desta publicação a partir do próximo volume . Foram tempos de um trabalho frutífero e abençoado, realizado em mutirão e cooperação fraterna. De nossa parte, queremos manifestar palavras de agradecimento às pessoas que integraram o Conselho Editorial até esta edição. São elas: Norberto da Cunha Garin, Valdemar Witter, Margarete E. Engelbrecht, Mauro Schwalm e Carlos L. Ulrich. O apoio e a colaboração do Conselho Editorial sempre foi muito importante para a realização de nosso trabalho na coordenação de PL. Queremos também expressar nossa gratidão aos autores e às autoras de PL, que ao longo das últimas edições aceitaram escrever auxílios homiléticos. Temos consciência de que, diante de prazos esgotados, muitas vezes fomos inoportunos e “chatos” em nossa tarefa de solicitar a remessa de suas contribuições. Contamos com sua compreensão e benignidade. De nossa parte, manifestamos nossa alegria pela colaboração que pudemos prestar. À nova equipe responsável por Proclamar Libertação desejamos as bênçãos de Deus e muita disposição para o seu serviço. Entendemos que uma publicação como essa continua sendo de extrema importância para pregadores e pregadoras, tanto em nossa Igreja como em outras Igrejas da ecumene.

Verner Hoefelmann e João Artur Müller da Silva Coordenadores de PL

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS


AUXÍLIOS HOMILÉTICOS


2o DOMINGO DE ADVENTO

04 DEZ 2005

MARCOS 1.1-8 2 PEDRO 3.8-14

PRÉDICA: ISAÍAS 40.1-11 Sílvia Beatrice Genz

O texto de Is 40.1-11 foi abordado no Proclamar Libertação nº VIII, p. 40; no nº XIV, p. 124 e no nº XIX, p. 15. Apresentarei um estudo baseado nos três textos e com ênfase especial na proposta de atualização, liturgia e pregação.

1 Localização do texto no contexto e na época Os autores são unânimes em afirmar que Is 40.1-11 faz parte do DeuteroIsaías e é uma introdução aos capítulos 40 a 45 do livro de Isaías. O DeuteroIsaías é atribuído a um profeta anônimo que atuou entre os anos 587 a 539 a.C.; foi a época em que ocorreu o exílio babilônico. O Deutero-Isaías fala do cativeiro, do exílio de uma parcela do povo, dos líderes, dos mais ricos. O rei Nabucodonosor, da Babilônia, que reinou entre 604 a 562 a.C. com mão de ferro, tinha como objetivo não somente as vitórias nas guerras, mas a deportação dos líderes dos territórios conquistados. Assim fez com a população de Jerusalém. Após a conquista, os principais líderes foram levadas para o exílio. Em 597 a. C. foram levados o rei e sua corte, junto com altos funcionários do Estado, militares, sacerdotes e cantores do templo. O Deutero-Isaías ainda desconhece a conquista da Babilônia em 539 a.C. pelo exército persa. Por isso deve ser anterior à entrada triunfal de Ciro na capital do império babilônico. Mas Ciro, o rei persa, já é conhecido pelo profeta anônimo, pois o Deutero-Isaías refere-se a Ciro no capítulo 41.1-5. Ciro parece ser o ungido como libertador. Sua ascensão ocorre a partir de 550 a.C. Por isso podemos datar o Deutero-Isaías entre 550 e 540 a.C. no declínio babilônico e ascensão persa no domínio internacional.

2 Perspectiva de mudança A ascensão do império persa com as vitórias sucessivas de Ciro trazia

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2o DOMINGO DE ADVENTO

04 DEZ 2005

MARCOS 1.1-8 2 PEDRO 3.8-14

PRÉDICA: ISAÍAS 40.1-11 Sílvia Beatrice Genz

O texto de Is 40.1-11 foi abordado no Proclamar Libertação nº VIII, p. 40; no nº XIV, p. 124 e no nº XIX, p. 15. Apresentarei um estudo baseado nos três textos e com ênfase especial na proposta de atualização, liturgia e pregação.

1 Localização do texto no contexto e na época Os autores são unânimes em afirmar que Is 40.1-11 faz parte do DeuteroIsaías e é uma introdução aos capítulos 40 a 45 do livro de Isaías. O DeuteroIsaías é atribuído a um profeta anônimo que atuou entre os anos 587 a 539 a.C.; foi a época em que ocorreu o exílio babilônico. O Deutero-Isaías fala do cativeiro, do exílio de uma parcela do povo, dos líderes, dos mais ricos. O rei Nabucodonosor, da Babilônia, que reinou entre 604 a 562 a.C. com mão de ferro, tinha como objetivo não somente as vitórias nas guerras, mas a deportação dos líderes dos territórios conquistados. Assim fez com a população de Jerusalém. Após a conquista, os principais líderes foram levadas para o exílio. Em 597 a. C. foram levados o rei e sua corte, junto com altos funcionários do Estado, militares, sacerdotes e cantores do templo. O Deutero-Isaías ainda desconhece a conquista da Babilônia em 539 a.C. pelo exército persa. Por isso deve ser anterior à entrada triunfal de Ciro na capital do império babilônico. Mas Ciro, o rei persa, já é conhecido pelo profeta anônimo, pois o Deutero-Isaías refere-se a Ciro no capítulo 41.1-5. Ciro parece ser o ungido como libertador. Sua ascensão ocorre a partir de 550 a.C. Por isso podemos datar o Deutero-Isaías entre 550 e 540 a.C. no declínio babilônico e ascensão persa no domínio internacional.

2 Perspectiva de mudança A ascensão do império persa com as vitórias sucessivas de Ciro trazia

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a esperança para os exilados na Babilônia. A elite do povo hebreu, que havia sido levada para a Babilônia, está nesse momento com a perspectiva de que a punição está chegando ao fim. Is 40.2 traz este anúncio: “Falai ao coração de Jerusalém, que já é findo o tempo da milícia, a iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do Senhor por todos os seus pecados”. O pecado levou-os para o exílio, e agora vem a boa notícia de que a libertação se aproxima. O texto de Is 40.1-11 é o anúncio da mudança. A mudança vem por intermédio de outro imperador, de outro tipo de submissão; agora os persas trazem por intermédio de Ciro o novo. Ainda não é a tão esperada mudança, mas traz novo alento, falsas esperanças.

3 O anúncio através do texto O texto apresenta quatro momentos: 1 – Consolai o meu povo (vv. 1-2) . 2 – Preparai o caminho do Senhor – endireitai no ermo vereda a nosso Deus (vv. 3-5). 3 – O que hei de clamar? (vv. 6- 8). 4 – O anúncio das boas-novas (vv. 9-11). 3.1 – Consolai o meu povo Os primeiros dois versículos dão o tom da fala do profeta: “Consolai, consolai o meu povo”, pois Deus vai agir e terminar com o sofrimento imposto pelo pecado. A iniqüidade está perdoada e o castigo foi grande; recebeu em dobro da mão de Javé por todos os seus pecados. O novo vem, mas não irrompe de modo mágico. “Torna-se possível por causa do perdão. Perdão significa que o passado deixou de ser determinante. Já não continua a ser uma amarra. Está concluído. Está pago, inclusive em dobro” (40.2). O passado já era. Por isso, nossa profecia anônima pode afirmar tão enfaticamente: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas” (Is 43.18). O perdão de Javé supera o passado. Não faz de conta como se não tivesse existido. Supera o exílio. Não o acoberta. Esse exílio é conseqüência do pecado. Não é acidente. O próprio Deus anunciara-o por meio de seus profetas. A deportação fazia-se “necessária” (Milton Schwantes). O novo vem! Consolai! É o fim do tempo daquela escravidão; agora vem um novo tempo. 3.2 – Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus Do deserto vem a possibilidade de um novo caminho: a passagem para

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a vida, a libertação. Segundo o escrito de Wanda Deifelt, os babilônios tinham o costume de fazer procissões em homenagem às divindades através de caminhos, estradas majestosas, por onde os deuses e deusas, bem como os representantes humanos, os reis, desfilavam... O Deutero-Isaías apresenta o caminho da liberdade: Preparai o caminho do Senhor. A voz vem do deserto e anuncia um caminho novo que atravessa os desertos. É o deserto que está separando os exilados da terra de origem. Esse caminho novo é o caminho que permite a saída triunfal dos cativos. O caminho de Deus é o caminho da liberdade. A grande mudança que traz esse caminho mostra-se nas afirmações: os montes e outeiros serão nivelados, o que é tortuoso será endireitado e os lugares escabrosos aplanados. O anúncio do Deutero-Isaías recupera o êxodo. Agora, no segundo exílio, os exilados que haviam sido reassentados na Babilônia, como colônia agrícola, que lhes possibilitou manter a tradição religiosa, a língua, os costumes e a memória da libertação do Egito, o êxodo, podem vislumbrar o retorno, o segundo êxodo. O deserto, que na tradição do êxodo, na memória da libertação do Egito, mostrava-se como inimigo, agora aparece como possibilidade e inclusive favorável ao retorno. A saída parece muito difícil e deve ser milagrosa, grandiosa. Alguns já estavam há 50 anos no exílio. Muitos haviam nascido no exílio, e agora o que esperar? A palavra do profeta tem que ser forte, convincente. E quem será o escolhido para levar o “povo” de volta? Haverá um novo Moisés? Não, apenas Ciro, o ungido de Deus (Is 45.1). O rei da Pérsia significa uma nova esperança. A sua ascensão, as vitórias consecutivas nas guerras e conquistas, fará com que a Babilônia seja o alvo de eminente conquista. Os exilados sabiam que Ciro estava se aproximando e que mais cedo ou mais tarde seria o fim do império babilônico. O Deutero-Isaías dá as boas-vindas a Ciro como libertador do povo, dos exilados. 3.3 – O que clamar? Os vv. 6,7 e 8 mostram o tom do poder de Deus. O que acontece quando o sopro de Deus passa sobre a erva? Seca a erva, caem as flores. Toda carne é como a erva. O povo é como a erva, também o imperador; a Babilônia é como a erva. Tudo passa; a palavra de Deus e o poder de Deus permanecem eternamente. Deus, que castiga o pecado, também é poderoso para erguer e consolar. Ele tem poder. O profeta mostra a fraqueza do povo; parece morto, sem condições de crer em suas palavras. Faz-se necessário um tom mais forte para conclamar o povo à esperança e à mudança eminente. 3.4 – Anúncio das boas-novas O profeta precisa de uma estratégia especial para poder anunciar a

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boa-nova. Ele precisa subir a um monte alto. O povo precisa ser despertado, o impacto precisa ser forte. A voz deve ser erguida, a fala deve ter força e deve ser sem temor. O anúncio é: Eis aí está o vosso Deus! Eis que o Senhor virá com poder! Até aqui o povo exilado havia ouvido muito dos ídolos, dos deuses, das deusas dos babilônios, dos caminhos preparados para esses deuses estranhos e falsos. Agora chegou a vez de ouvir. “Eis aí está o vosso Deus!” Ele vem com poder, o braço dele dominará; haverá recompensa. O profeta anuncia a presença de Deus como ação do pastor que traz as ovelhas e cuida de todas. Carregar as ovelhas também pode significar resgate, despojos que Deus carregará. A ação de Deus é para com todos, mas especialmente para com os fracos, os cordeirinhos do rebanho, os bem pequenos que cansam na caminhada e as ovelhas-mães que estão amamentando seus filhotes. O profeta apresenta esse jeito de Deus agir, que com atenção e carinho cuida de seu povo, agora perdoado e que será libertado.

4 Possibilidades para a pregação Um breve relato sobre a conjuntura de Isaías é muito importante. Mas, na seqüência, o texto de Isaías é muito oportuno para mostrar que o pecado leva à desgraça individual e coletiva. Quando na casa, no lar, há incidência de atos de injustiça, opressão, exclusão, violência, mentira... e outros, isso leva à destruição da família, do lar e assim da vida que Deus quer. Quando na sociedade o governo comete pecados contra a dignidade humana, com leis injustas, permitindo o desvio de recursos, o descumprimento de leis, permite que haja poucos recursos para a saúde, a educação e a habitação, comete o pecado coletivo contra o povo. Quando o judiciário não encaminha as decisões à luz das leis e muito menos à luz da palavra de Deus, então esse pecado faz o povo sofrer. Quando políticos demonstram com ações e promessas o descumprimento das normas de respeito e dignidade, manipulando com dinheiro e favores o povo, então o pecado tem terra fértil e quem sofre é o povo. Quando as pessoas se voltam a outros deuses, ocorre a confusão da fé. Advento é tempo de esperança. Anúncio de mudança. Voz do que clama no deserto, como diz em Isaías e também no Evangelho de Marcos; pode ser um forte convite para falar da transformação pessoal e coletiva. Somente a vinda, a incursão de Deus, de Cristo é luz para a transformação na busca pelo novo. O novo é possível. A libertação, o perdão dos pecados se traduz em nova vida. O segundo domingo de Advento aponta para o Jesus menino, que de uma estrebaria vem e anuncia com palavras e ações a graça de Deus, o seu reino. Agora não queremos mais somente o fim do exílio babilônico, do exílio mais suave da Pérsia, mas vida abundante com comunhão, paz e

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justiça. Vida de pessoas que confiam em Deus e se deixam guiar pela estrela de Belém rumo ao novo projeto de vida abundante. O bom combate dos males e a transformação pelo perdão são elementos fundamentais para nós cristãos hoje. Só há mudança quando acontece o perdão dos pecados. O passado não dá para mudar; é daqui para frente. O anúncio da boa-nova da graça de Deus, que transforma e compromete, é sem dúvida a melhor mensagem de Advento. 4.1 – Simbologias e dinâmicas O tempo de Advento é muito rico em simbologias: a coroa, a luz, o verde, as luzes que enfeitam casas e ruas, o preparo da cidade, das casas ou mesmo a festa... Tudo isso pode ser ou não ser expressão da alegria da boa notícia. Creio que é necessário falar forte, bem alto, com impacto... Às vezes, é oportuno o uso de algum som forte para falar com impacto ou mesmo pedir à comunidade reunida qual a forma de maior impacto para anunciar o novo Advento de Cristo Deus e o nosso Advento para uma nova vida. 4.2 – Acolhida (Após o sino, prelúdio... fazer silêncio e olhar com atenção para os presentes e iniciar a fala) Escutem, ouçam, parece que há algo novo, algo importante no ar, algo forte e que muda a vida, algo para anunciar e viver... O advento de Deus, a vinda de Cristo o Senhor, e hoje neste segundo domingo de Advento queremos juntos anunciar com o nosso canto neste culto a boa-nova de Cristo o Salvador. Intróito: Aqui chegamos e estamos reunidos para que o Advento de Deus nos alimente e conduza na vida e em seu nome aqui estamos: Em nome do Pai, do Filho Jesus Cristo Salvador e do Espírito Santo. Amém

Bibliografia DEIFELT, Wanda. Isaías 40.1-11. In: Proclamar Libertação XIX. São Leopoldo: Sinodal, 1993. pp. 15-21. KILPP, Nelson. Isaías 40.1-11. In: Proclamar Libertação XIV. São Leopoldo: Sinodal, 1988. pp. 124-131. PISKE, Meinrad. Isaías 40.1-11. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1982. pp. 40-48. SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo: Paulinas/ São Leopoldo: Sinodal, 1987.

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ISAÍAS 61.1-3, 10-11 1 TESSALONICENSES 5.16-24

PRÉDICA: JOÃO 1.6-8,19-28 Pedro Kalmbach

1 Introducción Al refutar la opinión de que el Bautista era la luz (v. 8), el prólogo del Evangelio de Juan muestra que existía una polémica respecto a quién era el Mesías. Lo que está en discusión en este Evangelio, según A. Jaubert, es la pregunta sobre la identidad de Jesús. El centro de las controversias a lo largo del Evangelio tiene que ver con el origen y la naturaleza de Jesús. La expulsión de los cristianos de la sinagoga (Jo 9.22), hacia fines del siglo I, y la controversia con el gnosticismo deben ser vistos como parte del contexto en el cual fue redactado este Evangelio. La negación del encuentro de Dios y del ser humano en Jesús, propia del gnosticismo, lleva a despreciar el cuerpo y lo material. Juan insiste en que Jesús reúne en sí mismo al cielo y a la tierra, es decir, a Dios y al ser humano. En el pasaje en cuestión (vv. 6-8,19-28) se presenta al Bautista, cuya actuación dió origen a esperanzas mesiánicas y a un movimiento de seguidores y de seguidoras (At 19.1s). La predicación corajuda y profética, el bautismo de arrepentimiento, todo parecía indicar que ese hombre era el Mesías esperado, el “salvador del pueblo” (G. Brakemeier, p. 29). Sin embargo según el cuarto evangelista, Juan el Bautista no quiere ser confundido con Cristo, él es el testigo por excelencia.

2 El texto Los vv. 6-8 quieren clarificar un malentendido. Juan es simplemente un ser humano. Él no es la luz. Él es un testigo de la luz (ver también v. 15). El hecho de que al Bautista lo hayan ido a ver sacerdotes y levitas (representantes del Sanedrín), indica que las autoridades judías tenían desconfianza del movimiento que se estaba generando en torno a su actividad. Entre la gente había gran expectativa mesiánica. Pero el Bautista no quería ser confundido con Cristo (v. 20), tampoco con Elías, ni con un profeta (v. 21). Él rechaza cualquier título análogo al de un mesías o de un profeta.

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Ante la perplejidad de los enviados de Jerusalén, que necesitaban otra respuesta, el Bautista señala que él es “la voz que clama en el desierto: enderezad el camino del Señor” (v. 23). Èl es testigo del que va a venir y que ya está en medio de ellos (v. 26). Sin embargo, según la opinión de los enviados (identificados ahora como fariseos, v. 24) el bautismo de Juan tiene una connotación mesiánica. Ellos quieren saber porqué el Bautista bautiza (v. 25). Este no contesta en forma directa y señala que su bautismo apunta para aquél a quien él ni siquiera es digno de desatar las sandalias (v. 27). Alguien que ya está en medio de ellos, pero que ellos no conocen. Pareciera ser que el lugar donde esto había sucedido, Betábara (v. 28, que no debe ser confundido con Betania en Jerusalén, G. Voigt, p. 30), tiene importancia para el evangelista, pues vuelve a aparecer en 10.40ss. La escena se corta abruptamente con el v. 28. El evangelista no cuenta lo que sucedió con los enviados de Jerusalén y con el Bautista. No interesa saber si los enviados obtuvieron la respuesta que necesitaban llevar a Jerusalén. Importa saber quién es Cristo. Todo lo que es presentado por el evangelista en este párrafo apunta a la proclamación del Mesías. El Bautista es alguien que anuncia, un testigo de aquel a quien él no es digno de desatar la correa de las sandalias.

3 Los otros textos 3. 1 – Isaías 61.1-3,10-11 El texto presenta una figura profético-mesiánica. A través de la misma se anuncia un nuevo tiempo (el autor apunta a la restauración después del exilio) en el cual reinará la justicia. El autor de este cambio en la vida del pueblo es Dios. 3.1 – 1 Tessalonicenses 5.16-24 Se trata de un conjunto de recomendaciones que el apóstol Pablo realiza a la comunidad en Tesalónica. Ella es exhortada a mantenerse en oración, a guardar una vida en alegría y agradecimiento, buscando el bien en función de lo que va a venir. Pablo invita a la comunidad a que no apague el Espíritu presente en medio de ella y a que mire hacia el Señor, hacia la parusía, el futuro de Dios.

4 Énfasis teológicos – apuntando hacia la predicación El Bautista sorprende, él no es la luz. Hubiera sido una interesante oportunidad como para asumir un rol central, el del Salvador el Mesías, o

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por lo menos un rol secundario (el de Elías el profeta). El Bautista no quiere ser ninguno de ellos. Él no es aquel al que todos esperan. Él no es el Salvador, él no es ni trae las respuestas a las preguntas existenciales de la gente. Él no es, ni trae la solución para los problemas de la gente. Él no es el que da sentido a la vida, ni el que restaura lo que está quebrado, tampoco el que perdona los pecados. El no del Bautista es claro y nítido, es un rechazo a cualquier tentación de creerse o de sentirse importante. Central e importante es aquel que vendrá y que ya está en medio nuestro. Todo lo demás debería apuntar a ello. El texto nos confronta aquí con el peligro que corremos de colocarnos a nosotros mismos en el centro. Cuanto mayor el cargo de responsabilidad, cuantos más dones y carismas, mayor la tentación de creer que estamos en primer plano y que lo que interesa somos nosotros mismos. Pienso, por ejemplo, en políticos que prometen solucionar los problemas de la gente. Pienso en personas que hacen depender su participación en los cultos de quien lo oficia (como si lo que reúne a la gente fuera el ministro y no el propio Cristo). La gran tentación para pastores y pastoras sería la de querer volverse importantes y asumir lo que Juan había rechazado (¿quién no conoce la tentación de querer ser el “salvador” o “solucionador/a de problemas” de alguien?). En la lógica del Bautista, el mejor predicador y la mejor predicadora son aquellos a los que las personas olvidan porque a través de ellos Cristo pasa a ser el centro de sus vidas. Para el evangelista, el Bautista es ejemplo y prototipo del auténtico testigo de Jesús. Su identidad, la del Bautista, se basa en el que viene y del cual él está dando testimonio. Adviento se refiere precisamente al anuncio y a la espera de aquél que ya está presente y que vendrá. La vocación de la iglesia y de todos sus miembros es la de dar testimonio, de señalar y dirigirse hacia el que es la luz. El servicio de las personas cristianas entre sí y con el mundo es el de mostrar que en esta tierra todos somos mendigos que recibimos la ayuda de un mismo Dios. La persona/comunidad que es testigo entiende su existencia a partir de aquél que vendrá. Como testigo está llamada a dar testimonio, a señalar nítidamente hacia lo que importa. Como tal tiene la tarea de actuar denunciando las injusticias (el pecado), enseñando a guardar lo que Jesús había ordenado, curando y acompañando a las personas enfermas y sufrientes. Sin embargo, todo ello debe ser para testimoniar a aquél que viene y que es el único que puede perdonar los pecados y superar el mal. Como testigos, todo lo que se realiza no es más que un reflejo del amor de Dios que señala y se dirige hacia Él. El que viene ya está presente, pero es desconocido porque está oculto (“pero en medio de vosotros está uno a quien vosotros no conocéis” v. 26). Dios se manifestó y se manifiesta en la pequeñez de la vida humana, es allí donde debe ser buscado. A Él no se lo puede medir con medidas humanas (como el más inteligente, el más santo, el más experimentado, el que mejor

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cumple las leyes, etc.). Lo que caracteriza al que viene permanece oculto al conocimiento mundano. Adviento expresa precisamente que Dios vino, que viene y que vendrá. Él está presente entre nosotros, en este mundo. Y es por eso que no todo es oscuridad, desesperación, vanidad. La vida tiene sentido, un sentido que le es dado por el Creador, cuyo deseo es que exista en abundancia y con dignidad. Su presencia se dió y se da en forma encarnada, y se anuncia como el encuentro de Dios y el ser humano en Jesús. Nada más ajeno al testimonio del Bautista que un Cristo, un Mesías desencarnado y puramente espiritual.

5 Para la celebración Confesión de pecados: Dios de Amor, de Gracia y de Esperanza, Tú te entregaste y te sigues entregando a nosotros, Tú asumiste la condición humana, mostrándonos que la vida sobre esta tierra tiene para ti un inmenso valor. Necesitamos confesarte que muchas veces vivimos como si Tú no existieras, como si no te hubieras encarnado en tu Hijo. Te imploramos, oh Dios, escucha nuestra confesión: pedimos perdón por nuestra desunión, por no darnos el tiempo necesario para cultivar la amistad; pedimos perdón porque muchas veces nos convertimos en juezas y jueces de nuestras hermanas y hermanos; pedimos perdón por nuestro egoísmo, por nuestro orgullo y vanidad. Ayúdanos, oh Dios, para que nuestro arrepentimiento y tu amor nos lleven a colocarnos humildemente bajo tu servicio. Te lo pedimos, en el nombre de nuestro Jesucristo, quien es nuestro Salvador y Redentor. Amén. ENVÍO: Vayan con la fortaleza que viene de nuestro Señor. Vayan humildemente, sin cargas, mansamente, en busca de justicia, de paz y de amor. Que Aquel que está presente entre nosotros Vaya con ustedes, ahora y siempre. Amén. (Adaptado de: Espíritu y verdad: libro de culto, CMI séptima Asamblea, 1991)

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Bibliografía BRAKEMEIER, Gottfried. “Meditação sobre João 1.6-8,19-28”. In: Proclamar Libertação. Vol. XXV, São Leopoldo: Sinodal, 1999. JAUBERT, Annie. El evangelio según Juan. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1985. (Cuadernos bíblicos nº 17) SCHNEIDER, Johannes. Das Evangelium nach Johannes. Berlin: Evangelische Verlangsanstalt, 1976. (Kommentar zum Neuen Testament, Sonderband) VOIGT, Gottfried. Die bessere Gerechtigkeit: Homiletische Auslegung der Predigtexte. Göttingen: Vandenhoeck&Rupprecht. (Neue Folge: Reihe V)

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4o DOMINGO DE ADVENTO

18 DEZ 2005

SAMUEL 7.8-11,16 LUCAS 1.26-38

PRÉDICA: ROMANOS 16.25-27 Ivoni Richter Reimer

Advento: tempo de recordar, esperar e firmar compromisso O texto previsto para a pregação motiva-nos a celebrar esse quarto domingo de Advento trazendo à memória a atuação graciosa de Deus em nossas vidas. Com os anjos da história do nascimento de Jesus queremos glorificar a Deus. Dar-lhe glória significa honrá-lo com o nosso compromisso de fé, a qual nos dispõe e capacita a fazer a sua vontade como resposta a seu amor. Glorificar a Deus é afirmar que seu silêncio foi interrompido pela sua revelação por meio de Jesus Cristo. Glorificar a Deus é reconhecê-lo como Deus único em nossas vidas, cuja sabedoria está em nos fortalecer. Para fazer a memória dos tempos salvíficos de Deus no mundo e em nossa vida, poderemos acender as quatro velas do Advento durante a pregação (veja sugestões).

1 Olhando para o texto “Ao que tem poder de vos fortalecer conforme o meu evangelho, o querigma de Jesus Cristo, de acordo com a revelação do mistério que permaneceu em silêncio em tempos eternos, mas que agora tornou-se manifesto e através dos escritos proféticos, de acordo com a ordenança do Deus eterno, tornou-se conhecido para todas as nações para a obediência da fé, ao único sábio Deus, através de Jesus Cristo, seja a glória em tempos eternos. Amém!” (Rm 16.25-27, minha tradução). Pregar sobre Rm 16.25-27, em época de Advento, parece não ser tarefa fácil. É de estranhar até a seleção de um texto assim para essa época do ano eclesiástico. O que tem essa perícope a ver com a mensagem e com o convite desse tempo de espera e preparação? Pregar sobre esse texto parece não ser tarefa fácil também por causa do jeito do texto, do gênero literário. Trata-se de uma doxologia. Como tal, ela pertence à liturgia da igreja. Não é comum fazer uma homilia sobre

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alguma parte litúrgica, a não ser que se tenha por objetivo uma instrução comunitária específica sobre a questão. Pregar sobre essa doxologia, enfim, parece não ser tarefa fácil porque se trata de um texto cuja originalidade apostólica é questionada na literatura exegética. Como tratar de um texto, junto à comunidade, na pregação pública da palavra, reconhecendo e até explicitando que esse texto pode não ter sido escrito pelo apóstolo Paulo? Como lidar, afinal, com essa (aparente?) tensão entre conhecimento acadêmico – para o qual cada pastora e pastor foram instruídos – e a prática pastoral?

2 As discussões sobre o texto O final da carta de Paulo à comunidade judeu-cristã em Roma é, sem dúvida, bastante “truncado”. Os capítulos 15-16 contêm diversas saudações e recomendações finais, entrecortadas com uma perícope admoestativa (16.17-20), que, semelhante às cartas pastorais, está preocupada com a “sã doutrina”. Tanto a linguagem como o estilo remetem a um período pósapostólico. Igualmente a doxologia final (16.25-27) é tida como acréscimo posterior. A conclusão exegética é que, em perspectiva redacional, alguém ou um grupo deve ter retrabalhado o final da carta de Paulo algumas décadas mais tarde. Vejamos alguns detalhes dessa discussão: O papiro P4 6 (século III) sugere que 16.25-27 é adendo posterior a 15.33. Marcião exclui os capítulos 15-16, sendo que o final da carta seria 14.23. Nessas propostas de crítica textual, não apenas a doxologia, mas também a lista nominal de mulheres e homens que atuavam na diaconia, na missão e no apostolado não faria parte do escrito original... Essa discussão teve e tem continuidade até hoje. Lutero, nas preleções sobre Romanos (novembro de 1515 a setembro de 1516), em Wittemberg, não se refere ao capítulo 16. O motivo disso não nos foi transmitido nem por ele tampouco pelo prefácio à sua obra, escrito por Eduard Ellwein, em 1927. Kümmel afirma que originalmente a carta era composta de 1.1-16.23 e que essa doxologia “não surgiu de Paulo e foi criada primitivamente para servir de conclusão logo em seguida a 14.23” (KÜMMEL 1982, p. 411). Para Käsemann, a doxologia final somente foi acrescida ao capítulo 16 durante a compilação final da literatura paulina, assemelhando-se ao estilo literário das cartas católicas ou deuteropaulinas (KÄSEMANN 1973, p. 403; veja Cl 1.26-27; Ef 3.1-13; 1 Tm 3.16; 2 Tim 1.9-10; Tt 1.2). Os argumentos literários e de conteúdo fazem-me aceitar a perícope como parte de um processo posterior de compilação e organização da herança literária paulina. Não se trata, pois, de um texto escrito por Paulo. Mas isso não invalida sua motivação e sentido dentro do contexto e sua história traditiva. Entendo-o como parte de um texto enquanto conjunto e

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composição literária que, como tal, foi canonizado, sendo normativo para a instrução e a vivência da fé. Esse texto foi transmitido a nós e está nas mãos do povo. A questão é como, junto com nosso povo, podemos compreender esse texto. Nesse caminho, é preciso considerar que Rm 16.25-27 é uma doxologia, tendo por objetivo glorificar a Deus (veja outras doxologias: Rm 11.36; Gl 1.5; Fp 4.20; 1 Tm 1.17; Jd 25; Ap 7.12). Seu lugar vivencial é litúrgico, que brotou da vivência da fé comunitária. Ela tem a função de fazer memória da história da revelação de Deus por meio de Jesus Cristo. Em sua forma, o texto apresenta características comuns desse gênero literário utilizado pelo judaísmo helenístico: nomeação de Deus (no dativo), motivo do louvor, menção de tempo e o amém. Essa forma ajuda a observar seu conteúdo, o que faremos a seguir.

3 Analisando conteúdos do texto Quem é esse Deus? O texto apresenta alguns atributos que destacam a relevância desse Deus: poderoso (25a), único Deus sábio (27a). O poder de Deus constitui-se fundamentalmente em fortalecer a comunidade para que essa possa concretizar a vontade de Deus por meio da “obediência da fé”. Essa terminologia remete a um contexto em que perseverança e resistência da fé se fazem necessárias e indica para situações pré-escatológicas (veja 1 Ts 3.2-5,13). A comunidade enfrenta tentações e problemas, diante dos quais a fé precisa ser fortalecida para que as pessoas possam sobreviver com dignidade. Por que glorificar a Deus? O texto destaca, então, o modo como e o meio através do qual Deus age, fortalecendo a fé: A sabedoria de Deus foi manifesta por meio da vida e obra de Jesus Cristo. Essa sabedoria de Deus é anunciada por intermédio do evangelho e de seu anúncio (querigma). Deus age e fortalece por meio de sua palavra, que foi revelada em Jesus de Nazaré e anunciada desde tempos antigos. Em Jesus não apenas se realizam as profecias e promessas, mas nele Deus também rompeu com o seu próprio silêncio diante das dores do mundo. Em Cristo, o mistério de Deus está revelado a todas as nações. Nele, Deus foi revelado e está conhecido. Esse é o motivo da glorificação! Qual o sentido dos tempos? O texto está permeado com a marca de tempos. Passado, presente e futuro. No v. 25 aparecem os tempos do passado, que estava mergulhado no mistério do silêncio de Deus; no v. 26 evidencia-se o tempo atual (agora), no qual Deus está revelado e pode ser conhecido por todos os povos; no v. 27, temos o tempo aberto ao futuro. É Jesus quem “amarra” os distintos tempos e mantém o seu conjunto e unidade. Jesus é o centro, motivo e finalidade da doxologia.

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Que assim seja! Na liturgia, a comunidade é convidada a glorificar esse Deus que, em Jesus Cristo, acabou com seu silêncio e ausência: ele está revelado e seu poder e sabedoria consistem em fortalecer a comunidade para a perseverança e obediência da fé. O amém é afirmação e confirmação dessa fé e dessa certeza. Resumindo: Esse pequeno texto foi elaborado e anexado como doxologia final a essa carta de Paulo. Ele destaca, a partir de outra época e outra realidade, alguns elementos que foram importantes para a recepção da teologia paulina, para a compreensão do “corpo paulino” e sua repercussão na vida das comunidades. Nesse sentido, evidencia o caráter teológico da carta como teologia da revelação de Deus – e por isso destaca o evento crístico; esse conteúdo é evangelho e querigma, normativos para a comunidade de fé; esse evento-palavra fundamenta a universalidade do anúncio apostólico, que foi e deve ser proferido a todas as nações.

4 Reflexão sobre o texto na liturgia do culto Os textos para leitura O tempo de Advento marca uma espera ativa, mesclada de estupefação, alegria e disposição (como Maria, Lc 1.26-38), confiando que Deus reafirma sua aliança (2 Sm 7.8-11,16) também para conosco: com misericórdia prepara um lugar, criando espaços de paz em ausência de inimizade. Alguns destaques possíveis na pregação de Rm 16.25-27 * A doxologia é um convite pedagógico para recordar a função memorial do “glória” cantado em nossas liturgias dominicais; seu contexto escriturístico é a história do anúncio e nascimento de Jesus (Lc 2.10-14). Assim, o nosso texto é profundamente pertinente a esse tempo litúrgico, fazendo memória da revelação de Deus por meio da vida e ministério de Jesus. Como sinal dessa memória, acender a primeira vela. * Nomear e caracterizar esse Deus ao qual se glorifica (veja acima item 3) e destacar a sua ação em nosso favor = fortalecer! Somente por meio dessa atuação graciosa e poderosa de Deus é que poderemos ser obedientes em nossa fé, isto é, viver a sua vontade. Como sinal da fé nesse Deus que nos fortalece, acender a segunda vela. * Refletir sobre os tempos do silêncio e da ausência de Deus na história humana (deus absconditus) e de como isso é interrompido por meio das profecias e da revelação em Jesus Cristo. Acentuar o agora da salvação: Deus está manifesto e se deu a conhecer em Jesus de Nazaré. Como sinal dessa graça de Deus por nós, acender a terceira vela

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* Refletir sobre a questão de que somente glorificar a Deus não basta; é necessário que a comunidade diga o Amém! À atuação de Deus segue o imperativo pessoal-comunitário: viver de acordo com o que proferimos. Deus nos fortalece para andar segundo a sua vontade (obediência de fé), fazendo de nossas ações a expressão de seu amor (o grande mandamento do amor). Como sinal desse compromisso, acender a quarta vela.

Bibliografia LUTHER, Martin. Vorlesung über den Römerbrief. 1515-1516. Übertragen von Eduard Ellwein. München: Chr. Kaiser Verlag, 1927. 514pp. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento (original de 1973). São Paulo: Paulinas, 1982. 797pp. KÄSEMANN, Ernst. An die Römer. Tübingen: J.C.B.Mohr, 1973. 407pp.

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NATAL DE NOSSO SENHOR ISAÍAS 52.7-10 HEBREUS 1.1-9

25 DEZ 2005

PRÉDICA: JOÃO 1.1-5; 9-14 Ari Knebelkamp

1 Meditando o sentido do texto Os três textos têm em comum um Deus voltado a seu povo. Em Is 52.710, a situação é o exílio e a expectativa de um iminente retorno. O Deus esperado está chegando para reinar. Ele vem com o manto da justiça, trazendo perdão e um novo projeto de paz. Em Hb 1.1-9, temos a memória das muitas maneiras como Deus outrora falou a seu povo. A nova linguagem de Deus agora é o Filho Jesus Cristo, que amou a justiça e a eqüidade e odiou a iniqüidade. Por isso Deus o ungiu com o óleo da alegria (v. 9). Esse é o Verbo encarnado, que assim assumiu a nossa humanidade na manjedoura de Belém. Em Jo 1.1-5, 9-14, temos um texto com uma riqueza e densidade teológicas quase únicas. E não podia ser diferente: A religião cristã é a única na face da terra que afirma a “revelação” de Deus como “encarnação” = “tornar-se carne” por parte do Verbo de Deus. O Verbo de Deus não está apenas entre nós como idéia, mas essencialmente como ser humano. Para o evangelista João, o Verbo se fez carne e veio morar no meio de nós. E o mundo viu essa luz. E essa presença trouxe vida, e vida em abundância. João, o discípulo amado de origem judaica, irmão de Tiago, escreveu da Síria esse evangelho para seus contemporâneos há quase dois mil anos. Escreveu-o em língua grega e nele polemiza com o judaísmo e os gnósticos. No princípio, era o Logos (Verbo). Como parte integrante do poder criador de Deus, o Logos já estava com Deus antes de qualquer criação. Ele não pertence à criação. Só com Jesus ele entrou no mundo (criação) ao assumir forma humana. O que era “no princípio”, quando Deus “falou”, não precisamos mais deduzir pessoalmente. Está diante de nós de forma palpável em Jesus, o Verbo que se fez carne, o Logos encarnado. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens. Jesus Cristo, o Verbo eterno e encarnado, está nesse mundo, e agora isso significa: “A luz resplandece nas trevas”. A verdadeira luz, vinda ao mundo, ilumina todas as criaturas. “Veio para o que era seu”, eis o milagre do Natal.

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NATAL DE NOSSO SENHOR

“Mas os seus não o receberam” – aqui temos a tragédia do Natal. O Logos era como alguém que retorna para casa, e agora seus próprios familiares fecham-lhe a porta. Será que a verdadeira luz resplandece em vão? Não. Há pessoas que o “recebem”. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus...”. Eis aí a chance do Natal. Cada um de nós pode “ver” essa luz e agarrar com alegre avidez essa “vida”, acolhendo aquele do qual e para o qual ela foi criada. “E Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” Assim, Deus revelou-se genuinamente. Tornouse verdadeiramente um de nós, numa solidariedade plena. Essa é a história do Natal no horizonte do pensamento do Evangelho de João, a qual Mateus e Lucas descrevem de uma maneira bem diferente: plástica e concretamente como nascimento de uma criança em circunstâncias dramáticas. Onde os outros evangelhos nos oferecem figuras e imagens para ver e contemplar, nós achamos em João termos teológicos e filosóficos. João deixa de lado tudo o que Mateus e Lucas informam sobre o nascimento e a infância de Jesus. Por quê? Isso já é do conhecimento da igreja. Mas ainda não é essencial e decisivo, que deve ser dito sobre o mistério da pessoa de Jesus. É preciso circunscrever mais ainda o mistério da pessoa de Jesus Cristo, sua natureza e sua importância. No fundamento de nossa religião está, pois, a doutrina da encarnação. E o motivo para festejar o nascimento de Cristo não veio de fora, mas surgiu de reflexões cristãs sobre o significado teológico do fato salvífico de que Deus se tornou gente em Cristo e se humilhou, a ponto de descer até nós e igualar-se conosco.

2 Cremos em Jesus Cristo, o Deus humano Tema básico da teologia luterana são Deus e o ser humano em seu relacionamento mútuo: Deus, manifesto em Jesus de Nazaré, e o ser humano, salvo unicamente por causa de Cristo. Cristo personifica a graça de Deus. Em Jesus Cristo, Deus abre seu coração para nós. Jesus Cristo é o Deus por nós, que quer entrar no todo de nossa existência. Enquanto a nossa tendência é buscar a própria divinização, a tendência de Deus é a valorização do humano.

3 O poder de Deus na fragilidade do mundo “Deus é grande demais para poder passar pelas portas do templo. Aliás, Ele nem cabe no templo, nem em qualquer catedral, igreja ou capela. Por

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causa disso, as pessoas só podiam crer que Ele morasse numa alta montanha distante, como o Sinai, ou mesmo na imensidão do céu. “Deus, porém, quis revelar-se, mostrar-se, chegar perto de suas criaturas, pois as amava. Apesar de sua desobediência, apesar de seu pecado, apesar de sua maldade, Deus amava e ama profundamente as suas criaturas. Já não podia ver seu sofrimento, nem ouvir o seu clamor. Por isso, desceu. E desceu tanto que se foi revelando nas coisas fracas, frágeis, insignificantes. “Subitamente já não estava na alta montanha. Estava numa sarça, num pequeno arbusto que quase não se notava. Estava numa brisa leve, quase inaudível. Estava no chão do sofrimento, em meio a escravos e escravas de costas lanhadas pelos chicotes. Estava no deserto, caminhando com seu povo, por muito, muito tempo, até chegar na terra prometida. Contudo, esse Deus queria chegar ainda mais perto das pessoas. Tão perto, a ponto de tornar-se um igual. Igual a quê? Igual ao ser humano mais sofrido e triste que pudesse existir. E, então, se fez carne! Armou uma tenda no meio de nós. Fez-se imagem de ser humano... “Mais tarde havia uma cruz, numa cinzenta tarde de sexta-feira. Pregado nela, alguém gritava desesperado: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’. E morreu, frágil, banhado em sangue e dores. Emanuel! “Na manjedoura e na cruz, Emanuel, Deus conosco. Para sempre, Deus conosco. Grande demais para caber num templo. Pequeno e frágil como uma criança recém-nascida. É difícil entender um Deus assim. É difícil compreender um amor tão grande. Mas é assim o nosso Deus, Emanuel. O seu poder se torna forte nas coisas fracas e pequenas. Ele está presente nas pessoas fracas e pequenas, nas crianças, nos pobres, nos sofridos. Solidário. “Assim é Natal: o poder de Deus na fragilidade do mundo! “Por isso, Glória a Deus nas maiores alturas, e paz, paz na terra, paz entre os seres humanos a quem Ele tanto ama. Emanuel”. (P. Dr. Carlos Dreher em: A Palavra da Vida, faz escuro, mas eu canto, pp. 25-26).

4 Pistas para a prédica Os vv. 11 e 12 do primeiro capítulo de João são uma possibilidade muito significativa de desenvolvimento da prédica. A primeira parte do v. 11 – “veio para o que era seu” – fala do milagre do Natal. O primeiro a cumprir o mandamento do amor ao próximo é o próprio Deus. A Bíblia apresenta Deus como uma pessoa boa. Pessoa generosa, grande em misericórdia. Ligeira para nos acolher e perdoar e demorada para se irritar conosco. Interessa-se por nossas dores, canseiras e mortes. Muito fiel com a gente. Preocupa-se conosco. Cuida de nós. Perdoa-nos. Acolhe-nos. Um salmo diz: Deus tem compaixão e muito amor. Ele é bondoso e fiel (Sl 86).

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Em Jesus Cristo, Deus se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. A luz brilha na escuridão. Deus procura a sua criatura. Procura-nos em nossas dúvidas. Em Jesus de Nazaré, o amor de Deus torna-se pessoa humana, gente. Esse amor traz ânimo aos cansados, esperança aos desanimados, solidariedade aos aflitos e injustiçados. Visões podem tornarse realidade. A segunda parte do v. 11 – “e os seus não o receberam” – fala da tragédia do Natal. O amor de Deus é rejeitado. Não há lugar para o Filho de Deus neste mundo. Jesus vem ao mundo numa estrebaria e, no final, é crucificado. Estrebaria e cruz marcam a vida de Jesus. Acontece que não queremos mudar para mais amor e justiça. Priorizamos o egoísmo. Tememos o risco do verdadeiro amor. A fome de muitos e a abundância de poucos, a nossa indiferença e a nossa incapacidade de nos deixar envolver por esse amor de Deus mostram que o Natal é festejado, mas não assimilado. A partir da Bíblia, a inclusão é um princípio básico para o relacionamento humano. O espaço terrestre, o espaço da vida, é o espaço do crescimento, da troca, da evolução. Nesse espaço há lugar para todas as pessoas, com suas virtudes e deficiências. Negar esse espaço a alguém significa negar a possibilidade de uma vida mais ampla, mais plural, mais significativa para todo o mundo. A globalização prometeu o fim da miséria. Prometeu trazer bem-estar às nações e ao mundo. Mas o que vemos é que ela divide o mundo, suscita novas guerras e retaliações e produz mais pobreza ainda. A globalização está destronando o mundo. É preciso que o nosso planeta terra seja um espaço aberto de todos e para todos. Nele não pode haver discriminações sociais, raciais, religiosas e culturais. Só podemos clamar: Deus, em tua graça, transforma o mundo! Há forças que querem destruir em nós a capacidade de sonhar o sonho de Deus. Querem nos fazer acreditar que o mundo não tem jeito para que, sem ânimo e sem alento, aceitemos passivamente os fatos. O v. 12 – “Mas, quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus...” – fala da chance do Natal. Tudo pode ser mudado. A miséria humana não é irreversível. Também nós podemos mudar para mais amor e mais justiça. Bondade, amor, justiça, paz, salvação são possibilidades concretas. A verdadeira luz brilha. Não nos deixemos, pois, enjaular pela desesperança e nem pelo desespero. Somos desafiados, isto sim, a viver o Natal com intensidade. Vamos compartilhar abraços solidários, vamos celebrar o Natal com luzes, glórias e aleluias. Cantos abrem espaços em torno do coração. Novos horizontes se abrem. O entusiasmo e o acendimento ajudam-nos a olhar para frente.

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NATAL DE NOSSO SENHOR

5 Possibilidades litúrgicas 1. Sugiro fazer do culto de Natal um culto com batismos e, se possível, com celebração eucarística. 2. Lc 2.14: Glória a Deus nas alturas e paz na terra. Talvez seja este o mais antigo canto de Natal: Gloria in excelsis Deo! Uma exuberante e magnífica exaltação da encarnação de Deus! Sempre que damos glória a Deus de uma maneira sincera e alegre, nós vamos experimentando fragmentos de paz na terra. Esse elemento litúrgico – “Gloria in excelsis Deo” – há de ser valorizado nesse culto. O poema que segue e que recebi há alguns anos como Mensagem de Natal é uma boa possibilidade para isso. Se a equipe de liturgia local optar por um Gloria in excelsis Deo de formulação própria e mais contextualizado, então o poema pode ser usado no início do culto ou até em combinação com a prédica. Deus veio a nós Deus veio a nós. Não precisamos mais buscá-lo ansiosos. Deus veio a nós, para anunciar-nos sua graça. Deus veio a nós e renovou-nos a esperança. Seu coração abriu-se para nós. Deus veio a nós. Canto: Glória a Deus nas alturas... Deus veio a nós. Manjedoura e cruz são seus sinais. Deus veio a nós, Nosso luto se transforma em alegria, pois vivemos de seu amor, dando-o a outros. Deus veio a nós. Canto: Glória a Deus nas alturas... Deus veio a nós. Saiu das alturas. Deus veio a nós,

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NATAL DE NOSSO SENHOR

tornou-se nosso igual em Jesus, seu Filho. Dá-nos dádivas preciosas, para vivermos em todos os tempos. Deus veio a nós. Canto: Glória a Deus nas alturas... Deus veio a nós. Não precisamos mais lutar por ele. Deus veio a nós. Rosas florescerão no deserto. Deus veio a nós em uma pequena criança, para unir-se ao pequeno. Deus veio a nós. Canto: Glória a Deus nas alturas...

Bibliografia DE BOOR, Werner. Evangelho de João I, Comentário Esperança, Editora Evangélica Esperança, 2002. DREHER, Carlos. A. A Palavra na Vida. Faz escuro, mas eu canto. Cebi/Contexto: São Leopoldo, 2004. MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de São João: análise lingüística e comentário exegético. São Paulo: Paulinas, 1989.

ANO NOVO – CIRCUNCISÃO E NOME DO SENHOR SALMO 34.1-15 JOÃO 14.22-27 1 PEDRO 3.8-12

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EPIFANIA DE NOSSO SENHOR

06 JAN 2006

ISAÍAS 60.-6 MATEUS 2.1-12

PRÉDICA: EFÉSIOS 3.1-12 Gerd Uwe Kliewer

1 Prólogo Dois colegas trabalharam esse texto antes de mim: Günter Wolf em PL XVI (pp. 83ss) e Martin Volkmann em PL 22 (pp. 43ss). Wolf explica muito bem os aspectos exegéticos, o contexto da carta e o lugar vivencial do autor e dos leitores. A atualização leva-o a apontar para a desigualdade social e a necessidade da integração, na sociedade e na igreja, dos marginalizados e excluídos. Nela encontra o enfoque da prédica. Volkmann acrescenta a análise das idéias centrais do texto, “destaques” como ele escreve, e encontra o rumo da prédica no desdobramento desses. Oferece ainda uma versão bem compreensível do texto, visto que esse, tanto no original como na versão de Almeida, é uma tripa de difícil compreensão. Após ler os dois trabalhos, cheguei à conclusão de que qualquer esforço meu de melhorar ou completar a exegese e a contextualização que os colegas fizeram ficaria menor do que o que já está aí. Quem quer pregar sobre o texto encontra nos auxílios deles o que precisa, tanto a explicação do texto como a motivação para a prédica. Creio poder acrescentar, porém, algo a respeito da atualização da temática abordada pelo texto. Propus-me, então, a refletir sobre as seguintes perguntas: Qual a situação específica que leva o autor da carta a escrever aos efésios? Haveria uma situação, uma conjuntura semelhante nos dias de hoje? Se houver, em que a perícope pode contribuir para lidarmos com essa situação? Cabe ainda uma observação quanto ao caráter e à autoria da Carta aos Efésios. Vários exegetas têm apontado para o fato de que o estilo dela assemelha-se mais a uma homilia ou exposição teológica e ética dirigida a toda a igreja do mundo greco-romano. O endereçamento inicial e a referência pessoal em 6.21s parecem corpos estranhos, acrescentados posteriormente. Os mesmos exegetas também argumentam que, apesar de a teologia exposta na carta estar claramente baseada nos conceitos do apóstolo Paulo, ela reflete um nível mais avançado de elaboração teológica, próprio do período posterior à destruição de Jerusalém e da comunidade cristã dessa cidade em 70 d.C. A carta, portanto, seria de autoria de um aluno e continuador do traba-

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lho do apóstolo Paulo. Não é incomum naqueles tempos, conforme os estudiosos, que alunos usem os nomes de seus mestres para dar mais autoridade a seus escritos. Sem aprofundar essas questões, informo que as reflexões desse auxílio homilético baseiam-se nas premissas expostas neste parágrafo. A seguir, quando me refiro ao autor de Efésios, sempre falo em “autor” ou “autor da carta”.

2 Texto O texto é de compreensão difícil. No original grego são duas frases apenas que pretendem intercalar uma explicação referente ao que o autor quis dizer quando começou a frase do v. 1. Mas como ele intercala sempre novas explicações e complementações, quando chega no fim da segunda frase da perícope, perdeu a seqüência da frase iniciada no v. 1 e, no v. 13, recomeça a frase que iniciou no 1. Por isso é perfeitamente justificável desprezar o v. 1 e tratar os vv. 2 a 12 como uma seqüência de raciocínio com início e fim, completa em si. Para entender melhor o raciocínio, é necessário decompor a perícope em várias frases. O colega Volkmann faz isso com maestria. Por isso uso a versão dele (veja PL 22, p. 44): (2) Vocês ouviram a respeito da tarefa com relação à graça de Deus que a mim foi confiada com vistas a vocês. (3) Pois, através de uma revelação, foi-me dado a conhecer o mistério, conforme escrevi em resumo acima. (4) Assim, ao lerem, vocês podem tomar conhecimento junto comigo do mistério de Cristo. (5) Esse mistério não era conhecido das pessoas das gerações passadas, assim como foi revelado agora aos seus santos apóstolos e profetas, em Espírito. (6) O mistério de que os gentios foram incorporados na promessa e se tornaram co-herdeiros e co-participantes da promessa em Cristo Jesus, por intermédio do evangelho. (7) Desse evangelho eu me tornei servo conforme o presente da graça de Deus, que me foi dada segundo a força do seu poder. (8) A mim, ao menor de todos os santos, foi concedida essa graça de anunciar aos gentios a riqueza insondável de Cristo (9) e trazer à luz para todos a “economia” desse mistério que estava escondido desde a eternidade junto a Deus, o Criador de tudo. (10) Ou seja, que se tornasse conhecida agora aos poderes e domínios em todo o universo, por intermédio da igreja, essa multiforme sabedoria de Deus. (11) Esse propósito Deus estabeleceu desde a eternidade em Cristo Jesus, nosso Senhor. (12) Nele temos a liberdade de acesso na confiança que nos é dada por intermédio da fé nele.

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3 Contexto Qual é o objetivo, qual a preocupação do autor da Carta aos Efésios que o levam a escrever a perícope acima? Pressupondo o exposto no item 1, de que ela provavelmente não é de autoria do apóstolo Paulo, mas de um aluno dele, a carta teria sido escrita posteriormente à presença dos apóstolos na igreja primitiva em torno de 80 d. C. Os apóstolos não podem mais ser consultados diretamente, mas a sua doutrina ainda está bem presente entre seus alunos que lideram a igreja. Jerusalém com sua comunidade judaicocristã, dispersa após a destruição da cidade no ano 70 d.C., deixou de ser o centro de referência da igreja. As comunidades judaico-cristãs perdem ou já perderam a sua liderança. A fé cristã fincou pé entre os “gentios”. Os cristãos, que têm a sua origem entre os muitos outros povos incorporados ao domínio de Roma, agora predominam na igreja. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas apenas estão sendo coletados e redigidos. Talvez o Evangelho de Marcos já estivesse disponível em parte das comunidades, ao lado de outras tradições orais presentes nas comunidades dispersas no vasto território do Império Romano. Qual é a problemática que move os líderes da igreja, entre eles o autor da Carta aos Efésios, nesse contexto? Conscientizemo-nos da situação: Os líderes que tinham sido convivas de Jesus Cristo e que podiam comunicar com autoridade de testemunhas presentes aos eventos do evangelho não vivem mais. Também as pessoas que ainda tinham convívio com os apóstolos e com os primeiros líderes, por exemplo Paulo e Barnabé, estão saindo ou já saíram de cena. Quem se poderá consultar em questões de doutrina daqui para frente? Era necessário anotar, coletar, compilar e comparar as diversas tradições, relatos e doutrinas para que a geração presente e as futuras obtivessem clareza sobre o que significa e o que abrange a salvação providenciada por Deus em Jesus Cristo. Era necessário definir onde se originava e em que se baseava a autoridade daqueles que pregavam o evangelho, administravam os sacramentos e conduziam a igreja. Era um trabalho que se impunha. A comunidade de Jerusalém não fora somente um centro espiritual, mas também orientador e de legitimação para toda a igreja. Para lá se recorria em casos de dúvidas e disputas, como mostra o concílio dos apóstolos e presbíteros em 49 d.C. O apóstolo Paulo, apesar das diferenças teológicas que sustentava contra os líderes de Jerusalém, reconhecia a importância desse centro, o que fica evidenciado com a coleta que, em suas viagens missionárias, levantava para os santos de Jerusalém. Com esse centro estraçalhado e os líderes da primeira geração fora do combate, a jovem igreja estava em perigo de acabar, reduzindo-se a um aglomerado de comunidades espalhadas pelo mundo então conhecido, isoladas uma da outra, cada uma desenvolvendo as suas próprias doutrinas e liturgias.

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Há também outra fissura que se manifesta nas comunidades da jovem igreja: entre os cristãos de origem judaica e os cristãos de origem entre os gentios. A comunidade cristã entendeu-se inicialmente como um ramo da religião judaica. Também fora da Palestina, as primeiras comunidades cristãs formaram-se geralmente a partir das sinagogas dos judeus da diáspora, onde a nova fé em Cristo tinha apelo primordialmente aos prosélitos, nãojudeus interessados na religião judaica, mas que não queriam submeter-se a certos ritos dessa, como a circuncisão. Esses prosélitos foram o veículo do cristianismo para dentro do mundo dos gentios, no qual as comunidades cristãs começaram a difundir-se rapidamente depois que ficou definido, no concílio dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém, que cristãos saídos dos gentios não estariam sujeitos à lei da circuncisão (At 15). Mesmo assim, os cristãos saídos dentre os judeus continuaram liderando a igreja, e havia uma certa soberba deles em relação aos cristãos entre os gentios. Mas com a destruição de Jerusalém e a dispersão de sua comunidade cristã, a situação se inverteu. Os “gentios” começaram a dar o tom na igreja, e a influência dos “judeus” era reprimida. E começaram a levantar-se vozes entre os gentios que queriam desfazer-se completamente da tradição judaica (como fizeram, no século seguinte, Marcião e seus seguidores). O autor de Efésios está consciente dessas duas vertentes de seguidores de Cristo. Ele é dos que “de antemão esperavam em Cristo” (Ef 1.12), isto é, cristão de origem judaica, e fala para os que ouviram a palavra da verdade depois e também creram nela (Ef 1.13), isto é, os cristãos vindos dos gentios. A Carta aos Efésios trata, na sua primeira parte (até o cap. 4.16), das duas questões acima apontadas. Define a base de fé que fundamenta a unidade da igreja, destaca como e por quem ela foi definida e de onde ela tem a sua legitimidade. O tema geral da carta, portanto, é a igreja, a sua origem, instituição, unidade no presente e no futuro, em fé e em ação. Também a segunda parte, que trata da santificação dos cristãos na vida na igreja e no mundo, não foge desse tema. Quer fortalecer a igreja e torná-la visível e reconhecível perante a sociedade por meio da vida ética de seus membros.

4 Procurando entender o texto Onde, na perícope proposta, aparece a temática da unidade da igreja? O autor parece querer enveredar, no v. 2, por outro caminho: ele apresenta as suas credenciais (como faz o apóstolo Paulo em Gl 1.11-17, p. ex). Parece que precisa justificar o que ele expôs no capítulo anterior (2.11-22), onde ele insiste que os cristãos de origem entre os gentios são membros do corpo de Cristo de pleno direito e que nesse corpo judeus e gentios são edificados juntos num santuário para Deus. Explica que lhe foi dada uma revelação

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especial, do “mistério”, que não é nada mais do que essa unidade e equivalência entre judeus e gentios, quando inseridos no corpo de Cristo. Essa revelação era desconhecida às gerações passadas, isto é, aos judeus e aos primeiros cristãos. É uma revelação que só ele recebeu? Olhando apenas para o v. 3 da perícope, pode parecer que é o caso. Mas no v. 5 o autor apressa-se a desfazer essa impressão: Esse mistério foi revelado a “seus santos apóstolos e profetas”, isto é, a todo o grupo dos primeiros líderes da igreja. Fica evidente: para uma revelação, uma definição doutrinária ser aceita e reconhecida na igreja não basta uma iluminação isolada. Ela precisa ser confirmada, reconhecida e assumida pelo grupo mais amplo de líderes. O v. 6 reformula e reforça enfaticamente que de fato judeus e gentios, na igreja, são iguais em tudo “por meio do evangelho”. Desse evangelho ele, o autor, foi feito servo, e daí vem a sua autoridade. A tradução de Almeida traduz a palavra diakonos como “ministro” (do evangelho), com razão. O autor aponta aqui para o fato de que ele é pastor, como nós hoje dizemos, convocado e reconhecido conforme o rito em uso na igreja naquele tempo. Isso lhe dá a autoridade de falar ou escrever, não a revelação especial que lhe foi dada. E recebeu ainda uma graça especial: a de pregar especialmente aos gentios “as insondáveis riquezas de Cristo”. Os vv. 9-12 expõem que essa equiparação de judeus e gentios, isto é, de todas as pessoas e de todos os povos conhecidos, estava no propósito de Deus desde o início dos tempos. A igualdade de todas as pessoas humanas, a salvação de todas as gentes e povos em Jesus Cristo eram pretendidas por Deus desde a criação. Mas a revelação desse plano gracioso de Deus aconteceu na história, em etapas, e está se concluindo agora (no tempo em que o autor escreve). Isso acontece “pela igreja”. Ela é objeto e prova dessa revelação, que dessa maneira também chega aos “principados e potestades nos céus”. Entendo que o colega Volkmann acerta a intenção do autor quando aqui traduz “poderes e domínios em todo o universo”. Também hoje temos a consciência de que o universo abrange muito mais do que a terra e vida humana. A tudo isso que foi revelado temos acesso pela fé em Jesus Cristo. Temos, no autor da Carta aos Efésios, um teólogo e líder com uma clara visão de igreja universal, alicerçada em Jesus Cristo e edificada sobre os apóstolos e profetas, que vive e cresce pela fé no evangelho pregado e confirmado por esses. Nela há “somente um corpo e um Espírito..., um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6). Diante das tendências desagregadoras de sua época, diante do perigo de uns tentarem imporse aos outros na igreja, diante do surgimento de líderes autoproclamados que querem criar a “sua” congregação ou igreja, o autor de Efésios insiste que a igreja é uma só, é liderada por uma sucessão de líderes que têm a sua origem nos apóstolos e que prega uma doutrina elaborada e aprovada pelo conjunto dos “apóstolos e profetas”.

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5 A situação da cristandade hoje Vendo a cristandade de hoje, o autor de Efésios certamente ficaria mais preocupado ainda. Uso o termo “cristandade” porque parece difícil aplicar o termo “igreja” ao conjunto de denominações, confissões, credos e ritos que desagregam as pessoas que se dizem seguidoras de nosso Senhor Jesus Cristo. Novas “religiões” cristãs surgem da noite para o dia por intermédio de líderes muitas vezes autoproclamados, outras vezes dissidentes de igrejas estabelecidas, que propagam doutrinas que, se não estão em desacordo com o evangelho de Cristo, pelo menos são parciais e incompletas. E quanta condenação! Cada igreja, cada linha teológica considera-se dona da verdade; conseqüentemente, as outras estão erradas e precisam ser combatidas ou convertidas. A consciência de que todas as pessoas que crêem em Jesus Cristo e, de uma ou outra forma, colocam a sua esperança nele fazem parte de uma igreja é muito tênue e totalmente espiritualizada: reduz-se à idéia vaga de que, no juízo final, Jesus Cristo julgará todas as pessoas e congregará aquelas que fazem parte de seu rebanho. Só no além a igreja se concretizará. Que a única igreja de Jesus Cristo também precisa de estruturas e visibilidade já neste mundo, na sociedade em que vivemos, já não é mais visto como necessidade por grande parte das igrejas hoje existentes. É verdade que o exposto no parágrafo anterior é uma generalização. Ainda há muitos cristãos e cristãs que mantêm a consciência da unidade da igreja e, em maior e menor grau, empenham-se em dar alguma visibilidade a ela. Olhando para o Brasil, isso certamente vale para a Igreja Católica Romana e também para a Luterana, a Metodista, a Anglicana e a Católica Ortodoxa. Talvez ainda a Presbiteriana e também a Congregacional. Mas essas igrejas com consciência ecumênica, chamadas também de históricas, abrangem apenas três quartos dos cristãos do Brasil. O outro quarto pertence aos Adventistas e, principalmente, às inúmeras igrejas pentecostais, entre as quais muitas minúsculas de um líder só. Observa-se, ainda, que nas próprias igrejas históricas há tendências desagregadoras, grupos que pleiteiam a renovação da igreja, mas acabam formando dissidências que se afastam da igrejamãe e formam igrejas próprias. O censo realizado pelo IBGE no ano 2000 mostra que a parcela da cristandade que perdeu, ou quase, a consciência de uma igreja universal concreta e visível cresce vertiginosamente. Em 1991, abrangia 7% da população do país; em 2000, já eram 12% (conforme dados em: Atlas da Filiação Religiosa, PUC-Rio e Loyola, 2003).

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6 Tema da pregação Convido o pregador, portanto, a fazer da unidade da igreja o tema de sua pregação. A perícope dá-lhe elementos para esse tema quando insiste na equiparação entre judeus e gentios, quando destaca a necessidade de basear a doutrina nos “apóstolos e profetas” e quando destaca o propósito de Deus de reunir todas as gentes na salvação em Cristo. Certamente será permitido agregar outras passagens, como 4. 4-6, “um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos”. Olhando em sua volta e para dentro de sua paróquia, certamente encontrará exemplos da confusão de igrejas que hoje temos no Brasil, de membros que são atraídos para novas ofertas religiosas, da concorrência deslavada existente entre elas. Poderá apontar para o oportunismo de algumas das novas igrejas e para a sua falta de embasamento histórico e teológico. E também encontrará, em sua própria igreja, exemplos de soberba espiritual de membros em relação a outros, de dissidências que envenenam o ambiente e de divisões que perigam acontecer. Será lícito apontar para os esforços de manter e construir a unidade da igreja, desenvolvidos por sua própria denominação (no meu caso, a IECLB), para as instituições ecumênicas existentes no Brasil e no mundo.

7 Subsídios litúrgicos Os outros dois textos deste domingo – Is 60.1-6 e Mt 2.1-12 – combinam muito bem com a temática de que todos os povos, todas as etnias são igualmente chamadas a integrar-se ao corpo de Cristo. Se o pregador restringir a leitura no culto ao texto do Evangelho de Mateus, sugiro usar Is 60.3s na saudação inicial. Confissão de pecados: Confessamos que a nossa comunidade está sob o risco de fechar-se a pessoas diferentes, de rejeitar pessoas de outros grupos, classes e etnias; que facilmente caímos na tentação de considerar a nossa igreja mais certa, mais correta, dona da verdade; que vemos com indiferença a desunião entre os cristãos, inclusive na igreja a que pertencemos. Oração de coleta (de Lutero, do caderno: Querido Deus. Coletânea de orações. Editora Sinodal 1993): Senhor Deus, Pai de todas as dádivas e firmeza, fortifica por graça o que começaste em nós por intermédio de teu Santo Espírito, para que satanás não nos enfraqueça e torne cansados através de falsidade e violência, de modo que deixemos tua palavra e reino. Vivemos em época perigosa, porque muitos são enganados por entusiastas e também decaem. Iludidos pela falsidade de satanás, julgam ter o bastante e

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saber tudo. Assim se tornam preguiçosos e ingratos. Por isso deixa-nos permanecer no fervor da fé, para que cresçamos nela diariamente, em Jesus Cristo, nosso verdadeiro e único auxílio. Amém. Assuntos para a intercessão: Por respeito e paz entre os povos, raças e etnias, no Brasil e no mundo; pela aproximação entre as igrejas que hoje se combatem; que o Espírito Santo ilumine os líderes que transformam questões secundárias em motivo de divisão e separação; pelas organizações ecumênicas, que os seus esforços promovam a união da igreja; pela convivência ecumênica local.

Bibliografia CONZELMANN, Hans e outros. NTD 8. Die Briefe an die Galater, Epheser, Philipper, Kolosser, Thessalonicher und Philemon. Göttingen, 1981. KÜMMEL, Werner G. Die Theologie des Neuen Testaments. Göttingen, 1969.

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1o DOMINGO APÓS EPIFANIA

08 JAN 2006

ISAÍAS 42.1-7 MARCOS 1.4-11

PRÉDICA: ATOS 10.34-38 Margarete Emma Engelbrecht1

1 Divisões Do lado de lá dói o dedo, vem o doutor põe a mão, do lado de cá quebra o braço, isso não é nada não!!! (canção de movimentos populares) A divisão mais presenciada por nós em nosso cotidiano é, sem dúvida, a da classe social. Na busca por socorro, atendimento na área da saúde, ter ou não ter plano de saúde modifica todo o tratamento dado às pessoas. A divisão de etnias compromete a missão da igreja. Ainda se discute se cotas para pessoas afro-descendentes é justa ou não. Quer superar-se pecados históricos sem o comprometimento de expectativas ou oportunidades de grupos que sempre se destacaram. “Lute por seu direito, sim, mas não me incomode!”: essa parece ser a máxima do momento. Isso é ainda mais evidente se a mobilização de um grupo que quer lutar por algum direito incomoda a organização ou a agenda de outras estruturas ou grupos ou indivíduos. Cita-se sempre a máxima “o direito de um vai até o direito de outro”, sem construir, em conjunto, nossa convivência, nossas regras e direitos. Em nossas igrejas, a divisão de crentes e neófitos provoca dores em ambas as partes. Também é comum a divisão entre crentes e os “de tradição”. De qualquer forma, o discurso fácil contra a divisão das pessoas boicotou, pasmem, a organização. Desde o final da década de 1990, para reunir pobres, afro-descendentes, mulheres ou qualquer grupo que reivindique dis-

1 Agradeço mais uma vez à colaboração da Pa. Vânia Moreira Klen na discussão e finalização desse estudo.

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cussão de termos, valores etc., é preciso, de antemão, ter muito bem formulada a defesa do direito de reunir-se em “separado”. Há uma busca por “comunhão” barata, nem sempre com o devido esclarecimento, com o devido amadurecimento. E repetem-se, então, formas abusivas e de desrespeito, que irão “ganhar a discussão” sem o devido aprofundamento, sem a devida dignidade.

2 Divisão no texto Atos dos Apóstolos, escrito no final do primeiro século, aborda questões que interessavam a determinada comunidade. Para isso retoma assuntos que nem sempre estavam “claros” para as pessoas às quais o texto é escrito. O direcionamento é evidente, haja vista as epístolas testemunharem, por exemplo, uma história diferente do que é redigido em Atos. “Atos não conhecem quaisquer diferenças entre a doutrina de Pedro e a de Paulo.(...) A vida da comunidade primitiva é retratada como comunhão pacífica de todos que dela faziam parte.”2 O cristianismo que se formava de gente oriunda do mundo gentio, sem a tradição judaico-cristã e de gente cristã, com formação helenista, fazia da ética uma discussão obrigatória. – Talvez porque traziam “éticas” diferentes de seus grupos, de suas religiões, e havia uma necessidade de unificar a forma de ser e também de convencer as pessoas recentemente convertidas da “ética” da “nova comunidade”. Havia a necessidade de uma formação que fosse unificando o grupo religioso que se formara em torno de princípios básicos de convivência e de confissão de fé. “E na modificação do decreto dos apóstolos numa soma de mandamentos visa a mostrar que o que estava em questão não eram perguntas da legislação cultual, mas instruções éticas dos apóstolos para toda a igreja.”3 É por isso que o texto em questão, At 10.34-38, “encontra-se inserido no relato da instituição dos sete até a perseguição por Herodes. É antecedido pelos trechos que descrevem a evangelização em Jerusalém e na Palestina e sucedido pelos relatos da missão que irá até Roma”4 .

2 Lohse, 1980, p. 168. 3 Idem, p. 174. 4 Idem, p.164.

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“Local da discórdia é Cesaréia; fronteira da terra judaica com o “mundo pagão”, portanto, na periferia. Temos, então, o local. Mas, temos também as pessoas envolvidas: Cornélio (centurião da corte) e Pedro (judeu zeloso). O lugar da resolução: o grande centro, Jerusalém. O assunto em discussão, a legislação: em primeiro, a lei da impureza (Lv 11) e, em segundo, a lei que proibia aos judeus misturarem-se com os pagãos.”5 É interessante perceber que as soluções para essa discussão surgem de caminhos diversos: “Soluções: para Cornélio, ‘um anjo vem ao seu encontro’ (At 10.22); a Pedro, ‘o próprio Senhor’ (At 10.14). A síntese: ‘Pedro, então, começou a falar: de fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença”6 .

3 Divisões na reflexão O sofrimento identifica as pessoas, torna-as semelhantes. Normalmente se cita a “igualdade na sepultura”, tema sempre em voga, especialmente onde temos nossos atos litúrgicos de enterro. Mas é só ver pessoas bem diferentes, que se submetem a um tratamento de câncer, que são assoladas pela violência, pela morte de familiares no trânsito, que seja, vemos o quanto também se tornam similares as experiências. O último versículo do texto em questão anuncia Cristo como o “que fez o bem e curou”. “O nojo do mundo em que vivo, da sua brutalidade e sua sede por mais morte me derruba e, em meio a esse mundo da propaganda da beleza dos aviões de caça e dos tanques, apresentada de forma cada vez mais elegante e aberta, em meio a esse mundo, em forma de indústria da morte, do crescimento econômico desenfreado, que nada aprendeu do episódio de Tschernobyl, em meio a essa mentira cintilante e perfeita eu não estou mais sozinha com a minha tristeza: a dor de Deus abraça a minha dor e a tristeza que hoje vivemos se transforma em uma força que une, combate e é solidária. Minha força cresce a partir da minha tristeza. Toda a minha tentativa visa transformar a ‘tristeza do mundo’. Eu não acho que seja possível transformar a ‘tristeza do mundo’ em alegria. Isso seria pedir demais, como se pudéssemos reorganizar a profunda tristeza. Também seria pedir de menos,

5 Otávio Filho, op. cit. 6 Idem.

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porque então a ‘tristeza do mundo’ seria substituída somente pelas alegrias deste mundo, principalmente no fato de ter, de possuir, de usar, de consumir as alegrias deste mundo. Penso que é nossa tarefa transformar a ‘tristeza do mundo’ na dor de Deus, e com a dor de Deus eu faço uma experiência singular.”7 Penso em Cornélio e Pedro, penso nos grupos que se identificavam com um ou com outro, penso em nossas comunidades que ainda repetem essas divisões, penso em nosso mundo que sempre colhe frutos do sofrimento, da exploração e quase nunca da alegria. Confessar esse Cristo que tem a presença de Deus (e não é dividido), esse Cristo que cura (não é o Cristo que escolhe alguns, mas que faz denúncias políticas; que promulga como bem maior o amor e o respeito mútuos ) é buscar unidade.

4 Texto para falar do Batismo de Jesus Cristo. Divisão entre nós. Ai vida que tanto sabe doer, ai tanta dor que sabe a vida, ai saber tanto que a vida dói, ai vida que me faz sentir tão viva de amor, porque a vida continua! (Andrea Mühlhäuser)

Estamos no domingo em que se celebra o Batismo de Jesus Cristo. A prática do Batismo tem provocado sérias divisões em nossa igreja. Sem superarmos a discussão entre batismo de infantes, batismo de pessoas adultas (sempre dizemos que as duas formas são aceitas pela IECLB), veio a discussão sobre batismo no Espírito Santo, batismo nas águas, necessidade de se confirmar o Batismo, rebatismo e tantas outras práticas que temos “visto e ouvido”. A semelhança com o texto é interessante. Alguns dizem que ouviram o anúncio de anjos, que poderiam ser interpretados como os que trazem elementos da tradição, “Cornélios”. Outros dizem que receberam diretamente do Espírito, “Pedros”, que querem ter liberdade diante de uma estrutura quase rígida.

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É novamente a teologia da cruz que vai direcionar o enfoque desta pregação. Não consigo desvincular do Batismo a certeza do Batismo, amor total para com a criança portadora de deficiência, especialmente a mental, ou para aquela que morreu antes de “tomar decisão para sua vida adulta”. Não consigo desvincular do Batismo o fortalecimento diante de dificuldades, que vamos enfrentando em nosso cotidiano (lembrando o que Lutero escreveu em sua mesa de trabalho: “sou batizado!”). Não consigo desvincular do Batismo a possibilidade de reconhecer erros, coisas que só pessoas “adultas” conseguem fazer. “Se a dor fosse somente dor, eu não poderia denominá-la dor de Deus. Mas, por ela estar orientada para a alegria, por ela ser carregada pela alegria, eu a chamo de dor de Deus.”8 Reconhecendo a dor em nosso cotidiano, denunciando-a e propondo justiça, integridade, ética, solidariedade... é que vamos curando. Vamos assumindo esse ser sacerdote, sacerdotiza, no dia-a-dia. Mas vamos recebendo do Espírito Santo, de graça, o tal poder... poder da cura, da alegria... poder de reconhecer comunhão. Cornélio e Pedro tinham diferenças. Tinham metas diferentes também. A comunidade de Atos reconhece essas diferenças. E coloca palavras de reconhecimento mútuo. Há recuperação de história conjunta, há valorização de um pelo outro. A história de Cristo, contada aqui por Pedro, não deixa dúvidas de que o agir de Deus fez ressuscitar Jesus e é por meio dele e por ele que a igreja se torna testemunha desse fato inquestionável para fé, não simplesmente por comodismo humano ou por aspiração pessoal – o amor de Deus acontece, porque somente Deus é capaz de não impor condições para amar, curar, restabelecer, batizar... Temos a tendência de criar escalas de valores entre nós. Quem é mais importante? Que disciplina é mais importante para o conhecimento? Qual raça é a melhor? A comunidade primitiva questionou-se até a respeito de qual dom seria o mais importante... Isso já não era mais a contenda entre Pedro e Cornélio, a partir da afirmação de que Deus trata todos de modo igual – o que recebemos de Deus é importante de qualquer forma e tem um fim específico na ação de Deus no mundo, realizada em nossa vivência da palavra de Deus. O que se buscava nas primeiras comunidades cristãs era consenso dentro da diversidade criada a partir da pregação dos apóstolos. As diversas vertentes sociais, religiosas e culturais dentro da comunidade estavam sendo desafiadas a conviver e a achar um consenso comum especialmente sobre a pessoa de Cristo e a missão dos “novos convertidos”. Sem a centralidade em Cristo, nada disso teria sido possível e a tradição apostólica teria se perdido. Por isso o debate não se acalora a respeito de quem recebe ou não o

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poder do Espírito Santo, mas sobre o testemunho que a igreja é chamada a dar a partir do Cristo, que andou por toda parte fazendo o bem e curando todos. Nos processos de fazer o bem e de curar, as pessoas iam se encontrando, mostrando o amor de Deus e ensaiando uma “nova sociedade”, possível somente a partir de Deus. Ora, as nossas diferenças no conceber do agir de Deus distanciam-nos da centralidade da fé em Jesus Cristo – de repente o que é importante não é Cristo, mas é quem recebe ou não o Espírito, quem confirma ou não o seu Batismo. Ao ajudar pessoas, ao sentar-se à mesa, ao chamar seus discípulos, Jesus não preconcebeu atitudes, moral, ética... Ladrões, prostitutas, usurpadores de impostos estavam em seu círculo de amizade. As pessoas modificavam-se depois do encontro com Cristo, não por ser uma imposição para a cura ou para a salvação, mas porque se sentiam chamadas a experimentar aquela novidade que as fez enxergar o mundo e a própria dor de outra forma. Cristo não criou condições. Foi a “incondicionalidade” de seu amor que modificou pessoas, que transformou pensamentos, que criou coragem em discípulos medrosos trancados em Jerusalém – é a incondicionalidade do amor de Deus que diferencia o seu agir do nosso agir condicional em nosso mundo (tem que ser da mesma igreja; vestir-se da mesma forma; comportar-se como manda a minha regra etc.). O consenso é importante para a convivência em grupos – sem consenso é impossível alcançar a meta, porque no meio do caminho o testemunho se dilacera. Há um abismo entre diferença e diversidade. Na comunidade cristã primitiva, havia uma diversidade de pensamentos, costumes e regras que tiveram que achar um consenso, por crerem numa causa maior. Diversidade é uma variedade de opiniões que podem e devem conviver. Diferença é o que causa desigualdade, divergência, é o que divide. O que temos hoje em dia é diferença! Diferença de classes, diferença de credos, diferença entre seres humanos, diferenças e mais diferenças... elas nos dividem e nos tornam inimigos. O que Deus postula para nosso convívio fraterno é a diversidade em que, na variedade de costumes, raças e credos, possamos trabalhar fazendo o bem e curando, como testemunho a partir daquele que nos aceitou incondicionalmente e que nos acolheu em nossos abismos. Deus ensina a congregar, reunir, “comungar” – Deus está na contramão dos nossos próprios anseios de “sucesso”, “justiça” e “verdade teológica”.

Bibliografia LOHSE, Eduardo. Introdução ao Novo Testamento. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1980. pp. 163-174. FILHO, Otávio A. S. In: MUR. Missão urbana e rural. (www.mur.com.br/colunistas) SÖLLE, Dorothee. Deve haver algo mais: reflexões sobre Deus. Vozes, 1999. 109p.

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2o DOMINGO APÓS EPIFANIA

15 JAN 2006

JOÃO 1.43-51 1 CORÍNTIOS 6.12-20

PRÉDICA: 1 SAMUEL 3.1-10(19) Baldur van Kaick

1 Diálogo com o pregador Antes de consultar este auxílio homilético, cada pregador já deverá ter lido o texto bíblico, de preferência duas ou mais vezes, e anotado suas primeiras associações e impressões durante a leitura do texto. Uma prédica não pode ser elaborada na base de auxílios homiléticos de outros. Ela é algo bem pessoal do pastor ou da pastora, e temos que beber em primeiro lugar das próprias fontes, ou seja, ler o texto bíblico indicado para o domingo com nossa espiritualidade e experiências de vida e fé. Em nossas impressões, já estarão presentes de alguma forma as experiências da comunidade de cuja caminhada participamos. Só depois do trabalho pessoal, os auxílios homiléticos ou comentários aos quais temos acesso terão seu lugar. Com esses cada pregador poderá verificar suas impressões, vê-las confirmadas, aprofundadas ou corrigidas, mas também poderá optar, contra os auxílios homiléticos, por suas próprias primeiras impressões e permanecer fiel a elas, caso tiver indícios de que são consistentes e se impõem. O pregador fará bem em anotar em pequenas folhas suas idéias e reações ao texto. Deverá ter anotado o que consola no texto, o que intriga, perguntas para as quais não tem respostas e onde quer pesquisar mais, e onde percebe que o assunto mencionado no texto está presente na comunidade de hoje, sua vida e espiritualidade. Enfim, deverá registrar onde o texto diz algo sobre a fé, a vida cristã, o que diz de Deus e se faz um convite ou critica alguma atitude. Em todo caso, o pastor ou a ástora deverão ter presente que o texto contém experiências de fé e de vida da comunidade do passado e que essas são ouvidas pela comunidade de hoje na certeza de que podem ajudá-la em sua caminhada atual, suas alegrias, dificuldades e provações. O pastor e a pastora deverão compreender igualmente que a prédica é um diálogo sobre a fé com a comunidade e que por isso a mensagem só pode ser simples e leve, também quando exorta, pois pregar é anunciar a boa notícia do evangelho. Será importante ler o texto num segundo momento em conjunto com as demais leituras do domingo, pois em geral umaleitura ilumina a outra.

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2 Minhas primeiras impressões Desde a primeira leitura de 1 Sm 3.1-10 (19) impôs-se para mim como assunto central do texto o chamado de Deus a Samuel, juntamente com a orientação que Eli lhe deu. A ajuda de Eli foi decisiva para Samuel. Consoloume no texto o fato de que uma pessoa imperfeita como Eli pôde ajudar outra para que aquela tivesse um relacionamento mais profundo com Deus. Ao mesmo tempo, consolou-me que Samuel, que servia a Deus e contava com o seu favor (1 Sm 2.26), não percebeu o chamado de Deus e precisou da orientação de Eli. Acabo de ler na revista Época que, na atualidade, 67% das pessoas procuram explorar mais o lado espiritual de sua vida. Posso pressupor que as dificuldades sentidas por Samuel em reconhecer Deus estão presentes na vida de muitas pessoas hoje e que muitos na comunidade se sentirão gratos por perceber isso no texto e vislumbrar ao mesmo tempo que 1 Sm 3 abrelhes um horizonte amplo e promissor. A partir daí enxergo a possibilidade de conversar com meus ouvintes também sobre o espaço da comunidade como lugar onde nos ajudamos mutuamente a aprofundar nossa fé. – Olhando para Jo 1.43-51, descubro no evangelho a mesma temática do texto do Antigo Testamento, pois primeiro Jesus chama Filipe e, em seguida, Filipe estimula Natanael a crer em Jesus Cristo. Inclusive a epístola 1 Co 6.12-20, a princípio tão arredia a uma leitura conjunta com as demais leituras, pode ser lida sob o enfoque da vocação e o que essa significa para a vida cotidiana, pois quem descobre Deus recebe clareza sobre o que convém na vida cristã e o que não. – Leio em seguida ainda 1 Sm 1-5 para verificar o contexto de 1 Sm 3 e checar se esse acrescenta algo novo. Vejo que o texto retrata a época em que Israel é uma anfictionia de 12 tribos. A vida de culto realiza-se no templo de Silo para onde acorrem as famílias uma vez ao ano. É no templo de Silo que acontece o chamado de Samuel. A vida de culto está degradada, por culpa de Eli e seus filhos. Mas Deus renova sua comunidade (a anfictionia e seu culto) ao chamar Samuel. Em uma época em que quase não mais fala, Deus chama Samuel uma primeira vez e em seguida sempre de novo (1 Sm 3.21). Samuel recebe de Deus clareza sobre sua vocação, torna-se bênção para Israel e será venerado por seu povo. (1 Sm 25.1). Mais tarde, quando descrever a infância de Jesus, Lucas (Lc 2.30,52) o fará com as palavras com as quais 1 Sm 2.25 resumiu a infância de Samuel. – São essas as primeiras impressões que tive após as leituras do texto, do evangelho e da epístola.

3 Leitura de auxílios homiléticos e comentários Tenho várias perguntas, principalmente sobre a arca no templo (v. 3). Estou intrigado com a lâmpada mencionada (v. 3) e que é apagada em deter-

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minado momento. Por outro lado, por que Samuel dormia no templo diante da arca? Tenho dúvidas sobre como avaliar a pessoa de Eli. Quero conferir se minha concentração no chamado de Samuel é correta. Decido verificar essas questões e controlar minhas suposições, primeiro com ajuda de auxílios homiléticos já escritos em Proclamar Libertação. – Leio o texto de Martin Volkmann em PL XIX. Vejo que oferece uma exegese consistente. Martin decide-se pelo contexto maior do texto e reflete sobre a pessoa de Samuel e a palavra de Deus. Seu tema é o Deus que deixa de se manifestar a seu povo e o Deus que volta a falar. Sugere desenvolver a prédica em uma seqüência de três passos: 1) Deus silencia – apesar de todo o nosso culto: por causa da desobediência. 2) Deus fala – de maneira surpreendente: também por meio dos canais convencionais. 3) Samuel ouve – mesmo que, às vezes, é confundido; assume postura de obediência (p. 59). Martin não menciona a arca. Não dá ênfase ao chamado de Samuel. Mas na oração de intercessão, na última observação do auxílio homilético, sugere que não devemos esquecer as pessoas que “não percebem como e onde Deus fala” (p. 60 ). Sua última colocação me anima a continuar nas minhas suposições. – O segundo auxílio homilético em PL XXV é de Maike M. Kegel Dutra. Maike escreve seu auxílio homilético para o início do novo milênio, época de profecias. Acentua que o texto se refere “ao dom da profecia”. Decide refletir sobre a missão profética da igreja hoje, assunto que desenvolve em quatro partes (p. 88). Maike aponta, contudo, duas vezes para a interação entre Samuel e Eli. Expõe que Eli “orienta” Samuel “para quando ouvir novamente o chamado” de Deus e que Samuel “procede conforme a orientação de Eli e responde ao Senhor” (p. 87) Martin e Maike decidem-se por uma mensagem a partir do contexto maior do texto. – Auxílios homiléticos e seus autores são parceiros em nosso diálogo com o texto. Sou grato pelo que ofereceram e resolvo continuar a confiar no meu sentimento de que não estou em uma pista errada ao intuir que a questão do chamado de Deus é central no texto. Recorrer então ao único comentário dos livros de Samuel que possuo, a uma teologia do AT e a um estudo sobre o culto em Israel. Na Teologia do AT de Gerhard von Rad pesquiso a questão da arca (que me intriga) e descubro fatos interessantes. Von Rad explica que a arca representava o “trono de Javé” (p. 236). “Javé está sempre presente onde se encontra a arca.” (p. 236) Menciona que “o templo de Salomão, em cujo santo dos santos estava colocada a arca, era ainda considerado como o lugar da presença pessoal de Javé (1 Rs 8.12)” (p. 236). Von Rad acrescenta que “essa presença foi sempre considerada benéfica”, por isso a chegada da arca suscitava em Israel “manifestações de alegria” (pp. 236-237). Leio mais que em Dt e Dtr a arca já é outra coisa: “é o cofre das tábuas da lei e nada mais” (p. 237 ). – Na época descrita por 1 Sm 3, a arca está no templo de Silo e é ainda o trono de Javé. O templo de Silo é lugar da presença pessoal e benéfica de Deus. Pressinto a importância dessa descoberta para minha reflexão (cf. ainda v. 10). – H-J Kraus

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informa, em seu livro sobre o culto, que consulto em seguida, que jovens dormiam no templo e que aqueles que Deus chamava passavam a ser os profetas do templo (pp. 131-132). No comentário de H. W. Herzberg encontro finalmente a informação de que Samuel dormia no templo possivelmente para cuidar da lâmpada, que devia ser acendida no início da noite e apagada de manhã, mas ele acrescenta que Samuel provavelmente apenas dormia diante da arca para receber as revelações de Deus, quando isso aprouvesse a Deus. Ademais, o comentário de Herzberg fortalece minha certeza de que o chamado de Samuel está no centro do texto. Ele esclarece que se trata no texto de uma teofania e que ali acontece a vocatio de Samuel. Numa época em que não acontecia nada da parte de Deus, ocorre de repente a vocatio de um jovem. Herzberg ajuda-me igualmente a ter uma imagem mais equilibrada de Eli. O sacerdote não soube educar os filhos, razão por que a família de Eli se encontra sob o juízo, mas Eli se confia a Deus ao conhecer sua sorte. E ele, o mais experiente, ajuda Samuel a distinguir quem o chama e orientao como proceder. (cf. p. 28-32). Com as informações adicionais colhidas, vou-me decidindo pelo assunto da vocação de Samuel. Percebo que o texto me oferece a oportunidade de refletir com a comunidade sobre a presença pessoal de Deus no culto, nossa dificuldade de perceber Deus, e a comunidade como lugar onde nos ajudamos a chegar a um relacionamento de confiança com Deus. – Então formulo o alvo da prédica: Quero conversar com meus ouvintes e minhas ouvintes sobre um sentimento que muitos de nós têm. Queremos ter um relacionamento mais íntimo com Deus, mas nem sempre sabemos como chegar a ele. Quero mostrar que o texto fala dessa problemática e ao mesmo tempo nos abre um horizonte amplo e promissor. Decido igualmente animar a comunidade a ser uma comunidade na qual nos ajudamos mutuamente para um crescimento de nossa relação com Deus..– Anoto como mensagem o seguinte: Quero expor à comunidade que Deus é favorável a nós, também hoje, e que ele está presente quando nos reunimos em culto – e ilumina nosso caminho. – Não quero exagerar nos apelos, mas decido formular à comunidade o convite de que nos animemos mutuamente para a fé. – Carrego tudo comigo um ou dois dias, ponho-o em oração e, em seguida, formulo um roteiro para a prédica.

4 Roteiro de prédica No início da prédica menciono que há muitas pessoas, também na comunidade, que querem ter um relacionamento mais pessoal com Deus, mas nem sempre sabem como chegar a ele. Mostro que é o assunto do texto e que 1 Sm 3 quer ajudar-nos a ter mais clareza sobre essa questão. Na parte central da prédica, narro com simplicidade quem foi Samuel, que sua mãe o havia pedido em oração a Deus e logo consagrado a Deus e que,

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ainda criança, foi levado ao templo onde servia a Deus sob os cuidados de Eli. Conto o que Samuel fazia no templo, explico o significado da lâmpada e da arca e que Samuel dormia diante da arca esperando que Deus lhe falasse. Narro que Deus o chamou de fato certa manhã, mas que ele não o percebeu, e tampouco o sacerdote Eli. Mostro o cômico da situação e explico que Samuel não tinha experiência com Deus e que Eli finalmente compreendeu que era Deus quem estava chamando Samuel e então o orientou. Samuel agiu conforme as palavras de Eli e Deus lhe falou. Samuel recebeu clareza sobre sua vocação e como agir em Israel. – Destaco a falta de experiência com Deus de Samuel e inclusive de Eli, mas que esse finalmente lhe disse o que lhe faltava para que Samuel chegasse a uma relação com Deus e descobrisse sua vocação. Procuro em seguida mostrar que o mesmo acontece hoje. Lembro que muitas pessoas querem explorar mais seu lado espiritual e não sabem como. Inclusive nós sentimo-nos desorientados quando se trata dessa questão. Pode acontecer que servimos na comunidade a Deus, como Samuel, e não temos experiência com Deus. Parece que Deus não nos deu ainda certeza sobre nossa vocação e vida. – A partir disso desenvolvo em três passos a mensagem do texto para nós, apontando para dois fatos e uma conseqüência. Primeiramente mostro que em nossa igreja não existe a arca, mas que Deus está presente também entre nós. Explico à comunidade que Deus foi favorável a Samuel e que é favorável a nós e ilumina nossa vida. Mostro que da mesma forma que o texto do AT narra o chamado de Samuel, também o evangelho relata o chamado dos primeiros discípulos de Jesus. Explico que, quando o evangelista narra a vocação de Filipe e Natanael, ele quer dizer que assim Jesus Cristo está igualmente presente na comunidade e continua a chamar discípulos e discípulas, já chamou e continua a chamar. Destaco que esse é nosso Deus, é favorável a nós e ilumina nossa vida. Nossa comunidade é lugar onde Deus chama e ilumina pessoas. Convido a comunidade a ter essa fé. Em segundo lugar, explico que muitas vezes somos como Samuel. Deus fala, mas não percebemos que está nos chamando. Reflito com a comunidade qual pode ser a causa disso. Pode ser nossa inexperiência com Deus. Samuel pensou que era Eli que o estava chamando. Nós talvez estamos confundindo a voz de Deus com outras vozes perto de nós. Concluo que estamos na mesma situação de Samuel e que precisamos de ajuda. Em terceiro lugar, convido então para nos determos em Eli. Destaco quem foi. Falo de seus erros. Informo que a primeira mensagem de Samuel será de juízo sobre a casa de Eli. Ressalto, contudo, que foram suas palavras que ajudaram Samuel a descobrir Deus em sua vida. Apesar de seus erros, ele tinha experiência com Deus – e sua experiência foi de ajuda para Samuel. – Volto a atenção para o evangelho. O evangelho mostra que Jesus chamou Filipe para o discipulado. Mas logo em seguida Filipe encorajou Natanael a crer em Jesus. – Eli disse a Samuel como responder a Deus: “Fale, Senhor, porque o

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teu servo ouve”. Filipe participou a Natanael: “Achamos aquele de quem Moisés falou na lei, e a quem se referiram os profetas”. E quando Natanael perguntou: “De Nazaré pode sair alguma cousa boa?”, Filipe animou-o com as palavras: “Vem, e vê”. Ambos estimularam para a fé; Eli, a Samuel, e Filipe, a Natanael. – Dou a pensar que também nós precisamos estimularnos para crer. Outros precisam de nossos estímulos e nós dos estímulos de outros. Todos somos sempre de novo inexperientes com Deus. Lembro o que escreveu a revista Época, que muitas pessoas querem ter um relacionamento mais íntimo com Deus. Recordo que Eli conhecia seu pecado e que isso não o impediu de guiar Samuel para Deus. Nós também sabemos que somos pecadores, mas conhecemos muito mais a graça de Deus que nos foi trazida por Jesus Cristo, e são pessoas pecadoras, mas perdoadas, que melhor podem ajudar-se para um relacionamento de confiança com Deus. Encorajo a comunidade a ser esse lugar onde nos animamos mutuamente para uma relação pessoal com Deus. No final, relembro que todos sabemos que Deus nos é favorável e ilumina nossa vida. Às vezes, só nos falta dizer como Samuel: “Eis-me aqui, pois tu me chamaste. Fala, Senhor, que eu ouço”. Estimulo a comunidade a essa atitude e asseguro que Deus nos dará clareza sobre nossa vocação e sobre nosso agir e viver. Expresso ainda o desejo de que sejamos uma comunidade na qual nos auxiliamos mutuamente para a fé.

5 Comentário Cada um avalie essa prédica. Não a proferi, mas a imagino coerente com o que se impôs a mim no decorrer da reflexão sobre os textos. O pregador não se deve deixar tirar de sua trilha por meio de minha exposição, apenas sentir-se motivado a confiar no que vai percebendo no texto quando o lê a partir de sua espiritualidade e experiências de vida. Sinta-se, contudo, em seguida animado a ler comentários e auxílios homiléticos para testar suas impressões; a delimitar sua mensagem (pois cada texto pode ser desenvolvido em várias direções); a decidir sobre o alvo da pregação; a fixar o que dirá como mensagem; e a resolver sobre o convite que fará e que precisa ser coerente com o evangelho. Pense também que, no início da prédica, é importante delimitar o assunto para que a comunidade saiba o que a aguarda e sinta-se atraída para refletir junto; que no corpo da prédica deverá organizar o assunto delimitado; e que na conclusão poderá resumir a mensagem e fazer talvez um convite. Tenha o pregador além disso em mente que a prédica é um ato de solidariedade e que ela deve vir do coração e falar ao coração. A comunidade não é nossa inimiga, mas são nossos amigos e amigas. Conforme Lutero, a prédica é um estímulo para a fé.

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6 Orações Na oração inicial, agradecemos pela presença de Deus em nossas vidas e reconhecemos que, às vezes, temos o sentimento de que Deus não mais fala conosco. Em geral, isso se deve ao nosso afastamento de Deus. Pedimos que nos perdoe, para que possamos celebrar o culto sabendo-nos sob sua graça. Dispomo-nos a afastar-nos de todo mal e a servir a Deus. – Após o perdão, Senhor, anunciamos o perdão, convidamos a comunidade para aceitá-lo com fé e nos dispomos a viver na presença de Deus. – O anúncio do perdão deve ser feito tendo em mente que Deus é favorável a nós. É a partir do anúncio do perdão que podemos estar no culto com alegria e com a certeza de que Deus falará a nós. Na oração intermediária, lembramos que Jesus Cristo chamou seus primeiros discípulos e que os discípulos chamados estimularam outras pessoas a crerem em Jesus Cristo. Pedimos-lhe que continue a chamar seus discípulos e discípulas, também entre nós, e que nos dê clareza sobre nossa vocação e nossa vida. . A oração de intercessão é o momento de dizer a Deus – como Samuel – que estamos aqui e que queremos ouvi-lo falar. Pedimos que Deus revele a cada um sua vocação; que a igreja e a nossa comunidade sejam lugar onde todos podem crescer na fé; que Deus nos ilumine para que saibamos discernir entre aquilo que convém e o que não convém na vida cristã. Expressamos que conhecemos nossas fraquezas, mas que experimentamos a graça de Deus – e que em decorrência disso podemos ajudar-nos mutuamente. Incluímos o tema de intercessão da IECLB, a oração por todas as pessoas, pelos povos, pela paz e justiça entre os povos, pelas autoridades e as intercessões da comunidade. No final, agradecemos a Deus que podemos orar e que ele ouve e atende nossa oração e nos dispomos a lhe servir. A bênção deve ser deitada sobre a comunidade. Existe uma maneira de falar a bênção, que dá a entender à comunidade que se trata de algo supérfluo, e outra, na qual a comunidade percebe que a bênção que veio sobre ela durante o espaço de culto agora a acompanhará em sua caminhada cotidiana durante a semana. Sugiro como leitura de cabeceira para todos que têm que pregar periodicamente e organizar o conteúdo da mensagem o livro indicado abaixo sobre Técnica de Redação.

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Bibliografia BECKER SOARES, Magda/ NASCIMENTO CAMPOS, Edson. Técnica de Redação. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1979. HERTZBERG, Hans Wilhelm. Die Samuelbücher.Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1968. KEGEL DUTRA, Mayke M. 1 Samuel 3.1-10,19. 2º Domingo após a Epifania: In: Proclamar Libertação XXV. São Leopoldo: Sinodal, 1999. KRAUS, Hans-Joachim. Gottesdienst in Israel. München: Chr. Kaiser, 1962. VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. Vol.1. São Paulo: ASTE, 1973. VOLKMANN, Martin. 1 Samuel 3.1-10(19). 2º Domingo após Epifania: In: Proclamar Libertação XIX. São Leopoldo: Sinodal, 1993.

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3o DOMINGO APÓS EPIFANIA

22 JAN 2006

MARCOS 1.14-20 1 CORÍNTIOS 7.29-31

PRÉDICA: JONAS 3.1-5(6-9)10 Vera Maria Immich

Tema do Culto: Aprender com Jonas que é impossível fugir de Deus; aprender com Nínive que sempre é possível arrepender-se e reconstruir nossas vidas e louvar a misericórdia de Deus.

1 Observações preliminares Gerhard von Rad esclarece que todo o livro de Jonas perdeu considerável destaque e credibilidade quando o ser humano começou a duvidar de que alguém realmente pudesse ser tragado por um peixe gigante e ser devolvido com vida após três dias. No entanto, ele considera esse fato um acontecimento secundário, que não deveria ofuscar o brilho e a força de todo o livro. O livro de Jonas, segundo von Rad, não deve ser lido literalmente, mas como um relato de caráter fortemente didático e com acentos diferentes de uma narração histórica. Fala de um homem, profeta, que vivia em uma época e lugar distantes de nossos dias e que recebeu uma ordem de Deus e não a obedeceu.

2 Leituras bíblicas O evangelho de Mc 1.14-20 é bastante apropriado, pois fala do chamado ao discipulado de Simão e André, Tiago e João, os pescadores. Aqui encontramos um seguimento sem questionamento e, provavelmente, sem conhecimento do tamanho da missão que abraçavam e da impossibilidade de retorno e arrependimento. Mostra-nos pescadores que confiam suas vidas cegamente a um mestre. O texto de 1 Co 7.29-31 fala-nos que o tempo se abrevia e que todos devem preparar-se para os tempos de tribulação. Chama para renegar as coisas passageiras do mundo e ficar com aquilo que é o mais importante. Jonas também enfrentava tempos de tribulação.

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3 Contexto O livro de Jonas tem caráter autobiográfico. Relata as circunstâncias em que ele, contra sua vontade, é enviado por Deus a Nínive, cidade fora de Israel, capital da Assíria. Ele deve anunciar a Nínive que eles têm 40 dias para arrepender-se de seus pecados e que depois disso toda a cidade será destruída. Nínive era uma cidade pecadora, e Deus a havia condenado à destruição. Jonas sabe da complexidade de sua tarefa. Sabe que gozarão dele, ou ainda pior, se vierem a se arrepender, é bem provável que o Senhor use de sua grande bondade e misericórdia e os perdoe, o que seria ainda mais desgastante sob o ponto de vista pessoal. Portanto, ele inicia uma fuga corajosa e destemida. Jonas é comparado a vários profetas do AT, que também se negaram a cumprir o chamado do Senhor, como Moisés, Elias, Jeremias e outros. Mas ele é considerado o que com maior tenacidade manteve sua recusa. Ao invés de seguir caminho para o Oriente, onde ficava Nínive, ele embarca em um navio rumo a Társis, no ocidente, a fim de escapar da “presença do Senhor”.

4 Localização do texto e reflexão O texto de Jn 3.1-5 encontra-se após a desobediência de Jonas, sua fuga em um navio a Társis e os fortes ventos dos mares que fazem os marinheiros lançarem sorte para saber por que estavam sendo atacados por aquela tempestade. Eles acreditavam que o Deus de alguém estava castigando todos pela desobediência de uma pessoa. Jonas então percebe que é impossível esconder-se de Deus. Ao jogarem as sortes, essa recaiu sobre Jonas. Ele então percebe que é o próprio Senhor que está se comunicando por intermédio das sortes. Ele confessa, ali na tempestade, àqueles marinheiros que o enchem de perguntas: “Sou hebreu e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra.” (1.9) Então ele é lançado ao mar, conforme o proposto antes de jogarem as sortes. Antes, porém, também eles passam a interceder ao Deus de Jonas, reconhecendo que Ele tem força e poder e pode fazê-los perecer (1.14 e 1.16). Mas o Senhor, que não deixa seus projetos inconclusos, havia preparado para ele uma morada no ventre de um grande peixe durante três dias e três noites. Lá naquela morada diferente, Jonas reencontra-se com Deus e clama por ele. No abismo existencial em que ele se encontra, manifesta sua fé no poder de Deus e seu lamento por talvez não voltar a ver o Templo Santo do Senhor. Jonas é devolvido à terra por ordem do Senhor, que imediatamente

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lhe renova a ordem de ir a Nínive proclamar contra ela a mensagem que o Senhor lhe mandara. Agora inicia o nosso texto. A palavra do Senhor vem a Jonas pela segunda vez. O Senhor diz: “Dispõe-te”. Somente essa palavra já permite uma bela atualização. Deus espera disposição no cumprimento de suas ordens. Não é possível anunciar sem convicção e de má vontade. São necessários firmeza e disposição. Dessa vez, Jonas não foge e não discute a ordem do Senhor; apenas obedece. Ninive era uma cidade muito importante aos olhos do Senhor e bastante grande para os padrões da época. Eram necessários três dias para percorrê-la. Jonas o fez em um dia e diz: “Ainda quarenta dias e Nínive será subvertida” (3.4). Acontece aquilo que certamente é o desejo do Senhor e o temor de Jonas, relatado no capítulo 3.5, que diz: “Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco desde o maior até o menor”.

5 Indicações para a pregação O acento teológico não se encontra no fato de Jonas ter sido engolido por um peixe gigante e ter sido devolvido após três dias. Embora o pregador possa explorar vários aspectos relacionados à clausura providencial de Jonas e seu benefício para a vida conturbada de nosso personagem. Também não considero didaticamente apropriado, para os nossos dias, fazer de conta que não está escrito na Bíblia, quando, na verdade, o inconsciente de nossos membros está habitado pela fantástica história de Jonas. Ao que tudo indica, é uma história de forte apelo didático e que nos permite várias abordagens do que seria esse peixe que engoliu Jonas. Observamos em todo o AT que, quando Deus escolhe uma pessoa para servi-lo, não aceita evasivas, negativas ou fugas. Ele, Deus, acompanhou o fugitivo Jonas, providenciando-lhe uma clausura, que no texto aparece caracterizado como a barriga de um peixe gigante. Esse local, afastado do mundo, oferece a Jonas tempo para repensar seu relacionamento com Deus, a sua vida. É lá na clausura que Jonas clama a seu Deus. Ele descreve sua situação angustiante, de abismo, de solidão (distante do Senhor) e de desolação em que ele se encontra (2.1-9). O Senhor ouve-o e sua solidão tem fim. Deus revela-se livrando-o de suas tristezas e angústias, ouvindo seu clamor. Após livrá-lo, Deus retoma seu plano, que havia sido interrompido pela desobediência de Jonas. Deus demonstra uma grande paciência e perseverança. Demonstra de forma muito concreta que ele deseja nosso auxílio para concretizar sua intenção salvífica a toda a humanidade. Ele mostra claramente que a salvação não pertence somente a Israel. Ele, o Deus que

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criou os céus, a terra e os mares, não faz distinção entre um e outro ser humano. O seu amor é universal e preferencialmente aos afastados de seu amor. Jonas então obedeceu e foi a Nínive. Pregou com muita convicção. Ele, um profeta estrangeiro, consegue chamá-los à consciência e fazê-los ver suas vidas de pecado. Todos, diz o texto, do menor ao maior, são chamados a arrepender-se de seus caminhos errados, jejuar e vestir-se com sacos, em um sinal de profunda humildade. Inclusive os animais jejuarão e serão cobertos com sacos. Até o rei de Nínive veste-se com um saco e adere ao movimento de conversão, para talvez alcançar a misericórdia do Senhor. Não parece simples barganha, pois há o reconhecimento do pecado e o reconhecimento da condenação. O v. 5 inicia com o sucesso da campanha de Jonas e do projeto de Deus. Deus não desejava destruí-los. Ele desejava que cressem nele e mudassem seu caminho: “Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor” (3.5). Após compreender a missão de Jonas e sua relutância à obediência, o pregador poderá levar a comunidade a identificar-se uma vez com o próprio Jonas. Também nós fugimos da presença do Senhor, isolando-nos do convívio comunitário e, muitas vezes, produzindo uma grande solidão, angústia e até falta de sentido na vida, em nosso trabalho e em nossa família. Também nós fugimos das tarefas que Deus coloca diante de nós. Embora seja fácil condenar Jonas por sua recusa em servir ao Senhor, sob o risco de perder seu prestígio de profeta e de cidadão hebreu, se sua profecia não se cumprir, devido à imensa benignidade do Senhor e seus propósitos de salvação e não de condenação, é possível compreender sua relutância. Jonas conhece bem o Senhor e sabe que é arriscado profetizar em seu nome. Também nós temos mais facilidades para testemunhar o poder de Deus ao transformar nossas vidas positivamente e ao nos encher de orgulho por servir a um Deus poderoso. Também preferimos não comentar nossos desvios do caminho do Senhor e suas conseqüências em nossas vidas. Ou, então, aquelas coisas que não compreendemos porque temos que nos sujeitar. Assim como Jonas, gostaríamos de nos esconder no ventre de um peixe e de lá somente sair depois das chuvas e tempestades. O texto de nossa pregação enaltece sobremaneira o valor do anúncio profético e seu alcance missionário. Da mesma forma, ensina-nos que sempre é possível recomeçar nosso relacionamento com Deus desde que haja reconhecimento de nossas falhas e sincero arrependimento. Também enaltece o grande amor e a enorme misericórdia de Deus, que não deseja a nossa condenação, mas a nossa redenção. “Viu Deus o que fizeram, como se converteram de seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não fez.”

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6 Subsídios litúrgicos Pessoalmente estou tentada a desafiar o grupo de liturgia para encenar não somente o texto, mas todo o livro de Jonas, dando ênfase à parte delimitada para a nossa pregação. As orações devem aproximar-se do tema da pregação para dar um fio vermelho coeso ao culto. Esta música, de Lulu Santos, poderá ser usada na acolhida da comunidade. Como uma onda (Lulu Santos e Nelson Motta)

Nada do que foi será De novo do jeito que já foi um dia Tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar Num indo e vindo infinito. Tudo o que se vê, Não é igual ao que a gente viu Há um segundo Tudo muda o tempo todo no mundo Não adianta fingir, Nem mentir para si mesmo, Agora há tanta vida lá fora Aqui dentro, Sempre, Como uma onda no mar, Como uma onda no mar, Como uma onda no mar.

Bibliografia VON RAD, G. Teologia do Antigo Testamento, volume 2, reimpressão da 1ª edição, 1974, Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, 1986.

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4o DOMINGO APÓS EPIFANIA

29 JAN 2006

MARCOS 1.21-28 1 CORÍNTIOS 8.1-13

PRÉDICA: DEUTERONÔMIO 18.15-20 Haroldo Reimer

1 Os textos e o tema do dia O momento litúrgico está inserido dentro do período da Epifania. As pregações nessa época têm o objetivo de destacar a messianidade do Jesus tornado pessoa humana a partir da condição periférica na manjedoura de Belém. Em cada um dos domingos, Jesus entra em contato com pessoas diferentes: João Batista, Filipe e Natanael e com os pescadores Simão, André, Tiago e João, que assumem o discipulado com Jesus (Kilpp, p. 67). Assim, o caráter de mestre e messias de Jesus foi sendo destacado de modo crescente. Nesse quarto domingo após Epifania, o personagem do encontro é o endemoninhado de Cafarnaum, segundo o relato de Mc 1.21-28. Esse encontro tem um traço diferente. A moldura histórica e temporal do evangelho indica que Jesus está ensinando numa sinagoga em Cafarnaum e as pessoas presentes “maravilham-se da sua doutrina” (v. 22). A justificativa do texto evangélico para esse maravilhar-se com o ensino de Jesus é a autoridade (grego: exousia) desse que ensina, diferenciando-se do modo como o faziam os escribas. Em meio a esse clima de ensino e admiração, o texto indica a presença de um “homem de espírito imundo” (v. 23), o qual faz o reconhecimento da messianidade de Jesus: “Bem sei quem és: o Santo de Deus” (v. 24). Jesus então promove um exorcismo, descrito de modo bem teatral. A reação do público presente retoma a admiração já esboçada nos versículos iniciais da perícope. No v. 27 destacam-se os termos “nova doutrina”, “autoridade” e a obediência. O conjunto da cena coopera para aumentar a fama de Jesus em toda a região. Qual é o tema central dessa perícope do evangelho? É a cura exorcista relatada na parte central do texto, destacando-se a dimensão do espírito impuro como elemento religioso oposto a Jesus? Ou se trata de destacar a messianidade e o senhorio de Jesus em ligação com as questões de autoridade e doutrina? Há uma ambigüidade, que deveria ser clareada na interface com a leitura da epístola (1 Co 8.1-13) e com o texto da pregação (Dt 18.15-20).

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O texto da epístola levanta o tema das coisas sacrificadas a “ídolos”. Deve tratar-se sobretudo de alimentos, especialmente carnes, oferecidas em eventos públicos promovidos por autoridades do Império Romano. Tais alimentos costumavam ser dedicados a deuses imperiais ou até representados na figura do próprio soberano secular. A argumentação quanto à participação ou não em tais eventos tem motivos teológicos e ético-pastorais. Teologicamente argumenta-se que, em si, não existem “ídolos”, isto é, esses não têm uma existência ontológica própria. Quanto a uma ontologia divina, o texto epistolar argumenta que, em verdade, há um só Deus (v. 6) e um só senhor, o próprio Jesus. Isso é o reconhecimento teológico fundamental, embora no imaginário popular tal reconhecimento não seja compartilhado por todas as pessoas. A participação ou não em tais eventos públicos em nada aproveita para a salvação, continua o texto (v. 8). Isso tem uma relevância teológica libertadora. O leitor ou ouvinte é comunicado que não precisa estar preso a temores quanto a eventuais “ídolos” ou entidades sagradas ou divinas. O único e verdadeiro senhorio está com Deus e Jesus. Isso é a perspectiva teológica desse trecho epistolar. Tal reconhecimento pode levar as pessoas a uma condição mais elevada de discernimento e de autoridade na fé, que pode até significar certa soberba (v. 1). O importante, na reflexão, é destacar que o tema do senhorio de Deus e o discernimento dessa realidade estão vinculados com a palavra de Deus, diga-se com a sua Torá. Não se trata de um reconhecimento esotérico e oculto, mas algo que foi sendo revelado e discernido na história do povo hebreu ao longo do caminhar do próprio povo e com o amadurecer de seus textos fundantes. Mas como no imaginário popular “ídolos” e “espíritos” existem e coisas podem ser (e são) dedicadas a eles, convém exercitar uma ética comunitária e pastoral de abstenção de participar em tais eventos públicos. A fraqueza de idéias e concepções do outro é a motivação para isso. A base motivadora fundante é o amor. “O saber ensoberbece, mas o amor edifica” (v. 1). O caráter da liberdade espiritual e da autoridade até profética do anúncio da unicidade de Deus e da inexistência e ineficácia de “deuses” e “ídolos” é subordinada ao exercício do amor e da ética comunitária. Quer me parecer que até aqui esses dois textos evidenciam um intrincado tema em que a unicidade de Deus e o senhorio de Jesus são colocados em destaque, e com isso a dimensão de forças ocultas ou contrárias a Deus recebe uma luz própria quanto à sua não-existência e/ou não-eficácia. Simultaneamente, aparece também a temática do discernimento e da autoridade profética. Discernimento na fé e autoridade na fé profética não são questões de foro esotérico, mas estão ligados ao âmbito comunitário, isto é, a um processo de discernimento que vai se construindo na própria vivência da comunidade. Não se pode, assim, deixar de notar que tudo isso é um processo bastante dialogal, que necessita do confronto e do amadurecimento no tempo.

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O texto previsto para a pregação parece indicar na mesma direção. Em Dt 18.15-20, trata-se de um profeta prometido, que deverá surgir de dentro da própria comunidade. Esse profeta será como Moisés (= “semelhante a mim” – v. 15). Com isso, a sua autoridade e legitimidade não estarão alicerçadas em algum evento ou processo esotérico, mas sua vinculação será com o Deus Yahveh, entendido e crido como uno e único, e com a própria comunidade dentro de uma perspectiva de tempo mais longa. Novamente o tema da dialogicidade de todo o processo está presente. Como a perícope de Dt 18.15-20 está prevista como texto de pregação, o mesmo deverá receber algumas considerações próprias a partir de seu próprio contexto literário, histórico e de conteúdo.

2 Dt 18.15-20 em seu contexto Literariamente, Dt 18.15-20 é parte de um dos blocos do código deuteronômico (Dt 12-26). É quase consensualmente assumido na pesquisa que nesse código estão sistematizadas leis de épocas diversas relativas à vida do povo de Israel sob o pressuposto da pertença e da fé em Javé. O centro teológico e o pressuposto para a organização do material são o primeiro mandamento: adoração exclusiva a Javé. Quem professar a sua pertença a esse povo de fé e a esse Deus deverá submeter-se a essas normas fundamentais, entendidas como leis para a bênção ou para a maldição, para a vida ou para a morte. Os diversos blocos temáticos desse código de leis podem ser estruturados na seguinte forma concêntrica, evidenciando-se o bloco de 12.1-14.21 como uma abertura para o todo: 12.1-14.21 a

a’

abertura: lugar de culto, santidade e idolatria

14.22-26 dízimos b 15.1-16,17 c 16.18-18.22 X c’ 21.10-23,14 b’ 23.15-26.11 26.12-15

leis sociais e religiosas ‘direito público’ 19.1-21.9 VIDA / MORTE ‘direito privado’ (âmbito familiar) outras leis sociais e religiosas

Observando a estrutura proposta, o texto de Dt 18.15-20 aparece como um recorte do bloco de leis que trata de questões que poderíamos chamar de “direito público”. São leis relativas à vida pública no antigo povo de Israel: deveres dos juízes (16.18-22); idolatria (17.1-7); julgamento de questões difíceis (17.8-13); escolha de um rei (17.14-20); herança e direitos dos sacer-

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dotes e levitas (18.1-8). O trecho final de Dt 18.9-22 trata de questões relativas a adivinhos, feiticeiros e profetas, encerrando, assim, esse bloco de questões de “direito público”. Percebe-se, assim, claramente, que o texto em questão é parte integrante de uma legislação maior e sistematizada, que busca ordenar questões públicas. Há controvérsias na pesquisa sobre a mais provável datação do código (Kramer, 1999). Na linha aqui assumida, com base nesse código terse-ia buscado normatizar a vida social e de fé dos israelitas no reino do sul (Judá) na segunda metade do século VII a.C. sob e durante o governo do rei Josias. O código teria servido como uma espécie de “constituição” civil e religiosa para o reino e o povo crente em Javé. A codificação parte do pressuposto da “fé oficial” em Javé, que tem no shema Yisrael e na centralização do culto expressões fundantes. Várias leis do código constituem reações a práticas cotidianas, em parte perpetradas pelos assírios durante o longo tempo de seu domínio sobre Israel e Judá. Como reação a práticas externas, internalizadas no próprio povo, o código busca implantar no imaginário judaíta um conjunto regulador de novas práticas permeadas pelo princípio da misericórdia (hesed). A caracterização dessas leis como “lei pregada” certamente tem a ver com o propósito da internalização de novos princípios por meio da repetição como um recurso pedagógico. O conjunto das leis é caracterizado e designado como torah. Com a lei deuteronômica estabelece-se pela segunda vez o fundamento daquilo que viria a ser a Torá (Pentateuco) como um todo (Crusemann, 2002). Convém lembrar que a formulação das leis no tempo futuro (“quando entrares na terra...”) está relacionada com a historização de todo o Pentateuco, como lei revelada antes da entrada na terra prometida. O Deuteronômio como um todo, porém, supõe claramente a posse tranqüila da terra e o usufruto da liberdade para boa parte do povo. As leis, de uma forma geral, dirigem-se a “tu” (2ª pessoa masc. sing.), que, muito provavelmente, é o pater famílias, isto é, o dirigente da casa patriarcal. Esse, dentro do seu âmbito “microfísico” de poder, deve colocar as respectivas leis em prática. O código deuteronômico, como fundamento da Torá, formulada e sistematizada na segunda metade do séc. VII a.C., busca fornecer proposições normativas para esse momento histórico e teológico do povo hebreu. A questão do profeta e dos acessos ao sagrado era uma dessas questões. Assim, o bloco de Dt 18.9-22 trata desses temas. Na parte inicial de Dt 18.9-14, que não faz parte da perícope de pregação, há proibições de algumas formas de práticas mânticas (vv. 10-11), designadas de “abominações” aos olhos de Deus. Tais práticas, supostamente representativas (só) dos povos anteriores, são tabuizadas e devem ser abolidas na esfera de poder do chefe patriarcal. Assim, evidencia-se claramente o intento normatizador dessa lei. Por cima dessa tabuização afirma-se a promessa de que Deus “te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim” (v.15).

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Aqui está uma chave do texto. A promessa do profeta é formulada de modo iterativo, isto é, com uma forma verbal que supõe uma repetição do ato (= sempre de novo suscitarei...) (Crusemann, 2002, p.336). Não se trata de uma aparição única. Tal profeta deverá sair do seio do povo, da comunidade, dentre os irmãos. Há, pois, uma concentração teológica dentro de uma concepção “nacionalista”, que combina com a perspectiva geral do Deuteronômio de construção ou fortalecimento de uma comunidade de irmãos na perspectiva da fé oficial em Javé. Esse profeta prometido deverá ser “semelhante a mim” (v. 15). Isso é um dado intrigante. Os profetas de Israel, especialmente os “radicais” do séc. VIII a.C., eram sobretudo personagens carismáticos, não encaixados em formas fixas e muito menos formatados como intérpretes de leis. Em muitos casos, eram free lancers em nome do Deus Javé, em favor dos pobres, pela ética e em favor da justiça. O profeta prometido em Dt 18.15, contudo, deve estar em conformidade com o sujeito falante no discurso das leis deuteronômicas. Literariamente, quem profere o discurso é Moisés, lembrando-se que o Deuteronômio é uma repetição seletiva de leis do Sinai, proferidas antes da entrada na terra prometida. Esse sujeito do discurso já é o Moisés na versão final do Pentateuco, uma figura na qual o povo de Israel, por meio dos redatores, já havia projetado uma série de funções sobre esse personagem. Duas funções destacam-se: a) Moisés é intercessor pelo povo; b) Moisés é uma figura da qual emanam leis obtidas a partir do encontro direto com a divindade. Por isso “a ele ouvirás” (v. 15). Esse profeta, pois, está em uma conformidade dialética com a própria Torá. As suas palavras e sua atuação deverão estar em sintonia com essa figura de Moisés, projetada nos textos. Provavelmente pode tratar-se de figuras religiosas governantes no período do pós-exílio em diante, estreitamente ligadas com o santuário central em Jerusalém. A alocução direta (“tu”), presente no v. 15, não continua nos vv.16-20, mas é retomada somente nos vv.21-22. Nesses versículos finais, tematiza-se outra questão fundamental para a perspectiva deuteronômica, que é o fator tempo como critério para o discernimento entre verdadeira e falsa profecia. O que a lei formula é que no momento do fenômeno profético não há como discernir com clareza e certeza o que é verdadeira e o que é falsa profecia, especialmente se ambas as formas são similares no modo e na referência ao mesmo Deus. Nesse sentido, essa parte da lei é “liberal”. “Quando é a palavra de um contra a de outro, quando é duvidoso qual seja a verdadeira palavra de Deus, a regra diz que é necessário esperar, e não perseguir, proibir, acusar ou até condenar à morte” (Crusemann, 2002, pp. 337-8). Os vv.16-20 constituem, pois, um bloco que tematicamente é similar ao conjunto, mas estilisticamente é distoante, pois interrompe a alocução direta. O que se tem aí é um discurso sobre essa figura do profeta. Em geral, distinguem-se camadas distintas, não havendo certeza sobre qual seria a mais anti-

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ga. As mútuas complementações entre as supostas camadas reforçam a temática da promessa de um profeta mediador e fonte direta do discernimento da palavra do Deus Javé. O acesso a outras divindades e a outras formas de acesso ao sagrado, que não seja o caminho desse tipo de profecia, fica interditado ao povo de Israel. Com isso voltamos ao tema do dia.

3 Tema rumo à pregação Os três textos colocados em diálogo por aqueles que propuseram essa ordenação de textos na série de perícopes buscam ressaltar alguns aspectos: – há um só Deus verdadeiro, que tem seu canal de comunicação por intermédio da palavra mediada profeticamente; – o profeta mediador prometido e sempre de novo suscitado dentre o povo da comunidade crente em Javé é, historicamente, alguém que se senta na cadeira de Moisés e fala como ele; – na releitura dessa promessa nos cristianismos originários, esse profeta prometido é identificado com Jesus de Nazaré, afirmando-se a sua messianidade; – nesse processo de concentração teológica da fé em um só Deus e na figura de Jesus como o profeta mediador prometido, há uma despotencialização de qualquer outro tipo de divindade; a existência de outros deuses é negada ou são eles transformados em “ídolos” e até em “espíritos imundos”, os quais mesmo assim são capazes de fazer a clara confissão da messianidade de Jesus. Na pregação, procuraria destacar os aspectos que destacam a centralidade de Deus e a messianidade de Jesus, mas deixando o caminho livre para a livre manifestação de Deus nas mais diversas culturas. Como pano de fundo da pregação, é necessário ter claro que os textos sagrados são construções humanas, que, como tais, projetam certas posições e preferências teológicas e com isso também promovem processos de exclusão de certos elementos ou expressões de fé. A pregação deveria buscar construir koinonia e ecumene com base na confissão cristã do senhorio de Jesus e da unicidade de Deus.

Bibliografia CRUESEMANN, Frank. A Torá. Trad. Haroldo Reimer. Petrópolis: Vozes, 2002. KRAMER, Pedro. Origem e legislação do Deuteronômio. Programa de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos. São Leopoldo: IEPG (tese de doutorado), 1999. KILPP, Nelson. Quarto Domingo após Epifania. Deuteronômio 18.15-20. In: STRECK, E.E.; KILPP, N. (eds.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1993, v. XIX, pp. 67-72. REIMER, Haroldo. Inclusão e resistência. Anotações a partir do Deuteronômio. Estudos Bíblicos. Petrópolis, n. 72, p.11-20, 2002.

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5o DOMINGO APÓS EPIFANIA

05 FEV 2006

MARCOS 1.29-39 1 CORÍNTIOS 9.16-23

PRÉDICA: JÓ 7.1-7 Günter Adolf Wolff

1 Para entender a realidade da vida hoje Nosso texto descreve a realidade de opressão de Jó (do povo) pela corvéia, trabalho pesado, escravidão, so-frimento, doença, vida sem esperança e sem felicidade. Essa também é a realidade presente na conjuntura atual, em que a realidade do Brasil é determinada pela conjuntura internacional. 1.1 – A situação internacional A economia dos Estados Unidos está enfrentando uma dura crise, que já vem de alguns anos. Essa crise na economia central capitalista, por ser a potência econômica e militar hegemônica num mundo unipolar, trans-forma sua política, mais agressiva e mais perigosa, para querer sair da crise a qualquer preço. Ou melhor, transferindo todo o peso da crise para os povos dos outros países. Essa transferência da crise se dá pela emis-são sem controle do dólar, utilizando-o como moeda internacional. Essa é a forma de os Estados Unidos fi-nanciarem seus gastos à custa de todo o mundo, impondo sua vontade aos países, para controlar fontes de energia (petróleo) e biodiversidade. E para controlar mercados, via ALCA, OMC, Banco Mundial, FMI etc. Os quinze anos de neoliberalismo, de espoliação total da riqueza do continente latino-americano, geraram uma dominação total do capital internacional, que impediu alternativas de modelos econômicos, mesmo den-tro do sistema capitalista. Há estudos que revelam que, nesse período, nosso continente enviou um trilhão de dólares em remessas para os Estados Unidos e a Europa. 1.2 – A situação da América Latina A América Latina foi o continente que mais sofreu a ofensiva do capital imperialista na década de 1990, em razão das mudanças na correlação de forças internacional naquele período. Foi na América Latina que as cor-

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porações internacionais e o capital financeiro aplicaram com mais voracidade suas políticas neoliberais, de-fendidas no consenso de Washington. Isso levou a uma espantosa desestatização, aniquilando as empresas estatais existentes e a exclusão dos estados nacionais na elaboração das políticas econômicas. Assim diversos países, como Panamá, Equador e Argentina, chegaram a abandonar moedas nacionais e adotaram o dólar es-tadunidense. No entanto, a população deu-se conta de que nenhum problema econômico foi resolvido e que as economias tornaram-se ainda mais dependentes. E o pior, todos os problemas sociais se agravaram. 1.3 – A situação da economia e da política no Brasil As forças conservadoras do capital, aliadas ao capital estrangeiro, continuam tendo hegemonia completa na política econômica do governo. A política econômica segue à risca a ortodoxia neoliberal, baseada nos três pilares clássicos: a – altas taxas de juros para atender os interesses dos banqueiros, credores da dívida pública interna. A taxa básica Selic de 19,25% ao ano representa hoje a mais alta taxa de juros real de todo o mundo; b – manutenção de um superávit primário no orçamento público do governo federal, que representa a arreca-dação de 60 bilhões de reais (ao redor de 24 bilhões de dólares ao ano), recolhidos de toda a população na forma de impostos e repassados aos bancos na forma de pagamento de juros das dívidas interna e externa. Os bancos, as grandes empresas exportadoras e as corporações transnacionais que operam no Brasil são os únicos que estão se beneficiando dessa política; c – manutenção de uma política cambial, monetária e tributária de estímulo às exportações. Como forma de auferir os dólares suficientes para evitar especulações do capital financeiro e evitar crises de pagamento da dívida externa. O governo Lula não aposta na mobilização popular e no povo como um ator importante para as mudanças. Prioriza apenas suas articulações com os parlamentares no Congresso Nacional. A democracia representativa está cada vez mais limitada e aumenta o descrédito no meio do povo. 1.4 – Os desafios que os movimentos de massa enfrentam na atual conjuntura O movimento de massas, no seu sentido mais amplo, encontra-se num processo muito complexo e difícil. As direções políticas dos movimentos estão confusas ideologicamente. A maioria abandonou a perspectiva socialista.

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É necessário trabalhar permanentemente com a perspectiva de acúmulo de forças organizadas da classe tra-balhadora para retomar as lutas de massa, único caminho que pode permitir alterar a correlação de forças ad-versas para o povo. Perceber e seguir trabalhando prioritariamente na solução de seus verdadeiros desafios históricos, que são: a formação de dirigentes (dos partidos de esquerda, do movimento popular, das igrejas, dos sindicatos) em todos os níveis, a elaboração de um programa alternativo para o país, preparar os militan-tes para a retomada do movimento de massas e o reascensão do movimento de massas por meio das lutas so-ciais. Refletir sobre as práticas da esquerda, que apenas priorizou a luta institucional e eleitoral. Os movimentos sociais organizados têm consciência de que as reivindicações populares só poderão ser aten-didas quando for mudado o rumo da política econômica, até hoje a serviço do grande capital. A experiência dos movimentos sociais, ao longo dos últimos 50 anos, ensina que somente a pressão política, social ou moral pode conquistar melhorias em sua vida cotidiana. É necessário construir um novo projeto alternativo para o país, que represente uma plataforma unitária antine-oliberal e que junte todas as forças antineoliberais. Um projeto alternativo deveria ser construído sobre a base de três pilares: a – nacional: no sentido da solução dos problemas nacionais, do desenvolvimento do mercado interno e da soberania para construir projetos de integração regional e superar a dependência do capital estrangeiro; b – social: no sentido de garantir trabalho para todos e condições de vida básicas, aumentando o salário míni-mo, tomando medidas de combate à desigualdade social e fazer a reforma agrária; c – democrático: no sentido de garantir os direitos do povo de participar ativamente na política e poder decidir tendo mecanismos de participação popular e de controle sobre seus representantes. (Nas palavras de Fabio Comparato, “o povo tem apenas o direito de escolher hoje quem o vai trair amanhã”.) 2 Para entender a realidade expressa no texto de Jó 7.1-7 2.1 – O contexto do livro Jó é o povo de Israel no período pós-exílico, como nos relata a realidade injusta de Ne 5.1-13 (que viveu na mesma época em que foi composto o livro de Jó e retrata essa realidade) e de Jó 24 e, por outro lado, mostra o que deve ser feito conforme Jó 29 e 31. Normalmente se fala apenas de Jó de forma individual, mas se olhar-mos o livro, ele, na pessoa do Jó, retrata a

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vida do povo massacrado pelo modo de produção tributário. O livro fala daquilo que está acontecendo no meio do povo sofrido. É a denúncia profética envolta na espiritualidade da fé em Deus. É o sistema econômico tributário em pleno vigor persa, espoliando o povo e levando-o ao de-sespero e à miséria absoluta. Além da crise econômica, havia a crise religiosa, que perguntava por que Deus deixou as coisas ficarem assim. O livro coloca Jó em três fases: a situação privilegiada, a provação e a regeneração. 2.2 – O texto de Jó 7.1-7 O texto fala da dura realidade da vida do povo: v. 1 – A vida é dura e o trabalho é pesado, como o do diarista. (A Tradução Ecumênica da Bíblia fala em cor-véia – trabalho forçado prestado pelos camponeses como imposto ao Estado, tanto em obras públicas como em servir no exército. Por isso o termo usado pode significar soldado ou assalariado.) v. 2 – A escravidão. vv. 3-4 – A insônia por causa do sofrimento que o próximo dia vai trazer. v. 5 – A doença torna a pessoa repulsiva – é a degeneração física em conseqüência da espoliação. v. 6 – Os dias passam rapidamente devido ao trabalho duro e sofrido e não há esperança à vista. v. 7 – A vida é curta, sem felicidade e sem esperança. Esses são o grito e a realidade do povo de Israel sob o domínio persa; semelhante ao povo latino-americano sob o jugo do capital e da dominação política, econômica, cultural e militar dos EUA. Temos tudo isso no Brasil e também não sabemos quando isso vai acabar, pois a mobilização popular ainda não tem força e poder suficientes para mudar essa situação. Aqui Jó faz uma leitura da realidade do nosso próprio povo brasileiro: da desesperança e da falta de perspectivas, parece que nunca vão acontecer mudanças profundas. O livro de Jó fala daquilo que está acontecendo no meio do povo de Israel. Cabe a nós também falar daquilo que está acontecendo no meio do nosso povo, se é que temos a chave correta para ler a realidade. Normalmente essa chave está guardada e escondida a sete chaves em nossa igreja. Muitos ainda crêem que não existe a luta de classes na sociedade e muito menos na igreja. Santa ingenuidade ou fuga da realidade? Conseguimos ver e ler a realidade do nosso mundo pelos olhos de Jó? A realidade do texto já aponta para o período da paixão (de Cristo, o Servo Sofredor), que está próximo.

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3 Os textos de leitura 3.1 – Marcos 1.29-39 O texto espelha a realidade de Jó: doença, miséria, exclusão social, mas já aponta por intermédio de Jesus para a saída que é o reino de Deus em construção pela cura, pelo afastamento da miséria e pela inclusão das pessoas na vida social e comunitária. Mostra também uma nova espiritualidade na oração, que fortalece na luta contra o sistema deste mundo que impõe a miséria e o sofrimento. Aponta para a itinerância de Jesus para a mobilização em anunciar o novo projeto de vida que é o reino de Deus. Há esperança aqui e agora e para o futuro, o que não aparece em Jó. 3.2 – 1 Coríntios 9.16-23 Diante da realidade miserável do povo não temos opção a não ser anunciar que há esperança e que as coisas vão mudar e que o sofrimento não é vontade de Deus e nem é eterno. Não anunciar o evangelho é perpetuar o sofrimento e a desesperança, é negar a fé em Jesus Cristo. Aqui a liberdade total concedida por Jesus Cristo empurra-nos para os sofridos e desalentados. É a identificação com os fracos para acabar com a fraqueza que a miséria gerou. Aqui há esperança pelo empenho em anunciar a nova realidade criada pela morte e ressurrei-ção de Jesus Cristo.

4 A prédica O texto aponta para a denúncia profética: – do sofrimento e da exploração do trabalhador (camponês); – da desesperança de uma vida sofrida sem futuro; – do grito contra a opressão do trabalho e da doença; – da dupla exploração: império persa e ricos israelitas (Ne 5) – hoje capitalistas nacionais e internacionais. Relacionar tudo isso com as situações análogas de hoje. Acrescentar e relacionar com as leituras do NT que trazem nova esperança, pois o texto de Jó não aponta esperança. O que Jó descreve é a realidade de milhões de pessoas no Brasil. E a conjuntura atual não aponta para uma mudança a curto prazo dessa vida de Jó do nosso povo subjugado pelo capital nacional e internacional. A conjuntura eclesial também não aponta para um engajamento das igrejas no processo de organização das massas espoliadas; apenas aponta para a individualização de saídas na busca por milagres, curas e pela pro-

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messa de prosperidade individual como resultado da fé. Apenas é a reprodução da ilusão criada pelo capital. Proponho inter-relacionar os textos, pois Jó não aponta saídas e nem esperanças. Os textos do NT apontam para a prática de Jesus Cristo e da esperança vinda dele, propalada por Paulo. O desafio é fazer a comunidade ouvir o clamor e ver as chagas dos Jós de hoje e que estão dentro de seus próprios muros. Os camponeses (também operários) vivem falando da exploração a que estão expostos, mas poucos se encorajam a aliar-se aos movimentos populares camponeses da Via Campesina. Só lamentam, mas são contra a organização do povo empobrecido pelo capital por causa do medo e da alienação. Por isso a IECLB ainda não conseguiu via-bilizar as pastorais que acolhem os desalentados de nossas comunidades e fora delas. Falta clareza teológica, que o povo nunca terá enquanto a igreja não iniciar um processo de formação permanente. A igreja ajuda a perpetuar a miséria de Jó pela sua omissão diante das chagas do seu próprio povo. A igreja vive a realidade de Jó em sua prática eclesial – não mostra e nem vive a esperança por medo da cruz. Não consegue deixar claro e tem medo de dizer que a origem do sofrimento do povo é o capital. O nosso povo também não quer ouvir isso, pois reproduz o sistema capitalista e quer perpetuá-lo achando que não há outro projeto de sociedade além do projeto capitalista. São as palavras de Jó na prática da vida – não há esperança e não há saída. Cabe a nós dizer que há saídas e que há esperança, pois somos servos libertos por Jesus Cristo que assumem a cruz na luta contra a opressão.

5 A liturgia Versículo de entrada: Queremos iniciar nossa celebração com a palavra da Sagrada Escritura de 1 Co 4.5, que diz: “O Senhor não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações”. Confissão de pecados: 1 Jo 1.8-9 diz: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”. Por isso, agora em silêncio, cada um pode colocar di-ante de Deus os seus pecados bem pessoais. Confessamos, Senhor, que pedimos muito e agradecemos pouco por tudo o que diariamente recebemos de ti. Confessamos, Senhor, que ficamos indiferentes diante dos pro-blemas e dificuldades de nossos semelhantes, como se eles não existissem. Confessamos, Senhor, que nos falta sempre de novo a humildade e paciência, principalmente em relação a pessoas exploradas, idosas, fracas e enfermas.

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Absolvição: O onipotente e misericordioso Deus sempre teve compaixão de nós. Ele deixou que seu Filho unigênito fosse entregue à morte por nós na cruz, perdoa-nos de graça todo o pecado e nos dá a salvação por graça e fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso anuncio o perdão dos teus pecados com a palavra de Deus do Sl 97.11-12, que diz: “A luz difunde-se para o justo, e a alegria, para os retos de coração. Alegrai-vos no Senhor, ó justos, e dai louvores ao seu santo nome”. Kyrie eleison: Diante desse gesto glorioso de Deus em nos absolver de todo pecado, nós temos que admitir que ainda continuamos vivendo neste mundo em meio a dores, sofrimentos, exclusões, injustiças e violências; essas dores do mundo nós queremos agora trazer perante Deus. Pela grande angústia e desespero que o de-semprego está causando em nosso país. Pelo sucateamento do sistema de saúde que deixa o povo sem assis-tência e desamparado em sua doença e sofrimento. Gloria in excelsis: Deus é fiel. Ele escuta o clamor do seu povo e vem a nós nos sacramentos e na sua pala-vra, como lei e evangelho. Por isso queremos anunciar a glória de Deus e declarar a sua vitória por meio de seu Filho Jesus Cristo, que ele ressuscitou. Deus Todo-Poderoso, te exaltamos pela saúde que temos, não ape-nas a nossa, mas de toda a nossa família. Deus, Todo-Poderoso, te exaltamos pelo pão de cada dia que pode-mos desfrutar em nossa família. Deus, Todo-Poderoso, te exaltamos pelos amigos e amigas que nos amparam e apóiam em todos os momentos. Deus, Todo-Poderoso, te exaltamos por poder estar juntos e desfrutar de tua palavra. Oração do dia: Esteja entre nós, Senhor, para que a nossa mente esteja aberta para a palavra que iremos ouvir agora. Que teu Santo Espírito esteja entre nós e nos fortaleça para que possamos viver essa pala-vra no dia-a-dia de nossas vidas. Que essa palavra nos anime a viver e proclamar a proposta do teu reino. Amém. Oração geral da igreja: Queremos trazer agora perante Deus as nossas intercessões. Oremos: Senhor, inter-cedemos pelos dirigentes tanto do município como do estado e do país, para que tenham a tua sabedoria em suas decisões e para que trabalhem pelo bem de todo o povo e não somente para um pequeno grupo. Oramos, Senhor, pelos jovens para que não caiam nas tentações e ilusões que as drogas oferecem. Dê a pais e mães a sabedoria para que não sejam eles que tragam as drogas para os seus filhos por meio do seu consumo de bebi-das alcoólicas e fumo. Oramos, Senhor, pelos casais para que possam fortalecer o seu amor e fidelidade constantemente. Oramos, Senhor, para que nós possamos trazer alento às pessoas que estão enlutadas, doen-tes, desempregadas, sem esperança e sem terra. Amém.

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Bibliografia BÍBLIA – Tradução Ecumênica (TEB). São Paulo: Edições Loyola, 1994. BÍBLIA VOZES. Petrópolis: Vozes, 1985. EQUIPE DO CEBI-MG. A Impaciência de Jó. Encontros para círculos bíblicos e semanas bíblicas. In: A Pa-lavra na Vida nº 101. São Leopoldo: CEBI, 1996. PEGORINI, Nilson I. e OLIVEIRA, Paulo Quiquita de. Proposta de Roteiro para Estudo do Livro de Jó. In: A Palavra na Vida nº 103. São Leopoldo: CEBI, 1996.

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6o DOMINGO APÓS EPIFANIA

12 FEV 2006

MARCOS 1.40-45 1 CORÍNTIOS 10.31-11.1

PRÉDICA: 2 REIS 5.1-14 Norberto da Cunha Garin

1 Considerações sobre o texto Na perícope sobre a cura de Naamã está retratada a inoperância das religiões da Síria em contraste com a superioridade da fé judaica. Deve-se considerar que a fé judaica era praticada por alguns segmentos que gravitavam em torno dos profetas Elias e Eliseu. A narrativa desse texto faz parte de um rico depósito de histórias populares, cujo tema era o conflito entre seguidores de Baal e de Javé. O foco era a solução de problemas básicos na vida do povo comum, que sofria sob a opressão de reis e por causa da falta de alimentos. Elias e Eliseu marcaram fortemente as camadas populares com seus prodígios, em que o poder de Javé era manifestado em oposição ao poder de Baal. Dessa forma, ofereciam resoluções de problemas, tais como fome aguda, doença, pobreza e expropriação de terras para uma parte da população que sofria com essas calamidades. Os profetas integravam uma comunidade que tinha como bandeira a propagação da fidelidade a Javé. Ao mesmo tempo, essa comunidade encontrava apoio e respaldo em diferentes segmentos da sociedade mais ampla, como funcionários da corte como Obadias (1 Rs 18.3-4) e Jeú (2 Rs 9.1-3), funcionários sírios, como é o caso de Naamã (1 Rs 5), e até reis como Ben-Hadade e Hazael (2 Rs 8.7-15).

2 Olhando para o texto v. 1: O termo Naamã significa “encantador”; pode aparecer como nome próprio e como título de realeza; esse versículo informa que um estrangeiro tornara-se “servo” do Senhor; transmite a idéia de universalidade de Javé ao falar de um rei sírio que recebeu favores do Senhor. v. 2: Aponta para as mulheres como vítimas da guerra; uma menina é levada como escrava, que se tornou serviçal da mulher de Naamã.

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v. 3: Com quase toda a certeza não se tratava de hanseníase, visto que Naamã podia ter uma vida pública; os portadores de lepra eram segregados; a lepra de Naamã era uma doença de pele; esse versículo aponta também para a região onde Eliseu atuava, a Samaria; provavelmente não se tratava da cidade, visto que por causa das ruas muito estreitas não permitiria a aproximação de carruagens. v. 5: A ordem do rei dos arameus e a preparação da caravana informam sobre a importância e a solenidade da excursão; tratava-se de uma prática entre os reis da antigüidade solicitarem, oficialmente, tratamento médico para os reis vizinhos; entretanto, a quantidade de presentes que Naamã leva ao rei de Israel é exagerada. v. 7: O rei de Israel interpreta a carta como uma atitude belicosa de quem pretendia romper com ele e agredir seu território; é possível perceber o contraste entre a dureza do coração do rei de Israel, provavelmente Jorão, com quem Eliseu não simpatizava, e a fé, ainda que fraca, de Naamã, um estrangeiro. v. 8: Quando se refere a Eliseu, enviando mensagem ao rei, salienta a distância que há entre o profeta e a corte; é dessa forma que o rei acaba reconhecendo a existência de um profeta em seus domínios. v. 9: A presença de cavalos e carros diante da porta de Eliseu reforça a importância e a pompa para o visitante; o ato de parar junto à porta do profeta significa uma atitude de respeito; também aponta para um valor religioso; trata-se de uma atitude cultural diante do sagrado; é significativo perceber o contraste entre a caravana solene de Naamã e a simplicidade do mensageiro de Eliseu. v. 10: As informações desse versículo frustram o encontro que Naamã pretendia ter com o profeta; Eliseu envia uma mensagem com a sua prescrição: “Lava-te sete vezes no Jordão”; a ordem do profeta tem o sentido de continuidade – “lavando-se continuamente” –, que é reforçada pelo número de vezes que Naamã deveria banhar-se; sete é um número simbólico e significa completude, perfeição; é um número ligado a rituais no contexto de Levítico e tem sentido em termos de continuidade do ciclo da natureza, especialmente ligado ao ciclo lunar; a repetição por sete vezes reforça o elemento ritual; o Jordão é uma referência a um rio nacional em oposição aos rios da Síria – marca-se a oposição de Javé às divindades sírias; de forma geral, a água e os rios carregam o sentido de restauração e purificação; a expressão final “que seja restaurada a tua carne” tem um sentido de desejo; note-se o contraste entre a expectativa de Naamã, de um ritual de cura solene, com imposição de mãos, e a ordem do profeta para que mergulhasse sete vezes no Jordão. v. 11: A expectativa de Naamã era que o profeta o atendesse; tinha cumprido todas as formalidades de uma visita ilustre e o mínimo que esperava era uma atenção direta; seria uma atitude correspondente à sua atitude

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de ficar em pé diante dele; esperava pelo menos a invocação da divindade para operar sua cura; ele esperava um gesto ritual sobre a sua lepra; como nada disso aconteceu, Naamã demonstra sua indignação e frustração. v. 12: A forma de desfazer a atitude do profeta Eliseu foi menosprezar o Jordão enquanto possibilidade de trazer uma cura; compara os rios de sua terra e classifica-os como “melhores do que todas as águas de Israel”; demonstrando irritação, ele questiona se os rios de sua terra não poderiam purificá-lo; note-se que os rios da Síria constituem uma apoteose de canais que atravessam o deserto em meio a árvores; percebe-se que a irritação de Naamã não é por causa do Jordão, mas por causa da falta de atenção do profeta; sua irritação culmina com sua retirada intempestiva: “voltou-se e se foi”. v. 13: Da mesma forma como uma menina persuade Naamã a procurar o profeta em Samaria (5.2), é também um punhado de servos que persuade Naamã a ir até o Jordão; em ambas as extremidades da narrativa, são pessoas de menor significação social que influenciam diretamente na cura de seu senhor, fazendo um contraponto à arrogância de Naamã; utilizam um método interrogativo de persuasão e conduzem seu chefe à cura de seu corpo; são os insignificantes que levam Naamã à cura; a força do argumento está em que era uma coisa fácil de realizar; há dificuldades para traduzir a expressão abi referente à relação entre os servos e Naamã; há exegetas que sugerem bi, que seria traduzido por uma interjeição por favor. v. 14: A partir dos argumentos dos servos, Naamã vai ao rio; ele desce ao Jordão; aqui é interessante notar que o verbo descer, em hebraico, tem a mesma raiz do substantivo próprio Jordão; descer tem a ver com deixar a arrogância de senhor e curvar-se, humilhar-se diante da insignificância daquele “riozinho”; o verbo mergulhar, que no Antigo Testamento não é tão comum, tem aqui o sentido de intensidade do cumprimento da ordem do homem de Deus; é significativo o paralelo entre as expressões menina (pequena) do v. 2 e criança (pequena) do v. 14; a carne de Naamã torna-se jovem como de uma criança.

3 Um passo adiante É possível avançar em algumas direções. Naamã significa “encantador”, que tanto pode ser um adjetivo como um título. Tratava-se de um homem de confiança do rei da Síria. Seu brilhantismo e seu prestígio contrastavam com a insignificância e a falta de nome de uma menina estrangeira, uma escrava de guerra que servia à mulher do militar. Apesar de estrangeiro, Naamã é encaminhado a um círculo popular que propagava a fidelidade a Javé. Era um contraste marcante com a adora-

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ção de divindades da Síria. Por meio dessa narrativa percebe-se que o culto de Javé havia ultrapassado as fronteiras de Israel. Foram justamente uma mulher e criança, duplamente insignificantes na sociedade antiga, que conduziram o poderoso Naamã ao caminho da cura. Apesar da escravidão, a menina foi capaz de manifestar solidariedade para com seu senhor. Aparece nesse texto a divulgação de uma comunidade que se reunia ao redor do profeta com uma postura de oposição ao governo de então. Contrastando com a simplicidade da menina, o militar percorreu todos os protocolos da diplomacia. Solicitou a seu chefe a devida licença para atravessar a fronteira e levou consigo a carta de apresentação e os presentes conforme o costume da época. Acostumado ao clima belicoso entre Síria e Israel, o rei temia uma nova guerra. Desconfiava das intenções dos vizinhos e imaginava uma possível invasão. Não seria totalmente estranho supor que Jorão desconfiasse da aproximação dos sírios com a comunidade que lhe fazia oposição – a comunidade do profeta. A despeito da situação delicada, por meio desse incidente o rei reconhece a comunidade profética de Eliseu. Naamã vai ao encontro do profeta, que certamente trabalha numa zona de subúrbio, já que não seria possível aproximar-se de sua casa, numa zona urbana, com seus cavalos e seus carros. Com toda a pompa e o devido respeito, o militar postou-se diante de Eliseu esperando ser recebido com a mesma solenidade que lhe dedicou. Além do respeito, a atitude de colocar-se em pé diante do profeta tinha o significado de reconhecimento do sagrado. Ao contrário da atitude de Naamã, o profeta envia-lhe um mensageiro com a seguinte receita: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão”. Nessa ordem estava presente a preocupação do profeta para que o ritual fosse cumprido integralmente. Sete vezes tem a intencionalidade de ser uma atitude plena, perfeita para necessidade que se lhe apresentava. Na verdade, a ordem que o profeta deu constituiu-se de uma orientação de intencionalidade: “que seja”. O contraste com a atitude de Naamã é evidente. Ele esperava um ato ritual simbólico, com imposição de mãos sobre a lepra, uma aproximação com o profeta. Ao invés disso, Naamã recebeu apenas uma mensagem por intermédio de terceiros. Com a frustração de sua expectativa, a indignação foi a reação mais coerente. Considerava que a atitude do profeta significava menosprezo diante de sua solenidade. Essa indignação é reforçada com a comparação entre os rios de sua terra com o Jordão. Água por água, porque não no Abanar ou no Farfar. Novamente foram os subalternos, pessoas de menor significação social, que encaminharam o militar para a cura. Esse comprovou em sua carne a ação poderosa de Deus. Reforçou sua admiração àquela divindade propagada pelo círculo profético de Israel, aquela comunidade de oposição ao rei Jorão. Mesmo se tratando de um alto general, curvou-se para mergulhar nas

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águas insignificantes que o profeta havia ordenado. De seu reconhecimento do poder de Javé nasceu a purificação de sua pele.

4 Pensando na mensagem Deus não castiga seus filhos e filhas enviando-lhes enfermidades. Pode, no entanto, utilizar a oportunidade de uma enfermidade para estabelecer o sinal de seu poder. Naamã conheceu o poder de Javé a partir da enfermidade que possuía em sua pele. Mesmo sendo um general “encantador”, necessitou submergir nas águas de um “riacho” para livrar-se da lepra. As discrepâncias iniciaram com o anúncio da possibilidade de cura por uma menina estrangeira e escrava, cujo nome nem ficou registrado de tão insignificante que sua posição era na sociedade síria. As discrepâncias continuaram quando Naamã necessitou deixar sua pátria para buscar ajuda numa terra vizinha. Avançaram quando imaginava que a solenidade e a pompa seriam determinantes para alcançar sua cura. Concluiu que a misericórdia divina, do verdadeiro Deus, não estava no cumprimento das solenidades, mas na simplicidade da purificação num rio. O fundamental não estava no cumprimento de protocolos, mas na submissão às orientações divinas. Um risco que corremos é transformar a experiência litúrgica em nossas igrejas num conjunto protocolar sem maior sentido.

5 Pensando na liturgia A intenção é oferecer alguns elementos que podem ser utilizados no transcorrer do culto, dependendo do contexto de cada comunidade: 5.1 – Chamado à confissão “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” (2 Co 13.5) “Ora, tendo Cristo sofrido na carne, armai-vos também vós do mesmo pensamento; pois aquele que sofreu na carne deixou o pecado, para que, no tempo que vos resta na carne, já não vivais de acordo com as paixões dos homens, mas segundo a vontade de Deus.” (1 Pe 4.1-2) Sejamos, pois, irmãos e irmãs, humildes na presença do Senhor, confessando-lhe as nossas faltas. “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refri-

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gério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antigüidade.” (At 3.19-21) 5.2 – Orações de confissão Senhor Deus, nós confessamos que temos pecado contra ti; muitas vezes temos negligenciado o ministério que nos deste. Não temos sido, na verdade, um só corpo em Cristo, cumprindo com fidelidade a função que nos foi dada, colocando a serviço do teu povo os dons que nos concedeste. Nem sempre temos exercido, com integridade, o ministério de embaixadores no mundo por meio da palavra da reconciliação. Não temos atendido, de todo o coração e mente, as palavras daqueles que visam a nossa edificação, a nossa unidade e o conhecimento de Cristo. Reconhecemos que temos pecado e sinceramente nos arrependemos. Perdoa-nos e concede-nos a luz do teu Espírito para que acolhamos a tua palavra por meio de teus servos e servas. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. Jesus, tu reúnes com mansidão o teu povo: És tão terno como uma mãe com seus filhos. Sofres com nossos pecados e orgulho. Livra-nos carinhosamente do ódio e da condenação. Consola-nos nas tristezas e cura nossas feridas: Na enfermidade assiste-nos com cuidado e alimenta-nos com leite puríssimo. Jesus, em tua morte nos dás nova vida: em tuas angústias e dores renasce nossa alegria. Tua bondade transforma nosso desespero em confiança: com doçura desaparecem nossos temores. Teu sopro infunde vida no deserto; teu toque transforma os pecadores em justos. Senhor Jesus, em tua misericórdia purifica-nos: Com teu amor e ternura transforma-nos. Em tua compaixão concede-nos graça e perdão e que teu amor nos prepare para a beleza do céu. Por Jesus Cristo. Amém. 5.3 – Declarações de perdão “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia.” (1 Pe 2.9-10) “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Rm 9.22-24)

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Bibliografia ELLIS, Peter F. Conoce la Bíblia: Antiguo Testamento – Introducción e Comentario. Santander: Editorial “Sal Terrae”, 1969. HAM, Adolfo. Historia y poder – Comentário sobre el libro de Reyes. Quito, Equador: CLAI, 1999. JONES, Gwilym H. New century bible commentary. England: Marshall Morgan & Scott:, 1994. PEREIRA, Nancy Cardoso. Cotidiano sagrado e a religião sem nome. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 1998. SCHÖKEL, Luiz Alonso. Reyes. Madrid: Ediciones Cristandad, 1973.

7º DOMINGO APÓS EPIFANIA MARCOS 2.1-12 ISAÍAS 43.18-25 2 CORÍNTIOS 1.18-22

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ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

26 FEV 2006

ÊXODO 34.29-35 MARCOS 9.2-9

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 3.12-4.2 René Krüger

1 Introducción Esta unidad de texto pasa de una tipología antitética construida sobre el término clave velo con afirmaciones negativas sobre el ocultamiento por Moisés a la afirmación del desvelamiento pleno de la gloria del Señor por la proclamación abierta del evangelio. El razonamiento es claro: la proclamación de Moisés produjo entorpecimiento; en cambio, la proclamación apostólica produce conversión – precisamente de los embotados. En los vs. 17-18 Pablo insiste en la excelencia del encuentro con el Señor – más precisamente, con el Espíritu del Señor; y en la transformación por ese Espíritu, que es un poder liberador que abarca toda la vida. Hacia el final de la unidad, en los dos primeros vs. del cap. 4, Pablo muestra las consecuencias de sus afirmaciones precedentes.

2 Repaso exegético 3.12-13: Interpretando alegóricamente el velo con el que se cubría Moisés en ocasión de la entrega de la Ley del Sinaí (Ex 34,33) en el sentido de que el Legislador quiso ocultar a los israelitas el carácter transitorio del pacto del Sinaí, Pablo insiste por oposición en el carácter abierto, franco y seguro de la proclamación del evangelio. Emplea el término griego parrêsía, franqueza, seguridad, también valentía (en dativo tiene sentido adverbial: abiertamente, claramente, públicamente, libremente, con confianza). El apóstol parece responder aquí el reproche de que no predicaba con franqueza y abiertamente. Más adelante (2 Cor 4,3) devolverá sutilmente la crítica a sus oponentes, señalando que lo que le reprochan – el evangelio “cubierto” – se aplica a los que se pierden, es decir, a ellos mismos. El texto echa luz sobre ciertos conflictos internos del cristianismo primitivo. El tono que subyace es polémico, ya que Pablo se enfrenta con personas que quieren minar su ministerio. Incluso le reprochan su poco

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“éxito” (véase la referencia velada a los muchos en 2.17). Estos oponentes también se presentaban como siervos de Cristo; pero se movían en un esquema triunfalista, poderoso e impactante; acaso con un Moisés comprendido como theîos anêr, hombre divino. En cambio, Pablo no tenia “presencia gloriosa”. Se presentaba en la fragilidad derivada del Crucificado mismo; pero en esta debilidad Pablo hablaba y actuaba con franqueza, seguridad, valentía. Cabe destacar que la interpretación del velo desarrollada aquí por Pablo no tiene paralelo en la explicación judía de Ex 34. Se trata seguramente de una construcción paulina. 3.14: La ley de Moisés se leía regularmente en las sinagogas. Pablo atribuye ahora otro carácter alegórico más al velo de Moisés, indicando que éste continúa cegando la comprensión del antiguo pacto, cosa que se resuelve positivamente en Cristo. La formulación el antiguo pacto para designar la Torá es totalmente excepcional. El contexto le otorga un claro cuño peyorativo. Ni siquiera contiene la idea de preparación, pues en este contexto y por oposición a nuevo, antiguo simplemente hace referencia a superado. Esta formulación, acuñada por Pablo quizá sobre la base de Jer 31,31, volvió a aparecer recién poco antes del año 190 en un escrito de Melito de Sardes; pero a partir de allí hizo escuela y se instaló (casi) definitivamente en el imaginario cristiano. Aquí aflora, pues, un reflejo de la relación conflictiva entre las comunidades judías de aquel entonces y la joven iglesia cristiana, relacionada con la discusión acerca de la correcta interpretación de la revelación y llevado a cabo entre quienes sostenían que ésta se vincula con la figura de Jesús de Nazaret, el Mesías crucificado y resucitado, y quienes rechazaban esta adhesión. La lectura cristiana del conjunto de textos revelados que fueron llamados Antiguo Testamento es la interpretación cristológica de los escritos del pueblo se Israel. Su núcleo radica en la afirmación que lo que anuncian esos textos – sobre todo algunos profetas – se cumplió en Jesús. A partir de esta afirmación del cumplimiento de las Escrituras, la interpretación cristológica se extendió a numerosos textos del AT. Quienes no aceptaban a Jesús como Mesías negaban esta aplicación. A nivel hermenéutico, estamos ante un conflicto de interpretaciones, imposible de resolver mediante la mera razón, ya que entran en juego adhesiones personales, convicciones íntimas, la socialización religiosa, la adhesión a la Torá como revelación final en contra de su incorporación en un plan preparatorio de la revelación final en Jesucristo, etc. Con el correr del tiempo, también entraron a pesar fuertemente razones de poder, política, economía y otras para nada “bíblicas”; y todo ello es una pesada hipoteca para el diálogo actual entre las dos religiones. Trabajando sobre estas diferencias, Pablo también explica a su manera la inquietante pregunta acerca del porqué de la falta de respuesta a Jesucristo por parte de la mayoría de sus correligionarios judíos.

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3.15–16: La plena gloria, presente en la ley, no puede ser “captada” por la naturaleza humana, que se mantuvo inalterada desde los días de Moisés. La transformación que hace posible “acceder” a esa gloria es representada simbólicamente por el corrimiento del velo y obrada por Dios con la conversión a Cristo. La formulación será quitado, en pasivo divino, contiene la referencia implícita a la actuación de Dios. En esta concepción influye también de alguna manera lo anunciado por Jer 31.31-34 con su representación de la ley escrita en el corazón. Es importante registrar que Pablo de ninguna manera cierra la puerta a su propio pueblo. El endurecimiento es figura tradicional – el pueblo fue así en el desierto, pero ésta no será su actitud definitiva. 3.17: En este versículo de tipo “paréntesis” Pablo emplea un método judío de interpretación común en su época, estableciendo la correspondencia entre las figuras de ambos testamentos. El Señor del momento de Moisés corresponde al Espíritu que actúa hoy. 3.18: Entre los griegos circulaban muchas historias de personas de las que se afirmaban que habían pasado por una “metamorfosis” o transformación. Algunos filósofos, por su parte, hablaban de la transformación hacia la esfera divina mediante la contemplación de cosas divinas. Los textos de Qumrán dicen que los justos reflejan el resplandor o la gloria divina. Pero aunque Pablo podía estar presuponiendo estas concepciones en ambientes cristianos (a excepción de la divinización), la base de su imagen es simplemente el reflejo de la gloria de Dios por Moisés, tal como es transmitida por Ex 34. Quienes viven bajo el nuevo pacto, participan en la gloria de Dios de manera más plena que Moisés (Ex 33.20). Por ello, serán transformados por el Espíritu a los efectos de reflejar la gloria de Dios. El verbo transformar (metamorfóomai) sugiere una firme relación con Jesucristo como la imagen de Dios, el prototipo para todas las personas que le pertenecen y en las cuales él toma forma. El proceso en sí es gradual y progresivo (véase también Rom 12.2). La acción y el sujeto agente son indicados de manera críptica como por la acción del Espíritu del Señor. En la exégesis se discute bastante sobre la relación entre los dos genitivos del Espíritu y del Señor. 4.1: Ahora Pablo inicia una nueva sección, dedicada a extraer las consecuencias para su conducta en el ministerio. Como en todo momento, el apóstol basa también aquí su misión en la certeza de la misericordia de Dios y no en sus propias capacidades. En su caso concreto, esa misericordia se vincula directamente con el llamado al apostolado. Este ministerio no es otro que el apostolado del nuevo pacto, explicado en el cap. 3, especialmente en los vs. 6 y 8. La consecuencia de la confianza de Pablo en su propio ministerio, tal como le fuera encomendado por Dios, es que no desmayamos. El verbo empleado aquí también puede interpretarse como no nos cansamos

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(traducción de Lutero), no descuidamos nuestras tareas, no desesperamos, no actuamos cobardemente (teniendo vergüenza del evangelio, véase Ro 1.16). En el NT el verbo se emplea como exhortación a la perseverancia, no en el sentido de un mero resistir el agotamiento físico o psíquico, sino de oponerse a la aversión. Ello se halla en interesante sintonía con los demás llamados a la resistencia y la perseverancia, que es como debe traducirse adecuadamente la familia de palabras de hypomonê, que lamentablemente se traslada con frecuencia a la palidez pasiva de la paciencia… 4.2: Pablo echa mano de la clásica figura de la renuncia, aplicándola a lo que no condice con su vocación. Con ello nos presenta una síntesis de lo que ocurrió en su conversión y al mismo tiempo brinda una descripción de su conducta ministerial – siempre en discusión con sus oponentes que le acusan de conductas inadecuadas para un apóstol. A la vez es posible que Pablo esté convirtiendo estas calificaciones en referencia polémica a la conducta de los oponentes mismos. El empleo del verbo andar (peripatéô) es típicamente semita y designa la totalidad de la conducta y las actitudes. Ante el ataque a su estilo de vida y a su predicación, Pablo insiste en su integridad como mensajero verdadero, fidedigno, transparente de la gloria de Dios. De cierta curiosidad es la formulación (no) adulterar la palabra de Dios (véase también Ro 9.6). Pablo cierra sus explicaciones encomendándose ante Dios a toda conciencia humana.

3 Reflexionando con el texto Si bien el texto evidencia una línea maestra, tiene varios focos peculiares sobre los que es importante reflexionar teológicamente. Un foco del debate radica en el esclarecimiento de qué constituye realmente el criterio y la norma para comprender y aceptar la proclamación apostólica sostenida por la iglesia. Este texto y otros muestran que Pablo tuvo que defenderse de una serie de ataques, que reflejan dos flancos superpuestos en aquel contexto: por una parte, la discusión con quienes rechazaban directamente a Jesús; y por otra, la discusión con los llamados judaizantes. Luego de casi veinte siglos de historia conflictiva, con muchas culpas por el lado cristiano e increíbles sufrimientos del pueblo judío, se hace difícil seguir ciertos argumentos que se manejaban en la época neotestamentaria y que ensancharon las diferencias entre ambas configuraciones religiosas, la judía y la cristiana. Lo que hoy importa es encontrar vías de comprensión, de diálogo y de fortalecimiento mutuo frente a las tareas comunes de justicia y paz que tienen todas las religiones. La discusión de Pablo con sus oponentes debe ubicarse, pues, en su dimensión histórica como momento clave en la búsqueda de clarificación de

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su propia identidad por parte del joven cristianismo. No tiene sentido, pues, seguir predicando hoy sobre la supuesta inferioridad de aquel velo. Mucho más fructífero puede ser una reflexión sobre la vinculación decisiva entre la dinámica de la intervención de Dios en nuestras vidas, la palabra de Dios, la conversión y el compromiso personal y comunitario de quienes creen, viven y proclaman el evangelio. En este caso, la predicación puede concentrarse ya sea en 2 Co 3.18 ó 4.1-2. Pablo elaboró esta relación a partir de su propia experiencia de conversión, subrayando en todo momento la primacía de la intervención divina cifrada en términos muy caros al protestantismo tales como misericordia, gracia, perdón, justificación. Asimismo, desarrolló la respuesta humana a esta intervención a partir de los conceptos de fe y amor – muy caros a todas las corrientes cristianas. En esta línea, bien cabe decir algo sobre la desmitificación de los héroes humanos. En este texto, le toca a Moisés ser desmitificado o relativizado. A partir de este proceso que ocurre en el texto paulino, la reflexión puede pasar a cualquier otra figura humana a la que se le atribuyen superpoderes o cualidades espectaculares, pero que a la luz de la acción de Dios se evidencian como simplemente humanos. En el centro de esta reflexión siempre ha de ubicarse la imagen y la presencia del Crucificado y Resucitado. Pablo no se cansó de subrayar la dependencia directa de su conversión, su persona y su ministerio de este Señor. Toda postura, toda actitud, toda acción tiene un punto de partida. Para nosotros, como cristianos, cristianas e Iglesia, el punto de partida sólo puede ser el que ya señaló Pablo: el Señor Crucificado y Resucitado, en este orden y con esta formulación. La cruz sola significa depresión; y alcanza con mirar al Cristo lleno de sangre y lágrimas de los templos de la colonia española y portuguesa en nuestro continente para darse una idea de cómo fue usada la religión para acompañar la explotación de indígenas y esclavos africanos. Por otra parte, la resurrección sola puede derivar en gloria, iglesia majestuosa, éxito, teología de la prosperidad. Pero ambas juntas, la cruz y la resurrección, forman el camino del Mesías. Esto lo vio con total claridad Pablo, y ése es también el centro de la teología de la Reforma de la que somos herederos y herederas. Junto a la cruz de Cristo y en medio de la comunidad formada por el Resucitado hay lugar para los miembros débiles, marginados, pobres, despreciados, abatidos, pecadores y desesperados de la sociedad. El ministerio encargado por el Señor a Pablo y trasladado también a nosotros está al servicio de estos miembros. Bien vale la pena recordarlo, agradecerlo, asumirlo; y pedirle a Dios que nos fortalezca en esta existencia contracultural, pues esta perspectiva y esta práctica van rotundamente en contra de la corriente de la sociedad.

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ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

El énfasis en la transformación (“metamorfosis”) por Cristo es una clara indicación de esta dinámica contracultural, pues si todo estuviera bien, en orden, en equilibrio, en paz, en estabilidad, etc., no existiría tal necesidad de transformación cualitativa. Pero ese conjunto enorme de personas, individualidades, estructuras, relaciones, conflictos y pecados que la Biblia llama mundo, no está bien ni en paz. Necesita transformación; y Dios obra nuestra participación en este proceso a través de Cristo. Finalmente Pablo también advierte ante las “trampas” y tentaciones del ministerio: astucia, adulteración de la palabra de Dios, adaptación lisa y llana al “espíritu del momento”, manipulación del evangelio por intereses personalistas.

4 Rumbo a la predicación 4.1 – Vivimos en un mundo, una sociedad, una convivencia con exceso de conflictos; y somos parte de todo ello. Hoy el conflicto radical pasa por la exclusión de cada vez más personas – hijos e hijas de Dios – de una vida digna y realizada. 4.2 – Epifanía nos recuerda y nos hace presente la aparición, la revelación y la presencia de Dios en Jesucristo, el Señor crucificado y resucitado. En Cristo se superan las estructuras y relaciones viejas y se inicia la transformación. 4.3 – La intervención de Dios en nuestras vidas pone en marcha nuestra propia transformación y con ello, nuestra participación en la obra de Dios en este mundo. Nuestro compromiso es la respuesta a esta obra de Dios. Nuestro lugar de fe, celebración y servicio es la comunidad abierta a débiles, pobres, marginados, desesperados; en el seguimiento del Señor crucificado y en la esperanza por su resurrección.

Bibliografía MARTIN, P. Ralph. 2 Corinthians, Word Biblical Commentary, Vol. 40, Dallas, Texas: Word Books Publisher, 1986. (Versión electrónica) WOLFF, Christian. Der zweite Brief des Paulus an die Korinther, THNT 8, Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1989.

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1o DOMINGO DA QUARESMA

05 MAR 2006

GÊNESIS 22.1-4(15,18) ROMANOS 8.31-34(35-39)

PRÉDICA: MARCOS 1.12-15 Werner Fuchs

A fonte jorra sempre, até mesmo quando ninguém vem beber, é assim também com a palavra de Deus! Crisóstomo

1 Preliminares Há o sermão “sobre” o texto. Representa uma atitude de estar acima ou por cima, não “sob” o texto, debaixo dele. É como um vídeo sobre economia solidária, em que os representantes das ONGs e os assessores falam sobre as experiências (clube de trocas, padarias comunitárias etc.), mas o depoimento rico e vivo dos próprios envolvidos fica à margem, quase esquecido. Há a atitude de pregar “a partir” do texto. Não se corre o risco da superioridade. Pode-se mostrar que o texto bíblico significa um impulso para a fé e vida da pessoa e da comunidade. O perigo é a infidelidade: deixar o texto para trás, transformá-lo em pretexto e “viajar” pela Bíblia ou, mais seguramente, pelos temas prediletos e em voga. Há a possibilidade, mais rara, porém preferível, de pregar “dentro” do texto. Evita-se submetê-lo a mediações interpretativas, geralmente ideológicas. Vale mais a ação do que a falação. As pessoas são convidadas a “acompanhar vivencialmente” o que o texto transmite, a entrar em sintonia com seu dinamismo, a acessar e resgatar o que está dentro dele, a mover-se com a narrativa, a sentir com os protagonistas e sofrer as forças atuantes e conflitantes daquele contexto. É palavra-acontecimento. É palavra-surpresa de Deus. É palavra dramatizada, brincada, gesticulada, mastigada, balbuciada, sofrida, experimentada, dinamizada. Valem o verbo e o verbo por trás de cada substantivo. Morrem as fórmulas prontas e ressuscitam as vivências. Desaparece o comentarista e prevalecem os protagonistas. O povo que estava à margem naquele vídeo sobre economia solidária passa a ocupar o cenário todo. Informações exegéticas são úteis, mas apenas na medida em que se

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inserem nesse esforço. Ainda que nem todas as pregações atinjam plenamente esse objetivo, vale a pena dar passos em sua direção.

2 Pesquisa As duas cenas (vv. 12s e vv. 14s) fazem parte do bloco introdutório ao Evangelho de Marcos (vv. 1-15), cuja moldura é dada pela palavra “evangelho” (vv. 1 e 14). As cenas prévias descrevem a atuação de João Batista (vv. 28) e o batismo de Jesus (vv. 9-11). A seqüência tem lógica intrínseca: João prepara a hora (citando Is 40.3), Jesus é batizado e, como Filho amado, resiste à tentação no deserto, João é preso e Jesus proclama que a hora já chegou porque o próprio Deus assume o governo. A brevidade de vv. 12s e vv. 14s poderia levar a pensar que se trata de “resumos”, razão pela qual Marcos deixaria fora detalhes amplamente conhecidos como, por exemplo, as três fases da tentação relatadas por Mateus e Lucas. Contudo, por ser anterior a esses dois evangelistas e por não haver certeza de que Marcos conhecia as fontes deles, omitindo-as deliberadamente, é preciso considerar se as alusões contidas nas duas cenas não falam por si diante do imaginário existente no judaísmo daquele tempo (por exemplo, em relação ao “deserto” ou a “Satanás”) e diante do conhecimento popular (por exemplo, sobre a prisão e morte de João). De qualquer modo, trata-se de um relato independente, no qual Marcos coloca suas próprias ênfases. Não importa a luta em si, mas o desfecho, a vitória de Jesus. Não importam os detalhes da prisão de João, mas a inauguração do reino de Deus. Portanto, na primeira cena é preciso “resistir à tentação de interpretála a partir dos relatos mais completos de Mateus e Lucas. Ademais, a versão de Marcos é completa em si, quando vista diante do pano de fundo da crença judaica corrente de que nos últimos dias o espírito maligno seria derrotado em uma grande batalha de poder” (Mally, p. 25, aludindo a Cunrã: 1QS 3.13-4.26). Também se pode lembrar que “deserto” tem um duplo significado: lugar de provação (por exemplo, Massá e Meribá: Êx 17.7; Dt 32.51; 33.8 etc.) e lugar de um novo começo para o projeto de Javé com seu povo. A ação é protagonizada pelo Espírito de Deus. O verbo ekballein tem conotação violenta: expelir, expulsar (demônios: Mc 1.34,39,43; 3.15,22). Mas não se deve esquecer que o movimento do Batista já acontecia “no deserto” (v. 4), ou seja, Jesus sofreu um “deslocamento” simbólico para uma fase crítica da vida dele em relação ao projeto de Deus. O número “quarenta” simboliza um tempo delimitado de luta e vitória. Isso leva a recordar episódios similares no Antigo Testamento: o dilúvio (Gn 7.12), o jejum de Moisés (Êx 34.28), a caminhada de Elias (1 Rs 19.8), a dominação dos filisteus (Jz 13.1) etc. Jesus passa a fazer parte dessa “genealogia”: Noé, Moisés, Elias. “Ser tentado” (peirázomai) significa ser posto à prova em um conflito, sofrer uma

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crise e sair vitorioso na luta. “Por Satanás”: o Novo Testamento não apresenta uma visão sistematizada do diabo. Em momento algum, porém, o poder dele é tão grande que possa ser usado como desculpa para o eventual fracasso dos seres humanos, isentando-os de responsabilidade. Jesus vence, destruindo os planos de Satanás (cf. Mc 3.27; 1 Jo 3.8). “Estar com as feras” pode ser entendido de duas maneiras, de acordo com as quais a kai seguinte será traduzido por mas ou por e. Ou as feras, os animais silvestres, são considerados ferozes e fazem parte da provação, ou já simbolizam a nova harmonia com a natureza inaugurada pela vitória de Jesus, na qual a criação de Deus deixa de ser objeto e torna-se companheira do ser humano. Da mesma forma há exegetas que consideram o “serviço dos anjos” como assistência e apoio a Jesus durante a luta. Outros vêem-no como parte do resultado, decorrente da luta e posterior aos quarenta dias. Tecnicamente, “servir” significa “trazer alimento”, sustento, fim do jejum (novamente a relação com Moisés: o maná, e Elias: 1 Rs 19.5ss). Parece que ambas as vezes a opção precisa ser em favor da segunda alternativa, assegurando que o episódio no deserto, na solidão, e o episódio seguinte, sua atuação no meio do povo, sejam igualmente relevantes na obra redentora do Filho amado, do Messias Jesus. Na segunda cena, o início do ministério público de Jesus, observa-se que o fato desencadeador é a prisão de João. Mc 6.14ss a atribui à crítica feita por ele ao casamento ilícito do rei Herodes. O historiador Flávio Josefo diz que Herodes temia uma revolta popular encabeçada por João e por isso o prendeu. Criticar o rei é um ato de insurreição. Esse clima de conflito político precisa ser devidamente considerado. O mesmo vale para o lugar dessa atuação. A “Galiléia” era o “Nordeste” da Palestina, a terra marginalizada cuja população há séculos vinha sendo invadida culturalmente e explorada economicamente. Era a “Galiléia dos gentios”, das nações (Is 9.1; Mc 4.15; o termo Galiléia é síntese do hebraico gelil ha’gojim, região de pagãos). Era o mesmo lugar em que, no final do ministério público, o Jesus ressuscitado dá aos discípulos a incumbência de evangelizar os povos (Mc 16.7; Mt 28.16). A ação de Jesus sempre começa pela “periferia”, pelos lugares de opressão, pelo povo aparentemente sem esperança e sem chances. O “evangelho” é uma boa notícia anunciada oficialmente em nome de um governante: vitórias bélicas, atos de perdão etc. A “boa notícia de Deus” na Galiléia ainda não correspondia totalmente ao “evangelho de Jesus Cristo” de depois da Páscoa, se bem que em essência se referia àquele. Deus “mostrou a cara” na Sexta-feira Santa e na Páscoa. “Retroceder para antes disso, a pregação não pode mais” (Pohl, p. 69). “No judaísmo palestinense ficara viva a idéia do mensageiro das boas notícias do Deutero-Isaías” (Friedrich, ThWNT vol. II, p. 712ss, cit. por Pohl, p. 69). A mensagem de Jesus tem quatro elementos: a) o tempo está cumprido; b) o reino de Deus está próximo; c) arrependei-vos; d) crede no evange-

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lho. Os dois primeiros são anúncios de fatos; os dois últimos são instruções para a ação. Isso tudo, ainda mais nessa seqüência, expressa um tremendo dinamismo que, no contexto do clima e do lugar acima expostos, não pode ser debilitado, banalizado e deturpado por uma leitura supostamente “neutra”. A mesma exigência decorre do aprofundamento dos termos: a) kairós é tempo carregado de oportunidade; peplérotai (cumpriu-se) está no pretérito perfeito da voz passiva: fato consumado por Deus (passivum divinum), que não respeita calendário (cronologia), mas desse momento em diante impacta a realidade pela inconformidade de Deus com o sofrimento do povo; b) “reino” (basiléia, em hebraico malkut) refere-se tanto ao território como ao domínio (poder) de um rei: de nada adiantaria o território demarcado sem o exercício efetivo do poder, do governo; engizein (aproximar-se) no pretérito perfeito (“está próximo”) enfatiza a duração e o efeito da aproximação, resultando em uma impressão de proximidade premente e inquietante, mas não em presença plena (“chegou”); c) a convocação à conversão está na linha dos profetas (Is 59.20; 56.1s; 58.6) e do Batista (Mc 1.4), assegurando ao ser humano a dignidade de não ser objeto passivo, mas de poder e dever tomar uma decisão; d) o “e” não é aditivo, mas tem sentido explicativo: “ou seja, crede!” Prevalece a fé, a fé no Deus que se aproxima. Nos capítulos seguintes, Jesus não fala mais em “arrepender-se”, mas destaca cada vez mais esse “crer”. Não é crer “no” evangelho, mas em Deus com base no evangelho, a partir da boa notícia sobre um fato inusitado. A fé vem pelo ouvir (Rm 10.17). Deus falou com os galileus por meio da boa notícia. Agora são convocados a prender-se a ela, como o nômade finca sua tenda no deserto para resistir à tempestade de areia ou como o navio é amarrado ao cais para resistir à força das ondas. Em Marcos, a fé é crer “apesar de”, permitindo a Deus que de fato seja Deus em nossas vidas e nos torne justos e agentes de justiça (cf. Abraão: Gn 15.6).

3 Proclamação 3.1 – “Já sabemos”? A chegada simples de Jesus ao mundo é algo extraordinário! Hoje repetimos essas palavras, porém não sentimos mais nada de extraordinário. É como receber cartões e mensagens eletrônicas em datas festivas como Natal ou Páscoa – quem ainda lê com atenção? Em geral, passamos um olhar rápido nas palavras impressas e dedicamos atenção somente ao que o remetente anotou de próprio punho no cartão. Parece que “já sabemos” o que o cartão vai dizer. Será que palavras como “vida”, “confiança”, “fé”, “sonho”, “amor”, “alegria”, “paz”, “esperança de um mundo melhor” ainda dizem alguma coisa? Será que sempre dizem a mesma coisa? Existem surpresas por trás dessas palavras? Surpresas que nos arrastam consigo? Mc 1, sobretudo nos vv.1-15, traz um relato resumido, quase em

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tópicos. As cenas mudam rapidamente. Parece que os leitores de Marcos “já sabem” – e nós “já sabemos” – o que vai acontecer. Será mesmo? Se prestarmos maior atenção nesses quatro versículos, e até mesmo no que Marcos não diz, descobriremos o peso e a força de cada cena, de cada palavra. Abrese um leque de novidades! Novidades surpreendentes e existenciais para nós. 3.2 – “Novidade 1”: resistir no meio do conflito traz a paz. “E logo” faz a ligação com a cena anterior, que mostrou o batismo de Jesus por João Batista e a voz dos céus que designa Jesus como amado Filho de Deus. A expressão “o Espírito” indica que o acontecimento seguinte é uma iniciativa de Deus, que Deus está no controle, até mesmo nos piores desertos da vida. “Impelir” é empurrar com força. O mesmo verbo é usado para expelir demônios e expulsar do paraíso. Ou seja, trata-se de um acontecimento crítico, angustiante, talvez violento, de mudança radical. “Deserto”: o v. 4 dizia que o movimento de João Batista já acontecia no deserto, portanto Jesus já estava lá antes. Agora, porém, ele é levado ao isolamento, à crise profunda diante do mundo exterior, do contexto social e diante de seu próprio íntimo. Você está diante da miséria, da corrupção e das injustiças sociais e duvida da presença de um Deus que ama. Você está no meio de uma multidão alegre e se sente sozinho, triste, incompreendido... A novidade são os “quarenta dias”. Quarenta é o número da provação, do teste, da crise e da resistência: o dilúvio durou 40 dias, Moisés jejuou 40 dias no monte Sinai, Elias caminhou 40 dias até o monte Horebe, o povo de Israel migrou 40 anos pelo deserto, na Quaresma lembramos durante 40 dias a paixão e morte de Jesus. “Quarenta” é um fardo pesado! Mas é tempo prefixado. Você ouve “quarenta” e sabe que depois da crise acontecerá a virada. Para Jesus, é um período de “ser tentado”. Marcos não dá detalhes dessa tentação. Não fala de três etapas, como Mateus e Lucas. Diz apenas que Jesus foi tentado “por Satanás”. Reconhece que Satanás tem esse poder sedutor. O importante é que Jesus resistiu. Como sabemos que ele resistiu? Marcos informa apenas que ele “estava com os animais silvestres”, não necessariamente animais ferozes, e que “os anjos o serviram”. É discutível se os animais fazem parte da tentação, da ameaça, do terror que a religião judaica tinha diante de tudo que é impuro ou se já fazem parte do cenário de paz, de harmonia com a natureza, da reabertura do paraíso, no qual os anjos servem a Jesus. Damos preferência à segunda alternativa, até por ser mais surpreendente para os ouvidos daquele tempo e de hoje, e porque mostra que a resistência de Jesus trouxe uma paz integral, não apenas uma paz “angelical”, espiritual. Pelo contrário, traz reconciliação com a criação toda, com o meio ambiente. Resistir no meio do conflito traz a paz completa.

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3.3 – “Novidade 2”: coragem política inaugura o reino de Deus. Uma nova cena: começa a atuação pública, o ministério de Jesus na sociedade! O v. 14 chega a informar o dia desse começo: “O dia em que João Batista foi preso”. É outra cena de conflito, é um conflito político. João Batista foi preso porque enfrentou pessoas poderosas. Aí Jesus sentiu: é a minha hora, o movimento iniciado por João não pode morrer. Deus precisa intervir. Em lugar do sentimento de derrota surge a coragem de prosseguir... O v. 14 também diz o lugar em que começou a atuação pública de Jesus: “na Galiléia”. Que lugar era esse? Era a periferia em termos sociais e religiosos, distante de Jerusalém. A Galiléia sofria a invasão econômica e cultural de vários povos. Havia mistura de raças, havia humilhação para os judeus sinceros. Era chamada a “Galiléia das nações”. Logo adiante estavam as dez cidades gregas. As melhores terras estavam na mão de estrangeiros ricos, sobretudo romanos. Era uma região cheia de povo sem vez e sem voz, sem terra e sem teto, um povo sem chances. É esse o lugar onde Jesus prega o “evangelho de Deus”. Evangelho é: boa notícia anunciada em nome de uma autoridade. Qual é a autoridade? O próprio Deus. Qual é a alegre e boa notícia para essa periferia, esse povo “sem chances”? É preciso prestar muita atenção nos dois verbos: “o tempo está cumprido”, foi completado, e “o reino de Deus está próximo”. Ambas as vezes trata-se do pretérito perfeito, que descreve um acontecimento no passado, mas que passou a vigorar imediatamente e que continua eficaz, incomodando até hoje. O “tempo” não é o tempo cronológico, mas é o kairós, o tempo cheio de significado, o tempo da grande oportunidade. O “reino de Deus” é essa grande oportunidade. Nele se expressa tudo o que Deus é capaz de dar para a plenitude de nossa vida. Nele convergem todas as esperanças daquele povo sem chances. É fato iniciado. É espaço criado no meio dos poderes contrários. Basta inaugurá-lo. A coragem política de Jesus inaugura esse reino de Deus. 3.4 – “Oportunidade”: poderíamos dizer que a fala de Jesus significa um desafio: “arrependei-vos e crede no evangelho”. Mas não se trata de pressionar ninguém, forçar ninguém. João Batista, no v. 4, ainda pregava o arrependimento para o perdão dos pecados. Apelava à consciência de cada um. Confrontava e desafiava, doa a quem doer. Isso foi importante. Mas a boa notícia de Jesus parte do fato da chegada do reino de Deus. Convida para participarmos da inauguração. Oferece uma grande oportunidade, um novo rumo na vida, a chance de dar meia-volta e entrar nesse novo espaço, no reino de Deus. Nossa reação somente pode ser a de agarrar essa oportunidade com gratidão. Como participaremos? “Crede no evangelho!” A expressão resumida na realidade significa: crer em Deus, não em outras coisas ou valores. Significa crer em Deus dentro do evangelho, com base no evangelho, por causa desse anúncio da boa notícia! Significa confiar nesse Deus apesar de tudo, apesar dos desertos sociais e individuais. “Abraão creu no

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Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça” (Gn 15.6). Para Lutero, o ser humano somente é perfeito e justo quando deixa Deus ser Deus. Então Deus pode abençoá-lo de modo nunca imaginado e torná-lo uma bênção. Quando agarramos a oportunidade, passamos a abrir oportunidades para os outros, para os “sem-chances”. Porque Jesus, o dono desse pedaço, convidou e continua convidando. Amém.

Bibliografia KÄLLSTEN, Delcio. “Auxílio Homilético sobre Mc 1.12-15”, in: Proclamar Libertação, vol, XXV, S. Leopoldo, 1999. pp. 129-135. MALLY, Edward J. “The Gospel Acoording to Mark”, in: FITZMYER, J. A./BROWN, R. E. The Jerome Biblical Commentary, vol. II, 1972. POHL, Adolf, O Evangelho de Marcos, Comentário Esperança, Curitiba, 1998. STEUER, Aline. “Auxílio Homilético sobre Mc 1.12-15”, in: Proclamar Libertação, vol. XIX, S. Leopoldo, 1993. pp. 79-82.

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2o DOMINGO DA QUARESMA

12 MAR 2006

GÊNESIS 28.10-17 ROMANOS 5.1-11

PRÉDICA: MARCOS 8.31-38 Guilherme Lieven

1 Introdução O texto previsto para pregação nesse domingo da Quaresma apresenta o primeiro anúncio do sofrimento, da morte e da ressurreição de Jesus e, após um difícil diálogo entre Pedro e Jesus, reúne quatro ditos sobre o seguimento ao Filho do Homem. O desentendimento entre Jesus e o discípulo (vv. 32b e 33) ancora o texto em dúvidas e necessidades reais da vida humana. Afinal, ninguém gosta de sofrer e nem vê no sofrimento algum sentido. Os ditos de Jesus questionam opções e valores, considerados vitais para proteger e salvar a vida. Antes de aprofundarmos essas primeiras impressões sobre o texto, convido para acompanhar algumas considerações importantes sobre Mc 8.31-38.

2 Considerações sobre o texto 2.1 – A pregação de Jesus sobre o seu sofrimento, morte e ressurreição: vv. 31-32a No v. 29 desse mesmo capítulo do evangelho de Marcos, Pedro afirma que Jesus é o Messias, o escolhido e ungido que veio trazer o reino de Deus ao mundo. A visão messiânica comum na época não incluía o sofrimento e a morte do Salvador. A maioria esperava um messias vencedor, cercado de guerreiros, capaz de derrotar os poderes e os príncipes injustos do mundo. Jesus surpreendeu ao pregar o sofrimento do Filho do Homem, sua rejeição por parte daqueles que exerciam o poder (anciãos, sacerdotes e escribas), sua morte e ressurreição. Jesus sabia que sua mensagem e ações entrariam em choque direto com a religião oficial, com a organização social e com os valores de sua época. Ele previa a sua morte de cruz. Palavras de esperança fizeram parte desse trágico anúncio de Jesus: “... e que, depois de três dias, ressuscitasse”. Jesus contava com a sua ressurreição. Outras passagens dos evangelhos atestam isso, tais como Mc 9.9s,

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Mc 14.25,28. Lc 14.13s. e Mt 27.63. A ressurreição, por outro meio e caminho, apontava para uma vitória de Deus sobre os poderes do mundo e da morte. Jesus falava abertamente (“E isto ele expunha claramente”, v. 32) desse caminho salvífico. Ele preparava os seus seguidores para absorverem a nova proposta messiânica, o novo caminho, a verdade e a vida, que necessariamente passariam pela sua morte e ressurreição. 2.2 – O diálogo de Pedro com Jesus: vv. 32b e 33 Pedro, um ser humano comum de seu tempo, reprova o anúncio do sofrimento e morte de Jesus. Conforme a sabedoria de seu tempo, o messias e os propósitos de Deus não poderiam ser derrotados pelos poderes do mundo. Sofrimento e morte (ressurreição não conheciam) faziam parte do cotidiano do povo, desprovido de justiça e paz, excluído da vida digna. O messias estaria acima dessa realidade, isento dessa sina desastrosa. A visão messiânica da época projetava uma salvação espetacular, baseada em imagens e atos possíveis nos limites do mundo. Jesus denuncia com palavras contundentes, em tom de acusação, que Pedro defende a proposta do mundo, a lógica da morte, que propõe a felicidade sem doação, sem perda dos benefícios próprios, sem sofrimento e ressurreição. Jesus surpreende seus seguidores ensinando uma vitória que inclui a perseguição, a morte e uma nova vida. Jesus prega uma salvação vitoriosa que passa pela realidade humana, injusta e destruidora, deixando nela as marcas do reino de Deus, do amor, da vida plena e eterna. 2.3 – Os ditos de Jesus, como salvar a vida: vv. 34-38 As afirmações de Jesus, após o diálogo com Pedro, ensinam que seus seguidores e suas seguidoras são inseridos em sua missão salvadora, que inclui o sofrimento, a morte e a ressurreição. “O servo não é maior do que o seu senhor...” (Jo 13.16), os servos andam pelo mesmo caminho do seu Senhor. “Se alguém quer me seguir, esqueça os seus próprios interesses, carregue a sua cruz e me acompanhe” (v. 34); a verdadeira salvação está enraizada na realidade a ser transformada. “...quem perder a sua vida por minha causa e por causa do Evangelho vai salvá-la” (v. 35); a fidelidade a esse caminho de salvação faz a diferença. “Que vantagem terá alguém se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” (v. 36); a vida transcende os limites e valores do mundo. “...quem tiver vergonha de mim, o Filho do Homem terá vergonha dele...” (v. 38); quem nega essa proposta salvífica em seu cotidiano afasta-se da dimensão eterna de vida. Jesus convida os seus discípulos e a multidão (v. 34) a fazerem uma nova opção de vida, baseando-se nos valores do evangelho e na sua missão

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redentora; aquela missão que inclui o amor, a doação, a partilha, a justiça, a paz e, por isso, a perseguição e a cruz. No tempo de Jesus, o sofrimento e a morte faziam parte do dia-a-dia do povo. Os caminhos possíveis para salvar a própria vida passavam, via de regra, pelos cuidados com os próprios interesses. Esse era o exemplo dos que se beneficiavam e conviviam com os poderes constituídos. O sofrimento e a morte configuravam a maior derrota. Os poucos e fracos movimentos de resistência, que reivindicavam justiça e direitos, envergonhavam a multidão. Todos tinham motivos suficientes para não se apoiar nesses projetos de libertação. E a experiência religiosa ensinava que o melhor era aguardar um salvador apocalíptico, que sozinho libertaria o mundo. Os ditos de Jesus, reunidos em Marcos, pressupõem um outro projeto salvífico. Apresentam uma outra opção: caminhar para a vida, assumindo a realidade de cruz e de morte. O prêmio para essa opção é a inclusão no processo de salvação e a vitória sobre a morte, a ressurreição. Apesar do sofrimento, das ameaças e da cruz, todos os que optam por esse caminho participam da transformação do mundo, da vitória sobre a morte e dos sinais do reino de Deus. A proposta de Jesus é nova. Agora os beneficiários da salvação não são meros espectadores da obra salvífica de Deus; eles já a experimentam no processo de transformação do mundo. Por isso mesmo, o projeto de Jesus reclama uma nova opção pela vida, compatível com os valores do evangelho do amor sem fim.

3 Motivações para a elaboração da mensagem Em nossos dias, a pluralidade e a fragmentação das relações humanas, dos interesses e dos poderes constituídos endossam inúmeros projetos de salvação para a vida pessoal; também para a economia, para as sociedades ricas e pobres, para o mundo. No centro e à margem desse movimento humano, a pluralidade religiosa instala-se, nem sempre a serviço da vida. A mensagem evangélica de Jesus, por exemplo, é usada para legitimar diferentes e contrastantes projetos de salvação. Ao apresentarmos a comunidade de Marcos 8.31-38, teremos esse contexto como pano de fundo. A cruz, a ressurreição e os ditos de Jesus fomentarão várias perguntas e dúvidas. Os ouvintes indagarão sobre o que é salvação, se viver em paz e com Deus inclui o sofrimento e a derrota, se esse é o melhor futuro, se a sua esperança está realmente fundamentada no evangelho, se os seus valores de vida e a sua opção espiritual são compatíveis com o anúncio e com o convite de Jesus. A atualização do texto confrontar-se-á com a necessidade de indicar respostas para essas e outras perguntas, acompanhadas pelo convite de Jesus, que exige opção e posicionamento.

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Proponho apresentar à comunidade que se reúne aos domingos no culto a mensagem do texto de forma propositiva, apontando para a experiência diaconal e evangélica que cria caminhos de transformação da morte em vida, a partir da realidade, sem fugir dela. Essa é a mensagem de Jesus, a mensagem da cruz: não é possível vencer e superar o sofrimento sem assumi-lo. Assim como essa mensagem assustou o discípulo Pedro, assusta todos os que hoje apostam em saídas libertadoras individualistas, que instrumentalizam valores e poderes humanos e religiosos hierarquizantes e escravizadores. Simultaneamente, não esquecer de anunciar a esperança, que se avoluma pela fé na ressurreição e que rompe com os muros dos limites da vida neste mundo. A mesma mensagem fortalece a participação de todos nas atividades comunitárias, diaconais e sociais, de grupos e lideranças que constroem sinais concretos de solidariedade, doação e partilha, a partir da realidade de sofrimento e cruz de todos os envolvidos. A comunidade, reunida para o culto, ficará alegre ao ouvir novamente que o amor e a ação salvífica de Jesus a incluem como agente vivo de transformação em sua realidade. Essa mensagem ajuda a comunidade a interpretar e a associar com a sua vida vários conceitos bíblicos, tais como corpo de cristo, sacrifício vivo (Romanos), pedras vivas, sacerdócio de todos (1 Pedro). Creio que este texto é mensagem de amor, de vocação e de esperança também em outros contextos. Por exemplo, para os adolescentes e jovens da Casa Mateus em Mauá (SP), integrados aos programas de arte, dança, cultura, informática e primeiro emprego. A proposta de Jesus, a princípio, não convence. Suspeitariam dessa proposta de salvação que os inclui, pois conhecem seus limites e fraquezas; não acreditam mais em grandes transformações da sua realidade. Nessa situação, o ensino e os ditos de Jesus são evangelho. Chamam os adolescentes e jovens para não fugirem de sua triste realidade e para buscarem nela caminhos de transformação, negando os valores da morte, aprendendo os segredos da vida, que é de Deus e eterna. O texto convida a anunciar a nova proposta salvadora de Jesus de forma propositiva e corajosa, uma proposta que nos inclui, que parte de nossa realidade e que transcende os limites dessa história e mundo.

4 Auxílios litúrgicos Saudação e acolhida: Sugiro saudar a comunidade com um dos ditos de Jesus, por exemplo: “Que vantagem terá alguém se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? (v. 36). Confissão de pecados: Incluir na oração as tentações relacionadas às nossas tentativas de salvar a própria vida e de negar ou fugir da nossa realidade de sofrimento e cruz.

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Kyrie: Motivar a comunidade a rogar pelas pessoas, comunidades e povos escravizados e anulados por propostas e visões libertadoras baseadas nos valores e riquezas deste mundo. Anúncio da graça: “O ladrão só vem para roubar, matar e destruir; mas eu vim para que tenham vida e vida completa. Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.10-11). Oração do dia: Clamar ao Espírito Santo para que crie, entre os presentes, paciência e confiança na proposta salvífica revelada por Jesus, que as inclui como pessoas vivas e atuantes na transformação de vidas e realidades mortas do mundo. Leituras bíblicas: Apresentar o texto de Gn 28.10-17 como palavra de Deus, que revelou, para os antepassados, um Deus presente no mundo e na história. Apresentar o texto de Rm 5.1-11 como anúncio de salvação e da aceitação de Deus, que pode ser experimentada pela fé e seguimento a Jesus Cristo.

Bibliografia JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento: 1ª parte: A pregação de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1977. STEGEMANN, Ekkehard W. e STEGEMANN, Wolfgang. História Social do Protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo, SP: Paulus, 2004.

3º DOMINGO DA QUARESMA ÊXODO 20.1-3,7,12-17 JOÃO 2.13-22 ROMANOS 10.5-13

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4o DOMINGO DA QUARESMA

26 MAR 2006

NÚMEROS 21.4-9 EFÉSIOS 2.4-10

PRÉDICA: JOÃO 3.14-21 Anete Roese

1 Texto: Jo 3.14-21 14. Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, é preciso que o Filho do Homem seja levantado, 15. a fim de que toda pessoa que nele crê tenha a vida eterna. 16. Deus, com efeito, amou tanto o mundo que deu o seu Filho, o seu único, para que todo ser que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. 17. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18. Quem crê nele não é julgado; quem não crê já está julgado, porque não creu no nome do Filho único de Deus. 19. E o julgamento é este: a luz veio ao mundo, e as pessoas preferiram a escuridão à luz, porque fazem o que é mau. 20. Com efeito, toda pessoa que faz o mal odeia a luz, com receio de que as suas obras sejam desmascaradas. 21. Aquela pessoa que age segundo a verdade vem à luz, a fim de que a luz mostre que obedecem a Deus naquilo que fazem. (Tradução Ecumênica da Bíblia / TEB e Linguagem de Hoje e alteração livre da linguagem masculina)

2 Comentários sobre os aspectos mais complexos do texto O texto de João 3 é parte da conversa de Jesus com Nicodemos. Mas não se trata somente de uma conversa. É interessante observar a imagem que o texto revela desde o início do terceiro capítulo. Nicodemos, um intérprete da escritura, um sábio fariseu, foi, de noite!, visitar Jesus. Jesus e Nicodemos iniciam então uma longa conversa, que se transforma em um profundo ensinamento de Jesus. Jesus vai contando, mostrando, alertando, chamando a atenção, ensinando. Nesse processo, recorre a imagens conhe-

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cidas da Torá, mas vai reinterpretando essa conhecida palavra de Deus. E de forma simples vai mostrando a Nicodemos a novidade, a boa-nova. É possível imaginar uma bela cena para essa conversa. Uma visita. Um pouco estranha, por sinal. Talvez Jesus nem a estivesse esperando. Nicodemos chega na casa, no lugar onde Jesus está e, certamente, é convidado a entrar, a sentar. Talvez antes da conversa principal, conversam sobre outras pequenas coisas. Então Nicodemos começa a entrar no assunto que o trouxe até ali. E começa devagar, tomando cuidado, afirmando algo positivo acerca de Jesus: “Nós sabemos que o Senhor é um mestre enviado por Deus...” (3.2). Em seguida, Jesus responde. Depois, Nicodemos pergunta e Jesus responde longamente. Posso imaginar essa conversa entre os dois sentados ali frente à frente, conversando respeitosamente. E chega o momento em que Jesus entra na parte do diálogo que nos interessa de forma especial aqui – os vv. 14-21. O texto de Números, previsto para a leitura, conta o episódio em que Moisés levanta a serpente no deserto. A serpente, enrolada numa vara, era símbolo de um deus da cura na Antigüidade. A pessoa que olhasse para ela ficava curada. Há uma assimilação de algum elemento de culto pagão. Mas por ordem de Deus, num momento de desespero do povo, a serpente de Moisés torna-se elemento de cura do povo que estava sendo atacado pelas serpentes do deserto. Agora, a partir da encarnação de Deus, da vinda de Deus, não é mais a serpente o símbolo de cura, mas o próprio Filho de Deus é sinal para a cura eterna. O próprio diálogo entre Jesus e Nicodemos é sinal de cura, sinal de novas relações, sinal de reconhecimento da nova verdade, uma verdade diferente, não mais baseada na lei, mas na fé. Trata-se de uma nova vida, uma nova forma de ser e de se relacionar. É uma transformação em todas as dimensões da vida: mental, corporal, social etc. (Jo 3.5). A exaltação agora não será de uma serpente, mas será de Jesus, que será levantado na cruz. É a partir do acontecimento da cruz que se dará o julgamento de todo ser humano, e é esse o lugar de encontro de toda pessoa com Jesus. O julgamento, segundo o Evangelho de João, acontece para essas pessoas que, mesmo diante da cruz, não percebem o acontecimento da cruz e não compreendem essa revelação. Mudou o lugar do juízo final, que antes, para o judaísmo, “acontecia” no final da história. Agora o juízo acontece na história – e quem não crê já está julgado. O evangelista insiste quatro vezes na afirmação, no título de Jesus: O Filho do Homem, o seu Filho (Filho de Deus), o Filho único de Deus (vv. 13, 14, 16, 17, 18). Dessa forma, João não quer deixar dúvidas sobre o lugar ao qual Jesus pertence, sua ligação com o mundo celestial, o mundo divino, sua origem divina, sua relação divina com Deus. A isso também está relacionada a elevação do Filho de Deus – que deve ser levantado (v. 14). O evangelista cria o título Filho único de Deus para afirmar a filiação única e a relação única de Deus com Jesus. Todos esses títulos cristológicos têm a

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mesma intenção e querem ressaltar a obra de salvação realizada por Deus por intermédio de Cristo. Por Cristo, em nome de Deus e para o bem de toda a humanidade. Além disso, o título Filho do Homem, de caráter celestial, vai além da idéia do messias davídico, que está relacionado ao povo de Israel e a esperanças locais e nacionais. Filho do Homem transcende o terreno e o restrito e apresenta-se como universal e permanente. O texto de Efésios, indicado para leitura, também é um ensinamento teológico. Um ensinamento claro, límpido, cheio de luz. Ensina quem nos salvou, quem nos salva, o que nos salva e como. Aqui também nós somos “levantados” ao céu. Não pelas obras, mas por Deus, pela graça de Deus e pela nossa fé, que também vem de Deus.

3 Atualização Ao ler e reler esse texto e comentários exegéticos, surgiu uma luz sobre uma possível mensagem. Grifei palavras e termos repetidos, que saltam aos olhos. Vou centrar meus esforços na atualização do texto, numa tentativa de encontrar nele uma chave que nos aproxime mutuamente. Copiei o texto para ter uma versão “final” para mim, à minha frente, e para que você a tenha à sua frente também. Para que tenhamos a mesma versão. Compus uma versão que me parece satisfatória. Talvez se faça uma fotocópia do texto, num folhetinho, para cada pessoa do culto, se não houver Bíblias o suficiente na igreja. Assim cada pessoa pode ocupar-se com o texto, pode acompanhar a leitura, pode levá-lo para casa, pode ler e reler. Ou cada pessoa recebe um versículo, tirado de uma caixinha. Depois, na hora da leitura do evangelho, o texto pode ser composto pela leitura de toda a comunidade. Assim todas as pessoas que têm o v. 14 lêem juntas, as que têm o v. 15 lêem juntas, e assim por diante. E, no final, o texto fica completo. Pode então ser lido por alguém mais uma vez. Uma leitura bem feita do texto sagrado já é metade da compreensão, da interpretação, da mensagem. Devo dizer também que lançarei mão da hermenêutica bibliodramática para a interpretação do texto. O bibliodrama permite que sigamos os movimentos do texto, os cheiros, os encontros e desencontros, as relações, os conflitos, os vazios, os personagens etc. O nosso texto assustou-me na primeira leitura. Parece vazio de imagens e repetitivo no conteúdo. Uma linguagem difícil de ser traduzida para os nossos dias. Com auxílio do bibliodrama vou tentar entrar no movimento desse texto. Leio e releio. Olho cenas, paisagens, palavras, sentimentos... E descubro que em nosso texto pulsa algo inesperado. Mas, antes, há que se olhar a que e a quem ele está ligado. Ele fala. Sai da boca de Jesus. E chega aos ouvidos e ao corpo de Nicodemos. Há uma cena de visita, conversa, diálogo – um espaço concreto

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no qual o texto se compõe. É importante imaginar esse espaço. Para o culto poderíamos até reconstruir essa cena da conversa, da visita, que Nicodemos faz para Jesus. O nosso texto é continuidade dessa visita, que inicia no começo do cap. 3. O contexto menor do nosso texto é a visita. Nicodemos foi, de noite, até onde Jesus estava hospedado. Vamos então acompanhar alguns movimentos do texto.

4 Imagens e caminhos para a mensagem do texto * Primeiro movimento do texto: o levantar. Assim como Moisés levantou a serpente, Jesus será levantado. Podemos deixar que aqui nos venham à mente as imagens de Jesus sendo levantado na cruz. Bem como a imagem da ascensão de Jesus. Jesus é levantado para a nossa salvação, para a nossa cura. Para sarar o nosso sofrimento, a nossa culpa. * É preciso deixar ecoar o v. 16; repetir para ver o que ecoa em nós. Em mim ecoa o seguinte: Deus amou... tanto, amou tanto, amou tanto, tanto... Esse eco pode ser feito no culto, essas duas palavras podem ser repetidas pela comunidade ou pelo grupo de jovens, em eco. Assim: lê-se o versículo desde o começo até o final de amou tanto. Então entra um eco dessas duas palavras. Depois que cessa o eco, termina-se a leitura do versículo. Então fica claro, óbvio, por que Deus entregou seu filho. Essa é uma maneira de experimentar o texto, não apenas com a audição, mas também com a imaginação e o sentimento. É bom porque sensibiliza, faz bem para a nossa fé. O versículo termina com um presente. Graça de Deus. Depois do eco, o que recebemos é a clareza do sentido da fé, o sentido do crer: para que não pereçamos, para que não nos afastemos do ensinamento de Deus e para que possamos receber de peito aberto, de mãos estendidas, a vida eterna. É bom ler o texto e ir experimentando, dando ênfase, parando para deixar fazer eco em nós a palavra de Deus. * Depois vêm os vv. 17 e 18, plenos do sentido do julgamento. Explicase, fala-se, mostra-se, vê-se: julgar, julgado, julgado, julgamento (4 vezes). É forte, é presente, é enfático. Mas é enfático numa nova maneira de apresentar o julgamento. O julgamento é realizado de forma pedagógica. É completamente diferente de um sentido de condenação, como poderíamos imaginar. É distante do castigo, da obrigação. É tão suave, que dá vontade de mesmo sair correndo... e crer. Crer, crer muito. Muda a imagem de Deus. Muda a relação. Há algo de novo aí. Por meio de Jesus a imagem de Deus muda. Agora Deus é Abba. É Paizinho! Não é mais Javé dos Exércitos. Esse Deus não leva à guerra, nem impõe severos castigos a seus filhos. Não deixa de ser exigente. Mas é Deus que recebe visita e acolhe para uma boa conversa. Então os três versículos explicam didaticamente como é a questão do julgamento de Deus agora, visto de uma nova perspectiva, desde Jesus Cris-

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to, o Filho de Deus. Deus encarnado. Deus presente. Primeiro: Deus enviou seu Filho ao mundo. Segundo: não para julgar o mundo; Terceiro: (mas) para salvar o mundo. Quem crê não será julgado. Quem não crê já está julgado, pois o julgamento acontece já, agora, na história, no cotidiano, não mais apenas no final dos tempos. Depois, nos versículos seguintes, continua a explicação sobre o julgamento. * O v. 19 começa afirmando como é o julgamento: “o julgamento é este”. Vem uma explicação. Aqui é necessário parar a leitura para pensar e imaginar como será o julgamento. O que vem à nossa mente? O que a comunidade imagina que seja o julgamento. Aqui podemos conferir as nossas heranças teológicas sobre o julgamento. O que povoa o nosso imaginário no que diz respeito ao julgamento? Veja que o texto afirma: o julgamento é este, não será. O verbo está no presente. O que indica que o julgamento já acontece. * Na segunda parte do v. 19, começa a brilhar uma luz forte. Uma explicação detalhada sobre o julgamento. O nosso texto começa meio trêmulo. Uma visita inesperada. Um fariseu que veio ter com Jesus. O texto termina – a visita termina com luz, muita luz. É uma explicação suave sobre como “será”/é o julgamento. Grandes castigos? Fogo? Dilúvio? Não! Será, é, assim: a luz veio ao mundo. E a pessoa que faz o mal odeia essa luz. É uma bela explicação, que começa como uma imagem de Deus, como luz. Então vem uma série de referências que indicam como são as atitudes e as pessoas que fazem o mal: elas odeiam... elas têm receio... de ver as obras desmascaradas. Por outro lado, a pessoa que age segundo a verdade, essa pessoa vem à luz; então essa luz mostrará que ela é obediente a Deus. Então podemos traçar uma relação direta com o nosso cotidiano atual. Na escuridão estão situadas articulações, atitudes, políticas e relações tortuosas. Não somente essas articulações estão na escuridão, mas também as pessoas que determinam essas ações. Ao contrário, pessoas que agem direito são pessoas que estão na luz, revelam a luz, estão acompanhadas pela luz, a luz está sobre elas. Luz como um estado envolvido pela presença de Deus. Luz como revelação de Deus, revelação da humanidade intimamente ligada com Deus. Atitudes, relações e situações de plena transparência e lucidez no cotidiano são momentos da presença de Deus. Poderíamos dizer que há relações familiares que são de escuridão ou de luz, relações de trabalho, de profissão, de realidade social, política local, nacional e mundial, que estão envolvidas pela luz ou pela penumbra, ou escuridão total. Trata-se também de “deixar vir à luz” a bondade que há em nós. Ter a sensibilidade de perceber a luz que há nas outras pessoas. Há que tomar cuidado para que os nossos olhos não vejam somente escuridão e que assim se tornem olhos de julgamento, olhos que se arrogam o poder de Deus, onde está a única capacidade de julgar. Faz parte desse julgamento tão pedagógico de Deus trazer à luz o que está na luz e mostrar as pessoas, as relações e

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as estruturas que não estão na luz, que vivem na escuridão e da escuridão. Nesse sentido, fazem parte do julgamento amoroso de Deus a denúncia e a evidência da escuridão e da luz no mundo.

5 Sugestões para a celebração Salmo do dia: 27.1, 4, 9-12 Palavras de acolhida: Tempo de Quaresma. Tempo de deserto, Tempo de mudança, Tempo de conversão. Invocamos tua resistência, Tua esperança, Teu amor sem medida. Hoje e sempre. Amém (Inês de França Bento) Invocação: Invocamos-te, Invocamos-te, Deus da Vida, Invocamos-te, Deus da Luz, Invocamos-te, Deus do Tempo. Conduze-nos à vida em plenitude. Protege-nos da noite escura da alma. Dirige-nos para o teu amor. (Inês de França Bento) Confissão: Confissão Quaresmal Senhor, tu és a luz que ilumina nossas trevas! Conhecendo a tua infinita misericórdia Pelas nossas falhas e limitações, Neste tempo de penitência Nos colocamos em tua presença Pedindo o teu perdão! Mostra-nos onde falhamos! Ajuda-nos a nos reconciliar Com nossos irmãos e irmãs E a ser solidários e generosos, Principalmente com os mais necessitados.

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Fortalece-nos para trabalhar na Construção de um mundo melhor Onde o respeito, a solidariedade e a bondade Se façam presentes No dia-a-dia de todos os povos. E que a tua graça e misericórdia Nos façam confiar sempre no teu amor! Amém! (Vera Lúcia Chvatal) Unção com óleo: O óleo é o símbolo da luz. Neste culto, cabe bem o uso do óleo num momento de unção mútua da comunidade. O óleo representa a luz: iluminação, discernimento. Ungir com óleo uma pessoa significa que esse óleo quer acender a chama da vida. O óleo permite que a chama da vida possa crescer, permite que a Luz do Ser, Luz, Deus, possa brilhar, revelar-se em nós. A unção mútua pode acontecer acompanhada de uma palavra, uma bênção que traga à memória de cada pessoa que seu corpo é templo do Espírito Santo e que foi criado por Deus para se deixar habitar pela Luz.

Bibliografia BLANCHARD, Yves-Marie. São João. São Paulo: Paulinas, 2004. LELOUP, Jean-Yves. O Evangelho de João. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2000. MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. Raio-X da Vida. Círculos Bíblicos do Evangelho de João. Série: A Palavra na Vida. n. 147/148, 3. ed. São Leopoldo: Cebi, 2002.

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5o DOMINGO DA QUARESMA

02 AbR 2006

JEREMIAS 31.31-34 HEBREUS 5.7-9

PRÉDICA: JOÃO 12.20-33 Acir Raymann

1 As leituras do dia 1.1 – Jeremias 31.31-34 O texto fala sobre os dias em que o Senhor firmará (não criará) uma “nova aliança” com seu povo. Essa é a única vez em que aparece essa expressão no Antigo Testamento. “Novo” no Antigo Testamento não significa de outra natureza ou essência, como muitas vezes entendemos. Não significa que o “antigo” foi descartado para dar lugar ao “novo”. Na verdade, “novo” tem a ver com cumprimento, plenitude. Assim, o Novo Testamento não é novo; é a continuidade, o cumprimento do Antigo Testamento. Temos coisas do NT no AT e coisas do AT no NT. Em ambos os Testamentos, a graça e a salvação de Deus para com seu povo são o centro das narrativas. Embora se prefira “testamento” a “aliança” (especialmente no contexto luterano), os termos são sinônimos. Nesse sentido, “aliança” é equivalente a “promessa”, “juramento”, “bênção”. Claro, Israel entendeu mal a aliança de Deus, associando-se a outras alianças. Contudo, o Senhor quer reparar essa situação e promete “firmar” o que o povo “anulou”. Na “nova aliança” está a promessa de Deus de que seu povo o conhecerá com exclusividade: “Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” Porque “perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei”. 1.2 – Hebreus 5.7-9 Esse texto mostra que a agonia de Cristo é de uma dimensão sem precedentes. Cristo não reluta diante do sofrimento e morte, mas reluta diante da agonia que é carregar a culpa da humanidade sobre si. Embora tenha suplicado ao Pai que o cálice do sofrimento fosse tirado dele, não vacilou em cumprir a vontade de Deus. Na verdade, sua súplica foi atendida pelo Pai, que o salvou da morte – pela ressurreição. Cristo aprendeu a obediência, ou seja, apreendeu, incorporou o que não era seu. Não que fosse deso-

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bediente, mas porque experimentou um sofrimento que jamais vivenciara. Jesus é o autor da salvação de todos.

2 Contexto e texto de João 12.20-33 O episódio do nosso texto acontece cinco dias antes da festa da Páscoa (cf. 12.1; 12.12). Embora o fato mencionado no texto ocorra depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, essa perícope é escolhida para o domingo de hoje como um prelúdio aos eventos da Semana Santa. Vários momentos marcantes têm ocorrido ultimamente, em especial que Jesus havia ressuscitado Lázaro. Esse milagre, por um lado, atrai multidões fascinadas (12.18) e, por outro, suscita a ira dos principais sacerdotes e fariseus que o procuram prender e matar (11.53,57). Nesse momento, contudo, esses lutavam contra a maré porque reconheciam que “aí vai o mundo após ele” (12.19). Os fariseus, sem o saber, são profetas. A chegada dos gregos confirma as suas palavras. Tais gregos querem ver Jesus. Onde ele está? Qual a sua aparência? Onde pode ser encontrado? Os vv. 20 e 21 apenas nos falam de “gregos”. Nada mais sabemos sobre eles. Quem sabe chegaram a ouvir de Jesus pela leitura da Septuaginta. Na época, havia pouca evidência de que o Cristo seria também para eles, que eram gentios. Os zelotes, por exemplo, bem como os discípulos do rabino Shamai afirmavam que o Messias vinha para salvar o povo de Israel, não os estrangeiros. O v. 22 diz que Filipe e André são de Betsaida, cidade da província de Ituréia, onde boa parte dos habitantes são gregos e gentios. Por serem os únicos dos discípulos que têm nomes gregos, eles, por certo, devem falar grego. Os vv. 23 e 24 falam da glorificação de Jesus. Mas sua glorificação passa pelo antagonismo de sua morte. Não há glória para Cristo sem a passagem por seu sofrimento, morte e ressurreição. O exemplo desse processo está no grão de trigo. Sem a sua morte não há como surgir a vida. Seguir a Jesus, no v. 26, é segui-lo na sua morte; é seguir o caminho da cruz; é sofrer por causa do nome de Cristo. A vida dos seguidores de Jesus (e os gregos devem também saber) não é fácil. O próprio Jesus angustiou-se diante da morte, como se vê nos vv. 27 e 28 e no texto de Hebreus 5.7-9. O levantamento de Cristo na cruz pode ser visto como decepção para muitos que gostariam de ter um Messias que viesse para ser servido, não para servir. Os gregos vieram para ver Jesus, mas todos ao redor ouviram a voz de Deus. Jesus explica por que ouviram a voz: “Agora” é o momento da glorificação do Filho; “agora” é o momento de o mundo ser julgado; “agora” o príncipe do mundo será expulso. Na cruz, Satanás sucumbe e Cristo é exaltado – e atrai todos, judeus e gentios, para junto de si (v. 32).

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3 Sugestões de aplicação homilética 3.1 – Há dois anos, apareceu no jornal e na televisão o que seria uma nova imagem de Jesus diferente do que ocupa o imaginário de bilhões de cristãos em todo o mundo. A nova imagem foi criada em computador por cientistas europeus a partir do crânio de um homem que viveu perto de Jerusalém há cerca de 2.000 anos. O resultado foi um Cristo de pele morena, cabelos crespos, nariz grande, olhos arregalados. A imagem causou impacto, polêmica e, para a maioria, desagrado. Esses gregos eram estrangeiros e vêm para ver Jesus. Os gregos dirigem-se a Filipe; Filipe atrapalha-se e vai falar com André, que também não sabe o que fazer. Resultado: ambos decidem consultar Jesus. E o que Jesus faz é dar um discurso sobre agricultura: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, diz Jesus, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto”. O que Jesus queria dizer com essas palavras? Num discurso anterior, Jesus afirmara que ele era o pão da vida, que desce do céu para dar vida à humanidade. A figura do pão indica que a sua vida haveria primeiro de ser sacrificada antes de poder dar-se aos outros. Aqui Jesus muda a figura e diz ser a semente de trigo que precisa primeiro ser semeada e morrer para que haja colheita de trigo e a provisão de pão. 3.2 – Ver Jesus só pode acontecer por meio de sua morte e ressurreição. Naquele pedido dos gregos, Jesus vê a sua obra como o Messias chegando a seu ponto climático. Em Is 53, Deus, o Pai, lhe prometera: “Quando der ele a si mesmo como oferta pelo pecado, então verá a sua semente, a sua posteridade”. Tal episódio vai acontecer em menos de uma semana. Antes da sexta-feira santa e da Páscoa, a mensagem de Jesus não deveria ser levada oficialmente ao mundo pagão para que eles não tivessem uma imagem parcial e distorcida de Jesus e sua obra. A obra do Messias não se caracteriza apenas por sinais, milagres, curas. Fosse assim, ele seria um guru, professor, curandeiro ou bom moralista que ensina a viver bem. Não será essa a visão que nós mesmos temos de Cristo por vezes? Sua obra, entretanto, caracteriza-se por seu sacrifício voluntário, por sua morte e ressurreição. Para enfatizar esse aspecto, Jesus fala de sua morte. Ele diz: “É chegada a hora de o Filho do Homem ser glorificado”. Jesus fala de sua morte não como um fim, como derrota, mas como vitória, glorificação. 3.3 – O projeto da salvação de Deus é como a história da semente de trigo. Não há fruto sem morte e ressurreição. Se não for sepultado, permanece isolado e fenece como qualquer semente, tornando-se improdutiva. Morte é o único meio pelo qual vem a vida e vida em abundância. Longe da cruz não há colheita espiritual; longe da cruz a missão de Deus não acontece. A morte de Cristo na cruz e sua ressurreição é o prelúdio para a missão

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no mundo. Os gregos faziam parte da multidão que viera a Jerusalém para adorar por ocasião da Páscoa que se aproximava. Seria a primeira vez que vinham? A verdade é que eles não podiam ver Jesus nem ouvi-lo falar no templo de Herodes. No Museu Nacional de Jerusalém preserva-se um fragmento de pedra em que há a inscrição proibindo a entrada de gentios naquele templo sob pena de morte. Por isso ficavam do lado de fora, no pátio dos gentios, sem poder participar da festa da Páscoa. Agora procuram Jesus fora do templo. E a ocasião parece ser um dia depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, onde foi saudado pelas multidões que estavam extasiadas por ter Jesus ressuscitado Lázaro. Os gregos querem ver Jesus? Por quê? 3.4 – Querer ver Jesus significa segui-lo. Seguir Jesus talvez não pareça tão difícil. Seguir Jesus é aparentemente mais fácil do que tentar os inúmeros caminhos e opções religiosas propostas pelos homens. Seguir Jesus parece mais fácil, mas é um caminho que leva à cruz. Se alguém me serve, diz ele no texto, siga-me. E o caminho que Ele segue é o caminho da cruz. 3.5 – Por que os gregos se dirigiram a Filipe pedindo: Senhor, queremos ver Jesus? Por que algumas pessoas perguntam a você algo semelhante? Porque de alguma forma você se torna parecido com Cristo. O apóstolo Paulo em 2 Co 4.10 diz: “Levamos sempre nos nossos corpos mortais a morte de Jesus para que também se veja a vida dele nos nossos próprios corpos”. Em outro lugar ele diz como Deus nos destinou para ser conforme à imagem de seu Filho, assim que somos transformados em sua semelhança mais e mais, dia após dia. É isso o que aconteceu em nosso Batismo. É por isso que Lutero diz que nós, cristãos, parecemos e somos pequenos Cristos para as outras pessoas. 3.6 – Os gregos viram Jesus? Três ou quatro dias depois, Jesus foi crucificado. E aqueles gregos certamente puderam ler em sua própria língua a inscrição sobre a cruz de Jesus de que ele era rei. E no dia de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa, lá certamente estavam esses gregos, ouvindo de novo na sua própria língua o apóstolo pregar: que esse Jesus, que foi crucificado, Deus o ressuscitou e o fez Senhor e Cristo e aquele que invocar o seu nome será salvo.

Bibliografia BLANK, Rodolfo. Juan: un Comentario Teológico y Pastoral al Cuarto Evangelio. St. Louis: Editorial Concordia, 1999. MORRIS, Leon. Jesus is the Christ: Studies in the Theology of John. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1989. RIDDERBOS, Herman N. The Gospel of John. Trad. John Vriend. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1997.

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DOMINGO DA PAIXÃO (RAMOS)

MARCOS 15.1-20(21-39 FILIPENSES 2.5-11

09 AbR 2006

PRÉDICA: ZACARIAS 9.9-10 Valdemar Lückemeyer

1 Observações preliminares Nosso texto já foi estudado duas vezes em Proclamar Libertação: vol. X, por Günter Wehrmann, onde é destacada a proposta pacifista do “rei que está vindo”, e vol. XIX, por Haroldo Reimer. Recorro a esses dois estudos, cito-os como freqüência neste auxílio agora elaborado, e mesmo assim, se houver tempo, recomendo sua leitura. Já elaborei em outra ocasião um auxílio homilético no PL para o Domingo da Paixão ou Domingo de Ramos (PL XXVIII), onde levantei algumas perguntas em relação ao proprium desse domingo. Trago novamente essas perguntas e os comentários, hoje ampliados. O domingo é o Domingo da Paixão (como prefere o Lecionário Ecumênco) ou é o Domingo de Ramos? A preferência pela definição e nomenclatura desse domingo coloca, a meu ver, o seu acento na mensagem. Não nos cabe delimitar ou excluir textos bíblicos indicados para leitura e pregação do domingo, mas há uma grande diferença, se, por exemplo, opto pela leitura “breve” ou “longa” do evangelho. O Domingo de Ramos não tem recebido entre nós, nas comunidades evangélicas luteranas, o mesmo destaque e a mesma valorização como, por exemplo, na Igreja Católica. No entanto, dentro do ano eclesiástico, é um domingo especial, com sua mensagem específica. É o domingo que aponta para um “novo rei”, seu reinado, seu projeto de governo. Por que não usar símbolos nesse domingo? Não sei até que ponto os ramos atualmente ainda ajudam a lembrar a recepção do rei. Que outro símbolo pode ser usado para apontar para a realeza, para o senhorio, para a autoridade “desse rei”? Bandeiras, bandeirolas, faixas? Ademais, como não temos entre nós a figura do rei, pouco sabemos a respeito dos símbolos que melhor caracterizam e identificam um rei. O Domingo de Ramos é, em todos os casos, um domingo especial para a maioria da população. Ele é conhecido e é importante, pois inicia a semana mais marcante na vida de fé de nossa gente. Por isso, entre outras coisas, é tão importante trabalhar em toda a celebração desse domingo, no culto todo,

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a tensão entre as duas (ou mais) compreensões da autoridade, do poder desse rei.

2 As duas leituras bíblicas O evangelho, leitura “longa”, inclui não apenas o caminho de obediência e de humildade do rei, mas também o caminho da cruz, a sua crucificação. Caso o pregador opte pela leitura longa, e não apenas Mc 15.1-20, isso certamente deverá ser trabalhado na prédica. A epístola, o conhecido Hino Cristológico, destaca a postura de servo humilde e obediente de Jesus, o Cristo, o Messias, o Rei justo. Jesus manifesta a sua realeza na postura de total esvaziamento de autoridade e de poder, e ele o fez para que Deus pudesse agir. Ele é o Servo de Deus através de quem Deus revela o seu poder, o seu plano, a sua vontade para com toda a humanidade.

3 Leitura do texto – usando qual tradução? Não considero necessário elaborar uma tradução própria, alternativa. O texto mais “tradicional” é a versão de João F. de Almeida, mas o de mais fácil compreensão, especialmente para quem apenas ouve a leitura do texto, é o da Tradução na Linguagem de Hoje. As considerações exegéticas apontarão para alguns detalhes importantes a serem observados.

4 Considerações exegéticas v. 9: O anúncio é igual ao de um mensageiro enviado: ele tem uma mensagem importante para anunciar. O mensageiro vem com um convite para que toda a cidade de Sião/Jerusalém, isto é, seus habitantes, os filhos que nela vivem, expressem e manifestem sua alegria (por meio de dança, sugere o verbo) pelo que será anunciado e está por vir. A forma do anúncio é a mesma usada pelo mensageiro, que aponta para a vinda do governante soberano ou um hóspede ilustre. O novo, nesse caso, é que o mensageiro é o próprio Deus. Ele convida seu povo para alegrar-se, pois ele mesmo está agindo. Se Deus fala no “teu rei” e não no “meu rei”, é porque esse rei está destinado a ser o rei de Jerusalém, onde ele é aguardado há muito tempo. Os reis que cuidavam, que exploravam, que reinavam em Jerusalém não buscavam o bem do povo, mas sim o seu próprio bem. Jerusalém não era “sua” cidade, mas sua colônia, que exploravam. Contrapondo-se a essa realidade,

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consolida-se a esperança messiânica: Jerusalém terá o seu rei, que cuidará dela, de todos os seus habitantes. O novo rei é caracterizado com algumas qualidades. Justo: a tradução permite uma interpretação dupla. Ele é justo, porque a justiça de Deus o alcançou, ele foi beneficiado pela justiça de Deus; ou então com a interpretação ativa: ele é justo, trata todos com justiça, governa com justiça, exerce justiça. Salvo: o novo rei experimentou ajuda, ele foi ajudado numa situação difícil, de onde saiu como vitorioso. E também essa característica pode ser traduzida na forma ativa: esse novo rei salva, ele ajuda (é salvador, cf. Almeida). Pobre: várias traduções são possíveis para o referido termo em hebraico. Tendo em vista que ele descreve a entrada triunfal/a vinda triunfal do rei, recomenda-se a tradução que expressa a chegada desse rei, seja a de “pobre, humilde, modesto = pequeno” e não “manso” ou “brando”. O rei vem montado em jumentinho. Quem usava essa montaria: o rei, a nobreza, os vitoriosos, ou então os humildes, os pobres? É animal de montaria dos que têm um certo “status” ou é animal de carga, de serviço? Opto pela interpretação que diz que jumentos eram animais de carga, usados para o serviço, ao passo que os cavalos eram usados para os carros de guerra e também como montaria para as batalhas. v. 10: Quem é o sujeito da destruição/eliminação dos carros de guerra: Deus ou o rei enviado? No original consta o verbo na 1ª pessoa do singular, portanto o sujeito é Deus. Mas já logo adiante, na segunda parte do versículo, volta o uso do verbo na 3ª pessoa: ele, o rei, é o sujeito da ação. Quase todos os comentaristas aceitam a correção da Septuaginta, que lê e traduz na 3ª pessoa do singular, isto é, o rei enviado por Deus eliminará carros de guerra e a cavalaria de guerra. O seu anúncio de paz (= plano de governo) começa pela eliminação de todo o material bélico (carros, cavalos, armas), o que significa o fim da guerra e de toda violência. Não haverá interesse em subjugar e/ou dominar povos vizinhos, expandir fronteiras e assim por diante. Ele “anunciará” paz, promoverá a paz por meio da palavra, palavra criadora, promotora de vida – assim como em Gênesis Deus diz e surge a criação. Os atingidos e beneficiados com a sua promoção = paz serão todos os povos. O seu reino não terá limites (de mar a mar); ele será universal.

5 Estímulos “A esperança pelo Messias da Justiça e Paz, em Zc 9.9,10, naturalmente não pode ser identificada com Cristo. Pois ela ainda tem suas limitações histórico-políticas. Mas ela transcende qualquer esperança particular. O

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Messias de Zc 9.9, embora seja descrito como rei, é tão singular e diferente de qualquer rei que já existia; sim, até é bem diferente dos famosos e piedosos reis Davi e Josias. Os dois ainda tinham poder e exércitos. Esse Messias, no entanto, esvazia-se de qualquer tipo de poder e ‘arma de morte’. Mais ainda: conforme esperanças messiânicas mais antigas, o Messias iria corrigir nações poderosas de sorte que convertessem suas espadas em arados e lanças em foices (Mq 4.3) e julgar os pobres com justiça (Is 11.4). No entanto, cf. Zc 9.9s, o próprio messias é sofredor e pobre. Ele mesmo é justificado e salvo e como tal promove justiça e paz, eliminando todo tipo de ‘arma de morte’. Esse Messias, por ser descrito como rei político e imanente – mas fraco, pobre, salvo e justo –, representa a mais ousada esperança. Nesse sentido, o Messias aponta para o Cristo que nasceu pobre (Lc 2.7), que não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8.20), que se colocou primordialmente ao lado dos fracos e marginalizados, tendo comunhão de mesa com eles, e os aceitou (Mc 2.15), que sofreu a rejeição e condenação de todos na cruz. Mas Deus mesmo o salvou da morte ressuscitando-o; assim Deus o justificou diante do mundo. Ela é a nossa paz (Ef 2.14). Ele eliminará definitivamente o último inimigo, a morte com todas as suas manifestações (1 Co 15.26). Ele criará ‘novos céus e nova terra nos quais habita justiça’ (2 Pe 3.13). Esse novo que irrompeu no mundo vencerá. Por isso, não nos deixemos conformar com todo o sistema que promove e morte. Mas deixemonos inspirar pelo novo que Zc 9.9-10 sonhou e que em Cristo começou a irromper no mundo. Por isso sonhamos com um governo marcado pelo novo, tanto para o Brasil como para o mundo. Hoje queremos ver sinais concretos da nova justiça e paz, da vida boa que Deus quer para todos” (G. Wehrmann, PL X, pp. 99s). “Em Jerusalém e no Reino do Norte desaparecerão as armas. O Messias que virá humilde e montado num jumento já não traz nenhuma conotação de poderio militar. Com a sua vinda, a guerra não será mais um objeto político. Seu propósito é desarmamentista, pacifista. Isso se evidencia também na frase (do Messias): ‘E ele falará (repetidamente) paz para as nações’. Poder-se-ia logo pensar em acordos e tratados de paz, como os que acontecem em nossos tempos. Mas aqui o texto procura sublinhar o poder da palavra, talvez como força capaz de persuadir e de convencer para a paz. Isso evoca qualidades messiânicas apresentadas em Is 11.4: ‘Com seus lábios ‘matará’ o perverso’. O objetivo dessa ação pacifista é a libertação (cf. v. 11). Aderindo a esse messias justo e protegido, pobre e nobre, que constitui uma revelação do Deus vivo, os outros povos talvez baixem as armas e entrem na ciranda do desarmamentismo. Assim esse Messias poderá ser o príncipe da paz, o Messias dos pobres, que não mais serão atropelados pela máquina da guerra” (Haroldo Reimer, PL XIX, p. 108). “Na expectação do Messias, característica de fortes grupos do judaísmo da época, articulava-se a antiga concepção da monarquia teocrática com

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apenas leves retoques. Trata-se no fundo da esperança pela restauração do reino de Israel em sentido político (cf. Mc 11.10; At 1.6) com as respectivas implicações: Libertação do jugo estrangeiro, purificação de Jerusalém de todos os pagãos, castigo aos pecadores, reconstituição de Israel como santo povo de Deus. Seria o ungido descendente de Davi e, revestido do poder de Deus, esmagaria os ímpios. Obviamente, não seria o Messias rei qualquer. Na imaginação do povo, ele é o enviado de Deus que por isso será não só poderoso como também fará governo justo, trazendo a paz e erradicando o mal” (G.Brakemeier, Reino de Deus e Esperança Apocalíptica, p. 30).

6 A prédica (algumas idéias, alguns pensamentos, algumas sugestões) * Há boas novas! Alegrem-se! Ou será que não há mais motivo de esperança, razão para expressar alegria? Não há mais motivo para esperar por algo melhor, diferente, do que essa realidade que nos cerca, que tira o brilho da vida, sim, que mata a vida? Temos que nos conformar com o presente século? * Duas notícias extraídas do jornal Zero Hora: “Gastos militares mundiais superam U$ 1 trilhão em 2004! U$ 1 trilhão é o movimento mundial da indústria da corrupção!” “Com 53,9 milhões de pobres, o equivalente a 31,7% da população, o Brasil aparece em penúltimo lugar em distribuição de renda entre 130 países. Pior que o Brasil, só aparece Serra Leoa.” * É assim que Deus, o Criador, quer a vida para o seu povo? Deus aceita essa situação? Zc 9.9-10 é o brado do mensageiro de Deus que anuncia transformação radical. Deus tem uma nova proposta. Domingo de Ramos – a cristandade celebra a “entrada triunfal do Rei Jesus em Jerusalém”. Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! * Estamos nos preparando para receber nosso rei = ele é humilde, esvazia-se de todo poder e pompa, é fraco. Nele e por meio dele Deus se revela inaugurando um novo tempo, um “novo mundo”. * Ele promoverá a paz. A sua palavra é criadora. Destruição do armamento bélico, eliminação da violência e da agressividade – tudo isso é oferta do rei não apenas para Efraim e Jerusalém, mas é oferta para todos os povos. Schalom = paz, bem-estar, salvação, vida em abundância para todos, para todas as nações!

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* O que Jesus fez entre o 1º e o 2º Adventos é apenas o início do cumprimento da profecia de Zc 9.9-10. A plenitude desse novo virá com o reino de Deus na sua presença total e definitiva. Agora ele aproximou as pessoas de Deus. Ele buscou os “afastados” para trazê-los de volta à casa do pai. Ele fez, por meio da sua morte, as pazes entre Deus e nós (Rm 5.11 e, em especial, 2.Co 5.18). Ele é a nossa paz! Ele convida-nos a ser agentes, promotores dessa paz. Afinal, somos seus “súditos”, somos seus discípulos. Aprendemos com ele e “não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20).

Bibliografia BRAKEMEIER, G. Reino de Deus e Esperança Apocalíptica. Editora Sinodal, 1984. BREIT, H. und WESTERMANN, C. Die alt. Texte der vierten Reihe, Calwer Predigthilfen, Stuttgart, 1. ed., 1963, pp. 97ss. GORGULHO, Gilberto. Zacarias: a vinda do Messias pobre. Comentário Bíblico, Editoras Vozes, Metodista e Sinodal,1985, pp. 89ss. REIMER, Haroldo. In: Proclamar Libertação, vol XIX, edit e coord. Edson Streck e Nelson Kilpp, EditoraSinodal, 1993, pp. 106ss. WEHRMANN, Günter. In: Proclamar Libertação, vol. X, coord. Nelson Kirst, H. Malschitzky e M. Schwantes, Editora Sinodal, 1984, pp. 91ss.

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QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

13 ABR 2006

ÊXODO 24.3-11 MARCOS 14.12-26

PRÉDICA: 1 CO 10.16-17(18-21) Valério Guilherme Schaper

1 Quinta-feira santa: uma chance missionária! O nosso texto está previsto para a quinta-feira da semana santa. Na semana santa, há um clima que envolve as pessoas e as impulsiona a procurar a igreja. Elas vêm motivadas por um sentimento que mistura resquícios de cristandade e de busca real por fundamento. Por ser menos suscetível ao processo de “espetacularização” que rege as mídias, a semana santa tem conseguido manter seu significado a salvo das investidas dessa lógica de mercado. As comunidades ainda se enchem nessa ocasião e, em parte pelo persistente efeito inercial dos séculos de cristianização, temos a chance de acolher esses visitantes periódicos, apresentar-lhes de forma relevante o significado dessa semana e despertar o interesse pela vida comunitária. Essa tarefa exige preparo da comunidade e do obreiro. A organização é fundamental. Vale lembrar, contudo, que missão não se resume a um ato de vontade. Ela só é possível na força do Espírito. O texto previsto para a quinta-feira é muito apropriado, pois é rico em sentidos para a nossa vida e para a nossa vivência em comunidade. É fundamental, pois, que se resgate o evangelho contido no texto. Não significa, contudo, que se ignore o que há ali de juízo ou de lei. Importante é que o púlpito não seja, nessa ocasião, oportunidade para criticar os que têm andado distantes da vida comunitária.

2 Divisões e contendas: a situação da comunidade de Corinto A primeira Carta aos Coríntios – deixando aqui de lado todas as discussões sobre a composição dessa carta e, sobretudo, sobre a integridade do bloco temático que vai dos capítulos 8 a 11 – é um painel rico da vida de uma comunidade cristã. O painel é tanto mais interessante quanto mais graves são os problemas que ali surgem. Graças às “divisões e contendas” – é preciso agradecer –, pudemos conhecer questões práticas da vida de uma comu-

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nidade urbana, aclimatando-se à cultura greco-romana, e Paulo pôde nos proporcionar um variado cenário de sua teologia, exercitando seu melhor estilo de escrita: a diatribe. O texto previsto para a quinta-feira santa encontra-se no grande bloco que vai do capítulo 8 ao início do capítulo 11. Todo esse bloco estabelece uma profunda reflexão sobre alimentos consagrados aos deuses pagãos – ídolos – e a liberdade cristã. Essa reflexão procede de maneira curiosa, pois é como se Paulo fosse refletindo em círculos concêntricos. Obviamente, o nosso texto está no núcleo do qual irradiam os demais círculos. Ele é como a pedra atirada ao lago. Da incidência de seu impacto sobre o espelho d´água surgem as ondas (reflexivas) que vão formando os círculos. Examinemos, pois, a estruturação do bloco 8-11 (FOULKES, p. 225; MEEKS, pp. 152-7). A Comida sacrificada aos ídolos: comida aceitável e responsabilidade (8.1-9.27) a Coríntios: conhecimento e responsabilidade a Conhecimento: O saber e o amor. O amor edifica. Tudo procede de Deus (1-6) b Conduta: a liberdade não pode representar tropeço para os fracos (7-13) 7 – Não há este saber em todos. 8 – A comida não recomenda a Deus nem desrecomenda. 9-13 – Conduta recomendada: limitar-se para não escandalizar o irmão. b O exemplo do apóstolo: liberdade e responsabilidade (9.1-27) a1 Afirmação de um apostolado livre (1-18) 19-23 – A submissão por amor ao evangelho b1 Exortação e exemplo (24-27) 24-27 – A imagem do atleta: autodomínio para atingir a meta B Comida sacrificada aos ídolos: comida proibida (10.1-22) b O exemplo de Israel (1-13) a1 Narrativa de um fato passado: Deus pune Israel por idolatria (1-5) b1 Advertência para o presente: quem está em pé que não caia (6-13) a Coríntios: conhecimento e responsabilidade (14-22) a Conhecimento: participação é comunhão (15-18) b Conduta: Não participar das comidas pagãs (19-22 e 14)

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A1

Comida sacrificada aos ídolos: comida aceitável e responsabilidade (10.23-11.1) a1 Coríntios: conhecimento e responsabilidade (10.23-10.32) a Conhecimento: Nem tudo que é lícito (comer de tudo) edifica (23, 25-30) ) b Conduta: Edificar o irmão. Critério: o interesse do outro (24, 31-32) b1 O exemplo do apóstolo: liberdade e responsabilidade (10.33-11.1) a1 Descrição do modelo de serviço (10.33) b1 Exortação e exemplo (11.1)

A reflexão acerca da carne sacrificada aos ídolos é complexa. Na verdade, era praticamente impossível viver em uma cidade de cultura grecoromana sem ter contatos com o mundo religioso da época. Especificamente no tocante ao consumo de carne sacrificada a ídolos, isso era especialmente difícil. Não se conhecida, nesse contexto, carne que não tivesse sido sacrificada. Portanto, essa era, em grande parte, a carne encontrada nos açougues, que adquiriam dos templos o excedente. Além disso, as ocasiões para que se consumisse esse tipo de carne eram inúmeras: visitas a parentes pagãos, festividades religiosas públicas, compromissos sociais com fartos banquetes, compras regulares em açougue etc. O impacto teria sido minimizado não fossem as diferentes percepções da questão dentro da comunidade. Alguns, por uma familiaridade com seu passado religioso, ainda comem essas carnes e, sendo fracos, tendem a contaminarse (8.7). Outros, porém, dotados de “conhecimento”, “saber”, participam sem problemas desses banquetes. Outros tantos, provavelmente, estão confusos e inseguros. É preciso que Paulo encontre uma linha de argumentação satisfatória para todas essas percepções. Ele apresenta-a em raciocínios que partem dos círculos mais afastados do centro (A) – e por isso mais visíveis – para o centro (B) e volta ao mais afastado (A1) para fechar a sua argumentação. A estrutura demonstra com clareza o caráter concêntrico da reflexão paulina. Do bloco B, argumento central de Paulo, a reflexão abre-se em dois círculos (A, A1). No bloco A (capítulos 8 e 9), Paulo afirma que há um “saber”, um “conhecimento” que atesta que, de fato, os ídolos não representam nada no mundo (vv. 1 e 4). Esse “saber” está ciente de que há um só Deus e d´Ele procedem e para Ele convergem todas as coisas. Esse “saber”, adverte Paulo, comporta o risco da soberba ao “não saber como convém” (8.2). É um saber orgulhoso de si mesmo. Além disso, não há esse conhecimento em todos (8.7). É verdade, diz Paulo, que comer ou não comer não nos torna mais ou menos agradáveis a Deus. Há, portanto, espaço para a liberdade de consciência. Contudo, esse saber pode converter-se em “pedra de tropeço” para outros, pois não se deixa reger pelo critério edificador do amor (8.1).

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Liberdade significa, nessa passagem, a auto-imposição de limites para não escandalizar irmãos fracos (vv. 9, 10, 11, 12). No capítulo 9, Paulo ilustra essa conduta apresentando o seu próprio exemplo de contenção e submissão a tudo e a todos por causa do evangelho. Encerra com a bela imagem do atleta que em tudo se domina para atingir o alvo. No bloco B (10.1-22), Paulo avança então para o cerne de seu argumento. Como tratava de um exemplo concreto, Paulo apresenta um novo exemplo para mostrar a conduta contrária. O povo de Israel gozava da intimidade de povo apreciado e escolhido por Deus. Por intermédio de criativas analogias Paulo diz que eles também tinham um Batismo (10.1-2) e uma Eucaristia (10.3-4), mas isso não foi suficiente para guardá-los da idolatria (10.7-8). Paulo tem aqui em vista tanto a auto-suficiência do saber como a falsa segurança gerada por uma compreensão mágica dos sacramentos. Por isso, quem está em pé deve ficar atento para não cair (v. 12). As tentações existem, são reais e ninguém, nem o povo de Israel tampouco os coríntios, está a salvo. Paulo procura colocar em justa perspectiva a vida cristã. Ela não é um estado adquirido, mas uma promessa de livramento em meio a constantes ameaças e tentações. Deus é fiel e não há sentido em pô-lo à prova (10.9-10, 13). É preciso evitar, fugir da idolatria. Nesse ponto, Paulo apresenta todo o peso de seu argumento. Os cristãos, comunidade de batizados, fazem a experiência regular de uma comunhão com o Senhor da Igreja, fundada na participação eucarística (10.16-17). Paulo reafirma: não se trata de atribuir qualquer existência real aos ídolos das ceias pagãs. Entretanto, segundo Paulo, ocorre nos rituais festivos pagãos uma associação com “daimônios” (v. 20). O imaginário religioso judaico (Lv 17.7, Dt 32.17, Is 65.11, Sl 106.37) e greco-romano atribuía, de forma diversa, poder a forças espirituais intermediárias. Segundo a compreensão greco-romana, essas forças/daimônios (boas e más) compartilhavam a realidade material humana e exerciam governo sobre esse âmbito caído e contaminado. Essas forças podem personificar a natureza ou algo mais abstrato, como destino ou sorte (FOULKES, pp. 268-9; LANG, pp. 128-89). Nesse arranjo cósmico não há garantias de ordem ou de bondade nos desígnios. A magia, a astrologia e os cultos de mistérios prometiam formas de controlar as contingências e de transcender o caos e os determinismos. Na compreensão de Paulo, os “daimônios” são seres espirituais inferiores e subordinados a Deus (4.9) e aos seres humanos (6.3, 8.5, 8.35-9). Assim, a idolatria significa que o ser humano concede poder a forças subordinadas e más. O ser humano atenta contra a própria dignidade de sua natureza e contra Deus (FOULKES, pp. 266, 268-70; LANG, pp. 128-9). Daí a força com que Paulo insiste que não é possível associar-se com “daimônios” (v. 20). Não é possível, portanto, partilhar o cálice e a mesa do Senhor e o cálice e a mesa dos “daimônios” (v. 21). Essa participação concede-lhes poder, pois é sinal de que as velhas lealdades socioeconômicas

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não foram rompidas e, permanecendo esse cordão umbilical, há intercâmbio ideológico (FOULKES, pp. 272-3). No bloco “A1”, Paulo retoma os argumentos do bloco “A” de forma resumida e acentuada por meio de afirmações fortes. Paulo afirma de saída que todas as coisas são lícitas (10.23). Portanto, é possível comer de tudo o que se encontra no mercado e tudo o que for oferecido em uma refeição pagã (10.25-27). Então vale toda a liberdade. Contudo, nem tudo o que é lícito edifica a comunidade. Vale, então, um outro raciocínio: se for informado da procedência ritual da carne, deve-se evitar comê-la para que não ocorra que se escandalizem judeus, gentios, em suma, a “igreja de Deus”. O critério, segundo Paulo, é abandonar o interesse próprio em função do interesse do outro (10.24). Paulo encerra com um exemplo de conduta pessoal (10.33-11.1). Como ademais em toda a carta, no bloco 8-11 os problemas subjacentes aos argumentos de Paulo só se explicam plenamente se levarmos em consideração as tensões sociais presentes na comunidade. O tema do alimento sacrificado e as refeições cúlticas nos templos pagãos ou convites particulares refletem claramente a estratificação social da comunidade (THEISEN, pp. 159-61; MEEKS, p. 154; ELLIOT, pp. 268-71.). Os “fortes” (1 Co 1.27, 4.10, 10.22), os que têm “conhecimento” são bem situados social e economicamente. Eles têm acesso regular a ofertas de carne e não têm problemas com isso. Têm uma vida social movimentada: por inserção social tomam parte nas festividades públicas nos templos, são convidados para banquetes particulares, podem comprar tudo o que precisam no mercado etc. Os que são social e economicamente menos favorecidos não tinham tantas possibilidades a seu alcance e as ofertas eram raras, como nos períodos de celebrações cultuais em que havia distribuição pública de carne consagrada (ELLIOT, pp. 269-70; DREHER, pp. 171-2; THEISSEN, pp. 137-9.). Paulo então se dirige aos “fortes”, “sábios”, “bem situados”. Sua argumentação é complexa e parece oscilar entre a liberdade responsável e a proibição. O que para Paulo talvez esteja claro é que para os “bem situados” a participação nessas ceias sacrificiais ou a obrigação social de atender a convites para banquetes eram “formas de comunicação” necessárias. A restrição absoluta imporia impedimentos à comunicação, gerando problemas de convivência com a antiga sociedade. Paulo não pretende desestimular esse “intercâmbio social”, animando formas de separatismo e enquistamento. Assim, Paulo considera parcialmente a atitude “dessacralizadora” desses “bem situados” – uma espécie de secularismo pragmático a serviço da necessária navegação social (cf. THEISSEN, pp. 143-5, THEISSEN apud ELLIOT, p. 271) –, pois, de fato, era possível concordar teologicamente com isso: só Deus é Deus, os ídolos não são nada no mundo e a comida é indiferente para a salvação. Ele endereça seus argumentos aos “fortes” e argumenta a partir de sua compreensão “dessacralizadora” do cosmos. É importante dizer, en-

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tretanto, que Paulo não vê os conflitos da perspectiva deles. À perspectiva “de cima” (1 Co 7.1), dos “fortes”, Paulo contrapõe a perspectiva “de baixo”, dos “fracos” (1 Co 1.11, 11.18 [THEISSEN, pp. 145-6, 162]). Paulo quer, a todo custo, evitar a abordagem da ideologia da “elite coríntia” no campo especulativo. Assim ele afirma, em princípio, a perspectiva dos “fortes” para renunciá-la na prática. Em cada caso, Paulo “circunscreve a validade teórica” do “conhecimento” dos “fortes” dentro das “constrições práticas da vida comum” (ELLIOT, pp. 271-2). O que de início soa como qualificação de princípio resulta, efetivamente, em restrição da liberdade, submetendo-a a critérios muito claros. A parênese paulina nesse caso não está baseada no estabelecimento de limites externos artificiais, mas na coesão interna a partir de uma conduta derivada de um fundamento e uma lealdade mais profundos (MEEKS, p. 157). Passemos, então, à análise desse fundamento, cujo “núcleo duro” são os vv. 16-17 do capítulo 10, o texto previsto para a quinta-feira santa.

3 “A koinonia do corpo de Cristo” – Interpretando Nos vv. 16 a 17 do capítulo 10, Paulo tece, com concisão impressionante, o cerne de seu argumento. No v. 16, Paulo, invertendo a ordem usual da ceia e valendo-se do linguajar da ceia pascal judaica, pergunta se o cálice da bênção – o terceiro cálice de vinho sobre o qual se proferia, na ceia judaica, a ação de graças pelas bênçãos recebidas – não é efetivamente koinonia (comunhão) do sangue de Cristo e se o pão partido não é efetivamente koinonia do corpo de Cristo. A pergunta é retórica, pois a intenção de Paulo é, pela pergunta, lembrá-los que, na ceia eucarística, os atos paralelos de comer e beber têm um efeito unitário: a koinonia do corpo e sangue de Cristo e o que tudo isso implica na compreensão paulina (ser crucificado com Cristo, morto, ressuscitado e viver “em” e “por” Ele). Essa experiência da mais íntima koinonia com Cristo é participação (LANG, p. 127, CONZELMANN, p. 171, ELLIOT, p. 281). Na participação eucarística, somos unidos a Cristo e somos, assim, “conformados” com Ele na sua morte e ressurreição (Fp 3.10, Rm 8.29, Gl 4.19). Theissen define essa imagem do “corpo de Cristo” como “cristologia participacionista” e afirma que ela tem grande alcance operacional em contextos de marcadas diferenças sociais (THEISSEN, pp. 175, 177-8). A idéia de participação no corpo de Cristo tem também desdobramentos eclesiológicos inegáveis em Paulo. A unidade com Cristo serve à unidade do “corpo de Cristo”. Portanto, ela não está a serviço da edificação de indivíduos, mas da união de indivíduos para formar o “corpo de Cristo”, a igreja. (CONZELMANN, p. 172). Esse desdobramento eclesiológico (corpo de Cristo) da compreensão da Eucaristia é clara teologia paulina (LANG, p. 128).

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O v. 17 reforça, por outro ângulo, as idéias acima mencionadas. A multiplicidade dos crentes é reduzida pelo efeito unitário do pão (do comer e do beber) a um corpo, a uma comunidade com Cristo. A participação no único pão transforma a multiplicidade e a diversidade em unidade. A unidade é recebida como dádiva por meio da participação sacramental. A unidade não se impõe por uma decisão particular ou por uma coerção moralizante, gerada pela necessidade de delimitação de fronteiras religiosas (DREHER, p. 174). A unidade nasce da comunhão do corpo e do sangue de Cristo. Ela brota de dentro. Ela é dom! Evidentemente, essa coerência interna, a unidade e a igualdade entre os cristãos, também protege as fronteiras de outras participações cúlticas (MEEKS, p. 238). O deslocamento da reflexão é claro. Em sua interpretação, Paulo vai do caráter teológico do sacramento a uma intenção social: uma transformação das relações sociais em que de uma multiplicidade divergente deve surgir uma unidade, uma comunhão de irmãos (MEEKS, p. 237, THEISSEN, p. 165). Simultaneamente, as tensões sociais são situadas dentro do universo simbólico maior da Eucaristia: tornam-se parte de um “drama escatológico” (MEEKS, pp. 236-7, THEISSEN, pp. 163-4). Como diz Theissen (THEISSEN, pp. 165-6; conforme também reflexões mais amplas em MEEKS, pp. 238-9 e ELLIOT, pp. 261-2.), as ações sacramentais são “representações dramáticas de processos sociais”, traduzindo em sua linguagem simbólica o que se deseja que efetivamente ocorra: “o pão que partimos não é comunhão no corpo de Cristo”? Executa-se simbolicamente, na ação performativa da ceia, a integração social: dos muitos surge a unidade. As tensões sociais intra-humanas são representadas e vencidas e sanções são estabelecidas. Ações fisicamente verificáveis tornam-se reais. A comunhão tem, então, respaldo também externo. A comunhão, como diz Schökel, prolonga-se num antes e num depois. Antes porque os meios que proporcionam a comunhão com Cristo supõem comunidade. Para haver comunhão, é preciso haver comunidade, partilha de muitas coisas. A comunhão experimentada na ação sacramental reflui sobre a comunhão comunitária, alargando e aprofundando seu fundamento (FOULKES, p. 265, SCHÖKEL, p. 120). Estabelece-se assim uma tensão entre o ideal da comunhão, representado dramaticamente e vivenciado pelo crente na ação sacramental, e a comunidade que buscava exercitar sua distinção para com o mundo, por um lado, e as estruturas normativas da sociedade que contaminavam ideologicamente a comunhão real da comunidade, por outro (ELLIOT, p. 261). A ação sacramental permite justamente que a experiência do “limiar” (da comunhão íntima do corpo de Cristo como unidade radical) flua para a vida da comunidade (MEEKS, pp. 238-9, ELLIOT, pp. 261-2.). Assim, a partir da unidade batismal e da unidade eucarística estabelecem-se conexões insuspeitáveis: o batismo interliga judeus e gentios, escravos e libertos. A ceia, por sua vez, une pobres e ricos (MEEKS, p. 177, ELLIOT, pp. 261-2). Vale frisar mais uma vez que o critério dessa unidade é o “fraco”.

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Paulo apela para unidade do corpo de Cristo e chama (sentido literal de ekklesia) para que se afastem do consenso autogratificante da polis. O problema da elite de Corinto, dos “fortes”, é não ter reconhecido como suas antigas lealdades são incompatíveis com a nova ordem de coisas inauguradas pela “comunhão do corpo de Cristo”. Eles devem viver como estrangeiros dentro da polis (ELLIOT, pp. 273-4). O corolário da unidade é, portanto, uma radical exclusão de todas as outras conexões religiosas, o que significa que a solidariedade de grupo acarreta fronteiras firmes (MEEKS, p. 237). O compromisso gerado pela participação na Eucaristia não é excludente, mas exclusivista. Todos os demais compromissos e lealdades precisam ser submetidos ao crivo do compromisso determinado pela comunhão eucarística, isto é, precisam ser claramente abandonados ou subordinados ao critério desse último. Essa lealdade radical ao Cristo crucificado subordina o “interesse próprio” ao “interesse do outro, do fraco”, o “saber” ao “amor” e determina o abandono de todas as lealdades que amesquinham a dignidade daqueles que são “conformados” à imagem de Cristo.

4 “Embora muitos, somos um só corpo” – Refletindo Não celebramos sozinhos a Ceia do Senhor. Cantamos algumas vezes: “Não é sozinho que venho ao altar” (HPD 1, 141). A palavra de Deus arranca-nos da solidão para a comunhão. A Eucaristia insere-nos na comunhão, amarra-nos a Cristo e à comunidade. Ao chegarmos à presença de Deus, aproximamo-nos também dos outros. Assim a graça de Deus, que acolhe e aceita, sempre nos alcança na e pela comunhão. Na e pela comunhão somos libertados para a autêntica vida em comunidade. O encontro de todos diante do altar é como uma confissão pública de que sabemos que não somos perfeitos. Nós nos confessamos pecadores e necessitados do perdão. Somente quem confessa fraqueza, quem confessa suas falhas, quem se confessa necessitado é que se abre para a comunhão. As pessoas autosuficientes acham que não precisam dos demais. As pessoas auto-suficientes acham que só os perfeitos podem ter parte na Ceia. A auto-suficiência não cria comunidade. A Eucaristia é a grande “festa da reconciliação”, pois somos presenteados com a nova comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs. Na alegria dessa festa, corremos sempre o risco de transformar essa reconciliação, essa aceitação numa propriedade particular. Os nossos interesses e lealdades anteriores, os “daimônios”, ameaçam a todo momento a koinonia do corpo de Cristo. Em nossas celebrações da Ceia do Senhor, costumamos cantar que “(...) sendo aceitos por Cristo Jesus, (...) saiamos em busca do irmão” (HPD 1, 141). A comunhão que Deus inicia conosco não tem fim. Ela não sossega enquanto não incluir todos. Por isso a verdadeira comunhão é

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missionária e diaconal, pois é próprio da comunhão incluir e servir. A comunhão não é realidade auto-suficiente. Ela é exclusiva, mas jamais excludente. Há um canto de Jaci Maraschin que diz: “O pão da Eucaristia é mais do que pura massa. É feito de alegria e dado a nós de graça” (O povo canta, p. 243). No pão e no vinho comemos mais do que massa e bebida. Ao comungarmos do corpo e do sangue de Cristo, tornamo-nos participantes de algo maior: tornamo-nos cúmplices da promessa de um mundo novo, renascido em Cristo. Os nossos sonhos de um mundo novo (nas formas múltiplas que cada um de nós sonha) são unificados em Cristo e, a partir de Cristo, são redimidos do pecado, que é a marca de cada um dos nossos sonhos e planos humanos e, assumidos por Cristo, tornam-nos cúmplices-participantes da benfazeja conspiração do novo éon, das “coisas novíssimas” (eschaton) que o Senhor está trazendo à luz e realizando em nosso meio.

5 “Fazei tudo para a glória de Deus” – Ação litúrgica Levando em consideração o que foi dito no ponto 1, é preciso preparar a comunidade para essa quinta-feira santa. Esse culto costuma ocorrer à noite. O ambiente noturno favorece essa celebração. É preciso refletir com as pessoas a importância de abrir as portas e o coração para os distantes e afastados nessa noite. Dizer da importância de preparar o ambiente e os corações para receber, acolher. É fundamental preparar o ambiente. Para isso é importante criar um mural com cartazes, fotos, relatos dos trabalhos que estão sendo realizados na comunidade, sobretudo os momentos fortes de solidariedade, de partilha, de diaconia (visitação, acompanhamento de doentes, de enlutados, de deprimidos, solitários, idosos, alcoólicos, apoio concreto a pessoas desempregadas, solidariedade com excluídos etc.). Dessa forma sugere-se que a comunidade ganha sua existência e força à medida que inclui e integra. A prédica pode ser partilhada anteriormente com o grupo que participará dessa preparação e acolhida para que as idéias centrais estejam claras. Desde o século IV, associa-se à quinta-feira santa a idéia da instituição da Eucaristia por Cristo, no que se convencionou chamar de “última ceia”. Desde o século VII, o “lava-pés” (Jo 13) passou a integrar as cerimônias significativas desse dia. Essa cerimônia vem ganhando especial significado nas celebrações ecumênicas da semana santa. Todas essas referências podem enriquecer a celebração dessa quinta-feira. Se a comunidade contar com um grupo de teatro, talvez seja oportuno montar uma breve peça em que a última ceia seja encenada, considerando o relato joanino, no qual o lava-pés esteja integrado. Pessoas, previamente preparadas, poderiam ser convidadas do meio da comunidade para tomar parte no lava-pés. Na representação dessa peça seria recomendável incluir a

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música “Jesus, tu reuniste teus amigos” (O povo canta, p. 261). A peça deveria encerrar com o início da celebração eucarística. A celebração eucarística poderia incluir a música “Semente caiu neste solo” (O povo canta, p. 252).

Bibliografia BERNHARD, Rui. Quinta-feira Santa. 1 Coríntios 10.16-17. KIRST, Nelson. Proclamar Libertação. Auxílios Homiléticos. Vl. VII. São Leopoldo: Sinodal, 1981. pp. 107-12. CONZELMANN, Hans. 1 Corinthians. A Commentary on the first Epistle to the Corinthians. Philadelphia: Fortress Press, 1975. 323 pp. DREHER, M. N. Quinta-feira Santa. 1 Coríntios 10.16-17. In: MALSCHITZKY, H. e WEGNER, U. (Coords.). Proclamar Libertação. Auxílios Homiléticos. Vl. XIII. São Leopoldo: Sinodal, 1987. pp. 171-178. ELLIOT, Neil. Libertando Paulo. A justiça de Deus e a política de Paulo. São Paulo: Paulus, 1997. 355 pp. FOULKES, Irene. Problemas pastorales en Corinto. Comentario exegético-pastoral a 1 Corintios. San Jose: DEI, 1996. 432 pp. LANG, Friedrich. Die Briefe an die Korinther. 2. ed. Göttingen: Vandenhoek & Rupprecht, 1994. 382 pp. (NTD). MEEKS, Wayne A. Os primeiros cristãos urbanos. O mundo social do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulinas, 1992. 327 pp. ALONSO SCHÖKEL, Luis. Meditações bíblicas sobre a Eucaristia. São Paulo: Paulinas, 1988. pp. 110-21. THEISSEN, Gerd. Sociologia da cristandade primitiva. Estudos. São Leopoldo: Sinodal, 1987. 211 pp.

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14 ABR 2006

OSÉIAS 6.1-6 HEBREUS 9.15-17,26b-28

PRÉDICA: JOÃO 19.16-30 Werner Wiese

1 Enfoques de contexto para a compreensão do texto A sexta-feira da Paixão é uma das datas mais marcantes para a caminhada da igreja. Hoje vivemos uma perda gradativa da memória de datas e eventos significativos para a igreja. Tanto mais urge focar o significado da paixão e morte de Jesus Cristo nesse dia. O processo contra Jesus de Nazaré é herança comum da tradição evangélica (Mt – Jo). Por causa da familiaridade com esse processo e os textos que o narram, há o risco de não percebermos mais a peculiaridade inerente ao processo movido contra Jesus. Vida e morte são banalizadas. Destaquemos alguns elementos do processo precedente à morte de Jesus. a – O contexto sociorreligioso e político: a páscoa dos judeus. A páscoa era a festa mais importante do judaísmo. Ela atraía milhares e mais milhares de peregrinos judeus e não-judeus de muitos lugares e países a Jerusalém. Durante a festa da páscoa, Jerusalém, que tinha em torno de 25 a 30 mil habitantes fixos, “hospedava” mais de 100 mil pessoas; alguns intérpretes falam de algumas centenas de milhares de pessoas. O “acúmulo” de pessoas implicava riscos da perda do controle social e de desencadear rebeliões contra o poder público instituído. Por isso qualquer sinal de tumulto era reprimido à força e podia significar a perda da autonomia do povo judeu (Jo 11.47-48). Esse fator de risco determinava em muito o clima da festa de páscoa em Jerusalém. b – As reações às palavras de Jesus no processo movido contra ele: 1) A maneira como Jesus falava “irritou” a liderança religiosa do judaísmo (Jo 18.20-22; 19.6-7) e lhes forneceu as “provas legítimas” para pedir sua condenação (Jo 19.12b, 15b); 2) Pilatos entre dois fogos. Conforme a narrativa joanina, enquanto a liderança judaica empenha-se em eliminar Jesus, Pilatos está propenso a soltá-lo. Ele reconhece a inocência do acusado (Jo 18.29b, 38c; 19.4, 15b) e teme arcar com as conseqüências de sua decisão (Jo 18.29b, 31a; 19.7-8-11). Como “humanista” e “defensor dos direitos humanos” (Eis o homem! – Jo 19.5), Pilatos faz de tudo para absolver Jesus (Jo 19.12a,15b).

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Mas para “salvar sua carreira política”, Pilatos cede à pressão religioso-política judaica (Jo 19.12b, 15, 16). c – A conotação teológica dos acontecimentos. Apesar dos aspectos sociorreligiosos e políticos tramados contra Jesus, o enfoque teológico não pode ser ignorado na leitura do contexto e texto de Jo 19.16-30. O intento de eliminar Jesus não está apenas no final de seu ministério, mas vem de longe, perpassa o evangelho e lhe dá uma conotação que não elimina, mas transcende os aspectos sociorreligiosos e políticos do processo de crucificação de Jesus (Jo 11.47-53; cf. principalmente os vv. 50-52; cf. também Jo 18.32; 3.14).

2 Enfoques exegético-teológicos do texto Das quatro narrativas (Mt, Mc, Lc e Jo) da crucificação e morte de Jesus na cruz, a de João é a “menos dramática” – se assim pudermos dizer. Apesar da atitude desumana e crueldade profunda que a crucificação representava, o evangelista é escasso no uso de palavras que possam despertar nossa compaixão com Jesus e com os outros dois crucificados, um de cada lado de Jesus (v. 18). Tanto mais se deve dar atenção aos detalhes e à conotação que esses recebem no texto. vv. 16-18: A crucificação de Jesus como tal. No texto grego, as palavras “Então, Pilatos o entregou para ser crucificado. Tomaram eles, pois, a Jesus” (19.16-17a) formam o v. 16. Depois que Pilatos investigou as acusações feitas contra Jesus e constatou a inocência desse (Jo 18.29; 19.4), as palavras do v. 16 dão a impressão de que, no fundo, Pilatos não estava nem ali. Embora figurasse como testemunha da inocência de Jesus, em última análise ele não tinha condições de reconhecer a reivindicação absoluta de Deus em Jesus Cristo. Por essa razão também pôde entregar “sem constrangimento” ou, no máximo, pôde “livrar-se” da cumplicidade da morte de Jesus por meio de um gesto público, como “lavar as mãos” (Mt 27.24). Diferente das narrativas dos sinóticos (Mt 27.32; Mc 15.21), conforme João, Jesus mesmo carrega sua cruz até o lugar da crucificação. Com isso provavelmente o evangelista enfatiza dois aspectos teológicos: 1) A pequenez e humildade de Jesus – o Filho sofredor de Deus. Ninguém outro pode assumir essa tarefa em seu lugar. O sentido de sua cruz e morte é diferente de todas as outras cruzes e mortes; sem querer amenizar a dor e a coragem que essas atestam. A morte de cruz que Jesus de Nazaré sofreu tem significado vicário, substituto para o pecado da humanidade. Aqui lembramos de Jo 1.29, 36. E, não por último, indicamos as palavras da instituição da Ceia do Senhor (Mc 14.22-26 e par; veja também 1 Co 1.18ss). 2) O fato de Jesus carregar sua própria cruz é sinal de que sua igreja deve estar preparada para sofrer por causa de seu Senhor (cf. Jo 9.22; 12.42;

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16.2). A escassez de palavras tanto em torno do ato da crucificação de Jesus como dos “outros dois” (allous duo), no v. 18, pode guardar-nos de uma má interpretação da crucificação de Jesus como se essa tivesse uma coloração ideológico-partidária específica. Ao menos sob o viés do evangelista, a causa primária da crucificação não foi uma questão ideológico-política. vv. 19-22: A causa da crucificação. Era bastante comum que a causa da crucificação de uma pessoa ou seu nome constassem na cabeceira da cruz, exposta ao público. Pilatos escreveu a causa da crucificação de Jesus em língua hebraica (dialeto aramaico), latina e grega: “Jesus NAZARENO, O REI DOS JUDEUS”. Hebraico (aramaico) era a língua popular, latim a língua oficial-judicial e o grego a língua comercial. O local da crucificação de Jesus ficava perto da cidade e de uma estrada. Isso fez com que muitos judeus lessem o título afixado no cimo da cruz de Jesus. Conforme a narrativa joanina, isso não era por acaso. Pilatos, querendo ou não – não sabemos se ele quis ser irônico ou sincero –, tornou-se “testemunha da realeza” de Jesus. Mesmo sob o protesto dos principais sacerdotes (v. 21), Pilatos insiste: “O que escrevi escrevi”(v. 22). Aqui se poderia falar do testemunho da realeza universal de Jesus em meio à mais desumana humilhação que pode existir. Seu reino não é deste (ou como os reinos deste) mundo (Jo 18.36; veja também Jo 1.35-39, 45-49). A igreja como povo de Deus faz bem em nunca esquecer essa realidade para que, em seu meio, a disputa pelo poder não se instaure ou sempre de novo seja desmascarada, literalmente, pela palavra da/na cruz. vv. 23-24: Os soldados e as vestes de Jesus. No v. 23a, é retomado o v. 18a, sem, contudo, enfatizar de alguma forma a crucificação em si. Ao contrário, as vestes de Jesus são mais focadas do que ele próprio e sua crucificação. Não seria isso um sinal de banalização da vida e da morte? À primeira vista, pode parecer que sim. Mas, na realidade, o evangelista tem todo o interesse em apontar para o cumprimento da Escritura (v. 24), conforme o Salmo 22.18. No momento em que a injustiça e as atitudes mais desumanas parecem festejar o triunfo, sem que haja alguém que lhes resista, Deus não perdeu definitivamente o controle. Inclusive os carrascos da brutalidade – da crucificação, sem o saber, participam do cumprimento do testemunho bíblico a respeito do Filho de Deus: “Assim, pois, o fizeram os soldados” (v. 24c). vv. 25-27: Mulheres e o “discípulo amado” ao pé da cruz de Cristo. Conforme o testemunho neotestamentário, desde os primórdios até o final do ministério de Jesus são mencionadas mulheres como ouvintes e participantes na sua causa. Às vezes, Jesus as surpreende, e vice-versa. Eis apenas alguns exemplos: Lc 2.36-38; 7-11-15; 7.37ss; 10.38-42; Jo 2.1ss; 4.6ss; 8.1ss; 11.1ss; 19.25-27; 20.1-2; 20.11-18. Em relação às testemunhas ao pé da cruz de Cristo, três aspectos merecem breve destaque: 1) As mulheres. Provavelmente eram quatro. Elas – juntamente com o “discípulo amado” – são o elenco das testemunhas opostas aos quatro soldados incrédulos. 2) Confor-

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me o testemunho do Evangelho segundo João, a mãe de Jesus é testemunha do primeiro e último ato (sinal) de Jesus (Jo 2.4-5; 19.26-27). Esse fato merece ser registrado, não para engrandecer e idolatrar Maria, mas como testemunho animador para muitas mulheres de hoje. 3) Sob a cruz de Jesus Cristo surge a comunhão dos solitários, que se tornam solidários por meio do agir do próprio. Esse gesto de comunhão é determinante para a igreja cristã como corpo unido por Cristo e em Cristo, determinante para entendermos o que confessamos no 3º artigo do Credo Apostólico em relação à comunhão dos santos, e é um elemento inestimável para minorias que crêem em Jesus – talvez minorias ameaçadas. vv. 28-30: A salvação para a humanidade está consumada. Aqui encontramos o auge do evento da cruz ou crucificação de Jesus. Nos versículos em destaque, ocorre três vezes o verbo consumar/cumprir (teleô / teleoô). Esse auge contraria a razão, o sentimento e o ideal humanos. Mas é exatamente nessa contradição ou nesse paradoxo para a lógica humana que está o cerne do agir de Deus em Jesus de Nazaré: “Está consumado”. Esse é o grito do triunfo da fraqueza e autenticidade de Jesus – o Cristo de Deus – contra todos os poderes opostos a Deus e ao ser humano que o possam lançar no vazio, desespero e finalmente na perdição eterna. Destaquemos novamente três aspectos: 1) Jesus Cristo externa sua profunda necessidade humana em meio à obra de Deus: “Tenho sede” (v. 28b). 2) Jesus Cristo completa em obediência a obra de Deus: “Está consumado” (v. 30b). 3) Também na morte Jesus Cristo se rende a Deus: “E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (v. 30c). Dessa forma, ele enfrentou toda tentação, completou toda a obediência a Deus e remiu todo pecado (veja aqui Rm 5.12ss; Fp 2.511). Do acima visto entendem-se as palavras do apóstolo Paulo aos coríntios: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Co 2.2).

3 Sugestão para a prédica Sugestão de tema para a prédica: A crucificação e morte de Jesus entre injustiça humana e agir de Deus. Possíveis subdivisões: a) A causa da crucificação de Jesus (vv. 16-22). É recomendável considerar o contexto do processo contra Jesus, destacar a crucificação como tal e o que a envolveu. Sugere-se fazê-lo em estilo narrativo ou com algum recurso visual. b) O agir de Deus na cruz de Jesus Cristo é o fundamento da comunhão cristã concreta (vv. 23-27). Aqui o texto de Os 6.1-6 pode ser contemplado, tanto no que tange à falsa segurança diante de Deus (vv. 1-5) e principalmente no que se refere ao cerne da vontade de Deus: a misericórdia e conhecimento de Deus (v. 6). c) A morte de Jesus Cristo na cruz como agir salvífico pleno de Deus. Aqui o texto de Hb 9.15-17, 27b-28 pode ser incluído. A conclusão da prédica

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deve ser bem planejada, de modo que ela seja o encaminhamento à celebração da Ceia do Senhor. O texto da prédica é propício, especialmente os vv. 25-27, para destacar a comunhão com o Senhor (Kyrios) e uns com as outras. É importante enfatizar que essa comunhão não é produção de manobra ou monitoria humana, mas é dádiva de Deus. At 2.41-47 também poderia ser contemplado, em algum momento, para focar a experiência da unidade ancorada nos grandes feitos de Deus em Jesus Cristo. Por essa razão, não se deve omitir a relação entre a comunhão (koinônia) e a eucaristia.

4 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor, estamos diante de ti com nossa culpa: buscamos mais a nossa própria honra do que a tua, preocupamo-nos com nosso conforto e nos acomodamos diante das necessidades humanas à nossa porta. Sabemos que nos tornamos culpados diante dos outros, mas não temos a coragem e humildade de confessar concretamente nossa culpa e reparála. Senhor, desperta-nos para nossa tarefa como cristãos e cidadãos em nossa cidade e na tua igreja. Senhor, tem compaixão conosco e ajuda-nos a estender tua compaixão aos outros. Amém. Oração de intercessão: Senhor, trazemos na tua presença as aflições do mundo, rogamos pelas autoridades políticas e eclesiásticas em nosso país para que lhes dês sabedoria para dirigir o que é de sua competência e as guardes do poder que corrompe. Pedimos que consoles os doentes e enlutados, que presenteies a nós todos com a dádiva da comunhão contigo e com as irmãs e irmãos na fé. Senhor, ouve-nos conforme tua vontade. Amém.

Bibliografia JEREMIAS, Joaquim. Jerusalém no tempo de Jesus. Pesquisas de história econômico-social no período neotestamentário. São Paulo: Ed. Paulinas, 1983. MARTINI, R. Romeu. Eucaristia e conflitos comunitários. São Leopoldo: EST & Ed. Sinodal, 2003. PARZARNY, Ulrich. Ein Schrei zerreisst die Welt. Über die sieben Worte Jesu am Kreuz. Gladbeck / Westfalen: Schriftenmissions-Verlag, 1978. SCHNELLER, Udo. Das Evangelium nach Johannes. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament, vol. 4. Leipzig: Evangelische Verlagsanstalt, 2004.

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DOMINGO DA PÁSCOA RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR MARCOS 16.1-8 1 CORÍNTIOS 15.19-28

15 ABR 2006

PRÉDICA: ISAÍAS 25.6-9 Marga Janete Ströher

1 O contexto de Isaías O conjunto do livro profético de Isaías corresponde a três épocas diferentes da história de Israel e seus embates com a dominação estrangeira: a época monárquica (início do séc. VIII e final do séc. VII), a época do exílio babilônico (séc. VI) e a época persa (séc. IV). Pertence, pois, a um círculo profético, com dinâmicas de continuidade e descontinuidade em tempo e espaço, não apenas a um profeta em particular. Formam em sua estrutura três livros diferentes. A profecia de Isaías no livro chamado de Primeiro Isaías (cap.1-39) localiza-se em Jerusalém e demonstra que o profeta tinha proximidade com os círculos de poder e do templo (1.21; 6; 8.16-18; 14.32). Ele, contudo, não está de acordo com as instituições, mas fala a partir das tradições de Israel. Sua ênfase é o resgate da esperança no povo pobre e oprimido. As esperanças isaiânicas transformam o templo, para que esse seja abrigo de pobres (14,32) e supere o davidismo do poder militar por outro da fragilidade das crianças (8,18 e 9,5). Ainda que Isaías saiba ver templo e davidismo de modo positivo, esse valor não reside no que essas instâncias sociais eram, mas do que poderiam vir a ser: lugares sem armas, espaços de crianças (veja o cap. 11).1 A composição literária está encharcada de linguagem simbólica, de metáforas e elementos litúrgicos (cânticos, aclamações, orações, louvor). E alguns conceitos teológicos são fundamentais em todo o livro; esse é convidado a ser lido a partir dessas chaves: a justiça, o direito e a salvação. O conceito de salvação corresponde à salvação política, social e espiritual e é desdobrado em várias outras expressões: libertar, remir, resgatar, fazer escapar.2 E, conforme Severino Croatto, nesse livro aparece desenhada a es-

1 Milton SCHWANTES, Armas não armam tendas de paz, p. 208. 2 Veja José Severino CROATTO, Composição e querigma do livro de Isaías, pp. 49-69.

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DOMINGO DA PÁSCOA

perança na libertação, no retorno e na construção de uma sociedade justa. “O livro de Isaías aponta para a reconstrução da esperança nos momentos mais difíceis da vida do povo. Tal esperança, elaborada genialmente numa linguagem carregada de utopia, tem como meta a salvação, mensagem programaticamente condensada no nome de ‘Isaías’”3 – Javé salva.

2 O texto de Isaías 25.6-9 O texto de Is 25.6-9 faz parte do material de cunho mais litúrgico do bloco dos capítulos 24-27, que tratam da parte do caráter escatológico do Primeiro Isaías (1-39), conhecido como “Apocalipse de Isaías”. Não há consenso sobre a datação histórica desse bloco. A presença de idéias anti-urbanas (25.2,12; 24.10-12; 26.5; 27.10) pode representar uma resistência ao projeto helenista de urbanização, com a introdução de valores e estilos de vida mais identificados com a vida citadina.4 Nesse bloco, evidencia-se a esperança pela intervenção de Deus e pela transformação da realidade de Israel, pela esperança dos oprimidos, pela derrota dos poderosos e pela resposta salvífica de Deus. O texto reflete o período pós-exílico e a esperança pela restauração do povo de Israel, pela possibilidade de reconstruir uma nova vida e pela recuperação da auto-estima. A comunidade presente no texto corresponde às pessoas “que ficaram à margem dos benefícios que o domínio helenístico trouxe para a terra (...) comunidade alternativa, que alimentava a expectativa de um juízo de Deus que pusesse fim a esse abismo que separava o povo do sacerdote, o escravo do seu senhor, a escrava da sua patroa, o comprador do seu devedor, o devedor do seu credor (24.2)”5 . Is 25.6-9 apresenta o banquete escatológico preparado por Deus, em cuja mesa todos os povos terão lugar. Em resposta às lágrimas, ao sofrimento e à pobreza, Deus preparará um banquete com pratos suculentos e vinhos saborosos e enxugará as lágrimas de cada rosto. No mesmo capítulo, há um tributo a Deus como a fortaleza do pobre e do necessitado (25.4), evidenciado na expressão de louvor: “Eis que este é o nosso Deus em quem esperávamos, e ele nos salvará; este é o Senhor, a quem aguardávamos; na sua salvação exultaremos e nos alegraremos!” Ele vai retirar as evidências de morte e sombras de sofrimento de todos os povos e todas as nações (25.8). E atenderá a necessidade, as carências e a fome de seu povo. As chaves de leitura de

3 Veja José Severino CROATTO, Composição e querigma do livro de Isaías, p. 76. 4 Quanto a essa discussão confira Renatus PORATH, 21o Domingos após Pentecostes, pp. 258-259. 5 Renatus PORATH, 21o Domingos após Pentecostes, p. 259.

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Isaías, a partir da justiça, do direito e da salvação, estão concretamente manifestas pela fartura de comida, pelo fim dos sofrimentos, pela superação da morte e pelo consolo de Deus-presente – Deus Emanuel.

3 Releitura de Isaías na perspectiva cristã Isaías é um dos textos do Antigo Testamento mais usados pela tradição cristã. Mais uma vez, é apresentado para uma data cristã importante no cristianismo, com vínculos na tradição de fé judaica, a Páscoa. Faz-se assim uma releitura do texto, que não é uma mera atualização, mas também um exercício de propor outros significados ao texto, de modificar sua interpretação e interagir com o texto num contexto religioso substancialmente diferente daquele para o qual o texto foi escrito. Essa questão precisa ser considerada no momento de refletir sobre esse texto na perspectiva cristã. O que poderia ser destacado no texto é que o mesmo se caracteriza como uma confissão de fé e expressa um louvor que aponta para a ação histórica de Deus na vida de seu povo. Esse é um dos aspectos a serem destacados em relação ao significado do texto à luz da Páscoa cristã. A Páscoa caracterizase como uma reafirmação da fé em Jesus Cristo, um louvor por sua ressurreição e o resgate da esperança do povo. “O banquete, símbolo do reinar de Deus, passou a ser paradigma para o reino da alegria do Messias tanto no judaísmo como no cristianismo.”6 A metáfora do banquete escatológico refere também o banquete e a fartura do povo, tão necessária em tempos de fome e necessidade. Nomear o que necessitamos é um dos primeiros passos para a superação das carências. Uma pergunta reflexiva: Quais são os véus que encobrem o testemunho e a esperança da ressurreição em Cristo Jesus e quais véus encobrem a nossa vinculação com a vida em seu conjunto e com a presença de experiências de ressurreição na vida das pessoas? É uma reflexão provocativa: até que ponto a fé na ressurreição é alimentada e mobiliza para ações de transformação de experiências de morte em experiências de vida, descrença em esperança, carência em fartura, injustiça em justiça, sofrimento em consolo, desgraça em salvação? Ao mesmo tempo em que salientamos a ressurreição de Jesus Cristo, testemunhado no Evangelho de Marcos e em nossa ressurreição, na primeira carta de Paulo à comunidade de Corinto conectamo-nos com a tarefa de já colocar evidências da ressurreição por intermédio de posturas e atitudes éticas e de compromisso com a vida. O éschaton futuro está vinculado ao presente. Assim, Jesus desafia-nos a sair da perplexidade

6 Renatus PORATH, 21o Domingos após Pentecostes, p. 260.

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da transfiguração (Mt 17.1-8 e paral.) para descer e assumir a cruz do testemunho. Em Atos, é apresentado que a vinda de Jesus acontecerá da mesma maneira como subiu (At 1.11), ou seja, de baixo para cima. 3.1 – Possibilidades de trabalhar o texto em culto e estudos Ao trabalhar o texto, destacaríamos as questões de direito, justiça, esperança e a alegria de compartilhar a ressurreição presente e futura. Como possibilidade de trabalhar o texto em pregações e estudos, apontamos dois subsídios, que podem ser utilizados separadamente ou em conjunto e que de forma explícita nomeiam as necessidades e os desejos de bem-estar e vida plena e abençoada: (a) uma música cantada pelos Titãs, Comida e (b) O pão nosso de cada dia na explicação de Martim Lutero, conforme o Catecismo Menor. Refletir, a partir do contexto da comunidade, sobre os sinais de ressurreição a serem colocados no mundo, vinculados com a esperança da ressurreição escatológica prometida por Jesus Cristo. (a) Comida Titãs Bebida é água Comida é pasto Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A gente não quer só comida, A gente quer comida, diversão e arte A gente não quer só comida, A gente quer saída para qualquer parte, A gente não quer só comida, A gente quer bebida, diversão, balé A gente não quer só comida, A gente quer a vida como a vida quer Bebida é água Comida é pasto Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A gente não quer só comer, A gente quer comer e quer fazer amor A gente não quer só comer, A gente quer prazer pra aliviar a dor A gente não quer só dinheiro, A gente quer dinheiro e felicidade A gente não quer só dinheiro, A gente quer inteiro e não pela metade.

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(b) Pai-Nosso Quarto Pedido: O pão nosso de cada dia nos dá hoje. O que significa pão de cada dia? Tudo o que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como, por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões íntegros e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes. 3.2 – Uma oração Páscoa7 Deus, criador do céu e da terra, que és como um pai e uma mãe para todos nós! Nós queremos agradecer porque podemos celebrar mais uma vez a Páscoa em nossa vida e comunidade. Agradecemos porque Jesus veio ao mundo para nos tirar da prática do pecado, que leva à morte, e para nos chamar de volta para o caminho da vida. Agradecemos porque, por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo destruiu os poderes da morte. Ele nos oferece vida em abundância. Perdoa-nos quando celebramos a Páscoa e não nos comprometemos com a ressurreição de Jesus Cristo, nem levamos vida para o nosso mundo, onde há tantos sofrimentos e sinais de morte. Ajuda-nos a ser discípulos e discípulas de Jesus neste mundo. E permite que possamos celebrar a Páscoa com alegria pela vitória da vida sobre a morte. Amém!

Bibliografia SCHWANTES, Milton. Armas não armam tendas de paz: observações sobre Isaías 8,1-4. Estudos de Religião, n. 25, ano XVII, dez 2003, UMESP. pp. 207-214. CROATTO, José Severino. Composição e querigma do livro de Isaías. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, vol./n. 35/36 (2000). pp. 42-76. CROATTO, José Severino. Isaías: A palavra profética e sua releitura hermenêutica. – vol. I: 119 – O profeta da justiça e da fidelidade. Petrópolis, São Paulo, São Leopoldo: Vozes, Metodista, Sinodal. PORATH, Renatus. 21o Domingos após Pentecostes. In: SCHNEIDER, Nélio, DEIFELT, Wanda (Org.). Proclamar Libertação, v. 21. São Leopoldo: Sinodal, 1995. pp. 258-263. Pastoral Popular Luterana, Orações para o seu cotidiano. Palmitos: PPL, 1995.

7 Marga STRÖHER, Páscoa. In: Pastoral Popular Luterana, Orações para o seu cotidiano, p. 64.

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23 ABR 2006

SALMO 148 1 JOÃO 5.1-6

PRÉDICA: JOÃO 20.19-31 Ulrico Sperb

1 Introdução Os quatro evangelhos do Novo Testamento dão um grande destaque à ressurreição de Jesus Cristo. Afinal, esse acontecimento é básico para o surgimento da fé cristã e da igreja cristã. Cada evangelho também relata algum fato que mostra que os próprios discípulos de Jesus tiveram dificuldades em acreditar na ressurreição de seu amado Mestre. No Evangelho de João, temos um exemplo dessa incredulidade (Jo 20.19-31). Vejamos a nossa perícope por partes.

2 Texto No próprio dia da Páscoa vv. 19 e 20: No primeiro dia da semana, ao anoitecer, os discípulos de Jesus reuniram-se de portas trancadas em Jerusalém. É o próprio dia da ressurreição de Jesus, o qual mais tarde será o Dia do Senhor, o nosso domingo, justamente por causa desse acontecimento inédito e que influenciou toda a história da civilização ocidental. As portas trancadas justificavam-se por causa das circunstâncias da crucificação do Mestre. A saudação de Jesus é o desejo normal do shalom, da paz. Ao mostrar seus ferimentos, Jesus comprova ser ele mesmo. A alegria dos discípulos só é compreensível porque Maria Madalena lhes havia contado sobre seu encontro com o Mestre ressuscitado (Jo 20.18). O envio v. 21: No envio missionário conforme o evangelista João, há um paralelismo entre o envio do Filho de Deus e o envio dos discípulos. Esta é a seqüência do envio: Deus enviou o seu Filho Jesus Cristo, o qual, por sua vez, enviou seus discípulos (Jo 17.18). Mateus situou esse evento na Galiléia,

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alguns dias após a ressurreição (Mt 28.16-20). O livro de Atos situa-o em Pentecostes – 40 dias depois da Páscoa (At 1.3-8). A dádiva do Espírito Santo v. 22: Assim como o ser humano passou a ser vivente com o sopro de Deus (Gn 2.7), assim também os discípulos recebem a autoridade de ser enviados de Cristo através do sopro do Espírito Santo. João coloca, dessa forma, o evento pentecostal no dia da Páscoa. O sentido do envio v. 23: A vinda do Messias estava relacionada com o perdão de pecados (Mt 1.21). Da mesma forma, o envio dos discípulos está ligado ao poder de perdoar ou reter pecados. A missão da igreja é libertar as pessoas de tudo o que impede a vida com Deus, ou seja, do pecado. E os discípulos recebem a autoridade de perdoar ou de não perdoar os pecados – à semelhança da autoridade que Deus concedeu a seu Filho. Ver para crer? vv. 24 e 25: A narrativa que segue acontece na semana após a Páscoa (o domingo desse culto que estamos preparando).Tomé quer uma prova científica da ressurreição de Jesus. Com isso se torna porta-voz das gerações que não conviveram com o Jesus histórico, bem como da mentalidade científica atual. É desse acontecimento que provém o dito popular “ver para crer”. Já em passagens anteriores, Tomé é caracterizado como um cético, ou até como pessimista (Jo 11.16 e 14.5). Convenhamos, porém, Tomé representa muito bem a nossa mentalidade. Podemos concordar com ele e certamente também nós levantaríamos nossas dúvidas naquela situação. Será ele um incrédulo ou um realista? Ao mesmo tempo, no entanto, temos que nos colocar ao lado dos outros discípulos que viram Jesus depois da ressurreição. O texto nada fala sobre a reação dos condiscípulos. Mesmo assim, podemos dizer que nós não gostamos quando alguém duvida daquilo que testemunhamos acerca de um acontecimento. Ficamos chateados se não acreditam no que dizemos. Ou crer para ver? vv. 26 a 29: Tomé teve que ver para crer. Jesus convida Tomé a fazer aquilo que havia colocado como desafio para eliminar a sua dúvida: tocar nas chagas de sua crucificação. O texto nem se preocupa em relatar se Tomé tocou de fato nas feridas de Jesus. Mas mostra como esse discípulo se rende a seu Senhor e Deus. A bem-aventurança que Jesus expressa no final do v. 29 abre toda a perspectiva para o futuro da igreja a partir daquela época até hoje: a fé dá a verdadeira visão da vida. As pessoas que crêem no Cristo ressuscitado são felizes. Essa felicidade reside no fato de que vêem a vida

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com os olhos da fé. Aceitar a fé cristã leva a uma melhor visão da vida. Os sinais são muletas para os fracos. A fé autêntica não necessita de milagres. Para nós vale o pedido que um pai fez a Jesus: “Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé” (Mc 9.24). Uma palavra final vv. 30 e 31: A constatação de que Jesus fez muitos sinais (milagres), os quais não foram descritos no Evangelho de João, significa que o autor não tinha em mente mostrar Jesus como “santo milagreiro”. Os (seis) sinais que narrou (mais a ressurreição) visavam identificar o Mestre como o Cristo, o Filho de Deus. Crer nele significa viver a partir dele, ou seja, ter vida de fato.

3 A importância da fé O teólogo alemão Jörg Zink escreve o seguinte: “Sem fé é impossível – Todo ser humano crê em algo, mesmo pensando que nada crê. Não se pode viver somente daquilo que se pode ver e provar. Ninguém pode amar uma pessoa se não quer acreditar nela; porque a outra pessoa não pode provar que suas intenções são sinceras. Ninguém pode planejar ou fazer algo se não quer crer; porque não pode saber o que o futuro trará. “Crer significa confiar – Se alguém crê, isso não quer dizer que afirma coisas absurdas, porque não quer fazer uso de sua razão; que admite coisas inexatas, porque não sabe nada de exato; que sonha com um mundo do além, porque não ama o mundo daqui; ou que permanece com opiniões de ontem, porque não se acerta com o tempo de hoje. Quem crê confia, mesmo onde nada vê. Está certo da sua causa.”

4 Propostas para a pregação e a liturgia Prédica: O texto tem quatro conteúdos: a – O Cristo ressuscitado aparece aos discípulos: a alegria consiste em saber que a morte não tem a última palavra. b – Cristo envia seus discípulos: a missão cristã é reunir as pessoas com Deus. c – O encontro de Cristo com Tomé: a fé cristã traz consigo a visão correta da vida. d – A palavra de conclusão: sinais (milagres) apontam para Cristo e não têm um fim próprio.

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Confissão de pecados: Senhor, nosso Deus e Pai, com humildade te confessamos que nossa fé é pequena, falha, incoerente. Precisamos ver para crer. E há ocasiões em que vemos e nem mesmo assim cremos. Perdoa-nos a falta de fé. Ajuda-nos e aumenta em nós a fé para que creiamos em teu amado Filho Jesus Cristo. Amém. Oração do dia (de coleta): Jesus Cristo, nós te agradecemos pela salvação que tu nos trazes. Nós te pedimos que nos ajudes a desejar ardentemente, como crianças recémnascidas, o genuíno leite espiritual, para que por ele nos seja dado crescimento para salvação (1 Pe 2.2). Amém. As leituras bíblicas: Salmo 148 – É um salmo de louvor que conclama tudo e todos a louvar Deus. Começa no universo, abrange as forças naturais, a natureza, a flora e a fauna, governantes e governados, bem como todas as gerações. 1 João 5.1-6 – Fé e amor são inseparáveis. A fé leva-nos a realizar gestos fraternos de amor. Na prática do amor concretizamos a nossa fé. Fé é a vertical e amor a horizontal na cruz de Cristo e dos cristãos. A oração comunitária: Sugiro que copiem a oração e dividam as pessoas presentes em lados A e B. Essa oração contém os cinco elementos: adoração (vide o salmo do dia), confissão (vide o texto de pregação), agradecimento, intercessão e petição (vide a leitura da epístola do dia). Todos – Deus, em nome de Jesus Cristo e através do Espírito Santo, queremos falar contigo agora. A – Ó Deus, nós te adoramos, porque tu cuidas de nós como um pai bondoso. B – Deus, nós te louvamos, porque tu nos amparas como uma mãe carinhosa. A – Só tu és adorado, pois tu és o único Deus na terra e no universo. B – Tu mereces todo o nosso louvor, pois te preocupas com a nossa vida, com todos os seres e com o andamento de todo o mundo. Todos – Nós te adoramos, louvamos, bendizemos e enaltecemos, ó querido Deus! A – Deus, nós te confessamos que vivemos como crianças desobedientes. B – Ó Deus, nós reconhecemos que a nossa vida e o nosso convívio têm problemas, porque não contamos contigo e nos afastamos de ti. A – Nós te pedimos perdão por tudo o que fizemos de errado e pela nossa falta de fé.

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B – Nós nos arrependemos de todas as dificuldades que criamos por causa do nosso jeito de viver. Todos – Perdoa-nos, Deus, por querer ver para crer e não crer para ver a vida como tu a queres! A – Ó Deus, nós te agradecemos pela vida que nos dás, pelo perdão que nos ofereces, por intermédio de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Salvador. B – Deus, muito obrigado por estares dentro de nós, por meio do Espírito Santo. A – Estamos muito gratos, porque contigo temos uma vida e um convívio muito bons, porque toda a alegria de viver vem de ti. B – A ti dizemos toda a nossa gratidão pela proteção e pelo amparo que nos dás. Todos – Querido Deus, aceita nosso agradecimento por todo amor que recebemos de ti! A – Deus, nós intercedemos por todas as pessoas, com as quais convivemos: cuida bem delas, dá-lhes uma vida correta e saudável. B – Ó Deus, nós te pedimos pelo ambiente em que vivemos: conserva a natureza e dá a tua força e o teu apoio a todas as pessoas que cuidam dela. A – Nós te imploramos por todas as autoridades que dirigem o nosso país: dá-lhes o teu Santo Espírito e afasta delas toda corrupção e dominação. B – Nós te rogamos por todas as pessoas que sofrem: ajuda-as em sua busca por vida digna. Todos – Bondoso Deus, a ti dirigimos a nossa intercessão pela paz e nosso mundo. A – Ó Deus, nós te pedimos por nossa vida: fica conosco para sermos felizes. B – Deus, aceita a nossa petição em nosso favor: precisamos de ti para ter saúde e bem-estar. A – Pedimos por nossa comunidade: aumenta a fé em ti, afasta toda incredulidade, abençoa tudo o que é feito em amor cristão. B – Nós te suplicamos: ajuda-nos em tudo que fazemos de honesto e correto, para que não façamos nada que prejudique a nós e as outras pessoas. Todos – Deus da vida, fortifica a nossa fé e que ela se concretize em nosso amor ao próximo. Tu que te revelaste em Jesus Cristo, concede-nos o teu Espírito Santo, para que reconheçamos o verdadeiro sentido da vida. Que a tua bênção esteja conosco. Amém.

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Bibliografia A perícope de Jo 20.19-31 – toda ou em parte – foi tratada em sete edições de Proclamar Libertação. STRATMANN, Hermann. Das Evangelium nach Johannes. In: NTD. Göttingen: Vandenhoeck & Rupprecht, 1963. ZINK, Jörg & RÖHRICHT, Rainer. A fé dos cristãos. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1971.

3º DOMINGO DA PÁSCOA SALMO 139.1-10,13,17 LUCAS 24.36-49 1 JOÃO 1.1-2.2

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4o DOMINGO DA PÁSCOA

07 MAI 2006

SALMO 23 1 JOÃO 3.1-2

PRÉDICA: JOÃO 10.11-18 Leandro Dentee

1 Cuidados iniciais Pregar sobre textos conhecidos nem sempre é uma tarefa fácil. Já dissemos quase tudo ou já foi base para a pregação tantas vezes, que nos perguntamos: “Será que estou repetindo a mesma prédica?” O texto previsto para este domingo é um texto muito conhecido. Poucas pessoas não o ouviram ao menos uma vez na vida. A perícope indicada é a de Jesus, o bom pastor. Não raras vezes, encontramos quadros que apresentam esse tema. Assim, já existe na memória das pessoas um preconceito em relação ao texto. Isso torna a pregação mais difícil ou mais fácil? O texto requer cuidado também no uso da expressão “eu sou o bom pastor”. Essa expressão refere-se ao pastor Jesus Cristo e não a nós, obreiros e obreiras. Temos muitos “bons pastores” e gostamos de ser chamados assim. Na condição de seres pecadores, gostamos de elogios. Assim, em meio a facilidades e desafios, somos colocados novamente perante o texto de Jesus, o bom pastor.

2 Aspectos pertinentes Antes mesmo de nos determos de forma mais específica na perícope, sugerida como base para a pregação deste quarto domingo após a Páscoa, convém, de forma breve, colocar algumas informações sobre o contexto em que o Evangelho de João foi escrito. Ao lermos o Evangelho de João, podemos perceber uma distância temporal que existe entre o autor do texto e a atuação de Jesus, bem como o espaço histórico que separa a comunidade primitiva e seus conflitos da comunidade joanina. Não podemos afirmar com certeza se João conheceu um ou mais dos evangelhos sinóticos, mas o que é certo é o fato de que ele é conhecedor de uma fonte traditiva retrabalhada. Essa fonte traditiva é composta por algumas palavras e milagres de Jesus e, principalmente, por uma

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história da paixão. As palavras de Jesus nesse evangelho estão aglomeradas sob um tema, formando assim os grandes discursos. Jesus não é apresentado como o rabi que discute sobre leis com as autoridades, nem como profeta que anuncia o início da vinda do reino de Deus. No testemunho joanino, Jesus fala muito mais de sua pessoa. Jesus não questiona o sábado, sobre o que comer ou pureza e impureza, mas fala sobre o seu ir e vir e o que isso trará para o mundo. Também não temos controvérsias sobre a autojustificação, mas sim com os que não acreditam em sua pessoa e no fato de ele ter sido enviado por Deus a este mundo. Ao tomar como exemplo a discussão sobre o sábado, que está no capítulo 9 de João, percebe-se que, ao contrário dos relatos sinóticos, a questão de ser a lei do sábado proveitosa ou não para o ser humano nem é cogitada. Não está ali o importante do texto, mas no poder de Jesus, que é enfatizado. O discurso usado por Jesus como sendo ele o bom pastor, a videira, o pão da vida, a porta, não encontra correlato nos demais evangelhos. Na comunidade joanina, o tema da missão aos gentios não é mais importante, mesmo porque a comunidade já saiu da sinagoga (9.22). A distância é tão grande, que a lei do povo judeu é chamada de “lei de vocês” (8.17). Os judeus, na vivência do evangelista, são os representantes do mundo que não aceita Jesus, que não coloca nele a sua fé. 1 O cenário onde foi escrito o Evangelho de João é composto por diversos grupos. Podemos citar: o mundo – Deus ama o mundo, mas esse não o aceita. A comunidade compreende-se como estranha no mundo; os judeus – expulsaram a comunidade de João da sinagoga; os adeptos de João Batista – seria necessário para eles que a importância de Jesus crescesse em relação à de João; os criptocristãos – com medo de serem expulsos da sinagoga, não confessam a sua fé de forma aberta; os cristãos judeus – escandalizavam-se com a eucaristia e a divindade de Jesus; os cristãos das igrejas apostólicas – embora já tivessem uma cristologia, havia dificuldades com o conceito de preexistência da comunidade joanina.2 Ao pregarmos sobre um texto joanino é importante ter em mente esse pano de fundo. O contexto, que é um fator decisivo, é bem diferente daquele em que surgiram os sinóticos. João possui outros desafios e outras preocupações. Na aproximação com o texto, podemos situá-lo no conjunto dos capítulos 7-10, onde a problemática do poder das autoridades é o tema. As auto-

1 BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testament, 355-366 2 BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado, p. 176-177

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ridades exercem o poder de forma interesseira, deixando o povo viver em um sistema de total opressão. Por causa delas, as autoridades, Jesus está sendo procurado, não por causa das coisas boas que ele faz, mas pelo fato de estar blasfemando contra Deus e se fazendo de Deus (10.33). O texto específico de Jo 10.11-18 encontrava-se, originalmente, em outro lugar. A crítica literária ajuda-nos a compreendê-lo. O capítulo 9 termina com a cura da cegueira espiritual. Lendo o evangelho, podemos perfeitamente perceber que não há uma seqüência compreensível entre o fim do capítulo 9 e o início do capítulo 10. Assim podemos afirmar que originalmente o fim do capítulo 9 seriam os versos de 10.19-21. O texto de Jo 10.22 coloca-nos um novo quadro e, a partir desse, podemos entender o discurso de Jo 10.11-18. A situação colocada é que os judeus querem uma explicação pública sobre o fato de Jesus ser o messias ou não. O discurso de Jesus, o bom pastor, encontra seu lugar após Jo 10.22. O mesmo acontece com o texto de Jo 10.1-5. Bultmann afirma que não existe na perícope de Jo 10.1-18 uma unidade interna. O que acontece é uma união em torno da metáfora do pastor. O exegeta alemão coloca Jo 10.11-13 como o início do discurso de revelação e faz a seguinte seqüência do capítulo como sendo a original do capítulo 10 de João: 22-26; 11-13; 1-10; 14-18; 27-39 Proponho que cada um faça a leitura do capítulo 10, assim com Bultmann propõe. Essa leitura, seguindo a sugestão de seqüência acima, é um ótimo exercício para compreender o contexto em que se dá o discurso do bom pastor. O exegeta recorre às fontes: 10.11-13; 1-5; 8; 10; 14-15a; 2730, acreditando que nessas fontes nós podemos encontrar elementos elucidativos do evangelista e sobre ele, bem como dos redatores posteriores. Assim, cita os vv. 13 e 15 como exemplo.3

3 Reflexão O texto em questão possui inúmeros aspectos que merecem atenção especial. Toda a ênfase na questão relacionada à autoridade por si só já é um tema grandioso. Pode-se enveredar por esse caminho seguindo uma análise histórica da questão da autoridade e como Jesus a tratou. Qual a postura frente à autoridade? O texto deixa-nos pistas. É importante, nessa opção, a explicação sobre a autoridade do templo. A opressão religiosa imposta à

3 SCHOENBORN, Ulrich in: Horen und fragen. P. 192-193

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população naquela época é fundamental para entendermos a relação de Jesus com a autoridade. A figura de Jesus como o bom pastor é conhecida e o texto também. A cada leitura, mesmo de um texto conhecido como é o nosso, algo “novo” chama a nossa atenção. Na leitura realizada, palavras dos vv. 14 e 15 revelaram algo que pode ser muito importante para uma pregação nos dias de hoje. A partir desse aspecto, apresentamos a sugestão para a confecção de uma mensagem. “Eu sou o bom pastor. Assim como o Pai me conhece, e eu conheço o Pai, assim também conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. E eu estou pronto para morrer com elas.” (vv. 14-15). A prédica poderia considerar a relação com o bom pastor como um caminho de duas “vias”, o que nem sempre é lembrado. Uma é a via do bom pastor para com o seu rebanho, e outra é a via das ovelhas para com o seu pastor. Vejamos as duas: a) Jesus como o bom pastor e a sua relação com as ovelhas. A perícope coloca-nos de forma clara que Jesus não apenas é um pastor, mas um bom pastor. Diferente do empregado, Jesus não foge quando há uma dificuldade; pelo contrário, está até mesmo pronto para dar a vida em prol de seu rebanho. Com certeza, esse discurso já ouvimos em algum momento de nossas vidas e da mesma forma dele nos utilizamos em nosso ministério. Fácil é sua compreensão e algo confortante. É muito bom saber que alguém está conosco, mesmo que estejamos em dificuldades. Podemos permanecer nesse aspecto e refletir o texto de forma poimênica. Esse é o evangelho. b) A relação das ovelhas para com o seu pastor. As ovelhas conhecem o seu pastor. Em uma realidade rural, isso pode ser demonstrado a partir da prática buscando inúmeros exemplos do dia-a-dia de um agricultor. O rebanho conhece o seu pastor. No centro urbano, não podemos utilizar o exemplo do rebanho, mas o mesmo serve para animais de estimação, como os cães. Eles conhecem o seu pastor. Permanecendo na metáfora do pastor e seu rebanho, o texto diz que Jesus é o pastor e nós somos as ovelhas de seu rebanho. O mesmo acontece com a leitura bíblica do Salmo 23. A pergunta que agora se coloca é se nós somos capazes, em meio aos sons da terra como nos diz o hino, de reconhecer a voz do nosso pastor. Que ele deu sua vida por nós e cuida de nós é pacífico. E nós? Reconhecemos a sua voz? O conhecer que João expressa não é um conhecer intelectual. Trata-se de um conhecer muito mais profundo. É um conhecer em que Deus e o ser humano se encontram, e assim homens e mulheres transformam-se segundo a vontade de Deus. Reconhecer a voz do nosso pastor Jesus é “um transformar-se”. Ser do rebanho é reconhecer a voz e transformar-se, pois reconhecendo a voz acontece a identificação e, a partir desse identificar-se, a transformação.

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Nesse ponto estão a “dificuldade” e o aspecto do texto que nos tira das pastagens verdejantes. É fácil ser guiado e protegido por Jesus, mas como é difícil reconhecer a sua voz. Seguir outras vozes é uma alternativa. No entanto, reconhecer a voz do bom pastor exige uma postura diferenciada, postura essa que nos identifica como pertencentes a esse rebanho e não a outro. Somos cristãos sentados de forma ordeira em uma igreja ou ainda de forma respeitosa em um grupo da comunidade. Nesses momentos, reconhecemos e confessamos a voz que nos guia. Quando, porém, do lado de fora do templo, não raras vezes esquecemos o que nos diz a voz do nosso bom pastor. Enfim, olhando para a nossa realidade, podemos afirmar com total certeza que somos um rebanho que não reconhece a voz do seu pastor. O maior país católico do mundo, maioria absoluta de cristãos, já que até os espíritas assim se denominam, por outro lado é um dos países mais injustos do mundo. A voz do pastor passa longe de nossos ouvidos...

4 Algumas sugestões práticas para a mensagem 4.1 – Mensagem dialogada – Introdução: texto conhecido – Leitura do texto – Imaginar a situação – O que nos chamou a atenção no texto? – Momento de partilha das impressões – Caso tenha chamado a atenção de alguém “e elas conhecem a minha voz”, destacar. Caso esse aspecto não tenha surgido, buscá-lo a partir do texto. – Perguntar ou dar pistas sobre o que significa ouvir hoje a voz de Jesus? – Partilha – culminando com uma sugestão prática: uma ação da comunidade como um gesto de “ouvir a voz”. 4.2 – Outra possibilidade seria colocar pessoas conhecidas de tal forma no templo que não fossem vistas pelas demais. Durante o comentário sobre “elas conhecem a minha voz” pedir a essas pessoas para lerem um texto e ver a reação dos demais. Reconhecem a voz? Não ouvimos Cristo hoje de viva voz, somente podemos ouvi-lo a partir de outra pessoa. Seria possível também alterar frases de Jesus, como, por exemplo, “Eu vim para que algumas pessoas tenham vida em abundância” ou “Bem-aventurados os orgulhosos porque receberão o que Deus tem prometido” e então perguntar se podem ser reconhecidas como palavras de Jesus Cristo.

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4.3 – Uma alternativa seria gravar vozes conhecidas nossas do dia-adia, como, por exemplo, falas do presidente da República, apresentadores de TV, comentaristas. Como é com a voz de Cristo? Como a reconhecemos? Somente por intermédio do agir da fé!

5 Alguns subsídios litúrgicos Invocação: Celebramos em nome de Deus, que enche nossos olhos com sua obra criadora, que com sua palavra nos faz reconhecer sua voz e vontade e que com seu sopro de vida nos anima a viver a cada dia. Amém. Confissão de pecados: Deus de bondade e misericórdia! Chegamos humildemente a tua presença com nossas falhas para te pedir perdão. Perdoa-nos porque pecamos ao fechar nossos ouvidos à tua voz, não querendo ouvir teu chamado e reconhecer tua vontade. Perdoa-nos porque muitas vezes abrimos nossos ouvidos a vozes que se opõem ao evangelho de vida e justiça para todas as pessoas. Carecemos do teu perdão porque agimos de forma egoísta e injusta, buscamos apenas nosso bem-estar e prosperidade, esquecendo de olhar ao redor para tua criação e tuas criaturas. Por tudo isso pedimos: Perdão, Senhor! Absolvição: Apesar de tantas vezes fecharmos nossos ouvidos à vontade de Deus, Ele, por meio de seu amor, ainda nos tem como filhos e filhas. Em 1 Jo 3.1 lemos: “Vejam como é grande o amor do Pai por nós! O seu amor é tão grande, que somos chamados de filhos de Deus e somos, de fato, seus filhos”. Esse amor permite-nos confiar que diante de nosso arrependimento sincero Deus nos oferece perdão e vida nova. Outra possibilidade seria cantarmos este versículo: “Vejam que grande amor nos tem concedido o nosso Pai, de sermos chamados filhos de Deus” (duas vezes). Oração do dia: Deus Todo-Poderoso, tu que falaste, no decorrer da história, por intermédio de profetas e pessoas simples, nós te pedimos: Derrama sobre nós teu Santo Espírito, a fim de que possamos ouvir tua palavra e reconhecer nela a tua voz. Dá-nos clareza e ensinamento para seguir tua voz em meio ao mundo onde tantas vozes tentam nos afastar de teus verdadeiros caminhos. Por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo que junto a ti vivem e reinam, de eternidade a eternidade. Amém.

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Bibliografia BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1984. SCHOENBORN, Ulrich. In: FALKENROTH, Arnold e HELD, Heinz Joachim. Hören und fragen. Predigthilfe. Bd. 1 Erste Evangelienreihe. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1978. BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testaments. 9. ed. Tübingen: Mohr, 1984.

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5o DOMINGO DA PÁSCOA

14 MAI 2006

SALMO 22.25-31 1 JOÃO 3.8-24

PRÉDICA: JOÃO 15.1-8 Sisi Blind “Eu sou a videira, vocês são os ramos. Quem está em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem mim, vocês não podem fazer nada”. (Jo 15.5)

1 Ligação com a corrente da vida O evangelista João traz nos seus relatos mensagens que contemplam a experiência e a vivência da fé por meio dos símbolos que falam da concreticidade do cotidiano. Isso torna-o, por vezes, mais abstrato e contemplativo. Porém não desmerece seu conteúdo. Pelo contrário, ele nos traz a possibilidade e a abertura para a reflexão de nossos processos de vida, que são interligados na corrente do propósito de Deus. O Evangelho de João convida-nos, nos capítulos 14-17, a refletir sobre a ligação com a corrente da vida, manifestada em Cristo Jesus. Essa ligação é manifestada na forma de como Deus apresenta sua relação com seu filho. Ele vem de Deus e a ele retornará. O elo dessa corrente de vida não é desvinculado. Ele contém a ligação que se manifesta como início, meio e fim. A comunidade cristã está ligada à corrente da vida de Jesus. Não é uma instituição com início, meio e fim em si mesma. Ela constitui um vínculo com Jesus e estabelece-se no vínculo de continuidade comunitária. São elos que sempre estão entrelaçados. Seja no seu vínculo de sentido, seja no seu vínculo de compromisso. Essa ligação não objetiva simplesmente um fim em si mesmo, mas se estende a toda a comunidade. Fica, portanto, claro o propósito dessa corrente: mostrar que o amor de Deus tem vínculo contínuo e é composto de fases concretas e contínuas. A revelação de Deus não-estática tem a dinamicidade da vida. Essa característica é manifestada com muita clareza no texto de João 15.1-8.

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2 A videira: uma corrente de vida A imagem da videira ressalta ainda mais essa corrente. Se pensarmos no fluxo natural de uma videira, percebemos que ela só se completa se considerarmos o conjunto. O completo aqui mostra-nos essa característica da dinamicidade. Nunca está pronto. Sempre se está em processo. Ser comunidade de Cristo é assim: sempre estar pronto e disposto a viver os processos. A videira cumpre suas estações na dinamicidade de estar completando e estar se preparando para continuar o ciclo. É uma corrente de vida, cujo fluxo é contínuo. Nesse processo, é preciso cortar, limpar para constituir a força para a continuidade. Quando Jesus diz, eu sou a videira, eu sou a videira verdadeira, então essa imagem expressa que aquelas pessoas que estão ligadas a ele têm a plenitude da energia da vida. Elas são alimentadas pelo centro da videira, ou seja, pelo próprio Cristo. Ele é a força do amor, da luz, da água, da sabedoria. O ramo é alimentado pela força vital da videira. Essa alimentação é corrente, no sentido de correr, de fluir. Somente nessa continuidade que a energia e o vigor podem chegar aos extremos dos ramos e assim possibilitar a condição para o fruto. Essa imagem da videira é intensamente feminina e também masculina. O vínculo do ramo com o tronco é feito através da circulação da força que alimenta, que dá característica, que nutre e que faz produzir frutos. Assim é a fecundação. O novo ser gerado recebe os genes masculinos e femininos. A força hereditária torna-se corrente e se desenvolve no novo ser, fruto do elo que se formou. Na gestação se dá a continuidade da fecundação. Agora o processo é exclusivamente feminino. É o aconchego do útero, que permite o desenvolvimento. A criança é alimentada pelo sangue da mãe. É sangue que circula, que dá força, que faz crescer, que constitui a estrutura do desenvolvimento. Assim como o ramo é alimentado pela seiva vital da videira, a criança é alimentada pelo sangue da mãe. A corrente de vida que se estabelece na gestação não tem como fim a própria gestação, mas a geração de um novo ser. O ramo que se liga à videira não tem como fim em si estar ligado à videira, mas objetiva a produção de frutos. Os frutos não objetivam alimentar a videira, mas são produzidos para alimentar outros. Não é a videira que usufrui de suas uvas. Suas uvas são experimentadas e degustadas por uma comunidade externa. Os frutos não são propriedade da videira. Ela os produz para cumprir sua tarefa de existência. Assim, podemos dizer também que os filhos não são propriedade de suas mães e pais. Eles fazem parte da tarefa da existência dos homens e mulheres. A gestação não tem como fim a maternidade apenas, mas a existência da própria criação de Deus.

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Eis uma questão, como mães, difícil de administrar. Nossos filhos não são nossos, assim como não são para nós. Eles são dádiva de Deus e fazem parte de sua criação. Eles não nos pertencem, mas fazem parte de um todo, de um conjunto, que visa à complementaridade. Esse é o caminho de Deus. É o caminho do desprendimento, o de fazer passar por si, para chegar a seu objetivo maior. O desprendimento, no entanto, não é desvínculo. A seiva vital é elo de relação. Tem o vínculo de partida e de chegada. Os elos de uma corrente só formam a corrente quando estão entrelaçados entre si. Nossos filhos não são propriedade nossa, mas fazem parte de nossa história. Nossa responsabilidade é fazer com que eles vivam a liberdade de ser também os ramos da videira. Não somos nós, como seres humanos, a medida e o objetivo final de todas as coisas. Antes somos parte de um organismo maior, cuja função é relacionar-se com o todo e permanecer unido à corrente da vida. Essa unidade orgânica só experimenta a verdadeira força da seiva se permanecer vinculada ao tronco maior, que é Jesus Cristo. Fazer parte da videira, da comunidade de discípulos e discípulas de Cristo, é entender que nossa missão faz parte de um conjunto maior. Nossas forças não dependem de nós, e também não são constituídas para nós. Mas como parte desse processo permanecemos ligados.

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6o DOMINGO DA PÁSCOA

21 MAI 2006

SALMO 28 1 JOÃO 4.1-11

PRÉDICA: JOÃO 4.1-11 Arteno Ilson Spellmeier

1 Informações exegéticas e reflexões teológicas * Qual era a situação da(s) comunidade(s) a que João se dirige e que servem como pano de fundo para a interpretação das palavras de Jesus por parte do evangelista João? A expulsão da sinagoga, como local de culto, de proteção e de identidade, está determinando a vida dessa(s) comunidade(s). Entre 80 e 94 d.C., o sinédrio judaico acrescenta às 18 bênçãos, à oração do dia, uma maldição contra os cristãos que afirmavam que Jesus Cristo era o messias. “A repercussão dessa decisão foi terrível para os cristãos. Paulatinamente, eles foram expulsos de todas as sinagogas em todos os países. A partir do momento em que o cristão era expulso da sinagoga, tornava-se ilegal, podia ser denunciado e preso. Até então os cristãos viviam sob o ‘guarda-chuva’ dos judeus. Quando eram expulsos, perdiam o estatuto de judeus. Tornavam-se indivíduos isolados, obrigados a aceitar as leis do império romano, sem os privilégios dos judeus. Podiam ser mortos (16.2), sem receber apoio das autoridades” (COMBLIN segundo N. P. FRIEDRICH, op. cit, p. 143). Com a expulsão da sinagoga, a comunidade cristã não só perdeu a proteção religiosa e política que nela encontrava, mas os(as) cristãos(ãs) individualmente perdiam, quase sempre, o emprego, a proteção profissional e econômica, considerando que, em muitas cidades ao longo do Mediterrâneo, o poder econômico e comercial encontrava-se nas mãos de judeus. A perseguição aos(às) discípulos(as) e a ação do Espírito Santo são descritas com detalhes na continuação do texto em pauta: Jo 15.18ss. “Vocês serão expulsos das casas de oração, e chegará o tempo em que qualquer um que os matar pensará que está fazendo a vontade de Deus” (16.2). * O texto de Jo 15.9-17 faz parte dos assim chamados discursos de despedida de Jesus, que englobam os capítulos 13 a 17. Neles Jesus prepara os seus discípulos para sua morte e ressurreição e para os tempos posteriores, em que eles contarão não mais com ele, mas com o Espírito Santo. Todo esse trecho do evangelho caracteriza-se menos por sua dimensão missionária,

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pois “os de fora” não são considerados, e mais pela preparação para a missão, sendo dirigido exclusivamente aos(às) discípulos(as). É tempo de catequese, que antecede a missão. Na linguagem futebolística: está em foco o espaço do campo de treinamento e do vestiário e não do campo em que acontecerá o jogo principal. Assim como todo treinamento, preparação estratégica e concentração, no entanto, estão em função do jogo principal, assim a preparação dos discípulos está em função não deles mesmos, mas dos de fora, de sua missão no mundo. As palavras de João são dirigidas aos(às) discípulos(as) não somente como indivíduos, mas, acima de tudo, como comunidade. * Há um paralelismo, em todos os casos, uma estreita relação entre os vv. 1 a 8 e 9 a 17 do capítulo 15. Exemplos: a) v. 4 (permanecer na videira) e v. 9 (permanecer no amor de Jesus); b) v. 3 (os discípulos já estão limpos) e v. 14 (eles são amigos de Jesus); c) v. 2 (serão limpos para dar frutos em abundância) e v. 16 (Jesus os escolheu para dar muitos frutos e que eles não estraguem); d) v. 7 (se os discípulos ficarem unidos com ele, receberão tudo o que pedirem) e v. 16b (Jesus os escolheu para que dêem muitos frutos, e tudo o que em nome dele pedirem o Pai lhes dará). Os vv. 9 a 17, base de nossa reflexão, repetem os vv. 1 a 8 de forma meditada, refletida e interpretada. * “ Permanecei no meu amor” é a mensagem central do texto. João não está pensando numa união mística ou esotérica entre Jesus e seus discípulos. O restante do texto não permite essa interpretação, pois ele anima os discípulos a suportarem a tensão entre o pleno amor de Jesus e a perseguição, entre o ser amigo de Jesus e o seu senhorio, entre o futuro sem Jesus e a sua permanência naquilo que ele viveu e ensinou. Permanecer no amor de Cristo é viver na tensão entre esse amor, como comunidade e indivíduos, e as incongruências da vida comunitária e pessoal. O “permanecei no amor” está fundado e baseado na revelação, isto é, no serviço prestado por Jesus. “Seja como for, o amor (nesse contexto) não é pensado como paixão e afeição, mas como o “estar aí” em favor da outra pessoa, “estar aí” que determina totalmente a própria existência” (BULTMANN, op.cit., 25-26). Permanecer no amor de Jesus implica permanecer na prática do amor vivido e exigido por ele e na tensão entre evangelho e lei, os dois pólos que caracterizam a vida da pessoa cristã neste mundo. A graça de Deus é total, mas não é sem conseqüências: Ela exige que adaptemos o nosso viver ao projeto de Deus, a seu reino. A graça e o amor de Deus não têm em vista somente a minha vida, mas todas as vidas e formas de vida, assim como a criação de Deus em sua integralidade.

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* Como entender a afirmação de Jesus: “Se obedecerem aos meus mandamentos, vocês continuarão no meu amor, assim como eu obedeço aos mandamentos do meu Pai e continuo no seu amor”? Viver na graça de Deus e na liberdade do evangelho não significa viver de acordo com as próprias “leis” nem de acordo com as determinações deste mundo, mas de acordo com o projeto maior de Deus, de acordo com os seus ordenamentos. “O meu mandamento é este: Amem uns aos outros, como eu amo vocês” (15.12). No amor a Deus e no amor uns aos outros se resumem todos os mandamentos de Deus. Viver na graça de Deus não significa viver sem nenhum ordenamento, mas simplesmente não viver mais de acordo com as leis e as exigências deste mundo, nem de acordo com as próprias vontades e necessidades. “Se vocês pertencessem ao mundo, o mundo os amaria por vocês serem dele” (15.19). Aquele que “uivar com os lobos” não cai mais em vista; é um deles. * A videira, usada por Jesus como exemplo para explicar a estreita relação entre o tronco e os galhos e a total dependência dos galhos em relação ao tronco, é, no mundo daquele tempo, também símbolo e fonte de alegria pelos frutos que produz, pelo vinho que deles se pode extrair. Uma das promessas de Jesus nesse texto é: se vocês permanecerem no meu amor, se ficarem como galhos da videira, “a alegria de vocês será completa”. A alegria é uma das principais características do reino, também desse que estamos vivendo antecipadamente em meio às contradições. Permanecer em Cristo é permanecer na alegria. “Aí ficarão cheios de alegria, e ninguém poderá tirar essa alegria de vocês” (16.22). É a alegria de saber-se unido à árvore da vida e de sentir-se parte de um projeto que não se esgota com a morte, mas dá sentido a ela. * Por mais unidos e presos que os galhos da videira, em que crescem os frutos, estejam ao tronco, eles jamais serão o tronco, nem podem assumir o papel do tronco. Por mais amigo que Jesus seja dos discípulos (ele deu a vida por eles), eles jamais serão Jesus (15.13). A condição para ser amigo é o cumprimento dos mandamentos (15.14). Na antiga Grécia, o amigo é visto como uma pessoa livre, sabedora das coisas e comprometida com a causa da pessoa de seu relacionamento. O escravo, ao contrário, é aquele que não tem liberdade de entender nem de decidir, que precisa obedecer sem saber os motivos. Em João, ainda é um pouco diferente: mesmo sendo “amigo” dos discípulos, Jesus não deixa de ser “senhor”. Não é uma amizade entre totalmente iguais, pois esse deu sua vida por aqueles, escolheu aqueles e não o contrário. A amizade baseia-se na reciprocidade, mas não na igualdade. A amizade com Jesus compromete com o projeto do reino de Deus. É amizade que não nivela, mas exige obediência, que não é cega e impensada, mas livre e refletida a partir do amor e da liberdade conquistada por Jesus.

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* Jesus escolheu os discípulos e não eles a ele. Será que ele os escolheu no sentido de selecionar, assim como os melhores jogadores são escolhidos para integrar a seleção? Jesus escolheu os discípulos para formarem uma tropa de elite? Eram eles predestinados? Não. Escolher não deve ser entendido no sentido de selecionar. Jesus chamou-os para fora dos aprisionamentos deste mundo, libertou-os das amarras do pecado por meio de sua morte e ressurreição e transformou-os em seus amigos. Todos(as) nós fomos e somos eleitos(as). A incumbência e promessa dadas aos discípulos na convocação também valem para nós: “... fui eu que os escolhi para que vão e dêem muito fruto, e que esses frutos não se estraguem”. * A escolha de Jesus está relacionada às seguintes tarefas: ficar unido a ele, continuar no amor, amar uns aos outros, obedecer aos mandamentos de Deus, dar bons frutos, e às seguintes promessas: as palavras dele continuarão com eles, a alegria será completa, são amigos de Jesus, Deus lhes dará tudo o que pedirem. Fé e amor são uma unidade. Quando optamos em aceitar a amizade de Jesus Cristo, em reconhecê-lo como nosso Senhor e Salvador, não mais podemos optar se vamos amá-lo e ao nosso próximo ou não. O amor é parte intrínseca da dinâmica da fé. Como trabalhamos essa questão em nossa vida pessoal e comunitária? A fé transforma-se numa relação egoísta, totalmente instrumentalizada em prol de nossa própria salvação, se a descolarmos do amor uns aos outros.

2 Pistas para a prédica – Por ser de uma densidade extraordinária, o texto permite tematizar diferentes conteúdos nele contidos e dar inúmeros enfoques à prédica: 1) a relação de amor; 2) amigos de Jesus e não escravos; 3) alegria e sofrimento; 4) as orações serão atendidas... Confiram os diferentes enfoques dados pelos colegas que trabalharam esse texto nos últimos anos em Proclamar Libertação (cf. bibliografia). Por ser sugerido como texto de pregação para o 6º Domingo da Páscoa, em outras séries denominado de Domingo Rogate, quero valorizar o v. 16c: “...Assim o Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome”. – Que tipos de perseguição a cristãos e cristãs existem hoje? A olhos vistos, aparentemente, os cristãos somente são perseguidos em alguns países muçulmanos e comunistas, onde eles, de forma mais explícita ou implícita, divergem da ideologia política ou religiosa dominante. Agora tentem pôr em risco regalias, privilégios e interesses de determinados grupos de nossa sociedade, com argumentos sociais, políticos, econômicos, religiosos

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ou ecológicos, para ver o que é bom para a tosse: correm o risco de sofrer discriminação, ameaças de morte, perseguição social e policial, serão objeto de menosprezo, chacota, desprezo, retaliações, isolamento... Os métodos de perseguição mudam, mas não o fato em si: cada vez em que pessoas e grupos (também de igrejas) sentem-se ameaçados por estar sendo questionados em seus “padrões de vida”, em seus referenciais e tradições jurídicas, legais, religiosas, econômicas, morais, sociais, que são tidas como eternas e imutáveis, há reações. Quando os “padrões deste mundo” são questionados, há reações que vão de ameaças à eliminação pura e simples. É disso que falam os versículos que seguem o texto em pauta (15.18ss). Quando no v. 18 é dito “... Se o mundo odeia vocês, lembrem-se que ele me odiou primeiro”, Jesus não está se referindo ao mundo como a boa e amada criação de Deus, mas a esses “padrões, paradigmas e referenciais deste mundo” a serviço de uns poucos em detrimento da própria criação. Será que os referenciais do reino de Deus sempre se coadunam com os referenciais e padrões deste mundo? – A promessa de Jesus “Assim o Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome” não significa que Deus atenderá todos os nossos pedidos, por mais egoístas e estranhos que eles sejam, mas que ele dará tudo o que necessitamos para ficarmos unidos a ele, para nos mantermos em sua palavra, para nos amarmos uns aos outros... Na promessa de Jesus está inclusa a idéia: assim como os galhos unidos à videira receberão “naturalmente” a seiva que os manterá vivos, assim a união com Deus na oração manterá os(as) discípulos(as) vivos(as) em seu relacionamento com Deus. – Houve épocas em que oração e ação eram tratadas como se fossem antônimos e mutuamente excludentes. Hoje não é mais assim, pois entendemos sob “oração” um processo mais amplo, mais abrangente, não mais restrito a um tipo de atitude, a um espaço e conteúdos prefixados. A oração tem muitas dimensões, facetas e até funções: 1) oração de agradecimento; 2) oração de louvor; 3) oração de intercessão; 4) oração como petição; 5) oração como contemplação; 6) oração como confissão de pecados; 7) oração como confissão de fé; 8) oração como meditação; 9) oração no culto; 10) oração matutina, vespertina; 11) oração a caminho; 12) oração como canal de ligação e diálogo com Deus... Se a oração é uma forma especial de diálogo e conexão com Deus, ela não se deixa prender a formas predeterminadas, rituais únicos e prefixados, nem a horários e lugares sagrados. Deus é quem mantém o canal de diálogo aberto. Essa é uma relação que não podemos manipular nem influenciar com gestos mágicos.

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Ritos, posições, lugares e horários fixos podem ajudar na continuidade e na disciplina da oração, mas não são determinantes para que aconteça diálogo com Deus. O diálogo com Deus é mais do que discurso. Ele acontece em palavras, sentimentos, construção de relacionamentos e ações. Quando fazemos bem o nosso trabalho para que mais pessoas possam ter uma vida digna, estamos conectados com Deus. Quando ajudamos pessoas a descobrirem que Deus as ama, estamos conectados com Deus. Quando nos engajamos em nossa vida do dia-a-dia para que a natureza seja menos destruída, quando protestamos contra todas as formas de opressão, estamos “conectados” a Deus, estamos em “oração”.

3 Diferentes possibilidades de abordagem 1. No culto, simplesmente pregar sobre v. 16c (“... Assim o Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome”), tendo como contexto e base de interpretação o texto de Jo 15.9-17. 2. Estruturar todo o culto a partir do v. 16c (“... Assim o Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome”), relacionando essa promessa de Jesus com o texto todo e com a situação de vida atual da comunidade, falando sobre as diferentes formas de oração, destacando cada uma delas no decorrer da liturgia: adoração, confissão de pecados, confissão de fé, oração da igreja, intercessão..., intercalando hinos, orações, momentos de silêncio. O centro do culto pode ser a oração como forma de diálogo com Deus, como exercício de comunhão. 3. Em “cultos de oração”, caso esses já estiverem sendo praticados na comunidade, os membros, por exemplo, podem escrever em folhetos os pecados que os oprimem, para em seguida trazê-los ao altar para serem queimados, ou relacionar os seus agradecimentos e pedidos de intercessão a Deus a favor da sociedade, comunidade, familiares, doentes, moribundos, para, em seguida, depositá-los ao pé da cruz, no altar, intercalando hinos e silêncios.

4 Subsídios litúrgicos Confissão de pecados: Senhor, bondoso Pai, temos muitas dificuldades em entender teus caminhos e tua vontade para com todos(as) nós. Adoramos-te como nosso Pai e Deus e sempre de novo nos flagramos em tentativas de te manipular, de te moldar de acordo com os nossos interesses e nossa vontade, de crer em ti sem nenhum compromisso com o nosso próximo e com o todo de tua criação. Agradecemos-te por assim mesmo continu-

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ares a apostar em nós e pedimos: dá um tranco em nós e perdoa-nos. Pedimos também por teu perdão, Senhor, quando permitimos, por medo ou comodidade, que os referenciais e padrões deste mundo determinem a nossa vida na igreja, sociedade, economia, política... Pedimos: dá-nos um tranco e sabedoria para não confundir os referenciais de teu reino e os deste mundo. Tem piedade de nós, Senhor! Oração da coleta: Agradecemos-te, Senhor, por poder ficar unidos a ti, como os galhos ao tronco da videira. Agradecemos-te por só precisar fazer aquilo para o que nos criaste: produzir bons frutos. Pedimos por tua amizade. Pedimos que nos ensines a amar uns aos outros. Por Jesus Cristo, teu filho amado, que por nós morreu e ressuscitou. Amém! Oração de intercessão: Agradecemos-te por podermos falar contigo em oração, por termos a tua promessa de que atenderás nossa oração e que por meio dela estamos conectados(as) contigo. Mesmo quando erramos feio, tu manténs o canal de diálogo aberto. Obrigado! Agradecemos-te por tua amizade e por poder amar uns aos outros. Obrigado! Agradecemos e pedimos por nossas famílias. Agradecemos e pedimos por nossa comunidade e por nossa igreja. Agradecemos e pedimos por nosso país. Pedimos pelas pessoas que estão doentes, sofrendo e morrendo, e agradecemos por continuares conectado com elas. Pedimos pelas pessoas que vivem no abandono, na miséria e na prisão dos vícios e agradecemos-te por nos estares mandando para junto delas. Pedimos por todas as pessoas que têm poder e responsabilidade na sociedade, na política, na igreja, na economia... e agradecemos por também elas poderem viver de acordo com os teus parâmetros e referenciais, tornando-as do nosso mundo passageiras, circunstanciais, modificáveis. Agradecemos-te por podermos agradecer e viver felizes na tua promessa “... Assim o Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome”. Amém! Bênção: Que Deus toque nossos olhos, para que possamos enxergar o sofrimento das outras pessoas e as belezas da sua criação; que toque nossos ouvidos, para que possamos ouvir o grito das pessoas excluídas e o sopro do vento em suas florestas; que toque nossa boca, para que possamos falar do seu amor por tudo o que ele criou e para que, em outros momentos, a mantenhamos fechada para não falar bobagem nem ofender outras pessoas; que toque nossas mãos, para que as usemos para fazer o bem e não para destruir; que toque nossa vida, para que o Espírito Santo possa nos envolver e ela volte a ter o seu sentido original; Senhor, toque o nosso coração e nos permita sentir teu amor, para que possamos amar uns aos outros. [Paráfrase de Livro de Culto, VII 327].

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Bibliografia BRAKEMEIER, Gottfried. Meditação sobre Jo 15.9-17. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Editora Sinodal, Tomo XIV. pp. 374-384, 1988. BULTMANN, Rudolf. Das Evangelium des Johannes. In: Kritisch-exegetischer Kommentar über das Neue Testament. Göttingen, 1964. FRIEDRICH, Nestor Paulo. Meditação sobre Jo 15.9-17. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Editora Sinodal, Tomo XIX. pp. 143-147, 1993. OLIVEIRA, Antonio Monteiro de. Meditação sobre Jo 15.9-17. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Editora Sinodal, Tomo 25. pp. 192-196, 1999.

ASCENSÃO DE NOSSO SENHOR SALMO 110 ATOS 1.1-11 EFÉSIOS 1.16-23

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7o DOMINGO DA PÁSCOA

28 MAI 2006

SALMO 47.1-8 1 JOÃO 4.13-21

PRÉDICA: JOÃO 17.(9-10)11-19 Hanz Alfred Trein

1 O mundo pede passagem Enquanto escrevo, o país está sendo chacoalhado por um dos mais devastadores escândalos de corrupção política. A cada novo dia, mais uma porca enlameada e imunda é fustigada pela aldeia. Acusações são desferidas por acusadores que não temem admitir pública e cinicamente a sua própria corrupção, tudo em nome da própria honra e família, malas de dinheiro são carregadas por deputados pastores da Igreja Universal, Comissões Parlamentares de Inquérito, compostas por colegas que só permanecem isentos até prova em contrário, o partido da ética tornando-se permeável de corrupção a caminho do poder, a mídia se lambuzando, em festa, com toda essa imundície... Enfim, o mundo, com sua face explícita mais perversa, apresentado pelo Evangelho de João como grandeza em oposição a Deus, a tal ponto que Jesus não quer incluí-lo em sua oração sacerdotal. A maioria dos atores nesse mundo declara-se cristã. E agora, o que fazer com a distinção entre discípulos e mundo?

2 Contextualização A oração sacerdotal encerra uma série de falas e procedimentos por meio dos quais Jesus se despede de seus discípulos. Um breve olhar para a moldura de todo o capítulo 17 nos informa: Jesus (preexistente, v. 5) veio do Pai e entrou no mundo (16.28). Foi odiado pelo mundo (15.23, 25), mas venceu o mundo (16.33) e recebeu autoridade sobre todos os seres humanos (v. 2). Aos que Deus lhe confiou (vv. 2,6) Jesus deu o conhecimento de Deus, que é a vida eterna (vv. 2,3) e que o mundo não conheceu (v. 25). Jesus mostrou-lhes quem é Deus, dando-lhes a palavra de Deus (v. 6), que é a verdade (v. 17), que produziu neles conhecimento da relação de unidade e de envio entre Deus e Jesus (v. 8), que o mundo ainda não crê e não conhece (vv. 21, 23). Agora que Jesus já não está mais no mundo (v. 11), ele quer devolver a guarda dos discípulos a Deus, pois esses continuam no mundo

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(vv. 11, 12), foram por ele enviados ao mundo (v. 18), e Jesus não pede para que sejam tirados do mundo (v. 15). Ao mesmo tempo, também pede para receber a mesma glória que ele já tinha com Deus antes de existir o mundo (vv. 1, 5). Jesus cumpriu a missão de separar e preparar aqueles que Deus lhe deu no mundo. A missão continua a cargo desses santificados (v. 19) e dos que vierem a crer depois (vv. 20, 26 – “e ainda farei conhecer”), que vão ser assistidos pelo poderoso Consolador (16.7ss) para que o mundo creia e conheça Deus (vv. 21, 23) e sua palavra encarnada, Jesus. O que aparece condensado nessa oração é, a rigor, um resumo de todo o evangelho. Jesus, a palavra preexistente à criação do mundo por Deus, recebeu uma missão definida de ser e multiplicar a palavra de Deus no mundo. Ele não alcançou a transformação do mundo, mas foi semente, preparou gente para continuar a tarefa, para serem muitos Cristos no mundo, para viverem a mesma unidade que existe entre Deus e Jesus. Eles passarão pelas mesmas dificuldades já sofridas por seu mestre. Estão avisados para não se escandalizar. Depois de considerar a sua tarefa cumprida e pedir que o Pai o glorifique, Jesus passa a focar sua intercessão mais nos seus discípulos e discípulas. O capítulo termina com um bloco que ainda inclui os crentes do futuro. Aqui até mesmo a sua comunidade está mencionada na Bíblia. E não só isso: Jesus está intercedendo por ela.

3 Uma versão para facilitar o entendimento Embora seja indicado suspeitar sempre de traduções que querem facilitar o entendimento de textos que já têm quase 2.000 anos de idade e ainda por cima provêm de uma cultura totalmente diferente, oriental – em geral essas traduções apenas escondem o seu caráter interpretativo mais intenso, pois cada tradução é uma interpretação –, apresento a seguir uma versão de Jörg Zink que é um pouco mais enxuta, pois elimina as repetições: “Agora peço por eles. Não peço pelo mundo, mas sim por aqueles que me deste. Eles pertencem a mim, como tudo o que me pertence é teu e tudo o que é teu é meu. Todo o amor e o poder que nos unem agora são visíveis neles. Não estou mais com eles no mundo. Eles, entretanto, permanecem no mundo, e eu estou vindo para interceder por eles: Pai Santo, conserva-os sob a proteção da tua palavra. Pois para tal recebi a mensagem de ti, de que sejam um, assim como tu e eu somos um. Enquanto eu estava com eles, guardei-os, repassando-lhes a tua palavra e dando-lhes proteção. Ninguém deles se perdeu, exceto aquele um que estava destinado à perdição. Agora, estou vindo perante ti e dizendo tudo isso diante de seus ouvidos, para que a alegria que me completa também encha os seus corações: a alegria de estar junto de ti. Eu lhes dei a tua palavra, e as pessoas a seu redor

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os odiaram, pois nada conseguem extrair de sua vida humana, assim como também nada tenho com isso. Eu não te peço para tirá-los do mundo, mas para guardá-los do mal e de protegê-los de tudo o que for apenas humano. Desvela-lhes a verdade e dá-lhes firmeza e segurança em sua fé. Tua palavra é a verdade, segundo a qual devem viver e na qual devem crer. Quando eu os enviar novamente mundo afora, então experimentarão a mesma coisa que aconteceu comigo: pois também tu me enviaste para dentro do mundo. Se, agora, me santifico por eles, entregando a minha vida, então que seja para que também eles se santifiquem pela verdade e permaneçam protegidos dentro dela” (ZINK, p. 135/6 – tradução própria).

4 Meditando sobre as possibilidades Como um poema, a oração sacerdotal condensa e comporta muitos temas, cada um deles merecedor de no mínimo uma pregação. Recomendo um exercício que também fiz: perguntar o que são e o que fazem os quatro atores principais do capítulo 17 – Deus, Jesus, discípulos, mundo. O exercício conduziu-me às seguintes reflexões: * A intercessão – O mundo moderno teve as suas dificuldades com a oração em geral e com a intercessão em particular. Qual é seu efeito, sua eficiência? Se não puder ser medido, então também não pode ser comprovado. Na pós-modernidade e depois de reconhecimentos da física quântica, admitem-se efeitos e eficiência também fora do âmbito restrito da religião, embora ainda persista a dificuldade de comprovação. Por isso permanecemos no nível testemunhal. Eu mesmo sou um agraciado por intercessão. Saber que meus pais intercedem diariamente por todas as suas famílias filiais, lembrando o meu nome e o de cada outra pessoa, faz-me sentir mais seguro e integrado numa comunhão maior com Deus. Sinto-me carregado e acolhido. Se já é bom saber que alguém intercede pela gente, quanto mais se é Jesus. Jesus faz essa oração pelos seus numa hora difícil para ele. Certamente a oração também consola o orador. Como sabemos, a intercessão carrega-nos pelos trechos mais sombrios da vida, quando estamos doentes e isolados no hospital, emocionalmente frágeis, depressivos, solitários... Restaura a identidade coletiva perdida no processo de urbanização e individualização das sociedades modernas. É tão importante, que alguns grupos neopentecostais descobriram a intercessão como boa fonte de renda. Jesus ora por nós; nós oramos pelos outros. A intercessão reporta-se à unidade que existe entre Deus e Jesus, oportuniza-nos participar dessa unidade e produz unidade entre todos aqueles que são de Deus. Uma prédica poderia desembocar num incremento à prática comunitária da intercessão ao modo de Jesus.

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* Estar no mundo, mas não ser do mundo – O mundo em João é uma categoria que merece uma atenção especial. Se você quiser fazer do “estar no mundo, mas não ser do mundo” o tema principal de sua prédica, recomendo aprofundar o assunto consultando um dicionário de teologia ou, pelo menos, uma concordância. A seguir, dou apenas alguns indicativos. Confesso que tropecei sobre o fato de Jesus excluir o mundo de sua intercessão. Por que Jesus faz isso? O mundo não é digno de sua intercessão? De um lado, o mundo é o palco da vida, o cenário da atuação de Deus, de Jesus e dos discípulos (vv. 12, 13, 15). Em Jo 3.16, somos informados de que “Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu filho...” No v. 21, Jesus pede pela unidade dos discípulos “para que o mundo creia”. Nessas passagens, o mundo é o objeto da ação amorosa e salvadora de Deus. De outro lado, João fala desse mundo em contraposição a um outro projeto de vida: o reino de Deus. No Apocalipse, também de João, não se fala de um outro mundo, mas de um novo mundo, e nele não haverá mais lembranças das coisas passadas. Surgiu-me a pergunta: Afinal, foi o mundo ou o gênero humano que caiu e precisa da redenção? É apenas o gênero humano, reputado na tradição judaico-cristã como coroa da criação, que se desviou em desobediência e precisa de salvação, enquanto o restante da criação permaneceu bom? Então o que é o mundo em oposição a Deus? Se, entretanto, pensarmos que toda a criação de Deus caiu e se corrompeu, então como compreender o mundo pelo qual Jesus não quer interceder? Não pedir pelo mundo pode significar que Jesus não quer que o mundo fique assim como está. Excluindo o mundo de sua intercessão no v. 9, Jesus distingue entre mundo e discípulos. Essa mesma distinção é reafirmada também no v. 16: Jesus não é do mundo (cf. 8.2, onde parece que os fariseus e as autoridades judaicas são), os discípulos também não o são. Nem o próprio Cristo (17.14c, 16b; 14.27), nem os seus (15.19b; 17.14b, 16a; 1 Jo 3.1) pertencem de alguma forma ao mundo. Muito pelo contrário, aquele selecionou esses, (livrando-os) do mundo (15.19c), embora ainda tenham que viver no mundo (17.11b); além disso, o seu reino também não é deste mundo (18.36) e, por isso, Jesus não pretende assumir o poder de Estado. “Se imaginarmos atrás da palavra ‘mundo’ o mundo das pessoas, as relações humanas, a organização social e cultural, o sistema político e econômico, então todos esses versículos fazem sentido... É o mundo do consumo, do medo das tradições religiosas, da comunicação, diante do qual sempre de novo precisamos decidir que uso faremos dele... O cristão é diferente, é “desmundanizado”... A nossa missão é de santidade no meio do mundo” (FUCHS, pp. 156/7). * Unidade dos cristãos – Um pequeno grupo tem que ficar unido, senão é aniquilado, ainda mais com uma mensagem tão distinta do mundo. Entretanto, no contexto também estão os cristãos das gerações posteriores (vv. 20, 26). Hoje, os cristãos estão tentando superar suas divisões no Conselho Mundial de Igrejas. A divisão fundamental e escandalosa é o não-reco-

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nhecimento mútuo do ministério e da sucessão apostólica por católicos, ortodoxos e protestantes. Ela é escandalosa, pois desconsidera a unidade dada – assim como Deus e Jesus são um... – e submete essa unidade dada e gratuita às instituições e ambições humanas... Além disso, é autodestruidora, pois obstaculiza que o mundo creia. Coisas desse mundo! Superada essa divisão básica, não haverá mais impedimento para a celebração conjunta da Eucaristia. * O conhecimento de Deus – Esse é um tema forte da oração sacerdotal como um todo. Os verbos conhecer e reconhecer aparecem nove vezes no capítulo 17 e ao redor de oitenta vezes no evangelho. Para não confundir conhecer com gnose, é necessário compreender o significado do conhecer neotestamentário em analogia ao conhecer do primeiro Testamento. Em nosso trecho, o verbo não aparece explicitamente – talvez seja uma razão temática para essa delimitação de texto para a prédica. Entretanto, está presente indiretamente na medida em que o conhecimento de Deus produz a união íntima e amorosa, a identidade (17.11, 21) entre Jesus e Deus (“Quem me vê a mim, vê o Pai” – 14.8-10). Os discípulos participam dessa união por meio do conhecimento: Jesus deu-se a si mesmo como palavra encarnada, como verdade a ser conhecida. Conhecer não significa apenas “saber a respeito de” (intelecto), mas sim ter “íntima comunhão com” (amor), “ser um com”. Conhecer Deus é tão aberto, acessível e inclusivo de outras religiões e fés como “temer a Deus”. Para os cristãos, o conhecimento de Deus está vinculado a Jesus Cristo para evitar que eles persigam uma imagem de Deus criada pelo próprio coração e, ficando pendurados nessa imagem, no final se percam. Os ídolos não estão em outras religiões, mas dentro de cada religião. Se nós cristãos perdermos a referência a Jesus, não estaremos mais em condições de realizar a tarefa, a missão que Deus deixou para nós no mundo. Deus abençoou outras culturas com outras referências e mediações. Assim como não existe apenas uma cultura no mundo, Deus é tão grande que ele não precisa limitar a sua redenção do mundo a apenas uma experiência histórica e cultural. Recomendo pregar sobre esse tema com base em outra delimitação de texto e buscar auxílio num dicionário teológico.

5 Minha proposta de pregação Proponho uma pregação sobre a pergunta que me surgiu espontaneamente na primeira leitura do texto: Por quem Jesus está intercedendo e o que ele pede? Se você quiser fazer uma série de pregações sobre o mesmo texto, poderia começar com essa e peregrinar com a comunidade pelos outros temas refletidos acima. Penso que seria um exercício que faz jus a um texto tão denso como a oração sacerdotal.

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Por quem Jesus intercede? Jesus intercede pelos seus, por aqueles que o Pai lhe deu e que ainda lhe pertencem (v. 9). Os seus são um recorte da humanidade. Esse recorte refere-se inicialmente ao grupo restrito em torno de Jesus. Desses só se perdeu um, para cumprir-se a Escritura (v. 12). Jesus teve uma tarefa em relação a esse recorte: guardá-los no nome de Deus (v. 12), dar-lhes a palavra de Deus (v. 14), enviá-los ao mundo (v. 18), santificar-se a favor deles para que sejam santificados na verdade (v. 19). Agora está devolvendo a guarda a Deus, quando parte do mundo para junto do Pai santo (v. 11). Ampliando o recorte, também pensa naqueles que vierem a crer nele no futuro (vv. 20, 26), ou seja, a igreja de hoje. Pensando na igreja de hoje, é importante considerar o seguinte: a intercessão de Jesus pelos seus, em separado do mundo e por ele separados, respectivamente santificados no mundo, é a intercessão pelos seguidores e seguidoras que têm uma tarefa no mundo, da mesma forma como ele também já teve uma. Não são pessoas que gozam do status de salvos, mas sim pessoas que têm uma tarefa, foram preparadas para ela, participam de uma missão, “para que o mundo creia” (v. 21) e “para que o mundo conheça que Deus enviou Jesus” (v. 23). Essa igreja de santificados no mundo não é idêntica à igreja visível, instituição organizada e dirigida por humanos. No capítulo inteiro, fala-se naqueles que Deus deu a Jesus. Ele não deu todos a Jesus. Na diversidade das experiências históricas e culturais, podemos ter certeza de que Deus se valeu de mais escolhas. Na igreja (vem de ecclesia = eleitos, escolhidos, separados, santificados) cristã, temos que nos despedir definitivamente da idéia de que apenas os cristãos serão salvos, enquanto todas as pessoas de outras tradições religiosas serão condenadas por Deus. Essa idéia está grávida de violência, e repetem-se no mundo acontecimentos em que essa violência está sendo parida. O fenômeno comum do etnocentrismo (cada povo acha que o seu jeito de viver e a sua cultura é a única verdadeiramente humana) induz-nos a um equívoco grave: transformar uma missão de salvação num status salvífico, uma tarefa num direito, ainda por cima excludente. Isso também já aconteceu com os nossos antepassados na fé, os judeus, quando transformaram a sua eleição e escolha por Javé – que, aliás, entendo como permanente, não tendo sido substituída, mas apenas complementada pela escolha dos cristãos – num status e não a entenderam mais como uma separação, a santificação para uma tarefa no mundo, a saber, a de ser luz para os povos. Não incorramos no erro de querer limitar a ação de Deus àquele fragmento que a nossa tradição cultural nos legou. Deus é maior do que a nossa mente, consegue compreender e tem muitas estratégias nas diversas culturas – que, aliás, são diversas por sua vontade expressa. Um estudo combinado de Gn 11 e At 2 pode evidenciá-lo. Podemo-nos alegrar, pois nem tudo pesa sobre

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os seguidores de Cristo. Livres desse sobrepeso, podemos dedicar-nos a fazer bem feita aquela parte que nos cabe. E agora vamos ver o que Jesus está pedindo pelos seus hoje. O que Jesus pede? * Que Deus guarde os discípulos pelo poder do seu nome (v. 11d); * que Deus guarde os discípulos do mal (v. 15b); * que Deus santifique os discípulos na verdade que é a Sua palavra (v. 17); * que os discípulos sejam um como Deus e Jesus o são (v. 11e); Fora da delimitação textual * que os discípulos e seus seguidores (v. 20) sejam um (v. 21a); * que os discípulos sejam aperfeiçoados na unidade (v. 23b); * que todos os discípulos estejam em Deus e Jesus (vv. 21c, 23); Há que mencionar ainda o que Jesus não pede: ele não pede pelo mundo (v. 9b) e não pede que Deus tire os discípulos do mundo (v. 15a). Não pedir significa deixar a questão na inteira competência de Deus Pai, sem qualquer espécie de interferência ou constrangimento. Diferente seria Jesus pedir que Deus não tire os discípulos do mundo; nesse caso, Jesus estaria apresentando uma demanda ao Pai. O texto apenas nos informa do que Jesus não está pedindo. Num outro espaço, seria interessante refletir por que o redator do texto incluiu precisamente essas duas informações. A leitura da epístola permite acentuar a prática do amor como marca da presença de Deus em nós, bem como da nossa união com o Pai e o Filho. Conhecer Deus, que é amor, a gente só consegue amando. Por meio do amor permanecemos nele. Só podemos amar porque Ele nos amou primeiro. O amor garantirá a nossa união com Deus e a unidade entre todas as pessoas de Jesus Cristo. Quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus, a quem não vê, não conhece Deus, não tem comunhão com Ele.

6 Subsídios litúrgicos Estamos no 7º Domingo da Páscoa, que pela ordem evangélica tinha o nome de “Exaudi” – Ouve, Senhor! Ele está marcado pela despedida de Jesus. No próximo domingo, é a festa de Pentecostes. Nela Deus e Jesus estão enviando o poderoso Consolador prometido, que realizará os pedidos de intercessão de Jesus. Confissão de pecados: (como primeira atividade, depois da saudação e acolhida) Deus Santo e Misericordioso! Quando nos encontramos contigo,

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somos atingidos por tua luz. Damo-nos conta de quanto nos tornamos parecidos com o mundo. Falhamos na missão que Jesus nos deixou. Não lutamos com todas as nossas forças contra a injustiça e pela paz. Permitimos que outras grandezas se colocassem entre Tu e nós. Desunião entre os que se chamam pelo nome de cristãos enfraquece o testemunho que devemos ao mundo, para que conheça a Ti e creia. Perdoa-nos, dirige-nos, para que reencontremos a alegria em cumprir a Tua vontade e em servir a Teu projeto neste mundo. Cantos: Hinos do Povo de Deus 92,1-4+7; 94,1-3 + 4-5; 118. Salmo: 47.1-8. Louvor Àquele que governa toda a terra. Oração de coleta: Senhor Deus, Pai Todo-Poderoso, Tu que enviaste o Teu Filho Jesus Cristo ao mundo, como Tua palavra de verdade, sustentasteo na sua missão e o protegeste do mal, nós te pedimos: recebe a intercessão de Jesus por nós, para que sejamos cada vez mais unidos a Ti e a Ele no conhecimento e no amor e Jesus possa ser glorificado em nós. É o que Te pedimos por Jesus Cristo, Teu Filho, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Leitura bíblica: 1 João 4.13-21. Intercessão: pelos mesmos motivos da oração de Jesus. Recolher mais motivos antes do culto.

Bibliografia BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Loyola, 1973. 2 vols. ZINK, Jörg. Das muss man von Jesus Christus wissen. 3. ed. Gütersloh: Verlagshaus Mohn, 1978. FUCHS, Werner. Auxílio Homilético sobre João 17. (9-10)11-19. In: Proclamar Libertação, vol. XIX. São Leopoldo, 1993. pp. 153-157.

DOMINGO DE PENTECOSTES EZEQUIEL 37.1-14 ATOS 2.1-21 JOÃO 7.37-39a

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1o DOMINGO APÓS PENTECOSTES SANTÍSSIMA TRINDADE DEUTERONÔMIO 6.4-9 JOÃO 3.1-17

11 JUN 2006

PRÉDICA: 1 JOÃO 4.11-16 Wilhelm Wachholz

1 Introdução De novo amor? Talvez possa ser essa a primeira reação ante o texto. Antes de nos preocuparmos com a pregação, é imprescindível que o texto nos sensibilize para conosco mesmos, com Deus, com as pessoas e a realidade. A sensibilização do pregador evita que, em meio à “síndrome da pressa”, busque-se refúgio na racionalidade, redundando numa prédica “teórica”, distante. A sensibilização provocada pelo texto permite perceber melhor os dramas na comunidade. Dessa forma, o tema do amor pode ser proclamado como um tema novo. Aliás, esta deveria ser a tônica da prédica: amor como novidade. O amor só se torna tema “batido” quando nos fechamos aos desafios que se colocam perto ou longe de nós. O amor precisa ser um tema tão novo quanto é a última notícia de violência, de guerra, de morte, de injustiça, de tragédia, de racismo. Porque o pecado sempre de novo se manifesta, o amor deve ser tema e vivência atualizados.

2 A comunidade joanina e 1 João Provavelmente 1 Jo se destina a comunidades joaninas da região de Éfeso, na Ásia Menor (atual Turquia), formadas por pessoas de origem judaica, aproximadamente entre 50 e 80 d.C. Posteriormente, também samaritanos e “gregos” integraram as comunidades, revelando a abertura a pessoas de culturas e modos diferentes. Apesar das diferenças, as comunidades caracterizavam-se como participativas, democráticas e fraternas. Jesus era vivido e celebrado a partir do princípio da unidade na diversidade de raças e culturas. Entre aproximadamente os anos 80 e 100 d.C., as comunidades viram-se envoltas em conflitos externos, isto é, com pessoas do “mundo”, judeus, seguidores de João Batista, mas também com cristãos “em cima do muro”, de fé insuficiente e das igrejas hierarquizadas. Nesse contexto foi redigido o Evangelho de João. Finalmente, por volta do ano 100 d.C., quan-

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do os conflitos externos praticamente desapareceram, surgiram conflitos internos. A unidade rompeu-se e apareceram os anticristos (1 Jo 2.19). Tratava-se de um grupo que, influenciado pelo gnosticismo, não reconhecia Jesus como Messias (1 Jo 2.22s; 4.2s.) e não se preocupava em “traduzir” o conhecimento de Deus (racional) em amor nem com o julgamento de Deus. Com tais idéias, esse grupo continuava influenciando as comunidades. Além disso, idéias hierárquicas estavam penetrando nas comunidades. Por isso, 1 Jo também quer resgatar o cenário original das comunidades, caracterizado por uma igreja mais participativa, fraterna e de comunhão.

3 Delimitando o texto O texto sugerido para a pregação encontra-se dentro da perícope que se estende de 1 Jo 4.7-21 (ou de 1 Jo 4.7-5.4, segundo outros comentaristas). O tema do amor perpassa 1 Jo, procurando esclarecer: De onde vem o amor? Como ele se manifesta? Amar e como amar a Deus sendo Ele invisível? A perícope pode ser dividida e subdividida. Na primeira unidade (vv. 710), afirma-se que a origem e a fonte do amor é Deus, revelado em Jesus Cristo. Na segunda unidade (vv. 11-21), afirma-se que o amor de Deus, testemunhado e experimentado por intermédio de seu Filho Jesus Cristo, atualiza-se por meio da “lógica” do “amor uns aos outros”. Essa segunda unidade pode ser subdividida (vv. 11-16 e 17-21). Na primeira parte, enfatiza-se o imperativo da “lógica do amor fraternal”. Na segunda, introduz-se o tema (novo) do juízo ante o qual não há temor estando no amor.

4 Considerações exegéticas v. 11: A primeira palavra “amados/queridos” – termo usado para crianças, amigos e companheiros cristãos – revela ternura e sensibilidade fraterna. Indica que o autor se sente irmanado com seus destinatários. Sua mensagem caracteriza-se por evangelho e lei, indicativo e imperativo. O amor que procede de Deus (v. 7) manifestou-se na história por meio de Cristo. Por intermédio da vida, morte e ressurreição de Cristo, Deus revelou a grandeza de seu amor e indicou beneficiários imerecidos: as pessoas pecadoras. Quem se percebe amado por Deus não mais concede espaço ao egoísmo. Por isso, o ato primeiro do amor de Deus por “mim” exige “meu” ato primeiro ao próximo. Somente a pessoa que ama seu próximo pode ter certeza de estar sendo amada por Deus. v. 12: O amor de Deus não permaneceu preso ao passado, mas se estende para a atualidade por meio do círculo Deus-eu-próximo. Deus ama ainda hoje, e seu amor é experimentado por intermédio de nosso amor. O Deus

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invisível revelou-se por meio de seu Filho e, agora, revela-se nos seus se e quando se amarem uns aos outros. Os seus são o espelho do amor de Deus. Por meio do amor fraternal, a presença de Deus é evidenciada no mundo. O Deus invisível é “visibilizado” por meio da práxis do amor. v. 13: Como já no v. 12 e novamente no v. 15, relaciona-se o “permanecer” recíproco: Deus em nós e nós nele. É o amor às pessoas que evidencia o “permanecer” em Deus, da mesma forma como os ramos unidos à videira produzem frutos (Jo 15.1ss.), os quais, por sua vez, não visam primeiramente a Deus, mas se referem às relações de fraternidade entre as pessoas. Pelo fato de que Deus nos deu o Espírito Santo, permanecemos nele por meio da fé e no próximo por meio do amor. O primeiro fruto do Espírito é o amor. Portanto, Trindade não é teoria, mas é amor que impele à vivência do amor. v. 14: João deixa claro que pneumatologia e cristologia não podem ser dissociados. Em outras palavras, não se pode justificar aqui uma experiência subjetiva do poder do Espírito Santo de forma isolada. Ninguém pôde ver Deus propriamente dito, mas sim seu Filho Jesus Cristo. O ter visto impulsiona ao testemunho. O “ver/crer” não somente implica adesão, mas também confissão de fé (v. 15) e testemunho. O fato de Deus ter enviado seu Filho como “Salvador do mundo” – expressão própria de João – evidenciase como a prova suprema de seu amor por nós e a fonte de nosso amor para com o próximo. v. 15: A missão histórica de Cristo tanto é revelação do amor de Deus como prova da divindade do próprio Cristo. Confessar Jesus Cristo como portador desse amor é condição fundamental para que Deus permaneça na pessoa, e ela em Deus. A ruptura dessa relação de permanência redunda em pecado, e o pecado é a concretização da ruptura de relações humanas fraternas. v. 16: A fórmula dupla de “conhecer” e “crer” explica-se, de um lado, pela estreita relação entre fé e conhecimento e, de outro, pela luta contra o gnosticismo. O amor crido é simultaneamente conhecido, e vice-versa. Fé somente é possível a partir do conhecimento. Deus não somente amou, mas Ele é amor, ou seja, fonte eterna do amor. Por isso precisa ser amado de todo o coração e de toda a alma (Dt. 6.5). De outro lado, contra o gnosticismo precisa-se afirmar que o conhecimento de Deus se dá pelo contato, pela experiência. Para o gnosticismo, conhece-se Deus simplesmente por meio do esforço da razão. Contra essa típica característica da filosofia grega, que se limita à dimensão vertical, enfatiza-se a dimensão horizontal, de forma a fazer depender o verdadeiro conhecimento de Deus da práxis do amor ao próximo. Assim o “conhecer” e “crer” são postos à prova focalizando o amor como referência para questionar se a fé é de fato verdadeira (v. 20).

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5 Algumas idéias 5.1 – Fé e amor O texto relaciona amor e fé (embora esse termo não esteja explicitado). Contudo, a ênfase aqui não está na fé que se manifesta por meio do amor, mas no amor como evidência do “permanecer” (fé) em Deus (cf. Mt 7.1523). A fé não “descansa”, mas é “ativa por meio do amor”. A esse respeito, Martim Lutero diz: “Fé e amor perfazem a natureza do cristão. A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima dos homens. Por meio da fé ela aceita os benefícios de Deus, por meio do amor ela beneficia seus semelhantes”. Amar somente se concretiza quando o amor de Deus não for “privatizado” de forma egoísta. O fato de Deus ter amado primeiro (Jo 3.16) deve “constranger” a estender o amor como uma rede. A pessoa que se deixou sensibilizar pelo perdão amoroso de Deus é liberta e sensibilizada para amar. O amor de Deus não deve ser “domesticado”, ou seja, limitado a quem já quer bem, à consangüinidade familiar. Lembrando as palavras de Jesus, conforme Mt 5.46, Agostinho afirmou que o amor aos inimigos não pode passar por cima do amor aos “irmãos”. E segue ele: “Acontece como o fogo que, necessariamente, começa por ganhar o que lhe está próximo para se estender em seguida ao longe. Teu irmão está mais próximo de ti do que qualquer outro homem. Do mesmo modo, um homem que te é desconhecido, mas que não te seja hostil, está mais perto de ti do que um inimigo teu, que, esse sim, te é hostil. Estende o teu amor aos que te estão próximos, mas, na verdade, ainda não chames a isso estender. Porque é a ti mesmo que amas quando amas os que te estão estreitamente unidos. Estende o teu amor até aos desconhecidos que não te fizeram nenhum mal. E vai mais longe ainda. Chega até a amar os teus inimigos. Sem dúvida, é isso que o Senhor te pede”. Em outras palavras, a pessoa cristã precisa crescer nas duas direções simultaneamente como uma árvore: para baixo (raízes = fé em Deus) e para cima (ramos = amor fraterno). 5.2 – Corpos violentados Não raramente cenas de violação contra corpos são veiculadas pela mídia como “show”. A isso precisamos ser críticos. De outro lado, não podemos silenciar nem esconder os corpos que são alvos da violência. Tais corpos precisam nos sensibilizar, provocar compaixão, solidariedade, mover ao amor. Escrevo num momento em que mais de 300 mil corpos de crianças, mulheres e homens perderam a vida no tsunami da Ásia. Milhões de corpos

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que escaparam da tragédia passam fome e sede e pelo drama da morte de entes queridos não têm mais o teto do lar, estão sujeitos ao desemprego. Sou lembrado das palavras de Cristo, que relacionou as necessidades de seu corpo com as dos famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, presos (Mt 25.31-46). Corpos são alvos do racismo. No dia 12 de janeiro de 2005, jornais trouxeram a notícia de dois irmãos negros detidos por policiais em Porto Alegre porque corriam, assim como outros jovens brancos, para não perder o vestibular numa universidade pública. A detenção custou-lhes o vestibular. O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) afirmou que o redirecionamento da preocupação conosco para as outras pessoas é concretizado por meio da abolição da propriedade, produto do egoísmo. Semelhantemente, o filósofo escocês David Hume (1711-1776) afirmou que somente quando “objetos exteriores (por exemplo, corpos de outras pessoas) estabelecem qualquer relação específica conosco e a nós se ligam ou associam” é que provocam nossas emoções (sensibilidade). Segundo ele, somente quem se “associa” a uma pessoa em sofrimento é sensibilizado e se engaja em ações “humanitárias”. Voltando ao exemplo de Jesus em Mt 25, podemos afirmar que, na tradição cristã, o corpo sempre foi tema e locus da solidariedade, da diaconia. Mas a igreja pecou muitas vezes quando silenciou diante dos sofrimentos impostos a corpos.

6 Sugestões para a pregação Quais são os fatos que marcaram ou ainda estão presentes e marcam a comunidade, o mundo nesse início de junho? É importante não se prender exclusivamente a fatos “distantes” e “grandiosos”, mas, em especial, a desafios e dramas silenciosos (ou silenciados) que envolvem famílias, a comunidade, a cidade. Diante deles cabe ao pregador, sensibilizado, sensibilizar em amor para a práxis do amor. O autor de 1 Jo não está teorizando o amor, mas falando a partir dos conflitos nas relações internas. Considerar isso é importante para que o amor não seja “de novo o velho e batido tema”, mas seja de fato a boa-nova, a manchete, o tema do momento. A reflexão do texto em grupos de estudo bíblico, de crianças, jovens, casais, idosos pode ser uma excelente forma de recolher desafios para sensibilizar e desafiar a comunidade à vivência do amor, de forma a “visibilizar” o Deus invisível por meio da reconciliação de realidades rompidas pelo pecado. Deus amou primeiramente enviando o Salvador do mundo (Jo 3.16). Seu amor é gratuito, imerecido e garantido. O perdão torna sensível a perdoar e amar o próximo. O rompimento de relações fraternas com o próximo provoca ruptura nas relações com Deus (Mt. 5.23s.). Deus quer ser amado por meio do semelhante.

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Deus enviou Cristo para reconciliar, para formar “com-unidade”, corpo, igreja. A práxis do amor visa à unidade. A ausência da vivência do amor é anticristã. Agostinho afirmou enfaticamente que se “tu que rompes a unidade da Igreja de Deus, a qual ele congregou [...], vens fazer o contrário de Cristo, és anticristo!” Quem não ama é contra Deus. Por isso, a práxis do amor requer o novo nascimento (Jo 3.1-15). Amar de todo o coração, de toda a alma e força (Dt 6.5) requer o renascimento diário. Vivenciar o Batismo como “morte e ressurreição”, de forma que posso confessar que não somente “fui batizado, mas sou batizado” (Lutero), implica conversão diária. Por meio da vivência do amor, realidades de ruptura são curadas. Identificando realidades de ruptura, a prédica poderia sensibilizar a comunidade para que se “associe” a sofredores (conflitos na comunidade ou familiares, visitação a pessoas enlutadas, recém-chegadas na comunidade/cidade, amparo a pessoas desempregadas, enfermas, acidentadas, inclusão de pessoas de culturas, raças ou que pensam e agem de forma diferente, tragédias pessoais ou coletivas etc.). Não por último, não se deveria esquecer que a pessoa e a comunidade que crêem e amam também oram “sem cessar, pois é preciso acautelar-se permanentemente contra pecados e injustiça” (Lutero).

Bibliografia AGOSTINHO, Santo. Comentário da Primeira Epístola de São João. São Paulo: Paulus, 1989. 219 p. BORTOLINI, José; BAZAGLIA, Paulo. Como Ler as Cartas de João; quem ama nasceu de Deus e conhece Deus. São Paulo: Paulus, 2001. 46 p. MORGEN, Michèle. As Epístolas de João. São Paulo: Paulinas, 1991. 108 p. (Cadernos Bíblicos, 52) TREIN, Hans Alfred. 13º Domingo após Trindade: 1 João 4.7-16. In: KIRST, Nelson (Coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1985. v. 5, p. 196-204.

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2o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

18 JUN 2006

DEUTERONÔMIO 5.12-15 MARCOS 2.23-28

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 4.5-12 Uwe Wegner

1 Introdução: questões de delimitação Há uma questão de delimitação do texto a considerar. A maioria das Bíblias subdivide 2 Co 4.1-12 em duas unidades: vv. 1-6 e vv. 7-12. O texto para a pregação, contudo, inclui na unidade dos vv. 7-12 ainda os vv. 5-6. Os vv. 5-6, contudo, não tratam exatamente do mesmo assunto que os vv. 7ss. Eles enfocam polemicamente o conteúdo da pregação apostólica: Paulo afirma ali pregar a Cristo, não a si próprio. O pressuposto é, pois, que o conteúdo da pregação apostólica pode degenerar-se em pregação própria. Isso seria, nos dizeres de 4.2, “adulterar a palavra de Deus”. Os vv. 7ss não continuam esse enfoque – eles destacam, muito mais, as condições sob as quais Paulo exerce seu ministério apostólico e procuram esclarecer o que essas condições representam teologicamente. As opções para o pregador são: a) integrar os vv. 5-6 no texto 4.5-12, respeitando o seu conteúdo parcialmente diferenciado; b)restringir-se aos vv. 5-6; c) restringir-se aos vv. 7-12. Optamos por separar os vv. 5-6 dos vv. 7-12. A pregação limitar-se-á ao conteúdo dos vv.5-6.

2 Exegese dos vv. 5-6 v. 5: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor”. Mesmo que a frase possa encerrar uma apologia (“não pregamos a nós mesmos”, como vocês afirmam), várias passagens de 2 Co fazem pensar, antes, numa polêmica contra os adversários (“não pregamos a nós mesmos”, como vocês costumam fazer). Na pregação de Paulo, Cristo é o Senhor, a quem se devem submeter as comunidades. Os adversários, contudo, agem como se fossem eles próprios os senhores: “Tolerais quem vos escravize, quem vos devore... quem vos esbofeteie no rosto” (11.20). Além disso, fazem a si pró-

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prios objetos da pregação (10.12): Gloriam-se de suas origens e realizações (11.16ss), louvando-se, comparando-se e medindo-se consigo mesmos (10.12). Ou seja: Instrumentalizam a palavra no sentido de autopromoção. “E a nós mesmos como vossos servos, por amor a Jesus.” Paulo entendia-se como “escravo” das comunidades (1.24; 1 Co 3.5,22; 9.19). Ele estava aí para servi-las, não para ser servido por elas. São palavras que remetem ao dito de Jesus em Mc 10.45. Contudo, o serviço de Paulo às comunidades é “por amor a Jesus”. Ele é escravo das comunidades, mas, simultaneamente, conserva uma liberdade interior em relação a elas, pois todo o seu serviço é prestado “por amor a Jesus”. Jesus é o seu Senhor maior, ao qual Paulo deve obediência em última instância (Rm 1.1; Gl 1.10; Fp 1.1). Significa que o apóstolo não poderá compactuar com situações e práticas em que as comunidades afastam-se das orientações dadas por Cristo. Ou seja: os cristãos não podem permanecer como escravos do pecado, uma vez que Cristo quis transformá-los em escravos da justiça (Rm 6.18). Essa é a razão que explica suficientemente toda a liberdade de crítica exercida por Paulo em relação aos coríntios, bem em especial nessa 2 Co. v. 6: O v. 6 procura fundamentar o que foi dito no versículo anterior, em especial a razão de Paulo pregar a Cristo como o Senhor. E a razão dada é a seguinte: “Porque Deus, que disse: De trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo”. Paulo prega a Cristo porque Deus “resplandeceu em seu coração”. Essa ação pressupõe um coração originalmente não iluminado, em trevas, em escuridão. Nos vv. 3-4, o apóstolo refere-se aos corações dos incrédulos com palavras bem semelhantes: os que não crêem são aqueles para os quais o evangelho encontra-se encoberto e em cujos corações o deus deste século cegou os entendimentos. Essa era também mais ou menos a situação em que Paulo se encontrava quando perseguia Jesus. Ele “entendia” Jesus como representando uma ameaça para sua religião e os cristãos como sendo nocivos para as leis e costumes do judaísmo (At 6.13s). Por isso os prendia e encarcerava (At 8.3). Esse entendimento de Jesus impedia que Paulo reconhecesse sua verdadeira natureza como o Enviado de Deus para a reconciliação da humanidade. Sem esse reconhecimento não havia, ao mesmo tempo, uma predisposição ou vontade para submeter-se à sua vontade. O estado de escuridão e trevas, em que jazia o conhecimento de Paulo sobre Jesus, foi – como assegura o v. 6 – radicalmente transformado por Deus. Assim como na criação a palavra de Deus transformou escuridão em luz (Gn 1.3), por meio de um ato criacional soberano, assim também aconteceu com o entendimento de Paulo. Deus iluminou o seu entendimento para um novo conhecimento sobre Jesus. E esse conhecimento encerra a novidade que o texto resume com as seguintes palavras: Paulo aprendeu a ver na face de Jesus a glória de Deus. Sua compreensão sobre Jesus mudou radi-

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calmente. O apóstolo conseguia entendê-lo agora como o Enviado de Deus e passou a adorá-lo e a obedecê-lo como a seu Senhor e Redentor. É muito provável que Paulo esteja fazendo alusão à sua conversão com as palavras do v. 6. Sua conversão (cf. 4.1; Gl 1.15s; 1 Co 15.8) representou uma ruptura radical no seu modo de entender Jesus. A conversão é aqui descrita em categorias de um novo conhecimento. Antes da conversão, Paulo tinha um conhecimento errôneo a respeito de Jesus, o que o levava a perseguir seus adeptos. Sua mente e entendimento estavam como que “obscurecidos” (cf. 3.15s). A experiência de sua conversão significa luz para dentro dessa escuridão do entendimento. O Cristo crucificado e ressuscitado é experimentado e percebido de forma totalmente nova: não mais como um maldito de Deus, por ter sido pendurado em madeiro (Dt 21.23; 1 Co 12.3), mas como Filho Amado de Deus, que amou a humanidade até as últimas conseqüências na cruz, sendo exaltado por Deus por intermédio de sua ressurreição. A aparição de Cristo a ele no caminho de Damasco (At 9, 22, 26) revelou-o como possuído da glória de Deus. Discorrendo sobre sua conversão, Paulo não fala explicitamente de ter visto a face gloriosa de Jesus como ressurreto – unicamente afirma “ter brilhado ao seu redor uma luz do céu” (At 9.3; 22.6; 26.13). Isso é importante observar, para não se fixar em algo visível e externo. A iluminação que ocorreu não foi diante dos olhos, mas dentro do coração. E por ser o coração a sede da vontade, do entendimento e dos sentimentos, pode-se afirmar que, a partir do instante em que Deus brilhou no coração do apóstolo, transformaram-se radicalmente seu entendimento, sentimento e percepção a respeito da importância de Jesus. Em outras passagens, o apóstolo pode referir-se ao mesmo processo, sem, contudo, fazer uso da terminologia da glória – por exemplo, quando se refere à manifestação do amor de Jesus (Rm 5.5ss; 8.35ss). A referência à glória é, contudo, significativa, por conseguir incorporar melhor aspectos do senhorio de Jesus como crucificado e ressurreto. Mesmo que essa tenha sido uma experiência que marcou a mudança de vida do apóstolo, ela é, até certo ponto, representativa também para os demais cristãos e cristãs. Pois Paulo não fala propriamente de sua pessoa com exclusividade, mas afirma que Deus mesmo resplandeceu em nossos corações. Quer dizer: aquilo que aconteceu com o apóstolo acontece e deve acontecer também com cada pessoa, na medida e na hora em que a Deus aprouver revelar Jesus como o Cristo.

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3 Meditação 3.1 – Falsos pregadores O v. 5 representa uma forte polêmica do apóstolo. 2 Co está entre as cartas mais polêmicas de Paulo. A polêmica é dirigida contra uma falsa pregação e contra falsos pregadores. A preocupação do apóstolo pode ser bem percebida em 11.4: Em Corinto estão sendo pregados um outro evangelho, outro espírito e outro Jesus do que os pregados por Paulo. O apóstolo deduz que os pregadores são pessoas altamente ambíguas: assim como podem ser sinceros e legítimos, podem igualmente ser enganadores e fraudulentos, disfarçados de ministros da justiça, mas, em verdade, a serviço de Satanás (11.1315), falsificando com astúcia a palavra de Deus (4.2). Se isso é tão ambíguo, que critérios se apresentam para avaliar pregadores falsos? Maus pregadores apresentam, segundo Paulo, uma série de características, entre as quais enumeramos as seguintes: 1 – Pregam a si próprios como “Senhor” (v. 4). A característica mais marcante dessa postura em Corinto foi a dos falsos apóstolos acharem-se “superiores” a Paulo e aos outros pregadores (11.5; 12.11). Achavam-se superiores a Paulo por ter maior proximidade ao Jesus terreno (11.22), melhor eloqüência nas pregações (1 Co 1.17; 2.1-5; 2 Co 10.10; 11.6) e dons espirituais de maior impacto e expressividade (1 Co 12-14), em especial o dom de línguas. 2 – Apresentam-se com vanglória e soberba. Uma superioridade genuína não necessariamente precisa levar à vanglória. No caso dos coríntios, no entanto, era o que acontecia. Várias passagens testemunham esse aspecto: 1 Co 4.6s, 18s; 5.2,6; 8.1; 2 Co 10.13. A soberba, para ser alimentada, necessita da comparação. É só na comparação que uns podem sobressair-se a outros, e era exatamente assim que procediam os coríntios, como atesta 10.12. Ora, as comparações usam determinados critérios e, à luz desses, pronunciam-se julgamentos com facilidade. A crítica fundamental a todo esse procedimento Paulo nos oferece em 1 Co 4.7: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” e em 2 Co 10.17s: “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva...” Por essa razão, o NT canaliza a glória para Deus, evitando sabiamente a glorificação de pessoas: Mt 5.16; Jo 15.8; 1 Co 10.31; Fp 1.11; 1 Ts 2.6; 1 Pe 2.12. 3 – Tiranizam os fiéis. O fato é ressaltado em 11.20: “Tolerais quem vos escravize, quem vos devore, quem vos detenha...” O pregador torna-se ilegítimo quando não segue Cristo, mas ele próprio torna-se o Senhor dos ouvintes. Isso ocorre quando os fiéis são completamente escravizados ao modo de pensar, às idéias teológicas e à linha teológica dos pregadores. Em geral

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tais pessoas costumam ser extremamente impositivas, não admitindo opções diferentes ou formas de espiritualidade alternativas. 4 – Falsificam a palavra de Deus com astúcia (4.2). Essa é uma acusação que Paulo reitera também em 2.17 e, dentro de outro contexto, em 1 Ts 2.45. A versão de Almeida traduz o verbo grego kapeleúo ora como “adulterar”, ora como “mercadejar” a palavra de Deus. O significado pode ser duplo: falsificação no sentido de (1) alteração de conteúdo ou de (2) manutenção de conteúdo, mas com alteração de propósito. O primeiro caso parece ser o de Corinto, como sugere 11.4. A alteração do sentido original do evangelho (outro Jesus, outro evangelho, outro espírito: 11.4) requer astúcia para ser aceita. Daí que Paulo acusa seus oponentes de engodo: São ministros do diabo, mas mascaram-se e maquiam-se como ministros da justiça (11.13-15). Em Corinto, a falsificação do evangelho manifestava-se, em especial, por meio das seguintes distorções de conteúdo: na cristologia, havia um acentuação do Cristo ressurreto e poderoso em detrimento do crucificado e fraco – anulava-se a cruz de Cristo (1 Co 1.17); na eclesiologia, priorizavam-se dons espirituais de edificação pessoal em detrimento dos que edificam a comunidade (1 Co 12 e 14), fomentando o subjetivismo e o individualismo; na ética, havia muita liberalidade (1 Co 6.12; 10.23), mas faltava o amor (1 Co 13); na pneumatologia, ressaltavam-se os dons extraordinários (1 Co 12. 21) em detrimento daqueles menos expressivos (1 Co 12.14-18). A outra maneira de falsificação da palavra de Deus, a que mantém os conteúdos, mas altera os propósitos, é mais sutil e, por isso mesmo, difícil de ser identificada. Exemplo desse tipo de falsificação encontra-se em Fp 1.15-18. A característica, nesse caso, é que a pregação da palavra de Deus não é vocação, mas é pretexto para outra coisa: para inveja, para porfia (contenda), para ganhar status ou dinheiro, para ter emprego, para ter projeção pública etc. Nesses casos, não é preciso ter uma identificação interior com o evangelho: basta que a gente o conheça e saiba anunciá-lo. 3.2 – Autênticos pregadores A marca de autenticidade dos pregadores é muito simples, segundo o texto: consiste em abstrair de si, de seus pretextos, de sua teologia, de suas dependências, passando a apontar e convidar para o senhorio de Cristo. O propósito do bom pregador é dar testemunho de Cristo como Senhor. Essa é a razão última de toda a atividade ministerial: provocar, encorajar e cativar pessoas para o discipulado do crucificado e ressurreto. Cada qual, por certo, terá dons parcialmente diferenciados para o desempenho dessa tarefa. Mas o principal não residirá na natureza mais exata ou definida desses dons – estará na clareza desse propósito e no diário comprometimento com os meios que Deus nos deu para contribuir no seu alcance.

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3.3 – O pressuposto da autenticidade: corações iluminados por Deus O v. 6 trabalha com o pressuposto para pregar Cristo como Senhor, com a sua causa última. Paulo constata: pregamos Cristo como Senhor, pois Deus iluminou, deu clareza aos nossos corações, para que percebêssemos nele a sua glória. Ou seja: não é possível ser autêntico pregador de Cristo sem ter sido iluminado por Deus a seu respeito. É o Espírito de Deus que desencadeia esse processo dentro da gente, segundo o NT. É ele que derrama o amor de Deus dentro de nossos corações (Rm 5.5), é ele que nos leva à confissão “Senhor Jesus” (1 Co 12.3) e é ele que nos permite identificar no crucificado e fragilizado Jesus o Filho amado de Deus (1 Co 2.6-16, esp. o v. 10). As comunidades sabem por vezes ser bastante sensíveis ao grau de convicção e iluminação interior de seus pregadores. Elas, não raro, percebem quando e quanto um pregador está “por trás” daquilo que fala a outros sobre Deus. Por outro lado, textos como 2 Co 11.13-15 lembram-nos que também o terreno da fé e espiritualidade pode ser propício para quem é astuto e sabe fingir ou maquiar com requinte. Como discernir nesses casos? Um critério absolutamente seguro não existe. O cristianismo dos primórdios seguia uma orientação que muitas vezes ajuda: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.15-23; 12.33; Gl 5.19-23; Tg 3.12). Contudo, ela não pode ser absolutizada pela simples razão de não existir cristão perfeito, o que implica que na vida de cada um certos frutos serão sempre ambíguos.

4 Prédica Nossa sugestão é que a prédica pode seguir os itens da meditação. O seu assunto central seria algo assim como: “A palavra de Deus à mercê dos seus pregadores” ou “Pregação a pregadores”. O desdobramento que propomos é: 1 – O que confere autoridade aos pregadores? A iluminação interior sob enfoque; 2 – O que caracteriza um bom pregador? O testemunho do senhorio de Jesus; 3 – O que caracteriza maus pregadores? Pregar-se a si próprio.

Bibliografia BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). São Paulo: Loyola, 1980. COMBLIN, José. Segunda epístola aos Coríntios. Petrópolis: Vozes, 1991. VOIGT, Gottfried. Das heilige Volk. Göttingen: Vandenhoeck & Rupprecht, 1979.

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3o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

25 JUN 2006

GÊNESIS 3.9-15 MARCOS 3.20-35

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 4.13-18 Teobaldo Witter

1 Introdução O texto para a pregação neste 3º Domingo após Pentecostes é 2 Co 4.13-18. Os outros dois são textos de leitura, que fazem parte da liturgia do culto. A sua leitura é necessária, pois o presente auxílio contempla-os de forma implícita e explícita. Junho é um mês significativo. Comemoram-se o dia dos namorados, o dia do pastor, São João, o dia mais curto do ano, o inverno, com prováveis geadas no Sul e seca no Norte, com início da chuva nas regiões do país ao norte da linha do Equador. As demais regiões seriam intermediárias entre um e outro clima. Nessa época do ano, nas regiões litorâneas do Nordeste brasileiro, as festas de São João são bem coloridas e fazem parte do calendário turístico. Em todo esse país da diversidade e dos contrastes, comemoram-se as festas juninas nessa época. Pentecostes é uma das datas importantíssimas no calendário cristão. Somos lembrados de maneira especial da ação renovadora e consoladora do Espírito Santo. Nesse terceiro domingo após Pentecostes, estamos ainda bem próximos do próprio Dia de Pentecostes. É claro que o Espírito Santo age e atua em qualquer tempo ou época, quando Deus quer. Queremos, no entanto, lembrar de Pentecostes, pois Paulo entendeu que o Espírito Santo sustentou seu apostolado fundamentado na cruz de Jesus Cristo e mantido pela graça e fidelidade de Deus. Neste ano, cruzam-se as festas populares como as festas juninas e a festa cristã de Pentecostes. As comemorações civil e religiosa cristã encontram-se na vida do povo. Na vida do povo, a palavra do Senhor quer encarnarse, isto é, seu amor e as obras da graça ganham contornos palpáveis.

2 Contexto A cidade de Corinto era muito movimentada, com pessoas disputando espaços, criando possibilidades, excluindo, incluindo gente e modelando um

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jeito de vida. Havia um intenso comércio, as mais variadas profissões, categorias sociais, expressões sociais, culturais e religiosas. Para que alguém participasse de alguma religião, tinha que ter um bom motivo. As possibilidades eram amplas e diversificadas. Não havia muita segurança para ser pastor ou pastora, evangelista, catequista ou missionário. Paulo diferenciou-se do modelo convencional. Ele não entrou em Corinto através da sinagoga, nem da praça pública, mas pelo caminho dos trabalhadores. Concordamos com Comblin: É importante que Paulo tenha entrado na cidade pela rua dos trabalhadores, não pela sinagoga, nem pela praça pública em que se exibiam os oradores e vendedores de doutrinas. Paulo queria, desse modo, criar um modelo de apóstolo e evangelizador, modelo que ia diferenciá-lo de outros apóstolos e dar origem a terríveis controvérsias (Comblin, 1991, p. 12).

Nas discussões, a controvérsia acentua-se em quase toda a segunda carta de Paulo aos Coríntios. Em especial, em 2 Co 2.14-4 e 10.1-13.10 (isso é quase toda a carta), Paulo denuncia que a comunidade está sendo atacada por opositores que lhe fazem concorrência, contestam a sua autoridade apostólica e haviam conseguido levar fiéis a terem dúvidas sobre a graça e fidelidade de Deus, que lhes havia presenteado com a fé e confiança em Jesus Cristo. Paulo compara esses opositores a maus filósofos, personalistas, gloriam-se a si mesmos (5.12). Retomam a tradição da lei de Moisés e do Deus oculto pelo véu (3.4-18). Dominada por essa pressão dos opositores de Paulo, “a Igreja terminava por ser um rebanho dominado por chefes autoritários e tirânicos, pois, apresentavam-se como agentes sobre-humanamente transfigurados...” (Barbaglio, 1980, p. 391). Nesse contexto, Paulo trata a questão com sobriedade, vigor apostólico e humildade. Sua pregação não se fundamenta na teologia da glória, mas da cruz. Ele está identificado dia e noite, na saúde e na doença, no sol e na chuva, no verão e no inverno da vida com a teologia da cruz. Desse caminho ele não desiste. Diz que o evangelho é o tesouro trazido também por ele, que se compara a um “vaso de barro” (4.7), sendo o sofrimento de Cristo, e não a sua vanglória, a marca de seu ministério (4.8-11). Para Paulo, diálogo e reconciliação sempre estão fundamentados na fidelidade de Deus (1.18a ) e no sacrifício reconciliador (5.18-19) da obra de vida e salvação, definitivamente realizada por Jesus Cristo, sendo que ele se entende como um encarregado por Deus para a prática do ministério da reconciliação.

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3 Texto anterior No texto anterior ao indicado para pregação, isto é, 4.7-12, Paulo escreve a respeito do sofrimento vivido por ele e seus companheiros missionários. Menciona que o tesouro está em vasos de barro para que não fique dúvida nenhum de que o poder é de Deus que salva por graça e fé. Está livre, a partir daí, para falar da realidade vivida no apostolado: atribulação, perplexidade, perseguição, levando no corpo a morte de Jesus. Humanamente falando, ele tinha motivo para desistir. Mas, por outro lado, está o compromisso libertador da vida de fé: não está angustiado, não está desanimado, não se percebe desamparado, não se sente destruído, sendo que a vida de Jesus se manifesta em seu corpo mortal. A ação de Deus faz com que a vida se manifeste na comunidade. Ensina que Deus deu o Espírito Santo como penhor (5.5b); por isso tem vigor para o exercício do apostolado.

4 Texto da prédica Em relação ao texto propriamente dito, vejamos: v. 13: A tensão é real e concreta: cruz ou glória? O apóstolo tem a fé que Deus dá. Ele procura viver e falar do que crê. v. 14: Nem mesmo a morte tem poder para fazer desistir, pois na fé e na graça há vida agora e haverá vida depois. O poder de Deus tornou-se forte na morte. Ele ressuscitou o Senhor Jesus. Nele confiamos, pois nos ressuscitará com o Senhor. v. 15: Por amor se multiplicam as obras da graça de Deus e para a glória de Deus. Quem se percebe atingido pelo amor não pergunta por obras da lei. Mas entra numa dimensão de vida diferente daquela em que se espera retribuição ou se desiste ou se desanima se não houver, pelo menos, um bom elogio da comunidade. Sua vida de fé concretiza-se na participação amorosa na construção de novas relações e de sentido de vida, que está sendo construída por Jesus Cristo morto e ressuscitado, na liberdade e no amor. v. 16: A fé e o amor não são “fogo de palha”. Vêm de Deus e vão para Deus. Por isso não desanimamos. Mas vivemos a vida na terra, com limites que são colocados pela vida daqui, pela sociedade, por nós mesmos, por nossa condição humana, pelo tempo. Mas nada se perde, pois nosso ser mortal é absorvido pela nova vida. v. 17: É um paradoxo: sofrimento e esperança, morte e vida, cruz e ressurreição. Há uma relação profunda “entre o ressuscitado (v. 14), as ações de graças (v. 15) e as tribulações (v. 17)” (Martini, 1993, p. 175). v. 18: A vida é mais do que aquilo que se vê. A comunidade é mais do que seus membros. Eles facilmente podem ser enganados por bajuladores,

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conforme a comunidade de Corinto. Na pregação de um frágil apóstolo Paulo, por trás de um vaso de barro ou “um saco de vermes” (Lutero) está muito mais do que aquilo que apenas os membros querem ouvir. Estão o evangelho da paz, a palavra do Senhor, que é “vida e eficaz,... e apta para discernir os pensamentos e os propósitos do coração” (Hb 4.12). Paulo é perseverante no ensino e na consolação a partir do Cristo da cruz, que foi ressuscitado por Deus.

5 Gênesis 3.9-15 Penso que Gn 3.9-15 é bem atual. Menciona que lá, antigamente, em algum tempo e lugar, o ser humano desistiu de ouvir Deus e o desobedeceu. Não quis mais aquele caminho. Queria seguir seu próprio nariz, sua própria cabeça. Deu-se mal. “Onde tu estás, homem?”, pergunta Deus. “Eu tive medo e me escondi”, responde o homem. “A causa do problema é a mulher que tu criaste para mim”, adianta-se o infeliz humano. Ninguém assume a responsabilidade. Um joga a culpa no outro. E a realidade é maquiada. No entanto, apesar das dores, Deus retoma o diálogo (v. 15). As dores na comunidade de Corinto têm ligação com as dores de Gn 3. A mensagem da cruz de Corinto está em sintonia com o sofrimento e a esperança de Gn 3.15ss e Rm 16.20. Uma comunidade do sul do Pará discutia o preenchimento da vaga pastoral. A situação estava difícil, pois não havia obreiro ou obreira disponível para aquela região. Em meio à reunião, uma mulher se manifesta: “Aqui a gente sempre faz oferta para a formação de pastores na igreja. Onde estão esses pastores?”. Ou, em outras palavras, obreiros e obreiras, onde estais? Somos obreiros porque a igreja nos dá segurança ou somos obreiros porque amamos e nos percebemos carregados e encarregados pelo Senhor crucificado e ressuscitado, que sustenta o ministério com seu Espírito Santo?

6 Marcos 3.20-35 Mc 3.20-35 traz vários pontos importantes. Gostaria, no entanto, de fazer duas referências. Jesus perdoa pecados e cura pessoas. Os escribas estão com inveja e, por se sentir responsáveis pelo bom comportamento legalista do povo, decidem espalhar boatos a respeito de Jesus. Dizem que ele estaria possesso do maioral dos demônios. Jesus explica que isso nem é possível, pois o demônio não seria tão ingênuo para dividir-se contra si mesmo. Penso que a inveja e o orgulho estão presentes na comunidade de Corinto também. A segunda referência é em relação à família de Jesus. Ele diz que “qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (v. 35). Penso que aqui não se trata de ter Jesus apenas num canto do coração,

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mas sim de todo o coração, toda a vida estar “mergulhada” no evangelho de Jesus. Tudo o que se faz ou se deixa de fazer bem concretamente na vida cotidiana, como as prioridades, as possibilidades, as dificuldades, a alegria e a tristeza, tem a ver com a fé e a confiança em Deus. A nossa comunidade foi criada pelo Espírito do Senhor. Ela é família de Deus. Como conseguimos viver as obras do amor, as ações de graças (2 Co 4.15) nessa e a partir dessa família de Jesus?

7 Pregação Todo o texto acima é uma reflexão a partir das leituras bíblicas indicadas. Vários temas e pontos são abordados. A pregação, no entanto, precisa estar em sintonia com os anseios da comunidade. Por isso a pessoa que prepara a pregação precisa verificar quais pontos estão mais adequados à realidade da comunidade e então elaborar a mensagem. Numa pregação em uma comunidade de cidade de porte médio, fiz a referência que escrevo resumidamente. 1 – A comunidade é criação de Deus. É Deus quem cria e sustenta a sua comunidade. É ele quem nos convidou e preparou esse lugar por intermédio de mãos humanas, para falar conosco. Este lugar e este encontro que aqui estamos fazendo, neste momento, são diferentes do que qualquer outro. “O Senhor está neste lugar” (Gn 28.16) e nos pergunta: “Onde estás? (Gn 3.90). A ele queremos responder: “Estamos aqui, Senhor. Fala, porque queremos ouvir”. 2 – A comunidade de Corinto estava com problemas (mencionar alguns). Esses problemas traziam muitas dores e sofrimentos. Paulo ensina que a comunidade precisa se dar conta de que está se deixando enganar por gente que prega somente glórias. Ela está sendo desviada do evangelho da cruz de Jesus Cristo. A comunidade está doente e precisa de tratamento. 3 – A cruz lembra-nos dos sofrimentos e das dores das pessoas. Vejamos sofrimentos e dores em nosso meio, aqui no lugar onde vivemos (mencionar alguns). 4 – As obras do amor e da graça são nosso compromisso de fé e confiança em Deus. Jesus vai realizando as obras de Deus e convida-nos para colaborar (mencionar situações onde colaborar). 5 – Como é bom viver em comunidade. Ela foi criada por Deus. Aqui a gente não precisa desanimar, pois Deus é fiel e realiza a sua promessa de vida e salvação. Podemos falar e tratar dos problemas. Não precisamos maquiar a realidade nem nos esconder de Deus ou dos irmãos e irmãs. Pedimos ao Senhor que ele nos inclua no seu mundo e seu governo de verdade, amor e liberdade.

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8 Uma parábola do século XVI No século XVI, as pinguelas eram muito valorizadas. Martim Lutero usou o exemplo da pinguela para explicar o comportamento cristão. Não havia grandes pontes como hoje. As pinguelas eram muito usadas na travessia dos rios. Eram estreitas. Davam passagem para uma só pessoa ou animal pequeno de cada vez. Não dava para encontrar-se no meio da pinguela. Alguns animais também usavam pinguelas para atravessar os rios. Observavase que, quando duas cabras se encontravam sobre a pinguela, elas tinham um comportamento significativo. O que faziam? Ir para trás? Elas não conseguem ir para trás. Virar-se e voltar? Elas não podem se virar. Passar lado a lado? Não podem passar lado a lado, pois a pinguela é muito estreita. Lutar uma contra a outra? Se elas lutarem e derem cabeçadas uma na outra, ambas podem cair no rio e afogar. O que elas fazem então? O que a natureza lhes ensinou? Uma se abaixava, e a outra pulava por cima. Assim, as duas podiam seguir tranqüilamente seu caminho. Dizia-se então que assim deveria ser o comportamento de uma pessoa diante da outra. O orgulho e a arrogância trazem solidão e morte, mas a humildade edifica bons relacionamentos e amizades. Antes de arrogantemente se enfrentar, guerrear e se destruir, as pessoas deveriam dialogar, clarear as diferenças e seguir o fundamento da vida e vida de fé. No caso da 2ª Carta aos Coríntios, Paulo buscou o diálogo e nunca desistiu dele. Mas ele não concordou em derrubar a ponte, isto é, pregar outro Senhor que não seja o Senhor Jesus Cristo. Ele diz: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor a Jesus” (2 Co 4.5). Então vamos dialogar a respeito dessa pinguela, entender como ela é, o que ela significa e como viver com dignidade a fé e confiança sob o senhorio dessa pinguela (Jesus Cristo).

Bibliografia BARRAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). São Paulo: Loyola, 1980. COMBLIN, José. Segunda Epístola aos Coríntios. Série: Comentário bíblico NT. Petrópolis: Vozes, 1991. MARTINI, R. R. Meditação sobre 2 Coríntios 4.13-18. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1993, vol. XIX, pp. 173-177.

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4o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

02 JUl 2006

EZEQUIEL 17.22-24 MARCOS 4.26-34

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 5.6-10 Albérico Baeske

Saudando profundamente grato o Professor Dr. Christian Dietzfelbinger, com quem aprendo desde 1961 aspectos novos na teologia e aspectos velhos, de forma nova.

1 Escatologia 1 – Cada época tem seu jeito de lidar com a fé cristã. Cada geração escolhe, reflete e aplica suas temáticas preferenciais na fé. Em nossos dias, parece ser esta: “A fé atua pelo amor” (derivada de Gl 5.6?) ou, popularmente, “o que importa é amar”. Tais tematizações desenvolvem enorme força de sucção. Sugam para dentro de si “a largura, o comprimento, a altura e a profundidade” da fé em Jesus Cristo (cf. Ef 3.18-21). Daí nascem idéias capciosas, por exemplo: “Quem ama é cristão”, “cristão é quem ama”. Relevando a dubiedade, pretende-se tornar a fé cristã atual, simples e convincente. O que até pode ser verdadeiro para um bocado de gente. Mas não é verdadeiro para pessoas inteiradas na Bíblia e alunas das confissões da igreja de todos os tempos e lugares. Elas divisam as tematizações da fé como arbitrariedades que sufocam a fé em Jesus Cristo. O perigo não existe só hoje, sempre rodeou a igreja; e tantas vezes, ao não tomá-lo a sério, virou sua vítima. A fé em Jesus Cristo, fundada na mensagem bíblica e secundada pelo testemunho da igreja, enfrenta o risco constante de sua sufocação com a “escatologia”. Ou seja: com a “doutrina sobre a consumação do tempo e da história”, respectivamente, com o “tratado sobre os fins últimos” do ser humano (A.B. de Holanda Ferreira, Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed./28. imp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 686. 3ª coluna). 2 – O conceito “escatologia” está comprometido. Ele foi submetido demasiadamente a sucessivas releituras, sim, abusado no trabalho teológico (veja, p. ex., H. Ott [com a colaboração de teólogos de diferentes denominações cristãs], Die Antwort des Glaubens – Systematische Theologie in 50 Artikeln. 3. ed. Stuttgart/Berlin: Kreuz Verlag, 1981. pp. 477-519).

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F.-W. Marquardt busca entrelaçar as diversas facetas de “escatologia”, traduzindo o respectivo termo da igreja dos primórdios “De novissimis”: “Sobre as derradeiras novidades – aliás, no fim estarão à nossa espera grandes novidades, coisas inauditas, jamais ocorridas, jamais experimentadas” (Was dürfen wir hoffen, wenn wir hoffen dürften? – Eine Eschatologie. Gütersloh: Kaiser/Gütersloher, 1993. v. I. p. 28). “As derradeiras novidades” não consistem em espetáculos celestes, porém em um novo, mais profundo compreender do mundo que conhecemos, “numa forma agora permeada pelo amor de Deus, reconciliada, livre de todas as feridas da alienação da vida, mantido coeso pelo shalom [paz integral e abrangente]..., que simultaneamente é zedaka [justiça em todas as acepções e dimensões] ..., que satisfaz cada um na necessidade específica de sua existência” (p. 24). Há anos, indicam em igual direção cânticos populares cristãos brasileiros: R. Veloso, Da cepa brotou a rama (in: J. C. Maraschin [ed.], O Novo Canto da Terra. São Paulo: IAET, 1987. pp. 63-5) e Dizei aos cativos: “Saí!” (in: Pastoral Popular Luterana / PPL, O Povo Canta. Palmitos, 1994. p. 92s.), J. C. Maraschin, Jesus Cristo, vida do mundo (p. 158s.) e S. Meincke, Jesus Cristo, esperança do mundo (p. 32s.). 3 – Esse discurso escatológico exerce atração sobre gente contemporânea. Ele vai ao encontro do presente sentimento generalizado de progresso, da complementação, do aperfeiçoamento das pessoas e das coisas sem crise, ruptura ou mudança radical (cf. P. Tillich, Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal / São Paulo: Paulinas, 1984, quanto a “ser essencial e ser existencial”/a “existencialização e essencialização”: pp. 172-4. 258-78. 393s. 688s.). Embora o intuito da referida fala escatológica seja alertar, mobilizar e organizar as pessoas rumo ao futuro, essas, via de regra, adonam-se dela para continuar incontestes e ilesas. a) Fora de dúvida, as pessoas visam a um porvir, mas conforme a lei do casulo, quer dizer, sucedendo em harmonia, sem estranheza nem embaraço. Almejam a inquebrantável identidade consigo mesmas, a conexão – não a contradição, o desenvolvimento – não a interrupção, a evolução – não a revolução, a regeneração – não a criação, a metamorfose do costumeiro – não o novo. Querem o amanhã sem largar o hoje, o novo em forma de melhoria do existente, a vida como sobrevida. Avocam, de modo consciente ou inconsciente, o axioma: nada se perde, tudo se transforma; jamais há – nem pode haver – algo de divergente do que aí está. Anseiam experienciar a vida, também a eterna, não recebê-la. Como resultado, articula-se uma consciência que exige o máximo em satisfações e o mínimo em contrariedades; toma conta o relativismo que justifica tudo; desabrocha a filosofia de vida que embeleza e retoca as vicissitudes, expurga a pergunta incômoda pelo sentido e rejeita qualquer forma tanto de identificação individual como de responsabilização pessoal.

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b) A fé em Jesus Cristo, fundada na mensagem bíblica e secundada pelo testemunho da igreja, é essencialmente escatológica. Contudo, sua percepção de escatologia é contrária à lei do casulo. Sua lei é impregnada por Jesus Cristo, que se compara ao grão de trigo: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto” (Jo 12.24). O enfoque escatológico na Sagrada Escritura e da igreja desde sempre concentra-se nesse Jesus Cristo. “Cristianismo que não é, de modo total e integral, escatologia, decididamente, não tem nada a ver com Cristo” (K. Barth; veja: Recomendações bibliográficas / Rb). O jeito escatológico escriturístico e eclesial embaraça demais: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano” (cf. 1 Co 2.9 / Is 64.4). Motivo pelo qual se origina tão-só através da iniciativa peculiar de Deus: “Não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16.17; cf. Jo 3.31-4, 8.23, 19.11). Pois Jesus Cristo é o evento escatológico por excelência (seg. R. Bultmann; veja Rb), presente e atuante nos meios de sua livre vigorosa ação graciosa, envolvendo nossos cinco sentidos. Em sua vida, morte e ressurreição, Jesus Cristo incorpora a escatologia. Ele a determina: por interferência vertical – o juízo do velho antecede o novo, por corte inexorável – a morte antecede a vida. O que detalha com sua auto-apresentação: “Eu sou o Alfa e o Ômega” (Ap 1.8), “eu sou o primeiro e o último” (v. 17[s.]). Ele é o primeiro, aquele que constitui e suscita o futuro e puxa os seus para dentro do futuro que é ele próprio; ele é o último, aquele que toma a decisão derradeira e recria todos e tudo. Razão pela qual continua seu dito do grão de trigo: “Quem ama sua vida, perde-a... Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estou, ali estará também meu servo” (Jo 12.25s.). Em estreita consonância com isso soam os testemunhos do apóstolo Paulo: levamos “sempre [primeiro] no corpo o morrer de Jesus para que também [depois] sua vida se manifeste em nosso corpo” (2 Co 4.10[-12]), e de M. Lutero: morrer e viver “precisam estar sempre presentes em nós, porque há em nós duas pessoas que se fazem oposição: a velha e a nova; a velha precisa ter medo, desesperar e sucumbir, a nova, esperar, permanecer e ser levantada” (seg. H.-J. Iwand, Predigt-Meditationen. Göttingen: Vandenhoeck, 1963. p. 361).

2 Escatologia popular 1 – Quem intenta comunicar escatologia centrada em Jesus Cristo carece cientificar-se da escatologia corrente e vigente, a popular. A mesma é virulenta nas comunidades igrejeiras e eclesiais bem como em outros públicos. É capaz que seja o complexo mais emaranhado e o terreno mais minado para um testemunho cristológico. Digo: testemunho cristológico, não falácia psicossomática, ditada pelas faladas necessidades poimênicas.

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Precisa-se, pois, de convivência comunitária auto-renunciante, paciente e persistente, sensibilidade empática e flexível em ouvir ou ler atrás das manifestações das pessoas e discernimento teológico-pastoral. 2 – Começa-se a perceber a escatologia popular nos anúncios fúnebres. Qualquer jornal que se preza e pretende aumentar a tiragem possui respectiva seção. Impressiona o que vem à tona aí – e o que não. Coloco formulações que, devido a seu aparecimento reiterado, gravam-se na mente do leitor, sugerindo que se façam descobertas próprias na leitura. Pois “os pastores só sabem 10 por cento daquilo que o povo pensa” (um presbítero na IECLB). Nos anúncios, substituem-se “os verbos ‘morrer’ ou ‘falecer’ por mais eufêmicos ...: partir, viajar, deixar”; enlutados dirigem-se em “locação direta” e “íntima” ao ente querido “inesquecível”, destacando, gratos para sempre, suas “virtudes e grandes ensinamentos” legados e lhe assegurando que tem “cumprido sua missão na terra”; pessoas “deixadas aqui” vêem as que “se foram” lá “com Deus”, vivas e felizes, gozando merecidas recompensas e “festejando com os anjos”; familiares, ansiosos pelo reencontro, saúdam aquele que “partiu”: “Tchau, até um dia”, jurando “amor eterno”, expressando “solidão”, às vezes “resignação” até “revolta”, também desejando “bênção de Deus onde estiver” e pronunciando “preces” na data do aniversário da pessoa falecida; volta e meia, os anunciantes mencionam “a fé” – “fé em si mesmo, como resgate de sua auto-estima, fé na comunidade e na sua família” (I. Kayser; veja Rb). 3 – A comparação entre a escatologia popular e a escatologia firmada em Jesus Cristo realça um confronto dogmático. Quase sempre se entende por “dogmático” aquilo de que se discorda ou aquilo que a igreja, de maneira solene e oficial, declara necessário para a salvação. Dificilmente os que discordam se dão conta de que, igualmente eles, agem / reagem como “dogmáticos”, ou seja, baseiam-se em seus “dogmas” peculiares, admitidos ou não, a partir dos quais existem e argumentam. É fenômeno humano universal ter e formular “dogmas”, promulgá-los e defendê-los “dogmaticamente”. O que se manifesta em todos os setores da vida – não apenas em contextos religiosos. “Dogma” é a condensação subjetiva refletida quanto à realidade que uma pessoa ou grupo humano percebe, experimenta e, por conseguinte, mantém com verve existencial – e “dogmática”. A condensação não é acessível sem mais nem menos a terceiros, tampouco tolera contradita de quem quer que seja, pois compõe a base sine qua non da consciência, existência e convicção das pessoas que a elaboraram. Caso aderissem à refutação de seu(s) “dogma(s)”, elas se auto-aniquilariam. A manutenção, a todo custo, de seus “dogmas” é questão de pura sobrevivência dos “dogmáticos”, isto é, das pessoas tais quais são. A noção a esse respeito aumenta bastante no presente. Logo, nosso presente é tão “dogmático” e a confrontação

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“dogmática” tão acirrada; entre outras, referente à “escatologia”. O entranhamento no texto-base para a prédica equipa-nos para o embate inevitável.

3 O texto-base para a prédica 1 – A Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios (2 Co) é o testemunho cristológico mais existencial, eletrizante e contagiante do apóstolo (cf. J. Comblin; veja Rb). Igualmente para ele vale o que M. Lutero diz do escrito aos Romanos: é “digno e merecedor de que o cristão não só o conheça de cor, palavra por palavra, mas também com ele se ocupe diariamente, na qualidade de pão diário...; pois ele jamais poderá ser lido ou contemplado em demasia. E quanto mais se lida com ele, tanto mais agradável e gostoso fica”. Em especial, obreiros e obreiras da igreja deveriam “ruminá-lo” (Lutero; veja Rb) – logo descobririam situações nas quais se dopam com correrias igrejeiras, solicitam ou aceitam tutelamento de sua consciência, põem-na em leilão ou assumem “consciência enlatada” (S. P. Rouanet). A exegese crítico-literária tornou plausível que 2 Co é uma coletânea de diversas cartas, respectivamente, fragmentos de cartas – fenômeno literário não isolado no Novo Testamento. Quanto à epístola em tela, cada parte teria sido redigida em tempos e sob condições diferentes, espelhando a relação deveras dramática entre Paulo e a comunidade destinatária (cf. G. Bornkamm; veja Rb). Seguindo esse enfoque exegético, o que acompanho, o testemunho paulino adquire maior força e plasticidade – e surpreendente atualidade. 2 – O trecho 2 Co 5.6-10 integra a unidade 2.14-7.4. Paulo expõe sua asserção relativa a caráter e legitimidade do apostolado. Ele vê-se forçado a isso diante da agitação de pregadores ambulantes na comunidade de Corinto (Saloniki, atual Grécia), fruto de seu serviço missionário (fim do ano 49 ou 50 até início do ano 51 ou 52 de nossa era). Andarilhos espirituais já aparecem antes de 2 Co, por exemplo: nas cartas a Gálatas e Filipenses e, mais tarde, nas de João. Na Primeira Epístola aos Coríntios (1 Co) (escrita em Éfeso, atual Turquia, no começo de 54 ou 55) não se nota nada deles ainda. a) Provavelmente em meados do ano 55, os referidos predicantes invadem Corinto. O que representa um dado novo e ameaçador na relação entre Paulo e a comunidade, originando a correspondência apostólica contida em 2 Co (enviada desde Éfeso). Os intrusos conseguiram deixar seu público estupefato “com esta luz especial do Evangelho” (H. Frör, Ach Ihr Korinther! – Der Briefwechsel der Gemeinde in Korinth mit Paulus. Gütersloh: Kaiser/ Gütersloher, 1994. p. 108): relatos de revelações misteriosas e provas propaladoras de poder celestial em forma de retórica arrebatadora, de encenações extáticas e milagrosas – capazes de elevar as pessoas “dos vales

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escuros, do movimento surdo deste mundo, dos sofrimentos... para cima, ...rumo à luz..., o céu está aberto” (p. 109). Esse recebe os estupefatos que “experienciam que são aptos para a plena maturidade espiritual” (p. 120), longe de qualquer corporalidade que prende e limita, vêem na morte o libertador de seu eu espiritual indestrutível. Por meio de tudo isso, os andarilhos espirituais apoderaram-se da comunidade extasiada, satisfazendo, concomitantemente, a própria massiva ganância (2.17, 4.2). São elitistas espirituais que usam a comunidade como campo de autopromoção. “Confundem”-na com vil desdém, “brilhando na aparência” (Lutero; veja Rb). b) Paulo toma posição com bathos kai pathos, porque “os tais ensinadores” reivindicam ser apóstolos de Jesus Cristo. “Ousados são no seu falar / e dizem quais doutores: / Nós temos a revelação, / decretos, leis e tradição; / da Bíblia somos mestres” (Lutero). Em seu frenesi se acham inquestionáveis e superiores a Paulo em presença e convicção, prática e certeza espirituais. A comunidade, fascinada por esses super-espirituais, está segura de que Jesus Cristo mesmo, em poder e glória, manifesta-se mediante eles “de jeito audível, perceptível e visível” com “patente efeito convincente” (Frör, p. 121), intermediando “a felicidade transbordante que Jesus proporciona” (p. 123), “a consonância bem-aventurada com Cristo [o ressurreto resplandecente como o sol]” (p. 124) – e isso tanto mais quando comparados com Paulo, esse, aparentemente, em toda a linha de segunda categoria. O apóstolo, por seu turno, tem aqueles fascinadores como “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos” e fingidos “ministros de justiça”, aliás, de “Satanás mesmo”, que “se transforma [e seus ministros] em anjo[s] de luz” (11.14s.). Eles incutem um “evangelho diferente”, que os coríntios não têm “abraçado”, difundem um “outro Jesus”, que Paulo não pregou aos coríntios, trazem um “espírito diferente, que” os coríntios “não têm recebido” (v. 4). c) Paulo opõe-se a “esses tais apóstolos” (11.5) num crescendo. Em 2.14-7.4, atualizando sua pregação da cruz (p.ex., Gl 2.11-21, 5.24-26, 6.1115; Fp 3; 1 Co 1.18-2.16) para a situação criada em Corinto, argumenta de modo soberano contra os infiltrados. Ao mesmo tempo, o remetente – “pregador confortador” (Lutero; veja Rb), identificado com os coríntios sem segundas intenções – procura cativar, com exímia abertura e empatia ilimitada, a comunidade transtornada e felicíssima no transe em que foi colocada pelos enxeridos, os atletas espirituais (cf. 6.11s., 7.4). O método exegético com que aprendo (cf. acima) dá como muito provável que o apóstolo visitou Corinto após ter escrito 2.14-7.4. A visita foi um fracasso, tornando mais pesado ainda o clima entre a comunidade com “seus novos apóstolos” e Paulo. Faltam detalhes, porém 2.1-4 e 2.5-11 parecem espelhar algo grave que aconteceu na ocasião. De novo em Éfeso, Paulo torna a escrever, a saber, 2 Co 10-13. Assumindo posição implacavelmente hostil aos metediços, ele desdobra as con-

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seqüências de sua pregação da cruz para sua experiência lacerante de “apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus” (1.1) e, simultaneamente, constata com cáustica ironia e grande amargura que a comunidade se sujeitou aos ditos imponentes místicos e sua doutrinação (cf. 11.20s.). Resta ao apóstolo tão-só exortar os coríntios, com extrema seriedade, para o auto-exame definitivo se Jesus Cristo [enunciado via palavra e vivência de Paulo] está neles, pois, do contrário, já estão reprovados [ante o próprio] (cf. 13.5, 5.10; 1 Co 11.31s.). 3 – 5.6-10 encerra a segunda parte de 2.14-7.4, que inicia com 4.7 e ressalta “a fragilidade” do “apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus”. Enquanto 4.7-12 define “a fragilidade do enviado” como “contradição inerente ao afã do Evangelho” e 4.13-15, a pregação do pregador frágil como aquela que “abre o futuro”, 4.16-18 versa sobre “como o enviado é destroçado e reconstituído”, 5.1-10 sobre a “existencia [do apóstolo e da comunidade]”, uma vez, “em vista da morte”: vv. 1-5 e, depois, “em vista da responsabilização futura [de ambos]”: vv. 6-10 (Chr. Dietzfelbinger, Das apostolische Selbstbewusstsein des Paulus [SS 1986, polígrafo], p. 41). a) Em 5.1-10, Paulo reflete sobre o que “sabemos” (v. 1; cf. v. 6). A continuação de seu testemunho evidencia que o “saber” não é tão pacífico; pelo contrário, o apóstolo precisa fazer saber aos coríntios (assim Dietzfelbinger, p. 58): * primeiro, que comunidade e apóstolo estão sujeitos a morrer integralmente. Isso não é nenhum destino cego, mas vontade de Deus. Em meio ao absoluto fim comum, o “Deus da ressurreição permanece seu fiel criador em e por causa de Cristo” (conforme H. Traub. In: A. Falkenroth e H. J. Held [ed.], hören und fragen – Eine Predigthilfe v. 4/2. Neukirchen: Neukirchener, 1976. p. 236). Deus assegura seu intervir escatológico, “outorgando-nos o penhor do Espírito”, que esclarece a esste respeito. Fato que supera o pânico diante da morte radical – e a qualifica (vv. 1-5); * segundo, que comunidade e apóstolo estão sendo responsabilizados em definitivo. É patente a imbricação entre morte e juízo. Ninguém, nada no ser humano escapa – muito menos os crentes em Corinto, seus guias espirituais e o próprio apóstolo (vv. 6-10). Após Proclamar Libertação (PL) ter trazido dois auxílios homiléticos para o trecho todo, anima, neste volume, mais uma vez (veja Rb), as pessoas que pregarão e as que ouvirão a se confrontar com o segundo aspecto da realidade que sobrevém a “todos nós” e a “cada um” (v. 10). Lembrando o esboçado concernente à escatologia popular (acima, II.2.), tal confronto é urgente e só nos pode ser salutar. b) Paulo liga 5.6-10 a 5.1-5 com a frase “temos bom ânimo”/“estamos com coragem e sem medo” // “temos toda a certeza/estamos em plena confiança” (v. 6a, repetido em v. 8a; Almeida omite isto? cf. 7.16, 10.1d.2b). O autor ressalta que a ação criadora escatológica de Deus determina a exis-

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tência dos crentes no Senhor [Jesus Cristo] – “sempre” // “em todos os tempos [e situações]” (v. 6 a). O último termo aparece 27 vezes nos escritos paulinos (W. Bauer, Wörterbuch zum Neuen Testament. 5.ed. Berlin: Töpelmann, 1963. Verbete pantote, coluna 1207). Empregando-o aqui, o apóstolo vincula 5.6a * ao trecho anterior, de 4.8.10 [“sempre”]s., expressando que “temos bom ânimo” em circunstâncias sobremaneira adversas quando na proclamação do evangelho, pois bem aí experimenta-se “a vida de Jesus em nossa carne mortal”, ou seja, “não/jamais desanimamos” (4.1.16; Almeida observa a repetição do vocábulo grego?). A vida de Jesus nos seus verifica-se no fato de que eles têm bom ânimo, toda a certeza, respectivamente, estão em plena confiança – quando tudo combate tal convicção e postura (cf. Rm 4.18-21); * ao trecho posterior, de 5.8-10, expressando que “temos bom ânimo” a fim de “nos esforçarmos a ser agradáveis ao Senhor [Jesus Cristo]”. Tanto faz se estamos na presente existência sob o Senhor ou naquela outra com/ junto ao Senhor (cf. 1 Ts 5.10; Rm 14.7-9). Vital não é como e onde estamos, mas, sim, que agrademos a Jesus Cristo “durante a vida no [em nosso] corpo”. O que é realçado pelo fato de que “importa que todos nós compareçamos” para a devida verificação perante Jesus Cristo. “Ter bom ânimo” corresponde a “jamais desanimar” no “agradar ao Senhor” e quando avaliados por ele. Eis a presença e a convicção, a prática e a certeza espirituais de Paulo, totalmente opostas às dos domadores infiltrados na comunidade. É isso que o remetente faz saber aos destinatários; aliás, esses o deveriam saber, uma vez que chegaram à fé em Jesus Cristo via “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus”. c) Na versão original, 5.6-8 apresenta problemas de sintaxe e de fluxo lógico. De momento, não há espaço para destrinchá-los. Para a pregação é imperativo captar: * o autor nota que v. 6b poderia acarretar um grave mal-entendido. Dito diferente: poderia parecer que faz coro com o discurso dos aludidos virtuoses em espiritualidade no sentido de que os/as crentes “em corpo [enquanto levam vida corporal temporal / tendo no corpo seu habitat original e adequado]” fossem “ausentes do Senhor [distantes, afastados, como num exílio em relação a ele, sua verdadeira pátria]” – idéia visceralmente contrária à sua asserção (cf. Rm 14.8). Motivo pelo qual aborta v. 6b, interpretando-o com v. 7 tal qual parêntese. Após ter eliminado o qüiproquó, Paulo prossegue em seu fazer saber por intermédio dos vv. 8-10. Dietzfelbinger resume o testemunho apostólico: “O que eu quis dizer em v. 6, explica ele com v. 7, é o seguinte: como gente que vive no corpo e neste mundo, nós em absoluto estamos na situação do ‘estar com o Senhor’ (1 Ts 4.17, fim). Nosso ser como filhos e filhas de Deus não se manifestou ainda de forma completa (Rm 8.23), isto é, nós não vivemos dia eidous [pelo

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ver], mas, sim, dia pisteoos [por fé], a saber: [vivemos] no estado do provisório, do penúltimo no qual o último, o ‘[ver] face a face’ (I [1Co] 13.12), não se realizou ainda” (p. 65). * O conceito “fé” (v. 7) é central em Paulo (cf. R. Bultmann; veja Rb), nunca vira chavão. O respectivo contexto literário o impede. Reparando nele, desponta a compreensão específica que o remetente confere à “fé”. No v. 7, “fé”, agora e aqui, no penúltimo, é contraposto a “ver” escatológico, o último, que está por acontecer. Presente e futuro se tocam; não se confundem, se ressaltam. “Fé... tem um lado avesso. Fé é apenas o início” (Iwand, p. 149). Com seu termo magno, o apóstolo caracteriza o viver e agir dos crentes com os cinco sentidos neste chão e contexto histórico (veja o original, melhor do que “andar” [Almeida]; cf. v. 10c). Para Paulo, inexiste valorização maior de nossos dias e feitos presentes do que afirmar que sucedem em, com e sob a fé (cf. Rm 14.23c). Se os coríntios vivem de jeito festivo, despreocupados com relação às práticas cotidianas de crentes neste mundo ou de jeito soberbo sentem náuseas a respeito, então contradizem frontalmente a fé. Pois fé é postura humana integral, concedida e assumida, exercida e localizada entre berço e caixão, diante daquele – com dizeres de Lutero – “em que se confia e crê de coração” (vv. 6c, 8c, 9c,10a; cf. Rm 1.5b, 15.18c). Fé, de modo nenhum, é saudade metafísica ou intuição do chamado sexto sentido, ansiadas por serem satisfeitas o quanto antes. Fé no testemunho paulino reveste-se de acurada sobriedade e de função crítica. Antes de muita gente, pessoas que crêem as necessitam, pois são, tantas vezes, mais sonhadoras do que realistas. São enganadas; enganam, inconsciente e também propositalmente, a si, entre si e a outros. O apóstolo aguça a consciência da comunidade quanto ao pendor para enganação e indiferença, para corruptibilidade e irresponsabilidade. Tal inclinação multiforme é difícil de perceber porque se esconde atrás de espiritualidade multifacetada. Isso é uma constatação da experiência, nenhuma defesa e, menos ainda, alguma justificação. Conforme Paulo, fé não rima com esquiva daquilo que, no atual momento, está perante nós, exigindo nossa opção e nossos sacrifícios. Fé rima, sim, com expor-se a desafios, arriscados e dolorosos, inclusive, ameaçadores da fé. Sobretudo, fé ensaia no “ser agradável [ao Senhor]” (v. 9c); * tendo Paulo insistido no penúltimo e lhe assegurado seu valor – caracterizado e qualificado como “espaço” (Dietzfelbinger, passim) inevitável/ irrenunciável para a fé, pois “a fé precisa de espaço” (Lutero) –, chega ao último. Com efeito, o remetente não corre mais o risco de ser igualado aos super-espirituais ou ser considerado plagiador deles. Após ter valorizado o provisório, separa desse, agora, o definitivo. Note-se: “pertence ao penúltimo” ser “limitado pelo último” e “ao provisório, chegar a seu fim... (I [1 Co] 13.9s.12). ... É isto o que Paulo quer dizer em v. 8” (Dietzfelbinger, p. 65). A

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essa altura, é coerente que ele reforce o “temos bom ânimo” com “preferimos [o último/o perfeito/definitivo] // gostamos ainda mais [dele]”. De novo (cf. v. 6), o apóstolo emprega no v. 8 as expressões “deixar o corpo/partir dele” e “estar com o Senhor/habitar com ele” e, por fim, no v. 9. As mesmas encontram-se exclusivamente nesses três versículos. Ao que tudo indica, Paulo toma-as de seus adversários. Coloca-as de forma cruzada-invertida (“quiasmo”: Dietzfelbinger, p. 65s.). Daí surge a pergunta pela compreensão que associa a elas; o choque violento entre os super-espirituais e o apóstolo (acima, III.2) exclui a possibilidade de que à consonância quanto aspecto formal/terminológico corresponda o aspecto material/de conteúdo. Auxilia no entendimento o confronto dos significados que as formulações adquirem para os contraentes. Refletindo vv. 6 b e 8s., é imprescindível lembrar os vv. 2-4. Assim evidencia-se: para os andarilhos espirituais “deixar o corpo/partir dele” é “apartar-se do corpo como algo [estreito, podre] desprezível/inferior”; para Paulo é, no entanto, “sair do provisório”, pois “estar no corpo”, respectivamente, “estar longe do Senhor”, equivale a “estar no provisório”. Para os andarilhos espirituais, “estar com o Senhor/habitar com ele” é “alcançar o estágio da nudez [absoluta], entrar no próprio ser autêntico, no eu [autônomo], livre de todas as relações”; para Paulo é, no entanto, “galgar a relação perfeita, viver a filiação [com Deus e Jesus Cristo] por completo e sem nenhuma limitação”, pois “estar apartado do corpo”, respectivamente, “estar junto ao Senhor”, equivale a “estar no definitivo/completo/perfeito” (Dietzfelbinger, ibd.). d) Paulo tira as conseqüências da valorização da existência corporal temporal em, com e sob a fé: 5.8s. Tal existência não é brincadeira, seja que se a leve em libertinagem ou em aborrecimento. Segundo o evangelho que anunciou à comunidade (cf. 1 Co 15.1b), é deveras lógico que ela corra para a responsabilização derradeira. Pois o tempo é do Senhor, e não dos seus. Se não fosse assim, toda pregação serviria tão-só para satisfazer as necessidades internas e externas de pessoas. Com efeito, o testemunho paulino causa espécie aos acrobatas espirituais de Corinto e de outras paragens. A despeito de convicções contrárias, o apóstolo acrescenta ainda que unicamente, destarte, a vida “de fé em fé” (Rm 1.17b) / sola fide (cf. Gl 2.20) e seus desdobramentos, aqui e hoje, granjeia singularidade e irrevogabilidade. * Daí compete necessariamente (dio) a endereçados e remetente: “esforçar-se de pronto/tornar-se salientes // envidar intensivas diligências (cf. 1 Ts 4.11a; Rm 15.20a) para, custe o que custar, lhe [ao Senhor] ser agradáveis” (cf. Fp 4.18; Rm 12.1s., 14.18). Não procuram pelo sentido de vida, mas pelo agrado de Jesus Cristo para com eles (seg. Iwand, p. 362s.). No intuito de fazer jus à definição paulina da máxima dos/as crentes / / da “finalidade da conduta cristã” e de evitar que vire chavão, Dietzfelbinger transcreve “ser agradável [ao Senhor]”: “viver em conformidade com Deus [respectivamente Jesus Cristo], responder à dádiva da existência [por parte

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de Deus, respectivamente Jesus Cristo], doando a existência [dada]” (p. 66). Paulo enfatiza que tal sucede tanto “nós estando no provisório/penúltimo” como “estando no definitivo/último”. Dito diferente: quando face a face com Deus, na pátria verdadeira, em plena vivência filial, nós não nos dissolvemos na Trindade, ao contrário, permanecemos em sua frente como filhos e filhas que ouvem, respondem e servem – se bem que de modo perfeito – a “Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e para quem existimos” e ao “Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas e nós também por ele” (Rm 8.6). “Nós não cessamos de ser criaturas, aliás, as seremos de forma total e pura” (Iwand, p. 361). Paulo corta ambições espirituais, virulentas na cidade de Corinto e em ambientes iguais ou parecidos hoje. Volta-se resolutamente “contra a piedade que visa a deificação” (J. Schniewind; apud Iwand, p. 360). * Tem mais: o apóstolo acerta em cheio a acrobacia espiritual e seus praticantes deslumbrados, asserindo que Jesus Cristo julga o desprendimento de “todos nós” – os/as crentes (sic), a começar pelos/pelas obreiros/as, quem sabe fenômenos de espiritualidade, indo até aos membros desleixados (cf. 1 Co 3.13-15, 4.5; Gl 6.7; Rm 2.6, 14.10-15). “Também em relação ao cristão Deus reserva a si o direito da última palavra.” Permanecemos na responsabilidade constante diante de Jesus Cristo. Fazemos “questão de seu beneplácito aqui e agora”. Sem “a inculcação da mensagem do juízo” (W. Schrage; veja Rb), Paulo esqueceria o ponto em cima do i em seu testemunho; concordaria com “os falsos apóstolos, que deixam de pé a vergonha interior da descrença”. Postura ética é inerente à existência corporal temporal em, com e sob a fé. Ora, “há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem” (Lutero). Jesus Cristo julga a quantas isso ocorre com “todos nós”. O testemunho cristológico em 5.1-10 chega a seu topo: vv. 6c > 8c > 10a. 10a possui paralelo em Rm 14.10c. O que “demonstra que Paulo junge o julgar de Deus (Rm 2.3; 3.6; 1 Co 5.13) e o de Cristo (1 Co 1.8; 4.4; 2 Co 1.14; 1 Ts 2.19)”; veja Rm 2.16: “Deus julga por meio de Cristo Jesus; cf. 1 Co 4.4s.: Cristo julga – Deus concede louvor (cf. 1 Ts 3.13). Em nosso versículo, a menção de Cristo corresponde à formação cristológica do contexto [literário] (vv. 6-9)” (Chr. Wolff, Der Zweite Brief des Paulus an die Korinther. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1989. p. 114 [Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament 8]). Jesus Cristo verifica o que “o crente fez com sua fé” (Dietzfelbinger, p. 68) no cotidiano particular e comunitário, bem como no convívio interpessoal mundo afora (Wolff, p. 115, aponta para 1 Co 6.13s.19s.; Rm 6.12s., 12.1s., Dietzfelbinger, p. 68, ainda para 2 Co 5.17; Gl 5.1). Em seu “tribunal acontece, por determinação divina inapelável, ‘segundo plano escatológico de Deus (dei)’ (Wolff, p. 114), que ficamos transparentes, estamos sendo abertos/as até nosso âmago e desmantelados/as, que caem nossas máscaras e acaba a

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enrolação espiritual própria ou insuflada” (parafraseando, porém mais perto do original do que Almeida). “Todas as auto-sugestões e ilusões, que criamos e cultivamos carinhosamente em nós durante a vida inteira, ruirão de um só golpe” (G. Lohfink). Finalmente, reconheceremos a nós próprios. O destapamento radical de “cada um” ocorre em plena luz do meio-dia e perante todos (cf. Ec 12.14; Dn 2.22; Mt 6.4b.18b, 10.26; Rm 2.16). Não passa nada em branco. Jesus Cristo não passa a mão em nossa cabeça. Ele conhece nossos nomes, rostos e corações. Ele encontra-nos onde estivermos. Ele chama tudo à baila de novo. Aí ninguém consegue recorrer a ninguém ou esconder-se atrás de alguém ou de algo. Se sucede uma vez que estamos absolutamente sozinhos/as, então é aqui. Em verdade, vale: cada um por si – ponto. Eis a única forma de individualismo que o apóstolo reconhece, admite e estimula. Paulo “crê, ensina e confessa” (Fórmula de Concórdia): Jesus Cristo julga e retribui. O apóstolo mantém inseparáveis justificação e santificação (veja Rb). “O Evangelho do perdão dos pecados por causa de Cristo não nos libera para o bel-prazer, a moleza ou, até, para a arbitrariedade e maldade” (G. Voigt, Die Kraft des Schwachen – Paulus an die Korin-ther II. Göttingen: Vandenhoeck, 1990. p. 41). Jesus Cristo julga “todos nós” e faz a “cada um [de nós] receber [a retribuição] segundo o bem ou o mal que tiver feito”. Para Paulo, “o bem ou o mal”, que Jesus Cristo constata e galardoa, se efeitua “[em, com,] por meio do [de nosso] corpo e enquanto nele estivermos”. A paráfrase justifica-se em vista do uso instrumental e temporal da preposição grega dia (cf. Blass/Debrunner, Grammatik des neutestamentlichen Griechisch. 11. ed. Göttingen: Vandenhoeck, 1961. p. 143/§ 223). O apóstolo silencia sobre o que é a recompensa. Não importa; o fato de ela existir é por demais sério e surpreendente. É vital aproveitar o tempo “no corpo”, tendo presente sempre e em toda a parte: “Nada é indiferente. Nada se perde. Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer” produz “desdobramentos infinitos” (G. Heinemann). Há, pois, razões de sobra para aprender com Paulo. O apóstolo é insofismável e irredutível na asserção quanto ao lugar vivencial de realizar “o bem ou o mal”: a vida corporal no tempo em que dura. Pensando naquilo que ele asseriu até aqui, só pode definir assim. “Sooma, corpo” é o outro conceito central em Paulo (cf. E. Käsemann; veja Rb). Dietzfelbinger sintetiza: para Paulo, “o ser humano é constituído essencialmente por sooma. Sooma é a pessoa na medida em que ela se relaciona (I [1 Co] 6.13.15-17), na medida em que responde [a outros] e é responsável [por outros], na medida em que está sendo exigida [por outros] e pode exigir [de outros], na medida em que se comunica e experimenta a comunicação de outrem. Sem tal conjunto relacional, a pessoa não seria pessoa” (p. 61). Ser ciente dessa vicissitude e vivenciar nela a fé em Jesus Cristo é “fazer/ praticar o bem”; desconhecê-la ou negligenciá-la é “fazer/praticar o

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mal”. Decisivo é “praticar o bem”: preencher com a fé em Jesus Cristo as relações nas quais estamos inseridos e as quais estabelecemos, respectivamente, deixar permeá-las pela fé – todas elas, sem excessão e onde dói e custa caro. Fatal é “praticar o mal”: viver isolado, reclinado na poltrona, satisfeito consigo e encurvado sobre si próprio com o sentimento oculto ou manifesto de que ‘os outros se danem’. Ainda que a atual existência dos/as crentes termine inexoravelmente, ela não é diversão nem matança enjoada de tempo, mas serviço. Como tempo e espaço para nosso serviço, ela está sob apreciação de Jesus Cristo. “Nós todos somos exigidos na morte e ninguém vai morrer pelo outro... cada qual tem de ser apto para si próprio na hora da morte: eu não estarei então contigo, nem tu comigo. Cada um precisa saber bem o que é o fundamental para um cristão – e estar preparado” (Lutero). O apóstolo Paulo emprega tamanha reflexão entranhante e paixão comovente para que os coríntios e outros deslumbrados cheguem a saber e fazer o fundamental e, por conseguinte, sejam preparados quando “perante o tribunal de Cristo”. Assim como os/as crentes não vivem ao jeito dos super-espirituais, tampouco morrem como se morre por aí. “A morte do ser humano não é igual à dos bichos” (Lutero; apud Iwand, p. 146) – muito menos a morte das pessoas que crêem em Jesus Cristo. Motivo pelo qual não se perguntam o que será de nós quando morrermos, mas o que Jesus Cristo vai dizer referente a nosso curriculum e nossos serviços prestados em vida corporal e temporal. “De nada nos valerá sermos justos diante das pessoas ou diante de nós mesmos. Importa desviar disso os olhos e aguardar com temor” seu “veredito [cf. 1 Co 4.3s.]” (Lutero, OS v. 8. p. 520.9-11). “Nós devemos mais a Deus do que temos. Por isso não lhe pagamos de outro modo do que entregando tudo o que nós mesmos somos, reconhecendo humildemente nossos pecados e confessando sua justiça, isto é, de que ele é justo, independentemente da maneira de como sua vontade divina lida conosco” (p. 525.24-8).

4 Sugestões para o culto 1 – O texto-base para a prédica é previsto para o fim do ano eclesiástico (cf. PL IX, p. 295-300 e XV, pp. 288-93) ou para o presente domingo (cf. PL XIX, pp. 178-80). A segunda opção, na metade do ano civil (sic), faz mais sentido, já que “em meio à vida estamos/envoltos pela morte” (Lutero). Melhor seria, no entanto, pregar 2 Co 5.[1-5]6-10 no Domingo após a Festa de Cristo (cf. W. Klaas. In: G. Eichholz [ed.], Herr, tue meine Lippen auf. v. 4. 4. ed. Wuppertal-Barmen: Müller, 1963. p. 66), pois Deus encarna em corpo e tempo humanos, possibilitando, criando e tocando a existência dos seus agradável a ele, a corporal, temporal – e eterna.

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2 – Acentue-se a) na confissão dos pecados * a esquivança quase geral da morte * a omissão igrejeira do juízo de Jesus Cristo * a falta de preparo eclesial, visando nosso comparecimento perante o mesmo; b) na oração de coleta: * o pedido de que estejamos abertos/as para a palavra de Deus * o pedido de que a mesma não nos endureça quando nos atinge * o pedido de que a mesma não nos passe despercebida quando exige mudanças radicais em nós, ao redor de nós e através de nós; c) no Credo: * o Terceiro Artigo com a explicação de M. Lutero no Catecismo Menor; d) na oração final: * súplica por conservação “na verdadeira e única fé” até nosso fim * súplica por morte abençoada com confissão e perdão de nossos pecados * prece por juízo misericordioso de todos, presentes e ausentes * intercessão pelo destino benigno das pessoas que se mantêm afastadas da comunidade, na qual “Jesus Cristo... perdoa... a todos os crentes diária e abundantemente todos os pecados, e no dia derradeiro... dará... a todos os crentes em Cristo a vida eterna” (Lutero) * intercessão por todos, conhecidos nossos e desconhecidos, que vivem cegos e surdos, ao bel-prazer e auto-sugestionados, em arbitrariedades e maldades, para que Jesus Cristo lhes abra o coração e sejam salvos. 3 – Como hinos sejam sugeridos: HPD 1, 53.4s.; 65.4; 94.1.4.; 122; 131; 155.1.7-10; 160; 175; 223; 271.4; 292; 298; 300; 304.3-5; 305; Lutero, OS v. 7, p. 507.5-508.40 (texto na coluna direita é cantável!); OPC 158s. e 236s. A escolha precisa ser meticulosa conforme a mensagem veiculada durante o culto inteiro e os cantos entoados não apenas nos momentos de costume. 4 – Com a reflexão esboçada acima sobre 2 Co 5.6-10 combinaria melhor Is 28.14-21 do que Ez 17.22-4, e Mt 10.26-33 do que Mc 4.26-34. 5 – A pregacão do texto-base deve desenvolver testemunho centrado em Jesus Cristo, visando ao tribunal dele. Entre nós, o que e quem desvia dessa exata expectativa? Sem clareza aí, a prédica prejudica quem prega e quem ouve.

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a) Inicie-se com apresentação de um anúncio de falecimento no jornal, descobrindo “a fé” que nele se expressa. b) Coloque-se “o bom ânimo” e seus desdobramentos que Paulo enfoca: * “a fé em Jesus Cristo” sempre, sobre tudo e todos, em qualquer situação ou: seu custo * “a fé em Jesus Cristo” é corpórea ou: sua função crítica * o serviço corpóreo da “fé em Jesus Cristo” sob juízo ou: a prova por que passa * a preparação para tal prova ou: o abastecimento da “fé em Jesus Cristo”. c) Conclua-se com esboço de um anúncio de falecimento de pessoa “crente em Jesus Cristo”.

Recomendações bibliográficas Textos para “ruminar” (Lutero): Referentes a I.2s. M. Lutero, Obras Selecionadas [OS] v. 7. São Leopoldo: Sinodal / Porto Alegre: Concórdia, 2000. p. 398.24-400.12 (= Igreja Evangélica Luterana / IEL, Livro de Concórdia /LC. 4. ed. Ibd., 1993. p. 455. 59-456.66). 407.10-409.4 (= ID, op. cit., 465.59-466. 70). 417.25418.14 (= ID, op. cit., p. 473.112-6). 456. 19-22 (= ID, op. cit., p. 372.[6]). 458.1-10 (= ID, op. cit., p. 373.6-8). 460.1-8 (= ID, op. cit., 375. 19s.). IEL, Confissão de Augsburgo – Art. XVII. In: ID, op. cit., p. 35s..1-5 / p. 71.1-5. Os Artigos de Esmalcalde – Prefácio. In: ID, op. cit., p.309.9. I.3. M. Lutero, OS v. 7, p. 490.38-492.36 (= Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil [IECLB], Hinos do Povo de Deus – Hinário da IECLB [I.}. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1984. Nº 155). P. Gerhardt. In: IECLB, op. cit., nº 65. II.2. I. Kayser, Partistes – estás com Deus. Tentando descobrir a “escatologia” popular. Levantamentos de subsídios. São Leopoldo, 2003. p. 121-82 (Polígrafo, cuja impressão urge; quem se interessa por detalhes, entre em contato com o autor). III.1. M. Lutero, OS v. 8. Ibd.: ibd., 2003. p. 336-337.7, 364.37-365.26. III.2. ID., OS v. 7, p. 496.20-498.4 (veja IECLB, Hinário da IECLB. ed. São Leopoldo: Sinodal, Nº 110). 73-9.114-24. v. 9. Ibd: ibd., em prelo. Bloco “Apontamentos do Dr. M.[artinho Lutero] à Primeira Epístola a Timóteo”, passim. III.3c. D. Bonhoeffer, Ética. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1991. p. 71-83. III.3d. M. Lutero, OS v. 8, p. 132.40-133.28 (= ID, Pelo Evangelho de Cristo. Porto Alegre: Concórdia / São Leopoldo: Sinodal, 1984. p. 184s.). W. Schrage, Ética do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994. p. 188-90 (= 5.)?. Textos para consultar: Referentes a I.1. A. Baeske, A temática visa à ajuda teológica e pastoral a uma igreja localizada. In: Forum ULBRA de Teologia. Lutero o Teólogo. Canoas: ULBRA, 2004. p. 101-4.109s. I.2. A. Baeske, PL IX [1983], p. [288]-94. I.2s. G. Aulén, A Fé Cristã. São Paulo: ASTE, 1965. p. 369-76. H. Schwarz, Locus 12 – Escatologia. In: C. E. Braaten & R. W. Jenson., Dogmática Cristã v.2. São Leopoldo: Sinodal, 1995. p. 477-588. K. Nordstokke, De onde virá para julgar os vivos e os mortos. In: W.Altmann, Nossa fé e suas razões – O Credo Apostólico (história, mensagem,

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atualidade). São Lepoldo: Sinodal, 2004. p. 134-40. O. L. Witt, Na ressurreição do corpo e na vida eterna. In: W. Altmann, op. cit., p. 160-4. I.3. K. Barth, Carta aos Romanos. São Paulo: Novo Século, 1999. p. 470-85. R. Bultmann, A Escatologia do Evangelho de João. In: ID, Crer e Compreender – Ensaios selecionados. Ed. rev. e ampl. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 62-79 (= edição de 1987. p. 1987. p. 121-34). III. M. Lutero, OS v. 8, p. 143.25-144.13; J. Comblin, Segunda Epístola aos Coríntios. Diversas editoras, 1991 [Comentário Bíblico - NT]. III.1s. G. Bornkamm, Paulo – Vida e Obra. Petrópolis: Vozes, 1992. p. 269-73. J. Comblin, op. cit., p. 13-27. III.3. J. Comblin, op cit., p. 80-6. III.3a. F. Gierus, PL IX , p. [295]-300; O. Zizemer, PL XV (1989), p. 288-93. N. Schneider, PL XIX (1993), p. 178-80. III.3c. R. Bultmann, Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 382-402. III.3d. F. Melanchthon, Apologia IV. In: IEL, LC. p. 110.1-176.400. G. O. Forde. Locus 11: Vida cristã. In: C. E. Braaten & R. W. Jenson, op cit., p. 401-72. O. Bayer, Viver pela Fé – Justificação e Santificação. São Leopoldo: Sinodal, 1997. Em especial: p. 52-60. E. Kae[ä]semann, Perspectiva Paulinas. Sãio Paulo: Paulinas, 1980. p. 26-32. IV.5b. A. Baeske. Creio em Jesus Cristo, nosso Senhor ou: “Ele serve pra sê Sinhô” (P. do Assaré). In: W. Altmann, op. cit., em especial: p. 73-8.

5º DOMINGO APÓS PENTECOSTES JÓ 38.1-11 2 CORÍNTIOS 5.14-17 MARCOS 4.35-41

6º DOMINGO APÓS PENTECOSTES LAMENTAÇÕES 3.22-33 2 CORÍNTIOS 8.1-9,13-14 MARCOS 5.24b-34

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7o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

23 JUl 2006

EZEQUIEL 2.1-5 MARCOS 6.1-6

PRÉDICA: 2 CORÍNTIOS 512.7-10 Roberto Ervino Zwetsch

Da fraqueza e da força do ministério

1 Introdução Vivemos um momento da história humana de mudanças profundas. É um tempo vertiginoso, questionador de valores e de utopias. As comunidades de fé não ficam alheias a essa situação verdadeiramente desestabilizadora. Assistimos a uma frenética busca de resultados imediatos em todos os campos do conhecimento, também no campo da fé religiosa. Nesse sentido, o exercício do ministério da pregação e da direção espiritual vive um momento dramático. Talvez nunca na história desse ministério houve tanta exposição das figuras do pastor ou da pastora, principalmente depois que o pentecostalismo trouxe às páginas dos jornais e ao mundo televisivo essa figura protestante, que em outros tempos ficava restrita ao âmbito eclesial e privado. Temos diante de nós uma situação nova para avaliar. O que significa ser pregador ou pregadora em tempos exibicionistas, em tempos nos quais o carisma é medido pelo número de pessoas que adentram os templos e assistem aos serviços múltiplos de cura, bênção, resolução de problemas conjugais ou financeiros? Tempos em que o carisma desse personagem é medido pelo volume de dinheiro que consegue arrecadar a cada culto (melhor ainda, se forem vários por dia)? Definitivamente, o ministério da pregação está em tela de juízo. As comunidades cristãs das igrejas históricas talvez nunca tenham enfrentado uma situação parecida. Ainda assim, o questionamento não é novo. Os textos para este domingo o comprovam. Vem de longe a crise do ministério da pregação, entendido como dom da profecia ou como carisma do anúncio do juízo e da graça de Deus. Vamos aproximar-nos da passagem escolhida para a pregação com essa rápida apreciação do nosso drama atual para ver como podemos aprender do apóstolo Paulo, sem dúvida o apóstolo que melhor

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deixou registradas a fraqueza e a força do ministério do evangelho de Cristo. Ao mesmo tempo, vamos procurar tirar dessa passagem o ensinamento ou a mensagem para toda a comunidade cristã.

2 2 Coríntios – um texto, várias cartas Para compreender melhor o trecho que vamos estudar aqui, é importante considerar algumas informações gerais dessa carta. Vários exegetas já deixaram claro que a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios é, de fato, um conjunto de textos ou cartas provavelmente reunidos por discípulos do apóstolo. É bastante seguro que deve ter havido uma ou mais cartas entre a primeira e esta. O exame do conteúdo de 2 Co apresenta-nos o seguinte: Carta A: 1.1-2.13 + 7.5-16 – Carta da alegria Carta B: 2.14-7.4 + fragmento de 6.14-7.1 – Carta da apologia Carta C: cap 8 – Carta sobre a coleta para Jerusalém Carta D: cap 9 – Carta sobre a coleta para Jerusalém Carta E: cap 10 – 13 – Apologia do ministério ou Carta da Loucura (11.1) Em certo sentido, a maior parte dos escritos de Paulo é do gênero da apologia. Os escritos revelam a paixão de Paulo em anunciar o evangelho de Cristo e, ao mesmo tempo, sua luta contra judeus e judeu-cristãos que deturpavam a graça e a liberdade desse evangelho. Em 2 Co há uma ênfase destacada de todas as outras. Paulo reafirma em vários momentos a sua fraqueza. Não julga que tais fraquezas sejam contraproducentes em relação ao anúncio da graça de Deus, manifestada no Cristo Crucificado. Pelo contrário, defende justamente que é na sua fraqueza que melhor pode brilhar o evangelho e a graça como poder de Deus. O trecho da pregação para este domingo encontra-se, pois, na última parte da carta, no contexto de sua carta da loucura: “Quisera eu me suportásseis um pouco mais na minha loucura” (11.1; cf. 11.16s, 12.11). A questão em jogo nesta e também no cap. 2 (carta B) é a defesa do ministério de Paulo. Havia uma luta desencadeada na comunidade contra Paulo. Outros apóstolos vieram e questionaram o evangelho de Paulo. Talvez até o tenham caluniado (p. ex., ele não é um apóstolo verdadeiro porque não conheceu Jesus pessoalmente, nem viveu na Palestina – cf. 11.22s). Paulo não apenas se defende, mas defende a sua compreensão do ministério cristão e, dessa maneira, acaba questionando radicalmente os seus adversários. No fundo, está em jogo não apenas uma forma de anunciar o evangelho (os apóstolos, segundo uma palavra de Jesus, deveriam viver às custas das pessoas que recebessem esse evangelho). Paulo defende duas coisas: a sua

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opção por anunciar o evangelho da graça de Deus de graça, isto é, trabalhando para se autosustentar; simultaneamente, questiona aqueles que – seguindo a letra da palavra de Jesus – se gloriam de si mesmos e deixam de reconhecer que é na fraqueza que reside a verdadeira força dos discípulos de Cristo. Comblin (1991) resume assim a defesa de Paulo: 1 – O verdadeiro apóstolo é recomendado pelas obras que Deus realiza por seu intermédio, enquanto os falsos apóstolos invocam títulos materiais exteriores à evangelização (3.1-6; 10.13-18); o problema aqui foi o fato de que aquilo que Paulo apresentou como título de legitimidade era tido por inválido pelos outros, enquanto o que os outros invocavam como título legítimo não era aceito por Paulo. Esse embate entre concepções opostas de ministério criou muita confusão na comunidade, que, por sua vez, chegou a balançar em sua confiança para com Paulo. Não dá para esquecer que foi por meio da pregação de Paulo que surgiu a comunidade cristã de Corinto. Paulo, melhor do que ninguém, sabe que essa comunidade não é obra de sua eloqüência (11.6), mas fruto da obra do Espírito Santo. E por isso ele reafirma que o mesmo Espírito é que confere legitimidade a seu ministério. 2 – O verdadeiro apóstolo gloria-se na sua fraqueza e não na sua força, ou nas manifestações exteriores do poder do Espírito (4.7-12; 6.3-10; 11.22s). Na carta da loucura, porém, é onde melhor manifesta a sua doutrina: é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder (12.9s). Para Paulo, fraqueza do apóstolo e força de Cristo são termos correlatos. Pois se o apóstolo se apóia em força humana, faltam-lhe a força de Cristo, o poder de sua ressurreição. E no caso de Paulo, onde e como se manifesta essa fraqueza? Paulo apela à sua cristologia; “Cristo era rico e se fez pobre por amor de vós” (8.9). O apóstolo não pode fazer menos do que isso. Por essa razão Paulo procurou sempre se auto-sustentar por meio de seu trabalho (sinal de pobreza e indignidade, considerando a cultura greco-romana imperante. Cf. 1 Co 9.115 x Mt 10.9s; 1 Co 4.12; 2 Co 11.27; 2 Co 12.14). Ora, justamente o que ele valoriza é questionado pelos outros apóstolos como sinal de castigo de Deus. Daí a veemência com que Paulo se defende e questiona os seus acusadores, chamando-os de falsos apóstolos. Ele trabalhou e nisso se colocou junto e ao lado dos mais pobres de então. E isso ele fez como sinal de sua liberdade em Cristo. Paulo, ao escolher trabalhar, entrou nas cidades pelo bairro dos pobres e não através dos casarões dos ricos, que poderiam sustentá-lo sem problemas. Sua opção prática mexeu com outros apóstolos, que facilmente aprenderam a viver das benesses dos mais bem situados da comunidade (Comblin, 1993). Como o trabalho no mundo de então era coisa de escravo, Paulo entende essa opção como uma forma de assimilar-se à morte de Cristo. Comblin afirma que a teologia dessa carta é a mesma que Paulo apresenta em Fl 2.511. A força da ressurreição de Cristo está também presente na vida do missionário. Por isso Paulo não se envergonha nem do evangelho tampouco de

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sua condição de trabalhador. Sua fraqueza, em verdade, é real; mas aos olhos da fé, é sua força. Diz ele: prefiro gabar-me de minhas fraquezas para que a força de Cristo habite em mim (12.9). É nessa condição que Paulo experimenta de forma autêntica o poder de Deus (6.7) e a atuação do Espírito Santo (6.6). Na reinterpretação ousada que Paulo faz da mensagem de Cristo, ele encontra um paralelo perfeito entre Cristo e sua vida de apóstolo. Na mente de Paulo, portanto, os seus detratores, ao acusá-lo de fraco, tornam-se “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos”, que se disfarçam de ministros de Cristo (11.13); pior ainda: os falsos apóstolos, ao seguirem Satanás, transformam-se em anjos de luz, em ministros da justiça (11.14s) na maior insensatez (Paulo aqui se vale da típica linguagem apocalíptica!). Ele então argumenta que seus sofrimentos como apóstolo são a melhor e mais clara manifestação da verdade de seu ministério (11.23-30; 12-7.10). E sofrer pelo evangelho é sofrer por Cristo e em Cristo. Essa é a sua glória, e não as manifestações carismáticas que os outros desfiam como prova de sua legitimidade.

3 A perícope: 12.7-10 Essa perícope vem precedida de outra (12.1-6), que deve ser levada em conta para o entendimento da mensagem que ela traz. Paulo investe contra uma certa interpretação dos dons carismáticos como prova da legitimidade do missionário. Ele até faz menção de que, se esse é o caso, também pode atestar experiências inefáveis como visões e revelações (12.1-4). Mas, e isto é muito importante para o nosso debate atual, ele prefere deixar entre parênteses as visões e revelações, sem buscar glória pessoal nisso, para gloriar-se apenas nas suas fraquezas, pela seguinte razão: “Abstenho-me para que ninguém se preocupe comigo mais do que em mim vê ou de mim ouve” (12.6). Ora, tais experiências podem servir para a edificação pessoal, mas não ajudam em nada a comunidade, se essa depender de tais evidências internas e muito particulares. Para escândalo de seus opositores, Paulo não faz de suas experiências carismáticas o fundamento de sua missão nem de seu apostolado, embora ele as conheça bem e, como os outros, possa testemunhar de si próprio. Ao contrário, Paulo afirma apenas o que é visível. E, nesse sentido, o que se pode ver? Primeiro, a existência de sua comunidade de Corinto: “Vocês são a minha carta de recomendação, escrita nos corações e reconhecida por muitos” (3.2). Segundo, a sua visível fraqueza humana, os seus sofrimentos, as perseguições, as calúnias, as fugas apressadas, a exaustão do trabalho manual, as vigílias, a preocupação com todas as igrejas, enfim, sua total dependência da misericórdia divina (6.4-10; 11.7-10). Por isso, afirma Paulo, a verdade está com ele e não com os outros, que vieram apresentar aos coríntios outro Jesus, outro evangelho (11.4; Gl 1.6).

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Assim, ele avança um pouco mais e confessa o seu próprio espinho na carne. “Para não me ensoberbecer, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte.” Muito se debateu na pesquisa para descobrir qual seria esse espinho, esse mal que assola Paulo, sem que haja descanso ou solução em sua atribulada vida de apóstolo. Sem querer resolver o impasse, o que se pode afirmar é que é algo que ele vive no corpo (na carne) e de forma permanente. Nem a oração contínua o livrou desse mal. Então ele conclui: também esse sofrimento serve ao propósito de Deus. O sofrimento lembra-o permanentemente da fraqueza de seu ministério. Interessante é observar como aqui, mais uma vez, Satanás serve aos propósitos de Deus (cf. Jó 2.6s; 1 Co 5.5), pois ele não castiga, mas faz a pessoa sofrer como provação. Paulo pede para ser liberto do mal e o faz diretamente a Cristo. Comblin informa: temos aqui um exemplo de oração feita diretamente a Cristo e não ao Pai, novidade que surge na comunidade de cristã. O número três tem a ver com a tradição judaica das três orações diárias. A resposta de Jesus vem na forma de um oráculo: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (12.9). Na resposta de Jesus confirma-se a doutrina missionária de Paulo, o que faz com que o seu entendimento da missão na fraqueza (e não no sucesso) seja do próprio Jesus. Ora, o poder de Deus manifesta-se na fraqueza humana. Não por acaso, Paulo já observara em 1 Co 1.26ss que não só ele, mas a própria comunidade é sinal dessa força de Deus: “Pois Deus escolheu as cousas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar os fortes; e escolheu as cousas humildes do mundo, e as desprezadas, e as que não são para reduzir a nada as que são”. Aqui o apóstolo identifica-se com sua comunidade, majoritariamente, formada por pessoas pobres, escravos, gente sem valor e sem títulos a apresentar, conforme os padrões da sociedade dominante. Ora, é justamente aí que melhor brilha o evangelho da graça de Deus. É o mesmo argumento que Paulo apresenta quando faz a sua exposição da teologia da cruz (1 Co 1.17s.18-24; 2 Co 13.4). A sua força enquanto apóstolo de Cristo e missionário do evangelho não está em si mesma, mas na graça de Deus. É essa graça que o torna pessoa capaz de evangelizar, fundar comunidades e até mesmo escrever com ousadia para defender o seu ministério e a prerrogativa da autenticidade de sua mensagem. Paulo não fica livre de seu mal, mas compreende que, ainda assim, é importante para Deus, que o sustenta apesar de sua fragilidade. Paulo compreende por que pode alegrar-se, mesmo nas suas fraquezas. Aqui é bom recordar que não se trata de fraquezas morais. Antes se trata das aflições próprias do ministério: humilhações, necessidades, perseguições, angústias (11.23-28). Por tudo isso, ele conclui com um princípio: “quando sou fraco, então é que sou forte” (12.10).

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4 Pensando na prédica Bultmann afirma que, nessa perícope, graça e poder são essencialmente sinônimos. A graça que basta a Paulo é o poder para agir como apóstolo e missionário de Deus nesse mundo. A graça não é uma posse tranqüila, como se fora um talismã, um penduricalho que garante a nossa segurança, a nossa salvação, como se o mundo tivesse acabado e já estivéssemos no céu. A graça de Deus é uma experiência que se dá e se oferece a cada dia. Ela precisa renovar-se a cada momento. O culto, a oração, o canto, o silêncio, a meditação contínua da palavra da Escritura, a ação evangelizadora, missionária ou diaconal, todas essas atividades são ocasião para renovar e experimentar concretamente a força da graça de Deus. Podemos até mesmo dizer que a graça só é verdadeiramente experimentada enquanto caminhamos com Cristo em meio aos sofrimentos e exigências da vida cotidiana. A fraqueza de que fala Paulo é a experiência humana que nos dá conta do sofrimento como constante vivencial do ser humano. Não é pelo fato de sermos agraciados por Deus que nos livramos do sofrimento e de todo o mal. Não é por acaso que Jesus nos ensinou a orar: “E livra-nos do mal, pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre”. Quando pregarmos sobre essa perícope, vamos defrontar-nos com um grande desafio. Por um lado, é necessário refletir sobre o próprio ministério. Em que momentos se manifesta claramente a sua fraqueza? E como as pessoas da comunidade vêem as fraquezas do seu ministro ou ministra? Como nós mesmos lidamos com essas fraquezas? Temos vergonha de ser tão limitados no serviço do evangelho? Fazemos questão de esconder de Deus e de nós mesmos as fraquezas que latejam em nossas mãos, corações e mentalidades? Ou já chegamos a aprender de Paulo que mais importa que Deus cresça na comunidade do que nossa própria fama ou glória pessoal? Penso que o tema é de difícil assimilação, sobretudo num momento em que tanto valor se dá aos resultados visíveis de nossa pregação e de nosso esforço evangelizador. Devido às dificuldades ou à crise da igreja, joga-se o foco da luz fortemente sobre obreiros e obreiras. Às vezes, com justiça. Outras, com pusilanimidade. Talvez por isso mesmo seria importante expor a compreensão paulina do ministério com honestidade e esperança. Para que a comunidade descole o evangelho das nossas fraquezas e ponha seus olhos em Cristo somente e a partir dele consiga avaliar o nosso ministério com os olhos de Deus e seu Cristo. Afinal, em Cristo somos servos uns dos outros. Por outro lado, fiquei me perguntando como reler a perícope do ponto de vista da comunidade. Será que essa verdade – que a força se aperfeiçoa na fraqueza – vale somente para pastores e pastoras, obreiros e obreiras da igreja? Dificilmente! Pois se Paulo aqui luta com sua comunidade para legitimar seu ministério e a verdade do evangelho que anuncia, também se pode

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concluir que ele luta por uma interpretação verdadeira e autêntica da obra de Cristo. Sua defesa do ministério é, ao mesmo tempo, uma interpretação do que é ser igreja de Cristo no mundo. Fraqueza e força, graça e poder são hoje conceitos correlatos e que aparecem seguidamente nos embates da vida da igreja. Segundo os padrões da religiosidade dominante no mundo capitalista e da preponderância do mercado sobre todas as coisas, igreja ou comunidade de fé que não apresenta as credenciais do sucesso, do crescimento, da abundância de dons carismáticos, de uma gorda conta bancária (em alguns casos, de milhões de reais), essa igreja ou comunidade está fadada a desaparecer. Como então lidar com as fraquezas de comunidades e igrejas que mais parecem sinais de um mundo anacrônico e ultrapassado? Como fazer frente aos apelos por “visões e revelações” que atestem e provem a eficácia do evangelho e seu poder para solucionar os problemas da vida cotidiana? Como assumir que somos comunidade peregrina que não busca a própria glória, mas vive da misericórdia de Deus? Comunidade que por vezes experimenta – como o seu Senhor – o fato de não ter sequer uma pedra onde reclinar a cabeça? E, não obstante, é essa a comunidade que Deus chama e envia para anunciar e viver o evangelho do amor e da liberdade de Deus. “A minha graça te basta” foi a resposta de Jesus à oração do apóstolo. Estamos diante de um momento crucial. Experimentar o poder da graça de Cristo é aprender a lidar com nossas humanas ou piedosas fraquezas. No ano que passou e neste de 2006 oramos sem cessar: “Deus, em tua graça, transforma o mundo”. Essa oração faz parte de uma verdadeira comunidade cristã que se sabe e experimenta o amor de Deus em formas visíveis, concretas e desafiadoras. A comunidade que aprende a orar assim reconhece que a transformação do mundo e da própria comunidade faz parte da ação amorosa e gratuita de Deus. Essa comunidade enviada ao mundo como povo de Deus reconhece que sua fraqueza, suas limitações, até mesmo seus pecados, não podem separá-la do amor de Deus e de sua graça. Aliás, precisamente quando assume tal fraqueza como própria de sua vida orgânica, é que descobre e experimenta a força de Deus e de seu Cristo. Essa graça é poder de transformação já aqui neste mundo. Quando a comunidade ora e aceita ser transformada, ela torna-se capaz de transformar a sociedade da qual faz parte em todos os sentidos. É o mesmo Paulo quem aconselha em Rm 12.1s que – alicerçados nas misericórdias de Deus – apresentemos a nós mesmos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, para realizar a sua vontade salvadora, não nos conformando com este século. Comunidades e pessoas cristãs são gente de fé, gente que não se ilude com as luzes da sociedade dominante. Essa sociedade discrimina, violenta e subjuga as pessoas mais fracas e as torna sujeitas aos ditames de uma economia que privilegia quem mais possui.

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Ao mesmo tempo, comunidades e pessoas de fé sabem que Deus transforma o mundo, porque deseja salvar e resgatar sua imagem em todas as pessoas. Por isso mesmo, confiadas na graça que as torna fortes, dispõem-se ao testemunho de que a vida vale a pena, de que suas fraquezas não são impedimento para o testemunho, porque experimentam reiteradamente o que Paulo já dissera há tanto tempo: “Eu digo sim às fraquezas, às injúrias, às necessidades, às perseguições, às angústias por amor de Cristo. Porque quando sou fraco, então descubro que sou forte”. Ezequiel 2.1-5 – O texto do AT apresenta-nos a vocação do profeta Ezequiel. Em primeiro lugar, o profeta deve ouvir a voz de Deus em pé. É assim que Deus fala com seus enviados. Esses são enviados não apenas ao próprio povo, mas às nações, até mesmo àquelas que se insurgem contra Deus. Aos filhos e filhas desses povos e nações, a quem o profeta é enviado, ele falará o que Deus lhe tem dito, quer ouçam ou deixem de ouvir. Ainda que sejam rebeldes, haverão de saber que em seu meio esteve e falou um profeta. Dura e perigosa é a vida de um profeta. Sua força não está nele mesmo, mas exclusivamente na palavra daquele que o chamou e cujo Espírito fala com e por intermédio do profeta. Marcos 6.1-6 – Ao retornar a Nazaré, Jesus surpreende os seus conhecidos: Daonde tira esses ensinamentos? Como é possível que ele faça tais maravilhas? Não é esse o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão, e não vivem aqui suas irmãs? Jesus escandaliza a sua cidade. Não o podem suportar. Ele conclui com tristeza: Um profeta recebe honra em todo lugar, menos na sua terra, entre seus parentes e os de sua casa. Triste sina a dos profetas. Geralmente mal entendidos, rejeitados, ficam falando sozinhos e não conseguem fazer nem mesmo as curas que outros experimentam por intermédio de suas mãos. Como é difícil crer nos que nos são próximos e nos dizem palavras que, por vezes, não gostaríamos de ouvir. Novamente aqui se percebe quão duro é ser profeta enviado por Deus. Definitivamente, o sucesso não é a marca do verdadeiro profeta, ainda que muitas pessoas possam testemunhar o bem que esse lhes fez e continua a fazer. Apesar de tudo isso, sua sina é continuar, pois ele não pode deixar de ensinar aquilo que Deus lhe recomendou. Sugestão de hinos: HPD 1, 156; HPD 1, 224; HPD 2, 445; HPD 2, 443; HPD 2, 350; HPD 2, 392; HPD 2, 441.

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Bibliografia BULTMANN, Rudolf. The Second Letter to the Corinthians. Transl. Roy A. Harrisville. Minneapolis: Augsburg, 1976. COMBLIN, José. Segunda epístola aos Coríntios. Comentário bíblico. Petrópolis: Vozes, Sinodal, Imprensa Metodista, 1991. ————. Paulo, apóstolo de Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 1993. LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. Trad. Werner Fuchs. São Leopoldo: Sinodal, 1974. WEINGÄRTNER, Lindolfo. Pai nosso. Refúgio e escola de oração. 2. ed. Curitiba: Encontro, 2004. BONHOEFFER, Dietrich. Discípulo – Testemunha – Mártir. Meditações. São Leopoldo: Sinodal, 2005.

8º DOMINGO APÓS PENTECOSTES AMÓS 7.10-15 MARCOS 6.6b-13 EFÉSIOS 1.3-14

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9o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

06 ago 2006

JEREMIAS 23.1-6 EFÉSIOS 2.13-22

PRÉDICA: MARCOS 6.30-34 Erni Drehmer

1 Delimitações e contexto A maioria dos comentários considera a perícope até o v. 44. Assim inclui a narrativa da multiplicação dos pães. A delimitação até o v. 34 provoca, de imediato, uma pequena reação de estranheza, mas não deixa de ter seus atrativos, pois permite uma leitura e, por isso mesmo, uma ênfase diferente nesse fato na vida e na ação de Jesus. A narrativa em Marcos segue um amplo relato sobre a morte de João Batista (vv. 14-29). Antes disso (vv. 7-13), há a instrução e o envio dos doze, além de um resumo de suas principais atividades. Já em Mateus, a narrativa sobre a morte de João Batista também precede a perícope, só que com menos detalhes (14.1-12). Antes disso, no capítulo 13, temos uma coletânea de parábolas. Já em Lucas temos a narrativa inserida igualmente após o relato sobre a morte de João Batista, narrada em compactos três versículos (9.7-9) e igualmente precedida do envio e de instruções para os doze (9.1-6). Ao olharmos para dentro do texto, é bom ter esses dois fatos como pano de fundo: o envio dos doze e suas primeiras experiências e a morte de João Batista por decreto de Herodes.

2 Refletindo o texto v. 30: Os apóstolos voltam e relatam o que fizeram e ensinaram. O termo apóstolo não quer significar um título honorífico, mas caracteriza sua função, ou seja, são “enviados”. Não se trata de um grupo de amadores ou de admiradores de Jesus. Eles foram preparados com detalhes como deveriam agir, vestir-se e alimentar-se (vv. 8-11). Terminado o “estágio”, voltam e relatam suas experiências. Eles contam tudo o que fizeram e ensinaram. O ensino não está divorciado da prática. O discurso sobre a fé completa-se na ação na fé. Eis um primeiro e grande desafio a aprender da forma como Jesus agia: a ação, a coerência entre a pregação e a ação fará com que a

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missão dos doze, dos setenta ou das centenas de milhões de cristãos no mundo inteiro tenha credibilidade ou não. v. 31: Como foi o relato dos apóstolos? Qual a sua impressão a respeito da reação do povo a quem pregaram? Não temos detalhes a respeito. O que sabemos, porque o texto nos diz, é que foi uma atividade intensa. Tão intensa, que não tinham tempo nem para comer. Jesus percebe isso neles e convida-os para descansar um pouco num lugar deserto. Esse chamado ao descanso pode receber várias interpretações. Há um cansaço físico a ser considerado. Mas o cansaço também deve ter uma boa carga emocional. Podemos imaginar o quanto esses apóstolos tinham a relatar sobre a miséria humana. Afinal, quando se abrem os olhos da fé, os contornos da dor, da injustiça e da miséria humana tornam-se assustadoramente claros. Mas também é possível imaginar que, ao relatar, algum deles tenha se empolgado pela causa, até o ponto de se sentir poderoso e ter prazer nisso. Contra isso, por exemplo, Jesus reage em Lc 10, quando os setenta enviados retornam e relatam o que aconteceu. Para colocar as coisas nos devidos lugares, ele alerta: “Não obstante, alegrai-vos, não porque espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus” (v. 20). Portanto, Jesus chama os apóstolos ao relaxamento exterior e também interior. É hora de avaliar o que aconteceu e o que isso significa para a caminhada da missão. A retirada para um lugar deserto é um chamado para meditação e oração. E Jesus vai com eles. Não por companheirismo ou para um apoio moral. Jesus vai com eles porque a missão não pode ser entendida sem o seu referencial. A missão não é dos apóstolos ou nossa; não temos a liberdade ou o direito de fazer dela o que quisermos ou como quisermos. A missão é de Deus: ele prepara, ele envia, ele dá o conteúdo, ele diz para onde devemos ir, por que e como. A nós, igreja de Jesus Cristo, cabe cumprir essa tarefa. Jesus convida os apóstolos a se retirarem com ele para que se reforcem a paz e o descanso que vêm da certeza de sua presença. Ao mesmo tempo, para que se reforce a constante busca da referência da missão em Deus como requisito básico para que ela continue sendo a missão de Deus, e não invenção humana. Missão fundamentada em princípios e critérios humanos não é missão de Deus, mas ilusão, exploração e lamentável forma de extorquir a credibilidade e, por meio dela, o dinheiro de um imenso rebanho sem pastor e, por isso mesmo, presa fácil dos falsos pastores citados em Jr 23. vv. 32 e 33: Jesus e os discípulos deslocam-se para um lugar retirado. Não há uma referência geográfica clara onde seria esse lugar. De qualquer forma, não é muito distante. A multidão consegue acompanhar a partida e a chegada. Quando Jesus chega, já é aguardado pelo povo. Com se juntou essa multidão? Como ela tomou conhecimento da atividade de Jesus? Seriam caravanas de peregrinos indo para o Passah ou voltando de lá? Ou talvez já sejam fruto da atuação dos doze que acabaram de voltar de sua primeira missão? De qualquer forma, a multidão reconheceu os doze e Jesus. A per-

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gunta a respeito da origem da multidão não é respondida. De qualquer forma, a multidão corre para lá, atrás de novidades. Essa cena não nos é desconhecida. Normalmente, a multidão expressa sua sede e necessidade por meio de correrias, às vezes aparentemente sem rumo. Estou redigindo o texto pouco tempo após a morte do papa João Paulo II. A mídia retratou exaustivamente a concentração de turistas do mundo inteiro na Praça São Pedro, que aguardavam até 12 horas na fila para contemplar por alguns segundos o papa morto, exposto à visitação. O que levou a essa busca e sacrifício? Teria sido fruto das inúmeras viagens do papa pelo mundo? A curiosidade natural do ser humano? Ou, ainda, expressão visível da procura de alguma orientação, da qual a maior parte nem mesmo tem consciência? A multidão busca Jesus, independentemente da motivação que a trouxe até ali. Será que frustrou a intenção de Jesus? Afinal, ele estava querendo promover um retiro espiritual com seus apóstolos para renovar as forças e avaliar a caminhada. E agora? O que fazer com essa multidão de cinco mil pessoas, que, mesmo nos dias de hoje, é um grupo razoável? Será que os planos de Jesus se frustraram? Olhando da perspectiva humana, talvez sim. Está tudo planejado para descansar, e alguém bate à porta. O descanso da segunda-feira (para os obreiros e as obreiras), após um fim de semana cheio de atividades, é frustrado por gente que bate à porta da casa pastoral para pedir ajuda. Podemos imaginar que, para os apóstolos, tenha acontecido algo parecido. O que prometia ser um tempo para a recuperação das energias acaba se tornando em mais trabalho ainda. Mas, olhando da perspectiva de Deus, talvez não se tratasse simplesmente de uma retirada, de uma fuga para a solidão. Jesus desloca “a cena” do que vai acontecer para longe de qualquer outra possível interferência, para deixar bem claro que tudo o que vai acontecer está tão-somente ligado à ação de Deus por intermédio de Jesus e de mais ninguém. Ir a um novo lugar ou um lugar deserto afasta a ação de Deus junto à multidão das interpretações e das interferências do que quer que seja. v. 34: Jesus olha para multidão com os olhos com que Deus olha para seus filhos e filhas. Por isso mesmo, consegue ver nela o que ela mesma não identifica. O texto diz que Jesus “se compadeceu”, isto é, ele sentiu uma dor física pela dor sentida por esse povo. Mesmo que o povo não saiba dizer onde e por que dói. Ali estava uma multidão abandonada à própria sorte, um rebanho sem pastor. Quem deveria cuidar desse povo não o estava fazendo. Assim como hoje uma enorme multidão de brasileiros e brasileiras espera ansiosamente que alguém faça por ela o que deve ser feito: saúde, emprego, justiça, terra para plantar, acesso à educação. Alguém está encarregado de fazer; muitas vezes, é pago regiamente para isso, mas não faz. Além disso, há nesse povo aquela necessidade que não consegue expressar: orientação, ombro para chorar, sentido para sua vida. A misericórdia de Jesus pelo povo retrata a misericórdia de Deus por seu povo. A imagem do pastor e seu

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rebanho é muito conhecida na Bíblia, desde o Antigo Testamento e no próprio linguajar oriental. É usado para caracterizar a relação do governante para com o seu povo e de Deus para com o povo de Deus. As leituras previstas para o domingo falam da função de proteção, reunião e orientação do pastor. Em Jeremias, há a profecia contra os maus pastores e a promessa de que Deus constituirá verdadeiros pastores que protegerão o povo de modo que esse não tenha mais medo e se sinta seguro. Em Efésios, a reaproximação do povo de Deus e entre si dá-se por meio da morte de Cristo na cruz. Fazer parte do rebanho do pastor caracteriza-se na participação da família de Deus. Quando Deus olha para o seu povo, ele sabe e sente qual a sua sede e fome. E Jesus olha para o povo e ensina muitas coisas. É preciso muito orientar um povo tão desorientado e faminto. Ele não só ensina, mas também dá de comer a esse povo. As duas coisas andam juntas: a pregação e a ação.

3 A caminho da prédica Buscar exemplos concretos de como ídolos (muitas vezes fabricados pela mídia) conseguem atrair multidões. Essa atração existe porque há uma grande multidão buscando algo para sua vida, mas não consegue definir o que é. A multidão que correu atrás de Jesus também buscou algo. A diferença é que Jesus olha para esse povo com os olhos de Deus e percebe nele o que realmente precisa: orientação, segurança, além de comida. Deus continua hoje orientando a multidão carente de orientação por meio de seus enviados. Os enviados não são os donos da missão, pois ela é de Deus. Os enviados são os da família de Deus, os cristãos e cristãs, cujo desafio missionário é levar à multidão desorientada essa mensagem de Deus: ele não a abandona, sabe de suas necessidades e quer que ela tenha tudo o que precisa para a vida digna: desde o ensinamento até o pão (com tudo o que ele significa). Encerraria a prédica retomando o texto em seu início: assim como os apóstolos, todos os que somos enviados somos chamados de volta para contar o que aconteceu (de bom e de ruim). Na volta, reanimamo-nos com a certeza da presença de Deus, ao mesmo tem em que somos alertados de que o que realmente importa não são os “milagres” que realizamos, mas a justiça, a paz e a comunhão que brotaram de nossa pregação/ação.

4 Auxílios litúrgicos Confissão de pecados: Deus da graça e da misericórdia. Apesar de teu constante chamado e oferta, comportamo-nos ainda como rebanho que não tem pastor. Perdoa-nos por nossos ouvidos e corações fechados. Também muitas vezes, ó Deus, nos tornamos os falsos pastores ao ver a multidão sem

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rumo, descobrindo nela a oportunidade de exercer poder sobre alguém, para tirar vantagens. Diante de tua misericórdia sentimos profunda vergonha desse comportamento. Sabedores de tua graça ousamos aproximar-nos e implorar: Tem, Senhor, piedade. Credo apostólico: Desafiar a comunidade a que se olhe nos olhos e confesse a fé, para que se descubram força e ânimo, que brotam do momento em que se tem a coragem de confessar a fé que se tem e tirar disso a conseqüência para as ações. Oração de intercessão: Além das autoridades em todos os níveis (também da igreja), dos doentes, dos enlutados e dos demais carentes de intercessão, incluir: – as multidões que correm atrás do primeiro ídolo que aparece, porque está carente sem saber definir do que; – especialmente o povo que não pode sentir o abraço de uma comunidade cristã, no qual percebe o abraço carinhoso do Pai.

Bibliografia GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Markus. Berlim: Evangelische Verlaganstalt, 1973. SCHNIEWIND, Julius. Das Evangelium nach Markus. In: NTD 1. Göttingen: Vandenhoeck & Rupprecht, 1952. SCHWEITZER, Eduard. Das Evangelium nach Markus. In: NTD 1. Göttingen: Vandenhoeck & Rupprecht, 1968. ZIMMERMANN, Wolf-Dieter. Markus über Jesus. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus, 1970.

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10o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

13 ago 2006

ÊXODO 24.3-11 EFÉSIOS 4.1-7,11-16

PRÉDICA: JOÃO 6.1-15 Nilton Giese

1 Quem já escreveu antes Ulrico Sperb faz a primeira abordagem desse texto no Proclamar Libertação vol. 4. Ele acentua que o amor de Deus não é teórico, de discursos. Mas se trata de um amor concreto, de sinais visíveis. Mas apenas consegue ver esses sinais quem segue Jesus, quem é movido pela esperança. A partir daí, ele faz algumas sugestões, como: numa realidade de fome é justo investir mais em pedras (construções) do que em pão (alimentos)? Fome provoca retardamento mental. O desafio de Jesus é motivar o repartir. Como as igrejas podem fazer uma campanha de alimentação a partir desse desafio de Jesus? Friedrich Genthner escreve sobre esse texto no Proclamar Libertação vol. 10 em busca de consolo para o luto, de confronto com a doença, de solidariedade com os pobres e de sofrimento em meio à fraqueza. Diante dessas questões o autor destaca Jesus como o “pão da vida”. “Onde Jesus está no centro, há colaboração, casas abertas para reuniões, recursos, crescimento espiritual, compartilhar de dádivas, preocupação, conflitos, muita oração e comunhão”, destaca o autor. Dulce Engster traz sua colaboração sobre esse texto no Proclamar Libertação vol. 19. Ela contribui em forma de meditação, a partir de uma análise exegética em que destaca aspectos particulares de João em relação aos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas. Por exemplo: somente João menciona que estava próxima a festa da Páscoa dos judeus; os pães e peixes estão nas mãos de uma criança (menino); somente em João é dito que o pão é de cevada e que Jesus dá ordem aos discípulos para recolherem as sobras para que nada se perca; o povo queria tornar Jesus seu rei, mas Jesus foge para a montanha. A partir dessas particularidades, ela desenvolve sua reflexão trazendo também uma sugestão muito interessante para recontar o texto para jovens e crianças. Por fim, Marga Stroeher e Valdemar Schulz desenvolvem sua reflexão no Proclamar Libertação vol. 25. Fazem um recorrido exegético muito bom

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sobre o Evangelho de João e depois sobre o texto, acentuando que em Jesus se decide a fé. A escassez gera abundância. Mas Jesus não quer que a igreja pense em fazer isso por meio do poder. Ele rejeita o uso do poder para resolver a falta de pão. A presença da criança e do repartir revela que Jesus quer que sua igreja seja reconhecida pela partilha. Por fim, fazem uma sugestão de celebração, para o uso do Salmo e de motivações para as leituras bíblicas, terminando com o hino “Repartir”, que pode ser articulado em gestos.

2 O que pode ser acrescentado? Os textos que acompanham o evangelho nesse domingo são: 2.1 – 2 Reis 4. 42-44 A atividade profética de Eliseu teve lugar no Reino do Norte. Eliseu é um profeta taumaturgo que por meio de seus milagres tentou conduzir o povo a Deus. Na liturgia de hoje, é apresentada a nós a multiplicação dos pães. Embora à primeira vista parece esses não são suficientes para tanta gente, quando ocorre a partilha, todos ficam saciados e ainda há sobras. A força desse milagre é mais espiritual do que material: basta um pouco de pão partilhado com alegria para sentir sua força e sua energia. 2.2 – Efésios 4. 1-6 Esse texto é uma exortação à unidade. A partir da prisão, Paulo suplica aos efésios para que vivam de acordo com a vocação a que foram chamados e se esforcem para manter a unidade, já que receberam um mesmo batismo. O reconhecimento da paternidade de Deus leva-nos a reconhecer que os “demais” são nossos irmãos. Uma conduta reta de vida corresponde à vocação que receberam aqueles que antes eram pagãos. A vida digna do chamamento à esperança mostra-se no fato de que os membros da igreja guardam a unidade operada pelo Espírito no único corpo. Fala-se da relação com a igreja e na igreja como comunhão que os abraça. A desintegração da unidade é sinal de desesperança dos membros da igreja. Os requisitos internos para manter a união são: ter estima comum; saber apreciar os dons que Deus deu aos outros, pensar e sentir em comum... Para que esses requisitos se tornem realidade, todos devem afastarse de toda e qualquer forma de ambição. A humildade e a modéstia desempenham um papel muito importante, em que a unidade é ameaçada. A mansidão, o espírito pacífico e a docilidade são comportamentos que distanciam toda classe de rixas, evitam a agressividade e o sentimento de superiorida-

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de. A paciência é um sinal essencial do amor e torna possíveis a salvaguarda, a unidade e a paz. O chamado que se faz aos que antes eram pagãos é um chamado a voltar-se para os outros, a respeitar o espaço interno e externo, a permitirlhes que sejam eles próprios e sejam apreciados no amor. O Espírito é o poder que cria e conserva a unidade, e essa unidade deve ser preservada.

3 Especificamente sobre João 6.1-15 Muita gente ia para escutar Jesus. Às vezes, vinham de longe. Seria de se esperar que essas pessoas viessem preparadas para passar alguns dias na presença do Mestre. Vinham atraídas pela fama de seus milagres e dos sinais que realizava. Jesus aproveita um desses momentos para dar uma lição a seus ouvintes. Começa perguntando a Filipe com que comprariam pães para dar de comer à multidão. Filipe diz que não bastariam duzentos denários. André, no entanto, toma a palavra e diz que havia um menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixes, mas que isso não representava nada para tanta gente. É a mesma pergunta que o criado fez a Eliseu. Jesus ensina que a dinâmica do reino é a arte de repartir. Talvez todo o dinheiro do mundo não seja suficiente para comprar alimento necessário para os que estão passando fome... O problema não se soluciona comprando, mas repartindo! A dinâmica do mundo capitalista é precisamente o dinheiro. Cremos que sem dinheiro nada se pode fazer... e convertemos tudo em papel moeda, recursos naturais e humanos e morais: amor, amizade, serviço, justiça, fraternidade, fé... No mundo regido pelas doutrinas capitalista e neoliberal, não há espaço para a gratuidade... Tudo tem seu preço! A gente já esqueceu que a vida nos é dada por pura gratuidade, por puro dom de Deus! Nessa multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus parte daquilo que o povo tem no momento. O milagre não é tanto a multiplicação propriamente dita, mas o que ocorre no interior dos que o ouviam... Foram capazes, por um momento, de deixar de lado o egoísmo e partilhar. Compreenderam que, se o povo passa fome, não é tanto pela pobreza em si, mas sim pelo egoísmo dos homens e mulheres que, conformados com o que possuem, não se importam com os mais necessitados. Esse gesto de partilha marcou profundamente as primeiras comunidades cristãs. Ao partir o pão, descobre-se a presença nova do Ressuscitado. Se somos filhos de um mesmo Pai, como nos lembra o apóstolo Paulo na primeira leitura, não se entende por que tantos homens e mulheres vivem na extrema pobreza, enquanto outros vivem na extrema riqueza. No mundo de hoje, investe-se muito dinheiro em guerras, em viagem espaciais, em tratamentos para emagrecer. Os que detêm o capital criam condições cada vez

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mais injustas e pretendem fazer mais dinheiro, explorando os recursos que restam, mesmo se com isso destroem tudo e acabam com as condições de vida sobre a terra. Nenhum ser humano deveria morrer de fome, pois a terra tem o suficiente para alimentar todos. Os cristãos não devem duvidar da partilha, pois ela é a chave para tornar a fraternidade uma realidade e para reconhecermos que realmente somos filhos do mesmo Pai. Quando se reparte com satisfação e alegria o alimento, esse se multiplica e ainda sobra.

4 Como desenvolver em nós uma economia do AGAPE? Entre nós, a economia do mercado total ensina-nos todos os dias que os serviços estão disponíveis para quem tem poder aquisitivo. Atualmente, 3 bilhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares/dia. Para o mercado total, essas pessoas são consideradas “despesa”. A economia de mercado total ensina-nos que a pessoa é o que ela pode comprar. A pessoa é reconhecida como pessoa se ela tem dinheiro. Jesus rompe essa lógica do mercado total com a lógica da graça. Somos independentes do que temos. A pessoa não é pessoa porque ela tem dinheiro. A humanidade não está nas coisas que eu tenho (ou no carro que eu posso comprar), mas no fato de eu ser um ser filho/filha de Deus. E é como filho/filha de Deus que tenho meu lugar e minha tarefa nesse mundo. Nessa nova lógica da graça, devemos ouvir o desejo de Jesus de vida abundante para todos (Jo 10.10). Nessa lógica da graça, o dinheiro e os bens devem ser tratados como instrumentos para que todos tenham vida abundante. O mercado é necessário, mas a mensagem do evangelho nos ensina que o mercado deve ter limites. Ele não pode ser total. Algumas coisas não podem ser distribuídas pelas leis do mercado. Por exemplo: alimentos, água, dignidade, justiça, graça. Essa distribuição não cabe ao mercado, porque o mercado faz contratos comerciais e não contratos sociais.

5 Para a revisão de vida Deus está acima de nossas divisões; somos todos guiados, movidos e animados por um mesmo e único Espírito. Sou capaz de ver as diferenças que podem existir entre nós como também as riquezas que o Espírito nos dá para construir juntos a unidade, ou prefiro a uniformidade que mata a pluralidade dos dons? No deserto, Moisés foi incapaz de alimentar a multidão; precisou recorrer a Javé. Jesus, só Ele é o único capaz de alimentar a multidão, todos os que têm fome, de modo que “todo aquele que nele crê não se perca, mas

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tenha a vida eterna”. Com que “pão” alimento a minha vida: o do dinheiro, ou da fama, ou da comodidade... ou com o pão do serviço?

6 Para a reunião de grupo Eliseu, servo do Senhor, aproveita o pão que lhe é oferecido para um sacrifício ao Senhor e usa-o para dar de comer, em tempo de carestia, ao povo que busca o Senhor, mas não tem o que comer. Acontece que o profeta de Deus deve levar a palavra ao povo, mas o básico é que as pessoas tenham com que se alimentar para estar vivas. O que é mais importante: oferecer aos demais o pão da palavra ou a palavra do pão? Aprofundar essa dialética entre a fome material e a fome espiritual... Podem-se estabelecer divisões e contraposições? O que pensar, nesse sentido, do “materialismo” de Mt 25.31ss?

7 Subsídos litúrgicos Para a oração da comunidade: – Por toda a igreja, para que sejamos capazes de alimentar todos quantos têm fome e sede de Justiça, pedimos ao Senhor. – Por todos os governantes do mundo, para que em suas gestões seja questão primordial a atenção aos indigentes, pedimos ao Senhor. – Por todos nós, cristãos, para que nunca duvidemos de nossa vocação de animadores e propagadores da vida, do amor, da justiça e da esperança, pedimos ao Senhor. – Por nossa comunidade, para que se mantenha fiel ao exemplo de Jesus na hora de comprometer-se na luta por resolver as necessidades das pessoas, pedimos ao Senhor. Oração comunitária: Deus, nosso Pai, protetor de todas as pessoas que confiam em ti, dá-nos o pão de cada dia, que alimenta nosso corpo para seguirmos fortes na construção de sinais de teu reino; dá-nos o pão de tua palavra, que nos dá luz e sentido para nossas vidas. Isso te pedimos por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém!

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11o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

20 ago 2006

ÊXODO 16.1-4,12-15,20-21 EFÉSIOS 4.17-24

PRÉDICA: JOÃO 6.(22-23)24-25 Antonio Carlos Ribeiro

1 Introdução O herói da comunidade não é Pedro, nem os apóstolos, mas um personagem chamado o Discípulo Amado, aquele que soube crer e amar Jesus. Esse discípulo permanece anônimo para que nós, em cada época, possamos seguir seus passos e tornar-nos também discípulos e discípulas amadas. Na verdade, ele também representa a comunidade joanina, que tinha a pretensão de ser a verdadeira e fiel seguidora de Jesus. Ana Maria A. L. Tepedino Quais são as expectativas que temos em relação ao evangelho? Tantas vezes elas nos são descritas de forma inefável, grandiloqüente e indescritível, que por vezes nos perguntamos se pode ser percebida na experiência humana. Esse discurso pode criar uma grande ansiedade em torno da revelação divina por si mesma, capaz de roubar-nos toda a capacidade de apreensão. Mesmo reverentes, humildes e abertos ao aprendizado, não temos como abrir mão de nossa humanidade em nossa aproximação do mistério. Se nos deixamos consumir pela ansiedade descontrolada, pela busca desenfreada da espiritualidade e por sinais e milagres de impacto que nos revelem o Cristo, podemos perder a oportunidade de sentir sua presença. Perguntemo-nos sobre o que condiciona o nosso olhar, se é muito crítico, severo, desleixado ou sem critérios. Indaguemos como nos sentimos dentro da comunidade cristã, se calmos, abertos e generosos ou exigentes, rígidos e cruéis na disciplina. O texto de hoje dá-nos novos elementos para reeducar nosso olhar. A comunidade joanina, após duas rupturas – com a sinagoga judaica e as comunidade judeu-cristãs, e a conseqüente fuga para longe dos centros de poder ortodoxo (compreensão correta) –, precisou fazer seu próprio cami-

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nho. Descobriu a ortopraxia (prática correta) e deixou à igreja cristã a experiência do discípulo amado, aquele que soube crer, amar e permanecer em Jesus.

2 Contexto e ambiente Após sua morte, por volta dos anos 30, os seguidores de Jesus voltaram a se reunir. Viviam na esperança de sua volta ao mundo, animados pelas aparições do ressuscitado, e da instalação definitiva e universal de seu reino. A comunidade que cresceu a partir da prática de Jesus formou comunidades que se espalharam pela Galiléia, Jerusalém, Samaria e pelo Oriente Próximo e Médio, formando a diáspora, dimensão que alcançava a Europa por meio das comunidades gentílicas do apóstolo Paulo. O encontro dos apóstolos em Jerusalém (48-49 d.C.) consolida a unidade da igreja, marcada já pela presença de comunidades diversificadas, compostas de judeus, cristãos e pagãos convertidos ao cristianismo. Paulo e Tiago são os grandes referenciais das duas grandes correntes teológicas que marcam esse momento na vida da igreja nascente. Eles transformam-se em parâmetros. Uma corrente cria perspectiva universalista, outra limita seu olhar ao componente etnocultural local; uma projeta-se sobre mares e terras ainda não alcançados pela boa-nova, outra circunscreve-se ao Monte Sião como referência obrigatória a todos; uma contempla o desenvolvimento e a perspectiva de futuro na multidiversificação dos galhos e folhas a partir do mesmo tronco, outra aprofunda inseguranças preservacionistas, tem dificuldade em reelaborar sua história e desenvolve mecanismos de transformação do diferente em igual; uma contempla a riqueza do mistério no desigual, e outra, diante da ameaça do diferente, continua olhando apenas para si mesma, relutando em ver o mistério escondido em outros rostos, lugares, línguas e hábitos. A igreja-mãe em Jerusalém começa a ter conflitos com os outros judeus, situação que se agrava com uma seqüência de fatos: a morte de Tiago Menor, motivada pelas autoridades do Templo; a mudança da comunidade para Péla na Transjordânia; a guerra judaica, deflagrada em 66 d.C. com os zelotes declarando guerra aos romanos e ocupando o Templo, destruído pelos romanos em 70, e os zelotes, que acabam num suicídio coletivo em Massada, no deserto de Judá, em 73. Para aqueles cristãos não havia sentido em engajar-se na luta dos zelotes, já que o Templo seria substituído quando chegasse o fim. Com a destruição do Templo e o fim dos sacrifícios e do sacerdócio, os rabinos (mestres leigos) reconstituem a comunidade em torno do estudo da Torá, em Javne/Jâmnia. A relação entre a sinagoga judaica e a comunidade cristã passou a ser de conflito aberto. O Evangelho de João conheceu sua redação

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final no conflito com esse novo judaísmo, chamado de “judaísmo formativo”, depois de 80. Talvez as alusões à exclusão da sinagoga refiram-se a uma decisão do grupo de Jâmnia, embora a perseguição dos cristãos pela sinagoga seja mais antiga. Por causa desses conflitos e de suas conseqüências para a vida dos seguidores dos apóstolos e suas comunidades, fica difícil deduzir que o quarto evangelho tenha sido escrito na Palestina. Com a atuação desses rabinos de Hillel, a restauração do judaísmo adotava orientação semelhante à do cristianismo da diáspora, com mobilidade e uma linha de confronto com o helenismo. Segundo Konings, “os estudos recentes tendem a confirmar a opinião tradicional de que as comunidades às quais se destina o Evangelho de João provavelmente viviam na região de Éfeso, no fim do século I”. A redação final do quarto evangelho esconde traços de camadas mais antigas, podendo sua origem remontar ao judeu-cristianismo da Palestina, com passagem por comunidades periféricas ou heterodoxas, como a dos seguidores do Batista e os samaritanos.

3 Análise do texto: as comunidades como chave de leitura Para compreender a teologia do quarto evangelho, segundo Konings, “é melhor imaginar que João usou, de modo eclético, narrativas e palavras de Jesus veiculadas nos círculos cristãos, especialmente nas comunidades ‘joanéias’, sem excluir os evangelhos sinóticos. O Evangelho de João reflete o essencial da pregação repetida nas comunidades, supondo, porém, certos elementos não expressos de modo explícito, elementos da tradição evangélica mais ampla e mesmo dos escritos sinóticos”. Frases como “o Evangelho de João é o livro da vida da comunidade”, “articula a vida da comunidade com aquilo que é anunciado a respeito de Jesus”, “o apóstolo ou a comunidade talvez possuíssem algum escrito, cuidadosamente guardado, lido de vez em quando. Alguma carta, algum outro evangelho...” ajudam a perceber que “a mão de João é mágica: transforma tudo o que toca. Seu procedimento na hora de redigir o texto modifica profundamente a letra e o teor das tradições que utiliza. Por isso o sentido que João quer dar a seu texto não se encontra em primeiro lugar pela comparação com suas fontes – embora útil, quando possível –, mas pela descoberta atenta da coerência do texto que temos diante de nós. Para apreciar um tecido vale mais ver a arte de sua textura do que saber onde os fios foram comprados”, conclui. A tradição que aparece no quarto evangelho é cristalizada, mesmo assim surgem pelo menos três horizontes históricos: a vida histórica de Jesus, as comunidades joaninas e a redação final. Esse último tem sua relevância

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por ter proporcionado o contexto em que a obra foi levada a termo, na forma que chegou até nós. João escreve a partir da situação de sua realidade, mas não apenas em função dela. Reage à expulsão dos cristãos da sinagoga, mas de forma mais ampla que essa circunstância. Reflete o conflito com o judaísmo, sem elaborar um tratado antijudaico. Descreve a realidade, sempre indo de uma realidade particular a uma universal, transcendendo seu momento histórico. O texto flui com o ritmo da comunidade. A categoria mundo (kósmos) abrange uma ampla realidade, com sentidos variados. O sentido básico é a criação, em especial a humanidade, no sentido neutro e como destinatária da salvação divina. O sentido mais comum é hostil, é a parcela do mundo que resiste à oferta de Deus, que rejeita seu enviado e sua comunidade. Não aponta apenas para o sistema político, o poder absoluto romano e a hegemonia local judaica, nem para o sistema econômico-social, o mercantilismo, o escravismo e a concentração de meios de produção, nem para o sistema cultural helenista, tampouco para o sistema religioso, representado pela sinagoga. “O ‘mundo’ é tudo isso e muito mais! É um polvo que, embora definitivamente reduzido à impotência, estende seus tentáculos pelo universo, no espaço e no tempo, até hoje. É o domínio do opositor de Deus – o diábolos, ‘o chefe deste mundo’”. Com uma linguagem distante do ambiente preponderantemente rural, refletido nos sinóticos, o texto do quarto evangelho “respira um ar de cidade” e não realça o mundo dos pobres. Em vez de camponeses sofridos e lutando contra as doenças, a fome e as contradições do sistema religioso, o quarto evangelho fala de gente oriunda de família sacerdotal, de fariseus e membros do Sinédrio, de judeus influentes e personagens abastados. “Talvez o Evangelho de João reflita até certo ponto a sociedade urbana helenista, com sua estrutura clientelista, na qual cabia aos cidadãos influentes o cuidado dos pobres a eles ligados.” A comunidade joanina reflete uma perspectiva comunitária para os excluídos, garantindo proteção e previdência social para os pobres, como a sinagoga. Outra herança do judaísmo é a prática da esmola, além da ênfase no ensino do amor, a exemplo do Senhor. O período da redação final corresponde à exclusão dessa comunidade por intermédio do judaísmo de Jâmnia, que teve grandes conseqüências e gerou forte coerência e solicitude no clã e na irmandade religiosa. Em sociedades marcadas pela vivência comunitária, pertencer ao grupo era vital. O excluído tornava-se um pária, sem referência social, sem proteção nem lastro econômico. Para os ricos, isso significava perda de prestígio e, para os pobres, mendicância. “Olhando esse pano de fundo compreende-se melhor a história do cego de nascença (Jo 9): Jesus e, a seu exemplo, as comunidades cristãs ‘incluíam’ os excluídos da sinagoga”. Sem a comunidade, mesmo na cidade, é impossível viver com alguma dignidade.

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O quarto evangelho mostra a simpatia de Jesus para com o povo mais simples, os pobres e desprezados, a quem os fariseus chamam de am haárets (o povo da terra), designando que não conheciam a restauração da Lei de Esdras (12.19). Mas entre essas testemunhas de Jesus estão personagens conhecidos, como o aleijado de Betesda, o cego de nascença e a samaritana, inclusive pela sua condição de mulher. As mulheres também têm seu lugar na comunidade joanéia, sobretudo porque vivem no sistema religioso do judaísmo rabínico, época em que seu papel é mais secundário do que na época patriarcal e no Israel clássico. O papel que desempenham no quarto evangelho é notável, como vemos: Jesus faz seu primeiro sinal seguindo sugestão de sua mãe (2.4-5); a primeira pessoa a ouvir a afirmação messiânica “eu sou” é a samaritana (4.26); Marta faz uma consistente confissão de fé (11.27); Jesus reergue Lázaro pela intervenção de Maria de Betânia (11.32), a mesma que oferece a Jesus a unção (12.18) e foi tornada anônima pelos outros evangelhos, apesar de Jesus ter defendido com força seu gesto (12.7); e Maria Madalena, a primeira a visitar o túmulo, a ver o ressuscitado e a ser enviada a anunciar a ressurreição aos “irmãos” (20.10-18). A presença e a desenvoltura com que as mulheres aparecem no quarto evangelho explicam como, “com razão, a leitura feminista observou que o Discípulo amado é uma ‘personagem aberta’, que pode ser preenchida por uma figura masculina ou feminina, permitindo ao leitor/leitora ‘entrar’ na experiência dos discípulos”. Essa maneira de apresentar as personagens femininas deixa supor que as mulheres tiveram um papel ativo na evangelização e na vida da comunidade. O aspecto religioso das comunidades joaninas é jerusalemitano. O texto é redigido na perspectiva de Jerusalém, cidade na qual se situam 80% das narrativas. Os 20% restantes dividem-se entre a Galiléia e a Samaria. Para João, Jerusalém é o lugar do conflito, é o mundo. Deixa claro que o Templo e a realidade que ele representa já estão superados. Sua visão é irônica, é sinagogal (synagogé = reunião), de encontros para o Estudo da Lei, resultante da tendência pós-exílica. Isso significa que, apesar de escrever de Jerusalém, sua visão reflete a sinagoga, que dominava o interior da Palestina, ambiente animado por mestres da linha farisaica na qual Jesus foi criado, onde aprendeu a fazer prédicas após a leitura da Lei, permitidas a leigos. Também os apóstolos galileus vieram do judaísmo sinagogal, explicação para o caráter homilético de vários trechos do quarto evangelho e do tratamento de “mestre“ para Jesus e de “filhinhos” para os discípulos. Por último, o quarto evangelho reflete comunidades missionárias e perseguidas, que reinventaram sua fé em Cristo pelo seu testemunho, que viveram na cadência da ameaça do mundo, à qual responderam dando testemunho de Jesus. O perpetrador da ameaça e o ambiente em que as comunidades desenvolvem sua vida pode ser descrito em dois círculos concêntri-

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cos: a sociedade romana, o mais amplo, e “os judeus”, o mais restrito. Assim dão a impressão de construir um grupo de autodefesa, quase um gueto na sociedade daqueles dias. Durante a vida de Jesus, as autoridades não deixam transparecer essa intenção. No entanto, logo após a morte de Jesus, começam a ocorrer perseguições contra cristãos, semelhantes à de Estevão e de Saulo.

4 Meditação: Querem só o pão? Mas já têm a mim... Refletir sobre o pão é escandalizante: no capítulo seis do quarto evangelho e na realidade dos nossos dias. Nesse capítulo, por ser um minievangelho e pelas conseqüências hermenêuticas do milagre da divisão dos alimentos. Hoje também. Com Jesus, porque frente ao milagre não o perceberam, perdendo seu olhar no pão, sem ver a realidade para a qual ele apontava. E, conseqüentemente, o poder, que por aquele gesto lhes era devolvido. Em nossos dias, por causa da coisificação do alimento na sociedade de consumo, que reduz o problema da fome à dimensão econômica, anestesiando a sociedade frente ao sofrimento dos excluídos. Lidar com esse tema salta aos olhos, no quarto evangelho, em geral, e no capítulo seis, em particular. No evangelho, porque ele descreve a comunidade que realiza a Santa Ceia, com o discípulo reclinando a cabeça no ombro de Jesus, que enfatiza a prática do amor, do ágape e da comunhão, que se constrói como comunidade, ao criar o nós a partir dos que têm fé e que têm os olhos postos no pastor, com a centralidade destacada, como o crucificado na pintura de Lukas Cranach, entre a comunidade e o pregador que para ele aponta. O texto começa com o narrador voltando à tarde do dia anterior, no qual a multidão viu apenas um barco usado pelos apóstolos, sem a presença do Senhor com eles. Na hora da pesca, à noite, chegaram de Tiberíades vários barquinhos de pescadores, perto de onde o Senhor dividira o pão. Por causa de sua ausência, supostamente as pessoas voltaram a Cafarnaum, de carona com os pescadores. Por isso as pessoas perguntaram-lhe “quando chegaste aqui?” (vv. 22-15). A resposta de Jesus abordou o problema real: eles não querem “sinais”, querem comida. Não conseguiram entender o milagre, nem interpretálo. Sequer lhes pareceu por demais simplório que a resposta viesse pronta, sem que a pergunta fosse enunciada. O estômago saciado paralisou os sentidos, tornando sem sentido a distinção entre a comida “que perece” e a “que subsiste” (v. 26). Não se deram conta de que a procura apenas pelo alimento era vã, já que a fome voltaria. Para esses, o milagre não estava no que a divisão dos alimentos mostrou, mas nos alimentos em si. Se vissem

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como a divisão dos alimentos fê-los descobrir seu próprio poder, poderiam até dispensar o alimento. Já tinham querido fazer de Jesus seu rei (vv. 14-15). Para quê? Fornecer pão? Um rei-padeiro? Se todo o problema fosse pão, Deus não precisaria mandar seu Filho de sua substância única (homoousious). A presença de Jesus responde a bem mais do que alimento e bem-estar; toca no fundamento profundo da solidariedade e da justiça, que implica as relações das pessoas entre si e com Deus. O pão que permanece para a vida eterna (v. 27) é aquele do qual o pão dividido era apenas um sinal, a garantia de que procede do Pai. Frente à disposição de “fazer as obras de Deus”, Jesus afirma que a prática que agrada a Deus é crerem que Ele o enviou. Sem negar sua incredulidade, pedem outro sinal. Por que dar um segundo sinal a quem não foi capaz de entender o primeiro (vv. 28-30)? Mencionar o maná do deserto (Sl 78.24 e Êx 16.15) é pedir prova da autoridade, depois de já tê-la expressa diante de si. Ao evocar o alimento dado no deserto e atribuí-lo a Moisés, foram corrigidos por Jesus. O pão não se circunscreve ao deserto, é atual. E nem é dado por Moisés, mas pelo próprio Deus (vv. 31-33). O diálogo intenso, onde duas lógicas se debatem, chega ao clímax com a petição da multidão: Senhor, dá-nos sempre desse pão! (v. 34), criando a oportunidade para que Jesus faça sua primeira autoproclamação simbólica: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim, jamais terá fome; e o que crê em mim, jamais terá sede (v. 35). Aqui se encontram textos em que o pão e a bebida simbolizam ensinamento e sabedoria de Deus. O clímax dá-se com a passagem do sentido material (o mal-entendido dos judeus) para o sentido simbólico (a compreensão de que ele era mais do que seus olhos contemplavam), e isso se confirma pela ampliação da terminologia do campo da fome para o da sede. O texto ensina-nos a ser pedagógicos. Muitas vezes, nossa ansiedade compromete o que queremos expressar. Ao lidar com o pão, Jesus tem a paciência histórica de quem carrega o real com todo o seu peso e densidade. Conquanto quisesse, não podia esperar outra atitude daquela gente. Seu perfil pedagógico, paciente, que intercala o esforço do desmascaramento num discurso marcado pela linguagem simbólica, chamando à compreensão e animando à decisão. O Jesus que surge dessa comunidade joanina é paciente, caminha conosco, suporta o peso da percepção bloqueada por véus. Assim também ele nos ensina a ser cautelosos, a mensurar as doses de verdade, minorando o risco do remédio verter-se em veneno. E sustenta o diálogo franco, até que estejamos prontos para ouvir de sua boca: Eu sou o pão da vida! Amém.

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Bibliografia KONINGS, J. Evangelho segundo João; amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 2000. 452p. TEPEDINO, A. M. A. L. Iniciação Teológica. Rio de Janeiro: PUC/Dep. Teol., 2001. 99p.

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12o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

27 ago 2006

1 REIS 19.4-8 EFÉSIOS 4.30-5.2

PRÉDICA: JOÃO 6.41-51 Sidnei Vilmar Noé

1 Introdução: A vivência inconsciente do texto Ao ler o texto, espontaneamente descortinou-se ante meus olhos “A Última Ceia”1 de Leonardo da Vinci (1498), um quadro presente em quase todos os lares, geralmente na sala, onde se encontra a mesa para as refeições. Seria importante que o pastor e a pastora2 conhecessem as suas ovelhas, a ponto de ouvir delas pessoalmente o porquê desse quadro estar em suas casas. Talvez a lembrança me tenha sido suscitada porque ainda estivessem vivas em minha memória as lembranças do livro de D. Brown ou porque na Páscoa me ocorreu que seu mais verdadeiro e autêntico símbolo deveria ser a comunhão em torno da mesa. Acaso essa imagem tão conhecida não resume todo o evento pascal? Não é isso o que Jesus pregou e anunciou a todos os quadrantes: que Deus nos quer reunir todos em torno da mesa e nos servir com fartura já agora e com toda a certeza no fim dos tempos. Também um filme inundou meu ser com imagens, como que vindas do próprio céu: Amor além da Vida, com o incomparável Robin Williams. Nesse o céu é vivido como um mergulhar nas coisas mais significativas da vida. No caso, um quadro que o protagonista pendurara em sua sala, pintado por sua amada esposa, absolutamente repleto de cores muito vivas. Seu contraponto era o inferno vivido pela esposa, após cometer suicídio, justamente por perder o olhar para essas coisas mais significativas e essenciais e ficar presa a sentimentos de culpa e remorso. Também se impôs à lembrança o bordão romano panem et circenses. Nesse contexto, como expressão da vida dirigida pela ilusão de falsas cren-

1 O afresco original se encontra no Convento de Santa Maria delle Grazie em Milão. 2 Também diáconos, catequistas e missionários assumem essa função, à medida que assumem o ministério do cuidado da grei de Jesus Cristo.

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ças e promessas, muito efetivamente exploradas em todas as épocas e lugares por poderes de diferentes matizes. Mas a mais vigorosa associação que me veio à mente não foi uma imagem, mas uma palavra vinda da boca de Frei Betto em sua saudação aos conciliares no culto de abertura do XXIV Concílio da IECLB em São Leopoldo: Os nossos templos deveriam ser padarias. É um tanto inusitada a afirmacão, mas, se pensarmos bem, de fato é isso que a igreja necessitaria ser: um refúgio para alimentar aquele que tem fome e sede. Já aqui poderíamos antecipar uma idéia para o encontro da comunidade com seu Deus: Proporcionar a vivência concreta, olfativa e palatável do alimento com o pão da vida. Deixar que o templo exale o cheiro de pão quentinho poderia ser uma boa preparação para essa vivência humanamente divina. Toda a vivência da celebração poderia centrar-se na dádiva do pão e de seu repartir em santa comunhão. Permito-me partilhar essas vivências, pois vejo nelas o primeiro passo nessa espiral hermenêutica de aproximação ao texto, que juntos ora fazemos. Seria importante que cada um de nós, ao meditar sobre o texto, se permitisse essa licença poética para sobrevoar o vão temporal e espacial (das “garstige breite Grab” de Lessing, 1777), que nos separa do texto em questão. Assim, a palavra abre-se para acolher a nossa vida em sua verdade, por mais heterogênia e heterodoxa que essa seja em relação àquela.

2 Desdobramento: Consciente e inconsciente meditam sobre o texto 2.1 – Introdução O quarto evangelista surpreende-nos e provoca estranhamento na sua leitura de Jesus Cristo. Certamente tem o privilégio de supor os demais e por isso também se concede a licença poética necessária para colocar sua ênfase em aspectos que muitas vezes colocam um contraponto teológico às demais leituras. Justamente por isso logra dialogar com mais profundidade com os seus ouvintes e leitores. A sua forma de testemunhar a revelação em Jesus Cristo concentra-se na fórmula teológica: “egô eimi”! Eu sou! Na maioria das vezes, a fórmula é empregada em relação a um símbolo: pão, água, pastor, videira, luz do mundo, vida, porta. Todos os símbolos, por sua vez, estão relacionados a “Zoé”, ou seja, à vida.3 Numa segunda forma, João emprega a fórmula de modo absoluto, sem nenhuma qualificação adicional. Esse emprego aponta para 3 Cf. R. SCHNACKENBURG, Das Johannesevangelium, p. 60.

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uma fórmula de identificação da natureza singular e da autoridade de Jesus (cf. Jo 6.20; 18.5,6,8): nela concentra-se todo o conteúdo da fé, respectivamente, do reconhecimento de Jesus, como sendo aquele que é. Ainda ocorre o emprego imbricado em outros tipos de construções frasais predicativas (Jo 4.26; 8.18,23). A fórmula cristológica empregada por João para sintetizar a identidade de Jesus alimenta-se de diversas fontes: Desde tradições veterotestamentárias, na autodenominação de Javé, como sendo aquele que é. Jesus Cristo é, nesse sentido, o próprio Deus que se doa e simultaneamente é a dádiva que traz vida ao mundo. Também nas narrativas do Dêutero-Isaías, bem como na literatura sapiencial. Há paralelos especialmente significativos em relação à religiosidade egípcia, onde essa forma de falar da e sobre a divindade é freqüente. Somam-se a essas a antiga fórmula oriental do envio de mensageiros: esse recebia uma mensagem e, ao entregá-la, deveria anunciar-se como “eu sou” esse ou aquele e depois retornar. É necessário, portanto, buscar a compreensão da metáfora a partir desse horizonte mais amplo do Evangelho de João, onde a fórmula “eu sou” sintetiza a compreensão teológica da reveleção do evangelista. 2.2 – Delimitação O texto sobre o qual ora meditamos insere-se num contexto maior, que se estende dos vv. 30 ao 51. É a assim denominada Lebensbrotrede (a narrativa sobre o pão da vida). Certamente os vv. 41-51 ecoam aquilo que está condensado no v. 35. Ainda poder-se-ia subdividir a perícope em dois complexos: vv. 41-47, cuja temática concentra-se no murmurar dos judeus, e os vv. 48-51, que retomam a imagem do pão da vida. 2.3 – Imagens do texto O murmúrio – Como reviver o murmurar dos interlocutores? A associação com o dito “santo de casa não faz milagres” é imediata. Ou seja, como pode alguém que julgamos conhecer tão bem, pois sabemos sua origem, ter uma autocompreensão tão diferente, tão divina em seu jeito de falar, sentir e viver e se dizer vindo de Deus? Beira a apostasia, isso que Jesus emana. Em outras palavras, como alguém tão humano pode se afirmar tão divino? É necesário um sinal, que confirme essa autoconsciência: um sinal que não seja deste mundo, mas que, ao mesmo tempo, manifeste-se empiricamente. E. Drewermann resume o que está em jogo da seguinte maneira: “A crise da consciência religiosa ao final do séc. XX e início do séc. XXI está sedimentada essencialmente na polarização entre uma crendice, viciada por milagres, por um lado, e em um pragamatismo ou descrença, que chega a se tornar um substituto da magia, por outro”. Já o evangelista testemunharia que “o

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mundo e as experiências que nele podem ser vividas precisam ser encaradas como símbolos de uma forma bem distinta de realidade. Quem alcança esse discernimento caminha com os pés secos sobre o mar: esse mundo frágil e questionável torna-se uma ponte entre o aqui/agora e o além (Diesseits und Jenseits)”.4 O pão que desce do céu – “Nem só de pão o ser humano viverá, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus” é a paráfrase de um hino conhecido do respectivo versículo bíblico. Outro hino canta: “É mais que pura massa, é feito com alegria...” Jesus Cristo é o alimento vindo do céu para saciar a fome do mundo. Ele é e quer ser simultaneamente o alimento concreto e real que sacia a fome, igualmente concreta e real, a exemplo do maná que desceu do céu em meio ao deserto, quando da fuga da terra da servidão. E também o alimento espiritual e existencial daqueles que sofrem sob a inanição resultante da falta de sentido em suas vidas. Simultaneamente, são o próprio doador e a doação. Quem o Pai trouxer – vem a mim – A idéia expressa aqui talvez possa ser mais adequadamente traduzida por puxar. É o próprio Deus que “puxa” para si a sua grei. Assim foi com o povo de Israel e assim é, por meio de Jesus Cristo, em relação a todos nós. É o amoroso e gracioso atrair para si que faz com que os nossos olhos se abram para a nova vida, que em, através e por meio de Jesus Cristo nos é presenteada. Conseguir perceber isso é dádiva da fé, que, por sua vez, é dádiva de amor do próprio Deus. Significa já aqui e agora adentrar uma vida que não se esgota. Ouvir e aprender – A dádiva da fé relaciona-se dialeticamente com o ensino que vem de Deus. Esse permite reconhecer que em Jesus Cristo ocorrem a atualização e a consumação das promessas do primeiro Testamento. Mas como Deus nos ensina? Sem dúvida, o texto centraliza o ouvir e aprender no e do próprio Jesus Cristo. Em outras palavras, “puxados” por Deus, aprendemos a conhecer e reconhecer a vida que não acaba, ensinada e vivida por Jesus Cristo. Quem vem de Deus: só ele viu o Pai – Novamente temos aqui uma concentração cristológica que polemiza ou exclui outros meios de ver ou ouvir a Deus, seja a idéia gnóstica de uma experiência imediata e direta de Deus, seja a idéia judaizante de uma mediação por meio da Torá. Solus Christus poderia ser o substrato dogmático desse reiterado testemunho do evangelista. Aquele que crê tem a vida eterna – A fé recebida graciosamente tem no ouvir, no aprender e no deixar-se ensinar por Jesus Cristo sua resposta humana. Há aqui uma certa ênfase na participação ativa e consciente, por meio da fé, no evento salvífico concentrado em Jesus Cristo. Sola fides, em

4 E. DREWERMANN, Das Johannes Evangelium, p. 283.

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seu duplo e paradoxo sentido de graça e resposta humana, pode ser entendido como o sumo dessa afirmação. Eu sou o pão da vida: A partir dessa afirmação, o evangelista retoma o ducto dos vv. 31-35, em relação aos quais a parte intermediária representa uma espécie de excurso, parêntese ou “inclusio”5 . Ocorre um afunilamento explícito da afirmação do v. 35. Se nos versículos anteriores era explicitado quem é esse pão, a saber, Jesus Cristo, e nos seguintes, como se chega a esse pão, ou seja, por meio da fé, agora a pergunta a ser respondida é como é possível alimentar-se desse pão. Embora não haja uma alusão explícita à Eucaristia, antes imagens bem mais arcaicas como fome e sede, respectivamente pão da vida e água viva fossem evocadas, pode-se considerar que aqui já se antecipa uma ponte literária aos versículos subseqüentes (v. 52ss), onde essa conotação é desdobrada.6 Maná; Quem comer desse pão não morrerá; O pão é a minha carne – Novamente nos reportamos a E. Drewermann, que resume o sentido do epílogo com as seguintes palavras: “Tudo o que Ele queria trazer era ele próprio” (Alles, was er bringen wollte, war er selbst) 7 . Dito de outra forma: o que Jesus realmente queria era algo que acontece no presente, algo experienciável no aqui e no agora.

3 O texto e a nossa vida Dádiva, entrega e amor: essas palavras resumem o significado das palavras do pão da vida para nós hoje.8 Somos puxados para junto dele pelo Pai, para que Ele sacie com fartura a nossa fome. A celebração é a possibilidade de saciar, enquanto indivíduos e comunidade famintos, a nossa fome de forma integral. Sola gratia assegura o nosso convite em torno da mesa. Sola scriptura, por outro lado, ensina-nos o caminho em direção ao pão da vida.

4 Idéias para a celebração O material e o espiritual, o concreto e o abstrato, o humano e o divino podem encontrar-se de forma experienciável, se pão e palavra andarem jun-

5 6 7 8

R. SCHNACKENBURG, Das Johannesevangelium, p. 81. U. WILCKENS, Das Evangelium nach Johannes, p. 105. E. DREWERMANN, Das Johannes Evangelium, p. 291. Uma leitura adicional recomendável são os comentários suscitados pelo texto aos colonos do Evangelho de Solentiname de Ernesto Cardenal.

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tos na celebração. A comunidade pode ser preparada no encontro anterior, destacando o caráter da vivência a ser ofertado na celebração em torno do texto indicado. Grupos da comunidade podem ser encarregados do preparo do templo, no sentido de transformá-lo em uma “padaria”. Recomenda-se uma celebração menos formal, por exemplo nos moldes de um ágape. Caso não seja possível, vivenciar a palavra por meio da Eucaristia. Mais idéias podem ser encontradas nos três estudos anteriores sobre o texto no Proclamar Libertação.

Bibliografia DREWERMANN, Eugen. Das Johannes-Evangelium. Bilder einer neuen Welt. 1. Teil. Düsseldorf:: Patmos, 2003. pp. 280-307. SCHNACKENBURG, Rudolph. Das Johannesevangelium. II. Teil. Freibug, Basel, Wien: 1971. pp. 53-84. SCHNELLE, Udo. Das Evangelium nach Johannes. 3. ed. Leipzig: Evangelische Verlagsanstalt, 2004. pp. 136-147. WILCKENS U. Das Evangelium nach Johannes. Tomo 4. 17. ed. Göttingen: Vandenhoeck&Rupprecht, 1998. pp. 103-106.

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13o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

03 set 2006

PROVÉRBIOS 9.1-6 EFÉSIOS 5.15-20

PRÉDICA: JOÃO 6.51-58 Vera Cristina Weissheimer

1 Observações gerais O texto já foi trabalhado por Osmar Witt no PL XIX (p. 225), que levantou a questão de esse texto ser um apêndice redacional, “uma inclusão posterior que introduz uma interpretação sacramental para a multiplicação dos pães e, sobretudo, para o discurso de Jesus sobre o pão da vida”. Contudo, o texto não parece trazer elementos tão novos assim. Não parece desconhecida para o evangelista a experiência da Santa Ceia. “Dificilmente terá havido uma comunidade que não batizava e não se reunia para a Ceia do Senhor” (PL XIX, p. 225). Os textos indicados para as leituras nos dão boas indicações. Por exemplo, em Provérbios lemos que a Sabedoria dispôs o pão e o vinho sobre a mesa e convidou os simples – ou, conforme outras tradições, os ingênuos – para que esses deixassem a insensatez e encontrassem o caminho do entendimento. Um convite para deixar a ingenuidade de lado e adquirir um espírito crítico para construir seu próprio caminho: “Andai pelo caminho do entendimento” (“da inteligência”, conforme a tradução da Edição Pastoral, da Paulinas). O texto de Efésios chama a nossa atenção para uma vivência autêntica e coerente da fé cristã, experimentada no momento da Santa Ceia com o dia-a-dia do cristão. Jesus não quer somente fartar a humanidade fisicamente. Estamos sempre em busca de uma palavra que nos sustente verdadeiramente, e é isso que é proposto, não um simples seguimento que sacia a fome física. Jesus propõe um comprometimento que transcenda essas necessidades primeiras; propõe que haja reflexão nesse seguir e aceitar. Em 1912, o Movimento das Trabalhadoras da Indústria Têxtil na Inglaterra fazia manifestações nas quais carregava cartazes com a reivindicação: ”Pão e Rosas”. Ou seja, pedia pela partilha também do que é belo, do que alimenta nossa alma, nosso espírito. Jesus propõe-nos um alimento que nos

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recoloque em contato com o sublime, com a parte divina que há em nós, para que possamos refazer continuamente nosso contato com Deus. No texto do Evangelho de João, temos o que é a espiritualidade para Jesus. Quem tem uma visão permanente do Pai não precisa orar e não entra em crise de fé, poderíamos pensar. Mas também Jesus entrou em crise dizendo: “Meu pai, por que me abandonaste?” Ele sentiu-se abandonado por Deus e passou por tentações. Então por que nós também não passaríamos? O núcleo da espiritualidade de Jesus é a intimidade com Deus. Deus era, nele, uma experiência de amor, não um conceito doutrinário ou teológico. Deus era em Jesus uma experiência afetiva. Há no decorrer dos evangelhos duas perguntas que são feitas a Jesus. A primeira é: “Senhor, o que devo fazer para ganhar a vida eterna?” Essa pergunta nunca sai da boca de um pobre, mas de quem tem a vida terrena assegurada e preocupa-se com uma “poupança celestial”, como Nicodemos, o jovem rico ou o doutor da lei. A essa pergunta Jesus responde com ironia. A outra pergunta é bem diferente, e Jesus reage com paciência e amor: “Senhor, o que devo fazer? Porque sou cego e quero enxergar, tenho mão ressequida e quero trabalhar, sou manco e quero andar. Minha filha está doente e quero vê-la curada”. São pessoas que querem vida nessa vida. Essa pergunta sai da boca de pobres, doentes e miseráveis. E Jesus restabelece vida para essa vida. No deserto, aprende-se que o mais rico não é o que mais tem, mas o que menos necessita. Muitas vezes, algumas gotas de água são o suficiente para tornar um ser humano o mais feliz dos seres. A espiritualidade de Jesus é a de quem gera vida sobretudo para aqueles que estão ameaçados em sua vida, que é o dom maior de Deus. Muitos acreditam que Deus habita no cume de um monte, que deve ser escalado por meio de nossas virtudes morais. Só que, enquanto subimos a montanha para atingir os píncaros onde Deus habita, caímos constantemente. E lá vamos nós, montanha abaixo, tendo que começar tudo novamente. Como no mito grego de Sísifo, que foi condenado a rolar uma rocha montanha acima, sem nunca alcançar o cume, porque no meio do caminho invariavelmente a rocha lhe escapava das mãos e rolava novamente para baixo. Estamos, em nossos ativismos, impregnados desse tipo de espiritualidade que ainda pretende chegar a Deus pelas obras e pelo sacrifício. No entanto, para Jesus, não é fora de nós que vamos nos encontrar com o divino. Deus está em nós. Para Jesus, é preciso deixar-se amar por Deus e ser virtuoso e não ser virtuoso para amar a Deus. Ora, as forças que Jesus nos concede por meio do alimento da Santa Ceia passam a ser nossa vida. Em Jesus, Deus tornou-se humano e compreendeu toda e qualquer dor humana porque passou pelas angústias, suores, afetos e desafetos humanos. Jesus faz-se alimento, apresenta-se como “pão” e, no momento em que nos alimentamos dele, ele torna-se parte do nosso corpo. Aqui, Jesus nos

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propõe que façamos parte dele e ele de nós. O comer e o beber na Ceia são assimilar Jesus e dar-lhe participação em todos os aspectos de nossa vida. Ele auxilia-nos na vida espiritual, material, social e cultural. Em Jesus, não há medo nem fraqueza para enfrentarmos a luta do diaa-dia. Quando nos sentimos fracos, é nele que refazemos nossas forças. Deus vive e Jesus vive pelo Pai, e nós podemos viver quando dele nos alimentamos, fazendo parte desse mistério que é a vida, a morte e a ressurreição. Comendo desse pão, fazemos com Jesus uma aliança para que vivamos para sempre. Lutero escreve: “O sacramento não quer coração saciado. É alimento que pressupõe corações famintos”. Jesus realmente não nos pede coisas fáceis. Ele nos quer por inteiro, e não pela metade. Ele quer estar acima de nosso trabalho e acima de nossa família. Quer ser o nosso farol na noite escura, nosso abrigo no vendaval, o calor no frio, a brisa na tarde de verão, a saída do beco, o pão que sacia a fome, a água que mata a sede. Quando tudo falhar, é dele que tiraremos as forças para seguir caminhando. Ser discípulo desse Senhor é viver um clima novo em relação às pessoas, aos nossos bens materiais, e a importância das coisas passa a ser relativa. Tratase de assumir com liberdade e fidelidade a condição humana, sem superficialidades ou conveniências. Como discípulos e discípulas, homens e mulheres, somos tomados por essa fé que é força que produz vida e cura, é paixão que incendeia e desacomoda, é loucura de esperar contra toda a desesperança.

2 Pão – sinal de aliança, um elemento-chave do texto O pão é uma dessas invenções humanas que ajudaram a mudar até o curso da história. O pão, o mais popular de todos os alimentos, foi inventado pelos persas há mais de 12 mil anos e até hoje é o símbolo universal da alimentação. Na época bíblica, era uma farinha misturada com água, sal e fermento. Depois de amassada, formavam-se, com a mão, pastas chatas e redondas, que eram cozidas em fornos ou numa chapa de pedra ou metal colocada sobre três pedras, debaixo da qual se acendia o fogo. Os pães, quando prontos, eram colocados sobre uma vara; daí a expressão “quebrar a vara do pão”, que significa causar uma grande fome. O pão nunca era cortado com faca, mas sempre partido com as mãos, e é assim que Jesus faz. Comer pão com alguém significa fazer uma aliança. Na Santa Ceia, Jesus faz uma aliança conosco e nós fazemos com a humanidade. Na Santa Ceia, celebramos a partilha dos bens da terra e dos frutos do trabalho humano. Só assim podemos chamar uns aos outros de irmãos e irmãs. E quando essa partilha fizer algum sentido para a comunidade, então o mistério da fé terá sido compreendido.

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3 Idéias para a pregação Pode-se organizar uma mesa ou, no próprio altar, com um cesto de pães, falar do significado, da importância e da universalidade desse alimento. O ato de comer pão com alguém – que é também fazer uma aliança – pode ser relacionado à nova aliança que Jesus faz com a humanidade. Os pães podem ser usados na Santa Ceia e distribuídos entre as pessoas presentes no culto.

4 Subsídios para a liturgia Se estiver prevista a celebração da Santa Ceia, uma sugestão para fazer a instituição cantada é o hino “Santo Ministério” (número 357 do HPD 2). Como oração ou textos para um responsório, há a sugestão a seguir: Temos fome... De beleza, de graça, de ternura; De solidariedade, de liberdade e de amor; De música, de dança e de prazer. De sonhos, de pão e de poesia; De justiça, de espiritualidade e de paixão; De audácia, de ousadia e de profetismo. De unidade e de respeito às diferenças. Temos fome de humanidade. Temos fome de Deus. (Inês de França Bento) Ou este texto maravilhoso do poeta chileno Pablo Neruda: Pão Quão simples e sublime és! Feito de grãos e de fogo; milagre repetido, ação do homem, vontade da vida… Tudo nasceu para ser entregue, compartilhado, multiplicado.Todos os seres têm direito à vida.

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Assim será o pão da manhã, para todas as bocas, sagrado e consagrado, porque será o produto da mais ampla e da mais dura luta humana. (Pablo Neruda)

Bibliografia WITT, Osmar L. Meditação sobre João 6.51-58. Proclamar Libertação XIX, pp. 225-228. BÍBLIA SAGRADA - Edição Pastoral. São Paulo: Edições Paulinas. BOURDOUKAN, Georges. Vozes do deserto. São Paulo: Casa Amarela. BORN, A. van den. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis: Vozes.

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14o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

10 SET 2006

JOSUÉ 24.1-2a, 14-18 EFÉSIOS 5.21-31

PRÉDICA: JOÃO 6.60-69 Heinz Ehlert

1 Considerações exegéticas O trecho em pauta está no final do capítulo que narra os acontecimentos e o discurso de Jesus na Galiléia, que conduziram para uma definição dos galileus em relação a Jesus, que se autoproclama de pão de Deus ou “pão do céu”. No capítulo anterior (5), Jesus defende sua autoridade contra a agressão por parte dos judeus, reportando-se à mensagem de Moisés, que invoca como testemunha para as suas afirmações. No presente capítulo, o milagre (“sinal”) da alimentação de uma multidão (5 mil) leva a uma interpretação errônea, terrena, de sua missão. Querem fazê-lo rei “à força”. Jesus esquiva-se para, no dia seguinte, procurado pela multidão, esclarecer as coisas num tipo de “homilia” sobre o outro “maná” que procede do céu, diferente daquele que “os pais” comeram no deserto. Culmina com a afirmação de que ele, em pessoa, é o maná que vem do céu. “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome. E quem crê em mim nunca mais terá sede.” Com sempre novas variações explica quem ele é e qual a missão que tem do Pai (vv. 36-58). Ele é o mediador único da vida eterna. Imediatamente antes do trecho em estudo, ainda se encontra uma observação interessante sobre a localização dos acontecimentos: na sinagoga de Carfanaum, junto ao lago de Genesaré. Analisemos, a seguir, mais pormenorizadamente os versículos do trecho indicado (vv. 60-69): vv. 60 e 61: Deve tratar-se de um número maior de simpatizantes, que o evangelista até chama de discípulos ou “seguidores”. Até aí achavam interessante o discurso do mestre. Agora notam que a coisa fica mais séria, exige um posicionamento. Entre si comentam que é um discurso “duro”, que não dá para engolir ou aceitar. Embora não falem diretamente a Jesus, esse percebe o que acontece. Por isso a pergunta que ao mesmo tempo revela que ele está a par da reclamação deles referente ao discurso “duro” e da intenção de abandoná-lo por

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causa disso e desafia para um diálogo esclarecedor. Só depende da disposição de ele quererem ouvir. v. 62: O conteúdo da continuação, porém, não facilita em nada, não ameniza. Aponta profeticamente para um evento futuro, mas que diz respeito à missão maior do “Filho do Homem”. Ela culminará no “subir para onde estava antes”. Reforça a afirmação de sua origem celestial e a sua volta ao Pai que o enviou. Com outras palavras: prenuncia a sua ascensão. Mas, no contexto de João, “subir” também indica para o tipo de morte, ou seja, subir à cruz. Cabe destacar que Jesus, segundo João, usa o mesmo termo/título “Filho do Homem” que encontramos nos evangelhos sinóticos (Mt 25.31; Mc 8.31.38; Lc 9.58). v. 63: A vida verdadeira provém do Espírito de Deus – uma referência à palavra criadora de Deus (Gn 2.7). Só que aqui Jesus identifica as suas próprias com as de Deus, atribuindo-lhes o mesmo poder. v. 64: Uma constatação que expressa: Jesus sabe o que vai acontecer – gente que não vai crer e até a traição (de Judas). Deixa transparecer também a sua tristeza por isso. v. 65: A consequência: estão fora da salvação. O Pai não os trouxe para junto dele. v. 66: Agora se confirma o que Jesus previu: a debandada desses seguidores simpatizantes, que não quiseram aceitar que Jesus é o “Filho do Homem” (= filho de Deus). v. 67:.A pergunta dirigida especificamente aos doze exige definição e decisão. Eles continuarão discípulos com tudo o que isso implica, oferta e compromisso? v. 68: Simão Pedro faz-se porta-voz de todos eles na forma de uma contrapergunta: ir a quem? Seguida da afirmação: “Tu tens as palavras da vida eterna”, mostrando que aceitam o afirmado por Jesus (v. 63). O que será explicitado numa confissão solene. v. 69: “E nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (prefiro essa tradução àquela da “Linguagem de Hoje”). Semelhante à confissão de Pedro nos sinóticos (Mt 16.16; Mc 8.29; Lc 9.20), a formulação em João expressa a fé no Messias, mas diferente do que lá não fala, nem em “Cristo”, nem em “Filho de Deus”, mas em “Santo de Deus” (cf. também Mc 1.24; Lc 4.34 – proferido por um possesso de “espírito imundo”). Jesus é o “santo de Deus”, porque Deus o santificou (Jo 10.36) e Deus mesmo está nele (Jo 10.30.38). Ele faz parte de Deus – no verdadeiro sentido da palavra – e não do mundo. Digno de nota é que a confissão aparece como fruto de crer e (re)conhecer. O reconhecimento pode ser entendido como oriundo da fé, e não vice-versa. O encontro com Jesus resulta nisso. Por isso as suas palavras são reconhecidas como da vida eterna, ou seja, com poder de dar a vida eterna (v. 63), o que ninguém mais poderia proporcionar. Seria, pois, loucura abandoná-lo. Segui-lo é a única alternativa .

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2 Meditação Os evangelistas dão testemunho do ministério de Jesus na Terra Santa, na Palestina, no seu tempo. Narram milagres, feitos e discursos, ensinos de Jesus. Falam também, maravilhados, do impacto que causaram, do efeito que tiveram sobre o povo, as “multidões”. Em grande parte seria uma história de sucesso – até a intervenção das autoridades eclesiásticas e depois civis. Pois em muitas ocasiões até conseguiu calar os escribas, os professores da lei. O evangelista João conta-nos, no trecho em estudo, uma situação diferente. Os simpatizantes não só se irritaram, escandalizaram, mas se retiraram, abandonando-o sob protesto. Que experiência amarga para qualquer professor, profissional liberal, comerciante, artista ou político – e até para o pregador! Pois eles dependem do aplauso, consentimento e apoio dos discentes, dos clientes, do público, do povo. Será uma questão não só de realização pessoal e auto-estima, mas de sobrevivência. Os profetas do Antigo Testamento experimentaram recusa, oposição e perseguição, muitas vezes dos governantes e outros poderosos. João Batista, esse profeta e precursor de Jesus, acabou encarcerado e assassinado, apesar do sucesso que teve entre o povo. Jesus passou pela experiência de “muitos discípulos” virarem-lhe as costas e o abandonarem, apesar dos “sinais” que presenciaram ou de que ouviram falar. Jesus também ficou triste – certamente não por causa dele, de seu insucesso, mas por causa deles: vão ser excluídos da salvação. Não serão participantes da vida eterna. Era uma questão de vida e morte, sim. Salvação e vida para os seres humanos, criados à imagem de Deus. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). O ministério de Jesus tinha esse sentido. Vivemos num mundo globalizado, numa sociedade pluralista, tanto em relação à cultura, à religião, como em relação aos recursos para a sobrevivência. Os meios de comunicação na era internet contribuem para dar-nos a impressão de que estamos atualizados quanto à situação e ao momento que vivemos. Que papel pode ter o evangelho, a mensagem de Cristo, nesse contexto? E qual a situação de seus discípulos hoje? Membros da igreja são, por definição, discípulos, seguidores de Jesus. Que significa isso neste nosso mundo? Neste mundo pluralista, onde uma imensidão de outros valores são apregoados e oferecidos para a “vida”? Onde líderes e ídolos buscam homens e mulheres, crianças e velhos para que comprem as mercadorias, abracem a causa, submetam-se à influência deles e lhes sirvam? Mas sempre na ilusão de que é para o seu bem?

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Não se pode fechar os olhos diante da verdadeira situação que vivemos. Aos milhares de miseráveis em nosso derredor por causa de estruturas injustas, de exploração evidente, de enganações e entorpecimentos os mais variados. É preciso voltar-se a Jesus, abrir-se para o encontro com ele. Ele está aí e bate a porta. Tem palavras da vida eterna. O evangelho é também hoje poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Mas certamente não basta ao discípulo usufruir. Somos enviados com o evangelho para dentro do mundo. Este nosso mundo globalizado e pluralista, pervertido e corrupto, precisa do evangelho. O evangelho que tem poder curador. Mas é confiado a gente como nós. Gente frágil, sendo ao mesmo tempo justos e pecadores. É certo que o Cristo confessado pelos apóstolos precisa ser interpretado para os nossos contemporâneos por palavras e ações. Exige dedicação e sacrifício. Será que estamos prontos para isso?

3 Indicações para a prédica Título: Seguir ou abandonar – eis a questão. Passos: Poderíamos iniciar citando a pergunta de Jesus e a contrapergunta de Simão Pedro (vv. 67 e 68). E continuar: Como será que você responderia sinceramente? Dependerá de sua experiência prévia com Jesus. Quem é Jesus para você neste mundo em que vivemos? A seguir, descrever com alguns exemplos o momento histórico que vivemos, caracterizado pela globalização e pluralidade de ofertas (nos campos religioso, ideológico, comercial, econômico e político), ao lado da exclusão e exploração, da miséria de grande parte da população. Passar então a falar do evangelho como boa notícia para essa vida diante do futuro incerto e da morte certa. O que representa, de concreto, ter ao alcance “palavras da vida eterna”? Mas não deixar de mencionar o “duro” da pregação de Jesus. Seguir ou abandonar diante disso! Numa terceira parte, admitida a decisão de seguir a Jesus, concluir com o compromisso que implica ser seguidor de Jesus em nossa situação vivencial. Terminar com a confissão de Simão Pedro (como porta-voz também nosso).

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Bibliografia BÜCHSEL, Friedrich. Das Evangelium nach Johannes. In: Das Neue Testament Deutsch. 5. ed. Göttingen: Vandenhoek & Rupprecht, 1949. BÜLK, Walter Das Johannesevangelium und die Gegenwart. 2. ed. Hamburg: Agentur des Rauhen Hauses, 1948. SCHNEIDER, Johannes. Das Evangelium nach Johannes. In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament (Sonderband). 2. ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1978.

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15o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

17 SET 2006

DEUTERONÔMIO 4.1-2,6-8 EFÉSIOS 6.10-20

PRÉDICA: MARCOS 7.1-8, 14-15,21-23 Elaine Gleci Neuenfeldt

1 Sobre o contexto do texto O texto descreve costumes religiosos da época de Jesus. O tema da pureza/impureza é recorrente no Evangelho de Marcos. Já foi mencionado em 1.23-28, com a expulsão de um demônio impuro; em 1.40-45, trata-se da cura de um leproso; em 5.1-14, Jesus expulsa o demônio que se chama Legião de um homem que vivia nos sepulcros; e em 5.25-34, uma mulher impura por causa de sua hemorragia menstrual busca a cura ao tocar o manto de Jesus. Nesse contexto, entram em discussão a pureza e a impureza em relação ao momento em torno da comida. Há um desdobramento da questão na manutenção ou perda das tradições, dos costumes que serviam para delimitar a identidade. Essa é a costura maior que o tema sugere. A questão é que os discípulos estão deixando de cumprir algumas tradições religiosas que serviam para delimitar a identidade do grupo. A insistência na preservação de limites para a pureza e impureza insere-se nesse contexto de delimitação de fronteiras e manutenção da identidade grupal.

2 Sobre purezas e impurezas Segundo Mary Douglas, em reflexão sobre a questão do estabelecimento de leis que delimitam a pureza e impureza nas diferentes culturas, a sujeira, a contaminação é essencialmente uma questão de desordem. Não existem motivos higiênicos, estéticos, morais ou de saúde por trás da regulamentação de pureza e impureza. A definição de sujo, contaminado, impuro é cultural e relativa. Nesse sentido, a eliminação do que contamina é um ato de ordenar, de arrumar e classificar os elementos. Não é um ato irracional, mas é “um movimento criativo, um esforço para relacionar forma e

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função, fazer da experiência uma unidade... rituais de pureza e impureza criam unidade na experiência”1 . No contexto do texto de Marcos faz-se uma alusão às leis de pureza e impureza, que estão arroladas nos capítulos 11 a 15 do livro do Levítico no Antigo Testamento, onde a pureza cúltica é tematizada. Essa idéia de pureza cúltica significava estar em condições físicas e espirituais que possibilitassem o acesso ao sagrado. Quem busca Deus deve estar compatível com ele – “você deve ser santo assim como eu sou santo” (Lv 11.44; 19.2). Santidade e pureza são conceitos que se aproximam. Por outro lado, também não se pode presumir que a santidade e a impureza sejam pólos opostos. O sagrado aproxima-se da integridade, da inteireza. Não está preso ao absoluto, ao universal, mas à ordem, à não-confusão. “A santidade significa manter distintas as categorias de criação”...“Ser santo é ser total, ser uno; a santidade é unidade, integridade, perfeição do indivíduo e da espécie.”2 Nessa perspectiva, as “idéias sobre separar, purificar, demarcar e punir transgressões têm como sua função principal impor sistematização numa experiência inerentemente desordenada”3 . Na concepção sacerdotal, o prérequisito da pureza, essa manutenção da ordem ocorre no espaço sagrado do santuário, mas também na sociedade, na vida cotidiana. O estabelecimento de âmbitos para o que é considerado santo e/ou comum, o puro e o impuro definem a ordem. É interessante observar que o corpo é o lugar de discussão e conflitos em torno das purezas e impurezas. É no corpo que “entram” ou “saem” líquidos ou outros elementos, como no caso do nosso texto os alimentos, que podem ser considerados impuros em uma determinada situação. Como matriz e produtor de símbolos, o corpo é elemento básico na forma de estruturar a sociedade. O que sai do corpo, seus fluidos, líquidos como sangue e sêmen, e os processos de comunicação do corpo com os outros corpos, como a alimentação, a sexualidade, a fala, a sua decoração, o que passa em seu interior, suas enfermidades são os instrumentos que caracterizam a chamada “construção do corpo” 4 . Aqui é importante frisar a visão de integralidade e de completude que perpassa essa construção de corpo e de identidade. As dicotomias e antagonismos acostumados como oposições binárias e incompatíveis não cabem nessa concepção.

1 Mary DOUGLAS, Pureza e perigo, São Paulo: Perspectiva, 1976, p. 13. 2 Mary DOUGLAS, Pureza e perigo, p. 70. Em sua análise sobre as regras dietéticas. 3 Mary DOUGLAS, Pureza e perigo, p. 15. 4 Anthony SEGER, Roberto da MATTA e Eduardo Batalha Viveiros CASTRO, A construção da pessoa nas sociedades indígenas brasileiras, In: FILHO, João Pacheco de Oliveira. Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero, UFRJ, 1987, p. 20.

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Nessa forma de entendimento, a pureza e impureza não estão relacionadas com a idéia de sujeira, nem com o conceito de estar imundo.

3 As mãos dos que comem A preocupação dos que olham os outros comerem está no jeito que alguns comem e como estão as suas mãos. Não é o que comem ou se comem, mas como comem. Nesse momento, não é com quem comem, embora isso já tenha sido motivo de discórdia em outros lugares. Entra em cena uma delegação encarregada pela lei e ordem, pela reta e correta manutenção dos costumes e questiona a forma dos discípulos de tratarem suas mãos ao comer: esses não as lavam cuidadosamente antes de comer (vv. 2-3). Esse grupo que vem de Jerusalém é composto de escribas e fariseus (v. 1). A intenção é encontrar elementos que comprovam as transgressões, previamente entendidas, que o grupo de Jesus pratica. E, ao observar como esses comem, aqueles têm o “prato cheio” para acusar. Comem com as mãos impuras. Não as lavam como ordena a tradição. A intenção de controlar as práticas de Jesus e seu grupo é clara. Apegam-se a uma tradição higiênica, que é levada a um significado religioso, conseguindo com isso estabelecer os limites entre os que cumprem e não cumprem as tradições, discriminando quem não se enquadra nos modelos impostos. O problema não está no estabelecimento e seguimento de regras e tradições. Essas são importantes e necessárias, pois geram um sentido de pertença e acolhimento ao grupo. O problema está na forma em que essas regras se cristalizam e fixam no seio das comunidades, perdendo assim o sentido de criar e fortalecer laços de comunhão e convívio, para tornar-se pesos a ser cumpridos. Ao se transformarem em regras inquestionáveis, que servem para excluir quem não as cumpre, os costumes perderam a sua vivacidade de reunir e congregar em grupo.

4 As atitudes dos que observam O gênero literário de parte da perícope evidencia a situação de conflito. O texto constrói-se como uma disputa: os vv. 1-4 apresentam o conflito; no v. 5, há uma objeção do adversário; os vv. 6-8 apresentam uma resposta de Jesus em dois tempos: vv. 6-8 – refutação e vv. 9-13 – contra-ataque. A argumentação que é usada na estruturação do texto mostra também que o lugar, as pessoas destinatárias não são judeus daquele tempo. A lei de lavar as mãos é explicada detalhadamente, o que mostra que o grupo que está em interlocução com os discípulos e Jesus não conhece esses costumes e tradi-

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ções. No texto paralelo de Mateus, por exemplo, essas explicações não são necessárias, por isso são omitidas (Mt 15.1-20). As outras partes constituem outras abordagens: vv. 14-16 têm um pano de fundo apocalíptico. “Todo o trecho está enquadrado pelo apelo a escutar (vv. 14b, 16) e a palavra de Jesus tem o teor de um enigma formulado mediante a oposição interior/exterior, penetrar/sair (cf. 4.10-11,23,24).”5 Jesus propõe um deslocamento na forma de encarar a questão da pureza e impureza. O tema tem a ver com a questão da identidade e da delimitação das fronteiras, estabelecendo quem pertence ou não a um determinado grupo religioso. O problema está na forma como se fez rígida e fixa essa tradição. Pessoas pobres são atingidas pela rigidez no cumprimento dessas leis, pois não conseguem manter o padrão de seguimento. Com o não-cumprimento há medo e insegurança. Jesus joga a discussão para um nível ético. As transgressões que são nomeadas são todas do âmbito relacional: prostituição, roubo, assassinato, adultério, ambição. A reflexão que se aponta aqui é a tensão que geram a vivência do evangelho e a manutenção da cultura. A partir da prática de Jesus há algumas luzes que podem servir para apontar caminhos de atualização.

5 O diálogo – aquilo que sai da boca O desafio que decorre desse texto insere-se no âmbito das relações, do seguimento das tradições, das possibilidades de abertura ou de fechamento que determinados costumes representam para a comunidade. Seguir mantendo certas tradições sem refletir sobre o sentido que essas fazem para o grupo social na qual são acolhidas pode significar um peso ou até mesmo sentimentos de exclusão e de discriminação para quem não se enquadra ou não se adapta a essas tradições. Só com atitudes de coragem, que rompem com tradições sem sentido, é que a abertura para o novo, para outras expressões culturais, para a convivência com outras etnias, com diferentes formas de construir a identidade, o gênero e a sexualidade, por exemplo, pode ter lugar e acolhida. O texto do Evangelho de Marcos assinala para essa preocupação de construir comunidade em territórios estranhos. A convivência entre pessoas de diferentes expressões culturais é possível desde que haja respeito e diálogo. Para tornar efetivo esse diálogo entre evangelho e cultura, foi necessário um momento de confronto a partir de atitudes concretas dos discípulos e das pessoas que representavam os grupos tradicionais (fariseus e escribas).

5 Sebastião Armando Gameleira SOARES, Evangelho de Marcos. Vol.I: 1-8. Refazer a casa. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 282.

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Para acontecer o diálogo, é necessário, muitas vezes, o confronto, o conflito. Sem a verbalização de opiniões e a vontade de ouvir/escutar (vv. 14 e 16) não é possível construir novas perspectivas, provocando mudanças nas relações. O diálogo não deve ser reduzido a uma técnica ou a uma metodologia de trabalho. É para formar sujeitos capazes de diálogo que nossa prática pastoral, comunitária, diaconal, em todas as suas abrangências, deve ser direcionada. Mudar tradições e costumes que congelaram a vida comunitária deve vir acompanhado de alguns ingredientes básicos: coragem de abordar o assunto e mudar atitudes – os discípulos e Jesus deixaram de lavar as mãos, efetivamente. Provocaram a discussão por meio de gestos concretos no seu cotidiano. Outra premissa é o convite para a conversa, para a explicitação de razões e opiniões. Só mudar sem refletir sobre o sentido das mudanças pode assumir a mesma carga de imposição e discriminação.

6 Pensando na prédica Sugiro que se inicie o estudo do texto fazendo um levantamento dos usos e costumes das comunidades, com grupos de jovens, OASE e presbitério; perguntar pelo contexto histórico em que surgiram determinados costumes: A que interesses esses costumes defendiam/em? Quais as situações que esses costumes queriam corrigir ou introduzir como novidade na comunidade? Quais os argumentos que foram/são usados para a introdução ou a permanência de determinados costumes e tradições? Apresentar as reflexões como introdução à prédica. Depois de refletir sobre os costumes locais, ler o texto da Bíblia: Mc 7.1-8, 14-15, 21-23, com as leituras previstas. Para não ficar em reflexões sobre as leis de pureza e impureza do AT, como já sugere o comentário desse texto no PL XIX, de autoria de João Arthur Müller da Silva, há outras ênfases a ser desenvolvidas. Uma ênfase do texto é a questão de estar preso a tradições que restringem as posturas de mobilidade e a vivência de novidades no contexto da comunidade. Nessa temática, a postura pedagógica de Jesus pode servir de iluminação para a prática da comunidade. Ele convoca de novo a multidão e chama a uma postura de escuta (v. 15). A seguir, traz a discussão para um âmbito da convivência e das relações (vv. 21-23). A partir do diálogo – que é palavra e postura que sai da boca, do coração e do corpo das pessoas que convivem e partilham o mesmo sonho – podem ser traçadas novas formas de fazer memória e inaugurar tradições que são discutidas e postas em comum acordo na comunidade. Importante é trazer essa discussão para o nível mais concreto da vida comunitária. Jesus aponta situações em que as relações sofrem com a falta de compromissos éticos concretos (vv. 21-22). Como essas situa-

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ções podem ser analisadas e avaliadas na comunidade? Como podem ser construídos valores para que novas relações possam ser experimentadas?

7 Subsídios litúrgicos Envio: Deus, tira-nos da morte para a vida, Da incredulidade à certeza da fé em ti. Transforma a nossa dúvida em esperança, Concede-nos tua reconciliação em meio às nossas confrontações. Dá-nos o conhecimento e a aprendizagem mútua, Que aquilo que nos separa nos possa unir, Que as diferenças possam nos enriquecer, Que o estranho nos dê novas perspectivas, Concede-nos a possibilidade de orar e trabalhar juntos e juntas. Rir e chorar, Dar e receber, Concede-nos a possibilidade de sonhar juntos também. Concede-nos construir com e através de nossas parcerias e grupos Um mundo de paz e justiça, Um mundo de reconciliação, paz e amor. Bênção: Que Deus, que rodeia o mundo com seu amor, nos abençoe. Ide na paz de Deus. (O envio e a bênção foram adaptadas de: Sinfonia Oecumenica. Comunión con las Iglesias del mundo. Hamburg/Basel: Evangelisches Missionswerk in Deutschland und Basler Mission, 1999, p. 341)

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16o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

24 SET 2006

MARCOS 7.31-37 TIAGO 1.17-22,26-27

PRÉDICA: ISAÍAS 35.3-7 Enio Müller

1 Meditando o texto de prédica Queremos fazê-lo com um olho no texto e outro na pregação. Primeiramente, vejamos os elementos que se encontram no texto de pregação. Ele é pinçado de dentro de uma perícope maior, perfazendo todo o capítulo 35 de Isaías. O contexto amplo é de uma intensa dialética entre juízo e graça. Essa precisa ser refletida, pois é fundamental e nem sempre bem compreendida. Na verdade, não é só o eixo homilético fundamental da Bíblia, mas também da tradição luterana, assim como a temos em Lutero. Distinguir sem separar lei de evangelho era para Lutero o teste para saber se estudantes, futuros pregadores, estavam prontos para começar o trabalho. É como se no exame final da Faculdade de Teologia se recebesse um texto para interpretá-lo diante das pessoas, vendo se essa interpretação alcançava o intento da mensagem bíblica e da pregação cristã: articular corretamente juízo e graça. Nesses capítulos de Isaías, como em outros, temos sugestões de como isso deve ser compreendido. Temos que entendê-las, contudo. Elas não são explicitadas como tais. É mais no arranjo geral e, especialmente, nos silêncios(!) do texto que vamos percebê-las. Por que no silêncio? É uma pergunta que tem incomodado a exegese desde sempre, mas especialmente desde o surgimento da consciência histórico-crítica. Como juízo e graça andam tão próximos, quase se misturam? Deve ser porque há dois autores, ou um autor e um ou mais redatores que trabalham e recompõem o texto. Um prega o juízo, o outro acrescenta um toque final de graça para dar um “balanço” ao texto. Justamente o silencioso convívio de juízo e graça nos mesmos textos é que deve ser a grande questão da teologia e da pregação cristã. Nisso vai uma mensagem, não qualquer mensagem, a “mensagem da cruz”, nas palavras de Paulo (1 Co 1). O povo israelita dessa perícope encontra-se no exílio. Entre eles e sua terra há um grande e perigoso deserto. E o sonho de um dia voltar para lá.

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Mas como conseguir sair? Como atravessar o deserto? As mãos estão frouxas, não só pelo medo e pelo sofrimento, mas pelo excesso de trabalho como escravos ou trabalhadores subempregados. Os joelhos vacilam. Os corações estão desalentados (vv. 3-4). Deixemos um pouco de lado a perícope toda e concentremo-nos nos vv. 3-7, previstos para a pregação. Eles começam constatando a desesperança do povo (vv. 3, 4a). Nessa situação, recebem a palavra profética, que começa consolando: “Sejam fortes, não tenham medo”. E o fundamento para o consolo é: “Eis o Deus de vocês”. Quem ainda sente o gosto de ler o texto em hebraico capta o gesto que acompanha essas palavras, só duas em hebraico: hinnê eloheichem, “vejam: o Deus de vocês!”, apontando para ele. É certamente ousadia de um pregador dizer isso assim e apontar para Deus. Apontar para onde exatamente? Alguma sugestão? Todos hão de lembrar o gesto de Lutero no púlpito: a Bíblia numa mão e a outra apontando para a cruz. A reprodução dessa pintura está na capa dos volumes das Obras Selecionadas de Lutero em português. É bom meditar um pouco sobre essa ousadia. O que enxergam os olhos naquele momento? Já vimos. Mãos cansadas, joelhos trôpegos, gente desanimada e desesperançada. Apontar para onde? “Vejam: o seu Deus.” Os israelitas já estavam acostumados com o fato de que não se pode ver Deus. Mas naquela hora é isto que eles precisavam: ver um sinal de esperança. Como Deus não pode ser visto, a mensagem segue. Fazendo o quê? Descrevendo o agir de Deus. Não se pode vê-lo, mas, quando ele passa, deixa marcas (Jo 3.8). A descrição mais imediata do agir de Deus é de juízo: vingança, retribuição. E logo de graça: salvação. Certo que aqui ainda, como muitas vezes em textos do AT, juízo e graça são distribuídos, um para umas, outro para outros. Mais adiante, o profeta Jesus vai mostrar as coisas até a raiz, e então ficará claro que juízo e graça, em termos últimos, são universais. Mas não devemos logo ir direto para lá. Nas condições da vida no mundo, denúncias e juízos têm que ser feitos sobre pessoas ou grupos responsáveis por injustiças. Portanto, deixemos doer nos ouvidos essa sanha vingativa. Ela tem um lado que precisa ser ouvido. Precisamos indignar-nos com a injustiça, precisamos ameaçá-la com o juízo divino. Não se pode carregar um povo de sua terra, matando boa parte dele e escravizando o resto, impunemente. Há uma justiça retributiva para a qual devemos apelar aqui neste mundo. Dito isso, podemos agora ir às raízes com Jesus e perceber o juízo de Deus também sobre nós próprios. O interessante é que a percepção desse juízo nunca é tão impressionante como quando nos é mostrada a beleza daquilo que Deus quer para todo o mundo. Diante da utopia sentimos nossa desgraça. É isso que faz o texto. Canta o que significa “ele vem e salvará vocês” (v. 4). O resto da perícope é esse canto. Canto bonito, sugestivo, cheio

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de belas imagens. Cegos vão enxergar, surdos vão ouvir, mancos vão pular de alegria, mudos cantarão. Essa é a primeira constatação da esperança. Ela vai mudar as pessoas. Mas logo atrás vem uma segunda. Fontes de água surgirão no deserto, riachos sobre o areião, refrescando-o para que pessoas possam caminhar sobre ele (alguém lembra como é caminhar sobre areia muito quente?). Um paraíso florescerá onde só havia deserto. Ou seja, a esperança não se limita somente às pessoas; o mundo todo deve ser mudado, o ecossistema. Pois é de pessoas de carne e osso que o texto fala, e essas só vivem no mundo. Assim, a mensagem profética carrega-nos do inferno para o paraíso. Mas não esqueçamos: algo precisa acontecer no meio. Primeiro, o juízo radical de Deus. Pois é o mal que há no mundo todo que precisa ser cortado pela raiz. Depois, a libertação que vem de Deus. Mas será que é assim que devemos colocar a coisa? Primeiro juízo e depois graça, como se se tratasse de duas coisas separadas? Aqui estão o perigo e o desafio para a pregação evangélica: como dito acima, articular isso corretamente. Na verdade, a irrupção do juízo de Deus já é a irrupção da graça, é o seu primeiro momento. É, como dizia Lutero, a obra imprópria de Deus em função de sua obra própria. Um salmista anônimo, provavelmente também no exílio, reconheceu isso: “Foi-me bom ter passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.71). Aqui, então, está em ordem apontar para Jesus. O juízo de que fala o texto cumpriu-se radicalmente na cruz. E ali também se manifestou radicalmente a graça. As duas no mesmo acontecimento. São dois lados do mesmo acontecimento, e quanto mais radical um, tanto mais radical também o outro. Depois de apontar para Jesus, no entanto, na minha opinião convém apontar de novo para o que diz o nosso texto. Infelizmente, até Jesus pode ser indevidamente espiritualizado, e as igrejas de alguma forma são locais em que isso mais acontece. Portanto, cuidado com fazer tudo direito e arriscar, no fim, que os ouvintes entendam a mensagem como espiritualizante. Isso seria pôr tudo a perder. Por isso é bom voltar ao texto com sua concreticidade e mundanidade. E como o texto mesmo transborda poeticamente, não tenhamos medo de fazer o mesmo.

2 As leituras Dá para perceber uma pretensão de conexão das leituras com o texto de prédica. O texto do evangelho, nesse caso, deve vir primeiro como aporte à interpretação. Mc 7.31-37 fala de uma cura de Jesus, também em território “gentio”, assim como o texto da prédica. Um surdo e gago é curado, nisso se cumprindo palavras de Is 35.6. As curas de Jesus, portanto, são sinal de que

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“Deus veio”, como o profeta tinha anunciado, e que ele trouxe a salvação anunciada. A isso podemos acrescentar, por nossa conta, o que o evangelho como um todo diz: em Jesus se faz presente a graça de Deus justamente porque nele também se realizou o juízo. Ele próprio disse repetidas vezes que veio para trazer o juízo. No fim, ficou claro que ele próprio o assumiu sobre si na cruz. O texto da epístola acaba concentrando-se no tema da fala, anunciado pelo profeta e curado por Jesus. A palavra curada, a boa palavra, é “dom de Deus, dádiva do alto” (Tg 1.17), é “palavra da verdade” (v. 18), dita no tempo certo (v. 19). Foi implantada em nós pela graça de Deus, como sinal de sua salvação (v. 21). É palavra que devemos ouvir sempre de novo; somente assim a palavra implantada em nós florescerá como aquele deserto de Is 35. Ao florescer, ela dá fruto, é praticada (v. 22). O fato de que foram acrescentados à leitura os vv.26-27 indica uma preocupação de que o evangelho não fique só em palavras, como já no v. 22 ele não deveria ficar só no ouvir, embora sempre começando por aí. O v. 27 mostra o que significa “praticar a palavra”. A não-contaminação com o mundo, de que se fala, não deve ser entendida num sentido de fuga do mundo. “Mundo” aqui é a vida sem Deus, com tudo o que a acompanha.

3 Sugestões para o culto Pressupondo a liturgia normal, sugiro algumas pequenas coisas: *A confissão de pecado pode fazer referência à nossa situação de desamparo, como em Is 35.3-4a. Isso pode ser reforçado numa oração de encerramento da prédica. * Por que não pensar numa decoração que lembre o transbordamento poético de Is 35.5-7? São imagens vivas, com impacto direto sobre o inconsciente e que fazem pensar. * Há hinos muito sugestivos para a nossa temática, como o nº 32 de “O Povo Canta”. * Se houver celebração da Eucaristia, o que sempre é aconselhável, alguma coisa com água poderia entrar em cena.

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17o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

01 out 2006

MARCOS 8.27-35 TIAGO 2.1-5,8-10,14-18

PRÉDICA: ISAÍAS 50.4-10 Martin Norberto Dreher

Para Milton Schwantes, profeta sexagenário, lembrando velha amizade

1 Introdução Tratamos desse mesmo texto em estudo homilético para o Domingo da Paixão (Ramos). Aqui devemos levar em conta um novo contexto do ano eclesiástico. Encontramo-nos no tempo comum, tempo comum a todas as comunidades, tempo de reflexão sobre a vida do cristão e da comunidade. Nosso texto de pregação é um hino de lamentação, no qual foram intercalados elementos de discurso de apelação de uma pessoa acusada. Lamentação é sempre lamentação na presença de Javé, por isso não é por acaso que nosso hino também contém fortes elementos de confiança.

2 Texto v. 4: Somos confrontados com uma pessoa que constantemente ouve Deus. Tem um ministério da palavra dirigido ao “cansado”. v. 5: Obediente a Deus, não foge à incumbência que recebeu. Nada sabemos das razões que o levaram a se “retrair” ou a ser “rebelde”. Ele simplesmente é fiel. v. 6: Sofreu abusos de toda espécie. v. 7: Deus, contudo, fortaleceu-o: fez seu “rosto como um seixo” e não passou vergonha (cf. Ez 3.8-9). Por isso, v. 8: provoca seus adversários a um debate jurídico: que apareça o promotor! v. 9: Tem certeza da proteção de Deus e de que seus adversários serão corroídos, assim como o vestido é comido pelas traças (cf. tb. Is 51.6,8).

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Nossa perícope é um texto marginal ao grande texto sobre o servo de Javé, mais conhecido: Is 53. Não tem a profundidade nem a abrangência daquele texto que fala sobre aquele que carregou sobre si nossas enfermidades e nossas dores. Traz, contudo, alguns aspectos nos quais a comunidade deveria se aprofundar. O texto fala de uma pessoa que vive no século VI a.C. ou do próprio povo de Israel. O que esse texto tem a ver com a comunidade cristã do século XXI? Nunca é demais lembrar, principalmente entre cristãos, que a cruz de Jesus é também a cruz de sua igreja. Ela, é verdade, nem de longe precisa enfrentar todas as profundezas do abandono pelo qual passou o crucificado. No entanto, tudo o que acontece na igreja está sob o signo da cruz de Jesus. Seguir Jesus é seguir o crucificado. Nunca é demais lembrar que o apóstolo Paulo levava em si os estigmas de Jesus (Gl 6.17), a morte de seu senhor (2 Co 4.10). Também os que precederam Jesus viveram sob o sinal da cruz: “Assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.12). Onde a ação de Deus se encontra com a ação pecaminosa do ser humano só existe uma opção: juízo – ou sofrimento. Em qualquer lugar onde se sofre por causa da vontade de Deus, a cruz de Cristo está presente. Isso também se aplica ao servo de Javé. É esse o motivo que nos faz reconhecer a sina de Jesus, de seu seguidor e de sua comunidade no servo, que ainda não conhece Jesus, mas que vive na comunidade de seu Pai. O próprio Jesus e a primeira comunidade interpretaram o sofrimento do Cristo e de sua comunidade a partir dos textos que nos falam do servo de Javé. É por isso que também podemos interpretar a caminhada de sua comunidade a partir desse texto. Para isso aponta a leitura do evangelho (Mc 8.27-35), e a epístola (Tg 2.1-5,810,14-18) lembra que o ser desfigurado faz parte da vida da comunidade.

3 Meditando Na grande confissão do servo de Deus, tudo parece estar concentrado no significado do sofrimento. O centro está em 5b, 6 e 7. A temática do sofrimento não é nem pode ser questão marginal para a comunidade. Faz parte de sua missão, que se dirige aos que sofrem fome, que estão sem pátria, sem direitos fundamentais, e que se expressa em seu compromisso de ser voz dos que não têm voz e de interceder por todos os que foram abandonados. Contudo, seria terrível a comunidade esquecer que há um sofrimento dos servos de Deus, que acontece por causa de Cristo. É justamente por meio do sofrimento de sua comunidade, de seus missionários, de seus mensageiros que Deus promove sua obra. As sentenças nas quais o servo de Deus assume o sofrimento e faz dele sua ação são revolucionárias. Se Jesus sofre, a caminhada de seu seguidor não pode fugir ao sofrimento (Fp 3.10s).

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Em 1833, Friedrich Schleiermacher afirmou: “Agora os tempos de perseguição por causa do evangelho pertencem ao passado”. Ledo engano. As maiores perseguições a cristãos aconteceram no século XX e repetem-se no século XXI. Mesmo assim, deparamo-nos com uma igreja que vive alheia ao martírio, ao sofrimento. Grupos que só podem ser considerados pós-cristãos proclamam: Pare de sofrer, existe uma solução! Ausência de sofrimento é explicada como conseqüência da obediência à vontade de Deus. A partir de Jesus, essa ausência de sofrimento só pode ser entendida como desobediência. É conseqüência de uma comunidade que deixou de proclamar o juízo de Deus sobre todas as maldades. Por outro lado, não é assim que, masoquisticamente, ser cristão signifique estar pedindo constantemente a Deus que ele nos mande sofrimento: Fazer do sofrimento medida para a piedade não é fé, mas câimbra. Câimbra é conseqüência de falta de potássio. A força da salinidade e da luminosidade cristãs depende da compreensão do sofrimento de Cristo. Aqueles cristãos que no século XX participaram do atentado de 20 de julho de 1944 contra Hitler, pagando com a própria vida por seu testemunho, souberam que, ao ser executados por causa de sua ousadia, eram “porque fui eleito para ser condenado por ser cristão e por nenhuma outra causa” (Helmuth J. Graf von Moltke). As recentes mortes de Dorothy Stang e Doraci Edinger também devem ser vistas nesse contexto. Aquela pessoa que testemunha a Jesus Cristo pode passar por sofrimento semelhante, mas pode também – e disso deve ter certeza como o servo sofredor – ter auxílio semelhante: nas horas mais difíceis não encontra auxílio junto a seres humanos, nem o necessário apoio. Agora, se Deus é seu refúgio, então pode suportar com maior facilidade, pois está em comunhão de sofrimento com Cristo. Na pregação, o pregador está convidado a ler o texto a partir do Espírito Santo. Falar a partir do ouvir como um discípulo, ser escarnecido por ser testemunha (mártir) de Deus, esperar justiça, leva-nos a perguntar pelo Espírito Santo. A dimensão do Espírito de Deus não está ausente dos hinos do servo de Deus (cf. Is 42.1). Ela está por demais presente no Novo Testamento: “Porque as palavras que disserem não serão de vocês mesmos, mas virão do Espírito do Pai, que fala por meio de vocês” (Mt 10.20). Quando uma comunidade é difamada, então repousa sobre ela “o glorioso Espírito de Deus” (1 Pe 4.14). Talvez o texto auxilie o pregador a reaprender a dignidade, a difamação, a pobreza e a riqueza que acompanham seu ministério. O pregador está chamado a ser testemunha de Cristo. Haverá melhor descrição de seu ministério do que Is 50.4 e 5? Os vv. 5b e 6 não falam aquilo de que gostaríamos de fugir? Instintivamente, gostaríamos de ser amados, reconhecidos e aclamados. Preferimos o espírito de época. Se isso estiver acontecendo, se não se manifestar mais nada das contradições experimentadas pelo servo sofredor, então deveríamos perguntar-nos se ainda estamos ouvindo a voz e seguindo

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o Mestre. Quem anuncia a palavra de Deus não experimentará apenas honra, mas também incompreensão, desprezo, vergonha. Não deveria ter vergonha de ser “lixão do mundo” (parafraseando São Paulo). Fazemos parte do grande processo de Deus em relação ao mundo, como podemos ler nos vv. 8 e 9. Quem, afinal de contas, é o senhor deste mundo? Os cristãos crêem em Jesus Cristo, o qual “crucificado em estado de fraqueza, vive pelo poder de Deus” (2 Co 13.4). Crendo nele, estamos ao lado do vencedor, mesmo quando tentados. “Assim, com a nossa fé conseguimos a vitória sobre o mundo” (1 Jo 5.4).

Bibliografia SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no exílio. História e Teologia do povo de Deus no século VI a.C. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulinas, 1987. SCHWANTES, Milton. Sexta-feira da Paixão: Isaías 50.4-9a (9b-11). In: van KAICK, Baldur (Coord.). Proclamar Libertação. Auxílios Homiléticos vol. V. II. São Leopoldo: Sinodal, 1977. pp. 28-33. WIENER, Claude. O Deutero-Isaías. O profeta do novo êxodo. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1984.

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18o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

08 out 2006

MARCOS 9.30-37 TIAGO 3.16-4.6

PRÉDICA: JEREMIAS 11.18-20 Nelson Kilpp

1 Introdução O 18º Domingo após Pentecostes localiza-se no início do mês de outubro, mês de eleições para presidente da República, governadores dos estados, senadores e deputados. Partidos foram às ruas, plataformas foram discutidas, debates realizados, projetos avaliados, pesquisas divulgadas, tendências apontadas. Os sons ainda reverberam nos tímpanos, as imagens ainda se refletem na retina. Diante disso, o ano litúrgico, aparentemente alheio ao que ocorre em nossa volta, convida-nos a refletir sobre um texto de outras épocas, escolhido por quem decerto não conhece o lugar em que vivemos. Quem tem a incumbência de pregar deverá decidir se o texto escolhido é adequado ou não à sua situação; em todo caso, está sendo desafiado a ver o momento político em que vive à luz das leituras indicadas. As leituras indicadas em epígrafe, previstas pelo lecionário adotado por Proclamar Libertação para o 18º Domingo após Pentecostes (do ano B), correspondem ao 25º Domingo do Tempo Comum da tradição católica, que, no corrente ano, caiu no domingo retrasado. Além desse lamentável descompasso ecumênico (a ser corrigido na próxima edição revista do lecionário), há uma outra diferença entre o conjunto de textos da tradição católico-anglicana e da tradição protestante no Brasil: o lecionário ABC católico-anglicano contém, como primeira leitura, o texto de Sabedoria 2.12,1720, um livro deuterocanônico (apócrifo). Por esse motivo, a maioria das igrejas protestantes substituiu-o, provavelmente mais por motivos práticos do que teológicos, pelo texto de Jr 11.18-20. Veremos, a seguir, que há uma afinidade de conteúdos muito grande entre esses dois textos do Antigo Testamento.

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2 O tema do domingo Sab 2.12,17-20 (delimitação alternativa: Sab 1.16-2.1,12-22) fala dos ímpios que decidem armar ciladas contra o justo “filho de Deus”, a fim de condená-lo à morte para ver se Deus virá em seu socorro. Apesar da correspondência com a paixão de Jesus, o título “filho de Deus” deve referir-se aos judeus duramente perseguidos no séc. I a.C., no Egito. Jr 11.18-20 parece fornecer um exemplo concreto da pessoa justa que sofre perseguição e atentados à sua vida: o profeta Jeremias. Esse texto aprofundaremos a seguir. A leitura da epístola, Tg 3.16-4.6 (há diversas delimitações alternativas), por seu turno, contrapõe a inveja e a cobiça humanas, causa de todas as desavenças e conflitos, à sabedoria divina, que promove conciliação e paz. E conclui com uma variante da dualidade “ímpio-justo”: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (alusão a Pv 3.34 e Jó 22.29?). O evangelho, Mc 9.30-37, reúne três tópicos: no contexto do anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus (vv. 30-32), insere-se a discussão dos discípulos sobre quem seria o maior (vv. 33-35), culminando na afirmação de Jesus de que quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus (v. 36s.). Conforme o evangelho, não cabe aos discípulos de Jesus buscarem a glória enquanto os passos do mestre caminham em direção à cruz; a atitude adequada é o serviço. Ao contrário dos textos paralelos, Marcos não acentua a contraposição “maior” x “pequenino como uma criança” (cf. Mt 18.5; Lc 9.48), mas o fato de Jesus e o próprio Deus se identificarem com os pequeninos a quem os discípulos são chamados a servir. Os textos do Antigo Testamento (Sab e Jr) e do evangelho abordam, cada um a seu modo, o tema do justo perseguido e sofredor. A lógica normal da sabedoria tradicional em Israel – de que os justos prosperam e os ímpios fracassam – não (mais) corresponde à realidade. Essa, pelo contrário, mostra que pessoas boas e justas – como o profeta, que abomina a hipocrisia e desconhece o interesse próprio, como os judeus da diáspora, que buscam viver sua fé e seus costumes em meio a uma civilização discriminadora, ou como Jesus, cuja mensagem de perdão e aceitação e sua proposta de amor e inclusão provocam o ódio dos poderosos – não são exaltadas e glorificadas; pelo contrário, elas experimentam rejeição, antipatia e perseguição a ponto de correr risco de vida. Como vincular isso à política e às eleições? O texto de Tiago aborda o mesmo tema a partir da perspectiva antropológica: a inveja e a cobiça levam à discórdia; e conclui que, para o bem da coletividade, é melhor que os cristãos abdiquem da soberba e se submetam à sabedoria divina. Pois essa atitude pode propiciar uma boa convivência na “pólis”. Nas palavras do evangelho, isso quer dizer que o melhor político não é aquele que quer galgar os mais altos escalões do poder, mas aquele

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que se prontifica a servir aos pequeninos. Não só porque esses pequeninos são especialmente carentes, mas também porque Jesus está com eles.

3 Aspectos exegéticos de Jr 11.18-20 O texto previsto para servir de base para a pregação, Jr 11.18-20, insere-se na unidade maior, geralmente delimitada em 11.18 a 12.6, que poderia levar o título: Jeremias é ameaçado de morte em Anatote, sua aldeia natal. Muitos já observaram que os acontecimentos narrados no relato não se encontram numa seqüência coerente, que o texto mescla poesia e prosa e que a resposta de Deus, em 12.5, pouco tem a ver com o atentado contra Jeremias: tudo isso comprovaria que o texto surgiu de um processo redacional. Apesar disso, pode-se perceber claramente a situação: pessoas de Anatote (11.21), entre as quais parentes do próprio profeta (12.6), conspiram contra Jeremias e buscam eliminá-lo (11.18,21). O motivo é, sem dúvida, a mensagem profética (11.21), que é amplamente desfavorável ao templo e aos sacerdotes (a cuja “classe” também pertencia a família de Jeremias). Mas o profeta fica sabendo do plano e consegue salvar-se. Essa salvação ele atribui a Deus (11.18), a quem ele se dirige, aflito, em oração, com o pedido de ajuda e de vingança contra seus inimigos (11.20), o que inclui – horribile dictu – morte pela espada e desgraça para a própria família (11.22s). O profeta acrescenta, em sua oração, uma discussão com Deus a respeito da prosperidade dos maus e dos que levam o nome de Deus apenas na boca, mas não no coração (12.1-3,4b), ao que Deus responde, não sem rudeza, com uma espécie de reprimenda que remete o profeta à sua missão e recomenda-lhe não esmorecer por “qualquer” dificuldade. O recorte feito pelos homiletas do lecionário evita questões que poderiam tornar-se polêmicas ou até escandalosas dentro de uma homilia. O pedido de vingança é apenas tocado de leve (11.20); as partes mais “fortes” são deixadas de fora (11.22-23). Também se pretende excluir da pregação a reflexão sobre a prosperidade dos maus e a resposta – incompreensivelmente rude – de Deus a seu profeta (12.1-5). Sugiro, no entanto, que se mantenha pelo menos a reflexão sobre o sucesso dos ímpios como pano de fundo, pois se insere dentro do tema maior do domingo: o profeta (justo) sofre e é perseguido por causa de sua missão. A unidade redacional Jr 11.18-12.6 é a primeira das cinco “confissões” de Jeremias (as outras são: 15.10-21; 17.12-18; 18.19-23 e 20.7-18). As chamadas “confissões” são lamentos individuais nos quais o profeta derrama sua alma angustiada diante de Deus e expressa seus mais profundos sentimentos e experiências com a missão profética de anunciar uma mensagem dura para o povo. Nas “confissões”, Jeremias admite ser rejeitado por seus ouvin-

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tes, ter-se tornado um excluído da sociedade, ter sido forçado por Deus a anunciar o que ele pessoalmente não gostaria de dizer. Em suma, as confissões mostram como o profeta sofre por causa de sua fidelidade à missão que lhe foi dada. As confissões não são uma mensagem destinada ao grande público. Deve-se presumir que somente um círculo restrito de seguidores teve acesso a esses momentos de conflito pessoal do profeta com Deus a respeito de sua missão.

4 A caminho da pregação Certamente é importante destacar que alguém a serviço de Deus pode ter dúvidas quanto à sua missão, podendo inclusive chegar às raias do desespero por causa dela. A missão de quem está a serviço de Deus certamente não é fácil, especialmente num mundo como o nosso, caracterizado pela falta de critérios éticos. Talvez seja confortador saber que os que estão no serviço de Deus podem dirigir-se a ele e não apenas despejar tudo aquilo que os sufoca e esmaga em sua tarefa, mas até “brigar com Deus”, como o profeta Jeremias faz. Podemos, inclusive, colocar abertamente os nossos sentimentos mais “feios” e “demasiadamente humanos”, como os nossos desejos de vingança. Nem há como esconder essas nossas fragilidades e limitações humanas diante de Deus. Quem consegue colocar nas mãos de Deus o sentimento de vingança desiste, na verdade, de vingar-se com as próprias mãos; quem briga com Deus sabe, no fundo, que pode esperar dele – só dele – um sentido até para as coisas absurdas da vida. O tema mais importante indicado pelo recorte homilético do texto, no entanto, parece estar vinculado à natureza da missão profética. É difícil determinar o que vem a ser um profeta – não só em tempos confusos como os nossos. O que entendemos por fenômeno profético e missão profética dependerá muito de nossas tendências políticas ou cores partidárias. Talvez nem se possa reconhecer um profeta no momento de sua atuação e somente a história posterior seja capaz de confirmar se, no passado, alguém foi ou não foi um profeta no meio do povo. Como se sabe que alguém, de fato, está falando em nome de Deus? O próprio Jesus foi mal interpretado quando fazia milagres. Uma coisa que sempre chama a atenção é que um profeta caracterizase por sua coerência. Mensagem e vida não se dissociam, antes se complementam. A própria vida torna-se mensagem (cf., p. ex., Os 1 e Jr 16). E essa coerência é tão flagrante, que chega a assustar as pessoas; ela é tão provocadora, que suscita a rejeição dos destinatários da mensagem; ela é tão verdadeira, que chega a escandalizar. A coerência profética levou muitos ao sofrimento, à perseguição e à morte violenta. Quase nunca é assim

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como muitos esperam: estar a serviço de Deus não significa portas abertas, problemas resolvidos. Pelo contrário: as reações podem ser bastante adversas. Mas quando o sofrimento é conseqüência da seriedade com que se abraça a causa de Deus e de Cristo, ele dá credibilidade ao anúncio de quem sofre. Torna-se testemunho autêntico, verdadeiro “martírio”. O verdadeiro profeta e a verdadeira testemunha do reino evidentemente não buscam o sofrimento; mas tampouco fogem dele. Deus não se alegra com o sofrimento; esse certamente não é vontade de Deus, mas conseqüência da rejeição humana. A realidade do sofrimento não se coaduna com uma teologia do sucesso; afinal, as pessoas de fé nunca sofrem, pois certamente estão sempre amparadas pela providência divina. O sonho do pregador de sempre ter “casa cheia” e “platéia empolgada” segue parâmetros humanos que poucas vezes sintonizam com a pregação e atuação do próprio Jesus. Esse previu que seus discípulos encontrariam resistência e perseguição, porque o serviço ao próximo também põe a descoberto as inúmeras maneiras de manipular pessoas e de tirar proveito delas. Importante na pregação talvez seja destacar que todas as pessoas de fé, comprometidas com a causa do reino de Deus, podem estar bem, mas também podem estar mal. Estar de bem com a vida, sentir-se realizado, conquistar vitórias é algo bonito também para os discípulos e as discípulas de Cristo. Mas não é sinal especial de bênção ou aprovação divina. Por outro lado, sofrer decepções, rejeição e humilhação na vida, ser alijado de regalias por causa do compromisso assumido tampouco é sinal de abandono de Deus. Ele certamente estará com todos aqueles que assumiram o serviço do reino e em cuja atuação se percebe com nitidez a coerência entre o discurso e a prática.

5 Sugestões litúrgicas (Elaboradas por Sônia G. Mota, adaptados do Livro de Culto da IECLB, e Rubem Alves (org.), Culto e Arte, Vozes, 1999) Acolhida (por jovem): Recebemos mais este dia como presente do Deus da vida. Temos que andar, mesmo que nem sempre temos certeza sobre o caminho. Temos que enfrentar as situações, embora nem sempre saibamos como. Temos que tomar decisões, mesmo que nos sintamos despreparados. Temos que escolher os dirigentes do país, ainda que tenhamos dúvidas. Mas confiamos em Deus! Temos fé! E ele nos leva à frente! A todos e todas, bom dia! Desejamos que todas as pessoas se sintam acolhidas nesta casa de oração. Deus está aqui! Sentimos a sua presença entre nós; por isso somos um só corpo fraterno, membros da mesma família de Deus.

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Canto: HPD 2, 332: “Deus está aqui” (durante o canto, os participantes dão-se o abraço de boas-vindas). Invocação: É em nome do Pai e da Mãe de todos os povos, que nos fez nascer do amor e da terra; é em nome do Filho, irmão de homens e mulheres nessa vida em construção; é em nome do Espírito Santo, brisa suave que nos dirige para a vida em plenitude, que nos reunimos para louvar, agradecer, saborear a companhia dos irmãos e das irmãs e para renovar a fé e as forças. Aqui nunca estamos sós. Canto: HPD 2, 395: “Vejam que belo” (Sl 133). Pedido de perdão: (anunciar algumas “dores do mundo” que foram notícia durante a semana; diversas pessoas são convidadas a ler as correspondentes manchetes de jornais e colocá-las diante do altar) D – Tanta dor, tanta miséria, tanta desunião, tanto sofrimento! Nosso mundo geme, nosso mundo sofre. Apesar das muitas igrejas, entidades e instituições que agem em nome do Deus da vida, ainda há muito o que fazer! C – Tem compaixão de nós! D – Deus de amor, perdoa-nos quando o povo cristão, chamado para ser testemunha do teu projeto de vida, fraqueja diante das dificuldades e perde a esperança. C – Tem compaixão de nós! D – Oremos: Deus, fonte de fé e vida! Quando estivermos com medo do desconhecido, dá-nos coragem! Quando nos lamentarmos por nos considerar incapazes e quando nos sentirmos cansados e desapontados, lembranos que és tu quem gera o novo e a esperança das situações mais difíceis. Perdoa as nossas fraquezas, medos e nossa acomodação. Amém! Oração final: (pode-se convidar um casal da comunidade para leitura alternada; no final, podem ser acrescentadas as intercessões específicas da comunidade) L 1 – Quando o sol despontar clareando o dia, trazendo as responsabilidades que nos cabem, C – Abençoa-nos, Deus da vida! L 2 – Quando faltarmos com a caridade e nos deixarmos invadir pelo egoísmo, C – Perdoa-nos, Deus da misericórdia! L 1 – Quando nossos passos nos desviarem do caminho da luz, da ética e do compromisso com os teus propósitos, C – Faze-nos retornar, Deus da luz! L 2 – Quando as agruras da vida nos confundirem, as provações sobrevierem e nosso coração se encher de angústia,

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C – Fortalece-nos, Deus do amor! L 1 – Quando a impaciência, a desconfiança e o temor nos assaltarem, C – Ajuda-nos a perseverar, Deus da fé! L 2 – Quando o desamor, a injustiça e a falta de solidariedade nos atingirem, C – Protege-nos, Deus da justiça! L 1 – Quando precisarmos tomar decisões que irão interferir em nossa vida e na vida de milhões de pessoas, C – Orienta-nos, Deus, e fica conosco todos os dias. Amém. Bênção: Que Deus seja contigo, meu irmão, minha irmã; seu Espírito guie nossos passos; sua graça alente nosso coração; que sua palavra, hoje proclamada, seja praticada em nossas vidas. Por Jesus Cristo, amém! Canto final: HPD 2, 432: “Canção da caminhada”.

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19o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

15 out 2006

MARCOS 9.38-50 TIAGO 5.1-6

PRÉDICA: NEEMIAS 11.(1-3)4-6, 10-11,16,24-29(30-36) Renatus Porath

1 Uma lista como texto de prédica? Depois do filme A lista de Schindler, produzido por Steven Spielberg em 1993, uma nova perspectiva de leitura abriu-se para textos genealógicos e listas intermináveis de nomes de pessoas do Antigo Testamento. A personagem central do filme é o industrial Oskar Schindler, que salva inúmeros judeus da morte certa em campos de concentração nazistas, trazendo-os para sua fábrica. Ele elabora uma lista de nomes de pessoas ameaçadas, submete-as às autoridades coniventes com os desmandos criminosos que atingiram a população judaica durante a Segunda Guerra Mundial. Negocia a libertação dos enumerados em sua lista, nome por nome. Vale-se de todo o seu poder de influência, cultiva estranhas amizades com dirigentes nazistas para salvar pessoas que estavam em sua lista. Listas podem salvar da morte, integrar a história da salvação, garantir direitos, construir pontes entre passado e futuro, legitimar autoridade, incluir grupos marginalizados no seio da comunidade, podem excluir pessoas tidas como culpadas ou que não preenchem os requisitos para fazer parte de determinada comunidade. Qual função desempenha a lista de repovoamento de Jerusalém de Ne 11? Neemias faz parte da Obra Historiográfica Cronista, que tem predileção pelo gênero literário de textos genealógicos e listas. Só quem tem interesse especial na pesquisa de árvores genealógicas vai deter-se na leitura dessas partes do AT (1 Cr 1-9: lista genealógica de Adão a Davi; Ed 2: lista dos repatriados; Ne 7: lista dos imigrantes e repatriados da Babilônia; Ne 11 e 12: lista dos moradores de Jerusalém com destaque para os profissionais do templo). Aliás, já na epístola pastoral de 1 Tm 1.4 adverte-se para que ninguém se ocupe com “fábulas e genealogias sem fim”. Portanto, para reler essa lista como palavra de Deus em pleno culto, é necessário que se façam algumas observações preliminares de ordem histórico-literária e históricoteológica.

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2 Situando Neemias 11 O autor da obra cronista deve ser procurado no círculo dos sacerdotes levitas da Jerusalém do pós-exílio no fim do império persa (séc. IV a.C.) ou já no começo do período helenístico por volta de 300 a.C., apesar de que a campanha de Alexandre Magno ainda não seja mencionada. É surpreendente o número de fontes e documentos oriundos dos primórdios da reconstrução do templo (520-515) e da muralha de Jerusalém. Seu interesse vem à tona por meio de omissões, correções e idealizações que ele realiza com a maior liberdade diante das fontes de que dispõe. No centro de seu interesse está a luta pela identidade da comunidade santa diante dos desafios de seu tempo. Ne 11 e 12 já têm vestígios claros de que são uma composição feita por redatores da obra cronista, que parte do legado cronista para atualizá-lo para um novo contexto. O cronista compõe suas listagens de Ne 11 a partir de 7.1-5a (memórias de Neemias). Neemias constatava que “a cidade era espaçosa e grande, mas havia pouca gente nela, e as casas não estavam edificadas ainda” (7.4). Ele estava preocupado em tornar a cidade, recém-murada, eficiente para a nova província de Judá tanto em termos administrativos (7.2) como em termos de segurança (7.3). Para tanto, ele precisa tomar medidas para atrair especialmente a liderança para fixar residência na cidade (11.1). Parece que ainda precisou apelar para que voluntários se oferecessem como novos moradores da “nova Jerusalém”. Em todos os casos, o povo dá a sua bênção àquelas pessoas que espontaneamente se dispõem a morar na cidade (11.2). Essa é a porta de entrada para complementar as memórias de Neemias com novas listas de moradores de Jerusalém. Parece que a pergunta pelo significado da cidade não quer calar; gerações após Neemias têm o dever de retomar essa pergunta e tentar respondê-la para o seu tempo. Só assim se explicam os sinais de um texto original que recebeu algumas adições, lembrando uma casa que foi ampliada para responder a novas necessidades de seus moradores. O cronista seria aquele que desencadeara esse processo de reedição de documentos históricos e também das próprias memórias de Neemias (1.17.5) com a intenção de ajudar sua geração a manter a identidade de sua comunidade, de sua “cidade santa”, juntamente com os arredores na província de Judá. Muros e portões não bastam para preservar a identidade do povo que mora em Jerusalém e nos arredores. Nem estruturas militares e administrativas são suficientes para manter vivo o específico desse povo. É da vida de fé e culto da comunidade que nasce a consciência daquilo que é singular para a existência dessa gente que, desde 538 a.C., aposta na recons-

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trução de Jerusalém e na reorganização do povo que regressou da Babilônia. Quanto tempo será que separa o cronista e seus redatores daquele reinício paupérrimo? Quantas mudanças não terão ocorrido desde aqueles primórdios até essa geração? As listas no cap. 11 atestam: é provável que nomes e grupos profissionais oriundos de diferentes épocas constem entre os moradores que deram ou deveriam ter dado sua contribuição para que Jerusalém e sua comunidade, residente em Jerusalém (vv. 4b-19) e nos arredores (vv. 20, 25-35), continuassem fiéis à sua missão. Uma versão que se atém a uma descrição mais sucinta dos procedimentos para ocupar a Jerusalém espaçosa, mas desabitada (7.5), é reconhecida nos vv.1-2, 20, 25a, 36, e que normalmente é atribuída ao cronista com seus novos materiais e sua ênfase teológica. Seguindo os passos do cronista, um novo editor parece acrescentar novos documentos oriundos de arquivos desconhecidos e que agora são identificáveis nos vv. 4-19 e 25b-35. Esse mesmo editor deve ser o responsável pelas notas explicativas dos vv. 21-24 sobre as funções a serem desempenhadas por pessoas ou famílias tanto no âmbito secular como sagrado. Observe-se que a mesma lista aparece mais uma vez em 1 Cr 9 com algumas diferenças. É pouco produtivo tentar refazer a harmonia entre as listas ou encontrar uma explicação por que uma lista tem nomes a mais e outra a menos. Como se percebe, o texto para a prédica é uma seleção feita especialmente dessa lista complementar com suas notas: cap.11: vv. 4-6, 1011, 16, 24-29. O critério para essa seleção parece ter sido o de poupar a comunidade da enumeração completa de nomes sem fim e ater-se à descrição de cargos e funções desempenhados por grupos profissionais e famílias, ora da esfera “secular”, ora da esfera cultual. Apesar desse recorte de versículos, deve-se ter em mente que uma leitura do cap. 11 não faz essa diferenciação de camadas que a pesquisa detectou, mas quer entender o texto final do vv. 1 ao 36. Como comunidade de Jesus Cristo que quer reler Ne 11, não o fará sem acrescentar as suas próprias notas explicativas.

3 Um novo sentido em novo contexto O horizonte de sentido do texto só se fundirá com o nosso horizonte quando perguntas e respostas encontradas no testemunho bíblico têm algo a dizer para nós como novos destinatários de Ne 11. Mas um olhar sobre o contexto, em que Ne 11 fazia sentido, torna-se necessário. Esse talvez deva ser descrito como período de mudanças consideráveis na Jerusalém e na província de Judá do judaísmo incipiente. O período persa caracterizou-se por uma certa autonomia na administração interna da província dos judeus

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e por uma ampla liberdade no cuidado das questões religiosas. A elite sacerdotal do período do segundo templo crescera em poder e influência. Aos persas interessavam os tributos recolhidos pontualmente dos territórios dominados. Com o advento de Alexandre Magno (333 a.C.) e seus “diádocos”, uma mudança profunda haveria de ocorrer, especialmente na Palestina. A cultura urbana helenística, introduzida pelos novos dominadores, traria o desenvolvimento e a fundação de inúmeras cidades construídas nos moldes da “pólis grega”. Essa admirável presença helenística ainda pode ser documentada em muitos monumentos escavados por expedições arqueológicas. Esse avanço cultural significava simultaneamente o avanço do profano, característica da nova cultura, e nem Jerusalém seria poupada. A cidade santa (Ne 11.1, 18; cf. Is 48.2; 52.1; Dn 9.24), morada do Deus de Israel, o Deus do céu, estava sendo invadida pela novidade helenística, que pouco se importava com o que então a comunidade de fé confessava e celebrava. O cronista pertence àqueles que via no retorno dos repatriados e na reorganização da vida civil e cúltica em Jerusalém, possibilitados pelo edito de Ciro, o sinal concreto do reinado de Deus (1 Cr 28.5; 2 Cr 26.16ss), interrompido durante os anos do exílio e agora retomado por iniciativa divina. Antes dele, ainda em plena Babilônia, o Deutero-Isaías (~539 a.C.) anunciava a ascensão do Deus de Israel ao trono de seu reinado universal (52.7-10). Os deuses babilônios não tinham como deter o novo pretendente a Deus-rei. Os sinais concretos desse reinado de Yahveh, o deus da pequena comunidade de exilados judeus, acontecem por intermédio da “palavra que não volta vazia” para seu emissor (Is 55.11), sem que se materialize em ações. Sinais visíveis desse reinado é o retorno de exilados à terra de origem e a Sião em ruínas sendo reconstruída e repovoada, fazendo jus de novo ao atributo “cidade santa” (Is 40.9-11; 48.2; 52.1). Até o bastão imperialista, que os babilônios têm que passar para os persas, é ação da palavra do novo Deus-rei, tanto quanto a Jerusalém reedificada e o templo reconstruído (Is 44.28-45.7; cf. 40.23-24). As boas-novas do anunciado reino do Deus desse povo, sem terra e com sua identidade ameaçada na Babilônia, foram o ponto de partida para um processo, de um lento recompor-se da vida civil e religiosa na terra dos pais, que resultou na reorganização do povo de Deus no pós-exílio e sua teocracia administrada a partir da morada do Deus do céu aqui na terra, o templo em Jerusalém. O cronista vive dessa confissão de fé no reinado de Deus e de sua palavra feito lei. O fato de enxergar em Jerusalém um lugar terrestre do trono de Yahveh não lhe impedia uma análise realista de seu espaço e tempo. Com todas as letras, ele articula em sua lamentação a situação deplorável em que a comunidade vivia em sua própria terra por causa da exploração dos mandatários estrangeiros de seu tempo (Ne 9.36s). A comunidade santa, que se reúne para confessar o reinado de Deus por meio de celebrações de

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ação de graças e de outros cantos de louvor, que se dispõe a orar a seu Deus, a ler e ouvir a lei, vê na teocracia do pós-exílio sinais do reinado de Deus, sem deixar de lutar e esperar pela implantação integral do domínio de Deus em todas as áreas da vida social, política e cultual. Mesmo assim, o cronista está mais perto daquilo que chamamos de um defensor da escatologia presente do que da futura.

4 Ser comunidade santa – eis sua vocação! Não é indiferente quem povoa essa cidade, quem a administra e ocupa seus cargos de mando, quem é o sumo sacerdote no templo, quem é o responsável pela vida de culto nas suas mais diferentes expressões (nos sacrifícios com sua diversidade, no louvor por meio de voz e instrumentos musicais); não é irrelevante quem pode ler e ensinar a lei para a comunidade, quem cuida das contribuições, dos dízimos e outras ofertas para a casa de Deus, quem zela pela segurança do templo e da cidade. Em resumo, não é indiferente quem são os agentes designados para que a cidade continue santa, continue sinal do reino de Deus na terra e fonte irradiadora da vontade divina por intermédio da lei. A lista do povoamento da “cidade santa” reflete algo da dinâmica interna de uma comunidade chamada para ser sinal do reinado de Deus ou, para usar a expressão do próprio cronista, ser a cidade que abriga a “casa de Deus” na terra. Para não deixar dúvida de que Deus estava privilegiando o templo como ponto de contato entre céus e terra, o próprio sumo sacerdote é designado com o título naguid (líder, chefe, príncipe) da casa de Deus (Ne 11.11). Nos primórdios da monarquia, Davi recebe o título naguid do povo de Israel (2 Sm 7.8); aqui o sumo sacerdote cresce em importância, chegando a ocupar uma função similar. Será que o cronista, com sua teologia da presença “parcial” do reinado de Yahveh, não está abdicando da esperança messiânica ao atribuir uma titulação davídica ao ocupante do cargo de sumo sacerdote? As funções seculares e político-militares necessárias para a cidade não são ignoradas (Ne 11.6b, 9, 14, 24); é mencionado especificamente um homem de nome Petaías, que representava os interesses do rei estrangeiro (persa ou seu sucessor?) junto à província de Judá e vice-versa. Apesar de ocupar um cargo equivalente ao de Neemias, nenhuma legitimação de ordem teológica lhe é acrescentada (v. 24). O secular e político parecem estar a serviço do teocrático que se configura a partir da casa de Deus. Observe-se, em contrapartida, o espaço reservado para os cargos necessários para a vida comunitária em torno da casa de Deus e sua respectiva legitimação (vv. 10-12, 15-19, 20-23). O grupo dos levitas ganha todo o espaço possível na lista. Isso naturalmente tem algo a ver com o cronista e seus

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sucessores na editoração da grande obra literária, senão oriundos do círculo dos levitas terão sido pessoas próximas ao levitismo. Nem tudo se explica a partir da autoria e de seus interesses partidários. Os levitas representam, ao lado das atividades cúltico-cerimoniais do templo, realizadas predominantemente por sacerdotes (alto clero?), as atividades educacionais centradas no ensino da lei (Ne 8.9-12). Parece que a lista claramente privilegia a atividade efetivamente exercida pelos levitas. Só que suas atividades são, por um lado, de ordem mais administrativa, cuidado do armazenamento do que se trazia como oferta para o templo, tratando-se provavelmente dos principais produtos da terra: cereal, vinho e óleo de oliva (v. 16). Por outro lado, os levitas ganham um destaque especial como cantores do templo. A associação dos cantores, já conhecida desde o tempo da monarquia, deve ter sido assimilada pelos levitas no período do pós-exílio. Chama atenção que, numa obra literária, por vezes tão árida como a do cronista, o templo é descrito como espaço para o louvor e a ação de graças, dirigidos a Deus, a ponto de manter associações de cantores e instrumentistas (vv. 17, 23). Cantar os feitos do “Deus do perdão, cheio de piedade e compaixão” no passado e no presente, lamentar sua infidelidade e falta de gratidão e renovar o compromisso de fidelidade a Deus e sua lei parecem ter sido elementos inalienáveis pelos quais o cronista, com sua obra, procura lutar (Ne 9 e 10). Juntamente com o último grupo de profissionais ligado ao templo, o dos porteiros (v. 19), passa-se a idéia de que a comunidade santa era composta, basicamente, por diferentes grupos de profissionais do templo. Onde ficou a comunidade dos não-ordenados para algum serviço específico do templo? O texto refere-se a eles como o “restante de Israel” (Ne 11.1, 20), que mora em cidades e aldeias fora de Jerusalém, na província de Judá. Não deixam de pertencer à comunidade santa só porque não estão na lista dos moradores efetivos da capital da província. Essa parece ser a função de listar as aldeias nos vv. 25-35 para encerrar o cap. 11. Curioso é que nessa listagem final apareçam localidades que só no período dos macabeus, em 164 a.C., foram reconquistados por Israel; na época do cronista, a província de Judá não incluía o sul da região, o Neguebe. Será um sinal de datação tardia dessa lista complementar após o povoamento de Jerusalém? Ou será um sinal daquilo que o cronista espera para seu povo: a dilatação das fronteiras até o Neguebe? Seria, então, mais uma demonstração do inconformismo do cronista diante de uma realidade em que seu povo ocupa apenas uma parte da terra que pertencia aos pais. O reinado de Deus, exercido a partir de sua casa em Jerusalém, ainda não conseguiu devolver toda a terra a que seu povo tem direito. Esse ato de governo do Deus-rei ainda está por realizar-se. Como é descrita a relação do restante do povo que vive fora da cidade santa com sua casa de Deus? Estaria essa população das aldeias excluída da comunidade santa? Ela está perfeitamente integrada.

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O cronista utiliza-se do imaginário “Israel no deserto” para descrever o status da população que vive fora dos muros e distante da casa de Deus. O povo das aldeias está como que acampado ao redor da tenda do encontro (v. 30b, cf. 1 Cr 9.18-21; 2 Cr 31.1) e com isso poderá participar da presença benéfica de Deus no templo/ tenda do encontro, agora erguido na Jerusalém reconstruída. Em resumo, por que essa insistência em reafirmar o status de Jerusalém e sua população com o qualificativo “santo”? Por que esse esforço em dizer que o “restante de Israel” também participa da comunidade santa? Um novo espírito está soprando em Jerusalém e em sua comunidade, ameaçando sua identidade como cidade a partir de onde o reinado de Deus é exercido. A cultura helenística está conquistando até parte da elite sacerdotal. Os novos valores da cultura grega parecem ganhar espaço. A comunidade está deixando de ser sinal do reinado de Deus na terra para tornar-se mais um pólo irradiador do espírito helenístico na Palestina. À sua maneira, o cronista quer barrar a entrada “de toda a estrangeirice” (Ne 13.30). Aliás, só pertence ao povo quem passou pelo fogo depurador do exílio, só quem experimentou a condenação do desterro babilônico, pessoalmente ou nos antepassados. Novamente a lista genealógica deverá atestar a verdadeira pertença ao povo de Deus. Daí sua insistência em permitir que apenas as tribos de Judá e Benjamim sejam os legítimos herdeiros da terra, integrantes do novo povo de Deus. O programa do cronista inclui, na sua luta pela identidade, o distanciamento de toda e qualquer influência estrangeira via casamento, exigindo um divórcio em massa de todos os que estivessem casados com mulheres estrangeiras (cf. Ed 10.10-11). Xenofobia em nome da fé causa estranheza a qualquer leitor da obra cronista. Um papel especial desempenham os levitas, elogiados como os “mais retos de coração”(2 Cr 29.34). Com sua ênfase no ensino da lei e sua participação na vida em comunidade, o cronista parece querer dizer: A eles ouvi!

5 A lista no novíssimo contexto: a comunidade cristã 1 – A luta pela identidade da igreja de Jesus Cristo na aldeia global parece ser o elo de ligação com a comunidade de fé do cronista, ameaçada pela invasão do profano. Ser comunidade santa é nosso distintivo e nossa missão numa cidade/sociedade governada por um mercado que cria “palácios e barracos” (HPD 2:441), que fomenta uma cultura pasteurizada, centrada no individualismo e no hedonismo e que, por sua vez, gera o consumo desenfreado da mercadoria produzida. Nessa mesma realidade floresce, simultaneamente, um mercado religioso que faz surgir uma diversidade de

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cultos sem fim. Como dar conta da nossa vocação e missão – ser comunidade santa? Que confissão de fé nos distingue e que faz sentido neste mundo plural, contraditório e desigual? Ousamos afirmar com o cronista: o reinado de Deus é exercido a partir da comunidade de fé? Sinais desse reinado do Deus do perdão, cheio de piedade e misericórdia, são percebidos no contexto e na atuação da comunidade de fé? Como falar de boca cheia da presença, mesmo que incipiente, desse reino quando ao nosso redor tanta coisa atesta o contrário? Partilhamos com o cronista a confissão de fé de que o reino só vem por iniciativa de Deus mesmo, “sem a nossa prece; mas suplicamos nesta petição (Pai-Nosso) que venha também a nós” (M. Lutero). Se outros reinados se estabelecem ao nosso redor e avançam perigosamente também sobre a comunidade dos que crêem em Jesus Cristo, o chamado de volta para a vida comunitária, em cujo centro está o Deus que atua por intermédio de sua palavra, com certeza é o caminho para recuperar o distintivo da comunidade de fé, qual seja: ser testemunha dos sinais colocados por seu Deus em meio às contradições deste mundo. 2 – E a lista dos que devem participar desse projeto? A tentação de listar os que, a partir de nossa perspectiva, devem participar e os que devem ser mantidos longe da comunidade e sua missão é enorme. Aqui nos deparamos com uma descontinuidade entre o projeto do cronista e o projeto da comunidade de Jesus Cristo. A comunidade cristã confessa que “Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1 Co 1.28) e com elas leva adiante seu projeto. Uma hierarquização dos que dirigem a comunidade santa na Jerusalém do cronista deveria soar estranha para nós. Um “chefe da casa de Deus” (sumo sacerdote, v. 11) que desempenha o papel de mediação entre Deus e o povo não tem mais espaço numa comunidade que se entende como corpo (1 Co 12) ou como povo, em que todos os que crêem receberam a dignidade de sacerdotes, isto é, têm acesso a Deus sem qualquer mediação humana (1 Pe 2.9). Sua luta pela comunidade santa parece legitimar uma depuração da comunidade, o que conflita frontalmente com a compreensão de que a comunidade é corpo misto, não cabendo a nós o juízo final dos que são e não são do reino de Deus (Mt 13.24-30). Uma prática que apressadamente se põe a limpar o arquivo morto dos membros da comunidade não poderá se amparar na teologia cronista para justificar sua ação altamente questionável. A lista do povoamento do pessoal ligado a serviços na comunidade de culto em Jerusalém nos fará refletir sobre o que é essencial para a expressão comunitária da fé. Copiar a estrutura de cargos e funções não faz sentido, mas rever que elementos inalienáveis para a vivência comunitária na casa de Deus, e a partir dela, são listados em Ne 11, com certeza é o legado do cronista para a comunidade de fé na qual estamos inseridos. Sem sacerdote

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não há templo no AT. Ele, muitas vezes, juntamente com os profetas, são os responsáveis pelo que se ensina no santuário. Sem ele, não há conhecimento de Deus e de seu agir, como denuncia Oséias (4.6); sem o ensino dele e, agora, também do levita, o culto de então não passaria de um cerimonial ritualístico. Em outras palavras, o primeiro elemento inalienável é a palavra autoritativa de Deus, sem a qual não há comunidade santa. É por intermédio dessa palavra que nasce a certeza de que Deus não abriu mão desse seu mundo e sua gente. Ele tem sua casa neste mundo (cf. também Jo 1.14). Num mundo marcado por tamanhas contradições, ele só pode sentir-se em casa se sua primeira palavra é de perdão e de restauração de relações rompidas. Em resposta a esse primeiro gesto criador de Deus em sua casa, nasce a comunidade que não pode deixar de falar e cantar do que ouviu e que dá sentido e esperança à vida. Confissão de fé é isto: é resposta alegre que se vale de toda a criatividade. Em prosa e verso fala do que Deus representa para sua comunidade e para o mundo. Grande parte do que hoje temos como Escrituras Sagradas outra coisa não é senão confissão de fé. O louvor na comunidade é confissão articulada por meio do canto e de instrumentos musicais. É especialmente na época do segundo templo em Jerusalém que esse elemento do louvor e das ações de graça a Deus ganha espaço no culto da comunidade, e sua responsabilidade é entregue à associação de cantores, oriundos especialmente dos grupos levíticos. Agora, nem tudo é louvor. Basta ver o número de lamentos individuais e coletivos contidos no Saltério. Quando tudo é louvor, a comunidade deixa de ser realista, nega e esconde as contradições ao seu redor, além de ocultar o pecado, o sofrimento e a dor em seu próprio meio. A comunidade que testemunha a presença de Deus neste mundo, apesar dos sinais de morte e negação de vida, vai articular o louvor a Deus em sua expressão de fé comunitária. Contudo, quando essa comunidade enxerga o maior sinal do reinar amoroso de Deus na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, seu louvor virá acompanhado da confissão de toda a precariedade e alienação que nos caracterizam. Quando a comunidade de Jesus Cristo articula a confissão de sua culpa e clama, em forma do Kyrie, “pelas dores deste mundo”, ela dá a entender que ela é composta de gente que está com os dois pés fincados neste mundo que ajudamos a construir tão injusta e desigualmente por meio de nossas ações contraditórias. Um último elemento, ainda ligado à vida comunitária da fé, trata de algo por demais profano para o nosso gosto: a administração “dos negócios exteriores da casa de Deus” (v. 16). Como fazê-lo sem negar a missão da casa: ser sinal do reinado salvador de Deus? O mercado religioso revela que essa é a porta de entrada para ações perversas em nome da fé. Ofertas, dízimos e doações não são outra coisa senão expressão de um coração grato a Deus e expressão de fé que se materializa em gestos de amor.

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6 Auxílios litúrgicos Confessando nossa situação precária: Confessamos, Senhor, nossa falta de confiança em ti. Em lugar da fé permitimos que a ansiedade tome conta de nossa vida, roubando-nos a paz, fechando nossos olhos para as necessidades ao nosso redor. Outras vezes vivemos indiferentes àquilo que tu exiges de nós. Não perguntamos por tua vontade para nosso viver, Não temos amado de verdade. Quantas vezes escolhemos o caminho mais cômodo, fazendo o que todos fazem, sem perguntar pela missão que tu confiaste a nós como tua comunidade. Perdemos de vista o alvo maior: ser testemunha do teu reino. Acomodados, renunciamos à esperança. Temos tolerado injustiças, fomos insensíveis à miséria e à solidão ao nosso lado. Tu nos presenteaste com teu reinado de paz e perdão e não nos mostramos agradecidos. Renova-nos, por inteiro, através do teu Espírito. Amém.

Oração do dia: Reuniste-nos nesta manhã, Deus de toda compaixão e de amor, como pessoas de diferentes histórias de vida, e, mesmo assim, formamos tua comunidade. Não é nossa imensa capacidade de viver as diferenças que faz de nós igreja; é através de tua palavra que reúnes uma comunidade que crê em Jesus Cristo. Viemos até aqui para ouvir tua palavra e abrir novos horizontes para nós como pessoas e como comunidade. Faze com que nos apeguemos à tua palavra, que garante um novo começo, porque estamos cansados de recomeçar com nossas próprias forças. Em nome de Jesus Cristo, oramos. Amém.

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Bibliografia VALLAURI, Emiliano. Esdras-Neemias. In: BALLARINI, Teodorico (org.). Introdução à Bíblia: com antologia exegética. Petrópolis: Vozes, 1983. v. III/1, pp. 17-56. RANDELLINI, Lino. 1-2 Crônicas. In BALLARINI, Teodorico (org.). Introdução à Bíblia: com antologia exegética. Petrópolis: Vozes, 1983. v. III/1, pp. 57-88. WILLIAMSON, H. G. M. Ezra-Nehemiah. Waco, Texas: Word Books, 1985. Word Biblical Commentary, v. 16.

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20o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

22 out 2006

GÊNESIS 2.18-24 MARCOS 10.2-16

PRÉDICA: HEBREUS 2.9-11 Louraini Christmann

1 Hebreus – uma carta diferente das outras A Carta aos Hebreus não é uma carta como as outras. É uma pregação, uma exortação. É pura aula. É puro conselho. Mas tem finzinho de carta. Tem saudação final. É, pois, uma carta sem muito estilo de carta, inclusive sem assinatura. Conforme as pesquisas, são palavras escritas para cristãos de origem judaica, muito perseguidos, prestes a deixar de ser. Dá pra imaginar a angústia, o medo, a ansiedade. Quem escreveu o Livro de Hebreus tem a preocupação de animar aquele povo. Precisa dizer que Jesus é o verdadeiro, que só por ele se chega a Deus. Parece que isso não estava mais tão claro. Será que a propaganda contra esse Jesus de Nazaré era tão grande assim? Parece que sim. Aí precisam mais do que nunca dessas palavras animadoras do livro de Hebreus. E toda a perseguição que havia! Podemos imaginar como aquela imagem do Jesus de Nazaré, pobre, torturado e morto, não era nada convidativa ao lado de tantas outras imagens de deuses majestosos e ditos poderosos. Se havia tanta necessidade de falar da grandiosidade de Jesus, é porque havia quem se dizia grande? Aliás, os reis se diziam os deuses, os deuses se diziam os reis... Como se fazia necessário falar de um Jesus carregado de glória, de brilho! “O filho brilha com o brilho da glória de Deus” (Hb 1.3). Pensando na pregação, talvez devêssemos introduzi-la falando desse brilho, dessa glória. Desafiar a comunidade a cantar louvores a esse Deus todo cheio de brilho e glória, cujo filho tem exatamente o mesmo brilho e a mesma glória. Penso que seria um bom começo.

2 Leituras: Gn 2.18-24 e Mc 10.2-16 Estranham um pouco os textos previstos para leitura. O que teriam em comum com Hb 2. 9-11 o texto de Gênesis, que fala da questão do gênero, e

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o Evangelho de Marcos, que lembra a questão dos direitos iguais no matrimônio e da valorização da criança? É preciso ver, pois, um pouco mais de perto cada um desses textos. 2.1 – Gênesis 2.18-24 Conforme Gênesis, cai por terra qualquer argumento que queira tornar o homem superior à mulher. A mulher é a “outra metade”(Gn 2.18 ) A outra metade trata-se tão bem quanto a primeira. Ela é igual à primeira. Ambas são uma só carne. Aqui não cabe, pois, o senhorio, o domínio. Só cabe a igualdade. E mais. Deus sentiu a falta da mulher na vida do homem no momento de dar nome às espécies. Dar nome é ter o poder sobre. Deus sentiu necessidade da ajuda de uma outra metade naquele momento. Então Ele age. Não há participação do homem. O homem dorme. É coisa de Deus. E mais: ele tirou uma costela, um osso pertinho do coração. Tem tudo a ver com carinho, com abraço de iguais. “Agora sim!”, diz o homem. “Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos” (Gn 2. 23). Isso é compromisso assumido pelo homem. Carne da minha carne a gente não bate. Osso dos meus ossos a gente não quebra. “É por isso que o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa” (Gn 2.24) ou uma só carne, como diz a tradução mais antiga. Aqui em Gênesis, não é ela que deixa tudo para trás, como é da nossa cultura, onde a mulher deixa para trás inclusive o seu sobrenome, que é marca de toda a sua história. Esse texto, pois, dános muita responsabilidade como casais, como lideranças que precisam mexer mais em toda essa questão de gênero. Estamos deixando tudo como está. Não questionamos mais o senhorio do homem sobre a mulher, a diferença enorme que existe entre os direitos e deveres dentro dos relacionamentos matrimoniais. Se esse texto de Gênesis nos vem como leitura junto ao de Hebreus como pregação, vejo claramente que é preciso falar disso. 2.2 – Marcos 10.2-12 Aqui Jesus faz referência a Gênesis e lembra justamente o fato de que “o homem deixa a casa do pai e da mãe”. Ele busca a resposta nas origens. Os fariseus buscam na lei de Moisés, Jesus busca na lei de Deus. E quer apostar na “moleza” do coração dos que o ouvem, porque “Moisés escreveu esse mandamento para vocês por causa da dureza do coração de vocês” (Mc 10.5). Ele coloca aqui para o homem e a mulher a mesma responsabilidade. Mesmos deveres, mesmos direitos (Mc 10.11-12). E o interessante é que os seus

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opositores se calam. O que Jesus disse continua errado, de acordo com a lei de Moisés. O argumento de Jesus, tirado da própria palavra de Deus, desarma-os. 2.3 – Marcos 10.13-16 Jesus passa rapidamente de um assunto para outro. Trazem-lhe crianças, e Jesus não vê problema em interromper a sua conversa com os poderosos fariseus e defender as crianças perante a repreensão dos discípulos, que ainda não entenderam nada do seu evangelho da graça. Ele passa a dizer que o reino de Deus é das pessoas que são como as crianças. Perante o poderio dos fariseus, é muita audácia. Criança era considerada impura perante a lei, justamente por não conhecê-la. Naquela situação de questionamento das atitudes de Jesus em relação à lei, ele abraça e abençoa as crianças (v. 16), o que é totalmente fora dos padrões.

3 O nosso texto e sua insistência na grandiosidade de Jesus Não somente o nosso texto, mas todo o livro de Hebreus insiste muito na grandiosidade de Jesus, como Hb 1.3: “O filho brilha com o brilho da glória de Deus”. Já falamos sobre isso no início desse estudo, e outros estudos que me precederam no PL também já o fizeram. Mas quero aqui destacar todas as intervenções do nosso texto, especificamente as que destacam a grandiosidade de Jesus: “Nós vemos Jesus fazendo isso (governando todas as coisas)” (v. 9); “Agora nós o vemos coroado de glória e de honra” (v. 9 c); “pois Deus (...) tornou Jesus perfeito ...” (v. 10); “... para que tomassem parte da glória de Jesus” (v.10 b); “Pois é Jesus quem os guia para a salvação”; “Jesus purifica as pessoas dos seus pecados”; “Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos”. É muita insistência. Por que será? – a gente se pergunta. E imaginamos que, se havia tanta necessidade de falar da grandiosidade de Jesus, é porque havia quem se dizia grande. Seria isso? Logo no início de nosso texto, a grandiosidade de Jesus é contraposta à sua pequenez, quando ele foi “colocado em posição inferior à dos anjos” (v. 9). Aqui o autor fala de seu nascimento numa estrebaria, numa desprezada Nazaré? Fala da perseguição que sofreu? Da condenação à morte? Provavelmente. Imagino que, na comunidade destinatária de Hebreus, havia quem dissesse que o sofrimento todo pelo qual passou Jesus não levava a nada, que a mensagem da cruz não era de nada, ao contrario da mensagem da glória, muito pregada por outras crenças.

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Mas e quanto à crença em anjos? Qual era a posição dos anjos? Provavelmente o autor estava constatando e combatendo religiões que colocavam os anjos em “posições superiores”. Nesse contexto de anjos, fala da graça de Deus, que fez com que a morte de Jesus fosse para todas as pessoas. Parece claro que lá havia outras coisas que tinham mais valor, como força, capacidade, reza para anjos, talvez a questão da raça... Lembrando os textos previstos para a leitura nesta celebração (Gn 2.1824 e Mc 10.2-16), uma coisa que contava muito era ser homem e ser adulto; ou então, não ser mulher e não ser criança. Disso falava a lei. O senhorio do patriarcado, pois, é assunto aqui. Penso ser lógico que na pregação se fale disso. Como hoje esse senhorio se impõe ainda? Quais são hoje as lutas para que o senhorio de Jesus seja o único? O senhorio de Jesus passa pela morte. Opressão, dor, sofrimento, exclusão, pois, não impedem nada. Por Jesus, que é coroado de honra e glória por causa da morte que sofreu, é possível buscar saída. Normalmente, quem sofre esse tipo de morte não é, de jeito nenhum, coroado de glória e de honra. Em Jesus muda tudo. Por Jesus podemos sonhar com outra realidade. A oração “Deus, em tua graça, transforma o mundo” é bem contextual aqui. O v. 10 inicia com uma confissão de fé: “Pois Deus que cria e sustenta todas as coisas...”. A pergunta que surge aí é: Fazemos essa confissão de fé hoje? Cremos nós que Deus cria e sustenta todas as coisas? Ou cremos muito mais em nossas capacidades? Em meio ao surgimento de tantas denominações que se dizem igrejas e que se sustentam em cima de uma teologia da prosperidade, o que dizemos nós de tudo isso a partir desse nosso texto? O que temos a dizer em uma realidade onde falta emprego, onde falta salário justo, onda falta terra, onde falta preço justo para os produtos da terra... O que temos a dizer frente à realidade de sentimento de vazio na modernidade, às famílias desunidas, ao ser humano degradado? Deus tornou Jesus perfeito por meio do sofrimento. É mensagem que fala alto em meio ao sofrimento de hoje. Diz o texto na segunda parte do v. 10: “Deus fez isso a fim de que muitos, isto é, os seus filhos, tomassem parte na glória de Jesus. Pois é Jesus quem os guia para a salvação”. Sim, Jesus é que nos guia para a salvação, somos agraciados para participar da glória de Jesus. O nosso texto lembra a necessidade de insistir nisso, nessa doutrina grandiosa que nos marca. É preciso repeti-la. O que não se repete é esquecido. Por isso o autor do texto passa a repetir tudo para que eles não esqueçam. “Jesus purifica as pessoas dos seus pecados; e todos, tanto ele como os que são purificados, têm o mesmo Pai.” Temos, pois, uma comunhão de Pai com Jesus. Ele nos faz irmãos. Irmãos vivem em igualdade. Então nossa missão de lutar pela igualdade no mundo. O autor insiste: “É por isso que Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos”. Que bom! Será que tem gente que se envergonha? Talvez por

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causa de uma questão de gênero ou por ser criança. Se há essa insistência, na certa havia os que se diziam mais, os que se rogavam o poder de ser os senhores.

4 Também insistindo na grandiosidade de Jesus (a pregação) Sugiro os seguintes passos: 1 – “O filho brilha com o brilho da glória de Deus” (Hb 1.3). Sugiro iniciar a pregação dando glória a Deus por isso. Desafiar a comunidade a cantar louvores a esse Deus todo cheio de brilho e glória, cujo filho tem exatamente o mesmo brilho e a mesma glória. Penso que seria um bom começo. 2 – Depois listar todas as palavras que falam da grandiosidade de Jesus, como eu fiz no início do capítulo 3 deste estudo. 3 – Continuar perguntando se, de fato, o poder hoje está nas mãos de Jesus. A comunidade poderia ser desafiada a listar poderes hoje que se dão o direito de dominar conforme os seus interesses. 4 – E o senhorio dos homens? Há casais em que a mulher ainda hoje não tem voz? E como anda o senhorio dos adultos? Lembrar o que é autoridade, o que não tira da criança o direito de ter opinião e de ter uma vida digna. E as buscas por igualdade? Depois disso, fazer referências aos textos de Gênesis e Marcos, previstos para a leitura. 5 – “Pois Deus que cria e sustenta todas as coisas” – Essa é uma confissão de fé. Desafiar a comunidade a confessar sempre de novo esse Deus em nossa vida. Desafiar a também ter insistência, a falar muito desse Deus, da grandiosidade de seu filho Jesus. Mas lembrar que é preciso ter a humildade e a pureza das crianças – essa é a condição para fazer parte do reino de Deus. 6 – Finalizar com o mesmo momento de louvor com o qual iniciou a pregação.

5 Proposta litúrgica (Trago aqui uma proposta de liturgia, sem as devidas costuras. Alguns passos estão mais elaborados, outros não. Conforme a situação, é só elaborar. Eu costumo compartilhar a liturgia com uma pessoa; por isso enumero assim os passos. Uma faz os números ímpares, a outra os números pares. As comunidades têm tido muita abertura para isso, o que tem me dado grandes alegrias. Espero estar prestando um serviço com essas minhas idéias.)

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1 – “Agora nós o vemos coroado de glória e de honra, por causa da morte que ele sofreu, pois Deus que cria e sustenta todas as coisas, fez o que era apropriado e tornou Jesus perfeito por meio do sofrimento” (Hb 2.9b – 10a). 2 – Quem aqui nos reúne é este Jesus coroado de honra e de glória, tornado perfeito por Deus, que cria e sustenta todas as coisas. É Deus Pai e Filho tornando-nos irmãos e irmãs pela força do Espírito Santo. Amém. 3 – Louvemos a esse Trino Deus, cantando “Glorificado seja o teu nome” (ou outro cântico, é claro). Comunidade: Glorificado... 4 – Jesus, coroado de honra e de glória, morrendo por nós, agracia-nos com abertura para pedir perdão e para recomeçar. Coloquemos em Deus nossas culpas por todas as vezes que nos arrogamos o direito de dominar, de oprimir, de excluir, sempre tirando de Jesus o senhorio e colocando-o em nossas mãos de um jeito ou de outro. Reconheçamos isso com sinceridade e humildade. 5 – Está escrito em nosso texto de hoje: “Jesus purifica as pessoas dos seus pecados; e todos, tanto ele como os que são purificados, têm o mesmo Pai. É por isso que Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos” (Hb 2.11). 6 – A partir de nossa fé nesse perdão, nessa purificação por parte de Jesus, é que somos livres para lembrar de tantos irmãos e irmãs que sofrem. Temos o mesmo Pai, como ouvimos agora. Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos e irmãs. Muitos outros senhores, no entanto, querem impor-se, tirando de nós as condições de ser irmãos e irmãs. Cantemos em comunidade “Pelas dores deste mundo, ó Senhor!”. Comunidade: “Pelas dores deste mundo, ó Senhor...” 7 – “Deus fez isso, a fim de que muitos, isto é, os seus filhos, tomassem parte na glória de Jesus. Pois é Jesus quem os guia para a salvação”(Hb 2.10b) – Glória a Deus nas alturas e paz entre nós! Comunidade: Glória, glória, glória a Deus nas alturas... 8 – Oremos: A tua palavra, Senhor, fala-nos hoje da glória e da honra de Jesus em detrimento da glória e honra dadas pela lei e pelos costumes a tantos outros senhores, tão questionados por Jesus e seus seguidores. Clareia nossas mentes e nossos corações, Senhor, para que saibamos sair daqui com a bênção de levar junto a tua mensagem, para podermos vivê-la lá fora em nosso dia-a-dia. Tu és o Deus que cria e sustenta todas as coisas. Precisamos desse teu criar constante. Precisamos desse teu sustento firme. Ilumina, Senhor. Amém. 9 – Canção intercalando os textos... 10 – Leitura de Gn 2.18-24. 11 – Canção intercalando os textos... 12 – Leitura de Hb 2.9-11.

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13 – Aclamação do evangelho: Bem-aventurada é a pessoa que tem o Jesus coroado de glória e de honra por meio da cruz como a sua glória e a sua honra. Aleluia! Comunidade: Aleluia, aleluia... 14 – Leitura de Mc 10. 2-16. 15 – Canção... 16 – Pregação e confissão de fé. 17 – Canção com a oferta. 18 – Comunicações, diversos. 19 – Intercessões gerais / Pai-Nosso. 20 – Bênção /Envio.

21º DOMINGO APÓS PENTECOSTES AMÓS 5.6-7,10-15 HEBREUS 3.1-6 MARCOS 10.17-27

DIA DA REFORMA DA IGREJA ISAÍAS 62.6-7,10-12 JOÃO 8.31-36 ROMANOS 3.9-28

DIA DOS FINADOS ISAÍAS 35.1-10 JOÃO 5.24-29 2 PEDRO 3.8-14

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22o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

05 NoV 2006

ISAÍAS 53.10-12 MARCOS 10.35-45

PRÉDICA: HEBREUS 4.9-16 Gottfried Brakemeier

1 Observações exegéticas O trecho de Hebreus 4.9-16 compõe-se de três partes distintas, razão pela qual varia a delimitação da perícope prevista como subsídio de prédica nos auxílios homiléticos anteriores (cf PL XI, 171; XI, 192; XIX, 268; XXIV, 133). São elas: 1. vv. 9-11: Os versículos concluem o trecho de 4.1-11, que falam do descanso prometido ao povo de Deus. Assim como Deus mesmo descansou de todas as suas obras, assim vai acontecer também com quem nele deposita a fé. Salvação é descrita em termos de participação no “sábado” de Deus. 2. vv. 12-13: Há que se tomar cuidados, entretanto, para não cair em desobediência e perder a graça oferecida. O autor da carta acrescenta uma exortação, lembrando ser a palavra de Deus qual espada de dois gumes. Ela corta, penetra, julga. O termo-chave do subtrecho, pois, é palavra de Deus. Os vv. 12 e 13 são formulados como verdadeiro poema, sendo que o v. 12 fala da natureza da palavra divina e o v. 13 da situação das pessoas diante da mesma. 3. vv. 14-16: Começa com esses versículos o segundo grande bloco da carta. Enquanto em 1.1-4.13 o tema se havia concentrado em “Jesus Filho”, assentado à direita de Deus (1.3.), superior aos anjos e a Moisés, a atenção volta-se agora, no bloco 4.14-10.39, ao sumo sacerdócio de Jesus, superior ao do antigo templo. Sacerdote, pois, é agora o termo central. Em sua qualidade sacerdotal, Jesus confere graça e misericórdia. A transição para um novo assunto, porém, não impede correlacionar organicamente as partes. Pois a promessa do descanso (vv. 9-11) deve ser

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mantida em obediência responsável perante a palavra de Deus (vv. 12-13), sendo o sacerdote Jesus o recurso nas fraquezas e a perspectiva de misericórdia no juízo (vv. 14-16). Vale fazer alguns destaques: 1. A fala no descanso de Deus como meta salvífica tem origem no Sl 95, citado explicitamente em 3.7-11. Diz aquele texto que Deus, em sua ira sobre a desobediência do povo, jurou: Não entrarão no meu descanso (Sl 95.11). Trata-se de palavra de juízo sobre aquela geração. O autor da Carta aos Hebreus retoma o assunto e afirma que a promessa não caducou. Resta um repouso para o povo de Deus (v. 9). Mas o significado mudou. A promessa já não tem em vista aquele descanso ao qual conduziria a tomada da terra de Canaã sob a liderança de Josué (4.8) nem mais se refere ao antigo povo de Israel. Tornou-se sinônimo do “reino de Deus” (cf 12.28) e adquiriu significado escatológico. É promessa a quem crê (4.3). Por isso mesmo ela tem cumprimento não somente no futuro. Antecipa-se na fé. Embora não tenhamos aqui morada permanente e estejamos em busca daquela que está por vir (13.14), já experimentamos hoje a nova realidade (cf 12.22s). Portanto, também em Hebreus observa-se a tensão entre o “já-agora” e o “ainda-não”. No mais, a interpretação do “descanso de Deus” pelo “reino de Deus” previne contra o malentendido de que esse descanso é sinônimo de absoluta inatividade. O reino de Deus não instala a preguiça. Promete, isto sim, o fim da luta contra o mal e a inquietitude que esse produz. 2. Mas também o povo cristão está ameaçado de tropeçar e de ser atingido pelo juízo. É julgado pela palavra de Deus, que é crítica frente aos pensamentos e propósitos do coração. O recurso à palavra de Deus fecha esse primeiro bloco, assim como o abriu (1.3). A Carta aos Hebreus oferece uma “teologia da palavra”. Esta, a palavra de Deus, tem em Jesus Cristo não a única, mas a suprema expressão (1.1). Por isso não somente julga. Ela cria, socorre, salva, põe a descoberto e penetra em todas as coisas. A metáfora da espada é tradicional (cf Is 11.4; Ef 6.17; Ap 1.16). A palavra de Deus separa o bem e o mal, separa até mesmo “alma e espírito”, algo intrínsecamente ligado, assim como são as juntas e a medula. Ela é “minuciosa”. Seja ressaltado que a palavra que salva e a que julga são a mesma. Não existem duas palavras de Deus. A graça de Deus, se desprezada, condena. E é o Deus juiz que perdoa. A lembrança dessa palavra, pois, é simultaneamente alerta e convite para a fé. Em nosso texto, a tônica está no aspecto do juízo.

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3. O novo bloco introduz o tema do sumo sacerdócio de Jesus. O pano de fundo é a ordem sacerdotal do antigo povo de Deus. O sumo sacerdote era por excelência mediador. Tinha função intransferível no grande dia da expiação. A Carta aos Hebreus apregoa Jesus como inigualável sumo sacerdote, que, sacrificando-se a si mesmo, restabelece o acesso a Deus. Jesus, a um só tempo, é sacerdote e cordeiro. É sacerdote compassivo, solidário com o ser humano, exceto no pecado. Simultaneamente, é representante de Deus que “penetrou os céus...” Tendo poder cósmico, permaneceu “humano”, não obstante. Com seu auxílio podemos tranqüilamente submeter-nos ao juízo de Deus. Pois receberemos graça e misericórdia. Isso se conservarmos firme a “confissão”, ou seja, o que afirma a fé “cristã”.

2 Pensamentos avaliativos Não podemos, numa meditação como esta, esgotar a riqueza teológica desse texto. Menciono a impecabilidade de Jesus, seu sumo sacerdócio, as dimensões cósmicas de seu senhorio, as implicações da “confissão cristã”, além de outros temas afins. Também a prédica deve limitar-se a poucos assuntos. Pretendo concentrar a meditação nas três palavras-chave acima destacadas. 1. A promessa do descanso. Penso na divisa No Stress em adesivos colados nos carros. Penso na carga de trabalho de quem exerce vários empregos para sobreviver. Penso no desejo “repousa em paz” nas inscrições no cemitério. Pois é! Será descanso algo reservado para depois dessa vida ou então para as “casas de repouso”, sinônimo de ancionatos? A fé cristã não pensa nesses termos. Para Jesus, o “sábado” não era dia de fazer nada. Ele pergunta: “É lícito aos sábados fazer o bem ou fazer o mal?” (Mc 3.4). Então “descansar” significa antes fazer o bem do que entregar-se ao ócio. É ouvir a palavra de Deus e estudá-la, como diz Lutero na interpretação do terceiro mandamento. Mesmo assim, descanso é também pausa, intervalo, fim de expediente. O domingo não substitui o sábado, mas o incorpora. Jesus descansou, até mesmo dormindo na popa do barco em meio à tempestade (Mc 4.38). Trabalho pode tornar-se um vício. É preciso dosar adequadamente o trabalho e o lazer. A recreação, o “relax” após a jornada de trabalho, é um benefício, uma necessidade, sim, é um direito a ser respeitado pelo poder público. E, no entanto, descanso em sentido abrangente é mais. Disso lembra o texto da prédica. É a tranquilidade que somente Deus é capaz de

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conceder. Por que Jesus conseguiu dormir em meio à tempestade? Ora, porque se sabia nas mãos de Deus. Quando já não mais temos preocupações, quando recuperamos a confiança e o bom ânimo, quando já não mais temos medo do fracasso, então “podemos ficar descansados”. É bem verdade que descanso assim, em sentido abrangente, não cabe neste mundo. Faz parte da perfeição por vir. É característica da “morada permanente”, que nos aguarda junto a Deus. Mas se fosse só isso, seria pouco. O evangelho possibilita-nos algo desse descanso já, em meio às lutas. Liberta de afobação, ansiedade, angústia. Segura nos fracassos, na culpa, nas ameaças. 2. Para tanto necessitamos da palavra de Deus. Ela é “viva e eficaz” para transformar pessoas, condições de vida, mundo, tudo. Ela ajuda a distinguir o importante do irrelevante. Faz ver a realidade tal qual é: crua e nua. Toda a análise da realidade, para ser isenta de ilusões, necessita da palavra de Deus como “critério”, ou seja, como instância crítica. O mundo visto à luz do evangelho é outro do que o mundo visto a partir de interesses humanos. Isso vale também para a pessoa cristã. Se ela se julgar a si própria, costuma declarar-se inocente. Culpados são os outros. O “eixo do mal” sempre está do outro lado. O juízo da palavra de Deus, porém, não concorda. Será cortante como espada. Introduz as pessoas em penitência e ensina a clamar kyrie eleison. Da mesma forma, essa palavra julga o mundo, a sociedade. Revela o pecado, a injustiça, a perversão, o ódio. Não haverá “descanso”, nem para o mundo tampouco para o indivíduo, sem o diagnóstico feito pela palavra de Deus, encarnada em Jesus Cristo. “Responsabilidade” é palavra vazia, enquanto não entendida como prestação de contas perante o tribunal de Deus. Todas as demais instâncias que podem e devem “cobrar” responsabilidades são corruptíveis. Só Deus é capaz de fazer verdadeira “justiça”. 3. Por isso mesmo a fé em Deus é antipática. Contraria os “meus” interesses e identifica-me como pecador. Parece mais fácil ser ateu. Quem nega Deus também nega o pecado. Já não há quem julgue. Estou livre de escrúpulos éticos. Mas quem nega Deus também nega o socorro nas tribulações. Deve cultuar ilusões. Ou então as pessoas criam Deus à sua imagem, um Deus que não mais julga e só aprova. Eis a característica de ídolos: Não têm força crítica frente a seus adoradores. É verdade que a perspectiva do juízo de Deus pode provocar medo. Assim o vemos em Lutero antes da descoberta reformatória. Ele ainda não havia descoberto o sumo sacerdote que se compadece das fraquezas humanas. Cristo revela a misericórdia de Deus, e isso no próprio juízo. Resgata o ser humano da desgraça.

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Somente quem assim confessa terá a coragem de enfrentar a realidade sem nela aplicar maquiagem. A realidade assusta-nos pela brutalidade de que o ser humano é capaz, pelas tragédias que acontecem, pela insensatez da espécie humana. Qual a mão que nos segura? Não fosse Jesus Cristo que nos encorajou a confiar na graça de Deus, a despeito de todas as contra-evidências, este mundo seria um beco sem saída. Mas veio o “sumo sacerdote” e reaproximounos do altar de Deus, do “trono da graça”, devolvendo-nos a confiança e com ela a tranqüilidade. Os “tsunamis” nos horrorizam, assim como a violência endêmica no país ou as guerras com armas “inteligentes” e seres humanos estúpidos. Existem muitos absurdos. Mas o amor de Deus é mais poderoso do que as forças do mal. “Portanto, resta um repouso para o povo de Deus.”

3 Pistas para a prédica e a liturgia Sugiro desconsiderar os textos laterais na prédica. Poderiam ser correlacionados pela cristologia: Is 53 fala do servo de Javé, Mc 10 do diácono (v. 45), Hb 4 do sumo sacerdote. Mas a exploração de todos esses aspectos acaba em superficialidade. Diante da carga teológica de cada um desses textos recomenda-se a concentração em poucos enfoques. Proponho a seqüência temática apresentada acima. Trata-se de sugestões, suscetíveis de complementação ou até mesmo de substituição. No que diz respeito à liturgia, proponho concentrá-la no kyrie. Um mundo “cansado” clama por redenção de suas inquietitudes. A liturgia poderia articular algumas das causas do grito. Por que pedimos kyrie eleison? A proclamação do evangelho, baseada na ação do “sumo sacerdote” Jesus Cristo, vai então, como que forçosamente, conduzir ao “glória”.

Bibliografia GENTHNER, Friedrich. O terceiro mandamento: Santificarás o dia de descanso. In: Proclamar Libertação. Suplemento 1: Catecismo Menor. São Leopoldo: Sinodal, 1982. pp. 31-36. HEGERMANN, Harald. Der Brief an die Hebräer. Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. V XVI, Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1988. STROBEL, August. Der Brief an die Hebräer. Das Neue Testament Deutsch, vol. IX, Göttingen: Vandenhoeck & Rupprecht, 1975. p. 80s.

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7º D O M I N G O D A P Á S C O A

ANTEPENÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO MARCOS 12.41-44 HEBREUS 9.24-28

12 NoV 2006

PRÉDICA: 1 REIS 17.8-16 Valdemar Witter

1 Informações preliminares Como introdução ao primeiro livro dos Reis, o autor narra a última parte da história de Davi. Com a idade avançada de Davi, a monarquia de Israel precisa encarar o problema da sucessão ao trono. Davi unge Salomão, estabelecendo assim a dinastia davídica. A história do povo de Israel entra numa nova fase, a da sucessão monárquica, que vai desde o inicio do reinado de Salomão (970 a.C.) até a queda de Jerusalém (586 a.C.). O autor evidencia o interesse em destacar a personalidade do rei, sua inteligência e sabedoria, as riquezas acumuladas e as grandiosas construções, como, por exemplo, as muralhas do palácio real e o templo, santuário único de Israel, com sua relevância religiosa e cultural. Em contraste com as esplêndidas realizações do reinado de Salomão, alguns aspectos pessoais ofuscam sua imagem: a conduta apóstata e pouco exemplar do rei e sua atitude permissiva ante a entrada em Israel de cultos pagãos e idólatras. Para consolidar o seu poder e em conformidade com os usos e costumes da época, Salomão estabeleceu acordos políticos e comerciais com nações vizinhas, tomando por esposas princesas estrangeiras (1 Rs 7.8; 11.1-3). Assim, chegou a ter muitas mulheres não-israelitas, “as quais queimaram incenso e sacrificaram a seus deuses” e, quando chegou a velhice, “suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses”, de modo que adorou ídolos e lhes erigiu santuários (1 Rs 11.4-8). A crise moral e religiosa em Israel foi se agravando. Portanto, o conflito de Elias tem como pano de fundo a questão moral, religiosa, política e social com a monarquia. Interessada em ampliar seu poder, foram feitas concessões de ordem religiosa e econômica, o que, por sua vez, trouxe tributos e opressão ao povo. Esses fardos extremamente onerosos geraram um clima de tensão, que não demorou a se alastrar por todo o país. Com essas desavenças também foi rompendo a frágil unidade política alcançada no reino (cf. 2 Sm 2.4; 5.1-3). Estabelecida a ruptura da unidade (1 Rs 12), o livro dos Reis aborda

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de modo paralelo as histórias de Judá e Israel (Norte x Sul), separadas e incapazes de superar a hostilidade mútua. Dado o caráter narrativo dos livros de Reis, o autor procura mostrar especialmente a atitude dos profetas em momentos decisivos para a historia de Israel. Especial atenção é atribuída ao profeta Elias (1 Rs 17-2 Rs 1) e Elizeu (2 Rs 2.1-8,15; 13.14-20) – os dois grandes representantes do profetismo não-literário. O autor não se limita a recolher e transmitir a mensagem profética como tal, mas mostra os profetas em seu relacionamento com o acontecimento histórico.

2 Questões literárias Entre os exegetas há um relativo consenso de que, à semelhança de Samuel e Crônicas, também Reis é uma única obra composta de dois volumes. Essa divisão do texto foi feita no século III a.C pelos tradutores da Septuaginta (LXX). Segundo essa linha de pensamento, o autor de Reis serviu-se de diversas fontes e também de um número desconhecido de narrativas contemporâneas relativas aos profetas. De modo explícito, o livro faz alusões a alguns documentos considerados perdidos hoje para a investigação histórica: Livro da História de Salomão:1 Rs 11.41; Livro da História dos Reis de Israel: 1 Rs 14.19; Livro da História dos Reis de Judá: 1 Rs 14.29.

3 Mensagem do livro dos Reis A história dos reinos de Judá e Israel é mostrada como uma série de fracassos, delitos e flagrantes de infidelidade ao Senhor, sendo os reis os principais responsáveis. O governo do povo de Deus havia sido confiado aos reis para que o exercessem com sabedoria, não com arbitrariedade e despotismo. Deveriam exercê-lo como autêntico serviço de liderança e proteção (1 Rs 12.7). Porém, os reis caíram na corrupção, na idolatria e levaram a nação à perda da liberdade e à depravação. No entanto, àqueles que conduziam o povo pelos caminhos da lei divina o Senhor abriu uma ampla porta de esperança (2 Rs 18.1-8,13-37; 19.1-20,11).

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4 Texto e contexto Julguei as informações anteriores importantes e necessárias para uma melhor compreensão da perícope no contexto maior dos livros dos Reis. Ao mesmo tempo, a análise maior já contém dados que poderão ser incluídos na pregação. A seguir, algumas informações sobre o texto e o contexto próximo. 1 Rs17.8ss apresenta um contraste entre Jezabel, que semeia a morte em Israel (1 Rs 18.4), e o profeta Elias, que dá a vida na Fenícia, a região de onde aquela rainha pagã provinha. v. 8: A localização geográfica, Sarepta, era parte da Fenícia, situada a mais ou menos 15 km ao sul de Sidom. Era uma região que não estava sob o controle do rei Acabe. v. 9: “Ordenei a uma mulher viúva que te sustente” (Almeida, ed. Bíblia de estudo, traduz por “que te dê comida”). Percebe-se que, naquele momento dramático da vida do profeta, Elias estava fugindo da perseguição, estava se escondendo e nesse momento a mão de Deus se faz sentir. Primeiro manda que os pássaros levem o alimento milagrosamente para o servo (v. 6) e depois à mulher viúva. Aqui temos mais um aparente contraste – justamente uma mulher e viúva é que foi escolhida para dar guarida ao servo de Deus. Deus, em sua providência e misericórdia, age por graça e, ao mesmo tempo, ensina a solidariedade humana. Deus age de modo sobrenatural e por meio da natureza, também ensinando pássaros a servir, porém parece dar preferência a instrumentos humanos. Fazendo uma ponte para o NT, Deus colocou a mensagem do evangelho nas mãos dos fracos pregadores humanos para anunciar todas as coisas sobre a obra de Jesus Cristo, o que até anjos anelam perscrutar (1 Pe 1.10-12). v. 12: “ O Senhor teu Deus”. Essa mulher viúva não era uma israelita. Era uma pagã, pois não reconhecia o Deus de Elias como Senhor. Porém, sua obediência e a fé que revelou na promessa feita em nome do “Deus de Elias” (13.14) fez dela um instrumento de solidariedade e da misericórdia divina em relação ao profeta, bem como também o recipiente dos cuidados divinos com respeito a ela mesma e a seu filho. A conseqüência mais importante dessa atitude manifestou-se mais tarde na fé verdadeira na palavra de Deus (v. 24).

5 A caminho da pregação A história veterotestamentária sobre a viúva de Sarepta (1 Rs17.8-16) e a história do evangelho (Mc 12.41-44) indicado como leitura para este domingo tem muitas semelhanças. A pergunta que surge é sobre as motiva-

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ções que levaram essas mulheres a agirem dessa forma. O que motivou essa solidariedade e, até mais do que solidariedade, o que fez tornar o seu coração tão grande? O texto bíblico não explicita a razão pela qual, aproximando-se da morte, a viúva de Sarepta foi motivada a repartir até seus últimos alimentos. Foi uma atitude de desespero? Foi uma atitude de convicção? De qualquer forma, a viúva e seu filho corriam o risco de morrer de fome. Deve haver motivos. Vejamos: A viúva deu abrigo e comida a um profeta que precisava fugir por causa de sua profecia subversiva. Jezabel, a esposa de Acabe (1 Rs 16.31), seguidora das divindades sidônias, Baal e Asera, liderava um movimento que pretendia oficializar o culto a Baal, deus da chuva e da fertilidade. Quando alguém ousava opor–se, ela recorria a medidas drásticas, matando inclusive os profetas (1 Rs 18.4,13). O profeta Elias tinha destituído publicamente o poder de Baal sobre a natureza (1 Rs 17.1). Reivindicou para o Deus de Israel o domínio sobre chuva e seca, sobre fertilidade e esterilidade. Friedrich Dobberahn afirma que “obrigar e dar comida a fugitivos e revolucionários era sempre perigoso. Os países palestinos de então tinham feito um acordo sobre a entrega mútua de fugitivos e desertores” (PRU, VV nº 17.138; Heltzer, p. 4s). A prontidão espontânea da viúva em repartir também o último punhado de farinha, o último resto de azeite estava, a meu ver, no contexto de um raciocínio crítico frente à estrutura de sua sociedade; seu raciocínio poderia ter sido mais ou menos este: “Não existe nenhuma carestia cujos efeitos catastróficos afetam da mesma maneira o rei, o nobre, o alto funcionário e o assalariado. Teria sempre o suficiente para todos, se todos fossem iguais” (PL XVI, p. 293, 1991). Tomando essa linha de raciocínio por base, podemos acreditar que a viúva de Sarepta quer permanecer em suas convicções até diante da eminência da morte – o princípio da igualdade entre os pobres. Colocava as prioridades de maneira diferente do que era costume nos bairros mais nobres das metrópoles fenícias e na monarquia. É uma opção de vida, pois o rei Acabe, durante a carestia geral que assolava seu país, preocupou-se antes com o bem-estar de seus cavalos (1 Rs 10.26) e mulas (1 Rs 1.33, 38, 44) do que com a sobrevivência de seu povo faminto no campo (1 Rs 18.5). Nesse contexto, a função de Elias é confirmar que o evangelho praticado pela viúva tem a ver com a realidade do reino de Deus. O milagre acontece, pois onde Deus está, ali não tem falta (Dt. 2-7; Sl 145-15s). Ele devolverá a vida em toda a sua riqueza. Uma outra possibilidade na pregação poderá concentrar-se mais nos acontecimentos em Sarepta. Nessa possibilidade, o foco não será tanto o confronto político entre a fé em Javé dos pobres e a religião estatal na capital Samaria (1 Rs 16.29ss), mas poderá ser tematizado o aspecto histórico – salvífico – do texto. Em Sarepta, uma viúva deu abrigo e comida a um revo-

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lucionário. Deu tudo, isto é, o último do que ainda possuía – repartir a última farinha e azeite entre Elias, seu filho e ela. Farinha e azeite – “a vasilha de farinha não se esvaziará, e a jarra de azeite não acabará, até o dia em que Javé enviar chuva sobre a face da terra” (1 Rs 17.14 – essa era uma cantiga popular muito antiga que Elias relembrou). Três aspectos mais podem ser tematizados a partir dessa história da viúva de Sarepta: 1 – 0 seu desprendimento; 2 – A solidariedade; 3 – A partilha: azeite/farinha = pão.

6 Para atualização Pão é o símbolo concreto das necessidades básicas das pessoas. Falando de pão, não podemos dividir ou separar as necessidades humanas em materiais e espirituais (aqui pode-se fazer referência às explicações de Martim Lutero sobre o significado da petição pelo “pão nosso de cada dia”). É um desafio aos cristãos e, conseqüentemente, às igrejas a partilha profunda das questões da vida. Partilhar e compartilhar é mais profundo do que servir. Abrange as dimensões do amor cristão, a saber: dar e receber; ter compaixão; sofrer junto com o necessitado. “Servir” pode parecer um pouco heróico, convertendo o necessitado em “objeto”. Por outro lado, o compartilhar faz-nos relembrar o doador de todas as coisas, que nos liberta para dar: “De graça recebestes, de graça daí” (Mt 10.8). Com tal diferenciação estamos cientes de que “compartilhar o pão” não exclui os aspectos da diaconia, antes os destaca. A partir do texto pode-se animar irmãos e irmãs à tarefa diaconal como resposta ao amor de Deus. Enfocando o aspecto da solidariedade, em grupos, discutiram-se quais são hoje as barreiras que impedem que a comunidade de fé viva a solidariedade. O resultado da reflexão pode ser assim resumido: a agitação da vida moderna, os grupos de interesse fora da comunidade de fé, com os negócios e os clubes. Também barreiras de classes sociais e de partidos políticos que criam tensões dentro da comunidade. Outros obstáculos ainda citados: oportunidades de diversão e lazer; programas de televisão; encontros sociais (aniversários) e as programações de final de semana. Quanto a barreiras de solidariedade que já foram vencidas mencionaram-se, entre outros, os seguintes: a cooperação no trabalho da Associação de Pais de Excepcionais (APAE); celebrações por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; o Dia Mundial da Oração; engajamento em organizações humanitárias. O escopo da perícope parece sempre apontar para a esperança. Elias, perseguido por causa da sua missão, é protegido e orientado por Deus; a viúva tem o azeite e a farinha reabastecidos; o filho morto da viúva é revivido; a seca será superada pela chuva. “O Senhor fará chover sobre a terra” (v.

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14). Não é teologia do consolo, mas a fé e a esperança ativa capaz de motivar para atitudes positivas e transformadoras. É um texto que nos conscientiza do poder transformador e libertador que a fé, presenteada por Deus, nos possibilita.

7 Subsídios litúrgicos – Saudação e acolhida – Hino – Invocação trinitária: “Em Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei” (Sl 56.4) – Confissão de pecados: Senhor, aproximamo-nos de ti com os corações entristecidos, porque vemos tantos sinais de violência ao nosso redor. Presenciamos as injustiças e a falta de amor nas relações das pessoas. Ao mesmo tempo, confessamos que tão pouco fazemos para mudar a realidade. Confessamos nossa culpa e pedimos perdão por nossos erros e omissões. A passividade e a tentação que, freqüentemente, nos rodeia, às vezes tem nos vencido. Dá-nos forças e orientação para um maior envolvimento em iniciativas dentro e fora da igreja, que se empenham a favor da vida e contra todos os sinais contrários à vida. Inquieta-nos e ajuda-nos a sair da passividade. A ti, Senhor, clamamos: Tem, Senhor, piedade! – Absolvição: 2 Pe 3.9 ou Is 60.1 – Oração de oferta: Senhor, agradecemos que aqui tu nos reúnes mais uma vez como tua comunidade. Queremos ser comunidade viva e atuante. Agradecemos que tu enviaste os profetas para anunciar. Agradecemos que tu enviaste pessoas simples, humildes e pobres que deram grandes testemunhos e exemplos de vida. Agradecemos que tu acolhes todos os que te procuram sinceramente. Pedimos: Aquieta-nos agora. Aquieta nossos corações e mentes para que possamos ouvir e entender a tua Palavra. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. – 1ª leitura: Hebreus 9.24-28 – Hino: “Pela Palavra de Deus, saberemos por onde andar, Ela é luz e verdade, precisamos acreditar”. – 2ª leitura: Marcos 12.41-44 – Hino – Prédica: 1 Rs 17.8-16 – Confissão de fé – Hino – Intercessão: É importante deixar tempo para intercessões espontâneas da comunidade. Que as pessoas presentes possam colocar diante de Deus suas angústias, suas preocupações, suas dores, bem como suas alegrias, agradecimentos e esperanças. Alguns assuntos para a intercessão:

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– pedir por sua igreja, pelas lideranças locais, sinodais e nacional; – pedir pela paz e pela solidariedade entre pessoas e comunidades; – pedir por novas relações de justiça entre pessoas, sociedade e mundo; – pedir por harmonia e entendimento nas famílias, escolas e comunidades; – pedir por educação, emprego e saúde; – pedir por consolo a doentes e enlutados; – por governantes bons e honestos, que coloquem as causas coletivas acima de interesses particulares e egoístas; – agradecer pela vida; – agradecer pela família, pela igreja/comunidade e convívio fraterno; – agradecer por que Deus continua a enviar mensageiros para anunciar o evangelho e denunciar o que não corresponde ao plano criador de Deus e ao plano salvífico de Cristo; – agradecer pelos muitos dons semeados por Deus; – agradecer pelas graças recebidas e pela esperança renovadora e transformadora da fé. – Pai-Nosso – Bênção – Hino – Envio

BIBLIOGRAFIA BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Loyola, 1978. BRAKEMEIER, Gottfried. Tesouros em Vasos de Barro. Blumenau: Editora Otto Kuhr, 1999. HOMBURG, Klaus. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1979. DOBBERAHN, Friedrich E. Proclamar Libertação XVI, São Leopoldo: Sinodal, 1990. SCOTT, R.B.Y. Os Profetas de Israel. São Paulo: Aste, 1968. WOLFF, H.W. Bíblia Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1978.

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7º D O M I N G O D A P Á S C O A

PENÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO

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MARCOS 13.1-13 HEBREUS 10.11-18

PRÉDICA: DANIEL 12.1-3 Erni Seibert

1 O texto Os últimos domingos do ano eclesiástico são um período em que a igreja costuma falar dos tempos do fim, das últimas coisas. Havia uma época em que falar dos tempos do fim era considerado uma alienação. Devia-se falar do aqui e agora. Os que acusaram a religião de ser o ópio do povo achavam que falar de uma esperança futura tirava o foco, a atenção do presente. Afirmavam que a igreja, ao falar no futuro, não se preocupava em resolver ou ajudar a resolver os problemas que as pessoas estavam passando no presente, nessa vida. Hoje se reconhece que apontar para uma esperança futura não significa necessariamente alienação do presente. Ter uma esperança futura pode servir de inspiração para o presente. O texto do profeta Daniel fala do futuro. A mensagem é bastante simples. Ela aponta para o futuro e diz que nesse tempo (o do fim) ocorrerão acontecimentos importantes. O anjo Miguel, o protetor do povo de Deus, defenderá esse povo durante os momentos de angústia que antecederão o fim. Então haverá a ressurreição para a vida dos que seguiram a Deus e a ressurreição para a vergonha e horror eterno dos que não seguiram. Finalmente, o texto estimula todos a serem sábios e a se esforçarem para conduzir muitos à justiça, pois isso será merecedor de grande glória.

2 As demais leituras A leitura do evangelho do domingo, Mc 13.1-13, também fala dos tempos do fim. No evangelho, Jesus lembra os tempos de angústia que sobrevirão a seus discípulos antes do final dos tempos. Quem perseverar até o fim será salvo. A leitura da epístola, Hb 10.11-18, lembra que não há necessidade de um novo sacrifício pelos pecados, pois o sacrifício de Cristo foi único e suficiente.

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3 O tema A leitura do Antigo Testamento deste domingo, sobre a qual estamos nos fundamentando para esta pregação, mostra exatamente a dinâmica que existe entre a confiança num futuro glorioso e o estímulo para a vida presente. Quando confiamos num futuro com Deus, nos céus, isso nos anima não só a enfrentar com ânimo e destemor as dificuldades do presente, mas também nos estimula a agir de tal forma com o nosso semelhante, que ele também pode obter a vida eterna. Em vez de colocar-nos em torpor espiritual, a esperança futura é um energético que nos fortalece a viver de forma construtiva o presente. O tema para esta pregação poderá ser o seguinte: a esperança futura anima-nos a ser sábios e conduzir muitos à justiça.

4 Objetivo O objetivo desta pregação será animar os ouvintes a confiarem nas promessas de Deus sobre um futuro glorioso e usar essa confiança para dedicar-se a serviço do próximo.

5 Lei e evangelho A dinâmica lei e evangelho possibilita-nos examinar de forma prática o que nos impede de alcançar os objetivos que o texto bíblico propõe e afastanos de Deus e como Deus, em Cristo, graciosamente nos anima e capacita a andar em seus caminhos. A grande dificuldade que o povo de Deus irá enfrentar, conforme o texto, será o “tempo de grandes dificuldades, como nunca aconteceu desde que as nações existem”. Tempos de dificuldade, perseguição e lutas não são fáceis para ninguém. Muitas pessoas, em meio às dificuldades, questionam e abandonam a fé. Valeria a pena confiar em um Deus que permite que seu povo sofra grandes dificuldades? Como nós reagimos em meio às dificuldades da vida? Como nós reagimos quando somos solicitados a permanecer na fé em meio às perseguições? O texto bíblico alerta-nos de que acontecerão tempos de grandes dificuldades, como nunca aconteceram. Será que estamos preparados para tempos assim? Será que o povo de nossas igrejas está preparado para enfrentar tempos assim?

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O problema está em sucumbirmos a essas grandes dificuldades e nos afastarmos de Deus. Se isso ocorrer, não haverá mais esperança. Se isso ocorrer, estaremos perdidos. O v. 2 de Daniel 12 mostra exatamente esse perigo. No entanto, o texto é rico em promessas de Deus. Essas promessas são o evangelho que nos anima a permanecer em Cristo. O texto diz que “os mestres sábios, aqueles que ensinaram muitas pessoas a fazerem o que é certo, brilharão como as estrelas do céu, com um brilho que nunca se apagará”. Vale a pena permanecer fiéis a Deus e dedicar-se a conduzir e manter as pessoas no bom caminho. Deus é fiel e cumpre suas promessas e coroa de bênçãos os que ficarem com ele.

6 Esboço Elaborar um esboço da pregação ajuda o pregador na sua tarefa de falar e ajuda o ouvinte a seguir o pensamento do pregador. Uma pregação com bom esboço ajuda o ouvinte a recordar o que o pregador lhe falou. A seguir, vamos apresentar uma sugestão de esboço para a pregação. No entanto, queremos estimular os leitores a elaborarem seu próprio esboço ou complementarem o esboço dado, ampliando-o. Tema: A esperança futura nos anima: 1. A ser sábios na hora da dificuldade, 2. A conduzir muitos à justiça.

7 Sugestões litúrgicas Muitas vezes, as pessoas têm dificuldades em identificar os tempos do fim. Outras vezes, cria-se entre as pessoas uma verdadeira histeria, dizendo que esses tempos estão aí e são terríveis, apavorando a todos. Nenhum dos extremos é útil para que as pessoas se animem a viver agora dedicadas ao próximo, motivadas pela esperança futura. Para que a igreja crie consciência dos tempos do fim, seria oportuno pedir a um ou mais grupos da igreja (jovens, senhoras, leigos) a elaboração de um painel com notícias e fotos de jornais e revistas que possam indicar os tempos que estamos vivendo. Isso contextualiza o texto bíblico nos dias de hoje. Outra atividade seria identificar oportunidades que se tem para ajudar a conduzir pessoas para a justiça na localidade onde estamos vivendo. Como atuar na comunidade local de maneira a sermos pessoas que ajudam os outros a terem a esperança apontada por Deus?

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7º D O M I N G O D A P Á S C O A

ÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO

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DANIEL 7.(1-12) 13-14 APOCALIPSE 1.4B-8

PRÉDICA: JOÃO 18.33-37 Odair Airton Braun

1 Contexto do domingo Chegamos ao último domingo do ano eclesiástico, também denominado de Cristo Rei. A característica maior desse domingo é recordar e celebrar a vitória de Jesus Cristo sobre as forças do mal. Essa é a marca maior do reinado de Jesus Cristo. Dessa forma, o ano eclesiástico chega ao fim anunciando-nos e visando renovar a certeza de que Jesus Cristo é verdadeiramente Rei. Contudo, seu reinado, em hipótese nenhuma, deve ser comparado aos “reinados” deste mundo. Anunciar Jesus Cristo como Rei não deve levar-nos ao triunfalismo. Pelo contrário, deve levar-nos a crer no resgate da verdade e da dignidade, na renovação da vida e da sociedade a partir da boa-nova trazida e anunciada por Jesus Cristo.

2 O reinado de Jesus Cristo O reino de Deus é o aspecto central de todo o ensino de Jesus. Todos os demais aspectos de seu ministério público tinham como finalidade acentuar o reinado de Deus, ou seja, a soberania de Deus sobre o universo. Nesse sentido, convém cuidar para que o reino de Deus não seja confundido com um espaço físico em meio a este mundo governado por Deus. Contudo, também não deve ser tido como um reinado abstraído deste mundo. O reino que Deus deseja para nós não está localizado além da morte. O reino, pelo qual sempre clamamos e pedimos na oração do Pai-Nosso, está dentro da história. Realiza-se no dia-a-dia da vida terrena e torna-se pleno na vida eterna. Dessa forma, aquilo que Jesus denomina de reino pode ser descrito como: bondade, verdade, justiça, sentido de vida, cura, amor e paz. A sua atuação pública e os seus milagres são claro sinal disso. Diante dessa descrição do reino de Deus, torna-se evidente que Jesus não veio estabelecer um reino político-militar, econômico e impositivo. O seu reinado não segue a linha de raciocínio de Pilatos, que o interroga. Jesus

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é a luz divina que ilumina toda a humanidade (Jo 1.9). Seu reino, do qual temos “aperitivos” nos relatos das curas, deseja que tenhamos a capacidade de caminhar em unidade, de resistir diante das tentações e, acima de tudo, que tenhamos perseverança e confiança, afinal, ninguém sabe qual a hora exata da chegada do reino de Deus (Mt 24.44).

3 Daniel 7.(1-12)13-14 Os vv. 13-14 estão inseridos no contexto do relato do sonho do profeta Daniel, sonho esse que tinha como personagem central quatro animais, que são descritos em grande riqueza de detalhes. Dessa forma, proponho que os vv. 1-12 façam parte da leitura. Trata-se de um relato angustiante: animais surgindo do mar, cheios de força e poder, envoltos em fogo e fumaça, chifres e insolência ao falar, e com milhares que lhes serviam. Contudo, na continuidade do sonho, Daniel revela uma visão esperançosa e bela: o Filho do Homem (reinado divino e celestial) vindo sobre as nuvens. O pesadelo de Daniel corresponde à realidade de injustiça, opressão e morte vigente naqueles – e em nossos – dias. Dessa forma, é esperançoso ver que Dn 7.13-14 anuncia a morte e a destruição do animal que causava medo e temor e que os outros animais perderam o poder, mesmo que tenham recebido um prolongamento de vida por um prazo e um tempo (v. 12). Portanto, as visões pouco agradáveis que antecedem os vv. 13-14 simbolizam o fim próximo dos grandes impérios opressores e o conseqüente fim da exploração, da injustiça e da falta de verdade. Por esse motivo Jesus é Rei. Em meio à realidade angustiante aparece o Filho do Homem e o pesadelo acaba. A injustiça desaparece e a graça torna-se manifesta e sem fim. O ancião dá ao Filho do Homem, vindo sobre a nuvem, poder e glória. Todos passam a servir ao Filho do Homem, e o reino, que não terá fim, tem inicio. Assim, Dn 7.13-14 anuncia que Deus vai intervir na história, no sentido de eliminar a ambição, a violência e a opressão, características da história humana. O Filho do Homem devolverá paz e serenidade à humanidade.

4 Apocalipse 1.4b-8 Essa passagem de Apocalipse é a expressão da realeza de Jesus. Ele é soberano porque testemunhou, por meio de sua morte e ressurreição, o plano de Deus. Jesus é o soberano do tempo e da história, é o alfa e o ômega, aquele que virá com poder, glória e majestade, a fim de instalar definitivamente o reino da felicidade e da paz. Ele nos ama e liberta dos pecados, incluindo-nos em seu reino.

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É muito significativo observar o modo como o Filho do Homem é descrito: o que era e o que há de vir, fiel testemunha, primogênito dos mortos, soberano dos reis da terra, liberta dos pecados e ama, constitui-nos sacerdotes. Ou seja, Jesus é apresentado e descrito de modo apaixonado e preocupado com a humanidade. O motivo que leva Jesus a ser Rei é o fato de que ele é a favor da humanidade e apaixonado por todas as criaturas.

5 João 18.33-37 Essa passagem, relatada de modo dramático, apresenta-nos Jesus perante Pilatos, o poder da época. Pilatos foi o procurador romano na Judéia dos anos 26 a 36, sendo descrito como déspota e cruel. Jesus é entregue na mão desse governante e diante dele assume a sua condição de Rei. O relato do interrogatório de Pilatos com Jesus expõe o confronto das forças da morte e da vida. Em nenhum momento, vemos Pilatos preocupar-se com delitos cometidos por Jesus. O pano de fundo do interesse de Pilatos é manter o poder romano intocado e inquestionado. Por esse motivo, estamos diante de uma passagem em que graça e julgamento, verdades e interesses se entrelaçam. O interrogatório dirigido por Pilatos revela que o reinado de Jesus tem como base a verdade. Portanto, uma base bastante distinta daquela do governo de Pilatos, regido pela ambição, autoritarismo e violência, típicos dos reinos deste mundo. E sabemos que quem ouve e segue a verdade passa a ser incluído no reino de Deus. Pilatos investiga, no transcorrer do interrogatório, a realeza de Jesus. Em contrapartida, ouve: “Falas assim por ti mesmo ou os outros te disseram isso de mim” (v. 34). Dessa forma, Jesus permanece senhor dos acontecimentos. E logo adiante acrescenta: “Tu dizes que sou Rei. Eu para isso nasci e vim para o mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (v. 37). Creio que há, da parte de Jesus, uma tentativa de fazer Pilatos ouvir a verdade e compreender seu engano. Contudo, Pilatos retira-se e Jesus é entregue à morte. Aparentemente, a verdade anunciada por Jesus é vencida pela verdade de Pilatos. Contudo, a ressurreição de Jesus, nosso Rei, é sinal do triunfo da verdade, vinda de Deus, já anunciada pelo profeta Daniel e Apocalipse.

6 Reflexão para pregação Neste domingo, Cristo Rei, anuncia-se que Jesus veio para acabar com o reinado das bestas. O reinado de Jesus é de vida e verdade. E participar de seu reinado equivale a não se submeter a nenhum “Pilatos” dos nossos dias.

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Esse anúncio está intimamente conectado ao próximo domingo, primeiro domingo de Advento, quando mais uma vez toda a igreja anunciará a vinda definitiva do Senhor Jesus. Eu sou um rei, mas o meu reinado não é deste mundo! O que significa isso? Será que Jesus está pregando que não tem nada a ver com este mundo? Não. Não é nada disso que está em jogo nessa passagem. Jesus não está afirmando que não tem nada a ver com este mundo. Caso se pense nesse sentido, devemos recordar que no Evangelho de João, ao mencionar mundo, não se pensa antecipadamente num lugar, mas prioritariamente no sentido de estado e situação. Exemplo disso é Jo 17.15 no contexto da oração sacerdotal, em que Jesus diz: “Não peço que os tires do mundo e sim que os guardes do mal”. Não se trata do fato de o reino de Deus não ter nada a ver com este mundo, mas do fato de ser um reinado regido pela verdade. Na verdade, os soldados, com o intuito de fazer chacota de Jesus, colocaram uma coroa de espinhos sobre sua cabeça e o coroaram como Rei. Contudo, não o rei de colunas sociais, de festas e badalações. Jesus não foi, não é e não será um rei que se porta como os reis de nossos dias. O reinado de Jesus segue na franqueza e humildade, representadas pelos dois que foram crucificados a seu lado. De fato, tal tipo de reinado não é deste mundo. O reinado de Deus não é deste mundo, mas começa a acontecer neste mundo, completando-se plenamente com a volta de Cristo. Seguir esse reinado não é algo mecânico e automático. Também não é um caminho repleto de lazer e de facilidades. Há pedras e percalços. Mas Jesus não nos deixa sozinhos. Ele caminha conosco e trata-nos com misericórdia. Precisamos confiar nele e permitir que ele nos oriente e conduza no novo ano que já se coloca no horizonte.

7 Desenvolvimento da pregação Proponho que a pregação seja em forma de diálogo e questionamento. Pode-se dar tempo para a comunidade responder, ou então, na continuidade o pregador responde as perguntas. 1 – O que significa aceitar Jesus como Rei e Senhor de nossas vidas? 2 – Quais as características do reino do qual Jesus é Rei? 3 – Quais são as sementes desse reino semeadas neste último ano? 4 – Onde e como podemos semear no novo ano a fim de demonstrar que Jesus é Rei?

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AUXÍLIOS PARA OCASIÕES ESPECIAIS


AUXÍLIOS PARA OCASIÕES ESPECIAIS


Meditação sobre a oração Roberto Ervino Zwetsch

Amigos e amigas, irmãos e irmãs de fé: Lutero considerava três práticas como essenciais para o trabalho teológico e, eu diria, para que alguém aspire ao ministério na igreja. Estas práticas são tão importantes quanto o ar que respiramos, o alimento que nos mantém saudáveis e a alegria que nos motiva para o trabalho e a vivência do amor. São elas: - oratio, a oração; - meditatio, a meditação; - tentatio, a tentação. Permitam-me, brevemente, dizer algumas palavras sobre cada uma, destacando especialmente a oração. Meditação – Ela é a convivência com a Palavra de Deus. É a experiência cotidiana de saber ouvi-la e permitir que ela entre no nosso espírito e realize em nós sua obra divina e consoladora. Sem a meditação paciente, atenta e curiosa, é difícil servir a Deus neste mundo. A meditação nos mantém vigilantes e nos prepara para os embates da caminhada da fé para a qual precisamos estar sempre preparados. Tentação – Lutero dizia que sem a tentação nada aprendemos. Pois não aprendemos nada com facilidade e de repente. É preciso meditar assiduamente na palavra de Deus e até lutar com ela para fortalecer-nos e termos acesso ao conhecimento da fé. Na perspectiva da leitura bíblica que fazemos na América Latina, é a partir da experiência da vida, dos sucessos e fracasso que nos acompanham sempre, que alcançamos algum conhecimento verdadeiro. No meio disso tudo, porém, somos tentados. Lutero dizia mais: “a pior tentação é não ser tentado”. Não há, pois, vida cristã sem a tentação. E mais, é só na tentação e na tribulação que se percebe Deus e sua Palavra. Só aí que aprendemos o que é viver da graça e do amor infinito e incondicional de Deus. É na tentação que aprendemos a orar: “e não nos deixes cair em tentação”. Lutero acrescentava em sua explicação dessa prece: “Deus nos dá vigor e poder para resistir, contudo sem que a tentação seja tirada ou anulada... o que pedimos é que não caiamos e não nos afoguemos

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Meditação sobre a oração Roberto Ervino Zwetsch

Amigos e amigas, irmãos e irmãs de fé: Lutero considerava três práticas como essenciais para o trabalho teológico e, eu diria, para que alguém aspire ao ministério na igreja. Estas práticas são tão importantes quanto o ar que respiramos, o alimento que nos mantém saudáveis e a alegria que nos motiva para o trabalho e a vivência do amor. São elas: - oratio, a oração; - meditatio, a meditação; - tentatio, a tentação. Permitam-me, brevemente, dizer algumas palavras sobre cada uma, destacando especialmente a oração. Meditação – Ela é a convivência com a Palavra de Deus. É a experiência cotidiana de saber ouvi-la e permitir que ela entre no nosso espírito e realize em nós sua obra divina e consoladora. Sem a meditação paciente, atenta e curiosa, é difícil servir a Deus neste mundo. A meditação nos mantém vigilantes e nos prepara para os embates da caminhada da fé para a qual precisamos estar sempre preparados. Tentação – Lutero dizia que sem a tentação nada aprendemos. Pois não aprendemos nada com facilidade e de repente. É preciso meditar assiduamente na palavra de Deus e até lutar com ela para fortalecer-nos e termos acesso ao conhecimento da fé. Na perspectiva da leitura bíblica que fazemos na América Latina, é a partir da experiência da vida, dos sucessos e fracasso que nos acompanham sempre, que alcançamos algum conhecimento verdadeiro. No meio disso tudo, porém, somos tentados. Lutero dizia mais: “a pior tentação é não ser tentado”. Não há, pois, vida cristã sem a tentação. E mais, é só na tentação e na tribulação que se percebe Deus e sua Palavra. Só aí que aprendemos o que é viver da graça e do amor infinito e incondicional de Deus. É na tentação que aprendemos a orar: “e não nos deixes cair em tentação”. Lutero acrescentava em sua explicação dessa prece: “Deus nos dá vigor e poder para resistir, contudo sem que a tentação seja tirada ou anulada... o que pedimos é que não caiamos e não nos afoguemos

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nela. Sentir tentação, por conseguinte, é coisa bem diversa de consentir nela ou dar-lhe o nosso sim” (Catecismo Maior). Oração – Esta é a experiência maior, mais difícil, mais exigente. O apóstolo Paulo ensinou: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). Nós podemos orar de diferentes maneiras. Há uma certa disciplina da oração, como orar no amanhecer e no entardecer ou tarde da noite, por exemplo. Outras pessoas oram ao dirigir o carro (evidentemente, cuidando para não infringir as leis de trânsito e causar acidentes!), ou ao viajarem no metrô, ou nos ônibus que percorrem as vilas da cidade, ou até mesmo enquanto preparam uma refeição ou caminham no parque. Todo lugar pode ser lugar de oração. O próprio Jesus orava nas refeições, em lugares ermos, montes, jardins, no meio da multidão ou no fundo de um barco de pesca. Importante é perceber que a oração é para cada dia, para toda hora. Mas voltando a Paulo, ele sabia por experiência que é o Espírito Santo quem nos auxilia e assiste em nossa fraqueza (Rm 8.26). Pois, “não sabemos orar como convém”. É duro reconhecer, mas, de fato, não sabemos. Somos repetitivos, temos fórmulas fixas e raramente saímos desse padrão. A famosa oração espontânea é, salvo engano meu, repetição de frases feitas, que de espontâneas pouco apresentam. Pior é quando alguém, apesar de sua boa fé, repete insistentemente a cada três ou quatro palavras o indefectível Senhor, oh Senhor! Por vezes, é difícil ouvir tais orações. Por isto também é duro ouvir estas palavras do apóstolo Paulo: “não sabemos orar como convém”. Mas, graças a Deus, podemos aprender a orar. Como? É Paulo quem nos diz: “mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis”. É o Espírito que ora em nós! É preciso reconhecer e aprender do e com o Espírito Santo. Às vezes, penso que são justamente as pessoas mais simples e mais sofridas do nosso povo que – com seus gritos e gemidos – podem nos ensinar verdadeiramente a orar. Aqui percebemos: até na oração dependemos da ação de Deus por nós. E isto nos torna pessoas verdadeiramente humildes e confiantes. Humildade e confiança nós aprendemos não numa vida exteriormente correta e piedosa, mas antes na oração e no encontro com o Deus de toda misericórdia e toda justiça. O Magnificat de Maria é uma verdadeira escola da oração (cf. Martinho LUTERO. O louvor de Maria. São Leopoldo: Sinodal, 1999). Por isto, a oração é também manifestação da graça e da liberdade cristã. Quem ora a Deus experimenta uma maravilhosa liberdade para viver e lutar pela transformação deste mundo (Rm 12.1s). Grandes personagens da história cristã foram pessoas de muita oração. Lutero é um destes, Dietrich Bonhoeffer é outro. De Bonhoeffer guardo uma imagem que aparece no filme dedicado à sua vida (Bonhoeffer – o agente da graça) que me parece uma das mais belas e emocionantes. Ele está em

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sua cela e um companheiro de prisão na cela ao lado chora desesperadamente, temendo a morte. Bonhoeffer então pede que ele coloque suas mãos na parede da cela, enquanto ele faz o mesmo. E então, Bonhoeffer ora por seu colega de infortúnio. Esta cena, sem dúvida, é algo que nos faz pensar no poder da oração da fé. Martim Luther King Jr, o pastor batista líder do Movimento dos Direitos Civis dos negros nos EUA (anos 1960) é outro cristão que tinha uma profunda experiência de oração. Uma de suas biografias conta que antes de tomar decisão ou participar de algum ato público importante da luta do movimento, ele pedia para ficar só, onde estivesse, e se punha a orar pedindo a orientação de Deus. E assim poderíamos citar tantas outras pessoas (por exemplo, Sor Juana de La Cruz, Chiara Lubich do Movimento Focollari, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Thomas Merton, Ernesto Cardenal, Johnson Gnanabaranam). Mas como orar? Aqui novamente temos de olhar e aprender de Jesus, a nossa referência primeira. Leiamos o que ele nos diz em Mt 6.5-8. Que distância das grandes manifestações de oração que vemos em muitos templos cristãos hoje em dia. Talvez esteja na hora de voltarmos a Jesus e aprender dele que é manso e humilde de coração e nele achamos descanso para nossas almas. É dele que aprendemos a orar e a meditar( Mt 6.9-13). É muito estranho que existam colegas na IECLB que ultimamente suprimiram esta oração dos cultos dizendo que é tradicionalismo vazio. Não posso entender tal atitude. Espero que, pelo menos, estas pessoas não tirem esta página de suas bíblias, pois então não sei mais o que significa ser cristão. Esta oração precisa ser proferida e meditada com toda a calma, com paciência e quase soletrando palavra por palavra (o P. Dr. Lindolfo Weingärtner tem um lindo livro sobre a oração do Pai Nosso publicado pela Editora Encontro, de Curitiba!). Façam este exercício uma vez e vocês vão descobrir algo da vivência espiritual da pessoa cristã que só o Espírito Santo nos pode ensinar. Portanto, “orai sem cessar!”. É o que desejo a vocês e a nós todos neste dia para que o nosso ministério seja luz e fermento a serviço do reino de Deus neste mundo conturbado em que vivemos. Amém.

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Referências bibliográficas Albérico BAESKE. Como se estuda Teologia conforme Lutero. In: Lothar HOCH (ed.). Formação teológica em terra brasileira. Faculdade de Teologia da IECLB. 1946-1986. São Leopoldo: Sinodal, 1986, p. 74-87. Dietrich BONHOEFFER. Resistência e submissão. Trad. Ernesto J. Bernhoeft. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. Johnson GNANABARANAM. Senhor, renova-me. Reflexões. Trad. Lindolfo Weingärtner. São Leopoldo: Sinodal, 1993. Roberto E. ZWETSCH. Vigília – salmos para tempos de incerteza. São Leopoldo: Sinodal, 1994.

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Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB Albérico Baeske

Parte I 1) Cantos 2) Breve exposição sobre o ministério “que ensina o Evangelho e ministra os Sacramentos” (cf. Parte II). 3) Já que Deus instituiu tal ministério e o confere, via comunidade reunida em culto, a determinadas pessoas, esta precisa ter claro * quem é a pessoa a quem a comunidade reunida em culto concede, a mando de Deus, o ministério (cf. Parte III); * o que se pode e deve esperar desta pessoa no desempenho do ministério (cf. Parte III). 4) O que Martim Lutero conversou com pessoas cuja ordenação foi solicitada por comunidades, patronos de templos e a universidade de Wittenberg, por prefeituras, câmaras de vereadores e príncipes territoriais (cf. Parte IV). 5) Espaço para que ministros/as e presbíteros/as presentes verbalizem suas experiências, seus enfoques e esperanças, pessoais e junto a comunidades, no intuito de animar, apoiar e alegrar ao/à ordenando/a.

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6) Oração de encerramento: “Atende-nos, ó Deus dos céus,

Ensinam-se doutrinas vãs,

escuta os nossos brados.

por homens inventadas.

Senhor, oh! vem fazer calar os tais ensinadores!

Quão poucos são os santos teus,

Deturpam as palavras sãs,

Ousados são no seu falar e dizem quais doutores:

e estão desamparados!

no Verbo alicerçado.

É desprezado o Verbo teu,

Discordam entre si também,

Nós temos a revelação,

e a fé já quase esmoreceu

confundem-nos com vil desdém,

decretos, leis e tradição;

em toda a humanidade.

brilhando na aparência.

da Bíblia somos mestres!

Por isso diz o santo Deus:

Provada a prata é no calor,

Ó Deus, vem puro o conservar

Dos crentes afligidos

no fogo acrisolada.

da geração perversa.

os brados sobem já aos céus,

A sã Palavra do Senhor

Em ti queremos confiar,

ouvi os seus gemidos.

na angústia é confirmada.

p’ra que não nos subverta.

Meu Verbo mando com vigor

Provado o Verbo pela cruz,

O povo se juntando está

aniquilar a sua dor

revela então poder e luz,

em torno desta gente má

e as hostes inimigas.

iluminando a terra.

que surge entre teu povo.”

(M. LUTERO, Obras Selecionadas v. 7. SLeopoldo: Sinodal / PAlegre: Concórdia, 2000. pp. 496.20 – 498.4)

Parte II

Deus, nosso criador e nosso juiz, instituiu o ministério “que ensina o Evangelho e ministra os Sacramentos” com a exclusiva finalidade de que cheguemos à fé (CA V) e, assim, subsistamos perante ele. Quer dizer: ouçamos, aceitemos e testemunhemos, alegres e livres, “que as pessoas não podem ser justificadas diante de Deus por forças, méritos ou obras próprias, senão que são justificadas gratuitamente, por causa de Cristo, mediante a fé, quando crêem que são recebidas na graça e que seus pecados são remetidos por causa de Cristo” e lhes “são dadas justiça e vida eterna. Essa fé atribui-a Deus como justiça aos seus olhos. Rm 3 e 4.” (CA IV, versões latina e alemã) Essa fé decide nosso destino. Ela é que importa, a única coisa que importa na vida e na morte. Sem essa fé estamos mortos e mortas, embora pareçamos bem vivos e vivas. Com ela estamos vivos e vivas, embora morramos barbaramente. Ninguém chega de si a essa fé. Nós conseguimos tudo, podemos fazer qualquer coisa de nós, menos um crente e uma crente dessa fé. Pessoa ne-

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nhuma alcança essa fé “por sua própria razão ou força” (Lutero). Deus, em sua paixão por nós, cuida, ele mesmo, que cheguemos a essa fé, que “a atribui como justiça aos seus olhos”. Já que ele próprio se encarrega do surgimento dessa fé, chegamos a ela. Para que isso suceda, Deus instituiu o ministério “que ensina o Evangelho e ministra os Sacramentos” e quer que a comunidade, incumbida por ele, ordene pessoas, como ... (nome do/a ordenando/a), que se ocupam em “publicamente ensinar ou pregar e ministrar os sacramentos na igreja” (CA XIV, versão alemã) Deus nos ama tanto, por isso se adapta à nossa condição humana. Ele lança mão de meios que envolvem nossos cinco sentidos. Agrada Deus tratar através do seguinte: Primeiro, pelo sermão de uma pessoa como ... (nome do/a ordenando/a), que promove a Jesus Cristo. Segun do, pelo ofício de perdoar ou reter os pecados em nome de Jesus Cristo, explicado e pronunciado por ... (nome do/a ordenando/a). Terceiro, pelo ato de batizar com água, explicado e execu tado por ... (nome do/a ordenando/a) conforme a vontade do Deus Triúno. Quarto, pelo comer e beber naquela ceia onde o próprio Jesus Cristo “é a comida e a bebida, o cozinheiro e o garção” (Lutero), explicada e coordenada por ... (nome do/a ordenando/a). Pelo ministério ao qual ... (nome do/a ordenando/a) está sendo ordenado/a, Deus concede “o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que opera a fé, onde e quando lhe apraz, naquelas pessoas que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos, pelos méritos de Cristo, não pelos nossos, um Deus gracioso, se o cremos” (CA V, versão alemã) Pela confissão e absolvição dos pecados, preferencialmente em particular (CA XI e XXV), pelo batismo (CA IX) e pela ceia do Senhor (CA X), Deus enfatiza sua “vontade divina para conosco, com o fim de... despertar e confirmar a fé nos que deles fazem uso. Essa também a razão por que [os sacramentos] exigem fé, sendo usados corretamente quando a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé” (CA XIII, versões alemã e latina) Essa fé, que Deus atribui às pessoas como justiça aos seus olhos, pro-

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duz bons frutos (CA VI, XVI e XX). ... (nome do/a ordenando/a), bem como os demais ministros ordenados e as demais ministras ordenadas, ressaltam que os crentes e as crentes dessa fé praticam “por amor a Deus... toda sorte de boas obras por ele ordenadas, não se devendo, porém, confiar nessas obras, como se por elas se merecesse graça e justiça diante de Deus. Pois é pela fé em Cristo que recebemos perdão dos pecados e justiça, como diz o próprio Cristo: ‘Depois de haverdes feito tudo isso, deveis dizer: Somos servos inúteis.’ (Lc 17.10)” (CA VI, versão alemã) A função única, exclusiva e vitalícia de ... (nome do/a ordenando/a) e demais ministros e ministras é, pois, chamar a “essa fé que Deus atribui-a como justiça aos seus olhos”, animar e acompanhar as pessoas nessa fé e seus frutos. O ministério para o qual ... (nome do/a ordenando/a) está sendo ordenado/a é maravilhoso. Lutero o definiu como “o ministério do próprio Deus”, pois mediante ele Deus age para “vida e salvação”. É uma tarefa de enorme responsabilidade, que compromete a comunidade, também por causa dela, a defendê-lo, guardá-lo e apoiá-lo com coração, boca e mãos.

Parte III

Quem é a pessoa à qual a comunidade reunida em culto concede, a mando de Deus, o ministério “que ensina o Evangelho e ministra os Sacramentos”? 1) Breve apresentação do/a candidato/a ao pastorado junto à IECLB, ... (nome do/a ordenando/ a), pelo/a Pastor/a Sinodal, ... (nome do/a mesmo/a), coordenador/a do ato da ordenação. 2) Breve auto-apresentação do/a ordenando/a, referindo-se a sua caminhada teológica, pastoral e comunitária até agora, dando destaque a seus enfoques teológicos, pastorais e comunitários. O que se pode e deve esperar de um pastor/a ordenado/a no desempenho do ministério “que ensina o Evangelho e ministra os Sacramentos”? Que falem, prioritariamente, as pessoas que conviveram com ... (nome do/a ordenando/a) em ... (localidades nas quais o/a ordenando/a absolveu

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seu estágio e seu período prático de habilitação ao ministério pastoral): 1) Vocês acham que ... (nome do/a ordenando/a), não tendo estudado teologia, sendo ... (mencionar profissões exercidas por presbíteros/as presentes), participaria ativamente (assim como os/as presbíteros/as presentes) de uma comunidade filiada à IECLB? 2) Vocês confiam em ... (nome do/a ordenando/a) a ponto de lhe abrir seu coração? 3) Vocês foram questionados e questionadas em sua fé por ... (nome do/a ordenando/a)? Favor mencionar exemplos. 4) Vocês foram fortalecidos e fortalecidas na fé em Jesus Cristo por ... (nome do/a ordenando/ a)? Favor mencionar exemplos. 5) Vocês foram desafiados e desafiadas na fé em Jesus Cristo por ... (nome do/a ordenando/a)? Favor mencionar exemplos. 6) Conforme suas experiências com ... (nome do/a ordenando/a) até agora, qual seria a marca registrada da atividade pastoral dele/a? Favor mencionar em forma de uma só palavra.

Parte IV

Com o decreto de 12/05/1535, o Príncipe Eleitor da Saxônia, João Frederico, encarregou a Faculdade de Teologia da Universidade de Wittenberg de examinar, aprovar e ordenar os pastores. A partir de 24/06/1537 se registrou os ordenados; até a morte de Martim Lutero (18/02/1546, encontram-se 740 nomes na relação. Os candidatos vinham à referida instituição munidos de papéis que comprovavam seu chamado/vocação para determinado lugar, que possuíam boa reputação e que solicitavam a ordenação. Através da “ordenação em público [em meio ao culto da comunidade em Wittenberg, congregada por Jesus Cristo]” acontecia “a confirmação da vocação [anteriormente ocorrida]”. No ensejo da ordenação era fornecido um certificado com o nome do ordenado, eventuais alusões a seus dons (p. ex.: erudição, capacidade retórica, especial jeito pedagógico) e data, via de regra escrito a próprio punho

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por Felipe Melanchthon, assinado muitas vezes por Lutero e João Bugenhagen, o Pomerano (pároco na Igreja Matriz em Wittenberg), por um professor de teologia e um ou mais pastores auxiliares em Wittenberg. Sucedia, às vezes, que a instância que solicitava a ordenação era “exortada a ajudar e defender o ordenado” no exercício de sua tarefa; repetidas vezes, ordenado e comunidade eram admoestados se preocupar com que o Evangelho de Deus ficasse puro e fosse fielmente conservado e propagado, a começar pelos descendentes. 32 certidões se conservaram; seus destinatários se originavam não só da Saxônia; para concluintes da faculdade, o documento era formulado em latim, para não-acadêmicos em alemão. Nos anos de 1539s., surgiram certificados impressos com espaço em branco, no qual eram anotados, à mão, a data da ordenação, o nome do ordenado e a localidade de seu futuro pastoreio. O ordenado exibia a certidão a pessoas e comunidades, instâncias patronais e autoridades civis que o requeriam ou já o tinham escolhido pastor junto delas. Com tal apresentação se efetivava o vínculo empregatício. Nos primeiros certificados de ordenação não constam referências bíblicas. De 1542 em diante inclui-se Jo 15.7s., Ef 4.8.11, Tt 1.5 e 1 Tm 4.136. Em todas as certidões conservadas, no entanto, os que assinam atestam – invariavelmente, de maneira sucinta e precisa – o seguinte: 1) O ordenado é conhecedor da doutrina evangélica, foi examinado e aprovado. Quer dizer: O ordenado está radicado na diferença entre lei e Evangelho; na justificação por graça e fé por causa de Jesus Cristo, veiculada por pregação e ministração dos sacramentos; no fato de que a fé é concedida pelo Espírito Santo e de que as obras são frutos da fé dada e sucedem, em liberdade e espontaneidade, a serviço dos semelhantes, mas jamais justificam perante Deus. 2) O ordenado “se compromete” notoriamente (observe a priorização dos compromissos!) * a se engajar, “com persistência, pela doutrina pura, verdadeira e reta”, redescoberta pela Reforma. Mantendo-se tal doutrina, “a Igreja permanece”: “Deus está presente e ouve, onde soa verdadeiramente seu Evangelho”. Quer dizer: Por um lado, o ordenado ressalta a concordância entre a doutrina de “nossa Igreja” e da “Igreja católica de Cristo”, ou seja em dizeres de Lutero, de “toda a cristandade na terra”; o ordenado exerce seu ministério “no mesmo espírito e numa só voz com a Igreja católica de Cristo”. Enfatiza-se desta forma a atuação e vivência ecumênicas

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da Reforma e de seus adeptos. Por outro lado, o ordenado rejeita, “combate” e ataca “todas as opiniões dos fanáticos/entusiastas/’Schwärmer’” (p. ex.: um segundo ou mais batismos; formação e auto-isolamento de grupos especialmente pios, atendidos por pregadores andarilhos, não examinados nem vocacionados; percepção errônea do amor à cruz: em vez de se solidarizar com os pobres e pecadores, acham sofrer a cruz quando criticados e repelidos em seu caminho arbitrário; negação/rejeição das autoridades constituídas e em assumir cargos públicos para promover o bem-comum); destarte, o ordenado age na linha “do juízo/ julgamento [dos concílios] da Igreja católica de Cristo”. Enfatiza-se desta forma a atuação e vivência missionárias da Reforma e de seus adeptos; * e a exercer o ministério com afinco e esmero, “em fé e diligência”. Quer dizer: o ordenado leva uma vida de ministro em espiritualidade pessoal e familiar, sem escândalos morais para a comuna que o escolheu e na qual serve. Às vezes, lembra-se um ordenado a trabalhar em comunhão com os colegas, evitando “competições e rixas que produzem conturbações dogmáticas, das quais seguem erros, impiedade e devastações das comunidades”. 3) Com a execução da ordenação em culto comunitário e público, juntamente com a preparação e entrega do respectivo documento, “confia-se” ao ordenado “o ministério de pregar o Evangelho e de ministrar os sacramentos”. Pede-se ao Espírito Santo que providencie para que o ministério do ordenado “ponha em relevo a glória de Deus e do nosso Senhor / Libertador (!) Jesus Cristo e a salvação da Igreja”, exatamente “em vista das sevícias turcas que ameaçam devastar toda a Europa”. Quer dizer: a Igreja que passou pela Reforma procede “conforme a doutrina apostólica” (Tt 1. 5 e Ef 4.8.11) tanto no geral quanto no particular da ordenação de ministros, independentemente da conjuntura política periclitante, que Jesus Cristo contornará para o bem de seu povo. Nos certificados em alemão acrescenta-se que o ordenado precisa procurar um pastor experimentado como mentor (p. ex.: “superintendente”), às vezes, menciona-se logo o nome deste e lhe solicita a acompanhar, com diligência e delicadeza fraternais, em doutrina e conduta, o recém ordenado que lhe mostra seu certificado. A Igreja que passou pela Reforma considera indispensáveis pessoas

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que pregam a palavra de Deus e ministram seus sacramentos (cf. Parte II). Em vista deste serviço, tais pessoas são examinadas e, se aprovadas, ordenadas. Lutero queria como pastores indivíduos, assim se expressa freqüentemente, “piedosos, doutos e éticos” (observe a seqüência dos atributos!). Tanto o exame da mensagem que pretendem levar, de seu comprometimento vitalício com a Reforma e de sua vida espiritual e de conduta pessoal e pública, quanto a ordenação com certificado são pré-requisitos inalienáveis para o exercício do pastorado. O estudo acadêmico da Teologia é pré-requisito alienável, embora sumamente desejável. A Igreja que passou pela Reforma, Lutero ainda em vida, examinou e aprovou no sentido referido e ordenou com o acréscimo mencionado, por exemplo: mestre-escola, sacristão, vereador, talhador. (Quem quer saber detalhes, estude Martin Luther, Weimarer Ausgabe Briefe / WA BR, Edição de Weimar de suas obras completas, 12 [Anhang III], 44[7]-85 [Zu Nr. 4330,1-22]. Tudo o que acima consta entre “...” é tirado deste tomo. Cf. ID., Obras Selecionadas v. 7. pp. 73-150; vol. 9. Ibd., 2005. pp. 425-598).

Parte V

Prezado/a ... (nome do/a ordenando/a), prezada família do/a ordenando/a, prezada comunidade congregada por Jesus Cristo, o Bom Pastor! 1. Em dois anos ocorre aqui a segunda ordenação ao ministério pastoral. Fato que desperta curiosidade. Tomara que não só isso. Oxalá cada pessoa presente chegue a entender o que é a ordenação e o que caracteriza um pastor e uma pastora! Muitos de nós conhecemos pastores e pastoras de perto. Uns convivem, de certa maneira, com eles. Daí formam alguma idéia de como pastores e pastoras surgem e o que fazem, o que enfrentam e agüentam. Há pessoas tão marcadas por pastores que falam deles sempre coisas positivas ou negativas. No entanto, para o público em geral o termo pastor / pastora soa esquisito; é assunto de religião, da Igreja; alude a alguém fora da realidade, como a imaginam e percebem. Isto tanto mais que nossa cultura desconhece a figura do pastor no cotidiano. Talvez o tropeiro lembre determinados traços do pastor no ambiente oriental e bíblico. Também entre filiados à IECLB irrompem noções disparatadas a res-

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peito de pastores e seu ofício. Por exemplo: pastor e pastora trabalham apenas no fim de semana; pouco sabem da vida tal qual é; ganham baita salário, carro novo e ampla moradia; pastor e pastora são empregados da gente e têm de nos amenizar a lida pesada nos dias que correm. 2. Nesta altura é imprescindível ter claro que pastor é um termo freqüente e um personagem central na Bíblia. Quem não ouviu ou leu ainda “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” (Sl 23.1. Cf. 74.1; 79.13; 80.1; 95.7; 100.3; Jr 13.37; Is 40.11; Zc 10.3; Mq 5.[2.]4s. <> Mt 2.6; Mq 7.14; Gn 49.24), e Jesus dizendo: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11.15.17s.)? Talvez uma dessas palavras conste na Certidão de Confirmação ou de Bênção Matrimonial de pessoas sentadas conosco nos bancos do templo. Como poucos, os dois ditos resumem a fé testemunhada na e pela Bíblia. Deus cuida integralmente dos seus, sim, empenha sua própria vida por eles (cf. Zc 13.7-9 <> Mc 14.27s.). Nada mais lógico, então, que um e outro dos seus morra com um versículo desses nos lábios ou peça que o gravem em sua lápide. Assim as pessoas confessam: Desde o Batismo temos pertencido ao Bom Pastor e a seu povo. Quando fugimos dele, nos perdemos, mas o Bom Pastor foi atrás de nós até nos encontrar e carregar de volta (cf. Lc 15.4-7; Mt 18.12-4). Fomos “desgarrados como ovelhas, agora, porém, fomos convertidos para o pastor e protetor de nossas vidas” (1 Pe 2.25; cf. Jo 10.16; 11.52). Ele caminhou a nossa frente, abrindo clareiras para nossa vida particular, familiar, profissional e social. Andou a nosso lado instruindo e organizando-nos em sua comunidade, curando e alimentando-nos com seus sacramentos. Na hora de nossa morte, permanece a nossa frente, defendendonos no Juízo Final, onde sucede a separação “uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas” (Mt 25.32. Cf. 13.24-30; 22.11-14), e preparando-nos a morada derradeira (cf. Jo 14.2s.; 17.24; Lc 23.33-43). Com o que inicia o reinado da glória graciosa de Deus que dá “seu reino” ao “pequenino rebanho” (Lc 12.32 <> Dn 7.27). O Bom Pastor é real e cria realidade. Homens e mulheres que confessam isto são realistas. São os seus e bem-aventurados. Pessoas que percebem a realidade, mas excluem dela o Bom Pastor, são irrealistas. Pior, são “como ovelhas que não têm pastor, [acabam] aflitas e exaustas” (1 Rs 22.17 [Zc 10.2] e Mc 6.34 par.) – e urge que caiam na real, já por sua própria causa. 3. Na Bíblia, o Bom Pastor é chamado igualmente de “Grande Pastor das ovelhas” (Hb 13.20) e de “o Supremo Pastor” (1 Pe 5.4). “Ele mesmo consti-

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tui uns para pastores” (Ef 4.11) a fim de “pastorear o rebanho de Deus” (1 Pe 5.2; At 20.28; Jo 21.16). Em absoluto, os pastores e as pastoras são seus substitutos ou representantes. São, isto sim, seus serventes, seus moços e suas moças de recado. Seu primeiro moço de recado foi Simão, filho de João, o Pedro, ao qual encarregou: “Apascenta minhas ovelhas” (Jo 21.17). Desde aquela época não parou de chamar moços e moças de recado. Hoje chama ... (nome do/a ordenando/a). Ser moço e moça de recado do Bom Pastor é graça tremenda – por conseguinte, responsabilidade ímpar: será que entreguei o recado do qual fui incumbido/a? Graça e responsabilidade estão imbricadas. Sobrepõem-se uma à outra como as telhas de um telhado ou as escamas do peixe. Graça não é desperdício, graça tem finalidade. E a finalidade está sujeita à prestação de contas (cf. 1 Co 3.5-20; 4.1-5; 1 Pe 5.2-4; 2 Tm 4.1-8). A graça do Bom Pastor jamais fornece sombra e água fresca, pelo contrário, traz serviço duro no solaço. A Bíblia descreve com realismo a existência da gente convocada pelo Grande Pastor, de seus moços e suas moças de recado, de nossos pastores e nossas pastoras. O pastor de ovelhas e cabritos na terra bíblica, a Palestina, não é proprietário do rebanho. Ele é empregado (cf. 1 Sm 16.11.15.17). O rebanho lhe foi confiado. Sua tarefa é achar pasto e água num terreno árido (cf. Sl 23.2), evitando que o rebanho se desvie para as montanhas de pura pedra onde perece (cf. Jr 50.6s.). O que exige caminhar e procurar bastante. O pastor precisa de resistência física e de conhecimento da área onde anda com as ovelhas. Muitas vezes, acaba distante de seu lugar de partida e longe dos proprietários das ovelhas. Nestas andanças, sucede que feras (cf. 1 Sm 17.346) e ladrões (cf. Jo 10.10) atacam o rebanho. Aí o pastor fica no conflito: abandonar o rebanho, salvando a própria pele e frustrando seus empregadores (cf. Jo 10. 12) ou defender o rebanho (cf. 1 Sm 17.34s.), sofrendo ferimentos, perdendo até a vida (cf. Jo 10.11). Sim, o pastor na Bíblia corre altos riscos. Não apenas no sentido aludido, mas também no seguinte: o pastor lança mão do rebanho em proveito próprio. Demorando um tempão com o rebanho, sozinho e sem controle, começa a faturá-lo (cf. Is 56.11s.). Apascenta-se a si mesmo em vez de apascentar as ovelhas. Come da gordura, veste-se da lã e degola o cevado. Não fortalece a ovelha fraca, não cura a doente, não torna a trazer a desgarrada e não busca a perdida. Em lugar de cuidar do rebanho, trata-o com rigor, dureza e rapinagem. Razão pela qual, as ovelhas correm desatinadas e apavoradas para lá e para cá, se espalham e viram pasto para todas as feras do campo (cf. Ez 34.2-6). Conforme a Bíblia, pastor fujão ou corrupto será destituído do pastoreio (cf. Ez 34.10), mais cedo ou mais tarde. Ele é inútil; grita-se “ai” a seu respeito, em dor, revolta e desespero (cf. Zc 11.17). Tudo o que cometeu contra o rebanho confiado, vem em dobro sobre ele (cf. Jr 23.1s; 25.34-8).

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4. É nossa oração e esperança que ... (nome do/a ordenando/a) seja pastor/a segundo o coração do Bom Pastor. Que o Bom Pastor estabeleça ... (nome do/a ordenado/a) para que as ovelhas não tenham medo, não tenham pavor e nem se percam (cf. Jr 23.4). Que ilumine ... (nome do/a ordenando/ a) para que o rebanho, entregue em confiança, não acabe em terra estranha e deserta ou no matadouro. Que instrua ... (nome do/a ordenado/a) para “que vos [comunidades] apascente com conhecimento e prudência” (3.15). ... (nome do/a ordenando/a) é prudente se tem conhecimento e consciência do fato de que vocês, membros das comunidades, são daquele que diz: “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10.9; cf. 21.15-7). ... (nome do/a ordenando/ a) é prudente se lhes desdobra que não há outro bom pastor onde quer que seja, que ninguém pode concorrer com ele. ... (nome do/a ordenandoa) é prudente se lhes incute que pertencem ao Bom Pastor: sejam vocês, membros das comunidades, sem fé nele ou com fé, em desgraça ou graça, na salvação ou perdição – vocês são dele e ele quer o melhor para vocês; se são justos ou injustos, estão mortos ou vivos, no céu ou no inferno – vocês, membros das comunidades, são do Bom Pastor (seg. Chr. Blumhardt). ... (nome do/a ordenando/a) é prudente se ele/a próprio/a o crê; se ele/a próprio/a confessa, com coração, boca e mãos: Jesus Cristo, pela sua livre paixão e morte, é meu Senhor, remindo, resgatando e salvando-me de todos os pecados, da morte e do diabo, para que lhe pertença e viva submisso/a a ele e o sirva (seg. Lutero). ... (nome do/ a ordenando/a) é prudente se assegura isso perante os sabidões em sociedade e igreja. É prudente se tem isso cristalino como o recado fiado a ele/a da parte do Bom Pastor. Na transmissão de seu recado, a pastora e o pastor são questionados, combatidos, quem sabe mal-vistos e hostilizados. Ora, isto é normal. Sempre foi e será assim. O que falta é interiorizá-lo como o mais natural que existe para pastores e comunidades. Conforme o evangelista Mateus, Jesus Cristo afirma que a ameaça ao rebanho não se dá apenas por lobos que vêm de fora (veja 10.16 par.), mas também de dentro do rebanho, através de lobos disfarçados em ovelhas (veja 7.15). Conforme Atos dos Apóstolos, Paulo repete que nas comunidades “penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho”, sim, até mesmo dentre os pastores “se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar discípulos atrás de si” (20.29s.). Lobos disfarçados em ovelhas promovem perversão. Por exemplo: quando igualam o Bom Pastor a grandes líderes religiosos ou os acrescentam a ele; quando aceitam além de Jesus Cristo “outros acontecimentos e poderes, personagens e verdades como fonte de pregação e como revelação divina”

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(Declaração de Barmen, 1934); quando instrumentalizam a comunidade em campo experimental de iniciativas político-sociais, morais e igrejeiras; quando incorporam o rebanho do Bom Pastor às estruturas civis vigentes e, deste jeito, identificam-no com elas; quando esquecem que o rebanho do Bom Pastor está no mundo e a ele é enviado, embora não seja do mundo (cf. Jo 17.11.14-9); quando contemporizam quanto à condição de o rebanho do Bom Pastor ser alternativa ao que aí está em questão de religião e convivência humana, quanto a ser vanguarda da vida integral que tem em Jesus Cristo seu centro criador, girador e conquistador; quando negam ou evitam que a comunidade fique ciente de estar sempre entre o Espírito Santo e o espírito dos tempos. 5. ... (nome do/a ordenando/a) e comunidade: o recado que você ... (nome do/a ordenando/a) leva não é brincadeira, não. Em absoluto é diversão dominical, ao contrário, é vital e decisivo para nossa vida diária. Compromete a todos, presentes e ausentes. O recado confiado elimina qualquer primazia, nivela de modo perfeito pastores e comunidade, aqueles que pregam e aqueles que escutam. Até porque vale para ambos e requer de ambos a correspondente prática cotidiana. Em vista do recado a ser transmitido e seus desdobramentos, não cabe, sob hipótese alguma, hesitação, susto e medo. Cabe, com certeza, que sejamos atentos por nós todos (cf. At 20. 28). Sejamos todos sóbrios e vigilantes, pois a tentação de baratear aquele recado e deixá-lo despercebido, respectivamente, nos “rodeia como um leão que ruge, procurando quem devorar” (1 Pe 5.8). Logo, pastor e pastora cumpram seu papel “não constrangidos, mas espontaneamente; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade, nem como dominadores, antes como modelos do rebanho” (5.2 s.). A comunidade escora pastora e pastor, anima sua espontaneidade em dar o recado, denuncia sua eventual ganância, empenha-se em fortalecer sua boa vontade, derruba seu eventual domínio e lhes ajuda a serem exemplos para outras pessoas. Quem entrega o recado do Bom Pastor – prezado/a ... (nome do/a ordenando/a), prezada comunidade – só o pode fazer confiante. Porque as ovelhas, que pertencem a Jesus Cristo, “ele as chama pelos nomes” (Jo 10,3), ele conhece suas ovelhas, e elas o conhecem (cf. v. 14), e “lhe reconhecem a voz” (v. 4. 27), crêem nele (cf. v. 26), e ele “vai adiante delas, e elas o seguem” (v. 5; cf. v. 27). ... (nome do/a ordenando/a): fique despreocupado/a, a não ser fazer eco à voz do Bom Pastor. Comunidade: seja ciente de sua condição e característica, a saber, conjunto de pessoas “que ouvem a voz de seu Pastor [Jesus Cristo]” (Lutero) e o seguem em vida, “morte e dor” na “segura via que ele abrir / aos crentes seus, amados” (V. E. Löscher, HPD 44.2). Amém.

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(A reelaboração da alocução cuidou especialmente do alastramento da base bíblica; recomenda-se procurar e “ruminar” (Lutero) as referências bíblicas. É possível que a reelaboração tenha transformado a alocução em estudo. Diante da temática, isso não precisa ser negativo.)

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ÍNDICES TEMAS E TEXTOS TRATADOS NOS VOLUMES I – XXXI Advento – Celebração ............................................................................................ XXIX, 325 AIDS – Um grande desafio .......................................................................................... XV, 304 Ação de graças (Is 58.7-12) .......................................................................................... XII, 300 (Jr 30.18-22) ................................................................................................................ XX, 322 Achados e perdidos – experiências ......................................................................... XVII, 288 A indústria da ilusão: como encarar o “Feliz e Próspero Ano Novo”? (Tg 4.3-17) ................. IX, 34 Armas da morte: “quem brinca com fogo, acaba se queimando” (Zc 9.9-10) .................. X, 91 Associação popular: “a união faz a força” (Ne 5.1-12) ................................................... IX, 83 A velhice ......................................................................................................................... VI, 43 Batismo, alocução para ............................................................................................ XXVI, 357 Batismo, culto de ................................................................................................... XXVII, 299 Bênção matrimonial .................................................................................................. XIX, 310 (Jr 29.13) ........................................................................................................... XX, 351 (Ct 8.7) .............................................................................................................. XX, 353 (Ec 4.9-12) ........................................................................................................ XXI, 329 (Ct 1.2-3) .......................................................................................... XXI,332; XXII, 311 Bíblia e arte ................................................................................................................... XV, 77 Cadê a mulher?(Jz 5.24-31) ............................................................................................. X, 37 Carnaval: festejar é preciso (Jo 2.1-11) .......................................................................... IX, 41 Celebração da Santa Ceia (Lc 24.13-35) ........................................................................ VI, 40 (Sl 133.1-3) ...................................................................................................... XXII, 300 Coluna social – promoção da fraternidade ou projeção egoísta? (Gl 3.28) .................. XII, 70 Como pode peixe vivo viver fora d’água fria? O colono na cidade (Ec 4.1-4) ................ X, 84 Componentes éticos da organização popular .......................................................... XVII, 281 Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares – uma avaliação (Ap 22.10-16) .......................................................................................... X, 11 Confirmação (Fp 3.12-16) ................................................................................................ II, 20 (Dt 30.11-20) ....................................................................................................... VIII, 23 (Jo 6.66-69) ......................................................................................................... XII, 293 (Mt 5.14-16) ...................................................................................................... XX, 339 (Ap 1.9-18) ........................................................................................................ XX, 342 Constituição – as leis a serviço de quem? (Dt 17.14-20) ............................................... XII, 51 Contribuição para a Igreja – Pago para ter (2 Co 8.1-5) ............................................. XIII, 18 “Criança, não verá país nenhum como este!” (Êx 1.8-22) ........................................... XI, 107 Culto batismal (Is 43.1) .............................................................................................. XXI, 326 Culto de Batismo ..................................................................................................... XXIV, 358 Culto como evento celebrativo (O) ................................................................................ XIV, 9 Culto de instalação de lideranças de comunidade (Hb 13) ...................................... XXI, 309 Culto em época de eleição (1 Sm 11.1-15) ...................................................................... V, 337 Culto eucarístico (Mc 14.32-42) ................................................................................. XX, 346 Culto eucarístico (alocução para) ........................................................................... XXIII, 237 Culto para o Dia dos Povos Indígenas ...................................................................... XXII, 295 (Lc 22.14-15) ..................................................................................................... XX, 349 Cultura popular: quando a vida se faz escola (1 Co 8.2) ............................................ XIII, 42 Curandeirismo: um “jeitinho” popular de cura? (Mc 5.25-34) ..................................... XII, 27

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Deus na marginalidade ................................................................................................. XVI, 9 Dedicação de templo ............................................................................................... XXVI, 361 Dia das Crianças (Zc 8.1-8) ..................................................................................... XXIV, 337 Dia de Ações de Graças (Gn 8.15-22) ............................................................................... I, 61 (Jo 4.31-38) ............................................................................................................. II, 89 (Ec 3.1-8) .............................................................................................................. VI, 48 (1 Tm 4.4-5) ....................................................................................................... XIII, 297 (Mt 13.24-30,36-43) ........................................................................................ XVIII, 287 Dia da Colheita (2 Co 9.6-15) .......................................................................................... V, 323 (Dt 26.1-11) ....................................................................................................... XX, 317 Dia do Colono (Gn 2.4b-15) ............................................................................................ V, 330 Dia de Finados (Fp 3.20-21) ........................................................................................... I, 129 (1 Co 15.50-58) ................................................................................................... III, 275 (1 Co 15.35-39,42b-44) .......................................................................................... V, 256 (Mt 22.23-33) ..................................................................................................... VIII, 336 (2 Pe 3.8-14) .................................................................................................... XVII, 237 (Jo 5.24-29) ..................................................................................................... XVIII, 267 Dia da Independência (1 Pe 2.13-17) .............................................................................. I, 102 (1 Tm 2.1-4) ........................................................................................................... II, 169 (Mc 12.13-17) ...................................................................................................... III, 213 (Hb 13.12-16) ........................................................................................................ V, 205 (Mt 6.9-13) .............................................................................................. VI, 53 XX, 328 Dia das Mães (Lc 15.8-10) ......................................................................................... XIX, 305 Dia da Reforma (Gl 5.1-11) .............................................................................................. I, 118 (Jo 8.31-36) ............................................................................................................ II, 216 (Rm 3.19-28) ....................................................................................................... III, 263 (Mt 5.1-10) ........................................................................................................... IV, 212 (Ap 14.6-7) ............................................................................................................ V, 249 (Mt 10.26b-33) .................................................................................................... VI, 291 (Is 62.1-12) ........................................................................................................ VIII, 331 (Mt 10.26b-33) ................................................................................................... XII, 268 (Gl 5.1-6) ........................................................................................................... XIII, 267 (Fp 2.12-13) ........................................................................................................ XV, 282 (Jo 8.31-36) ..................................................................................................... XVII, 225 Dia de Penitência (Is 1.10-17) ...................................................................................... XV, 297 Dia do Trabalhador (Dt 5.12-15) .................................................................................... III, 62 (2 Ts 3.6-13) ............................................................................................................ V, 97 Dia do Trabalho (1 Co 7.29-32a) ...................................................................................... II, 46 (Ez 34.1-2, (3-9), 10-16, 31) ................................................................................. VI, 170 (Tg 5.1-6) ........................................................................................................... XIII, 284 Dia dos Pais (Pv 4.10-19) ........................................................................................... XXI, 321 Dia Internacional da Mulher (Ct) ............................................................................. XXI, 316 Domingo de Penitência (vide também: Dia de Penitência [Mt 12.33-35, (36-37)]) ....... XII, 307 (Ap 3.14-22) ...................................................................................................... XIII, 303 Domingo de Ramos (Mc 14.3-9) ................................................................................. XX, 309 Ecologia – A vida está a perigo (Gn 2.8-25) ................................................................. XIII, 74 Educação: para a liberdade ou para a opressão? (Ec 9.13-18) ....................................... X, 25 Em busca de espaço – o deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ...................... XII,34 Empregadas domésticas (Gn 21.8-21) ........................................................................ XIII, 60 Entre morte e eternidade: morrendo um pouco a cada dia (Is 65.17-25) .................. IX, 15 Epifania, reflexões para o período de ................................................................... XXVII, 303

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Época da Paixão I (Is 55.6-7) .......................................................................................... VI, 24 Época da Paixão II (Mt 26.36-46) ................................................................................... VI, 29 Época da Paixão III (Sl 130.4) ........................................................................................ VI, 34 Época da Paixão IV (Mt 11.28-30) .................................................................................. VI, 37 Estado, pátria, governo (Jz 9.7-15) ................................................................................. IX, 98 Estudo bíblico numa conferência (Jo 1.1-18) .............................................................. XVI, 42 Estudos bíblicos com pequenos agricultores ............................................................... XIV, 60 Exercício homilético ...................................................................................................... XII, 91 “E viu Deus que isto era bom...” ................................................................................ XIV, 101 Férias: alienação ou antecipação do Reino de Deus? (Ec 3.9-15) ................................... X, 16 Festa da Ascensão de Jesus Cristo ........................................................................... XXX, 303 Fome, instrumento de submissão (Mq 3.1-4) ................................................................. XI, 45 Formatura – estudar para ganhar mais? (Jr 22.13-19) ................................................ XIII, 80 (Is 65.17-25) ...................................................................................................... XX, 334 Futebol: lazer ou instrumento de alienação (Jz 2.11-15) ............................................... XI, 20 Hermenêutica feminista latino-americana ................................................................ XIV, 101 Ídolos da opressão (Is 44.9-20) .................................................................................... XIII, 50 Inauguração da igreja (Mc 4.30-32; Mt 13.31-32; Lc 13.18-19) ................................... XII, 313 Inauguração de uma igreja (Is 24.12-16a) .................................................................. XIII, 311 Introdução a Dêutero-Isaías ........................................................................................ VIII, 16 João Batista: por que rolou sua cabeça? (Mc 6.14-29) .................................................... X, 74 Kurusu Ñe’engatu – Palavras que a história não pode esquecer ............................ XVII, 275 La comunidad luterana y la práctica de una pastoral de vida ..................................... XV, 71 La lucha por la tierra en el Paraguay ............................................................................ XV, 55 Leitura da Bíblia entre indígenas .................................................................................. XV, 61 Lepra – uma doença que assusta? (Nm 12.9-16) .......................................................... XII, 18 Libertação: vitória sobre a cruz! (1 Jo 3.13-18) .............................................................. IX, 57 Medicina popular – mutirão da saúde (Mt 12.22-28) .................................................... XI, 77 Meditação sobre a oração ....................................................................................... XXXI,303 Meditação sobre o tema “Terra” – I: terra na nova sociedade (At 4.32-37) ........................... V, 310 Meditação sobre o tema “Terra” – II: terra para todos .................................................. V, 316 Migração: esperança ou desespero? (Lv 25.8-17, 23-28, 35-43) ..................................... XI, 65 Missão (1 Co 12) ........................................................................................................... XIII, 34 Movimento negro: “alma não é branca, negro não é luto, preto não é cor!” (Am 9.7-10) .. X, 128 Movimentos populares: povo unido jamais será vencido (Mc 10.32-45) ............................. X, 106 Mulheres agricultoras ................................................................................................. XVI, 15 Na estrebaria do mundo a criança é esperança (1 Co 1.26-31) ..................................... IX, 24 O assalariado empobrece produzindo riqueza (Ec 5.18) ............................................... X, 65 Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus .................................. II, 176 O deficiente na igreja e na sociedade (Mt 4.23-25) ...................................................... XII, 34 O desafio de ser autor de PL ......................................................................................... XV, 12 O ecumenismo na formação de lideranças ................................................................... XV, 33 O evangelho no Clube de Mães – ocupação do solo urbano em Canoas .............................. XV, 17 O índio: nosso irmão na caminhada pela libertação (Ef 2.11-22) ................................... X, 48 O Lecionário Ecumênico ............................................................................................. XV, 315 O trabalho na Rondônia com agricultores vindos principalmente do Espírito Santo .... XV, 46 O veneno nosso de cada dia (Dt 8.6-10) ........................................................................ XII, 11 Pago para ter (2 Co 8.1-15) .......................................................................................... XIII, 18 Pastoral Ecumênica de Periferia ................................................................................. XVI, 91 Pentecostes: o Espírito sopra onde quer e quando aprouver (1 Jo 4.1-6) ............................ IX, 72 Perdas – Alocução para Sepultamento (João 11.17-37) ........................................... XXII, 304

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Planejamento familiar: genocídio planejado? (Sl 112) .................................................. XII, 77 Por uma linguagem integradora de mulheres e homens ......................................... XVII, 257 Posse de novo Presbitério, Conselho Sinodal ou Conselho Diretor (liturgia) ...... XXVIII, 368 Posto de Saúde: vitrine da miséria (Mc 3.1-6) .............................................................. X, 114 Proclamar Libertação I – aspecto político (Lc 4.14-21) .................................................... VI, 7 Proclamar Libertação II – aspecto eclesial (1 Pe 2.15-17) ............................................. VI, 13 Proclamar Libertação III – aspecto individual (Lc 4.14-21) ............................................ VI,19 Propriedade e expropriação (Ne 5.1-6 [6-12]) ............................................................ XIII, 11 Quaresma: dor solitária ou solidária? (Is 58.1-12) .......................................................... IX, 50 Quem não faz política, sofre política (1 Rs 12.1-15) ....................................................... XI, 95 Relato de una caminata del pueblo con la Biblia ........................................................ XVI, 21 Ressurreição de que e para quê? (1 Co 15.35-38) ....................................................... XIII, 29 Roteiro para encontros de preparação visando a ordenação ao pastorado junto à IECLB ...................................................................................................................... XXXI,307 Sacerdócio geral – vamos pegar juntos! (Ef 4.7-16) ....................................................... XI, 85 Semana do excepcional ........................................................................................... XVII, 264 Semana dos povos indígenas ................................................................................... XXIV, 347 Sepultamento ......................................................................................... XIX, 321; XXIII, 240 (Jo 6.28-40) ........................................................................................................ XX, 355 (Jo 19.25-27) ...................................................................................................... XX, 360 (Sl 39.5-7) .......................................................................................................... XX, 362 (Sl 142.1-2,5a) .................................................................................................. XXI, 336 (Ec 3.1-8) .................................................................................................... XXVIII, 365 Sindicato: órgão de assistência ou instrumento de defesa dos trabalhadores? (1 Co 12.20-26) ...................................................................................................... XI, 55 Superstição: produto de angústias (Rm 8.31-39) ........................................................... IX, 91 Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia urbana de Belém ................................................................................. XVI,37 Tóxicos – exploração e dependência (Pv 24.10.14) ...................................................... XII, 45 Trabalhador: entre a carência e o desemprego (Dt 24.14-35) ....................................... IX, 63 Trabalhando com agricultores sem terra .................................................................... XIV, 78 Trabalho com agricultores assentados ......................................................................... XIV, 20 Trabalho com idosos ................................................................................................ XVIII, 293 Todas as religiões são boas? (Cl 2.8-10) .......................................................................... XI, 35 Uso da Bíblia em estudos com colonos que migram (O) ............................................. XIV, 68 Vida: celebração da esperança em meio à morte (Sl 138.1-8) ......................................... XI, 9 Vida está em perigo: socorro! (A) (Gn 2.8-25) ............................................................. XIII, 74 Vigília pascal ............................................................................................................... XVI, 146 Violência no campo (Js 8.1-8) ........................................................................................ XII, 61

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ÍNDICE DAS PERÍCOPES DOS VOLUMES I – XXXI ANTIGO TESTAMENTO Gênesis 1.1-4a,26-31; 2.1-4a ............... III,185 1.26-31; 2.1-3 ............................... III,105 2.4-15 ................................. XXVIII, 301 2.4b-15 .......................................... V,330 2.7-17 ......................... XIII,74; XVIII,84 2.7-9,15-17; 3.1-7 ...................... XXX,66 2.18-24 ..................... XXII,254; XXV,282 3.1-9 ........................... XII,170; XVIII,84 3.1-19(20-24) ........................... XXV,214 3.1-24 .......................................... VI,133 4.1-16 .......................... VII,203; XIII,246 8.1-13 ......................................... XV,135 8.15-22 ............................................. I,68 11.1-9 ........................ XII,205; XVII,130 12.1-4a ........................ VII,165; XVIII,88 15.1-6 ................................... XXVI, 256 17.1-13 ................................... XXVII, 40 18.1-10a(10b-14) ....................... XX,208 18.20-21(22)23-32 ...................... XX,225 21.8-21 ........................................ XIII,60 22.1-13 ......................................... VI,144 22.1-14(15-18) ........................... XXII,65 28.10-17(18-22) ......................... XXII,71 32.23-32 ........................ II,374; XVII,240 50.15-21 .............. XXIV,272; XXVII, 240 Êxodo 1.8-22 ..................................... IX,107 2.1-10 ................................. XXVIII, 181 3.1-14 ........................................ XII,154 3.1-8,13-15 ............................ XXVI, 109 6.2-8 ...................... XVIII,218; XXX,214 12.1-14 ...................................... XXI,108 13.20-22 ..................................... XXV,46 16.1-5,(6-11)12-21(22-30) ... XXVIII, 276 16.2-3,11-18 ............................... XIV,283 19.2-8a ...................................... XXI,176 20.1-3(4-6)7-8(9-11)12-17 .............. XII,75 22.21-27 .................................... XXI,280 24.3-11 ... XVI,224; XXV,164; XXVIII, 272 24.12,15-18 ................................. XXI,78 32.7-14 ...................... XV,225; XXIII,177 33.18-23 ....................................... VI,102 34.4b-10 ......................... III,153; XV,273 34.29-35 ................................... XXV,123 Números 11.11-12,14-17,24-25 ....... VIII,205 12.9-16 ......................................... XII,18

21.4-9 ............ VII,101;XIII,159; XXII,80 24.15-19 ...................................... XV,120 Deuteronômio 4.1-2,6-8 ................ XXII,235 4.32-34, 39-40 ...................... XXVII, 148 5.12-15 ........................................... III,43 6.4-9 ............................ XV,246, XIX,164 7.6-12 .......................................... VI,219 8.6-10 .......................................... XII,11 10.12-22 ................................ XXVI, 336 11.18-21,26-28 .......................... XXI,164 17.14-20 ....................................... XII,51 18.15-20 ..................... XIX,67, XXXI,57 24.14-15 ......................................... IX,63 26.3-11 .................................... XXVI, 91 30.11-20 ...................................... VIII,23 32.36-39 ................................... XXIII,79 34.1-12 ...................... XVII,74; XXIX, 77 Josué 1.1-9 ......................................... VII,36 8.1-8 ............................................ XII,61 24.1-2a,13-25 ............................... III,117 Juízes 5.24-31 ....................................... X,37 9.7-15 ............................................ IX,98 Rute 1.1-19a ............................... XXIX, 289 1 Samuel 2.1-10 .................... II,343; VII,113 3.1-10(19) ................... XIX,55;XXXI,44 3.1-10,19 .................................... XXV,86 11.1-15 ........................................... V,337 2 Samuel 7.4-6,12,14a,16 ................ XXV,35 11.26-12.10,13-15 .................. XXIX,199 12.1-10,13-14 ............................... IX,264 12.1-10,13-15a ............................ XV,261 1 Reis 3.5-12 ................................. XXIV,240 3.16-28 .................................... XXX,143 8.(21-23,27-30)41-43 ................ XVII,141 8.22-24,26-28 ............................... VI,189 8.22-30 ....................................... XII,191 8.41-43 .................................. XXIX, 188 17.8-16 ................... XVI,292;XXXI,286 17.17-24 ................ XVII,146; XXIX, 192 19.1-8(9-13a) ........................... XXII,226

324


19.1-13a ................... XIV,185; XVIII,204 19.1-18 ........................................... III,92 19.9-13a .................................. XXX,204 19.(14-18)19-21 ..... XVII,159; XXIX,205

29.18-24 ....................................... III,130 30.(8-14),15-17 .............................. VI,97 35.1-10 .. XXI,273; XXIV,306; XXVIII,346 35.3-7 .................................. XXXI,248 35.3-10 ............ X,158; XIV,115; XIX,237 40.1-11 ............. VIII,40; XIV,124; XIX,15 ................................................. XXXI,9 40.25-31 ....................................... IX,216 42.1-7 ......................................... XXI,51 42.14-21 ...................... XVIII,92;XXX,72 43.1-7 ............................. II,299; XXV,80 44.9- 20 ....................................... XIII,50 45.1-7 ......................................... XI,264 45.2-25 .................................. XXVIII,49 49.1-6 .......................................... III,85 50.4-7 ....................................... XIII,166 50.4-9a(9b-11) II,195; XIX,241; XXX,94 50.4-10 .................................. XXXI,252 52.7-10 ......................... XV,100; XXII,37 52.13-53.12 . V,72; IX,196; XV,185; XXII,109 53.10-12 ................................... XXV,294 54.7-10 ............................ IX,183; XV,170 55.1-5 ........... III,68; VIII,213; XVIII,198; ............................................... XXX,197 55.6-7 ............................................ VI,24 55.(6-9),10-12a .......................... VIII,119 55,10-11 .................................. XXIV,223 56.1,6-8 .................. XVIII,213; XXX,209 58.1-9a ........................................ XV,147 58.1-12 ........................................... IX,50 58.5-9a ...................................... XXIV,88 58.7-12 ....................................... XII,300 60.1-6 .................. V,11; VIII,92; XVII,39; ................................ XXIV,63; XXIX, 54 61.1-3(4-9), 11 .......................... XIII,120 61.1-3,10-11 ........................... XXVIII,20 61.1-3,11,10 .................................. VII,44 61.10-62.3 .. XIX,42; XXV,68; XXVIII,59 62.1-5 ........................ XX,23; XXVIII,31 62.1-12 ............ II,423; VIII,331; XIX,279 62.6-7,10-12 ........... XXII,272; XXIV,297 63.7-9(10-16) ............................ XXIV,44 63.15-64.3 ................................... XIII,91 63.15-17,19; 64.(1-2)3-7 .............. XXII,9 63.15-16(17-19); 64.1-4a,8 .............. I,159 65.17-25 ........................ IX,15; XXX,133 66.10-14 ................................ XXIX, 213

2 Reis 5.1-14 ..................................... XXXI,71 5.1-19a .......................................... VII,58 Neemias 5.1-12 ..................... IX,83; XIII,11 8.1-2,5-6 .................................... XX,183 11.(1-3)4-6,10-11,16,24-29(30-36) ....... ............................................. XXXI,263 Jó 7.1-7 ...............................XIX,73;XXXI,63 38.1-11 ..................................... XXV,221 Salmo 22.2-12,17-10 ..................... XVIII,116 22.1-12,17-20 .......................... XXX,104 46.1-7(1-11) ........................... XXVI,313 111 ........................................... XXVI,27 112 ............................................... XII,77 130.4 .............................................. VI,34 Eclesiastes 1.2; 2.18-26 ................... XX,225 3.1-8 .............................................. VI,48 3.9-15 ............................................. X,16 4.1-4 ............................................... X,84 5.18 ................................................. X,65 9.13-18 ............................................ X,25 Provérbios 8.22-31 ...................... XXIII,109 9.1-6,10 .................................... XXII,230 9.7-13 .................................... XXIII,172 16.1-9 ......................................... VIII,80 24.10-14 ....................................... XII,45 30.5-9 .................................... XXVI,215 Isaías 1.1-9 ..................................... XIII,116 1.10-17 ........................................ XV,297 2.1-5 ................. VI,225; XVIII,9; XXX,9 5.1-7 .............. VII,87; XIII,147; XXI,252 6.1-13 ............................ VI,198; XII,213 7.10-14(15-17) ............. XIII,104; XXI,37 9.1-6 .............................. V,294; XVIII,31 9.1-6,10 .................................... XXII,230 11.1-5 ......................................... XVI,63 11.1-9(10-11) ............ XIV,148; XXVII,16 12.1-6 ................................... XXVI, 115 24.12-16a .................................. XIII,311 25.6-8 ....................................... XIX,114 25.6-9 ...................... XXI,258;XXXI,128

Jeremias 1.4-10 ................. VII,184; XIII,228 7.1-11 ........................................ VIII,257 7.1-11(12-1 5) ............................ XIV,301

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7.21-26 ...................................... XXX,15 8.4-7 ........... VIII,349; XIV,390;XXXI,256 9.22-23 .......................................... VII,71 11.18-20 .................................... XIX,246 15.15-21 ................. XVIII,222; XXX,220 17.5-8 ...................................... XXIII,55 20.7-13 ....................... VIII,145; XXI,181 22.13-19 ...................................... XIII,80 23.1-6 ....................................... XVI,217 23.2-6 ........................................ XX,301 23.5-8 .............................. VI,62; XII,103 23.16-29 ........................... II,311; XII,209 26.8-15 .................................... XXVI, 97 28.5-9 ....................................... XXI,186 31.1-13 .................................... XXIX, 35 31.7-9 ...................................... XXV,301 31.10-13(14) .............................. XVII,34 31.31-34 ..................................... XXII,85 Lamentações 3.21-26,31-32 .............. VI,269 3.21-33 ..................................... XXV,226 Ezequiel 2.3-8a; 3.17-19 ..................... II,263 18.1-4,21-24,30-32 ... IX,247; XXVII, 243 33.7-9 .................................. XXVII, 230 34.1-2(3-9),10-16,31 ...... VI,170; XXI,192 34.11-16,23-24 ........................ XXIV,330 37.1-3,11-14 .............................. XXX,89 37.1-14 ..... XV,193; XVIII,103; XXIV,117 37.24-28 ...................................... VIII,55 Daniel 5.1-30 ..................................... III,188 7.(1-12)13-14(15-28) ................. XVI,311 12.1-3 ...................... XIX,296;XXXI,293 Oséias 5.15-6.2 ................ XVIII,95; XXX,83 5.15-6.6 ..................................... XXI,169 11.1-4,8-9 ............ XXIV,323; XXVII, 284 Joel 2.12-18 ..................................... XII,166 2.28-29 ...................................... XXI,153 Amós 3.1-8 ...................... XXIV,75; XXX,54 5.21-24 .......................................... VII,76 6.1-7 ...................................... XXIII,189 7.10-15(16-17) .......................... XVI,211 8.4-7 ...................................... XXIII,181 9.7-10 ........................................... X,128 Jonas 3.1-5(6-9),10 ............ XIX,61;XXXI,52

Miquéias 5.1-4a .................... VI,88; XII,114 5.2-5 .......... XVI,63; XXVII, 29; XXIX, 21 6.1-8 ....................... XXIV,79; XXVII, 58 6.6-8 ........................... VIII,324; XIV,385 Habacuque 1.2-3(4); 2.1-4 ........... XVII,219; ............................................. XXIX, 281 Sofonias 3.14-18a .............................. XX,20 Zacarias 7.9-10 .......................... XXVI, 267 9.9-10 ........... X,91; XIX,106;XXXI,107 12.7-10(11) .............................. XVII,153 Malaquias 2.17-3.5 .......... XXIII,9; XXV,207 NOVO TESTAMENTO Mateus 1.18-25 ............. XVIII,25; XXIV,29; ................................................. XXX,19 2.1-12 .. X,193; XVIII,49; XXI,46; XXV,74; .............................................. XXVII, 46 2.13-18 ........................................... V,304 3.1-12 ....................... XVIII,15; XXIV,24 3.13-17 .......... X,206; XVIII,53; XXIV,67; ................................................. XXX,44 4.1-11 ........................... IV,14; XXVII,70 4.12-23 ........................ XII,142; XVIII,61 4.23-25 ......................................... XII,35 5.1-12 ........................... IV,212; XVIII,64 5.13-16 .......................... X,390; XVIII,69 5.17-32 .......................... IV,125; XVIII,73 5.38-48 ............................... II,360; X,460 6.1-4 ........................... VIII,279; XIV,332 6.5-13 ............................. II,224; XIV,247 6.9-13 ............................. VI,53; VIII,192 6.16-18 .......................................... IV,133 6.24-34 .............................. IV,180; X,428 7.15-23 .......................................... IV,140 7.21-29 ................... XXIV,178; XXX,163 7.24-27 ........................ VI,233; XVIII,157 9.1-8 ............................................. IV,198 9.9-13 ...................... VIII,110; XVIII,161 9.35-10.8 ................................. XVIII,170 10.7-15 .......................................... II,271 10.26-36 .................................. XXIV,203 10.26b-33 ..... VI,291; XII,268; XVIII,176; ............................................... XXX,168 10.34-42 ... XII,274; XVIII,181; XXX,174 11.2-11 ............... III,215; X,170; XXI,30; .............................................. XXVII, 22

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11.25-30 ................ XVIII,186; XXIV,216; ............................................... XXX,184 12.22-30 ........................................ IV,217 12.33-35(36-37) ......................... XII,307 12.38-42 ..................................... XII,175 13.1-9 .. XXI,196; XXVII, 188; XXX,189 13.24-30(36-43) ...... XVIII,287; XXI,203 13.44-46 ........... II,317; VIII,253; XIV,295 13.44-52 ................ XXI,207; XXVII, 194 14.13-21 .................. XXI,213; XXIV,245; ............................................ XXVII, 198 14.22-33 ..................... VI,109; XXIV,249; ............................................ XXVII, 202 15.21-28 .... X,445; XXI, 218; XXVII, 208 16.13-19 ................................... XXIII,40 16.13-20 ... II,239; XXIV,260; XXVII, 216 16.21-26 ................ XXI,223; XXVII, 222 17.1-9 ............ X,216; XVIII,78; XXX,60 18.15-20 ...... II,290; XVIII,226; XXX,227 18.21-35 ...... X,467; XVIII,232; XXX,234 19.16-26 ........................................ II,349 20.1-16a .............. IV,7; X,221; XVIII,236; ............................ XXIX, 296; XXX,239 20.17-28 .................... XXI,96; XXVII, 87 21.1-9 ............................... III,199; X,149 21.14-17 ........................... II,219; XII,185 21.28-32 ...................... VI,247; XVIII,243 21.33-43 .................................. XVIII,250 22.1-10 (11-14) ....................... XXX,243 22.1-14 ........................ IV,205; XVIII,254 22.15-21 .................................. XVIII,259 22.23-33 ....... VIII,336; XVI,288; XX,285 22.34-40 ....................... IV,194; XXX,253 23.1-12 ......................... II,325; XXX,259 24.1-14 ......................... VI,68; XVIII,275 24.15-28 ........................................ IV,222 24.37-44 ...................... XXI,21; XXVII, 9 25.1-13 ........... IV,243; XI,336; XXIV,312; ............................................... XXX,277 25.14-30 ........... II,400; X,394; XVIII,272; ............................................... XXX,286 25.31-46 ........ ..IV,231; X,472; XVIII,293; .............................. XXI,302; XXVII,291 26.30-56 ....................... VI,29; XVIII,109 26.57-75 .................................. XXIV,122 27.33-50(51-54) .......... VIII,162; XIV,201 27.33-54 .................. XXI,111; XXVII, 99 28.1-10 ........................ VI,167; XXIV,139 28.16-20 ....................... X,374; XXX,156 Marcos 1.1-8 ................ XXII,14; XXVIII,13

327

1.4-11 ..................... XXII,48; XXVIII,64 1.12-15 ......... XIX,79; XXV,129;XXXI,84 1.14-20 .................... XXII,56; XXVIII,73 1.21-28 ...................... XVI,99; XXVIII,79 1.29-39 ................................... XXVIII,87 1.32-39 ........................... VI,284; XII,261 1.40-45 ........................... VI,258; XII,241 2.1-12 ....................... X,453; XXVIII,100 2.18-22 ....................................... VIII,105 2.23-28 ....... VIII,311; XIV,367; XXII,169; ............................................ XXVIII,228 3.1-6 ............................................. X,114 3.20-35 .................. XVI,192; XXVIII,233 3.31-35 ......................................... VI,252 4.26-29 ......................................... VI,113 4.26-34 ................. XXII,175;XXVIII,240 4.30.32 ....................................... XII,313 4.35-41 ... XVI,200; XXII,182; XXVIII,247 5.21-24a,35-43 ..................... XXVIII,253 5.24b-34 .................................. XXII,188 5.25-34 ......................................... XII,27 6.1-6 .... XVI,205; XXII,200; XXVIII,260 6.6b-13 ..................... XIX,201; XXV,236 6.14-29 ............................................ X,74 6.30-34 ... XIX,206; XXV,241;XXXI,208 6.34-44 .................................... XXX,247 7.1-8,14-15,21-23 .... XIX,233;XXXI,242 7.31-37 ............. IV,163; X,408; XXII,239; ............................................ XXVIII,307 8.22-26 ........................ VIII,269; XIV,317 8.27-35 ...................................... XVI,247 8.31-38 ............. X,234; XIX,83; XXV,129 ................................................ XXXI,91 9.2-9 ..................... XVI,105; XXVIII,108 9.17-29 ......................................... VI,278 9.30-37 ...................... XVI,255; XXII,245 9.38-50 ................ XXII,250; XXVIII,322 9.43-48 ........................... II,305; XVI,263 10.2-12 ................................. XXVIII,326 10.13-16 ............................... XXVIII,313 10.17-27 ...................... XII,256; XVI,268; ................................................ XXII,260 10.32-45 ......................... X,106; XVI,277 10.35-45 ............................... XXVIII,289 10.46-52 .................... XVI,283; XXII,265 12.1-12 .......................................... X,242 12.13-17 ....................................... III,138 12.41-44 ...................... VI,138; XXII,281 13.1-13 . XVI,302; XXII,286; XXVIII,351 13.24-31 ............................... XXVIII,358 13.31-37 ......................... XIV,397; XIX,9


13.33-37 ..................................... XXV,17 14.3-9 ........................... VI,149; XXII,93 14.6-9 ........................................ XII,181 14.12-26 ................... XVI,134; XXII,104; ............................................ XXVIII,144 14.17-26 ....................................... VI,156 15.1-15(16-20) ...... XVI,129; XXVIII,139 16.1-8 ... IV,4; X,294; XVI,153; XXII,112; ............................................ XXVIII,159 16.9-14(15-20) ............ VIII,173; XIV,255 16.14-20 .......................................... IV,77 Lucas 1.1-4 .................................. XXIII,200 1.26-33(34-37) ............ 38 VI,81; XII,109; ...................................... XVI,56; XIX,27 1.26-38 .................... XXII,28; XXVIII,26 1.39-45(46-55) ........................ XXVI, 20 1.(39-45)46-55(56) ........................ X,175 1.46-55 ........................................... V,288 1.57-66 .................................... XXIV,200 1.67-79 .............................. V,270; VIII,30 2.1-7 ......................................... XXX,24 2.1-14 ................................. I,168; X,181 2.(1-14)15-20 ............................ XXIV,41 2.1-20 ................ III,218; IV,273; XVI,63; .................... XVII,28; XXI,41; XXIII,21; ............................. XXVII, 34; XXIX, 26 2.41-52 ......................................... XX,35 3.1-9 .............................................. V,281 3.1-14 ............................................ VI,76 3.7-18 ....... XVII,21; XXIII,15; XXIX, 16 3.15-17,21-22 .............. XX,40; XXVI, 36 4.1-13 ..................... XXIII,60; XXIX, 81 4.14-21 ........................................... VI,19 4.14-21(22) ..... XX,50; XX,59; XXVI, 47 4.16-21 .......................................... X,186 4.21-30 .................................... XXVI, 54 5.1-11 .. IV,118; XVII,57; XX,65; XXVI, 59 6.17-26 ........................ XX,69; XXVI, 66 6.27-38 ........................ XX,73; XXVI, 74 6.36-42 .............................. IV,112; X,368 7.1-10 ................................... XXVI, 206 7.11-17 ........................... IV,186; VIII,293 7.36-50 ..... VIII,262; XIV,309; XXVI, 220 8.4-10 ........................................... X,228 9.10-17 ....................................... VIII,241 9.18-24(25-26) ........ XX,190; XXVI, 226 9.28-36 ........................ XX,82; XXVI, 85 9.51-56 ........................................ XV,167 9.51-62 ....................................... XX,198 9.57-62 .......................................... X,251

328

10.1-12,16 .................................. XX,204 10.17-20 .................................. XXIV,285 10.21-24 ........................................ II,249 10.25-37 ...... X,413; XVII,163; XXIII,135 10.38-42 ...................... VI,124; XVII,170; ........................... XXIII,140; XXIX, 216 11.1-13 ................... XVI,178; XXIII,145; ............................................. XXIX, 223 11.5-13 ......................................... VI,184 11.14-23 ......................... VI,297; XII,283 12.13-21 .............. XXIII,149; XXIX, 228 12.32-40 ................................... XVII,183 12.35-40 ....................................... III,226 12.41-48 ....................................... VI,302 12.42-48 ..................................... XII,289 12.49-53 ................ XVII,189; XXIII,154; ............................................. XXIX, 235 13.1-9 ....... XVII,83; XXIII,72; XXIX, 93 13.22-30 ................ XVII,193; XXIII,159; ............................................. XXIX, 241 13.31-35 .................... XVII,78; XXIII,65; ............................................... XXIX, 88 14.1-3,11b-32 ................. VI,209; XII,220 14.1,7-14 ............... XVII,196; XXIII,167; ............................................. XXIX, 247 14.15-24 .............................. IV,96; X,354 14.25-33 .... VIII,235; XX,251; XXVI, 277 15.1-3,11-32 ............ XVII,88; XXIX, 100 15.1-10 ................ IV,106; X,361; XX,255 15.8-32 ................................. XXVIII,265 16.1-9 ........................................... IV,147 16.1-13 .................... XX,260; XXVI, 286 16.19-31 ........................... IV,88; XX,265 17.1-10 .................... XX,270; XXVI, 298 17.5-6 ......................... VIII,286; XIV,346 17.7-10 ........................... VI,117; XII,160 17.11-19 ............. IV,172; X,421; XX,275; ............................................. XXVI, 305 17.20-35 ......................................... V,275 18.1-8a ..................... XX,291; XXIII,213 18.1-8 ..................... VIII,343; XXVI, 325 18.9-14 ..................... IV,158; XXVIII,333 18.18-23 ..................................... XII,249 18.18-30 ........................................ IV,265 18.31-43 ..................................... VIII,124 19.1-10 ............. II,279; VIII,219; XIV,275 19.28-40 ................................ XXVI, 121 19.41-48 ............................ IV,153; X,401 20.9-19 .................... XVII,94; XXIX, 105 20.27-38 ................................. XXIII,223 21.5-19 ....................................... XX,296


21.25-36 .......................... III,209; XVII,9 22.7-20 .................... XX,116; XXVI, 126 22.31-34 ...................... VIII,131; XIV,172 23.33-43 ................................ XXVI, 344 23.(26-32)33-49 ... XVII,102; XXIX, 119 23.33-49 ...................................... VI,162 23.35-43 .................................. XVII,248 24.1-11(12) ................................ XX,127 24.1-12 .......................................... II,201 24.13-35 ..... VI,40; XXI,125; XXVII, 114 24.36-49 ................................... XIX,128 24.44-53 .............................. XXVIII,201 24.(44-49)50-53 ...................... XXII,145 24.50-53 ........................ X,331; XIX,148 João 1.1-5.9-14 ................. XXV,39;XXXI,24 1.1-6,9-14 ................................... XIX,35 1.1-18 ..................... XXIII,30; XXIX, 46 1.6-8,19-28 ................. XXV,29;XXXI,14 1.19-23(24-28) .............. VIII,49; XIX,22 1.29-34 ........... VIII,98; XVIII,57; XXI,55 1.35-42 ....................... XII,227; XVIII,57 1.43-51 .......... XII,129; XVI,92; XXII,52; ............................................. XXVIII,68 2.1-11 .............. IX,41; XX,44; XXVI, 40 2.13-22 ........................... VI,237; XIX,87 3.1-11(15) .................................... X,347 3.1-17 ................. XXII,165; XXVIII,220 3.14-21 ....... XIX,95; XXV,144;XXXI,96 4.1-11 ...................................... XXXI,149 4.5-26 ........................................ XXI,82 4.31-38 .......................................... II,256 4.46-54 ....................................... XII,148 5.1-16 ....................................... XIV,360 5.1-16(18) ................................. VIII,304 5.19-21 ...................................... XIV,215 5.24-29 .................. XVIII,267; XXII,277; ............................ XXIX, 302; XXX,271 5.39-47 ........................................ VI,204 6.1-15 . IV,24; X,383; XIX,211; XXV,247 ............................................... XXXI,213 6.(22-23)24-35 ....... XXV,254;XXXI,218 6.24-35 ....................... VIII,151; XIX,217 6.37-40(41-43),44 .......................... II,367 6.41-51 ... XIX,220; XXV,259; XXVIII,284 .............................................. XXXI,226 6.51-58 ................... XIX,225;XXXI,232 6.60-69 ........ XII,293; XIX,229; XXV,264 ............................................... XXXI,237 6.66-69 ....................................... XII,293 7.14-18 ......................................... VII,87

329

7.37-39a .............................. XXVIII,211 7.37-39 ........... VI,194; XII,199; XVI,187; ............................................... XXII,158 8.1-11 ....................................... VIII,228 8.21-30 ........................ VIII,138; XIV,179 8.31-36 ............ II,383; VIII,73; XVII,225; .............................................. XXIII,209 9.1-7 ........................... VIII,248; XIV,290 9.13-17,34-39 ........... XXI,91; XXVII, 81 9.35-41 ...................................... VIII,299 10.1-5,27-30 ................................. II,207 10.1-10 ................. XXI,133; XXVII, 119 10.11-16 ......................................... IV,53 10.11-18 ....................XXV,181;XXXI,139 10.11-18(27-30) ............ X,310; XIX,135 10.22-30 ................ XVII,117; XXIX, 141 11.1,3,17-27 .................................. II,355 11.1(2),3,17-27(41-45) .................. X,434 11.47-53 ....... VIII,157; XIV,192; XXI,103 12.12-19 .......................... X,269; XX,110 12.20-26 ........................................ X,258 12.20-30 ...................................... XXV,150 12.20-33 ........ X,258; XIX,102;XXXI,103 12.44-50 ...................................... VIII,65 13.1-15,34-35 ............................... X,277 13.1-17,34 ................................. XXX,99 13.31-35 ............... XVII,121; XXIX, 149 14.1-6 ........................................ XII,134 14.1-12 ...... II,230; XXI,139; XXVII, 124 14.15-19 ..................................... XV, 232 14.23-27 ................................ IV,82; X, 341 14.23-29 .................. VII,126; XXIX, 154 15.1-8 .......... X,317; XIX,139; XXV, 189 ................................................ XXXI,146 15.9-12(13-17) ......................... XIV, 374 15.9-17 ....... VIII,317; XIX,143; XXV,192 15.26-16.4 ................................... X, 337 15.26-27; 16.4b-11 .... XX,171; XXVI, 191 16.5-15 ........................................... IV,65 16.12-15 ................. XX,177; XXVI, 200 16.16-23a .......................... IV,57; VI,179 16.16,20-23a ............................... VI,129 16.22-28 ........................................ IV,72 16.23b-28,33 .................................. X,323 17.1-15 ................................... XXIV,159 17.1-11 ................ XXI,148; XXVII, 132 17.9-19 ........... IV,31; XIX,153; XXV,197 17.(9-10)11-19 ........................ XXXI,157 17.20-26 ................ VIII,198; XXIX, 168 18.33-37 ................. XIX,299;XXXI,296 19.16-30 ... IV,38; X,284; XIX,110; XXV,170


.............................................. XXXI,113 20.1-2,11-18 ........................... XXIV,230 20.1-9 ................................... XVIII,120 20.1-9(10-18) ....... XXVI, 136; XXX,109 20.11-18 ..................... VIII,166; XIV,207 20.19-23 ................ XXIV,173; XXX,150 20.(19,23)24-29 ............ X,301; XIX,119 20.19-31 ............. XXI,121; XXVII, 110; ........................... XXIX, 128;XXXI,133 21.1-14 ................ XVII,111; XXIX, 136 21.15-19 ................................... VIII,179 Atos 1.8-14 .................................. XXIV,168 1.1-11 .... XX,155; XX,160; XXVI, 182; ............................................. XXIX, 161 1.15-26 ................ XVI,184; XXVIII,206 1.3-4(5-7),8-11 .......................... XI,242 2.1-13 ........................................ XI,249 2.1-21 .... XI,249; XIX,158; XXVII, 139 2.14a,22-32 ............................ XXIV,143 2.14a,36-47 ............................ XXIV,150 2.22-23,32-33,36-39 ................... XV,239 2.36-41 ........................................ III,59 2.41a,42-47 ................................ XI,284 3.1-10 ....................................... VII,198 3.13-15,17-26 ...... XVI,158; XXVIII,165 4.8-12 ................ XVII,164; XXVIII,172 4.32-37 ........................................ V,310 5.12,17-32 ................................. XX,130 6.1-7 ......................... III,134; XXIV,155 8.26-40 ... XIII,222; XVI,169; XXVIII,188 9.1-20 ....................................... XX,136 10.34-38 .................. XIX,49; XXIII,35; ............ XXVII, 52;XXVII, 105;XXXI,38 11.19-30 .............. XVI,178; XXVIII,196 13.16-17,22-25 ......................... XXII,33 13.44-52 ...................... XX,140; XX,143 14.8-18 ...................................... XX,148 16.6-10 ...................................... XX,164 16.9-15 .......................... IX,171; XV,141 16.23-34 ...................... VII,122; XIV,233 17.16-34 .......................................... I,34 17.22-31 ..................................... XV,213 Romanos 1.1-7 XVI,77; XXV,55; XXVIII,54 3.19-28 ......... III,169; XX,291; XXI,267; ..................... XXV,287; XXVII,156, 272 4.1-5,13-17 ............................. XXIV,100 4.18-25 ............... XXIV,184; XXVII, 161 5.1-5 .................... XVII,137; XXIX, 180 5.1-11 ................................. XXVIII,122

5.6-11 ................ XXIV,190; XXVII, 166 5.12-15 ................................. XXVII, 172 6.1-11 ............................................. V,51 6.1b-11 .............. XXIV,211; XXVII, 183 6.3-8 .......................................... XI,278 6.19-23 ........................... VI,164; IX,258 8.1-11 ............. I,39; XIV,253; XXIV,111 8.12-17 .......................................... V,170 8.14-17 .................................... XXV,203 8.14-17,22-27 ........................ XXIX,174 8.18-23 ........................ V,150; XVIII,192 8.26-27 .................................... XXX,193 8.26-30 ....................................... IX,233 8.31-39 ............. IX,91; XI,144; XVI,110; ........................................... XXVIII,115 9.1-5,31-10.4 ............................ XIII,235 9.1-5; 10.1-4 ................................. V,185 9.30b-33 ..................................... III,124 10.5-13 ..................................... XVI,115 11.13-15,29-32 ....................... XXIV,255 11.25-32 ........................................ I,102 11.32-36 ........................... V,126; XI,256 12.1-8 ....................... XI,152; XXIV,265 12.6-16 ........................................... V,19 13.1-10 .................................... XXI,229 13.8-10(13-14) ........................... XI,107 13.11-14 ....................... IV,251; XXIV,19 14.5-9 ..................................... XXI,234 14.7-13 ......................................... III,79 14.10-13 ..................................... XI,266 15.4-13 ...................................... XXI,25 16.25-27 .................................. XXXI,19 1 Coríntios 1.1-9 ...................................... 70 1.3-9 ............... V,228; XVI,51; XXVIII,9 1.10-17 ...................................... XXI,60 1.18,22-25 ................................... XX,97 1.26-31 ................. V,190; IX,24; XXI,65 2.1-5 ........................... XXI,71; XXII,60 2.1-10 .......................... VII,50; XIII,126 2.6-13 ....................................... XXI,74 3.9-15 ........................................ XV,266 3.16-23 ..................... XXII,193; XXV,96 7.29-31 .............................................. 90 8.2 ............................................. XIII,42 9.16-23 .................................... XIV,264 9.24-27 ...................................... XI,165 10.1-13 ............................. V,179; XX,91 10.16-17 ..................... VII,107; XIII,171 10.16-17(18-21) ...................... XXXI,113 10.31-11.1 .............................. XXV,107 11.23-26 .............. XXIV,127; XXVII, 94

330


11.23-29 ......................................... V,65 12 .............................................. XIII,34 12.1,4-11 ................. XVII,47; XXIX, 59 12.12-21,26-27 ....... XXIII,45; XXIX, 64 12.27-13.13 ............. XVII,52; XXIX, 71 12.31b-13.13 ...................... V,32; XI,182 14.1-3,20-25 .............................. VII,158 14.12b-20 ................................ XXIII,49 15.1-11 ................................... XVII,108 15.1-20 ......................................... III,13 15.12,16-20 .............................. XVII,63 15.19-28 ............... I,16; IX,207; XV,207; .............................. XVIII,280; XXV,175 15.20-28 .................................. XXX,293 15.35-38 ..................................... XIII,29 15.45-49 ................................... XVII,69 15.50-58 ................ XIX,286; XXVI, 321 2 Coríntios 1.37 .................................. I,119 1.18-22 ........... VII,14; XIII,98; XXV,113 3.1b-6 ..................................... XXV,118 3.3-9 .......................................... IX,283 3.12-4.2 ..................... XIX,76;XXXI,78 4.3-6 ............................ IX,157; XIV,165 4.5-12 .................................... XXXI,171 4.6-10 ......................... XI,158; XIX,169 4.7-18 .......................................... III,53 4.13-18 ..... XIII,192; XIX,173;XXXI,177 4.16-18 ..................................... XIII,192 5.1-10 ............ IX,295; XV,288; XIX,178 5.6-10 ...................................... XXXI,183 5.14-21 ............... I,7; XVI,140; XIX,181 5.(14b-18)19-21 .................. XXVIII,153 6.1-10 ......................................... VII,82 8.1-15 ........................ XIII,18; XIX,188 8.9 ............................................. XV,112 9.6-15 .............................. V,323; XI,272 (11.18,23b-30); 12.1-10 ............ XIII,141 12.1-10 ....... .......................V,26; XIX,195 12.7-10 ..................................... XXXI,199 13.11-13 ...................... IX,240; XXI,158 Gálatas 1.11-24 ......................... XXIII,113 2.16-21 ....................... VII,192; XIII,241 3.(23-25)26-29 ..................... XXIII,119 3.28 ............................................ XII,70 4.1-7 .......................................... IX,144 4.4-7 .......... XV,106; XVIII,38; XXX,31 5.1-6 ....................................... XIII,167 5.1-11 .......................................... I,125 5.1,13-25 .............................. XXIII,126 5.25-26; 6.1-3,7-10 ..... VII,214; XIII,253 6.14-18 .................................. XXIII,131

Efésios 1.3-6,15-18 ........ XXIV,58; XXX,37 1.3-14 .................................... XXII,204 1.3-14,15-18 ................. III,62; XVIII,43 1.20b-23 ... IX,227; XXI,144; XXX,138 2.1-10 .................................... XXX,265 2.4-10 ................. XVI,120; XXVIII,128 2.11-22 .......................................... X,48 2.13-22 .................................... XXII,209 3.1-12 ...................................... XXXI,30 3.2-12 ........................ XVI,83; XXII,43 3.14-21 ......................................... V,212 4.1-6 ............................. V,218; XIV,353 4.1-7,11-16 ............................. XXII,215 4.17-24 ................................... XXII,220 4.20-32 ......................................... V,235 4.30-5.2 ................................... XVI,228 5.1-9 ................................. V,46; XI,205 5.8-14 ................................... XXIV,105 5.9-14 ........................................ III,100 5.15-21 .......................... V,241; XVI,233 5.21(22-25)26-31 ..................... XVI,236 5.21-31 ................................ XXVIII,294 6.10-20 .................................... XVI,242 Filipenses 1.3-11 ............. XI,324; XVII,14; ................................................ XXIX, 9 1.12-21........................................... VII,95 1.20c-27 ................................. XXIV,280 2.1-4 ......................................... VII,173 2.1-5(6-11) .............................. XXI,245 2.5-11 ................ V,57; XI,216; XVII,97; ............................ XXV,158; XXIX, 111 2.12-13 ...................................... XV,282 3.12-21 .............. XXIV,290; XXVII, 251 3.7-11 ....................................... XI,291 3.7-14 .............................................. V,261 3.8-14 ......................................... XX,102 3.12-16 ........................................ II,187 3.17-21 ....................................... XI,330 3.17-4.1 ..................................... XX,86 3.20-21 ......................................... I,143 4.4-7 ...................................... XXVI, 15 4.10-20 ....................................... IX,150 Colossenses 1.1-6 ...................... XXVI, 233 1.12-20 ................................. XXIII,229 1.15-23 ........................................... I,47 1.21-28 ................................. XXVI, 240 2.3,10 ...................................... XIV,140 2.6-15 .................................. XXVI, 250 2.12-15 .................................... XIII,186 3.1-4 ............................ III,48; XXI,117

331


3.12-17 ........................................ V,107 4.2-6 ............................ V,114; XIII,199 1 Tessalonicenses 1.1-5a .......... XXIV,294; .......................................... XXVII, 256 1.5b-10 .............................. XXVII, 263 1.2-10 ...................................... VII,210 2.8-15 ................................ XXVII, 277 3.9-13 ........................ XX,15; XXVI, 9 4.1-8 ................................. V,38; XI,315 4.13-14(15-18) ........ XXI,285; XXI,292 5.1-8 ......................................... IX,288 5.1-11 .................................... XXI,297 5.12-24 ...................................... IX,274 5.16-24 .................................... XXII,19 2 Tessalonicenses 2.1-17 ................. III,165 2.(13-15)16-17; 3.1-5 ........... XXIX, 311 3.1-5 ......................................... IX,252 3.6-13 ........................ V,97; XXIX, 317 1 Timóteo 1.12-17 .......................... III,210; .......................... XVII,206; XXIX, 265 2.1-4 ........................................... II,336 2.1-8 ..................................... XVII,211 3.16 ......................................... XIV,132 4.4-5 ....................................... XIII,297 6.6-16 ................ XVII,215; XXIX, 274 6.11b-16 ........................................ V,97 2 Timóteo 1.3-8(9-12)13-14 ........ XXIII,195 2.8-13 .................................. XXIII,205 2.8a/8b-13 ................................ XV,198 Tito 2.11-14 .......... II,430; XI,128; XXIV,34 3.4-7 .............................. IV,280; XX,29 Filemom 8-21 ........................... XXIX, 254 9b-17(18-21) ......................... XVII,201 Hebreus 1.1-9 ............................... XVI,70 2.9-11 ........ ............ XIX,257;XXXI,274 2.10-18 ...................................... IX,188 3.1-6 ...................................... XIX,262 4.9-16 ........... XI,171; XI,192; XIX,268 ................................................ XXXI,281 4.12-13 ...................................... XI,171 4.14-16 ...................................... XI,192 4.14-16; 5.7-9 ....................... XXIV,133 5.1-10 ......... XI,211; XVI,125; XIX,273 5.7-9 ...... XI,211; XVI,125; XXVIII,134 9.15-17,26b-28 ......................... XX,122

9.15,24-28 ........ III,7; XIII,179; XIX,291 10.19-25 ......................... II,408; IX,119 11.1-2,6,8-10 ............................. IX,178 11.1-3,8-16 ............................... XX,229 11.1-4 .................................. XXVIII,39 11.8-10 ...................................... XV,160 12.1-3 ....................................... XV,178 12.1-13 ..................................... XX,233 12.12-18(19-21),22-25a ............. XV,127 12.18-24 .................................. XX,242 13.1-8 ...................................... XX,246 13.(7)8-9b ................................ XIV,153 13.12-16 ....................................... V,205 Tiago 1.12-18 .................................. XV,154 1.17-27 .................................... XXV,268 2.1-13 ..................................... XIII,262 2,1-5,8-10,14-18 ..................... XXV,275 2.14-24 ....................................... III,110 4.13-17 ....................... IX,34; XXIX, 40 5.1-6 ........................ XIII,284; XIX,252 5.7-8 .......................... XI,114; XVIII,19 5.13-16 ..................................... VII,220 1 Pedro 1.(1-17)18-21 . XIII,152; XVIII,129 1.17-21 ................................... XXX,118 1.3-9 ............. III,22; XI,221; XVIII,125; .............................................. XXX,114 2.1-10 ............. I,55; XV,254; XVIII,138 2.4-10 .................................... XXX,128 2.13-17 .......................................... I,109 2.15-17 ......................................... VI,13 2.18-25 ................................... XXX,122 2.21b-25 ......... V,91; XI,229; XVIII,133 3.8-17 ........................ V,156; XVIII,146 3.15-18 .................................. XXIV,165 4.7-11 .......................................... V,120 4.13-19 ................................. XVIII,152 5.1-5 ............................................. III,27 5.5b-11 ........................... V,144; XI,307 2 Pedro 1.3-11 ................................. III,145 1.16-19(20-21) ....... IX,165; XXVII, 65 1-16-21 ................................... XXIV,95 3.8-14 .... XVII,237; XXIII,218; XXV,23 1 João 1.(1-4)5-2.2 ...................... XXII,124 1.5-10; 2.1-6 ............................ XIII,216 2.21-25 ....................................... VII,30 3.1-3 .......................................... VII,21 3.13-18 ........................................ IX,57 3.18-24 ...................... III,159; XXII,130

332


4.1-6 ........................................... IX,72 4.1-11 ................................... XXII,135 4.11-16 .................................. XXXI,165 4.7-12 ....................................... XI,299 4.7-16 .......................................... V,196 4.(7-16a)16b-21 .................... XXII,149 4.16b-21 ...................................... V,135 5.1-5 .................................. V,84; XI,235 5.1-6 ...................................... XXII,118 5.11-13 ....................................... XI,138

3.7-13 .......................................... II,416 3.14-22 ..................................... XIII,303 4.1-8 ............................................. I,153 5.1-14 ........................................... VII,7 5.11-14 ................. XXIII,90; XXVI, 150 7.9-12 .................................... XVII,230 7.9-17 ......... III,182; XIII,110; XXIII,94; ............................................. XXVI, 159 12.1-6 ..................................... XXIII,26 12.7-12 .................................... XXI,241 14.6-7 .......................................... V,249 15.2-4 ........................................ XV,218 19.11-16 ...................................... III,195 21.1-5 ................................... XXVI, 170 21.10-14,22-23 ....................... XXVI 176 22.10-16 ........................................ X,11 22.12-17,20 ............................. XXIII,99

Apocalipse 1.4-8 .............. VII,131; XIII,204 1.9-18 .......................... VII,65; XIII,133 1.9-20 ................................... XXVI, 145 2.8-11 ......................... VII,228; XIII,275 1.9-20 ...................................... XXIII,84 3.1-6 ....... IX,127; IX,135; XV,89; XV,95

Observação:Os números das páginas relativas aos volumes I e II referem-se à edição destes dois volumes num só tomo; os números do volume III referem-se à 2ª edição de 1981.

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ÍNDICE DOS COLABORADORES DESTE VOLUME - PL 31 BAESKE, Albérico: Rua Paraíso, 52, Bairro Jardim Pinheiro, 93042-260 - São Leopoldo/RS BLIND, Sisi: Rua João Caetano da Silva, 98, 89520-000 Curitibanos/SC, e-mail: sisiblind@hotmail.com BRAKEMEIER, Gottfried: Rua José Neumann Filho, 120, 95150-000 – Nova Petrópolis/RS, email brakemeier@terra.com.br BRAUN, Odair Airton: Rua Maria Clara, 127 - Alto Glória - 80030-140 Curitiba/PR - e-mail: veraidair@terra.com.br CHRISTMANN, Louraini: Rua Luiz Lorenzone, 317, 85998-000 – Mercedes/PR, e-mail: lola@fsnet.com.br DENTEE, Leandro: Caixa Postal 181 – 95900-000 Lajeado/RS, e-mail: leandrodentee@viars.com.br DREHER, Martin N.: Rua Suíça, 236 – Pinheiros – 93042-100 São Leopoldo/RS, e-mail: martindreher@terra.com.br DREHMER, Erni: Av. Pátria, 1136, 99500-000 – Carazinho/RS, e-mail: sinodoplanrs@brturbo.com EHLERT, Heinz: Rua Valparaízo, 503, ap. 5 – Bacacheri – 82510-070 Curitiba/PR, e-mail: ehehlert@ig.com.br ENGELBRECHT, Margarete E.: Alameda Alcides, 102 - Icarí - 24230-120 Niterói/RJ, e-mail: margareteee@ibest.com.br FUCHS, Werner: Rua Coronel Amazonas Marcondes, 1457- Apto. 12 A - 80035-230 Curitiba/ PR - e-mail: w.fuchs@uol.com.br GARIN, Norberto da Cunha: Rua São Vicente, 180 – 90630-180 – Porto Alegre/RS, e-mail: imwesley@terra.com.br GENZ, Silvia B.: Caixa Postal 5, 98390-000 – Erval Seco/RS, e-mail: Silvia silda@fesau.psi.br GIESE, Nilton: e-mail: nilton@clai.org.ec IMMICH, Vera M.: Rua Maria Clara, 127 – Alto da Glória – 80030-140 Curitiba/PR, e-mail: veraodair@terra.com.br KAICK, Baldur van: Rua Virgínia Bressan, 223 -Vista Alegre - 80810-240 Curitiba/PR - e-mail: vankaick@terra.com.br KALMBACH, Pedro: e-mail: carlaiostrowski@yahoo.com.ar KILPP, Nelson: Caixa Postal 14 - 93001-970 São Leopoldo/RS - e-mail: nelson@est.com.br KLIEWER, Gerd U.: Caixa Postal 169 – 84130-000 Palmeira/PR, e-mail: kliewer@terra.com.br KNEBELKAMP, Ari: Caixa Postal 214 – 89201-270 Joinville/SC, e-mail: ariknebelkamp@ielusc.br KRÜGER, René: Yerbal 23077 E – 1406 Buenos Aires/Argentina, e-mail: renekruger@isedet.edu.ar LIEVEN, Guilherme: Rua Almirante Tamandaré, 550 – Jardim Bela Vista, 09040-040 Santo André/SP, e-mail: glieven@uol.com.br LÜCKEMEYER, Valdemar: Rua Pedro Vargas, 541, 9950-000 Carazinho/RS, e-mail: luckemeyer@annex.com.br MÜLLER, Enio: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: emueller@est.com.br NEUENFELDT, Elaine G.: Rua Riachuelo, 676 – Santo Afonso, 93425-010 Novo Hamburgo/ RS, e-mail: elainenf@terra.com.br NOÉ, Sidnei Vilmar: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: sidnoe@est.com.br PORATH, Renatus: Estrada Fundão, 178 - Mato Preto - 89290-000 São Bento do Sul/SC -email: renatusp@uol.com.br RAYMANN, Acir: Caixa Postal 202, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: raymann@ulbranet.com.br REIMER, Ivoni R.: Rua 115 – G, 10 – Setor Sul, 74085-310 – Goiânia/GO, e-mail: h.reimer@terra.com.br REIMER, Haroldo: Rua 115 – G, 10 – Setor Sul, 74085-310 – Goiânia/GO, e-mail:

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h.reimer@terra.com.br RIBEIRO, Antonio C.S.: Av. Paranapuã, 1203, casa 10, Tauá – 21910-000 Rio de Janeiro/RJ, email: weisribeir@ig.com.br ROESE, Anete: e-mail: anete.roese@ig.com.br SCHAPER, Valério: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: vmschaper@brturbo.com SEIBERT, Erni: Caixa Postal 60764, 05799-970 São Paulo/SP, e-mail: erni@sbb.org.br SPELLMEIER, Arteno: Caixa Postal 14 – 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: arteno@comin.com.br SPERB, Ulrico: Rua Senhor 202, 1º andar, 90020-180 Porto Alegre/RS STRÖHER, Marga J.: Caixa Postal 14 – 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: margajs@terra.com.br TREIN, Hans Alfred: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: comin@est.com.br WACHHOLZ, Wilhelm: Caixa Postal 14 – 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: wwachholz@est.com.br WEGNER,Uwe: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: uwe@est.com.br WEISSHEIMER, Vera C.: Caixa Postal 1103 – 01059-970 São Paulo/SP, e-mail: veracw@uol.com.br WIESE, Werner: Caixa Postal 431, 89290-000 São Bento do Sul/SC, e-mail: wwiese@ceteol.com.br WITTER, Teobaldo: Caixa Postal4501, 78065-800 Cuiabá/MT, e-mail: twitter@terra.com.br WOLFF, Günter A.: Caixa Postal141, 89887-000 – Palmitos/SC, e-mail: lobo@smo.com.br ZWETSCH, Roberto Ervino: Caixa Postal 14, 93001-970 São Leopoldo/RS, e-mail: roberto@est.com.br

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Impresso na Gráfica Pallotti (Santa Maria/RS) Texto: Imperial BT – Corpo 10,5/12 Títulos: Imperial BT Bold – Corpo 15/16 Impresso em papel offset miolo 75g e capa 240g É proibida a reprodução total ou parcial

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